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Colonial Latin American Review


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O deslocamento de interesses da Índia


para o Brasil durante a União Ibérica:
mapas e relatos
a
Andréa Doré
a
Universidade Federal do Paraná
Published online: 11 Jun 2014.

To cite this article: Andréa Doré (2014) O deslocamento de interesses da Índia para o Brasil
durante a União Ibérica: mapas e relatos, Colonial Latin American Review, 23:2, 171-196, DOI:
10.1080/10609164.2014.917541

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Colonial Latin American Review, 2014
Vol. 23, No. 2, 171–196, http://dx.doi.org/10.1080/10609164.2014.917541

O deslocamento de interesses da Índia


para o Brasil durante a União Ibérica:
mapas e relatos
Andréa Doré
Universidade Federal do Paraná
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O período de união das coroas ibéricas, de 1580 a 1640, foi especialmente intenso na
produção de material cartográfico a respeito das possessões espanholas então
espalhadas por quatro continentes. O reinado de Filipe II, que se iniciou em 1556,
foi determinante para o dinamismo registrado na atividade de cosmógrafos, pintores,
gravuristas, dedicados a tornar visíveis espaços distantes e desconhecidos dos
europeus. Os historiadores que se debruçam sobre este longo reinado concordam
em enfatizá-lo como um momento de inédita valorização da produção cartográfica a
serviço da expansão, da administração e da manutenção de um império.
De forma paradoxal, os estudiosos da produção especificamente portuguesa
identificam um ritmo bastante diferente, muito menos dinâmico, neste mesmo
período. Para Armando Cortesão, o período de 1580 a 1640 é caracterizado pela
‘decadência’ na história da cartografia portuguesa, devida à dominação de Portugal
pela Inquisição, pela Companhia de Jesus e pelos Filipes, avaliação partilhada por
Max Justo Guedes, para quem a ‘estagnação e decadência’ da cartografia portuguesa
no início do Seiscentos foram seguidas de um ‘renascimento’ (Alegria 2001, 62;
Guedes 2000, 107–9). Estudos posteriores sobre a cartografia portuguesa passaram a
questionar essa leitura. De fato, percebe-se uma redução no número de mapas no
início do século XVII, que pode ser atribuída, não exatamente à perda da
independência de Portugal mas aos ataques de outras nações europeias às costas do
Brasil, tornando-as bastante inseguras, e podemos acrescentar, não só as do Brasil,
mas igualmente as da Índia.
Este artigo propõe a inserção do material cartográfico sobre as possessões
portuguesas no conjunto das necessidades de informação apontadas pelos reis
Habsburgo. Com o objetivo de compreender o papel que essas possessões ocuparam
entre os interesses do Império espanhol, são analisados dois documentos, que da
Índia e do Brasil responderam a demandas da administração filipina. Produzidos
© 2014 Taylor and Francis on behalf of CLAR
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entre 1615 e 1635, esses documentos reúnem mapas e relatos e apontam para o
deslocamento de interesses da Índia para o Brasil. Por meio de seu estudo em
paralelo, propõe-se abordar aspectos que interessavam à Coroa saber, conhecer e
registrar sobre seus domínios. As ordens régias que deram origem a esses
levantamentos trazem alguns elementos que dão especificidade a cada uma das
regiões, mas acentuam outros dados que visam homogeneizar as informações e
assegurar uma administração comum aos mais diferentes espaços do império.
Interessa igualmente destacar as diferenças mais marcantes entre as capitanias do
Novo Mundo e as cidades-fortalezas do Índico, conforme se verifica nas respostas
enviadas ao rei.
A leitura de alguns trabalhos da imensa bibliografia sobre o reinado de Filipe II
permite constatar a ênfase dada ao desejo e à necessidade de conhecer e registrar
informações sobre diferentes partes do império. Geoffrey Parker afirma que durante
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este reinado, os mapas se tornaram pela primeira vez um instrumento de governo,


uma ferramenta vital para mobilizar recursos do estado em seu próprio território e
projetar seu poder para o exterior (Parker 2002, 98).
O objetivo da confecção de mapas neste contexto se voltava fundamentalmente
para fins práticos. Os êxitos espanhóis nas guerras contra os Países Baixos, a partir
das revoltas das Províncias Unidas contra a dominação espanhola iniciadas em 1572,
teriam sido viabilizados, segundo Parker, por um profundo conhecimento do terreno
e da geografia, o que incluía o mapeamento de cidades e vilas, dos acidentes naturais
e das distâncias a serem percorridas. O mesmo interesse pela cartografia se verificou
quando das ofensivas contra a Inglaterra. Vários conjuntos de mapas e vistas de
cidades foram, então, encomendados por Filipe II a diferentes cartógrafos,
portugueses, italianos, espanhóis, holandeses e ingleses.
O interesse na produção corográfica —aquela que se refere a regiões, países, ou
vistas de cidades— antecede, seguramente, o momento da União Ibérica e já estava
presente no reinado de Carlos V. ‘Mapping served the king (or queen) as a means of
both recording and enhancing political authority’, escrevem Richard L. Kagan e
Benjamin Schmidt (2007, 661).
A própria formação do príncipe passava pelo uso das imagens topográficas. Data
de 1548, a obra de Pedro de Medina, Grandezas y cosas notables de España, produzida
com o intuito de informar ao futuro Filipe II sobre províncias e reinos sob o controle
espanhol e, em 1555, surgiu a Nova descriptio Hispaniae, publicada em Londres por
Thomas Geminus (Parker 2002; Kagan and Schmidt 2007, 664).
Preocupado em mapear suas possessões na Europa, Filipe II encomendou
levantamentos em diferentes regiões, seguindo diferentes métodos de medição e de
representação, o que impulsionou, igualmente, as técnicas de produção de mapas. Em
1559, Jacob van Deventer, que já tinha produzido uma série de vistas de cidades dos
Países Baixos espanhóis a mando de Carlos V, foi contratado pelo rei espanhol.
Parker cita um trecho da ordem régia que nos auxiliará, em seguida, a interpretar as
ordens enviadas pelos sucessores de Filipe II a outras partes do império. Van
Deventer foi contratado para ‘to visit, measure and draw all the towns of these
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provinces, with the rivers and villages adjoining, likewise the frontier crossings and
passes. The whole work is to be made into a book containing a panorama of each
province, followed by a representation of each individual town’.1
Dois anos após esta encomenda relativa aos Países Baixos, em 1561, foi a vez de
Anton van den Wyngaerde ser convidado a ir a Espanha fazer um trabalho
semelhante. Utilizou uma técnica diferente, colocando-se em uma parte elevada do
terreno e em um formato panorâmico, e não de uma perspectiva vôo de pássaro
como fez Jacob Van Deventer. Paralelamente a esta solicitação, uma equipe liderada
pelo cartógrafo Pedro de Esquivel percorreu a Espanha em torno de 1570. Um dos
produtos desse esquadrinhamento cartográfico é o mapa da Península Ibérica, datado
de 1585, constante do Atlas Escorial.2
Outro importante conjunto de mapas fruto de encomendas após o início do
reinado filipino é a obra de Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum, dedicado
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ao rei e publicado em Antuérpia em 1570. A primeira edição constava de 38 mapas,


sendo 30 da Itália. Ao longo dos anos 1570, o bibliotecário do Escorial, Benito Arias
Montano, enviou a Ortelius vários mapas da Espanha e de Portugal e de suas
colônias, para futuras edições.
Filipe II solicitou ainda mapas do reino de Nápoles, em 1566, das costas da Sicília,
nos anos 1570, e das ilhas Canárias, nos anos 1590. Fora da Europa, o projeto mais
ambicioso envolveu a Nova Espanha. Dois importantes cosmógrafos, Alonso de Santa
Cruz e Juan López de Velasco, produziram as Relaciones Geograficas, concluídas em
1575 (Mundy 1996; Cline 1964; Edwards 1969; Gruzinski 1987).
Barbara Mundy destaca o protagonismo desempenhado pelo sentido da visão no
contexto do Renascimento como um dos elementos a impulsionar o interesse por
imagens dos territórios e não apenas descrições e relatos. O caráter ‘sedentário’ do
monarca Filipe II, em oposição aos seus ‘peripatéticos’ avós, Fernando e Isabel, teria
dado um outro contorno à administração da monarquia. Enquanto no tempo dos
Reis Católicos os monarcas visitavam cidades e vilas e eram ‘vistos’ e reconhecidos
por seus súditos, ao mesmo tempo os reis ‘viam’ e conheciam seus territórios. Já
Felipe II manteve-se a maior parte do tempo concentrado em seu palácio, a demandar
uma produção de documentos inédita na história dos impérios: ‘He had the means to
sponsor mapping projects and patronize cartographers on a level nearly unparalleled
in the rest of Europe’ (Mundy 1996, 7–9 e 1).
Seu herdeiro, Felipe III de Espanha, mesmo sem o igualar ou ao avô no
envolvimento na produção de mapas foi o responsável direto pelo estudo das costas
do Brasil, aqui analisado. Preocupou-se com a formação do filho, Felipe Víctor
Domingo, futuro Felipe IV. Em 1613 nomeou o cosmógrafo português, João Batista
Lavanha, maestro de matemáticas do futuro rei e responsável por um plano de
estudos para o príncipe que incluía, além das disciplinas matemáticas, matérias como
cosmografia e geografia. Lavanha preparou três manuais de estudo que explicavam
temas como a disposição dos planetas no céu, a maneira de calcular a latitude e vários
mapas, tanto da Espanha como do mundo todo. Criou uma sala especial, localizada
no alto da Torre Dorada do antigo alcazar madrilenho, onde dispunha de uma
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coleção de obras clássicas de geografia, cosmografia e topografia, como Estrabão e
Ptolomeu, assim como outras heranças: Theatrum orbis terrarum (1570), de Ortelius,
encomenda de seu avô; Civitates orbis terrarum, de Georg Braun, e Orbis terrestris tan
Geographica quan Chorographica descriptio, de Christian Sgrooten (Kagan 2004,
95–96).
O ‘rei Planeta’, epíteto de Felipe IV, patrocinou, ele também, vários projetos
cartográficos importantes. O rei insistia na utilidade prática do conhecimento
geográfico, visando, sobretudo, a defesa do reino; uma ‘cartografia oficial’, para a
qual o conceito de ‘soberania territorial’ contribuiu de forma definitiva. O estado era
então considerado ‘como una unidad geopolítica perfectamente definida y delimitada’
e a soberania passava a se basear sobre o território, diferentemente da soberania
exercida no período medieval, em que o rei era soberano sobre as pessoas, e não sobre
as terras (Kagan 2004, 91).
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A cartografia do período filipino foi apenas parcialmente editada e veiculada


contemporaneamente. Felipe IV, por motivos estratégicos, proibiu expressamente a
publicação de mapas ou vistas das Índias. Em decreto de 1634, que reforçava um
anterior feito por seu pai em 1603, lê-se: ‘Que no se saquen plantas de lugares,
puertos, castillos y fortificaciones, sin orden particular [del virrey o governador, ou
capitão general]’.3
Em todo o processo de conhecimento dos vários espaços do império, destaca-se o
lugar marginal ocupado pelas possessões portuguesas que passaram a pertencer à
Espanha em 1580. Encontram-se algumas referências a solicitações por parte do
monarca, mas não houve ao que tudo indica projetos da envergadura dos
desenvolvidos nos territórios na Europa ou na América Espanhola. A historiografia,
igualmente, parece não ter se interessado por essa questão, uma vez que não
aproxima os levantamentos sobre os territórios lusos na Ásia, no Brasil ou na África,
realizados no período, a uma política mais ampla de conhecimento das possessões
espanholas. Essa aproximação, no entanto, não escapou aos contemporâneos. Uma
evidência é a obra conhecida como Atlas del Marqués de Heliche, encomendada por
D. Gaspar de Haro y Guzmán, marquês de Heliche, sobrinho-neto do Conde de
Olivares e o mais prolífico colecionar privado da Europa de seu tempo. Seu pai, Luis
de Haro, sucedeu Olivares em 1640. Intitulado Plantas de diferentes Plazas de España,
Italia, Flandres y Las Indias, o atlas foi realizado por Leonardo de Ferrari, pintor
bolonhês, que reuniu 131 esboços de cidades e fortalezas para apresentar ao marquês
em 1655. O maior número de mapas se refere aos domínios na Europa. Las Indias são
representadas por apenas 10 mapas, o que os estudiosos atribuem à hipótese de que o
trabalho estaria inconcluso.4 Os domínios portugueses já haviam reclamado sua
independência em 1640, com a aclamação de D. João IV rei de Portugal, mas as
guerras de Restauração só terminariam em 1668. Assim, há mapas do reino
português, inclusive imagens de batalhas peninsulares, mas as possessões portuguesas
fora da Europa se resumem a São Jorge da Mina, Cabo Verde, Moçambique e Damão.
Não há nenhuma representação de domínios no Brasil, o que não deixa de ser
curioso, tendo em vista que parte da região mais rica, o nordeste açucareiro, estava
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sob domínio holandês e necessitava ser defendida pela mesma monarquia que tentava
manter sua soberania em regiões da Europa, como a fronteira com os Pirineus, muito
bem retratada no Atlas.
O estudo da atenção dedicada às possessões portuguesas na produção cartográfica
do período Habsburgo guarda um duplo objetivo. De um lado, entender em que
contexto e em que gênero de documentação se inserem os levantamentos realizados
sobre essas possessões. Essa via se alia à proposta metodológica de J. B. Harley de que
a análise de um mapa ganha maior amplitude quando realizada a partir do contexto
do autor, do contexto da sociedade e o de outros mapas (Harley 2001). Esse terceiro
contexto tem como ponto fundamental o domínio filipino sobre Portugal e a tradição
de conhecimento cartográfico dinamizada nos reinados filipinos. De outro lado,
o estudo desta cartografia tem como objetivo entender o que significou para a colônia
Brasil, e para as fortalezas portuguesas no Oceano Índico, estar sob o domínio
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espanhol, deixando-se de lado, no entanto, neste artigo, as possessões na costa


ocidental africana. A cartografia é aqui um dos muitos conjuntos documentais
possíveis para a compreensão desse momento da história colonial. Algumas perguntas
então se complementam: A cartografia pode auxiliar na compreensão do impacto da
União Ibérica no Brasil e nas possessões na Índia? Pode-se considerar que a produção
cartográfica sobre esses espaços no período em questão se insere em alguma lógica
mais abrangente e supera interesses individuais e isolados? Uma vez que esses
trabalhos integravam o conjunto de informações sobre o ultramar disponíveis ao
monarca, é possível supor que exerceram alguma influência nas decisões tomadas
pelos administradores do império? A resposta afirmativa a essas perguntas leva ao
desenvolvimento de uma pesquisa da qual aqui se destacam alguns aspectos.5
O cotejamento de informações solicitadas e produzidas a respeito das possessões
ultramarinas chama atenção para a função dos espaços cartografados para o império.
Como já defendeu Suzanne Daveau, as pesquisas sobre a difusão do saber entre os
territórios na Europa e no ultramar devem levar em conta por quem e para quem as
diferentes obras foram escritas, uma vez que ‘o poder central se interessava vivamente
à reunião e à formalização da documentação necessária ao bom funcionamento do
comércio do Estado’ (Daveau 1990, 455).
Considerar que os enclaves portugueses na Índia e o que então se conhecia do
Brasil integravam uma nova configuração política não altera, de imediato, a
constatação consensual entre a historiografia sobre o tema, a de que o olhar —
português— sobre o Brasil visava produzir uma ‘cartografia de ocupação e
reconhecimento do litoral’, como afirma Alfredo Pinheiro Marques (Marques 1988,
447). Na mesma linha é descrita a cartografia sobre o Brasil em trabalho mais recente:
‘O Brasil é apenas uma linha de costa ao longo da qual, e perpendicularmente, se
justapõe a toponímia dos principais acidentes físicos e a dos escassos pólos de
povoamento europeu, como nos velhos portulanos’ (Alegria, Garcia e Relaño 1998,
46). Não se poderia afirmar algo muito diverso sobre as feitorias fortificadas nos
portos do oceano Índico. O que se pretende salientar é que a partir da união das
coroas, em 1580, ao dividir a atenção com tantas outras frentes de conquista e
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exploração, o Estado da Índia e o Brasil podem ser vistos lado a lado, apesar de
representarem vocações bastante diferentes.
Neste contexto, dois empreendimentos foram realizados a partir de ordens dos
monarcas Habsburgo visando o conhecimento de seus domínios nessas duas frentes.
O primeiro é o Livro que dá razão do Estado do Brasil, escrito por Diogo Campos
Moreno, e com mapas das capitanias e costas do Brasil, de autoria de João Teixeira
Albernaz I, datado entre 1612 e 1613. O segundo documento é o Livro das Plantas de
todas as fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia oriental, do cronista mor
da Índia, Antonio Bocarro, e plantas comumente atribuídas a Pedro Barreto de
Resende, produzido entre 1634 e 1635. As duas obras permaneceram como
manuscritos até o século XX.
Considerando-se as áreas geográficas a que se referem, esses dois conjuntos não são
peças isoladas. Mesmo que para o Brasil não disponhamos de grandes projetos
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cartográficos como os registrados na Europa ou na América espanhola, em um


ambiente de ameaças e conflitos entre portugueses, holandeses e franceses pelo litoral,
exigiu-se a presença de engenheiros militares e cartógrafos, garantindo a produção de
mapas e roteiros. Como resultado, temos outros conjuntos cartográficos produzidos
sobre o Brasil, obras compostas por textos e mapas.6
É neste cenário de ameaças por parte de outra potências europeias, que exigia da
coroa espanhola um conhecimento mais preciso de seus domínios, e das condições
que possuía para defendê-los, que se insere o Livro que dá razão do Estado do Brasil.
Esta obra foi estudada por Hélio Vianna, que lhe atribuiu a autoria e indicou as
diferenças —cortes e acréscimos— entre os manuscritos existentes.7 A obra foi escrita
em Lisboa entre 1612 e 1613 pelo sargento-mor do Estado do Brasil, Diogo Campos
Moreno, e os mapas e plantas foram acrescentados nos anos seguintes, por João
Teixeira Albernaz I.
O trabalho dos dois autores, Campos Moreno e João Teixeira, ao que tudo indica
foi complementar e, assim, mapas e relatos devem ser analisados em conjunto.
Informações contidas nos mapas não poderiam ser conhecidas por alguém que nunca
tivesse visitado o Brasil. Algumas indicações permitem concluir que o texto foi
redigido —ou finalizado— quando Campos Moreno estava em Lisboa, onde também
se encontrava o cartógrafo. Após a redação do Livro, o sargento-mor retornou ao
Brasil, onde participou das expedições de conquista do Maranhão e sobre a qual
escreveu a Jornada do Maranhão por ordem de Sua Majestade feita no ano de 1614
(Moreno 2011).
João Teixeira Albernaz I, por sua vez, integrava uma das famílias de cartógrafos
mais notáveis de Portugal do Renascimento. As famílias Teixeira, Reinel e Homem
foram responsáveis por boa parte dos mapas produzidos sobre as descobertas no
século XVI e início do XVII. O patriarca dos Teixeira foi Pero Fernandes, autor de
duas cartas hoje conhecidas (de 1525 e 1528), e pai de Luís Teixeira, de Marcos
Fernandes Teixeira e, provavelmente, de Domingos Teixeira. Foi avô de Pedro de
Lemos e de João Teixeira Albernaz I (que assinava em alguns mapas apenas ‘João
Teixeira’), autor dos mapas do Livro que dá razão do Estado do Brasil, da Descripção
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de toda a costa da Provinsia de Santa Cruz, e do Atlas do Brasil e de Pedro Teixeira


Albernaz. Este último produziu a Descripcion de España y de las costas y puertos de
sus reinos, de 1634.
De todo o clã, Luís Teixeira foi o que efetivamente esteve no Brasil, mas atuou
principalmente em Lisboa, onde compilou as informações trazidas de suas viagens,
tanto ao Novo Mundo quanto aos Açores. Um total de 35 cartas é atribuído à sua
autoria. Sua estada no Brasil ocorreu entre 1573 e 1578 e deu origem ao Roteiro de
todos os sinaes, primeiro roteiro, com mapas, sobre a costa brasileira, finalizado em
torno de 1585. O levantamento dos Açores foi realizado antes de 1582 e uma carta da
ilha Terceira foi publicada por Abraham Ortelius no mesmo ano, que também
publicou, em 1584, um mapa geral do arquipélago (Alegria et alii 2007, 989–90). Já
João Teixeira Albernaz I foi cosmógrafo real e assinava, em 1622, ‘mozo de cámara da
Sua Magestade e seu cosmographo’ (Kagan 2004, 98). Foi o mais prolífico cartógrafo
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das regiões do Brasil, autor de um total de 340 mapas, dos quais 146 tratam da
colônia portuguesa na América.
Simultaneamente, no oceano Índico, o levantamento de Antonio Bocarro também
se insere num momento singular de registro do conhecimento sobre as possessões na
Ásia, sendo que alguns estudos o antecederam.8 Produzido entre os anos 1634–1635,
seu levantamento, no entanto, pode ser considerado o mais importante envolvendo as
fortalezas às margens do Índico, feito após um pedido de Filipe IV, em 1632, ao vice-
rei da Índia, Conde de Linhares, que em carta de 2 de janeiro de 1633, informa que
encarregava o cronista mor do Estado da Índia para a tarefa.9 Os engenheiros Pedro
Massai de Frias e Domingos de Toral foram enviados para percorrer as fortalezas e
Antonio Bocarro, cronista e guarda-mor dos Arquivos de Goa, produziu o texto do
Livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoações da Índia Oriental.
Antonio Bocarro era um homem de letras e distante das ações militares. Nasceu
em Abrantes ou em Lisboa em 1594, filho de cristãos-novos, e foi batizado e educado
até os dezesseis anos no colégio jesuíta de Santo Antão de Lisboa. Em 1610, um de
seus irmãos, Manuel Bocarro Francês, mais tarde conhecido médico, matemático e
astrólogo, converteu-o secretamente ao judaísmo. Segundo Charles Boxer, para
praticar a ortodoxia judaica, Antonio Bocarro embarcou como soldado para a Índia,
em 1615. Seguiu depois para Cochim onde havia uma numerosa comunidade judaica
e lá permaneceu por nove anos, casado com Isabel Vieira. Em 1622, ‘começou a ter
dúvidas a respeito da Lei de Moisés’ e em 1624 confessou-se ao jesuíta Sebastião Dias
(Boxer 1956; Cid 1991; Hermann 1998). Foi depois a Goa fazer sua confissão
voluntária diante do Tribunal da Inquisição, denunciando como cripto-judeus seus
pais e parentes, muitos dos quais já haviam acertado suas contas com a Inquisição na
metrópole. Sua trajetória, no entanto, não impediu que o Conde de Linhares,
conhecido por sua tolerância frente aos cristãos-novos, o nomeasse cronista do
Estado da Índia e guarda-mor dos Arquivos de Goa.
As 52 vistas de cidades e fortalezas são comumente atribuídas ao secretário do vice-
rei, Pedro Barreto de Resende. Essa atribuição, no entanto, é questionada por
estudiosos que a consideram fruto de uma leitura incorreta do prefácio da versão
178 A. Doré
manuscrita feita por Resende, que ao retornar a Portugal com o vice-rei em 1636 teria
completado sua própria versão de ‘O livro do estado da Índia Oriental’. Em nenhum
momento de seu prefácio, no entanto, Resende afirma ser o autor das plantas (Alegria
et alii 2007, 1024–25).
A execução do Livro que dá rezão do Estado do Brasil foi fruto de uma ordem de
Filipe III ao governador do Brasil, D. Diogo de Meneses Siqueira, quando se
encontravam separadas de seu governo as três capitanias do sul: São Vicente, Rio de
Janeiro e Espírito Santo. Somente no governo seguinte, por meio do Regimento de 31
de agosto de 1612, reiterou-se a ordem régia ao então governador-geral Gaspar de
Sousa, e o trabalho foi realizado. Apesar de, naquele mesmo ano, terem-se unido
novamente todas as capitanias, a obra não foi refeita ou ampliada, mas foi organizado
um outro documento, a Folha Geral, para registro das despesas reais das diferentes
capitanias. Para o que aqui nos interessa, a ordem contida no Regimento de 1612
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indica o teor das preocupações do rei e de sua administração:

Eu mandei ao governador D. Diogo de Menezes que para bom governo do dito


Estado e para das cousas dele ter mais inteira notícia, mandasse ordenar um livro
no qual se assentassem todas as capitanias dele, declarando-se as que são da Coroa
e as que são de donatários, com as fortalezas e fortes que cada uma tem e assim a
artilharia que nelas há, com a declaração necessária do número de peças, peso e
nomes de cada uma, as armas e munições que nelas ou nos meus armazens
houvesse, gente que tem de ordenança, oficiais e ministros, com declaração dos
ordenados, soldos e despesas ordinárias que se fazem em cada uma das ditas
capitanias, e assim do que cada uma delas rende a minha fazenda, pondo-se ao dito
Livro título de Livro do Estado ….10

A organização da ocupação e exploração do Estado do Brasil por meio de


capitanias surge no Regimento como a sua especificidade. Na ordem régia não há,
porém, interesse no registro de outras características da colônia na América, para
além das questões de defesa. O dito Livro do Estado deveria permanecer em poder do
governador e ser reformado a cada ano, na medida em que se alterassem as
capitanias, ‘assim no tocante à sua fortificação como à artilharia, armas, munições,
capitães e gente de guarda’ (Moreno 1955, 8). Dados relativos à economia, produção
açucareira e extração de pau-brasil, principais fontes de renda da colônia, não são
discriminados na ordem régia. A concentração do interesse nos aspectos militares
adensam a aproximação deste documento àquele produzido na Índia anos depois.
As primeiras ordens remetidas à Índia foram, no entanto, anteriores ao documento
brasileiro. Em 1605, de forma bastante semelhante, o rei ordenou a Martim Afonso
de Castro, vice-rei do Estado da Índia de 1605–1607, o envio de uma relação dos
armazéns e provimentos do Estado da Índia e ‘juntamente me mandareis as plantas e
desegnos de todas as cidades e fortalezas, tiradas pelo engenheiro d’esse Estado’.11 Em
1632, uma nova ordem foi expedida ao vice-rei D. Miguel de Noronha, conde de
Linhares, por Filipe IV, para que fossem enviadas ‘as descripções de todas as costas,
portos, abras e surgidouros desse Estado, cada governo ou capitania de per si, com as
Colonial Latin American Review 179
12
mais declarações que na mesma carta se relatam’. O rei só receberia a descrição em
1635, como Isabel Cid conclui da dedicatória de Antonio Bocarro ao rei.
As respostas, expressas nos dois documentos que analiso mais de perto, colocam
em paralelo duas porções muitos diferentes desse império, ampliado durante a união
das coroas. Cada autor se utiliza de um estilo e atende à descrição de realidades muito
diversas. A experiência de cada um resulta em formas específicas de interpretar o que
se vê e organizar o relato. Na formulação da resposta ao rei estão em jogo as
capacidades dos autores de perceber a geografia humana e física, aspectos inerentes às
realidades descritas e à conjuntura precisa em que essa realidade se dá a ver.
Diogo Campos Moreno era um militar, preocupado com a defesa do território do
Brasil e escreveu seu relatório sem deixar de oferecer sua opinião a respeito de
questões econômicas e militares, da atuação dos jesuítas e de questões fiscais. Seu
texto traz características de um arbítrio, gênero bastante comum, especialmente no
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contexto espanhol. Uma vez que as capitanias do sul encontravam-se separadas, a


descrição se inicia pela Capitania de Porto Seguro, então pertencente ao duque de
Aveiro. Seguem-se as capitanias em direção ao norte: Capitania de Ilhéus, de
Francisco de Sá de Menezes; a Bahia de Todos os Santos, administrada pela Coroa, e
da mesma forma a Capitania de Sergipe, dita d’El Rei; o Rio São Francisco, que pela
sua importância, ganha um capítulo específico; Pernambuco, de Duarte de
Albuquerque Coelho; Itamaracá, pertencente a um donatário; e as capitanias da
Paraíba e do Rio Grande, ambas da Coroa.
De posse das informações contidas no Livro, podemos supor que imagem Felipe III
teria do Brasil. O que teria se tornado ‘visível’ ao rei com esse relatório? Que tipo de
decisões esses documentos teriam apontado aos conselheiros do monarca e ao
próprio rei? Não é possível afirmar que foram responsáveis, ou decisivos, para as
estratégias políticas e militares adotadas pela monarquia espanhola, tendo em vista as
diferentes ameaças em curso e os insuficientes recursos a administrar. A inclinação
atlântica que o império assumiu neste momento, no entanto, não contradiz e não se
opõe aos diagnósticos que os agentes régios na Índia e no Brasil enviaram para a
metrópole.
Começando pelo relatório produzido sobre o Brasil, uma característica predomina:
a abundância. Grandes dimensões de uma ‘terra fértil’ (Moreno 1955, 132, 162, 198),
um sítio ‘sadio, fértil e viçoso’ (140), ‘forte e fértil’ (125), onde ‘lenhas não faltarão
nunca’ (210). Na amplitude do território, o autor vê o potencial de exploração e
reconhece que o principal risco está na sua concentração nas mãos de particulares. Ao
descrever as capitanias e apontar as que são de donatários e as que pertencem ao rei,
Campos Moreno enfatiza as desvantagens das primeiras. Os problemas que ali
encontra, atribui-lhes o autor aos interesses dos proprietários, alheios às necessidades
do reino. Bahia de Todos os Santos, Sergipe, Paraíba e Rio Grande, sendo de Sua
Majestade, ‘aumentam-se cada dia as povoações e crescem as fazendas’. Já Itamacará
e Pernambuco, mesmo sendo donatarias, também poderiam entrar nesta conta, uma
vez que ‘às suas maiores necessidades acudia Sua Majestade com capitais, presídios e
fortificações, que até hoje sustenta de sua Real Fazenda’. Nas capitanias de donatários,
180 A. Doré
por sua vez, ‘nunca se encontra pessoa respeitável no governo’. Sua confiança nos
capitães nomeados pelo rei o faz concluir que ‘asseguradamente entendemos que tudo
o que neste Estado não for de Sua Majestade crescerá devagar e durará muito pouco’
(108–9).
As formas de administração e posse desse imenso território preocupam a Campos
Moreno na medida que delas depende sua ocupação e exploração. Seu alvo não são
apenas as capitanias de donatários, como também as sesmarias. Na Capitania dos
Ilhéus, do donatário Francisco de Sá de Menezes, na região da Lagoa de Taípe, toda a
terra ‘está dada de sesmaria, ou, por melhor dizer, está usurpada de pessoas que não
têm posse’ (134). A crítica se dirige, como em várias outras partes do texto, àqueles
que, mesmo tendo recebido as sesmarias não as tinham ocupado no prazo
estabelecido pela lei, o que os tornava proprietários ilegais. Mesmo em capitanias
do rei, as sesmarias representavam perdas para a Coroa. Em Sergipe, as diferentes
ocupações das terras ao longo da costa não permitiam ‘comodamente fazer-se o que
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convém ao bem comum e serviço de Sua Majestade’ (163).


Se as potencialidades da colônia estavam ligadas à vastidão dos domínios, da
mesma forma, seus maiores problemas advinham da impossibilidade de circunscrevê-
los e assim protegê-los, da carência de homens para as povoações e, de maneira
ambígua, da presença do gentio. Ao longo de toda a costa, encontram-se referências a
áreas ‘despovoadas’ (p. 124, 126, 132, 133, 199) ou ameaçadas pelo gentio, classificado
como ‘variável, incapaz e fora de todo o governo’ (109), ou como ‘bárbaros e ociosos’
(114), em aldeias ‘mal governadas e inquietas’ (210).
Esta ordem de problemas coloca o Estado do Brasil mais próximo das possessões
espanholas na América do que das possessões portuguesas na Índia. A experiência
administrativa obtida desde o início do século XVI nas praças da Ásia, as questões
políticas e sociais presentes nas relações entre os portugueses e as sociedades asiáticas
encontravam tênues paralelos no Brasil. As semelhanças são localizadas no próprio
continente americano. Campos Moreno em nenhum momento cita as dificuldades ou
as soluções adotadas pelo Estado da Índia, mas considera exemplos a serem seguidos
as experiências espanholas na América, especialmente no vice-reino do Peru.
É justamente o Peru o ponto de referência eleito pelo autor para apresentar ao rei
os espaços que serão descritos. O Livro se inicia com a seguinte referência geográfica:
‘O Estado do Brasil, Províncias de Santa Cruz, é a parte oriental do Peru povoada na
costa do mar Etiópico …’ (107). Etiópico, aqui, tem como referência a forma como
era denominada a África na Antiguidade. O primeiro mapa da obra traz a presença
imponente da montanha do Cerro Rico de Potosi, descoberta em 1545. Campos
Moreno, em seu texto elege como referência a principal fonte de riqueza da América
espanhola, e João Teixeira Albernaz em seu mapa não apenas localiza a montanha de
prata como estende sua cordilheira até o norte do Brasil.13
Do vice-reino do Peru vêm não só a promessa de minerais preciosos como a forma
de tratar donatários desleais, como fez o inquisidor Pedro de la Gasca, lugar-tenente
do Imperador no Peru, citado por Campos Moreno, e responsável pelo fim da
rebeldia de Gonçalo Pizarro. No lugar das pouco lucrativas sesmarias e donatarias, o
Colonial Latin American Review 181
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Imagem 1 ‘Descrição de todo o Estado do Brasil, que para o norte começa no Grão-
Pará, cuja entrada está debaixo da equinocial, e para o sul termina na entrada do Rio da
Prata, em altura de 35 graus. Mostram-se na presente carta todos os seus portos, em suas
verdadeiras alturas e nas seguintes tábuas cada um em particular, com suas sondas, barras
e povoações. E juntamente mostra-se, neste mapa, a confrontação que tem este Estado
com as terras do Peru e Novo Mundo, e com os estreitos de Magalhães e São Vicente’.
João Teixeira Albernaz I. Livro que dá razão do Estado do Brasil, 1612. (Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, Rio de Janeiro).
182 A. Doré
autor recorre ao modelo espanhol de exploração das terras e dos índios, as
encomiendas, por meio das quais se podia obter ‘de bem fundadas povoações um
fácil e justo proveito’ (109).
Campos Moreno mantém seu tom de crítica ao tratar da ação das ordens religiosas.
Não aprova seu número excessivo e seu esforço em manter os indígenas aldeados fora
do convívio com os colonos. Além das dificuldades que a Coroa e os colonos
enfrentavam para contar com os índios convertidos para a proteção do território, ou
para o trabalho nas lavouras, as despesas com a manutenção de igrejas e conventos
pareciam-lhe exageradas.14
Neste tema não há nenhum diálogo, quer seja com a América Espanhola, quer seja
com o Estado da Índia. O quadro com o qual se depara Antonio Bocarro ao abordar a
presença portuguesa na Ásia é muito diverso e não há espaço para críticas à ação
evangelizadora, sendo esta responsável, em muitos locais, pelo vínculo mais forte que
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os portugueses puderam estabelecer. Em várias ocasiões a observação de Bocarro vai


em sentido contrário à de Campos Moreno: ‘Christandade nenhũa temos nas terras
de Sofala’ (Bocarro 1992, 10), escreve o cronista quando percorre a costa oriental
africana. Já no reino de Manica, a cristandade é ‘muy larga’ e, assim como em Sofala,
o autor apela para o envio de missionários: ‘quanto mais obreiros andarem nesta
vinha mayor cultivação farão nas almas’ (21).
A composição do livro de Bocarro se inicia, justamente, com a Descripção da
Fortaleza de Sofala e segue, grosso modo, os portos frequentados pelas naus da
Carreira da Índia. Muito mais descritiva, como os próprios títulos dos capítulos
propõem, menos opinativo do que o Livro de Campos Moreno, a obra enfrenta o
desafio de esclarecer minimamente a complexidade das diferentes sociedades que
margeiam o oceano Índico. As informações em resposta às ordens do rei são
permeadas por capítulos que tratam de questões políticas e sociais envolvendo
potentados locais, aspectos ligados à natureza, como os regimes dos ventos e os
animais e considerações sobre a vida material, formas e capacidades das embarcações,
técnicas de edificação, produtos cultivados e consumidos. No percurso entre uma
fortaleza e outra, a construção de cada uma delas demanda a retomada da história
daquele espaço, as negociações realizadas e os conflitos com outras sociedades.
‘Descripssão do Reino de Cacha’, ‘Mocranga’, onde descreve o ‘imperio do
Monomotapa’, ‘Reinos do Mogor…’ Este roteiro não está dissociado do papel
desempenhado pelo Estado da Índia no conjunto do Império, ligado às contingências
de um muito mais Velho Mundo, como se explica a seguir.

Passado e Futuro
É ocioso afirmar que estamos lidando com representações, com simplificações, com
escolhas mais ou menos conscientes para quem as realizou. Os autores dos textos
devem responder à ordem régia e suas observações são orientadas neste sentido. Para
além da concisão da ordem, no entanto, os textos incorporam aspectos considerados
relevantes e representativos da existência portuguesa no Brasil e na Índia. Como
Colonial Latin American Review 183

igualmente se pode constatar nos relatos portugueses dos séculos XV e XVI a respeito
das explorações e conquistas ultramarinas, aqui é diminuto ou inexistente o espaço
para manifestações de espanto ou para explicações inventivas para fenômenos
naturais ou costumes exóticos. Retratar o que interessa ao monarca, sem desvios,
não significa, no entanto, que os relatos sejam desprovidos de toda sorte de filtros,
motivações, omissões e ênfases. Da mesma forma, os mapas que acompanham esses
textos (ou poderíamos dizer, que são acompanhados por esses textos) são mais do
que uma miniatura do espaço real. Vão além da consideração de Joaquim Romero
Magalhães, de que ‘cartografar não é mais do que reduzir os espaços reais para os
apreender através de minúsculos desenhos’ (Magalhães 2009, 69). Os desenhos de
João Teixeira Albernaz ou os atribuídos a Pedro Barreto de Resende, dispostos sobre
a escrivaninha do monarca ou de um seus conselheiros mais atento à diversidade do
ultramar, deveria tanto agradar quanto informar, e a cada ‘leitor’ dessas imagens
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eram dados a ver elementos diferentes.


Ao cotejarmos duas dessas produções —a cidade de Cochim, no Malabar, com a
capitania de Pernambuco, no Brasil, por exemplo—, percebe-se o ordenamento das
construções no interior da fortificação, no primeiro caso, e da distribuição dos
engenhos, no segundo. As muralhas em Cochim, arte dos portugueses, rasgam e
marcam o território da mesma forma que os rios, generosos na natureza do Novo
Mundo, irrigam a produção açucareira de Pernambuco. Para preencher os espaços
vazios, palmeiras são dispostas de forma harmoniosa na praça do Malabar, assim
como a vegetação litorânea que precede a exuberância da Mata Atlântica na serra da
capitania do Atlântico. Essas duas imagens (2 e 3) incluem, em alguma medida, artifícios,
convenções ou simplificações cartográficas. Mas nas costas do Atlântico, em espaços
férteis e carentes de vida civil, ‘desabitados’, na concepção do militar e do cartógrafo,
é com uma lupa que se chega à mesma escala de observação obtida no Índico.
No Brasil vê-se o contorno da costa, muitos rios penetrando o território e as
povoações portuguesas tornam-se pequenas frente a um espaço gigantesco. Esse
espaço, entretanto, mesmo que inexplorado, pertencia ao rei. Na Índia, a mesma
vastidão é resumida aos espaços portugueses, e a observação se concentra na
fortificação que, efetivamente, fixa os limites, muito mais tímidos, de uma dominação
cercada.15
Duas propostas nos surgem para interpretar as escolhas dos autores baseadas em
elementos possivelmente partilhados por seu público leitor. A primeira delas se
concentra em identificar o que se considerava domínio português —ou espanhol
naquele contexto. Paralelamente às informações solicitadas pelo monarca, há a
compreensão do conceito de posse vigente entre exploradores e conquistadores.
Anthony Pagden analisou as diferenças deste conceito expressas por espanhóis, e
ingleses e franceses. O direito de ocupação defendido pelos britânicos, e em menor
grau pelos franceses, baseava-se no argumento, originário do Direito Romano, da res
nullius, ou seja, terras desocupadas seriam propriedade de toda humanidade até que
delas se fizesse uso para a agricultura. De acordo com a leitura que John Locke
propõe no Segundo Tratado do Governo, e muitos outros a partir dele, os indígenas,
184 A. Doré
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Imagem 2 Vista da cidade-fortaleza de Cochim. O Livro das plantas de todas as


fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental, 1635. (Biblioteca Pública de
Évora – BPE, Évora).

Imagem 3 Este mapa traz a seguinte legenda: ‘Capitania de Pernambuco, de que é


Governador o Senhor Duarte de Albuquerque Coelho. E tem esta dita capitania sessenta
léguas de costa como se vê na presente tábua; e na seguinte se mostra em particular o
porto de Pernambuco e vila de Olinda, cabeça desta capitania’. João Teixeira Albernaz I.
Livro que dá razão do Estado do Brasil, 1612. (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
– IHGB, Rio de Janeiro).
Colonial Latin American Review 185

por esse princípio, não seriam proprietários, uma vez que viviam da caça e da coleta,
e não realizavam melhorias, benfeitorias, nas terras em que viviam. Os espanhóis, por
sua vez, assim como fizeram os portugueses, não fundaram colônias baseadas no
‘plantio’, mas sim na conquista, o que não produziu ‘agricultural goods, but semi-
sacred precious metals, and were invariably described as “kingdoms”, the “kingdoms
of the Indies”’ (Pagden 1998, 79). A discussão sobre os princípios de legitimidade da
posse das terras do Novo Mundo é bastante vasta e cheia de nuances, tanto no
contexto ibérico quanto no anglo-saxão. Inclui-se no debate a edição das bulas papais
que favoreceram os reinos ibéricos e que foram cada vez mais arduamente
questionadas pelas nações do Norte da Europa. Pontualmente, ter em mente o que
cada um considerava como direito de posse ajuda a compreender porque a imagem e
a descrição literária podiam incluir, no caso do Brasil, áreas sem cultivo ou sem
povoações sem que isso afetasse a ideia de domínio da coroa sobre o território.
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Frank Lestringant escreve sobre as novas perspectivas vividas pelos humanistas na


descrição do mundo e suas sugestões de análise oferecem a outra chave de leitura
para nossas fontes. Em uma primeira grade de interpretação, o autor retoma a
proposição de Stéphane Yérasimos e aponta que na disposição do mundo erigido pelo
humanismo europeu da segunda metade do século XVI, ‘the more geography there
was, the less history’ (Lestringant 1994, 2). Nas diferenças existentes entre os textos de
Campos Moreno e de Bocarro, por meio das quais se detecta o que cada um julga
essencial descrever, vê-se que é na Índia que a história acontece, assim como no
campo iconográfico, o mapa da capitania de Pernambuco é mais rico em elementos
geográficos.
Em seu texto, Bocarro retoma traços da história dos portugueses na Índia e o
momento do relato já conta com uma memória saudosa do passado. Nos anos 1630,
período em que a obra foi elaborada, já sentiam-se os efeitos da presença holandesa e
inglesa no Oceano Índico. A fortaleza de Ormuz havia sido perdida para persas e
ingleses, em 1622, e os holandeses já tinham seu quartel-general instalado em Jacarta
desde 1619. Ao escrever ao rei sobre Goa e seus arredores, Bocarro informa
igualmente sobre a posição central que a capital ocupa na comunicação entre as
diferentes partes do Estado da Índia e com o reino e sobre os ritmos das viagens entre
Goa e outras praças do Oriente. Nessas informações há um ‘antigamente’ que lhe
serve de comparação.

O que se leva a India são muitas couzas, porem nas mais dellas há [h]oje muy
pouco interece, pellos olandezes e ingrezes encherem toda Europa de roupas e
drogas em que [h]avia os principais ganhos deste comercio. E, ainda assy, levão a
pimenta por conta de Sua Magestade e algũas roupas de Cambaya, caras e ruins,
porque tambem estas são tam inferiores e somenos do que antigamente que, ainda
não estiverão tão sobidas no preço e os olandezes e ingrezes as não levarão, ainda
assy em grande copia forão os ganhos muy poucos. […] Hia antiguamente pera
Portugal muito anil de Cambaya, já [h]oje, pello levarem em grão copia ingrezes e
olandezes, nem quá está em preço que se possa levar, nem em Portugal tem
186 A. Doré
expediente. […] E assy, pellas ditas cauzas, está este dito comercio da India pera
Portugal já muy acabado …. (f. 91v; p. 165, grifo nosso);
A navegação que antigamente se fazia de Goa pera a China era, tirado a do Reino, a
mais rica e de mayores cabedais que [h]avia neste Estado …. (f. 91; p. 167).

Diferentemente, o compromisso de Campos Moreno em seu texto é com o futuro.


Os benefícios da natureza prodigiosa seriam multiplicados pela extração de matérias-
primas e a intensificação da exploração agrícola:

De modo que a conquista do Maranhão, que se pratica, e a navegação do salitre do


rio de São Francisco, nem a pescaria das baleias da Bahia de Todos os Santos ou da
Angra dos Reis, nem as esmeraldas do Rio Doce, nem o ouro de São Vicente, ou a
prata que dizem haver no rio Real, ainda que tudo junto hoje estiver em termos
assegurados, […] nenhuma comparação fazem com o que pode medrar o dito
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Estado e os moradores deste Reino e as alfândegas de Sua Majestade, havendo


muitos escravos e baratos, que trabalhem nas fazendas do açúcar e cortes do pau-
brasil, tudo seguramente navegado sem pagar tributos aos inimigos do Norte, antes
fazendo crescer, nos despovoados, povoações e fazendas. (120–22)

A colônia Brasil era, assim, um conjunto de potencialidades, carentes de homens


fiéis ao rei, carentes igualmente de mão de obra e de segurança, mas voltados mais
para o futuro do que para a memória de experiências passadas. Para este futuro,
diferentemente do que se via acontecer na Índia, o autor previa a vitória dos ibéricos
na concorrência com outras potências.

Escalas da posse
A partir de outra grade proposta por Lestringant, o que está em jogo é a escala de
representação. Nos mapas corográficos, ou topográficos, a grande escala qualitativa
permite inserir fatos históricos, ‘to fix accidental details, to inscribe locally the passage
of the present’ (2004, 3). Nas plantas da Índia, esta é a escala privilegiada e pode-se,
assim, identificar traços do urbanismo português, o ‘urbanismo regulado’ de que trata
Walter Rossa (2001). Vários largos protagonizados por edificações religiosas, igrejas e
mosteiros das ordens dos dominicanos, franciscanos, jesuítas. Da muralha é possível
identificar os baluartes, que o texto de Bacarro nomeia, quase todos batizados com
nomes de santos.
Em um outro extremo, a pequena escala utilizada para a representação de mapas-
mundi ‘lent itself ideally, in a future-oriented vein, to audacious strategic anticipa-
tions’ (Lestringant 2004, 3). Mais geografia no Novo Mundo, e mais futuro. A escala
não é tão reduzida quanto a adotada nos mapas-mundi, mas é muito inferior àquela
que representa os espaços asiáticos. Os mapas percorrem o litoral onde ainda os
europeus não se instalaram, onde a natureza é promissora, e onde os nativos não são
propriamente um obstáculo. No plano literário, Diogo Campos Moreno avalia as
promessas da nova colônia: salitre, engenhos, lenha ….
Colonial Latin American Review 187
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Imagem 4 ‘Todas as fortificações que se mostram, do lugar do Recife até a vila de


Olinda e ainda adiante, até o rio Tapado, de trincheiras, redutos e plataformas que se
estendem por mais de uma légua de terra, fizeram-se por mandado e ordem do
governador-geral Matias de Albuquerque, na ocaisão em que os holandeses tomaram a
Bahia’. João Teixeira Albernaz I. Livro que dá razão do Estado do Brasil, 1612. (Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, Rio de Janeiro).

Nestas duas representações, alguns paralelos possíveis. A forma de ocupação da


ilha de Moçambique foi retomada nas vilas do Recife e de Olinda (imagens 4 e 5). A
escolha do local para a construção de praças fortificadas, na extremidade de ilhas, em
penínsulas ou na foz de rios configurou um padrão adotado pelos portugueses em
vários contextos (Fernandes 1987, 79–94). Objetivava-se a proximidade do mar, e
consequentemente portos e rotas comerciais, assim como a defesa dessas possessões.
A representação exclusiva da ilha de Moçambique, sem informações imagéticas sobre
o continente, ao mesmo tempo em que concentra a visão no que há de português às
margens do Índico, dissimula a pequenez e a vulnerabilidade da presença portuguesa
frente à imensidão das terras africanas. Já na capitania de Pernambuco, as vilas de
Recife e Olinda rivalizam sua importância como aglomerados urbanos com a rica
produção açucareira que avança terra adentro.
Vejamos um outro paralelo entre duas possessões. A lente do cartógrafo se
aproxima, aumenta sua escala, e amplia ‘a cabeça do Estado’ da Índia e a do Brasil.
No Livro que dá razão do Estado do Brasil, a única localidade, o único trecho da costa
188 A. Doré
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Imagem 5 Vista da ilha e fortaleza de Moçambique. O Livro das plantas de todas as


fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental, 1635. (Biblioteca Pública de
Évora – BPE, Évora).
representado de forma singular em uma escala qualitativa é a primeira capital. Em
um grande fólio, com três vezes o tamanho dos demais, João Teixeira Albernaz
reproduz uma Planta da cidade de Salvador. Nas legendas, divididas em duas partes,
localizam-se as igrejas, os mosteiros, o Colégio da Companhia de Jesus, a Santa Casa
da Misericórdia, as casas do governador, os edifícios do Tribunal da Relação e da
Câmara, a cava, assinalada em vermelho, e os baluartes.
Goa, a capital do Estado da Índia, é representada com inúmeros detalhes: igrejas,
conventos e mosteiros, Tribunal do Santo Ofício, edifícios do poder político, fortes,
casas, muralhas e ruas (imagen 6).
São representações de qualidades e de níveis de detalhamento diferentes. A
figuração de Goa traz numerosas edificações e algumas delas encontram seu
equivalente nas legendas da cidade de Salvador. As preferências, estilos e habilidades
dos cartógrafos se concentraram, nos dois casos, em retratar a solidez dessas cidades
como centros administrativos e de difusão religiosa. A ‘pureza’ desses aglomerados,
seu caráter exclusivamente católico e português, era inteligível tanto aos autores dos
mapas quanto ao seus destinatários e sedimenta o que se deseja conhecer desses
territórios assim como o que se julga importante informar.
As fontes do período, correspondências e crônicas, a respeito dos estabelecimentos
portugueses são prolíficas na afirmação de que o mar era o meio fundamental, o
litoral era o seu apoio e a força dos portugueses estava próxima das margens e no
comércio que se fazia entre elas. Em todos os mapas desses dois trabalhos, verifica-se
a presença do mar, como moldura ou como via de acesso aos domínios retratados. Às
Colonial Latin American Review 189

Imagem 6 Planta da cidade de Salvador, na Bahia de Todos os Santos, em dois fólios.


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João Teixeira Albernaz I. Livro que dá razão do Estado do Brasil, 1612. (Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, Rio de Janeiro).

Imagem 7 Ilha de Goa. Cópia de vistas de cidades inseridas no Livro das plantas de
todas as fortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental (1635), realizadas por
António de Mariz Carneiro em Descrição da Fortaleza de Sofala e das mais da Índia,
1639. Códice Iluminado 149. (Biblioteca Nacional de Portugal).

margens do Atlântico, assim como do oceano Índico, registra-se, igualmente, de um


lado as políticas régias de ocupação e exploração ancoradas no litoral e, de outro lado,
a dispersão dos súditos. Neste aspecto, domínios diferentes, com vocações diferentes,
190 A. Doré
frequentados pelos mesmos homens, resultaram em comportamentos muito
próximos.
Na Índia, a vinculação com o mar orientou as políticas régias para a fixação no
litoral no modelo das feitorias fortificadas, seguidas de cidades amuralhadas. No
plano das iniciativas individuais, verificou-se a dispersão e a relutância dos homens
em se manter no interior das fortificações. Bocarro informa as dimensões restritas de
cada uma das fortalezas, considerando-se as diferentes instituições religiosas e civis
que deveria alojar, e nos sugere que limitadas expectativas eram oferecidas aos
indivíduos. Na costa ocidental da Índia, onde se encontra o maior número de
fortificações portuguesas, a Fortaleza de Honor, a dezoito léguas ao sul de Goa, ‘tem
em roda quatrocentas braças [perímetro de 431,52m], dentro dos quaes muros fica a
povoação dos cazados e moradores desta fortaleza, que são trinta brancos’ (f. 100,
p. 180). A fortaleza de Cambolim, em forma quadrada, ‘com cada lanço de muro de
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19 braças de comprido [perímetro de 138,98 m e área de 1.206m2]’ (f. 102, p. 183);


Barcelor, também no Canará, ‘tem o sircuito da fortaleza em roda cem braças
[perímetro de 182,88m]’ (f. 103, p. 184). A fortaleza de Cananor tem o circuito de
‘255 braças de dez palmos cada braça [perímetro de 466,34m]’ (f. 106, p. 188). Em
Cranganor, ‘a forma della he em quadro perfeito, cada lanço de muro he de dez
braças [perímetro de 73,15m e área de 334,45 m2]’ (f. 109, p. 192). Para além desses
espaços reduzidos, o poder português se desfazia, como atestam mapas e textos.
Escreve Bocarro, ‘dos muros afora a cidade, não tem Sua Magestade jurdição em
couza algua’ (f. 115, p. 204). Quanto aos indivíduos, são diversas as razões para a sua
dispersão para além das muralhas del Rei. As trajetórias de aventureiros e renegados
na Índia contam com vários estudos em que a busca de oportunidades de
enriquecimento, de ascensão social ou a fuga de perseguições por crimes cometidos
ou comportamentos julgados suspeitos pela Igreja figuram entre as principais causas
de evasão dos enclaves portugueses (Flores 1993; Cruz 1993; Subrahamanyam 1994;
Doré 2010).
Diogo Campos Moreno critica o mesmo comportamento entre os que foram
povoar o Estado do Brasil. As dificuldades ali eram outras. Não um mundo de
múltiplas, e muitas vezes perigosas, oportunidades de alianças com reinos muçulma-
nos e hindus, em muitos casos ávidos por estreitarem relações comerciais com a rede
cristã, mas o trabalho pesado e solitário em terras incultas e os ataques indígenas.
‘Pouco apego a uma terra’, escreve Campos Moreno, que, mesmo fértil a abundante,
exigia muito trabalho. Assim descreve a situação dos colonos: ‘os brancos, ao longo
da costa mais hóspedes que povoadores, separados uns dos outros, vendo-se sem
serviço, nem a quem servirem, conforme as suas fantasias metidos em dúvida em um
deserto …’ (115).
A análise em paralelo desses dois documentos permitiria, ainda, e neste caso
superando os limites deste artigo, verificar os gastos com a administração nos
diferentes espaços: rendimentos pagos a membros do clero, a capitães e oficiais, assim
como a renda obtida pelas alfândegas ou pela comercialização do açúcar. Um
panorama comparativo da capital do Estado da Índia e da capital do Estado do Brasil,
Colonial Latin American Review 191

por exemplo, poderia nos oferecer, assim como estimariam o rei e os administradores
em Madri, uma dimensão quantitativa das diferentes partes de seu império. Os cargos
e as funções, tanto civis quanto eclesiásticas, se repetem em Salvador e em Goa, mas
há vários indivíduos responsáveis por atividades em uma praça que não se verifica em
outra, como o língua em Goa e o procurador dos índios forros, em Salvador. A
ocupação do espaço, o espraiamento das povoações é também bastante diverso. O
papel das ordens religiosas é sensivelmente mais importante em Goa do que em
Salvador, o que poderia resultar da existência de uma população muito mais
numerosa e da existência da ambição de edificação de uma nova Roma no Oriente,
que nunca existiu na costa Atlântica.
A concentração desses levantamentos no período da União Ibérica não parece
resultar apenas do incremento das técnicas de produção, impressão e divulgação de
mapas, ou de um crescente interesse pelo Brasil expresso por administradores
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portugueses. É o caso de compreendê-la como parte de um contexto de valorização


dos efeitos práticos que o conhecimento cartográfico poderia proporcionar;
valorização que se intensificou no reinado de Filipe II, sem desprezar a importância
já atribuída ao tema por Carlos V, ou pelos reis portugueses da dinastia dos Avis e
que se estende pelo século XVII. O fôlego desses levantamentos se enfraqueceu a
partir da segunda metade do século, o que é considerado por Geoffrey Parker não
exatamente o reflexo do declínio vivido pela Monarquia Espanhola mas como um
fator que o teria precipitado (Parker 2002, 121). Esta avaliação de Parker pode fazer
sentido para o espaço europeu mas explica pouco sobre situações futuras quando se
analisa os domínios espanhóis no Brasil, que em 1640 retornariam para a coroa
portuguesa com D. João IV. Quanto às possessões na Índia, como já esclareceu Sanjay
Subrahmanyam, não se pode superestimar o papel dos conflitos europeus como
responsáveis pelas perdas registradas durante a União Ibérica (Subrahamanyam
1993). Tanto as derrotas ultrapassaram este período —com ênfase para as perdas no
Ceylão e no Malabar—, quanto forças asiáticas se impuseram à presença portuguesa.
Acrescentam-se a esses fatores as dificuldades inerentes a um império demasiada-
mente alargado. A análise das fontes privilegiadas neste artigo pretendeu chamar
atenção para as potencialidades comparativas dos domínios portugueses durante a
união das coroas ibéricas e indicar elementos presentes na percepção que os autores
envolvidos tinham desses territórios e que puderam transmitir aos monarcas. Ao
mesmo tempo, considerar que a monarquia espanhola identificava as conexões
existentes entre seus territórios contribui para dar inteligibilidade ao conteúdo desses
documentos.
O período da União Ibérica configura-se como um momento crucial para o
deslocamento de interesses do oceano Índico em direção ao Atlântico. Para os
portugueses, o valor simbólico de que se revestiam os domínios na Índia custou a se
desfazer, mas as informações sobre a mesa do monarca não negavam a necessidade de
se transferirem os interesses políticos e mercantis para o Novo Mundo. Os limitados
recursos deveriam se concentrar em um espaço, territorial e marítimo, que, mesmo
carente de um projeto claramente definido, apontava um futuro mais lucrativo e
192 A. Doré
duradouro. Após 1640, as guerras de Restauração ou de Aclamação, opuseram
espanhóis e portugueses até 1668. Neste período, a estreita margem de escolha da
dinastia portuguesa dos Bragança a levou para o Atlântico: os holandeses foram
expulsos de Pernambuco em 1654, assegurando para Portugal a porção mais rica da
colônia, e no litoral indiano se mantiveram apenas as fortalezas de Damão, Diu,
Baçaim e a cidade de Goa.

Reconhecimento
Este artigo é fruto de projeto de pesquisa financiado pelo Edital Universal 2010-
CNPq. A autora agradece as leituras generosas de uma versão anterior deste texto
feitas por Lisa Voigt e Chet van Duzer.
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ANDRÉA DORÉ é doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF)


com pós-doutorado pela Harvard University. Professora do Departamento de
História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Brasil.

Notes
1
Jacob van Deventer. Planos de ciudades de los Países Bajos, 1545. Os volumes II e III deste Atlas
estão preservados na Biblioteca Nacional de España e disponível em versão digital. RES/200.
O volume I foi perdido. Para a citação, ver Parker 2002, 36. Ver também Buisseret 2003.
2
Real Biblioteca del Escorial, [Atlas], Mss. K-1-1.
3
Decreto citado em Visita de las yslas y reyno de la gran canaria hecha por don Ynigo de Briçuela
[…] 1634 (ed. facsímil con un estudio por Juan Tous Meliá, 2 vols., Museu Militar Regional de
Canarias, 2000, 1:40), apud Kagan 2004, 99.
4
O Atlas está preservado no Arquivo Militar de Estocolmo, Suécia, e recebeu sua primeira edição
em 2004. Sobre o espaço concedido às Índia, ver Sánchez Rubio et al. 2004, 69.
5
Este artigo é o ponto de partida de uma pesquisa sobre o papel desempenhado pelo vice-reino do
Peru nas representações cartográficas da América do Sul. Essa investigação se iniciou no âmbito
de um estágio pós-doutoral no Department of Romance Language and Literatures da Harvard
University, financiado pelo CNPq, e por uma fellowship da John Carter Brown Library, da
Brown University, entre 2012 e 2013.
6
A obra, sem mapas, intitulada Roteiro geral com largas informações de toda a Costa do Brasil, de
Gabriel Soares de Sousa, dedicado a D. Cristóvão de Moura, valido português de Filipe II, em
1587; o Roteiro de todos os sinaes (conhecimentos, fundos, baixos, alturas, e derrotas, que há na
Costa do Brasil, desdo cabo de Santo Agostinho até o estreito de Fernão de Magalhães), produzido
entre 1585–1590, com 13 mapas, realizado por Luís Teixeira. É de João Teixeira Albernaz I, filho
de Luis Teixeira, um atlas preservado na Biblioteca Nacional de Paris, o Atlas do Brasil, de 1627,
intitulado Livro em q se mostra a descripção de toda a costa do estado do Brasil e seus portos.
Barras e sondas. Tratando-se do mesmo autor, Hélio Vianna compara as 19 cartas deste atlas
com as plantas que integram o Livro que dá razão do Estado do Brasil, no qual não aparecem as
capitanias do sul, e de que tratarei a seguir (Cortesão e Mota 1987, 4:103–5; Teixeira 1968 e
Moreno 1955). Outro levantamento deste período é a Descripção de toda a costa da Provinsia de
Santa Cruz a que vulgarmente chamão Brasil, de 1642, com 23 mapas do mesmo João Teixeira
Albernaz I, finalizado pouco depois da Restauração portuguesa (Teixeira 2000).
Colonial Latin American Review 193
7
Procedentes de um original perdido, existem apenas cinco apógrafos conhecidos da Razão do
Estado do Brasil, três dos quais datam do século XVII. O primeiro texto do Livro deve ter sido
redigido entre 1612 e 1613. Entre 1625 e 1627, o texto recebeu cortes e acréscimos resultando em
um apógrafo hoje preservado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de
Janeiro, cuja transcrição foi feita por Helio Vianna e que aqui utilizo. Na mesma época, o
apógrafo que pertence à Biblioteca Nacional do Porto recebeu mapas e plantas, de autoria, ‘pelo
menos em parte’, segundo Vianna, do cosmógrafo português, João Teixeira Albernaz. Ver
Moreno 1955, 7–8, e Nelly Martins Ferreira Candeias, A Cartografia Portuguesa no Brasil
Colonial. http://www.jbcultura.com.br/nelly/cartografia.htm.
8
Apenas durante a União Ibérica registra-se O Livro das cidades e fortalezas que a Coroa de
Portugal tem nas partes da Índia, e das capitaneas, e mais cargos, que nelas ha, e da importância
delles (1582), uma panorâmica sem plantas do Estado da Índia, editado somente em 1950 por
Francisco Mendes da Luz. As Plantas de praças das conquistas de Portugal (1610), realizado por
Manuel Godinho de Erédia, possivelmente em resposta a uma ordem régia (Doré 2006); o Atlas
Universal, de 1630, de João Teixeira Albernaz I, com 31 cartas. A obra intitula-se Taboas geraes
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de toda a navegação divididas e emendadas por Dom Ieronimo de Attayde com todos os portos
principaes das conquistas de Portugal. Delineadas por Ioão Teixeira Cosmographo de Sua
Magestade. Anno de 1630 e também traz vistas do Rio de Janeiro. A realização desse atlas
também pode ser atribuída à ação de Filipe IV e é uma prova dos extraordinários recursos
cartográficos da Casa da Índia (Kagan 2004, 98). Há ainda um códice anônimo, localizado no
Paço Ducal de Vila Viçosa, o Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da
Índia Oriental, editado por Luís Silveira, e datado entre 1633 e 1641 (Silveira 1988); e Descripçam
da Fortaleza de Sofala, e das mais da India com uma Rellaçam das Religiões todas, q há no
mesmo Estado, de autoria do cosmógrafo-mor do reino Antonio de Mariz Carneiro, de 1639.
9
Ver Cortesão e Mota 1987, 5:60-65. Segundo os autores, há 5 exemplares desta obra: o da
Biblioteca Pública de Évora, de 1635, com 48 plantas; um exemplar de 1635, se encontrava, em
1960, à venda no Livreiro A. Rosenthal, Oxford, com 48 plantas; o exemplar de c. 1635, da
Biblioteca Nacional de Madrid, contém 52 plantas. É especialmente interessante por se tratar de
uma cópia do original, não assinada mais atribuída a João Teixeira Albernaz I, ou seja, mais de
20 anos depois de produzir o seu levantamento sobre o Brasil, João Teixeira teve acesso a um
trabalho semelhante a respeito do Estado da Índia; a Descripção da Fortaleza de Sofala e das mais
da Índia, de António de Mariz Carneiro, de 1639, na Biblioteca Nacional de Lisboa, com 48
plantas; e ainda um exemplar do século XVII, em Ceylon Government Archives, de Columbo,
com 52 plantas, de um anônimo.
10
Cartas de El-Rei a Gaspar de Sousa, ff. 100v e 101 do códice do Ministério das Relações
Exteriores, ff. 16v e 17, conforme verificado por Hélio Vianna e por ele transcrito em seu estudo
da obra de Diogo de Campos Moreno, Livro que dá razão do Estado do Brasil (Moreno 1955, 7).
11
Carta régia de 06.03.1605. Documentos remettidos da Índia ou Livro das Monções (1880–
1935, 1:29).
12
Apud Bocarro 1991, vol 1. Estudo histórico, codicológico, paleográfico e índices de Isabel Cid, p.
13. A autora explica que carta de 24 de Dezembro de 1633, fonte dessas informações, foi
publicada por Bulhão Pato na introdução da Década 13 da História da Índia, de Antonio
Bocarro (Lisboa: Typ. da Acad. Real de Sciencias, 1876, xvi).
13
Carta reproduzida em PMC, vol 4, Estampa 446. Na primeira carta do Livro em q se mostra a
descripção de toda a costa do estado do Brasil e seus portos. Barras e sondas. [Atlas do Brasil], de
1627, verifica-se a mesma referência ao Peru na legenda e à montanha de Potosi na carta. A
cadeia montanhosa, no entanto, já não prossegue atravessando o Brasil. Carta reproduzida em
PMC, vol 4, Estampa 453.
14
Em vários momentos da obra, pp. 154, 164, 198, 204.
15
Sobre o conceito de uma dominação cercada no Estado da Índia, ver Doré 2010, 14 e 119.
194 A. Doré
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