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-FIlosofia eCiêncies Humana~


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Introc/ucão à Filosofia
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PAULO GHlRALDELLI JR.

Manóle

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UFT
Copyright (9 2003 Editora ManoIe Ltda . por meío de contrato com o autor

Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Verba Agência Editorial»

Capa: Wendy Afaria de Castro


Sumtirio
CIP/BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

G344i

Ghiraldelli Junior, Paulo, 1957 -.


Introdução à filosofia
I Paulo Ghiraldelli Jr.. - Barueri, SP: Manole, 2003
. - (Textos básicos Filosofia e ciências humanas)

ISBN: 85-204-1680-2

1. Filosofia.
LTítulo.

02-1980. CDD 100


I
CDU 1
Prefácio, xi
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, PARTE I
por qualquer processo, sem a permissão expressa dos editores. OS ANTIGOS E OS MEDIEVAIS
É proibida a reprodução por xerox. f-undaçáo Universidade feaeral do Iocsntíns
CilmllUS Uníversircúin de PaI/I/ris
ª
1 edição brasileira - 2003

Direitos adquiridos pela: ')ata


Reg.
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}'égBUOTfCA
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1. Mito e filosofia, 3
2. Os pré-socráticos, a cosmologia e a ontologia. 7
3.Sócrates e os sofistas, 13
:.Joc. , '\
Editora Manole Ltda.
Avenida Ceci, 672 - Tamboré
RS . 4.Platão e a "alegoria da caverna", J9
06460-120 - Barueri - SP - Brasil t')l .0, 5.Platão e a "teoria da linha divisória", 21
Fone: (0__ 11) 4196-6000 - Fax: (0__ 11) 4196-6021 6.Platão, a teoria da alma e a política, 25
www.manole.com.br 7.Aristóteles e Platão, 27
info @manole.com.br
8.A ética e a cidade em Aristóteles e Platão, 31
Impresso no Brasil
9. Fé, razão e "nominalismo", 3 7
Printed in Braril
____-------------------------------r•
• '§I'ijilf)"P"'''Ui''Ih' 1i"#Mdii'. ••
••
PARTE 11
Os
PARTE V ••
••
CONTEMPORÂNEOS
Os MODERNOS

21. A filosofia analítica e o trabalho de Frege, 115


1O. As perguntas dos antigos e as dos modernos, 43
11.
12.
Descartes e o sujeito epistemológico, 47
Rousseau e o sujeito como pessoa, 51
22. A filosofia analítica e o trabalho de Bertrand
Russell, 123 ••
13. Os problemas postos por Hume contra a metafisi-
ca,55
23. Os positivistas lógicos e Wittgenstein, 127
24. Quine e o mito do museu, 131
25. Quine e os dogmas do empirismo, 137
••
14. O método de Hume e o "Eu" empirista, 59 26. Donald Davidson e a teoria do agente, 143
27. Introdução às teorias da verdade, 151 ••
PARTE 111 28. O holismo radical de Donald Davidson, 161
29. Richard Rorty,]ürgen Habermas e o tema da ••
.'••
O APOGEU DA MODERNIDADE
verdade, 169
15. Kant e o sujeito epistemológico, 65 30. A filosofia política de Rorty, 179
16. Kant, o sujeito moral e a nova metafísica, 73
17. Hegel: apogeu do sujeito e término da filosofia, 81 Sugestões de leituras, 185

PARTE IV
Sobre o autor, 187
••
Os CRÍTICOS DOS MODERNOS
••
18. O sujeito moderno e seus adversários: Darwin,
Marx e Freud, 91
19. Nietzsche: crítica ao sujeito e ataque à metafísica
.'••
••
moderna, 97
20. De Nietzsche a Wittgenstein: os estertores da
filosofia moderna, 105

••
••

Prefácio

H uma historieta que conta que um francês, um inglês e


um alemão foram encarregados de um estudo sobre o camelo, En-
tão, o francês foi ao zoológico, entrevistou o guarda, jogou co-
mida para o camelo, cutucou o animal com seu guarda-chuva e,
chegando em casa, mandou para seu jornal U1U artigo curto luas
repleto de afirmações picantes e espirituosas sobre o camelo. a inglês
foi até o Oriente, instalou-se confortavelmente no deserto com
inúmeros instrumentos de pesquisa e, depois de três anos, trouxe
um livro grosso, cheio de fatos documentais sobre o camelo que,
embora não tivesse nenhuma conclusão ou ordem, era um volume
de grande valor documental. O alemão, COll1 desprezo pela frivo-
lidade do francês e pela falta de concatenação de conceitos do inglês,
não foi a lugar algum, Ficou no seu escritório e passou a redigir
uma obra, prevista para 12 volumes. com o título: A Id éia de camelo
deduzida da concepção do Eu.
a que está acima foi publicado el~l vários lugares. Hoje em
dia, 111aíS um personagelTl poderia ser colocado na história: o norte-
americano. Se solicitado a dissertar sobre o camelo ele não faria
r
e
-~====- ••
••
nenhuma das coisas acima apontadas; ele simplesmente pararia e
perguntaria: "o que ganhamos sabendo algo mais sobre o camelo?"
Há os que julgam que a mais autêntica maneira de filosofar

Os antigos e os medievais ••
é a do alemão. Mas a filosofia, atualmente, parece estar querendo
se fixar em urna posição mais ativa. Antes dos filósofos saírem por
aí procurando saber coisas, eles estão tendentes a perguntar sobre
••
o quanto há de vantagem em saber tais coisas ou nào.
O espírito deste livro é o espírito da atualidade. Trata-se de ••
uma introduçào à filosofia que é, na verdade, um tipo de curso in-
trodutório defiloscfia que, antes de tudo, partiu de uma pergunta bá-
sica: o que é vantajoso saber em filosofia, atualmente, para podermos
••
conversar, ler e fazer mais e melhor, enfim, tentarmos pegar uma e
via mais produtiva para construirmos um mundo mais feliz?
••
Paulo Ghiraldelli Jr.
setembro de 2002
••
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.' ••
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••
I
Mito e filosofia

A palavra "filosofia" vem do grego phllos + sophla, onde phllos


tem a ver com filiação, amizade, e sophla designa sabedoria. Con-
siderando exclusivamente a etimologia do termo filosofia, o que
se obtém é que o filósofo é amigo da sabedoria, está filiado à em-
presa que busca a sabedoria, procura o conhecimento - o saber
verdadeiro. O filósofo é aquele que isola a mentira, que aponta o
que é falso. Sendo assim, o verdadeiro e o falso, dicotomicamente
falando, estão na raiz da conversação que se instalou, no Ocidente,
como a Filosofia.
Pode ser que a filosofia, hoje mais do que ontem, não seja a
"busca por um saber último, a Verdade", mas não se pode negar
que o par verdadeiro-falso ou, de rnodo mais preciso, a discussão
sobre a natureza da verdade, ainda faz sucesso em certas conversa-
ções, e que tais conversações são as que atribuímos àqueles que
chamamos de filósofos.
Todavia, hoje, algurnas disputas atribuídas ao canlpo da filo-
sofia não seriam levadas tão a sério como no passado recente. A
idéia tradicional de que a filosofia espelha a razão na disputa "mito

I versus razão", e que tal disputa é a mesma que "ficção versus filosofia",
••
. ."§iiBiJUR8.I" m".
1""',,0*"6 _I ••
não é mais algo que se possa endossar sem ressalvas. O que se pode ~
dizer então, atualmente, sobre a relação entre mito e filosofia?
apenas men~ira, falsidade etc. A filosofia fica responsável por tudo
que .p assa a irnportar, intelectualnlente, para as camadas letradas: a
.,el
.;
A filosofia , na perspectiva dos pensadores da Grécia antiga,
é uma atividade que visa ao saber. Aos olhos do filósofo grego
clássico, o mito não está preocupado em levar alguém ao saber
explicação.
••
verdadeiro, ao conhecimento, à narrativa explicativa que não e
o'.•
evoca relações sobrenaturais ou mágicas. O conhecimento, o saber
verdadeiro, aos olhos de tal filósofo, é aquele fornecido exclusiva-
mente por narrativas em que os eventos mostram-se mediante rela-
ções causais e relações racionais. O mito, por sua vez, não trabalha
com a explicação por causa ou a explicação por razão . Qual é, en-
••
tão, sua função?
A palavra mito vem do grego mythos. Dois verbos confluem ••
para mythos: mytheo, que é a conversação e a designação, e mytheyo,
que é a narração, o ' contar algo para outro. O mito narra algo que
••
é inquestionável para quem está inserido fielmente na atividade de
ouvi-lo. O papel do tnito é o de informar as pessoas e dar sentido
à existência delas, as que crêem nele, mas, principalmente, o tnito
deve socializar os que vivem em uma comunidade que é mantida
,.•
,~'.
unida, em grande parte, por tal função de agregação que ele pro-
porciona. A comunidade que forma o "nós", os que se organizam
. Imente d a mesma r:rorma e se tomam como I " seme Ih antes " ,
SaCIa
••
possui em comum, exatamente, o mito. Assim, o mito é um ele-
mento forte na Grécia antiga porque fornece cimento interno e, ••
além disso, é a narrativa (única) que diz o que é comum para este
"nós" - os gregos.
Todavia, quando a filosofia cobra do mito exp licações de
••
eventos, situações, ocorrências, e não obtém urna cadeia causal ou
urna cadeia de razões , decepciona-se. O mito cai na berlinda COI110 ••
narrativa explicativa. Não sen do urna narrativa explicativa, perde
prerrogativas também enl algum outro canlpo al ém do conhc-
cimento - não tem mais sua função socializadora reconhecida
••
(função esta só observada, em detalhes. bem recentemente, por so-
ciólogos do século XIX) e torna-se aos olhos de vários homens ••

e
Os [Jré-socráticos ,
a cosmologia
f' e a ontologia
I
I
>1

MUitos mitos se apresentam na forma de cosmogonia. As cos-


mogonias são, em geral, narrativas sobre as origens do que uma
determinada comunidade chama de "o mundo". Falam da união
sexual entre deuses, ou entidades quaisquer que geram o mundo,
ou união sexual entre deuses e humanos, que, geralmente, criam
situações complexas e dão o enredo para alguma história que conta
episódios de divisões, guerras, ciúmes, paixões, disputas sobre a
justiça, sobre domínios etc.
Diferentemente das cosmogonias, as cosmologias já estão mais
para o campo do pensamento filosófico do que para o pensamento
mitológico. O historiador propenso a ver mais continuidade do
que ruptura na história do pensamento tende a tomar as cosmo-
logias como o início do pensamento científico. As cosmologias são
teorias sobre a natureza do mundo. Enquanto as cosmogonias são ge-
nealogías, as cosmologias são conhecimento a respeito de elementos
primordiais. luas naturais. O pensamento cosmológico, e111 dado
momento da história da Grécia antiga, remete à 1'I1Y5i5, a palavra
grega que busca sintetizar o que é eterno, aquilo de onde tudo
surge, nasce, brota. Tratar-se-ia de um elemento imperecível, gerador
de todos os outros elementos naturais, perecíveis.
r
_ 'MU'U' íD""mi'"N os pnl-s
••
••
Uma boa parte dos cosmólogos são tomados corno " pensa-
dores pré-socráticos " . Os pensadores pré-socráticos pertencem ao
Sucedendo Heráclito, mas em oposição a ele, Parmênides
de Eléia (515-440 a.C,) defende a idéia da imutabilidade, mas ••
"mundo grego", mas nem todos são anteriores a Sócrates. Alguns
sim, outros não. Estão presentes entre o século VII e a metade do
em um plano lógico, lingüístico e, enfim, ontológico. Se os jô-
••
-.'
nicos são cosmólogos, e para alguns historiadores são os precur-
século IV a.C. , e Sócrates é de 469-399 a.C. (uma boa parte das sores do pensamento científico (no sentido das ciências da na-
datas mencionadas aqui, antes de Cristo, são estimativas) . tureza), então, nessa linha de raciocínio, pode-se dizer que, em
Vários desses pensadores, em suas cosmologias, trabalham em
um sentido reducionista, isto é, tentam encontrar uma substância
contrapartida, com Parmênides, a escola eleata é a fundadora do
pensamento ontológico e, assim, a criadora de um pensamento •
única, ou força exclusiva, ou princípio básico capaz de ser apresen-
tado como o elemento efetivamente real e primordial do cosmos.
Thales de Mileto (580 a.C.) diz que tudo é composto de
mais filosófico, uma vez que a ontologia - teoria do ser - per-
manece até os nossos dias como um campo da filosofia. Parm ê-
nides afirma o que se põe como uma auto-evidência: "O que é, é,
••
água;Anaximandro (610-546 a.C.) escolhe o que chama de o ilimi-
tado e o inespecífico (em grego, apeírón); Anaxímenes volta a falar
o que não é, não é". Sua teoria é a de que não se pode afirmar

.'•
.••:
que "o que é, não é", pois o não-ser, por definição, "não é ".
em um elemento específico, o ar. Esses três filósofos são conhecidos Dessa forma, Parmênides conclui que só o "ser" existe, e que o
na história da filosofia como pertencentes à Escola de Mileto, uma "ser" só poderia ter as seguintes características: sempre existente,
escola que prima pelo naturalismo, ou seja, pela busca de explica- indestrutível, eterno e indivisíveL
ções baseadas em nexos causais entre os fenômenos naturais, e pelo Zenão de Elêia (490-? a.C.) elabora alguns paradoxos para
monismo, isto é, a idéia de que dentre as mudanças naturais há de
se encontrar, nessas transforma ções , algo de elementar.
mostrar que o que Parrn ênides defende pode parecer estranho,
mas é verdadeiro. Zenão se baseia em uma idéia fácil de entender, ••
Diferentemente da Escola de Mileto, os discípulos de Pitá-
goras de Sarnas (572-500 a.C.) não procuram por um elemento
natural, físico, mas evocam a idéia de que a essência de tudo é nu-
mas até hoje curiosa, que visa mostrar a impossibilidade do movi-
mento e, portanto, a impossibilidade de que algo que "é" possa
"vir-a-ser", pois se é admissível que algo que "é" possa "vir-a-ser" ,
••
mérica - a realidade é descrita por fórmulas matemáticas, ou rela-
ções entre números,
isto significa que antes tal coisa "não era", gerando entào urna con-
tradição. ••
Heráclito de Éfeso, por sua vez, evoca o fogo como elemento Zenào, entre outros paradoxos, fala de que forma uma flecha
e
natural primordial. Mas não em unI sentido literal do termo. O
fogo, em Heráclito, deve ser visto COlTIO símbolo de algo em n1U-
dança contínua, daquilo que se absorve e se transforma. Heráclito
nunca atinge o alvo: se ela percorre um arco AB, e tal arco, logica-
mente, pode sempre ser dividido infinitamente, sempre faltará um
determinado segmento ab. pertencente a AB, para que a flecha
••
é o autor da célebre frase: "Não é possível banhar-se no mesmo
rio duas vezes" . Todavia, não se deve deduzir des sa afirmação que
possa chegar ao alvo. O que Zenão cria, enfim, é a idéia de que o
movimento é algo do mundo sensível, mas que, diante do pensa- ••
H eráclito defenda uma teoria da mudan ça contínua desregrada.
Ao contrário. ele defende que há uma lógica - o [Cl,gOS - governando
mente lógico-lingüístico, não se sustenta. Assin1, o Inundo sensível ,
onde a flecha atinge o alvo (afinal, se a lançamos, a vemos atingir
ü alvo), não se coadunaria (,0111 ,0 rnundo inreligível, onde, se nos
••
••
tal mudança contínua, ou seja, uma cadeia de razões.
ativerrnos à lógica, ela nunca poderia ter reahnente atingido o alvo
.ié!i*'II"tUf*.'bi''''U.''il§l'l'• • "I

(no mundo atual sabe-se, pela matemática superior, corri a noção próximo a Heráclito, Demócrito defende a idéia de a inércia ser
de infinitésimo e de limite, que o paradoxo não é do tipo que afeta a~a~ente, pois o que subjaz é o movimento, em um campo não-
o cálculo lógico-matemático) . lógico, mas material, ainda que racional, organizado, seguindo leis
A tese de Parmênides e os paradoxos de Zenão produzem determinadas.
um forte impacto no mundo grego. Entre outras teorias que Resumindo ao máximo, os pensadores jônicos se interessam
aparecem para tentar se livrar de tais paradoxos, três delas são re- em fa~er filosofia como cosmologia (teoria do cosn10S, da origem
presentativas do período dito "pré-socrático": a de Empédocles do universo). Ou seja, a filosofia aparece como um discurso que
(? -440 a.C.), a de Anaxágoras (500-428 a.C.) e a de Leucipo deve e~contrar um elemento primeiro, substancial, para ser o ponto
(460- ? a.C.) e Demócrito (460-370 a.C.). Tais pensadores dife- ess~~Clal do mun~o. Falam em água, terra, fogo, rlOUS (espírito),
rem dos anteriores especialmente pelo não-cultivo do monismo. pJzYSlS (que grosseiramenre pode ser traduzida por " princípio na-

Eles optam em favor de algum tipo de pluralismo. Deixam de tural") e outras coisas. Os pensadores eleatas deslocam a filosofia
lado a idéia de buscar como o mais real e profundo um elemento em direção à lógica, e em direção à ontologia e à linguagem - falam
único. exclusivo. sobre o ser. Parmênides, ao dizer que "o que é, é, e o que não é,
Para explicar o movimento e a mudança, que Zenão nega, não é", está não só enunciando uma regra lógica e lingüística, mas
Empédocles de Agrigento diz que dever-se-ia olhar para as forças dando uma deterllÚnação à filosofia, a saber: a frase estaria deter-
antagônicas da "disputa" e do "amor". A segunda tem a função de minando o "ser" e, por conseguinte, o " existen te" . A filosofia , nas
promover a unidade, enquanto a primeira é a que convoca a dis- mãos de Parmênides, se transforma em ontologia (teoria d~ ser).
persão e a destruição.
Anaxágoras de Clazômena, por sua vez, menciona a existência
de "sementes", como algo que hoje se poderia chamar de ele-
mentos químicos. subjacentes ao mundo fisico visível, e os liga a
uma força, de características mentais, organizadora do Inundo, o
"nous" - uma força racional, uma alma, mente, espírito que, para
além das formas visíveis, coloca o nlundo em movimento, funcio-
nando internamente nos seres orgânicos e externamente nos seres
inorgânicos.
Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera preterem falar
em algo material, porém invisível, no campo do Inundo condi-
zente com a capacidade do olhar dos homens. O Inundo é com-
posto de "átomos". Átorno vem do grego atomon, que significa
indivisível. Os átomos de Leucipo e Demócrito são partículas pe-
quenas, não-criadas, indestrutíveis, eternas, e que se 1110Venl con-
tinuarnente em unI plano não-perceptível pelos humanos, segundo
leis e caminhos imutáveis. Ao contrário de Parrnênides, e mais


• i•
Sócrates e os sofistas' ••
e
••
••
••
O s chamados "filósofos pré-socráticos" discutem questões ••
de ordem cosmológica (teoria do cosmos, do mundo) e ontológica
(teoria do ser). Sócrates e os sofistas ampliam a conversação da fi- ••
••
losofia para o campo da ética, da moral e da política, uma vez que
propõem questões novas - perguntas a respeito do homem.
Os "pré-socráticos" cosmólogos falam sobre a physis (que,
como foi. dito, grosseiramente pode-se traduzir por "natureza"), o
princípio criador responsável pela geração de todas as coisas. Os ••
pré-socráticos que fundam a ontologia discursam sobre o "ser", na
medida em que deslocam a discussão filosófica para o campo da
linguagem e da lógica. Os sofistas, diferentemente, discorrem sobre
••
tais assuntos mas, em geral, preferem falar aos gregos sobre a "arte
do bem viver", ou do "saber viver", o que inclui a arte de argu- ••
mentar, ou de saber argumentar - a retórica.
Quanto à arte de saber viver, Trasímaco, por exemplo, a res- ••
peito do GlnlpO social, insiste que as disputas morais não são rele-
vantes, exceto quando podem ser vistas COIUO lutas pelo poder.
Quanto à retórica, Górgías, por exemplo, escreve que; 1) "nada há";
••
2) "se houvesse algo, ninguém poderia sabê-lo"; e 3) "se alguém

• •
soubesse, não poderia comunicá-lo". Esse tipo de doutrina inco- ou sozinho, interrogando as pessoas. Sócrates filosofa por meio de
moda Sócrates e Platão. Eles a tornam corno frases que desviam os perguntas abrangentes, do tipo "O que é a coragem?", "O que é
indivíduos de U111 caminho produtivo. Para eles, não são frases em a amizade?", "O que é o amor?" etc., e muitos dizem que seu rn ê-
favor do objeto da filosofia, COIl10 este se instaura na investigação todo é a "rnai êutica", um modo de, ao questionar os outros, tirar
dos pré-socráticos. Por influência de Platão, portanto, a história da deles a resposta correta - uma forma de "parir" as idéias. Sendo a
filosofia consagra o termo "sofism a" e o verbo " sofism ar" como pa- mãe de Sócrates parteira, a "maiêutica" aparece em vários manuais
lavras relacionadas com o trabalho da argumentação vazia. de filosofia definida em analogia ao trabalho de parto; ou seja, Só-
Todavia, é engano tomar os sofistas como simplesmente crates é aquele que faz vir à luz a verdade dos conceitos. Por conta
"professores ambulantes" e "falsos filósofos". Protágoras (490-4~~ a.C.) disso, outros manuais de história da filosofia dizem que Sócrates
cria uma situação que até hoje representa um problema seno em é o autêntico praticante da "análise conceitual". Todavia, é sempre
filosofia ao dizer que "o homem é a medida de todas as coisas" . oportuno enfatizar que Sócrates não arranca nada de muito con-
Esta frase simples incomoda muitos filósofos e talvez hoje, mais creto de ninguém, muito menos traz à luz uma definição qual-
do que em todos os vinte e cinco séculos passados, ela seja a pedra quer para explicitar um conceito. Ao contrário, nos diálogos de
no sapato de todos os que se imaginam alinhados à Filosofia, com Platão, não raro ele mais deixa as pessoas em dúvida sobre possuir
a inicial em maiúscula - trata-se do problema que alguns filósofos ou não UIll conhecimento em matéria de moral (certamente pró-
denominam de "subjetivismo" e "relativismo". Isto é, se as coisas ximo ao estado em que ele próprio se encontrava) do que qualquer
são mensuradas mediante uma régua que é o homem, então elas outra coisa .
não têm um padrão de medida de si mesmas, mas a medida do Não se quer dizer com isso que Sócrates não mostre urna
homem - isto implicaria um relativismo que iria contra o próprio moral, sua própria determinação de acreditar no que toma como
espírito da Filosofia, disseram e dizem vários bons pensadores. certo para si mesmo. Não, suas crenças o guiam e Sócrates é sin-
Sócrates e Platão, cada um ao seu modo, se indispõem contra cero para com elas. Mas, segundo a própria doutrina socrática, ter
esse tipo de relativismo, Sócrates, em especial, cria um modo par- crenças sólidas não necessariamente leva alguém a poder dizer que
ticular de investigação que, por um lado, se é o da conversação, possui um saber sobre a moral, isto é, conceitos e, então, defini-
como o dos sofistas, por outro, não raro, é esclarecedoramente ções positivas e generalizáveis - um conhecimento verdadeiro em
decepcionante, uma vez que não traz ao final uma resposta defini- ética (a teoria da moral).
tiva. Sócrates, por si mesmo, não discute se tal forma de agir con- O método de Sócrates, o elenkhos, é utilizado da seguinte
siste em um método de filosofia. Posteriormente, historiadores da forma . Sócrates pergunta, por exemplo, o que é urna determinada
filosofia chamariam tal método de elenkhos - um modo de argu- qualidade moral- a virtude ou a justiça etc. Incita seu interlocutor
mentar que implica a possibilidade da refutação, levando o inqui- a dar uma definição da qualidade moral em questão. Em geral,
rido a tomar ciência de que ele não sabia o que pensava saber. O era-lhe fornecida uma série de exemplos. Ou seja, o interlocutor
próprio Sócrates define-se C01110 aquele que nada sabe. . mais dizia do corajoso ou do justo do que da coragem ou da justiça.
Sócrates não tem nenhum livro ou aforismos. A seu respeito Sócrates, então, rejeita os exemplos, explicando que não são defi-
sabe-se o que é dito por seus discípulos e, em especial, por Platão. nições, DIas casos particulares. Quando o interlocutor consegue
Sua vida é a da peregrinação por Atenas, junto com seus discípulos chegar a algo que se aproxima de uma definição, Sócrates aplica-lhe
------~------------------------- ~ ....•
.'·'IU·'.' 'n.',' CIl'iQ·".'.i'Uiél_/ ••
um teste mostrando que tal definição contrasta com uma série de : de um dos principais motivos para que Sócrates se mantenha obe- ••
outros enunciados que o próprio interlocutor referiu e que lhe
são caros. Ou se fica com os primeiros ou se fica com a segunda.
Em qual, de fato , o interlocutor acredita? Qual pode se sustentar?
diente. Assim, cumpre sua pena, a de tomar veneno e esperar a
morte, que ocorre em meio aos seus discípulos; importante lembrar ••
•e
que Sócrates permanece conversando e ensinando até os seus úl-
Toma-se Aristóteles para dizer que o elenkhos se divide em tirnos momentos.
ironia e maiêutica. A refutação seria a ironia, e depois, no final da
argumentação, o interlocutor seria levado a concluir pela verdade.
Os intérpretes mais atuais de Sócrates preferem deixar de lado a ••
••
idéia de ironia e, principalmente, de maiêutica, tomando o elenkhos
como método de refutação e Sócrates como quem leva a sério a
idéia de que o mais sábio é aquele que "sabe que nada sabe" .
O que Sócrates pretende é mostrar que os atenienses
caem em contradições. Ele também não tem uma resposta para ••
o que pergunta, e então ambos, Sócrates e o interlocutor, devem
admitir que o que sabem sobre o perguntado é tão-somente
urna coisa: nada sabem. Isso leva a uma situação que, em grego,
••
'•
recebe o nome de aporia, ou seja, uma situação difícil, um ponto
que parece não poder ser ultrapassado, um problema sem solução
e
- o que corresponde, no plano do indivíduo, a um estado de
perplexidade.
A maneira de Sócrates filosofar não agrada aos poderosos.
••
Os que têm poder político, mesmo em uma democracia, muito
raramente apreciam uma argumentação que os leva , no final, a ad- ••
mitir que estão caindo em contradições. Assim, aproveitando-se
das diferenças de valores entre as cidades de Esparta e Atenas, al-
guns atenienses tramam contra Sócrates, acusando-o de defender
••
valores de Esparta, falsas doutrinas, ofensa aos deuses, corrupção da
juventude e coisas do gênero. Sócrates vai a julgamento e sua con- ••
denação se dá por votação, 280 a 220. A sentença não soa bem à
opinião pública, uma vez que Sócrates é um cidadão eminente, e ••
••
então as autoridades atenienses relaxam a sua guarda de 1110do que
ele possa fugir da prisão. Mas Sócrates insiste com seus discípulos
que sua fuga não contesta os juízes, ITlaS sim as leis da cidade - a
ligação umbilical que os gregos pos suenl COIU a polis está na base
••
e
•e
•e
e
•• Platão e a

e l/alegoria da cevertie"

-••
~

••
~

~
• e (427-347 a.c.) é o mais importante discípulo de Sócrates.
Mais do que isso: Platão, de certo modo, pode ser considerado

•• aquele que inaugura um tipo de conversação que chamamos de


Filosofia, com iniciaI mai úscula. Na sua prática de filósofo não re-
produz uma relação com os seus discípulos à maneira de Sócrates.

•• Diferentemente, funda uma instituição, a Academia. Ali os estu-


dantes empreendem, entre outras tarefas, os estudos dos textos pla-

•• tônicos - os diálogos nos quais Sócrates, em geral, é o personagem


principal.
Sócrates faz filosofia como uma investigação - em geraI no

•• campo ético - , Platão trabalha de forma mais sistemática. Ainda


que tenha escrito em forma de diálogo, sua filosofia compõe o que

•• pode ser reescrito em forma de tratados. Além disso, Platão não se


fixa apenas no campo moral, rnas volta ao debate com os sofistas
e pré-socráticos a respeito de ontologia, teoria do conhecimento,

•• cosmologia e metafisica. O termo "platonismo" é sinônimo para


"metafisica ocidental" . A metafísica de Platão consiste na tentativa

•• de conciliar os problemas dos gregos, na disputa entre a Escola Jô-


nica, de Heráclito de Éfeso, e a Escola Eleática, de Parrnênides.



I·'·=-===~-
]I.
lN 'fRCJI11: \ :Ao I I I.lJ SO[>lA
••
••
Platão fornece sua solução para a disputa entre os que de-
fendem o movimento como o mais real e os que acreditam que a ••
imutabilidade é o essencialmente real. Sua proposta pode ser resu-
mida em dois modos, fornecidos por ele mesmo, e que expõem
um esquema de toda a sua metafísica: a "alegoria da caverna" e a
j
I --
P iet.io e a
[in h a divlsorie "
••
"teoria da linha divisória".
A "alegoria da caverna" está estreitamente ligada à "teoria da
Lr //..
C.l
••
linha divisória". A alegoria ganha referência teórica com o enten-
dimento da "teoria da linha divisória".
A "alegoria da caverna" aparece no importante livro de Platão,
••
A República. A idéia básica é imaginar prisioneiros que estão amar-
rados, sem poder mexer o corpo, nem mesmo a cabeça, olhando ••
para a parede no fundo da caverna. Eles nunca saíram daquela
condição. Atrás deles há, na seqüência, um muro, atrás do muro
pessoas passando e carregando objetos sobre a cabeça, de modo
A ••
que o muro encobre tais pessoas, deixando à vista apenas os ob-
jetos que elas carregam. Mais atrás ainda há um fogo. O fogo ilu-
RepÚblica contém a "alegoria da caverna", e também nela
está a teoria em que Platão, de modo não-alegórico, expôs sua
filosofia C01110 um sistema completo.
••
mina as pessoas que levam os objetos, Inas a sombra produzida na
parede no fundo da caverna, para onde os prisioneiros olham, é
O sistema pode ser visualizado por meio do quadro a seguir,
que abarca todos os campos tradicionalmente atribuídos à filosofia: ••
••
apenas a dos objetos que aquelas carregam. Os prisioneiros passam
a epistemologia (teoria do conhecimento) , a ontologia (teoria do
ali toda uma vida, vivendo através de sombras e ecos de vozes. Sem
ser), a ética (teoria da 1110ral) e a estética (teoria do belo). O con-
conhecer outro modo de existência, tomam as sombras como o
junto é a filosofia ou a mctaflsica de Platão - sua concepção filosó-
que é real e o eco como as vozes de tais sombras. Um dos prisio-
neiros consegue escapar. No início, é cegado pela claridade do sol.
fica geral ou, em outras palavras, sua "concepção do mundo" (às
vezes torna-se a palavra metafísica nesse sentido, ou seja, uma con- ••
••
Depois, com o tempo, pode olhar para o catnpo e elLxergar as
cepção do mundo que vai além da concepção que é apenas fisica;
, sombras da árvores. Mais tarde, distingue na claridade as próprias
a metafisica seria a concepção global, mais abrangente e mais fun-
árvores e suas sombras; enfim, consegue olhar direto para o sol.

••
damental, poi s explicaria o rnundo, o descreveria, sem reduzir tudo
Platão sugere que se ele voltasse para a caverna e contasse o que ao físico , ficando em plano metafísico).
era de fato o Inundo aos que estavam lá e que passaram uma vida
tornando as sombras por realidade, não seria poupado de castigo por
dizer mentiras. Pode-se dizer que Platão, ao terminar a alegoria desse
modo, está fazendo uma alusão ;} rnorte de Sócrates - aquele que
••
teria tentado trazer os atenienses luz, de rnodo que eles pudessem
à

distinguir o que são as coisas e o que são as sombras das coisas. ••




•• IM ilIriQ''''PliUi'· 'Q"M.'iIi6'""Q"hDh f.ffi"N _I
••
•e QUADRO
Há urna ética nisso tudo? Sim! A forma das formas, na qual
todas as formas estão postas e em relação à qual todas são depen-

•• dentes , não é da ordem do puro entendimento, mas da pura razão,


definindo-se no caInpo ético - o Bem - e, ao mesnlO telnpo, no

••
caIUpo epistemológico. Assim, no limite, ética e epistemologia se
entrelaçam na ponta, no topo, no mundo das formas. Para Platão,
um homem que conhece, verdadeiramente, encontrou o Bem, está

~
imerso nele, portanto não pode haver conhecimento sem virtude.

•ê
i
É natural que o sábio seja virtuoso na medida em que ao encontrar
a Verdade (e o Belo) só está fazendo uma única coisa: encontrando
o Bem.

-- o Quadro 1 pode ser lido da seguinte maneira. As colunas


2 e 3 (com tonalidades cinza) estão em relação m útua, ou seja,
para cada elemento do âmbito do ser (campo da ontologia) há o
Outro elemento importante no quadro refere-se ao campo
do mundo visível, chamado de real, que no sistema de Platão é o
mundo existente para os sentidos, mas não ganha status de "real".

-:
seu correspondente no âmbito do saber, que busca apreender o ser É o call1po do Inundo inteligível que Platão entende ser o mundo
4t (a epistemologia). E em ambas as colunas há uma hierarquia. Ca- real , e que, de fato , é o mundo ideal; ele o chama de mundo ver-
I minha-se do elemento do campo do ser, que são as imagens (eikOtles) , dadeiramente real. Eis aí por que pode-se dizer que Platão é idea-
para os objetos particulares (eíkasia); as imagens fornecem, no plano lista (para outros, que aceitam a inversão, ele é realista). Assim, há
do saber, a conjectura (hypochemenoi), e os objetos particulares, a de se perceber que, no plano ontológico, no plano do ser, o que

•• crença (díanoia). Horizontalmente, na linha 2, há o mundo visível,


onde a luz vem do sol, e tal saber, o da conjectura e da crença, a
ocorre é que o mundo visível, sensível, é apenas uma cópia do
mundo inteligível (a idéia de cópia e, portanto, de verdade como
correspondência implicaria, hoje, em se falar em realismo, usando

•• respeito das imagens e de objetos particulares, é o que é emitido


como opinião. Dá-se um salto qualitativo quando o saber já é co-
nhecimento, através do entendimento (eíde) de conceitos científicos
a terminologia dos filósofos estadunidenses).
Para cada estado de ser, há um estado de saber, ou de cons-

•• (ta horomcva), e, finalmente, um salt o elevadíssimo quando a razão


pura inoesis í pode se defrontar COllI as formas puras (pislÍ5). Isto é
ciência. Das sombras, que são iluminadas pelo SoL pode-se ir à
verdadeira luz que não produz sombra, o Bem. o que significa sair
do carnpo físico e conseguir chegar ao campo metafísico. O catnpo

•• o que est á. respectivamente, nos campos epistemol ógico e ontoló-


gico, l1J.S colunas verticais em cinza-claro. Em tal siruação.já se está
fora do rnundo visível ou sensível , iluminado pelo SoL e pode-se
metafisico, estando mais acima, é o que enlaça e assegura tod.os os
calnpos apenas físicos. de modo que no âm bito da consciência. do

•• entrar no mundo puramente inteligível , iluminado pela forma de


rodas as formas, que é o Bem.
saber, há fundamentos epistemológicos no plano mais alto, corres-
pondente ao plano rnais alto do canlpo ontológico.

•• O Bem I1JO é determin ável por uma fórmula , uma definição


simples, mas pode-se dizer que ele é o superlativo de todo conlre-
cimento conceitual e do conhecírnento lnetaconceitual.
Aqui, todo cuidado é pouco. Nem seInpre o pensamento
idealista é compreendido. Então, definitivamente, há de se entender
que teorias e definições não são generalizações que vieram de casos


------------------~-------------

particulares. Não há abstração do particular para o geral. Inversa-
mente, a metafísica de Platão diz que as coisas do Inundo sensível
são cópias, e que são tornadas como o existente, e que existem
. . . :;'0 a ••
.'•e
..-..1.."",
mesmo, mas, contudo, são derivadas de coisas que também existem e P/
- ci Lci
J-
I Li c1
que t êm um elemento a mais do que a simples existência - t êm
realidade.
Quem olha para o quadro da linha divisória tem de perceber
.il m» e /)."olitice
J I .I L.. Cl.

que as sombras são imagens de coisas particulares e que as teorias


e conceitos fazem o papel de sombras das formas puras. As formas
são as verdades eternas - a fonte do real. Então, para Platão, o Bem
••
é a fonte do ser, do conhecimento e da verdade e, ao rnesmo tempo,
o que é mais belo. Na metafísica de Platão, Bem, Belo e Saber se ••
fundem no Bem, e deslizam nele, na Forma das formas.

A ••
teoria da verdade de Platão está associada à teoria da alma,
Indestrutível como forma, a alma teria estado no mundo das formas ••
mas decaído quando do nascimento do homem - o homem em-
pírico. Platão díz que é possível, usando perguntas inteligentes, fazer
a alma lembrar da verdade, levando-a a rememorar o momento
••
em que esteve junto das formas puras. Quando do nascimento, há
uma queda, díz Platão, que considera a incorporação da alma um ••
verdadeiro trauma. Assim, para que o homem possa obter con h e-
cimento, o saber verdadeiro, nada deve ser feito além de se desa-
nuviar o momento do trauma, dando oportunidade para que a
••
alma do homem empírico reconheça o que viveu, lembre-se que
viveu na verdade e que pode então expressá-la neste Inundo visível,
••
sensível.
Na medida em que Platão faz essa exposição do que é a ••
alma, constrói urna tipologia humana e, assim , urna discriminaç ão
de setores sociais , o que o leva a poder montar urna utopia política
- a que está no livro A República.
••
A alma, ou a psique, po~sui três divisões: urna parte racio nal,
UlTIa parte espiritual e Ul113 parte referente aos apetites. Todos os
••

e
••
•e
••
e homens possuem esta mesma estrutura, tuas nem todos a têm em
igual possibilidade de desenvolvimento. Se um indivíduo, mediante
urna vida de virtudes compartilhadas, puder desenvolver sua parte
racional e ter a sabedoria, ele será un1 governante - um rei-filósofo. Aristoteles e Plé1tã()

•• Se ele desenvolver mais a parte espiritual, por conta de a virtude
da coragem ter sido o que melhor compartilhou, ele vai ser um
soldado. Se, no entanto, mais que a parte racional e espiritual, esse

••I
indivíduo desenvolver os apetites, mas souber lidar com eles pela

•e
virtude compartilhada da moderação, será um trabalhador. No
campo social, isso significa uma estratégia para se montar uma so-
ciedade perfeita, harmônica, forte, o que no plano individual sig-

• I nifica ter indivíduos que possuem saúde.

e
-:
e
e busca solucionar o problema dos pré-socráticos, em especial
o da disputa entre Heráclito, que acredita no movimento como
sendo o que é o real, e Parmênides, que, desenvolvendo o "teoria
do ser" dentro de um argumento lógico, nega estatuto ontológico


ao movimento. Com a teoria dos dois mundos, o mundo inteligível
e o mundo sensível, Platão acredita que o problema está solucionado.

•• Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) aprende a teoria pla-


tônica na Academia. Torna-se o principal discípulo de Platão.

•• Quando funda sua própria escola, o Liceu, desenvolve o ensino da


filosofia de Platão, da qual inicia uma revisão crítica. Paulatina-
mente, volta ao problema da disputa entre Heráclito e Parrn ênides,

•• acreditando então que a solução de Platão não é suficiente.


O impasse que se cria entre a idéia defendida por Heráclito

•• - que trata-se de ilusão acreditar que as coisas são estáveis - e aquela


sustentada por Parrn ênides - que a mutabilidade é urna ilusão -
parece a Aristóteles não poder ser solucionada pela linguagem

•• platônica de que o mundo mutável (apreendido pelos sentidos) é


uma imitação, urna cópia do mundo imutável (apreendido pela razão).

•••
Platão fala em mundo das formas e mundo material corno ambientes
distintos. Aristóteles mantém essa linguagem, mas localiza a forma e

••
••
a rnatéria não em dois mundos de fato, e sim corno duas caracte-
rísticas da mesma realidade, distintas apenas no pensamento humano.
corno uma característica de toda a metafisica ocidental, Aristóteles
coloca em pauta o pluralismo.
••
Para Aristóteles, não cabe a idéia de que as formas são causas
das coisas materiais se, como Platão, alguém admite que a causa fica
O problema do movimento, eI11 Aristóteles, é equacionado
de outro modo - nos seus termos, o que chama de potencialidade ••
em um mundo e a mat éria e111 outro. Para Aristóteles, as formas estão
no mundo tanto quanto as coisas. As formas estão incorporadas nas
e realidade. Cada coisa é em potencial outra, como a semente é
em potencial uma árvore. Cada coisa muda na sua parte contin- ••
••
coisas, no mesmo mundo, no mundo real, existente, visível. Aristó- gente, mas não na sua essência, de modo que cada coisa possui
'I
I
teles continua afirmando, como Platão, que a forma é essencial, mas urna teleologia interna, que a faz entrar em movimento passando
,! como natureza da coisa, relacionando-se com as coisas não pela do que é potência para o que é ato real.
I'!
LoI ·
I

i,
" idéia de cópia-e-realidade, e Si11l pela idéia de função. A matéria
das coisas, em Aristóteles, é a substância, e cada substância tem uma
A interpretação aristotélica do movimento é, também, uma
teoria causal a respeito da substância. Assim, ele categoriza os tipos ••
••
essência que é mais ou menos sua forma. Todavia, diferentemente de causas: formais, materiais, eficientes e finais. Substância, para Aris-
de Platão, em Aristóteles essência e substância não se separam. Se tóteles, tem forma e matéria, sendo que a forma é a essência, e esta,
fossem para ser separadas, e poderiam ser, segundo Aristóteles, isto se por sua vez, tem a ver com a causa formal. Por exemplo, se alguém
daria em razão de que, no pensamento (e somente no pensamento),
trabalha-se em sentido de fazer abstrações, análises.
pensa em construir um boneco a partir de um pedaço de madeira,
tem a forma em sua mente, e tal forma será a causa formal que ••
Aristóteles, ao provocar essa virada na filosofia de Platão, re-
define o papel do filósofo, que passa a ser aquele que trabalha C0111
classificações, identificando nas coisas a essência, ou seja, as formas,
criará, quando houver a atuação com o canivete na madeira, o bo-
neco. Agora, a causa material tem a ver com o elemento externo, a ••
e os acidentes - toda essa observação deve ser dirigida ao mundo
sensível - no Inundo, que é então um só e único mundo.
própria madeira; sem a madeira corno causa não se faria o boneco.
Todavia, se não houver uma certa energia sobre o canivete, nada
acontecerá. Quando se coloca o canivete para funcionar, então a
••
O que Aristóteles argumenta é que Platão não soluciona o
problema da mutabilidade versus imutabilidade. Um objeto parti-
cular, segundo Aristóteles, tem forma e matéria. Isso é urna subs-
madeira vai se transformando em boneco, e isso é a causa eficiente
- eficientemente causa-se o boneco. Se o boneco ficar bom, que era •e
tância, diz ele. Cada substância contém Ulna essência que, grosso
modo. seria a forma. O filósofo é aquele que pode, por pensamento,
de fato o propósito do seu construtor, isto é, se não desagradar aos
olhos, se espelhar proporções agradáveis, deve-se saber que isto só ••
••
realizar essa distinção e ir catalogando as coisas do Inundo, apon- ocorreu por conta de U111 objetivo que se tinha antes, uma finalidade,
tando o que nelas é essencial e o que é acidental. O velho e clás- ou, em outras palavras, há aí uma causa final. Com os quatro tipo s
sico exemplo, que inclusive serve durante muito tempo corno de causas, eis que, então, causa- se o efeito: o boneco.
doutrina, é o do homem: o ser humano, diz Aristóteles. deve ser
racional, de modo que isto é parte da essência humana, enquanto
Corno em Platão. há urna teleologia nessa teoria aristotélica:
tudo se movimenta bu scando a perfeiç âo. Todavia, Se PbtJO tem as ••
ter ou não cabelo é contingencial.
Assim , contra o dualismo (ontológico) platônico, que fica
formas perfeitas para serem copiadas pelos elementos mundanos,
Aristóteles, em cada objeto, coloca um impulso que percorre JS
quatro causas, sendo que a últirÍta busca a perfeição.
••

não só COl110 urna característica da metafísica platônica 111as quase
'. !

iL\ ética e él cidade errl



Aristóteles e Pi.n.io

A República fala de metafísica, política, ética etc. A ética é a


discussão sobre a conduta coletiva e individual dos homens. Nesse
contexto, ela tangencia a religião. Há possibilidade de se pensar
que a noção de Deus se aproxima da noção de Bel11, em Platão.
Aristóteles, por sua vez, também lida com tal noção, definindo-a a
partir da teoria das causas: Deus seria o "motor primeiro", o motor
que causa tudo n1as que é incausado,
Mas que não se contunda tal noção de Deus C0111 a noção
moderna de Deus, a noção judaico-cristã. Deus não é aquele que
cria tudo a partir de si; é, Sil11, em Aristóteles, Ul11 tipo de causa final
que visa a U111 resultado. Trata-se do único elemento que não pode
ser posto no quadro dos elementos que estão em potência e ato
real. Não tem potencialidade porque é ato contínuo, tudo Nele se
realiza. de modo que isso é Sua perfeição e, portanto, Sua imuta-
bilidade. É atividade pura. A atividade do pensamento puro, que é
o pensamento da perfeição. Deus não pode precisar de mediações
entre Si mesmo e as coi sas para conhecê-las, Ele é movimento
contínuo e conhecitnento contínuo e imediato de tudo.
----------------~~---------------r
••
. ."'''iumpMi'"hf!lpi'
••
No entanto. há urna característica de Deus, e111 Aristóteles, a concordar ou discordar de atitudes e regras, tornando decisões de e
que se perpetua e111 certa interpretação moderna do mundo e de
Deus, que é a idéia de releologia, que, aliás, está em toda a me-
caráter prático ou, se quiser, prático-moral, Nesse caso, da 111eSn13.
forma que Platão se preocupa com a vida política do h 0111 e 111, ••
tafisica de Aristóteles. Para Aristóteles, cada coisa tem em si 111eSn1a
um télos, U111 objetivo, e o 1110tor primeiro também possui um
corno alguém que está propenso a desenvolver-se como animal
social, e C0111 isso se preocupa em definir o Estado ideal, Aristóteles
caminha neste sentido, Ull1a vez que a felicidade completa ieudai-
••
••
objetivo: a perfeição, No mundo humano o mesmo ocorreria,
haveria um certo acordo verbal de modo que o comportamento
moniai dependeria não só da realização da virtude intelectual, mas
humano tivesse como finalidade a felicidade, o bem-estar (eudai- também da virtude 1110ral, ou seja, de se conseguir ser feliz.
monia'[.
Coerente com seu esquema de buscar causas e efeitos nos
O Estado ideal de Platão não é visto por Aristóteles como
o melhor lugar para ser feliz. O Estado ideal de Platão é o Estado
em forma de república, segundo urna divisão que estaria mais para
••
objetos, nas coisas, Aristóteles faz o mesmo con1 o ser humano, e
conclui que é a felicidade - o objetivo do comportamento humano
- ql~e deve estar conduzindo a pergunta sobre qual a função do
a divisão em castas do que para a divisão em classes, enquanto o
Estado, na formulação de Aristóteles. é o Estado democrático ••
próprio ser humano. Aristóteles define que a função do ser humano
é a de colocar sua alma em concordância com a virtude (aretê) e
com a razão. Todavia, a definição de Aristóteles de virtude não es-
abrigando uma divisão específica entre os homens.
Platão delineia uma república que espelh á as diferenças entre
os homens como diferenças de características da alma humana.
'
••
Os homens, para Platão, possuem três tipos de alma (ou três partes e
••
capa de seu raciocínio que preza a funcionalidade, pois a palavra
grega areté carrega esta significação, ou seja, a de otirnizaçâo da da alma): 1) a racional, 2) a espiritual e 3) a guiada pelos apetites.
Conforme cada uma delas exerce preponderância no processo
função, da funcionalidade. Areté é a qualidade de qualquer objeto
ou comportamento ou esforço capaz de ser tomado como funcio-
nalmente ótimo. As virtudes humanas são duas: a intelectual e a
educacional no homem, este é encaminhado, pelo governo repu-
blicano, para sua respectiva classe. Se prevalece a alma racional
durante o processo educacional, então esse indivíduo compartilha,
••

moral. A virtude intelectual está associada à aquisição da sabe-
entre seus pares, da virtude da sabedoria e deve ser encaminhado,
doria dentro do esquelna de desinteresse contemplativo e cientí-
fico do mundo em geral - o sábio é virtuoso na medida de sua
no call1po da formação estatal (no calnpo da vida política), para
o grupo dos governantes . Se prepondera o espírito, de modo que
e
vida contemplativa, mon ástica , e é feliz assim. A felicidade, para
Aristóteles, está ligada, primeiramente, à virtude intelectual. Mas
a educação revela a virtude da coragem, esse indivíduo deve ser e
encaminhado para compartilhar tal virtude com seus pares, fi- e
também dever-se-ia.já então no que diz respeito ;i virtude 11101'al,
agir com moderação, C0111 prudência. Assim fazendo, o sábio está
conduzindo su a vida filosoficamente.
cando, no âm bito da vida política, na categoria de soldado. Se
predominam os apetites, de modo que a educação revela a virtude ••
Aristóteles. ao dizer isto. está atlrrnando que os homens. para
se tornarem virtuosos. ficam obrigados a ser filósofo s: nus ele sabe,
é claro, que a atividade contemplativa, guiada pela razão. não é a
da moderação, esse indivíduo deve ser encaminhado para com-
partilhar tal virtude com seus pares, no âmbiro da vida política,
na categoria de trabalhador.
••
LJm complicado sistema de casamentos e de reuulamenros e
••
única atividade dos homens. Estes sào animais sociais, obrigados b
estatais, montado por Platão, garante ao seu Estado ideal o prosse-
pela vida social da cidade. ou seja. pela vida na P(1IíS - a vida política -. r-'--- _
, Cerno os /Jfl 'V (?;-.'J!.-1r!O o e Palrn."J .,:, I
, UFT .
. ."Ui @'" _'1'0"1'16'

guimento da divisão em segmentos estanques. Muitos historiadores tem a ver com a cópia, com a mera imitação (minlcsis), não aceita
insistem na idéia de que a República de Platão é uma condenação o rebaixamento da arte.Ao contrário, vendo-a corno uma descrição
à democracia que, uma vez vigente em Atenas, não foi capaz de não do que se passou tuas, não raro, do que poderia ter acontecido,
preservar a vida de seu melhor cidadão, Sócrates. coloca a arte em um plano não tão distante do plano da filosofia.
Sempre pensando eIn classificar e expor o saber, Aristóteles , Além disso, se Platão condena a arte por ela incitar paixões, Aris-
diferentemente de Platão, não constrói uma utopia. Na sua teoria tóteles a elogia justamente por isso. Para Aristóteles, o teatro, por
do Estado, analisa as formas de governo. É claro que tais formas de exemplo, pode incitar paixões e levar o públíco a uma situação
governo estão mais sujeitas à idéia geral platônica dos homens saudável de catarse (catharsis), ou seja, de ampliação da capacidade
como tendo pendores naturais. Se os sofistas, por exemplo, falam de absorção de problemas coletivos e individuais, como guerras,
que há coisas que são de ordem natural e outras que são de ordem tragédias etc . Platão não vê esse poder balsâmico da arte, nem
convencional, sendo que as leis humanas cairiam no segundo grupo, pode ver, ela é incompatível com sua metafísica.
Aristóteles, por sua vez, entende os seres humanos como natural-
mente sociais, e vê como inata a disposição para se organizarem
politicamente. Todavia, a organização política varia. Aristóteles,
sempre no seu estilo sistematizador e classificador, fala em três formas
de governo: a monarquia, a aristocracia e a democracia constitu-
cional. A elas acrescentou três formas de perversão: a monarquia
pervertida é a tirania, a aristocracia pervertida é a oligarquia, a de-
mocracia constitucional pervertida é a democracia.
A democracia aristotélica, corno ele a explicita, é uma forma
de governo dos cidadãos, mas de não muitos cidadãos, uma vez
que Aristóteles admite a escravidão. Aliás, a distribuição de funções
na democracia aristotélica não lhe traz vantagens'-
em relação à ri-
gida divisão da república platônica, quando ambos os modelos são
vistos através de lentes modernas, em geral buscando a democracia
pluralista C0111 igualdade de direitos, ascensão social etc.
Platão expulsa os poetas (e, de modo geral, "os artistas") de
sua república . Não encontra lugar para eles, uma vez que o artista ,
segundo a epistemologia platônica, apenas f:1Z a cópia do Inundo.
Ora, o Inundo existente, para Platão, não é o mundo real. O mun-
do real, para Platão, é o mundo ideal, de maneira que os artistas, ao
copiarem o mundo sensível, fazem a cópia da cópia, urna forma de-
teriorada de representação e. enfim, urna apologia da não-verdade.
Aristóteles, por sua vez, ainda que diga, COl110 Platão, que a arte
--------------------~--------~.
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Fé/ reze o e ••
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I:. comum dizer que os medievais redefinem não propriamente
a filosofia , mas sim o lugar desta na hierarquia das prioridades ••
intelectuais. A filosofia fica sob as ordens da teologia. Deus torna
o lugar da Razão como o foco do discurso dos hotnens de letras. •e
••
N o Ocidente, o cristianismo, então uma doutrina popular e
simples, vira uma religião dominante. Torna-se "a pátria de todos
na falta de pátrias" no período entre o fim do Itnpério Romano
e o auge do feudalismo, e então tem de responder às indagações
das camadas mais intelectualizadas que ficam recolhidas e111 1110S-
e
teiros ou em cidades litorâneas, quando do longo período de de- e
cadência da vida urbana na Europa. Após mil anos de cristianismo, e
alguns ternas. presentes desde o seu início, chegam a ganhar uma e
versão filosoticamenre sofisticada, tai s C01110 : "fé versus razão" e
"universais versus nomes". O primeiro terna é desenvolvido, entre ••
••
outros, por Santo Tomás de Aquino, o segundo tem urna história
mais tortuosa e, de certo modo, está presente na filo sotla contem-
porânea e em muitos escritos bem atuais,
A filosofia que lida COll1 a questão "universais versus IlO111es ' ~
se desenvolve corn o nominalismo: de William de Ockharn (l28U-
e
e

1349). Todavia. o tIo do novelo conduz para muito tempo antes.

.•! ..
.'.'• "~"!@§.,fi·'ii"*"'fI

o problema "universais versus nomes" surge quando os filó-


•• sofos, quase dois mil anos antes do incrível desenvolvimento da fi-
losofia da linguagem nos dias atuais, começam a se voltar para o
O nominalismo de William de Ockham defende que so-
mente o particular é real e~ assim, as palavras que denotam algo
para além do particular são meros nomes. Os nominalistas, então.

•• problema da "~ferê1tcia. Isto é, em Ul11a linguagem qualquer. as pa-


lavras possuem urna referência; ou seja, uma situação ou coisa ou
advertem que a linguagem, na qual há uma variedade incontáveÍ
de nomes, cria diferenças e sinlilaridades que são afeitas somente

•• conlportamento é algo para o qual elas (as palavras) apontam, de


modo que palavras e sentenças ganham significado. A razão disso
intriga os filósofos.
a ela própria, linguagem, ou ao pensamento do falante.
O franciscano William de Ockham, cria uma epistemologia
(teoria do conhecimento) especial, ernpirista, quase sensirivista.

•• Santo Agostinho trata do problema. Ele parte da idéia de que


Deus vê sua própria criação como desligada de qualquer passado
Para ele, o conhecimento que não é o saber revelado vem de uma
única fonte: a observação particular e sensória de eventos e objetos

•• ou futuro - um momento eterno. Sendo assim, a experiência dos hu-


manos é diferente do que seria a experiência de Deus. Dessa forma,
admitindo que a linguagem representa a realidade, então deve-se
particulares, de um modo direto. Ockham abole, portanto, a me-
tafisica como fonte de corihecirnenro É famoso pela expressão

••
consagrada, que leva seu nome, a "navalha de Ockharn", que nada
aceitar que a "palavra de Deus" não pode ser da mesma ordem ou mais é que a fórmula para a seguinte idéia: não há de se aceitar
espécie que a palavra dos mortais, pois a linguagem dos mortais está múltiplas entidades sem que seja necessário. Isto está incorporado

•• associada ao passado-presente-futuro. Agostinho toma a linguagem


humana como unla forma menos perfeita da linguagem de Deus.
à ciência moderna, de modo que muitos homens de ciência tra-
balham com tal formulação hoje, ou melhor, mais hoje do que

••
E aqui, levando a sério a influência das leituras dos textos de Platão nunca. Os homens de ciência, em geral, olham para os fenômenos
sobre Agostinho, pode-se dizer que sua postura é a de quem ad- e dizem que estes podem ser melhor explicados antes com poucos
111Íte que a linguagem tem a ver com a representação do mundo elementos do que com muitos; ou ainda, se há urna teoria com-

•• sensível, portanto, com o que é não-real, embora existente (o que


é real tem realidade e o que é existente tem existência, o que não é
plexa, com muitos elementos, e uma teoria simples, com poucos
elementos, é mais razoável dar mais chances para a teoria simples.

•• a mesma coisa). O que é não-real está mais abaixo na escala onto-


lógica. Essa definição de linguagem de Agostinho é um primeiro
passo para o entendimento do problema "universais versus nomes".
Ora, isso leva os nominalistas a colocar as fichas de aposta,
depois de tantos séculos, na bem assentada idéia de causalidade de
Aristóteles. Este fala em tipos de causalidade. Confiando no simples,

•• O problema, de maneira estrita. ganha sua formulação através de


Partiria (232-304). A idéia é a de procurar a referência e apurar o
C)ckharll reduz a "causa eficiente " de Aristóteles 1 única causa
necessária; e, afinal , é assim que a ciência passa a atuar. já bem mais

•• que esta tem a ver com a ontologia (a teoria do ser). tarde. -


Por exemplo, o debate se dá ern torno de situações do tipo: Essa simplicidade também se espraia de modo radical para sua
se alguém diz "este coelho é branco", qual o papel de "coelho" e teoria do real, sua articulação entre o mundo e a linguagem , ou

••
~

de "branco"? "Branco" nomeia tudo o que cai sob a rubrica de seja, sua ontologia e epistemologia. Os individuais, e somente os
objeto branco e "coelho" nomeia tudo o que se ajusta à rubrica individuais, são reais, e os universais são características próprias da

•• de um tipo especifico de roedor? " C o elh o " e "branco" possuern


existência real ou artificial?
linguagenl. O conceito não tem status que não o de ser 'lpC1l<1.S lin-
guagern. Pode-se falar dos universais e usá-los pragmaticamenr-:


r
••
,-)f!arte
..._ •
~~:~~~~~11 -
• ~
assim, nada impede que se fale sobre "roedores que apreciam
ceriouras'Lrnas no mundo empírico não existem "roedores come- ••
__ ==_= :- _'"" ~" -4- " _ " ~ ~ _ _

dores de cenouras" que são os "coelhos", porque o mundo empí-


rico não possui noções e conceitos, que são universais.
Outro elemento quase contemporâneo em Ockham é sua
Os modernos ••
noção de que os eventos no mundo são todos contingentes. Mas
tal pressuposto, nele, é de ordem teológica. Ou seja, Deus é onis- ••
!"
ciente 111as também inescrutável, então, tudo que ocorre no mundo
natural tem de ser contingente porque, sendo Deus o que é, nada
garante que com sua capacidade Ele não possa intervir no mundo
••
quebrando qualquer cadeia causal, mesmo as mais sólidas.
••
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•• As perguntas dos antigos
•• e é15 cIos J?10(1erllOS

•e
••
••

•• o gregos antigos , querendo explicar racionalmente o mundo,

-
inauguram a filosofia , e o fazem por meio da pergunta "O que é
a realidade?". Na resposta a tal pergunta, elaboram duas coisas:

•• primeiro, atentam diretamente para o mundo, e segundo, criam


a distinção entre aparência e essência. Querem saber o que é o
essencialmente real, isto é, o que passam a chamar de "explicação

•• verdadeira do mundo", o que se apresenta em oposição a outras


formas de descrever o mundo, formas que são consideradas, na

•• melhor das hipóteses, " m era aparência" e, na pior,já de modo pe-


jorativo, " ilusão", "erro" - o " inessencial" .

••
Para a pergunta "O que é o real?", aqueles antigos que dizern
estar de posse de explicações racionais - os filósofos - fornecem
dupla resposta: urna é a dos pensadores jônicos, que os manuais

•• denominam de " os primeiros fisicos": outra vem dos pensadores


eleatas, que os manuais apontam COlHO pensadores " m ais própria-

•• rnente filosóficos". A resposta da escola jônica diz: "O real é a


plivsis", e assim inaugura a filos06~ corno cosrnojog ia. A resposta

• da escola eleática diz: "O real é o ser", e assim a filosofia se põe


r
..."i!'JU".'''.~ii§· AS- PER
••

nos rumos da ontologia, da metafísica, da lógica, talvez até mesmo
da semântica (dado que o ser - o que é - se mostra na linguagem).
a ser subjetivados - passam a ser objetos (do conhecimento) en-
quanto postos pelo sujeito. Isso é o que os historiadores da filosofia •.'•
Os modernos não colocam na mesa a mesma pergunta dos
antigos. Em vez de indagar diretamente sobre o real, os modernos
em geral chamam de "subjetivação do mundo".
Alguns historiadores da filosofia comentam que o que
ocorre na diferenciação entre os antigos e os modernos é o fim
••
••
modificam um pouco a pergunta dos antigos. Eles passam a querer
saber "Como é possível o conhecimento (do real)?". da idéia do filósofo como um descortinador. O filósofo, de certo
Fazem uma pergunta sobre o conhecimento e, assim, colocam modo, deixa de ser um descortinador na medida em que abandona
a filosofia no rumo da "teoria do conhecimento", ou, de um
modo mais específico, da epistemologia. Nessa tarefa, os modernos
a ação segundo a intentio recta, optando pela íntentío oblíqua. Ou
seja, em vez de ir direto à chamada realidade, para tirar a cortina ••
••
introduzem na filosofia, com importância, a figura do sujeito - que encobriria os objetos tintentio recta), o filósofo moderno passa
iniciam o processo de "subjetivação do mundo". a acreditar que existe algo entre o conhecimento e o objeto,
O que é a "subjetivação do mundo"? A resposta para tal per- pelo qual se tem de passar, antes de se chegar à realidade Iinteruio
gunta depende do bom entendimento da diferença entre o modo
de pensar e falar do antigos e dos modernos.
oblíqua) - esse algo é o sujeito, ou melhor, a instância chamada
subjetividade. ••
Para os antigos, o existente é o que está apresentado:"o que é
e se mostra por si mesmo". Ao passo que os modernos entendem
o existente COll10 o que é representado:" o que é posto por outro".
Mas os modernos não param aí. Dão um passo decisivo na
me~ida em que associam a subjetividade como subjectum - o que
subjaz - ao homem. De modo que é o homem, às vezes tornado
••
Para os antigos, a verdade é o que é desvelado, ou seja, "o que po-
dendo estar encoberto pode se apresentar des-coberto", descorti-
como ser empírico individual, às vezes como ser genérico, abstrato,
que é definido como sujeito - ou como potencial sujeito. O homem ••
nado; enquanto os modernos a entendem como garantida pela
certeza, isto é, "o sentimento de evidência". Trata-se do sentimento
subjetivo de que algo pode ser chamado de objetivo, evidente, e sobre
se torna o "palco do existente" - pois as coisas acontecem diante
do homem, para ele, ou mesmo nele. Ele é o avalista da verdade.
Pois é o sentimento subjetivo da certeza que diz, então, legitima-
••
ele se pode fazer uma sentença que seria, então, verdadeira.
Por que essa mudança? Por causa da mudança da pergunta
mente, o que é a verdade e a falsidade, quais enunciados ou pen-
samentos são falsos e quais são verdadeiros. Assim, se o homem ••
"O que é o real?" para "O que é o conhecimento (do real)?". A
segunda pergunta faz surgir uma entidade entre o real e o conhe-
torna-se potencialmente sujeito, no sentido daquele ou daquilo
que subjaz, no sentido de fundamento do real, então o próprio real,
como representação, passa a ser necessariamente objeto. A moder-
••
cimento, Tal entidade, no pensamento tipicamente moderno, é
aquela ern que o existente ocorre, acontece, e na qual a verdade é
assegurada, garantida. Essa entidade, que re-(a)presenta o real e diz
nidade é a época marcada pela ciência, cuja base filosófica seria
uma metafísica particular: a "metafísica da subjetividade".
••
que o verdadeiro é aquilo que passou pelo crivo da certeza, é o
sujeito, ou melhor, a instância chamada subjecíuidadc. O existente
As filosofias, após essa virada em direção ao sujeito, passam
a se dedicar à montagem de 1110de1os de subjetividade, de modo ••
••
corno representação é atividade (COlHO descoberta ou corno criação) a oferecer crescentemente melhores configurações do sujeito, nos
do sujeito: a verdade COl110 certeza é Ul11 aval dado pelo sujeito a ql~a~s .poder-se-ia ver COIUO úc~rre o conhecimento e sob quais
certos enunciados ou pensamentos. Mundo e verdade passanl, então, cntenos dever-se-ia dizer que os enunciados ou pensamentos ern


questão são verdadeiros ou falsos, pois é aí, no sujei:o, que se es-
tabelece o "conhecimento verdadeiro do real". Explicar o conhe-
cimento transforma-se na tarefa de mostrar como este ocorre no
sujeito. Fornecer uma explicação sobre o corihecirnento e seus De-scartes e o
fundamentos passa a ser a tarefa de forjar uma explicação cada vez
melhor da "relação sujeito-objeto", e isso é tomado como tema sujeito episten7ológico
par excellence da filosofia. . . .
Assim, se é uma instância chamada subjetividade a respon-
sável pelo real e pelo conhecimento - o que é verdadeiro a r~sp~i­
to do real - , a filosofia, cuja tarefa seria, ainda, a busca da essencia,
deveria agora fornecer modelos cada vez mais plausíveis dessa
instância chamada subjetividade. Na época da " m etafísica da sub-
jetividade" a tarefa da filosofia é a construção de melhores modelos
de subjetividade. ,
Entre tantas filosofias modernas, três posições são emblema-
L s os três - Descartes. Rousseau e Kant - afirmam que o ho-
ticas do projeto da " m etafísica da subjetividade", urna vez qu~ elas
rnern deve exercer a condição de sujeito autêntico; pois se o homem
espelham dois grandes movimentos, o Iluminismo e o Romantismo.
consegue tal façanha, isto é, participa dessa instância chamada sub-
Tais filosofias são as de Descartes, Rousseau e Kant.
jetividade autêntica, ele se põe no real e fica com a verdade - este
é o objetivo típico da filosofia humanista e da educação humanista,
nas suas versões iluminista e romântica.
Como um típico filósofo moderno, Renné Descartes (1596-
1650) segue de perto a pergunta "Como conhecemos a realidade?"
através de uma investigação da certeza - o evidente, aquilo que, em
suas palavras, era o "claro e distinto". Como relata em suas Meditações,
a "uma altura da sua vida" , acredita que tudo que lhe foi ensinado
nos seus anos de formação careciam de solidez. Convence-se,
então, que é preciso abandonar tudo e começar um processo de
busca do conhecitnento verdadeiro. O filósofo francê s torna corno
ponto de partida o que lhe parece urna necessidade imperiosa:
encontrar o que sào as " bases sólidas do conhecimento" . Não quer
ficar com o conhecimento das ciências que, afinal, pode ser falso
(afinal, a ciência não mudai), rna,s quer chegar ao conhecitnento
básico sobre o qual poder-se-ia erigir todo o conhecimento
r
••
verdadeiro. O que ele quer, segundo sua própria expressão, é um
~
o interessante dessa primeira verdade é que ela traz, para
Descartes, algo inesperado: ela é tarrtbêrr; o critério básico de ver-
.'•
••

"ponto arquimediano" - uma verdade indubitável - para daí cons-
dade: a certeza que fornece pode servir de critério para se constatar
truir, dedutivamente, as ciências. Com isso em vista, Descartes inicia

••-
se outros enunciados são verdadeiros, se forem da mesma ordem
suas " m edita ções" pelo processo da dúvida met ódica.
que o "cogito ergo SU111". Assim, o itinerário das "meditações" en- e
Considerando que tudo que ele sabe está no seu pensa-
contra a verdade e seu critério básico, o sentimento de certeza, e,
mento, e que tudo que reside no seu pensamento veio dos seus
com isso, ligando a verdade à certeza, coloca a primeira na depen-
sentidos ou lhe era inato, e tendo em conta que os sentidos nem dência desta instância chamada pensamento subjetivo, o cogito car-
sempre são confiáveis, pois não raro nos enganatn, ele começa seu tesiano. Neste caso, o saber e as ciências como saber verdadeiro
projeto de colocar em dúvida tudo o que havia em seu pensa- passam~ para Descartes, a estar assentados no eu, isto é, em um su-
e
mento, exatamente partindo da desconfiança sobre os sentidos.
Este é seu caminho. Nesse percurso, radicaliza a dúvida a ponto
jeito que se caracteriza por possuir um núcleo não contingente e
que, portanto, está para além das vicissitudes da história: o cogito.
••
de só se ver barrado em continuar duvidando diante das verdades
matemáticas. Estas, diz ele, são independentes: que dois e dois são
quatro é uma verdade mesmo quando estou dormindo, isto é,
Deve-se perceber aqui que tal itinerário filosófico de busca
da verdade fornece, como um subproduto, uma noção de subjeti- ••
mesmo quando não estou pensando a esse respeito. Porém, isso
detém sua dúvida só por um breve momento. Procura ser mais
vidade como instância filosófica. Descartes articula tal instância ao
homem, circunscrevendo o campo em que convivem, o humanis-
1110 e a filosofia moderna de modo bastante interessante.
••
radical. Então, em seguida, reinicia o processo de duvidar de tudo.
Querendo ampliar a dúvida também para as verdades matemáticas,
Entendendo que "a alma não está alojada no corpo como
um piloto em seu navio", Descartes vê o homem vivente, em- ••
recorre à seguinte estratégia. Passa a supor a presença do que chama
de Gênio Maligno - uma entidade cujo trabalho incansável seria
o de enganá-lo sobre todas as coisas. Tal entidade, na sua estratégia
pírico, como urna mistura entre corpo e alma. É por ser esta
mistura, diz Descartes, que o homem está imerso no erro: o fato
de a alma estar fundida ao corpo coloca o homem na dependência
••
de radicalização da dúvida, tem a função de alimentar a hipótese
que diz que o pensamento é um conjunto total de falsidades;
dos sen tidos, da imaginação, turvando a sua razão e impedindo-o
de colocar-se como puro sujeito, como pura res cogitans. As Medi- ••
••
inseridas nesse conjunto estariam até mesmo as verdades mate- tações seriam, então, como caminho filosófico e ped:.lgógico,
m áricas, aquelas verdades que seriam independentes dos sen tido s. uma espécie de ascese, para a chegada no pódio onde o prêmio
é a conquista da verdade na medida em que o homem, se completar

••
No entanto, a hipotética existência do Gênio Maligno lhe
fornece a saída do impasse e, por conseguinte, a primeira verdade esse caminho, eleva-se à condição de puro sujeito do conheci-
°
indubitável. Corno? Ora, se Gênio de fato existir, para que ele
mento. o puro sujeito epistemológico.
me engane, diz Descartes, é necessário que eu. enquanto estou
sendo enganado, me mantenha pensando, c di sso tenho certeza. ••
••
Penso. logo St1t1 - eis a primeira verdade (a segunda verdade é: sou
uma coisa pensante). Nada mais, nada menos que uma evidência
de ordem intelectual, uma espécie de... intuição racional.


~
e
•e
-
e
e •
•e Rousseeu e o suje ito
•• como pessoa

e•
-
~

e
e
•• culo
contraponto ao século XVII, o século de Descartes, foi o sé-
que talvez possa ser chamado de o século de Rousseau .
XVIII,

•.- Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) encontra outro tipo de


fundamento pard o conhecimento, outro tipo de subjetividade. Um
caminho que é possível ver como inserido não exclusivamente no

•e Iluminismo, mas com passos largos em direção ao Romantismo.


O texto de Rousseau equivalente às Meditações cartesianas é

•• o "Profissão de te do vigário de Sabóia", interno ao livro Emílio


ou Da Educação. Em tal escrito, Rousseau diz iniciar pelo meS1110

••
estado de dú vida a que se refere Descartes nas Meditações. Todavia,
se seu ponto de partida também é o da extensão da dúvida, a con-
tinuidade de seu percurso acentua significativas divergências em

•• relação ao caminho cartesiano. É claro que para Rousseau importa,


como a Descartes, o amor à verdade corno atividade nuclear da

•e 610s06a; e, como Descartes, só quer se satisfazer com a admissâo


do qu e é evidente. No entanto, se para D escartes a evidência é

••
algo exclusivamente intelectual, Rousseau, por sua vez, coloca a
evid ência na depend ência do que entende ser a "sinceridade do
coração". Rousseau afirma isso da seguinte maneira, no Emílio:

e •
---------------------------------------------r
_ Mi§ijlf@'''·'.IilUjiJê't·
••

e
tendo ern mim o am or à verdade como filosofia, e como método A intimidade pensada corno algo ligado à natureza, e melhor e l

único uma regra fácil e sim ples que me dispensa da vã sutileza do s


argumentos. volto com esta regra ao exame do s conhecimentos
constituída em seu estágio original quando ainda não corrompida
pelas convenções sociais, pelas máscaras e pelo teatro social , é uma ••
.'
qu e m e interessam, resolvido a admitir com o evidentes todos aos
que, na sinceridade do coração, não puder recus ar meu assenti-
idéia que faz da infância (ou do " bom selvagem") o santuário da
verdade e, portanto, um terreno privilegiado para a filosofia.
e
mento, como verdadeiros todos os que me parecem ter uma liga-

••
Descartes e Rousseau são de épocas de valorização positiva
ção necessária com os primeiros, e deixar todos os outros na in- da individualidade. Mas note-se: subjetividade e individualidade
certeza, seUl os rejeitar nem admitir, e sem me atormentar em os são noções que se cruzam, entretanto se mantêm diferentes. E por
esclarecer desde que não me levem a nada de útil na prática serem diferentes, o cruzamento entre elas, em cada filósofo, se
e
••
(Rousseau. Emílio OH Da Educação. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: apresenta de uma maneira particular. A subjetividade que se pode
Ditei, 1979, pp.3Ü3-4). enlaçar os indivíduos ganha contornos peculiares, distintos, para
Rousseau e Descartes, na medida em que traçaram diferentes ca-
Se a verdade em Descartes é dada ao sujeito - o sujeito do
conhecimento -, em Rousseau esta se põe deslocada, alcançada
minhos filosóficos , e claramente diferentes caminhos pedagógicos,
com os quais buscam a certeza, o crivo para que se diga o que é ••
então por uma subjetividade mais individualizada, e talvez , por isso
mesmo, mais ampliada. Tendo seu critério como sendo o assenti-
mento do coração, a verdade torna-se algo exclusivo da intimidade.
o verdadeiro e o que é o falso.A subjetividade cartesiana, dada em
forma de estrutura asséptica do sujeito do conhecimento, é bas-
tante representativa da postura iluminista, ou mesmo protopositi-
•e
Melhor dizendo, nesse caso a verdade não encontra porto seguro
em um sujeito epistemológico, definido de 1110do restrito e con-
vista. A subjetividade rousseauniana, dada pela noção de intimidade
da pessoa, pode ser vista como um romantismo avant la lettre. •.
vencional, mas na pessoa (sujeito moral), na medida em que a ver-
dade é avaliada por uma subjetividade que nada mais é que uma
consciência moral, organizada à base dos sentimentos. Assim, en-
Para exemplificar melhor as posturas iluminista e romântica,
pode-se dizer que se Descartes tivesse de escrever uma historieta
sobre um cientista mau, certamente teria condições de fazê-lo,
••

quanto o critério de verdade em Descartes exige uma subjetividade
que, talvez , seja mais fácil de ter elementos passíveis de serem
compartilhados entre os indivíduos, Rousseau pre ssupõe U11la sub-
jetividade sin o nim izada à intimidade, uma subjetividade que é um
"Inundo interior". Em Rousseau a verdade é. no limite, avalizada
enquanto Rousseau não. Este, ao chamar a certeza para o âmbito
do assentimento do coração, coloca no campo epistemol ógico
uma cunha que são as tensões entre ética e sociedade. Rousseau
moraliza o sujeito epistemológico. A verdade é irmã da honesti-
dade e da pureza e bondade de coração. Assim , um cientista mau
.'
•".
pelo coração, e se no coração não há perversidade original - corno
de fato afirma através da célebre frase "O homem nasce bom n13S
não seria U111 cientista ou, no máximo, seria um falso cientista,
pois, sendo mau, não saberia jamais o que é a verdade e então ••
a sociedade o corrompe" -, então a subjetividade intima melhor
se apre senta na infância: e eis então que, ao contrário de Des cartes.
para quell1 a infância é urna ameaça à filosofia , com Rousseau,
não fari a ciência autenticamente.
••
pode-se diz er que esta é condição essencial para o desenvolvimento
da filosofia corno tarefa de busca da verdade. ••

Os problemas postos por
H u m e c o li t r a a rn e ta f«í5 i c a

tentativa de montar um modelo final para a subjetividade,


segundo os planos das correntes de pensamento que os manuais
de história da filosofia agrupanl sob a rubrica de racionalismo, en-
contra uma pedra no caminho com Scot David Hume (1711-
1776). Hume, em oposição ao racionalismo, é um dos represen-
tantes máximos do empirismo.
Hume, em Uma investigação sobre o entendimento humano, se-
guindo outros filósofos de língua inglesa, estabelece uma divisão
que se torna clássica na filosofia: a célebre distinção entre analítico
e sintético.
Hume traduz tal divisão nos seus termos: 1) expressões que,
urna vez usadas, são tornadas COl110 verdadeiras ou falsas ao se
constatar nelas apenas as relações entre idéias que elas contêm: 2) ex-
pressões que. uma vez usadas. são tomadas COUIO verdadeiras ou
falsas ao se constatar nelas relações a j;1tOS. As primeiras são as pro-
posições analíticas, as segundas são as sintéticas.
Hurne as expõe da seguinte forma. Urna proposição analítica
possui a característica central ~c que, enquanto expressa por uma
sentença, a negação da sentença conduz a uma autocontradição
r
. ."§"''''••'I'*1''.
••
••
os l'noBlEM

imediata e, sendo assim, ela é verdadeira por de..finíção - é necessbri-


amente verdadeira. Uma proposição sintética possui a característica
Como o próprio nome já diz, o sonho da metafísica é o de
ser uma "concepção de mundo" completamente racional, isto é,
-•
e
. .1
!
~

I
central de que, enquanto expressa por uma sentença, não produz
uma autocontradição, ela não é verdadeira por definição e, quando
racional em um sentido forte: a razão que não apela para nada
que é sensível. O objetivo da metafísica, em resumo, é o de expor
uma descrição do "mundo " apenas pela via da razão, sem ter de
•e
••
é verdadeira, não é necessariamente verdadeira, isto é, pode ser falsa.
Ii As proposições analíticas são nitidamente de uma espécie diferente evocar nenhum dado empírico, ou, ao menos, completar uma
visão de mundo em que o empírico se limite a ser um elemento
... I das proposições sintéticas - praticamente o oposto. Com um

•e
' ~

t í acréscimo: as sentenças analíticas são tautologias. explicado, sem que ele venha, antes, explicar algo. Assim, a meta-
I !l
~
.
Um exemplo pode deixar mais claro. Na língua inglesa existe física quer cumprir o desiderato de seu próprio nome, ser unla
... .
~

••
unla palavra para designar irmão e irmã tbrother e sister), que é si- meta-física, uma descrição, uma concepção ou explicação do
bling. Pode-se ter então a proposição: "All brothers are siblings". mundo para além do mundo que recebe o nome de "físico". A
Ora, essa sentença expressa uma proposição verdadeira - necessa- metafísica quer urna explicação por razões que ou torne a expli-
riamente verdadeira. Negar tal proposição é impossível sem causar
autocontradição. Tal sentença é inegável em si mesma. Todavia, é
cação por causas uma ilusão ou torne a explicação por causas um
caso redutível a explicação por razões. Este sonho da metafísica, de ••
•e
uma verdade cujo predicado nada informa a respeito do sujeito. O explicar por razões, é considerado um bom sonho pelos que são
predicado não qualifica o sujeito com informação a mais do que a chamados filósofos , porque a razão traz o componente de neces-
sidade e de universalidade, e a explicação por causa leva sempre à
que existe no sujeito. A proposição é analítica. Trata-se de uma
tautologia. Todavia, se (1) "The Paul's brother is an Italian", então,
o que se tem é uma proposição sintética. Sua negação pode ser (2)
idéia de causa de uma causa, ou seja, a idéia inaceitável do regresso
infinito - uma "causa" das causas ainda seria uma causa . Hume ••
•e
fere a metafísica na medida em que, baseado na distinção analítico-
"The Pauls brother is not an ltalian". O que é procurado para negar
sintético, conclui que há somente três tipos de categorias para
ou afirmar? Um olhar sobre uma questão de fato, a saber, se o
classificar as expressões, as sentenças e, por conseguinte, as sen-

••
irmão de Paul é ou não é defato italiano. Não se trata aqui de uma
tenças que seriam usadas para descrever o mundo: uma proposição
observação sobre a própria sentença em si mesma. Se no mundo
é sintética e, portanto, é expressa por unla sentença cuja verdade
empírico o irmão de Paul não é italiano, então a primeira sentença
pode ser negada, sem autocontradição, através da segunda sen-
tença; sendo assim, a sentença (1) é declarada falsa.
ou falsidade depende da empiria, e isto traz informação, conhe-
cimento; urna proposição analítica é verdadeira, mas a sentença
que a expressa não fornece mais do que tautologia; uma expressão
••
Isso pode parecer simples. Mas tal posição cria uma revira-
volta na filosofia.
Hume, ao assumir a distinção entre analítico e sintético, cria
ql!e não é analítica ou sintética é apenas 110n sense. Hume acon-
selha, de fato, a queima de todos os livros de todas as bibliotecas. ••
boas dificuldades para os filó sofos que desejam construir a metafi-
sica na base da elaboração de um modelo de subjetividade, ou
seja, a " m etafí sica da subjetividade" enquanto a metafísica corno
uma vez que, repletos de frases analíticas ou 1101"1 sense, C001 nenhuma
informação emp írica, de nada serviriam .
A investigação de Hume termina neste ponto? Não, ele vai
••
mais adiante. Procura eliminar crenças teológico-metafísicas e e
••
um todo.
mesmo crenças arraigadas entre os homens de ciência. Seu m étodo
de filosofar, aplicado a elementos e leis tais COl110 Deus, subst ância,
causalidade etc., parece destruidor. A partir daí, o próprio Hume
termina por forjar urna noção nova a respeito não do que é urna
instância chamada subjetividade, com a força metafísica que viria o método de /Y LI me
do cartesianismo, mas sim de algo que, para ele, é um simples Eu
humano mais ou menos dissolvido. e o IIEL}!/ ernpirist.:

o método de filosofar ensinado por Descartes e Rousseau


implica passos introspectivos, que explicam primeiro o conheci-
mento e, depois, o conhecido, ou seja, "o mundo". HUl11e, por
sua vez, propõe um trabalho de investigação que deve, também,
terminar por explicar o conhecimento humano, mas com urna
w
••_:
versão que traz problemas para a noção de "eu", "sujeito", "en-
rendimento humano", enfim, "homem", COll10 os chamados ra-
cionalistas tomam tais noções.

e
• Hume resume seu método à seguinte tarefa. O que se quer
é averiguar se sentenças fornecem proposições analíticas, sintéticas
ou simples 11011 SC11se. Isso deve revelar o quadro do que se pode
confiar e do que não se deve considerar relevante. A primeira

•• pergunta do método objetiva saber se um enunciado dado é


analítico; para tanto. o que se observa é se sua negação gera urna

e autocontradiçâo. Não sendo analítico. a segunda pergunta é se o


enunciado é sintético; para saber, deve ser notado se tal enunciado
e possui urna idéia que remete ao empírico, à experiência. Em caso
e positivo, tal idéia, segundo HU1ne, está na mente humana corno

•• urna impressão - urna impressão sensível, UlTI dado inicial exterior

e
r
. . pilB"i'••'P'Ui.ii1i6·
•.•;
--
;; ,
que impressionou os sentidos por meio do contato com um deter-
minado objeto do mundo empírico, "exterior". Se UHl enunciado
não é nem analítico nem sintético, é um simples non seuse. Uma
vez de posse desse modo de filosofar, pode-se aplicá-lo a certos
algo que se diz porque se tem a expectativa psicológica de que,
ao ocorrer A , B irá tamb ém ocorrer, mas nada pode garantir que,
necessariamente, ocorrendo A, B irá (sempre) ocorrer. A causali-
dade é uma " q u estão de fato" para nós - enl um campo das "ex-
-•
~

e
••
enunciados da metafísica. pectativas interiores", geradas "interiormente" -, e não uma
Por exemplo, pode-se aplicar o procedimento ao enunciado "questão de fato" empírica - não há um dado exterior que pro-
"Deus existe". voca uma impressão dos sentidos. Ou seja, a causalidade, segundo
Tal enunciado é analítico? "Deus existe", uma vez negado,
gera "Deus não existe". Este segundo enunciado não é uma au-
a visão de Hume, não é então um fato do mundo, mas uma ex-
pectativa psicológica, e, assim , as sentenças que descrevem causa- •e,
••
tocontradição. "Deus existe" é um enuncíado sintético? Para ser lidade, que deveriam ser sintéticas, que deveriam informar algo
sintético teria de conter uma idéia gerada a partir de impressões sobre o mundo, nada informam.
sensíveis na mente. Haveria de se ter alguma experiência com o di- X pode ser uma bola.Y pode ser outra bola. A batida de X em

e•
vino. Quem diria, afirmativamente - como quem diz que passou Y pode ser um fato empírico, mas o movimento de X (evento B)
por uma experiência ao pegar uma ave na mão e enunciou "a ave tomado como efeito causado pela batida de Y em X (evento A)

••
que peguei é branca", ou como quem fez o mesmo com uma ba- como algo necessário, que sempre ocorre, seria uma expectativa -
nana e disse "a banana é amarela" -, que conseguiu uma expe- esta é a conclusão de H ume. A causalidade não chega à mente vindo
riência com o divino? Ninguém diria que teve urna experiência do lado empírico, "exterior". Hume diz que quando se quer dar
com o divino da mesma ordem que teve uma experiência com
uma ave na mão, com uma banana etc. O resultado, então, é que
uma razão pela qual se tem a expectativa psicológica de que isso
devesse sempre acontecer, não é possível encontrar nenhuma ••
•e
uma afirmação como "Deus existe" não é nem analítica nem sin- plausíveL
tética, e termina no leito do non sense. O mesmo raciocínio vale O filósofo britânico nunca afirma descrer que a causalidade
para a noção de substância. O mesmo para a noção de causalidade. não esteja no mundo. As coisas se relacíonam no mundo segundo
Quanto a esta última, é interessante comentá-la, de modo a tornar
claro o que Hume de fato ataca.
a lei de causalidade, para ele como para qualquer pessoa. O que
afirma é que não é possível dar uma abordagemfilosqfica sustentável ••
••
Por exemplo, a expressão "A causa B" (A e B são eventos) sobre a lei de causalidade como estando no mundo. Ensina que a
é analítica? Não, pois é possível pensar em um A e em um B que causalidade é algo sob a rubrica da indução. Ou seja: o que faz com
que os humanos acreditem que o futuro será igual ao passado,

••
não impliquem em fazer da sentença "A não causa B" um enun-
ciado autocontradítório. "A causa B" é sintética? Eis que aí a res- quando da relação de causa e efeito, está no fato de que certas
posta deixa muitos bastante surpresos. Sendo A e B eventos, a conseqüências são serllpre as mesmas. Mas dever-se-ia acreditar
que U111 evento acontecerá amanhã somente porque este evento
resposta poderia ser "sim!" , urna vez que ser ia possível traçar
sel11pre ocorreu até ontem? Pode-se dizer, em um primeiro mo- e
urna cadeia causal entre A e B. Todavia, é aqui que Hume cria
mais um problema para o que parece simples. Ele não vê nenhuma
conexão n ecessária entre A e B. O fato de que A aconteça não
mente : "Sim, as leis da natureza garantem isso" . Mas essa seria,
para Hume, a resposta de um cientista crédulo demais. Um filósofo •e
deve necessariamente fazer B acontecer. Assim, .,A causa B" é teria de perguntar: "Será que as leis da natureza são suficientes
••
.'"UiNU"'ilmii.

para se acreditar na regularidade?" e "As próprias leis da natareza


não podem mudar?" ou, ainda, "O que faz acreditar, senão a
mera rotina, que as leis da natureza podem garantir a regularidade
da relação causal? ". Segundo a análise filos ófica de Hume, onde
há " verdades de fato" (sentenças sintéticas), "verdades lógicas"
(sentenças analíticas) e non SC1'lSe, não há espaço para co nsid erar
o apogeu da modernidade
as sentenças que envolvem a relação causal como "verdade de fato".
Nenhuma experiência (portanto, nenhum fato) poderia
garantir a alguém a capacidade de afirmar com segurança abso-
luta que uma bola de bilhar, ao receber o choque de outra bola
de bilhar, venha necessariamente a se deslocar, sempre.
A distinção entre sentenças analíticas e sentenças sintéticas,
que é conhecida na filosofia como "Hume's fork", não traz pro-
blemas só para os conceitos de Deus, substância, causalidade etc.
Mas coloca também a noção de "eu" da filosofia racionalista em
dif cul dades.
Se a garantia da eternidade e da imutabilidade da substância,
uma vez submetida ao m étodo de filosofar de Hume (a colocação
das sentenças sobre o crivo ,.analítico ", "sintético" e 110rI sense'[,
se esvai, como então ainda dar crédito à noção de suj eito de
Descartes, que está sob os auspícios da imutabilidade e substan-
cialidade da res cogitans - por conta da certeza provinda da intuição
intelectual "penso, então sou"?
Hume é um dos pritneiros a colocar a idéia moderna de
sujeito na parede ao dizer que "não há nenhuma idéia tal corno
a de eu ". O que existe, para ele , são as coleções de percepções
das mais diferentes ordens, COl110 frio e quente, dor e prazer,
escuro e claro, amor e ódio etc. Essas sensações, sentimentos e,
enfim , experiências ocorrem em um fluxo, não se coagulando
em nenhum " eu" . Falando assim, Hume tira um tijolo importante
do edifício que os racionalistas constroem COll1 a chamada "me-
tafisica da subj etividade" - a metafísica moderna par exccllence.
---------------------------~------------~r
••
••
Kent e o sLJjeito
• ~.
e
e•
.,,
epistemológico ••
•e
e
•e
A "metafísica da subjetividade", ou, pode-se dizer, a "filosofia
como epistemologia" enquanto pensamento filosófico moderno
e
••
típico, alcança um momento extraordinariamente sofisticado com
Immanuel Kant (1724-1804).
Preocupado com as demandas levantadas por Rousseau, que
••
insiste no lado moral do sujeito, levando em conta a metafísica tra-
dicional, cujo papel não poderia deixar de ser o de insistência na •e
elaboração de uma descrição do mundo que dispensasse o que é
"sensível" e oferecesse uma concepção completamente racional ••
••
do mundo, e, por fim, atento para o choque empirista que David
Hume dá à metafísica moderna, Kant procura costurar toda essa
variedade de idéias que chegam à pacata Kônigsberg de seu tempo.
São, respectivamente, as idéias francesas, as dos próprios alemães
(a metafisica tradicional de Christian Wolfl) e, é claro, as dos britâ- ••
nicos. Kant procura salvar cada urna dessas aparentemente incon-
ciliáveis demandas. Fazendo assim, também traz à baila sua noção ••
de sujeito - talvez a noção que mais tenha perdurado na filosofia
desde sua criação, uma vez que se, torna Ul1U base para a gravura
••
- que a filosofia, pelo menos até Donald Davidson, Rorty e Dennett,

'.

e
••

--
•e
tece a respeito das relações entre os chamados "organismos humanos' ~
e o "mundo".
Kant leva muito a sério a crítica de Hume à metafísica. Lê
com cuidado a distinção de Hume entre proposições analíticas e
as atividades do entendimento, de modo que este também não se
disperse nem se sinta perdido ao se movimentar C0111 suas categorias.
Este conjunto funcionando, unificado em todas as suas atividades
pela apercepção (percepção é diferente de apercepção), que é um

••
sintéticas. O que faz com as noções de analítico e sintético é ino- tipo de "Eu penso" contínuo, é definido como a unidade do su-
vador. jeito kantiano. No Quadro 2 e nas explicações subseqüentes, essa
Proposições analíticas (verdadeiras), para Hume, são quali- maquinaria torna-se mais inteligível.

e • ficadas COlUO verdades a prion; proposições ditas verdadeiras a postenori


são qualificadas como sintéticas. Kant, por sua vez, não aceita a
idéia de que todas as proposições sintéticas são verdades a posteriori. QUADRO 2
e Evoca a existência de proposições sintéticas a priori. Portanto, para

•e Kant, nem todas as proposições a priori seriam analíticas. Ou seja, FACULDADES 1SENSIBILIDADE1 ENTENDIMENTO 1RAZ À O

-
nem todas as verdades a priori seriam tautologias. A novidade de
Kant é surpreendente: urna proposição cujo predicado diz algo FORMAS a priori 1Intuições Puras ~ Categorias
1 . ~ Qualidade

••
Quantidade Modalidade Relação
que não está implícito no sujeito da sentença - informações novas
j . j realidade unidade necessidade substância
- e, no entanto, tem tal predicado não informado pela experiência, j Espaço Tempo j ,
: : negaçao pluralidade existência causalidade ~
é uma proposição dada a priori - uma sentença sintética a priori. Há ~ ~ limitação totalidade mmUni<bJ"j
••
possibilidade
FORMAS a priori
então, para Kant, enunciados significativos sobre a realidade cuja
verdade é conhecida independentemente da observação empírica. , IMAGINAÇÃO'

•e Kant acredita nisso e entende que só demonstrando tal teoria


é que pode, diante do ataque hurneano, dar os primeiros passos
para fazer a filosofia voltar a ser algo digno de estudo e dedicação.
IMPRESSÕES

•• Caso contrário, para Kant, a filosofia COIUO metafísica não teria


mais razão de ser. Seria o fim da Filosofia.
SENSíVEIS

•e Para explicar de modo mais plausível como se obtém as ver-


dades que Hume nega, Kant monta o seu modelo de subjetividade.

••
Desenha um aparato subjetivo com as seguintes divisões: a sensibi-
lidade como faculdade da intuição (percepção), a faculdade do
entendimento contendo as categorias propícias para o conhecitnento
e e, enfim, a raxão. a faculdade que abriga as idéias puras. Tais facul-

e•
dades funcionam em comum acordo. sendo que as intuições for- Objeto Objeto
madas na sensibilidade estão comandadas pelo entendimento, para que conhecido pensado
nâo se dispersem; ao mesmo tempo, as intuições fornecern o 111a-

•• terial ernpirico para o entenditnento. A razão, por sua vez, canaliza fENÔMENO

e
--------------------------------------,r
••
_,t";-'

. .'l"t0064 '''0m,.
••
KANT E

Kant esbo ça primeiro a sensibilidade, a faculdade da intuição. Kant fornece mais um elemento na construção de seu apa- ~,
Sua pergunta é: "Como a percepção é possível?". Como é possível
expor uma sentença, e considerá-la verdadeira, tal como, por
exemplo : " H á unl gato em cim a do muro"? Para filósofos como
rato subjetivo falando da segunda faculdade, a do entendimento. É
a faculdade que capacita a instância subjetiva a produzir conheci-
mento a partir do material trazido pela percepção. Corno se dá o
••
e
••
Hume e outros empiristas, tudo nessa sentença, para que ela ganhe conhecimento? Kant conclui que o entendimento, corno peça
o predicado " verdadeiro " ou o predicado "falso" , implica em se ter subjetiva, tem conceitos especiais, as categorias. Colocadas em
dados dos sentidos. Para Kant, no entanto, há um pressuposto quatro grandes grupos, elas fazem os elementos da percepção
anterior ao que os empiristas dizem; ou seja, haveria a percepção
a priori de espaço e tempo. Se há um gato em cima do muro e, en-
tão, a sentença "Há um gato em cima do muro" é verdadeira, tal
abandonar a condição de sensórios, dados intuitivamente, para se
tornarem conceitos, enfim, conhecimento, uma vez submetidos a
regras tais como unidade, pluralidade, causalidade etc. Tem-se, en-
e •
coisa , para Kant, tem um pressuposto, a saber, a de que outras sen- tão, o que Kant chama de pensamento. Assim, Kant propõe uma e
tenças são verdadeiras, como " O bj etos existem no espaço e no solução, por exemplo, para o problema criado por Hume com a
•e
-
tempo". Tal sentença, segundo Kant, está informando algo, não se causalidade. 01n enunciado tal como "Todo evento é causado" ,
deve considerá-la uma tautologia corno as sentenças analíticas; ela julgado por Hume como não sendo nem uma verdade empírica
é unla sentença claramente sintética. Todavia, ela desmente Hume,
uma vez que é a priori. Kant faz o trabalho de crítica da razão na
medida em que checa as condições de possibilidades de cada sen-
nem uma verdade analítica, para Kant é perfeitamente aceitável,
uma vez que se trata de uma verdade sintética a priori. "Todos os
eventos são causados " é o que está no entendimento.Todavia, o en-
••
tença ser verdadeira ou falsa, de ter significado. Ou seja, Kant in-
vestiga as condições de possibilidade do aparato cognitivo subjetivo.
rendimento não pode funcionar, tornando tal sentença plausível,
sem sua matéria, ele tem de expor tal enunciado tendo como con- ••
Para o caso de sentenças de caráter perceptivo, Kant insiste que a
verdade delas (ou a falsidade) depende de se admitir, como Hume,
que tempo e espaço não são dados dos sentidos, mas , diferente-
teúdo algo vindo da percepção.
O sujeito kantiano entende o mundo em termos causais e re-
presentacionais, e isto é explicado por Kant como sendo possível
••
mente de Hume, são condições a priori para que qualquer coisa
possa ser um objeto percebido. Como pode haver algo que não
porque o sujeito possui regras , já no plano conceitual, que seriam
aplicadas ao elemento perceptivo (assim, no quadro, o gato sensório ••
está sob o arcabouço, apriorístico, das categorias puras da facul-
dade da sensibilidade, a saber, das intuições puras, ou seja , espaço
e tempo ?
se transforma, no plano do entendimento, na palavra " gato" que já
é, sob as categorias, o con ceito de gato) .
Mas o que aconteceria se a faculdade do entendimento e a
••
Kant subj etiva o espaç o e ° tempo. Eles se tornam lentes
sem as quais o Inundo não pode ser percebido pelo suj eito. O es-
faculdade da sensibilidade nào atuassem em comum acordo? Kant
responde a isso com unla expressão clássica, que os manuais usam ••
paço e o tenlpo, no entanto, não são coisas, objetos, 111as são, sim ,
regras. Sem tais regras não há qualquer percepção (no quadro, as
impressões sen síveis não formam a percepção - imagem - do gato
na tentativa de explicar a doutrina da subjetividade kantiana :
" Pensam ento s sem conteúdos são vazios , intuições sem conceitos ••
••
são cegas". Ou seja: os pensa1nentos, o que é processado mediante
a não ser no interior já de uma intuição. ou seja. a que segue as a utilização de conceitos. precisa ser pensamento de alguma coisa,
regras colocadas pelas lentes espaço-temporais), e esta alguma coisa são as intuições; no entanto, se a sensibilidade

e •
-
••
e .."iMUU.""."· 'S'§·"'i""·.'UiiUAJQ"1 _I

~
• saísse a esmo, sem a direção e a unificação do entendirnento, dar meira: a idéia de Alrna serve à categoria de substância, urna vez
e n ão traria nada de útil para ser pensado, nada com o que o enten- que da é urna substância indestrutível - uma substância com todas

•e dimento viesse a achar que valeria a pena aplicar suas categorias, e


então o que se teria seria urna sensibilidade vaga, sem objetivos.
as propriedades da idéia de substância. Não há saber verdadeiro -
conhecimento - de Deus, alma, liberdade etc. em Kant, Pelo menos

•• A terceira faculdade da subj etividade de Kant é a razão. Esta


é o local da produção dos conceitos "puros" , ou seja, aqueles que
dispensam por completo os sentidos, tais como os conceitos de
não enquanto ele se mantém construindo seu sujeito epistemoló-
gico. Tais idéias - as idéias da razão - são instrumentos regulativos
da razão sobre entendimento enquanto este atua sobre as percep-

e • Deus, alma, mundo, liberdade etc. Os metafisicos podem aplaudir


Kant quando este anuncia tais idéias (Deus, alma, mundo, liber-
dade etc.) como contidas em uma parte de sua maquinaria subje-
ções. São ilusões, sim , mas ilusões necessárias. Sem elas o sujeito epis-
temológico não funciona corretamente, pois cai nas situações
filosoficamente insustentáveis, tais como o regresso infinito e seus
e
••
tiva. Mas por pouco tempo! Por quê? Porque Kant se mantém similiares; ao mesmo tempo, sem as ilusões o sujeito não tem
inflexível quanto à doutrina de que o conhecimento só se produz como regular a aplicação do entendimento, unificadamente, sobre

-••
no âmbito da faculdade do entendimento, isto é, o conhecimento
é conhecimento só COt110 pensamento no qual as categorias do
entendimento não giram em falso, isto é, não se movem com o
conteúdo do que vem além das intuições que são espaço-temporais
e, enfim, do elo da subjetividade com o empírico. O entendimento
as intuições. Assim, diz Kant, as idéias da razão cumprem tarefas,
nus não são conhecimento.
Com essa forma de traçar o seu sujeito ou, pelo menos, o
seu sujeito epistemol ógico, Kant inaugura, também, as noções

••
especificas de seu sistema: o n úmeno e o fenômeno.
não possui a capacidade de funcionar (veja o Quadro 2) caso se O fen ômeno é o que aparece, ou seja, é o que resulta da in-
dirija para o lado das idéias da razão, U!TI..2 vez qu<: estas n ão têm teraçào entre entendimento e sensibilidade, ambos guiados pela

•e conteúdo empírico. Ora, então, por que a razão nutre essas idéias?
Afinal, em um modelo de subjetividade que é uma maquinaria
funcionando, e na qual tudo tem sua função, qual é a função da
razão. O fen ômeno é uma ilusão? Não. Ele é o ponto inicial de
interação entre o sujeito e o mundo, sendo que tal sujeito está no

••
mundo. O fen ômeno é o que é possível de se conhecer. É o que
razão? Qual a função das idéias puras da razão? A resposta de Kant vai ser transformado em conhecimento, então mostrado por uma
não é surpreendente apenas para os metafísicos. Inaugura a marca subjetividade que é limitada por suas condições duplas: de um lado,

•e da filosofia como "crítica" . Por quê? Porque as idéias da razão


estão lá justamente para dirigir o entendimento ern relação à sua
característica, já conhecida, de fazer as categorias continuarem a
o racional, de outro. o mundo-em-si. Fazer a "crítica da razão" , da
íorrna corno faz Kant, sign ifica mostrar as limitações do aparato do

••
conhecimento: o conhecimento é o conhecimento de fenômenos.
funcionar tanto "para baixo" - sobre o material empírico - corno E o núrneno? Este é negativo e positivo. Nos termos de
"para cima" - t':lzerando os vários racioanios que conduzem ao re- Kant, ele é a coisa -em-si, que está no que é exterior ao espaço e

•• gresso infinito ou coisa similar. No plano da dissecação do sujeito


epistemológico kantiano (que é o do Quadro 2), as idéias da ra-
zão estão lá não porque são conhecimentos, nus porque estacam
tempo, à sensibilidade - o inatingível, que é o que nã.o depende
do sujeito. Ele não é o objeto do conhecimento. É o mundo
corno elemento que deve provocar a parte ativa da relação
e e direcionam o funcionamento do entendimento: a idéia de Deus

••
homem-mundo. A parte ativa é o sujeito, que constrói o objeto do
serve à categoria de cau salidade, uma vez que ela é urna cau sa pri- conhecirnento. O objeto, quando se'torna objeto, já está no Cat11pO

e

fM ""I""" .'11',,"',,#6'
••
••
I
'1
ri
espaço-temporal subjetivo, pronto para receber sobre si as cate-
gorias do entendimento e ser, então, um objeto conhecido, • e
e
li
'J
conceituado, pensado. E o númeno negativo? Este é produzido
quando o entendimento, em vez de seguir as ordens da razão e Ker: ti o 5 u]cito more I •e
olhar unificadamente para o que vem da faculdade da sensibili-
dade, as intuições, vira-se para a razão (veja o Quadro 2) e se di-
rige às idéias, tomando-as como objeto empírico. Ele quer, então,
e a fJOVa rnctetisice ••
criar um conhecimento a respeito de Deus, Alma,justiça, Liber-
dade etc. Tais ilusões necessárias acontecem, elas não podem
deixar de acontecer - são deJato necessárias; mas não são conhe-
e •
e
••
cimento. O sujeito, uma vez informado da teoria filosófica de
Kant, saberá que, neste momento, o que acolhe não é pensamento
e sim, falha de direção do entendimento. Falha esta que tem de

,
!,
ocorrer, uma vez que tais idéias puras devem se manter como
aparentes fenômenos para que o sujeito não as despreze, para que
As conclusões de Kant a respeito do conhecimento e do su- ••
••
as mantenha como pensáveis, concretas, obtendo delas o funcio-
jeito epistemológico estão no seu livro Crítica da razão pura. Se-
namento desejado do aparato cognitivo - elas cumprem suas
funções de unificação do entendimento na medida em que são gundo Kant, as demandas postas por Hume estão, se não finalmente
as ilusões necessárias. Elas estão ali, cada uma delas, como o cume
de um processo, na direção contrária à do mundo empírico. São
elementos que se autodispõem corno de fato existentes e que
resolvidas, ao menos bem equacionadas. Todavia, as demandas a
respeito da metafísica, por um lado, e a necessidade de se levar em
conta a moralização do sujeito desenvolvida por Rousseau, por
••
evitam as várias formas de regresso infinito, o que é inconcebível. e
••
outro, fazem Kant escrever um outro livro - Crítica da razão pura
Ilusões necessárias - eis um tema que percorre a história da prática.
filosofia após os modernos. Em Kant, não se trata mais da idéia de Nesse segundo livro, Kant faz a metafísica recuperar o status
ilusão con10 mentira, corno ela aparece em Hobbes, mas a idéia
da ilusão como falso conhecimento, porém útil.
que o livro anterior lhe tira , e entende que, por causa de ter con-
seguido tal feito justamente refletindo sobre o que dizer dos pro- ••
blernas éticos, satisfez a demanda de alemães e franceses; ou seja, a
histórica e típica demanda por' metafísica e por ética, característica ••
da filosofia desses dois povos.
Kant dá atenção à intençdo e ao dever. Tais termos estão pre-
sentes na noção de moralidade, corno ela aparece no cristianismo,
••
na medida em que este é transformado na religião dominante na e
Europa, ainda antes do fim do Império Romano. e

-•- "H iii"U• •'IIUMb,ri
KANT, o SUJ EITO

e
e -• Aqui, faz-se necessária urna volta à diferenciação entre a ética
ocidental dos gregos antigos e a dos modernos. Assim, pode-se
entender melhor o projeto kantiano.
A ética grega clássica é urna ética da "meia medida": tudo o
que o grego deve fazer no plano moral é moderar os desejos, os
"impulsos", por meio da razão, de modo a poder compartilhar
tudo com a natureza e com a pôlis, que não lhe devem ser estra-
e Dos antigos gregos aos cristãos e modernos há uma passa-

•• ge111 da "moral política" à "moral subjetivista". Corno isso ocorre?


Os bons manuais de ética lembram os significados das palavras
"moral" e "ética". Moral vem de mores, que é unla palavra latina,
nhas - eis a vida racional. Esse caráter de integração entre o indi-
víduo e o coletivo, e que ao mesmo tempo define e mostra um
comportamento racional, é o ideal grego de perfeição moral, uma

•e enquanto ética vem de éthos, que é urna palavra grega. Ambos os


termos remetem aos costumes, mas no caso grego há uma curio-
regra da melhor educação - uma pedagogia filosófica.
A filosofia moral cristã entra em conflito direto com esses

•• sidade: a palavra "êthos" pode ser escrita, em grego, com a letra "e"
sendo substituída pela letra grega :E (eta) ou pela letra grega Â
princípios pagãos. De que modo isso ocorre?
A moral grega clássica pode ser entendida por meio da ob-

--
..

••
(épsilon). De modo que, quando grafada com êpsilon. a palavra
éthos, em grego, tem a ver não só com costumes, mas com o tem-
peramento ou caráter individual. Assim, dependendo da grafia, os
gregos usam éthos para designar algo coletivo dos costumes ou algo
mais individual, mais ligado às disposições físicas e psicológicas de
servação dos Jogos Olímpicos. O que são os Jogos? Uma festa des-
portiva? Não - são um encontro religioso. Quando do período
em que acontecem os Jogos, os gregos de todas as cidades-estados
independentes, que formam a nação grega, param suas guerras in-
ternas e rumam para o local das competições. O que assistem ali

•• alguém.
Isto permite dizer que a investigação da filosofia moral tem,
nas suas origens, dois objetivos concomitantes: o estudo de um
não tem relação com o divertimento, COl110 o que ocorre mais
tarde, com o romanos, mas é, sim, o que entendem como a mani-
festação dos deuses. Os vencedores dos Jogos, embora não sejam

•• conjunto de enunciados que dão valor a comportamentos que são


do campo coletivo, o dos costumes, e também um conjunto de
tomados como deuses, são respeitados como tais porque os deuses
se mostraram através deles. Sem a vontade dos deuses, não seriam

•• enunciados que dão valor ao comportamento individual, ou seja,


as virtudes e os vícios de cada UU1.
aqueles os campeões, mas outros. Assim, os homens da Grécia (e
só os homens) se despem e, completamente nus, assistem à mani-

••
Independentemente de especificar as éticas de determinados [estação dos deuses - aos Jogos. A relação entre os gregos e seus
filósofos, a filosofia moral dos antigos ou a ética dos antigos têm deuses necessita da cerimônia coletiva dos Jogos. Da mesma ma-
algumas características básicas. A filosofia moral dos antigos quer neira que o grego vive sua relação com os deuses coletivamente,
e ensinar a viver. Busca eleger, entre vários modos de vida, aquele de forma aberta, também é assim que ele deve seguir as regras

•• que seria a conduta da vida virtuosa. E o que é a vida virtuosa para


os gregos antigos? É conduzir a vida eI11 favor de três harmonias:
morais, através de uru cOluportalnento aberto. visível, de harmonia
COIn o coletivo, ou seja, conl a poiis, No mundo grego clássico.

ambas as coisas são ligadas. A relação C0111 os deuses e a relação

•• cada grego deve prol11over a harmonia entre si lneSI110 e a polis; a


harmonia entre si 111eS1110 e o COS1110S; e, enfim, a harmonia de sua
conduta e111 relação à razão. Se a harmonia se verifica nesses três
com a pólis tornam o grego Ulll homem autenticamente grego e,
portanto, não-bárbaro, na medida em que ele participa das formas

•• planos, então há uma vida virtuosa e por isso urna vida feliz. de organização política, social e religiosa coletivas.

e

.-MiM". '''MI'. NUM!,... '''''M''*.'t*4''''U • i
-I
••
••
Os ocidentais,já banhados por vários séculos de cristianismo.s
adquiriram uma relação diferente com o divino. Participam de
atos coletivos de adoração religiosa, como a missa católica ou o
culto protestante ou outras formas de cerimônias, mas se relacionam
Deus. Ao mesmo tempo, em relação aos outros, cada cristao é
responsável. O cristão deve ser caridoso para com os semelhantes
(ou o que pode julgar como semelhantes) e tal caridade implica,
principalmente, em trazer os semelhantes para um campo onde
-e
••
com as divindades a partir da intimidade. Ou seja , há disponível
um instrumento que o grego não tem, que é a oração, a oração
individual, que coloca o homem moderno diante de um deus
suas almas possanl também se mostrar merecedoras do olhar de
Deus; é necessário cuidar para que os outros também tenham fé
- eis a "responsabilidade social" nova, do cristianismo.
••
único, sem mediação de Jogos, ou mesmo missas (as missas ocorrem,
mas não são essenciais) e, de certa maneira, sem a mediação de
O que ocorre com o advento do cristianismo é que as con-
dutas da vida virtuosa deixam o plano público e caminham para •e
quaisquer outras coisas que venham do âmbito mundano, político.
Jesus ensina que basta a evocação da oração "Pai-Nosso" por um
indivíduo para que ele, mesmo em situação de pecado, seja ouvido
um plano privado, ainda que tal plano privado seja observado, por
exemplo, pelos membros de instituições que representam a reli-
gião cristã - sacerdotes católicos (pode-se lembrar do ritual do
••
por Deus, de alguma forma. A cerimônia da missa promove, confessionário ou, mesmo, de situações-limite como as da Inqui-
••
cOlno Jesus mesmo diz, o culto à sua memória, mas a relação com
o divino se dá através da pureza da alma que se dispõe à oração.
sição) ou, depois, pastores protestantes etc., que também têm suas
maneiras próprias de apontar empiricamente quem está ou não ••
A vida virtuosa, ou melhor, a própria virtude, no cristia-
nismo, não está enlaçada diretamente com o comportamento na
polis, com o comportamento político. A virtude se torna algo da
está se conduzindo virtuosamente.
Em história da filosofia, de modo genérico, pode-se dizer
que o grego antigo vive na verdade e no certo, e a falsidade e o
••
ordem da relação de cada indivíduo com Deus. Isso significa o
incentivo ao descuido para com os semelhantes? Não! Mas cada
erro são contigentes, enquanto os modernos, herdeiros de mil
anos de cristianismo, vivem na falsidade e no erro, sendo a verdade ••
indivíduo passa a se relacionar com o outro não mais porque este
outro é habitante da mesma pólis e/ou ligado ao mesmo passado
cultural, mas sim porque os que ele pode definir corno seus se-
e o certo algo a ser duramente conseguido ou realizado através
de um grande esforço. Os modernos, acostumados a achar que
tudo é "ideológico", que há "algo por detrás das coisas", que "não
••
melhantes são todos os "filhos de Deus"; e somente Deus, então,
é o elo entre os indivíduos. A vida virtuosa passa a depender de
se sabe direito o que ocorre", procuranl estudar ou recorrer a
algum expert para saber que enunciados são verdadeiros e certos ••
uma "ampliação da alma", uma ampliação da subjetividade -
em um sentido rousseauísta do termo, ou seja, a subjetividade
corno intimidade. Os cristãos devem olhar para si mesmos, para
(o padre, o médico, o psicanalista, o cientista etc. são os experts, so-
licitados a ajudar o homem rnoderno a encontrar "o que está por
detrás" - Michael Foucault mostra em suas obras a atuação desses
••
o "interior", e, dependendo das condições da pureza ou arrepen-
dimento, encontram (ou não) uma alma capaz de merecer urn
profissionais). Esse comportamento é fruto das alterações que o
cristianismo promove na medida em que elimina a idéia da ligação ••
contato com Deus. Corno? Se olham pará o "interior da alm a"
e percebem (ou melhor, sentem) que ainda possuem fé, se acreditam
no amor de Deus por eles e na pres ença Dele, então det êm Ull13.
umbilical do homem coru a cidade, criando de urna maneira nova
o livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, introduzindo a noção de que,
urna vez deixada a vontade solta, livre, esta estaria mais propensa
••
alma que. apesar das falhas de conduta, é merecedora do olhar de a indicar para o intelecto o falso 'd o que o verdadeiro, e mais
••

.,
,
e
,,,m,,,.
-
e
.IHiI'i1"• •

--
~

e
propensa ao erro do que à conduta certa. Isso porque a religião
cristã assume que os humanos são seres fracos, vivem no pecado,
são, já na origem, pecadores. Ao contrário dos gregos, que acre-
ditam que a razão pode controlar os apetites, os cristãos têm
medida e111 gue são princípios da razão , ou seja, explicitam um ca-
ráter racional: sào necessários, universais, não podem ser negados
sem autocontradiçâo.
Assim, Kant vê a idéia de liberdade baseada em enunciado

:
como certo que no ponto de partida a vontade já se encontra de caráter sintético a prion, a saber, " sem liberdade não pode haver
pervertida. Para eles, há muita dificuldade de aceitar que o ho- nenhum ato moral". Eis então o comando 1110ral que, a partir dessa

•:
mem possa ser capaz de, sozinho, caminhar em direção à verdade sentença, pode-se ver o "imperativo categórico" kantiano: "agir
e ao certo; então o homem precisa dos textos sagrados e dos somente de acordo com aquela máxima que se pode, ao mesmo
exemplos de Jesus. Aqui não se trata mais de uma moral que se tempo em que se age, tomar como o que deveria ser uma lei uni-
guia pela harmonia entre a razão e os desejos, mas uma moral que versal". Tal lei, segundo Kant , está incrustada na subjetividade, no

•• se guia pela capacidade de se ter uma alma que é purificada ao


obedecer às escrituras sagradas e aos exemplos dados por Jesus
Cristo. Essa moral torna-se uma moral da obediência, do dever.
seu lado moral (a razão pura prática). Todos os atos morais, na ética
kantiana, são modelados por princípios que devem poder ser uni-
versalizados sem que, com isso, se crie alguma contradição. Em

-:•
Ainda que se tenha de obedecer ao que está visível nas es- outras palavras: o sujeito, ou o homem, age moralmente porque
~ crituras sagradas e nos exemplos deixados por Jesus , em último tem consciência lógica de que o contrário leva ao absurdo. Cada
caso, isso só é possível porque no " eu interior" de cada um há a sujeito, na medida em que é racional e, portanto, autônomo, exerce
capacidade de sentir culpa, urna "interioridade" capaz de estar su- sua autêntica condição de sujeito moral - a pessoa. Em cada ação
ficientemente abaulada para sentir arrependimento. A idéia da consegue se conduzir corretamente segundo a idéia de que o que

,,- subjetividade preenchida, complexa, está associada à idéia de 1110-


dernidade.
Kant lida C0111 uma subjetividade preenchida. Intenção e
dever estão presentes, l11as de um modo que tais sentimentos
for que venha a fazer ou esteja fazendo deve gerar um enunciado
possível de se tornar uma lei para todos. O sujeito moral está
dotado dessa norma, e se considera moralmente errado, instantanea-
mente, ao praticar uma ação que leve a humanidade ao absurdo,

---.
cristãos não se manifestam propriamente como sentimentos e nem caso a conduta individual que está sendo adotada pelo sujeito moral
dependem de uma pureza da alma, em um sentido religioso. Eles for universalizada.
se manifestam como princípios da "razão pura prática". Sua O exemplo clássico que os manuais fornecem é aquele dado
moral não está ligada à noção de intenção como elemento de um pelo próprio Kant a respeito da mentira. Pode alguém mentir para

-•- "espírito puro", e o dever nào aparece C011l0 a obrigação de se


seguir entes superiores. A intenção e o dever, que aparecerarn na
ética kantiana - o funcionamento da razão prática -, dependem de
unla maquinaria subjetiva que é a mesma do esguelna de funcio-
salvar U111 ente querido ou mentir "em favor da humanidade"? Em
outras palavras: mentir em favor da humanidade é um ato moral-
mente correto? Kant respondeu que não, pois a mentira não po-
deria ser universalizada sem autocontradição; se todos mentissem,

• namento do sujeito epistemológico.


A razão, CO~lO faculdade das idéias, mant ém princípios que
quenl saberia quem estaria dizendo a verdade? Ou seja, a univer-
salização de " posso mentir" não é cabível, e então cada sujeito, por
e

e
-• articulam intenção e dever segundo urna autonomia do sujeito,
sem vínculos externos. Tais princípios funcionam exatamente na
ter a razão pura prática funcionando, ouve o alarme interiormeute
- o alarme que denuncia a autocontradiçâo e que mostra que ele
------------------------IIIIIII!I-----------r e
••
deve parar, que não deve mentir porque, se o fizer, estará dando
aval à mentira, a uma regra que não pode servir para todos. No
senso comum, é o que os indivíduos dizem: "Ponha a mão .na
.'
• - ••
Hegel: apogeu do sujeito
••
consciência e veja se isso é certo". Eles estão querendo dizer, kan-
tianamente: "Ponha a mão na razão pura prática e veja que, se todos
fizessem como você, estaríamos em um caos". e término da filosofia
Dessa maneira, Kant dá às idéias metafísicas ou metafísico-
religiosas - Deus, alma, mundo, justiça, liberdade - uma nova força.
Elas se tornam vivas. Acredita-se nelas, pois sern elas não se estaria
••
motivado para viver. Todavia, antes de tudo, elas estão vivas na me- e
dida em que acionam princípios que, em geral, não podem senão
trazer à baila, sempre no momento de se julgar o certo e o errado, ••
o imperativo categórico. Este, por sua vez, aparece em várias formas
nos textos de Kant. Às vezes, prenhe de humanismo, é anunciado
como "Agir de modo a sempre tratar a humanidade, seja represen-
A ~

tada por si mesma, seja por outro, como um fim e nunca como um
meio somente" .
grande virada dos modernos na filosofia consiste em con-
siderar que, no contexto do pensamento grego, há sempre urna re- ••
...
\
lação entre " organism o " e " In undo " que desconhece a atividade do
primeiro, e que a introdução da figura do sujeito, da instância da
subjetividade, traz às relações "eu-mundo" o elemento de atividade.
••
O sujeito é, por definição, o elemento ativo no conhecimento e
na moral. ••
Os franceses, ao falar da subjetividade, não raro usaram a pa-
lavra ãme, a alma em português. Os ingleses, mind, " m ente" em
português. Os alemães, geist, o que em português é o "espírito".
••
Ao se tentar encontrar palavras, em português, que possam repre-
sentar o que cada urna das línguas que dominam a filosofia mo-
••
derna dizem da instância subjetiva, é possível perceber que ingleses,
franceses e alemães não disseram a mesma coisa. Quando diz , em ••
'.
; 1
português, "alma", o falante se refere a algo individual mas não 6-
sico ; quando fala em mente, se refere a algo com forte ligação a
um componente físico, ou seja, o que é cerebral; quando fala em
••
espírito, está se referindo a urna situação mais ampla, coletiva. Usa-se
a expressão "captar o espírito de um livro", mas não se pode achar ••

•-
e M Ip'IM"'MI'''Ui'''. HEGU. : 1\
-,
-
e
e
e
que tal sentença poderia ser substituída por algo C01110 ,.captar a
mente de um livro". Observar tais diferenças ajuda na compreensão
da filosofia de Georg W F. Hegel (1770-1831). Para a língua
Seu projeto é o de fazer filosofia positiva, de explicar o universo,
o homem, as ações, a história, tudo enfim, pela via exclusiva da
razão.
e portuguesa, Hegel fez "filosofia do Espírito". Mas o que é explicar as coisas pela "via da razão"? As ex-

•• Hegel torna a subjetividade o elemento central da 610s06a.


Ele, inclusive, reescreve a história da filosofia corno sendo urna tra-
plicações do mundo podem ser causais e racionais. A explicação
por causas, segundo muitos filósofos, pode levar a um regresso in-

•e
jetória que culmina com o aparecimento da subjetividade. Ao finito, isto é, sempre restaria a pergunta "Qual a causa de Xn?",
mesmo tempo, acredita ter encontrado, con1 o seu sistema, a solução após ter dito que a causa de Xn-l era Xn. Para Hegel, trata-se de
definitiva para os problemas filosóficos , dando um fim à filosofia . um problema - sem solução - dos cientistas e dos realistas , não
e Não um fim no sentido de que dali para a frente todos deveriam um problema sem solução para os metafisicos idealistas, corno ele


--
desprestigiar a filosofia porque ela estaria derrotada, como os bri- próprio. Pois Hegel entende que a explicação depende de se dar
tânicos empiristas chegam a sugerir, mas um fim no sentido de razões, e não causas . A razão, do modo como ele a entende, não
"realização completa" da metafísica. A completude da metafísica se é particular e contingente, é universal e necessária. E por que ao
daria com o "idealismo absoluto" de Hegel. se dar uma razão, e não uma causa, não se cairia no regresso infi-

•• Kant é idealista, mas seu idealismo, comparado ao de Hegel,


pode ser chamado de idealismo relativo. Kant, de forma mais bem
níto? Porque a via idealista de Hegel é uma mudança de paradigma,
não uma resposta à mesma pergunta dos realistas e dos cientistas,

•e acabada, institui a idéia do aparato cognitivo segundo o que, mais


tarde, a filosofia contemporânea consagra conlO a idéia de ..esqueIna-
conteúdo ". Ou seja, em Kant há um aparato mental-racional,
mas a resposta a uma pergunta que ele entende como mais correta.
Ou seja, para Hegel, ao se perguntar pela causa final do Universo
- a pergunta típica do cientista ou do homem comum -, o que se

•• finito, enfim, humano - o esquema - que processa o Inundo


gerando as aparências, não meras aparências, mas o mundo feno-
está buscando é um fato, uma causa primeira para, a partir dela,
explicar todo o resto como sendo efeitos; todavia, ao se perguntar

•• mênico que, embora não seja a coisa-em-si (é claro), é o que se


tem como elementos do saber - o conteúdo. Kant pergunta pela
possibilidade do conhecimento humano e pela possibilidade de o
pela razão do Universo, não se está querendo saber o que gerou
o Universo e sim, qual a racionalidade que, por detrás dos fatos.
administra e produz o Universo. Tal racionalidade, como Hegel a

•• homem vir a se tornar unI ser moral. Kant acredita que, antes de
se construir um sistema positivo de metafísica. é necessário esta-
toma, é uma racionalidade dialética, que faz o universo funcionar
como um Grande Pensamento, movendo-se por tríades de

•• belecer os limites da atuação da razão finita. Na sua terminologia,


isso significa fazer a" cri rica" da razão.
tese-antítese-síntese. Tais tríades são, ao mesmo tempo, Pensa-
mento e Ser. Isto é. Hegel tez a teoria do conhecimento, a epis-
temologia, fundir-se com a teoria do ser, a ontologia. Não há em

••
Hegel não concorda com esse ponto de vista - ele não '-

acredita que a filosofia deva ser "crítica", no sentido kantiano. seu sistema o sujeito cognoscente, de unI lado, em oposição ao
Hegel não é episremólogo. Mas fundamentalmente metafísico. objeto conhecido. de outro, segundo diferenças ontológicas. Sendo

e Não é alguém, como Kant, que torna a razão urna razão finita e assim, não há o incognoscível de Kant, ou seja, a coisa-em-si, e o

•• a enclausur á no sujeito, IDas aquele que vê a raz ão romantica-


mente. ou seja, a envolver todo o mundo, material e imaterial.
cognoscível, o fenômeno. Hegel elimina todo e qualquer vestígio
de mistério da coisa-em-si na medida em que não vê outra
-------------------.. . -------------------------r e
M'RiIªi!@g;."Mi'. HEGEL : A
••
possibilidade racional senão a de admitir que no Universo o Saber,
o Pensamento, não diferem do Ser.
Hegel jamais admite o incognoscível. Tudo que é real é . Espírito
~------------
ser. ••
••
cognoscível e traduzível em categorias universais. Todos os objetos
reais são universais e por isso t êm objetividade. Afinal, o que seria,
por exemplo, uma bola de bilhar senão o conjunto que reúne os
Subjetivo
Objetivo
AbSOlutO.
Essência
Conceito ••
•••
conceitos (universais) como peso, rotundidade, cor, sonoridade

-
etc.? Hegel entende que se alguém nega essas noções termina Mecânica
com absolutamente nada nas mãos, o que faz tal pessoa ter de
Física

••
afirmar que a bola de bilhar que está em suas mãos é o nada. Os
universais, como Hegel os toma, ou seja, como elementos da ordem Orgânica
da racionalidade, do pensamento, são objetivos porque possuem
realidade, não existência (sensível). A bola possui existência! mas isso
porque ela é a sorna de universais. A soma de universais é que forma
FIGURA I

••
um elemento individual, uma coisa, algo com existência.
Assim, Hegel oferece uma solução para o problema da
coisa-em-si, incognoscivel, de Kant. Ser e Conhecer seriam idên-
Esse esquema é bem diferente daquele de Kant. Enquanto
o esquema de Kant corresponde ao aparato subjetivo cognoscente ••
ticos; o ser é o objeto, o que deve ser conhecido pelo sujeito. Mas
ser e conhecer nada possuem de estranho, são apenas dois aspectos
e moral, o de Hegel corresponde à racionalidade do Universo. O
Universo, segundo Hegel, funciona como um sujeito em movi- ••
••
da mesma realidade. Ou ' se aceita isso, disse Hegel, ou então o menta lógico-dialético - uma subjetividade hipostasiada.
conhecimento pleno pareceria impossível, como pareceu a muitos. O sistema de Hegel possui três momentos (lógicos, não-
O sistema filosófico de Hegel pode ser descrito através do cronológicos, embora cronológicos. uma vez que a história é cro-
esquema a seguir (Figura 1). O esquema é mais uma tentativa de
fornecer urna visão de conjunto da explicação de Hegel do Uni-
nologia e lógica simultaneamentci principais do movimento, em
tríades dialéticas, da Razão (a razão, aqui, não é uma categoria na ••
verso. Ele deve ser analisado segundo o texto que o segue. mente do sujeito finito, o homem, mas o elemento que subjaz, em
um plano ontológico. lógico e epistemológico, ao Universo). Esses
momentos são denominados: Idéia, Natureza e Espírito. Tudo
••
funciona em tríades dialéticas. A Idéia cobre uma série de tríades;
a Natureza e o Espírito tamb ém. Todavia, Idéia, Natureza e Espí- ••
rito são. eles mesmos, urna tríade dialética. A Idéia é a tese. a
Natureza é a Idéia alienada de si IneSn1J, a antítese, e o Espírito é
a reconciliação e superação de Idéia e Natureza, a síntese.
••
A Idéia cont ém uma série de triades dialéticas. que se encaixam e
ern uma triade maior, qual seja: Ser ' (tese), Essência (antítese) e
••

•-

ê
e Conceito (síntese). Tal tríade funciona assim: o Ser é a tese, trata-se
,HEGEl.: Ao

espírito é a consciência humana - o conhecimento que o Ho-


e da Idéia em seu momento subjetivo; a Essência é a antítese, trata- mern tem do absoluto na medida em que produz arte, religião e
e se da Idéia já exteriorizada, objetiva; enfim, o Conceito é a síntese, filosofia. Essas três fases do espírito absoluto revelam três momentos
e que concilia a Idéia enquanto Ser e Essência, isto é, enquanto sub- de autoconsciência, urna ampliação fantástica da liberdade e,

•• jetivo e objetivo - Hegel chama tal síntese Idéia absoluta.


O esquema se repete com a Natureza e, depois, com o Es-
pírito, segundo os elementos da figura. A Natureza é a Idéia alie-
enfim, urna destruição completa de qualquer vestígio do incog-
noscível.

•e nada, objetivada; o Espírito, a conciliação de Idéia e Natureza.

--
Hegel chama de Espírito o terceiro grande momento de seu
sistema. A Idéia, C01UO mente absoluta. que existe antes do Universo,

• é Deus como ele é em si mesmo, antes de se manifestar, aparecer.


Sua manifestação é a antítese da Idéia e é a Natureza. A Idéia tem

• ••
realidade mas não tem existência. A Idéia precisa, então, se mani-
festar como Natureza para ter existência. No Espírito, há o retorno
do que existe, a Natureza, para junto do que tem realidade, que é
a Idéia. No Espírito a Idéia não será apenas em-si, mas também


para-si. O Homem é o elemento do Espírito; é ele que existe na

- ••
natureza e ao mesmo tenlpo é um ser espiritual. Assim, o Espírito
mostra sua triade principal, sob a qual há outras tríades. Sua tríade
dialética principal é a de espírito subjetivo (tese), espírito objetivo
(antítese) e espírito absoluto (síntese). O espírito subjetivo é o es-

••
pírito humano fechado na sua subjetividade - a psicologia humana
comporta desejo, emoção, percepção, memória, inteligência etc.
Essas categorias subjetivas, no espírito objetivo, tornam-se exte-

•• riores. e então há o mundo da moral, do direito, da história, da po-


lítica etc. Essa parte da doutrina de Hegel é importante, uma vez

••
que o Estado aparece aqui corno expressão coletiva e não corno
expressão individual. O Estado e o direito não são impostos: são a
exteriorização da mente e, assim, não estranhos ao homem corno

•• indivíduo. Por 6t11, o espírito absoluto é a superação (síntese) dessa


dicotomia entre mente e regras sociais - o que ocorre é que a
mente torna consciência, em sua subjetividade, da objetividade das
ta
••
regras so ciais, O Espírito. neste momento, se percebe idêntico a

.
todo ser e a qualquer realidade. Ele contempla a si mesmo, Tal

e
.. Parte ••
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Os críticos dos modernos ••
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•• A solução de Hegel para os impasses da metafísica - diferen-

•• temente da de Kant, que circunscreve o sujeito - é a de hipostasiar


o sujeito. O " m u ndo " se comportaria como pensatnento, conlO

••
urna razão infinita, enfim, estaria em ati vidade conl O o que se
espera do sujeito - o elemento ativo na expressão "relação sujeito-
objeto", aquela que domina o discurso da filosofia moderna.

•• Os manuais de história da filosofia, não raro, explicam


Hegel comparando-o com Kant, O diferencial en tre ambos, para

•• os manuais, recai sobre a noção de "razão" . Kant lida com a razão


finita , Hegel pensa em uma razão infinita. Kant é o fil ósofo típico

••
do Iluminismo, Hegel tem a marca do Romantismo. A " razão ilu-
minista" é a razão humana, individualizada. que enfrenta o mundo
e o transforma; a " razão rom ântica' não é apenas UJl1a razão hu-

•• mana, finita, ela perrneia todas as coisas materiais e imateriais sus-


tentando a " racionalidade do Inundo". A razão finita, iluminista,

.•• de scobre seus limites, suas capacidades e funçàes no campo do co-


nhecimento e no carupo rnoral- esse é o trabalho de Kant na sua
"crítica da razão". A razão infinita, romântica, mostra-se positiva e,
por isso mesmo, segundo Hegel, não há sentido na idéia de algo

e •
--------------------------~------sr
. .",oGum #"t'I"Nil d' o ,sUJFJTO MODERNO E -••
incognoscível: " o real é racional e o racional é real", querendo de filósofos do século xx interessados não somente em crítica social,
••
corn isso expressar que a racionalidade não é uma fantasia ou uma
idéia que se poderia colocar sobre a realidade, encampando-a, mas
como parte dos marxistas, mas sobretudo na produção do conhe-
cimento, nas possibilidades de a epistemologia ser a pedra de toque ••
é, sim, a própria realidade ; e que a realidade nada poderia ser se
não fosse racional. Daí que, no plano do conhecimento, para He-
gel, não cabe qualquer elemento que não possa ser-apreendido. O
da metafísica etc.).
O eu é a identidade formada das vivências psíquicas. É a
forma de consciência mais singular, pois as vivências psíquicas são
••
sistema metafísico hege1iano seria, exatamente, a prova de como
livrar-se do resto de ceticismo que Kant, por admitir a coisa-em-si,
o que o sujeito menos compartilha com seus pares. É o que há
de mais individualizado da subjetividade. A pessoa é a consciência ••
o incognoscível, teria mantido vivo. moral; o sujeito como juiz do certo e do errado, do bem e do
e
Se em vários call1pos do pensamento filosófico Hegel deixa
herdeiros e descobertas, o que não sobrevive de sua doutrina é a
crença dos homens a respeito da infinitude da razão, o que impli-
mal, O cidadão é a consciência política; o sujeito como o juiz dos
direitos e deveres da vida na cidade. O sujeito epistemológico é a
consciência intelectual; o sujeito como juiz do verdadeiro e do
••
" caria a racionalidade do Inundo. Aos poucos, o panteismo da ra-
zão, defendido por Hegel, entra em descrédito, uma vez que o
falso; o detentor da linguagem e do pensamento conceitual;
trata-se da forma de consciência mais universal. ••
"mundo" se mostra pouco racional, 11leSmO no sentido " di alético"
desse filósofo (a dialética, uma linguagem que permite a admissão
dos contrários, sempre poderia servir para justificar as mais dispa-
A subjetividade assim composta, COll10 a consciência que se
manifesta nessas quatro formas principais, é a instância na qual o
homem (empírico ou abstratamente genérico) deve participar,
••
ratadas aventuras de quaisquer coisas do mundo). O próprio Ro- segundo o que é pregado na filosofia moderna e na doutrina do e·
.f' mantismo, C01110 um movimento cultural geral, torna-se apenas
"uma concepção de mundo a mais", e a teoria do conhecimento
Humanismo filosófico. Se conseguisse isso, autenticamente, o
homem tornar-se-ia o sujeito - por definição: " aquele que é cons- ••
volta a considerar o sujeito kantiano C01110 um modelo mais plau-
sível de ser levado adiante.
Assim, vários filósofos desconsideram Hegel e seu panteísmo
ciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos".
É exatamente essa noção de sujeito moderno - o indivíduo
autônomo - que cai na berlinda nos séculos XIX e xx, pelo menos
••
da razão e tomam a subjetividade segundo Ulll modelo mais
próximo do de Kant - U111 modelo geral, que engloba quase tudo
para certos filósofos. No final dos últimos trinta anos do século xx
essa crise chega, então, a ganhar contornos mais nítidos nos livros ••
o que se pensa dela entre meados do século XVII e come ço do
sé cu lo XIX . Tal modelo descreve a su bj etivi dade atrav és d e "formas
da consciência". Assirn, poder-se-ia pensar a subjetividade 1110-
de filosofia , em especial nas obras de Jürgen Habermas, Richard
Rorty,Jean-François Lyotard e Michael Foucault.
Todavia, antes desse s pensadores citados, o movimento de
••
derna corno sendo constituída por quatro formas básicas, finitas,
de consciência: 1) o eu, 2) a pessoc1 , 3) o cidad ão e 4-) o sujeito epis-
crítica e/ ou desconstruç ão da subjetividade moderna come ça
pelas mãos, entre outros, de cinco grande pensadores: Darwin, ••
temológico (é claram en te possível adotar essa terminologia u sando
o sistema hegeliano, mas, aqui, o que segu e em frente é tal terrni-
nologia acoplada ao modelo kantiano, pois é o neokantismo qUê é
Marx, N ierz sche, Freud e Wittgenstein. Cada peça que colocam na
filosofia contemporânea se torna um tijolo a menos - diferenciado
- no edifício da "rnetatisica da subjetividade" (já atacada, em parte,
••
divulgado e se torna a pedra de toque de urna parte considerável por Hume).
••
e

-
~

e
e
e
. .puu@"·••,,,m,,.

Esses CInco homens fustigam a subjetividade moderna e, fornecendo a doutrina humanista de Descartes até Kant e passando
com isso, atormentam aqueles que se colocam na busca de "critérios por Rousseau. Essa idéia é um incômodo diante das descobertas
e para a verdade" na base do sentimento de evidência, de certeza, de Darwin,
e segundo o modelo filosófico em que reina a expressão "sujeito- Karl Marx (1818-1883) não importuna o humanismo

•• objeto". Criticando a subjetividade, esses filósofos atingem


também a noção de homem da doutrina do Humanismo, já que
tal noção, entrelaçada à de indivíduo moderno, é uma derivação
menos que Darwin. Ele inventa a noção moderna de ideologia. A
partir daí, declara que o homem tem de fato consciência de suas
idéias e atos, mas se trata de uma "falsa consciência". O homem,
e da noção filosófica de sujeito. O ataque é danoso para o sujeito e segundo ele, age como falso sujeito, pois não é de fato senhor de
e seus pensamentos nem o responsável único por seus atos. Para o

.
para a metafísica moderna.
e Darwin, Marx e Freud fustigam a noção de sujeito moderno
e a "metafísica da subjetividade", mas não são radicais o suficiente
marxismo, o capitalismo, em geral, e o mercado, etn particular,
produzem os fenômenos da reificação da consciência (a consciência

-
para apontar para uma filosofia que despreze toda e qualquer tornando-se coisa) e do fetichismo da mercadoria (a mercadoria
e noção de sujeito. Por isso, ficam com um pé nos tempos con- tornando-se algo vivo diante dos homens), o que transforma o
temporâneos e um outro, ainda, fincado nos tempos modernos. homem em um ser alienado e incapaz da autodeterminação pro-


•C-
Nietzsche e Wittgenstein vão mais longe nesse assunto. posta pelo ideário iluminista. Com Marx, o próprio Iluminismo,
Charles Darwin (1809-1882) ataca a idéia de sujeito ao por ter prometido que o homem poderia se auto-esclarecer, de-
fustigar um derivado desta, a concepção geral da doutrina do Hu- veria ser visto corno ideologia.
manismo, ou seja, a idéia de que quem é o sujeito é o homem, e Sigmund Freud (1856-1939) também ataca o humanismo
que o homem moderno, o indivíduo autônomo, é o sujeito par na medida em que diz que a subjetividade, montada nas "formas
excellence. Coloca uma pedra no caminho da doutrina humanista da consciência", não pode sustentar uma definição compatível
com a de sujeito moderno ou de indivíduo - aquele que é "cons-
na medida em que diz que o homem é apenas um elo na longa
ciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos". Isso
corrente da evolução, e não um ponto à parte, especial. Entre um
porque, enI suas próprias palavras, o eu "não é senhor em sua pró-
protozoário de épocas remotas e o homem atual não haveria des-
pria casa". Freud diz que há mais alguém com o eu, um super eu e
continuidade e sim, apenas diferença de grau. Os filósofos que
Uln infra eu - o inconsciente (o superego e o id). Os processos in-
levam Darwin a sério têm de admitir que fica cada vez mais
conscientes, então, são vistos como os que de tato dão as cartas
difícil aceitar que, ao se olhar a história e a antropologia. pode-se
para a conduta humana. Ser racional, capaz de conhecer, ou ser
apontar, independentemente da linguagem C01110 um dos ele- racionalmente honesto, depende pouco dos ditos agentes humanos,
mentos também surgidos no processo natural da evolução, algo pois estes estão à mercê de forças internas que nem selllpre eles
C01110 a consciência - urn pe115cUnento interior que funcionaria próprios dominam,
como um núcleo do que seria autenticamente humano, distinto Esses três pensadores são, paulatinamente, lidos no decorrer
de todo o resto, um núcleo direta ou indiretamente ligado ao supra- do século xx, e continuam sendo lidos hoje, de um modo que
sensível. Essa idéia do "núcleo" está presente em quase todas as fomentam perguntas bastante desagradáveis em relaçào à doutrina
concepções de sujeito que se associam às concepções de homem. do humanismo e à "metafísica dasubjetividade".

••
••
Assim, os darwi niarios perguntam: "O que devemos
pensar do sujeito C01110 indivíduo humano, aquele que possui
consciência, se o homem é visto COI110 contínuo com os seres
sem consciência?" .
Os marxistas questionam: " O que é dizer que o homem é
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sujeito se ele, de fato, no capitalismo, é objeto e não o sujeito (o su-
jeito é o capital)?".
sujeito e" ati.1CJLJe a
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"-

••
Os freudianos emendam: "Como fica a autodeliberação, em
que Kant tanto confiou, se quem delibera não é o homem cons-
ciente e sim, forças inconscientes?".
mete f-{s i ca mooerne
••
Essas perguntas, uma vez voltadas para a filosofia e, enfim,
para a doutrina do humanismo moderno, colocam dúvidas sobre ••
o ideal filosófico e pedagógico moderno: de que modo o ho-
mem poderia vir a "ser consciente de seus pensamentos e res-

A ••
'.• •
ponsável pelos seus atos" se isto, que é a definição moderna de
sujeito, muítas vezes singularizada na idéia de indivíduo autônomo, critica de Friedrich Nietzsche (1944-1 990) em relação a
torna-se algo questionável e, talvez, uma noção ultrapassada? todo esse projeto humanista é, antes de tudo, urna crítica à noção
tradicional de verdade. Não se apresenta corno uma crítica direta ', '

à noção de verdade estabelecida pela metafísica e/ou pela episte-

••
mologia. Trata-se de uma crítica oblíqua, porque não é diretamente
filosófica, mas é filosófica por meio do uso de instrumentos reti-
rados da antropologia, da história, da psicologia e de outros campos.
Não é um critica "interna" (corno a de Wittgenstein, por exemplo).
É uma critica filosófica, sem dúvida, mas vinda de fora da argu- ••
mentaçâo que a filosofia, em tese, exigiria, que seria a crítica sem
tantos pressupostos. Todavia, nem por isso é menos demolidora.
No aforismo 16 do livro Além de bem ou mal, Nietzsche
••
coloca, contra os filósofos, a fustigante pergunta: " Por que selnpre
a verdade?" . Nietzsche não diz que a verdade, seja ela o que for,
••
é algo impossível de se alcançar. Na sentença acima , insinua que
3 "vontade de verdade ". sernpre presente nos filósofl1s, lhe parece ••
U111 desejo cujos verdadeiros motivos são inconfessáveis pelos

próprios filósofos ou, talvez, nem eles mesmos saibam o que os


motiva para t3I. Segundo ele, desde Sócrates - o "homem teórico"
••

..•
•e • N'tlid!iP'li§'t'I"U''Ih' NlETZSCHE: CRíTICA A

e
e par excellence - os filósofo s encarnam as figuras talvez mais repre- porque os filósofos, eles mesmos " fr acos" e "doentes", já teriam
e sentativas do niilismo (a perda da " vontade de vida", de entusiasmo),
ou seja, as figuras que desgostam da vida, que fogem da vida
experimentado em si mesmos tais remédios - COt11 sucesso !
Essa crítica de Nietzsche à busca da verdade pelos filósofos é
e co m o algo complexo. O filósofo vive por meio da fuga da o que alimenta sua crítica à noçào de sujeito. A subjetividade mo-
e vida. Mas esta fuga da vida ainda não é o niilismo completo, pois

••
derna promete a certeza corno aval da verdade. Nietzsche quer que
tais homens, os filósofos, ainda desejam viver e vencer, mesmo seus leitores desconfiem da própria subjetividade e, então, a partir
negando a vida e, de vez em quando, dizendo que desdenham a daí, fazer ruir todo o edifício metafísico que promoveria o bálsamo

•e vitória. Segundo Nietzsche, a vida é tudo >- é a práxis que inclui


o verdadeiro e o falso e não só o verdadeiro ; inclui o bem e o mal
e não só o bem. E entre o bem e o 111al, e o certo e o errado, não
da alma. Por quê? Ora, porque, para Nietzsche, a felicidade está em
viver sem a angústia provocada por essa busca desenfreada pelo
conforto espiritual. Ou seja, o homem pode transcender sua con-
e há hierarquias " escritas nas estrelas " , postas antes da prática dos dição humana e ser alguém capaz de amar a vida e vivê-la. A crítica

•e homens que valoram e optam. Os filósofos, diz Nietzsche, não su-


portam que a vida seja assim, algo mais complexo do que em
à subjetividade faz parte desse seu projeto. Ele a critica através de
uma estratégia originalíssima: uma análise filosófica da moral asso-

•• geral os homens gostanl e menos controlável e predizível do que


os modernos acreditam. Há urna terrível angústia envolvendo
tudo isso, pois aceita>:" todos os lados da vida é aceitar a vid a
ciada a U111a análise filosófica e filológica da linguagem.
Se Marx considera o sujeito U111a produção ideológica,
Nietzsche, por sua vez, considera o sujeito urna ficção - uma ficção

•• em tudo o que ela proporciona - um reino complexo de contin-


gências - , e os filósofos são, para Nietzsche, os menos aptos a se
gramatical. A explicação disso é o que segue.
Níetzsche toma C01110 pressuposto que a linguagem se

•e desfazer dessa ân sia por estabelecer um Inundo fixo e completa-


mente aberto aos olhos do homem. Segundo ele, filósofos procuram
desenvolve na medida em que o homem deixa de ser guerreiro,
selvagem, e passa a viver em Ulna situação de paz, comunitária-

••
uma certa tranqüilidade, buscam um conforto - o ..conforto mente.Vivendo socialmente, o homem cria a linguagem. Monta-se
metafísico " advindo da certeza. Então, quando Nietzsche pergunta a linguagem de modo tal que, obrigatoriamente, pela própria
"Por que sempre a verdade?" está tentando denunciar que a estrutura da gramática, coloca-se U111 sujeito para desempenhar

•• busca da verdade é, sim, apenas a busca de conforto espiritual. Os


homens, assim, são "fracos"; sua " vo n tade de verdade" é na verdade
urna ação em uma boa parte dos enunciados, na maioria das línguas.
Nierzsche diz que o sujeito não é uma estrutura ontológica e situo

••
apenas UIn desejo de acalento para a alma: a busca de um porto apenas urna estrutura lingüística, cornunicacional. No entanto, diz
seguro, imutável, cujo emblema m áximo é o " ponto arquimediano" ele, no decorrer do uso da linguagern, o homem. cada vez mais ,
solicitado por Descartes. substancializa merafisicamente tal elemento lingüístico. Fazendo

•• Os filó sofos, corno médicos da alma humana, fornecem


remédios especiais e por eles próprios utilizados; utilizados pelos e
assim. acredita em seguida que o suj eito é urna entidade C001
pleno status ontológico. Para Nietzsche, há nesse processo uma

•• no s homens "fracos" - as religiões da piedade, a metafísica que diz


dar a verdade, os valores modernos vindos da democracia que,
com argumentos que seriam pouco convincentes, estariam afir-
ontologização da linguagem.
Nietzsche acopla esse movimento de ontologização da lin-
bJ113gem, de substancialização do sujeito, à sua maneira de ver a

•• mando que todos são e devem ser iguais. Tais remédios são certeiros, história, ou seja, à suafilosoJia da história. Para ele, o homem é vÍ-

e
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tirna do crescente niilismo na história, isto é, o crescente desgosto
pela vida que atinge os humanos desde os tempos de Sócrates. E
não uma quimera. Pois esta moral nova se apresenta corno UI11a
opção, e ela própria implica sempre em optar, em que se dê um ••
o niilismo exigiria dos humanos a ontologização da figura do
sujeito moderno. Por quê? Como?
Nietzsche usa a idéia de niilismo como elemento central da
crédito à liberdade COl110 um fato do Cosmos . Que liberdade? A
liberdade de cada U111 - a autonomia -, ou seja , a condição para ••
••
a definição do sujeito autêntico, o indivíduo rnoderno, aquele
sua filosofia da história, e coloca alguns marcos segundo os quais que é "consciente de seus pensamentos e responsável por seus
poder-se-ia notar o avanço da difusão do niilismo. O aparecimento atos"; a liberdade se manifestando na idéia de que o homem
de Sócrates, o nascimento de Jesus, a vitória dos hebreus sobre os
romanos no plano religioso, a Revolução Francesa e todas as
livre é aquele que pode optar, que pode dizer que optou em ser
"bom", enquanto o outro (o "forte") não quer fazer tal opção e ••
••
revoluções democráticas, o aparecimento de idéias socialistas etc. se mantém cruel. Isto é: aceitando a idéia de sujeito moderno,
- todos esses elementos são marcos de desaparecimento contínuo aceita-se também a idéia de liberdade embutida nele, como
do predomínio da mentalidade dos "nobres", "fortes" e "sadios" autonomia, e, assim, pode-se julgar "fracos" e "fortes", "escravos"
diante do poder corrosivo da mentalidade dos "plebeus", "fracos"
e "doentes". Não se deve aqui tomar ao pé da letra tal terminologia
e "senhores". É possível afirmar que os "senhores" poderiam
optar por não ser "senhores", 111as se mant êm corno senhores, ••
••
de Nietzsche. Deve-se considerar que ele está construindo uma cruéis, na medida em que ou não são sujeitos - não possuem a
tipologia, em que a história é a história na qual os "escravos" consciência moral apurada - , ou optam realmente por não seguir
vencem sen1pre, em detrimento dos "senhores". Os "senhores" são

••
as regras morais, optanl por não ser bons, humildes, os que sabem
senhores, na tipologia de Nietzsche, porque desfrutam da vida
perdoar. Nietzsche embute essa sua " teo r ia dos fortes e dos
como ela é, enquanto os "escravos" não aceitam a vida, a negam;
fracos" , que é um elemento de sua filosofia da história, para
assim fazendo, conseguem sobreviver na condição de escravos, de
sofredores. O niilislno, ou seja, o desgosto com a vida, é fruto da
explicar os motivos pelos quais, em cada linguagem, o sujeito foi
e
\
mentalidade e do sentimento dos "escravos". Nietzsche denomina
tal avanço do niilismo, em seus pontos culminantes, corno a
deixando de ser partícula lingüística para se tornar um conceito
e, a partir daí, um ser, uma possibilidade efetiva - a possibilidade
efetiva de cada UlTI ser livre. Foram os "escravos" , os "fracos" que
•e
i:
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"revolução da moral" feita pelos "fracos" e/ ou "escravos". O que
é essa revolução? É exatamente o advento da mudança de senti-
agiram assim e continuam a fazê-lo. Eles su bstan cializararn e
substancializam a partícula lingüística chamada sujeito. Dão-lhe ••
••
mentos morais, em que a rnoral dos "s en h o res" é considerada uma
um contorno filosófico e um corpo humano e uma cabeça
não-moral, urna imoralidade, diante da " m o ral dos escravos" , que'
humana - "livre" -, e assim podem impor um julgamento moral
passa a ser a rnoral par excellencc. O que diz, segundo Nietzsche,
essa moral?
A "moral dos escravos" faz cada homem aceitar a existência
em que eles. os "fracos ", Ser ial11 "bons" e o s "fortes" seriam
julgados "maus".
A definição de sujeito moderno implica a liberdade. Pode-se
••
••
de coisas para as quais é necessário, antes de tudo. a existência da
liberdade. Isto é, tais coisas são os preceitos morais novos, que se escolher, quando se é um sujeito (Ul11 ser ativo e livre) , entre ser
tornam então o 110\'0 senso comum, e que implicam a aceitação, bOl11 e ser mau. Essa é a doutrina da filosofia do sujeito e do
por parte de cada homem, da idéia de que a liberdade é um fato.
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humanismo, segundo Nietzsche. Para ele, essa doutrina não passa
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ta de uma estratégia da ovelha para inculcar culpa no lobo, enfraquecê-lo que adquire a "má consciência"; ele se sente culpado - um sen -
e e dominá-lo, timento que de jamais havia experimentado, Ou seja, ele se torna
e O exemplo de Nietzsche é significativo. O lobo estranha urna ovelha ou algu ém dominado pelas ovelhas. Os "fracos"
que as ovelhas digam que ele, lobo, não gosta delas. O lobo diz: vencem os "fortes". Assim, a (lida perde. O niilismo avan ça , Essa é
"Corno não gosto de vocês? Gosto tanto que quero comê-las". É a visão da história da cultura de Nietzsche.
preciso ter claro que não há cinismo no lobo. Ele usa a pal avra A-ficção-da-linguagem-que-cria-o-sujeito é urna idéia que
" gostar" da única maneira que lhe é permitida pela sua condição Nietzsche propõe para introduzir a desconfiança em relação à
- sua condição natural e existencial de lobo. Mas as ovelhas dizem: idéia de sujeito, e de verdade que depende desta idéia, pelo menos
"Não, não, você, lobo, podia muito bem optar entre ser mau e ser para a filosofia moderna. Nietzsche entende que pode desmascarar

; bom; você podia fazer como nós, ovelhas, que poderíamos ser
más , mas optamos por ser boas " . Esse é o engodo das ovelhas, diz
Nietzsche: elas pregam a doutrina de que o lobo pode agir como
essa ficçào da linguagem na medida em que mostra suas origens,
ou seja , sua utilização em prol da paz comunitária e, assim, ern
favor de um julgamento morai do lobo - o julgamento moral do s

-: sujeito - isto porque o sujeito existe, como garantiu o Humanismo >,


ou seja, o lobo pode se autodeterminar e, assim, ser bom, piedoso;
no limite, virar vegetariano! O lobo, é certo, em um primeiro
momento, insiste em que ele não entende o que as ovelhas dizem;
"fortes" feito pelos "fracos" - para condená-lo e retirá-lo da vida
comunitária, caso ele não aceite mudar. O sujeito é, para Nietzsche,
aqui, apenas uma peça ficcional a mais na luta dos "fracos" contra
os "fortes" (o elemento que faz acreditar na liberdade) na qual os


tt
e
afirma que não consegue ver o que é " ser sujeito " , pois tal enti-
dade não existe. Mas logo percebe que não tem argumentos, pois
a própria linguagem, na sua estrutura gramatical, traz a função de
sujeito; e tal função é entendida para além de mero dispositivo
primeiros seInpre estão ganhando dos segundos por conta desses
ardis. Trata-se da "astúcia plebéia" , corno denomina Nietzsche a
inteligência dos " fracos" , das "ovelhas" , dos " h om ens modernos"
e de seus "m édicos de almas" - os filósofos modernos.

e capaz de fornecer uma semântica restrita. Ela fornece uma semântica Assim, considerando esse ataque de N ietzsche à figura do

.•
e que é a semântica do Humanismo e do Iluminismo: sujeito é
aquele que é "consciente de seus pensamentos e responsável por
seus atos" , "aquele que se autodetermina".A filosofia moderna-
como está em Kant - quer fazer todos reconhecerem sua condição
sujeito. quais as suas conseqüências para a filosofia moderna?
A filosofia moderna, atingida por Nietzsche, perde seu alvo,
seu objetivo. A conseqüência disto aparece. entre outros lugares, no
Call1pO educacional. Quem educaria U111 filho para se transformar

•e de sujeitos, pelo menos em potencial, e, em relação às crianças,


criar uma pedagogia para transformá-Ias em sujeitos. O lobo
em sujeito se este não passa de urna ficção, de um ardil? No limite,
toda a filosofia moderna se mostra C01110 urna ficçào. Para alguns,

•• insiste que ele é adulto e sabe o que tem de saber, 111as que não segundo essa crítica nietzschiana, toda e qualquer filosofia pode
pode ser suj eito no sen tido que as ovelhas dão ao termo. Mas ficar impedida. Pois o que seria urna filosofia que nào tivesse corno
logo ele percebe que está perdido, pois a semântica de toda a meta transformar o homem em um indivíduo moderno, corno

•e comunidade é a sem ântica moderna, liberal-democrática, cristã -


a semântica das ovelhas. Ele, lobo, quando menos espera, interio-
sujeito?
E mais : quen1 diria que está com a verdade, que pode ter

•• riza essa sem.intica e passa a se sentir culpado por não ter optado
em poupar as ovelhas, e, então, torna-se um "fraco" na medida em
evidências que garantem a verdade? Os procedimentos ensinados
pela filosofia moderna, que fazem j verdade depender do sujeito,

e
e
••
•e
ficam abalados quando este é desmascarado como uma ficção "
produzida por um jogo de poder - para usar uma expressão que se
populariza, no século xx, por conta do nietzschianismo de Michel
Foucault (1929-1981) . Assim, não são só as finalidades da moder- Oe
• ••
•e
nidade que entram eIn crise, luas também a idéia moderna de que
é natural confiar em um saber chamado de verdadeiro, ou seja,
legítimo não só porque é científico mas porque é fundamenrado
VV i tig c 11 5 te i /1: 05 estertores ••
epistetnologicamente e/ou metafisicarnente. Também por essa via
tia filosofia moderno e
a filosofia moderna se vê em apuros.
e
e
e
••
Netzsche chega a uma cntica do sujeito a partir de uma
visão particular da história da cultura no Ocidente. Ele desenvolve
sua argumentação oposicionista com os instrumentos da crítica
. :•.•
da linguagem. Resumidamente, a crítica da linguagem começa
com sua análise das palavras "bom", "mau" e "ruim". Ele as
••
,)

observa no interior do quadro de sua teoria da divisão entre


"fortes" e "fracos".
Segundo ele, o "forte" possui em seu vocabulário o par
•e
"bOIU"- "ruim", enquanto o "fraco" possui o par " bom " - " m au ".
Isto é, o forte qualifica o fraco não como "mau", em um sentido •e
moral , mas apenas como "ruim", em um sentido técnico: aquilo
ou aquele que não funciona: aquilo ou aquele contra o qual nem ••
••
vale a pena lutar, pois é de qualidade r écnico-funcional desprezível.
No entanto, não é assim que age o "fraco " . Ele utiliza para si próprio
a palavra "bom ". corno aquele que perdoa , que não revida ao
ataque: e o contrário de "bom" , para ele, é "rnau" - na verdade.
para o fraco, o "mau", em um sentido moral portanto, é o forte, ••
aquele que poderia conter sua cspa~a n13S opta por não fazê-lo.
"Mau". aqui, não é UlTIJ palavra utilizada em sentido meramente
••

•e
e liRlllIiíI1
e
e
•e técnico, 111as em sentido moral: a moral dos "fracos", que se
baseia na idéia da liberdade e, como está dito acima, na idéia do
filosofia moderna da consciência, solapando o Humanismo e os
preceitos da modernidade.
Mas, de fato, o que faz Wittgenstein?
e sujeito corno instância de decisão moral livre, segundo sua cons-
Um dos interesses de Wittgenstein é o da relação entre pa-
e ciência.
A critica de Nietzsche à "metafísica da subjetividade" foi lavras, pensaluentos e estados da mente. Sua idéia básica consiste
e sustentada por uma crítica da moral, principalmente de uma em que, na linguagem, o que humanos fazem é estar em franco
e desempenho con1 jogos lingüísticos, pesformance no trabalho de uso


determinada moral, a moral judaico-cristã. Nietzsche pode ser visto
como tendo feito filosofia moral, como alguém que discutiu as das palavras. As palavras, segundo ele, não podem ser entendidas
fora do contexto de atividades humanas não-lingüísticas no qual
e profundezas da ética do Ocidente e da modernidade. No entanto,
talvez o mais importante em Nietzsche seja o instrumental com o o uso da linguagem é confeccionado, tramado, urdido. As palavras
e

~
e
qual filosofa. Ele age a partir de uma análise da linguagem, isto é,
filosofa a partir de uma observação sobre o emprego das palavras,
sobre o destino semântico dos ruídos e sinais humanos. Nietzsche,
nesse caso, é um filósofo da linguagem e um pragmatista avant la
e suas circunstâncias comportamenrais constituem o jogo de lingua-
gem. Palavras são como instrumentos: suas funções diferem como
diferem U111 serrote e uma chave de fenda. Suas diferenças, no
entanto, estão escondidas sob a aparente uniformidade de sons que

•--
-
lettre. Nietzsche não constrói sua teoria da moral dos "fortes" e dos
"fracos", sua teoria da "revolução dos escravos na moral" única e
exclusivamente a partir de uma compreensão que um filósofo
aparecenl no ar e de impressões visuais no papeL Essa similaridade
faz com que sejam assimiladas, todas, a nomes, e assim surgern as
tentativas de explicar seus sigl1fficados apontando para os objetos
que elas posicionam ou fixam. Todavia , sezundo Wittzenstein , o

e--
atento aos problemas éticos possa vir a ter, mas a constrói com ,-' ~

base em sua formação profissional de filólogo - isto lhe dá urna modo de entender o significado de uma palavra não deve ser este,
o de ficar atento ao objeto para o qual ela aponta ou para o qual
e grande vantagem e o coloca na contemporaneidade, em que vale
a "virada lingüística" (/inguistic tum).
entendemos que ela aponta. As palavras devem ser estudadas no
e interior do jogo de linguagem à qual pertencem, para que seja

••
Wittgenstein, por sua vez. é um filósofo já completamente
possível verificar corno contribuem na atividade comunitária de
inserido na virada lingüística (linguiscic rum) e, para a maioria dos
um grupo de usuários de urna determinada linguagem. Assim, no
historiadores da filosofia, ele é a grande figura das escolas de filo-
geral, o significado de urna palavra não é um objeto que ela posi-
e sofia que surgem em tal contexto: a figura que privilegia a filosofia
da linguagem para enfrentar problemas deixados pela metafisica e
ciona ou fixa, nus antes, o que se pode dizer de seu uso em uma
e pela epistemologia.
linguagem.
e Diferentemente de Nietzsche. ele não escreve muito sobre
A observação dos jogos de linguagem, como Wittgenstein a

•e temas históricos e culturais. Mas escreve sobre a noção de sujeito


de um ponto de vista não menos interessante que o de Nietzsche.
interpreta, mostra que nem todas as palavras são nomes, e que
nomear nào é tão simples quanto pode parecer à primeira vista.
Para se nomear algo não basta confrontar esse algo COOl a emissão

•e Os manuais enfatizam que Wittgenstein faz J crítica à idéia


da "linguagem privada". Essa crítica é um belo e importante
exemplo de como a filosofia do século xx l~ continuameute
de um S0I11, porque solicitar e dar nomes são atividades que só
podem se realizar no contexto de um jogo de linguagem. Assim é

e corrosiva em relação aos pressupostos da filosofia do sujeito, da


também no caso relativamente simples de nomear um objeto


r
_ I."'.'·'"MII''' DE NIETZSCHE A WITTGENST
•e
e
e
material, e é claro que tudo se complica ainda mais quando se
trata da nomeação de eventos e estados mentais, como sensações
que só pode ser conhecido pelo falante da linguagem. O jogo
de linguagem corn a palavra em português "dor" não é uma lin- •e
e pensamentos.
Wittgenstein se debruça sobre essa questão: como a palavra
guagem privada; uma pessoa pode muito freqüentemente saber
quando urna outra está com dor. Nào é por meio de qualquer
definição solitária que" dor" torna-se o nome de uma sensação:
••

"dor" funciona corno o nome de uma sensação? En1 geral, há o
caminho fácil de se pensar que, para qualquer pessoa, a palavra é, antes, por formar uma parte de um jogo de linguagem comu-
"dor" adquire seu significado por meio de sua correlação com nitário. Por exemplo, o choro de um bebê é espontâneo, é uma e
a sensação de dor privada e incomunicável de cada um. O que
Wittgenstein diz é que se deve resistir à tentação de ver as coisas
expressão pré-lingüística de dor; depois, gradualmente a criança é
treinada pelos pais a repetir isto com a expressão convencional, a
e
sob essa perspectiva. Segundo ele, nenhuma palavra adquire signi- expressão aprendida de dor. Assim, a linguagem de dor é enxertada e
ficado desse modo. Simplificando ao máximo sua argumentação, é na expressão natural de dor. e
o que segue.
Suponha que alguém deseje batizar uma sensação privada
Toda a argumentação de Wittgenstein contra a possibilidade
de uma linguagem privada não é algo útil exclusivamente como ••
•e
com o nome de "S~'. Seu procedimento seria o seguinte: fixa sua alimento das suas próprias discussões na construção técnica de sua
atenção ~1a sensação a fim de correlacionar esse nome "S" com tal filosofia. Ela extrapola esse nível e atinge diretamente toda uma
tradição filosófica, A tradição que vem de Descartes e chega ao

••
sensação. Qual o alcance desse método? Quando, depois, este
alguém quer usar o nome "S", como saber se está procedendo filósofo inglês David Hume, isto é, as duas grandes escolas de file-
sofia moderna: a escola racionalista e a escola ernpirista.
corretamente? Uma vez que tal nome nomeia uma sensação
privada, ninguém mais pode conferir se seu uso está correto. Nem
o próprio nomeador. Antes que possa conferir se "isto é S" é uma
Ambas as escolas entendem o pensamento de maneira
peculiar. Para elas, uma mente individual, pelo pensamento, pode
classificar e reconhecer seus próprios pensamentos e experiências;
.e-
•e
afirmação verdadeira, o nomeador precisa saber o que ele próprio
quer dizer con1 a sentença "isto é S", seja ela verdadeira ou falsa. enquanto isso, tal mente mantém em suspenso a questão da exis-
tência do Inundo externo e de outras mentes. Uma tal posição
Como então alguém pode saber que o que diz neste momento ao
(como a das "Meditações" cartesianas) parece implicar a possibi-
enunciar "S" era o que queria dizer quando batizou a primeira
sensação de "S"? Pode apelar para a memória? Não, pois para agir
lidade de uma linguagem privada ou de algo semelhante. Se e
assim deve poder evocar a memória correta: para que possa evocar
Wittgenstein está certo, tanto a escola ernpirista conlO a raciona- e
a memória de S já deve saber, de antemão, o que "5" significa. Não
lista recebem aqui um duro golpe. e
há. afinal, nenhum exame do seu uso de "S'·. nenhuma possibili-
dade de correção de qualquer mau uso. Isto significa que falar de
Alguns filósofos empiristas afirmam que as únicas "questões
de [1tO" possíveis de se conhecer são aquelas da própria experi- ••
"correção" é algo deslocado. e isto mostra que a definição privada
que se tem não oferece uma definição real.
Este é o fio condutor do ataque de Wittgenstein à idéia da
ência - o que se denomina de conhecimento a respeito do mundo
ou conhecimento a respeito de outras pessoas está baseado no
conhecÍlnento dos estados e processos n1entais próprios do
••
existência de urna linguagem privada. Sua conclusão é a seguinte:
cognoscente. Esses filósofos têm considerado corno certo que o
conhecimento de experiências pode ser expresso em linguagem
e
não pode haver urna linguagem cujas palavras se refiram âquilo ::::> '
e

RI' §'II'u",,,,,*,,,, DE NIETZSCHE A WITTGENS1ElN: OS EST!'iRTORE

ao menos para os próprios falantes, e que a possibilidade dessa contra a possibilidade de se provar a existência da linguagem
expressão não pressupõe qualquer familiar idade com o mundo privada, ele está dificultando o caminho daqueles que acreditam
externo ou outras mentes. Ora, alguém que aceita isso deve acre- que a semântica depende de U111 núcleo imutável no interior da
ditar na possibilidade de uma linguagem privada, aquela lingua- mente humana ou mesmo da alma. Sendo assim, está abrindo
gem cujas palavras adquirem significado simplesmente por ser ou camínho aos críticos da idéia essencialista de homem e, com isto.
por estar sendo ligadas às experiências privadas - exclusivamente dá força aos críticos de toda e qualquer filosofia articulada ao
privadas. E, certamente, tal pessoa também deve acreditar que a humanismo moderno de base metafisica. O cogito de Descartes e
linguagem atual é urna linguagem privada, não no sentido de que o "coração sincero" de Rousseau, ou o absoluto no "eu" prático
ela é peculiar a um usuário singular, mas no sentido de que suas indevassável de Kant, como núcleos imutáveis, ou, no limite, C01110
palavras têm adquirido seu significado por cada um dos falantes núcleos que poderiam ser imutáveis, locus onde o verdadeiro humano
mediante um processo essencialmente privado, a saber: uma defi- estaria guardado, seria exatamente o locus da linguagem privada ou
nição ostensiva privada na qual uma amostra apropriada de expe- responsável por ela. No entanto, segundo Wittgenstein, a prova da
riência foi recolhida e associada com uma palavra. Se as palavras possibilidade de uma linguagem privada é uma quimera.
são pensamentos que adquirem significado desse modo, pode-se
perguntar se as amostras com as quais uma pessoa adquiriu seu
vocabulário são realmente como aquelas de U111a outra pessoa que fez
o mesmo. Assim, tal empirisrno carrega consigo U111a versão do
ceticismo, que se mostra assim: "Tudo que chamamos de vermelho
você pode chamar de verde". O argumento de Wittgenstein,
que, se certo, desconsidera a possibilidade de U111a linguagem
privada, refuta então essa versão do empirismo, bem como o
ceticismo a ele associado.
Qualquer refutação do ceticismo parece boa para os que
lidam com doutrinação, para os que querem que haja possibilidade
do discurso verdadeiro eUI U111 sentido forte da palavra "verdadeiro".
Todavia. só à primeira vista a argumentação de Wittgenstein
mostra-se nesse sentido. Ela é anrifundacionista; pelo menos é
antifundacionista no sentido de que problernatiza o saber funda-
mentado na certeza corno produto da interioridade nuclear e
indevassável do sujeito-individuo, que, por sua vez, se ligaria aos
outros sujeitos-indivíduos por meio de uma "natureza COl11UIU", a
natureza humana ou coisa semelhante - unl conceito próprio do
Humanismo e das filosofias modernas enquanto assentadas em Ul11a
"merafísica da subjetividade". Quando Wittgenstein argumenta
-----------------------------------------r
••
••
Os contemporâneos
• ••
••
••
- ••
••
••
••
••
••
••
••
••
••
••
l \ tilosotía enel itic»

e o tre ti « ! ho ele l rce
(':J e

<~.

U historiadores da filosofia batizaram o século XVIII como


o "século da razão". Foi a época em que Kant fez a crítica da
razão, estabelecendo os limites do conhecimento, ou seja, o
campo de atuação da razão teorética, e o deslocamento do ponto
arquimediano metafísico para o âm bito da razão prática, da
moral. Os historiadores tamb ém dizem que o século XIX foi o
"século da história". O tempo em que Hegel insistiu em que a
razão não era apenas uma faculdade da alma ou da mente, mas
o verdadeiro tecido do Universo, e que este, como um grande
pensamento - o Espírito -, tinha na história sua manifestação,
condicionando COll1 sua racionalidade maior a razão humana
finita. Em ambos os casos. os historiadores da filosofia estão
conscientes dê que esses doi s séculos deram guarida ao império
da filosofia do sujeito.
Após as críticas e desconstruções da filosofia do suj eito, o
século xx. nos seus últim os trinta anos, apareceu aos historiadores
COl110 a época em que alguns pensadores procurararrl continuar a

investigação filosófica secundarizan do a filosofia do sujeito. Aos


olhos de hoje. é possível dizer que esses pensadores fizeram do
---------------------------------------r• Ii Ui"'.iK"li M'*"g'i#""*""Airi' l1li1 ••
••
século xx, desde seu início, o tempo em que a filosofia se preocupou
com a linguagem e com a lógica.
As correntes que buscaram continuar a filosofia sem ter de
se preocupar tanto com a "rnetafisica da subjetividade", nem para
idealismo dos metafisicos. Como realistas, tornaram a pOSlçao de
que há um Inundo real físico "lá fora" e que tal mundo é correta-
mente apreendido tanto pelo senso comum, expresso pela lingua-
geln ordinária, quanto pela investigação científica, expressa por
seus vários tipos de discursos. No decorrer da história da filosofia
.'••
••
apoiá-la nem para fustigá-la, estiveram, em geral, no campo de
domínio da língua inglesa. De um lado, os pioneiros do pragnla- analítica, alguns filósofos desta linhagem abandonaram o trabalho
tismo norte-americano, de outro, os filósofos do Círculo de Viena de criar teorias completas, sistemas, e assumiram que a tarefa do
que, se em um primeiro momento foi, é claro, urn movimento
europeu, após os anos 1930 migrou para os Estados Unidos,
filósofo, un1a vez não sendo mais nem a de montar paradigmas de
sujeito ne111 de criticá-los, deveria ser simplesmente a de análise do ••
gerando lá uma forte tradição no interior do que veio a ser
conhecido, em termos lllais amplos, de filosofia analítica e, em
termos restritos, tanto geográfica como historicamente, de positi-
significado. Nessa perspectiva, a filosofia analítica se fixou em duas
grandes correntes. Em uma linha, conservaram-se os que enten-
diam que a análise conceptual deveria recair sobre as características
••
vismo lógico.
Após a Segunda Guerra Mundial, a filosofia analítica veio
filosoficamente enigmáticas das linguagens naturais (os idiomas
que os povos falam corriqueiramente). Assim, tornaram o caminho ••
crescentemente encontrando pontos de contato com o pragmatismo,
gerando uma nova forma de fazer filosofia; uma forma típica da
filosofia universitária americana de nossos dias e que ve111 ganhando
da análise do significado de conceitos empregados nos discursos
cotidianos, tais como "justiça", "dever", "percepção", " corpo" ,
"arte", "mente" etc. En1 outra linha, permaneceran1 os filósofos
••
a admiração dos europeus - trata-se das filosofias de Quine, seus
herdeiros ortodoxos, seus herdeiros heterodoxos e seus críticos.
que deram à filosofia a tarefa de análise de uma linguagem lógica
que, acreditam eles, funciona como estrutura oculta das linguagens ••
A filosofia analítica tem como função principal, antes do
que qualquer construção de teorias filosóficas sobre o mundo, a
análise do significado. De modo geral, trata-se de um tipo de filo-
naturais. Eles se dedicaram à análise de categorias tais como
"número", "equivalência", "inferência"," disjunção, "necessidade",
"contingência" etc. No contexto dessas duas linhas , houve os que
••
sofia que acredita que alguns conceitos-chave, tanto na linguagem
comum quanto na linguagem da ciência ou da lnoral ou da reli-
se especializaram na análise dos conceitos-chave da ciência, como
as noções de "causalidade", "probabilidade", "lei natural" etc. ••
giâo, são vagos, confusos e, assim , meros engJnos. Em geral, boa
parte dos filósofos analíticos acredita que os problemas filosóficos
podem ser dissolvidos, e que os problemas pseudofilosóficos podem
En1 todos os casos, os filósofos analíticos arcaram com débitos
para com Gottlob Frege (1848-1925). Resumindo ao máximo, as
idéias de Frege são as que seguem.
••
ser descobertos COlllO tais e deixados de lado mediante a clarificação
dos conceitos neles envolvidos. Os filósofos analíticos quereln antes
Para Frege. as questões sobre significado são, em última
instância, questões sobre lógica. Isto é, os argumentos filosóficos ••
demonstrar os relacionamentos lógicos entre domínios distintos
do discurso do que apelar para grandes esquenlas metafísicos.
sobre qualquer tópico (da teoria do conhecimento à metafísica, ética
política, educação ou estética etc.) são bons na exata medida da ••
••
Os fundadores da filosofia analítica, ao se depararem com qualidade de suas estruturas lógicas. Tendo isso em mente, Frege
problemas da teoria do conhecimento, da ética e da metafísica, tenta provar que a aritmética é internamente autoconsisreute, e
estiveram interessados em defender o realismo filosófico contra o que ao se ampliar os princípios' básicos da lógica obtêm-se todas


e
•• ""'d'I""US"'*'i6'OO"g'ijii;ii" _I

•e as noções fundamentais da aritmética. A consistência da aritm ética nome próprio, mas "cavalo" ou "o mais alto pico de São Paulo"-

•• é provada, segundo Frege, a partir de considerações puramente


lógicas . Assim, por exemplo, a definição de número nada mais seria
do que uma derivação do princípio de identidade da lógica, isto é.
pico do ]araguá - são classes ou ti-ases descritivas). De certo modo,
pode-se dizer que, antes de Frege. o que se estabelece no canlpo

I.
do estudo de "sentido " e "referência" é que tais termos possuem
~ A = A. Então, toda a aritmética pode ser reduzida à lógica. sua função totalmente esgotada no trabalho de nomear, isto é, de
., e Independentemente dos acertos e desacertos de tal tese, o referir a algo, de apontar para algo, indicar algo, sendo que este

..,1:. movimento geral que se deve captar disso é que se trata de um


modo de filosofar que procura desvencilhar-se de todo e qualquer
algo é o objeto nomeado. Ou seja, as palavras são tomadas pela
única e exclusiva função de designação. Ora, Frege é justamente o
't
psicologismo que sempre acompanhou, ora mais ora menos filósofo que mostra que esse modo corriqueiro de tornar a língua-
(e
, implicitamente, as filosofias do sujeito. Frege consegue trilhar um

l.•
genl nào está , de modo algum, isento de problemas.
.0 1 •
caminho em que a teoria do significado procura livrar-se do As observações de Frege são clássicas, mas nem todos os
:e psicologismo uma vez que, para ele, o significado de urna palavra
nada tem a ver com eventos mentais que dela possam emergir. O
manuais dão a devida atenç ão à filosofia analítica. Ainda que
sim plificando bastante, trata-se do exposto abaixo.
significado de uma palavra é determinado pelo papel que ela Há aqui três nomes próprios: (M) a estrela-da-manhã, (T)

•• desempenha no estabelecimento das condições de verdade de


sentenças em que aparece. Isso pode ficar claro com un1 exemplo
simples . Considerando frases do tipo "Um quadrilátero com lados
a estrela-da-tarde e (V) Vênus. (M) refere-se a um corpo celeste,
bem notável, que aparece no céu um pouco antes do nascer do
sol, e sabe-se que durante séculos tal corpo foi usado corno ele-

•• iguais e com pelo menos um ângulo reto é um quadrado", "A Terra


é quadrada" , "A base de certas pirâmides eram um quadrado". "O
mento importante para os marinheiros saberem onde estavam,
quando acordavam. (T) refere-se a um corpo celeste, tamb ém

•• time da escola jogou basquete com unIa bola quadrada" etc.,


Frege não está interessado nas imagens que tais enunciados
notável, que aparece no pôr-da-sol, em um lugar que é pratica-
mente o oposto de onde aparece (M) de manhã, e sabe-se que
os marinheiros também se guiaram pela localizaçào deste corpo.

••
possanl evocar à mente de alguém. Está interessado nas condições
que teriam de existir para se estabelecer a verdade ou a falsidade (V) refere-se ao planeta que os terrestres vêem como o mais
de tais sentenças. Isso porque tais condições, para ele, são exata- brilhante, o segundo planeta a contar do Sol. Ul11a informação

•• mente o que determina o significado da palavra"quadrado" .


A tese de Frege acima apresentada serve de base para muitos
ernpirica , que hoje é disponível para todos, é que a chamada
estrela-da-manhâ é a conhecida COIUO estrela-da-tarde e que,

• dos que discutem teorias do significado na filosofia atual. Eles enfim, trata-se do planeta Vênus. Então, graças a uma descoberta
perguntam de que maneira meros ruídos, ou seja, palavras , ganharrl emp írica, o que se tem é que, hoje. pode-se dizer qu e (M) = (T)
e significado, e então não se esquecern de ssas primeiras formula- = (V). Se é pos sível supor que o significado de um nome próprio
e ções da filosofia analítica vindas das mãos de Frege. nada mais é que o objeto nomeado. então, pode-se dizer, para

e O mesmo se pode dizer a respeito de "sentido " e "referência". este caso, que trata-se do objeto ·'X". No caso da sen ten ça " A

•• Ambos são termos que se apli cam a nomes próprios, ou sej a.


nomes ou frases que não são descritivos (a "Casa Branca" é um
estrela-da-manhã é a estrela-da-tarde que de fato é o planeta
Vênus", tala-se que todo esse enunciado significa "X = X, de


---------------------------------~--------r
e
_'''''IImAM'''' li. UUi'!'·'""· ""lSilM''''''''II''@- _I ••
fato = X" . Isto é, a sentença é uma tautologia. Urna tautologja um triângulo é 180 graus",sào atemporais e não dependem de urn
••
não transmite nenhurna informaç ão. Todavia, o estranho é que,
de fato, tal sentença transmite, sim, urna informação. Quern tem
conhecimento de tal informação, hoje , sabe mais do que os
sujeito - a linguagem fornece acesso a um campo onde há ele-
mentes objetivos que, no entanto, não são tateados nem vistos.
Essas discussões e conclusões de Frege são o esteio da filo-
••
marinheiros do passado. O que Fr ege conclui disso é que deve ~

••
sofia analítica.
haver mais coisas no significado do que a simples relação, que é
da teoria tradicional a respeito do significado, entre um objeto
... nomeado e um nome. Frege levanta a questão de que não é estranho
se ter de procurar por um terceiro elemento na relação do signi-
ficado. A esse terceiro elemento ele chama de sentido. Segundo
••
r'
i' i
~I

~;
Frege, o sentido cria para os estudiosos um novo modo de ver
o objeto referido, um novo modo de apresentação deste - uma ••
..
f' :
\.'
'
,
maneira específica de representá-lo.
Mas o que é, para Frege, o sentido de um enunciado?
Ele diz que o sentido de urna frase deve ser algo que se
••
modifica na medida em que as partes de tal frase são trocadas por e.
outras com sen tido diferente, mas com a mesma referência. Dessa
forma, " A estrela-da-manhã é Vênus" é modificada quando " estrela- ••
,",,'
da-manhã" é substituída por " estrela- da- tarde" , resultando assim
na frase "A estrela-da-tarde é Vênus". O que se modifica? O
sentido da frase se modifica. Para Frege, o pensamento que a frase
••
expressa é o que se modifica. "A estrela-da-tarde é Vênus" expressa e
!

I' I
uma idéia que é diferente daquela mostrada em "A estrela-da-
manhã é Vênus". ••
••
Sendo assim, no plano metafísico ou, mais exatamente, no
plano ontológico, Frege acredita em UOl tipo de platonismo. em
que há três domínios: o domínio das en tidad es objetivas e reai s (o

I!!
planeta Vênus, por exemplo), acessadas de modo intersubjetivo, ou
seja, trata-se de algo compartilhado pelos falantes; o domínio das ••
••
entidades subjetivas e reais , onde estão os eventos mentais, os quais
não são ace ssado s intersubjetivamente pelos falantes: há , por fim, o
domínio das entidades objetivas lua s nào reais. Essas últim as enti-
dades. mostradas pela linguagem em expressões tai s corno "A
estrela-da-manhã é Vênus" ou "A sorna dos ângulos internos de ••

e

je

-
~ .

1;e- /~ filosofia analítica



e
e e o traba Iho ele
e
e Bertrand Russell
e
•e
e
e A defesa da tese de frege, de que toda a aritmética é um

-
e

•e
campo com uma base à qual ela poderia ser reduzida e que tal
base é meramente constituída de princípios da lógica, encontra em
Bertrand Russell (1872-1970) um grande entusiasta. Mas Russell
não se limita a um trabalho em lógica com derivações para a

••
filosofia. Ao contrário, ele acredita que pode redefinir a filosofia
a partir de sua confiança na lógica e na ciência. Sua idéia é a de
que "a ciência é inocente até que se prove o contrário, ao passo

•• que a filosofia é culpada a menos que se prove sua inocência".


Suas conclusões em filosofia se alteram sucessivamente, de livro

•• em livro , cobrindo uma produção vastíssima. Todavia, a idéia de


que a filosofia é filosofia analítica, e não valeria a pena se fosse

•e
outra coisa, é senlpre mantida.
Russell acredita que construções filosóficas não são inúteis,
sào apenas parte do trabalho filos ófico, O autêntico trabalho 610-
e sófico, para ele, é o de criticar e clarear noções que, não raro,

e geram as chamadas discussões filosóficas - metafísicas - não por

•• conta de serem noções autenticamente pol êmicas, e sim porque


são noções vagas, que não estão ,no mesmo nível de exatidão das


noções com as quais trabalha a ciência. Seu trabalho a respeito da
--------------------.
"".1".
Jüi li6"Ai"• •
. . ----------------~re
A l'11.0~OflA ANAl
••
•e
••
noção filosófica de existência exemplifica bem o projeto da fi10--·' cada sobre o exemplo em que o paradoxo aparece, a situação se
sofia analítica nessa fase inicial. torna clara. "Não há urna entidade C, tal que a sentença 'X é de
Historiadores da filosofia e escritores de manuais concordam ouro e é montanhoso' é verdadeira se e somente se X = C." O termo
que, sobre o assunto da existência, há situações paradoxais perce- que incomoda, qual seja, "montanha de ouro", porque parece e
bidas por Russell e mostradas através de exemplos clássicos.
Um desses exemplos é o da montanha de ouro. Segundo
Russell, se alguém diz "A montanha de ouro não existe", pode-se
denotar uma entidade, é transformado em uma descrição através da
fórmula de Russell - isto é, fala-se eIU "de ouro" e " montanhoso".
Sendo assim, destaca-se que a afirmaçào real da proposição é
••
perguntar "O que é isto que não existe?", e a resposta óbvia é "A
montanha de ouro". Todavia, quando se age assim, diz ele, a
que não há nenhum objeto que poderia vir a ser caracterizado
corretamente por meio de tal descrição. A noção de existência é ••
impressão que fica é que se está afirmando a existência, ou um
tipo de existência, de tudo a que foi negada qualquer existência.
Situação semelhante aparece em uma seqüência de frases tais
analisada sem o termo "a montanha de ouro".
Esse método descritivo é, sem dúvida, uma revolução filosó-
fica. Platão diz que"o verdadeiro Ser existe somente no reino do
••
como "O quadrado re?ondo não existe", "O cavalo alado não Ser"; Aristóteles contrapõe que "o Ser existe verdadeiramente e
existe" e "A montanha de ouro não existe". Por quê? Porque o
que se faz aqui é nomear coisas, afirmar coisas e, além disso, dife-
corno uma realidade de uma potencialidade". Hegel dá a entender
que "o Ser é o Racional, e que o Racional é Deus". Nietzsche ••
renciar coisas entre si; no entanto, estranhamente, não está respon-
dida a questão: que coisas são essas? O que são as coisas que, enfim,
não existem? Ora, um filósofo platônico diria que " a montanha de
objeta que "o Ser não existe, o que há é somente a vontade de
potência". Todavia, o nominalismo medieval, com Ockham,
fornece a interessante sugestão de que "Não há Ser verdadeiro.
•,•e
ouro" é uma expressão que designa idéias que existem no Inundo pois Ser é uma mera palavra, não nomeando coisa alguma". Ora,
do puro ser (para Platão, o mundo das formas eternas), embora
não existam no mundo físico. Russell não concorda que tal situação
Bertrand Russell abandona esses postulados em favor de uma
descrição analítica. •e
paradoxal tenha uma solução metafísica, platonista. Admirador do
princípio da "navalha de Ockham", Russell evita colocar em um
problema mais elementos do que os que ele já tem; ou seja, a
No caso de outro clássico paradoxo, sua solução é a mesma.
Ou seja, ao se tomar a sentença "O atual rei da França é calvo".
tem-se o seguinte paradoxo lógico. Os lógicos dizem que a negação
••
solução mais simples, sem a ampliação de elementos que dão
complexidade à resposta, é selnpre preferível. A solução complexa,
de uma proposição falsa deve ser uma proposição verdadeira, e
que urna terceira possibilidade está descartada (lei do terceiro ••
para ele, não soluciona o paradoxo. apenas ergue um castelo sobre
o paradoxo para abrigá-lo.
Situações paradoxais como a noção de existência. por exemplo,
excluído). Todavia, a sentença "0 atual rei da França é calvo"
parece (115a, uma vez que nâo há um rei da França atualmente, e
no entanto a negação dessa sentença, isto é, .. o atual rei da França
••
ganham propostas de solução. pelas mãos de Russell, através de sua não é calvo", não é verdadeira. mas falsa. Continua nâo havendo ta
" teo r ia das descri ções", na qual se destaca a seguinte fórmula: "Há
urna entidade C, tal que a sentença')( é Y" é verdadeira se e
um rei da França na época atual. () que IZussell faz é aplicar sua
fórmula analítica descritiva. Ou seja, "C) atual rei da França é calvo" ••
sornente se X é Y". Nesse caso, C é urna entidade, Y é um adjetivo
e .LX é o sujeito qualificado por YAssirn, quando tal fórmula é apli-
significa que "Há urna entidade ,C, tal que 'X é realeza, (rances e
calvo' é verdadeiro se e somente se X = C" . Mas não há nenhuma
••
e
e• M ·""'6+.'II'B"6.
•e
e
e
e
entidade à qual tal descrição se aplique corretamente, assim a
sentença é falsa, e sua negação também, pois não há nenhuma
entidade que possa ser descrita, de maneira exata, como tendo os
dotes da "realeza", a qualidade de "ser francês" e a característica de Os P' ositivistas IÓf?iCOS
C

e "ter cabelos". Uma vez fixada a descrição analítica para cada
e vvingenstein
e, sentença, independentemente, não se está contestando os princípios
dos lógicos, que poderiam dizer que a frase estaria ferindo a lei do

-
e

•e
terceiro excluído. A solução de Russell é elegante, ela não cede à
metafísica e ao mesmo tempo mantém os lógicos satisfeitos.


e
e

o positivistas lógicos ou empiristas lógicos, como foi dito,

'. e
••
formam o Círculo de Viena. Em geral, são professores com formação
científica, que desejam trazer a filosofia para um campo que eles
entendem como menos vago, o da ciência. Deixam-se inspirar nos
trabalhos de Russell (e nos primeiros trabalhos de Wittgenstein

-
e outros) e se propõem a filosofar considerando menos a história
da filosofia e mais alguns pontos fixados por filósofos determinados,
como Hume e Kant. Fugidos do nazismo, vários se refugiam nos

•• Estados Unidos a partir dos anos 30 do século xx, onde exercem


grande influência nos departarnentos de filosofia, chegando quase

•• a nublar a tradição filosófica nativa dos norte-americanos, a do


pragmatismo, Pode-se dizer que os principais filósofos do Circulo
de Viena foram Rudolf Carnap (1891-1970), Moritz Schlick
ti (1882-1936), Otto Neurath (1882-1945), Hans Reichenbach
e (1891-1953) e A.J.Ayer (1910-1989).
e O projeto do positivismo lógico tem seu centro inicial no

•• trabalho de Hume, na classificação das proposições: as sentenças


que contêm proposições ou sâo analíticas - tautologias cuja negação

•e conduzem à contradição -, ou são sintéticas - proposições cuja


---------------------------------------r• -I
e

••
I'OSlllVIST
. .ikli@QMU@"i1WIi" (I S

analíticas ou sintéticas ou /101'1 sense, então há unI problema com a e


confirmação depende da experiência, da observação - ou, enfim,
trata-se de non sense. A filosofia como metafísica, então, ao falar do
Inundo sem usar de sentenças sintéticas, dado que por definição a
seguinte proposição: "Todas as proposições são ou analíticas ou
sintéticas ou non sense", Pois, afinal, em que categoria entra tal ••
merafísíca quer realizar tal tarefa, não gera conhecimento. Carnap proposição? Ela é analítica? Sintética? É um non sensei Se analítica,
é urna tautologia e nada diz sobre o mundo. Se sintética, então
e
e
,-
acrescenta que a linguagem possui duas funções, a de expressão e
a de representação, e que a função expressiva cunlpre seu papel na deveria ser verificável empiricamente. Assim, o princípio do posi-
tivismo lógico não é sintético nem analítico.

••
arte e a função representativa, na ciência. A metafísica pode ser,
para Carnap, urna forma de expressão, uma forma poética, mas O que os positivistas lógicos almejam não é algo que não
não pode ser conhecimento, não pode ser o que só a ciência é. poderia passar pela cabeça de alguém. Dentro de um programa
À filosofia resta ser a lógica. reducionista, a tarefa que se propõe é a de poder dissecar a linguagem
•e
-•
Associada a esta forma de redefinir a filosofia, os positivistas e encontrar expressões que correspondem de modo o mais
lógicos dispõem de uma singular visão a respeito do significado evidente possível, dentro de critérios ernpiristas, a fatos simples.
de uma proposição. Para eles o significado de uma proposição é Pode-se falar "Eu vi um gato preto". Pode-se descrever o "eu" sob
seu método de verificação. Ou seja, ao apontar os procedimentos inúmeros aspectos e, então, dizer que este "eu" pronunciou "Eu vi
um gato preto". Pode-se ir mais adiante e dizer: " gato preto aqui
e
que tornarão possível afirmar se urna proposição é falsa ou
verdadeira, também está se dando, ao mesmo tempo, tudo o que
é necessário para o significado da proposição. Mas é necessário
estar atento a isto: toda a linguagem usada na verificação pode ser
agora". E "preto aqui agora" . Por esse raciocínio, chega-se ao ato
de indicação (apontar com o dedo) do preto acompanhado de
emissão de som ("gato", ou qualquer outro ruído).
••
reduzida às chanladas "sentenças protocolares". Tais sentenças são Ludwig Wittgenstein (1889-1915), em sua primeira fase de e
as que carregam as afirmações mais simples, aquelas que expressam escritos, é um dos inspiradores dos positivistas lógicos, de modo a
••
-
os chamados fatos brutos, que seriam os pontos de "conhecimento fazê-los, com algumas modificações, seguir o caminho acima
indubitável". Todavia, os positivistas não se contentam com tais apontado. Mas Wittgenstein não diz o que são os fatos simples ou
"fatos atômicos" (Russell). Os positivistas lógicos l êem Wittgenstein

•e
sentenças e afirmam que existe algo mais simples do que sentenças
protocolares, isto é, os atos de apontar e de soltar ruídos . Assim, e decidem, por conta própria, torn á-lo como um autor que os

.'••
aí estaria o que é o mais básico no saber. O impasse de sse resul- auxilia no caminho de ir das "sentenças protocolares" até os ruídos
tado é visível: no ponto de partida os positivistas lógicos querem e indicações - radicalizando a po stura empirista.
se livrar de qualquer elemento subjetivo, mas no ponto de Wittgenstein tem urna tese um pouco diferente da que os
chegada fazem da ciên cia - o conhecimento indubitável - algo positivistas lógicos assumem, ainda que em determinado aspecto
dependente de emissão de ruídos e do apontar, atos estes que eles o tenham corno guru. No Tratactu s Logico-Philosopuicus.
são, no limite, elementos altamente subjetivos, ou, em melhores Wittgenstein parte de um ponto negativo, ou seja , ele torna e
termos, comportamentos que estão no canlpo do psicológico.
Por outro lado, o positivismo lógico também elnperra suas
COlTIO aceito que a linguagem, se faz sentido, é porque ela diz

verdades. Para ele, se alguém pode dizer frases verdadeiras sobre ••


••
engrenagens qu ando coloca seus instrumentos para avaliar seus o inundo, então e porque a estrutura da linguagem deve de alguma
próprios postulados. Por exemplo, se todas as proposições são ou forma rrj7etí" a estrutura do Illundo. Para ele há t:1tOS sitnple; qu e

e
podem ser afirmados, e tais fatos são as verdades simples, às quais
as verdades mais complexas podem ser reduzidas - eis aí o
trabalho analítico. Mas, diferentemente dos positivistas lógicos,
Wittgenstein nada declara sobre o caráter desses fatos e não
Quíne e o mito do rn use u
aSSUIue qualquer posição que leve alguém a pensar que os fato s
poderiam ser o miolo de coisas tais conlO as "sentenças proto-
colares" ou situações de ostensão acompanhadas de sons, que
seriam mais simples que as sentenças protocolares.
Independentemente disso, contudo, a filosofia de Wittgenstein,
pelo menos no Trataaus , chega aos mesmos impasses das posições
dos positivistas lógicos: a linguagem da própria filosofia não é ana-
lítica e não é sintética. Porém, ele dá um passo que os positivistas
lógicos não acompanham: ele conclui que os enunciados da filo-
sofia são non sense. Deste modo, para Wittgenstein, o Trataaus é UITI
livro que no limite elimina a si mesmo. O Tratactus , como um
livro filosófico, só contém 110n sense, e o ponto de chegada da
A lguns manuais se referem à escola filosófica dos positivistas
lógicos como urna escola derrotada. No entanto, mesmo que se
filosofia é, então, uma proposta de silêncio sobre a filosofia.
considerem os seus impasses como um fim de linha, há de se
observar que a maneira como filosofam é em grande medida
aquela C01110 uma boa parte dos filósofos , hoje, discute problemas
mais técnicos em filosofia. Os filósofos analíticos são os heróis de
uma revolução no conceito de filosofia . Urna revolução que
gerou uma contra-revolução. Dentro dos próprios domínios da
filosofia analítica, surgem os germes que formam urna parte dessa
tradição mais vinculada ao positivismo lógico, e os herdeiros desse
estilo ::>zeram então urna filosofia que casa a tendência analítica
(On1 o pragmatismo norte-americano clássico, principalmente o
de John Dewey. Essa nova tendência aparece com o fil ósofo
Willard Van Orrnan Quine (1908-2000) .
Un1 ponto central na investigação de Quine é C0111lUn ao

JI
que positivistas lógicos e outros filósofos analíticos prOCUrall1. Ele
quer responder 3 pergunta "O que vêm a ser o sign ificado e as

I II
t '
condições de verdade das declarações lingüísticas?".
•ta
.'"''Iiim..''' 'i"'. M"iI§"'''3ii"i@g''''i,,' _I -••
e
Dizendo com outras palavras o que Ja se expôs acima, os- o pressuposto dos positivistas lógicos é o de que essa análise
positivistas lógicos delimitam três campos: o dos enunciados cien-
tíficos (ou similares), o dos enunciados lógicos ou matem áticos e,
da linguagem - e sua assepsia - é possível porque o significado d:'1S
sentenças da linguagem (e suas condições de verdade) é algo nítido ••
por fim, o dos enunciados filosóficos. Os enunciados científicos e determin ável. É exatamente este pressuposto do positivismo
e
e•
correspondem às declarações [a tuais - aquelas que dizem respeito a lógico que vem a ser abalado por Quine com sua tese sobre a
"fatos no Inundo". Uma declaração fatual com sentido é, em si "indeterminabilidade do significado".
mesma, um relato de experiências imediatas, experiências sensíveis.
Se não for isso, pelo menos - assim pensa o positivista lógico - tal
relato de experiências poderá ser reduzido a uma combinação de
declarações que formam um relato de experiências imediatas. O
significado desse tipo de enunciado - o seu sentido - é dado pelo
O que é esta tese da "indeterminabilidade do significado"?
Para entendê-la é necessário, antes, falar da "linguagem privada",
ou melhor, da impossibilidade de sua verificação, e do "mito do
museu " , ou seja, o nome que Quine aplica ao que chama de
" teo rias semânticas acriticas" .
.'_•.
e
f~ conjunto das suas condições empíricas de verdade. Em segundo Segundo Quine, as "semânticas acriticas" vêem o significado
F lugar,
........
os positivistas lógicos falam dos enunciados lózicos
b '
isto é , COUl a mesma percepção do homem comum, de certo modo a e
f as declarações analíticas e matemáticas, aquelas que não dizem mesma da "610s06a tradicional" . Tal semântica imagina a mente e
t
I
respeito a fatos no mundo, mas cuja função é relacionar e afirmar
algo sobre os símbolos, os conceitos e a linguagem. A verdade desse
humana como UUl museu, que possui internamente várias peças
expostas em vitrines , que são os significados, todas essas peças ••
I
f
J
fi
tipo de declaração é dada exclusivamente pela sua estrutura sintá-
tica. Em terceiro lugar, há os enunciados filosóficos. Para os posi-
associadas a seus rótulos, que são as palavras (corno um museu
com suas peças). Assim, para essa " sem ântica acrítica", trocar de
linguagem é trocar os rótulos, preservando as peças do "museu ••
tivistas lógicos, a filosofia (metafísica) é um discurso que, por

••
i
mental". Aceitar-se-ia tal semântica por conta da admissão da
definição, diz respeito ao mundo, tuas contém frases e declarações

.'.•e
possibilidade de que todos os humanos - ou melhor, cada um
que não podem, no limite, ser reduzidas a relatos de experiências
deles - são capazes de produzir uma "linguagem privada", isto é,
humanas. O discurso filosófico, sendo assim por definição, não
uma linguagem não aprendida socialmente que preservaria para
poderia ser refutado nem confirmado. Portanto, se não lhe é
cada homem, em um plano mental interno e privado, a expressão
possível ser nem refutado nem confirmado, trata-se de urn saber
própria dos significados (enfim, a essência das coisas). Assim, cada
teórico irrelevante.
Para os positivistas lógicos o saber verdadeiro, o conhecimento.
é fornecido apenas pelos dois primeiros tipos de declarações,
ser humano teria urna linguagem exclusiva com a expressão dos
sign ificad os mentais . Admirido isso, o que se tem é urna outra
maneira de afirmar que há urna ligação entre o intimo e o "Inundo
••
aquelas vindas das ciências empíricas, da lógica e da matern ática.
A filosofia desaparece? Corno metafísica sim , mas corno prática de
exterior" , ou sej a, a expressão das peças do museu corno elas são
em si mesma s, independentes dos rótulos, as palavras. Se existisse •e
assepsia da linguagem e de dissolução de problemas, não! O que
resta à filosofia? A análise e a clarificação do discurso - cotidiano,
científico. pedagógico etc. - e o estabelecimento das condições de
tal linguagem (seria uma linguagerni'), poder-se-ia, por introspecção,
apanhar os significados. Eis aí urna proposta com odor metafísico.
John Dcwey (lS59-1952) e Ludwig Wittgen stein (em estudos
•e
legitimidade desse discurso. posteriores ao Tratactusi. de modos diferentes, tentam formular e
e
-w

--====~
LOSOflA
.""'."'''.3'418-''1
urna argumentação em favor da idéia da impossibilidade do próprio rearrumada, de DIOdo que não se pode chegar a perguntar pela
conceito de "linguagem privada". Quine faz algo semelhante, t11aS tradução correta (ou melhor dizendo, a tradução correta exclusiva).
de uma maneira sistemática, organizada, produtiva. Por exemplo, quando se diz "gavagai" = "parte não destacada de
Para Quine, a linguagem é necessariamente uma interação coelho", o que se tem então é que a expressão inteira do nativo
social que pressupõe m11 grupo organizado em que os falantes fica sendo ,.esta parte não destacada de coelho é uma parte do
adquirem seus hábitos lingüísticos. O sign ificado não é uma mesmo coelho que dizia respeito àquela parte não destacada de
entidade psíquica e sim, uma propriedade do comportamento - do coelho" .Assim, se todas as três traduções e suas respectivas acomo-
comportamento lingüístico, social. Todavia, isso não quer dizer dações estiverem, uma a uma, correspondendo a acordos entre os
que o significado é algo clara e exclusivamente determinável - e falantes da língua do nativo e os da língua para a qual a expressão

, este é o ponto central da tese de Quine.


Quine defende a tese da "indeterminação do significado"
através de uma argumentação filosófica originalíssima. Ele imagina
foi traduzida, não há corno saber qual a que deveria ser chamada
exclusiuamente a tradução correta.
Quine diz que ao se dar um crédito ao "mito do museu",

-•• o seguinte experimento. Começa supondo um lingüista (e também


antropólogo) em um trabalho de campo. tentando traduzir para o
seu próprio idioma uma língua (um grupo de sons) completa-
mente estranha, falada (emitida) por um nativo (ou um alic1'l) .Após
pode-se fàlar de um certo e de um errado na questão; mas isso, é claro,
se houvesse acesso ao museu. Mas não sendo esse o caso (o
museu, se existisse, seria acessado só pelo próprio nativo) , o que há
é a indeterminação do significado por causa da própria indeter-

--. certo esforço analítico, o lingüista consegue obter algo que ele
julga ser uma expressão do nativo, por exemplo: "demki gavagai
zaronka pursh denot gavagai" .Tal expressão é proferida pelo nativo
todas as vezes que aparece um coelho que já havia anteriormente
aparecido. O lingüista traduz a expressão estranha por:"este coelho
minação da tradução.
Isso é o que a linguagem técnica da filosofia chama de a
indeterminaç ão da tradução, que traz como conseqüência a inde-
terminação do sig114icado e a tese da inescrutabilidade da referência.

,t
Afinal, qual a referência de "gavagai"? Pode ser um termo geral
é o mesmo que aquele coelho" , onde "gavagai" = "coelho" . que o nativo usa para predicar coelhos, 111as também pode ser algo
I Assim , à primeira vista, tudo parece urna questão simples, que se com que ele predica estados temporais de coelho, partes não sepa-
resolve facilmente, e que o significado é algo completamente radas de coelho ou mesmo um termo não geral, singular, que se
e

objetivo ("gavagai" = "coelho") . No entanto, Quine diz que não. referiria à qualidade de ser coelho (um tipo de coelhidade) . Neste
Para ele, há no mínimo três candidatos igualmente defensáveis últim o caso, a frase" dernki gavagai zaronka pursch denot gavagai"
para substituir "gavagai". Primeiro, "coelho"; segundo, "parte não
e destacada de coelho" ; terceiro, "estados de coelho". Com qual
seria traduzida por "esta ocorrência da qualidade de ser coelho
manifesta o mesmo coelho que aquela ocorrência da qualidade de
e ficar? Qual seria mesmo o significado de "gavagai"? Quine lembra ser coelho ". Com isso em 1113.0S, corno se pode determinar exclu-
e que este impasse a ostensão (o apontar. o indicar) não resolve. De siva e objetivamente o significado?

,
~
e
e
nada adiantaria que se ficasse pronunciando repetidamente a
expressão " gavagai" diante do nativo, visando a seu assentimenro
ou não, variando as estimulações, misturando-as etc. Al ém disso,
Quine lembra bem que para cada opção a tradução pode ser
Para sair desse impasse, Quine opta por urna doutrina holís-
tica (contextualista) do significado. O significado de uma palavra
ou frase individual é compreendido única e exclusivamente por
suas relações com um corpo de linguagem ao qual pertence, isto

~
____ ---------~---~---------r e
_ •...@U··.'''"H'' • ••
e
é, ele só é compreendido em suas relações com uma trama deter-
minada de conceitos, uma teoria, uma rede de crenças e desejos,
um complexo de disposições Iingüísticas ligadas, é claro, a urna
forma social de vida e coisas semelhantes. Tal posição, corno o Quine e os dogmas
• e
•,•e
próprio Quine diz, n ão está muito distante das co n cl usõ es da
filosofia dos clássicos do pragmatismo - Peirce, William James e do empirismo e
e
••
John Dewey,


-
e
•e\
Q i n e é o mais importante filósofo analítico do século xx
pós-Segunda Guerra Mundial. Mas não exatamente pela su a
denúncia do "mito do museu", algo que, como foi dito,Wittgenstein .'•
(em sua fase posterior, quando ele passou a contestar seu próprio
livro, o pis) e John Dewey também expressam, com outras palavras, ••
mas sobretudo pelas pesquisas que se abrem a partir do texto
Tu/o Dogmas of Empiricism, Em tal artigo, Quine fere de morte
não apenas a filosofia da mente adotada pelos positivistas lógicos,

e

luas atinge o órgão vital destes, isto é, as distinções entre propo-
siçõ es que os homens do Círculo de Viena elaboram a partir de
Hurne e, concomitantemente, a tarefa reducionista desses filósofos.
Quais sâo os "dogmas do empirismo " e quais as conclusões
-••
que Quine coloca contra eles?
Segundo Quine, no artigo referido acima, o primeiro dogma
do positivismo lógico ou empirismo lógico adv érn de ele tentar
•e
reduzir cada proposição sintética a sentenças protocolares e. a partir
•e
•.'e
disso, estabelecer a correlação de proposições básicas com as então
mais básicas ain da, e n ão COUI as experiências nào passíveis de
revisão, vindas dos sentidos a respeito de dados brutos.
•:
- ,..

• H ;"!@U."'''C4 i''.
e
e Tal reducionismo é o de Locke e Hume passando por Quine não afirma que não se pode classificar as frases de
e Berkeley. Quando nas mãos dos positivistas, serve para descartar, algum modo. Ele observa que essas classificações sào arbitrárias,
~ afirmando que discursos com valor de conhecimento (saber verda- que tal arbitrariedade é o que rege a distinção entre sentenças ana -

: deiro) não são aqueles vindos da religião, moral e metafísica. A


critica de Quine a tal reducionismo, ao enunciar que ele carece de
bases demonstráveis, pode não recuperar o valor do discurso meta-
fisico nos moldes tradicionais aos olhos do próprio Quine, mas
líticas e sintéticas, e que, enfim, há um certo caráter filosófico nessa
distinção. Todavia, não se pode tomar tal caráter com o mesmo
peso que ele tem para os positivistas lógicos.
O objetivo de Quine, com sua tese que ataca a distinção
serve como um bom ariete para os que, como Donald Davidson e analítico-sintética da maneira como é interpretada pelo empirismo

E Richard Rorty, querem atualmente reformular ou a maneira de se


fazer filosofia na tradição analítica, no caso do primeiro (Davidson) ,
lógico, é o de lidar com os problemas tradicionais da filosofia analí-
tica, em especial a caracterização de significado (que, na filosofia

; ou reformular os objetivos de toda e qualquer filosofia , no caso do


segundo (Rorty) .
O outro dogma do empirismo é, para Quine, a distinção
entre proposições analíticas e proposições sintéticas . Aqui , às
tradicional, desde os gregos, corresponde ao problema da "essência") .
Ele entende que as teorias dos filósofos analíticos são, em grande
medida, circulares. Caracterizam o significado a partir da analitici-
dade; esta é definida nos termos da sinonímia que, por sua vez ,
vezes , os manuais confundem o leitor ao mencionar que Quine volta a dar os parâmetros para se definir o significado. Isto é ,
destrói a distinção analítico-sintética. Quine não afirma que não
há sentenças analíticas. Todavia, o que não pode ser dito, na pers-
pectiva quineana, é que a fronteira entre sentenças analíticas e
I
I
t .
o enunciado analítico é o que nada diz , então, é aquele no qual o
adjetivo pode ser trocado pelo sujeito como sin ônimo e, por fim,
o significado é explicado por essa troca entre sinônimos - isto não
sentenças sintéticas não é algo sempre estabelecido arbitraria- explica nada, diz Quine.

•• mente. Os positivistas lógicos são dogmáticos, segundo Quine,


quando afirmam tal distinção sem levar em conta que ela é tão
Além dessa divergência com os positivistas lógicos, Quine
leva outras à arena, como, por exemplo, a idéia destes de que a

•• fruto de circunstâncias arbitrárias quanto muitas outras coisas, e


que, sendo assim , não há razão para que eles a tornem como um
elemento capaz de dividir águas a respeito do conhecitnento, da
matemática é necessariamente verdadeira porém vazia. Quine
defende a idéia de que a matemática tem conteúdo, e não é o reino
da verdade necessária. Para explicar isso, Quine desenvolve o seu

•• epistemologia e da sem ântica , corno costumam fazer.


O conhecido exemplo da coruja é bastante claro. " C oruj as
holismo epistemológico, de acordo com o que todas as partes de um
sistema de sentenças que formam uma teoria ou um conjunto de

•• piam" é urna frase analítica ou sintética? Deveria ser sintética. pois,


afinal. sua negação não conduz a urna autocontradição. " C oruj as
nào piam" é uma frase perfeita , n ão nega a si mesma. A frase
conhecimentos estão inter-relacionadas, e não fragmentadas em
categorias diferentes. Ele acredita no poder da matemática. Qualquer
erro em nossos sistemas de conhecimento, diz ele , nos levaria a
e "Corujas são membros da ordem Stri1?i/ãrmes" é analítica (todos os
_ <..c • abandonar urna série de elementos, 111as a matemática seria a
e membros da ordem St"~r.{fim·ne5 são corujas). Porém, diante das última coisa que deixaríamos para trás.
ta duas frases, parece que a certeza de que "Corujas piarn" sej a ana- Quine é o inimigo-amigo dos positivistas. Quando os ataca

•• lítica é maior do que em relação à frase "Corujas são membros da


ordem Strioiiormes",
ern seus princípios, chega a causar-lhes graves lesões. mas ele
permanece fiel ao espírito do Círculo de Viena na medida ern

e
•e
_ 'i'i"'''••''''Hil'P M"t"Di'N"'!j§H,'§i1iéiu_ 1 ••
e
e
••
que, durante toda sua vida, acredita que a filosofia deve ser unia O de definição contextual, Trata-se de criar paráfrases nas quais
forma de ernpirismo, deve ser cientifica, e deve caminhar nas sentenças que parecem indicar enigmas e problemas filosóficos são
trilhas do fisicalismo (materialismo). Nesse caso, apela para proce- restabelecidas de maneira que o termo provocante, irritante, que
dimentos behavioristas no tratamento do problema mente-corpo. cria o paradoxal ou o problemático, desaparece. A técnica, é claro, e
A célebre experiência do "coelho de Quine" torna-se um exemplo-
padrão do behaviorismo filosófico, procurando um caminho
não é estranha às descrições de Russell. Mas, diferente de Russell
e próximo de Wittgenstein, Quine usa a definição contextual
segundo uma indicação pragmatista. Não afirma que encontra o
••
••
científico, sem no entanto se deixar levar por qualquer tipo de
behaviorismo psicológico. verdadeiro no estudo da lógica do pensamento, que estaria escon-
As principais conclusões de Quine, para além do já dito, dida na linguagem comum. Ao contrário, é conveniente para ele
seguem abaixo.
A teoria do significado de Quine não difere da de Russell e
Frege quanto ao fato de que se deve insistir em dar atenção antes
usar a definição contextual, porque ela fornece um modo de evitar
certas características das expressões da linguagem ordinária que
parecem conduzir o falante para um campo metafísico.

e
às sentenças do que às palavras quando se quer falar em unidades O ponto, aqui, é delicado. Quine, de fato, acha que a lingua- e
de significado. O empirismo de Hume parece falho porque tenta gem da análise lógica não pode substituir a do discurso comum,

fazer a correlação de palavras individuais corn experiências indi-
víduais. Hume, se observado por Quine, erra na medida em que
embora acredite que só o discurso da física consegue colocar
enunciados verdadeiros sobre a realidade. Trata-se de uma atuali- ••
••
pode tomar, por exemplo, as idéias de "Deus", "causa", "eu" etc. e zação de Demócrito e Hobbes. A linguagem ordinária tem valor
perguntar de onde elas derivam para em seguida afirmar que, não instrumental. Ou seja, ela colabora para a confusão porque não está

•'•.
havendo nenhum dado bruto detectado pelos sentidos, então a equipada para expressar verdades, exceto de modos metafóricos.
palavra nomeadora da idéia não tem sentido. Inversamente, Todavia, é necessário ter claro que essa eleição da fisica como uma
Quine deixa a palavra de lado e toma a sentença como unidade linguagem melhor para expressar verdades não é um reducionismo.
de significado, evitando o que seria um reducionismo excessivo da Quine não está convencido que a linguagem das ciências pode ser
reduzida à linguagem da fisica ou que a linguagem da ordem dos

•e
parte de Hume. Por outro lado, Quine entende que o lado oposto,
o de Platão, não é urna boa saída para o caso. Para o platonismo a eventos mentais pode ser reduzida à linguagem da ordem dos
palavra "vermelho" deve nomear urna essência, a "verrnelhidade", eventos físico-neurológicos. Não há como fazer a redução.
que urna vez estando em um plano ideal é mais real do que os
vários vermelhos individuais do mundo sensível. U11U tal teoria
Aparentemente, entre o espaço da linguagem COnlUlTI e o da física
há um catnpo metafórico desinteressante para a filosofia, Aqui,
outros filósofos , e vários que se consideram dentro . das fileiras da
••
ofende a navalha de Ockham, urna vez que itens C01110 "essências",
"significados" e "formas' são carregados de ontologia. Significados,
então. tornam-se elementos mediadores - coisas - entre palavras e
filosofia analítica, tendem a discordar de Quine, pois consideram
que é nesse espaço do discurso da arte, economia, moralidade, •e
objetos . Ora, para Quine, a transformação do que é chamado de
significado ern coisa é urna ilusão.
lingüística, política etc. que se situam as experiências humanas
individuais. •e
O mér ito de Quine é o de levar ao limite um elemento-
chave na técnica dos filósofos analíticos contemporâneos. Qual?
••
e
...
-

-•e
••
••
e Uoneld Devidson

e e a teoria do agente
••
e
••
e .

•• U
íf

ma das linhas de continuidade e ao mesmo tempo de crítica

•• da filosofia de Quine é a desenvolvida pelo norte-americano


Donald Davidson (1917). Uma explanação geral sobre esse filósofo

•• deve incluir os dois lados de suas investigações, que determinam


dois tradicionais campos da filosofia: a relação entre eventos
mentais e eventos físicos, e a discussão do tema da verdade.

•• Quanto ao primeiro tema, Davidson inova na medida em


que, diferentemente da divisão tradicional entre explicação por

•e razões e explicação por causas, a respeito do que faz um agente -


mutatis mutandis, um sujeito -~ que em geral traz sempre a criação

•e de dois calUpos de dificil interligação, ele diz que a explicação por


razões é urna espécie de explicação por causa. Trazendo tudo à
causalidade, Davidson está simplesrnente fincando o pé no natu-

e• ralismo, no fisicalismo, no materialismo. E não são tais posições


fisicalistas unI reducionismo? O que faz de Davidson UIll filósofo
e interessante ainda que fisicalista? (este "ainda", em itálico, é um
modo de respeitar os filósofos continentais, os europeu s~ que em
e
•• geral não simpatizam com a filosofia de língua inglesa por conta do
seu fisicalisrno ou materialismo). O que Richard Rorry (1931) ,

e
~---
_ 'M'R"'"
... -------~=-------------".. e
."D~fiii" DON.\!.!) DA
I l1li' ••
lendo Davidson arualmente, comenta é que o fisicalismo de Davidson causas? Não é isso que comumente se espera. Como Davidson
••
é não-redutivista. E isto em um sentido mais claro e aperfeiçoado
do que o de Quine. Se Rorty está certo, como Davidson faz isso?
alimenta esse seu argumento?
Davidson coloca na mesa de jogo duas idéias: a de razão ••
A resposta depende da apreensão da visão de Davidson em relação primária e a de ação sob uma descrição. A razão primária é aquela que
Davidson apresenta corno tendo a mesma função do que se pode

.'.'
a razões e causas , eventos mentais e agentes; enfim, o que seria
uma "teoria do agente ou da ação" em Davidson - urna "teoria da chamar de causa. A ação sob uma descrição é a idéia de que e
subjetividade" em uma época em que a subjetividade não se descrições de causas e descrições de razões podem contemplar a
coloca mais como ponto metafísico básico e, para Davidson, nem mesma ação, sem reducionismos - não há a incorporação de uma
mesmo é um elemento de qualquer relevância como instância. descrição pela outra e não há a exclusão de uma pela outra.
e
A perspectiva que Davidson tem do agente se baseia, inicial-
mente, nas suas observações sobre razões e causas. Na filosofia ,
vários defendem explicitamente, a partir do referencial de posições
Quanto à primeira idéia, ele diz que uma razão primária é
o par formado por uma crença e um desejo (que com variações e
detalhes ele qualifica como "pré-disposição"), sob o qual uma ação

•e
oriundas de alguma metafísica, o dualismo entre explicação por é explicada. Assim. diz ele, minha ação de apertar o interruptor de
razões e explicações por causas. Mesmo autores não-metafísicos
mantêm tal dualidade. Por quê? Porque a explicação racional é
luz pode ser explicada por referência à minha crença de que
apertando o interruptor acendo a luz associada ao meu desejo de ••
••
iluminar a sala. Pode-se ter ambos, crença e desejo, ou pode-se ter
vista, comumente, como não envolvendo leis. Afinal, há dificul-
apenas um; o importante é que, tendo um,já é possível a explica ção.
dade em se aceitar que há leis na história, na sociologia, na psico-
O que importa aqui é que a ação é explicada, isto é, torna-se

••
logia etc., e mesmo quando se fala em leis, em relação aos atos
inteligível quando descrita se é inserida em um sistema amplo de
humanos, não se está tomando a palavra em seu sentido literal.
dispo;ições atribuíveis ao agente. Em outras palavras, a explícaçào
Agora, a explicação causal é essencialmente explicitada por leis.

•e
surge quando a ação do agente é acolhida em um quadro amplo
Não há qualquer dificuldade em ver leis regendo os vários fenô-
de racionalidade. Entende-se a ação por conta de que ela é assimi-
menos das ciências naturais. Ou seja, a explicação por referência
lável a padrões reconhecíveis do que se chama racionalidade.
a razões requer que se mostre como a ação de um agente qualquer
se adequa a um padrão amplo de comportamento racional, enquanto
a explicação por causas requer algo menos flexível , que é a lei
Sobre a segunda idéia, ou seja, a de "ação sob uma descrição" ,
o que se quer dizer é que urna ação é possível de ser contada, ••
(inclusive maternatiz ável) que rege a ação. Mas Davidson diz que,
quando se explica a açào de um agente qualquer, pode-se dizer,
senlpre~ por mais de uma descrição correta. Assim, é possível e
correto que um comportamento de um agente seja descrito de
1110do a ser compreendido C01110 intencional, e ser descrito de
••

-
sem errar, que se há uma explicação por razões para a ação, tal
maneiras diferentes que não explicitam qualquer caráter de inten-
explicação é tamb ém urna explicação causal. Se unl agente faz
cionalidade. O exemplo de Davidson é claro: a ação de apertar o
algo, e a explicação dessa sua atitude é urna explicação por razões
- urna referência às intenções do agente ou motivações -, as
razões invocadas só explicam mesmo a ação na exata medida em
interruptor de luz COlTlO o ato de iluminar a sala pode ser colocada
sob U11U descrição de intenção, ou seja "Aperto o interruptor, já
que queria acender a luz"; mas tal ~vento pode ser contado sem
•e
que são as causas da ação do agente. Então, no limite, razões são urna descrição de intenção, COl110 "Aperto o interruptor, acendo
••

-•
e
.e ."'''II''·.'II'4i'''6I '''''W'··tMlfW'I'U''ii;'g''W'dd' _I

-•--
e
a luz e acabo por alertar um ladrão lá do lado de fora do qual ~'eu
não tinha o menor corihecirnenro ".
A ligação entre razão e ação pode ganhar várias descrições.
Tal ligação é racional na medida em que crença e desejo - o par
eventos que se acham ligados como causa e deito estão sob leis
estritas. O princípio do anomalismo do mental afirma que eventos
fisicos e eventos mentais não estão sob leis estritas. Assim, como se
pode notar, aparentemente há uma incompatibilidade entre esses

; que Davidson chama de " razão primária" - dizem a razão para a


ação , e é também causal na medida em que um evento causa o
outro se é a razão para ele. A razão é causalmente relacionada à
ação, e por isso mesmo a ação pode ser explicada quando se evoca
princ ípios. Seria correto dizer que a relação entre evento mental
e evento físico está Sell1pre sob leis estritas, e eliminar o terceiro
princípio? Davidson, é claro, luta pela harmonia entre os três prin-
cípios, o que implica a defesa da veracidade do terceiro princípio.
a razão. Este ponto é importante: se o agente mostra várias razões para Em outras palavras, Davidson defende sua doutrina no campo da
agir como agiu, e age segundo uma única razão , não há nenhuma filosofia da mente: o monismo anômalo.
maneira de pinçar tal razão para além do seguinte: apontá-la como Davidson sustenta que o mesmo evento pode ser apontado
a que causou a ação. por mais de uma descrição. Eventos causalmente relacionados o
Uma vez que se considere a ligação entre razão e ação como fazem sob urna lei estrita (uma lei específica, determinada, como
racional, então não se pode descrevê-la nos termos de qualquer lei as leis matemáticas que se aplicam em algumas partes das ciências
estrita. Mas seria de estranhar que tal ligação também não tosse da natureza) . Mas, uma vez que Davidson assume que leis são
uma ligação causal. Trata-se, sim, de uma conexão causal. Então, en tidades lingüísticas (leis são, afinal, formulações da ordem da
deve haver uma lei que rege a sua regularidade, ainda que tal lei linguagem) , tais leis só podem relacionar eventos sob uma descrição
não seja descritível na linguagem da racionalidade que abriga os específica .Assim, o mesmo par de eventos pode exemplificar urna
eventos em questão. A explicação racional dispensa qualquer menção lei sob uma descrição, porém. não sob outras . Não existe nenhuma lei

•• a uma lei de regência de regularidade, ainda que rnantenha que


deve haver uma tal regularidade que sustenta a ligação racional
estrita que relaciona, apenas sob uma única forma, as descrições
que envolvem a formação de gelo na superfície de uma estrada e

•• exatamente na medida em que esta ligação é causal. Contudo, urna


vez que Davidson não aceita que se diga que explicações racionais
podem ser elaboradas segundo os termos da ciência cuja função é
o deslizamento de um carro, luas , sob urna diferente descrição, os
eventos em jogo aqui certamente devem ser cobertos pela mesma
lei estrita ou conjunto de leis. Mas enquanto relações que estão
e a previsão, ele não está comprometido COIU qualquer redução de sob leis (relações nornológicas), entre eventos, dependem das

e urna explicação racional a urna explicação não-racional.


Tais posições de Davidson resultam em três grandes princípios
descrições dos eventos. relações de causalidade e identidade recebem
descrições independentes. Por exemplo, se o gelo em cima da
e
•e de sua filosofia , em particular no que ela contribui para a filosofia pista causa o de slize dos carros, não importa COl110 tal evento é
da mente: o princípio da interação causal, o princípio do cará ter descrito. Isto é. se a fonna de descrição é da ordem dos termos

-•
e
nornolooico da causalidade e, enfim, o princípio do anomalismo do
mental.
O princípio da interação causal diz que os eventos mentais
(pelo menos alguns) interagem causalmente COI11 os eventos físicos.
que se usam ern descrições de eventos que então são chamados
de mentais ou da ordem dos termos que se usam em descrições
de eventos que então são chamados de físicos, isto não tem rele -
v ânr ia para o fato de que urna relação causal está ali, dada. Daí


() princípio do caráter nornológico da causalidade enuncia que os que o mesmo par de eventos pode ser contado segundo a ordem

e
----------------------------~-------sr
e
Mih'U".'. 'Mi'M '.'4""'*'41I1§'*'''II56'+''" _I ••
causal e, sob algumas certas descrições, não existe uma lei estrita fornecida nos termos do fisico ern relação ao mesmo evento.
••
que recolha todos os eventos. UIU evento mental (ou um evento
dado sob a descrição da ordem do mental) pode ser relacionado
Davidson diz que o mental é adicional ao físico (ele usa para
" adicional" o termo inglês "supervenience", que se traduz como ••
causalmente a algum evento físico (ou um evento dado sob a
descrição da ordem do fisico) e, ainda assim, não haverá nenhuma
lei estrita regendo aqueles eventos sob aquelas descrições. O
" o corrên cia ine sperada" , uma tradução não muito adequada para
o que se quer expressar aqui). Adicional, no presente contexto,
significa que o mental diz, na descrição nos seus termos, coisas a
•e
desejo de comer uma maçã, por exemplo, leva alguém a pegar a
fruta na geladeira, e então o desejo causa uma mudança física dentro
mais, de modo que eventos que não podem ser distinguidos sob
uma descrição da ordem do físico não podem ser distinguidos ••
da geladeira, ou seja, em uma região espaço-temporal, mas não há
nenhuma lei estrita que relaciona o desejo com a mudança fisica.
Da mesma maneira, se um evento mental é identificado com um
sob uma descrição da ordem do mental.
O monismo anômalo é a combinação de uma atitude ••
•e
monista, que mantém o que importa do fisicalismo , e, ao mesmo
evento físico - um mesmo evento sob duas descrições -, não é tempo, no que diz respeito à anomalia, trata-se da preservação do
possível existir uma lei estrita relacionando o evento descrito nos que em geral se chama psicologia popular, ou seja, a linguagem de
termos da ordem do mental com o evento descrito nos termos
da ordem do fisico. Para Davidson, não pode haver nenhuma lei
veiculação de crenças, desejos, ações e razões que corriqueiramente
todos usam. ••
••
estrita que relacione o mental e o fisico - não pode haver nenhuma
lei estrita que relacione o desejo específico por maçã com espe-

-
cíficos tipos de mudanças da atividade cerebral.
O que Davidson afirma é, portanto, que não há leis estri-
tamente psicofísicas, e isto deriva da perspectiva dele de que o
mental é limitado por princípios gerais de racionalidade que não
se aplicam, de igual modo, a descrições fisicas. Isto é, a racionali-
••
dade implica consistência e coerência, as quais delimitam (.1 pensa-
mento sobre eventos fisicos, 111as nada conseguenl sobre eventos ••
físicos enquanto tais. Isso não quer dizer que não há correlação
determinável entre o mental e o físico, e sim, que as correlações
que podem ser determinadas não podem aparecer na forma única,
••
clara, precisa, corno é o C;.lSO de leis estritas. Sendo assim, não há e

corno conseguir urna redução das descrições mentais às descrições
físicas. Para Davidson, o objetivo de outros fisicalistas de reduzir
tudo a uma única linguagem, que é a da ordem do físico. da ciência
física, nào f.1Z qualquer sentido. Mas todo evento mental pode ser
posto ao lado de um evento fisico. Ou melhor: toda de scriçào
- ••
dada nos termos do mental a respeito de um evento pode ser
••
..e
••
•e •
e

--
••
Introdução às teorias
da verdade

••
••
•• A outra parte da filosofia de Davidson, que completa sua

•• "teoria do agente" ou "teoria da ação" , é composta por seus estudos


sobre a linguagem e a verdade. Como foi dito, em uma filosofia

••
inspirada nos modernos, cada autor deve falar do sujeito e, depois,
da razão. Mutatis mutandis, na filosofia analítica de Davidson, é a
discussão do agente e da ação, primeiramente, e depois a discussão

•• da linguagem e da verdade. Todavia, para se entender essa segunda


parte da filosofia de Davidson fazem-se necessárias algumas obser-

•• vações sobre um assunto que ganha especificidade no século xx:


as teorias da verdade.
El11 grego, verdade é aletheia. Quando se diz aletheia há a

•e evocação do não-oculto ou do que não está dissimulado. Alethcia


é o oposto de pseudos, que é justamente o escondido, o que está

•• dissimulado, Não importa aqui se é o " olh o do corpo" ou o " olh o

.• do espírito" que está vendo. O que interessa aqui é que ambos.


quando estão vendo o verdadeiro, estão diante de algo evidente
próprio às coisas . A verdade está nas coisas. Dizer a verdade é
dizer a verdade do que está na realidade manifestada, e não na

•• realidade que não se manifesta , oculta, a que engana.

e
...
-----------------------------------------~r e
[M'I"U'ijlNi"i,liUfié" IQlill"rl'.·""@i,m@ a,,* _I ••
Em latim, verdade é veritas. Quando se diz ventas há a evo-s Teoria da Verificação Ideal: X é verdadeiro sse X é provável,
••
cação da exatidão de unl relato, ou grau de exatidão de um relato.
Não se trata aqui da verdade como urna qualidade das coisas,
ou verificável em condições ideais.
A teoria da correspondência vem da definição de Aristóteles: ••

-
mas do quanto uma narrativa é acurada, exata, pormenorizada. "Dizer do que é que ele é, ou dizer do que não é que ele não é,
Caminha-se aqui no âmbito exclusivo da linguagem, e um relato é a verdade". Ninguém nega isso. Nem os tradicionalistas, nem os
é veraz se ele enuncia pormenorizada e exatamente os fatos reais. minimalistas e muito menos o senso comum. Mas o problema é
Há o relato falsificado, mentiroso, e há o relato verdadeiro.
Em hebraico, verdade se relaciona com a palavra emunah.
que tal fórmula, quando analisada filosoficamente, não passa pelo
crivo de muitas indagações. Ela é simples aparentemente, mas ••
Trata-se de pacto, realizado para o presente ou para o futuro. É
uma palavra que tem a ver COIn esperança, confiança. Relaciona-se
com a idéia de que o que se combinou ou o que se espera irá
filosoficamente está cheia de problemas. De que tipo?
A teoria da correspondência parece aos não-filósofos inaba-
lável. Ela diz "X é verdadeiro sse X corresponde a um fato". Com
••
mesmo acontecer.Verdade, aqui, leva a pensar em acordo histórico
e/ou político, ou em profecia.
fatos positivos, a teoria parece funcionar. Por exemplo, se alguém
diz: "há um urso dentro desta sala em que estamos", então o que ••
A concepção de verdade, no cotidiano ocidental de hoje,
tem a ver com essas três formas de as línguas mais antigas tomarem
se tem é um fato. O fato é: há um urso dentro desta sala. Com a
fórmula da teoria da correspondência o que há é o seguinte: "'há ••
••
a verdade. Mas uma coisa é falar sobre verdade e verdadeiro, outra um urso dentro desta sala' se e somente se há um urso dentro desta
é erigir teorias a respeito da verdade. sala". O enunciado X 'há um urso dentro desta sala' corresponde
As teorias da verdade podem ser postas em duas classes ao fato há um urso dentro desta sala. Mas a teoria da correspondência
básicas: de um lado, as teorias tradicionais da verdade, ou seja, as
teorias substantivas da verdade; de outro, as teorias minimalistas
funciona com fatos negativos? Por exemplo, se alguém diz: "não
há um urso dentro desta sala", a equação fica a seguinte: '''não há ••
••
da verdade. As teorias tradicionais ainda são defendidas, é claro, um urso dentro desta sala' é verdadeiro se e somente se não há um
mas hoje é mais popular a adoção de uma das versões das teorias urso dentro desta sala". Aparentemente é a mesma coisa. Pois, afinal,
minimalistas. o fato há um urso dentro desta sala informa algo, para quem lê ou
As teorias substantivas ou tradicionais da verdade são básica-
mente quatro: a teoria da correspondência, a teoria da coerência,
escuta tal enunciado, o que legitimaria a correspondência entre
fato e enunciado. Mas não há um urso dentro desta sala informa o ••
••
a teoria pragmatista e a teoria da verificação ideal. Considerando que, afinal? Qual é o [ato, nesse caso? O que se está dizendo COIU
que J"X é uma frase, uma declaração, unl pensamento ou uma tal enunciado é que há cadeiras na sala e não Ull1 urso? Ou se está
proposição, e que o símbolo sse (![f) é o "se e somente se", então dizendo que só há cadeiras na sala cheia de elefantes? Ou que há
essas quatro teorias podem ser expressas assim:
Teoria da Correspondência: X é verdadeiro 5SC X corres-
gente e não urso? Ou que há urna sala completamente sem
móveis, sem gente e sem urso? Ou que tal sala é urna Arca de ••
ponde a um fato;
Teoria da Coerência: X é verdadeiro sse X é um membro de
um conjunto de crenças coerente internamente;
Noé t11aS esqueceratn do urso? Em outras palavras, quando aparece
o que pode ser chamado de um fato negativo, corno dizer que X
corresponde a Utll fato, C0111 o quer a teoria correspondentista? A
••
Teoria Pragmatista: X é verdadeiro sse X é útil de se acreditar; que [ato a expressão lingüística "não há um urso dentro desta sala"
••
e
--
e _ . "@fj'.M""Hli. I N/1{OI H '

e• corresponde? Não se sabe. O enunciado parece corno um carro de simplicidade capaz de provocar a intelecção racional normal.
e que, apesar de o motorista pisar no acelerador, apenas patina e Dessa forma, o sistema todo e cada um de seus elementos são

-•-
e não leva a lugar nerihum. O meSI110 acontece com fatos gerais, verdadeiros - a verdade é a propriedade de se pertencer a um
ou fatos hipotéticos etc. Ou seja, a definição do que é um fato, sistema harmoniosamente coerente de crenças ou enunciados.
do que é Ul11a correspondência - quando olhados filosoficamente
O que é esse sistema? Um sistema de crenças pude ser um
- estoura com a definição da verdade como correspondência.
campo de crenças harmonioso, uma teoria (científica), uma narra-
Isso leva ao questionamento da própria noçào de fato. Afinal,


tiva (científica ou histórica) ou, até mesmo, toda uma linguagem.
o que é um fato? Quando se define tato, o que se diz é: fato é o
Quine explica essa versão do coerentismo afirmando que ninguém
e que realmente acontece, ou fato é o que é verdadeiro, ou o que
entende algo dito pela ciência ou pela história de modo isolado -

•• corresponde à verdade etc. Então, é fácil ver, há um círculo: para


se definir a verdade como correspondência a fatos há de se omitir
que se acaba de definir fato utilizando da idéia de verdade como
isoladamente, nem é possível falar em verdade e falsidade. Leis
físicas ou descrições históricas , diz Quine, são aprendidas e
compreendidas e fazem parte de um largo corpo de conhecimentos
e correspondência a fato. Como não se pode omitir ou esquecer

••
que tem sua própria trama.
isso, percebe-se que se está em um círculo. Um círculo, em teoria,
não leva a nada . Mas o que conta contra a teoria coerentista da verdade é
que eta parece conduzir ao relativismo. Resumindo ao máximo: o

••
A teoria da coerência pode ser apresentada como uma saída
que se faz contra o coerentismo é dizer que todos conhecem
para os problemas do correspondentismo. O que diz tal teoria é
vários conjuntos harmoniosos de crenças muito bem estruturados
que o erro da teoria da correspondência é justamente querer

•• comparar coisas heterogêneas. Isto é, de um lado há coisas lingüís-


ticas e de outro coisas não-lingüísticas. " X " é algo lingüístico, e o
em relação aos quais não estariam dispostos a gastar urna gota de
saliva para defendê-los como verdadeiros em uma discussão. São
coerentes, mas não fomentam a coragem para que um conjunto

•• que recebe o nome de "fato" é algo não-lingüístico. A teoria da


coerência diz que isso não tem sentido, que é necessário comparar
coisas da ordem de enunciados com coisas da ordem de enunciados,
de pessoas de bom senso possa chamá-los de verdadeiros, porque
enl nada eles convencem de que falam de alguma realidade. Se o

•• crenças com crenças e assim por diante. Todavia. não se trata de


fazer isso caso a caso, frase por frase. Isso se aplica, dizem os coe-
coerentismo abre a guarda para o relativismo, ele não seria uma
solução para as falhas do correspondentismo, pois no limite ele

• rentistas, de unl modo holístico, levando em consideração sistemas tece o tapete do ceticismo. Este, por sua vez, é exatamente a figura
de enunciados ou sistemas de crenças, ou seja. uma teoria, um contra a qual a Filosofia faz sua guerra permanente. dado que o
e " vocabulário " (corno diz Rorry), ou UHl "campo de torça" (corno cético, ,grosso modo, é o que fala sobre a impossibilidade do conhe-
e diz Quine). Em outras palavras:a verdade, na teoria coerentista, não cimento, do saber verdadeiro.

e é um predicado que se aplica a frases ou crenças isoladas, 111as se Foi contra essa abertura da teoria da coerência diante do

e• aplica a conjuntos de frases, conjuntos de crenças em um todo. um


sistema. Assim, um sistema de crenças é dito coerente quando seus
relativismo e do ceticismo que William james (1842 -1909) e John
Dewey (1859-1952), os pragmatistas clássicos norte-americanos,
resolveram iniciar sua filosofia. E para tanto eles criam a teoria

••
elementos são consistentes entre si em urna rede de crenças, e
quando estào dispostos de maneira que detêm UHl tipo específico praomatista da verdade. O que james e Dewey dizem?
e
••
Eles enunciam o seguinte. As teorias da verdade que existem Peirce (1839-1914) elabora uma versão mais estreita do que
••
não são ruins, o que falta é se falar em condições da verdade. Assim,
a teoria pragmatista nasce menos com o intuito de ser uma teoria
essa. Peirce, diferentemente de James e Dewey, pensa a experiência
de modo mais restrito. Ele a vê como experimento. Quando ele fala ••
e mais com a perspectiva de encontrar regras de conduta para
queln procura o verdadeiro. Assim, eles tentam falar menos em
correspondência ou coerência e chamar a atenção para a idéia de
em experiência controlada, refere-se a experimento sob domínio
laboratorial. Então, são enunciados verdadeiros, para Peirce,
aqueles que, referindo-se a certas observações, podem receber o
•e
que qualquer teoria da verdade deve levar em conta a noção de
experiência. Não se trata aqui de experiência somente como expe-
consenso de uma comunidade de experts, que estão lidando com a
experiência imaginando-a em um limite ideal, ••
rimento, nem de experiência como experiência sensível. Trata-se
de experiência no sentido mais amplo possível: experiência de
Em relação às três posições dos pragmatistas clássicos, também
há objeções. A mais séria é a respeito da noção de experiência. Ela ••
••
vida, experiência psíquica, experiência de um povo ou de um seria pouco palpável, não respondendo aos critérios de busca de
tempo, e também experiência científica, de laboratório. Então, rigor a partir da busca do aperfeiçoamento do que é 111ais empí-
cada homem ou mulher que quer saber da verdade deve olhar rico, dentro da tradição da filosofia de língua inglesa no século
para a experiência, ou seja, deve olhar para a conduta dos seres
humanos (ou, para falar mais ampliadamente, para a conduta dos
xx. Há quem diga que Dewey, James e Peirce não conseguem
dar critérios para seus critérios. Os pragmatistas, segundo seus ••
••
bípedes sem penas, C01no Platão chama o homem e Rorty endossa). adversários do lado da filosofia analítica, e n1eS1110 seus simpatizantes,
É mais útil acreditar em um enunciado sobre o qual há consenso afirmam que o critério para perseguir a verdade é a experiência,
do que sobre um enunciado que não possui defensores, que está mas não conseguem esclarecer o que é mesmo a experiência.
longe do consenso daquelas que são pessoas razoáveis. E isso é o
pragmatismo de James. A verdade está mais próxima, diz ele,
Tal problema parece hoje solucionado. Os filósofos atuais da
linha pragmatista deixam de lado a experiência, a observação da ••
quando as experiências conduzem a um maior consenso. Uma
frase que está mais próxima do consenso leva os homens a colo-
car as fichas nela; mas uma frase que está mais distante do con-
experiência (como termo geral) e observam comportamentos
mais fáceis de ser mensurados, como o caso do comportamento
lingüístico. Ou seja, o problema parece ser resolvido pela virada
••
senso faz, de modo a seguir o que é mais útil, os mais razoáveis
se afastar dela. É nesse sentido específico que a verdade é útil para
lingüística (linguistíc tum). De modo mais claro, mais abrangente,
então, começa-se a avançar para teorias da verdade que são ao ••
o pragmatismo clássico.
Dewey, corn o mesmo propósito de procurar corno rastro da
verdade o consenso, elabora sua noção de assertibilidade garantida
mesmo tempo pragmáticas e lingüísticas. Nesse contexto, em parte
há um certo abandono das teorias tradicionais, ou há a reforrnu- ••
(warramy assertibílíty). Ele pensa na verdade como o predicado de
enunciados ou frases que podem ser de alguma fonna asseguradas:
laçào delas, mas o que importa dizer é que, pelo tradicionalismo
ou pelo não-tradicionalismo, o que se vê é que as teorias da
verdade se envolvem COt11 a semântica, e a filosofia da linguagem
••
frases que foram frutos de ações controladas. Após controle e
experiência, podem-se emitir frases consensuais sobre a experiência
realizada. LJ controle sobre tais ações produz o consenso sobre
se mistura com a lógica para falar do rema.
As teorias minirnalistas são todas do campo semântico (por ••
algumas frases. e estas. então, recebem urn selo de garantia.
exemplo, dentre elas: a teoria deflacionista, a teoria da redundância,
••
e
•• "i'IIl"Uhi'I!Kij'ijiijfICili _I
e
e a teoria semântica de Davidson etc.).Aqui, o que importa é somente 2. assim, o termo "verdade" não cabe no templo metafisico,
ti a idéia básica do minimalismo. mas cabe tão-somente na rua quotidiana dos usos da linguagem.

•e Não se pode dizer que tudo o que se faz no canlpo mini- Isso é o que se pode chamar de "escada de Ramsey". Do

-
malista ou, pelo menos, no campo deflacionário é apenas desdo- que se trata?
bramento da idéia de Frank Pluptom Ramsey (1903-1930). Mas A imagem da escada é a seguinte: na base da escada pode-se

•• Ramsey é o pai da idéia básica do deflacionismo.


O deflacionismo, como o próprio nome está dizendo, é o
movimento em que cabem os filósofos adeptos de teorias da ver-
dizer "1'''; no primeiro degrau, "é verdadeiro que r": no segundo
degrau, "está na ordem do universo que é verdadeiro que p", e
assim por diante. Nos últimos degraus (se é que isso tem fim) há
e dade que dessubstantivam a verdade. Isto é, que desessencializam a a permissão de se florear a frase ao máximo de acordo com a

•• verdade ou, no limite, que retiram da verdade qualquer carga


metafísica. A perspectiva deflacionista nega que há uma questão
como esta, a saber: "Qual é a natureza da verdade?". O filósofo
petjormance lingüística desejada. Um deflacionista, então, acredita
que, do ponto de vista do que pode encontrar de substancial nas
frases que são colocadas nos degraus da escada, a perspectiva do
e deflacionista diz que a verdade não é uma propriedade "real", ou topo da escada é a mesnla que a perspectiva da base da escada. Se

•• "robusta", ou uma propriedade metafisicamente interessante.


Chega a dizer, inclusive, que a verdade não é, absolutamente, um
há alguma diferença entre topo e base, ela não é uma diferença
substantiva ou metafisica, mas apenas uma diferença retórica.

•• predicado. Os deflacionistas sustentam que a concepção de ver-


dade é "redundante", isto é, o que se fala sobre a verdade é algo

••
puramente formal, Como os deflacionistas fazem isso, do ponto de
visto da técnica filosófica?
O det1acionista diz o seguinte: se emito a expressão" é ver-

•• dadeiro que dois e dois são quatro" ou a expressão "é verdadeiro


que nada é importante além do amor", não estou dizendo nada a

•• mais do que "dois e dois são quatro" e "nada é importante além


do amor". A palavra "verdadeiro" está presente nas fi-ases por uma
questão de petjormance da linguagen1. Os falantes dizem "é verda-

•e deiro" coru certas frases apenas por urna questão de estilo retórico
que ajuda na perforrnatividade das frases, ou seja, na melhoria da

•• funcionalidade do discurso, na melhoria da adequação comunica-


tiva do discurso. Assim, a verdade e o verdadeiro, para os deflacionistas,
pertencem não ao calnpo merafísico. e sim ao campo da pragmá-

•• tica da linguagem. Isso pode ser formalizado da seguinte maneira


pelo deflacionista:

•• 1.se digo que" é verdade que p", estou afirmando, de um modo


mais eficaz, mais enfático, até talvez mais econômico, apenas "p":

e

o lvoíismo radical de ••
Don.itd Uevidson •e
••
••
••
A maneira como Davidson trata o tema da verdade, do
significado e, enfim, da comunicação, tem como ponto de partida
••
a sua critica a Quine.
Davidson ressalta e critica a seguinte frase de Quine, que ••
está em Two Dogmas:"Eu continuo pensando o esquema conceptual
que é a ciência como um instrumento, que, em última instância,
prediz a experiência futura à luz da experiência passada". O que
••
se tem aqui? Tudo indica que trata-se da idéia de que um esquelna
conceptual é algo usado para fazer algo ao conteúdo da experi- ••
ência. Sendo assim, enunciados, tanto os de caráter observacional
corno os teóricos, seriam elementos de um esquema conceptual ••
••
científico. A diferença entre eles teria a ver com a distância deles
em relação ao ponto em que o esquelna é afetado pelo conteúdo
da experiência. ASSÍ111, segundo Davidson, em sua crítica contra
Quine, a distinção entre enunciados observacionais e enunciados
teóricos repousa em uma distinção mais ampla, a saber, a distinção ••
entre conteúdo empírico e esquema conceptual. Para Davidson, a
idéia de um novo dualismo - ..algo que organiza algo " , de um
lado, e "algo que é organizado por algo", de outro - não se
••
sustenta: não é inteligível nem defensável.
••

e
•• JSOFlA

\
•e Uma das maneiras de Davidson fazer a crítica da posição de totalidade da evidência sensória é o que nós procuramos na

•e Quine é sua delic ada observação a respeito da teoria da evidência


que está embutida na conclusào de Quine.
Para Quine, na leitura de Davidson, o que ocorre é que
condição de toda a evidência que há; e toda a evidência que há é
simplesmente o que torna nossas teorias e sentenças verdadeiras.
Contudo, nada, nenhuma coisa, torna as sentenças e teorias verda-
e urn conjunto de sentenças se responsabiliza ou lida com coisas, o deiras: nem a experiência, nem irritações de superfície, nem o
e que prepara ou ajusta o suporte sensório do agente que conhece, mundo podem fazer uma sentença tornar-se verdadeira. Que a

•• que pode ser comparado ou confrontado corn a evidência. Para


Quine, como Davidson o lê, urna trama de sentenças, ainda que
experiência toma um certo curso, que nossa pele está queimada
ou perfurada, que o universo é finito, esses fatos, se queremos

•• articuladas - uma teoria, uma linguagem -, é que está diante do


tribunal da experiência. Ou seja, como diz Davidson, a " posição
geral [de Quine] é que a evidência sensória fornece toda a evidência
falar desse modo, tornam as sentenças e teorias verdadeiras. Mas
isso é melhor colocado sem menção a fatos. A sentença "Minha
pele está quente" é verdadeira se e somente se minha pele está

•e para a aceitação de sentenças", e aqui, é claro, "sentenças podem


incluir uma teoria toda". Para Davidson, essa idéia pode ser
quente. Aqui não há referência a um fato, um mundo, uma expe-
riência, ou uma peça de evidência (Davidson, D. On Very Idea of

•e· expandida, transformando-se em uma teoria da verdade. Nessa


teoria, o que é ser verdadeiro? Davidson responde: um conjuntos
de sentenças, ou uma só sentença, ou um conjunto de sentenças
a Conceptual Scheme. In: Inquiries into trutli and interpretation.
1

Nova York: Oxford University Press, 1986, p.184).

•• e declarações a que se pode chamar de teoria científica (sobre a


natureza, a sociedade ou sobre qualquer outra coisa), que se ajusta
Essa passagem é uma das preferidas de Rorty. E , sem dúvida,
Rorty está certo em admirá-la. Aqui encontram-se todos os lances

•• ou faz frente à totalidade da possível evidência sensória, é isto


que tal conjunto necessita para ser qualificado como verdadeiro.
Davidson batiza essa teoria da verdade embutida na argumen-
mais ousados de Davidson, ao mesmo tempo que tudo parece
uma simples tautologia. Mas não é. A passagem é fiel aos princípios
de rigor filosófico extremo no âmbito da filosofia da lingua-

•• tação de Quine de " teoria da verdade do esquema-conteúdo". E


para ele essa teoria da verdade não acrescenta nada, não explica coisa
gem, e onde definitivamente Davidson se coloca, porque ele
acredita, diferentemente de Quine, que o tema da verdade tem

•• alguma. O problema, para Davidson, é que a noção de adequação à


totalidade da experiência, da me SIna forma que adequação a tatos,
ou de ser verdadeiro C0111 relação a tatos, não acrescenta nada de
caminho pela semântica e pela lógica e não pela epistemologia.
Davidson diz que a sentença "Minha pele está quente" é
verdadeira se e somente se minha pele está quente. O que é isso?

•e inteligível ao conceito simples de ser verdadeiro. Ou seja, na opinião


de Davidson, a teoria de Quine, corno teoria da verdade, é vazia.
Urna mera tautologia? Não. O que se apresenta aqui é urna teoria
da verdade alternativa às teorias metafísicas, algo no campo do

•• Vale a pena aqui, nesse caso, citar a importante passagem de


Davidson:
minimalismo. Corno funciona essa teoria?
Trata-se do seguinte. Davidson, aproveitando-se dos trabalhos

••
Falar de experjencia sensória antes do que de evidência, ou do lógico Alfred Tarski, chama a sentença acima, -"Minha pele está
apenas de fatos, expressa uma visão sobre a fonte da ou natureza quente' se e somente se minha pele está quente", de uma sentença-T.
da evid ên cia, ma s isso não acrescenta uma 110\'a en tidade ao O papel da sentença-T é o de articular duas linguagens: uma lingua-

•• universo co ntra a qual se possa testar esquemas conceptuais. A <-Item-obj eto e uma mctaLinguagem dessa lingHaget,.,-t1~jeto. Da seguinte

e
_ .,,,,,, 'U,silC'*ii'· ·diJ'MliU!§DM·Q+M~M'·M' m' _I ••
ta
maneira: supondo que a linguagem-objeto seja o português e à as palavras verdade ou verdadeiro. Enquanto ele fala, você escreve ••
••
metalinguagern, o inglês, então, a sentença-T é a seguinte: tudo COIUO UOla citação, ou seja, entre aspas, pois afinal você está
(T) "My skin is warm" é verdadeira se e somente se minha reproduzindo a fala de outra pessoa. Agora, quando você escreve
pele está quente. o que você mesmo fala, não há razão para escrever COOIO citação,
O papel da sentença-T é o de articular, em uma equação
lógica, como acima, o que deve ser verdadeiro na metalinguagem
uma vez que se trata de sua própria fala. Urna conexão existente
que liga a sua fala, a metalinguagem, à fala dele, a linguagem- ••
••
(no caso, aqui, o inglês) se uma particular sentença na linguagem- objeto, pode ser descrita do seguinte modo. Ele diz "A neve é
objeto dessa metalinguagem (no caso, aqui, o português) é ver- , branca". Então a sentença-T que liga a metalinguagem à linguagem-
dadeira. Pode-se gerar uma tal equação traduzindo uma sentença objeto é a seguinte:
citada (aspada) na linguagem-objeto em sua sentença correspon-
dente naquela metalinguagem. Se a linguagem-objeto e a meta- é branca
(T ) "A neve é branca" é verdadeira se e somente se a neve
••
linguagem são as mesmas, então basta apenas tirar as aspas, ou
seja, descitar, por assim dizer. Ou seja:
(T ) "Minha pele está quente" é verdadeira se e somente se
Sendo "A neve é branca" = S, e a neve é branca = p, temos
(T ) S é verdadeira sse p
Procedendo dessa forma, ou seja, usando a equação lógica
••
;
i
i
minha pele está quente.
Denominando a expressão"Minha pela está quente" de S e
que é a sentença-T, Davidson raciocina que a totalidade das
sentenças-T em Ul11a determinada linguagem L (por exemplo, o ••
~. minha pele está quente de P e trocando o se e somente se pelo símbolo
lógico sse, o que se tem é:
português) unicamente determina a extensão do conceito de
verdade para essa linguagem L (o português). Porém, aqui, há ••
( T ) S é verdadeira sse P uma dificuldade evidente: a totalidade das sentenças-T é infinita.
P nada mais é que S, embora sem ser uma citação, pois é
igual a S mas não é uma citação, não está entre aspas.
Para determinar o que significa para uma sentença ser verdadeira
em uma linguagem L, se faz necessário uma teoria finita sobre ••
Explicando isso em detalhes. Suponha que você está diante
de alguém que diz: "A neve é branca". Este alguém, que não é
você, fala português, e você determina que ele está falando a
C01110 gerar um conjunto infinito de sentenças- T. Davidson chama
essa condição de convenção-T.
De acordo com a convenção-T, urna teoria da verdade
•e\
linguagem-objeto, uma vez que você está como o observador de satisfatória para urna linguagem L deve implicar, para todas as
••
.'
sua fala, o observador da linguagem desse alguém que, no exemplo sentenças S de L, um teorema da forma S é verdadeiro sse P, onde
aqui, fala português. Para cada frase que ele emite. você procura S é substituído por uma descrição de S e P por ele mesmo se L é
então estabelecer alguma conexão nos termos da sua linguagem,
e a sua linguagem é a mesma que a dele, o português, luas COl110
você é o observador e não o falante. você denomina essa sua
o português. e por meio de urna tradução de S em português se
L não é o português.
Uma teoria da verdade para L que encontra os requerimentos
••

linguagem de metalinguagern da linguagem-objeto. Bem, mas que
tipo de conexão pode ser estabelecida? Urna conexão que pode
ser feita entre o que ele fala e o que voc ê entende é aquela em que
estão implicadas as "condições da verdade", ou, mais simplesmente,
da convenção- T seria capaz de gerar e provar todos os teoremas
de sentenças-T em L. Urna tal teoria também fixaria o significado
de cada palavra em urna sente.lH...a na medida em que ela pode
construir qualquer número de sentenças ern L que usam uma
.'•.'

e
: M '",,'fifl!_'II"M'" o HOUSMO UADlCAI DI IH)NAI D I)'\V!DSON ...
IIrA3IJ,


* ~.
palavra particular sem contradição lógica. Assim, Davidson consi-
dera essa teoria da verdade uma teoria do significado - urna teoria
Quine de ter de buscar na evidência sensória o primeiro do da
cadeia. Mas isso está descartado, entende Davidson, ao se levar a

!
semântica da verdade. sério - mais que o próprio Quine - urna parte da conclusão de
Com isso, resolve-se a questão colocada por Davidson, a Tu/o Dogmas, já citada: "qualquer declaração pode ser mantida
qual deve ser respondida por urna teoria da verdade de caráter verdadeira se fazemos ajustamentos suficientemente drásticos ern
,; semântico: o que é para uma sentença ou teoria ser verdadeira? outros lugares do sistema". Disso segue que "nada torna sentenças
Ou: o que torna verdadeiras sentenças ou teorias? Pelo que ou teorias verdadeiras", que a verdade de uma sentença particular
Davidson formula, a resposta é a seguinte: a teoria da verdade depende da decisão de mantê-la verdadeira e ajustar as outras sentenças.
de acordo com a convenção-T articulará, para cada sentença ou Isso leva a uma outra pergunta: qual o critério usado para o
teoria, uma sentença-T que explica o que torna urna sentença ajustamento? A resposta pode ser dada em forma de outra pergunta,
ou teoria verdadeira. Mais exatamente, o que ocorre é que a que leva a uma única saída, a saber: que modo melhor existe para
sentença-T: antes de tudo, estipula o que outra sentença na linguagem da calcular quão drástico seria o ajustamento requerido para assegurar
teoria, que é a metalinguagern de uma determinada linguagem- uma sentença particular verdadeira do que, primeiro, ordenar
objeto, deve logicamente manter corno verdadeiro quando se sistematicamente um conjunto de sentenças-T apropriadas a urna
assegura como verdadeira uma sentença dessa determinada ;
específica situação e, segundo, determinar se, quando é resolvido
linguagem-objeto.
Tal saída corresponde a uma abordagem holistica, contex-
I ~
manter certas sentenças-T verdadeiras e outras falsas, alguma
contradição lógica emerge na sentença correspondentemente
j
tualista, que é estranha às abordagens que dividem o trabalho 1
i
determinada da metalinguagem ou no conjunto da metalinguagem
filosófico em duas partes: a epistemologia, que cuidaria de como o i como um todo? É claro que pode não ser possível, na prática,
agente conhece, e a ontologia, que cuidaria da essência existente, que manter verdadeiro um conjunto de sentenças-T relevantes que
o agente conhece. Isto é, escapa-se da tarefa de busca de algo não-
lingüístico "no Inundo" onde o lingüístico se engancharia. O
I não impliquem qualquer contradição em algum lugar, mas, note-se
bem, obviamente há todas as condições de se dizer quais contra-
I
holismo que está no parágrafo acima se insere em um campo dições foram aceitas e por que foram aceitas.
não-epistemológico, luas lógico e sem ântico, graças à convenção- T. Davidson, a partir da convenção-Te das disposições de
Atençào: o que a convenção-T permite é dizer: é só quando se critério de ajustamento lógico que ela requer, fornece uma teoria
pode estar confiante na capacidade de gerar todas as possíveis I da verdade em que a verdade de uma sentença particular depende
sentenças-T, de modo a traduzir uma outra linguagem para a I da disposição do agente que conhece em manter outras sentenças
linguagem da teoria. que se é capaz de saber, metalingüisricamente, I corno verdadeiras, dentro de UlTIa linguagem que sistematicamente
o que mais pode-se dizer que é verdadeiro se é dito que uma ii sujeita cada sentença, e suas palavras componentes, a condições de
sentença particular é verdadeira. verdade e significado que podem ser articuladas em urna metalin-
É claro que, urna vez acostumados à abordagem ep isterno- ! guagenl de sentenças- T. Torna-se desnecessária, então, a distinção
í
lógica, pode-se querer retornar com a pergunta de caráter episte- entre um esquema conceptual e um conteúdo emp írico, entre
mológicc -ontoló gico: 111JS o que torna a sentença da linguagem- declarações teóricas e declarações observacionais, entre resultados
I
.
i
objeto verdadeira? E. a partir daí, voltar-se-ia ao problema de e dados, ou, enfim, entre crenças subjetivas e evidências objetivas.
_ '·i"lí'i'.M'''d&ilJi't·
••
Quando se delibera manter urna determinada crença como verdadeir~, [sto
é, quando há a manutenção dela em face da pressão para abandona:la, o
que se tem em mãos, para deliberar, é o cálculo de custo~ e benifiClo~ ~e
tal crença em relação à lógica da linguagem, do agente (ou vocabulário,
como Rorty gosta de dizer) corno um todo. E neste ponto que Ror~
Richard Rortv/ ••
••
/ '

coloca sua cunha. Rorty lê essa frase não como unla. teona
coerentista da verdade, mas como uma explicação pragmatista (ou
liirgen Heberrnes
melhor, neopragmatista) da verdade. "
O que Rorty faz, e que será visto adia.nt~, e quah~~~r e o teme cla verdade ••
••
melhor - de uma maneira pragmatista - o que significa essa idéia
de Davidson de julgar a partir de "custos e beneficios".

••
Rorty está convencido de que Davidson está certo quando diz
que o que há em mãos para qualquer deliberação de manter uma ••
frase ou uma teoria como verdadeira, diante de alguma pressão em
contrário, é o cálculo de custos e beneficios levando em conta a ••
••
lógica, no caso, tudo que se explica acima sobre a convenção-T.
Todavia, para Rorry; isso não é tudo - é Ulll mínimo.
Ou seja, para Rorty, não há que se recorrer, em um patamar
mínimo de possibilidades de justificação, senão à capacidade que
cada um tem de dizer: convém manter esse enunciado X e/ou a ••
teoria Y porque no jogo de prós e contras tal atitude é mais
confortável na medida em que a manutenção dela(s) não traz con- ••
tradições insuportáveis, enquanto o contrário, ou seja, o abandono
de X e/ou Y traz coatradições insuportáveis. Mas isso em U111
patamar rniriirno. E isso não é, ao contrário do que à primeira
••
vista possa parecer, uma teoria coerentista da verdade e sim, o
aperteiçoamento pragmatista de uma tal postura coerentista. Por quê? ••
j
: '!
,1.1
Porque Rorty vê o cálculo de custos e benefícios COIUO
tendo de ser ponderado II partir do resultado de tal cálculo no que este ••
,fiJl
l
' r l,,''.I.,
'd:!;,
,t ,.1 I capacita ou não aquele quefaz ju (,?/Wl cntos, aLJa/iaçàes] inferências etc.


e
•e _ '"iI'ijiIR.·""''''
r .lUCHARD RORn
-I
e
e Inspirado em Dewey e em alguns aforismos de Wittgenstein; gera são perguntas que, para Rorty, podem ser consideradas péssimas,
e Rorry argumenta que os vocabulários alternativos (ou seja, as pois irrespondíveis e... inúteis. Perguntas do tipo: "Qual o lugar da

•e novas teorias, os vocabulários não-oficiais, as linguagens erner-


gentes, as sentenças que muitos falam e repetem mas que parecenl
não ter sentido etc.) devem ser tratados corno instrumentos alter-
consciência em um mundo de moléculas?", "As cores são mais
dependentes da mente do que os pesos?". Essas perguntas, diz

e nativos, e não conlO peças de um grande quebra-cabeça. Quem


Rorty, são perguntas de ordem episternológica que, urna vez
respondidas pela metafísica ou pelos "positivistas lógicos", seja a
e se fixa na segunda posição, diz Rorty, a de que existe a Lingua- resposta aceita ou não por quem os lê, levam a urna conseqüência
e gem, isto é, um grande quebra-cabeça, e que tudo que for novo, que, para Rorry, não é apenas insustentável mas também nociva na
e sem sentido, não-oficial etc. é apenas uma peça desse grande medida em que favorece a hierarquização do conhecimento, a
e quebra-cabeça, está pensando na linguagem como Linguagem hierarquização das frases. Ou seja, o conhecimento, as frases teriam

•-
e
mesmo (com "L" , maiúsculo). Ou seja, está imaginando a linguagem
como um todo fixo que abriga, em algum lugar de seu corpo, um
espaço já dado a priori, o qual espera aquela peça que falta. Assim,
a linguagem seria Linguagem: um espaço lógico predeterminado
sua importância segundo urna classificação epistemológica desse
tipo: as mais importantes seriam as que estivessem mais próximas
da "Realidade Como Ela É". Isso traz de volta o problema de
esquema e conteúdo, diz Rorty, e acaba por nublar unla solução
e (ainda que predeterminado por. .. ninguém') na espera da peça melhor e sustentável - a solução pragmatista ampliada, corno a

•e certa para o lugar certo - a Linguagem, ao contrário da linguagem,


não admitiria, no limite, a contingência. A Linguagem seria uma
que ele fornece a seguir.
Para Rorty, calcular os custos e beneficios para manter uma

-e
e
superlinguagem que a priori condenaria o que é novo apenas a
Ulna situação de "novo porque não foi visto ainda o seu lugar no
quebra-cabeça, mas realmente não novo porque logo há de se
achar onde ele se encaixa". Assim sendo, haveria história, de um
sentença ou uma teoria corno verdadeiras. diante da pressão para
abandoná-la, é uma questão semântica. Mas não só, é urna questão
pragmática na medida em que isso é resolvido levando em conta o
uso das sentenças e teorias. Esse uso pode ser posto em uma tipo-

,•e
lado - como o reino do contingente, e linguagem, de outro - logia não exaustiva do comportamento do "bipede sem penas",
e como o reino lógico-imutável. que é, em boa medida, um comportamento lingüístico. Não se
Rorty diz que tratar os vocabulários alternativos como trata de urna nova teoria da verdade, no sentido tradicional do
peças de um quebra-cabeça é assumir que todos os vocabulários são termo, nem mesmo en1 um sentido pragmatista tradicional. É, sim,
dispensáveis, ou seja, que podem ser reduzidos a outros vocabulários, uma tipologia de caráter contingente, com a qual Rorty quer

.'•
ou capazes de serem unidos COll1 todos os outros vocabulários em melhorar a capacidade de previsibilidade dos acontecimentos,
~ Ulll grande e unificado supervocabulário. O inconveniente de se sabendo mais ou menos o que ocorre quando se está usando a
assumir tal posição é que ela conduz de volta a urna situação pré- palavra "verdadeiro". Para Rorty, isso é saber (.1 que é a verdade. Ou
Davidson e mesmo pré-Quine. Ela traz de volta os dualisrnos que melhor dizendo: isso é trocar urna má pergunta - "O que é a ver-
e acarretam dificuldades a queln assume as posições da metafísica ou l:la
. de;'" - por urna boa pergunta - ") . sao
Quais - os usos das palavras

e 111eS11lO as posições dos inimigos da metafísica, corno os filósofos


do Círculo de Viena. Tanto nos termos do dualismo metafísico,
verdade e verdadeiro?". A tipologia está abaixo.
1) Pode-se usar o termo verdadeiro como um termo de
til
.• ou nos termos dos "empirisras' ou "positivistas lógicos". o que se

I
endosso. de elogio. Quando algo êaprovado, pode-se dizer "certo!",
noxr _I
iI§II"'-"'''''!'·
RICHAHD

M
"correto! ", "vá em frente " , " verdade" , "sim, isso é verdadeiro", "é Para um entendimento das diverg ências no interior do calnpo
verdadeiro, eu endosso", e assim por diante. pragmatista, ou neopragmatista, o melhor exemplo é a polêmica
2) Pode-se usar o termo verdadeiro em situações descitacionais. entre Rorty e Habermas a respeito do deflacionismo.
Usando aspas, portanto indicando uma citação, profere-se a seguinte Deflacionismo é uma palavra usada para qualificar, em geral,
frase: "A úlcera é provocada por um vírus". Isto porque o que se o trabalho executado pelas teorias da verdade minimalistas. Ou
quer é expressar a teoria que diz que a úlcera estomacal não é só seja , teorias entre as quais pode-se dizer, de algum modo, que se
provocada por causas nervosas, mas ela teria como causa real um encaixa a tipologia acima posta por Rorty do uso dos termos
agente físico. Quando se quer proferir tal sentença sem no entanto "verdade" e "verdadeiro", Essa tipologia provoca uma desinflação
endossá-la, mas ao mesmo tempo não usá-la como uma citação, em relação a quê? Em relação às teorias de caráter epistemológico
então pode-se descitar e ao mesmo tempo utilizar a palavra e/ou metafísico (ou mesmo algumas de caráter semântico) que
"verdadeiro" ou "verdade". Assim: é verdadeiro para certos médicos procuram responder a pergunta "O que é a verdade?" com respostas
:i que a úlcera tem causa virótica. Houve a descitação, mas para tal substantivas, isto é, respostas que explicariam a natureza da verdade,
i a essência da verdade e, com isso em mãos, estabeleceriam o tipo de
foi necessário fazer uso do termo "verdadeiro"; o mesmo ocorreria
para a palavra "verdade", se a formulacão fosse um pouco diferente: trabalho filosófico fundacionista. Ou seja, o trabalho filosófico em
novos médicos dizem que é verdade que a úlcera é completamente que, encontrando um porto seguro - a natureza final da verdade
um caso provocado pelos vírus Z. -, coloca toda a cultura sobre esse pilar básico, sob o qual não exis-
3) Usa-se "verdadeiro" ou "não-verdadeiro" para atrair cui- tiria qualquer outro pilar. Essas teorias, então, inflacionam a verdade;
dados, dúvidas, precaução. Quando são ditas coisas do tipo: "Sua elas preenchem as respostas à pergunta " O que é a verdade?" e

I
tese de que o presidente da República não rouba é justificável, mas estão acopladas a critérios de verdade únicos e, finalmente, imutáveis.
não é verdadeira". Ou ainda: "A justificação de tal tese está com- Sendo assim. elas acreditam que explicam substantivamente a
pletamente falha , no entanto a tese é verdadeira". E mais: "Isto está verdade. Urna tipologia como a de Rorty, ao colocar de lado a
completamente justificado, porém não contém a verdade" . ;i pergunta " O que é a verdade?", substituindo-a por "Quais são os
i!
O primeiro tipo de uso do termo "verdadeiro" é percebido fí usos do termo 'verdadeiro' que são conhecidos no momento e
dentro dessa linguagem L determinada?", apenas fornece uma

I
por William james, no início da literatura filosófica pragmatista. O
segundo uso está, entre outros, nos trabalhos de Davidson. O maneira de lidar com o comportamento do "b ípede sem penas",
terceiro uso carrega um complicador, que é apontado em segu ida. o comportamento lingüístico. talvez um de seus comportamentos
mais interessantes. Nesse sentido, urna tal eco/la é deflacionista.

I
Tal cornplicador motiva soluções pragn13tistas que fazem John
Dewey, Hilary Putnam e Jürgen Haberrnas se tornarem parecidos. A crítica de Jürgen Haberrnas (1929) a Rorty refere-se a
Mas não é a solução de nerihurn desses três filósofo s que Rorry que o terceiro uso exibido na tipologia deste mostraria que a
adota para escapar do complicador. Pelo contrário. é exatamente ~ desinflação nâo tem corno se realizar, pois o terceiro uso revelaria
aqui que surge sua divergência COIl1 o pragll13ti slll0 clássico (de
Peirce, mas mesmo de Dewev, de quem ele se diz discípulo) e o
novo pragmatismo (de Putnam e Habermas, por exemplo).
I uma impossibilidade, no cotidiano. na linguagen1 comum, de se
sair de um caIupo inflacionado episternologicamenre. O arzu-
mento é o que segue.
'- ~
..e
: MllIilMUM'*""'MI'.
I<I C}HI~D nosr

••t Usa-se "verdadeiro" ou "não-verdadeiro" para atrair cuidados,


dúvidas, precaução, diz Rorty. Isso ocor re, lembra de, quando são
mando, antes de se exercer COl110 frase de mando ela precisa ser
entendida, para que depois possa realmente ser urna frase de mando.
Assim, Haberrnas enuncia que, existindo urna comunidade lin-
e ditas coisas do tipo: "Sua tese de que o presidente da República
não rouba é justificável, mas não é verdadeira". Ou ainda, "A güística qualquer, também existe filosoficamente, ao seu lado,
justificação de tal tese está completanlente falha, no entanto a tese urna comunidade lingüística ideal - nesta, não há restrições de
é verdadeira" . E mais: "Isto está cotnpletanlente justificado, porém qualquer ordem ao entendimento da linguagem, todos os seus
membros se entendem intelectualmente e só tàzem isto. Assim,
não contém a verdade".
Diante disso, Habermas objeta: esse terceiro uso da palavra ao lado do campo empírico e histórico, há um campo - prag-
"verdadeiro", é fácil ver, apresenta um problema interno. O uso de mático ideal - que funcionaria como ponto arquimediano e,
"verdadeiro" para prevenir, que é este terceiro uso, parece reinfla- sendo assim, corno um lugar onde, por sua própria existência,
cionar a verdade e não deflacioná-la. Pois alguém sempre pode dizer: que é a condição da existência de uma linguagem (um campo
"Você conseguiu avisar a pessoa, como você pretendia, porque tal efetiva-intelectualmente comunicativo), "verdadeiro" se distin-
pessoa sabe que (substancialnlente), 'verdadeiro' é completanlente guiria claramente do que é "bem justificado". Este campo pode
diferente de 'bem justificado', ou seja, 'bem justificado' é 'bem ser visto através de abstrações conscientes das condições naturais
justificado' e 'verdadeiro' é 'correspondente à reillidade"'. . e históricas de urna comunidade de falantes, e nesse sentido seria
Reapareceria aí, então, o sentido realista e correspondentI~ta um campo genuinamente filosófico. Assim, uma vez elaborado
da noção de verdade (o sentido que se encaixaria na episternologia, dentro dos parâmetros de urna teoria filosófica, ele seria um
na metafísica ou em uma semântica de caráter fundacionista). Esta tribunal possível para a garantia de toda e qualquer assertiva.
é, exatamente, a tese de Jürgen Habermas contra todo e qualquer Rorty, por sua vez, acredita que o "verdadeiro", ao opor-se
deflacionismo radical. Ele diz: há um limite de separação entre ao "justificado", o faz enl um sentido de aviso somente, nada mais.
justificado e verdadeiro; e essa separação não é meramente utilitár.ia. "Justificado" não é completamente diferente de "verdadeiro", para
como quer o neopragmatismo. Justificado é justificado, verdad~lro Rorty. Justificação, diz ele, é uma prática histórica e mundana; é
é verdadeiro, diz Habermas. Verdadeiro e justificado não serram pouco plausível que o termo "verdadeiro", ao contrário de qualquer
prática de justificação, possa se distinguir utilmente de uma
fases de um mesmo espectro.
Habermas está convencido de que toda e qualquer prática sentença por obra de sua existência ou garantia em um canlpo
lingüística, todo e qualquer conlportanlento de falantes insticuetll universal, de caráter pragmático. A prova que Rorty oferece da
por si rriesrnos unI campo de enrendimento antes de estabelec~r não-diferença em espécie entre "justificado" e "verdadeiro" caminha
qualquer outro tipo de campo, seja ele de poder. de persuasao em um sentido específico do raciocínio pragm ático. Ele pergunta:
etc. Tal campo prévio de entendimento é vislumbrado pelos quando alguém quer saber a verdade de urna proposição, sentença,
fundadores da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer (da frase ou idéia ou teoria, há outra coisa a fazer senão procurar
qual Haberrnas é um dos principais herdeiros), ainda que, em justificações, ouvir justificações? E continua: se a resposta para esta
seus escritos, isto tudo não tenha ganho clareza. Mas C0111 Haberrnas rninha pergunta é Ulll sonoro "não!", então por que dizer que
a idéia se torna clara. A idéia principal é basicamente esta: se verdade e justificaç ão diferem não por graus, mas por qualquer
alguénl diz para você "Feche a porta!", e esta é urna frase de outra coisa? Por que insistir em enxergar UJll campo universal,
r
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'II@"· •e
RICHARü ROIl rv

M 1""I@m••

descrição. Isso não é uma distinção entre características "intrínsecas" e


ainda que pragnlático universal? E 'Rorty conclui: quem faz isso
(ou seja, o que Haberrnas faz) age de acordo com suas saudades do
tempo em que todos viviam tranqüilos com a noção religiosa da
e características "meramente relacionais" de dinossauros. É apenas
llma . distinção entre suas relações-causais-sob-uma-descrição ••
verdade, antes do Iluminismo, ou então com a noção metafísica
posta pelo próprio Iluminismo. Segundo ele, haveria aí não o gosto
considerando uma coisa (ovos) e suas relações-causais-sob-uma-
descrição considerando outra coisa (nós) (Rorry, R. Charles Taylor
on Trurh. In: Truth and progress - Philosophical Papers Il l.
•e
pela verdade, como a semântica utilitarista a apresenta, luas o
gosto pela Verdade, como a religião e a metafisica prometem.
Cambrige: Cambridge University Press, 1998). e
e
••
Se Rorty assume que não é possível levar a sério uma distinção
o trecho acima articula a concepção de verdade do neo-
rígida, em espécie, entre ''justificado'' e "verdadeiro", significa então pragmatismo de Rorty ao seu holismo, ao seu naturalismo his-
que, no limite, há apenas vários graus de "justificado". "Verdadeiro", toricista. Ou seja: ele dispensa a dualidade extrínseco-relacional
então, deixa de ter uma conotação representacional e correspon-
dentista. Isto é, nos termos filosóficos neopragmatistas, Rorty está
versus intrínseco-não-relacional; dualidade esta que permanece
n,as .abo,~dage~s metafisicas e, de certo modo, na dos "positivistas •e
••
dizendo que é desnecessário, e mesmo nocivo - pois leva a po- loglCOS. e, ate ,mesmo, de uma forma mais branda, em Quine. O
sições insustentáveis -, considerar que "verdadeiro" é algo lin- naturalismo, o~ holismo, ou ainda, o contextualismo de Rorty,
güístico que está ligando representacionalnlente um X, também corno em Davidson, elimina relações representacionais e fica só
lingüístico, a um Y não-lingüístico. O que Rorty entende por
"Inundo", então, se resume única e exclusivamente a justificações
COI~ relações causais, de modo que o universo pode ser con1pre-
endido sem que apareça o problema - insolúvel, para Rorty - de se ••
e causas, sendo que justificações são perfeitamente cabíveis dentro
do item causas, dado que uma declaração ou sentença é mais uma
causa em um encadeamento causal. Assim, o mundo natural e
ter de encontrar o velho elo entre o lingüístico e o nào-lingüístico;
o problema de se ter de encontrar o que erizata as "palavras"
no " lnun d" o
•e
••
o .
histórico de Rorty é holísticamente construído. Ele explica isto
claramente no importante exemplo abaixo.

Tomemos os dinossauros. A partir do momento em que você


descreve alguma coisa como um dinossauro, sua cor de pele e sua
••
vida sexual são causalmente independentes da sua descrição. Mas
antes de você descrever esse algo como um dinossauro. ou como ••
qualquer outra coisa, não há nenhum sentido na afirmação de
e
"ele está lá fora", tendo propriedades. O que está lá fora? A coisa-
em-si? O mundo? Conte-nos mais. Descreva-o em mais detalhes
Uma vez que você assim o faz, então nós podemos dizer que a
••
característica de ser ovíparo ê causalmente independente de nossa
••
I
descrição dela, enquanto a característica de ser um animal cuja
existência foi aceita nâo faz muito tempo não é independente da


--..
e
e
te
••
e A filosofia polítíca

-t de Rorry

A descrição holística de Rorty fornece para o fil ósofo


político um quadro interessante na seguinte medida: diferente-
mente do liberalismo derivado do jus naturalismo iluminista
(contratualismo), o holismo de Rorty dispensa o fimdacionismo.
Assim , liberta as posições liberais e de esquerda de ter de considerar
algo como philosophical [cundation. Isto é, não há a necessidade de
qualquer teoria que venha dizer que alguém deve ser liberal porque
esta é a Verdade a respeito da constituição dos humanos corno hu-
manos ou esta é a Verdade da constituição dos humanos como
seres comunitários, a Verdade da sociedade que faz os humanos se
tornarem humanos e assim por diante.
En1 outras palavras: ninguém tem de ser liberal; ninguém tem
de ser conservador. Cada UIll será apenas aquilo que conseguir ser a
partir das descrições do mundo e de si mesmo adotadas. Dispensam-se
as noções de Verdade e de " A Realidade Corno Ela É" e adota-se
a idéia de que o que há na mão é a linguagem para contar histórias
capazes de, C0111 sorte, convencer as pessoas a respeito de coisas
corno "ser liberal é melhor - mais útil - para elas do que ser
conservador ou reacionário". Isso não é pouco! Aliás, filos ófica-

I
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.
e
e
e
mente falando, é muito! Rorty quer deixar todos imunes diante é promover redescrições das relações sociais e políticas. O filósofo ' e
de teorias que, contra a idéia de que todos devem ser liberais tradicional pode continuar seu trabalho de encontrar os funda- e
porque isso satisfaz a real condição humana - a Verdade sobre nós - , mentos últimos do liberalismo (ou de qualquer outra coisa). E o e
colocam que todos devem ser conservadores porque, assim, todos cientista político pode continuar contando votos a cada eleição e
estarão de acordo com a real condição humana, e vice-versa. Ou seja,
Rorty quer escapar da herança de Rousseau, a idéia de que os
homens são bons "por natureza", e escapar também da herança de
nos programas de TV. Mas , para a perspectiva de Rorty; tais figuras
são um tanto caducas. No lugar delas, melhor seria ter o filósofo
político dando sugestões, caso a caso, de como resolver problemas
••
Sade, segundo quem a própria "natureza" é destruidora. Não para a sobrevivência do liberalismo e para a melhoria e crescimento e
tendo mais nenhuma noção de natureza de caráter essencialista, da democracia. e
finalmente cada " bípede sem penas" pode usar seu comportamento
lingüístico livremente.
Assim, o filósofo político liberal está livre para argumentar
Se o filósofo político ganha, agord, tempo para se dedicar a
essa sua nova tarefa, então, por um lado, ele pode montar estratégias
para garantir direitos já adquiridos na sociedade democrática e, por
•e
pelo liberalismo sem pagar o preço de ter de encontrar philosophicai outro, pode procurar criar novos direitos para essa sociedade. e
foundation que garanta que ele está certo e que Hitler e Stalin A tarefa de garantir direitos pode ser executada se o e
estão errados. Ele pode, simplesmente, começar a contar histórias
capazes de mostrar o quanto cada um se prejudica quando opta
comportamento lingüístico de alguém é alterado em favor de
uma semântica que coloque de lado toda e qualquer semântica ••
,
por seguir gente como Hitler ou Stalin.
Ao deflacionar a verdade (adotando não urna teoria da
verdad e, mas simplesmente uma tipologia de usos da "verdade ~ ~ e
perversa, perseguidora, discriminante, aterrorizadora, crueL Mas a
tarefa de ampliar direitos não pode ser feita simplesmente assim,
alterando a semântica de pessoas de hoje através de uma ação
••
de "verdadeiro") e ao tratar o universo como um conjunto de planejada. A ampliação de direitos aparece por meio de urna alte- e
relações sem hierarquias prévias (um universo onde só há relações
do tipo das relações causais, sem a dualidade entre relações que
ração semântica graças a um novo personagem em cena, uma nova
metáfora. Uma nova metáfora, se houver mentes atentas a ela,
e
representam o mundo e relações que causam coisas no mundoj, o filósofo pode gerar urna situação incompreensível, aparentemente louca, e
finalmente permite ao filósofo político deixar de lado o cansativo pode estar embutida em frases que parecem nOI1 sense, mas que, por e
trabalho de fundamentar metafísica ou epistemologicamente sua fim, participarão da tão almejada alteração do mundo solicitada e
crença, possibilitando que ele venha a gastar sua energia na busca
de mudar seu cornportamento lingüístico, contagiando outros de
modo que estes também mudem seu comportamento lingüístico.
por Marx.
Pode- se dar aqui um exemplo do passado e UlTI do presente.
Quando o movimento dos direitos civis e o movimento
••
ASSÜTI~ se Marx quer que os filósofos deixem de in ter pretar o negro disseram "black is beautiful!", eles não conseguiam explicar e
mundo para mudá-lo, Rorty entende que o que se deve fazer é o que aquilo significava. Era impossível parafrasear aquela rnáxima. e
mudar o rnundo interpretando-o constante e renovadamente. Qualquer tentativa de explicar a declaração ser tornaria ridícula, e
A filosofia política e a filosofia se fundem: no entender de
Rortv, fazer filosofia é fazer filosofia política e vice-vers a. Fazer
soaria didatismo de péssimo gosto, e terminaria em nada. Mas a
declaração era forte! Os conservadores tremiam diante dela. Outros
e
e
1
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) 1'
~:

I" 1--
-·,1,1,

~;~. !.:I
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I
filosofia é protuover redescriçôes da filosofia. Fazer filosofia política

I conservadores tremiam menos e' refletiam 111ai5! Nem no passado,


e
e