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COORDENADAS

Apenas um sistema político parece, pois, oferecer esperança real,


o que, repito, não implica qualquer predição de qual seja o adoptado.
Seja como for, continua a ser necessário um forte elemento de coacção,
se se pretende obter uma mudança. A menos que surja qualquer milagre
técnico que permita a cada camponês indiano criar alimento abundante
num copo de água ou num vaso de areia, terá de se aplicar a mão-de-
-obra de maneira muito mais eficiente, introduzir o progresso técnico e
111 PARTE
descobrir meios de obter alimentos para os habitantes das cidades.
Continuará a ser necessária a coacção, quer mascarada, em escala maciça,
à maneira capitalista que inclui mesmo o Japão, quer mais directa,
aproximando-se do modelo socialista. O factor trágico é que os pobres IMPLICAÇÕES TEÓRICAS
suportarão sempre o maior peso da modernização, tanto sob auspícios
socialistas como sob os capitalistas. A ~nica justificação para lhes impor
esse peso é que ficariam muito pio.r sem ele. Tal como a situação se
E PROJECÇÕES
encontra, o dilema é realmente cruel. É possível sentir-se a maior simpa-
. tia pelos que são responsáveis e o enfrentam. Negar que ele existe é,
por outro lado, o máximo da irresponsabilidade intelectual e política.

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A VIa democrática para I
a sociedade moderna
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Partindo da nossa actual perspectiva, já podemos esboçar, a traços


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~ largos, as características principais de cada uma das três vias para o
mundo moderno. A primeira aliou o capitalismo à democracia parla-
mentar, após uma série de revoluções: a Revolução Puritana, a Revo-
lução Francesa e a Guerra Civil Americana. Com reservas, de que
posteriormente me ocuparei neste capítulo, chamei-lhe a via da revolu-
ção burguesa, uma via em que a Inglaterra, a França e os Estados Unidos
- 1-
- .~ ingressaram, em alturas sucessivas, partindo de sociedades profunda-
~
mente diferentes. O segundo caminho também era capitalista, mas, na
ausência de um forte surto revolucionário, passou através de formas
políticas reaccionárias até culminar no fascismo. Vale a pena sublinhar
que, através de uma revolução vinda de cima, a indústria efectivam~nte
se desenvolveu e floresceu na Alemanha e no Japão. A terceira via é,
evidentemente, a comunista. Na Rússia e na China, as revoluções que
tiveram as suas principais, embora não exclusivas, origens entre os
camponeses tornaram possível a variante comunista. Finalmente,
em meados da década de 1960, a índia entrara, de modo um tanto
incerto, no processo de se tornar uma sociedade industrial moderna.
Esse pais não sofreu nem uma revolução burguesa, nem uma revolução
conservadora vinda de cima, nem uma revolução comunista. Saber se a
índia conseguirá evitar os assustadores custos destas três formas e des-
cobrir uma nova variante, como tentava fazer sob o governo de Nehru,

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'1 I
AS ORIGENS SOCIArs DA DITADURA E DA DEMOCRACIA
COORDENADAS

ou sucumbirá, de algum modo, aos custos também graves da estagnação, leis. A decapitação dos reis constitui o aspecto mais dramático, e de
continua a ser um terrível problema que os sucessores de Nehru têm de modo algum o men~s importante, d~ primeira característica. Os esforços
para estabelecer a leI, o poder da legIslatura, e, posteriormente, o uso do
enfrentar.
Numa extensão muito limitada, estes três tipos - as revoluções Estado. como máquina do bem-estar social, são aspectos familiares e
burguesas que culminaram na forma ocidental de democracia, as revo- conheetdos dos outros dois pontos.
luções conservadoras vindas de cima, que terminaram no fascismo, Embora uma apreciação detalhada das primeiras fases das socie-
e as revoluções camponesas que levaram ao comunismo - podem dades pré-modernas caia fora do âmbito desta obra, convém levantar,
constituir vias e opções alternativas. Constituem, muito mais clara- pel~ meno~ resumidamente, a questão dos diferentes pontos de partida.
mente, sucessivas fases históricas. Deste modo, apresentam entre si uma EXIstem diferenças estruturais nas sociedades agrárias que podem,
relação determinada e limitada. Os métodos de modernização escolhidos ~m certos c~sos, favorecer o subsequente desenvolvimento em direcção
por um país alteram as dimensões do problema para os países seguintes a de~ocracIa parlamentar, enquanto que outros pontos de partida
que escolham o mesmo método, como Veblen reconheceu, quando tornanam essa r~alização difícil ou poderiam anulá-la por completo.
cunhou a expressão, agora em voga, «as vantagens do atraso». Sem a O ponto de parttda não determina inteiramente, sem dúvida, o curso
anterior modernização democrática da Inglaterra, os métodos reaccioná- subsequente da modernização .. A sociedade prussiana do século XIV
rios adoptados pela Alemanha e pelo Japão dificilmente teriam sido apresentava~l1Uitasdas características que constituíram as antepassadas
possíveis. Sem as experiênciascapitalista e reaccionária, o método comu- da democraCIaparlamentar da Europa Ocidental. As mudanças decisivas
nista teria sido algo inteiramente diferente, se tivesse mesmo chegado a que alteraram fundamentalmente o curso da sociedade prussiana e,
existir. É bastante fácil de compreender, até com certa simpatia, que a eventualmente, da alemã tiveram lugar nos dois séculos seguintes.
.desconfiança indiana é, em boa medida, uma reacção crítica negativa Contudo, mesmo que o ponto de partida não seja decisivo, alguns pode-
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-atodas as três formas de experiência histórica anteriores. Embora tenha .••• ......, ••• ~ ..•..•. ,&..1.0.40..•••..• .I.."",,,......,..l.£4",",,l.o,,) V~t..J..V

havido certos problemas comuns na construção de sociedades indus- crático.


triais, a tarefa continua a ser sempre mutável. As condições prévias P~de-se a:gumentar bastante bem, penso eu, sobre a tese de que o
históricas de cada espécie política importante diferem fortemente entre si. f~u~alis~oocldental continha efectivamente certas instituições que o
Dentro de cada tipo importante há também diferenças notáveis, dlsttngUlam de outras sociedades e que favoreceram as possibilidades
talvez mais marcadas na variante democrática, assim como há seme- democráticas. O historiador alemão Otto Hintze, na sua dissertação sobre
as ordens sociais da sociedade feudal (Jtande) fez talvez o máximo no
lhanças sigrúficativas. Neste capitulo, tentaremos fazer justiça a ambas,
-analisando certas características sociais agrárias que contribuíram para .

sentido de tornar essa tese convincente, embora ela continue a ser um
tóp.ico.de vivos de}:,atesintelectuais (1). Para os nossos lins, o aspecto
o desenvolvimento da democracia ocidental. Convém ser explícito, uma :;.,~
.,~.1 maiS Import~'lte foi o desenvolvimento da noção de imunidade de
vez mais, sobre o significado desta frase tão sonora, mesmo que as .~
.definições de democracia tenham uma maneira de se afastar das co~- certos grupos e pessoas ao poder do governante, bem como a con-
-.j~
d.usões reais para entrar num sofisma trivial. O autor encara o desenvol-
vimento de uma democracia como uma luta longa e certamente incom- (1) .?ide. em HINTZE, Staat unde Verfassung, I, Weltgeschichtliehe Bedingungen
pleta no sentido de fazer três coisas estritamente relacionadas: 1) con- der Reprasentaftvverfassung (1931), 140-184; Typologie der stiindisehen Verfassungen des
trolar governantes arbitrários; 2) substituir leis arbitrárias por leis justas Abendlandes (1930), 120-139; e Wesen und Verbreitung des Feudalismus (1929),84-119 •
Para actualização das mesmas ideias, vide COULBORN,ed. Feudali.rm (1956).
.e racionais, e 3) conseguir que a população participe na elaboração das

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COORDENADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA. DITADURA E DA DEMOCRACIA

cepção do direito de resistência à autoridade injusta. Em coniunt~ com a


menos possível do que hoje a um governo creat situações que transpor-
concepção de contrato como um acordo mútuo, livremente felto por
tassem consigo a sua própria definição da tarefa essencial à sociedade,
ssoas livres que resultou da relação feudal de vassalagem, esse com-
pe, . .dd d' no seu conjunto, e fazer com que.-a população a aceitasse passivamente ..
plexo de ideias e práticas constitui um leg~do cr~Clal da SOC1~a e m~ le-
Por isso, é menos arriscado prosseguir nessa hipótese sobre a 19calização
vaI europeia aos conceitos modernos oCldentals duma s~cledade ll;-re;
da execução das tarefas essenciais"às sociedades pré-industriais, d~ que
Este complexo apenas se verificou na Europa OCld~ntal. So al
seria para as sociedades modernas. Por outro lado, parece também haver
ocorreu este equilíbrio delicado .entre pod,er real. demaslado, grande

I
~ma gama mais vasta de escolha do que outrora, quanto ao nível polí-
e demasiado pequeno que proporclOnou um lmpeto lmportant~ a demo-
tlCO a que uma sociedade organiza a divisão da mão-de-obra e a manu-
cracia parlamentar. Verificaram-se, noutros po~tos, ~rande ~an~dade de
tenção da coesão social. A aldeia camponesa, o feudo ou mesmo uma crua
semelhanças parciais, mas parece faltar-lhes o mgredlente pnncl~al ou a
proporção crucial entre elas, que se encontrava na Eur~'pa Oc~dental.
I burocracia territorial podem constitUir o nível decisivo sob tecnologias

A sociedade russa creou um sistema de Estados, os SOSIOVl1. Mas. -'-van, o !


j
agrárias geralmente semelhantes.
Após esta breve avaliação das variações do ponto de p::>.rtida,
Terrível, quebrou a cerviz da. nobreza independente. A tentativa para
podemos voltar-nos para o processo de modernização em si. Há um
recuperar os privilégios veio depois de. a~a~t~da a mão for:e d~ Pedro, o ponto que se destaca claramente. A persistência do absolutismo real ou,
Grande, e daí resultou a obtenção de pnvileglOs sem as obnga5oes corr:s-
de modo mais geral, de um governo burocrático pré-industrial, até aos
pondentes ou sem a representação no processo da governaçao. A Chma
tempos modernos, creou condições 'desfavoráveis à democracia do tipo
burocrática gerou o conceito de Mandato do Céu, que deu certo tom de
ocidental. As diferentes histórias da China, da Rússia e da Alemanha
leo-itimidade à resistência contra a opressão injusta, mas sem uma for~e
convergem nesse ponto. É um facto curioso, para o qual não tentarei
n~ção de imunidade corporativa, algo que os funcionári~s i~~elec~u.als
oferecer explicação, o de os governos centrais poderosos, a que pode-
crtaram numa extensão limitada, na prática, e contra o pnnClplO baslco
remos chamar absolutismos reais ou burocracias agrárias, se terem
da política burocrática. O feud~ismo surgiu de ~acto no Japão, mas c~m
estabelecido nos séculos XVI e XVII em todos os países mais impor-
grande ênfase na lealdade para com os supenores e .com um ~ov~~-
tantes que estudámos (excepto, evidentemente, nos Estados Unidos),
nante divino. Faltava-lhe o conceito de um comprotn1sso entre 19UalS
isto é, na Inglaterra, na França, na parte prussiana da Alemanha, na
teóricos. No sistema de casta.s indianas, podemos aperceber-nos de forte .... Rússia, na Cl-Jna, no Japão e na índia. Seja qual for o motivo, o facto
tendência no sentido do conceito de imunidade e do privil.égio corpora- .{
-r .. constitui um suporte conveniente, embora parcialmente arbitrário, no
tivo, mas também sem a teoria ou a prática do cont~_cto l1v~e. _
qual poderemos. suspender os principios da modernização. Embora a
As tentativas no sentido de encontrar uma úruca expl1caçao con-
sua persistência tenha tido conseqüências desfavoráveis, as instituições
creta destas diferenças, estimuladas por algumas observações extr~ de
monárquicas fortes desempenharam uma função indispensável, nesse
Marx e culminando na concepção polémica de Wittfogel do despotls~O
ponto inicial, controlando a turbulência da nobreza. A democracia
oriental baseado no controle do fornecimento de água, não têm tldo
não poderia crescer e florescer à sombra da pilhagem iminente por parte -
êxito. Isto não significa que fossem mal dirigidas. O fornecime~to de de barões malfeitores.
água constitui talvez uma noção demasia~o estreita. Pode~ surglr ~:s-
Noprindpio dos tempos modernos, igualmente, uma 'pré-condição
potismos tradicionais quando uma autond.ade centr~l .está em pOS1?a.o
decisiva para a democracia moderna foi a aparição de u~ certo equi-
de desempenhar diversas tarefas ou supervlsar as actlvldades essencl~ls
líbrio entre a coroa e a nobreza, segundo o qual o poder real predomi-
ao funcionamento de toda uma sociedade. Antigamente, era multo
nava mas deixava à nobreza um grau substancial de independência.

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COORDENADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

A noção pluralista de que uma nobreza independente c?nstitui um ingre-


diente essencial no desenvolvimento da democraCia encontra uma Sem entrarmos em mais provas nem discutirmos os materiais asiá-
base firme no facto histórico. O apoio comparativo para esta tese é ticos que apontam na mesma direcção, podemos simplesmente registar
fornecido pela ausência de tal ingrediente na Índia de Akbar e na China um forte acordo com a tese marxista de que uma classe vigorosa e inde~
Manchu, ou, talvez mais exactamente, na incapacidade de conseguir pendente de habitantes da cidade tem sido um elemento indispensável no
uma situação aceitável e legítima para o grau de independência que desenvolvimento da democracia parlamentar. Sem burgueses não há
efectivamente existia. Os meios por que essa independência foi forjada democracia. O actor principal não apareceria no palco se limitássemos
são igualmente importantes. Na Inglaterra, o locu~~lassicuspar~ se obt~- a nossa atenção estritamente ao sector agrário. Contudo, os actores da
rem provas positivas, as Guerras das Duas Rosas diZimarama anst?Crada zona rural desempenharam um papel suficientemente importante e que
proprietária, tornando consideravelmente mais fá~il o estabelecrmento merece uma cuidadosa apreciação. E, se quisermos escrever a história
de uma forma de absolutismo real, bastante maiS suave do que em com heróis e vilões, posição que o autor repudia, o vilão totalitário
França. Convém lembrar que a realização desse equilíbrio, tão grato à viveu por vezes no campo e o herói democrático das cidades encon-
tradição liberal c pluralista, foi o fruto de métodos vioientos e ocasio- trou aí importantes aliados.
niJmente revolucionários, que os liberais contemporâneos geralmente Esse foi, por exemplo, o caso da Inglaterra. Enquanto o absolutismo
., se tornava cada vez mais forte em França, num grande sector da Ale-
~~m . .
Neste ponto, pode-se perguntar o que sucede qu~ndo e se ~ a~isto- I manha e na Rússia, encontrou a sua primeira derrota em solo inglês,
onde, na realidade, a tentativa de o estabelecer foi muito mais fraca.
cracia proprietária tenta libertar-se dos controles r~~s, na aus~ncia de !
uma classe de habitantes das cidades, numerosa e politicamente Vigorosa. i
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Em grande medida, assim foi porque a aristocracia proprietária inglesa
começou cedo a adquirir características comerciais. Entre as determi-
Pondo a QuestãÓde forma menos exacta, que pode suceder se a nobreza
nantes mais decisivas que influenciaram o curso da evolução política
procurar libertar-se, na ausência de uma revolução burguesa? Penso que
subsequente, encontra-se a de a aristocracia proprietária se voltar ou
é seguro afirmar que o resultado é altamente desfavorável à versão
não para a agricultura comercial e, nesse caso, da forma que essa comer-
ocidental de democracia. Na Rússia, durante o século XVIII, a nobreza
cialização tomou.
conseguiu rescindir as suas obrigações para com a autocracia czarista,
Tentemos apercebermo-nos dessa transformação nos seus contornos
"conservando simultaneamente, e aumentando mesmo, as suas pro-
principais e em perspectiva comparativa. O sistema medieval europeu
priedades e o seu poder sobre os servoS. Tudo isto foi altamente desf~-
foi do género de uma certa parte da terra do senhor feudal e do domínio
vorável à democracia. A história alemã é; sob alguns aspectos, ma~s ser cultivada para o senhor pelos camponeses, em troca do que este os
reveladora. Aí, contra o 'Grande Eleitor, a nobreza lutou na maior protegia e administrava a justiça, muito frequentemente, a falar ver-
parte separada das cidades. Muitas das exigências aristocráticas da época dade, com uma pesada mão a favorecer os seus próprios interesses mate-
assemelham-se"às de Inglaterra: ter voz no governo e, especialmente, riais. Os camponeses utilizavam outra parte das terras do senhor para
nos meios de o governo obter dinheiro. Mas o resultado não foi a demo- cultivarem alimentos para seu próprio sustento e para construírem as
cracia parlamentar. A fraqueza das cidades tem constituído uma carac": suas habitações. Uma terceira parte, constituída geralmente por bosques,
teristica constante na história da Alemanha, após a sua eflorescência correntes de água e pastagens, era conhecida por terreno comum e
na Alemanha meridional e ocidental, em fins da Idade Média, altura servia de fonte de combustível, caça e pastagens preciosos, tanto para
o senhor como para os camponeses. Em parte para assegurar ao senhor
-em que começaram a declinar.
uma mão-de-obra em quantidade conveniente, os camponeses encontra-

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AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA
COORDENADA':;

vam-se presos ao solo por diversas formas. É certo que o mercado Os seus efeitos continuaram a ser importantes e a ser reforçados por
desempenhava um papel importante na economia agrária medieval,. novas causas, no~ séculos XVIII e XIX.
mais importante ainda nessa época do que se possa imaginar. Con- As consequências surgem ainda mais claramente se colocarmos:à
tudo, em contraste com tempos posteriores, o senhor, em conjunto experiência inglesa a par de outras va~iantes. Falando de modo gerai,'
com os seus camponeses, constituía, em grande escala, uma comuni- há duas possibilidades. O impulso comercial pode ser muito fraco entre
dade auto-suficiente, capaz de abastecer grande parte das suas necessi- as classes superiores proprietárias. Quando isto sucede, o resultado
dades, através de recursos locais e com os artesãos locais. Com inúmeras será a sobrevivência de uma grande massa de camponeses, que constitui,
variações, o sistema prevalecia em grandes zonas da Europa. Não existiu no mínimo, um tremendo problema para a democracia, e, no máximo,
na China. O Japão feudal apresentava fortes semelhanças com este sis- i o reservatório para uma revolução camponesa que levaria a uma ditadura
I
tema, e podem ser encontradas analogias em certos pontos da índia. I comunista. A outra possibilidade é a de a classe superior proprietária
O desenvolvimento do comércio nas cidades e as exigências em j utilizar diversos níveis políticos e sociais para fixar à terra a mão-de-obra
impostos dos governantes absolutistas tiveram, entre as suas muitas j e fazer deste modo a sua transição para uma agricultura comercial.
consequências, o resultado de o senhor necessitar cada vez de mais
dinheiro. Surgiram três reacções principais em diferentes partes da
Europa. A aristocracia proprietária inglesa voltou-se para uma forma
I Aliado a uma quantidade ::;ubstancial de desenvolvimento industrial,
é provável que o resultado fosse aquilo que reconhecemos como fas-
cismo.
dê agricultura comercial que implicava a libertação dos camponeses r No capítulo seguinte ocupar-nos-emos do papel desempenhado
para se governarem da melhor maneira que conseguissem. A é/ite pro- pelas classes superiores proprietárias na creação dos governos fascistas.
,prietária francesa deixava geralmente aos camponeses a posse de facto Aqui, precisamos apenas de notar: 1) que a forma de agricultura comercial
do solo. Nas áreas em que se voltaram para o comércio, fizeram-no era tão importante como a própria comercialização; 2) que a incapacidade
forffido os camponeses a entregar un:a parte ~a sua produção~ que ~s de obter formas adequadas de agricultura comercial, em devida altura,
nobres então vendiam. Na Europa Onental verificou-se a terceua varI- deixou aberta outra rota para as instituições democráticas modernas.
Ambas as características surgem na História da França e da América.
ante, à reacção gen..\orial.Os Junkers da Alemanha oriental reduziram os t Em certas partes da França, a agricultura comercial deixou a sociedade
camponeses ~teriormeÍlte livres à condição de servos, para cultivarem
e exportarem cereais, enquanto que na Rússia se verificava um processo camponesa grandemente intacta, mas exigiu mais aos camponeses, pres-
semelhante, devido muito mais a razões políticas do que a motivos \ tando assim a sua colaboração às forças revolucionárias. Na maior
econQmicos. Só no século XIX, a exportação de cereais se tornou uma I parte da França, o impulso verificado entre a nobreza para a agricultura
comercial foi fraco, em comparação com o da Inglaterra. Mas a Revolu-

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característica importante da paisagem econômica e política da Rússia.
Na própria Inglaterra, a tendência para a agricultura comercial, ção prejudicou a aristocracia e abriu caminho para uma democracia par-
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por parte da aristocracia proprietária, afastou muito do que restava lamentar. Nos Estados Unidos, a escravatura das plantações constituiu
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da sua dependência da coroa e gerou grande parte da sua hostilidade ...•
~y;',. um importante aspecto do desenvolvimento capitalista. Por outro
para com as desastradas tentativas de absolutismo dos Stuarts. Do lado, falando indulgentemente, foi uma instituição desfavorável à
mesmo modo, a forma que a agricultura comercial tomou na Inglaterra, democracia. A Guerra Civil venceu esse obstáculo, embora apenas par-
em contraste com a Alemanha Oriental, gerou uma considerável comu- cialmente. De modo geral, a escravatura das plantações é apenas a forma
nidade de i.tlteresses com as cidades. Ambos os factores foram causas mais extrema de adaptações repressivas ao capitalismo. Há três factores
importantes da Guerra Civil e da vitória final da causa' parlamentar. que a tornam desfavorável à democracia. A classe superior necessita,

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COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

naturalmente, de um terreno com um sistema repressivo poderoso, que Essas observações levam-nos a dar renovada ênfase à importância
imponha todo um clima de opinião política e social desfavorável à das diferenças de oportunidades para adopção da agricultura comercial,
liberdade humana. Além disso, encoraja a preponderância do campo tais como, acima de tudo, a existência de um mercado nas cidades pró-
sobre as cidades, que, provavelmente, se tornam simples depósitos ximas e a existência de meios de transporte adequados, principalmente
de transbordo para exportação para mercados distantes. Finalmente, pela água, para os materiais volumosos, antes dos tempos do caminho de
existem as consequências brutalizantes das relações da élite com a mão- ferro. Embora as variações do solo e do clima sejam obviamente impor-
-de-obra, especialmente severas nas economias de plantação, em que os tantes, mais uma vez a burguesia espreita nos bastidores, como actor
trabalhadores pertencem a uma raça diferente. principal do dram~. As considerações políticas também desempenham
Dado- que a transição para a agricultu~a comercial é, obviamente, um papel decisivo. Sempre que foi possível aos senhores rurais fazer uso
> um passo .muito importante, como se podem explicar as maneiras por da máquina de coacção do Estado para se sentarem e cobrarem rendas,
que surgiu. ou não surgiu? Um sociólogo moderno procuraria possivel- fenómeno largamente verificado na Ásia e, alé certo !Jonto, na França
mente umá explicação em termos culturais. Nos países onde a agricultura e na Rússia pré-revolucionárias, não existiu clarameGte qualquer incen-
comercial não conseguiu desenvolver-se em larga escala, ele sublinharia tivo para se voltarem para adaptações menos repressivas.
o carácter:inibitivo das relações aristocráticas, tais como as noções de Embora a questão da agricultura comerCial entre os camponeses
honra e as atitudes negativas perante o lucro pecuniário e o trabalho. tenha menos relação com a democracia, convém mencioná-la aqui
_:Nas -fasesiniciais dessa pesquisa, a minha própria inclinação seria para também. De longe, a eliminação da questão dos camponeses através da
procurar ~ssas explicações. A medida que se acumulassem as provas, sua transformação noutro tipo de agrupamento social parece de bom
surgiriam f>asespara se tomar uma atitude céptica para com essa linha augúrio para a democracia. Contudo, nas mais pequenas democracias
de aj-aqlle,~embora oS--PJ:Oblemasgerais que são levantados pelo seu da Escandinávia e Suíça, os camponeses-tornaram-se parte-4G
democráticos, dedicando-se a formas razoavelmente especializadas de
emprego ~jam discussão posterior.
agricultura comercial, principalmente lacticínios, para os mercados cita-
Para ~er conveniente, uma explicação cultural teria que demons-
dinos. Quando os camponeses parecem resistir teimosamente a essas
trar, por exemplo, que, entre as classes superiores proprietárias inglesas,
alterações, como, por exemplo, na Índia, não é difícil elaborar uma
. :as tradições militares e as noções de posição e de honra eram muitíssimo
explicação à volta das circunstâncias objectivas. Frequentemente, falta
mais fracas do que, digamos, na França. Embora a aristocracia inglesa uma verdadeira oportunidade para o mercado. Para camponeses que
constituísse. um grupo menos fechado do que a sua correspondente vivem muito próximo dos limites da existência física, a modernização é,
francesa e não tivesse leis formais de derrogação, é de duvidar que a evidentemente, demasiado arriscada, especialmente se, com as condições
diferença cultural fosse suficiente para justificar a diferença no compor- prevalecentes, o lucro foi provavelmente para outrem. Daí, um nível
tamento económico. E que dizer da Alemanha oriental, que se voltou da de vida extraordinariamente baixo e uma série de esperanças serem o
colonização e da conquista para a exportação de cereais? E ainda mais único ajustamento que para eles faz sentido, em tais circunstâncias.
digno de estudo é o facto de, entre as é/ites proprietárias, em que o impulso Finalmente, quando as circunstâncias são diferentes, podem verificar-se,
comercial parece fraco em comparação com o da Inglaterra, se encon- por vezes, alterações dramáticas num curto espaço de tempo.
trar frequentemente uma minoria substancial que tentou com êxito o Até aqui, a dissertação concentrou-se em duas variantes mais
comércio, quando as condições locais eram favoráveis. Assim se desenvol- ;mportantes: as relações das classessuperiores proprietárias com a monar-
veu a agricultura comercial para exportação em certos pohtos da Rússia. quia e a sua reacção às exigências da produção para o mercado. Existe

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COORDENADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E, DA DEMOCRACIA

uma terceira variante importante que já entrou na dissertação: as rela-


ções das classes superiores proprietárias com os habitantes das cidad?s, grandemente em produzir armas e artigos de luxo para o rei e para a
principalmente com a camada superi<;>r, a qU?podemos chamar b.urguesla. aristocracia da corte, a burguesia inglesa era vigorosa e independente,
As coligações e contra-coligações que surglram entre esses d01Sgrupos com mais vastos interesses num comércio de exportação.
constituíram, e em algumas partes do mundo ainda constituem, a estru- Do lado da nobreza proprietária e da pequena nobreza, havia
tura básica e o ambiente circundante de acção política, formando a também uma série de factores prováveis. O comércio da lã tinhaafectado
série de oportunidades, tentações e impossibilidades dentro da qual os a zona rural durante o século XVI, e mesmo antes, levando a enclosures
chefes políticos têm tido que actuar. Em termos muito vastos, o nosso para obtenção de pastagens de carneiros. A classe superior inglesa crea-
problema passa a ser o de tentar identificar essa~situações n~s relações dora de carneiros, em minoria, embora influente, necessitava das cidades
entre as classes superiores proprietárias e os habItantes das Cldadesque que exportavam a lã, o que constituía uma situação muito diferente da
contribuiram para o desenvolvimento de uma sociedade relativamente da Alemanha Oriental, onde o cultivo de cereais, nas mãos dos] unkers,
livre, nos tempos modernos,. se fazia à margem das cidades em declínio.
Será melhor começarmos por recordar certas linhas de clivagem A convergência entre as classes superiores proprietári~.se urbanas
natural entre a cidade e a zona rural e dentro desses dois sectores da na Inglaterra, antes da Guerra Civil, de modo a favorecer B. causa da
população. Em primeiro lugar, encõntra-se o conflito, já familiar, de liberdade, tomou, entre os países mais importantes, um carácter único.
., Talvez a situação mais vasta de que fazia parte pudesse ocorrer apenas
interesses entre a necessidade urbana de alimentos baratos e os preços
o
elevados dos artigos que produz e desejo rural de altos preços para uma vez na história humana: a burguesia inglesa, desde o século XVII
os alimentos e baixos preços para os produtos das lojas dos artesãos e da até grande parte do século XIX, pôs um máximo de material em jogo
fábrica. Esse conflito poderá tornar-se cada vez mais importante com o para a liberdade humana, porque era a primeira burguesia e ainda não
alargamento de uma economia de mercado. As diferenças de classes, tinha levado os seus rivais estrangeiros e domésticos ao seu máximo
tais como as existentes entre senhor rural e camponês nos campos, poder. Contudo, poderá ser útil expressar certas conclusões tiradas da
verificadas entre patrão e assalariado, entre dono de fábrica e operário na experiência inglesa sob a forma de hipóteses gerais, formuladas sobre as
cidade, atravessam as linhas de clivagem rurais-urbanas. Quando os condições nas quais a colaboração entre os sectores importantes das
interesses das camadas superiores da cidade e do campo convergem classes superiores das cidàdes e da zona rural poderia ser favorável ao
contra os camponeses e operários, o resultado será provavelmente des- desenvolvimento da democracia parlamentar. Como já dissemos, é
favorável à democracia. Contudo, muitá coisa depende das circunstân- importante que a fusão se verifique em oposição à burocracia rea1.Uma
cias históricas em que tal facto se verifica. segunda condição parece ser a de os chefes comerciais e industriais esta-
Um exemplo muito importante de interesses convergentes entre rem a caminho de se tornarem o elemento dominante da sociedade.
os sectores mais importantes da aristocracia proprietária e as camadas Nestas condições, as classes superiores proprietárias podem criar hábitos
superiores dos habitan~ das cidades ocorreu na Inglaterra Tudor e económicos burgueses. Isso sucede não só por simples cópia, mas tam-
Stuart. Aí, a convergência verificou-se numa fase recuada no curso bém como reacção às condições gerais e às circunstâncias da própria
da modernização e em circunstâncias que levaram ambos os grupos vida. Tudo isto só pode suceder, ao que parece, numa fase inicial do
a opor-se à autoridade real. Estes aspectos são de crucial importância desenvolvimento económico. Parece muito pouco provável que elas se
na explicação das consequências democráticas. Em contraste com a possam repetir algures no século xx.
situação da França no mesmo período, onde os fabricantes se ocupavam O matiz burguês torna mais fácil às classes superiores proprie-
tárias, numa fase posterior, manter os postos de comando político,
.488
489
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AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

COORDENADAS
da revolução industrial, eliminaram a questão camponesa da poHtica
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numa sociedade basicamente burguesa, como foi o caso da Inglaterra do


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ingl~sa. Daí, não h~ver .um reservatório maciço de camponeses pa~a
século XIX. Aqui, podem ser sugeridos três outros factores importantes. serVIr os fins reacclOnános das classes superiores proprietárias, comQ
Um deles é a existência de um grau substancial de antagonismo entre sucedeu na Alemanha e no Japão. E também não houve a base maciÇ.,l
elementos comerciais e industriais e as antigas classes proprietárias. para as revoluções camponesas, como sucedeu na Rússia e na Chin~:
O segundo é o facto de as classes proprietárias manterem uma base Por motivos muito diferentes, os Estados Unidos escaparam também à
económica razoavelmente firme. Ambos os factores impedem a formação praga política da questão camponesa. A França não lhe escapou e a insta-
de uma sólida frente de oposição das classes superiores às exigências bilidade da democracia francesa durante os séculos XIX e XX é, em parte,
da reforma, e encorajam certa competição pelo apoio popular. Final- devida a esse facto.
mente, sugiro que a élite proprietária deverá poder transmitir algo A confessada brutalidade dos enclosures põe-nos perante as limi-
do seu aspecto aristocrático às classes comerciais e industriais. tações da possibilidade de transições pacíficas para a democracia e recor-
Existe algo mais nesta transmissão, além da interligação por meio da-nos os conflitos abertos e violentos que precederam o seu estabele-
da qual uma propriedade antiga pode ser conservada pela aliança com cimento. É altura de restaurar a maléctica para nos recordarmos do
o dinheiro:novo. Estão implicadas muitas mudanças subtis de atitude papel da violência revolucionária. Muita dessa violência, talvez nas
que, preséntemente, apenas são compreendidas imperfeitamente. suas características mais importantes, teve as suas origens nos pro-
Somente conhecemos a consequência: as atitudes burguesas têm de se blemas agrários que se veríficaram ao longo da estrada que levou à demo-
tornar mai~ fortes, e não ao contrário, como sucedeu na Alemanha. Os cracia ocidental. A Guerra Gvil inglesa controlou o absolutismo real
. mecanismos- por que esta osmose se verifica estão longe de ser claros. e deu aos grandes senhores rurais de espírito comercial uma mão livre
. Sem dúvida, o sistema educacional representa um papel importante, para executarem a sua parte, durante o século dezoito e princípios do
embora, só por si, não pudesse ser deCISIvo. De uma exploração da lite- dezanove, na destruiçãu-da-:rodedad . evo uçao rancesa
, ratura biográfica, tão abundante para a Inglaterra, poderia resultar uma quebro~ o poder de uma élite proprietária que ainda era muito pré-
rica colheita, nesse campo, apesar do tabu inglês em relação a discussões -comercIal, embora alguns dos seus sectores tivessem já começado a tomar
francas sobre a estrutura social, tabu esse que, por vezes, é tão forte as novas formas que exigiam um mecanismo repressivo para ma..1.tera
'como as discussões francas sobre sexo. Quando as linhas de divagem mão-de-obra. Nesse sentido, como já se fez notar, a Revolução Francesa
social,económica, religiosa e política não coincidem perfeitamente, constituiu um modo alternativo de crear instituições eventualmente favo-
é menos provável que os conflitos sejam apaixonados e graves ao ponto ráveis à democracia. Finalmente, a Guerra Civil Americana também
de excluírem uma reconciliação democrática. O preço desse sistema é, quebrou o poder de uma élite proprietária que constituía um obstáculo
evidentemente, a perpetuação de uma grande dose de abuso «tole- no caminho do progresso democrático, mas, neste caso, desenvolvida
rável» - que é principalmente tolerável para os que ganham com o como parte do capitalismo.
Quer se acredite ou não que estes três movimentos violentos auxi-
sistema.
Um breve relance oiS~bre o destino da classe camponesa inglesa liaram ou impediram o desenvolvimento da democracia liberal e bur-
.1
sugere mais uma condição de desenvolvimento democrático que bem ?uesa, continua a ser necessário reconhecer que constituíram parte 'I
'I
pode ser decisiva por seu próprio direito. Embora a «solução final Importante de todo o processo. Só por si, o facto proporciona uma I
1I
da questão dos camponeses», em Inglaterra, através dos enclosures, possa considerável justificação para os designarmos por revoluções burguesas, 'i
não ter sido tão brutal ou tão radical como alguns autores nos levaram a ou, se o preferirmos, liberais. Contudo, há sérias diJiculdades no agru-
I
pensar, poucas dúvidas podem haver de que os enclousures, .como parte.
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COORDENADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA
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pamento de revoluções ou, igualme~te, de quais~uer .fenó.menos histó- a concepção da revolução burguesa implica um firme aumento do poder
ricos importantes. Antes de prossegwrmos, convem dISCutireste ponto. ecor1ómico das classes comerciais e' dos fabricantes das cidades, ;Ú ao
Certas considerações de carácter muito geral tornam necessário ponto em que o poder económico entra em conflito com o poder polí-
adoptar vastas categorias dessa variante. É,. ou ~evia ser, absoluta~ente ~. , tico, ainda nas mãos da antiga classegovernante, baseado principalttiente
óbvio que determinados sistemas instituclOnals, como o feudaltsmo, na terra. Nesse ponto ocorre, supostamente, uma explosão revolucio-
a monarquia absoluta e o capitalismo, se erguem, atingem o seu auge nária, em que as classes comerciais e fabricantes se apoderam das rédeas
e passam. O facto de qualquer complexo institucional específico se do poder político e introduzem as principais características da demo-
desenvolver primeiro num país do que noutro, como sucedeu com o cracia parlamentar moderna. Tal concepção não é inteiramente falsa.
capitalismo na Itália, !la Holanda, na Inglaterra, na Fran~a e nos ~st~d?s Mesmo para a França, há boas indicações de um aumento do poder
Unidos, não impede uma concepção geralmente evolutlva da Hlstona. económico do sector da burguesia hostil às cadeias impostas pelo allcien
Nenhum país passa por todas as fases sozinho, limitando-se a carregar régime. Contudo, esse significado de revolução burguesa constitui de tal
o seu próprio desenvolvimento, até certo ponto, dentro da estr~tura da modo uma simplificação que poderia ser uma caricatura do que real-
sua situarão e das sÜas instituições. Assim, uma revolução a tavor da rr:.::nteocorreu. Para vermos como é uma caricatura, precisamos apenas
propried:de privada~J).os meios de produção, tem boas ~ossibili~ades de recordar: 1) a importância do capitalismo na zona rural inglesa,
de ter êxito em algm-i?asfases e de falhar noutras. Pode ser lrremedJavd- que permitiu à aristocracia proprietária inglesa manter o controle
mente prematura e ccfnstituir apenas uma corrente,menor nos séculos XIV da máquina política durante o século XIX; 2) a fraqueza de qualquer
e XVI, e, contudo, ser irremediavelmente anacrónica na segunda metade impulso puramente burguês na França, as suas estreitas ligações com
do século xx. Para além das condições históricas concretas, num deter- a ordem antiga, a sua dependência dos aliados radicais durante a Revo-
minado momento e ;r~~
'deterrriÍhado país, existem as condições mun-
~ ., . lução, a continuação da economia camponesa durante os tempos moder-
diais tais como o e~do das artes técnicas e a orgamzação econOU1lca nos; 3) o facto de a escravatura das plantações nos Estados Unidos se ter
e pOllticaatií1.gidand.~ltraspartes do mundo, que influenciam fortemente '\ desenvolvido como parte integrante do capitalismo industrial e ter
as possibilidades de vma revolução. ,. ' representado um obstáculo muito maior para a democracia do que para
Estas considerações levam-nos à conclusão de que énecessarlo o capitalismo.
agrupar as revoluções pelos vastos resultados institucionais para que Como dissemos há momentos, a dificuldade central reside em que
elas contribuíram. Grande parte da confusão e da má-vontade no expressões como revolução burguesa e revolução camponesa agrupam
emprego de categoriãs mais vastas resulta do facto de aque!es que forne- indiscriminadamente aqueles que fazem a revolução e os seus bene-
cem o apoio maciço.a uma revolução, aqueles que a chefiam e aqueles ficiários. De modo semelhante, esses termos confundem os resultados
que, no final, dela beneficiam serem pessoas distinta~. Enqu~nto esta legais e políticos das revoluções com os grupos nelas activos. As revo-
distinção se mantiver clara para cada caso, faz sentido Ce e mesmo luções do século xx tiveram o seu apoio maciço entre os camponeses,
indispensável para elaborar distinções, assim como para compreender que foram então as principais vitimas da modernização imposta pelos
semelhanças) considerar a Guerra Civil Inglesa, a Revolução Franc~sa governos comunistas. Contudo, manter-me-ei ingénua e explicitamente
e a Guerra Civil Americana como fases do desenvolvimento da revo- consistente no emprego dos termos. Ao falarmos das revoluções cam-
lução democrático-burguesa..,)ijr'i;" 'f ponesas, falaremos da principal força popular por trás delas, sabendo
Há motivos para relutância no emprego desse termo, e vale' a ";';i}' I bem que, no século XX, o resultado foi o comunismo. Ao falar de revo-
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pena apontar a medida em que ele pode ser ilusório. Para alguns autores, , luções burguesas, a justificação para o termo apoia-se numa série de
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COORDENADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

çonsequências legais e políticas. A terminologia consistente impõe


civil. Numa palavra: ou as classes superiores propri('tárias ajudav~m
a invenção de novos termos que, receio bem, só aumentariam a confusão.
O principal problema, afinal, consiste no que sucedeu e porquê, não no
emprego de rótulos certos.
1 a fazer a revolução burguesa, ou eram por ela destruídas.
A fechar esta dissertação, será útil expor as condi çoes- "
.. .
";.
pnnClpats
que foram aparentemente
. mais importantes para o desenvo I' Vlmento
Parece agora tão claro quanto estes assuntos o podem ser, que a
d.~d~m~cr~clae, como teste destas conclusões, aplicá-las a par da expe-
Revolução Puritana, a Revolução Francesa e a Guerra Civil Americana
r-:,enclalndiana: Se se verificar que a presença de algumas dessas condi-
foram movimentos muito violentos dentro de um longo processo de
çoes tem um~ ligação demonstrável com os aspectos mais bem sucedidos
alteração política que levou àquilo que reconhecemos como a moderna
da democraCIaparlamentar na índia ou com as origens rustóricas desses
democracia ocidental. Esse processo tem causas económicas, embora
~spec_tose, por ou~o lado, que a ausência de outras condições apresenta
elas não fossem certamente as únicas. Ar, liberdades creadas por esse
ltgaçoes com ~s dIficuldades e obstáculos à democracia na índia, pode-
processo mostram uma clara relação entre si. Obtidas em ligação com o
remos ter illalOr con£iança nessas conclusões.
aparecImento do moderno capitalismo, apresentam traços de uma
A p:i~eira condição ~ara o desenvolvimento democrático que a
época rustórica especifica. Os elementos-chaves na ordem da sociedade
nossa analise e~controu fOI o de.renvoliJimelitode um equilíbrio para evitar
liberal e burguesa são o direito de votar, a representação numa legislatura
uma coroa dem~slado forte ,OH Hma aristocracia proprietária demasiado indepcn- .
que faz as leis e, portanto, é mais do que uma chancela para o exeéutivo,
dente. N: í~dla mongol, 0.0 seu auge, o poder da coroa era esmagador
um sistema de leis objectivo que, pelo menos em teoria, não confere
em re~açaoas classes supenores. Não tendo quaisquer direitos seguros de
privilégios especiais em virtude do nascimento ou de uma situação
propnedade, o nobre era, de acordo com a bem conhecida frase de
herdada, segurança para os direitos de propriedade e eliminação das
Mor~land, um servo ou um inimigo do poder governante. A decadência
> "barreiras herdadas do passado no seu uso, tolerância religiosa, liber-
do slst~ma.mongol libertou as classes superiores, alterando o equilíbrio
dade c!epalavra e direito a reuniões pacificas. Mesmo que, na prática,
no sentido Inverso, para uma política de pequenos reinos locais em luta.
falhem, são estes os marcos reconhecidos de uma sociedade liberal
Cont.ud~, o esforço inglês subse'quente, no século XVIII, para crear em
moderna. sololndlanO un:a classede senhores rurais vigorosos e progressivos, seme-
A domesticação dosector agrário foi uma caracteristica decisiva de
~ha~te ao seu tipo doméstico, constitui um fracasso total. A sodedade
todo o processo histórico que produziu essa sociedade. Era tão impor-
~nd.ta~atam~ém não con~eguiu satisfazer o segundo pré-requisito impor-.
tante como o mais conhecido sistema de disciplinar a classe trabalha-
cante. o mOVImento no sentulo de uma forma adeqttadade agricultura comercial
dora e, evidentemente, estava estreitamente ligado a ele. Na verdade,
quer por parte da, aristocracia proprietária, quer por parte dos cam~
a experiência inglesa tenta-nos a dizer que a destruição da agricultura
p~~eses. Em vez dlsso, o braço protector da lei e da ordem inglesas per-
çomo actividade social importante contitui um pré-requisito para uma
~l~U o au~ento da população e que uma classe de senhores parasi-
.democraciabem sucedida. A principal hegemonia da classesuperior pro-
tanos extr~lss~m, em conjunto com os usurários, uma grande parte do
prietária tem de ser quebrada ou transformada. O camponês tinha de
que os propnos camponeses não comiam. Por sua vez essas condi-
passara ser um agricultor que produzisse para o mercado, em vez de,
ções inibiram muito a acumulação de capital e o desenvolvimento econó-
produzir para o seu próprio consumo e para o senhor rural. Neste pró-.,
mico. Quando a independência surgiu, foi, em parte, sob o ímpeto do
çesso, ou as classes superiores proprietárias 'se tornavam parte impo~-"
desejo dos camponeses do regresso a um passado de aldeia idealizado
tante da maré capitalista e democrática, como na Inglaterra, ou, se se l.hr:
o que limitou ainda mais e atrasou perigosamente a modernização real
opusessem, eram varridas pelas convulsões da revolução ou da guerra"
da zona rural. Não vale a pena explicar mais detalhadamente como essas

494 495
32
COORDENADAS AS ORIGENS SOCÍAIS DA DITADURA 1! DA DEMOCRACIA

circunstâncias se encontravam entre os principais obstáculos para o E~bor~ f~sse tentador prosseguir a dissertação sobre este ponto
estabelecimento e o funcionamento de uma democracia firmemente as polít1ca~111dianassó a~ui cabem na medida em que servem de test~
baseada. a ufa t~orla de de~ocraCla. As.realizações ou os fracassos da democracia
Por outro lado, a partida dos ingleses enfraqueceu em grande escala na ndia, os obstaculos e as 111certezasque ainda enfrenta ' tud o I's" so
a predominância política da élite proprietária. Há muitos que afirmam encontra uma ~:p li
.cação razoável em termos das cinco condições deri-
que as reformas da pós-independência destruíram mesmo esse poder. vadas da expenenCla de outros países. Isto não constitui prova de forma
Nesta limitada extensão, o desenvolvimento das instituições demo- alguma. Mas parece-me }us:o afirmar que essas cinco condições não
cráticas seguiu o padrão ocidental. Ainda mais importante, a ocupação foc~m apenas aspectos SIgnificativos da história indiana' obtêm forte
britânica, apoiando o seu poder na élite proprietária e favorecendo os j apOlOnessa mesma história. '
t
interesses comerciais da Inglaterra, levou à oposição um sector substan- I
cial das classes urbanas comerciais e negociantes, impedindo a fatal t
,,
coligação de uma forte élite proprietária e de um~ burguesia fraca que, I II
I
como veremos em maior detalhe no próximo capitulo, tem sido a origem
"
I'
social dos regimes e movimentos autoritários d~s direitas na Europa
e na Ásia. Assim, duas condições foram satisfeitas: o enfraquecimento da 11
r
aristocracia proprietária e o impedimento da coliga{ão aristocrático-burguesa
contra os camponeses e operários. , II
Efectivamente, a índia constitui um exempl~:~portante, em que,
'pelo menos, a estrutura formal da democracia e J,Una parte importante I
da sua substância, tal como a existência de opo!ição legal e de canais
para protesto e critica, surgiram sem uma fased~violência revolucioná- I
ria (a revolta dos Cipaios foi principalmente un{ caso de saudosismo).
Contudo, a ausência de uma quinta condição, uma rttlura revolucionária
com o/Jassado, e de qualquer forte movimento nesse sentido até ao momento
I
I

presente, encontra-se entre os motivos do prolopgado atraso da índia


e das extraordi.Ilárias dificuldades que a democracia liberal ai enfrenta.
I~I
li.
I
('..ertos estudiosos dos problemas indianos expressaram surpresa por a I
pequena élite indiana, educada à maneira ocidental, se ter mantido fiel I':
ao ideal democrático, quando poderia facilmente tê-lo destruido. Mas
porque desejariam destrui-lo? A democracia não proporciona uma
racionalização para recusar reordenar, em escala maciça, uma estrutura -
social que mantém os seus privilégios? Pata sermos justos, devemos
acrescentar que a tarefa é suficientemente formidável para fazer vacilar,
à ideia de tomar responsabilidade por ela, quem não for o mais radical:::"
dos doutrinários.

496 497
,I
t A revolução vinda de Cima
I e o fascismo

A segunda rota pr.h"1cipaIpara o mundo da indústria moderna


chamámos a rota capitalista e reaccionária, muito claramente exempli-
ficada pela Alemanha e pelo Japão. Aí, o capitalismo enraizou-se firme-
mente tanto na agricultura como na indústria e transformou esses países
em países industriais. Mas fê-lo sem um movimento revolucionário
popular. As tendências havidas neste sentido foram fracas, muito mais
fracas no Japão. do que na Alemanha, e em ambos os casos foram
desencaminhadas e esmagadas. Embora não fossem a única causa, as
condições agrárias e os tipos espedficos de tra...~sformaçãocapitalista .
que se verificaram na zona rural contribuíram muito fortemente para
essas derrotas e para o enfraquecimento por trás de cada impulso no
sentido das formas democráticas ocidentais.
Existem certas formas de transformaçào capitalista na zona rural
que podem ter êxito económico, no sentido de produzirem bons lucros,
mas que são, por razões bastante óbvias, desfavoráveis ao desenvolvi-
mento de instituições livres do género das do Ocidente no século XIX.
Embora essas formas se confundam, é fácil distinguir dois tipos gerais.
Uma classe superior proprietária pode, como no caso do Japão, manter
intacta a sociedade camponesa pré-existente, introduzindo apenas as
alterações suficientes,na sociedade rural, para garantir que os camponeses
produzam um excedente suficiente, de que se possa apropriar e vender
com lucro. Ou então, a classe superior p.roprietária poderá crear sistemas

499
".',"
~~'~~
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E .DA DEMOCRACIA
~,~
soClaIs inteiramente novos, dentro do estilo da escravatura das plan- mão-~e-obra dos membr.os da família, nesse caso, mas essa exploração
tações. A escravatura nos tempos modernos só é, provavelme.nt:, crea- era felta, aparentemente, sobretudo por,parte do próprio chefe da faÍIú-
ção de uma classe de intrusos colonizadores, nas z?na,s tropICaiS. E~ ~a, c.om um mini~o de assistência exterior. Também se não poderia
certas partes da Europa Oriental, porém, a nobreza 1ndIgena consegUlu 1nclUlr nessa descnção o sistema dos trabalhadores agrícolas assala-
voltar a introduzir um sistema de servidão que fincou os camponeses riado.s, com liberdade suficiente para recusarem um trabalho e partirem,
à terra, de tal modo que os resultados obtidos foram semelhantes. É um condição essa que raramente se vertlica na prática. Finalmente, os sis-
sistema intermédio, entre os outros dois. temas agrários pré-comerciais e pré-industriais não são necessariamente
Tanto o sistema de conservar intacta a sociedade camponesa, mas repressivos da mão-de-obra, se houver um equilíbrio, mesmo grosseiro,
extorquindo-lhe cada vez ~ais, como o ~so de .mão-de~obra, serv:il.ou entre a contribuição do senhor rural para a justiça e a segurança e uma
semi-servil, em grandes urudades de cultivo, eXigem rrietodos polItlCOS contribuição do agricultor, sob a forma de colheitas. Se esse equilíbrio
de força para a extracção do referido excede~te, para ~anter a,~ão-de- pode ser atribuído a qualquer sentido objectivo, é um ponto que será
-obra no seu lugar e, em geral, para fazer o SIstemafunClonar. EVIdente- disc~tido mais detalhadamente no capítulo seguinte, quando surgir
mente, nem todos estes múodos são políticos, num:sentido restrito. em ligação com a questão das causas das revoluções camponesas. Aqui,
Particularmente onde a sociedade camponesa é con~ervada, surgem apenas necessitamos de observar que o estabelecimento de sistemas
tentativas de todos os tipos para o emprego das refações e atitudes agrários repressivos da mão-de-obra, no curso da modernização, não
tradicionais, como a base da posição do senhor ruraL; Dado que esses produzem necessariamente maiOl"sofrimento entre os camponeses do
métodos políticos têm consequências importantes, será' útil dar-lhes um que os outros sistemas. Os camponeses do Japão tinham maiores 'faci-
nome. Os economistas distinguem entre tipos de agricultura de mão-de- lidades do que os ingleses. O nosso problema consiste num asnecto
-obra intensiva e de capital intensivo, conforme o sistema utiliza grandes diferente: como e porquê os sistemas agrários repressivos da mã~-de-
quantidades de mão-de-obra ou de capital. Também ~rá útil fal~m.os -obra proporcionam um clima desfavorável ao desenvolvimento da
.dos sistemas repressivos de mão-de-obra, de que a escraratura constitUl o democracia e uma parte importante do complexo institucional que leva
ponto extremo. A dtliculdade. dessa noção con~ist~ ~m qu~ se pode ao fascismo.
legitimamente perguntar que tipo exactamente nao e repressIvo para a Ao dissertar sobre as origens rurais da democracia parlamentar,
mão-de-obra. A distinção que tento sugerir é feita entre o uso de meca- ..•. ;~_ ,
notámos que um grau limitado de independência da monar.quia consti-
nismos políticos (utilizando o termo {<político»de modo lato, como r ;.~ tuía uma das condições favoráveis, embora não ocorresse em toda a
acabamos de dizer), por um lado, e o apoio no mer~ado, por outro, ::J~f:' parte. Conquanto um sistema de agricultura repressivo da mão-de-obra
. ".i /\,
Para garantir uma força de mão-de-obra adequada para trabalhar o solo possa iniciar-se em oposição à autoridade central, é possível fundir-se
e cre~ um excedente agrícola destinado ao consumo por parte das outras ' :,~;~~;~' c?m a monarquia, posteriormente, na procura de apoio político. Essa
. b alXaso
classes. As que se encontram na zor...amais. . " em amb a.s .. ~,.•
frem mUlto, ''f~~~ ~i7~
~. ,>'.~ sltuação pode também levar à conservação de uma ética militar entre
~,r;.:.;:t
os casos. ''''';t. -.f'. a nobreza, de maneira desfavorável ao desenvolvimento das instituições
Para tornar útil o conceito de um sistema agricola repressivo à ." ::1;,,; .-;,' democráticas. A evolução do estado prussiano constitui o mais claro
base de mão-de-obra, convém estipular que, desse mo~o, se manté~.- ~''l! ~rjj exemplo. Dado que nos referimos a esses.aspectos em diversos pontos
a trabalhar grande número de pessoas. Convém também 1nformar expli- .:,...~l_,'" desta obra, será adequado descrevê-los aqui resumidamente.
citamente que ele não inclui, por exemplo, a propriedade famili~c~:~ Na ~lemanha d;) Nordeste, a reacção senhorial nos séculos quinze
americana de meados do século XIX. Pode ter havido exploração da;} ~. e dezasseIS, sobre a qual teremos algo mais a dizer dentro de outro 111
.,.t.

'11
500 501
111

111

111

j.
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

contexto, interrompeu o progresso no sentido da libertação dos cam- necessário falarmos dentro de momentos. Há também variantes e subs-
poneses das obrigações feudais e o progresso, a ela estreitamente ligado, tituições significativas, dentro do padrão geral que levou ao fascismo
da vida citadina, que, na Inglaterra e na França, culminaram na demo- a que poderíamos chamar subalternativas, se quiséssemos ser exacto~
cracia ocidental. Uma causa fundamental foi o desenvolvimento das e técnicos, dentro da aiternativa mais importante da modernização con-
exportações de cereais, embora não fosse a única. A nobreza prussiana servadora, através de uma revolução vinda de cima. No Japão, a noção
expandiu as suas propriedades à custa dos camponeses que, sob a Ordem de compromisso total perante a autoridade proveio, aparentemente,
Teutónica, haviam estado próximos da liberdade, e reduziram-nos à mais do aspecto feudal da equação do que do do seu aspecto monár-
servidão. Como parte do mesmo processo, a nobreza reduziu as cidades quico (2). Também na Itália, onde o fascismo foi inventado, não havia
à dependência, curto circuitando-as com as suas exportações. Mais uma monarquia nacional poderosa. Mussolini teve de chegar à antiga
tarde, os gOvernantes Hohenzollern conseguiram destruir a indepen- Roma para conseguir encontrar o simbolismo correspondente.
dência da nobreza e esmagar os Estados, voltando os nobres e os habi- Numa fase posterior do curso da modernização, é provável que
tantes das ~idades uns contra os outros, e controlando assim os com- apareç~ um factor novo e crucial, sob a forma de uma coligação
ponentes atistocráticos no seu caminho para o governo parlamentar. grosselra entre os sectores influentes das classes fundi~ri,s e os
O resultado, nos séculos XVII e XVIII, foi a «Esparta do Norte», uma interesses comerciais e industriais emergentes. Tratava-se, de longe,
fusão núlitarizada de burocracia real e aristocr"cia proprietária (1). de uma configuração política do século XIX, embora prosseguisse no
Do lado da aristocracia proprietária surgiram. as concepções de século xx. Marx e Engels, na sua dissertação sobre a revolução abor-
superioridade inerente, na classe governante, e uma sensibilidade às tada de 1848 na Alemanha, eonquanto errados em outros aspectos impor-
questões d9 Estado, tra~os proeminentes mesmo no século xx. Alimen- tantes, puseram o dedo neste ingrediente decisivo: uma classe comercial
tados por 1J.ovasfontes, esses conceitos puderam ser posteriormente e industrial demasiado fraca e dependente para tomar o poder e governar
. vulgarizados e tornados interessantes para a população alemã, no seu de seu direito próprio, e que, por isso, se lança nos braços da aristocracia
conjunto,qomo doutrinas de superioridade radical. A b.urocracia real proprietária e da burocracia real, trocando o direito de governar pelo
introduziu, contra uma considerável resistência aristocrática, o ideal da direito de ganhar' dinheiro (3). É necessário acrescentar que, mesmo que
obediência total e irreflectida à instituição, acima da classe e do indivíduo Oelemento comercial e industrial seja fraco, deve ser suficientemente forte
(antes do século XIX seria anacrónico falar de nação). A disciplina e a (ou em breve tornar-se suficientemente forte) para constituir um aliado
obediência prussianas e a admiração perante as qualidades de um soldado político digno de valor. Caso contrário, pode surgir uma revolução
derivavam -principalmente dos esforços dos Hohenzollern para crear camponesa que leve ao comunismo. Isso sucedeu tanto na Rússia como
uma monarquia centralizada. na China, após esforços sem êxito para estabelecer uma tal coligação.
Parece também haver outro ingrediente que entra na situação um pouco
Tudo isto não significa, evidentemente, que um destino inexorável
mais tarde, em relação à formação dessa coligação: mais tarde ou mais
arrastasse a Alemanha para o fascismo desde o século XVI, e que o
cedo, os sistemas da agricultura repressiva da mão-de-obra são suscep-
processo nunca poderia ter sido invertido. Outros factores tinham de
tíveis de enfrentar dificuldades produzidas pela concorrência de outras
intervir, e alguns deles muito importantes, tais como a industrializa--
ção, começaram a desenvolver-se durante o século XIX. Sobre esses, será
(2) SANSOM, Hiltory 0/ Japan, I, 368.
(3) Ver MARX, Selected Worki, lI, Germany: Revolution and Counter-Revolution,
(1) V. ROSENBERG, Bureau.-rtlcy; CARSTEN, Origini .1/ Pruuia •. escrito principalmente por Engels.

502 50;
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

mais avançadas tecnicamente, de outros países. A concorrência das menos, ~ Itália bastante menos, a Espan;p.a muito pouco. Ora, no curso:'.
exportações de trigo americano creou dificuldades em muitas partes da da modernização através de uma revolução vinda de cima, esse governo'
Europa, após o fim da nossa Guerra Civil. Dentro do contexto de uma tem de executar muitas das tarefas realiiadas noutros países, com a ajudi
coligação reaccionária, essa concorrência intensifica as tendências d~ uma revolução vinda de baixo. A noção de que uma revolução popular.-
autoritárias e reaccionárias entre uma classe superior proprietária que vlOlenta é, de certo modo, necessária para varrer os obstáculos «feudais;;:'
verifica que a sua base económica se afunda e, por isso, se volta para as à industrialização é puro erro, como demonstram os cursos das histórias
alavancas políticas a fim de conservar o seu poder. alemã e japonesa. Por outro lado, as consequências políticas do desman-
I
Onde a coligação conseguiu estabelecer-se, seguiu-se um período telar da ordem, feito de cima, são decididamente diferentes. A medida que
prolongado de governo conservador e mesmo a~toritário, sem, contudo, prosseguiam com a modernização conservadora, estes governos semipar-
cair no fascismo. As fronteiras históricas desses s1stemas estão, frequente-
I lamentares tentavam preservar a estrutura social inicial, aplicando grandes

I
"~I':
I'

mente, um tanto confusa.s. 'Com um cálculo bastante generoso, pode-se secções dessa estrutura no ediíício novo, sempre que possível. Os resul- "

afirmar que, a esta espécie, pertence o período que vai desde as reformas I
I
tados tin..~am certa semelhança com as casas Victorianas actua.is com illili
Stein-Hardenberg, na Alemanha, até ao final da I Guerra Mundial, e, modernas cozinhas eléctricas mas com c;sas de banho insuficie~tes e i!.
no Japão, desde a queda do Shogunato Tokugawa até 1918. Estes gover-
nos autoritários adquiriram certas características democráticas: nomea-
I
I.
canos rotos decorosamente escondidos por trás de paredes estucadas
de novo. Finalmente, os expedientes falharam.
li,
li
I

damente um parlamento com poderes limitados. A sua história pode ser Uma importante série de medidas foi a racionalizaçlo da ordem 11
marcada por tentativas para alargar a democracia, que, para o fim, conse- política. Significou a quebra de divisões territoriais tradicionais e esta- I"
guiu estabelecer democracias instáveis (a República de Weimar, o Japão belecidas havia longo tempo, tais como o hal1 feudal no Japão e os Estados
da década de vinte a Itália com Giolitti). Eventualmente, a porta para os e principados independentes da Alemanha e da Itália. Com excepção
tegitnesfascistas f;i aberta pela incapacidade de estas d:mocr~cias e~fren- do Japão, a quebra não foi completa. Mas, com o tempo, o governo
tarem os problemas graves da época e a sua relutânCIa ou lncapac1dade central acabou por estabelecer uma forte autoridade e um sistema admi- I
de introduzir alterações estruturais fundamentais (4). Um factor, mas nistrativo uniforme, e surgiram um código de leis e um sistema de I
apenas um, da anatomia social d~s~es govern~s, fo~ a :~tenção ~e ~~a tribunais mais ou menos uniforme. Novamente, em vários graus, I I

parte substancial do poder político nas maos da eltte propnetana, o Estado conseguiu crear uma máquina militar suficientemente poderosa
em virtude da ausência de uma rotura revolucionária dos camponeses, para que os desejos dos governantes se fizessem sentir na ~rena da I: I
em combinação com as. camadas urbanas. política internacional. Economicamente, o e:,tabelecimento de um ~!.'
Alo-uns dos governos semiparlamentares que surgiram a partir dessas governo central forte e a eliminação de barreiras intemas para o comércio ~l
bases e;ecutaram uma revolução mais ou menos pacífica, vinda de cima, significava um aumento das dimensões da undade econóITIÍca efectiva. 'I
que muito os fez avançar, no sentido de se tornarem países industriais Sem esse aumento, a divisão do trabalho, necessária à sociedade indus-
~odernos. A Alemanha foi mais longe nessa direcção, o Japão pouc,o:, trial, não poderia existir, amenos que todos os países estivessem dis-
postos a negociar pacificamente entre si. Sendo o primeiro país a indus-
trializar-se, a Inglaterra conseguiu extrair o máximo de material e mer-
(4) A Polónia, a Hungria, a Roménia, a Espanha e mesmo a Grécia passara
aproximadamente por esta sequência. Com base num conhecimento confessa~_ cados do mundo acessível, situação essa que, gradualmente, se deterio-
mente inadequado, gostaria de arriscar a sugestão de que a maior parte da Amér rou durante o século XIX, quando outros surgiram e procuraram utilizar
Latina continua na era do governo semiparlamentar e autoritário. ,,~, o Estado para garantir os seus mercados e fontes de abastecimento.

504 505
'f
~.c.••

COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

t
Ainda outro aspecto da racionalização da ordem poHtica está rela- I vo~ação ,~ara a p~~tica, pode-se talvez detectar uma contribuição dos
cionado com o «fabrico» de cidadãos dentro de um novo tipo de socie- 1 anctens regtmes agranos para a construção de uma nova sociedad M
dade. São necessários às massas conhecimentos literários e técnicos rudi-
' h . £: • e. . as
tam bem aVIa J.ortes Impulsos contrários . Na medI'da
_ e m que esses
mentares. A elaboração de um sistema nacional de educação traz, muito h.omens eram estranhos dentro da aristocracia, pode ver-se a incapa-
provavelmente, um conflito com as autoridades religiosas. A lealdade
para com uma nova abstracção, o Estado, tem que substituir as lealdades
I CIdade dessa camada para enfrentar o desafio do mundo mod~rno
apenas com os seus recursos intelectuais e políticos.
religiosas se estas transcenderem fronteiras nacionais ou competirem Os melhor sucedidos dos regimes conservadores fizeram muito
entre si tão vigorosamente que possam destruir a paz interna. O Japão não só ao destruírem a ordem antiga, mas ao estabelecerem a nov~
teve aí um problema menor do que os da Alemanha, da Itália ou da ordem. O Estado auxiliou a construção industrial de diversos modos
Espanha. Contudo, mesmo no Japão, como indica o renascimento impo~tantes. Serviu de motor de acumulação do capitalismo primário
um tanto artificial do Shintõ, houve dificuldades consideráveis. Para compIlando recursos e diriginào-.os para a construção de fábricas. Domi~
vencer essas dificuldades, pode ser muito útil a existência de um inimigo nando a mão-~e-o~ra, também desempenhou um papel importante,
estrarigeiro. Assim, os apelos patrióticos e conservadores às tradições ?e modo algum Intelramei1te repressivo. Os armamentos constituír:>.m um
militares da aristocracia proprietária podem vencer as tendências loca- Impor~ante estímu~o para a in~úst:ia. O mesmo sucedeu com as políticas
listas entre esse importante grupo e colocar em segundo plano quaisquer de tanfas aduaneiras protecClOnlstas. Todas estas medidas até certo
exigências insistentes das camadas mais baixas por uma parte não prevista ?onto, implicavam retirar recursos e pessoas àagricultur:. Por isso
dos benefícios da nova ordem (5). Ao executar a tarefa de racionálizar Impunham, de tempos a tempos, uma forte tensão à coligação entre os
e alargar a ordem política, esses governos do século XIX estavam a sectores das ~a~adas superiores ligadas ao comércio e à agricultura, a
fazer o trabalho que o absolutismo real havia já realizado noutros países. f.
qu~l era a pnn~Ipal característica do sistema poHtico. Sem a ameaça de
Um facto interessante sobre o curso da modernização conservadora p.engos estrangetros, por vezes real, por vezes talvez imaginária, por vezes
é a aparição de uma constelação de chefes poHticos notáveis: Cavour, na a1l1d~, ~omo n~ caso de Bismarck, deliberadamente fabricada para fins
Itália; na Alemanha, Stein, Hardenberg e Bismarck, o mais famoso de domestlcos, os Interesses dos proprietários poderiam ter sido frustrados
todos; no Japão, os homens de Estado da época Meiji. Embora as razões ao ponto de po~em todo o processo em perigo. Contudo, só por si, ~
sejam obscuras, parece pouco provável que a aparição de capacidades ameaça estrangetra não pode suportar todo o peso da explicação desse
de governo semelhantes em circunstâncias semelhantes seja pura coinci- comportamento (6). As recompensas materiais e outras - o «lucro»
dência. Todos eram conservadores dentro do espectro político do seu na linguagem dos gallg.rters e teoria do jogo - eram bastante substanciai~
tempo e do seu país, dedicados à monarquia, decididos a utilizá-la como p~~a ambos, desde que conseguissem manter os camponeses e os ope-
um instrumento de reforma, modernização e unificação nacional, e ratlos no seu lugar. Quando havia progresso económico substancial
capazes de o fazerem. Embora todos fossem aristocratas, eram dissi- os operários industriais podiam obter ganhos significativos, como n~
dentes ou, de certo modo, estranhos à ordem antiga. Na medida em Alemanha, onde foi inventada a Sozialpolitik. Foi nos países que se
que o seu passado aristocrático contribuiu com hábitos de comando_ e

(6) Para obter uma análise brilhante da situação na Alemanha em fins do


(5) Possivelmente, um dos motivos por que o conservador CAVOUR teve. século XIX, vide KEHR, Sehlaehtftottenbau. WEBER, em Bntwickelungstendenzen in der
tantas dificuldades com o relativamente radical GARIBALDI foi a fraqueza das tià::. Lage der Ostelbisehen Landarbei/er, em Gesammel/e Aufsiitze, esp. 471-476 dá-nos
dições militares entre a aristocracia proprietária italiana. ,l .. muito claramente a posição dos Junkers. '

506 507
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAlS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

mantiveram mais atrasados, a Itália até certo ponto, a Espanha provavel- mento industrial, mesmo que, na Alemanha, um Bismarck conseguisse,
mente um pouco mais, que houve maior tendência para canibalizar a d.urante_algum tempo, controiar a situação, em parte por o militarismo
população indígena. atnda nao se ter tornado um fenómeno de massa. Levar a cabo reformas
Parece terem sido necessárias certas circunstâncias para o êxito da estrutu~ais com~letas, isto é, fazer a transição para uma agric"ultura
modernização conservadora. Em primeiro lugar, é necessária uma comercIal lucratlva sem a repressão daqueles que trabalhavam o solo,
chefia muito hábil para arrastar os elementos reaccionários menos per- e fazer o mesmo quanto à indústria, numa palav a, utilizar a tecnologia
ceptivos, concentrados entre as classes superiores proprietárias, embora mod~~na rac,i~nalmente para o bem dos seres humanos ficava para além
não forçosamente"a elas confinados. A princípio, o Japão teve de supri- da VIsaopohtlca de~tes governos (8). Finalmente, esses sistemas esmaga-
mir uma rebelião 'autêntica, a revolta de Satsuma, para controlar esses ram-se numa tentatIva de expansão estrangeira, mas não antes de ten-
elementos. Osreaccionários podem sempre apresentar o argumento tarem tornar popular a reacção sob a forma de fascismo.
plausível de qui os governantes modernizadores fazem mudanças Antes de falarmos desta fase final, convém observar as tendências
e concessões quekpenas despertam os apetites das classes inferiores e revolu.cionárias mal sucedidas noutros países. Como acima disse, este
trazem revoluçõei>.(7). De modo semelhante, os governantes de-vcm síndrome re,,-ccionário pode encontrar-se, em determinado ponto, em.
poder usar ou (;onstruir uma máquina burocrática suficientemente todos os casos que examinei. Verificar o motivo por que falhou noutros
poderosa, incluin~o instituições de repressão, os núlitares e a polícia países poderá aguçar a compreensão das causas dos seus êxitos. Um
(vide o ditado alemão Gegen Demokratm heljen nur Soldaten) (*), para se breve relance a essas tendências em países tão diferentes como a Ingla-
libertarem da inflúéncia, na sociedade, de p~essões extremas reaccioná- terra, a Rússia e a índia, poderá servir para salientar importantes seme-
~ias e populares oãiadicais. O governo tem de separar-se da sociedade, lhanças subjacentes, ocultas sob diversas experiências históricas.
algo que pode ac~fítecer mais facilmente do que as versões simplificadas A partir dos últimos anos da Revolução Francesa, até cerca de 1822
do marxismo no~ permitem crer. a sociedade inglesa atravessou uma fase reaccionária que recorda nã;
No conjunt~um governo conservador forte tem vantagens nítidas. só os casos de que falámos, como também os problemas contemporâneos
Pode encorajar elcontrolar o desenvolvimento económico, simultanea- da democracia americana. Durante a maior parte desses anos, a Ingla-
mente. Pode ocupar-se de que as classes inferiores, que pagam os custos terra lutou contra um regime revolucionário e seus herdeiros por vezes
de todas as formas de modernização, não causem muitos problemas. ao que parece, pela sua própria sobrevivência nacional. Tal como no~
Mas a Alemanha~, ainda mais, o Japão estavam a tentar resolver um nossos tempos, os defensores da reforma doméstica eram identificados
problema que erã inerentemente insolúvel, moderr..izar sem alterar as com um inimigo estrangeiro, representado como a incarnação de tudo
estruturas sociais.-A única saída desse dilema era o núlitarismo que uniu
as classes superiores. O militarismo intensificou um clima de conflito (8) Sob este aspecto, a Alemanha e o Japão não são únicos, evidentemente.
internacional, que, por sua vez, tornou mais imperioso o desenvolvi- De~de a II Guerra. Mundial, a democracia ocidental começou a apresentar cada vez
~IS_ o.s.,mesm~s SIntomas, por motivos vastamente semelhantes que, no entanto,
(7) Esses argumentos também se salientaram na Inglaterra, como parte' da Ja nao t~m mUlto que ver com as questões agrárias. Marx observa algures que a
reacção à Revolução Francesa. Muitos foram coligidos em Turberbille, House 'of 'o, burgueSIa, na. sua fase de declínio, reproduz todos os males e irracionalizações
Lords. A reforma Tory pôde actuar na Inglaterra do século XIX, porém, pelo menos"í\: contra os quaIs antes lutara. O mesmo sucedeu com o socialismo, 110 seu esforço.
em parte, por constituir, de qualquer modo, uma batalha ncticia: a burguesia tinha'~:;' para se es:abelec:r, permitindo assim à democracia do século xx a ostentação da
ganho e só os mais obtusos não viam o seu poder. su~ .ban,d:ua de ltberdade, enlameada e manchada de sangue, com uma certa hipo-
cnSla Cllllca.
* Contra democratas só os soldados.

508 509
o que era mau. T am e,
sões e as tralçoes
COORDENADAS

b 'm como nos nossos temoos, a violência, as repres-


- . ,..
. - ao movimento revoluClonarlOem rança esgos
.
F

os artidários ingleses, tornando malS a


d
. f:'cil
taram

e malS
.
""r AS ORIGENS SOCIAISDA DITADURAE DA DEMOCRACIA

Por que motivo não foi este movimento reaccionário mais' do que
uma fase passageira em Inglaterra? Porque não continuou a Inglaterra
a percorrer esta senda até se tornar noutra Alemanha? As liberdades
e lades,en~ora~~~~hod~s reaccionários desejosos de apagar as faíscas.que anglo-saxónicas, a Magna Carta, o Parlamento e outras retóricas não
p US1veo nal Escrevendo na década de 1920, o grande histo- servem de resposta. O Parlamento votou medidas repressivas por
atravessavam o ~ ., ão é de modo algum, pessoa dada a ~I
grandes maiorias.
riador francês ~~e H~l:vy, q~e ; i e;tabelecido um reinado de terror Uma parte importante da resposta poderá encontrar-se no facto de,
exageros dramatlcos, anrmou. « o " .
toda a Inglaterra peIa no breza e pela classe média - um_terror'dmalS um século antes, certos ingleses extremistas terem cortado a cabeça ao
em
formidável embora maIS " SIenclOso,
"I . do que as demonstraçoes rU! . osas seu monarca, para destruÚem a magia do absolutismo real na Inglaterra.
. di")
( d os ra Cals» . (9) Os acontecimentos das quatro décadas
b e mals que A um mais profundo nível de causas, toda a história da Inglaterra, o seu
o d sde ue Halévy escreveu estas linhas em otaram os noss~s apoio na marinha em vez do ezército, nos juizes de paz não pagos em vez
:a~:;~~~ e ~imin~jram os nossos padrões. Ninguém que escrevess~ ~oJe dos funcionários reais, tinha colocado nas mãos do govel'no central uma
~e~ c .. t £a~ecomo um reinado de terror. O número de v1tlmas máquina repressiva mais fraca do que aquela de que dispunham as fortes
~e~eienrla a es a " 1 (1819)
c'''' - _ c' _ o No «massacre» de Peter 00 monarquias continentais. Assim, faltavam ou estavam fracamente
directas da repressao i01 pequen . . , . li
o

o L A

- uma reierenC1a- u
• h morística à mais famosa VItona de \Ylel ngton em
C d movimento
o

j• desen~olvidos os materiais com que se construiria o regime alemão.


1 L ' oram mortas onze pessoas. ontu o, o Contudo, nesta altura, vimos já bastantes mudanças sociais e políticas
Water 00 - SO i' dI' . pensa
L do Parlamento foi considerado fora a e1, a 1m r 1 saírem <le princípios pouco prómetedores, para suspeitarmos que
o

para a reiorma . _ heiravam a


foramordaçada,
"-.- o.
rad1cahsmo, 11l1CIa
0'0
. • . d
foram proibidas as assoc1açoes q~e_ C
o u
m surto de julgamentos por tralçao, espalhados
ovo es iões e agents provocateurs, suspenso o a ea.
H b s Corpus
~u
.1
t podiam ser creadas instituições, se as circunstâncias tivessem sido mais
favoráveis. Mas, felizmente para as liberdades humanas, não o foram.
O impulso para o industrialismo tinha começado muito mais cedo na
entre o p . p Napoleão A repressão e o sofnmento Inglaterra e tornaria desnecessária à burguesia inglesa uma grande
depois de ternunada a guerra com '. ~ ". d or . o

o o. ali ados sendo apenas parClalmenLenutlga os p ~. dependência da coroa e da aristocracia proprietária. Finalmente, as pró-
eram reaIS.e_ge~::t;ua : articulada: um aristocrata como Ch~rles" ,:.~' prias classes s~periores fundiárias não necessitavam de reprimir os
certa oposlçao P I ento aqUi ou ';"~1
camponeses. Desejavam principalmente tirá-los do seu caminho, para se
J ames F::. (f 1806) q'ue falou corajosamente no ar am '._
o •

ox.
. . , d or trall"<lO
.- ou ' J:"
além um JUiZou u m J'úri que se recusaram a con enar p poderem dedicar à agricultura comercial; as medidas económicas che-
outras acusações (10). gavam perfeitamente para lhes proporcionar a mão-de-obra'- de que
necessitavam. Tendo êxito económico, deste modo, tinham pouca
. H' , 1the Eng/ish Peop/e, II, 19. ;' necessidade de recorrer a medidas políticas repressivas para continuarem
(9) HALEVY, zs,ory o Makin of Working elass, uma excc-
lt
(10) Pode encontra~-se em THOM:::N~ida ara as classes inferiores em Ingla-
a sua hegemonia. Por isso, na Inglaterra, os interesses industriais e
lente descrição pormenonzad~ d.o ~ue ;edidas ';vernamentais e alguns dos seus agrários competiam entre si pelo favor popular, durante o resto do
g
terra, nesse período. As prInCIpaIS P t Brl'tish Pe(lf>/e 132-134, 148-149, século XIX, alargando gradualmente o sufrágio, opondo-se ciumenta-
em Cole e ostga e, r , 'd
efeitos podem encontrar-se adicionais importantes, VI e
- 59 190193 Para obter alguns pormenores ,. . mente às medidas mais egoístas de cada um deles e destruindo-as (Lei
15/-1, -. _' e II 23-25 A oposição aristocratlca a rep
HALÉVY,History of the Eng/zsh Peopl, '. l' En lalld in
89-92, e TURllEVIL da Reforma de 1832, abolição das Leis dos Cereais de 1846, apoio da
são pode encontrar-se em TREVELYAN,Hzstory o lt , ,
pequena nobreza à legislação fabril, etc.).
House of Lordr, 98-100.

33
510 511
COORDENADAS
.' '~":' r .<0" "
AS ORIGENS SOCIAlS DA DIrADURA E DA DEMOCRACIA

Na fase de reacção inglesa houve laivos de possibilidades fascistas, a pequena nobreza. Contudo, na Rú.ssia camponesa airida atrasada, dos'
especialmente em algumas das reacções anti-radicais. ~as não pass~ram princípios do século xx, esta forni~ de estremismo das direitas. ~ão
de laivos. Era ainda muito cedo. Podemos ver os Sintomas fascistas conseguiü encontrar uma base popular firme. Entre os camponeses, teve
muito mais claramente noutra parte do mundo, em altura posterior- êxito principalmente em áreas de nacionalidade mista, onde a explicação
durante uma breve fase de extremismo na Rússia, depois de 1905. de todos os males, atribuída aos judeus e estrangeiros, fazia sentido em
Foi uma fase extrema, mesmo à luz dos padrões russos da época; poder- termos de experiência vivida (12). Como todos sabem, na medida em que
-se-ia defender bem a tese de que os reaccionários russos inventaram o
fascismo. Assim, esta fase da história russa é especialmente ilustrativa,
porquanto mostra que o síndrome fascista: 1). pode a?arecer como
reacção à tensão do industrialismo em desenvolvImento, independente-
mente de um fundo social e cultural; 2) pode ter muitas raízes na vida
I estavam politicamente activos, os camponeses russos eram revolucio-
nários e constituíram, eventualmente, a força principal para a explosão
do antigo regime.
Na Índia, igualmente, se não mais atrasada, os movimentos seme-
J lhantes não conseguiram obter uma base firme entre as massas. Na reali-
agrária; 3) aparece, em parte, corno reacção a um fraco i~pulso. p~ra a dade, SubhasChandra Bose, que morreu em 1945, exprimiu sentimentos
democracia p::trlamcntar; 4) mas não pode florescer sem Industnalismo
ou com um passado eminentemente agririo ~ pontos estes, ?a reali-
t
;
ditatoriais, trabalhou para o Eixo e teve grande popularidade. Embora
as :.massimpatias fascistas conferissem com outros aspectos do seu cadas-
dade, todos sugeridos também pelas histórias' recentes da Chinã ,c. po tro público e não pareçam ter resultado de entusiasmo momentâneo ou
Japão, embora seja esclarecedor encontrar mais fortes confirmações oportunismo, Subhas Chandra Bose ateve-se il. tradição indiana, princi-
na história da Rússia. palmente como um patriota extremo e antibritânico mal orientado (13).
Pou::o antes da Revolução de 1905, a minúscula classe comercial Houve também um desenvolvimento de organizações políticas nativistas
e industrial russa mostrou sinais de descontentamento perante a repres- hindus, algumas das quais seguiram a disciplina autocrática do partido
~iva autocracia czar:sta e mostrou disposição de namoriscar as noções totalitarista europeu. Atingiram o auge da sua influência aquando do
constitucionais liberais. As greves dos operários, contudo, e a promessa caos e dos motins que rodearam a Separação, durante os quais ajudaram
contida no Manifesto Imperial de 17 de Outubro de 1Y05,para satisfazer a promover motins antimuçulmanos e actuaram como órgãos de
algumas das exigências dos grevistas, fez regressar os indus~rialistas.ao defesa das comunidades hindus contra ataques muçulmanos, chefiados,
campo czarista (11). Este fund'o apareceu de novo no mOVImentodas provavelmente, por organizações semelhantes do lado muçulmano.
Centúrias Negras. Apoiando-se em parte na experiênc~a americ~na, .: ~" ~ Aos seus programas falta conteúdo económico e estes parecem ser prin-
transformaram o verbo «lyncb> numa palavra russa e pediram a aplICa- -:iI<:' ~:;

cipalmente uma forma de hinduísmo militante e xenófobo, tentando


ção da 7a.kon hmcha, a lei de Lynch. Recorreram à violência em estilo S. A. ~, ~
combater a ideia estereotipada de que os hindus são pacíficos, divididos
"'"

.... ,.:~ ';;.~'


para su~rimi; a «traição» e a «sedição». Se a Rússia pudesse destruir por castas, e fracos. Até agora, o seu sucesso eleitoral tem sido dimi-
os judeus e os estrangeiros, segundo afirma~a a sua p~opag~n~a, todos nuto (14).
poderiam viver alegremente, um regresso a «verdadeira RussIa». Este .
nativismo anti-semita tinha interesse considerável junto dos elementos (12) LEVITSKII, Pravyya partii Obshehestvennoyedvizheniye v Rossii, IH, 347-472.
retrógrados, pré-capitalistas e pequenos-burgueses das cidades, Ver especialmente 432, 370-376, 491, 353-355.
(13) V. SAMRA, Subhas Chandra Bose, em Park & Tinker, eds., Leadership
and Politieal Institutions, 66-86, esp. 78-79.
(11) GIETRMANN, Gesehiehte RJ<sslands, IH, 403, 409-410; BERLIN,
(14) LAMBERT, Hindu Communed Groups, em Park e Tinker, eds., Leadership
burzhuaziya, 226-227, 236. anti Political Institutions, 211-224.

512 513
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

Um motivo possível para a fraqueza da variante hindu do fas- mava serem valores de seu próprió' direito. As concepções romm{ticas
cismo, até agora, 'pode ser a fragmentação do mundo hindu. er:ncastas, de camaradagem apenas qualificam muito ligeiramente este pbnto
classes e linhas étnicas. Assim, uma campanha caracteristicamente de vista; é camaradagem na submissão. Outra das características era a
fascista, dirigida a um determinado sector, iria antagonizar outros, en- importância dada à violência. Essa importância ultrapassa qualquer
<]uanto que uma campanha mais geral, com .um certo ~om de pan- apreciação fria e racional da importância factual da violência na poli-
-humanismo universal, começa a perder qualidades fasclstas. A esse tica, para atingir uma adoração mística da «dureza» por si própria.
respeifo, vale a pena notar <]uequase todos os grupos ~xtremista~~ndus O sangue e a morte adquirem frequentemente tons de atracção erótica,
se opuseram à intocabilidade e a outros inconvementes. SOC1a1S das embora nos seus momentos menos exaltados o fascismo fosse total-
castas (15). A principal razão, contudo, é provavelmente o srmples facto mente «saudável» e «normal», prometendo o regresso a um confortável
de Ga~dhi se haver já apropriado do sentimento antiestrangeiro e anti- ventre burguês e mesmo camponês e pré-burguês (16).
capita~sta de grandes massas da. população: os campones:s e a.r~es~os O anticapitalismo plebeu surge, assim, como a característica que
das indústrias caseiras. Nas condiçóes creadas pela ocupaçao brltamca, mais claramente distingue o fascismo do século xx dos seus predecesso-
conse~ü;u ligar esses sentit!J.entos aos interesses de um vasto sector res, os regimes conservador e semipatlamentar do século XIX. É um
da classe comercial. Por outro lado, a élite proprietária punha-se geral- produto não só da intrusão do capitalismo na economia rural, como
menteue parte. Assim, às tendências reaccionárias foram fortes na índia da's tensões resultantes da fase pós-competitiva da indústria capitalista.
e ajudl:c:am,a 'atrasar o progresso económico desde a independência. Por isso, o fascismo desenvolveu-se mais completamente na Alemanha,
Mas, ~.f~flómenos_de massa, os maiores movimentos pertencem onde o progresso industrial capitalista tinha avançado mais, dentro da
a um~specie histórica distinta do fascismo.__ estrutura de uma revolução conservadora vinda de cima. Surgiu à luz
. Efnbora pudesse ser igualmente vantajoso traçar um paralelo dos apenas como uma fraca tendência secundária em zonas tão atrasadas
insuc~os democráticos que precederam o fascismo na Alemanha, no como a Rússia, a China e a índia. Antes da II Guerra Mundial, não
Japão~ na Itália, para os nossos fins bastará notar que o fascismo é ganhou grandes raízes na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde o capi-
inconéebível sem a democracia, ou sem aquilo a que; por vezes, se talismo funcionava razoavelmente bem ou onde os esforços para corri-
chama, mais empoladamente, a entrada das massas no palco da história. gii as suas litrJtações podiam ser efectuados dentro da estrutura democrá-
b fasdsmo era uma tentativa para tornar populares e plebeus a reacção ticae ser bem sucedidos com a ajuda de um prolongado «boom» da
e o c011servadorismo,através do que o conservadorismo, evidentemente, guerra. A maioria da oposição anticapitalista aos grandes negócios tinha
perdia ~asubstancial ligação que tinha com a liberdade, de que falámos,' de ser posta de parte, na prática, embora não se devesse fazer o erro oposto
sob alguns aspectos, no capItulo anterior. , de considerar os chefes fascistas como simples agentes do grande capi-
O conceito de lei objectiva desapareceu com o fascismo. Entre as talismo. A atracção do fascismo para a classe média inferior das cidades, ,
suas características mais significativas encontrava-se uma violenta rejei- ameaçada pelo capitalismo, tem sido apontada com frequência; aqui,
ção das ideias humanitárias, incluindo qual<]uer noção de igua.tda~e podemos limitar-nos a uma breve revisão da evidência das suas variadas
humana potencial. O ponto de vista fascista sublinhava não só a meVl::-,' relações com os camponeses em diversos países. Na Alemanha, o esforço
tabilidade da hierarquia, da disciplina e da obediência, mas também afir- ,

(16) Dizer que o fascismo é atávico não o distingue suficientemente. O mesmo


sucedeu com os movimentos revolucionários, como tentarei explicar em porme-
(\5) LAMBERT, Hindu Gommuna/ GrOU}I, 219. nor no capítulo seguinte.

514 515
COORDENADAS
AS ORIGENSSOCIAISDA ,DITADURAE DA DEMOCRACIA

para estabelecer uma base consenTadora maciça na zona rural é muito


f)
guiram a maioria do seu apoio entte os camponeses cuja propriedade
terior aos nazis. Como afirma o Professor Alexander Gerschenkron,
an 'lementos básicos da doutrina nazi aparecem muito nitidamente
os e . L'
I era relativamente pequena e pouco lucrativa em relação à área específica
em que existia (21).
nos esforços geralmente bem sucedidos dos Jun~ers, por melo da 19a j
Agrária estabelecida em 1894, para ganhar o ~POlOdos campone~es em Para o pequeno camponês, sofrendo com o avanço do capitalismo,
com os seus problemas de preços e hipotecas que pareciam ser contro-
áreas não junkerizadas de pequenas. propne~a.des: A adoraç~o d?
Führer a ideia de um estado corporatlvo, o mllltansmo, o anti-sem1- lados pelos intermediários da cidade e pelos banqueiros, ambos hostis, a
tismo,' num quadro estreitamente relacionado c~m ~ .distinç~~ nazi propaganda nazi apresentava a imagem romântica do camponês ideali-
entre capital «predatório» e «produtivo», eram disposltlvos utlhzados zado, «o homem livre na terra livre». O camponês tornou-se a figura-chave
para apelar para sentimentos anticapitalistas entre os camponeses (~7). da ideologia da direita radical elaborada pelos nazis. Estes gostavam de
Há inúmeras indicações de que, nos anos que antecederam a depressao, acentuar o ponto de vista de que, para o camponês, a terra é mais do
os camponeses abastados e prósperos iam lenta~e:nte perde?do terreno, que um meio de ganhar a vida; tem todos os tons sentimentais do F/eimat,
transformando-se em anões. A depressão constltUlu uma cnse profunda ao qual o camponês se sente muito mais ligado do que o trabalhador
e geral, contra a qual a principa! reacção rural foi o Nacional Socialis~o. de colarinho branco ao seu escritório, ou o operário à sua oficina.
"O apoio rural aos nazis atingiu uma média de 37,4 por cento, pratica- As noções fisiocráticas e liberais encontram-se misturadas nestas dou-
medte idêntica à do país, na sua totalidade, quando da última eleição trinas da direita radical (22). «Um grupo firme de pequenos e médios
relativamente livre de 31 de Julho de 1932(18). camponeses», disse Hitler em Mein Kampf, «tem sido sempre a melhor
protecção contra os males sociais como os que temos agora». Esses cam-
Se se observar um mapa da Alemanha que mostra a distribuição
poneses constituem o único meio pelo qual uma nação pode assegurar
"dos votos nazis nas zonas rurais e se se comparar esse mapa com outros
o seu pão diário. Continua ele: «A indústria e o comércio recuam da sua
que mostrem a--distribuição d~valores das terras, tip~s d~ c~ltura (~) ."'f .~.
pouco saudável posição de chefia e adaptam-se no quadro geral de uma
ou áreas de quintas pequenas, médias e grandes (20), a pnmel!a lmp.ressao
economia nacional baseada na necessidade e na igualdade. Deixam de
será a de que o nazismo na zona rural não apresenta relação c~nslstente
com essa distribuição. Contudo, se se estudarem os mapas ma~satenta-
mente, podem-se descobrir provas substanciais de que os naZls conse-
~;~~~~.:,
.~~':.~~ (21) Estudos especIaIs proporcionam provas para o ponto de vista de que
~ ,,' '~,\o>'~'::'- o «homem mé<;lio»que passava diftculdades sob o capitalismo foi o mais receptivo
(17) Bread and Democracy, 53, 55. " ~,'¥".~,"~"'
.;r~';' fr, à campanha nazi. Em SCHLESWIG-HoLSTEIN, as comunidades aldeãs onde os nazis
ganharam de 80 a 100 por cento de votos ficavam no local agora conhecido por
(18) Para obter o voto rural, ver o mapa da Alemanha, que apresenta a di.s-"".;' '~
Geest, uma zona de quintas pequenas em solo pobre, fortemente dependentes de
tribuição dos votos nazis nas zonas rurais, em Julho ~e 1932, com as Stadtkrelf"~"" ',"'!" " c;; '"
mercados sensíveis para gado novo e porcos. Sobre este assunto, vide HEBERLE,
retiradas, em LOOMISe BEEGLE,Spread of German NaZlSm, 726. Para ob,te: a per~ ~:~:~t:"p',.;l'Jii
centagem dos votos nazis na totalidade da Alemanha, consultar as estatlstlcas das_,",", ';;'~'''',t',~.~ Social Movements, 226, 228. Partes de Hannover mostram a mesma combinação.
1 . - d d 1910 até 1933 reunidas por DITTMANNem Das politisehe Deutsehland:.c~" ,1Jã: :,\ PertCf de Nuremberg, igualmente o voto nazi atingiu 71 a 83 por cento numa área
e eIçoes es e 7, ,, ',' • :"",.,3'" -'\C" de valores de terra relativamente baixos, quintas familiares de tamanho médio
(19) Comparar o mapa de LOOMIS-BEEGLEacim~ mencionado com, ?Si,;tt-_Q~, '" I) ç e agricultura geralmente marginal, dependente do mercado urbano. Vide LOOMIS
mapas VIII, Vnla e I, em SERING, eds., Delltsehe Landwtrtsehaft. "";:~;",~ ,,1i'8';(" e BEEGLE, Spread of German Nazism, 726, 727. Mais provas no mesmo sentido
(20) Impressos como apêndices em Statistik des Deutsehen Reiehs e, e~ menor.," ..•. f foram resumidas e citadas em BRACHERet aI, Maehtergreifung, 389-390.
detalhe mas numa só página como mapa IV, em Sering, eds. Deutsehe Landwtrtseh(1~:,..,
(22) BRACHERet aI, Maehter:greifung, 390-391.

516
517
1
f
COORDENADAS I AS ORIGENS SOCIAIS DA pITA DURA E DA DEMOCRACIA

ser a base para alimentar a nação, mas apenas um auxílio para esse e pensava que o fascismo seria sempre um movimento urbario (25).
fim» (23). Mas a luta entre os proprietários e os sindicatos, representando os inte-
Para os nossos propósitos, nada há a ganhar em examinar o des- resses da mão-de-obra paga e dos arrendatários, deu aos fascistas uma
tino dessas noções, depois da entrada dos nazis no poder. Embora inesperada oportutÚdade de pescar em águas turvas. Apresenta~do-se
se tivessem verificado alguns inícios aqui e além, a maioria foi posta de con:o s~lvadores .d~ civilização contra o bolchevismo, os fasci - IJandos
parte porque contradiziam as necessidades de uma poderosa economia de ldealistas, ofiClals do exército desmobilizados, ou simples desordei-
de guerra, forçosamente baseada na indústria. A noção'''de um recuo ros - assaltaram as sedes dos sindicatos rurais, por vezes com a COtÚ-
da indústria não passou de um aspecto obviamente absurd0 (24). vência da polícia, e, durante 1921, destruíram o movimento esquerdista
No Japão, tal como na Alemanha, o anticapitalismo pseudo-radical da zona rural. Entre os que se precipitaram para as fileiras fascistas,
conseguiu uma base considerável entre os camponeses japo.neses. Tam- encontravam-se os camponeses gue haviam atingido as classes médias
bém aí o impulso original proveio das classes superiore~ proprietárias. dos proprietários rurais, e mesmo arrendatários que odiavam os sistemas
Por outro lado, as suas formas mais extremas, tais comc(os bandos de monopoliza dores dos sindicatos (26). Durante o Verão desse ano, Musso-
assassinos erttre os militares mais jovens: embora afirmasiJ;in falar pelos EtÚ fez a sua famosa observação de que «se o fascismo não quer morrer,
eamponeses, não parece terem tido grande apoio ~ntre el~. Fosse como ou, o que é pior ainda, suicidar-se, deve agora prover-se de uma doutrina ...
fosse, o extremismo foi absorvido pelo. quadro malS geral!:le um conser- ..Espero que, durante os dois meses que ainda hão-de passar antes que a
vadorismo e uma agressão militar «respeitáveis», para Qque os cam- Assembleia Nacional se reúna, a filosofia do fascismo possa ser
poneses contribuíram com uma base maciça. Dado qué~aso dos creada» (27).
japoneses já foi observado em pormenor noutro capÍtul2.::rfiterior, não ~ ~Só maia tarde -os chefes fascistas italianos começaram a declarar
'. há necessidade de o examinarmos aqui. '_. t .. ,:0 I' que:o fascismo estava a «ruralizar» a Itália, defendendo a causa dos
O fascismo italiano apresenta as mesmas carad"er.~ücas pseudo- I.
~ '
camponeses, ou que era principalmente um «fenómeno rural». Essas
-'-radicaise pró-camponesas que se encontravam mi.A1emanha e no " afirmações eram disparatadas. O núm~ro de proprietários trabalhado-
Japão. Na Itália, por outro lado, essas'noções eram mai's oportunistas, ~
p. res baixou em 500000 entre 1921 e 1931; o dos arrendatários no sis-
uma decoração cínica para aproveitar as circunstâncias. O oportunismo . i! tema de pag.lmento e partilha aumentou em cerca de 400 000. Essen-
cínico também estava presente na Alemanha e no Japão,'~videntemente, . - ~.•. cialmente, o fascismo protegia a grande agricultura e a grande indús-
;'~ '4>\'~
mas parece ter sido muito mais ruidoso na Itália. -, ,_.: ~ tria, à custa do trabalpador agrícola, do pequeno camponês e do con-
Imediatamente após a guerra de 1914, houve uma :grave luta no :::. sumidor (28).
norte da zona rural italiana, entre os sindicatos socialistas e democratas '.~:;'::::.: 1";';;, Se olharmos para o fascismo e seus antecedentes, podemos ver
cristãos, por um lado, e os grandes proprietários, por outro. Nessa altura';::!'i~~~ que a aglormcação do camponês surge como sintoma reaccionário, tanto
isto ~, :919-1920, Mu:solitÚ, ~egundo Ignazio ~i1one, ~ão prestava ../ ..:.):.;.:.~~~:
. ..•
~.;.
atençao a zona rural, nao acredltava numa conqulsta fa~Clstada terra,f~2£;,.~Jij;
(25) SILONE, Fascismus, 107.
- 0/' (26) SCHMIDT, Plough and Sword, 34-38; Sn.oNE, Fascismus, 109; SALVEMINI~
(23) Me;n Kampf, 151-152. Para obter os principais aspectos factuais ~a póiF Faseist Dietatorship, 67, 73.
tica nazi, ver também SCHWEITZER, Nazijiealion, em Third Reieh, 576-594.'::':;di (27) Citado por SCHMIDT, Plough and Sword, 39-40.
(24) Quanto ao destino do programa agrário, consultar WUNDERLICHT,>_. (28) Para obter números e pormenores, vide SCHMIDT, Plough and Sword,
Farm Labor, parte IIl, The Period of National Soeialism. ' ;' V, 132-134, 66-67, 71, 113.

518 519

, ..
COORDENADAS
Os camponeses e a revolução-f:-
civilização ocidental como na asiática, numa altura em que a econo-
na d 11
mia camponesa está a enfrentar graves dificuldades. Em parte. o E~ ogo,
tentarei indicar algumas. das formas recorrentes dessa glorifi~ç~o, nas
suas fases mais virulentas. Não é verdade afirmar que essas ldelas são •
simplesmente impingidas ao camponês pelas classes superiores. Porque
essas ideias encontram eco na experiência do camponês, podem ganhar
uma vasta aceitação, tanto mais vasta, ao que parece, quanto mais indus-
trializado e moderno é o país.
Como prova contra a ideia de que essa glorifica.ção constit~ um
sintoma reaccionário sentir-nos-íamos tentados a CItar o elogIO de
Jefferson ao pequeno' lavrador e a defesa de John S~uart M.iJJda agric~l-
tura camponesa. Ambos os pensadores, contudo, a maneIra caractens- . o processo de mode.r.nUac-}lo começa ,com re..VQlu.çQ.es abortadas dé
rica do capitalismo liberal inicial, defendiam n~o tanto os camponeses .9:-lJJ12-°neses.
Culmina durante o século xx com revoluções de cam-
como os proprietários independentes. Não eXIste no. seu p~nsamento poneses bem sucedidas. Já não.~_possh~elJevar a s~l:iº_a..jde1a_ de que o
nada do chauvinismo militante e da glorificação da hierarqUla nem da çatJ;!ponês.é4lm «gbjecto.daJlistória», uma forma de vida social sobre a
submissão encontrada em. versões posteriores, embora surgissem, oca- q~l-ªS mudanças históricas PªSs~lB,-r.na.sque em n~~:l.~~ibui.l'ara ;
sionalmente, tons de uma atitude romântica perante a vida ~ral. Mesmo imp€to-dessas-mudanças. Para quem aprecia a ironia histórica, é defacto
~ssima sua atitude perante os problemas agrários e a sOCledaderural curioso notar qu~ \Q.'ãrrn~ era rnadetna..J:.f.ill..sid2- um agente
, não i~dica os limites que os pensadores liberais tinham atingido nas suas ~~voluçKQ.j:ão ltmWXtíUlte._ÇQmo a máquina'.5~pas~ou a actuar~
épocas. Para que essas ideias servissem os fins reaccionários no século xx, SI, co~.<?..E~actor. histºJ;ico_.e.t~j W->2-.P3.£j.~<:<:>!1quist;;7dâ-maquiõã.-
tiveram que tomar um nOvo colorido e aparecer so~ um novo c,ontexto; ~do, a c~ntribuição revoluciónária tem- sidomuitõ-d~siguaE
a defesa do trabalho diligente e da pequena propnedade no seculo xx deCISIva na Chlna e n~ Rússia, muito importante na França, muito
tem um significado poiítico inteiramente diferente do que tinha em pouco importante no Japão, insignificante na índia, até ago~a, trivial
meados do século XIX ou fins do século XVIII. na Alemanha e na Inglaterra, depois de derrotadas as explosões iniciais.

í
-- :-.\.
.•.
c4-<)
~este ~12ítulo final, a nossa tarefa é ~ de rel~cionar e~sesf~os entre si)
I
;
s,stematlcamente, na esperança de 5!~~co£r:!!:_qg.~ .tipOS ide estruturas!
~ciais e situª-ÇÕ~S-i*Oduzc;:nU:~V.J,)luções ca~p-on--;;sa~:' ;qilaisl
as que a~lnib~.m..onJmpedem ~ ---...J--../

A empresa não é fácil. As explicações gerais tradicionais enfrentam


importantes exc1ções dentro da gama de materiais que aqui exami-
námos. Nenhuma teoria que dê ênfase a um só faetor parec~ ser satis-
fatória. Dado~e as descobertas negativas têm a sua utilidade, come-
çar~~~~O] das teorias que foi necessário pôr de parte.
. '_A_pr~~ que um investigador moderno escolheria é uma simples
1~!~!£~~!'.lS!<?_~~o_nómica
em tàmos de deterioração da situação dos cam-
--- .. -_.,-_ .. ~-----_ ....._- -- .'---'---'--'--"-----._-'---...J

520 521
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

p.o.neses sob o...impac~..indp.stria._ Onde essa deterio- o senhor rural. russo do .'século XIX passava com f.....equencIa
' . uma grande
ração' se verificar em escala notável, parece plausível contar com movi- parte, da sua• VIda na sua propnedade ' .f?ato
..".
que não un°pedI'U os campone-
' .
mentos revolucionários. Mais uma vez o caso da índia proporciona um s:s ~e. queunarem os solares e, finalmente, afastar o devorianstvo do palco
i. histonco. Mesmo em relação à própria França ' a tese é d u Vi'dosa. A Inves-
.
teste útil, especialmente quando comparado com o da China. Não há . _
indicações de que a deterioração da posição econ6mica dos camponeses tlgaçao moderna demonstrou que, de modo algum a totalidad d
b . . ' e, a
da índia tenha sido pior do que a dos chineses, durante os séculos XIX no reza VIVIana corte; muitos nobres faziam vidas moralmente exem-
e XX. As provas estão longe de ser perfeitas, em ambos os casos. Houve, plares na zona rural.
de fa~to, levantamentos locais e ineficazes dos camponeses da índia. I A noção de que l:!Q!.~nde proletariado rural de mão-de-obra sem
I terr~.potençiald~j!lS.ll.cr.eiçã(u~_xe.YQJllçãº_pode aproxima.r=Se
Contudo, é altamente improvável que a diferença, seja ela qual for, I
seja adequada para justificar o contraste no comportamento político um,pouco ~als daY~F,9~~_As enormes dimensões e a espantosa miséria
!
do proletanado rumlda índia parece poderem refutar essa tese. Muitos
dos camponeses chineses e. indianos, durante o último século e meio.
Dado gue e.ssas diferenças recuam para outros séculos, torna-se evidente .1
I destes camponeses eS:ã~, por outro lado, ligados ao sistema prevalecente,
I pela posse de um ffi1.nusculo pedaço de terra e pelo sistema de castas.
que umã simples explicação económica não serve. !
Pode-se obj~ar que esta .forma de explicação econ6'rnica é dema- I Onde esses laços se quebraram ou nunca existiram, como nas economias
siado simples. Não poderia suceder que, não apenas um declínio da situa-
,i de plantação commão-de-.o~~a contratada muito barata, de raça diferente,
ção material dos camponeses, mas uma ameaça maciça a todo o seu
,modo de viver~ às próprias fundações da existência camponesa - pro-
I ou de escravos, as posslblhdades de insurreição são muito maio"
~mbora .os proprietários de escravos do Sul da América pareç~m L;:;
priedadçfami1ia e religião - fizessem surgir uma situação revolucioná- tIdo re:eIos exagerados, houve bons motivos para temer a insurreição'
ria? D~ vez mais, as provas são nitidamente negativas. Não foram os na antiga Roma, no Haiti e noutros pontos das Caraíbas, durante o~
camponeses ingleses lançados à deriva por causa dos enclosures que se sécul~s XVIII e XIX, em certas partes da Espanha, nos tempos modernos,
levantaram em revolta maciça, mas sim os franceses, que estavam apenas e, hi
mUlto recentemente, nas plantações de açúcar de Cuba Mras, em b ora
r • • •

ameaçados por elas. A sociedade camponesa russa, em 1917, estava a _ pote~ee~glsse u~la i~vestigação mais cuidadosa para ser corregta,
'jritácta. Mais uma vez, como terei ocasião de dizer mais adiante, neste nao exphcan.a c.asos histOrIcamente significativos. Nenhum proletariado
rural desse tlpO tev~ influência nas revoluções russas de 1905 e 1917 (1).
capítulo não' foram os camponeses da Alemanha oriental, comprimidos ".•..
~t'
pela rea.tção senhorial e pela reintrodução da servidão, que se ergueram ~mbora o caso clunês esteja menos bem documentado e tenham sido
em sangrenta revolta no século XVI, mas sim os do Sul c do Oeste, r Importantes aí os bandos de camponeses vagabundos afastados das suas
que mantinham e ampliavam até o seu antigo modo de viver. Na reali- lt" t~rras ~or motivos diversos, os n:-0vimentos revolucionários de 1927 e
dade, é mesmo a hipótese oposta a que mais se aproxima da verdade, - <Ai., 19~9 nao !esultar~ de um proJetanado rural trabalhando em grandes pro-
prIedades. Nem ~OIesse o caso nos movimentos revolucionários do século
cJo veremos oportunamente. _ .r
Da tradição romântica e conservadora do século XIX surge outra; .,-j:,:,..4t XIX. Co~o ex?licaçã~ geral, essa concepção não servia, simplesmente.
,
tes familiar, a de que, quando o aristocrata vive no campo entre os-/ FugIndo das explicações materiais, poderíamos voltar-nos natural- I
/.

seus camponeses, há menos probabilidades de revoltas camponesas,_' mente, para hipóteses sob!,\> papel da religião. A primeira vis;a, parece
graves do que quando ele passa a amar o luxo e a viver na capi~."
Os contrastes entre o destino dos aristocratas franceses e ingleses durante'
o século XVIII e XIX parece estarem na origem dessa noção. Contudo: (1) ROBP.'1S0N, em Rural .RJmia, 206, é explícito neste ponto.
g-
....;.'f;

522 52}
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

um caminho prometedor. O hinduísmo poderia explicar largamente a fortement~ o papel das.idei~s revolucionárias provenientes das cidades (2).
passividade dos camponeses indianos. De modo mais geral, uma cosmo- É C?~Ceblvel que maIor lnvestiga~ão possa vir a revelar o papef das
logia orgânica que conferisse legitimidade ao papel das classes gover- tra~l!oes subterrâneas próprias dos camponeses e envoltas em termos
nantes concebida numa teoria de harmonia do Universo que desse ênfase religl~s~S. Contudo, para ter significado, uma tal explicação, no çaso
à resi~nação e à aceitação do destino individual, poderia, concebivel- da Russla ou de qualquer sociedade,. exige informações sobre o modo
mente, constituir um forte impedimento para a insurreição e para a por que essas ideias estavam relacionadas com circunstâncias sociais
revolta, se os camponeses aceitassem as suas normas. Aqui, surge
imediatamente uma dificuldade. Tais religiões são produto de classes
urbanas e sacerdotais. A extensão da sua aceitação entre os camponeses
10.
co~cretas. A religião, só por si, não fornece a chave.
defeito de todas estas hipóteses reside no fafito de elas fixarem
de aSladamente a atenção nos camponeses. Uma reflexão momentânea
é problemática. Em geral, a existência de uma subc?rrente de crença s~bre o curso de qualquer rebelião pré-industrial específica revela que
distinta da das camadas cultas, frequentemente em sentldo oposto, carac- nao . se pode. procurar entendê-la sem comparação com as 34fÇõesdas
teriza as sociedades camoonesas.
<
Passados verbalmente de geração em cla~s~s supe~lOres que, em grande medida, as provocaram. Outra carac-
geração, só os fragmentos desta tr.adição ~ubterrânea encont.:am. pro- tenstlca notavel das rebeliões nas sociedades agrárias é a sua tendência
vavelmente registo histórico e, multo pOSSIvelmente, de forma dIstor- para tomarem o cará.er da sociedade contra a qual se revoltaram.
cida. ~os tempos m?dernos, essa tendência é obscurecida, porque as rebe-
Mesmo na índia enchat"cada em religiã.o, há numerosas indicações hoes bem sucedidas têm sido o prelúdio de uma inversão total e violenta
de uma espalhada h~stilidade contra os Bdmanes. Possivelmente, os de . toda. a sociedade. Nas revoltas camponesas anteriores era muito
camponeses indianos e outros acreditam na eficiência da magia e do ritual maiS eVIdente. Os. insurre"tos lutam pela restauração da dei antiga»,
em si, enquanto que, simultaneamente, se xessentem da presença do com~ na Bauernkrteg, pelo «czar verdadeiro» ou pelo «czar bom», nos
agente humano que executa os rituais e dos preços que ele exige pela s~a mOVImentos r~s~os. Na China tmdicional, o resultado foi, frequente-
execução. Surgiram, clandestinamente, tanto na Europa como na AS.la, mente, a SU~St1tU1Çãode uma dinastia decadente por outra nova e vigo-
por largos períodos, movimentos para acabar c?m os sacerdotes, atln- ros~, ou seja, uma restauração essencialmente com a mesma. estrutura.
gindo acesso dire.to à divindade e à fonte de magla, e, de ve~ em .quando, socIal: Antes de observarmos os camponeses, teremos que observar toda
expressando-se de forma herética e rebelde. A esse respeIto, ln~eressa a socledade.
conhecer as circunstâncias que tornam os camponeses receptivos a Tendo . em vistas .estas considerações, podemos pôr a questão
esses movimentos, em certas alturas, e não receptivos noutras. Também l de. ~ertos .tlpos de socIedades agrárias e pré-modernas estarem mais
não constituem um acompanhamento uni"l/ersal dos levantamentos SUjeItos a ,1n~urreiçÕes e ~ebeliõe~ camponesas do que outros e quais
camponeses mais importantes. Há poucos sinais de qualquer componente as caractenstlcas e.struturaJ~ que ajudam a explicar as diferenças. O con-
religioso nas perturbações de camponeses que precederam e a~ompa..; ~aste entre a índia e a Cluna é suficiente para demonstrar que existem
nharam a Revolução Francesa: Na Revolução Russa, é altamente lmpro.;; ';'é') dlferenças e que :la~ tê~ prolongadas consequências políticas. De modo
vável que as noções revolucio~árias das dd~des, religiosas ou secul~es'< ..,l',.~~~;J. semelhante, a :X1stencla de uma substancial tentativa de revolta cam-
fossem de qualquer importânCIa. G. T. Robmson, no seu estudo da V1~:'/f:;~j\'j,~ ponesa na índia, a de H yderabad, em 1948, mesmo pondo de parte
campones~ russa an~es d: 1917, indica ~ue as correntes religiosas e ou;tr~fr:~'(.: ~.'
correntes IntelectuaIS, vmdas do extenor ao encontro dos campones~~~.. ~~
se encontravam, na sua totalidade, d.o lado do conservadorismo, e neg~. (2) Bmal RtlSSia, 144.
~~.-

524 525

r"f(.- ,:".•• ~

.•... .M. .
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

outros movimentos menores, sugere fortemente que nenhuma estrutura sem es~ragos ou, ~elo m~n~s, sem danos fatais para ele ou para o resto
social pode estar totalmente imune às tendências revol.ucionári:s crea~as da SOCIedade.MUltOmaIS Importante, sob o ponto de vista do nosso
no curso da modernização. Por outro lado, certas SOCIedades sao obvIa- pro?lema imediato, é o reverso desta característica. Qualquer tentativa
mente muito mais vulneráyeis do que outras. De momento, podemos de lnovação, qualquer variação local, tornava-s~ simplesmente a base
pôr de parte todos os problemas que surgem no decurso da m?dernizaç~o de .o~tra casta. Não se ~~ta apenas de uma questão de novas crenças
e.que se concentram especificamentenas diferenças estruturaISdas SOCle- religIOsas.Dado que a dlStlnção entre sagrado e profano é muito dúbia
dades pr&rríodernas(3). na sociedade.indiana e dado que os códigos de castas com tons religiosos
'1'"'8 contraste entre a índia e a China sugere uma hipótese talvez ~obren: praticamente toda ~ gam~ de actividades humanas, qualquer
mais defep.sáveldo que as que acabamos de discutir. A sociedade indiana, lnovaçao, ou q~alquer tentatIva de lnovação, nos tempos pré-modernos,
como muitos estudiosos observaram, assemelha-se a um enorme mas t~rn~va-se.'mUlto naturalm~nte, na base de outra casta. Assim, a oposi-
muito si~plcs organismo invertebrado. Não era necessária para a. conti- çao a socI~dade e o espoltar da sociedade tornou-se uma parte dessa
nuidade~o seu funcionamento uma autoridade coordenadora, um mesma SOCIedade,sob a forma de castas de bandidos ou castas sob a
monarca,!()ll, para continuar a analogia biológica, um cérebro. Através forma de seitas religiosas. Na China, tambérr: se conhecem bandidos
de gran49:parte da história indiana, até aos tempos modernos, não houv.e hereditários (4). Dentro do contexto dünês, o seu signilicado era total-
autoridac{e central que impusesse a sua autoridade a todo o subconti.. mente diferente, à parte o fa'fto de a ausência de casta tornar o recruta-
nente. A;,ociedade indiana lembra a estrela do mar que os pescadores mento maisfácil. Na China, o senhor rural necessitava de uma forte
.costumav~aesoedaçar iradamente, após o que, de cada .fragmento, autoridade central, que fazia parte do sistema, para extraÍ! o excedente
nascia un.b:;Á~strela. Mas a.analogia éinexacta. A sociedade indiana aos camponeses. Até tempos muito recentes, a .casta tornava esse sis-
-era aindlfnàis silnples e, contudo, mais diferenciada. O clima, os sis- tema desnecessário na índia. Por esse motivo, a sociedade chinesa
.temas~d~agricultura, os sistemas de aplicação de impostos,. as ~re~ças necessitava de algo semelhante a um cérebro, uma autoridade cen-
religios-a~e muitas outras caracterIsticas sociais e culturaIS dlfe!1am tral mais do que rudimentarmente coordenadora. Os bandidos eram
nitidam~tte de um ponto do país para outro. A casta, por outro lado, uma ameaça na China e podiam transform~r-se em insurreições de
era comum a todos e fornecia a estrutura à volta da qual toda a vida era camponeses.
organlza4aem toda a parte. Tornava possíveis estas diferenças uma A ~pótes.e g:ral q~~ emerge desta breve recapitulação, rodeada por
socied3,déonde um segmento territorial poderia ser separado do resto aq~ela trase ntual. fallllliar ceteris paribus, usada pelos intelectuais para
e.vl~ara~sU1~tosesplnhosos, poderia ser posta da. maneira seguinte: uma
sOCledaaealtamente segmentada, que depende de sanções difusas para
(3) Como demonstram as expressões «imune» e «vulnerável», o costume
?bter a~gumac~:são e para extrair o excedente aos camponeses, está quase
inglês impõe uma visão conservadora na análise das revoluções: a conclusão im.plí- lmune as rebelioes de camponeses, porque, provavelmente, a oposição
cita é que, uma sociedade «saudável» está imune à revolução. Torna-se por ~s.so toma a forma de mais um segmento. Por outro lado, uma burocracia
necessário lomar explícita a rejeição desta conclusão por parte do autor. A analIs: agrária, .ou uma sociedade que depende de uma autoridade central
do motivo por que as revoluções ocorrem ou não, não implica uma aprova~o para extrair o excedente, é um tipo muito mais vulnerável a esses movi-
ou desaprovação lógicas, mas que investigador algum esteja livre de tais preferênCias.
Sem tentar desenvolver aqui o argumento, suspeito que se pode bem defender
a tese de que as sociedades enfermas são aquelas em que as revoluções são impos-
síveis. (4) HSIAO, lUtral China, 462.

526 34 527
COORDENADAS

AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA


mentos. Os sistemas feudais, onde o verdadeiro poder é espalhado por
diversos centros sob a autoridade nominal de um monarca fraco, fi.ca~ este, de longe, o caso da França do século XVIII e da Rússia e da China
entre ambos. Esta hipótese concorda, pelo menos, com os factos pn~cI- durante os séculos XIX e XX (6).
pais deste estudo. A rebelião camponesa era um problema grave na Chma A grande guerra dos camponeses alemães, a Bauernkrieg de 1524-
tradicional e na Rússia czarista; era um pouco menos grave, mas fre- -1525, ilustra essas relações de um modo notável, especialmente se
quentemente à superfície, na Europa :ne~ieval; ~ra bastante ~ot.á":elno compararmos as zonas em que irrompeu violentamente com as partes
Japão a partir do século xv; e quase nao e menClonada nas histonas da da Alemanha onde não passou de um episódio insignificante. Dado que
índia (5). . . foi a mais importante revolução camponesa do início dos tempos moder-
Voltando-nos para o E!2cesso de mo.dtmização Qropnamente ?ito, nos, na Europa, convirá falar dela, em resumo. Uma vez mais, o seu
notamos, uma vez mais, que o_êxit0..2tlº-Jlzcasso.... da:u:Iasses s.llpg~~~ significado tornar-se-á mais claro por contraste com as modificações
ao se ocuparemda-a-gt'icuitura come[<::!ªL!evel!maJ1:~e.~d.ª!!1il?enCla da sociedade inglesa. Um sefe,F0r influente das classes superiores proprie-
nos re~ulDl:9:.9S,
polítküs:.:Onde a da..:'se~s~pe!i.o.z..pro-PX1etàna..-se
:~lt~u tárias de terras da Inglaterra pretendia, não homens, mas sim terra para
para a produção d.e.~ti!lag::Lj.lO_mer~~.de um;modo ~ue per!T'.JtlUas creação de carneiros. Os junkers alemães, por outro lado, pretendiam
influências comerciais pern:.e~~e~~_~lda..!JJXª-l, as revoh~.ç?es~amponesas_. homens, mais especificamente homens ligados à terra, para cultivarem c
fu~~f;ac~ijã'cIl;;'ersas'maneiras muito diferentes pelas quaIs esta tran- cereal que eles exportavam. Grande parte da história subsequente
sicão ari.ti-"re~olucionáriase verificou. No Japão do Meiji, uma classe dos dois países reporta-se a esta diferença interna. .
sdperior proprietária que estava em r~~ida renoyação.p~eservou gr~nde Na Prússia, o aparecimento da exportação de cereal trouxe consigo
parte da sociedade camponesa tradicIonal,. como melO de ext~alr o uma profunda inversão das tendências anteriores, que haviam sido
excedente. Em outros casos-chaves, a sOCledad.e ..cª!pp9nesa fOI des- semelhantes às da Europa ocidental, onde a democracia parlamentar
truída, quer pelo corte ,da ligação com a terra, com~~emIngl:terra, qu~r eventualmente triunfou. Em meados do século XIV, a Prússia ainda se
pela intensificação dessa ligação, como no .cas? <lil-rem~odu~aoda.ser:~- assemelhava à Europa ocidental, embora tenha atingido essa fase por um
. dão na Prússia. Contrariamente, as provas Indicam que e mUlto maIs ~~_ caminho diferente. Era então uma terra de camponeses prósperos e
vel que um movimento rev~lucioná~io.s: desenvolva: se torne ~ serIa relativamente livres. Tal como no resto do que posteriormente se tornou
ameaça quando a aristocracIa propnetana de ternlS nao con~egue aese~- a .~lemanha do nordeste, a necessidáde de conceder condições favoráveis
volver um impulso comercial realmente pod~roso, de~tro aas suas pro- aos colonos alemães imigrantes tinha sido, em conjunto com a creação
prias fileiras. Então, poderá deixar atrás de SIum.a socled~de e_amponesa de uma forte autoridade central sob a forma da Ordem TeutóllÍca e de
danificada mas intacta, com a qual tem poucos elos de llgaçao. Entre-
tanto, é provável que tente manter o seu estilo de vida num mundo el~
transformaçãó, extraindo um maior excedente dos camponeses. FOI (6) A índia poderá parecer uma excepção a esta generalização da sobrevi-
I
vência da sociedade camponesa como causa da revolução moderna. É em parte
.explicável, em termos dos impedimentos à rebelião e à revolução inerentes à estru-
tura social pré-moderna da índia, e em parte pela maneira como a modernização
(5) As revoltas japonesas mostram alguns dos sinais característic?s da fa~e
~ efectuou até agora. E, o que é mais importante ainda, a modernização mal come-
. 'cial da modernização da Europa, um facto compatíveJ com o feudahsmo m~ls
çou na Zona rural indiana. São estas as principais bases para afirmar que não se
1111 tr lizado do Tapão que se assemelhava aos esforços europeus das monarqUIas, ,.~,
trata realmente de uma exce~o. Talvez se torne agora. As generalizações histó-
cen a
absolutas "
para preservar os privilégios e o status quo. Ver SANSOM, H'11tory~;,,~
of}arpal1 ..._'
ricas não são leis imutáveis como as da física: o curso da História reflecte prin-
lI, 208-210.
cipalmente um esforço para fugir aos limites impostos pelas condições anteriores
expressas nessas generalizações.
528
529
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA
COORDENADAS,

uma vigorosa vida citadina, a causa principal dessa liberdade. Os cam- inicio de um mercado de exportação.de cereal. Em conjunto, essas forças
poneses alemães tinham o direito de vender e legar as suas terras, bem alteraram o equilíbrio politico da zona rural. Outras partes da Alemanha
como de vender os seus produtos nos mercados das cidades próximas. e da Europa foram também atingidas por uma desvalorização da moeda,
Os seus deveres para com o senhor rural, tanto em dinheiro como em que fazia parte do enfraquecimento da autoridade real e de uma crise
trabalho, eram pequenos, e a autoridade do senhor sobre os assuntos agrária que levou a nobreza a oprimir os camponeses, acontecimentos
da aldeia era estritamente limitada, principalmente a «justiça superior», que ajudaram a produzir a Guerra dos Camponeses (10). Mas apena's no
"I nordeste apareceu um importante comércio de exportação de cereal.
isto é, aos crimes mais graves. Quanto ao resto, os aldeãos tratavam dos I
! As consequências foram desastrosas para os camponeses. Os senho-
seus próprios assuntos (7).
As aldeias, em toda a área colonizada, eram povoadas pelo locator, res deixaram de se interessar pelos impostos em dinheiro e voltaram-se
frequentemente empregado dos senhores rurais nobres, que obtinha os para o cultivo e alargamento do seu domínio. Para tal, era necessário
colonos, os trazia desde Q seu ponto ,de origem, lhes destinava as suas o trabalho dos camponeses. Aumentaram os serviços em trabalho;
propri~dades, media os campos da aldeia e, em troca, se tornava o os camponeses ficaram amarrados ao solo. Os seus direitos de vender e
chefe hereditário da aldeia, com propriedades maiores do que as dos legar. a sua propriedade foram abolidos e já nem lhes era p~rrnitido
restan~s (8). Num sentido, portanto, as aldeias da Alemanha do nor- casar fora do Estado. A maior parte destas modificações teve lugar durante
deste eram comunidades artificiais que recebiam os seus direitos sob a o século XVI, numa época de crescimento dos preços do cereal. Vale a
forma de forais (Handfesten) de entidades superiores. A sua situação pena notar que, nesta situação, a escassez de mão-de-obra não auxiliou
a este respeito diferia da das aldeias do sul, de língua alemã, que ganha- os camponeses e levou a uma severa disciplina para evitar as fugr.s, e a
ram o~,seus direitos no curso de uma prolongada luta com o senhor nobreza, numerosa embora pobre, conseguiu estabelecer um sistema
rural. Esta diferença poderá ser parcialmente responsável pela falta de repressivo da mão-de-obra sem o auxílio de um governo central pode-
resistência à posterior subjugação no nordeste, embora os outros fac- roso. De facto, o fim formal da Ordem Teutónica, em 1525, foi um dos
tores fossem provavelmente mais significativos. Outra diferença em mais importantes acontecimentos politicos que levaram aos resultados
relação ao sul foi o carácter etnicamente misto da população, pois os que acabamos de mencionar (11).
alemães bxaram-se em territórios eslavos. Contudo, as aldeias alemãs Durante o período da colonização, as aldeias de camponeses tinham
eram geralmente fundadas em territórios não ocupados, onde os cam- estado frequentemente separadas fisicamente da propriedade do nobre
poneses eslavos em breve adquiriam a mesma situação legal favorável e tinham sido organismos largamente independentes. Na segunda metade
do século XV, esta situ9.ção cessou (12), pois os senhores feudais pene-
que os alemães (9).
Em fins do século XIV, ln1Cmram-secertas mudanças que, mais traram, econornicamente, nas aldeias, apossando-se da propriedade dos
tarde, levaram à servidão dos camponeses. As cidades declinaram; a camponeses, em especial das propriedades mais importantes do seu
autoridade central enfraqueceu. Mas, mais importante ainda, surgiu o chefe, e, politicamente, estabelecendo um monopólio de justiça (13).
Sem esta apropriação da comunidade aldeã e destruição da sua auto-

(7) CARS'fEN, em Origitls of Prussia, parte I, esp. 29-31, 41, 62, 64, 73-74, dá-
(10) CARSTEN,Origins Df Prussia, 115.
-nos detalhes sobre a situação dos camponeses. STEIN, em Agrorverfaj'sung, I, 431,
(11) CARSTEN,Origins of Prussia, capo XI, esp. 149-150, 154, 163-164.
434, acrescenta de modo conciso alguns elementos legais. '"..
(12) AUBIN, Gesehiehte des guthserr/ich-bauer/iehen Verhaltnisses, 155-156.
(8) CARSTEN, Origins of Prussia, 30-31.
(13) STEIN, Agrarvcrfossung, I, 437-439.
(9) CARSTEN, Origins of Prussia, 32, 34-35, 37-39.

531
530
COORDENA.DAS
AS ORIGENSSOCIAISDA DITADURAE DA DEMOCRACIA
nomia, é difícil compreender como uma massa de nobres isolados
poderia ter imposto a sua vontade. . algumas das características q~e, dois séculos mais tarde, produziram "à l
Em fins do século XVII, a maioria dos nobres havIa-se transformado Revolução Francesa, dado que a Bat,ternkrieg e os inúmeros levantá-'
em déspotas mesquinhos, na área das suas proprieda~es, sem contr~le mentos que a ela levaram se espalhavam por uma vasta área, a parti}:
de qualquer autoridade formal, de cima ou de ?aIxo. ~ n~voluçao do que agora é a Austria ocidental até ,quasetoda a Suíça, partes da A~e_
«capitalista» dos junkers dos séculos XVI e XVII f01 quase lntelrame~te manha do sudoeste e uma vasta área da parte superior do vale do Reno,
social e política. Não há indicações, na literatura, de qualquer modifi- onde havia, naturalmente, consideráv~l variedade de condições lócais,
i
cação técnica importante da agricultura que acompanhasse ~ ascensão !I variedade essa que aumentou a dificuldade de determinação das causas e
dos junkers à supremacia. O sistema de três campos era alOda quase 11I. manteve viva uma controvérsia vigorosa sobre o assunto até aos tempos
actuais (16).
geral até aos tempos da Guerra dos Sete Anos e, .no século X.VIII, as
práticas agrícolas, especialmente nas grandes pr~pned~des dos Junkers, i'
i
t.
I Contudo, existe largo acordo entre diversos estudiosos sobre os
ficavam muito atrás das das províncias alemãs oodentals (14). I
! •
t
pontos seguintes. Os príncipes territoriais, nesta parte da Alemanha,
. Os camponeses ofereceram uma resistência limitada. A única i! estavam a tornar-se mais fortes, não mais fracos como no nordeste,
revolta importante surgiu na vizinhança de f:Ç(jnigsberg,em 1525, d e a <13r~lguns dos primeiros passos para o controle .da sua própria
pouco após a abolição da Ordem Te~tónica. N,ão. é ~urpreendente nobreza e para fixarem uma administração uniforme e moderna. Esta
que o seu ímpeto fosse, em parte, provenIente da p~opna o~ade ~ daque-
tI. forma de absolutismo constituía, contudo, uma variedade mesquinha
les, que mais tinham a perder - os cam?oneses 1.1Vres m~s prosperos. fragmentada, pois o imperador havia dissipado as energias da Alemanha
A sua rápida supressão foi devida ao fraco apolO das. odades, o~de, numa. luta vã contra o Papado. A vida das cidades florescia nesta parte
em contraste com a área da Bauernkrieg, a vida corporativa era relativa- da Alemanha; o final da Idade Média foi o período áureo dos Bürger
mente fraca (15). . alemães.
_.
, Asituação que levou à Bauernkriég de 1524-1525f01, nos seus aspec- Assim, os camponeses podiam, por vezes, pedir auxílio às plebes
tos mais importantes, quase oposta à da Alemanha do nordeste e recorda urbanas. 1fas é muito arriscado fazer generalizações sobre quais as
camadas sociais a que os camponeses se aliavam e quais as que se lhes
, fJ4\ STEIN, Agrarverjassung, I, 463-464 . opunham. Em alturas e locais diferentes, estiveram em oposição a
. (I~ CARSTEN,Bauernkrieg, 407. A fraca resistência ~a A.lema~ha ao esta- quase todos os grupos concebíveis ~e fizeram alianças com outros:
belecimento da servidão apresenta um vivo contraste com a rnquletaçao e as revol- no Reno, com os nobres, contra as propriedades monásticas (17);
tas dos camponeses, que se seguiram ao seu estabelecimento na Rússia, no mesmo
contra a nobreza noutras alturas; com a nobreza ainda noutras,
período. O principal motivo para a diferença é, pro~avelrnente; u~ facto pa~a o
qual já se chamou a atenção: a servidão na Rússia surgIU como re~cçao a uma SItua- contudo novamente em oposição à burguesia e ao príncipe terri-
ção política. Como parte do processo segundo o qual o absolutIsmo se estabele- , torial (1 8). Tudo o que se pode afirmar com segurança é que o
ceu, a servidão na Rússia proporcionou um método de trabalh~r as terras conc:- conflito começou principalmente com as exigências moderadas dos
didas aos funcionários do czar. Além disso, a servidão na RÚSSIapa~ece ter. daru- camponeses abastados e tornou.,se mais radical à medida que se
ficado muito menos a aldeia do que na Prússia. Embora tenha perdIdo mUlto da
sua autonomia, a comuna aldeã russa (mir, ou, mais precisamente, sel'skoe obshchesttJo);t.
continuou em funcionamento. Para obter uma excelente dissertação sobre as mudan- .
(16) Ver os três mapas no final da obra de FRANZ, Bauernkrieg.
ças na Rússia nos séculos XVI e XVII, v. BLUM,Lord a~d Peasant, capo 8-14; sobre
(17) WAAS, Grosse Wendung, 13-15, 19.'
os movimentos camponeses, 258, 267-268; sobre o mzr, 510-512..
(18) FRANZ, Bauernkrieg, 84, 32, 26.

532
533
:. .

COORDENADAS AS ORIGENSSOCIAISDA DITADURAE DA DEMOCRACIA

desenvolvia, transformando-se mais tarde nas Vlsoes apocalípticas de entre os camponeses e os Bürger, nesta parte da Alemanha no final d
Thomas Münzer. Em parte, esta radicalização progressiva foi devida Idad~ Média, tornaram-se tão abundantes que já não é possí~el crer que ~
à 'recusa às primeiras exigências moderadas, e, em parte, à tendência _. detenor;y-ã
'Y'
o econômjca ,cvucltl!saoo ft I 4fUl \(23) . E .st e f::'~to
geral tcnna ~.' e,
dos camponeses para se voltarem para novas noções religiosas prove- ~_",!de~t~~~~~ 'ps:rfeitamente._~OJ~:rente-cGm- a..ideia. ..de-q~s-=-ru;b~esL_,--.
nientes da Reforma, como justificação das suas queixas económicas, so b_forte ..pressão,tentavam -ap@rtat:..-os-QlHlfl01leses-de-rodas.as-m~neira~ ~~_
políticas e sociais (20). A ligação com as cidades contribuiu provavel- .f'~::=LS._{2.4). Durante séculos, tinha tido lugar uma guerra de sobe-e-
mente para esta radicalização, que já poderia ser prevista em época -?esce ~nt~e a comunidade camponesa e o senhor rural, sobre os respec-
anterIor (21). Pode também ter derivado das reivindicações das camadas tlvos dtreltos, luta essa que não excluía a oartilha de interesses sob
inferiores ente os camponeses, que se dividiam em ricos e pobres, de mui~os aspecto~. Periodicamente, o resultad; cristalizava num registo
maneIra muito semelhante ao que sucedia na França dos fins do escnto, conhecIdo por WeistuflJ, modificação da lei consuetudinária
séculd XVIII, embora eu não tenha enconuado qualquer indicação explí- ( Rechtsgel1JOhnheiten), que era registada a partir de respostas a um inter~
cita (~esta ligação. rogató~io sob juram~nto feito aos home?s mais antigos e experientes da
.a~nobre7.a da época eQ-frentava uma dupJa.....tensàQ:- os e~for- cemurudade, Os reglslOS sobreviventes demonstram um grande aumento
_ç.QL&os __1?!i!l-9.12esterritoriais ..p~-iStãbeI~~t;.gL~ __S.~;i_autoriqª,g~ -;---; " do número de WeistüflJer depois de 1300, surgindo o maior número.
g,LeEfitQs m-ª:is gerai~_@(qs.ªõ.::::aa.:::eGoogmia.-comerdal ... Necessi- deles entre 1500 e 1600, após o que desaparecem rapidamente (25).
tava 'de dinheiro e tentava obtê-lo de vários modos, recebendo, O que esses documentos e outros semelhantes revelam é uma comuni-
quanao~dia, os direitos antigos, ou - como parecia aos campo- dade aldeã estreitamente ligada, talvez com diferenciais de propriedade
nese~ - . tentando crear novas obrigações. Na realidade, os pri- cresce?t~s, dentro de uma situação, em lenta mudança, de cooperação
meir~ movimentos em resultado do descontentamento dos campo- antagoruca com o senhor rural (26). As sujeições de mão-de-obra e de
..•. cultivo do domínio parecem declinar em importância e aumentar as
nese~ tomaram a forma de esforços para conservar ou voltar a «das
. alte .fu.echt» (22). O que os nobres não faziam, aqui e além, em obrigações em dinheiro, ou seja, .o inverso da situação do nordeste .
pequéna escala, era tentar a agricultura destinada ao mercado. Aqui j. Muitos camponeses tinham chegado a atingir os direitos de propriedade
~,.r
, . , resid! ,a ,diferença crucial entre a área da Bauerkrieg e a Alemanha i..--t
•• j", J.l, ..•.

dos Junkers.
Quanto aos camponeses propriamente ditos, a pOSlÇ8.0 econóITÚca . (23) W AAS, Grosse WCí1dung,40-42.
e social de um vasto se'tor melhorava havia algum tempo. Como obser- (24) Provas sobre este aspecto, apresentadas por um estudioso soviético,
vou um estudioso há mais de vinte anos, as provas de prosperidade SMIRIN, Ocherki isiorii pofiticheskoi bor'by v Germal1ii, capo lI. SMIRINfaz tudo o que
pode para provar a existência de uma «reacção senhorial» e, por vezes, força as
provas ao ponto de se tomar estúpido: como quando cita (pág. 60) os direitos sobre
a corveia de três dias por ano, como uma indicação da sua importância. Mas está
(i 9) A. tese de WAAS, em Grosse Wendung. provavelmente certo na sua afirmação (pág. 85) de que os C<1mponeses andavam
(20) NABHoLz, em Ursachen des Bauemkrieg, 144-167, <1presenta muito c1ara-.~,\ preocupados com a incerteza e a variação das suas obrigações.
mente esta iigação, na área de Zurique. Notar especialmente págs. 162-163, 165, 167- ,."; (25) WIESSNER, Saehinbalt U'zd Wirtsehaftliehe Bedeutung der Weistumer, 26-29.
"

(21) Por exemplo, o caso do gaiteiro de NIKLASHAUSEN.


Ver FRANZ, Bauern' (26) WIESSNER,Gesehichte des Darres, 43-44, 60, 63, 70-71. Embora o relato
krieg, 45-52. se limite à Áustria, é muito provável que o mesmo tipo de diferenças aparecesse
(22) FRANZ, Bauernkrieg, 1-40. noutros locais.

534 535
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" . ";,l;:::-,'
.. i ~.

COORDENADAS AS ORIGENSSOCIAISDA DITADURAE DA DEMOCRACIA

de 140, tendo sacudido muitos dos estigmas da propriedade feudal, de as classes superiores proprietárias de terras não terem eff".sh"'d
t . - b dida ...."........
o uma
embora estes se mantivessem em muitas bolsas (27). ranslçao em suce para o mundo do comércio e da indústria e n-
Nas primeiras fases da revolta, as exigências dos camponeses repe- terem destruído a organização social prevalecente entr ao
. e os camponeses.
tiam frequentemente temas extraídos dos antigos Weistümer(28). Este facto . Poderemos .agora derxar de parte as aJções da aristocracia para ini-
constitui um forte indicio de que a revolta começou com reivindicações Ciarmos uma , .dissertação mais analitica sobre os fa<ttores . em' aC,i,çao
-
~<1egítimas}} dos membros respeitados e abastados da comunidade en~e os propnos camponeses. O que significa exa~tamente a moderni-
aldeã (29). zaçao para ~s camponeses, além do faéto simples e brutal de que, mais
A Bauernkrieg foi um fracasso, sangrentamente reprimido. Tanto as ta~de ou maiS cedo, serão eles as suas vítimas? Em bases gerais, parece
suas manifestações radicais como conservadoras :foram reduzidas a zero. eVidente poder-se esperar
" -' .__';- .' - que -.os di£crentes'-tIPOS.d e or-gam2:ação.-soaal_...,
. .
Em parte por causa da vitória aristocrática, que, como vimos, teve lugar enco~trados~.a:s;-.9!~.~E:~<?..ciedag~s ...campanesas, em ,c01lÍy..Q!Q çom O
no nordeste por motivos diferentes e contra fra,caresistência, as possi- t=~~o e,..o _~~_r~~~::-:--i~.'p~rioJro~~~~...Q.~..mode!niz~~ tenha~'
bilidades da emergência da' democracia liberaI; na Alemanha ficaram eonslâeraveI
..--.... ' 11lflUenCla
. sobre_a..hip'ótese...de.a.1."t>"iiça- I uel0narla
........,.o-scr.re:v..o .-:-.
'.'-.~'---:-'-
cortadas durante séculos. S5 no século XIX á Alemanha deu alguns o~_~,:; .Mas qu~l é exaqta~ente a ligação entre essas variantes? Veja-
passos hesitantes e, no final, ainda mal sucediàc>s,nesse sentido. mos pnmeiro qUalS as modificações gerais que tiveram lugar nesse
As vitórias respectivas do senhor inglês e ~o junker alemão cons- processo complexo.
tituem formas quase exa~amente opostas pelas <Q1ais uma classe superior , Na ~ricultura, a modernização_econón:i<2:...!!gll!fu:.~ ..~."g!.~!1~Q.',
proprietária pode efef:tuar uma transição bem ~ucedida para a agricul- l.:., . j~s relaçoes do ~e~sI~P!?£..E~_ZQlla;_!!l.llit.a...tUajs ~ta e a s.ubstituL I
tora comercial. Constituem igualmente maneiras_cxattamente opostas i, pa.ta... i
çao, cada_:E.~m.~or,d~~,.gf'!Ç,YltJJ,ra,.p.ara..subsistência...pcla..pr.QdlJçãQ
de destruir a base da afção politica dos camponeses. Embora derro-
.<:' ,",

,;>I' _ o merc~£..Q~.", Em segundo lugar, na poli!ica. a modernização bem I


tada, essa a4ção era vigorosa nas áreas da Vauernkrieg, onde as classes !.1 suce'!1~~!.-~t:;l>e~~ª~tQ..Q~..R,~_d.ê~Q.!..<!S!E ,~ma vasta área e~ ;
superiores não efeltuaram uma investida devástadora contra a socie- ~'" ~g~_açao-d.e'um--governo.-central.£orte.~ Não existe uma ligãÇãõum~
dade camponesa, mas tentaram, aparentemente, a.umentar a quantidade i~": entre os d01Sprocessos: Roma e a China estabeleceram governos podere>-'
de dinheiro que extraíam aos camponeses. , . i(~ sos e d~ longo alcanc~para o seu te...'llPO,
sem gerarem qualquer ímpeto
Esta excursão a um caso concreto é suficiente, segundo espero, para "5 no sentIdo de uma SOCiedade
dI' '.
moderna. Foi a combinação da~d
'
é
uas, por m,
c

indicar os modos pr~ciPdaispel~s qluais a respo~tladas c~asses_superior.:$ ~L ,: 'l?'; g~e eu ~ugar ~ modernIZação em diversas partes do mundo desde o
proprietárias ao desano a agncu tura comerCia crea situaçoes que sao ~ (::t seculo xv. A dlfusão da. autoridade do Estado e a u'ntrus- d'
ao o merca o,d
favoráveis ou desfavoráveis a revoltas de camponeses. As principais b que pod~m ocorrer em epocas muito diferentes, afectam os laços entre o
zonas onde as revoluções camponesas tiveram maior importância nos
temp'os modernos, a China e a Rússia, eram semelhantes pelo 0I:~:.~t;,,,~~
<~~:f?l campones e o senhor rural, a divisão da mão-de-obra dentro da aldeia,
(~O) Os mercados não estão, de modo algum, ausentes nas aldeias campone-
ses pre-modernas. E até os co:nerciantes suburbanos se podem orgulhar de culti-
(27) Quanto à zona de Zurique, ver NABHOLZ, Ursachen des Bauernkriegs/':n:'::;'.';", .~, var ~Iguns tomates. no seu quintal. Não seria necessário mencionar esses pontos,
158-159; quanto à Austria, WIESSNER,Geschichte des Dorfes, 49, 50, 67; quanto,~i$ ,,'~ se nao fossem os ,ln.telectuais anticonceptualistas, que se deliciam num esforço
Alemanha, W AAS, Grosse Wendung, 37-38. j.~;?~:..., .%.1 para es.magar as dIstInções hi~tór!cas, apontando tais trivialidades. Obviamente,
(28) W AAS, Grosse Wendung, 34-35. :-~;;:'j.\[ lA> , .~. o que lm~orta é o papel quabtatlvo desempenhado' pelo mercado na zona rural:
o seu efeIto sobre as relações sociais. I
(29) Cf. FRANZ, Bauernkrieg, 1-40. ~":;';;-
,
536 537
I'

COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

o seu sistema de autoridade, os agrupamentos de classe entre os cam- amo; na China burocrática, era o senhor rural dependente da burocracia
poneses, os direitos de locação e de proprie~ade. ~m ce_rtoponto, a imperial; em certas partes da índia, o zamindar, uma figura situada
influência destas forças externas pode prodUZIrmodificaçoes na tecno- grosso modo, entre o funcionário burocrático e o amo f~udaI. A taref~
logia e no ruvel de produtividade da agricultura. Dentro dos ~eus, li~- geral do senhor rural secular era a de proporcionar segurànça ~ontra
tados conhecimentos, não existe exemplo de uma revoluçao tecmca os inimigos externos. Frequentemente, mas não universalment~ exe-
import~nte da agricultura que tivesse surgido entre os ~amponeses, cutava a justiça e resolvia as disputas entre os habitantes da ~ldeia.
embora~tenham sido registadas algumas, moderadamente Importantes, Ao lado do senhor rural secular estava com frequência o sacerdote.
no Jap~o, como vimos, em fins da época Tokugawa. Até hoje, as mudan- A sua tarefa tem sido a de ajudar a conferir legitimidade à ordem social
ças tecllúlógicas têm sido muito mais importantes no ~ciden~e; ~a econo- prevalecente e fornecer um meio de explicar e enfrentar os azares e
mia do:arroz da Ásia, a maior produtividade tem surgIdo prmcIpalmente desastres, para os quais eram inadequadas as técnicas económicas e
através~:daintensificação do trabalho humano. sociais tradicionais dos camponeses. Em troca do desempenho destas
Dktro deste complexo de modificações relacionadas, há três funções, o senhor rural e o padre extraiam o excedente económico aos
aspeetós poli_~~~~~!~imP2:!:~nt:,~.;. o carác.t:~~~~J.~~a.~~~~~tr~_,=--c.?l?u- camponeses, sob a forma de mão-de-obra, produtos agrícolas ou até
rllilaâe:'cãmponesa e o senhort;tlral, as dlV1soesde propned~.cle~_~: '. , . dinheiro, embora este fosse geralmente menos importante nos tempos
classes:""entreos camponeses, e o grau de solidariedade ou de coesão:- pré-comerciais. O modo por que essas obrigações eram distribuidas entre
apre~eritad'ap~i; ~~mucidade ,~~~P(Jg~~a..jJ)adoque estes três aspectos os camponeses variava consideravelmente. O direito de os camponeses
se enconttam tão estreitamente ligados entre si, é impossivel evitar sobre- cultivarem a terra e guardarem uma parte dos seus produtos para uso
posiçõeã:erep~tições, ao tentar traçar paàrões caracteristicos de moder- _ próprio dependia geralmente do cumprimento das referidas obrigações.
" nizaçãd:para cada um deles. Há provas consideráveis em abono da tese de que, quando os
P~á voltar ao ponto de partida do processo, verifica-se que exi~te~ laços resultantes das relações entre o senhor rural e a comunidade cam-
em mJitas' civilizações agrárias certas semelhanças entre as. comum- ponesa são fortes, a tendência paia a rebelião (e, mais tarde, revolução)
. dades Óamp@~esas ou aldeias e nas suas relações com o mundo ex~erior. dos camponeses é fraca. Tanto na China como na Rússia, os laços
.Será útli começar por desenhar o plano geral básico dessas comumdades eram ténues e os levantamentos dos camponeses endéffiÍcosnesses paises,
em terpos muito gerais, compreendendo que há inúmeros pont?s de embora a estrutura das comunidades camponesas fosse tão diferente
afastamento deste plano, todos politicamente significativos.Na realid~de, quanto se possa imaginar. No Japão, onde as revoluções camponesas
é mais' fácil compreender o significado desses pontos de afastamento, foram mantidas sob controle, a ligação era muito eficaz. Existem alguns
se per~ebermos p~imeiramente qual o modelo geral. Limitarei a disser- ~
',' pontos de interrogação e contradições nas provas. Na Índia, o poder
tação as aldeias, concebidas como povoamentos compa••to~ r~d~ad~s estritamente politico não chegava às aldeias, excepto em certas ~reas,
por campos cultivados. Embora o sistema de povoame~tos mdiVlduals na época pré-britânica. Mas existiam fortes laços com a autoridade atra-
espalhados também se verifique bastante, não é o predommante em parte vés dos sacerdotes.
alguma, exce1to, talvez, em certas zonas dos Estados Unidos, nos temro_~,;:~,1 Duas condições são provavelmente essenciais para que a ligação
coloniais e de fronteira. Só por si, esta é uma das bases para se rec?s;~ seja um agente eficaz da estabilidade social. Uma delas é não haver forte
a designação de camponeses aos lavradores americanos. ' ;~ competição, pela terra ou por outros recursos, entre os camponeses e o
Quer direFta, quer indireftamente, o senhor rural dese~penho!! senhor rúral. Não se trata simplesmente da questão da quantidade de
um papel importante na vida 'da aldeia. Nas sociedades feudais, er~ ~ terra disporuveI. As instituições sociais são tão importantes como a

538 539
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

quàntidade de terra, para determinar se os camponeses têm ou não fome específica. (Os economistas costumavam dizer-nos'que isso era possível ..•...
pelo menos através de d d . ,. .
de terras. Assim, sugiro uma segunda condição, estreitamente relacio- - . u~ merca o e concorrêncla, mas sentir-se-iam :..
nada com a primeira: a estabilidade política exige a inclusão do senhor relu~ntes, penso eu, em J.r tão longe ag()ra). Parece-me que isso se'a .
rural e (ou) do padre como membros da comunidade aldeã que executam posSlvel para um observador desligado do assunto e que o faria onJ
serviços necessários para o ciclo agrícola e para a coesão social da aldeia, as pe;guntas tradicio~ais: 1) Esta actividade é necessária para ~~ocie~ .
e pelos quais recebem privilégios e recompensas materiais razoavelmente dade.
_ , . sucedena se parasse ou se modJicasse;l ' 2) Q ue recursos
O que
concedidos, Este ponto exige maior detalhe, pois faz surgir aspectos sao ,~e~essanos para permitir ao povo efectuar esta actividade com
gerais que são assunto de viva disputa. eficacla. Embora. as res~ostas a essas perguntas sempre tenham uma
A dificuldade resulta da noção çle recompensas e privilégios pro- margem substanC1al de 11lcerteza têm também um 'I b"
comum. ' nuc eo o )ectlvo
porcionais aos serviços prestados pela classe superior. Numa sociedade
feudal, quantos ovos e galinhas, ~m alturas do ano determinadas, quantos , Dentro ~e limite~ s~cientemente vastos para a sociedade fun-
dias de trabalho nos campos do senhor, seriam um pagamento ({justO)} ~lo~ar, o caracter ob}ef;tivo da exploração parece tão terrivelmente
pela protecção c pela justiça do senhor? Não se tratará de uma questão obvlo que l:va a suspeltar que é a negação da objectividade que necessita
inteiramente arbitrária, que apenas "'pode ser decidida por um teste de ser exphcad_a. Não é difícil dizer quando uma comunidade europeia
de força? De modo mais geral, nãC? será o conceito de «exploração» recebe proteqçao real do seu senhor e quando o senh -
f ' . .' or nao consegue
puramente subjectivo, nada mais do que um epíteto político que não a astar os ln1ffi1gos ou es.~ l~gado a eles. Um senhor rural que não mantém
pode ser medido objectivamente? M_uito provavelmente, uma maioria a paz, que guarda a malotla do alimento dos camponeses lhes rouba ns
de cientistas sociais de hoje responderia afirmativamente a estas pergun- mulheres - como sucedia em vastas zonas da China no's s' ul A

, la ' ec os XIX
tas~ Se se tomar essa posição, a proposta sugerida transforma-se em trivial e. XX -:- e c r~men;e .explorador. Entre esta situação e a justiça objec-
tautologia. Significa que os camponeses não se revoltam enquanto acei- tl.va extstem diverslss1mas gradações, em que a proporção entre os ser-
tarem como legítimos os privilégios' da aristocracia e as suas próprias v~ços ~restad,os ~ o exc~dente extraído aos campones~s está sujeita a
obrigações para com ela. Por que motivo os camponeses os aceitam, discussao. Tals disputas podem intrigar os filósoJ:os N- - d ld
d' 'di .. 11 • ao sao e mo e a
continua a ser um problema. Dentro .da estrutura desta posição, a força i l.Vl . r_a socIedade . .A tese aqui apresentada apenas a£rmaque as con-
e o logro podem ser as únicas respostas possíveis a esta questão, pois ~ ...,' h.?;/ tnbUlçoes ,dos que lutam, governam e reza~ devem ser evidentes para
uma série de recompensas é tão arbit:1;ária como qualquer outra. Parece- " ti- o campones, e que os' pagamentos do camponês, em troca delas não
-me que, neste ponto, toda a interpretação subjectiva da exploração se ,/ devem estar em grande désprol)orção em reI - . '
, , , . açao aos servlços prestados,
quebra e se torna flagrantemente autocontraditória, Como podem .•: ?s conc:1tos populares d~ Justlça, para apresentar o argumento de outra.
nove décimos da colheita dos camponeses ser mais ou menos arbitrários "~ arma, tem uma ?ase raclonal e realista; e os sistemas que se afastam
do que um terço? ' .,~ dessa base ,necessltam, provavelmente
., tanto mais- d O Iogro e d a !Orça
r

O ponto de vista oposto, de que a exploração é, em princípio, uma ..•. J j quanto maIS dela se afastam.
noção objectiva, faz mais sentido, de maneira geral, devo admiti-lo, e" '. ..) Certas formas de _modernização são especialmente susceptíveis de
pelo menos, proporciona a possibilidade de uma explicação. O ponto' . ~.J;;'c~ t!..ans~ornar -9Ealquer forma de equilíbrio que se possa estabelecer nas. - ..
em questão é o de se poder ou não fazer um cálculo objectivo das con- .,: . "'...; ..~ r~l~soes e:tre a comunidade camponesa e as classes superiores prop~
~arlas, ~p cando n.ovas tensões aos mecanismos que a~ ligam. Ônde
e o cultivo do solo, para a continuação da existência de uma sociedade. ,J~i:' à
tribuições de actividades qualitativamente diferentes, tais como a guerra ,~;~: .~
a autorldade real tenha aumentado e intensifi ca d o a carga d o camponês.

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COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOC1ACIA


1
I
para satisfazer os custos de um corpo militar ,e~ e~pansã~ e da nou-se a figura mais reaccionária, talvez porque todas as alternativas j

I
j,
burocracia administrativa, bem como de uma política dispendiosa de se fechavam para ele, tais como a corte, um bom casamento ou uma ten- "
magnificência cortesã, o desenvolvimento do absolutismo real o~e tativa de agricultura comercial. Não há ne~essidade de elaborar a ligação .:,:,
entre essas tendências e o descontentamento dos camponeses, que já '
~~r~~~!S£2:ra ~~~JRloj.Q .~ camPQ~~31) .. Os reIS
BOUrbon e os czares russos, cada um deles de modo mUlto dIferente,
utilizaram esta combinação de dispositivos para domar as respectivas
nobrezas, à custa de muito sofrimento entre os camponeses. A reaf:;ão
i
I foi apontada por inúmeros historiadores.
Nos locais onde os camponeses se revoltaram, há indicações de que
foram acrescentados novos métodos capitalistas de extrair o excedente
provocou er~ões inte~~nte~Lmuito3ais graves na Rú~ do. que económico aos camponeses, enquanto os sistemas tradicionais se man-
......e~~~,~. Os Tudors e os Stuarts em Inglaterra enfrentaram uma SItua- tinham ou eram mesmo intensificados. Assirn sucedeu na França do
ção inteiramente diferente e perderam uma cabeça real, efil parte. por~ue século XVIII, onde o movimento camponês que ajudou a derrubar o
tentaram proteger os camponeses contra o comportamento «anti-SOClal}) ancien régiJJ;e tinha fortes características anticapitalistas e antifeudais.
de uma hobreza a caminho da comercialização. No Japão, o Shõgun Na Rússia, a acção do czar de destruir a servidão a pa til' de cima não
Tokugawa voltou resolutamente as costas ao mund. exterio~ e,as~im,
f) f conseguiu satisfazer os camponeses. Os pagamentos para a libertação
não teve de crear' um sistema militar e administrativo tão dIspendlOso j eram demasiado elevados e as concessões de terra demasiado pequenas,
,como o dos monarcas absolutos da Europa. As perturbaç?es campo- . l. cómo demonstrou em breve a subseguente acumulação de atrasos de
nesas não se tornaram importantes antes da última parte dessa era. I , pagamentos. Na ausência de qualquer módernização completa da zona
De maneira geral, a creação da monarquia centralizada significava l" rural, esses pagamentos tornaram-se simplesmente novos métodos de
que o senhor rural imediatamente acima dos camponese~ perdia as s~s ' '~ extracção do excedente aos camponeses, impedindo-os de obterem a terra
funções de protjcção. Tanto na França como na RÚSSIa,essa ~odifi-'~'. que era sua «por direito». Também na China, o camponês demonstrou,
,cação verificou-se de modo a deixar intactos, em grande medida, os Ji, com o seu comportamento, que se ressentia da combinação do antigo
'direitos do senhor quanto a uma série de obrigações por parte do cam- Ii funcionário cobrador de impostos com o senhor rural comercial, perso-
ponês. Esses direitos senhoriais eram apoiados pelo novo poder do
Estado, porque a autoridade real não podia alienar a nobreza. Por sua '
'vez" a gradual infiltração na zona rural das mercadorias feitas nas cida- '"".<.'.'., ',' ~
~j~"
fk ,nificada pelo regime Kuomintang.
Estes factos não implicam que a carga total do camponês aumen-
tasse necessariampnte, nestas circunstâncias. Na realidade, é um lugar-
,des,de que o senhor necessitava ou julgava necessitar, em conjunto. com ,o'f"., ',' !I, -comum histórico que a melhoria da situação económica dos cam-
as exigências do conspícuo consumo da corte, aumentava a neceSSIdade ." :'J:!i" poneses possa ser um prelúdio para a revolta (32). O facto parece estar
de o senhor extrair mais dos camponeses. A incapacidade de afirmação ji""
da agricultura comercial em vasta escala piorou a situação, visto signi-; <)£
ficar que dificilmente havia qualquer alternativa à opressão cam- :l? ";':'l~ (32) Essa melhoria poderia parecer contrariar a tese de que a exploração
ponês. Como vimos, as tendências que se verificaram para a agncultura '.~' ,"t~ objectiva é causa de revolta. Não é necessariamente assim. A relação entre o senhor
I
I
comercial eram do género de repressão da mão-de-obra. Na França,~,,~. ~;. rural e a comunidade camponesa pode tornar-se mais exploradora, sem que os

na Rússia e noutras partes da Europa oriental, o pequeno senhor tor~' ,:r', ~ camponeses fiquem mais pobres, mesmo que a sua situação material melhore. Assim'
sucede quando as exigências do senhor aumentam e a sua contribuição para o bem- I
~:,'.:'~~' 1';
(31)
". ~ - ~~,

Para obter um relato pormenorizado das relações na França do século xvn, .'Co'
'..... -.p

~:
-estar e para a segurança da aldeia declina. Urna diminuição da contribuição do
senhor, em conjunto com urna melhoria cconómica geral e os esforços do senhor
,j
'Ver PORCHNEV, Sou!evements populaires. '
,'" ~ para aumentar a sua «parte», poderia causar ressentimento:, tremendos. Verificar

542 3 5 543
COORDEN ADAS
AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

moderadamente bem estabelecido em relação à zona rural inglesa, antes e costumes aceites. Mesmo os camponeses indianos tradicional~ente
do levantamento de 1381, à Bauerkrieg do século XVI na Alemanha dóceis se levantaram em massa e impuseram o espectro da revolta agrária
e aos camponeses franceses antes de 1789. Em outros casos, os mais em grand~ parte da região de Bengala, na década de 1860, quando os
importantes, Rússia e China, a carga dos camponeses aumentou, muito se~hores lUgleses tentaram forçá-los a cultivar anil a preços miserá-

!
provavelmente. veIS, para um mercado têxtil subitámente em explosão (33). As medidas
Seja como for, um dos grandes perigos para o ancien régime, durante revolucionárias contra os padres na Vendeia tiveram um efeito muito
as primeiras fases da transição para o mundo do comércio e da ind~stria, se~elh:nte. Não é necessário multiplicar os exemplos. O ponto signifi-
era perder o apoio da camada superior dos c~m~oneses. Uma exp.hc~Çã? cativo e que, nestas circunstâncias, as reclamações individuais tornam-se
vulgarizada é a explicação psicológica, que lnêica qu~ ~ m~lhona hml- I subitamente colectivas. Se o impacto for do tipo adequado (súbito,
tada da posição econóIDÍca dessa camada levou a exIgencIas cada vez vasto, contudo não tão grave que faça com que a resistência colectiva
maiores e, eventualmente, a uma acção revol~cionária. Esta noção de J pareça inútil desde o início), poderá provocar a ignição da solidariedade
uma «revolução de crescentes esperanças» P9de ter um certo poner l na rebelião ou na revolução de qualquer tipo de sociedade camponesa.
,explicativo. Não serve, porém, como explica.-çãogeral. Tanto para a Tipo algum lhe é imune, até onde possJ julgar. Contudo, há variações
• 1"
Rússia como para a China, mesmo no sécu,.o'xx, torna a prova quase no potenci:,j explosivo que podem estar ligadas aos tipos de sociedade'
irreconhedvel. Há diversas maneiras diferentes pelas quais os camponeses camponesa. .
mais ricos se voltam para a ordem antiga, c~nforrne as circunstâncias No decorrer deste estudo, notámos uma gama substancial de dife-
. históricas específicas e o impacto sobre elas das diferentes formas da renças no grau de cooperação e na divisão associada da mão-de-obra
sociedade camponesa. nas comunidades camponesas. Num dos extremos, poderíamos colocar
O ritmo das modificações na vida dos ~Rimeses, incluindo o { os camponeses da Vendeia, com as suas quintas isoladas, bastante atípicos
número de pessoas afectadas simultaneametf"e., constitui factor cru-' em relação aos camponeses das sociedades civilizadas. No outro extremo
daI, por si próprio. Suspeito ser mais im~,r~ante do que as alte-, ficaria a aldeia japonesa altamente integrada, que persistiu até aos tempos
rações materiais em alimentos, abrig~s e ~est~~H~, ~ menos que estas ,~ modernos. Em bases gerais, parece óbvio que o.z!:au de solidariedade
sejam muito súbitas e vastas. A deterlOr"-çao~()nonuc~ em fases lentas ."' ~resentado' pelQS camponeses, dado_qu.e_t....J.l,Wa..~SfuLd-;- toda; .
pode ser aceite pelas suas vítimas, c?mo p~te da SI~U~Çã.o normal. _, ~ r~ de orelaçõe~sa:iai~ ~~~, ...$!.~ c~a U1<ilyíduo~_~a
Especiaimente quando não há alternauva: claramente VISIvelS,.p~d~~~ . -:_' !~ .v~ terIa ~'1~.J1!,P~ll,~~~~?-.2mPj).rtante.nas,tendêQçjl!:ê.J2..q!ític~Contudo,
encontrar cada vez maior aceitação das pnvaç~s, dentro do padrao dos ~r porque esse factor está interligado com muitos outros:-; àvaliação da
camponeses daquilo que é justo e devido. ,o, qu~ ~u:ur~c~os ca.mpones.e~ ' _I~ sua í~p~rtância ~pre~enta diiiculdades. Tal como interpreto as provas,
(e não só os camponeses) e uma nova e s~b1t,aexIgenClaImposta que cal, ,;;".',; ~ a ausenCla de sohdarIedade (ou, mais exactamente, um estado de fraca
sobre muita gente ao mesmo tempo e SIgnifica uma quebra de regras .. ':fi s~lidariedade, visto ~ue sempre existe alguma cooperação) impõe grandes
- •.:l:::i'(
o •• '
dificuldades no caffi1nhode qualquer acção política. Por isso, a sua conse-
......•.' . l, '.)'
quência é conservadora, embora o tipo de choque súbito de que falámos
cuidadosamente este conceito de exploração objectiva., em comparação com casó~',,:<~.':'''1
diversos, seria um empreendimento muito difícil mas compensa~or. Nã~ o &;>,.':;::: ,~.
a noção surgiu-me, no curso de um prolongado esforço para extraIr o sentido d?,:.~t"'~"j,
~l
dados obtidos, e apresento-a como uma hipótese a estudar que encontra certo apol()~:-,:.J" ),' (33) Encontra-se um relato elucidativo de um ponto de vista radical, em
'. o .ILtl-.)'''~" ''I' NATARAJAN, Peasant Uprisings, capo IV. '
oa eVIdenCi3. ' ; o,' :.~" ~
'"';.,' ;

544 ' '})~~~'l:t


..~,.,IQ.~lf Q: ~~ 545
..... ~'9' .•.q,

.~:ti¥t;:qat
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~~;::::-J:;';V.7!.-~f~~~ J;.,J AJIAf~.~..~..f.""
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'..
. \. " /'~~./J~:Y'oRDENAD'f . '-.'.:~ AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACI1\

~ essa tendJcia eons"",adora e levar os camponeses a .1


pos:a ~trlapatassarporoutro lado onde a solidariedade é grande, é possi- f'
..-de-obra. Em geral, parece mais fácil conseguir que as pessoas cooperem
acçao VIOen . , £ b.
vel distinguir entre as formas conservadoras e as que avorecem a re e- . numa tarefa comum do que O façam pacificamente no uso de recursos
escassos (35).
lião ou a revolução. . ,.. 1
Colocando a mesma questão de um modo ligeiramente diferente,
Numa forma de solid'arIedade rebelde ou revoluclOnana, _ os SIstemas i\
. tit ionais são de molde a espalhar as reclamaçoes por t~da a comu- . a disposição da propriedade varia muito com o modo por que liga os
lns uccamponesa e translorma- r: ' 1 num grupo solidário hostil ao senhor. camponeses à sociedade prevalecente, e dai os seus efeitos políticos.
nidade a . d
' - . di - de que isso sucedia nas aldeIas Para se ser membro de uma aldeia chinesas e ficar sob as influências con-
Ha fortes lU caçoes . . russas,
. em fins, .o
. ,. d o se'culo xx . Uma das prlUcIpaIsconsequenoas servadoras da rede de obrigações familiares e religiosas, era necessário
século XIX prlUclploS
P

da redivisã~ periódica da propriedade do mir, ou. comuna camponesa, ter uma certa quantidade miPima de propriedades. O processo de
'. r. £: me de terras e alinhar os camponeses modernização aumentou aparentemente, de modo muito considerável,
Parece ter SIdo generalizar a o . 1. - d
. . . . b ~ Foi esta certamente a o número de camponeses abaixo desse mínimo, algo que .também deve
maIS rICOScom OS mais po re~. . conc usao e
5tol'; in ue inverteu o anterior apoio oficial para? ,;11: e tentou es~a- ter sucedido nos tempos pré-modernos e daí o seu potencial radical.
)p, q - <' d~ sólidos pequenos propnetanos, parad'"
apOIar Por outro lado, as aldeias japonesas e jndianas proporcionavam uma
belecer uma versao ruusa c. .".
" . d R ' ff (34) Também vale a üenarecor ar que. . situação legitima, embora baixa, àqueles que tinham poucas ou nenhumas
o trono oscilante os omano. J. •

os comunistas chineses, antes de tomarem ~ ~oder, ti~e::am que crear propriedades, tanto nos tempos pré-modernos, como posteriormente.
h>riais.sGG1a1S...refractanos. O tipo de solidariedade fraca que inibe a acção política de qualquer
.
esse tipo de sohdan~~. ~.ma"",
. .;I"d
" ::>. ;IM'"'' " _
género é, principalmente, um fenómeno moderno. Após o estabeleci-
.o' . o'oposto~!~ª~de, o cons:J:.Vad~~~~~mÇ$.aA...
. .--..~p~struturasoo!"p~
, .ilêê:~1:êI'õ mento de uma estrutura capitalista legal, e depois de o comércio e a
lio-andQ.a ."""'. _.,' _mO~!;aIS ... e poten:
._~ :-:-. cl~>~':;;Us-t"o- sucede como. mostram os m.atenaIs Japoneses indústria terem obtido um impacto substancial, a sociedade camponesa
. g,a'S para -~ ama. ~ _ or trás pode atingir uma 'nova forma de estabilidade conservadora. Assim
. di os através de uma diVISãoda mao-de-obra que tem, p .
e lU an , t o proporoona sucedeu. em grande parte da França, em certas áreas da Alemanha
de sF fortes sançÕes, enquanto que, ao ,mesmo emp" _
um nicho reconhecido, embora humilde, para os que tem poucas pro ocidental e noutros pontos da Europa ocidental, durante a primeira
. dd s É muito osslvel que achave da diferença entreas for~ metade do século XIX •. Marx conseguiu obter a essência da situação,
Pr!. a. e . con:serv;~esida nesseponto. ~õhp~e ad::- quando comparou as aldeias francesas, constituídas por pequenos
solidarle a -----=, :--_._~_o>__ .- d ;
Ô. , tal como no SIstemarusso, po era represen.L
tar urna tentativa para.
.'
terrenos pertencentes aos camponeses, com sacos de baratas (36). A carac-
y
a Ica.
.~. ..dis•.•. ;buição eguitativa de um recurso ~g..~. • ssi"),.a.u...se,w... terística-chave é a ausência de uma rede de relações cooperativas. Isso
el1contrjlf
-. }lma
"•••.~ . ---~di . - da ma->Q;;.
VIsao- torna a moderna aldeia camponesa no oposto da aldeia medieval. Um
~.m.;.a solidariedade ÇQusenradota~ .
estudo recente de uma aldeia desse tipo, no sul da Itália, demonstra
como a competição entre as unidades familiares que constituem a aldeia
. 153 nta ue entre a3 vinte guberniios
(34) ROBINSON,em &ra/ &SSI0, , apoq ." 1 anta-
. f " p sados orejUlzos, durante os cv
em que os senhores ruraIs so reram maIs e . d:' cI"ade tendência
d . tra am uma p"e om,nan (35) Para obter uma ilustração humilde do assunto, comparar o que sucede
mentos camponeses de 1905, ezas~e~s.mos vedo; cam oneses individuais •., .quando uma grande família tem de preparar um piquenique complicado numa
repartível das propriedades heredltarlas, por part d prte do governo, v.
Quanto ao receio da solidariedade entre os camponeses, a pa . praia, onde uma criança recolhe lenha, outra faz a fogueira, etc., com o que sucede
durante a corrida matinal para a casa de banho.
ibid., 264.
(36) Ver Eeighteentb Brumoire, 415.

546
547
COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

inibe qualquer tipo de acção política eficaz. A origem do «familismo As grandes burocracias agrárias do absolutismo real incluindo a
amoral» - uma caricatura do capitalismo - tem raizes na história China, estiveram especialmente sujeitas à combinação de' factores que
especifica dessa aldeia, uma situação extrema que contrasta com as rela- favorecem a revolução-camponesa. A sua própria força permite-lhes inibir
ções mais cooperativas, noutras partes da Itália (37). Outros factores o desenvolvimento de uma classe comercial e industrial independente.
mais importantes e de carácter mais geral poderão ser o desapareci- No máximo, encorajarão uma classe fragmentada e ligada por cordeli-
mento dos direitos comuns e da execução em comum de certas tarefas, nhos à realeza, para necessidades de magnificência ou de guerra, como
durante o ciclo agricola; a espantosa importância da pequena quinta,
tratada pela mão-de-obra familiar, e as relações de concorrência intro-
i sucedeu na França do século XVIII. Dominando a burguesia, a coroa reduz
o impeto no sentido de uma maior modernização, sob a forma de um
duzidas pelo capitalismo. Numa fase mais avançada do desenvolvimento f movimento revolucionário burguês. Esse efeito foi bastante notado
industrial, este tipo de pequena aldeia atomizada, que vemos em certas I mesmo na Fran~a. A Rússia e a China, escapando à revolução burguesa:
zonas da Alemanha, tornou-se a sementeira de um sentimento reaccio- j tornaram-se n.lats vulneráveis às revoluções camponesas. Além disso,
nário anti capitalista, na zona rural. j u~a burocraCla agrária, com as mais pesadas exigências de impostos,
Em resumo, as causas mais importa~'i.tes das revoluções camponesas arnsca-se a levar os camponeses para uma alianç:a com as élites locais
podem ter sido a ausência de uma revolução comercial na agricul- das cidades, uma situação especialmente perigosa, pois SelJara os funcio-
t~a, dirigida pelas classes superiores proprietárias, e a concomitante nários reais ~a l~ass.a .d~ população (38). Finalmente, na ~edida em que ,

sobrevivência das instituições sociais camponesas até à era moderna, toma as funçoes JudICIaISe de protecção do senhor local residente o abso- ! ~

sujeitas a novas tensões e novas forças. Quando a comunidade cam- lutis~o real enfraquece o laço crucial que liga os camponeses à~ classes
ponesa sobrevive, como no Japão, tem que manter-se estreitamente supenores. Ou, se tomar essas funções apenas parcialmente e ao acaso
ligada à classe dominante na zona rural, se se quiser evitar uma revolu- pode entrar em competição com as élites locais para extracção do~
ção. Dai o facto de uma importante calJsa que contribuiu para' a revo- recursos dos camponeses. Nessas circunstâncias, surge a tentação de os
lução camponesa ter sido a fraqueza dos laços institucionais que ligam notáveis locais se aliarem aos camponeses.
a sociedade camponesa às classes superiores, em conjunto com o caráete! As variações dos tipos de acordos solidários entre os camooneses
para continuarmos com factores gerais, são prbcipalmente im~ortante~
de exploração dessa relação. Parte do sindrome geral tem sido a perda,
na .medida em que constituem pontos focais para a creação'" de uma
por parte do regime, do apoio das classes superiores dos camponeses
sOCledade camponesa distinta, em oposição à classe dominante, e como
ricos, por estas terem começado a inclinar~se para sistemas mais
base para conceitos populares de justiça e injustiça, que colidem com os
capitalistas de agricultura e a estabelecer a sua independência contra dos governantes. As consequênCias conservadoras ou radicais dependem
uma tentativa aristocrática para manter a sua posição através da
intensificação de obrigações tradicionais, como sucedeu na França do
século XVIII. Quando estas condições estavam ausentes ou invertidas, (3B) I'sto e espeCla
. Imente eV1dente
. no caso das perturbações que. precederam
as revoltas camponesas não conseguiram vingar ou foram facilmente e acompanharam a Fronda. Ver PORCHNEV,Soulepements j'Jopulaires, 118-131, 392-466.
O ~utor ~emonstrou, para além de qualquer dúvida possível, que a Fronda foi
suprimidas.
mUlt~ maIs. do que uma brincadeira aristocrática. Por motivos que não vale a pena
repettr, pOIS fazem parte dos argumentos que tenho tentado apresentar, rejeito
o seu esforço e o dos autores marxistas, no sentido de identificar o absolutismo
(37) Ver BANFIELD, Morai Basis oi a Backward Soâety. capo 8. esp. 147. 150-154. ~"'- real com o feudalismo.

548 549
.~ , f "

COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DITADURA E DA DEMOCRACIA

das formas específicas das instituições que promovem a coesão campo- excepções individuais importantes, antes de se tornar praticável uma.
nesa. A solidariedade entre os camponeses pode ajudar as classes domi- rotura revolucionária. .
nantes ou constituir uma arma contra elas, por vezes mudando de um Naturalmente, o movimentu camponês não encontra aliados entrê
aspecto para outro. Em algumas' sociedades pré-modernas pode-se a élitc, embora possa apoiar-se numa parte dela, especialmente numa
também encontar, como parece ter sido o caso da China, uma divisão mão-cheia de intelectuais descontentes nos tempos modernos, daí
da mão-de-obra que crea muito menor coesão. Por isso, o potencial extraindo os seus chefes. Os intelectuais pouco podem fazer politica-
revoluciónário, sob o impacto da modernização, varia grandemente de- mente, a menos que se liguem a uma forma maciça de descontentamento.
uma sociedade agrária para outra. Por outro lado, as formas mais extre- O intelectual descontente, com as suas pesquisas interiores, atraiu des-
mas de atomização que fortemente inibem a acção política eficaz e que proporcionadamente a atenção para a sua importância política, em parte
têm poderosos resultados conservadores parecem ocorrer numa fase porque essas pesquisas deixam atrás de si relatos escritos, e também por-
posterior do capitalismo. Uma tal cultura de p~breza egoí~ta pode ser que aqueles que escrevem a História são igualmente intelectuais. É um
apenas u!I1~fase de transição para outras fases alnda nãoatlngldas pelo truque especialmente enganador negar que uma revolução provém das
industrialismo avançado . queixas dos camponeses, só porque os seus chefes são profissionais ou
. Os 'factores precedentes podem explicar o modo por que surge .intelectuais.
entre os~camponeses um potencial revolucionário. Se esse potencial se
Os aliados que o descontentamento dos camponeses pode encontrar
torna politicamente eficaz ou não, depende da póssibilidade de uma,
dependem da fase do desenv.olvimento económico que o país possa ter
..fusãb entre as queixas dos camponeses e as das outras camadas. Só porto
atingido e de algumas circunstâncias históricas mais específicas; esses
.si, os camponeses podem nunca chegar a executar uma revolução. ~
factores também determinam o ponto em que os aliados se voltam contra
. Sob esse.aspecto, os marxistas estão absolutamente certos, embora este- -}.
o movimento camponês para o dominarem ou suprimirem. Os cam-
jam longe da realidade noutros aspectos cruciais. Os camponeses pre- ~.;':,.','~.'poneses alemãe~ da Baucrnkricg conseguiram certa ajuda das cidades,.
cisaril de ter chefes de outras classes. Mas a chefia; só por si, não basta. ;;':_
bem como de at'istocratas fundiários dissidentes, mas nada realizaram;
As revoltas medievais e posteriores foram' chefiadas por aristocratas ou ~(;;
o poder colectivo que a élitc proprietária conseguia ainda era espantoso.
,.gente da cidade e, contudo, foram esmagadas. Este ponto deverá .'~.'\.] Em. França, o movimento camponês fundiu-se com as exigências bur-
" .constituir um aviso salutar aos deterministas modernos, nem todos eles . ~~
guesas, principalmente porque a reacção feudal precedente havia anta-
Ínarxistas, que acham que, desde que os camponeses se movam, vêm natu- :rti: gonizado os camponeses abast:1.dos.Aligação parece-me ter sido precária
ralmente a caminho grandes modificações. Na realidade, as revoltas -~
e poderia ter sido contrária, visto que muitos burgueses tinham pro-
camp.onesastêm.sido muito mais v~zesr.eprimid~s do_qu.ebe~ suce~d~s.. _o<~:~ priedades na zona rural e eram perturbados pelas desordens dos cam-
Para que tenham êxito, é necessária uma comblnaçao de cIrcunstan~~~ ,'í~: J
poneses. Outro importante aliado revolucionário foi a multidão urbana
bastante invulgar, que apenas ocorreu nos tempos modernOS. O êXito ~,:t.
em si tem sido de um tipo estritamente negativo. . O s camponese s for . ...{,
..
-;,p::;;:r, t
l": l de Paris, embor~. o termo aliado não signifique que as suas políticas
neceram a dinamite que derrubou o edifício antigo. Para o trabalh_~é•..'\~~ : fossem coordenadas ou que qualquer das camadas, por esse motivo,
subsequente de reconstrução nada trouxeram; em vez disso, for~ '>:~f&~": tivesse uma política realmente coerente. Os sans-culottcs eram principal-
- mesmo na França - as primeiras vítimas. As classes superiores t~~;"'1iJ:.~ mente os mais pequenos artesãos e assalariados, que em geral desempe-
de possuir um grau substancial de cegueira, principalmente produto.£~~ft~& 1 nhavam um papel revolucionário muito mais importante do que a
de circunstâncias históricas específicas, para as quais sempre houve:l$:~" ) teoria marxista poderia levar-nos a crer.
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COORDENADAS AS ORIGENS SOCIAIS DA DIT4DURA E DA DEMOCRACIA


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Na Rússia de 1917, as classes comercial e industrial não constituíam aliada dos camponeses, por cima de quem os comunistas fina1metlte
aliados adequados para os camponeses em fúria. A burguesia russa era avançaram para a vitória, mesmo, ou/talvez em parte, porque o descl'n-
muito mais pequena e fraca, na totalidade do país, do ~ue sucedera. e~ tentamento perante o Kuomintang 'se espalhara por todas as clas~es.
França, apesar de um mais elevado nível de tecnologla, onde eXistia Como demonstrou convincentemente um observador contemporâneo,
comércio e indústria. Embora se tivesse vermcado um certo namoro às os comunistas pouco avançaram enquanto se agarraram às noções mar-
noções constitucionais ocidentais, a burguesia ~ussa estav~ ligada. p~r xistas sobre a importância do proletariado como vanguarda da luta
inúmeros cordelinhos ao governo czarista, que tmha encorajado, prmcl- revolucionária e anti-imperialista (39). Com o tempo, vieram a receber
palmente por motivos mJ.litares, um certo desenv~lvimento capitalista um apoio maciço dos camponeses. Contudo, sem chefes urbanos, é
em es t u.fa E ,. O q ue era talvez mais importante amda, nenhum sector
, . improvável que os camponeses pudessem ter organizado o Exército
significativo da classe camponesa russa se int~ressava. por obter direltos Vermelho e levado a cabo a guerra partidária que distinguiu esta revo-
de propriedade sobre 03i .restos de feudalismo eXistentes, tal como lução das suas predecessoras e determinou o modelo das tentativas
sucedera em França. As ~exigências do camponês russo eram ?rutal- subsequentes. O .efeito sobre os seus oponentes foi curioso; uma parte
mente simples: ver-se -livr~ do senhor rural, dividir a: tc~ras, .e, eVld~nt~- do entusiasmo ocidental por aprender as «lições» de guerrilha re~orda
mente acabar com a guerra. Os democratas conStituclOnalS, o pnncl- as noções japonesas do século XIX sobre democracia: a crença de que
'pal p~rtido com sabor .burguês, tinham considerado anteriormente i se trata de uma simples técnica que se pode pedir emprestada e que traz
a hipótese de ceder às exigê.ncias d~s camponeses. Mas ~ ataque frontal
j
I consigo todas a,s outras vantagens de que o oponente goza.
camponês à propriedade f01 demaslado para o seu estomago, qu~ndo Tanto na Rússia como na China, as possibilidades de fazer parar o
o caso teve de ser encarado de frente. Por outro lado, nad.a havl~ ~a 1 processo de decadência antes de tombar a revolução dos camponeses eram
ideia de dividir as terras ::<lue perturbasse os trabalhadores mdust!1a1s,
pe 1o
menos de momento. !Acabar com a guerra agradava aos camponeses,
~'..' l muito fracas, principalmente devido à falta de qualquer base forte para o
capitalismo liberal ou reaccionário nas classes comercial e industrial. Se o

t
que eram as principais vi~as da matança e ~nham pouco mteresse em mesmo se aplica à índia, é uma questão a que só o futuro poderá dar uma
defender um governo q~ recusava concessoes. Entre os ca.mpone~es, resposta firme. Tirar conclusões sobre a índia à base da China é tolice,
os bolcheviques não tinha~ quem áS seguisse. Mas, sendo o Ún1COpartido visto que as suas estruturas agrárias' sociais são, em muitos aspectos,

~'
sem ligações com a ordem existente, po~am dar~se ao luxo de ce~er exaçtamcnte opostas. Se o programa agrário do actual governo indiano
...'.'.'
temporariamente às suaseyjgências, para consegUirem o poder. ASSlm ~, não consegue .resolver o problema da alimentação na índia, e há provas
1 ". • • • -
fize;am, ao apoderarem-s~ do governo e ~ovamente, após o caos da suostanCla1S para esta apreClação pessllIl1sta, tornar-se-á altamente pro-

I:
Guerra Civil. Subsequentemente, os boIchevlques conslderaram natural- vável um movimento político de qualquer tipo. Mas não tomará necessa-
mente necessário voltarem-se para aqueles que os haviam posto no poder ;~-- \ riamente a forma de uma revolução camponesa comunista. Parece muito
e colocarem os camponeses em colectividades,' p~a .os tornarem a ba~e \. ., mais provável uma inclinação para as direitas ou uma fragmentação em
principal e as vitimas prbcipais da versão SOCialista da acumulaçao linhas regionais, ou llma combinação de ambos os casos, à luz da estru-
de capitalismo primário. . ,_' A'
tura social indiana. A situação na fndia leva-nos a perguntar se a grande
Na China, podemos encontrar outra combmaçao de ~rcunstan?as, onda das revoluções camponesas, até agora uma das características
sobre as quais se sabe menos, em parte 'p0rqu~ os aconteem:entos. am~a . )1

são demasiado recentes para já terem sldo obJecto de uma mv~stigaçao


.'histonca
" ex t ensa. É difl'd'l apontar qualquer camada bem definida como (39) Ver SCHWARTZ, Chinese Communism.
I!

552 553

.. Il
.. : ..-v.
";'~.I:
COORDENADAS
Epílogo I'
determinantes do século vinte, não terá já esgotado as suas forças. Qual- i:
"
li
quer tentativa para considerar a questão. seriament~ exigiria um es~do li
detalhado da: América Latina e da ÁfrIca, tarefa Imensa que tera de
Imagética reaccionária e revolucionária ..
~
;.
ficar para outros. Contudo, vale a pena fazer uma consideração. De um "
modo geral, ao longo do processo da modernização as circunstâncias
da vida dos camponeses raramente os tornaram aliados do capitalismo
democrátlco, uma formação histórica que, em qualquer caso, já ultra-
passou o seu zénite. Se a onda revolucionária continuar a varrer o mundo
em atraso noS anos que se aproximam, dificilmente tomará essa forma.

,.t

l-3 .' Atràvés das torções e fracturas que acompanham a formação de


uma nova sociedade - ou dos esforços para evitar a sua aparição-
surgem a superfície concepções semelhantes aquilo que uma sociedade
.âeve ou não deve ser, em situações comparáveis. Dissertar sobre as
.- ~ críticas adequadamente radicais e conservadoras, dentro de uma estru-
turacomparativa, exigiria, obviamente, mais um volume (1). Aqui,
' '.•.
-
I~.
;tiI.':'.
J
.'. "
"
. tentarei apenas fazer um breve comentário sobre alguns temas ex!iaí-
:,c: '.•.•
dos desta vasta gama de ideias, na medida em que estão relacio-
, ;:

.nadas com certos tipos de experiência histórica enfrentados pelas classes


.~,
..~.i superiores proprietárias e pelos camponeses. As ideias em si são-nos
t•• t
~-~t
suficientemente familiares para não exigirem uma exposição detalhada.
Como contribuições para a concepção humana geral de uma sociedade
livre, ou como ataques a essa mesma concepção, devem ser postas lado a
'lado, pois apresentam interessantes relações entre si. As minhas observa-
ções sobre essas ideias serão não só breves como também destinadas a
provocar, dentro do que julgo ser o bom sentido da palavra, um encoraja-
mento para outros, no sentido de estudarem estes problemas mais de

(1) Eventualmente, espero examinar mais cuidadosamente a situação na


qual se veriEca uma crítica radical, ou não surge tal crítica.

554 555
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