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REFLEXÕES SOBRE O MAGISTÉRIO: UM OLHAR ADORNIANO

Leônidas Melo Santos1 - UNICENTRO

Eixo – Filosofia e Educação


Agência Financiadora: CAPES2

Resumo

Este trabalho teve por objetivo levantar algumas reflexões sobre o magistério a partir do
pensamento de Theodor Adorno. Trata-se de uma revisão de literatura do autor em questão.
Embora Adorno não seja pedagogo, suas ideias ajudam a problematizar e compreender questões
específicas relativas à educação. Este intelectual possui um escrito de fundamental importância
sobre a profissão do professor, trata-se do texto Tabus acerca do magistério. Neste texto,
embora Adorno, expresse que o assunto em questão requer pesquisas com mais profundidade,
sua pretensão é refletir sobre os preconceitos psicológicos acerca da profissão do professor.
Assim, tabus são preconceitos psicológicos que perderam sua base real, mas que acabam
gerando consequências negativas sobre a realidade. Dessa maneira, Adorno faz um apelo à
psicanálise como uma forma de abordar com mais profundidade estes preconceitos psicológicos
sobre a docência. Os principais resultados dessa investigação, consistiram em uma
compreensão mais elaborada sobre a autoridade docente. No decorrer do trabalho, algumas
dimensões surgem brevemente: dentre elas, o desprezo latente ao professor da educação infantil
e dos anos iniciais; a autoridade docente, que é pouco reconhecida em comparação com outras
profissões; enfim, a própria concepção do professor representado por uma imagem
disciplinadora, que corresponde à educação adaptativa. Em suma, o ponto crucial que compõe
as considerações finais deste trabalho, é a compreensão de que o professor exerce sua
autoridade sobre cidadãos não-plenos: as crianças. Diferentemente da profissão de Soldado e
outras da jurisprudência, que possuem o poder coercitivo delegado pela sociedade, a autoridade
docente restringe-se aos muros da escola, seu poder somente parodia o poder verdadeiro,
exterior ao âmbito escolar.

Palavras-chave: Tabus. Autoridade. Docência.

Introdução

Este trabalho apresenta algumas reflexões sobre o magistério a partir do pensamento de


Theodor W. Adorno, um dos mais expressivos pensadores da corrente teórica conhecida

1
Mestrando em Educação. Aluno do Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual do Centro-Oeste. E-
mail: leonidas17@live.com.
2
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

ISSN 2176-1396
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popularmente como a Escola de Frankfurt, centro da Teoria Crítica da Sociedade. Este artigo
faz parte de uma pesquisa mais ampla, denominada como O ofício de professor: entre o artífice
e o artista: uma análise adorniana. Definido o referencial teórico utilizado – Teoria Crítica da
Sociedade –, uma das obras mais célebres deste meio intelectual é a Dialética do
Esclarecimento, de Max Horkheimer e Theodor Adorno (1985). Este livro constitui uma
profunda crítica sobre a racionalidade burguesa, que abandona seu propósito original de
emancipar os homens para aliar-se à lógica econômica. Assim acaba convertendo-se em um
instrumento de dominação.
O texto que abordamos de modo mais enfático neste trabalho é o Tabus acerca do
Magistério, escrito por Theodor Adorno. Este texto, encontra-se no livro Educação e
Emancipação, obra que foi resultado de um conjunto de conferencias radiofônicas, nas quais
Theodor Adorno participou junto à Hellmut Becker, na Rádio de Hessen. Em Tabus acerca do
Magistério, Adorno traz algumas questões centrais acerca dos preconceitos psicológicos que
envolvem o magistério. Neste artigo, nossa discussão centrou-se na questão da autoridade do
professor, que é diminuta quando comparada com outras profissões. Fato este, consequente de
alguns Tabus sobre a docência. Portanto, no objetivo é discutir, sob a luz do pensamento
adorniano, a origem destes preconceitos psicológicos.

Desenvolvimento

Há no âmbito social, as mais variadas situações que acabam por gerar uma grande
influência sobre as pessoas e seus pensamentos. São questões que pouco chamam a atenção,
mas que geram ao longo de sua existência um conjunto de consequências que acabam por nutrir
um resultado demasiado negativo. Como exemplo disso, é só refletirmos sobre os preconceitos,
os tabus e as crenças limitadoras; todas elas, não possuem uma base real, no entanto, são
absurdamente danosas.
Theodor Adorno apresenta suas reflexões, ao fazer uma investigação sobre estes
preconceitos e tabus no magistério, que de várias maneiras acabam por prejudicar o cotidiano
docente. Nesse caso especialmente, trata-se de uma análise no âmbito educacional, sobre a
atuação do professor, ou seja, o magistério. Adorno inicia suas reflexões esclarecendo o âmbito
específico na qual as controvérsias do texto se aplicarão. Trata-se de uma investigação acerca
dos preconceitos psicológicos acerca da docência, que acabam por causar danos reais ao
magistério (ADORNO, 1995).
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Essa forma de abordagem a respeito da complexidade que envolve à docência, ressalta


situações que estão além das dificuldades objetivas, ou seja, materiais, as quais, de certa forma
impedem o professor de desempenhar com maestria as funções do seu ofício. Essas
considerações abordam uma dimensão que transcende o aspecto material, ao adentrar aos
preconceitos psicológicos acerca do magistério, comumente ausentes nos debates acerca da
problemática sobre a docência.
Isto poderia representar simplesmente a “ponta do iceberg”, para algo que o próprio
Adorno ressaltou que seriam necessárias mais pesquisas sobre os problemas que ele apresenta
no seu texto.

O que irei expor constitui apenas a apresentação de um problema; nem é uma teoria
constituída, para o que não tenho legitimidade por não ser pedagogo, nem tampouco
o relato de resultados de investigações empíricas. Seria necessário acrescentar
pesquisas ao que apresento, sobretudo estudos de casos individuais, principalmente
em termos psicanalíticos (ADORNO, 1995, p. 97).

O apelo à psicanálise, expressa por Adorno, denota a profundidade que tal investigação
requer, já que o autor aponta que estas reflexões possuem mais o papel de apresentar um
problema, do que constituir uma teoria mais completa – necessária –, tal como a própria Teoria
da Semiformação. Cujo texto discute profundamente a formação cultural, seus aspectos e o
oposto desta, ou seja, a semiformação cultural (ADORNO, 2010). A Teoria da Semiformação
possui um aspecto teórico mais amplo e mais completo. Logo expondo essa necessidade de
mais investigações acerca deste tema, é enfática a observação de Adorno sobre a possibilidade
de encontrar elucidação na teoria psicanalítica. Haja visto que as motivações para a aversão ao
magistério, segundo Adorno (1995), situam-se numa dimensão subjetiva, especialmente no
inconsciente. Em razão disso, o termo utilizado almeja representar esta rejeição ao magistério
como uma prática originária numa forma de pensamento social que precisa ser elucidado.

Tabus significam, a meu ver, representações inconscientes ou pré-conscientes dos


eventuais candidatos ao magistério, mas também de outros, principalmente das
próprias crianças, que vinculam esta profissão como que a uma interdição psíquica
que a submete a dificuldades raramente esclarecidas (ADORNO, 1995, p 98).

Em concordância com Adorno (1995), os Tabus tratam-se, portanto, de uma série de


representações que abandonaram sua base real, mas que permanecem presentes sob a forma de
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preconceitos, que insistem em permear as representações acerca do magistério. Dessa forma,


acabam se convertendo em forças atuantes e regressivas à docência.
A proposta de Adorno neste texto, consiste em elucidar algumas dimensões em relação
à aversão a profissão do professor, o que requer desenvolver reflexões acerca do magistério,
mais especificamente, toda a prática docente em suas atividades profissionais cotidianas. A
partir desta análise é possível uma compreensão sobre as imagens e preconceitos que permeiam
o ofício docente (ADORNO, 1995).
Nessa continuidade, há uma questão crucial expresso por Adorno, que dá início a
questão da aversão em relação a profissão do professor, trata-se do desprezo que muitas pessoas
atribuem à possibilidade de seguir carreira como docente e, sobretudo, alguns acadêmicos e
futuros profissionais da educação que sentem uma certa insegurança em relação ao seu próprio
futuro profissional. Isto é consequência da existência de diversas situações que levam à falta de
atratividade pela profissão.

Permitam-me começar pela exposição da experiência inicial: justamente entre os


universitários formados mais talentosos que concluíram o exame oficial, constatei
uma forte repulsa frente aquilo a que são qualificados pelo exame oficial, e em relação
ao que se espera deles após este exame (ADORNO, 1995, p. 97).

Não é raro presenciar a ausência de interesse pelo magistério, que é uma das profissões
mais desprestigiadas em nosso meio social. Os motivos pela falta de interesse possuem várias
raízes, no entanto, alguma centrais podem ser discutidas. Dentre elas, a questão salarial, porém,
há a possibilidade de outras dimensões – até mesmo inconscientes – contribuírem para o
desprezo latente à docência.
Se por um lado há uma desvalorização do professor, por outro lado, há uma admiração
por áreas de atuação específicas. É possível observar a supremacia atribuídas às áreas
diretamente vinculadas à tecnologia, ou talvez, aos campos que envolvam conhecimentos
capazes de operar à natureza. Isso denota novamente a paixão desta sociedade pela operação,
pelo modo de domínio da realidade objetiva. Essa situação é discutida por Adorno e
Horkheimer (1985), no momento em que eles evidenciam o aspecto instrumental assumido pela
razão, na qual o saber não é mais tão relevante quanto a forma de operar sobre a natureza; para
eles, a operação é a essência do aspecto assumido pelo esclarecimento.
Adorno reflete muito bem essa aversão à docência, que tem bases objetivas, mas
também situações psicológicas, subjetivas, preconceitos em nível inconsciente ou pré-
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consciente. Adorno (1995) aponta que há desmotivações com origens matérias, que fazem parte
de um conjunto formado também por motivações aversivas sobre a docência.
Adorno cita um exemplo provocativo acerca da imagem da profissão do professor,
quando relata sobre a apresentação de docentes em anúncios matrimoniais, no qual, ao se
exporem, faziam alguma observação atenuante acerca de seu oficio.

Permitam fundamentar-me em alguns testemunhos triviais. A leitura de anúncios


matrimoniais nos jornais – bastante elucidativa – revela que em seus anúncios
professores ou professoras destacam que não são tipos professorais, que não são
mestres de escola. Praticamente nenhum anúncio proveniente de professor ou
professora deixava de conter ressalvas atenuantes (ADORNO, 1995, p. 95).

Além das ressalvas para justificar as falsas pechas que envolvem a imagem do professor,
citado nos anúncios matrimoniais, Adorno também faz considerações sobre os termos
degradantes que comumente são utilizados ao definir ou referir-se ao magistério e ao professor.

[...] além do alemão, também outras línguas apresentam uma serie de expressões
degradantes para o magistério; o mais conhecido em alemão é Pauker (quem ensina
com a palmatória como quem treina soldados a marchar pelas batidas nos tambores);
mais vulgar e também relacionado em alemão a instrumentos musicais é
Steisstrommler (quem malha o traseiro); em inglês, utiliza-se schoolmarm para
professoras solteironas, secas, mal-humoradas e ressentidas (ADORNO, 1995, p.
98/99).

Os termos mencionados por Adorno para refletir sobre as definições pejorativas acerca
do professor, ou mais especificamente o exercício de sua profissão, em momento algum
envolvem a mais simples ideia de educação enquanto prática emancipatória. Talvez, seja um
tabu muito grande na sociedade a própria concepção de que o papel do professor é ajustar, com
“palmatoria” se necessário – como sugere o termo Pauker – o animal homem à sociedade. Logo,
estas expressões são também tabus que permeiam o magistério como um todo, que aliás, é muito
presente no pensamento majoritário das pessoas. Ao trazermos essas considerações para uma
situação mais presente em nossa experiência cotidiana, veremos que isto é muito comum. Por
exemplo, o termo “tia de creche”, “professorinha” e outros que são utilizados com mais
frequência representam um contexto mais amplo do que o fato sugere. Assim, percebe-se que
na medida em que o professor está mais atrelado à infância, mais ele torna-se vítima dos tabus
sociais acerca de sua profissão. Não é novidade que a educação infantil é primordial para
formação do indivíduo; Theodor Adorno, em Educação e Emancipação – mais especificamente
no capítulo Educação – para quê?, – expressa sobre a relevância da primeira infância, como
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introdução da crítica e como forma de barrar os elementos antiformativos presentes no processo


educativo e na sociedade (ADORNO, 1995).
Essa ausência de consideração inerente ao trabalho do professor na educação infantil é
muito comum, e se dissolve conforme o docente vai atuando em outros níveis do ensino. No
outro extremo, o docente possui uma situação totalmente diferente, refiro-me ao ensino em
nível superior. Os docentes do ensino superior, diferentemente da educação infantil, gozam de
determinado prestígio.
Novamente, no que tange à autoridade do professor, os termos pejorativos usados para
designá-lo também carregam a ausência de uma qualidade especifica a qualquer atividade
profissional: a seriedade. Dessa maneira, tendo mais uma vez como exemplo a educação
infantil, na qual é mais frequente a desvalorização, é de se questionar se as expressões “tia”,
“professorinha” e outras, não carregam em si uma imagem de ausência de seriedade? Isso é
bem provável! Ainda mais se compararmos à outras profissões, as quais, são vistas através de
uma imagem de autoridade e de profissionalismo. É nesse aspecto que Adorno (1995, p. 99)
afirma que, “De uma maneira inequívoca, quando comparado com outras profissões acadêmicas
como advogado ou médico, pelo prisma social o magistério transmite um clima de falta de
seriedade”. O professor, conforme a percepção social, não estaria apto a desempenhar as
funções que lhe são atribuídas, está rodeado de uma falta de objetividade em suas atividades, o
que acaba por lhe conferir essa falta de consideração, que reflete não apenas na desvalorização
material da profissão, mas num certo desprezo presente no pensamento social.

Nesta medida, conforme a percepção vigente, o professor, embora sendo um


acadêmico, não seria socialmente capaz; quase poderíamos dizer: trata-se de alguém
que não é considerado um “senhor”, nos termos em que este termo é usado no novo
jargão alemão, aparentemente relacionado à alegada igualdade de oportunidades
educacionais (ADORNO, 1995, p. 99).

Separados por um contexto representado por extremos em relação à educação básica, o


professor universitário é uma exceção. Diferentemente do docente no nível inicial do ensino, o
professor universitário possui um indelével prestígio. Nesse sentido, para Adorno (1995, p. 99),
“numa complementariedade peculiar parece encontrar-se o inabalado prestígio do professor
universitário, apoiado inclusive em estatísticas”.
No entanto, há também algumas situações que permeiam as funções destinadas ao
professor universitário, que o diferem dos docentes da educação básica. O vínculo à pesquisa,
por exemplo; até mesmo as características dos alunos, que são majoritariamente adultos,
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diferente dos demais professores, que exercem seu domínio sob as crianças e adolescentes.
Portanto, “de um lado, o professor universitário como a profissão de maior prestigio; de outro,
o silencioso ódio em relação ao magistério de primeiro e segundo graus; uma ambivalência
como esta remete a algo mais profundo” (ADORNO, 1995, p. 102).
Adorno aponta que esse desprezo em relação ao professor possui raízes, cujas quais
exigem recorrer à história para se compreender. Segundo o autor, o professor é herdeiro do
Escriba, do Escrivão, cuja representação consiste numa figura subalterna, encarregada de copiar
textos e realizar atividades similares (ADORNO, 1995). Novamente, nesse exemplo, há a cisão
entre o poder e o conhecimento.

[...] Como já assinalei, o menosprezo de que é alvo tem raízes feudais e precisa ser
fundamentado a partir da Idade Média e do início do renascimento; como, por
exemplo, na “Canção dos Nibelungos”, onde se expressa o desprezo de Hagen, que
considera o capelão um débil, justamente aquele capelão que a seguir escaparia com
vida (ADORNO, 1995, p. 101).

Para Adorno, diferentemente do Escrivão, o qual desempenha funções de aspecto


intelectual, os cavaleiros feudais eram respeitados, sua formação também se constituía através
dos livros e outras leituras, no entanto, eram comumente oriundos da nobreza e sua atividade
lhe conferia notável respeito; noutra situação, há também a experiência antiga dos professores
como escravos (ADORNO, 1995). Nessa continuidade, faz-se referência à antiguidade clássica,
onde os escravos mais estudados – geralmente oriundos da Grécia – eram designados
professores. Aliás, como bem afirma Adorno (1995, p. 102), “o intelecto encontrava-se
separado da força física”.
O cavaleiro feudal possui uma peculiaridade distinta em relação aos escribas, eles são
parte dos que detém o verdadeiro poder, aquele que mesmo latente insiste em vir à tona nos
momentos extremos: a força física. O poder representado pela violência necessária, ou melhor,
legitimada. O cavaleiro feudal fazia parte da nobreza, garantia e defendia o feudo.

O menosprezo pelos professores que certamente existe na Alemanha e talvez nos


países anglo-saxônicos, ao menos na Inglaterra, poderia ser caracterizado como o
ressentimento do guerreiro que acaba se impondo ao conjunto da população pela via
de um mecanismo interminável de identificações (ADORNO, 1995, p. 102).

Acerca destas identificações, Adorno (1995), aponta que todas as crianças possuem uma
propensão a se identificar com “coisas de soldados”, a brincadeira com armas, a identificação
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com a personalidade, enfim, a admiração pela força física e o poder real capaz de coagir os
demais.
Portanto, esse processo de identificação traz à tona a admiração pelo poder baseado na
força, na autoridade sobre os homens. A situação dos professores a partir da abordagem
histórica, evidencia que na realidade eram escravos, o que apresenta a ruptura entre o
conhecimento e a força física. Os cavaleiros feudais adquiriam uma formação baseada em
leituras e estudos específicos, entretanto, seu oficio atrelava-se à nobreza. Havia, sobretudo, no
ofício do guerreiro, o compromisso de defender as terras e de lutar por mais riquezas. Já o
professor, é detentor do conhecimento, mas não goza de qualquer posição elevada; como no
caso do escriba – mencionando novamente a reflexão posta por Adorno – é mais um subalterno,
detentor do saber sem autoridade.
O desprezo pela docência ainda possui estas marcas do passado, representado sobretudo
pela mesma relação entre autoridade e conhecimento, o saber transmitido pelo docente não lhe
garante posição de autoridade real em nossa sociedade. Mais uma vez, ao fazer uso da força
física como exemplo de poder, é possível perceber outras profissões que possuem um profundo
respeito por conta desta vinculação à possibilidade de coerção da sociedade; nesse exemplo,
estão as profissões vinculadas à jurisprudência. Estas possuem o poder decisão sobre sociedade,
aliás, se necessário, podem direcionar o uso da coerção sobre as demais pessoas, que inclusive,
é um poder delegado pela própria sociedade.
Nesse contexto, Adorno faz considerações breves sobre esta ambivalência acera dos
homens estudados – que novamente retrata a cisão entre a autoridade e conhecimento –, ou seja,
um duplo sentimento, que pode fazê-los usufruir de vantagens, mas simultaneamente, também
de desvantagens. A etnologia, conforme Adorno, sabe que o cacique ou curandeiro, podem
usufruir de horarias ou podem, em determinadas situações, serem sacrificados. Quanto a este
tabu arcaico, esta ambivalência que se concentra nas profissões intelectuais, foram transferidas
aos docentes, ao mesmo passo em que determinadas profissões intelectuais ficaram livres delas.
“Os juristas e os médicos não se subordinam àquele tabu e são igualmente profissões
intelectuais” (ADORNO, 1995, p. 102).
O que difere essas profissões em relação ao professor, em concordância com Adorno
(1995), consiste suscintamente no fato de que são profissões hoje conhecidas como livres, ou
seja, “subordinam-se à disputa concorrencial; são providas de melhores oportunidades
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materiais, mas não são contidas e garantidas por uma hierarquia de servidor público, e por causa
dessa liberdade gozam de maior prestígio” (ADORNO, 1995, p. 102).
Como expressa Adorno (1995), o professor exerce aquela função comum a quem possui
o conhecimento, mas não possui a autoridade. Dessa forma, quem é menos dotado de saber
desenvolve um certo rancor sob as pessoas com muito estudo, sentem-se inferiores de algum
modo e não reconhecem nos docentes a autoridade típica de quem goza de uma alta posição
social.

[...] Movidos por rancor, os analfabetos consideram como sendo inferiores todas as
pessoas estudadas que se apresentam de alguma autoridade, desde que não sejam
providas de alta posição social ou do exercício de poder, como acontece no caso do
alto clero (ADORNO, 1995, p. 102).

Portanto, essa complexa visão do professor enquanto aquele que é vítima desta
ambivalência, consiste em que possui considerável autoridade, devido ao seu conhecimento e
suas funções intelectuais, no entanto, este não se destaca como outras profissões consideradas
livres, porque de alguma forma ou de outra, apesar de sua segurança e estabilidade, está
submetido à alguma forma de autoridade exterior à sala de aula. Além disso, as profissões livres
possuem a imagem condizente com a ideologia burguesa, são também profissões intelectuais,
mas possuem a possibilidade de envolver-se na ampla concorrência do mercado;
independentemente de estarem muitas vezes impregnados pela instabilidade típica deste mesmo
mercado em que são integrantes e a que concorrem.

Uma ruptura no próprio plano da burguesia, ao menos na pequena burguesia, entre os


que são livres e que ganham mais, embora sua renda não seja garantida e que gozam
de um certo ar de nobreza e ousadia, e por outro lado, os funcionários permanentes e
com pensão assegurada, invejados por causa de sua segurança, mas desprezados
enquanto se assemelham a verdadeiros animais de carga em escritórios e repartições,
com horários fixos e vida regrada pelo relógio de ponto (ADORNO, 1995, p. 103).

A autoridade do professor proveniente do seu conhecimento não assegura posição de


autoridade em seu meio social, diferentemente dos juristas, soldados e alguns outros. A estes,
é delegado o poder pela sociedade sobre esta mesma sociedade, ou seja, seu poderio se aplica
aos cidadãos em geral e não àqueles que não são cidadãos plenos, como as crianças. Enfim, no
caso do professor, sua autoridade é exercida sob as crianças (ADORNO, 1995).
Portanto, o poder exercido pelos professores está limitado ao interior dos muros que
separam a escola e sociedade, sua autoridade não transcende ao âmbito do ensino formal; fora
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deste, deve se submeter àqueles que realmente possuem o monopólio da autoridade. “O poder
do professor é execrado porque só parodia o poder verdadeiro, que é admirado” (ADORNO,
1995, p. 103).
Se por um lado o professor carece de autoridade, por outro, há uma relação inversa,
Adorno pontua que isto ocorre onde há uma vinculação do docente à autoridade religiosa. Para
Adorno (1995, p. 104), “o reverso dessa ambivalência é a adoração mágica dispensada aos
professores em alguns países, como outrora na China, e em alguns grupos, como entre os judeus
devotos”.
Portanto, esse caráter mágico da profissão do professor está presente de forma mais
intensa em lugares em que o magistério tem uma relação com a autoridade religiosa; logo, a
partir deste vínculo, a autoridade atribuída ao professor é mais comum, no entanto, no momento
em que se rompe essa vinculação religiosa ou “mágica” à docência, dissolve-se também a
autoridade docente (ADORNO, 1995).
O poder e a autoridade do professor estão presentes em um universo paralelo que é
representado pela escola e é exercido sobre as crianças. Além disso, a infância também é vítima
deste mesmo desprezo que recai sobre o docente. Talvez daí recorra o menosprezo mais
explícito ao magistério nos anos iniciais, mais especificamente na educação infantil. Ao
professor da educação infantil, a imagem que paira comumente sob uma pecha ideológica e
falaciosa, está mais atrelada a educação para adaptação, abordada em Teoria da Semiformação,
por Adorno. Na qual educação limita-se a ajustar os indivíduos à sociedade (ADORNO, 2010).
Curiosamente, a docência no ensino superior possui um considerável prestígio, mas ao mesmo
tempo, isto é decorrência maior do atrelamento à pesquisa e produção de conhecimento do que
a prática do ensino em sala de aula.

É digno de nota que os professores que gozam de maior prestigio na Alemanha, ou


seja, justamente os acadêmicos universitários, na prática muito raramente
desempenham funções disciplinares, e, ao menos de modo ideal e para a opinião
pública, são pesquisadores produtivos que não se fixam no plano pedagógico
aparentemente ilusório e secundário de acordo com a exposição anterior (1995, p.
104).

O professor universitário, diferentemente do professor da educação básica, tem uma


tarefa produtiva, ou seja, a de estar constantemente em busca de novos conhecimentos e novas
técnicas que de alguma forma venham a ter utilidade na sociedade. Sua missão é resultante de
uma demanda objetiva e material. Portanto, o aspecto pedagógico de atuação não é responsável
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por nenhuma regalia ou autoridade, o reconhecimento de sua atuação é fruto da sua imagem
enquanto pesquisador.
O professor na sociedade capitalista não possui diretamente uma função atrelada à
produção de riquezas materiais, ou também o compromisso com o desenvolvimento de
mecanismo que favoreçam a “operação”, cuja qual, é uma característica dessa sociedade
dominada pela racionalidade técnica, tal como expressam Adorno e Horkheimer (1985), na
Dialética do Esclarecimento. Portanto, não há de fato uma necessidade imediata, diretamente
vinculada à necessidade objetiva; o docente segundo esta lógica é improdutivo, tal como seus
pupilos. Logo, “O problema da inverdade imanente da pedagogia estaria em que o objeto do
trabalho é adequado aos seus destinatários, não constituindo um trabalho objetivo motivado
objetivamente” (ADORNO, 1995, p. 104).
Esta referência à pedagogia, traz à tona a preocupação fundamental desta área com a
didática, os métodos de ensino e afins; são elementos essenciais ao exercício do magistério.
Outras licenciaturas possuem uma ligação mais direta aos campos específicos do conhecimento,
diferentemente do pedagogo, cuja dedicação é exclusiva aos assuntos da educação de um modo
mais amplo. Além disso, seria necessário refletir acerca da situação do pedagogo em relação à
outras licenciaturas, se há um certo menosprezo deste por estar mais diretamente vinculado à
didática e metodologias de ensino.
Adorno traz uma consideração interessante, ao citar uma situação vivenciada pelo
filosofo alemão, Max Scheler, na qual o pensador reflete a não necessidade do encanto pelo
conhecimento, algo típico da prática pedagógica, o ato de seduzir os alunos a aprender. Por fim,
Adorno traz novamente um exemplo oriundo de sua experiência, em que conclui que há uma
intrínseca relação entre o sucesso profissional e a falta de compromisso com a ação de
influenciar, convencer os alunos (ADORNO, 1995).
A falta de compromisso com a organização didática alimentada pela necessidade de se
encontrar meios para bem ensinar os conteúdos não é algo tão valorizado no êxito do professor
universitário, ademais, seu profundo interesse é mais voltado à produção de novos
conhecimentos. Quem contempla sua aula, auxiliado ou não pela metodologia do professor,
deve realizar todos o esforço intelectual para compreender as reflexões de seu mestre. Adorno
pontua uma situação interessante e extremamente atual, no momento em que ele considera o
exemplo americano, na qual o conhecimento converte-se em um valor, assim, deve
necessariamente converter-se em regalias materiais.
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Nota-se também uma certa mudança estrutural na relação com o docente universitário.
Tal como ocorre nos Estados Unidos, onde processos como este acontecem de modo
mais drásticos do que na Alemanha, o professor se converte lenta, mas
inexoravelmente, em vendedor de conhecimentos, despertando até compaixão por não
conseguir aproveitar melhor seus conhecimentos em benefício de sua situação
material (ADORNO, 1995, p. 105).

Assim, conforme Adorno neste trecho de sua obra, o professor converte-se em um


vendedor de conhecimentos. Seu exemplo, traz a experiência americana, no qual o sucesso de
seu trabalho, fruto dos seus saberes, tem como consequência a retribuição material.
Adorno observa que essa imagem do professor – vendedor de conhecimento – em
relação a visão do professor como um Deus – resultante vinculação da docência à religiosidade
– representa até um certo avanço ao esclarecimento, no entanto, “[...] uma racionalidade
estratégica nesses termos reduz o intelecto a mero valor de troca, o que é tão problemático como
o é qualquer progresso do seio do existente” (ADORNO, 1995, p. 105). O conhecimento não
pode ser reduzido à mera mercadoria e o esclarecimento, por sua vez, não depende
simplesmente da absorção de saberes diversos; isto, talvez se aproxime mais da formação
baseada na informação – o que massivo na atualidade –, contrária à uma formação capaz de
fomentar o desenvolvimento da autonomia, da consciência e da autorreflexão crítica; são esses
os elementos que pressupõem a formação cultural.
Portanto, Adorno aborda como um dos principais tabus acerca do magistério, o fato da
imagem do professor estar vinculado à disciplina, sobretudo, uma função disciplinadora que é
exercida logo na infância. Portanto, a autoridade docente, diferentemente de outras profissões,
se aplica sobre crianças. O professor, enquanto intelectual, possui um saber isento de poder e
autoridade; seguindo a abordagem histórica colocada por Adorno, o professor é herdeiro do
escriba, um subalterno com funções intelectuais, embora possua notório saber, continua um
subalterno.

Considerações Finais

Este texto teve por objetivo fazer uma abordagem teórica a respeito do magistério dentro
pensamento de Theodor Adorno. O frankfurtiano discute acerca dos preconceitos psicológicos
existentes acerca da docência, os quais, não possuem uma razão real para existirem, no entanto,
acabam por gerar consequências negativas na realidade profissional do professor. Assim, o
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tema aqui investigado possui uma complexidade que exige mais aprofundamento, porém, foi
possível compreender um pouco mais acerca de um “Tabu” específico acerca do professor: a
autoridade.
O professor é um profissional que possui uma relativa autoridade, oriunda do saber, do
conhecimento, porém, essa autoridade docente é exercida sobre aqueles que ainda não são
cidadãos plenos, ou seja, as crianças. As profissões prestigiadas, como Advogados, Soldados e
outras, são também profissões intelectuais, mas que possuem um poder frente a sociedade, que
é, inclusive, delegado por esta mesma sociedade. Outro elemento relevante, é que o professor
não se encaixa no mesmo modelo das profissões livres, pois, estas submetem-se com frequência
à grande concorrência do mercado, já o professor, embora seu ofício lhe traga uma relativa
estabilidade, sempre está submetido às exigências superiores: órgãos públicos, sistema
educacional e etc.
Além destas considerações, finalmente chegamos a um fato bastante importante, ou seja,
que a profissão docente ainda permanece atrelado à ideia de “adaptador social”, aquele que
pune crianças, ou seja, o mais fraco. Aquele que domestica o animal homem para adaptá-lo à
sociedade. No fim, o que prevalece é a educação adaptativa, que é semiformativa, tal como
elucidou Adorno (2010), em Teoria da Semiformação. O que deveria ocorrer é a construção de
uma sociedade emancipada a partir de uma educação emancipatória. Mas o que persiste é uma
sociedade que se constrói mediante a força física e a coerção. Talvez, em um mundo com
pessoas emancipadas, o docente tivesse o mesmo respeito e autoridade que possuem as
profissões capazes de controlar a sociedade mediante a coerção.
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REFERÊNCIAS

ADORNO, T. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

ADORNO, T. Teoria da Semiformação. In: PUCCI, B; ZUIN, A. A; LASTÓRIA, L. A. C. N.


Teoria Crítica e Inconformismo: novas perspectivas de pesquisa. Campinas, SP: Autores
Associados, 2010.

ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


1985.