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CAMPOS, Francisco Itami. Coronelismo em Goiás. 2. ed.

Goiânia:
Editora Vieira, 2003. 141 p.

DALVA MARIA BORGES DE LIMA DIAS DE SOUZA*

Coronelismo em Goiás, livro de Francisco hegemônicos como São Paulo, Minas Gerais e
Itami Campos, publicado pela primeira vez em Rio Grande do Sul. Por meio de uma minuciosa
1983 e reimpresso em 1987 e há muito esgotado, investigação, o autor caracteriza essa situação
foi reeditado recentemente. Livro pequeno, de periferia: economia baseada na pecuária
enxuto, revela a conformação política do estado extensiva e na agricultura de subsistência;
de Goiás na Primeira República. É resultado de população escassa e dispersa em um imenso
uma pesquisa intensa e rigorosa que Campos território; situação de isolamento, resultado das
empreendeu para a sua dissertação de mestrado comunicações precárias, já que não há estradas
defendida na UFMG em 1975. para o escoamento da produção. O gado, único
A orientação do livro vem da teoria produto de exportação para outros estados, pois
sociológica da modernização e da sua extensão se autotransporta, faz de Goiás um campo de
à ciência política, a teoria do desenvolvimento cria para Minas Gerais e São Paulo. Caracte-
político. Concepções ainda prestigiosas no rizada a configuração socioeconômica, Campos
Brasil, à época em que Campos escrevia o seu vai então deslindar o arranjo político que garante
livro, essas teorias foram posteriormente a dominação oligárquica tradicional, sedimentada
criticadas por seu evolucionismo e europeicen- por interesses baseados em um único produto
trismo e então abandonadas. Hoje, entretanto, de exportação e monopolizada pelos fazendeiros-
com o processo de globalização e com o pecuaristas, os coronéis. Como não há diferen-
enfraquecimento da alternativa socialista, ocorre ciação econômica, não há interesses divergentes
uma recuperação dessas teorias em novas que pudessem contestar o seu poder. Restam
bases. As idéias da difusão mundial dos padrões as disputas intra-elites que se configuram, por
e valores ocidentais do liberalismo e da vezes, intraparentelas.
democracia que o processo de globalização exige A estrutura federativa da República Velha,
e mesmo o dualismo tradicional–moderno estão na qual os estados ganham autonomia, permite
novamente presentes na análise sociológica.1 a Goiás gozar um tipo particular de autonomia,
Na interpretação de Francisco Itami por indiferença, identificada pelo autor no desdém
Campos, Goiás é estado periférico, ao lado de do poder central pelos conflitos intra-oligárquicos
vários outros que compõem o arranjo oligárquico ocorridos no estado ao longo do período. As
da República Velha, no pólo oposto de estados chamadas “salvações” – intervenções feitas nos
estados para garantir a estabilidade e assim
recompor o equilíbrio político necessário à
* Doutora em Sociologia pela UnB e professora do Depar-
tamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociologia da hegemonia paulista-mineira – eram o braço
UFG. armado do poder central. Ocorriam quando
1. Cf. ALEXANDER, Jeffrey C. Modern, anti, post and falhavam os mecanismos rotineiros do processo
neo. To give it its full subtitle: “How intellectuals have
coded, narrated and explained the ‘New World of our Time’”. político da República Velha, bem descritos por
In: New Left Review 210, march/april, 1995. Edgar Carone e Victor Nunes Leal: violência

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SOUZA, DALVA MARIA B. DE L. DIAS DE. Coronelismo em Goiás (Francisco Itami Campos)

política, fraude eleitoral, eleição a bico de pena, Goiás na Primeira República permaneça, a
verificação de poderes, degola. Campos de- despeito das críticas que lhe foram feitas por
monstra que Goiás, mesmo quando ocorrem no outros pesquisadores. Uma delas contesta a
estado conflitos internos, não recebe a atenção idéia de atraso. Chaul2 considera que, ao utilizar
do governo central e as intervenções, ainda que a categoria do atraso, Campos se deixou
solicitadas por uma das partes em contenda, não influenciar pela leitura feita sobre Goiás pelos
se efetivam. O poder central deixa que os viajantes do século XVIII que, a partir do
problemas sejam resolvidos por aqui mesmo. esgotamento do ouro e da ruralização da
Essa autonomia por indiferença outorga uma economia, descreveram a decadência de Goiás.
parcela de poder local maior aos fazendeiros Campos se defende dessa crítica na apresen-
pecuaristas que, por meio das três oligarquias tação desta nova edição, refutando que a
formadas ao longo da Primeira República, categoria que utiliza, atraso, é diferente de deca-
dominam o estado: Bulhões, Xavier de Almeida dência. Mas uma questão permanece. O atraso
e Caiado. Esta última, a mais poderosa e que é por ele constatado de maneira objetiva, a partir
estruturou o seu domínio, não pela prepotência de dados socioeconômicos. E da forma como o
e mando pessoal direto do seu chefe, como foi autor constrói a sua argumentação, a manu-
característica dos coronéis baianos, cearenses tenção do atraso é uma ação estratégica dos
e alagoanos, mas pela engenharia política, cujas coronéis:
peças eram um partido forte, único até, o Partido
Democrata que, por meio da sua comissão A partir das críticas feitas aos principais líderes
executiva, garantia o recrutamento político entre da política estadual que conscientemente
os coronéis do interior, especialmente de procuravam manter o atraso e o subdesen-
Morrinhos, Porto Nacional e da Capital, fiéis ao volvimento, com a finalidade de não perder o
chefe “Totó” Caiado, garantindo sua dominação domínio político de Goiás, é que afirmo que o
atraso era uma forma de controle sociopolítico.
oligárquica de 1912 a 1930.
(Campos, 2003, p. 75)
Além da predominância do poder executivo
sobre um legislativo subordinado, da forte
A análise seria mais convincente se o autor
estrutura da comissão executiva do Partido
tivesse também, sem deixar de lado a caracte-
Democrata, outros fatores contribuem para a
rização socioeconômica, percorrido um outro
manutenção do poder dos coronéis. A manipu-
caminho, o da sociologia dos costumes ou da
lação do orçamento do estado e, principalmente,
história das mentalidades. Outra crítica feita ao
como sustenta o autor, a manutenção do atraso
livro é a de Skorupski,3 que contesta a idéia de
como forma de dominação. Ao não favorecer
autonomia por indiferença, mostrando que o
investimentos em políticas públicas que permitis-
poder central interferiu por diversas vezes em
sem a superação do atraso, os oligarcas Bulhões
Goiás durante a Primeira República. Campos,
e Caiado não se preocuparam em superar o
em resposta, prende-se à distinção entre interfe-
isolamento, recusando-se a lutar pela extensão
rência e intervenção armada, reafirmando que
da estrada de ferro no território goiano. E,
esta última nunca teria ocorrido em Goiás.
quando houve, nos governos comandados por
Essas críticas têm a vantagem de deixar
Xavier de Almeida, uma tentativa de racionalizar
aberta a fronteira para novos estudos sobre o
a administração pública, arrecadando mais
tema e a de estimular cada vez mais a pesquisa
impostos – que eram gerados pela pecuária –,
sobre a política goiana e essa é a característica
as oligarquias Bulhões e Caiado, então
de boas obras como Coronelismo em Goiás.
afastadas, unem-se em 1909, armam cerca de
mil homens, invadem a capital e destituem o
governo. Estabelece-se, a partir daí, o domínio 2. CHAUL, Nars Nagib Fayad. Caminhos de Goiás: da cons-
caiadista, que prevalece até 1930, e consolidam- trução da decadência aos limites da modernidade. Goiânia:
Ed. da UFG, 2001.
se os interesses dos pecuaristas.
3. SKORUPSKI, Maria Aparecida Guimarães. A instituciona-
A pesquisa empírica cuidadosa realizada lização do poder. Goiás na perspectiva do estado nacional.
pelo autor permite que a sua interpretação de 1992. Dissertação (Mestrado) – São Paulo.

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