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O SUBSTANTIVO

Roberto Gomes Camacho


Marize Mattos Dall’Aglio-Hattnher
Sebastião Carlos Gonçalves

Substantivos e adjetivos são frequentemente tratados como uma só classe.


Demonstra-se neste capítulo1 que os substantivos dispõem de propriedades indi-
viduadoras (seção "Estatuto categorial do substantivo") e podem ser classificados
segundo uma base morfológica e semântica (seção "Subclassificações dos subs-
tantivos"), e, a partir de uma base sintática, organizar estruturas argumentais (se-
ção "Estrutura argumental dos substantivos").
Semanticamente, além de denominar, o substantivo referencia, função pela qual
um signo linguístico se refere às coisas, aqui entendidas como qualquer entidade do
mundo extralinguístico, real ou imaginário. Outro modo de entender a referenciação
dos substantivos é analisar seu funcionamento circunscrito ao universo textual, ou
seja, não mais tratá-lo como objeto do mundo, mas como objeto do discurso.

Estatuto categorial do substantivo


O tratamento conjunto de substantivos e adjetivos sob o rótulo nome remon-
ta a uma longa tradição nos estudos da linguagem. O que parece justificar esse
tratamento unificado é o fato de, nas línguas clássicas (o grego e o latim), as duas
classes compartilharem propriedades mórficas, como flexão de gênero, número e
caso, sendo possível a distinção entre ambas somente em termos funcionais. É o
que revela a passagem a seguir:
14 • palavras de classe aberta

[...] a distribuição entre substantivo e adjetivo, que encontramos nas línguas


indo-europeias, não é semântica, senão funcional. [...] Daí resulta, nas línguas
indo-europeias em geral, uma unidade de essência, e sensivelmente de forma,
entre o nome-substantivo e o nome-adjetivo, também dito adjetivo quali-
ficativo. É o que ressalta Vendryès: “Nada denuncia em latim ou em grego que
bonus, agathós sejam adjetivos, equus ou híppos substantivos: a flexão é a mes-
ma” (Vendryès, 1921, 138). Analogamente, para o sânscrito, diz-nos Whitney:
“A linha divisória entre o substantivo e o adjetivo, sempre incerta nas línguas
indo-europeias primitivas, ainda mais do que em qualquer outra, é oscilante em
sânscrito” (Whitney, 1941, 111). É expressivo o exemplo inglês de o substantivo
e o adjetivo só se distinguirem pela função em – the London market, a Japan
table (grifos do autor).2

Entretanto, como será possível observar neste capítulo, há propriedades cla-


ras que diferenciam os substantivos e que justificam, portanto, um tratamento
diferenciado em relação à categoria dos adjetivos, à qual é também dedicado um
capítulo deste volume, permitindo assim estabelecer, entre essas duas categorias
paralelas, confrontos e contrastes.

Propriedades morfossintáticas
Morfossintaticamente, os substantivos estão integrados na categoria gra-
matical de número e de gênero, distribuindo-se, respectivamente, nas classes
singular/plural e masculino/feminino, marcas presentes no núcleo nominal
que são responsáveis pelo desencadeamento de concordância nominal e, mais
especificamente, a marca de número, responsável pela concordância verbal.
Vale, nesse ponto, lembrar que, segundo o padrão gramatical, os adjuntos do
núcleo nominal devem se ajustar a ele em gênero e número; o verbo deve
concordar com o sujeito em pessoa e número (Sobre concordância nominal e
verbal, ver volume VI).
Do ponto de vista sintático, os substantivos, como categoria lexical, se carac-
terizam por constituir o núcleo de um sintagma nominal (SN, doravante), poden-
do, portanto, estar sob o escopo de elementos periféricos, como determinantes e
modificadores de valor restritivo, de natureza categorial variada. Deve-se, entre-
tanto, atentar para a possibilidade de ausência de todos os elementos periféricos
que constituem relações com o núcleo, fato que não o impede de ser analisado
como integrando uma estrutura sintagmática. Enquadram-se nesses casos os
substantivos próprios (1) e os substantivos comuns de valor referencial genérico
(2), como mostrado a seguir.
O SUBSTANTIVO • 15

(1) a. dentro da área cognitiva existe o processo mental mais simples, mais
elementar, que é o que Bloom denominou de conhecimento. [EF
POA 278]3
b. por assim um negócio histórico afetivo... porque Recife engoliu Olinda
há toda vida [D2 REC 05]

(2) a. e uma vez por sema::na assim eu me dou o luxo de comer doces...
sabe? [DID RJ 328]
b. aqui em casa nós temos empregada... [DID RJ 328]

À exceção dos casos mencionados anteriormente, dentro de um SN, o subs-


tantivo será sempre o elemento determinado e/ou modificado, em oposição aos
elementos que, funcionando como determinantes e modificadores, permitem di-
ferentes possibilidades de composição nominal. A determinação ou modificação
do substantivo consiste na aplicação de uma expressão que restringe a sua deno-
tação. (Em outro volume desta mesma coleção, um inteiro capítulo é dedicado aos
“especificadores”, termo que, aqui, está sendo usado como sinônimo de “determi-
nantes do SN”.)

Determinantes do substantivo

Funcionam como determinantes do substantivo os artigos definidos e inde-


finidos, os pronomes adjetivos, os quantificadores definidos e indefinidos, como
seguem exemplificados.

• Artigos definidos e indefinidos (Art + S).

(3) a. o acarajé ... eu acho que é de feijão [DID RJ 328]


b. Eu posso classificar os livros, posso classificar uma turma [EF POA 272]

• Pronomes adjetivos: possessivos e demonstrativos (Pro + S)

(4) a. Na minha casa por exemplo, se come verdura, eu como, minha mulher
não come, meus filhos adoram [D2 POA 291]
b. Agora, observando este quadro, eu posso interpretar, aqui, entra o
meu ponto de vista, eu acho que essa turma vai bem nessa disciplina
[D2 POA 291]
16 • palavras de classe aberta

• Quantificadores definidos (numerais) e indefinidos (pronomes indefinidos)


(Qtf + S)

(5) a. um departamento juRÍdico4 de um sindicato... se compõe habitual-


mente... de dois ou três causídicos dois ou três advogados... [DID
REC 131]
b. vários filmes não lembro os nomes...éh:: eram filmes...que tocavam
mais as pessoas [DID SP 234]
c. Na confecção da lista...de de aprovados hou/ houv/ começaram a ha-
ver alguns enganos [D2 SP 360]

Modificadores do substantivo

Funcionam como modificadores do substantivo os adjetivos, as locuções ad-


jetivas e as sentenças relativas:

• Adjetivos (S + Adj ou Adj + S)

(6) a. e aí depois fazem vários molhos – você pode escolher – tem molhos
doces e molhos salgados. [DID RJ 328]
b. inclusive o o::...o antigo procurador parece que não era...o antigo pro-
curador [D2 SP 360]
c. Há uma preocupação modernamente em dar melhor tratamento pos-
sível à sinalização [D2 SSA 98]

• Locuções adjetivas (S + de + S)

(7) a. a lagosta de Recife [...] a lagosta de lá é muito gostosa [DID RJ 328]


b. pode pôr tudo, carne de siri, ah, lula então, naquele arroz [D2
POA 291]
• Sentenças relativas (S + or. rel.)

(8) a. Se bem que a viagem que eu fiz ao sul foi há muitos anos [DID RJ 328]
b. O nome da farinha que eles usam... é uma farinha tirada de uma folha
de árvore [DID RJ 328]

Além desses modificadores do substantivo, alguns advérbios focalizadores


mantêm relação de escopo com o SN, podendo ocorrer à sua direita ou à sua es-
querda, como em (9).
O SUBSTANTIVO • 17

(9) a. Até cama andaram desarmando de outra assim pra... se divertir [DID
POA 045]
b. L2 – eu vou ver se o C me dá alguma coisa
L1 – ajuda de custo inclusive [D2 SSA 98]

Observa-se que, em (9), diferentemente dos outros tipos de modificador, os


advérbios até e inclusive não compõem, com os núcleos nominais cama e ajuda,
a estrutura interna dos seus respectivos SNs, cama e ajuda de custo. Os diferentes
tipos de determinante e de modificador podem, inclusive, coocorrer, determinan-
do diferentes graus de complexidade do SN, como se pode observar nas ocorrên-
cias a seguir.

(10) a. Maçã é uma fruta que constantemente eu como quando eu quero levar
(Art) S (or. rel.)
assim uma merenda
b. Fora disso tem cada três meses também tem um jantar dançante
(Art) S (Adj)
dessa diretoria mesmo [DID POA 045]
(de + Pro + S)
c. então eu levei as minhas filhas, elas adoraram [DID POA 045]
(Art) (Pro)
d. esse tipo de filme também eu gosto mas é é é danado viu? [DID SP 234]
(Pro) S (de + S)

Sobre essas diferentes possibilidades combinatórias na composição de um


SN, o mais importante a destacar na determinação do substantivo é a posição
do núcleo nominal em relação a seus periféricos. Em termos de posição ca-
nônica, ou não marcada, as categorias que funcionam como determinantes
ocorrem à esquerda do núcleo nominal, ao passo que aquelas que funcionam
como modificadores ocorrem à direita, como mostram as ocorrências ante-
riormente apresentadas.
Ordenações marcadas, ou não habituais, quando possíveis, conferem sempre
um valor semântico diferente às categorias periféricas, mas não impedem o reco-
nhecimento do substantivo como núcleo. Dos elementos periféricos, alguns não
permitem variação em relação à posição que ocupam no interior do SN, como
artigos, locuções adjetivas, sentenças relativas e alguns quantificadores definidos;
senão vejamos:
18 • palavras de classe aberta

(11) a. o acarajé / *acarajé o


b. carne de siri / *de siri carne
c. viagem que eu fiz ao sul / *que eu fiz ao sul viagem
d. dois ou três advogados / *advogados dois ou três

Outros periféricos, no entanto, são mais afeitos a ocorrer fora de sua posição
não marcada, por exemplo, os adjetivos, já mostrados em (6b, c), os pronomes
adjetivos e alguns quantificadores indefinidos, como os apresentados em (12a, b)
e (12c, d, e), respectivamente.

(12) a. nós vamos encontrar o mamilo... mamilo este bem semelhante à aréola
[EF SSA 049]
b. Eu acho que primeiro por incapacidade minha, despreparo em relação
a mercado de capitais [D2 RJ 355]
c. isso vocês podem julgar lá vendo... mas não não não é propaganda
não é coisa nenhuma [D2 REC 05]
d. usava cachaça com::uma fruta qualquer [DID RJ 328]
e. não era de maneira alguma para ser vista... no escuro [EF SP 405]

Quanto à relação de escopo entre o núcleo nominal e seus determinantes (es-


copo à direita) e modificadores (escopo à esquerda), deve-se ter claro que essa dis-
tribuição no interior do SN é funcional, porque, em posição não marcada: (i) os mo-
dificadores restritivos têm por função construir o valor referencial do substantivo,
restringindo a classe de seus referentes potenciais;5 (ii) os determinantes cumprem
a função de identificar/situar/enquadrar, no universo do discurso, esse referente já
construído. Assim, na sintagmatização, a tendência é que os restritores do substanti-
vo ocorram à sua direita e os seus identificadores, à esquerda, posição que constitui
espaço privilegiado para veicular informações pragmáticas.

Determinação do valor categorial do substantivo

A análise da relação entre núcleo nominal e periféricos e da posição que ocu-


pam no interior do SN é determinante para a identificação do próprio substan-
tivo enquanto categoria morfológica/lexical. Sem o acionamento desses critérios,
poderia tornar-se difícil, por exemplo, a distinção entre substantivo e adjetivo,
dadas as propriedades mórficas que ambos partilham, como apontado na cita-
ção de Câmara Jr., anteriormente indicada. Não se pode, nesse passo, ignorar a
existência de substantivos como mesa, lápis, computador etc., cuja categorização
como substantivo é quase sempre inequívoca, ou seja, categorizam-se tipicamente
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como substantivos, independentemente das relações que contraem no interior de


um SN. Outros, entretanto, só permitem a definição categorial a partir das rela-
ções estruturais que mantêm na sintagmatização. Por exemplo, um mesmo item
lexical pode enquadrar-se na categoria de substantivo ou de adjetivo, determina-
ção depreensível somente a partir das relações estruturais, como se observa nos
pares de ocorrência a seguir.

(13) a. o nível do operário americano é o nível do operário americano? Japo-


nês melhor que americano não é!, que o operário japonês não é nem
operário exato [EF RJ 379]
b. americano operário / japonês operário

As formas operário, nos SNs destacados em (13a), são núcleos nominais, ao


passo que, em (13b), são modificadores adjetivais dos núcleos nominais ameri-
cano e japonês. Deve-se observar que o que permite estabelecer essas diferenças
categoriais é, sobretudo, a posição que ambas as formas ocupam no SN. A pospo-
sição do adjetivo, nesses casos, revela um valor objetivo inerente ao referente que
o substantivo descreve (operário, em (13a), e americano e japonês, em (13b)), dife-
rentemente dos casos em que a anteposição do adjetivo revela um valor subjetivo/
avaliativo do referente do substantivo, como mostra (14a) em oposição a (14b).

(14) a. Hemingway dizia que as duas grandes tragédias americanas do século


tinham sido Pearl Harbor e Pearl Buck... é... a grande tragédia pernam-
bucana é olindense apaixonado [D2 REC 05]
b. não não é não é uma casa grande né... apenas com com um jardim
com planta com passarinho com tudo quanto é bicho que pode exis-
tir... compreendeu? [D2 REC 05]

Os substantivos compostos por S + S constituem casos diferentes dos discu-


tidos anteriormente sobre a determinação categorial dependente de posição no
SN; senão vejamos:

(15) a. aqui no Rio tinha uma espécie de banana parecida parece – se eu


não me engano – é a banana figo que eles chamam aqui no Rio...
[DID RJ 328]
b. o circo teatro é uma beleza. [D2 REC 05]

Não faz sentido considerar figo e teatro, em casos como banana-figo e circo-
teatro, como adjetivos modificadores de um substantivo. Mais coerente é analisá-
los como compostos de substantivo + substantivo, numa relação do tipo deter-
20 • palavras de classe aberta

minado-determinante, caso dos substantivos compostos por S + S, que, juntos,


constituem o núcleo nominal. Observe que a alternância de posição (e também
de categoria) entre os termos que compõem os SNs em (13) é barrada para os SNs
mostrados em (15), fato que revelaria o caráter quase formulaico desses tipos de
composição nominal.

(15’) a. *figo banana


b. *teatro circo

Não se pode ignorar, entretanto, que qualquer substantivo pode vir a funcio-
nar nessa relação determinado-determinante (como em homem banana, homem
máquina, lápis caneta, por exemplo), o que, ainda assim, não é suficiente para
equipará-los àqueles casos difusos de substantivos que só se determinam catego-
rialmente a partir da posição que ocupam no SN.
Outra possibilidade ainda é a ocorrência, como núcleo de um SN, de termos de
categorização não determinada (cuja categoria só se define na sintagmatização). A
seguir, as ocorrências de japoneses, paleolítico e doentes ilustram essa possibilidade.

(16) a. voltando mais atrás ainda no século xix, e aí até a literatura e os filmes
mostram né?, como os japoneses é tiveram que lutar contra o chamado
imperialismo branco [EF RJ 379]
b. a gente vai pensar no homem do paleolítico superiOR [EF SP 405]
c. o doente já olha aquele... estudante... [DID SSA 231]

Nesses usos, além da posição no SN, o que permite esses termos serem iden-
tificados como núcleos nominais é a incorporação às descrições definidas de subs-
tantivos pressupostos que são reduzidos (por exemplo, o substantivo homens, em
homens japoneses > japoneses; o substantivo período, em período paleolítico > paleo-
lítico; e o substantivo indivíduo/pessoa, em indivíduo/pessoa doente > doente). Nes-
ses casos, ao valor nominal dessas novas formas somam-se os traços predicativo-
qualificativos que se encontram nos adjetivos puros, no caso, japoneses, paleolítico e
doente. Essas reduções devem-se, na verdade, a um processo metonímico que, pela
relação de contiguidade estrutural (no caso, substantivo + adjetivo), permite que
uma forma seja omitida (no caso, o substantivo) e que a forma prevalecente (no
caso, o adjetivo) incorpore os traços categoriais da forma omitida.
Esses processos de redução metonímica, um recurso fechado de ampliação
do léxico muito produtivo na fala, são governados especialmente:

• por inferências lógicas, como em os japoneses (que incorporam do substantivo


reduzido o traço [+ humano], ou ainda em os irracionais (que incorporam do
substantivo reduzido os traços [+ animado, – humano];
O SUBSTANTIVO • 21

• por inferências ligadas ao conhecimento socioculturalmente compartilhado,


como é o caso de a final (= “partida final” de um campeonato), o psicotécnico
(= “exame/teste psicotécnico”), fritas (= “batatas fritas”). São ocorrências des-
se tipo:

(17) a. mas a multinacional parece até um fantasma... [EF RJ 364]


b. deixa o pessoal falar num dá nem bola... não escute... faça aquilo que
o:: pediatra determinou [DID SP 111]

Esses casos de redução metonímica não se confundem com aqueles de não


expressão do núcleo nominal (categoria vazia), que ocorrem por razões de refe-
renciação textual (correferência), como segue ilustrado pelas ocorrências abaixo.

a. então a minha de onze anos... ela supervisiona o trabalho dos cinco...


(18)
[D2 SP 360]
b. Inf. – bom o milho já seco serve pro gado né?
Doc. – Sei
Inf. – e:: pros porcos também
Doc. – e o quebradinho? [DID SP 18]
c. L2 – [...] cê tem um telefone público... que horas as crianças saem da
escola?
L1 – eh::umas saem umas cinco e meia esperariam as das seis... [D2
SP 360]

Apesar dessa gama de possibilidades, nem sempre é tarefa fácil delimitar a


classe dos substantivos, uma vez que palavras pertencentes a outras categorias
morfológicas (advérbios, conjunções, preposições, numerais e até mesmo uma
sentença) podem também funcionar como substantivo, se submetidas a pelo me-
nos um dos processos de modificação que um substantivo comporta. Trata-se do
uso como substantivo de:

• uma forma infinitiva de verbo:

(19) transformações essas... que vão sendo... Efetuadas... com o passar... dos
anos... com o passar dos tempos [DID REC 131]

• repetição de uma forma finita do verbo:

(20) então é um corre-corre realmente... não é? [D2 SP 360]


22 • palavras de classe aberta

• um advérbio ou um adjetivo tomados independentemente de um suporte


de predicação:

(21) a. ele descobre o porquê das coisas [D2 SP 360]


b. [esse dono de pequena empresa] [...] então... o poder desse pequeno

• um numeral ordinal:

(22) pelo que chega à gente de terceiros... ela ao menos tentou lutar [D2 SP 360]

• um particípio (passado ou presente):

(23) a. e qual é o prazo que eles dão... para os concursados assumirem? [D2 SP
360]
b. o telefonema de alguém ah:: intermediário de um concorrente pode
complicar a situação da pessoa naquela empresa [D2 SP 360]

Um outro caso a destacar é o dos substantivos construídos como termo meta-


linguístico. Nesse caso, toda e qualquer entidade linguística pode ser usada como
substantivo metalinguístico, seja palavra (de qualquer classe), seja um sintagma,
seja uma frase, com os seguintes tipos de referência:

• ao nível do conteúdo, como na sentença:

(24) este mas não está bem empregado no texto.

• ao nível da expressão, como na sentença:

(25) este mas deve ser escrito em itálico

Em qualquer dos dois casos, a formatação para manifestação do novo es-


tatuto categorial de substantivo implica a atribuição do gênero não marcado,
o masculino.

Propriedades semânticas
Semanticamente, na sintagmatização, o núcleo nominal é o responsável pela
ativação das funções denominadora e referenciadora dos substantivos.
O SUBSTANTIVO • 23

Um primeiro fato a observar no comportamento das palavras que integram a


categoria dos substantivos é o potencial que têm de denominar uma entidade de
um dado universo de referência. Em termos gerais, é por meio dos substantivos
que denominamos os seres em geral – carro, gato, homem, Brasil – e as qualidades,
ações ou estados – beleza, despedida, alegria – considerados em si mesmos, inde-
pendentemente dos seres com que se relacionam. Nesse sentido, pode-se dizer
que, semanticamente, o substantivo se caracteriza por ser autônomo e provido de
um potencial de referência que lhe é próprio. Por possuir significação informa-
cional relacionada à extensionalidade, um substantivo pode atualizar significados
que lhe são disponíveis (virtuais) e, assim, permitir acesso à realidade extramen-
tal, enfatizando a relação linguagem-mundo.
Os substantivos podem denominar entidades de diferentes ordens, depen-
dendo de sua extensionalidade, e assim ser classificados como de primeira, segun-
da ou terceira ordem.

• Entidades de primeira ordem, referência mais prototípica dos substantivos,


são indivíduos (pessoas, animais e coisas) e têm as seguintes característi-
cas: (i) sob condições normais, são relativamente constantes quanto a suas
propriedades perceptuais; (ii) são localizadas em algum ponto no tempo e
no espaço; (iii) são observáveis publicamente; (iv) podem ser avaliadas em
termos de sua existência. Assim, podem ser alvo de atribuições de proprie-
dades. São exemplos: homem, gato, caneta etc.
• Entidades de segunda ordem designam estado de coisas (ações, processos, es-
tados e posições) e se caracterizam por poder: (i) ser localizadas no tempo e
ter uma certa duração temporal; (ii) ocorrer, e não por existir; (iii) ser ava-
liadas em termos de sua realidade. São exemplos: chegada, beleza, morte etc.
• Entidades de terceira ordem designam entidades abstratas (crenças, expec-
tativas e julgamentos) e têm as seguintes características: (i) estão fora do
espaço e do tempo; (ii) podem ser asseveradas, negadas, lembradas ou es-
quecidas; (iii) podem ser razão, mas não causa; (iii) podem apenas ser ava-
liadas em termos de suas condições de verdade, e não de sua realidade ou
existência. São exemplos: ideia, crença, razão etc.6

A essas diferentes ordens de entidades foi acrescentada uma quarta, para se


referir aos atos de fala.7 Assim, entidades de quarta ordem (declarações, perguntas,
exclamações) referem-se às diferentes ilocuções que caracterizam os atos de fala.
Estas, como tais, definem-se por: (i) localizarem-se no espaço e no tempo; (ii)
poderem ser avaliadas em termos de suas condições de felicidade. Substantivos
como pergunta, afirmação, exclamação, ordem, pedido etc. podem fazer referência
a esses tipos de entidade, mas não representam, por si mesmos, o ato ilocutivo que
designam, como pode ser observado na ocorrência a seguir.
24 • palavras de classe aberta

(26) bem então aí vocês já têm uma resposta... num é? à pergunta da aula pas-
sada... vai haver... um retorno desse pedido de leitu:ra... e: pergun:tas e res-
postas numa aula to:da ou não então já têm a: resposta... [EF REC 337]

Todas essas diferentes entidades podem ser codificadas na língua por meio
dos substantivos, que funcionam como um instrumento da língua para se referir
a entidades em algum mundo, aqui entendido não como “o ‘mundo real’, mas um
‘mundo mental’, uma representação mental ou um modelo. Importa perceber que
entidades não são ‘coisas na realidade’, mas ‘coisas na mente’”.8
O ato de referir, tal como é aqui entendido, é uma ação pragmática e coo-
perativa do falante, segundo a qual ele refere a uma entidade para o interlocutor
por meio de um termo, no caso, um substantivo. Assim, ao empregar um termo,
o falante pretende dirigir a atenção do interlocutor para alguma entidade que ele
pretende predicar, mediante uma construção ou uma identificação de um referen-
te: (i) se a referência é construtora, o uso de um termo introduz uma entidade no
modelo mental do interlocutor; (ii) se a referência é identificadora, o uso de um
termo é apenas um modo de ajudar o interlocutor a identificar um referente que já
esteja disponível no seu modelo mental.9 A construção da referência é verbalizada
mediante o uso de SNs indefinidos, enquanto a identificação de referentes ocorre
por meio de SNs definidos. No enunciado contido em (27), o uso do termo irmão
é um bom exemplo desse processo de referenciação.

(27) Realmente deve ser uma delícia ter uma família gran/ bem grande com bas-
tante gente... eu sou filha única... ah tenho um irmão de treze anos... mas
gostaria deMAIS de ter tido... mais irmãos...porque quando::... com meu
irmão eu já::já tinha curso universitário já já tinha saído da faculdade quer
dizer então não tem quase que vantagem nenhuma não é? [D2 SP 360]

Qualquer falha do falante na construção da referência não permitirá que o


seu interlocutor identifique o referente apropriado, como se pode observar no
trecho a seguir.

(28) Inf. – ... quando chegou o balé russo aqui em São Paulo eles pediram que
as alunas da Prefeitura que éramos nós... aquele grupo todo fosse fazer
cena num num num dos números que eles apresentam... era Pássaro de
Fogo me parece... eu achei aquilo horroroso viu? me chocou tremenda-
mente porque... éh por detrás dos bastidores é Uma coisa horrível né?...
é tudo tão mascarado sei lá e quando aparece em cena o público vê uma
coisa totalmente bonita né?... aquelas luzes... quer dizer aquilo me cho-
cou... era tão criança... eu me lembro que eu... já achava... diferente... o
Municipal era LINdo maraviLHOso visto do lado de cá né?
O SUBSTANTIVO • 25

Doc. – Uhn huhn


Inf. – do outro la::do
Doc. – E qual é esse outro lado a que a senhora se refere?
Inf. – eu digo os camarin::s a preparação toda para entrar... [DID SP 234]

Observe que a informante (Inf.) pressupunha que os referentes dos SNs os


bastidores, cena e o público constituíssem informação suficiente para que o Docu-
mentador (Doc.), tendo-a incorporada ao seu modelo mental, identificasse ade-
quadamente os referentes dos SNs definidos o lado de cá (do público) e o outro
lado (os bastidores, os camarins). A falha ocorre justamente na identificação do
referente de o outro lado, que exige do Doc. uma solicitação de referência explícita
para que o diálogo prossiga.
Desse modo, um substantivo deixa de ser um simples denominador da reali-
dade objetiva no momento em que, do seu estado de dicionário (significado vir-
tual), passa a integrar uma construção, ou, mais precisamente, um SN, trazendo
à existência apenas um membro, mais de um membro ou todos os membros de
uma dada classe, extraindo-o(s) do conjunto do qual faz(em) parte. Essa função
referenciadora do substantivo diz respeito à propriedade que ele tem de inserir em
uma determinada classe qualquer entidade por ele denominada.
Por exemplo, tomemos o termo menino. Pelo potencial de referência que
tem, esse termo se aplica bem à designação de qualquer indivíduo da espécie
menino. Entretanto, na sua ocorrência em frases como as exemplificadas em
(29), esse termo opera um recorte, para se referir, respectivamente, a um, e ape-
nas um, membro, a mais de um membro e a todos os membros do conjunto da
espécie que designa:

(29) a. Vi um menino.
b. Vi uns meninos.
c. Vi aquele(s) menino(s).

É no contexto mais amplo da sentença, portanto, que o substantivo se torna


uma expressão referencial. Essa referencialidade só é alcançada por conta do pró-
prio núcleo nominal, que, no SN é o único termo que, tomado em acepção refe-
rencial, constitui o centro de referência. Assim é que, em um SN, o núcleo pode
ou não vir acompanhado de periféricos, cuja função, na sintagmatização, é apenas
a de auxiliar na construção da referência.
Deve-se atentar, entretanto, para o fato de que a simples ocorrência do
substantivo em um SN não ativa, necessariamente, a sua função referenciadora.
Um substantivo funcionando como um adjetivo pode atribuir a outro substanti-
vo o conjunto de propriedades que indica como se fosse uma propriedade única,
26 • palavras de classe aberta

ou seja, ao deixar de ser referencial, ele passa a atuar como um qualificador ou


como um classificador, comportamento típico de substantivos em função predi-
cativa.10 Nessa mesma direção, previu-se que predicados (verbos, substantivos
ou adjetivos) podem, secundariamente, ser usados fora de sua função.11 Uma
categoria nominal, cuja função é constituir-se como núcleo de um termo, pode
vir a ser usada como um atributo, função primária de um predicado adjetival,
caracterizando um termo-predicado.12
Observe as ocorrências em (30), em que se destacam os substantivos em suas
funções referenciadora, qualificadora e classificadora, respectivamente, sendo
que, apenas no primeiro caso, pode-se dizer que o substantivo (balé) constitui
núcleo de um SN.

(30) a. tive a oportunidade de trabalhar fazer uma cena com o:: o balé russo.
[DID SP 234]
b. Aquilo me chocou [eu] era tão criança [DID SP 234]
c. Eu era aluna da Maria Ulineva [DID SP 234]

Outro aspecto da função referenciadora do substantivo diz respeito aos casos


em que, na função de sujeito, destacam-se não um membro, mais de um membro
ou todos os membros do conjunto da espécie que designa, mas sim, o gênero ou a
própria espécie que o substantivo denomina. Esse funcionamento pode ser verifi-
cado na ocorrência a seguir, em que, ao usar os termos baiano e cearense, o falante
não faz referência a qualquer baiano ou cearense; apenas emprega os termos como
referencial discursivo para se referir a qualquer indivíduo da espécie. Esse tipo de
referenciação é indiferente à presença de artigo ou mesmo de marca de número
no substantivo.

(31) Dizem que o baiano é preguiçoso... ((risos)) que o::cearense é preguiçoso...


porque realmente você depois de comer aquilo tudo cê tem que ter uma
hora pra descansar... [DID RJ 328]

A partir de casos como esses, pode-se inferir que o substantivo, no seu fun-
cionamento, apresenta diferentes graus de referencialidade, que vão desde uma
referencialidade nula, quando atua como classificador ou qualificador (30b, c),
até uma referencialidade descritiva, específica, definida como em (30a), passando
por uma referencialidade genérica, como em (31). Nesse continuum de referencia-
ção podem ainda ser inseridos substantivos com graus de referencialidade inter-
mediários, como mostrado a seguir.
O SUBSTANTIVO • 27

(32) a gente toma vinho de acordo também... com o tipo de comida... se é car-
ne... aqueles hábitos que a gente tem... se é carne é vinho tinto... se é peixe
a gente usa vinho branco [DID RJ 328]

Em (32), na sua primeira ocorrência, o termo vinho tem referência genérica e,


nas demais ocorrências, embora genérico também, pela especificação que recebe
dos adjetivos, aponta para um subtipo da espécie, tendo, portanto, um grau me-
nor de genericidade do que o uso anterior.
Para além de sua distribuição na sentença, é o discurso que determina o valor
referencial do substantivo, já que mesmo a presença de um artigo definido não é
suficiente para uma referência descritiva, como é o caso do SN o homem, em (33).

(33) há autores que dizem que isso é uma verdadeira ginástica mental da ma-
neira como o homem utiliza a informação... [EF POA 278]

Um uso mais comum de uma referencialidade genérica do substantivo é re-


presentado pela ocorrência do SN autores, também em (33), que ocorre desprovi-
do de qualquer modificador.
Não se pode deixar de observar, entretanto, que o modo de determinação do
substantivo no SN responde pela definição do seu modo de referenciação. En-
quanto na presença de um artigo definido a referenciação do substantivo pode
até prescindir do recurso direto ao contexto da enunciação, na presença de um
demonstrativo, a descrição definida só se completa por recurso ao contexto. Ob-
serve esses modos de determinação em (34).

(34) a. na semana passada, nós tivemos aqui a visita dum grande sociólogo e
educador Pierre Furter, então eu posso pedir que o grupo vá assistir à
palestra e que faça um resumo [...] ele pode simplesmente me dizer o
que foi que o conferencista disse [EF POA 278]
b. E no momento que ele é capaz:: de desenhar... – aqui a única coisa que
eu sei fazer é um gato /.../ se eu fizer este gato e deixasse durante doze
mil anos... ele vai continuar sendo um gato [EF SP 405]
c. aí nós chegamos ao estabelecimento de níveis de consecução dos ob-
jetivos, de estudo desses níveis para isso, então, níveis vocês têm aí
registrado naquela folha marronzinha [EF POA 278]

Em (34a), o falante pressupõe que o interlocutor seja capaz de entender a


unicidade referencial pressuposta para o termo conferencista, a partir do artigo
definido o, por ser uma entidade cuja referência já foi construída no texto imedia-
28 • palavras de classe aberta

tamente anterior. A presença do artigo definido indica que agora basta identificar
o referente, que é inequívoco. Por outro lado, em (34b) e (34c), a identificação dos
referentes de cada substantivo determinado por um demonstrativo depende do
contexto da enunciação.
Em suma, semanticamente, além de denominar, o substantivo referencia,
função pela qual um signo linguístico se refere às coisas, aqui entendidas como
qualquer entidade do mundo extralinguístico, real ou imaginário. Outro modo de
entender a referenciação dos substantivos é analisar seu funcionamento circuns-
crito ao universo textual, ou seja, não mais tratá-la como objeto do mundo, mas
como objeto do discurso.

Propriedades textuais
Na dimensão textual, o substantivo comporta também uma função de refe-
renciação responsável pela organização da informação discursivo-textual. Assim
é que o uso de expressões nominais, no âmbito da progressão referencial, permite
“a construção, no texto, de cadeias referenciais por meio das quais se procede à
categorização ou recategorização discursiva dos referentes”.13 Isso equivale a dizer
que a significação dos substantivos está ligada à situação discursiva e ao conheci-
mento de mundo dos participantes do ato de comunicação.
Como elemento de referência, o substantivo não pode ser interpretado por
si mesmo, porque, necessariamente, estabelece relações textuais coesivas com
outros substantivos que são necessários para a sua adequada interpretação. É o
caso, por exemplo, dos SNs destacados a seguir, em que, sequencialmente, um
substantivo de conteúdo significativo mais específico (hipônimo) é acionado para
redefinir o significado referencial de um substantivo mais genérico (hiperônimo),
anteriormente utilizado.

(35) a. esses indivíduos esses humoristas fazem muito sucesso com (todos)
seus moNÓLOGOS teatrais [DID SP 161]
b. essa peça essa comédia que nós comentamos [DID SP 234]
c. o público de hoje que eu digo... a a a turma a... a mocidade a turma de de
brotos eles preferem eu acho que filme de:: sei lá de corrida [DID SP 234]

Nas ocorrências anteriores, o que leva à necessidade de maior especifica-


ção do conteúdo significativo dos substantivos humoristas, comédia, turma/
mocidade é justamente a imprecisão dos referentes construídos pelos substan-
tivos indivíduos, peça, público, situação que, na redefinição, implica uma uni-
O SUBSTANTIVO • 29

direcionalidade do tipo genérico > específico, e nunca o contrário. Entretanto,


em casos de não sequencialidade de termos, o caráter genérico das formas hi-
peronímicas permite que elas sejam empregadas para a retomada de um subs-
tantivo de conteúdo mais específico, e nunca o contrário, como se observa em
(36), em que o significado de coisa é suficientemente genérico para incluir o
significado dos termos pessoa e imagem.

(36) criar uma pessoa... ou criar uma imagem é mais ou menos a mesma coi-
sa... no sentido de que nós estamos criando uma coisa nova... do nada...
[EF SP 405]

A relação que intercorre entre um termo mais específico e outro mais genéri-
co não é reversível, pois à medida que o significado de um substantivo se especifi-
ca cada vez mais, ele não pode ser tomado como referente de um substantivo mais
genérico. Assim, em (36), o hiperônimo coisa, usado no interior do enunciado
como forma remissiva de pessoa/imagem, indica que entre ambos se estabelece
uma relação de correferenciação. Por uma questão de lógica, um termo mais gené-
rico pode retomar um termo mais específico. O contrário causa certa estranheza
na manutenção do significado da sentença.

(36’) criar uma coisa nova do nada é mais ou menos a mesma coisa... no sentido
de que nós estamos criando uma pessoa... ou criando uma imagem ...

A interpretação de (36’) é somente possível para uma referência disjunta


dos termos coisa e pessoa/imagem, uma vez que toda pessoa/imagem pode
ser considerada uma coisa, mas nem toda coisa pode ser considerada uma
pessoa/imagem.
Funcionam como elos coesivos não somente a relação hipônimo/hiperôni-
mo, mas também relações sinonímicas, como em (37), ou mesmo relações obtidas
por meio de repetição/reiteração de um mesmo substantivo, como em (38).

a. logo abaixo vêm as poltronas onde a assistência senta e assi/ e e assiste


(37)
à peça /.../ depois eles convidam o público a acompanhá-los então /.../
inclusive eles vêm cantar ao lado dos a:: da plateia [DID SP 135]
b. Doc. – Se o senhor tivesse que ir ao cinema... o senhor disse que não
está indo mais... que tipo de filme o senhor escolheria?
Inf. – Comédia italiana, comédia italiana, eu gosto muito de filmes
italianos /.../ cheguei lá no “Shopping Center” tava uma fita brasileira.
[DID SP 213]
30 • palavras de classe aberta

a. é que os que levaram a canoa, levaram o dia inteiro pra arrumar a


(38)
canoa. Quando terminaram de arrumar a canoa já estava na hora de ir
embora [DID POA 045]
b. Inf. – No automóvel em geral ouço a “Eldorado”.
Doc. – Como é que o senhor faz pra ouvir o rádio do seu automóvel?
[DID SP 213]

Quando ocorrem interturnos, como em (37b) e (38b), esses processos de re-


ferenciação evidenciam o engajamento dos interlocutores na interação.
Preservando ainda a identidade referencial (= correferenciação) no discurso,
um substantivo pode ser substituído por outro que, acrescido de modificadores,
fornece informações adicionais a respeito do referente em questão, como mostra
a ocorrência em (39).

(39) Inf. – eu tenho assistido umas PEças eu assisti u::ma com a:: aquela artista
magrinha de televisão aquela moreninha que é bailarina também ...eh
Doc. – Marília Pêra [DID SP 234]

Há ainda casos de substantivos que são empregados para condensar um con-


junto de informações contidas em segmentos anteriores do texto, transformando-
os em objeto de discurso. Esses casos serão estudados mais adiante, e nos levarão
a dar uma atenção especial ao uso de nominalizações.14 Na ocorrência a seguir, o
termo classificação reporta-se não a outro termo, mas a todo um estado de coisas
anteriormente mencionado.

(40) eu posso classificar os livros, posso classificar uma turma, eu posso classifi-
car ah os alunos, mas estabeleço taxionomia, quando a minha classificação
ah se apresenta com características sistematizadas [EF POA 278]

Subclassificações dos substantivos


Enquanto categoria lexical, os substantivos não se comportam de modo ho-
mogêneo, segundo os critérios morfossintáticos, semânticos e textuais anterior-
mente apresentados. Por exemplo, nem sempre os substantivos próprios aceitam
esse tipo de modificação, e há substantivos que não se submetem à pluralização
(caso dos substantivos não contáveis). Desse modo, para uma classificação mais
segura, é importante verificar o funcionamento categorial dos substantivos no
léxico e no uso da língua.
O SUBSTANTIVO • 31

Subclassificações de base morfológica


Como todas as palavras lexicais da língua, os substantivos podem, segundo
critérios morfológicos, ser subclassificados em primitivos ou derivados, simples
ou compostos (a morfologia do substantivo é tratada mais extensamente em outro
volume desta mesma coleção).
Dessa subclassificação, têm interesse especial para o estudo dos substantivos
aqueles formados pelo processo de derivação.

Substantivos primitivos

Substantivos primitivos não derivam de nenhuma outra palavra dentro da


língua, como é o caso de fruta, amor e café. Substantivos derivados são formados
a partir de outra palavra da língua, como é o caso de frutaria, desamor, cafezal.
Substantivos simples são formados por apenas um radical, como chuva, flor, sol,
e substantivos compostos são formados por mais de um radical, como guarda-
chuva, couve-flor, girassol.

Substantivos derivados

Os substantivos derivados podem formar-se a partir de diversas classes


gramaticais.

• de outro substantivo, como tesouro, moleque, operário, em:

(41) a. bom... ao tesoureiro compete evidentemente... toda a situação finan-


ceira... do sindicato... [DID REC 131]
b. eu não lembro o nome do filme a molecada adorou... [DID SP 234]
c. quem trabalha na indústria do Japão, é inclusive um tipo de operaria-
do é... de origem rural [EF RJ 379]

• de um adjetivo como solene, enfermo, digno:

(42) a. bom tinha a solenidade de formatura... hoje essa solenidade tão... cain-
do... [DID SSA 231]
b. ...e de doentes que ele vê em enfermaria... [DID SSA 231]
c. uma prestação de serviço à altura de sua dignidade [DID REC 131]
32 • palavras de classe aberta

• de um verbo como arrecadar, classificar, publicar, crescer:

(43) a. estou vendo toda essa campanha de arrecadação de... icm [D2 SP 360]
b. então eles entraram com mandado de segurança... anulando aquela
lista de classificação... e então havia publicação de outras... e assim
foi indo
c. o crescimento das glândulas mamárias... está ligado... realmente à ação
hormonal... [EF SSA 49]

Os substantivos derivados de verbos – ou deverbais – podem ser de diversos


tipos, conforme a entidade ligada ao verbo que estiver sendo denominada.
Os deverbais conservam a natureza semântica do verbo15 do qual derivam:

• substantivos de ação [+ dinâmico, + controle]:

(44) a. então normalmente a minha alimentação constitui-se assim de verdu-


ras né? [DID RJ 328]
b. acredito por exemplo... que a compra do carro próprio: ou a ajuda para
construção da casa própria... seriam medidas... de grande repercus-
são... social [DID REC 131]
c. as prestações, após a entrega das chaves, serão de três mil e seiscentos
cruzeiros [D2 RJ 355]

• substantivos de processo [+ dinâmico, – controle]:

(45) a. tem nas cooperativas uma espécie de suporte ou de tripé... para o seu
desenvolvimento... [DID REC 131]
b. no final das contas toda a evolução humana... não deixa de ser exata-
mente a evolução do domínio que o homem tem sobre a natureza [EF
SP 405]
c. o estudante depois ele tem que se aperfeiçoar fazer um curso de aper-
feiçoamento [DID SSA 231]

• substantivos de posição [– dinâmico, + controle]:

(46) a. outras vezes... em vez da representação da flecha então da morte sim-


BÓlica não? [EF SP 405]
b. os elementos responsáveis pela manutenção dessa glândula [EF
SSA 49]
O SUBSTANTIVO • 33

• substantivos de estado [– dinâmico, – controle]:

(47) a. a gente sente uma falta muito grande dessa parte de verduras [DID
RJ 328]
b. qual a melhor técnica na sua opinião para poder se divulgar uma peça
de tea::/ uma peça né? para que::o público tome conhecimento da exis-
tência dela? [DID SP 234]

Os deverbais denominam papéis semânticos compatíveis com as unidades se-


mânticas presentes nos verbos dos quais derivam:

• substantivos agentivos, derivados de verbos com o traço ação:

(48) a. nós tivemos aqui a visita dum grande sociólogo e educador Pierre Furter
[EF POA 278]
b. hoje em dia eu acho que os estudantes estão se interessando mais... por
teatro [DID SP 234]
c. para isso naturalmente que ele recorre... aos contadores... que são pe-
ritos... no assunto [DID REC 05]

• substantivos instrumentais, derivados de verbos com o traço ação:

(49) a. dando aula teria os gravadores... eh::... os... projetores de slides [DID
SSA 231]
b. colocar num aparelhinho que chama debulhador de milho [DID SP 18]

Os deverbais denominam também o resultado de uma ação ou processo ex-


presso no verbo do qual derivam, situação em que constituem substantivo de pri-
meira ordem:

• resultado abstrato de ação:

(50) eu acho que a alimentação é realmente uma questão de hábitos [DID


RJ 328]

• resultado concreto de ação:

(51) Também porque eles já são idosos... e não convém também ter uma ali-
mentação pesada [DID RJ 328]