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31/05/2018 Quem é a nova direita?

– Agência Pública

Agência de Jornalismo Investigativo


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CASA PÚBLICA

Quem é a nova direita?


Em entrevista com participação do público, Adriano Codato explica o
que se sabe sobre uma das questões mais importantes do momento

2 de Maio de 2016 Redação

Em meio à frente fria que espantou o calor do Rio de Janeiro, a Casa Pública
sediou no último sábado (30) a conversa sobre “A Nova Roupa da Direita”.
Marina Amaral, codiretora da Pública, conduziu a entrevista ao vivo com o
professor de ciência política da Universidade Federal do Paraná Adriano
Codato, que tem estudado os partidos de direita no Brasil.

O evento foi inspirado na primeira reportagem financiada por leitores da


Pública que participaram do projeto crowdfunding Reportagem Pública (leia a
reportagem aqui). Com a casa cheia e grande interação da plateia, as perguntas
da terceira Conversa Pública do ano focaram a tentativa de entender esse
fenômeno político brasileiro que se revelou nos últimos anos, quando
movimentos de direita começaram a tomar as ruas, e suas repercussões.

Leia aqui alguns trechos da entrevista:

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A Casa Pública ficou lotada para a conversa entre Marina Amaral e Adriano Codato

Marina Amaral: Por que foi tão difícil formular uma teoria dessa ida
da direita às ruas? Até que ponto você acha que a academia foi
surpreendida?

Adriano Codato: Todos os agentes políticos foram surpreendidos desde junho


de 2013, com as ondas sucessivas de protestos. Claro, há muita teoria sobre
movimentos sociais. Mas movimento social é quase que sinônimo de movimento
social de protesto antissistema ou protesto de esquerda. Movimento social de
direita havia nos anos 1930, com o nazismo e o fascismo; no Brasil, movimento
social de direita, o último grande, foi a Marcha da Família com Deus pela
Liberdade, às vésperas do golpe militar. O conservantismo brasileiro delegou
para alguns partidos políticos a representação de seus interesses e valores. Só
que como há uma fratura muito grande entre as pessoas comuns e o mundo da
política – os partidos, os representantes – as pessoas de fato indignadas com
uma série de coisas, principalmente com a corrupção, foram para as ruas.

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Marina Amaral: Quer dizer, você acredita que a mola foi a corrupção
mesmo? Não foi um pretexto, como a esquerda acredita?

Adriano Codato: Há uma ideia que unifica esses movimentos, que é a


anticorrupção, muito mais que o anticomunismo ou esses inimigos mais
elaborados. Quando a gente fala em direita e esquerda, essas são categorias
bastante sofisticadas. As pessoas não assumem doutrinas e vão para rua
defender uma doutrina. As pessoas vão à rua porque têm uma compreensão –
fragmentada, pouco organizada – do que está acontecendo e ficam indignadas.
Esse fenômeno de ruptura das pessoas com o mundo da política é mundial,
acontece em todas as democracias. Sondagens sobre como funciona o sistema
político nos Estados Unidos mostram que 10% das pessoas estão satisfeitos.
Sondagens na França mostram que menos de 20% das pessoas acreditam em
políticos. No Brasil, 5% das pessoas acreditam em partidos políticos. Hoje os
parlamentares gostam de dizer que a Dilma tem 10% de popularidade, mas a
pesquisa da Fundação Getulio Vargas em 2015 mostrou que a popularidade, a
legitimidade do Congresso Nacional, é de 15%. Então, eles não estão assim
muito bem, né?

Se existe uma narrativa que unifica todo mundo, é a anticorrupção. E aí eu


queria propor duas ideias para a gente discutir. Primeira: o PT [Partido dos
Trabalhadores] não é toda a esquerda. E nem todo mundo que está na rua é
fascista. Existem grupos de extrema direita, de direita, organizados, existem
grupos que se aproveitam, existem skinheads, saudosos da ditadura militar,
enfim, é um conjunto muito grande de agentes que a gente, pra efeito de
explicação, reúne nesse rótulo “direita” ou “nova direita”. Nós nem sabemos
ainda se essa é uma direita nova, se ela apareceu ou se ela cresceu. A gente não
sabe isso. Se ela estava no armário e de repente ela saiu. Ou se foi o antipetismo
que a inventou.

Marina Amaral: Uma coisa que surpreendeu muito foi que só depois,
na segunda eleição da Dilma, é que começou a aparecer, pelo menos
de modo massivo, essa história de que o PT era comunista, que
queria implantar a ditadura bolivariana, o Foro de São Paulo… Por
que você acha que de repente, no fim do terceiro governo do PT na
Presidência, apareceu esse fantasma do comunismo?
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Adriano Codato: Eu suspeito que esse fantasma do comunismo seja, na


verdade, uma ideia que empolga e organiza pouca gente no meio desses
milhares de pessoas que vão às ruas nas cidades. Eu acho que o que move essas
pessoas é essa ideia de anticorrupção, a ideia de que somente o PT é corrupto, e
isso tem a ver com o fato de que as pessoas identificam no Brasil o governo com
o governo federal. Na pesquisa que a Folha fez em São Paulo durante a crise
hídrica, quando aos paulistas era perguntado de quem era a culpa da falta de
água em São Paulo, era da Dilma. Por quê? A culpa é do governo. E o governo no
Brasil é o governo federal.

É preciso lembrar que, quando a Dilma foi eleita em 2010, o PIB no país cresceu
7,5%. Era um movimento de empolgação, de satisfação muito grande. O Brasil
estava crescendo, tinha o dinheiro das commodities, uma inflação controlada.
Até 2012, as contas públicas estavam absolutamente equacionadas, a dívida
pública, o crescimento do PIB, a inflação. Tudo equacionado. E a crise
econômica de fato vai empurrando as pessoas para a oposição.

Marina Amaral: Mas, ainda assim, essa polarização ganhou uma


cara bem específica, porque, embora você diga que nem todo mundo
é fascista, o Bolsonaro virou um ícone e era um deputado
praticamente desconhecido. Você acha que teve algum tipo de
trabalho de mídia, de grupos, ou isso veio espontâneo?

Adriano Codato: Acho que vieram aí duas coisas. Primeiro, a grande


imprensa organizou uma história com começo, meio e fim, em que o vilão é o
PT. Em política, é preciso que as ideias sejam muito simplificadas. Um sistema
tributário complexo é reduzido ao pato da Fiesp. A corrupção sistêmica dos
contratos entre o Estado brasileiro e as empreiteiras é reduzido ao boneco do
pixuleco. É preciso ideias-força que aglutinem as pessoas e as empolguem.
Porque as pessoas têm uma mentalidade muito difusa sobre o que é direita e
esquerda e o que exatamente elas querem. Então, a grande imprensa organizou
essa história e deu a posição de vilão ao PT. É muito mais simples a gente
compreender a política na chave do amigo/inimigo e a política como uma novela
em que há mocinhos e bandidos. Isso de um lado. De outro lado, é para assustar
mesmo o fato de o Bolsonaro [PSC-RJ] estar com 8% de intenção de votos. É
para assustar mesmo o fato de o Bolsonaro, nos estratos mais ricos e mais
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educados, ter 25% da intenção de voto. E essa figura política representa uma
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nova cara da velha direita, que é a direita da ditadura militar, agora


modernizada graças aos memes do Facebook e toda essa pátina tecnológica. Aí
vem o anticomunismo, mas vêm também todos esses valores que vão grudando
nessa nova direita, que é o racismo, o sexismo, o machismo, a questão da
maioridade penal… Bolsonaro é um fenômeno a ser explicado ainda.

Marina Amaral: Professor, você falou que estuda a direita


institucional, a direita dos partidos. Que evolução houve na direita
institucional?

Adriano Codato: Pois é, algumas lições a gente pode tirar da votação de


domingo, da admissibilidade do relatório do impeachment na Câmara dos
Deputados. A primeira lição é que não é preciso voto distrital porque cada
deputado representa um distrito muito específico. A segunda lição é que existe
ideologia, sim, na política brasileira, não é só fisiologia. A votação mostrou que o
governo tem 137 votos. Nós fomos fazer um estudo sobre os programas dos
partidos políticos, os manifestos partidários. Estamos usando uma metodologia
que é utilizada num projeto que chama Projeto de Comparação de Manifestos de
Partidos, que tem uma base de dados de mais de 1.500 manifestos no mundo
todo. Utilizando essa metodologia, a gente põe um software para ler os
programas dos partidos e isola algumas ideias determinadas dos partidos
políticos. Os programas são muito diferentes entre si.

A gente pode pensar que o universo político é dividido em dois eixos para
facilitar. Ideias sobre economia e ideias sobre comportamentos. Em ideias sobre
economia, partidos, movimentos e pessoas podem ser a favor do
intervencionismo do Estado ou de uma economia mais liberal. Do lado do
comportamento, pessoas podem ser liberais, progressistas, a favor dos direitos
como aborto, legalização de drogas etc., ou elas podem ser conservadoras em
termos morais. Há uma combinação muito complexa aí porque há partidos que
são estatistas e conservadores. A nova direita brasileira, esses micropartidos,
partidos evangélicos, são muito assim. Por exemplo, o PSD [Partido Social
Democrático] do Gilberto Kassab, é um partido que em seu programa aceita –
de forma oportunista ou não, de forma eleitoral ou não – as conquistas sociais.
Diferentemente do DEM [Democratas], que inclusive entrou no Supremo contra
as cotas. Há uma direita que é liberal em direitos econômicos e liberal em
374 de costumes. Por exemplo, o Partido Novo.
termos
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s redes sociais – da revolta “pop” ao
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campanha eleitoral

Marina Amaral: Aliás, o Partido Novo quem organizou foi o Juliano


Torres, que é o mesmo que organizou o Movimento Brasil Livre no
Brasil. O interessante nisso, pra mim que sou jornalista, é que você
investiga o caminho do dinheiro. Porque o MBL foi bancado com
dinheiro de uma entidade chamada Students for Liberty, que era
uma entidade que recebia dinheiro de todas as fundações de direita
liberal americana. Daí a gente vê que esse mesmo grupo está criando
o Partido Novo.

Adriano Codato: No outro quadrante tem uma turma, um tipo de partido que
é conservador em termos morais e liberal na economia. Por exemplo, o DEM.
Ele integrou a aliança com o PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira] no
governo Fernando Henrique, o seu programa fala de valores liberais,
prosperidade, livre iniciativa, empreendedorismo etc. E tudo isso é muito
diferente em cada partido que a gente pega. Mas a gente consegue aglutinar, por
exemplo, num lado que é estatista e conservador, os partidos evangélicos. Você
tem liberais em economia e liberais no comportamento.
374
Marina
S HA RES Amaral: Que é o PSDB?
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Adriano Codato: Então, não conseguimos ainda classificar o PSDB, porque a


gente ainda não fez o trabalho. O PSDB está mais, se a gente acompanhar as
votações desde 2013, está totalmente do lado da oposição e mais para a direita,
mas menos que o DEM. Agora, o PP [Partido Progressista], do Paulo Maluf, está
mais para a direita, mas mais perto do governo nas votações. Essa é outra
maneira de pensar as posições dos partidos, pelos seus comportamentos nas
votações. O difícil de fazer isso é que muito poucas votações são nominais, como
a que a gente viu domingo, em que o sujeito responde sim ou não
individualmente.

Carolina Durão: O que me assusta um pouco com o aumento da


bancada evangélica e com a capacidade de mobilização que eles têm
é que acho que isso não passa por um momento da internet; ao
contrário, acho que passa por um trabalho de base nas periferias. A
direita evangélica substituiu a esquerda nas comunidades e
periferias?

Adriano Codato: O que as pessoas que estão estudando a bancada evangélica


dizem é que sim. Esse tipo de direita, ou essa vertente da direita, que está nesses
novos partidos de direita que são ao mesmo tempo estatistas e conservadores,
não passa por esse mundo de internet. Nesse mundo de internet, que é muito
radicalizado, aí são esses valores de anticomunismo, direita militar, aí que isso
aparece. Mas também aparece o negócio da anticorrupção.

Marina Amaral: A gente teve aquele espetáculo esclarecedor que foi


a votação do impeachment, o fato de a gente conseguir ver a cara de
todas aquelas pessoas. Se o movimento da direita que estava na rua
era basicamente ligado à corrupção, ao se revelar que muitos dos
deputados que votaram eram corruptos, por que isso não fez refluir
o movimento pelo impeachment?

Adriano Codato: Algumas racionalizações dizem o seguinte: primeiro tiramos


o PT e depois o Eduardo Cunha. Então, o Eduardo Cunha serve como
instrumento, que era inclusive a ideia do PSDB. O PSDB imaginava que ia reinar
depois que o PT saísse e agora ele é uma força auxiliar menor do PMDB [Partido
do Movimento Democrático Brasileiro]. Porque colou tanto a imagem e o fato da
corrupção
374 no PT que essas altas camadas médias que tiveram seu imaginário
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organizado pelas mídias identificam imediatamente o PT com corrupção. E aí é


preciso hierarquizar estrategicamente os inimigos. Tanto é que a comemoração
no domingo foi bastante tímida, não é? No dia seguinte, as pessoas estavam um
pouco envergonhadas de ter como aliados aquela massa parlamentar.

Vitor: Há uma associação entre esquerda e corrupção ou é mais uma


tendência partidária, do PT e a corrupção, ou do PMDB e a
corrupção?

Adriano Codato: Um colega de São Paulo fez duas rodadas de perguntas na


manifestação de abril de 2015 e na manifestação de agosto de 2015, e aí, na
percepção das pessoas, 92% achavam que a Dilma era corrupta. 77% achavam
que o Haddad era corrupto. 45% achavam que o Alckmin era corrupto. Há uma
identificação de política e corrupção e depois uma identificação do PT com a
corrupção. Muito também porque é difícil descolar a esquerda que não é petista.
No momento atual, as pessoas não têm uma percepção de que o PT é diferente
do PSOL [Partido Socialismo e Liberdade], que é diferente do PSTU [Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado], que é diferente do PCO [Partido da
Causa Operária] e que é diferente do PC do B [Partido Comunista do Brasil] .

Marina Amaral: A direita liberal se beneficia da percepção da


corrupção?

Adriano Codato: Acho que a direita liberal se beneficia da percepção e da


realidade de que o Estado brasileiro trata muito mal o cidadão. A oferta de
serviços públicos e a capacidade que o Estado tem de regular bens públicos,
como o transporte, isso deixa todo mundo indignado. Por mais governista que
seja a pessoa, ela fica indignada quando tem que ir tirar carteira de identidade,
ser atendida em hospital…

Rosa Cardoso: Você apresentou aqui a questão da corrupção como


um tema que mexe intuitivamente com as pessoas, como a carestia
mexeu. Se a gente olhar para antes, desde o Getúlio aparecia esse
tema. Mas eu queria chamar atenção para como esse tema da
corrupção tem sido usado pelos atores do sistema de Justiça, desde
Moro aos procuradores da República, ao procurador-geral da
República, o Janot, que foram formados numa escola de
374
globalização, de perseguir o crime organizado. Principalmente a
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partir de 2010, as nossas leis copiam leis americanas, são formadas


num círculo de cooperação internacional. Então, isso judicializou e
enobreceu essa luta contra a corrupção. E aí tem interesses externos
sim…

Adriano Codato: E isso tem um efeito inclusive de reforço para esses


movimentos. Eu estou tentando trazer essa conversa para o lado de uma ideia
que tenta articular esses movimentos, porque veja como é heterogêneo o
movimento antigoverno: você tem uma facção que é ultraliberal em economia,
outra que é ultraconservadora em matéria de costumes. Você tem outra facção
que enfatiza mais a repressão, maioridade penal; então, é difícil articular tudo
isso. As pesquisas de São Paulo, essas de agosto de 2015, mostram que 80% das
pessoas que estavam nas ruas achavam que o Estado deveria prover serviços
básicos, como saúde e educação. Então, nós não temos um desfile de
neoliberais.

“A grande imprensa organizou essa história e deu a posição de vilão ao PT. É muito mais simples a gente
compreender a política na chave do amigo/inimigo e a política como uma novela em que há mocinhos e
374 bandidos”, explicou Codato
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Vera Saavedra Durão: A minha hipótese é a seguinte: até que ponto


foi mesmo a insatisfação? Porque o país tava rachado na eleição. Em
Minas Gerais, o Aécio chegou a reunir a elite amiga dele e estourar
um champanhe às 6 da tarde. A Maria Cristina Fernandes, do Valor,
fez agora uma coluna muito interessante nessa quinta-feira falando
que o PSBD foi o abre-alas desse movimento. Porque no dia seguinte
o Aécio e o Aloyzio Nunes já estavam dizendo que iam sangrá-la até o
final do governo dela.

Adriano Codato: Só para recuperar: aquela ideia de que há um movimento na


América Latina de uma unificação das direitas, eu disse que é preciso pesquisar.
Aqui, de fato, no primeiro momento foi o PSDB, você tem toda a razão, em 2014.
O primeiro movimento foi pedir recontagem dos votos. O segundo movimento
foi pedir impugnação das chapas. O terceiro movimento foi dizer que não vai
governar. O quarto movimento foi sabotar a votação da Previdência, votar
contra o fator previdenciário. O quinto movimento foi disputar com Eduardo
Cunha e perder. Enfim, foram vários movimentos, e ali o PSDB foi o
protagonista desse processo de impeachment. O que eu questiono é se podemos
creditar na conta do PSDB a capacidade de organizar esse movimento. Como
esse movimento é muito antipolítico… Parece que até botaram o Aécio para
correr na manifestação de março. E a minha percepção diante desses
movimentos é que há, sim, um racismo de classe. Racismo de classe é o
preconceito social mais exagerado, essa ideia de que Bolsa Família é coisa de
vagabundo, cotas é um absurdo, que os aeroportos parecem rodoviárias… Não é
racismo de pele, é racismo de classe. O que eu tenho dúvida é se o racismo de
classe é suficiente para levar tanta gente para a rua.

Marina Amaral: O que você espera agora? Por exemplo, a imprensa


já acabou com o governo Dilma, já está o Temer, é presidente, já
discute ministério… Será que esse povo que foi para a rua vai querer
participar mais?

Adriano Codato: Eu acho que vai ter uma tolerância de uns três meses. E
quando o PMDB ocupar todas as estatais… Essa lua de mel está fadada a acabar.
Não sei quando vai acabar. Agora, a guerra contra o PT, não. Porque tem um
prefeito do PT em São Paulo que representa ainda toda essa esquerda que essa
374 odeia. É o candidato mais chamativo do PT, que é o Haddad. Eu acho que
direita
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no futuro vai se voltar essa narrativa da corrupção, do gayzismo, da


incompetência contra o Haddad. Ele já tem uma aprovação muito baixa, e 77%
das pessoas naquela pesquisa achavam que ele era corrupto.

Rodolfo Rassan: Eu faço pesquisa para o mestrado sobre ódio,


violência e intolerância política do Brasil com o recorte das
manifestações contra e pró-governo em 2015 e 2016. A ideia é em
relação à ascensão desses grupos de direita. Você também consegue
identificar uma requalificação do discurso de ódio e intolerância?

Adriano Codato: Nós trabalhamos com candidatos eleitos principalmente


para Câmara Federal e assembleias estaduais. O que nós identificamos é uma
organização da agenda hiperconservadora em termos de costumes e de todos os
preconceitos que vêm associados a isso na Câmara dos Deputados a partir dessa
legislatura. Há um aumento espetacular desses novos partidos de direita, desses
pequenos partidos, esses partidos que nós classificamos como nova direita;
tirando daí o DEM, o PP, o PTB e o PR, eles crescem em duas cadeiras para mais
de 80 entre 98 e 2014. Isso acompanha a fragmentação partidária. Então tem
outras razões para explicar também o sucesso desses partidos. A partir do
momento que eles têm esse poder e contam com o poder de agenda do
presidente da Câmara, para colocá-los em comissões estratégicas, para nomear
o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, da Comissão de Direitos
Humanos, conseguem organizar essa agenda e dar uma visibilidade
impressionante a essa intolerância.

Marina Amaral: Você falou que, ao contrário do que a gente imagina,


a votação do impeachment pelo plenário da Câmara revelou um
perfil ideológico do voto, quer dizer, aqueles deputados não estariam
ali votando contra ou a favor do impeachment por motivos
fisiológicos, mas ideológicos. É isso?

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por isso atuariam em rede

Adriano Codato: Eu não sei. Mas, se a gente trabalhar com a transcrição dos
votos, é um discurso que não é a favor das contas públicas, a favor do relatório,
contra as pedaladas; é um discurso muito organizado contra “a nossa bandeira
jamais será vermelha”, “em nome de Deus em nome da família”, “em nome do
meu reduto eleitoral”, e assim por diante. Ali se revela que esse tipo de divisão
existe – esquerda e direita – e a declaração de votos deles é típica da direita de
manual.

Mariana Simões: Vamos encerrar, mas eu queria fazer uma pergunta


para a Marina, já que ela fez a reportagem sobre “A Nova Roupa da
Direita”. Em termos culturais, teve um movimento nas redes sociais
em resposta àquela matéria da Veja de “bela, recatada e do lar”. Não
foram só as pessoas de esquerda e feministas. Juntou todo mundo.
Tem uma vertente nova da direita que roubou um pouco dessas
bandeiras que eram da esquerda?

Marina Amaral: O que eu acho nessa história da “bela, recatada” é que o


movimento de mulheres avançou muito. Eu me lembro de quando eu estava na
Caros Amigos nos anos 1990, que eu me perguntava onde estava o movimento
feminista. O que tinha era Marcha das Mulheres, Mulheres do MST, não tinha
assim um movimento feminista concentrado na produção da mulher. Isso
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aconteceu, e eu acho que é um dos avanços mais legais que aconteceram nos
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últimos tempos. Acho que a Dilma poderia ter apelado mais para esse
movimento porque ficou evidente que as mulheres têm uma outra posição, um
outro poder. E daí realmente tanto fazia a posição. Porque tantas mulheres
querem seguir o modelo de Marcela Temer? Eu vejo as mulheres denunciando
assédio na rua, mas que alegria que me dá lembrar de milhares de vezes em que
nós, da nossa geração, tínhamos que fazer movimento oposto, porque a história
era o medo: a mulher não deve frequentar determinados lugares. Eu acho que
isso é uma grande esperança. O fato de o Lula ser um operário quando ele
assumiu o governo foi muito mais valorizado do que a Dilma ser uma mulher e
uma guerrilheira.

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frymartini • 2 anos atrás


Muito boa a entrevista e as reportagens. Algumas questões: é crime um grupo brasileiro que
tem atuação política receber dinheiro da extrema-direita americana? Como esse dinheiro
entra nas contas de grupos como MBL, EPL etc? Esse dinheiro é declarado?
△ ▽ • Responder • Compartilhar ›

David Rodriguez Lima > frymartini • um mês atrás


O mesmo pode ser dito sobre o dinheiro que entra no Catraca Livre, Mídia Ninja, entre
outros. Dinheiro que vem da Open Society, Fundação Ford, etc. Porque tanta
parcialidade?
△ ▽ • Responder • Compartilhar ›

Devanil Júnior • 2 anos atrás


Excelente entrevista. É importante entender a direita de forma honesta. Não a categorizando
como fascista e neoliberal em sua essência. Essas pessoas podem ser disputadas pela
esquerda, basta sair do salto e parar de criar inimigos sem necessidade.
△ ▽ • Responder • Compartilhar ›

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Jaques Brand · Colégio Estadual do Paraná


Brilhante e cheia de insights a entrevista com Adriano Codato, um cara lúcido e um cientista que
sabe colocar as teses na linguagem comum. Quanto à observação final da jornalista, cabe
questionar se "sobrou" alguma coisa da guerrilheira na Dilma atual. A crise de Mariana e do Rio
Doce creio demonstram que infelizmente ela é hoje apenas uma burocrata e pouco mais que isso,
se tanto. Aliás é de se perguntar se ali, naquela gravíssima crise ambiental (que se prolonga) não
estava a grande chance de a Presidente deixar Brasília para trás e se abraçar com o povo
brasileiro, transferir a Presidência para Colatina e disparar ordens executivas em todas as
direções, retomar a Vale sem indenização até o completo ressarcimento dos danos. Até a
recriação completa do Vale do Rio Doce. Deixou passar a oportunidade, como deixou passar a
das revelações de espionagem da N.S.A. na Presidência e nas Estatais. Hoje até o site Yahoo
publica matérias francamente pró-golpe sem o menor prurido...
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