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As garras da Esfinge – René Guénon e a islamização do

Ocidente

Olavo de Carvalho
Verbum, Ano I, Números 1 e 2, Julho-Outubro de 2016
I
As transformações históricas e espirituais profundas que vão determinar o futuro da humanidade estão tão
distantes da nossa mídia, da nossa vida universitária e, de modo geral, de todos os debates públicos neste
país, que com certeza aquilo que vou dizer neste artigo parecerá estratosférico e alheio à realidade
imediata.
O doente incurável que geme de dor num leito de hospital dificilmente se interessará, nessa hora, pelas
controvérsias médicas, bioquímicas e farmacológicas que se desenrolam em países longínquos e em
idiomas que ele desconhece, mas das quais poderá vir, um dia, a cura da sua doença. O que mais de perto
diz respeito ao seu destino lhe parece distante, abstrato e alheio à sua dor.
Os que se interessam pelo futuro do Brasil deveriam prestar atenção ao que vou lhes dizer aqui, mas será
muito difícil fazê-los ver que que uma coisa tem algo a ver com a outra.
Vou começar analisando a resenha que um autor desconhecido neste país faz do livro de outro autor
igualmente ignorado por aqui.
O livro é False Dawn: The United Religions Initiative, Globalism, and the Quest for a One-World Religion,
de Lee Penn (Sophia Perennis, 2005), que já recomendei muitas vezes mas poucos leram, por ser um
calhamaço de documentos longos e chatíssimos. O resenhista é Charles Upton, autor de The System of
the Antichrist (id., 2001), que foi menos lido ainda, já que o recomendei com menos ênfase e constância. A
resenha foi publicada num livro mais recente de Upton, Findings: In Metaphysic, Path, and Lore, A
Response to the Traditionalist/Perennialist School (id., 2010) e reproduzida na revista eletrônica da editora,
http://www.sophiaperennis.com/discussion-forums/sophia-perennis-book-reviews/false-dawn-the-united-
religions-initiative-globalism-and-the-quest-for-a-one-world-religion/.
O livro de Lee Penn descreve e documenta com abundância de fontes primárias a formação e
desenvolvimento de uma religião biônica mundial, com todas as características de uma paródia satânica,
sob os auspícios da ONU, do governo americano, de praticamente toda a grande mídia ocidental e de um
punhado de megafortunas. Iniciado em 1995 por William Swing, bispo da Igreja Episcopal, com o nome de
United Religions Initiative (URI, v. http://www.uri.org), embora extra-oficialmente existisse desde muito antes
(remontando ao Lucis Trust fundado em 1922 por Alice Bailey), o empreendimento, sustentado por recursos
financeiros incalculavelmente vastos e apoiado por todo um cast de estrelas do show business e da política,
conquistou até o apoio informal do Papa Francisco (v.
http://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/511-pope-francis-and-the-united-religions-
initiative).
Com o lindo objetivo de criar “um mundo de paz, sustentado por comunidades engajadas e interconectadas,
comprometidas com o respeito à diversidade, com a resolução não-violenta dos conflitos e com a justiça
social, política, econômica e ambiental”, o movimento reúne, em festivas celebrações ditas “ecumênicas”,
católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, xintoístas, animistas, espíritas, teosofistas, ba’hais,
sikhs, adeptos da New Age, da Wicca, do satanismo, do Reverendo Moon, dos Hare Krishna e de qualquer
culto indígena ou ufológico que se apresente, dando a tudo um sentido de fraternidade universal que
dissolve entre sorrisos de condescendência mútua as mais óbvias e insuperáveis incompatibilidades entre
essas diversas crenças.
Todas as religiões e pseudo-religiões somadas, fundidas e mutuamente neutralizadas reduzem-se assim a
um instrumento auxiliar do projeto globalista voltado à criação de um Governo Mundial.
Grosso modo, a ideologia que gruda uns nos outros esses elementos heterogêneos e inconciliáveis é o
universalismo low brow da “Nova Era”, que, copiando mal e mal a linguagem da tradição hindu, proclama
serem todas as religiões nada mais que aspectos locais e acidentais assumidos por uma Revelação
Primordial única, donde se conclui que, por este ou aquele caminho, todo mundo chegará mais dia, menos
dia, aos mais altos estágios da realização espiritual humana ou mesmo sobre-humana.
Essa ideologia teve precursores no século XIX, como Allan Kardec, Helena Petrovna Blavatski, a célebre
teosofista e – literalmente – batedora de carteiras, Jules Doinel, fundador da Igreja Gnóstica francesa
(1890), Gerard Encausse, mais conhecido como “Papus”, Jean Bricaud e, de modo geral, todos os
componentes do movimento que viria a se chamar “ocultista”.
Esse “universalismo”, que no início do século XX soava apenas como uma fantasia exótica, acabou por
penetrar tão fundo no senso comum das multidões que hoje a equivalência de todas as religiões em
dignidade e valor é um dogma subscrito por toda a grande mídia mundial, pelos parlamentos, pelas
legislações da quase totalidade dos países e pela maioria das próprias autoridades religiosas.
Longe de ser um fenômeno espontâneo, essa radical transformação das crenças coletivas reflete o trabalho
incessante dos onipresentes agentes da URI, a cuja interferência nenhuma organização socialmente
relevante está imune.
Não é necessário, portanto, enfatizar a importância desse projeto dentro dos planos globalistas, nem, é
claro, é possível negar o valor do trabalho de Lee Penn ao reunir e ordenar documentação mais que
suficiente para provar a unidade de inspiração e de estratégia por trás de fenômenos que ao observador
leigo podem parecer dispersos e inconexos.
O resenhista, Charles Upton, enaltece os méritos do livro e acrescenta-lhe um esclarecimento que, diz ele,
já havia transmitido pessoalmente ao autor, com total concordância deste.
O esclarecimento é este: Não se deve confundir o “universalismo” paródico da Nova Era e da URI com o
universalismo high brow da escola dita “tradicionalista” ou “perenialista” inspirada em René Guénon, Frithjof
Schuon, Ananda K. Coomaraswamy e seus continuadores.
É verdade. São muito diferentes. Com muita antecedência, o fundador da escola, René Guénon, já havia
submetido a devastadoras análises críticas toda a ideologia “ocultista” que décadas mais tarde viria a
constituir a base doutrinal – se cabe o termo — da “Nova Era” e da URI.
Membro e até bispo da Igreja Gnóstica na juventude, Guénon logo saiu atirando e não fez prisioneiros. Nem
um pouco mais intactos ficaram o espiritismo de Allan Kardec, a teosofia de Madame Blavatski e mil e um
outros movimentos nos quais Guénon via a encarnação mesma daquilo que ele chamava “pseudo-iniciação”
e “contra-iniciação” – a primeira constituindo a imitação simiesca da espiritualidade, a segunda a sua
inversão satânica.
Na verdade o contraste entre o universalismo da URI e o da corrente guénoniana-schuoniana vai muito
além da mera diferença entre low brow e high brow, embora essa diferença seja patente aos olhos de quem
os compare.
De um lado vemos um pastiche de sincretismos inconseqüentes reforçados por alguma retórica humanitária
sentimentalóide ou futurista (ora “progressista”, ora “conservadora”, para agradar a todos) e adornado no
máximo, aqui e ali, pela adesão superficial de algum escritor da moda, como Aldous Huxley e Allan Watts.
Do outro lado, construções intelectuais sofisticadas, uma compreensão profunda e organizada dos símbolos
religiosos e esotéricos de todas as tradições, um domínio cabal das fontes reveladas e uma técnica
comparatista que se aproxima, em precisão, quase que de uma ciência exata. Por acréscimo, algumas das
análises mais consistentes da crise civilizacional do Ocidente nas suas várias expressões: cultural, social,
artística etc.
A diferença salta aos olhos de qualquer leitor culto. Em contraste com a mixórdia sincretística da “Nova
Era”, temos aqui um universalismo no sentido forte da palavra, uma visão abrangente e ordenadora que
não somente apreende com extrema agudeza os pontos comuns entre as várias cosmovisões espirituais,
mas dá a razão e fundamento da sua diversidade, de modo que a essa articulação do uno e do múltiplo se
subordina, na verdade, toda a história universal das idéias e das crenças, das teorias e práticas, numa
palavra: tudo o que o ser humano fez e pensou na sua caminhada sobre a Terra. Não há praticamente
nada, nenhum fenômeno, nenhum pensamento, nenhum acontecimento fausto ou infausto, que de algum
modo não encontre alguma explicação “perenalista” eficiente e persuasiva, quando não irrefutavelmente
certa.
Do ponto de vista do buscador comum que, proveniente dos meios revolucionários, modernistas e
ateísticos, é alertado para a importância dos temas “espirituais” e, após uma ilusão temporária com a “Nova
Era”, se desilude com a sua superficialidade e sai em busca de alimento mais nutritivo, a passagem ao
tradicionalismo de Guénon e Schuon é um upgrade intelectual formidável, um impacto desaculturante,
quase uma transfiguração interior que repentinamente o isolará do ambiente mental em torno, marcado a
um tempo pelo descrédito das religiões e pela vulgaridade sem fim do ocultismo onipresente, e o deixará
sozinho, face a face com a sua consciência. Cumpre-se assim, na escala individual, a célebre profecia
emitida por um biógrafo anônimo de René Guénon logo após a morte do mestre:
“Chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em
sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente,
pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade.”1
Raros, raríssimos são os que chegam a esse ponto – a maioria vai tombando pelo caminho –, mas, para
aquele que chega, é difícil resistir, então, ao impulso de fazer contato pessoal com os círculos guénonianos
e schuonianos, em busca de alívio, apoio e orientação. É por esse processo de seleção espontânea que se
forma a “elite intelectual” que, como veremos adiante, Guénon tinha em vista no livro Oriente e Ocidente,
de 1924.
Pois é evidente que, entre as várias cosmovisões em luta, a mais abrangente, que absorve e explica todas
as outras, está no topo. É o cume da consciência de uma época, o nec plus ultra da inteligência e do
inteligível.
O que confere ainda mais autoridade ao ensinamento perenialista é a afirmação reiterada de seus
expositores, de que ele não é invenção sua, mas o mero traslado, em linguagem teórica atual, de revelações
imemoriais que remontam a uma Fonte originária única, a Tradição Primordial. Afirmação idêntica, na
superfície, à dos próceres da “Nova Era”, mas agora fundamentada numa superabundância de provas
documentais, de argumentos racionais, de toda uma ciência organizada do simbolismo universal e do
comparatismo, da qual nascem tours de force intelectualmente deslumbrantes como os Symboles de la
Science Sacrée do próprio René Guénon2 e A Treasury of Traditional Wisdom, de Whitall N. Perry,3 um
dos mais próximos colaboradores de F. Schuon nos EUA, monumental coletânea de textos sacros
organizados de modo a ilustrar, acima de qualquer dúvida razoável, a convergência essencial das doutrinas
e símbolos das grandes tradições religiosas e espirituais, a Unidade Transcendente das Religiões como a
denominava Schuon no título de um livro que ninguém menos que T. S. Eliot considerou o maior feito de
todos os tempos no campo da religião comparada.
Toda semelhança com o “universalismo” da URI é enganosa.
Em primeiro lugar, todos os perenialistas, sem exceção, insistem que as doutrinas, símbolos e ritos das
várias tradições em particular, malgrado apontem sempre para uma Realidade suprema que é a mesma
em todos os casos, têm uma integridade própria, não podem ser objeto de fusão, mescla ou sincretismo.
Ou seja: não podem sofrer o tipo de operação unificante que, precisamente, caracteriza a “Nova Era”.
Em segundo lugar, nem tudo o que se apresente com o nome de religião, espiritualidade, esoterismo ou
coisa parecida pode entrar nessa síntese. Bem ao contrário, é comum a todos os perenialistas a distinção
precisa, rigorosa e até intolerante entre Tradição, Pseudo-Tradição e Antitradição. Boa parte do material
compactado na “Nova Era” entra nestas duas últimas categorias e, longe de integrar a unidade da fonte
primordial, representa a paródia ou negação de tudo o que vem dela.
Em terceiro e mais importante lugar, a unidade transcendente das religiões é mesmo transcendente, não
imanente. As religiões aí estão unificadas apenas pelo topo, pelo cume e núcleo vivo das suas concepções
doutrinais, e não pela variedade irredutível das suas liturgias, dos seus códigos morais e das suas diferentes
“vias” de realização espiritual. E onde, precisamente, está esse núcleo e topo? Está nas suas respectivas
concepções metafísicas, que de fato são convergentes, como a simples coletânea organizada por Whitall
Perry basta para demonstrá-lo acima de toda possibilidade de controvérsia. Nesse sentido, as religiões e
tradições espirituais podem ser vistas, sem distorção, como adaptações de uma mesma Verdade Primordial
às condições histórico-culturais, lingüísticas e psicológicas dos vários tempos, lugares e civilizações. Os
vários exoterismos refletiriam, nas suas diferenças, a unidade de um mesmo esoterismo primordial. Os
homens que chegaram a apreender claramente a unidade desse esoterismo superaram, intelectivamente,
a diferença entre as religiões, mas, como não são feitos de puro intelecto e têm ainda uma existência
histórico-temporal de pessoas de carne e osso, continuam subordinados cada um à sua respectiva tradição
religiosa, sem poder fundi-la ou misturá-la com qualquer outra. O exemplo clássico é o grande mestre sufi
Mohieddin Ibn’ Arabi. Afirmando explicitamente que seu coração podia assumir todas as formas – a do
brâhmana hindu, a do rabino cabalista, a do monge cristão ou qualquer outra –, ele continuava, na sua vida
de indivíduo real e concreto, inteiramente fiel à mais estrita ortodoxia islâmica.
Mas é aí que começam os problemas.