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Análise da música Clube da esquina II (1978)

Por Givas Demore1


Clube da esquina II
Clube da esquina II, de Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges.

Está canção, de forma instrumental, foi gravada pela primeira vez no Lp “Clube da
Esquina”, de 1972. A melodia foi composta por Milton Nascimento e Lô Borges. O seu
nome é clube da esquina II, porque já existia outra canção chamada clube da esquina
que havia sido gravada no disco “Milton” em 1970. A letra foi composta por Márcio
Borges, irmão de Lô Borges, a pedido de Nana Caymmi no final dos anos 70 (Fonte:
BORGES, Marcio. Os Sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. 2ªed.
São Paulo: geração editorial, 1996).

Em meio a ditadura uma flor exala seu perfume e colore um jardim de galhos secos com
suas pétalas. Essa flor é o clube da esquina.

“Porque se chamava moço


Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço”

Nessa estrofe Marcio Borges, letrista, relata o percurso, a estrada, que trilham em meio
ao caos que assola seu momento histórico: a ditadura e as diversas mudanças e
manifestações que ocorriam no país em decorrência da mudança de regime político. Ele
era novo, mas estavam numa longa estrada, numa viagem envolvida por uma grande
ventania, que representa as tribulações. Logo no início da caminhada: armas, repressão
e violência.

“Porque se chamava homem


Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases
lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos”
E lá se vai mais um dia

Eram homens cheios de sonhos vividos e presentes e, mesmo em meio à guerra,


mantinham-se firmes e fiéis às suas convicções. Os dias se passam, “e lá se vai mais um

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Músico, cantor e compositor – givas.demore@gmail.com
dia”, e é preciso conviver, mante-se firme para superar a realidade e continuar com as
próprias aspirações.

“E basta contar compasso


e basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração
Na curva de um rio, rio...
E lá se vai mais um dia”.

Basta fazer música, tocar um instrumento e contar com alguém que nos apoia ou até
mesmo com a música que a esperança se mantém vivida e acesa. Essa chama, que é a
esperança, se acende independente de uma provocação, segundo os autores.

Márcio Borges expressa que a música é um “quadro” para se pintar qualquer paisagem:
“de tudo se faz canção”. O centro da estrofe é a ideia de que é preciso continuar a
compor mesmo que o coração se compare a curva de rio (expressão que denota
confusão, dificuldade). O autor revela o quanto os seus corações sofrem com toda a
situação existente. Mas mesmo na dificuldade é preciso continuar a compor, a ter
esperança, a viver. A repetição da palavra rio é só um recurso que auxilia a métrica da
canção. A repetição de “e lá se vai mais um dia” é o reflexo da resistência e de que a
vida precisa seguir.

“E o Rio de asfalto e gente


Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente,
gente, gente...”

O autor utiliza uma metáfora para dizer que pelas ladeiras, ruas e estradas se veem
muitas pessoas se aglomerando em torno de algum objetivo. São tantas pessoas que não
cabem nas ruas. Elas ocupam até os meios-fios. São muitas manifestações, contra o
aumento dos preços, crise tributária e greves sindicais que eclodiram no Brasil naquele
período.

Os dois últimos versos: “Quero ver então a gente, gente, gente” são uma aprovação
dessa luta. O autor indiretamente afirma que quanto mais gente melhor para as
manifestações.

Ao citar este texto, por favor, cite o autor.