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(1º SLIDE)

Correspondências de Rousseau da década de 1760 indicam um plano de


escrever uma versão própria de Robinson Crusoé. O projeto foi planejado por bastante
tempo e incentivado pelo próprio editor do filósofo, mas por fim deixado de lado após
as conturbadas respostas de autoridades às obras “O contrato social” e “Emílio, ou Da
Educação”.
Em ‘Emílio’, Rousseau aponta Robinson Crusoé como “o tratado mais bem
sucedido sobre a educação natural”; em “Confissões”, os escritos do filósofo apontam
em muitas passagens para uma identificação biográfica com a narrativa e a
personagem. Uma análise destas referências nos permite delinear dois Crusoés
distintos criados por Rousseau: um seria o presente em “Emílio”, e o outro o de suas
“Confissões”. Esta reelaboração tipológica da personagem nos permite explorar
algumas tensões e conflitos entre o filósofo, suas releituras da personagem Robinson
Crusoé e a personagem em si conforme escrita por Defoe.
(2º SLIDE)
Crusoé valoriza sua solidão, pois ela o leva a conhecer e ler a Bíblia, se voltar a
Deus e ser grato à providência. Embora encontre prazeres na ilha, sua estadia nunca
deixa de ser involuntária: o náufrago deseja escapar da solidão e da ilha em si.
Para Rousseau, a solidão permite que o homem experimente a felicidade do
devaneio – a contemplação e harmonização com a natureza por meio dos sentidos. O
sentimento de existência se dá em estado passivo da mente. É um sentimento
disponível apenas ao ‘homem natural’; é o retorno ao estado de natureza.
Apesar da identificação de Rousseau com a personagem, Crusoé não
experimenta nada como o sentimento de existência. Pelo contrário, se aproximando do
homem social, que se encontra em constante estado de inquietação, sempre ativo e
agitado, buscando ocupações. O devaneio é um bem desprovido de valor político e
econômico - demanda uma ‘deliciosa indolência’ à qual somente o homem em
isolamento pode se dedicar; Rousseau ressalta a impossibilidade de o homem social se
dedicar ao devaneio em razão de suas necessidades, sempre renovadas, que o chamam
ao trabalho.
De modo similar, os dois se distanciam também na relação com o tempo: o
sentimento de existência para Rousseau é o ‘tempo eterno’, sem presente ou futuro;
enquanto isso, Crusoé anseia ao máximo não se perder em meio à passagem do tempo
e busca ao máximo se manter perceptivo e consciente de sua passagem – um homem
ansioso sobre o tempo, cheio de arrependimentos e esperanças. A reflexão e a escrita
são grandes impedimentos ao devaneio, e, quando em isolamento, Rousseau teve
como grande alegria deixar a escrita de lado e manter seus livros intactos; Crusoé, em
contraste, construiu sua própria mesa para escrever com um pouco mais de conforto.
Em sua defesa do devaneio e do sentimento de existência, Rousseau nega o
estado de constante medo da morte violenta conforme elaborado por Hobbes, que
aponta este como um dos principais motivos da organização em sociedade dos
homens. Robinson se aproxima do homem hobbesiano, a prosperidade contínua de
Crusoé consiste em sua inquietude incansável e sua profunda motivação (pelo medo da
morte) em trabalhar em suas defesas.
A própria omissão desta característica da personagem de Defoe é indicação da
representação de uma releitura pessoal.
Hobbes também afirma que a felicidade perfeita nunca pode ser alcançada
porque os homens nunca alcançarão um estado de contentamento onde nada mais é
desejado. O autorretrato de Rousseau como homem que alça o devaneio e o
sentimento de existência (contentamento absoluto em si) repudia a afirmação de
Hobbes.
De igual importância são as divergências de Rousseau e Crusoé em relação à
natureza. Enquanto a natureza é a ambientação perfeita para o devaneio, há de se
existir sensibilidade suficiente no indivíduo para que ele alce o plano do sentimento de
existência – o interesse material que leva à exploração técnica da natureza impede que
muitos homens sejam capazes de apreciar a beleza do mundo natural.
A abordagem de Crusoé à natureza não é nada além de utilitária ao máximo. O
trabalho e destreza de Crusoé lhe servem no adestramento e colonização da ilha;
plantações são feitas, cabras e galinhas são domadas, habitações são construídas.
Crusoé impõe ordem humana e urbaniza a beleza do campo. Rousseau busca
acomodação na harmonia com o natural.
(3º SLIDE)
“Emílio, ou Da Educação” é uma obra de Rousseau que aborda temas
pertinentes à condição do homem que vive em sociedade. A obra elabora críticas aos
males da cultura que suprimem os valores da natureza; e pensa uma reconfiguração do
homem para devolver-lhe seus atributos naturais, promovendo sua originalidade e
melhorando a sociedade. A obra acompanha a história de um jovem, Emílio, e seu
tutor, para demonstrar a educação de um cidadão ideal.
Robinson Crusoé será a primeira leitura de Emílio, com quatorze anos de
idade. Com o romance, Emílio aprenderá independência psicológica; ele é educado
para se tornar um ‘homem natural’ – uma unidade numérica, uma referência apenas
para si próprio. O valor de um homem social se dá pela posição que ele assume na
sociedade, pelo seu posicionamento no esquema de relacionamentos; o homem natural
é um. Por estar destinado a viver em sociedade, Emílio deve aprender a ser isolado -
para resistir ao veneno das opiniões. A visualização de si em isolamento, de acordo
com o tutor de Emílio, seria o modo mais seguro pelo qual um homem pode se elevar
acima de preconceitos e julgar por si próprio a verdadeira relação das coisas.
Emílio deve escapar da influência da vaidade. Deve preocupar-se
continuamente com a utilidade e valor-de-uso de objetos, e não com seus valores de
troca. Com Crusoé, o jovem deverá aprender a se formar um homem prático,
engenhoso e capaz de antever situações críticas. Emílio também trabalhará como
Crusoé.
Os ofícios manuais de Crusoé garantiriam a Emílio a segurança econômica
necessária à vida em sociedade, porém sem acarretarem nos prejuízos trazidos pela
divisão do trabalho. A divisão do trabalho, para o tutor de Emílio, é associada com a
introdução do luxo na sociedade. Quando os homens podiam cada um se dedicar
inteiramente ao próprio trabalho, a humanidade era mais feliz e completa – com a
descoberta da maior produtividade por meio da divisão do trabalho vieram a
propriedade, a necessidade do trabalho, e o desaparecimento da igualdade.
Ódio ao luxo e a circuitos financeiros, preocupação com moralidade e medo do
desenvolvimento econômico, críticas à aristocracia... – “Emílio” pode ser apontada
como uma obra anti-burguesa que antecipa o sentimento dos complexos tratados
político e econômicos que abalariam o mundo no século seguinte. O fato de Emílio ler
uma versão resumida da obra serve em muito o propósito de Rousseau.
(4º SLIDE)
Rousseau cria duas imagens distintas de Crusoé – uma de atitude passiva e
contemplativa; e outra de atitude ativa, política e econômica.
O Crusoé de Defoe ainda hoje é lembrado como um transformador incansável
que reordena a natureza; a personagem não busca em si e em seus sentidos uma
harmonização com a natureza, não há retorno a um estado natural e irracional, livre do
tempo e da mente; a personagem não perde seus traços de homem social.