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Revista Científica da UNESC v. 13, n.

16 (2015)

TRABALHO ANÁLOGO À CONDIÇÃO DE ESCRAVO: A EXPLORAÇÃO DO


TRABALHO HUMANO E SEUS IMPACTOS SOCIAIS EM RONDÔNIA

CERQUEIRA, G. R. R.
GOMES, M. A. S.
MEMÓRIA, D. O. G.
PONCE, R. G.
RAGNINI, O. G. J.
REIS, S.
ROCHAS, H. M.
SÃO JOSÉ, N.
¹Acadêmicos do Curso de Bacharel em Direito da Fundação Universidade Federal
de Rondônia - UNIR. E-mail: pesquisa.cientifica.unir@gmail.com
OLIVEIRA, K. S.
Docente do Curso de Direito da Fundação Universidade Federal de Rondônia -
UNIR. E-mail: kaiomi.cavalli@unir.br

RESUMO
O presente artigo apresenta o resultado de um estudo de caso, tendo como objetivo
central de estudo, a exploração do trabalho humano e seus impactos sociais em
Rondônia, decorrente do trabalho análogo à de escravo, tomando como primícias, a
violação do trabalho digno diante da existência da exploração do ser humano em
detrimento de uma ordem econômica. Em que pese, foi possível constatar que,
mesmo com os avanços tecnológicos e a modernização dos meios de produção, a
exploração do trabalhador no Brasil é uma realidade, caracterizando novas formas
de trabalho escravo, a qual é denominada “Trabalho Análogo à de Escravo”. A
metodologia aplicada no desenvolvimento da pesquisa, consiste em um estudo de
caso de natureza exploratório-descritivo utilizando-se de estudos bibliográficos,
pesquisas na internet, bem como da utilização de trabalhos cientifico já elaborados
sobre a temática em comento. O estudo permitiu concluir que, o estado de Rondônia
vem sendo palco dessa mazela, entre o ano de 1995 a 2014, quarenta e
três empregadores foram relacionados no Cadastro de Empregadores Infratores do
Ministério de Trabalho e Emprego (MTE), cadastro este conhecido como “Lista
Suja”. Em Rondônia tal fenômeno está ligado em sua maioria a atividade
agropecuária, onde ocorre uma facilitação para sua ocorrência, pelo fato do local de
trabalho ser situado em zona rural, que por ser extensa e de difícil acesso, dificulta a
chegada dos órgãos fiscalizadores. Fato este que permite que o empregador que
adota a prática escravocrata com seus empregados se sinta à vontade para
perpetuar tal ato, pois acredita que não será flagrado, e em decorrência disto saíra
impune.
Palavras-chaves: Escravidão. Exploração do trabalho humano. Impactos Sociais.

INTRODUÇÃO
A globalização e o desenvolvimento tecnológico acelerado promove uma
desvalorização generalizada do trabalho, e as pessoas não conseguem sobreviver a

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não ser em condições de extrema degradação, o que vem contribuindo para uma
evolução na forma de exploração do trabalho humano.
Com o objetivo de aprofundar o conhecimento da relação entre os aspectos
sociais e trabalho, este artigo visa apresentar a problemática da exploração do
trabalho humano e os reflexos que o mesmo possa gerar em meio a sociedade.
Cada dia mais, as pessoas trabalham excessivamente para que seja possível
prover uma melhor qualidade de vida à sua família, é notável a quantidade de
pessoas que se sacrificam e concordam com certas condições degradantes de
trabalho para que seja possível a manutenção do seu emprego e, com isso
resguardar a sua segurança e de sua família em face da frágil economia existente.
Assim sendo, o presente artigo tem como objetivo central de estudo, a
exploração do trabalho humano e seus impactos sociais em Rondônia decorrente do
trabalho análogo à condição de escravo, apresentando uma previa contextualização
do trabalho escravo e sua evolução história, analisando as modalidades do trabalho
análogo ao escravo, não obstante, procurou-se identificar fatores que contribuem
para o trabalho análogo ao de escravo, bem como, uma verificação de ocorrências
de casos regionais (Rondônia), e por fim, avaliar os efeitos decorrentes do trabalho
escravo na economia.
A metodologia adotada para a elaboração da pesquisa constitui em um
estudo exploratório-descritivo amparado por meio de referências bibliográficas com a
finalidade de fornecer parâmetros para o esclarecimento de ideias, oferecendo
dados para a realização de estudos mais aprofundados referente ao tema. Segundo
Gil (2002, p. 41), “A pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já
elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”.
Do mesmo modo, Prestes (2005, p.26), define pesquisa bibliográfica com
sendo “[...] aquela que se efetiva tentando-se resolver um problema ou adquirir
conhecimentos a partir do emprego predominante de informações provenientes do
material gráfico”. Para Gonçalves e Meirelles (2004, p. 37), é aquela “realizada para
descobrir ou descrever melhor o(s) problema(s)-raiz que são apontados através de
sintomas (ou queixas) para se alcançar os objetivos.”
O estudo é de caráter exploratório, pois procura expor as distinções
existentes entre a forma de escravidão da antiguidade, que tinha a pessoa humana

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como res (coisa), do atual conceito de trabalho escravo, o trabalho análogo à de
escravo. Propende ainda, em um processo descritivo abordar a realidade fática as
quais as vítimas do trabalho escravo contemporâneo são submetidas.
Contumaz, uma abordagem socioeconômica foi realizada para que seja
possível obter uma ampla visão sobre o tema e seu impacto na sociedade e na
economia que a envolve. Ainda na área sociológica, sobreveio uma explanação
sobre medidas que estão sendo adotadas para combater esse tipo de prática, como
programas de combate a escravidão e as chamadas lista suja de empresas que
utilizam esse tipo de mão de obra.
Com base no escopo mencionado, é cediço que a ordem econômica brasileira
repousada na valorização do trabalho humano, de modo que é indispensável
assegurar o respeito ao princípio constitucional que versa sobre a dignidade da
pessoa humana. A dignidade do ser humano é transcendente a legislação e
compõem parte intrínseca da lei natural, aquela que está inscrita nos princípios do
Direito Natural e considerados bens humanos evidentes em si mesmos.
Assim sendo, a importância do estudo emana da necessidade de investigar
as hipóteses que podem caracterizar trabalho em condições degradantes e sob
jornada exaustiva, com ou sem o cerceamento ao direito de liberdade do
trabalhador, e que desta decorra obtenção de lucro do capital mediante exploração e
a opressão de trabalhadores.

TRABALHO ESCRAVO E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA


Desde os tempos mais remotos, são encontrados relatos sobre a escravidão
na história da humanidade. As primeiras formas de escravidão são constatadas no
período da pré-história, com a existência das primeiras tribos, que começaram a
guerrear contra as outras e o lado perdedor era escravizado, sendo impostos a eles
a realização de tarefas degradantes, desta forma, o trabalho representava punição,
submissão aos povos da tribo vencida.
De acordo com Childe (apud Olivieri, 2010), “[...] em um determinado
momento da pré-história, os homens perceberam que os prisioneiros de guerra -
normalmente sacrificados em cultos religiosos - poderiam ser usados para o trabalho
ou ‘domesticados’ como os animais”.

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Várias civilizações antigas foram erguidas com base no trabalho
escravo, onde as gigantescas obras exigiam mão de obra braçal, com jornadas
extenuantes e sem o mínimo de condições para o operário.
Os egípcios, gregos e romanos utilizaram do trabalho escravo para as mais
diversas funções, seja na fabricação de utensílios, em trabalhos domésticos, seja na
condição de gladiadores.
Para Jorge Neto e Cavalcante (2005, p. 3):

O trabalho na Antiguidade, representava punição, submissão, em que os


trabalhadores eram os povos vencidos nas batalhas, os quais eram
escravizados. O trabalho não era dignificante para o homem. A escravidão
era tida como coisa justa e necessária. Para ser culto, era necessário ser
rico e ocioso.

Paul Lovejoy (2002, p 29-30), caracterizou a escravidão na antiguidade como:

[...] uma forma de exploração com características específicas. Os escravos


eram uma propriedade do seu senhor [...] eram estrangeiros alienados pela
sua origem ou dos quais, por sanções judiciais ou outras, se retirava a
herança social que lhes coubera ao nascer. A coerção podia ser usada à
vontade pelo senhor de escravo. Pois a força de trabalho do escravo estava
à completa disposição de um senhor. Não tinham direito a sua própria
sexualidade e nem ás suas próprias capacidades reprodutivas. A condição
de escravo era herdada a não ser que fosse tomada alguma medida para
modificar essa situação.

No período medieval, a forma de trabalho da antiguidade, que era a


escravidão, sofre um processo de mudança, passando a ser substituída pela
servidão, surgindo então o feudalismo. O feudalismo contribuiu para que houvesse a
evolução no trabalho humano, que teoricamente deixou de ser escravo e passou a
ser servil.
A servidão nada mais foi do que um tipo de escravidão, não exatamente no
sentido estrito da palavra, mas em medida semelhante, posto que o indivíduo
naquelas condições não dispunha de liberdade, estando sujeito as mais severas
restrições, tal como impossibilidade de livre locomoção. Para Vianna (1991), este
período caracterizou-se como sendo um sistema intermediário entre a escravidão e
o trabalho livre.
Melgar (1995, p. 50) resume este período da história do trabalho humano nos
dizeres, “[...] o tipo de trabalho existente até a Revolução Industrial não era um
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trabalho livre, era um trabalho de escravos e servos, cuja ínfima condição social era
condizente com o escasso ou quase nulo valor que se atribuía ao seu esforço”.
Uma nova e profunda mudança nas relações de trabalho ocorre entre os
séculos XVII e XVIII em virtude das revoluções liberais e consequentemente com a
Revolução Industrial. Com ênfase na Revolução Industrial, inicia-se um processo de
produção em larga escala que visava aumento de produção e redução no tempo de
execução das atividades, onde a máquina entra em cena e passa a ocupar o lugar
do homem, sobrando aos proletariados a realização de trabalhos repetitivos e
exaustivos, sendo que as condições de trabalho a que foram submetidos naquele
período são consideradas como desumanas.
Sobre este período, Cerqueira (1961, p. 343) revela:

Para poder enfrentar a livre concorrência, os chefes de indústria não


encontravam recurso mais fácil do que explorar ao máximo os operários,
pagando-lhes ínfimos salários e impondo-lhes jornadas de trabalho
excessivas, muito superiores a sua capacidade física, a fim de reduzir ao
mínimo o custo da mão-de-obra e, portanto, o custo da produção, o que lhe
permitia auferir maiores lucros. Desamparados de qualquer proteção e
impedidos de se reunir para reagir contra esses abusos, viam-se os
operários na dura contingência de escolher entre os baixos salários
insuficientes para a sua subsistência e a mais completa indigência.
Prolongavam-se as jornadas de trabalho a 14 e 16 horas, não se
distinguindo entre trabalho noturno e trabalho diurno. Trabalhava-se a
semana toda, sem um dia de repouso [...].

Assim, os trabalhadores viviam em uma realidade desfavorável, eram


submetidos a jornadas de trabalho fatigantes, locais em sua maioria sem condições
para o exercício da atividade, e recebimento de baixos salários. Não havia por parte
dos governantes a imposição de normas trabalhistas a serem observadas no
desenvolvimento das atividades econômicas.

TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL


A história da utilização da mão de obra escrava no Brasil tem como marco
inicial o período Brasil colonial. O Brasil colônia era objeto da prática do
mercantilismo de Portugal, o qual tinha como objetivo principal, a obtenção de
lucros, e para alcançar estes lucros Portugal recorreu a mão de obra escrava.
A princípio para suprir as necessidades de mão de obra para a empresa
colonial valiam da escravização dos nativos das terras brasileiras, chamados pelos

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europeus índios ou indígenas. Em segundo momento, os escravos negros foram
trazidos ao Brasil para trabalhar, principalmente, em canaviais e engenhos de
açúcar. O tráfico negreiro teve seu início oficial no ano de 1559, quando a metrópole
portuguesa permitiu o ingresso de escravos africanos no Brasil. Os negros não eram
considerados pessoas titulares de direitos, eram tidos como racialmente inferiores e
juridicamente reputados objeto de relações econômicas, o que seria um grande
argumento na época para serem tratados como mercadorias. Legalmente o negro
não era considerado pessoa e sim coisa.
A história do Brasil teve seus principais momentos forjados pela inserção do
escravismo como parte constitutiva de sua própria sociedade, e que, conforme
Stuart Schwartz (2001, p. 93), é de:

[...] natureza predominantemente e perniciosa da escravatura como sistema


social e econômico, e como uma estrutura que, enquanto permaneceu
vigorosa, determinou os contornos de todos os outros aspectos da vida
brasileira. Com efeito, analisar a história da escravidão no Brasil é trabalhar
com a própria história do Brasil.

Todavia, mesmo diante de toda essa narrativa é flagrantemente encontrado


casos de trabalhadores em condições análoga à de escravo. Assegurar apenas o
direito à liberdade do ser não basta, se não forem criadas ferramentas eficientes
para inibir e punir aquele que ainda utiliza-se da degradação da pessoa humana.

CONCEITUAÇÃO DE TRABALHO ANÁLOGO À CONDIÇÃO ESCRAVO


Desde a abolição da escravatura, com o advento da Lei Áurea no ano de
1888, o Brasil vivencia um legado negativo deixado pelo trabalho escravo existente
na época do período colonial, onde a principal força de trabalho era oriunda da
exploração do trabalho humano, sendo este tido como propriedade de seu senhor.
A característica essencial do escravo reside na sua condição de propriedade
de outro ser humano, noção que traz, necessariamente, a ideia de sujeição pessoal.
Reproduzindo as palavras de Brion Davis, (2001, p. 49): “Em geral, tem sido
dito que o escravo possui três características definidoras: sua pessoa é a
propriedade de outro homem, sua vontade está sujeita à autoridade do seu dono e
seu trabalho ou serviços são obtidos através da coerção”

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Contudo, a prática do trabalho escravo evoluiu, tomando moldes diferentes
daquela existente no Brasil colônia. Na atual conjuntura, o trabalho escravo
contemporâneo não está adstrito a pessoa negra, e sim a uma situação em que o
ser humano é submetido a jaezes similares com a escravidão, ou seja, o chamado
trabalho análogo à condição de escravo.
Arrazoando sobre o tema, Sento-sé (2000, p.24) ensina:

Um ponto fundamental que distingue o trabalho escravo na atualidade


daquele encontrado até o final do século XIX é o fato de o trabalhador não
mais ser parte integrante do patrimônio do patrão. E isto não poderia ser
tolerado hodiernamente, em razão do que preceitua a nossa Constituição
Federal, que coloca a dignidade da pessoa humana como um dos
fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, III).

Embora possua novos moldes e contornos, o trabalho escravo na atualidade


possui várias semelhanças com o tradicional, conforme demonstra Sento-sé (2000,
pp. 24-25):

[...] Com efeito, a situação presente é muito assemelhada àquela, do


período colonial e do Brasil Império, movida também por interesses
mesquinhos e escusos, ampliar abusivamente os lucros e ganhos, ás custas
da exploração do trabalhador, embora, repita-se, o trabalhador não integre o
patrimônio do patrão.
[...] Por tal motivo, há grande afinidade entre a chamada escravidão
tradicional e a nova escravatura. O detentor do poder econômico pouco se
importa com a condição humana do seu semelhante.

No mesmo sentido, Santos (2003, p. 26) compara a escravidão antiga com a


atual, da seguinte forma: “A descrição do trabalho escravo contemporâneo se
assemelha em muito ao trabalho escravo da época colonial. Ao trocar-se a figura do
senhor de engenho pela do fazendeiro e a do feitor pela do gato ou capataz, as
similaridades são gritantes”.
Transcrevendo as palavras de Sento-sé (2000, p. 27), trabalho escravo
contemporâneo é aquele:

[...] em que o empregador sujeita o empregado a condições de trabalho


degradantes, inclusive quanto ao meio ambiente em que irá realizar a sua
atividade laboral, submetendo-o, em geral, a constrangimento físico e moral,
que vai desde a deformação do seu consentimento ao celebrar o vínculo
empregatício, passando pela proibição imposta ao obreiro de resilir o
vínculo quando bem entender, tudo motivado pelo interesse mesquinho de
ampliar os lucros às custas da exploração do trabalhador.
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Todavia, o ordenamento jurídico brasileiro não apresenta um conceito pronto
e acabado do que vem a ser trabalho análogo à condição de escravo, entretanto, a
doutrina e a jurisprudência classifica como trabalho escravo, situações em que
submetem a pessoa humana a condições degradantes e ao mesmo tempo em que
ocorre o cerceamento de sua liberdade.
Para Nascimento (2011, p. 931) “O conceito, a definição ou a caracterização
do que seja trabalho escravo contemporâneo ou trabalho forçado é indeterminado
na legislação trabalhista brasileira, fato que gera intensa insegurança aos
empregadores e cizânia entre juristas”.
A Convenção da Organização Internacional do Trabalho - OIT nº 29 (ano de
1930) e a Convenção 105 (ano de 1957) exibem o termo “trabalho forçado” bem
como o “trabalho obrigatório” como sinônimos de todo trabalho forçado exigido de
um indivíduo sob a ameaça de uma pena qualquer e para o qual ele não se ofereça
voluntariamente, o que caracteriza no Brasil o chamado trabalho análogo à de
escravo.
Figueira, (2004, p.33), elucida as múltiplas formas de denominação
empregadas para definir o conceito de escravidão contemporânea:

Como não se trata exatamente da modalidade de escravidão que havia na


Antiguidade greco-romana, ou da escravidão moderna de povos africanos
nas Américas, em geral o termo escravidão veio acrescido de alguma
complementação: "semi"; "branca", "contemporânea", "por dívida", ou, no
meio jurídico e governamental, com certa regularidade se utilizou o termo
"análoga", que é a forma como o artigo 149 do Código Penal Brasileiro
(CPB) designa a relação. Também, têm sido utilizadas outras categorias
para designar o mesmo fenômeno, como "trabalho forçado", que é uma
categoria mais ampla e envolve diversas modalidades de trabalhos
involuntários, inclusive o escravo.

Na obra, Manual de Combate ao Trabalho em Condições análogas às de


escravo editado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (2011, p. 11) cita que:

Diversas são as denominações dadas ao fenômeno de exploração ilícita e


precária do trabalho, ora chamado de trabalho forçado, trabalho escravo,
exploração do trabalho, semiescravidão, trabalho degradante, entre outros,
que são utilizados indistintamente para tratar da mesma realidade jurídica.
Malgrado as diversas denominações, qualquer trabalho que não reúna as
mínimas condições necessárias para garantir os direitos do trabalhador, ou
seja, cerceie sua liberdade, avilte a sua dignidade, sujeite-o a condições
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degradantes, inclusive em relação ao meio ambiente de trabalho, há que ser
considerado trabalho em condição análoga à de escravo.

O procurador do trabalho da 2ª região e professor Ronaldo Limados Santos


(2003a, p. 55,56) assevera:

[...] independentemente da denominação adotada – “trabalho escravo


contemporâneo”, “escravidão por dívida”, “trabalho forçado”, “trabalho
obrigatório”, “redução à condição análoga à de escravo” [...]– em todas as
hipóteses levantadas, constatamos flagrantemente a sempre presença de
vícios de vontade, seja no início da arregimentação do trabalhador, no
começo da prestação de serviços, no curso da relação de trabalho e até
mesmo por ocasião do seu término. Os mais diversos métodos de coação,
simulação fraude, dolo, indução a erro, são empregados para cercear a
vontade do empregado e obriga-lo à prestação de serviços contra a sua
vontade.

Diante da dificuldade em apresentar um correto e apropriado conceito ao


fenômeno do trabalho análogo à de escravo, a reforma legislativa do Código Penal
Brasileiro, contribuiu significativamente ao estabelecer hipóteses em que se
configura a condição análoga à de escravo, tanto nas modalidades do caput do
artigo 149 como nas formas equiparadas do § 1.º, conforme transcrito:

Art. 149. Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer


submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-
o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer
meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou
preposto: (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)
Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente
à violência. (Redação dada pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)
§ 1o Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 10.803, de
11.12.2003)
I - cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador,
com o fim de retê-lo no local de trabalho; (Incluído pela Lei nº 10.803, de
11.12.2003)
II - mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de
documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no
local de trabalho. (Incluído pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003)

Verifica-se que, de forma simplificada, o trabalho em condição análoga à de


escravo é tipificado penalmente diante de quatro condutas específicas: a) sujeição
da vítima a trabalhos forçados; b) sujeição da vítima a jornada exaustiva; c) sujeição
da vítima a condições degradantes de trabalho; d) restrição, por qualquer meio, da
locomoção da vítima em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto.
Masson (2014, p. 205), salienta:

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Fica nítido que não mais se exige o tratamento do ser humano como em
épocas distantes da nossa história (pessoas acorrentadas e sujeitas a
chibatadas, aprisionadas no pelourinho etc.). O conceito de escravo há de
ser interpretado em sentido amplo, abrangendo inclusive a submissão de
alguém a uma jornada exaustiva de trabalho.

Pelo exposto, há de se conceituar trabalho análoga à condição de escravo,


todo e qualquer trabalho forçado ou obrigatório, compreendendo o trabalho ou o
serviço exigido de uma pessoa sob ameaça, coação ou violência com restrição de
locomoção.
Contudo, não determina de modo objetivo o que seja trabalho análoga à
condição de escravo, jornada exaustiva ou condições degradantes de trabalho,
gerando dessa forma insegurança jurídica.

FATORES QUE CONTRIBUEM PARA O TRABALHO ANÁLOGO À DE ESCRAVO


O modelo de globalização adotado no mundo capitalista, contribui de forma
significativa, seja impulsionando ou restringindo o processo de desenvolvimento
econômico e social, fazendo com que a competitividade incentive uma constante
redução nos custos do trabalho, provocando arrefecimentos as condições de
emprego, culminando na imposição do trabalho forçado. Empreende-se que, depois
de tantos avanços na sociedade e a evolução da história dos direitos humanos, a
escravidão devia de ter se extinguido. Porém, ainda em pleno século XXI a
escravidão é uma realidade no que tange a exploração do trabalho humano.
O trabalho escravo atual consiste de extrema exploração econômica de forma
adaptada a globalização que, para obter maior lucro e produção, submete o
trabalhador a situações desumanas, tendo como único objetivo a extração
econômica retirada por meio da exploração do trabalhador.
Afirma Antônio Luiz Monteiro da Costa (2000): “A escravidão está
inteiramente reproduzida pelas atuais condições da economia - desemprego
tecnológico, crescimento das migrações e redução ao absurdo da remuneração de
atividades tradicionais, geralmente tecnologicamente atrasadas”.
Na contemporaneidade, a globalização visa atender ao capitalismo,
principalmente os países desenvolvidos, de modo que possam buscar novos
mercados. Em decorrência das inovações tecnológicas e o incremento no fluxo

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comercial mundial, tornou-se cada vez mais competitivo o mercado, fato esse que
colabora na permanência do uso da exploração da mão de obra do ser humano.
A condição avarenta em que se deparam grande parte da população vem
agravando e favorecendo o sistema de escravidão. Isto decorre da busca pela
sobrevivência e das dificuldades de se alocar no mercado de trabalho, ou seja, os
trabalhadores não têm outra opção senão a de aceitar a primeira oportunidade de
emprego que lhes é ofertada.
Em muitos casos, são submetidos a trabalhos degradantes, em que a
remuneração não condiz com os serviços prestados, se por sorte existe, a moradia
não passa de um barraco, uma cama e direito à alimentação pouco saudável, em
forma de salário in natura.
Todo este cenário demonstra que os empregados estão cada vez mais
vulneráveis, sujeitando-se a condições degradantes de trabalho em barganha da
sobrevivência pessoal e de seus familiares, abrindo mão de seus direitos
fundamentais básicos, sua liberdade, e também de sua dignidade.
Segundo a OIT (2007, p. 11), o sistema que garante a manutenção do
trabalho escravo no Brasil contemporâneo é ancorado em duas vertentes: de um
lado, a impunidade de crimes contra direitos humanos fundamentais aproveitando-se
da vulnerabilidade de milhares de brasileiros que, para garantir sua sobrevivência,
deixam-se enganar por promessas fraudulentas em busca de um trabalho decente e
de outro, a ganância de empregadores, que exploram essa mão de obra.
Com isso, o trabalho análogo à condição de escravo, se manifesta
de várias formas, sendo as mais frequentes a: escravidão por dívida, por imigração,
por miséria e necessidade de sobrevivência e tráfico de pessoas.
Figueira, (2000, p. 9), relata como ocorre o trabalho escravo no Brasil:

A essas pessoas é prometida uma recompensa em termos de rendimento,


que as atrai e que sempre funciona como estímulo para continuar na região.
A organização do trabalho, que é rudimentar, precisa de feitor, do carrasco,
para manter a disciplina. A disciplina é obtida por débitos que o trabalhador
mantém com o barracão, pela passagem adquirida para seu deslocamento
até o local de trabalho, por algum adiantamento que lhe foi fornecido
anteriormente.

[...] O limite da jornada de trabalho desses trabalhadores é a própria


natureza, ou seja, enquanto for possível trabalhar, se trabalha. Os

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alojamentos são típicos do meio rural, improvisados com estacas,
geralmente fechados com plásticos na cor preta.

Filho, (1985, p. 4) afirma que:

Em uma dada formação, o trabalho escravo podia vegetar ao lado de outras


formas – dominantes e mais dinâmicas – de produção social. Temos
produção escravista quando uma parcela dos bens sociais é
sistematicamente produzida pelo escravo. Uma sociedade pode ser definida
como escravista quando a produção escrava submete as outras formas de
produção, e a própria formação, à sua dinâmica.

Não a óbice que a maximização dos lucros das grandes empresas, seja ela
comercial, industrial ou agropecuária é o fio condutor que liga passado e presente e
que o trabalho escravo se insere na própria lógica do capital.
Sakamoto (2007) defende o ponto de vista de que o trabalho escravo pode
ser considerado como um espaço “não capitalista” necessário ao desenvolvimento
do próprio sistema. É a forma ilegal de trabalho que acelera a capitalização e
garante a capacidade da concorrência.
Neste contexto, não resta dúvida que a incidência do trabalho em condições
análogas à do escravo está intrinsecamente relacionada com:
a) Trabalho por dívida - situação que caracteriza submissão do empregado
ao empregador tendo em vista a perpetuação da dívida, a remuneração do
empregado está submetia a descontos e outros acertos por conta do domínio
econômico que o empregador estabeleceu sobre o empregado;
b) Isolamento geográfico - devido à extensão territorial do país que contribui
para o isolamento geográfico dificultando o acesso para a realização de fiscalização;
c) A impunidade - esta é um dos principais fatores que contribuem para a
prática do trabalho escravo. Entretanto, nota-se a grande dificuldade para por em
prática soluções para diminuir efetivamente a impunidade.

OCORRÊNCIA DE TRABALHO ANÁLOGO AO DE ESCRAVO EM RONDÔNIA


Os flagrantes feitos por órgãos fiscalizadores nas últimas décadas,
mostram que a prática de trabalho análogo ao de escravo é bem mais comum do
que grande parte da sociedade imagina.
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Dados apresentados pelo governo federal, no período compreendido entre
os anos de 1995 a 2014 demonstram que operações conjuntas entre órgãos
fiscalizadores e as polícias federais, resultaram no resgate de 48.705 pessoas em
situações análogas à escravidão no Brasil, deste total, 863 trabalhadores
encontravam-se no estado de Rondônia.
A veracidade das informações pode ser constada com base no infográfico
abaixo, o qual, classifica por unidade da federação, o quantitativo de trabalhadores
resgatados ao longo de 19 anos de combate a essa mazela que assola o país.

Fonte: Repórter Brasil (2014).

Em 2003 o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), criou um Cadastro de


Empregadores flagrados utilizando de mão de obra análoga à escrava, este cadastro
é mais conhecido como “Lista Suja”.
Conforme o Ministério de Trabalho e Emprego, a inclusão e exclusão de
empregadores na “Lista Suja”, é regulamentada pela Portaria Interministerial nº
2/2011 - MTE/SDH, que dita que o empregador somente será incluído na lista
quando se constatar que haviam trabalhadores escravos em sua propriedade, após
ele se defender em primeira e segunda instâncias administrativas e as exclusões da
lista serão feitas quando o empregador pagar todas as taxas e impostos referentes a
regularização de seus empregados, além do pagamento das multas decorrentes da
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ação fiscal, porém, somente após o acompanhamento feito pelo MTE no período de
dois anos, com a finalidade de verificar que não haverá reincidência na prática de
trabalho escravo.
O quadro abaixo, traz a relação de empregadores de Rondônia que foram
relacionados no Cadastro de Empregadores do Ministério de Trabalho e Emprego
(MTE), “Lista Suja” desde 2002 a 2014.

Quadro: 01
Ano Estabelecimento Inspecionado Município Total
2002 Agropecuária Iquê Vilhena 1
2002 Agropecuária Itaúna Ltda (Fazenda Bela Vista) Chupinguaia 11
2002 Agropecuária Pimenta Bueno S/A Pimenta Bueno 18
2002 Fazenda Anita Chupinguaia 12
2003 Fazenda Livramento Cerejeiras 73
2003 Fazenda Modelo Chupinguaia 128
2003 Fazenda São Joaquim Pimenteiras do Oeste 219
2003 Fazenda Tapyratynga Corumbiara 12
2003 Fazenda Três Irmãos (Agrop. Três Irmãos) Corumbiara 51
2004 Fazenda São Sebastião Chupinguaia 18
2005 Fazendas São João, Água Boa e Pedra Alta Chupinguaia 19
2005 Ivipora Agropecuária Ltda. (Fazenda Tropical) Corumbiara 10
2005 Parplan Agropecuária Ltda. (Fazenda Ivipita) Corumbiara 13
2008 Agropecuária Corumbiara Chupinguaia 5
2008 Fazenda América Porto Velho 23
2009 Construtora BS Ltda. Jaci-Paraná 53
2009 Fazenda Novo Horizonte Vilhena 1
2009 Locação de Máquinas e Const. Primavera Ltda Porto Velho 5
2010 Fazenda Agrinbo Vista Alegre do Abunã 11
2010 Fazenda Biribas Vista Alegre do Abunã 4
2010 Fazenda Rancho Colorado Porto Velho 8
2010 Fazenda São Francisco Ariquemes 1
2010 Fazenda São Francisco Porto Velho 17
2011 Eplan Engenharia Planej. E Eletricidade - Ltda Rondônia 9
2011 Fazenda Guará II Guajará-Mirim 5
2011 Fazenda Nova Descoberta Corumbiara 6
2011 Fazenda Nova Querência Cacaulândia 7
2011 Fazenda Pedra Branca/Fazenda Pedra Bonita Ariquemes 10
2011 Fazenda Pedra Preta Cujubim 22
2011 Fazenda Pica-Pau Porto Velho 6
2011 Fazenda Pica-Pau Porto Velho 1
2011 Fazenda São Francisco Guajará-Mirim 4
2011 Fazenda São João Ariquemes 6
2011 Fazenda Sonho Meu Porto Velho 4
2011 Fazenda Tuliane Porto Velho 8
2011 Fazenda Wakayama Porto Velho 2
2012 Fazenda Araputanga Chupinguaia 29
2012 Fazenda Vitória Porto Velho 5
2012 Manejo Florestal Porto Velho 5

74
2013 Fazenda Bandeirante Chupinguaia 11
2013 Fazenda Massangana Ariquemes 2
2013 Manejo Florestal - Fazenda Pasárgada Porto Velho 6
2014 Giovani Luiz Minosso Porto Velho 2
TOTAL DE TRABALHADORES EM CONDIÇÕES ANÁLOGO AO ESCRAVO 863
Fonte: Repórter Brasil (2014).

No estado de Rondônia, a principal atividade flagrada utilizando mão de obra


comparada à escrava é a pecuária. Porém, também foram flagradas empresas de
construção civil, inclusive das empresas terceirizadas na construção das Usinas do
Madeira, além de atividades de extração ou corte de madeira.
De acordo com o cadastro do MTE, o empregador de Rondônia que figura a
mais tempo na lista suja é o pecuarista Roberto Demário Caldas, considerado o
maior pecuarista do estado e por isso conhecido como “Rei do Gado”. Em 2003
foram encontrados aproximadamente 400 trabalhares em condições degradantes
em duas de suas fazendas em Pimenteiras do Oeste, sendo 219 confirmados como
trabalho análogo à escravo na Fazenda São Joaquim, o maior número já registrado
neste estado. Os trabalhadores residiam em barracos de lona que não ofereciam o
mínimo de proteção contra as intempéries do tempo ou animais, não tinham acesso
às instalações sanitárias ou à água tratada, nenhuma alimentação ou equipamento
de proteção eram fornecidos aos trabalhadores, porém estes eram cobrados pelo
empregador com valores exorbitantes, contumaz, os contratos de trabalho desses
trabalhadores estavam irregulares.
Ainda em 2003, outros 128 trabalhadores foram encontrados em uma fazenda
no município de Chupinguaia pertencente à Denes Gouveia Dalafini, morando em
barracos cobertos com encerados, não tinham acesso à água própria para consumo
humano e dormiam em redes ou sobre camas improvisadas feitas de madeira roliça.
Em outubro de 2009, oito homens que trabalhavam para empresa Locação de
Máquinas e Construtora Primavera Ltda, na obra de reforma da antiga sede do
Tribunal de Justiça em Porto Velho, acionaram o Ministério Público do Trabalho -
MTE. Estes trabalhadores foram contratados nos municípios de Rolim de Moura,
Candeias do Jamari e Porto Velho, além de Humaitá-AM e residiam em um imóvel
no centro de Porto Velho sem condições de habitabilidade, seus quartos e banheiros
eram feitos de compensados de madeira, localizados na sala e varanda do imóvel,
em ambiente insalubre, sem iluminação, ventilação, com paredes mofadas e
75
cercados de lixo. Em seus depoimentos, os trabalhadores narraram que eram
maltratados, sofriam ameaças dos responsáveis pela construtora, que chegaram a
cortar o fornecimento de alimentação aos trabalhadores quando estes cobraram
seus direitos trabalhistas.
Em junho de 2011, o Ministério Público Federal - MPF denunciou o ex-
senador Ernandes Amorim por manter em sua propriedade, Fazenda São João,
localizada em Ariquemes, seis trabalhadores em condições semelhantes a de
trabalho escravo. Segundo o MPF, o empregador tinha conhecimento do fato, pois,
lidava diretamente com os trabalhadores que foram contratados para construir uma
cerca na propriedade, percebendo a remuneração de R$ 2.000,00 (dois mil reais),
por quilômetro construído, quando na realidade estavam recebendo apenas R$
500,00 (quinhentos reais), por quilômetro, não recebiam alimentação ou
equipamentos de proteção, forçando-os a comprar de seu empregador, que por sua
vez cobrava valores altos, superando o saldo a receber, caracterizando escravidão
por meio de dívida. A fiscalização à propriedade, constatou ainda que os
trabalhadores não possuíam diversos de seus direitos trabalhistas, residiam em
barracos sem proteção lateral, eletricidade e água potável, não tinham acesso a
instalações sanitárias adequadas.
O cenário em que os trabalhadores são encontrados não diferencia entre si,
todos com alojamentos improvisados sem rede de esgoto, sem iluminação,
alimentos e água impróprias para o consumo, falta de equipamentos de proteção
para execução dos trabalhos e com jornadas que ultrapassam doze horas diárias.
Comumente, o trabalho na zona rural é o mais propício para encontrar
trabalhadores sujeitos a essa mazela, que é o trabalho análogo à de escravo, mas
não menos importante, a fiscalização na zona urbana vem ocorrendo de forma
intensificada, devido ao grande número de cadeias produtivas já constatadas
condições degradantes de trabalho.

IMPACTOS SOCIOECONOMICOS DO TRABALHO ANÁLOGO AO ESCRAVO EM


RONDÔNIA
Como já citado, não resta dúvida de que o trabalho análogo à condição de
escravo contemporâneo possui semelhanças e diferenças em relação ao sistema

76
escravista abolido no Brasil no ano de 1888. Comparando o modelo praticado na
antiguidade e o contemporâneo, restam apenas sentimentos de indiferença
e superioridade em relação a maneira como foram e são praticados, todavia, ambos
tende a incessante busca pela lucratividade. Já a principal diferença entre os dois
modelos, é que no sistema tradicional o escravo era propriedade, e hoje isso é
proibido, conforme prevê o artigo 149 do Código Penal Brasileiro.
Desta forma, o trabalhador reduzido a condição análoga à de escravo
atualmente é visto, pelo empregador, como um mero prestador de serviços, sendo a
peça engrenadora fundamental do processo produtivo, ou seja, após ser explorado,
é simplesmente abandonado, é lançado à sorte, Silva (2010).
Segundo Pereira (2008), à escravidão não é decorrente da introdução do
sistema de produção capitalista, na verdade ela somente acompanhou o
desenvolvimento da sociedade, com motivos, objetivos e de maneiras diferentes,
que persistem até os dias atuais. Para melhor exemplificar, os trabalhadores
superexplorados hoje, não dependem mais da sua raça ou da cor da sua pele.
Para Schwarz (2009),

[…] a escravidão está sempre relacionada à pobreza e à discriminação:


entre 2003 e 2007, um terço dos trabalhadores resgatados do trabalho
escravo no Brasil pelo Ministério do Trabalho e Emprego era oriundo do
Maranhão, o estado mais pobre da Federação; por outro lado, o coletivo
imigrante com maior presença no Brasil, em situações de escravidão, é
formado por bolivianos, sobretudo por aimarás e quíchuas, egressos de um
dos países mais empobrecidos das Américas. O problema não se restringe
a países periféricos, alcançando diversos países centrais, como os
europeus, que convivem com o escândalo da superexploração da mão-de-
obra de estrangeiros em seus territórios para sustentar o seu atual modelo
de desenvolvimento econômico. […] Entretanto, em países como o Brasil,
em que essa assimetria determinada histórica e culturalmente é ainda mais
severamente agravada por problemas nacionais crônicos e resilientes como
a insuficiência das políticas agrárias, a concentração de renda, o uso
socialmente nocivo da propriedade, as largas desigualdades sociais
e regionais e a consequente pobreza e exclusão social e econômica de um
grande número de pessoas, a escravidão contemporânea toma maior
relevo.

Assim, o autor destaca que o fator “ser pobre” é preponderante aos


trabalhadores resgatados em situações semelhantes a de escravidão. Observa-
se também a grande presença de imigrantes bolivianos, advindos de regiões mais
pobres das Américas. Ressalva-se que o excerto acima foi publicado no ano de

77
2009, e nos dias atuais, além destes, os haitianos também são superexplorados no
Brasil – povo que tem uma estimativa de migração no país com mais de 22 mil
pessoas desde o ano de 2010.
Wrobleski (2014), destaca também que a exploração das pessoas em nosso
país está diretamente relacionada à ausência de políticas públicas adequadas, sem
as quais deixam as pessoas em um estado crítico de vulnerabilidade.
Economicamente, o sistema de produção capitalista necessita de mão de
obra barata. É óbvio que quando se tem menos custos com pessoal, maior será o
lucro. Em contrapartida, o proletariado pobre, miserável, necessita do modesto
dinheiro ganho com o trabalho. Para Armatya Sen (apud Silva, 2005) economia,
ética, liberdade individual e desenvolvimento estão estreitamente relacionados. Para
ele “o desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que
limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente
sua condição de agentes”, logo, a liberdade se torna o principal objetivo do
desenvolvimento.
Com isso, já não apresentam mais liberdade àqueles grupos de pessoas que
aceitam serviços com regimes análogos aos de escravo, pois necessitam do
dinheiro para que possam regressar à comunidade de origem, pois se voltarem sem,
estariam violando as normas comportamentais intrínsecas ao grupo que pertencem.
Retornar sem dinheiro seria algo vergonhoso pelo que seria entendido por fracasso.
Desse modo, ficar isolado geograficamente, estar sendo controlado por meio
da violência física e/ou simbólica (endividamento), viver em condições degradante e
humilhante, desta maneira vindo a perder os seus direitos como cidadão, seria uma
forma de tentar vencer na vida, de tentar viver e de continuar vivendo, situação esta
que será transmitida de geração para geração.

MEDIDAS DE COMBATE AO TRABALHO ANÁLOGO AO ESCRAVO


Além das penalidades previstas na legislação penal, o Brasil se destaca no
cenário internacional com programas e medidas de prevenção e combate ao
trabalho escravo, caracterizados pelos seguintes órgãos:

78
Organização Internacional do Trabalho (OIT) - É a agência das Nações
Unidas que tem por missão promover oportunidades para que homens e
mulheres possam ter acesso a um trabalho decente e produtivo, em
condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade, da qual o Brasil faz
parte juntamente com mais 184 países.

Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo -


Seu objetivo é coordenar e avaliar a implementação de ações previstas no
Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) - Através do Grupo Especial de


Fiscalização Móvel, tem a finalidade de fiscalizar e de combater a prática da
utilização de mão de obra escrava.

Cadastro de Empregadores Infratores “Lista Suja” - Criado


em 2004, com a Portaria nº 540 do Ministério do Trabalho e Emprego foi
criado o “Cadastro de Empregadores Infratores que tenham mantido
trabalhadores em condições análogas à de escravo”, e contém o nome de
pessoas físicas e jurídicas flagradas pela fiscalização.

Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo - Elaborado pela


Comissão Especial do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana
(CDDPH), tornando-se a Resolução 05/2002 do CDDPH.

O combate ao trabalho em condição análoga à de escravo deve observar as


políticas de atuação e planejamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT),
bem como a Instrução normativa nº 91/2011. As ações fiscais desenvolvidas pelas
unidades descentralizadas do MTE são organizadas pelas chefias de fiscalização,
em colaboração com Coordenadores por elas designados para a condução dos
trabalhos.
As chefias de fiscalização deverão informar a SIT previamente do cronograma
de ações possibilitando que as mesmas sejam empreendidas de forma eficiente e
eficaz.

79
Cabe destaque, a promulgação da PEC3 do Trabalho Escravo - Emenda
Constitucional nº 81/2014 que da nova redação do artigo 243 da Constituição
Federal onde:

As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do país onde forem


localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de
trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma
agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao
proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado,
no que couber, o disposto no Artigo 5º.

Ainda deve ser regulamentada para definir o que será considerado trabalho
escravo, e em que casos se dará o perdimento de terras, imóveis e benfeitorias, a
emenda inclui também o que está na propriedade, como máquinas ou gado.
Embora o estado brasileiro acumule grandes esforços para extinguir a
escravidão contemporânea que ocorre em nosso país, maiores são as dificuldades
encontradas, dentre elas à extensão territorial é um fator que em muito dificulta as
ações de combate a exploração dos trabalhadores em condições análogas à de
escravo, porém, vale citar que conforme dados da OIT o Brasil desponta como um
dos países que mais combate o trabalho escravo.

CONCLUSÃO
A observância do trabalho escravo através da história, demonstra que tal
prática socioeconômica provoca consequências gravíssimas ao desenvolvimento de
uma economia e que se estende a estrutura social de uma nação. O objeto da
degradação do indivíduo para o trabalho é o mesmo contemporaneamente, o lucro.
Porém, o humano feito escravo não é mais de uma raça específica e sim todo
e qualquer indivíduo em condição vulnerável. A escravidão pode não se manifestar
em sua forma clássica, já conhecida pelos seus métodos, mas se valem de novos
estratagemas para suprimir a vontade do indivíduo como trabalhador, a exemplo da
privação de liberdade, os castigos físicos e ainda torturas psicológicas, aviltar seus
direitos e submetê-lo a uma condição em que seu esforço de trabalho traga apenas
o lucro ao escravista, sem que este cumpra com suas obrigações legais.

3
Projeto Emenda Constitucional
80
O termo a que se refere à escravidão transformou-se para acompanhar a
nova roupagem que está em prática, sendo adotado então convencionalmente o uso
da nomenclatura de atividade análoga à escravidão.
Em Rondônia tal fenômeno está ligado em sua maioria a atividade
agropecuária, onde ocorre uma facilitação para sua ocorrência, pelo fato do local de
trabalho ser situado em zona rural, que por ser extensa e por vezes de difícil acesso
dificulta a chegada dos órgãos fiscalizadores. Fato este que permite que o
empregador que adota a prática escravocrata com seus empregados se sinta a
vontade para perpetuar tal ato, pois acredita que não será flagrado, e em
decorrência disto saíra impune.
A legislação brasileira para o assunto é adequada e aborda o tema em todas
as suas possibilidades, prevê diversas penas para o infrator em questão e ainda
aparelha o Estado para coibir o trabalho escravo, porém o esforço para suprimir a
escravidão deve ser contínuo e nunca cessar, pois, onde ocorre qualquer
agrupamento humano e existir relação de trabalho entre os indivíduos sempre
haverá a possibilidade da ocorrência de trabalho escravo, e este sempre estará se
remodelando, sendo necessário que o Estado também se intere de como tal prática
ocorre, tendo sempre como objetivo a extinção deste ato vil que fere a dignidade
humana e suprime o indivíduo em todas as suas características.

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