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DOI: http://dx.doi.org/10.5007/2175-8077.

2014v16n38p77

Artigo recebido em: 17/08/2012


Aceito em: 25/01/2013

A CONSTRUÇÃO DO SENTIDO DE ENVELHECIMENTO PARA OS


ASSISTENTES SOCIAIS: UMA ABORDAGEM CONTEXTUALISTA DAS
EMOÇÕES A PARTIR DO COTIDIANO DE TRABALHO

Construction of the Meaning of Aging for Social Care Workers:


a contextualist approach of emotions from everyday work

Patrícia Augusta Pospichil Chaves Locatelli


Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração. Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Porto Alegre, RS. Brasil. E-mail: patriciaposp@gmail.com

Josiane Silva de Oliveira


Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração. Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Porto Alegre, RS. Brasil. E-mail: oliveira.josianesilva@gmail.com

Neusa Rolita Cavedon


Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração da UFRGS e Pesquisadora do
CNPq. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS. Brasil. E-mail: neusa.cavedon@ufrgs.br

Resumo Abstract
Este artigo analisou como as relações entre emoções e This article examined how the relationship between
trabalho, presentes nas falas sobre a assistência social, emotions and work, present in the discourses about social
configuram o sentido de envelhecimento para os care, configure the meaning of aging for professionals
profissionais dessa área de atuação em uma instituição in this area in a Long Term Care Institution for Elders.
de longa permanência para idosos. Articulou-se a The contextualist approach of studies of emotions was
abordagem contextualista dos estudos das emoções theoretically articulated intertwined with the process of
entremeadas com o processo de constituição subjetiva subjective constitution of the social workers. In order
dos assistentes sociais. Para a coleta de dados foi realizada to collect the data a documental research was provided
pesquisa em documentos disponibilizados pela instituição by the institution, and semi-structured interviews with
e entrevistas semiestruturadas com a assistente social, the social workers were carried out, two interns of the
duas estagiárias deste segmento profissional e quatro professional segment and four elderly residents of the
idosos residentes na instituição pesquisada. Os resultados institution. The results demonstrated a polarization
evidenciaram uma polarização entre dois modelos between two hegemonic models of understanding of
hegemônicos de entendimento da velhice, em que o old age, in which emotional engagement acts as the
engajamento emocional atua como a esfera subjetiva subjective sphere that allows the objectification of this
que permite a objetivação desse processo de clivagem process of social cleavage. Through the analysis of
social. Por meio das análises do engajamento emocional emotional engagement in the social care work activities,
nas atividades de trabalho da assistência social, foram we identified organizational practices that confirm the
identificadas as práticas organizacionais que reafirmam model of impoverishment and neglect of older people
o modelo de pauperização e de abandono dos idosos in society.
na sociedade.
Keywords: Emotions. Work. Aging. Long Term Care
Palavras-chave: Emoções. Trabalho. Envelhecimento. Institutions for Elders. Social Care.
Instituições de Longa Permanência para Idosos.
Assistência Social.

Esta obra está sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso.


Patrícia Augusta Pospichil Chaves Locatelli • Josiane Silva de Oliveira • Neusa Rolita Cavedon

1 INTRODUÇÃO além dos serviços de saúde, também moradia, alimen-


tação, vestuário e lazer aos usuários (CAMARANO
O objetivo principal deste artigo consiste em com- et al., 2010). Padronizando a denominação desses
preender como as relações entre emoções e trabalho, espaços organizacionais, a Organização Mundial de
presentes nas falas sobre a assistência social, configu- Saúde (OMS) estabeleceu o termo Long Term Care
ram o sentido de envelhecimento para os profissionais Institution, e, no Brasil, a Sociedade Brasileira de Ge-
dessa área de atuação em uma instituição de longa rontologia (SBGG) adotou a denominação Instituição
permanência para idosos. Os estudos sobre as emo- de Longa Permanência para Idosos. (CAMARANO et
ções no ambiente de trabalho têm sido comumente al., 2011, 2010)
discutidos a partir de seus aspectos biológicos e cog- Sendo assim, os termos “instituição” e “institucio-
nitivos, o que tem limitado o entendimento de como nalizados” utilizados ao longo deste texto se referem,
a estrutura da sociedade e as formatações sociais da respectivamente, ao universo organizacional preconi-
subjetividade implicam nas produções e expressões zado pela OMS para atendimento aos idosos afastados
emocionais nas organizações. (BULGACOV; VIZEU, do convívio familiar, e aqueles que se utilizam dos
2011; ESSERS, 2009) serviços prestados por essas organizações. Ao longo
Propôs-se analisar as emoções a partir da abor- das análises poder-se-á observar que esses termos já
dagem de estudos de Lutz e Abu-Lughod (1990), foram incorporados na linguagem dos indivíduos imer-
denominada de contextualista. Nessa perspectiva de sos nesse contexto. Portanto, não serão utilizados esses
análise (LUTZ; ABU-LUGHOD, 1990), as emoções conceitos no sentido comumente apresentado na área
são discutidas a partir da dinâmica social, tendo como de Administração, a exemplo da Teoria Institucional.
foco seu processo de constituição, e seu domínio por (CRUBELLATE, 2007; DIMAGGIO; POWEL, 2005)
meio de práticas de discursos situados. As explorações A relevância do estudo encontra respaldo no fato
analíticas das emoções ocorrem nas narrativas que de, nas duas últimas décadas, o envelhecimento da popu-
envolvem questões de sociabilidade e de poder na vida lação brasileira ter demandado atenção, principalmente,
cotidiana dos indivíduos. Considera-se as emoções no que tange ao cuidado para com o público idoso, para
como produções socioculturais que por seus efeitos além das discussões em termos de aposentadoria e, con-
materiais e simbólicos podem desvelar relações de sequentemente, impacto na previdência social (DEBIASI,
poder, mecanismos de resistências, performances e 2004). Apesar de a legislação brasileira estabelecer ser a
práticas de contextos sociais situados sócio-historica- família1 o principal responsável pelo cuidado para com
mente incluindo as organizações. Buscou-se, também, o idoso, a dinamicidade do contexto social e a atual
refletir teoricamente como o engajamento emocional fluidez dos relacionamentos familiares têm reconfigurado
no ambiente de trabalho é desdobrado em práticas essa prerrogativa. Nesse contexto surgem as instituições,
e comportamentos organizacionais pelos quais se públicas ou privadas, acolhedoras de idosos.
faz possível analisar as dimensões macro e micro da No senso comum, o envelhecimento tem sido
dinâmica social. observado sob dois prismas antagônicos (DEBERT,
O contexto organizacional de análise são as Ins- 1999). O primeiro destaca o processo de pauperiza-
tituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) ção e abandono das pessoas idosas, associando-as
que configuram um local de atendimento aos idosos à inatividade, à incapacidade e à improdutividade.
fora do convívio familiar (HERÉDIA; CORTELETTI; Já o segundo modelo propaga a imagem do velho
CASARA, 2010). Originalmente, essas organizações bem-sucedido, que mantém sua funcionalidade, flexi-
eram denominadas asilos e ofereciam serviços de assis- bilidade e adaptabilidade frente aos desafios advindos
tência social. Entretanto, tais serviços deixaram de ser do envelhecimento (DEBERT, 1999). Sendo assim,
suficientes no contexto de envelhecimento populacio- cumpre detectar qual a visão de envelhecimento dos
nal em face do aumento no número de pessoas com indivíduos que atuam diretamente com este público, ou
redução da capacidade física, cognitiva e mental que seja, os profissionais que trabalham em uma instituição
passou a requerer assistência à saúde. Atualmente, as de longa permanência para idosos, de natureza filan-
instituições acolhedoras de idosos tendem a oferecer, trópica. Dentre os diversos profissionais que atuam em

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ILPIs, prioriza-se, neste estudo, os assistentes sociais, foco sobre o estabelecimento da emoção, seu domí-
profissionais que, devido à natureza de sua atividade nio por meio da constituição de práticas de discursos
laboral, estabelecem contato direto com os idosos, uma situados, bem como sua influência na vida social. O
vez que suas principais atribuições estão relacionadas entendimento dessa dinâmica perpassa as narrativas
à garantia dos direitos dos idosos institucionalizados. que envolvem questões de sociabilidade e de poder
É essa proximidade com o universo dos longevos e o como, por exemplo, o ambiente de trabalho (ESSERS,
conhecimento de suas histórias de vida que permite aos 2009). Para Lutz (1990), no Ocidente, os discursos
assistentes sociais o desenvolvimento de um sentido sobre as emoções possuem como retórica o controle
de envelhecimento a partir da vivência laboral e das das questões relacionadas ao gênero, pois implícitas nas
emoções desencadeadas por esse processo. discussões sobre o feminino estão sinais de fraqueza
Este artigo está estruturado em sete itens, além das mulheres. Portanto, o discurso sobre emoções
desta introdução. Primeiramente, apresenta-se a reflete relações de poder na sociedade.
abordagem contextualista de estudos das emoções, Rezende (2011) corrobora esses postulados ao
seguida dos debates de como a constituição subjetiva afirmar a necessidade de se compreender o contexto
dos assistentes sociais é perpassada pelo engajamento em que o discurso emocional é acionado, por quem,
emocional. A seguir, serão apresentados os modelos para quem, quando, com que propósitos. O discurso
de entendimento sobre o envelhecimento humano emotivo seria uma forma de ação social que cria efeitos
apresentados nos debates acadêmicos, e, no quarto no mundo, sendo esses últimos interpretados de um
momento, uma breve elucidação sobre o que vem a modo culturalmente informado pelo público desse
ser as instituições de longa permanência para idosos. “saber emotivo”. É seguindo essa ótica que Lutz e Abu-
Posteriormente, apresentar-se-á o caminho metodo- -Lughod (1990) afirmam serem as emoções construtos
lógico que foi desenvolvido na pesquisa de campo, socioculturais agenciadores de formas constituintes
seguido das análises dos resultados. Ao final, serão de sentidos e forças do lugar de seu desempenho.
apresentadas as contribuições teóricas e empíricas da Assim, é possível analisar como o cotidiano da vida
pesquisa e as possibilidades de outros estudos que social é afetado pelas emoções, considerando-as a
possam avançar nas discussões aqui expostas. partir de suas exterioridades. Os discursos emotivos
ou os discursos sobre as emoções também produzem
a sociedade, pois são formas de mobilização subjetiva
2 UMA ABORDAGEM MICROPOLÍTICA DE dos indivíduos (REZENDE, 2011). As emoções não
ESTUDOS SOBRE EMOÇÕES mantêm apenas uma relação de referência com as suas
externalidades (COELHO, 2010), elas também podem
Os estudos sobre as emoções são comumente produzir relações sociais, e atuam como mecanismo de
discutidos a partir de seu entendimento como um expressão, reforço ou transformações dessas multiplici-
fenômeno individual, em que os referenciais da Psico- dades relacionais, em que as análises de sua dinâmica
logia Cognitiva têm sido utilizados como base teórica possibilitam desvelar os mecanismos instáveis que
(SHIER; GRAHAM, 2010). Por outro lado, pesquisas formam um saber sobre a sociedade. (ESSERS, 2009)
com orientação das Ciências Sociais têm discorrido Considera-se as emoções como produções socio-
sobre o caráter social das emoções sob o enfoque de culturais, em que seus efeitos, materiais e simbólicos,
sua formatação social, e como suas expressões se rela- descortinam relações de poder, mecanismos de resis-
cionam às dinâmicas socioculturais, como propugnam tências, performances e práticas de contextos sociais,
Herzfeld (2009) e Khoury (2006). situados sócio-historicamente. O agenciamento das
Possibilitando maior escopo das teorizações sobre emoções na sociedade também pode se estabelecer
as emoções nas Ciências Sociais, Lutz e Abu-Lughod por meio de práticas de formação de categorias so-
(1990) propõem compreender o conceito de emoção ciais. Wilinska e Henning (2011) empreendem essas
desde uma abordagem denominada Contextualista. discussões em um estudo etnográfico realizado numa
De acordo com as referidas autoras, a corrente de instituição acolhedora de pessoas com deficiência
estudos contextualista das emoções distingue-se pelo e idosos na Polônia, no qual o desafio posto foi de

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compreender a construção da identidade dos idosos líticas governamentais de higiene, nas quais a Igreja
nesta instituição. Os referidos autores afirmam que as Católica foi uma das instituições que mais colaborou
práticas dos profissionais que atuam no cuidado com os para o estabelecimento destas escolas, bem como
idosos produzem, sustentam e promovem a identidade para a delimitação das competências desta atividade.
etária dos idosos, além de se referir ao engajamento (MACHADO, 2010)
afetivo estabelecido entre os profissionais e os idosos Entretanto, como um tipo especializado de traba-
atendidos pela instituição que os acolhe. lho, o Serviço Social apresenta outras perspectivas e
Outras pesquisas, como a de Martinelli (2011) formas de atuação em diferentes espaços ocupacionais,
em contextos hospitalares, a de Regis (2011) na área para além do caráter interventor de expansão nos mo-
de Gestão de Pessoas, e, ainda, a de Olaison (2010) dos de produção capitalista. A formação do assistente
sobre a produção de documentos e a discursividade das social é constituída a partir de projetos ético-políticos
categorizações dos idosos em instituições, perpassaram profissionais em consonância com as transformações
questões relacionadas ao engajamento subjetivo nas sociais, e essa compreensão deve ser considerada
práticas de assistência social no ambiente de traba- nas discussões sobre a atuação desses profissionais
lho. Entretanto, não é possível encontrar na literatura (CISLAGHI, 2011; SANTOS et al., 2010; RIBEIRO,
pesquisas que discutissem como o engajamento emo- 2008). Mais do que atuar em situações de risco social
cional na assistência social no ambiente de trabalho promovido pela dinâmica social, esses profissionais
de institucionalização influencia o entendimento sobre agem na garantia e na expansão dos direitos sociais
o envelhecimento para os profissionais envolvidos dos indivíduos.
nessa área de atuação, e seus desdobramentos em Do mesmo modo, o engajamento político desses
comportamentos organizacionais. É a partir dessa profissionais pode ser comprometido com demandas
lacuna teórica que este estudo se insere. Na próxima de diversos grupos marginalizados na sociedade (WUL-
seção deste artigo serão discutidas como as emoções FF et al., 2010). Esse posicionamento crítico estabelece
perpassam a construção subjetiva dos assistentes o desafio para os assistentes sociais de atuarem a partir
sociais, especialmente, em seu ambiente de trabalho. da heterogeneidade e do contexto sócio-histórico da
localidade. Nesse sentido, não se mostra possível es-
tabelecer uma forma universal de desempenho desses
3 A CONSTITUIÇÃO SUBJETIVA DOS profissionais, porém, há que se problematizar sob quais
ASSISTENTES SOCIAIS projetos políticos esses indivíduos buscam se pautar.
(GILBERT; POWELL, 2010)
O processo de racionalização econômica das De acordo com Yazbek e Degenszajn (2010), o
atividades na sociedade capitalista também encon- trabalho dos assistentes sociais também se relaciona
trou ressonância no que se refere às questões sociais. com a dinâmica do espaço urbano. A dinâmica social
A partir das contradições implicadas na estrutura da contemporânea tem produzido grupos marginalizados
sociedade em relação à força de trabalho nela inserida, e a intervenção desses profissionais se faz necessária
em especial nos polos industriais, demandavam ações tanto no desenvolvimento de políticas públicas, como
de cunho social de forma a amenizar os impactos das na constituição de espaços de acolhimento dos sujeitos
relações de trabalho na condição social dos trabalhado- em situação de degradação social. Desde essa perspec-
res. Sob essa dinâmica, no começo dos anos de 1900, tiva, Mansano (2010) discute as dimensões afetivas pre-
diversas ações de assistência social foram fomentadas sentes no trabalho do assistente social. De acordo com
em diferentes países da América Latina como mecanis- a referida autora, não existiria neutralidade, controle
mo de atuação frente às contradições impostas pelas ou regularidade nas atividades em que há demanda
relações de capital-trabalho. (MACHADO, 2010) afetiva no trabalho. O assistente social se forma em
A assistência social ganha contornos profissionais um contexto de dimensões contraditórias (MANSANO,
na medida em que essa atividade se torna uma política 2010). Por um lado, esse profissional se coloca presente
de ação de Governo. As escolas de Serviço Social no em situações nas quais deve observar a formação de
Brasil são estabelecidas na década de 1930 por po- aparatos legais do Estado por meio de legislações es-

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pecíficas como, por exemplo, o Estatuto do Idoso. São pela associação a um conjunto de ideias negativas
as análises desses procedimentos legais que Mansano sobre o que vem a ser velhice (DEBERT, 1999). Esse
(2010) assinala serem as condições burocráticas pelas modelo reforça os estereótipos associados à velhice
quais os assistentes sociais avaliam situações em que como um período em que o indivíduo se retrai frente
o exercício da cidadania está sendo violado. à doença e à pobreza, tornando-se dependente, pre-
Por outro lado, esses mesmos profissionais estão valece a caracterização do idoso como um ser isolado,
em contato com as condições reais de existência dos abandonado pela família e mantido pelos recursos do
indivíduos. Os problemas do cotidiano dos indivíduos Estado (DEBERT, 1999). Nessa concepção de velhice
é que se configuram como o pano de fundo para a com foco nas perdas, ao velho não resta outro papel
busca por medidas de amparo social, sendo que por senão o de refugo, de desconsideração, pois destituído
muitas vezes o aparato legal não responde de forma de capacidade para produzir economicamente, não
resolutiva às demandas dos problemas sociais (MAN- apresenta contribuição para uma sociedade que se ro-
SANO, 2010). Essa demanda intersubjetiva do Serviço tula como capitalista, urbana e moderna (LOUREIRO,
Social é uma dimensão de trabalho não circunscrita 1998; CARVALHO, 2009). O próprio termo “velho”
às legislações específicas e denota uma lacuna entre é utilizado para expressar decadência, incapacidade
as prescrições e as ações cotidianas nos projetos laboral e exclusão social. (FERREIRA; CUNHA; ME-
ético-políticos destes profissionais. NUT, 2008)
É a imersão nestas contradições sociais que O segundo modelo, representado pela ideia de
constituem os assistentes sociais. Torres (2009) já terceira idade, é constituído por idosos considerados
problematizava esse entendimento ao afirmar que o ativos e capazes, como indivíduos que respondem
trabalho como uma atividade dos indivíduos implica criativamente aos desafios que enfrentam em seu co-
sua constituição sócio-histórica, e como tal alude à tidiano, que redefinem sua experiência de forma a se
formação de valores, preconceitos e sentimentos. Nesse contrapor aos estereótipos ligados à velhice (DEBERT,
sentido, pode-se realizar uma aproximação da cons- 1999). Nesse contexto, a “velhice” passa a ser “terceira
tituição subjetiva dos assistentes sociais e a dinâmica idade” e os “velhos” tornam-se “idosos” (GROISMAN,
das emoções discutida por Lutz e Abu-Lughod (1990), 1999). O que difere a concepção da terceira idade do
em especial quando as referidas autoras afirmam que primeiro modelo é a caracterização de uma fase de vida
as emoções atuam como construtos socioculturais em que as pessoas aproveitariam seu tempo intensa-
agenciadores de formas constituintes de sentidos e mente, em busca de realizações pessoais. Esae conceito
forças do cotidiano da vida social. Esse processo de apresenta a imagem do velho bem-sucedido – indiví-
construção subjetiva se articula com a forma pela qual duos dinâmicos com tempo e recursos para usufruir
os sujeitos sociais constroem sentidos em suas relações de diversão e liberdade. Nessas novas representações
sociais. Sob esse enfoque, o próximo item deste artigo sociais sobre o envelhecimento estão presentes o lazer,
visa discutir a construção do sentido de envelhecimento os cuidados com o corpo e a saúde, bem como a am-
na sociedade contemporânea. pliação do círculo social e o exercício da sexualidade.
(GROISMAN, 1999; ALCÂNTARA, 2004)
Neri e Cachioni (1999) contextualizam a velhice
4 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ENVELHECER bem-sucedida não como a preservação de níveis de
desempenho condizentes com indivíduos mais jovens,
As discussões sobre o envelhecimento e a velhice mas com a ideia de que o requisito principal para
têm apresentado basicamente dois modelos antagôni- uma “boa velhice” é a preservação do potencial para
cos (DEBERT, 1999). No primeiro, que aponta para a o desenvolvimento individual. Considerando que na
pauperização e abandono a que o velho é relegado, velhice o potencial de desenvolvimento fica resguar-
a velhice é tratada como um período marcado pela dado dentro dos limites de plasticidade do indivíduo,
decadência física e pela ausência de papéis sociais. definida pela idade, pelas condições de saúde, pelo
O avanço da idade, encarado como um processo estilo de vida e pela educação, os prejuízos advindos
contínuo de perdas e de dependência, é responsável do envelhecimento podem ser minimizados por meio

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da ativação das capacidades de reserva para o de- rontologia (SBGG) adaptou o termo utilizado pela
senvolvimento. Trata-se da manutenção do equilíbrio Organização Mundial de Saúde (OMS), Long Term
entre as limitações e as potencialidades individuais. Care Institution, e adotou a denominação Instituição
Segundo as autoras, a velhice bem-sucedida não nega de Longa Permanência para Idosos. (CAMARANO et
as perdas, mas exalta a capacidade de adaptação dos al., 2011; 2010)
indivíduos tanto nos aspectos biológicos quanto nos Conforme definição da Agência Nacional de Vi-
psicológicos e sociais. gilância Sanitária (ANVISA)2, as instituições de longa
Mais do que polarizar, diante desses dois modos permanência para idosos são governamentais ou não
de entendimento do envelhecimento humano, é pre- governamentais, de caráter residencial, destinadas
ciso considerar o ambiente socioeconômico no qual ao domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou
os indivíduos estão imersos, pois a visão a respeito superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em
do envelhecimento depende da filosofia de vida, dos condição de liberdade, dignidade e cidadania. As ILPIs
valores pessoais e sociais, dos contextos econômico, constituem uma das modalidades de cuidado de longa
histórico, social e cultural. (KELLY; RIBAS; COSTA, duração dirigidas aos idosos com algum grau de dificul-
2010; DEBERT, 1999; NERI; CACHIONI, 1999) dade para a realização das atividades cotidianas, sem
O envelhecimento da população brasileira, acom- renda e/ou aqueles cuja família não possui recursos (fi-
panhado pela reestruturação dos arranjos familiares, nanceiros, físicos ou emocionais) para a prestação dos
tem apontado uma demanda, cada vez maior, de cuidados necessários. (CAMARANO; MELLO, 2010)
encaminhamento de idosos à institucionalização. Com Apesar de constituírem a modalidade de cuidado
vistas a clarificar o universo das instituições de longa mais comum ao idoso dependente fora do âmbito
permanência para idosos, o próximo item apresenta familiar, em todo o mundo (CHRISTOPHE; CAMARA-
um esboço do que vem a ser uma ILPI, sua origem, NO, 2010), as instituições asilares têm sido vistas com
função e os preconceitos associados a esta modalidade preconceito e resistência por parte da sociedade que
de cuidado. as associam a depósito de velhos, lugar de exclusão,
dominação e isolamento social ou, ainda, lugar para
morrer (CAMARANO et al., 2010). De acordo com
5 AS INSTITUIÇÕES DE LONGA Christophe e Camarano (2010), Camarano (2007) e
PERMANÊNCIA PARA IDOSOS Alcântara (2004), parte do preconceito pode ser jus-
tificado pela história da institucionalização da velhice
A origem das instituições de longa permanência que começou como uma prática assistencialista.
para idosos está ligada aos asilos, modalidade mais Aliados aos preconceitos ligados às ILPIs, em
antiga de atendimento ao idoso fora do convívio relação a sua origem (associada à pobreza e ao aban-
familiar (HERÉDIA; CORTELETTI; CASARA, 2010). dono) e à semelhança com algumas características
Os serviços de assistência social, oferecidos pelos asi- encontradas em instituições totais (GOFFMAN, 2003),
los, deixaram de ser suficientes em face do crescente tem-se ainda a presença de outros aspectos conside-
envelhecimento populacional e aumento do número rados negativos, a saber: a) o medo da morte e da
de pessoas com redução da capacidade física, cognitiva finitude, uma vez que essas instituições são destinadas
e mental que passou a requerer serviços de assistência a pessoas que estão vivendo a última fase da vida,
à saúde. (CAMARANO et al., 2010) com suas perdas e doenças, à espera da morte; e b)
Apesar de os serviços de saúde serem os princi- as denúncias de violência praticadas nas instituições e
pais ofertados pelas ILPIs brasileiras, essas instituições veiculadas na mídia; c) a baixa qualidade dos serviços
não são apenas voltadas para o atendimento clínico prestados por algumas instituições. (CHRISTOPHE;
e terapêutico, posto que os residentes recebem, além CAMARANO, 2010; ALCÂNTARA, 2004)
da assistência à saúde, moradia, alimentação, vestu- No Brasil, a atitude de recorrer à instituciona-
ário, entre outros serviços (CAMARANO et al., 2010). lização é polêmica e carregada de preconceito (CA-
Na tentativa de definir essas instituições com função MARANO, 2007). Os familiares que decidem pela
híbrida, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Ge- mudança do idoso para uma residência asilar, devido

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A Construção do Sentido de Envelhecimento para os Assistentes Sociais: uma abordagem contextualista das emoções a partir do cotidiano ...

ao forte valor cultural que responsabiliza a família por Para a coleta de dados, foram utilizadas as seguin-
esse cuidado, comumente enfrentam um intenso senti- tes técnicas: pesquisa em documentos disponibilizados
mento de culpa, o que só faz aumentar as dificuldades pela instituição e a opção por entrevistas com roteiro
diante dessa nova realidade (CAMARANO; SCHAR- semiestruturado (FONTANA; FREY, 1994). As entrevis-
FSTEIN, 2010; CAMARANO, 2007). Para Christophe tas foram previamente agendadas com os participantes
e Camarano (2010), a forma de cuidado asilar pode da pesquisa e realizadas na própria instituição. Foram
apresentar vantagens e desvantagens a depender das entrevistadas a assistente social e duas estagiárias
necessidades de cada idoso e da disponibilidade de desse segmento profissional. O roteiro das entrevistas
cuidado por parte da família. Para os indivíduos que foi estabelecido a partir de três eixos: (1) descrever
não têm família e para os que enfrentaram conflitos o cotidiano de trabalho de assistência social na ILPI
familiares, a institucionalização pode representar uma em estudo; (2) descrever as emoções relacionadas às
alternativa de amparo, proteção e segurança. atividades desse tipo de trabalho; (3) discorrer sobre o
Considerando que a velhice apresenta duas entendimento acerca do processo de envelhecimento
visões distintas e que a realidade em que os idosos humano. Também foram entrevistados quatro idosos
brasileiros estão inseridos pode ser múltipla, assim residentes na referida instituição. Apesar da utilização
como as razões para a institucionalização, este artigo de um roteiro previamente estabelecido, as entrevistas
busca compreender qual o sentido de envelhecimento foram conduzidas de modo semelhante a uma conversa
que os profissionais de serviço social que atuam em informal. As entrevistas foram gravadas, totalizando
uma ILPI elaboram a partir de sua vivência laboral, duzentos e sessenta minutos de áudio, sendo o conte-
uma vez que eles trabalham diretamente com o público údo transcrito na íntegra. Durante a coleta de dados,
idoso. No próximo item serão apresentadas as escolhas uma das pesquisadoras realizou observação direta na
metodológicas realizadas com a finalidade de atender instituição em estudo, acompanhando o cotidiano de
a esse objetivo. trabalho, em especial, as atividades desenvolvidas pelas
assistentes sociais com o propósito de compreender as
formas de relacionamento destas com os idosos e o
6 CAMINHOS TRILHADOS PARA A OBTENÇÃO desenvolvimento de suas atividades.
DOS DADOS As análises dos materiais coletados seguiram as
orientações de Lincoln e Guba (1994), segundo as quais
Em relação ao método foi desenvolvida uma as interpretações são consideradas como polifonias cons-
pesquisa qualitativa de cunho interpretativo (DENZIN; truídas a partir das tramas de constituição da pesquisa,
LINCOLN, 1994). A coleta de dados foi realizada entre em que são circunscritas dimensões de análises com base
os meses de outubro de 2011 e janeiro de 2012, em uma no corpo teórico-metodológico estabelecido. Exposto isso,
Instituição de Longa Permanência para Idosos localizada são estabelecidoss três dimensões de análises, expostas
na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do no item a seguir, sendo as mesmas: (1) as experiências
Sul. Considerando que 19,5% das ILPIs brasileiras dos entrevistados em relação ao processo de constitui-
estão localizadas na região sul (693), sendo o maior ção dos assistentes sociais na instituição em estudo; (2)
número concentrado em Porto Alegre (129) (CAMA- o engajamento emocional no contexto organizacional;
RANO et al., 2011; CAMARANO, 2008), a instituição (3) a construção do sentido de envelhecimento humano
pesquisada foi escolhida a partir dos seguintes critérios: por meio do engajamento emocional nas práticas de as-
a) localização: Porto Alegre; b) grande porte, que sistência social. Com relação aos aspectos éticos, depois
abriga 50 idosos ou mais (CAMARANO et al., 2011); de esclarecidos quanto aos objetivos da pesquisa e
c) natureza: filantrópica (instituição acolhedora de ido- convidados a participar livremente, foi solicitado a cada
sos socialmente vulneráveis e de baixa classe social). participante a assinatura do Termo de Consentimento
A referida instituição, fundada em 1931, abriga em média Livre e Esclarecido. Os sujeitos entrevistados serão
130 idosos de ambos os sexos, com idade entre 61 e 102 nominados por meio de nomes fictícios.
anos e apresentando diferentes graus de dependência.

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7 O PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DOS que observam a assistência social como assistencialista.


Por outro, as práticas de gestão são pautadas nesse
ASSISTENTES SOCIAIS entendimento do envelhecimento como dependência
social, como será discutido ao longo da análise.
Nas discussões sobre o processo de constituição
Nos relatos dos idosos sobre a assistência social,
profissional como assistente social foi possível observar
foi possível identificar um entrelaçamento dessa ati-
que essa atuação é, primeiramente, articulada com a
vidade com a dos profissionais de saúde. A fala do
dimensão subjetiva das entrevistadas no âmbito da
senhor João (83 anos, institucionalizado há seis meses)
estrutura social, onde ocorre a produção da relação de
ilustra esse processo, pois quando questionado sobre
trabalho com um engajamento por meio das relações
como avaliava o atendimento recebido na instituição
afetivas. É para tal aspecto que Gilbert e Powell (2010)
ele comenta: “Os funcionários que eu mais gosto aqui
chamam atenção quando discorrem sobre os projetos
são os que atendem. São vestidos de branco. Fala com
ético-políticos constituintes dos comportamentos dos
a gente”. Para os idosos “os funcionários de branco”
assistentes sociais nos espaços organizacionais, visto
representam cuidado e atenção, logo, os assistentes
que, mais do que uma profissão, a assistência social
sociais são considerados como “enfermeiros sociais”,
denota os jogos políticos com a realidade social em que
pois cuidam da relação deles com a família, e realizam
esses profissionais estão inseridos. Emília, assistente
o trabalho de escuta de suas demandas, como discutem
social da instituição, foi criada pela avó materna e
Gilbert e Powell (2010).
afirma que sempre teve muita afinidade com idosos.
Fernanda, estagiária de Serviço Social, acompanhava Do ponto de vista de Emília, assistente social, “o
o trabalho da avó que administrava uma clínica geriá- serviço social é a porta de entrada pra tudo que acon-
trica, e Camila, também estagiária de Serviço Social, tece dentro da instituição”. Devido ao caráter político
cuidava do pai, que vivia em condição de dependên- e emocional da atividade, do profissional de serviço
cia física. O engajamento com projetos ético-políticos social é exigido preparação e envolvimento, sendo que
possibilitam uma descoberta da assistência social este último não raras vezes ultrapassa os limites entre
para além de práticas somente assistencialistas, como vida pessoal e profissional.
representado na seguinte fala de Fernanda (estagiária
Eu sinto assim que a minha vida é aqui [...], eu
de Serviço Social): passo a maior parte do tempo. Antes eu fazia
quarenta e quatro horas. Atualmente é trinta
Eu comecei no Serviço Social com uma visão horas, mas eu não faço trinta. Eu bato o meu
bem assistencialista, sabe? De querer ajudar, ponto, o meu cartão e continuo aqui até mais
de querer unir. Ganhar dinheiro fazendo uma tarde. Venho sábados, venho domingos, porque
coisa que eu achava que era boazinha. Só que eu gosto do que eu faço. Eu amo o que eu faço!
daí quando eu adentrei mesmo no Serviço E quanto mais eu puder dar carinho para os
Social, quando eu consegui entender o que é o idosos, poder dar atenção, e poder trazer ativi-
Serviço Social foi aí que eu me encantei. Que dades de fora pra dentro pra que eles possam
ele tá muito além de um mero assistencialismo. se socializar com a comunidade, isso pra mim
Ele trabalha com a garantia dos direitos. é perfeito! (Emília, Assistente Social).

Garantir direitos, nas falas das assistentes sociais, Ao encaminhar as entrevistas com os idosos, as
remete ao acesso aos dispositivos assistenciais oferta- falas revelaram a visão que eles têm a respeito das
dos pelo Governo, como os descritos no Estatuto do assistentes sociais: de profissionais que preferem alguns
Idoso. Essa visão da assistência social tem impacto idosos, em detrimento de outros; que são elas quem
direto no cotidiano da organização em estudo, es- mandam, as “donas da casa”; e que abafam conflitos,
pecialmente por permitir “o ouvir” as demandas dos pois “passam a mão” na cabeça de alguns idosos vistos
idosos nas atividades diárias, bem como estabelecer como pivôs de discórdia. É possível considerar que
atividades, a exemplo dos bingos. Essa última atividade esse processo de trabalho, dadas as demandas dos
segundo os idosos não costuma contar com a participa- problemas sociais, tem como pano de fundo a busca
ção deles, usuários da ILPI. Essa dissonância, por um por intervenções que as medidas de aparato legal não
lado, promove uma relação de poder com os idosos

84 Revista de Ciências da Administração • v. 16, n. 38, p. 77-92, abr. 2014


A Construção do Sentido de Envelhecimento para os Assistentes Sociais: uma abordagem contextualista das emoções a partir do cotidiano ...

respondem de forma resolutiva (MANSANO, 2010). produzem, sustentam e promovem práticas sociais no
Isso resulta em um engajamento afetivo que transcen- ambiente de trabalho que podem tanto transgredir
de o comportamento desses profissionais no espaço como reafirmar clivagens sociais. No próximo item
organizacional, e possibilita articular o desenvolvi- serão apresentadas como essas relações se desvelam no
mento de suas atividades de trabalho a um contexto comportamento organizacional dos assistentes sociais.
socioeconômico na sociedade, que também posiciona
os assistentes sociais:
8 O ENGAJAMENTO EMOCIONAL DA
Quando eu cheguei [na instituição] eu achava
essa idosa muito triste. E eu procurei saber, fui
ASSISTÊNCIA SOCIAL
ver o estudo social dela, e vi que ela era uma
idosa, que ela era mãe solteira, e que ela tinha O engajamento emocional com os idosos no com-
um filho que ela já não via há mais de quarenta portamento dos assistentes sociais nas organizações
anos. [...]. Fui tentar descobrir onde morava implica, também, a retórica do controle e de questões
esse filho e tudo pra poder contatar com ele.
relacionadas ao gênero na dinâmica de trabalho.
Consegui. Identifiquei onde ele estava morando
e tudo, e liguei pra ele. [...] Então, eu fui tentan- No que concerne à retórica do controle, apesar de
do amenizar essa situação e manter um diálogo prever atendimento psicológico aos idosos, a institui-
com ele, aberto, mesmo por telefone pra que ção pesquisada não conta com um psicólogo dentre
depois a gente pudesse conversar futuramente, os profissionais atualmente disponíveis. O relato de
e ele poder rever a mãe dele e tudo. Fazer esse Camila (Assistente Social estagiária) revela que, na
link, né? [...] Uns quatro meses depois ele me
falta desse profissional, o serviço social toma para si
ligou. [...] Eu me emocionei quando ele disse:
“Olha, [...] eu estou preparado pra ter um re- a função de escuta: “E depois eu vou nos quartos e
encontro com a minha mãe” [choro]. E aí, foi o faço aquele trabalho de escuta que é o nosso trabalho
que aconteceu, a gente marcou esse encontro fundamental, né?”. Esse envolvimento emocional do
e no dia foi muito lindo. [...] Choravam como assistente social com os idosos ao escutar suas histórias
crianças, e eu então, bah! Foi bem no início de vida e reivindicações estabelece entre eles uma re-
assim de meu trabalho aqui [choro] (Emília,
lação de poder concernente aos assistentes sociais de
Assistente Social).
modo a reificar um processo subjetivo a partir de uma
Essa narrativa relativa à referida idosa asilada condição material do processo de institucionalização.
encontra amparo em Camarano (2010) e Camarano A seguir é apresentado um relato que ilustra como,
(2007), que atribui à ausência de família e aos conflitos por meio das emoções, as assistentes sociais podem
familiares os principais motivos para a instituciona- estabelecer uma relação de poder com idosos e estes
lização. O depoimento da assistente social revela a se utilizam de diversos mecanismos, como a negação
realidade da ILPI pesquisada que, por sua natureza de vínculos jurídicos com as profissionais, como meio
filantrópica, acolhe prioritariamente idosos socialmente de resistência a uma possível situação de dominação:
vulneráveis. É esta percepção, de um cotidiano de
Eu tenho uma idosa que [...] A história dela me
trabalho pautado em clivagens sociais, que determina comoveu. Não tem outra palavra assim. Desde
a posição que os idosos ocupam na estrutura social, que eu conheci ela eu sou muito apegada a ela.
e designa como as assistentes sociais interpretam suas E ela é uma senhora que não tem ninguém pra
condições de trabalho. Um comportamento nas organi- ela. Não tem família, não tem nada. [...] Aqui,
zações, que além de vinculadas às questões de aparato pro idoso estar na casa, tem que ter uma cor-
responsabilidade. Alguém tem que responder
legal do Estado, dos Direitos Sociais, diz respeito a um
pelo idoso lá fora. E quando o idoso não tem
engajamento político e emocional na relação com os ninguém, fica a cargo do Estado. [...] E eu me
idosos. Ademais, esse engajamento emocional, como ofereci pra adotar essa idosa. [...] E eu falei
afirmam Wilinska e Henning (2011) e Lutz e Abu- pra idosa isso. E ela foi muito incisiva: eu não
-Lughod (1990), provoca mobilizações sociais que quero ninguém por mim. E eu disse: por quê?
atuam não apenas em uma relação de referência as Ah, porque tu vai me querer tirar da casa, vai
querer me levar pra tua casa. E eu disse: não.
suas externalidades (COELHO, 2010). As emoções

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Eu não quero. Eu quero só me responsabilizar No cotidiano de trabalho, as assistentes sociais


por ti. Tudo que você precisar aqui dentro. Eu reproduzem as representações das instituições asilares
quero ser como família pra ti [...] Eu sou muito
como lugar de excluídos e de isolamento social, pois
apegada a ela. Eu acho que eu posso dizer isso
a organização em estudo é entendida a partir de uma
(Fernanda, Estagiária de Serviço Social).
prática assistencialista (CHRISTOPHE; CAMARANO,
Na organização em estudo, o processo de institu- 2010; ALCÂNTARA, 2004). Apesar de as assistentes
cionalização remete a uma condição de dependência e sociais reconhecerem que o processo de instituciona-
vulnerabilidade social dos idosos, por isso, as decisões lização destitui os idosos do convívio social, suas falas
de intervenção dos profissionais nesse ambiente de remetem a condições individuais de culpabilização
trabalho são consideradas legítimas. Esse processo desses idosos pela falta de construção de sociabilida-
coloca os idosos em uma condição de passividade, des e omitem a perspectiva de compreensão acerca
determinando sua posição nessa relação social. Essa dos aspectos inerentes ao próprio sistema capitalista,
percepção de vulnerabilidade se reflete de maneira em que a lógica da eficiência e do entendimento dos
direta na forma de atuação das assistentes sociais en- indivíduos como objetos para expansão do sistema
trevistadas que, no tratamento com o idoso, buscam o econômico também se fazem presentes. (CISLAGHI,
uso de palavras ternas como “minha querida”, “meu 2011; SANTOS et al., 2010; RIBEIRO, 2008)
amor” e em expressões físicas de carinho como o toque, A decisão pela institucionalização não apresenta
o abraço, uma forma de compensar o idoso pela sua um padrão único, pois pode partir da família, inde-
condição de institucionalizado. pendente da vontade do idoso; de ambos, quando
a família e o idoso decidem juntos; apenas do idoso;
Nós temos aqui quase cento e trinta idosos e, do Estado, quando encaminha idosos moradores de
muitas vezes, eu não consigo parar e conversar rua ou em situação de conflito familiar (CAMARANO;
com eles. Então, aqueles que vêm aqui na sala,
SCHARFSTEIN, 2010). Esse processo multifacetado da
eu abraço, eu beijo, eu falo, eu dou atenção,
porque aqueles é como se.... eu penso: Bom, institucionalização é identificado nos relatos dos idosos
se não posso dar pra aquele, aquele outro, eu entrevistados neste estudo, e observado nos excertos
não estou lá, mas eu vou dar aquilo ali como se das entrevistas apresentados a seguir.
eu estivesse dando pros outros. Mas, ao mesmo
tempo eu sei que não é assim. E eu me culpo Aí, ela deu aquela desculpa: “É, mãe! Porque
por isso... eu queria me virar em quatro pra a senhora não pode mais ficar sozinha, porque
poder estar em cada setor dando um pouco de a senhora é doente, e pode dar qualquer coisa
atenção pra cada um (Emília, Assistente Social). aí. Às vezes a [neta] pode não tá aí e até eu
chegar pode acontecer alguma coisa”. Começou
Dessa dinâmica emerge o entendimento das com aquelas desculpas. Mas, pensa que eu sou
assistentes sociais sobre o processo de constituição da boba? Eu não sou boba não. Isso aí foi uma
traição que ela fez pra mim (D. Rosalina, 82
organização em que trabalham, bem como do idoso
anos, institucionalizada há 3 anos).
institucionalizado:
Vim pra cá porque a minha filha e meu genro
Hoje, é melhor pra esse idoso tá aqui porque trabalham, eu ficava em casa sozinho e sem
lá fora ia ser pior. Lá fora ele ia tá desassistido, comida [...] no sábado ela me busca e eu fico
lá fora ele ia passar fome, lá fora ele não ia ter em casa lá com ela. Sábado e domingo (Sr.
teto. Então, sim. Institucionalize este idoso. Mas, João, 83 anos, institucionalizado há 6 meses).
assim, eu digo que é a última coisa a... não tem Eu vim pra cá porque eu achei que velho é chato
coisa melhor do que estar em casa. Não tem coi- e eu sou chata. E eu estava incomodando. E
sa melhor que estar com tua família (Fernanda, eu acho que eu ia incomodar mais. Então, eu
Estagiária de Serviço Social). resolvi que vim [vir] pra cá pra dar um descanso
Porque não cultivaram a família, não cultivaram pra minha nora (D. Helga, 86 anos, institucio-
as amizades e aí acabaram sozinhas. Se aban- nalizada há 4 anos).
donaram, como eu te falei (Emília, Assistente Eu estava muito sozinha. Há muitos anos que
Social). eu moro sozinha. Mas a idade vai avançando
e a gente vai perdendo aquele pique de estar

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A Construção do Sentido de Envelhecimento para os Assistentes Sociais: uma abordagem contextualista das emoções a partir do cotidiano ...

sozinha. E chegou ao ponto que eu estava com muito além da vivência de uma temporalidade linear
medo de ficar sozinha. Aí, eu resolvi vir pra dos sujeitos institucionalizados contemplando suas
cá (D. Noêmia, 78 anos, institucionalizada há
condições socioeconômicas.
4 meses).
Os filhos estão muitas vezes se distanciando e
Os relatos apresentados evidenciam a influência muito pela questão econômica, pela questão so-
da dinâmica familiar no processo de institucionaliza- cial mesmo, sabe? Às vezes a exclusão dele se dá
ção, sendo que no primeiro é clara a destituição de porque ele não tem dinheiro. Economicamente
poder decisório do indivíduo a respeito de si mesmo ele está excluído. Mas não mais por ser velho,
devido à condição de “idoso”. Além da lógica do con- não mais porque ele não acompanha a socie-
dade (Fernanda, Assistente Social Estagiária).
trole, postulada pela dinâmica emocional no trabalho,
questões de gênero também perpassam a constituição
A questão econômica como um fator determinan-
da organização em estudo. A fala da Assistente Social
te na construção de uma visão positiva ou negativa a
Emília remete a essa discussão quando discorre sobre
respeito do envelhecimento também é evidenciada
as demandas do serviço social, sendo uma das prin-
nos relatos de idosos, quando questionados sobre sua
cipais a administração de conflitos entre os idosos:
atual fase de vida.
“As idosas brigam, existem muitas fofocas, rivalidades
entre elas. Assim, oh, elas têm aquela coisa da compe- Eu não estou gostando nada, nada. De jeito
tição que uma se acha melhor que a outra.” O relato nenhum! Eu sempre estou dizendo que eu era
apresentado generaliza os idosos institucionalizados uma mulher feliz, uma mulher alegre. Eu traba-
como se todos agissem da mesma forma e como se lhava, tinha meu dinheiro, comprava o que eu
queria. Era outra vida. E agora, virar nisso? Ah,
todos pertencessem ao sexo feminino. É por isso que
não! Não estou gostando nada. [...] Então, como
Lutz (1990) afirma que no ocidente os discursos sobre é que vai ser feliz se eu dependo só dos meus
as emoções são relacionados a gênero, pois implícita filhos? (D. Rosalina, 82 anos, institucionalizada
nas discussões sobre as representações do feminino há 3 anos).
estão as relações de poder existentes na sociedade. Eu trabalhei que nem burro. Hoje eu não quero
Na instituição em estudo a assistência social nada não. Eu dei tudo que eu tinha. Não sobrou
é realizada somente por mulheres implicando um nada. O dia mais feliz da minha vida foi o dia em
sentido de cuidado associado ao feminino tal como que eu dei a última casa. Tu sabe o que é uma
pessoa se sentir feliz porque ficou sem nada?
acontece, via de regra, na sociedade capitalista oci-
Eu me senti feliz. Fiquei só com meu salário
dental (LUTZ, 1990). Sendo assim, o próprio sentido mixuruca [...] Agora, eu sou eu (D. Helga, 86
do envelhecimento para as assistentes sociais acaba anos, institucionalizada há 4 anos).
por ser interpelado pela dinâmica vivenciada em seu
trabalho na instituição. No próximo item deste artigo Essa dependência social se reflete no processo
é evidenciado como esse processo se desenvolve no de reificação dos sujeitos na sociedade, não dizendo
contexto em questão. respeito somente aos idosos, mas àqueles que não
possuem um corpo eficiente para o trabalho e a ma-
nutenção do sistema econômico. É por isso que, tanto
9 A CONSTRUÇÃO DO SENTIDO DE para as assistentes sociais quanto para os idosos, as
ENVELHECIMENTO narrativas sobre o processo de envelhecimento são
articuladas à precariedade da situação econômica
A partir do cotidiano de trabalho, os sentidos dos indivíduos que passam a ser vistos como mais um
do envelhecimento para esses profissionais vão se “objeto” na sociedade:
constituindo de forma a reafirmar a relação de depen-
O ser velho hoje é aquilo assim ó: tu não serve
dência dos idosos com a sociedade. Esse processo é pra mais nada! Tu tá ali, enquanto tu serviu tu
respaldado pelo modelo de envelhecimento pautado tinha um valor. A partir do momento que tu não
na pauperização e dependência, pois a condição do tá, como é que eu vou te dizer, tu não tá servindo
idoso, conforme relatado por uma das estagiárias, está pra alguma coisa, então tu é jogado de lado. É

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por isso que as instituições hoje estão assim ó, outros mecanismos de resistência às relações de poder
super lotadas. Não serve mais então fica jogado. implicadas nas práticas organizacionais.
Como um carro velho (Camila, Estagiária de
Na tentativa de preservar os idosos, as práticas
Serviço Social).
organizacionais limitam suas ações, visto que o en-
Como discutido anteriormente, é na construção tendimento apresentado pelos assistentes sociais, por
social sobre o envelhecimento que as organizações que meio do engajamento emocional, reforça o processo
institucionalizam os idosos se pautam, e o cotidiano de envelhecimento como sinônimo de abandono e
de trabalho dos assistentes sociais atua de forma a dependência. No contexto em análise, é possível ob-
reforçar esse entendimento por meio do engajamento servar que as narrativas sobre a velhice bem-sucedida,
emocional em suas atividades laborais. Essa dinâmica representada na capacidade de adaptação dos idosos,
contextualista das emoções constitui práticas organiza- ainda não se faz presente nas práticas de assistência
cionais a partir da retórica da necessidade de controle e social. Nesse sentido, a abordagem contextualista de es-
de dependência dos idosos. Entretanto, a compreensão tudo das emoções nos estudos organizacionais podem
a respeito das necessidades e expectativas dos idosos desvelar como o engajamento emocional nos contextos
pesquisados, a partir do engajamento emocional pela de trabalho postulam uma dinâmica de controle dos
dependência, pode revelar-se equivocada. Os idosos indivíduos que reforçam clivagens sociais nas práticas
relataram possuir disposição para a realização de ta- organizacionais.
refas diferentes das oferecidas pela instituição (bingo,
bailes, sessões de filme), como as de cuidado com a
casa, atividades que muitas vezes lhe são restringidas, 10 CONSIDERAÇÕES FINAIS
como pode ser observado nos seguintes relatos:
O objetivo neste artigo foi compreender como as
Eu costuro, lavo roupa, estendo, recolho, dobro. relações entre emoções e trabalho, presentes nos dis-
Sempre acho o que fazer. Eu nunca estou de cursos sobre a assistência social, configuram o sentido
“varde”. [...] É muito difícil me pegarem aqui de envelhecimento para os profissionais dessa área
deitada (D. Rosalina, 82 anos, institucionalizada
de atuação em uma instituição de longa permanência
há 3 anos).
para idosos. Foi possível observar que na instituição
Um dia eu estava no meu quarto que é lá pros
em questão as atividades de assistência social são
fundos. Eu estava lá fora da porta, no corredor.
designadas às mulheres, pois, como discutem Lutz e
Com a vassoura lá. Comecei a passar a vassoura
justamente na hora que passou. Não sei se é Abu-Lughod (1990), discutir emoções na sociedade
presidente, vice-presidente, me pegou na tam- capitalista ocidental é falar de gênero, onde implícitas
pinha. Chegou pra mim na maior delicadeza: nos discursos emocionais estão as relações de gênero
a senhora me dá licença? E fiquei bem assim. imbricadas em relações de poder.
Que será que ele quer com a vassoura? Pegou
As relações entre emoções e trabalho na institui-
a vassoura e saiu. Não me disse nada (risos).
Diretamente ele não me disse nada. Somente ção evidenciaram, nas falas dos idosos, a naturalização
me tirou a vassoura da mão (risos). Eles não do imaginário social a despeito dos profissionais de
deixam a gente fazer nada (D. Noêmia, 78 anos, saúde como os “profissionais do cuidado” remetido ao
institucionalizada há 4 meses). uso do jaleco branco, e ao status quo que o uso desse
objeto remete à classificação social dos profissionais.
Durante as observações, por inúmeras vezes O uso do jaleco branco indica quem é engajado no
foram presenciadas situações de idosos buscando cuidado com os idosos. Nesse sentido, essas discus-
ajudar de diferentes maneiras, seja recolhendo lixo sões contribuem com os estudos organizacionais ao
no pátio, carregando sacolas ou varrendo. Na maioria descortinar como os objetos de uso no trabalho de
das vezes, tais tentativas resultam em desaprovação determinadas categorias profissionais, a exemplo dos
por parte dos funcionários e em desistência por parte equipamentos de proteção individual (EPIs), se cons-
dos idosos, com exceção da ocasião em que uma idosa tituem carregados de aspectos de clivagem social no
disputou a vassoura com a assistente social, ganhando ambiente de trabalho.
o “direito” de varrer a área em frente à sala. Isso denota

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A Construção do Sentido de Envelhecimento para os Assistentes Sociais: uma abordagem contextualista das emoções a partir do cotidiano ...

No processo de assistência social, as emoções organizacionais, como em ILPIs gerenciadas pela ini-
atuam como dispositivos de controle dos idosos. Foi ciativa privada, e a partir de análises de outras práticas
por meio das análises do engajamento emocional nas organizacionais que não somente a assistência social.
atividades de trabalho da assistência social que se Esse processo também poderá desvelar outros meca-
identificam práticas organizacionais que reafirmam nismos pelos quais o envelhecimento é instituído de
o modelo de pauperização e abandono dos idosos roupagens como terceira idade, idoso, melhor idade,
na sociedade. Esse processo ficou evidente quando onde será possível confrontar teórica e empiricamente
se observa que, apesar dos discursos sobre a velhice as conclusões deste estudo, possibilitando ampliar as
bem-sucedida na sociedade, os idosos têm limitada discussões sobre o envelhecimento dos indivíduos nos
a sua capacidade de decisão sobre suas atividades estudos organizacionais, para além dos debates sobre
rotineiras na instituição, sendo as mesmas decididas e aposentaria, fomentando um repensar das ações a
conformadas a partir dos gestores. serem implementadas por aqueles que atuam ou geren-
Com os resultados deste artigo propõe-se avançar ciam profissionais nesses espaços que acolhem idosos.
teoricamente nos estudos organizacionais a respeito das
emoções como fenômenos socioculturais no ambiente
de trabalho que atuam como dispositivos de controle REFERÊNCIAS
dos indivíduos na sociedade. Esses dispositivos emo-
cionais podem agir de modo a reafirmar mecanismos ALCÂNTARA, A. de O. Velhos institucionalizados
de clivagem social no ambiente de trabalho, pois implí- e família: entre abafos e desabafos. Campinas: Alínea,
citos nestas discussões estão mecanismos de relações 2004.
de poder e reificação dos indivíduos. O engajamento
BULGACOV, Y. L. M.; VIZEU, F. A positividade da
emocional também pode operar de forma a estimular
emoção na prática da pesquisa nas organizações.
o pensar a respeito de mecanismos de enfrentamento
Cadernos EBAPE.BR (FGV), Brasília, DF, v. 9, p. 488-
aos aparatos institucionais, que estabelecem brechas e
509, 2011.
outros processos de confronto à disciplinarização dos
indivíduos, como observado nas atitudes de confronto CAMARANO, A. A. (Coord.). Características das
dos idosos em relação à postura das assistentes sociais. instituições de longa permanência para idosos –
As discussões teóricas as quais se reporta neste região Sul. Brasília, DF: IPEA; Presidência da República,
estudo possibilitaram o aprofundamento dos debates 2008.
sobre emoções, envelhecimento e organizações para
uma abordagem social e processual de articulações CAMARANO, A. A. Instituições de longa permanência e
entre estes conceitos. Desse modo, propôs-se abrir um outras modalidades de arranjos domiciliares para idosos.
espaço de discussão, a partir do qual e para além do In: NERI, A. L. (Org.). Idosos no Brasil: vivências
entendimento do engajamento emotivo no ambiente e expectativas na terceira idade. São Paulo: Editora
de trabalho como fenômeno de participação ou de Fundação Perseu Abramo, Edições SESC SP, 2007.
dominação, essa proposição analítica possibilitaria,
CAMARANO, A. A. et al.. Condições de funcionamento
talvez compreender relações de poder, conflitos, ou
e infraestrutura das instituições de longa permanência
mecanismos de confronto, ainda que “silenciosos”,
para idosos no Brasil. Comunicados do IPEA, Rio de
que perpassam os processos e comportamentos or-
Janeiro, n. 93, 2011, p. 1-14.
ganizacionais.
Não obstante, por este estudo ter sido circunscrito CAMARANO, A. A. et al. As instituições de longa
a um ambiente organizacional de institucionalização, permanência para idosos no Brasil. In: CAMARANO,
bem como de os sujeitos de pesquisa apresentarem a A. A. (Org.). Cuidados de longa duração para a
predominância do gênero feminino, considera-se que população idosa: um novo risco social a ser assumido?
esse contexto pode limitar as conclusões apresentadas. Rio de Janeiro: IPEA, 2010, p. 187-212.
Entretanto, abre espaço para que essa perspectiva
de análise seja desenvolvida em outros ambientes

Revista de Ciências da Administração • v. 16, n. 38, p. 77-92, abr. 2014 89


Patrícia Augusta Pospichil Chaves Locatelli • Josiane Silva de Oliveira • Neusa Rolita Cavedon

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Patrícia Augusta Pospichil Chaves Locatelli • Josiane Silva de Oliveira • Neusa Rolita Cavedon

NOTAS
1 Ver Política Nacional do Idoso – Lei n. 8.842, de 4 de
janeiro de 1994, e Estatuto do idoso – Lei n. 10.741, de
1° de outubro 2003.

2 Resolução da Diretoria Colegiada – RDC/ANVISA n.


283, de 26 de setembro de 2005.

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