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A VIDA E O MAPA DA GRANDE PINTORA MEXICANA


Frida Kahlo, a força visceral da dor
Lúcia D. Torres

Marcada por um trágico acidente aos 18 anos e


por uma vida inteira de sofrimentos físicos, Frida
conseguiu ser, ainda assim, a grande pintora
mexicana do século XX. Trágica, apaixonada e
genial, ela sintetiza a alma feminina da América
Latina.

Hexagrama 65

Propósitos ocultos na profundidade da alma... Desde Frankl estamos


buscando, de forma mais objetiva, compreender o que se revela através do
absurdo em nossas existências cotidianas. Escolhas que alteram de forma
radical os nossos rumos. Encontros que perturbam nossas certezas,
descortinam novos sentimentos e trazem novos horizontes. Acidentes que
reorientam nossos valores e reduzem nossa auto-importância. O inexorável
que nos desnuda diante de tudo, deixando-nos a sós com nossa
perplexidade e angústia... simplesmente Plutão, que circunstancialmente
nos encontra para nos convidar a sermos nós mesmos. Às vezes, as
respostas se apresentam, outras vezes, não. Resta-nos apenas a travessia,
por vezes amarga, sempre solitária - saber que somos os resultados de
nossas escolhas, conscientes ou não, por vezes não consola nem parece ser
suficiente - , resta-nos a sabedoria do poeta:

Quero lhe implorar para que seja paciente com tudo o que
não está resolvido em seu coração e tente amar. As
perguntas são como quartos trancados e como livros escritos
em língua estrangeira. Não procure respostas que não
podem ser dadas porque não seria capaz de vivê-las. E a
questão é viver tudo. Viva as perguntas agora.Talvez assim,
você, gradualmente, sem perceber, viverá a resposta num
dia distante. (Rilke)

Há algum tempo, tenho-me debruçado sobre pesquisas em astrologia


médica com os trânsitos Júpiter / Plutão. Os resultados têm sido
impressionantes. Parte dos estudos desta pesquisa foi apresentada na III
Jornada Gaúcha de Astrologia e Transdisciplinaridade (Porto Alegre,
outubro de 2007) e ela continua em andamento. O que mostro aqui é um
recorte da mesma. Chamei este capítulo da pesquisa de Hexagrama 65,
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aludindo a poema de Leminski que, me parece, evoca o mapa (e, por


extensão, a vida) de Frida:

Hexagrama 65

Nenhuma dor pelo dano.


Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.
1 dia, 1 mês, 1 ano.

(Paulo Leminski)

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón nasceu a 6 de julho de


1907, às 08:30, em Coyoacán, subúrbio da Cidade do México. Seu mapa
astrológico e sua origem - familiar, social e nacional - já sinalizam as
contradições e ambigüidades que matizariam sua existência, marcada pela
intensidade, pela paixão e pela dor. Além do Ascendente em Leão, observa-
se uma ênfase no signo do luminar noturno (Netuno, Sol, Júpiter) e duas
conjunções poderosas na casa XI - Sol / Netuno / Júpiter em Câncer e
Vênus / Plutão, estes últimos em Gêmeos. O Sol, conjunto a um Júpiter
exaltado, aliado a uma Lua também neste estado cósmico poderiam ilustrar
sua tenacidade e gana de viver, apesar de tudo o que passou.

Frida Kahlo - 06.07.1907, 08h30 LMT - Coyoacán, México


099w10, 19n20.
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Os fatos marcantes de sua vida, entretecidos pelos trânsitos


(principalmente de Júpiter / Plutão) e revoluções solares, enfatizam as duas
dinâmicas principais que este mapa oferece, a saber:

1. conjunção Sol /Netuno XI oposta a outra conjunção Marte-Urano


(Capricórnio, casa V); e
2. conjunção Vênus-Plutão em Gêmeos na XI quadrada com Saturno em
Peixes na VIII.

Em que pese que a vida desta mulher seja fascinante e complexa, vamos
nos deter aqui, principalmente, nos aspectos que marcaram sua trajetória
feminina a partir dos problemas de saúde, fazendo a interface com os
trânsitos astrológicos do momento. Como o próprio nome de batismo já
profetizava (e este artigo pretende ilustrar), o sofrimento na condição
feminina mostra-se à existência de Frida desde a mais tenra idade,
golpeando sua vaidade leonina e sensualidade lunar.

Não obstante a etimologia da palavra Frieda (nome teutônico) significar


"pacífica", em ressonância com a Lua taurina, ela, mais tarde, vai mudar a
grafia do seu nome para "Frida" (nome teutônico que significa "a que
protege" - bem compatível para uma canceriana com fortes colorações
netunianas). Magdalena (nome aramaico: "cidade das torres") e Carmen
(nome latino: "poema"), por sua vez, evocam arquétipos desafiadores,
valentes, ferozes e, porque não dizer, trágicos, se lembrarmos a ópera de
Bizet e o que nos foi contado acerca da enigmática mulher bíblica - bem
apropriados à uma conjunção Vênus-Plutão e a um Sol oposto a uma
conjunção Marte-Urano.

Talvez seja interessante comentar, de forma ligeira, algumas questões de


sua biografia.

O pai era um judeu alemão, Wilhelm Kahl, que "espanholou" seu nome para
Guillermo Kahlo quando chegou ao México, vindo da Alemanha. Já era viúvo
quando se casou com uma católica fervorosa (Matilde Calderón). Frida é a
terceira filha deles e, em seguida, sua mãe engravidou novamente. Recém-
nascida, foi entregue a uma ama-de-leite para ser amamentada. Frida
expressa o sentimento profundo de rejeição materna no quadro "Eu a
Mamar" (também chamado A Minha Ama e Eu), de 1937. Sua irmã caçula,
Cristina, é onze meses mais moça. Mais tarde, estas duas mulheres, a mãe
e a irmã, seriam protagonistas de momentos cruciais na vida da pintora.
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A efervescência do início do século XX trazia em seu bojo muitas novidades


culturais e muitas lutas sociais, além da revisão de costumes,
questionamentos sobre os papéis dos gêneros e dos direitos de cada um
deles. Desde jovem, Frida já mostrava seu perfil transgressor e rebelde: na
foto familiar, veste-se de homem e fica em pé, numa atitude de clara
contestação e desafio à cultura da época (Marte conjunto a Urano em
Capricórnio na V, opostos a Sol-Netuno em Câncer na XI).

Comenta-se mesmo que, antes dos 20 anos, discutia o viés político de


Hegel (tendo passado por Marx) e lia Schopenhauer, alternando-o com
Spengler. (Bem mais tarde, tudo isto também propiciaria um encontro
inusitado com Leon Trotski e sua esposa, quando os recebeu em casa,
dando-lhes guarida da perseguição stalinista).

Aos quinze anos, converte-se em membro de um grupo político que apoiava


as idéias socialistas-nacionalistas. Alejandro Arias, seu futuro noivo, era o
líder do grupo. É também nesta época que muda a maneira de escrever seu
nome, orgulhosamente proclamando ter nascido em 1910.

(Na revolução solar de 1922, encontramos o Ascendente em Peixes, com


Netuno em Leão na V, além de uma conjunção aplicativa de Plutão ao Sol,
em Câncer, na IV, trigonando com Urano em Peixes na XII).

As questões sociais e políticas (casa XI superenfatizada) permeariam de


forma permanente a sua existência, como demonstra a biografia. Tendo o
México como berço, um país tão vibrante, passional, multirracial, palco de
disputas onde a colonização espanhola (e mais tarde norte-americana) não
conseguiu extinguir as fortes influências nativas (principalmente maias e
astecas), Frida via espelhado ao redor suas próprias contradições internas,
pessoais e familiares (Ascendente em Leão, Sol conjunto a Netuno na XI).
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"O que não me mata, me alimenta"

Frida forjou na própria carne a força visceral que a levou a fazer da dor a
mais preciosa arma para continuar a viver. Seu corpo foi o palco e o pacto
para os prazeres mais secretos e a agonia mais lancinante. Talvez, por isto,
sua obra expresse esta passionalidade tão comum à alma das mulheres que
encarnam uma Vênus plutônica. Vejamos, agora, quais foram os principais
desafios que sofreu sob o ponto de vista da saúde e as conseqüências disto
na sua trajetória feminina, observando também as efemérides planetárias
que acompanhavam estes acontecimentos.

Aos seis anos (1913), quando Plutão ingressa no signo de Câncer, é vítima
de poliomielite. Apesar de nove meses exercitando-se regulamente, o
resultado foi uma seqüela na perna direita, que se tornou bem mais curta e
delgada do que a outra, e um pé atrofiado... Na escola, os coleguinhas,
ratificando a inata crueldade infantil, apelidaram-na de "Frida, perna de
pau". Veja a revolução solar deste ano, com o Ascendente em Capricórnio
conjunto a Júpiter (que por sua vez, em trânsito, ativava a conjunção
Marte-Urano na V oposta a conjunção Sol-Netuno em Câncer na XI). Todos
os regentes das casas de saúde (VI, VIII, XII e Ascendente) estavam
envolvidos em oposições. A conjunção Lua / Mercúrio em Leão transitava na
XII. Desde cedo, a vaidade leonina começou a receber duros golpes...
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Frida Kahlo, Revolução Solar para 1913 - Cidade do México

Mas parece que a alma de Frida tinha marcado um encontro especial com o
destino, aos 18 anos. (Observe tanto por progressão como na revolução
solar, a posição de Plutão, encontrando-se com a conjunção natal Sol-
Netuno e a oposição destes a Urano-Marte).
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Frida Kahlo, Revolução Solar para 1925 - Cidade do México.

Ao voltar da escola, no dia 17 de setembro de 1925, sofreu um trágico


acidente a bordo de um tranvía (mistura de ônibus com bonde) que resultou
em inúmeras fraturas (onze somente na perna direita), um defloramento
por uma barra de ferro que lhe atravessa o quadril, uma sucessão de trinta
operações e intermináveis períodos de convalescença. Mais tarde escreveria
em seu diário: "e a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo
carrega, em si, todas as chagas do mundo" (Sol / Netuno / Júpiter em
Câncer na XI). Sabemos que o acidente aconteceu quando voltava da escola
- na falta de precisão, tomamos como padrão a hora média utilizada nestes
casos (12h).
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Acidente de Frida Kahlo - 17.09.1925, Cidade do México.


Carta calculada para o horário-padrão de 12h.

Robert Hand, em Planets in transit, escreveu:

É crença minha, que não posso "provar" aqui, que há um


cerne criativo no interior de cada um de nós que cria
ativamente o Universo... Seja inventando cada parte, a partir
do nada, seja concordando, de antemão, antes da nossa
encarnação física, em jogar determinado jogo, com
determinadas regras...

Plutão despedaça tudo o que toca, principalmente quando forma aspecto


com Júpiter - sob este trânsito, nossa vida pode mudar radicalmente.
Lembre que Júpiter é o planeta associado à capacidade de estabelecimento
de símbolos da psique, a inclinação de atribuir sentido a eventos e a
estímulos que nos vêm "ao acaso".

No dia do acidente de Frida, Júpiter transitava aos 12 graus de Capricórnio


(de novo!!!), acionando a difícil conjunção retrógada Marte-Urano na V
oposta a Sol e Netuno em Câncer na XI, que, por sua vez, estavam sendo
envolvidos pela inexorável energia de Plutão em conjunção exata com estes
dois astros. Como se não bastasse, Urano em Peixes estava em conjunção
com o Saturno natal na VIII (intensificando a dinâmica da quadradura com
a conjunção Vênus-Plutão em Gêmeos na XI) e recebendo a oposição diária
da forte conjunção Sol, Marte, Lua em Virgem (os quais, por sua vez,
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também reforçavam a quadratura Saturno / Vênus-Plutão já mencionada).


Ou seja, aqui Júpiter e Plutão estavam literalmente, frente a frente...

Fatalidade, destino, circunstâncias fora do nosso controle, escolhas


inconscientes, programações kármicas, seja como for, seja qual for o nome
que nos parecer mais apropriado a estas situações, o fato é que não
ficamos incólumes quando somos beijados pela morte. Ninguém volta do
mesmo jeito que era depois de uma temporada no Hades:

Nenhuma dor pelo dano.


Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.

De repente, não mais que de repente, a jovem mulher que tencionava


cursar medicina e era noiva se vê confinada a uma cama, a uma série de
tratamentos médicos, à solidão das horas e ao abandono amoroso (sim,
Alejandro, o noivo, algum tempo após o acidente, anunciou sua mudança
para a Europa... bem verdade, também, é que a mãe e a irmã dele nunca
aprovaram seu romance com Frida). Neste deserto existencial, forja-se a
artista plástica que viria a ser um ícone de seu tempo, posteriormente.

A família, sensibilizada por tamanha desventura, constrói um cavalete


especial para que ela pudesse pintar sem se levantar da cama e instala um
espelho no dossel, o que lhe valeria muitos auto-retratos ao longo dos anos.
"Pinto-me a mim mesma porque estou com freqüência sozinha e porque sou
a pessoa a qual melhor conheço".

Ao que tudo indica, e ela mesma percebeu mais tarde, este acidente foi
apenas um trailer do que seria a vida de casada ao lado de Diego Rivera. De
acordo com suas palavras textuais, "sofri dois grandes acidentes na minha
vida: um foi em um ônibus e outro foi Diego".

Coluna quebrada
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Vida amorosa: sob os auspícios de uma Vênus plutônica

Sim, temos um jeito muito peculiar e próprio de ir ao encontro do que o


nosso mapa promete... A vida amorosa de Frida foi intensa e apaixonada,
como condiz a uma conjunção Vênus-Plutão em Gêmeos, marcada por
infidelidades mútuas e envolvendo, também, casos homossexuais. A
exemplo de Elizabeth Taylor, anos mais tarde, Frida também se casou duas
vezes (em 1929 e 1940) com o mesmo homem (Diego Rivera), e,
oficialmente, a separação durou apenas um ano (1939-1940).

Casamento de Frida Kahlo com Diego Rivera - 21.08.1929,


Cidade do México.
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O casamento de Frida se dá aos 21 dias do mês de agosto de 1929. Diego


tinha 42 anos, media 1,86m e pesava 136kg. Frida tinha 22 anos, media
1,60m e pesava somente 44,5kg. A mãe de Frida não aprovou a união ("é o
casamento de um elefante com uma pomba"), dizendo que Diego era
demasiado velho e gordo, além de comunista e ateu. O pai viu a
possibilidade de mais alguém cuidar da saúde da filha e os amigos ficaram
atônitos com a escolha. Observe que Vênus e Plutão em trânsito estavam
em conjunção exata no signo de Câncer (fazendo conjunção com o Júpiter
natal na XII), que o Júpiter em trânsito estava em Gêmeos, aproximando-
se da conjunção natal Vênus-Plutão, que a Lua em Peixes fazia um trígono
com o Sol/Netuno (aspecto, aliás, presente também no mapa do
casamento, em outros signos) e que Saturno em trânsito, no signo de
Sagitário, não só quadrava com ele mesmo, como estava oposto à
conjunção Vênus-Plutão.

O próprio Diego, que prometeu "lealdade" ao invés de "fidelidade", acabou


por se envolver com várias mulheres ao longo do casamento, inclusive com
a cunhada mais nova, Cristina (em 1934), o que acabou por provocar o
divórcio (em 6 de novembro de 1939).

Frida Kahlo, Revolução Solar de 1934 - Cidade do México.

Note que a Revolução solar de 1934 mostra uma Lua em Touro na III em
trígono com Netuno em virgem na VIII... Nas Cartas apaixonadas de Frida
Kahlo (José Olympio), encontramos frases que expressam sua dor por ter
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de enfrentar esta traição da própria irmã (todos os trechos a seguir são da


carta de 18 de outubro de 1934, p. 64 a 67):

Nunca sofri tanto e não pensei que pudesse suportar tanta


dor (...), aqui no México, não tenho ninguém: tinha apenas
Diego e as pessoas de minha casa, que encaram esta
questão de um modo católico. As conclusões que tiraram me
são tão estranhas que não posso contar com eles. Meu pai é
uma pessoa magnífica, mas lê Schopenhauer dia e noite e
não me ajuda em nada...

Aos 27 anos, nas vésperas de sua primeira revolução de Saturno, Frida, a


exemplo de tantas outras jovens esposas da época, apesar de já ser
razoavelmente conhecida e famosa, ainda não tinha consciência do valor da
alteridade, projetando toda a sua valia no papel conjugal:

Não tenho nada porque não o tenho. Nunca achei que ele
fosse tudo para mim e que, separada dele, eu fosse um
monte de lixo. (...) Mas agora percebo que não tenho nada
além de qualquer outra moça, decepcionada por ser
abandonada por seu homem. Não valho nada; não sei fazer
nada; não consigo estar sozinha.

A desilusão com o marido se intensifica de forma tamanha que não resta a


Frida outra alternativa a não ser tirar forças de si mesma para aprender a
cuidar de si:

Perdi meus melhores anos sendo sustentada por um homem,


sem fazer nada além do que julgava que o beneficiaria e
ajudaria. Nunca pensei em mim mesma e, depois de seis
anos, a resposta dele é que a fidelidade é uma virtude
burguesa, que só existe para explorar [as pessoas] e para
obter lucros econômicos. (...) Sei que fui tão estúpida quanto
se pode ser, mas fui sinceramente estúpida. Imagino, ou
pelo menos espero, que me recuperarei pouco a pouco. Vou
tentar criar vida nova, colocando minha energia em algo que
me ajude a superar isto da maneira mais inteligente.
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Em 1935, reconciliaram-se parcialmente, fazendo um acordo de morarem


juntos, mas mantendo vidas independentes.

Era-lhe muito difícil afastar-se deste homem que a fascinava. Em seu diário,
encontramos frases como: "tu manos me estremecieron toda" , "dame
ilusión, esperanza, ganas de vivir y no me olvides", "sabes que te quiero
mucho y te perdono todo lo que has hecho, te extraño y quiero que
regreses conmigo" ou ainda "aqui estoy para perdonarte, aquí estoy para
amarte y tu ¿donde estás, Diego, donde estás?" Diego no meu pensamento
é um dos inúmeros auto-retratos pintados pela artista.

Diego Rivera era conhecido tanto pelo talento como artista como por ser
mulherengo. Em uma entrevista, descreve as mulheres assim:

Por naturaleza los hombres somos unos salvajes. Lo


seguimos siendo hoy en día. La historia demuestra que el
primer progreso fue realizado por mujeres. Los hombres
preferimos permanecer brutos, peleándonos y cazando. las
mujeres se quedaron en casa y cultivaron las artes. Ellas
fundaron la industria. Fueron las primeras en contemplar las
estrellas y en desarrollar la poesía y el arte... Muéstrame
cualquier invento que no haya tenido su origen en el deseo
de servir a las mujeres.

Em 1937, o casal dá asilo político a Leon Trotski e sua esposa, que


refugiaram-se no México, fugindo da perseguição estalinista. A convivência
estreita acabou por provocar um relacionamento amoroso entre Frida e
Trotski, o qual só durou alguns meses.

Em 1938, ela vai a Paris a convite de André Breton, para sua primeira
exposição individual. Conhece o fotógrafo Nickolas Muray, com o qual
também se envolve afetivamente.
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Frida Kahlo, Revolução Solar de 1939 - Cidade do México.

Contudo, em março de 1939, contraiu uma forte infecção renal e teve de


ser hospitalizada. Sabemos que os rins estão associados ao signo de Libra
e, por extensão, podem se converter na área corporal onde ocorrem as
somatizações decorrentes de problemas conjugais, por exemplo. Não era
nada fácil para Frida manter esta relação de estar junto e, ao mesmo
tempo, não estar com Diego. Acaba rompendo com Muray e volta para o
México. Ela e Diego decidem, finalmente, dar andamento aos papéis do
divórcio. No entanto, em setembro, Frida começa a sentir fortes dores na
coluna, o que a leva a ficar com o corpo tracionado e em repouso. Nesta
época, começa a beber em excesso. Por isto, o divórcio só aconteceu, de
fato, no dia 6 de novembro de 1939, ou seja, cinco anos depois da tomada
de decisão inicial. (Observe que neste dia Júpiter transitava no signo de
Peixes, conjunto a Saturno na VIII e acionando a quadratura com Vênus-
Plutão. Netuno em Virgem, por sua vez, também acionava esta
configuração de Vênus-Plutão do mapa natal, opondo-se a Saturno (e
Júpiter). A Vênus estava em oposição partil à Lua natal e o Marte angular
opunha-se ao Ascendente natal).
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Divórcio de Frida Kahlo e Diego Rivera - 06.11.1939, Cidade do México.


Mapa calculado para o horário-padrão das 12h.

Entretanto, a separação foi passageira e, um ano depois, no aniversário de


Diego (8 de dezembro), eles voltam a se casar. Curiosamente, este
segundo matrimônio foi condicionado por várias exigências de Frida, a
saber:

1. sob o aspecto financeiro, ela assumiu plenamente a sua


sobrevivência com a venda dos seus quadros;
2. as despesas domésticas seriam divididas igualitariamente entre o
casal;
3. não manteriam relações sexuais (!)

(Veja o mapa do dia do casamento: Júpiter em conjunção com Saturno em


Touro opostos - não por grau - à conjunção Vênus / Marte em Escorpião!)
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Segundo casamento de Frida Kahlo e Diego Rivera - 08.12.1940, Cidade do México.

A impossibilidade de ser mãe

Como se não bastassem as deformidades físicas e os tormentos afetivos e


sexuais que permearam sua existência, outra ferida feminina também lhe
foi outorgada: a maternidade, igualmente, lhe foi um prazer interdito. Com
tantos planetas no signo de Câncer e ainda mais com uma Lua exaltada em
Touro, Frida tentou várias vezes levar adiante uma gestação. No entanto,
as seqüelas do acidente a impossibilitaram de levar a gravidez até o fim.
Parece que a conjunção Urano-Marte, retrógrada em Capricórnio na V,
oposta a sua conjunção Sol-Netuno em Câncer, não a favoreceu em
nenhuma das tentativas...
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Frida Kahlo, Revolução Solar de 1930 - Cidade do México.

O primeiro aborto foi em 1930, em razão de o feto estar em má posição


(observe a revolução solar - a Lua regente da V, está em Escorpião (oposta
a posição natal) e ainda envolvida numa quadratura T com Marte em Touro
(conjunto à Lua natal) e Vênus em Leão (na revolução na casa VI, em
trânsito na XII). Para reforçar, esta mesma Lua da revolução faz trígono
com Sol conjunto a Plutão em Câncer na V. Se isto é pouco, dêem uma
olhada no Saturno (revolução e trânsito...)
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O segundo aborto

Já o segundo aborto foi no dia 4 de julho de 1932. Foi um aborto


espontâneo. O médico tinha incentivado que tentasse manter a gestação
até o fim. Por isto, como este bebê tinha sido muito desejado por ela,
perdê-lo levou-a a uma profunda depressão - ficou 13 dias no hospital após
o aborto. Observe a revolução solar dela em 1931:

Frida Kahlo, Revolução Solar de 1931 - Cidade do México.

- Vênus regendo a V, ocupando a casa I quadrada com a Lua na X - some-


se a isto que Vênus na revolução transitava na conjunção natal com Plutão
e que a Lua na revolução transitava na VIII, fazendo conjunção com
Saturno, ativando mutuamente a quadratura natal;
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Frida Kahlo, Revolução Solar de 1932 - Cidade do México.

- o mesmo stellium canceriano da revolução anterior continua na oposição


com Saturno... E, no dia do aborto, a conjunção canceriana da Lua, Plutão e
Sol acionava a conjunção Mercúrio / Júpiter da revolução...

Porém, o ano de 1932 ainda lhe trouxe outra perda significativa: no dia 15
de setembro, sua mãe (que tinha câncer de mama e acabara de sofrer uma
operação de vesícula dois dias antes), faleceu.
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Frida perde a mãe: trânsitos para o dia 15.09.1932.

O fato de perder a mãe e abortar pela segunda vez acabou gerando uma
tela que foi nomeada Meu nascimento. Nessa pintura a óleo, a artista
imagina como teria sido o parto do qual ela havia nascido, ligando a cena ao
seu trauma quando sofreu os abortos. A cabeça da mãe de Frida encontra-
se coberta por um lençol, em alusão ao fato de que sua genitora falecera no
período em que ela pintava esse quadro - uma Frida morta é dada à luz por
uma mãe, também sem vida, sobre uma cama que está ficando encharcada
de sangue...
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De novo, a Revolução Solar de Frida para 1934, ano em que desiste


de uma vez por todas da maternidade.

A derradeira tentativa, em 1934, também frustrada, fez-lhe desistir,


definitivamente, de ser mãe (Lua em trígono a Netuno na revolução). Note
que, novamente, Plutão estava em conjunção com Mercúrio em Câncer, e o
Sol canceriano na V, quadrado com Júpiter na VIII. Marte na V, em
Gêmeos, acionava a quadratura natal Vênus-Plutão - Saturno. Neste mesmo
ano, Frida sofre uma amputação na ponta dos dedos do pé direito, além de
fazer uma cirurgia de apêndice.
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Diante disto, Frida aciona sua conjunção capricorniana na quinta casa:


"pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas
que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar
de tudo isto. Creio que trabalhar é o melhor."

O libelo final

"Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que


aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e
corajosos. Talvez todo o horror, em última análise, não passe
de um desamparo que espera o nosso auxílio ... " (Rilke)

A última década da existência de Frida foi-lhe bastante cruel. Em que pese


a notoriedade, os prêmios, as exposições, os alunos fiéis, os cuidados de
Diego... seu corpo frágil começou a sucumbir diante de repetitivas infecções
e tratamentos exaustivos. O mapa natal traz uma "ordem implícita", como
diria David Bohm, que, com o passar dos anos, vai-se desdobrando num
contínuo processo de vir a ser. Saturno, regente da casa VI, muda de signo,
afastando-se da conjunção com Vênus e Plutão em Gêmeos e aproximando-
se do signo de Câncer no início dos anos 40. Em 1942, por ocasião da
amputação do seu pé direito, escreveu: "pés para que os quero se tenho
asas para voar."

Entretanto, esta atitude altiva foi-se desvanecendo à medida que Saturno


atravessava o seu signo solar. Na revolução solar de 1944, já notamos
Saturno a 1º de Câncer, o qual vai transitar por toda a conjunção planetária
natal do mapa de Frida nos próximos dois anos e meio. A precariedade de
sua saúde aumenta e, significativamente, ela começa a escrever um diário.
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Apesar da agonia, das mais de 30 operações a que se submetera ao longo


da vida, na tentativa de melhorar suas condições de saúde, ainda mantinha
a fé na cura (Sol-Netuno), mesmo que remota. Por anos, espera com
angústia, mas espera. Este sonho deu-lhe alento para continuar vivendo e
acabou sendo sintetizado num verso de uma canção preferida, que se
tornou o seu lema: "Árvore da esperança, mantém-te firme!".

Este verso, inclusive, foi o título de uma tela de 1946, na qual há duas
Fridas. Uma delas está deitada de lado sobre uma maca, nua, com cabelos
soltos, mostrando sua coluna machucada, sob o sol escaldante num deserto
seco e com o solo cheio de rachaduras. A outra está no mesmo cenário, só
que sob a luz lunar. Ostenta um colete de coluna numa das mãos e uma
bandeira onde se lêem os versos da canção-título. Aparece sentada na beira
da mesma maca, vestida de vermelho.

Como pode-se observar, a medida que Saturno avança no signo de Câncer


e ingressa em Leão, Plutão (que também estava transitando neste signo na
casa XII do mapa natal de Frida) vai-se aproximando perigosamente do
Ascendente natal. Em efeito-cascata, ela começa a sofrer uma série de
infecções e seqüelas:

 em 1946, submete-se a uma cirurgia com implante de osso e precisa


de altas doses de morfina, em razão das dores;
 em 1949, aos 42 anos, sofre de gangrena no pé direito;
 em 1950, ficou hospitalizada durante nove meses, em decorrência
dos problemas repetitivos da sua coluna vertebral. Sofreu sete
operações durante este período, pois os implantes ósseos
infeccionavam;
 em 1951, passou grande parte do tempo em uma cadeira de rodas e
tomando analgésicos;
 em agosto de 1953, sofre a amputação da perna direita devido à
gangrena;
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 em junho de 1954, contrai pneumonia;


 em 2 de julho de 1954, contrariando ordens médicas, participa de
uma manifestação pública. É sua última aparição em público.

Depois da amputação da perna, a depressão aumentou. Talvez a


proximidade de Plutão ao Ascendente leonino estivesse sendo insuportável
demais. Em fevereiro de 1954, chegou a escrever no diário que queria
matar-se, porém seu amor por Diego a impedia. (Neste auto-retrato,
colocou a morte na testa).

Frida Kahlo, Revolução Solar de 1954 (uma semana antes de sua morte).

Mesmo assim, Frida não perdeu o tom dramático e romântico de seu


gestos, até nos últimos momentos de vida. No dia 13 de julho de 1954, no
meio da noite, chama Diego e dá um presente inusitado ao marido: um anel
comemorativo dos 25 anos de casados (considerando-se todas as idas e
vindas desde 1929). Diego protestou dizendo que ainda faltavam duas
semanas, mas Frida insistiu na comemoração. Naquela mesma noite, veio a
falecer.
25

As causas do óbito não são claras, já que não foi feita uma autópsia. Sabe-
se que tomou uma dose maior de remédios do que aquela prescrita pelos
médicos. Suspeita-se de suicídio. As últimas linhas de seu diário são
enigmáticas: "Espero alegre la salida y espero no volver jamás."

No dia de sua morte, Urano em trânsito acionava simultaneamente a


conjunção Sol / Netuno / Júpiter em Câncer e a oposição Marte-Urano em
Capricórnio. Plutão, em conjunção partil com o Ascendente, fazia um
trígono com a Lua e Marte em Sagitário. Netuno em Libra fazia uma
quadratura partil com o eixo nodal... A pequena pomba finalmente voou em
direção ao horizonte infinito; quem sabe, finalmente, tenha voltado para
casa...

Morte de Frida: Trânsitos para 13.07.1954.


26

***

ASAS E AZARES

Voar com a asa ferida?


Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno,
quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado, passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher entre um abismo,
o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde.
Voar, isso não dói.

(Paulo Leminski)

***

Frida foi cremada, conforme seu desejo. Diego guardou as cinzas numa
urna pré-colombiana, pedindo expressamente que, quando morresse, fosse
também cremado e que as cinzas fossem colocadas junto às de Frida. No
entanto, por ocasião de sua morte, a mulher atual e as filhas
desrespeitaram sua última vontade, expressa inclusive em testamento.
Acreditaram que seria melhor para o país se ele fosse enterrado na
"Rotonda de hombre famosos", na cidade do México.

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