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PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO

Atualidades e permanências na preservação


de bens culturais em Brasília
Presidente da República superintendência iphan df Organização Superintendência do
Michel Temer Sandra Bernardes Ribeiro Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Superintendente Thiago Perpétuo no Distrito Federal
Ministro da Cultura Carlos Madson Reis
Roberto Freire Revisão
Coordenadora Técnica Maurício Guimarães Goulart
Instituto do Patrimônio Sandra Bernardes Ribeiro
histórico e Artístico Nacional Textos
Coordenador Administrativo Ana Elisabete Medeiros
Presidente André Moreira Antunes André Luiz de Souza Castro
Kátia Bogéa Andrey Rosenthal Schlee
Apoio administrativo Carlos Madson Reis
Diretores Agatha Barros Morgado Frederico de Holanda
Júlia de Araújo Carrari Maria Manoel Oliveira
Articulação e Fomento Loise Benício de Abreu Mesquita Maurício Guimarães Goulart
Marcelo Brito Lorrayne Silva Nogueira Oscar Luís Ferreira
Paulo Cesar Marques da Silva
Patrimônio Imaterial Estagiárias de Arquitetura Thiago Perpétuo
Hermano Fabrício Oliveira e Urbanismo
Guanais e Queiroz Bárbara Vasconcelos Tabosa Projeto gráfico e
Lorrany Moura Silva diagramação
Patrimônio Material e Fiscalização Luiz Felipe Fagundes Machado
Andrey Rosenthal Schlee As opiniões emitidas nesta
publicação são de exclusiva e inteira
PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO
Planejamento e Administração responsabilidade dos autores, não Atualidades e permanências na preservação
Marcos José Silva Rêgo exprimindo, necessariamente, o ponto
de vista do IPHAN.
de bens culturais em Brasília
PAC Cidades Históricas
Robson Antônio de Almeida

Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)


Biblioteca Aloísio Magalhães, IPHAN

I59P Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil). Superintendência do IPHAN


no Distrito Federal.
Patrimônio em transformação : atualidades e permanências na preservação de
bens culturais em Brasília / Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Superintendência do IPHAN no Distrito Federal ; organização Sandra Bernardes Ribeiro e
Thiago Perpétuo ; textos, Ana Elisabete Medeiros et al. – Brasília-DF, 2016. Superintendência IPHAN – df
209 p. SEPS 713/913 Bloco D

ISBN: 978-85-7334-309-0
Edifício IPHAN 1º andar – Asa Sul
70390-135 – Brasília, DF
1. Patrimônio Mundial - Brasília. 2. Conjunto urbanístico - Brasília. 3. Preservação - Brasília. (61) 2124 6180 / (61) 2024 6190 Brasília
I. Ribeiro, Sandra Bernardes. II. Perpétuo, Thiago Pereira. III. Medeiros, Ana Elisabete. IV. Título.
www.iphan.gov.br IPHAN DF
CDD 363.69098174 iphan-df@iphan.gov.br 2017

PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 3
APRESENTAÇÃO

Em 2017, comemoramos 30 anos de reconhecimen- tônicas, Françoise Choay (2011), defende que atu-
to de Brasília como patrimônio cultural da humani- almente existem três frentes de luta com relação à
dade e 60 anos do projeto do arquiteto e urbanista gestão e à preservação do patrimônio: a educação
Lucio Costa, momento oportuno para reflexões so- e formação, a utilização ética de nossas heranças
bre a gestão de seu patrimônio e as questões relati- edificadas e a participação coletiva na produção de
vas ao desenvolvimento urbano, com vistas a subsi- um “patrimônio vivo”. Ela afirma a necessidade de
diar os debates necessários para encaminhamento reapropriação e reutilização dos espaços, engajan-
de soluções que visem tanto a preservação quanto do arquitetos, urbanistas e habitantes para dotar
a melhoria de seus espaços urbanos. Numa ocasião esses lugares de novos usos adaptados à demanda
como esta, indagações muito comuns nos debates a contemporânea, renunciando ao dogma de sua imu-
respeito de nossa capital se fazem ainda mais pre- tabilidade e ao formalismo histórico da restauração
sentes: uma cidade tombada pode ser objeto de e de saber proceder às transformações necessárias,
transformações? Espaços urbanos protegidos pelo de maneira a associar o respeito ao passado à apli-
tombamento podem ser alterados? Como preservar cação de técnicas contemporâneas de ponta.
uma cidade tão nova, com problemas comuns a mui-
tas cidades, sem descaracterizá-la? O objetivo dessa publicação, portanto, é apresentar
trabalhos que tratam de desafios atuais, bem como
A pertinência dessas questões parece constar desde novos olhares sobre temas conhecidos, com vistas
o início do processo de patrimonialização de Brasí- a instigar essas estimulantes reflexões sobre a ca-
lia: a proposta de buscar uma preservação a partir pital-patrimônio. Esperamos também que eles sir-
das “escalas urbanísticas” – e não propriamente da vam de subsídios para que, juntos, agentes públicos
materialidade dos edifícios da cidade – demons- e a sociedade (responsáveis pela gestão do patrimô-
tra que havia certa precaução quanto às possíveis
transformações da cidade, que é sabidamente um
organismo vivo. Mais ainda se considerarmos o 1 Conhecido como GT Brasília, o Grupo de Trabalho para a
conceito de “preservação dinâmica”, elaborado pelo Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília
foi instituído no início da década de 1980, por meio do
GT-Brasília1, que propunha, já na década de 1980, Decreto nº 5.819, de 24 de fevereiro de 1981. Tratou-se
abordar a preservação do patrimônio com medidas de uma iniciativa de Aloísio Magalhães e que reuniu um
que visam preservar suas características essenciais, grupo heterogêneo de pesquisadores e servidores públi-
permitindo as transformações colocadas pelas de- cos ligados ao IPHAN, à Universidade de Brasília e a órgão
mandas contemporâneas – algo possível e desejável. dos GDF. O GT Brasília empreendeu o mais exaustivo
estudo sobre o patrimônio cultural do Distrito Federal,
tendo uma abordagem ampla do conceito de patrimônio e
Tais desafios parecem estar na ordem do dia. A his- buscando elaborar um sistema de preservação que consi-
toriadora das teorias e formas urbanas e arquite- derasse o dinamismo das transformações urbanas.

4 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 5
nio), possamos encontrar caminhos que nos levarão IPHAN, em que abordou o processo de patrimonia- do declínio da avenida e nos coloca possibilidades A terceira e última parte, “Olhares sobre a gestão do
à tomada de decisões sobre os destinos de Brasília, lização de Brasília e sua relação com a construção para a reversão desse quadro. patrimônio cultural do DF”, apresenta estudos que
cidade que, além de ser patrimônio consagrado (nas da identidade da cidade. A partir da investigação de tratam da gestão do patrimônio tombado e seus
esferas local, nacional e internacional de preserva- documentação pouco explorada pela bibliografia, No artigo O Mall dos brasileiros, Andrey Schlee instrumentos, que vão desde a regulamentação, por
ção), é capital do país, 4ª metrópole nacional e lugar Perpétuo traz novas leituras sobre a delimitação da apresenta suas ideias sobre a concepção da Espla- meio de normas que definem parâmetros de pre-
de moradia e usufruto de seus habitantes e visitantes. poligonal tombada e argumenta sobre possibilida- nada dos Ministérios e sua dimensão simbólica. Atu- servação e intervenção, até atividades didáticas no
des de desconstrução da ideia de valor inerente do almente à frente do Departamento do Patrimônio âmbito da educação patrimonial.
Os artigos estão organizados em três partes. objeto cultural e de revisão desses valores, buscan- Material (DEPAM) do IPHAN, o arquiteto explora a
do compreender a valoração de objetos culturais concepção e o significado da Esplanada, comparada O artigo Conjunto Urbanístico de Brasília: da
A primeira, “Revisitando o passado, reinterpretan- como um processo social de atribuição. por Lucio Costa ao Mall dos ingleses, cotejando com a preservação e outros demônios, de Carlos Mad-
do o presente”, apresenta textos que tratam da cons- Portaria nº 184/2016, que regulamenta, à luz do tom- son Reis, apresenta uma análise sobre a gestão a
trução da cidade e sua implantação no território, e Na segunda parte, “Possibilidades de (re)apropria- bamento federal do Conjunto Urbanístico de Brasília, partir de sua longa experiência profissional e de re-
também do processo histórico de reconhecimento ção dos espaços da cidade” os artigos abordam o o uso temporário e a instalação de equipamentos nes- flexões acadêmicas sobre o tema. Agrega-se a isso
de Brasília como patrimônio cultural. uso e a apropriação da cidade, seus problemas e al- ses espaços, que são muito demandados para eventos sua presente atuação como gestor da preservação
gumas possibilidades para revertê-los. culturais, religiosos, esportivos, cívicos e políticos. do patrimônio tombado, estando à frente da Supe-
Maria Manuel Oliveira nos apresenta, no artigo rintendência do IPHAN no Distrito Federal desde
“Construída na linha do horizonte”: Brasília, o Frederico de Holanda nos brinda com o artigo Via O Eixo Rodoviário de Brasília, chamado de “Eixão” 2014. Segundo sua análise, a cultura urbanística
Plano Piloto e a manipulação do chão, o resultado W-3, Brasília: nossa futura Broadway? Apesar pelos moradores, é uma rodovia (DF-002) que corta de Brasília – fundada nos princípios preconizados
de uma pesquisa realizada em Brasília sobre o domí- de ter sido objeto de vários estudos e de um con- a Asa Sul e a Asa Norte, dividindo a cidade em lados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura
nio da modelagem topográfica quando da implanta- curso de ideias, a Avenida W-3 Sul continua com leste e oeste. Ao mesmo tempo, é uma via urbana, Moderna (CIAMs) – situa a busca pela preservação
ção da cidade no território. Propondo novos olhares problemas que vão desde a deterioração física até atravessada cotidianamente por pedestres que ar- da representação simbólica sempre em relação ao
sobre temas consagrados, como a configuração apa- a falta de vitalidade de espaços urbanos e comer- riscam suas vidas no conflito com automóveis em seu projeto original, e não à cidade dele decorren-
rentemente plana da cidade, a autora defende em ciais, com várias lojas fechadas, calçadas sem aces- alta velocidade. Acerca disso, Paulo Cesar Marques te. No que se refere ao sistema de preservação e
seu trabalho que a manipulação do chão fundamen- sibilidade e congestionamentos frequentes, em da Silva, no artigo Mobilidade, acessibilidade e gestão da cidade, Reis avalia que, no patamar po-
tou o desenho de Lucio Costa desde o princípio, pois virtude de a via ser muito usada para a circulação velocidade no Eixo Rodoviário, busca ressaltar lítico-institucional em que se encontra, a gestão
havia um controle da topografia, possível através de urbana. Mas, como lembra Holanda, nem sempre tanto os efeitos negativos da operação da via em ainda se ressente de instabilidade, desarticulação
uma minuciosa modelação do terreno. foi assim. Nos primeiros anos da capital, a W-3 Sul alta velocidade quanto a ilusão dos esperados be- e precariedade. Finalmente, aponta iniciativas de
era o verdadeiro centro comercial e cultural da ci- nefícios de uma via de transito rápido. Paulo Cesar superação dessa conjuntura, com a assinatura do
Revisitando o processo de tombamento de Bra- dade, onde a população fazia compras e usufruía nos faz pensar a respeito de que cidade queremos, Acordo de Cooperação Técnica para a gestão com-
sília: uma contribuição historiográfica para no- de seus espaços para lazer e cultura. Ao contrário ao manter essa via com suas características atuais. partilhada com o Governo do Distrito Federal e a
vas interpretações do objeto protegido é o artigo da W-3 Norte e de outras avenidas, a W-3 Sul tem Afinal, vamos permitir que ela continue segregando edição da Portaria nº 166/16, instrumento que es-
do historiador Thiago Perpétuo oriundo de sua pes- usos diferentes em cada lado: no lado oeste predo- espaços urbanos e colocando pedestres em risco, ou tabelece critérios para a gestão do Conjunto Urba-
quisa no âmbito do Programa de Mestrado Profis- mina o uso residencial e no leste, o comercial. Ho- vamos torná-la humanizada, com a possibilidade de nístico de Brasília.
sional em Preservação do Patrimônio Cultural do landa nos apresenta suas reflexões sobre as causas ir e vir com segurança?

6 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 7
O segundo artigo, Notas sobre as inovações da Por fim, no artigo A preservação do conjunto ar-
Portaria nº 166/2016-IPHAN para a preserva- quitetônico do antigo HJKO em debate, Ana Elisa-
ção do Conjunto Urbanístico de Brasília, de An- bete Medeiros e Oscar Luís Ferreira nos apresentam
dré Luiz de Souza Castro, apresenta ponderações a experiência e os resultados de uma disciplina da
sobre a nova portaria que regulamenta o tomba- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/UnB),
mento federal, realizando uma leitura crítica da cujo objetivo foi explorar o tema da preservação do
norma à luz do referencial teórico-metodológico de Hospital Juscelino Kubistchek de Oliveira – HJKO.
preservação de sítios históricos e, especificamente, Esse trabalho teve a participação da Superintendên-
daqueles representantes do movimento moderno. cia do IPHAN no Distrito Federal, na realização de
Aponta que as inovações da Portaria nº 166/2016, uma Oficina prática com os alunos nos espaços da-
se comparadas com os dispositivos anteriores, re- quele conjunto tombado. Representou uma impor-
presentam um avanço conceitual no sentido de dar tante ação de educação patrimonial e aproximação
agilidade operacional à gestão do sítio, na medida da comunidade acadêmica com o universo da pre-
em que coloca o foco sobre a cidade consolidada servação cultural. Para além da experiência didáti-
como artefato histórico, e não sobre seu projeto. ca, o texto nos convida a uma reflexão sobre as rela-
ções entre a FAU/UnB e o IPHAN, tendo a disciplina
O horizonte de Brasília: a definição da zona de Técnicas Retrospectivas como fórum de debates.
entorno e a gestão compartilhada do Conjunto
Urbanístico de Brasília, de Maurício Guimarães
Goulart, nos traz reflexões sobre a questão das
competências constitucionais com relação à preser- Sandra Bernardes Ribeiro
vação do patrimônio e ao planejamento urbano e a Thiago Perpétuo
possibilidade de gestão compartilhada do Conjunto Organizadores
Urbanístico de Brasília. Aborda também o processo
de delimitação da zona de entorno do Conjunto Ur-
banístico de Brasília, tema que está na agenda das
discussões do Grupo Técnico Executivo oriundo do
Acordo de Cooperação Técnica entre GDF e IPHAN-
DF. Suas reflexões nos ajudam a compreender me-
lhor esses processos e permitem a apropriação des-
sas questões por parte da sociedade e a ampliação
do debate de temas importantes para a dinâmica
urbana e a preservação do patrimônio.

8
sumário

5 Apresentação PARTE III Olhares sobre a gestão


do patrimônio cultural do DF

PARTE I Revisitando o passado, 114 Conjunto Urbanístico de Brasília: da


reinterpretando o presente preservação e outros demônios
Carlos Madson Reis
14 “Construída na linha do horizonte”: Brasí-
lia, o Plano Piloto e a manipulação do chão 136 Notas sobre as inovações da Portaria nº
Maria Manuel Oliveira 166/2016-IPHAN para a preservação
do Conjunto Urbanístico de Brasília
52 Revisitando o processo de tombamento de André Luiz de Souza Castro
Brasília: uma contribuição historiográfica pa-
ra novas interpretações do objeto protegido 156 O horizonte de Brasília: a definição da
Thiago Perpétuo zona de entorno e a gestão compartilhada
do Conjunto Urbanístico de Brasília
Mauricio Guimarães Goulart
PARTE II Possibilidades de
(re)apropriação dos espaços da cidade 184 A preservação do conjunto arquitetônico
do antigo HJKO em debate
78 Via W-3, Brasília: nossa futura Broadway? Ana Elisabete Medeiros e Oscar Luís Ferreira
Frederico de Holanda

90 O Mall dos brasileiros 206 Sobre os autores


Andrey Rosenthal Schlee

100 Mobilidade, acessibilidade e


velocidade no Eixo Rodoviário
Paulo Cesar Marques da Silva

10
12 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 13
“Construída na linha do horizonte”: Brasília, o
Plano Piloto e a manipulação do chão1
Maria Manuel Oliveira

resumo abstract

É recorrente dizer-se que Brasília foi concebida a It is commonly said that Brasília was conceived Quando, em 2011, revisitei Brasília, encontrava-me ficação e montagem de vários levantamentos reali-
partir do zero, uma afirmação que advém da reduzida from scratch, a belief arising from the limited urban profundamente imersa num projecto urbano de es- zados nas décadas de 50 e 60 do século passado, da
inscrição urbana no vale onde se implantou e da sua occupation of the valley where the city was estab- paço público, em que a sobrevivência da sua ideia sua sobreposição à proposta apresentada por Lucio
descrição como “uma mesa de bilhar”. Esta aparente lished and its description as a “snooker table”. This dependia da acuidade e do rigor com que a modela- Costa ao concurso de 1957 e, ainda, à cartografia ac-
tabula rasa determinou a ainda prevalente imagem apparent tabula rasa determined and still influenc- ção do pavimento fosse conseguida. Focada que es- tual da cidade, foram desenhados perfis ao longo do
mental do seu suporte físico como uma superfície lisa es the mental image of its physical presence as a flat tava no desenho do chão, Brasília revelou-se-me sob Eixo Monumental – a instância em que o chão é mais
que não terá requerido projecto topográfico. Por essa surface that would not have required a topograph- uma perspectiva absolutamente nova: o olhar des- evidentemente dramatizado – que permitem não só
razão, talvez, a literatura disciplinar representa a área ical design. For this reason perhaps, the literature viou-se dos edifícios – para onde sempre foge, defi- compreender como o plano submetido a concurso
do Plano Piloto sistematicamente, e apenas, em plan- systematically and uniquely represents the area nitivamente seduzido pelas magníficas arquitectu- interpretou o suporte físico que lhe era dado, como
ta. É no entanto muito sensível a quem percorre a cida- of the “Plano Piloto” as a plan. However someone ras – e apercebi-me de uma topografia que atribuía comparar esse desenho com aquele que a seguir foi
de que a sua composição assenta num exigente rigor crossing the city can sense that its composition is uma intensa espessura à massa mais anódina, sujei- executado para edificação da cidade. Este trabalho
e domínio da modelação topográfica: ruas e edifícios based on a rigorous understanding of topographical ta a regra e repetição, e vincava o sentido sublime corroborou a existência de um rigoroso controlo da
articulam-se com o solo como que sobre uma pele que modelling: streets and buildings combine with the dos edifícios singulares; iluminaram-se subtilezas topografia, só possível através de uma minuciosa
não só acolhe, como amplifica a sua tridimensionali- land like a skin that not only embraces, but ampli- com que o solo se lhes aproximava ou distanciava, modelação do terreno, pese embora o facto de o res-
dade. A partir desta perspectiva, argumenta-se que a fies its tridimensionality. According to this view, it is a mestria das concordâncias entre planos, a delica- pectivo projecto não ser (re)conhecido.
manipulação do chão terá fundamentado o desenho argued that the manipulation of the ground would deza dos acertos de cota, o domínio dos declives...
de Lucio Costa desde o seu primeiro momento. have been one the bases for Lucio Costa’s drawing Tornaram-se aparentes esforços invisíveis por tão Consciente de que este é um tema apenas entrea-
since its initial conception. naturais parecerem, e a cidade surgiu-me, nesse berto que merece ser explorado a partir das muitas
Palavras-chave Plano Piloto. Natureza. Topografia. sentido, como uma espécie de avatar arquitectónico interrogações que suscita (entre todas, a compatibi-
Modelação. Secção. Keywords Plano Piloto. Nature. Topography. Mod- do jardim paisagista setecentista. lização infraestrutural é, talvez, uma das centrais), o
elling. presente texto tem como primeiro objectivo acres-
Aprender com esse notabilíssimo trabalho de dese- centar uma outra possibilidade de aproximação à
1 Este texto tem como base o artigo exposto no PNUM nho da cidade revelou-se-me uma evidência, mas a obra de Lucio Costa, e da sua equipa, na invenção
2015, realizado em Brasília, e conta com o valioso contri- busca do projecto topográfico veio a ser infrutífe- de Brasília.
buto das apresentações então efectuadas no IPHAN-DF e ra, inclusive ao longo dos três meses em que, mais
na FAU-UnB. A pesquisa de suporte decorreu em Brasília tarde, frequentei arquivos brasilienses. Simultane-
(maio a agosto de 2012) na FAU-UnB e no ArPDF, sob
orientação de Sylvia Ficher e com o apoio de Wilson Vieira
amente, verifiquei que o Plano Piloto era, de uma
Junior. Entre muitas outras disponibilidades – de institui- maneira generalizada, considerado como pousado
ções, colegas, e amigos –, agradeço em especial as de sobre uma superfície plana, e que esse entendimen-
Jayme Zettel e Jethro Bello Torres. A informação recolhida to tinha, de alguma forma, provocado o desinteresse
foi, depois, trabalhada no Centro de Estudos da Escola na representação da cidade em secção.
de Arquitectura da Universidade do Minho (CEEAUM). De-
senvolvido no âmbito de uma licença sabática, o projecto
de investigação obteve uma bolsa da Fundação para a Convicta da pertinência dessa abordagem topoló-
Ciência e Tecnologia. gica, a investigação prosseguiu. A partir da identi-

14 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 15
[página ao lado]
1 Antes: Paraíso à espera do Homem 2 Desmatação para a primeira pista de aterragem
Fonte isto é | this is BRASÍLIA, v. 1, n. 1, ArPDF Fonte Arquivo Público do Distrito Federal

da representação do território |
a sua imagem mental

“No princípio era o ermo. Eram antigas solidões sem Sistematicamente representada em planta – não
mágoa. O altiplano, o infinito descampado”. A aber- se encontram secções à escala urbana na literatu-
tura da Sinfonia da Alvorada traduz o sentimento ra arquitectónica e urbanística –, Brasília é descrita
nacional generalizado em relação ao lugar escolhido também como uma cidade plana que suavemente se
para a nova capital. Frequentemente descrita como inclina sobre o Lago Paranoá. Esta visão, constante
“concebida a partir do zero”, Brasília surge como nas referências ao território em que a capital se esta-
“uma flor naquela terra agreste e solitária”2. A redu- beleceu, já assim surgia em 1896 no Relatório Cruls,
zida inscrição urbana no território, apesar de habi- apesar de os meticulosos perfis que o integram mos-
tado e cruzado por trilhas abertas pelos índios na- trarem um relevo assinalável. Na sua ‘Noticia sobre
tivos e pelos colonos e bandeiras a partir do século Botanica Aplicada’, Auguste Glaziou relata “a extrema
XVIII, permitiu, à época da criação da cidade, descre- suavidade dos accidentes naturais” de um vale exten-
vê-lo como tabula rasa3, um paraíso redescoberto. so e atravessado por vários cursos de água6. Cerca
de sessenta anos depois, Israel Pinheiro declarava,
Olhada como surgida do nada4, Brasília reforça-se publicamente, que Brasília era “uma mesa de bilhar”.
enquanto instrumento ideológico essencial à mito-
grafia de um estado moderno, que através da cria- De facto, esta era uma convicção enraizada e perme-
ção de uma capital ex novo se refunda e liberta do ava também os vários planos anteriores ao concur-
último atavismo da sua anterior condição colonial. so de 1957, que se desenvolviam em grelha regular,
Nesta aproximação, apenas a poderosa e pertinaz uma rectícula aparentemente mais apropriada a um
presença do cerrado emerge como uma preexistên- suporte físico suave que a um solo acidentado.
cia originária, a valorizar5. E o imaginário Moderno
de imediato incorporou a rude integridade cerra-
dense na sua visão civilizadora, incrustando a polis
no seio dessa imensa mancha, enxertando em terra 5 A Reserva da Biosfera do Cerrado no Distrito Federal,
vermelha sofisticadas figuras platónicas. institucionalizada em 1994, ocupa cerca de 40% do seu
território. Essa afirmação de uma natureza seca, com
árvores isoladas no mato denso (uma representação en-
tretanto ultrapassada), mostrou-se interessante também
2 Oscar Niemeyer, citado na Sinfonia da Alvorada, do ponto de vista ideológico na fundação da nova capital,
composta para a inauguração de Brasília por Vinicius de enquanto contraponto à luxuriante mata atlântica, a gene-
Moraes e Antonio Carlos Jobim. ralizada e dominante representação do território brasileiro.
3 Esta (generalizada) perspectiva tem vindo ser objecto de 6 Num texto escrito de forma muito impressiva, Glaziou
revisão crítica a partir de estudos académicos recentes, refere que foi profundamente sensível ao “Taboleiro do
designadamente: Vieira Junior (2010); Barbo (2010). Rio Torto, cuja suavidade topográfica não requer trabalho
4 Sobre a história urbanística que antecede Brasília, consultar para instalação de edificação e arruamentos” (GLAZIOU in
Tavares (2004); Ficher et al. (2006); Schlee, Ficher (2006). CRULS, 1896: 12).

16 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 17
Apesar de ter sido a imagem que, deliberadamente De uma maneira inesperada, a visão do “vale” como
publicitada e colectivamente interiorizada, sobrevi- planície – um vale que, longe de ser uma superfície
veu até aos nossos dias, aqueles que à época projec- lisa, acolhe no interior uma elevação com cerca de
tavam Brasília confrontavam-se com uma morfolo- 200m de altura – foi, paradoxalmente, reforçada ao
gia diversa: Augusto Guimarães Filho, responsável longo do seu reconhecimento físico e registo gráfico.
pela Divisão de Urbanismo no Rio, no seu depoi-
mento de 1989 refere que a primeira coisa que teve A edificação da nova capital foi aprovada oficial-
de fazer foi “quebrar o mito” de que o terreno onde mente na segunda metade de 1940 e no começo da
ia ficar a cidade era plano. década seguinte iniciou-se a elaboração da carto-
grafia8 indispensável aos estudos que conduziriam
Na verdade, envolvida por montes que lhe conferem à definição precisa da sua localização. Realizado
um horizonte cuja linha de festo é contínua e clara- através dos mais sofisticados meios técnicos à épo-
mente legível a partir do seu interior, Brasília surge ca disponíveis, este levantamento cartográfico9 ini-
(com enorme clareza, desde a emergência da repre- ciado com voos e fotografia aérea, ao implicar um
sentação digital) como que implantada no coração olhar vertical abstractizou a interpretação do ter-
de uma cratera - e talvez não de um vale, como é ha- ritório: “a partir da distância, a paisagem transfor-
bitual ser designada. Essa cumeeira conforma a ba- ma-se em figura” (LABASTIDA, 2013: I-62). E, neste
3 Alguns planos para a futura capital cia do Lago Paranoá – e delimita o celebrado “céu de caso, planificou o chão.
do Brasil Brasília” –, apresentando variações altimétricas na
Fontes a) Planaltinópolis (1926); ordem dos 250m7. Não é difícil, por certo, imaginar Aparentemente, esta figura plana determinou a
b) Carmen Portinho (1938); c) que os recém chegados do Rio de Janeiro, primeiro visão do espaço onde a cidade se viria a instalar,
Penna Firme, Lacombe, Oliveira na missão Cruls e, posteriormente, nas várias aproxi- sobrepondo-se, até, aos rigorosos mapas que com-
Reis (1955), (apud TAVARES, 2004; mações à edificação da cidade, vindos de topografias provavam uma morfologia diversa10. Não terá sido
FICHER et al., 2006) muito vincadas e densas ocupações urbanas, perce- estranha a esta fixação a circunstância de, então, po-
bessem esta área como um vasto espaço liso e total- líticos, jornalistas e técnicos – todos aqueles, afinal,
4 O Plano Piloto localiza-se sobre mente disponível ao seu desígnio heroico. Associada
a elevação existente no centro da a uma natureza virgem e edénica, este imaginário
‘cratera’ cumpria o pleno significado simbólico do lugar... 8 O levantamento foi encomendado pela Comissão de
4a Distrito Federal, altimetria Localização da Capital Federal à empresa Cruzeiro do Sul.
Fonte Embrapa Os mosaicos fotográficos construídos a partir destes voos
iniciaram o processo de restituição cartográfica, que veio a
4b fragmento do Mapa de visibilida-
7 Este é um valor aproximado, obtido através do cruza- resultar numa completíssima e rigorosa colecção, executa-
de do horizonte do Plano Piloto de mento da informação constante na cartografia Distrito da pela Geofoto (acervo ArPDF).
Brasília, IPHAN, 2010 Federal – altimetria, Embrapa, de 2005 e Mapa de visibi- 9 Sobre a cartografia como ‘instrumento demiúrgico’, ver
Fonte IPHAN lidade do horizonte do Plano Piloto de Brasília, de 2010. Corboz (2001).

18 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 19
da representação do território |
a sua imagem cartográfica

que contribuíram para a construção do seu imagi- O primeiro levantamento aerofotogramétrico da


nário colectivo – chegarem e partirem de Brasília, região foi realizado em 1954, à escala 1:250.000,
também eles, por meio aéreo. Mas o caldo cultural cobriu a área de 52.000km² – definida a partir
da época era favorável a essa abstractização, e a daquela que tinha sido delimitada pela expedição
sofisticação que lhe estava inicialmente associada Cruls – e resultou num excepcional conjunto de fo-
massificou-se progressivamente, através das mais tografias sobre as quais as curvas de nível se encon-
variadas formas de divulgação. Entre a crítica feroz tram desenhadas, a lápis e a tinta da china, à mão
e um aceso proselitismo, Brasília transformou-se levantada. A partir da digitalização dessas imagens,
num ícone da modernidade, em grande medida gra- foi montado o mosaico completo e nele localizada a
ças a esse sentido de descolamento da matéria física. área que futuramente viria a acolher a nova capital
(CEEAUM, 2014).
A representação de Brasília construiu-se, assim,
como se de uma inscrição num plano se tratasse, Esse levantamento, que serviu de base ao estudo
tendo essa percepção vindo a ser vincada pela sua encomendado à firma americana D. J. Belcher, foi
posterior forma de uso. No mapa mental contempo- o primeiro de uma extensa linhagem dedicada ao
râneo, Brasília foi, e é, uma inscrição nazca11. reconhecimento territorial: ainda em 1954 foram
realizados levantamentos à escala de 1:25.000 dos
cinco sectores delimitados por Belcher, a partir dos
quais foi seleccionado o “sítio castanho” – e fixada
uma área com 5.789,16km² – para instalação da
cidade. Esta circunscrição originou uma nova sé-
rie de campanhas cartográficas, agora já à escala
de 1:2000 (que atingiu o impressionante número
10 Essa imagem continuou a intensificar-se até aos de 700 pranchas, primorosamente desenhadas) e
nossos dias, em particular pelo facto de as deslocações de 1:1.000, de grande detalhe, rigor e fidelidade. 5a Fotografia em Brasília, s/d
na cidade serem feitas em automóvel: não sendo per- Através da análise do Mapa Índice das Folhas na Fonte ArPDF
corrido a pé, de forma próxima e em velocidade lenta, as
variações topográficas do terreno não são sensorialmente
escala 1/2000 (ArPDF) e do seu cotejamento com 5b vinheta da banda desenhada
apreendidas. as cartas correspondentes, foi possível reconstituir Star Trek, 1966-séc. XXIII
11 Descobertas na década de 30 do século passado, as o percurso temporal do levantamento e verificar Fonte memory-beta.wikia.com
inscrições nazca, executadas entre 200 a.C. e 400 d.C. no que ele se efectuou de início em mancha de óleo e,
deserto peruano, são passíveis de leitura apenas a partir depois, por camadas externas que sucessivamente 6 Brasília em construção, imagem
da sua visão aérea. E é verdade que percorrer Brasília é
uma experiência poderosamente amplificada a partir do
ampliavam a zona central da cidade – muito pro- aérea
exercício de abstracção apenas possível ao connoisseur do vavelmente acompanhando as solicitações que a Fonte isto é | this is Brasília, s/d, p.
seu desenho, àqueles que a sabem ler em voo de pássaro. veloz urbanização reclamava. 11, ArPDF

20 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 21
7 Processo de restituição cartográfica 7b montagem do mosaico aerofotogramétrico da área de
7a fotografia aérea com as curvas Brasília e envolvente, com indicação do plano de água do
de nível desenhadas a lápis e tinta Paranoá (cota 1000) e do Lugar do Cruzeiro
da china Fonte ArPDF; CEEAUM (2014)

22 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 23
8c Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil. 8d Planta aerofotogramétrica do Distrito Federal, fls 15, 16.
8a Nova Capital do Brasil. Carta topográfica do Sítio ‘Casta- 8b Comissão de localização da Nova Capital Federal. Plan- Planta aerofotogramétrica do Novo Distrito Federal, esc. Esc. 1:25.000, 1960 - a lápis, à mão levantada: extensão
nho’, esc. 1:25.000, 1954, fôlha 3 ta aerofotogramétrica do Sítio da Nova Capital do Brasil, 1:25.000, 1958, fôlha 9 do Eixo Monumental, traçado da EPIA
esc. 1:2.000, 1955-56, fôlha 6 Fonte ArPDF

24 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 25
1957. O Plano Piloto de Lucio Costa |
a aparente abstracção

O reconhecimento topográfico prolongou-se ainda O concurso para a concepção do Plano Piloto da sas bellas aguas correntes haviam de dar à Nova Ca- vés da sobreposição do Plano Piloto apresentado a
nos anos 60 a vários níveis e escalas, e muitas des- Nova Capital do Brasil, lançado em 1956 e muito de- pital” – e, inclusive, já incorporado em planos ante- concurso (PPB | 1957) com um dos levantamentos
sas cartas foram suporte directo ao desenho e à im- liberadamente aberto nos seus termos, vinculava os riores; o hotel e o palácio presidencial (projectados existentes à época.
plantação do Plano-Piloto, conforme se pode verifi- participantes à definição de um modelo de cidade, por Niemeyer e localizados junto ao futuro plano de
car no espólio do ArPDF. Aliás, esse acervo é de tal solicitando apenas o seu “traçado básico” à escala água), o aeroporto, uma “estrada de ferro” e uma O seu desenho amarra-se, muito intencionalizada-
forma rico e interessante, que o seu estudo específi- de 1:25.000 e um “relatório justificativo”, “podendo” “estrada de rodagem”, ligando Anápolis a Brasília mente, à morfologia do terreno: para além do Eixo
co virá, certamente, a dar um contributo fundamen- a proposta ser corroborada pelos elementos que lhe (apud BRAGA, 2010: 43). Residencial que, em arco, acompanha as curvas de
tal quer à história da cidade, quer, nomeadamente, à serviam de suporte. nível, o Eixo Monumental implanta-se exactamente
dos processos e das técnicas cartográficas da época. O território para implantação da cidade, com a área sobre a cumeeira do esporão que conforma a oro-
Apesar de se focar especialmente na definição do de 150km² e emoldurado pela linha de festo dos mon- grafia local. É possível também verificar, numa pri-
conceito e do desenho estruturante da urbe, o con- tes que o rodeiam, encontra o seu ponto mais elevado meira aproximação, que utiliza a cota mais elevada
curso disponibilizava levantamentos topográficos a no Cruzeiro, à cota 1.172, e o nível mais baixo deter- de que dispõe para aí colocar a Praça Municipal
várias escalas12, revelando o imenso trabalho pre- minado pela vasta superfície de água do futuro lago. atribuindo-lhe, assim, grande alcance simbólico na
paratório de registo territorial realizado até então. urbanidade da futura Brasília.
Mais tarde, os esclarecimentos aos concorrentes Dividindo as bacias dos rios Gama e Bananal, ambas
incluíram a obrigatoriedade de considerar: à cota profusamente marcadas por córregos, observa-se Lucio Costa terá, pois, intencionalmente retirado
997 (que depois se veio a fixar três metros acima), um esporão que se desenvolve em linha recta entre o informação – informação essa decisiva nas opções
o plano de água de um lago artificial, a criar – ante- Cruzeiro e o local onde esses cursos de água se uniam, projectuais – à planta apresentada a concurso, pro-
visto em finais de oitocentos por Glaziou (1896:13), um pouco abaixo da cota 970. Esta colina, com cerca curando fazer ressaltar a ideia de cidade que queria
que invocava “o cunho de aformoseamento que es- de 200m de altitude, é o acidente orológico preexis- transmitir e não permitindo a sua contaminação com
tente que, ao moldar o chão em que Brasília assenta, considerações que não as julgadas essenciais à dis-
não nos permite lê-lo como um espaço suave.
12 O Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital
do Brasil fornecia aos concorrentes, nomeadamente: A belíssima planta desenhada à mão por Lucio Costa
abrangendo todo o Distrito Federal, um mosaico aerofoto- não expõe o seu suporte morfológico e, da realidade 13 Quando analisadas as plantas das restantes propostas
gramétrico na escala de 1:50.000 (com curvas de forma física que receberá a cidade, apenas indica o Lago que foram distinguidas pelo júri, parece que, apesar de
de 20 em 20m), mapas de drenagem e de solos; ‘co- todas contemplarem a informação topográfica fornecida
brindo o sítio da Capital (cerca de 1.000km²)’, um mapa
Paranoá, respeitando os limites para ele definidos no pela Novacap, não lhe atribuem particular importância no
topográfico executado por aerofotogrametria, na escala de concurso13. A “topografia local” é referida apenas no projecto que desenvolvem (exceptua-se aqui a da autoria
1:25.000, com curvas de nível de 5 em 5m, a ‘ampliação ponto 2 do Relatório, que detalha os seus fundamen- de Mindlin e Palanti, que obteve o 5º lugar e apresenta,
fotográfica dos mapas do sítio da Capital (200km²), com tos, quando justifica o arqueamento de um dos eixos. aliás, a implantação dos dois eixos viários principais com
curvas de nível de 5 em 5m’ e ‘mapas topográficos regu- grande semelhança à de Lucio Costa; e, ainda, embora
lares, na escala de 1:2.000, com curvas de nível de metro em evidente menor grau, a dos irmãos Roberto). De facto,
em metro e de dois em dois metros, da área (150km²)
No entanto, embora não explicitado, o “partido” parece ser a solução de Lucio Costa aquela que, embora
indicada como ideal para a localização da zona urbana adoptado foi indelevelmente impressionado pela não o explicitando no desenho, mais atenção presta à
da Capital Federal’ (apud BRAGA, 2010:39-41). topografia e essa relação pode ser verificada atra- morfologia do terreno.

26 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 27
“pegar a cidade, botar ela no chão” |
o confronto com a topografia

cussão (mas prevendo, certamente, que esse conhe- O plano submetido a concurso por Lucio Costa era,
cimento, embora ocultado, não escaparia ao olhar do segundo as suas próprias palavras, uma “apresen-
júri). Com o mesmo sentido, ignora o norte geográ- tação sumária do partido sugerido”. Vencedor, foi
fico e coloca a planta na vertical, imprimindo à ima- necessário transformá-lo em projecto, conferindo-
gem uma força icónica que nunca se diluiu até hoje. lhe especificações técnicas, compatibilizando ar-
quitectura e infraestruturas, adequando desenho
Todos estes factores contribuíram para a confirma- e terreno; em suma, “botar a cidade no chão”, atri-
ção da suavidade do suporte físico, da sua leveza, da buindo medida e correspondência a todas as partes,
sua imaterialidade abstracta. Um esforço que vol- definindo a relação de toda a edificação com o solo
taremos a encontrar reflectido na concretização do preexistente.
projecto final, em que a abordagem topográfica arti-
ficializou o chão procurando exprimir, com a maior Aparentemente, a circunstância de Brasília ser per-
plasticidade, a ordem que o plano de nível confere. cebida como pousada sobre uma superfície plana e a
naturalidade com que as construções parecem arti-
cular-se com o chão que as recebe, associadas ao fac-
to de não se conhecer um projecto sistematizado de
topografia, difundiu a ideia de que esse desenho de
modelação não terá existido, e que a definição das co-
tas de implantação ia sendo decidida à medida que a
9a P.P.B. | 1957, Lucio Costa, pro- edificação se desenvolvia14. Por esses motivos, talvez,
posta a concurso a literatura disciplinar que conhecemos representa
Fonte Casa Lucio Costa - III B 02- sistematicamente a cidade em planta, como se de
00757 L uma composição apenas bidimensional se tratasse.
9b Mapa Indice... Sítio da Nova
Capital do Brasil
Fonte apud TAVARES, (2004, p. 159)
14 Dada a velocidade a que se processava a construção,
9c Sobreposição de ambas plantas esta circunstância verificava-se por vezes, em particular
através da localização de dois na implantação das superquadras. Corresponde, aliás,
momentos comuns (a azul): a curva à descrição feita por Nauro Esteves (chefe da Divisão de
de nível 1000 - que definiu o plano Arquitetura/ equipa de Oscar Niemeyer), que no seu de-
poimento fala em “fazer direto no chão” (ESTEVES, 1989).
de água do Lago Paranoá - e a cota
No entanto, na mesma série de entrevistas, Sérgio Porto
1.172 (Cruzeiro), o ponto mais eleva- afirma que não seria necessário proceder assim, mostran-
do de toda a área do Plano Piloto do-se incomodado com os resultados de “aquele negócio
Fonte CEEAUM (2014) do Nauro, de não esperar”.

28 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 29
Porém, a vincada intervenção sobre a topografia topográfico (ao mencionar, por exemplo, a execução
original15, patente nos registos efectuados ao longo de cortes transversais de 20 em 20 metros ao longo
da edificação da cidade, revela que essa naturalida- do Eixo Monumental), porventura executado como
de é minuciosamente controlada. uma série de projectos sectoriais simultâneos. Tam-
bém as Memórias de cálculo da urbanização de Bra-
Comprovando-o, Guimarães Filho (1989) refere que sília, de Jethro Bello Torres, confirmam a existência
o trabalho de materializar a cidade se iniciou pelo de elementos muito precisos para orientação não só
reconhecimento da topografia e por uma rigorosa da geometria tridimensional dos vários elementos
construção do projecto, referindo plantas desenha- compositivos da estrutura espacial do plano, como
das “curva de nível com curva de nível”: da sua cuidadosa piquetagem no terreno.

[...] enchemos plantas com perfil do terreno [...] Aqui Contrariando, assim, a ideia vigente, o desenvol-
tem 3%, aqui tem 5, isso aqui é zero [...] E nós sabí- vimento do Plano Piloto parece ter implicado um
amos que o lago ia ficar na cota 1.000 [...] As plantas pormenorizado desígnio topográfico16, materiali-
eram precisas, não tinha nada de desenho bonitinho... zado no Rio de Janeiro pela equipa aí constituída
nós desenhávamos o projeto final numas folhas de por Lucio Costa. Sob a direcção técnica de Augus-
levantamento altimétrico que traziam as curvas na- to Guimarães Filho, que “ensinou como fazer e foi
turais e nós botávamos em cima das curvas naturais, fundamental no desenvolvimento do plano” (LEAL,
os pontos com as cotas e os arranjos das curvas que PORTO, 1989; ZETTEL, 2013), foi dado início à tare-
resultam dos movimentos de terra projetado. fa de “pegar a cidade, botar ela no chão”:

E, embora ainda não tenham sido detectados os Então... começamos a seguir a orientação do Guima-
respectivos desenhos nos arquivos brasilienses, os rães. Fazendo corte no chão, tentando botar aquele
depoimentos efectuados no âmbito do Programa de arco... a gente teve que, na verdade, mexer muito no
História Oral (ArPDF, 1989) e as entrevistas recen- terreno até você colocar na melhor posição, para efei-
temente realizadas (2013) a Jayme Zettel e Jethro to de cortes, de aterros, a posição do plano, do risco do
Bello Torres corroboram a existência desse projecto

16 A aparente inexistência de morros ou depressões


artificiais resultantes de grandes aterros ou escavações
15 A Revista Brasília nº 13/1958 (apud AAVV, 2004, nas imediações da cidade – vestígios normalmente
p.37), no artigo “Estatísticas do primeiro ano de cons- deixados pela edificação de novas urbes – parece corro-
10 O maior movimento de terras do mundo 11 Jethro Bello Torres, Memórias de cálculo da urbaniza-
trução”, noticia que foram movimentados 7 milhões de borar a ideia de que os cálculos relativos aos movimen-
metros cúbicos de terra, “concentrando 428 máquinas tos de terra tiveram em linha de conta o equilíbrio entre Fonte nossa brasília, 1959, ArPDF ção de Brasília, 1957-1962
pesadas de terraplenagem”. escavação e aterro. Fonte ArPDF

30 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 31
Lucio Costa... Começou a coisa de calcular coordena- Conferido?... Aí continuava fazendo os pontos todos,
das... enfim, começamos a desenvolver efetivamente o porque esse período foi exatamente do arcabouço
plano do Lucio Costa. (ZETTEL, 1989) da cidade”. Viviam-se tempos em que a fisionomia
do terreno se alterava constantemente: “O caminho
Sob intensa pressão, a equipa trabalhava na escala de hoje não é o caminho do ontem, mudava, porque
1:2.000, acertando o projecto sobre a montagem das eram apenas situações que você ia mudando para
plantas cartográficas, estendidas numa enorme mesa poder tirar terra e fazer consolidar” (ZETTEL, 1989).
(LEAL; GUIMARÃES; PORTO, 1989; ZETTEL, 2013) e
calculando as coordenadas17, sistematicamente veri- Sujeito a múltiplos acertos decorrentes dos comen-
ficadas com o engenheiro Joffre Mozart Parada, chefe tários do júri e, em particular, do inevitável confronto
da topografia e responsável no terreno pela implan- de um projecto de concurso com a sua efectiva con-
tação da cidade18, onde, simultaneamente, a equipa cretização20, o Plano Piloto de Lucio Costa manteve,
de Oscar Niemeyer desenhava e edificava. no entanto, em resultado deste acompanhamento
permanente, a sua integridade e clareza espacial.
O “grupo do Rio” estava em contacto ininterrupto
com Brasília através de um rádio19 pelo qual se con- Dessas adaptações topográficas, a mais intensa-
firmavam cotas, distâncias, levantamentos: “Então, mente crítica refere-se ao ajustamento do Eixo Mo-
nós deixamos a linha aberta, o tempo todo... Ficava numental (EM) que, implantado ao longo da linha
passando pelo rádio, pro Mozart... É isso mesmo... de festo da colina central, acolhia os grandes mo-
mentos singulares da cidade. De facto, enquanto o
projecto procurou ajustar o Eixo Rodoviário à to-
17 Jayme Zettel (2013) e Guimarães Filho (1989) referem
pografia, não o fez em relação ao Eixo Monumental:
“a velha máquina Facit, manual”, onde calculavam as co- pelo contrário, pretendeu afirmá-lo fazendo-o “sair
ordenadas; só existia uma no escritório e frequentemente do terreno”, opção que implicava substanciais movi-
faziam fila para a utilizar. mentos de terra21 (GUIMARÃES FILHO, 1989).
18 Os depoimentos são unânimes em definir Mozart
Parada como um técnico da maior competência, sempre
presente. José Silveira Filho, um cartógrafo que com ele
veio trabalhar para a Novacap em 1957, refere que pra-
ticamente todo o Plano Piloto foi implantado por Mozart 20 O PPB sofreu, naturalmente, inúmeros acertos, de que
(apud BELLO-TORRES, 2009) se destacam os de natureza programática e morfológica.
19 Nessa fase, o contacto via rádio era complementado Sobre a adaptação do PPB apresentado a concurso e a ci- 12 Imagem dos trabalhos de campo, neste caso celebran- 13 Plano Piloto | Eixo Monumental, planta e perfil longitu-
com a presença dos arquitectos do Rio em Brasília, que dade edificada, ver Leitão (2003) e Braga (2010: 227-258).
do a piquetagem do Marco 0 dinal – a cinzento, a área sujeita a intensos movimentos
“faziam rodízio”, assim funcionando até 1961, quando 21 “O Eixo Monumental e a Rodoviária, aquilo foi uma
parte da equipa do urbanismo se estabeleceu em Brasília, África mesmo, um negócio seriíssimo em matéria de Fonte ArPDF de terra
onde o grupo de Niemeyer se encontrava já instalado. movimento de terra” (ZETTEL, 1989). Fonte CEEAUM (2014)

32 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 33
Se a opinião do júri do concurso, ao considerar a fica-se que a extensão de cerca de 5.450m prevista
implantação do Plano demasiado afastada do lago, no desenho inicial cresceu em quase 2/3, atingindo
fez deslocar para leste “cerca de 800m o ponto de os 8.716m no plano edificado23. Esta distensão, que
intersecção dos dois eixos e, portanto, todo o con- se traduz no aumento global do comprimento do
junto urbano” (Carpintero apud Leitão, 2003, p. EM de cerca de 3.260m, obrigou à revisão da loca-
98), o EM no seu conjunto sofreu, também, um im- lização dos vários marcos que o pontuam e organi-
portante crescimento no sentido oposto – fruto de zam, mantendo embora o sentido da composição do
se ter directamente conectado à estrada Planaltina projecto apresentado em 1957.
– Luziânia, que se transformou na principal via de
acesso terrestre a Brasília. A leitura comparada dos perfis longitudinais e
transversais realizados a partir dessa sobreposição
Testemunhando a existência de um meticuloso do- permite verificar o teor das alterações efectuadas –
mínio da topografia, a leitura desses perfis longitudi- em particular nesses seis momentos mais relevantes
nais e transversais permite verificar que a distensão do ponto de vista urbano e simbólico, Estação Rodo-
sofrida pelo EM não foi repartida de forma igual pe- ferroviária, Cruzeiro-Praça Municipal, Torre de TV,
los momentos notáveis que o pontuam e organizam, Estação Rodoviária, Esplanada, Palácio do Congres-
mas sim criteriosamente distribuída, reajustando de so e Praça dos Três Poderes – e as suas consequên-
forma precisa as relações geométricas e topográfi- cias na percepção global do espaço.
cas previstas pelo desenho inicial. Mais, esta reaco-
modação explicita, na verdade, um enorme – porém A A Estação Rodoferroviária fecha o conjunto
imperceptível, ao olhar corrente – esforço na salva- urbano, articulando-o, por via terrestre, com o
guarda do desígnio topológico do Plano Piloto. resto do país. Porém, enquanto no PPB | 1957
se encontrava adossada ao EM, participando
Através da sobreposição da planta submetida a con- directamente no seu desenho, na sua implanta-
curso (PPB | 1957) e do levantamento actual22 veri- ção definitiva a Estação sofreu um afastamento
no sentido oeste de cerca de 2.020 metros, que

22 O cotejamento incluiu ainda um levantamento de 1958


e foi realizado a partir da sobreposição de dois momentos 23 Esta dimensão – 8.761m – encontra-se de acordo com
comuns entre todas as plantas, que se conseguem estabe- a indicada na planta EMO I/I, Eixo Monumental, Locação
lecer com rigor: a curva de nível 1000 – plano de água do Estradas (NOVACAP, 1959). O desenho tem assinalados, 14 Plano Piloto | Eixo Monumental. Planta de sobrepo- (fonte: ArPDF); SICAD, esc.1:10.000, 1997 (a vermelho);
Lago Paranoá – e a cota 1172 (Cruzeiro), que corresponde de 100 em 100 metros, os pontos de piquetagem a partir
sição: PPB - Lúcio Costa, Concurso de 1957; Companhia Perfis longitudinais. esc.1:50.000
ao ponto mais elevado de toda a área do Plano Piloto. dos quais a topografia do EM foi estabelecida. O rótulo
Essa sobreposição permite obter valores aproximados especifica que as coordenadas são estabelecidas em Urbanizadora da Nova Capital, Planta aerofotogramétrica Fonte CEEAUM (2014)
para as distâncias e altimetrias que se determinaram. relação à cota 0. do Novo Distrito Federal, fls 15/16, esc. 1:25.000, 1958

34 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 35
a descolou da composição – um descolamento mático. Embora não faça qualquer alusão a
acentuado pelo facto de esse desvio ter provo- essa circunstância topográfica, o PPB | 1957
cado uma substancial descida de nível do edifí- aí localizava a Praça Municipal, uma praça que
cio (aproximadamente previsto para se situar retomava a largura da faixa central da Espla-
à cota 1.165, veio a implantar-se na 1.119)24. nada dos Ministérios, rematando visualmen-
te o EM. Desta forma, o espaço dedicado ao
De salientar, no entanto, que o edifício da Esta- poder local – contrapondo-se ao do Governo
ção nunca se pretendeu como elemento mar- Federal, instalado no outro extremo do Eixo e
cante a partir do centro urbano. Pelo contrário, encerrando a sua composição à cota baixa –,
localiza-se discretamente: tirando partido da dominava o território envolvente e surgia des-
topografia, foi implantado na vertente oposta tacado no skyline.
àquela sobre a qual o EM se desenvolve, fican-
do a sua leitura encoberta. Mas enquanto um- No desenho definitivo, a Praça Municipal acom-
bral da cidade e remate do Plano Piloto, tinha panhou o deslizamento da cidade para nascen-
uma presença no projecto inicial – especial- te, deslocando-se 770m, baixando de nível 21m
mente pela sua maior proximidade e localiza- e perdendo proeminência. O projecto manteve,
ção a meia-encosta, que lhe conferia importân- contudo, o lugar do Cruzeiro como o fecho ur-
cia visual manifesta na entrada da cidade – que bano do Eixo Monumental25 e enquanto plata-
se viu bastante diluída, senão mesmo perdida, forma evocativa da biografia de Brasília e de
na solução definitiva. toda a história anterior à sua concretização.

B O Cruzeiro – onde, significativamente, se re- Sempre indicado com destaque na cartografia,


alizou a missa inaugural de Brasília –, situa- recebeu, também, a estação (V8) a partir da
se à cota 1.172 e é o ponto mais elevado da qual foi referenciado o sistema de amarração
cratera brasiliense, circunstância que sempre topográfica do Plano Piloto26.
lhe atribuiu grande relevo simbólico e progra-

24 Assinalando uma das circunstâncias em que a preexis- 25 Posteriormente, com a abertura da segunda via de
tência foi decisiva na localização final, esta mudança pa- acesso à EPIA, a individualização da Praça quase desa-
rece dever-se ao facto de o traçado do caminho de ferro e pareceu, e o seu papel enquanto fecho edificado do EM
a Estação terem encontrado suporte numa via (a presente viu-se muito diminuído.
15 Plano Piloto | Eixo Monumental: deslocação da Esta- EPIA) que utilizou o antigo arruamento “que conectava o 26 Conforme a planta Orientação da triangulação Plano
ção Ferroviária arraial de Santa Luzia aos povoados do norte e nordeste Piloto – D.F., esc. aprox. 1:100.000, s/d. Jethro Bello
Fonte geoportal.segeth.df.gov.br, CEEAUM (2016) da capitania” (VIEIRA JUNIOR, 2010: 43). Torres, eng. agrimensor (fonte: ArPDF).

36 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 37
C A “Torre rádio-emissora e TV”, actual Torre D Tridimensional cruzamento do Decumanus e
de TV, da autoria de Lucio Costa, constitui a do Cardo brasilienses, expressão da cultura
referência vertical da cidade. Expressivo mo- clássica no espaço Moderno, a Estação Rodovi-
numento à modernidade27, gera o ponto mais ária é um notabilíssimo edifício-infraestrutura
alto de Brasília e apresenta-se como o seu que ainda hoje se reveste do maior significado
belvedere. Embora se tenha deslocado aproxi- na urbanidade da cidade29. Projectada igual-
madamente 710m28, conservou a cota de im- mente por Lucio Costa, relaciona-se visual
plantação inicial (1.126); na versão edificada, e directamente com a Torre de TV, em óbvio
a manutenção dessa cota foi obtida através de contraponto: na sua horizontalidade desmulti-
um aterro muito cuidadosamente modelado plicada em escavação, é, também, forum e mi-
que estabelece, na direcção oeste, o limite da rante privilegiado.
área sujeita a forte intervenção no terreno.
Gesto eminentemente topográfico – cujo avas-
Se o aterro efectuado, com cerca de 9m, eviden- salador e conciso recorte testemunhamos nas
cia a presença da Torre e enfatiza a leitura do espantosas imagens da sua execução – a Rodo-
seu poderoso embasamento a partir do solo, viária assinala o contacto e a fricção entre os
também se verifica que foi calculado de forma Eixos Monumental e Residencial, definindo a
a que o topo da estrutura, com 224m de altu- cota fundadora a partir da qual a implantação
ra, corresponda, sensivelmente, à cota mais do “arcabouço de circulação” e, portanto, de
elevada da cumeeira dos montes que envolvem toda a cidade, se realizou.
Brasília (1.345m, segundo a carta Altimetria
Embrapa). De novo, uma cuidada atenção à Então calculei a coordenada zero... e aquele zero
condição topográfica global parece decisiva nas era um zero... era um ponto, enfim, daria parti-
opções de desenho e modelação do terreno. da para tudo... fui andando na picada, porque
ela foi toda estaqueada... Eu me lembro quando
vi aquela coisa cravada no chão, zero, e aquele
número foi uma coisa emocionante. Porque não
27 Exaltando o significado da comunicação à distância
que a rádio e, particularmente a televisão – na ponta tinha nada, um descampado, uma estaca escrito
da tecnologia à época –, representa, a referência formal um zero. (ZETTEL, 1989)
à Torre Eiffel sublinha as implicações simbólicas deste
16 Orientação da triangulação Plano Piloto – D.F. esc. edifício-monumento.
28 Associada a esta deslocação, a orientação do triângulo
aprox. 1:100.000, s/d. Jethro Bello Torres, eng. agrimensor.
equilátero que define a base de sustentação da Torre
Cruzeiro | V8 – assinalado a vermelho (CEEAUM, 2014) rodou 180º, oferecendo agora à cidade não o vértice, mas 29 Sobre o edifício e o seu papel na cidade, consultar
Fonte ArPDF um dos lados. Rossetti (2010).

38 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 39
“Marco 0”30 implicou “9 ou 10 metros de cor- Podium Moderno, onde os edifícios assentam
te”, gerando um enorme volume de terra que sobre aterro (calculado por Anchieta Leal),
foi utilizado na Esplanada. A sua implantação domestica, em muito suave pendente, o festo
deslocou-se em direcção ao Paranoá cerca de onde se instalou. Manipulando-o topografi-
800m e o projecto definitivo, desenvolvido por camente, no sentido de assegurar a “ênfase
Sérgio Porto, criou um terceiro nível em esca- monumental” pretendida por Lucio Costa, a
vação (Porto, 1989; Zettel, 2013) – o buraco do Esplanada é um patamar artificial que se so-
tatu – exponenciando a incrustação da Rodovi- breleva em relação à envolvente33, remetendo
ária no terreno31. para cota claramente inferior os edifícios e ar-
ruamentos laterais.
E A Esplanada dos Ministérios foi concebida e cons-
truída como um extenso terrapleno32 cujo volu- Estendendo-se entre a Rodoviária e o Palácio
me aumenta significativamente na direcção leste. do Congresso, é uma das zonas mais afectadas
na concretização do projecto final34: a distân-
cia entre os seus topos cresceu cerca de 300m,
o que representa 1/5 da medida inicial; e, se
30 Perante a progressiva verticalização de Brasília, o
IPHAN retoma a centralidade do ‘Marco 0’ quando en-
a secção transversal da plataforma se manteve
comendou o Mapa de visibilidade do horizonte do Plano nos 600m, como estipulado no PPB | 1957, o
Piloto de Brasília (2010). Este é um levantamento muito parterre central – em resultado de o Palácio do
peculiar que define ‘cones de visão’ a partir da Rodoviária
– estabelecendo um novo ‘marco 0’ –, com o objectivo de
avaliar o impacto das edificações na leitura da linha de
festo dos montes envolventes à cidade. 33 A edificação da Esplanada não cumpriu, no entanto, o
31 O perfil transversal do edifício, cotejado com o do terre- “arrimo de pedra” descrito no Relatório. E, hoje em dia, a
no preexistente – conforme cartografia NOVACAP de 1958 diferença de cota entre a sua superfície e as ruas que a
– permite verificar que entre a plataforma superior, que acompanham à cota baixa alberga garagens e armazéns
observa sensivelmente o nível do terreno natural, e a cota construídos ao sabor do tempo e sem qualquer preocupa-
mais baixa existe uma escavação com aproximadamente ção arquitectónica, transformando o retórico embasamen-
17 Plano Piloto | Eixo Monumental 18 Plano Piloto | Estação Rodoviária
16m. As margens deste desnível, vencidas por pisos sub- to que Lucio Costa defendia em “fundos” descuidados e
17a Planta de sobreposição: PPB - Lúcio Costa, Concurso 18a Perfil (a vermelho - terreno preexistente) (CEEAUM, terrâneos e pátios dos edifícios que lhe estão adossados, esquecidos.
de 1957; Companhia Urbanizadora da Nova Capital, Plan- 2014) são uma das áreas da Brasília formal mais significativa- 34 Uma das alterações ao Plano que interfere com a topo-
ta aerofotogramétrica do Novo Distrito Federal, fls 15/16, 18b Companhia Urbanizadora da Nova Capital, Planta mente abandonadas – numa espécie de denegação, a grafia inicialmente prevista refere-se ao atravessamento
esc. 1:25.000, 1958 (fonte: ArPDF); SICAD, esc.1:10000, aerofotogramétrica do Sítio da Nova Capital do Brasil, fl 61, cidade parece ignorar o que se passa abaixo do nível da da Esplanada pela via L2, no limite do sector dos Minis-
superfície, como se só se reconhecesse quando se eleva térios. Decorrente do alargamento do sector residencial a
1997 (a vermelho) esc. 1:2.000, 1955-56, com implantação, a lápis, do siste-
acima do plano do chão. nascente, passa a uma cota inferior que não compromete
17b Perfil (a vermelho - terreno preexistente) ma viário – detalhe; a vermelho, Marco 0 (CEEAUM, 2014). 32 Segundo Jethro Bello Torres (2009), o aterro da Espla- a continuidade da leitura da Esplanada entre a Rodoviária
Fonte CEEAUM (2014) Fonte ArPDF nada recebeu 5.900.000m3 de terra. e o Palácio do Congresso.

40 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 41
19a Imagem da escavação para implantação da Estação 20 Imagens da construção da Esplanada dos Ministérios
Rodoviária Fonte ArPDF 21 Plano Piloto | Eixo Monumental. Esplanada e Praça Distrito Federal, fls 15/16, esc. 1:25.000, 1958; SICAD,
Fonte ArPDF dos Três Poderes: Planta de sobreposição: PPB - Lúcio esc.1:10000, 1997 (a vermelho).
19b O buraco do tatu Costa, Concurso de 1957; Companhia Urbanizadora Fonte ArPDF; CEEAUM (2014)
Fonte fotografia da autora, 2013 da Nova Capital, Planta aerofotogramétrica do Novo

42 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 43
Congresso assumir uma frente mais extensa do ça dos Três Poderes apresenta: à cota 1.063, a
que a prevista no concurso – alargou na pro- cobertura/plataforma que recebe as calotas do
porção de 1/4, passando de 160 para 200m. Congresso situa-se, criteriosamente, no alinha-
Simultaneamente, os edifícios destinados aos mento da Esplanada – que neste topo observa
ministérios, que cresceram em número, viram a cota 1.066 –, fechando-a de nível; em simultâ-
o comprimento diminuir significativamente neo, constitui o embasamento da torre, que na
(de 170 para 105m) e aumentar cerca de 60m sua verticalidade assinala o umbral e o limite
o afastamento transversal entre si. da cidade. Ao edifício propriamente dito, ace-
de-se através de um declive encerrado pelos
Estas alterações não são imediatamente legí- arruamentos laterais e delicadamente escava-
veis, dado que ambos os desenhos se manti- do no miolo do aterro35 (apenas perceptível em
veram, na aparência, muito semelhantes. Têm, situação de grande proximidade), que se adivi-
no entanto, fortes consequências em termos da nha relacionar o chão da Esplanada com o da
percepção do espaço, uma vez que ao amplia- Praça dos Três Poderes.
rem acentuadamente a dimensão do vazio da
Esplanada e tornarem muito menos espessas as Implantada à cota 1.054 – 118m abaixo do
suas margens laterais, redefiniram, de forma Cruzeiro e observando, genericamente, o nível
drástica, a escala e a monumentalidade previs- mais baixo do conjunto edificado –, o seu pata-
tas no concurso. mar foi também redimensionado, tendo o lado
do triângulo equilátero que a conforma sido
F Projectado por Oscar Niemeyer, o Palácio do Con- ampliado de 600 para 670 metros (Macedo;
gresso – mantendo embora o seu papel de fren- Silva, 2012; Bello-Torres, 2009). Aproxi-
te dupla, como remate da Esplanada e da Praça mando-se cerca de 1.250m do Lago Paranoá
dos Três Poderes – alterou significativamente a em relação ao previsto no concurso (na ordem
composição apresentada no PPB | 1957 (MACE- de mais um terço em relação aos 800m de des-
DO; SILVA, 2012). Ao alargar substancialmente a locação do Marco 0, revelando a distensão que
frente do edifício e recuar a sua implantação face o sector nascente sofreu), a Praça dos Três Po-
à Esplanada, inscrevendo-o na figura triangular deres criou um aterro – visualmente isolado do
22a Imagem da Esplanada, a partir que delimita a Praça dos Três Poderes, seccionou
da Torre de TV o seu topo poente, autonomizando mais explici-
Fonte ArPDF tamente o espaço dedicado à praça.
22b Esquiços de Lucio Costa para 35 Esta surpreendente operação, que comprova a aten-
ção dada à topografia preexistente e à sua manipulação,
Esplanada e Palácio do Congresso No entanto, esse seccionamento é compensado evidenciou-se quando se sobrepôs o perfil longitudinal
Fonte Casa Lucio Costa – III B-02- pela grande acuidade topográfica que a transi- realizado a eixo da Esplanada (sobre cartografia actual)
00041 L ção entre a Esplanada dos Ministérios e a Pra- ao do levantamento topográfico de 1958.

44 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 45
chão artificial desenhado sobre chão natural

Eixo Monumental – sobrelevado entre 1 e 10m “Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasí-
ao terreno envolvente, num rigoroso exercício lia é artificial.”, escrevia Clarice Lispector em 1970.
de modelação36 que nivela e dissimula o espo- Fundada sobre um chão manipulado, Brasília con-
rão sobre que assenta. densa-se minuciosamente projectada, em particular
ao longo dos 170m de desnível percorridos pelo Eixo
Recolhendo e pacificando toda a tensão urbana Monumental, que encontramos pontuado por aconte-
e oferecendo ao cerrado uma extensa frente so- cimentos arquitectónicos em que a geometria se aliou,
bre ele aberta, a Praça dos Três Poderes preten- em permanência, a um raro desígnio topográfico.
dia-se o último terraço edificado de Brasília, o
momento em que a cidade, segundo Lucio Cos- Betão versus terra vermelha... Na sua essência am-
ta, se confrontava plenamente com a natureza37. bos belos, ambos ascéticos, estendem-se ao longo
do chão original, a natureza envolvendo a cidade:
primeiro a natureza natural do cerrado e depois a
natureza artificial do lago. Cumprindo a visão de Au-
guste Glaziou, o reflexo da luz no plano de água es-
tabelecido à cota 1.000, a reverberação aí espelhada
do celebrado céu de Brasília, seria o encerramento
físico e simbólico de toda a composição urbana.

Brasília sedimentou-se numa trajectória que revela


os inevitáveis paradoxos entre o partido idealizado
por Lucio Costa, “maquis do urbanismo”, e a reali-
dade que o confrontou. Artefacto assente sobre ter-
reno modelarmente desenhado, “botar a cidade no
chão” foi, sob o ponto de vista disciplinar, o primei-
ro e talvez, na circunstância, o mais intenso desses
36 Guimarães Filho (1989) diz no seu depoimento que
foi ‘difícil tirar a Praça do chão’ devido ao ‘declínio muito
compromissos.
grande’ do terreno natural, e que, se num dos topos exis-
tiam 10m de diferença de cota, no outro teve, inclusive,
de desbastá-lo para conseguir 1m de desnível.
23 Eixo Monumental | Esplanada e Praça dos Três Poderes 23b imagens da Esplanada 37 A Praça dos Três Poderes viu a sua vocação dramática
esbater-se com a posterior construção de edifícios em
23a planta parcial EMO, montagem (CEEAUM, 2014) a 23b modelação da Praça dos Tês Poderes
redor, que diluíram essa fronteira. Figura e fundo mescla-
partir de fotografia do original Fonte ArPDF dos, perde-se, nessa ausência de contraste, o poderoso
Fonte fundo Jethro Bello Torres, ArPDF efeito pretendido em 1957.

46 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 47
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50
Revisitando o processo de tombamento de Brasília: uma contribuição
historiográfica para novas interpretações do objeto protegido
Thiago Perpétuo

A contribuição de uma abordagem


resumo abstract historiográfica

O presente trabalho aborda o Conjunto Urbanístico This present work broaches the subject of the ur- sites, does not need to be fixed in time, and can be No âmbito dos estudos historiográficos, há discus-
de Brasília, objeto patrimonial tombado, a partir da ban ensemble of Brasilia, a heritage site, based on revisited in due course. sões que são bastante recorrentes. Dentre elas, o de-
investigação de documentos que permitem com- the investigation of documents that ease the com- bate a respeito do suposto estatuto da verdade que
preender as estratégias e ações políticas, técnicas e prehension of the administrative and technical pol- Keywords History of Brasilia. Heritage site. Buffer repousaria nas ditas fontes primárias. Em linhas ge-
administrativas que resultaram na delimitação da icies and strategies that resulted in inscribing “the zone. Urban ensemble. rais, e correndo o risco de incidir em simplificações
“maior poligonal urbana tombada do mundo”. Busca world’s largest urban polygonal heritage site”. This exageradas, trata-se da faculdade que tais fontes
também explorar a relação nem sempre clara entre article also seeks to understand the not always clear possuem de revelar o passado conforme, “de fato”,
a delimitação do objeto e questões de fundo ainda relationship between its territorial boundaries, the ele teria sido – liberto, portanto, de interpretações
mais complexas: a definição da identidade da cida- definition of the city’s identity and its administra- fantasiosas ou incursões criativas ao gosto literário.
de e sua conformação administrativa, cambiantes tive structure, which have changed over time and
no tempo. O resultado dessa oscilação de represen- have not been sufficiently considered when the city Implica ainda em admitir que tenha havido, em al-
tações se fez presente no instante de se definirem os was recognized as cultural heritage site, between gum lugar nos tempos pretéritos, o registro de fa-
limites do bem cultural, tendo em vista a estratégia 1987 and 1990. Thus, in the Decree No. 10,829/87 a tos, eventos ou acontecimentos que restariam, fiel e
de se regulamentar uma lei que não fora considerada strategy for regulation was adopted in the San Tiago objetivamente, exarados em sua completude numa
em sua historicidade. A Lei San Tiago Dantas (Lei nº Dantas Law (Law No. 3,751/1960), which refers to dada documentação, ou que a partir dela pudesse
3.751/1960), que se referenciou ao projeto de Lucio the Lucio Costa Project (the “pilot plan” for the con- ser, o passado, genuinamente revelado. Trata-se de
Costa, o “plano-piloto”, foi abordada no Decreto nº struction of the New Capital), without observing the uma abordagem que já sofreu revisões e questio-
10.829/87 como definidora dos limites do que Bra- historicity of the legislation of the decade of 1960, namentos, embora compareça ainda com alguma
sília passou a ser chamada, ou seja, de Plano Piloto. resulting in an incompatibility between the project frequência em enfoques mais conservadores. Nesse
Entretanto, da análise aprofundada dessas questões, of Brasilia and the Administrative Region No. I, the sentido, Jenkins (2009, p. 79-80) aponta para um
busquei abordar outra possibilidade de definição, Pilot Plan. On that note, this article discusses an- modo fetichista de elaboração historiográfica:
relacionada a um duplo caráter preservacionista: um other possibility of understanding the limits estab-
objeto prioritário de proteção, ali delimitado, e seu lished in 1987, considering a double preservationist Assim, prioriza-se a fonte original, faz-se dos docu-
entorno. Enfim, a partir de uma investigação histo- character in which the primary object of protection mentos um fetiche e distorce-se todo o processo de
riográfica de fontes primárias, foi possível apresentar is not confused with its enveloped area, that is: produzir história. Na raiz disso, está a eterna busca
não uma nova verdade dos fatos, mas possibilidades there would be a heritage site and its buffer zone. pela verdade, uma busca que também se evidencia no
de novas interpretações bem assim desconstrução da Anyway, from a historiographic research of prima- desejo de compreensão pela empatia – o desejo de vol-
ideia de valor imanente dos objetos culturais, buscan- ry sources, one did not seek to present an apparent tar às mentes genuínas das pessoas originais, para que
do informar que eles não devem ser cristalizados en- “new truth for the facts” that led to Brasília becom- as visões delas não sejam adulteradas pelas nossas.
quanto cânone, podendo, a bem das comunidades que ing a heritage site. Mainly, this work points to new
neles se referenciam, ser oportunamente revisitados. interpretations of the city to deconstruct the idea Acredito que o ofício historiográfico tem buscado
of immanent value that supposedly is contained in superar tais paradigmas pela compreensão de que
Palavras-chave História de Brasília. Tombamento. cultural objects. Finally, it seeks to inform that the a história é, em si, um discurso sobre o passado e
Entorno. Conjunto urbano. delimitation of cultural assets, especially urban não sua verdade, última e decisiva. Ou seja, um modo

52 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 53
Preservação peculiar de um sítio excepcional

de leitura, de interpretação e de produção de conhe- início de 1990, o objeto cultural protegido pelo tom- nova verdade sobre o objeto, mas a fim de abordá A preservação de Brasília enquanto patrimônio
cimento que não pode simplesmente pretender re- bamento federal, o Conjunto Urbanístico de Brasília. -lo sob uma perspectiva crítica. Buscarei revisitar o cultural suscitou, à época de sua propositura2, per-
velar A Verdade, ou mesmo se constituir enquanto Uma revisão dos meandros administrativos, das es- passado para conhecer a maneira como o processo plexidade entre especialistas, técnicos e atores po-
um relato pretensamente ainda mais fidedigno que tratégias discursivas, das ações de agentes políticos e de valoração do Conjunto Urbanístico de Brasília líticos, por razões que podem ser resumidamente
o próprio passado, este que nos chega apenas pelos estudiosos que nos legaram o sistema de proteção a foi elaborado e questionar a pertinência técnica de elencadas: tratava-se do primeiro sítio moderno
vestígios que dele sobrevêm e que o ofício historio- este sítio tão peculiar. O objetivo é apresentar e pro- sua delimitação, com o intuito de possibilitar novos protegido pela UNESCO; a cidade era ainda muito
gráfico busca investigar, organizar, interpretar. De blematizar o objeto cultural como um construto so- olhares sobre a cidade-patrimônio. jovem, portanto destituída do valor de ancianida-
certa forma, portanto, uma das contribuições impor- cialmente engendrado, e seus valores culturais como de3, até então um pré-requisito para a preservação;
tantes dos estudos historiográficos reside justamen- oriundos de um processo de atribuição, buscando Brasília estava ainda inconclusa, sobretudo se con-
te na desmistificação e na desconstrução de discur- romper, assim, com a perspectiva de que tais valores siderarmos a evocação ao plano integral original-
sos hegemônicos, que se apropriam do passado para seriam intrínsecos aos objetos que, por sua vez, es- mente proposto por Lucio Costa; sua preservação
dar legitimidade a uma dada visão de mundo, a um tariam apenas à espera de um agente do Estado au- se daria não pelo resguardo do conjunto de edifi-
dado paradigma ou mesmo a determinadas decisões torizado a chancelar tais características distintivas. cações, mas a partir de um sistema de preservação
do Estado, como se estas fossem unívocas e defini- inovador, elaborado pelo arquiteto Ítalo Campofio-
tivas. Este ponto é o que será aqui problematizado. Tal posicionamento crítico, aliás, parece estar na rito – a manutenção das escalas urbanísticas (mo-
ordem do dia dos estudos do patrimônio cultu- numental, gregária, bucólica e residencial). Confor-
Assim, é na esteira desse itinerário mental que bus- ral, notadamente aqueles que buscam questionar me José Pessôa (2003, p. 8-9):
carei abordá-lo, a partir da investigação, da crítica e o modo de construção/imposição de valores que
da reinterpretação de diversos documentos1, elabo- apenas supostamente são referências do coletivo
rados sobretudo entre o final da década de 1980 e o da sociedade, conforme observa Carsalade (2012),
quanto ao modelo e alcance da seleção do patrimô- 2 O sítio em comento foi protegido em três instâncias,
nessa ordem: na esfera distrital por meio do Decreto nº
nio cultural brasileiro: 10.829, de 10 de outubro de 1987; na esfera mundial por
1 O presente texto é, em grande medida, parte integrante meio da inscrição na Lista do Patrimônio Mundial, sob o
de uma pesquisa mais abrangente que desenvolvi no A régua usada tem sido a força do Estado, o gosto das nº 445, em dezembro de 1987; na esfera federal por meio
âmbito do programa de Mestrado Profissional em Preser- elites e, modernamente, a imposição da mídia ou do do tombamento em março de 1990, sendo editada sua
vação do Patrimônio Cultural, do IPHAN. Na dissertação, regulamentação pela Portaria nº 04/90, logo substituída
capital. A partir daí podemos depreender que os valo-
defendida em 2015, intitulada “Uma cidade construída pela Portaria nº 314, de 8 de outubro de 1992, ainda
res não estão apenas no objeto, mas na compreensão
em seu processo de patrimonialização: modos de ler, vigente, complementada pela recente Portaria nº 166, de
narrar e preservar Brasília” – cujo recorte vai desde a que as sociedades fazem sobre ele. Essa compreensão 11 de maio de 2016.
inauguração da cidade, em 1960, até os desdobramentos se sobrepõe, portanto àquela de que o objeto patri- 3 Conforme nos aponta Alois Riegl (2014), seria uma re-
iniciais de seu tombamento federal, em 1992 –, em diálo- mônio teria uma “verdade” imanente, a qual deveria ferência à idade de determinados monumentos cujo valor
go com depoimentos orais, vali-me de notícias de jornais seria facilmente perceptível por todos, tendo em vista as
ser preservada.
e revistas, documentos técnicos e administrativos, leis e marcas do tempo neles acumulado – diferente, portanto,
normativas federais e distritais e material bibliográfico, do valor histórico, que implicaria um conhecimento prévio
eventualmente acionado como fonte primária. Nesse sentido, reitero que o esforço e a contribui- de determinada narrativa a respeito daquele objeto.
ção ora apresentados não serão para instituir uma

54 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 55
O tombamento do conjunto urbanístico de Brasília termos do art. 1º, § 2º do Decreto 10.829/87) como
muda radicalmente a visão da preservação do patri- única definidora dos limites do objeto de atenção,
mônio moderno brasileiro. Na igreja da Pampulha poderemos incorrer no risco de produzir apaga-
tombava-se uma obra atual para tentar escrever pre- mentos conceituais e lacunas de interpretação para
viamente a história da arquitetura do século XX, isto os critérios de intervenção no bem tombado, mo-
é, garantir para as gerações do futuro o que nós no tivos pelos quais buscarei outras referências, que
presente consideramos como o que de melhor produ- apresento a seguir.
zimos – aquilo que mais cedo ou mais tarde seria re-
conhecido como obra de arte. Em Brasília mais do que
garantir para o futuro as arquiteturas ou a paisagem
urbana do movimento moderno no século XX procura-
se garantir a perenidade dos princípios urbanísticos 4 A informação, para além de dado meramente curioso, é
deste movimento em uma paisagem passível de per- relevante, como se verá, na definição e na distinção entre
manente mutação. No centro histórico do tombamen- “área tombada” e “área de entorno” do Conjunto Urba-
to de Brasília o presente nunca se tornará passado. nístico de Brasília. Tal afirmação é facilmente encontrada
em sites de busca, que nos levam a sites de conselhos
profissionais (http://www.caubr.gov.br/?p=4698), órgãos
À parte esses elementos já bastante abordados governamentais (www.novacap.df.gov.br; http://www.
pela bibliografia (RIBEIRO, 2005; REIS, 2011, por brasiliapatrimoniodahumanidade.df.gov.br/) e agências
exemplo), aponto para outro dado que diferencia de notícias (http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/no-
Brasília do contexto mundial: trata-se do maior sí- ticia/2012-01-25/brasilia-comemora-25-anos-de-tomba-
tio urbano tombado do mundo4, com seus 112,25 mento-como-patrimonio-da-humanidade). Embora nossa
pesquisa não tenha localizado o ranking das maiores
km². Tal delimitação merece ser melhor inquirida, áreas ou poligonais urbanas protegidas como patrimônio
para a compreensão não apenas do modo como as cultural mundo afora, a fim de comparar suas dimensões, 1 “Delimitação da área de preserva-
escalas urbanísticas são utilizadas para a gestão do incorporarei esse lugar-comum para fins de análise. ção”, conforme Art. 1º, § 2º, do Decre-
território tombado, mas para identificar também o to 10.829, de 14 de outubro de 1987.
alcance prático das normativas que regulamentam 5 Segundo a certidão de tombamento, que consta à folha Fonte Diário Oficial do DF, de
123 do processo de tombamento federal, o bem regis-
as intervenções e estabelecem critérios de preser- trado é assim descrito: “Conjunto Urbanístico de Brasília,
23 de outubro de 1987, p. 39.
vação para esse espaço. construído em decorrência do Plano Piloto traçado para
a Cidade, definido na planta em escala um para vinte 2 “Mapa de escala predo-
Nesse sentido, é preciso ter em vista, primeiramen- mil, no Memorial Descritivo e respectivas ilustrações que minante por área”
te, que mesmo no processo federal de preservação constituem o projeto de autoria do Arquiteto Lucio Costa, Fonte Plano Piloto 50 anos – Carti-
vencedor do concurso para a construção da Nova Capital Escala Monumental
a poligonal de tombamento somente é definida com Federal”. Já a Portaria IPHAN nº 314/92 estabelece a
lha de Preservação de Brasília. Supe- Escala Residencial
precisão na portaria que o regulamenta5. Assim, área protegida em seu art. 1º § 2º, que por sua vez recu- rintendência do IPHAN no Distrito Escala Gregária
se tomarmos a Portaria nº 314/92 (que repete os pera os termos do Decreto 10.829/87. Federal (BRASIL, 2009, p. 32) Escala Bucólica

56 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO Escala Monumental


57
Escala Residencial
Escala Gregária
Escala Bucólica
A área que consta da norma de proteção do Distri- lucionado ainda na década de 1960 por San Tiago o que diz o texto, ipsis litteris, podemos vislumbrar tou, inclusive, em alteração de nomenclaturas ofi-
to Federal é enunciada como a “delimitação da área Dantas, que, segundo ele, “teve a genial inspiração outro modo de leitura: ciais, cujos momentos de significação perfazem um
de preservação” (Figura 1). Logo, chama atenção o de inserir no texto o Art. 38” – uma suposta norma tortuoso trajeto.
fato de que essa norma não delimitou uma “área de de proteção ao Plano Piloto, na qual constava que Lei nº 3.751, de 13 de abril de 1960. Dispõe sobre a
tombamento” stricto sensu, e sequer o Decreto nº alterações de caráter urbanístico somente seriam organização administrativa do Distrito Federal. [...] A definição do nome, Brasília, consta de decisão re-
10.829/87 utiliza este instituto jurídico6. Essa ques- permitidas mediante autorização federal. gistrada em lei9 de 1956, a respeito do que Márcio
tão pode ser investigada observando-se duas condi- Art. 38. Qualquer alteração no plano-piloto, a que de Oliveira (2005, p. 168) comenta:
ções presentes do contexto da segunda metade da Entretanto, tal solução, também bastante comen- obedece a urbanização de Brasília, depende de au-
década de 1980. Primeiramente, havia a determi- tada na bibliografia, restou envolta em pelo me- torização em lei federal. (DISTRITO FEDERAL, 1960, É curioso salientar que, quando da aprovação do proje-
nação, por parte da UNESCO, de que um bem cultu- nos dois apagamentos. O primeiro, uma questão grifo do autor) to de lei nº 2.874, o parlamentar Pereira da Silva (PSD
ral somente seria protegido por aquele organismo de autoria: a ideia de inclusão de um dispositivo -AM) apresentou adendo propondo o nome de Brasília
internacional se fosse previamente protegido em de proteção não foi de San Tiago Dantas, mas do Ou seja, o artigo estabelece que a urbanização da ci- para a futura capital, em lugar de Vera Cruz, que havia
âmbito local. Em segundo lugar, há que se observar deputado Ernani Sátyro, que, aliás, à época, che- dade (Brasília) obedece ao projeto original (plano- sido proposto pelo Marechal Pessoa, recuperando as-
que não havia sido regulamentado, no âmbito do gou a acusar a alteração de emenda de sua auto- piloto), cuja alteração poderia ser eventualmente sim o antigo nome sugerido por Bonifácio de Andrada.
governo do Distrito Federal, o instituto jurídico do ria como uma afronta ao resguardo das obras dos permitida, entretanto, somente se previamente au-
tombamento, conforme consta hoje pacificado. As- mestres Lucio Costa e Oscar Niemeyer8. O segundo, torizada pelo Congresso Nacional. Portanto, reitero: Portanto, tratou-se de uma escolha deliberada que
sim, o texto normativo parece responder à orienta- uma questão de identidade de Brasília: fundiram o não seria a cidade em si (sua realidade morfológica evocava para a cidade nova uma ancestralidade,
ção do então procurador do Distrito Federal, Hum- nome de um projeto com a alcunha da cidade. Se- consolidada, sua materialidade efetivamente cons- uma pré-existência, ligando a necessidade de reali-
berto Gomes de Barros, que reporta ao governador não vejamos: tanto Humberto Barros quanto Ítalo truída) que estaria preservada em lei desde 1960. zação da grande obra a um suposto desejo secular
da época, José Aparecido de Oliveira, uma sugestão Campofiorito informam da necessidade e da estra- Antes, restringe-se a proteção ao seu projeto, o de do povo brasileiro. Estratégia muito utilizada pelo
emergencial. Em sua comunicação, de 14 de agosto tégia de definição, apenas e tão somente, do objeto autoria de Lucio Costa, provavelmente com o intuito governo de Juscelino Kubitscheck para dar legitimi-
de 19877, Barros comenta que o imbróglio da nor- da preservação almejada, porquanto se tratasse da de garantir a consecução da obra, haja vista que a dade e justificativa para a dispendiosa transposição
matização distrital sobre a proteção teria sido so- regulamentação exata do que dizia a Lei San Tiago possibilidade de não conclusão era real, conside- da capital (MOREIRA, 1998; OLIVEIRA, 2005, PER-
Dantas. Entretanto, se observarmos com acuidade radas, por exemplo, as ameaças de opositores inte- PÉTUO, 2015). Assim, observo como o ato de nome-
ressados em enterrar a figura política de JK e seu ar é, ele próprio, pleno de significados subjacentes e
legado (MOREIRA, 1998). pode ser inquirido em sua historicidade. A esse res-
6 Para reforçar a ideia de que não se trata de mera
questão incidental – além das declarações do próprio 8 Na sessão plenária do Congresso Nacional, em 24 de
Ítalo Campofiorito e mesmo de José Aparecido – destaco março de 1960, coube ao deputado udenista Ernani Portanto, é preciso problematizar a questão da difu-
que, nos preâmbulos das normativas de todos os bens Sátyro a apresentação da Emenda nº 7, assim redigida: sa definição, tanto histórica quanto sociocultural, do
culturais protegidos no âmbito do Distrito Federal entre “Somente por lei federal poderá ser feita qualquer alte- que seria o Plano Piloto e do que seria Brasília, ain- 9 Lei nº 2.874, de 19 de setembro de 1956. Dispõe sobre
1982 e 1990, consta o termo tombamento, exceto no ração no atual plano piloto de urbanização de Brasília”. da hoje não totalmente pacificada: a cidade, cons- a mudança da Capital Federal e dá outras providências.
Decreto nº 10.829/87. Modificada pela Comissão de Constituição e Justiça, pre- Em seu art. 33, temos: “É dado o nome de ’Brasília’ à
7 As referências deste documento e dos demais aqui sidida por San Tiago Dantas, a redação final, que retira a
truída para ser capital, no momento de sua criação, nova Capital Federal”. Disponível em: <http://www.planal-
citados, que constam do arquivo da Superintendência do palavra “atual”, foi vista por Sátyro como potencialmente não era outra senão Brasília, mas experimentou um to.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L2874.htm>. Acesso
IPHAN no DF, podem ser consultados em Perpétuo (2015). desastrosa (SÁTYRO, 2011). processo de redefinição e ressignificação que resul- em 12 out. 2015.

58 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 59
peito, é notável como o até mesmo registro oficial consta da Lei San Tiago Dantas, de 1960, ou seja, Plano Piloto de Brasília, tal como apresentado por mentações, preservação e eventual expansão devem
oscilou em algumas ocasiões, por vezes confirman- na origem desse processo, encontramos a figura do Lúcio Costa; considerando que, para a exata aplicação obedecer às recomendações expressas no texto intitu-
do, por outras retirando da cidade modernista a de- plano-piloto, preservado no sentido de dar garan- do art. 38, da Lei n° 3.751, de 13 de abril de 1960, faz- lado Brasília Revisitada e respectiva planta em escala
nominação “Brasília” (em atos associados, inclusive, tias de plena execução do projeto de Lucio Costa, se oportuna a edição de norma regulamentar que 1/25.000, e que constituem os anexos I e II deste De-
a alterações administrativas e territoriais) como enquanto o Plano Piloto, realidade físico-territorial explicite o conceito do bem cultural por ela prote- creto. (DISTRITO FEDERAL, 1987, grifo do autor)
anotado por Adalberto Lassance (2002)10. parcialmente decorrente daquele projeto, seria pos- gido [...] (DISTRITO FEDERAL, 1987, grifo do autor)
teriormente reconhecido como patrimônio cultural. Aqui temos a referência à concepção, quando se
Assim, reitero que a compreensão tanto da delimi- Depreendo desse trecho da norma que ao menos trata do “Plano Piloto de Brasília” – que tomo como
tação do objeto patrimonial quanto da identidade Desenvolvendo melhor a ideia, depreendo que, ao duas dimensões estão presentes e amalgamadas referência ao projeto, ou seja, aquilo que deveria
da cidade perpassa a interpretação de estratégias propor a definição do “Plano Piloto” em razão de re- sem uma necessária diferenciação: o projeto, “tal ter sido seguido –, enquanto no parágrafo primei-
plenas de significados historicamente engendrados. gulamentar a lei San Tiago Dantas, os atores sociais como apresentado por Lúcio Costa”, e a cidade, fisi- ro aponta-se para a realidade “físico-territorial (...)
Desta maneira, observo que a definição presente – políticos, profissionais e técnicos envolvidos – não camente considerada. Uma junção tomada, aparen- entendido como o conjunto urbano construído em
no Decreto nº 10.829/87 não coincide com o que trabalharam com a historicidade dos textos legais. temente, como pressuposto restando apenas, para o decorrência daquele projeto”. A coisa, mais tarde
Naquele momento, buscou-se uma delimitação estri- decreto surtir efeito, a explicitação do “conceito do alcançada pelo tombamento federal, e o projeto da
tamente relacionada aos limites territoriais nos quais bem cultural” que teria sido protegido pela lei San coisa11. Como um objeto diante do espelho a cismar
se encerraria a cidade – daí uma área de preservação, Tiago Dantas. Entretanto, segue-se uma aparente do reflexo visado. Ora projeto, ora cidade; ora con-
10 O autor realizou um levantamento a respeito das alte-
rações exaradas em legislação ao longo do tempo. A Lei
conforme § 2º, art. 1º, do Decreto 10.829/87. Não foi separação do que fora inicialmente mesclado. cepção, ora realidade. Na sequência temos:
nº 4.545/64, ao estabelecer a Região Administrativa nº considerada a metamorfose dos termos e conceitos,
I, lhe teria confirmado o nome Brasília. Já a Lei nº 49, de tão mutáveis no tempo quanto as próprias cidades. CAPÍTULO I – DO PLANO PILOTO E SUA CONCEP- § 2° - A área a que se refere o caput deste Artigo é
25 de outubro de 1989, que alterou a estrutura adminis- Ao tomar o “plano-piloto” (o projeto de 1960) como ÇAO URBANÍSTICA delimitada a Leste pela orla do Lago Paranoá, a Oeste
trativa do Distrito Federal, passou a nomear a RA-I como coisa identicamente conexa ao existente quando de pela Estrada Parque Industria e Abastecimento - EPIA;
Plano Piloto. Tal dispositivo foi alterado no ano seguinte,
pela Lei nº 110, de 28 de junho de 1990, que reestabe-
sua regulamentação, em 1987, não foram questiona- Art. 1° - Para efeito de aplicação da Lei n° 3.751, de
leceu o nome de Brasília. Ela também alterou o art. 9º da das suas potenciais divergências. 13 de abril de 1960, entende-se por Plano Piloto de
Lei nº 49/89, acrescentando-lhe um segundo parágrafo, Brasília a concepção urbana da cidade, conforme
conforme segue: “§ 2º. A divisão administrativa do Distrito Seguindo esse itinerário mental, creio ser pertinen- definida na planta em escala 1/20.000 e no Memo- 11 Importa destacar aqui que o instituto jurídico do
Federal, na forma constante desta Lei, não implica em te esmiuçar os sentidos e questionar as definições rial Descritivo e respectivas ilustrações que consti- tombamento surte efeito sobre a proteção à materialida-
alteração da área de preservação do conjunto urbanístico de de um determinado objeto ou conjunto, como aponta
de Brasília, constituído em decorrência do Plano Piloto
que levaram ao entendimento do objeto de preser- tuem o projeto de autoria do Arquiteto Lúcio Costa, Sônia Rabello (2009, p. 76): “As partes que constituem
traçado para a cidade”. Sete anos depois, a nomenclatura vação conforme se fez constar em lei. O preâmbulo escolhido como vencedor pelo júri internacional do a universalidade, objeto da tutela federal, podem ser
seria novamente alterada pela Lei nº 1.648, de 16 de se- do Decreto nº 10.829/87 diz: concurso para a construção da nova Capital do Brasil. “bens móveis ou imóveis”. Imediatamente verifica-se que
tembro de 1997, voltando a chamar a região administrati- o tombamento só poderá se materializar sobre a coisa,
va de Plano Piloto. A cada mudança de nome, alterações O GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL, no uso das § 1° - A realidade físico-territorial corresponde ao pois só as coisas são móveis ou imóveis. Ficam, portanto,
quanto aos limites da RA-I eram também registradas. Ain- excluídos da proteção, através de tombamento, os direitos
atribuições que lhe confere o art. 20, II, da Lei n°- 3.751, Plano Piloto referido no caput deste Artigo, deve
da segundo Lassance, no âmbito da legislação do Distrito ou bens imateriais que, ainda que também possam
Federal, o Decreto nº 10.829/87 inovou ao conceituar, de 13 de abril de 1960; considerando que o Art. 38 ser entendido como o conjunto urbano construído merecer a proteção do Estado, são insusceptíveis de ser
enfim, o que seria o “Plano Piloto de Brasília”. da Lei n° 3.751, de 13 de abril de 1960, preserva o em decorrência daquele projeto e cujas comple- tombados, pois não são coisas”.

60 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 61
ao Sul pelo Córrego Vicente Pires e ao Norte pelo Cór- nições conceituais, ao menos imprecisões quanto à Art. 12 - Com o objetivo de assegurar a permanência, Ademais, como visto, essas áreas tampouco esta-
rego Bananal, considerada entorno direito dos dois descrição da “realidade físico-territorial”, porquan- no tempo, da presença urbana conjunta, das quatro es- riam presididas pelas escalas conformadoras do
eixos que estruturam o Plano Piloto. (DISTRITO FE- to o todo não corresponda ao somatório das partes calas referidas nos Capítulos II, III, IV e V deste Decre- projeto original e, portanto, não seriam alcançadas
DERAL, 1987, grifo do autor) ignoradas. Na sequência do decreto, temos: to, em todas as áreas já ocupadas no entorno dos pelos critérios registrados nos artigos 3º, 4º, 7º e 9º.
dois eixos e contidas no perímetro delimitado nos Assim, para uma abordagem mais densa da delimi-
Entra em cena a delimitação, no território, do obje- Art. 2° - A manutenção do Plano Piloto de Brasília será Parágrafos 1° e 2° do art. 1° deste Decreto, ficam tação do objeto cultural, importa arguir os termos
to de preservação, o qual aparentemente se confun- assegurada pela preservação das características essen- mantidos os critérios de ocupação aplicados pela naquilo que eles têm de potenciais instituidores de
de com a concepção e ao mesmo tempo com a cidade ciais de quatro escalas distintas em que se traduz a con- administração nessa data, sendo que, nos terrenos sentidos, investigando a noção de entorno.
construída. Entretanto, questiono se não restariam cepção urbana da cidade: a monumental, a residencial, destinados à recreação e esporte, nenhuma edificação
inconciliáveis as definições sutilmente unidas numa a gregária e a bucólica. (DISTRITO FEDERAL, 1987) poderá ultrapassar a cota máxima do coroamento de
coisa só, por conformarem elementos diferentes. 7,00m (sete metros), à exceção dos ginásios cobertos, e
Senão vejamos: voltando ao mapa (Figura 1) de de- E em seguida, nos artigos 3º, 4º, 7º e 9º, estão presen- nos terrenos destinados a hotéis de turismo, onde ne-
limitação do bem cultural publicado no Diário Ofi- tes as disposições e critérios para salvaguardar essas nhuma edificação poderá ultrapassar a Cota máxima
cial, encontramos, talvez, a chave que elucida esse escalas que, na compreensão do legislador, expressa- de coroamento de 12,00m (doze metros). (DISTRITO
amálgama. Nele está contida, dentro da delimitação riam o essencial da cidade. Entretanto, é preciso notar FEDERAL, 1987, grifo do autor)
geral, a cidade compreendida como Plano Piloto, que o texto não estabelece uma espacialização precisa
elemento marcante e de fácil distinção desde o alto referente à incidência das escalas no território, em- É preciso recordar que esse decreto se baseia na
– o que daria uma relativa segurança para reconhe- bora algumas publicações (BRASIL, 2007; BOTELHO, regulamentação de uma lei específica, definindo o
cê-lo no espaço, a despeito das mutações ocorridas 2009) ofereçam essa perspectiva (Figura 2). Somente “conceito do bem cultural por ela protegido”, o que
no tempo. Contudo, embora a cidade “construída com a análise dos critérios de intervenção e dos ele- resultaria na delimitação do Plano Piloto. Assim,
em decorrência do projeto” possa ser claramente mentos que eles informam proteger é que podemos, seu art. 12 mostra uma preocupação meramente
identificada, uma gama de outros agrupamentos ur- a partir do texto do decreto, localizar a incidência das adjacente com as “áreas já ocupadas no entorno
banos que extrapolam o Plano Piloto está inclusa na escalas no território. Assim, temos: os incisos do art. dos dois eixos e contidas no perímetro delimitado”.
mesma poligonal – como Cruzeiro, Octogonal, Can- 3º se referem a elementos contidos ao longo do Eixo Tomando os dois eixos como a imagem síntese do
dangolândia e Vila Planalto, por exemplo12. Os dois Monumental, da Praça dos Três Poderes até a Praça partido urbanístico do plano-piloto definido por Lu-
últimos, aliás, egressos dos pioneiros acampamen- do Buriti; as delimitações do art. 4º se referem às Su- cio Costa em seu Memorial, ou “o próprio sinal da
tos de obras, os quais, além de não fazer parte da perquadras e adjacências; as do art. 7º, estabelecem cruz”, interpreto que o texto tratou, neste artigo, de
proposta original, destinavam-se à desconstituição. parâmetros para a área central; já o art. 9º, que men- uma área ao redor da coisa, e não dela mesma.
Por tudo isso, é razoável supor que o texto norma- ciona proteger as áreas verdes livres como non aedi-
tivo apresenta, senão lacunas explicativas e indefi- ficandi13, aborda em seus complementos a proteção à
orla do lago Paranoá. Enfim, nenhuma menção espe-
13 Isso ensejaria a compreensão de que a escala bucó-
cífica a critérios para os demais elementos e aglome- lica perpassaria todas as demais como uma “costura”
12 E, mais recentemente, o Setor Sudoeste e o Setor rações urbanas já citados, à exceção do que segue: garantindo a configuração da cidade-parque (BOTELHO,
Noroeste. 2009).

62 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 63
Entorno de bens tombados: um
conceito patrimonial

Lia Motta e Analucia Thompson (2010) notam que res, bem assim de embates e disputas entre atores A visibilidade e a vizinhança, estipuladas no DL 25/37, “costura” das demais escalas, essa escala é comu-
a preocupação com o que está para além dos limi- sociais e instituições, foi de tal maneira decisiva passaram a ter novo sentido, segundo o qual deveriam mente identificada em imagens (Figura 2) como,
tes dos bens acautelados vem desde os primeiros que acabou por cunhar um termo técnico reco- ser considerados o sítio de implantação, a escala dos justamente, um cinturão verde que emoldura o Pla-
anos de atuação do IPHAN (o próprio Decreto-lei nº nhecido pelo registro formal da língua portuguesa. bens tombados, os estilos compatíveis a seu redor, a no Piloto. Mesmo no texto de Lucio Costa16, Brasí-
25/1937 já aborda a proteção à vizinhança e visibi- Em minha análise, sua utilização, principalmente “respeitabilidade” do ambiente, e abriram caminho lia Revisitada, que é parte anexa tanto do Decreto
lidade de bens tombados), o que ensejou transfor- por agentes ligados às questões patrimoniais na para trabalhos subsequentes, com a adoção de concei- nº 10.829/87 quanto da Portaria nº 314/92, esta
mações de conceitos e noções ao longo do tempo. década de 1980, traz consigo algum lastro desse tos mais amplos de entorno, especialmente na década referência parece se reafirmar porquanto tenha
Acerca disso, destacam que: conhecimento e alguma reverberação da atuação e de 1980. (MOTTA; THOMPSON, 2010, p. 35-6) também a função de delimitar a cidade – com áre-
influência do Instituto. as verdes e livres e, portanto, não edificadas. E ain-
(...) é interessante registrar que o vocábulo “entorno” No contexto das décadas de 1960 e 1970, em que as da: de maneira análoga ao apontado pelas autoras
foi cunhado especificamente pelos técnicos do IPHAN Tais ideias se desenvolveram com a aplicação práti- políticas de patrimônio se aproximavam do turismo quanto às “normas urbanísticas” de preservação de
ao longo da década de 1970. Era então um neologismo ca das noções de vizinhança e visibilidade da coi- e os sítios históricos eram enfatizados como “parte “áreas ao redor de sítios urbanos” propostas como
que designava as áreas vizinhas aos bens tombados, sa tombada, passa-se à preservação do patrimônio do espaço urbano” e definiam “o planejamento da non aedificandi, o decreto distrital registra, em seu
quando foi utilizado em documento oficial (Portaria como aspecto da política urbana. Também a atuação cidade como instrumento de preservação” (MOT- Art. 10º, que áreas não edificáveis se estenderiam
nº 05, de 24/06/1981), assinado pelo secretário de do órgão federal se sofistica: institucionalizam-se, a TA; THOMPSON, 2010, p. 45), as autoras analisam o por uma enorme porção do território protegido, so-
Cultura do Ministério da Educação e Cultura, referente partir da década de 1980, procedimentos internos modo como o entorno se relacionou aos planos urba- bretudo naquelas que envolveriam o Plano Piloto17.
ao caso de Petrópolis, no processo que se desenvolveu específicos para as áreas de entorno, num processo nísticos de centro históricos, como em Mariana (MG),
entre 1979 e 1982 e que resultou no tombamento de que ainda hoje busca incorporar-se às “rotinas” do Recife (PE) ou São Cristóvão (SE). Para as autoras: Tomando como referência os estudos de Lia Motta
parte da cidade pelo IPHAN. A palavra foi incorporada IPHAN. Esse desenvolvimento de noções e procedi- e Analucia Thompson, identifico uma série de pre-
em verbete do Dicionário Aurélio14, fazendo referên- mentos foi marcado por debates e reelaborações do Há semelhança entre as medidas sugeridas em todos ceitos que aproximam o conceito de entorno ao que
cia ao documento. (MOTTA; THOMPSON, 2010, p. 12) ponto de vista técnico ou jurídico. No final da década os planos aqui referidos. Buscavam preservar áreas ao foi consubstanciado no decreto de preservação de
de 196015, por exemplo, no caso do Museu Imperial redor dos sítios urbanos tombados como “cinturões 1987: áreas verdes, com controle de gabarito e/ou
Tomo esse registro como um ponto de partida im- de Petrópolis, para a tomada de decisão sobre sua verdes” ou áreas de “transição”, de “visibilidade” ou,
portante por expressar o modo como a atuação do proteção, foi observado o contexto de ambientação como no último caso citado, para o “emolduramento”
órgão, no acumulado de análises escritas, parece- paisagística no qual o bem cultural se inseria, de da cidade. Para isso, eram usadas normas urbanísti- 16 “E a intervenção da escala bucólica no ritmo e na
modo a superar, na adotada noção de visibilidade, a harmonia dos espaços urbanos se faz sentir na passagem,
cas, tais como gabaritos, taxas de ocupação e propo-
sem transição, do ocupado para o não-ocupado — em
mera percepção ótica. Segundo as autoras: sições de áreas non aedificandi para a contenção lugar de muralhas, a cidade se propôs delimitada por
14 “3. Arquit. Área, de extensão variável, vizinha de um rigorosa do crescimento urbano, como as propostas áreas livres arborizadas.” (COSTA, 1987, grifo do autor)
bem tombado [v. tombar (2)]: ‘O Secretário da Cultura, do para Paraty e Alcântara.” (MOTTA; THOMPSON, 2010, 17 “Art. 10 - São consideradas áreas non-aedificandi todos
Ministério da Educação e Cultura,..., resolve: 1- Considerar p. 48-9) (Grifo do autor) os terrenos contidos no perímetro descrito nos parágrafos
como de entorno dos conjuntos, paisagens e edificações 1° e 2° do artigo 1° deste Decreto que não estejam edifi-
situados na Cidade Imperial de Petrópolis e inscritos nos 15 As autoras abordam a decisiva influência, para esses cados ou institucionalmente destinados à edificação, nos
Livros do Tombo..., as áreas compreendidas (abrangidas) debates, da edição do documento “Carta de Veneza”, que
Há também correspondência com o caso de Brasília, termos da legislação vigente, à exceção daqueles onde é
pelos seguintes logradouros e sítios’ (da Portaria nº 05, de propõe operar com a noção de vizinhança. Ver Motta e especificamente quanto ao que se buscou registrar prevista expansão predominante residencial em Brasília
24.6.1981)”, citado por Motta e Thompson (2010, p. 12). Thompson (2010, p. 38-9). como escala bucólica. À parte ser definida como a Revisitada.” (DISTRITO FEDERAL, 1987)

64 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 65
A proteção ao “avião”, ou o
detalhe que muda tudo

livres de edificações, com função paisagística e de No procedimento federal, ainda que houvesse o regis- como o diálogo, bastante revelador dos sentidos Cumpre-me levar ao conhecimento de Vossa Excelên-
delimitação da área de interesse de preservação. tro daquilo que Lucio Costa considerava importante aqui trabalhados, havido na reunião do Conselho cia que o Conjunto Urbanístico de Brasília, constru-
Assim, creio ser pertinente colocar em questão os preservar18, o que de fato restou consagrado foi o tex- Consultivo, quando se discutia o que poderia ser ído em decorrência do Plano Piloto traçado para a
limites da caracterização da “maior poligonal urba- to de autoria de Campofiorito, o decreto distrital de objeto de alteração em Brasília: Cidade [...] é objeto de processo de tombamento nesta
na tombada do mundo”, afinal, conforme os elemen- 1987, cujas proposições foram em grande parte re- Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio-
tos que busquei destacar, haveria indícios de que cepcionadas pelo texto federal. A portaria do IPHAN GILBERTO FERREZ – a proteção ao Plano Piloto, só. nal (SPHAN). A área considerada como entorno do
a área de interesse para fins de preservação fosse não mais define o que é Plano Piloto, mas mantém a conjunto tombado é aquela delimitada a leste pela
bem menos generosa. De toda forma, mais tarde, delimitação da mesma área. Para Brasília, não foi o ROBERTO CAVALCANTI – quer dizer que toda a perife- orla do Lago Paranoá, a oeste pela Estrada Parque
quando de seu tombamento federal, a questão não processo de tombamento que originou sua normati- ria vai se desenvolver livre e desordenadamente? Indústria e Abastecimento-EPIA, ao sul pelo Córrego
foi tratada senão subsidiariamente, sem extensos va de proteção; antes, foi uma normativa de proteção Vicente Pires e ao norte pelo Córrego Bananal [...]Em
estudos técnicos para basear a decisão final. O que que ensejou e encerrou o posterior processo de atri- GILBERTO FERREZ – exatamente o que está aqui. face da responsabilidade do Distrito Federal em expe-
era uma área de preservação logo se transformou buição de valores e subsequente tombamento. dir licenças de obras, construções e demolições, solici-
numa poligonal de tombamento, aparentando não SECRETÁRIO [ÍTALO CAMPOFIORITO] – em portu- to considerar, com base no exposto, a necessidade da
distinguir entre o objeto tombado e seu entorno. No âmbito do processo federal, há um relativo hiato guês simples, é o avião e uma área de emtorno [sic]
de reflexão crítica, especificamente quanto aos ter- que é limitada em cima, como o senhor está vendo por
mos do Decreto nº 10.829/87. A sua aceitação sem essa linha aqui, que é a estrada de indústria e abas-
20 Um outro dado que me permite especular que o uso
questionamentos ou contraposições conduziu ao tecimento [Estrada Parque Indústria e Abastecimen-
da terminologia “entorno” não é, aqui, incidental, sobretu-
procedimento federal algumas de suas imprecisões, to – EPIA] e por baixo, pela margem do lago, apenas. do quanto ao debate no âmbito do Conselho Consultivo,
o que fica mais evidente quando analisamos ele- (BRASIL, 1990, f. 392-3, grifo do autor) é que na mesma reunião, minutos antes de apreciarem
mentos do processo de tombamento pelo IPHAN19, o tombamento de Brasília, foi debatida a redefinição da
A menção, em termos de delimitação e “em portu- área de entorno da Igreja e Residência Jesuítica de São
Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro. O reexame da área se
guês simples”, aclara, no meu entender, sobre senti- deu “ante a necessidade de rever os critérios de proteção
18 Consta do processo de tombamento federal (fls. 6-8) dos distintos para áreas distintas: “a proteção ao Pla- adotados (...) com o objetivo de compatibilizar, de uma
correspondência de Lucio Costa a Ítalo Campofiorito. O no Piloto, só”, ou seja, o “avião”, seguido de uma área parte o crescimento urbano daquela localidade e, de
“inventor” da cidade orienta, “como urbanista da cidade”, também protegida, nos termos do que a instituição outra parte, a visibilidade e ambiência do bem tombado”
sobre aquilo que importaria preservar em oito recomen- entendia e orientava à preservação do entorno20. Em (fls. 25-6 da transcrição da reunião, não inclusa no pro-
dações: respeitar as quatro escalas; respeitar e manter cesso de tombamento, mas que pode ser consultada no
a estrutura urbana; respeitar e manter as características
suma, a coisa e o entorno dela comparecem diferen- Arquivo Central do IPHAN, seção Rio de Janeiro). Portanto,
originais dos dois eixos em seu cruzamento; preservar ciadas no debate do Conselho Consultivo, ao con- o “neologismo” cunhado no âmbito da instituição poucos
o Eixo Monumental da Praça dos Três Poderes à Praça trário do instrumento de regramento da proteção. anos antes, bem como os conceitos e as noções que ele
Municipal; manter o conceito de superquadra; manter Mas este não seria um ato isolado. Semanas antes carrega, estavam na ordem do dia nos debates e não foi
a hierarquização do tráfego nas áreas de vizinhança; da reunião, Ítalo Campofiorito, então Secretário do sem razão que compareceram nas falas dos conselheiros.
preservar o parque público projetado por Burle Marx; 21 Procedimento necessário ao ato de tombamento,
resgatar e complementar os quarteirões centrais, ou o
Patrimônio, emite comunicado oficial do IPHAN ao conforme Portaria IPHAN nº 10/86, para que os proprie-
core da cidade. Governo do Distrito Federal, notificando-o do tom- tários de imóveis, caso entendam pertinente, possam
19 Processo nº 1305-T-90. bamento federal21 e informando-o sobre seu objeto: impugná-lo.

66 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 67
manifestação e aprovação prévias por parte da nossa precedidos de processo administrativo em que se ex- Dito de outra maneira, depreendo que a área tom- Por outro lado, avalio que a ausência de clareza so-
8ª Diretoria Regional (...) dos projetos a serem licen- pressem tanto a descrição objetiva do bem como “a bada definida pela poligonal – ainda que descrita bre o objeto patrimonial, bem assim sobre seu en-
ciados para o referido conjunto, bem como na vizi- apreciação do mérito de seu valor cultural”23. Assim, em documentos como entorno – resultou na incor- torno, contribuiu para o ato discricionário, efetuado
nhança do mesmo. 22 (BRASIL, 1990, grifo do autor) quando se tomba determinada coisa, pesam sobre ela poração, sob um mesmo ato de reconhecimento à revelia dos conselhos técnicos. Em resposta a uma
todas as obrigações decorrentes dessa forma de dis- patrimonial, das dimensões histórico-documental, solicitação direta feita pela Secretaria de Estado de
Vê-se mais uma vez o registro de uma delimitação ciplinamento da propriedade pelo Estado, inclusive simbólicas e físicas do sítio. Nesse sentido, os va- Obras, em outubro de 1992, o presidente do IPHAN
para “o conjunto tombado”, acompanhado da aten- a necessidade de proteção a uma área de entorno!24 lores simbólicos da “efetiva capital da República” e irá elencar vários pontos de análise do processo de
ção quanto à “área considerada como entorno” dela. o acervo de arquitetura e urbanismo modernos ex- tombamento, dos quais destaco dois: a conforma-
Por suposto – o documento oficial permite tal espe- Por outro lado, a aplicação do instituto jurídico do cepcionais (elementos compreendidos como valores ção sui generis da preservação de Brasília, ou seja,
culação – registrava-se, naquele momento, o tomba- tombamento no que tange ao poder/dever de fisca- que justificaram o tombamento federal) encontram- “não propriamente cada parte física da Capital,
mento de um bem cultural e a subsequente delimi- lizar deve, em tese, abordar cada um dos elementos se protegidos juntamente com elementos que não mas as relações entre elas: as escalas de Brasília”,
tação de sua área de entorno, procedimento comum que compõem o conjunto (como a Vila Planalto e faziam parte do foco de preservação. Essas questões e o apontamento do próprio Lucio Costa de que a
à época. Entretanto, como já mencionado, depreen- a Candangolândia, os clubes esportivos da orla do apontam para incompatibilidades entre o objeto preservação de Brasília não poderia privá-la de seu
do que foi o regulamento que ensejou o tombamen- Lago Paranoá, os edifícios comerciais da W3 Norte, efetivamente tombado e os elementos prioritários desenvolvimento natural, porquanto organismo
to, e não um processo de tombamento que orientou ou os enormes espaços não edificados de cerrado de proteção, para os quais foram atribuídos valo- vivo. Confirmando ainda a autoridade destes dois
a elaboração de uma normativa. O resultado disso: ainda quase intocado), ainda que haja uma apa- res culturais, o que pode ser observado, na prática, artífices da epopeia da construção de Brasília, Oscar
consta da portaria, e não de estudos técnicos, a deli- rente clareza quanto ao destaque e importância do pouco depois de consagrado o tombamento federal, Niemeyer e Lucio Costa27, o presidente do IPHAN
mitação da área de proteção do tombamento, resul- Eixo Monumental, dado seu simbolismo. Claro que quando da sugestão de implantação da “Catedral dos autorizou a implantação da Catedral no local pre-
tando numa poligonal bastante extensa. os critérios de conservação podem variar, inclusive Militares” no canteiro central do Eixo Monumental. tendido, mediante alteração da portaria federal,
na atuação subjetiva de cada técnico. Mas a respos- conforme ficou registrado no terceiro parágrafo do
O resultado dessa operação, que transformou uma ta à pergunta “o que está tombado em Brasília” me A proposta recebeu parecer negativo por parte de Art. 9º da Portaria nº 314/92:
“área de preservação” em uma “poligonal de tomba- obrigaria a informar, creio, que esses elementos es- um conjunto de técnicos dos órgãos de preserva-
mento”, é que ordens jurídicas distintas passaram a tão todos tombados porque são parte de um todo: a ção federal e local, conforme registra Sandra Ribei- § 3º Excepcionalmente, e como disposição naturalmen-
abordar a mesma territorialidade. Afinal, no orde- chamada poligonal de tombamento. ro (2005). A negativa, no entanto, seria logo con- te temporária, serão permitidas, quando aprovadas
namento jurídico do GDF, apontar uma “área de pre- tornada pelo então presidente do IPHAN25, Jayme
servação” implicaria em critérios e procedimentos Zettel, ensejando a modificação da portaria de re-
próprios, em lugar dos procedimentos e limitações gulamentação do tombamento federal26. Segundo a 26 A Portaria IPHAN nº 04/90 foi substituída pela Portaria
23 Conforme Portaria IPHAN nº 11 de 11 de setembro de
impostas pelo tombamento federal, que devem ser 1986 (BRASIL, 1986) autora, a medida de alteração da norma em favor IPHAN nº 314/92, ainda vigente.
24 Algo que, de fato, foi realizado em 2012, com a edição da da implantação da Catedral foi vista como um ato 27 No contexto local, a despeito da reverência aos
Portaria nº 68, de 15 de fevereiro de 2012, que dispõe sobre autoritário e “denunciada às entidades profissio- mencionados arquitetos, criadores de grande parte dos
a delimitação e diretrizes para a área de entorno do Conjun- nais”, dada sua arbitrariedade. elementos reconhecidos como patrimônio cultural em
22 Os termos desse comunicado seriam repetidos quan- to Urbanístico de Brasília, correspondente à bacia hidrográ- Brasília, os profissionais, estudiosos e agentes públicos
do de seu tombamento definitivo, em novo ofício emitido fica do Lago Paranoá. Ver o artigo “O horizonte de Brasília: A locais já questionavam, naquele momento, a pertinência
ao Governo do Distrito Federal, conforme folhas 120-1 do definição da zona de entorno e a gestão compartilhada do da manutenção dessa autoridade de conduzir os rumos
processo de tombamento federal. conjunto urbanístico de Brasília”, incluído neste livro. 25 À época, Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC). para o planejamento e gestão da capital.

68 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 69
pelas instâncias legalmente competentes, as propostas entorno: a Praça Municipal. A título de especula-
para novas edificações encaminhadas pelos autores ção, se imaginássemos um traço paralelo ao Eixo
de Brasília - arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer Rodoviário passando por esse ponto, teríamos ge-
- como complementações necessárias ao Plano Piloto nerosas porções do território fora da área de tom-
original e, portanto, implícitas na Lei Santiago Dantas bamento (Fig. 3).
(Lei nº 3.751/60) e no Decreto nº 10.829/87 do GDF
que a regulamenta e respalda a inscrição da cidade no Em seguida, na carta do dia 15 de setembro de
Patrimônio Cultural da Humanidade. (BRASIL, 1992) 1992, Campofiorito (apud PERPÉTUO, 2015, p.
273) pontua suas considerações quanto ao que está
Entretanto, a decisão exarada no ofício de Jayme Zet- objetivamente protegido, inclusive pelas escalas, e
tel à Secretaria de Obras do GDF eclipsou dois docu- apresenta a sua sugestão para a alteração da porta-
mentos que subsidiaram sua estratégia: cartas de Ítalo ria que regulamenta o tombamento federal:
Campofiorito endereçadas ao presidente do IPHAN,
datadas de 10 e 15 de setembro de 1992. Na primeira, 1. (Considerando o §1º a Art. 1º [sic]: o bem tombado
Campofiorito apresenta seu testemunho de como se se entende como “o conjunto urbano construído em
dera sua atuação no processo de patrimonialização de decorrência do Plano Piloto...” etc; e Art. 2º “...será
Brasília, informando que tomara as referências para a assegurada pela preservação das características
proteção das escalas do próprio Lucio Costa, em cor- essenciais de quatro escalas” ... “monumental, re-
respondências trocadas entre ambos, conforme segue: sidencial, gregária e bucólica...”)

As cartas dizem tudo; acentuo apenas que o Dr. Lucio 2. (Considerando que o prolongamento do eixo monu-
frisa, em sua escrita emocionante, a necessidade de mental, além do Buriti não integra a escala monu-
preservar-se o Eixo Monumental, “da Praça dos Três mental (Art. 3º) e, obviamente, não é residencial, nem
Poderes à Praça Municipal”; mentalmente, combino gregário e, muito menos, “bucólico”, embora verde)
essa definição com minhas próprias palavras, ao co-
municar o Tombamento definitivo ao Governo do Dis- 3. (e, daí, entendendo que o restante da área prote-
trito Federal [...], quando acentuo a delimitação da gida pelo tombamento, o é subsidiariamente, para
área a ser considerada “como entorno do conjunto servir ao tombamento definido no Art. 1º)
tombado”, aí ficando incluído o trecho do prolon-
gamento oeste do mesmo Eixo. (CAMPOFIORITO 4. Justifica-se tomar a área em questão, ainda que
apud PERPÉTUO, 2015, p. 271, grifo do autor) tombada, como de preservação relativa, atenuada.

Assim, o arquiteto parece destacar um ponto no Proponho pois, “mea culpa”, que a Portaria ao lega- 3 Vista geral do Conjunto Urbanístico de Brasília, com
território que separa a área de tombamento da de lizar-se completamente, contenha o seguinte § 3º ao área indicada como destituída de “escalas urbanísticas”.

70 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 71
Considerações finais: uma necessária
revisão de premissas

Art. 9º... (CAMPOFIORITO apud PERPÉTUO, 2015, p. para as quais não foram abordados, reconhecidos ou Finalmente, retomando as premissas iniciais, assi- A pesquisa histórica desse modo possibilita também
271, grifo do autor) analisados quaisquer valores culturais? nalo que o presente trabalho não teve como propó- a compreensão dos processos pelos quais tais bens
sito revelar uma verdade pretensamente definitiva passaram ao longo do tempo até a construção de seu
Mais um elemento que aponta para a compreensão Nesse sentido, gostaria de reiterar que as questões a partir da análise de fatos do passado. Não busquei sentido, forma e valor contemporâneos.28
de que o objeto que se intentou proteger se distin- aqui levantadas não têm por objetivo simplesmente uma nova abordagem que, porventura (ou mesmo
gue daquele que resultou protegido. A leitura ha- denunciar o que seria a distância entre intenção e por desventura), “congelasse” o entendimento do O esforço maior, portanto, foi o de desconstruir a
bitual, consagrada em tantos anos de atuação dos gesto. Antes, o presente esforço vai ao encontro de objeto patrimonial, tampouco que fixasse, numa ideia de que os objetos tombados devem ser into-
órgãos de preservação em Brasília, seja no âmbito uma melhor compreensão de um objeto cujos desa- narrativa irrefutável, os eventos que engendraram cados (física ou conceitualmente), ou mesmo o de
federal, seja no do Governo do Distrito Federal, por fios de gestão se equiparam, em monumentalidade, o tombamento de Brasília. Pelo contrário: o desafio que os valores que deles emanariam seriam dados
mais que tenha operado, em diversos momentos, a às suas complexidades e dimensões. foi o de elaborar questionamentos que pudessem como propriedades imanentes, intrínsecas a eles
crítica à preservação por meio de escalas, não al- apontar para a fragilidade de conceitos tidos como mesmos, numa necessária revisão de premissas que
cançou este aspecto da definição e da delimitação Assim, envidei esforços para analisar com maior irrevogáveis ou indiscutíveis, que conduzem (ou se nos possibilite uma abordagem mais honesta da di-
do objeto, com suas dimensões monumentais, que acuidade o objeto efetivamente delimitado como interpõem a?) os sistemas de planejamento que im- versidade do patrimônio cultural (MENESES, 2009).
resultou na problemática questão de seu entorno – patrimônio cultural por acreditar ser pertinente a pactam no cotidiano de milhares de pessoas, habi- O estudo do processo de patrimonialização de Bra-
um detalhe que muda tudo. contínua problematização a respeito da construção tantes da capital do país. sília dá oportunidade de compreender que mesmo
do discurso sobre o patrimônio cultural brasileiro. aquilo que é tomado como um pressuposto deve ser
Ademais, se o aspecto fundamental da “inovadora” No caso de Brasília, ao revisitar o processo de defi- Ou seja, a compreensão, aceitação e manutenção da compreendido como uma construção social. Assim,
medida de proteção da cidade é a preservação de nição de seus contornos morfológicos e conceituais, poligonal de tombamento em toda sua extensão po- a cidade-patrimônio não pode ser simplesmente
suas escalas urbanísticas, e o próprio autor do texto partindo da análise do que seriam as “fontes ori- dem (e devem) ser baseados em análises que não canonizada – como se fosse um “monumento em
pondera, em 1992, que nas áreas entendidas como ginais” (a normativa que ensejou seu tombamento se submetem, exclusivamente, ao que fora realizado bronze” – e sim tratada, a bem das comunidades
“entorno do conjunto tombado” não estariam pre- federal, o Decreto nº 10.829/87 e documentos cor- na década de 1980, mesmo porque, como busquei residentes ou que na cidade se referenciam, como
sentes as referidas escalas, me permito presumir que relatos), observo que a patrimonialização de Bra- demonstrar, tais procedimentos possuem imperfei- objeto de constantes reelaboração e reexame.
a elas poderiam ter sido operadas definições e prá- sília na esfera federal experimentou um itinerário ções. Como apontado, questões como a identidade,
ticas de preservação próprias de áreas de entorno, singular, invertendo a sequência lógica de procedi- definição e nomenclatura da cidade se imiscuíram Enfim, Brasília, continuamente revisitada.
com toda a técnica e conceitos que o próprio IPHAN mentos, com a normativa de proteção (orientadora à sua original delimitação. Por outro lado, a apli-
se esmerou por elaborar ao longo dos anos. Isso não da delimitação física e dos critérios de preservação cação de normas e restrições baseadas em proce-
minora a importância dessas localidades, frente ao do sítio) precedendo a futura patrimonialização dimentos pretéritos (como as escalas urbanísticas
Plano Piloto, ou mesmo nas histórias da construção (que conformaria os valores, atribuídos posterior- que informam o projeto, e não necessariamente a
e desenvolvimento de Brasília. Entretanto, restou mente). Desta forma, lanço um novo olhar sobre um cidade dele decorrente) não devem ser usados para
para elas um grau de indefinição que impossibilita elemento menos questionado que as polêmicas es- legitimar uma fixidez no tempo. O passado não deve
um olhar voltado à preservação de características calas urbanísticas, mas tomado como pressuposto, nos aprisionar. Pelo contrário, deve expandir nossos
que, objetivamente, sequer foram consideradas no quase um título honorífico: as dimensões da maior horizontes de análise, razão pela qual entendo ser
texto normativo e no processo de tombamento. Afi- poligonal urbana tombada do mundo. pertinente a investigação crítica das fontes do pas- 28 Carta da Pesquisa Histórica no IPHAN. (BRASIL, 2008,
nal, como (ou com que critérios) preservar áreas sado, ao que se pode complementar: p. 135-144)

72 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 73
REFERÊNCIAS

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preservação da concepção urbanística de Brasília. Dissertação (Mestrado Profissional em Patrimônio

74 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 75
76 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 77
Via W-3, Brasília: nossa futura Broadway?
frederico de holanda

resumo abstract INTRODUÇÃO

Áreas da cidade podem conhecer uma “época de Some areas of the city may witness a “golden age”, fol- A Via W-3 (doravante W-3), como constou do pro- impossibilidade de a avenida concorrer em igual-
ouro”, para entrar depois em decadência. A Via W-3, lowed by a process of decay. The W-3 Thoroughfare, jeto de Lucio Costa, nunca existiu na realidade: foi dade de condições com esses equipamentos. Lojas
Brasília, era verdadeiro centro comercial e cultural Brasília, was the actual commercial and cultural cen- projetada como avenida de serviços nas bordas do antes localizadas na W-3 abriram filiais nos novos
nos primeiros anos da construção da capital brasi- tre in the first years of the construction of the Brazil- Plano Piloto, tendo comércio grossista no lado les- “paraísos do consumo”, e depois abandonaram sua
leira; parte das funções a conferir o importante sta- ian capital; part of the functions that have granted its te, e chácaras e pomares no lado oeste. Contudo, em localização original. Iniciou-se um processo de de-
tus paulatinamente abandonaram o lugar. Razões important status have progressively abandoned the 1958, na faixa onde Costa previu hortas e pomares, cadência caracterizado pelo fechamento de inúme-
para o declínio podem ser: 1) demora na constitui- place. Reasons for the decline may be: 1) the delay in iniciou-se a construção de residências unifamiliares ros estabelecimentos, por deterioração do espaço
ção dos setores centrais da cidade; 2) novas manei- implementing central urban sectors; 2) new ways of para “permitir a transferência dos primeiros téc- público e pela consequente (quase) desertificação
ras de configuração do espaço comercial, valorizan- configuring commercial space, with a stronger taste nicos para Brasília com suas famílias” (IAB, 2002). do lugar (Figura 2 e Figura 3).
do-se as modalidades intramuros (shoppings); 3) for inward looking schemes (shopping centres); 3) As residências foram inicialmente construídas na
uso do solo da avenida – apenas um dos lados desti- land use norms of the place – just one side destined altura das primeiras Unidades de Vizinhança em Assim como outros problemas de Brasília, a W-3
nado a usos mistos; 4) precária infraestrutura para to mixed uses, the other side residential; 4) ill de- implantação, correspondentes às quadras “100” e faz-se ciclicamente presente na mídia. Em 2002,
mobilidade de veículos e pedestres. A deterioração signed infrastructure for circulation of pedestrians “300” terminadas em 5, 6, 7 e 8 (105, 106, 305, 306 um Concurso público nacional de ideias e de estudos
da avenida poder ser revertida, mas isso implica and vehicles. The avenue’s decay may be reverted, etc.). Houve demora na construção dos setores cen- preliminares de arquitetura e urbanismo para revi-
uma postura que valorize visões menos paro-quiais but this re-quires a viewpoint which is rather geared trais da cidade, que viriam a concentrar a localiza- talização das avenidas W-3 Sul e Norte, em Brasília,
e elitistas, e mais em prol da coletividade urbana towards benefits to the urban collectivity as a whole ção de comércio, serviços e escritórios de vários ti- Distrito Federal foi promovido pela Secretaria de
como um todo. than a parochial and elitist one. pos; foi natural tais serviços localizarem-se na área Desenvolvimento Urbano e Habitação do Governo
inicial de implantação da cidade, fazendo desse tre- do Distrito Federal, e organizado pelo Instituto de
Palavras-chave Via W-3. Brasília. Degradação ur- cho da W-3 verdadeiro core cultural e comercial du- Arquitetos do Brasil (IAB/DN), com responsabilida-
bana. Renovação urbana. Uso do espaço. Keywords W-3 thoroughfare. Brasília. Urban de- rante anos (Figura 1). Nos alvores da cidade surgia de executiva do Departamento do Distrito Federal
cline. Urban renewal. Space use. uma avenida anômala – casas de um lado, comércio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/DF). Infe-
e serviços de outro – uma contradição entre usos do lizmente as propostas foram condenadas às prate-
solo e alta acessibilidade viária só compreensível leiras da burocracia estatal.
em função da ortodoxia moderna que planeja a ci-
dade por “setores”, não por eixos urbanos cujos usos Em 2011, volta-se a debater mais intensamente a
lindeiros, em ambos os lados, são coerentes com o avenida, agora especificamente quanto a pos-turas
papel que tais ruas ou avenidas têm na cidade. conflitantes entre 1) moradores da classe média ou
média-alta, mormente do interior das quadras resi-
O centro urbano do Plano Piloto de Brasília se con- denciais “700” e 2) donos de serviços populares que
solidou a partir do final dos anos 1970; continuou paulatinamente começam a somar-se aos usos resi-
a se fortalecer nas décadas de 1980 e 1990; surgi- denciais do lado oeste: pousadas, cartomantes, se-
ram shopping centers e hipermercados, alguns no des de sindicatos, cursos variados etc. Argumentos
próprio centro, outros em pontos afastados. Várias de ambos os lados foram esgrimidos em audiências
das características originais da W-3 implicaram a públicas, mas o debate ficou inconcluso.

78 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 79
Problemas da avenida

Versões preliminares do PPCUB (Plano de Preser- A W-3 apresenta diferenças entre os trechos ao
vação do Conjunto Urbanístico de Brasília), nunca norte e ao sul do Eixo Monumental do Plano Piloto
aprovadas, ratificavam a proibição de usos popu- de Brasília. A situação de deterioração é mais acen-
lares nas quadras “700” (cedendo às pressões de tuada no tramo sul, embora o tramo norte também
parte das classes médias residentes). O debate sofra de uma série de problemas a causarem des-
ressurgiu em maio de 2016, em função da Portaria conforto aos usuários. Vejamos o conjunto, e depois
166 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico especificidades de um trecho e de outro.
Nacional (IPHAN) (BRASIL, 2016), que abre a possi-
bilidade de aprovação legal de serviços nessas qua- A Problemas comuns aos dois trechos –norte e sul:
dras, simplesmente porque reconhece a existência,
de fato, desses serviços há décadas, não referidos 1 Impacto ambiental negativo (alta radia-
apenas à faixa lindeira à W-3, mas ao conjunto das ção) provocado por excessiva largura das
“700” como um todo. faixas de rolamento.

A seguir, ofereço um diagnóstico sucinto da situação 2 Perigo e desconforto para o cruzamen-


atual da avenida, em grande parte baseado em nossa to de pedestres, dada a inexistência de
proposta para sua revitalização, feita em 2002 (GAR- passagens de pedestres a distâncias ade-
CIA et al., 2011), atualizada no que foi possível (a quadas, e largura excessiva das faixas de
responsabilidade pela atualização é minha). Final- rolamento.
mente, resumo a posição crítica assumida por mim
por ocasião das últimas audiências públicas em que 3 Congestionamento de veículos, particu-
foi discutida a situação da avenida, particularmen- larmente nas horas de pico e próximo aos
te quanto à permanência ou legalidade dos serviços setores centrais, e mormente quanto ao
1 Um dia comum da W-3 populares, o tema mais recente – e candente. número de ônibus que trafegam na via.
Sul, nos anos 1960
Fonte ArPDF 4 Quantidade e localização inadequados
de retornos no canteiro central, prejudi-
2 Trecho típico da W-3 cando o fluxo de veículos e a travessia de
hoje, no lado leste pedestres.
Fonte Fotografia do autor
5 Desconforto físico e visual, dada a arbo-
3 Trecho típico do lado leste rização inadequada ou inexistente nos
(comércio e serviços), W-3 Sul canteiros entre faixas de rolamento e nas
Fonte Fotografia do autor calçadas laterais.

80 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 81
[página ao lado]
4 Trecho típico em que têm havido mais transformações 5 O baixo número de pavimentos – três – como é comum
de uso, no lado oeste da avenida em ambos os lados da W-3 Sul, não faculta a coesão
Fonte Fotografia do autor necessária para bem definir a caixa da rua
Fonte Fotografia do autor

6 Desconforto para pedestres, dados pro- nais da população, ou pequena atração de


blemas de largura, leiaute, estado de con- pessoas em número e variedade adequados.
servação, mobiliário urbano e estaciona-
mento de veículos, nas calçadas. 4 Becos estreitos, deteriorados, geralmente
definidos por paredes cegas.
7 Condições inadequadas para circulação de
ciclistas. Inexistem ciclovias, mas há mui- C Problemas no trecho norte:
tas pessoas a utilizar a bicicleta, particular-
mente para ir às escolas nas quadras “900”. 1 Problemas de funcionalidade, de imagem
e ambientais, nos espaços invadidos por
8 Perfil inadequado dos estacionamentos, construções irregulares, entre os dois
quanto ao tipo (curta e longa permanência) quarteirões lindeiros à avenida, e em ou-
e quanto à localização (ocupam uma parce- tras áreas.
la enorme do espaço público disponível).
2 Problemas nos espaços de circulação para
B Problemas no trecho sul: pedestres, em ambos os lados da avenida:
descontinuidades por diferenças de nível
1 Estacionamentos no canteiro central, im- ou por vagas de estacionamento, e por
plicando perigo para os pedestres, negati- precária conservação do piso são um peri-
vo impacto ambiental (excessiva radiação go constante para todos, particularmente
a partir do piso), e excessiva interferência para os deficientes.
no fluxo dos veículos em movimento nas
faixas de rolamento.

2 Gabaritos inadequados (muito baixos)


quanto à escala da caixa da via, no que diz
respeito à potencialidade de renovação ur-
bana, e quanto à identidade da avenida. A
legislação considera irregular a altura de
três pavimentos no lado oeste – em proces-
so de franca consolidação (Figuras 4 e 5).

3 Perfil inadequado de usos, implicando res-


posta inadequada às necessidades funcio-

82 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 83
Para pensar o futuro da avenida

Para propostas detalhadas, visando a resolver os de e o fluxo intenso de pessoas e veículos atra- “a possibilidade de uso misto no trecho da faixa à avenida, exatamente por esta razão: porque
problemas acima, ver nossos escritos anteriores em naturalmente o uso misto para estas aveni- das 700 com frente para W3, mantido o gabarito são populares, não correspondem às faixas de
(GARCIA, 2011). A seguir, apenas resumo reflexões das – em ambos os lados! É assim em qualquer baixo, não teria implicações negativas”. Ela ra- renda mais altas predominantes no interior
mais gerais, expostas quando dos debates sobre a lugar do mundo. Não seria o primeiro erro a tificou verbalmente essa posição em seminário das “700” residenciais.
avenida nos últimos anos. O conteúdo é particular- se constatar no projeto de Brasília. O próprio técnico sobre o PPCUB, promovido pelo Gover-
mente o de intervenções minhas em audiências pú- Lucio Costa, dando exemplo de tocante humil- no do Distrito Federal (2011), em que participei. 5 As transformações de uso ou gabarito que há
blicas sobre o tema, não publicadas 1. dade, reconheceu erros numa famosa entrevis- muito propugnamos para a W-3 – e não só para
ta concedida ao Jornal do Brasil do dia 27 de 3 Há que diferençar entre código urbanístico e ela, no Plano Piloto (HOLANDA, 2015) – farão
1 As cidades se transformam no tempo. Há déca- novembro de 1984, na Plataforma Rodoviária: código de posturas. O primeiro regula a forma do lugar, e da cidade onde a avenida se insere,
das a W-3 não é a avenida dos anos 1970. Os e o uso das edificações. O segundo regula com- um canto melhor para morar, não pior. Morei
antigos proprietários dos edifícios antes resi- Isto tudo é muito diferente do que eu tinha ima- portamentos desejáveis de urbanidade – regras no Rio de Janeiro e sei do conforto que é descer
denciais não foram obrigados a transformar seu ginado para esse centro urbano, como um centro do bem viver em coletividade. Se há problemas do apartamento e tomar um cafezinho na lan-
uso, ou a vender ou alugar seus imóveis para requintado, igual a Champs Élysées ou Piccadilly de ruídos, prostituição, tráfico de drogas etc. chonete do pavimento térreo do mesmo edifício.
quem quis fazê-lo. Essas transformações são Circus, uma coisa mais cosmopolita. Mas não é. em qualquer lugar da cidade, na faixa lindeira Muita gente já descobriu isso e foi morar em
de-mandas sociais legítimas, respondem a ex- Quem tomou conta dele foram esses brasileiros da W-3 ou nas residências internas das qua- cima dos comércios locais da Asa Norte de Bra-
pectativas que extrapolam o limite estreito das legítimos que construíram a cidade e estão ins- dras, cabe ao poder público coibi-los. Não são sília. Muitos querem o mesmo ou coisa parecida
expectativas de outros residentes. São expecta- talados ali legitimamente. É o Brasil... E eu fiquei problemas urbanísticos, são casos de polícia. Há para a W-3. Mais: os gabaritos devem ser eleva-
tivas de outros moradores da metrópole. Não há orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isso. Eles es- que coibir os abusos. Repito: abusos. Nada a ver dos até cinco pavimentos, para que tenhamos
por-que negá-las. Isto vem em benefício da qua- tão com a razão, eu é que estava errado. Eles to- com o uso saudável do lugar mediante peque- esse saudável uso misto, de habitações mais
lidade de vida da coletividade, não o contrário. maram conta daquilo que não foi concebido para nos comércios e serviços sem guarida noutros comércio e serviços. Que tal termos os mesmos
eles. Foi uma Bastilha (COSTA, 1995, p. 311, grifo lugares do Plano Piloto e que, não por acaso, gabaritos da W-3 no seu trecho norte? Não é
2 O uso misto nas quadras “700”, quando e se do autor). localizaram-se na W-3. (É sempre saudável per- novidade. Se lá não “fere o tombamento” – eter-
aprovado, virá corrigir um erro de projeto. Não guntarmo-nos do porquê desses fenômenos.) no argumento supostamente em defesa da cida-
há exemplos de importantes avenidas, em ou- Pois bem, brasileiros legítimos mudaram o uso de – por que fere no tramo sul da avenida? Mas
tras cidades, que sejam “avenidas mancas” original da Via W-3, e eles estão certos. Se Mes- 4 A existência de serviços em edifícios em áreas não: parece que defender isso nos alia inexora-
– comércio e serviços de um lado só –, a não tre Lucio Costa estivesse vivo possivelmente residenciais não é necessariamente problemá- velmente à selvageria da especulação imobiliá-
ser em circunstâncias paisagísticas especiais, concordaria com eles. Bom sintoma disto é a po- tica, em Brasília ou em qualquer outra cidade. ria, de que não poucas vezes fui acusado...
como ao longo de orlas de corpos d’água, de sição defendida em texto de 1997, da arquiteta Aliás, a discussão corrente é eivada de “faz
parques ou reservas naturais etc. A centralida- Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, enviado de contas”. Por exemplo, faz de conta que não 6 Fazer da W-3 um lugar mais vivo em urbani-
em 1997 ao Instituto de Planejamento Territo- existem escritórios de profissionais liberais dade não desvalorizará os imóveis, pelo con-
rial e Urbano do Distrito Federal (IPDF) como em residências no interior das quadras “700”. trá-rio: a demanda satisfeita – oxalá em breve
1 Intervenção por ocasião da audiência pública sobre
impacto de vizinhança dos serviços na Av. W-3 Sul. Museu contribuição aos estudos, que já haviam sido Não há que se argumentar contra isso. Eles permitida legalmente, como sinaliza a recen-
Nacional Honestino Guimarães, Conjunto Cultural da iniciados, do Plano Diretor Local de Brasília, fa- não incomodam ninguém. Mas argumenta-se te Portaria 166 do IPHAN – por espaços para
República, Brasília, 10 de setembro de 2011. vorável ao uso misto nas 700 da W-3 Sul. Cito: contra os serviços populares na faixa lindeira pequenos comércios e serviços valorizará os

84 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 85
conclusão

imóveis. É assim em qualquer parte do mundo. Desde o princípio, entretanto, isso revelou- teresses relacionados ao direito à cidade para A situação problemática da W-3 está longe de ser
Os atuais proprietários só ganharão com isso. se uma falácia. Há muitos tipos de desejos de sua grande maioria. Para citar apenas alguns irreversível. Experiências nacionais e internacionais
Poderão negociar a atual casa com um apar- morar e muitas formas de morar inseriram-se exemplos: as lutas relacionadas à fixação da an- mostram haver refluxo de tendências morfológicas
tamento no novo edifício que a substituirá, na cidade como fissuras urbanas – muito sau- tiga Favela do Paranoá, à fixação da Vila Planalto, antiurbanas que violentaram as cidades no mundo
ganhando muito com isso. Inúmeras cidades dáveis, por sinal. A Vila Planalto, imprevista no à construção de um hospital público na penín- inteiro, particularmente nas últimas cinco décadas
brasileiras – e outras mundo afora – são teste- projeto, tanto quanto as pousadas na W-3, são sula do Lago Norte (o Hospital Sarah-Lago, cuja do século XX. Hipermercados e shopping centers
munhas do processo. exemplos de fissuras na ordem elitista domi- implantação enfrentou ferrenha oposição de provavelmente não desaparecerão – pelo menos
nante. Entre os variados desejos de morar está muitos moradores da península), à permanên- no curto prazo. Mas inúmeros empreendimentos
7 É um processo que não pode ser feito de qual- o habitar no meio do burburinho, no “olho do cia dos camelôs no deck superior da Plataforma que revalorizam a rua provam que há ainda – talvez
quer jeito. Há que ter cuidado quanto a suas furacão urbano” – Copacabana sendo exemplo Rodoviária, à permanência dos feirantes na co- haverá sempre – forte demanda por esse tipo de lu-
características, para que isso não venha causar paradigmático no mundo, concorrendo de per- lina da Torre de TV etc. Muitas dessas batalhas gar. Ela é o mais longevo espaço das urbes – afinal,
problemas à coletividade. Por exemplo, não to com Manhattan... Perguntem aos moradores foram perdidas. Outras foram ganhas. Temos tem quase 10.000 anos de existência –; é onde está
permitir vagas para estacionamento de carros se querem abandonar o bairro. Ao longo de orgulho, muitos de nós, professores e alunos, ao implicada uma sociabilidade específica, exatamente
particulares além das que já existem hoje. As nossa vida, os desejos podem mudar de natu- longo da história da Faculdade de Arquitetura e aquela que melhor tem caracterizado a cidade em
pessoas de boa fé sabem que há vagas sobran- reza. Eu me mudei de uma superquadra – que Urbanismo da Universidade de Brasília, de ter- todos os tempos: a urbanidade que, por excelência,
do nos estacionamentos nas quadras “500” ao amava – para uma casa em Sobradinho – que mos contribuído com a luta, por exemplo, pela inclui o reconhecimento do outro, e a rica troca entre
longo da avenida. Pequenos comércios e ser- amo. Deixemos que a cidade se transforme e fixação da antiga Favela do Paranoá (batalha in- comportamentos social e culturalmente variados.
viços que já estão nas “700” (hoje ilegalmen- abrigue a diversidade – ela é gêmea siamesa da felizmente perdida) e da Vila Planalto (batalha
te) funcionam muito bem – obrigado! – com urbanidade. Ninguém é obrigado a gostar da felizmente vitoriosa). Espero que a corrente ba- As propostas de transformação para a W-3 incluem
as vagas existentes. O eventual futuro VLT só nova W-3. Muitos decerto gostarão. E a cidade talha pelo uso misto na faixa das “700” da W-3 necessariamente mudanças morfológicas tanto
melhorará a acessibilidade ao lugar mediante oferece tantas outras opções!... componha a lista das lutas vitoriosas. O interes- quanto mudanças de uso – e nada que entre em
transporte público de qualidade, que tristemen- se não é só dos donos de pousadas e serviços choque com as qualidades essenciais da cidade, nada
te nunca foi uma política pública decente no 9 A luta pelo uso misto na W-3 é mais um exemplo diversos. É nosso, de todos que propugnamos que “fira o tombamento”, bordão contra quaisquer
Distrito Federal. de luta em prol de interesses populares ou em por uma cidade mais democrática. transformações do organismo vivo que é a cidade
benefício de uma coletividade maior. Uma polí- (também esta!). Juntas, as mudanças trarão mais e
8 O urbanismo moderno fez muitos pensarem tica urbanística não se deve fazer em função de mais diversas pessoas a se apropriarem da avenida
que há um só tipo de desejo de morar na ci- interesses paroquiais. Os usos ao longo de uma na rotina diária. Não é preciso ir longe: temos ave-
dade. No caso de Brasília, pelo projeto, tal avenida estrutural urbana como é a W-3 não in- nidas pujantes em bairros satélites desta própria ci-
desejo corresponderia às superquadras ou às teressam apenas aos moradores da vizinhança dade de Brasília. Por que não no seu coração? Quiçá
mansões do lago, os dois únicos tipos de espa- imediata. Eles interessam a todos os habitantes podemos e devemos pensar grande: por sua locali-
ços domésticos previstos no projeto – Lucio da cidade, assim como aos seus visitantes. zação estratégica, pelo papel estrutural que cumpre
Costa a chamou de “receita única”, suposta no Plano Piloto e na metrópole maior em que se in-
(e controversamente) inspirado nas cidades 10 A história de Brasília registra muitos exemplos sere, pelas possibilidades de seu próprio desenho,
coloniais brasileiras (COSTA, 1995, p. 327). de luta em prol desses interesses populares, in- pela grande quantidade de moradores e empregos

86 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 87
REFERÊNCIAS

nela mesma e no seu entorno imediato, a W-3 é o BRASIL. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
elemento urbano que mais potencial tem, nesta E ARTÍSTICO NACIONAL. Portaria nº 166, de 11 de
cidade, para se transformar em exemplar lugar de maio de 2016. Estabelece a complementação e o
urbanidade – nossa futura Broadway? Não nos deve detalhamento da Portaria nº 314/1992 e dá outras
causar espécie, mas o contrário: como foi possível providências. Diário Oficial da União, Brasília-DF,
chegar-se ao atual estado de degradação?!... ano 153, n. 91, 13 maio 2016. Seção 1, p. 31.

COSTA, Lucio. Lucio Costa: registro de uma vivên-


cia. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.

GARCIA, C. et al. Passado, presente e futuro de uma


avenida moderna: W-3, Brasília. In: HOLANDA, F.
(Org.). Arquitetura & urbanidade. 2. ed. Brasília:
FRBH, 2011, p. 56-93.

HOLANDA, F. 10 mandamentos da arquitetura. 2.


ed. Brasília: FRBH, 2015.

IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamen-


to do Distrito Federal). Dossiê do concurso. Brasí-
lia: IAB/DF, 2002

88 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 89
O Mall dos brasileiros
Andrey Rosenthal Schlee

resumo abstract

Pequeno ensaio. Apresenta reflexões sobre a con- Small essay. Presentation of reflections about the Os primeiros riscos já revelam influências, releituras em setembro de 1956. O resultado da concorrência
cepção da Esplanada dos Ministérios de Brasília e a design of the Esplanada dos Ministérios de Brasília e citações. Demonstram desejo e clara intenção. Um tornou-se público em março de 1957. Em julho do
dimensão simbólica que o espaço assumiu durante and the symbolic dimension that space has taken desenho simples, resultante da intersecção de duas mesmo ano, as plantas de urbanismo e locação da
os últimos anos. O texto divide-se em dois momen- over the past few years. The text is divide into two figuras geométricas planas. Um retângulo para a es- Praça dos Três Poderes estavam elaboradas. A face
tos, o que explora a concepção e o significado da phases, which explores the design and meaning planada. Um triângulo para a praça. Esplanada dos maior da plataforma do Congresso ficou com 200
Esplanada, comparada pelo urbanista Lucio Costa of the Esplanada, compared by the urbanist Lucio Ministérios e Praça dos Três Poderes. A simplicidade metros. A face menor do retângulo da Esplanada
ao Mall dos ingleses; e o que descreve os ciclos de Costa to the “Mall” from the British; and what de- reveste-se de sofisticada operação de implantação. com 600. A extensão da plataforma do Legislativo
reconhecimento patrimonial da capital federal. Por scribes the cycles of heritage recognition of Capital Um exitoso exercício de grandes composições, bem (o edifício principal) condicionou a dimensão da
fim, analisa a Portaria IPHAN nº 184/2016 e con- Federal. Finally, analyses the Regulation IPHAN No. ao gosto da melhor tradição acadêmica. O tema nobre faixa verde fronteira, que se fez mais larga. Como
clui pela oportunidade do instrumento legal e pela 184/2016 and concludes for the opportunity of le- presta-se para o intento. O autor não nega a formação. consequência, a largura das lâminas horizontais
qualidade excepcional do lugar: a passarela dos bra- gal instruments and the exceptional quality of the dos ministérios foi reduzida.
sileiros. place: the Brazilians runways. Não tardou, os estudos feitos a bordo do “Rio Ja-
chal” ganharam dimensão e volumetria. A viagem A primeira prancha técnica a registrar a disposição
Palavras-chave Sítio do Patrimônio Mundial. Ges- Keywords World Heritage Site. Urban manage- Estados Unidos-Brasil ocorreu em 1956, e deu dos ministérios apresenta dezesseis blocos e dois
tão urbana. Esplanada dos Ministérios. ment. Esplanada dos Ministérios. bons frutos. No papel-carta do navio, Lucio Costa palácios distintos (Justiça e Relações Exteriores). Ao
registrou suas primeiras ideias para a capital. As longo de todo o ano de 57, Oscar desenvolveu os pro-
lâminas horizontais dos ministérios já aparecem jetos do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal
perfiladas, mas o desenho do Congresso ainda é o Federal e do Palácio do Planalto. Justiça e Itamaraty
que Sérgio Bernardes havia projetado para o Rio levariam mais tempo a assumir forma definitiva. O
de Janeiro em 1954/55. Por sua vez, nas perspec- projeto modelo para as demais sedes de ministérios
tivas não utilizadas como ilustração do Relatório do é de 1958. Trata-se de edifício de dez pavimentos,
Plano Piloto, Lucio recompõe o conjunto. Uma cate- executado em estrutura de aço, com planta livre de
dral, doze blocos ministeriais, quatro palácios e um base retangular. Obra a ser caracterizada por suas
novo Congresso (composto por embasamento, uma empenas cegas e pelas longas fachadas envidraça-
cúpula e uma lâmina vertical). O diálogo com Oscar das. Na sua simplicidade e repetição, os ministérios
Niemeyer faz-se direto. O arquiteto escolhido por cumprem função importante na composição geral,
Juscelino Kubistchek, já trabalhava para Brasília e marcam o compasso do desfile monumental e real-
era o Diretor do Departamento de Arquitetura e Ur- çam os demais palácios.
Quanto ao melhor local para a instalação de um banismo da Novacap. O Hotel de Turismo (Brasília
Circo-Voador em Brasília – no caso, o Grand-Circo- Palace Hotel) e a Residência Oficial (futuro Palácio O Relatório do Plano Piloto escrito por Lucio diz o
Lar – sou de parecer que deve ser localizado no da Alvorada) são de 1956. essencial. Imbuído de certa dignidade e nobreza de
centro da cidade, porque tudo que se possa fazer intenção, o urbanista propôs não apenas uma cida-
no sentido de vitalizá-lo deve ser bem acolhido. O edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da de qualquer, mas uma cidade-capital, possuidora do
(Lucio Costa, 1985) Nova Capital do Brasil foi oficialmente divulgado desejável caráter monumental, obtido a partir de

90 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 91
determinada ordenação e de requintado senso de das Relações Exteriores e o da Justiça ocupando os
conveniência. A ordenação se estabelece com apoio cantos inferiores, contíguos ao edifício do Congres-
do desenho estruturador dos dois eixos que se cru- so e com enquadramento condigno, os ministérios
zam. A conveniência nasce do jogo correto das esca- militares constituindo uma praça autônoma” – ideia
las propostas para as diferentes zonas programáti- logo abandonada –, “e os demais ordenados em se-
cas. Para um filho da Escola Nacional de Belas Artes, quência...” No desenho nº 8 pode-se compreender o
trata-se da eterna busca da composição correta e do sistema de circulação proposto e visualizar a mar-
caráter apropriado. quise/galeria de serviços, que deveria interligar os
blocos ministeriais, complemento fundamental, in-
Ao longo de vinte e três itens, Lucio explicou sua in- felizmente não executado. Já o croqui nº 10 mostra a
venção. O risco original, a adaptação topográfica, a disposição dos edifícios: quatro do lado sul e seis no
técnica rodoviária, a disposição do programa, o cru- lado norte. Ao todo, foram erguidos dezessete mi-
zamento dos eixos, a plataforma rodoviária, a rede nistérios-padrão, sete no sul e dez no norte.
geral de tráfego, a integração dos setores, o eixo mo-
numental, o centro de diversões da cidade, a faixa Muitos leram o Relatório do Plano Piloto. E, em ge-
rodoviária residencial, as superquadras e a cidade ral, o caráter monumental desejado e a ordenação e
-parque. Cada elemento de composição concebido o requinte perseguidos foram assumidos de manei-
“segundo a natureza peculiar da respectiva função, ra errada: preconceituosa e excludente. “Se o espaço
resultando daí a harmonia de exigências de aparên- é nobre, não pode ser apropriado e usufruído pela
cia contraditória” (COSTA [1957], in BRASIL, 2014). população”. No gramado só o “vazio” e, se possível,
sem calçadas, ciclovias ou árvores... Nada que atraia
A concepção da Esplanada dos Ministérios ficou re- o povão... Nada de eventos populares...
gistrada no item nove do Relatório e nos seus dese-
nhos de número 8 (setorização) e 10 (disposição). No entanto, a Esplanada dos Ministérios, fazendo
No texto, Lucio explicou a organização dos edifícios parte de um dos eixos estruturadores de Brasília, e
destinados aos poderes fundamentais da República local por excelência da vida política nacional, desde
e como, utilizando “técnica oriental milenar”, obteve muito cedo se consolidou simbolicamente. Ao longo
a “coesão do conjunto” e uma “ênfase monumental dos últimos anos, seu gramado central não recebeu
imprevista”. Ou seja, um terrapleno triangular para apenas os pedestres, as paradas e os desfiles como
os três poderes e outro, retangular, para a “ampla
esplanada” dos ministérios. E detalhou: “ao longo
1 The Mall é uma alameda cerimonial londrina, que une
dessa esplanada – o Mall, dos ingleses1 – extenso o Palácio de Buckingham (1837) ao Arco do Almirantado 1/2 Lucio Costa, Relatório do
gramado destinado a pedestres, a paradas e a des- (1912). Finalizada em 1911, foi projetada pelo arquiteto Plano Piloto, desenhos 8 e 10
files, foram dispostos os ministérios e autarquias. O Aston Webb. Fonte BRASIL, 2014

92 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 93
Preservando o que é de todos

imaginou Lucio. Mais do que isso, sendo o espaço Foi na década de 1980 que se consolidou o ciclo de da cidade resultou do estabelecimento de dois eixos do em áreas sem interesse para a Organização das
de poder da cidade e do país, vem testemunhando reconhecimento patrimonial da capital. Primeiro, – o cívico-administrativo, simbólico da civitas, por- Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cul-
alguns dos mais importantes momentos da história Aloísio Magalhães formalizou as atividades do Gru- tanto monumental e, perpendicularmente a ele, o tura (UNESCO) – e o inventado por ele – até então
brasileira. Esteve repleto de esperança na inaugura- po de Trabalho para a Preservação do Patrimônio eixo-rodoviário-residencial...” Destacava ainda que considerado “impraticável”. E que foi a condicionan-
ção da capital. Viu-se esmagado por tanques de guer- Histórico e Cultural do Distrito Federal. O GT Bra- a preservação do Plano Piloto implicava garantir a te internacional que fez sua proposta tomar corpo
ra após 1964. Despediu-se subversivamente de JK. sília, como passou a ser conhecido, reuniu especia- permanência da interação das quatro escalas, o res- legal aplicável. Inicialmente apresentado na forma
Renasceu com gritos de Diretas Já, em meio às chico- listas da Fundação Pró-Memória, da Universidade peito à estrutura viária, a manutenção das super- de palestras, o texto de Ítalo foi publicado pela Uni-
tadas de um general. Fez-se templo de oração aben- de Brasília e do Governo do Distrito Federal. Foi quadras e a integração com o Lago Paranoá. A tais versidade Federal do Rio de Janeiro (Arquitetura
çoado pelo Papa Peregrino. Recebeu a Constituição oficializado por meio do Decreto nº 5.819, de 24 de características essenciais, acrescentou três outras: Revista, v.7, 1989).
Cidadã. Festejou a seleção pentacampeã. Explodiu fevereiro de 1981, e suas análises e contribuições a importância do paisagismo, a presença do céu e o
de alegria com a posse de presidentes legitimamente pioneiras ainda hoje se mostram válidas. não alastramento suburbano. O artigo de 89 garantiu – e divulgou – a paternidade
eleitos. E, recentemente, foi dividido por vergonhoso do decreto de 87. Legitimou, portanto, a repetição
muro que separou os brasileiros e o Brasil. Tendo como base o material produzido pelo GT Frente à exigência do Conselho Internacional de Mo- do texto legal distrital, agora como instrumento
Brasília, o governador José Aparecido de Oliveira numentos e Sítios (ICOMOS), apelou-se para a regu- federal. O acautelamento pela Sphan do Conjunto
Com tanta força de atração, todos querem estar na encaminhou, em 31 de dezembro de 1986, o dossiê lamentação do artigo 38 da Lei n° 3.751, de 13 de Urbanístico de Brasília (CUB) ocorreu em momen-
Esplanada. Protestar ou comemorar; caminhar ou de candidatura de Brasília a Patrimônio Mundial. abril de 1960 (“qualquer alteração no plano piloto, a to político delicado. O processo de tombamento
correr; cantar ou dançar; brincar ou jogar; rezar ou No entanto, constatada a ausência de um instru- que obedece a urbanização de Brasília, depende de (1305-T-90) foi aberto a pedido do próprio Ítalo,
louvar. Tudo, sempre parece melhor na Esplanada mento de proteção do bem, a inscrição foi condicio- autorização em lei federal”). Foi quando Ítalo Cam- agora como Secretário do Patrimônio Histórico e
dos Ministérios. Lugar do que é público e do que nada à adoção de “medidas mínimas de proteção pofiorito, com participação direta de Lucio, ofereceu Artístico Nacional. O Conselho Consultivo analisou
é de todos. Ela não é o Mall dos ingleses, mas dos [que] garantam a salvaguarda da criação urbana de o texto que seria formatado como o Decreto Distrital a matéria, e por unanimidade, acompanhou o pare-
brasileiros. Costa e Niemeyer” (PERALVA, 1988, apud RIBEIRO, nº 10.829, de 14 de outubro de 1987. Assim, a ma- cer favorável de Eduardo Kneese de Mello, em nove
2005, p. 100). nutenção do Plano Piloto passou a ser assegurada de março de 1990. Logo, Ítalo assinou a Portaria nº
pela preservação das características essenciais das 4, em 13 de março de 1990, definindo os critérios
Em 1987, Lucio Costa percebeu que o centro ur- quatro escalas distintas em que se traduz a concep- de preservação do CUB. Dois dias depois, a Medida
bano de Brasília era muito diferente daquele por ção urbana da cidade: a monumental, a residencial, Provisória nº 151, do presidente Fernando Collor
ele imaginado. E que os brasileiros verdadeiros, a gregária e a bucólica. Como consequência, em sete de Mello, extinguiu a Pró-Memória e a Secretaria do
legitimamente, haviam tomado conta “daquilo que de dezembro de 1987, o Comitê do Patrimônio Mun- Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
não foi concebido para eles”. No mesmo ano, assi- dial aprovou a inscrição de Brasília.
nou Brasília Revisitada 1985/87 – complementa- Fechando o ciclo de reconhecimento patrimonial da
ção, preservação, adensamento e expansão urbana. Em 1989, Ítalo escreveu o seu Brasília Revisitada. capital, Jayme Zettel, então presidente do Instituto
Publicado pela revista Projeto nº 100, em junho, e Inicialmente, explicou que, antes da exigência do Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC), publicou a
anexado ao Decreto nº 10.829, em outubro, ainda ICOMOS, dois caminhos já estavam postos para a Portaria nº 314, de 8 de outubro de 1992, reedição
em 87 recebeu detalhada análise de Edgar Graeff. futura preservação do conjunto urbanístico: o tri- da Portaria nº 4, com o acréscimo de um parágrafo
No texto, Lucio reforçava que “a definição urbana lhado pelo GT Brasília – mais detalhado, mas foca- ao artigo 9º. Assim, foi garantida a Lucio Costa e a

94 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 95
Oscar Niemeyer – na condição de autores de Brasília elaborada com apoio do Centro de Imagens e Infor- Resta, portanto, o desejo de que a Esplanada dos
– a excepcionalidade de modificar ou complemen- mações Geográficas do Exército Brasileiro, em 23 Ministérios – preservada em sua concepção origi-
tar o monumento tombado. A alteração decorreu de dezembro de 2011, foi apresentado o parecer nal – mantenha o seu vigor. Que a ela a população
da vontade de permitir a instalação de um templo técnico para a definição da poligonal a ser conside- recorra para continuar a festejar suas conquistas,
no Eixo Monumental, exatamente onde era vedada rada como de entorno. Ato contínuo, foi publicada a reivindicar mais direitos e protestar contra todas as
qualquer edificação. A Portaria foi publicada e a Ca- Portaria nº 68, de 15 de fevereiro de 2012, que dis- formas de arbitrariedade. Uma Esplanada democrá-
tedral da Paz foi erguida. A exceção virou regra, e põe sobre a delimitação e diretrizes para a área de tica, capaz de receber todos e não discriminar cores,
não contribuiu para preservar o CUB. entorno do CUB. gêneros, credos, bandeiras e partidos. Uma Esplana-
da sem muros, como um dia terá que ser o Brasil. Ela
Em seu artigo 3º, a Portaria nº 314 definiu que “a As discussões sobre o PPCUB e a LUOS arrastaram- é a passarela dos brasileiros.
escala monumental, concebida para conferir à cida- se, sem um encaminhamento concreto, por todo o
de a marca de efetiva capital do País, está configu- governo Agnelo Queiroz (2011-15). Paralelamente,
rada no Eixo Monumental, desde a Praça dos Três o IPHAN foi forçado a fomentar uma discussão de
Poderes até a Praça do Buriti”. Para o canteiro cen- extremo significado: o da complementação e deta-
tral verde ficaram “vedadas quaisquer edificações lhamento da Portaria nº 314. Foi neste contexto que
acima do nível do solo, garantindo a plena visibili- a Superintendência produziu a Portaria nº 166, de
dade ao conjunto monumental”. 11 de maio de 2016 e, como um desdobramento na-
tural dela, a Portaria nº 184.
Foi a partir de 2011 que se estabeleceu um novo
ciclo. De um lado, motivado pela necessidade de o A Portaria nº 184, de 18 de maio de 2016, que esta-
IPHAN apresentar ao Comitê do Patrimônio Mun- beleceu os critérios e procedimentos para a autori-
dial a Declaração Retrospectiva de Valor Universal zação de instalações provisórias na Esplanada dos
Excepcional referente a Brasília; de outro, em fun- Ministérios e na Praça dos Três Poderes, é simples.
ção das discussões, por parte do Governo do Distri- Dividiu a porção do Eixo Monumental que vai da
to Federal, sobre a elaboração do Plano de Preser- Praça à Plataforma Rodoviária em seis quadrantes
vação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) prioritários e, para cada um, definiu parâmetros
e da Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS). Consi- de ocupação. Uma legislação não elitista. Os espe-
derando os dois temas muito delicados e extrema- táculos estão autorizados, desde que públicos. Os
mente importantes para a preservação de Brasília, o eventos esportivos e religiosos estão liberados e
IPHAN tomou a inciativa de delimitar a poligonal de regrados. O conceito de “instalação provisória” está
entorno do conjunto tombado. definido. Até mesmo os famigerados painéis de di-
vulgação, tradicionalmente afixados nas empenas
Tendo como base os estudos realizados pela Supe- dos ministérios, foram normatizados.
rintendência do IPHAN no DF e a base cartográfica

96 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 97
REFERÊNCIAS

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maio de 2016. Estabelece critérios e procedimentos
para a autorização de instalações provisórias na Es-
planada dos Ministérios, na Praça dos Três Poderes
e adjacências para fins de eventos temporários. Diá-
rio Oficial da União, Brasília-DF, ano 153, n. 96, 20
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portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/
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bro de 1987. Regulamenta o art. 38 da Lei nº 3.751,
de 13 de abril de 1960, no que se refere à preser-
3 Esplanada dos Ministérios: quadrantes vação da concepção urbanística de Brasília. Diário
prioritários, segundo a Portaria nº 184/2016 Oficial do Distrito Federal, Brasília, ano 12, n. 194,
Fonte iphan.gov.br 14 out. 1987. Suplemento. Disponível em: <http://

98 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 99
Mobilidade, acessibilidade e velocidade no Eixo Rodoviário
Paulo Cesar Marques da Silva

resumo abstract

O Eixo Rodoviário de Brasília, mais conhecido como The Roadway Axis of Brasília, better known as “Eix- A avenida Luiz Viana Filho, mais conhecida como de sentidos opostos ou a implantação de semáforos
“Eixão”, é um ícone do desenho urbano modernis- ão”, is an icon of modernist urban design. Part of a “Paralela”, faz importante ligação entre a área central para facilitar a travessia de pedestres costumam
ta. Parte de um complexo que tem ainda quatro complex that has four other tracks (the so-called e a região do aeroporto, no leste da cidade de Salva- aparecer de quando em quando, acirrando o debate
outras pistas (os chamados “Eixinhos”), o Eixão é “Eixinhos”), the Eixão is a wide strip of asphalt, 25 dor, Bahia. Uma pesquisadora que investigou as di- sobre alterações no projeto original.
uma ampla faixa de asfalto com 25 metros de lar- meters wide, cutting through the two wings that ficuldades que ciclistas residentes no Bairro da Paz,
gura, que corta longitudinalmente as duas asas que make up the Pilot Plan of Brasilia and works as a ao sul da via, enfrentam para chegar ao terminal de Tal enfoque, porém, oculta o que de fato está em
compõem o Plano Piloto e funciona como uma li- fast connection between the North and South exits ônibus de Mussurunga, localizado ao norte, colheu o jogo – não aspectos físicos do Eixão, mas sim suas
gação rápida entre as saídas norte e sul da cidade. of the city. At the same time, however, it strongly seguinte depoimento em um grupo focal: “atravessar características operacionais. Em outras palavras,
Ao mesmo tempo, porém, segrega fortemente suas segregates the eastern and western portions. The a Paralela é impossível, pois a Paralela é um muro quando se discute a melhor solução para o projeto
porções leste e oeste. Fator primordial a acentuar primary factor that accentuates such segregation is que se move a 80 km/hora” (SILVA, 2014, p. 197). A geométrico da via, a maior preocupação não tem
tal segregação, a velocidade no Eixão, regulamen- the speed limit on the Eixão, regulated at 80 km/h, descrição feita pelo ciclista baiano aplica-se a prati- sido a preservação do patrimônio arquitetônico,
tada em 80 km/h, vem sendo preservada em tal which has been kept at that level for decades, as if camente qualquer via que combine alta velocidade mas a garantia de manutenção das altas velocidades
patamar ao longo de décadas, como se fosse, ela it itself were a protected heritage object. This text e alta demanda, e que corte uma região com densa enquanto valor cultural inerente ao jeito brasiliense
própria, um patrimônio protegido. Este texto reúne brings simple arguments that seek, on the one hand, ocupação humana. O Eixo Rodoviário de Brasília – de ser. Este texto pretende jogar um pouco mais de
argumentos simples que buscam ressaltar, por um to highlight the negative effects of this high speed que também tem seu apelido, “Eixão” – não é exceção. luz sobre o significado da velocidade no Eixão para
lado, os efeitos negativos da operação da via em alta road and, on the other, the degree of illusion about a cidade e para a vida das pessoas.
velocidade e, por outro, o grau de ilusão que cerca some of its celebrated benefits. Cortando a capital federal de norte a sul, o complexo
alguns de seus celebrados benefícios. é formado pelo próprio Eixão e pelos chamados “Eixi-
Keywords Speed. Mobility. Traffic safety. Travel time. nhos” – o “de baixo” (Eixo L, a leste) e o “de cima” (Eixo
Palavras-chave Velocidade. Mobilidade. Seguran- W, a oeste). Os Eixinhos dão acesso indireto às super-
ça no trânsito. Tempo de viagem. quadras residenciais situadas a cada lado do comple-
xo e as interligam, com a velocidade máxima regu-
lamentada a 60 km/h. O Eixão, por sua vez, com os
mesmos 80 km/h da Paralela soteropolitana, tem uma
comunicação bem mais remota com as superquadras
e serve principalmente ao tráfego de passagem.

Ícone da era rodoviarista que marcou boa parte do


século XX, o Eixão não está livre de polêmicas. Tal-
vez a maior delas diga respeito ao que há nele para
ser preservado como materialização da arquitetura
modernista. Nos campos da Segurança no Trânsito
e da Engenharia de Tráfego, propostas como a cons-
trução de barreira de concreto separando os fluxos

100 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 101


Velocidade e tempo de viagem

Diferentes limites de velocidade implicam, obvia- correntes de tráfego. Isso ocorre porque, ao lado da
mente, diferentes tempos de viagem. Em trajetos velocidade (v) – uma grandeza com que se convive
longos, como são tipicamente os deslocamentos en- cotidianamente –, o tráfego também é caracterizado
tre cidades, tais diferenças são significativas e afe- por outras duas variáveis macroscópicas: o volume
tam fortemente as pessoas. Os acréscimos de tempo (ou fluxo, q) – que representa a quantidade de ve-
nas viagens intermunicipais aumentam os custos ículos que cruza determinada seção de uma via ao
de transporte e, em decorrência, podem afetar pre- longo de um dado intervalo de tempo – e a concen-
ços finais de produtos e serviços. Não é o caso típi- tração (ou densidade, k) – que traduz a quantidade
co, porém, de viagens que ocorrem em ambientes de veículos presente em um trecho de via em um
eminentemente urbanos, tipicamente mais curtas e dado instante (LEUTZBACH, 1988).
ao longo das quais as velocidades operacionais cos-
tumam variar. Apesar disso, alterações de limites Velocidade e concentração são grandezas inversa-
máximos de velocidade em vias inseridas em áreas mente proporcionais, como mostra esquematica-
urbanas costumam ser cercadas de polêmica. mente a Figura 1. Em uma situação extrema, mais
comumente observável nas madrugadas, quando a
A cidade de São Paulo, por exemplo, vivenciou esse concentração é baixíssima, as velocidades poderiam
debate ao longo do ano de 2015, quando a Prefeitu- corresponder à condição chamada de fluxo livre, e só
ra local decidiu reduzir de 60 para 50 km/h o limite não atingem tal patamar por causa das limitações es-
de velocidade das vias arteriais da cidade, e de 90 tabelecidas em normas e dos correspondentes me-
para 70 km/h o limite nas pistas expressas das vias canismos de fiscalização. À medida que crescem os
marginais dos rios Pinheiros e Tietê. A acalorada valores de concentração, decrescem os de velocida-
discussão em torno da medida, que envolveu até o de. Com concentrações intermediárias, observam-se
Ministério Público Estadual e instâncias judiciais valores máximos de fluxo, mas as velocidades já são
locais, passava pela consideração de que seria des- reduzidas, restringidas pela presença de muitos veí-
cabido reduzir as velocidades em vias que já viviam culos que dificultam até mesmo as mudanças de faixa
boa parte do tempo congestionadas. de rolamento que poderiam assegurar ao motorista
livrar-se de veículos mais lentos à sua frente. Se a
Aí reside um aspecto óbvio, mas que costuma pas- concentração continua crescendo além dessa região
sar despercebido ao senso comum: na maior parte da curva, também o fluxo (a quantidade de veículos
das viagens urbanas que fazem em seu dia-a-dia, que a via consegue escoar por unidade de tempo) co-
muito raramente as pessoas conseguem atingir as meça a cair. Tais comportamentos continuam sendo
velocidades regulamentadas para as vias, mesmo observados até que, no extremo oposto dos diagra- 1 Diagramas da relação entre volume (q), velocidade (v) e
quando as vias não são controladas por dispositivos mas, a concentração é máxima e a velocidade tende concentração (k) do tráfego
como os semáforos, que causam intermitência das a ser nula. Naturalmente, como os veículos não mais Fonte Elaborado pelo autor (2016)

102 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 103


Mobilidade e acessibilidade

conseguem se mover, o fluxo também tende a zero. É É importante destacar que esse trecho, que o brasi- Mobilidade e acessibilidade são termos cujos sig- mas isso não é considerado aqui. Entre as categorias
a condição de congestionamento absoluto. liense faz questão de percorrer de carro em menos nificados têm evoluído muito ao longo dos anos, funcionais, as funções básicas de um sistema viário
de um quarto de hora, atravessa o centro da cidade. gerando uma profícua produção acadêmica de na- são distribuídas conforme o diagrama da Figura 2.
Aí se vê, portanto, que os valores reduzidos de Não é uma expectativa realizável em outras cidades. tureza conceitual. No vocabulário mais convencio-
velocidade que se experimentam nas cidades de- Moradores e frequentadores do Rio de Janeiro, por nal da Engenharia de Tráfego, os termos adquirem Com seus 80 km/h de velocidade regulamentada,
vem-se muito mais à saturação das redes viárias exemplo, podem comparar esse trajeto com uma significados um tanto diversos dos que vêm sendo três faixas de rolamento por sentido e volumes de
do que aos limites, impostos quase sempre por ra- viagem entre o aeroporto Santos Dumont e a praia mais frequentemente adotados. Nesses limites, tráfego que podem chegar a algo em torno de 6000
zões de segurança. do Leblon, passando pelo Aterro de Flamengo e as acessibilidade pode ser entendida no sentido que veículos/h por sentido (embora com velocidades
avenidas Atlântica, Vieira Souto e Delfim Moreira. Vasconcellos (2000) chama de microacessibilida- na faixa de 30 a 40 km/h, como se acabou de ver),
Adicionalmente, é comum que condutores de veícu- Para os paulistanos, a extensão equivale uma via- de, ou seja, a facilidade com que se chega, a partir o Eixão está no topo do diagrama, ou seja, propor-
los automotores tenham uma percepção distorcida gem de ida e volta entre o Largo da Batata e a esta- da via, ao destino final de uma viagem ou ao veículo ciona altíssima mobilidade e nada de acessibilidade
dos tempos consumidos em suas viagens. Assim ção de metrô do Paraíso, passando pelas avenidas que se vai utilizar para realizá-la (para Vasconcellos, para os veículos que por ele trafegam. À mobilidade
como ocorreu em São Paulo por ocasião da alteração Brigadeiro Faria Lima, Rebouças e Paulista. Depen- macroacessibilidade está associada à facilidade com que proporciona no sentido norte-sul, entretanto,
da velocidade nas marginais, propor a revisão da ve- dendo do horário, os paulistanos gastarão até mais que se cruza o espaço). Quanto a mobilidade, a lei corresponde uma forte impedância às ligações no
locidade máxima permitida no Eixão costuma gerar de 15 minutos mesmo para percorrer os parcos 5 que estabeleceu as diretrizes da Política Nacional de sentido leste-oeste. As áreas comerciais locais das
veementes reações, como se os tempos de viagem km entre o Largo do Paissandu e a arena do Palmei- Mobilidade Urbana (BRASIL, 2012) a define como a superquadras residenciais a cada lado do Eixão são
fossem crescer absurdamente. Os números da rea- ras, passando pelo famoso Minhocão. “condição em que se realizam os deslocamentos de ligadas duas a duas, como mostra a Figura 3. Nela
lidade, no entanto, não justificam tanta resistência. pessoas e cargas no espaço”, mas na tradição da En- estão retratadas as ligações entre os Comércios Lo-
Seja como for, a partir das experiências vividas em genharia de Tráfego o termo está associado à quan- cais Norte (CLN) das superquadras 105/106 a oeste,
A título de ilustração, considere-se reduzir a velo- Brasília e outras cidades ou com o suporte da Teoria tificação de movimento – seja de pessoas, bens ou 205/206 a leste e, cerca de 720 metros ao sul, entre
cidade máxima do Eixão para 60 km/h. Tomando do Fluxo de Tráfego, a constatação a que se chega é de veículos – que determinada via é capaz de acomodar. os CLN das superquadras 103/104 e 203/204. Tais
como pontos de referência o trevo rodoviário exis- que a velocidade é excludente, por natureza. Para que ligações diretas entre as superquadras são em nú-
tente na extremidade sul e a ponte do Bragueto uma via proporcione alta velocidade, poucas pessoas Mobilidade e acessibilidade, assim entendidas no mero de oito na Asa Norte e oito na Asa Sul da cida-
ao norte, o Eixão tem aproximadamente 15 km de poderão usá-la. Isso sem falar da apropriação des- âmbito da Engenharia de Tráfego, são as principais de. São passagens com uma faixa por sentido e, por
extensão. Considerando esses marcos, por simples mesurada de espaço para a circulação veicular. Como funções das vias, mas não podem ser propiciadas serem em desnível, por baixo do Eixão e Eixinhos,
conveniência, e a velocidade de 80 km/h ao longo bem demonstram os trevos rodoviários e outras so- com a mesma qualidade por qualquer via. Por isso com limitação de altura para o trânsito de veículos.
de toda a via – como se não houvesse a redução no luções em diferentes níveis que satisfaçam os requi- o sistema viário, seja ele urbano ou rural, costuma Não por acaso, não há linhas regulares de transpor-
trecho do mergulho sob a Rodoviária do Plano Pilo- sitos de fluidez para o tráfego motorizado, para que ser subdividido em categorias funcionais reconhe- te coletivo convencional fazendo essas ligações.
to, conhecido como “Buraco do Tatu” –, o tempo to- seus usuários desfrutem de velocidades realmente cidas universalmente (por exemplo, em AASHTO,
tal de percurso seria de 11 minutos e 15 segundos. altas, muito espaço precisa ser subtraído de outras 1990): os sistemas arteriais, coletores e locais – a Se o complexo formado por Eixão e Eixinhos é pou-
Se o mesmo trecho for percorrido à velocidade de possibilidades de uso para ser alocado à circulação normatização brasileira (BRASIL, 1997) confunde co permeável à circulação veicular entre as porções
60 km/h – que é o limite no trecho do mergulho –, a de veículos motorizados de transporte individual. critérios funcionais com operacionais e acrescenta a leste e oeste de cada asa, a impedância é maior ain-
viagem durará meros 15 minutos. Toda a polêmica, categoria “vias de trânsito rápido” como sendo hie- da para as pessoas a pé. No mesmo trecho retratado
portanto, diz respeito a menos de 4 minutos. rarquicamente superior ao sistema arterial urbano, na Figura 3 existem passagens subterrâneas para

104 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 105


Velocidade e (in)segurança

pedestres ligando apenas as quadras 105 e 205, e Diferentemente do que muitos acham, não é verda-
103 e 203, também distantes cerca de 720 metros de que velocidade e segurança sejam apenas inver-
entre si. Isso obriga muitas pessoas a estenderem samente proporcionais. A relação não é linear. Se se
muito seus deslocamentos, se quiserem cruzar com tomam exemplos práticos e simples, a real relação
alguma segurança os cerca de 160 metros que sepa- entre a grandeza da velocidade e o grau de ameaça à
ram as quadras dos dois lados do Eixão. Chegando a segurança no trânsito fica mais clara.
esses pontos de travessia, as pessoas precisam des-
cer cerca de 3 metros por escada ou rampa, ao fim O caso de colisões é um dos que podem funcionar
das quais deparam-se com uma esquina cega: não fa- bem para esse fim. A energia trocada numa colisão,
zem ideia de quem ou o que encontrarão ao dobrá-la. energia cinética dos corpos envolvidos, é igual ao
Ao longo dos 160 metros de percurso retilíneo, não produto da metade da massa pelo quadrado da ve-
visualizam a saída, pois ao completarem a travessia locidade relativa entre eles. Para simplificar, se a co-
encontram outra esquina cega que precisam dobrar lisão for de um veículo de 1 tonelada a 40 km/h com
para acessar outra escada ou rampa que as levará de um objeto fixo, a energia do choque é de 62 kJ. Se o
volta à superfície. mesmo veículo estiver a 80 km/h, a energia do cho-
que não será de 124, mas de 247 kJ. Da mesma for-
Por tudo isso, para um grande número de pessoas, ma, se o choque ocorrer a 30 km/h, a energia será
é preferível enfrentar os riscos de uma travessia no de 35 kJ, ou seja, pouco mais da metade da energia
leito da via, à vista do público, a alongar seus tra- do choque a 40 km/h.
jetos diários para passar incógnitas por trechos
CLN 205/206
frequentemente mal iluminados, mal conservados, Se a diferença entre os números surpreende, o leitor
CLN 105/106
desertos e sujeitos às ações de assaltantes e outros certamente ficará ainda mais impressionado se ima-
malfeitores. Por mais irracional que essa lógica pos- ginar que, em do lugar de um objeto fixo, rígido como
sa parecer (principalmente para quem não tem que um poste, o mesmo veículo de 1 tonelada encontrou
realizar a travessia do Eixão todos os dias), ela ex- o corpo de uma pessoa. Não há chance de essa pes-
pressa um dilema real: a escolha entre obedecer às soa sobreviver à carga de 247 kJ. Com 62 kJ, há chan-
regras de segurança de trânsito e seguir o instinto ce de sobrevivência, embora com sequelas. Mas uma
2 Distribuição das funções do siste- de proteção contra o desconhecido. nova redução de apenas 10 km/h pode resultar em
ma viário ferimentos dos quais a pessoa atropelada certamen-
Fonte Elaborado pelo autor (2016) te se recuperará. Não é outro o motivo da prolifera-
ção de “Zonas 30” em tantas cidades mundo afora.
CLN 203/204 3 Trecho do Eixão Norte
CLN 103/104
Fonte Elaborado pelo autor sobre Outro exemplo que ajuda a mostrar que a relação
base Google Earth (2016) entre a redução da velocidade e o aumento da se-

106 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 107


A título de conclusão

gurança não é linear é um que ilustra a chance de Não há mobilidade sem fluidez, isso é certo. E, qual- propostas de erguer barreiras na faixa central da
evitar acidentes. Quando surge uma condição que o quer que seja o sistema de medidas que se adote, via, que segreguem fisicamente os fluxos veiculares
motorista precisa parar o veículo para conseguir evi- a velocidade sempre figurará como um indicador em sentidos opostos e, de quebra, inibam o uso do
tar, há um tempo que ele consome até iniciar a fre- apropriado para expressar a fluidez. Na circulação leito viário por pessoas que queiram atravessá-lo a
nagem – o chamado tempo total de reação. Durante de pessoas e veículos dentro da cidade, porém, é ne- pé. Este texto não teve como objetivo dar uma res-
esse tempo, o veículo segue trafegando a velocida- cessário que a fluidez seja compreendida e buscada posta categórica à questão. Mas buscou reunir argu-
de constante. É comum considerar, para situações em conjunto com outros objetivos que ajudem a ex- mentos que desencorajem as propostas que dariam
inesperadas que exigem a parada do veículo, que o pressar as funções urbanas. ao Eixão características ainda mais acentuadas de
tempo total de reação seja algo em torno de 2 segun- uma via expressa – e consequentemente inóspita.
dos. O veículo percorrerá nesse intervalo a distância Neste pequeno texto foi possível apreciar, ainda que
de 44 metros se estiver a 80 km/h, 22 metros a 40 breve e superficialmente, alguns aspectos da veloci- A intenção de preservação do patrimônio cultural
km/h e 17 metros a 30 km/h. É a partir daí, porém, dade veicular em áreas urbanas aos quais o senso co- de Brasília em suas formas é muito nobre. Nobre
que a relação deixa de ser linear. Se o motorista con- mum nem sempre está atento – ou dos quais tem uma demais para ser contaminada com outros valores,
seguir aplicar na frenagem uma desaceleração de 3 percepção nem sempre correspondente à realidade. estranhos aos princípios de equidade que inspira-
m/s2 sem perder o controle do veículo, parará de- Foi visto que o aumento da velocidade faz crescer ram seus criadores. Definitivamente, a cultura da
pois de percorrer mais 82 metros se tiver iniciado a exponencialmente (e não linearmente) não apenas a velocidade não faz parte do patrimônio de Brasília
manobra a 80 km/h, 21 a 40 km/h e apenas 12 a 30 severidade dos chamados acidentes de trânsito, mas e não há por que ser preservada.
km/h. Ou seja, no caso descrito, a distância total de também a própria probabilidade de eles ocorrerem.
parada será de 126, 42 ou meros 27 metros, confor-
me a velocidade inicial seja de 80, 40 ou 30 km/h. Também foi visto que a velocidade alta é excludente,
tanto porque ela exige que poucos veículos usem a
Portanto, não se trata apenas da energia do choque, via simultaneamente como também porque a infra-
mas principalmente da possibilidade de evitar (ou estrutura que ela requer implica na destinação de
não) a ocorrência da colisão (ou do atropelamento). amplos espaços que, de outra forma, poderiam ter
outros usos. Outro fator que o texto abordou foi a
mitificação da economia de tempo. Os tempos de
viagem dentro das cidades dependem muito pouco
dos limites estabelecidos como velocidades máxi-
mas das diversas vias.

Tudo isso foi discutido a propósito do que precisa


ser feito no Eixo Rodoviário de Brasília, o famoso Ei-
xão, palco de atropelamentos e colisões frontais, en-
tre outras ocorrências violentas. Não raro, surgem

108 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 109


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110
112 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 113
Conjunto Urbanístico de Brasília: da preservação e outros demônios
Carlos Madson Reis

resumo abstract introdução

O Conjunto Urbanístico de Brasília foi o primeiro The urban ensemble of Brasília was the first cultu- Brasília chega aos 57 anos. Para uma cidade, é um que sua condição etária, é a história que ela nos conta.
bem contemporâneo a ser titulado como Patrimônio ral object of our age to be included in the UNESCO tempo de vida diminuto. Para nós brasilienses, que Ou seja, é a resposta que ela dá às nossas perguntas,
Cultural da Humanidade, em 1987, com apenas 27 World Heritage List in 1987, 27 years after its inau- ainda vivemos em um país de história recente, essa como disse Calvino (1990). Em Brasília, o mais ex-
anos de existência. Em 1990, por meio de tomba- guration. It was listed as a cultural heritage by Bra- condição ressalta a jovialidade urbana da capital bra- pressivo conjunto urbano produzido na idade moder-
mento federal, passou a integrar o patrimônio cultu- zilian government in 1990. This article deals with sileira, que apenas inicia a sua terceira geração de na- na, essa questão assume dimensões inimagináveis.
ral brasileiro. Este artigo trata de questões afetas à issues related to preservation and management of tivos. O Rio de Janeiro, a ex-capital do país, com seus
preservação e à gestão desse conjunto. Passados 30 that urban ensemble. 30 years after its listing by 450 anos, já está em sua décima quinta geração. Roma, Embora jovem, sua narrativa remonta ao imaginário
anos da titulação pela UNESCO, argumenta-se que a UNESCO the city still suffers with an inconsistent, a cidade eterna, irmanada com Brasília por também da concretude do Brasil como nação autônoma. Fato
cidade continua com uma política de gestão e preser- erratic and weakly articulated management policy, festejar sua fundação em 21 de abril, aproxima-se dos que associado à concepção urbana da cidade, oriun-
vação inconsistente, errática e pouco articulada en- which might be shared with the local government. três mil anos, ou seja, da centésima geração. da de projeto autoral repleto de signos e expecta-
tre as instâncias federal e local. Dois fatores concor- Two factors contribute to this situation: the first tivas, constitui fenômeno de admirável simbologia.
rem para isso: a jovialidade urbana de Brasília, que one is Brasília’s youth, due to which its urban pro- Nenhuma cidade integrante da Lista do Patrimônio Para muitos, inclusive, constitui obra expressiva de
leva sua cultura urbanística a ser moldada pelo ideá- cedures are molded by its pioneers’ culture; the se- Mundial é tão jovem. Nem mesmo Le Havre, cida- nossa capacidade criativa e realizadora, marco da
rio mítico de seus idealizadores e pioneiros, ou seja, cond is the political and institutional level reached de francesa igualmente titulada como patrimônio entrada efetiva do país ao mundo moderno. Daí o
de sua primeira geração; e o patamar político-insti- by the urban management system nowadays, cha- mundial moderno, que chega aos seus 500 anos em merecido júbilo por sua titulação como Patrimônio
tucional em que se encontra o sistema responsável racterized by instability, transitoriness, disarticula- 20161. Essa inusitada temporalidade de Brasília per- Cultural da Humanidade, com apenas 27 anos.
por essa atividade, caracterizado por instabilidade, tion and precariousness. mite, por exemplo, ainda nos depararmos em seu co-
transitoriedade, desarticulação e precariedade. tidiano com protagonistas de sua construção e mo- A consolidação de Brasília como a nova capital do
Keywords Brasília. Preservation. Urban manage- radores dos primeiros dias. Assim, é preciso cautela Brasil redirecionou o eixo econômico do litoral para
Palavras-chave Brasília. Preservação. Gestão ur- ment. Urban ensemble. City. ao se participar de debates sobre a fase pioneira da o interior e teve rebatimento extraordinário na con-
bana. Conjunto urbanístico. Cidade. cidade, pois não é incomum nossa versão ser contes- formação geopolítica do país, feito que alterou para
tada por testemunhas desse período, fato impensá- sempre os marcos da historiografia nacional. Desde
vel para as demais cidades patrimônio mundial, que 1960, ano de sua inauguração, nossa história pas-
têm suas histórias já estratificadas e seus pioneiros sou a ser demarcada por antes e depois de Brasília.
vivem apenas na memória da população.
Mas o que a condição etária-urbanística de Brasília
É certo que uma cidade não pode ser lida somente implicaria no seu processo de preservação e gestão?
por sua dimensão temporal. Bem mais importante do Muita coisa, pois além da prosaica possibilidade de,
em um debate qualquer, a nossa narrativa ser con-
tradita por testemunhas dos tempos iniciais, o fres-
1 Le Havre foi fundada em 1517. Foi uma das cidades
cor sociourbano da cidade explica vários aspectos
francesas mais bombardeada na Segunda Guerra. A área
inscrita na UNESCO, em 2005, corresponde à parte re- do contexto em que esse processo se realiza. Aqui
O diabo não há. Existe é o homem humano. construída, a partir do projeto do arquiteto Auguste Perret. trataremos de apenas dois desses aspectos.
Guimarães Rosa (1908-1967)

114 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 115


Cidade e memória

O primeiro se relaciona à cultura urbanística predomi- O segundo aspecto refere-se ao patamar políti- Como bem disse Reissman, “a cidade, provavelmen- imaginários onde a racionalidade humana e a har-
nante em Brasília, forjada pela ação de seus idealiza- co-institucional em que se encontra o sistema de te, é a maior criação humana”2. Fruto do movimen- monia das formas triunfariam e nos devolveriam o
dores e construtores, ou seja, da sua primeira geração. preservação e gestão da cidade, marcado por insta- to histórico determinado pelo dinamismo e pela sonhado paraíso que nos foi tirado. É o mito da cida-
Esse ideário se fundamenta na obediência extempo- bilidade, transitoriedade, desarticulação e precarie- vitalidade das relações humanas, esse instigante e de ideal, um território diáfano e sem males, anseio
rânea dos princípios preconizados pelos CIAM’s (Con- dade. Suas instituições estão sempre às voltas com indecifrável artefato traduz o intricado percurso ci- tão arraigado entre nós.
gresso Internacional de Arquitetura Moderna), no reformulações, nos dando a impressão de serem vilizatório humano, acolhendo as contradições, a di-
início do século XX. Tal pensamento, preso a um pas- sempre noviças. Essa condição, associada à baixa versidade, as transformações e disputas que lhe são É compreensível, portanto, que sobreviva em nos-
sado idealizado, centra-se na manutenção dos ideais e prioridade desse tema na agenda governamental, inerentes. Materializada ao longo do tempo pela con- so imaginário a busca da materialização de luga-
signos contidos na concepção da cidade. Assim, alheio bem como aos interesses particulares dos grupos tribuição indistinta de várias gerações, constitui o res idealizados como os descritos na República de
à realidade urbana, busca obsessivamente preservar hegemônicos, fragmenta e enfraquece o processo de espaço basilar do registro de memórias distintas de Platão (século IV a.C.), na Utopia de Thomas Morus
a representação simbólica embutida em seu projeto, preservação do patrimônio urbano cidade, situação tempos diversos. Daí o fascínio, a inspiração e mes- (1516), na Cidade do Sol de Tommaso Campanella
mostrando-se impermeável à historicidade do espaço. igualmente comum às demais unidades federativas. mo o temor que ela nos infunde. Mais do que o gran- (1602), na Nova Atlântida de Francis Bacon (1627),
de palco humano, a cidade é o próprio espetáculo. no Eldorado de Voltaire (1767) e – por que não? –
É como se o ideário urbano modernista tivesse cum- Esse fenômeno agrava-se pela incipiente articula- na Ville Radieuse de Le Corbusier (1935) e nas sub-
prido seus propósitos e atravessado incólume todo ção entre as ações dos governos federal e distrital, A história nos mostra que o surgimento das cidades sequentes propostas de seus discípulos.
o século anterior, sem contraponto. Sob essa com- que, à revelia das determinações constitucionais, está fundado no desejo da ordem e da razão. A bus-
preensão, portanto, deve permanecer como modelo atuam de maneira independente no processo de ca da racionalidade e da perfeição, em contraponto Brasília também se insere no rol dos espaços ideali-
de modernidade urbana a ser buscado e perenizado. preservação do patrimônio urbano da cidade. Na à vida real, entendida como absurda e caótica, tem zados sob a égide da ordem e da razão. Seu projeto
Essa ideologia hegemônica e os limites temporais verdade, a esfera local se ressente da ausência de sido o vetor da trajetória humana. Segre (1992), ci- urbanístico, concebido por Lucio Costa no âmbito
de seus signos ainda são vigorosos o suficiente para um órgão estruturado e capacitado para dialogar e tando Hannah Arendt e Ángel Rama, lembra que “a dos princípios corbusianos, traz forte idealismo for-
imprimir sua força e mantê-la sedutora aos olhos da atuar em parceria com o IPHAN, na mesma dimen- cidade desde as suas origens constitui uma abstra- mal, funcional e estético, onde as diferenças sociais
sociedade de hoje. Qualquer movimento fora desse são político-institucional. ção humana que se contrapõe à desordem da desen- poderiam coexistir harmoniosamente. Consoante a
script deve ser combatido como ameaça à pureza e à freada variedade da natureza (Arendt) e não nasce sua genealogia busca instituir um modelo harmôni-
originalidade do projeto inicial. Tal conjuntura interfere no modelo de preservação da memória, mas sim do sonho da ordem (Rama)”. co, belo e completo de cidade, numa lógica discipli-
adotado, impondo limites conceituais e operacionais nadora, higienista e esteticamente pura.
Essa postura é de frágil argumentação e conduz a à sua estruturação e ao seu desempenho, razão para Esse é o sentimento que tem levado diversos pen-
uma série de contradições e equívocos no processo que o Conjunto Urbanístico de Brasília, 30 anos após sadores, em tempos distintos, a idealizar lugares Como analisou Ángel Rama (2015), esses anseios
de preservação e desenvolvimento urbano da cida- sua titulação pela UNESCO, continue com uma polí- têm origens antigas e comungam com a ideologia
de. Alterações e adaptações na proposta original, tica de preservação e gestão inconsistente, errática e racionalizadora praticada vigorosamente no Novo
como se sabe, surgiram ainda na fase do concurso desarticulada entre as instâncias federal e distrital. 2 Hernán Crespo Toral (1994), diretor do Escritório Regio- Mundo, a partir do século XVI, por conta das exi-
do seu projeto. A própria Comissão Julgadora reco- nal de Cultura para América Latina e Caribe, da UNESCO, gências colonizadoras do continente europeu. Re-
citou assim Leonard Reissman em discurso de abertura
mendou que a cidade fosse implantada mais a leste, É dessas questões que trata este artigo. do Seminario Taller: Reabilitación Integral en Areas o
gramento civilizatório de caráter iluminista, que
aproximando-a do lago, medida que provocou sub- Sitios Historicos Latinoamericanos, ocorrido em Quito fundou um sistema hegemônico de moldagem não
sequentes alterações ao seu desenho. (Equador) em 1994. só do presente, mas de um futuro igualmente pla-

116 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 117


[página ao lado]
1 Desenho de Tenochtitlán elaborada pelos Mexicas e 2 Cidade do México (Tenochtitlán) em 1628
doado a Hernán Cortés entre 1519-1521 Fonte mexicomaxico.org/Tenoch/Tenoch5.htm#1628
Fonte http://migre.me/vFNFq

nificado que, erguendo e destruindo coisas belas, que as desenhavam nos planos, ainda que, com mais
requeria “nova distribuição de espaço” para acolher frequência, na imagem mental que tinham os funda-
um novo modo de vida. Algo impossível na Europa, dores desses planos, os que podiam sofrer correções
“pela sabida frustração do idealismo abstrato diante derivadas do lugar ou de práticas inexpertas. Pensar a
da concreta acumulação do passado histórico, cuja cidade competia a esses instrumentos simbólicos que
obstinação material freia qualquer voo livre da ima- então adquiriram sua pronta autonomia, de forma que
ginação” (RAMA, 2015). os adequasse ainda mais às funções que lhes reclama-
va o poder absoluto. (RAMA, 2015, grifado no original)
Desde a remodelação de Tenochtitlán, logo depois de
sua destruição por Hernán Cortés em 1521, até a inau- O projeto de Brasília está descrito no antológico Re-
guração, em 1960, do mais fabuloso sonho de urbe de latório do Plano Piloto de Brasília, e foi selecionado
que foram capazes os americanos – a Brasília de Lúcio por meio de concurso público, em 1957. Em acordo
Costa e Oscar Niemeyer –, a cidade latino-americana com os ventos do momento, traduzia o desejo de um
vem sendo basicamente um parto de inteligência, pois país que ansiava romper com seu passado colonial,
ficou inscrita em um ciclo de cultura universal em que visto como sinônimo de atraso, e se afirmar como
a cidade passava a ser um sonho de uma ordem e en- nação autônoma, moderna e original. Esse senti-
controu, nas terras do novo continente, o único lugar mento foi germinado ainda no Estado Novo, sistema
propício para encarnar. político que vigorou no Brasil de 1937 a 1945, que
tinha como uma de suas premissas fortalecer o sen-
Os próprios conquistadores que as fundaram foram timento de nacionalidade, instituindo novas bases
progressivamente percebendo, no transcurso do sécu- para o desenvolvimento da nação. Era preciso criar
lo XVI, que haviam se afastado da cidade orgânica me- o novo homem brasileiro.
dieval em que haviam nascido e crescido para entrar
em uma nova distribuição do espaço, que enquadrava A concepção urbana de Brasília, de grande vigor
um novo modo de vida, que já não era o que haviam morfológico e imagético, foi completada e valoriza-
conhecido em suas origens peninsulares. da pela expressiva arquitetura de Oscar Niemeyer,
elemento decisivo para definir a feição urbanística
[...] da cidade. Niemeyer influenciou e participou efe-
tivamente do processo construtivo da nova capi-
Uma cidade, previamente à sua aparição na realidade, tal, sendo autor dos principais palácios e edifícios
devia existir numa representação simbólica que ob- governamentais – alguns, inclusive, reconhecidos
viamente só poderia assegurar os signos: as palavras, como os mais belos e significativos exemplares do
que traduziam a vontade de edificá-la na aplicação de Movimento Moderno na Arquitetura, tais como o
normas, e, subsidiariamente, os diagramas gráficos, Congresso Nacional, os Palácios da Alvorada, do

118 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 119


Planalto, do Itamarati e da Justiça, os edifícios mi- dificultam a apropriação dos espaços públicos e en-
nisteriais, a Catedral, entre tantos outros. É impos- carecem os custos de manutenção – características
sível imaginar uma arquitetura tão bem ajustada ao mórficas inerentes à configuração do espaço urbano
projeto de Brasília. modernista. Lucio Costa (1995, p. 303), ao se referir
aos princípios que nortearam a concepção de seu
Sua estrutura urbana inova e traz em sua raiz ele- projeto, afirma:
mentos de outros modelos urbanísticos, o que rea-
firma o amplo repertório urbanístico utilizado em A ordenação geométrica das quadras e a largueza dos
sua concepção. No entanto, é no cumprimento dos espaços no eixo monumental permitiram integrar os
princípios funcionalistas da corrente corbusiana “velhos” princípios corbusianos da cidade radiosa e a
que sua representatividade histórica desponta. Des- lembrança das belas perspectivas de Paris em um todo
se modo, as funções urbanas básicas, previamente organicamente articulado. [...]
definidas – morar, circular, trabalhar e recrear –, es-
tariam “higienicamente ordenadas” e funcionariam No que concerne à sua expressão arquitetônica, Bra-
em uma dinâmica harmônica. As escalas urbanas sília obedece a um conceito ideal de pureza plástica,
definidas por Lucio Costa para explicar a concep- onde a intenção de elegância – firme e despojada – está
ção da cidade – monumental, gregária, residencial sempre presente. Embora se trate de uma concepção
e bucólica –, guardam exemplarmente essa relação formal livre e, neste sentido, oposta ao conceito estri-
conceitual, funcional e formal. tamente estrutural de Nervi, por exemplo, e embora
tenha sofrido restrições mais ou menos preconcebidas
Nesse sentido, traduz, como nenhuma outra cida- da parte de certos críticos desconhecedores do texto
de, os paradigmas do movimento moderno: caráter e riscos originais, Brasília, tanto por sua planificação
idealista (espaço urbano harmônico), funcionalista como por sua arquitetura, corresponde a uma realida-
(cada atividade tem lugar definido), determinista (a de e a uma sensibilidade brasileiras, e assim represen-
morfologia definiria sua ordem social) e tecnicista ta – conquanto de filiação intelectual francesa – uma 3 Planta do Plano Piloto de Brasília,
(moderna técnica urbanística). Condição que a ca- contribuição válida nativa que o tempo consolidará. 1957
racteriza como uma das estruturas urbanas mais Fonte Relatório do Plano Piloto de
singulares do mundo - “para o bem e para o mal”, O Brasil é decididamente um país preocupado em Brasília. Acervo IPHAN
como observou Holanda (2010). ser moderno, ainda que este conceito esteja im-
pregnado de ambiguidades e contradições (CUNHA, 4 Vista do Palácio do Itamaraty.
Esses princípios se materializam em forte setori- 1992). Assim, não é difícil entender a força sedu- Fonte Carlos Madson Reis
zação funcional, baixa densidade na ocupação do tora do discurso inovador embutido na concepção
solo e rarefação do tecido urbano, que, aliadas às e na implantação do projeto de sua nova capital, 5 Vista da Esplanada dos Ministério
grandes distâncias e aos enormes vazios urbanos, elemento decisivo para aceitação social majoritária Fonte Carlos Madson Reis

120 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 121


dessa iniciativa. Brasília tinha, por assim dizer, uma graves problemas sócio-econômicos, a revalorização Intui-se, assim, que os modernistas estavam conven- dose de mitificação e grande inquietude quanto à
missão infalível a cumprir no processo de moderni- do homem para evitar o ‘caos’ (cf. Gomes, 1982); no re- cidos de que a arquitetura moderna, com sua lógica sua preservação, componentes que pontificam na
zação e ordenamento da nação, ideal caro aos seus formismo corbusiano a categoria arquitetura substitui racionalista, formalista e tecnicista, associada a uma cultura urbanística local, gestada na fase pioneira,
idealizadores e construtores (primeira geração), a categoria trabalho: “A engrenagem social, profunda- visão de mundo harmônico, belo e homogêneo, ha- onde interpretação e realidade se confundem.
que se reflete em sua espacialização e ainda causa mente perturbada, oscila entre uma melhoria de im- via encontrado a fórmula para a instituição de uma
tanto fascínio nos dias de hoje. portância histórica ou uma catástrofe. É uma questão nova sociedade. Sobre esse momento peculiar da É preciso dizer, porém, que Brasília tem irrefutáveis
de construção que está na chave do equilíbrio rompido nossa história, Lucio Costa (1995, p. 131) pondera: qualidades urbanísticas que precisam ser preser-
Na busca de modernização do país, o caminho ofe- hoje: arquitetura ou revolução” (Le Corbusier, 1923). O vadas e valorizadas. É como observou sagazmente
recido pelos modernistas, comparativamente aos aspecto pedagógico novamente une o arquiteto e o dis- Era um renovamento permanente, com uma segurança Holanda (2010): “Os elogiosos ignoram os proble-
grupos que disputavam o poder, era o que mais se curso estado-novista: enquanto o primeiro quer “ensi- total. Na época, nós todos estávamos convencidos que mas da Capital, os críticos inventam problemas ine-
adequava ao ideário modernizante daquele momen- nar a morar”, os ideais brasileiros falam em “civilizar essa nova arquitetura que nós estávamos fazendo, essa xistentes”.
to. Era um projeto político, social e cultural abran- por cima” (cf. Lippi, 1986). Um derradeiro ponto diz nova abordagem, era uma coisa ligada à renovação so-
gente, claro e consistente para ser apresentado à na- respeito à busca de homogeneidade: enquanto no Bra- cial. Parecia que o mundo, a sociedade nova, assim como A historiografia de um lugar é feita por sobrepo-
ção. Vencido o embate, os modernistas, “conseguem sil buscava-se construir uma nacionalidade em oposi- a arquitetura nova, eram coisas gêmeas, uma coisa vin- sição de memórias. Quanto mais longa é sua exis-
escrever simultaneamente o mapa astral e a árvore ção a regionalismos, o arquiteto franco-suíço almejava culada à outra. De modo que havia uma ética, havia uma tência mais rico será seu acervo histórico-cultural.
genealógica do país” (CAVALCANTI, 1996, p. 111). estilo internacional de larga aplicação que terminasse seriedade no que se fazia, ninguém estava brincando. Toda cidade tem uma história que lhe é inerente e
com interpretações nacionalistas de construir. Depois tudo isso passou, deixou de ser aquela coisa coe- a distingue das demais. Daí a imprecisão do termo
Esse ideário renovador e revolucionário, que desem- sa, aquela geometria mental desandou. A arquitetura se cidade histórica, que embora de domínio comum,
boca 20 anos depois em Brasília, trazia a perspecti- Sobre a forte influência de Le Corbusier no ideário desenvolveu mais no mundo capitalista do que no mun- deve ser utilizado sob certas condições.
va de realização social, cultural e comportamental, arquitetônico brasileiro, e não a de outro arquiteto do socialista, por mais facilidades, mas as experiências
que seduzia igualmente dirigentes e intelectuais. modernista como Gropius, por exemplo, Lucio Costa do começo, na Rússia, foram muito interessantes. Willi Bolle (1992), em A cidade como escrita, nos
Concorda-se com Cavalcanti (1996, p. 110) quando (1995, p. 144) explica: propõe uma leitura da cidade como suporte de me-
ele sintetiza, em três pontos, as causas da aceitação Essa desejada renovação sociourbana acompanha mória. Nessa representação, o espaço urbano com-
das ideias de Le Corbusier no Brasil: Le Corbusier era o único que encarava o problema de as mais diversas sociedades e tem intrínseca relação parece não só como um código realista, mas como
três ângulos: o sociológico – ele dava muita importân- com a morfologia do espaço construído, que jamais “uma imensa aglomeração de escrita”, da qual cada
Não é surpreendente que as idéias de Le Corbusier cia ao social –, a adequação à tecnologia nova e a abor- será neutro – aspecto tão bem assimilado por dife- geração se apropria e na qual deixa seus aportes
tenham sido tão bem-sucedidas entre nós; inúmeros dagem plástica. Isso é o que mais me marcou, que o rentes governos, em distintas épocas, que usaram a para as gerações posteriores, fenômeno revelado
pontos do ideário corbusiano coincidem com o dis- diferenciava de todos, embora Gropius lá na Bauhaus planificação urbana como ferramenta vigorosa de nas representações físico-construtivas e nos mar-
curso de intelectuais ligados ao Estado Novo. No Brasil tivesse organizado uma coisa estupenda. (...) Mas a ordenamento social e afirmação do poder constituí- cos socioculturais identitários. Essa herança socior-
falava-se em “construção do homem novo”, ao passo abordagem de Le Corbusier seduzia mais. Depois ele do. Brasília, longe de ser um caso isolado, constitui- representativa abriga os suportes de memória da
que Le Corbusier se referia a um “espírito novo” e à tinha o dom da palavra e o texto das publicações, com se um dos exemplos eloquentes do século XX. cidade e, à semelhança da escrita, permite variadas
necessidade de criar novas mentalidades de morar. diagramação diferente, aliciava. Era aquela fé na reno- leituras. Santos (1996) também nos oferece impor-
Para os intelectuais e ideólogos do Estado Novo o tra- vação no bom sentido, aquela força que se comunicava Esse é um dos aspectos que explicam o discurso tante contribuição sobre esse tema:
balho seria “o meio por excelência da superação dos com as pessoas jovens... oficial sobre a cidade, que traz quase sempre forte

122 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 123


Preservação e gestão

Se os lugares podem, esquematicamente, permane- -raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento ris- O Brasil é um país curioso, sobretudo, quando se ral conceituou e assumiu a proteção do patrimônio
cer os mesmos, as situações mudam. A história atri- cado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras. trata do seu patrimônio cultural. É quase impossível histórico e artístico do país, criando o Serviço do
bui funções diferentes ao mesmo lugar. O lugar é um encontrar em sua população quem não se preocupe Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN),
conjunto de objetos que têm autonomia de existência Brasília, com 60 anos por completar, tem pratica- em preservar o acervo patrimonial da nação. O dis- atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
pelas coisas que o formam – ruas, edifícios, canaliza- mente uma escrita: a dos seus idealizadores e pio- curso em defesa do patrimônio cultural tornou-se Nacional (IPHAN), autarquia federal vinculada ao
ções, indústrias, empresas, restaurantes, eletrificação, neiros, que a rigor constituem sua primeira geração. lugar-comum e, de maneira mítica, todos parecem Ministério da Cultura.
calçamentos, mas que não têm autonomia de signifi- Desse modo, é natural que o imaginário urbanístico comungar da certeza de sua concretude e infalibi-
cação, pois todos os dias novas funções substituem as da cidade ainda esteja impregnado da cultura urba- lidade. Por conseguinte, ainda que tal patrimônio Ao longo desse período, porém, boa parte do suces-
antigas, novas funções se impõem e se exercem. [...] na modernista, que definiu a sua concepção e justifi- possua conteúdo impreciso e conviva com insolú- so das iniciativas protecionistas em nosso país se
cou seu reconhecimento como Patrimônio Mundial. veis discordâncias sobre o quê, por que, como e para explica bem mais pela ação voluntariosa de abnega-
A paisagem não se cria de uma só vez, mas por acrés- As iniciativas de incorporar outras interpretações quem preservar, é improvável deparar-se com opini- dos que adotaram essa causa, do que por uma ação
cimo, substituições [...]. Uma paisagem é uma escrita sobre seu espaço sempre sofreram resistências e ões contrárias à sua preservação. sistematizada do poder público. Essa conjunção tem
sobre outra, é um conjunto de objetos que têm idades ocorreram à margem do estabelecido. Sobre essa sido determinante para que nas três esferas de go-
diferentes, é uma herança de muitos diferentes mo- questão, Ficher (2000) observa: Nessa conjuntura, gestores públicos, políticos, in- verno (federal, estadual e municipal) as instituições
mentos. [...] A paisagem não é dada para todo o sem- telectuais, magistrados, empresários, profissionais responsáveis por essa atividade convivam com per-
pre, é objeto de mudança. É um resultado de adições e Fazendo desaparecer tanto suas imperfeições eviden- liberais, celebridades e tantos outros atores sociais sistente fragilidade política, técnica, institucional e
subtrações sucessivas. [...] O espaço é igual à paisagem tes como suas indiscutíveis qualidades, o mito exige a são pródigos em alardear as suas apreensões e com- financeira, fator que restringe e compromete o de-
mais a vida nela existente. (SANTOS, 1996, p. 52). sacralização de sua concepção primeira - magicamen- promissos com a proteção do acervo histórico e cul- sempenho desse setor.
te, a cidade se confunde com o texto e os croquis que tural do país, notadamente nos momentos em que
Ítalo Calvino (1990, p. 18) trata essa questão da se- lhe deram gênese. este se mostra sob ameaça ou quando esta se efetiva. Não é difícil entender essa realidade quando se
guinte maneira: sabe que, nas instâncias decisórias do país, a cul-
Tão forte é esse sentimento, que até hoje a fração da Diante de inusitado consenso e aparente compro- tura ainda é vista como item periférico da agenda
O olhar percorre as ruas como se fossem páginas es- cidade projetada em 1957 continua sendo designada misso social, seria instintivo supor que o país fosse nacional e componente supérfluo do desenvolvi-
critas: a cidade diz tudo o que você deve pensar, faz pelo nome de seu projeto: Plano Piloto. cuidadoso com seu patrimônio histórico-cultural e mento socioeconômico, sendo vista como gasto e
você repetir o discurso, e, enquanto você acredita es- tivesse uma política pública formalizada, explícita não como investimento.
tar visitando Tamara, não faz nada além de registrar A principal dificuldade que se encontra na análise de e consistente para promover a sua proteção e valo-
os nomes com os quais ela define a si própria e todas Brasília está, justamente, nessa identificação da cida- rização. Todavia, ao se analisar a atividade preser- Essa é uma das razões que explicam o fato de o
as suas partes. de com sua parcela planejada. Elogiar Brasília é acatar vacionista em nosso território, depara-se com uma Ministério da Cultura ainda lutar para que sua do-
as peculiaridades do Plano Piloto como irretocáveis; trajetória marcada por fragilidades, contradições, tação orçamentária atinja ao menos 1% do Orça-
Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria criticá-la é ser impatriótico, é desrespeitar a escritu- imprecisões e carências de toda ordem. mento Geral da União3, ou seja, o patamar mínimo
conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não con- ra sagrada que determinou sua forma. No star system recomendado pela Agenda 21 da Cultura para que
ta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, dos arquitetos, mais vale a imagem do cartão-postal e Essa situação, ainda que se distingam momentos de os países invistam na área cultural, haja vista o im-
escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, a aura de alguns heróis do que a cidade real, o blood, maior ou menor efetividade, arrasta-se pelo menos pacto positivo desses investimentos na vida das po-
nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para sweat and tears de sua existência... desde 1937, quando oficialmente o Governo Fede- pulações envolvidas.

124 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 125


Na perspectiva de superação dessa conjuntura, há Sendo frutos de processos sociais, sua leitura vai públicas. Esse desejável patamar político-institucio- O território do conjunto tombado constitui um po-
de se referenciar o esforço do IPHAN em instituir além da materialidade. De outra forma, as ações nal ainda está distante, haja vista a histórica falta de lígono de 112,25km², seguramente a maior área ur-
o Sistema Nacional do Patrimônio Cultural (SNPC), preservacionistas serão reduzidas a meras alego- prioridade desse tema na agenda nacional e na dos bana sob proteção histórica do mundo. Abrange, além
ação iniciada em 2007 e já discutida em diversos rias do processo urbano. Sobre esse ponto, Santos governos locais, atitude refletida na desarticulação do Plano Piloto de Lucio Costa, outros parcelamentos
fóruns. O objetivo é criar a Política Nacional do Pa- (2009, p. 58) diz: e na precariedade técnico-operacional das institui- descontínuos, dispersos e desarticulados. São seto-
trimônio Cultural e estruturar o SNPC, para que se ções desse setor, que fragiliza seu desempenho. res acrescidos ao projeto inicial, algumas áreas rema-
estabeleçam nas três esferas governamentais as ar- O espaço não pode ser estudado como se os objetos nescentes dos canteiros de obras do período pioneiro
ticulações necessárias para a gestão compartilhada materiais que formam a paisagem trouxessem neles Brasília, sendo a capital do país e sua quarta mais po- de construção da cidade, bem como os novos setores
do patrimônio cultural. Esse esforço institucional se mesmos sua própria explicação. Isto seria adotar uma pulosa metrópole, não poderia ser uma exceção no urbanos propostos em Brasília Revisitada.
traduz igualmente na busca de recursos para finan- metodologia puramente formal, espacista, ignorando quadro nacional de contradições e precariedades so-
ciar suas atividades, tanto por meio de programas os processos que ocasionaram as formas. ciourbanas, fruto de um modelo de desenvolvimento O Conjunto Urbanístico de Brasília, nos termos de
específicos, como o PAC Cidades Históricas, quanto inigualitário. Sua população, estimada em 3 milhões seu tombamento federal, não é o conjunto urbano
por emenda parlamentar. De outro modo, a política urbana no Brasil também de habitantes4, distribui-se pelos 31 núcleos urba- proposto no desenho inicial da cidade, monolítico
padece de precariedades e incertezas político-ins- nos (Regiões Administrativas) que compõem o Dis- e uniforme, como somos induzidos a pensar. Con-
Em termos conceituais, entende-se ser um equívoco titucionais. Caracteriza-se historicamente por um trito Federal. A capital brasileira, em conjunto com trariando essa ideia comum, pois a transposição do
continuar tratando centros históricos como meras modelo fragmentado, temporal e setorial, que com- os 22 municípios que compõem com ela a RIDE5 do projeto para o chão não foi literal (teria sido mira-
abstrações histórico-culturais, mitificadas e disso- promete seu desempenho e operacionalidade. Distrito Federal e Entorno, conforma um aglomerado culoso), a área constitui um organismo multiespa-
ciadas da vida contemporânea. Sendo fenômenos geoeconômico disperso, fragmentado e socialmente cial, rarefeito e heterogêneo, tanto em morfologia e
urbanos, discutir tais lugares é refletir sobre a pró- Nossa política urbana é fragmentada e setorial, além heterogêneo de 4.291.577 pessoas (IBGE, 2016). temporalidade, quanto no papel que cada setor tem
pria cidade, atentando-se para a complexidade, as de marcada pela temporalidade dos ciclos eleitorais. na conformação da paisagem e na simbologia his-
contradições, os interesses e os conflitos inerentes Fragmentada porque está disseminada em órgãos e O Conjunto Urbanístico de Brasília, área que se en- tórico-urbanística da cidade. Sem essa leitura, tere-
à sua gênese. esferas de gestão nos vários níveis da federação – mu- contra sob tombamento federal e inscrita na UNES- mos enormes dificuldades para entender o artefato
nicípios, estados, União – e setorial porque está em pe- CO, corresponde ao centro metropolitano dessa histórico de que estamos tratando.
Nesses termos, os dilemas e desafios dos centros daços do desenvolvimento urbano como, por exemplo, RIDE. Concentra a maior parte da renda e cerca de
históricos assumem suas reais dimensões, posto habitação, saneamento, transportes, patrimônio etc. 80% dos empregos, serviços e investimentos públi- Brasília, assim como boa parte das capitais brasilei-
que tais lugares não se explicam por eles mesmos. Mas estes dois campos de atuação não dialogam entre cos, ainda que possua menos de 10% de sua popu- ras, possui um sofisticado e detalhado sistema de
si, sem que haja uma base planejada, pactuada com os lação (cerca de 330 mil habitantes), condição que planejamento e gestão territorial: o Sistema de Pla-
3 Tramita no Congresso Nacional a PEC 150/2003, que cidadãos, para dar sustentação. (ROLNIK, 2009) motiva, cotidianamente, um intenso movimento po- nejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal
define o percentual de investimento para a Cultura em pulacional pendular periferia-centro-periferia. (SISPLAN). Instituído pela Lei Orgânica do Distrito
cada esfera de poder. A proposta original destinaria ao Superar essa conjuntura adversa é o desafio. Para Federal (em seu art. 326), define as diretrizes, os
setor cultural e à preservação do patrimônio cultural 2% tanto, é necessária a institucionalização de uma po- órgãos participantes e seus encargos, bem como os
dos impostos federais, 1,5% dos impostos estaduais e 4 2.977.216, segundo o IBGE (2016).
1% dos impostos municipais (http://www.cultura.gov.br,
lítica urbana consistente, que contemple a ação pre- 5 Região Integrada de Desenvolvimento. A RIDE do Dis-
instrumentos de planejamento e execução da polí-
acesso em 22/03/2010, e www.camara.leg.br, acesso em servacionista como componente basilar no desen- trito Federal e Entorno foi criada pela Lei Complementar tica urbana, que tem na preservação do Conjunto
12/11/2016). volvimento do país e a integre às demais políticas Federal nº 94/1998. Urbanístico de Brasília um de seus propósitos. Tra-

126 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 127


ta-se de arcabouço político-institucional bem estru- va sem a devida força institucional, o que se viu foi a
turado, cujo órgão superior é o Conselho de Plane- diluição e a submissão das ações preservacionistas
jamento Territorial e Urbano (CONPLAN), presidido às demandas do planejamento urbano, cuja lógica é
pelo Governador e composto por membros do go- outra e quase sempre contraditória à preservação.
verno, representantes de entidades de classe, do
meio técnico-acadêmico e da sociedade em geral. Tal situação explica por que as demandas afetas à
Tem como órgão executivo a atual Secretaria de Es- preservação da área tombada ainda são vistas como
tado de Gestão do Território e Habitação (SEGETH), entraves técnico-burocráticos. A proposta de criação
que abriga a unidade responsável pela preservação de um organismo distrital específico para tratar des-
do conjunto tombado. Tudo isso amparado por uma sa atividade, com o devido respaldo político e a ampli-
ampla e complexa legislação urbanística. tude técnico-operacional necessária, vem sendo pos-
tergada desde 1987, quando da titulação na UNESCO,
Em tese, portanto, existem os meios políticos, insti- contexto que dificulta a interlocução, bem como a in-
tucionais, jurídicos e operacionais para que a con- tegração efetiva entre os governos federal e distrital.
dução do desenvolvimento urbano da cidade ocorra
de maneira articulada, eficiente e democrática, in- A preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília
cluindo-se a proteção de sua área tombada, posto traz novos desafios. Em muitos aspectos, suas parti-
que essa atividade se concentra no mesmo órgão de cularidades se contrapõem aos conceitos e às práti-
gestão territorial e urbana. Todavia, ao sair do cam- cas adotadas em centros históricos já estratificados
po teórico, encontramos uma realidade político-ins- pelo tempo. Daí a dificuldade de se fazer compa-
titucional fundada em gritante descompasso entre o rações com outros contextos. Trata-se de conjunto
concebido e o realizado, configurada em um sistema urbano oriundo de projeto autoral (ainda em im-
de gestão urbana desarticulado, instável, frágil e de plantação), cheio de símbolos e expectativas, com
pouca efetividade, marcado por sucessivas reestru- espacialidade e temporalidade incomuns. Pode-se
turações e precariedade. afirmar que boa parte das ações de gestão urbana
6 Planta do CUB indicando os prin- aqui realizadas é inédita e sem paralelo no mundo.
cipais setores acrescidos ao plano A concentração do tema preservacionista no órgão
original responsável pela política urbana, em 2000, gerou Decorridos 30 anos de titulação pela UNESCO tom-
Fonte BRASIL, 2016 grande expectativa de avanço institucional. Em prin- bado, fica evidente que o modelo de preservação
cípio, significaria a inserção direta dessa atividade adotado na área tombada se esgotou. Os desafios
7 Planta atual do CUB, com delimita- no planejamento urbano da cidade, implicando na atuais exigem novos conceitos, novos enfoques; no-
ção do polígono de tombamento desejada integração entre preservação e desenvol- vas práticas, novas articulações e novos instrumen-
Fonte Elaborado pelo autor, vimento urbano. Todavia, isso não se confirmou. tos de ação. É preciso ir além do aspecto artístico-
sobre base Google Earth Concentrada em uma unidade técnico-administrati- monumental e incorporar as dimensões urbana e

128 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 129


considerações finais

metropolitana. Nessa direção, duas ações do IPHAN Ao longo do texto argumentou-se que o processo de
concorrem para a superação dessa conjuntura. preservação e gestão do Conjunto Urbanístico de Bra-
sília caracteriza-se essencialmente por dois aspectos.
A primeira foi a assinatura, em março de 2015, do
Acordo de Cooperação Técnica para a gestão compar- O primeiro se relaciona à temporalidade urbana da
tilhada da área tombada. Para efetivação do Acordo capital brasileira, que apenas inicia a sua terceira
foi instituído o Grupo Técnico Executivo (GTE), for- geração de nativos, fator determinante para que a
mado por técnicos da Superintendência do IPHAN cultura urbanística local continue fundada na ma-
no Distrito Federal e das Secretarias de Estado de nutenção dogmática dos ideais, signos e princípios
Gestão do Território e Habitação (SEGETH); Cultu- do plano piloto de Brasília. Esse comportamento de-
ra (SECULT) e da Agência de Fiscalização (AGEFIS). corre do aporte cultural e urbanístico deixado pela
De caráter consultivo, a responsabilidade do GTE é sua primeira geração – seus idealizadores e cons-
analisar e recomendar ações para as demandas da trutores –, que de maneira mítica trata a concep-
agenda comum definida entre os partícipes. É certo, ção da cidade como irretocável. Axioma que, aliás,
porém, que uma iniciativa dessa dimensão necessita contrasta com boa parte dos entendimentos e reco-
de tempo para se consolidar e gerar frutos. No en- mendações de Lucio Costa sobre o desenvolvimento
tanto, os resultados desses 20 meses de atuação do urbano da cidade. Evidente que a participação e o
GTE são animadores e nos mostram os avanços obti- controle social sobre ações urbanas são necessárias
dos nessa incipiente parceria político-institucional. e enriquecedoras. No entanto, quando essa atitude
Com isso, caminha-se para a superação nessa área assume ares míticos, intolerantes e inquisitórios,
de incompreensões, conflitos e superposições de torna-se opressiva e contraditória, sobretudo para
competências entre os governos federal e distrital. uma cidade que traz em seu projeto a insígnia da
inovação e da modernidade.
A segunda foi a edição em, maio de 2016, da Por-
taria nº 166/2016, que complementa e detalha a O segundo refere-se à inconstância e à precarieda-
Portaria nº 314/1992. Seu objetivo é aprimorar o de do sistema de preservação urbana, fruto de uma
processo de gestão e fiscalização da área tombada, realidade político-institucional desarticulada, frágil,
dando-lhe maior transparência, racionalidade téc- obscura e ineficiente, que determina a atuação cir-
nica e segurança jurídica. Para tanto, aporta nova cunstancial e fragilizada desse setor. A ausência de
abordagem a essa atividade, incorporando a leitura organismos tecnicamente estruturados e politica-
realista da cidade, a partir da sua realidade urbana. mente fortalecidos para o cumprimento das atribui-
Assim, o instrumento preservacionista ganha am- ções constitucionais, tanto no nível federal quanto 08 Mapa da área tombada contendo o macrozoneamento
plitude e busca efetividade. no distrital, dificulta o diálogo e o compartilhamen- proposto pela Portaria nº 166
to de ações entre os entes federativos. Fonte Acervo IPHAN-DF

130 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 131


Esses dois aspectos explicariam boa parte dos dile- Efetivá-los é o desafio para se avançar na constru-
mas conceituais e operacionais a que está subme- ção de um espaço urbano humanizado, equitativo,
tida a ação preservacionista do patrimônio urbano saudável, plural e igualitário.
da Capital. Como superar essa conjuntura aparen-
temente adversa, mítica e opressiva? Como instituir Como alento, percebe-se que a geração brasiliense
um novo patamar político-institucional no processo atual já se apropria do espaço urbano sem o dogma-
de gestão do Conjunto Urbanístico Brasília? tismo e a mitificação das primeiras gerações. Essa
juventude, irmanada em diversos movimentos e co-
Primeiro, é preciso arejar a cultura urbanística apor- letivos urbanos, arquiteta uma relação distinta e in-
tando-se novos conceitos, abordagens e práticas, ventiva com Brasília e seus signos, atitude que sinali-
para que a racionalidade e o diálogo se estabeleçam za uma urbe menos sacralizada e mais humanizada,
e superem os dogmas, as intolerâncias e incompre- onde a criatividade, a diversidade, a interatividade e
ensões com as quais ainda são tratadas as questões o conforto citadino estarão presentes. Cabe aos ges-
preservacionistas e urbanísticas da cidade. Essa con- tores da cidade saber interpretar tais anseios.
dição será superada pela sapiência do Deus tempo.

É imperioso, simultaneamente, efetivar e fortalecer


o sistema de planejamento territorial e urbano da
cidade, no qual esteja contemplado um organismo
preservacionista adequado à dimensão do desafio
que nos impõe a capital do país. É fundamental agir
em prol da instituição de ambiente colaborativo e
qualificado entre os entes federativos responsáveis,
aclarando-se as prerrogativas e encargos consti-
tucionais. Assim, será possível efetivar a gestão
eficiente, eficaz e compartilhada desse patrimônio
mundial, na qual a preservação seja determinante.

A superação desse contexto passa necessariamente


pelo exercício da cidadania, no qual se pressupõe
o fortalecimento e a qualificação das instituições
públicas, o cumprimento da ordem jurídica e o 09 Atividade do coletivo Movimen-
controle social. Nesse caminho, dois preceitos são te e Ocupe seu Bairro-MOB
básicos: o direito à cidade e o direito à memória. Fonte MOB (coletivomob.com)

132 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 133


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134
Notas sobre as inovações da Portaria nº 166/2016-IPHAN para a preservação
do Conjunto Urbanístico de Brasília
André Luiz de Souza Castro

Breve histórico do marco normativo da


resumo abstract INTRODUÇÃO1 preservação de Brasília

O presente artigo faz uma análise da Portaria IPHAN This paper analyzes IPHAN’s Ordinance nr 166, of A Portaria nº 166, de 11 de maio de 2016 do Ins- Antes mesmo de inaugurada, a nova capital federal
nº 166, de 11 de maio de 2016, como instrumen- May 11th, 2016, as an instrument that complements tituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio- já possuía o primeiro dispositivo de preservação do
to de complementação e detalhamento da Portaria and details Ordinance nr 314/1992, which regulat- nal (IPHAN), complementa e detalha a Portaria nº seu projeto urbanístico, dado pelo Art. 38 da Lei nº
nº 314/1992, que regulamentou o tombamento do ed the protection as heritage of the urban ensemble 314/1992, o instrumento vigente que regulamenta 3.751 de 13 de abril de 1960, que asseverava que
Conjunto Urbanístico de Brasília (CUB). A análise of Brasília. The analysis was performed intending to o tombamento do Conjunto Urbanístico de Brasília “qualquer alteração no plano-piloto, a que obedece
foi realizada buscando um diálogo crítico entre essa provide a critical dialogue between this norm and (CUB). Em nível federal, essas duas Portarias com- a urbanização de Brasília, depende de autorização
norma e o referencial teórico-metodológico de pre- the theoretical and methodological framework for põem o marco legal para a preservação da cidade. em lei federal” (BRASIL, 1960).
servação tanto de sítios históricos quanto do movi- preservation of both historical sites and the mod-
mento moderno, considerando-se, ainda, a evolução ernist movement, bearing yet in mind, the evolution Em consonância com os objetivos definidos pelo Esse artigo, no entanto, só foi regulamentado vinte
do marco normativo relativo ao CUB. Verificou-se of the regulation framework concerning the urban IPHAN para a Portaria nº 166/2016 (BRASIL, e sete anos depois, pelo Decreto nº 10.829/1987 do
que há uma série de inovações que fazem com que ensemble. A series of innovations, observed herein, 2016b), esse dispositivo preenche lacunas impor- Governo do Distrito Federal, sendo esta a primeira
a Portaria nº 166/2016 represente um avanço tanto proved Ordinance nr 166/2016 to be an advance, tantes no marco normativo para a preservação de norma específica para a preservação de Brasília. O
conceitual quanto operacional com relação aos dis- not only in terms of concept but also in terms of op- Brasília uma vez que: i) aperfeiçoa o instrumento decreto de 1987 foi resultado de uma preocupação
positivos anteriores, consolidando-se como instru- eration, when compared with previous regulations. anterior, considerado inovador por sua forma de va- crescente com as pressões por alterações no projeto
mento fundamental na preservação de Brasília. This Ordinance, therefore, consolidated itself as an lorar e buscar a conservação do patrimônio, incor- de Lucio Costa e foi especificamente motivado pela
essential instrument for the preservation of Brasília. porando visões mais amplas condizentes tanto com necessidade de uma regulamentação local para a in-
Palavras-chave Brasília. Patrimônio histórico. Pre- arcabouço teórico-metodológico do campo discipli- serção de Brasília na Lista do Patrimônio Mundial
servação. Patrimônio Moderno. Keywords Brasília. Heritage. Preservation. Mod- nar, quanto com a evolução urbana de Brasília nos pela UNESCO, que ocorreu no dia 11 de dezembro
ernist heritage. últimos vinte e quatro anos; ii) detalha e especifica do mesmo ano.
diretrizes constantes da Portaria anterior; iii) ofere-
ce instrumentos mais eficazes para a gestão da pre- O tombamento de Brasília em nível federal ocorreu
servação de Brasília. três anos depois desse decreto, em 1990, sendo pri-
meiramente regulamentado pela Portaria SPHAN nº
Tratam-se, portanto, de avanços que serão aprofun- 04/1990, a qual, dois anos mais tarde, foi modifi-
dados no decorrer do artigo, à luz do marco concei- cada pela Portaria nº 314/1992 – IBPC (RIBEIRO,
tual vigente de preservação do patrimônio de modo 2005, p. 123), ainda em vigência, a qual será anali-
geral, e, mais especificamente, no que diz respeito a sada em seguida.
sítios históricos, bem como à arquitetura e ao urba-
nismo do movimento moderno. 1 Esse artigo foi originalmente desenvolvido no âmbito da
disciplina “Brasília: Questões de Urbanização e História
– prática e teoria”, ministrada pelos professores Eduardo
Rossetti e Maria Fernanda Derntl, como parte do desen-
volvimento de pesquisa de doutoramento no Programa de
Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade de Brasília.

136 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 137


A Portaria nº 314/1992 - IBPC

A Portaria nº 314/1992 foi publicada pelo Institu- Buriti, a escala residencial, compreendendo as
to Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC)2, tendo superquadras ao longo do Eixo Rodoviário, e a es-
como texto base o já citado Decreto e a Portaria nº cala gregária, correspondendo ao centro urbano
04/1990, com algumas poucas alterações circunstan- na interseção dos eixos, possuem correspondências
ciais. Estes dispositivos se referiam à “preservação territoriais próprias e não coincidentes no Plano
das características essenciais de quatro escalas dis- Piloto. Já a escala bucólica apresenta um caráter
tintas” que traduziriam a concepção urbana original transversal, sobrepondo-se às demais, pois está
da cidade: a monumental, a residencial, a gregária e “configurada em todas as áreas livres, contíguas a
a bucólica. terrenos atualmente edificados ou institucional-
mente previstas para edificação e destinadas à
Para Pessôa (2003), uma vez que o Plano não se en- preservação paisagística e ao lazer” (BRASIL, 1992,
contrava totalmente ocupado, “era óbvio aos promo- artigos 3º, 4º, 6º e 8º).
tores do tombamento que só a preservação do exis-
tente não garantiria a execução das áreas restantes Esse Conjunto Urbanístico de Brasília (Figura
dentro dos mesmos princípios originais do plano”. 1), conforme definido pelo tombamento federal,
Além disso, nem sempre a arquitetura tinha quali- corresponde basicamente ao perímetro do Plano
dade suficiente para justificar uma preservação: Piloto de Lucio Costa, ou seja, a área delimitada a
oeste pela atual Estrada-Parque Indústria e Abas-
A solução então foi a do inédito tombamento de um tecimento – EPIA e a leste pela margem norte do
Plano Urbanístico, isto é, dos princípios volumétricos Lago Paranoá, incorporando alterações do proje-
e espaciais que caracterizam cada uma das escalas que to na etapa de implantação (quadras 400 e 700 e
compõem a civitas brasiliense proposta por Lucio Cos- outros setores), áreas remanescentes dos acampa-
ta. À exceção de alguns palácios no eixo monumental mentos pioneiros (Candangolândia, Vila Planalto e
e da estação rodoviária que são preservados integral- Vila Telebrasília), os núcleos urbanos surgidos no
mente em suas características arquitetônicas, todo início da cidade (Cruzeiro Velho e Cruzeiro Novo) e
o resto é passível de demolição desde que as futuras os setores inexistentes àquela época, incluídos pelo
edificações obedeçam aos parâmetros de ocupação do documento Brasília Revisitada (Sudoeste e Noroes-
plano que foram reafirmados no tombamento. (PES- te). Configura uma área de 112,25 m² (Figura 1) e
SÔA, 2003, p. 5)

2 Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC) foi a


Assim, para cada uma dessas escalas foram defini- denominação assumida pela instituição federal de preser-
das diretrizes, normas e volumetrias específicas. A vação do patrimônio cultural na reforma administrativa de
escala monumental, ao longo do eixo monumen- 1990. Somente em 1994 a instituição retomou o nome 01 Delimitação do Conjunto Urbanístico de Brasília
tal, entre a Praça dos Três Poderes e a Praça do IPHAN (REZENDE et al.). Fonte BRASIL, 2016b, Anexo I

138 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 139


A Portaria nº 166/2016 - IPHAN Estabelecimento de Brasília como sítio histórico

conta atualmente com cerca de 330 mil habitantes A Portaria nº 166, de 11 de maio de 2016, é o resul- Em suma, pode-se dizer que as principais inovações Em 1987, ano da publicação do primeiro instru-
(BRASIL, 2016a, p. 12). tado de discussões técnicas conduzidas pela Supe- introduzidas pela Portaria nº 166/2016 em relação mento efetivo de preservação de Brasília, a cidade,
rintendência do IPHAN no Distrito Federal durante ao dispositivo anterior são as seguintes: então com apenas vinte e sete anos, apresentava um
Uma das alterações circunstanciais a se destacar, os dezoito meses que antecederam sua publicação, tecido urbano ainda menos consolidado se compa-
comparativamente ao Decreto, é a excepcionaliza- retomando, atualizando e consolidando proposições i Considera de maneira mais efetiva a história rado aos dias atuais. Quando se decidiu pela preser-
ção para permissão de novas edificações em áreas em debate desde a década de 1980 (REIS, 2016). e a dinâmica da cidade na preservação de seu vação, essa condição da cidade, aliada a outros fato-
non aedificandi, desde que “encaminhadas pelos patrimônio cultural, ou seja, revela um movi- res, concorreu para que o instrumento, o Decreto nº
autores de Brasília – arquitetos Lucio Costa e Oscar Ela mantém o mesmo polígono de tombamento, a mento em direção à preservação de um sítio 10.829/1987, se voltasse mais à salvaguarda de um
Niemeyer – como complementações necessárias ao mesma definição de Conjunto Urbanístico de Brasília histórico estabelecido, em contraposição à projeto em implantação do que de um sítio histórico
Plano Piloto original.” (BRASIL, 1992, art. 9º, § 3º). e a estratégia de preservação a partir das “escalas”. preservação de um plano-piloto, de um projeto, propriamente dito.
Nas palavras do arquiteto Jayme Zettel, diretor do Houve, no entanto, um entendimento mais amplia- de uma ideia;
IBPC à época da publicação desta Portaria: do do CUB como “um organismo amplo, disperso, Essa valoração dada ao projeto, a ponto de ser
rarefeito e heterogêneo em sua morfologia, tempo- ii Estabelece uma espacialização dos dispo- reconhecido como patrimônio nacional e mundial,
Basicamente, a preocupação era de colocar esta com- ralidade e valoração para a história do urbanismo sitivos de preservação, com a criação de pode ser atribuída tanto à sua inegável relevância na
plementação porque naquele momento o Oscar queria mundial”. Além disso, reconheceu que era necessá- macroáreas, zonas e áreas distintas e não so- história do urbanismo – na medida em que se con-
fazer a Catedral do Setor Militar e Aparecido então fi- rio considerar essa multiespacialidade e “avançar brepostas, somando-se ao critério de preser- figura exemplar singular da corporificação de uma
cou naquela tensão de “como é que se vai colocar uma na formulação de uma abordagem preservacionista vação pelas “escalas” implantando pela Porta- série de conceitos estabelecidos na primeira metade
coisa nova no Plano, sem insurgir as pessoas mais própria, distinta da utilizada em centros históricos ria nº 314/1992; do século XX no âmbito dos Congressos Internacio-
radicais de Brasília?” Então surgiu essa possibilidade já estratificados pelo tempo” (BRASIL, 2016a, p. 12). nais de Arquitetura Moderna (CIAM) quanto à sua
dos autores terem uma permissão para complementa- iii Estabelece uma diferenciação gradativa de condição de símbolo do desenvolvimento nacional
ções, desde que com uma prévia aprovação dos órgãos Dentre os objetivos estabelecidos por essa portaria critérios de preservação em relação à rele- (GORELIK, 2012, p. 414-418), ou ainda como mo-
e instâncias competentes. (ZETTEL, 2013, p. 201) recente, estão: “garantir para a presente e futuras vância histórica e urbanística das diversas ma- numento da modernidade (GORELIK, 2005, p. 161).
gerações a preservação dos valores históricos do croáreas, zonas e áreas determinadas;
Para Ribeiro (2005), a Portaria nº 314/1992 e o Conjunto Urbanístico de Brasília” e “orientar o pro- Segundo Pessôa (2003), o objeto da preservação,
Decreto nº 10.829/1987 são excessivamente gené- cesso de gestão, preservação e fiscalização do iv Apresenta, reconhece e explicita os valores em comparação com métodos de preservação de
ricos, sendo ao mesmo tempo omissos, na medida bem tombado” (BRASIL, 2016b, art. 2º, incisos I e históricos do Conjunto Urbanístico de Brasí- sítios históricos vigentes à época, foi deslocado das
em que não abordam setores ou elementos que II, grifo nosso). lia, a serem preservados. construções que constituem a área a ser preserva-
integram a área tombada, e extremamente rígidos, da, para os critérios que informaram essas constru-
considerando, por exemplo, todos os vazios urbanos A Portaria nº 166/2016 revoga expressamente ape- ções a assumirem suas formas, buscando preservar
como áreas non aedificandi (RIBEIRO, 2005, p. 124). nas dois dispositivos da portaria anterior, dentre o plano e não o que havia sido realizado até aquele
eles o já citado §3º do artigo 9º, que dava a Lucio momento.
Costa ou Oscar Niemeyer a prerrogativa de propor
novas edificações para a complementação do Plano. O que estava em pauta era muito mais a concepção,
a ideia e até mesmo a autoria do plano-piloto de

140 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 141


Brasília do que o Plano Piloto como consolidação arquiteto Lúcio Costa” (Portaria nº 314/1992, art. a acompanha, “não se trata apenas de preservar um que houve a incorporação consciente de outros mati-
física, histórica e artística da cidade na condição 1º, § 1º). A valoração do bem construído foi, portan- artefato patrimonial, mas da gestão de uma cidade zes, relacionados à história e à atualidade da cidade.
de obra construída. Tratava-se de estabelecer um to, decorrência da valoração do projeto. que é capital do país. Daí a necessidade de se arti-
plano ideal de concepção de uma cidade, como cular o conceito de espaço [...] como uma categoria Nesse aspecto, destaca-se o disposto no artigo 4º da
um guia para o seu desenvolvimento futuro, bus- Além disso, a cidade como bem coletivo é subordi- histórica, fruto de relações sociais em perene movi- Portaria nº 166/2016, que inclui como valores fun-
cando conservar, nas palavras de Gorelik (2005), nada à preservação da autoria, como revela o artigo mento” (BRASIL, 2016a). damentais a condição de Brasília como “obra pri-
um “museu da modernidade”. O objetivo equivale 9º, que faz referência a Brasília Revisitada, texto de ma do gênio humano”, ou “artefato urbano (...) em
a salvaguardar a cidade contra os riscos de perda Lucio Costa, e ao §3º do mesmo artigo, citado ante- É o reconhecimento de que a cidade é resultado de consonância com os princípios (...) do movimento
do projeto original. Nesse sentido, Pessôa (2003) riormente, que dá prerrogativa aos arquitetos Lucio processos cumulativos de atividades gregárias que moderno”. Esse fato revela, segundo Pessôa (2003),
sustenta que, em 1987, Costa e Oscar Niemeyer de propor “complementa- se desenvolvem nos seus diversos espaços, sendo
ções necessárias ao Plano Piloto original”. assim um lugar de constantes criações e interven- ...a dualidade vivida pelos arquitetos modernistas bra-
O Plano Piloto organizado em torno dos dois eixos, ro- ções coletivas, mesmo que oriunda de um desenho sileiros do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
doviário-residencial e monumental, não se encontra- Fica estabelecido em 1987/1992, portanto, que a urbano autoral, como no caso de Brasília. Sua carga guardiões do passado e projetistas do futuro, [que] re-
va ainda totalmente ocupado. Era óbvio aos promoto- cidade tem autores, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, histórica vai além de seu caráter “autoral”, uma vez sultou na precoce e inovadora proteção de obras mo-
res do tombamento que só a preservação do existente que esses autores ainda têm prevalência para alte- que a cidade é implantada, vivida e consolidada à dernas que se encontravam ameaçadas de descaracte-
não garantiria a execução das áreas restantes dentro rações no bem e que a originalidade do bem tomba- medida que os próprios espaços – como “categoria rização ou destruição. Com isso tentavam livrá-las do
dos mesmos princípios originais do plano. De outra do reside não no objeto construído, prioritariamen- histórica”, conforme defende o geógrafo Milton San- natural processo de acúmulo histórico – procurando
parte, como o próprio Lucio Costa já havia repetido te, mas no objeto projetado. Para Perpétuo (2015), tos – vão adquirindo novos significados ao longo do garantir para o futuro aquilo que na realidade nunca
inúmeras vezes, o que incomodava aos críticos de tempo (BRASIL, 2016a). tivemos do passado, uma obra intacta no modo como
Brasília não era a divergência quanto à aplicação dos [...] não seria a cidade em si (sua realidade morfológica havia sido originalmente projetada. (PESSÔA, 2003)
princípios do plano e sim a ocupação deste pela “ar- consolidada, sua materialidade efetivamente constru- A Portaria nº 166/2016 ainda incorpora a necessi-
quitetura e anti-arquitetura”, que coexistiam lado a ída) que estaria preservada em lei desde 1960. Antes, dade de equacionar o que Rossetti (2012) chamou Essa dualidade a que Pessôa (2003) se refere traz
lado. Era, portanto, inconcebível assegurar pela pro- restringe-se a proteção ao seu projeto, o de autoria de de “tensões entre o ideário geral da cidade e o pro- luz a um dilema da preservação do patrimônio mo-
teção tradicional da cidade existente, a conservação Lucio Costa, provavelmente com o intuito de garantir jeto urbano consolidado”. Desta forma, aproxima- derno: qual o papel o projeto na caracterização dos
de um estoque construtivo de baixa qualidade arqui- a consecução da obra, haja vista que a possibilidade de se dos preceitos da Carta de Washington, valori- critérios de autenticidade de uma obra construída?
tetônica. não completude era real, consideradas, por exemplo, zando sua condição de cidade histórica na medida
as ameaças de opositores que se interessariam por en- em que a considera como uma expressão material A autoria perfeitamente caracterizada do projeto,
A preponderância do projeto em relação à cidade de terrar a figura política de JK e seu legado. (PERPÉTUO, da diversidade das sociedades através da história a atribuição de valores intrínsecos ao arquiteto e
fato fica clara no próprio texto da portaria de 1992, 2015, p. 225) (ICOMOS, 1987). não necessariamente à obra, o acesso à farta docu-
quando esta dispõe que “a realidade física territo- mentação dos projetos e, em alguns casos, o aces-
rial correspondente ao bem tombado [...] é com- A Portaria nº 166/2016, por sua vez, traz nuances Esse avanço conceitual, no entanto, não faz com que so ao próprio autor permitem a incorporação da
preendida como o conjunto urbano construído em distintas. Há uma preocupação em apresentar esse o projeto deixe de ser a fonte primária de referên- obra projetada como elemento que se soma à obra
decorrência do Plano Piloto vencedor do concurso dispositivo incorporando a dimensão urbana de cia para o estabelecimento de critérios de valoração construída na determinação de critérios de autenti-
nacional para a nova capital do Brasil, de autoria do Brasília, pois, conforme o Documento Técnico que do Conjunto Urbanístico de Brasília; significa, antes, cidade e no estabelecimento de diretrizes de inter-

142 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 143


A espacialização dos dispositivos de preservação

venção. Para Prudon (2008), a preservação da ar- MOS - ISC20C, 2011), e assim reconhecendo o papel Ao deslocar o objeto da preservação para a cidade a representatividade urbanística nele existentes –,
quitetura moderna extrapola o objetivo de se salvar fundamental do projeto e da autoria, porém sem des- efetivamente construída, evidencia-se a necessida- e facilitar o entendimento dos agentes públicos e
sua existência material: incorpora, necessariamen- considerar a materialidade e a dinâmica urbana, fun- de de estabelecimento de critérios de espacializa- privados que atuam no processo de gestão e preser-
te, a filosofia e os ideais do arquiteto, dos clientes damentadas pelas Cartas de Veneza (ICOMOS, 1964) ção dos dispositivos de preservação, para somar-se vação, por meio de diretrizes e critérios objetivos de
e dos ocupantes, os quais muitas vezes estão vivos. e de Washington (ICOMOS, 1987), respectivamente. aos critérios por “escalas” estabelecidos na Portaria intervenção (BRASIL, 2016a, p. 12).
Essas intenções são difíceis de captar e ainda mais nº 314/1992.
difíceis de interpretar. Por fim, cabe ainda ressaltar que o Decreto nº Nesse sentido, a nova portaria reconhece a necessá-
10.829/1987 e a Portaria nº 314/1992, ao propor- Nesse sentido, como mostra a Figura 2, a Portaria nº ria interação com o planejamento urbano e dá um
Assim, se, por um lado, esse fato pode permitir uma cionarem a participação ativa e decisiva do autor do 166/2016 divide a área da poligonal de tombamen- passo para sua concretização, conforme recomen-
valoração mais precisa do bem, por outro oferece o plano-piloto de Brasília enquanto havia a possibili- to do CUB em Macroáreas de Proteção – porções ter- da a Carta de Washington (ICOMOS, 1987), resga-
risco de se prevalecer o projeto à obra construída, dade de sua colaboração pessoal – como fica claro ritoriais definidas conforme a simbologia histórica e tando, ainda, a visão refutada no estabelecimento
tornando-se cada vez mais difusa a materialidade no processo de formulação dessas normativas, ana- urbanística que representam na composição do CUB do decreto de 1987 e da portaria de 1992, de que
do bem e, por consequência, menos objetiva, com- lisado por Ribeiro (2005) – permitiram a importan- (Portaria nº 166/2016, art. 15) – que são divididas a preservação poderia ser alcançada mediante o
prometendo assim o rigor metodológico que deve te apropriação da “opinião do autor ou construtor em Zonas de Preservação. Essas Zonas de Preserva- uso de instrumentos urbanísticos dentro da ótica
guiar as ações, conforme estabelecido na Carta de original [que] deve ser solicitada quando se consi- ção, por sua vez, são “delimitadas de acordo com os do planejamento urbano – postura defendida pelo
Veneza (ICOMOS, 1964), ainda um dos mais impor- dere relevante” (ICOMOS - ISC20C, 2011), mesmo atributos, morfologia e papéis que desempenham na pioneiro GT Brasília, Grupo de trabalho interinsti-
tantes referenciais no campo da preservação. que passe a ser vista, com mais ênfase a partir da constituição da paisagem urbana” e são compostas tucional estabelecido em 1981 para estudar, propor
Portaria nº 166/2016, sob uma perspectiva articu- por Áreas de Preservação (AP), “definidas de acor- e adotar medidas para a preservação do patrimônio
Esse dilema relaciona-se diretamente à questão da lada com a cidade estabelecida. do com as especificidades urbanas encontradas em de Brasília (RIBEIRO, 2005, p. 80).
avaliação do significado cultural do bem, conforme cada Zona, (...) submetidas a critérios específicos de
prescrito no Documento de Madri (ICOMOS - ISC20C, intervenção (Portaria nº 166/2016, art. 16). Mais recentemente, essa visão ganhou ênfase na
2011), que reconhece que o significado cultural de discussão em andamento do Plano de Preserva-
um bem pode residir nos seus atributos tangíveis, A Zona de Preservação 1 da Macroárea A – ZP1A, ção do Conjunto Urbanístico de Brasília, o PPCUB,
próprios da obra construída, bem como nos intan- compreende parte da porção urbana descrita no instrumento que busca integrar a preservação de
gíveis, incluindo seus valores históricos, sociais e o Relatório do Plano Piloto de Brasília, de 1957, cons- Brasília como cidade histórica com o planejamento
“gênio criativo do seu autor”. A manutenção da inte- tituindo-se na área de maior representatividade urbano e territorial (ROSSETTI, 2012).
gridade, de acordo com o documento, deve equacio- simbólica, morfológica e urbanística do CUB. As
nar esse entendimento amplo do significado do bem. normas de preservação para esta Zona são bastante
rígidas, protegendo as principais edificações do de-
Assim, a Portaria nº 166/2016, ao se aprofundar e saparecimento e as áreas non aedificandi, de novas
tentar equilibrar a tensão entre projeto ideal e cida- construções ou parcelamentos urbanos.
de estabelecida, insere-se nesse campo ampliado de
entendimento do significado de Brasília, convergin- Esta espacialização visa organizar o território do
do, nesse aspecto, com o Documento de Madri (ICO- conjunto tombado – reconhecendo a diversidade e

144 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 145


A diferenciação gradativa de níveis
e critérios de preservação

A partir da espacialização dos dispositivos de preser- Macroárea B deve ser tratada como suplementar e
vação, a nova portaria apresenta uma diferenciação uma garantia à permanência da presença urbana do
gradativa dos níveis e critérios de preservação. As- conjunto do plano piloto concebido por Lucio Costa”
sim, a Macroárea de Proteção “A” compreende as áre- (REIS, 2016, p. 5).
as mais sensíveis do ponto de vista da preservação,
correspondendo à “porção territorial decorrente do Desta forma, há duas áreas distintas para as quais
projeto vencedor do concurso para a nova capital do a nova portaria reserva abordagens também dis-
Brasil, em 1957, englobando a área do Plano Piloto tintas, apresentando normas mais rígidas para as
de Brasília os setores acrescidos ao projeto original áreas mais sensíveis, e mais flexíveis para as de-
ainda na fase pioneira de construção da cidade e a mais. Essa diferenciação territorial tem pelo me-
porção leste do conjunto urbano, até à margem do nos duas consequências.
Lago Paranoá” (BRASIL, 2016b, art. 17).
Primeiramente, volta a dar ênfase ao desenho ur-
Conforme Reis (2016, p. 5): bano de Lucio Costa, à concepção original como
apresentada em 1957, ressaltando assim a forma
Essa porção territorial constitui indiscutivelmente a de avião ou cruz que o cruzamento dos dois eixos
de maior representatividade histórica, urbanística e proporciona, correspondente à Zona de Preservação
paisagística do conjunto tombado, onde se expressam 1 – ZP1A (Figura 3). Transforma, portanto, essa zona
as quatro escalas que traduzem a concepção do Pla- numa espécie de “centro histórico” do Conjunto Ur-
no Piloto de Brasília, nos termos definidos por Lucio banístico de Brasília, uma área onde as ações de pre-
Costa. É nesse território que se concentram as ações servação são mais rígidas e intensas que nas demais.
preservacionistas decisivas à proteção do bem tomba-
do, acolhendo os critérios de intervenção específicos e Em segundo lugar, estabelece uma espécie de área
pormenorizados. de entorno imediato ao conjunto do plano piloto,
conforme havia sido definido em 1987, “servindo
Já a Macroárea de Proteção B “compreende a porção de controle ao seu alastramento urbano” (REIS,
oeste do conjunto tombado e envolve os setores ur- 2016, p. 5). Esse entorno, no entanto, não pode ser
banos implantados fora da estrutura concebida por confundido com aquele definido pela Portaria nº
Lucio Costa no Relatório do Plano Piloto de Brasí- 68/2012 do IPHAN, ainda vigente, que visa preser-
lia” (Portaria nº 166/2016, art. 67). Segundo Reis var a ambiência e a visibilidade do bem tombado,
(2016), trata-se de área de preservação adicional à correspondendo a área delimitada pelo eixo da ro-
02 Zonas de Preservação conforme Anexo 3 da Portaria Macroárea A, de menor expressão urbanística e de dovia DF-001 (Estrada-Parque Contorno – EPCT),
nº 166/2016 relevância secundária na composição da paisagem em toda a sua extensão.
Fonte BRASIL, 2016b urbana. Com relação à estratégia de preservação, “a

146 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 147


O reconhecimento dos valores e
características essenciais

Essa gradação da Portaria nº 166/2016 ainda refor- Os últimos pontos relevantes que serão tratados nes-
ça o duplo caráter preservacionista, observado por se artigo, com relação às inovações trazidas pela nova
Perpétuo (2015, p. 236) nos dispositivos de 1987 e portaria comparativamente aos dispositivos de 1987
1992, referentes a um objeto prioritário de proteção e 1992, são a incorporação textual do “valor histó-
delimitado e o entorno desse objeto. rico” do CUB e, principalmente, a apresentação das
formas entendidas pelo IPHAN nas quais esse valor
histórico se expressa (Portaria nº 166/2016, art. 4º):

Art. 4º O valor histórico do Conjunto Urbanístico de


Brasília reconhecido por força do tombamento federal
e da inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNES-
CO, se expressa nos seguintes fatos:

I. constitui obra-prima do gênio criador humano, ilustrati-


va de um estágio significativo da história da humanidade;

II. constitui o principal artefato urbano produzido no


século 20, em consonância com os princípios urbanís-
ticos e arquitetônicos do Movimento Moderno;

III. constitui exemplar urbanístico excepcional e de im-


pacto para a história do urbanismo;

IV. constitui acervo arquitetônico excepcional e de im-


pacto para a história da arquitetura;

V. constitui fenômeno geopolítico e social de grande


desdobramento para a história brasileira;

VI. constitui o marco da concretização do processo se-


cular de interiorização do país; e,
03 Mapa de sobreposição do Plano Piloto de Lucio Costa
à área tombada, contendo as Macroáreas A e B VII. constitui ação grandiosa da sociedade brasileira
Fonte BRASIL, 2016b, p. 17 integrada a uma estratégia de desenvolvimento e au-

148 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 149


Conclusões

toafirmação nacional para o mundo. (BRASIL, 2016, O Decreto nº 10.829/1987 estabelece o primei- blicada com o objetivo de complementar e detalhar deram forma. Incorpora-se o fator coletivo, o pro-
art. 4º) ro instrumento efetivo de preservação de Brasília, a anterior. Nessa complementação, deparou-se com cesso histórico e a dinâmica urbana à autoria sem-
fruto de preocupações acerca de sua descaracteri- outro desafio: incorporar, agora com a cidade em es- pre ressaltada e valorizada do plano-piloto e dos
A valoração do bem é fundamental, segundo o Do- zação – preocupações estas iniciadas ainda na sua tágio de desenvolvimento mais avançado, a proteção principais edifícios.
cumento de Madri, para poder identificar e avaliar fundação, ecoadas com declarações do próprio de elementos urbanos consolidados com o tempo,
o seu significado cultural, tendo em vista que “re- Lucio Costa (1974), e trazidas à tona com os estu- bem como considerar a dinâmica própria de uma A Portaria nº 166/2016, portanto, atualiza o marco
quer-se uma cuidadosa avaliação da medida em dos desenvolvidos pelo GT Brasília, nos anos 1980. metrópole, num marco normativo mais atualizado. normativo federal, aproximando-o das discussões
que um sítio inclui todos os componentes neces- Esse decreto, por sua vez, tinha como objeto mais atuais sobre o tema, além de trazer inovações fun-
sários para expressar o seu significado e também o projeto, a concepção urbanística, do que a cidade À medida que a nova portaria reequilibra a tensão damentais para a preservação do Conjunto Urbanís-
para garantir uma completa representação das de fato, com todos os seus problemas existentes à projeto ideal versus obra construída e passa a incor- tico de Brasília, entre as quais as destacadas neste
características e processos que contribuem para o época. O problema maior era a descaracterização do porar com mais ênfase a cidade consolidada como artigo. Para sua efetivação, no entanto, é impres-
seu significado” (ICOMOS - ISC20C, 2011). A partir plano-piloto. Nessa mesma linha seguiram as Porta- um artefato histórico e dinâmico, as estratégias cindível o estabelecimento de legislação distrital,
dos valores atribuídos e dos significados identifi- rias nº 04/1990-SPHAN e nº 314/1992- IPBC. de proteção passam a ser mais precisas e efetivas, notadamente o Plano de Preservação do Conjunto
cados, é possível estabelecer uma interlocução e, materializando o objeto da preservação, indicando Urbanístico de Brasília – PPCUB, em revisão, que
idealmente, o compartilhamento de valores entre Para Pessôa (2003, p. 2), “ao deslocar o objeto do especificamente locais, edifícios, praças, elementos. apresenta uma participação mais ampla da socie-
os sujeitos e grupos, o que permitiria que se lidasse tombamento, das construções que constituem a Ao se tornar menos abstrato, dá menor margem a dade e que tem a possibilidade, caso necessário, de
melhor com um patrimônio que se mostra bastante área a ser preservada, para os critérios que infor- interpretações perigosas. ser mais restritiva sem afrontar a norma federal,
complexo (CARVALHO et al., 2014). maram estas construções a assumirem a presente bem como de realizar a integração da legislação de
forma, indica uma gestão absolutamente nova e Além disso, a Portaria nº 166/2016 estabeleceu preservação com o planejamento urbano do Distrito
Assim, ao se reconhecer certos valores do Conjunto polêmica na proteção de um sítio urbano”. Assim, uma espacialização dos dispositivos de preservação Federal, uma vez que este último aspecto é de com-
Urbanístico de Brasília e explicitá-los na portaria, es- para responder a essa demanda, os instrumentos e, a partir disso, criou uma diferenciação gradativa petência própria da esfera distrital.
tabelecem-se os parâmetros para a discussão e o di- de proteção estabelecidos precisaram ser inovado- de critérios de preservação, dispondo critérios mais
álogo entre os sujeitos que atuam para a preservação res, dissociando a preservação da concepção urba- rígidos no núcleo mais significativo da cidade – não Nesse espaço de disputa econômica, política e
patrimonial e para o planejamento urbano da cidade, nística dos estratos físicos do sítio, uma vez que os coincidentemente a área determinada no plano-pi- simbólica que é a preservação do patrimônio
criando bases conceituais mais sólidas e precisas. conceitos e práticas já desenvolvidos em centros loto de 1957 – e normas mais flexíveis para um “en- (CANCLINI apud RIBEIRO, 2005, p. 125), questões
estratificados pelo tempo não eram suficientes ou torno imediato” dentro do polígono de tombamento. controversas, como a possibilidade de criação de
adequados (REIS, 2016). No âmbito dessa inova- estacionamentos subterrâneos no canteiro central
ção, em certa medida, houve uma antecipação de Nota-se ainda, pela primeira vez, certo distancia- da Esplanada dos Ministérios e do Eixo Monumen-
premissas de preservação do patrimônio moderno, mento histórico no estabelecimento de critérios de tal – desde que não “implicarem em supressão de
cuja discussão ainda era incipiente na época, que fo- preservação da cidade. Embora não haja um rom- vegetação arbórea e introdução de elementos cons-
ram consolidadas em 2011 no Documento de Madri. pimento com a portaria anterior, mas sua comple- truídos acima do nível do gramado existente” (Art.
mentação, a Portaria nº 166/2016 apresenta um 23, VIII) – e a consolidação dos avanços posterio-
Por outro lado, passados vinte e quatro anos da Por- viés emancipador entre Brasília, seu ato de criação res e laterais nos comércios locais Asa Sul (Art. 32,
taria nº 314/1992, a Portaria nº 166/2016 foi pu- e os arquitetos responsáveis pelos projetos que lhe III, §2º) – os chamados “puxadinhos” – certamente

150 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 151


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resumo abstract introdução

Este estudo lança luz sobre um problema atual – re- This article highlights a current challenge – con- De acordo com a Constituição Federal, competem nais e sociais, novos interesses e novas agendas, com
lativo à concertação de competências constitucio- cerned to the constitutional powers shared between a todos os entes federativos (a União, os Estados, o destaque para aquelas ligadas às questões urbanas
nais comuns à União e ao Distrito Federal (a pro- federal and local governments in Brazil (like urban Distrito Federal e os Municípios) as ações que visam emergentes nas grandes cidades brasileiras.
teção de obras e monumentos de valor histórico, planning and the management of heritage sites and à preservação de bens protegidos pelo Estado em ra-
artístico e cultural) e competências exclusivas do monuments) – which depends on effective and co- zão de seu “valor histórico, artístico e cultural” (art. Consequência tardia de decisões tomadas no início
ente local (o planejamento urbano) – cuja solução operative institutional arrangements. The case we 23), além de caber a estes entes legislar concorrente- de sua existência, o IPHAN atualmente busca equa-
depende da construção de arranjos cooperativos bring to light – the elaboration of buffer zone regula- mente sobre “proteção ao patrimônio histórico, cul- cionar um passivo de pendências e inexatidões na
efetivos. Analisa-se o processo de delimitação da tions to the urban ensemble of Brasília – is inserted tural, turístico e paisagístico” e sobre a responsabi- delimitação e na normatização de vários conjuntos
zona de entorno (buffer zone) do Conjunto Urba- on IPHAN’s current agenda as an emblematic exam- lidade por dano a “bens e direitos de valor artístico, urbanos, alguns protegidos há muitas décadas. A títu-
nístico de Brasília (CUB), o qual se insere na atual ple, due to its huge dimension and its contribution to estético, histórico, turístico e paisagístico” (art. 24). lo de exemplo, em núcleos urbanos tombados como
agenda do IPHAN como um caso bastante emblemá- the federative debate, and additionally because of its Ouro Preto e Congonhas (MG), a dinamização econô-
tico, por suas dimensões físicas, por reunir aspectos multiple protection (by national and international No que se refere, portanto, à gestão do patrimônio mica ocorrida desde a década de 1940 alterou a fei-
fundamentais do concerto federativo, por congregar regulations) and its complex urban dynamics. cultural, a Constituição Federal dispôs de uma es- ção urbana dessas cidades, levando à deterioração de
estatutos oficiais de reconhecimento em diversos trutura de atribuições que é fundamentalmente de seus entornos protegidos, seja pela ocupação desor-
níveis (inclusive internacional) e por abranger uma compartilhamento e que, por tal motivo, pressupõe denada ou pela destruição de características naturais
dinâmica urbana extremamente complexa. Keywords Urban ensemble. Buffer zone. Brasília. articulação e coordenação em nível federativo. relevantes para a preservação do ambiente em que
Shared management. estão inseridos. A ausência de delimitação das áreas
Palavras-chave Conjunto urbanístico. Entorno. Alicerçando sua atuação na definição ampliada de de proteção ainda hoje dificulta a atuação do Institu-
Brasília. Gestão compartilhada. patrimônio cultural expressa no artigo 216 da Carta to em suas atribuições de fiscalização e controle.
Magna, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artísti-
co Nacional (IPHAN) compartilha com órgãos corre- À luz desse contexto, pretende-se, neste breve estu-
latos nos estados, no Distrito Federal e nos municí- do, lançar luz sobre o processo de delimitação do en-
pios a atribuição de zelar pela preservação dos bens torno do sítio tombado de Brasília, o qual se insere
culturais e estabelecer mecanismos legais para sua na atual agenda do IPHAN como um caso bastante
preservação. Ao longo da maior parte de sua história emblemático, por suas dimensões físicas, por reu-
de quase 80 anos, no entanto, concentrou sua atua- nir aspectos fundamentais do concerto federativo,
ção essencialmente no patrimônio edificado tomba- por congregar estatutos oficiais de reconhecimento
1 A primeira versão deste texto foi apresentada como tra- do pelo próprio órgão, de forma isolada e ausente em diversos níveis (inclusive internacional) e por
balho de conclusão do curso de Especialização em Ges- de articulações interinstitucionais dignas de nota, e abranger uma dinâmica extremamente complexa,
tão Pública da Escola Nacional de Administração Pública quase sempre sob uma perspectiva técnica alheia a que é afinal a dinâmica de uma cidade viva e pujante.
(ENAP), em 2016. O autor agradece a Antônio Lassance contatos externos e à participação social. Essa atua-
(orientador do trabalho) e Fábio Rolim, pelas valiosas con-
tribuições ao texto, bem como aos seus entrevistados no
ção focada tem sido insuficiente, na medida em que
IPHAN e na Secretaria de Estado de Gestão do Território e seu campo de atuação torna-se gradativamente mais
Habitação do Distrito Federal. complexo – com a adição de novos atores institucio-

156 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 157


Federalismo, descentralização
e gestão compartilhada

O “sistema nacional de patrimônio cultural”2 envol- equilíbrio de forças e a divisão de competências en- as partes”. Isso inclui a cooperação entre territórios toridade estão as leis e regulamentos, que por ve-
ve, além do órgão federal, as secretarias estaduais e tre eles. Tendo variado entre momentos de maior – ou melhor, entre suas esferas de governo – numa zes obrigam determinado ente à adesão – como no
municipais que tratam do tema. É, por assim dizer, centralização de poder – como a “era Vargas” e o conjugação de esforços entre eles, para implementar caso de um conjunto urbano tombado, em que obri-
um subsistema de políticas públicas associado ao regime militar – e outros de maior concessão aos políticas públicas de interesse comum. Inclui ainda gações e restrições incidem sobre todos os entes
sistema de cultura, organizado em torno do Minis- estados – de que a Primeira República e o período ingredientes de conflito, autonomia, cooperação federados e agentes, condicionando suas políticas
tério da Cultura e das secretarias estaduais e muni- 1946/1964 são exemplos – nosso federalismo so- e coordenação – numa escala que vai do aparente- para aquela área. Há ainda um terceiro instrumento,
cipais de cultura. Embora não se constitua em um freu, ao longo dos anos 1980, uma notável inflexão mente inconciliável (os interesses em disputa e a ga- nem “leve” nem “rígido”, constituído pelos recursos
“sistema” como o Sistema Único de Saúde (SUS), em descentralizante, que Lassance (2012) qualifica rantia constitucional de autonomia dos entes federa- (mormente financeiros), cuja oferta é capaz de esti-
termos de contar com uma sistemática regular de como radicalização do federalismo. Para esse autor, dos) ao trabalho conjunto coordenado, cujo alcance mular o outro ente a agir. É o que Vedung compara
repasses e um arcabouço detalhado de condicionan- naquele contexto histórico, “havia ainda o estímulo é evidentemente complexo e somente factível se de a “sermões” (persuasão), “porretes” (autoridade) e
tes e programas mínimos, a proteção ao patrimônio de uma tendência mundial, nos anos 1980 e 1990, fato houver interesses comuns – afinal, como lem- “cenouras” (recursos financeiros, estímulos etc.).
histórico se vincula, tal como o SUS, a educação, a em favor da descentralização, com o reconhecimen- bram os mesmos autores, “a cooperação só é aceita
assistência social, e tantas outras, ao sistema federa- to e enaltecimento do ‘poder local’”. quando os custos da não cooperação são muito al- No Distrito Federal, as políticas e muitos dos con-
tivo de políticas públicas. tos” (ABRUCIO; FRANZESE; SANO, 2013, p. 139). flitos na questão do patrimônio histórico ainda se
No caso brasileiro, a descentralização esteve intima- situam predominantemente nos campos da autori-
Tanto a forma como se organiza quanto a existência mente associada à lógica do processo de transição Alinhada a essa leitura sobre os custos (sobretudo dade (a legislação, ou “porrete”, como dizíamos) e
de diversos conflitos, como os que se relacionam a democrática. A emergência de movimentos e de lide- políticos) da cooperação ou da não-cooperação, a da persuasão (negociação, discurso, “sermão”), com
leituras divergentes sobre como preservar um sítio ranças democráticas tornou a participação uma ban- contribuição de Zehavi – com a leitura que faz dos tímida formalização em termos de arranjos institu-
tombado, denotam claramente que os problemas deira, e o município, o lócus privilegiado para a sua instrumentos oferecidos por Vedung, que este me- cionais consolidados nos planos federal e local. Essa
de pesquisa relacionados a esse subsistema devem implementação autônoma (LASSANCE, 2012, p. 27). taforicamente chama de “cenouras, porretes e ser- particularidade é decisiva à análise da relação es-
estar referenciados em uma discussão sobre o fede- mões” – auxilia na compreensão dos estímulos à co- pecífica entre IPHAN e Governo do Distrito Federal
ralismo, enquanto instituição, e especificamente so- Ainda segundo Lassance, o federalismo se presta a operação, que podem estar presentes ou ausentes, (GDF), em um contexto tão peculiar quanto o caso
bre o federalismo brasileiro, enquanto construção ser enfáticos ou discretos, a depender do momento concreto da delimitação do entorno do sítio tomba-
institucional própria que enquadra esse sistema de estruturar ações que devam ocorrer nacionalmente; e da situação na relação entre dois entes federados. do de Brasília. Portanto, se o enquadramento teóri-
políticas públicas aqui relacionado. e, concomitantemente, fragmentar as políticas públi- Para Zehavi (2012), a relação entre entes federados co informa vários dos parâmetros e contingências
cas, obrigando à multiplicação de programas para se na implementação de uma política pública conta dessa relação, ao mesmo tempo requer uma análise
O federalismo brasileiro tem raízes na transição adequar às diferentes realidades locais. O federalismo com instrumentos “leves” (soft instruments) e “rí- também específica, diversa que é até mesmo quanto
do Império para a República, tomando então em- adensa e fraciona interesses em disputa, o que refor- gidos” (hard instruments), tais como a persuasão e aos demais casos de articulação no modelo de siste-
prestada dos Estados Unidos sua concepção de ça a unidade e dá espaço à diversidade”(LASSANCE, a autoridade, respectivamente. Por persuasão en- ma de políticas federativas.
autonomia dos entes federados, conjugada com o 2012, p. 23). tendam-se os esforços de convencimento empreen-
didos entre os governos, em que a adesão (a uma
Para Abrucio, Franzese e Sano (2013, p. 131), o ob- mesma política) ocorre pelo convencimento de uma
2 Esta é a denominação atribuída pelo IPHAN, nos estudos jetivo central da federação é “compatibilizar o prin- a outra parte, por preocupações comuns quanto à
que se referem a esse tipo de articulação interfederativa. cípio de autonomia com a interdependência entre importância da referida política. No quesito da au-

158 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 159


Um vocabulário próprio antecedentes

Antes de adentrarmos no histórico e análise do Caberá ao órgão competente estabelecer para cada tanto, demanda sua área de entorno específica. Esta O reconhecimento de Brasília como bem cultural
caso, é necessária uma explanação inicial a respei- tombamento os critérios pelos quais protegerá a visão área de entorno deve considerar os critérios de vi- ocorreu em 1987. Contrariamente à maioria dos ca-
to de terminologias-chave para sua compreensão do bem tombado, critérios estes que variarão confor- sibilidade e ambiência do bem tombado, mediante sos, naquele ano, antes mesmo de ganhar a proteção
– precisamente, as diferenças entre área tombada e me a categoria, tamanho, espécie de bem. (RABELLO, sua delimitação geográfica e a normatização de pa- do tombamento pelo IPHAN, o Plano-Piloto de Lúcio
área de entorno. 2009, p. 122-123) râmetros para intervenções em seu interior. Costa foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Conforme o Decreto-Lei nº 25/1937 – que organiza Da leitura conjunta dos artigos 17 e 18 se afigura a Ciência e a Cultura (UNESCO). A chancela se deu a
a preservação do patrimônio cultural de natureza distinção entre aquilo que é efetivamente protegi- partir de pedido formulado pelo Governo do Dis-
material no Brasil e é o principal marco normativo do (o objeto da proteção legal) e aquilo que garan- trito Federal, que, a fim de atender à exigência da
em vigor a este respeito – bens, públicos ou particu- te ao objeto condições apropriadas de percepção e UNESCO quanto à existência de alguma forma de
lares (art. 2º), móveis ou imóveis vinculados a fatos entendimento, considerando-se critérios visuais e proteção prévia ao reconhecimento internacional,
memoráveis ou de excepcional valor (art. 1º), que te- de ambientação. Nos casos de bens tombados em editou o Decreto nº 10.829/1987. A constituição
nham sido inscritos em um dos Livros do Tombo (art. conjunto (como áreas urbanas), esta diferenciação deste marco normativo se deu sob o formato jurí-
1º, § 1º e art. 4º), não poderão em nenhum caso so- é comumente caracterizada como área tombada e dico de uma regulamentação do artigo 38 da Lei nº
frer modificação sem prévia autorização especial do área de entorno – configurando um par que deve ser 3751, de 13/04/1960 (que dispunha sobre a orga-
IPHAN (art. 17) e tampouco em sua vizinhança ser pressuposto e indissociável, sob o risco de compro- nização administrativa do Distrito Federal em vias
feita construção que lhe impeça ou reduza a visibili- metimento da leitura dos valores que fundamenta- de ser transferido, mas trazia uma determinação re-
dade (art. 18). Naquele primeiro momento o conceito ram a proteção conferida. Assim, o bem tombado é o lativa ao “plano-piloto a que obedece a urbanização
de visibilidade restringia-se à percepção visual, mas objeto que reúne intrinsecamente os valores cultu- de Brasília”4). Assim, o decreto distrital se concreti-
hoje é consensualmente complementado com o cará- rais manifestos, ao passo que seu entorno é o objeto zou e delimitou uma imensa área destinada à pre-
ter de ambiência, como explica Sonia Rabello: que, não tendo valor intrínseco, reúne as condições servação, com 112km², posteriormente convertida
que conferem o entendimento do contexto (históri- em área tombada.
Entende-se, hoje, que a finalidade do art. 18 do Decre- co, espacial, social etc.) daquele objeto3.
to-lei 25/37 é a proteção da ambiência do bem tom- Pouco tempo depois do reconhecimento pela UNES-
bado, que valorizará sua visão e sua compreensão no O Conjunto Urbanístico de Brasília (CUB) é um bem CO em 1987, José Aparecido de Oliveira, governador
espaço urbano. tombado (em duas esferas, federal e distrital) e, por- quando da elaboração do decreto, tornou-se Mi-
nistro da Cultura, passando a conduzir ele mesmo
Neste sentido, não só prédios reduzem a visibilidade 3 Na área do patrimônio cultural, o conceito de entorno a iniciativa de tombamento pelo IPHAN. O tomba-
da coisa, mas qualquer obra ou objeto que seja incom- aproxima-se (mas sem ser o mesmo) de “gradiente”, “amor- mento federal ocorreu em 1990, mesmo ano em que
patível com uma vivência integrada com o bem tom- tecimento” ou “tampão” (buffer, em inglês), comumente o IPHAN publicou sua primeira portaria de norma-
adotados no campo do meio ambiente para se referir às
bado. O conceito de visibilidade, portanto, ampliou-se
zonas intermediárias para áreas protegidas, como unidades
para o de ambiência, isto é, harmonia e integração do de conservação. Tanto vale a aproximação, que é muito 4 “Art 38. Qualquer alteração no plano-piloto, a que obe-
bem tombado à sua vizinhança, sem que exclua com comum a utilização de uma coisa pela outra – a UNESCO dece a urbanização de Brasília, depende de autorização
isso a visibilidade propriamente dita. (...) utiliza essa nomenclatura para bens de patrimônio cultural. em lei federal.”

160 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 161


tização da área tombada (Portaria nº 04/1990) e As relações com a paisagem e com o sítio em que se 2 – Procurou-se depois a adaptação à topografia local, bilidade – ou seja, uma zona de entorno. Tais zonas
que depois foi revogada e substituída pela Portaria assenta o Plano Piloto remetem ao processo de esco- ao escoamento natural das águas, à melhor orienta- “concêntricas” eram a “área de interesse especial de
nº 314/1992. lha do local e às premissas assumidas pelo projeto, ção, arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo no preservação”, mais rígida, coincidente com o pró-
relativas à sua adaptação ao terreno. Por exemplo, a triângulo equilátero que define a área urbanizada... prio Plano-Piloto, a “área de amortecimento”, con-
No ambiente técnico-acadêmico, Reis (2009) desta- Missão Cruls, expedição realizada ainda no final do (BRASIL, 2014) tígua, e uma “área de interesse para preservação”,
ca que a proteção do CUB, ocorrida no contexto das século XIX, e o Relatório Belcher, estudo contratado mais externa, como que se identificasse a “zona de
mudanças trazidas pela Constituinte, representava poucos anos antes da empreitada, descrevem o ter- Reconhecidamente, há vasta região na vizinhança do entorno”, assim descrita:
uma reação, vinda de dentro das instituições, ao ritório no qual seria construída a nova capital com sítio tombado que guarda com ele intensa relação
futuro que o novo aparato político-administrativo o intuito de oferecer argumentos para a escolha do paisagística, conformando aquilo que aqui tratamos Dentre os elementos do sítio físico, tomou-se o re-
reservava ao Distrito Federal: melhor local. Para Leitão e Ficher (2009, p. 22), como “horizonte de Brasília”. Dada a configuração de levo como fundamental para a delimitação da Área
“anfiteatro” do sítio onde se assenta o conjunto urba- de Interesse de Preservação, devido a que a linha de
O Diário Oficial da União publicou, em 13/03/1990, [...] muito particularmente em Brasília o suporte fí- nístico, essa relação é tanto mais nítida quanto mais cumeadas circundantes se comportar como um limite
penúltimo dia do governo José Sarney (...), a homo- sico é elemento indissociável do projeto urbanístico. simbólica na paisagem natural a leste do Plano Pilo- do horizonte visual, bastante claro e uniforme pratica-
logação do tombamento do conjunto urbanístico de Muitos já falaram da “monumentalidade” do sítio fí- to, como ilustra a imagem muitíssimo difundida do mente em 360 graus [...] há suaves declives em direção
Brasília. (...) Na verdade, esse tombamento expressava sico – caracterizado por uma convexidade, a colina de Congresso Nacional e da Esplanada dos Ministérios ao lago, mais acentuados unto às margens e colinas
o temor da área federal sobre um possível desvirtua- sua área central, no interior de uma concavidade, dada como “figura”, tendo como “fundo” a linha de cumea- (que) definem o horizonte dessa área em todas as
mento urbano da cidade, após a consolidação da sua pela bacia do Paranoá. Tal ponto de vista foi expresso da que delimita a bacia hidrográfica do Lago Paranoá. direções, mais enfaticamente a Leste, pela depressão
autonomia político-administrativa, configurada na com elegância por Cláudio Queiroz, ao mostrar que do mencionado lago. No lado oposto, o ponto máximo
eleição de seu mandatário e na instituição da Câmara “o partido adotado para o Plano Piloto se apropriou Diversos estudos dos governos federal e local suce- ocorre na região do Cruzeiro e junto ao Memorial JK, a
Legislativa. (REIS, 2009, p. 226) da natureza de uma forma que preservou o seu traço deram o Decreto nº 10.829, buscando aperfeiçoar a 1172m; a partir daí, uma pequena depressão prolon-
marcante... Uma nova Paisagem Visual que traz consi- delimitação do sítio protegido, a fim de estabelecer ga-se até o limite oeste da Área de Interesse de Preser-
Se o tombamento, a partir daquele momento, efe- go a Paisagem Natural preexistente” [...] parâmetros diferenciados no interior da enorme vação (GT BRASÍLIA, 2016, p. 70-71).
tivamente protegeria o CUB da “sanha” construtiva área tombada e, em alguns deles, criar e delimitar
e urbanizadora que poderia advir da atuação de O “sítio castanho”, escolhido para implantação da ci- a área de entorno. A “área de interesse para preservação” era pouco
um Poder Legislativo recém-criado, o mesmo não dade a partir do Relatório Belcher (1954), é que pos- maior que o objeto de tombamento posterior pelo
se pode dizer em relação às áreas diretamente vi- sui a configuração côncavo-convexa descrita acima, A Síntese dos trabalhos do Grupo de Trabalho para IPHAN e sua preservação obedeceria a parâmetros
zinhas ao sítio, destacando-se a presença do lago responsável pela presença marcante da paisagem a Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural menos rígidos de proteção da ambiência e da visibi-
e das colinas que conformam e dominam a paisa- e sua relação com a cidade implantada. Lucio Costa de Brasília (GT Brasília), publicada originalmente lidade. Reis explica:
gem circundante, a leste do Plano Piloto. Para elas, mostra como inseriu sua cidade no sítio natural: em 1985 (GT BRASÍLIA, 2016), já propunha áreas
embora seja marcante a sua presença na margem “concêntricas”, a partir do conjunto do Plano Piloto, Essa proposta, formalizada no Anteprojeto de Lei de
oposta do Lago Paranoá, do lado do sol nascente, 1 – Nasceu do gesto primário de quem assinala um em que a rigidez das regras para preservação era Preservação do Patrimônio Histórico, Natural e Urbano
emoldurando o sítio onde se construiu a cidade, o lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em gradativamente reduzida, estabelecendo uma com- de Brasília, ainda incluía a criação do Conselho de Pre-
regramento nada reservava. ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz. preensão diferenciada, relativa à proteção rigorosa servação do Patrimônio Cultural de Brasília e integrava
do conjunto e a parâmetros de proteção de sua visi- a documentação da candidatura da cidade na UNESCO

162 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 163


02 Área de interesse para preservação 03 Novas áreas residenciais propostas no
proposta pelo GT Brasília estudo Brasília Revisitada 1985/87 – Anexo I do
Fonte REIS, 2011 Decreto nº 10.829/1987. Notem-se as ocupações
01 Congresso Nacional, com linha de propostas para as áreas E e F, componentes da
cumeada a leste do CUB ao fundo zona de entorno em todos os estudos citados
Fonte fotografia do autor Fonte REIS, 2011

164 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 165


– o Dossiê Brasília. Contudo, por ser entendida como de entre 1988 e 1989, desta feita tendo como referência
aplicação complexa e abarcar elementos fora dos limites a área de preservação, então já delimitada no citado
geográficos de interesse da UNESCO, foi preterida em decreto distrital. Dividia o sítio tombado em zonas
favor do Decreto no 10.829/1987. (REIS, 2009, p. 225) diferenciadas (Plano Piloto e áreas imediatamente
adjacentes, tais como Setores de Clubes Norte e Sul,
Como repetidamente ocorreu até sua morte em o Parque da Cidade e uma área simetricamente cor-
1998, Lucio Costa foi chamado a opinar. Além da respondente a ele na Asa Norte), entendendo como
supervisão do estudo Brasília 57-85: do plano-pilo- “entorno paisagístico” alguns setores externos, como
to ao Plano Piloto (1985), de autoria dos arquitetos o Lago Paranoá e a colina a leste dele, até a linha de
Adeildo Viegas de Lima e Maria Elisa Costa (sua cumeada de sua bacia hidrográfica (mas apenas da-
filha), o autor do projeto de Brasília ainda partici- quele lado). Resultou desse trabalho o Anteprojeto de
paria diretamente da proposta de tombamento fe- Lei de Preservação do Patrimônio Histórico, Natural
deral, por meio de correspondências trocadas com e Urbano de Brasília, que, no entanto, não chegou a
o arquiteto Ítalo Campofiorito (autor do texto do transformar-se em lei. Note-se que o estudo Brasília
Decreto nº 10.829) e do estudo Brasília Revisitada Revisitada havia proposto a ocupação de encostas
(DISTRITO FEDERAL, 1987), que constou como na região do Lago Norte com “quadras econômicas”, 04 Área de preservação proposta
anexo desse decreto. Nele, a região que acabou tom- “conjuntos geminados”, “quadras” e “lotes individu- pelo Anteprojeto de Lei de
bada era identificada (ausente uma delimitação do ais”, na mesma área depois vocacionada como “en- Preservação do Patrimônio Histórico,
entorno, contudo), mas Costa ainda apontava 6 áre- torno paisagístico” pelo Anteprojeto de 19896. Natural e Urbano de Brasília (1989)
as em sua vizinhança para uso residencial e ocupa- Fonte REIS, 2011
ção semelhante ao modelo de “edifícios sobre pilo- Em 1995, o trabalho Brasília: patrimônio cultural con-
tis”, consagrado nas superquadras5. temporâneo7 tentaria novamente propor a divisão da 05 Área tombada contendo áreas
Prioritária, B, C e D: proposta
Algo semelhante às áreas diferenciadas do GT Brasí- do trabalho Brasília: patrimônio
lia foi proposto por uma comissão de técnicos do GDF cultural contemporâneo (1995)
e do governo federal, a qual desenvolveu novo estudo 6 Nessa área era pré-existente o núcleo pioneiro do Para-
Fonte REIS, 2011
noá e, posteriormente ao decreto, foi implantado o Setor
Taquari, com lotes para habitação unifamiliar.
7 Artigo de autoria de Sandra Bernardes (IPHAN), Carlos 06 Área de preservação segundo
5 Duas delas foram implantadas adaptando-se esse mo- Madson Reis e Dulce Blanco Barroso (DePHA/GDF), mem- o Decreto nº 10.829/1987,
delo, correspondendo atualmente ao Setor Sudoeste e ao bros do Grupo de Tratado Conjunto (GTC). Criado em 1992, coincidente com a área tombada
Setor Noroeste, enquanto as Quadras Econômicas Lucio o GTC formalizou parceria entre IBPC e GDF. Envolvia téc-
pelo IPHAN, objeto das Portarias
Costa obedecem o desenho do arquiteto, mas em local nicos da 14ª Coordenação Regional do IPBC e do Departa-
nº 04/1990 e nº 314/1992
alternativo, na Região Administrativa do Guará, fora dos mento de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal
limites do conjunto tombado. As demais áreas acabaram (DePHA). Esteve atuante até meados de 1995. IBPC foi a Fonte Imagem do autor,
parceladas sem seguir tais diretrizes. denominação assumida pelo IPHAN entre 1990 e 1994. sobre base Google Earth

166 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 167


área tombada em sub-áreas, a fim de pormenorizar Art. 12 - Com o objetivo de assegurar a permanência, no gorosa (como a que foi apontada, por exemplo, por concilie a preservação da cidade com seu desen-
os critérios referentes a tombamento e à proteção do tempo, da presença urbana conjunta, das quatro escalas Reis, Barroso e Ribeiro, em 1995) ficou desprovida volvimento. Sua preocupação era que o acelerado
entorno – mas igualmente sem obter sucesso. referidas nos capítulos II, III, VI e V deste Decreto, em de uma zona de amortecimento clara, uma vez que, crescimento populacional viesse a comprometer a
todas as áreas já ocupadas no entorno dos dois eixos na interpretação corrente, o conjunto urbanístico é preservação da área tombada” (REIS, 2009, p. 227).
Após observar essas iniciativas em perspectiva e contidas no perímetro delimitado no Parágrafo monolítico, quase indivisível9. Naquele ano de 1993, em seu relatório, a UNESCO
histórica, é interessante considerar a investigação único do art. 1º deste Decreto, ficam mantidos os cri- exortou à “permanência de cinturão verde como
conduzida por Thiago Perpétuo8, que mostrou evi- térios de ocupação aplicados pela administração nesta A necessidade da criação e formalização de uma área non-aedificandi a fim de garantir individuali-
dências da intenção inicial de que a área que foi data... (DISTRITO FEDERAL, 1987, grifo nosso) buffer zone (como prefere chamá-la a UNESCO), ou dade formal do plano, isolando-o do crescimento
tombada contivesse uma área cujos parâmetros área-gradiente, ou ainda área de entorno, para o urbano de seus arredores” (Parecer nº 09/2011, de
correspondessem à proteção da ambiência, ou seja, Lucio Costa, em Brasília Revisitada, mostra compre- sítio tombado vinha sendo recorrentemente apon- 23/12/2011, de autoria de Anna Finger, Coordena-
uma área de entorno. Segundo Perpétuo, na sessão ensão semelhante: tada pelo menos desde 1993, quando da primeira dora de Identificação e Proteção do IPHAN). Nesse
do Conselho Consultivo do IPHAN, enquanto se de- missão de monitoramento da UNESCO. Como parte ponto, vale lembrar que essa “individualidade for-
batia quais seriam os limites do objeto protegido, o Complementar e preservar essas características signi- da sistemática de validação e manutenção de sua mal” encontra-se garantida, não pelo controle da
secretário da SPHAN Ítalo Campofiorito respondeu fica, por conseguinte: (...) chancela, consultores daquela organização em vi- ocupação na zona de entorno, mas pela presença de
a um dos conselheiros: “...em português simples, é sitas aproximadamente decenais, reiteradamente parques e áreas públicas non aedificandi nos limites
o avião e uma área de emtorno (sic) que é limita- 2. Manter os gabaritos vigentes nos dois eixos e em apontam a delimitação do entorno do sítio tombado imediatos do “avião” – ou seja, o mencionado cintu-
da em cima [a oeste], (...) [pela] estrada de indústria seu entorno direto (até os Setores de Grandes Áreas, como uma das medidas de acautelamento capazes rão verde, que no entanto está integralmente situa-
e abastecimento [Estrada Parque Indústria e Abas- inclusive), permanecendo não edificáveis as áreas di- de (ou necessárias para) disciplinar a ocupação do do no interior da área tombada.
tecimento – EPIA] e por baixo [a leste], pela margem retamente contíguas... (COSTA, 1987, grifo nosso) território, nas áreas externas ao sítio tombado.
do lago, apenas” (PERPÉTUO, 2015, p. 225, grifado Ao mesmo tempo, avançava e se consolidava a
no original, com complemento nosso). Após o tombamento federal, com a transposição Em relatório, o arquiteto colombiano German Sam- ocupação da bacia do Paranoá ao longo dos anos,
do texto do decreto para as duas portarias do per Gnecco, responsável pela inspeção, “aponta com a UNESCO reiterando, na missão seguinte, em
O Decreto nº 10.829 elencava textualmente os parâ- IPHAN sem a divisão em capítulos, perdeu-se a a necessidade de uma ação governamental que 2001, a exortação à delimitação da área-gradiente
metros para a área do Plano Piloto, enquanto para o compreensão de que o artigo 12 – que no decreto e ao estabelecimento de suas diretrizes. Nesse re-
entorno supracitado restaria um artigo: era inserido em um capítulo intitulado “das áreas latório a UNESCO chama a atenção ao fato de, até
já ocupadas do entorno direto dos dois eixos” – aquele momento, ainda não ter sido definido o en-
9 Tal entendimento foi finalmente rompido com a publica-
CAPÍTULO VI Das áreas já ocupadas no entorno dire- quisesse referir-se à área de entorno relacionada ção pelo IPHAN da Portaria nº 166, de 11/05/2016, que,
torno do CUB; quanto às imediações deste, alerta
to dos dois eixos àquela área tombada, haja vista que o mapa não com o objetivo de complementar e detalhar a Portaria nº que “mudanças ocorridas na própria cidade e nos
as diferenciava. 314/1992, ousou subdividir o vasto sítio tombado em subúrbios alteram partes do conceito original”. E “a
duas “macroáreas”, a prioritária contendo o “avião” e áre- Missão considera como prioridade máxima definir
as imediatamente circundantes (alcançando o lago a leste e implementar uma zona tampão que inclua tanto
A consequência foi imediatamente sentida: enquan-
8 Ver, além da dissertação citada neste texto, o artigo e os parques urbanos a oeste) e a subsidiária abrangendo
“Revisitando o processo de tombamento de Brasília: uma
to muitas áreas no interior do conjunto tombado “bairros” como Sudoeste, Cruzeiro, Noroeste e Candan-
a área a ser construída como a natural, como meio
contribuição historiográfica para novas interpretações do ficaram sem definição sobre a forma de ocupação, golândia. Essa normativa não altera os limites da área de proteção não só da própria cidade mas também
objeto protegido”, incluído neste livro. também a área merecedora de preservação mais ri- tombada, tampouco os da área de entorno. de parte da paisagem que forma os limites visuais

168 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 169


Protegendo o horizonte de Brasília:
a Portaria nº 68/2012 do IPHAN

dos espaços da cidade” (Parecer nº 09/2011, de Mais recentemente a Superintendência do IPHAN ção da área tombada, mas que havia sido provocada mitação do PPCUB e, surpreendendo a todos, publi-
23/12/2011, de autoria de Anna Finger). no Distrito Federal focou seus trabalhos na questão pela própria discussão sobre o PPCUB. Compelido cou a Portaria nº 68, às vésperas da visita de moni-
do entorno, contratando estudos, reunindo docu- pela iminente visita dos inspetores externos, para a toramento da UNESCO. Do processo, nota-se que a
Destaca-se ainda manifestação nesse sentido na 33ª mentos e bases cartográficas e dando encaminha- empreitada de definição e normatização do entor- articulação com o governo local foi mínima, em que
Sessão do Comitê no Patrimônio Mundial, em 2009, mento a um diagnóstico da situação. Foi aberto pro- no, o IPHAN baseou-se em trabalhos desenvolvidos pese o impacto do novo instrumento sobre um vas-
quando foi mencionado o Plano Diretor de Orde- cesso administrativo em 2011, tendo como objeto mais recentemente10, desprezando importantes to território, cuja atribuição de planejar é do GDF.
namento Territorial (projeto de lei local, aprovado a delimitação da poligonal de entorno, bem como estudos anteriores (citados neste texto). O estudo Publicada no Diário Oficial da União numa quarta-
naquele ano), principalmente quanto à ausência a normatização dos parâmetros para intervenções técnico do PPCUB, agora em revisão, contém dire- feira de Cinzas, 22 de fevereiro de 2012, a portaria
de zona-tampão com regulamentação específica e nela incidentes. trizes para uma zona de entorno, porém sem efeito delimita a poligonal de entorno do CUB e dá diretri-
quanto à criação de novas áreas urbanas no entorno prático, uma vez que o plano se limitará à atual área zes para intervenções nela incidentes, abrangendo
do Plano Piloto. Por seu turno, após a aprovação do Plano Diretor de tombada. Esses três estudos concordam num pon- uma paralela de 500 metros situada além da linha
Ordenamento Territorial em 2009, o GDF lançou-se to: a delimitação da bacia hidrográfica do Paranoá de cumeada da bacia hidrográfica do Paranoá, cor-
à tarefa de elaborar o Plano de Preservação do Con- – área várias vezes mais extensa que o imenso con- respondente, grosso modo, ao traçado da DF 001, ro-
junto Urbanístico de Brasília (PPCUB) – que cons- junto tombado – como zona de entorno. Encontra-se dovia tomada como referência por razões práticas
tituiria a mais abrangente reforma na legislação de no processo ainda uma carta de Maria Elisa Costa,
uso do solo incidente sobre o CUB desde sua inscri- chancelando essa opção, sem mais considerações – A dinâmica de desenvolvimento foi predominante-
ção pela UNESCO. Essa revisão enfrentou percalços, à maneira dos antigos processos de tombamento da mente interna ao IPHAN, com algumas articulações
como crises no Executivo, substituições no governo chamada “fase heroica” do IPHAN, expeditos e ba- com outros atores institucionais, porém, rarefeitas,
local, além da interrupção do trabalho de uma con- seados na palavra dos intelectuais que o fundaram. pontuais e sem continuidades significativas. Assim,
sultoria contratada, na fase anterior à elaboração a poligonal escolhida reflete estudos encomenda-
dos parâmetros de uso e ocupação que comporiam A despeito das dificuldades de gestão que se anun- dos com a delimitação pré-definida, sem mencionar
o plano. Destaca-se, nesse contexto, a mobilização ciavam – a bacia, além de gigantesca, é heterogê- propostas anteriores como o GT Brasília (1985), An-
da comunidade do Plano Piloto, que aponta reitera- nea, abrigando tanto bairros densamente ocupados teprojeto de Lei de Preservação do Patrimônio Histó-
damente o interesse mudancista do mercado imobi- quanto áreas ainda desocupadas de grande interes- rico, Natural e Urbano de Brasília (1989) ou Brasí-
liário como suposto mote do novo plano, enquanto se para o mercado imobiliário – o IPHAN, premido lia: patrimônio cultural contemporâneo (1995). Ao
os gestores, tanto locais quanto federais, ressen- pelo prazo reduzido, antecipou-se à arrastada tra- lado disso, o projeto de lei do PPCUB (em revisão)
tem-se da baixa efetividade dos instrumentos atuais limita-se, como dissemos, a apontar diretrizes para
para a gestão urbana do sítio – instrumentos que, a área de entorno, poligonal que receberá parâme-
de resto, são superficialmente conhecidos e pouco 10 Bacia do Lago Paranoá como área de entorno do tros urbanísticos específicos em outro projeto de lei
apropriados pela população. conjunto urbanístico e paisagístico de Brasília (2005), complementar (o da Lei de uso e ocupação do solo,
trabalho de autoria de Mônica Veríssimo, contratado pelo igualmente em fase de estudos), explicitando a seg-
IPHAN, e um modelo digital do terreno da bacia do Lago
Quanto à definição de agenda pelo IPHAN, em 2012 Paranoá, produzido pelo Centro de Informações Geográfi-
mentação e a desarticulação do próprio modelo de
ocorreria mais uma inspeção periódica da UNESCO, cas do Exército, sobre o qual foi desenvolvido um “mapa planejamento urbano local.
cujo foco seria a verificação do estado de preserva- de visibilidades”.

170 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 171


A Portaria nº 68/2012, além de definir os limites do urbanísticos locais, que podem conflitar com as al-
entorno do conjunto tombado, divide-o em 6 “seto- turas impostas na portaria do IPHAN. Um dos exem-
res” e limita alturas máximas diferenciadas para as plos em que isso ocorreu foi um caso, já analisado
construções em cada setor. Em termos resumidos, pelo Instituto, de construção no Setor de Garagens
estabelece – em toda a linha de cumeada da bacia (a e Concessionárias de Veículos, na Região Adminis-
própria rodovia DF-001), na faixa adicional de 500 trativa do Guará, cuja altura máxima permitida nos
metros e também nos setores a leste do lago (o “fun- regulamentos locais (Plano Diretor Local, anterior à
do” da mirada do Congresso Nacional) – uma altura portaria) era de 34 metros, enquanto na Portaria nº
máxima de 9 metros, equivalente a um edifício de 3 68 esse limite era de 21 metros. Por não afrontar as
pavimentos. Nos setores a oeste, chamados de “ocu- diretrizes gerais expostas no artigo 2º da portaria11,
pação consolidada” e de “ocupação controlada”, as o anteprojeto foi aprovado.
alturas máximas podem variar até 10 pavimentos, a
depender da faixa de altitude em que se encontra o Outra crítica deve-se à ausência de apontamentos
lote. Águas Claras aparece como exceção no setor de para casos que a norma trata como exceção, como
“ocupação consolidada”, admitindo prédios de até o citado. A intenção não explícita era que o analista,
25 pavimentos ou 80 metros. Todos esses limites, ao deparar com a situação descrita no artigo 11, re-
no entanto, tornam-se flexíveis com a regra prevista corresse às diretrizes gerais do artigo 2º, avaliando
no artigo 11, que conclui a portaria: a intervenção de acordo com seu impacto sobre a
07 Setores de entorno do CUB, confor- visibilidade do conjunto urbanístico, de dentro para
me Portaria nº 68, de 15 de fevereiro Todos os projetos que excedam os limites estabeleci- fora e vice-versa. Também estava implícito que a
de 2012 dos nesta Portaria deverão ser submetidos ao IPHAN
Fonte arquivo IPHAN para análise e manifestação, nos termos do art. 18
do Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 e da 11 Art. 2º Todas as intervenções na área de entorno do
08 CUB visto a partir da rodovia Portaria nº 420, de 22 de dezembro de 2010. (BRASIL, Conjunto Urbanístico de Brasília deverão obedecer as
DF-001 (setor de entorno 04, área 2012, grifo nosso) seguintes diretrizes gerais:
de proteção de mananciais APM I – Garantir a leitura do traçado e a preservação do espíri-
to, concepção e ambiência do Plano Piloto, projetado por
Catetinho, extremidade sul da zona Embora a portaria, com esses parâmetros, logre êxi- Lucio Costa, conforme disposto no documento Brasília Re-
de entorno), com destaque para to ao controlar a verticalização na face leste da buf- visitada, anexo I do Decreto nº 10.829/1987 do Governo
edifícios da área central do Plano fer zone, resguardando visadas importantes a partir do Distrito Federal e da Portaria nº 314/1992 do IPHAN;
Piloto – Torre de TV à esquerda, do sítio tombado – e de fora para dentro dele, desde II – Garantir a visibilidade do horizonte a partir da área
Banco Central à direita e Torre de mirantes naturais que permitem descortiná-lo com tombada;
III – Garantir a visibilidade do Plano Piloto a partir dos mi-
TV Digital na linha de cumeada, no o lago em primeiro plano – cabem críticas ao instru- rantes naturais existentes na cumeada da Bacia do Lago
centro da foto mento. A que nos parece mais importante relacio- Paranoá (BRASIL, 2012).
Fonte fotografia do autor na-se à ausência de articulação com os parâmetros

172 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 173


[página ao lado]
09 Linha de cumeada a leste do CUB, vista a partir do CLN 10 Linha de cumeada a leste do CUB, vista a partir do CLS
213/214, na Asa Norte 414/415, na Asa Sul
Fonte fotografia do autor Fonte fotografia do autor

portaria estabelecia “linhas de corte” de altura das mais flagrante quando o limite da zona de entorno
edificações, abaixo das quais qualquer projeto con- extrapola a bacia hidrográfica (como na região do
taria com a anuência do IPHAN, exigindo-se análise Riacho Fundo), pois o conjunto dali não é mais visí-
do órgão federal apenas para alturas acima dos li- vel, tampouco se veem, a partir da área tombada, as
mites pré-definidos. Ora, se o artigo 11 estabelece a edificações construídas em profusão naquele trecho
necessidade de “análise e manifestação” do IPHAN da DF-001. Adicionalmente, o comparecimento de
para todos os projetos que excedam as alturas máxi- Águas Claras como um “setor de entorno” não tem
mas fixadas por setor, mas deixa à discricionarieda- qualquer efeito sobre a proteção da ambiência, pois
de do analista a avaliação, guiando-se apenas pelas não é razoável supor que um novo edifício de 25, 30
diretrizes gerais, a tendência é obedecer a norma ou 35 pavimentos, em companhia de outros tantos,
local, promulgada, aliás, por quem tem a competên- vá “manchar” o horizonte de Brasília. Ainda com
cia de planejar a ocupação do território, o Distrito relação aos setores a oeste, a presença do Parque
Federal. Tal postura evita, como é óbvio, questiona- Nacional de Brasília, unidade de conservação conso-
mentos administrativos e judiciais. lidada, já garante a proteção da visibilidade naquele
trecho, tornando desnecessária a dupla proteção na
Ademais, se já era assustadoramente grande a área unidade de conservação – já que é da gestão com-
tombada, a expansão da atuação do IPHAN até os partilhada que estamos falando. Em sua vizinhança,
limites da bacia hidrográfica, pelo menos na área no entanto, a área de ocupação rarefeita situada no
“subsidiária” a oeste, tem pouco efeito prático no prolongamento imaginário do Eixo Monumental ao
sentido de se conservarem as visadas para aquela poente deve receber parâmetros restritivos de altu-
direção, visto que, de dentro para fora e a partir do ra, sob pena de comprometer a relação do eixo mais
chão, a conformação de “anfiteatro” do sítio onde se simbólico do plano de Lucio Costa com a paisagem
assenta o Plano Piloto acaba por ocultá-las, na maior que ele contribui para destacar.
parte das situações. Essa forma natural faz com que
a cidade (o conjunto tombado) mantenha intensa A leste do conjunto protegido, por sua vez, a ocupa-
relação paisagística com o lago, situado a leste, rele- ção ainda dispersa, na forma predominante de habi-
gando ao segundo plano as ocupações a oeste. tações unifamiliares, era citada como medida prote-
tiva até mesmo no Decreto nº 10.829/1987 – medida
Avaliando a extensão da zona de entorno, percebe-se que caiu com o tombamento federal12. Desde diver-
em campo que a visibilidade do conjunto urbanísti- sos pontos de observação no interior do conjunto
co a partir da linha de cumeada, sobretudo a oeste, já tombado, ainda é possível ver a linha de cumeada da
se encontra comprometida pela ocupação pré-exis- bacia, ameaçada por intervenções pontuais, como a
tente à portaria, sendo raras as oportunidades de Torre de TV Digital, ou de maior volume construído,
se enxergar o Plano Piloto. A inadequação fica ainda como a implantação de edifícios de apartamentos na

174 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 175


[página ao lado]
11/12 Margem da rodovia DF-001, no Riacho Fundo II
(setor de entorno 03). Nesse trecho, a rodovia situa-se
além da bacia hidrográfica do Paranoá, por isso o CUB
não pode ser visto
Fonte fotografias do autor

Considerações finais

região do Paranoá. Entre as intervenções em fase de Várias razões podem ser apontadas para o fracasso,
planejamento, merece atenção a ampliação do Aero- ao longo dos anos, das tentativas de constituição de
porto com o conceito de “aerotrópolis”. Na região da uma agenda comum com o GDF para a gestão com-
Torre de TV Digital encontram-se mirantes naturais, partilhada no campo do patrimônio, de forma geral,
de onde é possível contemplar impressionantes vis- e mais especificamente para a delimitação de uma
tas do conjunto urbano. A linha de cumeada é tam- poligonal de entorno e respectivas diretrizes para
bém mais nítida e próxima dele nesses setores, o que a proteção da ambiência e visibilidade do CUB. En-
corrobora a opção de manter essa área – que inclui tre as principais dificuldades, podemos enumerar a
Lago Norte e Lago Sul – sob proteção como buffer desarticulação entre os governos, as relações confli-
zone. Contudo, vale lembrar que também aí, como no tuosas entre a burocracia técnica e os gestores com
caso do Parque Nacional, há unidades de conserva- poder decisório, os interesses divergentes sobre o
ção extensas e contíguas – como o Jardim Botânico território a ser regulado e a ausência de demanda
de Brasília, a APA Gama-Cabeça de Veado e a área por parte da sociedade – pois o tema da delimitação
de preservação pertencente à Marinha –, que contri- do entorno só entrou em pauta a partir de reitera-
buem para a proteção da visibilidade e da ambiência das exigências da UNESCO, com baixa repercussão
do conjunto sem que seja necessário estender a área entre a comunidade local.
de atuação do IPHAN.
Para uma compreensão mais abrangente do proble-
ma, no entanto, deve-se considerar que o documento
Brasília Revisitada, embora demonstre preocupação
com a ocupação do entorno, também viabiliza novos
parcelamentos dentro da área tombada, desde que
compatíveis com o “espírito” do Plano Piloto. Isso
permite inferir que Costa, ali, dá tratamento de en-
torno a parte da área que acabou tombada – dadas as
preocupações expressas com relação à ambiência e
à visibilidade do Plano Piloto –, ainda que atualmen-
te se tenha clareza sobre o caráter projetual (e não
de planejamento e gestão) das instruções contidas
naquele trabalho. Aliás, vale recordar que ainda per-
12 “Nos Setores de Habitação Individual Sul e Norte, siste essa discussão – em que um dos lados admite
só serão admitidos edificações para uso residencial
unifamiliar, bem como comércio local e equipamentos de
haver uma buffer zone inscrita no perímetro de tom-
uso comunitário, nos termos em que se configura a escala bamento, sobretudo por sua generosa área e pela
residencial neste capítulo” (DISTRITO FEDERAL, 1987) existência de regiões deliberadamente desocupadas

176 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 177


no “entorno direto” do “avião”, com a mesma função tividade, no que tange à sua extensão no território
de resguardar sua visibilidade e sua legibilidade. e aos instrumentos de gestão que oferece. Nessa
revisão, caberá considerar que os setores inseri-
Todos esses fatores nos levam a considerar a es- dos na buffer zone não têm, todos eles, importância
cassez de estímulos à cooperação como explicação equivalente na consecução dos objetivos de ga-
para a inércia dos entes. Se, de um lado, o GDF pos- rantir a visibilidade “do horizonte a partir da área
sui interesses imobiliários na área – porque possui tombada” e “do Plano Piloto a partir dos mirantes
uma empresa pública sem paralelos no mundo ins- naturais existentes na cumeada da Bacia” – como
titucional brasileiro, a Terracap, que gerencia e ven- explicamos neste artigo. Somado à recente Portaria
de as terras ainda pertencentes ao patrimônio pú- nº 166/2016, que estabeleceu “macroáreas” dife-
blico –, a baixa capacidade de fiscalização do IPHAN renciadas no interior da área tombada, o aperfei-
explica, por seu turno, tantos anos de espera. Se o çoamento do instrumento de proteção do entorno,
IPHAN, com o tombamento federal, tem em suas eliminando sobreposições e focando pragmatica-
13 Linha de cumeada a leste do mãos o “porrete” de Vedung (apud Zehavi, 2012), mente no que ainda se mantém como de interesse
CUB, vista a partir da extremidade do não houve “cenouras” que seduzissem o GDF a agir para a preservação desse bem cultural, seria desejá-
Eixo Rodoviário Sul, com destaque – menos ainda por ser o governo federal o interlocu- vel – para a administração pública, pela possibilida-
para hotel com 9 pavimentos, tor direto com a UNESCO, que cobrava a delimitação de de concertação entre os entes, e para a sociedade,
localizado no complexo do Aeroporto da buffer zone. No campo do “sermão” – que é o ins- pela eliminação de conflitos entre os regulamentos,
Fonte fotografia do autor trumento da persuasão e do convencimento, para proporcionando maior transparência no relaciona-
Vedung – os dois entes agora possuem um Acordo mento com os cidadãos.
14 Linha de cumeada a leste do de Cooperação Técnica firmado13, inexistente em
CUB, vista a partir do Eixo Rodoviário 2012, o que pode leva-los à cooperação, ainda que
Sul (após a quadra 212 Sul). A área careça de amadurecimento, somente alcançado com
verde próxima à linha do horizonte disposição e tempo.
é a APA Gama-Cabeça de Veado
Fonte fotografia do autor Passados quatro anos de vigência, a Portaria nº
68/2012 logo carecerá de uma avaliação de sua efe-
15 CUB e linha de cumeada a sul,
vistos a partir da rodovia DF-001
(setor de entorno 05, mirante 13 Foi assinado em 17/03/2015 Acordo de Cooperação
Técnica visando à gestão compartilhada do CUB, entre o
natural próximo à Torre de TV
IPHAN e a Secretaria de Gestão do Território e Habitação
Digital), com destaque para os do Distrito Federal – incluindo posteriormente a Agência
setores centrais do Plano Piloto de Fiscalização e a Secretaria de Cultura, também do
Fonte fotografia do autor governo local.

178 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 179


16 Área tombada com macroáreas A
e B, conforme Portaria nº 166/2016
Fonte arquivo IPHAN

17 Área tombada com zona de entorno


atual, conforme Portaria nº 68/2012,
incluindo as regiões administrativas
de Taguatinga, Águas Claras, Vicente
Pires, Guará, Riacho Fundo, Núcleo
Bandeirante (a oeste da EPIA), Park
Way, Lago Sul, Lago Norte e Paranoá 18 Proposta de nova delimitação da zona de entorno sob 19 Proposta de nova delimitação da zona de entorno,
(a leste do lago), além das áreas de responsabilidade do IPHAN, mantendo o Aeroporto e as somada às áreas de preservação ambiental contíguas
preservação ambiental (reservas da regiões administrativas de Lago Sul, Lago Norte e Paranoá (APA Gama-Cabeça de Veado, Parque Nacional e Jardim
Marinha e do IBGE, APA Gama-Cabeça (a leste do lago), além de parte da região administrativa do Botânico de Brasília, em tom ocre na imagem). As áreas
de Veado, Parque Nacional e Jardim Plano Piloto (a oeste da EPIA), e excluindo as áreas de pre- de preservação ambiental, graças a essa condição, cum-
Botânico de Brasília) servação ambiental, o Park Way e demais regiões a oeste pririam a função de zonas-tampão, mesmo excluídas da
Fonte imagem do autor, sobre base da EPIA. Em vermelho, os limites do conjunto tombado zona de entorno sob responsabilidade do IPHAN
Google Earth Fonte imagem do autor, sobre base Google Earth Fonte imagem do autor, sobre base Google Earth

180 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 181


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182 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 183


A Preservação do Conjunto Arquitetônico do antigo HJKO em debate
Ana Elisabete Medeiros e Oscar Luís Ferreira

resumo abstract introdução

Diante do desafio que o processo de construção e Before the challenge that the process of construc- No coração do planalto central... Brasília. As primei- na, como o Palácio do Planalto, o Congresso Nacio-
gestão do patrimônio cultural pressupõe; frente tion and management of cultural heritage presup- ras imagens que vêm à mente ao pensar a capital nal, o Palácio da Alvorada e o Itamaraty, entre outros.
às particularidades que Brasília revela como bem poses; before the peculiarities that Brasilia reveals brasileira remetem à arquitetura de linhas curvas
cultural em suas dimensões e expressões, cabe aos as a cultural asset in its dimensions and expres- em concreto armado e vidro, formas escultóricas Mas, a Brasília patrimônio cultural se revela, ainda,
atores sobre o palco e por trás dele, de quando em sions, it is up to the actors behind and on stage from brancas plantadas em meio às vastas áreas verdes. em uma dimensão local, da qual fazem parte bens
vez, apresentarem-se. Despidos de máscaras, faz-se time to time to present themselves. Stripped of their Assim, é quase certo que o senso comum admita como a Ermida Dom Bosco, o Relógio de Taguatin-
necessário que se mostrem, dando a conhecer seus masks, they must show themselves, revealing their que a Brasília reconhecida pela UNESCO1, em 1987, ga, o Teatro Dulcina, a igrejinha de São Sebastião e
gestos e ações, tanto à plateia como uns aos outros. É gestures and actions, both to the audience as to each materializa-se nos edifícios icônicos do Eixo Monu- o Museu Histórico, ambos em Planaltina. Todavia,
nessa direção que se constrói esse artigo, no sentido other. This article have been built in this direction, mental. Entretanto, a Brasília Patrimônio Mundial ao contrário de estar sob os holofotes, tal e qual os
de desvelar, por meio da experiência de um semes- to reveal, through an experience of one semester, the se revela em quatro escalas urbanas: a residencial, bens consagrados pelas dimensões nacional e mun-
tre letivo, o papel desempenhado pela FAU/UnB no role of the FAU/UNB in the joint effort with IPHAN, a monumental, a gregária e a bucólica. E, embora os dial do patrimônio, esses bens reconhecidos pelo
esforço conjunto, com a Superintendência do IPHAN to shed light on the preservation of the old HJKO edifícios acima mencionados permeiem o perímetro GDF, experimentam, quase sempre, a penumbra.
no Distrito Federal, de lançar luz sobre a preserva- hospital, today the so called Living Museum of “Can- definido por uma dessas escalas, apenas alguns são Alguns dentre eles ascendem ao reconhecimento
ção do antigo Hospital Juscelino Kubitschek de Oli- danga” Memory (MVMC). Before reaching the learn- reconhecidos, individualmente, como bens culturais nacional, como o Museu Vivo da Memória Candanga
veira (HJKO), hoje Museu Vivo da Memória Candan- ing experience, the text addresses firstly the under- em âmbito nacional. Até 2007, apenas a Catedral (MVMC), elevado à categoria de patrimônio nacional
ga (MVMC). Antes de chegar à experiência didática, standing of the relationship between FAU/UNB and Metropolitana e o Catetinho haviam sido tombados em 2015. Ainda assim, quase sempre se demora um
o texto convida ao entendimento das relações entre IPHAN and, secondly, to the discipline Retrospective de forma individual pelo IPHAN. Somente no ano do pouco mais para que sobre eles acendam-se luzes.
FAU/UnB e IPHAN e da disciplina Técnicas Retros- Techniques. As a result, well-trained students and centenário de Oscar Niemeyer, são inscritos nos Li-
pectivas. Como resultados, a certeza de alunos bem continuing dialogue. vros do Tombo outros ícones da arquitetura moder- Entender o tempo do iluminar-se de cada bem, o
formados e o querer que o diálogo prossiga. tempo que leva para revelar-se à sociedade, pressu-
Keywords Living Museum of “Candanga” Memory. põe compreender o processo de construção social
Palavras-chave Museu Vivo da Memória Candan- Cultural heritage. Retrospective techniques. 1 Neste texto, para facilitar a leitura, as instituições serão
do patrimônio cultural em Brasília e suas peculiari-
ga. Patrimônio cultural. Técnicas retrospectivas. mencionadas apenas pelas siglas pelas quais são conhe- dades, entre elas o papel desempenhado pelos ato-
cidas. Seus nomes por extenso são os seguintes: Orga- res envolvidos. Desses atores, como a FAU/UnB vem
nização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência contribuindo nesse processo?
e a Cultura (UNESCO); Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN); Serviço do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (SPHAN); Governo do Distrito Federal Diante dessa questão e dos vários caminhos possí-
(GDF); Museu Vivo da Memória Candanga (MVMC); Facul- veis para respondê-la, o presente artigo propõe-se
dade de Arquitetura e Urbanismo (FAU); Universidade de apresentar a experiência da disciplina Técnicas Re-
Brasília (UnB); Secretaria de Estado de Cultura do Distrito trospectivas ou Projeto de Arquitetura e Urbanis-
Federal (SECULT); Hospital Juscelino Kubistchek de Olivei- mo 8 (PROAU8), levada a cabo no primeiro semes-
ra (HJKO); Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC);
Ministério da Educação e do Desporto (MEC); Diretoria
tre de 2016, em parceria com a Superintendência
de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal do IPHAN no Distrito Federal e a SECULT, que pro-
(DePHA); Universidade Católica de Brasília (UCB). curou contribuir para lançar luzes sobre o conjun-

184 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 185


FAU/UnB e IPHAN

to de edifícios que abrigou o primeiro hospital em Contada por inúmeros pesquisadores, a história do patrimônio nacional. Trata-se de um papel que passa- O GT Brasília se constituiu em um momento de in-
funcionamento em Brasília, o HJKO, atualmente o já processo de institucionalização do patrimônio cul- ria a ser desempenhado, nos anos setenta, pelas Uni- flexão no processo de construção do patrimônio
mencionado MVMC. tural no Brasil e, consequentemente, do IPHAN, já é versidades, pelo menos no âmbito dos cursos de pós- cultural brasileiro, quando Aloísio Magalhães as-
conhecida. Da mesma maneira, a história da funda- graduação, mas, naquele momento, não na FAU/UnB. sumiu a então SPHAN, criando o CNRC. A história
Trata-se de uma experiência que merece destaque, ção da UnB e, com ela, da FAU, também não constitui do GT, até então pouco conhecida, ganhou os me-
de um lado, porque, para além do enfrentamento de uma novidade. Entretanto, o que nos interessa neste É fato que a preocupação com a preservação da ar- recidos reconhecimento e visibilidade em recente
algumas das peculiaridades próprias aos edifícios e artigo é tratar, ainda que de forma resumida, das re- quitetura moderna no Brasil se coloca desde cedo, publicação do IPHAN, que mostra, inclusive, a parti-
espaços urbanos que são expressões da arquitetu- lações entre a FAU/UnB e o IPHAN. como atestam os tombamentos da Pampulha e do cipação da UnB por meio de ex-professores da FAU,
ra e urbanismo modernos, acrescenta o desafio da Palácio Capanema, ainda antes da metade do século como Maria Elaine Kohlsdorf, José Carlos Coutinho
intervenção na madeira, material a partir do qual O então SPHAN já contava com vinte e cinco anos passado, e a preocupação precoce com a preserva- e Mudhi Koosah. Parecem estar aí as raízes dessa
constituem-se, majoritariamente. De outro lado, quando a FAU abriu suas portas, em 1962, na UnB. ção de Brasília, presente na Lei Santiago Dantas, já relação entre a FAU/UnB e o IPHAN, atores de um
em um cenário de difícil comunicação entre esferas Naquele momento, mesmo que a prática preserva- em 1960. E é certo que o tema Brasília sempre foi também pioneiro processo integrado e comparti-
governamentais, cujas ações se sobrepõem sobre a cionista nacional contasse com esse tempo, ainda foco de interesse no âmbito da FAU/UnB, afinal, ar- lhado de preservação cultural da cidade, entendi-
mesma cidade, representa um aceno em termos de não existiam, no Brasil, cursos de especialização e quitetos e urbanistas refletem e atuam sobre a cida- da para além do seu Plano Piloto e abrangendo o
compatibilização de marcos referenciais e articula- pós-graduação na área patrimonial. de. Porém, é apenas em fins dos anos setenta e início pré-existente, os remanescentes dos acampamentos
ção entre as instâncias local e nacional de governo, dos anos oitenta, momento em que a cidade passou pioneiros e a paisagem natural na qual se encon-
além de inaugurar possibilidades de gestão com- [...] foi o “I Encontro dos Governadores de Estado, Se- a enfrentar pressão por parte do mercado imobili- trava inserida. O trabalho conjunto, muito além da
partilhada e educação patrimonial. cretários Estaduais da Área Cultural, Prefeitos de Mu- ário, que a questão da preservação se reapresenta contribuição para a vitoriosa candidatura de Brasí-
nicípios Interessados, Presidentes e Representantes com força, levando à institucionalização do Grupo lia à condição de patrimônio mundial pela UNESCO,
Para tanto, o artigo se encontra estruturado em de Instituições Culturais” que trouxe à tona a neces- de Trabalho para a Preservação do Patrimônio His- forma o que Reis (2016, p. 5) nomeia como o ideá-
três partes. A primeira objetiva estabelecer, ainda sidade de um vínculo entre a Universidade e a causa tórico e Cultural de Brasília, o chamado GT Brasília. rio preservacionista da cidade. Um ideário que tem
que rapidamente, as relações entre a FAU/UnB e o da preservação patrimonial: um “compromisso”, entre raízes no âmbito da FAU/UnB e para ela retorna,
IPHAN. A segunda procura apresentar a disciplina outros assumidos em Brasília, em 1970 (SCHLEE, ME- Criado pelo Decreto nº 5.819 de 24 de fevereiro de em movimentos de um círculo hermenêutico.
Técnicas Retrospectivas. A terceira traz à luz a ex- DEIROS, FERREIRA, 2003, p. 3). 1981, o GT Brasília, foi
periência didática de intervenção no MVMC, pelos Desde sempre, a FAU/UnB forma alunos que, na
alunos da disciplina. Até aquele momento, podia-se falar no que Santos a primeira ação governamental específica para tratar condição de profissionais, vão integrar os quadros
(1992) denomina “Academia SPHAN” e Medeiros a preservação do patrimônio cultural da cidade de ma- técnicos dos órgãos que respondem pela preserva-
(2002) caracteriza como um Serviço do Patrimônio neira institucionalizada e tecnicamente sistematizada ção do patrimônio cultural. Também são muitos os
Histórico e Artístico Nacional atuante como uma ins- [...] amparada por um termo de cooperação técnica in- alunos, no âmbito da pós-graduação, com origem
tituição acadêmica de produção do conhecimento, terinstitucional [...] do qual [...] participaram [...] o Mi- em órgãos públicos responsáveis pelo patrimônio
por meio da (form)ação de profissionais aptos a de- nistério da Educação e Cultura, por meio do SPHAN/ cultural, que trazem para a faculdade questões da
senvolver pesquisas e qualificar-se como mão-de-o- Pró-Memória, o Governo do Distrito Federal, por meio prática profissional, contribuindo para o constante
bra capacitada e especializada na escolha consciente da Secretaria da Educação, além da Universidade de intercâmbio entre a FAU e o IPHAN, entre outras
do melhor caminho a seguir quanto à preservação do Brasília (UnB). (REIS, 2016, p. 5) instituições. E mais: ainda é praxe que alguns pro-

186 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 187


Técnicas Retrospectivas: a disciplina

fessores e pesquisadores do quadro sejam cedidos Em 1994, a Portaria nº 1.770 do MEC, instituiu a publicadas novas Diretrizes Curriculares Nacionais, ro; o Departamento de Tecnologia em Arquitetura
a ministérios, secretarias de estado, institutos fede- disciplina Técnicas Retrospectivas no âmbito das mantendo o entendimento a respeito da disciplina. e Urbanismo – TEC, responsável pelo ensino de
rais e distritais, inclusive o IPHAN, de modo a con- matérias profissionais dos cursos de Arquitetura e Técnica Construtiva, e o Departamento de Projeto,
tribuírem diretamente na construção das políticas Urbanismo. Seu parágrafo 2º estabelece que “o estu- Em 2002, com o objetivo de adequar o currículo do Expressão e Representação – PRO, responsável pela
públicas de preservação do patrimônio cultural. do das Técnicas Retrospectivas inclui a conservação, curso de Arquitetura e Urbanismo da FAU/UnB às orientação do Projeto de Intervenção. Dessa manei-
restauro, reestruturação e reconstrução de edifícios Diretrizes Curriculares Nacionais (ainda de 1994), ra, a disciplina cobriria um universo de ensino in-
Porém, quanto ao ensino da prática preservacionis- e conjuntos urbanos” (BRASIL, 1994). No entanto, foi criada a disciplina Técnicas Retrospectivas – terdisciplinar e envolveria não apenas um, mas to-
ta, somente em agosto de 2002 a disciplina Técni- não há no documento um maior aprofundamento do PROAU82. Porém, mais do que adequar o currículo dos os departamentos na discussão da preservação
cas Retrospectivas, criada pela portaria nº 1.770/ escopo da disciplina e seu viés. Muito se discutiu ao da FAU/UnB às exigências do MEC, a criação da dis- do patrimônio cultural.
MEC de 21 de dezembro de 1994, foi oferecida pela longo dos últimos anos sobre a criação desta “nova” ciplina teve por objetivo discutir no âmbito da FAU
primeira vez aos alunos da graduação da FAU/UnB. disciplina, seja sobre a ausência de profissionais habi- as questões referentes à preservação do patrimônio A disciplina foi ofertada no segundo semestre de
Dentro desse contexto, abre-se uma nova fase, co- litados para ofertá-la, ou mesmo sobre seu próprio tí- cultural, uma questão obrigatória, não apenas por 2002, pelos professores Andrey Schlee (THA) e Os-
laborativa, na relação entre FAU/UnB e IPHAN, em tulo, “Técnicas Retrospectivas”, que ao pé da letra sig- decisões legais, mas tendo-se em vista que a própria car Ferreira (TEC) e Ana Elisabete Medeiros3. Seu
que o IPHAN vai até a sala de aula e, por seu turno, nificaria uma técnica de se relatar o passado, quando Universidade está inserida no perímetro de tomba- primeiro tema de estudo foi o edifício do Touring
a FAU vai aos bens protegidos pelo IPHAN, elegendo a intervenção no patrimônio não se fundamentaria mento da cidade de Brasília. Não discutir as especi- Club do Brasil, no Setor Cultural Sul, junto à Plata-
temas, discutindo abordagens, educando, forjando apenas em um olhar para o passado, mas nas teorias ficidades de se construir ou intervir em uma cidade forma Rodoviária. Projetado por Oscar Niemeyer
saberes e práticas de maneira conjunta. Para enten- do presente e nas possibilidades do futuro. que é patrimônio nacional e mundial e além disso, em 1962, o edifício encontrava-se em péssimo es-
der essa experiência, é preciso, antes, compreender é um patrimônio moderno, poderia ser desastroso tado de conservação. Na época, a edificação abriga-
a trajetória da disciplina Técnicas Retrospectivas na A discussão encaminha-se no sentido da melhor de- para os futuros profissionais de Arquitetura e Ur- va parte das atividades administrativas do Touring
FAU/UnB. E é nessa direção que se constroem as li- finição, não da disciplina, mas do curso de Arquite- banismo formados pela escola, já que muitos deles Club, um comitê da campanha eleitoral para go-
nhas que se seguem. tura e Urbanismo como um todo, que culmina, em atuarão sobre esse sítio. vernador e, no térreo, ainda funcionava o posto de
2006, com a Resolução nº 6 da Câmara de Educação abastecimento de combustíveis, uma de suas fun-
Superior do Conselho Nacional de Educação, insti- Naquele momento, a disciplina foi estruturada em ções originais. Nesse semestre, os discentes foram
tuindo as Diretrizes Curriculares Nacionais para o três grandes áreas: uma dedicada à Teoria do Res- convidados a discutir a preservação de um edifício
curso de Arquitetura e Urbanismo. Neste documen- tauro, outra à Técnica Construtiva específica para moderno por sua vinculação arquitetônica, de auto-
to, os conteúdos do curso foram concentrados em a intervenção e outra ao Projeto de Intervenção. ria de um dos arquitetos mais importantes do mun-
dois núcleos, o de Conhecimentos e Fundamenta- Três áreas que se coadunam com a estruturação da do e localizado no coração da cidade.
ção e o de Conhecimentos Profissionais. A disciplina própria FAU, organizada também em três departa-
Técnicas Retrospectivas está inserida no segundo mentos: Departamento de Teoria, História e Crítica A estruturação da disciplina definiu em grande
núcleo, sem qualquer indicação de seu escopo, con- – THA, incumbido do módulo de Teoria do Restau- parte a metodologia de ensino. A etapa inicial apre-
tudo. Encontra-se apenas no artigo 4º que entre as
aptidões desejáveis para o futuro profissional de Ar-
quitetura e Urbanismo estão a “conservação e valo- 2 Disciplina sob Código 155390, com 08 créditos, ou 3 Naquele momento, recém-doutora voluntária e sem
rização do patrimônio construído”. Em 2010, foram seja, dois encontros semanais de 04 horas cada. vínculo contratual com a FAU/UnB.

188 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 189


sentava aos discentes, por meio de aulas teóricas, tervenção. Desde as primeiras tarefas, os discentes trimônios culturais “históricos”, a exemplo da Igreja das, contingências, limites e também infinitas pos-
leituras de textos escolhidos e trabalhos programa- foram estimulados a pensar sobre questões como: Matriz de Pirenópolis, do Museu Histórico e Artístico sibilidades, sem, contudo, deixar para trás a impor-
dos, a teoria e a história da prática preservacionis- por que intervir? como intervir? como justificar de Planaltina, da Fazenda Babilônia, entre outros5. tância da liberdade do exercício acadêmico, é um
ta, a partir das quais os alunos começavam a formar as intervenções à luz das teorias existentes? como dos maiores desafios de Técnicas Retrospectivas. A
um discurso competente na área. A etapa seguinte projetar e intervir em um contexto urbano e/ou em A disciplina, após quatorze anos, já gerou diversas busca contínua por atingir esse objetivo e o conta-
envolvia o conhecimento do objeto de interven- uma edificação tombada ou à qual se atribui grande discussões a respeito da preservação do patrimô- to entre profissionais dispostos a “fazer acontecer”
ção, por meio de levantamento cadastral, quando o valor? As respostas a estas e outras perguntas foram nio cultural, não importa se “histórico” ou moder- possibilitaram uma experiência ímpar. Em geral, a
grupo realizava um instantâneo do estado de con- compiladas e apresentadas, ao final do semestre, no, sendo um dos seus importantes rebatimentos o disciplina vem sendo construída a partir de temas
servação da edificação, com rebatimento na pro- em um projeto de arquitetura e/ou urbanismo de surgimento da temática na disciplina Trabalho Final propostos pelos docentes ou oriundos de decisões
posição de medidas de preservação e no projeto. realização individual. Dois desses trabalhos já rece- de Graduação, a partir de 20056. Seus professores já colegiadas quanto às disciplinas da cadeia de pro-
O levantamento cadastral tem sido um dos passos beram prêmios, um nacional e outro internacional4. publicaram diversos artigos sobre os temas da pre- jeto. No entanto, a partir do segundo semestre de
metodológicos aperfeiçoados constantemente e servação e do ensino da prática preservacionista. 2014, configurou-se uma importante relação entre
constitui fonte completa de informação sobre uma Importante registrar que a Brasília reconhecida a disciplina e o IPHAN.
área urbana ou uma edificação, envolvendo dados como patrimônio pela disciplina, já em 2002, não é Trazer para a sala de aula a realidade externa, as
sobre histórico, iconografia, levantamento arquite- aquela restrita ao perímetro elevado à categoria de exigências da prática profissional, com suas deman- Recentemente, uma nova fase da relação entre a FAU
tônico, legislação e normas, identificação e registro Patrimônio Mundial em 1987. O Touring Club, pri- e o IPHAN se instaurou com a decisão dos docentes
de patologias, entre outros. meiro objeto de intervenção proposto não era, na- da disciplina de eleger como objetos de intervenção
quele momento, tombado em qualquer esfera gover- 5 Foram objetos de intervenção da disciplina: o Touring edifícios também foco de interesse do IPHAN, aten-
Na fase final da primeira edição da disciplina, em namental, mas, ainda assim, a ele foram atribuídos Club, a Igreja Matriz de Pirenópolis/GO, a Praça do dendo demanda do próprio Instituto. Primeiro, com
2002, os discentes foram instados a propor inter- valores a serem preservados. Também a outra Brasí- Relógio de Taguatinga, a Fazenda Babilônia/GO, o Brasília a Escola Classe 407 Norte e o edifício OCA II, esse
venções de modo a adaptar a edificação a um novo lia, aquela para além do Plano Piloto, revelada pelos Palace Hotel, a Praça Tiradentes e as ruínas da Facul- último no campus Darcy Ribeiro, da UnB, ambos em
dade de Filosofia, em Ouro Preto/MG, a casa de Oscar
uso, além de adequá-la às exigências das normas trabalhos do GT Brasília, foi contemplada por PRO- Niemeyer, no Park Way, o Museu Histórico e Artístico de
2013. Depois o Cine Drive-in, em 2014, já em um
de segurança vigentes. O produto desta atividade AU8 que elegeu como estudos de caso os ditos pa- Planaltina, bem como seu Setor Tradicional, a FAU/UnB, contexto de parceria, com a participação de técnicos
foi um projeto de arquitetura cujo programa de ne- a Casa do Padre Braz e a Casa de Cultura, em Pilar de do IPHAN em sala de aula, e, em 2015, a Casa do Can-
cessidades extrapolava a área do edifício existente, Goiás/GO, treze casas de fazendas do Distrito Federal, o tador, em Ceilândia. Por último, a parceria, de fato.
o que obrigou os alunos a propor uma intervenção Cine Brasília, o Setor Comercial Norte, a Casa do Cantador Contando ainda com a participação da SECULT, da
4 O Trabalho 34 – Revitalização do Setor Cultural Sul em Ceilândia, a Casa de D. Dica e a praça da cidade de
com arquitetura contemporânea que dialogasse de Brasília/DF – de Daniel Koji Miike, Joana Alcântara e Lagolândia/GO, a Escola Classe 407 Norte, o edifício
Direção do MVMC e da Universidade Católica de Bra-
com a edificação existente. Desta maneira, a avalia- Rodrigo Biavati, recebeu Menção Honrosa no Concurso Oca II no Campus Darcy Ribeiro da UnB, o Cine Drive-in, a sília – UCB, o primeiro semestre de 2016 começou
ção das atividades de projeto foi possível e o desafio de Estudantes do XVII Congresso Brasileiro de Arquitetos Estação Bernardo Sayão, o MVMC e, no momento, a Casa com uma demanda da Superintendência do IPHAN
proposto para aquele semestre mostrou-se produ- – IAB, em 2003. Por sua vez, o Projeto 1 – Igreja Matriz/ Cunha Campos de Zanine Caldas. no Distrito Federal: o Museu Vivo da Memória Can-
tivo e viável, sendo utilizado nos semestres seguin- Pólo de Artesanato/ Largo da Matriz em Pirenópolis/GO –, 6 Desde o segundo semestre de 2014, a disciplina vem danga (Figura 1), cujo processo de tombamento
de Daniel de Castro Lacerda, Filipe Berutti Monte Serrat sendo ofertada também aos alunos do curso em seu pe-
tes. Toda a teoria estudada foi aplicada à criação de e Iara Moderozo dos Santos foi selecionado para etapa ríodo noturno. Essa oferta se dá no 10º período e embora
havia sido concluído em 2015, resultando em sua
diretrizes de projeto, por meio dos trabalhos da dis- internacional do Concurso Celebração das Cidades – Con- tenha a mesma ementa, vem sendo conduzida de forma inscrição, pelo IPHAN, no Livro do Tombo Histórico.
ciplina que concretizaram a fundamentação da in- gresso UIA Istambul 2005. independente daquela ofertada no turno diurno.

190 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 191


A disciplina Técnicas Retrospectivas (PROAU8) e
o Museu Vivo da Memória Candanga

O MVMC ocupa, hoje, as instalações do primeiro hos- parte do Instituto de Administração Financeira da
pital da nova capital, o HJKO, inaugurado em 1957. Previdência e Assistência Social – IAPAS, o conjun-
Localizado próximo à Cidade Livre, hoje Núcleo to arquitetônico do HJKO, já bastante deteriorado,
Bandeirante, o hospital, construído com recursos do foi considerado patrimônio histórico e artístico da
Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Indus- cidade e tombado pelo Decreto nº 9.036 pelo GDF.
triários – IAPI, fez uso do sistema construtivo em Trata-se de um, entre vários remanescentes da me-
madeira em todas as suas instalações. O HJKO con- mória da construção de Brasília, resgatado do ostra-
tava com 1.265 m² de área edificada, que abrigaram cismo pelos trabalhos do GT Brasília e tombado ain-
“ambulatório 24 horas (com cinquenta leitos), oito da durante a sua atuação, que se encerrou em 1988.
enfermarias, dois centros cirúrgicos, salas de raio-X, Depois de um processo aberto no IPHAN ainda nos
laboratórios de análise clínica, sala de ortopedia, anos 1980, o Ministério da Cultura homologou seu
maternidade, berçário, farmácia, sala de dentista, tombamento em nível federal7 (Figura 2). Menos de
serviços gerais, administração, residência para mé- um ano depois, o MVMC passava a ser objeto de in-
dicos e funcionários com famílias e alojamentos para tervenção da disciplina PROAU8.
solteiros” (BRASIL, 2014). Como se vê, uma estrutu-
ra completa para atendimento, para o que se espera O objetivo da parceria entre FAU/UnB e IPHAN foi
de um “hospital de campanha”, em funcionamento lançar uma luz sobre o conjunto de edifícios do
durante a obra de construção do Plano Piloto. MVMC, por meio do fortalecimento do seu valor pa-
trimonial, a partir do maior conhecimento e divulga-
Em 12 de setembro de 1960, com a inauguração, ção de suas origens – associadas ao HJKO e à DePHA
no Plano Piloto, do Hospital de Base, projetado por – e mais recentemente como museu e espaço para
Niemeyer, o HJKO foi gradativamente reduzindo oficinas, tanto para a comunidade acadêmica, quan-
suas atividades. Segundo o IPHAN (2014), a par- to para a população em geral. Para tanto, propôs-se,
tir de 1968, funcionou como posto de saúde para em um primeiro momento, a oficina “Preservação
atender aos moradores do Núcleo Bandeirante e do MVMC”, como atividade de extensão da FAU/UnB
das cidades e invasões próximas. Em 1974, após a e incluída no evento Jornadas de Brasília do Patri-
1 Museu Vivo da Memória Candan- implantação dos serviços de saúde no Núcleo Ban- mônio Cultural da Humanidade8.
ga: vista da alameda deirante, foi totalmente desativado. Vários ex-fun-
Fonte Juliana Cristina Almeida, cionários do hospital, porém, recusaram-se a deixar
arquivo de PROAU8 o local e permaneceram morando nas instalações. 7 A Portaria MinC nº 58, de 13 de julho de 2015, publica-
Com o passar do tempo, outras famílias também se da no Diário Oficial da União no dia seguinte, “homologa
o tombamento dos Remanescentes do Complexo do
2 Museu Vivo da Memória Candan- juntaram a eles em uma ocupação irregular (BRA- Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, situado na
ga – planta de locação. Em preto as SIL, 2014). Em 13 de novembro de 1985, após ter Região Administrativa do Núcleo Bandeirante, no Distrito
edificações existentes em 2016 “escapado” de duas tentativas de demolição por Federal”.

192 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 193


As palestras, proferidas pelo historiador Thiago do hospital realizada após a ocupação do HJKO pela em quatorze anos de disciplina, os estudantes não re- venções dos alunos procuraram a integração
Perpétuo, pelo superintendente Carlos Madson DePHA, a partir de 1985); um dos quatro edifícios ceberam um tema definido e um programa de neces- do MVMC ao entorno imediato (com o Núcleo
Reis (ambos do IPHAN DF) e pelo professor doutor que abrigaram o alojamento para médicos e enfer- sidades, com quadro de áreas. Diante do diagnóstico Bandeirante e com o futuro Guará III, expansão
Oscar Ferreira, versaram, respectivamente, sobre meiros solteiros e que, hoje, serve como oficina de realizado, dos principais problemas encontrados e do Guará II, bairro em construção localizado
“Preservação e Gestão do Patrimônio”, “HJKO – de cerâmica aberta à comunidade; as ruínas de uma das diretrizes conjuntamente apontadas na Carta de no limite nordeste do lote) e ao Plano Piloto.
hospital a museu, o caminho percorrido” e “Arquite- das casas da alameda, que serviu como residência Intenções por todos assinada, ficou acordado apenas As propostas procuraram criar novos acessos,
tura de Madeira”. A partir dos temas apresentados, para duas famílias de médicos; e as ruínas do gal- que cada um deveria, à sua maneira, atender ao pro- de modo a garantir aos pedestres, automóveis,
abriu-se um debate mediado pela coordenadora pão. Acompanharam as atividades de levantamento posto na Carta. Ou seja, 1) integrar o MVMC à cidade, motocicletas e ciclistas entrada e deslocamen-
Sandra Ribeiro. Os discentes da FAU/UnB e da UCB9 físico cadastral e fotográfico, a execução de maquete 2) assegurar a acessibilidade universal, 3) estabele- to no lote com conforto e segurança. A possibi-
trabalharam juntos no levantamento cadastral de física e digital e o diagnóstico do conjunto edificado cer um estudo paisagístico para a área verde circun- lidade de se chegar ao MVMC a partir da divisa
parte do conjunto de edifícios do MVMC. Conside- em termos de relações com o entorno, condições fí- dante, 4) respeitar o valor histórico e a pátina dos entre lotes também foi discutida e, em alguns
rado o interesse da Diretoria do próprio MVMC, sicas e estruturais, acessibilidade, mobilidade urba- edifícios existentes, 5) estabelecer procedimentos projetos, acatada, integrando o complexo com
do IPHAN DF e da disciplina PROAU810, além do na, vegetação/paisagismo, usos anteriores e atuais, de manutenção e; 6) desenvolver mecanismos para uma entidade de acolhimento de crianças viz-
tempo disponível no contexto de desenvolvimento manutenção, valores, legislação, além de limites e a formação de parcerias público-privadas para a ma- inha, cujo público poderia, com acesso direto
dessa última, foram eleitas quatro diferentes áreas possibilidades no quadro de uma intervenção. Tais nutenção e conservação do museu. ao museu, desfrutar de oficinas e outras ativ-
de atuação: o auditório (adaptação de uma das alas informações constituíram a base para o fórum de idades, como estratégia para maior integração
discussões que, mediado pelo coordenador de Mu- No desenvolvimento do risco preliminar e do ante- com a cidade. O reposicionamento de paradas
seus e Patrimônio da Subsecretaria do Patrimônio projeto de intervenção, temas como conforto ambien- de ônibus e a inserção de pontos de táxi, ambos
8 Coordenada pelos arquitetos Carlos Madson Reis, Cultural da SECULT, Pedro Paulo Palazzo, encerrou tal, sistemas estruturais e construtivos, legislação, com projetos de abrigos concebidos a partir de
Sandra Bernardes Ribeiro e Francisco Ricardo Costa Pinto as atividades, com a elaboração de Carta de Inten- sustentabilidade, mobilidade urbana, acessibilidade uma identidade visual única e coerente com o
(IPHAN DF) e pelas professoras doutoras Ana Elisabe- ções para a Intervenção no MVMC, assinada por to- e aspectos relativos à preservação do patrimônio cul- MVMC, bem como o redesenho de vias dentro
te Medeiros (FAU/UnB) e Yara Oliveira (UCB), a oficina
ocorreu nas dependências do MVMC, nos dias 30 de
dos. Fórum e carta fundamentaram os projetos de tural – inclusive as especificidades dos bens moder- e fora do lote, priorizando o pedestre e o trans-
março, 6 e 15 de abril de 2016. As atividades envolveram intervenção da disciplina PROAU8. nos, entre esses os construídos em madeira – foram porte público, alicerçado em ideias como o
palestras, levantamentos e fórum de discussões. trabalhados em conjunto. No entanto, com o objetivo traffic calm, também foram questões debatidas
9 Alunos da FAU/UnB: Daniela Aires, Matheus Augusto Terminada a Oficina, atividades de orientação para de organizar esta narrativa, apresentamos as ativida- e algumas vezes presentes nos projetos.
de Oliveira, Elena Badino, Maiara Bezerra da Luz, Rebeca a elaboração do risco preliminar foram retomadas, des desenvolvidas ao longo do semestre, em orienta-
Couto Crisóstomo, Juliana Cristina Almeida, Marcelle Aryel
Delattre Benevides, Luiz Freitas, Mariana Frota Cabral,
agora no ateliê de projeto da FAU. Pela primeira vez, ções de projeto e discussões a partir das premissas 2 Assegurar a acessibilidade universal – A relação
Dalyana Lima, Natália Melo Silva, Marina Nakamura, propostas na Carta de Intenções. entre patrimônio cultural e acessibilidade é
Tiago Nunes do Carmo, Maria Camila Pulido Otero, Ingrid um tema em destaque na disciplina desde sua
Ribeiro, Gabriela Rondon de Andrade, João Lucas Santos 10 Importante alertar para o fato de que apenas os alu- 1 Integrar o MVMC à cidade – Por ser pouco ser- criação, fortalecido pelo Decreto Federal nº
Flores, Marina Souza Ramos, André Tenório Trancoso nos da FAU/UnB levaram até o fim a proposta de interven- vido de linhas de ônibus ou pontos de táxi não 5.296, de 10 de novembro de 2004, que tornou
Viana e Maysa Valença. Alunos da UCB: Cyntia Temoteo ção no MVMC, porque, na UCB, Técnicas Retrospectivas
da Costa Silva, Ecatherina Jackson C. Farias, Hugo Fer- constitui disciplina de apenas 4 créditos, diferentemente
contar com placas de indicação/informação obrigatório o atendimento à norma brasileira
nandes de P. Souza, Pedro Henrique França e Thamires da FAU/UnB, onde se exige o cumprimento de 8 créditos aos veículos automotores ou ciclovias, e situ- de acessibilidade, a NBR-9050. Tal debate é fo-
Borges Veiga. semanais. ar-se longe da área central de Brasília, as inter- mentado tendo em vista a oportunidade de se

194 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 195


discutir aspectos da preservação do patrimô- tudo paisagístico tornou-se, em todas as pro- 4 Respeitar o valor histórico e a pátina dos edifí- Manchas, pequenos riscos, trincas e descama-
nio que envolvem tanto a identificação, como postas discentes, o mote para a concepção de cios existentes – Das intenções de intervenção ções indicam o envelhecimento de peças. Mas
a atribuição de valores que conferem ao bem um parque urbano de características diversas, da carta, essa foi a que exigiu discussões acer- muitas vezes as manchas são fruto da ação de
seu caráter de patrimônio cultural, quanto de no qual o MVMC, as oficinas, a sede do Veteran ca dos valores e da compreensão do que são bolores superficiais, ou em casos mais graves
ações de intervenção que, visando garantir a Car11 e outros usos definidos estariam inseri- danos, qual a sua extensão e como os edifícios de fungos de podridão, sintomas de processos
todos sem exceção o direito constitucional de dos, de modo a promover uma melhor integra- que compõem o MVMC estão envelhecendo. Em patológicos que levarão as peças de madeira à
acesso à cultura e ao lazer, podem ferir tais ção do lugar com a cidade à sua volta. Ademais, relação a essa última questão, a pátina, como deterioração. A descamação da pintura indica,
características (FERREIRA, 2011). No caso o diagnóstico feito pelos alunos mostrou que proposto por Ruskin em sua “lâmpada da me- além do envelhecimento natural, um problema
do MVMC, a disciplina abordou a questão da falta às Regiões Administrativas do entorno mória”, a “mancha dourada do tempo – elemen- de aderência ao substrato e, portanto, a exposi-
acessibilidade, de um lado, por meio da neces- imediato um parque urbano capaz de oferecer to acessório que condensa, por assim dizer, os ção deste à umidade e ao ataque de insetos xiló-
sidade de adaptação dos edifícios históricos à comunidade espaço para o desenvolvimen- sinais da passagem do tempo, possibilitando à fagos. As manchas superficiais, além da presença
objetos de análise e projeto – o auditório e o to de atividades físicas ou de lazer ao ar livre. obra arquitetônica comunicar às levas sucessi- de fungos e bolor, indicam também deposição de
alojamento – e, de outro lado, através da obri- Assim, em sua maioria, os projetos do parque vas da humanidade as ligações entre períodos elementos livres na atmosfera, que há poucos
gatoriedade de um desenho universal, quando propuseram novas rotas para veículos auto- da história” (PINHEIRO, 2008, p. 28) – deve anos não se caracterizava pela presença de agen-
das intervenções propositivas nas ruínas e no motores, ciclistas e pedestres, capazes de pro- ser entendida como um importante estrato do tes agressivos, ao contrário da atmosfera atual,
paisagismo. As discussões resultaram em pro- porcionar a compreensão da implantação do bem patrimonial, que a este confere dignidade em especial daquela próxima às vias de grande
jetos de adaptação dos antigos e de desenho HJKO na vastidão do cerrado, como em 1957. e caráter de documento histórico. O tema, apre- concentração de veículos, como a Estrada Par-
universal nos novos edifícios do MVMC, com a Também foram projetadas novas áreas de con- sentado e discutido em sala de aula, encontrou que Indústria e Abastecimento – EPIA, localizada
introdução de rampas, pisos e maquetes táteis, templação, estar e convívio, a partir do desen- continuidade durante a visita ao bem, onde se em frente ao MVMC e seu principal acesso, re-
sanitários adaptados, saídas de emergência, volvimento de atividades de esporte ou lazer pode claramente entender as peculiaridades do pleta de monóxido e dióxido de carbono, dióxido
assentos adequados para obesos, entre outras integradas à visitação ao museu, ao Veteran Car patrimônio moderno, em concreto, como era o de enxofre e hidrocarbonetos, entre outros. A
intervenções, cujo principal intuito foi o de ga- ou aos cursos das oficinas. A inserção de novos caso único da ruína do galpão, e especialmente “mancha dourada”, aquela que confere caráter e,
rantir a pessoas com deficiência temporária ou equipamentos de apoio ao usuário, quiosques, daqueles em madeira. Sobre esses últimos foi por suas características físico-químicas, até mes-
permanente oportunidade de acesso de forma lanchonetes, restaurante, lago artificial e áreas possível, então, separar o grave apodrecimento mo protege a superfície onde se forma, perde
autônoma e segura. para abrigar shows ao ar livre complementa- das tábuas que conformam as fachadas dos mó- em determinadas situações essa característica e
ram as ideias de parque urbano apresentadas. dulos do HJKO (Figura 3), em razão da ausência deixa de simbolizar a passagem do tempo, confi-
3 Estabelecer um estudo paisagístico para a área de escoamento das águas pluviais, da oxidação gurando-se como uma ameaça a ser combatida.
verde circundante – O diagnóstico das condi- da pintura e seu leve escurecimento, decorren- Neste sentido, limpeza e repintura podem ser
ções gerais do MVMC revelou uma área verde, te da ação do sol ou das marcas superficiais de uma necessidade. Porém, limpar ou repintar não
em parte coberta por cerrado nativo, em parte 11 Dentro do terreno, em dois galpões que não datam abrasão, resultado da passagem sobre as peças deve significar deixar o bem “velhinho em folha”,
por espécies exóticas, em meio à qual o Museu da construção do HJKO, funciona o Veteran Car, museu e de milhares de cupins que, adiante, destruíram conforme apontava o professor Jorge Tinoco
oficina voltados para exposição e conserto de carros anti-
está implantado. O terreno conta com aproxi- gos. A permanência ou não desse uso no espaço foi tema
completamente montantes e tábuas de madei- – antigo pela sua história, mas com uma falsa
madamente 17 hectares. Destes, as edificações de debates, a partir, inclusive, da validade do conceito de ras, talvez mais “macias”, mais ricas em albur- aparência de recém-inaugurado. A compreensão
existentes ocupam pouco menos de 1%. O es- liberação. no, deixando por vezes vazios não resolvidos. dos bens patrimoniais segundo sua dúplice po-

196 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 197


laridade estética e histórica, como proposto por peças, em busca de uma analogia ao passado,
Brandi (2004, p. 61), indica que a intervenção estavam em franca contraposição ao preenchi-
mento dos vazios com materiais e técnicas mo-
Não deverá presumir nem o tempo como rever- dernas, claramente datados e, em alguns casos,
sível, nem a abolição da história. (...). Na atuação exageradamente contemporâneos, como o con-
prática, essa exigência histórica deverá traduzir- creto aparente ou a utilização de uma técnica
se não apenas na diferença das zonas integradas, japonesa, Kintsukuroi, que consiste em reparar
já explicitada quando se tratou do restabeleci- cerâmicas quebradas valorizando-se os danos
mento da unidade potencial, mas também no e as trincas. Nessa técnica, as cerâmicas que-
respeito pela pátina, que pode ser concebida bradas não são jogadas fora, mas reparadas e
como o próprio sedimentar-se do tempo sobre unidas com ouro, prata, bronze, cobre ou latão.
a obra, e na conservação das amostras do estado Assim, o que seria perdido readquire valor.
precedente à restauração e ainda das partes não
coevas, que representam a própria translação da 5 Estabelecer procedimentos de manutenção –
obra no tempo. Compreendendo-se a limitação para a produ-
ção de um documento que não é fruto apenas
O resultado destas discussões configurou-se na de um técnico, mas que possui participação
apropriação do mapa de danos, para a propo- social mais ampla na atribuição de significados
sição de tratamentos superficiais das fachadas, e valores para o bem patrimonial, foi solicitado
como limpeza geral e repintura quando neces- aos discentes que, após conhecerem o Museu e
sário, respeitando-se os tons oxidados atuais e compreenderem suas características e história
a inserção de novas peças de madeira de mes- durante a realização da oficina “Preservação
ma espécie para o preenchimento das lacunas do MVMC”, posicionassem-se diante do objeto
e de peças apodrecidas pela ação da umidade de estudo atribuindo a este valores por meio
ou inseto xilófagos. No campo da compreensão da elaboração de uma breve Declaração de Sig-
de como tratar lacunas, não houve consenso ou nificância. Como complemento às informações
unanimidade. As discussões da disciplina, nes- recebidas, a discussão em sala dos textos de
se aspecto, reproduziram o debate ainda atual Riegl, “O culto moderno dos monumentos: sua
a respeito da repristinação em contraposição à essência e sua gênese” (RIEGL, 2006), e de Nor-
3 MVMC: fachada sudoeste – Alojamento Feminino conservação, como proposto pelo restauro crí- ma Lacerda, “Valores dos bens patrimoniais”
(Solteiras), atual Oficina de Madeira. Edificação em mau tico. Soluções que empregaram o mais possível (LACERDA, 2012), entre outros, subsidiou a
estado geral de conservação, com introdução de mate- a madeira de mesma espécie, acabamentos su- proposição de ações que objetivaram a preser-
riais novos (alvenaria de tijolos) perficiais em materiais semelhantes aos origi- vação do bem e a manutenção de suas caracte-
Fonte Matheus Augusto de Oliveira, arquivo de PROAU8 nais, bem como o mesmo sistema de fixação de rísticas para as futuras gerações.

198 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 199


Dentre os principais valores elencados pelos 6 Desenvolver mecanismos para a formação de mantendo-se em perspectiva a definição de Os anteprojetos, materializados ainda em ma-
alunos, estavam o histórico, o artístico e o so- parcerias público-privadas para a manutenção uso compatível exposta na Carta de Burra de quetes física e virtual, foram apresentados em
cial. Histórico não apenas como testemunho e conservação do museu – A conservação das 1980, produzida pelo Conselho Internacional Seminário que contou com a presença dos coor-
da passagem do tempo, mas também como edificações que compõem o conjunto, como in- de Monumentos e Sítios – ICOMOS, que afir- denadores da oficina por parte da Superinten-
documento histórico de um modo de fazer ar- dica a Carta de Veneza, de 1964, ma que “a expressão uso compatível designará dência do IPHAN, os arquitetos Sandra Ribeiro
quitetônico e urbanístico moderno próprio às uma utilização que não implique mudança na e Francisco Ricardo Pinto. Para além da avalia-
origens brasilienses, em virtude de sua técni- ...é sempre favorecida por sua destinação a uma significação cultural da substância, modifica- ção didática, em termos de cumprimento das
ca construtiva e com rebatimentos em outras função útil à sociedade; tal destinação é, portan- ções que sejam substancialmente reversíveis exigências da disciplina, os resultados que mais
edificações, como o Catetinho (tombado em to, desejável, mas não pode nem deve alterar à ou que requeiram um impacto mínimo” (CURY, importam foram outros, conforme as conside-
1959), o Catetão (já perdido), a escola Júlia Ku- disposição ou a decoração dos edifícios. É somen- 2004, p. 248). rações a seguir.
bitschek (demolida ou incendiada), ou mesmo, te dentro destes limites que se deve conceber e se
no espaço urbano, a Vila Planalto (cujo tomba- pode autorizar as modificações exigidas pela evo- Desta maneira, além da proposta quase unâ-
mento distrital ocorreu em 21 de abril de 1988) lução dos usos e costumes. (CURY, 2004, p. 92) nime do parque urbano, dentre as individuais
– todos construídos em madeira, a exemplo do surgiram a inserção de novos usos e funções
HJKO e de algumas unidades preservadas que O uso original foi extinto em 1974 e, desse mo- no espaço do próprio MVMC, bem como nas
nos auxiliam a contar este importante momen- mento em diante, a preservação das instalações intervenções sobre as ruínas, a exemplo de loja
to da história. O valor artístico é representado deveu-se, em parte, à ocupação irregular que de souvenirs; restaurante e café; novos usos
pelas formas materializadas de certos princí- precariamente manteve algumas edificações museais voltados para exposições temporárias
pios e preceitos da arquitetura e do urbanismo e, de outra parte, ao uso do espaço como sede e/ou permanentes de arte contemporânea; es-
modernos, julgados merecedores de perma- da DePHA, em 1985. A criação do Museu trouxe paço destinado ao resgate da memória do pró-
necer no tempo e no espaço, a despeito das novo alento para o conjunto que, hoje, é parte prio HJKO; biblioteca local especializada com
intervenções propostas. O valor social, por sua integrante dos roteiros de visitação da capital. foco na preservação da história da construção
vez, pelo reconhecimento da sociedade e pelo da nova capital; e local destinado à “memória
potencial de transformação local. Durante a disciplina, a discussão do tema mu- viva das mulheres candangas”12. Além dessas,
dança, manutenção ou adição de usos foi abor- outras parcerias de caráter público-privado
Outro aspecto privilegiado, nos debates que dada, como forma de agregar ou não valores e na construção e na gestão da preservação do
subsidiaram decisões projetuais, foi o da inter- garantir a preservação do bem patrimonial. Ao MVMC foram sugeridas por meio de projetos
venção nas ruínas. Além da questão de como longo do semestre, foi consenso a compreen- de estufa, quadras poliesportivas, área para
construir no construído; da maneira de usar são do valor do uso museal, e do próprio Mu- camping e até espaço para food trucks.
materiais, estabelecendo ou não diálogo com seu Vivo, como expressão regional. Porém, a
o existente; da abertura ou não de janelas di- inserção de novos usos, culturais e comerciais,
dáticas; também os limites e possibilidades da alicerçados na elaboração de parcerias com o
reconstrução e da réplica foram tratados. setor privado, foi também pensada como ins- 12 Tema levado à sala de aula pela estagiária docente,
trumento de preservação do Museu, sempre arquiteta e pós-graduanda Denise Sales Vieira.

200 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 201


Considerações finais REFERÊNCIAS

Por trás de cada menção atribuída aos projetos distrital e o federal, acrescidos dos vinte e três anos BRANDI, Cesare. Teoria da restauração. Cotia: Atê- 2005. 2011. 321 p. Tese (Doutorado) - Universidade
desenvolvidos pelos alunos – jovens que sequer de história anterior – materializados em madeira, lie Editorial, 2004. de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
sabiam da existência do HJKO/MVMC no início do um pouco de concreto e vidro e muita poeira que Programa de Pesquisa e Pós-Graduação, 2011
semestre –, têm-se ao final três dezenas de futuros ainda encerram valores e levantam memórias. BRASIL. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E AR-
arquitetos mais conscientes e sensíveis sobre as TÍSTICO NACIONAL. Levantamento Cadastral do Museu LACERDA, Norma. Valores dos bens patrimoniais.
várias dimensões da prática preservacionista, den- Vivo da Memória Candanga. Brasília: IPHAN, 2014. In: LACERDA, Norma; ZANCHETI, Sílvio (Org.). Ges-
tro e fora da universidade. Tal fato não teria sido tão da conservação urbana: conceitos e métodos.
possível sem o contato com técnicos da Superin- ______. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Olinda: CECI, 2012.
tendência do IPHAN, no desenvolver das atividades Portaria nº 1.770, de 23 de dezembro de 1994.
em sala de aula, inclusive aquela em que se trans- Brasília: MEC, 1994. MEDEIROS, Ana Elisabete. Materialidade e imate-
formaram as instalações do MVMC, em alguns dias rialidade criadoras: o global, o nacional e o local
de março e abril. A elaboração conjunta da Carta CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (Brasil). na construção do patrimônio cultural: o bairro do
de Intenções, como fruto de um debate aberto, e a Resolução nº 6, de 20 de outubro de 2010. Define Recife como estudo de caso. 2002. 430 f. Tese (Dou-
sua aplicação nos projetos, cujos resultados foram diretrizes operacionais para a matrícula no Ensino torado) - Universidade de Brasília, Programa de
depois compartilhados, ofereceu a oportunidade de Fundamental e na Educação Infantil. Disponível em: Pós-Graduação em Sociologia, 2002.
colocar em prática novas estratégias de educação <http://portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-e-
patrimonial e de interlocução para a ação e a gestão ducacao/atos-normativos--sumulas-pareceres-e-re- PINHEIRO, Maria Lucia Bressan. John Ruskin e as
do espaço. Ainda que parcialmente, uma parcela da solucoes?id=14906>. Acesso em: 20 ago. 2016. sete lâmpadas da arquitetura: algumas repercus-
sociedade, representada pelos alunos, pode ser par- sões no Brasil. In: RUSKIN, John. A lâmpada da me-
ceira das instituições tecnicamente responsáveis CURY, Isabelle (Org.). Cartas patrimoniais. Rio de mória. Cotia: Atêlie Editorial, 2008.
pela preservação do patrimônio cultural do MVMC, Janeiro: IPHAN, 2004.
possibilitando um olhar diferente acerca das poten- REIS, Carlos Madson. O GT Brasília e a memória da
cialidades e limitações do bem. As instituições, elas FERREIRA, Oscar Luís et al. Carta de Intenções para preservação do patrimônio cultural da cidade. In:
mesmas, abriram-se ao diálogo, sendo importante Intervenções no Museu Vivo da Memória Candanga. BRASIL. INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
pontuar a presença da SECULT – única responsá- In: OFICINA: Preservação do Museu Vivo da Me- E ARTÍSTICO NACIONAL. SUPERINTÊNDENCIA DO
vel direta pelas ações de preservação do MVMC até mória Candanga; Jornadas de Brasília Patrimônio IPHAN NO DISTRITO FEDERAL. GT Brasília: me-
2015, já que esse era tombado apenas distritalmen- Cultural da Humanidade. Disponível em: <http:// mórias da preservação do patrimônio cultural do
te –, da própria Direção do MVMC e do IPHAN. portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/ Distrito Federal. Brasília, DF, 2016. p. 8-13.
Carta_de_Intensoes_para_Preserva%C3%A7%-
Quer-se acreditar que o diálogo prossiga. A Carta de C3%A3o_do_Museu_Vivo_da_Memoria_Candanga. RIEGL, Aloïs. O culto moderno dos monumentos:
Intenções é um legado, assim como a experiência da pdf>. Acesso em: 20 ago. 2016. sua essência e sua gênese. Goiânia: UCG, 2006.
pareceria. Como pequenos spots, ambos lançaram
um pouco de luz sobre cinquenta e três anos de vida ______. Patrimônio cultural e acessibilidade: as SANTOS, Mariza Veloso Mota. O tecido do tempo: a
do HJKO/MVMC – três décadas entre o tombamento intervenções do Programa Monumenta, de 2000 a idéia de patrimônio cultural no Brasil (1920–1970).

202 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 203


1992. Tese (Doutorado) - Universidade de Brasília,
Programa de Pós-Graduação em Antropologia, 1992.

SCHLEE, Andrey Rosenthal, MEDEIROS, Ana Elisa-


bete; FERREIRA, Oscar Luís. Dissociação, fragmen-
tação e união: a experiência do ensino de Técnicas
Retrospectivas. In: PROJETAR – SEMINÁRIO NACIO-
NAL SOBRE ENSINO E PESQUISA EM PROJETO DE
ARQUITETURA, 1., 2003, Natal. Anais… Natal: PP-
GAU-UFRN, 2003.

204
sobre os autores

Ana Elisabete Medeiros Carlos Madson Reis

É arquiteta e urbanista formada pela UFPE (1995); Mestre em Urbanismo pelo IUG/UPMF, Arquiteto e urbanista (1979), mestre (2001) e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela
França (1997); Doutora em Sociologia pela UnB (2002) e Pós-doutora em Urbanismo pelo FAU/UnB (2011), tem atuação profissional concentrada nas áreas de planejamento urba-
Laboratório PACTE – IUG/IGEA/UPMF, França (2008). É Professora Adjunta do DTHAU no e patrimônio cultural, com participação em diversos projetos relacionados a interven-
FAU/UnB e Vice-Coordenadora do LabEUrbe. Tem experiência na área de Arquitetura e ção, reabilitação e gestão de centros históricos. Atuou no Departamento do Patrimônio
Urbanismo com ênfase na questão do Patrimônio Cultural. Histórico, Artístico e Paisagístico do MA-DPHAP, Fundação Nacional Pró-Memória, De-
partamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF-DePHA, Instituto de Planejamento
Territorial e Urbano do DF-IPDF; Secretaria de Educação do DF, Secretaria de Habitação,
André Luiz de Souza Castro Regularização e Desenvolvimento Urbano do DF-SEDHAB. Desde maio de 2014 é o Supe-
rintendente do IPHAN-DF.
Arquiteto e urbanista pela Universidade de Brasília (1997), é mestre (2011) e doutorando
pela mesma instituição (desde 2016). Possui especializações em Gestão do Patrimônio
Cultural Integrado ao Planejamento Urbano (UFPE-CECI, 2006) e Restauração de Edifícios Frederico de Holanda
Históricos (UCA, Buenos Aires, 2007). É arquiteto do Senado Federal, atuando na área de
projetos e de preservação do patrimônio histórico do órgão. (n. Recife, Brasil, 1944). Arquiteto (UFPE, 1966). Doutor em arquitetura (Universidade de
Londres, 1997). Professor Titular, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade
de Brasília. Livros: O Espaço de Exceção (2002), Arquitetura & Urbanidade (org.) (2003,
2011), Brasília – cidade moderna, cidade eterna (2010), Oscar Niemeyer: de vidro e concre-
Andrey Rosenthal Schlee to (2011), Ordem e desordem: arquitetura e vida social (org.) (2012), 10 mandamentos da
arquitetura (2013, 2015). Investiga relações entre configuração edilícia e urbana, uso dos
Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pelotas (1987), mes- espaços abertos públicos, e segregação socioespacial.
tre em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1994) e doutor em Ar-
quitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1999). É Professor Titular da Uni-
versidade de Brasília. Tem experiência na área de Arquitetura, com ênfase em História da Maria Manuel Oliveira
Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente nos temas: preservação do patrimônio
cultural, arquitetura brasileira, arquitetura no Rio Grande do Sul e arquitetura e urbanismo Arquitecta pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, é desde 1997 docente na Escola
em Brasília. Atualmente é Diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização de Arquitectura da Universidade do Minho, onde desenvolve prática arquitectónica no âm-
do IPHAN, Membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Museológico do IBRAM. bito do Centro de Estudos. Membro Integrado do LAB2PT, os seus interesses de pesquisa
centram-se, actualmente, no campo da intervenção em património edificado e em áreas de
abandono na cidade. Exerceu profissão liberal entre 1988 e 2002.

206 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 207


Maurício Guimarães Goulart Paulo Cesar Marques da Silva

Arquiteto e urbanista (UFMG, 2001), mestre em Arquitetura e Urbanismo (UnB, 2006) e Possui graduação em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia (1983),
especialista em Gestão Pública (ENAP, 2016). Trabalhou com planejamento e gestão urba- mestrado em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janei-
nos no Governo do Distrito Federal, onde coordenou a área de preservação do Conjunto ro (1992) e doutorado em Estudos de Transporte pela University of London (University
Urbanístico de Brasília. Foi também docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e College London, 2001). É professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da
Tecnologia de Brasília (IFB); arquiteto no Programa Monumenta e nas Prefeituras de Belo Universidade de Brasília desde 1993, atuando no Programa de Pós-Graduação em Trans-
Horizonte e Uberlândia (MG) e consultor na área de patrimônio cultural. Atua no IPHAN portes, com ênfase em Engenharia de Tráfego.
desde 2011.

Thiago Perpétuo
Oscar Luís Ferreira
É historiador formado pela Universidade de Brasília e possui mestrado na área de Preser-
Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília - UnB (1991), Mes- vação do Patrimônio Cultural junto ao programa de mestrado profissional do IPHAN com
tre em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (1996), área de a dissertação “Uma cidade construída em seu processo de patrimonialização: modos de
concentração de Racionalização da Construção e Doutor em Arquitetura e Urbanismo narrar, ler e preservar Brasília”, apresentada em 2015. É servidor público lotado na Supe-
pela Universidade de Brasília - UnB (2011), área de concentração de Teoria, História e rintendência do IPHAN no Distrito Federal.
Crítica. Atualmente, é professor do Departamento de Tecnologia - TEC da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo - FAU, Universidade de Brasília onde leciona e pesquisa os temas
relacionados à Técnica e Tecnologia da Construção e Patrimônio Cultural e Acessibilidade.
Tem experiência profissional na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Tecno-
logia da Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente nos seguintes temas: raciona-
lização da construção, patologias da construção, intervenção e restauro de bens imóveis.

208 PATRIMÔNIO EM TRANSFORMAÇÃO 209


O corpo do texto deste livro foi composto com a
família Caladea, projetada por Carolina Giovag-
noli e Andres Torresi. Para os títulos utilizou-se
a família Oswald, projetada por Vernon Adams. A
tipografia auxiliar escolhida é a Franklin Gothic,
desenvolvida por Morris Fuller Benton em 1902.