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São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,


A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos


Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima


Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga

Assunto:
São Leonardo navega vagarosamente ao longo da terra duriense, num antecipado
"desengano" do que será "o cais divino" e já vergado às saudades da terra que vai deixar.

O poema divide-se em três partes lógicas que correspondem à divisão formal do poema (às
três estrofes).
Na primeira parte, o sujeito poético imagina São Leonardo "à proa de um navio de penedos", a
navegar num "doce mar de mosto", em direcção à eternidade, mas já quase arrependido de
deixar o "cais humano" (a terra duriense), como que "num antecipado desengano" da vida que
está para lá do "cais divino".
Na segunda parte (segunda estrofe), o sujeito poético aponta a razão do desengano referido
atrás: lá na eternidade não haverá socalcos, nem vinhedos, em vez da água do Douro haverá
charcos de luz, não haverá montes, estendendo-se pelos horizontes até se apagar a cor da
vida.
Finalmente, na última parte (terceira estrofe) o sujeito poético regressa à imagem da primeira
parte: o santo a navegar cada vez mais vagarosamente em direcção à eternidade, porque
"cada hora a mais que gasta no caminho, é um sorvo a mais de cheiro a rosmaninho".
O poema revela-se assim com uma estrutura circular: viagem vagarosa do Santo através do
Douro -> razão dessa lentidão -> retorno à morosidade da viagem em direcção à vida eterna.

A nível morfo-sintáctico, é de realçar, em primeiro lugar, o uso do tempo presente na primeira e


última estrofes. O presente (é, ruma, avança, passa), no seu aspecto durativo, sugere a
permanência, o lento desenrolar da viagem do Santo. Tal sugestão do deslizar lento da acção
é ainda dada pelas perifrásticas (a navegar, vai sulcando), pelo particípio "Ancorado
"(permanência da acção), pela expressão adverbial "sem pressa" e pelos advérbios "devagar"
e "lentamente". Na segunda parte do texto (segunda estrofe) já predomina o tempo futuro (terá,

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serão, deixarão), porque o sujeito poético se refere à vida eterna (futura), para onde o Santo
lentamente se dirige. É reduzido o número de adjectivos, mas os poucos existentes ligam-se a
nomes metafóricos importantes na expressão da mensagem poética: "doce mar de mosto",
"cais humano", "cais divino", "antecipado desengano", "charcos de luz envelhecida", "rasos os
montes".
A ligação frásica, quer entre orações, quer entre períodos, é sempre feita por coordenação
(geralmente assindética), o que está de harmonia com a natureza do texto: um desenrolar de
factos da viagem de São Leonardo. A oração conclusiva introduzida por "por isso" estabelece
uma relação de consequência entre o desengano antecipado do Santo e a sua regalada
demora ao longo do Douro. Há apenas uma oração subordinada relativa (que gasta no
caminho). Os outros "que" que aparecem no poema, fazem parte da expressão de realce "é
que".
Mas é no aspecto semântico que o texto se revela mais profundamente poético. Uma sucessão
de metáforas (navio de penedos, doce mar de mosto, capitão, as ondas da eternidade, cais
humano, cais divino, charcos de luz, rasos os montes) dá-nos a bela imagem de São Leonardo
navegando, já cheio de saudades da terra duriense, em direcção à eternidade, e da qual
antecipadamente já está desiludido.. Esta imagem serve admiravelmente para realçar a beleza
da terra em socalcos do Alto Douro, perante a qual a própria felicidade eterna é um
desencanto. Há evidentemente nesta imagem uma grande dose de sentido hiperbólico.
O apego de São Leonardo à terra duriense é ainda mais realçado, no fim do poema, pela
morosidade da viagem (devagar, lentamente, porque cada hora que gastasse a mais no
caminho seria um sorvo a mais de cheiro a terra e a rosmaninho.
O sujeito poético imagina o Santo a navegar não num barco celestial, mas num navio de
penedos (alusão às serranias transmontanas) e, para mais claramente se identificar com as
terras do Douro. Na última estrofe, o Santo já desliza num barco rabelo (embarcação própria do
rio Douro, que transportava o vinho para o Porto).
É ainda muito expressiva a hipálage contida na expressão "Lá não terá socalcos nem vinhedos
na menina dos olhos deslumbrados" (o deslumbramento não é propriamente dos olhos, mas do
Santo). Também se pode considerar uma personificação dos olhos.
Há ainda a sinestesia na expressão "é um sorvo (gosto) a mais de cheiro (olfacto)..."
Quanto ao aspecto formal, o poema é constituído por três estrofes irregulares (onze, nove e
sete versos), de métrica igualmente irregular (há versos de duas a onze sílabas); quanto à
rima, além de alguns versos soltos em todas as estrofes, há rima emparelhada e interpolada
(primeira e segunda estrofes), emparelhada e cruzada (última estrofe).
Neste poema, o ritmo é sempre repousado, sobretudo na última estrofe, de harmonia com o
andamento moderado da viagem do Santo.

Comunhão

Tal como o camponês, que canta a semear


A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.
Semear trigo e apascentar ovelhas
É oficiar à vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.

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Análise externa:
Após uma análise do poema acima apresentado, de Miguel Torga podemos concluir que é
um poema constituído por apenas uma estrofe de catorze versos.
Este poema apresenta rimas cruzadas, emparelhas e interpoladas, possuindo ainda uma
sonoridade leve e calma.
Análise interna:
Miguel Torga apresenta nos seus poemas um grande apego à terra e ao campo, ou seja, à
vida campestre. Este apego é profundo, é da sua origem transmontana, aldeã.
Assim, deparamo-nos com um poema que nos fala da semente, da seiva, da colheita,
enfim, que remetem para os símbolos bíblicos.
A Bíblia é o livro sagrado de um povo de agricultores e pastores e, por isso, não é de
admirar o uso da linguagem simbólica das sementeiras e das sementes para falar de
realidades espirituais e transmitir mensagens de fé.
A semente, embora pequena, tem a capacidade de produzir uma enorme quantidade de
outros grãos e de estar na origem de uma grande árvore. A semente já contém em si o que
no futuro se vai manifestar. Ela é o símbolo de todas as capacidades e possibilidades, da
abundância de vida.
O sujeito poético inicia a sua composição lírica com duas comparações: “Tal como o
camponês” e “Ou como tu pastor”. O sujeito poético compara o canto destes dois seres ao
seu próprio canto, isto é, o canto através da palavra que é a poesia. E qual é a sua forma
de cantar? O sujeito poético canta “livre” e “sem me ouvir”, pelo facto de ser um canto que
provém de dentro, dentro de si, razão pelo qual ninguém não o ouve e nem mesmo a ele
próprio.
O sujeito poético remete a seguir para o ofício de pastor, tendo esta palavra um sentido
duplo: o pastor de ovelhas e o das missas, ou seja, o sujeito “compara” por assim dizer que
o bom pastor era Jesus e o povo eram as suas ovelhas.
Através da conjunção coordenativa adversativa “Mas”, o sujeito marca uma oposição.
Assim, a única coisa que vai sobrar “desse ritual” é o que vai restar na recordação daquela
melodia “leve” e “gratuita” da sua poesia.
Toda a poesia exprime um conjunto de mitos agrários de uma forma pessoal que é a sua
visão.
Feita a análise interna, retornemos ao título deste poema. O título deste poema é
comunhão, porque o eu lírico está em comunhão com a natureza e com todo o ambiente
pastoril e campestre.

3
NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,


Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,


Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...


Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental

Texto 1
Enviando «Na mão de Deus», desde Vila do Conde, a um amigo, escrevia-lhe Antero:
«O meu pessimismo tem-se desvanecido com esta vida contemplativa no meio da boa
natureza». Com o presente poema convém confrontar as seguintes palavras, que são de outra
carta: «a nossa vida… verdadeiramente é só a vida da nossa alma, do misterioso e sublime eu
que somos no fundo: ora esse Eu ou essa alma tem a sua esfera na região do impessoal: o
seu mundo é o da abnegação, da pureza, da paciência e do contentamento: na renúncia do
indivíduo natural e de tudo quanto o limita, algema e obscurece é que consiste a sua misteriosa
individualidade». É esta renúncia que transluz dos versos:
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita;
porém, o conjunto do soneto não se harmoniza com a primeira parte do citado trecho, muito
mais luminosa do que ele é: e para justificar que se classifique o poema como de evasão basta
notar que o coração, aí, vai para a mão de Deus, é verdade - mas para nela dormir
eternamente.

António Sérgio, Sonetos de Antero de Quental

Texto 2
NA MÃO DE DEUS - Vai este soneto traduzir poeticamente o que Antero afirma no
Opúsculo «A dignidade das Letras e as literaturas Oficiais»: «Só quem, dissolvendo a própria
vontade na vontade absoluta e Identificando-se com ela, renuncia ao eu limitado e a tudo
quanto é dele - o seu egoísmo, as suas paixões, o seu erro profundo e a sua inenarrável
miséria - só esse alcançou a vida eterna... entrou no ilimitado, no inalterável, e subsiste com
ele eternamente».
O soneto responde a este juízo crítico, como vemos. Rejeitada «A forma transitória e
imperfeita» do Ideal e da Paixão, cujo pensamento sublinhámos na transcrição precedente,
finalmente livre, «Dorme na Mão de Deus eternamente», «alcançou (como disse) a vida
eterna». Mas não há amor por este Deus. Procurou-opara descansar e nada mais. Daí a ideia

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de paz e não de confiança em Deus. O soneto oferece-nos a imagem do Antero sombrio,
noturno.

Literatura Prática (sécs. XIX-XX) 11º Ano, Lilaz Carriço, Porto Editora, 1986 (4ª ed.)

Texto 3
São muitas as deceções de Antero de Quental. Não consegue libertar-se das
adversidades. Resta-lhe uma última esperança – o pensamento no divino – embora sempre
demarcado das conceções religiosas tradicionais. O pensamento de Deus surge,
frequentemente, associado à morte, mas, de novo persegue um ideal que agora se confunde
com o Bem Supremo.
Desiludido do mundo, procura refúgio em Deus.
Em O Palácio da Ventura, Antero de Quental perseguia o sonho, mas tudo acabou em
desilusão e nada. Agora afirma que “Do palácio encantado da Ilusão / Desci a passo e passo a
escada estreita”, ou seja, “passo a passo”, desiludido, deixou essa viagem atrás da ilusão,
procurando o descanso “Na mão de Deus, na sua mão direita”.
O pessimismo, que resultara do fracasso da luta e da vida, leva o poeta e pensador a
desejar evadir-se para além do que existe e do sofrimento. Neste soneto, perante a
impossibilidade de concretizar o sonho, abranda a sua ação (descansando, depondo,
dormindo), desiste da luta e procura o sono “na mão de Deus eternamente!”.
A mão de Deus surge como lugar de descanso, e pode sugerir uma conceção dúbia
como imagem da Criação, dada ao longo dos tempos. Deus, ao contrário do que sucede
noutros textos, já não é aqui o Deus da inteligência, que racionalmente tenta explicar. É visto
como um refúgio, um meio de evasão, e esta imagem do descanso na sua “mão direita” pode
ser tradutora do contacto com o Supremo Bem, o reencontro com a Força Primeira criadora.

Português A e B: acesso ao ensino superior 2000, Vasco Moreira, Hilário Pimenta. Porto, Porto
Editora, 2000. (Coleção: Acesso ao ensino superior: preparação para a prova de exame
nacional – 12º ano)
Texto 4
É de salientar a presença de marcas do catolicismo nas expressões “Na sua mão direita”
e “escada estreita”, esta última semelhante à “porta estreita” referida por São Lucas e São
Mateus. Assim como Cristo se sentava à direita de Deus-Pai também agora o poeta, ao
necessitar de paz, deposita o seu coração na mão direita de Deus, como se dessa forma a
proteção fosse maior. Por outro lado, ao ter descido do "palácio encantado da Ilusão", não o
fez pela escada larga antes desceu compassadamente, veja-se o verbo de ação no pretérito
perfeito que indica uma atitude já concluída, associado à expressão adverbial "passo a passo",
que transmite um movimento lento e, provavelmente, reflexão. É pela escada estreita que
caminham os sofredores e os justos:
''Entrai pela porta estreita porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à
perdição e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho
que leva à vida." (Mateus - 7, 13 e 14)
Sebenta de Português: Antero de Quental – introdução ao estudo da obra, Cecília Sucena e
Dalila Chumbinho, Estoril, Edição da papelaria Bonanza.

1. Compare o sentido dos versos 1-2 com o dos versos 13-14.


2. Que outros dois versos sintetizam o mesmo sentido de renúncia?
3. Relativamente à ideia de renúncia, de resignação, selecione:
- os verbos que melhor a traduzem;
- as comparações que a reforçam.
4. À renuncia contrapõe António Sérgio o desejo de evasão (cf. texto 1). Discuta esta
interpretação.
5. Relacione sono e morte.
6. Confronte a temática deste poema com a do soneto “Solemnia Verba”.