Anda di halaman 1dari 15

Análise Psicológica (2000), 1 (XVIII): 37-51

Efeito de Werther

ANA FILIPA ALMEIDA (*)

1. INTRODUÇÃO portamento suicida pode dever-se a amizades do


mesmo tipo.
O romance de Goethe Die Leiden des Jungen Estes autores consideram que adolescentes
Werthers, o qual acaba com o suicídio do seu com factores de risco para uma potencial ideação
protagonista, provocou uma onda de suicídios de e comportamento suicidas, incluindo passado
imitação após a sua primeira publicação em histórico de ideação e/ou comportamento suici-
1774. Referindo-se a este incidente histórico, das, podem escolher-se mutuamente como ami-
Phillips (1974) deu-lhe o nome de «efeito de gos, aumentando assim a possibilidade de os
Werther». No entanto, o impacto suicida do ro-
amigos de um adolescente suicida apresentarem
mance de Goethe nunca foi conclusivamente
a presença desses factores.
demonstrado (Phillips, 1985). Apenas mais re-
Propusemo-nos, assim, elaborar uma metodo-
centemente foram postas em prática tentativas
logia de investigação exploratória, colocando-se
científicas para examinar a existência de um pos-
sível efeito de Werther (e.g. Phillips, 1974; Phil- nesta como hipótese de estudo, tendo em conta a
lips & Carstensen, 1986; Schmidtke & Hafner, literatura revista sobre o tema em questão, que a
1988). proximidade a um amigo que tenha tentado o
Kreitman et al. (1969) constataram que quem suicídio é um factor de risco significante para a
se tenta suicidar possui um pouco usual número consequente ideação suicida, ou seja, os adoles-
de amigos suicidas. Este resultado poderá indicar centes que têm amigos que tentaram o suicídio
que as pessoas propensas ao suicídio, escolhem, apresentam uma maior ideação suicida do que os
para amigos, indivíduos também eles com ten- adolescentes que não têm amigos que tentaram o
dências suicidas. suicídio.
Brent et al. (1992) consideram que a proximi- Hazell e Lewin (1993) consideram importante
dade à tentativa de suicídio pode encorajar a imi- uma identificação prévia dos adolescentes em
tação. Segundo Hazell e Lewin (1993) a maior risco de assumir um comportamento suicida
associação entre uma forte proximidade à tenta- imitativo. No presente trabalho, o Suicidal Idea-
tiva de suicídio e a consequente ideação e com- tion Questionnaire (SIQ de Reynolds, 1987)
consiste num procedimento para a identificação
de adolescentes com ideação suicida em risco de
assumir um comportamento suicida.
(*) Serviço de Psicologia do Hospital Miguel Bom- Shaffer et al. (1988) sugerem que a identifica-
barda, Rua Dr. Almeida Amaral, 1169-053 Lisboa. ção prévia de adolescentes em risco de suicídio

37
constitui o primeiro esforço com vista à preven- monstração de uma relação de causa e efeito en-
ção. tre o comportamento modelo e a imitação.
Assim, uma identificação activa de adolescen-
tes em risco de assumir um comportamento sui- 2.1.1. Padrão conceptual de aprendizagem por
cida imitativo deve ser considerada uma priori- modelagem
dade, que tem como objectivo primordial reduzir
o nível epidémico de suicídios entre os adoles- Aprendizagem por modelagem refere-se à
centes (Reynolds, 1991). aquisição de novos padrões de comportamento
O tempo presente é, por isso, de entusiasmo através da observação do comportamento de um
pelas possibilidades e novidades que contém. É ou mais modelos (Bandura, 1976). A imitação
um tempo de debate, criatividade e de procura de não está limitada à aprendizagem a partir de mo-
novos enquadramentos e novos sentidos - porque delos reais, verdadeiros. O paradigma da mode-
é na controvérsia que se constrói a aventura do lagem tem sido alargado de forma a incluir ma-
conhecimento. A história da ciência é bem neiras divergentes de aprender o modelo. A per-
exemplificativa de como o conflito entre siste- centagem de realidade também pode variar (Ban-
mas de conhecimento é vital para estimular e dura, 1977).
consolidar avanços na compreensão do mundo e Foi provado experimentalmente, que o efeito
é por isso nosso desejo que este trabalho possa, da modelagem depende do número de modelos,
de alguma forma, contribuir para lançar novos das características do modelo (e.g., idade, sexo e
estatuto social), a intensidade com que o com-
reptos aos estudiosos do efeito de Werther e
portamento do modelo é reforçado e as caracte-
adiantar alguns espaços no caminho que leva à
rísticas do observador (Bandura, 1977; Grof-
sua compreensão; é no entanto nosso objectivo
fmann et al., 1982). As semelhanças entre as ca-
primordial, que este trabalho possa servir para
racterísticas específicas do modelo e as do obser-
minimizar o risco de comportamento suicida
vador desempenham um papel importante, mes-
imitativo e promover a recuperação saudável dos
mo na aprendizagem a partir de modelos simbó-
adolescentes afectados. licos. O facto de um modelo pacífico ou subver-
sivo estarem disponíveis também parece ser im-
portante.
2. EFEITO DE WERTHER
Desta forma, deve-se encarar a aprendizagem
pela modelagem como uma interacção de deter-
minadas variáveis, tanto do modelo como do
2.1. Estudos precedentes sobre o Efeito de observador. Uma vez que a imitação também é
Werther influenciada por variáveis complexas (como a
auto-estima), estas poderão também moderar a
Tem-se sugerido, frequentemente, que o com- probabilidade de se exibir o comportamento
portamento suicida pode ser aprendido por um aprendido (isto é, o desempenho), nomeada-
processo de modelagem (Phillips, 1974, 1985; mente através da selecção de informação.
Schaffer, 1985). Em determinadas circunstâncias (por exem-
Em estudos mais recentes, existem sucessivas plo, em estados motivados), pode-se recorrer à
referências a epidemias de suicídio ou imitação estratégia comportamental adquirida pela obser-
de actos suicidas em crianças (Harbauer, 1978), vação («aquisição» como uma variável do repor-
em adolescentes (Robbins & Conroy, 1983; tório comportamental) mesmo se já tiver decorri-
Doan, 1984; Fox et al., 1984; Taylor, 1984), em do algum tempo após a observação ter sido
instituições (Crawford & Willis, 1966; Mat- efectuada («desempenho»).
thews, 1968; Rada & James, 1982; Walsh & Ro- Assim sendo, acontecimentos que possam
sen, 1985) ou em determinadas populações étni- servir de estimulantes ou processos que possam
cas (Ward & Fox, 1977). Contudo, todas estas servir de motivação determinam se os compor-
observações anteriores, tal como o resultado de tamentos adquiridos por observação foram, de
estudos a que faltava uma base teórica elaborada facto, desempenhados em determinada altura
que fosse satisfatória, são inadequados para a de- (Bandura, 1976, 1977; Groffmann et al., 1982).

38
2.1.2. Pré-requisitos metodológicos para testar em relação a alguns subgrupos da população ou
a hipótese de imitação a alguns métodos de suicídio.
A explicação teórica do efeito de Werther
O primeiro pré-requisito para se estabelecer não está bem desenvolvida (ver Baron & Reiss,
uma relação de causa e efeito entre um modelo 1985a). Além disso, um teste em cadeia de pre-
publicitado e um aumento no número de suicí- visões teóricas está seriamente comprometido,
dios é um tipo de modelo de comportamento, visto que as vítimas de suicídio não estão dispo-
claramente definido, que também possa ser iden- níveis para dar entrevistas depois da sua morte.
tificado, de forma precisa, ao nível da imitação. Também a disponibilidade de informação esta-
Levando em consideração descobertas feitas por tística sobre as vítimas está tipicamente limitada
alguns investigadores, Schmidtke e Hafner a algumas variáveis demográficas tais como a
(1988) colocaram a hipótese de a aprendizagem idade ou sexo e não abrange informações acerca
por modelagem depender de certas característi- dos processos psicológicos. Contudo, as provas
cas do modelo, como a idade, sexo e estatuto so- existentes parecem ser pelo menos compatíveis
cial, e as respectivas características do observa- com a hipótese de existir uma desinibição de
dor. tendências suicidas (cf. Phillips, 1985, 1989),
Se um aumento significativo do comporta- esta é uma explicação baseada na teoria cogniti-
mento modelado for constatado, então a hipótese va social de Bandura. Na explicação que se se-
de aprendizagem por modelagem torna-se plau- gue vão ser delineadas as hipóteses de desinibi-
sível, desde que também seja possível demons- ção e seguidamente discutidas várias hipóteses
trar que a dimensão dos efeitos da imitação de- alternativas.
pende do grau de concordância entre certas ca- Ao falar em desinibição Bandura (1986) re-
racterísticas do modelo e daquele que o imita. Se fere-se a influências modelo que consistem no
não se tomarem em conta factores demográficos, fortalecimento do comportamento que fora ante-
como a idade, o sexo e o tipo de comportamento riormente aprendido, mas nunca levado a cabo
suicida, é impossível detectar a imitação de um devido a «restrições comportamentais». Ao
aprender que o comportamento do modelo não
tipo específico de modelo de comportamento e o
leva a punições, podendo mesmo levar a recom-
efeito de modelagem, na sua totalidade, poderá
pensas, o observador fica sujeito a menos restri-
eventualmente iludir a observação ou por ser de-
ções deste tipo. Ao aplicar a hipótese de desini-
masiado fraco ou porque os aumentos em deter-
bição ao efeito de Werther, Phillips (1985, 1989)
minadas idades são contrabalançados por ten-
argumentou que as pessoas que decidem suicida-
dências para diminuir em outros grupos.
rem-se contemplam essa possibilidade durante
O estudo destes autores permitiu testar efeitos algum tempo, mas hesitam avançar pois esse
de imitação diferentes e consecutivos no com- acto é reprovado pelos outros.
portamento suicida em relação com a dimensão Os suicídios que receberam atenção pública
da audiência. As características do modelo fictí- podem então «despoletar» suicídios de imitação
cio de suicídio e a oportunidade de obter dados entre estes potenciais suicidas observadores, au-
do seu efeito permitiu preencher os mais impor- mentando-lhes as expectativas de que o seu sui-
tantes pré-requisitos para testar a hipótese do cídio irá também produzir uma atenção póstuma,
«efeito de Werther». um sentimento de pena ou aumentar o seu esta-
tuto social. Esta desinibição pode também ser
2.2. Modelos e Suicídio: estudo do efeito de despoletada por descrições realistas de suicídios
Werther fictícios que se concentram nas consequências de
suicídios, tais como a consternação de conheci-
Os resultados de estudos mais recentes (e.g., dos ou dos pais do suicida (e.g., Schmidtke &
Schmidtke & Hafner, 1988) confirmam as pro- Hafner, 1988).
vas para o efeito de Werther verificado com sui- A fórmula de Bandura (1986) acerca da hipó-
cídios reais. tese de desinibição implica que o respectivo
Estes estudos sugerem ainda que o efeito de comportamento teve que ser «previamente
imitação pode ser efectuado de forma específica aprendido». De acordo com este raciocínio, a in-

39
fluência modelo por trás dos resultados dos es- que se suicidam por causa desta dor (cf. Phillips,
tudos acima mencionados pode não se dever à 1986). No entanto, esta hipótese não pode ser ti-
transmissão de informação sobre como realizar o da em consideração no que diz respeito ao au-
suicídio com sucesso. Considerando que tais in- mento de suicídios observado após a descrição
fluências podem ser consequência de algumas de suicídios fictícios (e.g., Schmidtke & Hafner,
descrições de suicídios feitas pelos mass media, 1988).
as examinadas no processo de investigação, tal Para além disto, esta hipótese não está de
como no estudo de Phillips (1974), raramente acordo com as descobertas de que as notícias de
são invulgares, novas ou difíceis de pôr em prá- mortes de celebridades, que morreram devido a
tica, nem muitas vezes as notícias residem em outra causa sem ser suicídio, não levaram a um
detalhes do método suicida. aumento de suicídios (Phillips, 1974; Phillips &
As descobertas de que existe um aumento de Carstensen, 1986). Além disso, tal como Stack
suicídios após o suicídio de celebridades (Was- (1990c) demonstrou, a frequência de suicídios
serman, 1984; Stack, 1987a, Kessler et al., 1988) pode aumentar não só através dos suicídios de
estão de acordo com a hipótese de desinibição celebridades, mas também das notícias de suicí-
uma vez que os suicídios de celebridades devem dios de pessoas que não são conhecidas pelo pú-
ser mais divulgados do que os de pessoas que blico em geral.
não são célebres e recebidos por uma maior Outra explicação alternativa reconhece que as
percentagem de potenciais suicidas. Contudo, a notícias de suicídios podem estar ligadas ao seu
hipótese de desinibição tem de ser considerada aumento.
como algo especulativo devido à falta de infor- No entanto, segundo esta «hipótese de condi-
mação empírica para investigar os processos ção prioritária» (cf. Phillips, 1986) algumas va-
psicológicos que assume. No entanto, a hipótese riáveis confusas podem aumentar a probabilida-
de desinibição é pelo menos compatível com os de de notícias sobre suicídios, ao mesmo tempo
resultados acima mencionados, visto não existir que estas aumentam a frequência nacional de
um apoio empírico para nenhuma das várias ex- suicídios. Por exemplo, uma grave crise econó-
plicações, as quais serão discutidas em seguida. mica pode aumentar as tendências depressivas
Uma explicação alternativa considera que a tanto nas pessoas comuns como nas figuras pú-
descrição de suicídios por parte dos mass media blicas. No entanto, esta explicação não pode ser
serve apenas para precipitar os suicídios que tomada em conta para o aumento de suicídios
ocorreriam de qualquer maneira, mesmo na au- após a descrição de suicídios fictícios. Além dis-
sência de notícias acerca de suicídios reais ou so, esta hipótese não consegue explicar de forma
fictícios (cf. Phillips, 1986; Phillips & Carsten- convincente as descobertas que demonstram que
sen, 1986). os suicídios noticiados ocorreram compativel-
A hipótese de precipitação pode parecer idên- mente antes do aumento (Phillips, 1974; Phillips
tica à hipótese da desinibição, a qual também & Carstensen, 1986).
considera que os observadores sugestionáveis De modo a aumentar a confiança no efeito de
têm que ter tendências suicidas antes de serem Werther e na sua generalização, são necessárias
expostos à divulgação de um suicídio. No entan- réplicas em populações e culturas diferentes.
to, enquanto a hipótese da precipitação considera Enquanto o estudo alemão efectuado por
que todos os suicídios precipitados teriam ocor- Schmidtke e Hafner (1988) encontrou provas de
rido de qualquer forma, a hipótese da desinibição um aumento nos suicídios consumados após as
considera que alguns observadores potenciais descrições de suicídios fictícios, nenhum estudo
suicidas podem nunca vir a cometer suicídio conseguiu copiar com sucesso o impacto imita-
(dado que as expectativas de consequências posi- tivo de notícias de suicídios fora dos EUA.
tivas de um suicídio nunca são maiores do que as Os resultados de um estudo realizado na Ale-
restrições). manha por Wasserman (1984), Stack (1987a,
Segundo uma outra hipótese alternativa, o 1990c) e Kessler et al. (1988) podem ser consi-
suicídio publicado provoca dor em vez de imita- derados como um apoio ao efeito de Werther
ção. Algumas pessoas podem ficar tão tristes previsto à sua reprodução fora dos EUA. Tendo
com a morte de uma celebridade que admiram, em conta os resultados do estudo, esta análise es-

40
tá limitada às notícias de suicídios de figuras pú- com o aumento de suicídios, isto se provar-se
blicas (celebridades) uma vez que tais notícias que quanto maior for a publicidade maior é a
devem ser bastante divulgadas e devem alcançar percentagem de indivíduos com tendência para o
um grande número de pessoas que já tenham tido suicídio que recebe a notícia e que é influenciado
ideias suicidas. De facto, muitos aspectos dos por ela. Depois, tal como já foi sugerido por
resultados estão de acordo com as previsões: os Phillips (1974), os dados oriundos de regiões
dados analisados através de um método quasi- geográficas diferentes são necessários para testar
experimental e de uma análise de regressão de se o aumento de suicídios se restringe às zonas
série temporal revelaram um aumento na fre- onde as notícias são muito divulgadas. Estas zo-
quência de suicídios após notícias de suicídios nas diferentes podem ser usadas como zonas de
de figuras públicas. controlo mútuo, deveriam ser escolhidas zonas
Claro que este estudo não iluminou os proces- bastante longínquas. A sobreposição de suicídios
sos psicológicos relacionados com o efeito de registados em jornais de regiões diferentes de
Werther. Por exemplo, foi aqui sugerido que o um país pode ser demasiado elevada para pro-
estatuto de figura pública de uma celebridade porcionar medidas independentes de controlo
afecta o tamanho do aumento, principalmente mútuo. Além disso, este estudo aponta para a ne-
devido ao grande número de publicidade que cessidade de precauções metodológicas apro-
evoca. Contudo, pode não ser só o facto de priadas em contraste com o uso de artefactos es-
existir uma grande publicidade à volta de suicí- tatísticos.
dios de celebridades que provoca o aumento,
mas também o seu elevado estatuto social que os
leva a ser escolhidos como modelos (cf. Stack, 2.3. Novas provas para uma hipótese antiga
1987a, 1990c). Esta hipótese está de acordo Como suicídio de uma celebridade e como
com a pesquisa de Bandura (1986) acerca dos
voz do desespero, a morte de Cobain tinha todos
modelos, a qual aponta para a importância das
os potenciais para estimular jovens vulneráveis a
características do modelo.
imitar e a seguir um efeito de Werther (Phillips,
Uma outra direcção a tomar para futuras in-
1974, citado por Jobes et al., 1996).
vestigações seria examinar se o efeito é maior
O suicídio da estrela de rock Kurt Cobain em
quando os observadores e os receptores são a
1994 provocou preocupações imediatas, no seio
mesma pessoa (tomando em conta o sexo, idade
ou outras características). dos especialistas do suicídio e na população em
Esta hipótese é defendida por Schmidtke & geral, relacionadas com a possibilidade de a sua
Hafner (1988), que encontraram apoio para ela morte despoletar suicídios de imitação, especial-
no seu estudo sobre os efeitos de uma série tele- mente entre os jovens mais vulneráveis. A comu-
visiva, que transmitiu o suicídio fictício de um nidade de Seattle, onde Cobain viveu e morreu,
jovem. No entanto, estes autores não apresentam foi particularmente afectada pela sua morte re-
uma explicação teórica para o papel mediático pentina. No entanto, os dados obtidos na zona de
da semelhança. King County sugeriram que o efeito de Werther,
Além disso, a pesquisa acerca dos modelos que era esperado, aparentemente não havia ocor-
não fornece um grande apoio à semelhança per rido. Contudo, verificou-se um aumento signifi-
se como mediadora de processos de modelos cativo nos telefonemas suicidas durante o perío-
(ver Bandura, 1986). do que se seguiu à sua morte.
Enquanto que estes resultados estão em con- Colocou-se a hipótese de a ausência de efeitos
formidade com as previsões, de maneira a permi- de imitação aparentes em Seattle se dever, tal-
tir um teste do efeito de Werther ainda mais ri- vez, a vários aspectos relacionados com a cober-
goroso, os estudos efectuados posteriormente tura mediática do acontecimento, ao método uti-
devem apresentar vários componentes metodo- lizado no suicídio de Cobain e às intervenções
lógicos. Em primeiro lugar, devem ter em conta preconizadas pelo Centro de Crises.
os dados acerca da quantidade de publicidade Não obstante, o suicídio de Cobain poderá ter
recebida por cada caso. A publicidade dada às aumentado positivamente a consciência das pes-
notícias sobre suicídios deve estar relacionada soas no que concerne ao suicídio. Estas são, pos-

41
sivelmente, as potenciais boas notícias que resul- a um suicídio completado e a ideação e compor-
tam de semelhante tragédia. tamento suicida tem vindo a diminuir devido a
erros na designação a grupos de proximidade.
É possível que indivíduos de relativo baixo
3. ESTUDOS PRECEDENTES SOBRE O risco tenham exagerado a sua proximidade ao
COMPORTAMENTO SUICIDA IMITATIVO suicídio, enfraquecendo assim os efeitos aparen-
NOS ADOLESCENTES temente nocivos da exposição de dados a um
grupo de indivíduos de baixo risco. As diferen-
Certos adolescentes podem ser mais susceptí- ças aparentes no efeito de proximidade, a ten-
veis do que outros de ter um comportamento sui- tativa de suicídio e suicídio completado dão ori-
cida imitativo (Davidson & Gould, 1989). Brent gem a investigação posterior.
et al. (1989) descobriram que os estudantes que A relação de amizade com um potencial suici-
adquirem tendências suicidas depois de suicídios da ou um suicida efectivo acrescentou uma com-
de dois colegas estudantes, tinham mais hipóte- ponente significativa ao risco de assumir um
ses de ter passado por episódios anteriores de de- comportamento suicida imitativo (Hazell & Le-
pressão e tentativa de suicídio. Outros relatórios win, 1993).
anedóticos de grupos suicidas indicavam que in- Assim sendo, é imprescíndivel determinar os
divíduos que têm tendências suicidas resultantes meios mais eficazes para identificar adolescentes
do suicídio de outros, apresentam um alto predo- em risco de assumir um comportamento suicida
mínio de factores de risco conhecidos no suicí- imitativo depois de um suicídio ou tentativa de
dio tais como depressão, abuso de substâncias, suicídio. Além disso, há a necessidade de deter-
distúrbios de personalidade, perdas recentes e minar as formas mais apropriadas de intervenção
problemas legais (Ward & Fox, 1977; Ashton & para com estes adolescentes.
Donnan, 1981; Robbins & Conroy, 1983).
Anteriores experiências de vida e factores de
personalidade podem também levar à identifica- 4. AVALIAÇÃO CLÍNICA
ção individual com o suicídio de uma maneira
patológica, aumentando assim a susceptibilidade A pós-intervenção é uma forma apropriada de
de imitação (Sacks & Eth, 1981). intervenção para com os adolescentes que estão
Em contraste, uma saúde emocional bem limi- em risco de assumir um comportamento suicida
tada e a capacidade de identificar e expressar imitativo após um suicídio, que tem como objec-
sentimentos, podem ser factores de protecção tivo reduzir o risco de comportamento suicida
para que um indivíduo se torne menos susceptí- imitativo (Brent et al., 1989; Hazell, 1991; Wen-
vel ao suicídio (Davidson & Gould, 1989). ckstern & Leenars, 1991). Embora alguns auto-
É possível que enquanto a proximidade à ten- res tenham descrito programas de pós-interven-
tativa de suicídio pode encorajar a imitação, a ção compreensíveis (Bozigar et al., 1989), tem
proximidade ao suicídio consumado pode inibir havido uma falta significativa de avaliação
o comportamento suicida em alguns indivíduos destas técnicas (Shaffer et al., 1988). A pós-in-
(Brent et al., 1992). Alternadamente, a maior as- tervenção pode ser um meio eficaz de prevenir
sociação entre uma forte proximidade à tentativa grupos suicidas originados pela imitação (Fabre
de suicídio e a consequente ideação e comporta- et al., 1987; Brent et al., 1989).
mento suicida pode dever-se a amizades do mes- Assim sendo, a pós-intervenção em adoles-
mo tipo. centes em risco de assumir um comportamento
Adolescentes com factores de risco para uma imitativo suicida é relevante porque esta pode
potencial ideação e comportamento suicidas, in- ser um meio muito mais eficaz de prevenir o sui-
cluindo passado histórico de ideação e/ou com- cídio do que outros programas de prevenção do
portamento suicida podem escolher-se mutua- suicídio global (Shaffer et al., 1988; Garland et
mente como amigos, aumentando assim a possi- al., 1989).
bilidade de os amigos de um adolescente suicida Assim, é necessário que um procedimento
apresentarem a presença desses factores. Além activo assegure que todos os adolescentes te-
disso, o grau de associação entre a proximidade nham hipóteses iguais de serem identificados

42
dentro da existência de um risco potencial (Rey- 5. METODOLOGIA
nolds, 1991).
Um procedimento para a identificação de Ao efectuar uma investigação sobre o efeito
adolescentes com ideação suicida, pode ser obti- de Werther numa população específica, foi nosso
do através de questionários. Nomeadamente o objectivo proceder a um levantamento de algu-
mas questões que julgamos pertinentes a esse
Suicidal Ideation Questionnaire (SIQ de Rey-
respeito. Dada a escassez de estudos, no nosso
nolds, 1987). contexto, que versem sobre a temática do efeito
O Suicidal Ideation Questionnaire (SIQ) é uti- de Werther, tratou-se de um estudo de carácter
lizado como meio para avaliar a ideação suicida exploratório.
em adolescentes e jovens adultos. Propusemo-nos, assim, elaborar uma metodo-
Este autor considera que a eficiência de qual- logia de investigação que, pretende saber se a
quer identificação, prevenção ou procedimentos proximidade a um amigo que tenha tentado o
de intervenção, deve ser baseada num método suicídio é um factor de risco significante na con-
científico e em resultados empíricos. sequente ideação suicida. Tendo em conta que
Os resultados do SIQ apoiam a eficácia clíni- certos adolescentes podem ser mais susceptíveis
ca deste tipo de procedimento para a identifica- do que outros de ter um comportamento suicida
imitativo (Davidson & Gould, 1989) é possível
ção de adolescentes em risco. Os adolescentes
que a proximidade a um amigo que tenha tentado
cujos resultados do questionário de Ideação Sui-
o suicídio encoraje a imitação (Brent et al.,
cida apontam o valor 41 como pontuação limite 1992).
ou acima desse valor devem ser tidos em conta No presente trabalho, a identificação dos ado-
para uma avaliação adicional como estando po- lescentes com ideação suicida através do Suici-
tencialmente em risco de suicídio (Reynolds, dal Ideation Questionnaire (SIQ de Reynolds,
1991). 1987) é apenas um procedimento que é proactivo
A avaliação adicional consiste numa entrevis- na procura de adolescentes em risco de assumir
ta semi-estruturada específica para a avaliação um comportamento suicida.
de comportamentos suicidas e factores de risco Esta investigação foi assim construída com a
em adolescentes. O Suicidal Behaviors Interview pretensão de contribuir para o esclarecimento da
(SBI de Reynolds, 1988, 1990) é a única entre- questão que se segue e que nos parece, actual-
mente, como uma das mais relevantes para o
vista para comportamentos suicidas, desenvolvi-
avanço do domínio:
da para utilizar com adolescentes e porque de-
«Será que os adolescentes que têm amigos
monstra características psicométricas adequadas, que tentaram o suicídio apresentam uma maior
este instrumento pode ser considerado como um ideação suicida do que os adolescentes que não
critério de medida para a determinação do esta- têm amigos que tentaram o suicídio?»
tuto de risco de suicídio em adolescentes. Uma investigação tem a ambição do conheci-
Níveis significativos de ideação suicida de- mento e da elaboração de quadros que permitam
vem ser considerados de natureza patológica e sintetizar e integrar os dados obtidos. À partida,
como um potencial distúrbio que pode compro- decidimos colocar esta grande hipótese prioritá-
meter o funcionamento eficiente do adolescente. ria (H):
Estes adolescentes devem ser avaliados no âm- H1 – Os adolescentes que têm amigos que
bito de outros problemas psicológicos. Do mes- tentaram o suicídio apresentam uma maior idea-
ção suicida do que os adolescentes que não têm
mo modo, porque a ideação suicida pode ser um
amigos que tentaram o suicídio.
percurssor que mais tarde originará comporta-
mentos suicidas mais graves, estes adolescentes
5.1. Instrumento
devem ser orientados por um profissional de mo-
do que seja assegurado que o risco de um com- Instrumento de avaliação traduzido para esta
portamento suicida não se venha a revelar e a de- investigação: SIQ (Suicidal Ideation Question-
senvolver (Reynolds, 1991). naire de Reynolds, 1987).

43
O SIQ (versão para o ensino secundário – 5.2. Procedimento
10.º, 11.º, 12.º anos) avalia um aspecto do com-
portamento suicida – a ideação suicida. É um A amostra para o presente estudo foi recolhida
no Núcleo de Estudos do Suicídio (NES) do
questionário auto-descritivo designado para ava-
Hospital de Santa Maria, através da aplicação di-
liar pensamentos sobre o suicídio em adolescen-
recta do questionário Suicidal Ideation Question-
tes. Este é um aspecto muito importante do sui-
naire (ver anexo), após ter sido feita a avaliação
cídio porque é uma das manifestações do poten- das qualidades métricas do instrumento utiliza-
cial risco de suicídio. do.
O SIQ consiste em 30 itens. Esta versão do Devido à peculiariedade do tema, efeito de
SIQ utiliza um formato de resposta de 7 pontos Werther, os adolescentes que protagonizaram
que avalia a frequência da ocorrência da ideação tentativa de suicídio, correspondem à Amostra
suicida. No formato de resposta, temos as se- A. A amostra experimental (Amostra B) para o
guintes categorias: «Nunca pensei nisto» (0), «Já presente estudo inclui adolescentes/estudantes
pensei nisto mas não no último mês» (1), «Uma que admitiram ter um amigo que tentou cometer
vez por mês» (2), «Algumas vezes por mês» (3), suicídio. Desta forma a proximidade a um amigo
«Uma vez por semana» (4), «Algumas vezes por que tenha tentado o suicídio seria um factor de
semana» (5), «Quase todos os dias» (6). risco significante na consequente ideação sui-
Para propósitos de pontuação, os itens são cida. Os sujeitos eram convocados telefonica-
pontuados de 0 a 6, numa direcção patológica, mente sendo posteriormente atendidos e inquiri-
sendo que uma pontuação alta indica a existência dos no NES num gabinete que foi facultado para
de cognições ocorrendo com uma regularidade esse fim.
A amostra de controlo (Amostra C) incidiu
significativa. A pontuação máxima no SIQ de 30
sobre os amigos da amostra experimental, mas
itens é de 180. Esta pontuação sugere que o exa-
que não têm conhecimento da tentativa de sui-
minador aprovou cada item (cognição) como cídio protagonizada pela Amostra A. A amostra
ocorrendo quase todos os dias. de controlo também foi convocada telefonica-
O SIQ poderá ser utilizado apropriadamente mente sendo posteriormente atendida e inquirida
em situações clínicas como uma medida de num gabinete do NES.
ideação suicida e como parte de uma bateria de A passagem do instrumento de pesquisa foi
testes clínicos para a avaliação geral de psicopa- feita individualmente para a amostra experi-
tologias. O SIQ também pode ser utilizado para mental e de controlo, tendo sido todas as dúvidas
uma avaliação inicial de adolescentes que, po- e informações fornecidas à medida que cada
tencialmente estão em risco de suicídio, e igual- um dos sujeitos ia preenchendo o questionário, e
mente em adolescentes que tentaram o suicídio. sempre que o requisitavam. A amostra experi-
Nesta última utilização, o SIQ pode servir como mental e a amostra de controlo são homogené-
uma medida de acompanhamento para a avalia- neas quanto ao número de indivíduos, sexo, ida-
ção de adolescentes em risco contínuo. de, escolaridade, estatuto socio-económico.
O SIQ também pode ser utilizado para a ava-
liação de programas de intervenção e prevenção 5.3. Caracterização da amostra
de larga escala, nomeadamente os implementa-
A amostra deste estudo é constituída por 100
dos em situações escolares. Escolas que reconhe-
sujeitos, 50 constituem o grupo experimental,
cem a existência de problemas de saúde mental são amigos de jovens que já tentaram o suicídio,
entre adolescentes e integram programas de in- os outros 50 constituem o grupo de controlo, são
tervenção e prevenção para o suicídio e proble- sujeitos cujos amigos nunca tentaram o suicídio.
mas de saúde mental, podem utilizar o SIQ como Os dois grupos são idênticos no que diz respeito
uma medida da eficácia do programa. Em situa- à distribuição por idade, sexo, escolaridade e es-
ções clínicas e na investigação, o SIQ é apropria- tatuto socio-económico. Tanto no grupo de con-
do como uma medida de avaliação dos resulta- trolo como no grupo experimental, a maioria dos
dos de tratamento clínico. sujeitos tem 18 anos de idade (60%), 18% tem

44
17 anos, 8% 16 anos e 14% 15 anos. Relativa- para que um indivíduo se torne menos suscep-
mente ao sexo, metade dos sujeitos são do sexo tível ao suicídio (Davidson & Gould, 1989).
feminino e a outra metade do sexo masculino. Hazell e Lewin (1993) defendem a necessida-
Relativamente à escolaridade, tanto no grupo ex- de de determinar os meios mais eficazes para
perimental como no grupo de controlo, a maioria identificar adolescentes em risco de assumir um
tem o 12.º ano (52%), 18% tem o 11.º ano e 30% comportamento suicida imitativo. Para mais, há
o 10.º ano. Em relação ao estatuto socio-econó- a necessidade de determinar as formas mais
mico todos os sujeitos são de estatuto socio-eco- apropriadas de intervenção para com estes ado-
nómico médio-baixo. lescentes.
Propusemo-nos, assim, no presente estudo
verificar se a proximidade a um amigo que tenha
6. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS tentado o suicídio é um prognóstico de peso na
consequente ideação suicida, na amostra estuda-
O objectivo principal desta investigação foi o da, verificando-se que esta condição era verídica,
de verificar se a proximidade a um amigo que te- os adolescentes que têm amigos que tentaram o
nha tentado o suicídio é um factor de risco suicídio apresentam uma maior ideação suicida
significante na consequente ideação suicida. do que os adolescentes que não têm amigos que
Este objectivo surgiu após a revisão de litera- tentaram o suicídio.
tura sobre o tema em questão e que permitiu que Para o levantamento desta hipótese contribuiu
se estabelecesse questões e hipóteses. a leitura de vários estudos (Kreitman et al.,
Kreitman et al. (1969) constataram que as 1969; Phillips, 1974; Sacks & Eth, 1981; Brent
pessoas propensas ao suicídio, escolhem, para et al., 1992; Hazell & Lewin, 1993). Antes de se
amigos, indivíduos também eles com tendências proceder ao teste da questão de investigação,
suicidas. efectuou-se uma estatística descritiva detalhada
Segundo Brent et al. (1992) a proximidade a às respostas dos dois grupos a cada item do
um amigo que tenha tentado o suicídio pode en- questionário. Para tal efectuou-se uma análise de
corajar a imitação. frequências, tendo-se calculado as percentagens
Assim, a proximidade a um amigo que tenha de respostas para cada item.
tentado o suicídio é um factor de risco signifi- De seguida, e com o objectivo de averiguar a
cante na consequente ideação e comportamento existência de diferenças na ideação suicida, entre
suicida. Assim, a maior associação entre uma o grupo que tem amigos que tentaram o suicídio
forte proximidade à tentativa de suicídio e a con- e o grupo que não tem amigos que tentaram o
sequente ideação e comportamento suicida, pode suicídio, efectuou-se o teste Mann-Whitney
dever-se a amizades do mesmo tipo (Hazell & (Teste Não Paramétrico). Esta análise foi efec-
Lewin, 1993). tuada não só para o total do questionário da idea-
Os referidos autores consideram que adoles- ção suicida, mas também para os 30 itens do
centes com factores de risco para uma potencial questionário.
ideação e comportamento suicida, podem esco- As indicações a nível da interpretação dos re-
lher-se mutuamente como amigos, aumentando sultados do questionário de ideação suicida
assim a possibilidade de os amigos de um ado- apontam o valor 41 como pontuação limite, que
lescente suicida apresentarem a presença desses pode ser utilizada para julgar a seriedade dos
factores. pensamentos suicidas. Tendo este valor como re-
Este aspecto da imitação, também conhecido ferência calculou-se para os dois grupos a per-
pelo efeito de Werther, parece surgir mais vin- centagem de sujeitos que têm um resultado igual
cado nos jovens, que tenderiam a uma identifi- ou superior a 41 e efectuou-se uma análise Qui-
cação patológica (Phillips, 1974; Sacks & Eth, Quadrado no sentido de averiguar a existência de
1981; Gould & Shaffer, 1986; Saraiva, 1991). uma diferença significativa no valor das percen-
Em contraste, uma saúde emocional bem limi- tagens dos dois grupos.
tada e a capacidade de identificar e expressar Na presente investigação foi confirmada a
sentimentos, podem ser factores de protecção hipótese de que a proximidade a um amigo que

45
tenha tentado o suicídio é um factor de acentua- vos de ideação suicida devem ser considerados
ção na consequente ideação suicida. de natureza patológica e como um potencial
Os resultados deste estudo indicaram a exis- distúrbio que pode comprometer o funciona-
tência de uma diferença significativa entre o gru- mento eficiente do adolescente. Estes adolescen-
po experimental e o grupo de controlo na idea- tes devem ser avaliados no âmbito de outros pro-
ção suicida no total do questionário. O grupo ex- blemas psicológicos.
perimental apresenta um valor de ideação suicida Do mesmo modo, porque a ideação suicida
significativamente mais elevado. pode ser um percursor que mais tarde originará
Os resultados deste estudo indicaram a exis- comportamentos suicidas mais graves, estes
tência de diferenças significativas entre os dois adolescentes devem ser orientados por um pro-
grupos em metade dos itens do SIQ: nos itens 1- fissional de modo que seja assegurado que o ris-
«Pensei que seria melhor não estar vivo»; 2- co de um comportamento suicida não se venha a
«Pensei em suicidar-me»; 5- «Pensei em pessoas revelar e a desenvolver.
a morrer»; 6- «Pensei na morte»; 11- «Pensei em Este autor considera que uma identificação
como as pessoas se sentiriam se me suicidasse»; activa de adolescentes em risco deve ser consi-
12- «Desejei estar morto/a»; 13- «Pensei em co- derada uma prioridade que tem como objectivo
mo seria fácil acabar com tudo»; 14- «Pensei que reduzir o nível epidémico de comportamentos
suicidar-me resolveria os meus problemas»; 17- suicidas entre os adolescentes. Assim, no presen-
«Desejei nunca ter nascido»; 20- «Pensei em sui- te estudo o Suicidal Ideation Questionnaire
cidar-me, mas não o fiz»; 21- «Pensei em sofrer (SIQ) consiste num procedimento para a identi-
um acidente grave»; 22- «Pensei que não valia a ficação de adolescentes com ideação suicida em
pena viver»; 23- «Pensei que a minha vida era risco de assumir um comportamento suicida.
má demais para continuar»; 27- «Pensei em ma- Alguns estudos citados por Reynolds (1991)
goar-me, mas não em suicidar-me»; 28- «Ques- consideram relevante uma identificação prévia
tionei-me se teria coragem para me suicidar». dos adolescentes em risco de assumir um com-
Nestes itens, em que se verificaram diferenças portamento suicida como uma componente im-
entre os dois grupos, constata-se que os valores portante para a prevenção do suicídio na adoles-
de ideação suicida no grupo experimental são cência (e.g., Garfinkel, 1986; Shaffer et al.,
significativamente superiores aos do grupo de 1988; Blumenthal, 1990).
controlo. De destacar as diferenças entre os dois Reynolds (1991) considera que qualquer pro-
grupos nos itens críticos: 2- «Pensei em suicidar- grama eficiente para a prevenção do comporta-
-me», e 13- «Pensei em como seria fácil acabar mento suicida terá que ser proactivo e focar-se
com tudo». De realçar ainda que o item em que nos adolescentes que estão em risco.
se verificou uma diferença maior entre os dois Os programas de pós-intervenção podem ser
grupos foi o item 6- «Pensei na morte». um meio eficaz de prevenir grupos suicidas ori-
Os resultados do Suicidal Ideation Question- ginados pela imitação (Fabre et al., 1987; Shaf-
naire (SIQ de Reynolds, 1987) apoiam a eficácia fer et al., 1988; Brent et al., 1989; Garland et al.,
clínica deste tipo de procedimento para a iden- 1989).
tificação de adolescentes em risco. Segundo as De acordo com os resultados do presente estu-
indicações a nível da interpretação dos resulta- do, poder-se-á dizer que a relação de amizade
dos do SIQ, um adolescente que totalize 41 ou com um potencial suicida constitui uma compo-
acima desse valor deve ser tido em conta para nente significativa ao risco de assumir um com-
uma avaliação adicional como estando potencial- portamento suicida imitativo.
mente em risco de suicídio. Tendo este valor co- Assim, tendo consciência da magnitude do
mo referência verificou-se que no grupo experi- problema do comportamento suicida imitativo
mental existe uma percentagem significativa- nos adolescentes será possível elaborar e imple-
mente superior de sujeitos com um score igual mentar estratégias de intervenção específicas
ou superior a 41, essa percentagem é de 26%, nos adolescentes em risco com o objectivo final
enquanto que no grupo de controlo a percenta- de prevenir indivíduos suicidas originados pela
gem é de 6%. imitação. É por isso nosso desejo que este traba-
Segundo Reynolds (1991) níveis significati- lho possa, de alguma forma, contribuir para lan-

46
çar novos reptos aos estudiosos do tema; é no Fox, J., Manitowabi, D., & Ward, J. (1984). An Indian
entanto nosso objectivo primordial, que este tra- community with a high suicide rate-5 years after.
balho possa servir para minimizar o risco de Canadian Journal of Psychiatry, 29, 425-427.
comportamento suicida imitativo. Garfinkel, B. D. (1986). School based prevention pro-
grams. Paper presented at the National Conference
on Prevention and Intervention in Youth Suicide,
Oakland, CA.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Garland, A., Shaffer, D., & Whittle, B. (1989). A na-
tional survey of school-based adolescent suicide
Ashton, J. R., & Donnan, S. (1981). Suicide by burning prevention programs. Journal of the American
as an epidemic phenomenon: An analysis of 82 Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 28,
deaths and inquests in England and Wales in 1978- 931-934.
1979. Psychological Medicine, 11, 735-739.
Gould, M., & Shaffer, D. (1986). The impact of suicide
Bandura, A. (1976). Lernen am modell. Klett: Stuttgart.
in television movies: evidence of imitation. New
Bandura, A. (1977). Self-efficacy: Towards a unifying
theory of behavioral change. Psychogical Review, England Journal of Medicine, 315, 690-694.
84, 191-215. Groffmann, K., Kroh-Puschel, E., & Wender, I. (1982).
Bandura, A. (1986). Social Foundation of Thought and A study of social information processing: some ex-
Action. A social cognitive theory. Englewood periments on imitation. In M. Irle (Ed.), Studies in
Cliffs, NJ: Prentice Hall. decision making: Social, psychological and social-
Baron, J., & Reiss, P. (1985a). Same time, next year: economic studies (pp. 195-234). New York: Sprin-
aggregate analysis of the mass media and violent ger.
behavior. American Sociological Review, 50, 347- Harbauer, H. (1978). Krisen der pubertãt und suizid.
-363. Medizinische Welt, 29, 1362-1364.
Blumenthal, S. (1990). Youth suicide: Risk factors, Hazell, P. (1991). Postvention after teenage suicide: An
assessment, and treatment of adolescent and young Australian experience. Journal of Adolescence,
adult suicidal patients. Psychiatry Clinical North 14, 335-342.
American, 13, 511-556. Hazell, P., & Lewin, T. (1993). An evaluation of post-
Bozigar, J. A., McQuiston, L., & Brent, D. A. (1989). vention following adolescent suicide. Suicide and
Postvention standards manual. Pittsburgh, PA: Life-Threatening Behavior, 23 (2), 101-109.
Western Psychiatric Institute and Clinic, Services
Jobes, D. A, Berman, A. L., O`Carroll, P. W., & East-
for Teenagers at Risk.
gard, S. (1996). The Kurt Cobain suicide crisis:
Brent, D. A., Kerr, M. M., Goldstein, C., Bozigar, J.,
Wartella, M., & Allan, M. J. (1989). An outbreak Perspective from research, public health and the
of suicide and suicidal behavior in a high school. news media. Suicide and Life-Threatening Beha-
Journal of the American Academy of Child and vior, 26 (3), 260-271.
Adolescent Psychiatry, 28, 918-924. Kessler, R., Downey, G., Milavsky, J., & Stipp, H.
Brent, D. A., Peiper, J., Moritz, G., Allman, C., Friend, (1988). Clustering of teenage suicides after televi-
A., Schweers, J., Roth, C., Balach, L., & Harring- sion news stories about suicides: A reconsideration.
ton, K. (1992). Psychiatric effects of exposure to American Journal of Psychiatry, 145, 1379-1383.
suicide among the friends and acquaintances of Kreitman, N., Smith, P., & Tan, E. (1969). Attempted
adolescent suicide victims. Journal of the Ameri- suicide in social networks. British Journals of
can Academy of Child and Adolescent Psychiatry, Preventive and Social Medicine, 23, 116-123.
31, 629-639. Matthews, V. (1968). Differential identification: An
Crawford, J., & Willis, J. (1966). Double suicide in psy- empirical note. Social Problems, 15, 376-383.
chiatric hospital patients. Bristish Journal of Psy- Phillips, D. (1974). The influence of suggestion on sui-
chiatry, 112, 1231-1235. cide: Substantive and theoretical implications of
Davidson, L., & Gould, M. (1989). Contagion as a risk the Werther effect. American Sociological Review,
factor for youth suicide. In US Department of
39, 340-354.
Health and Human Services Report of the Secre-
Phillips, D. (1985). The Werther effect. Suicide and,
tary`s Task Force on Youth Suicide. Vol. 2. Risk
factors for youth suicide (pp. 88-109). Washington, other forms of violence, are contagious. The Scien-
DC: US GPO. ces, 7/8, 32-39.
Doan, M. (1984). As «cluster suicides» take toll of te- Phillips, D. (1986). Natural experiments on the effects
enagers. US News & World Report, 12 November, of mass media violence on fatal aggression: Streng-
97, 49-50. ths and weaknesses of a new approach. In L. Ber-
Fabre, A. P., Moron, P., & Jarrige, A. (1987). Suicidal kowitz (Ed.), Advances in experimental social psy-
chain reactions among students at a high school. chology (Vol. 19, pp. 207-250). Orlando, FL: Aca-
Psychologie Medicale, 19, 675-676. demic Press.

47
Phillips, D. (1989). Recent advances in suicidology: Walsh, B., & Rosen, P. (1985). Self-mutilation and con-
The study of imitative suicide. In R. F. Diekstra, R. tagion: an empirical test. American Journal of
Maris, S. Platt, A. Schmidtke, & G. Sonneck Psychiatry, 142, 119-231.
(Eds.), Suicide and its prevention: The role of atti- Ward, J. A., & Fox, J. (1977). A suicide epidemic on an
tude and imitation (pp. 229-312). Leiden, The Ne- Indian reserve. Canadian Psychiatric Association
therlands: Brill. Journal, 22, 423-426.
Phillips, D., & Carstensen, L. (1986). Clustering of te- Wenckstern, S., & Leenars, A. (1991). Suicide post-
enage suicides after television news stories about vention: A case illustration in a secondary school.
suicide. New England Journal of Medicine, 315, In A. Leenars, & S. Wenckstern (Eds.), Suicide
685-689. prevention in schools (pp. 181-194). New York:
Rada, R. T., & James, W. (1982). Urethral insertion of Hemisphere.
foreign bodies. A report of contagious self-mutila-
tion in a maximum-security hospital. Archives of
General Psychiatry, 39, 423-429. RESUMO
Reynolds, W. (1987). Suicidal Ideation Questionnaire:
Professional manual. Odessa, FL: Psychological O formato do presente trabalho de investigação de-
Assessment Resources. corre da constatação comum na literatura sobre o
Reynolds, W. (1988). Suicidal behaviors interview. efeito de Werther de que, apesar do progresso metodo-
Odessa, Fla: Psychological Assessment Resources. lógico ter melhorado o nosso conhecimento sobre os
In press. efeitos de imitação, permanecem contraditórias e obs-
Reynolds, W. (1990). Development of a semi-structured curas as motivações e os esquemas mentais subjacen-
clinical interview for suicidal behaviors in adoles- tes.
cents. Psychological Assessment: Journal of Con- Propusemo-nos, assim, elaborar uma metodologia
sulting and Clinical Psychology, 2, 382-390. de investigação que, não se restringindo a uma pers-
Reynolds, W. (1991). A school-based procedure for the pectiva quantitativa, permitisse também a possibili-
identification of adolescents at risk for suicidal be- dade de uma apresentação sob uma faceta qualitativa
haviors. Family & Community Health, 14 (3), 64- do fenómeno efeito de Werther.
-75. Paralelamente ao problema e hipótese colocados
Robbins, D., & Conroy, R. (1983). A cluster of adoles- em particular, o intuito comum passou pelo levanta-
cent suicide attempts: Is suicide contagious? Jour- mento exploratório das características associadas ao
nal of Adolescent Health Care, 364, 253-255. acontecimento do efeito de Werther. Neste contexto,
Sacks, M., & Eth, S. (1981). Pathological identification foi possível abordar que a proximidade a um amigo
as a cause of suicide on an inpatient unit. Hospital que tenha tentado o suicídio pode eventualmente cons-
and Community Psychiatry, 32, 36-40. tituir um prognóstico de peso para a consequente
Saraiva, C. (1991). Antero de Quental: a propósito do ideação suicida.
centenário do suicídio do poeta açoreano. Psiquia- Particularmente, a nossa abordagem procura cum-
tria Clínica, 12 (1), 55-64. prir o objectivo de que a proximidade a um amigo que
Schmidtke, A., & Hafner, H. (1988). The Werther effect tenha tentado o suicídio pode encorajar a imitação em
after television films: New evidence for an old hy- adolescentes.
pothesis. Psychological Medicine, 18 (3), 665- Assim tendo consciência da magnitude do proble-
-676. ma do comportamento suicida imitativo nos adoles-
Shaffer, D. (1985). Suicide and depression in children centes será possível elaborar e implementar estratégias
and adolescents. Paper presented at the WPA Sym- de intervenção específicas nos indivíduos em risco
posium «The future of Epidemiology», Edinburgh, com o objectivo final de prevenir grupos suicidas
1985. originados pela imitação.
Shaffer, D., Garland, A., Gould, M., Fisher, P., & Palavras-chave: Efeito de Werther, adolescentes,
Trautman, P. (1988). Preventing teenage suicide: A ideação suicida.
critical review. Journal of the American Academy
Child and Adolescent Psychiatry, 27, 675-687.
Stack, S. (1987a). Celebrities and suicide: A taxonomy ABSTRACT
and analysis. American Sociological Review, 52,
401-412. The format of the present study lies in the common
Stack, S. (1990c). A reanalysis of the impact of nonce- assumption of the Werther effect in the literature, that
lebrity suicides. Social Psychiatry and Psychiatric is, despite the fact that the improvement of the metho-
Epidemiology, 25, 269-273. dological progress has improved our knowledge on the
Taylor, P. (1984). Cluster phenomenon of young sui- effects of imitation, the mental schemes and motiva-
cides raises contagion theory. Washington Post 11 tions underlying this process remain contradicting
March, A 3. and obscure.

48
Thus, we intend to develop an investigation me- Our approach particularly seeks to achieve the
thodology which doesn´t focus only on the quantitative purpose that the proximity to a friend who tried to
perspective, but that will also allow the possibility of a commit suicide may encourage the imitation in ado-
presentation that lies in the qualitative aspect of the
Werther effect phenomenon. lescents.
The problem and the hypothesis which were parti- Thus, by being aware of the magnitude of the imi-
cularly placed in parallel were elaborated through the tation suicidal behaviour in adolescents one will be
investigation of the characteristics associated with able to elaborate and implement strategies in indivi-
the Werther effect. duals at risk, with the final aim of preventing suicidal
In this context, it was possible to make an approach
in the sense that the proximity of a friend who commi- groups generated by imitation.
ted suicide can eventually account for a most likely Key words: Werther effect, adolescents, suicidal
prognosis of the consequent suicidal ideation. ideation.

49
ANEXO

50
51