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I SOEITXAWE

Congresso Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia

CT Paiter Suruí, Cacoal, Rondônia - Brasil.

1ª Edição

Campinas

Volume 82
Equipe da Metareilá :
Da esquerda para a direita:
Almir Narayamoga Suruí
Ubiratan Gamalodtaba Suruí
Kachia Téchio
Jamiria Suruí
Adlanes Osmídio
Rubens Naraikoe Suruí
Arildo Gapamé Suruí
Enoque Mopidgasoten Suruí

Equipe do CLE :
Da esquerda para a direita:
Vinícius Ferreira Costa
Claudia Marinho Wanderley
Guilherme Carneiro

Centro de Lógica, Epistemologia


e História da Ciência - Unicamp

Apoio:

Associação de Defesa Etnoambiental


Claudia Marinho Wanderley é licenciada em Letras -
Língua Portuguesa pela Fundação Universidade de
Brasília (UnB), Mestrado e Doutorado em Linguística
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
e Pós Doutorado em Linguística Computacional
Université Sorbonne Nouvelle (Univ. Paris 3). Foi a
catedrática responsável pela criação e execução da
primeira Cátedra UNESCO Multilinguismo no Mundo
Digital, sediada na UNICAMP. Atualmente é
pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e
História da Ciência da UNICAMP onde desenvolve
pesquisas na área do multilinguismo, multiculturalismo
e epistemologias locais, e atua junto a comunidades
tradicionais no sentido de promover o contato e
interlocução entre a produção acadêmica e o
conhecimento tradicional.

Kachia Hedeny Téchio é licenciada em


Administração (UniPan), Especialização em
Pós Colonialismo e Cidadania Global pela
Faculdade de Economia na Universidade de
Coimbra (FE/UC), Mestrado e Doutorado em
Antropologia pela Universidade Nova de
Lisboa (FCSH/UNL). É professora adjunta na
Universidade Federal de Rondônia (UNIR). É
pesquisadora no E-Lab Multiculturalismo no
Mundo Digital da UNITWIN UNESCO de
Sistemas Complexos. Atualmente desenvolve
pesquisas na área de multiculturalismo e
educação, atua junto a povos indígenas em
Rondônia em projetos de mitigação ambiental,
plantas medicinais, formação de professores e
conhecimentos tradicionais.
Nossa amada Miriam Osmidio faleceu
em 17 de maio de 2017. Infelizmente
Deus levou uma de nós e deixou tantos
corações amassados, mas sabemos que
nenhuma folha vai ao chão sem a vontade
de Deus. O que nos resta é somente
saudades e memórias de tantos e tantos
momentos únicos e alegres ao lado dessa
pessoa que nos amou, que se juntou a nós
para sermos mais fortes. Que Deus cuide
de nossos corações e de força a todos
familiares e amigos. Nosso trabalho não
será mais o mesmo sem a presença desse
ser tão amável e admirável, mas tudo
será por amor a ela que tanto se dedicou
a cada detalhe. Te amamos Miriam
Osmidio. Este livro é dedicado a você.
Descanse em paz!
I SOEITXAWE
Congresso Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia
CT Paiter Suruí, Cacoal, Rondônia-Brasil.

1ª edição
Claudia Marinho Wanderley
Kachia Téchio
Guilherme dos Santos Carneiro
Vinícius Ferreira Costa

I SOEITXAWE
Congresso Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia
CT Paiter Suruí, Cacoal, Rondônia-Brasil.

1ª edição

Campinas
Volume 82 – 2017
Universidade Estadual de Campinas
Reitor: Macelo Knobel
Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência
Coordenador: Marcelo Esteban Coniglio
Coordenador-Associado: Fábio Maia Bertato
Editor: Itala M. Loffredo D’Ottaviano
Editor Convidado: Claudia Marinho Wanderley
Editor Associado: Fabio Maia Bertato
Conselho Editorial: Ana Maria Alfonso-Goldfarb - UNESP/Marília; Newton Carneiro Affonso da Costa
CLE/UNICAMP, PUCSP; Atocha Aliseda Liera – - CLE/UNICAMP, USP, UFSC; Oswaldo Porchat
UNAM; Décio Krause – UFSC; Evandro Luís de Assis Pereira da Silva - CLE/UNICAMP, USP;
Gomes – UEM; Flavia Marcacci - Pontificia Otávio Augusto Santos Bueno - University of Miami;
Università Lateranense; Francisco Miraglia Neto - Rafael Capurro - Stuttgart Media Universitat;
CLE/UNICAMP, USP; Gregori Chaitin - IBM/New Rodolfo Cristian Ertola Biraben - CLE/UNICAMP;
York, UFRJ; José Ferreirós - Universidad de Sevilla; Steven Richard Douglas French - University of
Joseph Warren Dauben - City University of New Leeds; Ubiratan D'Ambrosio - CLE/UNICAMP;
York; Leandro Oliva Suguitani – UFBa; Maria Zeljko Loparic-CLE/UNICAMP , PUCSP.
Eunice Quilici Gonzalez - CLE/UNICAMP,

Projeto Gráfico e Capa Revisão


Fabio Luis Basso Karina Lombardi Fernandes
Karina Lombardi Fernandes Robson Rodrigues Monteiro

Centre for Logic, Epistemology and the History of Science (CLE)


Cidade Universitária “Zeferino Vaz” - C.P. 6133 - 13083-970 Campinas, SP.
www.cle.unicamp.br \ publicacoes@cle.unicamp.br

Copyright by Coleção CLE, 2015


ISSN: 0103-3247

Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca do CLE


Catalog Record prepared by the CLE Library

W183m Wanderley, Claudia Marinho.


I SOEITXAWE : Congresso Internacional de Pesquisa Científica
na Amazônia / Claudia Wanderley. – 1° edição.
– Campinas : Claudia Marinho Wanderley, Káchia Téchio...[et al], 2017.
792p.

ISBN 978-85-86497-33-9

1. Epistemologia 2 . Sistemas auto organizadores. 3. Linguagem-


multilinguismo.
CDD – 121
001.533
409

Índice para catalogo sistemático


1. Epistemologia 121
2. Sistemas auto organizadores 001.533
3. Linguagem-multilinguismo 409

Projeto FAPESP: 2013/09763-7 e 2015/03321-8

Impresso no Brasil
Coleção CLE

I SOEITXAWE
Congresso Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia
CT Paiter Suruí, Cacoal, Rondônia-Brasil.

1ª edição

Sumário
v. 82, pp. 13-792, 2017.

Prefácio 13
Maria Eunice Quilici Gonzalez
Itala M. Loffredo D’ Ottaviano

Apresentação 19

Reflexão do Prof. Dr. Almir Suruí para I Soeitxawe 61


Transcrição feita por Pedro Paulo de Jesus Silva

Labiway EY SAD – Sistema de Governança Paiter Surui 65


Rubens Naraikoe Surui

1. Ritual com a ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 109


Regina Clara Aguiar

2. Psicologia e dependência química: análise preliminar de uma 133


pesquisa-intervenção em uma comunidade terapêutica de
Cacoal-RO
Rosangela C.R. Aniceto

3. Fluxos de CO2 em regiões de floresta e pastagem no 135


sudoeste da Amazônia
Bárbara Antonucci

4. Impactos socioambientais de UHE e PCH em Rondônia: 143


uma breve análise
Neiva Araújo
5. Psicologia e gravidez: análise preliminar de uma pesquisa- 161
intervenção junto a mulheres grávidas de
Cacoal - RO
Cleber Lizardo de Assis

6. Psicologia e adolescência: análise preliminar de uma 163


pesquisa-intervenção em um centro de referência em
assistência social de Rondônia
Cleber Lizardo de Assis

7. Vivências e estratégias de enfrentamento em crianças 165


hospitalizadas
Cleber Lizardo de Assis

8. Avaliação da lei Maria da Penha por gestores de Cacoal - RO 167


Cleber Lizardo de Assis

9. Intervenção psicossocial junto a um grupo de grávidas de 169


Cacoal - RO
Cleber Lizardo de Assis

10. Extensão universitária e enfrentamento à violência de 171


gênero em Cacoal - RO
Cleber Lizardo de Assis

11. Prática profissional em psicossomática em profissionais de 173


saúde da região norte
Cleber Lizardo de Assis

12. Representações sociais sobre a psicologia e o psicólogo em 175


universitários de uma faculdade privada de Rondônia
Cleber Lizardo de Assis

13. Pesquisa-intervenção em psicologia comunitária junto a 177


usuários de um CAPS da região Norte
Cleber Lizardo de Assis

14. Estratégias de enfrentamento em acompanhantes 221


hospitalares de familiar
Cleber Lizardo de Assis
15. Intervenção psicossocial junto ao adolescente autor de ato 223
infracional
Cleber Lizardo de Assis

16. Arte e psicologia em pesquisa-intervenção junto a usuários 225


do CAPSII de Cacoal - RO
Cleber Lizardo de Assis

17. Pesquisa-intervenção em psicologia comunitária com um 227


grupo social LGBT da cidade de Cacoal - RO
Cleber Lizardo de Assis

18. A constitucionalização dos princípios e sua aplicação no 229


cotidiano da segurança pública brasileira
Fábio Silva Cardoso

19. Reflexo dos passivos ambientais as margens do rio Barão 241


do Melgaço no estado de Rondônia, Brasil
Rogério Antônio Carnelossi

20. O programa de aquisição de alimentos – PAA e o 259


fortalecimento da agricultura familiar: a percepção dos
agricultores do município de São Felipe D’Oeste - RO
Yasmin Paiva Correa

21. Ciência ou religião? A psicografia como meio de prova no 281


processo penal
Adriana Cristina Cury

22. A organização social e as formas de produção do 303


assentamento 14 de agosto em Ariquemes – RO
Maria Estélia Araújo

23. Levantamento de animais atropelados na Rodovia-471 que 321


liga o município de Ministro Andreazza à BR 364, estado de
Rondônia
Eder Fermiano

24. Monitoramento da Biodiversidade da Terra Indígena Sete 327


de Setembro do Povo Paiter Suruí, Rondônia, Brasil.
Alexsander Santa Rosa Gomes
25. Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 329
Acursio Ypiranga Benevides Júnior

26. Pequenos agricultores e o código florestal: desafios, 347


pressões e consciência de preservação nas linhas 180, 184 e 188
do município de Rolim de Moura (RO)
Josiane Fernandes Keffer

27. Os Zoró e a identidade etnica 359


Maria Conceição de Lacerda

28. Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia – espécies 373


florestais, solos, aptidão agrícola
Marilia Locateli

29. Associativismo rural: um estudo de caso de um laticínio no 389


município de Alta Floresta D’Oeste – Rondônia
Marlon Martinelli Roberto

30. A Casa de Cultura Fazenda Roseira e a Comunidade Jongo 399


Dito Ribeiro – Campinas SP
Alessandra Ribeiro Martins

31. A crise do sentido de existência dos jovens Tukano 417


Sidiclei Viana Meireles

32. Povos indígenas amazônicos: uma análise político-legal 435


relacionada a aspectos do desenvolvimento sustentável
Matilde Mendes

33. Desenvolvimento sustentável: uma análise dos mecanismos 451


e práticas adotadas por uma empresa rural situada no
município de Vilhena - RO no cultivo da silvicultura para fins
comerciais.
Vanessa Morais

34. O desmatamento na Amazônia e seus impactos 465


econômicos e sociais
Adanor Pereira Porto Neto
35. Elementos teóricos e metodológicos para estudo da religião 475
a partir do materialismo dialético
Francisco Cetrulo Neto

36. Educação das Relações Étnico-Raciais: desafios das Leis 495


10.639/2003 e 11.645/2008.
Simone Gilbran Nogueira

37. O plano de sustentabilidade socioeconômica e cultural do 511


povo Paiter Suruí na Floresta Amazônica e sua inserção
tecnológica
Claudia Ribeiro Pereira Nunes

38. Gênero, economia e espaço: o mercado de trabalho na 529


capital rondoniense
Adriana Correia de Oliveira

39. A mulher na economia rural amazônica: estudo de caso no 547


município de Nova Mamoré, Rondônia, Brasil
Adriana Correia de Oliveira

40. A consciência de liberdade no contexto social do povo 563


Manaura: uma reflexão a partir da realidade periférica
Elias Sarmento Pereira

41. Perda da identidade cultural: uma reflexão filosófica a partir 581


da realidade Manauara
Alef Braga Pinto

42 . Análise de redes sociais como instrumento de identificação 613


de atores na cadeia extrativa da Castanha-da-Amazônia em
Rondônia
Eslei Reis

43. A Ação Garimpeira na Terra Indígena Roosevelt uma 641


análise histórica (1999-2005)
Devanir Santos
44. O desenvolvimento político na Amazônia: uma reflexão a 655
partir de Aristóteles
Ivo Carneiro Santos

45. A qualidade do ensino na rede municipal de Manaus 673


João Barros da Silva

46. Impacto da antropização sobre a ictiofauna em um riacho 705


pertencente á bacia hidrográfica do Rio Pirarara, no município
de Cacoal, RO
Odair Diogo Silva

47. Avaliação de impacto ambiental das nascentes urbanas de 713


Ji-Paraná/RO
Naara Souza

48. Momentos de Magia: processo de construção de 729


significados sobre os rituais e discursos do Povo Paiter Suruí a
partir do olhar do antropólogo
Kachia Techio

49. Qualidade de vida e bem-estar subjetivo em adeptos de 737


ayahuasca
Lais Lins Tenório

50. Cultura do povo indígena Gavião e como tratam a respeito 739


da saúde.
Wendril Tomé

51. Reflexão geográfica: o indígena no município de Pimenta 755


Bueno/RO/Brasil
Claudia Cleomar Araújo Ximenes Cerqueira

52. Lógicas e Epistemologias Locais: encontro com os Paiter 777


Suruí
Claudia Wanderley e Beatriz Raposo de Medeiros
Prefácio

“O melhor que o mundo tem é a diversidade de mundos que contém”


(Eduardo Galeano)

Como olhamos o outro (e a nós mesmos) no complexo emaranhado


da vida? A reflexão sobre essa questão brotou e cresceu rapidamente à
medida que íamos lendo a profusão dos textos deste livro e tentando
descobrir um caminho de conexão entre eles. O que dizer das inúmeras
visões de mundo nele impressas? Não elaboramos este prefácio como
especialistas, mas apenas como apaixonadas pelo tema da valorização da
diversidade cultural que, no fundo, expressa o desejo de uma sociedade
melhor.
Seguindo as trilhas de Boaventura de Souza Santos, reconhecemos
que a forma dominante de saber, hegemônica na sociedade ocidental
contemporânea, repousa em uma linha abissal, “invisível”, que estabelece
uma distinção entre colonizadores e colonizados. De um lado dessa linha
encontram-se os saberes canonizados do norte ocidental, que
determinam o que é científico/não científico, verdadeiro/falso,
aceitável/não aceitável enquanto programas de pesquisa. Do outro lado
dessa linha abissal se amontanham as supostas “especulações” populares,
as opiniões do senso comum, as superstições dos camponeses, indígenas
e grande parte da humanidade contra-hegemônica, destituída de direitos
fundamentais, sem o reconhecimento de suas formas de saberes.
Em partes significativas do mundo, a linha abissal já não se impõe em
seu pleno vigor; ela está sendo questionada, não apenas por filósofos e
cientistas, mas por cidadãos vivendo na era pós-colonizadora, que
reconhecem o fundamental valor da diversidade de saberes para a
própria manutenção da existência humana. Entendemos que a presente
obra, organizada por Claudia Marinho Wanderley, Kachia Téchio,
Guilherme Carneiro e Vinícius Ferreira, retrata uma valiosa contribuição
para esse questionamento.
Na Era do pós-tudo, já não podemos ignorar a visão ecológica de
formas alternativas de vida dos povos da floresta, seus saberes que
preservam o meio ambiente, seu conhecimento milenar, por exemplo de
ervas medicinais para curas de doenças que não encontram respaldo na
14 Maria Eunice Quilici Gonzalez e Itala M. Loffredo D’ Ottaviano

medicina dominante. Também não podemos deixar de refletir, com


apreço, sobre o ritmo de vida dos povos da floresta que contrasta com o
ritmo frenético e doentio do “homo-celulare“.
Descobrimos que a presente coletânea pode ser lida em tópicos que
se delineiam, em diversas ordenações, através dos vários temas
apresentados no I SOEITXAWE Congresso Internacional de
Pesquisa Científica na Amazônia CT Paiter Suruí, Cacoal,
Rondônia-Brasil, que ocorreu em maio de 2015. O termo Soeitxawe,
significa, na língua tupi mondé suruí, conhecimento. Esse congresso,
de que tivemos a sorte de participar, expressou um dinâmico e criativo
movimento auto-organizado de amantes do conhecimento, que se
expressa através da valorização da diversidade cultural, possibilitando um
fértil diálogo entre povos da floresta, intelectuais nacionais e
internacionais, jornalistas da cidade de Cacoal e membros da
comunidade em geral.
Iniciamos a nossa leitura pelo instigante relato da antropóloga
Kachia Téchio, pesquisadora do grupo de estudos Multilinguismo e
Multiculturalismo no Mundo Digital, coordenado pela pesquisadora
Claudia Wanderley na Unicamp. Kachia nos brinda com o texto:
Apresentação e breve narrativa do I Soeitxawe, no qual descreve seus primeiros
contatos com o chefe Almir Surui, líder do Povo Paiter Surui, e sua
experiência na organização do evento com o Povo Paiter Surui e a
incansável Claudia Wanderley, encontro esse que resultou, entre outros,
na elaboração da presente obra.
Impossíveln deixar de compartilhar com Kachia uma imensa
admiração pelos Paiter Surui que, em suas palavras: é um povo
extremamente generoso, receptivo e coletivo. Ela nos conta que os
temas do evento escolhidos pelos indígenas foram: saúde, educação,
tecnologia e ambiente, temas esses que “… curiosamente formaram a
palavra SETA, um sinônimo para flecha, e a proposta divertida
divulgada nas conversas entre os indígenas era de atingir a comunidade
científica com seus conhecimentos tradicionais.”
A SETA (Saúde, Educação, Tecnologia e Ambiente) se expressa
dinamicamente em grande parte dos capítulos do livro, tornando
impraticável a descrição de todos eles neste limitado espaço. De modo a
dar uma pequena amostra da rica variedade de textos aqui presentes,

Soeitxawe
Prefácio 15

iniciamos o nosso percurso da SETA seguindo a perspectiva geral bem


elaborada por Rubens Naraikoe Surui, no artigo Labiway EY SAD-
Sistema de Governança Paiter Surui. Nesse artigo, o leitor encontrará um
pouco da realidade vivenciada pelo povo Surui nos âmbitos da saúde,
educação, tecnologia e ambiente. O relato narrado pelo olhar do
estudioso de Direito desvela uma corajosa e emocionante história de luta
para a manutenção da existência e autonomia de seu povo.
No que diz respeito à Saúde, dentre as diversas perspectivas
proporcionadas nesta obra, Wendril da Cruz Tomé apresenta
interessantes resultados de uma pesquisa sobre a concepção de saúde dos
indígenas da etnia Gavião. Em seu texto: Cultura do povo indígena Gavião e
como tratam a respeito da saúde, Wendril reúne aspectos da entrevista com o
cacique Catarino, da Aldeia Ikolen, em Ji-Paraná, Rondônia, sobre
formas de vida fundamentadas em hábitos de alimentação não
industrializada e em recursos naturais de cura para doenças.
Quanto ao tema da Educação, novamente a SETA percorre grande
parte dos capítulos, mas a ênfase é dada a esse tema por Claudia
Wanderley e Beatriz Raposo no belo texto: Lógicas e Epistemologias Locais:
encontro com os Paiter Suruí. O leitor atento descobrirá nesse texto uma
reflexão sobre a fertilidade dos processos de auto-organização no acesso
democrático à produção do conhecimento e no reconhecimento
respeitoso de saberes de diversos grupos sociais, elementos esses que,
nas palavras da autora, “... são necessários para quem deseja trabalhar
coletiva e intelectualmente em prol do bem comum e de uma cultura de
paz”. Nesse mesmo contexto, Simone Gibran Nogueira, no capítulo
intitulado Educação das Relações Étnico-Raciais, discute a situação de
afrodescendentes brasileiros, criticando a perspectiva eurocêntrica
colonial vigente em nossa sociedade. Ela ressalta a importância de se
repensar a educação das relações étnico-raciais, de modo a, não apenas
respeitar, mas, valorizar a pluralidade e a diversidade das culturas
existentes na nação brasileira.
O tema da Tecnologia é representado principalmente no texto de
Claudia Ribeiro Pereira Nunes: O plano de sustentabilidade socioeconômica e
cultural do povo Paiter Suruí na floresta amazônica e sua inserção tecnológica.
Nesse capítulo, a autora busca compreender o plano de sustentabilidade,
para os próximos 50 anos, do povo Paiter Suruí no contexto da

Soeitxawe
16 Maria Eunice Quilici Gonzalez e Itala M. Loffredo D’ Ottaviano

globalização. O leitor compreenderá, na leitura do texto, os seguintes


objetivos específicos da pesquisa em questão, que se propõe a: (i)
diagnosticar os efeitos da inovação tecnológica inserida no referido
plano, bem como (ii) descrever a efetiva contribuição do plano para o
desenvolvimento sustentável do povo Paiter Suruí e a sua visibilidade
internacional.
Finalmente, a SETA percorre amplamente o tema do Ambiente,
com ênfase na fundamental importância da manutenção das reservas
florestais, das nascentes, do reflorestamento sustentável e do respeito aos
povos da floresta. Com essa preocupação, encontramos, entre outros, o
texto: Desenvolvimento sustentável: Uma análise dos mecanismos e das práticas
adotadas por uma empresa rural situada no munícipio de Vilhena-RO no cultivo da
Silvicultura para fins comerciais, elaborado por Vanessa Rodrigues do Prado
Morais; que apresenta e discute o projeto de reflorestamento, para fins
comerciais, no estado de Rondônia. O tema da água é também
investigado por Naara Ferreira Carvalho de Souza no texto: Avaliação de
impacto ambiental das nascentes urbanas de Ji-Paraná/RO. A autora discute
problemas ambientais decorrentes da urbanização acelerada que afeta
recursos hídricos de nascentes localizadas no município de Ji-Paraná,
RO.
Ainda no contexto ambiental, Yasmin Paiva Correa investiga, no
capítulo intitulado Programa de aquisição de alimentos (PAA: a percepção de
trabalhadores rurais do município de São Felipe do Oeste – RO, o fortalecimento
da agricultura familiar, após o ingresso de agricultores no PAA, bem
como as dificuldades enfrentadas por esses trabalhadores.
A amostra de textos acima indicados representa apenas um pequeno
sinal da riqueza do volume aqui apresentado. Convidamos o leitor a
percorrer a obra elaborando sua própria visão dos capítulos, com uma
mente aberta para a compreensão da fertilidade inerente à diversidade
cultural.
Não poderíamos encerrar este prefácio sem destacar o papel
fundamental do cacique, batalhador incansável, Almir Suruí, que recebeu
o título de Doutor Honoris causa pela Universidade Federal de Rondônia,
na organização do evento e no encaminhamento dos planos de
sustentabilidade de seu povo. O leitor poderá apreciar a tentativa do
chefe Almir de dialogar com membros da sociedade nacional e

Soeitxawe
Prefácio 17

internacional que se abrem para um diálogo franco e respeitosos dos


vários saberes que começam a ter voz no século XXI. Em seu recente
contato com a nossa civilização, Almir reconhece que “... cada povo tem
seus próprios ideais, seus próprios princípios, sua visão, sua missão de
lutar para manter sua autonomia, sua cultura, sua religião, sua história
como povo.” Em seu texto, ele ressalta que esse reconhecimento o levou
a refletir sobre o valor da vida das sociedades “que precisam ser
respeitadas e valorizadas, dentro do princípio de mantê-lo como povo.
…com essa visão eu luto bastante para que eu possa então fazer minha
parte como um dos líderes do povo Suruí”.
Acreditamos que a ecologia dos saberes que encontramos nesta obra
vem trazer um raio de luz na trilha da monocultura das mentes que se
instaurou em nossa civilização, desvelando um pouco da sociologia das
ausências inseridas no silêncio das culturas marcadas pela exclusão. A
poesia abaixo, de Oswald de Andrade, talvez expresse com elegância,
propriedade e senso de humor as complexas nuances da dinâmica
história da colonização de nosso país, que fortaleceram os elos da
colonização no estabelecimento da linha abissal que, para a felicidade de
muitos, já mostra sinais de mudanças.

Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Oswald de Andrade

Maria Eunice Quilici Gonzalez


Itala M. Loffredo D’ Ottaviano

Soeitxawe
"I Congresso Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia -
Soeitxawe: resumos e trabalhos completos"

Org. Claudia Wanderley e Kachia Téchio , Guilherme Carneiro, Vinícius Ferreira.

Rede de Pesquisa Multilinguismo e Multiculturalismo no Mundo


Digital (CNPq/CLE-UNICAMP)

Org. Claudia Wanderley, Kachia Téchio, Guilherme Carneiro, Vinícius Ferreira.

Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência - UNI-


CAMP
E-Lab Multilingualism in Digital World, Unitwin UNESCO Com-
plex System Digital Campus Campinas, SP, Brasil, novembro de
2016
Apoio: FAPESP

Índice:
I. Apresentação (Kachia Techio e Claudia Wanderley)
II. Carta Aberta I Soeitxawe
III. Manifesto Soeitxawe
IV. Comitê Científico e organização
V. Programação do evento



 
20

Apresentação e breve narrativa do I Soeitxawe

Há muitos anos, quando vivi nos Estados de Santa Catarina e no Pa-


raná, vi alguns índios. Eles andavam pela cidade vendendo cestos de
palha. As mulheres de pés descalços, usavam saias longas e camisetas
(algumas de campanhas políticas), carregavam crianças de colo amarradas
em panos, ficavam sentadas embaixo de árvores ao pé de sinaleiros mo-
vimentados, cuidavam das crianças e teciam mais cestos enquanto crian-
ças maiores se deslocavam entre os carros oferecendo seus artesanatos.
Também os vi na mesma condição em vários trechos das rodovias que
cruzam áreas indígenas daquela região.
Em 2013, quando cheguei a Rondônia essa era a única experiência de
proximidade que eu havia tido com um índio. Em Rondônia comecei a
encontrar índios em todos os lugares, nas filas de bancos, no supermer-
cado, em lojas de roupas ou calçados, em postos de combustíveis. Re-
cordo que a primeira vez, o primeiro contato foi exatamente em um
posto de combustíveis. Eu fiquei parada, olhando admirada um índio
desembarcar de seu carro, abastecê-lo, pagar e seguir. Ele vestia roupas
comuns, usava sapatos, meias, cinto. Naquele momento eu sorri, lembrei
dos índios do sul e pensei que era bom ver um índio ter uma vida cotidi-
ana igual a “nossa”. Obviamente foi um registro precoce da realidade
vivida pelos indígenas em Rondônia. Com o decorrer dos meses, encon-
trar índios, diariamente, em diferentes lugares nos espaços sociais, des-
pertou meu interesse em aprofundar estudos sobre as etnias indígenas
locais.
Descobri que quase dentro da cidade de Cacoal havia uma área indí-
gena que poucos residentes conheciam. Com um bocado de ansiedade e
sem saber ao certo o que iria encontrar, me dirigi a essa associação e
então pela primeira vez em toda minha vida, cumprimentei e conversei
com índios. Fui apresentada ao Chefe Almir Suruí, e ao entrar em sua
sala glamourosa, decorada com artefatos de guerra e troféus internacio-
nais, vivi um misto de encanto e perplexidade.
Ele me contou sobre a história do seu povo, sobre o contato, sobre
as muitas mortes, sobre a violência diária ao longo dos anos de contato.
Também me falou do seu pai e de toda responsabilidade que havia rece-
bido, ainda jovem, de salvar a identidade, a cultura, a floresta do seu
 21

povo Paiter Suruí.


Nesse dia nos cumprimentamos para simbolizar um acordo, ainda
sem imaginar como, me comprometi a auxiliar o povo Paiter Suruí na
execução do seu Plano de Vida de 50 anos.
Uma das áreas do plano, e que enchia de brilho os olhos do chefe
Almir e dos demais índios que estavam ali, era algo que eles chamavam
de Soeitxawe, uma palavra na língua Tupi Mondé para designar “conhe-
cimento”. Eles estavam muito preocupados em não esquecer os seus
conhecimentos, em garantir que eles fossem registrados para a história e
que pudessem ser passados de geração em geração, mas principalmente
que não fossem modificados, que seus jovens e suas crianças, todos
aqueles que viessem a nascer pudessem ter acesso aos mesmos conheci-
mentos como haviam sido transmitidos por seus antepassados na forma
de cantos, de histórias, de pinturas e enfeites corporais, de artesanatos,
nas rodas de conversa, nas viagens de caça, nos múltiplos rituais e festas
tradicionais.
O Povo Paiter Suruí é um povo extremamente generoso, receptivo e
coletivo. Ouvindo suas histórias percebi que os momentos importantes
onde decisões eram tomadas giravam em torno dos rituais e das festas. A
partir disso sugeri a eles fazermos um grande encontro entre saberes
científicos e tradicionais, um encontro diferente, que pudesse trazer mais
pesquisadores e acadêmicos que, como eu, não conheciam ou não ti-
nham tido oportunidades para conhecer um povo indígena.
Também percebi que alguns Suruís frequentavam o sistema de ensino
superior ocidental e então sugeri mapearmos as pesquisas que esses jo-
vens Surís estavam fazendo nas escolas ou nas faculdades da região.
Conversamos durante a tarde toda. Eles falavam em Tupi Mondé e
eu esperava como uma alienígena, não tenho outra palavra para definir
aquela situação. Após alguns minutos um deles traduzia o que o grupo
havia discutido, eu respondia e novamente eles se abrigavam na sua lín-
gua materna da qual eu não compreendia nem uma única palavra. Ao
final da tarde tínhamos desenhado o que chamamos de um congresso,
que recebeu o único nome possível “Soeitxawe” (sabedoria em portu-
guês) - I Congresso Internacional de Pesquisa Científica da Amazônia.
Eu havia regressado após 12 anos na Europa, tudo me parecia possí-
vel, inclusive um povo tradicional organizar um congresso científico.
22

Porém, nos primeiros contatos com as universidades locais a receptivi-


dade foi de estranhamento, simplesmente a maioria das pessoas com
quem falei nunca tinha imaginado um congresso organizado por um
povo indígena. Me ouviam como seu eu fosse a “branca” vinda da Eu-
ropa com idéias absurdas.
Mas, os Suruís estavam decididos e tinham assentado sua confiança
em sua Sodig Emakid, professora em tupi mondé, nome com o qual eles
haviam me “batizado”. Decidi recorrer ao grupo de pesquisa do qual
faço parte desde 2006, “Multilinguismo e Multiculturalismo no Mundo
Digital”. Falei com a coordenadora Profª Claudia Wanderley e após três
ou quatro frases o espírito livre e genial da Profª Claudia compreendeu a
inovação proposta e se apaixonou pela idéia.
A partir daí as coisas seguiram com arraigada raiz teórica e o I So-
eitxawe em toda sua singular complexidade injetou-se nas veias acadêmi-
cas e científicas de muitos outros pesquisadores que vieram contribuir
com sua construção.
Em maio de 2015 foi realizado o I Soeitxawe, na sede da Associação
Indígena Metareilá do Povo Paiter Suruí, em Cacoal. Fomos honrados
com a participação de cento e vinte trabalhos científicos, dentre eles
dezenas de trabalhos de estudantes indígenas, não apenas de Rondônia
mas de vários Estados brasileiros.
As áreas do congresso escolhidas pelos indígenas foram a saúde, a
educação, a tecnologia e o ambiente que juntas curiosamente formaram a
palavra SETA um sinônimo para “flecha” e a proposta divertida divulga-
da nas conversas entre os indígenas era de atingir a comunidade científica
com seus conhecimentos tradicionais.
O I Soeitxawe celebrou o encontro entre o conhecimento tradicional
e o científico de várias formas, houve apresentação de cantos e danças,
houve discussão de pesquisas, houve seminários proferidos por doutores
de notório saber, houve interrupção de palestras porque grupos indíge-
nas interrompiam e informavam que era a hora certa para tal dança ou
para fazer o fogo, houve doutores que foram incrivelmente “acultura-
dos” pelos indígenas e se dispuseram a enfrentar a chuva, fazer suas
palestras em formatos e espaços inéditos, embaixo de árvores e em ten-
das espalhadas na pequena floresta da associação.
As partilhas foram inumeráveis e inomináveis. Houve acadêmicos
 23

não indígenas a se deslumbrar com o contato com os indígenas e a tietá-


los através de fotos, pinturas corporais, de selfies e muitas outras formas
carregadas de alegria em conhecer algo tão diferente.
A comunidade da região compareceu e também muitos professores.
Pessoas que haviam nascido em Rondônia, mas que nunca tinham tido a
oportunidade de cumprimentar, de conversar, de conviver, mesmo que
por três dias, com uma cultura indígena com todas as suas dinâmica e
complexidades.
Também houveram momentos históricos como a assinatura do do-
cumento fundador da tão sonhada Universidade Indígena Paiter Suruí
que reuniu centenas de assinaturas e deu seguimento a um acordo de
cooperação entre os professores Paiter Suruí, o Povo Indígena Paiter
Suruí e a Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP e do Centro
de Lógica, Epistemologia e História das Ciências - CLE. Essa coopera-
ção prevê, durante o ano de 2016 e 2017 a construção conjunta de emen-
tas para as disciplinas que formarão o primeiro curso de Especialização
Paiter Suruí, com previsão de inauguração para 2018.
Como se pode ver, através do Soeitxawe, muitas sementes foram
plantadas, trocadas, partilhadas e lançadas ao futuro. O que se apresenta
a seguir é o conjunto formado por 120 trabalhos científicos propostos
em formato de resumo e destes, 50 se transformaram em artigos comple-
tos que fizeram parte desse memorável I Soeitxawe – Congresso Inter-
nacional de Pesquisa Científica da Amazônia.

Kachia Téchio
Antropóloga
Universidade Federal de Rondônia
24

Breve narrativa e agradecimentos do I Soeitxawe

A realização do "I Soeitxawe" é um sinal claro de que estamos em


uma época propícia para a circulação de saberes. É uma alegria mostrar
aos leitores esta possibilidade de maneira concreta.
Quando conversamos com as lideranças Paiter Suruí e com os sábios
das comunidades indígenas, o interesse pela preservação, valorização e
representação do seu conhecimento ancestral é evidente. O que houve
conosco, durante tantos anos, que no contato com estes povos originá-
rios do continente americano insistimos em apagar e cancelar seu conhe-
cimento sobre a vida, o ecossistema, as relações sociais, o bem viver? O
que houve que, em geral, consideramos os bens materiais do território
em que habitam e não consideramos respeitosamente os bens simbólicos
que estes grupos ameríndios aportam quando os tratamos como interlo-
cutores dignos?
Até onde entendo a proposta de democratização do acesso ao conhe-
cimento, percebo que todo sabedor, todo/a sábio/a, todo/a mestre/a,
todo/a professor/a deve poder ensinar e dar continuidade ao ciclo de
ensino e aprendizagem do qual faz parte. E sem dúvida, melhorá-lo,
aprimorá-lo, atualizá-lo dentro do bom senso da tradição de conheci-
mento na qual está inserido/a. A tradição acadêmica, ou a tradição dos
mais velhos, ou a tradição dos contadores de estórias, entre outras, são
sistemas de transmissão de conhecimento que mantém vivos modos de
conhecer e dar a conhecer o mundo. O que faz um modo ser melhor que
o outro, desconheço. Podemos elencar vários elementos que fazem um
modo de conhecer o mundo ser diferente do outro, e - é bom lembrar -
nada nos impede de compartilhar de várias fontes e construir nossa pró-
pria perspectiva a partir do ponto em que estamos inseridos. Entre estas
diferenças, é preciso que nós possamos nos reconhecer na mesma tarefa
de formação das gerações futuras. Buscando um gesto de articulação em
que seja possível pensar com o diferente, sem necessariamente competir
com (e/ou desqualificar) o sistema de produção, transmissão e circulação
de conhecimento alheio.
Esta compreensão que tenho hoje relativa ao trabalho entre línguas e
culturas está ligada a construção de um entendimento sobre a necessida-
de de fortalecer e representar línguas e culturas locais no mundo digital.
 25

Debate que iniciamos em 2005 através da realização de um evento na


UNESCO, em Paris, chamado Technologies du Langage. A partir deste
evento criamos uma rede de aproximadamente 14 instituições de educa-
ção superior entre países de língua portuguesa, que vem se desenvolven-
do desde então com interlocutores em várias partes do mundo.
Pois, para resumir, em 2014 a Profa. Kachia Téchio (que é parceira de
reflexão desde 2006) entrou em contato comigo para promovermos um
evento acadêmico internacional junto com os Paiter Suruí, que têm se-
melhante percepção do valor de seu conhecimento. O Chefe Almir Suruí
se mostrou disponível para construir em parceria conosco um evento
chamado "Soeitxawe" ("sabedoria" em Tupi Mondé Suruí) no Centro de
Formação Paiter Suruí Metareilá em Cacoal, Rondônia. Nós escrevemos
uma proposta para obter financiamento da FAPESP para a ida de três
pesquisadores ligados ao projeto, com a qual felizmente fomos contem-
plados.
A resposta do avaliador da FAPESP para o relatório do I Congresso
Internacional de Pesquisa Científica na Amazônia - Soeitxawe
2015/03321-8 - foi a seguinte:

"O auxílio da FAPESP, objeto deste processo, garantiu a participação de


três pesquisadores no I SOEITXAWE, com apresentação de trabalho. O
evento em questão ocorreu entre os dias 01 a 03 de maio de 2015, em Cacoal
- RO, reunindo um público acadêmico de aproximadamente 600 alunos e
professores de instituições de ensino superior locais. Segundo o relatório cientí-
fico em exame, ao longo do evento, que contou também com a participação de
aproximadamente 500 indígenas, entre palestrantes e participantes, foram
apresentados 132 comunicações, 13 conferências, 7 mini-cursos e 5 mesas re-
dondas. O exame do material apresentado não deixa dúvidas quanto à rele-
vância acadêmica e originalidade da iniciativa."

Para nós, sempre dispostos a encontrar nossos pares acadêmicos com


afinidade de interesse em relação às dinâmicas multilingues e multicultu-
rais, muito nos alegra em ver a disposição e interesse da FAPESP nesta
iniciativa original de encontro de conhecimentos. A pesquisa entre cultu-
ras, entre línguas e a partir daqui, aproximando-nos da formulação de
Gilles Deleuze e Felix Guattari (___), entre "rostos e linguagens e mun-
dos", pode ser de excelente qualidade quando temos um grupo de profis-
26

sionais com afinidade ética, afinidades teóricas, além de contarmos com


apoio institucional e apoio para desenvolvimento de pesquisa junto aos
órgãos de fomento à pesquisa. O evento I Soeitxawe realizado em 2015
teve tudo isso.
Assim, imagino que não seja por acaso que durante o evento, em 2 de
maio de 2015, o Chefe Almir Suruí e o Prof. Arildo Suruí nos chamaram
para uma reunião (foto abaixo feita pelo Prof. Arildo Suruí), em que nos
apresentaram o Plano de 50 anos do povo Paiter Suruí. Neste plano, que
hoje está em seu 17o ano de desenvolvimento, há a previsão da constru-
ção de uma Universidade dos Paiter Suruí. E eles, que gostaram do mo-
do que realizamos o evento, nos convidaram para construir esta proposta
em conjunto. Convite que aceitamos com muita honra e com clareza da
dimensão da responsabilidade que nos compete neste encontro entre
mundos.

(Prof. Dr. Almir Suruí, Prof. Me. Ivaneide Bandeira, Profa. Dra. Maria Eunice Quilice
Gonzalez, Profa. Dra. Kachia Téchio, Profa. Dra. Claudia Wanderley)

O evento "I Soeitxawe" pode se transformar portanto na semente de


um trabalho conjunto sobre a "Universidade Paiter Suruí a Soeitxawe".
Graças a sensibilidade e determinação da Profa. Dra. Kachia Techio em
nos incluir na relação que ela estabeleceu com o Povo Paiter Suruí, e
 27

graças ao seu vasto conhecimento em antropologia, podemos entrar em


contato e avançar com uma a proposta de pensar concretamente cami-
nhos para a realização de uma educação superior indígena. Proposta
elaborada conjuntamente a partir da perspectiva indígena e certamente
considerando as possibilidades de aproximação com teorias, metodologi-
as e reflexões acadêmicas afins. Pela parceria e amizade de mais de dez
anos com a Profa. Kachia Techio, só posso agradecer e esperar que con-
tinuemos a desenvolver estas relações voltadas para a construção de
conhecimento em prol do bem comum.
É preciso igualmente agradecer a Profa. Maria Eunice Quilice Gon-
zalez, filósofa da UNESP Marília, que é - desde que nos conhecemos, em
2010 no Grupo Interdisciplinar CLE Auto-Organização, grande incenti-
vadora da reflexão sobre o tema. Profa. Maria Eunice prontamente acei-
tou o convite para estar presente no I Soeitxawe. Com sua experiência se
dispôs a participar da dinâmica trazendo as relações entre os processos
de auto-organização e os sistemas complexos, para nos incentivar a refle-
tir sobre nosso encontro mais fundamentados na teoria dos sistemas e
nos processos de auto-organização como pensados por Michel Debrun.
Apresento meus agradecimentos a Profa. Simone Nogueira, que ao
entrar em contato com a rede de trabalhos Multilinguismo e Multicultu-
ralismo no Mundo Digital prontamente percebeu as possibilidades e
afinidades com a discussão e crítica pós-colonial. É neste encontro, em
2013, que elaboramos juntas o Cultural Lab, o E-Laboratory on Multilin-
gualism and Multiculturalism in Digital World, que tem um programa de
trabalhos que vai de 2014 a 2019 junto a UNITWIN UNESCO Campus
Digital de Sistemas Complexos. É preciso refletir sobre os motivos pelos
quais o conhecimento gerado por comunidades e povos tradicionais tem
pouca representatividade ou visibilidade [como conhecimento] no âmbi-
to acadêmico brasileiro e possivelmente também nos países de língua
oficial portuguesa. E fico feliz com sua disposição para trilhar conosco as
reflexões e deslocamentos necessários para a construção de um saber
acadêmico articulado ao saber tradicional do povo Paiter Suruí.
O agradecimento também se estende ao Guilherme Carneiro e ao Vi-
nícius Ferreira, alunos bolsistas que em tempos diferentes contribuíram
para a organização da plataforma do evento e na sequência para organi-
zação deste livro. Dentro do princípio de reconhecer o trabalho realiza-
28

do, eles figuram como co-organizadores também. Hábito que temos


interesse em cultivar em nosso grupo de pesquisa, de forma a deixar
claro o imenso trabalho que é o de conviver mais de cem autores de
resumos e mais de cinquenta autores de artigos e ajudá-los a apresentar
seus resumos e artigos revisados para publicação. Sim, reconhecemos
que vocês fizeram um belo trabalho e somos gratos.
Agradeço ao Chefe Almir Suruí, Prof. Arildo Suruí, Profa. Ivaneide
Bandeira, Miriam Osmídio, Adlanes Osmídio, Mopirí Suruí, Celso Suruí,
Rubens Suruí e toda equipe do Centro de Formação Paiter Suruí Meta-
reilá em Cacoal pela ultra eficiente parceria na realização do evento. Te-
nham certeza que a recepção dos professores e alunos no I Soeitxawe foi
impecável. Vemos o potencial administrativo e intelectual desta equipe, e
é uma honra para nós hoje considerá-los como nossos parceiros.
Finalmente, agradeço ao Centro de Lógica Epistemologia e História
da Ciência (CLE) na UNICAMP, que nos últimos cinco anos vem inves-
tindo conosco em uma discussão sobre epistemologias locais, que não
necessariamente se definem pela compreensão de episteme grega. Esta
liberdade intelectual que temos o privilégio de viver em nosso local de
trabalho, é - por experiência - condição necessária para quem trabalha
com novas perspectivas no espaço acadêmico. Este trabalho é possível
porque nossos interlocutores são bem vindos, os vários tempos das dife-
rentes culturas envolvidas são respeitados e as dinâmicas propostas são
submetidas a todo o grupo de pesquisa para apreciação. Certamente é
tudo muito trabalhoso, e portanto é muito prazeroso também ver um
resultado como o que apresentamos hoje ao leitor. Um viva para a pro-
dução científica e para os povos ameríndios!

Campinas, abril 2017

Claudia Wanderley
Linguista
 29

II. Carta Aberta I Soeitxawe

[Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí]

Carta aberta I Soeitxawe – I Congresso Internacional de Pesquisa Cientifica na


Amazônia 2015

Nos dias 1, 2 e 3 de maio de 2015, na sede da Associação Metareilá


do Povo Indígena Suruí em Cacoal, Rondônia, Brasil, nós, povos indíge-
nas Paiter Suruí, Gavião, Cinta Larga, Wajuru, Tupari, pesquisadores da
rede multilinguismo no mundo digital, professores e estudantes das di-
versas áreas do conhecimento e cidadãos que subscrevem esse documen-
to, vimos declarar o apoio ao Plano de 50 anos do Povo Paiter Suruí de
educação inclusiva que reconhece a importância da diversidade e igual-
dade dos saberes.
O povo Paiter Suruí, inspirado no seu plano de 50 anos, tem a estra-
tégia de gestão de território através da valorização de nossa cultura, pro-
teção e conservação do nosso meio ambiente, promovendo o diálogo
pensado no desenvolvimento sustentável a médio e longo prazo. Uma
das metas é utilizar e fortalecer a educação e investir no fortalecimento
cultural para fazer intercâmbio de conhecimentos. Dentro dos objetivos
específicos de nosso plano estão: promover a cultura Paiter Suruí, com a
criação do Centro de Formação e Pesquisa Indígena para divulgação da
cultura na sociedade regional, nacional e internacional; e implantar a
Universidade Indígena. O sistema de governança considerou que é che-
gado o momento de implementar esta ideia, que tem como objetivo
nossa atuação e desenvolvimento autônomo nas áreas: direitos indígenas,
segurança alimentar, saúde integral, culturas indígenas, sustentabilidade
ambiental, habitações e construções indígenas, meios e vias de transpor-
te, matriz energética, educação, línguas, geopolítica, geografia indígena,
gestão de território, história das culturas indígenas, sistemas de gover-
nança, inclusão digital e novas tecnologias, sustentabilidade econômica,
filosofia indígena, biologia, matemática, arte, agricultura indígena, rela-
ções culturais, serviço ambiental, entre outras.
30

Em 2005 em contato com os oficiais da UNESCO e dentro dos prin-


cípios do Programa Informação para Todos, pesquisadores de Angola,
Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guine Bissau, Macau
/China, Timor Leste, Goa/Índia, Portugal e Brasil, se juntaram com
pesquisadores de vários países que compreendem a importância da valo-
rização e representação dos conhecimentos e culturas através da valori-
zação das línguas locais. Este processo gerou um trabalho entre países de
língua oficial portuguesa em prol das línguas e culturas locais, que foi
reconhecido em 2007 como Cátedra UNESCO Multilinguismo no Mun-
do Digital na Unicamp, Brasil. Desde então este grupo se expandiu em
uma rede que trabalha de forma aberta e colaborativa em prol da demo-
cratização do acesso e representação dos conhecimentos tradicionais.
Nós congressistas vimos por meio desta reafirmar junto ao público
em geral e participantes, nosso compromisso coletivo de implementar a
Universidade Soeitxawe1 junto aos parceiros e estamos abertos às insti-
tuições, indivíduos e organizações que queiram juntar-se a essa proposta.
A Universidade Soeitxawe deverá se desenvolver por meio de metodolo-
gias e epistemologias inclusivas de todos os saberes, que atendam nossa
diversidade territorial e cultural.
Nestes termos, concordamos e assinamos:

Almir Narayamoga Suruí - Labiway Esagah (Líder Maior) do povo


Paiter Suruí
Arildo Gapame Suruí, Associação Metareilá do Povo Indígena Paiter
Suruí

Kachia Téchio, Rede Multilinguismo no Mundo Digital, UNESCO


Claudia Wanderley, Unicamp
Maria Eunice Quilice Gonzalez
Simone Nogueira

Mopiry Suruí


1 Soeitxawe na língua Tupi Mondé Suruí significa sabedoria.
 31

Agamenon Gamasakaka Suruí


José Napo Suruí
Nat Hot Ipatara Suruí
André Gatag Suruí
Yawatin Suruí
José Itabira Suruí
Pedro Kabetem Suruí
Pamadeli Suruí
Naraykosar Júlio Suruí
Chicoepab Suruí
Associação Garah Pameh do Povo Paiter Suruí, Clã Kaban
Instituto Florestal Yabner Suruí
Ivaneide Bandeira Cardozo, KANINDE – Associação de Defesa Et-
no Ambiental
Heliton Tinhawamba Gavião, Coord. dos Povos Indígenas de Ron-
dônia
Rubens Naraikoe Suruí, Coord. dos Povos Indígenas de Rondônia

Antonio Romero
Alessandra Ribeiro-Martins, Comunidade Jongo Dito Ribeiro/Casa
de Cultura Afro Fazenda Roseira
Marcelo Gustavo Aguilar Calegare
Maria Conceição Santos
Miguel Cerqueira Santos
Dermânio Tadeu Lima Ferreira
Ortência Gonzalez
...




32

III. Manifesto Soeitxawe

Manifesto Soeitxawe

Os participantes do I SOEITXAWE Congresso Internacional sobre


Pesquisa Científica na Amazônia realizada no Centro de Formação Paiter
Suruí no município de Cacoal – RO, nos dias 01 a 03 de maio de 2015,
vem manifestar seu REPUDIO a forma como o Governo Brasileiro e o
Congresso Nacional vêm colocando em risco os direitos constitucionais
dos povos indígenas, populações tradicionais e unidades de conservação,
com Propostas de Emendas Parlamentares que criminalizam, deslegiti-
mam, discriminam e contribuem para o extermínio físico e para a perda
dos territórios. Alertamos a todos os povos do mundo e em especial aos
brasileiros para que nos ajudem e façam gestão junto aos políticos eleitos
em seus estados e a presidente Dilma Rousseff, para que sejam definiti-
vamente revogadas as seguintes PECs e Projetos de Lei que tramitam no
Congresso Nacional, REVOGAÇÃO IMEDIATA de:

PEC 215 – tem como objetivo inviabilizar os direitos territoriais dos


povos indígenas, quilombolas e as unidades de conservação;
Portaria 2498, de 31 de outubro de 2011- determina a intimação dos
entes federados para que participem dos procedimentos de identifica-
ção e delimitação de terras indígenas;
Portaria Interministerial 419 de 28 de outubro de 2011- restringe o
prazo para que órgãos e entidades da administração pública agilizem
os licenciamentos ambientais de empreendimentos de infraestrutura
que atingem terras indígenas e Decreto nº 7.957, de 13 de março de
2013, que institui instrumento estatal para repressão militarizada de
toda e qualquer ação de povos indígenas, comunidades, organizações
e movimentos sociais que decidam se posicionar contra empreendi-
mentos que impactem seus territórios;
Projeto de Lei 1610 da mineração em terras indígenas, que colocam
em risco a vida dos povos indígenas, as Unidades de Conservação, os
quilombos e a biodiversidade do território brasileiro.
 33

Exigimos do Estado Brasileiro, do Poder Judiciário, que respeitem a


Constituição Federal, garantam os direitos dos povos indígenas e popu-
lações tradicionais e a proteção da biodiversidade brasileira, assegurando
a proteção física e territorial, retirando os invasores e demarcando as
terras indígenas, os quilombos, e implementando as Unidades de Con-
servação.
34

IV. Comitê Científico e Organização

Comissão Científica:

Dr.ª Andrea Damacena — Universidade de Tilburg/ Holanda (Ciências


Sociais)
Dr.ª Brenda Maribel Carranza Davila – PUC – Campinas (Ciências Soci-
ais)
Ms. Bruno Valverde – Pesquisador no CEJAM – Centro de Estudos
Jurídicos da Amazônia, UNIR
Dr.ª Claudia Marinho Wanderley – UNICAMP (Linguística)
Dr. Demânio Tadeu Lima Ferreira – Doutorado pela UNESP em Agro-
nomia - área de concentração "Energia na Agricultura"; Coordenador do
curso de Tecnologia em Alimentos - FAG/DOM BOSCO
Coordenador do Centro Vocacional e Tecnológico da Cadeia do Trigo –
FAG (Agronomia)
Dr. Donizete Rodrigues – Universidade da Beira Interior, Portugal, (An-
tropologia)
Esp. Eder Junior Matt - Faculdade Rolim de Moura, Especialista em
Direito Civil e Processual Civil, Direito Penal e Proceso Penal (Direito)
Dr. Ewerton Machado - Universidade Federal do Acre, (Biologia)
Dr. Francisco Cetrulo Neto – doutorado em Sociologia pela UNESP;
docente na UNESC (Teologia, Sociologia)
Ms. Janaína Bueno de Araújo – Universidade Nova de Lisboa (Museolo-
gia)
Dr. Joanildo Albuquerque Burity - Doutorado em Ideology and Discour-
se Analysis (Ciência Política) pela University of Essex, Inglaterra, Pós-
Doutorado na University of Westminster, Inglaterra
Dr.ª Kachia Téchio – Universidade Federal de Rondônia (Antropologia)
 35

Dr.ª Maria Gonçalves Conceição Santos – Universidade Estadual da


Bahia (Geografia)
Dr. Mansueto Dal Maso – Universidade Estadual de Campinas (Ciências
Sociais)
Dr. Mario Jorge Coelho Freitas – Universidade do Minho, Portugal,
Professor do Programa de Pós-graduação em Planejamento Territorial e
Desenvolvimento Socioambiental na Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC) (Biologia)
Ms. Marcos Vinicius de Freitas Cunha – Universidade Federal do Amapá
(Sociologia)
Dr. Miguel Cerqueira dos Santos – Universidade Estadual da Bahia (Ge-
ografia)
Dr.ª Ortência Leocádia Gonzalez da Silva Nunes - Doutorado pela
UNESP em Agronomia - área de concentração "Energia na Agricultura";
Pós-Doutoranda CAPES/PNPD pela UNIOESTE em Engenharia de
Pesca e Recursos Pesqueiros
Dr. Paul Freston - Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid
Laurier University, Waterloo, Ontário, Canadá. Docente na Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) (Antropologia)
Dr.ª Vania Téchio - Universidade Federal de Lavras (Genética)
Dr.ª Valeska Fortes Oliveira – Universidade Federal de Santa Maria
(Educação)
Dr.ª Valda de Oliveira Fagundes - Ecomuseu
Dr. Agobar Fagundes-EDAF-SC
Dr. Osmar Siena – Universidade Federal de Rondônia (Ambiente)
Dr. Rafael Oliveira – Universidade Federal de Roraima (Geografia)



36

Comitê Organizador

Diretores

1. Dra. Kachia Techio, Grupo de Pesquisas Multilinguismo no


Mundo Digital, Brasil
2. Dra. Claudia Wanderley, Centro de Lógica, Epistemologia e His-
tória da Ciência, Universidade Estadual de Campinas (UNI-
CAMP)
3. Míriam Carvalho da Silva Osmídio, Brasil


Diretores de Modalidade

1. Míriam Carvalho da Silva Osmídio, Brasil


2. Dra. Kachia Techio, Grupo de Pesquisas Multilinguismo no
Mundo Digital, Brasil
3. Dra. Claudia Wanderley, Centro de Lógica, Epistemologia e His-
tória da Ciência, Universidade Estadual de Campinas (UNI-
CAMP)
4. Prof. Guilherme Carneiro, UNICAMP

Grupo de Pesquisa Multilinguismo e Multiculturalismo no


Mundo Digital, E-Lab Multiculturalismo no Mundo Digital da
UNITWIN UNESCO de Sistemas Complexos
Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência - UNI-
CAMP, Campinas, São Paulo
GAMEBEY – Associação Metareilá do Povo Indígena Paiter Suruí -
Rondônia
 37

Apoio:

Água Mineral Lind'Água


Kanindé
Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade - CEPRES,
UNIFAP, Amapá

Agências de Fomento

Fundação de Amparo a Pesquisa no Estado de São Paulo - FAPESP

Apoio:
ʀ Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência - UNI-
CAMP, São Paulo
ʀ Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade - CEPRES,
UNIFAP, Amapá
1 de maio de 2015
2 de maio de 2015
3 de maio de 2015
43

01 de maio de 2015
02 de maio de 2015
03 de maio de 2015
Grupos de Trabalho para Soeitxawe – I Congresso Sobre Pesquisa
Cientifica Na Amazônia.
GT 1 - Saúde: 01/05/2015, 15h15 - Oca 2
GT 2 - Saúde: 01/05/2015, 15h15 - Tenda 1
GT 3 - Desenvolvimento Sustentável: 01/05/2015, 16h45 - Oca 2
GT 4 - Educação: 01/01/2015, 16h45 - Tenda 1
GT 5 - Saúde: 02/05/2015, 15h15 - Tenda 1
GT 6 - Identidade e Linguística: 02/05/2015, 16h45 - Tenda 3
GT 7 - Imaginário Religioso: Um Enfoque Multidisciplinar:
02/05/2015, 15h10 - Tenda 3
GT 8 – Saúde: 02/05/2015, 16h45 - Tenda 1
GT 9 - Direito: 02/05/2015, 16h45 - Tenda 2
GT 10 - Ambiente: 02/05/2015, 15h10 - Tenda 2
GT 11 – Ambiente: 02/02/2015, 15h10 - Oca 2
GT 12 – Ambiente: 02/05/2015, 16h45 - Oca 2
GT 13 - Biodiversidade: 01/02/2015, 15h10 - Tenda 2
GT 14 – Ambiente: 01/02/2015, 15h15 - Tenda 3

SESSÃO DE POSTERES - 03/05/2015, 10h00 as 12h00 - TENDA 1


e TENDA 2
44

Grupos de trabalho para Soeitxawe – I Congresso Sobre Pesquisa


Científica na Amazônia.

Cacoal - RO, de 1, 2 e 3 de maio 2015

GT 1 - SAÚDE: 01/05/2015, 15h15 - OCA 2


Debatedores: Dr. Ewerton Machado e Dra. Simone Nogueira

Ɣ Cultura do povo indígena Gavião na aldeia Ikolen e como tratam


determinada patologia
Wendril Tomé

Ɣ Comunidade terapêutica de Cacoal - RO


Rosângela C. Ribeiro Aniceto, Simone Muniz, Cleber Lizardo de Assis.

Ɣ Psicologia e gravidez: análise preliminar de uma pesqui-


sa-intervenção junto a mulheres grávidas de Cacoal – RO Nádia
Valéria Moreira Santos, Elizeu Diniz Medeiro, Cleber Lizardo de Assis.

Ɣ Prática profissional em psicossomática em profissionais de saúde


da região norte
Simone Muniz de Oliveira, Erica Barbosa, Elizeu Diniz, Lucineide Santa-
na, Nádia Valéria Santos, Uiara Diane Costa Lima, Cleber Lizardo de
Assis.
45

GT 2 - SAÚDE: 01/05/2015, 15h15 - TENDA 1


Debatedores: Dr. Antonio Romero e Dra. Simone Oliveira

Ɣ Extensão universitária e enfrentamento à violência de gênero em


Cacoal - RO
Simone Muniz Oliveira, Lucineide Santana, Nádia Valéria Moreira San-
tos, Cleber Lizardo de Assis.

Ɣ Psicologia e dependência química: Análise preliminar de uma pes-


quisa-intervenção em uma Habermas, Rouanet e o caráter solidá-
rio da justiça.
Antonio Enrique Fonseca Romero, Acursio Ypiranga Benevides Júnior.

Ɣ Arte e saúde mental em pesquisa-intervenção de psicologia junto a


usuários do CAPS II de Cacoal - RO
Judite Dias Lima, Cleber Lizardo de Assis.

Ɣ Representações sociais sobre a psicologia e o psicólogo em uni-


versitários de uma faculdade privada de Rondônia
Géssica Alves de Souza Matthes, Cleber Lizardo de Assis.

Ɣ Pesquisa-intervensão em psicologia comunitária com um grupo


social LGBT da cidade de Cacoal - RO
Tiago Antônio Santos, Elizabete Santos, Juliane Domingues, Greiciely Pau-
la, Cleber Lizardo de Assis.
46

GT 3 - DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: 01/05/2015,


16h45 - OCA 2
Debatedores: Dr. Mario Freitas e Dra. Ortencia Gonzalez

Ɣ O Programa de Aquisição de Alimentos – PAA E o fortalecimen-


to da agricultura familiar: a percepção dos agricultores do municí-
pio de São Felipe D’Oeste - RO
Yasmin Paiva Correa, Andréa Rodrigues Barbosa, Abraão Roberto Fonseca

Ɣ Gênero, economia e espaço: o mercado de trabalho na capital


rondoniense.
Adriana Correia Oliveira.

Ɣ A mulher na economia rural amazônica: estudo de caso no muni-


cípio de Nova Mamoré, Rondônia, Brasil.
Adriana Correia Oliveira
47

GT 4 - EDUCAÇÃO: 01/01/2015, 16h45 - TENDA 1


Debatedores: Dr. Miguel Santos e Prof. Adriano Pawah Suruí

Ɣ Sobre o olhar do Psicopedagogo: a importância desse profissional


no âmbito escolar.
Osana Scalzer

Ɣ A qualidade do ensino na rede municipal de Manaus


Antonio Enrique Fonseca Romero, João Barros da Silva, Luan Sena da Sil-
va, Marcelo Frazão

Ɣ Interdisciplinaridade: evolução histórica e as novas perspectivas no


sistema educacional
Andreia Cristina Silva.

Ɣ A influência do desenho animado em relação ao comportamento


infantil.
Tiago José Antonio Santos

Ɣ Aplicação da educação ambiental nas séries iniciais.


Brenda Corteze Soares, Thais Luana Botter, Marifatima Cruz Lira, Kachia
Téchio

Ɣ A formação docente inicial e continuada


Fabiana Renata da Silva

Ɣ Relação do ementário do curso de Ciências Contábeis, das atribui-


ções privativas do CFC e das habilidade e competências exigidas
pelo MEC: análise em uma instituição de ensino superior.
Glauber Candido Fagá, Marcia Francisco Tosti Faquim.
48

GT 5 - SAÚDE: 02/05/2015, 15h15 - TENDA 1


Debatedores: Dra. Maria Gonçalves Conceição Santos e Dr. Miguel Santos

Ɣ Vivências e estratégias de enfrentamento em crianças hospitaliza-


das
Gislaine Federichi, Cleber Lizardo de Assis

Ɣ Psicologia e adolescência: análise preliminar de uma pesqui-


sa-intervenção em um centro de referência em assistência social de
Rondônia.
Kely Cristina de Matos, Daieli Cristina de Oliveira Sechini, Cleber Lizardo
de Assis

Ɣ Avaliação da lei Maria da Penha por gestores de Cacoal-RO


Bruna Angélica Borges, Luana Sampaio, Cleber Lizardo de Assis.
49

GT 6 - IDENTIDADE e LINGUISTICA: 02/05/2015, 16h45 - TEN-


DA 3
Debatedores: Dra. Kachia Téchio, Dra. Claudia Wanderley e Prof. Naraykopega
Suruí

Ɣ O povo Zoró e a identidade étnica.


Maria Conceição de Lacerda

Ɣ A crise do sentido de existência dos jovens Tukano.


Antonio Enrique Fonseca Romero, Sidiclei Viana Meireles

Ɣ Perda da identidade cultural: uma reflexão filosófica a partir da re-


alidade manauara
Antonio Enrique Fonseca Romero, Alef Braga Pinto, Alex Mota, Edinei
Lima

Ɣ Representação Paiter Suruí: as territorialidades na ritualística Ma-


pimaí
Kelli Carvalho Melo

Ɣ Resgate e preservação da identidade e memória do povo Wajuru


em Porto Rolim de Moura.
Kachia Téchio

Ɣ A defasagem da língua materna (ou da terra) em línguas menores.


Lucas Manca Dal'Ava

Ɣ Atitudes linguísticas dos Rikbaktsa (Macro-Jê)


Mileide Terres de Oliveira
50

GT 7 - IMAGINARIO RELIGIOSO: UM ENFOQUE MULTIDISCI-


PLINAR: 02/05/2015, 15h10 - TENDA 3
Debatedor: Dr. Francisco Cetrullo Neto

Ɣ Elementos teóricos metodológicos para estudos da religião a partir


do materialismo dialético.
Francisco Cetrulo Neto

Ɣ Ciência ou religião? A psicografia como meio de prova no proces-


so penal.
Adriana Cristina Cury Azevedo.

Ɣ Comportamento religioso como subtipo de comportamento su-


persticioso
Abraão Roberto Fonseca

Ɣ Ciência e religião: o uso do “Santo Nome” em tempos de redes


sociais
Marcia Rita Malheiros, Ana Rita Leite Malheiros

Ɣ O Brasil é laico mas falta feriado para todos os credos


Rudhy Marssal Bohn, Larissa Cristino Marreiro, Marilsa Miranda de Sou-
za
51

GT 8 – SAÚDE: 02/05/2015, 16h45 - TENDA 1


Debatedores: Me. Marcelo Borges e Dra. Simone Oliveira

Ɣ Pesquisa-intervenção em psicologia comunitária junto a usuários


de um CAPS da região norte.
Luciana Roa, Rosângela Aniceto, Priscila Assis, Lucineide Santana, Cleber
Lizardo de Assis

Ɣ Estratégias de enfrentamento em acompanhantes hospitalares de


familiar
Aline Letícia Vitória, Cleber Lizardo de Assis

Ɣ Intervenção psicossocial junto ao adolescente autor de ato infraci-


onal
Luciana Laura Maciel, Poliana Galvão, Valdirene Lima, Cleber Lizardo
de Assis

Ɣ Qualidade de vida e bem-estar subjetivo em adeptos de Ayahuas-


ca.
Deyse Ferraciolli, Lais Lins, Cleber Lizardo de Assis

Ɣ Compreendendo as emoções vividas pela equipe de enfermagem


frente ao paciente oncológico: revisão de literatura
Géssica Crivelaro Roza, Edileuza Alves Machado Costa

Ɣ Cultura do povo indígena Gavião e como tratam a respeito da sa-


úde
Wendril Tome
52

GT 9 - DIREITO: 02/05/2015, 16h45 - TENDA 2


Debatedores: Dr. Antonio Romero, Dr. Marcelo Calegari

Ɣ A constitucionalização dos princípios e sua aplicação no cotidiano


da segurança pública brasileira.
Antonio Enrique Fonseca Romero, Fábio Silva Cardoso, Marlison Carva-
lho, Sebastião Brito

Ɣ Direito e povos indígenas: uma relação necessária.


Rafael Barasuol Mallmann, Odete Alice Marão de Carvalho, Julinês Bega
Peixe

Ɣ O desenvolvimento político na Amazônia: uma reflexão a partir de


Aristóteles
Antonio Enrique Fonseca Romero, Ivo Carneiro Santos, Jean Holanda Pe-
reira, Lucas Monteiro da Silva

Ɣ A consciência de liberdade no contexto social do povo manauara:


uma reflexão a partir da realidade periférica.
Antonio Enrique Fonseca Romero, Elias Sarmento Pereira, Jair Vieira Al-
ves

Ɣ Consciência e pena: relações harmônicas ou antagônicas.


Elenara Ues Cury
53

GT 10 - AMBIENTE: 02/05/2015, 15h10 - TENDA 2


Debatedores: Dr. Mario Freitas e Dr. Miguel Santos

Ɣ Desenvolvimento sustentável: uma análise dos mecanismos e


práticas adotadas por uma empresa rural situada no município
de Vilhena - RO no cultivo da silvicultura para fins comerciais.
Vanessa Rodrigues do Prado Morais, Andrea Rodrigues Barbosa

Ɣ Análise de redes sociais como instrumento de identificação de ato-


res na cadeia extrativa da castanha-da-amazônia em Rondônia.
Eslei Justiniano Reis, Theóphilo Alves de Souza Filho

Ɣ Desenvolvimento sustentável e o mercado de crédito de carbono:


um estudo de caso da parceria entre a Natura e o povo Paiter Su-
ruí.
Nauama Dias Suruí, Andrea Rodrigues Barbosa, Matilde Mendes.

Ɣ Comunidades tradicionais no Rio Madeira e os impactos decor-


rentes dos empreendimentos hidrelétricos no Rio Madeira.
Neiva Araujo, Anna Virgínia Cardoso, Felipe Z. de Oliveira Kloos

Ɣ Avaliação de impacto ambiental das nascentes urbanas de


Ji-Paraná/RO
Naara Ferreira Carvalho de Souza
54

GT 11 – AMBIENTE: 02/02/2015, 15h10 - OCA 2


Debatedores: Dr. Mario Freitas e Me. Ivaneide Bandeira

Ɣ Povos indígenas amazônicos: uma análise político-legal relaciona-


da a aspectos do desenvolvimento sustentável.
Matilde Mendes, Andréa Rodrigues Barbosa, Alceu Zoia

Ɣ Arco de fogo e arco verde: Pimenta Bueno, Rondônia, prioritário


ao combate do desmatamento no bioma amazônico.
Claudia Cleomar Araujo Ximenes Cerqueira, Marilia Locatelli, Nubia De-
borah Araujo Caramello, Tatiana Regina Araujo Ximenes da Silva, Rogério
Antônio Carnelossi

Ɣ As comunidades ribeirinhas existem e resistem no Baixo Madeira,


Rondônia
Francisco de Assis Costa

Ɣ Desafios, pressões e consciência de preservação nas linhas 180,


184 e 188 do município de Rolim de Moura (RO) a partir do Có-
digo Florestal.
Josiane Fernandes Keffer
55

GT 12 – AMBIENTE: 02/05/2015, 16h45 - OCA 2


Debatedores: Dra. Conceição Santos e Dr. Dermanio Tadeu Lima Ferreira

Ɣ Reflexão geográfica: o indígena Nambiquara no município de Pi-


menta Bueno/RO/Brasil
Claudia Cleomar Araujo Ximenes Cerqueira, Adriana Correia de Oliveira,
Marilia Locatelli, Sônia Maria Teixeira Machado, Elenice Duran da Silva

Ɣ Meio ambiente na educação infantil


Nati Natiele Santos Pereira

Ɣ O desmatamento na Amazônia e seus impactos econômicos e so-


ciais.
Antonio Enrique Fonseca Romero, Adanor Pereira Porto Neto, Thaís Sou-
za de Oliveira.

Ɣ A ação garimpeira na terra indígena Roosevelt: uma análise histó-


rica (1999-2005).
Devanir Aparecido dos Santos

Ɣ Entre a representação e a experiência: o ecoturismo indígena Pai-


ter Suruí
Kelli Carvalho Melo, Maria Ivanilse Calderon Ribeiro

Ɣ Fluxos de CO2 em regiões de floresta e pastagem no sudoeste da


Amazônia.
Bárbara Antonucci

Ɣ O desmatamento em Rondônia e a eficácia da tutela legal.


Paulo Roberto Meloni Monteiro, Theophilo Alves de Souza Filho

Ɣ Reflexo dos passivos ambientais as margens do Rio Machado no


estado de Rondônia, Brasil
Rogério Antônio Carnelossi, Claudia Cleomar Araujo Ximenes Cerqueira,
Viviane Gomes, Nubia Deborah A. Caramello, Marineire G. Mariano.
56

GT 13 - BIODIVERSIDADE: 01/02/2015, 15h10 - TENDA 2


Debatedores: Dr. Miguel Santos e Dra. Ortência Gonzalez

Ɣ Conhecimento sobre a distribuição geográfica das espécies de Cal-


licebus spp como estratégia de conservação
Almério Câmara Gusmão

Ɣ Status de conservação e endemismo da avifauna em terras indíge-


nas no sudeste do estado de Rondônia.
Tatiana Lemos Machado

Ɣ Método participativo para levantamento da biodiversidade em ter-


ras indígenas - revisão bibliográfica
Thamyres Mesquita Ribeiro

Ɣ Sensibilização ambiental como estratégia para conservação do ga-


vião real (Harpia harpja) no sul do estado de Rondônia, Amazônia
Brasileira.
Thatiane Martins da Costa, Thiago Weiller Velten, Odair Diogo da Silva,
Almerio Camara Gusmão, Lucas Simão de Souza

Ɣ Manejo e proteção de quelonios no Rio Guaporé, distrito de Porto


Rolim de Moura do Guaporé-RO
Lucas Simão de Souza, Thatiane Martins da Costa, Almério Camara
Gusmão

Ɣ Monitoramento da biodiversidade da terra indígena Sete de Se-


tembro do povo Paiter Surui, Rondônia, Brasil.
Alexsander Santa Rosa Gomes

Ɣ Levantamento de Animais Atropelados na Rodovia-471


Fabricio Gatagon Suruí, Eder Correa Fermiano, Rafael Costa dos Santos,
Pablo Junior Barros, Michely Gonçalves Silva
57

Ɣ Impacto da antropização sobre a ictiofauna em um riacho perte-


cente a bacia hidrográfica do Rio Piarara, município de Cacoal-RO
Odair Diogo da Silva, Jhonata Soares da Silva
58

GT 14 – AMBIENTE: 01/02/2015, 15h15 - TENDA 3


Debatedores: Dr. Mario Freitas e Dr. Dermanio Tadeu Lima Ferreira

Ɣ Sentidos da terra coletiva num assentamento rural do MST em


Rondônia
Juliana da Silva Nóbrega

Ɣ Utilização de sistemas agroflorestais em Rondônia, Amazônia Bra-


sileira – procedência dos produtores, espécies, solo e aptidão agrí-
cola.
Marilia Locatelli, Eugênio Pacelli Martins, Cláudia Cleomar Araújo Xi-
menes Cerqueira

Ɣ Resistência e enfrentamento às políticas do agro e hidronegócio


das comunidades ribeirinhas do Baixo Madeira em Porto Ve-
lho-RO
Luciomar Monteiro Costa

Ɣ A organização social e formas de produção o assentamento "14 de


agosto" em Ariquemes -RO
Maria Estélia Araújo
59

SESSÃO DE POSTERES - 03/05/2015, 10h00 as 12h00 - TENDA 1 e


TENDA 2

Ɣ Associativismo rural: um estudo de caso de um laticínio no muni-


cípio de Alta Floresta D’Oeste – Rondônia
Marlon Martinelli Roberto

Ɣ Tendências e recursos tecnológicos da educação no ensino a dis-


tância
Adriana Lopes Barbosa

Ɣ Tendências do e-commerce para Pimenta Bueno e região


Fernando, Eduardo, Hebertson, Jean, Kác Faria, Gonschorowski, Batista,
Bueno, Téchio.

Ɣ Cultura digital em Cabo Verde e Feriados Oficiais.


Augusto Machado Ramos

Ɣ Intervenção psicossocial junto a um grupo de grávidas de Cacoal -


RO
Bruna Angélica Borges, Luana Sampaio, Tatiane Mendes, Cleber Lizardo
de Assis
Reflexão do Prof. Dr. Almir Suruí para I Soeitxawe

Eu, Almir Suruí, nasci a frente de uma grande desafio enfrentado pelo
povo Paiter Suruí. Nasci e cresci durante esse grande desafio e isso tam-
bém me ensinou bastante: que cada povo tem seus próprios ideais, seus
próprios princípios, sua visão, sua missão de lutar para manter sua auto-
nomia, sua cultura, sua religião, sua história como povo. E isso me levou
a refletir sobre o valor da sua vida, da sua sociedade, que precisam ser
respeitadas e valorizadas, dentro do princípio de mantê-lo como povo. E
depois de 47 anos de contato, do povo Paiter Suruí com a cultura do não
índio, ainda enfrentamos grande desafio. Porque não há qualquer pessoa,
qualquer sociedade, que entenda, de fato, a outra sociedade, o valor dela,
a importância dela, e como ela pode contribuir para o bem comum de
todos. E a cultura, o princípio de cada povo, tem seu valor histórico e
atual, dentro do processo, que mantém a nossa natureza viva, dentro do
que você faz, dentro da sua luta, e isso faz com que nossa vida, nossa
natureza, ou então, todos os planetas, girem para o sustento da nossa
humanidade como um todo. E com essa visão eu luto bastante para que
eu possa então fazer minha parte como um dos líderes do povo Suruí.
E quando eu fui eleito, para liderar meus clãs dentro do povo Suruí
em 1992, com dezessete anos de idade ainda, foi um grande desafio para
mim como jovem, mas, mesmo assim, eu sabia que eu tinha uma missão
muito grande: de buscar solução para que eu pudesse dialogar com a
sociedade mais avançada no séc. XXI. E isso trouxe a possibilidade de
dialogar com vários setores da área de comunicação, de áreas de pensa-
mento e de todos os instrumentos que mantém a sociedade estruturada
juridicamente, politicamente, economicamente, culturalmente. Assim,
compreender e respeitar os serviços que a natureza oferece, entre eles, a
floresta e tudo o que ela oferece de grande importância no mundo. É
necessário se estruturar, ter responsabilidade e competência para forne-
cer essas informações ao mundo a partir de seus conhecimentos. Como
povo, como líder, com nossa própria organização, hoje fazemos parte
dessa organização, uma das associações mais antigas do Brasil, ou de
Rondônia, ou da Amazônia, que é a associação Metareilá do Povo Indí-
gena Suruí. E através dessa organização eu tive a oportunidade de coor-
62 Almir Suruí

denar uma atividade histórica do povo indígena aqui no Brasil: de criar


um plano estratégico de 50 anos para o povo Suruí.
E através dessa estratégia de criar o plano de 50 anos do povo Suruí,
nós criamos várias metas e planos como melhores programas, que são
doze, entre eles, a educação. E através dessa estratégia de educação, de
como manter a nossa educação cultural e lidar com a educação tecnoló-
gica, inovadores da sociedade, nós pensamos que poderíamos ajudar e
valorizar o nosso conhecimento. E valorizar o nosso conhecimento não
significa que nós queremos disputar com outra sociedade, mas sim com-
partilhar os nossos conhecimentos, os nossos saberes, nossa cultura,
com o mundo, com experiência que nós temos com educação cultural.
Então tendo essa responsabilidade, de como compartilhar e como respei-
tar o saber de outros, temos uma grande autonomia que cada povo tem.
Então, ele (o plano) precisa avançar. E nesse pensamento, dentro do
plano de 50 anos, um dos nossos métodos é criar uma universidade indí-
gena, para a gente então respeitar, valorizar e manter a nossa cultura.
Nossa cultura é nossa educação, é nossa autonomia e é com ela que
nós geramos nossos potenciais econômico e políticos, e que nos permite
prestar solidariedade ao nosso mundo. Porque ninguém faz um mundo
melhor sozinho.
Com esse processo nós entendemos também que “poder a poder”
não consegue avançar. Porque precisamos compartilhar a nossa respon-
sabilidade com a sociedade, nós precisamos ouvir e também sermos
ouvidos dentro desse processo participativo na sociedade e, dessa forma,
é necessário e, de grande importância, criar essa Universidade Indígena
do Povo Paiter.
Estamos avançando com o apoio de outras parcerias, outras universi-
dades, e, em especial, quero citar aqui a Unicamp, Universidade Estadual
de Campinas, que é um parceiro nosso que está acreditando que essa
possibilidade (de criar a Universidade Indígena) pode acontecer e se
transformar em realidade, mostrar nossa cultura, nossa luta, nossa histó-
ria, nossas filosofias, nossa educação, nossa religião para outro mundo.
Mas nós não queremos fazer de qualquer jeito e nem a qualquer custo.
Nós queremos compartilhar nossas sabedorias e nossa história como
povo Paiter, com responsabilidade técnica, de pesquisa, e jurídica. E,
assim, sempre falamos que, não há sociedade superior ou inferior às

Soeitxawe
Reflexão do Prof. Dr. Almir Suruí 63

demais, pois todos nós temos falhas, como seres humanos, e a partir de
nossas falhas, temos de refletir e pedir orientação de nossa fé e também
de nossa ligação entre “terra e céu”, para que a gente possa manter a
nossa história viva para as próximas gerações. Eu acredito nisso, senão
não teria começado esse trabalho. Nós (povo Paiter) estamos acreditan-
do cada vez mais, estamos também ampliando as nossas parcerias nacio-
nais e internacionais, sobre essa Universidade Indígena, e acreditando
que um dos mecanismo para manter a autonomia de um povo é valorizar
a educação do seu povo. Um dos princípios maiores do nosso povo, é
que nosso povo possa contribuir com sua sabedoria, com sua cultura,
com sua visão e com missão ao mundo, desses grandes desafios que
passam hoje como crise política, econômica, de religiões, que passam a
guerras, que passam por poder a poder, mas não existe, a partir dessas
reflexões, quando a gente pensa que nós estamos em um planeta só. E
cada um tem que fazer sua parte. E como povo Paiter estamos tentando
fazer os nossos grandes esforços para contribuir e sonhar juntos, sonhar
junto com as pessoas que pensam igual a gente. Ver um mundo melhor
para nossas futuras gerações. E assim queremos avançar, compartilhar e
participar de todas as construções políticas que podem fortalecer através
de melhor educação. Não para o povo Suruí (Paiter Suruí), do Brasil
também, o qual é o nosso país. E se depender de nós, sempre lutamos
para que o nosso país Brasil seja sempre um exemplo, de país que deve-
ria respeitar seu povo, suas culturas, suas diferenças. Em nossos princí-
pios filosóficos, nós acreditamos que precisa fazer uma gestão política,
participativa, consciente e justa para todos. Vamos lutar para isso, vamos
continuar acreditando que piores crises que pode trazer ao nosso país, ao nosso
povo, para trazer o melhor caminho. Nesse momento acreditamos que isso
pode acontecer, e acreditar que a Universidade Soeitxawe do Povo Paiter
Suruí está nascendo, não pra disputar com outras universidades, mas
para compartilhar e contribuir com outras universidades para que o Bra-
sil seja um país consciente, de que tem um papel importante para mos-
trar o novo caminho para outros países também que precisam das refle-
xões porque estão em crise. Crises ambientais, crises religiosas, crises
econômicas, e crises de todas as formas que pode acontecer. Então va-
mos acreditando que a nossa luta é que irá mostrar, cada vez mais, o
caminho para a gente. E aqui quero dizer que é muito importante que a

Soeitxawe
64 Almir Suruí

gente participe dos nossos espaços conquistados, e um desses, quero


dizer que foi uma grande honra quando eu recebi o título de Doutor
Honoris causa pela Universidade Federal de Rondônia. Que é do meu
estado, que reconheceu e valorizou a luta do povo Paiter que eu coorde-
no hoje, que é um dos grande desafios do mundo: acreditarem e adota-
rem essa política, que é o Desenvolvimento Sustentável.

(Transcrição feita por Pedro Paulo de Jesus Silva)

Soeitxawe
Labiway EY SAD – Sistema de Governança Paiter Surui

Rubens Naraikoe Surui

Resumo: Nesta pesquisa, se dará em torno da realidade vivenciada pela comu-


nidade do Povo Indígena Suruí, localizada entre Municípios de Cacoal (RO) e
Espigão D'Oeste, e Noroeste do Estado de Mato Grosso, Município de Rondo-
lândia (MT), que desde os tempos do contato o povo Suruí, vem sofrendo com
a intervenção e aproximação de colonizadores que em decorrência disso houve
início de devastação, que vem causando mudanças climáticas e intempéries do
tempo, que afetam significativamente a saúde humana de forma direta e indire-
tamente. No Estado de Rondônia, as únicas áreas que ainda se observa a pre-
sença de floresta são dentro das Terras Indígenas e Unidades de Conservação,
sendo estas constantemente ameaçadas. O Parlamento Paiter Suruí, criado no
mês de Novembro de 2010, surge como uma instância de debates democráticos
de ideias, reflexões e deliberações, que representam o povo Paiter Suruí em suas
decisões, reivindicações, implantação de políticas internas e na interface com as
políticas públicas governamentais consolidando com direito indígena e indige-
nista.
Palavras-Chave: Governança; Indígena; Políticas; Paiter Surui.

Abstract: This research will take place around the reality experienced by Indig-
enous People Surui the community, located between the municipalities of
Cacoal (RO) and Spike Western, and Northwest State of Mato Grosso, Munici-
pality of Rondolândia (MT), which since time contact the Surui have suffered
from the intervention approach and settlers, due to this there was the beginning
of devastation that is causing climate change and causing storms, which signifi-
cantly affect human health directly and indirectly. In the State of Rondônia, the
only areas that still observed the presence of forest are within Indigenous Lands
and Conservation Units, which are constantly threatened. Parliament Surui,
created in November 2010, appears as a forum for democratic debate of ideas,
reflections and deliberations, which represents the people Surui in their deci-
sions, claims, implementation of internal policies and interface with public poli-
cy consolidating government with indigenous and indigenous rights.
Keywords: Governance; Indigenous; Policies; Paiter Surui.
66 Rubens Naraikoe Surui

1. Introdução

No início, a decisão de cursar o Curso de Direito, veio-me por moti-


vo de presenciar e ver a necessidade do meu povo, por falta de pessoas
profissionais na área jurídica que atua diretamente na questão indígena
em todos os segmentos, que realmente conheçam a cultura indígena, que
entendam seu olhar sobre outras culturas na área jurídica, principalmente
pela falta de operadores de Direito que atuem próximos ao povo indíge-
na, já que os indígenas sempre que precisam tem que recorrer ao Minis-
tério Público, onde a maioria das vezes os promotores são pessoas que
tem pouco conhecimento sobre as situações e cultura indígena, embora
sejam pessoas compromissadas com a causa indígena.
Assim sendo, conversei com a minha família, meu povo, meu clã
Gamep e a diretoria da Associação Metareilá do Povo Indígena Surui,
que consideraram ser importante a minha decisão para fazer o curso de
Direito e futuramente ser o defensor da causa indígena.
Quando realizei o vestibular na UNESC – Faculdades Integradas de
Cacoal fui aprovado, iniciei o curso, tive que morar na cidade, encontrar
e conviver com outra realidade, conhecer o novo mundo diferente da
minha cultura. Portanto, entre várias dificuldades as mais difíceis foram
pagar a mensalidade da faculdade e me manter na cidade estudando.
Assim, busquei apoio junto a Associação Indígena do Povo Paiter Surui,
que concedeu Bolsa de Estágio remunerado, através de uma entidade
parceira que é Associação de Defesa Etnoambiental – KANINDÉ, para
que assim eu pudesse me manter fora da aldeia, longe da minha família e
dos costumes diferentes que aprendi a conviver mesmo sem deixar de
ser quem sou, e assim, dando oportunidades e abrindo as portas para
meu novo mundo.
Após passar um semestre na Faculdade UNESC em Cacoal, por pas-
sar dificuldade financeira sem condições perante as mensalidades atrasa-
das pensei em desistir. Nesse momento, recebi informação que fui con-
templado pela Faculdade Interamericana de Porto Velho – UNIRON,
com uma Bolsa de Estudo Integral, através de dialogo e parceria firmado
de Kanindé com a UNIRON.
A Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé tem um programa
de estágio que envolve estudantes indígenas e não indígenas e para me

Soeitxawe
Labiway EY SAD 67

manter financeiramente para dar continuidade nos meus estudos em


Porto Velho na Faculdade UNIRON. Nesse momento, a família Kanin-
dé me acolheu, onde me foi concedido uma Bolsa de Estágio remunera-
do pela instituição, mesmo assim, passei por várias dificuldades, princi-
palmente na linguística, como falo em Tupi-Mondé, as palavras cientifi-
cas em português era de difícil compreensão, o que me fez demorar a
entender as pesquisas repassadas na faculdade e nos livros, mesmo assim,
obtive várias oportunidades de aprendizagem, apoio e incentivo dos
professores e técnicos da Kanindé que me fez superar algumas dificulda-
des, de fazer conhecer pessoas novas, profissionais de vários ramos.
Assim, a decisão de fazer a monografia sobre o labiway Ey Sad (Par-
lamento Paiter Surui), se deu porque se fazia necessário para meu povo
entender como suas leis culturais interagiam com as leis brasileiras, e para
eu como operador de Direito, defensor da causa indígenas, entender
como estas duas legislações funcionavam, certamente aumentariam meu
conhecimento e me auxiliariam no futuro na defesa dos direitos indíge-
nas.
A análise teórica se orientou por duas perspectivas: uma que compre-
ende a legislação brasileira e a indígena, tendo como principais instru-
mentos de análise a Constituição Federal de 1988 e o Código e Normas
Paiter Surui.
Como o estudo de caso é o povo indígena Paiter Surui, buscamos
analisar a partir da percepção destes povos e da sociedade brasileira so-
bre a legislação indígena, que muitas das vezes é confundida com a indi-
genista.
Esta monografia foi realizada em quatro etapas:

A) Bibliográfica se pautou no levantamento de material escrito, so-


bre a legislação brasileira que tratam da questão indígena, e a
busca por legislação indígena, enfatizando a questão indígena ao
longo da História do Brasil, em especial as situações históricas
de contato do povo Paiter Surui no Estado de Rondônia.
B) Reuniões com as lideranças Paiter Surui e com o Labiway Ey Sad
(Parlamento Paiter Surui).

Soeitxawe
68 Rubens Naraikoe Surui

C) Trabalho de campo, tendo como técnicas de pesquisa: observação


participante, onde busquei observar como agiam os Paiter Surui
que estão envolvidos no Parlamento.
D) Entrevistas com indigenistas que vêm há muito tempo trabalhan-
do com o povo Paiter Surui e busca de orientação com profes-
sores do curso de direito.

Esta monografia realizou uma pesquisa sobre o Código e Normas


Paiter Surui e busca demonstrar como um povo indígena de Rondônia
implementa suas normas, leis e costumes, e como se relaciona com as
leis brasileiras.
O primeiro capítulo traz um histórico dos povos indígenas no Brasil e
como estes são tratados pelas políticas e pelo direito do Estado Brasileiro
e minhas motivações para cursar o Direito.
No segundo capítulo traço um breve relato da história do povo Paiter
Surui, como se organizam, como se deu o contato com a sociedade bra-
sileira, as transformações socioculturais advindas do contato e a luta para
manter a cultura Paiter.
O terceiro capítulo se constituiu do Código e Normas Paiter Surui, e
como os Paiter Surui tomaram a decisão de publicá-lo.
Já o quarto capítulo desta monografia traz um estudo sobre o Código
Paiter Surui e como este se relaciona com a lei brasileira, faz um revisão
bibliográfica e busca ofertar uma visão sobre a questão indígena no que
se referem às políticas públicas, a partir do referencial teórico e dos capí-
tulos que compõe a monografia.

2. A Legislação Brasileira e a Questão Indígena

Este capítulo traz o processo histórico de contato entre os povos in-


dígenas no Brasil, e como estes perderam seus territórios e tiveram sua
população reduzida e o meu caminhar para fazer o curso de Direito.
Buscamos neste capítulo fazer uma revisão bibliográfica, utilizando a
legislação brasileira.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 69

2.1 Povos Indígenas e a Legislação Brasileira

Falar de povos indígenas no Brasil significa tratar de uma diversidade


de povos, que há milhares de anos habitavam estas terras. Os indígenas
sofreram desde os primeiros contatos diversas transformações jurídicas.
Pensar como estes são tratados na legislação brasileira contribui para
saber como eram pensados ao longo da historia e o tratamento legal
dado a estes povos (PERRONE-MOISÉS, 2002).
Os indígenas entre os séculos XVI e XVIII, eram vistos como selva-
gens que precisavam ser “civilizados” nos moldes europeus tanto por
religiosos, quanto pela sociedade em geral, devendo mudar sua forma de
vida, suas normas e costumes para assimilar o modo de vida e religião
europeia, única maneira de serem salvos. Esta forma de pensar e tratar os
indígenas influenciou a legislação, no tratamento com os povos indíge-
nas, submetendo-os a aldeamentos, ao sedentarismo e a novos modos de
produção. Passando estes a serem considerados livres e sobre a proteção
do Estado. Os que resistiam a este tipo de coesão eram considerados
inimigos e perigosos, devendo ser salvos, sendo neste caso, justificada as
guerras justas, que permitiam a escravização dos indígenas capturados e
desta maneira se justificava a ocupação e usurpação dos territórios indí-
genas.
Com este olhar foi influenciada a legislação brasileira no que se trata
da questão indígena, onde os indígenas deveriam ser escravizados para
que houvesse a usurpação de suas terras, se concretizando o ideal de
ocupação dos territórios no período colonial.
A partir do século XIX, o Brasil sofre uma série de transformação,
com a corte portuguesa se transferindo para o Brasil, passando os indí-
genas serem considerados importantes objetos de pesquisa.
Como os indígenas eram considerados selvagens, seres humanos atra-
sados no inicio da evolução da humanidade, estes eram considerados elo
perdido da humanidade, portanto objeto de pesquisa cientifica (CAR-
NEIRO DA CUNHA, 2002). A teoria da evolução trazia a noção de
raças, para explicar a diferença entre os diferentes povos (negros, branco,
amarelos e indígenas), devendo os indígenas ser estudados pela ciência
(SCHWARCZ, 2001).

Soeitxawe
70 Rubens Naraikoe Surui

A política nesta época se pautava pelas diretrizes do Diretório dos


Índios, que era uma política de assimilar os indígenas ao Império portu-
guês (CELESTINO DE ALMEIRA, 2008). Com a extinção do Diretó-
rio, pela Carta Régia de 1798, outras políticas foram adaptando suas
normas de acordo com a conveniência dos governantes. Se precisarem
ocupar a região se estabelecia aldeias, se precisavam tomar os territórios
se expulsava os indígenas promovendo guerras justas. Onde a coloniza-
ção já estava consolidada, se acabava com as aldeias e se dizia que os
indígenas já estavam civilizados, deixando de ser índios, portanto não
precisavam mais viver como suas normas e costumes. Estas políticas
assimilacionista se mantêm até os tempos atuais.
Devemos lembrar que o “Diretório dos Índios” incentivava a misci-
genação e a presença de não índios nas aldeias, a obrigatoriedade da lín-
gua portuguesa para que desta forma os indígenas assimilassem a cultura
local e onde eram tutelados por fazendeiros e outros moradores, restrin-
gindo o direito destes povos de terem sua própria cultura e territórios.
Já em 1845, o Império traz na legislação o olhar sobre os indígenas,
considerando-os órfãos, instituindo a tutela de um Juiz, tirando dos indí-
genas o poder de reivindicar seus direitos (CARNEIRO DA CUNHA,
2002).
Outra lei criada antes da tutela foi a Lei da Terra do Governo Imperi-
al, Lei de 06 de junho de 1755 que garantia aos índios o direito a terra
“os índios [...] no inteiro domínio e pacífica posse das terras [...] para
gozarem delas por si e todos seus herdeiros”, no entanto foram criadas
normas para burlar a Lei, que foi a Carta Régia de 02 de dezembro de
1808, que tornou as terras de indígenas exterminados e indígenas que
foram obrigados a viver aldeados, como terras devolutas. Deste modo,
houve as frentes de expansão que se apossaram das terras indígenas. Esta
política direcionou a economia e a política agrária no Brasil. Esta política
assimilicionista, que perdura até os tempos atuais é a maneira pelo qual
se justificam a usurpação dos territórios indígenas.
Em 1889, se inicia o período republicano, que mantém lógica da as-
similação, buscando incorporar os indígenas a sociedade nacional, trans-
formando coletores em pequenos agricultores e usurpando os territórios
indígenas para dar lugar aos pecuaristas e trabalhadores rurais.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 71

O olhar para os indígenas continua o mesmo de torná-lo um ser “ci-


vilizado”, agora não apenas para catequizá-lo ou evangelizá-lo, mas para
que seja um produtor de alimentos, com função social de produzir e
proteger o território nacional, principalmente nas regiões de fronteira
(RIBEIRO, 1982; LIMA, 2002).
O governo republicano sob influência do positivismo e dos militares,
traz para si a proteção e assistência aos indígenas, criando em 1910 o
Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacio-
nais (SPILTN), que tem o comando do Marechal Candido Mariano da
Silva Rondon, que tinha como objetivo dar assistência e “civilizar” os
povos indígenas, transformando-os em trabalhadores rurais (LIMA,
2002).
O que podemos observar é que há continuidade da tutela, e que man-
tém a ideia do indígena como mão-de-obra a ser utilizada dentro do
sistema capitalista, sem respeitar os direitos indígenas, dando continuida-
de ao processo de tornar o indígena um “ser civilizado”.
Com o SPI (Serviços de Proteção aos índios) trouxe a formalização
da tutela no Código Civil de 1916, tornando o órgão estatal o mediador
da relação dos indígenas com a sociedade brasileira. Isto trouxe uma
série de conflitos, usurpação das terras indígenas e a perca da autonomia
indígena. Situação que passa a se modificar na Constituição Federal de
1988, onde tem um capítulo voltado para os povos indígenas.
Para melhor entender essas mudanças vamos tratar de definir o que
são povos indígenas.
As Nações Unidas (1986) definiu os indígenas como:

“As comunidades, os povos e as nações indígenas são aqueles


que, contando com uma continuidade histórica das sociedades
anteriores à invasão e à colonização que foi desenvolvida em seus
territórios, consideram a si mesmos distintos de outros setores da
sociedade, e estão decididos a conservar, a desenvolver e a trans-
mitir às gerações futuras seus territórios ancestrais e sua identida-
de étnica, como base de sua existência continuada como povos,
em conformidade com seus próprios padrões culturais, as insti-
tuições sociais e os sistemas jurídicos”.

Soeitxawe
72 Rubens Naraikoe Surui

Em 1950 o antropólogo Darcy Ribeiro, no seu texto “Culturas e Lín-


guas Indígenas do Brasil” elaborou a definição do indígena como:

(…) aquela parcela da população brasileira que apresenta proble-


mas de inadaptação à sociedade brasileira, motivados pela con-
servação de costumes, hábitos ou meras lealdades que a vinculam
a uma tradição pré-colombianas. Ou, ainda mais amplamente:
“índio é todo o indivíduo reconhecido como membro por uma
comunidade pré-colombiana que se identifica etnicamente diversa
da nacional e é considerada indígena pela população brasileira
com quem está em contato”. (RIBEIRO, Darcy, Culturas e Lín-
guas indígenas do Brasil).

A Lei 6001/73, Estatuto do Índio até a promulgação da Constituição


Federal de 1988, definem da seguinte maneira:

Art. 3º Para os efeitos da lei, ficam estabelecidas as definições a


seguir discriminadas:
I - Índio ou Silvícola - É todo indivíduo de origem e ascendência
pré-colombiana que se identifica e é identificado como perten-
cente a um grupo étnico cujas características culturais o distin-
guem da sociedade nacional;
II - Comunidade Indígena ou Grupo Tribal - É um conjunto de
famílias ou comunidades índias, quer vivendo em estado de com-
pleto isolamento em relação aos outros setores da comunhão na-
cional, quer em contatos intermitentes ou permanentes, sem con-
tudo estarem neles integrados.

Já Eduardo Viveiros de Castro, pesquisador e professor de antropo-


logia do Museu Nacional (UFRJ), define a palavra “Índio e Comunidade
Indígena” como:

Índio é qualquer membro de uma comunidade indígena, reconhe-


cido por ela como tal.
Comunidade Indígena é toda comunidade fundada em relações
de parentesco ou vizinhança entre seus membros, que mantém

Soeitxawe
Labiway EY SAD 73

laços histórico-culturais com as organizações sociais indígenas


pré-colombianas.

Já as diversas etnias existentes no território brasileiro, preferem ser


chamados por sua autodenominação, a exemplo dos Surui, que se auto-
denominam Paiter.
Para a autodenominação são adotados alguns critérios, usados para
reconhecer uma etnia:

• “Exatamente, não se sabem de onde vieram, os povos


“originários” ou nativos” porque já estavam por aqui no país
chamado Brasil, antes da ocupação européia.
• Continuidade histórica com sociedades pré-coloniais.
• Estreita vinculação com o território.
• Sistemas sociais, econômicos e políticos bem definidos.
• Língua, cultura e crenças definidas.
• Identificar-se como diferente da sociedade nacional.
• Vinculação ou articulação com a rede global dos povos
indígenas.

O movimento indígena desde a década de 1970 vem utilizando o


termo indígena ou parente, por acreditar ser o mais apropriado como
uma identidade que une, articula, visibiliza e fortalece todos os povos
originários do atual território brasileiro. Como o termo parente, este
deixa como mensagem que tem os mesmos interesses, os direitos são
coletivos, uma história de luta para manter a autonomia e garantir seus
territórios.
Voltando ao SPI este mantinha a velha prática do passado de aldea-
mentos, agora com a denominação de “Posto de Atração, vigilância e
pacificação”, locais para onde os grupos indígenas eram atraídos para ser
feito o contato e processo de assimilação à sociedade nacional; Posto de
Assistência, nacionalização e educação – espaço onde os indígenas eram
sedentarizados e transformados em trabalhadores rurais para a produção
de alimentos e recebiam educação na língua portuguesa e repassado en-

Soeitxawe
74 Rubens Naraikoe Surui

sinamentos sobre técnicas agrícolas; Posto de Fronteira, que tinha os


mesmos objetivos só que voltados à proteção fronteiriça (LIMA, 2002).
O certo é que o período do SPI não mudou muito a forma como o
estado brasileiro via o indígena. Depois de acusações de corrupção o SPI
foi transformado em Fundação Nacional do Índio - FUNAI em 1967,
período da ditadura. O órgão recém-criado traz junto à tutela e o contro-
le por parte dos militares que tiram da FUNAI os sertanistas, indigenistas
e antropólogos que não concordam com suas teorias e práticas. Interes-
sante cita que mesmo com esses procedimentos, estes ao mesmo tempo
demarcam terras e profissionalizam seus funcionários. Já no período de
1979 a 1984 o órgão é acusado de corrupção e falta de compromisso
com a causa indígena, havendo poucas demarcações de terra e perca de
autonomia na demarcação de terra que passam a ser realizado por um
grupo constituído pelo Ministério de Reforma Agrária, Ministério Interi-
or, Ministério da Agricultura e Conselho de Segurança Nacional (GO-
MES, 1991; OLIVEIRA FILHO, 1999).
Na década de 1980 os movimentos indígenas e indigenistas passam a
reivindicar a garantia dos direitos indígenas, e força deste movimento
junto com outros movimentos sociais que lutam para democratizar o
Brasil, culminam com a votação da Constituição de 1988 que traz garan-
tia dos direitos indígenas.
A Constituição busca criar um sistema de normas que protejam os di-
reitos e interesses dos indígenas, trazendo uma capitulo só para os indí-
genas, onde dispõe da garantia aos territórios, a relação com a sociedade
nacional e preservação da cultura (FERREIRA LIMA, 2004).
A Constituição de 1988 consagrou o princípio de que os indígenas
são os primeiros e naturais ocupantes do território brasileiro. O que
define seu direito a terra que é anterior a qualquer outro, o que garante
ao mesmo o direito a viver na terra que ocupam independe de reconhe-
cimento formal.
A definição de terras tradicionalmente ocupadas pelos índios encon-
tra-se nos arts. 20, XI e 22, XIV e parágrafos do artigo 231 da Constitui-
ção Federal:

Art. 20. São bens da União:


XI – as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios.
Art. 22. Compete privativamente a União legislar sobre:

Soeitxawe
Labiway EY SAD 75

XIV – populações indígenas.


Art. 231,§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios
as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para
suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos
recursos ambientais necessários o seu bem-estar e as necessárias a
sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e
tradições.
§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se
a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das
riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.
§ 4º As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponí-
veis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis.
§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os
atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das
terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas na-
turais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado re-
levante interesse público da União, segundo o que dispuser lei
complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a in-
denização ou ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto
às benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé.

Observa-se que os dispositivos constitucionais trazem à valoração do


direito a diferença, sendo de relevância a valorização social aos povos
indígenas que habitam a terra muito antes da sociedade nacional.
Os art. 20, XI e 22, XIV, da Constituição Federal, estabelece que as
terras são bens da União, sendo reconhecidos aos índios a posse perma-
nente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos
nelas existentes. Tendo o Poder Público a obrigação de promover tal
reconhecimento. Sempre que uma comunidade indígena ocupar deter-
minada área nos moldes do artigo 231, o Estado terá que delimitá-la,
realizar a demarcação física dos seus limites e proceder com a homologa-
ção, e registrar em cartórios de registro de imóveis e protegê-la.
A própria Constituição estabeleceu um prazo para a demarcação de
todas as Terras Indígenas (Tis), que não foi cumprido.
Para regulamentar o processo de demarcação que é um ato adminis-
trativo, foi instituído Decreto nº 1.775/96, que regulamenta o artigo 2º,
inciso IX, da lei nº 6.001/73, definindo o que são os limites do território

Soeitxawe
76 Rubens Naraikoe Surui

tradicionalmente ocupado pelos povos indígenas e dando o direito ao


contraditório a outros ocupantes que venham a estar nas terras indíge-
nas.
As determinações legais existentes são, por si só, suficientes para ga-
rantir o reconhecimento dos direitos indígenas sobre as terras tradicio-
nalmente ocupadas pelos índios, independentemente da sua demarcação
física. Porém, a ação demarcatória é fundamental e urgente enquanto ato
governamental de reconhecimento, visando a precisar a real extensão da
posse indígena a fim de assegurar a proteção dos limites demarcados e
permitir o encaminhamento da questão fundiária nacional.
É bom lembrar que no Brasil existem terras com diferentes situações
jurídicas o que proporciona invasões de mineradores, pescadores, caça-
dores, madeireiros e posseiros. O Governo Federal tem programas e
projetos para desenvolvimento do país como estradas, ferrovias, linhas
de transmissão e usinas hidrelétricas que não respeitam os direitos indí-
genas, pois são implantados em seus territórios independentes de suas
vontades, gerando conflitos, poluição de rios por agrotóxicos, desmata-
mentos, e perca de terras.
Podemos assim dizer que a Constituição Federal fixou conceitos di-
versos que são utilizados para a resolução de problemas atinentes aos
cidadãos não índios, quando em discussão a posse e a propriedade de
terras denominadas como “tradicionalmente ocupadas” pelos indígenas,
estes vêm sendo prejudicados.
O conceito utilizado para a demarcação das terras indígenas, cujo
pressuposto é a ocupação tradicional, é do que o exercício da posse se
dar em decorrência do indigenato, e que a Constituição Federal seja ela
promulgada ou outorgada, é denominada absoluta, tem o poder de ino-
var todas as situações jurídicas e fáticas postas.
Moraes nos traz as características do poder constituinte originário.

O Poder Constituinte caracteriza-se por ser inicial, ilimitado, au-


tônomo e incondicionado.
O Poder Constituinte é inicial, pois sua obra – a Constituição – é
a base da ordem jurídica.
O Poder Constituinte é ilimitado e autônomo, pois não está de
modo algum limitado pelo direito anterior, não tendo que respei-
tar os limites postos pelo direito positivo antecessor.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 77

O Poder Constituinte é também incondicionado, pois não está


sujeito a qualquer norma prefixada para manifestar sua vontade;
não tem ela que seguir qualquer procedimento determinado para
realizar sua obra de constitucionalização.

O que torna claro que as terras tradicionalmente ocupadas pelos indí-


genas são de propriedade da União, reconhecendo-se a nulidade de
quaisquer títulos porventura existentes ressalvados o direito à indeniza-
ção das benfeitorias aos ocupantes de boa-fé.
Cabe esclarecer que a posse dos indígenas sobre a terra não é aquela
estabelecida no Código Civil, mas sim, uma posse alicerçada em concei-
tos antropológicos, onde se buscará saber, considerados os costumes da
etnia, se aquela área era ou não considerada pelos próprios indígenas
como de seu domínio.
Nosso entendimento escuda-se no constitucionalista José Afonso da
Silva que diz:

O tradicionalmente refere-se, não a uma circunstância temporal,


mas ao modo tradicional de os índios ocuparem e utilizarem as
terras e ao modo tradicional de produção, enfim, ao modo tradi-
cional de como eles se relacionam com a terra, já que há comuni-
dades mais estáveis, outras menos estáveis, e as que têm espaços
mais amplos pelo qual se deslocam etc. Daí dizer-se que tudo se
realiza segundo seus usos, costumes e tradições (SILVA 2004, P.
836-837).

Sendo assim, José Afonso da Silva diz que a posse é a que decorre do
conceito do indigenato,

O INDIGENATO. Os dispositivos constitucionais sobre a rela-


ção dos índios com suas terras e o reconhecimento de seus direi-
tos originários sobre elas nada mais fizeram do que consagrar e
consolidar o indigenato, velha e tradicional instituição jurídica lu-
so-brasileira que dita suas raízes já nos primeiros tempos da Co-
lônia, quando o Alvará de 1º de abril de 1680, confirmado pela
Lei de 06 de junho de 1755, firmara o principio de que, nas terras

Soeitxawe
78 Rubens Naraikoe Surui

outorgadas a particulares, seria sempre reservado o direito dos ín-


dios, primários e naturais senhores delas.

João Mendes, vai mais além, trazendo seu conceito sobre o indigena-
to.

É que conforme ele mostra, o indigenato não se confunde com a


ocupação, com a mera posse. O indigenato é a fonte primária e
congênita da posse territorial; é um direito congênito, enquanto a
ocupação é título adquirido. O indigenato é legitimo por si, “não
é um fato dependente de legitimação, ao passo que a ocupação,
como fato posterior, depende de requisitos que a legitimem”.

No Censo 2010, as 505 terras indígenas reconhecidas compreendiam


12,5% do território brasileiro (106.739.926 hectares), com significativa
concentração na Amazônia Legal. Foram consideradas “terras indígenas”
as que estavam em uma de quatro situações: declaradas (com Portaria
Declaratória e aguardando demarcação), homologadas (já demarcadas com
limites homologados), regularizadas (que, após a homologação, foram
registradas em cartório) e as reservas indígenas (terras doadas por terceiros,
adquiridas ou desapropriadas pela União). No momento do Censo, o
processo de demarcação encontrava-se ainda em curso para 182 terras.
Após a Constituição, vários governos se sucedem e a terra indígena
que deveria ser demarcadas pouco se fez no período do Governo da
presidente Dilma Rousseff, é um período onde há um retrocesso com
pouquíssimas demarcações de terra e onde o Governo propõe tirar os
poderes da FUNAI de demarcação e passar para o Congresso Nacional,
o que certamente se inviabilizaria qualquer demarcação futura. Surge
várias PEC – Proposta de Emendas Parlamentar, em especial a PEC 215
com esse propósito, gerando no movimento indígena uma reação contra-
ria a proposta governamental, além de várias manifestações de organiza-
ções não governamentais que afirmam ser inconstitucional essa proposta
do Governo Federal.
Neste cenário nada promissor para os povos indígenas, os Paiter Su-
rui discutem a necessidade de se retomar as suas bases culturais, e inici-

Soeitxawe
Labiway EY SAD 79

am a discussão sobre seu sistema de governança tradicional e a necessi-


dade de escrever e publicar seu Código e Normas.
A luz da Constituição de 1988 é que trataremos do Código e Normas
Paiter Surui nesta monografia.

3. Paiter Suruí

O Suruí de Rondônia se autodenominam PAITER, que significa


“Gente de Verdade”, nós mesmos. A etnia fala uma língua do grupo
Tupi e da família linguística Mondé. Atualmente, a população é de apro-
ximadamente 1.400 pessoas que se distribuem em 25 aldeias na Terra
Indígenas Sete de Setembro.
Desde a decisão de publicar seu Código e Normas, os indígenas deci-
diram que se denominariam Paiter Surui, juntando a autodenominação à
denominação dada pela FUNAI e pela qual são conhecidos, passando
assim a se a denominarem Paiter Surui.
O Povo Paiter Surui, foi contatado oficialmente em 7 de Setembro de
1969, por expedição da FUNAI, chefiada pelo sertanista Francisco Mei-
relles. Antes do contato, segundo informações oficiais, possuíam uma
população de aproximadamente 5.000 pessoas.
A Terra Indígena Sete de Setembro, e um território de aproximada-
mente 248.147 mil hectares, que está localizada entre Municípios de Ca-
coal (RO) e Espigão D'Oeste, e noroeste do Estado do Mato Grosso,
Município de Rondolândia (MT), foi demarcada em 1976, e a posse per-
manente foi declarada pela Portaria 1561 de 29 de Setembro de 1983,
pelo então presidente da FUNAI Octavio Ferreira Lima, momento em
que recebeu o nome oficial de “Área Indígena Sete de Setembro”. Sua
homologação saiu no mesmo ano através do Decreto nº 88.867 de 17 de
Outubro de 1983, pelo Presidente João Figueiredo (FIG 01).

Soeitxawe
80 Rubens Naraikoe Surui


Figura 01. Terra Indígena Sete de Setembro
Fonte: ACT, 2010.

A Terra Indígena Sete de Setembro está localizada na região Sudeste


do Estado de Rondônia nos municípios de Cacoal e Espigão D’Oeste e
no Noroeste do Estado de Mato Grosso no Município de Rondolândia.
Delimitações: NORTE – O perímetro demarcado desenvolve-se a
partir do marco 09 (nove) de coordenadas geográficas 10º45'03',9" S e
61º25'47,7" Wgr.; daí, segue por uma linha reta de azimute 88º27'45,2"
com uma distância de 54.908,82m, até o Marco 14 (quatorze) de coorde-
nadas geográficas 10º44'16,0" S e 60º55'41,4" Wgr. LESTE - Do Marco
14 (quatorze) segue por uma linha reta de azimute 178º44'50,4" com
distância de 24.007,68m, até o Marco 16 (dezesseis) de coordenadas
geográficas 10º57'16,9" S e 60º55'23,4" Wgr.; daí segue por uma linha
reta de azimute 217º16'33,0" e uma distância de 40.711,33m, até o Marco
20 (vinte) de coordenadas geográficas 11º14'51,6" S e 61º08'55,1" Wgr.
SUL - Do Marco 20 (vinte) segue por uma linha reta de azimute
269º32'55,5", com uma distância de 18.017,15m, até o Marco 01 (um) de

Soeitxawe
Labiway EY SAD 81

coordenadas geográficas 11º14''56,2" S e 61º18'49,0" Wgr.; daí segue por


uma linha reta de azimute 359º51''11,8", com uma distância de
15.005,61m, até o Marco 02 (dois) de coordenadas geográficas
11º06'47,'9" S e 61º18'50,2", Wgr.; daí segue por uma linha reta de azi-
mute 269º47''12,1"com uma distância de 12.060,15m, até o Marco 5
(cinco) de coordenadas geográficas 11º06'49,2" S e 61º25'27,6" Wgr.
OESTE - Do Marco 5 (cinco) segue por uma linha reta de azimute
359º04'59,0" com uma distância de 40.110,29m, até o Marco 09 (nove)
ponto inicial da presente descrição perimétrica (FUNAI, 1996).
Entre 1971 a 1974, após contato, contraíram doenças para as quais
não tinham imunidade como sarampo, gripe e tuberculose, que resulta-
ram em muitas mortes, reduzindo a população para 250 (duzentos e
cinquenta) pessoas. Com a migração humana oriunda do Sul do país para
Rondônia, em busca de terras e melhores condições de sobrevivência de
vida, e o estimulo do Governo Federal, através do INCRA – Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária, se agravaram as mudanças
sociais entre os Paiter Surui e a violência que vitimaram pessoas indíge-
nas e não indígenas.
Com a ocupação dos territórios Paiter Surui pelos colonos, os indíge-
nas foram cada vez mais expulsos para região mais distante e suas terras
sendo dadas pelo Governo Federal para os imigrantes, a exemplo do que
se fazia no período colonial (FIG 02).
Com a diminuição do território os indígenas e seus aliados começa-
ram a pressionar o Governo para demarcar o pouco que restava de terra
para os Paiter Surui, o que veio a ocorrer em 1983, com recursos do
Programa POLONOROESTE.
Demarcada a terra os indígenas passaram a conviver com a corrupção
dentro da FUNAI cuja corrupção e omissão proporcionavam a invasão
de grileiro, madeireiras e mineradoras dentro de seu território.
O conflito com os não indígenas levou os Paiter Surui a criarem a
primeira organização indígena de Rondônia, a Associação Metareilá do
Povo Indígena Surui, criada em 1988 para combater o roubo de madeira
na terra indígena.

Soeitxawe
82 Rubens Naraikoe Surui

Figura 02. Fotografias do primeiro contato com a sociedade não indígena.


Foto: Primeiro contato, Jesco, 1969.

O Povo Paiter Surui se organiza em metades compostas por grupos


exogâmicos patrilineares, onde cada indivíduo herda o pertencimento
por linha paterna. Os clãs são: Gamep, Gapgir, Makor e Kaban (CAR-
DOZO, 2013).
O Povo Paiter Surui nesse sentido busca garantir a integridade do seu
sistema de governança, na sua estrutura organizacional tradicional, que é
politicamente diferenciado. Aponta para a preocupação mais ampla, com
as condições de vida dos Paiter e da sociedade nacional e planetária.
Nesse contexto, o estudo mostra como este povo entende a forma orga-
nizativa de sua sociedade em contraponto a sociedade ocidental.
Embora com o contato seu modo de vida tenha sofrido modifica-
ções, estes ainda tem forte ligação com a natureza e o uso dos recursos

Soeitxawe
Labiway EY SAD 83

naturais. Durante a realização do Diagnóstico Agroambiental Participati-


vo realizado pela Kanindé, se pode observar que a caça e a pesca ocupam
um lugar importante na subsistência e segurança alimentar e a coleta
proporciona os elementos para a produção de artesanato que é uma das
formas de obtenção de renda da comunidade. Os três aspectos – caça,
pesca e coleta – ainda são fundamentais para aprofundar os laços de
reciprocidade e cooperação entre familiares e amigos, sendo importantes
para a sociabilidade e organização social dos Paiter Suruí (CARDOZO,
2002).
A arquitetura indígena deu lugar às casas de madeira no estilo dos
trabalhadores rurais da região, mas ainda há nas aldeias grandes malocas
onde as famílias durante o dia ficam produzindo artesanato, cozinhando
e conversando, enquanto os homens produzem objetos, como flechas
com taquaras, que são enfeitadas com pêlos de porco-do-mato, algodão
pintado de urucum ou com desenhos de jenipapo, sendo usada uma
resina escura. Cada flecha possui um estilo cujo autor é facilmente identi-
ficado. Cada uma tem uma forma, um desenho, uma finalidade (para
caçar animais diferentes, peixe e guerrear).
Outro objeto confeccionado pelos homens é a betiga ou tembetá,
adorno usado num orifício abaixo do lábio inferior por homens e mulhe-
res, feito de resina de jatobá na época seca, polido e lixado com delicade-
za durante horas. Há ainda os chocalhos para as pernas, usados nas fes-
tas; cocares, enfeites de penas variados para as festas; pentes; as cabelei-
ras ou coroas de palha, que devem ser lavadas, secadas e pintadas; e as
flautas do Hoeyateim.
São os homens que pintam as mulheres de jenipapo nas festas. Os
homens é que faziam as tatuagens do rosto e ainda hoje furam os lábios
de algumas crianças de sete ou oito anos, este costume vem sendo deixa-
do de ser praticados, atualmente apenas os mais velhos possuem a tatua-
gem no rosto.
O homem e a mulher buscam a sua alimentação para dentro da sua
casa para alimentar a sua família, fazem suas roças tradicionais e suas
plantações e colheitas. Produz lavouras brancas, como: plantação de
arroz, feijão, café e comidas tradicionais.
Ainda possuem piscicultura em algumas aldeias, que são utilizadas pa-
ra alimentar a comunidade.

Soeitxawe
84 Rubens Naraikoe Surui

Mantém as regras do casamento avuncular, isto é, a regra de casamen-


to em que o homem se casa com a filha de sua irmã. Também há ocor-
rência de casamentos entre primos cruzados. Já primos paralelos são
considerados irmãos, portanto não devem se casar.
Paiterey Garah é como os Paiter Surui denominam a Terra Indígena
Sete de Setembro, território onde mantém a cultura e desenvolvem suas
relações sociais (FIG 03).
A terra indígena demarcada pelo Governo reconhece a presença do
povo Paiter, mas o Estado através da FUNAI – Fundação Nacional do
Índio passa a exercer o controle sobre o território indígena e a influenci-
ar algumas lideranças, de modo que parte do que vemos hoje de influên-
cia cultural está muito ligada aos funcionários da FUNAI, Igrejas,
ONGs, Instituições de Ensino e das pessoas que vivem no entorno da
terra indígena. No entanto, podemos afirmar que mesmo com essas
influências os Paiter Suruí mantêm sua cultura.
O Labiway Esaga (líder maior) do povo Paiter Suruí, ao falar do terri-
tório e da relação com o Estado, costuma dizer “No dia 07 de setembro
o Brasil comemora sua independência de Portugal, para nós é a data em
que nos tornamos dependentes do Estado Brasileiro” (SIC em 2011).
Registramos ainda por considerar ser importante e mostrar a resistên-
cia dos Paiter, o fato que estes indígenas tiveram contatos conflituosos
com seringueiros e membros da linha telegráfica do Marechal Rondon
no início do Século XX, antes mesmo de ter o encontro com a FUNAI.
Isto certamente junto com o contato feito pelo órgão indigenista contri-
buiu para reduzir a população que segundo os indígenas eram de 5.000
que reduziram para 250 pessoas.

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Labiway EY SAD 85

Figura 03: Aldeias do território Paiter Surui


Fonte: Equipe de Conservação da Amazonia, 2010

3.1 O Contato

Os Paiter relatam que teriam emigrado dos lados de Cuiabá para


Rondônia, no século XIX, fugindo à perseguição de não índios, época
em que lutam com outros grupos indígenas causando mortes dos dois
lados. Ao relatarem os primeiros contatos com os não índios, lembram a
história de Waiói que convivera com os não índios no início do século
que contava que eles tinham hora certa para comer, que cozinhavam
arroz e feijão, possuíam panelas, facões e armas de fogo.

Soeitxawe
86 Rubens Naraikoe Surui

Havendo um período de certa tranquilidade até a década de 60, quan-


do reiniciaram os confrontos com os nãos índios, o que trouxe a morte e
perseguições, os impedindo de manterem seus roçados. Parte do territó-
rio tradicional, onde existiam as antigas aldeias e malocas ficaram de fora
da atual demarcação. Com a pressão sofrida pelas frentes colonizadoras,
e cansados de tantas guerras, os Paiter se sentiram tentados pela presença
amistosa de funcionários da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, que
lhes ofereciam presentes tais como facas, facões, machados (FIG.04).
No dia 07 de Setembro de 1969 na aldeia Nambekô-dabadaqui-ba (o
lugar onde os facões foram pendurados), hoje Posto Indígena Sete de
Setembro deu-se o primeiro contato com a FUNAI, passando os Paiter,
com uma população calculada em aproximadamente 600 a 700 indiví-
duos, a viverem próximo aos Postos Indígenas.
Entre 1971 a 1974 contraem sarampo, gripe e turbeculose, que dizi-
mou aproximadamente 300 pessoas, reduzindo a população à metade.
Alguns indígenas relatam que “Francisco Meirelles trouxe a amizade e
os presentes como facões, facas, etc, mas que na ponta destes trouxe a
desgraça e a morte” (FIG 05).

Figura 04: O primeiro Contato/Jesco, 1969.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 87

Figura 05: O local onde os facões foram pendurados/Jesco, 1969.

3.2 As Invasões

De 1971 a 1981 há uma sucessão de choques armados entre Paiter


Surui e invasores, calcula-se que havia cerca de mil famílias na terra indí-
gena, e o INCRA Instituto de Colonização e Reforma Agrária, promovia
e estimulava a entrada de imigrantes em Rondônia e no território indíge-
na.
Passam a existir vários conflitos a ponto do Governador do Territó-
rio de Rondônia Sr. Humberto da Silva Guedes, o Ministro do Interior
Sr. Rangel Reis, o presidente da FUNAI, Sr. Ismarth de Araújo e o Co-
ordenador de Projetos do Instituto Nacional de Reforma Agrária – IN-
CRA, Sr. Hélio de Palma Arruda se deslocarem da terra indígena para
fazerem com que os indígenas se acalmassem com promessas de demar-
cação dos limites da terra.

Soeitxawe
88 Rubens Naraikoe Surui

Ao demarcar o Governo diminuir o território em sua parte sul, mes-


mo assim foi necessário o apoio policial para impedir os invasores de
entrarem em conflito com os Paiter Surui.
Em 1978 os invasores fecham a estrada de Riozinho até o Posto In-
dígena Sete de Setembro, impedindo a entrada de funcionários e veículos
da FUNAI, o que gera atrito entre os índios e os invasores (Kanindé,
2008).
O Exército participa da demarcação são cadastrados 652 pessoas
num total de 169 famílias para serem retiradas da terra indígena. Em
1979 se acentuam as invasões na parte sul do território e em 1980 os
indígenas ameaçam expulsar os invasores diante da falta de providencias
do Governo Brasileiro.
No mês de outubro de 1980 os Paiter Surui expulsam os invasores,
fazendo com que os mesmos saiam despidos e sem armas de suas terras.
A partir de 1981 todos os invasores haviam sido expulsos, passando os
Paiter a viverem em aldeias, formadas onde havia as plantações de café
deixadas pelos invasores.
Nos anos seguintes 1982 a 1986 se inicia o Programa de Desenvolvi-
mento Integrado do Noroeste do Brasil (POLONOROESTE), onde há
o investimento de 1,55 bilhões de dólares, onde apenas 2,5% seriam para
o componente ambiental e 1,4% para o indígena. Nos acordos contratu-
ais o Governo Federal e o Governo de Rondônia, assumem o compro-
misso de proteção das áreas legalmente definidas como reservas (Em-
préstimo nº 2060-BR).
O Território Federal de Rondônia se transforma economicamente e
recebe aproximadamente 200 mil imigrantes por ano, trazendo consigo
as madeireiras, empresas mineradoras, especuladores e grileiros de terra e
inúmeras invasões e desmatamento nas terras indígenas. A terra dos
Paiter é novamente invadida, causando a desorganização social e o au-
mento de doenças de forma assustadora.
A partir de 1984, a FUNAI promove a entrada de mineradoras na
Terra Indígena da Cinta Larga e as madeireiras nas terras indígenas dos
Mequéns, todas próximas à terra indígena dos Paiter.
Com uma política indigenista nacional contrária aos direitos e interes-
ses dos índios, em 1986 o Presidente da FUNAI defende abertamente a
exploração de madeira em terra indígena e assina contratos ilegais com

Soeitxawe
Labiway EY SAD 89

madeireiras. Nessa mesma época a Terra dos Zoró e Cinta Larga são
invadidas por madeireiras e fazendas, sem que a FUNAI tomasse ne-
nhuma providência.
Alegando não dispor de orçamento para atender a saúde e a comerci-
alização dos produtos dos Paiter, em 1987 os funcionários da FUNAI
persuadem algumas lideranças indígenas a venderem madeira. Esta venda
era feita sem controle e calcula-se que aproximadamente dois milhões de
dólares em madeira tenha sido retirado da área indígena (CEDI, 1992).
As principais madeireiras que atuaram no período de 1987 a 1991, re-
tirando apenas mogno foram:

x Imperial – Lence e Moschen;


x Gralha Azul – Sebastião Fiorotti;
x Magral – Sebastião Fiorotti;
x Imperador;
x E.G.P. Fênix;
x Espírito Santo;
x Imatal – Fernando J. Matana;
x Meridional;
x Noroeste;
x Turatti – Família Turatti;
x FAB. Ind. E Com. De Cabos P. Branca;
x José da Mercantil;
x Donizeti Fernandes.

O incentivo da FUNAI à venda de madeireira e minério não tinha


justificativa, já que o Programa POLONOROESTE havia investido no
Parque do Aripuanã entre dois a quatro milhões de dólares, sendo que,
parte investida na terra indígena Sete de Setembro, na construção de
enfermarias, estradas, veículos, contratação de médicos, enfermeiras e
auxiliares de enfermagem, aquisição de medicamentos, exames laborato-
riais entre outros benefícios.
Apesar de todo este investimento, ao término do POLONOROES-
TE os índios estavam desassistidos, devido à má administração de recur-

Soeitxawe
90 Rubens Naraikoe Surui

sos por parte da FUNAI, que não promoveu a assistência à saúde e ainda
introduziu um padrão alimentar baseado em arroz, feijão e açúcar, ge-
rando nos Paiter Surui uma nova forma de plantar e um novo costume
com horas marcadas para as atividades alimentares, recreação e plantio.
Com novos hábitos sobrava pouco tempo para caçar, pescar e realizar
as festas tradicionais. Os índios em péssimas condições de saúde procu-
ravam assistência nos hospitais de Cacoal e na Casa do Índio em Riozi-
nho. Em condições precárias era fácil render-se ao engodo dos madeirei-
ros e funcionários corruptos.
Apesar de todas as dificuldades em 1988, as lideranças Paiter Surui
investiram contra os madeireiros e criaram a Associação Metareilá do
Povo Indígena Paiter, que tem como objetivo a defesa dos direitos indí-
genas.
A organização expulsa os madeireiros da Terra Indígena, destituir as
lideranças que vendiam madeira e escolhem lideres compromissado com
a defesa do meio ambiente. Esta não foi uma decisão fácil, pois significa-
va ter menos dinheiro e “benefícios” aos quais já estavam acostumados.
Passam a defender junto aos demais povos indígenas do Estado à pre-
servação dos recursos naturais, fazendo declarações públicas em jornais
contra a venda ilegal de madeira.
Durante o ano de 1988 a 1990 não há venda de madeira com a coni-
vência indígena. No entanto, a partir de 1991, sem apoio as suas ativida-
des e sem recursos para dar atendimento às necessidades da comunidade
a Metareilá perde poder e os líderes voltam a fazer acordo com madeirei-
ros, sendo os principais madeireiros a roubarem madeira com a permis-
são dos índios e omissão da FUNAI:

x Zaquel da Silva;
x Toreiro Clemente;
x Toreiro Zildem;
x Toreiro Sidney;
x Toreiro Carlinhos;
x Isac Félix.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 91

Desde 1999, os Paiter Surui vêm investindo em estudos e pesquisas


com seus parceiros buscando uma saída para os problemas dos indíge-
nas. Realizando diagnósticos, etnozoneamento, etnomapeamento, Plano
de Gestão, todos voltados para a conservação dos recursos naturais, o
desenvolvimento econômico sustentável e valorização cultural, o que
tem contribuído para melhorar a qualidade de vida do povo.
A Associação Metareilá do Povo Indígena Surui procurou acompa-
nhar a execução de projetos governamentais, tais como o PLANAFLO-
RO e o Projeto Úmidas, bem como as políticas nacional e regional sobre
a saúde, educação, a terra, e demais assuntos se referem à questão indí-
gena. Isto exigiu esforços e principalmente recursos, que foram tirados
dos bolsos dos diretores, trazendo muitas vezes dificuldades de acompa-
nhamento por falta de dinheiro para deslocamento, alimentação e hos-
pedagem.
A Metareilá procurou promover a formação e informação das lide-
ranças indígenas na construção de sua autonomia, incentivou a economia
tradicional e alternativa econômica de forma sustentável ao meio ambi-
ente. Buscou articular-se com organizações indígenas nacionais e inter-
nacionais, procurando sempre fortalecer os direitos indígenas.
A participação dos Paiter no acompanhamento do PLANAFLORO
foi decisiva para garantir que o povo indígena de Rondônia pudesse
apresentar projetos ao Programa de Apoio a Iniciativa Comunitária –
PAIC/PLANAFLORO.
Desde 1995 até os momentos atuais (2014) os Paiter Surui vêm de-
senvolvendo projetos de proteção territorial, de reflorestamentos, de
venda de produção agrícola e artesanato e um projeto de Carbono, sendo
este o primeiro projeto indígena no Brasil a negociar venda de emissões
de carbono.
Os Paiter têm realizado parcerias com instituições estaduais, munici-
pais e entidades não governamentais, entre os principais parceiros encon-
tram-se a KANINDÉ – Associação de Defesa Etno Ambiental, ECAM
– Equipe de Conservação da Amazonia, Forest Trends, Empresa Natura.

Soeitxawe
92 Rubens Naraikoe Surui

4. Código e Normas Paiter Surui

O estudo no ramo do direito nos mostra que as normas jurídicas re-


conhecem a existência e os direitos dos povos indígenas, e que existe o
direito objetivo e o subjetivo, o direito positivo e o direito consuetudiná-
rio. Onde a fonte do direito são as leis, os princípios gerais, a doutrina, a
jurisprudência e os costumes. Desta forma, temos claro que há diferença
entre o direito indígena e o direito indigenista.
O direito indigenista é um ramo do direito que congrega o conjunto
de leis, princípios e demais atos normativos que tem por objetivo regular
questões que dizem respeito aos povos indígenas. Portanto, é abordado
alguns princípios dos seus direitos originais que devem orientar esse
direito positivo quando de sua regulação aos povos indígenas, visto que
estes já possuem também suas instituições próprias de resolver seus con-
flitos internos e formas próprias de se organizar.
Neste sentido o Código e Normas Paiter Surui, atende a Constituição
Federal de 1988 afirma o artigo 231 […] “São reconhecidos aos índios
sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direi-
tos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam […]”.
Já a Convenção 169 faz referência à Declaração Universal dos Direi-
tos Humanos de 1948, aos Pactos Internacionais dos Direitos Civis e
Políticos – PIDCP, e dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais –
PIDESC, de 1966, e destacam: "Todos os povos têm direito à autode-
terminação. Em virtude desse direito determinam livremente seu estatuto
político e asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social
e cultural".
Assim, o Direito Internacional, traz o conceito de autodeterminação
dos povos que se vincula ao reconhecimento da existência dos povos e
da preservação de suas identidades culturais. O reconhecimento se es-
tende a forma como os povos indígenas tratam suas autoridades e seu
sistema de governança.
O sistema de governança do povo indígena Paiter Surui, busca man-
ter os usos e costumes deste povo Paiter Surui garantindo na Constitui-
ção Federal de 1988 e no direito internacional. A seguir veremos como
funciona o Sistema de Governança dos Paiter Surui.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 93

4.1 Labiway EY SAD – Sistema De Governança Paiter Surui

O Labiway Ey Sad Paiter Surui é o primeiro parlamento indígena no


Brasil. É a instância responsável por promover o diálogo entre as 4 (qua-
tro) linhagens clânicas, a saber, Gamep, Kaban, Makor e Gapmir, que
formam a totalidade do povo Paiter.
A primeira reunião para decidir se os Paiter Surui tornariam acessíveis
seus usos e costumes, ocorreu no auditório da Associação Metareilá do
Povo Indígena Surui em 16 de fevereiro de 2011, onde foi esclarecido
que se tratava de uma estrutura cultural, tradicional, voltada para os Pai-
ter, e que não podia ser confundida com uma estrutura como a do Go-
verno Brasileiro (CARDOZO, 2013).
Estes esclarecimentos foram importantes para evitar futuras interpre-
tações de que os indígenas estavam propondo se separar do Brasil. O
líder Almir Narayamoga Surui explicou a todos, que o território indígena
pertence ao Brasil e os Paiter Surui são brasileiros natos e eles estavam
tratando do Sistema de Governança ancestral, garantido pela Constitui-
ção Federal (FIG 06).

Figura 06: Líder Maior do Povo Paiter Surui discursando no Labiway


Ey Sad/TPizer, 2013.

Soeitxawe
94 Rubens Naraikoe Surui

Diante do fato que alguns jovens desconheciam alguns costumes, foi


decidido que seriam criadas comissões para sentar com os mais velhos e
os jovens para que estes repassassem como eram os códigos, normas,
uso e costumes dos Paiter Surui antes do contato, e o que foi sendo mo-
dificados pós-contato. Estas comissões coletaram as informações, discu-
tiram, analisaram e anotaram o que seria inserido no Código e Normas
Paiter Surui (CARDOZO, 2013).
Em Novembro de 2010 os Paiter Surui publicaram uma Carta de
Princípios, que trazia desde a composição dos Labiway Ey Sad em espe-
cial os princípios que geriam o Sistema de Governança do povo. O Pa-
matot Ey é composto pelo Conselho de Anciões que é a instância supe-
rior de sabedoria, os Labiway Ey que são representantes escolhidos pela
população e o Labiway Esaga.
Os princípios do Labiway Ey Sad são:

1. Principio da União e Integração;


2. Principio da proteção do território tradicional e da gestão sus-
tentável;
3. Principio do fortalecimento do conhecimento tradicional;
4. Principio da ampla participação.

Conforme citado por Cardozo (2013), o Labiway Ey Sad assegura os


princípios fundamentais do povo Paiter Surui que são:

I. A autodenominação Paiter Surui deve ser respeitada por todos;


II. A língua Paiter Surui (Tupi Mondé) deve ser preservada e falada
por todos;
III. O território e a ancestralidade são os princípios norteadores da
cultura Paiter Surui;
IV. Preservação da Cultura Paiter Surui;
V. Respeito às crenças e espiritualidade tradicionais;
VI. A união e solidariedade entre o Povo Paiter Surui devem ser
preservadas, especialmente quando da elaboração de planos e
propostas;

Soeitxawe
Labiway EY SAD 95

VII. Solidariedade entre os clãs Gamep, Gapmir, Makor e Kaban;


VIII. Solidariedade com outros povos indígenas e não indígenas;
IX. Lutar pela paz para todos os povos;
X. Respeitar os direitos dos povos indígenas;
XI. Respeitar a vida das pessoas, dos animais e da floresta;
XII. Valorização e utilização da medicina tradicional;
XIII. Valorização e utilização do conhecimento tradicional;
XIV. A comunidade deve respeitar as decisões dos labiway, labiway
esaga e conselho dos anciões;
XV. Respeitar o etnozoneamento da Terra Indígena Paiterey Garah
(Terra Sete de Setembro);
XVI. Manutenção da tradição educacional;
XVII. Todo Paiter Surui tem direito a participar nos espaços de decisão
do povo.
XVIII. A economia Paiter Suruí deve considerar os valores culturais e a
relação de respeito com a natureza;
XIX. A economia Paiter Suruí está baseada na produção coletiva, soli-
dária e proveniente da autogestão.

Vimos que os princípios e a representação da organização social dos


Paiter Surui no labiway Ey Sab demonstram a unidade do povo (CAR-
DOZO, 2013).
Os Pamatod Ey (Conselhos de clãs) anciões são a sabedoria do povo;
o Labiway Ey detém o conhecimento sobre a cultura indígena e não
indígena; o Labiway Esaga (líder maior) representa a vontade e direcio-
namento dado pelo Pamatod Ey e Labiway Ey, e para assessorá-los exis-
tem as associações indígenas, e juntos são uma unidade representativa do
povo (FIG 07).


Soeitxawe
96 Rubens Naraikoe Surui


Figura 07: Estrutura Sistema de Governança Paiter Surui.
Fonte: CARDOZO, 2013

O Labiway Ey Sad demonstram como se dar a organização dos Paiter


Surui e como estes pós-contato reinventam sua organização política, com
base em seus clãs, sendo fonte inesgotável de estudos para quem tem
interesse em legislação indígena (RODRIGUES, 2012).

4.2. Saúde Paiter Surui

O atendimento à saúde indígena nunca respeitou os usos e costumes


indígenas como determina a Constituição Federal. O Estado sempre foi
assistencialista, mesmo havendo as Conferencias de Saúde Indígena,
onde estes colocaram a necessidade de respeitar os costumes dos povos.
Embora haja os Distritos Sanitários de Saúde Indígena, que deveriam
ter um atendimento diferenciado, isto não ocorre e os indígenas são

Soeitxawe
Labiway EY SAD 97

atendidos pelos SUS – Sistema Único de Saúde como qualquer cidadão,


não havendo diferenciação, nem respeito à cultura.

“No caso da saúde indígena este conceito implica em considerar:


que a saúde das nações indígenas é determinada num espaço e
tempo histórico e na particularidade do seu contato com a socie-
dade nacional, pela forma de ocupação do seu território e adja-
cências; que a autonomia, a posse territorial e o uso exclusivo pe-
las nações indígenas dos recursos naturais do solo e subsolo, de
acordo com as necessidades e especificidades etnoculturais de ca-
da nação, bem como a integridade dos seus ecossistemas específi-
cos, sejam assegurados e garantidos; que a cidadania plena, asse-
gurando todos os direitos constitucionais, seja reconhecida como
determinante do estado de saúde; que o acesso das nações indí-
genas às ações e serviços de saúde, bem como sua participação na
organização, gestão e controle dos mesmos, respeitadas as especi-
ficidades etnoculturais e de localização geográfica, é dever do Es-
tado. (...) assegurar o respeito e o reconhecimento das formas di-
ferenciadas das nações indígenas no cuidado com a saúde; ao ní-
vel local, os serviços devem fundamentar-se na estratégia da aten-
ção primária à saúde, respeitando as especificidades etnoculturais
das nações envolvidas. (...) estímulo à formação de pessoal em sa-
úde, nas próprias comunidades envolvidas, dos diversos níveis
(agentes de saúde, auxiliares de enfermagem, enfermeiros, etc.)
que a remuneração de agentes de saúde indígenas deve obedecer
aos critérios e definições das comunidades a que pertencem os
mesmos; garantia de vagas para pessoas indígenas em Universi-
dades Públicas brasileiras, nos cursos de formação de saúde, à
semelhança dos convênios de cooperação internacional já em prá-
tica (I Conferência Nacional de Proteção à Saúde do Índio,
1986).”

O Código e Normas Paiter Surui busca fortalecer a maneira tradicio-


nal de tratar a saúde indígena e alia a esta a segurança alimentar do povo
indígena e definir três princípios:

I. Valorizar e utilizar a medicina tradicional do povo Paiter Surui;

Soeitxawe
98 Rubens Naraikoe Surui

II. Valorizar e utilizar o conhecimento tradicional do povo Paiter


Surui;
III. Valorizar os rituais de cura;

Neste caso o Código e Normas está de acordo com a Constituição


Federal, pois valoriza os usos e costumes ancestrais.
Há ainda o reconhecimento dos novos tempos pós contato, trazendo
a proibição ao uso de agrotóxicos, represamento dos corpos d’ água,
construções que prejudiquem os rios, igarapés e nascentes.
Traz como deve ser a formação sobre o uso do lixo e a necessidade
de se ensinar sobre higiene ambiental.

4.3. Meio Ambiente

A gestão ambiental e territorial no Código e Normas Paiter Surui es-


tão de acordo com o que diz a PNGATI – Política Nacional de Gestão
Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (Decreto nº 7.747 de 05 de
junho de 2012):

Art.3º São diretrizes da PNGATI:


I - reconhecimento e respeito às crenças, usos, costumes, línguas,
tradições e especificidades de cada povo indígena.

E o que diz o Art. 2º:


Art. 2º São ferramentas para a gestão territorial e ambiental de terras
indígenas o etnomapeamento e o etnozoneamento.
Parágrafo único. Para fins deste Decreto, consideram-se:
I - Etnomapeamento: mapeamento participativo das áreas de rele-
vância ambiental, sociocultural e produtiva para os povos indí-
genas, com base nos conhecimentos e saberes indígenas;
II – Etnozoneamento: instrumento de planejamento participativo
que visa à categorização de áreas de relevância ambiental, socio-
cultural e produtiva para os povos indígenas, desenvolvido a
partir do etnomapeamento.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 99

No caso do etnozoneamento no Código este é um dever dos Paiter


Surui respeitar.

4.4. Economia e Uso dos Recursos Naturais

O Código e Normas Paiter Surui tem como princípio o desenvolvi-


mento econômico sustentável, o que está de acordo com a PNGATI:
Art. 1º Fica instituída a Política Nacional de Gestão Territorial e Am-
biental de Terras Indígenas - PNGATI, com o objetivo de garantir e
promover a proteção, a recuperação, a conservação e o uso sustentável
dos recursos naturais das terras e territórios indígenas, assegurando a
integridade do patrimônio indígena, a melhoria da qualidade de vida e as
condições plenas de reprodução física e cultural das atuais e futuras gera-
ções dos povos indígenas, respeitando sua autonomia sociocultural, nos
termos da legislação vigente.

4.5. Educação Cultura e Religiosidade

Os Paiter Surui vêm buscando unir o conhecimento tradicional e o


conhecimento acadêmico cientifica, e que realmente se implante uma
formação diferenciada, que valorize o conhecimento indígena.
O Código e Normas Paiter Surui mantém o princípio de valorização
de educação tradicional e da espiritualidade indígena, que são colocados
como princípios norteadores do povo.
O que se percebe é que os Paiter Surui estão de acordo com o que diz
o artigo 210 da Constituição Federal de 1988 e a LDB – Lei de Diretriz e
Base de 1996, que traz o respeito à cultura e a forma tradicional de
aprendizagem indígena.

Soeitxawe
100 Rubens Naraikoe Surui

4.6. Fortalecimento Institucional

O fortalecimento das instituições Paiter Surui, é colocado necessário


para o respeito aos princípios instituídos pelo povo indígena entre estes
os de respeito ao próximo e ao Sistema de Governança Paiter Surui.

4.7. Composição Do Labiway EY SAD

O Labiway Ey Sad é composto por:


¾ O Pamatod Ey (Conselho dos Anciãos) instância superior de sa-
bedoria, que possui 3 (três) representantes de cada clã que forma
12 pessoas;
¾ Labiway Esaga que é o líder maior do povo;
¾ Labiway Ey representado por 10 membros eleitos nas aldeias.
¾ O mandato dos Pamatod Ey é vitalício, sendo substituído por
outro ancião indicado pelo seu clã em caso de impedimento ou
renúncia.

4.8. Pamatod EY (Conselhos De Clãs)

O Pamatod Ey é os Conselhos dos Ançiões, instancia superior de sa-


bedoria. É formada por 3 (três) representantes de cada clã Paiter, totali-
zando 12 (doze) integrantes.
Pamatod Ey são um grupo de conselhos de anciões, grupo de lideres
que tem uma visão do geral. Tanto da integração do Paiter no contexto
de hoje quanto do contexto do passado, sendo dessa forma, o papel
deles é cuidar com carinho de toda a estrutura do povo surui.

4.9. Atribuição Pamatod EY

Orientar o povo em especial os lideres e os jovens Paiter Surui sobre


o universo social e político tradicional.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 101

Orientar o Labiway esaga e Labiway-ey sobre as questões que afetam


o povo Paiter Surui para que estes possam liderar para o beneficio do
povo.
Promover a resolução de conflitos que houver entre o povo e caso
haja entre os Labiway Ey.

4.10. Labiway Esagah (Líder Maior do Povo Paiter)

O Labiway Esagah é o Líder Maior do Povo Paiter e Presidente do


Labiway Ey Sad. Este é escolhido pelo Pamatod Ey e um Labiway Aãh-
led, que substituirá o Labiway em caso de sua ausência, renúncia, impe-
dimento ou substituição.
Este presidirá as reuniões e assembleias, faz a representação na políti-
ca interna e externa e orienta o povo indígena.
Para o líder maior do povo Suruí a nova estrutura de organização tem
possibilidades de respeitar os outros e ao mesmo tempo ser respeitados.
Por isso e muito bom tratar de novos planos com visão de construção de
um futuro para o povo. Com essa organização também terá possibilidade
de acompanhar o sistema do governo brasileiro e outras políticas públi-
cas. O povo Paiter Surui está avançando aos poucos na organização
política, pois quando foram contatados pelos não índios, nunca imagina-
ram que este momento chegaria que o povo sempre teve o conhecimen-
to tradicional, mas nos dias atuais, precisam estar preparados e adaptar a
política dos não índios. O ideal mesmo seria que as políticas públicas
cheguem até a comunidade indígena e não os indígenas chegarem até as
políticas públicas. Portanto, o povo precisa usar a política do homem
branco, sem deixar a nossa que é tradicional.

4.11. Labiway EY

O Labiway Ey são representantes indicados pelo povo, escolhidos 02


representantes por zona para compor o Labiway Ey, sendo 04 candida-
tos por zonas sendo 01 de cada clã.

Soeitxawe
102 Rubens Naraikoe Surui

O Povo Paiter Surui reunirá ordinariamente a cada 5 (cinco) anos, pa-


ra escolha dos Labiway Ey e extraordinariamente sempre que necessário.

4.12 Competem aos Labiway Ey

I - Integrar as Comissões Temáticas para regulamentar a organização


e convivência dos Paiter, definindo os direitos e deveres de to-
dos os integrantes do povo e específicos das mulheres, crianças
e idosos e criar diretrizes para as ações de interesse do povo Pai-
ter;
II - Definir, juntamente com o Labiway Esaga, estratégias para o al-
cance dos objetivos e metas do Plano de Gestão de 50 Anos Pai-
ter;
III - Avaliar e acompanhar a execução de projetos e atividades das
associações, grupos ou pessoas Paiter de modo a garantir que es-
tejam de acordo com as diretrizes e estratégias traçadas pelo Par-
lamento, que sejam bem executadas e não deponham contra a
imagem do Povo Paiter;
IV - Aprovar declarações ou ações que visem o fortalecimento de lu-
tas em questões de interesse do Povo Paiter e dos povos indíge-
nas em geral;
V - Manter diálogo constante com as aldeias que representam para
levar às sessões do Parlamento as suas reivindicações e mantê-las
informadas sobre as decisões tomadas e ações desenvolvidas;
VI - Escolher alguns Labiway-ey para acompanhar as discussões ex-
ternas a serem feitas pelo Labiway Esaga a fim de construírem
também sua experiência na política dos não índios.

O Labiway Ey Sad vem funcionando com os Paiter Surui buscando


valorizar sua cultura e trabalhar com os dois conhecimentos, o indígena e
o do não indígena.
Neste caminhar estes tem buscado entender os códigos da sociedade
brasileira, que nem sempre estão de acordo com os códigos da sociedade

Soeitxawe
Labiway EY SAD 103

indígena, além de tentar exercer autonomamente seus direitos, já que


apesar de estar garantido na Constituição Federal de 1988, o governo via
a FUNAI e outros órgãos governamentais buscam minimizar estes direi-
tos, interferindo nas decisões indígenas.
A falta de conhecimento dos funcionários públicos sobre os usos e
costumes indígenas, e mesmo o fato de a grande maioria destes servido-
res não conhecerem a própria legislação brasileira (indigenista), tem sido
uma das maiores dificuldades para os Paiter Surui exercerem seus direi-
tos.
A importância do Curso de Direito na UNIRON, trabalhar com a le-
gislação indigenista e a indígena certamente contribuirá para que se possa
avançar na implementação da Constituição Federal, e para realmente se
respeitar os usos e costumes indígenas.

Conclusão

Os estudos realizados sobre a legislação indigenista nos mostraram as


diversas transformações jurídicas no que se referem aos direitos indíge-
nas no Brasil, também nos mostraram que não existe registro dos códi-
gos e normas indígenas, sendo o Código e Normas Paiter Surui um
avanço para que se possam conhecer os usos e costumes do povo Paiter
Surui.
A publicação do Código e Normas Paiter Surui contribuirá para man-
ter o patrimônio cultural indígena e servirá para que se possam acompa-
nhar as transformações no uso e costumes deste povo.
Os estudos mostraram que o Labiway Ey Sad traz a unicidade do po-
vo indígena, informações sobre educação, saúde, economia, cultura e
meio ambiente dos Paiter Surui, dados estes que podem ser utilizados na
educação escolar indígena e nos cursos de Direito.
Esse conhecimento sobre a legislação indígena sendo estudado nas
salas de aula pode ser uma maneira de respeitar e valorizar o conheci-
mento indígena, de modo que possamos contribuir na orientação sobre
as transformações sócio culturais por que passam os povos indígenas e
desta forma diminuir o preconceito, que muitas das vezes tem origem no
desconhecimento da cultura indígena.

Soeitxawe
104 Rubens Naraikoe Surui

Outra contribuição para o direito é que o respeito ao conhecimento


indígena passa a ser utilizado não em suposição de como se dar uma
decisão, mas baseada em estudo dos códigos e normas indígena e não
indigenista o que ganha legitimidade nas decisões, que passam a ter com-
provação científica e não no que é mera suposição ou normas e leis escri-
tas por não indígenas, sendo garantido o protagonismo indígena e o uso
de dois conhecimentos importantes para a humanidade – conhecimento
indígena e cientifico e tecnológico, respeitando o que diz a Constituição
Federal de 1988 e as leis internacionais de garantia dos direitos humanos.
A legislação indígena e a indigenista, juntas poderão ser estudadas e
utilizadas com respeito aos direitos dos cidadãos indígenas, introduzir na
sociedade brasileira a garantia dos direitos, melhorar o diálogo entre
sociedades ocidentais e indígenas, gerando decisões na justiça que respei-
tem as diferenças culturais garantidas nas leis brasileiras.
A identificação e publicação de códigos e normas de outros povos
indígenas são importantes para aumentar o conhecimento sobre os direi-
tos indígenas e no auxílio aos legisladores quando estes tiverem que to-
mar decisões em tribunais.
Os Paiter Surui são exemplo de sociedade preocupada com sua cultu-
ra e as transformações que esta vem sofrendo. A decisão de registrar
parte de seu código, normas e costumes demonstra o compromisso deste
povo em manter seus conhecimentos, direitos ancestrais e os adquiridos
em 45 anos de contato com a sociedade brasileira, além de contribuir
com a legislação brasileira a implementar o que diz a Constituição Fede-
ral de 1988 e ajudar os legisladores nas tomadas de decisão quando trata-
rem da questão.
Estudar o Código e Normas Paiter Surui me ajudou a entender como
a legislação brasileira pouco conhece dos povos indígenas, e a necessida-
de de aprofundamento do tema, ao qual me proponho no futuro.

Soeitxawe
Labiway EY SAD 105

Abreviaturas

ART - Artigo
CF - Constituição Federal
CP - Código Penal
CPP - Código de Processo Penal
CNJ - Conselho Nacional de Justiça
FUNAI - Fundação Nacional do Índio
GAMEB - Linhagem clânica dos Paiter Suruí (O povo do marim-
bondo preto)
GABGIR - Linhagem clânica dos Paiter Suruí (O povo do marim-
bondo amarelo)
KABAN - Linhagem clânica dos Paiter Suruí (O povo da frutinha
Kaban)
KABANEY - Associação do Povo Indígena Kabaney Suruí
KANINDÉ - Associação de Defesa Etno Ambiental
MAKÓR - Linhagem clânica dos Paiter Suruí (O povo da taquara)
MMA - Ministério do Meio Ambiente
METAREILÁ - Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí
ONU - Organização das Nações Unidas
PAMAUR - Associação de Proteção ao clã Makor do Povo Indígena
Suruí
SPI - Serviço de Proteção ao Índio
TI - Terra Indígena
TISS - Terra Indígena Sete de Setembro
TJ - Tribunal de Justiça
STF – Supremo Tribunal Federal
STJ – Superior Tribunal de Justiça

Soeitxawe
106 Rubens Naraikoe Surui

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Soeitxawe
108 Rubens Naraikoe Surui

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do em 19 de outubro de 2014.
<http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/1602/Os-indios-
em-face-a-Constituicao-Federal-88>. Acessado em 19 de outubro
de 2014.

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia

“Para mi solo recorrer los caminos


que tienen corazón,
cualquier camino que tenga corazon.
Por ahi yo recorro, y la única prueba que vale
es atravesar todo su largo.

Y por ahi yo recorro


mirando, mirando, sin alento”.

Carlos Castañeda
A Erva do Diabo

Regina Clara de Aguiar


Dra. em antropologia
USAL/ES e Jornalista UFPE

Resumo: O artigo trata de um estudo etnográfico do uso ritualístico da


ayahuasca, conhecida também como a Luz do Daime. O tema tem como foco o
"Centro de Irradiação Espiritual Casa de Jesus e Lar de Frei Manoel", localizado
na cidade de Ji-Paraná, no estado de Rondônia. O estudo envolve o sistema de
crenças e rituais daimista, levando em conta conceitos da Antropologia, sistemas
de crenças e rituais amazônicos.
Palavras-Chave: Religiosidade; Ayahuasca; Ritual.

O seguinte artigo traz informações recolhidas num templo daimista


no norte do Brasil. Aqui são apresentadas algumas impressões dessa
investigação de cunho etnográfico, realizada de outubro de 2014 a março
de 2015, no "Centro de Irradiação Espiritual Casa de Jesus e Lar de Frei
Manuel". A pesquisa está relacionada a um ritual dentro de um contexto
urbano, com a ingestão do chá da ayahuasca. De acordo com o
presidente/dirigente do centro, Edilson Fernandes da Silva, “o rito se
configura como uma prática religiosa universalista”. Mas o rito também possui
forte tendência a uma configuração ritualística sincrética e eclética.
110 Regina Clara de Aguiar

Vivendo na cidade de Ji-paraná, região amazônica rondoniense, em certa


ocasião, visitei o referido Centro onde acontecia um café da manhã estilo
colonial, constante no calendário anual de atividades da casa daimista,
popularmente conhecida por Barquinha, Igreja ou Missão.

Café colonial na Barquinha1



O evento é realizado em função da manutenção do Centro que está
localizado numa chácara em área urbana, num bairro afastado do
município, que é o segundo do estado de Rondônia.
Na medida em que houve uma aproximação com a casa, o dirigente e
os fiéis participantes, a pesquisa foi evoluindo para se conhecer
plenamente e espontaneamente, os procedimentos relacionados à
ingestão do chá considerado sagrado dentro de um ritual com a
ayahuasca, realizado num contexto urbano, adquirindo, portanto, uma
dimensão diferente dos ritos realizados por nossos ancestrais, pajés e
xamãs, em meio à floresta.


1 Todas as fotos contidas neste artigo são de autoria da própria autora.

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 111

A chácara é uma propriedade, encravada em área privada de reserva


florestal amazônica. O anfitrião explicou que antes faziam a coleta do
cipó de jagube e da folha da chacrona ou rainha, cuja liga destas duas
plantas produz a ayahuasca, diretamente na floresta, in natura, mas hoje
contam com uma produção própria que satisfaz a toda a comunidade
com cerca de 150 pés de cipó e uns 200 da chacrona.

Flor do cipó Jagube. Chácara Barquinha.

Por questões de tempo e outros compromissos o retorno à casa


daimista aconteceu após dois meses, no dia 4 de outubro de 2014, data
em homenagem a um dos santos católicos, São Francisco das Chagas, e
se pode observar que o ritual naquele dia tinha um tom bem especial, já
que o santo dentro da simbologia santeira da casa é homenageado com
uma celebração denominada de romaria.







Soeitxawe
112 Regina Clara de Aguiar

Reserva florestal amazônica. Chácara Barquinha.



Há uma curiosidade intensa em se tratando de um universo
cosmogônico bastante difundido em alguns estados da região amazônica
e que acontece ainda de forma discreta em comparação às outras práticas
religiosas consideradas mais comuns. Nesse sentido, a pesquisa leva em
conta desmistificar rituais com ingestão da substância sagrada dos
povos amazônicos, tendo como exemplo, a Barquinha, com sessões
ritualísticas que duram de quatro a dez horas, aproximadamente.
A princípio observa-se que o rito possui uma estrutura liminar, que
busca romper por meio dos dogmas ensinados, com uma ordem
presente no grupo, transformando o ato ritual, em um evento
significativo para o conjunto de trabalhadores da irmandade.
O objetivo principal da investigação foi centrado na observação
quanto à ingestão do chá no ritual, uma vez que tem conotação com o
sagrado e as diversas formas de atuação do êxtase, que nesse caso é
induzido por meio de substância considerada enteógeno. Sabemos que
existem numerosas técnicas de indução para se alcançar o estado de

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 113

êxtase ou percepção alterada, seja por mecanismos puramente de


manipulação da mente como yoga, meditação, danças, sons percussivos
que podem levar a um transe temporário além de drogas psicoativas e
psicotrópicas que atuam diretamente no funcionamento do cérebro.

Processo Ritualístico

A sessão tem início com o toque de um pequeno sino na entrada


principal do espaço templo em que se transforma o salão para os
trabalhos com o chá da ayahuasca. O dirigente, chamado por alguns fiéis
de padrinho, dar início a chamada e explica, que quando se bate a campa
é um aviso, é para vibrar. Tem uma nota musical que vibra e harmoniza
o ambiente.

São três toques, sendo o primeiro para chamar as pessoas a se


amalgamarem em volta da vibração. O segundo é para harmonizar as
pessoas que vão chegando e o terceiro para manter a vibração constante,

Soeitxawe
114 Regina Clara de Aguiar

“eu bato pammm, o pessoal já silencia, procura o caminho, o segundo tamm, o pessoal
tá na fila. O terceiro, eu to avisando que vou distribuir o Daime”2.

A beberagem que tem uma cor levemente marrom, com sabor forte,
é recebida das mãos do dirigente em pequenos copos de plástico, aonde
é dosada a quantidade do chá, dependendo de quem vai receber. Os
seguidores após ingerirem a bebida, tem sempre algum bombom à mão,
que já seguram sem a embalagem, para pôr na boca na intenção de cortar
o sabor amargo. Os participantes vão se aproximando silenciosamente da
igreja que tem paredes vazadas para que se aproveite ao máximo do
ambiente natural do lugar, circundado pela floresta. Vestem roupa branca
e formam filas em duas colunas. Os homens do lado esquerdo e as
mulheres do direito, incluindo as crianças que também ingerem a
ayahuasca e ficam na frente de todos nas filas. O último a beber é o
próprio dirigente. Esse momento solene da entrega sacramental da
ayahuasca pode ser interpretado como uma espécie de comunhão, a
exemplo da prática do rito final da missa no catolicismo. Mas ao

2Entrevista realizada na Barquinha de Ji-Paraná ou Centro de Irradiação Casa
de Jesus e Lar de Frei Manuel, no dia 08 de março de 2015, com o dirigente da
entidade, Edilson Fernandes da Silva.

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 115

contrário da celebração católica, é aí que começa a sessão daimista, no


caso específico do ritual do sacramento com a ayahuasca na Barquinha.

Circulando e observando na vivência e convivência com o grupo


daimista, surge uma impressão forte de ligação das dimensões
determinantes entre relações do sagrado e profano na cosmovisão do
Centro. De certa forma as tarefas espirituais já indicam a dimensão do
sagrado. Mas, o grupo também conta com todo um lado de práticas
profanas, quando realiza encontros casuais nas residências dos membros
da irmandade, além do café colonial aberto ao público em geral. E os
intervalos entre a sessão e o bailado, são momentos para se relaxar dos
trabalhos pesados com a espiritualidade; e é quando é oferecida uma
mesa farta aos crentes, e dependendo da data, também se parabeniza os
aniversariantes da ocasião.

Soeitxawe
116 Regina Clara de Aguiar

Obras de Caridade

É considerada a tarefa mais importante desenvolvida na casa,


acontecendo geralmente aos sábados em sessões normais e também em
datas comemorativas ou romarias, quando o ritual é dedicado às
festividades dos principais patronos: São Sebastião, S. José e São
Francisco. Nessas ocasiões o chá é distribuído normalmente, e em
seguida os adeptos recebem uma vela e se posicionam em filas na
entrada da chácara. Entoando hinos e orações, o santo homenageado é
levado num andor, em procissão de luz, até a mesa em formato de cruz,
onde é colocado para o início do rito.



Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 117

Soeitxawe
118 Regina Clara de Aguiar

Os frequentadores nessas reuniões de trabalhos, voltadas à


espiritualidade, tem toda uma orientação dos lugares onde deverão
sentar. Os homens se posicionam do lado direito e as mulheres do
esquerdo, de frente para o altar. O mestre ayahuasqueiro Fernandes, ao
ser indagado sobre o porquê da divisão de gêneros no seio do ritual, faz
uma verdadeira digressão do sentido de separar o homem da mulher, ou
o trabalhador da trabalhadora, durante os trabalhos no templo, pois
nessa relação de significados está contida toda uma simbologia, voltada
ao conjunto de dogmas e preceitos que compõem o ato ritualizado.
Segundo explica, isso funciona desde a criação do rito nos anos 30, com
o mestre Raimundo Irineu Serra, originário do Maranhão, que migrou
para o Acre vindo a ser o fundador da doutrina daimista em religiões não
indígenas.

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 119

A questão da separação por sexo tem dois sentidos, relacionados com


a divisão física entre o cipó e a folha, uma representa a rainha, que é a
mãe, que tem o carinho, o respeito, e é a portadora da paz. O homem é o
guerreiro portador da mensagem, quem traz a segurança e também a
rigidez. Enquanto um é duro, o outro é amoroso simbolizando também
a dualidade.

O mestre segue com a reflexão,



“Tem o lado masculino e o lado feminino, o positivo e o negativo... Porque a
divisão? Primeiro prá simbolizar as energias, que são diferentes. Segundo,
prá que ninguém, dentro da ritualidade... Isso já é um cuidado moral..., fique
acariciando sexualmente uma pessoa, sem necessidade. Porque quando a
pessoa tá dentro de um trabalho espiritual..., tem que tá estritamente voltada
à espiritualidade. O cipó e a folha... Simbolizam a terra e o céu... Ambos,
tanto o cipó como a folha tem o lado masculino e o lado feminino. Os quatro
elementos..., água, terra, fogo e ar. Então, a folha da chacrona e o cipó se
fundem, porque tem a parte humana e a parte divina. Tem a parte material e
a parte espiritual. Tá fundindo a terra pelo elemento fogo e o elemento água.
O elemento água simboliza a mulher, o feminino. O fogo o masculino.”

Soeitxawe
120 Regina Clara de Aguiar

(Entrevista com o dirigente da Barquinha Edilson Fernandes da


Silva).

Crianças Ayahuasqueiras

As crianças recebem o Daime na fila, antes dos adultos, obedecendo


a divisão de gêneros. Contam com seu próprio espaço na casa, onde se
alojam durante a sessão ritualística no salão principal. Após a ingestão do
chá elas se recolhem a esse quarto adaptado a uma cosmovisão infantil,
com ilustrações nas paredes, estantes contendo em suas prateleiras lápis
coloridos e papel, para quem quiser pintar e desenhar; livros e jogos
infantis; fantoches para se trabalhar os ensinamentos, dogmas e
doutrinas, pregados na casa, por meio do teatrinho de bonecos etc. E é aí
onde ficam mais a vontade, sob o efeito da beberagem. Brincam e
descarregam a energia “irradiada”, potencializada e sensibilizada com o
enteógeno, mas sempre sob os cuidados de um adulto. Quando uma
criança tem comportamento hiperativo, o adulto tem que impor a
ordem, a disciplina, para não incomodar os trabalhos em
desenvolvimento com a espiritualidade. Segundo o orientador espiritual
da casa, as crianças não tomam o mesmo Daime dos adultos. O transe
ou êxtase é proporcionado pelo poder das músicas, invocações e do
trabalho em que se encontram os adultos sob o efeito do chá, ou seja, é
uma espécie de irradiação indireta do Daime dos adultos. A ingestão é
mais simbólica com o intuito de inseri-los nos trabalhos da casa, uma vez
que estão sempre na companhia dos pais ou responsáveis.

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 121

Enquanto isso, no salão da igreja, os adeptos participam, em meio ao


silêncio, cantos e orações, do rito sincrético, eclético, universalista.
Fernandes afirma categoricamente, “o Daime não é religião, e sim, um
instrumento psíquico que ensina”. Neste momento do rito sagrado se pode
visualizar como os corpos sentados expressam contornos faciais e
movimentos com leves tremores das mãos e pernas, muitas vezes de
extrema sutileza, que só os olhos do observador mais atento, podem
captar, como a lente da câmera fotográfica; e se relacionam assim,
individualmente com o que esse Instrumento ensina, ou seja, a
experiência que abre a percepção e proporciona o estado alterado da
consciência em profundo êxtase; mesmo sendo uma manifestação
experimentada em grupo, o estado mental individualizado dentro do
ritual, adquire significados diferenciados, de acordo com a decodificação
de cada participante no grupão, coletivamente, dependendo da
subjetividade em lidar com a situação individualmente, nesses estados de
grande concentração. É normal se ouvir após o encerramento da sessão,
quando os participantes saem da viagem transcendental, do êxtase,
comentários como: o Daime estava muito forte hoje..., ufa!
Nesta intensa entrega dos crentes, vemos de vez em quando uma
criança correndo, imbuída do seu próprio êxtase infantil, em busca de

Soeitxawe
122 Regina Clara de Aguiar

um adulto, pai, mãe ou responsável. Podemos observar que seus corpos


e mentes em formação, de certa forma funcionam como uma repetição
de aparências e posturas dos adultos que convivem no espaço sagrado e
sacralizado pela ingestão do Daime.

Bailado

Acontece em alguns encontros marcados no calendário da casa, em


datas de celebrações festivas, sempre na segunda parte do ritual, após a
finalização e encerramento dos trabalhos no salão principal. As pessoas
presentes ajudam na adaptação do local quando é encerrada a sessão.
Recolhem as cadeiras e afastam a grande mesa central em forma de cruz,
transformando assim o espaço, numa metamorfose de “terreiro” ou
“parque” para as danças. Nesse sentido identifica-se uma demarcada
fronteira entre o sagrado e o profano, já que intermedia a divisão do ato
ritualizado. Nesse intervalo os adeptos se encaminham para o salão atrás
do ambiente da nave da igreja e ali se deparam com uma mesa posta, rica
com frutas, caldos, bolos, sanduiches, café, sucos etc. Iguarias que
segundo o orientador da casa reduz o efeito do enteógeno, por isso ele
fica vigilante e está sempre lembrando as pessoas para não comerem
muito. O Daime é distribuído novamente para inicio das danças.
Os pontos do hinário entoados aos mais diversos orixás, erês, pretos
velhos, botos, sereias etc., convidam os participantes, que para
executarem suas modalidades performáticas junto aos seres invisíveis e
deixarem seus corpos receberem essas irradiações, tem direito a uma
segunda dose do chá, que na ocasião é redistribuído à medida que os fiéis
sentem o chamado e a necessidade da substância para abrir o contato e a
conexão com o sagrado. A música vai pontuando a entrada das
entidades. Nesse momento do rito podemos observar fortes ingredientes
das religiões afro-brasileiras, a exemplo da umbanda, levemente
misturados com danças meditativas circulares e é quando ocorre a
categoria conceituada como miração, que é uma espécie de canal para a
comunicação com outros planos no mundo espiritual.
É curiosa a participação das crianças nesse espaço considerado
parque sagrado das danças, ou seja, na vivencia do “Bailado”, dançando

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 123

de maneira deslumbrante, misturadas aos adultos na transmutação


imaginária da festa. Participam intensamente, brincam, bailam soltas e
leves, e até cantam hinos com incrível entusiasmo e energia, ao
microfone. Os fieis por meio da música percussiva e sob o efeito do chá,
podem ou não vislumbrar a miração.

Fotos: Bailado. Barquinha em Ji-Paraná-RO. 19/03/2015.

O desenvolvimento performático dos crentes no Bailado vai criando


desenhos incríveis no cenário circular, dentro do quadrado e começa a se
impor com o ritmo da música percussiva, tambores, guitarras,
instrumentos de sopro, flautas, e vozes, muitas são tão estridentes que se
confundem com sons da mata que circunda o local. A duração atinge de
4 a 5 horas, quando se pode repetir o consumo da ayahuasca.

Soeitxawe
124 Regina Clara de Aguiar

Dentro desse enfoque a investigação congrega um sentido


antropológico que também contém indícios da comunicação não verbal,
observada com especificidade no Bailado. E se busca entender a grande
procura por essas casas de culto e oração que usam como intermediadora
e canal de comunicação com o sagrado, a ayahuasca, utilizada nos ritos
de ancestralidade entre os indígenas da região amazônica, levando em
conta que no Brasil questões relacionadas à hibridação cultural têm
revelado um verdadeiro sincretismo religioso, objeto de muitos estudos
no campo das Ciências Humanas e Sociais. Nesse sentido, a despeito da
formação do povo brasileiro, originário segundo Darcy Ribeiro, da
mistura de diversas raças e etnias, que foram se misturando ao longo do
tempo, desde os povos indígenas autóctones, ao europeu. E por último,
ao africano, trazido à força bruta em navios negreiros para a servidão e
escravidão. Esse fenômeno da diversidade de religiosidade no país se faz
legítimo se observarmos as diversas modalidades referentes às questões
da fé que marcaram momentos de conflitos, se hibridando e se
manifestando no decorrer dos séculos, passando pelo descobrimento,
colonização, república, até aos dias atuais. O fenômeno da fé no Brasil

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 125

tem sido a causa de verdadeiros palcos de lutas relacionadas com


manifestações de crenças e profetas que se auto identificam salvadores.
A princípio a intenção era simplesmente compreender empiricamente
as estruturas ritualísticas produzidas sob o efeito da ayahuasca que é
elaborada a partir da mescla de duas plantas de poder que produzem a
liga, considerada pelos etnobotânicos um enteógeno. E se pensou
observar de forma sutil o funcionamento e utilização do chá no ritual de
prática ayahuasqueira. Mas foi interessante poder verificar
posteriormente, após a imersão da observação direta, alguns efeitos
relativos à padronização com relação ao comportamento das pessoas,
assim como o sincretismo, ecletismo ou universalismo do rito, que vai
desde o catolicismo, culto pentecostal, passando pela maçonaria,
budismo, kardecismo, xamanismo, hinduísmo além de religiões de
origem africana, e os salmos que se aproximam aos mantras recitados em
religiões de matrizes no oriente.
A utilização da ayahuasca entre os povos tradicionais da Amazônia,
não é algo novo. Nesse sentido o trabalho de Wladimir Sena,
antropólogo que estudou a Barquinha matriz, com sede na cidade de Rio
Branco, capital do estado do Acre, serviu como obra de consulta e
suporte para um melhor entendimento sobre o tema. A Barquinha de Ji-
Paraná, existe desde o dia 13 de fevereiro de 1991 e atualmente conta
com cerca de 80 frequentadores assíduos, segundo afirmativa do
presidente/dirigente.
Atualmente há uma necessidade de se ampliar as perspectivas sobre
fenômenos voltados a questões envolvendo imaginário e sistemas de
crenças. A pesquisa em tela representa uma articulação no que diz
respeito a esses temas muitas vezes polêmicos, mas também visa a uma
contribuição especifica no campo cientifico brasileiro.
Observamos que essas entidades ayahuasqueiras enquanto grupos
sociais organizados visam inclusive a contribuir com um trabalho de
inclusão social e educação para a inserção no mercado de trabalho. Por
exemplo, no caso da “Barquinha” de Ji-Paraná, a casa recebe para
participar das sessões ritualísticas e outras atividades, apenados e
egressos presidiários, além de pessoas em plena recuperação de alguma
dependência química com psicoativos, para tratamento. Nesse caso
pode-se dizer que a entidade ayahuasqueira também funciona como uma

Soeitxawe
126 Regina Clara de Aguiar

espécie de hospital. O dirigente explica que a proposta dos trabalhos na


casa utilizando a ingestão do Daime está dividida em estruturas - corpo
(físico); imaginário mental (lógica); emocional (sentido); sensações,
conjunto mental e emocional (espiritual). E dogmas que se referem à
ética, educação moral, cívica, religiosa, ordem, leis, condutas, posturas,
além de uma busca dos seus fragmentos para retornar a unidade.
Sobre o apoio que vem oferecendo a Associação Cultural e de
Desenvolvimento do Apenado e Egresso - ACUDA, que faz um
trabalho com os apenados em Rondônia, reflete o dirigente espiritual
ayahuasqueiro, enfatizando que ele não é propriamente o projeto, mas
que faz parte de um projeto na medida em que pode ajudar pessoas à
margem da sociedade a ter uma recuperação mais digna e humana e
voltar ao convívio social. Conta que há quase três anos atrás, alguns
membros da ACUDA estiveram na Barquinha,

Vieram aqui, tomaram o Daime duas vezes, e aí viram como é que era a
casa. Aí, me perguntaram se eu estava disposto a receber os apenados aqui.
Eu prontamente disse, claro... isso aqui, meu filho, é uma igreja. A casa
aqui é de todos, pode vir quem quiser... Agora em torno de trinta apenados
vem aqui. O projeto na ACUDA atende cem... Mas não é obrigado a
tomar Daime, e nem é obrigado a vir aqui... Na associação tem oficina
mecânica, tecelagem, cerâmica, horta comunitária, granja... Além disso...
Terapia Ocupacional. Depois tem Reik, constelação familiar... É uma série
de coisas. Quando chega aqui... O apenado já chega aqui mansinho...,
aceitando a condição dele, a situação dele, e respeitando a doutrina...
Evolução? Claro. Até a cor deles muda, a cútis, a pele muda, o olhar deles
muda, a postura deles, o comportamento deles. Eles vêm meio arredios, depois
vão se libertando, eles vão se soltando, vão relaxando, vão se entrosando...
Ficam com todo mundo..., ninguém sabe quem é quem... É isso que eu quero
mesmo, que ninguém saiba quem é quem prá ninguém ter preconceito... Todos
eles participam..., inclusive a gente os agrega a família... (Entrevista com
o dirigente da Barquinha Edilson Fernandes da Silva).

Nesta relação espaço/tempo/cosmovisão há todo um ritual de


procedimentos antes e depois dos trabalhos, assim como uma divisão
das tarefas entre os participantes que atualmente vestem roupas brancas,
mas sem serem padronizadas, pois após a ruptura com a casa em Rio

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 127

Branco-Acre, a Barquinha de Ji-Paraná passou a ter uma maior


autonomia e nesse sentido foi desenhada uma nova farda e redistribuídos
os símbolos para o fardamento dos fiéis por ocasião das sessões. Mas os
crentes vestem o branco espontaneamente, normalmente as mulheres
usam saias amplas e confortáveis para o Bailado; e os homens, roupas
confeccionadas com tecidos leves e soltos.

Feitio do chá

A palavra ayahuasca é originária do quéchua e tem o significado ao pé


da letra, de ‘cipó do morto’ ou ‘cipó do espírito’. Recebe também outras
denominações tais como: daime, auasca, iagê, mariri e uasca.

Soeitxawe
128 Regina Clara de Aguiar

A partir de duas plantas de poder, típicas da região amazônica, é


produzida a poção visionária, considerada psicodélica, utilizada há
séculos pelos povos amazônicos. A liga consiste numa combinação que
une o caule do cipó jagube, (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona
(Psycotria viridis). Estes vegetais são cozidos dentro de um processo ritual
resultando na elaboração do chá sagrado. O dirigente diz que na
confecção do chá não se pode incluir outras plantas, por se tratar de uma
formula de produção milenar e afirma que existem algumas religiões
daimistas que fazem uso de outras substancias, mas o Conselho Nacional
Antidrogas - CONAD proíbe. Atualmente a ayahuasca é legitimada
apenas para uso dentro de rituais religiosos com a ingestão do chá.
Indagado sobre qual a melhor época da colheita dos vegetais, o
presidente Edilson Fernandes esclarece que depende muito do critério
do dirigente de cada trabalho, “eu por exemplo, tenho a lua certa para isso. Se
eu quero lua pra um tipo de trabalho é lua nova, pra outro tipo de trabalho é lua
minguante”. Diz que faz todo o trabalho de colheita e feitio do chá, pelo
calendário lunar, produzindo um Daime para cada categoria a ser
utilizada. Afirma que para o bailado produz um Daime mais suave. No
caso da ingestão em festividades como a romaria, é um Daime que não
vai abalar fisicamente a pessoa. Geralmente para a primeira vez oferece
apenas um pouquinho do chá, para que não ocorra mal estar, já que a

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 129

pessoa não conhece a reação física que poderá causar uma ingestão
irresponsável, sem critério. Para o feitio do chá há um ritual específico. E
toda uma preparação. Tudo é feito no espaço da igreja.
Não é mais necessário ir à floresta para a coleta do cipó e das folhas,
já que atualmente o plantio é próprio, no terreno da Barquinha, sendo
suficiente, pois na verdade é feita uma quantidade para oferecer às
pessoas, não para elas ficarem fora de si, mas para que abra a
sensibilidade, para que se possa entender um salmo, um hino, a
profundidade da palestra, que saibam que são médiuns de irradiação, que
possam receber e trabalhar com as entidades. E ter consciência, porque o
que se procura com a ingestão do chá, é o efeito benéfico que o Daime
pode produzir. A natureza sacralizou o Daime como um poder, os índios
já usavam desde muito tempo. A religião não sacralizou o Daime, muito
pelo contrário, ele veio sacralizar a ritualidade. Então o Daime é usado
nesse sentido, com o critério de que tenha uma energia positiva que faça
com que as pessoas se sintam bem, que possam aprender alguma coisa,
abrir os canais, e os chacras espirituais possam oferecer algum beneficio.
A ritualidade que se faz é primitiva, antiga, primeiro se pede licença para
colher, porque a natureza tem toda uma regência. Os espíritos não são
criação, não são imaginação, nem fantasia,

a gente chega e pede licença ao poder, aos seres de luz, a todos os seres que
compõem a floresta, porque ali tem energia, tem seres, tem responsáveis, nada
é por acaso. A pessoa não pode invadir uma área... Ali tem um dono, tem
um responsável. Eu peço permissão... Pego a folha, peço permissão pra folha,
vou cozinhar peço licença né, a sinergia, as forças que vão me conduzir...
Ingerimos o Daime, pra fazer a colheita, tudo isso com muito carinho, muito
cuidado. Batemos... Conversamos assuntos que são coerentes a nossa religião.
Ao ferver, ao cozinhar a gente vai orando rezando, pedindo né. Incutindo
naquela energia ali, magnetizando naquela energia ali, as nossas intenções de
fazer o bem, a caridade, o amor ao próximo né. Então é essa a ritualidade.
Claro que nós temos os cânticos, as orações. (Entrevista com o dirigente
da Barquinha Edilson Fernandes da Silva).

Soeitxawe
130 Regina Clara de Aguiar

Considerações Finais

O rito praticado na casa se configura como uma prática religiosa


universalista. Mas, se observa também que possui forte tendência a uma
configuração ritualística sincrética e eclética. Podemos dizer que essa
tendência parte da formação do próprio dirigente que explica o seu
envolvimento anterior com outros elementos voltados a diversos
sistemas de crenças e religiosidade, pois antes de frequentar a Barquinha,
estudou teoria filosófica e maçonaria e iniciou o curso de Física, tendo
abandonado no quinto período da faculdade. Participou de várias
religiões, com passagem pelo budismo, hinduísmo, umbanda,
kardecismo, islamismo e outras instituições daimistas como a União do
Vegetal-UDV, além do Círculo Exotérico da Comunhão do Pensamento
e do Rosa Cruz. A sua identificação com o referido centro se deu porque
pode encontrar o elemento de todos esses movimentos, na Barquinha.
Percebemos que a conexão com a visão do grupo, o contexto cultural
e visionário da casa, está ligada diretamente a postura do dirigente
espiritual. Conversando com alguns frequentadores assíduos, se percebe
um discurso construído a partir da cosmovisão pregada no discurso
ritualístico. E os trabalhos comunitários de certa forma vão criando
laços, além de condicionamentos, com relação a posturas similares e
repetição de pontos de vista. O próprio líder se considera de linha dura e
afirma que não admite preconceito nem fanatismo na sua igreja, ou seja,
no ambiente da Barquinha, e que muitas vezes o próprio daimista é
quem é o mais fanático e crítico, porque não aprendeu a diferenciar a sua
espiritualidade e a do outro, da alteridade, e com isso assume ares de
etnocentrista. E complementa, “ Eu sou duro, porque, preconceito dentro da
religião, não pode...”
Assim foram feitas algumas constatações, por meio de parâmetros
legítimos, de como as pessoas circulam, vivenciam, constroem e
desconstroem significados a partir do conjunto de dogmas e da ingestão
do Daime, com relação a sua cotidianidade no que diz respeito à
normalidade de como regem a sua vida fora do contexto da casa. Os
estereótipos e hierarquias dos membros que participam do ritual também
foram levados em conta, assim como as experiências visionárias com o
êxtase, e determinados resultados que podem refletir nas estruturas

Soeitxawe
Ritual com a Ayahuasca em Ji-Paraná Rondônia 131

emocionais individuais e coletivas, criando efeito de mobilizar e mudar o


dia a dia do grupo estudado, que será ampliado posteriormente.

Referências

ARAÚJO, Wladimir S. Navegando sobre as ondas do Daime: história,


cosmologia e ritual da Barquinha. Campinas: IFCH/UNICAMP,
1997.
DE AGUIAR, Regina Clara. Estudo Histórico Antropológico do Mito
Sebastianista: A Pedra do Rodeador como Expressão Simbólica na
Interculturalidade Ibero-Americana. Salamanca: tese doutoral
USAL, 2011.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC,
2008.
JUNG, C.G. Psicología y Religión. Barcelona: Paidos Studio,1981.
LABATE, Beatriz C. A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros
urbanos. Campinas: Mercado das Letras. São Paulo: FAPESP,
2004.
LÉVY-STRAUSS, Claude. Mito y Significado. Madrid: Alianza Editorial,
1999.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. De los medios a las mediaciones:
Comunicación, cultura y hegemonía. México: GG Mass
Media,1991.
PRANDI, Reginaldo (organizador) Encantaria brasileira: o livro dos
mestres, caboclos e encantados. Rio de Janeiro: Pallas, 2001.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
MCKENNA, Terence. Alucinações Reais. Rio de Janeiro: Editora Record,
1993.

Soeitxawe
132 Regina Clara de Aguiar

TURNER, Victor. O processo ritual: Estrutura e Antiestrutura. Petrópolis:


Editora Vozes Ltda., 1974.

Soeitxawe
Psicologia e Dependência Química: Análise Preliminar de
uma Pesquisa-Intervenção em uma Comunidade Terapêuti-
ca de Cacoal-RO

Rosangela C. R. Aniceto
Simone M. de Oliveira
Cleber Lizardo de Assis

Resumo: O uso de substância psicoativa pode partir de um uso social,


encaminhando para situações problemáticas, agravando-se ao ponto de chegar a
uma situação de dependência. As Comunidades Terapêuticas têm como intuito
atender a demanda proveniente da dependência de drogas, devido a grande
procura por estas Comunidades Terapêuticas, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA) e a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD)
regulamentam o funcionamento de todas as CT do País. A intervenção do
Psicólogo Social Comunitário é uma interação que acontece de um lado o
profissional psicólogo e do outro a comunidade, tal processo busca realizar no
campo da Psicologia uma criação de conhecimento e metodologia para a
realização das capacidades dos sujeitos trabalhados. Objetivo: realizar uma
análise preliminar de uma pesquisa-intervenção realizada numa comunidade
terapêutica de Cacoal-RO. Método: A pesquisa foi dividida em três etapas:
revisões teóricas sobre o assunto, coleta de dados em documentos institucionais,
entrevistas com profissionais e duas intervenções com aplicação de duas
técnicas de dinâmicas em cada intervenção, com 18 sujeitos do sexo masculino.
Resultados e Discussão: Os dados encontrados nos documentos da instituição
fornecem informações relevantes para este estudo, especialmente acerca do
perfil do sujeito em tratamento e tipo de abuso em drogas: A faixa etária de 24 a
29 anos; estado civil: solteiros. As pesquisas documentais, foram categorizadas e
apresentadas em gráficos, destacando dados como a prevalência do consumo do
crack dentre outras drogas, a maconha como sendo a primeira droga e porta
para drogas mais fortes, a faixa etária dentro de uma classe considerada jovem.
Estes resultados foram validados por outros estudos científicos nacionais.
Foram identificadas situações-problemas e demandas existentes junto aos
sujeitos da intervenção: há uma necessidade de trabalhar a motivação e a
autoestima dos sujeitos, as situações que envolvem saudade da família,
insegurança com a realidade após o tratamento, especialmente sobre arrumar
trabalho, como reconquistar a família, e principalmente como manter a
abstinência. Outras demandas foram identificadas como a necessidade de um
trabalho terapêutico de prevenção de recaída, visto não ter sido evidenciado nas
134 Rosangela C. R. Aniceto; Simone M. Oliveira & Cleber L. Assis

observações e fala dos internos; bem como a necessidade de trabalhar a família


do dependente químico em alguns aspectos tais como: mudança do
comportamento familiar que favoreça o processo de abstinência do indivíduo,
comprometimento da família no período de internação, esclarecimentos sobre a
situação de adicção vivenciada pelo indivíduo, entre outros. Conclusão: Sobre o
perfil de sujeitos e tipo de drogas usadas, os resultados não diferem em muito de
outras pesquisas e estudos nacionais realizados. Diante desse contexto é
necessário pesquisas, estudos e práticas que contribuam para uma assistência
mais abrangente para o indivíduo adicto em tratamento e este papel deve ser
desempenhado pelo profissional psicólogo já que a ciência da psicologia através
de técnicas, métodos e estratégias tem obtido êxito no processo.
Palavras-chave: Drogas; Dependência Química; Comunidade Terapêutica;
Política Pública.

Soeitxawe
Fluxos de CO2 em Regiões de Floresta e Pastagem no
Sudoeste da Amazônia

Bárbara Antonucci
Naara Ferreira Carvalho de Souza
Patrícia dos Santos Guimarães
Renata Gonçalves Aguiar

Resumo: Com a evolução tecnológica, ocorreram diversas mudanças globais,


que ocasionaram o aumento na liberação de CO 2, provocando o aquecimento
anormal da atmosfera. Contudo, uma consequência desta evolução foi a
remoção de florestas no âmbito mundial, no Brasil não foi diferente, áreas de
florestas foram convertidos em pastagens. Desta maneira, indaga-se, se as
mudanças na vegetação influenciam na absorção de CO 2. Logo, este estudo
objetiva identificar o fluxo de CO2 na floresta e na pastagem e analisar se há ou
não diferença do referido fluxo entre os ecossistemas. Tendo como área de
estudo dois sítios experimentais do Experimento de Grande Escala da Biosfera-
Atmosfera na Amazônia (Programa LBA) no estado de Rondônia, um encontra-
se na Reserva Biológica do Jaru (REBIO Jaru) que é uma área de floresta
tropical, e outro se encontra na Fazenda Nossa Senhora (FNS) situado em uma
área de pastagem. Para a análise estatística dos dados foi utilizado o método de
bootstrap, devido não apresentarem normalidade. A partir daí, conclui-se que
não existem evidências suficientes para assegurar que há uma diferença
significativa nos fluxos de CO2 na floresta e na pastagem.
Palavras-Chave: Mudanças no uso da terra; Gases efeito estufa; Aquecimento
global.

Introdução

No século XVIII, ocorreu uma importante evolução tecnológica


mundial, a Revolução Industrial que se iniciou na Inglaterra e se
expandiu globalmente, objetivando aumentar a produção industrial,
utilizando-se de máquinas movidas, em suma, por combustíveis fósseis.
Contudo, a queima desses combustíveis provocou um aumento na

Soeitxawe
136 Bárbara Antonucci; Naara Souza; Patrícia Guimarães & Renata Aguiar

liberação dos Gases do Efeito Estufa (GEE) provocando o aquecimento


anormal da atmosfera.
Neste contexto de evolução econômica e tecnológica, no Brasil, entre
os anos de 1970 e 1980 foram impostas políticas de colonização na
Região Norte do país, o cenário antes de florestas se converte em pouco
tempo para pastagens, tendo como principal intuito o desenvolvimento
da agropecuária.
A Floresta Amazônica ao ser degradada provoca intensas
modificações nos ciclos biogeoquímicos. De acordo com Salazar, Nobre
e Sampaio (2007, p. 22) ‘‘a Amazônia desempenha um papel importante
no ciclo de carbono planetário, e pode ser considerada como uma região
de grande risco do ponto de vista das influências das mudanças
climáticas’’.
Em 2005, as mudanças climáticas ocasionaram uma intensa seca na
Amazônia, no qual os afluentes do lado sul do rio Amazonas ficaram
escassos, prejudicando as navegações e isolando as populações
ribeirinhas (FEARNSIDE, 2009). Eventos extremos como os do ano de
2005 podem ser explicados por atividades como mudanças no uso da
terra e conversão de florestas em pastagem. Sendo que, as previsões para
um cenário futuro são que esses eventos tornem-se cada vez mais
frequentes, em virtude do aumento da taxa de CO2 na atmosfera
(SALAZAR, NOBRE, SAMPAIO, 2007).
A conversão de floresta em pastagem na Região Amazônica ainda
fomenta incertezas sobre os limites à capacidade de estimar futuras
respostas entre estoques de carbono do ecossistema e níveis de CO2
atmosférico, tanto quanto a influência no ciclo de CO2, ocasionado pela
mudança que as grandes áreas de florestas intactas sofrerão com o clima,
o aumento de CO2 e as futuras mudanças na cobertura vegetal ou no uso
da terra (COX et al., 2000; FRIEDLINGSTEIN et al., 2006 apud
TRUMBORE; CAMARGO, 2009). Diante do exposto, o presente
estudo objetiva identificar o fluxo de CO2 em áreas de floresta e
pastagem, bem como analisar se há ou não diferença do referido fluxo
entre os ecossistemas.

Soeitxawe
Fluxos de CO2 em Regiões de Floresta e Pastagem no Sudoeste da Amazônia 137

Material e métodos

Área de estudo

Este estudo foi realizado em dois sítios experimentais no estado de


Rondônia, em uma área de floresta tropical úmida (Floresta Amazônica),
na Reserva Biológica do Jaru (REBIO Jaru), município de Ji-Paraná, nas
coordenadas 10°11’11,4’’S; 61°52’29,9”W. A outra área de estudo
localiza-se em uma área de pastagem, na Fazenda Nossa Senhora (FNS),
no município de Ouro Preto d’Oeste, nas coordenadas 10°45’44”S,
62°21’22”W, onde estão instaladas duas torres pertencentes ao Programa
LBA. As medidas foram realizadas no ano de 2008.

Descrição dos instrumentos e métodos

As medidas de dióxido de carbono foram realizadas pelo analisador


de gás por infravermelho de caminho aberto (IRGA, LI-7500, LI-COR,
USA), instalado a 63,4 metros de altura.
As leituras dos dados brutos de alta frequência de 10Hz foram
armazenadas a cada 30 min em um microcomputador (palmtop Ipaq
rx1950, HP, USA). Esses dados foram coletados semanalmente por meio
da troca de um cartão de memória e processados com a rotina
computacional Alteddy 3.3, desenvolvida pelo Instituto Alterra Green
World Research da Holanda.
Devido às falhas e até mesmo descontinuidade que ocorrem na
captação dos dados, como por exemplo, dados errôneos e lacunas,
houve uma limpeza dos dados. Para proceder a comparação do fluxo de
CO2 nos dois ecossistemas por meio dos intervalos de confiança,
primeiramente foi realizado um teste de normalidade. Entretanto, os
dados amostrados de fluxo de CO2 em nenhum dos sítios obtiveram esse
comportamento, nem mesmo com a transformação dos dados.
Logo, para construir os intervalos de confiança das médias horárias
foi utilizado o método de bootstrap, no qual cada reamostragem é feita
com a mesma quantidade de elementos da amostra original, com intuito
de inferir sobre a distribuição aproximada do intervalo de confiança. As

Soeitxawe
138 Bárbara Antonucci; Naara Souza; Patrícia Guimarães & Renata Aguiar

médias de fluxos de CO2 na floresta e na pastagem foram calculadas,


com intervalo de confiança de 95%.

Resultados e discussão

Com o intuito de melhor representar os dados, foram calculadas


médias horárias, com intervalo de confiança de 95%. Como pode ser
observado nas Figuras 1 e 2, que evidenciam fluxo de CO2 na floresta e
na pastagem, respectivamente.
Observou-se que a absorção de CO2 na floresta e na pastagem têm
níveis mais elevados no período entre às 10h da manhã e às 13h da tarde,
pois são os horários em que os raios solares são mais intensos.

Figura 1 – Médias horárias dos fluxos de CO2 na Rebio Jaru no ano de 2008.

Soeitxawe
Fluxos de CO2 em Regiões de Floresta e Pastagem no Sudoeste da Amazônia 139

Figura 2 – Médias horárias dos fluxos de CO2 na FNS no ano de 2008.

A emissão de CO2 na floresta no período da manhã, das 6h até


aproximadamente às 9h, apresentou-se maior do que na pastagem, o que
de acordo com Liberato (2007) ocorre devido à estabilidade atmosférica
nas copas das árvores durante a noite, no qual ao receber as primeiras
incidências solares ocasiona a sua liberação para a atmosfera, este
fenômeno é observado como um “pico” na manhã, quando a atividade
turbulenta aumenta. No entanto, na pastagem, devido aos sensores
estarem instalados próximos à superfície e a vegetação ser mais baixa do
que na floresta não se verifica o mesmo padrão no início da manhã.
Em ambos as regiões, o fluxo de CO2 no decorrer do dia se portaram
de maneira semelhante, no entanto, é possível observar que na área de
floresta a absorção é maior. Diante disso, como o objetivo era identificar
se havia ou não diferença nas taxas de CO2 na floresta e na pastagem,
foram estipuladas duas hipóteses: a hipótese nula (H0), de que não havia
diferença entre os fluxos dos dois ecossistemas e a hipótese alternativa
(H1), de que havia diferença.

Soeitxawe
140 Bárbara Antonucci; Naara Souza; Patrícia Guimarães & Renata Aguiar

Estipuladas as hipóteses, foram calculadas as médias horárias e os


intervalos de confiança, evidenciando que não existem evidências
estatísticas para rejeitar a hipótese nula, ou seja, não é possível afirmar
que existe diferença significativa entre o fluxo de CO2 nas regiões de
floresta e pastagem.

Considerações finais

As análises das médias horárias dos fluxos de CO2 na área de floresta


e de pastagem no ano de 2008 evidenciaram que não existem evidências
suficientes para assegurar que há uma diferença significativa nos fluxos
de CO2 na floresta e na pastagem, muito embora seja possível observar
que na área de floresta a absorção é maior. Deste modo, sugere-se que
para elucidar essa questão sejam realizadas novas análises no âmbito
micrometereológico, a fim de se obter informações do complexo sistema
absorção-captação de dióxido de carbono, bem como compreender os
efeitos no mesmo pela conversão de florestas em pastagem.

Agradecimento

Ao Programa LBA por ter disponibilizados os dados.

Referências

ALTERRA GREEN WORLD RESEARCH. Alteddy 3.3. Wageningen, 2013.


Disponível em <www.climatexchange.nl/projects/alteddy>
Acesso em: 23 mar 2014.
FEARNSIDE, P. M. A vulnerabilidade da floresta amazônica perante as
mudanças climáticas. Oecologia Brasiliensis, v. 13, n. 4, p. 609-
18, 2009.

Soeitxawe
Fluxos de CO2 em Regiões de Floresta e Pastagem no Sudoeste da Amazônia 141

LIBERATO, A. M. Fluxos de CO2 entre vegetação e a atmosfera na


Amazônia. In: Workshop Brasileiro de Micrometeorologia, 5,
2007, Santa Maria. Anais. Santa Maria: [S. ed.], 2007. p. 63-6.
NOBRE, C. A.; SAMPAIO, G.; SALAZAR, L. Mudanças climáticas e Ama-
zônia. Ciência e Cultura, v. 59, n. 3, p. 21-7, 2007.
TRUMBORE, S.; CAMARGO, P. B. Dinâmica do carbono do solo. In:
KELLER, M.; BUSTAMANTE, M.; GASH, J.; DIAS, P. S. (Org.).
Amazonian and global change. Washington: American
Geophysical Union, 2009. p. 451-62.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia:
Uma breve análise

Neiva Araujo

Resumo: A história recente do Estado de Rondônia é a história da exploração


do potencial energético da Amazônia. Através do discurso progressista, legitima-
se a implantação de empreendimentos hidrelétricos sem que haja o empreendi-
mento proporcional de políticas públicas pelo Estado. Além das conhecidas
UHE – Usinas Hidrelétricas Samuel, Jirau e Santo Antônio, diversas PCH –
Pequenas Centrais Hidrelétricas estão sendo implantadas em todo o Brasil, uma
vez é reputado a sua instalação e operação menores danos socioambientais. A
implantação generalizada e rápida de PCH pode gerar dano irreparável ao meio
ambiente e em especial às populações que vivem no entorno dos rios, uma vez
que não é necessário para sua instalação a realização de estudos profundos acer-
ca dos possíveis danos.
Palavras-Chave: hidrelétricas; impactos socioambientais; Rondônia.

Abstract: The recent history of the state of Rondonia is the history of


exploration of the Amazon energetic potential. Through the progressive
discourse, legitimized the implementation of hydropower projects without a
proportional development of public policies by the state. In addition to the
known the dams Samuel, Jirau and Santo Antônio, several Small Hydroelectric
Power are being implemented in Brazil, as is reputed its installation and
operation smaller environmental damage. The widespread and rapid deployment
of Small Hydroelectric Power can cause irreparable damage to the environment
and especially for those who live near the rivers, since it is not necessary for
your installation to carry out in-depth studies about the possible damage.
Key-Words: dams; social and environmental impacts; Rondonia.

Considerações Iniciais

O Estado de Rondônia tem sido palco de grandes empreendimentos,


em especial, no setor da hidroeletricidade e, muito embora se discuta os
impactos decorrentes de vultosos empreendimentos: Samuel, Jirau e

Soeitxawe
144 Neiva Araujo

Santo Antônio, inúmeras PCH1 – Pequenas Centrais Hidrelétricas tem


sido implantadas sem que haja consulta prévia à população, pois são
tidas como empreendimentos hidrelétricos de baixo impacto. Porém,
ainda que fisicamente menores, causam impactos socioambientais
proporcionais ao seu tamanho, em especial às populações diretamente
atingidas.
As UHE Jirau e Santo Antônio estão situadas na Bacia do Madeira
(segunda maior bacia hidrográfica de Rondônia). As PCH, por sua vez,
totalizam 17 no Estado de Rondônia, estando 6 na Bacia do Rio Branco,
um afluente do Rio Guaporé. São elas: Cabixi I, Cabixi II, Rio Branco,
Monte Belo, Ângelo Cassol e Cachimbo Alto, sendo todas integrantes de
um mesmo grupo de energia.
Embora muito já se tenha discutido acerca dos impactos na Bacia do
Madeira, a grande contribuição do presente artigo diz respeito à análise
referente às PCH, pouco discutidas no cenário da geração de eletricidade.
Assim, será realizado um comparativo entre estes empreendimentos, no
que se refere a seu custo, área alagada, famílias atingidas e impactos em
contraposição às compensações, definidas em lei, a fim de traçar um
paralelo e analisar o verdadeiro impacto das PCH no estado de
Rondônia.

Setor Hidrelétrico em Rondônia: Breves Aspectos Geográficos

A história rondoniense aponta uma série de ciclos exploratórios,


primeiro o extrativista (extrativismo mineral: ouro, cassiterita, diamante),
da borracha, que tem como símbolo a histórica Estrada de Ferro
Madeira-Mamoré, da exploração de madeira, de criação de gado e mais
recentemente o ciclo de exploração do potencial energético de nossos
rondonienses. Da análise histórica, percebe-se que o legado deixado à
população ficou bem aquém daquele que era prometido no discurso
inicial por aqueles que se diziam porta-vozes do desenvolvimento. Hoje,

1 São consideradas PCH as pequenas centrais hidrelétricas com capacidade
instalada superior a 1 megawatt e inferior a 30 megawatts de potência, a área
total de seu reservatório deve ser igual ou inferior a 3 km2.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 145

os questionamentos estão centrados na possibilidade de preservar as


diferentes visões de mundo e preservar culturas, saberes e crenças que
fazem parte da história de um povo, de um estado federativo que abriga
a diversidade cultural.
A região Amazônica tem um importante potencial hídrico, todavia,
ele não pode ser analisado de modo isolado, vez que o bioma da região e
as distâncias são bastante peculiares e acabam por gerar desdobramentos
nem sempre compreendidos por aqueles que residem em outras áreas do
país. A tabela a seguir mostra o potencial hidráulico da região amazônica
em comparação às demais regiões do Brasil.

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dŽĐĂŶƚŝŶƐ ϯϰ͘Ϭ Ϭ 

Tabela 1: Potencial hidráulico brasileiro.


Fonte: ANEEL (2014)

Mesmo com a proliferação de hidrelétricas na região amazônica, sob


a justificativa da necessidade de aumentar a oferta de energia elétrica, a

Soeitxawe
146 Neiva Araujo

verdade é que a implantação de hidrelétricas nesta região sempre foi


motivo de discussões, críticas e rejeições, todavia, o processo idealizado
pelos militares, na década de 70, tem sido, pouco a pouco concretizado.
Primeiramente com a UHE Samuel, nos anos 80/90; com as UHE do
Complexo do Madeira, Jirau e Santo Antônio nos anos 2000/2010,
sendo que elas representam duas das obras de um total de 4 previstas ao
dito complexo.
Além disso, Rondônia enfrenta a proliferação de PCH que atingem
comunidades em diversos municípios do estado, as que já foram
autorizadas e estão em funcionamento abrangem Vilhena, Cerejeiras,
Alta Floresta D’Oeste, Colorado D’Oeste, Pimenta Bueno e
Chupinguaia.
Os impactos socioambientais em Rondônia ainda estão sendo
contabilizados e aos poucos conhecidos, principalmente pelas
populações ribeirinhas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores
que residem ou residiam ao redor dos complexos atingidos. Enquanto
isso, a previsão é de aumento, a curto e médio prazo, tanto de UHE
quanto de PCH, sob o pretexto de amenizar a crise energética que assola
o país.

UHE Samuel

A UHE Samuel foi a primeira a ser construída em Rondônia, com sua


obra iniciada no início dos anos 80, mesmo período em que construída a
UHE Balbina na cidade de Presidente Figueiredo-AM, conhecida como
um grande golpe à região amazônica, em razão do desastre
socioambiental gerado na região ante ao pequeno aproveitamento
energético.
A concessão da obra data de 1979 (renovada em 2009 e com duração
até 2029), tendo as obras sido iniciadas em 1982 e sua operação em 1989.
Prevista para ser concluída em quatro anos, teve atrasos em razão da
falta de verbas. Localizada no rio Jamari, afluente do rio Madeira, a UHE
foi construída no município de Candeias do Jamari. De acordo com
dados da ANEEL (2014), a UHE Samuel tem potência instalada de
216,0 MW e alagou uma área de 655.599 km2.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 147

Segundo dados do Observatório Sócioambiental de Barragens, os


valores encontrados em relação a esta obra, dizem respeito a um
orçamento preliminar de US$ 835,97 milhões, mas o custo real foi
elevando em decorrência de atrasos da obra. O Observatório também dá
conta de que os deslocamentos compulsórios atingiram 258 famílias,
principalmente aquelas que ocupavam as margens da BR-364, além de
uma pequena comunidade tradicional, com cerca de 20 famílias que
residiam nas proximidades da cachoeira Samuel, inundada em
decorrência do empreendimento.
Fearnside (2004), aponta que não houve nenhuma comunidade
indígena inundada pela UHE Samuel, todavia, a inundação pode ter
produzido impactos à tribo Uru-Eu-Uau-Uau que vive nas cabeceiras do
rio Jamari, em especial no que se refere à migração de peixes.
As transformações socioambientais em razão da UHE Samuel são
evidentes. Fearnside (2004) destaca duas delas: I. a emissão de gases de
efeito estufa, que foram 11,6 vezes maiores do que a emissão para a
geração da mesma quantidade de energia através do petróleo, e II. a
contaminação dos peixes do reservatório com mercúrio (Hg), na sua
forma tóxica, metil mercúrio.
A floresta teve uma perda de 420 km² no decorrer da obra, para a
implantação do reservatório. O trecho do rio ocupado pelo reservatório
foi completamente alterado, gerando a perda de várias espécies de peixes
e de outros organismos; a piracema foi alterada a montante (o que acaba
por gerar ainda mais prejuízos àqueles que dependem do rio para viver).
Já a jusante foi afetada com a queda do teor de oxigênio na água, o que
gerou uma água de má qualidade para o consumo por 42 km a jusante,
sendo que a partir deste ponto a água tem uma melhora de sua qualidade
(Fearnside, 2004).
Outro impacto está atrelado às consequências decorrentes das
alterações no nível do lençol freático. A cidade de Itapoã do Oeste, que
fica próxima ao reservatório, teve de buscar mecanismos na tentativa de
escoar o excesso de água nas ruas da cidade, o episódio também
acarretou prejuízos diretos a pelo menos 40 famílias.2 Podem ainda ser


2 A temática não será aqui aprofundada, maiores informações acerca dos
impactos decorrentes das alterações do lençol freático podem ser obtidas em:

Soeitxawe
148 Neiva Araujo

apontados os impactos decorrentes da emissão de gases estufas,


condições favoráveis à procriação dos mosquitos transmissores da
malária3 e a liberação de metil mercúrio com a consequente
contaminação do solo. (Fearnside, 2004)
A chamada Amazônia Legal4 é um território conhecido por conflitos
agrários e pela irregularidade na posse e propriedade de várias terras, o
que explica o agravamento de conflitos sociais nesta região, quando da
implantação da UHE Samuel. A população das comunidades foi
deslocada para que houvesse a inundação e com a desagregação ocorrida,
no decorrer dos anos, as comunidades e os laços foram dizimados. Além
disso, o contato com a cachoeira Samuel ou com o rio Jamari afastou as
comunidades não apenas de sua fonte de sustento, mas também de lazer,
eis que a vida comunitária era desenvolvida em razão do rio Jamari e da
cachoeira Samuel. (Fearnside, 2004)
Com o enfraquecimento das comunidades, paulatinamente
desagregadas, e a marginalização dos movimentos sociais, a tendência é
que estas reivindicações sejam esquecidas ou simplesmente ignoradas na
pauta de discussões sociais. Os efeitos, porém são sentidos por toda a
sociedade, pois ao buscar um novo território, muitas vezes nas periferias
das cidades, os moradores destas comunidades acabam conseguindo
apenas subempregos e ficam à mercê da marginalidade e do descaso do
Estado.


<http://www.mabnacional.org.br/noticia/atingidos-ocupam-prefeitura-itapu-d-
oeste-por-direito-moradia> e
<http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/2006/Parte%20B%20Vol%20I%20Rela
t%C3%B3rio%20Philip%20Fearnside.pdf>
3Ariquemes, no ano de 1995 ficou conhecida como capital mundial da malária e
Porto Velho, no mesmo ano, registrou 29.000 casos de malária. (Fearnside,
2004)
4Área que corresponde a 59% do território nacional diz respeito a um conceito
político (e não geográfico), que teve início com a Lei 1.806/53 e suas alterações.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 149

UHE Jirau

Com sua concessão iniciada no ano de 2008 e com prazo de duração


de trinta e cinco anos (2043), a UHE Jirau tem um custo estimado de R$
13,5 bilhões, sendo que deste valor mais de 50% (7,7 bilhões) são
provenientes de empréstimos junto ao BNDES (Banco Nacional do
Desenvolvimento Econômico e Social). Havendo, ainda, conforme
dados da ANEEL (2014), a previsão de investir mais R$ 40,3 milhões
após o ano de 2014. O custo do KW instalado de Jirau é de R$
3.913,00/kW (Observatório Sócioambiental de Barragens, 2014).
Localizado no rio Madeira, no município de Porto Velho-RO, a UHE
Jirau tem potência instalada de 3.450 MW, com área inundada que pode
variar de 200 a 500 km².5 Conforme dados do Observatório
Sócioambiental de Barragens a população atingida é de 953 habitantes,
sendo 607 deles de áreas urbanas e de 349 de localidades rurais.
Contudo, o MAB - Movimento dos Atingidos pelas Barragens estima
que serão cerca de 5 mil pessoas atingidas em todo o Complexo do
Madeira (Jirau e Santo Antônio), sendo que cerca de cem mil pessoas
foram atingidas pelo não acesso à água potável, o que aponta aos
impactos diretos e indiretos, moldando, pouco a pouco, o tamanho do
prejuízo e dos impactos suportados por parte da população
rondoniense6.
As áreas inundadas abrangem o município de Porto Velho (Distritos
de Mutum-Paraná, Jaci Paraná, Abunã e Comunidade Garimpo
Palmeiral) e pequenas parcelas das Unidades de Conservação: Floresta
Estadual de Rendimento Sustentável Rio Vermelho A, B e C; Reserva
Extrativista Jaci-Paraná; e Estações Ecológicas Estaduais Três Irmãos e


5 Importante observar que após as cheias históricas em Rondônia em 2014,
ainda não se sabe ao certo quantas famílias serão de fato impactadas no decorrer
da obra e quando de seu funcionamento, em razão das obras que acarretaram
mudanças no rio Madeira, que é um rio novo e ainda em formação.
6 Segundo dados do IBGE (2010), a população do estado de Rondônia é de
1.562.409, assim, cerca de 6,5% da população do estado foi atingida apenas com
estes dois empreendimentos.

Soeitxawe
150 Neiva Araujo

Mujica Nava. Também serão afetados sítios arqueológicos, ainda não


devidamente identificados.
Apesar de ainda estarem ocorrendo transformações sociais em razão
da UHE Jirau, há diversas denúncias apontando à violação de direitos
humanos, a iniciar pelos princípios da informação e da participação, haja
vista que as comunidades atingidas foram praticamente excluídas do
processo decisório, cabendo a elas apenas acatar ordens, eis que as
decisões já haviam sido tomadas.
As violações incluem, ainda, restrições alimentares às populações
ribeirinhas, haja vista que com as alterações ocorridas no rio Madeira,
houve: redução da oferta de peixes; contaminação da água; e formação
de espelhos d'água, gerando forte preocupação com a proliferação de
doenças, em especial dengue e malária.
O patrimônio histórico e cultural da região, em especial, o histórico
galpão da Estrada de Ferro Madeira Mamoré tem sofrido duros golpes,
possivelmente em razão do represamento causado pelas UHE
implantadas na bacia do rio Madeira. O galpão e a locomotiva histórica
foram cobertos pela água na cheia histórica do rio Madeira em 2014.
Peças e imóveis que contam uma importante passagem da história
brasileira foi e continuam sendo desrespeitados. Com a cheia histórica do
rio Madeira de 2014, parece-nos que esta parte da história parece estar
com os dias contados, ainda que, as famílias atingidas pela histórica cheia
restem ainda sem qualquer tipo de acesso à justiça, em especial às
indenizações devidas pelos prejuízos socioambientais causados pelos
empreendimentos na bacia.
Moradores de Nova Mutum Paraná (antigos moradores de Mutum
Paraná que foram realocados) tem, pouco a pouco, abandonado suas
moradias por não se adaptarem ao estilo de vida imposto pela
implantação da UHE Jirau, vez que foram privados do contato com o
rio, tendo, assim, seu ritmo e estilo de vida completamente alterados.

UHE Santo Antônio

Sua concessão data de 2008 e o período da concessão é de 35 anos


(2043), com um custo estimado de R$ 15,05 bilhões e com

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 151

financiamentos do BNDES (R$ 6.135.172.400,00), FI-FGTS (Fundo de


Investimento do FGTS) e FNO (Fundo Constitucional de
Financiamento do Norte), além da previsão de um custo aproximado de
R$ 1,7 bilhão após o ano de 2014 (ANEEL, 2014). A UHE Santo
Antônio foi construída com capacidade para gerar 3150,4 MW, com um
custo de KW instalado de R$ 4.286,00/kW (Observatório
Sócioambiental de Barragens, 2014).
A área estimada a ser alagada pelo empreendimento é de 100 a
200km², o que inundaria a área rural e urbana de Porto Velho-RO, em
especial o Distrito de Mutum-Paraná, o que totalizaria, a princípio, 878
imóveis. Os deslocamentos compulsórios atingiriam cerca de 1.645
pessoas segundo o EIA/RIMA7; e 10.000 pessoas, segundo o MAB. 214
famílias somente no núcleo urbano Mutum-Paraná. Os dados oficiais
apontam para o número de 1.762 pessoas atingidas. Já as populações
indígenas atingidas seriam das tribos Karitiana (localizada a 95 km de
Porto Velho) e Karipuna (localizada nos municípios de Porto Velho e
Nova Mamoré), sendo atingidos, juntamente com elas, o patrimônio
arqueológico da região e seus pedrais com pinturas rupestres
(Observatório Sócioambiental de Barragens, 2014).
Por serem recentes, muitas das transformações ocorridas foram
bastante perceptíveis à população, a exemplo da brusca elevação dos
preços das terras na região, dos serviços e mercadorias, bem como o
aumento de migrantes, que vieram em busca de uma oportunidade de
melhoria de vida. Em síntese, houve uma explosão demográfica e uma
repentina alta no custo de vida, em uma capital com alto déficit de
saneamento básico, de transporte público e sem condições de suportar o
aumento de cerca de cem mil pessoas8.
Com o alagamento culturas agrícolas (melão, mandioca, melancia,
milho, abóbora) e extrativistas (castanha e outros frutos tipicamente
amazônicos, a exemplo do açaí) foram atingidas, além da pesca, do
garimpo e do turismo (que era comum, por exemplo na comunidade de


7O estudo em relação a outros empreendimentos semelhantes dá conta de que
o número de atingidos é sempre superior àquele que consta no EIA/RIMA.
8 Este é o número de migrantes estimado pelo MAB.

Soeitxawe
152 Neiva Araujo

Santo Antônio). As culturas de várzea praticadas pelos ribeirinhos do


Madeira foram dizimadas, ante à oscilação do rio que “lavou” a terra.
Mais uma vez, há destaque a incidência de malária, o que é destacado
no EIA/RIMA. O meio ambiente é impactado com o desmatamento
(para abertura de estradas e canteiros de obras), alteração do lençol
freático e perda da biodiversidade de peixes (Observatório
Socioambiental de Barragens, 2014).
Os conflitos sociais circundam a disputa pela terra e por uma vivência
digna, já que, mais uma vez foi rompido o vínculo das comunidades com
o rio, colocando em risco o modo de vida ribeirinho, calcado na coleta
de frutos, pesca e uso da farinha de mandioca, elementos básicos de sua
dieta alimentar.
A comunidade que morava nas proximidades da extinta cachoeira
Santo Antônio, embora continue a residir nas proximidades não mais
pode realizar a pesca nas rochas, que era uma prática típica; como as
quedas foram alagadas o turismo diminuiu abruptamente e embora haja
uma praia na localidade, os moradores reclamam da ausência dos peixes
e da impureza da água. Em outras palavras, mesmo com o contato com a
“água”, o estilo de vida restou alterado, pois este contato encontra a
barreiras impostas, direta ou indiretamente, pelo empreendimento.

As PCH (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em Rondônia

Sob o argumento de crise e de demanda energética, tem proliferado


nos últimos anos o número de UHE e também de PCH, que se valem
ainda da justificativa de que por serem pequenos empreendimentos
colaboram com a geração de energia elétrica e têm como bônus um
baixo impacto socioambiental. Contudo, há autores que contrariam estes
‘pequenos’ impactos (Nascimento & Drummond, 2003).
A política energética adotada estimula a criação de novas PCH,
através de condições que incentivam empreendedores, entre as quais
destacam-se:

 Autorização não-onerosa para explorar o potencial hidráulico (Lei


no 9.074, de 7 de julho de 1995, e Lei no 9.427, de 26 de

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 153

dezembro de 1996); 2. Descontos superiores a 50% nos encargos


de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (Resolução no
281, de 10 de outubro de 1999); 3. Livre comercialização de
energia para consumidores de carga igual ou superior a 500 kW
(Lei no 9.648, de 27 de maio de 1998); 4. Isenção relativa à
compensação financeira pela utilização de recursos hídricos (Lei
no 7.990, de 28 de dezembro de 1989, e Lei no 9.427, de 26 de
dezembro de 1996); 5. Participação no rateio da Conta de
Consumo de Combustível – CCC, quando substituir geração
térmica a óleo diesel, nos sistemas isolados (Resolução no 245, de
11 de agosto de 1999); 6. Comercialização da energia gerada pelas
PCH com concessionárias de serviço público, tendo como limite
tarifário o valor normativo estabelecido pela Resolução nº 22, de
1º de fevereiro de 2001 (ATLAS DA ENERGIA ELÉTRICA
DO BRASIL, ANEEL, 2002).

Além disso, a construção das PCH “não exige nem o estudo de


viabilidade nem a licitação. Após a realização do estudo de inventário, a
ANEEL seleciona o empreendedor de acordo com critérios pré-
definidos, avalia o projeto básico da usina e concede a autorização para a
instalação” (ATLAS DA ENERGIA ELÉTRICA DO BRASIL,
ANEEL, 2008).
As PCH têm proliferado Brasil afora, em especial nas regiões sul e
sudeste. Em 2002 haviam no Brasil 304 PCH (ATLAS DA ENERGIA
ELÉTRICA DO BRASIL, ANEEL, 2002), em 2010 eram 368 PCH. Em
2015, o número saltou para 463 PCH, todas elas em funcionamento,
contudo, há 810 projetos de PCH parados na Aneel9, aguardando
aprovação (PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS SÃO


9 “Há mais de 1,5 mil potenciais Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH)
mapeadas no país, mas que ainda não saíram do papel. Desse total, 772 estão
disponíveis para estudo. No entanto, outras 141 já foram registradas na Agência
Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) por empreendedores privados e 645
aguardam apenas a análise do órgão regulador” (MAIS DE 1,5 MIL
PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS (PCH) AINDA ESTÃO NO
PAPEL, BRASIL ECONÔMICO, 2014).

Soeitxawe
154 Neiva Araujo

ALTERNATIVA PARA GERAÇÃO DE ENERGIA, PORTAL PCH,


2015).
Os números indicam que os incentivos à construção de novas PCH
têm surtido efeito, pois elas cresceram e há projeção para crescerem
ainda mais nos próximos anos. Em Rondônia há, hoje, em operação 15
PCH e projetos de expansão para os próximos anos.

USINAS do tipo PCH em Operação em Rondônia


Potên
cia Potência Destino
Usina Outor Fiscaliza da Proprietário Município Rio
gada da (kW) Energia
(kW)
100%
para Hidroelé Cerejeiras - São João
Altoé II 1.100 1.103 PIE
trica Altoé RO I
Ltda.
100%
Vilhena -
Cachoeira 11.120 11.120 SP para JFG Ávila
RO
Energia S/A
95%
para Juruena
Energia S/A
Chupin 5% Vilhena - Chupin
1.260 640 PIE
guaia para Usina RO guaia
Hidrelétrica
Cachoeira
Ltda
100%
para Madei
Vilhena - Pimenta
Marcol 2.500 2.500 PIE reira Rio
RO Bueno
Colorado
Ltda

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 155

100% Alta
para Hidro Floresta Salda
Saldanha 5.280 5.280 PIE
luz Centrais d´Oeste - nha
Elétricas Ltda RO
100%
para Hidroelé Alto Alegre
Santa Luzia Colora
3.000 3.000 APE trica do Parecis -
D´Oeste do
Bergamin RO
Ltda.
100%
para Cassol
Vilhena -
Cabixi 2.700 2.700 APE Centrais Cabixi
RO
Elétricas
Ltda.
100% Alta
para Centrais Floresta Salda
Monte Belo 4.800 4.800 PIE
Elétricas d´Oeste - nha
Cassol Ltda RO
100%
Castaman I Colorado
para Adelino Engana
(Antiga 1.500 1.844 APE do Oeste -
Castaman & do
Enganado) RO
Cia Ltda.
100%
para Hidros Alta
sol Floresta
Rio Branco 6.900 7.140 PIE Branco
Hidroelétri d´Oeste -
cas Cassol RO
Ltda
100%
Colorado
para Casta Engana
Castaman II 750 750 APE do Oeste -
man Centrais do
RO
Elétricas Ltda
100%
Colorado
Castaman para Casta Engana
1.480 1.480 PIE do Oeste -
III man Centrais do
RO
Elétricas Ltda

Soeitxawe
156 Neiva Araujo

Pimenta
Bueno -
100%
RO Pimen
para Eletro-
Primavera 18.200 19.182 PIE Primavera ta
Primavera
de Bueno
Ltda
Rondônia -
RO
100% Alta
Ângelo para Hidroelé Floresta
3.600 3.600 PIE Branco
Cassol trica Ângelo d´Oeste -
Cassol Ltda RO
100%
Chupin
Cascata para Hidroelé Pimen
guaia - RO
Chupin 9.600 9.600 PIE trica ta
Corumbiara
guaia Chupinguaia Bueno
- RO
Ltda
100%
Chupin
para Centrais
guaia - RO
Cesar Filho 7.000 7.000 PIE Elétricas Taboca
Parecis -
Cesar Filho
RO
Ltda
Total: 463 Usina(s) Potência Total: 4.640.031,30 kW

Legenda: APE - Autoprodução de Energia; APE-COM - Autoprodução c/ Comerc. de


Excedente; Comercialização de Energia; PIE - Produção Independente de Energia; REG –
Registro; REG-RN482 - Registro mini micro Geradores RN482/2012; SP - Serviço
Público.
Tabela 2: PCH em operação em Rondônia, ANEEL (2014)

As questões que circundam as PCH e seus impactos socioambientais


precisam ser melhor discutidas10 à medida que se tem conhecimento de
implicações e danos em diferentes localidades e atores, em decorrência
destes empreendimentos (Nascimento & Drummond, 2003).

10 A bem da verdade a matriz hidrelétrica brasileira precisa ser repensada.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 157

São detectados como impactos decorrentes de PCH: deterioração


ambiental e consequente perda da biodiversidade, tanto aquática quanto
terrestre, inclusive com problemas quanto à migração de peixes;
impactos às populações realocadas (também corriqueiros em UHE);
alterações hidrológicas a jusante da represa; aumento no número de
doenças; perdas de patrimônio histórico e cultural, bem como alterações
em atividades econômicas e no uso da terra; alteração do curso do rio;
diminuição do nível das águas e o consequente comprometimento da
navegação.
Além destes danos corriqueiros Brasil afora, Rondônia tem algumas
peculiaridades, a exemplo dos impactos gerados às populações indígenas,
que sequer costumam ser consultadas, muito menos indenizadas,
desrespeitando a Convenção 169 da OIT – Organização Internacional
do Trabalho, além da legislação nacional. Além disso, a SEDAM –
Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental, confeccionou
relatório indicando que os estudos ambientais não abordaram todos os
impactos ambientais, mostrando-se, portanto, extremamente falhos e
maximizando os problemas causados (SEDAM; MPF).
Além disso, diferentemente das UHE que estão por lei (Lei 9.433/97;
Lei 9.984/2000 e Decreto 7.402/2010) obrigadas a realizar
compensações financeiras e obrigadas a pagarem pelo uso da água, as
PCH não têm tais obrigações. Portanto, o aumento de PCH pode,
inclusive, gerar danos tão extensos ou até maiores do que UHE.

Considerações finais

Muito embora se repute às Usinas Hidrelétricas implantadas no


Estado de Rondônia diversas atrocidades socioambientais, que se fazem
sentir em diversas partes do Estado, em especial na capital e nas
comunidades diretamente atingidas, as Pequenas Centrais Hidrelétricas
possivelmente serão responsáveis por diversos impactos que a lei reputa
meramente como danos colaterais.
Em se tratando de empreendimentos que podem lesionar o meio
ambiente, bem de uso comum de todos, é indispensável a participação
popular das comunidades atingidas no processo decisório acerca da

Soeitxawe
158 Neiva Araujo

implantação e operação das Pequenas Centrais Hidrelétricas, o que,


como se sabe, não ocorre.
Competindo ao Estado a concessão de licença ou autorização para
implantação e operação, deveria ele assegurar maior publicidade do
processo no sentido de garantir às comunidades atingidas informação
suficiente para no exercício de seu direito de ação provocar o Poder
Judiciário a verificar a legalidade do empreendimento, e eventualmente, a
responsabilização dos produtores independentes de energia pelos danos
e prejuízos advindos do empreendimento.
De qualquer forma, o tratamento diferenciado dado pela lei às
Pequenas Centrais Hidrelétricas tem se mostrado como verdadeiro
motor de aceleração para sua implantação. O aumento de
aproximadamente 20% (vinte por cento) em apenas cinco anos, entre
2010 e 2015, aponta para uma política energética de sua expansão.

Referências

Atlas Da Energia Elétrica Do Brasil, ANEEL, 2002 <


http://www.aneel.gov.br/arquivos/pdf/livro_atlas.pdf>. Acesso
em 02 set.2015.
Atlas Da Energia Elétrica Do Brasil, ANEEL, 2008
<http://www.aneel.gov.br/arquivos/PDF/atlas3ed.pdf>. Acesso
em 02 set.2015.
BIG - Banco de Informações de Geração, Capacidade de Geração do
Brasil. Disponível em:
<http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/Geracao
TipoFase.asp?tipo=5&fase=3>. Acesso em 17 set.2015.
FEARNSIDE, Philip M. A hidrelétrica de Samuel: lições para as políticas
de desenvolvimento energético e ambiental na Amazônia.
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Manaus,
2004. Disponível em:
<http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/mss%20and%20in%20pre
ss/SAMUEL-EM-3-port-2.pdf>, em julho de 2010.

Soeitxawe
Impactos Socioambientais de UHE e PCH em Rondônia 159

Mais de 1,5 mil Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) ainda estão no


papel, Brasil Econômico, 2014 <
<http://brasileconomico.ig.com.br/brasil/economia/2014-05-
14/mais-de-15-mil-pequenas-centrais-hidreletricas-pchs-ainda-
estao-no-papel.html>. Acesso em 02 set.2015.
MPF/RO: SEDAM não pode emitir mais licenças para PCH no Rio
Branco. Disponível em:
<http://www.prro.mpf.mp.br/conteudo.php?acao=diversosLerP
ublicacao&id=580>. Acesso em 17 set.2015.
NASCIMENTO EP & DRUMMOND JA. 2003. Invenção e realidade da
região de Belo Monte. In: Nascimento EP & Drummond JA
(org.). Amazônia – Dinamismo econômico e conservação
ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, p. 35-57.
Observatório Sócioambiental de Barragens
<http://www.observabarragem.ippur.ufrj.br/barragens/15/samu
el>. Acesso em 17 set.2015.
Pequenas Centrais Hidrelétricas são alternativa para geração de energia,
Portal PCH, 2015 <http://www.portalpch.com.br/noticias-e-
opniao/4961-30-03-2015-pequenas-centrais-hidreletricas-sao-
alternativa-para-geracao-de-energia.html>. Acesso em 17 set.2015.

Soeitxawe
Psicologia e gravidez: análise preliminar de uma pesquisa-
intervenção junto a mulheres grávidas de Cacoal – RO


Elizeu Diniz de Medeiro1
Nádia Valéria Moreira Santos2
Cleber Lizardo de Assis3

Resumo: A gravidez é um momento de mudanças significativas, é uma experi-


ência singular e subjetiva na vida de cada mulher, são mudanças biopsicossoci-
ais. Como forma de garantir os direitos das mulheres, o governo criou as políti-
cas públicas relacionadas à saúde da mulher. O Centro de Referência da Assis-
tência Social (CRAS) presta serviços assistenciais às famílias e indivíduos que se
encontram em situação de vulnerabilidade social e juntamente com o trabalho
do psicólogo poderá estar fortalecendo a interação social entre as gestantes que
frequentam a instituição, pois o psicólogo estará auxiliando a compreensão e
elaboração dos processos intra e interpessoais das gestantes. Objetivo: Realizar
uma análise preliminar de uma pesquisa-intervenção realizada em um grupo de
mulheres grávidas de um CRAS de Cacoal-RO. Método: Foi realizado levanta-
mento bibliográfico acerca do público-alvo como forma de conhecer suas espe-
cificidades, características, políticas públicas e direitos. Em seguida realizamos a
coleta de dados junto aos profissionais que atuam no CRAS (Diretora, Coorde-
nadora e Assistente Social), acesso ao prontuário das mulheres através do En-
fermeiro da UBS, seguido de contato com 20 gestantes, entre 16 e 33 anos, do
primeiro ao terceiro trimestre de gestação; Deste grupo, 35% são primíparas, do
primeiro ao terceiro trimestre de gestação, 85% estavam casadas, de nível socio-
econômico baixo, com escolaridade de ensino médio, a maioria não trabalha e
residem em bairros próximos à UBS de Cacoal. Através dos dados coletados foi
possível fazer um planejamento e da literatura científica foi feito um projeto de
intervenção que fora aplicado posteriormente em 02 (dois) encontros no mês de
novembro, em que participaram 04 (quatro) sujeitos. Resultados e Discussão: A

1 Graduando em Psicologia, Faculdades Integradas de Cacoal – UNESC – RO
2 Graduanda em Psicologia, Faculdades Integradas de Cacoal – UNESC – RO
3Mestre em Psicologia – PUCMG; Doutorando em Psicologia – USAL;
Docente do curso de Psicologia, UNESC – RO
162 Elizeu D. de Medeiro, Nádia V. M. Santos & Cleber L. de Assis

pesquisa intervenção possibilitou a identificação de demandas a partir da fala das


grávidas, como mudança na rotina diária, no âmbito familiar, físicas, emocional
e de comportamento. Porém foi percebido entre as grávidas que aquelas em que
estava enfrentando a primeira gestação tinham muito pouco conhecimento
sobre o assunto, outras tinham até certo conhecimento por ser a segunda gesta-
ção, mas pouco conhecimento no que diz respeito às questões psicológicas que
influenciam no processo de gravidez, como ansiedade, estresse, fobias, baixa
autoestima, humor instável, distúrbios relacionados a auto imagem, havendo a
necessidade de mais acompanhamento e orientação dos profissionais da institui-
ção e principalmente do Psicólogo. Conclusão: Esse estudo possibilitou para os
estagiários de psicologia de proceder à frente a um grupo de gestantes, utilizan-
do as técnicas da intervenção psicossocial grupal em contexto social, de modos a
proporcionar um trabalho de promoção à saúde da mulher na fase da gestação.
Os facilitadores trabalharam com a subjetividade das gestantes, fazendo com
que elas tivessem um insight em relação à gestação e suas adversidades, tanto as
psíquicas, físicas corporal. Recomenda-se ter um cuidado especial com este
grupo devido à complexidade que envolve a gestação, então o objetivo da Psico-
logia Social pode ser proporcionar ações que favoreçam um adequado bem estar
físico/psíquico/emocional para estas grávidas e futuro bebê.
Palavras-chave: Gravidez; Políticas Públicas; CRAS e Psicologia Comunitária

Soeitxawe
Psicologia e adolescência: análise preliminar de uma pesqui-
sa-intervenção em um centro de referência em assistência
social de Rondônia


Kely Cristina de Matos
Daieli Cristina de Oliveira Sechini
Cleber Lizardo de Assis

Resumo: A adolescência é uma fase de desenvolvimento humano, marcada por


singularidades tais como a constituição de identidade e definição de valores, o
que demanda à Psicologia, uma escuta e intervenção particulares; A Psicologia
Social-Comunitária se interessa pela interação social dos sujeitos e da dinâmica
grupal, institucional e comunitária, de modo que busca conhecer os espaços e
dispositivos sociais, tais como as políticas públicas, em especial para a adoles-
cência e juventude, bem como os aparelhos de atenção a este público, como o
Centro de Referência em Assistência Social – CRAS; Neste sentido, este estudo
realiza uma análise preliminar de uma pesquisa- intervenção realizada num
CRAS numa cidade de RO; Objetiva ainda conhecer a realidade de adolescentes
atendidos e analisar as políticas públicas que deveriam atendê-los, além de en-
tender o papel do psicólogo neste contexto. Tem como método intervenções
psicossociais de cunho participativo e dinâmico, com o objetivo de desenvolver
ações psicossociais de caráter preventivo e de promoção de saúde e cidadania
junto a adolescentes em situação de vulnerabilidade. Foram realizadas visitas,
entrevistas com coordenadores do CRAS, psicóloga, assistente social e com a
sócio educadora, observações em vários momentos e 02 (duas) intervenções
com 07 (sete) adolescentes. Essas ações foram entremeadas com a supervisão
docente, leituras de documentos, materiais e instrumentais que possibilitaram as
ações. Resultados e discussão: verificou-se uma carência de atendimento do
grupo, por escassez de funcionário e descontinuidade da ação, além de estarem
sendo atendidos juntamente com crianças de seis a onze anos, algo inadequado;
as ações desenvolvidas se mostraram precárias, contando com os parcos recur-
sos financeiros recebidos; Quanto aos aspectos emocionais e psicológicos, os
adolescentes atendidos, se encontram numa situação de fragilidade, com sinais
de violência e necessidades latentes, daí urge uma intervenção diagnóstica e
psicoterapêutica mais aprofundada para acolhimento de suas fragilidades. O
“adolescente em situação de risco” e em ambiente vulnerável há que estar mais
164 Kely C. de Matos, Daieli C. de O. Sechini & Cleber L. de Assis

fortalecido para conseguir superar as mazelas que a conjuntura fragilizada em


que vive o submete e o psicólogo tem papel fundamental nesse processo.

Soeitxawe
Vivências e estratégias de enfrentamento em crianças hospi-
talizadas


Gislaine Federichi
Cleber Lizardo de Assis

A hospitalização pode causar prejuízos à condição emocional da cri-


ança, onde a criança sente medo do desconhecido e outras vivências
diante da nova situação, alterando seu cotidiano. Objetiva-se compreen-
der quais as vivências e estratégias de enfrentamento utilizadas pelas
crianças durante o processo de hospitalização numa Unidade de Saúde
de Cacoal – RO. Método: pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória,
com amostra de 04 (quatro) crianças, internadas na Enfermaria de Pedia-
tria que responderam a uma entrevista semiestruturada e a desenhos,
utilizando como técnica, a Análise de Conteúdo, segundo o modelo de L.
Bardin. Os resultados mostram que as crianças classificam a sua experi-
ência de estar no hospital como uma vivência negativa, tendo a ausência
de atividades típicas da infância e ao próprio ambiente do lar. Ocorrem
sentimentos de medo e culpa, tendo a doença como uma punição. Quan-
to às estratégias para enfrentar a hospitalização percebemos que a estra-
tégia de Suporte Social foi uma estratégia mais utilizada, mostrando a
busca apoio externo nos amigos, familiares e a equipe de profissionais,
tendo a mãe um papel de grande importância para a adaptação da hospi-
talização. Outras duas utilizadas foram a Estratégia de Confronto onde a
criança apresentou comportamentos agressivos em relação às pessoas
que estão oferecendo os cuidados, e a Estratégia de Reavaliação positiva
onde a criança descobriu uma forma de enfrentar seu problema, mudan-
do algo em si mesmo, podendo também ser apresentada a estratégia de
enfrentamento religiosa. Na técnica desenho-história, podemos observar
diferentes discursos produzidos pelas crianças, como a presença da mãe
junto à criança, sendo extremamente positivo no que se refere à vivência
da hospitalização, a ausência de atividades do lar no ambiente hospitalar
e a escola vista pela criança como um lugar de aprendizado e de confor-
to. Conclui-se que as crianças vivenciam a experiência de estar no ambi-
166 Gislaine Federichi & Cleber Lizardo de Assis

ente hospitalar como algo desagradável, contrapondo ao seu ambiente


do lar. Manifestam sentimentos de medo dos procedimentos médicos,
tristeza pela ausência do ambiente familiar e culpa por achar de alguma
maneira que poderia ter evitado a doença. Identificou-se que o suporte
social foi a estratégia mais utilizada por essas crianças, se apoiando prin-
cipalmente na mãe para enfrentar a situação. E em seguida a Estratégia
de Confronto, onde a criança age de maneira ofensiva com a equipe que
está oferecendo cuidados e a Reavaliação Positiva se apoiando na reli-
gião. Defende-se que haja a compreensão e identificação das vivências e
estratégias de enfrentamento que a criança utiliza, podendo auxiliar os
profissionais de saúde na diminuição do sofrimento e ajudando no pro-
cesso de adaptação durante a hospitalização.

Soeitxawe
Avaliação da Lei Maria da Penha por gestores de Cacoal-RO


Bruna Angélica Borges
Luana Sampaio
Cleber Lizardo de Assis

A violência contra mulheres é um fenômeno histórico-cultural, base-


ado na construção social, política e cultural dos papéis femininos e mas-
culinos, que atribuiu às mulheres os lugares de menor empoderamento,
de desvalorização e de subalternidade. Nesse contexto e como resultado
de grandes lutas dos movimentos feministas, entrou em vigor a Lei
11.340/2006, com o objetivo de combater as diversas formas de violên-
cia doméstica e familiar contra a mulher, representando assim um marco
importante na efetivação da política de enfrentamento e erradicação da
violência contra a mulher. No entanto, apesar da implementação da Lei,
há uma carência de pesquisas que investiguem se as políticas públicas
expressas em programas e práticas sociais e jurídicas determinadas pela
Lei Maria da Penha está sendo efetivamente cumprida conforme as ori-
entações previstas no dispositivo legal. Nesse sentido, a presente pesqui-
sa teve por objetivo analisar a percepção sobre a aplicação da Lei
11.340/2006 (Lei Maria da Penha) no município de Cacoal/RO, sob a
ótica dos gestores dos programas e serviços que atuam no enfrentamento
da violência de gênero. Foi amostra da pesquisa os gestores do Juizado
da 1ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, do
Ministério Público Estadual, da Delegacia Especializada de Atendimento
à Mulher e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Metodologi-
camente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória,
onde foi realizada uma entrevista semiestruturada com cada sujeito, utili-
zando-se como técnica, a Análise de Conteúdo de L. Bardin, que permi-
tiu construir categorias para a análise em profundidade das emissões dos
sujeitos pesquisados. Foram criadas e analisadas a partir da Lei, seis cate-
gorias, sendo elas: 1 - Aspecto Geral, 2 - Tipos e Formas de Violência, 3
- Prevenção, 4 - Assistência Judiciária, 5 - Atendimento Policial e 6 -
Medidas Protetivas de Urgência. Os resultados nos mostram que na
168 Bruna Angélica Borges, Luana Sampaio & Cleber Lizardo de Assis

avaliação da percepção dos gestores dos programas e serviços que atuam


no enfrentamento à violência no município de Cacoal/RO, foi identifi-
cada a necessidade da criação, implementação e controle de políticas
públicas que efetivem a aplicabilidade da Lei no município. Conclui-se
assim que há a necessidade da intervenção articulada entre os operadores
do direito, os poderes públicos e os demais serviços especializados no
resguardo dos direitos humanos da mulher no âmbito das relações do-
mésticas e familiares, e espera-se que os resultados dessa pesquisa pos-
sam gerar subsídios para uma atuação que efetive a aplicabilidade da Lei
11.340/2006.

Soeitxawe
Intervenção psicossocial junto a um grupo de grávidas de
Cacoal-RO


Bruna Angélica Borges
Luana Sampaio
Tatiane Mendes
Cleber Lizardo de Assis

A gravidez é uma experiência psicofisiológica que traz várias modifi-


cações ao organismo feminino, começando na primeira semana de gesta-
ção e continuando durante todo o período gestacional, ocasionando
diversas mudanças decorrentes de intensas transformações físicas, psí-
quicas e sociais. Nesse sentido, é importante conhecer e verificar as pos-
sibilidades de atuação junto a esse público, especialmente fomentando
ações em políticas públicas para esses sujeitos; objetiva-se apresentar os
resultados de uma Intervenção Psicossocial de curta duração, junto a um
grupo de mulheres gestantes usuárias do sistema público de saúde, na
cidade de Cacoal-RO. A intervenção psicossocial aqui descrita e analisa-
da foi realizada com um grupo de 08 (oito) gestantes, entre 20 a 37 anos
de idade, com meses de gestações diferentes, nas dependências do Cen-
tro da Saúde da Mulher, uma instituição pública que realiza atendimentos
de pré-natais e exames ginecológicos no Município de Cacoal-RO. O
termo “intervenção” é utilizado para definir o processo de inserção na
realidade de outras pessoas ou contextos sociais, onde o pesquisador
interfere e modica essa realidade, por meio de uma metodologia que
enfatize as capacidades dos sujeitos com os quais trabalhamos. Nesse
sentido, adotou-se uma metodologia participativa e dinâmica, sobre te-
mas: gravidez, autoestima, cuidados com o corpo, sexualidade. Como
resultados, percebeu-se uma produção discursivo-subjetiva compreensiva
e expressiva de sentimentos e experiências em torno da gravidez; perce-
beu-se maior autoconfiança e disposição para o enfrentamento da reali-
dade, com repercussões diretas na sua autoestima. A metodologia esco-
lhida pode favorecer aos integrantes do grupo a condição de sujeitos
portadores de saberes sobre suas condições de vida, onde o facilitador
170 Bruna Borges, Luana Sampaio, Tatiane Mendes & Cleber de Assis

tem o papel de incentivador, sistematizador, de apoio reflexivo e de in-


formação, favorecendo que o encontro alcance uma dimensão pedagógi-
ca e terapêutica. Conclui-se pela defesa da viabilidade e efetividade da
intervenção psicossocial em pequenos grupos, em espaços institucionais,
como modalidade de prevenção, educação e promoção da saúde, especi-
almente junto ao grupo de grávidas.

Soeitxawe
Extensão universitária e enfrentamento à violência de gênero
em Cacoal-RO


Simone Muniz
Lucineide Costa Santana
Nádia Valéria Santos
Cleber Lizardo de Assis

O problema da violência de gênero é um fenômeno crônico em nossa


cultura, embora se crie políticas públicas e a Lei 11.340/2006, chamada
“Maria da Penha”, no entanto, adolescentes e jovens iniciam seus relaci-
onamentos amorosos cada dia mais cedo, dentro de um processo de
socialização da violência de gênero. Objetiva-se discutir a importância de
ações educativas de caráter preventivo no enfrentamento à violência de
gênero em adolescentes e jovens de Cacoal-RO. Método: Uma das ações
do Projeto de Extensão Mulher Viva foram as intervenções psicossociais
junto a 1.320 adolescentes e jovens, estudantes do ensino médio e supe-
rior do município de Cacoal-RO. Resultados e Análise: Foram realizados
01 Evento acadêmico interdisciplinar sobre o tema Mulher e Violência,
07 Intervenções Psicossociais com adolescentes de escolas públicas em
parceria com Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, OAB, Fó-
rum de Justiça de Cacoal, SENAC/RO, Ministério Público, Centro Es-
pecializado de Assistência Social; 01 Pesquisa sobre Estratégias de En-
frentamento à Violência de Gênero em Mulheres e 01 Pesquisa sobre
Representações Sociais de Adolescentes sobre a Violência de Gênero. A
partir dos momentos de processamento finais das intervenções, ocorre-
ram uma ampliação da noção de violência de gênero, seus tipos princi-
pais, seu funcionamento cíclico no casal, os fatores geradores e as formas
de enfrentamento. Os eventos permitiram uma maior articulação dos
segmentos sociais envolvidos em rede para o enfrentamento à violência
de gênero; foram produzidos artigos e publicações em periódicos cientí-
ficos acerca do tema da violência de gênero. Considerações finais: Desta-
ca-se a importância de ações e projetos de extensão no curso de Psicolo-
gia como dispositivo para, articulada ao Ensino e à Pesquisa, desenvolver
172 Simone Muniz, Lucineide Santana, Nádia Santos & Cleber de Assis

ações socioeducativas junto a esse público, especialmente através de uma


metodologia de intervenção psicossocial junto a adolescente, em especial,
devido ao seu caráter lúdico, dinâmico e participativo, de forma a se
construir novas relações amorosas sem violências.

Soeitxawe
Prática profissional em psicossomática em profissionais de
saúde da região norte


Simone Muniz de Oliveira
Erica Barbosa
Elizeu Diniz
Lucineide Santana
Nádia Valéria Santos
Uiara Diane Costa Lima
Cleber Lizardo de Assis

As doenças psicossomáticas são difíceis de ser detectadas, pois


causam sintomas físicos, porém sem causas orgânicas, se constituindo
por causas emocionais, onde há uma angustia (de base psíquica).
Objetiva-se estudar as percepções e práticas sobre psicossomática em
profissionais de saúde de Cacoal e Nova Brasilândia/RO. A amostra foi
composta de 08 profissionais de saúde, em pesquisa qualitativa, com
coleta de dados a parti de entrevistas semiestruturadas e tratadas por
Análise de Conteúdo, segundo as seguintes categorias: Relação corpo-
mente, Formação e Conhecimento em Psicossomática e Prática e
Tratamento em Psicossomática. Como resultados, os profissionais
relataram reconhecer uma complexa interação entre mente/psíquico e
corpo, com relativo conhecimento sobre a temática psicossomática,
citando as principais afecções ocorrentes em sua prática, no entanto,
nota-se pouca interação profissional na perspectiva da
interdisciplinaridade, predominando os encaminhamentos. Houve nos
profissionais de saúde um certo conhecimento sobre a interação mente-
corpo, inclusive levantando as doenças decorrentes do mal
funcionamento desse processo, mas não existe na prática profissional um
diálogo e interação de forma interdisciplinar, prevalecendo o
encaminhamento ao psicólogo, que pode contribuir de forma estratégica
para essa possível articulação na abordagem do fenômeno
psicossomático. Conclui-se que, apesar de haver conhecimento ou do
des-conhecimento, os sujeitos assumem ser um dever do profissional de
174 Simone O, Erica B, Elizeu D, Lucineide S, Nádia S, Uiara L, Cleber A

saúde, mas que não existe na prática um diálogo e interação de forma


interdisciplinar, prevalecendo o recurso tradicional do encaminhamento
ao psicólogo ou, em alguns casos, o profissional de saúde evoca práticas
religiosas e não científicas para o suporte ao doente. Nesse caso, o
profissional de Psicologia, pareceu como o profissional com maior
conhecimento e prática junto a esse tipo de paciente, seja por demanda
espontânea do paciente ou por encaminhamentos de outros profissionais
de saúde, o que lhe coloca numa situação estratégica e diferenciada que
pode ser útil numa possível articulação e fomentação de uma prática
interdisciplinar.

Soeitxawe
Representações sociais sobre a psicologia e o psicólogo em
universitários de uma faculdade privada de Rondônia


Géssica Alves de Souza Matthes
Cleber Lizardo de Assis

A Psicologia é uma profissão recente no Brasil, mas abrange vários


campos de atuação e está em constante crescimento enquanto ciência,
incluindo no estado de Rondônia, onde é ofertado em várias cidades, no
entanto, ainda encontramos alguns estereótipos acerca do profissional
psicólogo e desta ciência. A Representação Social se define como uma
forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, com
um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade
comum a um conjunto social. Encontramos representações sociais e
informações referentes ao psicólogo e a Psicologia como profissional de
baixa remuneração, profissão feminina e com baixa credibilidade profis-
sional e ainda vistos como “esfaqueadores de bolso de elite fútil”, como
“coisa de louco”, dentre outros. Essa pesquisa tem como objetivo identi-
ficar quais as Representações Sociais sobre a profissão Psicologia e o
profissional Psicólogo em sujeitos universitários de uma Faculdade Pri-
vada de Cacoal-RO. Metodologicamente, foi realizada com uma amostra
de 110 alunos, de ambos os sexos, de 06 (seis) cursos de uma faculdade
privada de Cacoal-RO, coletados através de um formulário com frases
evocativas elaboradas pelos pesquisadores, organizadas em 05 (cinco)
categorias: Importância e Credibilidade Profissional; Áreas de Atuação
do Psicólogo; Características e Imagem Social do Psicólogo; Formas e
Modos de Trabalho do Psicólogo e Relação Psicologia e Outros Campos
de Saber. Os dados coletados foram analisados de forma quantitativa,
por frequência simples, sem correlação de idade, gênero, curso e outras
categorias, seguido de produção de gráficos no programa Excell for Win-
dows. Como resultados, o profissional de psicologia bem como a profis-
são psicologia tem importância para a sociedade e para a saúde mental
das pessoas, visto como um profissional que estuda o comportamento, a
mente, as emoções e os relacionamentos humanos. Em relação ao lócus
176 Géssica Alves de Souza Matthes & Cleber Lizardo de Assis

de trabalho do psicólogo, apontaram a área da saúde, escolar, jurídica,


organizacional e do trabalho, sendo que a clínica não teve muito desta-
que. Na categoria Imagem Social do Psicólogo, é visto como uma pessoa
normal, embora “complicado”, mas contribuindo para a qualidade de
vida da população. Em relação ao instrumento de trabalho do psicólogo
a dinâmica de grupo foi bem pontuada, assim como a escuta, os testes e
“conselhos”. Quanto à categoria sobre a relação entre a Psicologia e
outros campos de saber, os resultados demonstraram que as pessoas
ainda buscam na religião, amigos e familiares a resolução para seus pro-
blemas, sem privilegiar a psicologia para isso; ainda não souberam dife-
renciar a Psicologia da Psiquiatria. Conclui-se que os sujeitos universitá-
rios tem em sua representação social sobre o psicólogo e a psicologia,
como de importância na sociedade e para a saúde mental das pessoas
assim como estuda e trata da mente e das relações humanas, não diferen-
ciando bem a sua contribuição em relação a outros campos de saber, no
entanto apontaram com lócus de trabalho as áreas da educação, social,
saúde, organizacional e do trabalho, esportiva e jurídica, sem o predomí-
nio da clínica; o psicólogo ainda é visto como um sujeito normal e que
utiliza de dinâmicas de grupos, escuta, testes e “conselhos” em seu traba-
lho, sendo que esta concepção demonstra ainda uma percepção tradicio-
nal da função do psicólogo.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária junto a
usuários de um CAPS da região Norte

Cleber Lizardo de Assis


Luciana Roa
Lucineide Santana
Priscila de Assis
Rosângela C. R. Aniceto

Resumo: Introdução: A Lei 10.216/2001 de 06 de abril de 2001 assegura a


proteção e direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Representa
um grande passo para um novo olhar sobre o sofrimento psíquico no que diz
respeito a subjetivação do sujeito, resgate da cidadania e inclusão social. No
entanto, a normatização desta lei contrasta com o apontamento de algumas
conquistas relevantes do Movimento pela Reforma Psiquiátrica, que apontam
para esse risco de “manicomialização” dos novos equipamentos. Para superar os
modelos arcaicos e ineficazes que intensificam esse risco, existem práticas que se
apresentam não como um modelo padronizado de ação, mas como caminhos
que tornam possível esta prática e que em conjunto com outras classes, o
psicólogo comunitário desempenha um papel fundamental e, nesse sentido, a
proposta de intervenção com usuários do Centro de Atenção Psicossocial II
(CAPS II) é um caminho para a inovação e uma ação necessária ao
prosseguimento da Luta Antimanicomial e para a Reforma Psiquiátrica que
defendem um novo paradigma de ações junto ao portador de sofrimento
mental. Objetivo: Analisar um processo de Pesquisa-Intervenção realizado junto a
um grupo de sujeitos do CAPS II, pessoas com sofrimento mental, de um
município do interior de Rondônia. Método: A partir de uma pesquisa-
intervenção em psicologia social/comunitária foi realizada com 17(dezessete)
usuários e 02 (dois) funcionários do CAPS II da cidade de Cacoal/RO, sob
estudo teórico-bibliográfico e oficinas de trabalhos artesanais. Resultado e
Discussão: a partir dos momentos reflexivos e de processamento finais das
intervenções junto ao público, verificou-se a possibilidade de ações interventivas
através de oficinas com artesanato com baixo custo e fácil aprendizagem, de
forma que ocorra socialização, lazer, reinserção social através do trabalho e
aquisição de renda financeira, além de proporcionar acolhimento, resgate da
autoestima, liberdade de expressão e criatividade, elementos que podem ser
constitutivos de uma maior adesão ao tratamento e à qualidade de vida desses

Soeitxawe
178 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

sujeitos. Para os discentes em formação, a experiência de conviver, mesmo que


por pouco tempo com uma comunidade denominada “pessoas com sofrimento
mental”, se constituiu em importante eixo de formação do futuro profissional.
Conclusão: Destacamos a importância de ações e projetos de pesquisa-
intervenção no curso de Psicologia como dispositivo para desenvolver ações
terapêuticas junto a esse público. A metodologia de pesquisa-intervenção
psicossocial através de oficinas podem ser estimuladas e aperfeiçoadas no
tratamento de temas relevantes para o usuário do CAPS, em especial, devido ao
seu caráter lúdico, dinâmico e participativo, de forma a se construir novas
relações entre usuários, família e comunidade.
Palavras-chave: Pessoa com sofrimento mental; Pesquisa-intervenção;
Reforma psiquiátrica.

Introdução

A Lei Número 10.216/2001 06 de abril de 2001, que assegura a


proteção e direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais,
representa um grande passo para um novo olhar sobre o sofrimento
psíquico no que diz respeito a subjetivação do sujeito, resgate da
cidadania e inclusão social. A normatização desta lei contrasta com o
apontamento de algumas figuras relevantes do Movimento pela Reforma
Psiquiátrica, que apontam para um risco de “manicomialização” dos
novos equipamentos (Campos e Furtado, 2006, p.1054).
Para superar os modelos arcaicos e ineficazes que intensificam o risco
de manicomialização mencionado, existem práticas que se apresentam
não como um modelo padronizado de ação, mas como caminhos que
tornam possível esta prática e que em conjunto com outras classes o
psicólogo desempenha um papel fundamental. Dittrich (1998) menciona
algumas destas práticas que é a desmistificação do sofrimento mental, ou
seja, o psicólogo deve por todos os meios possíveis demonstrar que o
sofrimento é um constituinte da existência humana e desta forma o
sofrimento mental deixará de ser visto como patologia e
consequentemente deixará de produzir o isolacionismo, a segregação e a
institucionalização.
O trabalho preventivo do psicólogo também, segundo Dittrich
(1998), é um caminho inovador efetivado através de intervenções

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 179

comunitárias. O psicólogo através de seu saber científico assume práticas


preventivas indo ao encontro deste público e localizando as causas de
seu sofrimento. A importância da socialização e a luta contra a
institucionalização são caminhos que também foram citados por Dittrich
(1998). A institucionalização impossibilita a relação daquele que sofre
com seu mundo social isentando este indivíduo de contato humano, de
socialização. Como o autor afirma que o melhor “remédio” contra o
sofrimento mental é o contato humano, a institucionalização impediria
esta forma de cura para o sofrimento desta pessoa.
O papel do psicólogo, em tal situação, se constitui em abrir ao sujeito
seu leque de possibilidades, visando o fim do sofrimento, propiciando
liberdade e integração social, certamente, isto será efetivado por meio de
diferentes técnicas de intervenção que fazem parte do saber do
profissional psicólogo. Para Martins e Rocha (2001), o modelo de
profissional de psicologia no Brasil foi se transformando de acordo com
as necessidades apresentadas pela sociedade que são, segundo os autores,
desemprego, pobreza e desigualdade social, por exemplo. Sendo que,
com esse quadro social, houve a necessidade de pensar na função social
do psicólogo e na transcendência social da psicologia. Ainda neste
contexto social de transformações, Martins e Rocha(2001), afirmam que
a psicologia vem recebendo novos desafios, abrindo novos espaços de
trabalho que exigem, cada vez mais, uma especificidade de ação
concluindo então que a psicologia da saúde surge da necessidade de
promover e de pensar o processo saúde/doença como um fenômeno
social. De acordo com essa nova mudança no processo saúde/doença,
Martins e Rocha (2001) afirmam que o processo saúde/doença,
entendido como um fenômeno coletivo, num processo histórico e
multideterminado, remetem-nos a uma atuação integrada com vistas à
saúde, demonstrando a necessidade da interdisciplinaridade. Assim, o
movimento da saúde integral e a visão biopsicossocial, influenciará a
nova forma de atuação, enfatizando a melhoria da qualidade de vida no
trabalho e o direito que todo cidadão tem de receber atenção e cuidados
que lhes garantem atendimento global.
Nesse sentido, a proposta de intervenção em um Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) pode ser um caminho para a inovação mencionada
neste trabalho e uma ação necessária para consolidar os ideais da luta

Soeitxawe
180 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

antimanicomial na região Norte do país. Nesse caso, através da oficina


terapêutica, além de capacitação profissional com vistas à aquisição de
renda financeira, propicia também saúde mental, integração social,
liberdade de expressão e contato humano.

A pessoa com sofrimento mental: breve histórico

Ao longo da história, pessoas com sofrimento mental foram


marginalizadas pela sociedade, enclausuradas, estigmatizadas, rotuladas,
sem direitos algum por mais simples que fosse como, por exemplo, a
condução de suas vidas e a liberdade de escolha. Até os dias de hoje, a
história do sofrimento mental passou por vários processos de
transformação, desde o conceito primórdio de saúde e doença da Idade
Média até a Luta Antimanicomial e as instituições de atendimento
psicossocial da atualidade. O conceito doença e saúde não têm o mesmo
significado para todas as pessoas afirma Scliar (2007), são conceitos
atrelados a historicidade do indivíduo, ou seja, seus valores, classe social,
concepções religiosas, filosóficas etc., como exemplo, houve época em
que a masturbação era considerada uma conduta patológica que era
tratada com choques elétricos e até mesmo a imobilização da pessoa.
Na antiguidade predominava o conceito religioso acerca da doença.
Consideravam que forças alheias ao organismo é que o acometia da
doença por causa do pecado ou por uma maldição (Scliar, 2007). A
medicina grega contribuiu substancialmente na forma de entender a
doença, segundo Scliar (2007), suas práticas em busca da cura não se
resumiam somente em rituais místicos, mas também era obtida pelo uso
de plantas e de métodos naturais. Neste contexto surge Hipócrates de
Cós (460-377 a.C) sobre o enfoque organicista da doença e Galeno (129-
199) com o conceito endógeno da origem da doença.
Na idade média ainda predominava o conceito religioso atrelado a
doença e a saúde, tanto é que as instituições religiosas é que
administravam os locais onde abrigavam os doentes, inclusive os
hospitais, já na modernidade inicia-se a mudança do conceito religioso de
“doença” e começa a sofrer influência da alquimia e a química no
tratamento trazido pelo suíço Paracelsus (1493-1541) com o conceito

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 181

teórico da origem exógena da doença. René Descartes, no século XVII


influenciado pela mecânica, faz uma associação corpo e máquina e
postula um dualismo mente-corpo.
A ciência é revolucionada com as descobertas no laboratório de Louis
Pasteur, com ajuda do microscópio, descoberto no século XVII, pode
identificar a existência de micro-organismos causadores de doenças o
que possibilitou a introdução de soros e vacinas. Posteriormente inicia os
estudos epidemiológicos e estudos estatísticos que auxiliavam para a
análise do nível sócio econômico relacionado a saúde que culminou com
o início do trabalho da saúde pública.
Ao analisar a história da loucura nos séculos XVIII e XIX, é possível
identificar um novo modelo de homem que surge na modernidade. Para
Torre e Amarante (2001), esse modelo de homem surge em meio a um
pensamento mecanicista: o sujeito da razão, desta forma a loucura se
torna seu contrário, o sujeito da “desrazão”. Neste período também
surgem significados para a loucura: alienação e mais tarde doença mental.
Neste período a medicina apropria-se da loucura e atribui a esta um
papel estratégico a partir do momento que é vista como um sinônimo de
erro.
A partir do princípio do confinamento e do ideal de normatização do
sujeito louco foi instituído o asilo, de acordo com Torre e Amarante
(2001), a loucura deixa de ser vista como algo de ordem sobrenatural, de
uma natureza estranha a razão, mas uma desordem desta e então surge o
conceito de alienação, aquele que está fora de si, fora da realidade e do
sujeito alienado. A partir deste conceito o modo de relacionamento
social com a loucura passa a ser intermediado por uma ciência que
Philippe Pinel define como alienismo (Torre e Amarante, 2001).
A institucionalização da loucura torna-se uma regra geral, um
princípio universal (Torre e Amarante, 2001). Neste período, o
internamento deixa de ter um papel filantrópico ou jurídico-política e
passa a ter um caráter de tratamento, o que implicava no método de
isolamento como função terapêutica.

Soeitxawe
182 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

A Reforma Psiquiátrica e as Políticas Públicas

As iniciativas reformadoras prosseguiram ao longo do século XIX em


meio a críticas do modelo asilar, o que culminou na luta contra a
institucionalização e teve a contribuição importante de Franco Basaglia,
tanto em sua produção teórica como nos processos de transformação no
campo da saúde mental. Para Basaglia (1981), a desconstrução do
manicômio era entendida como um conjunto de práticas multidisciplinar
e multi-institucionais que deveriam ser exercidas em vários espaços
sociais e não apenas no interior do hospício.
Nas últimas décadas, a Reforma Psiquiátrica toma um desvio, não
mais visa o aperfeiçoamento ou humanização do modelo asilar, mas a
condenar a sua ação de normatização e controle, tanto que na década de
70, a marca distintiva e fundamental é o reclame da cidadania do louco
permeado por exigências políticas, administrativas, técnicas e teóricas.
Posteriormente, na década de 80, surge segundo Tenório (2002), o
que seria o marco inaugural de uma nova prática de cuidados no Brasil: o
Programa de Saúde Mental de Santos/SP e o Centro de Atenção
Psicossocial Luiz Cerqueira de São Paulo/SP. Em 1987 acontece a I
Conferência Nacional de Saúde Mental e o posteriormente o II
Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental, tais encontros
não tiveram apenas o intuído de transformar o sistema de saúde, mas
também de desconstruir as formas arraigadas de lidar com a loucura.
Aprovada a Lei 10.216, de 06 de abril de 2001, de acordo com Silva e
Col. (2002), é redirecionado o modelo da assistência psiquiátrica no país.
Dentro dos moldes da reforma, a Coordenação de Saúde Mental do
Ministério da Saúde (COSAM) cria os Centros de Atenção Psicossocial
(CAPS) e dos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS).
O Brasil tem estabelecido através do Sistema Único de Saúde (SUS),
estratégias de funcionamento das redes de atenção à saúde,
especificamente a rede de atenção psicossocial. Como fonte foi coletado
dados da 10ª edição do informativo eletrônico de dados sobre a Política
Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, em março de 2012,
destacando dados estatísticos importantes do ano 2011, que identifica os
principais desafios e propõe a construção de estratégias para garantir a
acessibilidade e qualidade dos serviços da rede, como o cadastramento de

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 183

122 novos CAPS, entre eles o CAPSad24h. Estatisticamente a cobertura


nacional chegou a 1 CAPS para cada 100.000 habitantes perfazendo um
total de 1742 CAPS. Ainda na mesma fonte estatística, a rede de Atenção
Psicossocial, a nível nacional, conta ainda com 625 residências
terapêuticas, 3961 benefícios do programa De Volta Para Casa, 92
consultórios de rua e 640 iniciativas de inclusão social pelo trabalho de
pessoas com transtornos mentais (Ministério da Saúde, 2012).
Atualmente encontram-se habilitados 3.910 leitos de psiquiatrias em
Hospital Geral, distribuídos em 646 hospitais por todo o país. Ao longo
do período de 2006-2011, foram aprovados 851 projetos de Supervisão
Clínico-Institucional, segundo a 10ª edição do informativo eletrônico de
dados sobre a Política Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde
(2012), para o ano de 2012, há previsão de novas aprovações priorizando
os novos CAPSad III e os CAPSad. A Tabela 1 apresenta informações,
segundo dados coletados da 10ª edição do informativo eletrônico de
dados sobre a Política Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde,
março de 2012, para o estado de Rondônia no período de 2011:

Tabela 1: CAPS em Rondônia – período: 2011

CAPS por tipo CAPS I: 11 unidades


CAPS II: 05 unidades
CAPSad: 01 unidade
CAPS/100.000 habitantes 0,74 (cobertura muito boa/acima de
0,70)
Programa de Incl. Soc. Pelo 1 (um) projeto de incentivo técnico e
Trabalho financeiro
Consultório de Rua (CR) 1 consultório implantado ou em
implantação
Hospitais Gerais / leitos 01 / 60

Fonte: Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados-10 ano VII, nº 10.


Informativo eletrônico. Brasília: março de 2012.

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184 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

Na busca de referencial teórico sobre a definição de Políticas


Públicas, diversos conceitos foram encontrados, dentre estes, Souza
(2009) cita 3 referenciais: Mead (1995) que define como um campo que
analisa o governo à luz de grandes questões, Lynn (1980) afirma ser um
conjunto de ações para produzir efeitos específicos, Peters (1986), define
que políticas públicas é a soma de atividades do governo que agem direta
ou através de delegações que influenciam a vida dos cidadãos. Para
Souza (2009), para qualquer teoria da política pública é necessário citar as
inter-relações existentes entre Estado, política, economia e sociedade.
De acordo com Batista & Castello (s/a), no Brasil a política de saúde
mental só aconteceu devido a influência Psiquiátrica Italiana, e foi com
este pensamento que a legislação sobre a saúde mental no país coloca
sobre extinção os manicômios e substitui estes por novas modalidades
de atendimento, tais como: hospitais-dia, Centros de Atenção
Psicossocial – CAPS e Núcleos de Atenção Psicossocial – NAPS, trata
dos direitos do portador de transtorno mental, articulado à luta em
defesa dos interesses do portador de transtorno mental. A Lei Número
10.216/2001 06 de abril de 2001, assegura a proteção e direitos das
pessoas portadoras de transtornos mentais e acredita-se que esta lei
represente um grande passo para um novo olhar sobre o sofrimento
psíquico no que diz respeito a subjetivação do sujeito, resgate da
cidadania e inclusão social.
Segundo Martins e Vecchia (2009, p. 02), na atualidade vêm sendo
concedida atenção, no âmbito das políticas públicas de saúde no Sistema
Único de Saúde (SUS) que são, centros de atenção integral à saúde,
centros regionais de saúde mental, centros de atenção psicossocial,
centros de convivência, serviços residenciais terapêuticos e a rede
assistencial de atenção básica (UBS). Com base nesses dados é
importante perceber que há uma tentativa do governo em promover
essas políticas públicas, no entanto, a consolidação deste novo modelo
não é tão simples assim, pois passa pela produção de mudanças na
racionalidade sobre os fenômenos de saúde por parte das equipes
técnicas, na constituição de uma nova clínica. (Schneider, 2009, p.324).
Figuras relevantes do Movimento pela Reforma Psiquiátrica apontam
para o risco de uma “manicomialização” dos novos equipamentos
(Campos e Furtado, 2006, p.1054). O CAPS poderá expor os serviços ao

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 185

risco de sua deslegitimização social sem que os impasses sejam


suficientemente identificados e enfrentados. Este assunto foi abordado
em um congresso em São Paulo no ano de 2004, no que foi levantado
algumas críticas em relação ao trabalho do CAPS pois há um receio em
relação ao tratamento das pessoas, como eles mesmos citam, uma
“manicomialização” ou seja, ter o mesmo tratamento que as pessoas
tinham nos manicômios.

Psicologia Social-Comunitária e o trabalho do Psicólogo nesse


campo

A terminologia usada – Psicologia Social-Comunitária – compreende


o homem como um ser constituído sócio historicamente, segundo Silva e
Corgozinho (2011) e ao mesmo tempo em contínua construção de
concepções a respeito de sí mesmo, dos outros e do contexto social em
que vive.
No Brasil, a história e os fundamentos da Psicologia Comunitária
passam por um contexto econômico e político que surgiu em meio ao
golpe militar de 1964, segundo Lane (2007, p.17) ocasionou em meio a
este contexto político um questionamento em meio aos profissionais da
psicologia de qual seria o papel na sua conscientização e organização e
surge também uma reflexão sobre a atuação profissional junto à maioria
da população, sendo assim, sob o rótulo de psicologia social comunitária
houve no Brasil movimentos interdisciplinares, conforme Lane (2007,
p.19), na área de prevenção da saúde mental, unindo psicólogos,
psiquiatras e assistentes sociais, na área da educação popular com a
participação de pedagogos, psicólogos, sociólogos e assistentes sociais.
Mediante estes movimentos da então chamada Psicologia Social-
Comunitária, aconteceu, segundo Lane (2007, p.19) dois encontros: o
primeiro foi em São Paulo em 1981 (Encontro Regional de Psicologia na
Comunidade) e o segundo em Belo Horizonte em 1988, ambos foram
realizados pela Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO).
Estes encontros referidos são apenas alguns de muitos outros encontros
e experiências em psicologia comunitária que vem ocorrendo no Brasil,
Lane (2007, p. 30, 31) acredita que eles sejam significativos em termos de

Soeitxawe
186 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

representatividade das grandes questões teóricas e práticas que a


caracterizam hoje em nosso país:

A descoberta da comunidade não foi um processo específico da


psicologia social. Fez parte de um movimento mais amplo de
avaliação crítica do papel social das ciências e, por conseguinte,
do paradigma da neutralidade científica desencadeado nos anos
60 e culminado na década de 70 e 80, quando o conceito de
comunidade invadiu, literalmente, o discurso das ciências
humanas e sociais, especialmente as práticas na área de saúde
mental (LANE, 2007, p. 35).

Segundo Dittrich (1998) no que diz respeito à atuação do psicólogo


na proteção dos direitos humanos das pessoas com sofrimento mental,
este, sendo estudioso da dinâmica social que leva uma pessoa ao
sofrimento mental, não pode abster-se de seu papel fundamental neste
campo. Não é possível expor todas as alternativas viáveis para o auxílio
àqueles que sofrem, nem detalhar os diversos passos para a
concretização de tais alternativas. Algumas práticas são sugeridas visando
à superação de modelos arcaicos, ineficazes e coercivos. Porém não
pretendem, certamente, compor um modelo padronizado de uma nova
práxis; antes, pretendem demonstrar que existem caminhos para levar a
efeito tal desafio. A Desmistificação do sofrimento mental diz que
enquanto o sofrimento mental for visto como uma patologia, o
isolacionismo, a segregação e a institucionalização encontrarão sólida
base para a reprodução de suas práticas. O psicólogo deve, por todos os
meios disponíveis, demonstrar que o sofrimento é, inexoravelmente, um
constituinte da existência humana. A Importância crucial da socialização
mostra que o melhor "remédio" contra o sofrimento mental é e sempre
será o contato humano, e tal contato vem sendo maciçamente
desestimulado em nossa sociedade (Dittich, 1998).
Inúmeras outras formas de fomentar uma nova práxis na Psicologia
do sofrimento mental podem ser debatidas, assim como maneiras
diversas de consumar tais práticas e por certo, não se espera encontrar
unanimidade junto aos psicólogos em relação a essas questões, afirma
Dittrich (1998), tal fato deve tornar ainda mais incisiva à luta por
melhores condições de vida para o indivíduo que sofre. A pluralidade de

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 187

ideias não é apenas inevitável, mas desejável. A Psicologia não se faz de


certezas ou verdades, mas de dialética, de subjetividade, de humanidade e
de trabalho árduo. A seriedade do trabalho do psicólogo só será
reconhecida no momento em que a especificidade e a utilidade de seus
conhecimentos forem ostensivamente comprovadas, através de sua
aplicação efetiva na sociedade, visando à promoção e preservação dos
Direitos Humanos das pessoas com sofrimento mental.
Para Barros e Marsden (2008), a formação dos psicólogos que atuam
na saúde pública baseia-se em grande parte na cultura psicanalítica. Nos
últimos anos, reformas curriculares nas faculdades têm promovido a
diversificação de linhas teóricas e uma abertura de certas correntes da
Psicanálise à contextualização social, mas a influência do estruturalismo é
fortemente presente na auto-representação do psicólogo. Ainda segundo
a autora, os profissionais de Psicologia são formados para atender aos
“sujeitos psicológicos”.
A intervenção do psicólogo no contexto comunitário, para Freitas
(1998b) apud Silva e Corgozinho (2011), se caracteriza atualmente por
três ideologias de atuação que é a inserção assistencialista, a segunda por
curiosidade científica e terceiro uma inserção pautada no compromisso
real com a transformação social e a busca de mudanças das condições
vividas por essa população. Silva e Corgozinho (2011), ressaltam que o
processo de intervenção não deve ser unidirecional, uma imposição do
querer de um profissional, ao contrário, o interventor é um profissional
que busca transformações na comunidade em que está atuando com base
no desejo e na demanda deste grupo. Ornelas (1997) apud Silva e
Corgozinho (2011), afirma que a princípio a intervenção tem como foco
a transformação social e em última instância a transformação individual.
Diante do exposto acima, esse trabalho temo como objetivo, analisar
um processo de Pesquisa-Intervenção realizado junto a um grupo de
sujeitos do CAPS II, pessoas com sofrimento mental, de um município
do interior de Rondônia.

Soeitxawe
188 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

Método

Segundo Rocha (2003), a pesquisa-intervenção vem constituindo-se


em um dispositivo de transformação vinculado tanto à formação
acadêmica dos psicólogos, quanto às práticas nas instituições,
possibilitando novas análises construídas entre a macro e a micro
política.

Amostra

Com relação ao perfil dos sujeitos-alvo da intervenção, a faixa etária


média é de 40 anos; quanto aos aspectos socioeconômicos, são de classe
social baixa, sem vínculo empregatício e nem benefício do INSS; quanto
a escolaridade, há analfabeto funcional, com ensino superior em forma-
ção e com o terceiro ensino fundamental incompleto; há que more em
casa de aluguel e outros que possuem casa própria, com renda familiar
menor que um salário e até três salários mínimo vigente.

Procedimentos e Materiais

Como etapas processuais, foi realizado um estudo teórico-


bibliográfico sobre o tema e subtemas: Doença Mental, Reforma Psiquiá-
trica, Pessoa com sofrimento mental, Políticas Públicas para esse sujeito,
o que forneceu os elementos categóricos e estado da arte no país. Na
sequência, planejou-se as etapas de seleção de local, de pessoas de conta-
to, os instrumentos de coleta de dados, pedido de autorização institucio-
nal e as visitas organizadas sob a forma de observações e entrevistas a
usuários e profissionais da instituição, bem como a metodologia de ofi-
cina de trabalhos artesanais que seria desenvolvida.
Em relação à intervenção propriamente dita, ocorreram em três eta-
pas dentro do segundo semestre de 2013, em período matutino com
duração de 3 horas cada encontro, coordenados por acadêmicas do curso
de Psicologia junto ao espaço físico do CAPS II em Cacoal/RO. Obser-
vou-se como os sujeitos se comportam e como se organizam e aplicou-se
as entrevistas para o público-alvo e aos funcionários, com a perspectiva

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 189

de identificar temas e problemas de ordem objetiva e subjetiva da tríade


sujeito-instituição-comunidade.
A observação inicial do público-alvo ocorreu durante uma oficina de
pintura em tela que ocorria com 12 (doze) participantes, de onde se
entrevistou 03 (três) usuários, um homem e duas mulheres, seguido da
entrevista com 02 (duas) pessoas que trabalham (gerente e enfermeiro do
CAPS II). Na segunda etapa, as acadêmicas foram ao encontro das
usuárias do CAPS II que participavam da oficina de pintura em tela, para
fazerem o convite a um encontro específico, onde seria desenvolvida a
oficina de artesanato, que ocorreu na semana seguinte e foi composta
dos momentos: uma introdução e técnica “quebra-gelo” em que
respondiam a questões que vinham dentro de balões, o que favoreceu a
expressão de seus sentimentos com relação ao passado e desejos para o
futuro (era um mês de dezembro que serviu de mote), além de falas que
se referiram à importância do CAPS no seu tratamento, família e
projetos. Essa técnica favoreceu a apresentação do grupo a partir de um
estímulo verbal, promovendo a descontração e um sentimento de
identidade grupal entre os membros do grupo; ao final foi servido um
lanche e entregue um convite impresso em que anunciava a oficina de
enfeite natalino. Já na quarta etapa, da realização da oficina de enfeite
natalino de feltro, as 5 (cinco) participantes foram organizadas em uma
das mesas e receberam a explicação de cada etapa para a confecção do
enfeite e seu uso na geração de renda. Nesse sentido, foi proposto que
tal artesanato poderia ser produzido com baixo custo para promoção de
qualidade de vida aos usuários do CAPS. Salientamos que essa última
intervenção foi planejada e realizada de acordo com a demanda exposta
na entrevista dos usuários do CAPS II, especialmente a partir de queixas
de sentimento de inutilidade e dificuldade de produzir algo rentável, e
foram adaptados os dias e horários que os sujeitos poderiam participar.

Soeitxawe
190 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

Resultado e Discussão

Na sequência, apresentaremos a análise da pesquisa-intervenção a


partir de categorias criadas durante e a posteriori ao trabalho desenvolvido,
como forma de sistematizar elementos observados e identificados em
entrevistas e interações com sujeitos usuários e profissionais do CAPS:

Avaliação inicial/diagnóstico

Nota-se como é fundamental o trabalho desenvolvido no CAPS na


vida dos usuários: A mudança de comportamento antes e depois de se
tornarem usuários do CAPS foi relatado nas entrevistas e comprovado
através das observações. Eles estavam entregues à sorte de seu
sofrimento e ainda mais, ao sofrimento imposto pela sociedade,
conforme a pesquisa, discriminação e exclusão eram alguns destes
agravantes que em sua maioria partia de pessoas da própria família. Hoje
conquistaram, até onde permite seu sofrimento, autoestima, liberdade de
expressão, amigos, autoconfiança, aceitação de seu sofrimento mental e
respectivos sintomas. Mas mesmo assim, foi possível observar e
constatar através das falas que o sentimento de inutilidade e incapacidade
também faz parte da vida da pessoa com sofrimento mental devido às
limitações impostas, como exemplo, desempenho de atividades
laborativas, tanto as domésticas rotineiras, quanto as com vínculo
empregatício, que segundo eles poderiam ajudar na renda familiar.

Tema/problemas dos sujeitos

Identificamos o caso de um usuário que devido ao efeito colateral de


seus medicamentos teve prejuízo no seu desempenho sexual, gerando
conflitos em seu relacionamento conjugal, mas recebendo ajuda
psicológica para conseguir superar esta crise. De acordo com a sua fala:
“Devido ao uso dos meus medicamentos tive prejuízo no meu desempenho sexual e isso
ocasionava brigas entre eu e minha esposa, quando conversei com o psicólogo, recebi
orientação nesta área e resolveu”. (sic). Nota-se que a proposta de intervenção
para este problema envolve a participação de todos os membros
envolvidos no convívio direto com este indivíduo, sejam a esposa e os

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 191

profissionais da saúde, de forma que se opere a lógica de atenção


psicossocial.
Quanto às modalidades, podem ser em sessões psicoterápicas
individuais, já que o convívio dos familiares com esses pacientes é
grandemente afetado devido aos sintomas do sofrimento mental e a
intervenção psicológica através da terapia possibilitaria para o sujeito e
toda a sua família uma vida mais tranquila, amenizando os conflitos
existentes. Um outro usuário também atribui seu bem estar mental ao
psicólogo porque quando chega “péssima” e conversa com a psicóloga
consegue ficar bem.
Também foi identificada durante as entrevistas a queixa por parte dos
usuários do CAPS, em relação ao preconceito, discriminação e a
desinformação sobre o sofrimento mental, expressos por parte dos
familiares e vizinhança. S1: “Com minha família sim, com pessoas de fora nunca
sofri discriminação, pois nunca contei para ninguém, escondo porque tenho medo da
discriminação”; S2: “Sim, violação dos direitos, discriminação por parte da família
(parente) e vizinhos”. Como intervenção para esses casos a proposta de
enfrentamento pode ser através de palestras de orientação sobre os
transtornos, sintomas e características da doença e incentivar a
participação da família junto ao CAPS para conhecer a estrutura física e
profissional existente.
Um dos problemas que mais se destacou na pesquisa foi a
incapacidade laborativa dos entrevistados, que segundo eles gera um
sentimento de inutilidade e incapacidade. Devido a classe social ser de
baixa renda, estas pessoas sentem necessidade de ajudar nas despesas
financeiras da família, mas fatores como o despreparo para a
competitividade no mercado de trabalho, o sofrimento mental e seus
sintomas característicos associados aos efeitos colaterais dos
medicamentos também inviabiliza, em grande parte, que estas pessoas
assumam um vínculo empregatício, apontando que há uma necessidade
evidente de que pessoas com sofrimento mental sejam capacitadas
profissionalmente com atividades que contribuam para sua renda familiar
e também proporcione bem estar psicológico.
Confirma-se, portanto, que a participação do psicólogo nesses
processos é de grande relevância, pois segundo depoimentos, situações
que vivenciam, não são possíveis solucionar com medicamentos, o

Soeitxawe
192 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

psicólogo no uso de seu saber contribui para que este momento seja
enfrentado da forma mais saudável possível.

Laço Social e o tratamento

Com base na observação e escuta relacionadas aos aspectos psicosso-


ciais, foi possível destacar alguns fatores como comportamento, relacio-
namento familiar e sofrimentos. Hoje são pessoas que conseguem con-
duzir suas vidas de forma mais saudável e durante as entrevistas aparen-
tavam maior tranquilidade até mesmo para falar sobre o seu sofrimento
que, segundo suas falas, era um quadro totalmente diferente do atual
como usuários do CAPS II; por exemplo, o sujeito 01 afirmou que antes
chorava muito, sofria desmaios, depressão e tinha ideações suicidas, mas
hoje se considera feliz no CAPS, onde tem amigos, sente-se bem, confia
nas pessoas; esse mesmo perfil de “antes e depois” acompanha a fala dos
demais, sendo que o sujeito 2 relata que brigava com muita facilidade,
com uso de agressões verbais e físicas, mas que hoje consegue se contro-
lar e afirma: “mudei muito”; esse quadro também se repete com o sujeito
3 diz que agora consegue lidar melhor com seu sofrimento. Nesse ele-
mento “tratamento”, além do próprio CAPS, as famílias foram conside-
radas pelos entrevistados como pessoas extremamente importantes, de
onde receberam apoio e o próprio encaminhamento para tratamento;
não menos importante e mencionados, atribuiu-se aos profissionais da
saúde que ali atuam, seu grau de importância.

O lugar e o papel da Psicologia

A importância da atuação do profissional psicólogo foi evidente tanto


nas falas dos usuários quando dos funcionários entrevistados. Situações
vivenciadas pelos usuários que fogem ao controle dos medicamentos e
que são pertinentes ao âmbito emocional imbuído de sua subjetividade,
faz com que a ciência psicológica se torne primordial à pessoa com so-
frimento mental, como facilitadora e promotora de processos com vistas
as conquistas da pessoa nos aspectos interpessoais, comunitários, sociais
e até mesmo culturais a que pertencem. As transcrições dos depoimentos

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 193

a seguir confirmam isso: S1- “venho péssima de casa (mesmo medicada), e sinto-
me bem quando falo com ele (psicólogo), consigo enfrentar o dia e as situações, enfren-
tar os problemas da família sem crises.”; também há queixa do S2 sobre o
efeito colateral do medicamento que usa e que causa prejuízo no seu
desempenho sexual e que, por sua vez causava conflitos no relaciona-
mento conjugal, mas que tem sido superados após a atenção recebida
por um psicólogo.
Junto aos funcionários, quando indagados sobre o trabalho do psicó-
logo na instituição, obtivemos respostas nas quais foi possível identificar
o quanto é importante a sua presença, conforme alguns aspectos relevan-
tes em falas a seguir: - Formação de equipe: “discutimos os problemas”,
“trocamos informações o tempo inteiro”; - Resultados significativos: “o
paciente precisa também de um psicólogo, faz a diferença”; “a avaliação
psicológica é importante porque ajuda o paciente a se encontrar”; - As-
sistência profissional específica: “acredito que só os medicamentos não
resolvem, precisa de uma orientação, intervenção psicológica...”. A partir
destes depoimentos, notamos como se consolida a importância da Psico-
logia na percepção dos funcionários, mas também de sua atuação de
forma interdisciplinar, de forma que favoreça o bem estar biopsicossocial
da pessoa com sofrimento mental.

Considerações Finais

Preocupados com o risco da manicomialização, novas práticas


surgiram e se apresentam não como um modelo padronizado de ação,
mas como caminhos que tornam possível esta prática e que em conjunto
com outras classes, o psicólogo desempenha um papel fundamental. O
trabalho realizado pelo CAPS – Centro de Atenção Psicossocial que visa
oferecer atendimento à uma população específica, realiza o
acompanhamento clínico e a inserção social dos usuários pelo acesso ao
trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços
familiares e comunitários através de uma ação interdisciplinar.
Os CAPS são serviços de saúde municipais, abertos, comunitários
que devem oferece atendimento diário e tem como função: prestar aten-
dimento clínico em regime de atenção diária, evitando as internações em

Soeitxawe
194 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

hospitais psiquiátricos; acolher e atender as pessoas com transtornos


mentais graves e persistentes, regular a porta de entrada da rede de assis-
tência em saúde mental na sua área de atuação; promover a reinserção
social do indivíduo através do acesso ao trabalho, lazer, exercício dos
direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários.
Sabemos que ao longo da história de pessoas com sofrimento mental,
houve um avanço considerável e conquistas eméritas neste campo, mas
que ainda há muito a ser feito, especialmente na região Norte do país,
onde tal dispositivo ainda se encontra em amadurecimento. Neste
contexto, cabe ao psicólogo estar mais atento as demandas sociais
principalmente no que se refere ao público em questão, intervindo de
forma a superar a visão que concebe seu sofrimento como unicamente
de ordem individual, dissociando das demais estâncias em que vive,
sendo assim, o psicólogo deverá propor caminhos com base em uma
ação compartilhada, afim de que estes indivíduos possam construir sua
própria história. Entendendo que essa ação do psicólogo deve ocorrer de
forma interdisciplinar e com um comprometimento que implica
responsabilidade política, profissional e social.
A experiência de conviver mesmo que por pouco tempo com uma
comunidade denominada “pessoas com sofrimento mental” nos fez
refletir mais sobre o universo em que vivemos e nossos (pré) conceitos
acerca de situações e pessoas alvo do trabalho do psicólogo. A revelação
da potencialidade do ser humano, mesmo com certo grau de
comprometimento e impedimento imposto pelo seu sofrimento, deve
ser reconhecida e valorizada. Já o que não deve ser valorizado mas sim
combatido, e que compromete ainda mais o sofrimento desses sujeitos é
o preconceito, a discriminação, a segregação, alienação e o isolamento.
Segundo Rocha (2003) na pesquisa-intervenção, a relação
pesquisador/objeto pesquisado é dinâmica e determinará os próprios
caminhos da pesquisa, sendo uma produção do grupo envolvido.
Durante essa intervenção houve uma troca de saberes entre
pesquisadores e sujeitos, onde nos surpreendemos com a participação e
troca de experiências com os sujeitos, com sugestões de como melhorar
a produção e assim poder realizar a venda do artesanato de forma
lucrativa: os usuários se sentiram empoderados e produtivos.
Destacamos a importância de ações e projetos de pesquisa-intervenção

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 195

no curso de Psicologia como dispositivo para desenvolver ações


terapêuticas junto a esse público. A metodologia de pesquisa-intervenção
psicossocial através de oficinas podem ser estimuladas e aperfeiçoadas
no tratamento de temas relevantes para o usuário do CAPS, em especial,
devido ao seu caráter lúdico, dinâmico e participativo, de forma a se
construir novas relações entre usuários, família e comunidade.
Em meio a tudo que foi observado, escutado e sentido, podemos
concluir que não há possibilidades de pensar a inclusão social e a saúde
mental, se não houver uma visão otimista dos processos humanos, quer
sejam nas políticas públicas, nas disciplinas, na gestão social, enfim, em
todos os setores e pessoas que se voltam para essa causa, até mesmo a
partir dessa pesquisa-intervenção realizada junto ao CAPS II. A
diversidade de ideias e ações é necessária e a Psicologia tem seu
reconhecimento a partir do momento que utilize de seus conhecimentos
de forma efetiva na sociedade como promotora e facilitadora da saúde
mental e também da preservação dos direitos humanos das pessoas com
sofrimento mental.

Referências

Brasil (2012). Ministério da Saúde. Saúde mental em Dados-10, ano VII,


nº 10. Informativo eletrônico. Brasília: DF
CAMPOS, R. T. O.; Furtado,J. P. (2006). Entre a saúde coletiva e a saúde
mental: um instrumental metodológico para avaliação da rede de
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do Sistema Único de
Saúde. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22 (5):1053-1062
DITTRICH, A. (1998). Psicologia, direitos humanos e sofrimento mental:
ação, renovação e libertação. Psicologia: Ciência e Profissão, 18 (1), 46-
55
LANE, S. T. M. (2007). Histórico e fundamentos da psicologia
comunitária no Brasil-Psicologia Social Comunitária. Editora
Vozes, 13ª. Ed. Petrópolis, RJ

Soeitxawe
196 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

MARTINS, D. G; Rocha Jr., A. (2001). Psicologia da saúde e o novo


paradigma: novo paradigma? I Congresso de Psicologia Clínica,
Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo/SP
POMBO-DE-BARROS, Carolina Fernandes, & Marsden, Melissa. (2008).
Reflexões sobre a prática do psicólogo nos serviços de saúde
pública. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 60(1), 112-123.
ROCHA, M. L. (2003). Pesquisa-intervenção e a produção de novas
análises. Psicologia ciência e profissão, 23 (4), 64-73
SOUZA, M. P. R. (2009). Psicologia Escolar e Educacional em busca de
novas perspectivas. Revista Semestral da Associação Brasileira de
Psicologia Escolar e Educacional. Vol. 13, Número 1, p.179-182.
SCLIAR, M. (2007). História do conceito de saúde. Physis: Revista de Saúde
Coletiva, 17(1), 29-41
SILVA, J. V.; Corgozinho, J. P. (2011). Atuação do psicólogo,
SUAS/CRAS e Psicologia Social Comunitária: possíveis
articulações. Psicol. Soc.[online]. 2011, vol.23, n.spe, pp. 12-21
SILVA, A. T. M. C.; Barros, S.; Oliveira, M. A. F. (2002). Políticas de
Saúde e de Saúde Mental no Brasil: a Exclusão/Inclusão Social
Como Intenção e Gesto. Rev. Esc. Enferm. USP 36(1): 4-9
TORRE, E. H. G. & Amarante, P. (2001). Protagonismo e subjetividade:
a construção coletiva no campo da saúde mental. Ciência & Saúde
Coletiva, 6(1), 73-85
TENÓRIO, F. (2002). A Reforma Psiquiátrica brasileira, da década de
1980 aos dias atuais: historia e conceitos. História, ciências, saúde.
9(1): 25-59

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 197

APÊNDICE A

TÉCNICA QUEBRA-GELO PARA A PRIMEIRA ETAPA


CARTÕES E BALÕES

Número de participantes: 06 pessoas


Tempo de duração: 45 minutos

Objetivos:
Geral: Favorecer a apresentação do grupo e a autoestima dos
participantes
Específico: A partir de um estímulo verbal, promover a descontração
dos membros do grupo e sua consequente apresentação.

Material: bolas de sopro (coloridas); cartões coloridos; lápis hidrocor e


papel ofício.

Desenvolvimento:
1- Enumerar uma série de cartões coloridos e no seu verso escrever a
seguinte ordem: “Estoure uma bola com o número do seu cartão”
2- Encher as bolas coloridas e introduzir em cada uma delas papéis. Com
as seguintes perguntas:
x Qual o seu nome?
x O que você deseja para 2014?
x Qual foi o melhor dia da sua vida?
x O que você deseja para seus amigos e sua família?
x O que te deixa feliz?
x Qual o seu maior sonho?
3- Dispor as bolas no centro da sala.
4- Formar um círculo em volta das bolas coloridas.
5- Dispor os cartões coloridos em uma mesa e solicitar aos participantes
que escolham cada um o seu cartão.

Soeitxawe
198 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

6- Convidar o portador do cartão de número 1 para que, no centro do


círculo estoure uma bola do mesmo número do seu cartão
7- Estourada a bola, o papel chave que estava no seu interior deverá ser
lido em voz alta e atendida sua solicitação.
8- O procedimento continua com a pessoa do cartão de número 2, e
continua até que todos tenham se apresentado.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 199

APÊNDICE B

Convite
As alunas do 6º período de psicologia/UNESC

Convidam você para uma oficina de

Arte de Natal.

Dia:___/___/2013 às ______h.

Local: CAPS II

(Trazer tesoura e agulha de bordar)

Modelo do convite entregue aos usuários para participar da oficina de


Arte de Natal no dia.

Soeitxawe
200 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

APÊNDICE C

PESQUISA SOCIOECONÔMICA (sujeito 01)

1- Nome: Ilenice S. Lauton Idade: 47 anos Gênero: Feminino


Naturalidade: .......... Cidade que reside: Cacoal/RO
Profissão: não trabalha. Estado civil: casada

2- quantas pessoas compõem a sua família? 01 pessoa


Grau de parentesco Idade
Esposo 59

3- Quem o principal responsável pelo sustento da família?


Esposo

4- Qual a profissão do responsável pelo sustento da família?


Não tem. (tem uma casa alugada)

5- Qual o tipo de residência da sua família?


(x )própria ( )alvenaria (x)madeira
( )alugada ( )alvenaria ( )madeira
( )emprestada ( )alvenaria ( )madeira

6- Qual a renda mensal sua família hoje?


(x) menos que um salário mínimo
( ) até um salário mínimo
( ) recebe ajuda do programa social do governo federal
( ) não possui nenhuma renda – vive de ajuda de outras pessoas
( ) outros valores R$ 2.500,00

7- Qual o seu nível de escolaridade? Superior incompleto

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 201

PESQUISA SOCIOECONÔMICA (sujeito 02)

1- Nome: Moises Queiroz Idade: 47 anos Gênero: Masc.


Naturalidade: .......... Cidade que reside: Cacoal/RO
Profissão: experiência como vendedor Estado civil: casado

2- Quantas pessoas compõem a sua família? 4 pessoas


Grau de parentesco Idade
Esposa 42
Filho 19
Filha 17
Filha 21

3- Quem o principal responsável pelo sustento da família?


Esposa

4- Qual a profissão do responsável pelo sustento da família?


Professora

5- Qual o tipo de residência da sua família?


(x)própria ( )alvenaria (x)madeira
( )alugada ( )alvenaria ( )madeira
( )emprestada ( )alvenaria ( )madeira

6- Qual a renda mensal sua família hoje?


( ) menos que um salário mínimo
( ) até um salário mínimo
( ) recebe ajuda do programa social do governo federal
( ) não possui nenhuma renda – vive de ajuda de outras pessoas
(x) outros valores R$ 2.500,00

7- Qual o seu nível de escolaridade? Ensino médio completo

Soeitxawe
202 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

PESQUISA SOCIOECONÔMICA (sujeito 03)

1- Nome: Rosilda Elias P. Abreu Idade: 44 anos Gênero: Feminino.


Naturalidade: Cachoeira Alta G. O Cidade que reside: Cacoal/RO
Profissão: Do lar. Estado civil: casada

2- Quantas pessoas compõem a sua família? 2 pessoas


Grau de parentesco Idade
Esposo 50
Filho 22

3- Quem o principal responsável pelo sustento da família?


Esposo e filho

4- Qual a profissão do responsável pelo sustento da família?


Marceneiro e auxiliar de Marcenaria

5- Qual o tipo de residência da sua família?


( )própria ( )alvenaria (x)madeira
(x)alugada (x)alvenaria ( )madeira
( )emprestada ( )alvenaria ( )madeira

6- Qual a renda mensal sua família hoje?


( ) menos que um salário mínimo
(x) até um salário mínimo
( ) recebe ajuda do programa social do governo federal
( ) não possui nenhuma renda – vive de ajuda de outras pessoas
( ) outros valores R$ 2.500,00

7- Qual o seu nível de escolaridade? Analfabeta

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 203

APÊNDICE D

ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA O PÚBLICO–ALVO


(Sujeito 01)

Nome: Ilenice S. Cauton. 47 anos, residente na cidade de Cacoal/RO.

1- Tempo de tratamento e acompanhamento no CAPS II:


05 anos no CAPS de Cacoal e 15 anos no geral (Cacoal e Cuiabá)

2- Já participou de muitas oficinas aqui no CAPS? Me fale delas:


Primeira vez que participo de oficina

3- Fazer um resumo de como era a vida antes de frequentar o CAPS e


como é agora:
Hoje fico mais calma, consigo pensar para agir, é mais tranquilo.

4- Como você se sente quando está aqui no CAPS (acolhimento)?


Tem um bom acolhimento por parte dos funcionários e amigos da
oficina, amizade um com o outro, aqui o mundo é melhor e tudo fica
mais tranquilo.

5- Quais as dificuldades encontradas para enfrentar o seu problema?


Não posso ficar em lugar barulhento, quando tem alguém brigando me
agito, fico muito nervosa e não consigo me controlar. Outra dificuldade
é em sala de aula, devido o barulho que os alunos fazem em sala.

6- Quais as formas que você encontra para lidar com este sofrimento?
Estudando, lendo, fazer artes como: pintar, plantar verduras e flores, o
CAPS também me ajuda devido as amizades.

7- Quais as pessoas que ajudam a superar as suas dificuldades?


Filho e esposo

8- O CAPS te ajuda a enfrentar as dificuldades? Como?

Soeitxawe
204 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

Médicos, amigos, brincadeiras um com outro, conversa com as pessoas,


fazer artes como pintar.

9- Você já passou ou ainda passa por algum tipo de descriminação


social?
Sim, minha família, com pessoas de fora nunca sofri discriminação, pois
nunca contei para ninguém, escondo porque tenho medo da
discriminação.

10- Tem alguma coisa que você gostaria de fazer e está impossibilitada de
realizar?
Tenho vontade de estudar medicina, mais não encontrei coragem, pois
acho um curso muito complexo e me acho incapaz, pois as vezes minha
mente falha.

11- Você já foi atendido por um psicólogo? Relatar a situação e como


isso ajudou:
Sim, em Cuiabá, não gostei do atendimento desse Psicólogo, pois não
me ajudou em nada, o Psicólogo pediu para que eu separasse do meu
marido, ele usou a seguinte frase chuta o pau da barraca mulher, vai ser
melhor assim para você, vai parar de sofrer, eu não gostei da atitude
desse Psicólogo. Em Cacoal eu vou de vez enquanto, pois fiquei um
pouco traumatizada com a situação anterior, porém me sinto mais
tranquila, mais calma, estou conseguindo comer, dormir, fazer faculdade.

12- Você considera importante a atenção de um psicólogo na sua


situação?
Sim, porque quando sinto alguma coisa ruim, me acho incapaz e com
ajuda do Psicólogo consigo entender as dificuldades e viver uma vida
normal.

13- Você tem conhecimento dos seus direitos como pessoas com
sofrimento mental? Quais?
Não.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 205

ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA O PÚBLICO-ALVO


(Sujeito 02)

Nome: Moisés Queiroz, 47 anos, residente na cidade de Cacoal/RO.

1- Tempo de tratamento e acompanhamento no CAPS II:


2 anos

2- Já participou de muitas oficinas aqui no CAPS? Me fale delas:


Artesanato com jornal e pintura à óleo sobre tela

3- Fazer um resumo de como era a vida antes de frequentar o CAPS e


como é agora:
Muita briga, discussão e ideias suicidas. Quando foi encaminhado pelo
CAPS por ordem médica não fica sem os medicamentos, ainda fica mais
nervoso, mas consegue se controlar tem consciência que errou. Mudou
muito.

4- Como você se sente quando está aqui no CAPS (acolhimento)?


É uma diversão. Esquece por alguns momentos dos problemas, não vê a
hora passar.

5- Quais as dificuldades encontradas para enfrentar o seu problema?


Não conseguir trabalhar para ajudar em casa

6- Quais as formas que você encontra para lidar com este sofrimento?
Ficar sozinho (quando é mais grave), ler a bíblia e também ficar no meio
de pessoas.

7- Quais as pessoas que ajudam a superar as suas dificuldades?


Esposa, amigos e funcionários do CAPS

8- O CAPS te ajuda a enfrentar as dificuldades? Como?


Sim tem ajudado através das oficinas terapêuticas.

Soeitxawe
206 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

9- Você já passou ou ainda passa por algum tipo de descriminação


social?
Uma vez quando fui atendido no INSS, fora isso nenhuma outra
situação.

10- Tem alguma coisa que você gostaria de fazer e está impossibilitada de
realizar?
Trabalhar mais para aumentar a renda da família.

11- Você já foi atendido por um psicólogo? Relatar a situação e como


isso ajudou:
Sim. Devido o uso de meus medicamentos tive prejuízo no meu
desempenho sexual e isso ocasionava brigas entre eu e minha esposa,
quando conversei com o psicólogo recebi orientação nesta área e
resolveu. Fico mais a vontade para falar e ser ouvido.

12- Você considera importante a atenção de um psicólogo na sua


situação?
Sim, sinto falta porque tem momentos que a situação fica grave.

13- Você tem conhecimento dos seus direitos como pessoas com
sofrimento mental? Quais?
Não tenho conhecimento.

ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA O PÚBLICO-ALVO


(Sujeito 03)

Nome: Rosilda Elias P. Abreu, 44 anos, residente na cidade de


Cacoal/RO.

1- Tempo de tratamento e acompanhamento no CAPS II:


5 anos

2- Já participou de muitas oficinas aqui no CAPS? Me fale delas:

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 207

Sim, curso de EVA, jornal e telas. (mais de um ano que participo de


oficinas)

3- Fazer um resumo de como era a vida antes de frequentar o CAPS e


como é agora:
Vim para o CAPS receber ajuda e me ajudar. Recebi orientação para vir
ao CAPS, pois sofria discriminação por parte da família, não tinha
muitos amigos, tinha pouca socialização com familiares. Admiro o
trabalho da psicóloga e sei que preciso do CAPS.

4- Como você se sente quando está aqui no CAPS (acolhimento)?


Me sinto bem no CAPS, confio nas pessoas, aqui tenho amizades com
funcionários e amizade com meus colegas.

5- Quais as dificuldades encontradas para enfrentar o seu problema?


Discriminação por parte de vizinhos sou sensível a eventos mais
estressor, durmo muito devido aos medicamentos e fazer com que me
respeitarem.

6- Quais as formas que você encontra para lidar com este sofrimento?
CAPS, terapias, oficinas e Psicólogos/Neuro/Psiquiatra

7- Quais as pessoas que ajudam a superar as suas dificuldades?


Família (esposo e filho)

8- O CAPS te ajuda a enfrentar as dificuldades? Como?


SIM

9- Você já passou ou ainda passa por algum tipo de descriminação


social?
Sim, violação dos direitos, discriminação por parte da família (parente) e
vizinhos

10- Tem alguma coisa que você gostaria de fazer e está impossibilitada de
realizar?
Sim, serviço de casa, trabalhar fora e se alfabetizar.

Soeitxawe
208 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

11- Você já foi atendido por um psicólogo? Relatar a situação e como


isso ajudou:
Sim, venho péssima de casa e me sinto bem quando falo com ele (Psi),
consigo enfrentar o dia e as situações, enfrento os problemas que tenho
com a família e me sinto melhor sem as crises.

12- Você considera importante a atenção de um psicólogo na sua


situação?
Sim, é muito importante, sem o Psicólogo seria muito difícil. Hoje com
o tratamento do psicólogo, a vida está mais clara, defendo os psicólogos,
porque é muito importante.

13- Você tem conhecimento dos seus direitos como pessoas com
sofrimento mental? Quais?
Sim. Não ser discriminado e se isso acontecer posso denunciar a pessoa.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 209

APÊNDICE E

ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA OS FUNCIONÁRIOS DA


INSTITUIÇÃO

Nome: Suellen Cristina Araújo


Função: Gerente da farmácia.
Tempo no CAPS: 04 meses
Formação acadêmica: Farmacêutica Bioquímica.
Tempo: 8 anos.

Já trabalhou em outro CAPS ( )sim (x) não

1- Qual o seu setor e quais as funções desenvolvidas neste setor?


Controle de medicamentos, pedidos, almoxarifado, mapas para controle
de medicamentos, laudo para pegar medicamento, gerente.

2- A respeito do seu trabalho, o que você pensa sobre ele (o que é bom,
o que poderia mudar ou melhorar, quais ações podem ser implantadas):
Organizar agendamento, com relação a espera antes os pacientes
esperavam até 20 dias, hoje é melhor, o atendimento é mais rápido,
Instituição física não é boa (aprovada), porém a equipe é boa, mais
faltam profissionais no RH.

3- Qual a prática desenvolvida no seu setor que caracteriza um


acolhimento?
Em situação de estresse, é dado orientação e direcionamento para solu-
ções.

4- Com o objetivo de (re)inserção social e promoção da saúde do


usuário, qual é a contribuição do seu trabalho neste aspecto?
Orientação na aquisição dos medicamentos (onde encontrar/aonde ir)
não deixar esse paciente esperando muito. O CAPS em geral.

5- Em sua opinião qual a necessidade do trabalho do psicólogo nesta


instituição?

Soeitxawe
210 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

O paciente precisa de um Psicólogo, faz a diferença, tem pacientes que


tem melhora significativa.

6- No seu setor que tipo de parceria pode ser desenvolvido junto com
um profissional psicólogo?
Enriqueceria o grupo de profissionais do CAPS.

7- Tem alguma coisa que gostaria de acrescentar?


Sim, o CAPS é um trabalho que apaixona, de maneira geral.

ROTEIRO DE ENTREVISTA PARA OS FUNCIONÁRIOS DA


INSTITUIÇÃO

Nome: João Luiz Pinheiro


Função: Enfermeiro (especialização em Psiquiatria)
Tempo no CAPS: 08 anos
Formação acadêmica: Enfermeiro.
Tempo: 8 anos.

Já trabalhou em outro CAPS ( )sim (x) não

1- Qual o seu setor e quais as funções desenvolvidas neste setor?


Setor geral, ou seja, acolhimento em geral, faço também visita domiciliar
a pacientes com transtorno mentais e visitas quando há crises, exemplo:
Quando tem algum paciente tentando contra sua própria vida e
transtorno alterado.

2- A respeito do seu trabalho, o que você pensa sobre ele (o que é bom,
o que poderia mudar ou melhorar, quais ações podem ser implantadas):
No acolhimento percebe-se que ainda existe preconceito porque não tem
informações necessárias. Com isso não procura ajuda. Outra questão é o
CAPS, é uma casa adaptada, falta sala para consultórios, não tem ar con-
dicionado, as vezes não tem lâmpadas, as cadeiras estão quebradas, enfim
o ambiente é precário, sem condições de trabalho e falta também intera-
ção entre as unidades de saúde.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 211

3- Qual a prática desenvolvida no seu setor que caracteriza um acolhi-


mento?
Acolhemos com ou sem encaminhamento, analisamos e orientamos essa
pessoa, passamos informações necessárias, ouvimos todas as queixas e
direciona esse paciente para o setor/profissionais que for necessário. No
acolhimento acredito que quando esse paciente é atendido bem, da aber-
tura para um pós-tratamento.

4- Com o objetivo de (re)inserção social e promoção da saúde do usuá-


rio, qual é a contribuição do seu trabalho neste aspecto?
Palestras todas as terças-feiras, explicamos sobre o que é CAPS para seus
familiares e como a família pode ajudar. Prevenção de danos, além do
medicamento que o médico prescreve, acolhe, ajuda o paciente a dar
continuidade, orienta sobre os seus problemas e quais as soluções neces-
sária para viver “bem” e incluímos a família na orientação para saber
como lidar com esse paciente.

5- Em sua opinião qual a necessidade do trabalho do psicólogo nesta


instituição?
Apoio, todos os profissionais são importantes, acredito que só os medi-
camentos não resolvem, esses pacientes precisam de orientação, inter-
venção psicológica. Deve explicar para eles qual é a sua doença. Acredito
que a avaliação psicológica é fundamental para ajudar o paciente a se
encontrar.

6- No seu setor que tipo de parceria pode ser desenvolvido junto com
um profissional psicólogo?
Trocar informações o tempo inteiro, trabalhar em equipe. Se for necessá-
rio pode encaminhar para um psicólogo. Discutir os problemas, como
por exemplo sobre o CID, tanto o Enfermeiro quanto o Psicólogo anali-
sar juntos e chegar a uma conclusão mais precisa.

7- Tem alguma coisa que gostaria de acrescentar?


Sim. Achei a visita de vocês muito importante, e acredito que precisa de
mais pessoas aqui no CAPS para fazer estágio, pois com voluntários

Soeitxawe
212 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

podemos ajudar mais essas pessoas (pacientes) que sofrem com transtor-
no mental. A prática tem muito a acrescentar no aprendizado acadêmico
e profissão futura. É diferente da teoria.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 213

ANEXO A

Lei nº 10.216 de 04 de junho de 2001, que assegura a proteção e direitos


das pessoas portadoras de transtornos mentais.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o Congresso


Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Os direitos e a proteção das pessoas acometidas de transtorno
mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma de
discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção
política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de
gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.
Art. 2º Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a
pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados
dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo.
Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às
suas necessidades;
II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de
beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na
família, no trabalho e na comunidade;
III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;
IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;
V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a
necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;
VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;
VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e
de seu tratamento;
VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos
possíveis;
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde
mental.
Art. 3º É responsabilidade do Estado o desenvolvimento da política de
saúde mental, a assistência e a promoção de ações de saúde aos
portadores de transtornos mentais, com a devida participação da
sociedade e da família, a qual será prestada em estabelecimento de saúde

Soeitxawe
214 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

mental, assim entendidas as instituições ou unidades que ofereçam


assistência em saúde aos portadores de transtornos mentais.
Art. 4º A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada
quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes.
§ 1º O tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção
social do paciente em seu meio.
§ 2º O tratamento em regime de internação será estruturado de forma a
oferecer assistência integral à pessoa portadora de transtornos mentais,
incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos,
ocupacionais, de lazer, e outros.
§ 3º É vedada a internação de pacientes portadores de transtornos
mentais em instituições com características asilares, ou seja, aquelas
desprovidas dos recursos mencionados no § 2º e que não assegurem aos
pacientes os direitos enumerados no parágrafo único do art. 2º.
Art. 5º O paciente há longo tempo hospitalizado ou para o qual se
caracterize situação de grave dependência institucional, decorrente de seu
quadro clínico ou de ausência de suporte social, será objeto de política
específica de alta planejada e reabilitação psicossocial assistida, sob
responsabilidade da autoridade sanitária competente e supervisão de
instância a ser definida pelo Poder Executivo, assegurada a continuidade
do tratamento, quando necessário.
Art. 6º A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo
médico circunstanciado que caracterize os seus motivos.
Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação
psiquiátrica:
I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do
usuário;
II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do
usuário e a pedido de terceiro; e
III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça.
Art. 7º A pessoa que solicita voluntariamente sua internação, ou que a
consente, deve assinar, no momento da admissão, uma declaração de que
optou por esse regime de tratamento.
Parágrafo único. O término da internação voluntária dar-se-á por
solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico assistente.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 215

Art. 8º A internação voluntária ou involuntária somente será autorizada


por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina -
CRM do Estado onde se localize o estabelecimento.
§ 1º A internação psiquiátrica involuntária deverá, no prazo de setenta e
duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual pelo
responsável técnico do estabelecimento no qual tenha ocorrido, devendo
esse mesmo procedimento ser adotado quando da respectiva alta.
§ 2º O término da internação involuntária dar-se-á por solicitação escrita
do familiar, ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo
especialista responsável pelo tratamento.
Art. 9º A internação compulsória é determinada, de acordo com a
legislação vigente, pelo juiz competente, que levará em conta as
condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do
paciente, dos demais internados e funcionários.
Art. 10. Evasão, transferência, acidente, intercorrência clínica grave e
falecimento serão comunicados pela direção do estabelecimento de
saúde mental aos familiares, ou ao representante legal do paciente, bem
como à autoridade sanitária responsável, no prazo máximo de vinte e
quatro horas da data da ocorrência.
Art. 11. Pesquisas científicas para fins diagnósticos ou terapêuticos não
poderão ser realizadas sem o consentimento expresso do paciente, ou de
seu representante legal, e sem a devida comunicação aos conselhos
profissionais competentes e ao Conselho Nacional de Saúde.
Art. 12. O Conselho Nacional de Saúde, no âmbito de sua atuação, criará
comissão nacional para acompanhar a implementação desta Lei.
Art. 13. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 6 de abril de 2001; 180º da Independência e 113º da República.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
José Gregori
José Serra
Roberto Brant

Soeitxawe
216 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

ANEXO B

Entrevista fornecida a uma rede de TV local no momento que


estava sendo realizada oficina de arte de natal:

Pacientes do CAPS aprendem a fazer enfeites natalinos

Objetivo da oficina é promover a socialização entre as pacientes.


CAPS realiza média de 480 atendimentos por mês. Com os olhares
atentos e as mãos habilidosas, cerca de 12 pacientes do Centro de
Atenção Psicossocial (CAPS) de Cacoal (RO) transformam pedaços de
tecido feltro em delicados imãs de geladeiras natalinos. A atividade está
sendo oferecida por um grupo de acadêmicas do curso de psicologia de
uma faculdade particular. Para a estudante Rosângela Custodio Ribeiro, o
objetivo da oficina é promover a socialização entre as pacientes e quem
sabe garantir uma renda extra para o final do ano.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 217

Após passar por uma depressão profunda, a dona de casa Rozilda


Elias Pereira, de 44 anos, começou a frequentar o CAPS. De acordo com
a paciente, os encontros que ocorrem semanalmente ajudaram a
controlar as crises que eram frequentes. “Com as oficinas consigo me
sentir mais segura, pois aqui tem pessoas que já conheço há mais de
cinco anos. Quando fico em casa sozinha, tenho medo e sinto vontade
de chorar”, disse Rozilda.
Há 10 anos a aposentada Aparecida Maria Conrado, de 67 anos,
frequenta o CAPS. Com as visitas Aparecida conta que já aprendeu a
confeccionar bonecas de tecidos, bolsas de garrafas pets, coelhinhos de
meia de silicone, cofrinhos e pintura em tela. “Sempre que aprendo a
fazer os produtos começo a vender. Já ganhei um bom ‘dinheirinho’ com
as vendas. Em casa também vou fazer mais enfeites de geladeira para
vender. Nesse período de fim de ano, acho que vou conseguir”, falou
entusiasmada.
Ao G1, a acadêmica Rosângela disse que a oficina foi dividida em três
etapas, observação e questionamentos, dinâmica e a confecção das peças.
“A oficina faz parte de um trabalho da faculdade, mas acabamos nos
envolvendo com essas pessoas. Acho muito importante sairmos das salas
de aula para encararmos a realidade da profissão”, destaca.
Para a confecção das peças o gasto foi de R$ 2, caso as pacientes
usem o aprendizado para garantir uma renda extra, cada imã pode ser
comercializado a R$ 5. O CAPS realiza uma média de 480 atendimentos
a pacientes com algum transtorno mental ou neurológico do município e
da região. De acordo com Lizete Luciene da Silva, os pacientes recebem
atendimento médico psiquiátrico; entrega de medicamento controlado e
oficinas terapêuticas. O CAPS fica localizado na Avenida Brasil, número
549, Bairro Liberdade.

Disponível: <http://www.cacoalnews.com.br/2013/11/pacientes-do-
caps-aprendem-fazer.html#>

Soeitxawe
218 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

ANEXO C

Foto 1: Início da explicação para realizar a oficina.

Foto 2: Recorte dos moldes para montagem dos imãs de geladeira.

Soeitxawe
Pesquisa-Intervenção em Psicologia Comunitária 219

Foto 3: Organização das bases das árvores.

Foto 4: Decorando as árvores de natal.

Soeitxawe
220 Cleber A.; Luciana R.; Lucineide S.; Priscila A. & Rosângela A.

Foto 5: Enfeites confeccionados pelas participantes da oficina.

Soeitxawe
Estratégias de enfrentamento em acompanhantes hospitala-
res de familiar

Aline Letícia Vitória


Cleber Lizardo de Assis

Diante de uma concepção biopsicossocial de humano, a Psicologia


Hospitalar trabalha juntamente com outros profissionais, visando a pro-
moção e a educação para a saúde. Dessa forma, a presente pesquisa tem
como objetivo analisar as estratégias de enfrentamento (coping) utilizadas
pelos acompanhantes durante o processo de hospitalização de um famili-
ar em uma Unidade Hospitalar do Município de Cacoal-RO. Método:
Pesquisa qualitativa e exploratória, onde participaram 05 (cinco) acom-
panhantes de familiar internado, de ambos os sexos, com dados coleta-
dos em uma entrevista semiestruturada individual, utilizando como téc-
nica a Análise de Conteúdo de L. Bardin. Como resultados identificaram-
se as seguintes estratégias de enfrentamento: “Reavaliação Positiva” onde
indivíduos se apegam em alguma coisa para se fortalecerem no momento
estressante, neste caso o Coping Religioso, “Aceitação de Responsabilida-
de” onde o acompanhante se vê na responsabilidade de cuidar do famili-
ar internado, “Resolução de Problemas” onde o acompanhante foca-se
no problema, ou seja, no melhor tratamento ao familiar internado e “Su-
porte Social” que refere-se ao fato dos acompanhantes buscarem ajuda
de terceiros, seja os amigos, familiares ou até mesmo a equipe de saúde,
essas foram as estratégias mais utilizadas pelos acompanhantes entrevis-
tados. As estratégias menos utilizadas foram “Confronto” que trata-se de
estratégias ofensivas, onde os sujeitos apresentam uma atitude mais ativa
frente ao estressor, “Afastamento” onde o indivíduo evita confrontar-se
com a ameaça, não modificando a situação, “Autocontrole” que são os
esforços da pessoa em buscar o controle das emoções frente ao estímu-
los estressantes e “Fuga-Esquiva” que consiste em fantasiar sobre possí-
veis soluções para o problema sem, no entanto, tomar atitudes para de
fato modificá-las. Conclui-se que as categorias de estratégias de enfren-
tamento desenvolvidas pelos sujeitos foram a Reavaliação Positiva, como
222 Aline Letícia Vitória & Cleber Lizardo de Assis

mais utilizada pelos acompanhantes entrevistados, onde apontaram a


utilização da religião (também classificada como coping religioso) com
grande frequência para se fortalecerem durante o processo de hospitali-
zação do familiar internado. Em seguida, verificamos as estratégias de
Aceitação de Responsabilidade, Resolução de Problemas e Suporte Soci-
al. Observamos ainda que os acompanhantes dessa pesquisa utilizaram
algumas estratégias mais que as outras, o que ocorre de sujeito para sujei-
to. Destaca-se a importância dos profissionais de Psicologia nesse con-
texto, de modo a auxiliar sobre acompanhantes e profissionais sob for-
mas de facilitarem esse momento, tornando-o menos cansativo e doloro-
so.

Soeitxawe
Intervenção psicossocial junto ao adolescente autor de ato
infracional


Luciana Laura Maciel
Poliana Galvão
Valdirene Lima
Cleber Lizardo de Assis

A reintegração de adolescentes autores de ato infracional inseridos


em instituição socioeducativa se constitui em desafio para os profissio-
nais envolvidos e para o Psicólogo, de modos que se constitui numa
demanda para pesquisas e intervenções que conheçam as dificuldades do
processo educativo junto aos próprios sujeitos envolvidos, adolescentes,
famílias e agentes socioeducativos. Por outro lado, existem medidas so-
cioeducativas a serem aplicadas junto a esses adolescentes, dentre elas a
de internação em instituição especializada, onde as políticas públicas
possuem o papel de orientar/supervisionar e instituir ações que visem a
ressocialização desses sujeitos, com acordos estabelecidos pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente, em garantia de atendimento personalizado
e respeitando a singularidade dos adolescentes. Nesse sentido, objetivou
conhecer a realidade socioeducativa de adolescentes autores de ato infra-
cional, internados numa Instituição Socioeducativa de Cacoal. Metodo-
logicamente, obteve-se autorização judicial e realizou-se uma pesquisa-
intervenção composta de 03 (três) intervenções grupais junto a 07 (sete)
adolescentes em medida de internação, além de entrevistas a agentes
socioeducativos e aos próprios sujeitos-alvo. Os resultados apontaram o
perfil dos adolescentes internados: A idade média de 16,5 anos, situação
econômica baixa, com ensino fundamental incompleto e com uso de
drogas antes da internação. Verificou-se a importância da família no
processo de ressocialização desses adolescentes, devido a diversos pro-
blemas relacionais identificados, embora, não exista ação no sentido de
trabalhar a díade adolescentes-família. Notou-se a necessidade institucio-
nal de melhora na qualificação profissional dos adolescentes para o mer-
cado de trabalho. A pesquisa-intervenção como metodologia favoreceu
224 Luciana Maciel, Poliana Galvão, Valdirene Lima & Cleber de Assis

aos adolescentes uma percepção sobre o próprio ato infracional, além de


contribuição para a própria valorização do indivíduo como humano e
sujeito de direitos. Concluiu-se pela necessidade de ampliação desse tipo
de trabalho de modo contínuo, de forma que torne efetiva a contribuição
da Psicologia junto aos problemas identificados e contribua para reinte-
gração social.

Soeitxawe
Arte e Psicologia em pesquisa-intervenção junto a usuários
do CAPS II de Cacoal – RO

Judite Dias de Lima


Cleber Lizardo de Assis

A Reforma Psiquiátrica se constitui num marco histórico, científico e


social das relações entre os saberes psiquiátrico e psicológico e a loucura,
das instituições manicomiais e da sociedade com o sujeito denominado
‘louco’ e que agora pode ser tratado como sujeito singular e cidadão.
Como dispositivo e serviço substitutivos ao velho asilo se destaca o Cen-
tro de Atenção Psicossocial – CAPS, onde se ganha destaque as ativida-
des das Oficinas Terapêuticas com sua utilização das mais diversas ex-
pressões artísticas no acolhimento e tratamento. A pesquisa-intervenção
é uma metodologia importante para a produção de conhecimento teóri-
co-metodológico e de intervenção psicossocial em Psicologia Comunitá-
ria. Objetivo: Descrever o desenvolvimento e resultados de uma pesquisa-
intervenção realizada com usuários do CAPS, utilizando das artes plásti-
cas. Método: A intervenção foi desenvolvida durante um ano e meio, em
três fases: estudo teórico-bibliográfico, com ênfase na caracterização do
público, os principais problemas enfrentados e legislação vigente. A se-
gunda fase, diagnóstica, voltada para contatos e entrevistas junto a gru-
pos de profissionais e usuários, para conhecer as suas experiências e
demandas; a terceira fase se constituiu da intervenção psicossocial pro-
priamente dita, realizada com 251 usuários do CAPS II de Cacoal-RO;
foram realizadas 29 oficinas de pintura em tela a óleo, facilitadas por uma
acadêmica do curso de psicologia, sob a supervisão docente. Resultado e
Discussão: Através de vinte e nove encontros com o percentual de 8,7
participantes de ambos os sexos por oficina, possibilitou direcionar para
o instrumento analisador e, através deste, a análise dos aspectos vivenci-
ados na instituição de assistência à saúde mental, assim a partir de obser-
vações e depoimentos espontâneos, os sujeitos sentiram-se apoiados
socialmente pela equipe, encorajados à frequência ao serviço, desenvol-
veram criatividade, além da ampliação do convívio entre os usuários;
226 Judite Dias de Lima & Cleber Lizardo de Assis

notou-se como a técnica artística propicia catarse, elaboração de senti-


mentos e afetos, bem como acesso a conteúdos relacionados ao estado
psicológico dos participantes. No aspecto formativo-discente, destaca-se
o ganho de conhecimento teórico-prático que os discentes adquiriram
em todo o processo da pesquisa-intervenção; constatou-se ainda a exis-
tência de um número de funcionários reduzidos e a ausência de ativi-
dades comprometendo os atendimentos essenciais aos usuários do
CAPS, destoando da real finalidade e diretrizes do atual modelo da as-
sistência ao doente mental. Conclusão: a pesquisa-intervenção se constitui
numa importante metodologia de intervenção em Psicologia, sobretudo,
ao superar dicotomias como indivíduo-sociedade, objetividade-
subjetividade e na relação pesquisador-objeto de pesquisa; é ainda de
grande utilidade na intervenção psicossocial junto ao portador de sofri-
mento mental, em especial, utilizando-se da linguagem das artes plásticas,
além de se constituir num modo de produção de conhecimento do dis-
cente, quando da articulação entre Ensino e Pesquisa.

Soeitxawe
Pesquisa-intervenção em psicologia comunitária com um
grupo social LGBT da cidade de Cacoal - RO

Cleber Lizardo de Assis


Elizabete dos Santos
Greiciely Antero de Paula
Juliane Domingues
Tiago José A. Santos

Resumo: Atualmente, a temática da diversidade sexual e da cidadania de


sujeitos homoafetivos tem sido amplamente discutida nos diversos meios de
comunicação da sociedade, de modos que, à luz dos princípios dos Direitos
Humanos universais e de outras diretrizes humanitárias e psicológicas, faz-se a
necessidade de conhecer a situação desses sujeitos, especialmente o que pensam
sobre sua condição psicossocial, seus direitos e identificar o papel da Psicologia
junto a esse público. Este relato tem como objetivo analisar uma Pesquisa-
Intervenção em Psicologia realizada com uma amostra de X sujeitos que
compõe o público LGBT do município de Cacoal, RO. Metodologicamente, a
pesquisa-intervenção teve uma etapa teórico-conceitual onde se estudou a
caracterização deste público, as principais legislações e políticas públicas;
seguindo da etapa de diagnóstico e aproximação desses sujeitos em campo para
conhecer sua realidade; finalmente, ocorreram as 03 intervenções psicossociais
de forma coletiva e participativa, com 07 sujeitos, em torno de temas como leis
LGBT, origem do grupo LGBT, situação de vida, noção de direitos e cidadania.
Identificou-se que o maior problema identificado é a falta de conhecimento do
grupo acerca das políticas públicas, desconhecendo sobre seus direitos e deveres
conquistados ao longo da história, a própria origem do grupo LGBT e até
mesmo a dificuldade no conhecimento do significado da sigla LGBT.
Identificou-se ainda dificuldades de lidar com a própria homossexualidade no
seio familiar e em contextos religiosos, além da defesa da adoção de crianças e
da prática do sexo com proteção. Concluiu-se que a Psicologia possui um
importante papel junto ao grupo social LGBT, especialmente em facilitar a fala e
expressão desse grupo sobre problemas sofridos como preconceito e exclusão
social, além de favorecer intervenções onde possam tratar de temas como
identidade, pertencimento a grupos sociais e conhecimentos de direitos de
cidadania.
Palavras-Chave: Políticas Públicas; LGBT; Preconceito; Direitos Humanos.
228 Cleber A., Elizabete S., Greiciely P., Juliane D. & Tiago S.

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios e sua Aplicação no
Cotidiano da Segurança Pública Brasileira

Fábio Silva Cardoso


Marlison Carvalho
Sebastião Brito
MSc. Antonio Enrique Fonseca Romero

Resumo: Este trabalho tem por objetivo traçar um panorama sobre a aplicação
de princípios constitucionais e como podem ser adequados para transformar o
paradigma jurídico positivista, de forma a trazer mudanças sociais, que podem
ser aplicadas em todos os âmbitos da sociedade, inclusive naqueles em que a lei
tem maior dificuldade de ser aplicada e fiscalizada, nos referimos aos ambientes
prisionais, que normalmente ficam a margem da lei e é também onde mais
ocorrem desrespeitos ao bem maior do homem segundo nossa Constituição
Federal que é a dignidade da pessoa humana. Tenta-se alertar sobre a não
suficiência da lei positiva como aliada, se faz necessário que os princípios
predominem e que sejam respeitados. A motivação real da lei deve estar na
contínua vontade de se buscar o bem comum, transformar a sociedade visando
a qualificação da pessoa humana, a sua dignidade, mais do que a necessidade de
punir vingativamente. Por fim, considera-se que os princípios devem nortear de
forma flexível o ordenamento jurídico, tornando-o cada vez mais dinâmico e
coerente com a sociedade regida por esse ordenamento.
Palavras chaves: Princípios; Sociedade; Dignidade.

O sistema internacional de proteção dos direitos humanos constitui o


legado maior da chamada “Era dos Direitos” ou como Troper (2008)
menciona “vivemos sob o império do direito”, que tem permitido a
internacionalização dos direitos humanos e a humanização do Direito
Internacional Contemporâneo, concebidos sob o prisma da dignidade
humana, como referência ética maior a orientar a ordem jurídica interna
e internacional.
Com a Declaração Universal dos Direitos dos Humanos introduz-se a
concepção contemporânea de direitos humanos, caracterizada pela

Soeitxawe
230 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

universalidade e individualidade destes direitos. Universalidade porque


clama pela extensão universal dos direitos humanos, sob a crença de que
a condição de pessoa é o requisito único para a dignidade e titularidade
de direitos. Individualidade porque a garantia dos direitos civis e políticos
é condição para a observância dos direitos sociais, econômicos e
culturais.
Todavia, esses direitos humanos não são um dado, mas um
construído, uma invenção humana em constante processo de construção
e reconstrução que remonta a paz de Westfália em 1648, que é o início
do Direito Internacional clássico, ou seja, desde a presente data até 1948,
ano em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
vivíamos na era do “Estado-centrismo” onde o Estado era o sujeito
internacional por excelência.
O Estado chegou a tal nível de abstração que passou a ter direitos
internacionais próprios, vontade própria e se no início do século XVII o
Estado era concebido, de acordo com Hobbes em “O Leviatã”, como o
ente protetor e garantidor das liberdades individuais, na Segunda Guerra
Mundial ele representou exatamente o contrário, era o Estado
aniquilador e violador dos direitos fundamentais da pessoa humana.
A Declaração Universal de 1948, na qualidade de marco maior do
movimento de internacionalização dos direitos humanos, que na ordem
interna significou a inclusão dos princípios de direitos internacionais no
texto constitucional de cada país, em um fenômeno que ficou conhecido
mundialmente como “Constitucionalização dos Princípios”, fomentou a
conversão destes direitos em tema de legítimo interesse da comunidade
internacional.
De acordo com essa nova concepção, há uma revisão da noção
tradicional de soberania absoluta do Estado, que passa a sofrer um
processo de relativização, na medida em que são admitidas intervenções
no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos, como
Bobbio (2000) cita, transita-se de uma concepção “hobbesiana” de
soberania centrada no Estado para uma concepção “kantiana” de
soberania centrada na cidadania universal.
Segundo Troper (2008), a ideologia do sistema fechado de normas
também conhecido como “positivismo” legalista, que prescreve a
obediência ao direito enunciado e estabelecido, ou porque se acredita,

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios 231

como a escola da exegese na França, que ele seja justo, ou,


independentemente de seu caráter justo ou injusto, apenas porque é o
direito. Foi importante em um dado momento da história, pois como
legado de Kelsen, as normas foram escalonadas em forma de “pirâmide”
minimizando as antinomias e como fundamento de validade, no topo da
“pirâmide”, a Lei maior que fundamenta toda a cadeia inferior. Assim
descrita por este:

O fundamento de validade de uma norma apenas pode ser a


validade de uma outra norma. Uma norma que representa o
fundamento de validade de uma outra norma é figurativamente
designada como norma superior, por confronto com uma norma
que é, em relação a ela, a norma inferior (KELSEN, 1999).

No entanto, essa submissão ao poder qualquer que seja ele, pregada


por Kelsen, legitimou e facilitou a dominação dos regimes mais
abomináveis, que cometeram as maiores atrocidades e horrores durante
o nazismo, pois o legado do nazismo foi condicionar a titularidade de
direitos, ou seja, a condição de sujeito de direitos, à pertinência a
determinada raça, a raça ariana.
O marco histórico do novo direito constitucional, na Europa
Continental, foi o constitucionalismo do pós-guerra, especialmente na
Alemanha e na Itália. No Brasil, foi a constituição de 1988 e o processo
de redemocratização que ela ajudou a protagonizar. A aproximação das
ideias de constitucionalismo e de democracia produziu uma nova forma
de organização política, que atende por diversos nomes: Estado
Democrático de Direito, Estado Constitucional de Direito, Estado
Constitucional Democrático etc.
O marco filosófico do novo direito constitucional é o pós-
positivismo. O debate acerca de sua caracterização situa-se na
confluência das duas grandes correntes de pensamento que oferecem
paradigmas opostos para o Direito: o jusnaturalismo e o positivismo.
Opostos, mas, por vezes, singularmente complementares. Todavia, na
atualidade a tendência é a superação dos modelos puros por um
conjunto difuso e abrangente de ideias, princípios, agrupados sob o
rótulo genérico de pós-positivismo.

Soeitxawe
232 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

O jusnaturalismo moderno, desenvolvido a partir do século XVI,


aproximou a lei da razão e transformou-se na filosofia natural do Direito.
Fundado na crença em princípios de justiça universalmente válidos, foi o
combustível das revoluções liberais e chegou ao apogeu com as
Constituições escritas e as codificações. Considerado metafísico e
anticientífico, o direito natural foi empurrado para a margem da história
pela ascensão do positivismo jurídico, no final do século XIX.
Em busca de objetividade científica, o positivismo equiparou o Direito à
lei, afastou-o da filosofia e de discussões como legitimidade e justiça e
dominou o pensamento jurídico da primeira metade do século XX. Sua
decadência é emblematicamente associada à derrota do fascismo na Itália
e do nazismo na Alemanha, regimes que promoveram a barbárie sob a
proteção da legalidade. Ao fim da 2ª Guerra, a ética e os valores,
estabelecidos através de princípios universais de direito, começaram a
retornar ao Direito, desta vez, incluídos nas constituições em um
fenômeno que ficou conhecido mundialmente por “neoconstitucionalismo”
ou “constitucionalização dos princípios”.
No conjunto de ideias ricas e heterogêneas que procuram abrigo
neste novo paradigma em construção incluem-se a atribuição de
normatividade aos princípios e a definição de suas relações com valores e
regras; a reabilitação da razão prática e da argumentação jurídica; a
formação de uma nova hermenêutica constitucional e o desenvolvimento
de uma teoria dos direitos fundamentais edificada sobre o fundamento
da dignidade humana. Nesse ambiente, promove-se uma reaproximação
entre o Direito e a filosofia.
No dizer de Jackman:

A Constituição é mais que um documento legal. É um


documento com intenso significado simbólico e ideológico –
refletindo tanto o que nós somos enquanto sociedade como o
que nós queremos ser (JACKMAN apud BARROSO, 2007).

É com esta perspectiva que se há de compreender a Carta de 1988,


que é o marco jurídico da transição democrática e da institucionalização
dos direitos e garantias fundamentais. O texto demarca a ruptura com o
regime autoritário militar instalado em 1964, refletindo o consenso
democrático “pós-ditadura”.

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios 233

Introduz o texto constitucional avanço extraordinário na


consolidação das garantias e direitos fundamentais, situando-se como o
documento mais abrangente e pormenorizado sobre os direitos humanos
jamais adotado no Brasil. A Carta de 1988 destaca-se como uma das
Constituições mais avançadas do mundo no que diz respeito a matéria. É
uma verdadeira Constituição de princípios que também foi batizada
como Constituição Cidadã.
Desde seu preâmbulo, a Carta de 1988 projeta a construção de um
Estado Democrático de Direito “destinado a assegurar o exercício dos direitos
sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e
sem preconceitos (...)”.
Não obstante a todos esses aparatos de repressão efetuados pelos
tratados, leis e instituições globais capitaneadas pela ONU e da qual faz
parte o Tribunal Penal Internacional (TPI); regional, através da Corte
Pan-Americana de Direitos Humanos, que podemos citar como
exemplos a criação da Lei Maria da Penha que foi imposta pela referida
Corte, sob pena de o Brasil sofrer sanções no âmbito internacional assim
como a eliminação da prisão por dívida, exceto a de alimentos, com a
ratificação do Pacto de São José da Costa Rica pelo Brasil; e local através
da Constituição 1988, o Estado Brasileiro, através de seus agentes
públicos (policiais), continua a violar os direitos individuais de seus
cidadãos.
Não raras vezes os veículos de comunicações noticiam verdadeiras
atrocidades cometidas pelos agentes de segurança pública, que foram
investidos pelo Estado como verdadeiros garantidores dos direitos dos
cidadãos, que ao invés de exercerem o múnus público pelo qual foram
investidos, são verdadeiros algozes e carrascos dos direitos dos cidadãos
que juraram defender.
Entretanto, o profissional da segurança pública, assim como os
demais cidadãos brasileiros não foram introduzidos na sociedade com a
finalidade de violar os direitos individuais de outrem, ele faz parte da
sociedade, vem de diferentes camadas sociais, que tem seus anseios,
medos, frustrações e fracassos e que muitas vezes é tão vítima do sistema
que ajudou a perpetuar como os próprios cidadãos que tiveram os
direitos violados por ele.

Soeitxawe
234 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

Culpabilidade, não como elemento do crime, mas como juízo de


reprovabilidade que recai sobre uma conduta típica, ilícita e culpável, de
acordo com o conceito analítico de crime, analisando um homicídio, por
exemplo, terá maior culpabilidade, maior reprovação pela sociedade e
consequentemente uma maior pena, o agente que o praticar com maiores
requintes de crueldade.
Zaffaroni e Pierangeli aduzem:

Todo sujeito age numa circunstância dada e com um âmbito de


autodeterminação também dado. Em sua própria personalidade
há uma contribuição para esse âmbito de autodeterminação,
posto que a sociedade – por melhor organizada que seja – nunca
tem possibilidade de brindar a todos os homens com as mesmas
oportunidades. Em consequência, há sujeitos que têm um menor
âmbito de autodeterminação, condicionado desta maneira por
causas sociais. Não será possível atribuir estas causas sociais ao
sujeito e sobrecarregá-lo com elas no momento da reprovação de
culpabilidade. Costuma-se dizer que há, aqui, uma
‘coculpabilidade’, com a qual a própria sociedade deve arcar.

Em que pese a tese dos renomados mestres em apontar os fatores de


risco como causa de aumento dos índices de criminalidade, já bastante
alto em nosso país, não há como negar que os mesmos associam a
criminalidade com a pobreza, haja vista que há fatores de vulnerabilidade
que contribuem para a prática de delitos em todas as camadas da
sociedade.
Em uma interpretação a “contrário sensu” é possível concluir que se é
dividida parcela de culpabilidade entre sociedade e agentes que
praticaram crimes sem que o Estado lhes tenha dado oportunidades,
com maior rigor punirá o profissional de segurança pública que venha ter
um desvio de conduta, pois além de não poderem alegar falta de
oportunidades, foram investidos no múnus público como verdadeiros
garantidores dos direitos individuais dos cidadãos, nessa esteira, de
acordo com a CF/88 e Código Penal, mesmo a omissão será tratada
como se ação fosse.
Por conseguinte, não basta que se criem leis eficazes e aparatos
repressores, é necessária que se faça uma reflexão no interior de cada

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios 235

cidadão, uma verdadeira revolução de dentro para fora, de modo que a


empatia, a solidariedade, o respeito mútuo, o companheirismo assim
como o amor venha a aflorar em cada coração, de modo a olhar
objetivamente para os demais e valorizar cada pessoa pela condição que
lhe é intrínseca, pelo simples fato de ser humano. Só assim
construiríamos uma sociedade livre, justa e solidária.
No entanto, no contexto brasileiro para a construção de uma
sociedade que atenda os requisitos mencionados precisaremos de uma
mudança, que seria como uma desconstrução de nossa sociedade para
remodelarmos, uma verdadeira revolução no modo de pensar em
sociedade, que tem como ponto chave a política, mas não a política
como é (mal) falada hoje e sim uma que seja válida e concreta.
A atual conjuntura política brasileira tem se mostrado ineficiente para
o avanço do progresso em busca da felicidade de nosso povo. Nesses
últimos tempos cresceu a importância de haver uma reforma política
capaz de possibilitar que o país seja menos corrupto, e mais promissor.
Tanto é que a Presidenta reeleita (Dilma Rousseff), em seu primeiro
discurso após a divulgação do resultado das eleições de 2014 pelo TSE,
mensurou que o país precisa urgentemente convocar o povo para um
plebiscito para a discussão do tema. Porém, o Senador Renan Calheiros,
presidente do Senado, defende que não é necessário um plebiscito e sim
um referendo, pois é dever do Congresso apresentar ao povo as
mudanças e este decidir se as aceita ou não respondendo nas urnas.
No livro “A Luta Pelo Direito”, obra do autor Rudolf Von Ihering
(2009), destaca a importância de buscarmos nossos direitos e de
sabermos como efetuá-los. Reivindicá-los sempre que forem ameaçados
e de não nos calarmos diante dos problemas sejam quais forem. Para o
referido autor, a luta pelos nossos direitos visa o (r)estabelecimento da
paz e a harmonia dentro da sociedade e isso implica nos seguintes
fatores:

1. Permitir aumentar os laços afetivos entre os grupos que estão


dentro da mesma causa;
2. Lutar pelos nossos direitos, sem negar o direito de reivindicá-los
ou questionar sobre algo com o qual não se esteja de acordo;

Soeitxawe
236 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

3. A moral é a razão para motivar o sentimento de dor que um in-


divíduo sofreu na busca pelos seus direitos.

Lutar por nossos direitos é lutar por um Brasil melhor, que possibilite
a todo brasileiro ter um emprego que possa suprir suas necessidades por
completo, um país que apresente educação com qualidade, acesso as
universidades, que apresente melhor distribuição de renda, menores taxas
e tributos, que sejam supridas as nossas necessidades básicas como
saúde, moradia, alimentação, vestuário etc.
Pode parecer um tanto absurdo pensar na possibilidade de extinção
do Senado como maneira de reformar a política brasileira, mas há razões
suficientes e convincentes que nos possibilitam tal raciocínio.
O professor Paulo Queiroz (UniCEUB), em seu livro Ensaios Críticos
é partidário desse pensamento ao afirmar que para uma reforma política
brasileira deve haver mudanças significativas se almejarmos construir um
Brasil sem precedentes.

Uma reforma política que não seja simples estratégia para manter
as coisas como estão, criando uma falsa impressão de mudança e
perpetuando privilégios por meio de concessões meramente
paliativas ou simbólicas, deve começar pela extinção pura e
simples do Senado Federal (2013: 67).

De acordo com o renomado professor, isso se daria uma vez que o


Senado Federal há muito perdera as razões históricas que supostamente
o justificariam, visto que o argumento da representação dos Estados pelo
Senado, nascida nos EUA, de que se formava de delegados próprios dos
Estados e que participavam das decisões federais, não mais se utiliza nos
EUA e nunca fora utilizada no Brasil, até porque é o povo que escolhe
os senadores através do voto, assim como os deputados. Eles, os
senadores, por via de partidos integram a representação desses e dá-se o
caso de senadores serem adversários do Governador, defendendo
programa diverso daquele.
Outra razão é que a competência do Senado é semelhante a da
Câmara dos Deputados (Arts. 48 e 49, CF/88) e a competência privativa
do Senado (Arts. 52, CF/88) pode ser exercida sem problema pela outra
Casa. Mero jogo de palavras é a expressão: os Deputados são

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios 237

“representantes do povo” e os Senadores dos Estados. Ora, quem os elege é


o próprio povo pelo voto popular seguindo os mesmos critérios,
tornando assim uma sendo replica da outra.
E a disparidade é observada na própria CF/88 quando dispensa
desigualdade entre ambos: os senadores têm mandato de oito anos,
sendo o dobro dos deputados; os 81 senadores têm o mesmo poder de
voto dos 513 deputados federais, estando o poder de decisão
desigualmente distribuído.
Hans Kelsen afirmava que o sistema unicameral é bem mais
condizente com a ideia de democracia porque o sistema bicameral típico
da monarquia e do Estado Federal é sempre uma atenuação do princípio
democrático.
Na prática, quem de fato legisla no Brasil é o Poder Executivo, por
meio de decretos, medidas provisórias etc., embora isso seja criticado,
não podemos ignorar. Isso tem acontecido uma vez que os projetos de
lei para serem aprovados nas casas legislativas, pelas suas idas e vindas se
tornam muito lentos.
Portanto, abolindo o Senado Federal e instituindo o sistema
unicameral, o processo legislativo se tornaria mais célere, menos
burocrático, sintonizando-o melhor com as permanentes mudanças
atuais, por sua vez evitaríamos a edição de leis já ultrapassadas quando de
sua promulgação, pela demora na tramitação de projetos. Economizar-
se-ia em torno de 2,4 bilhões de reais anuais que é o custo estimado do
Senado para os cofres públicos. Remanejaríamos o efetivo aproveitando-
os em outras instituições.
A alegada função revisora que cabe sempre a uma das casas quando a
outra inicia, poderia ser feita pela própria Câmara Federal, sempre com
votação em dois turnos. Papel semelhante tem sido cumprido pelo Poder
Judiciário através do controle de constitucionalidade das leis.
Com isso seria possível melhorar substancialmente não só a forma de
ver a política, mas utilizá-la em beneficio da população, como na área de
educação, o que teria reflexo em toda sociedade impactando inclusive em
índices de violência, desemprego, produtividade, economia, enfim
entraríamos em um ciclo virtuoso, porém para que não estejamos
fantasiando em tratando de uma utopia é interessante que tratemos a
reforma política como sendo um principio e não uma regra, ou seja, que

Soeitxawe
238 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

seja um norte, um guia que nos leve a tomar decisões certas de forma
suficientemente abrangente que não seja capaz de tolir do arbítrio como
uma regra rígida e pré-definida.
Na Obra de Faralli (2006), fica claro essa necessidade:

A presença dos princípios, portanto, corresponde primariamente


aos direitos dos indivíduos e representa o núcleo moral da
comunidade: esta base moral é o que torna o direito obrigatório.
A ideia de e qual concern and respect está no centro da conexão entre
direito e moral na concepção dworkiniana e deve encontrar
aplicação nas decisões políticas e de execução do direito.

Neste caso é importante destacarmos que para atingirmos um


objetivo macro, temos que primeiramente atingir objetivos micro, ou
seja, para transformarmos a sociedade brasileira temos que transformar
os indivíduos primeiramente. Porém essa mudança é muito mais que
simplesmente fornecer escolas, auxílios financeiros, é necessário ensinar
o pensamento, a reflexão para que desta forma seja possível atingir um
crescimento cultural e social.
Essa visão não deve ser restritiva pois assim como os princípios, tal
mudança exige flexibilidade, de forma que possa ser adaptado de acordo
com as mudanças assim como os princípios, vejamos o que diz
FARELLI (2006) em sua obra:

Os princípios são suscetíveis de expansão e de compressão: para


saber qual o alcance efetivo de um princípio é preciso não apenas
observar seu teor literal, mas também o conteúdo dos outros
princípios concorrentes potencialmente aplicáveis, se existentes,
bem como as circunstâncias do caso concreto. A esse propósito,
Alexy afirma que os princípios se caracterizam mais pela
dimensão do "peso" que pela dimensão da validade.

Os princípios pertencem a um contexto que tende ir além de suas


barreiras, são fatores colaterais, ou seja, caso um principio seja buscado
indiretamente terá outras consequências, caso se imagine que a solução
para melhoria da sociedade brasileira começa com a educação e a mesma
seja posta como eixo central de uma mudança profunda, futuramente a

Soeitxawe
A Constitucionalização dos Princípios 239

consequência disso será uma população com maior grau de instrução,


mas não só isso, teremos, também, trabalhadores mais qualificados,
eleitores mais politizados que possam escolher melhor seus
representantes, um crescimento no número de empreendedores, logo
teremos mudanças em todos as áreas chave de uma sociedade, são
fatores que elevam a validade da teoria dos princípios, que devem ser
vistos como um ponto no horizonte a ser seguido, buscado.
Em se tratando de Segurança Pública deve-se pensar em um sentido
mais amplo, afinal a segurança pública envolve todos os entes da
sociedade, desde cidadãos comuns que a buscam até os que cometeram
crimes e tiveram sua liberdade retirada, a transformação para patamares
aceitáveis deve ser vista como objetivo, assim como os princípios, pois
dessa forma caminha-se para uma solução mesmo que não se tenha essa
solução de imediato, e para que tenhamos essa solução é importante
prevenir antes de punir, educar antes de prender, preparar o trabalhador
antes de incriminar um culpado, encontrar meios de reinserção na
sociedade que sejam mais eficientes que o aumento das penas.
A aplicação dos princípios parte desde o cumprimento dos princípios
constitucionais que colocam o ser humano como ente principal de uma
sociedade até a utilização dessa forma de pensar para execução de
projetos em longo prazo como é o caso da resolução da problemática da
segurança pública em nossa sociedade.

Referências

BARROSO, Luiz Roberto. Neoconstitucionalismo e


Constitucionalização do Direito, (O Triunfo Tardio do Direito
Constitucional no Brasil). Revista Eletrônica Sobre a Reforma do
Estado, Salvador, Instituto Brasileiro de Direito Público, nº 9,
março/abril/maio, 2007
BOBBIO, Norberto. Teoria geral da política. Brasília: UnB, 2000.
Brasil, Constituição. Constituição Federal Brasileira de 1988.

Soeitxawe
240 Fábio C., Marlison C., Sebastião B. & MSc. Antonio Romero

FARALLI, Carla. A Filosofia Contemporânea do Direito: temas e


desafios. Tradução Candice Premaor Gullo. São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2006.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2006.
IHERING, Rudolf Von. A Luta pelo Direito. 2 ed. São Paulo: Martin
Claret, 2009.
KELSEN, Hans. Teoria pura do Direito. Tradução de João Baptista
Machado. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
QUEIROZ, Paulo. Ensaios Críticos. Direito, Política e Religião. 2 ed.
Salvador, Bahia: Juspodvm, 2013.
TROPER, Michel. A Filosofia do Direito. Tradução de Ana Deiró. São
Paulo: Martins Fontes, 2008.

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais às Margens do Rio Barão
do Melgaço no Estado de Rondônia, Brasil

Rogério Antônio Carnelossi


Claudia Cleomar Araújo Ximenes Cerqueira
Benedito de Matos Souza Junior
Nubia Deborah Caramello
Marilia Locateli
Viviane Gomes

Resumo: O Rio Barão do Melgaço no município de Pimenta Bueno/RO,


representa o sustento de muitas famílias Ribeirinhas que tiram a sua alimentação
e parte da renda do mesmo. Devido ao crescimento populacional às margens do
mesmo de forma descontrolada sem tomarem os devidos cuidados necessários,
hoje o Rio Barão do Melgaço apresenta grande parte de suas margens
degradadas. Faz-se como objetivo deste trabalho identificar os reflexos dos
passivos ambientais no rio Barão do Melgaço no perímetro urbano do
município de Pimenta Bueno/RO, oriundos das ações antrópicas. Trabalhando
através de pesquisas documentais e bibliográficas, este estudo de caso tem como
embasamento o método dedutivo-hipotético mantendo o foco sobre o tema em
análise. Identificou-se que a perda das matas ciliares é um dos passivos que mais
contribui para a expansão da precipitação das chuvas. A proliferação de doenças
por conta do despejo de esgoto doméstico na mesma é outro passivo que
necessita de atenção redobrada da Gestão Pública.
Palavras-Chaves: Enchente; Desmatamento; Passivo Ambiental; Mudanças
Climáticas.

Introdução

Em consequência do uso e ocupação do solo de forma insustentável


ocorrem grandes mudanças climáticas em todo globo terrestre como, por
exemplo, o constante desmatamento por meio de derrubadas e
queimadas, ocasionando modificações na natureza. Como exemplo, há
variações de grandes enchentes em um ano há secas severas em outros.

Soeitxawe
242 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

Estas variações provocadas pelas ações antrópicas provocam


instabilidade social, econômica e ambiental.
O município de Pimenta Bueno, cortado por dois grades rios, o rio
Barão do Melgaço e o rio Pimenta, possui em Suas Áreas de
Preservações Permanentes (APP), no perímetro urbano, moradores que
ali residem há décadas. Como solução para os problemas ocasionados
pelas constantes enchentes, em 2015 o município em parceria com o
Governo Estadual e Federal fomentou a construção de casas populares
para as famílias que sofrem de forma direta com os constantes
alagamentos.
O cenário mundial, diante de acontecimentos e desastres que causam
desequilíbrio do meio ambiente, representa a falta de controle do homem
em relação aos benefícios advindos do ambiente natural. Vale destacar
que o recurso hídrico que se destaca neste estudo é a água utilizável, ou
seja, aquela que de alguma forma é útil para o ambiente e os seres que o
habitam.

Passivos Ambientais

O passivo ambiental é uma obrigação da empresa para a reparação


desses prejuízos e danos ambientais que ela causou no decorrer de suas
atividades, uma vez que ela é responsável por todos os danos que
atingem a sociedade e o meio ambiente afetado.
Já os ativos ambientais são todos os investimentos feitos com o
intuito de controlar os impactos ambientais, sejam eles com máquinas,
instalações, equipamentos, insumos, estoques de acessórios etc. Tudo
que tenha como objetivo de amenizar e controlar problemas ambientais
causados ao meio ambiente é classificado como ativo ambiental.
Um dos apontamentos da degradação ambiental está no
desenvolvimento econômico. É possível! Pois, reportando-nos a história
da humanidade, identificamos períodos em que as pessoas se
preocupavam muito mais com o lucro, com o que a natureza poderia lhe
oferecer do que com a sua preservação. Em outrora, tudo era retirado do
meio ambiente sem preocupação com a sua reposição, ou mesmo com a

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 243

conservação de suas bases, como por exemplo, os mananciais que até


nos dias atuais continuam a ser destruídos.
Lícito destacar que o “Passivo ambiental é toda obrigação contraída
voluntária ou involuntariamente destinada a aplicação em ações de
controle, preservação e recuperação do meio ambiente, originando,
como contrapartida, um ativo ou custo ambiental” (COSTA, 2012, p.
67). Por conseguinte, estudos provenientes do uso do meio ambiente nos
mostram que os riscos e incertezas podem levar o gestor a decisões que
minimizem ou maximizem as ações antrópicas negativas na natureza.
Moraes (2009) desenvolveu um estudo voltado à economia ambiental
de forma a oferecer um apanhado de instrumentos econômicos para a
gestão ambiental e desenvolvimento sustentável. Em seus estudos, o
autor, mostra que a falha na preservação, manutenção e recuperação do
meio ambiente é tanto de órgãos públicos quanto privados, tanto de
instituições como de empresas. Os primeiros pelas políticas públicas
serem ineficientes, principalmente no momento de fiscalização e, a
segunda por não fazer por onde suas ferramentas de trabalho sejam
ecologicamente corretas.
Os custos externos de produção não são arcados pelas empresas,
como os resíduos dispostos à natureza. Para inibir os excessos no Brasil
foi instituído diversas leis que coíbem o uso indiscriminado do meio
ambiente. Segundo Cerqueira e Silva (2011, p. 236) há “[...] clamores em
prol do uso responsável da natureza, ou seja, do manejo sustentável do
que a natureza dispõe ao homem, gratuitamente”.
Não dá para ignorar que o meio ambiente está cada vez mais
necessitado de cuidados e as empresas são chamadas à responsabilidade
socioambiental. Neste contexto a Ciência Contábil, como expõe Costa
(2012), por meio da Contabilidade do Meio Ambiente tem contribuído
com o novo cenário econômico, social e político em todo o Planeta,
mensurando e evidenciando os ativos e passivos ambientais.
O desmatamento excessivo seja ele por meio de derrubadas e/ou
queimadas tem levantado inúmeros problemas extremos, como as
enchentes e a escassez da água doce, seja ela potável ou não. É
pertinente citar Cavalcante e Góes (2014, p. 107) como contribuição a
lógica de ideias aqui apresentadas:


Soeitxawe
244 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

[...] demorou certo tempo para a humanidade perceber que as


ações efetivas em determinado território acabavam por agravar a
situação ambiental de outro, acarretando em ônus socioambiental
e econômico em detrimento ao bônus de prosperidade
conquistados pelos territórios autores das ações predatórias que,
normalmente, exerciam o papel hegemônico de controle
industrial.

A percepção de que a continuidade da humanidade depende de


harmonia entre o Ser Humano e Natureza já é difundida no contexto
político e empresarial desde os idos do século XX. No entanto,
chegamos ao século XXI com problemas de escassez da água que há
poucos anos se via com intensidade no nordeste brasileiro. Em janeiro e
fevereiro de 2015, a região central do Brasil, mostrou que a falta de água
está atingindo todo o país. A cidade de São Paulo tem sentido o quanto
as mudanças climáticas são implacáveis: ora escassez de água, ora
inundações destroem tudo o que está a sua frente, deixando milhares de
pessoas desabrigadas e expostas a situações de risco extremo.
Cerqueira et al (2014, p. 47) ponderam que,

[...] O aumento do desmatamento principalmente nas matas


ciliares e a ocupação desordenada das cidades compreendem
parte dos problemas relacionados à escassez de água, tornando-se
necessário a elaboração de projetos que contemplem a
conservação e recuperação de ambientes degradados a fim de
conservar os recursos hídricos e manter sua qualidade dentro dos
limites permitidos pela lei.

As mudanças climáticas ocorridas nos últimos tempos, são exemplos


de que a natureza está respondendo de forma negativa ao mal-uso de
seus recursos, colocando a humanidade cada vez mais próxima de uma
grande catástrofe natural. A ciência está evoluída, no entanto, os
problemas ambientais se mostram cada vez maiores, mais densos. Não
há como ficarmos a espera do próximo evento natural.

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 245

Métodos e Técnicas

Utilizando-se da pesquisa documental e bibliográfica, esta


investigação tem como norteador o método hipotético-dedutivo, pelas
hipóteses levantadas e consentindo num estudo aberto e coeso dos
passivos ambientais. Segundo Sposito (2004, p. 31) “esse método foi
consagrado pela filosofia e pela ciência ocidental e cristalizou-se na
prática cotidiana de uma infinidade de pessoas que se dedicam à
produção e à análise do conhecimento científico”.
O discurso provê da experiência dos pesquisadores, bem como o
conhecimento da área abordada: margens do rio Barão do Melgaço no
perímetro urbano do município de Pimenta Bueno, com foco na região
em que há construções de moradias, bem como é utilizado para
associações, estas últimas por fazerem parte da cidade no contexto
urbano. Portanto, a análise da pesquisa apresenta a necessidade de buscar
por explicações ao fenômeno das mudanças climáticas.
A nascente do Rio Machado é no Pontal, onde se dá o encontro de
dois rios, o rio Pimenta Bueno e o rio Barão do Melgaço. Na junção dos
mesmos é que se origina o Machado, manancial de captação de água para
a rede urbana do município de Pimenta Bueno, é considerado como
principal rio que corta o município (CPRM, 2013).
A técnica utilizada foi de observação, pois buscamos acompanhar ao
longo dos últimos cinco anos o movimento das águas às margens dos
rios Pimenta Bueno e o do Barão do Melgaço, chamando a nossa
atenção no segundo por conter um maior número de pessoas em sua
extensão, bem como pela BR 364 cortá-lo, sendo possível a locomoção
por meio de uma ponte de concreto que aponta uma extensão de
aproximadamente 100 metros de largura.

Soeitxawe
246 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

Apresentação e Discurso da Pesquisa

O estado de Rondônia possui uma área de 238.512,80 km2, possui 52


municípios e é situado entre as coordenadas 07° 58’ e 13° 43’, de latitude
Sul, e 66° 48’, de longitude a Oeste de Greenwich. Possui clima Tropical
Quente e Úmido. Eventos climáticos extremos foram identificados por
Zuffo et al (2011), entre outros municípios, Pimenta Bueno, no período
de 2007 a 2010. Estudo realizado pela Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC), relativo aos desastres naturais, em 2011, aponta o
município de Pimenta Bueno (fig. 1), com um registro de inundação
considerado como catástrofe no ano de 2010 (fig. 2).

Fig. 1: Desastres naturais causados por inundação gradual em Rondônia no período de 1991
a 2010.
Fonte: UFSC (2013, p. 25)

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 247

No ano de 2010, tivemos o primeiro desastre estudado, o que não


pode ser descartado de anos anteriores, pois, Zuffo et al (2010, p. 73)
salienta que a “[...] insuficiência de dados oficiais dificulta o trabalho de
divulgação preventiva na busca de minimizar os danos à população”.
Somamos aos autores quanto à importância de dados para análise
ambiental e a propagação da ideia de preservação da natureza.

Fig. 2: Infográfico da síntese das ocorrências de inundações no Estado de Rondônia


Fonte: UFSC (2013, p. 46)

Ponderar sobre os eventos que ocasionaram inundações ao longo do


tempo não é a intencionalidade desta pesquisa, no entanto, é necessário
destacar que tal estudo, por parte de profissionais competentes na área, é
relevante e de suma importância para compreender alguns fatores que
levam a novos eventos. Podendo, em algumas ocasiões planejar ações
governamentais e de ações sociais e ambientais que visam prevenir
fenômenos naturais que coloquem a vida humana em risco.

A concentração está entre 2006 e 2010 (fig. 2) sendo que de 1992


a 2005 não houve registros oficiais. No entanto, registros extras
oficiais apontam um grande volume de água nos anos
intermediários, causados principalmente pelo desmatamento das
áreas localizadas nas Áreas de Proteção Permanente (APP). Entre
tantas possibilidades de inimizar os problemas de escassez, bem
como de excesso de água. (CERQUEIRA et al, 2016, p. 483).

Em casos como estes o reflorestamento é uma das soluções para que


seja recuperada e preservada as matas ciliares, Cerqueira e Silva (2010)
explicam que o diferencial está justamente no custo benefício deste tipo

Soeitxawe
248 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

de empreendimento. As pesquisas realizadas pelo Centro Universitário


de Estudos sobre Desastres da UFSC (2013) destacam que,

[...] O acompanhamento da evolução diária das condições


meteorológicas, assim como o monitoramento do nível dos rios
permitem antecipar a possibilidade das ocorrências de inundações
e, consequentemente, a minimização dos danos, tanto humanos,
quanto materiais.
No entanto, essa previsibilidade não faz parte de um processo de
gestão do risco que, como consequência, não reduz a
vulnerabilidade das comunidades ribeirinhas, bem como do
perímetro urbano, aos desastres ocasionados por enchentes e
inundações. (UFSC, 2013, p. 45).

Fig. 3: Água e lixo na alagação em 2015, Rio Barão do Melgaço


Imagem de Ronilson Neves Cerqueira

A constante monitoração do nível dos rios possibilita a previsão de


aumento do nível da água do rio, contribuindo para a tomada de decisões
como a retirada antecipada das famílias que ocupam áreas com
incidências de alagações. No caso de Pimenta Bueno Cerqueira et al
(2015), apontam para a necessidade de implantação de Planos de
Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), as margens dos rios.

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 249

As inundações levam para a população os dejetos lançados sem


deriva pelos mesmos, causando danos a saúde. Na figura 3, pode se
observar o amontoado de lixo em volta da residência abaixo d’água.
Percebe-se que há lixos de diversos tipos, ou seja, tudo aquilo que o ser
humano joga de forma discriminada na natureza, acaba por retornar aos
mesmos.
Visível a importância em se desenvolver políticas públicas mais
arrojadas, com estudos de viabilidade social e econômica pelo município,
uma vez que o Governo Federal tem feito sua parte quanto ao
desenvolvimento destas políticas voltadas ao meio ambiente — mesmo
com suas deficiências estruturais e, principalmente, de fiscalização.
Segundo Cerqueira et al (2015) em 2007 o Governo Federal apresentou
junto ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) a operação Arco de Fogo
com o objetivo de coibir o desmatamento na Amazônia Legal e o
município de Pimenta Bueno foi apontado como um dos quatro
municípios do estado de Rondônia como prioritário no combate ao
desmatamento por meio de derrubadas e queimadas.
Neste sentido a questão que surge é: O que está sendo feito para se
mudar a situação em que se encontra o meio ambiente? Em que ponto as
políticas públicas ambientais desenvolvidas pelo município de Pimenta
Bueno estão? Nesta reflexão, se busca por informações que
contribuíssem na busca de respostas e o que nos deparamos foi com
tímidas ações realizadas junto a órgãos do Governo Estadual e Federal,
com iniciativas dos dois entes federativos, os quais estão fazendo a parte
que lhes cabe, os municípios fazem a parte relacionada à sua
contribuição a estas ações.
Casas populares, construídas com recursos compartilhados e
distribuídas a estas famílias é, em parte, solução. Sim, solução no sentido
de retirar estas pessoas dos espaços com risco de alagação, no entanto, a
parte relativa ao meio ambiente continua sem que haja propostas que
coíba o avanço da água, esta que já alcança de forma gradativa ano pós
ano de enchente, chegando a mais de 500 metros1 de distância das
margens do Rio Barão do Melgaço. Isso sem deixar de grafar que o Rio


1 Dados da pesquisa de campo realizado pelos autores em 2015.

Soeitxawe
250 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

Pimenta Bueno também transborda neste período de cheia e o município


é rodeado por ambos os rios.
Durante a pesquisa, se pode observar que famílias passam pela
mesma situação há mais de uma década, com intensidade cada vez maior,
as figuras 3 e 4 retratam a situação em que ficou as residências na
enchente ocorrida no início do ano de 2015 em Pimenta Bueno,
Rondônia. Quanto à figura 4, percebe-se que animais utilizam os
telhados das residências para sobreviverem no período de alagação, além
dos outros que não conseguem arranjar abrigo de imediato.

Fig. 4: Residência alagada, construída a beira do Rio Barão do Melgaço, 2015


Imagem de Ronilson Neves Cerqueira

No ano de 2007 foi apresentado um Plano de Recuperação de Áreas


Degradadas (PRAD) para o município de Pimenta Bueno, contudo, o
referido PRAD, não apresenta estudo de viabilidade econômica, tão
necessário para qualquer tipo de projeto. O que ponderamos ser de suma
importância na avaliação técnica é a visualização financeira do
empreendimento. A falta de estudo socioeconômico e financeiro do
PRAD, em questão, inviabiliza o emprego do mesmo.
Necessário deixar claro que esta pesquisa está voltada para a zona
urbana e que o PRAD deve ser bem orientado especificando os atos a
serem realizados “[...] que devem ser planejadas de forma a recuperar a
mata destruída restituindo o uso original ou favorecer novas alternativas

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 251

de uso, medida esta que proporciona melhoria ao bioma e conserva a


fauna e flora local” (CERQUEIRA et al, 2015b).
Importante destacar que a proposta realizada por Cerqueira et al
(2015a) de implementação de PRAD, que contemple as áreas ciliares no
município de Pimenta Bueno é viável desde que seja realizado um estudo
atualizado de zoneamento e análise social e econômica, bem como, é
lícito destacar que,

Torna-se elemento chave essencial que o processo de capacitação
da secretaria de Meio Ambiente e Agricultura, juntamente com
representantes da sociedade civil organizada, seja implantado,
para que os conhecimentos empíricos juntamente com o
conhecimento cientificam possibilite novas percepções de
desenvolvimento. Porque qualquer ação governamental
desvinculado do acesso a informação pelos demais setores pode
se tornar onerosas e sem alcançar em longo prazo os objetivos
propostos. (CERQUEIRA et al, 2015a, p. 136).

A característica apresentada nas margens do rio Barão do Melgaço,


em Pimenta Bueno é de degradação, o desmatamento colabora para a
erosão e o avanço do seu leito. Se não bastasse o desmatamento e a
erosão, há substâncias (desconhecidas) lançadas diretamente no rio sem
qualquer tipo de tratamento (fig. 5).

Soeitxawe
252 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

Fig. 5: Margens do Rio Machado na zona urbana do município de Pimenta Bueno/RO


Fonte: pesquisa de campo, margem do Rio Machado em Pimenta Bueno/RO

A figura 5 mostra o quanto os nossos rios estão à mercê de ações


antrópicas irresponsáveis que não se preocupa com a qualidade das
nossas águas. É interessante saber que o rio faz parte da capitação e
distribuição de água para os munícipes. Lícito parafrasear Cerqueira et al
(2014, p. 49) “[...] os problemas causados pelo mau uso dos recursos
naturais e, no que tange aos recursos hídricos proclama-se que as
reservas naturais estão extinguindo-se”. Independente de ser ou não
tratada a água que vai para as residências, é salutar destacar a importância
com o cuidado com o que descartamos na natureza.
Segundo Araújo et al (2014, p. 75) “O ciclo hidrológico é de
fundamental importância para o processo erosivo, pois descreve a
seqüência da transferência de água proveniente da precipitação para as
águas superficiais e subterrâneas, para o armazenamento e escamento
superficial [...]”, ou seja, as matas ciliares protegem os espaços ciliares.
No município de Pimenta Bueno/RO, mais de 50% das margens do
rio Barão do Melgaço, no perímetro urbano, está desmatado e parte
ocupada com construção de residências. Os fenômenos naturais exigem
que se (re)pense as ações antrópicas, considerando que as margens
desmatadas são propícias a desmoronamento e precipitação da água que
a cada chuva chega com mais força.

Soeitxawe
Reflexo dos Passivos Ambientais 253

Considerações que não tem fim

Com o novo cenário ambiental, onde se extingue a ideia de que o


meio ambiente era infinito e que tudo duraria para sempre, surge a
necessidade de adotar medidas preventivas, ou seja, visionar os
obstáculos que virão e o que se pode fazer para amenizar os prejuízos
ambientais. E, como uma dessas medidas pode destacar a Contabilidade
Ambiental, que está aí para calcular prejuízos, monitorar e controlar o
patrimônio ambiental gerando informações para a melhor avaliação dos
recursos naturais.
Os recursos hídricos são essenciais para a vida do planeta, estando
em destaque à sobrevivência do homem, pois a disponibilidade da água
está cada vez mais escassa e com o aumento da humanidade, o uso
excessivo de agrotóxicos e adubos muitas vezes desnecessários,
aumentaram a poluição deixando assim ainda mais custoso o
fornecimento da mesma. A água é indispensável para a vida dos seres
vivos, no entanto a maioria da população não tem dado o devido valor,
há uma falta de cuidado com o meio ambiente, uso sem consciência que
se resulta em grande transtorno e preocupação.
Devido à falta de educação ambiental, os Governantes foram
obrigados a tomar medidas que regulamentam maior eficiência no uso da
água, ainda assim a preocupação não é de todos, é difícil se envolver em
um problema que ainda não atingiu a alguns, se houvesse uma visão
futura com o uso consciente poderia prevenir situações críticas como a
que ocorreu na cidade de São Paulo no primeiro semestre de 2015.
É previsível a escassez de água potável se este desenvolvimento não
for compromisso só dos governos mas sim de todos, um agindo com
desenvolvimentos renováveis e a população com mais economia e
respeito. Vale ressaltar que por causa do uso indevido desse bem, está
colocando em risco uma cadeia de benefícios primordiais, como
agricultura, transporte, resfriamento e higiene pessoal. Se não houver
unidade, ou seja, todos com um mesmo foco não haverá eficácia na
resolução desse problema que atinge o mundo inteiro.
Boa parte da água tratada que é fornecida aos consumidores é
desperdiçada, sem levar em consideração a falta dela, e o que isso pode
causar a milhares de pessoas. Em algumas regiões já é possível notar a

Soeitxawe
254 Rogério C.; Claudia C.; Benedito Jr.; Nubia C.; Marília L. & Viviane G.

falta da água potável e a dificuldade para a distribuição da mesma. A


conscientização é um dos meios que está sendo usado para que esse
número venha a diminuir, mas é um processo muitas vezes sem muitos
resultados.
Com o crescimento populacional, todos os recursos estão tendo que
acompanhar essa propagação, comprometendo recursos naturais que não
estão sendo reposto. Por esse motivo são cobrados valores acima da
média para o sua obtenção. A água contaminada pode conter bactérias,
vírus, que pode provocar doenças se consumida pela população, com o
uso desenfreado das pessoas, sem o cuidado necessário, gerar maiores
custos ao bolso público, repassando os valores para os seus
consumidores.
Os reflexos dos passivos ambientais no rio Barão do Melgaço no
perímetro urbano do município de Pimenta Bueno/RO, se mostram
com a perda das matas ciliares a qual ocorreu com a ação antrópica,
contribui para a expansão da precipitação das chuvas, alagando
residências e comércios. Outro fator importante a ser destacado é a
proliferação de doenças por conta do despejo de esgoto doméstico na
mesma. É outro passivo que necessita de atenção redobrada da Gestão
Pública.

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Soeitxawe
O Programa de Aquisição de Alimentos – PAA e o
Fortalecimento da Agricultura Familiar: A Percepção dos
Agricultores do Município de São Felipe D’Oeste - RO1

Yasmin Paiva Correa (UNESC)


Andréa Rodrigues Barbosa (UNESC – RO e UFBA - BA)
Abraão Roberto Fonseca (UNESC – RO e UFBA – BA)
Matilde Mendes (UNESC – RO e UNEMAT – MT)

Resumo: Pode-se dizer que a agricultura familiar através do Programa de


Aquisição de Alimentos – PAA tem colaborado para o desenvolvimento
sustentável, fazendo com que os agricultores tenham mais renda para viver no
campo, contribuindo com o aumento da produção e a qualidade dos produtos
comercializados. Esse estudo busca analisar a percepção de agricultores do
município de São Felipe do Oeste - RO sobre a existência do fortalecimento da
agricultura familiar após o ingresso desses agricultores no programa. O método
utilizado para a realização desse estudo foi a pesquisa de campo. O instrumento
de coleta de dados foi um questionário semiestruturado, e a amostra
corresponde a 25% dos agricultores cadastrados no programa (76), e que fazem
parte da Associação das Trabalhadoras Rurais Esperançosas de Rondônia -
ATRERON. Com os resultados obtidos, verificou-se que os agricultores
apresentaram as dificuldades enfrentadas até agora, e revelaram a
importância do programa para suas famílias.

Introdução

Este trabalho busca analisar a percepção dos agricultores do


Município de São Felipe D’Oeste – RO sobre o Fortalecimento da
Agricultura Familiar após a inserção no Programa de Aquisição de
Alimentos – PAA.

1 Trabalho apresentado no I SOEITXAWE Congresso Internacional de
Pesquisa Científica da Amazônia, realizado entre os dias 01 e 03 de maio de
2015, Cacoal, RO.
260 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

Políticas Públicas têm como alvo resolver problemas que podem ou


não estarem voltados à sociedade, essas dificuldades são traduzidas em
metas que o Governo traça e que nem sempre a população está de
acordo.
A agricultura familiar tem como objetivo contemplar grande parte da
diversidade cultural, social e econômica. No início, a agricultura familiar
era considerada inferior por acreditar que não se contribuía com o
desenvolvimento e crescimento do país, porém a partir de 28 de junho
de 1996 os agricultores passam a ser considerados como peça
fundamental ao desenvolvimento do país, pois a partir dessa data foi
criado o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar -
PRONAF, e com isso os agricultores passam a ter uma linha de crédito
diferenciado, propiciando-lhes aumento na produção e geração de renda
(SCHUWANTES, 2011).
Com o contínuo crescimento da discussão sobre o tema agricultura
familiar aprovou-se a lei que finalmente definiu critérios a nível nacional
de classificação deste grupo: a Lei 11.326, também chamada de Lei da
Agricultura Familiar, 24 de julho de 2006 (ANDRADE, 2011).
Ainda no sentido de estimular a agricultura familiar no país, no ano
de 2003 foi instituído o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA.
Este programa surge com o propósito de fortalecer e promover o acesso
à alimentação. Ainda tem como função fornecer alimentos a entidades
do município: creches, hospitais, cozinhas comunitárias, entre outras. Os
públicos alvos são famílias de baixa renda que podem ser tanto da zona
rural quanto urbana.
Dito isso, o presente trabalho visa apresentar os resultados de
pesquisa de campo, com entrevistas de agricultores escritos no Programa
de Aquisição de Alimentos sendo eles do município de São Felipe
D’Oeste – RO.

1. Considerações Sobre Políticas Públicas e Agricultura Familiar

Teixeira (2002) explica que as políticas públicas são diretrizes,


princípios norteadores de ação do poder público, regras e procedimentos
às relações entre poder público e sociedade, buscando responder às
O Programa de Aquisição de Alimentos 261

demandas de setores vulneráreis desta. As políticas públicas geralmente


ocorrem em um ambiente tenso e de alta densidade política, marcadas
por relações de poder, que podem ser extremamente problemáticas,
entre atores do Estado e da sociedade, agências intersetoriais, os poderes
do Estado, o nível nacional e níveis subnacionais, comunidade política e
burocracia (RUA, 2009).
Acrescenta-se ainda que, essas políticas traduzem, no seu processo de
elaboração e implantação e, sobretudo, em seus resultados, formas de
exercício do poder político, envolvendo a distribuição e redistribuição
de poder, o papel do conflito social nos processos de decisão, a
repartição de custos e benefícios sociais (TEIXEIRA, 2002).
A agricultura familiar apresenta-se como um segmento muito
importante dentro da economia nacional, uma vez que promove o
desenvolvimento econômico, contribui para o emprego de mão-de-obra
e provê a subsistência das famílias. Do ponto de vista social, é a maior
responsável pela fixação do homem no campo, na medida em que
emprega todos os membros da família (SCHINEIDER, 2003;
ABRAMOVAY, 1998, 1999).
Segundo Hespanhol (2006) apud Hespanhol (2008), em 1990 a
política pública e a particular, que fazem parte do meio rural, passou a
incorporar em seu escopo algumas mudanças. Entre essas mudanças
encontrar-se a criação de uma política direcionada para a agricultura
familiar que é conhecida como Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar - PRONAF.
No entanto, Valnier et al (2013, p.199) explica que discutir políticas
públicas para a agricultura familiar brasileira antes da década de 90, não
era tarefa fácil. Somente após esta década é que começaram a existir as
primeiras políticas públicas voltadas especificamente para esse público,
porém, de forma lenta e gradual, atendendo à necessidade de uma
intervenção do Estado na crescente exclusão social da população
agrícola. De acordo com Anjos et al (2004, p.530), “[...] O surgimento,
em 1995, do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Familiar marca, indiscutivelmente, um divisor de águas no processo de
intervenção estatal na agricultura [...]”.
Aconteceram algumas mudanças em relação à liberação de créditos.
Entre as primeiras mudanças estiveram às ações voltadas para a liberação

Soeitxawe
262 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

do crédito à produção, garantia de preço e ações mais específicas para a


assistência técnica. Quando a estrutura fundiária do país foi modificada,
as Políticas Públicas começaram a focar na área agrária brasileira. Sendo
assim, os agricultores começaram a ter direito a benefícios da previdência
social: aposentadoria e as pensões, de acordo com a Constituição Federal
de 1988 (VALNIER et al, 2013).
Assim, a agricultura familiar passa por uma reconfiguração no cenário
nacional, alavancando sua importância para com os resultados voltados
ao desenvolvimento econômico do país. Schuwantes (2011) destaca
outras contribuições da agricultura familiar ao desenvolvimento de uma
nação, enfatizando não apenas aspectos econômicos, bem como os
aspectos sociais e aqueles relacionados à segurança alimentar.
Segundo D’Ávila et al (2010, p.10), a partir de 2003, “o Governo
Federal inaugura um novo ciclo de políticas públicas de combate à fome,
capazes de promover desenvolvimento local e regional”. Para esse
mesmo autor:

O Programa de Aquisição de Alimentos surge com a premissa de


articular uma série de ações públicas voltadas aos agricultores
familiares, com a finalidade de inseri-los no processo de
aquisição de alimentos, coordenado e promovido pelo Estado
Nacional para o abastecimento do chamado mercado
institucional de alimentos <www.conab.gov.br/conab-
quemSomos.php?a=110>.

Conforme se observa, as políticas públicas voltadas à agricultura


familiar reconfiguram o papel desses agricultores no desenvolvimento do
país. Eles passam a usufruir dos benefícios legais individuais e coletivos,
além de contribuir com resultados econômicos e sociais.

2. Considerações sobre o Programa de Aquisição de Alimentos –


PAA

Conforme D’Ávila et al (2010, p.21), o programa de aquisição de


alimento foi instituído em 2003 como parte de estratégia do Fome Zero,
que possibilita a aquisição de alimentos da agricultura familiar, os preços
O Programa de Aquisição de Alimentos 263

são estabelecidos e regulados de forma indireta pelo mercado e ao


mesmo tempo, garante o abastecimento de redes de proteção e
promoção social. De acordo com Hespanhol (2013, p.470), “O PAA
possui duas finalidades principais: promover o acesso a alimentação e
incentivar a agricultura familiar”.
Para alcançar esses dois objetivos, o autor diz que:

O programa compra alimentos produzidos pela agricultura


familiar, com dispensa de licitação, e os destina às pessoas em
situação de insegurança alimentar e nutricional atendidas pela
rede sociais-assistencial, pelos equipamentos públicos de
segurança alimentar e nutricional e pela rede pública e filantrópica
de ensino.

Conforme Antunes et al (2011, p.102), “O Programa de Aquisição de


Alimentos (PAA), instituído no ano de 2003, tem como objetivo
promover a compra, a formação de estoques e a distribuição de
alimentos oriundos da produção familiar rural, sendo viabilizado pelo
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e pela
Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB)”.
Conforme a Companhia Nacional de Abastecimento:

A Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) está


presente em todas as regiões brasileiras, acompanhando a
trajetória da produção agrícola, desde o planejamento do plantio
até chegar à mesa do consumidor. A atuação da Companhia
contribui com a decisão do agricultor na hora de plantar, colher
e armazenar e segue até a distribuição do produto no mercado,
fase em que a garantia dos preços mínimos oferecidos pelo
governo é traduzida em abundância no abastecimento e estímulo
à produção (CONAB, 2003).

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento -


CONAB (2003), o PAA encontra-se inserido em um conjunto mais
abrangente de políticas desenvolvidas pelo Governo Federal, em parceria
com o poder público estadual, municipal, e com diferentes organizações
da sociedade civil, por meio do Programa Fome Zero, voltadas ao

Soeitxawe
264 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

fortalecimento da segurança alimentar e nutricional do país. Para


CONAB (2003), o PAA:

Destina-se à aquisição de produtos de origem agrícola, pecuária e


extrativa, oriundos da agricultura familiar, visando à formação de
estoques ou a doação simultânea a populações em situação de
risco alimentar atendidas por programas sociais de caráter
governamental ou não governamental.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário:

Parte dos alimentos é adquirida pelo governo diretamente dos


agricultores familiares, assentados da reforma agrária,
comunidades indígenas e demais povos e comunidades
tradicionais, para a formação de estoques estratégicos e
distribuição à população em maior vulnerabilidade social
<www.portal.mda.gov.br>.

Quem tem acesso a esse programa são os Agricultores Familiares,


assentados de reforma agrária, povos e comunidades tradicionais,
comunidades indígenas, ou empreendimentos familiares rurais
portadores de Declaração de Aptidão ao PRONAF - DAP
(www.portal.mda.gov.br).
Esse programa possibilita aos agricultores à comercialização de
alimentos, os preços são calculados através da metodologia desenvolvida
pela CONAB e aprovada pelo Grupo Gestor. As aquisições fazem parte
de uma reserva de alimentos, que dá apoio à agricultura familiar
(CONAB, 2003). O grupo de Gestores é formado pelos seguintes
ministérios, conforme Decreto nº 6.447, de 7 de maio de 2008;
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome - MDS,
Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento-MAPA/CONAB, Ministério da
Fazenda, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (CONAB,
2003).
Desde 2006, o MDA passou a destinar recursos orçamentários
próprios para operacionalização de duas modalidades do PAA: Apoio
à Formação de Estoques pela Agricultura Familiar e a Compra Direta
da Agricultura Familiar <www.portal.mda.gov.br>.
O Programa de Aquisição de Alimentos 265

HESPANHOL (2008, p.1) afirma que:

O PAA tem como objetivo principal assegurar o acesso aos


alimentos em termos de quantidade, qualidade e regularidade à
pessoas em situação de insegurança alimentar e/ou nutricional e,
ao mesmo tempo, gerar renda e trabalho no campo por meio da
aquisição direta de alimentos produzidos pelos agricultores
do município.

De acordo com HESPANHOL (2013, p.471), “as ações do PAA são


operacionalizadas por meio do estabelecimento de convênio entre o
Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS e as administrações
estaduais e municipais”. O art. 19 e o art. 33 da Lei nº 10.696, de 2 de
julho de 2003, passa a vigorar com a seguinte resolução: Fica instituído o
Programa de Aquisição de Alimentos, compreendendo as seguintes
finalidades:
- Incentivar a agricultura familiar, promovendo a sua inclusão
econômica e social, com fomento à produção com
sustentabilidade, ao processamento de alimentos e industrialização
e à geração de renda;
- Incentivar o consumo e a valorização dos alimentos produzidos
pela agricultura familiar;
- Promover o acesso à alimentação, em quantidade, qualidade e
regularidade necessárias, das pessoas em situação de insegurança
alimentar e nutricionais, sob a perspectiva do direito humano à
alimentação adequada e saudável;
- Promover o abastecimento alimentar, que compreende as
compras governamentais de alimentos, incluída alimentação
escolar;
- Constituir estoques públicos de alimentos produzidos por
agricultores familiares;
- Apoiar a formação de estoques pelas cooperativas e demais
organizações formais da agricultura familiar;
- Fortalecer circuitos locais e regionais e redes de comercialização.

Soeitxawe
266 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

O PAA tem a abrangência nacional, estadual e municipal que


apreciam produtos passíveis de serem armazenados. Em 2003 no PAA
foram criados seis instrumentos e com vigência na primeira safra
2003/2004 (BRAGATTO, 2010). A Companhia Nacional de
Abastecimento (s/d, p.5) mostra Limites por participante/ano civil nas
operações do PAA.

Modalidades Limites por DAP*/ano
Compra Direta da Agricultura Familiar –
CDAF R$ 8 mil

Formação de Estoque pela Agricultura


Familiar – CPR Estoque R$ 8 mil

Compra da Agricultura Familiar com


Doação Simultânea – CPR Doação $ 4,8 mil

Figura 1: Declaração de Aptidão ao Pronaf.


Fonte: Bragatto ( 2010).

As modalidades do PAA são:

- Compra Direta da Agricultura Familiar – CDAF: Esse instrumento


tem como função garantir produtos agropecuários com preços de
referências. Os governos, juntamente com a CONAB, adquiriram
produtos processados que correspondem a um limite de compra
estipulado pelo Governo. Até ano de 2009, o limite era de R$3.500,00
por ano (Decreto 6.447), a partir desse ano o limite passou para
R$8.000,00, conforme o Decreto 6.959 (BRAGATTO, 2011). Para
Antunes et al (2011, p.106), Compra Direta da Agricultura Familiar,
“possibilita aos agricultores a venda de alimentos para o Estado, a preços
estabelecidos em uma faixa intermediária entre o preço mínimo e o
preço de mercado, sendo também operacionalizada pela CONAB”.
Os produtos oferecidos podem ser arroz, feijão, farinha de mandioca,
farinha de trigo, leite em pó integral, milho, sorgo, trigo, castanha do
O Programa de Aquisição de Alimentos 267

Brasil e castanha de caju. As despesas devem ser assumidas pelo


produtor, como transporte de produção até o polo de compra. O
pagamento deve ser efetuado com o prazo de dez dias após a data de
emissão da nota fiscal.

Para o Bragatto (2010, p.33):

A eficiência do mecanismo na sustentação do preço e da renda


do produto tem uma relação direta com o nível do preço de
referência fixado. Por exemplo, segundo a CONAB (2008), na
safra 2003/2004, os preços referência fixados pelo Governo
foram, em geral, superiores aos preços mínimos.

- Contrato de Garantia da Compra da Agricultura Familiar –


CGCAF: Esse instrumento tem como característica incentivar o
agricultor à produção agropecuária e à sustentação de preços. Esse
contrato é feito durante o plantio entre os produtores e a CONAB, com
a finalidade de garantir o direito de venda da produção. As famílias
beneficiadas são as que estão encaixadas no PRONAF, agroextrativistas,
produtores rurais, quilombolas, famílias atingidas por barragem,
acampados, entre outras.
- Compra da agricultura familiar com doação simultânea (CPR-
Doação):

Antunes et al (2011, p.107) explica que essa modalidade se divide em:

Compra Direta Local da Agricultura Familiar: visa promover a


articulação entre a produção familiar e as demandas locais de
suplementação alimentar e nutricional dos programas sociais,
viabilizando a aquisição de produtos comercializados por
associações, cooperativas e grupos informais de agricultores, a
serem distribuídas em creches, hospitais, restaurantes populares,
entidades beneficentes e assistenciais. Essa modalidade do
programa é operacionalizada pelo Ministério do
Desenvolvimento Social (MDS) através de convênios com os
Governos Estaduais;

Soeitxawe
268 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

Compra Antecipada Especial da Agricultura Familiar: promove a


aquisição de produtos de origem agrícola, pecuária e extrativa,
oriundos da agricultura familiar, visando à formação de estoques
ou a doação às populações em situação de risco alimentar
atendidas por programas sociais de caráter governamental ou não
governamental. Essa modalidade é operacionalizada pela CONAB.

NORDESTE SUDESTE SUL NORTE CENTRO-
OESTE

Buriti Caja Cuca Açai Cupuaçu


Canjica Caju Uvas Coloral Guariroba
Beiju Caqui Pinhão Queijo Palmito
Fava Jaca Chás Diversos Cupuaçu
Tapioca Manga Figo Graviola
Sururu Jabuticaba Mondongo Popunha

Figura 2: alguns produtos regionais adquiridos pelo CPR - doação em 2006


Fonte: Elaboração do autor do projeto, com base nos dados obtidos junto à CONAB.

- Formação de estoque pela agricultura familiar (CPR - Estoque): Visa
que agricultores familiares possam adquirir produtos de famílias
enquadrada no programa PRONAF. Essa modalidade funciona como
na modalidade de compra direta da agricultura familiar, o governo
antecipa os recursos para comunidades quilombolas, trabalhadores
rurais, cooperativas entre outros. Após 10 dias da formação CPR-
Estoque, o governo deposita o valor do recurso antecipado na conta
corrente tanto das cooperativas como das associações. Para essa
modalidade ser formalizada, deve-se emitir uma Cédula de Produtor
Rural Estoque. Deve também emitir promissórias e Penhor Cédula em
primeiro grau como garantias.

- Compra Direta Local da Agricultura Familiar – CDLAF: Essa


modalidade visa à compra de produtos de Cooperativas, associações e
Grupos Informais de agricultores que tem como finalidades entregar os
O Programa de Aquisição de Alimentos 269

alimentos para creches, escolas, hospitais, restaurantes populares,


entidades beneficentes e assistenciais. Essa compra é realizada através de
convênios com governos estaduais e municipais, assim promovem a
articulação entre a produção da Agricultura Familiar e as demandas locais
de suplementação alimentar.

- Incentivo à Produção e Consumo De Leite – IPCL: O objetivo é


tentar acabar com a desnutrição e a fome, e assim ajuda no
fortalecimento do setor produtivo de leite. O IPCL executado através de
convênios celebrados entre Governo Federal e Governos Estaduais.
Antunes et al (2011, p. 107) mostra que o “incentivo à Produção e
Consumo de Leite: procura assegurar o consumo de leite a gestantes,
crianças e idosos através da aquisição da produção leiteira de agricultores
familiares com produção média diária de até 50 litros de leite,
podendo chegar até 100 litros, sua implantação é restrita ao
nordeste. Essa modalidade é operacionalizada pelo MDS através de
convênios com os Governos Estaduais”.

3. Metodologia

De acordo com Gil (2009), a organização varia de acordo com as suas


peculiaridades. Este trabalho pode ser caracterizado como pesquisa
quantitativa, pois para CRESWELL (2010), os métodos quantitativos
abrangem o procedimento de coleta de dados, análise, interpretação e
redação dos resultados de um estudo. Foi utilizada a correlação e a
distribuição, no sentido de encontrar resultados que contribuam para o
entendimento da percepção dos produtores sobre o fortalecimento da
Agricultura Familiar após entrarem no PAA.
A pesquisa de campo foi realizada a partir da aplicação de
questionários semiestruturados junto aos pequenos agricultores que
fazem parte do Programa de Aquisição de Alimentos-PAA do Município
de São Felipe D’Oeste-RO. De 76 agricultores foi feito apenas com 20
agricultores totalizando mais de 25% dos que tem acesso ao PAA.
A análise da correlação determina um número que expressa uma
medida numérica do grau de relação encontrada. Esse tipo de análise é

Soeitxawe
270 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

muito útil em trabalhos exploratórios em áreas como educação e


psicologia, quando se procura determinar as variáveis potencialmente
importantes (BRUNI, 2011). Para o cálculo da correlação, utiliza-se a
seguinte fórmula:





Onde:
xi e yi são as variáveis analisadas; e

x e y são as médias das variáveis analisadas.

4. Análise dos resultados

Nesta seção serão apresentados os valores de correlação, optando-se


por valores acima de r= 0,500. Também serão mostrados outros
resultados e análises em relação ao questionário que foi realizado e
distribuído para 20 produtores rurais.
Houve uma correlação do tipo forte em se tratando da variável
“produtos comercializados fora” e a variável “produtos que são
comercializados para o PAA”. Nesse caso, o coeficiente foi de r =
0,832. Ou seja, h á uma forte correlação dos produtos que são
comercializados fora e os que vão para o PAA. Conforme se observou,
geralmente os produtos que sobram do PAA são comercializados nas
feiras no município, mercados, e entre os próprios agricultores.
O valor de correlação entre a variável “tempo permanência no PAA”
e “o que se produz” apresentou um valor de r= 0,585, ou seja, quanto
mais tempo o produtor tem no PAA mais alimentos ele produz e
comercializa. Outra correlação foi do tipo moderado no valor de r =
0,636, foi referente à “agricultura familiar praticada pela família” e as
“dificuldades enfrentadas pela família”, podendo essas dificuldades
serem caracterizadas como: o atraso no pagamento no início do
O Programa de Aquisição de Alimentos 271

programa; falta de produtos para a comercialização (no início); e a


falta de transporte para o manuseio dos alimentos até a entrega no PAA.
A figura 3 mostra a distribuição do tempo em que os produtores
estão no PAA.

Figura 3: Tempo de acesso ao PAA


Fonte: Dados da pesquisa (2014)

Analisando o gráfico da figura 3, verifica-se que cerca de 5% dos


agricultores tem menos de um ano de acesso ao PAA; em seguida 15%
tem de 1 a 2 anos de acesso; 45% de 2 a 3 anos; e por fim 35 % deles
têm de 3 a 4 anos de acesso. Assim, os resultados demonstram que 80%
dos produtores, a maioria, estão mais de 2 anos no programa. Pode-se
dizer que é um tempo de permanência considerável no PAA. Ainda de
acordo com os dados levantados, 65% dos entrevistados informaram
que a agricultura praticada pela família está em desenvolvimento; e 25%
dos entrevistados informaram que a agricultura está bastante produtiva.
O gráfico da figura 4 mostra como o agricultor percebe a aplicação do
PAA na sua produção.

Soeitxawe
272 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

Figura 4: Melhoria na produção.


Fonte: Dados da pesquisa (2014)

Na figura 4, o gráfico mostra qual é a opinião do agricultor referente


à melhoria na produção a partir do momento que o agricultor começou a
ter acesso ao PAA. Pode-se inferir que todos os agricultores apontaram
para algum tipo de melhoria após a inserção no PAA: 10% responderam
que teve uma diferença mínima. Houve uma diferença razoável para
45% dos entrevistados e 45% responderam que houve uma diferença
grande. Essas respostas podem ser complementadas com o gráfico da
figura 5, pois mostra os principais objetivos alcançados pelos agricultores
após o acesso ao PAA.


O Programa de Aquisição de Alimentos 273

Figura 5: Objetivos Alcançados.


Fonte: Dados da pesquisa (2014)

Com base nos resultados apresentados no gráfico da figura 5, 65%


dos agricultores responderam que um dos principais objetivos
alcançados foi a melhoria em sua renda. 25% responderam que, através
desse programa, os alimentos produzidos e não comercializados
passaram a ter uma importância maior, destinando-se à
comercialização, e contribuindo com o aumento na renda. 10 %
responderam que houve investimento para a melhoria da qualidade dos
alimentos para que eles fossem comercializados. Pois, segundo os
entrevistados, antes do programa não havia essa preocupação com a
qualidade da produção. Os agricultores perceberam que houve um
fortalecimento na agricultura familiar porque o programa estimulou os
agricultores e suas famílias a produzirem e vender mais alimentos sem ter
desperdícios. O gráfico da figura 6 apresenta quais são as principais
preocupações com o andamento do programa.

Soeitxawe
274 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

Figura 6: Preocupações com o Programa PAA.


Fonte: Dados da pesquisa (2014)

Com base no gráfico da figura 6, podem-se observar as preocupações


dos agricultores com o andamento do programa: 70% responderam que
a maior preocupação é com o término do programa. Os outros 30% se
dividem em: mudanças no valor pago aos produtores, mudança na
quantidade de produtos oferecidos e o reaproveitamento dos produtos.
Dito isso, foi possível analisar que os produtores estão de acordo com
a execução do PAA no município de São Felipe D’Oeste/RO e querem
continuar fazendo parte do programa, pois passaram a experimentar o
aumento na sua produção, e consequentemente aumento na renda da
família e aproveitamento dos alimentos comercializados.

5. Considerações finais

Este trabalho buscou verificar o fortalecimento da agricultura familiar


através do Programa de Aquisição de Alimentos – PAA, através da
percepção dos agricultores do município de São Felipe D’Oeste - RO.
O Programa de Aquisição de Alimentos 275

Foi mostrado que tudo começa com a Política Pública, ressaltando que
foi a partir dos anos 90 que se deu início as primeiras políticas voltadas à
agricultura familiar. Mesmo de forma lenta e gradual, essa política se
destinava ao crescimento do volume produzido.
A agricultura familiar tem ajudado municípios de pequeno porte a ter
uma renda extra para que os jovens não precisem sair dos seus
municípios em busca de emprego nas cidades grandes. No sentido de
contribuir com o aumento da valorização da produção agrícola familiar,
em 1996 foi criado o Programa de Fortalecimento da Agricultura
Familiar - PRONAF que tem como objetivo promover o
desenvolvimento sustentável e proporcionar aos agricultores um
aumento na produção e geração de renda.
Por sua vez, o PAA foi criado em 2003, tendo como finalidade
ajudar os produtores na comercialização dos seus produtos de maneira
que não haja desperdícios. Os preços são calculados diretamente pela
CONAB. Quem tem acesso a esse programa são os agricultores
familiares, comunidades indígenas, entre outros. Os alimentos podem ser
comercializados em creches, escolas tanto municipais quanto estaduais,
hospitais, cozinhas comunitárias, entre outros lugares. Sobre o
fortalecimento da agricultura familiar, de acordo com os agricultores
entrevistados, houve esse fortalecimento a partir do momento em que as
famílias começaram a ter uma renda a mais para aumentar e melhorar a
sua produção, contribuindo assim com o aumento da renda das
famílias.
Logo, conclui-se que este programa é muito importante para esse
grupo de produtores rurais. Faz-se necessário a ampliação de estudos
que possam não só trazer os benefícios do programa, mas possíveis
problemas enfrentados pelos produtores rurais. É recomendada também
a ampliação da amostra, pois se acredita que trará resultados mais
precisos, principalmente em relação à análise de correlação.

Soeitxawe
276 Yasmin C.; Andréa B.; Abraão F. & Matilde M.

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2015.

Soeitxawe
Ciência ou Religião? A Psicografia como meio de Prova no
Processo Penal

Adriana Cristina Cury

Resumo: Analisa a admissibilidade da psicografia como meio de prova documental no


processo penal, à luz da legislação vigente e da prova grafotécnica, promovendo para o juiz a
formação de sua íntima convicção, sob a livre apreciação dos meios probantes. No Direito
brasileiro, os meios de prova possuem conceito aberto, ou seja, tudo é admitido, direta ou
indiretamente, para a demonstração da verdade processual. Qualquer meio de prova, ainda que
não previsto ou autorizado por lei, é válido, desde que não seja expressamente proibido ou
ilegítimo (as provas obtidas por meios ilícitos). Como meios de prova típicos, definidos em lei,
tem-se a testemunhal e a documental. A psicografia encaixa-se neste último modelo, sob o
prisma científico, já que se é possível auferir a sua licitude por exame grafotécnico, que
determinará sua autenticidade e autoria gráficas. Embora a legislação vigente seja omissa, não
a proíbe, pois pode servir como “auxílio processual”.
Palavras-Chave: psicografia; admissibilidade; prova; grafotécnico.

Introdução

A psicografia nos Tribunais remonta o ano de 1976, quando uma


carta psicografada pelo célebre médium Francisco Cândido Xavier - o
Chico Xavier - foi parar nas mãos do magistrado Orimar de Bastos. A
psicografia, cuja autoria era da vítima de homicídio, inocentava seu
suposto algoz.
Após essa, outras psicografias vieram, pelas mãos de Chico e outros
médiuns, e também foram anexadas aos autos dos processos penais,
sendo usadas como provas de inocência do réu.
A aceitação das primeiras psicografias nos Tribunais foi o marco
inicial da grande polêmica que viria: a admissibilidade ou
inadmissibilidade da prova psicografada como meio de prova no
processo penal.
De um lado, opositores classificando a psicografia como elemento
religioso, que não coaduna com o Estado Laico Brasileiro. De outro,

Soeitxawe
282 Adrian Cury

defensores de que o fenômeno da psicografia é de cunho científico e não


meramente religioso, conforme se pretende demonstrar no decorrer
deste estudo.

1- A psicografia como elemento de discussão

Para iniciar uma discussão em torno do tema, imprescindível se faz


conhecer mais profundamente o que vem a ser psicografia, sua origem,
seu conceito, e, principalmente, seu cunho filosófico, doutrinário e
científico.
Nas palavras de Melo:

O termo psicografia é originário do grego psyché, que significa


mente ou alma; assim a psicografia é a escrita, a transcrição que se
encerra na mente e insere-se como fenômeno natural, conhecido
por mediunidade, que, desde o início dos tempos, faz parte da
história da humanidade, não sendo privilégio nem tampouco
invenção de nenhuma crença ou religião (MELO, 2013, p. 129).

A crença na sobrevivência da alma ou espírito além da morte não é


patrimônio particular de nenhuma religião, de nenhum grupo, de
nenhuma nação, nem mesmo pertence à determinada época da História,
visto que desde os povos antigos, como os Egípcios, já se acreditava na
vida após a morte (sobrevivência da alma) e na comunicação com os
espíritos.
Muito embora o fenômeno mediúnico tenha sido sistematicamente
estudado pelo educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail,
conhecido por Allan Kardec, um pioneiro na pesquisa científica sobre
IHQ{PHQRV SDUDQRUPDLV, mais precisamente a mediunidade, esta nunca
foi novidade entre os povos de todos os tempos.
Segundo a Federação Espírita do Paraná (2015), Allan Kardec nasceu
sob a religião católica, mas foi educado na Escola de Pestalozzi, em
Yverdun (Suíça), um país protestante. Era influente na língua alemã, e,
por esse motivo, foi tradutor oficial de obras francesas de educação e de
moral, dentre outras científicas para a Alemanha. Atuava como membro
de várias sociedades intelectuais, sendo a mais célebre delas a Academia
Real de Arras. Ministrava, gratuitamente, cursos de Química, Física,

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 283

Anatomia Comparada, Astronomia etc. Foi o inventor de um método de


ensino de matemática e do quadro mnemônico da História da França,
adotado pelo sistema de educação francês até os dias de hoje. Considera-
se, portanto, incontestável o fato de se tratar de renomada e expressiva
personalidade da sociedade francesa do Século XIX, precursor do
Espiritismo.
A psicografia, como comunicação escrita dos espíritos pela mão do
médium foi pela primeira vez registrada historicamente por volta de 1850
(GARCIA, 2010, p. 21).
Segundo relatos recentes:

Em 1850, na França, surgiu um tipo de brincadeira chamada


“mesa falante”, “mesa girante” ou “dança das mesas”, que tomou
conta dos salões festivos da época. A mesa girante era uma
mesinha redonda, de três pés, em torno da qual se ajuntavam as
pessoas para provocar manifestações de forças sobrenaturais. Foi
em 1854 que o Prof. Rivail ouviu pela primeira vez falar nas
mesas girantes, a princípio do Sr. Fortier, com quem mantinha
relações em razão dos seus estudos sobre magnetismo, que disse
que mesas podiam não apenas girar, mas também respondia
perguntas.
As comunicações por batidas eram lentas e incompletas;
verificou-se que, adaptando-se um lápis a um objeto móvel
(cesto, prancheta ou outro sobre os quais se colocavam os
dedos), esse objeto começava a movimentar-se e traçava sinais
[...]. Com o tempo, a cesta foi substituída pelas mãos dos
médiuns, dando origem à conhecida psicografia (PORTAL DO
ESPÍRITO).

A mediunidade manifesta-se incondicionalmente, sendo esta uma


faculdade inerente apenas à capacidade de comunicação entre homens
vivos e almas desencarnadas; não está ligada a qualquer credo ou religião,
segundo os princípios da Doutrina Espírita. Isto pressupõe que a
admissibilidade da prova psicografada no processo penal se dá,
justamente, pelo apartamento do aspecto religioso evocado pelos juristas
que não aceitam a psicografia no Processo Penal.
Convém ressaltar, ainda, que a Doutrina Espírita é aqui citada tão
somente como referência à origem dos estudos que culminaram com os

Soeitxawe
284 Adrian Cury

normativos atuais sobre a psicografia, e está fundamentada em tríplices


pilares: o religioso, o filosófico e o científico. Considera-se o último (o
científico) como critério que balizará a discussão, pois há de se respeitar
a liberdade de exercício de qualquer religião, conforme expressa no
inciso VI do art. 5.º da Constituição: “é inviolável a liberdade de
consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as
suas liturgias” (BRASIL, 1988).
Allan Kardec, inicialmente, identificou dois tipos extremos de
psicografia: a mecânica e a intuitiva. Posteriormente, distinguiu uma
psicografia intermediária: a psicografia semimecânica. A psicografia é
classificada de acordo com o nível de consciência do sensitivo (médium)
que recebe a mensagem. Alinhado aos estudos de Kardec, de forma clara
e didática, Garcia aborda a classificação da psicografia:

Mecânica: o médium serve de instrumento para o espírito, não


tendo consciência do que escreve. O movimento da mão
independe da vontade. O papel desenvolvido pelo médium é
semelhante à de uma máquina, sem que sua vontade tenha
qualquer participação no ato de escrever. Daí o nome Psicografia
mecânica, em que o movimento da mão é involuntário. Pode
acontecer de o médium escrever com ambas as mãos [...]. Os
médiuns psicógrafos mecânicos são raríssimos, destacando-se
como exemplo, Chico Xavier.

Intuitiva: nessa modalidade de Psicografia o médium tem


participação ativa, porquanto recebe as ideias, como sugestão,
repassando-as para o papel. O grafismo é seu, funcionando o
médium como intérprete, traduzindo os pensamentos que lhe são
transmitidos pelo espírito. Ocorre apenas sintonia psíquica entre
a mente comunicante e a mente do médium. O médium tem
consciência do que escreve, mas não são suas as ideias escritas.

Semimecânica: como o próprio nome está a indicar, há um misto


de Psicografia mecânica e Psicografia Intuitiva. De maneira
alternada, às vezes o médium serve de instrumento.
Mecanicamente sua mão lança no papel o que o espírito escreve;
outras vezes é o médium, que de forma ativa, lança no papel a

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 285

tradução dos pensamentos que lhe são transmitidos pelo espírito


(GARCIA, 2010, p. 58-9).

A carta psicografada constitui documento particular, e, como tal,


quando usada como meio de prova no processo, havendo
questionamento sobre a sua autenticidade, imprescindível passar por
perícia.
Como explica Mirabete:

Segundo a lei, os documentos podem ser públicos ou privados.


Documento público é o expedido na forma prescrita em lei, por
funcionário público no exercício de suas atribuições. São seus
requisitos a qualidade do funcionário que o redige; a sua
competência na matéria e no território; a formação do ato
durante as suas funções públicas; e a observância das
formalidades normais exigidas na espécie. Documento particular
é o que é feito ou assinado por particulares, sem a interferência de
funcionário público no exercício de suas funções (MIRABETE,
2001, p. 313).

Havendo alegação de falsidade documental sobre a carta


psicografada, um incidente de falsidade (CPP, arts. 145 a 148) é
instaurado para que se realize perícia, a fim de se comprovar a
autenticidade do documento. Essa perícia feita em documentos escritos é
a perícia grafotécnica ou grafoscopia, realizada por peritos altamente
qualificados e credenciados.

2- A grafoscopia e suas implicações dentro da psicografia

Em sentido lato, “[...] grafoscopia é a disciplina que tem por


finalidade determinar a origem do documento gráfico” (GOMIDE;
GOMIDE, 2005, p. 20). Ela pode ser aplicada em várias áreas do
conhecimento humano, porém a que nos interessa particularmente é a
Criminalística.
A Criminalística é ciência auxiliar do Direito que investiga, analisa e
interpreta os vestígios materiais relacionados ao delito. Ela se subdivide

Soeitxawe
286 Adrian Cury

em várias outras ciências, dentre elas a Medicina Legal, a Balística


Forense, a Toxicologia e a Documentoscopia.
A Documentoscopia é a ciência que estuda, analisa e identifica os
diversos tipos de falsificações e adulterações em documentos, moedas,
cheques, selos, carteiras de habilitação, carteiras de identidade, contratos
etc. A Documentoscopia subdivide-se em Exames de Tintas e Papéis,
Alterações, Mecanografia e Grafoscopia (ou Grafotécnica) entre outros.
Sob a ótica jurídica, conceitua Garcia:

Grafotécnica é a parte da Documentoscopia que estuda os


grafismos ou a escrita produzida pelas mãos, com a finalidade de
determinar a autenticidade e a autoria. Autenticidade é a
correspondência exata entre a pessoa a quem se atribui a autoria
material do documento e a pessoa que o fez (restringe-se a uma
só pessoa). Sua procura ocorre principalmente na verificação de
assinatura de cheques e de reconhecimento de firmas (assinaturas)
em cartório. Autoria refere-se a uma pessoa ignorada,
estendendo-se a qualquer escritor, menos aquele qualificado a
lançar a escrita (ou que deveria, obrigatoriamente, ser o seu
autor). É o caso de um exame de assinatura para verificar quem é
o autor, podendo haver pluralidade de pessoas suspeitas
(GARCIA, 2010, p. 193-4).

Entende-se grafismo o modo peculiar de traçar a escrita, a linha, o


desenho. Segundo Gomide (2000, p. 2), compreende “[...] as assinaturas,
rubricas, escritas em cursivo, escritas em letras de forma, pictografias e
criptografias”.
Como explicam Gomide e Gomide (2005, p. 43-4), “A escrita direta é
constituída através da composição de caracteres formados por traços e
curvas, podendo-se considerar tais segmentos como unidades do
grafismo, também denominadas gramas”. Explicam, ainda, que o
grafismo é constituído por uma sequência de gestos e que as letras são
conjugadas entre si, sendo que os gramas se interligam de tal modo a
impossibilitarem a determinação exata do início e fim de cada grama; e
que a forma gráfica dos caracteres permitem diversas variações e
combinações, que, aliados às infinidades dos gestos gráficos que os
produzem fazem com que os grafismos das pessoas sejam absolutamente
distintos.

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 287

O grafismo possui, ainda, elementos técnicos peculiares que


derivam das características da forma do registro gráfico e do gesto de
escrever.
Segundo Gomide e Gomide:

Os elementos derivados do estudo da forma do registro gráfico


são os genéricos e representam a morfologia do grafismo:
inclinação axial, espaçamentos, calibre, comportamentos em
relação às linhas de base e pauta, relação de proporcionalidade
gráfica e valores angulares curvilíneos. Já os elementos derivados
do estudo do gesto são decorrentes do efeito dinâmico das
interações das forças aplicadas no ato de escrever (progressão e
pressão), e são denominados genéticos (GOMIDE; GOMIDE,
2005, p. 34).

Complementam os autores precitados que o estudo da escrita e seu


movimento uniformemente variado gerado pela aplicação de forças se
explicam pelas Leis de Newton (Leis da Física), pois as forças e
movimentos produzidos pelo gesto gráfico podem ser avaliados através
de particularidades do traçado, tais como mudanças de direções,
inversões dos sentidos, tipos de sulcagens permitem ao perito estudar os
movimentos do gesto gráfico para identificar sua origem (GOMIDE;
GOMIDE, 2005, p. 34-6).
O estudo da grafoscopia tem como base a comparação do escrito
questionado com outro ou outros comprovadamente autênticos. Para a
realização desse exame, é necessário, no mínimo, um documento escrito
autêntico e um original, pois a cópia dificulta o exame para ser
comparado à peça questionada.
É sabido que a escrita de uma pessoa é como a sua digital: não existe
outra igual no mundo.
A escrita se torna, no decorrer do tempo, um hábito pessoal
automático, e, em determinado momento, fica tão individual que o
“molde gráfico” de cada pessoa se torna imutável e inimitável. Esse
determinismo é explicado pelos Princípios e Leis de Grafismo.
Segundo Gomide e Gomide:

Soeitxawe
288 Adrian Cury

A estrutura básica em que se assenta o exercício da perícia


grafoscópica decorre do princípio fundamental do individualismo
gráfico. A evidência física desse fato, de incontestável veracidade
teórica e prática, permitiu à perícia de documentos a sua aceitação
em todos os tribunais do mundo, como prova científica da mais
alta relevância (GOMIDE; GOMIDE, 2005, p. 40).

A forma da escrita, isto é, o padrão gráfico de cada pessoa provém do


seu cérebro, o que explica a sua exclusividade.
Ainda na visão de Gomide e Gomide (2005, p. 40), “A gesticulação
que produz a escrita origina-se do cérebro e se manifesta através dos
órgãos musculares, redundando em sinais sensivelmente
individualizadores, personalíssimos e inconfundíveis”. Os autores
complementam o pensamento, afirmando que, ainda que dois punhos
diferentes possam produzir escritas semelhantes ou até mesmo muito
parecidas, não se confundem:

Sendo a escrita constituída de alentado número de elementos


genéricos, aliado a particularidades grafocinéticas, a que se deve
acrescentar a possibilidade da existência de “mínimos” gráficos
inconfundíveis, torna-se fácil compreender o elevado grau de
característicos unipessoais componentes de uma escrita,
permitindo sua identificação firme e segura (GOMIDE;
GOMIDE, 2005, p. 40).

Sendo assim, conclui-se que ninguém jamais conseguirá reproduzir a


gênese gráfica de outra pessoa, imitando tão perfeitamente que não seja
facilmente detectado pelos olhos atentos do perito grafotécnico.

2.1 A relevância acerca do estudo da grafotécnica

O princípio fundamental do grafismo, citado na obra de Gomide


(2000, p. 3), alude que “O grafismo é individual e inconfundível”,
afirmativa já tratada, seguida pelo princípio inicial, que diz que “As leis
da escrita são independentes dos alfabetos utilizados”, isto é, as leis da
escrita são aplicáveis às letras usadas na escrita de qualquer língua.
Os autores Gomide e Gomide citam a valiosa contribuição feita pelo
grafólogo francês, considerado o “Pai da Grafoscopia”, Edmond

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 289

Solange Pelatt, com seu livro Les lois de l’écriture, em que formula quatro
leis essenciais, fornecendo à Grafoscopia incontestável respaldo
científico. São elas: “1.ª Lei da Escrita: O gesto gráfico está sob a
influência imediata do cérebro. Sua forma não é modificada pelo órgão
escritor se este funciona normalmente e se encontra suficientemente
adaptado à sua função” (GOMIDE, 2000, p. 3).
Sobre a primeira Lei, comenta Gomide e Gomide (2005, p. 41) que
desde que o mecanismo muscular esteja convenientemente adaptado à
sua função, o cérebro, gerador do gesto gráfico, produzirá escrita sempre
com as mesmíssimas peculiaridades, inclusive aquele que escreve com a
mão direita e passa a treinar a escrever com a mão esquerda apresentará
escritas com idênticas características grafocinéticas, ocorrendo o mesmo
se a escrita for produzida com a boca ou com os pés.
A 2.ª Lei dispõe que:

Quando se escreve, o ‘eu’ está em ação, mas o sentimento quase


inconsciente de que o ‘eu’ age passa por alternativas contínuas de
intensidade e de enfraquecimento. Ele está no seu máximo de
intensidade onde existe um esforço a fazer, isto é, nos inícios, e
no seu mínimo de intensidade onde o movimento escritural é
secundado pelo impulso adquirido, isto é, nas extremidades
(GOMIDE; GOMIDE, 2005, p. 42).

Segundo Gomide (2005, p. 42), esta Lei se aplica aos casos de


anonimografia, em que o esforço inicial do disfarce é mais acentuado,
perdendo intensidade à medida que a escrita vai progredindo, pois ocorre
o automatismo gráfico, em que a tendência é de o escritor aproximar-se à
sua escrita habitual. É nesse momento que o falsário deixa elementos que
poderão incriminá-lo.
A 3.ª Lei dispõe que: “Não se pode modificar voluntariamente em um
dado momento sua escrita natural senão introduzindo no seu traçado a
própria marca do esforço que foi feito para obter a modificação”
(GOMIDE; GOMIDE, 2005, p. 42).
O esforço de se escrever de forma consciente a fim de falsificar ou
imitar a escrita quebra a espontaneidade do ato, e, consequentemente, a
sua naturalidade. Por isso, Gomide (2005, p. 42) lembra que o “[...]
simulador se trairá, através de paradas súbitas, desvios, quebra de direção

Soeitxawe
290 Adrian Cury

ou interrupções, cabendo ao técnico interpretar convenientemente essas


peculiaridades”.
A 4.ª Lei dispõe que: “O escritor que age em circunstâncias em que o
ato de escrever é particularmente difícil, traça instintivamente ou as
formas de letras que lhe são mais costumeiras, ou as formas de letras
mais simples, de um esquema fácil de ser construído” (GOMIDE;
GOMIDE, 2005, p. 42-3).
O escritor tende a fazer traços mais simples, abreviando ou usando
letras de fôrma, quando o ato de escrever está limitado por alguma
circunstância, desfavorável à escrita. Como lembra Gomide (2005, p. 42),
“[...] são comuns os casos dessa natureza em escritas produzidas em
veículos em movimento, em suportes inadequados, em posições
desfavoráveis, por pessoas enfermas ou em situações que demandem
extrema urgência [...]”.
De posse de conhecimentos científicos aliados às leis e princípios da
escrita, o perito grafotécnico pode chegar a conclusões certeiras quanto à
autenticidade e autoria dos documentos periciados, pois, como
demonstrado, os grafismos de um indivíduo são tão personalíssimos
quanto à sua digital, ao seu DNA e à sua íris.
Vale ressaltar que a escrita, entretanto, é mutável.
Segundo Perandréa (1991, p. 24), “Ela desenvolve-se, estabiliza-se e
declina”. Lembra o autor que, ao declinarem, passam a ser chamadas de
escritas senis, caracterizando-se por traços indecisos, claudicantes e
trêmulos.
Além do mais, existem causas que modificam a escrita normal da
pessoa. O estudo dessas causas também é determinante para análise
grafotécnica. Entre as causas internas deformadoras dos grafismos está
“o uso do álcool, da droga, do cansaço, da emoção exaltativa ou
depressiva, de moléstia em geral, enfim de todos os tipos de patologias
temporárias ou permanentes” (PERANDRÉA, 1991, p. 25).
Quanto às causas externas, que normalmente são temporárias, são
aquelas provocadas pelo ambiente, tais como iluminação insuficiente;
frio ou calor intensos; inadequabilidade do instrumento escritor ou do
tipo do papel ou suporte; mudança no ponto de apoio da escrita entre
outros (PERANDRÉA, 1991, p.25).

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 291

Nos exames de autenticidade e autoria se faz, portanto,


imprescindível, a presença de padrões para confrontação com a escrita
questionada.
Muito embora o art. 174, II do CPP mencione que, para o
reconhecimento de escritos por comparação de letra poderão servir
quaisquer “documentos” (BRASIL, 1941), Tornaghi (1990, p. 349) deixa
sua crítica, ao afirmar que “Na verdade não é preciso que se trate de
documentos; qualquer papel escrito pela pessoa serve para
confrontação”.
O perito grafotécnico analisa não somente o aspecto morfológico da
escrita, mas, principalmente, o aspecto morfodinâmico. Isso significa que
o objetivo da comparação vai além da análise da forma. São analisados,
também, os movimentos e as forças utilizadas no gesto gráfico, os
hábitos da escrita, as semelhanças e diferenças.
Feito o exame, o perito compõe o laudo pericial grafotécnico, com as
respostas dos quesitos formulados, assim como em outras perícias. Esse
laudo constitui peça importante no processo judicial, pois contribui com
o magistrado na busca pela verdade, auxiliando-o a proferir sentença e
promover a Justiça.
Interessa ressaltar que, para ser realizado o exame grafotécnico, a
mensagem psicografada deverá ter sido recebida na modalidade mecânica
ou semimecânica (que conterá partes em que será evidenciado o
grafismo do autor comunicante). Como na mensagem psicografada por
meio da psicografia intuitiva só aparece o grafismo do médium
escrevente, não se pode comprovar a autoria por meio da grafoscopia.
Ainda assim, pode contribuir para a formação da convicção do juiz pela
análise de conteúdo, ou seja, pela análise das informações contidas na
mensagem que podem estar de acordo com outros elementos de prova,
como acontece com a testemunha menor de 14 anos, com a testemunha
que possui problemas mentais ou mesmo como ocorre com as provas
ilícitas ao se aplicar a teoria da proporcionalidade.
A esse respeito, o jurista Guilherme de Souza Nucci defende que até
um documento anônimo, como uma fotografia retratando algo
importante para o desfecho do processo, ainda que não se saiba quem a
produziu, é documento válido. Ressalta que, em se tratando de escrito
anônimo, deve ser ele cuidadosamente avaliado pelo magistrado, mas o

Soeitxawe
292 Adrian Cury

fato de não se saber quem o escreveu não o torna inútil tampouco lhe
retira o aspecto de documentalidade, uma ideia reduzida em base
material. Ainda que de menor valor de que um documento nominativo, o
documento anônimo não deixa de ser mais um elemento para avaliação
judicial dentro do contexto probatório; somente não se deve excluí-lo do
conjunto das provas, posto que ilícito não é (NUCCI, 2008, p. 482).
De modo exemplificado:

Imagine se alguém que tenha presenciado um homicídio e, não


desejando ser reconhecido, envia carta anônima à polícia; graças a
isso, localiza-se o autor, que ampla e espontaneamente confessa.
Torna-se importante fator de prova aquela carta, pois justifica o
fato de o Estado-investigação ter chegado a desvendar a autoria
da infração penal, legitimando-a de alguma forma. (NUCCI,
2008, p. 482).

Dessa forma, embasados na teoria de Nucci que afirma que mesmo


um documento anônimo pode ser válido, por analogia, podemos afirmar
que a prova psicografada também pode ser válida, pois, se um
documento que não se sabe a autoria pode, porque não aquele da qual se
sabe quem é o autor e cuja autenticidade se pode comprovar, como é o
caso da psicografia legitimada pelo exame grafotécnico?
Certamente nenhuma prova tem valor absoluto no processo penal.
Nem mesmo aquela que já foi considerada a “rainha das provas” (a
confissão). Todas devem ser analisadas e valoradas em conjunto com as
demais, presentes no processo. Todas podem ser admitidas e valoradas
pelo magistrado, desde que faça a devida fundamentação. Também é
assim com a prova psicografada.
Segundo Ferreira:

A Psicografia como uma possível prova só poderá ser deduzida


de um conjunto de circunstâncias bem definidas e consistentes,
capazes de proporcionar um sólido convencimento do
magistrado, na apreciação de cada caso concreto. Acresce-se,
porém, que a aceitação da psicografia como prova hábil pelo
magistrado não implica necessariamente a sua adesão ao credo
espírita ou crença “post-mortem” (FERREIRA apud GARCIA,
2010, p. 181).

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 293

Ratificando, a prova psicografada, assim como qualquer outra, deve


ser analisada e valorada em conjunto com as demais; não se pretendeu,
em nenhum momento, defender sua validade como prova absoluta. O
que se tenta demonstrar é a sua admissibilidade face aos preceitos e
princípios constitucionais.
Portanto, a utilização da mensagem psicografada no processo é
perfeitamente possível, sendo que sua valoração dependerá do conjunto
probatório a qual está inserida e do caso concreto em pauta.
Longe de se pacificada, a discussão em torno da admissibilidade da
prova psicografada é tema sempre atual. Há quem defenda sua
aceitação, há quem rejeite. A lei não veda, portanto, não se pode dizer
que é prova ilícita. Por exclusão, portanto, se trata de prova lícita,
perfeitamente admissível. Tanto o é que, no Brasil, vários casos
concretos de mensagem psicografada foram levados a juízo e apreciadas.
A doutrina não se pronuncia a respeito. É silente. Poucos são aqueles
que arriscam defender a ideia. Entre esses está o advogado, criminólogo,
perito em Documentoscopia credenciado pelo Poder Judiciário,
educador, professor universitário, conferencista e escritor Carlos
Augusto Perandréa.
Carlos Roberto Appoloni, em apresentação ao autor Perandréa,
registrada na contracapa da obra “A Psicografia à Luz da Grafoscopia”,
o descreve da seguinte forma: “De caráter ilibado e de vida profissional
da mais alta credibilidade, emitiu cerca de 700 (setecentos) laudos
técnicos, sem uma única contestação em 25 (vinte e cinco) anos de
atuação como perito judiciário em Documentoscopia”.
Somente como ilustração da importância dos estudos de Perandréa,
em 1977 iniciou uma pesquisa científica inédita que levou 13 (treze) anos
para ser concluída e que resultou na publicação do livro “A Psicologia à
Luz da Grafoscopia”. Nessa pesquisa, Perandréa analisou, através da
grafoscopia, cerca de 400 (quatrocentas) psicografias, a fim de confirmar
a autoria gráfica. Cita o autor que nos exames iniciais foram muitas as
dificuldades que se apresentaram, pois os resultados pareciam não fazer
sentido dentro dos princípios da grafoscopia. Foi então que procurou
saber mais sobre a psicografia e seus pontos fundamentais. Após esse
novo estudo, percebeu que o método convencional de exames para

Soeitxawe
294 Adrian Cury

autoria gráfica não era totalmente eficaz para ser aplicado ao estudo da
psicografia.
Segundo suas palavras, “Confirmou-se a necessidade da valorização
de alguns pontos de grafoscopia, como a cultura gráfica, as causas
modificadoras do grafismo, a mão amparada, a mão guiada e
principalmente o pivô da escrita, todos analisados a partir da gênese
gráfica” (PERANDRÉA, 1991, p. 19-0).
Apesar de a maioria dos doutrinadores não se posicionar a respeito
do assunto, há diversos artigos publicados em revistas científicas e na
internet com argumentos tanto a favor quanto contra, bem como
existem julgados admitindo a psicografia como prova. Em opinião
oposta, o jurista Guilherme de Souza Nucci defende a ilegitimidade da
utilização da psicografia como prova no processo penal. Transcreve-se,
abaixo, trechos de sua obra.

A República Federativa do Brasil é um Estado democrático de


Direito, porém laico (art. 10, caput, CF). [...] Em primeiro plano,
pois, pode-se afirmar que religião não se confunde com os
negócios do Estado, nem com a Administração Pública e seus
interesses. Cada brasileiro pode ter qualquer crença e seguir os
ditames de inúmeras formas de manifestação de cultos e liturgias.
Pode, ainda, não ter crença alguma. Todos são iguais perante a lei
e o Direito assim deve tratá-los (NUCCI, 2008, p. 350-2).

Afirma o jurista que admitir a prova psicografada ferir-se-ia o


princípio da laicidade do Estado Democrático de Direito.
Em primeiro lugar, é preciso frisar, mais uma vez, que o fenômeno da
psicografia não pertence a nenhuma doutrina religiosa. Pode ocorrer
com pessoas de qualquer religião ou fora dela. Portanto, o argumento
apresentado está equivocado, pois trata o fenômeno como se fosse algo
exclusivo da doutrina espírita, e não é. Certamente, como foi o
codificador da doutrina espírita, Allan Kardec, pioneiro no estudo
sistemático da psicografia, associaram-na ao espiritismo, porém, estudar,
sistematizar e explicar um fenômeno não significa inventá-lo. Foi a partir
do estudo da psicografia que Kardec chegou à codificação do espiritismo
e não o contrário.

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 295

3- O paradigma da grafoscopia e sua natureza científica

Não se pode negar que a maior parte das psicografias tenha sido
escrita em centros espíritas, pois é o Espiritismo que dedica maior
atenção à psicografia, sendo fenômeno plenamente aceito como natural,
e isso facilita e viabiliza sua produção; porém não significa dizer que fora
dele não ocorra.
A psicografia tem natureza científica, podendo ser provada
cientificamente e não sob aspecto religioso. Como afirma Castro,
“Defendemos a aceitação da psicografia como prova por fundar-se em
critérios científicos, suficientemente solidificados, tanto pelo exame
pericial, quanto pela física quântica, portanto, está pautada em
parâmetros da ciência e não da religião” (CASA PAZ E LUZ).
Portanto, admitir a psicografia como prova não implica reconhecer
preponderância de uma religião sobre outra. De outro lado, não aceitá-la,
baseando-se na laicidade do Estado sem nenhuma previsão legal contra,
aí sim caracteriza descumprimento do princípio do Estado Laico, por
preconceito religioso.
A esse respeito, pondera o Paulo Filho:

Como católico apostólico romano, achamos que a proibição


constitui um preconceito à Doutrina Espírita e aos adeptos do
Espiritismo. Se assim for, por que então manter nas salas de
julgamento dos fóruns e tribunais a imagem de Jesus Cristo
crucificado, se o Poder Judiciário não tem nada a ver com
Religião? (PAULO FILHO apud POLÍZIO, 2009, p. 160).

Acrescenta-se a isso a famosa polêmica do Preâmbulo da


Constituição Federal1, que invoca a “proteção de Deus”. O que tem a


1 “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional
Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar,
o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma
sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e
comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das

Soeitxawe
296 Adrian Cury

dizer sobre isso os adeptos da Testemunha de Jeová? Poderiam


perfeitamente alegar descumprimento da laicidade do Estado?
Sobre o assunto, Polízio comenta a Constituição do Estado de
Pernambuco, que é a única no mundo a reconhecer a paranormalidade,
prevendo, em seu art. 1742, acerca da assistência à pessoa dotada de
aptidão paranormal, aduzindo que:

Muito embora na Constituição pernambucana a paranormalidade


encontre o abrigo que merece, pois sua presença, interferência e
efeito são incontestáveis no seio da humanidade, os demais
Estados federativos não reconhecem, pelo menos até agora, essa
força acessória e acessível que vem do espaço à nossa volta e que
não tem absolutamente vínculo prerrogativo algum com a
religiosidade e muito menos com a Doutrina Espírita. Muito ao
contrário, esse dom pertence a todos e em todos pode se
manifestar (POLÍZIO, 2009, p.50-1).

Apenas para argumentar, ainda que a psicografia fosse resultado de


uma dada religião, o que não é, teria respaldo legal, conforme ressalta
Guedes:

[...] a admissibilidade da prova psicografada como meio de prova


poderia ser interpretada como garantia constitucional de
liberdade de crença e de convicção, bem como de proibição à
discriminação de religiões, cultos, liturgias e suas manifestações,
conforme art. 5.º, VI da Constituição Federal (GUEDES, 2013,
p. 78).


controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL”
(BRASIL, 1988).
2 “O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxílio de entidades
privadas de caráter assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e
sem fins lucrativos, prestarão assistência aos necessitados, ao menor
abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e à velhice
desamparada”.

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 297

Nesse mesmo campo, lembra Alexandre de Moraes (apud GUEDES,


2013, p. 78) que, “Ao se considerar somente o aspecto religioso de uma
carta psicografada há que se levar em consideração que a religião é
protegida pelo direito à liberdade de crença, direito de primeira geração,
visando proteger a essência íntima e essencial do homem”. Esse
argumento também é citado pelas palavras de Galvão (2011, p. 105):
“Justamente em prol daqueles que não conseguem visualizar a produção
da prova psicografada como uma prova lícita e moral”.
Isso resulta que, ainda que a psicografia seja considerada, por alguns,
como produto de uma religião, não admiti-la em juízo implica
cerceamento de defesa ou acusação (apesar de não ter havido psicografia
nesse sentido), além de ferir o direito de liberdade de crença,
configurando discriminação e preconceito religioso. De qualquer jeito, os
argumentos contra a sua admissão sempre se mostram frágeis face aos
preceitos constitucionais.
A prova psicografada deve ser vista pelos operadores do direito com
mais seriedade e menos preconceito. Como assevera Timponi:

Tudo isso revela que não se resolvem questões de alta indagação


filosófica e científica sem investigação apropriada, consentânea
com a ordem dos fenômenos a examinar, sem o caráter do
sensacionalismo. Os maiores disparates e absurdos emergem da
superficialidade e da ligeireza com que os opositores contumazes
opinam a distância, sem nenhuma noção e conhecimento, com
medo, talvez, dos “duendes” e das “assombrações” (TIMPONI,
2010, p. 101).

Repensar e reavaliar os conceitos numa ciência dinâmica como o


Direito são imprescindíveis para a evolução da sociedade.
Verifica-se, portanto, que o Estado, na condição laica, não poderá se
manifestar nem contra nem a favor da prova psicografada no processo.
Caberá, então, ao julgador, que poderá perfeitamente aceitá-la, vez que
não vedada por lei, e dar-lhe o valor que entender, respeitando seu livre
convencimento em conjunto com os demais elementos presentes nos
autos.
A discussão acerca do tema está longe de ser pacificada,
principalmente por motivos exteriores ao cerne da questão, ou seja,

Soeitxawe
298 Adrian Cury

simplesmente por questões de convicção religiosa. Como bem resume a


contenda, Garcia expõe que:

Muitos que se posicionam contra a Psicografia como Prova


Jurídica assim precedem movidos, principalmente, por
preconceito religioso. Se a pessoa professa outra Religião que não
o Espiritismo, há uma predisposição, até mesmo inconsciente, de
posicionar-se contra para não prestigiar Religião que não é a sua
(GARCIA, 2010, p. 407).

Quando se separar, definitivamente, o pensamento religioso da


questão da admissibilidade da prova psicografada, poder-se-á enxergar
mais nitidamente que sua aceitação é perfeitamente possível face aos
preceitos constitucionais.

Considerações finais

Ante a análise sistemática da prova psicografada sob o aspecto


jurídico, perfectível de comprovação via exame pericial, importa ratificar
que o que se pretendeu com o presente estudo não foi convencer
pessoas de que a prova psicografada tem valor absoluto e deve ser aceita
indiscriminadamente sem a devida cautela. Pelo contrário, pretende-se
que ela seja vista como mais um elemento de prova disponível para
auxiliar o juiz na árdua tarefa de reconstrução dos fatos e imputação de
responsabilidade, porém cercada de todas as cautelas necessárias para
que se apresente com a devida lisura que guarda processo penal, meio em
que é mais frequentemente invocada.
Pretende-se, ainda, mudar o conceito do senso comum de que a
prova psicografada pertence a determinada religião e por isso não deve
ser aceita. Como amplamente exposto, a psicografia é fenômeno inerente
ao ser humano, podendo apresentar-se em qualquer pessoa, religiosa ou
não, e, ainda, é fenômeno estudado cientificamente, portanto não há que
se vinculá-la à psicografia à religião. Sua utilização não fere nenhum
preceito legal, nem princípios constitucionais. Pelo contrário, viabiliza a
ampla defesa, e, da mesma forma, consagra o princípio da livre
convicção do Tribunal do Júri e a convicção motivada do juiz singular.

Soeitxawe
Ciência ou Religião? 299

Vem ao encontro do princípio da busca pela verdade real,


proporcionando o contraditório como qualquer outro meio de prova,
inclusive submetendo-se a exame pericial quando sob arguição de
falsidade.
Pretende-se que uma nova visão sobre a prova psicografada seja
construída, à luz da ciência, longe de ideias pré-concebidas. Não se
defende que deva ser valorada como elemento absoluto, mas sim se
respeitando o caráter relativo que as provas possuem, devendo ser
sopesada pelo magistrado em conformidade e harmonia com todo o
arcabouço probatório, mesmo porque nenhuma prova - tampouco
aquela que já foi tida como a “rainha das provas” - tem valor absoluto;
pelo contrário, o juiz, valendo-se de todo o conjunto probatório, irá, de
acordo com sua reflexão, formar o seu convencimento, motivando-o.
Importante é permitir que se possa apreciar uma informação obtida
por meio de prova atípica, não vedada em lei, a fim de que se assegure o
princípio da Livre Admissibilidade da Prova, pelo qual se invoca as mais
diversas provas, a fim de esclarecer a verdade como base para a
formação da convicção do juiz. Ressalta-se que já houve julgados
admitindo que a prova psicografada fosse utilizada e valorada no
processo judicial. Portanto, há precedentes na história do processo penal,
e, a partir disso, não se tem mais como não se posicionar a respeito. A
discussão fica aberta, porém, por enquanto, cabe com exclusividade ao
magistrado a responsabilidade de dirimir essa contenda.


5HIHUrQFLDV

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Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assenta-
mento 14 de Agosto em Ariquemes-RO1

Maria Estélia de Araújo2

Resumo: Em 1992, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)


ocupa uma fazenda improdutiva às margens da BR 364, a fim de viabilizar a gera-
ção de emprego, renda e produção de alimentos. Travou-se então, uma disputa
acirrada ao longo de 16 anos. No assentamento, um grupo desafia o sistema de
produção e vivência capitalista, organizados com terras, trabalho e cozinha
coletiva, comercializam os produtos promovendo novas relações no comércio,
respeitando e protegendo a biodiversidade. Desta forma, contradizem às ações
promovidas pelo agronegócio, como a prática de concentração de terras, a pro-
dução de monoculturas, a destruição ambiental, a apropriação de sementes e a
mercantilização dos alimentos, fatores que aumentam os problemas sociais. O
assentamento 14 de Agosto representa um território de famílias camponesas que
buscam sua subsistência através da organização social e a agroecologia, provan-
do que o campo é um espaço importante na busca por soluções para o fim das
desigualdades sociais.
Palavras-chave: Reforma Agrária; Produção; Agroecologia.


Introdução

A agricultura camponesa vem perdendo espaço para o agronegócio,


uma política agrária imposta para o campo brasileiro que prioriza a pro-
dução em alta escala, fazendo uso de monoculturas para exportação com
pacotes tecnológicos que destroem a biodiversidade, contaminando e
causando uma série de problemas à saúde humana e aos ecossistemas

1 Trabalho apresentado no I SOEITXAWE Congresso Internacional da
Pesquisa Científica na Amazônia, realizado entre os dias 01 a 03 de maio de
2015, em Cacoal, RO.
2Mestranda em Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe –
UNESP- Presidente Prudente. Integrante do MST/RO.

Soeitxawe
304 Maria Estélia de Araújo

regionais. Com isso, as famílias camponesas perdem seus conhecimentos


tradicionais, tornam-se dependentes do sistema agrícola capitalista e são
submetidos ao empobrecimento no campo e empurrados às periferias
urbanas (FERREIRA, 2012; STEDILE; CARVALHO, 2010).
A concentração das terras faz com que as relações de produção se
tornem cada vez mais complexas e excludentes. Esta matriz tecnológica
de produção agrária atende aos princípios do agronegócio fundamentados
nos ideais do capitalismo, Altieri (2012) e (CAPORAL; PAULUS; GER-
VÁSIO, 2009) afirmam que não se fará transformações na agricultura
sem redefinir o sistema agrário, razão que justifica a atualidade e necessi-
dade da Reforma Agrária.
Faz-se necessário repensar as experiências produtivas e o retorno a
uma agricultura natural baseada nos princípios da agroecologia retomando
os saberes dos antepassados, o que vem se mostrado um processo eficaz,
onde os produtores buscam cooperar entre si, aprimorando suas técnicas
de produção e comercialização, adquirindo novos hábitos de vivência,
baseados no respeito às relações éticas e sociais (ALTIERI,1999; 2004;
2012). “Ao contrário do que propagandeia o agronegócio sobre as técni-
cas “atrasadas” e ineficazes, “a agroecologia dispõe dos conhecimentos
para superar a monocultura e a quebra da biodiversidade, consequências
inexoráveis do agronegócio” (MACHADO; MACHADO FILHO 2014,
p.37), além de atuar sobre a produção de alimentos de forma que dê
conta de alimentar e ainda promover a dignidade dos povos. “É possível
através da agroecologia resgatar a cidadania dos pequenos, pode-se tam-
bém produzir alimentos limpos em escala que a humanidade demanda"
(MACHADO; MACHADO FILHO 2014, p.37).
A região amazônica, mais especificamente o estado de Rondônia, on-
de está localizado o "Assentamento 14 de Agosto”, tem sido fortemente
prejudicada pelos projetos políticos que antecederam ao período da dita-
dura militar no país. Com uma visão devastadora em nome do “desen-
volvimento” da região, marcados pela ambição do capital nacional e in-
ternacional, tais projetos desconsideram os povos tradicionais, campone-
ses, indígenas e ribeirinhos, assim como, o ecossistema amazônico com
todas as suas especificidades (PICOLI, 2005; SOUZA, 2011). O livro
“Amazônia; nova dimensão do Brasil”, escrito por Amália Martelli em 1969,
apresenta os projetos de um período em que já não se respeitavam os

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 305

povos existentes na região e a devastação da floresta fazia parte do plano


de “desenvolvimento” da Amazônia.

A Amazônia constitui um dos recantos do globo mais virgens e


de maior potencialidade de riquezas naturais. Será o celeiro do
mundo [...] Não foi possível até hoje calcular, cientificamente, as
imensas possibilidades latentes deste indescritível ‘inferno verde’
de rios e florestas. De qualquer forma a Amazônia é hoje uma das
regiões mais cobiçadas da terra. Para nós brasileiros, isso repre-
senta um imenso desafio: conjugar todas as forças nacionais para
integrar definitivamente este território à vida brasileira. E isso de-
pende de um gigantesco esforço de pesquisa, de planejamento e
desenvolvimento3.

No livro a autora esclarece o que a Amazônia representava para os


projetos da época: “[...] o maior desafio econômico, social e político que
o Governo brasileiro tem a enfrentar no presente. A região é cobiçada por
nações superpovoadas e por nações superdesenvolvidas” (MARTELLI,
1969, p. 132), as promessas de desenvolvimento para com os povos da regi-
ão, transpareciam nos projetos visionários do agro e hidro negócio,

Energia abundante, de preço acessível, propiciará a climatização


da empresa e dos ambientes residenciais. Somadas as condições
de habitabilidade aos recursos econômicos que a Região oferece,
em pouco tempo surgirão centros populacionais progressistas, em
lugar dos pequenos núcleos interioranos marginalizados de hoje
que apenas subsistem (MARTELLI, 1969, p. 133).

Segundo Picolli (2005b), os militares no comando do Estado por meio


do golpe militar foram base para a fixação de grandes projetos capitalis-
tas na região, a concentração da propriedade privada e expulsão dos
povos da floresta. Os governos que se seguiram trataram de pôr em prá-
tica esses projetos, seguindo fielmente às políticas anteriores. “[...] os
capitalistas nacionais e internacionais, sempre atentos às riquezas mine-
rais e florestais desta região, bem antes do início do ciclo da borracha,


3 Estes escritos estão na contra capa do livro de Martelli, 1969.

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306 Maria Estélia de Araújo

transformaram a Amazônia em fornecedora de produtos ao mercado


mundial” (PICOLI, 2005b, p. 43).
Após a devastação da floresta (PICOLI, 2005a; 2006; 2004a; 2004b)
através da exploração da madeira chegam os investidores latifundiários
com intuito de “[...] aumentar a produtividade e os lucros, de abrir novos
espaços à penetração do complexo agroindustrial de maquinário e fertili-
zantes [...] (DREIFUSS, 1996 apud PICOLI 2005b, p.40). A lógica de
devastação do agronegócio contraria os limites do solo amazônico por
não ser propício para a agricultura em grande escala e por não suportar o
uso de máquinas pesadas, as chuvas torrenciais levam a um processo
erosivo muito rápido, e embora produza árvores frondosas, sua fertilida-
de é baixa e superficial não sendo portanto, adequado para a agricultura
convencional (PILON, 2002; PRIMAVESI, 2008; SIOLI, 1985), exigin-
do técnicas agrícolas que contemplem a realidade amazônica.
Com a colonização, a partir dos anos de 1970, Rondônia passou a ser
um território de fronteira agrícola, desenvolvendo ao mesmo tempo uma
dinâmica de migração em busca da conquista da terra,

A fronteira representou, para o camponês expropriado, em outras


regiões um espaço onde seria possível construir um novo territó-
rio. No entanto esta fronteira esteve sempre em movimento, fa-
zendo com que, imprimido pelo desenvolvimento capitalista,
também o campesinato se mantivesse em constante movimento.
Não são raras, portanto, histórias de migração de um mesmo
grupo familiar perambulando por várias regiões brasileiras, em
busca de terra e de trabalho. Nesse contexto, o estado rondonien-
se representou um novo sonho de territorialização (SOUZA,
2011, p. 41).

Diante dos diversos problemas que permeavam a questão agrária em


Rondônia, surge na década de 1980, o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra, a fim de organizar a luta pela terra. Em 1992, inicia-se o
processo de ocupação da fazenda Schangrilá, no município de Arique-
mes.
A luta por esta terra ocorreu através de uma disputa acirradíssima en-
tre sem-terra e os donos do poder. Sobre a mesma luta Souza (2011, p.
276) descreve as condições enfrentadas pela organização para a conquista

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 307

desta área por ser “[...] encravada em uma das regiões mais representati-
vas do latifúndio rondoniense, no município de Ariquemes/RO, próxi-
mo à Fazenda Nova Vida, símbolo de violência contra camponeses do
estado”. Como enfrentamento à essa situação, as famílias lideradas pelo
MST e organizações próximas, lutaram durante 16 anos até a posse defi-
nitiva. Durante esse tempo as famílias foram consolidando as formas de
produção, vivência e organização. Para confirmar que é possível reverter
as relações de produção, apresentaremos a experiência de um Grupo den-
tre estas famílias, que vem bravamente resistindo às imposições do capi-
tal. Localizados às margens da BR364, representam um marco da luta
pela terra em Rondônia no enfrentamento ao hidro e agronegócio que se
encontra amplamente instalado na região.
Constituíram uma caminhada de produção e organização própria e
durante os 23 (vinte e três) anos de caminhada, foram avançando nas
formas de cooperação e constituindo-se em um grupo informal de pro-
dução de subsistência, vivenciando através dos fundamentos e princípios
agroecológicos novas relações sociais, éticas, econômicas políticas e
pedagógicas. Guiados pela proposta de cooperação agrícola do MST, e
por meio do resgate da agricultura camponesa, há mais de onze anos vêm
constituindo outras formas de vivência e a produção de alimentos sem
agrotóxicos. O grupo em questão caminha na contramão do modelo
agrário da região, onde a produção predominante é a criação de gado de
corte, avançando rapidamente para as monoculturas de grãos, principal-
mente a soja em larga escala, constituindo-se em problemas consideran-
do a vulnerabilidade do solo da região e a expulsão de famílias campone-
sas para outras fronteiras agrícolas. Silva (2013; 2014) adverte que a im-
plantação do agronegócio da soja exclui camponeses gerando problemas
diversos para o campo e a cidade.

Trajetória de territorialização da luta pela terra no Assentamento


14 de Agosto

No dia 14 de agosto de 1992 um grupo de aproximadamente 150 fa-


mílias sem-terra, oriundas de diversos municípios de Rondônia, ocupa
um latifúndio improdutivo na região de Ariquemes. Esse momento foi

Soeitxawe
308 Maria Estélia de Araújo

considerado um momento de muita coragem e ousadia, pois ocuparam


um território destinado aos senhores fazendeiros, que são as terras às
margens da rodovia BR364, localizada entre os municípios de Jaru, Ari-
quemes, Theobroma e Cacaulândia.
Para a política de colonização existente no país, restaria a imposição
para ocuparem lugares longínquos, com pouca ou nenhuma infraestrutu-
ra, como estradas para escoarem sua produção, cuidados médicos, esco-
las e outros, necessários para o desenvolvimento no campo, porém, o
MST rompe com esta política, ao ocupar as terras com condições reais
para se desenvolverem com dignidade.
Esta disputa entre fazendeiro e Sem-terra, dada a inoperância do Insti-
tuto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), se tornaria acirradís-
sima e realmente foi assim que sucederam os dezesseis anos até a con-
quista propriamente dita. Durante este período, as famílias enfrentaram a
pistolagem e as muitas ordens de despejo. Chegaram, de fato, a passar
pelo despejo em maio de 1993, de forma barbaramente violenta, pois, os
policiais espancaram várias pessoas, atearam fogo aos barracos, causando
uma situação de pânico e revolta. “Assim fizeram e a polícia executou a
ordem de despejo de forma violenta. A truculência da polícia culminou em
um despejo que deixou muita destruição para as famílias acampadas [...]”
(NÓBREGA, 2013. p.86). O Jornal Migrantes (apud NÓBREGA, 2013)
na época relatou sobre a forma cruel de execução do despejo. Dali, as
famílias foram levadas para o pátio do INCRA, no município de Jaru,
onde enfrentaram uma diversidade de problemas, relacionados à convi-
vência, à escassez de alimentos, ao clima, às más condições de habitação,
às indiferenças e ataques da sociedade.
Mas as famílias resistiram, por meio das equipes organizadas viabili-
zavam soluções para os problemas, o sonho de voltar à terra e continuar
as atividades agrícolas que haviam ficado para trás traziam forças para
seguirem lutando. Equipes de alimentação, segurança, saúde, educação e
formação, inclusive a escola funcionou normalmente, em uma sala impro-
visada, cedida pela extinta Superintendência de Campanhas de Saúde
Pública (SUCAM), próximo ao pátio do INCRA, e pela primeira vez
houve a experiência da escola itinerante com apoio institucional, que
anos mais tarde, por ser uma necessidade geral das famílias, se tornaria
uma prática do MST em nível nacional.

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 309

A luta por escola sempre esteve presente desde os primeiros momen-


tos de discussões dos acampados. As aulas no acampamento seria uma
condição básica para a permanência das famílias, e no primeiro momento,
em 1993, a escola funcionou como uma extensão de uma escola da rede
municipal de Jaru. No ano seguinte se tornaria uma escola oficial perten-
cendo ao município de Theobroma, muito depois viria a integrar definiti-
vamente à rede de ensino de Ariquemes, quando já estavam resolvidos
os problemas de limites entre os municípios.
Recentemente, com a política de polarização das escolas do campo, a
escola do assentamento esteve ameaçada de ser extinta, e mais uma vez
as famílias organizadas conseguiram mantê-la, com muita luta também.
Pode-se dizer que a escola passou por muitos momentos de lutas e resis-
tências, e por ser uma compreensão do MST, a escola torna-se a porta de
entrada para que as pessoas possam se desenvolver no âmbito técnico,
social, cultural e filosófico.

Nós do MST e os nossos educadores temos a convicção de que a


escola no seio da comunidade é que determina a formação do
educando. Num país onde ainda há preconceitos aos que exercem
trabalho no campo, e que o projeto econômico exclui a pequena
agricultura, objetivando as produções macroeconômicas de gado,
soja, milho e outros em larga escala. Por esse motivo é que luta-
mos com força, pela permanência das escolas do campo (EDI-
MAR, 2010).

As mulheres sempre exerceram papeis fundamentais, seja pela parti-


cipação na luta, ou seja pelo trabalho relevante que realizavam/realizam
no dia a dia. Obtiveram conquistas próprias relacionadas aos direitos da
mulher, a previdência, salário maternidade para as camponesas, o direito
de ter o título da terra em seu nome, conquistas frutos da luta conjunta
das famílias camponesas. Boff e Muraro reconhecem essa importância.

As mulheres representam mais da metade da força de trabalho


agrícola mundial e sabem administrar os recursos domésticos de

4Edimar. Entrevista em 2010. Entrevistadora: Maria D’Aparecida Lopes de
Meira, Ariquemes, 2010.

Soeitxawe
310 Maria Estélia de Araújo

alimentos, água e energia. Remover os obstáculos ao exercício de


poder econômico político das mulheres é também uma forma de
pôr fim à pobreza (BOFF; MURARO, 2002 p. 275).

A reocupação da área, aconteceu no final do mês de julho de 1993,


sendo possível colher o feijão que as famílias haviam plantado antes do
despejo, motivos de alegria geral e certeza de vitória. Assim que chega-
ram à área pela primeira vez, iniciou-se o processo de produção. Organi-
zou-se lavouras em forma de mutirão, com todos que estavam aptos para
aquele trabalho, e no momento do plantio e da colheita os mutirões eram
com praticamente todos.
Antes das primeiras colheitas foi realmente difícil e havia dias em que
eram feitas assembleias para discutirem o que iriam comer. Geralmente a
solução estava em tirar palmitos na mata, ou recorrer a alguns vizinhos
que contribuíam com o acampamento oferecendo bananas, mandiocas e
trocavam serviços por leite para as crianças e outros alimentos. Recebiam
muitas doações das comunidades da região, eram pessoas que acredita-
vam na luta pela terra.
As discussões sobre a organização da produção também já estavam
presentes e aos poucos as pessoas iam se definindo sobre a forma de mo-
radia, o que e como produzir. Conhecendo a morosidade do INCRA, foi
proposto por lideranças do MST fazerem a demarcação por “conta pró-
pria”, e começarem os plantios perenes, organizarem barracos melhores,
criarem galinhas e porcos, e assim, irem criando “raízes” na terra, uma
maneira de resistência, o que de fato faria a diferença. As lavouras
como café, palmitos, frutas, cereais, hortaliças e outros contribuiriam
para a permanência na terra.

O empenho em produzir no acampamento colaborava na luta


tanto no sentido de garantir a subsistência na área e de evidenciar
o potencial produtivo dos acampados, como também possibilita-
va protelar a execução de ordens judiciais, com a extensão de
prazos para realizarem as colheitas (NÓBREGA, 2013, p. 86).

Antes de executarem a demarcação foram realizadas inúmeras reuniões


para estudos dos materiais de cooperação agrícola do movimento e deba-
tes sobre como seria a demarcação da terra, e também para conhecerem

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 311

a geografia da área, localizar nascentes, identificar previamente as condi-


ções do solo, tipos de lavouras que seriam importantes cultivarem, a
partir desses estudos, um grupo definiu pelo sistema alternativo de mo-
radia. "[...] estas famílias ainda sem-terra decidiram organizar o espaço do
acampamento de uma outra forma, criando um sistema de agrovila"
(NÓBREGA, 2013, p.90), sendo que esta foi a primeira experiência de
sistema de agrovilas com lotes individuais do país (LEÔNCIO apud NÓ-
BREGA; ELMI, 2015).
Essa proposta representou uma alternativa para resolver problemas
de estruturas físicas, como energia elétrica, água encanada, escola próxi-
ma das residências e facilidades para se reunirem para assembleias, estu-
dos, festas e outros (CONFEDERAÇÃO DAS COOPERATIVAS DE
REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL, 1995; 1997; 1999; STEDILE;
FERNANDES, 2005). Havia muita especulação a respeito, dúvidas, mas
o tempo provou que seria uma experiência exitosa: quando ninguém na
região tinha energia elétrica, os moradores da agrovila conseguiram um
projeto com o governo do estado e puderam desfrutar desta organização
acessível e prática.
No processo de definição sobre as formas de produção, 50% das fa-
mílias optaram pelo sistema tradicional de demarcação de terra e a outra
parte aderiu ao sistema alternativo de demarcação, ou seja, em agrovilas
onde continuaram os sistemas de mutirões para limpeza e colheitas das
roças.
O próprio INCRA que denominou as demarcações convencionais de
“Quadrado Burro” hoje adere à demarcação em agrovilas por entender
que é uma das melhores formas de organizar o espaço "[...] depois disto o
INCRA, que não tinha se mostrado muito disposto a organizar a área
daquela maneira caso fossem assentados, aderiu ao sistema sob alegação
que ele barateava o custo do processo também" (NÓBREGA, 2013, p.
92).
Em 2002, foi criada a Associação dos Produtores Alternativo Agroflo-
restal em Assentamento de Reforma Agrária (APAARA), que contribui-

5Elmi, dirigente do MST e morador do assentamento 14 de Agosto. Entrevista
em março de 2015. Entrevistadores: Maria Estélia de Araújo e Equipe Bodoque
Cine Vídeo, Ariquemes, 2015.

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312 Maria Estélia de Araújo

ria no processo organizativo e facilitaria a viabilidade de pequenos proje-


tos como máquinas para beneficiamento de arroz e milho e a construção
de algumas estruturas na área social. Estes equipamentos foram disponi-
bilizados pelo Projeto Padre Ezequiel Ramim. Aos poucos, foram sur-
gindo formas mais avançadas de organização e um grupo de famílias,
decidiram por trabalhar de forma mais sistêmica, resultando na formação
de um “Grupo Coletivo”.
Assim, o Assentamento 14 de Agosto vêm se contrapondo às práticas
convencionais de produção, uma demonstração de que a Reforma Agrá-
ria é viável, pois retira da marginalidade as pessoas que antes não tinham
nenhuma perspectiva de conquistar uma vida digna. Hoje as famílias
estão bem instaladas, com casas de alvenaria, todos com energia elétrica,
água encanada, transporte acessível, uma produção considerada impor-
tante para desenvolverem-se cada vez mais.
A maioria dos adolescentes já concluíram o ensino médio e alguns já
concluíram cursos de graduação. Há ainda outros frequentando, inclusi-
ve, cursos de graduação e pós graduação coordenados pelo MST a partir
da política de educação do campo. Sem dúvida nenhuma, não teriam
conquistado tudo isso, caso estivessem trabalhando em fazendas, entre-
gando parte de sua produção ao patrão, sem garantia de permanência na
terra.
Atualmente, mais famílias do assentamento vêm aderindo à agricultu-
ra agroecológica em núcleos familiares e também, está surgindo agora a
formação de um novo grupo de rejeição ao veneno, são seis famílias que
vivem no sistema de demarcação tradicional do assentamento, mas que já
concluíram que a forma convencional de agricultura não promove a
sustentabilidade. Desta a forma, com acompanhamento do MST, da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) e Rede Agroecológica Terra Sem
Males, espera-se que estas famílias se tornem também uma agrovila.


6Projeto da Diocese de Ji-Paraná, com atuação em diversas frentes incluindo a
agricultura.
7Uma de suas linhas de trabalho em Rondônia é a agroecologia. Referência na
organização da agroecologia, contrapondo assim, a política agrária do
agronegócio.

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 313

A vivência agroecológica do Grupo coletivo “14 de Agosto”

Em janeiro de 2004, um grupo de famílias que já trabalhavam em sis-


temas de mutirão coletivizaram as roças, as cozinhas e o trabalho, de
maneira que toda a produção passou a ser conjunta. A cozinha funciona-
va de segunda a sexta-feira e a cada semana uma das mulheres assumia o
trabalho, desde o café da manhã até o jantar, além dos cuidados com as
crianças pequenas. “A forma escolhida pelas famílias para a luta na terra
foi a coletivização do trabalho, que por sua vez tornou-se necessário a
construção de uma cozinha coletiva” (NÓBREGA, 2013. p. 98).
A princípio eram cinco famílias que possuíam uma propriedade de 22
ha (cada uma), decidiram redistribuir suas terras trazendo outras cinco
famílias sem-terra e que tinham a disposição de trabalhar em conjunto,
provando desta forma que, o que determina não é a quantidade de terra,
mas o uso que se faz dela, ao mesmo tempo deixando claro o espírito de
solidariedade e o desapego à terra como um bem de mercado (ALMEI-
DA, 2009; SOUZA, 2011; MARTINELLO, 2011).
Algumas medidas visavam liberar o máximo de mão de obra para o
trabalho na lavoura, haviam equipes para contribuírem nas atividades da
cozinha, uma coordenação para discutirem as questões gerais e encami-
nhá-las, com definição de que não usariam uma gota de veneno, o que já
era causa de vários problemas e doenças. Desde sua consolidação, a pro-
dução foi marcada pelos princípios da cooperação agrícola do MST. As
formas de cooperação foram avançando à medida da compreensão de
cada um, chegando à conclusão de que sozinhos é mais difícil se garanti-
rem na terra, conseguirem implementos para produzirem e formas de
comercialização que permitam desviar-se dos atravessadores, assim co-
mo, reinventar as práticas agrícolas.
Iniciaram mantendo as roças existentes na época, plantios de frutas
tropicais, palmeiras, café, bananas, entre outras, antes individuais. Conse-
guiram uma pequena farinheira e passaram a produzir farinha para o
mercado local, naquele período, um bom negócio, embora, chegassem os
problemas decorrentes da monocultura, o que implicou em uma reorga-
nização baseada nos princípios da agricultura camponesa de base agroe-
cológica: plantar tudo o que fosse possível para garantir a sobrevivência.
São 110 ha de terras coletivas (o que facilita a produção de barreiras

Soeitxawe
314 Maria Estélia de Araújo

contra agrotóxicos) e estão organizados em reservas florestais, espaço da


criação de animais, roças, horta e os espaços de estruturas como farinhei-
ra, despolpadora de frutas, cozinha coletiva e campo de futebol.
Alguns sonhavam em organizar um espaço socioambiental, onde fos-
se possível desenvolver uma agricultura alternativa, uma espécie de tu-
rismo agroecológico, porém, a necessidade de um retorno a agricultura
camponesa também era uma necessidade concreta, e assim, foi se mes-
clando a produção com práticas agroecológicas. Mantiveram as capoei-
ras, que hoje compõem a parte de floresta e, felizmente é uma conside-
rável reserva ambiental, onde se pode encontrar uma diversidade de
plantas nativas e outras que foram enriquecendo a floresta, assim como,
uma diversidade de animais e pássaros, que encontram ali um espaço de
refúgio e fonte de água e alimentos.
Por ser um assentamento localizado próximo aos municípios de Jaru
e Ariquemes, iniciou-se uma experiência com hortaliças e todo um pro-
cesso de aprendizagem para produção orgânica. Surgiram inúmeros desa-
fios desde a falta de estrutura física, problemas com o solo (o PH baixo
devido à falta de calcário e por passar por anos sob efeito das pastagens),
até a falta de conhecimento sobre como produzir de forma natural.
Foram muitas perdas, erros e acertos, e hoje pode-se considerar que
aprenderam muito sobre a produção natural, e embora se deparem com
algum problema, geralmente a solução está no próprio território, se re-
solvendo com um composto orgânico, rotação de culturas, com a utiliza-
ção de espécies olerícolas para adubação verde. Enfim, há uma habilida-
de que aumenta com o convívio cotidiano. O mesmo acontece com o
cuidado com os animais. Há pessoas do Grupo que se dedicam a pesqui-
sar sobre homeopatia animal, produção de minerais produzidos a partir
de componentes naturais encontrados também no campo.
Os produtos são comercializados principalmente no município de Ja-
ru, em feiras livres e entrega direta aos consumidores, que são pessoas
que geralmente defendem a Reforma Agrária, conhecem os riscos dos
produtos convencionais e, assim, não só consomem, mas, contribuem
com fortalecimento do assentamento. Esta prática reforça os princípios
da agroecologia e contradiz a prática capitalista que transforma comida
em mercadorias. Os produtos comercializados direto nas feiras livres
além de saudáveis e diversificados chegam aos consumidores a um preço

Soeitxawe
A Organização Social e as formas de Produção do Assentamento 315

acessível, muito ao contrário da lógica do agronegócio que é vender os


produtos orgânicos para as pessoas com maior poder aquisitivo, tirando
o direito dos trabalhadores se alimentarem com comida saudável e diver-
sificada.

Desafios e perspectivas

Hoje o desafio é, sem dúvida, produzir em maior quantidade, organi-


zar as condições sanitárias dentro das possibilidades destas famílias,
romper com a burocracia dos padrões de vendas que dificultam a comer-
cialização para os pequenos produtores imposta pelo Ministério da Agri-
cultura, Abastecimento e Pecuária (MAPA). Além disso é preciso proces-
sar os produtos in natura para agregar valores e garantir a conservação
dos mesmos, chegando diretamente aos consumidores através das feiras
livres, entrega direta aos consumidores e fortalecer a rede de produtos
agroecológicos no estado de Rondônia, a exemplo de experiências já
consolidadas pelo MST em outros estados do Brasil.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra vem enfrentando
o capital globalizado que atua no espaço agrário em todo o Brasil. Há
experiências relevantes, como a proteção às sementes crioulas, garantin-
do a multiplicação da vida. Como exemplo a ser citado, podemos desta-
car a produção de sementes de hortaliças agroecológicas BioNatur; a for-
mação de cooperativas para produção e processamento de alimentos; o
manejo ecológico dos solos; o comércio direto à população.
A agroecologia vem se reafirmando como território capaz de discutir
uma nova matriz tecnológica, sem uso de grandes maquinários e sem
concentração da terra adaptando técnicas eficazes para produção com o
mínimo impacto ambiental possível, produzindo alimentos diversificados
(ALTIERI, 2012; CAPORAL; COSTABEBER, 2009; MACHADO,
2014.).
Todas essas ações e experiências constituem-se em elementos que
atuam para o fortalecimento da agricultura camponesa e sua territoriali-
dade, se contrapondo ao avanço do território do agronegócio. Estas famí-
lias bravamente desafiam o modelo convencional de agricultura, provan-
do que é possível produzir comida de boa qualidade e oferecê-la à popu-

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316 Maria Estélia de Araújo

lação por preço justo, sem exploração de mão de obra e com menor
impacto ambiental possível.
Atualmente, podemos dizer que o Grupo 14 de Agosto tem visibilidade
aos olhos da sociedade e organizações sociais porque produz comida
com qualidade ambiental adequada. Aos órgãos públicos porque se apre-
senta como um Grupo capaz de se organizar para buscar o que precisa. O
próprio INCRA rompe com modelos históricos de demarcações de ter-
ras (como foi conquistado pelo Grupo), a demarcação coletiva das terras.
Cabe agora a este grupo de famílias compreender a grandeza do que
conquistaram, e se organizarem para além do simplismo de não se situa-
rem no território construído. Como um “oásis” no deserto, o Grupo 14 de
Agosto vêm mostrando a possibilidade de resistência na terra através da
cooperação agrícola e da produção de base agroecológica.

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Soeitxawe
Levantamento de animais atropelados na Rodovia - 471 que
liga o munícipio de Ministro Andreazza à BR 364, Estado de
Rondônia

Surui, F. G.1
Fermiano, E. C.¹
Silva, P. J. G.¹
Buss, E. S¹
Suruí, A¹
Gonçalves, M. S1

Introdução

O atropelamento dos animais nas rodovias brasileiras está crescendo


cada vez mais devido ao desmatamento florestal. Consequentemente, ao
perderem seus hábitats, muitas espécies cruzam rodovias em busca de
alimentos ou ambientes com melhores recursos, sendo muitas mortas
por veículos automotores (MENEGUETTI et al., 2007). A morte por
atropelamento de animais vertebrados está se tornando cada vez mais
comum, causando a diminuição de várias espécies silvestres, muitas delas
de grande importância para a conservação (RODRIGUES et al., 2009).
No entanto, este tema é pouco ressaltado dentre as questões que
envolvem a ameaça de extinção das espécies da fauna brasileira
(MENEGUETTI et al., 2007). Nos últimos anos, os impactos causados
à fauna por atropelamentos nas estradas e rodovias têm recebido a
atenção de pesquisadores de vários países (LIMA & OBARA, 2009). No
Brasil, a preocupação é mais recente e, quase sempre, associada às áreas
de interesse de preservação (LIMA & OBARA, 2009). No estado de
Rondônia são escassos os estudos referentes à animais atropelados
(TURCI e BERNARDER, 2009). Considerando a falta de estudos sobre
os efeitos do atropelamento sobre a fauna na região, este trabalho teve

1 Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal
(FACIMED)

Soeitxawe
322 Eder Fermiano

como objetivo avaliar a incidência de atropelamento sobre os


vertebrados, a fim de verificar quais grupos de vertebrados são mais
afetados, num trecho da RO-471 que liga o município de Ministro
Andreazza à BR 364, no estado de Rondônia.

Material e Métodos

Este trabalho foi realizado em um trecho de 27 km da Rodovia 471,


que liga o município de Ministro Andreazza (latitude 11º 04’ 27" sul e
longitude 61º 31 01" oeste) à BR 364, localizada no estado de Rondônia.
Ao longo do trecho percorrido a vegetação encontra-se drasticamente
alterada por pastagens e agricultura. As observações dos animais
atropelados foram realizadas aos sábado no período matutino durante
três semanas, totalizando 12 horas de observação. O trecho foi
percorrido de motocicletas (CG 150 Titan-Honda) a uma velocidade
média de 30 km/h, levando cerca de duas horas para percorrer todo o
trajeto. Os animais atropelados encontrados foram registrados com o
auxílio de câmera fotográfica e anotados em fichas. Não foram
considerados animais domésticos atropelados.

Resultados

No total, foram registrados 40 animais silvestres atropelados. Os


principais grupos encontrados foram mamíferos com 16 indivíduos,
seguido de aves com 11, anfíbios com 7 e répteis com 6 (Tabela 01).
Durante o período de estudo, constataram-se que nos trechos com a
presença de mata adjacente à rodovia ocorreu um maior número de
atropelamentos dos mamíferos, sendo a classe mais afetada.

Soeitxawe
Levantamento de animais atropelados na Rodovia-471 323

Tabela 01. Grupos de vertebrados atropelados na RO-471 que liga o município de Ministro
Andreazza à BR 364, estado de Rondônia.

Grupos Coleta 1 Coleta 2 Coleta 3 Coleta 4 Total


Mamíferos 8 4 2 2 16

Aves 5 3 0 3 11

Anfíbios 4 1 1 1 7

Répteis 3 1 1 1 6

Das espécies mais registradas neste trabalho, destacam-se o tatu-


galinha (Dasypus novemcinctus) com 12 indivíduos, o sapo-cururu (Bufo
marinus) com 6, a jibóia (Boa constrictor) e o tamanduá-mirim (Tamandua
tetradactyla) com 4 e o Anu-preto (Crotophaga ani) com 3 (Figura 01).

Dasypus novemcinctus Bufo marinus

Boa constrictor Tamandua tetradactyla

Soeitxawe
324 Eder Fermiano

Crotophaga ani

Figura 01: Vertebrados atropelados com maior ocorrência na RO-471 que liga o município
de Ministro Andreazza à BR 364, Rondônia.

Discussão

O número de 40 animais silvestres atropelados, em três semanas,


pode ser considerado muito alto comparando com pouco tempo de
estudo. Neste caso, as rodovias podem contribuir para a fragmentação
das populações animais, levando ao isolamento das mesmas
(ESPERANDIO, 2014). Tais fatores, facilitam a extinção local destas
espécies, uma vez que a recolonização destas áreas podem ser reduzidas,
pois algumas espécies, principalmente os mamíferos, podem evitar a
travessia devido ao tráfico de veículos (RICO et al., 2007). As espécies
D. novemcinctus, C. ani, B. constrictor e T. tetradactyla também foram
amostradas por Turci e Bernarde (2009), na rodovia estadual 383 que liga
o município de Cacoal a Alta Floresta, estado de Rondônia. Das espécies
mais amostradas neste trabalho, nenhuma está ameaçada de extinção. No
entanto, é importante ressaltar que os dados registrados neste estudo
pode não representar o número preciso de atropelamentos na RO-471,
uma vez que as carcaças podem ter sido retiradas da rodovia por animais
carnívoros e, além disso, animais feridos por atropelamento podem
morrer em locais mais afastados. Sugere-se a continuação deste estudo a
fim de obter resultados mais precisos sobre o número de atropelamentos
nesta região, bem como fornecer informações que contribuam para a
conservação da fauna.

Soeitxawe
Levantamento de animais atropelados na Rodovia-471 325

Referências

ESPERANDIO, I. B. Rodovias atuam como barreira para o fluxo gênico


de roedores subterrâneos. O caso de Ctenomys minutus
(Ctenomyidae). 2014. Dissertação de Mestrado em Ecologia
apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
MENEGUETTI, D. U. O; Pachoal, L. S; Sousa, C. R. Mortalidade de
animais silvestres atropelados nas rodovias, Anual da SBPC,
Belém – PA, 2007.
LIMA, H. H. & Obara, P. D. C. Estradas em Unidades de Habitat Por
Mamíferos Terrestres. In: II Congresso Brasileiro de Unidades de
Conservação-2. Campo Grande-MS. Anais, 2000.
RICO, A.; Kindlmann, P. & Sedlacek, F. Barrier effects of roads on
movements of small mammals. Folia Zool. 65(1):1-12, 2007.
TURCI, L. C. B. & Bernarde, P. S. Vertebrados atropelados na Rodovia
Estadual 383 em Rondônia, Brasil. Biotemas 22(1):121-127, 2009.

Soeitxawe
Monitoramento da Biodiversidade da Terra Indígena Sete de
Setembro do Povo Paiter Suruí, Rondônia, Brasil.

Alexsander Santa Rosa Gomes


Israel Correa do Vale Júnior
Ivaneide Bandeira Cardozo

O monitoramento da biodiversidade surgiu de uma demanda do


Parlamento Paiter Suruí no ano de 2011, onde os recursos faunísticos da
TI Sete de Setembro seriam monitorados através do uso de metodologias
científicas e do saber tradicional. Para auxiliar no processo de construção
de uma metodologia nova que abordasse o conhecimento científico e o
conhecimento tradicional de forma conjunta, a Associação Metareilá do
Povo Paiter Suruí formalizou um convite aos seus parceiros (Kanindé e
Ecam) para que estes auxiliassem no processo de construção do método.
Após a criação do método, oficinas foram realizadas para a capacitação
de 8 agentes de monitoramento para que estes pudessem monitorar as
atividades de caça e pesca nas suas aldeias e também para que pudessem
percorrer transectos lineares e registrarem a densidade e abundância da
fauna de aves e mamíferos de médio e grande porte. A primeira etapa do
projeto foi de Janeiro de 2012 a Junho de 2013, onde foram monitoradas
6 aldeias das 25 existentes, e durante este período foram coletadas
informações importantíssimas para a tomada de decisão em relação ao
futuro do recurso faunístico do território Paiter Suruí. Nesse período de
pesquisa foram registradas informações de biomassa abatida (8.646,35
Kg através da caça e 871,23 Kg através da pesca), nas atividades de
avistamentos nos transectos foi registrada a ocorrência de 23 espécies de
mamíferos e 8 de aves de médio e grande porte. Foram percorridos 840
km de trilhas em 105 dias de atividades, sendo realizados 1.646
avistamentos entre aves e mamíferos de médio e grande porte. As
espécies mais utilizadas pelos Paiter Suruí nesse período foram o Caititu
(Tayassu tajacu) e o Queixada (Tayassu pecari) totalizando juntas uma
biomassa de 8.101,49 Kg, ou seja 93,37% da biomassa abatida pertenceu
a estas duas espécies de mamíferos. Para a ictiofauna, as espécies mais
328 Alexsander Gomes, Israel Júnior & Ivaneide Cardozo

utilizadas foram o Peixe Elétrico (Electrophorus electricus) com 116,71 Kg,


Mandubé (Ageneiosus inermis) 116,71 Kg e a Piranha (Serrasalmus sp.) com
102,5 Kg. Atualmente, o monitoramento da biodiversidade continua e os
primeiros desdobramentos para a tomada de decisão para a gestão dos
recursos faunísticos já estão em pauta, onde estuda-se a implementação
de um plano de manejo comunitário para as espécies apontadas pelo
monitoramento como as mais utilizadas pelos Paiter Suruí. Tal atitude irá
contribuir para a manutenção da segurança alimentar das comunidades e
irá possibilitar a conservação da fauna do território. Desde modo, as
futuras gerações poderão usufruir dos recursos naturais e perpetuar a
cultura do seu Povo.

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça1

AcursioYpiranga Benevides Júnior2


MSc. Antônio Enrique Fonseca Romero3

Resumo: A filosofia contribui com sua racionalidade e epistemologia na análise


crítica de ciências humanas que precisem de procedimentos metodológicos na
interpretação das relações sociais e suas múltiplas vertentes, incorporando-se às
dinâmicas sociopolíticas, socioeconômicas e, principalmente, no caso do nosso
estudo, às solidárias. Logo, esta pesquisa possibilita dar a conhecer à academia e
à sociedade em geral, as reflexões contemporâneas acerca da justiça e dos
parâmetros políticos que ela influencia; assim como, os deveres coletivos e
individuais na fortificação da cidadania e do bem-estar social. Esta investigação
discute no campo do saber prático, a Teoria do Agir Comunicativo de Jürgen
Habermas na ótica do Paradigma Social Democrático, afim de considerar o
caráter solidário da justiça como substrato – e por isso inseparável - do Estado
Contemporâneo. A pesquisa desenvolve-se com mediação da abordagem
“fenomenológica-hermenêutica”, com a primazia da subjetividade, onde o
sujeito transcendental, íntegro, dono e senhor de si é o pesquisador revestido de
intencionalidade, da consciência que sempre está dirigida a um objeto. Das
pesquisas, identifica-se que “[...] um acordo na prática comunicativa da vida
quotidiana pode se apoiar ao mesmo tempo num saber proposicional
compartido intersubjetivamente, numa concordância normativa e numa
confiança recíproca (HABERMAS, 1989: 167)”, que, em natureza, se
aproximam, essencialmente, de uma legítima solidariedade subjetiva, íntima, de
compartilhamento, concordância ou sentimento sobre um objeto de consenso,


1Trabalho apresentado no I Congresso Internacional de Pesquisa Científica na
Amazônia - CIPAM, realizado entre os dias 1,2 e 3 de Maio de 2015, Cacoal,
RO.
2 Acadêmico do Curso de Direito da ESO/UEA. E-mail:
acursiobenevides@gmail.com
3 Docente do Curso de Direito da Escola Superior de Ciências Sociais –
ESO/Universidade do Estado do Amazonas – UEA. E-mail:
aromero@uea.edu.br

Soeitxawe
330 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

uma aceitação ou compromisso de entendimento, tornando-o responsável pelo


seu agir e, consequentemente, pelo agir que influencia, enquanto este for um
subproduto daquele. Estes aspectos iniciais estão por levar os esforços aqui
dedicados a um grau mais substancial da análise do “agir comunicativo” de
Habermas, na ótica do caráter solidário da justiça, em vistas do Paradigma social
Democrático Contemporâneo, assim como seus reflexos em temas atuais
pertinentes à solidariedade e à justiça.
Palavras-chave: Justiça; Solidariedade; Agir Comunicativo.

Introdução

Ainda no meio da segunda década do século XXI, a sociedade se


debate em controvérsias sobre a evolução da moral humana, a tendência
irrefreável dos direitos humanos e a fortificação do estado de capital, da
propagação publicitária e cultural do consumo e do individualismo; em
contrapartida, as demandas afirmativas se movimentam em prol das
minorias e os mais precavidos se antecipam pelos direitos ambientais.
Os anseios multilaterais pelos direitos, pela justiça ou pela felicidade
correm entre ambos os hemisférios incentivando o trabalho para superá-
los ou, na impossibilidade deste, apaziguá-los; como identificar a essência
da convergência, esse ponto de equilíbrio? Poderia o caráter sensível da
solidariedade da justiça formar uma proposta inseparável e irrecorrível
para o Estado de bem-estar social?
É necessário, para iniciar a pesquisa do caráter solidário da justiça,
analisar, dentre outras disposições filosóficas, as linhas de teorias
complementares de Habermas, assim como a Teoria do Agir Comunicativo
indispensável à racionalização dos procedimentos sociais e às novas
interpretações sobre a justiça, encontradas, estas últimas, em diversos
pesquisadores nacionais e internacionais, como John Rawls, Luiz Paulo
Rouanet, Norberto Bobbio, dentre outros.
A intenção da proposta é mera avaliação e, por conseguinte,
publicização acadêmica da percepção fenomenológica e hermenêutica
das potencialidades materiais da justiça e do direito no Estado
Contemporâneo, assim como as possibilidades de evidenciar a
solidariedade como substrato dos poderes para o equilíbrio do estado,
sem se adentrar na essência técnica e funcionalista deste último.

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 331

Justificativa

A filosofia contribui com sua racionalidade e epistemologia na análise


crítica de ciências humanas que precisem de procedimentos
metodológicos na interpretação das relações sociais e suas múltiplas
vertentes, incorporando-se às dinâmicas sociopolíticas, socioeconômicas
e, principalmente, no caso do nosso estudo, às solidárias.
A importância desta pesquisa funda-se na possibilidade de agregar à
academia os pensamentos contemporâneos acerca da justiça e dos
parâmetros políticos que ela atinge, aos deveres coletivos e individuais na
fortificação da cidadania e no bem-estar social. Por esses e outros
motivos, pensamos que este tema é oportuno para as instituições
científicas, principalmente no que tange a propagação de novos olhares
sobre temáticas clássicas e a pluralidade das novas possibilidades
acadêmicas.
Analisamos, no campo do saber prático, a Teoria do Agir Comunicativo
de Habermas sob a ótica de um arcabouço bibliográfico de pensadores
contemporâneos acerca do bem estar social, afim de, na ótica do
“Paradigma Social Democrático”, considerar o caráter solidário da justiça
como substrato – e por isso inseparável - do Estado Contemporâneo.
Como realizamos tal pretensão? Em primeiro lugar, estudamos
criticamente a Teoria do Agir Comunicativo e sua colaboração para a
racionalização do pensamento filosófico e a positivação da moral; num
segundo momento, estudamos sobre trabalhos de autores acerca da
temática do bem estar social e sua relação com a justiça e a solidariedade;
para, finalmente, identificar as tendências ideológicas do Estado
Contemporâneo, se é que elas existem.

Instrução inicial sobre Jürgen Habermas e da teoria do agir


comunicativo

Filósofo e sociólogo alemão contemporâneo, Jürgen Habermas,


nascido em 1929, em Düsseldorf, inseriu-se na tradição da Teoria Crítica
da Sociedade através das tendências da Escola de Frankfurt. No período
de 1981, Habermas publicou o que viria a ser uma de suas maiores

Soeitxawe
332 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

contribuições para a filosofia contemporânea, a chamada Teoria do Agir


Comunicativo.
Sobre a Teoria do Agir Comunicativo, nas palavras do ilustre filósofo da
atualidade, “[...]a fundamentação consiste, no essencial, em dois passos.
Primeiro, um princípio de universalização (U) é introduzido como regra
de argumentação para discursos práticos[...] (HABERMAS, 1989: 143)”.
E, poderíamos, em situação hipotética, a título de exemplo, apresentar,
como (U), o valor que o homem racional dá à vida, mesmo não sendo
um valor absoluto, o que não lhe retira o caráter valorativo.
“[...] Em seguida, essa regra é fundamentada a partir dos pressupostos
pragmáticos da argumentação em geral, em conexão com a explicitação
do sentido de pretensões de validez normativas (Ibidem)”. Assim, sendo
(U) – valor que o homem racional dá à vida -, uma regra para
argumentação, poder-se-ia pressupor que determinado dispositivo
normativo e imperativo, que verse sobre a proteção da vida, estaria
abrangido em fundamentação filosófica, embasada na gênese
comunicativa, racional e intencionada.
Seria, em outros termos, validar filosoficamente o artigo 121, do
Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940, Código Penal
brasileiro, in verbis: Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos.
Evidenciando o sentido da pretensão do legislador em atribuir valor à
conduta através de um discurso prático.
A partir dessa primeira análise, é que se propõe encarar o tema
apresentado acerca do caráter solidário da justiça, na tentativa de
compartilhar, pela Teoria do Agir Comunicativo, uma visão de mundo, sem
necessariamente se buscar a verdade; mas o diálogo pela racionalidade e,
quem sabe, pela aceitabilidade.

Ideias acerca dos significados de solidariedade e de justiça

Cabe identificar morfologicamente o sentido das expressões chaves


para o projeto. Eis que a palavras solidariedade e a palavra justiça são
aqui invocadas em amplo sentido, de abrangência comum, de tal modo
que dois sujeitos possam criar um diálogo sem necessariamente
pertencer a uma classe ou categoria. Logo, o sentido e significado

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 333

jurídico de solidariedade e de justiça são fundamentais para a pesquisa


como ponto de partida privilegiado; porém, não será este o único.
Aqui, o sentido das palavras solidariedade e justiça não se restringem
aos conceitos intimamente ligados à disciplina do direito, mas,
principalmente, às ideias empíricas que possam surgir de uma construção
racional, em que ambos os participantes levem a cabo uma interpretação
lógica, fundamentada no cotidiano. Ou seja, solidariedade em sentido
jurídico, na ideia de coligados, de responsáveis; e justiça como caminho
para o equilíbrio, para o bem comum, sendo “a primeira virtude das
instituições sociais, assim como a verdade o é dos sistemas de
pensamento (RAWL, 2000: 03)”. Ambos os conceitos são de suma
importância para a construção do fenômeno pretendido pela pesquisa.
O trabalho fenomenológico se desdobra como “o ensaio de uma
descrição direta de nossa experiência tal como ela é, sem nenhuma
consideração com sua gênese psicológica e com as explicações causais
que o sábio, o historiador ou o sociólogo podem fornecer dela
(TRIVIÑOS, 2010: 43)”. Assim se inicia a abordagem sobre a justiça, de
seu caráter solidário na acepção jurídica da palavra, de forma direta e no
cumprimento dos reflexos que essa interpretação possa oferecer como
tal ela é, em vista de sua aplicação deôntica, qual seja, a materialidade da
solidariedade da justiça nas normas estatais.
Solidariedade para o direito é o “vínculo jurídico entre os credores
(ou entre os devedores) duma mesma obrigação, cada um deles com
direito (ou compromisso) ao total da dívida, de sorte que cada credor
pode exigir (ou cada devedor é obrigado a pagar) integralmente [...]
(FERREIRA, 2004: 1870)”. Nasce de uma situação de responsabilidade
recíproca entre os solidários, onde a participação é inerente ao estado em
que se encontram. Todavia, tal acepção jurídica, como já mencionada, é
aqui considerada como um indispensável ponto de partida, sem prejuízo
da investigação acerca dos demais reflexos da abordagem da
solidariedade em áreas não normativas, como nas fontes materiais
legislativas, quais sejam, nas causas sociais como um todo.
No que compete à conceituação de justiça, no intuito de assegurar
que a ideia será de fato compreendida, utiliza-se aqui a visão de John
Rawls, da premissa de justiça como equidade – equivalência, igualdade,

Soeitxawe
334 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

equilíbrio -, com o cuidado de não evidenciar um conceito específico de


justiça que agrade a um pensamento específico e monológico:

Assim parece natural pensar no conceito de justiça como sendo


distinto das várias concepções de justiça e como sendo
especificado pelo papel que esses diferentes conjuntos de
princípios, essas diferentes concepções, têm em comum. Desse
modo, os que defendem outras concepções de justiça podem
ainda assim concordar que as instituições são justas quando não
se fazem distinções arbitrarias entre as pessoas na atribuição de
direitos e deveres básicos e quando as regras determinam um
equilíbrio adequando entre reivindicações concorrentes das
vantagens da vida social. Os homens conseguem concordar com
essa descrição de instituições justas porque as noções de uma
distinção arbitrária e de um equilíbrio apropriado, que se incluem
no conceito de justiça, ficam abertas à interpretação de cada um,
de acordo com os princípios da justiça que ele aceita. [...] É claro
que essa distinção entre o conceito e as várias concepções de
justiça não resolve nenhuma questão importante. Simplesmente
ajuda a identificar o papel dos princípios da Justiça Social
(RAWL, 2000: 06).

Então, superando o primeiro momento de conceituação, ao ponto de


compreender solidariedade como responsabilidade recíproca entre
sujeitos de uma relação, e justiça como equilíbrio razoável pautado na
equidade destas mesmas relações, passar-se-á às elucidações do caráter
solidário da justiça sob a ótica da teoria do Agir Comunicativo de Jürgen
Habermas.

Justiça, solidariedade e a teoria do agir comunicativo

A abordagem se inicia com base na teoria habermasiana do Agir


Comunicativo, pelas ações linguísticas de compreensão dialógicas, com a
perspectiva do agir orientado para um entendimento mútuo, onde o
sujeito é, como ponto de partida, o “iniciador, que domina as situações
por meio de ações imputáveis; ao mesmo tempo, ele é também o
produto das tradições nas quais se encontra, dos grupos solidários aos

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 335

quais pertence e dos processos de socialização nos quais se cria (Ibidem:


166)”. Um sujeito submerso em obrigações, totalmente oposto ao
indivíduo eremita e, por isso, submetido à responsabilidade de entender
e se fazer entendido.
Habermas sugere a compreensão dialógica, entre dois ou mais
sujeitos, o que significa dizer que oferece a superação da ideia
monológica, idiossincrática, pois agora existe a perspectiva do
entendimento coletivo, onde sujeitos de um discurso cotidiano e, de fato,
participativo, leva a entendimento mútuo ao grau de relevância,
privilegiando a concordância recíproca.
“[...] Um acordo na prática comunicativa da vida quotidiana pode se
apoiar ao mesmo tempo num saber proposicional compartido
intersubjetivamente, numa concordância normativa e numa confiança
recíproca (Ibidem: 167)”. Um saber compartilhado, uma concordância
ou até mesmo o sentimento recíproco, em nada se distinguem,
essencialmente, de uma legítima solidariedade subjetiva, íntima, de
compartilhamento, concordância ou sentimento sobre um objeto de
consenso, uma aceitação ou compromisso de entendimento, tornando-o
responsável pelo seu agir e, consequentemente, pelo agir que influencia,
enquanto este for um subproduto daquele.
É a sugestão habermasiana da superação do sujeito empírico, alheio,
visando nova proposta de adquirir o caráter formal, relacionando com
uma espécie de acordo para o consentimento da ação, verdadeira
validade positiva para a defesa da racionalidade da democracia,
fortificada em ciências deônticas. Ainda “[...] poderá ser inserida em
teorias do desenvolvimento da consciência moral e jurídica, tanto no
plano do desenvolvimento sociocultural quando no plano da ontogênese,
e assim tornar-se acessível a um controle indireto (Ibidem: 121)”.
Para tal, Habermas propõe o princípio da Universalização,
legitimamente fundamentado a partir dos pressupostos pragmáticos de
argumentação, combinados com o sentido de pretensões de validez
normativa. Assim, o princípio da Universalização é ponto de partida para
o discurso prático. Logo, a moral universalista dependeria de “formas de
vida que sejam, de sua parte, a tal ponto “racionalizadas”, que
possibilitem a aplicação inteligente de discernimentos morais universais e

Soeitxawe
336 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

propiciem motivações para a transformação dos discernimentos em agir


moral (Ibidem: 131)”.
Importantes elucidações traz Luiz Bernardo Leite de Araújo4, ao
propor a expressão Guinada Linguística, correspondente ao percurso que a
Teoria do Discurso faz mediante outras quatro teorias complementares:
Teoria do Agir Comunicativo, Teoria da Racionalidade, Teoria da
Sociedade, e, por fim, a Teoria da Modernidade. Um giro linguístico
iniciado na Teoria do Agir Comunicativo. Segundo o autor, “[...] é ela
que permite a Habermas elaborar um conceito formal de racionalidade
apropriado ao horizonte da modernidade e fundamentar uma concepção
de sociedade baseada no conceito de razão [...] (ARAÚJO, 2003: 215)”.
Muito respeitosamente, aqui sugere o olhar com o foco, pelo menos
por hora, apenas na Teoria do Agir Comunicativo, deixando as demais
teorias que formam o pensamento de Habermas sobre a racionalidade
para um outro momento..
Resta, então, explorar se o conceito de solidariedade pode ser
considerado um legítimo princípio da Universalização – diretriz
habermasiana do Agir Comunicativo –, construído racionalmente e
mediante análise dos sistemas normativos que a sociedade
contemporânea está submetida. Para tal, assim como Habermas foi aqui
utilizado para impulsionar o projeto com base na Teoria do Agir
comunicativo, serão apreciadas as elucidações de autores acerca da
justiça.
Todavia, cumpre estabelecer limites inerentes à teoria do Agir
Comunicativo e a qualquer especulação de uso para os resultados dos
esforços fenomenológicos sobre o tema que se debruça esta pesquisa,
principalmente a respeito das teorias da justiça, em vista que “[...] o
princípio da ética do discurso proíbe, que, em nome de uma autoridade
filosófica, se privilegiem e se fixem de uma vez por todas numa teoria
moral de determinados conteúdos normativos [...]” (HABERMAS, 1989:
149), excluindo, de pronto, uma teoria geral sobre princípios de justiça
distributiva; aqui, se fala em anular apenas as pretensões últimas, que
almejem serem as únicas soluções privilegiadas.


4 Docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 337

Obviamente, não é o objetivo – nem teríamos autoridade para tal -


desconsiderar, como um todo, quaisquer contribuições válidas ou pontos
de vistas de teorias da justiça, como encontramos, por exemplo, em
Rawls; mas é necessária a segurança de que o projeto tem como forte
objetivo uma análise com base na Teoria do Agir Comunicativo e no
Giro Linguístico do Agir Comunicativo, de tal sorte que um dos
parâmetros é a superação do olhar monológico, transcendental, em
favorecimento do diálogo racional e construtivo, com fins de aceitação
mútua, tal como salienta o texto habermasiano:

Ora, vimos que os sujeitos que agem comunicativamente, ao se


entenderem uns com os outros no mundo, também se orientam
por pretensões de validez assertóricas e normativas. Por isso, não
existe nenhuma forma de vida sócio-cultural que não esteja pelo
menos implicitamente orientada para o prosseguimento do agir
comunicativo com meios argumentativos – por mais rudimentar
que tenha sido o desenvolvimento das formas de argumentação e
por mais pobre que tenha sido a institucionalização dos processos
discursivos do entendimento mútuo. Tão logo as consideremos
como interações reguladas de maneira especial, as argumentações
dão-se a conhecer como forma de reflexão do agir orientado para
o entendimento mútuo. É às pressuposições do agir voltado para
entendimento mútuo que elas tomam de empréstimo os
pressupostos pragmáticos que descobrimos no plano procedural.
As reciprocidades que alicerçam o entendimento mútuo de
sujeitos imputáveis já estão insertas no agir em que se enraízam as
argumentações. Eis por que a recusa de argumentação do céptico
radical se revela como uma demonstração vazia. Nem mesmo
aquele que salta fora da argumentação de maneira consequente
consegue saltar fora da prática comunicacional quotidiana; ele
permanece preso aos pressupostos desta – e estes, por sua vez,
são pelo menos parcialmente idênticos aos pressupostos da
argumentação em geral (HABERMAS, 1989: 123).

Por isso, todo esforço, análise ou redução epistemológica são aqui


tendenciados com base nessa proposta apresentada, mediante, inclusive,
a abordagem do Paradigma da Solidariedade da Justiça no Estado
Contemporâneo. É nessa ideia de paradigma, “entendida como conceito

Soeitxawe
338 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

anterior das teorias e que gera uma série de instrumentos e métodos


reconhecidos para a comunidade científica como válidos na solução de
enigmas [...] (GAMBOA, 2006: 40)”, que se desenvolve a pesquisa.
Habermas (1982) analisa a gênese da separação entre a filosofia e a
ciência e propõe uma reflexão que recupere as relações da ciência com o
processo histórico da sociedade e com a filosofia. É a conquista do papel
crítico da teoria do conhecimento, possibilitando ainda que a filosofia e
as demais ciências ganhem força, como salienta o ilustre professor
Gamboa, assim, devolvendo “às ciências a capacidade de auto-reflexão e
de inserção na totalidade social (GAMBOA, 2006: 30)”.
Ora, sob a ótica da Teoria do Agir Comunicativo, é possível encarar o
princípio constitucional da solidariedade, previsto no inciso I, art. 3º da
Carta Magna da República, mediante uma gênese filosófica. Sobretudo, a
consciência e universalização dessa solidariedade da totalidade social,
talvez sugeriria um estado de consciência jurídico-cidadão, em primazia
da cidadania na ótica da sensibilíssima responsabilidade nacional.
Evidente, não se referindo à prematura ideia de cumprir penalidade por
crimes alheios, mas da universalização da lógica racional de que, por
negligencia de coletivos, um individual sofre.
Ainda pode-se indagar: não é a negligência requisito para
configuração do elemento subjetivo da culpa, ocasionando
responsabilidade subjetiva ao negligente? A função social da propriedade
não vem cobrando tanto o inerte quanto o que mal faz uso da coisa? A
resposta só pode vir a ser positiva, tendo em vista o princípio da função
social da propriedade, verdadeiro instituto jurídico oriundo das
tendências neoliberais, em primazia do Estado Social.
Discurso esse também muito vinculado ao brocardo jurídico
dormientibus non succurit jus: a justiça não socorre os que dormem; ligado à
relação da prescrição aquisitiva e a usucapião, este, outro instituto
jurídico – bastante antigo, por sinal –, vinculado à noção da boa
utilização da propriedade em vista da coletividade, que é o mesmo que
dizer em vista da sua responsabilidade com a sociedade.
Com legitimidade filosófica, a Teoria do Agir Comunicativo de Jürgen
Habermas, oferece substancial mecanismo para a análise do princípio
constitucional da solidariedade, colocado ao lado de outras normas de
grande abstratividade, como a liberdade e a justiça. Assim, a

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 339

solidariedade, em nível constitucional e, por isso, inseparável da ideia de


justiça como equilíbrio, impõe máxima relevo e aplitude ao exegeta, no
tocante de interpretação do ordenamento jurídico com um complexo
harmônico, promotor de equidade, aproximando a sociedade da
felicidade, ainda que de maneira mitigada.

O motivo de encarar a solidariedade responsável como substrato


da justiça para relações sociais equilibradas

De forma demasiado elucidativa, Bobbio traz à tona a relevância da


questão histórico-comportamental da necessidade humana em
transformar os sistemas que prejudicam o homem nas esferas da
sociedade, ainda que no momento atual, em que se privilegia a notícia de
terrorismos e crises econômicas, e a mídia massiva explora a informação
das decadências institucionais, corruptivas e supostamente fadadas a
reformas.

Mesmo hoje, quando o inteiro decurso histórico da humanidade


parece ameaçado de morte, há zonas de luz que até o mais
convicto dos pessimistas não pode ignorar: a abolição da
escravidão, a supressão em muitos países dos suplícios que
outrora acompanhavam a pena de morte e da própria pena de
morte. É nessa zona de luz que coloco, em primeiro lugar,
juntamente com os movimentos ecológicos e pacifistas, o
interesse crescente de movimentos, partidos e governos pela
afirmação, reconhecimento e proteção dos direitos do homem
(BOBBIO, 2004: 51).

Criticável, sim, mas ainda progressivamente superior do que tínhamos


anteriormente é o instante atual das relações coletivas nacionais e
internacionais, não podendo, através de um discurso prático e bem
intencionado sugerir retrocesso das relações humanas – apesar de ser
plausível constatar a “lenta marcha” e, em casos específicos,
principalmente os relacionados a certas regiões planetárias de radicalismo
religioso, a estagnação.

Soeitxawe
340 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

Ainda que o sofrimento e a ausência da consciência do bem comum


sejam fortes vetores das preocupações mundiais, há de se considerar que
seres humanos já precisaram ser acorrentados em comitiva para
trabalhar; ou que, em passado próximo, homossexuais não teriam
direitos civis de unir, entre si, patrimônio e constituir família. Todos
momentos passados, que transigiram e sucederam um sensível
sofrimento à um bem comum, aceitável, promovedor de felicidade.
Na formalização da moral se baliza o entendimento da fuga do estado
de sofrimento humano, seja individual ou coletivo, apesar de, em tese,
serem ambos inseparáveis. Nesse contexto, indivíduo e coletividade
caminham para o conhecimento dessa interdependência relacional com a
necessidade da formalização ou positivação do conteúdo moral:

Todos esses esforços para o bem (ou, pelo menos, para a


correção, limitação e superação do mal), que são uma
característica essencial do mundo humano, em contraste com o
mundo animal, nascem da consciência, da qual há pouco falei, do
estado de sofrimento e de infelicidade em que o homem vive, do
que resulta a exigência de sair de tal estado. (BOBBIO, 2004: 28).

Não é difícil a reflexão de que esses esforços para o bem fortificaram a


ideia da justiça e as tentativas para equilibrar sua forma, aumentando o
alcance da proposta e reduzindo os erros idiossincráticos; porém,
mantendo o cuidado em garantir os pontos de vistas e a liberdade de
escolha. Nessa abordagem, encontramos John Rawls, como influenciador
de teorias da justiça.
Sobretudo, máximo respeito ao complexo elucidativo do renomado
filósofo americano, apresentar-se-á Rawls pelas elucidações do professor
Luiz Paulo Rouanet5, o qual traz, em seus trabalhos, inúmeras abordagens,
estudos e discussões acerca das propostas de Rawls, dentre outros ilustres
colaboradores da filosófica e sociologia e demais ciências enobrecedoras da
humanidade. Ocorre que, para a pesquisa em questão, a literatura de
Rouanet é mais aproximada e, em outros termos, quase um compêndio
para a temática aqui proposta, pelo fato, inclusive, de inserir Habermas em
muitos dos diálogos.

5 Docente do Departamento de Filosofia e Método da UFSJ

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 341

Cumpre-nos identificar que Rouanet sugere a alteridade ao encarar os


sistemas de observação da justiça, as teorias. Evidente que muitos
sustentam em John Rawls a mais completa tese sobre o tema; todavia,
torna-se fundamental identificar que, na ótica do Agir Comunicativo,
nenhuma Teoria da Justiça poderia forçar uma maneira única de proceder,
de encarar a justiça, sob pena de se auto anular:

Na verdade, ao reexaminar os textos de John Rawls, dou-me


conta de que ele não chega a definir quais seriam os direitos
básicos, indispensáveis ao Direito dos povos. Eles seguem apenas
princípios gerais, não podendo ser muito específicos, a fim de
não limitá-los a uma determinada cultura, por exemplo, à cultura
liberal. Assim, não há, ao que parece, um “núcleo duro” ou
“mínimo de direitos”. As Declarações e Pactos existentes são
considerados suficientes, retirando-se, como se disse, os aspectos
demasiado específicos de uma determinada cultura (ROUANET,
2011: 233).

Assim, Rouanet sugere os denominados princípios gerais de John


Rawls, cuja intenção é irradiar valores universais, indispensável para o
homem social. Este, por sua vez, inserido em um contexto coletivo, não
pode opor-se a ideia da alteridade sem gravosas consequências para si,
ocultando-se da necessidade do outro indivíduo de “pensar por si”, o
que, sobretudo, garante a democracia.

[...] Pode-se considerar que ele aceita o conteúdo básico das


principais Declarações de Direitos, com exceção daqueles
elementos muito específicos ou próprios de uma cultura. Vê-se,
também, que os princípios assim formulados são, por um lado,
parciais, na medida em que tomam como medida as sociedades
democráticas (sem incluir, ainda, as “sociedades hierárquicas
decentes”, como fará no Direito dos povos), mas por outro,
universais, na medida em que se aplicam ao mundo como um
todo [...] (Ibidem. 236).

Nota-se assim a tênue e inseparável parcialidade axiológica em


sociedades democráticas, pois sugere que um valor máximo e universal,

Soeitxawe
342 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

como a democracia, ofereceria base para valores parciais, onde só é


possível vislumbrar estes na prévia existência daquele.
Em consonância à Habermas é essa observação de Rouanet sobre as
teorias de Rawls, tal seja um Princípio Universal, aceito por uma
coletividade de indivíduos revestidos de intencionalidade racional,
identificando na democracia o sistema aproximado ao ideal de
representatividade; se um indivíduo, ainda que bem intencionado
racionalmente, oferecesse outro sistema, deveria alcançar a concordância
dos demais, em um discurso prático ao ponto de influenciar os demais à
concordância (Teoria do Agir Comunicativo); também não poderia
sugerir espécies de parciais princípios que fossem contrapostos ao
princípio máximo democrático.
Se pudermos considerar a justiça emergida nessa consideração do
Agir Comunicativo, considerar-se-á lógico que a fuga do estado de
sofrimento social só irá aumentar a promoção do bem estar coletivo ao
passo que identificar a solidariedade jurídica e coletiva em sua total
significância e abrangência. E talvez, já possa ser sentida no cotidiano,
principalmente da seguridade social, como sugere Guilherme Machado
Casali6 (2006: 229), citando Habermas (2002):

O Estado do Bem-Estar Social consolidou o status de cidadãos


aos outrora súditos do Estado. Isto se deu principalmente através
dos sistemas de seguridade social e outras formas no direito penal
e social (proteção à família, educação – até mesmo igualdade
entre os sexos). Para Habermas, tal acarretou numa sensibilização
dos próprios cidadãos, de que os direitos fundamentais poderiam
ser transformados em realidade [...]. “sensibilizou-se para essa
precedência cuja tarefa é resguardar a nação real de cidadãos ante
a nação imaginada, supostamente constituída dos membros de
um mesmo povo” (HABERMAS, Jurgen. A inclusão do outro:
136).


6Advogado do Instituto de Previdência Social dos Servidores Públicos do
Município de Joinville/SC - IPREVILLE. Mestrando em Ciência Jurídica pela
UNIVALI.

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 343

Nota-se que essa nação real seria justamente a nação colaborativa em


detrimento da nação meramente fática, qual seja a pertencente, por sorte,
a um território específico. Privilegia a ideia de nação em seu sentido
máximo: solidário e, por isso, participativo, responsável, colaborativo.
Tal sensibilidade sugerida por Habermas talvez favoreça um olhar
perante as diligências estatais e cidadãs no que for compatível com o
estado contemporâneo e suas novas necessidades: como o novo enfoque
perante a família (inclusive entre homossexuais), equilíbrio de gênero,
proteção da mulher, promoção de raças desfavorecidas historicamente
(cotas). Sensibilidade que talvez enseje o sentimento de responsabilidade
mútua, principalmente quando na existência de uma situação de
desequilíbrio – e por isso, injusta. Eis aqui, talvez, o caráter solidário da
justiça.
O ponto de a solidariedade ser sugestiva a um princípio universal da
justiça – e, por isso, dos Estados que se revestem do símbolo
democrático (ápice da justiça global) – e inseparável de seu bojo, tende a
estimular sua máxima interpretação, sob a ótica do legislador, do
executor de políticas públicas, do aplicador do direito, do intérprete e,
principalmente, no exercício da cidadania.
A Teoria do Agir Comunicativo possibilita analisar a gênese filosófica
da Solidariedade como Princípio Constitucional de Direito, ao lado da
isonomia, da boa-fé, da liberdade. O homem submerso no Estado
Democrático aí está por conquista do entendimento de que é necessária
a participação de todos nas decisões que a todos afetarão. É o mesmo
que dizer, apenas no sentido contrário, partido do fim para o início, que
serão responsáveis pelas normas que mutualmente escolheram seguir,
pelos sistemas que permitiram que se prolongassem.
Não se trata apenas de imputar a alguém responsabilidade por
obrigação de fazer, não fazer, de dar coisa certa, ou dar coisa incerta;
comina em um sentimento cidadão – ao lado da liberdade, da
propriedade –, de se promover em atos cotidianos por individualidades
comuns, assim como por representantes nacionais, regionais e locais, por
veículos comunicacionais.
Esse prisma das relações de responsabilidades mútuas “visa
justamente restaurar as solidariedades danificadas, reordenando a vida
coletiva e individual oferecendo novas bases para geração de

Soeitxawe
344 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

solidariedade” (CASALI, 2006: 229), fortificando este princípio


constitucional, Casali ainda continua seu trabalho sob a ótica da pessoa
pautada na cidadania, visualizando esse como um “ser solidário,
[..]daquele que está disposta a ajudar a repartir a responsabilidade em
problemas comuns – como o combate à pobreza, a preocupação
ambiental etc. – importa também em reconhecer a diversidade em busca
da harmonia [...].” (CASALI, 2006: 230).
Espera-se, com os esforços sob o prisma do Agir Comunicativo,
botar em evidência e discussão o caráter solidário da justiça como
substrato para o equilíbrio entre os agentes sociais, participantes de um
discurso prático, revestidos de intencionalidade e racionalidade, voltada
para o bem coletivo, em busca do esforço para essa sugestiva harmonia.
Frisa-se que se trata do esforço, não da ideia máxima e ainda distante
de equilíbrio utópico, e sim a essência sensível da ciência responsável,
submersa em campo lógico da contemporaneidade, dos anseios que se
modificam com o tempo, exigindo mutação de interpretações normativa,
a fim de oferecer novo olhar para o prisma democrático, com a
operabilidade de Cláusulas Gerais, inseridas, principalmente, no texto
constitucional.

Considerações finais

A teoria do Agir Comunicativo, em seu sentido prático, oferece


instrumentalidade lógica e substancial para encarar a questão da justiça,
sobre o ponto de vista de sua atuação, de seus órgãos, de seus
operadores, de seus usuários, de tal maneira a evidenciar certo grau de
operabilidade das ações oriundas de intenções no discurso prático e bem
intencionado, facilitando, em vias cotidianas, o diálogo na compreensão
da relação entre os atores sociais, ao ponto de ser capaz, talvez, de
mediar a análise destes vetores, em vistas do princípio da universalização.
De nosso ponto de vista, encarar a matéria da solidariedade na ótica
habermasiana, do Agir Comunicativo, pela construção sugestivamente
racional, com a premissa de ser um substrato da justiça, submerso no
contexto atual contemporâneo, e, por isso, universalmente aceito em
vias, inclusive, constitucionais, oferece um caminho promissor de

Soeitxawe
Jürgen Habermas e o caráter solidário da justiça 345

apreciação das atuais demandas sociais, na ótica da cidadania e da


necessidade de mutação de interpretação dos preceitos normativos,
privilegiando o olhar máximo da responsabilidade recíproca entre os
sujeitos inseridos do Estado.
Atentamos para o compromisso que recai sobre o utilizador da
Teoria do Agir Comunicativo em sustentar a necessidade insubstituível
da racionalidade pautada no bem comum, invólucro da observação bem
intencionada, indispensável para os que se relacionam com os
dispositivos oriundos de esforços deônticos, incluindo aquele que o
promove, o que aplica, o que opera e o que se submete, respectivamente,
o legislador, o magistrado, o militante jurídico e o cidadão.

Referências

ARAUJO, Luiz Bernardo Leite. Moral, Direito e Política - Sobre a Teoria


do Discurso de Habermas. In: Manfredo Oliveira; Odilio Aguiar;
Luiz Felipe Sahd. (Orgs.). Filosofia Política Contemporânea.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, v. 1, p. 214-235.
CASALI, Guilherme Machado. O princípio da solidariedade e o artigo 3º da
constituição da república federativa do Brasil. Revista Eletrônica e
Política, Itajaí, v. 1, n. 1, 3º quadrimestre de 2006, p. 229.
Disponível em: <www.univali.br/direitoepolitica>.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio de Língua
Portuguesa. 3 ed. Curitiba: Positivo, 2004.
GAMBOA, Silvio Sánchez. Pesquisa em Educação: Métodos e
Epistemologias. Chapecó: Argos, 2007.
HABERMAS, Jürgen. Consciência Moral e Agir Comunicativo. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1989.
RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. São Paulo. Martins Fontes, 2000.
ROUANET, Luiz Paulo. Direitos Humanos na Perspectiva dos Direitos dos Povos.
Pensando – Revista de Filosofia Vol. 2, Nº 2, 2011 ISSN 2178-
843X.

Soeitxawe
346 Acursio Júnior & MSc. Antônio Romero

TRIVIÑOS, Augusto Nivaldo Silva. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais:


a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 2010.

Soeitxawe
Pequenos Agricultores e o Código Florestal: desafios, pres-
sões e consciência de preservação nas linhas 180, 184 e 188 do
município de Rolim de Moura (RO)1

Josiane Fernandes Keffer2


Karoline Costa Mendes2
Jizeli Feliciano Monteiro2

Resumo: Diante do crescente debate em torno do Novo Código Florestal


Brasileiro, esse trabalho teve por objetivo conhecer a visão dos pequenos
agricultores sobre essa legislação, identificando sua opinião com relação à
aplicabilidade e funcionalidade deste instrumento de lei, bem como suas
percepções acerca das Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal. Para
coleta de informações foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os
agricultores das linhas 180, 184 e 188 do município de Rolim de Moura (RO), os
relatos foram gravados com a autorização dos mesmos para um diagnóstico das
percepções dessas famílias acerca do objeto. Como resultados, observou-se que
os agricultores desconhecem os aspectos específicos da norma, mas
compreendem a importância da preservação ambiental e estão dispostos a assim
fazer. Por outro lado se sentem esquecidos perante os órgãos governamentais,
queixam-se da falta de assistência técnica, visto que existe muita cobrança e
nenhum acompanhamento por parte dos órgãos competentes.
Palavras-chave: Código Florestal Brasileiro; Pequeno agricultor; Meio
ambiente.


1 Trabalho apresentado no I SOEITXAWE Congresso Internacional de
Pesquisa Científica da Amazônia, realizada entre os dias 1 e 3 de Maio de 2015
Cacoal, RO.
2Universidade Federal de Rondônia - UNIR, Avenida Norte Sul, 7300, 76940-
000 - Rolim de Moura – RO, Brasil.

Soeitxawe
348 Josiane Keffer; Karoline Mendes & Jizeli Monteiro

Introdução

Os primeiros conflitos acerca do uso dos recursos florestais


brasileiros tiveram início por volta do século XVI e, vieram juntamente
com os descobridores do continente e a consequente escassez dos
produtos derivados da exploração do pau-brasil (PÁDUA, 2002). De
acordo com este mesmo autor, as primeiras leis com o objetivo de
regular o setor surgiram em 1605, no entanto, as primeiras preocupações
de intelectuais e da opinião pública sobre os problemas relacionados à
mudança no padrão de uso dos solos do Brasil só vieram aos arredores
do século XVIII.
Neste contexto, em 1934 foi instituído o Código Florestal (CF),
através do Decreto 23.793, de 23/01/1934 que, entre outros pontos,
estabelecia o conceito de florestas protetoras, que possuía semelhança
conceitual às atuais Áreas de Preservação Permanente (APP), porém não
definia parâmetros de distâncias mínimas para proteção dessas florestas
(AHRENS, 2003).
A partir do CF de 1934, as florestas que cobriam os solos dos imóveis
rurais deixaram de pertencer ao proprietário, que perdeu o direito
irrestrito de destruí-las, sendo ao contrário, obrigado a preservá-las,
inclusive contra atos de terceiros, visto sua importância bem como as
funções ambientais dessa vegetação no contexto da propriedade rural
(PETERS, 2011).
Foi a partir da década de 60 que a política ambiental brasileira nasceu
e se desenvolveu em resposta aos movimentos sociais locais e
internacionais (STEFFANI, 2012). O mesmo autor comenta ainda que,
até o final dos anos 60, não havia nenhuma política ambiental de fato,
onde predominassem temas relacionados ao fomento da exploração dos
recursos naturais, desbravamento do território brasileiro, saneamento
rural e educação sanitária, o que deixava lacunas para continuidade da
destruição dos recursos florestais. Essas políticas eram amparadas por
um conjunto de leis constituído pelo Código das Águas de 1934, Código
Florestal de 1965 e o Código de Caça e Pesca de 1967 (STEFFANI,
2012). Entretanto, Sousa (2005) afirma que tanto o governo quanto a
entidade gestora não praticavam ações coordenadas na área.

Soeitxawe
Pequenos agricultores e o Código Florestal 349

Ahrens (2003) argumenta que somente a partir da Lei 6.938/81, a


qual instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente, foi que houve uma
tentativa de adaptação a uma visão moderna de proteção ambiental,
responsabilizando o autor do ato danoso ao ambiente e lhe impondo a
obrigação de reparação do dano causado. Neste sentido, em 1998 foi
aprovada no Brasil uma das leis mais avançadas do mundo, a Lei de
Crimes Ambientais, onde as condutas e atividades consideradas lesivas
ao meio ambiente passaram a receber punição civil, administrativa e
criminal (AHRENS, 2003). Além de punições severas, a Lei incorporou
métodos e possibilidades de não aplicação de penas, desde que o infrator
repare o dano causado ou pague sua dívida à sociedade de alguma forma
(SOUSA, 2005).
Neste contexto, em 28 de maio de 2012, foi promulgada a Lei 12.651,
a qual originou-se da criação de uma proposta para alteração do antigo
Código Florestal e, estabeleceu novas regras para a Reserva Legal (RL) e
para a Área de Preservação Permanente (APP). De acordo com a Lei,
Reserva Legal é a área de vegetação nativa localizada na propriedade
rural, que se mantém preservada para garantir a sustentabilidade dos
recursos naturais. Enquanto a Área de Preservação Permanente é a área
de vegetação nativa ou não que margeia e protege os recursos hídricos, a
fauna e a flora (CANZI, 2013). Além das definições, o atual CF e suas
regulamentações trazem a delimitação e a consolidação das APP e RL
nos imóveis rurais, definindo parâmetros como largura da faixa de
proteção de nascentes e ao longo de cursos de água proporcional à
largura dos rios, e percentuais de RL conforme o Bioma em que o
imóvel esteja inserido (STEFFANI, 2012). O mesmo autor ainda ressalta
que a agricultura é uma atividade cuja base de produção depende da
natureza, e sob condições desfavoráveis de clima, solo e água fica
comprometida, ou até mesmo tornando-se impossível sua prática.
Segundo IBGE (2006), a agricultura familiar conta com mais de 4,3
milhões de estabelecimentos, produzindo cerca de 70% dos alimentos
consumidos no país, empregando 74,4% dos trabalhadores rurais e
produzindo 38% da receita bruta da agropecuária brasileira. Embora
ocupe apenas 24,3% (IBGE, 2006) da área utilizada em atividades
agropecuárias no país, a agricultura familiar destaca-se nos debates acerca

Soeitxawe
350 Josiane Keffer; Karoline Mendes & Jizeli Monteiro

do CF, principalmente no que diz respeito à regulamentação da relação


entre preservação ambiental e uso do solo conforme Steffani (2012).
Para Pereira (2013) a alteração do CF gera conflitos, pois impõe
através das leis de proteção ambiental (mais especificamente as leis que
regem os conceitos de RL e APP), uma conscientização ecológica de
forma vertical, que provém da disputa entre interesses distintos. Além
disso, o autor defende que as leis são feitas exclusivamente por setores
legislativos e órgãos ambientais que muitas vezes não levam em
consideração os aspectos antropológicos do mundo rural, além do
conflito ambiental também se evidenciar na própria alteração do código
que, de acordo com alguns ambientalistas e movimentos sociais,
privilegiam setores ruralistas, detentores de latifúndios.
Para garantir o disposto na legislação ambiental brasileira, o pequeno
agricultor precisa preservar grande parte de sua propriedade, de forma
que as pequenas glebas enquadram os agricultores que devem conservar
a propriedade proporcionalmente, criando um cenário insustentável para
a manutenção de dignidade de vida, por conta do excesso de
conservação obrigatória (FELIPE, 2013). O fato é que o novo código
florestal brasileiro surgiu em um momento cercado de buscas por novos
caminhos criados pela distância do real ambiental com o real social, haja
vista que a linguagem ambiental anteriormente utilizada refletia em uma
linguagem ultrapassada, sem ideias de preservação inteligente do meio
ambiente e seus recursos naturais, o que indiretamente, ou, diretamente,
atinge o pequeno agricultor (FELIPE, 2013).
Azevedo (2009) argumenta que, na produção de alimentos na
agricultura, os custos de produção (insumos, máquinas e equipamentos,
valor da terra e mão de obra), bem como a margem obtida com a venda
dos produtos são somente do agricultor. Enquanto os custos para
produzir bens e serviços ambientais, como o ar, a água, o solo, a
biodiversidade e a paisagem, são atribuídos ao agricultor, contudo os
benefícios provenientes desta ação são de toda a sociedade (AZEVEDO,
2009). O autor faz alusão à situação daqueles proprietários rurais que
tiveram acesso à terra após a promulgação do Código Florestal, no ano
de 1965, e que ao adquirirem a propriedade deveriam estar cientes de que
não poderiam explorá-la em sua plenitude, pois teriam de deduzir as
áreas de preservação permanente e reserva legal. Dessa forma, esses

Soeitxawe
Pequenos agricultores e o Código Florestal 351

proprietários deveriam ser remunerados por colaborarem com a


proteção dos recursos naturais (AZEVEDO, 2009).
Almeida e Gerhardt (2004) dizem que a imposição de uma
“consciência ecológica” no meio rural gera processos de resistência
através da aliança entre agricultores e alguns mediadores sociais, ambos
agentes reprimidos, mas que, entretanto, formam um tipo de relação
pouco interessante do ponto de vista da emancipação dos primeiros em
relação aos segundos. Os autores destacam ainda a importância dos
produtores rurais compreenderem o significado das áreas de preservação
ambiental para a manutenção da biodiversidade e dos papéis ecológicos
das espécies para a implantação e a conservação das Áreas de Proteção
Ambiental, uma vez que produtividade rural ambientalmente sustentável
e a viabilidade econômica estão vinculadas a esses fatores. Para Steffani
(2012) a maior dificuldade que agricultores familiares enfrentam e que
está na arena de discussão é a adequação das propriedades às normas
ambientais e a necessidade de ampliação de áreas produtivas visando
atender à demanda crescente por alimentos de forma sustentável.
Neste sentido o presente trabalho teve por objetivo conhecer a visão
dos agricultores sobre o Código Florestal, identificando a opinião dos
mesmos com relação à aplicabilidade e funcionalidade deste instrumento
de lei, bem como suas percepções acerca das Áreas de Preservação
Permanente e de Reserva Legal.

Desenvolvimento

Caminhos para a pesquisa

Para uma melhor compreensão da percepção dos agricultores quanto


à importância da preservação das florestas e da noção sobre a lei do
Código Florestal Brasileiro que incide sobre as propriedades rurais,
foram selecionados através de uma relação de agricultores familiares
fornecida pela EMATER de Rolim de Moura – RO, a qual presta
serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural, as localidades das
Linhas 180, 184 e 188, do município de Rolim de Moura, devido esta
região apresentar propriedades de agricultores familiares que em seu

Soeitxawe
352 Josiane Keffer; Karoline Mendes & Jizeli Monteiro

tamanho de área estariam enquadrados como categoria (menores que


quatro módulos fiscais) de pequena propriedade.
Foi aplicado um questionário semiestruturado, que consistiu em
entrevistas gravadas com a autorização dos agricultores entrevistados,
para um melhor diagnóstico da realidade dessas famílias.
Foram entrevistadas doze famílias ao todo, ao longo do mês de junho
de 2014, nas localidades pré-definidas. Procurou-se com as questões
conhecer a opinião dos agricultores a respeito da aplicabilidade do
Código Florestal Brasileiro, bem como sua eficiência em termos de
funcionalidade e as percepções dos agricultores sobre a importância das
áreas de Reserva Legal e Preservação Permanente.
Posteriormente foi realizada a transcrição das entrevistas para a
análise e interpretação dos resultados obtidos com o desenvolvimento
desta pesquisa.

Resultados

A partir das análises das entrevistas pôde-se observar que a maioria


dos agricultores desconhecem os termos do CF, porém, entendem que
existe uma legislação vigente acerca da preservação ambiental. No
entanto, o fato de não conhecerem os termos nem mesmo a própria lei
não significa que eles não deem importância para a preservação do meio
ambiente, a necessidade de manter a biodiversidade, os recursos hídricos
e as vegetações nativas. Pelo contrário, a grande maioria ou totalidade
dos entrevistados salientaram que entendem que é de extrema
importância manter e preservar os recursos naturais nas propriedades,
uma vez que sem eles, a produção torna-se impraticável.
Estudando o mesmo tema Godoy et al. (2009) verificou que o
desconhecimento da legislação por parte dos agricultores não impede
que eles tenham a percepção quanto à necessidade da preservação do
meio ambiente para o presente e para as futuras gerações. O autor diz
ainda que, o reconhecimento sobre a importância da preservação das
nascentes, da vegetação e da biodiversidade são constantes e total por
parte de todos os entrevistados, bem como, a preocupação em preservar
para que seus filhos e netos também possam aproveitar de toda essa
riqueza encontrada nas suas propriedades. Esse autor ainda afirma que

Soeitxawe
Pequenos agricultores e o Código Florestal 353

essa falta de conhecimento da legislação pode ser atribuída à falta de


assistência técnica por parte dos órgãos de extensão rural, cooperativas e
associações, que muitos desses agricultores não têm acesso, portanto,
não teriam como conhecer a legislação.
Quando questionados sobre a importância e aplicabilidade do CF na
região, a totalidade dos entrevistados disseram que acreditam que é
importante a existência deste tipo de lei e que é necessária a preservação
das Áreas de Reserva Legal e Preservação Permanente, no entanto
frisaram a questão de que a lei deve ser aplicada a todos, pois percebem
que a maior pressão e cobrança é exercida sobre os pequenos
agricultores, que exercem agricultura familiar, de subsistência, e que os
“fazendeiros”, como dizem, são os maiores beneficiados, pois na maioria
das vezes não são cobrados, e como essas fazendas ficam distantes dos
núcleos urbanos a fiscalização nem sempre chega até elas, e se concentra
apenas nas pequenas propriedades no entorno da cidade.
Esses conhecimentos demonstrados pelos agricultores vão de
encontro ao encontrado em estudo realizado por Sant'Anna et al., (2012),
no qual quase a totalidade dos atores envolvidos já tinham ouvido falar
sobre as leis ambientais, sendo que as duas mais citadas foram a proteção
florestal e a proteção das águas e, a maioria dos entrevistados reconheceu
a importância da legislação ambiental. Contudo, os entrevistados do
estudo desses autores, sugeriram que deveria haver estímulos como
incentivos financeiros por parte do governo, bem como doação de
mudas de árvores, pois acreditam que sem um trabalho de remuneração
não há viabilidade econômica. Os autores ressaltaram ainda que, embora
esses produtores afirmassem conhecer pelo menos um aspecto da
legislação incidente sobre as propriedades rurais, não souberam ou não
se lembraram de nenhuma lei.
Na linha 180, quando questionados sobre conhecimento e
importância acerca da APP e da RL, os agricultores em sua maioria além
de dizer que conheciam esses termos e que também tinham consciência
de sua importância no contexto da propriedade rural, relataram que
sofreram forte cobrança por parte dos órgãos ambientais competentes
em tempos relativamente recentes para realizarem o reflorestamento da
bacia do rio que abastece a cidade (Bacia do Rio D’Alincourt), que na
época do ocorrido, passava por racionamento de água. Segundo os

Soeitxawe
354 Josiane Keffer; Karoline Mendes & Jizeli Monteiro

entrevistados, as exigências foram feitas sob pressão e sem nenhuma


assistência técnica sequer, relataram ainda que tiveram que arcar com
todos os custos, mesmo sem terem condições financeiras, para isolar as
áreas através da construção de cercas, além de comprar as mudas para a
recomposição vegetal de suas áreas. De acordo com os relatos, muitos
desses agricultores adquiriram dívidas por conta desse fato e, depois de
todo esse alvoroço, tudo foi esquecido e as mudas plantadas em sua
grande maioria morreram, uma vez que não realizaram
acompanhamento, e nada mais foi feito.
A tentativa de transferir aos agricultores todos os custos da proteção
ambiental pode parecer barata para o restante da sociedade, no entanto é
ineficaz (SANTANNA et al., 2012). Uma política ambiental eficiente
deve combinar controles e incentivos, incentivos esses que devem ir
muito além de impostos e subsídios (CUNHA, 2005).
Também foi muito relatado sobre o não pagamento ou indenização
pela área produtiva que foi ou será perdida com o reflorestamento
conforme relato de um dos entrevistados:

“Agora adipois que umas leis quiandarofalano quem tinha uma reserva de
mato eles iam pagá né, mais nunca esse dinhero num chega na nossa mão,
fica por aí mesmo, por meio de avião, vijano de avião nunca chego na nossa
mão não. Tamém sô cronta isso aí, que se eles quisesse ocupá por exemplo
aquela área minha ali, eles tinha que pagá, porque o terreno foi comprado, foi
doado pelo INCRA mas eu paguei o valô que eles pediro, eu tenho os
documento daqui da terra, tenho o título definitivo, é minha, e to aqui a
quase quarenta ano, e proquequi vai pegá uma área minha, vai ocupá uma
área que é minha e um me dá nenhum centavo (...) até gente de umarquero de
terra aí nessa linha aqui mandaro floresta a metade porque pego um avo,
mandaro floresta, isso aí eu sô contra, porque aí onde nós temos fazenda di
cinco seis mil arquero tudo dirrubado prantado pasto, qui nem te esses grande
deputado i senadô, tudo tem fazenda grande por aí, i eles num manda
ninguém floresta, só vem em cima do pequeno agricutô, isso eu sô cronta,
nunca existiu isso, ta existindo agora duns tempo desse pra cá, mas no meu
tempo, eu já tenho 85 ano de idade nunca vi esse tipo de lei, essa leis florestal
é com o governo de estado, todo governo de estado tinha qui deixar sua
reserva, todo estado né, que num pudiadebravá tudo, e agora não eles tão em
cima do chacrero dum arquero, otosqui tem só dois arqueroqui nem dá pra ele
sobrevivê, até fazê uma hortinha aí pra vendê na feira eles tão mandando

Soeitxawe
Pequenos agricultores e o Código Florestal 355

reflorestá, obrigado, perdeu o valor do terreno, num paga nada pro


proprietário inda deixa de produzi. Isso aí eu sô muito cronta.”

Segundo este entrevistado, é o pequeno agricultor que abastece a


cidade, é por meio da produção dessas pequenas propriedades que a
cidade sobrevive, e o que é produzido nas grandes fazendas não fica na
região afirma, a produção em sua maioria é exportada para outros
centros urbanos, ou até mesmo para o exterior e, por esse motivo, o
entrevistado defende que os agricultores familiares deveriam receber
mais atenção por parte do governo e dos programas de incentivo para
esta classe de trabalhadores. Esse entrevistado defende ainda que, a área
de fato, em hectares de uma pequena propriedade é tão pequena, em
torno de um a cinco hectares nos locais estudados, que o pequeno
agricultor fica sem condições de produzir a mesma quantidade de
produtos que produzia antes de ter que isolar um pedaço de sua terra
para composição de APP. Neste sentido, defende a ideia de que por este
motivo, os pequenos agricultores deveriam receber um incentivo
financeiro por parte do governo, mensalmente, para ajudar na
subsistência de sua família, já que com o que lhe sobrou de terra ficaria
praticamente impossível conseguir se manter, devido à baixa produção.
Em estudo realizado por Godoy et al. (2009), outro fator
diagnosticado é em relação ao tamanho das propriedades rurais
familiares, que varia de dois hectares a vinte hectares. Os autores dizem
que, se fosse verificar todas as incidências legais exigidas nas
propriedades, a produção se tornaria inviável, pois a área que poderia ser
utilizada para a produção agrícola/pecuária seria insignificante, não
garantindo uma renda mínima para essa família, consequentemente não
propiciaria o desenvolvimento sustentável que tanto se busca atualmente.
Nas linhas 188 e 184 os entrevistados, embora soubessem da
importância de reflorestar as áreas degradadas e preservar as áreas de
florestas nativas, na maioria das vezes só realizavam tais atos para
legalizar suas propriedades, com vistas à terem acesso aos empréstimos
em bancos, venda de gado ou realização de atividades nas propriedades
que exigiam a regularização da documentação dos imóveis. Ou seja, se
viam "obrigados" a recuperar e preservar os remanescentes florestais

Soeitxawe
356 Josiane Keffer; Karoline Mendes & Jizeli Monteiro

para que pudessem ter acesso aos "benefícios" oferecidos por parte dos
órgãos governamentais.

Considerações finais

Mesmo não conhecendo os termos e as exigências normativas que


constam no Código Florestal Brasileiro, o pequeno agricultor tem
consciência da existência da lei, e entende a importância de se preservar
o meio ambiente, no entanto eles se sentem muitas das vezes esquecidos
e ignorados perante os órgãos fiscalizadores e assistencialistas.
Por ter convívio e contato direto com as florestas, rios, lagos e fauna
silvestre, eles entendem a importância desses meios e tem profundo
respeito por eles, no entanto, defendem que precisam sobreviver,
plantar, colher e assim garantir o sustento de suas famílias. Alegam que
não é o pequeno agricultor o responsável pelo desmatamento e sim os
grandes fazendeiros.
Os agricultores têm profunda ligação e respeito pela natureza
independente de leis e, mesmo sob dificuldades eles respeitam a
legislação e, ainda defendem o fato de que a agricultura familiar deveria
receber maiores incentivos e atenção, uma vez que é ela que garante a
comida na mesa dos brasileiros.

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Soeitxawe
Pequenos agricultores e o Código Florestal 357

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Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco, 2012.

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica

Maria Conceição de Lacerda1

Resumo: O mundo humano se constrói a todos os níveis sobre uma infinidade


de ficções sociais. Sem estes autoenganos coletivos a fundação de uma comuni-
dade seria impossível. Ou seja, não é apesar, mas graças às ficções sociais que a
realidade é possível. A realidade e a ficção são consubstanciais. Estamos dentro
de uma evolução permanente e nela a identidade não possui um conteúdo pró-
prio, mas é o resultado do movimento de identificação. Trabalhando sobre a
noção de tempo e espaço Zoró, o mene dere expressão que quer dizer tempo e o
arartigi mene, mene e o karália são formas que os Zoró usam para explicar o
tempo e o espaço tradicional. A identidade indígena do povo Zoró constrói e se
reelabora na relação com o aratigi mene pane, com o mene dere e com o aratigi
mene, mene. Trabalho com a noção de tempo cósmico e ficcional, representação
do passado histórico e o mundo do narrador, ou seja, a noção de identidade
narrativa de Ricoeur. Com relação à análise das representações da identidade em
suas formas simbólicas Moscovice, Sahlins e Ricoeur foram explorados e nesta
análise aparece a noção de representação, a noção de narrativa.
Palavras-chave: Etnicidade; identidade étnica; noção de tempo; ficções sociais.

Etnicidade e Contexto Histórico

“Juli2 é nossa carteira de identidade” (Miguel Zan Zoró)


1Doutora em Antropologia na Universidade de Salamanca - ES (2006/2014).
Bacharelado e Licenciatura em História pela Universidade Federal de Santa
Catarina (1997). Trabalha como Assistente Pedagógico no Athenas Grupo
Educacional com as Faculdades: FAP, FAMETA; UNIJIPA, FSP e FAPAN, e é
professora no Magistério Intercultural Tupi Mondé.
2 JULI, tatuagem facial elaborada geometricamente para marcar a passagem da

adolescência para a idade adulta das pessoas pertencentes à etnia Zoró.

Soeitxawe
360 Maria Conceição Lacerda

Os textos etnográficos são escritos dentro de um contexto histórico.


Escrever sobre os Zoró remete às diversas ocupações da Amazônia bra-
sileira. Como a ocupação de território da região amazônica ocorreu lenta
e gradativamente, podemos falar de uma ocupação que se deu em busca
de recursos naturais que se vendiam nos mercados internacionais para a
produção agropecuária e se intensificou durante o século XIX, acompa-
nhado de uma destruição da floresta e uma crescente ocupação efetiva
deste território pouco conhecido e difícil de habitar. Em sequência, fins
do século XIX e inicio do século XX, no chamado boom da borracha,
essa ocupação se intensificou de maneira mais violenta acuando os povos
indígenas para as regiões de fronteira e foi penetrando essa região uma
massa de população não indígena. (Corrêa 1987 p. 57).
No século XX, a abertura de novos espaços produtivos na Amazônia
representava a materialização do slogan "uma terra sem homens [a Amazô-
nia] para homens sem terra [do Nordeste]". Milhares de migrantes foram atraí-
dos para a região, não só na perspectiva de ganharem terras nos polígo-
nos de colonização, mas também interessados em trabalhar nos grandes
empreendimentos amazônicos, financiados ou incentivados pelo gover-
no federal (barragens de Tucuruí e Balbina, construção das estradas,
abertura das minas de Carajás, Pitinga etc.), ou simplesmente na busca de
fortuna com o garimpo como o de Serra Pelada (Bursztyn, 2010 e Le
Tourneau, 2010).
A segunda metade do século XX testemunhou uma rápida aceleração
da penetração ocidental rumo ao sudoeste amazônico (Davidson, 1977;
Meireles, 1984; Becker, 1987; Coy, 1987; Coimbra, 1989; Santos, 1991).
Os esforços que visavam à ocupação e integração definitiva da região ao
contexto da sociedade nacional brasileira começaram na década de 1960.
Os esforços pelo desenvolvimento resultaram na abertura de rodovias e
no estabelecimento de grandes projetos de colonização e mineração.
Essas foram às condições necessárias para o impulso do maior movi-
mento migratório já visto na história da Amazônia. A partir de 1970
a colonização dirigida à Amazônia contou com o lançamento do PIN -
Programa de Integração Nacional. Que ampliou a rede de migrações.
O programa pretendia aliviar as tensões sociais das demais regiões do
país assentando colonos. Segundo Perdigão e Bassegio o governo pre-
tendia assentar 100.000 famílias em 1971 até 1974. O PIN não contem-

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 361

plou a realidade fundiária da região Amazônica no que se trata da ocupa-


ção tradicional. Programas anteriores tinham levado nordestinos a se
tornarem seringueiros, e antes dos seringais serem constituídos nesta
região já havia habitação de diversos povos indígenas. O SPI – Serviço
de Proteção ao Índio e a FUNAI – Fundação Nacional do Índio, órgãos
do governo federal que foram criados para atuar com os povos indíge-
nas, não tinham força para intervir na ação do PIN e a Amazônia, sobre-
tudo a parte territorial que se tornou estado de Rondônia e o Mato
Grosso, foram ocupadas rápida e violentamente.
Além disso, a migração massiva trouxe sérios problemas no tocante
ao direito de posse da terra. O processo de colonização não foi bem
coordenado, de modo que, cerca da metade da década de 1970, aproxi-
madamente 80% das famílias que chegaram a Rondônia não tinham
titulo definitivo nos projetos (Mueller, 1980). A situação não melhorou
nos anos seguintes, quando o governo brasileiro foi incapaz de assentar a
vasta maioria dos migrantes na década de 1980. O rápido fluxo migrató-
rio aliado a ineficiência do setor público, levaram a grilagem das terras
públicas e a invasão das terras indígenas, que afetou diretamente aos
povos: Gavião, Paiter Suruí e Zoró (Moore, 1981; Meireles, 1984; Jun-
queira e Mindlin, 1987; Brunelli, 1989, 1990; Coimbra, 1989; Santos
1991).
Antes da ocupação dos colonos, a Amazônia já era de certa forma,
um palco de disputas de seu território. Inúmeros povos indígenas viven-
do itinerantes guerreavam entre si para ocupar os espaços neste imenso
território, como é o caso dos Povos indígenas Zoró, Arara do Beiradão,
Cinta Larga, Gavião e Paiter Suruí que disputam espaço onde hoje é a
região noroeste do Estado de Mato Grosso, fronteira com o estado de
Rondônia e os municípios de Ji-Paraná, Cacoal, Ministro Andreaza e
Espigão D’Oeste em Rondônia. Com a chegada dos colonos essa disputa
intensificou muito mais e com uma rapidez não conhecida pelos povos
que tradicionalmente disputavam-na.
Tratando especificamente da questão dos Zoró, e conforme se verifi-
cou, alguns Zoró dizem que, antigamente, seus ancestrais haviam erguido
suas malocas onde o Rio Roosevelt (Ikabepewa Xi) desemboca no rio Ji-
Paraná (Ii Wup Xi). Primeiro eles começaram se fixando no Rio Roose-
velt e a partir do Rio Aripuanã (Ambura Xi) guerreando principalmente

Soeitxawe
362 Maria Conceição Lacerda

contra os Arara, um grupo de cultivadores outrora muito numeroso que


ocuparam esta região. Eles se aproximaram gradativamente deste territó-
rio e começaram a habitá-lo por volta do século XX. O lugar onde hoje
está construída a Aldeia Escola Zarup’Wej foi um campo de guerra
onde os Zoró lutaram tomando para si parte deste território. Pintavam-
se de vermelho (urucum) quando partiam para a guerra. Por isso, o
nome Zarup Wej em língua Pangyjej significa muita gente vermelha e faz
alusão a como os próprios Zoró se denominavam.
Informações etnohistórias (o que dizem os historiadores Zoró, tais
como, Zawyt Wãwã, Luiz Maxianzap, Zaptig e Manoel) me fazem ver
que a identidade Pangዣjej que faz reconhecer os grupos Zoró não é uma
herança cujas origens se perdem na tradição. O conteúdo das informa-
ções por mim recebidas dos próprios Zoró me induzem a crer que não
existiam os Zoró antes do contato, pelo menos como povo, no sentido
da palavra, mas existiam grupos com alguns laços de solidariedade inter-
na e de sentimento de pertencimento, proximidade linguística e visão de
mundo aproximada. Esses pequenos grupos que compartilhavam suas
festas rituais e mantinham relações de casamento, no transcorrer da his-
tória enfrentaram situações parecidas e se juntaram para enfrentar o
grande inimigo: o contato oficial.
Zawyt Wãwã relatou em 1999 e em 2001 que, há muito tempo atrás,
seus ancestrais erguiam suas malocas nas imediações da embocadura do
rio Aripuanã, distribuídos em vários grupos locais. Contudo, mais recen-
temente, (penso que por volta do século XX) tinham se deslocado a
montante, abrindo caminho à força entre os Arara e outros povos agri-
cultores ali estabelecidos, acercando-se então aos poucos do território
que hoje ocupam. Este velho guerreiro recorda ainda de uma das bata-
lhas que ele participou, outros Zoró se lembram desta batalha porque
seus pais dela participaram. O movimento dos grupos Zoró ao sul veio a
cessar quando, por volta da década de 1930, estes se chocaram com gru-
pos Cinta-Larga e Paiter Suruí, bem mais numerosos.
Em meados do século XX, portanto, os Zoró ocupavam um territó-
rio contínuo que se estendia desde a margem direita do rio Roosevelt até
os córregos que formam o rio Madeirinha, tendo como confrontantes os
Cinta-Larga a leste, os Paiter Suruí ao sul, os Gavião a sudoeste e oeste e
os Arara a noroeste.

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 363

Os Zoró formam um conjunto de grupos locais, de dimensões de-


mográficas variáveis e dotados de autonomia econômica, com relações
de guerras e alianças que oscilavam como pêndulo, tinham entre si vários
membros ligados por parentesco através das alianças de casamento e que
por isso conviviam na mesma maloca. Os Pangዣjej Tere eram os guerrei-
ros e os Zabeap Wej estrategistas, assim sendo, quando era necessário
fazer guerra os Pangșjej Tere consultavam os Zabeap Wej. Os Pangșj
Pewej e os Pangዣj Kirej eram consangüíneos dos Pangșjej Tere e tam-
bém eram guerreiros.
A partir dos anos 1960, todavia, a exploração mineral e o incentivo
oficial à colonização daquela região do Brasil, para fins de produção
agrícola e pastoril, cingiram os grupos Zoró ao triângulo formado pelos
rios Roosevelt e Branco (Almeida, 1966). A partir da cidade de Ji-Paraná
(então vila de Rondônia) seringueiros, caucheiros e garimpeiros lançaram
incursões contra aldeias Zoró situadas nas imediações do rio Branco, das
quais algumas foram totalmente dizimadas (Albuquerque, 1969a: 2-4, 7).
De um acampamento Zoró atacado em 1963 apenas uma menina sobre-
viveu, raptada pelo chefe dos seringueiros (Santos R. V., 1991: 51). Na
década de 90 ela reencontrou seus parentes Zoró, e passou a residir na
área Zoró.
Os grupos locais mencionados pelos Zoró eram: os Pangዣjej Teré
(Povo comedor de gente moqueada), os Pangዣj Pewej (povo da pele
escura), os Pangዣj Kirej (Povo da pele clara), os Zabeap Wej (Povo bom
e trabalhador), os Duwey (Povo do Urucum), os Majxħwej (Povo da
makaloba doce), os Jyjej (Povo Valente), os Ujkywej (Povo do Patoá), os
Pamakangዣj (povo do caldo) e os Iandarej (Povo da cabeceira do rio).
De acordo com Maldi (1994), o povo Zoró dividia-se em vários grupos
locais, de dimensões demográficas variáveis, dotados de autonomia polí-
tica e econômica e distribuídos em diferentes pontos do seu território,
mas unidos por laços de parentesco e obrigações rituais. Rescentemente
os Zoró me falaram de um outro grupo local o clã dos Djup ej que eram os
guerreiros mais bravos.
Segundo Denise Maldi, por volta da década de 1960, os Zoró com-
punham-se de dez grupos locais, distribuídos em dezesseis malocas, e
uma população de quase mil pessoas. A antropóloga, para a perícia que
realizou na área Zoró em 1992, conduziu um extenso inventário dos

Soeitxawe
364 Maria Conceição Lacerda

aldeamentos e seus deslocamentos no interior do território, para isso


entrevistou pessoas que aparentavam cinquenta anos ou mais, a que
denominou: “informantes mais velhos”, a antropóloga Denise Maldi (1974,
1992) identificou 47 antigas aldeias, dentre os diversos grupos locais, por
todo o território Zoró (Maldi, 1992).
Havia uma relação de identidade entre os diversos grupos dos Zoró.
Materiais arqueológicos confirmam que com a demarcação, parte impor-
tante do território tradicional do Povo Zoró ficou fora e, diversos clãs
foram prejudicados com a demarcação. Esses clãs eram habitantes das
terras que foram invadidas pelos fazendeiros.
Com a demarcação da Terra novos problemas e desafios surgiram.
No caso dos Zoró um dos problemas foi gerado, antes mesmo da
demarcação, quando nos primeiros contatos com esse povo a FUNAI
através dos sertanistas e chefes de postos, para atender a demanda da
saúde, concentrou todo o povo Zoró na aldeia Central (Bubyrej) no
posto de apoio instalado ali. As pessoas dos diversos grupos locais que
culturalmente não morariam juntos foram morar, pois os Chefes de
posto e os sertanistas os traziam para prestar-lhes assistência médica
e, ali eles encontravam certa proteção e acesso a outras coisas. Impos-
ta à vida sedentária fez com que os Zoró deixassem de se deslocar
pelo território. Como consequência houve a invasão de muitas outras
fazendas e, inclusive, invasão do próprio território onde a FUNAI
concentrou os Zoró.
Aos poucos, o número de pessoas foi crescendo e o aumento de
atividades de caça e pesca, coleta e plantio nos arredores da aldeia
Central contribuíram para a diminuição das espécies animais e vege-
tais, tão importantes para seu modo de vida. Anos depois, preocupa-
dos com tais mudanças e, sobretudo com a invasão das terras onde
seguiam habitando, as lideranças do povo Zoró, articuladas em torno
do grande líder Zawyt Wãwã, retomaram esta parte do seu território
que foi demarcada e começaram a construir pequenas aldeias por
grupos locais e clãs, o grupo local que não podia construir sua própria
aldeia juntou-se a outro grupo. Paralelo à retomada das aldeias come-
çaram a desenvolver projetos de uso sustentável dos recursos mais
usados, com possibilidade de mercado, devido ao contato e as rela-
ções comerciais constituídas com a sociedade envolvente. A primeira

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 365

aldeia construída em função da retomada foi a Zawã Kej (barreira) e o


Zawijaj desta aldeia é um Pangዣjej Tere o Zawijaj Maxianzap Zoró.
Numa reunião da APIZ eu pude perceber uma especificidade na
questão da identidade dos grupos Zoró. Quando discutiam sobre a gin-
cana que iria acontecer entre as escolas das aldeias Zoró e a representan-
te da FUNAI, Lígia Neiva sugeria que se repetisse o tema da gincana de
1999, 2ª gincana realizada entre os Zoró e o tema tinha sido Me Ikini Má
(Vamos olhar para nós). Depois de um primeiro sim coletivo e palmas
aprovando o tema, um dos Zawijaj se levantou dizendo que me ikini má
não quer dizer “vamos olhar para nós”, mas pan supup ikini má é que quer
dizer “vamos olhar para nós”. Outro Zawijaj de outro subgrupo afirmou
que “vamos olhar para nós” seria pali paikini tea; outro negava todas as
falas anteriores dizendo que é pali pambanej ikinia ao ponto que termina-
ram a reunião, sem definir o tema que se usaria para a Gincana, e alguns
dos professores ficaram encarregados de confirmar a frase. Porque o Me
ikini má passou a ser traduzido como venham olhar para nós. Alguns dias
depois estava decidido e o tema da gincana estava pronto: Gincana Cul-
tural do Povo Zoró Pali Pajkinia, Prêmio Cultura Indígena Chicão
Xucuru -2008.
As diferentes formas de dizer “vamos olhar para nós” remete à questão
da identidade étnica, pois está relacionada com os grupos locais que ago-
ra estão em todas as aldeias, mas que a pouco mais de 30 anos atrás,
viviam isolados em aldeias específicas e que apesar da política de casa-
mentos e dos rituais comuns, bem como da união para vencer a guerra
contra os Paiter Suruí e outros grupos inimigos, a identidade de cada
grupo local, me parece, incluía a forma de se expressar através da fala ao
ponto que poderíamos falar de dialetos da língua Pangዣjej. Ou formas
autônomas de falar o Pangዣjej.
A unidade local de cada grupo é a maloca Zap Tere, uma grande casa
coletiva que os Zoró conhecem como primeiro espaço de sobrevivência.
Mas, nesta casa habitam outros membros que se ligaram por aliança de
acordo com as regras de casamento e relações de parentesco. A casa
(Zap ka) era a unidade mais importante por ser a única economicamente
viável a médio prazo, e a única capaz de assegurar uma proteção contra o
inimigo, se por acaso viesse a atacar. A casa constituía também a base

Soeitxawe
366 Maria Conceição Lacerda

para a identificação dos membros, inspirava sentimentos de pertencer ao


grupo e unia os laços de solidariedade e reciprocidade.
O grupo local está ligado por parentesco em quase todos os casos,
mas no caso dos Zabeap Wej e os Pangዣjej Tere, está formado de con-
sangüíneos que se reúnem ao redor de um poderoso guerreiro de prestí-
gio. Encontram-se os que se unem politicamente a eles, podem incluir
outros que desejam associar-se a eles ou que largando seu clã de origem
passaram a viver com eles, mesmo que acolhidos como hóspedes podem
ser integrados ao grupo.
A concepção de grupo étnico, definida por Barth (1998) como sendo
uma forma de organização social, caracteriza-se pela auto-atribuição e
atribuição por outros. Neste caso, Barth segue um pensamento crítico no
que concerne ao conceito de grupo étnico, pois não concorda em perce-
bê-lo como unidade portadora de cultura, mas sim como tipo organiza-
cional. Essa ideia já é relida da formulação de Max Weber (1994), pois
este conceitua os grupos étnicos como comunidades organizadas que se
fundamentam no sentimento subjetivo de uma origem comum. Esse
sentimento seria a base para uma ação coletiva. Esta concepção abre um
caminho para que se pense na dimensão política da mobilização da etni-
cidade, nos ajudando a entender a organização atual dos grupos indíge-
nas.
Entretanto, esse conceito que foi muito utilizado por antropólogos na
identificação e produção de grupos étnicos não dar conta da complexi-
dade que é a realidade desses grupos indígenas, visto que são grupos
sociais bastante heterogêneos. Um exemplo é o artigo de Renato Athias,
parte do amplo conhecimento do autor sobre a área indígena Pankararu
para investigar as relações entre corpo, fertilidade e práticas reprodutivas.
Athias aponta a necessidade de as políticas de saúde incorporar os co-
nhecimentos e as realidades específicas da saúde reprodutiva das comu-
nidades indígenas.
A agregação da identidade na cultura não impede a analise conceitual
de forma que, ao defrontar com as situações de mudança de cultura verão
que não ocorreu a rigor a mudança identitária. O fato de a mudança cul-
tural não levar à mudança identitária (Cardoso de Oliveira), não quer
dizer que a dimensão da cultura deixe de desempenhar um papel a ser
avaliado pela investigação etnográfica, não apenas na dimensão dos valo-

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 367

res e das concepções do nós frente aos outros, mas do processo cultural
desencadeado que pode culminar na mudança ou perda de identidade.

Mediações da Identidade Étnica

Os Zoró foram o último povo Tupi Mondé a se aproximar das frentes


regionais: em 1977 eles saíram ao encontro de peões da fazenda Casta-
nhal, às margens do rio Branco, afluente do Roosevelt. Depois, em
outubro daquele ano, uma expedição da FUNAI, auxiliada por índios
Gavião, Cinta Larga e Paiter Suruí, foi contatá-los na sede da fazenda e
montaram posto da FUNAI na aldeia Bubyrej (central) (Gambini,
1984b).
As novas relações constituídas a partir do posto resultaram em trans-
formações que a forma de organização social dos Zoró sofreu através do
contato com a sociedade nacional, bem como incursionou pela noção de
pessoa e a cosmologia, as restrições alimentares, as práticas de Xamanis-
mos a as terapêuticas e a farmacopéia e outras questões pertinentes às
questões etnohistóricas, das guerras e migrações pondo em questão a
identidade dos grupos Zoró.
Fundamentada em Barth e Cardoso de Oliveira, parto da definição de
grupo étnico como uma forma de organização social, que expressa uma
identidade diferencial nas relações com outros grupos e com a sociedade
mais ampla. A identidade étnica é utilizada como forma de estabelecer os
limites do grupo e de reforçar sua solidariedade. Agora, se as categorias
étnicas tomam as diferenças culturais em consideração, não é a soma das
diferenças culturais objetivas que determinam o conteúdo da identida-
de étnica, mas aquelas que os atores consideram significativas, que são
realçadas e tornadas organizacionalmente relevantes. Certos elementos
culturais são utilizados pelos atores como sinais emblemáticos da dife-
rença.
A questão referente à origem é recuperada da contribuição weberiana
sobre os grupos étnicos. Em Economia e sociedade, Weber consagra um
capítulo à discussão das relações comunitárias étnicas, definindo o grupo
étnico como “grupos que alimentam uma crença subjetiva em uma
comunidade de origem, fundada (...) nas lembranças da colonização ou

Soeitxawe
368 Maria Conceição Lacerda

da imigração, de modo que esta crença torna-se importante para a


propagação da comunalização, pouco importando que uma comunidade
de sangue exista ou não objetivamente (Weber, 1971. p.416, citado por
Poutignat e Streiff-Fenart, 1998, p.37).” De acordo com Weber, a crença
subjetiva na origem comum constitui um laço característico da
etnicidade. Atualmente os Zoró têm dado importância significativa aos
grupos locais ou clãs, esta ênfase aos grupos locais dos Zoró caracteriza
este laço de etnicidade.
A contribuição fundamental de Martín Barbero para a perspectiva da
recepção está em propor que se desloque o eixo da reflexão dos meios
para as mediações. Esta proposta é articulada a um outro deslocamento,
que implica tomar a cultura como espaço de reflexão para a
comunicação. A cultura é concebida como lugar de articulação dos
conflitos sociais, de construção da hegemonia. Martín Barbero retoma o
conceito gramsciano de hegemonia, que permite visualizar o processo de
dominação social “já não como uma imposição a partir de um exterior e
sem sujeitos, mas como um processo no qual uma classe hegemoniza, na
medida em que representa interesses que também reconhecem de alguma
maneira como seus as classes subalternas (Martín Barbero, 1997, p.104).”
Fundamentada em Barth defino grupo étnico como uma forma de
organização social, que expressa uma identidade diferencial nas relações
com outros grupos e com a sociedade mais ampla. Como especifica o
autor, os grupos étnicos são vistos como uma forma de organização
social. Então, um traço fundamental torna-se [...] “a característica da
auto-atribuição ou da atribuição por outros a uma categoria étnica.”
(Barth, 1998, p.193-194).

O Tempo, o Espaço e a Identidade Étnica.

O espaço e o tempo são campos semânticos em que continuamente


sustenta a nossa metaforização mútua. O mesmo relógio já é uma repre-
sentação do tempo através de uma analogia espacial. No que diz Fer-
nàndez de Rota y Monter. Essas tarefas estão fazendo o caráter metafó-
rico de forma contínua, sem perceber, tornaram-se metáforas mortas
para nós. Espaço e tempo estão muito próximos coimplicados no nível

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 369

ontológico e existencial. A realidade de nossas vidas é o tempo. A drama-


ticidade do tempo que vem com o devir, não as coisas que acontecem,
nós somos os que experimentamos. (Fernàndez Rota y Monter, 1994).
Para os Zoró o tempo é importante e ele está ligado ao espaço, cada
espaço tem seu tempo e cada tempo seu espaço. O tempo de fazer roça, o
tempo de plantar, o tempo de esperar a planta crescer e produzir, o tem-
po ritual, o tempo comum do cotidiano e o tempo da história. Na narra-
tiva Zoró o mene dere, o aratigi mene, mene e o Karália são formas
articuladas de explicar o tempo.
O mene dere é o tempo. Esse termo pode estar ligado ao tempo
cósmico e ao tempo espiritual, porque mene dere quer dizer tempo. O
aratigi mene, mene é o tempo do passado. Tempo em que o macaco
cantava xi, xi pala la, xi xi pala la, tempo do mito, tempo da origem do
mundo e das pessoas, tempo dos espíritos, tempo do Criador e da origem
da criação. Tempo em que ocorreram fatos importantes da história como
o tempo dos guerreiros, tempo dos antepassados. Karália quer dizer me
dá um tempo; espera. E é usado cotidianamente, quando alguém chama
e o outro não pode ir naquele momento, ou se no caminho precisa parar
ou não consegue acompanhar o passo do outro. Essa é uma forma de
lidar com o tempo.
Para entender o tempo e espaço no conceito Zoró é preciso respeitar
o tempo o tempo do espírito. Na festa do Gujãnej precisa o tempo para
fazer os ritos, porque o espírito do Gujãnej não pode dançar de dia, es-
pera-se a noite; para não ocorrer nenhum mal a mulher tem que esperar
na maloca. É preciso esperar o amanhecer (mangere) para as bênçãos com
os jacarés e o meio dia (padara gat sa) para viajar até a aldeia do espírito
Gujãnej.
Como no Gujãnej os outros rituais também exigem um tempo, tempo
de esperar e tempo de fazer, como sempre se fez no decorrer do tempo.
Aratigi mene pane, é história é antiga, faz muito tempo que tudo isso
ocorreu. É preciso lembrar o tempo de antigamente e perceber que
quando a bixuga puxit, ou seja, o cajá floresce é tempo de esperar a chu-
va. Mene dere aratigi é o faz tempo que aconteceu e também diz respei-
to ao longo do tempo da história e dos mitos.
De acordo com a teoria da relatividade de Einstein, espaço e tempo
estão interligados. Em velocidades próximas à da luz, a massa de um

Soeitxawe
370 Maria Conceição Lacerda

corpo aumenta de forma perceptível, o espaço se contrai e o tempo pas-


sa mais devagar. O tempo está, de fato, indissoluvelmente interligado ao
espaço. Tempo-espaço é o binômio concedido a cada criatura para o seu
desenvolvimento.
Os Zoró também falam do tempo cíclico para explicar a relação es-
paço-tempo, o gawu mi (verão) ou tempo da estiagem e o Zuj mi te
(inverno) ou tempo das águas. E afirmam que quando bixuga xi wá (a
cajazeira toma água do rio) o inverno foi muito bom. Explicando que no
ciclo das águas pode haver chuva abundante que provoca as cheias dos
rios e é garantia de boa produção agrícola, por isso, inverno bom. Mas
quando a cajazeira não é tocada pela enchente do rio a chuva foi pouca e
a produção não será tão boa. O tempo das chuvas e o espaço ocupado
pela cheia (bixuga xi wá) água que chega até o pé de cajá é que define o
bom tempo para o espaço tradicionalmente escolhido para fazer as roças,
porque não se faz a roça às margens do rio. Novamente espaço e tempo
relacionados e integrados. Por outro lado, temos os sinais visíveis, mais
complexos, do tempo histórico propriamente dito, as marcas visíveis da
atividade criadora do ser humano, as marcas impressas por sua mão e
por seu espírito.
Já Ricoeur ancora sua reflexão de que no tempo cósmico e ficcional
se encontra a função de representação do passado histórico e os efeitos do
encontro entre o mundo do texto e o mundo do leitor. No caso aqui tra-
tado pode-se dizer que entre o mundo da narrativa, o mundo do ouvinte e
o mundo do narrador, as interpenetrações da história e da ficção pela
ficcionalização da história e historicização da ficção, introduzem a noção
de identidade narrativa. No caso dos Zoró o Aratigi mene pané é a narra-
tiva do passado.

Considerações Finais

Do que foi exposto podemos concluir que a identidade cultural é um


fenômeno social em movimento e o limite sempre provisório de sua
evolução é colocado unicamente pelo contexto social e o peso da história.
Ao invés de uma absorção de uma cultura pela outra, a aculturação é um
processo de evolução mútua para os autóctones e estrangeiros. O mundo

Soeitxawe
Os Zoró e a identidade étnica 371

humano se constrói a todos os níveis sobre uma infinidade de ficções


sociais. Sem estes autoenganos coletivos a fundação de uma comunidade
seria impossível.
Trabalhando sobre a noção de tempo e espaço Zoró, digo que o me-
ne dere expressão que quer dizer tempo e o arartigi mene, mene e o
karália são formas articuladas de explicar o tempo e o espaço tradicio-
nal. O tempo e o espaço estão interligados entre si e com a natureza con-
forme o exemplo da Bixuga puxit e a chegada da chuva. No espaço da
floresta se pode perceber o tempo da chegada da chuva porque o cajazei-
ro floresce. Se for verão gawu mi ou tempo da estiagem e as árvores de
cajazeiro começam a florescer sabe-se que em breve iniciará o Zuj mi te
ou tempo das águas. O mene dere é o tempo de esperar, tempo esse
ligado aos rituais, muito importante nos rituais o respeito ao tempo.
Tudo a seu tempo e em seu espaço determinado. É a regra, é preciso
respeitar o tempo, saber esperar e saber fazer e agir na hora exata, no
tempo certo. O aratigi mene, mene tempo da história é também o tempo
da narrativa onde se articula na oralidade o entendimento do tempo, do
espaço, dos fatos e acontecimentos e das coisas. Aratigi mene pane. A
identidade indígena do povo Zoró constrói e se reelabora na relação com
o aratigi mene pane, com o mene dere e com o aratigi mene, mene.

Referências

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Identidade, Diversidade e Conflito, organizador Renato Athias.
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amérindiennes au Québec. 16 (2-3), p. 152-156, 1986.
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85/86. São Paulo: CEDI, p. 299-301, 1987.

Soeitxawe
372 Maria Conceição Lacerda

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Vozes, 1997. p. 85 -107.
LACERDA, Maria Conceição de. “Me Ikini Má" (Vamos Olhar para
Nós): Partilha da experiência com educação indígena junto
ao Povo Zoró. In: Educação e Protagonismo Relatos e análises de
experiências do cotidiano escolar e de outros espaços formativos.
João Pessoa: Ideia Edições FAFICA/GPEC, 2002.
. Bekã Pamakube (lugar de aprender). Aprendendo com os
Zoró: análise da identidade indígena através da experiência
das escolas nas aldeias do povo indígena Zoró. Tese de
Doutorado, defendida no dia 22 de janeiro de 2014 na
Universidad de Salamanca, USAL.
MALDI, Denise. Laudo histórico-antropológico - Ação de Interdito
Proibitório. Processo 00.00.01295-05, 2a. Vara da Secção
Judiciária do Estado de Mato.
OLIVEIRA, Roberto C. de. Identidade, Etnia e Estrutura Social. São
Paulo, ed. Pioneira, 1976.
RICOEUR, Paul. Tempo e Narrativa. Tomo I. Trad. Constança Mar-
condes César. Campinas, SP: Papirus, 1994.
Summer Institute of Linguistics - SIL. 1976. Relatório de atividades do
Summer Institute of Linguistics - exercício de 1975. Brasília,
SIL.

Soeitxawe
Uso de Sistemas Agroflorestais em Rondônia – espécies
florestais, solos, aptidão agrícola

Marilia Locateli1
Eugênio Pacelli Martins2
Claudia Cleomar Araújo Ximenes Cerqueira3

Resumo: Esta pesquisa objetivou determinar a origem dos produtores, as


espécies utilizadas, determinar o crescimento das principais espécies quanto ao
aspecto econômico e as classes de solo que ocorrem em sistemas agroflorestais
utilizados por produtores agroecológicos em diferentes municípios do Estado
de Rondônia, e relacionar com a aptidão agrícola dessas áreas. Concluiu-se que
as espécies florestais de maior ocorrência nos sistemas agroflorestais estudados,
foram: bandarra/paricá, ipê, cerejeira e teca. Na maioria o café é o cultivo
principal. Grande diversidade de espécies nos sistemas pode causar um efeito
negativo devido à competição por água, luz e nutrientes entre as espécies. No
decorrer das análises feitas a partir da base de dados geográficos, foi possível


1 Ph.D. em Ciência do Solo - North Carolina State University (2000) -
reconhecido pela Universidade Federal de Viçosa (Brasil), como Doutorado em
Solos e Nutrição de Plantas, em 2007. Mestrado em Ciência Florestal pela
Universidade Federal de Viçosa (1984). Possui graduação em Engenharia
Florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (1981). Pesquisadora da
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA, professora do
Mestrado em Geografia da Universidade Federal de Rondônia. Membro do
LABICART.
2 Mestre em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras (1996).
Graduado em Engenharia Florestal pela Universidade José do Rosário Vellano
(1985) Engenheiro Florestal do Governo do Estado de Rondônia e Professor da
Faculdade de Rondônia - FARO.
3 Mestre em Geografia e Bacharel em Ciências Contábeis pela Fundação
Universidade Federal de Rondônia, especialista em Administração Pública, em
Gestão Financeira e em Docência do Ensino Superior pela Faculdade de
Pimenta Bueno - FAP. Professora de Ensino Superior. Membro do
LABICART. Membro da APECs-Brasil.

Soeitxawe
374 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

notar em sua maioria, que as propriedades estudadas estão alocadas sobre


Latossolos Vermelho Eutrófico, com aptidão agrícola baixa ou regular para
lavouras, com baixa aptidão para o uso de recursos tecnológicos.
Palavras-chave: Latossolos vermelho Eutrófico; Sistemas Agroflorestais.

Introdução

A economia agrícola possui elos com outros setores da cadeia


produtiva no sentido rural-urbano e agricultura-indústria, como o caso
do café. Em alguns casos são sistemas agroflorestais que dão certo, em
outros, há o extrativismo de forma ilegal que coloca em risco todo o
ecossistema. Prejudicando, não só a flora, a fauna como a vida humana
na Terra. Data vênia, este trabalho investigativo, com relevância
científica, contribui com o aprimoramento do desenvolvimento
socioeconômico local.
Esta pesquisa objetivou determinar a origem dos produtores, as
espécies utilizadas, determinar o crescimento das principais especíeis
quanto ao aspecto econômico e, quais são as classes de solo que ocorrem
em sistemas agroflorestais utilizados por produtores agroecológicos em
diferentes municípios do estado de Rondônia, e relacionar com a aptidão
agrícola.

Sistemas agroflorestais

Os sistemas agroflorestais envolvem combinações e manejo da terra,


nas quais plantas agrícolas em conjunto com espécies florestais ou
arbustos são associadas numa mesma área. (DUBOIS, 1996).
Apresentados como alternativa produtiva e sustentável os SAFs
caracterizam-se por proporcionar uma opção estratégica para os
pequenos produtores, devido a baixa demanda de insumos (fertilizantes,
agrotóxicos etc.), aproveitamentos intensivo da mão de obra familiar e
maior rendimento líquido por unidade de área em comparação com
sistemas convencionais de produção (PORRO, 2009).
Importantes para pequenos agricultores, os sistemas agroflorestais,
por representarem uma forma de produção mais sustentáveis e de menos

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 375

impactos negativos do que as pastagens (FEARNSIDE, 2009). No


Estado de Rondônia, encontra-se em quase todos os municípios algum
tipo de sistema agroflorestal, o mais comum são os quintais
agroflorestais, os quais serão apresentados por meio de pesquisas
posteriores. A priori este estudo apresenta os Sistemas Agroflorestais de
forma geral.

Material e métodos

Para análise da pesquisa foi utilizado o método hipotético-dedutivo, o


qual Spósito (2004) apresenta o método de hipóteses que podem ser
comprovadas ou refutadas de acordo com a ciência a qual ele utiliza. O
estudo é representativo para a sociedade científica tanto quanto para os
usuários diretos, como para os produtores rurais que poderão a partir dos
dados usufruírem para tomadas de decisões.
O levantamento foi realizado nos municípios de Ministro Andreazza,
Ouro Preto D’Oeste, Urupá, Vale do Paraíso, Nova União e Mirante da
Serra, localizados ao Leste do Estado de Rondônia, entre as coordenadas
61°30’00” a 62° 48’00”W e 10°29’00” a 11°06’00”S. A partir da capital do
Estado, Porto Velho, os seis municípios localizam-se em distâncias que
variam entre 270 a 367 km.
Foram visitados 20 produtores e, ao todo, analisados 24 sistemas
agroflorestais agroecológicos ou em fase de transição. As áreas visitadas
foram georeferenciadas, e utilizou-se a base de dados do Zoneamento
Ecológico e Econômico do estado de Rondônia. Foi elaborado o mapa de
classes de solos e de aptidão agrícola da área conforme metodologia de
Ramalho Filho e Beek (1995). Em todos os sistemas foram identificadas as
espécies florestais, e feita medições da altura comercial e DAP (diâmetro a
1,30 cm do solo) das principais espécies.

Resultados e discussão

A maior parte destes sistemas apresentam café como cultura principal,


e em sua maioria as espécies florestais não seguem um padrão de

Soeitxawe
376 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

espaçamento. Na Tabela 1 são apresentadas todas as espécies encontradas


nos sistemas observados, a frequência relativa de ocorrência, nome
comum, científico, família, bem como a utilização das mesmas.
Tendo em vista que os sistemas estudados tinham idade de 10 anos
ou mais após plantio, somente tivemos possibilidade de verificar as
espécies permanentes destes SAF. A espécie de maior ocorrência foi a
bandarra ou paricá, seguida de ipê, cerejeira e teca, sendo que a alta
ocorrência de paricá deve ser explicada pelo fato de a espécie ser de fácil
regeneração em áreas abertas.
A maioria das espécies tem uso madeireiro o que pode demonstrar
que estes agricultores utilizam o plantio das espécies perenes nos SAF
com o objetivo de após alguns anos utilizar as árvores como fonte de
renda. Na figura 1, são apresentados as medidas estatísticas referentes à
idade dos SAF.
A análise estatística referente à idade dos SAF observados revelou
que estes sistemas tem em média, bem como moda de 17 anos. O mais
antigo tem 39, e o mais novo 9 (nove) anos de idade, respectivamente.

Nome comum Nome científico Família Fr% Principais usos

Schizolobium parahyba
Bandarra ou Madeira,
var. amazonicum Caesalpiniaceae 24,63
Paricá reflorestamento
(Huber ex Ducke)

Madeira,
Ipê Tabebuia sp Bignoniaceae 12,31
paisagismo

Madeira,
Freijó Cordia goeldiana Hube. Boraginaceae 4,62
arborização

Madeira,
Cedro Cedrella fissilis Vell. Meliaceae 4,62
reflorestamento

Madeira,
Teca Tectona grandis L. f. Verbenaceae 10,77
reflorestamento

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 377

Hevea brasiliensis
Madeira,
Seringueira (Willd. ex Adr. de Euphorbiaceae 4,62
especiarias
Juss.) Muell-Arg.

Swietenia macrophylla
Mogno Meliaceae 1,53 Madeira
King

Madeira,
Castanheira-do- Bertholletia excelsa artesanato,
Lecythidaceae 6,15
Brasil Kunth. cosméticos,
alimentação.

Cerejeira Torresia acreana Ducke Fabaceae 10,77 Madeira,


paisagismo

Madeira,
Ingá Inga sp. Fabaceae 3,07
paisagismo.

Angico Anadenanthera Fabaceae 3,07 Madeira,


(B h ) fl
Peschiera fuchsiaefolia Madeira, carvão,
Leiteira Euphorbiaceae 1,53 arborização e
(A.DC.) Miers
reflorestamentos

Pequi Caryocar brasiliense Caryocaraceae 1,53 Madeira,


alimentação
Branquilho Sebastiania Lenha, carvão,
commersoniana (Bail.) Euphorbiaceae 4,62 reflorestamento
L. B. Sm. & Downs e arborização.

Madeira,
Cajazeiro Spondias lutea L. Anacardiaceae 1,53
alimentação

Sobrasil Colubrina glandulosa Madeira,


Perkins var. Reitzii Rhamnaceae 3,07 reflorestamento
(M.C. Johnston) e paisagismo.

Soeitxawe
378 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

Andiroba Madeira,
Carapa guianensis
Meliaceae 1,53 medicinal,
Aubl.
paisagismo e
reflorestamento.

FR= Frequência relativa (%)


Fig. 1: Espécies encontradas nos sistemas agroflorestais visitados, Rondônia, 2010

Convém destacar que os Sistemas Agroflorestais - SAF que se


encontravam improdutivos durante a realização desta pesquisa eram os mais
antigos, tendo em vista que muitos produtores não tem feito a devida
manutenção nos cafezais, bem como em muitos casos o espaçamento entre
as árvores é muito reduzido fazendo com que as mesmas prejudiquem a
produção do café. A figura 2 representa os dados coletado durante a
pesquisa e que demonstra o exposto.

Medidas estatísticas Idade dos SAF (anos)


Média 17
Mediana 16
Moda 17
Desvio Padrão 6
Mínimo 9
Máximo 39
Soma 381
N° de SAFs 24

Fig. 2: Medidas estatísticas referentes à idade dos SAF dos agricultores no estado de
Rondônia.

Os dados da Figura 3 mostram a origem dos agricultores entrevistados.


Verifica-se que a maioria deles é originária do Espírito Santo, Minas Gerais e
Paraná. Como o cultivo principal nestes sistemas é o café, demonstra-se

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 379

assim que os agricultores costumam cultivar o que eles já tinham maior


experiência em seus estados de origem. Em dados coletados por Menezes
(2008), quando da coleta de dados sobre SAF na microrregião de
Ariquemes, em Rondônia, encontrou-se que 70% dos agricultores migraram
do Paraná para este estado.

Fig. 3: Origem dos produtores visitados

O mapa de classes de solos dos municípios onde estão localizados os


sistemas é apresentado na Figura 4. Os solos dos municípios onde se
encontram as propriedades estudadas apresentaram os seguintes tipos de
Solo:

a) Latossolo Vermelho Eutrófico;


b) Cambissolo Háplico Alumínico;
c) Cambissolo Háplico Distrofico.

O Latossolo Vermelho Eutrófico: Solos com saturação por bases alta (V


• 50%) na maior parte dos primeiros 100 cm do horizonte B (inclusive BA);

Soeitxawe
380 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

Cambissolo Háplico Alumínico: Solos com caráter alumínico na maior parte


dos primeiros 100 cm do horizonte B (inclusive BA); Cambissolo Háplico
Distrofico: Solos com argila de atividade baixa e baixa saturação por bases
(V < 50%) na maior parte dos primeiros 100 cm do horizonte B (inclusive
BA) (EMBRAPA, 2006).

Fig. 4: Classes de Solos encontrados nas áreas com sistemas agroflorestais agroecológicos,
Rondônia, 2009.

No que se refere à aptidão agrícola (Figura 5) foram encontradas três


situações:

a) Terras pertencentes à classe de aptidão agrícola RESTRITA pa-


ra lavouras, no médio nível tecnológico - B e alto - C. INAPTA
para cultivos com lavouras em condições naturais das terras;
b) Terras pertencentes à classe de aptidão agrícola REGULAR pa-
ra lavouras, no médio nível tecnológico B e para cultivos com la-
vouras em condições naturais das terras, baixo nível tecnológico -
A e, RESTRITA no alto nível tecnológico - C. e

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 381

c) INAPTA para cultivos com lavouras em condições naturais das


terras, baixo nível tecnológico – A; REGULAR no médio nível
tecnológico – B; e aptidão agrícola BOA para lavouras, no alto ní-
vel tecnológico – C. Entretanto, pode-se perceber que mesmo
com todas as restrições os agricultores têm produzido por meio
dos sistemas utilizados e muitos deles com sucesso.

Fig. 5 – Mapa de aptidão agrícola das propriedades visitadas no levantamento. Rondônia,


2009

As principais espécies florestais encontradas nos sistemas agroflorestais


de potencial madeireiro e não madeireiro foram: bandarra ou paricá
(Schizolobium parahyba var. amazonicum (Huber ex Ducke)), ipê (Tabebuia sp),
freijó-louro (Cordia alliodora Hube), cedro (Cedrella odorata L), teca (Tectona
grandis L. f.), seringueira (Hevea brasiliensis), mogno (Swietenia macrophylla King),
castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa H.B.K.), cerejeira (Amburana cearensis
A.C. Sm.), ingá (Inga sp), angico (Anadenanthera macrocarpa), branquilho
(Sebastiania commersoniana), sobrasil (Peltophorum dubium), andiroba (Carapa
guianensis); espécies essas consideradas de boa aceitação no mercado nacional
e internacional.

Soeitxawe
382 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

A maior parte destes sistemas apresentam café como cultura principal.


As espécies florestais avaliadas apresentavam diferentes idades, e os
espaçamentos não apresentam um padrão regular, muitas vezes dificultando
o crescimento das espécies tendo em vista estarem plantadas muito
próximas umas das outras. Foram escolhidos os resultados das 3 espécies
florestais de maior interesse econômico na região (bandarra, teca e freijó)
para apresentação neste trabalho.
Os resultados de crescimento em altura e DAP da bandarra avaliados
estão apresentados na figura 6. É possível verificar que dos locais
amostrados quinze estavam localizados em Latossolo Vermelho Eutrófico, e
apenas um em Cambissolo Háplico Distrófico. As idades dos plantios
variaram de 09 a 39 anos. As alturas variaram de 8,7 a 21,6 m, e os DAP de
18,5 cm a 67,3 cm. Baseado em dados encontrados por Locatelli et. al. (2010)
em Latossolo Amarelo aos 21 anos com 25 m de altura e aos 14 anos com
23,8 m em Vale do Anari, podemos verificar que as informações verificadas
neste trabalho nestas mesmas idades são inferiores aos do autor citado.
No que se refere ao DAP os dados foram superiores aos encontrados
por Locatelli et. al. (2010) em outro tipo de solo (Latossolo Amarelo) com
36,0 cm aos 21 anos e em Argissolo Vermelho Amarelo com 37,4 cm aos 14
anos em Vale do Anari. Bianchetti et. al. (1998) estudando o
desenvolvimento da espécie em 13 áreas no estado de Rondônia,
encontraram DAP 48,4 cm aos 12 anos; 60 cm aos 15 anos; 65 cm aos 18
anos e 71 cm aos 21 anos dados esses que são superiores aos encontrados
neste trabalho entre as idades de 11 a 22 anos como mostra Tabela 1.
Podem-se justificar as diferenças entre os diâmetros, que os solos
avaliados neste trabalho têm uma boa fertilidade, porém os plantios foram
realizados em consórcio com café e entre outras espécies com espaçamento
inadequado, podendo assim a competição por luz e nutrientes ter
influenciado no desenvolvimento da espécie, enquanto que o DAP médio
encontrado por Bianchetti et. al. (1998) foi em vários tipos de solos e todos
em plantio homogêneos no Estado de Rondônia, o que difere do presente
trabalho.

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 383

Idade HC DAP
Municípios Tipo de solo
(anos) (m) (cm)
O. P. O. Latossolo Vermelho Eutrofico 39 9,6 30,9
M. A. Latossolo Vermelho Eutrofico 22 13,9 47,1
V.P. Latossolo Vermelho Eutrofico 20 9,9 67,3
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 20 10,9 30,7
O. P. O. Latossolo Vermelho Eutrofico 19 14,7 6,6
O. P. O. Latossolo Vermelho Eutrofico 19 10,6 58,5
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 20,2 21,4
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 16,2 42,3
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 16,3 18,5
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 16 13,4 53,4
M. S. Latossolo Vermelho Eutrofico 14 21,6 50,2
N.U. Latossolo Vermelho Eutrofico 14 15,5 39,4
N.U. Latossolo Vermelho Eutrofico 13 16 28,2
N.U. Latossolo Vermelho Eutrofico 11 8,7 33
Cambissolo Haplico
O. P. O. 9 15,7 46,6
Distrofico

Onde HC= altura comercial, DAP= diâmetro a altura do peito, M.A – Ministro
Andreazza, N. U. – Nova União, O. P. O. – Ouro Preto D’Oeste e M. S. –
Mirante da Serra
Fig. 6: Dados de altura comercial e DAP da Bandarra ou Paricá em diferentes sistemas
agroflorestais avaliados, Rondônia, 2009.

Os resultados de crescimento em altura e DAP da Teca avaliados estão


apresentados na figura 7. É possível verificar que dos locais amostrados
todos estavam localizados em Latossolo Vermelho Eutrófico. A idade dos
plantios variou de 11 a 20 anos. As alturas variaram de 6,8 a 11,2 m, e os
DAP de 22,4 cm a 48,5 cm.
Baseado em dados encontrados por Souza (2007), em Latossolo
Vermelho Eutrofico aos 15 anos com 7,1 m de altura em Pimenta Bueno, e
aos 10 anos com 5,2 m em Ouro Preto D’Oeste (Latossolo Vermelho
Eutrofico), podemos verificar que as informações encontradas neste
trabalho entre as idades de 11 a 17 anos são superiores aos do autor citado.

Soeitxawe
384 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

No que se refere ao DAP os dados entre 16 e 17 e 11 e 12 anos foram


inferiores aos encontrados por Souza (2007), no mesmo tipo de solo
(Latossolo Vermelho Eutrofico) com 35 cm aos 15 anos em Pimenta
Bueno; com 32,2 cm aos 10 anos em Ouro Preto D’Oeste.

Municípios Tipo de solo Idade (anos) HC (m) DAP (cm)

V. P. Latossolo Vermelho Eutrofico 20 7,3 39,4


O. P. O. Latossolo Vermelho Eutrofico 19 8,8 34
V. P. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 9,8 22,4
M . S. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 9 48,5
U. Latossolo Vermelho Eutrofico 16 11,2 34,6
N.U. Latossolo Vermelho Eutrofico 12 6,8 40,7
N. U. Latossolo Vermelho Eutrofico 11 11 23,4
N. U. Latossolo Vermelho Eutrofico 11 7,5 29,9

Onde HC= altura comercial, DAP= diâmetro a altura do peito, U – Urupá; N.


U. – Nova União; O. P. O – Ouro Preto d’ Oeste; V. P. – Vale do Paraíso e M.
S. – Mirante da Serra.
Fig. 7: Dados de altura comercial e DAP da Teca em diferentes sistemas agroflorestais
avaliados, Rondônia, 2009

Os resultados de crescimento em altura e DAP do Freijó avaliados estão


apresentados na figura 8. É possível verificar que dos locais amostrados
todos estavam localizados em Latossolo Vermelho Eutrófico. A idade dos
plantios variou de 15 a 29 anos. As alturas variaram de 8,2 a 11,9 m, e os
DAP de 16,7 cm a 22,6 cm. Baseado em dados encontrados por Vieira
(2008) em Latossolo Vermelho escuro aos 13 anos com 16,6 m e em
Latossolo Vermelho Amarelo Distrófico com 23,5 m de altura em
Machadinho do Oeste.
Podemos verificar que apesar da diferença de idade as informações
verificadas neste trabalho com a idade de 15 anos e inferior aos do autor
citado. No que se referem ao DAP o dado obtido neste trabalho com idade
de 15 anos foi inferior aos encontrados por Vieira (2008) em outro tipo de

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 385

solo (Latossolo Vermelho Escuro) aos 13 anos e de 23,5 cm é em Latossolo


Vermelho Amarelo Distrofico e de 27,9 cm em Machadinho D’Oeste.

Municípios Tipo de solo Idade (anos) HC (m) DAP (cm)

V. P. Latossolo Vermelho Eutrofico 29 10,2 16,7


M. A. Latossolo Vermelho Eutrofico 22 8,2 20,3
M.S. Latossolo Vermelho Eutrofico 20 10,2 19,9
O.P.O. Latossolo Vermelho Eutrofico 19 11,9 18,4
O.P.O. Latossolo Vermelho Eutrofico 19 10,6 22,6
M.S. Latossolo Vermelho Eutrofico 17 9,7 25,5
M.S. Latossolo Vermelho Eutrofico 15 10,6 17,5

Onde HC= altura comercial, DAP= diâmetro a altura do peito, M. A. –


Ministro Andreazza; O. P. O. – Ouro Preto d’ Oeste; V. P. – Vale do Paraíso e
M. S. – Mirante da Serra.
Fig. 8: Dados de altura comercial e DAP do Freijó em diferentes sistemas agroflorestais
avaliados, Rondônia, 2009

Considerações finais

Todo o desenvolvimento da pesquisa foi sistematizado de forma que o


leitor compreenda a importância dos Sistemas Agroflorestasis (SAF). No
contexto, destacamos que os sistemas agroflorestais visitados tinham em
média 17 anos de idade. As espécies florestais de maior ocorrência nos
sistemas agroflorestais estudados, foram a saber: bandarra ou paricá, seguida
de ipê, cerejeira e teca. Na sua maioria o café é o cultivo principal.
A procedência dos agricultores visitados são, em sua maioria, dos estados
do Espírito Santo, Minas Gerais e Paraná. Outros Estados brasileiros
figuram em menor número, no entanto, antes de migrarem para o Estado de
Rondônia passaram pelos Estados mencionados, com tempo estimado de
no mínimo entre três e cinco anos de permanência nos mesmos.
Grande diversidade de espécies nos sistemas pode causar um efeito
negativo devido à competição por água, luz e nutrientes entre as espécies.

Soeitxawe
386 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

No decorrer das análises feitas a partir da base de dados geográficos, foi


possível notar em sua maioria, as propriedades estudadas estão alocadas
sobre Latossolos Vermelho Eutrófico, com aptidão agrícola baixa ou regular
para lavouras, com baixa aptidão para o uso de recursos tecnológicos.
Mesmo com a baixa fertilidade encontrada na maioria destes solos, os
produtores tem obtido êxito nas lavouras com a utilização dos SAF, visto a
adubação orgânica das próprias espécies cultivadas, melhorando assim a
produtividade nas propriedades, sem a utilização de adubação química. No
entanto, apesar do nível de fertilidade do solo dos sistemas ser considerado
satisfatório para o bom desenvolvimento das espécies, o espaçamento
inadequado entre as espécies dificulta o crescimento.
A consorciação é uma das alternativas de reduzir a pressão sobre a
floresta e a produção de madeira sustentável, além de recuperar áreas
degradadas e desflorestadas possibilitando um rendimento econômico a
médio e longo prazo aos produtores.
Entre as espécies estudadas, a bandarra ou paricá (schizolobium parahyba
var. amazonicum (Huber ex Ducke)) pode-se destacar como a espécie
promissora para formação de sistemas agroflorestais por ser de importância
econômica, tendo apresentado o maior crescimento em altura e diâmetro em
todas as idades.

Referências

BIANCHETTI, A.; MARTINS, E. P.; ROSSI, L. M.; TEIXEIRA, C. A. D.;


GOMES, I. de M. Sistema de produção de bandarra (Schizolobium
amazonicum (Huber ex Ducke)) no Estado de Rondônia. Macapá:
Embrapa-CPAF-Amapá, 1998. 40p. (EMBRAPA-CPAF-Amapá,
Circular Técnica, 03).
DUBOIS, J. C. L; VIANA, V. M; ANDERSON, A. Manual agroflorestal
para a Amazônia. Rio de Janeiro; REBRAF, 1996. 228 p.
EMBRAPA, Sistema brasileiro de classificação de solos [editores
técnicos, Humberto Gonçalves dos Santos et al. – 2.ed. – Rio de
Janeiro: Embrapa Solos, 2006. 306p.

Soeitxawe
Uso de sistemas agroflorestais em Rondônia 387

FEARNSIDE, P. M. 2009. Degradação dos recursos naturais na Amazônia


brasileira: Implicações para o uso de sistemas agroflorestais. pp.
161-170 In: R. Porro (ed.) Alternativa Agroflorestal na Amazônia
em Transformação. World Agroforestry Centre (ICRAF &
EMBRAPA) Amazônia Oriental, Belém, Pará. 825 pp.
LOCATELLI, M.; VIEIRA, A. H.; MARCOLAN, A. L.; COSTA, A. B. da;
AUZIER Neto, J.; MARCANTE, P. H.; PEQUENO, P. L. de L.
Caracterização Biofísica de Sistemas Agroflorestais em Vale do Anari,
Rondônia, Brasil. In: Reunião Brasileira de Manejo e
Conservação do Solo e da Água, 18, 2010, Teresina. Novos
caminhos para a agricultura conservacionista no Brasil. Teresina:
Embrapa Meio-Norte: Universidade Federal do Piauí, 2010. 1 CD-
ROM.
MENEZES, S. F. M. Sistemas Agroflorestais e Fertilidade dos Solos: uma
Análise da Microrregião de Ariquemes, Rondônia. Porto Velho,
2008. 190f. Dissertação apresentada à Fundação Universidade
Federal de Rondônia para obtenção do título de Mestre em
Geografia.
PORRO, R. Expectativa e desafios para a adoção da Alternativa
Agroflorestal na Amazônia em transformação. pp. 33-52. In: R.
Porro (ed.) Alternativa Agroflorestal na Amazônia em
Transformação. World Agroforestry Centre (ICRAF &
EMBRAPA) Amazônia Oriental, Belém, Pará. 825 pp.
RAMALHO Filho, A.; BEEK, K. J. Sistema de Avaliação da Aptidão
Agrícola das Terras. 3 ed. Ver. - Rio de Janeiro: EMBRAPA-
CNPS, 1995. VIII + 65p.
SPOSITO, E. S. Geografia e filosofia: contribuição para o ensino do
pensamento geográfico. São Paulo: UNESP, 2004. 219p.
SOUZA, J. T. Estimativa de crescimento em diâmetro, altura, volume e
prognose de produção de Tectona grandis L. f. em áreas
reflorestadas no estado de Rondônia. 2007. 30 f. Bacharelado em
Engenharia Florestal, Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e
Letras de Rondônia (Trabalho de conclusão de curso).

Soeitxawe
388 Marilia Locateli; Eugênio Martins & Claudia Cerqueira

VIEIRA, J. F. Caracterização biofísica de sistemas agroflorestais em


Machadinho D'Oeste, Rondônia. 2008. 48 f. Bacharelado em
Engenharia Florestal, Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e
Letras de Rondônia, Porto Velho (Trabalho de conclusão de curso).

Soeitxawe
Associativismo Rural: Um estudo de caso de um laticínio no
município de Alta Floresta D’Oeste – Rondônia

Marlon Martinelli Roberto 1


Profª Drª Kachia Techio 2

Resumo: A demanda por produtos lácteos no Brasil cresceu a uma taxa anual
de 3% ao longo da última década. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (EMBRAPA), cada brasileiro consome, em média, 170 litros de
leite por ano. A principal característica da cadeia produtiva do leite no Brasil e a
sua importância no agronegócio nacional que, além de ser significativa, encon-
tram-se representantes dos segmentos de produção, industrialização e comercia-
lização de leite e derivados em todas as regiões do território nacional, os quais
desempenham papel relevante no suprimento de alimentos e na geração de
emprego e renda para a população. Em Rondônia, a modernização do setor se
inicia com a criação do Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira
(PROLEITE). O objetivo desse programa é a capacitação do produtor familiar e
da sua propriedade para o sistema intensivo de produção de leite a pasto, incen-
tivando o aproveitamento de pequenas áreas, alcançando em pouco tempo,
maior produtividade.
Palavras-chaves: agroindústria leiteira; cadeia produtiva; agronegócio; associa-
tivismo rural.

Justificativa

A pecuária leiteira é uma das atividades mais representativas em pe-


quenas propriedades, tanto economicamente como na utilização da mão
de obra da família.
De acordo com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SE-
NAR), para pequenas propriedades, o leite possui uma maior lucrativida-


1 Graduado em Administração. Faculdade São Paulo
2 Doutora em Antropologia, Docente na Faculdade São Paulo, Orientadora

Soeitxawe
390 Marlon Roberto & Kachia Techio

de em comparação a outras formas de exploração agrícola como o milho,


ou somente a recria e engorda de animais.
Em vista disso, a atividade leiteira apresenta-se como uma boa manei-
ra de diversificar a produção familiar rural. Para isso, se faz necessário
profissionalizar o produtor e o trabalhador rural no sistema de produção
de leite, abordando variáveis como eficiência das pastagens e rebanho.
Isso influencia na competitividade, produtividade e melhoria da qualida-
de do produto.
A cadeia produtiva do leite tem uma grande contribuição na geração
de empregos, renda e tributos, tanto para o pequeno agricultor quanto
para as indústrias de laticínios que se utilizam da matéria prima, o leite,
para fabricar seus derivados como queijos, iogurtes entre outros.

Objetivo geral

O artigo tem por objetivo descrever o histórico organizacional de um


pequeno laticínio fundado a partir de uma associação de produtores de
leite do município de Alta Floresta D’Oeste – RO.

Objetivo específico

Descrever o histórico organizacional


A estrutura administrativa
O processo de produção
Os produtos e mercados
A missão e a visão
A importância do associativismo para pequenos produtores rurais do
município

Metodologia

A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elabo-


rado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Dentre

Soeitxawe
Associativismo Rural 391

suas vantagens e limitações está o fato de permitir ao investigador a co-


bertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que
poderia pesquisar diretamente. Esta vantagem se torna importante quan-
do o problema de pesquisa requer dados muito dispersos pelo espaço. A
pesquisa bibliográfica é indispensável nos estudos históricos. A pesquisa
de campo foi realizada no próprio local, objeto de análise. Dentre suas
vantagens estão o conhecimento direto da realidade; economia e rapidez,
e à quantificação, os dados obtidos mediante levantamentos podem ser
agrupados em tabelas, possibilitando a sua análise estatística. Conforme
Lakatos (2006), método é a maneira sistêmica de ordenar diversos pro-
cessos para finalizar uma determinada tarefa. O presente artigo configu-
ra-se como um estudo de caso, que através dele possibilita-se a estrutura-
ção da pesquisa com embasamento teórico sendo explorado todo o le-
vantamento bibliográfico possibilitando melhor entendimento na análise
dos dados levantados dentro do objeto da pesquisa. A segunda fase dessa
pesquisa pautou-se em entrevistas com os associados que garantiram
maior abrangência sobre o assunto, conhecendo a fundo a história tanto
do laticínio quanto da associação.

Associativismo rural

O associativismo se constitui em alternativa necessária de viabilização


das atividades econômicas, possibilitando aos trabalhadores e pequenos
proprietários um caminho efetivo para participar do mercado em melho-
res condições de concorrência.
Com a cooperação formal entre sócios afins, a produção e comercia-
lização de bens e serviços podem ser muito mais rentáveis, tendo-se em
vista que a meta é construir uma estrutura coletiva das quais todos são
beneficiários. Os pequenos produtores, que normalmente apresentam as
mesmas dificuldades para obter um bom desempenho econômico, têm
na formação de associações um mecanismo que lhes garante melhor
desempenho para competir no mercado.
Segundo o Ministério da Agricultura Produção e Abastecimento
(MAPA), transformar a participação individual e familiar em participação
grupal e comunitária se apresenta como uma alavanca, um mecanismo

Soeitxawe
392 Marlon Roberto & Kachia Techio

que acrescenta capacidade produtiva e comercial a todos os associados,


colocando-os em melhor situação para viabilizar suas atividades. A troca
de experiências e a utilização de uma estrutura comum possibilitam-lhes
explorar o potencial de cada um e, consequentemente, conseguir maior
retorno financeiro por seu trabalho.
A união dos pequenos produtores em associações torna possível a
aquisição de insumos e equipamentos com menores preços e melhores
prazos de pagamento, como também o uso coletivo de tratores, colhei-
tadeiras, caminhões para transporte etc. Tais recursos, quando divididos
entre vários associados, tornam-se acessíveis e o produtor certamente sai
lucrando, pois reúne esforços em benefício comum, bem como o com-
partilhamento do custo da assistência técnica do agrônomo, do veteriná-
rio, de tecnologias e de capacitação profissional.

Objetivos do associativismo rural

Desenvolver um projeto coletivo de trabalho; defender os interesses


dos associados; produzir e comercializar de forma cooperada; reunir
esforços para reivindicar melhorias em sua atividade e comunidade; e
melhorar a qualidade de vida e participar do desenvolvimento de sua
região são alguns dos objetivos do associativismo rural.

Vantagens do associativismo rural

As associações que se organizam e garantem um processo participati-


vo, tendo como principal objetivo o permanente interesse do grupo,
tendem a prosperar. Ao atingirem suas metas, novos horizontes se esta-
belecem, impulsionando suas atividades.
No início, por exemplo, um trator coletivo para a associação; posteri-
ormente, um trator por sócio; a partir daí, a nova proposta passa a ser a
construção de um armazém para guarda da colheita, ou mesmo um ca-
minhão para transportar e vender diretamente ao consumidor. Otimiza-
ção da produção com a redução de custos e a maximização dos lucros
completam a lista de vantagens.

Soeitxawe
Associativismo Rural 393

Associação x cooperativa

A diferença essencial entre associações e cooperativas está na nature-


za dos dois processos. O Serviço de Apoio à Micro e Pequenas Empre-
sas (SEBRAE) caracteriza as associações pela finalidade a promoção de
assistência social, educacional, cultural, representação política, defesa de
interesses de classe, filantropia.
Já as cooperativas têm finalidade essencialmente econômica e seu
principal objetivo é viabilizar o negócio produtivo dos associados junto
ao mercado.
O entendimento dessa diferença é que enquanto a associação está
mais voltada a atividades sociais, a cooperativa foca em atividades co-
merciais em média ou grande escala de forma coletiva.
O SEBRAE ainda enfatiza que a associação tem uma grande desvan-
tagem em relação à cooperativa, pois ela engessa o capital e o patrimô-
nio. Em compensação, tem algumas vantagens que compensam para
grupos que querem se organizar: o gerenciamento é mais simples e o
custo de registro é menor.

Estudo de caso laticínio Nevasca

Em meados de dois mil e sete a Associação dos Produtores de Leite


da 45 (ASPROL 45) teve a iniciativa de planejar a criação de uma agroin-
dústria de beneficiamento de leite. A ideia inicial era somente adquirir
um tanque de expansão para resfriamento de leite, e assim posteriormen-
te analisaram que seria viável agregar valor ao leite cru dando inicio a
industrialização do mesmo. O laticínio possui atualmente quinze associa-
dos, em sua maioria moradora da linha quarenta e cinco quilômetro qua-
tro zona rural do município de Alta Floresta D’Oeste – RO.
Do projeto inicial a inauguração levou um total de cinco anos para ser
implantado totalmente, e começar os trabalhos.
O empreendimento necessitou de recursos estaduais e federais como
auxilio para ser implantado. A nível estadual, a associação recebeu um
caminhão resfriador, o maquinário de pasteurização rápida de quinhen-
tos litros hora e uma motocicleta. Com recursos federais a associação

Soeitxawe
394 Marlon Roberto & Kachia Techio

contou com uma rede elétrica trifásica para abastecer a necessidade ener-
gética do laticínio.
Hoje, a pequena agroindústria contém quatro funcionários: um exer-
cendo funções administrativas e três executando as tarefas técnicas como
a manipulação e o transporte do leite.
Sua missão é produzir e industrializar o leite de seus associados e não
associados, gerando lucro e renda que circule dentro do município onde
se encontra. E como visão, num prazo de quinze anos o laticínio pre-
tende galgar uma posição que o coloque entre os dez maiores laticínios
do estado (na categoria de laticínio administrado por uma associação
rural).
Atualmente o laticínio produz apenas o leite do tipo “barriga mole”
(armazenado em pacote plástico), produzindo entre seiscentos e setecen-
tos litros diários e chegando a dezoito mil litros por mês. Mas as preten-
sões são além da matéria prima láctea, produzir também alguns derivados
como: iogurte, queijo mussarela, queijo frescal e o suco lácteo. Pois de
acordo com a associação esses derivados tem uma demanda maior que o
leite propriamente dito, principalmente no período chuvoso que a pro-
dução leiteira é elevada e, além disso, seria uma forma de aproveitar o
leite que é recolhido após o período de entrega.
Nas situações de perda da matéria prima como, por exemplo azeda-
mento, ele é descartado da produção e encaminhado em forma de ali-
mento para os animais de criação dos associados.
Além de atender o comércio local, o laticínio leva seu produto a al-
guns municípios vizinhos como: Alto Alegre dos Parecis, Novo Hori-
zonte D’Oeste e Santa Luzia D’Oeste.
Segundo os associados, o mercado do leite ainda é promissor em
municípios do interior do estado. Para eles, caso a legislação vigente seja
cumprida rigorosamente pelos fiscais e órgãos competentes, banindo a
entrega de todo o leite sem procedência e processo de tratamento, au-
mentaria significativamente o mercado tanto interno quanto externo para
o consumo de um produto de origem confiável e de qualidade.
Para manter um excelente padrão de qualidade, o laticínio possui um
profissional habilitado titulado como Fiscal de Linha, que tem como
função fiscalizar e orientar o processo de ordenha de todos os produto-
res sócios ou não e garantir que o primeiro processo seja executado den-

Soeitxawe
Associativismo Rural 395

tro dos parâmetros da vigilância vigente. Posteriormente, vem o trans-


porte desse produto de seu lugar de origem até a manipulação. Em se-
guida, já dentro da agroindústria no local de recepção, são realizados
exames laboratoriais para a verificação da concentração de água e acidez
no leite, assim como adulteração por outros meios físico-químicos (anti-
bióticos e patologias). E, por conseguinte, a realização de todo o proces-
so de pasteurização e embalagem de forma estéril sem contato direto
nenhum com os manipuladores de forma que o produto final será total-
mente apto ao consumo humano seguindo todos os requisitos necessá-
rios para a produção.
Indo de encontro com a sustentabilidade, ele possui uma política de
gestão ambiental que o apresenta dentro do código sanitário e ambiental
municipal, no qual o órgão que o fiscaliza é a Secretaria Municipal de
Agricultura.
A associação procura sempre alocar a marca do laticínio em eventos
como: feiras agropecuárias, feira do produtor rural, festas típicas rurais e
urbanas, feira da agroindústria e empreendedorismo, dentre outros.
A administração do laticínio é exercida pelos próprios associados, e
todos os processos decisórios são discutidos em reuniões semestrais ou
extraordinárias quando houver necessidade, sendo os mesmos convoca-
dos por meio de ofício e tudo o que é discutido é registrado em ata.
Sobre a importância do associativismo, os produtores relatam que
dentro da política da associação assim como a concepção de um ser vivo
é necessário a ajuda mútua e integração de vários agentes para uma fina-
lidade comum, atuam sendo assim, no meio financeiro a união de várias
forças em prol do mesmo ideal, gera maior legitimidade, garantindo que
se tenha várias ideias dentro de um mesmo contexto formando um norte
comum a todos os envolvidos, como estes os idealizadores tanto eco-
nômico quanto tecnicamente. Para a economia local o impacto é o de
que várias famílias contribuam para a força de trabalho fazendo a laticí-
nio prosperar, gerando lucro e aumentando a renda destas fomentando a
economia local.
Dentre algumas vantagens que o laticínio trouxe a associação está a
agregação de valor ao produto dos associados que já o tinham como
meio de trabalho e renda. Expor seu produto não só para o comércio
local, mas para cidades vizinhas.

Soeitxawe
396 Marlon Roberto & Kachia Techio

Tempos atrás, a associação era composta por dezessete agentes so-


mente com projetos e ideias visionárias. Hoje com a realidade da criação
da agroindústria, as ideias e projetos teóricos são postos - na medida em
que pautados dentro de reuniões - em prática saindo do papel e se trans-
formando em realidade.

Considerações finais

O presente artigo teve como objetivo fazer um estudo de caso ex-


pondo o histórico e a estrutura organizacional de uma pequena agroin-
dústria de beneficiamento de leite constituída através de uma associação
de produtores de leite do município de Alta Floresta D’Oeste – RO.
Fazer uma análise geral, conhecendo tanto os conceitos de associati-
vismo e cooperativismo, quanto os de administração agroindustrial. Mos-
trando a sociedade as vantagens das associações rurais em criar pequenas
agroindústrias aumentando a renda dos associados e a economia local,
além de incentivar produtores a se associarem e constituírem agroindús-
trias de processamento de qualquer tipo de produto oriundo da agricul-
tura familiar.
Dessa forma, se fizeram necessários uma fundamentação teórica e
prática que promoveu uma melhor compreensão acerca do real papel das
agroindústrias de pequeno porte no município.
Após os levantamentos realizados observou-se que atualmente a so-
lução para os pequenos produtores de leite otimizarem a produção e
aumentar sua renda, é a união para formação de associações rurais. Com
a iniciativa de se criar uma agroindústria de beneficiamento de leite, a
associação se aproxima ainda mais do comércio criando competitividade
e agregando valor ao produto. Assim como o cooperativismo, o associa-
tivismo rural se torna uma importante ferramenta para fomentar a eco-
nomia do município, beneficiando o coletivo.

Soeitxawe
Associativismo Rural 397

Referências

GOMES, S. T. A economia do leite. Coronel Pacheco: EMBRAPA-


CNPGL, 1996. Disponível em:
<http://www.cnpgl.embrapa.br/nova/informacoes/estatisticas/e
statisticas.php>.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia
científica. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2006.
Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – SENAR. Programas. Pecuá-
ria Leiteira –
PROLEITE. Disponível em: <http://www.faespsenar.com.br/>.
фhttp://www.agricultura.gov.br/cooperativismo-
associativismo/associativismo-rural>
фhttp://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/Entenda-as-
diferen%C3%A7as-entre-associa%C3%A7%C3%A3o-e-
cooperativa>

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira e a Comunidade Jongo
Dito Ribeiro – Campinas, SP

MARTINS, Alessandra Ribeiro1


POSURB - Pontifícia Universidade Católica de Campinas – SP - BRASIL
alejongo@gmail.com

Resumo: Neste artigo serão abordados aspectos do processo de transformação


da antiga sede da Fazenda Roseira, Campinas SP, em Casa de Cultura Afro,
como um modelo de como as dinâmicas contemporâneas de reorganização de
espaços fazem da Requalificação Urbana uma interessante ferramenta para
novos usos, inserindo novos personagens e transformando coadjuvantes em
protagonistas de uma nova historia. Foi por meio da ancestralidade evocada
pelas senzalas da Fazenda Roseira que a Comunidade Jongo Dito Ribeiro uniu
os olhares dos integrantes do Jongo para um mesmo caminho dando início ao
processo de Requalificação Urbana no espaço da antiga sede da Fazenda
Roseira. O Jongo, por sua vez, é uma importante manifestação cultural afro-
brasileira, oriunda das senzalas da região sudeste, que se manifesta através da
dança ritmada por tambores e temperada pelos desafios metafóricos cantados
pelos seus praticantes, chamados jongueiros.
Palavras-Chave: Requalificação urbana; Territórios de matrizes africanas;
Patrimônio cultural; Identidade.

Redes, rumos e parcerias

Para compreender a forma como a Fazenda Roseira se transformou


em Casa de Cultura Afro, com ações e atividades tendo como fio
condutor a lei 10639/09, que implementa nos currículos a


1 O artigo resulta de pesquisa de doutorado em curso desenvolvida por
Alessandra Ribeiro Martins com apoio da CAPES e sob orientação do Prof. Dr.
Wilson Ribeiro dos Santos Junior. POSURB - Programa de Pós Graduação em
Urbanismo. Pontifícia Universidade Católica de Campinas. E-mails:
alejongo@gmail.com e wilson@puc-campinas.edu.br

Soeitxawe
400 Alessandra Ribeiro Martins

obrigatoriedade da História da África e da Cultura Negra em espaços de


educação formal e neste caso, informal, é importante atentar ao fato de
que a maioria dos grupos, comunidades, movimentos, redes sociais e
ambientais, religiosos de matrizes africanas envolvidos diretamente nessa
ação faziam parte de uma forte rede pré-existente à ação desenvolvida
junto a Comunidade Jongo Dito Ribeiro.
O Jongo é uma manifestação cultural originada na região sudeste do
Brasil, junto ao processo cafeeiro, principalmente no entorno do vale do
Paraíba. Tem como característica central os pontos (cânticos)
metafóricos, a roda onde um casal dança por vez trocando de lugar
alternadamente e os tambores que são tradicionalmente chamados de
tambú.
Cada comunidade jongueira, tem suas próprias variações rítmicas,
mas tendo sempre a mesma essência na prática circular, metafórica na
intenção de ser uma dança de resistência, ancestralidade e que reafirma
uma identidade negra.
A Comunidade Jongo Dito Ribeiro, que recebeu o nome do ancestral
jongueiro, aqui entendido ancestral como o mentor referencial desta
manifestação no grupo familiar, é formada por um grupo de pessoas e
familiares, que reconstitui a manifestação do Jongo em Campinas/SP
através da memória de Benedito Ribeiro, de rodas com toque, canto e
dança, com o objetivo de compartilhar e continuar com essa cultura
ancestral.
Em Campinas muitos grupos passam a se organizar em torno de
festividades, busca de direitos e ações conjuntas em redes e a
Comunidade Jongo Dito Ribeiro, é um desses grupos, localizadas
territorialmente “do outro lado da cidade” tendo a Rodovia Anhanguera
como uma divisa. A cidade de Campinas, tem nesta rodovia um limite
diferenciado ao acesso de infraestrutura, tratamentos de esgoto,
transporte e outros de ordem pública sempre ofertado em menor escala
que a cidade consolidada do outro lado da Rodovia Anhanguera, que até
recentemente concentrava a classe média e alta, bem como praticamente
todos os recursos de lazer e entretenimento, como de serviços.
Afinal, “A capacidade de utilizar o território não apenas divide como
separa os homens, ainda que eles apareçam como se estivessem juntos”.
(SANTOS, 2000).

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 401

Esses bairros desse grande território da Rodovia Anhanguera


consolidaram seus núcleos em busca pelo fortalecimento comum,
formando uma efetiva rede social que se articula e compartilha a luta
para tornar concretos esses direitos, pertinentes com demandas que
transcenderam a própria territorialidade, espaços, bairros e até as divisões
administrativas e macrozonas estabelecidas.
As redes e parcerias por falta de espaços de atuação, impulsionaram
novas formas de interação, como no caso do Arraial Afro Julino anual
promovido pela própria comunidade Jongo Dito Ribeiro, que mostrou
que a transversalidade de territórios era possível. Até o ano de 2007, esse
evento que atraía mais de 3500 pessoas por ano deslocava suas
atividades do Jardim Roseira para Barão Geraldo, local de realização do
Arraial, provocando a inserção cultural Afro, em outro espaço da cidade,
não o de origem, e possibilitando novas relações entre grupos antes
desconhecidos.
Poderíamos citar aqui algumas das políticas públicas inclusivas dos
“menos favorecidos”, que possibilitaram que a invisibilidade social
aparecesse de modo escancarado e firmaram e afirmaram um novo
quadro nacional, positivo aos movimentos. O fortalecimento dessas
redes está em diálogo com o reconhecimento da necessidade de Políticas
Afirmativas para a População Negra, com a própria implementação da
Lei 10639/03 que promove como obrigatoriedade o ensino da História
da África e do Negro no Brasil, com a lei 11645/08 que contempla a
mesma obrigatoriedade às questões indígenas, os debates e com a
implantação do Software Livre – ampliando as redes e articulações de
maneira global, com o PROUNI – Programa Universidade Para Todos,
as cotas de acesso à Universidade, com a implementação dos Pontos de
Cultura, um investimento efetivo às manifestações e ações culturais, com
as diversas secretarias específicas para discutir e pensar políticas
diferenciadas para essa diversidade nacional, e com o reconhecimento,
ainda em “guerra”, das terras quilombolas entre tantas outras.
Esse cenário nacional possibilitou que se tornasse visível, na cidade
de Campinas, um novo projeto para as matrizes africanas, para a
comunidade negra e demais movimentos sociais, principalmente da
Região Noroeste.

Soeitxawe
402 Alessandra Ribeiro Martins

A Casa de Cultura Fazenda Roseira, a Comunidade Jongo Dito


Ribeiro, o Poder Público e as parcerias

Em 2005, surgiram os rumores de que a Fazenda Roseira daria


espaço a um novo bairro, porém a paisagem da fazenda, repleta de
flores, gado e árvores, permanecia intocada e nenhuma informação
chegou à população local. Entretanto, o Diário Oficial trouxe uma
surpresa, publicando o Decreto n°15961 de 24 de agosto de 2007 com a
aprovação dos Planos de Arruamento e Loteamento da Gleba de Terras
designada por gleba B-2, desmembrada da Fazenda Roseira, criando um
novo bairro denominado “RESIDENCIAL PARQUE DA
FAZENDA”. Entre os artigos, cabe aqui destacar o Artigo 5°, que
registra em seu texto: “ As áreas públicas destinadas a Equipamento Público
Comunitário deverão ser entregues à Prefeitura Municipal de Campinas com
declividade máxima de 5% (cinco por cento) e cercadas com alambrado, cabendo aos
loteadores esta obrigação”.
A divulgação deste Decreto desencadeou conversas e reuniões entre
os grupos para analisar as possíveis consequências, e verificar as ações
pontuais para compreender o significado para a população de um
Equipamento Público Comunitário e para discutir as atitudes necessárias
que poderiam ser tomadas para buscar o estabelecimento de parcerias
junto ao loteador e à Prefeitura Municipal de Campinas para que, enfim,
a Fazenda Roseira saísse do campo privado e abrisse suas porteiras, de
alguma forma, para a população campineira.
Um novo bairro ao fazer parte do crescimento da cidade, ao trazer
novos moradores, ao promover a expansão da região e receber novos
equipamentos, novas possibilidades de inserções e ações, em tese,
poderia fortalecer e possibilitaria uma agilidade de resolução às
precariedades estruturais existentes na área.
A comunidade jongueira passou a acompanhar este processo e, em
janeiro de 2008, fez um amplo registro fotográfico da Fazenda Roseira,
que neste momento já se encontrava desabitada e com algumas peças
pertencentes aos ex-proprietários para serem transferidas do local. Nesta
visita observou-se a presença de um caseiro, contratado pelo loteamento
responsável pelo espaço. Esse primeiro registro foi importante por
apontar as fragilidades e potencialidades da Fazenda Roseira e abrir uma

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 403

primeira porta para acompanhar a implementação do loteamento e do


Equipamento Público Comunitário.
A Lei Federal 6.766/79, assim conceitua os equipamentos
comunitários: “a) consideram-se comunitários os equipamentos públicos de
educação, cultura, saúde, lazer e similares; b) consideram-se urbanos os equipamentos
públicos de abastecimento de água, serviços de esgotos, energia elétrica, coletas de águas
pluviais, rede telefônica e gás canalizado”.
De imediato, esta compreensão unificou os movimentos, redes e
parcerias em torno da Requalificação da sede da fazenda Roseira e para a
instalação da Casa de Cultura Afro neste equipamento destinado a suprir
e abrigar as demandas e diversidades dos vários grupos culturais da
região.
Sabemos que se os loteadores privados transferem a responsabilidade
de dotar a cidade de equipamentos públicos ao poder público (que em
geral não o faz de imediato), respaldados pela citada lei de parcelamento
do solo e apoiados sobre uma política habitacional que reduz a
construção da cidade à simples edificação de unidades habitacionais, cabe
à periferia um cenário deserto de qualidade e vivacidade urbana, onde os
interesses da especulação imobiliária e a ausência de responsabilidades no
cuidar dos interesses públicos escondem graves situações irregulares sob
a ótica do direito ao equipamento público para a população para quem
este se destina e se interessa por sua manutenção.

Proteção contra a depredação também é resistência

A depredação da Fazenda Roseira, que mobilizou a comunidade com


um sentimento de cuidado e ações efetivas pela sua manutenção,
registradas pela comunidade e denunciadas ao poder público, era do
possível interesse daqueles que ganhavam pela venda de tijolos e
madeiramentos.
A lógica da periferia e dos movimentos sociais e afro-culturais busca
qualificar a participação popular, ação não desenvolvida pela prefeitura,
como forma de apoio na consolidação da cidade e de políticas de
desenvolvimentos urbanos mais coerentes com a realidade social e
econômica desta excluída população. E apontar aos arquitetos,

Soeitxawe
404 Alessandra Ribeiro Martins

urbanistas e ao poder público novos caminhos de intervir em nossas


cidades. Uma série de ações foram desenvolvidas para a proteção da sede
vista pelos movimentos sociais, como “patrimônio” Fazenda Roseira.
Na transformação da sede da Fazenda Roseira em casa de cultura e,
através de suas movimentações, observamos que diversas trajetórias se
entrelaçaram com as memórias de uma ancestralidade africana. Trata-se
da história do passado dos ancestrais dessas comunidades e grupos
urbanos desenvolvendo políticas de inclusão social a partir de suas
próprias identidades.
As memórias dos sujeitos que pertencem a esses grupos referem-se a
um passado mais próximo, uma vez que se verifica um resgate da
presença negra na cidade de Campinas. As denominações dos grupos da
cidade, fazem parte da invenção das instituições que “a serviço da nação”
criam denominações desconexas com as aspiradas pela população. Nem
mesmo há uma tentativa de buscá-las nos grupos para fortalecê-las,
muito pelo contrário. Parecem se repetir os mesmos procedimentos
adotados nos séculos anteriores. Desse modo, há uma contradição entre
a noção territorial imposta pelo poder público e o sentimento de
pertença vivenciada pelos mesmos.
Esta é uma vontade que se torna “naturalizada”, já que é colocada
em suas certidões de nascimento desde o instante em que nascem as
pessoas. Apesar do caráter subjetivo, o sentimento de pertença pode ou
não estar ligado a uma ideologia ou Estado. Como é discutido por
Santos quando se refere à territorialidade: “[...] o sentido da palavra
territorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos pertence... esse sentimento
de exclusividade e limite ultrapassa a raça humana e prescinde a existência do
Estado” (SANTOS, p.19, 2001).
A existência de um país supõe um território, mas a existência de uma
nação nem sempre é acompanhada da posse de um território, “existe
territorialidade sem Estado, mas não existe território sem Estado”
(idem). O que diferencia a nação territorial da nação étnica é o papel que
a ideologia desempenha. Na construção do Estado-Nação ela tem o
papel de construir novos símbolos que sobreponham os símbolos dos
grupos étnicos ou raciais.
Para Kabenguele Munanga, a identidade está sempre em processo e
os traços constitutivos dela, são escolhidos entre os demais elementos

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 405

comuns aos membros do grupo: língua, história, território, cultura,


religião, situação social. Segundo este autor, esses elementos não
precisam estar reunidos para deflagrar o processo identitário, pois as
culturas em diáspora têm de contar apenas com aqueles que resistiram ou
que conquistaram seus novos territórios.
A situação presente dos segmentos negros em diferentes regiões e
contextos é utilizada para designar um legado, uma herança cultural e
material que lhe confere uma referência presencial no sentimento de ser
e pertencer a um lugar específico e cultura específica, como o caso das
terras quilombolas.
A garantia das terras de quilombo é uma forma de reparar a
população negra pelos abusos cometidos contra ela, que há muito tempo
vem sendo expropriada dos seus instrumentos de manutenção da vida.
Primeiramente, essa expropriação ocorreu na África, quando foram
retirados de suas terras. Depois, nas fazendas, com a sanção da Lei Áurea
e da Lei de Terras de 1850, em que o escravo recém liberto, sem bem
algum, conforme já dito anteriormente, não tinha como ter acesso à
terra. Atualmente, estas pessoas sofrem pressões dos especuladores
imobiliários para uma terceira expropriação. Mudam-se os atores, mas
não cessa a opressão.
No caso da Fazenda Roseira, os movimentos articulam-se, buscam
sua identidade e fazem deste equipamento público comunitário uma
referência agregadora da cultura afro-brasileira dentro da cidade de
Campinas, criando conexões para além das territorialidades delimitadas.
A opção pela consolidação da identidade negra na construção desse
espaço coletivo articulado entre diversos grupos afins, representantes de
diversas classes, categorias e grupos, reflete o reconhecimento dos
envolvidos quanto às necessidades de políticas afirmativas efetivas na
cidade para os descendentes de africanos e também da necessidade de
lutar pelo território que estava sendo ameaçado, o território da Fazenda
Roseira. Há pessoas na comunidade que se consideram descendentes de
outros grupos étnicos. Porém, os que assumem a identidade negra na
consolidação desse processo embasado pela Lei 10639/03 estão
assumindo, principalmente, a dimensão política dessa identidade. Trata-
se de uma solidariedade que se forma em torno de uma luta comum.
Assumir essa identidade não significa apenas a garantia do território, mas

Soeitxawe
406 Alessandra Ribeiro Martins

também travar uma batalha ideológica contra os estereótipos criados


para inferiorizar a população negra.

Cultura Afro na Roseira e na gestão do equipamento público

A participação da sociedade civil na gestão pública provoca uma nova


reflexão e ao mesmo tempo uma mudança na medida em que incorpora
outros níveis de poder além do Estado, no que se configura como um
direito ao auto-desenvolvimento que pode ser alcançado numa sociedade
participativa que contribui para a formação de uma cidadania qualificada,
gestada pelos próprios sujeitos sem a tutela do poder público.
Esta representação deve se dar a partir da organização coletiva
diversificada e plural, traduzindo as tradições culturais das matrizes
africanas de refletir e compreender que uma transformação social efetiva
só se dá quando todas as esferas envolvidas articulam-se pela efetiva
construção da autonomia horizontalizada e pela afirmação do cidadão
como sujeito pleno.
A possibilidade de alterar a institucionalidade pública está associada
às demandas que se estruturam na sociedade. A esfera pública representa
no contexto da Fazenda Roseira a construção da viabilidade do exercício
da influência e participação dos movimentos sociais e demais parceiros
nas decisões de ordem pública, assim como se coloca a demanda dos
grupos pelo reconhecimento do Estado. O que está em jogo é a
necessidade de atualização dos princípios da democracia, em que o
fortalecimento desta contribua para a consolidação afirmativa dos
mesmos em todas as esferas da vida social.
Ou seja, existe uma crescente necessidade de entender as
ambiguidades dos processos sociais e dos arranjos possíveis, tendo como
referência uma análise qualitativa das práticas sociais e das atitudes dos
diversos atores envolvidos na consolidação do território em disputa,
tanto nas experiências que inovam na gestão, como nas que mantêm
inalteradas as práticas tradicionalmente desenvolvidas.

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 407

O Patrimônio Imaterial (Jongo) e a proteção do Material (fazenda)

Hoje na maioria das metrópoles a questão que se coloca perante o


patrimônio cultural das áreas requalificadas é como equacionar a perda
de seu significado anterior, uma vez que a maioria dos projetos seguiu
uma fórmula indiferente aos usos e sentidos que mantinham com a
população local. E, se esses projetos buscaram tornar os espaços
atrativos para o mercado imobiliário e turístico, a dimensão pública,
entendida como possibilidade de interação entre diferentes, perdeu o
caráter democrático e inclusivo. A segregação sócio-espacial, associada
ao sentimento de insegurança resultante também da intolerância, da
criminalização e estigmatização de certos grupos sociais, fragmentou o
uso dos espaços. Essa segmentação, que parece contradizer a ideia do
espaço urbano como um espaço aberto a todos, existe de fato e é
reforçada em contextos de grandes desigualdades e de tensões sociais,
pois os diferentes grupos sociais tendem a se apropriar dos espaços e em
sua ação revelando antigos e novos conflitos.
As origens da cidade de Campinas estão relacionadas à função que
desempenhava como passagem para o caminho de Goiás, o processo de
ocupação de seu território teve início com uma agricultura de
subsistência bastante rudimentar e um comércio voltado para as tropas
que vinham de Santos e se dirigiam para Minas Gerais, Goiás e Cuiabá.
Com o início do ciclo do açúcar, princípio do século XVIII, baseado
na utilização da mão de obra escrava, a população de Campinas ampliou-
se e diversificou-se. No ano de 1797, a população chegava a 2.107
pessoas, já no decorrer das décadas seguintes a população de Campinas
caracterizou-se pelo grande número de escravos e uma constante alta nas
taxas de crescimento2. Em 1836, mais da metade da população da cidade

2 Segundo a pesquisadora Rosana Baeninger, a taxa de crescimento da
população escrava de Campinas, entre 1874 e 1886 entrou em declínio, alcançou
expressivo valor negativo, 2,6% a. a., representando em 1886, apenas 24% da
população total. Lembrando que a importância da população escrava,
fundamental para o crescimento econômico e populacional do município e do
Estado até meados do século passado, foi perdendo peso à medida que se
intensificou o movimento emancipador.

Soeitxawe
408 Alessandra Ribeiro Martins

compunha-se de africanos escravos mantendo-se a média inalterada


durante as duas décadas posteriores, onde em meados de 1854 a
população de negros correspondia a 57.7% da população total do
município.
A formação do território perpassa o espaço e a forma do espaço é
consolidada segundo as técnicas vigentes utilizadas no mesmo, podendo
ser distinguido pela intensidade das técnicas trabalhadas, bem como pela
diferenciação tecnológica dessas técnicas de produção, uma vez que o
espaço é heterogêneo. Sendo assim o território configura-se pelas
técnicas, pelos meios de produção, pelos objetos e coisas, pelo conjunto
territorial e pela dialética do próprio espaço.
Nesta perspectiva, entendemos o território como Identidade que, por
sua vez, sempre esteve atrelada aos territórios e lugares, como marcas de
status, posição social e influência política. As noções de espaço
geográfico e lugar aqui se definem a partir de Milton Santos, como a
acumulação desigual dos tempos, associada à visão culturalista de
Haesbert, em que o direito à cultura pressupõe o gozo dos direitos civis,
que se relacionam com as manifestações livres do pensamento, como o
direito de ir e vir, e, portanto, de acesso livre aos diferentes territórios da
cidade.

Desde a economia cafeeira do século XIX, Campinas possuía o


maior entroncamento ferroviário do estado de São Paulo,
excetuada a capital, permitindo nuclear uma ampla rede de
cidades, inclusive atingindo cidades mineiras, como Poços de
Caldas, por exemplo. Com o declínio do transporte ferroviário e a
ascensão do transporte rodoviário, Campinas passa a contar com
importante sistema de rodovias expressas de São Paulo, atrás
apenas da capital. Criava-se no território campineiro e em seu
envoltório as condições infra-estruturais, econômicas e
demográficas para o estabelecimento de uma rede urbana que
assumiria paulatino caráter metropolitano”. (QUEIROGA, p.22,
2008)

A Região Metropolitana de Campinas (RMC) surgiu com o processo


de interiorização do desenvolvimento econômico do Estado de São
Paulo e da região metropolitana de São Paulo (RMSP), que teve como

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 409

características a intensificação da industrialização e a modernização das


atividades agropecuárias articulada com as atividades industriais e
terciárias. Para que esse processo ocorresse, a Rodovia Anhanguera teve
papel fundamental, uma vez que foi o principal eixo inicial de localização
industrial. Por ter passado por esse processo de crescimento e
desenvolvimento, de forma acelerada, a RMC apresenta hoje alguns
desequilíbrios típicos de regiões metropolitanas brasileiras.
Do trabalho escravo ao trabalho livre, foram desenvolvidas diferentes
forças produtivas e as modificações desse espaço acarretaram
alternâncias cada vez mais rápidas e profundas, gerando novas formas de
configuração espacial e de produção. À desigualdade espacial
incorporou-se a desigualdade social. No espaço urbano, fundamentam-se
os interesses do capital, a ação do Estado e a luta dos seus ocupantes
como forma de resistência contra a segregação e pelo direito à cidade,
que é formada pelos seus diferentes bairros, cada um com estrutura
própria, particularidades, histórias que reúnem diversidades, numa vida
cotidiana coletiva com atividades que criam e moldam as dinâmicas do
fenômeno do seu contexto urbano.
A inserção de condomínios em áreas isoladas e periféricas, de baixa
densidade, é justificada pelo desejo da classe mais abastada de fugir dos
problemas oriundos do centro urbano e a possibilidade de retornar a
morar em casas dentro de um sistema vigiado e fortificado. Estes
aspectos são enaltecidos e vendidos como algo positivo, porém acabam
culminando no enclausuramento e na exclusão social, somados ao fato
de que esse deslocamento de famílias de classe media nas periferias acaba
por expulsar os moradores dessa mesma periferia para lugares mais
distantes, acarretando na cidade um crescimento marcadamente
periférico em torno destas espacialidades.
O patrimônio simbólico do negro brasileiro nestas circunstancias
urbanas firmou-se no Brasil como território político-mítico-religioso,
para a sua transmissão e preservação. E um dos suportes mais sólidos
aos escravos, para a manutenção desta preservação e transmissão, foi o
pátio da senzala, símbolo de segregação e controle, que se transformou
em terreiro, como lugar de celebração das formas de ligação da
comunidade (ROLINK:1977). A ocupação de grupos culturais do
segmento afro na construção da Casa de Cultura na sede da Fazenda

Soeitxawe
410 Alessandra Ribeiro Martins

Roseira torna-se simbólica ao buscar preservar esta tradição. E revelam


as dimensões de um processo metropolitano no qual as camadas
periféricas deste grupo étnico, antes segregadas pela política de limpeza
dos centros urbanos na pós-abolição, formaram laços de solidariedade e
se instrumentalizaram como sujeitos ativos na disputa pela participação
da construção de políticas públicas da cidade, de modo a possibilitar que
esse processo seja vivido como um embate efetivo pelo território.
À medida que a cidade cresce e avança para novas áreas, novas
formas de vivências são consolidadas com características próprias que
foram desenvolvidas por essas relações pré-existentes ao avanço da
cidade e visibilizam novas e antigas culturas antes escondidas, como é o
caso da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, no Jardim Roseira.
Esse trecho da cidade caracteriza-se pela grande dinâmica de
circulação e pelo maior crescimento urbano na Região de Campinas nos
últimos anos. Sabemos que foi em 1840 que Campinas foi elevada à
cidade e o café passou a ser a fonte de renda principal da província e o
primeiro produto do Império Brasileiro, alicerçado no trabalho escravo.
Em 1850, intensificou-se a produção cafeeira local. Em 1854, o
município possuía segundo Áurea Pereira da Silva, cerca de 6 mil
escravos sub-divididos em 177 fazendas com produção de 335 mil
arrobas.
O tratamento aos escravizados era muito rigoroso, com torturas,
sendo a vinda de um escravo para o território campineiro considerada
pelos próprios escravizados como um grande castigo.

Sesmaria, Fazenda, Casa de Cultura Afro Fazenda Roseira

A família dos Teixeira Nogueira teve acesso a cinco sesmarias na


região de Campinas, segundo o historiador Omar Simões Magro, citado
no livro de Pupo (1983). Sua principal propriedade foi o “Sítio Grande”,
nome mudado mais tarde para Engenho do Chapadão e Fazenda
Chapadão na época do café.
No ano de 1867, o capital derivado do café financia a Ferrovia
Paulista que começa a operar em 1872. Só a partir de 1870 é que
apareceram na região as máquinas de beneficiar café. Nessa época a

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 411

Revolução Industrial e tecnológica começa a despontar e, com o advento


das ferrovias, Campinas torna-se de 1871 a 1879 o centro da
movimentação financeira entre o interior paulista, São Paulo, Santos e
Rio de Janeiro.
Esta situação possibilitará ao fazendeiro tornar-se capitalista,
comerciante, banqueiro e manter grandes propriedades agrícolas com seu
capital. A mão de obra escrava passou a ser afastada e os imigrantes iam
se fixando como colonos agrícolas, mas não tinham condições de
adquirir terras devolutas. O sistema de latifúndio nas mãos da
aristocracia dominante na segunda metade do século XIX conduziu o
rumo da abolição dos escravos para o trabalho assalariado, que daria
abertura ao capitalismo no Brasil.
A extração mineral da areia e da argila prosseguia pelo Vale do
Capivari nas décadas de 20 e 30. Nessa época, o Campo Grande já era
uma região bem desmatada, de baixa produtividade agrícola e com a
população dispersa no território.
Nas primeiras décadas do século XX, surgem novos bairros
residenciais e operários e ocorre o crescimento da malha urbana. São
criadas avenidas ligando bairros da região sudoeste à zona mais central
da cidade.
A existência de um pequeno número de sedes de antigas fazendas no
Campo Grande e nas localidades próximas induz à afirmação de que as
lavouras de café ali implantadas tiveram um ciclo curto devido ao
esgotamento de solo e à baixa produtividade.
Nas décadas de 30 e 40, houve crescimento da construção civil e isso
incentivou a ampliação da indústria de cerâmica. Para Amarante (2002),
ao redor das jazidas e das olarias começaram a surgir núcleos de casa
para trabalhadores dessas indústrias que funcionavam no Vale do
Capivari e no Baixo Piçarrão. Nos anos 40 e 50, o Campo Grande
passou a participar em pequena escala do abastecimento da cidade com
alguns hortifrutigranjeiros. No entanto, as vias de acesso entre a região
rural e urbana eram precárias.
Até 1946 o Poder Público conseguiu gerenciar os padrões urbanos de
ocupação e dos espaços vazios do perímetro urbano da cidade. A partir
da segunda metade dos anos 40, as transformações urbanas, motivadas
pela implementação de grandes indústrias, resultaram no aumento da

Soeitxawe
412 Alessandra Ribeiro Martins

população urbana. Em 1948 é inaugurada a Via Anhanguera que iria


facilitar o movimento e a circulação viária na região. Os limites da zona
urbana iam do sudoeste até ao Parque Industrial e Jardim Pompéia, a uns
12 km do núcleo do Campo Grande naquela época.
Os empreendimentos imobiliários na periferia se distribuíram ao
longo da nova estrada de Viracopos, atualmente, Rodovia Santos
Dumont, concentrando-se também ao longo das antigas estradas. Os
empreendimentos industriais foram feitos, em geral, nas avenidas e
estradas a sudoeste da cidade de Campinas. O impulso para a sua
ocupação definitiva foi a instalação da fábrica de pneus Dunlop, na área
do espigão divisor de águas do Rio Capivari e do Córrego Piçarrão. A
construção dessa avenida levou a prefeitura a construir uma ponte sobre
o Córrego Piçarrão e, em 1953, a abrir uma avenida que passa sob a Via
Anhanguera. O Campo Grande com as duas obras passou a ter um
acesso próprio ao núcleo central da cidade, sem depender da antiga
estrada do Campo Grande ou da Avenida das Amoreiras ou Estrada de
Santa Lúcia.
Em 1980, 89% da população do Estado de São Paulo passou a viver
nas cidades. As melhores condições urbanas se tornaram um mecanismo
de valoração dos espaços dentro da cidade, moldado pelas políticas
adotadas no sistema de propriedade de terras, ditando os padrões e
políticas que regem o capital imobiliário. O crescimento urbano levou à
especulação do espaço urbano, redefinindo a cidade. Novos loteamentos
foram implantados, urbanizando e ocupando espaços de pequenas e
médias propriedades. Os locais, onde as terras eram consideradas mais
baratas, foram sendo ocupados passo a passo nas proximidades e além
da Via Anhanguera. O mesmo fato ocorreu nas cercanias das indústrias,
que foram aos poucos recebendo benefícios da Prefeitura Municipal.
A Fazenda Roseira é um importante ponto de observação para
compreendermos a história do caminho e da ocupação urbana da região
sudoeste de Campinas. Sofreu diversas retaliações, em que a sucessiva
venda de glebas está de acordo com os interesses imobiliários, que
direcionam a transformação de zona rural em área urbana e ao mesmo
tempo assumem novas representações, mediante a interferência das
novas populações que ali se instalam.

Soeitxawe
A Casa de Cultura Fazenda Roseira 413

Essa população cresce e estrutura, ao longo da periferia sudoeste de


Campinas, novos quadros e novas referências antes inexistentes.
Atualmente, o que restou da Fazenda Roseira compreende uma área que
tem como vizinhos os bairros Jardim Roseira, Jardim Ipaussurama, Vila
Perseu Leite de Barros, todos às margens da Av. Jonh Boyd Dunlop e
que antes fizeram parte da mesma fazenda.
A Fazenda passa por mais um processo de transformação que talvez
seja o último, dado que as sucessivas vendas deixaram como marco
histórico apenas a sede desta propriedade e alguns galpões, totalizando
uma área de 15901.07 metros quadrados, que se soma a uma área anexa,
com Área de Preservação Ambiental Permanente (APP).
Verificamos que suas terras assumem funções diferentes diante do
processo de expansão do sudoeste, sofrendo diversos
desmembramentos, registrados em sucessivos inventários. O
parcelamento e a venda de terrenos pertencentes à Fazenda Roseira,
ampliados pela especulação imobiliária, transformam e requalificam essa
extensa área rural em urbana.
A Casa de Cultura Fazenda Roseira – Afro, nessa perspectiva, reflete
o amadurecimento da Comunidade Negra em Campinas, que a partir do
pertencimento comum, consegue distanciar das pessoalidades e questões
partidárias e dar um passo a frente, na construção de um Projeto
Sociocultural, Educacional e Ambiental para a afirmação, formação e
pela valorização da cultura afro brasileira em sua mais ampla diversidade.
Um processo autônomo e coletivo, que efetivamente incomoda
alguns integrantes do grupo gestor e intelectuais campineiros, que
desenvolvem ações para contê-lo. O que está em jogo nesta disputa de
poder não é quem vai gerir este espaço como um todo. Essas ações
possibilitaram uma reflexão quanto ao papel da participação e
fortalecimento da cidadania, existente nos municípios brasileiros e
fomentaram a discussão sobre a segregação espacial, circunscrita na
dimensão territorial, como parte explicada pela pobreza e os resíduos
associados à segregação sócio-espacial.
Neste cenário, percebemos como as diversas forças tensionam o
cotidiano nas grandes cidades, e da emersão de novas formas de
organizar o território, no qual a cidade de Campinas se insere, e a
Requalificação da Fazenda Roseira transformada em Casa de Cultura –

Soeitxawe
414 Alessandra Ribeiro Martins

AFRO, num espaço dado como Equipamento Público Comunitário


possibilita um novo caminho para compreender a representação dessa
Metrópole atual.
A Fazenda Roseira reflete o conjunto de bens produzidos pela
humanidade na arquitetura ali presente e é testemunha da formação da
memória histórica do povo negro na cidade de Campinas e da
construção da identidade da Comunidade Jongo Dito Ribeiro e todos os
grupos e movimentos parceiros envolvidos.
Reflete a identificação dos cidadãos com a cidade. É por meio das
lembranças dos lugares que as nossas experiências se fixam na memória,
conforme lembrado por Pierre Nora, a sensibilidade, pertencimento não
é apenas uma condição legal, mas também compartilhamento de
experiências e de vivência dos lugares.

Referências

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416 Alessandra Ribeiro Martins

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Soeitxawe
A crise do sentido de existência dos jovens Tukano1

Sidiclei Viana Meireles2


MSc. Antonio Enrique Fonseca Romero3

Resumo: Neste artigo abordamos a temática da “crise do sentido de existência entre


os jovens da etnia Tukano usuários de álcool e drogas” na perspectiva da filosofia exis-
tencialista. Introduzimos a temática a partir dos estudos do conceito de existên-
cia em Heidegger e a busca de sentido em contexto de crise cultural. Aprofun-
damos o tema a partir das literaturas específicas relacionadas com as questões
culturais dos jovens da etnia Tukano observando as implicações resultantes do
uso do álcool e outras drogas que contribuem para acentuar a crise de sentido de
existência. Por último, realizamos um estudo comparativo entre a filosofia exis-
tencial de Heidegger e a Psicoterapia Existencial Humanista de Viktor Emil
Frankl com o objetivo de identificar possibilidades de compreensão do fenôme-
no de crise existencial e apontar alguns caminhos para a superação do problema,
bem como para a ressignificação do sentido da existência em contexto indígena.
Todavia apontando um caminho no qual as políticas públicas direcionem no
promover projetos para a juventude do município de São Gabriel da Cachoeira
no Estado do Amazonas, Brasil.
Palavras-chave: Crise de Sentido; Jovens; Etnia Tukano.

1. Realidade etnocultural do povo Tukano

Iniciamos a reflexão chamando a atenção para a necessidade de se


buscar meios para a compreensão de sentido de existência entre os

1 Trabalho apresentado no I SOEITXAWE - Congresso Internacional de
Pesquisa Científica na Amazônia, realizado entre os dias 1 e 3 de Maio de 2015,
Cacoal, RO/Brasil.
2Acadêmico do Curso de Filosofia do Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino
Superior da Amazônia – ITEPES. E-mail: sid.meirelesviana12@gmail.com
3Docente do Curso de Filosofia do ITEPES e do Curso de Direito da
ESO/UEA. E-mails: aromero@uea.edu.br, anenforo65@hotmail.com

Soeitxawe
418 Sidiclei Meireles & Antonio Romero

jovens da etnia Tukano. Uma das pistas mais importantes vem do


próprio Heidegger em sua abordagem sobre o “desencantamento do ser”
entre os jovens dependentes de álcool e outras drogas. Resta-nos tentar
entender se o desencantamento é consequência da dependência ou se
tornaram-se dependentes por causa do peso do desencantamento.
Nesse estudo sobre o sentido de existência dos jovens da etnia
Tukano veio à tona a questão da perda da identidade etnocultural de um
povo que, desorientado com as influências do mundo consumista e
capitalista vem desconstruindo o sentido de estar no mundo, o que
poderia ser a situação de desencantamento. Nessa perspectiva, o uso e a
dependência do álcool seria apenas uma consequência de uma crise
existencial e os jovens estariam buscando na dependência uma forma de
suportar a crise que é muito mais complexa do que aparenta ser.
A preocupação com essa situação tão complexa resulta nesta breve
reflexão que traz para dentro da academia o desafio de estudar à luz da
ciência, a situação de tantos jovens mergulhados numa crise existencial
sem precedentes entre o Povo da Etnia Tukano. Para compreender
melhor essa situação, partiremos do estudo do próprio grupo para
avançar nas possíveis análises.
Ao adentrarmos na análise da crise do sentido de existência do jovem
Tukano frente ao problema do uso do álcool e de outras drogas,
abordaremos a literatura dos povos da etnia Tukano do Alto Rio Negro,
destacando como viviam no período pré-colonial, sendo afetados por
uma política de dominação e exploração perdendo a identidade do ser
indígena, com a consequente redução da inexistência como homem,
humanizado.
O povo Tukano representa um dos povos originários tradicionais
existentes há milhões de anos com suas culturas, rituais e crenças nas
mitologias sagradas, onde grandes pajés guardam sua sabedoria,
transmitindo aos filhos, para manter a existência dos valores culturais.
Situados na região do Alto Rio Negro, município, hoje, de São
Gabriel da Cachoeira - Amazonas, os Tukanos vivem como as outras
etnias existentes. São povos milenares do Alto Rio Negro, abrangendo
três distritos com maior população indígena da etnia Tukano, tais como,
Pari Cachoeira, Taracuá e Iuaretê, formando o “Triângulo Tukano”. Esses

Soeitxawe
A crise do sentido de existência dos jovens Tukano 419

pontos referenciais são subdivididos em pequenas comunidades


ribeirinhas inerentes a essas três sedes distritais.
Assim esses povos vivem geograficamente na região de São Gabriel
da Cachoeira, a 860 km de Manaus (AM). Há indígenas de 22 etnias
nessa região e se comunicam com cerca de 20 línguas, inclusive o
Tukano4.
A região do Alto Rio Negro, faz fronteira com dois países vizinhos
com o Brasil: Venezuela e Colômbia. Nota-se que São Gabriel da
Cachoeira possui a maior parte da população indígena, com diversas
línguas faladas. Segundo Pires (2012) “de um total de 37.300 habitantes, no
município de São Gabriel da Cachoeira, 29.017 são indígenas, o equivalente a quase
80% da população”. Trata-se de uma região marcada pela diversidade
cultural de povos tradicionais.
A pesquisadora Lenita de Paula Souza de Assis no seu artigo sobre
“Da Cachaça à libertação: Mudanças nos hábitos de beber do povo Dâw no Alto
Rio Negro” (2001: 30) coloca a filiação linguística da população do Alto
Rio Negro dividindo da seguinte forma:

Família
Povos
Linguistica
a) Arauk Baniwa, Tariana, Kuripako, Baré, Werekena.
b) Maku Hupda, Yuhup, Nadob, Kuyawi, Dâw.
Tukano, Desana, Piratapuia, Tuyuca, Barasana,
c) Tukano
Kubeo, Uanano, Arapaso, Makuna, Karapanã, Miriti-
Oriental
Tapuia, Siriano.

Fig. 1: Lenita de Souza


4 Em uma matéria publicada em 2009, a Folha de São Paulo, descreve a região
afirmando que: Banhados pelas águas do Rio Negro, a cidade está localizada na
tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, na região conhecida
como Cabeça do Cachorro. Pela proximidade física, os gabrielenses
incorporaram o espanhol em seu caldeirão linguístico.

Soeitxawe
420 Sidiclei Meireles & Antonio Romero

Essa divisão linguística da população do Alto Rio Negro mostra o


quanto esses povos são milenares. No entanto, os Tukanos convivem
com outras etnias como citamos. De acordo com o costume, o homem
Tukano pode casar com mulher da outra tribo ou etnia e não com moça
da própria etnia dele, assim estará quebrando a regra da cultura Tukano,
por isso as tribos habitam de forma misturada nas comunidades
indígenas. No entanto antes do contato dos colonizadores, eles
praticavam seus costumes, havia muitas guerras entre diferentes tribos
por causa das terras e outros tipos como está escrito na mitologia sagrada
dos Tukanos Hausirõ Porã, que habitam nos territórios do Rio Tiquié e
Uapés com outras tribos e praticam os seus costumes.

Era costume fazer expedições para tentar tirar os ornamentos e


outros bens que outros possuíam em suas malocas: penas de
arara, carajuru, cuias, chocalhos e redes de trinta fios e outros.
Tomavam muitas coisas (AZEVEDO; NASCIMENTO, 2003:
235).

Com a entrada dos colonizadores, essa região foi se fragmentando do


ponto de vista cultural, entretanto se concentraram mais em São Gabriel
da Cachoeira na sede, ficando também nas comunidades como Pari-
cachoeira, Taracuá e Iuaretê, sendo muito explorados antes das missões
pelos garimpeiros e seringueiros.
Assis (2001: 22) aborda de que o Alto Rio Negro tinha sido área de
perambulação missionária desde o século XVII, através de missionários
Jesuítas, Franciscanos, Carmelitas, e Capuchinhos, que depois desistiram
de implantar as missões voltando para baixo Rio Negro, logo após a
colonização portuguesa se deslocou por lá.
Conhecidos como abertura dos garimpos e exploração de seringa,
aonde os povos indígenas de modo geral do Alto Rio Negro chegaram a
submeter a esta política dominadora, havendo, desse modo, muitas
resistências, alguns grupos fugiam nas florestas. No livro “Educação
Escolar Indígena”, trata sobre esses acontecimentos afirmando que,

a história do contato dos povos indígenas da região do Rio Negro


inicia-se no século XVIII com uma sistemática exploração da
mão de obra indígena, relacionada à construção das vilas e

Soeitxawe
A crise do sentido de existência dos jovens Tukano 421

centros coloniais, à extração das drogas do sertão e,


posteriormente, à exploração de borracha. Tem como
consequência a introdução de doenças infeccionais como gripe,
sarampo e varíola, que dizimaram boa parte da população. A
presença missionária na região também se inicia no século XVIII,
com Jesuítas, Carmelitas e franciscanos, culminando com a
instalação permanente das missões salesianos no século XX
(CABALZAR, 2012: 28).

Com o ingresso dos missionários Salesianos em 1910, houve a criação


de internatos nas comunidades indígenas em são Gabriel como sede, e
outras como paróquias, Taracuá, Pari-Cachoeira e Iauretê, pela qual esses
missionários proibiram o uso dos costumes dos povos tradicionais,
especialmente dos Tukanos.

Começaram a catequizar e animar o trabalho. Criou-se um regime


de missão, rígido. Mandou os que já moravam lá, inclusive os
velhos, jogarem fora o que tinham, como ornamentos, caxiri,
caapi, tudo o que ele dizia ser do diabo. Consideravam os
adornos de dança (mapoari) como cabelos do diabo. Procuravam
desmoralizar a cultura, proibindo tudo. Tinha um velho que,
mesmo assim, mandou fazer caxiri, por que era nosso jeito de
viver. Os brancos também têm suas bebidas para animar, o caxiri
é nossa cultura (AZEVEDO; NASCIMENTO, 2003: 252).

Através disso, podemos perceber o sofrimento desses povos, o


domínio dos colonizadores sobre as culturas deles, a desvalorização do
outro como um ser insignificante. Por estas razões expostas, nos
propormos com a perda de uma cultura que, antes da chegada dos
interesses político-econômicos, viviam o seu próprio ethos cultural.
Nossa pesquisa tem a preocupação de destacar que hoje em São
Gabriel da Cachoeira, vivem 2.067 (FUNASA, 2010) Tukanos em
situação emergente, pois o álcool e as drogas estão esvaziando o sentido
etnocultural de um povo que já viveu e vive de seus costumes. A
literatura e as pesquisas sobre o uso de álcool e drogas na comunidade
dos Tukanos revelam o quadro da dizimação da população indígena,
chegando ao ponto de cometerem suicídio por causa do uso dessas

Soeitxawe
422 Sidiclei Meireles & Antonio Romero

substâncias tóxicaas. A situação se agrava por falta de políticas públicas e


de ação educativa e preventiva governamental.
A doutora em Antropologia Weigel, afirma na sua apresentação, no
livro escrito pelo indígena Gabriel dos Santos Gentil, “Povo Tukano
Cultura, História e Valores”, que,

Os Tukanos, como os outros povos, estão inseridos num amplo


processo de transformação cultural e socioeconômica,
vivenciando mudanças operadas em sua organização social e
política, cosmologia, concepções míticas e estéticas, magia, ritos,
bases materiais e língua, produzidas por múltiplas relações tecidas
ao longo da história do conflito com os brancos, há alguns
séculos (WEIGEL, 2002: 25).

Constatamos que os povos Tukanos como outras etnias do Alto Rio


Negro, através da imigração da cultura dos “brancos” na cultura
tradicional dos indígenas em relação da entrada do alcoolismo e drogas,
tiveram e têm muita influência na vida desses povos autóctones
tornando-se os jovens Tukanos escravos do consumo excessivo,
perdendo o sentido de sua existência etnocultural.

2. O sentido da existência e a perda da identidade etnocultural


diante do uso de álcool e drogas

A juventude da comunidade Tukano, se apresenta hoje com maior


quadro do abuso de álcool e drogas, que impedem a construção do
sentido de existir, não assumindo o sentido de estar-no-mundo, com
despreocupação de valorizar suas culturas que depende primeiramente
do sentido da existência do jovem que ao perder sentido de viver,
desvaloriza o âmbito cultural dentro da comunidade Tukano. Há muita
fuga ao se falar destas problemáticas de alertar do sentido de existir, por
não projetarem o futuro de maneira clara no presente.
O fundador da Logoterapia, Viktor Frankl, tem contribuído com sua
reflexão na busca de sentido, sua colaboração é muito pertinente aqui
nesta abordagem da crise da existência ao colocar três sintomas básicos
dessa problemática como podemos perceber abaixo:

Soeitxawe
A crise do sentido de existência dos jovens Tukano 423

Aqui temos, caracterizado pelo senso comum, os três sintomas


básicos da neurose coletiva atual: depressão, agressão e adição
(dependência de drogas). Comecei esta conferência com as
palavras do taxista, aliás muito exatas porque, sobretudo no sul da
Califórnia, se pode comprovar que taxas de suicídio, de
dependência de drogas e de criminalidade entre juventude
universitária crescem sem parar (FRANKL, 1989: 7).

Com esta afirmação do Frankl podemos comparar com a situação das


problemáticas dos jovens da comunidade Tukano, numa análise
existencial no qual há uma crise da existência do jovem Tukano que
perdeu o sentido de viver, nas comunidades começa a surgir, assim como
dentro da família, a agressão e a depressão, com o abuso de álcool e
drogas.
Por estes motivos de problemas da vida sem sentido, Frankl, destaca
as causas, a razão desses confrontos dos jovens com essa grande
dependência no sofrimento de existir, da sua própria natureza, de que a
natureza do homem consiste na sua existência, mas este se esquece dessa
existência do seu ser-no-mundo no momento que desvia de si, se perde
entre os entes o seu ser, como está ocorrendo com os jovens Tukano.
Pensamos que falta a indagação, a autoavaliação do próprio sentido
de existir, essa busca de sentido consiste, segundo Frankl em:

Perguntar-se qual é o sentido da vida, é um ato especificamente


humano, nenhum animal tem dúvidas acerca do sentido da sua
existência; e mais humano ainda é questionar se a vida tem algum
sentido. Tal atitude é, além disso, um sintoma de
Amadurecimento espiritual: significa que a pessoa não se limita
genericamente ao que lhe dizem os ideais e os valores
tradicionais, mas tem coragem de lutar por um sentido pessoal, de
procurá-lo por conta própria, com autonomia (Ibidem, 13).

Frankl, nesta sua afirmação coloca claramente, o sentido da


existência, referindo-se ao homem, de questionar se a vida tem sentido,
pergunta que eleva o homem na busca de um amadurecimento interior,
como na consciência de si, da sua responsabilidade no mundo, de viver
de maneira responsável com atitudes de humano, com autonomia,
primeiramente pessoal, e logo, a se voltar na valorização de sua cultura,

Soeitxawe
424 Sidiclei Meireles & Antonio Romero

com esse seu sentido de estar no mundo sem nenhuma dependência de


sofrimento no álcool e drogas.
Os jovens tendo essa capacidade se si voltar para sua realidade, de
construir a vida e, o seu sentido de viver no mundo, não exercitam o seu
pensamento, perante o sofrimento, permanecem na mesmice de
dependência de álcool e drogas, perdendo a essência do ser no
esquecimento, numa vida inautêntica. Compreende-se também, que não
se dá o sentido aos outros, é uma obrigação particular pessoal de se
descobrir o seu existir, só se tem uma orientação para caso de
sofrimentos ou em alguma dependência sem nenhuma solução. José
Carlos Vitor Gomes comentador do livro Logoterapia Psicoterapia
Existencial Humanista de Viktor Emil Frankl coloca da seguinte maneira
sobre o sentido:

A vida já tem um sentido a partir do momento em que somos


atirados neste mundo. Falta a cada um descobri-lo. Esta é a
intenção da logoterapia. [...] Mas o sentido que estamos
procurando está no nosso interior. É uma vocação, um apelo,
uma espécie de chamamento que nasce do íntimo de cada ser
humano, porque é na intimidade de cada um que ele está
plantado (GOMES, 1987: 28).

Heidegger demonstra no seu pensamento que ao ser o homem


jogado no mundo sem nenhuma prévia da criação divina, ele é o próprio
responsável pela sua existência, ser lançado no mundo que se projeta
além de si, sendo a morada do ser.
Com esta concepção heideggariana correlaciona-se o pensamento de
Frankl, pois este, tem essa mesma proposta de compreensão de homem
sendo lançado no mundo, ou seja, atirado no mundo; tendo cada um a
consciência de descobrir o seu sentido de existir, este se faz presente no
interior, como Heidegger coloca o ser que se faz presente dentro do
homem e que se manifesta com a abertura do próprio do homem de si,
descobrindo a essência do próprio ser que se encontra velado e com o
desvelamento de si o homem se torna humano, aquele que na vida
autêntica existe, realiza no mundo, para o mundo, com o mundo.
A Crise dos Jovens Tukano dá-se quando estes se prejudicam com a
vivência do dia-a-dia na sua cotidianidade na comodidade, sem nenhuma

Soeitxawe
A crise do sentido de existência dos jovens Tukano 425

perspectiva de vida, sendo dominados pelo mundo do álcool e drogas.


Diante dessas problemáticas questionáveis, inquietações para nosso
estudo para reflexão, sobre as situações indecentes, Viktor Frankl coloca
propostas no seu livro Sede de Sentido, como a importância do “A vontade
de sentido”,

Pessoalmente, penso que tal situação só é possível se aceitarmos


que o ser humano, no fundo e, portanto essencialmente, ou pelo
menos originariamente se move e é motivado por uma “vontade
de sentido”, como costumo chamá-la. Noutras palavras: essa
frustração mundialmente difundida, que caracterizamos como
vazio existencial, só se compreende dentro do contexto de uma
teoria motivacional que mostre o homem como “um ser à busca
de sentido”, um ser que quer encontrar para toda a sua existência
e para cada situação no interior da mesma um sentido, e que
depois quer realizá-lo (1989: 15).

No interior do ser humano, quando se está numa frustração


existencial, o qual assim chama Viktor, há uma “vontade de sentido” que
permanece oculta, pois, isso trataria o homem a compreender o seu
vazio existencial, reconhecendo que é um ser da busca de sentido, numa
perspectiva de constante permanência para sua existência, portanto,
interiormente um sentido a se desvelar para o homem se realizá-lo
humanamente. O pensamento de Frankl não são imposições, muito
menos exigências para ao homem seguir normas para a existência, mas
como próprio afirma:

“Somente o estou dirigindo para uma direção em que pode


pousar”. Se exigirmos do homem o que ele deve ser, faremos dele
o que ele pode ser. Se pelo contrário, o aceitarmos como é, então
acabaremos por torna-lo pior do que é (Ibidem, 14).

O que o Viktor tenta propor aqui é entender que a linha pelo qual ele
segue é não deixar ou torna-se pio