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Explicando minha depressão para minha mãe: Uma conversa

Sabrina Benaim

Mãe, minha depressão é um metamorfo. Um dia Minha mãe me diz: “Tente contar ovelhas”. Mas
ela é tão pequena quanto um vagalume na pata de minha mente só consegue contar razões para eu
um urso, e no próximo dia é o urso. E nestes dias ficar acordada. Então eu saio para caminhar. Mas
eu me finjo de morta até que o urso me deixe meus joelhos disfêmicos fazem “clack” como
sozinha. colheres de prata, seguradas em braços fortes com
pulsos frouxos. Eles tocam na minha cabeça como
Eu chamo os dias ruins de dias negros. Minha mãe desajeitados sinos de igreja. Me lembrando que eu
me diz: “tente acender velas”. Quando eu vejo estou sonambulando num oceano de felicidade
uma vela eu vejo o brilho de uma igreja, a que não posso me batizar nele.
tremulação de uma chama, as faíscas de uma
memória mais jovem que o meio dia. Eu estou de Minha mãe me diz que: “ser feliz é uma decisão. ”
pé ao lado de seu caixão aberto. É o momento em Mas minha felicidade é tão vazia quanto um ovo
que eu aprendo que cada pessoa que eu já conheci furado por uma taxinha. Minha felicidade é uma
irá algum dia morrer. Além disso, mãe, eu não febre fervente que vai estourar.
estou com medo do escuro, talvez isto seja parte
do problema. Minha mãe me diz que: “eu sou tão boa em fazer
algo do nada, e depois na cara dura me pergunta
Minha mãe me diz: “eu acho que o problema é “se eu tenho medo de morrer? ”. Não, eu tenho
que você não consegue sair da cama. ” Eu não medo é de viver.
consigo. A ansiedade me mantem refém dentro de
minha casa, dentro de minha cabeça. Mãe, eu estou sozinha. Eu acho que eu aprendi,
quando o papai foi embora, a transformar a raiva
Minha mãe me diz: “de onde a ansiedade vem? ” em solidão e a solidão em ocupação. Então,
Ansiedade é o primo de fora da cidade fazendo quando eu te digo que eu tenho estado super
uma visita, que a depressão se sentiu obrigada a ocupada ultimamente, eu quero dizer que ando
levar para a festa. Mãe, eu sou a festa. Só que sou caindo no sono assistindo o noticiário esportivo no
uma festa que eu não quero ser. sofá para evitar confrontar o espaço vazio na
minha cama.
Minha mãe me diz: “por que você não tenta ir a
festas de verdade e ver seus amigos? ” Claro, eu Mas minha depressão sempre me arrasta de volta
faço planos. Eu faço planos, mas eu não quero ir. para minha cama, até que meus ossos sejam os
Eu faço planos porque eu sei que eu deveria fosseis esquecidos de uma cidade esquelética
querer ir. Eu sei que algumas vezes eu gostaria de afundada, minha boca um cemitério de dentes
ter ido, é que, simplesmente não é muito legal se quebrados de tanto morder a si mesmos.
divertir, quando você não quer se divertir, mãe.
O auditório vazio de meu peito desmaia com ecos
Sabe, mãe, toda noite a insônia me pega em seus de batidas do coração. Mas eu sou uma turista
braços, e me larga na cozinha no tênue brilho da descuidada aqui, eu nunca vou verdadeiramente
luz do fogão. A insônia tem esse jeito romântico saber todos os lugares que eu estive.
de fazer a lua parecer uma perfeita companhia.
A minha mãe ainda não entende. Mãe, você não
consegue perceber… que eu também não?