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PATTIS, Eva.

Aborto perda e renovação: um paradoxo na procura da identidade


feminina. São Paulo: Paulus, 2000. 151 p. (Amor e psique)

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Coleção AMOR E PSIQUE

O feminino

- Abono - perda e renovação, Eva Pattis


- A prostituta sagrada, N. Q. Corbett
- As deusas e a mulher, J. S. Bolen
- A virgem grávida, Marion Woodman
- Caminho para a iniciação feminina, S. B. Perera
- Destino, amor e êxtase, J. A. Sanford
- Os mistérios da mulher, Esther Harding
- O medo do feminino, E. Neumann
- Variações Sobre o tema mulher, J. Bonaventure

O masculino

- A busca fálica, J. Wyly


- A tradição Secreta da jardinagem, G. Jackson
- Castração e fúria masculina, E. Monik
- Curando a alma masculina, G. Jackson
- Falo, a sagrada imagem do masculino, E. Monik
- Hermes e seus filhos, R. L. Pedraza
- Os mistérios da sala de estar, G. Jackson
- Sob a sombra de saturno, J. Hollis

Psicologia e religião

- A doença que Somos nôs, J. P. Douey


- A jornada da alma, J. A. Santord
- Bíblia e Psique, E. F. Edinger
- Deus, sonhos e revelação, M. Kelsey
- Do inconsciente a Deus, E. van der Winchel
- Uma busca interior em Psicologia e religião, J. Hillman

Sonhos

- Aprendendo com os sonhos, M. R. Gallbach


- Breve curso sobre os sonhos, R. Bosnak
- Sonhos e ritual de cura, C. A. Meier
- Sonhos de um paciente com AIDS, R. Bosnak
- Os sonhos e a cura da alma, J. A. Sanford
- Sonhos e gravidez, M. R. Gallbach

Envelhecimento

- A passagem do meio, J. Hollis


- A solidão, A. Storr
- A velha sábia, R. Weaver
- Despertando na meia-idade, K. A. Brehony
- Envelhecer J. R. Pretat
- Meia-idade e vida, A. Bermann
- Menopausa, tempo de renascimento, A. Mankowitz
- 0 velho sábio, R Middelkoop

Contos de fada e histórias mitológicas

- A individuação nos contos de fada, M.-L. von Franz


- A interpretação dos contos de fada, M.-L. von Franz
- A sombra e o mal nos contos de fada, M.L. von Franz
- Gato, M.-L. von Franz
- 0 que conta o conto?, J. Bonaventure
- 0 significado arquetípico de Gllgamesh, R. S. Kluger
O puer

- O livro do puer, J. Hillman


- Puer aetemus, M.-L. von Franz

Relacionamentos

- Amar, trair, A. Carotenuto


- Eros e phatos, A. Carotenuto
- incesto e amor humano, R. Stein
- Não sou mais a mulher com quem você se casou, A. B. Filenz
- No caminho para as núpcias, L S. Leonard
- Os parceiros invisíveis, G. Sanford

Sombra

- Mal, o lado sombrio da realidade, G. Sanford


- Os pantanais da alma, J. Hollis
- Psicologia profunda e nova ética, E. Neumann

Outros

- Ansiedade cultural, R. L Pedraza


- Alimento e transformação, G. Jackson
- Conhecendo a si mesmo, D. Sharp
- Consciência solar, consciência lunar, M. Stein
- 0 caminho da transformação, E. Perrot
- Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô, anônimo
- 0 despertar de seu filho, C. de Truchis
- No espelho de Psique, E. Neumann
- Psicoterapia, M.-L. von Franz
- Psiquiatria Junguiana, H. K. Fierz
- Rastreando os deuses, J. Hollis
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EVA PATTIS

ABORTO PERDA E RENOVAÇÃO

Um paradoxo na procura da identidade feminina

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Título Original

Aborto, perdita e rinnovamento - Un paradosso nella ricerca dellidentità femmini!e ©


Red Studio Redazionale, Como (ltáiia), 1995

Tradução João Paixão Netto

Revisão Ivo Stomiolo

Coleção AMOR E PSIQUE dirigida por Dr. Léon Bonaventure - Pe. Ivo Storniolo -
Dra. Maria Elci S. Barbosa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do


Livro, SP, Brasil)

Pattis, Eva, 1952-

Aborto: perda e renovação : um paradoxo na busca da identidade feminina / Eva


Pattis ; [tradução João Paixão Neto]. — São Paulo: Paulus, 2000. — (Amor e
Psique)

Título original: Aborto perdita e rinnovamento.

ISBN 85-349-1740-X
1. Aborto - Aspectos morais e éticos 2. Aborto - Aspectos psicológicos
3. Mulheres - Saúde e higiene 4. Mulheres - Psicologia 1. Título. 2.A Série.

00-3203

CDD-179.76

Índices para catálogo sistemático:

1.Aborto: Ética 179.76

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ISBN 85-349-1740-X
ISBN 88-7031-772-2 (ed. original)

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INTRODUÇÃO À COLEÇÃO AMOR E PSIQUE

Na busca de sua alma e do sentido de sua vida, o homem descobriu novos


caminhos que o levam para a sua interioridade: o seu próprio espaço interior torna-
se um lugar novo de experiência. Os viajantes destes caminhos nos revelam que
somente o amor é capaz de gerar a alma, mas também o amor precisa de alma.
Assim, em lugar de buscar causas, explicações psicopatológicas às nossas feridas e
aos nossos sofrimentos, precisamos, em primeiro lugar, amar a nossa alma, assim
como ela é. Deste modo é que poderemos reconhecer que estas feridas e estes
sofrimentos nasceram de uma falta de amor. Por outro lado, revelam-nos que a alma
se orienta para um centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e a
realização de nossa totalidade. Assim a nossa própria vida carrega em si um
sentido, o de restaurar a nossa unidade primeira.

Finalmente, não é o espiritual que aparece primeiro, mas o psíquico, e depois o


espiritual. E a partir do olhar do imo espiritual interior que a alma toma seu sentido, o
que significa que a psicologia pode de novo estender a mão para a teologia.

Esta perspectiva psicológica nova é fruto do esforço para libertar a alma da


dominação da psicopatologia, do espírito analítico e do psicologismo, para que volte
a si

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mesma, à sua própria originalidade. Ela nasceu de reflexões durante a prática


psicoterápica, e está começando a renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia.
E uma nova visão do homem na sua existência cotidiana, do seu tempo, e dentro de
seu contexto cultural, abrindo dimensões diferentes de nossa existência para
podermos reencontrar a nossa alma. Ela poderá alimentar todos aqueles que são
sensíveis à necessidade de inserir mais alma em todas as atividades humanas.

A finalidade da presente coleção é precisamente restituir a alma a si mesma e ver


aparecer uma geração de sacerdotes capazes de entender novamente a linguagem
da alma, como C. G. Jung o desejava.

Léon Bonaventure

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Aos meus pais

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Agradecimentos

Agradeço a Christa Robinson pelo seu envolvimento com o tema e pela sua ajuda
na discussão dos sonhos; agradeço ainda a A. Guggenbühl-Craig pelas suas
perguntas incômodas e pelo seu encorajamento em todas as fases deste trabalho.
Pelas suas leituras atentas agradeço a Maria Paregger, Patrizia Adelasco,
Magdalena Pattis, Maitin Mumelter; pela sua ajuda na tradução, a Fanny Meroni; a
Saverio Falcone devo algumas idéias posteriormente elaboradas no capítulo sobre
Atenas; agradeço ainda às mulheres que me permitiram publicar as suas histórias;
também a Luigi Zoja pela tradução em italiano e por me ter ajudado a superar os
momentos nos quais não queria mais dar vida a este livro.

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APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Abertura, aggiornamento... O cristianismo está reencontrando seu humanismo. Os


novos tempos nele se exprimem de diversas maneiras, como, por exemplo, nesta
Editora católica, a Paulus, que publicou Evangelium Vitae (O Evangelho da Vida),
belíssimo texto doutrinário do Papa João Paulo 2, assim como agora, em nossa
Coleção Amor e Psique, este livro sobre a psicologia do aborto.

A renovação do espírito da vida no Cristianismo reflete-se também na atitude de um


padre ao receber a confissão de certa mulher que, no passado, tinha abortado. De-
pois de ouvir a confissão, o padre pergunta: Que nome você deu para seu filho?. A
mulher fica surpresa, pois não tinha dado nome a seu filho. Então, disse o padre,
vamos dar-lhe um nome. E continuou: Você o batiza? Se desejar, podemos batizá-lo.
E assim foi feito. Depois o padre fez algumas considerações sobre o mistério da
vida:

Há a vida, disse ele, que vem à luz do dia para ser vivida na terra, durante 10, 50,
100 anos. Outras vidas nunca irão ver a luz do sol. No calendário litúrgico católico
existe, no dia 28 de dezembro, a festa dos santos inocentes, os recém- nascidos
que morreram gratuitamente quando nasceu a criança divina em Belém. Que esse
dia seja também o dia da festa de seu filho. E continuou ainda: Na tradição cristã, o
nascer de um filho é sempre um presente de Deus,

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uma bênção. No passado o costume era ir ao templo para oferecer a criança a


Deus. Nunca é tarde demais para também você oferecer seu filho a Deus.

Que bela homilia! Que psicologia religiosa sábia!

O padre terminou, dizendo: Como ser humano não posso julgar você, mas, se você
pecou contra a vida, o próprio Deus da Vida pode reconciliar você com ela. Vá em
paz e viva.

Depois desse encontro, liberada do excesso de culpa que paralisara sua vida, a
mulher recomeçou a viver, mas não ficou dispensada de carregar o peso de
sentimentos de culpa legítimos e verdadeiros, como sempre acontece quando se
interfere na vida.

Essa história reflete uma atitude profundamente cristã. Que bênção da vida esta
mulher teve ao encontrar este padre santo. Santo porque foi tão humano. Num
cristianismo liberado do moralismo puritano existe sempre espaço, possibilidade,
ritual e sacramento para a reconciliação com a vida e consigo mesmo. Esses
espaços, sejam de expressão cristã para os cristãos ou de outra forma para os não-
cristãos, precisam existir. Eles são indispensáveis para a cura da alma. E, quando
não existem, é preciso criá-los.

O aborto em si não existe. O que existe são pessoas que abortam em determinadas
circunstâncias, pelos mais diversos motivos: pessoas com condições de vida, de ida-
de, de níveis de desenvolvimento de consciência e de relação consigo mesmas,
diferente estágio interior, com suas histórias de vida sempre singulares. Por isso é
muito perigoso generalizar e julgar.
O que sabemos é que sempre se trata de uma experiência que toca o mais fundo do
ser, do existir, do viver, lá no fundo mais profundo. Por isso é possível dizer que só
podemos dela nos aproximar com o sentido do mistério e com muito respeito em
relação ao outro. Antes de tudo,

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saber escutar O que a vivência do aborto tem a revelar em toda a sua pluralidade de
aspectos, sobre a vida e a não-vida, o sentido e o não-sentido do que se passou, a
diversidade dos sentimentos e de emoções que estão em jogo. Não podemos nos
prender só aos aspectos manifestos e conscientes, nem ao que as pessoas dizem
sobre o aborto, nem ao que elas acham, porque facilmente as pessoas mentem a si
mesmas. E preciso também escutar o que a parte inconsciente da alma, o que o
mais íntimo de nosso ser tem a dizer. E, nesse sentido, os sonhos são
extremamente reveladores.

Facilmente, encontra-se por trás de certa aparência uma predisposição negativa em


relação à vida, certa autodestrutividade, o arquétipo da mãe negativa, usando o
linguajar da Psicologia analítica: existe uma tendência de abortar qualquer
expressão positiva da vida. Encontramos também, especialmente nos chamados
abortos naturais, um sistema de auto-regulação, uma preservação natural de si
mesmo, como se existisse uma inteligência instintiva natural que não legitimasse o
fruto de uma relação. Em certas circunstâncias existem relações tão infelizes que
são incompatíveis com a gestação da vida, tornando-se natural o percurso do
aborto. Neste caso, interferir com os meios da medicina moderna em favor de uma
gravidez (fertilização in vitro ou outro meio) levanta uma questão ética extremamente
delicada. A natureza sabe o que faz, e a experiência nos ensina que o melhor é não
interferir.

Há mulheres e casais que realmente não têm condições psicológicas de sustentar a


vida de uma criança e proporcionar-lhe o mínimo de amor para viver e crescer. Há
mulheres dominadas pelo arquétipo da mãe negativa, as quais geram filhos para o
mundo e depois os abortam vinte e quatro horas por dia, sem consciência do que
estão fazendo.
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Quando há um mínimo de consciência existencial em relação a si mesmo, e também


quando os processos de recalque e repressão não sufocam nenhuma possibilidade
de vivência, o momento em que uma mulher vive o aborto marca sempre a história
de sua vida profundamente. O aborto torna-se um ponto de referência essencial na
vida dessas pessoas, um lugar de sofrimento, de perda, de violência contra si
mesmas e contra a vida, mas também um momento de presença às suas dúvidas,
incertezas, senti- mentos de culpa. Não é fácil situar-se para quem interfere no
direito à vida, pois sabe que, no seu íntimo, foi tocado o mistério da vida, e este, no
fundo, é sagrado.

E justamente por isso que o aborto é cercado por um tabu, um sistema de proteção
natural que nos convida a nos aproximar com muita reserva e atitude adequada do
que diz respeito à vida. É importante lembrar que a etimologia da palavra tabu, na
língua dos primitivos da Polinésia, significa fazer sagrado e, portanto, tem o mesmo
sentido que a palavra sacrifício, do latim sacrum facere. O significado dessas
palavras indica uma perspectiva justa de como nos situarmos diante do aborto, pois
trata-se de fazer um sacrifício em vista de algo maior. Dessa maneira, o aborto
significa separar, privar-se para oferecer- se a algo maior (que algumas vezes
poderia ser a possibilidade de a própria mulher realizar-se como pessoa). Nessa
perspectiva, restitui-se à vida a dimensão do sagrado. Negligenciando essa
dimensão religiosa, limitamos o aborto a uma experiência de frustração sem sentido.

Encontrei em minha prática de psicoterapeuta mulheres que, na própria vivência do


aborto, nasceram para si mesmas e para sua própria dignidade humana e,
paralelamente, adquiriram grande respeito e amor por qual- quer expressão de vida.

Existem situações-limite que geram seu oposto e, por este motivo, parece-me que
temos de viver a vida, e até,

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algumas vezes, o aborto, com todas as suas implicações. É o único caminho para
reencontrar a vida plena.

Liberar o aborto do falso interdito e do falso tabu não significa legalizar e afirmar o
direito ao aborto; ao contrário, significa aquilo que os Direitos do Homem afirmam: o
próprio direito à vida.

Mas temos primeiro de aceitar a realidade da condição humana como ela é. A


prática do aborto faz parte da vida, algumas vezes muito mais perto de nós do que
se pode suspeitar, até em nossa própria família. O aborto nos revela uma faceta da
vida que mexe com todos.

Mesmo que seja doloroso olhar a vida como ela é e como está sendo vivida, isto se
torna menos nocivo do que escondê-la na clandestinidade e marginalidade e, junto
com ela, as pessoas que viveram o aborto.

Restituir alma, sentido e não-sentido da vida, seu segredo, mistério, intimidade,


riqueza, a experiência da negação da vida inerente ao aborto é o caminho
pedagógico adequado para criar uma sociedade mais humana. Não podemos
reduzir a função do tabu a uma simples expressão de interdito social e falsa
moralidade. Seria um sistema repressivo ainda mais grave, tal como aparece na
mentalidade moderna.

Nos limites de minha experiência de psicoterapeuta, o processo inconsciente do


recalque ou a repressão deliberada da consciência ética têm, com o tempo,
consequências graves para o desenvolvimento; algumas vezes uma perda completa
da relação consigo mesmo para cair numa existência em que se morre, em que a
vida se fecha sobre ela mesma, em que o gosto pela vida se perde e o sentido se
resume a viver pequenos projetos de prazer sem sentido. O grande perigo de não
considerar o aborto com todas as suas implicações e seriedade é que a pessoa
aborta qualquer expressão criativa da vida.

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Psicologicamente, há mulheres que realmente pare- cem não ter condições de
aceitar gerar uma criança. Quando, pelas circunstâncias internas e externas, a
questão de um eventual aborto surge, já é uma situação delicada e crucial a ser
examinada. Mas, depois de todas as considerações e esclarecimentos, existe a lei
suprema que convida a pessoa a seguir sua Consciência individual e a assumir suas
responsabilidades e liberdade. Não há vida nem desenvolvimento sem sacrifício.
Todavia, existem certos sacrifícios que não podem ser feitos, pois, do contrário,
tornam-se frustração e insatisfação permanentes, que acabam recaindo sobre os
outros.

E nos momentos de decisão vital que criamos nossa história de vida e, em geral,
estamos radicalmente sozinhos. Nessas circunstâncias, é muito precioso poder
partilhar intimamente com alguém disponível e aberto, compreensivo e aberto ao
diálogo.

A finalidade de um estudo sobre a psicologia do aborto é ampliar o campo da


consciência e aprofundar essa dimensão da vida. Meditar sobre a negação da vida
pode ser um convite à vida que nos é dada todo dia.

Sempre me chamou a atenção uma sentença dos alquimistas que diz que o pecado
é a inconsciência do que se faz. Por isso, um aumento de consciência é a melhor
relação com o que se vivencia a respeito do aborto. Parece-me uma necessidade
vital. O aborto significa não-vida, referindo-se ao lado sombrio da própria vida. Para
entrar em contato com o lado escuro da vida, precisamos de um ponto de referência
sólido em nossa existência, precisamos ter consciência esclarecida e coração
humano. Presente no obscuro da vida, verifica-se que a não-vida pode nos revelar
um sentido maior da Vida — a vivência da não-vida pode ser o lugar onde nasce
uma vida nova. Caso contrário, não teria sentido olhar o lado sombrio. Na liturgia
cristã da semana santa existe um texto que ex-

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prime muito bem essa realidade: Ó culpa feliz, que nos mereceu tal Salvador. Sem o
pecado não haveria redenção e vida nova.
O trabalho do psicoterapeuta é acompanhar, sem interferência, uma pessoa em seu
caminho na vida. Escutar, revelar, descobrir a pluralidade de sentido inerente a
qualquer situação existencial que ela vive, também na vivência do aborto, com a
única finalidade de humanizar o que ela vive.

Aprendi a olhar o aborto acompanhando essas pessoas em sua vivência. A lei dos
homens condena, mas a Grande Mãe Vida está sempre disposta ao perdão, porque
ela está a favor da vida. Da mesma forma que olhamos a vida e ela própria se revela
a nós, nosso olhar e discurso refletem o lugar onde nos encontramos, como o
reflexo da nossa interioridade. Sejam quais forem, e pelo fato de serem nossas
considerações, sempre serão um olhar e um discurso sobre nós mesmos. Por isso,
em Psicologia, a neutralidade não existe.

Escrevendo estas páginas, torna-se presente a mim uma vasta experiência de


psicoterapeuta e, mesmo que fosse muito útil referir-me explicitamente a ela, existe
uma privacidade e uma intimidade que devem ser protegidas. Por isso quis me
limitar a algumas considerações a respeito da atitude diante do aborto. Essa atitude
poderia resumir-se na famosa sentença de Santo Agostinho.

Amor às pessoas, ódio aos vícios. Traduzindo em termos psicológicos: Amor às


pessoas, ódio aos complexos. Efetuar essa diferenciação entre as pessoas e os
complexos ou vícios não é fácil, mas é indispensável, se quisermos introduzir um
pouco de objetividade e nos liberar de uma atitude dogmática, deixando assim um
espaço para o amor.

E extremamente significativo que a autora deste livro, Eva Pattis, percorra o mundo
da mitologia grega e,

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dentro de uma experiência clínica diferente, chegue às mesmas conclusões. O


aborto pode ser um lugar de transformação, o lugar de uma vida nova. Isso mostra
que o aborto não pode ser banalizado, assim como nenhuma outra situação
existencial limite da vida.

No decorrer de um trabalho de conhecimento de si mesmo é frequente que se


reativem velhas experiências ligadas ao aborto. Experiências interiores mal
resolvidas convidavam-me a escrever, para traduzir o grito pela vida inerente ao
aborto. Encontrando o estudo de Eva Pattis, fiquei dispensado de escrever. Este é
um livro que merece ser lido e meditado.

São Paulo, abril de 2001

Léon Bonaventure

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PREFÁCIO de Adolf Guggenbühl-Craig

o aborto é um tema que suscita na maioria dos homens e das mulheres interesse,
raiva, escândalo, envolvimento e sentimentos ambivalentes.

Durante anos, na qualidade de psiquiatra, realizei perícias para mulheres que


pediam para abortar. De acordo com o código penal suíço, uma gravidez só pode
ser interrompida se uma perícia estabelecer que o seu prosseguimento poderia ser
seriamente nocivo à saúde psíquica ou física da mulher. Tanto eu como os meus
colegas experimentávamos constantemente um sentimento de culpa, tanto quando a
nossa perícia aprovava o aborto, como no caso contrário. Se recusávamos o aborto,
nós nos sentíamos culpados perante a mulher; se o aprovávamos nós nos
sentíamos culpados perante a criança à qual tinha sido recusada a entrada no
mundo.

A todas as mulheres para as quais lavrei perícias pedi que voltassem a ter comigo
cerca de três meses depois, para discutir se, na opinião delas, a decisão tinha sido
justa ou errada. A maioria das interessadas o fizeram contra a vontade; teriam
preferido não pensar mais nisto. Obviamente, queriam é esquecer sobretudo que
tinham abortado, sendo os sentimentos neste caso demasiado complexos. De um
lado um alívio, de outro um sentimento de culpa. Muitas daquelas mulheres que não
tinham sido autorizadas a abor-

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tar se tinham resignado, exprimindo-me deveras certo reconhecimento por não ter
atendido ao pedido delas. Só algumas evitavam a ambivalência, afirmando os
direitos sobre a própria barriga ou princípios semelhantes.

Para as mulheres de família católica, a condição psicológica era por um lado mais
difícil, por outro mais simples em relação àquelas que provinham de um ambiente
protestante. Para as mulheres católicas, abortar era matar, anular a vida. Ao mesmo
tempo elas estavam cônscias de uma possibilidade de serem consoladas, inclusive
das responsabilidades mais graves, por meio do arrependimento, da confissão e da
penitência. Já as de religião protestante se sentiam ao invés abandonadas a si
mesmas. Não sabiam se aquilo que tinham praticado era um assassínio; e, se o era,
como podia ser perdoado.

Tanto a situação psicológica das mulheres que pediam o aborto, como a dos peritos,
era, pois, constante- mente complicada, ambivalente e em parte torturante. Além
disso, éramos frequentemente obrigados a enfrentar outro fenômeno surpreendente.
Muitas destas mulheres costumavam ficar grávidas uma segunda e até uma terceira
vez, e continuavam a pedir para abortar. Por razões que estavam longe de ser
claras, descuidavam ou usavam muito inadequadamente as técnicas
anticoncepcionais, embora sabendo que isto teria facilmente levado a novas
gravidezes e a eventuais abortos. Nós, psiquiatras encarregados da perícia, nos
sentíamos perdidos, ignaros dos motivos profundos de uma conduta deste gênero.

A tese de Eva Pattis, segundo a qual o aborto pode- ria ser visto como um passo
iniciático inconsciente, e os abortos repetidos como uma insistência em perseguir a
iniciação malograda, abre aqui perspectivas completa- mente novas.
Só quem sabe dizer conscientemente não à criação é que pode também dizer-lhe
conscientemente sim. Em

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muitas iniciações masculinas, o rito põe em evidência o fato de que o iniciado agora
está em condição de matar um outro homem, o ser que lhe é mais próximo entre os
viventes. Isto pode ser exigido tanto sob a forma de um verdadeiro homicídio
inciático, como entre os caçadores de cabeças da Nova Guiné, como também na
forma de um mero gesto simbólico, como nos combates rituais dos borígines
norteame1iin0s, nos quais se limitava a tocar o inimigo com um bastão.

Em apoio desta ideia seria bom lembrar também o trabalho de W. Giegerich,


Tötungefl, Gewalt aus der Seele (AssaSSífli0s violência que vem da alma). O
argumento original e central deste autor está justamente na afirmação que o
desenvolvimento do homem moderno, da consciência moderna, teve início quando
este mesmo homem começou a matar animais não só para se alimenta mas para
realizar um sacrifício ritual.

Eva Pattis sugere que o aborto voluntário pode ser visto também como uma
QifliCiaçã0 inconsciente, que consiste no sacrifício de uma forma de vida, visando a
superar uma existência feminina caracterizada sobretudo pela qualidade materna.
Esta tese é dolorosamente provocante. Não é ignorado pelos etnólogos que em
algumas circunstâncias o primogênito, visto justamente como aquilo que os pais
humanos têm de mais caro, deve ser sacrificado aos deuses. Torna-Se então
iluminador de um ponto de vista pensar no assassífli0 daquilo que uma mulher tem
de mais caro, o filho, como um rito que pode levá-la a superar esta identidade
unilateral. Parece-me que ver no aborto inclusive um ritual iniciático contribua para
uma melhor compreensão das angustiosas ambivalências, tanto das mulheres que
fazem dele a experiência como de outras pessoas que estão nele envolvidas, como
0S psiquiatras das perícias das quais falei.

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Todavia, os argumentos de Eva Pattis inevitavelmente estimulam também objeções
e oposições. Matar ou, pelo menos, impedir uma forma de vida humana é sempre e
em qualquer hipótese um evento horrível: apesar disso, ou justamente por isso,
durante todo o decurso da história humana, sempre se matou em grande
quantidade. Por isso o mandamento «não matar é indubitavelmente o maior e o mais
imperativo entre os dez da lei mosaica. E sejam lá quais forem os nossos
comportamentos reais, seja lá de qual guerra dos fatos se participe, independente-
mente do número de pessoas de cuja morte na realidade se tome parte, é este «não
matar que deveria permanecer diante dos nossos olhos e inspirar a nossa ação.
Deste ponto de vista, podemos compreender e até aceitar a fundo o aborto como
sendo parte de um ritual inciático?

Quem ler este livro será grato à autora por ela não ter procurado fáceis vias de saída
para escapar do penoso tema que trata. Eva Pattis costuma chamar as coisas pelos
seus nomes, sem procurar refúgio em soluções preguiçosas, como a de que o
aborto não é um homicídio, mas apenas a eliminação de um feto. Esta simplificação
nominalista não muda as coisas, uma vez que também o mais pequeno feto, se não
for afastado intencionalmente, ter-se-ia transformado em um ser humano. E óbvio
que, do nosso ponto de vista psicológico, também a visão demográfica, segundo a
qual o aborto é simplesmente um freio ao excessivo crescimento da população, se
mostraria insuficiente: numerosas, e atualmente muito bem conhecidas, são as
genuínas técnicas anticoncepcionais, ou seja, aquelas que intervêm antes e não
depois da concepção.

Não se pode ler simplesmente o livro de Eva Pattis e achá-lo interessante, para
depois voltar às ocupações de antes. Não se pode ler um trecho deste mesmo livro
antes de deitar-se, porque ele não deixa conciliar o sono. O conteúdo do livro toca
um dos temas centrais da nossa exis-

Página 21

tência: o fato de que o nosso desenvolvimento psíquico e boa parte da nossa


consciência dependem daquilo que façamos do nosso impulso para matar.
Compreendo, pois, aqueles que ficam escandalizados diante das idéias pro- postas
por este livro. Como se pode pretender elevar uma coisa que inspira vergonha, uma
coisa dolorosa e lancinante como o aborto, propondo interpretá-lo como sendo um
passo de uma iniciação feminina? Introduzindo este ponto de vista, não recaímos
numa espécie de barbárie pré-cristã? Mas, por outro lado, como se pode de outra
forma compreender a inspiração psicológica do aborto, sem recair em lugares
comuns já desbancados pelo feminismo ou pela demografia?

Adolf Guggenbühl-Craig está entre os mais autorizados representantes da psicologia


analítica contemporânea. Foi presidente do C. G. Jung Institut de Zurique e da
Associação Internacional de Psicologia Analítica (IAAP). Entre os seus numerosos
escritos publicados em italiano, lembramos: Al di sopra del malato e della malattia
(Cortina, Milão).

Página 22 – em branco.

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INTRODUÇÃO

Um livro a respeito do aborto. Pró ou contra? Habitual- mente vem em primeiro lugar
esta pergunta, inequívoca e decisiva, uma exigência de tomar partido; a arrogância
da lógica cartesiana agarrou também este problema para dividi-lo em duas partes
que se excluem mutuamente.

No meu livro procurarei antes de mais nada examinar o aborto voluntário como um
fenômeno presente na sociedade. Para as culturas tradicionais ele era um evento
com as características do tabu. Na sociedade ocidental moderna sua característica é
sobretudo o paradoxo: as técnicas anticoncepcionais foram notavelmente
aperfeiçoadas, mas o número de gravidezes não desejadas só aumentou. Não seria
o caso de suspeitarmos de que elas sejam de alguma maneira desejadas? Ou que
se deseje uma terceira coisa ainda, que não é nem a gravidez nem a ausência de
gravidez? Mas com que finalidade? Quem neste caso lembra quem, e por qual
motivo, na vida e depois na morte?
Procurarei depois descrever como é a experiência do aborto para uma mulher. Que
pensamentos lhe vêm quando ela toma esta decisão. O que diz o médico. O que
não diz o seu homem. Como é o ingresso na clínica (frequentemente em um setor
de maternidade) para uma mulher que vai lá para abortar, sabendo que sairá de lá
sem o

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filho. Sem ninguém nos braços. Sem ninguém absoluta- mente?

Falar-se-á depois daquilo que acontece nela quando, após toda uma programação,
no derradeiro momento recua; isto porque, apesar da plena racionalidade da
decisão, o aborto se tornou impossível.

A quais imagens está associado o aborto voluntário? Teria ele unicamente o fim
concreto de interromper uma gravidez ou desperta fantasias inconscientes mais
complexas? De um ponto de vista psicológico, existem formas da existência
feminina estranhas ao mundo da mãe. Elas se apoiam nos mitos de Artemis, a
virgem, que não tem relação com um correspondente masculino; de Atenas, nascida
apenas do pai, que contrapõe ao antigo direito materno lei e necessidade. Será
possível que o aborto, com seus aspectos violentos, queira também dar vida, talvez
até literalmente carne e sangue, a estas formas femininas alternativas?

Cálculos aproximativos supõem que entre quatro mulheres mais ou menos uma
tenha abortado uma ou mais vezes. Seja lá como for, o aborto pode ser feito tanto
rapidamente e sem problemas, como com conflitos dilacerantes. Sempre em um
espaço privado, enquanto lá fora, na sociedade, a polêmica está acesa.

Será que estas duas dimensões podem se falar? A mulher que está procurando
tomar uma decisão pode pedir silêncio à multidão, que não é somente externa, mas
também a voz da coletividade no interior dela? E, por sua vez, pode dizer algo que
vá além do direito de propriedade, do a barriga é minha?
Estar grávida sem tê-lo desejado é uma situação ir- racional, ilógica, paradoxal, que
aprisiona como um destino trágico. Não há nenhuma verdadeira escolha, a mu-

Página 25

lher não está preparada para nenhuma das soluções possíveis. Esta situação pode
ser descrita pela idéia grega de ananke, ou seja, de destino necessário, melhor do
que por idéias de proveniência moral ou psicoterapêutica, que evocariam
prevenções ou remédios para um mal.

A mentalidade antiga se limitava a reconhecer o sinal da necessidade e a aderir ao


seu destino, ao passo que o homem moderno, marcado por dois mil anos de
cristianismo, esforça-se por separar um bem de um mal e por guiar os
acontecimentos. O mundo trágico é estático. Do seu ponto de vista o movimento
corresponde ao malogrado conhecimento da necessidade trágica; existe, pois, uma
ilusão, Cuja conclusão é o reconhecimento de que tudo sempre esteve presente.

Edipo não é culpável porque, colocado diante do bem e do mal, escolheu o segundo.
Édipo, entretanto, é conde- nado; o oráculo tinha predito que ele teria matado o pai e
desposado a mãe: e assim aconteceu, embora ele tivesse deliberadamente feito
tudo o que lhe estava ao alcance para evitar este mal e realizar somente o bem.

Poucas situações da vida moderna conservam qual- quer parentesco com aquilo
que os antigos chamavam de trágico. A decisão a respeito do aborto, da qual se
deseja- ria fugir e que entretanto se atravessa tremendo, é uma destas. Trágico não
é o evento infeliz que nos surpreende, mas a visão daquilo que se teria querido
evitar, mas que ao invés acontecerá.

Página 26 – em branco.

Página 27

ABORTO: UM NÃO-LUGAR(1)
Os abortos são feitos às escondidas. Escreve-se pouco e se fala menos ainda sobre
ele. Quando uma mulher toma esta decisão e começa a caminhar nesta direção,
quando diz a si mesma: é agora, mais um dia, mais uma hora, não fala disso com
ninguém.

Há sobre este problema estudos ditos científicos: publicações a respeito dos


aspectos legais, sociológicos e psicológicos, bastando, porém, dar uma olhada nos
subtítulos para se perceber que se trata de prevenir. Uma mulher grávida, e que está
na expectativa não de um filho, mas de um aborto, os porá de lado; comparações
estatísticas e hipóteses sobre os motivos por que em certas sociedades ou em
certas camadas sociais o aborto é mais frequente, em um momento como este não
lhe interessam. Não mais do que interessam a uma mulher contente por estar
grávida saber como pode chegar à concepção. Ela desejaria mesmo é saber algo
sobre a sua situação, algo sobre o que acontecerá dentro em pouco.

Chega às raias do inacreditável o que existe de literatura a respeito da gravidez e do


parto. Basta entrar em uma boa livraria: livros e mais livros, conselhos e mais

Início da nota de rodapé

1 - A tradução não pode dar o sentido do origirial Ab-ort, porque o alemão Ort
Significa lugar e Abort lugar que deve ser evitado. Abort em muitos dialetos
austríacos é o termo usado para indicar a toalete. (N. do T.)

Fim da nota de rodapé

Página 28

conselhos. Gravidez e parto são eventos decisivos, é preciso estar preparado.

E quanto ao aborto? A literatura não passa de um formulário em quatro exemplares


mais um folheto de instruções. Quanto ao mais, alguma indicação oral no último
momento que, por causa da emoção se torna incompreensível. E os conselhos, as
dietas, o cuidado com o corpo, as sugestões ao parceiro, as intervenções
psicológicas para afastar a depressão, que tão frequente me se seguem? Por que é
absurdo desejar para si tais coisas? Será que o psiquismo da mulher só tem
necessidades depois de um parto, mas não depois de um aborto?

Falta tudo. As orientações e as informações práticas passam de boca em boca, mas


os conselhos não deixam nem vestígios de si. Parece que para este evento não
tenha sido ainda encontrada uma expressão escrita, como se esta existisse somente
nos momentos em que acontece e não pudesse se tornar história. As próprias
mulheres procuram atirar para trás das costas o acontecido logo que podem,
apagando-lhe os vestígios e o pensamento. O aborto parece ser um fenômeno sem
lugar, sem tempo e sem memória.

O aborto é uma dimensão à parte. Poder-se-ia dizer: é tabu, querendo-se com isto
dizer que se trata de uma situação limite. Daquilo que é tabu não se fala direta-
mente. O tabu não tem muito a ver com proibições e per- missões. O tabu, nas
sociedades que o instituíram, indicava antes que naquele ponto terminava o mundo
ordinário e começava um âmbito invisível e mais poderoso, no qual toda ação podia
ter consequências que iam além das normalmente previsíveis.

Diante de um tabu, a reação de nós, modernos, é ainda mais caracterizada pela


insegurança. Ficamos sem saber qual o comportamento adequado. No caso do
aborto, nós nos confrontamos com um evento que supera de

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muito a capacidade de compreensão e de imaginação oferecidas pelo nosso sistema


moral e de pensamento, pelos ossos sentimentos ordinários. Não é o luto, quando
morre uma pessoa cara. Há algo a mais: a escolha, a vontade, a culpa. Como se
pode descrever? A opinião pública não se limita a dizer; grita e clama; modera,
ameaça e combate. Sobretudo fica dividida em favoráveis e contrários. O clamor, a
veemência e a animosidade estão em relação direta com a ansiedade que o
fenômeno desperta em cada um de nós. É a ansiedade que habita o âmbito do tabu,
sendo que outrora era transformada em respeito e temor através de regras de
comportamento rituais. Hoje ficamos diante dela incertos e ignaros, e este caráter
provisório favorece qualquer evento que afrouxe a tensão, nem que seja
temporariamente. Assim, o âmbito-tabu é rumorosamente invadido, e é
surpreendente ver como irracionalidade e fanatismo se impõem. Apregoam-se
provas e apresentam-se demonstrações com profissões de fé. As discussões
intermináveis funcionam como substitutivo de algo indizível e são sintoma da
incapacidade de tolerar a falta de algo.

O aborto é um fenômeno de difícil acesso, pois ansiedade e culpa estão de espreita


em todas as suas dobras. Uma vez quebrado o tabu, elas podem perseguir e
atormentar para além de qualquer lógica. Os antigos as personificavam nas Fúrias,
(...) seres negros, que suscitam só horror (...). O aspecto delas é tal que não pode
ser mostrado nem diante de representações divinas nem em habitações de homens
(Esquilo, Eumênidas, 52-56).

Aproximamo-nos de um tema que suscita sempre emoções primordiais, que só pode


ser descrito por imagens como estas, que tende a ser constantemente afastado ou a
provocar contraposições e soluções rápidas. Para fazê-lo devemos dar-nos tempo,
espaço e memória, qualidades do princípio paterno: necessárias, talvez, porque o

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problema nasce nos espaços obscuros e não resolvidos do princípio materno.


Devemos tomar mais distância do evento e olhá-lo de modo simbólico.

Simbólico significa: não somente concreto e literal, pois o simbólico não pode ser
dito de modo direto, não se deixando traduzir nem em um conceito nem em um
significado preciso; e entretanto o símbolo age sobre nós, tanto mais concretamente
quanto mais profunda e continuadamente nos confrontamos com ele. O símbolo é
muito mais do que um só e específico significado, podendo incluir e significar ao
mesmo tempo também as posições opostas, as ambivalências que estão em nós.

Página 31

CONTRACEPÇÃO FALHA?
Contracepção falha, portanto aborto: estes são os fatos na sua sucessão temporal;
mas não esqueçamos que, assim pensando, já nos atemos a um esquema causa-
efeito limitativo. Pensou-se, entre outras coisas, que o aborto fosse a consequência
de uma insuficiente informação a respeito dos diversos métodos anticoncepcionais.
Mas não se pôde prová-lo: a maioria das mulheres que abortam, no ato da
concepção, conheciam os anticoncepcionais, embora não fizessem uso deles ou os
usassem inadequadamente.

Vários estudos provaram que apenas um terço das mulheres que engravidaram
contra a própria vontade usaram anticoncepcionais, e só uma minoria destas, entre
16 e 18%, de métodos suficientemente seguros (pílula, DIU, diafragma,
preservativo). Por quê? Parece que os anticoncepcionais foram afastados da
consciência ou não foram suficientemente levados a sério. Em alguns casos chega a
parecer que a gravidez tenha sido até procurada: não era desejada, mas também
nada se fez para evitá-la. Será que uma recusa inconsciente como esta pode
depender dos métodos anticoncepcionais?

Pensando bem, não é lá tão fácil, pois, ter de lidar com uma pilulazinha, que lembra
a doença, ou com saquinhos de borracha, que não deixam de ser ridículos. De

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um lado, faltam a estes métodos a dignidade que atribuímos, consciente ou


inconscientemente, à esfera sexual. A contracepção é banal, calculista, programável,
tirando do sexo algumas inibições, mas também a atração do risco e da
espontaneidade.

Por outro lado, a anticoncepção, se levada a sério, pode assumir um significado


quase mágico: é a minúscula pílula que decide sobre uma nova vida. Se não o é, diz
uma lógica primitiva, faz-se um filho: portanto, é a pílula que, mês após mês, faz
desaparecer filhos. Por esta fantasia semiconsciente, ela equivale à esterilidade: o
que torna instintivo evitá-la. Os métodos contraceptivos não são, no mundo das
nossas imagens interiores, meros instrumentos para serem usados racionalmente;
na medida em que estão relacionados ao mistério do surgimento da vida, passam a
ter propriedades mágicas e transcendentes, simétricas ao caráter sagrado que
rodeia o mistério relativo à morte. E de se esperar, pois, que na sua utilização entre
em jogo uma grande quantidade de atitudes irracionais.

As instruções para o uso, exclusivamente voltadas para a razão, não bastam,


havendo necessidade também, e sobretudo, de instruções psicossimbólicas. Mas
acontece que num mundo como o nosso isto é impossível: medicina, sexualidade,
fertilidade são âmbitos profanos. Temos assim anticoncepcionais seguros e fáceis de
usar que são empregados de maneira pouco confiável, instrumentos racionais
administrados pela superstição. As mulheres ficam grávidas aparentemente contra a
sua vontade, apesar de conhecerem os anticoncepcionais. Não só: repetem várias
vezes gravidezes indesejadas e abortos. E aqui que aparece com clareza meridiana
a irracionalidade da sua conduta.

Será que estas mulheres desejavam inconsciente- mente um filho, como se ouve
frequentemente dizer? Ou

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queriam apenas uma gravidez? Não poderia simplesmente acontecer que elas
tivessem querido inconscientemente um aborto? E, se a resposta for positiva, que
significa- do e que expectativa inconsciente estariam relacionados com isto?

Veremos que a relação entre anticoncepção, gravidez indesejada e aborto é bem


mais complexa do que uma mera sequência causal: o motivo de uma gravidez
indesejada não é apenas a falha de contracepção, o motivo do aborto não é apenas
não desejar um filho. No aborto pode estar oculto um objetivo que não se consuma
com a interrupção da gravidez, mas que a partir dela coloca em ação uma
transformação da personalidade.

Um exemplo tirado de uma outra cultura e trazido pelo antropólogo F. Saba Sardi(1)
servirá para alargar o ângulo visual costumeiro. Uma mulher da população africana
dos Ashanti tem o dever de abortar quando determinadas condições levaram à
gravidez. Se não o faz, sente-se culpada. (O conceito ocidental de culpa não é, no
caso, perfeitamente adequado, tratando-se mais de dever algo a alguém; compare-
se também com o duplo significado do termo alemão Schuld, culpa e débito.)

A culpa deriva da gravidez por erro: momento errado, parceiro não adequado ou
então precondições rituais não observadas. Não é o aborto que é uma transgressão,
mas a gravidez.

Em nossa cultura, ao invés, uma mulher se sente, em geral, culpada se abortar. A


culpa surge com este ato ou, quando muito, com o ato sexual; não com o levar até o
fim uma gravidez. A nossa sociedade não reprova uma mulher por não ter abortado.

Início da nota de rodapé

1 – F. Saba Sardi, Appunti per un antropologia dell’aborto, in J. Kellerhals, W. Pasini,


Perchè l’aborto?, Mondadori, Milão, 1977.

Fim da nota de rodapé

Página 34

Para certa mentalidade primitiva pode ser que o feto deva ser eliminado por ser
portador de uma culpa. Para a tradição cristã esta surge com a sua eliminação. O
aborto livra da culpa em uma sociedade, ao passo que gera culpa em outra.

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INDICAÇÕES ANTROPOLÓGICAS

Um amplo estudo dos comportamentos e das representações simbólicas nos cinco


continentes, levado a termo pela Universidade de Yale, ocupa-se também do aborto;
ele representa a base de ulteriores estudos a que nos referiremos, como o de G.
Devereux(1) sobre o aborto nas sociedades chamadas primitivas e o de F. Saba
Sardi já mencionado. É sobre estes trabalhos que se baseia a breve exposição que
segue.

O aborto foi praticado por todos os grupos humanos até agora conhecidos; as
concepções a respeito dele são, porém, tão diferentes que se tornam impossíveis
afirmações gerais na matéria: não raro as motivações para abortar são
completamente opostas, do mesmo modo que as reações emotivas e os juízos
sociais. Também as técnicas usadas são muito diversas.

Concepções e juízos podem ser diferenciados e contrastantes mesmo no interior de


uma população particular: um aborto pode ser condenado ou exigido de acordo com
as circunstâncias e com a idade, o estado social e a condição relativa ao grupo (p.
ex., iniciação ou não) das pessoas envolvidas.

Início da nota de rodapé

1 – G. Devereux, A Study of Abortion in Primitive Societies, International Universities


Press, New York, 1976.

Fim da nota de rodapé

Página 36

Uma outra observação para nós importante é que os abortos não têm apenas
causas, mas também objetivos; se acontecerem gravidezes que são iniciadas para
terminar com um aborto, este tem necessariamente um objetivo especial, um sentido
predeterminado.

Entre os Matacos (aborígines da América do Sul) não existem filhos ilegítimos; toda
jovem não casada aborta. Mais ainda: as mulheres interrompem a sua primeira
gravidez com a finalidade de facilitar o parto da gravidez seguinte; de acordo com
esta concepção, ninguém aborta por não querer um filho, explicação imediata em
nossa cultura; pelo contrário, o aborto existe em função da maternidade, sendo
necessário para abrir caminho para um futuro filho. O feto abortivo e o futuro filho
não estão em contradição, pois um é a condição de vida do outro.

Estas crenças interessam aos psicólogos da profundidade pelo seu conteúdo de


verdade simbólica e ajudam a enquadrar em um contexto mais amplo os nossos
comportamentos irracionais, que continuam a sobreviver sob o véu de justificações
racionalizadoras. Uma mulher que aborte cinco ou seis vezes não convence
ninguém quando afirma sempre que o fez somente porque não queria um filho.

Antes de aprofundar este argumento, demos ainda alguns exemplos relativos a


causas e escopos do aborto entre algumas populações.

Na América do Sul (Peru, Chile, Brasil) há populações em que as mulheres abortam


porque acham a própria bacia demasiado estreita para permitir a passagem de um
feto, que por sua vez é considerado demasiado grande: elas se protegem assim de
algo que lhes parece fisicamente demasiado difícil ou impossível. Quanto menos a
convicção é justificada fisiologicamente, tanto maior é a sua justificação como
símbolo: demasiado grande o filho,

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a nova tarefa, demasiado pequeno o mecanismo reprodutor, a força psíquica da


mãe.

Entre os Dayk (sudeste de Bornéu) aborta-se quando o ventre parece


particularmente grande e se julga que, além do feto, ele possa conter também um
gêmeo seu que tem a natureza de serpente, de macaco ou de outro animal.

As mulheres dos Jívaros abortam nos casos em que se julgam engravidadas por um
demônio.
Há, pois, culturas nas quais o feto pode ser considerado como sendo um demônio,
um monstro (não necessariamente no sentido físico: o que importa é que se acha
que ele é monstruoso no espírito).

Na nossa, ao contrário, uma deformidade moral do feto é inconcebível, sendo-nos


impossível imaginar um embrião mau por índole; esta hipótese nos escandaliza.

As mulheres dos Dahomei (África ocidental) podem abortar quando estão doentes:
não por motivos higiênicos, mas mágicos, quando o feto é tido como responsável
por esta condição.

Não raro é determinante a idade da mulher. Impõe- se o aborto a jovens que ficam
grávidas antes de ser iniciadas.

Também fatores ligados à condição do pai podem determinar o aborto: quando uma
criança tem muitos pais (Wogeo, Nova Guiné), quando o pai é um parente ou um
estrangeiro (Gunatuna, Sedang na Malásia e Tucuna no Brasil), quando é prisioneiro
de guerra (Jívaros, Equador), quando morre o pai (Pima, índios da Amazônia).

Aborta-se após uma briga com o marido (aborígines australianos de Vitória), em


caso de abandono do esposo (Crow e Assiniboine) ou mesmo após um sonho no
qual o homem não cumpre o próprio dever (Dusun).

Abortos coletivos foram praticados em situações em que o destino dos


descendentes parecia desesperançado (escravos nas Antilhas).

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Também os fatores econômicos podem ser decisivos: a impossibilidade de seguir o


grupo nômade (Cudavéu, Brasil); a escassez de alimento (populações australianas
como os Ngali e os Yumi). Entre as mulheres dos Matuntara e outros grupos da
Austrália central se assinalam abortos na segunda gravidez: o feto é comido com o
objetivo de dar força ao primogênito.
Em todas estas motivações e nas reações emotivas que as acompanham, que vão
do terror à resignação, à festa, é uma só constante que caracteriza por toda a par- te
e sem exceções a interrupção da gravidez: o aborto é sempre e em toda parte um
tabu, não acontece todos os dias, há sempre regras e medidas determinadas a
serem seguidas.

Qual seja o significado do tabu é hoje muito difícil de compreender; sabemos que
tabu e proibição não são a mesma coisa, que é tabu um evento com um sentido
extraordinário que se afasta da esfera cotidiana; o âmbito do tabu é um âmbito-limite
e, como tal, perigoso: mas nem por isso moralmente proibido no sentido em que nós
entendemos esta expressão. E um espaço de fronteira entre vida e morte, um lugar
de transcendência.

O aborto nunca foi simplesmente matéria de leis e regulamentos; foi sempre também
uma fonte de revelações.(2)

Do mesmo modo, o feto nunca foi apenas um pedaço de carne: significava, ao invés,
algo, simbolizava algo. Podia ser usado com finalidades mágicas ou era sepultado
ritualmente.

O aborto era comunicação com o além: como o nasci- mento, como a morte, como
síntese de ambos.

Início da nota de rodapé

2 – F. Saba Sardi, Appunti per um antropologia dell’aborto, in J. Kellerhals, W Pasini,


Perchè l’aborto?, Mondadori, Milão, 1977.

Fim da nota de rodapé

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UM CONFRONTO
A posição da sociedade ocidental a respeito do aborto é diversa. Só em nossa
cultura, pela primeira vez, pode-se sustentar que o aborto não significa nada, que é
apenas uma forma de anticoncepção escolhida por algumas mulheres. Visto desta
ótica, o aborto pode ser indefinida- mente repetido. O feto não significa nada; é
apenas um amontoado de células. Embora não seja certamente com- partilhada por
todos e possa esconder sentimentos muito mais complexos, este modo de ver o
aborto existe: é a expressão de uma atitude leiga e profana.

Outra novidade dos nossos tempos é a controvérsia sobre se o feto é uma vida
humana ou não. No mundo arcaico o feto era forma de vida não humana; era vida
transcendente. Nós, ao invés, quereríamos saber quando a vida humana ou, em
outras palavras, uma forma de consciência, tem início dentro do seio materno. Dá-se
como líquido e certo que dependa disto a decisão sobre se, e até que mês de
gravidez, um aborto é aceitável. Parece-nos que só poderemos admitir o aborto se
tivermos demonstrado que o feto não é ainda uma vida humana. E o nosso olhar
indagador perscruta, com técnicas cada dia mais sofisticadas, oi do útero para
captar ali o início da vida. Os resultados, do mesmo modo que na física, quando se
procuram os elementos constitutivos últimos da ma-

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téria, podem revelar-se paradoxais e subjetivos; aquilo que é observado muda com a
mudança do observador: fica-se obrigado a reconhecer que os conceitos dos quais
se parte, vida humana, Consciência, são inadequados para descrever aquilo que se
observa e que para defini-los é preciso levar em conta fatores filosóficos. Em
resumo: encontramo-nos em uma zona de fronteira.

Os estudiosos de embriologia humana são quase todos do parecer que não se pode
determinar, com base no desenvolvimento fetal, um momento preciso até o qual o
aborto deva ser considerado legítimo. Não sabemos quando inicia a vida humana;
antes, não sabemos sequer o que entendemos precisamente com essa expressão.
Lá, onde a ciência deve se deter diante de uma fronteira, entra em ação um outro
gênero de descrição do mundo: a fé. Podemos crer, pessoalmente, que a vida
humana inicie em determinado momento.
As discussões públicas a respeito do aborto dão uma falsa imagem do problema,
parecendo que só existam duas posições: pró e contra. Se se ouvem os indivíduos,
deixando de lado os slogans dos diversos grupos, constata-se que as teses opostas
coexistem na mente da maioria e que frequentemente se fazem difíceis tentativas de
compromisso.

Muitos acham que o aborto deva ser permitido, em- bora pessoalmente jamais
dessem este passo. As atitudes extremas: aborto nunca, em nenhum caso, e aborto
absolutamente livre, quantas vezes se queira, são na realidade raras. A primeira
coloca uma regra moral: ninguém pode abortar, enquanto a outra deixa livre a
escolha: quem quer que assim o deseje está autorizado a abortar (mas ninguém
deve fazê-lo); não são, pois, posições incompatíveis entre si. A segunda tese é
frequentemente tão marcada por argumentos ideológicos como a primeira.

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Uma assistente social de um consultório me falou a respeito de uma mulher


proveniente de uma aldeiazinha da Itália meridional que já estava no oitavo ou nono
aborto. Foi-lhe sugerido, aliás quase imposto da parte do consultório exasperado, o
uso do DIU. Poucos dias após, a mulher foi devolver o contraceptivo, dizendo que,
se ela não ficasse mais grávida, seu marido duvidaria da própria virilidade. Com este
relato a assistente social queria dizer-me que deveriam ser respeitadas as diversas
for- mas de consciência cultural existentes em nossa sociedade, com os diversos
modos de considerar o aborto que elas comportam.

Acreditar que o aborto seja algo que se possa repetir indefinidamente é uma visão
mais do que distante do mundo arcaico (no qual o aborto era sempre revelação e
comunicação com o sobrenatural) e também inquietadora para a maioria dos
homens: é como se existisse uma necessidade de tabu, uma necessidade de
medidas protetoras que coloquem limites àquilo que acontece, que funcionem como
freio, impedindo que se entre sem perturbação em um território novo e vazio.
No lugar do tabu, cuja presença contém a advertência: aqui se está ultrapassando a
fronteira com o sobrenatural, entraram sub-repticiamente permissão e proibição; e
aquilo que era um freio protetor evoluiu para uma norma moral.

O comportamento baseado numa norma moral é também muito distante do mundo


arcaico. O feto, que outrora tirava o próprio significado do fato de ser um pedaço do
além, é, ao invés, neste contexto, um homem, um nenezinho de carne e sangue,
que é morto pelo aborto: o feto agora adquire existência material como corpo de um
homem à custa da própria forma precedente de existência, exclusivamente sagrada.
Se o aborto é examinado com a ótica da proibição ou da permissão, o seu
significado

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não pode ser reduzido a isto: incondicionalmente permitido, corre o risco de se


tornar um evento sem nenhum sentido existencial; indiscriminadam1te proibido,
corre o risco de não ser outra coisa além de um ato criminoso.

Mas será que existe um sentido do aborto? Ainda que não existisse, temos de
qualquer forma necessidade dele: a maioria dos homens não recusa radicalmente o
aborto, mas tem horror a abortos levianamente decididos e insensatamente
repetidos. O que se deseja é que os abortos tenham pelo menos um sentido.

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AS REINCIDENTES

A nossa posição era unívoca: a possibilidade de interromper a gravidez é um direito


fundamental da mulher. Assim comenta uma assistente social seu próprio trabalho
em um consultório público. E, entretanto, com o passar do tempo, tivemos de admitir
que não éramos lá tão desprovidas de preconceitos como tínhamos crido; as
dúvidas nos assaltaram quando tomamos consciência de que começáramos a
chamar de as reincidentes aquelas mulheres que tornavam a abortar pela terceira ou
pela quarta vez: empregávamos com a máxima naturalidade um termo usado a
respeito de crimes ou doenças.

Mesmo os defensores mais convictos do direito de abortar experimentam certo mal-


estar diante dos abortos repetidos.

Uma, duas vezes foram aquelas mulheres ajudadas, sem moralismos, a dar aquele
passo e informadas da maneira mais precisa sobre os métodos contraceptivos; seis
meses depois lá estão elas de novo sentadas na sala de espera do consultório, com
expressão vergonhosa ou às vezes um pouco arrogante.

Tenho de ir embora!

Tudo como na vez anterior. A contracepção foi esquecida ou calculada


erroneamente, a gravidez simplesmente desafiada pelo descuido. Na segunda vez a
fila é mais

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simples, a interessada já conhece os meandros burocráticos, já fez a experiência: é


alguém que aborta e não alguém a quem acontece uma desgraça ao relento. O
colóquio em matéria de contracepção é conduzido de modo um pouco mais
aprofundado por parte do cirurgião, a mulher tem de escutar menos que na vez
anterior; acha que isto não lhe acontecerá mais, mas a via já foi pene- trada e a
terceira vez é estatisticamente tão frequente como a segunda.

A boa vontade, a quantidade e o sentido das informações têm muito pouca


influência. Não falamos aqui de exceções, de casos patológicos; de acordo com um
estudo de M. Merz realizado em mulheres com idade abaixo dos 26 anos, 38% das
casadas e 25% das solteiras recaem em uma gravidez não desejada dentro de dois
anos após o primeiro aborto. (1)

Também um outro estudo de J. Kellerhals e W. Pasini, levado a efeito em Genebra


nos anos setenta em mil mulheres, constatava que muitas das que pediam um
aborto já o tinham feito no passado, uma ou mais vezes. (2) O texto submetia a
averiguação e a tentativas de interpretação diversos fatores psicológicos e sociais
deste problema; alguns deles são significativos no nosso contexto. Procurou-se
descobrir elementos comuns na vida das chamadas reincidentes: infância difícil,
ambiente familiar mau, separação ou morte dos pais, ou ainda: mau relacionamento
com a mãe, sexualidade insatisfatória, tendências para a depressão, para a
dependência e para a passividade. Essa lista de características patológicas pode ser
prolongada à vontade, baseando-se ainda em outros estudos, formulados com
critérios levemente dife

Início da nota de rodapé

1 – Merz, Schwangerschaftsabbruch bei Jugendlichen, Walter Verlag, Olten, 1985.

2 – J. Kellerhals, W. Pasini, Perchè l’aborto?, Mondadori, Milão, 1977.

Fim da nota de rodapé

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rentes: as mulheres que abortam muitas vezes estão evi- dentemente de posse
destes traços em maior medida do que aquelas que o fazem uma só vez.

Afinal de contas, o que se quer provar com isto? Que pessoas mais fracas esbarram
mais facilmente num obstáculo? Mas ter-se-ia o mesmo resultado estudando
indivíduos que tentaram o suicídio, os dependentes de drogas, os doentes
psicossomáticos. O que aqui interessa, entretanto, é o caso específico do aborto.
Fora a afirmação tautológica segundo a qual ele, sobretudo quando repetido, pode
também ser sinal de uma patologia, a res- peito do aborto em si foi dito pouco ou
nada.

Com a finalidade de prevenção foram elaboradas, com a ajuda destes estudos,


muitas estratégias para reconhecer os casos arriscados desde o primeiro aborto,
para lhes oferecer um tratamento psicoterápico. O aborto era visto como um pedido
de ajuda para se sair de uma situação psicológica complexa desesperada.

Em alguns raros casos a proposta era aceita e se dava a possibilidade de trabalhar


conflitos mais profundos, evitando assim a repetição do aborto; em outros casos a
repetição acontecia apesar da psicoterapia; na maioria dos casos se esbarrava com
uma recusa frequentemente indignada: Não sou nenhuma doente ou doida só
porque quero abortar. O resultado das tentativas de acompanhar o aborto com uma
psicoterapia foi inferior às expectativas.

A esta altura é necessário colocar em discussão justamente aquelas expectativas:


especialmente o fato que o seu ponto de partida seja a prevenção, que se proponha
a finalidade geral de evitar o aborto, não a individual, de compreender que se
colocou na condição de praticá-lo. Esta premissa não é uma boa base para uma
discussão psicológica do fenômeno. Lembremo-nos dos estudos sobre o suicídio: só
conseguiram dar dele uma visão psico-

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lógica realmente nova aqueles que consideraram o suicídio não como um fato
patológico a priori, e sim uma saída que algumas pessoas escolhem e que outros
continuarão a escolher.(3)

É preciso, pois, considerar o aborto na sua especificidade e, se se visa a uma


compreensão psicológica, de- vem ser examinados tanto os seus eventuais
aspectos tanto conscientes como inconscientes. Prescindamos, pois, da patologia e,
portanto, da tentativa de prevenção, concentrando-nos nos outros aspectos do
problema. O estudo de Kellerhals e Pasini fornece um outro dado mais significativo.

Os autores queriam verificar se o juízo moral pessoal de uma mulher a respeito do


aborto influía de fato no seu comportamento. Será verdade que as mulheres que
estão convencidas de que o aborto seja moralmente errado abortam realmente
menos frequentemente que as outras? Não é o que acontece: as mulheres que
julgam moralmente mau abortar repetem os abortos tão frequentemente como
aquelas que não compartilham esta opinião. Só as praticantes (tanto protestantes
como católicas) estão significativamente menos presentes entre as mulheres que
repetem o aborto.

Isto significa que o juízo moral, enquanto permanece profano e não é professado em
uma comunidade eclesial, não influencia as ações, permanecendo na superfície.
Para a finalidade da prevenção só serve a convicção dada pela fé, não o juízo moral;
constata-se que elevar o índice de admoestação não ajuda em nada, as- sim como
não ajuda procurar demonstrar cientificamente que o aborto é assassínio:
convencer-se disso não impede o fato de tornar a abortar. E duvidoso, em geral, o

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3 – J. Hillmann, 2 suicidio e l’anima, Astrolabio, Roma, 1972.

Fim da nota de rodapé

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sentido da prevenção: quem é praticante não tem necessidade de ser persuadido a


não abortar. Suas ações têm origem nas raízes profundas da fé, não nos últimos
estratos de informações que se sobrepuseram à sua concepção do mundo. Uma
pessoa deste tipo tem relações sexuais mais estáveis; além disso, pratica
habitualmente de maneira mais séria a contracepção, apesar da proibição da Igreja
católica, e, se lhe é possível, decide não abortar.

Com base nestas constatações a única prevenção sensata seria a filiação a uma
comunidade religiosa; tentar convencer uma pessoa que não faz parte desta é inútil,
só levando a maiores sentimentos de culpa quando o aborto, de qualquer forma,
acontece.

Há ainda um outro resultado desta pesquisa que merece grande atenção, embora
estranhamente os auto- res não o ponham em relevo: com a exceção das
praticantes, um outro grupo de mulheres repete o aborto muito menos
frequentemente do que a média. Trata-se daquelas que acham que o aborto é um
evento de importância decisiva (as alternativas indicadas no questionário eram: de
notável importância, de pouca importância, prefiro não dizê-lo.

A ideia ou a sensação de que o aborto seja um fato de especial importância, um


grande evento, parece ser a única convicção capaz de influenciar as nossas ações,
a única que realmente contribua para evitar a repetição dos abortos.

Esta constatação nos aproxima do mundo arcaico. O aborto é tabu; tabu é um


evento extraordinário. Embora brote sempre do cotidiano, nada se faz para preveni-
lo. De acordo com os casos, ele gera angústia, alegria, terror, luto, mas nunca é
apenas algo de certo ou errado: é sempre algo de grande.

Bem diversa é a eterna discussão pró ou contra. Os adversários do aborto partem


para o ataque com a infle-

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xibilidade da fé e do dogma, pregando ao invés de trazer argumentos; aqueles que


são favoráveis se debatem em meio a contradições, conflitos e compromissos: sua
posição é mais diferenciada, procuram argumentos biológicos, psicológicos,
sociológicos, tentam determinar com base nas suas consciências leigas as
condições e os limites dentro dos quais o aborto é aceitável. O problema central
para eles é constituído pelas mulheres que abortam mais vezes, cujo
comportamento fica sendo uma incompreensível provocação.

Pensemos ainda no cirurgião de um consultório, que sustenta em linha de princípio a


legitimidade do aborto, mas que se sente enganado se se recorre a ele muitas
vezes. Por que fica ele decepcionado quando uma mulher pede pela quinta vez para
exercer um direito que lhe é próprio? Se se tratasse de uma questão de quantidade,
deveria, quem sabe, preocupar-se com o número de pare- ceres positivos que deu,
em valor absoluto, não com a média deles para cada mulher. Parece mais que ele
espera que o aborto deixe uma marca na vida de uma mulher, que não desapareça
sem deixar um sinal significativo. Quando isto não acontece, ele duvida da própria
tarefa e experimenta frustração e raiva porque a sua assistência foi apenas
consumada. Por que esta expectativa? Um direito não muda de natureza porque
alguém se serve repetidamente dele.

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ABORTO COMO FIM

Vimos que nas sociedades tradicionais o aborto não tinha somente causas, mas
também escopos, fins não relativos apenas à aniquilação do feto: como no caso
citado da interrupção da primeira gravidez para facilitar a seguinte e o nascimento do
segundo filho.

Esta conduta, para nós supersticiosa, não é completamente destituída de analogias


com eventos não provocados: em muitos casos de aborto espontâneo durante a
primeira gravidez, à qual se segue outra levada a efeito sem nenhum problema, tem-
se a impressão de que a primeira tentativa tenha sido uma espécie de preparação
espiritual, uma gravidez de prova, como para assegurar- se da fertilidade do terreno.
As vezes a este tipo de aborto espontâneo segue-se uma tomada de consciência
dos dois parceiros, cada um dos quais leva em conta a própria ambivalência; pode
acontecer que eles vão ao encontro da tentativa seguinte com maior maturidade.

Procurando as causas de um aborto voluntário, fica- se não raro parado nas


etiquetas patológicas: uma mulher fica involuntariamente grávida e aborta porque é
mais neurótica do que as outras.

Ao perguntar-nos se existem fins inconscientes do aborto, entramos em uma nova


dimensão. Que uma gravidez impulsione para algo de diferente do nascimento

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de um filho e que um aborto se proponha algo de diverso do evitar o nascimento de


um filho, são eventualidades que nos permitem ir além e que lançam nova luz sobre
o fenômeno dos abortos repetidos.
Justamente porque estes fins são inconscientes, o aborto não pode satisfazê-los;
eles remetem novamente e sempre à mesma situação. Este percurso tem,
infelizmente, analogias com o do drogado, que não procura tanto o alívio de um
sofrimento momentâneo como a realização da própria secreta esperança de se
tornar uma outra pessoa. Produz-se assim um círculo vicioso, progredindo, no qual
torna-Se cada vez mais difícil reconhecer o fim originário, que permanece somente
na forma destruidora o drogado se tornou de fato uma outra pessoa, o seu corpo, o
seu caráter, a sua vida espiritual foram modificados, mas de maneira completamente
diversa daquilo a que ele se tinha proposto.

Se um aborto, além de causas, tem também fins, o comportamento irracional de


muitas mulheres em relação à contracepção pode ser visto não Só como erro, mas
também como ato falho, um erro inconscientemente querido.

Se não se quer permanecer de novo agarrado aos aspectos patológicos, não é


possível se contentar com interpretar este erro em termos de auto-engano,
masoquismo, depressão, agressividade diante do parceiro ou dos pais, identificação
com o complexo materno negativo: é preciso procurar para este erro um fim dirigido
para o futuro. E preciso não só perguntar-Se Quais elementos do passado o terão
determinado?, mas também: Quais novos elementos ele traz à luz?

Este procedimento é em resumo o da psicologia analítica de C.G. Jung: para Jung o


ato falho, o sintoma, a neurose, não representam apenas, como para Freud, o
retorno daquilo que foi removido, isto é, de algo que já foi consciente, mas também a
expressão ainda tosca de um

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conteúdo novo que faz pressão para chegar à consciência e não pode fazê-lo a não
ser perturbando o equilíbrio psíquico existente. Se aplicarmos este ponto a uma
gravidez não desejada, não será mais suficiente interpretá-la como um desejo
inconsciente de um filho; a questão vai além e é mais complexa: a necessidade
inconsciente não deve forçosamente dizer respeito a um filho; poderia ao invés disso
ser a procura de um conflito extremo, não necessariamente para sofrer com ele, mas
porque frequentemente na vida procuramos os desafios mais difíceis, e sem vencê-
los não nos sentimos ainda adultos. Isto pode parecer paradoxal ou perverso mas
sob outro aspecto reentra na normalidade. As iniciações à idade adulta são na
maioria das vezes racionalmente improdutivas (pensemos nas tradicionalmente
masculinas, como o partir para a guerra), mas isto tira pouco de sua arcaica carga
simbólica: ultrapassado este limiar, os indivíduos se sentirão adultos e completos, e
isto é tanto mais verdadeiro quanto mais o limiar é difícil, perigoso, potencialmente
destruidor.

Pode acontecer que se deseje inconscientemente uma gravidez e não um filho,


porque à gravidez estão ligadas imagens e expectativas importantes pois ela é o
símbolo mais arcaico e poderoso da novidade e do crescimento.

Há, porém, um outro fim inconsciente, que quase não foi levado em consideração: a
gravidez poderia servir justamente para se conseguir um aborto; o próprio aborto
poderia ser o objeto do desejo inconsciente, porque nele está oculto um significado
do qual sabemos pouco ou nada.

Mesmo G. Devereux vê a possibilidade de que justamente o aborto seja um fim: Há


mulheres que se tornam grávidas para abortar(1). As suas interpretações conti-

Início da nota de rodapé

1 – G. DevereUX A Study of Abortion in Primitive Societies, International Universities


Press, New York, 1976.

Fim da nota de rodapé

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nuam, porém, ligadas ao esquema freudiano da redução a casos patológicos. Nos


exemplos por ele descritos, os abortos inconscientemente desejados só têm fins
negativos: punição do parceiro; autopunição e desejo de castração; e, se o aborto é
repetido, a prova de não ser castrável.

Por mais interessantes que possam parecer, estas interpretações não saem do
âmbito da patologia; isso confirma o tema fundamental de Devereux, de acordo com
o qual o aborto é uma resposta neurótica a uma situação neurótica e que é sempre e
de qualquer forma um acontecimento traumático. (2) Este ponto de vista considera a
gravidez como sendo um processo natural, cuja interrupção não pode ser senão
uma brutal agressão. Diante disto, desconhece a sua relatividade sociocultural,
estendendo a condenação expressa pelo cristianismo a todos aqueles povos
primitivos que preveem formas rituais de aborto. De maneira mais geral, alguns
importantes aspectos psicológicos são postos de lado: dão-se casos em que a
gravidez não é assumida como um processo normal, mas como um evento anormal,
como violência, como doença, da qual nos livramos, abortando.

Mas levemos mais longe a reflexão, procurando possíveis fins inconscientes de um


aborto que não entrem na esfera patológica. Uma mulher que ficou
involuntariamente grávida encontra-se numa armadilha. Em geral, parece-lhe que
não pode escolher, pois não quis nenhum dos dois caminhos que tem pela frente. O
conflito supera em intensidade tudo aquilo que ela anteriormente viveu. A quais
mulheres isto permite experimentar algo ainda desconhecido? Só àquelas que
decidem ter um filho? Para aquelas que abortam só se pode esperar que trabalhem
psiquicamente o aborto, que realizem

Início da nota de rodapé

2 – (…) abortion, involving the arbitrary interruption of an ongoing normal process


must be traumatic to the woman.

Fim da nota de rodapé

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o trabalho do luto, e que sobrevivam ao acontecimento sem grandes feridas?


Ou existe a possibilidade de que seja nelas uma condição psíquica anteriomente
ignorada, que sem o aborto não teria vindo à tona? E se isto é verdade, será que
este elemento ignorado pode justificar um assassino?

No caso dos abortos repetidos o mecanismo parece ser o oposto: uma ação é
repetida compulsivamente como para tornar ainda mais fácil realizá-la de novo. A
repetição poderia depender do fato de não se ter alcançado o fim efetivo. Quanto
mais os abortos são destituídos de sentido, tanto mais frequentemente devem ser
repetidos, como se existisse nisto sempre de novo uma esperança de alcançar a
meta, liberando um significado escondido, apesar do perigo de que se trate de um
mecanismo gasto que continua a girar por inércia. A coação para repetir só cessaria,
pois, com a tomada de consciência daquilo que tenha sido procurado de modo tão
irracional, mas ao mesmo tempo tão determinado.

Nosso estudo se pergunta se algo, e que algo, possa vir à tona através de um
aborto. Antes de enfrentar este tema é, porém, necessária uma digressão sobre as
imagens inconscientes ligadas à gravidez.

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INCONSCIENTEMENTE DESEJADO

Inconscientemente deve tê-lo desejado, caso contrário teria estado mais atenta à
contracepção. O ginecologista psicologicamente equipado espera em vão uma res-
posta, pois a paciente não sabe o que dizer, tendo apenas uma vaga sensação de já
ter ouvido o tom destas palavras: é semelhante ao tom com o qual outrora se dizia:
Foi Deus que o quis, pois de outra forma não teria acontecido.

Naquela época a mulher teria podido haver-se com Deus; hoje parece ser ela que
quis ter algo: a partir do momento em que existe o inconsciente, Deus não é mais
responsável. Mas o que é que pôde ela ter querido: um filho? Parece inverossímil,
uma vez que ela está justamente decidindo recusá-lo. Talvez quisesse apenas uma
gravidez?
A prova de fertilidade

Quando vi o circulozinho negro no teste de gravidez, experimentei medo e alegria ao


mesmo tempo: estava grávida. Embora soubesse que teria interrompido a gravidez,
estava orgulhosa e por algumas horas experimentei uma segurança interior jamais
conhecida antes. Estava, realmente, grávida; parecia-me um milagre.

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Aqui a experiência da própria fecundidade chega inesperada, como um milagre. As


comemorações coletivas por ocasião da primeira menstruação, presentes em quase
todas as culturas tradicionais, faltam na sociedade moderna: não se tem mais uma
maneira de saber ritualmente se se é fértil ou não. Os livros de medicina explicam
que a fertilidade começa logo depois da primeira menstruação; mas disto não se tem
experiência, sendo que as palavras com que somos informados deste fato não
atingem os nossos corpos e os nossos sentimentos; à chegada das primeiras gotas
de sangue pouca coisa terá psicologicamente acontecido, a não ser um pouco de
incômodo e o problema daquilo que não se pode mais fazer. A crença popular
segundo a qual durante as menstruações tudo é impuro e determinados atos são
proibidos conserva talvez relação com uma necessidade de rituais e com a
percepção de uma condição suspensa, que precede uma mudança. Não fica, porém,
claro o que se muda, uma vez que as fantasias a este respeito possuem um
conteúdo exclusivamente higiênico.

Outrora a passagem da meninice à idade adulta era codificada nos rituais iniciáticos.
Hoje cada mulher em particular deve confrontar-se sozinha com a improvisa falta de
uma ponte ritual. O rito de passagem das sociedades pré-modernas servia também
de guia; o medo de uma transformação misteriosa era contrabalançado pela
consciência de que a comunidade reconhecia e protegia para sempre esta novidade.
Mas se falta a experiência iniciática nas quais as emoções individuais e as coletivas
se reforçam reciprocamente, uma jovenzinha pode continuar sendo tal mesmo
quando um título de estudo, um matrimônio e filhos estão ali para preencher o vazio.
A separação dos pais é hoje mais difícil e adiada no tempo, e é mais um movimento
pendular entre independência e regressão que um passo irreversível realizado uma
vez por todas.

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A procura inconsciente de uma prova de fertilidade auto-iniciática através de uma


gravidez não é realizada apenas por adolescentes muito jovens, mas também por
mulheres de todas as idades, e também quando já têm filhos. Ela tem o arcaico
poder de fazê-las sentir-se novamente jovens a cada vez que isto acontece, e é uma
novidade que se difunde simultaneamente no corpo e no espírito.

A experiência da própria identidade feminina por este caminho é o sucedâneo de


uma passagem ritual desaparecida: infelizmente ela é em geral demasiado
inconsciente e limitada ao corpo. No caso de uma gravidez levada a termo, tanto
com um aborto como com um parto, encontramo-nos diante do vazio precedente. A
experiência não é permanente e deve ser repetida.

A tudo isto que acabamos de dizer podem ser acrescentadas outras questões
ligadas ao relacionamento com o parceiro: no início de uma nova relação, acontece
que uma mulher se sinta interiormente virgem; como deseja começar tudo de novo e
ser nova ela própria, torna a colocar-se o problema de uma prova da própria
fertilidade. A gravidez testemunha simbolicamente, mas ao mesmo tempo
concretamente, que a relação pode dar os seus frutos, coisa da qual se tinha
secretamente continuado a duvidar. Frequentemente uma relação semelhante de
casal desaba justamente por causa da gravidez não desejada e se torna evidente
até que ponto os níveis tivessem sido trocados: não se desejava um filho, mas uma
renovação de si através do outro. Às vezes, ao contrário, a procura de provas da
própria fertilidade leva a uma contínua sucessão de gravidezes e de filhos: filhos que
não foram desejados como seres individuais.

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A mudança esperada
Mas vamos dar um passo adiante. Vimos uma gravidez não desejada como
expressão de uma necessidade inconsciente de viver os primeiros momentos, e só
eles, de uma gravidez. Um outro desejo inconsciente poderia ser o de viver os
aspectos positivos da maternidade em si: não o fato de ter um filho, mas as
mudanças em nós mesmas que esperamos de uma experiência semelhante.

Esperamos que a maternidade nos transforme sem um grande esforço de nossa


parte. Esta esperança encontra sua justificativa no fato de que a maternidade, uma
vez começada, vai adiante por si: parece ao alcance de qualquer mulher. E ela que é
o evento inciático para todas e em todas as culturas. As fantasias de aumento de
potência que evoca derivam de um mundo mítico, matriarcal, no qual a mãe é
senhora, de toda vida. A sua vagina é a porta do transcendente. E ela que dá e tira a
vida. E o centro.

Qual mulher moderna, insegura dos próprios papéis, não deseja secretamente ser
venerada como Deusa Mãe? Nos comerciais publicitários são visualizados este uni-
verso mítico contemporâneo e as nossas fantasias semiconscientes: a futura mãe é
tranquila, amorosa, sorridente; não tem deveres, dispõe de tempo à beça. Se não
está ocupada com o enxoval do nascituro, está grudada ao telefone. Sedutora
combinação de direito à veneração e de regressivo livrar-se de todos os problemas.
Mas quando a realidade se revela o contrário desta expectativa, com o acréscimo de
problemas devidos justamente à maternidade e à ausência de venerações, a
decepção se transforma em ira voltada contra os que a rodeiam; entretanto elas não
foram enganadas por esta ou aquela pessoa, foram enganadas, sim, mas pelas
próprias fantasias e pelas fantasias coletivas. Estes mitos são tão unilaterais e

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irrealistas também pela falta de um momento inciático que introduza em


profundidade na vertente adulta da realidade feminina.

O ser mãe é apenas um lado do ser mulher. E o imaginário coletivo que nos engana,
identificando com leviandade o ser mãe com o ser mulher, como se não existissem
dramáticas bifurcações na sondagem da identidade feminina. A maternidade como
realização do ser mulher é exagerada em detrimento das alternativas. Estas últimas,
às quais falta qualquer radicação iniciática, empalidecem no fundo, porque não
comportam as modificações corpóreas da gravidez e o advento visível de algo de
novo (o filho), os quais proporcionam a ilusão de que só a maternidade seja uma
modificação de si, uma iniciação natural através do corpo e da relação com o filho.

Se observarmos as histórias de vida de muitas mulheres em tratamento


psicanalítico, para as quais gravidez e maternidade se deram sem deixar marcas,
mulheres que continuam a ser nos próprios sonhos crianças sem mãe e consideram
os próprios filhos como prolongamentos de si ou então como figuras paternas
caritativas ou inimigas, fica-se na dúvida sobre se a maternidade com- porte
realmente uma automática novidade construtiva ou não seja antes uma violenta
reedição, sob aparências trocadas, daquilo que experimentamos por outro lado
outrora, como meninas.

Confiar num bom instinto materno não basta, pois o instinto materno pode já ter sido
também danificado ou pervertido. Aquilo que nas sociedades tradicionais era
transmitido às adolescentes dependia da coletividade, da totalidade de um grupo;
hoje toda mulher em particular transmite à filha determinado tipo de saber baseado
na própria experiência pessoal, limitada.

As imagens coletivas são unilaterais e separadas, frequentemente meros


fragmentos de identidade femini-

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a: a mãe, a mulher que faz carreira, a amante, a parceira, a feminista. A tentativa de


unificar todos estes aspectos, realizando-os na própria vida, parece ser a invenção
de uma psicologia voltada à onipotência. Desejamos transformar-nos, tanto por
necessidade inconsciente da iniciação que nos faltou, como pela tendência natural
para a mudança, própria do ser humano. Com relação à maternidade,
inconscientemente se comporta em relação a ela como se através dela se pudesse
chegar a uma reviravolta fundamental: uma mulher pode ficar grávida não pelo
desejo de ter um filho, mas porque gostaria de ser outra, ou melhor, mais forte,
feminina, completa; mais aceita, mais ela própria.

As vezes se tem a convicção que com a maternidade sobrevirá uma profunda


mudança. Outras vezes a convicção não chega, mas continuamos a esperá-la. Pode
acontecer que esta expectativa tenha uma parte nos erros cometidos com a
contracepção; é uma voz a custo audível: E se por acaso acontecesse? Entre todos
os papéis, não raro contraditórios entre si, que uma mulher pode hoje desempenhar,
o de mãe é um dos poucos nos quais ela pode entrar sem excessivos sentimentos
de culpa e com o reconhecimento universal. Embora a quase totalidade dos nossos
problemas coletivos esteja relacionada com a superpopulação, uma mulher grávida
tem muito poucas críticas a temer por parte da coletividade: como futura mamãe
continua a ser, sob algum aspecto, sagrada. Que posteriormente ela seja totalmente
abandonada a si mesma com o filho já é outro assunto.

Também neste caso a mulher é enganada pelo imaginário coletivo. A maternidade


esconde em si o calor de milhares de vidas já vividas, a gravidez faz remontar a uma
época precedente do desenvolvimento civil, quando o sentido derivava da repetição
dos mesmos gestos, em um ritmo que mantinha afastada a monotonia. A ausên-

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cia de estímulos externos durante um dia inteiro passa- do com um lactente pode
levar a uma sensação de presente sem história que não conhece ainda causas e
efeitos: quando cai a noite esquenta-se o leite e quando se esquenta o leite, cai a
noite. O mundo é determinado pelos cuidados com o lactente. Esta condição de
quase não- identidade é extraordinariamente agradável para algumas mulheres, que
param de ler o jornal, dormem muito, descuidam das amizades e do parceiro em
favor de outras mães até desconhecidas. Mesmo mulheres seriamente neuróticas se
sentem muitas vezes libertas de todo conflito interior durante a gravidez e durante os
primeiros meses de maternidade; e até dirão com frequência que foi o melhor
período da sua vida. Outras se apavoram com isto, procurando encerrar logo esta
fase, voltando à sua vida normal e confiando a criança a outros.
De tudo isso uma mulher que jamais esteve grávida não tem uma consciência clara,
podendo ter disso um conhecimento não expresso. A saudade de um estado
semelhante é tanto maior quanto mais cheia de conflitos é a sua vida. Sabe-se que
situações difíceis levam às vezes a gravidezes não desejadas; não só como pedido
de ajuda, mas também como expressão de uma necessidade de harmonia, de
identidade precisa, de unidade com o outro, de renovação.

Regressão à infância

Frequentemente o desejo de ter um filho não é estranho ao de nos tornarmos nós


mesmas de novo crianças. Muitas mulheres, que desejam ter um filho a qualquer
preço e se esquecem diante de uma vitrina de artigos para neonatos, voltariam
correndo para casa se morassem elas próprias no mesmo quartinho enfeitado
preparado para

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os nascituros. Não é por acaso que boa parte dos objetos julgados necessários,
vestidinhos bordados, cortinas para o berço, cadeirinhas complicadas e brinquedos
imponentes (por exemplo, grandes animais de pelúcia com os quais o filho só
brincará quando tiver quatro ou cinco anos), são supérfluos para o filho pequenino,
mas não o são para as fantasias regressivas do adulto. Pais que tinham tido uma
educação restritiva se alegram com a ideia de ressarcir-se finalmente de algumas
ocasiões perdidas; infelizmente, esta possibilidade não se realiza frequentemente,
pois a rigidez que eles interiorizaram se mistura com a relação com o próprio filho e,
por caminhos transversos e invisíveis aos próprios pais, procura impor-se de novo.

As chamadas alegrias da gravidez São tanto mais desfrutáveis quando são aceitas
pelo ambiente. Se elas não existissem, seria preciso inventá-las — disse-me um dia
uma mulher. Só por pouco tempo é que se pode com- portar assim, como
criancinhas. Só por pouco tempo é que se pode delegar a outros tantas
responsabilidades.
A regressão trazida por gravidez e maternidade tem um sentido também no plano
biológico: certo abaissement du niveau mental é necessário para a simbiose com o
lactente. Todavia, ser mãe, ao mesmo tempo ou pouco depois, exige maturidade,
pelo menos a partir do momento em que a mãe que regrediu percebe que o seu
excesso de peso não desaparece, que não tem mais vida sexual, que seu filho se
comporta cada vez menos como aquilo que ela esperava e consequentemente se
sente enganada. O filho pode até se tornar uma espécie de rival em concorrência
com ela pela condição infantil.

A solução às vezes é, por mais paradoxal que isto nos possa parecer, um segundo
filho. Como no caso dos abortos, quando não se compreendeu qual foi o efetivo fim
de um evento, o jeito é repeti-lo.
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Poder criar

Há ainda outras fantasias relacionadas com a gravidez: o fato que algo esteja se
movendo e crescendo dentro do próprio corpo, sem uma participação ativa própria,
confere à pessoa significado, sabedoria e ordem. A mulher se sente observada por
pessoas fascinadas, que acompanham passo a passo o desenvolvimento de tudo
isso, vendo-se como um lugar em que está se realizando um milagre.

Muitas mulheres começam assim a admirar o próprio corpo e a ter confiança nele.
Outras ficam horroriza- das com os seus novos contornos e vivem como uma
opressão esta mudança. Se prevalece a confiança, a mulher se sente como sendo o
centro de um evento incomparável: está criando um ser humano.

Toda outra atividade criadora requer mais intervenção, força de vontade, solidez do
Eu. Pense-se apenas em quanta disciplina é necessária para evitar fatores que
podem perturbar um processo criativo desenvolvido pelas nossas mãos ou pela
nossa mente: chamadas telefônicas, trabalhos domésticos e assim por diante. Na
gravidez, porém, os fatores exógenos de perturbação são reduzidos; a única coisa
que pode perturbar, se é que per- turba, é o fato de se estar tão distante dos outros:
mesmo no decurso de uma discussão acabamos dormindo ao primeiro sinal de
cansaço. Os pedidos dos outros, que normalmente temos dificuldade em recusar
porque é inclusive graças a eles que construímos a nossa personalidade, são
relativizados. A própria identidade está já dada pela gravidez e a pessoa está pouco
se preocupando com mostrar-se agradável. O corpo ajuda a realizar uma
autolimitação egoísta, com a qual antes se podia apenas sonhar: agora a mulher
pode dizer não porque está grá-

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vida. Tentar um retiro análogo com a finalidade de escrever ou pintar é


incomparavelmente mais difícil. Aquilo que se quer criar não pode ter a consistência
de um futuro filho, sendo apenas ideias ou desejos. Sobretudo aquelas mulheres
cuja identidade consiste em existir para um outro têm dificuldade de estar ativas de
modo criativo. Se levam uma atividade mais a sério do que os homens pelos quais
estão acostumadas a viver, surgem medos e sentimentos de culpa: medo de serem
abandonadas, de não serem mais definidas, de não existirem. Para elas, encontrar
uma identidade construindo com as próprias mãos e a própria mente é um processo
difícil e culturalmente novo.

Aquilo que em qualquer outro tipo de criação deve ser fatigosamente elaborado, na
gravidez se torna mais fácil pelo fato de que é o corpo que faz a maior parte do
trabalho. Os dois tipos de criação não são na realidade comparáveis, mas nas
fantasias se sobrepõem; prova-o a sensação de fracasso pessoal que muitas
mulheres experimentam diante da ideia de ter um filho deficiente ou apenas um filho
do sexo não desejado por elas. No seu íntimo estão convencidas de ter gerado
juntamente com ele o filho; se este apresenta deficiências, a culpa é delas.

Rigorosamente falando, no caso de fantasias semelhantes fala-se de inflação


psíquica. Mas, de outro ponto de vista, pode-se também pensar que elas influenciam
não pouco o filho e que sua onipotência implícita derrame nele um excedente de
sentido vital. Uma das piores experiências possíveis para um filho é justamente a de
ter pais que não tenham fantasias a respeito dele.
Se a exigência de exprimir-se criativamente se choca contra demasiados obstáculos
interiores e exteriores, chega-se à confusão entre os diversos planos da criação (o
carnal e o metafísico), facilitada pelo parentesco sim-

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bólico recíproco: a estudante que fica grávida, após anos de sacrifício para estudar,
nas vésperas do último exame importante; a mulher que finalmente resolveu cortar a
própria relação com um homem casado e descobre que está grávida; a jornalista à
qual aconteceu a mesma coisa logo que conseguiu uma ambicionada incumbência
de ser enviada ao exterior. Nestes casos estou grávida soa como estou livre.
Escapa-se da parte imposta pela nova vida que se tem pela frente, da obrigação de
ser criadora; à renovação que se preparava sucede um tipo de renovação
completamente diferente, levada a efeito através do filho. A um processo criativo
cultural sucede o biológico, que promete, apesar de todos os conflitos exteriores,
libertação do conflito. Tudo pode correr bem se a maternidade leva a mulher a se
familiarizar de fato com uma vida mais responsável; mas tudo vai mal se a
maternidade leva sobretudo a frustrações ou a perseverar na ambivalência, embora
de forma nova.

Outras fantasias inconscientes estão relacionadas com a gravidez: uma destas é a


fantasia de poder. As mulheres grávidas são frequentemente consideradas
poderosas e ameaçadoras, no sentido de tabu, de porta para o além. No plano mais
banal e terreno isto significa ser finalmente mais importante que a sogra, a irmã, a
amiga ou o companheiro.

Os machos reagem à gravidez de modo ambivalente; fascínio, agressividade e


necessidade de fuga se alternam, frequentemente com grande decepção da mulher,
que esperava sobretudo ser carinhosamente aliviada de tantos problemas. O
ambiente reage de acordo: Vamos, coragem!, se diz ao futuro pai, dando-lhe um
tapinha nos ombros; à mãe ao invés só se dirige com ares hipócritas. Ora, a mãe
não precisa de encorajamento, pois já o tem de sobra, ou pelo menos assim o quer
o clichê. Ela e o
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filho são uma só e mesma coisa, têm ambos direito de ser adorados e protegidos.
Para o pai, na medida em que leva realmente a sério a novidade, esta significa
desde o início responsabilidades novas. Para ele o filho, mesmo antes de nascer, é
um Tu, e ele chega a se perguntar, nas noites insones, se e como conseguirá entrar
em relação com o filho; a mãe se vê já com o filho nos braços, não existindo nenhum
problema de relacionamento, pois na maio- ria das vezes este já está estabelecido
como forma de simbiose. O trabalho consciente, que o pai deve realizar desde o
início, chega para a mãe mais tarde, quando uma relação simbiótica já não basta.

A gravidez, no entanto, pode ser utilizada como demonstração pública do próprio


poder; frequentemente tem sido o instrumento decisivo deste mesmo poder: pense-
se nas dinastias reinantes, nas quais a falta de filhos importava na perda de todos os
títulos.

Mas é justamente o desejo de poder que pode ser inconscientemente determinante


para uma gravidez não desejada. Nestes casos, se ela não é levada a bom termo, a
sensação de falência e impotência pessoal é especialmente grave. Por outro lado,
se estas circunstâncias não são trazidas à consciência e não é encontrada uma via
de saída a partir de uma condição de inferioridade e impotência interiores, é de
esperar que a coisa se repita. De maneira analogamente inconsciente também os
homens podem, tanto para satisfazer desejos regressivos, como para afirmar o seu
vigor sexual, obrigar a mulher a repetidas gravidezes, sem nem por isso desejar um
filho. Um homem pode deixar-se levar pela vontade inconsciente de neutralizar a
mulher enquanto objeto sexual angustiante, e de tornar-se filho da mãe assim
conseguida.

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Contracepção segura: sexualidade sem significado

É pensando na ação de todos estes motivos, em grande parte inconscientes, que é


possível compreender a extrema ambivalência com que a mulher se coloca diante
da contracepção. Uma contracepção perfeita aniquila todas as vagas e
indeterminadas esperanças inconscientes, excluindo aquelas vias de escape e
aqueles atalhos que sempre nos atraem, ainda que tragam sofrimentos. A
contracepção cem por cento segura dá medo: a sua racionalidade e as
possibilidades de planejamento que oferece dão uma sensação de coação. E o fim
do mistério, do risco, das astúcias, da dúvida; queres ou não queres um filho? A
alternativa fica reduzida a estes termos. Na realidade muitas mulheres preferem fugir
desta pergunta. Será que se pode realmente responder, levando-se em conta todas
as fantasias que estão em jogo? Muitas mulheres não querem nem podem dar
resposta, percebendo vagamente que esta alternativa é demasiado rígida e que ela
exigiria uma consciência muito maior do que aquela que lhes é habitual.
Frequentemente os contraceptivos seguros não são tolerados; seria o caso de
perguntar o que não é tolerado: as alterações fisiológicas ou o fato de a mulher
saber que é estéril?

Muitas recusam a estabilização hormonal determinada pela pílula; afirmam que têm
sensações abafadas e saudade das oscilações de tom devidas ao ritmo do ciclo,
com as grandes mudanças nas condições físicas e mentais que isto pode
determinar. Não raro isto modifica as exigências sexuais, a atividade do corpo e do
espírito, as fantasias, o interesse pelas relações. A experiência de ser variável, mas
ao mesmo tempo estável dentro desta variabilidade, sabendo que tudo se repetirá
no mês seguinte e que se poderá retomar a partir do mesmo ponto aquilo que foi
interrompido, é um componente importante do fato de ser mulher.

Página 67

A sensação de se tornar estéril por causa da pílula não é apenas uma fantasia e não
diz respeito unicamente à possibilidade de uma gravidez, mas também ao potencial
criativo contido nos altos e baixos das mutações induzidos pelo ciclo. Há mulheres
que na segunda meta- de do ciclo conseguem grandes resultados graças a uma
considerável tensão agressiva que falta com a menstruação; por isso se tornam
mais passivas e não compreendem mais por que deveriam dar tanto que fazer.
Outros métodos, como o DIU, não agem sobre o sistema hormonal. Têm até a
vantagem de não ser cem por cento seguros. Para algumas mulheres é um motivo
para descartá-l0S, mas para outras, mais ambivalentes em relação à escolha de não
ter um filho, é uma razão a mais para preferi-los: os cinco por cento de possibilidade
deixam espaço ao destino, de maneira que se a mulher fica grávida apesar do DIU,
isto significa que devia mesmo acontecer.

De maneira geral, talvez não faltem anticoncepcionais mais seguros e fáceis de uso,
mas atitudes mais conscientes, à luz das quais a contracepção Seria praticada com
menores contradições. Paradoxalmente os métodos fáceis de usar não favorecem a
clareza; não promovem uma relação consciente com o próprio corpo(1). O problema
fundamental continua sendo o da pretensão simplificadora de orientar a
contracepção somente através dos nossos pensamentos racionais; assim fazendo,
corre-se o

Início da nota de rodapé

1 – No âmbito da medicina alternativa é proposto hoje um método de contracepção


baseado apenas nos exercícios de respiração e de ginástica, que devem ser
executados depois do 18° dia do ciclo. Estes exercícios (trata-se sobretudo de
contrações do abdome) provocam as menstruações, independente mente do fato de
ter havido uma fecundação. O método de Aviva Steiner foi registrado pela ONU em
1964. Com nenhum outro método se está de novo tão perto da percepção do corpo
feminino como porta para a vida e para a morte. Executar os exercícios depende de
um ato de vontade e pode ser comparado a um ritual individual.

Fim da nota de rodapé

Página 68

risco de preterir aqueles mais arcaicos e inconscientes que, como se disse, cedo ou
tarde entram sempre em jogo.
Devemos, pois, perguntar-nos como é vivida a sexualidade em relação à
contracepção e vice-versa, não interrogando-nos apenas sobre os atos sexuais
concretos, mas em primeiro lugar sobre as fantasias sexuais, sobre a expressão
psíquica da sexualidade. Que relação existe entre sexualidade e contracepção em
nosso imaginário, na instância que em última análise determina as nossas ações?

Foi A. Guggenbühl-Crajg que definiu a sexualidade como sendo a mais anárquica


entre as atividades humanas, como aquilo que não se deixa domar ou civilizar.(2) Na
sexualidade entram representações imaginárias da fecundação, completamente
independentes de uma realização efetiva dela. Em qualquer lugar onde a
sexualidade venha a ser submetida a regras, ela procura outros caminhos para
encontrar expressão. Se a sexualidade age ir- racionalmente, o mesmo se pode
dizer da contracepção, à qual ela está vinculada. Talvez devamos desistir de esperar
comportamentos racionais. O risco faz parte da excitação; a excitação sexual tem
relações inconscientes e arcaicas com as imagens relativas ao ato de fecundar e de
ser fecundada. No plano simbólico isto exprime de qualquer forma o desejo de que a
relação seja fecunda e dê lugar à vida espiritual. No momento da excitação sexual
somos impulsionados, ao mesmo tempo e sem que em geral se possam distinguir os
dois influxos entre si, tanto por um impulso fisiológico como pela imagem psíquica de
uma união geradora; se isto não diz respeito a um filho real, não é devido a uma
contradição, mas a uma confusão entre o plano material e o simbólico. E assim, o

Início da nota de rodapé

2 – A. Guggenbühl-Crajg, Die Ehe ist tot, es lebe die Ehe, edizioni dello C. G. Jung
institut, Zurique, 1976.

Fim da nota de rodapé

Página 69

fascínio inconsciente da união, que gera indiferentemente num ou noutro plano, se


resume e se afirma no pensamento que nada de mau vai acontecer. Arrastadas pela
força do símbolo, as fantasias falam uma linguagem secreta onipotente: Os meus
(os nossos) sentimentos são tão profundos, a nossa ligação tão forte, que uma
ninharia como a contracepção passa para o fundo da cena, sendo que a mim (a nós)
nada pode acontecer, pois na união nós somos divinos.

Não é nada fácil conceber a sexualidade sem esta sua parte irracional, sem a qual
ela não seria a grande renovadora. A contracepção, ao contrário, é um evento
racional, técnico, indiscutivelmente não erótico. Não é, pois, difícil compreender que
ela frequentemente chegue não antes, mas depois do sexo (em casos extremos
como um aborto). Seja ele um bem ou um mal, de qualquer forma é um fato que
pertence à vida humana. Um anticoncepcional que agisse a posteriori seria talvez
mais racional e certamente mais eficaz, pois não envolveria a sexualidade; levar-se-
ia em conta do mesmo modo a ir- racionalidade desta e, em seguida, a
determinação da vontade: antes se festejou, depois se pôs tudo em ordem. Mas
acontece que, de repente, para muitos o óvulo fecundado é vida humana; para a sua
sensibilidade moral um método retroativo seria inadmissível.

Mas será possível confrontar-se com a irracionalidade do sexo sem diminuir-lhe o


caráter renovador, mesmo prevenindo a fecundação? Será que contracepção segura
deve significar sempre sexualidade programada e tediosa? Racionalmente podemos
ter separados desejo de um filho e sexualidade. Mas, para a nossa componente
animal, que procura no outro a excitação correspondente ao período fecundo,
aquela que para o instinto era o calor, contracepção segura significa relações sem
sentido. No plano instintivo e biológico a sexualidade está a serviço

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do filho, pois já houve uma renovação psíquica e simbólica. O instinto, que desejava
uma fecundação biológica, encontrou o modo de exprimir-se na psique, o encontro
foi fecundo, corpo e alma têm consciência disso no seu êxtase total. Em palavras
mais simples, uma vida sexual intensa e estável pode criar as condições
inconscientes para um uso correto da contracepção. Uma vida sexual insatisfatória e
que não traz consigo vida psíquica leva ao contrário frequentemente a uma
necessidade concreta de efetiva fecundação, de gravidez, de um filho: não,
infelizmente, porque tenha havido uma evolução para novas responsabilidades, mas
porque simplesmente faltou a evolução; justamente por não se ter podido gerar no
plano simbólico, a sexualidade ficou sendo um fato pura- mente exterior.

Talvez não estejamos nem sexualmente nem psicologicamente maduros para uma
contracepção adulta. Para evitar realmente os abortos, seriam necessárias
condições adaptadas a uma sexualidade plena e uma consciência muito aguda: mas
as duas não passam de utopias.

De qualquer forma continua em aberto o nosso problema mais geral: se os abortos


podem e devem ser evitados, e que sentido pode ter esta eventual prevenção.

Página 72

INICIAÇÃO E MATERNIDADE

o uso do substantivo iniciação e do adjetivo inciático se espalhou com tal rapidez na


linguagem psicológica que é lícito perguntar-nos se com estes termos não se
designam hoje demasiadas coisas ao mesmo tempo. Por outro lado vários
comportamentos individuais incompreensíveis e irracionais foram por causa disso
restituídos a um contexto mais geral e a uma origem significativa. A atitude dos
adolescentes que procuram situações de grave perigo ou, mais especificamente,
experiências de morte e de regeneração através das drogas, leva, por exemplo, a
pensar que eles estejam inconscientemente levando à cena aquelas provas
iniciáticos de coragem que, nas sociedades pré-modernas, reforçavam a identidade
e tornavam- nos adultos. Como foi mostrado, (1) as tentativas de evocar uma
experiência iniciática através das drogas fracassam quase sempre porque nelas o
percurso da iniciação acaba sendo virado por completo: não se parte de uma
vivência simbólica de morte para se chegar à regeneração, mas se consegue
primeiro e precipitadamente uma ilusória regeneração devida aos efeitos da droga,
chegando-se de- pois a um lento e concreto perigo de morte. A antropologia
distingue dois tipos de iniciação: a generalizada (ritos

Início da nota de rodapé


1 – L. Zoja, Nascere non basta, Cortina, Milão, 1985 e 1993.

Fim da nota de rodapé

Página 73

de passagem da adolescência ao mundo dos adultos) e a específica (o ingresso em


um grupo particular, por exemplo o dos xamãs ou dos guerreiros). Via de regra, esta
última não se distingue das comuns a não ser por provas psíquicas e físicas mais
duras e dramáticas. Tudo leva a supor que em nossa sociedade exista uma grande
necessidade insatisfeita de iniciação. A modernidade cancelou todos os ritos
relacionados com ela, preocupando-se com manter vivos somente os
comportamentos racionais e dotados de eficácia imediatamente visível. Daqueles
rituais que em todas as sociedades arcaicas estavam liga- dos às principais
passagens da existência humana (nas- cimento, sexualidade, matrimônio, morte),
sobrevivem apenas restos que não bastam para facilitar a passagem espiritual de
um fase da vida a uma outra.

Os rituais não podem ser criados artificialmente, mas devem ser desenvolvidos
gradualmente em um sistema de vida unitário e coerente, que dê valor explícito a um
código de símbolos. No nosso mundo dessacralizado esta dimensão simbólica está
presente apenas de forma arqueológica, como fragmentos de uma cultura passada
da qual se esqueceu o sentido; excepcionalmente, podemos redescobri-lo sob a
forma de particularidade individual, mas nunca como evento coletivo.

Os ritos de passagem, com efeito, estão submetidos à mesma regra que governa
todos os ritos: os mecanismos que neles agem não podem ser intencionalmente
programados. Virando por completo a afirmação, pode-se dizer que, se as iniciações
são eficazes, então elas não podem ser premeditadas como um fim racional; sua
eficácia depende de uma fé mais geral nos valores simbólicos.

Hoje em dia não existem mais iniciações no sentido tradicional; donde o uso do
adjetivo inciático para descrever as situações mais diversas, embora o substantivo
não tenha mais um campo determinado de aplicação.
Página 74

Basta pensar nos caracteres peculiares de uma iniciação: sacralidade, encontro com
a morte, irreversibilidade, ausência de alternativas. Uma passagem iniciática não
tinha caminho de volta, ao passo que em nossa sociedade toda decisão de entrar
em um grupo (até no sacerdócio) pode ser revogada. Faltam as passagens que não
deixam lugar a alternativas; da iniciação tradicional ninguém escapava, o rito da
puberdade era obrigatório, e o xamã, o homem de medicina primitivo, estava
obrigado a se tornar assim por uma visão: não se lhe perguntava que caminho
pretendia seguir, como se faz hoje após a formatura. As livres decisões fazem parte
do nosso mundo atual dessacralizado.

A respeito das iniciações das mulheres a aos seus rituais temos menos informações;
julga-se que fossem menos formalizadas porque eram já destacadas pelos ritmos
fisiológicos: já figura nas menstruações, na primeira gravidez e no parto. Não se
tratava de provas de coragem codificadas, como no caso dos adolescentes
masculinos. Transmitiam, porém, um ensinamento de coragem tipicamente feminina,
e o seu código já estava escrito na natureza.

É certo que a iniciação da mulher tinha consequências diversas da do homem.


Mesmo depois da iniciação as mulheres continuavam no mundo que era o delas e
dos filhos, ao passo que os homens o abandonavam para sempre justamente
através daquele rito. Os dois tipos de iniciação se situam em planos diversos.

Uma descrição de Gehrts relativa aos Papua da Nova Guiné mostra bem esta
diversidade. (2)

Neste rito, o mundo inteiro, isto é, a casa do mundo e a parte limítrofe da floresta,
estão divididos em dois por uma

Início da nota de rodapé


2 – H. Gehrts, in Gorgo, Zeitschrift für archetypische Psychologje und bildhaftes
Denken, n. 18.

Fim da nota de rodapé

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divisória feita de folhas; de um lado ficam os homens, iniciados e iniciandos; do


outro, as mulheres e as crianças. A divisória é atravessada por duas vigas, que
representam a estirpe, ou melhor, as duas metades polares da estirpe. As vigas que
ficam do lado dos homens são erguidas sobre estacas; as do lado das mulheres se
apoiam no chão (...). O significado metafísico-antropológico desta grandiosa cena
simbólica não deixa lugar a dúvidas: a existência do lado dos homens está em
tensão e é temporária porque iniciática; do lado das mulheres não é iniciática, mas
tranquilizadora e eterna.

Para a iniciação masculina são exigidas qualidades que incluem consciência e


solidez do Eu: o homem deve agir, combater e decidir. De certo modo deve, porém,
ser também passivo diante da própria visão e no abandonar-se à vivência de morte
que a iniciação comporta. A iniciação é a experiência do transcendente, a assunção
da obrigação de permanecer em contato com ele e de submeter-se a ele.

Já foi dito que os ritos iniciáticos femininos são menos nítidos porque as mulheres,
através de passagens biológicas bem definidas, estão naturalmente em contato com
o transcendente e frequentemente até veneradas como sua encarnação simbólica. A
sua passagem à vida adulta se manifesta através de mudanças físicas, sendo
congênita nelas. Para os homens a coisa se dá de modo mais abstrato, dependendo
de uma idade determinada e de um ato voluntário da consciência.

Se a iniciação feminina estava outrora ligada sobretudo às mudanças corporais da


gravidez e do parto, seria lícito esperar que as mulheres tivessem hoje menos
dificuldade do que os homens para sentir-se iniciadas (psicologicamente maduras),
porque, diferentemente dos ritos histórica e socialmente variáveis, a fisiologia não
mudou.
Perguntamo-nos então se a maternidade, como é vivida hoje, satisfaz alguns dos
critérios distintivos de uma passagem iniciática.

Página 76

A maternidade no mundo arcaico não era escolha entre alternativas, e sim o fim a
que estava destinada uma mulher como ser feminino. Tornar-se adulta era sinônimo
de maternidade, sendo as exceções desgraças (a não ser que fossem devidas à
vocação sacerdotal ou xamanística).

Este primeiro critério, a falta de alternativas, não faz parte da concepção atual de
maternidade: pode-se escolher se se deseja ser mãe ou não. Uma vida sem filhos é
hoje perfeitamente possível, não comportando mais uma condenação social, pelo
menos explícita, ou a obrigação de entrar para um convento.

Um outro critério decisivo para uma verdadeira iniciação era a experiência simbólica
da morte. Porém, em que medida se pode dizer que o parto sob controle médico de
hoje pode ser um encontro com a morte, concretamente como perigo de morte e
simbolicamente como morte da personalidade infantil da parturiente? Morrer de
parto é hoje uma eventualidade muito improvável e até a dor, que pode comportar
uma laceração semelhante à morte, é na medida do possível evitada.

Após o parto a mulher pode fazer uma outra escolha tida como admissível pela
modernidade, ou seja, a de amamentar e viver meses de dependência recíproca
com o filho, ocupando-se precipuamente dele, ou então confiá-lo a uma creche e
retomar a própria vida de antes, quase sem mudanças de relevo. Neste momento é
reduzida ou até quase evitada a mudança psíquica que a maternidade poderia
comportar; evita-se a componente sacrifical da mudança, isto é, a morte, o
assassinato simbólico da jovem livre; deseja-se apenas, por assim dizer,
consumisticamente, a transformação, mas sem querer pagar o preço dela: a
experiência de dependência física recíproca da amamentação (basta pensar no fato
impressionante que se produz tanto mais leite quanto mais o filho dele bebe);
Página 77

as atividades repetitivas de cuidar de uma criança de peito que, após certo período
em que a mãe o abandona, deixam transparecer um ritmo irreflexo, arcaico,
vinculativo fora de toda programação; o curvar-se de todas as liberdades
precedentemente voltadas para o exterior, que vêm conter um espaço interno. Se
alguém se esquiva dos primeiros passos da maternidade, aquela situação que
consiste em deixar-se absorver completamente pelas necessidades do lactente, que
dá forma, ao mesmo tempo, a um rito e a um instinto, perde-se também a primeira
fase desta possível mudança profunda. A mulher tem um filho, mas ainda não se
tornou mãe. Para algumas mulheres este primeiro período significa apenas cansaço,
por- que o instinto não as ajuda. Começam a ser mães somente muito depois,
quando podem falar com o filho e empreender com ele atividades comuns.

Outro critério distintivo da passagem iniciática era a irreversibilidade. Em certo


sentido ela significa: aquilo que existia antes morreu; e portanto nos remete à
descrição precedente. Todos os eventos fisiológicos são fundamentalmente assim.
Irreversível é a primeira menstruação, irreversível na sua importância simbólica é a
gravidez: é possível interrompê-la, mas a próxima não será mais a primeira gravidez,
a prova da fecundidade; irreversível obviamente é a maternidade: nem a morte do
filho a pode mais anular. Todavia, muitas mulheres têm medo deste nunca mais
como antes, que poderia ser escrito na laje tumular da sua personalidade
precedente. Procuram então afirmar que esta, isto é, a sua personalidade de
sempre, está bem viva e intocada: atiram-se, como foi dito, logo que possível ao
trabalho, pretendendo que quase nada tenha mudado.

Também o da sacralidade é um outro fator que pode ainda agir de modo inciático.
Vimos no capítulo precedente quão grandes expectativas inconscientes de um-

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dança iniciática estejam ligadas à maternidade. Estas expectativas encontravam


certa justificação nas condições passadas, mas não têm mais nada a ver com a
atual de uma mulher inserida em uma civilização altamente complexa e
especializada. A possibilidade de transformação após à maternidade não é de fato lá
tão grande e de- pende de diversos fatores. A mudança não acontece
espontaneamente e da noite para o dia, mas, como toda forma de mudança
profunda, somente mediante um pro- cesso lento e gradual.

E com a mesma frequência a maternidade fornece uma aparente legitimação para


um resultado oposto: um exílio cada vez mais radical e permanente no mundo da
imaturidade e do infantilismo.

Tudo somado, a maternidade pode ser uma passagem iniciática para uma forma
adulta de feminilidade, um processo do qual um fator não último é o de a pessoa se
tornar mais consciente; entretanto, em contraste com nossas expectativas
inconscientes, isto nem sempre necessariamente acontece. As probabilidades de
que esta passagem aconteça são tão maiores quanto menos se tenta prever,
programar e controlar as mudanças. Na moderna sociedade leiga, que garante as
livres escolhas e desconfia dos papéis impostos, que premia as carreiras
competitivas, agressivas, e marginaliza aqueles que dão a precedência à
estabilidade dos afetos, este tipo de passagem não está de qualquer forma mais
garantido por natureza.

Página 79

INICIAÇÃO E ABORTO

Tornar-se adulto em sentido inciático significa atingir uma consciência e assumir


obrigações perante uma vi- são que orientará toda a vida. Uma iniciação através da
maternidade, como se viu, não oferece mais a menor garantia. E, caso aconteça, ela
realiza apenas um modo da condição feminina, enquanto todos os demais aspectos
da feminilidade, não ligados à condição de mãe, continuam infrutíferos.

Poder-se-ia dizer que a mulher tem hoje necessidade de uma dupla iniciação: uma
que a introduza na não identidade da condição maternal, em um estado dominado
pelo corpo e pelos instintos, e uma segunda que a acompanhe naquela maneira de
existir não exclusivamente maternal: um passo de maturação que a libertaria da
coerção de uma atitude de solicitude instintivamente de- terminada.

No período arcaico esta segunda iniciação não era necessária nem desejável, pois
ser mulher e ser mãe eram uma só e mesma coisa. Para muitas partes da nossa
sociedade e em muitas voltas da nossa vida interior é ainda assim: a maternidade é
a essência da feminilidade e o evento transformador por excelência. Que as
criancinhas tenras sejam de certa forma frágeis e incapazes é um fato, e a ideia de
que a maternidade não seja uma escolha da

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mulher, mas apenas um consentimento num destino tem raízes profundas. A coisa
chega a tal ponto que até a decisão de certas mulheres que se fazem fecundar com
o sêmen de um anônimo doador é de algum modo socialmente aceita. Será que
seria permitida a mesma coisa aos homens? Um vez que se aceita a necessidade
de maternidade de uma mulher por ter ela o desejo e os requisitos biológicos para
levá-la a bom termo, por que não se justifica da mesma forma que um homem queira
fecundar quantas mulheres for possível porque tem o instinto e as características
físicas para fazê-lo? Só porque os filhos não se desenvolveriam no seu corpo? Mas
será que a permanência no útero, mesmo prolongada, como a do embrião humano,
é suficiente para dar o direito de decidir a respeito da existência de um ser?

Para muitas mulheres a maternidade não é uma escolha, mas a consequência lógica
de uma série de eventos.

Mas passemos desta vez em exame a possibilidade oposta: uma mulher que, tendo
ficado grávida contra a sua vontade, receia não mudar apesar do nascimento de um
filho. Não acredita na iniciação através da maternidade. E pode ter lá suas razões:
talvez tenha uma atitude já até demasiado materna para com tudo aquilo que a
rodeia e teria mais a necessidade de livrar-se daquele impulso interior para a
dedicação que a domina e que determina as suas relações com os outros. Diante
disto, ela não se arrisca a assentir à condição de mãe fisicamente, além de
psicologicamente, percebendo que esta- ria em jogo deste modo por um longo
tempo a liberdade residual de descobrir tipos diversos de relação. Percebe que o
instinto materno fá-la-ia perder completamente o controle da situação, mantendo-a
confinada em uma extrema unilateralidade. Teria antes necessidade de outra
iniciação, que lhe dê maior consciência, tirando-a do mundo das mães e conferindo-
lhe outra identidade. Uma ini-

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ciação que lembre as provas de coragem e de livres escolhas dos iniciandos


masculinos.

Ao mesmo tempo a realização concreta da maternidade a atrai extraordinariamente:


a sua necessidade de cuidar de alguém encontraria finalmente o seu devido objeto.
Uma mulher explica como se sentia após ter descoberto que estava grávida:

É difícil descrever o estado em que me encontrava; naturalmente eu ficava inquieta


e insegura, mas ao mesmo tempo experimentava uma estranha calma e segurança,
estava de alguma maneira fora do tempo e do espaço. Vi- via a cotidianidade, que
entretanto era de alguma forma irreal. De um lado tudo aquilo que eu fazia me
parecia totalmente destituído de importância, de outro quase comemorava cada
ação minha; tudo era percebido com uma intensidade nunca anteriormente vivida.

E outra mulher:

Lembro-me de uma viagem de trem, realizada logo após ficar sabendo que estava
grávida. No meu compartimento estava sentada uma senhora com dois filhos. Um
deles me olhava fixamente e tive a sensação de que ele sabia que eu era mãe. Pela
primeira vez na vida experimentei a sensação de ter um papel na vida, pela primeira
vez me encontrava no lugar certo.

Estas duas descrições nos vêm de mulheres que em seguida abortaram. Soam
como o primeiro anúncio de uma passagem, como se uma cortina tivesse sido
levantada e fosse lançado um olhar confiante sobre outro mundo. Como acontece às
vezes diante de paisagens pinta- das, desejar-se-ia entrar ali e ali permanecer para
sempre. Mas e depois? Depois vêm as dúvidas. E a cortina se fecha
silenciosamente. Fugiu-se por acaso à iniciação? No momento toda escolha possível
parece errada. Caiu-se na armadilha. Sente-se sozinha com o próprio corpo no qual
cresce algo que não se quer. Leva-se adiante a responsa-

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bilidade por isto, mas mal se suporta a fadiga. Que diz o parceiro? Que dizem os
pais? Que diz a amiga? Que diz ela própria de si para si quando está só? Incapazes
de pensar, pensa-se ininterruptamente. Que fazer? Cedo ou tarde se encontra a
força para marcar um encontro. Por enquanto não significa nada. E só por
precaução, pode sempre ser anulado. Mas a partir do momento em que se marcou
um encontro o tempo fica como que dividido em dois: há um antes e um depois. O
parceiro cala, os pais não sabem de nada, a amiga fala. Fica todo o mundo como
que paralisado. Falta pouco para o encontro, e a decisão logo será tomada.

Para muitas mulheres um aborto é um corte profundo na vida. Elas mesmas contam
que amadureceram e alcançaram novos pontos de vista após esta crise extrema,
diante da qual tiveram de repensar suas relações, seu trabalho, toda a sua
existência. Explicam que começaram a levar mais a sério a si mesmas: uma parte
pouco conhecida da sua identidade veio à luz.

Um aborto é para muitas uma decisão que vai contra grande parte dos próprios
desejos. Desejariam ter um filho, mas percebem que faltam as condições para tê-lo.
Decidem contra a alegria espontânea que experimentaram ao saber que estavam
grávidas e contra a sua necessidade de existir para algum outro; decidem por algo
diferente: por uma melhor condição financeira, pelo estudo ou pelo trabalho, de
qualquer forma por um projeto estranho ao mundo das mães.

A decisão é um não à fantasia sentida, mas irrealista, um não ao desejo infantil de


uma nova boneca. Frequentemente é o primeiro não explícito e consciente, que põe
fim a anos de negações de si. Não é apenas, de fato, uma recusa de uma atitude
materna irrefletida; é também das próprias expectativas infantis, que impedem
crescer.
Página 83

Esta crise não raro é um ponto de virada, a escolha entre ser maternal e ser ela
mesma, ou então, como disse C. Gilligan: entre ser mulher e ser adulta. (1) Ou se
sacrifica a mulher ou se sacrifica a maternidade e com ela o feto. Talvez este conflito
estivesse já em andamento há muitos anos e a gravidez indesejada tenha sido
procurada para a pessoa se colocar diante de uma crise radical.

A identidade entre o mundo da mulher e o mundo da mãe não causou lá muitos


conflitos enquanto a vida da mulher foi uma sequência de maternidades. Avida
humana era mais breve, os nascimentos mais frequentes. A partir do momento em
que a maternidade passou a ser apenas uma parte da vida de uma mulher é preciso
encontrar não só outras tarefas, mas também e sobretudo uma outra atitude. O
comportamento materno espontâneo e instintivo (proteger e nutrir tudo aquilo que é
fraco e necessitado de ajuda) não exaure mais as exigências das diversas situações
em que a mulher pode se encontrar. E inadaptado, por exemplo, àquelas da relação
de casal tal como hoje no-la representamos; mesmo nos casos em que o homem, in-
conscientemente ainda ligado a uma dependência materna, espera justamente
aquele comportamento por parte da companheira. Quem não deseja encontrar na
parceira uma mãe que tudo compreende e que sempre dá, como talvez ele tenha
perdido demasiado bruscamente na infância? A atitude maternal da companheira se
revela gratificante de imediato; e, numa espécie de círculo vicioso, quem o reforça é
justamente o homem no qual se esconde uma criança que exige atenção.

Causa-nos frequentemente espanto a teimosia com a qual algumas mulheres


defendem relações de casal evi-

Início da nota de rodapé

1 – C. Gilligan, Con voce di donna. Etica e formazione della personalità, Feltrinelli,


Milão, 1987.

Fim da nota de rodapé


Página 84

dentemente destrutivas. Um fator inconsciente parece fornecer cada vez mais novas
energias a esta destrutibilidade. Perdoa-se tudo a um parceiro embebedado que se
arrasta de um arrependimento para outro, cada vez que isto acontece perdoa-se
tudo, de modo que ele possa começar tudo de novo. Não se consegue lá muita
coisa definindo semelhante comportamento como patológico: trata-se apenas de
uma conduta sã no lugar errado. Se uma criancinha cai, a mãe pode continuar a
ajudá-la a levantar-se, dizendo-lhe que da próxima vez ela se sairá melhor: é um
comportamento adequado à situação. Mas, exercitando a mesma constante
paciência em relação a um adulto que poderia muito bem levantar-se novamente
sozinho, favorece-se uma perigosa regressão de ambos.

Mesmo para os filhos verdadeiros a atitude materna solícita é adaptada só até certa
idade e de qualquer forma é insuficiente para as tarefas sociais que hoje aguardam
uma mulher. Esta espontânea disponibilidade para sacrificar-se para quem quer que
a solicite poderia muito bem ser aquilo que os etnólogos chamam de um
comportamento de beco sem saída, que não se adaptou às mu- danças da espécie,
ficando para trás em algum ponto da evolução. Entretanto muitas mulheres não
tiveram a oportunidade de aprender outro tipo de comportamento.

Este dilema da condição feminina encontra expressão em algumas narrações


míticas, como, por exemplo, na história de Amor e Psique. Psique, percorrendo seu
caminho, deve aprender a dizer não: não deve ajudar o fantasma que pede ajuda,
deve deixar para trás o velho entregue às suas dores; não lhe é permitido ceder ao
seu espontâneo bom coração, devendo aprender a distinguir e a decidir quando é
oportuno cuidar do outro e quando é preciso ser impiedoso.

Não saber dizer não a outros coincide fundamentalmente com a dificuldade de


suportar frustrações: quer

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dizer, equivale também a uma escassa capacidade de dizer não a si mesmo; não
passa de uma identificação com quem tem necessidade de ajuda e com a criança
abando- nada que trazemos dentro de nós, que não pode suportar uma nova recusa.

A comodidade de adaptar-se espontaneamente às expectativas do mundo exterior


corresponde, no plano interior, uma progressiva amputação da própria necessidade
de se tornarem elas próprias indivíduos. Destas pretensões exteriores podem fazer
parte tanto o parceiro e os filhos como, embora sejam interiores, uma gravidez e um
feto.

Dizer não à maternidade que se está forjando na gravidez é para muitas mulheres
um primeiro e espantoso não ao espírito de sacrifício materno, uma drástica
renúncia a todos os valores e a todas as certezas que constituem, desde tempos
imemoriais, o mundo feminino. E uma traição imperdoável e irreparável perante
todas as mães; e é, pelo menos é o que parece inicialmente à mulher, apenas um
egoísta e injustificado consentimento com algo de indeterminado, uma frivolidade,
como terminar os estudos ou progredir no trabalho, que não pode valer o sacrifício
de uma criança viva. E um passo que a mulher não consegue descrever
diversamente, e muito menos justificar: experimenta apenas um vago sentimento
carregado de culpa, que poderia disfarçar o primeiro sim dito a si mesma.

Aborto é violência em relação à maternidade. Os sentimentos de culpa que provêm


das mães, o luto e a ira do corpo ferido, a incompreensão silenciosa ou barulhenta
dos homens: tudo isso faz tremer uma mulher.

No momento em que ela deixa, violenta e voluntariamente, o caminho que o seu


corpo e uma tradição milenar lhe preparam, uma mulher renuncia para sempre ao
próprio lugar na tranquilizadora e imóvel existên-

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cia das mães. Este mundo pode continuar a viver nela, mas não mais ela neste
mundo. Agora ela está em condições, quando necessário, de agir de modo não
materno; pode, lá onde a situação o exigir, abandonar à própria sorte um ser que
necessita de ajuda. E sabe também que por sua vez não pode esperar que alguém
cuide dela, sempre e seja como for, enquanto ser necessitado de ajuda. Começará a
cuidar de si própria. O nada em que ela parece cair fora do mundo das mães é um
novo tipo de existência feminina. O aborto não era, portanto, apenas destruição,
mas, ao mesmo tempo, vitória sobre uma onipotente mãe interior, uma mãe
portadora também de morte, que a tinha obrigado a permanecer criança e
transformar os outros em criança. O sentido do aborto estava no assassinato não de
uma criança, mas de um próprio comportamento materno regressivo. Que devessem
ser sacrificados a maternidade e o feto era o preço e a inevitável culpa deste passo.

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FORA DA MÃE: ÁRTEMIS E ATENA

Onde encontrar abrigo contra a vingança da irada Deusa Mãe?

Latona, perseguida por Hera porque leva em si um filho do esposo dela, Zeus, voa
até um lugar absolutamente escuro, onde não chega um raio de só se quer, habitado
por lobos. Lá dá à luz Artemis, a deusa lunar, e depois, com a sua ajuda, o gêmeo
Apolo, deus do pensamento claro, imagem do homem no seu aspecto cultural e
espiritualizado. Artemis, a virgem, é a única deusa que não é chamada de mãe. Ela
pede ao pai Zeus que a deixe vestir uma veste curta em lugar do longo pelo das
mulheres, para poder mover-se melhor.

Artemis protege os animais e defende a própria condição apartada. E capaz de


matar os que atormentam aqueles, como também está preparada para matar aquele
que a observa escondido. A feminilidade de Artemis nada tem a ver com a condição
de mãe. Artemis é uma força feminina que não vive em relação com e cuidando de:
ela existe por si mesma. O seu nascimento singular diz que a energia de Ártemis
brota do escuro e se move no âmbito da agressividade que traz consigo consciência:
o lobo na mitologia é devorador dos corpos celestes e portador de luz; o primeiro e o
último clarão do dia são a hora dos lobos.

Página 88
Não se deve, porém, crer que uma modalidade do ser mulher substitua a outra de
uma vez por todas. Na vida real, feminilidade materna e não materna (artemísia) se
influenciam reciprocamente e se dão em troca. Um estudo de Shuttle e Redgrove
descreve o alternar-se de duas diferentes energias no ciclo mensal feminino(1);
estes autores distinguem um ciclo ovariano, que culmina na ovulação, e um ciclo
uterino, que tem a menstruação como momento crucial. As menstruações não são
lágrimas de um útero desiludido e a chamada síndrome de tensão pré-menstrual não
é desilusão pela fecundação que falhou, como alguns sustentaram. Na segunda
metade do ciclo, em relação com a mudança hormonal, desenvolve-se um potencial
criativo que poderia ser chamado de energia de Ártemis. Se não é usada de modo
construtivo, esta energia se exprime sob a forma de irritação, caráter brigão,
capricho, sintomas característicos da síndrome pré-menstrual. Porém se ela é
canalizada na maneira adequada, os distúrbios pré-menstruais cessam e a mulher
tem a possibilidade de viver uma forma de feminilidade mais autônoma, ativa e
inovadora. Nos dias que precedem a menstruação, muitas mulheres se sentem
como que cortadas fora das relações, dos filhos e do marido; prefeririam estar longe
e a sós: Naqueles momentos não consigo permanecer no mundo dos homens. No
lugar da feminilidade materna, que vive em função dos outros, surge uma atitude
centrada em si, virginal, independente e agressiva. Frequentemente este potencial
artemísio que ocorre todo mês é aproveitado apenas para limpar a casa e planejar
programas totalmente irreais para o futuro.

Artemis não se assemelha em nada a Coré, filha por excelência que permanece
sempre ligada à mãe Deméter;

Início da nota de rodapé

1 – P. Shuttle, P. Redgrove, Die weise Wunde Menstruation, Fischer, Frankfurt, 1989.

Fim da nota de rodapé

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representa ao invés uma modalidade independente e forte da maneira de ser
mulher, que na sua expressão extrema (as amazonas, o feminismo) chega a
combater os homens. Ártemis faz uso de armas, toma decisões dolorosas, mata.

Mata de maneira totalmente diferente da grande Deusa Mãe, que recebe em si com
indiferença a vida que antes tinha feito brotar de si.

Esta vida não tinha sido nunca algo diferente dela: fazer nascer e matar é uma só e
mesma coisa, mas nada se afasta realmente dela, nada existe realmente fora da
Deusa Mãe.

Um aborto realizado em uma disposição de espírito marcada pela Grande Mãe não
causa remorso e não é sequer considerado como um evento especial. Não põe em
movimento nenhum novo processo de consciência: o feto nunca foi pensado como
um ser existente em si, e portanto não pode ter sido morto.

O matar de Artemis está o mais distante possível do matar da Deusa Mãe, como
também do de Medéia ofendida, em que vingança, culpa e punição se entrelaçam. A
feminilidade Artemísia transmite um claríssimo sentido de identidade, força de
vontade, liberdade de decisão e ação. Ginette Paris chama o aborto de uma oferta
sacrifical a Ártemis. (2)

Um aborto pode ser o primeiro encontro com a energia de Artemis, energia que a
princípio é percebida como selvagem, provocante, cruel e egoísta. Se alguém se
expõe a ela, pouco a pouco isto pode transformar-se em alívio e em sensação antes
desconhecida de liberdade e força. Aquilo que no mundo das mães era algo dado,
uma potência coletiva, se transforma agora em força individual, da qual se dispõe e
que se pode aplicar consciente- mente: pode-se interrompê-la, dividi-la, abandoná-
la, fa-

Início da nota de rodapé

2 – G. Paris, The Sacrament of Abortion, Spring, Dallas, 1986.


Fim da nota de rodapé

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zer distinções nela. Não se fica mais na expectativa de ser transformada pelo
andamento dos processos fisiológicos, mas esforça-se por mudar através das
próprias decisões. Coisa que sempre foi normal para o homem; coisa que a mulher
descobre com incredulidade e apreensão.

Existem outros lugares em que não chega a maldição da mãe ferida. O instante em
que Atena dos olhos azuis vem ao mundo com um grito guerreiro a partir da cabeça
do pai Zeus, já encerrada em suas armas.

Não que a deusa fosse destituída de mãe. Métis, deusa da sabedoria, enquanto
estava grávida, tinha sido engolida por Zeus. Um princípio masculino tinha
interiorizado nela um outro feminino e daí tinha nascido Atena que ignora a mãe.
Nela estão reunidas a compreensão clara, a capacidade de abstração e a
indiferença que sabe refletir sobre coisas do dia-a-dia, mas também uma visão e
uma capacidade de distinguir entre as coisas da noite, representadas pelo animal a
ela consagrado: a coruja.

Atena triunfa sobre a tremenda Medusa, emblema do irracional, com expedientes


que provêm da reflexão. Foi seguindo um conselho seu que Perseu evita o olhar
direto da monstruosa figura feminina, pela qual ficaria petrificado, e aproxima-se dela
espiando indiretamente a sua imagem refletida no interior do seu cintilante escudo.

Atena é a deusa do combate, da ação e da decisão. Ao mesmo tempo ensina as


artes da tecelagem e da cerâmica. Mas é sobretudo a deusa da pólis, da
comunidade social dos homens. Da cidade e dos eventos públicos.

Como estão longe todas estas qualidades de Artemis, que vagueia sozinha pelos
bosques!
E de Atena que provém a palavra e a formulação do pensamento. Com a ajuda de
Peitó, na qual os gregos personificavam a persuasão, ela transforma as
monstruosas Erínias em forças benévolas: Eu não me cansarei de persua-

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dir-te ao bem (...) se te é sagrada a autoridade de Peitó, que habita a minha língua,
tu ficarás (Ésquilo, Eumênides, 881- 886). Elas cessam de perseguir Orestes, que
matara a própria mãe. O poder da palavra é maior que o do sangue der- ramado. As
imagens femininas instáveis e dilacerantes da culpa e da vingança obtêm um
espaço estável e sagrado, e recebem um novo nome. As Erínias se tornam
Eumênides.

Colocar o aborto em relação com Atena significa esfriar as emoções, dar lugar a um
olhar que distingue e a uma necessidade de compreensão. Se se equilibra e se põe
ordem, o evento sai da sua incomunicabilidade privada. Torna-se importante aquilo
que outros podem dizer. Os outros não são necessariamente os vizinhos, os pais ou
os amigos. São em geral os outros pontos de vista, os valores não subjetivos e não
pessoais, as coisas que a sociedade espera do indivíduo.

Naquele a barriga é minha vibra ainda a natureza selvagem de Artemis. E no âmbito


de Atena que começa a tentativa de distinguir entre a minha situação e os outros, de
olhar com distância, de relacionar aquilo que me diz respeito a um pano de fundo
mais amplo. Preciso saber o que é justo. Os valores são postos frente a frente: OS
meus, os dos pais, os do parceiro. A pergunta moral exige uma res- posta contínua.
Os olhos claros de Atena não permitem meias verdades, pensamentos emprestados
ou não aprofundados. Ela repele a regressão na simbiose mãe-filho; antes de ser
realizadas, as fantasias de maternidade de- vem ser tornadas próprias (Zeus que
engole Métis) e desacostumadas de um princípio paterno. E neste processo que se
verifica o realismo delas (será que há espaço e tempo para um filho?), o valor delas
para os outros e para o grupo, a capacidade de resistência e a de inventar soluções.
As capacidades intelectuais e espirituais ativadas por Atena, e a coerência na
realização daquilo que foi pensado, não são nem masculinos nem femininos, mas as
de

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um mestre assexuado que controla, pergunta, indica. Ou que impulsiona, como foi o
caso de Atena com o jovem e passivo Telêmaco no começo da Odisseia, a pôr-se
em movimento à procura do pai.

Na disponibilidade para o combate, na atividade e na independência do princípio


materno, Artemis e Atena assemelham. Não importa o nutrir ou o cuidar, e sim o ser
adulto, forte, independente.

E possível que uma mulher que aborta perceba a necessidade, antes que a sua
maternidade se solte e marque o seu ser por anos ou para sempre, de gerar a si
mesma a partir da cabeça; de conceber o próprio ser, inclusive, portanto, o próprio
ser mãe, antes de tudo com o pensa- mento; de providenciar para si mesma um grito
de guerra e uma armadura para transformar os sentimentos de culpa e de vingança
ligados ao materno primordial em autoridade pessoal e sentido da lei. Poderia
também sentir a necessidade de apoderar-se das artes de Atena, de tecer entre elas
aquelas ideias até fazer delas um tecido comum, de plasmar recipientes sólidos para
conteúdos igualmente fugazes, que se perdem em riachos; de criar cultura.
Frequentemente um aborto é motivado por uma necessidade de estudos, de
preparação profissional: é demasiado cômodo falar apenas de uma necessidade
egoísta de carreira, sendo que por trás disso pode encontrar-se uma deusa que
impulsiona para as suas formas de vida.

Com isto certamente não se pretende afirmar que as qualidades das duas deusas
independentes não sejam compatíveis com a maternidade. Podem muito bem
manifestar-se apesar dela, e às vezes até ser despertadas justamente por ela: é o
que acontece frequentemente com as mães sem um parceiro, que não podem
delegar nada a ninguém.
Todavia existem situações e momentos em que é preciso escolher, quando uma
coisa exclui a outra.

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MATAR

Nós nos interrogávamos inicialmente sobre aquilo de que depende o fato de ser um
aborto experimentado como evento significativo e importante na vida de uma mulher:
com efeito, tinha-se observado que esta atitude pro- fana é a única a contribuir para
evitar abortos repetidos.

O que é que torna significativo um aborto? De que modo se pode evitar que, depois
de ter acontecido uma primeira vez, ele sorrateiramente se torne uma coisa
ordinária?

Há clínicas que oferecem sessões de psicoterapia individuais ou de grupo, mas


poucas mulheres fazem uso disso. De um lado se pode ver nisto uma tendência à
remoção; de outro, como uma forma instintiva de reserva, como se
inconscientemente se temesse que o tabu no qual o ato é guardado fosse violado na
sua inexplicablidade, como se os colóquios diluíssem o seu caráter sagrado. A
algumas mulheres serve de ajuda a tentativa de tornar mais acolhedoras e
personalizadas as instituições pela interrupção da gravidez. Muitas resistem a isto
interior- mente, e parecem responder com um: Gostaria que me deixassem em paz.
E como se procurassem o isolamento e o anonimato, que não só favorecem a
remoção, mas constituem também um recipiente adaptado para os próprios juízos
negativos inconscientes sobre o evento: as enfer-

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meiras frias e entediadas, o médico apressado contribuem para negar justamente


aquelas atitudes que nos vêm à mente, permitindo projetá-las e criticá-las como
inimigos externos.
Todavia pode estar em ação também algo diferente, algo que não comporta
remoção, mas o contrário dela, um confronto solitário e sem defesas.

A qualidade fria e anônima é a mesma da solidão e da morte. As vezes aquilo que


corresponde à experiência dolorosa serve mais de ajuda do que aquilo que com ela
contrasta.

Por mais proveitosas que possam ser as formas de assistência psicológica ao


aborto, elas não conseguem nunca transformá-lo num evento solene. O evento
solene não é profano, ao passo que a psicologia, suas explicações sua
disponibilidade para elaborar os sentimentos de culpa o são.

O aborto não é uma coisa insignificante, lia-se num folheto ilustrativo de uma clínica
holandesa para as interrupções de gravidez. Esta frase tencionava contrastar a
leviandade com que numerosas mulheres se sub- metiam à intervenção.
Naturalmente eram apresentadas também argumentações de caráter médico, mas
estas não conseguiam nunca evocar a ideia da coisa significativa, porque ao mesmo
tempo se reafirmava que a técnica apresentava a máxima simplicidade e segurança
do ponto de vista sanitário. A contradição era manifesta. Falava-se também a
respeito de como prevenir as gravidezes, evitando cuidadosamente provocar
sentimentos de culpa ou faiar de consequências que parecessem punitivas. Era, em
resumo, evidente a boa vontade, e ao mesmo tempo um embaraço porque faltava a
voz que dissesse mais forte do que nunca que o aborto não é uma coisa
insignificante. Só falavam vozes concretas, científicas, racionais.

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A voz clara e direta teria ao invés disso faiado de matar, sem mais explicações.
Então o evento grandioso teria aparecido.

Mas como poderiam uma instituição e o pessoal que com ela colabora afirmar que
estavam dispostos a matar, por estarem convencidos de que isto tinha um senti- do?
A palavra matar é sequestrada pelos adversários do aborto. A partir do momento em
que é um assassínio, ele deve ser evitado custe o que custar: mesmo à custa de
uma vida desumana e de uma maternidade forçada e externa, sem nenhuma
convicção íntima e adesão psíquica pessoal.

Aqueles que aceitam o aborto excluem por sua vez a palavra matar. Se a ciência
não pode afirmar com certeza que se trata de assassínio, a palavra deve ser evitada
para não magoar as mulheres já magoadas; se peio contrário se pudesse falar de
matar, seria colocada de novo em discussão a possibilidade de ser alguém defensor
do aborto.

Hoje em dia o matar é estranho à ação de realizar o rito e de fazer o sacro


(sacrifício). Nas guerras modernas não se pratica mais o antigo duelo entre heróis,
mas um matar anônimo. A vítima decai de sacrifício a número, e a ausência de
rituais expiatórios atira os sobreviventes da guerra diretamente no colapso psíquico.

Foi W. Burkert que descreveu em Homo necans como morte e sacrifício na cultura
arcaica são aparentados. (1) O animai usado para o sacrifício tinha uma qualidade
divina, e era escolhido com olhar respeitoso e benévolo.

Os argumentos de Burkert foram aprofundados por W. Giegerich com uma tese


provocativa: a nossa hodierna consciência, o Eu, preposto à vida psíquica, surgiu a
partir da morte sacrifical e não teria sido possível

Início da nota de rodapé

1 – W. Burkert, Homo necans, de Gruyter, Berlim, 1972.

Fim da nota de rodapé

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sem ela.(2) Foi a psique que matou por vias sacrificais a inconsciência. Ao homem
arcaico não teria sido necessário abater uma caça muito grande; teria podido viver
comodamente de pequenos animais. Na caça grande não prevaleceu a finalidade da
alimentação, e sim a do ritual venatório e sacrifical. Foi no olhar da grande vítima
que morre que o homem encontrou a si mesmo e aprofundou aquilo que hoje
governa a sua alma.

Este ponto de vista é para nós de interesse todo especial, à medida que permite
captar como os episódios de violência, que hoje nos rodeiam e que chamamos de
in- sensatos, pertencem ao nosso ser, compartilhando as raízes antigas deste
mesmo ser.

A consciência do homem moderno, cujo regime impera tanto no exterior sobre a


terra como no interior sobre os impulsos, talvez tenha saído de um matar intencional
e não estritamente necessário à sobrevivência. Esta é uma ilha circundada de
sangue, por mais pacíficos que possam ser a nossa aparência e o nosso comporta-
mento. Talvez o esforço para suprimir o Eu que as religiões orientais realizam
comporta entre outras coisas esta intuição a respeito da sua natureza.

Durante todo o curso da história os homens sempre mataram mais que as mulheres.
Talvez não porque estas sejam sob todos os aspectos mais pacíficas do que os
homens, mas porque o seu Eu é menos dominador. Quando também ele procura
caminho para impor-se e consolidar-se, tanto no exterior como para no interior,
encontra a estrada obrigatória do assassínio sacrifical.

Com o tempo o infanticídio foi um matar por parte das mulheres, apoiado ou não
pela sociedade em função das suas exigências demográficas. Também o aborto
pode ser uma forma do matar. Uma forma tecnológica e desti-

Início da nota de rodapé

2 – W. Giegerich, Tötungen, Gewalt aus der Seele, Peter Lang, Frankfurt, 1994.

Fim da nota de rodapé

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tuída de heroísmo, despojada de defesa ritual ou de justificação coletiva: a mulher
que aborta na solidão não ouvirá dizer que ela está fazendo aquilo que a sociedade
espera dela. Por falta do contentor externo e ritual, não estamos mais em condições
de suportar individualmente a grandeza terrível do evento. O fato de que abortar
possa corresponder a matar é frequentemente removido daqueles que realizam este
ato (O aborto não é realmente um homicídio) e censurado por aqueles que o
excluem (O aborto é assassínio).

Mais do que qualquer outra forma do matar, a que se realiza com o aborto é ao
mesmo tempo um ser morto. Aqui, autor e vítima estão fundidos como em nenhum
outro caso. E por este motivo, creio eu, que, se se usa a palavra matar para o
aborto, é preciso fazê-lo com todo o respeito.

Se se tem o cuidado de evitar esta palavra, ao evento se subtrai algo de essencial:


justamente aquilo que vai além do cotidiano. Ele fica parado no mundo profano das
descrições burocráticas, médicas, legais e psicológicas, que não fazem nenhuma
justiça ao seu sentido. Se, ao contrário, ela é usada, é bom saber que não estamos
nos movendo mais apenas no plano concreto: fala-se também por símbolos.

Numa zona limite, num território de tabu semelhante a este, critérios como lícito ou
proibido são unilaterais e simplistas. Trata-se mais de determinar aquilo que em
tempos arcaicos se considerava como estando em contato com o além: dito com
nossos pobres termos psicológicos, entrar em contato com algo desconhecido que
existe em nós.

Um juízo coletivo, convencional e categórico a respeito do aborto é esvaziado pelo


próprio fato de que perceber este último como assassínio não é comum a toda e
qualquer mulher. Algumas delas podem decidir sem com

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flitos especiais uma interrupção da gravidez, porque a figura de um filho não se


apresenta em sua imaginação. O matar não é posto em questão; elas interrompem
apenas uma condição física, como uma doença do seu corpo. Nestas mulheres não
surgem complicações psíquicas, nem imagens do filho importunam seus sonhos. De
um ponto de vista psicológico, a mulher mata aquilo que nela mora como imagem do
nascituro: e é isto que no presente caso falta.

De que coisa será que depende o fato de se e quando se forma na psique feminina
uma imagem de filho? No caso de algumas mulheres, o filho desejado está presente
ainda antes da gravidez. Já para outras, um filho só começa a existir quando elas
sentem os seus movimentos pela primeira vez. As nossas imagens mentais são hoje
em dia influenciadas também pelas imagens que nos fornece a técnica, como os
precisos crescimentos do embrião que ilustram os estágios do seu desenvolvimento.
Muitas mulheres veem como uma privação o fato de que, na época em que
abortaram, estas imagens não estivessem ainda disponíveis, ao passo que para
outras se trata de um alívio.

A relação com o feto é um evento absolutamente pessoal. Algumas mulheres


esquecem logo que estão grávidas, enquanto outras conversam desde o primeiro
momento com o embrião que está nelas. As imagens mentais e até as concretas são
influenciadas pelas expectativas. Aquela que aborta tende a perceber aquela cabeça
com forma de girino como prova de que ainda não se trata de um ser humano;
aquela que se alegra com a gravidez notará como já estão delineados os dedinhos
dos pés. Mas o que impressiona de modo especial são os movimentos que a
ultrassonografia generosamente ou implacavelmente revela. O ser assume na
fantasia infinitas formas. Criança que se alegra por vir ao mundo, futuro gênio,

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salvador potencial, parasita, fruto de um homem detestável, mero amontoado de


células. Estas imagens não são estáveis, mas mudam em seguida. Entregue como
está aos pensamentos e aos sentimentos mais contraditórios, a mulher se sente
incapaz de decisões: cada momento que passa, decidir pode evocar imagens novas
e, portanto, eventos diversos.
Há mulheres que com clareza imaginam um filho, e entretanto decidem pelo aborto.
Os motivos se apresentam claros à sua mente, a coragem que o aborto exige delas
é enorme.

Eu sabia também aquilo que não queria: fazer como se não se tratasse de um
momento especial, porque é legal e tantas outras o fazem. Queria saber
precisamente o que estava fazendo. Por umas duas semanas (o tempo transcorrido
entre a falta de menstruação e o teste que podia dar um veredicto médico certo)
revirei a biblioteca municipal à procura de textos que descrevessem a gestação.
Queria saber como aparece o feto nos diversos estágios de desenvolvimento, que
órgãos já se desenvolveram, como funciona o metabolismo, e assim por diante.
Fiquei sabendo que não vem ao caso em que etapa da gravidez o aborto aconteça:
ele é sempre um ato de matar. Isto se tornou claríssimo para mim, e em nada afetou
a minha decisão. Tampouco me tornou insegura. Tive a impressão de ter
experimentado dúvidas e remorsos porque é bom tê-los, mas não porque fossem
meus. Fiquei até espanta- da porque a ideia de matar não me parecia insuportável e
até reparei que este ato podia assumir para mim formas muito diversas.

Atravessar este estado de espírito sem dizer a si mesmas que o aborto não é nada
de especial, aceitando conscientemente a ideia de matar: eis o tipo de atitude que
merece respeito e suspensão das avaliações convencionais. Na maioria dos casos
estas mulheres se sentem já estranhas àqueles moralismos, porque quem fala de
assassínio simplesmente não sabe do que está falando.

Página 100

O aborto é uma situação limite. Afirmar que ele não é matar equivale a menosprezar
um evento real, e mais ainda um simbólico. Se nos atemos demais ao concreto,
deslizamos facilmente para o moralismo; se pensamos apenas de modo simbólico,
esquivamo-nos do problema ético.

Não sabemos o que vem a ser morto, podemos apenas constatar que muitos veem
instintivamente o aborto como uma forma de assassínio, e que quase todos têm
necessidade de senti-lo como um evento não insignificante. Partamos então da
constatação tão concreta quanto simbólica que o aborto é matar. Isto levanta a
questão sobre se existem condições nas quais esta forma de matar seja justificada,
e se este ato de matar tenha sentido, levando em conta algo que é assim
preservado ou conseguido. No caso mais simples e direto o cuidado de filhos
precedentes, em sentido mais complexo uma continuidade na vida psíquica materna
ou paterna. Uma mulher na gravidez que não descubra em si a imagem de um filho,
achará difícil concebê-la também mais tarde, quando ele já está presente.

Toda forma de matar está em relação com as imagens da vítima que já possuímos.
Nos seres humanos se pode presumir uma inibição ao matar semelhante à descrita
por K. Lorenz para os lobos. (3) Os animais superiores, em princípio, não matam um
representante da mesma espécie: e aquele que para a zoologia é um meu
semelhante, para o cristianismo é o meu próximo. Quando o homem
conscientemente mata, ele já terá mudado preventivamente o adversário em forma
de vida pertencente a uma outra espécie: não mata um seu semelhante, mas um
escravo, um sub-humano, um inimigo, uma massa anônima. Deste modo não
contorna apenas a proibição

Início da nota de rodapé

3 – K. Lorenz, Das sogenannte Böse, dtv-Verlag, Munique, 1974.

Fim da nota de rodapé

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ética, mas ao mesmo tempo o seu profundo receio de matar no outro também a si
mesmo. Naturalmente, se dizemos que quando o homem mata ele se faz socorrer
de sua capacidade imaginativa, damos disso uma descrição psicológica, não uma
justificação moral. Sabemos a que crueldades podem levar justamente certas
imagens interiores do inimigo. Nada mais perigoso que entregar-se a imagens
internas sem se perguntar criticamente se não existem também outras imagens
opostas daquela coisa.
Assim, o confronto consciente com o problema do aborto exige um diálogo com
todas as diversas imagens, tanto do embrião como do ato de matar, que podem ser
evocadas em si. Cada uma delas possui uma validade psíquica, nenhuma está
desenlaçada da outra, nenhuma pode substituir as demais de maneira definitiva.

Nas sociedades tradicionais toda forma de matar tinha um acompanhamento ritual.


Nunca o morto desaparecia no nada após o assassínio; ele era introjetado,
transformado, efetuando-se uma troca ritual com ele. E é exatamente isto que
acontece também no aborto, embora ele por certo nem sempre seja considerado
como um ato de matar. Matar, e também abortar, na antiguidade não tinha apenas o
objetivo de eliminar e transformar o outro, mas tinha uma finalidade também para
aquele que era morto, que, através do evento, era transformado.

Matar e ser simbolicamente morto eram partes essenciais da iniciação masculina. Já


a iniciação feminina, ligada, como se disse, a eventos fisiológicos como a primeira
menstruação e o parto, estava longe de um ato de morte voluntário.

Tínhamos já levantado a questão de se saber se para a mulher a iniciação não exige


dois caminhos: um na direção da maternidade, o outro fora da maternidade e na
direção de um modo de ser determinado também em sentido masculino. O ato de
matar que se realiza no aborto,

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que fica no limite entre o concreto e o simbólico, poderia constituir aquele assassínio
inciático que leva para fora da maternidade e para um modo de ser feminino que
está sob o signo de Artemis. Poderia bem ser aquele ato de matar que devem
encontrar algumas mulheres, às quais é particularmente difícil superar uma
maternidade uni- lateral, para dar definitivamente as costas à tentação de regredir a
formas também mais inconscientes de feminilidade. O aborto seria neste caso o
evento inciático em que se unem o terror que atravessa aquele limiar e o sentimento
de culpa que corrói a aquisição de uma nova consciência.
E difícil imaginar um evento que diga mais direta- mente e fisicamente à mulher o
sentido daquela passagem: o sangrar após o aborto, o vazio no ventre, a coragem
no coração.

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DUAS ESCOLHAS

Tentarei descrever a situação de duas mulheres que, durante o período em que


estavam fazendo análise, ficaram involuntariamente grávidas. Uma delas decidiu
levar adiante a gravidez, apesar de grandes ambivalências. A outra, após tergiversar
por semanas, escolheu abortar.

O problema da decisão a tomar, naturalmente, naquele período predominava nos


pensamentos das duas mulheres e também na análise. O analista não tomou
posição, como normalmente deve acontecer quando o paciente se encontra diante
de uma escolha, embora lá por dentro pudesse ter uma opinião formada. E evidente
que o parecer não expresso do analista influencia indireta- mente o paciente, mas se
na análise se usa de toda a cautela possível, a energia de ambos, mais do que na
decisão a tomar, se concentrará no processo de escolha e nas suas formas de
expressão, tanto conscientes como inconscientes. E uma vez que o analista não
fornece suportes para uma tomada de decisão e procura limitar-se a esclarecer
aquilo que é vivido pelo paciente, este é tentado a interrogar os sonhos ou a
perguntar de qualquer forma ao inconsciente o que é que ele pensa, usando-o como
interlocutor alternativo.

Esta atitude de expectativa é semelhante à das crianças, que esperam dos pais ou
do bom Deus uma indicação

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sobre como se comportar. Parte-se do pressuposto que existam já de alguma forma


uma decisão certa e uma errada. Contudo, poderia também não ser essencial qual
decisão se toma. O resultado poderia depender, mais do que da decisão tomada, do
fato de se assumirem as responsabilidades que dela derivam e não se fugir às
consequências. Qualquer uma das duas escolhas poderia revelar-se certa ou
errada, não tanto em si, a priori, como pela coerência com que se segue o caminho
que se lhes sucede. Trata-se da atitude ética que Max Weber descreveu como ética
da responsabilidade, em contraposição à ética das convicções. Agir de acordo com a
ética da convicção significa poder estabelecer desde o começo aquilo que é certo e
aquilo que é errado, por corresponder a uma forma já fixada. Já a ética da
responsabilidade implica ao invés que a escolha seja mais complexa e pessoal, que
a sua moralidade não dependa apenas de elementos já existentes: só assumindo de
vez em quando as consequências de uma decisão como esta é que se pode
descobrir se se agiu de modo ético ou não.

No caso de ambas as pacientes, estava claro que podiam tanto aceitar como
recusar a maternidade. Para ambas ao invés não era previsível o modo como teriam
enfrentado a situação: em outras palavras, não se podia imaginar se a decisão
estendesse a uma experiência nova as fraquezas preexistentes, reforçando o que
habitualmente chamamos de neurose, ou então se se teria tratado de uma nova
tendência que a corrigia, de uma adesão profunda e responsável à escolha, fosse
ela qual fosse. Reforçaria, por exemplo, o círculo vicioso já existente, um aborto
cujos sentimentos de culpa não trabalhados conduzissem à autopunição e a uma
carga de destrutibilidade. Do mesmo modo, pode-se escolher ter o filho por motivos
predominantemente neuróticos, carregando-o de expectativas a ele

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preexistentes que digam respeito às necessidades dos pais, e que ele não está em
condições de satisfazer.

Uma vez que nas descrições dos dois casos discutiremos também alguns sonhos,
gostaria de antecipar que toda interpretação com a qual referimos um sonho a um
evento real é sempre arbitrária. Não sabemos até que ponto um sonho seja
consequência do evento diurno que parece recorrer. Não sabemos sequer se os
sonhos se referem àquela mesma categoria de eventos que aparente- mente
descrevem, como, por exemplo, a gravidez.
Se uma mulher sonha que dá à luz um filho, a imagem do inconsciente tem a ver
concretamente com um filho ou quem sabe, metaforicamente, com um novo início
que na sua vida se manifesta?

A única razão com algum fundamento para expor sonhos me parece que seja o fato
de pertencerem à narração do paciente. A apresentação de um caso de análise não
é um relatório científico, mas uma forma de narração, que pode resultar mais ou
menos convincente não tanto pelo seu conteúdo objetivo de verdade, mas porque
transmite autênticas emoções profundas e portanto também uma parte daquilo que o
paciente vivenciou no sonho.

Os sonhos que trarei como exemplos não têm, pois, a finalidade de sustentar a tese
aqui apresentada, de acordo com a qual o aborto pode funcionar como passagem
iniciática e levar a uma substancial tomada de consciência.

Eles são simplesmente um elemento da narração da paciente e a sua interpretação


já faz parte da narração do analista.

Considerando os sonhos das pacientes que acompanhei no decurso de uma


gravidez não desejada, notei a posteriori uma nítida diferença.

A mulher que resolve abortar (Inês) não contou sonhos em que aparece um filho ou
que tivessem como as

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sunto a gravidez ou o nascimento, nem antes nem depois de tomada a decisão.

Já a mulher que decidiu levar adiante a gravidez (Berta), no período em que tomava
a decisão falava continuamente de sonhos em que aparecia a imagem de meu filho.
Este filho aparecia em situações extremamente perigosas e difíceis.
Tanto a ausência da imagem do filho [caso de Inês], como a sua presença constante
[caso de Bertal acabaram ajudando ambas as mulheres a levar adiante as suas de-
cisões.

Berta

Berta, uma mulher de cerca de trinta anos, tinha ficado grávida sem querer e não
sabia que decisão tomar.

Já fazia oito anos que levava uma vida doméstica estranha. De um lado convivia
com um homem que ultimamente tinha até desposado. Mas em uma outra
localidade mantinha também outro companheiro, com o qual costumava passar
também períodos de tempo muito regulares. Cada parceiro sempre soube da
existência do outro, mas Berta tinha conseguido manter vivo o relacionamento com
ambos. A situação de dramática ambiguidade, na qual havia sempre problemas
agudos para resolver, a impedia de confrontar-se, na vida e na análise, com aquilo
que estava na base deste conflito: uma depressão profunda, um Eu fraco e uma falta
de autoestima. Assim, Berta conseguiu por anos a fio viver de maneira provisória,
levando adiante também a análise de maneira provisória. A casa, os amigos, os
interesses: tudo era duplicado e cindido de acordo com o homem, e ela não se
amarrava realmente a nada. Empregava as suas energias principalmente para não
perder nenhuma de

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suas duas vidas. Se um dos dois homens falava em colocar um fim na relação, ela
era tomada por uma angústia insuportável e fazia de tudo para restabelecer o
absurdo equilíbrio somente no qual parecia ser capaz de viver. Apesar das repetidas
mentiras perante os dois, Berta não conseguia esconder a si mesma a realidade da
sua situação: pelo contrário, ela a via com nitidez, mas era incapaz de mudar.

Agora Berta sabia que estava esperando um filho do seu amante. Com o marido ela
não tinha relações havia tempo. A novidade da sua condição parecia não ajudá-la de
nenhum modo a decidir. Inevitavelmente o conflito já existente se aproximava do
auge, diferentemente de todas as situações precedentes, pois desta vez o tempo à
sua disposição era limitado.

De uma gravidez interrompida alguns anos antes Berta tinha uma lembrança muito
dolorosa. Após a intervenção, enquanto ela se encontrava no leito do hospital, uma
enfermeira lhe tinha sussurrado ao ouvido: Assassina.

Em termos puramente racionais havia muitos ele- mentos desfavoráveis ao filho.


Berta agora colocava em perigo a única coisa que tinha conseguido sozinha, sem a
ajuda dos dois homens: o seu lugar de trabalho e a sua independência financeira.
Estava convicta de que também um filho não a teria ajudado a escolher finalmente
um dos dois laços. Via-se oscilando como um pêndulo de um homem para outro com
o filho e achava que teria preferido poupar-lhes uma situação deste tipo.

Independentemente deste dilema, porém, ela se sentia fortalecida pela gravidez e


mais segura do que antes. O sentimento de não estar mais sozinha no mundo, tendo
um filho, lhe conferia serenidade; cultivava a fantasia de não Viver mais com
nenhum dos dois homens.

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Em relação ao filho só provava sentimentos positivos. Jamais passava pela cabeça


de Berta que o filho pudesse perturbar ou obstaculizar a sua vida. Não tinha receio
de fracassar como boa mãe. As perplexidades só diziam respeito à sua absurda
situação relacional e o medo, por ela descrito como insuportável, de perder um dos
dois homens. A gravidez lhe permitia fazer a experiência de uma nova identidade
física e psíquica.

Poder-se-ia objetar que isto acontecia à custa do nascituro, ao qual era imposta uma
espécie de função terapêutica, mas é um fato que a maternidade prepara
frequentemente transformações iniciática, independentemente das intenções pueris
ou responsáveis. Tanto é verdade que muitas mães sustentam que foi com a
maternidade, e somente com esta, que alguma coisa mudou permanentemente
nelas.
Por um compreensível paradoxo isto vale mais ainda nos casos em que o filho não é
esperado com alegria, mas é imposto pela força.

E este era o caso de Berta. Ela estava feliz por esperar um filho, mas estava ao
mesmo tempo convencida de que devia abortar, pois isso, na sua situação, teria sido
a única coisa sensata.

Ela própria encarregou-se de todas as práticas burocráticas necessárias para o


aborto. Para os exames de sangue ela se dirigiu a uma clínica particular,
administrada por freiras, porque, segundo ela, a clínica ficava precisamente perto da
sua casa. A freira que estava no guichê pousou a papelada e a chamou a um quarto
ao lado. Aí ela lhe perguntou se sabia que estava para cometer um homicídio.

Ao discutir este fato durante a análise, reparei que, se a pessoa recorria a uma
instituição católica, a recusa era perfeitamente previsível; eu agora me pergunto se
não fora uma intenção inconsciente preparar ela própria

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esta situação paradoxal: não tanto, ou não só, uma intenção masoquista, mas antes
um desejo inconsciente de colocar um obstáculo no próprio caminho; uma
necessidade não claramente reconhecida de preparar o caminho para um filho.

Naquele período ela teve muitos sonhos nos quais aparecia uma criança exposta às
mais graves dificuldades.

Primeiro sonho (no começo da gravidez):

Pus no mundo um filho. Parece um robô. Há molas de aço soltas, faltam parafusos e
pedaços de ferro; está cheio de defeitos. Acho que o coitado não pode funcionar;
causa-me dó vê-lo reduzido a este estado.
Aquilo que foi criado está cheio de imperfeições técnicas e mecânicas. A paciente
experimenta sentimentos por esta criatura inanimada e a reconhece como sua. Ela
própria se tinha sentido como telecomandada quando se esforçava por ser conforme
queria o seu parceiro do momento. Tinha consciência de não consegui-lo, e que o
seu esforço se exauria miseravelmente. Referindo o sonho à gravidez, poder-se-ia
até imaginar que o seu desejo de um filho fosse mecânico e incompleto. A mesma
coisa se pode dizer, se se pensava em um filho simbólico, do seu desejo de ver
crescer algo de novo: com maior razão ainda faltavam as peças. Enfim, poder-se-ia
pensar que sua atitude consciente, pela qual desejava o filho e ao mesmo tempo
estava convencida de que devia interromper a gravidez, fosse um automatismo com
escassas possibilidade de funcionamento.

Segundo sonho:

Vivo o meu nascimento; sou um ser débil e indefeso. Sou pendurada nua a um
prego cravado na parede, como que

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para mostrar a todos que não teria sobrevivido. Alguém diz que tenho algo nos
pulmões e que por isso quase não consigo respirar.

Também aqui choca a contraposição entre a situação sem saída de um lado e a


presença do tema do nasci- mento do outro.

O fato de ser pendurada nua em um prego lembra o mito sumério da viagem aos
infernos no reino de Ereshkigal, deusa da morte, realizado pela deusa Isis. Na
narrativa, Isis é pendurada a um prego e se toma um pedaço de carne em
decomposição. O sonho corresponde ao sentimento da paciente, predominante
desde a infância, de estar pendurada, indefesa e impotente, entre o princípio pater-
no e o materno, expressos na forma impessoal de céu e terra.

Se se procura no sonho um potencial de desenvolvimento, este pode ser expresso


pelo tema do nascimento. Este poderia simbolicamente combinar-se com uma nova
consciência, nem que fosse da própria fraqueza, fornecida por via impessoal pela
voz fora do campo. Na dor, e neste modo cruel de ser exposta, é como se Berta
percebesse pela primeira vez que estava viva. Ela existe, apesar de todas as
evidentes carências e das expectativas de ruína.

Poder-se-ia supor que a nova situação, talvez a própria gravidez, permite-lhe


confrontar-se com seus problemas e não fechar mais sua existência aos próprios
olhos.

Houve depois outros sonhos de conteúdo semelhante: nestes o filho estava


presente, mas ela não conseguia cuidar nem de si mesma nem do filho.

Sonho:

Tinha nos braços o meu filho. Ele tinha fome e eu tinha felizmente tanto leite que
jorrava sozinho. O filho, porém, não conseguia bebê-lo. O leite escorria junto da sua
boca mas, por mais que eu esforçasse por segurá-lo de modo que ele pudesse
beber, não conseguia.

Página 111

Desta vez o filho é um ser humano e está com boa saúde, mas há uma difícil relação
nutritiva entre mãe e filho: algo alude a um problema de relacionamento. Para Berta
foi sempre muito difícil aceitar qualquer forma simbólica de nutrição. As experiências
positivas da análise, as experiências positivas com os amigos e os conhecidos, a
capacidade e até os ta1entos que ela possuía, todas estas coisas escorriam-lhe por
perto, sem que ela conseguisse transformá-las em energia vital para si mesma.

Naquele período ela se perguntava sobre que espécie de mãe teria podido ser e
quais seriam as suas dificuldades com um filho, mas estava ainda convencida de
que devia abortar. Um outro sonho punha o acento sobre ela própria e sobre a sua
identidade em relação ao filho, que neste caso não apresentava defeitos.
Tenho nos braços o meu filho e vejo que tenho as unhas compridíssimas. Faz muito
tempo, claro, que não cuido de mim mesma. E como se não tivesse tempo para mim
mesma. Desde que tive este filho, é um sufoco.

Nestas semanas algo se desenvolveu nela. As dificuldades se tornaram claramente


perceptíveis. Berta o percebe na sua incapacidade de definir-se, na de decidir (é o
que chamamos de fraqueza do Eu), em não saber ocupar-se de si, acumulando ao
invés agressividade.

Ambos os sonhos pertencem a uma série que alude a uma espécie de difícil relação
mãe-filho. Por exemplo, o filho não se encontra mais, afundou na água, ficou
esquecido no carro... Trata-se de sonhos muito frequentes em mulheres de
identidade ainda frágil, pouco importa se mães ou não, se grávidas ou não, quando
se preparam para uma nova fase da sua vida, e na qual a imagem do filho tem
verossimilmente um valor mais simbólico que real.

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Um outro sonho projetava no futuro o motivo do filho, fazendo intuir expectativas


simbióticas que permeavam as relações de Berta e que eram continuamente motivo
de decepção.

Meu filho tem já cinco ou seis anos. Lamento que tenha já passado o tempo, tão
belo, das brincadeiras e das carícias. Sequer vivi este tempo. Meu filho já fala e o
seu modo de agir quase adulto me mete medo.

O filho robô se tornou um filho sadio de cinco ou seis anos. Deu-se o


desenvolvimento do filho simbólico ao qual a consciência reage com medo. O Eu
onírico não consegue tornar-se idêntico a este amadurecimento, de caminhar no
mesmo passo com ela, vivendo-o apenas como decepção. Na vida real Berta não
percebia nada de novo e estava somente desesperada.

Preparava-se para abortar.


Poucos dias antes da data estabelecida teve o seguinte sonho:

Vejo a mesa de operação sobre a qual devo me deitar para abortar; lá estão o
médico e a enfermeira. A esquerda um balde, do qual me lembro do aborto
precedente: o balde para o feto. Não suporto nem vê-lo. Levanto-me e fujo.

Segundo Berta, abortar é insuportável, mas mesmo assim ela estava convencida de
que era a única coisa a fazer. No dia marcado ela foi à clínica com seu companheiro,
que estava a par de tudo, mas tendo chegado até à porta, recuou. No dia seguinte
pediu por telefone para marcar outro encontro para a semana seguinte.

Apresentou-se de novo à recepção, preencheu os formulários e aguardou que a


chamassem. Quando foi chamada, disse que ia pensar melhor no caso. A partir daí,
conta ela, permaneci simplesmente em casa, esperando

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que ficasse tarde para abortar. Não tomou nenhuma decisão, simplesmente deixou
passar o tempo.

O filho nasceu depois de sete meses; Berta teve uma gestose. Posteriormente os
perigos foram superados e a criança cresceu normalmente.

Como a paciente tinha previsto, nos primeiros anos de vida a criança teve dois pais
e ficou com ela, passando alguns meses junto de um e alguns meses junto do outro
homem. Neste ínterim, porém, a relação com o pai natural ficou reforçada. Dois anos
depois, Berta teve dele outro filho e conseguiu decidir-se por uma convivência
estável.

Tanto na consciência como no inconsciente o futuro filho tinha estado desde o início
demasiado presente. Tinha já ocupado seu lugar na sua vida psíquica. Tive a
impressão de que Berta não teve, pois, a possibilidade psicológica de realizar aquilo
que lhe parecia ter decidi- do conscientemente.
Inês

Inês, uma paciente minha de cerca de vinte e cinco anos, ficou grávida do seu
companheiro, ao qual ela tinha garantido que cuidaria da ontracepÇã0, quando na
realidade a tinha descurado.

Esta mulher tinha fantasias de maternidade, mas ambos eram ainda estudantes e o
homem tinha de qualquer forma dito que não queria um filho pelo menos naquele
momento.

Antes de saber que estava grávida, a moça teve o seguinte sonho:

Eu tinha tido relações sexuais com um dobermann, experimentando muito prazer.


Depois dava-me conta, com ex-

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trema angústia, daquilo que tinha acontecido, e tinha medo de ter ficado suja ou
doente.

No plano pessoal a imagem do dobermann estava ligada a uma problemática de


agressividade, da qual a sonhadora tinha uma consciência muito limitada e que era
vivida somente como capitulação diante de influências internas e externas, que a
desviavam dos seus objetivos. Estas oscilações acentuavam uma já presente falta
de confiança nas próprias capacidades.

Um dober-mann (em alemão Mann significa homem) é um homem do mundo animal,


um impulso instintivo por força do qual se age. No sonho a falta de consciência dela,
não só em relação à contracepção, é evidente: não foi ela que escolheu ter relações
com o cão, viu-se de repente envolvida nisto e só depois fica claro o que aconteceu.

O cão negro da mitologia clássica é Cérbero, o guarda dos infernos: na religião


egípcia é Anúbis, deus da morte; a posteriori poder-se-ia perguntar se ele indicava o
âmbito em que a sonhadora estava para entrar. A cor negra na alquimia simboliza a
nigredo, depressão e falta de consciência. O cão poderia representar a prima
materia, (1) o início de uma transformação. Na antiguidade o cão pertencia à Deusa
Mãe, e com o termo grego kíon (cão) eram feitos jogos de palavras referentes à
gravidez: kíos, com efeito, é o feto, e o verbo kío significa estou grávida. O tornar-se
suja ou doente (o resultado da cópula com o cão temido pela sonhadora) poderia ser
o resultado desta fantasia inconsciente de relação com o além, com a morte.

O impulso instintivo representado pelo dobermann é, quando posto em relação com


a gravidez, um cego e animalesco desejo de copular em geral, que prescinde de

Início da nota de rodapé

1 – M.L. von Franz, Träume, Daimon Verlag, Einsiedeln, 1980.

Fim da nota de rodapé

Página 115

qualquer tipo de relação humana, um ato de agressão em relação ao homem e a si


mesma. A extrema leviandade em relação à promessa feita a respeito da
contracepção mostra a que ponto se exprime indiretamente a sua agressividade. A
esta ação involuntária mas extrema se seguirá, como veremos mais adiante, uma
outra, igualmente extrema, mas intencional. Com o aborto ela tentará livrar-se
daquele modo de ser ao qual alude a presença do dobermann: a passividade e a
tendência a abandonar-se aos impulsos do momento sem compreender como tudo
isto abre as portas aos aspectos obscuros da personalidade, aos conteúdos
pulsionais removidos por serem incompatíveis com a moralidade que praticamos, os
quais formam a chamada Sombra.(2) Em nosso caso, a agressividade era
inconsciente, fazia parte da Sombra da sonhadora; teria podido ser em parte
integrada e tornada consciente se a paciente, praticando um ato violento como o
aborto, a tivesse empregado conscientemente e se fosse, portanto, assumida a
responsabilidade deste mesmo ato.
Mas voltemos à situação de Inês, que até este momento não sabia que estava
grávida; pelo contrário, sequer suspeitava disso. As dúvidas vieram após o atraso
menstrual. Ela falou a respeito disso com o companheiro, o qual ficou preocupado
com o caso e lhe disse para pedir ao ginecologista que lhe aplicasse uma injeção
capaz de provocar a menstruação. Na época e no lugar em que se davam estes
fatos, anticoncepcionais deste tipo, capazes de agir retroativamente, existiam, mas
não eram facilmente encontráveis.

Início da nota de rodapé

2 – Com o termo Sombra entendo o lado negativo da personalidade e precisamente


a soma das características ocultas, desfavoráveis, das funções desenvolvidas de
maneira incompleta e dos conteúdos do inconsciente pessoal (C.G. Jung, Opere,
vol. 7, p. 67, Boringhieri, Turim).

Fim da nota de rodapé

Página 116

Depois disto ela teve um sonho:

Procurava diversos médicos que me pudessem aplicar esta injeção e não


encontrava. Depois via diversas imagens das deformações que podem ser causadas
por uma injeção deste tipo: por exemplo duas faces com uma só boca.

Não querer conhecer a realidade (tratava-se ou não de gravidez?), leva a uma


deformação unívoca, uma boca só: a divisão, a ambivalência, o conflito que derivam
de duas vozes, duas bocas, são evitados: esta solução unilateral aparece no sonho
como deformidade.

A mulher foi ao ginecologista. Contou que o médico lhe tinha parecido extremamente
contente ao constatar a gravidez, como se fosse ele o futuro pai. Tinha-lhe mostrado
a mancha branca na tela: tudo perfeito. Com base nas dimensões, dois milímetros,
devia estar na quinta semana. Quando percebeu a perplexidade de Inês, ele lhe
falou daquilo que no seu caso teria podido ir mal: por exemplo, o risco de uma
gravidez extrauterina. Nesta oportunidade tudo ao invés estava perfeito, quase um
milagre para ela. Inês não tinha visto a mancha na tela e tinha perguntado com
esforço se era demasiado tarde para fazer algo contra a gravidez. Não houve
olhares de reprovação da parte do médico que, de alguma maneira, ao invés,
parecia ferido pessoalmente. Ele a convidara a não passar logo às conclusões, mas
a dar tempo ao tempo e pensar no assunto com calma; esta podia ser a única
oportunidade entre milhões; talvez não tivesse mais a oportunidade de ficar grávida,
quem sabe, e o melhor mesmo seria se encontrarem novamente três ou quatro
semanas após e então seria possível observar e examinar os novos
desenvolvimentos sob vários aspectos.

Desenvolvimentos, tinha ela repetido ao sair, ouvindo a música abafada que vinha
da sala de espera, onde

Página 117

mulheres grávidas folheavam revistas de puericultura. A enfermeira lhe tinha dito


gentilmente que não devia nada; por que não? Como podia agradecer? Talvez
enviando flores à mulher? Deixara cair o casaco, sentira-se desajeitada e suja num
lugar em que tudo era arrumadinho e limpinho até o som do telefone era discreto.
Como se fosse um feixe de culpas ela desceu as escadas e saiu na elegante rua do
centro histórico onde ficava o consultório.

Disse que chegou a pensar em escrever a este médico para agradecer e explicar-lhe
tudo: ele tinha tido as melhores intenções e dentro de alguns anos, quando tivesse
de ter um filho, haveria de recorrer à sua ajuda, pois certamente devia ser um
defensor do parto suave.

Logo depois ela teve o seguinte sonho:

Encontrava-me no consultório deste ginecologista ele tinha o rosto um tanto


sombrio, frio e distante. Fiquei contente por não ter mais nada a tratar com ele, pois
os modos dele me espantavam não esperava dele isto.
Se se coloca o sonho em relação com a situação real, o seu caráter de
compensação é evidente. Ele sublinha aquilo que a mulher não tinha visto: o
entusiasmo unilateral pela vida expresso pelo médico (o qual representa também
uma parte dela própria) e o fato de ignorar o aborto como uma possibilidade
comportam uma frieza e um desinteresse pelo outro tal como ele é na realidade,
com o seu sofrimento e a sua dor, longe de absolutismos simplificados.

Nas semanas seguintes Inês procurou chegar a uma decisão. Queria um filho, mas
tinha uma tarefa importante a levar a cabo no campo do trabalho; precisava também
terminar Os estudos. Sobretudo, não queria pôr em risco a relação com o homem ao
qual teria imposto o filho e a decisão.

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Contou que, ainda antes de ter sabido com certeza da gravidez, tinha procurado
imaginar o que estaria acontecendo no seu ventre: tinha visto lá um feixe de
finíssimos raios de luz que ia se expandindo na escuridão do útero. A ideia de
destruir esta estrutura luminosa a espantava.

Nesta época teve outro sonho: Estava vendo três pãezinhos. Dois já estavam
tostados. Sa- bia que eram duas crianças. O terceiro ainda estava cru, e eu não
sabia se seria assado ou não. Isto não me parecia importante. O principal era que
ele fermentasse. E isto dependia somente de mim. Devia esforçar-me, fazer tudo
para isto. Mas que o pão fosse tostado, isto não dependia de forma alguma de mim.
Acordo com a ideia de que fermentar é que fosse a coisa mais importante.

Ter um pão no forno é, em alemão, uma expressão popular para indicar a gravidez.
Os dois pães já tostados representam aquilo que a mulher e a sua relação já
realizaram: pão como alimento básico, a vitalidade da nova situação. O terceiro, a
atual condição espiritual, ainda não está assado; mas o que importa é em primeiro
lugar a fermentação. Um processo fermentativo é necessário: com a fermentação
entra ar na massa, a matéria se eleva, se levanta (em alemão a mesma palavra
aufgehen pode significar tanto fermentação como elevação, mas também
compreensão). Uma metáfora descoberta do processo pelo qual o problema
concreto e material da mulher deve ser atravessado para adquirir uma dimensão
psíquica esta é a tarefa na qual a sonhadora deve empenhar-se. A massa bruta
deve-se opor o conhecimento. Se depois o processo de transformação encontrar
realização no fogo de um forno, não está ainda decidido; isto não está em seu poder.

Inês resolveu buscar informações sobre modalidades de um aborto. Foi até o


consuItório, onde lhe explicaram concretamente os passos burocráticos que devem
ser da-

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dos, não lhe fizeram nenhuma pergunta nem procuraram influenciar a sua decisão:
ela se sentiu aceita e ao mesmo tempo entregue a si mesma na sua ambivalência,
com os seus sentimentos de culpa e numa situação extrema de luto. Uma coisa,
porém, estava clara para ela: tinha recusado qualquer oferta de conversas por parte
da instituição.

Foi ao ginecologista recomendado pelo consultório, que praticava


predominantemente abortos. Queria saber com clareza o que acontecia em tais
casos e conhecer o médico que iria fazer a intervenção. Temia que a cirurgia
pudesse ir mal e queria compreender os seus riscos.

O consultório deste ginecologista ficava numa zona muito menos prestigiosa do que
o do outro, as escadas conduziam ao andar inferior (ao entrar lá viera-lhe o
pensamento: Não venham me dizer que ele trabalha numa cantina), recebia das 17
às 19 (horário bastante estranho, não?). Tomava consciência da própria
desconfiança observou que a enfermeira era uma loura oxigenada, que não havia
outras mulheres esperando (pouco trabalho?). Não se viam fotografias de embriões
desta ou daquela semana nas paredes, mas somente revistas de assuntos do
momento empilhadas sobre a mesa. Não era um lugar tão desconfortável, mas
indiscutivelmente um consultório de segunda categoria. Quando se viu sentado
diante dela, o médico passou logo à ação, ignorando a expressão trágica do rosto
dela: em que semana estava, exames já feitos etc. Ela disse que tinha medo da
operação e que queria conhecer os riscos; a resposta: Ir de carro para o hospital é
estatisticamente mais perigoso lhe fez bem. Lembrava-se que o outro médico tinha
murmurado algo a respeito das conseqüência irreversíveis do aborto. A esta altura
tomou consciência, porém, de que a ambos os ginecologistas ela tinha pedido
respostas racionais para um medo irracional ou, mais precisamente para te-

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mores que não diziam respeito aos riscos físicos, mas aos psicológicos. Foi-lhe dito
o preço da intervenção e oferecida uma passagem para voltar à cidade próxima, o
que ela recusou. Foi embora convencida de que podia confiar, pelo menos do ponto
de vista clínico. Todavia, quando no fim da visita este médico disse estar disposto de
boa vontade a acompanhar até o parto uma eventual futura gravidez dela, contanto
que desejada, algo nela retrocedeu com indignação: jamais lhe teria confiado seu
próprio filho, pois ele era um daqueles que fazia sobretudo abortos, ninguém podia
garantir que tivesse suficiente experiência de partos, que o seu consultório fosse lá
muito limpo, com o tipo de pessoas que iam e vinham. Estava chocada por ter tido
pensamentos deste tipo, mas ela os tinha tido.

Nos hospitais os lugares onde acontecem os nascimentos ficam fisicamente


separados daqueles onde se praticam abortos. Mas isto no caso de existir a
necessidade de contrapor estes dois âmbitos também em termos de bom e mau,
limpo e sujo, competente e descurado. Ou de distinguir uma área de sombra na qual
a escuridão se confunde com a escuridão, o doente, o mau; e uma área dedicada à
luz, na qual o positivo, o são e o bom são incorporados em uma visão totalmente
positiva da vida. Como se a vida fosse sempre e somente desejável e a morte
sempre e somente cruel.

Mas não é só a sociedade que desterra os abortos nos subsolos dos hospitais; as
mulheres, mesmo aquelas que abortam, não estão dispostas a ver parto e aborto
unidos em uma só figura, a de um médico que se ocupa de ambos. Perante um
conflito demasiado grande é bom realizar uma separação interior; se nascimento e
morte habitam em nós espaços contíguos, num mesmo ângulo da alma está
resumido o sentido da vida. Na maioria dos casos, esta concentração se torna
insustentável, e prefe-

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rimos distanciar e simplificar as imagens que constituem os eixos da nossa visão do


mundo.

O lugar dos abortos fica sendo um não-lugar, um lugar que deve ser evitado ou
esquecido o mais rápido possível, juntamente com as pessoas, os pensamentos e
os sentimentos que se tornaram parte daquele mesmo lugar. Esta é um remoção, e
a remoção se desconta sempre em termos de humanidade. Por isso são criados
lugares inumanos, nos quais o silêncio não provém da presença misteriosa e
assustadora da qual está cheio o tabu e que se derrama em nós, mas é somente
vazio e sofrimento; únicas vias de saída: módulos que devem ser preenchidos e
sentimentos de culpa.

Todas as energias desta senhora estavam concentra- das na sua condição. Só o seu
marido sabia de tudo. Não perguntava mais o que devia fazer. Já tinha cuidadosa-
mente cumprido com todas as obrigações burocráticas.

Dizia ao feto:

Temos ainda cinco dias pela frente. Depois deverás partir; será terrível e fui eu que
assim decidi. Agora estamos juntos, ainda temos tempo. Estarei contigo até o fim.

Inês decidiu ir sozinha para o hospital, embora o companheiro tivesse dito que
estava disposto a acompanhá-la: ela achava que as decisões e as
responsabilidades eram todas dela. Nas discussões pró e contra, o homem tinha
justificado a sua posição, sobretudo com o fato de jamais ter desejado um filho e não
se sentir preparado para isto; todavia, se a mulher o tivesse realmente desejado, ele
o teria aceitado. Deixou a ela a decisão, e ela decidiu.
Partiu às cinco da tarde para a cidade vizinha, dormiu num hotel e ficou assistindo à
televisão até a uma da madrugada.

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Durante aquela noite teve o seguinte sonho:

Era a manhã do dia do aborto; sabia que devia ir ao hospital. O meu companheiro e
duas crianças me tinham dado presentes, parecia até que eu estava fazendo
aniversário; até a minha irmã menor estava presente, havia um ar de família. Todos
estavam dispostos a acompanhar-me; o clima de dia de festa ao mesmo tempo me
espantava e me acalmava. Deste modo, ficava fácil ir ao hospital.

O sentimento positivo do sonho não desaparece ao despertar: a mulher se sentia


acompanhada, aceita e, o que é ainda mais surpreendente, festejada por uma
família interior; foi para o hospital com o espírito mais fortalecido e uma sensação de
festa. Conseguiu passar por cima da observação do taxista ao qual havia dado o
endereço da clínica.

Deste sonho se pode dar uma explicação em termos de compensação. A sonhadora


estava consciente do luto, mas jamais poderia ter imaginado que o triste evento que
se aproximava pudesse ser também comemorado como a ocorrência de um
nascimento. Mas foi justamente isto, como vimos, que ocorreu entre muitos povos e
durante muito tempo.

No sonho é a lembrança do seu nascimento que é festejada; ela não será morta
identificando-se com o feto, mas renascerá mais uma vez na lembrança do início da
própria existência. Quem a acompanha é a mais jovem de suas irmãs, como reforço
de uma nova identidade feminina, e não a mãe ou outra figura materna. O papel
maternal é só seu, justamente dela que está para interromper violentamente uma
incipiente maternidade.
Neste sonho nada se diz sobre violência, morte ou perda, parecendo que toda a
energia psíquica esteja concentrada positivamente naquilo que está para suceder; a
família, símbolo de uma disponibilidade para ter rela-

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ções afetivas e lidar com elas, a ajuda a percorrer o caminho escolhido.

Com este sonho ficou claro para ela o motivo pelo qual tinha desejado e podido tão
facilmente ir sozinha para o hospital. Diversamente de tudo o que pensara nos
momentos difíceis, ela agora tinha recursos próprios a seu dispor.

Uma interpretação redutiva do sonho pode ver nele uma relação difícil com a mãe,
ausente em um momento como este; a história de Inês confirma esta hipótese. Uma
concepção prospectiva do sonho permite, porém, ir além e descobrir neste momento
existencial um novo início, uma possibilidade de vida psíquica mais madura que se
percebe quando a tensão ética, fisiológica e espiritual do conflito, e o peso da
decisão com as suas consequências, são suportados e não afastados. A família que
a acompanha é uma nova relação de figuras ou forças internas que sustentam o Eu.
No esforço de compreender, querer e agir, estas funções inconscientes servem de
ajuda.

Inês passou o tempo que ainda restava juntamente com outras mulheres, num
estado de atenção toda especial para os pormenores. Observou, com efeito, que as
cadeiras de plástico nas quais estavam sentadas eram pretas, que uma mulher que
havia chegado acompanhada do marido e de dois filhos pequenos continuará a
sorrir; pareceu-lhe incrível que estivesse ali pelo mesmo motivo que as demais. Com
uma curiosidade quase jornalística, tinha observado as outras mulheres: a
jovenzinha pálida junto à mãe pensativa, a outra sozinha, com um casaco de pele,
com os olhos baixos; todas tinham tomado lá a mesma decisão. Só a mãe de família
se dirigiu a ela mais tarde, quando já estavam na sala, perguntando-lhe se sentia
medo; ela respondeu que tinha sentido medo antes, mas que agora a decisão já
estava tomada.
Página 124

Todas aguardavam e, seguindo as instruções da enfermeira, tiveram de vestir meias


brancas enormes.

Lembro-me de ter tido em seguida medo da anestesia; tinha muito claro na mente o
momento em que o médico tinha feito a ultrassonografia, apressadamente, como
que para evitar que pudesse olhar para a tela. Chegou a passar-lhe pela cabeça que
desta vez não se tratava de verificar se a mancha branca tinha a posição e a
dimensão certa. Desta vez não se tratava do filho, e sim dela.

Depois tudo correu rapidamente. Nenhum pensa- mento para o filho, como se ele já
não existisse mais. Da anestesia ela só se lembrava de ter lutado para defender- se
contra algo de infinitamente pesado e tenaz. Continuavam-lhe na mente as camisas
verdes de médicos e enfermeiros e a lâmpada operatória.

Quando acordou no leito sentiu apenas uma conhecida e tranquilizadora sensação


de tensão no ventre, semelhante àquela que precede a menstruação. O absorvente
de dimensões enormes estava cheio de sangue. Enquanto cochilava, o médico veio
a ela e lhe disse que agora devia pensar em outras coisas diferentes. Ao escrever-
lhe uma receita, disse-lhe que por algumas semanas ele não seria encontrável. Ela
então sentiu uma forte necessidade de cuidar de si. Os cuidados quase maternais
das enfermeiras lhe fizeram bem, pois estas se ocupavam dela sem atitudes beatas,
e lhe causava prazer sentir-se ainda fraca.

Permaneceu em repouso por duas horas. As outras iam embora com os seus
companheiros, à medida que vinham buscá-las. Chegava até ela a voz de uma
mulher mais idosa que estava a dois leitos de distância; ela falava de contracepção,
dizendo à enfermeira que j á estava cansada de abortos.

Respondendo à enfermeira, que lhe tinha pergunta- do se ninguém teria vindo


buscá-la, disse, não sem orgu-

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lho, que era só e que teria mandado chamar um táxi. Tinham-lhe levado uma revista.
Embora parecesse absurdo, tinha-a folheado, parando nas receitas de culinária;
uma delas lhe tinha parecido especialmente interessante: o creme charlotte, com
maçãs. Esta receita lhe pareceu importantíssima, tanto é verdade que pediu uma
caneta e copiou-a para si; tinha a sensação de que haveria de se tornar um clássico
da sua cozinha. Mas na realidade ela jamais preparou a tal da charlotte.

Enquanto ia de táxi para a estação continuou a sentir-se heroica e necessitada de


ajuda. Seu companheiro recorda que estava um tanto pálida; ela disse que o silêncio
entre eles lhe teria feito bem. Cozinhar e comer ocupavam o centro das suas
atividades.

Sete meses depois, justamente quando a gravidez deveria ter chegado ao fim, ela
teve o seguinte sonho:

Eu me encontrava no banheiro da casa dos meus pais. Estava sentada sobre o WC


e acreditava estar menstruando. Percebia que um nenê tinha caído dentro da água,
onde se movia como um minúsculo cavalo-marinho. Eu via que ele estava vivo, mas
a sua cabeça estava esmagada frontalmente, como se faltasse o cérebro. Era um
aborto espontâneo. Eu tinha dó dele. Sabia que de qualquer forma não teria
sobrevivido logo que fosse retirado da água teria morrido. Mesmo assim eu o tirei da
água e o segurava com as mãos. Não queria deixá-lo morrer sozinho. Ha- via ao
meu redor pessoas que me atrapalhavam, procurava um lugar onde pudesse estar
sozinha e encontrei o meu quartinho do tempo em que era pequena; neste momento
chegava também Maria, uma tia à qual eu era muito ligada. Estando finalmente em
paz, via que o nenê entre- mentes tinha morrido nas minhas mãos. Sabia que
deveria incinerá-lo. Agora ele tinha o aspecto de uma folha de papel e eu o acendia
num dos ângulos: ele queimava, mas não se carbonizava; tomava cores fortes,
semelhantes àquelas de um trabalho esmaltado. Tinha-se tornado um Menino Jesus,
que vivia e sorria.

Pagina 126
Como dissemos no começo, referir este sonho ao aborto é arbitrário e destituído de
qualquer valor demonstrativo; teve apenas certo efeito sobre a sonhadora em
relação ao aborto. As imagens arquetípicas deste sonho narram a transformação por
meio da morte. Algo se transformou na sonhadora porque a morte daquele que não
podia viver foi aceita e assistida.

Nove meses após o encontro com o dobermann, portador de prazer e doença ao


mesmo tempo, chega-se ao parto. Na casa dos pais, lugar principal da sua
problemática pessoal; no banheiro, onde a pessoa se limpa e se liberta das
substâncias de refugo. Aqui a linha fronteiriça é sutil: por distração é fácil lançar fora
algo que, quando olhado com atenção e amorosamente cuidado, se revela vivo e
sagrado. Se se trata de um refugo ou de um Menino Jesus sorridente depende
apenas da atitude de quem está tendo o sonho; para dizer tudo com palavras mais
técnicas, tudo depende do respeito e da atenção do Eu pelos símbolos que se
movem nestes lugares interiores e afastados.

Lembremos a posição das sociedades tradicionais a respeito do aborto: era uma


forma de comunicação com a realidade do além-túmulo. O feto não era um pequeno
ser humano nem um amontoado de células; era mágico e sagrado, e tinha a
capacidade de realizar transformações. Não podia ser morto fisicamente, pois era
uma entidade metafísica.

Neste sonho um minúsculo e infeliz aborto se torna um ser metafísico: um símbolo


vivente, para usar um conceito psicológico técnico e limitativo.

O sonho pode ser posto em relação com a personalidade da sonhadora, mesmo não
se referindo ao aborto: a sua tendência regressiva a vegetar, a deixar-se agir sem
pensar (o pequeno ser sem cérebro na água), a dificuldade para definir as próprias
fronteiras (as pessoas que

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no Jesus perturbam) e portanto o risco de subtrair-se ao essencial (o confronto com


a morte). O que a ajuda é a capacidade de relação com o outro (não quer que o
bebê morra sozinho); a intuição (sabe que deve queimar o nenê morto); a coragem
de não fugir diante das emoções (o fogo). Envereda assim por um percurso no qual
se encontram algo de caráter sagrado e uma sólida individualidade (o Menino Jesus)

Mas este sonho trouxe para a mente de Inês também o aborto como evento objetivo.
Sentiu-se com isto reconciliada e encontrou nele a confirmação da decisão tomada.
Colocado em relação com ele, o sonho pode sugerir como ela se encontrasse sem
pensamento e consciência (o nenê não tinha cérebro) em uma situação da qual a
única saída era a de aceitar a inevitabilidade da morte. Morte que não é dada
através de um cruel assassinato, mas com um progresso na consciência: o ato de
tirar o nenê da água turva e aproximá-lo de si. Sabia que ele teria morrido se o
tivesse tirado da água. Mas aquela era uma água suja, não sagrada, não materna
como o líquido amniótico. Ele poderia ser eliminado inadvertidamente, como são
eliminados os excrementos. Assim, ela o tirou da água, dando-lhe conscientemente
a morte. Mas não o deixou morrer sozinho. Permaneceu com ele, embora os
mecanismos de distúrbio (as pessoas) procurassem dissuadi-la disso. A morte não
foi evitada, mas circundada de sentimentos.

O pequeno aborto é um produto da natureza inconsciente, que cria a vida sem se


perguntar que tipo de vida será. O Eu do sonho se comporta de modo humanamente
materno: tudo aquilo que vive quer ser notado, quer ser acompanhado no caminho
tão breve que tem ainda pela frente. Todo o mundo tem o direito de nascer e morrer
com alguém a seu lado.

Pode-se supor que um aborto no qual luto e morte não estivessem em jogo, porque
quem aborta acha que o

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feto não seja ainda propriamente vida, encontrasse em um sonho análogo uma
expressão diversa: talvez o feto sequer fosse notado se fosse puxada a descarga.
Nenhum confronto duro e doloroso com a morte, nenhuma mudança. O que
acontece neste sonho depende unicamente da posição do Eu no sonho: a aceitação
do inevitável sem maquiagem: a tomada de consciência, os sentimentos de relação
com o outro.

A Maria que aparece no sonho é uma tia sem filhos que, quando a sonhadora era
pequena, estava sempre pronta a dar uma ajuda nos momentos de necessidade. A
Maria ela associa também a mãe de Deus. Afigura onírica condensa, pois, atitudes
caridosas e espirituais, que transcendem o fato biológico. Dever queimar o nenê
remete para o sonho dos pãezinhos que devem ser cozidos. Agora a situação está
madura para um verdadeiro fogo, a chama da emoção e do sofrimento se difunde
por tudo, da sua fusão nascem novos elementos: de um pequeno aborto sem
cérebro nasceu o filho salvador, de um miserável vegetar inconsciente e instintivo
brotou, através do confronto com a morte, uma modalidade de existência que
concilia os contrários, liberta dos sentimentos de culpa e está também em condições
de retirar amigavelmente da situação o caráter dramático (o Menino Jesus que sorri).

Em relação ao aborto: a partir do desejo inconsciente, sem cérebro, de um filho


concreto para o qual os tempos ainda não estão maduros, desenvolveu-se uma
nova possibilidade de existência, através da renúncia ao filho concreto e o confronto
com a morte.

Analogamente àquilo que acontece entre os povos primitivos, a força mágica do feto
foi transformada.

Página 129

UM SACRIFÍCIO

A partir do exterior não é fácil ver como o ato violento do aborto frequentemente
esteja psicologicamente voltado não contra o feto, mas contra um aspecto materno
destrutivo. Não é fácil porque este aspecto materno negativo se esconde por trás de
uma auto enganadora propensão a cuidar dos outros, além disso idealizada.

O sacrificar-se pelos outros é um grande ideal. Quando a personalidade de uma


mulher é prisioneira da identificação com a mãe, sacrificar-se já não é sacrifício: até
com a maior boa vontade se renuncia à própria individualidade, cansativa porque
ainda para ser desenvolvida, para desembocar na estrada pré-traçada pela
coletividade. Este falso sacrifício dá satisfação imediata, mas, a longo prazo, não
deixa de preparar conflitos interiores.

Quando, ao invés, uma mulher ousa opor-se ao poder totalizador do ideal materno e
aceita pagar o preço disso, de matar o seu feto, e com ele a própria maternidade,
em troca do desenvolvimento individual, isto é sacrifício. Contrapôs à coletividade
das mães a própria existência individual e é por isso mesmo condenada pelas mães.

Falar de um aborto como de um sacrifício pode facilmente dar lugar a mal-


entendidos, se nos detivermos na letra sem penetrarmos no aspecto simbólico. Com
efeito, pensamos frequentemente que o aborto seja uma espécie

Página 130

de sacrifício humano, semelhante aos da antiguidade, rico, portanto, de aspectos


rituais, mas demasiado cruel, e auguramos que a evolução do comportamento ético
leve à sua definitiva superação. Entretanto, a analogia com o sacrifício humano é
limitada. A eliminação de um embrião não corresponde jamais a um sacrifício
escolhido e realizado conscientemente, uma vez que não se provocou
intencionalmente a gravidez com o único objetivo de abortar. No máximo se poderia
supor que o aborto exprima uma necessidade indireta e inconsciente de sacrifício da
sociedade no seu conjunto: por um lado a mentalidade predominante se afasta cada
vez mais daquela em que vigoravam os sacrifícios humanos; por outro poderiam ser
criadas inconscientemente ocasiões sacrificais para compensar o vazio de uma
sociedade cada vez mais destituída de passagens rituais e de ritos conscientes.

Na realidade, mesmo nos tempos antigos o aborto não constituía um sacrifício no


verdadeiro sentido da palavra (sacrificium: ato que torna sagrado o objeto). Como
vimos, o feto não era um objeto que se pudesse tornar divino: ele pertencia desde o
início ao mundo do além- túmulo, já era sagrado.
Portanto, se falamos de sacrifício em relação ao aborto, não devemos pensar
automaticamente no sacrifício do embrião: antes, em algo de psicológico e subjetivo,
no sacrifício de uma parte das próprias mulheres, por exemplo a inocência
imaginária que o ato violento afasta para sempre de nós.

Damos abaixo um sonho a respeito deste tema, mas sem relação com uma gravidez
real ou um aborto da sonhadora:

Crendo estar sofrendo do fígado, procurei uma médica homeopata. Foi-me dito que
sofria de uma doença hereditária, algo relativo aos cromossomos, que se chamava
Página 131

tritende; único tratamento, ficar grávida e depois abortar. Eu era contra isso; a
médica, porém, acrescentou que se tratava de um sacrifício e que havia mulheres
que te- riam preferido dar à luz um filho mongoloide a abortar.

A sonhadora associa a tritende os tritões e as sereias, o mundo da ilusão. A doença


de que ela sofre passaria de geração a geração (não diz respeito, pois, somente a
ela pessoalmente) e teria tudo a ver com o próprio núcleo da personalidade (os
cromossomos). Não só porque levaria à impossibilidade de viver (doença do fígado,
órgão vital e órgão do destino, basta pensar na adivinhação grega); a doença é a de
viver em um mundo ilusório, como as sereias, formas inconscientes da feminilidade
que existem somente para desencaminhar o homem. O tratamento desta disposição
interior para não viver de modo realmente autônomo é ficar grávida e depois abortar:
requer-se uma dose homeopática de maternidade, não mais de duas semanas,
depois a voluntária e violenta renúncia a ela. A mulher deve fazer algo de totalmente
absurdo: ficar grávida para abortar. A gravidez tem como finalidade única o aborto, e
mais nenhuma. E neste aborto se esconde uma forma simbólica de cura. O aborto,
no caso, não deve ser entendido literalmente, sendo o ato de destruição que ele
comporta dirigido em sentido figurado contra o próprio comportamento regressivo, a
própria de- pendência, as próprias expectativas infantis de que os outros dêem as
soluções e que basta seguir os caminhos por outros previamente traçados. E
necessária a energia de Artemis, atividade e capacidade de dividir, cortar, deixar; é
preciso uma atitude livre das necessidades da infância. O Eu da sonhadora faz
oposição e a indicação da médica, uma voz por sua vez oposta à de um arquétipo
materno, que exime de qualquer responsabilidade, torna-se ainda mais drástica: há
mulheres que preferem uma definitiva diminuição da alma (consideremos
simbolicamente o fi-

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lho com síndrome de Down: ele representa um mundo de sentimentos diferenciados,


mas uma autonomia quase inexistente, um arrastar-se pela existência sob a
proteção materna), ao invés de pôr de lado o milenar caminho da mãe. Também aqui
não devemos pensar sobretudo na maternidade em sentido literal, mas na atitude do
sacrifício para e em função de. A palavra do sonho é sem compromisso e é
homeopática: ao ciclo interminável do gerar e cuidar, se contrapõe uma dose mínima
de maternidade. O cuidado não corresponde a uma imunidade do ser mãe. A cura
consiste ao invés em considerar a maternidade como uma das possíveis escolhas
de vida, e não como uma condição já dada na qual alguém se encontra imerso.

O aborto voluntário pode representar nos sonhos um sacrifício transformador,


através do qual é superada uma fase precedente de desenvolvimento feminino. O
nascimento de uma criança deficiente, ao invés, alude mais ao que se tornaria a
própria vida sem sacrifícios conscientes e sem escolhas: uma existência feita de
passividade, uma renúncia a experimentar aquilo que podemos ser, uma paralisia da
consciência.

Já sublinhamos o aspecto simbólico do aborto: entretanto pode muito bem acontecer


que a sua imagem interior corresponda cronologicamente a uma gravidez
involuntária e a um aborto voluntário real; o fato de que além disso se consiga
realmente a solução do conflito e a entrada em uma nova fase é completamente
independente do tipo de decisão tomada. Só conta aquilo que a psique gera com a
decisão, a produção de uma nova consciência: com ou sem aborto, com ou sem
filho. Um aborto concreto pode, como toda situação limite, se tornar o indicador de
uma passagem deste tipo, e não vice-versa. Um aborto concreto pode com efeito
também não produzir nada para a vida psíquica e levar apenas a uma destruição
ainda
Página 133

mais profunda, reforçando um masoquismo já existente e imprimindo ainda mais


profundamente um complexo materno destrutivo.

Quando a decisão pró ou contra o aborto suscita um conflito muito forte, é então que
se criam pelo menos as condições para uma mudança, para uma transformação
interior, possibilidade esta que é tão maior quanto mais violento e total é o conflito,
quanto mais paralisante é o decidir. A possibilidade é assim grande, porque também
o corpo está nisto envolvido e sofre como em nenhuma outra crise, com a exceção
talvez de uma doença muito grave; isto porque os esquemas morais são aí
solicitados como em poucas outras circunstâncias; porque as pessoas mais
próximas participam também elas desta dilaceração, mas cada uma com os próprios
valores.

Eis o sonho de uma paciente que não tinha experimentado nem aborto nem
gravidez, mas que por causa de uma nova situação de independência podia
começar a abandonar suas expectativas mais infantis.

Lembro-me de uma voz, provavelmente feminina, que se dirigiu a mim assim: Agora
que já fizeste um aborto poderás ter um filho.

Volta à lembrança aqui a forte analogia simbólica com a convicção de muitos entre
os chamados primitivos: um aborto pode ser a premissa necessária para liberar o
canal de passagem para o filho definitivo.

Do ponto de vista psicológico, alguém só está disponível para a maternidade após


ter adquirido também a capacidade antimaterna de renunciar às possibilidades de
vida desejadas, mas não realizáveis. Quando o ter um filho é percebido como
introdução a um novo modo de ser, então o aborto constitui o mais doloroso entre os
atos de vontade, o ato de renúncia a uma renovação desejada, mas cujas condições
de realidade poderiam não permitir
Página 134

o prosseguimento. Nem todas as faculdades da vida psíquica podem ser


experimentadas, precisamente como nem todos os talentos podem ser colocados a
juros. Abortar, em sentido metafórico, significa separar-se de uma possibilidade. Em
outras palavras, também dizer não a fantasias, desejos, quimeras, mesmo relações
que de boa vontade se conservariam, mas que não fazem outra coisa se- não
subtrair energias porque com elas não se confronta ativamente, mas se deixa
apenas passivamente que cresçam conosco. São ilusões que não se tem a coragem
de jogar fora. Querer preservar e desenvolver em si todo gênero de vida, toda nova
ideia, toda fantasia, não passa de uma forma daquela arrogância que os antigos
chamavam de hybris. Neste sentido, abortar pode equivaler a admitir que as nossas
forças, o nosso tempo, a nossa personalidade têm limites humanos. Poder gerar e
desenvolver a vida, tanto física como psiquicamente, é mais um dom do que um
direito.

O aborto em sentido metafórico pode também significar subtrair-se à atração


regressiva instituída pela de- pendência e pela primordialidade de um ser ainda
embrionário, juntamente com o qual só nos resta esperar por um desenvolvimento
futuro. Há adultos que por decênios dizem a si mesmos que amanhã começarão
uma vida nova. Para estes o aborto simbolizaria a destruição desta esperança
passiva e a escolha ativa de algo que está em poder deles.

Para alguns a ruptura violenta do sonho embrionário que confia em possibilidades


sempre novas e o voltar-se para as coisas imediatamente realizáveis seria a vitória
sobre a sua neurose. Isto comporta, todavia, também a consciência e a aceitação da
culpa por aquilo a que a nossa escolha fechou definitivamente o futuro.

Página 135

A CULPA DE SE TORNAR ADULTO

Eu estava certa de que comigo não aconteceria é frequentemente o motivo alegado


para explicar o descuido na contracepção ou a sua falta.
Parece que quem fala é um pensamento mágico, o qual afirma: Eu estou imune a
certos acontecimentos. Eu sou diferente é fantasia de pureza, de inocência que não
pode encontrar desgraças; não tendo más intenções, nada de mal pode acontecer.
Esta atitude não pertence à vida, mas a um sonho irrealista e infantil que recusa a
percepção do mal. Quando este último chega de qualquer jeito, a pessoa toma pela
primeira vez consciência de que não é tão diferente daqueles aos quais acontecem
desgraças.

A dilaceração que um aborto comporta desagrega aquela pretensa intocabilidade e


prepara a experiência de culpa que nos espera. Todo aumento de consciência
comporta culpa. Embora esta não coincida necessariamente com a
responsabilidade, porque pode originar de um evento que era inevitável e
corresponder a boas intenções, a culpa, como na tragédia grega, deve ser
descontada até o fim.

Em nosso caso não é injustificado inverter o assunto: justamente por ter ficado por
demasiado tempo aprisionadas numa ilusão de inocência, elas se precipitam com
uma intenção inconsciente em uma gravidez involuntária e, assim fazendo, em um
conflito moral tal

Página 136

que exige um despertar e uma reorientação da consciência. A saída do conflito é de


qualquer forma culpa. Culpa em relação ao feto ou em relação àquela parte de si
que, na ausência do filho, teria podido desenvolver-se. Este último caso não significa
que a presença de um filho seja obstáculo para o desenvolvimento interior,
acontecendo com frequência exatamente o contrário; mas há espaços da alma,
como o da criatividade, dificilmente conciliáveis com o da maternidade porque
demasiado semelhantes a ela. Uma atividade criativa perseguida seriamente exige
tanta atenção, energia e paixão, quanto a exigida por um filho: realizar as duas
coisas ao mesmo tempo é pouco pensável justamente pela similaridade do
empreendimento. Há, pois, um âmbito do desenvolvimento pessoal que é
comprimido de modo especial pelos primeiros anos da maternidade, e é o marcado
por Artemis, para a qual a independência tem precedência sobre a relação.

Quanto ao conflito moral provocado pela gravidez indesejada, pode-se perguntar se


ele tem para as mulheres um significado especial e se os homens reagem de modo
diverso em situações análogas. Pois bem, a respeito disso há um interessante
estudo de C. Gilligan relativo ao desenvolvimento da consciência moral em
adolescentes masculinos e femininos(1). Eles enfrentariam diversamente um
conflito: os rapazes privilegiariam a observância da norma moral geral, enquanto as
garotas estariam mais dispostas a transgredi-la em nome de uma situação especial
do indivíduo. Uma parte do trabalho de Gilligan diz respeito ao juízo moral sobre o
aborto: com uma série de entrevistas a mulheres que tinham ficado grávidas não
voluntariamente (recolhidas em três tempos: no momento em que estavam
decidindo se abortariam ou teriam o fi-

Início da nota de rodapé

1 – Gilligan, Con voce di donna. Etica e formazione della personalità, Feltrinelli,


Milão, 1987.

Fim da nota de rodapé

Página 137

lho, pouco depois da decisão e um ano depois dela), a autora identifica uma notável
evolução da atitude ética, tendo- se em vista a relativa brevidade do período
considerado. Três seriam as fases características desta evolução.

Na primeira fase a ênfase é posta na sobrevivência pessoal; ocorrem expressões


como: Devo pensar em mim mesma, ou então: Só penso no fato de que não o
queria. E por quê? Não estava ainda preparada, falta-me um ano para a formatura e
quero terminar os estudos. Tratou-se de decidir pela solução melhor? Não, não ha-
via uma verdadeira escolha: eu não o queria mesmo.
Na segunda fase a perspectiva se inverte, parece mais importante sacrificar-se, e os
desejos pessoais são refreados. A atitude anterior é agora julgada egoísta.

Se o conflito prossegue, chega-se depois a uma ter- ceira fase, na qual se procura
unificar as duas posições precedentes. Apalavra responsabilidade aparece aqui pela
primeira vez. A decisão responsável exige que se pense em si mesmas e nos outros
ao mesmo tempo.

Eis uma descrição disto:

O que eu realmente queria é ter o filho, mas o que penso que deveria fazer, que é
aliás aquilo que é preciso que eu faça, é abortar, pelo menos desta vez; isto porque
nem sempre o que queremos é justo. Não raro aquilo que é necessário vem antes
daquilo que quereríamos, porque aquilo que quereríamos nem sempre leva àquilo
que é justo. (2)

O conflito entre desejo e necessidade é aí evidente. Mais do que não quero, o que é
afirmado aqui é que não é justo.

Enquanto a segunda fase corresponde a uma ética materna subjetivista, reforçada


por um instinto arcaico (nas fêmeas dos mamíferos o instinto de conservação é em
grande parte deslocado de si para o filhote), a terceira fase

Início da nota de rodapé

2 – Ibidem, p. 83.

Fim da nota de rodapé

Página 138
incorpora os conflitos sobre uma base mais vasta e procede dialeticamente entre os
prós e os contras de toda opção: ambas as oportunidades têm um declive certo e
um errado, a característica unitária originária do instinto é rachada, sendo que
responsabilidade significa escolher a resposta, ser respondente (em latim
responsare, responder; em alemão Verantwortung, responsabilidade, de antworten,
responder). Toda resposta pousará, tanto interior- mente como socialmente, sobre
uma base mais frágil da característica sacrifical materna, descartada tanto pela
convenção como pelo instinto. Escolha consciente, decisão, responsabilidade e
culpa não pertencem ao âmbito materno arquetípico. E com este que começa um
território tradicionalmente reservado à consciência masculina.

A culpa surge, e se torna inevitável, só quando se apresentam a ética e a moral,


quando se luta com as possibilidades opostas. O Raskolnikov de Dostoievski deve
encontrar a culpa para se tornar humano. Ele age como um sonâmbulo (...) a custo
cônscio de si, quase maquinalmente (...)(3) no início do romance. Tudo aquilo que se
segue não é apenas a gradual descoberta do assassínio, mas é também, como para
o Edipo de Sófocles, a sua descoberta, pessoal e lenta, da culpa, uma culpabilidade
que não reside só no ato, mas muito mais em toda a sua existência: talvez, como
para Edipo, na própria existência. O ato é apenas como um sintoma, através do qual
todo um caótico mundo interior sai para a luz.

De modo semelhante uma gravidez indesejada e um aborto penosamente realizado


podem encerrar uma vida inculpável: pôr fim à inocência suspensa. O preço deste
passo é a culpa. E esta que torna Raskolnikov, muito antes de terminar a história,
mais perto da expiação, final-

Início da nota de rodapé

3 – F. Dostoievski, Delitto e castigo (Crime e castigo), Einaudi, flirim, 1947, p. 95.

Fim da nota de rodapé

Página 139
mente humano. Pode acontecer por esta via que mulheres que vivem interiormente
para além do bem e do mal sejam levadas inconscientemente pela necessidade de
sustentar um conflito extremo para desenvolver uma consciência moral mais
profunda. Significativas a este respeito são as afirmações referidas por Gilligan:

Agora, que tive de tomar uma decisão tão grave, me olho de maneira diversa; até
então, na minha vida, não me tinha acontecido ter de decidir sobre coisas realmente
importantes. Foi preciso certa dose de responsabilidade para fazê-lo. E eu mudei, no
sentido de que tomei uma decisão difícil. E isto me fez bem. Antes eu não teria sido
capaz de encarar as coisas realisticamente. Teria feito aquilo que tinha de fazer,
ainda que não fosse uma coisa justa. Por isso me vejo mais madura, no sentido de
assumir decisões e cuidar de mim mesma, fazer algo por mim. Acho que isto me
ajudará também em outras situações, se devesse fazer outras escolhas que exijam
senso de responsabilidade. Agora sei que estou em condições de enfrentá-las. (4)

Eis uma outra voz:

Estou contente com a direção que a minha vida está tomando. Em comparação com
o ano passado, como está mudada e para melhor! De manhã me levanto e vou para
a escola. Antes passava o dia todo andando sem rumo, sem nada fazer, sem
concluir nada de bom. Não sabia o que fazia, ao passo que hoje me parece ter um
objetivo, sei perfeitamente o que devo fazer. (5)

A maturidade brotou do conflito sustentado, e nós nos sentimos autorizados a olhá-la


justamente como o escopo inconsciente que aquele conflito determinou.

O aborto corresponde às vezes a um parto sombrio, do qual se volta para casa com
sentimento de culpa e mãos vazias, onde se encontra simplesmente a si mesma.

Início da nota de rodapé

6 – C. Gilligan, op. cit., p. 83.

5 – Ibidem, p. 120.
Fim da nota de rodapé

Página 140

O PAI AUSENTE

Falar de aborto com os homens é ainda mais difícil do que com as mulheres. E mais
frequente ouvi-los exprimir princípios, sendo mais rara a referência à experiência
pessoal. Raramente se ouve dizer: Abortamos, do mesmo modo como se diria:
Temos um filho.

Frequentemente é a mulher que decide sozinha; o homem ou se afastou logo, ou se


escondeu na passividade e no silêncio. As angústias e os sentimentos de culpa são
afastados mais rapidamente, mas poderiam estar presentes em medida ainda maior.
A criança que não nasceu corresponde para o homem a outros valores. Certo, o
embrião não é uma parte dele como é o caso da mãe. E, desde o começo, outro
diferente dele. Um outro, um ser separado e diverso. Sob este aspecto, a inibição
em matar aquele ser é mais clara. Os homens têm habitualmente menos dúvidas de
que abortar seja matar.

A fusão por simbiose com a vida que se desenvolve dentro fornece frequentemente
à mulher um sentimento subjetivo de justificação de dispor dessa mesma vida: A
barriga é minha. Na sociedade moderna o pai não tem direitos sobre o embrião. A
crônica italiana percebeu isso há algum tempo, quando um jovem que queria impedir
a amiga de abortar irrompeu na sala de operação com uma pistola. A falta de
direitos, porém, não comporta falta de de-

Página 141

veres. Deste modo a sociedade contribui para desenvolver apenas unilateralmente


uma responsabilidade paterna.
É um contraste violento com sociedades mais antigas. Na Grécia antiga, por
exemplo, o aborto só podia ser praticado com o consentimento paterno, sob pena de
ser equiparado ao assassinato(1). Não se tratava de um direito do feto à vida, mas
do direito do pai a uma descendência.

O homem conhece a violência e o matar de maneira muito mais direta e


historicamente fundado do que a mulher. A expressão mais ou menos formalizada
das suas pulsões agressivas é parte da sua identidade. Pode-se ter como certo que
também os freios inibidores correspondentes sejam nela mais diferenciados e
profundos.

Enquanto em determinadas condições ele pode ou deve matar, é intolerável para ele
imaginar que uma mulher possa fazê-lo. Ela desperta nele um conjunto de
ansiedades irracionais. A idéia de uma mãe que pode matar coloca em discussão a
sua própria existência, fazendo-o sentir-se completamente à mercê dela. Não é
apenas porque se tema o evento: falta o conceito do evento, o seu recipiente
cultural; diferentemente dos homens, as mulheres nunca puderam contar com uma
forma de matar culturalmente aceita. Desde sempre, de acordo com a mitologia,
uma mulher que mata o faz por motivos pessoais, tomada de furor como Medéia ou
segundo uma trama cuidadosamente planejada, como Clitemnestra. Com o aborto o
homem se afasta do papel de herói, para quem o matar é delegado como
necessidade e como honra (por exemplo para a defesa do grupo) e que comporta
rituais de purificação que lhe permitem voltar para junto das mulheres e das
crianças. Ele é degradado ao papel de

Início da nota de rodapé

1 – Ver G. Glotz, Histoire Grecque, vol. 2, cap. 18, Presses Universitaires de France,
Paris, 1931.

Fim da nota de rodapé

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espectador passivo e de cúmplice da mulher que mata, um papel que só pode
parecer-lhe colocado às avessas, perigoso, imoral.

As associações que lutam ativamente contra o aborto dão a impressão, ao agir, de


trazerem a marca da consciência masculina.

Isto não significa que sejam caracterizadas por uma maioria de homens, mas por um
conjunto de homens e mulheres interiormente impulsionados por valores
masculinos.

Nomes como Movimento pela vida indicam uma necessidade de abstrações


absolutas. Quem não é pela vida? O problema é, antes (e se trata de um problema
da consciência feminina, a qual se afasta das questões de princípio para aproar
aquelas de cada um dos viventes em particular) a respeito de que gênero de vida se
trata: a de uma mulher, a de uma família, de um feto, da criança que pode- ria vir a
ser feliz ou abandonada e malograda? Um feto é a vida e é inocente: até que ponto
estamos certos disso?

Consciência masculina e consciência feminina diferem também nas suas atitudes


relativas à morte e à per- da. Enquanto a consciência feminina é propensa a
experimentar a vida como um ciclo, no qual nascer e morrer se revezam e são
afluentes um do outro, para a consciência masculina, com a sua concepção linear do
tempo dotado de início e de fim, a morte é definitiva. E isto que influi em parte
também na imagem fantástica que o homem tem de si mesmo.

A mulher se vê como uma fonte potencial de sempre novas gravidezes, pois o


arquétipo materno que a inspira é dispensador perpétuo de vida; já o homem,
marcado por terrores inconscientes de castração, teme que o que uma vez se tenha
perdido esteja perdido para sempre.

A luz disso tudo, a retirada emocional do homem diante do dilema colocado pela
gravidez indesejada é mais

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do que compreensível. A afirmação: Isto é com você, estou disposto a aceitar
qualquer solução não é necessariamente sinal de desinteresse, mas pode indicar a
retirada do próprio ponto de vista diante de algo misterioso, só cognoscível e
aceitável suas consequências.

Pode-se supor que o processo do luto e toda a elaboração psicológica do evento


sigam no homem um caminho diverso.

Como se pode também imaginar que os pais demonstrariam uma relação mais
madura com o aborto quando houvesse maior respeito pelas suas vivências relativas
a esta experiência, e quanto não se esperasse deles apenas conforto e ajuda de tipo
materno.

Se é verdade que o homem vê o embrião não tanto como uma parte de si mesmo,
mas como um ser existente em si, então seus sentimentos possuem uma
característica mais próxima do luto tradicional, e suas ambivalências diante da
mulher que aborta têm uma base psicológica mais clara.

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AQUELES QUE ACOMPANHAM

Entre o infanticídio e o desejo de sangue menstrual, cada qual tem o seu limiar de
tolerância pessoal. Pelo menos é o que diz um ginecologista a respeito da objeção
por motivos de consciência, que na Itália limita a aplicação do direito à interrupção
da gravidez. Alei autoriza o aborto até o 90º dia por motivos sociais, econômicos,
familiares ou terapêuticos; a mulher que decide neste sentido não tem dificuldades
para a permissão de submeter-se à intervenção, contanto que encontre quem o
faça.

O número daqueles que se recusam por motivos de consciência tem aumentado.


Não tanto por uma rápida mudança das convicções morais como por razões mais
concretas: os médicos e os enfermeiros dispostos a praticar o aborto cansaram logo
de ficar presos em um círculo vicioso que gira cada vez mais exclusivamente em
torno da prestação deste tipo de serviço.

Nada de partos, nada de cesarianas, nem para remo- ver um tumor; e também
nenhuma perspectiva de aperfeiçoamento ou de carreira: nada mais do que abortos,
três horas por dia, cinco vezes por semana. (1) A isto vem acrescentar-se o juízo
negativo dos que fazem objeção de consciência (60-80% dos ginecologistas e 80%
dos médicos-che-

Início da nota de rodapé

1 – Tirado do jornal La Repubblica, de 29 de janeiro de 1989.

Fim da nota de rodapé

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fes). Sobre os médicos e os enfermeiros que colaboram com a mulher que aborta
recai facilmente a mesma discriminação que pesa sobre ela. Para remediar a
diminuição dos médicos disponíveis recorre-se a jovens recém-formados que andam
à procura do primeiro emprego. A interrupção da gravidez fica confinada ao degrau
mais baixo das atividades sanitárias, excluída da auréola de respeito que sempre
rodeou a prestação de serviços médicos.

Um médico que pratica abortos fica sobrecarregado de tarefas.

Todo médico é inimigo da morte. Combater a morte é, aliás, a sua tarefa principal. A
mulher que aborta exige dele que seja um juiz especialíssimo, que deveria limitar-se
a pronunciar absolvições. (2)

Se a mulher procura uma relação empática com ele, o médico deve estar consciente
de que não existe um aborto igual ao outro, que cada mulher o vive de maneira
diversa. Para uma ele não passa de convalescência de uma doença, para a outra é
uma perda conseqüente a uma morte. O médico, por um lado, deveria manter-se
absolutamente neutro, não se identificando com nenhuma ideologia. Por outro,
exige-se dele que responda com empatia aos pedidos de proteção e consolo, ou
seja, que compreenda quando a única possibilidade é remover o evento; e de ater-
se a um correspondente distanciamento. Sua preparação é a de um ginecologista,
mas espera-se dele também a de um analista de grande experiência. O resultado é
que frequentemente ele se perde em meio aos mal-entendidos. Se depois da
intervenção uma mulher chora, troca quem sabe o luto pelo remorso, ele acredita
que ela tenha se arrependido e deseje que ele também compartilhe a culpa com ela
para sair então do embaraço, ele pretende que naquela seção do hospital ninguém
chore.

Início da nota de rodapé

2 – J Kellerhals, W. Pasini, Perchè laborto?, Mondadori, Milão, 1977.

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Para além de toda e qualquer avaliação moral, seria importante que o médico
estivesse consciente de como para algumas mulheres ele é a primeira pessoa que
as assiste enquanto realizam algo de duro e de decisivo só para si mesmas. Se é
verdade que o aborto encontra um sentido somente quando é experimentado por
elas como um evento extraordinário, o primeiro a ter consciência disso deveria ser o
médico que o pratica. Mas como pode ele desempenhar essa tarefa ritual, se
raramente terá trocado sequer uma palavra com a mulher e frequentemente não a
terá sequer encarado? Mas nem isso, por outro lado, é essencial. Para o médico é
necessário que o seu ato, neste caso em contraste com os poderes de cura da
medicina, seja ao menos significativo no âmbito da psicologia. De outra forma, como
pode ele reconciliar com sua ética profissional a prática que não opera em favor da
vida física? Ele pode apenas pensá-la psicologicamente e imaginar um embrião
simbólico, daqueles que não aparecerão jamais numa tela de ultrassonografia, que
represente as possibilidades de desenvolvimento da mulher conciliáveis com um
filho concreto.
Para fazer isso, ele deve começar por repensar o seu papel de opositor absoluto da
morte. Asclépio, o médico divino, fora condenado à morte pelos deuses justamente
por ter tentado despertar os mortos, por não ter aceitado a morte onde ela se
manifesta.

Talvez nos seja mais clara a importância daquele que acompanha se imaginarmos
um aborto provocado pela mera ingestão de um produto medicinal. Com os
preparados a serem usados após a concepção esta possibilidade chegou.
Teoricamente falando, toda mulher poderá interromper em sua própria casa uma
gravidez apenas começada. Mas será que haveria menos inibições para abortar na
ausência de obstáculos burocráticos, de médi-

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cos, de cirurgia, de medicações posteriores? A solidão que rodeia o ato se tornaria


extrema. A mulher não estaria mais entre as outras: estaria realmente só. Ninguém
se- ria testemunha dela, nem mesmo a enfermeira. Ninguém fora das suas quatro
paredes. Uma relação de casal sobreviveria àquela solidão? Ao imaginar-se tudo
isso chega-se a experimentar quase um reconhecimento pelo apoio dado pelo
pessoal indiferente, pelos médicos e os psicólogos que preenchem detestáveis
formulários. Também eles, apesar dos pesares, são acompanhantes rituais.

Pode-se imaginar que este produto medicinal favoreceria uma rápida remoção da
experiência naquelas mulheres que estão de qualquer forma em condição apenas
de removê-la e não de elaborá-la: por outro lado, elas correriam o risco de descuidar
da contracepção ainda mais do que agora já acontece. Para aquelas, porém, que
estão mais conscientes do conflito, a solidão seria talvez o medo maior. Isto por um
lado constituiria uma prevenção de gravidezes não desejadas e, por outro,
superficialmente causadas, caso estas se verifiquem, as levaria de qualquer forma a
procurar uma figura que acompanha, por amizade ou por função psicoterápica.
Nestes casos, em contraste com o problema físico tornado tecnicamente mais
simples, o psicológico se tornaria mais complexo e mais consciente. A distância
entre as duas possibilidades, a do nada mais que e a do evento significativo, se
tornaria maior.

Na Itália os abortos têm uma frequência de cerca do dobro em relação aos países
da Europa centro-setentrional. O lugar comum destas outras nações a respeito dos
italianos os representa como adoradores de filhos. De fato um antigo sentimento
coletivo deste tipo é perceptível na península, mas contrasta com o fato de que o
número dos lugares públicos para brincar, a idade em que o filho co-

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meça a ser confiado à creche, o próprio tempo que os pais passam com os filhos
parecem consideravelmente inferiores aos de outros países.

É provável que a milenar predominância da Igreja católica tenha induzido na Itália,


com a ininterrupta presença das imagens de Maria, uma série extrema de
expectativas relativas à maternidade; embora, por outro lado, se viva em uma
sociedade absolutamente moderna, na qual o número dos nascimentos diminuiu
com um realismo até excessivo, e a expectativa de que a maternidade seja para a
mulher a máxima realização, se tornou menos consciente, mas não desapareceu
completamente. Ainda mais grave é, assim, a frustração quando se percebe que a
maternidade, de per si, não fez renascer, mas sobretudo multiplicou as fadigas. A
antiga expectativa cultural, de acordo com a qual se deve desejar a maternidade
como o máximo bem, torna difícil superar os aspectos regressivos desta e
experimentar outras formas, não maternas, de feminilidade.

Vale, pois, a pena observar a alta frequência de interrupções voluntárias de gravidez


também deste ponto de vista. Foi extremo o domínio histórico do modelo materno
sobre as mulheres italianas; e todas as mulheres que o combatem tendem a meios
extremos, como justamente o aborto. Em outras palavras, numerosas são as
mulheres que indiretamente recorrem à iniciação extrema que consiste em matar,
isto é, ao aborto, impulsionadas por uma necessidade de distanciar-se de um
arquétipo materno devorador, antiquíssimo e invencível. Se este passo não é dado,
escondendo-se inclusive de si mesmas, se não é tratado simplesmente como o
menor entre dois males, mas, conscientemente na medida do possível, como um
evento em si mesmo grande e difícil, é possível que revele uma qualidade iniciática.
No não a um filho é possível perceber o sim a si mesmas.

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Recentemente, em Milão, acompanhei uma jovem mulher na ação de abortar. De


manhãzinha tomamos um ônibus que se afastava do centro da cidade, atravessando
a neblina e a escuridão, que ainda não tinha desaparecido completamente. A
entrada do hospital estava ainda vazia, como também o elevador que nos levou a
um andar superior. Só na sala de espera é que se encontravam outras cinco
mulheres, todas acompanhadas: por uma irmã, um marido, um amigo, uma amiga. A
atmosfera era tensa, muitas palavras e talvez sorrisos demais; por trás dos
comentários banais se acumulava o que não era dito. As enfermeiras tinham um
porte atento e sensível, dando a impressão de estarem conscientes daquilo que
delas se esperava e intervindo quando necessário.

O vazio do corredor e a jornada não completamente iniciada ajudavam a sentir-se a


salvo. Olhando dos janelões para baixo víamos pessoas que iam para o trabalho. A
manhã estava começando, a vida tomava o seu ritmo enquanto aqui em cima
pequenas vidas apenas iniciadas eram interrompidas.

Tive a impressão de que um hospital como aquele fazia tudo o que podia pelas
mulheres que abortam: se elas se sentiam protegidas, respeitadas e sobretudo,
justamente porque não se tratava de uma clínica particular imersa no verde, não se
sentiam irreais ou monstruosas. O fato de a intervenção ser paga pelo serviço
sanitário e praticada no mesmo edifício no qual aconteciam também nascimentos e
mortes dava às mulheres uma sensação de ainda fazerem parte da sociedade,
fazendo-as sentir que não estavam excluídas do ciclo inteiro do nascimento e da
morte.

Os acompanhantes por sua vez deviam esperar e só tinham de novo permissão para
conversar com as pacientes algumas horas após a intervenção e só com a anuência
delas. Não chorem, diziam as enfermeiras com
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um tom no qual não havia nenhuma reprovação. Após ter passado ali meia jornada,
durante a qual tanto a sala de espera como os corredores se tinham enchido até se
transformarem no caos habitual, disseram que podíamos finalmente voltar para
casa. Tive a sensação de que me faltava algo. Mas ir embora assim, foi o que
pensei.

Por alguns instantes pensei se não seria possível imaginar um espaço no qual as
mulheres e os seus acompanhantes se pudessem entreter após o aborto; um
espaço neutro que funcionasse como uma ponte entre o evento emocionante e a
vida cotidiana, e ao mesmo tempo entre o pequeno leito para doentes e o fato que o
aborto não é uma doença. Notei, porém, que minha companheira não desejava nem
falar comigo nem estar com as outras. O espaço de que ela necessitava era
provavelmente um espaço interno, uma possibilidade de não se concentrar logo nas
tarefas do dia. Uma vez na casa da jovem, preparei- lhe a ceia e levei-a para ela no
leito, o único pequeno rito que eu podia cumprir sem me sentir artificial. Desejara
dar-lhe um presente, mas nada tinha parecido adequado.

Todos os outros eventos importantes que dizem respeito à vida e à morte conservam
cerimônias, ou pelo menos vestígios de ritos; embora estes nos pareçam es-
vaziados, sabemos pelo menos como se deve comportar num matrimônio ou num
funeral. Para o interessado é tranquilizador saber que existe um papel
preestabelecido e que pode escolher entre adequar-se-lhe ou recusá-lo. No caso do
aborto falta tudo. É preciso expressar condolências ou congratulações? Depois de
tê-lo feito, é o caso de tirar umas férias ou isto é demasiado frívolo? Onde estará o
filho que não nasceu? Sei de uma senhora que detém o olhar no nome da localidade
onde abortou todas as vezes que o seu trem passa por aquela estação. Aquele
cartaz é o lugar da sua lembrança. Acho que não teria sentido instituir lugares
específicos em memória das

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crianças que não nasceram. Seria uma nova profanação do evento, que só serviria
para afastar as mulheres para as quais ele não foi totalmente profano.

Em tempos arcaicos o aborto era um acontecimento ritual e submetido ao tabu.


Depois o tabu se transformou em proibição e o aborto perdeu sua qualidade de
evento importante e transcendente. Onde a proibição perde o vigor, ele corre o risco
de resvalar em um vazio afetivo e não ser outra coisa senão uma intervenção de
técnica médica. A necessidade de ritual fica afastada, mas não desaparece, e se
exprime tanto nas codificações legais como na intensidade afetiva que acompanha
as discussões em torno do aborto.

Os rituais não se prestam a ser inventados ou substituídos por ideologias. É possível


que uma mulher que aborte e o seu parceiro consigam superar o silêncio e a
ausência de rituais com que a sociedade rodeia o evento, encontrando dentro de si
uma voz que fale dele e fixando-o como uma passagem que pertence
definitivamente à sua vida.

Se em um país os abortos diminuem, como parece ter acontecido na Itália nos


últimos anos, isto está ligado a leis menos repressivas; mas sobretudo à obra difusa
dos indivíduos, sem a qual qualquer lei perderia sua força; indivíduos estes que, nas
anônimas instituições, e apesar das hostilidades externas e das ambivalências
internas, exerceram cotidianamente suas funções com o respeito de um rito,
reavivando resíduos inconscientes de uma antiga cerimônia.

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ÍNDICE

5 - Introdução à coleção Amor e Psique

9 - Apresentação à edição brasileira

17 - Prefácio
23 - Introdução

27 - Aborto: um não-lugar

31 - Contracepção falha?

35 - Indicações antropológicas

39 - Um confronto

43 - As reincidentes

49 - Aborto como fim

54 - Inconscientemente desejado

72 - Iniciação e maternidade

79 - Iniciação e aborto

87 - Fora da mãe: Artemis e Atena

93 - Matar

103 - Duas escolhas

129 - Um sacrifício

135 - A culpa de se tornar adulto

140 - O pai ausente

144 - Aqueles que acompanham