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- Personagens icónicas

da Literatura Portuguesa –
Considerações
(e vários pensamentos)
Trabalho no âmbito da UC Língua 1.2 Português

Paulo César Gonçalves; A44153, 2º ano;


Estudos Culturais; Universidade do Minho
RESUMO

Escolher doze personagens de obras marcantes da Literatura Portuguesa, e, através delas,


explicar o Portugal que representaram, denunciando-lhe os traços, as manias, as
especificidades/características e as qualidades; Perceber a marca que estas personagens
deixaram na cultura portuguesa (e no quotidiano); Elaborar um estudo comparativo entre
épocas: a do tempo em que foram concebidas (e com que propósito) e o “agora”.

“Quem tem a sorte de nascer personagem vivo, pode rir até da morte. Não morre mais...
Quem era Sancho Panza ? Quem era Dom Abbondio ? E, no entanto, vivem eternamente,
pois - vivos embriões - tiveram a sorte de encontrar uma matriz fecunda, uma fantasia que
soube criá-los e nutri-los, fazê-los viver para a eternidade!”
Luigi Pirandello

2
AS PERSONAGENS (POR AUTOR)

Gil Vicente, Dramaturgo

O Onzeneiro (de “Auto da Barca do Inferno”)

“Auto da Barca do inferno” não necessita de apresentações: É a peça mais (re)conhecida da


História da Literatura (e dramaturgia) Portuguesa. Com esta alegoria, o autor, Gil Vicente,
procurou, de forma engenhosa (assente na máxima “Ridendo castigat mores”), criticar os
costumes da sociedade portuguesa da época (início do Século XVI). Com recurso a
personagens-tipo (representando vários sectores da população) e a construções alegóricas (o
Anjo e o Diabo), imaginou um julgamento “post mortem”.
Uma dessas personagens era a do Onzeneiro.
É difícil situar (temporalmente) com exactidão o aparecimento desta actividade comercial. Há
quem acredite que surgiu no período medieval, por altura da predominância das trocas
comerciais, ou ainda do crescimento da Ordem Templária, que começou a desenvolver o
mais parecido que houve, naqueles tempos, com “notas de crédito”.
Por causa da enorme movimentação de quantias monetárias no comércio, muitos
comerciantes, assim como a população em geral, recorriam aos onzeneiros, que
emprestavam dinheiro, mas com juros (à taxa de 11%, a “onzena”, daí a origem do termo
“onzeneiro”).
Esta ocupação lucrava com os juros do dinheiro emprestado, e caso a pessoa que obtivera o
empréstimo fosse impossibilitada, por qualquer razão, de o pagar, o onzeneiro penhorava-lhe
objectos de valor, ficando com eles para venda (de modo a cobrir o valor do empréstimo).
Gil Vicente retrata-o como Dickens retratou Scrooge (em “Um Conto de Natal”, 1843) : um
avarento ganancioso.
Na alegoria Vicentina, o onzeneiro não embarca no batel da Glória porque, segundo o Anjo e
o Diabo (que lhe chama “parente”), não praticou o bem, roubou o povo e era apegado ao
dinheiro (sugerindo, até, que o deixassem voltar à vida para ganhar dinheiro, de modo a
subornar o Anjo).

Portugal representado: o do início do século XVI (o qual tinha Lisboa como centro do
mundo conhecido pelos Europeus);
Traços e manias, características: A cobiça, a ambição desmedida e o interesse especulativo;
Legado: A palavra “anzoneiro”. No Norte de Portugal, sobretudo, utiliza-se a expressão
“anzoneiro” para caracterizar uma pessoa interesseira. O Dicionário “Priberam” da Língua
Portuguesa apresenta esta palavra como um sinónimo de “Onzeneiro”;
O equivalente moderno: O bancário/banqueiro (ou ainda o proprietário da casa de penhores
ou o agiota).

3
Inês Pereira (de “A Farsa de Inês Pereira”)

As farsas eram construções literárias assentes em temas corriqueiros, ou melhor, do dia-a-dia,


pretendendo apresentar algum tipo de moralidade, socorrendo-se de um enredo entre o
burlesco, o cómico e o sagrado/profano.

O Dramaturgo de Guimarães (Urgezes, Casal da Laje, segundo Camilo Castelo Branco)


partiu para este escrito com base no provérbio “Mais quero asno que me leve que cavalo que
me derrube”.

Inês Pereira é o protótipo da rapariga singela e solteira, mas de grande ambição, que procura
marido. Pretende casar com algum cortesão, que seja bem-falante, bem parecido e culto. A
mãe de Inês recorre aos préstimos de uma alcoviteira (Lianor Vaz) para que esta encontre
marido para Inês. O lavrador Pêro Marques é-lhe então apresentado, contudo, Inês Pereira
recusa-o, pois o lavrador abastado é tudo menos elegante (em todos os sentidos).

A Inês importa-lhe mais o “parecer” do que o “ser”, e foi assim que veio a conhecer, através
de uns casamenteiros judeus, Brás da Mata, o triunfo das aparências, o fidalgo falido que
pensa apenas no “dote” de uma futura noiva.

Inês depressa se arrependeu da sua sorte: Brás da Mata parte para África, para combater, e
deixa um criado a tomar conta da esposa, não a deixando sair à rua. Mas três meses após a
sua partida, Inês recebe a notícia de que ficou viúva. Lianor Vaz conta-lhe que o ingénuo
Pêro Marques continua disponível, e Inês, sem pensar muito, após um casamento que correu
mal (daí acabando a ilusão do “parecer bem”), aceita casar com o simplório, tendo na mente
os dividendos que poderia da situação retirar.

Aproveitando-se da ingenuidade do novo marido, encontra um amante na figura de um


ermitão. O ditado que Gil Vicente encontrou para servir de mote a esta farsa (“Mais quero
asno que me carregue que cavalo que me derrube”) faz pleno sentido na última cena da obra,
quando Pêro carrega Inês em ombros até ao amante, cantando com/e para ela.

Portugal representado: O Portugal corriqueiro medieval;


Traços e manias, características: Ambição, manha, dissimulação;
Legado: A figura da interesseira maliciosa (cheia de segundas intenções);
O equivalente moderno: Aquilo a que os ingleses chamam “gold diggers”: Mulheres que
casam por dinheiro ou aparência(s) / num segundo momento, por outra qualquer situação da
qual possam retirar dividendos.

4
Camões, Poeta

Adamastor (de “Os Lusíadas”)

O poema épico “Os Lusíadas” é a obra-monumento da Literatura Portuguesa. Nela, o Povo


Português é retratado como o herói colectivo. Para simbolizar as dificuldades experimentadas
pelos corajosos Lusitanos, Camões criou a figura do “Adamastor”, gigante colosso que serve
de “guardião” do Índico, portão para um “admirável mundo novo” (ou o local onde os dois
oceanos, o Atlântico e o Índico, se encontravam), para ilustrar as adversidades e a dimensão
da empresa a que se propuseram aquelas gentes.

O Adamastor, ou a personificação do “maravilhoso pagão” ( ou “Cabo das Tormentas,


(depois “O da Boa Esperança”), aparece no Canto V, no centro de todo o Poema e no meio
do Canto a que pertence.

Esta figura cria um paralelismo entre o que é real (as dificuldades e os perigos do mar) e o
que é maravilhoso (a sua colossal e medonha figura), juntando-lhe características mundanas
(o Amor não-correspondido por Thétys) e a capacidade de profetizar.

O simbolismo do Adamastor remete para um Povo a lutar pelo seu destino (glorioso, que lhe
é devido), e, portanto, vencer o “obstáculo” simbolizará o incontestado domínio dos mares
pelos Portugueses; O Adamastor cede o seu lugar, ou o seu protagonismo, aos marinheiros
Portugueses, os verdadeiros merecedores de tributo; O amor desmedido e irracional (o que o
gigante confidencia) pode levar, irremediavelmente, à loucura e à destruição.

Portugal representado: O Portugal heróico e destemido da época da Expansão Marítima;


Traços e manias, características: obstinação, teimosia, abnegação;
Legado: A imagem do Povo Português emigrante, lutador e resiliente (face às adversidades);
O equivalente moderno: A intervenção da “Troika”.

5
Velho do Restelo (de “Os Lusíadas”)

O Velho do Restelo é uma personagem criada pelo grande Poeta Renascentista que tem como
objectivo retratar as pessoas pessimistas, ou, modernamente, os “mensageiros da desgraça”.

No Canto IV, nas “Despedidas de Belém”, esta figura emerge, personificando a preocupação
e o receio face ao desconhecido, apontando o dedo àqueles homens, corajosos, sem dúvida,
mas que, segundo ele, se moviam pela cobiça.

A manifestação do Velho do Restelo mostra a pouca abertura ao “novo”, tentando ver


naquela iniciativa razões bem mais palpáveis. Camões ter-se-á socorrido nesta figura para
contrabalançar aquilo que consideraria mais importante: sem dúvida que o Poeta apoiava e
glorificava o espírito aventureiro e corajoso do seu Povo, mas também não menosprezava
quem aludisse à prudência. O Velho do Restelo é, também, o Povo que quer os pés bem
assentes na terra (e que quer o mesmo para os outros).

Portugal representado: O Portugal Aventureiro vs O Portugal audacioso;


Traços e manias, características: profético, agoirento, alarmista, pessimista;
Legado: O conservadorismo;
O equivalente moderno: Um político na oposição (ao Governo).

6
Camilo Castelo Branco, Romancista

Eusébio Macário (de “Eusébio Macário”)

O chorar e o rir de mãos dadas (da tragédia à comédia), ou a sã convivência. Esta é uma obra
na qual Camilo Castelo Branco procurar “troçar”as novas correntes literárias: o Realismo e o
Naturalismo.
Esta novela passa-se, à imagem de grande parte das novelas do famoso escritor, a norte, mais
concretamente na zona de Basto, na segunda década do século XIX.
O farmacêutico/boticário Eusébio Macário, viúvo, com dois filhos (José Fístula e Custódia),
vive entre a dicotomia “razão do dinheiro vs irracionalidade do desejo”.
A ação desta personagem vai ao encontro do espírito político/cultural dessa época, que, ao
contrário do Romantismo, dá primazia ao material (em vez de ao sentimento).

Eusébio Macário procura arranjar o melhor que pode, nunca deixando de ajudar os filhos,
solteiros. A chegada de um “brasileiro”, termo usado para catalogar aqueles que, de Portugal,
emigraram para o Brasil (em Fafe, por exemplo, é muito usual a utilização da expressão),
vem alterar a vida desta família. Bento Montalegre, assim se chama, irmão de Felícia, amante
do Padre da localidade, despoleta toda uma intriga: casa com Custódia e arranja forma de
juntar o irmão desta com a sua irmã (que abandona o Padre).
A grande algazarra parece, contudo, vestida de vazio. Há uma oposição do ideal da natureza
vs a previsibilidade da condição humana “filas cerradas de pinheiros lá em cima nas
cumeadas (...) esquadrões de gigantes, pasmados, a olharem para nós, burlescos pigmeus,
que andamos cá em baixo a esfervilhar como bichinhos revoltosos nas enormes podridões
verdoengas do planeta”.

A moral, neste livro, ocupa o lugar do fingimento, e a fatalidade da condição humana é a


busca que nunca passará da imperfeição (porque humana).

Portugal representado: O Portugal do período da Constituição de 1822 (o pós);


Traços e manias, características: Intriga, mentira, fingimento;
Legado: A hipocondria;
O equivalente moderno: Um agente de jogadores de futebol

7
Eça de Queiroz

Eusebiozinho (de “Os Maias”)

Eusebiozinho é a figurinha do “Portugal Beato”, magistralmente depictado por Eça de


Queiroz em “Os Maias”, que não poupou na caracterização da figurinha:

“Eusebiozinho, craniozinho, crescidinho, perninhas, linguazinha, etc.” (...) “melancólico,


mole / molengão, pasmado, sisudo e tristonho”; “facezinha trombuda” e “amarelidão de
manteiga”; “olhinhos vagos e azulados, sem pestanas”; “pernas flácidas, enfezado e
estiolado”.

A educação a que Eusebiozinho esteve sujeito em nada contribuiu para a formação de uma
personalidade vincada: A clausura em casa, sem nada fazer; fortemente protegido (pela Mãe
e pela Titi); sobre-encasacado; não deixam que tome banho com receio de que apanhe uma
constipação.

“Passava os dias nas saias da titi a decorar versos, páginas inteiras do "Catecismo de
Perseverança”(...)

Eusebiozinho é a exemplificação da memorização forçada, da ausência de criatividade,


curiosidade ou espírito crítico (a partir do estudo da Cartilha), da completa falta de vontade e
de iniciativa: do Portugal que não quer futuro.

Portugal representado: O Portugal “Beato” do Século XIX;


Traços e manias, características: Enfezado, ensimesmado, pesado, doente;
Legado: A educação sem contraditório;
O equivalente moderno: O “bom aluno” (ao jeito da Troika: o que obedece e não levanta
ondas/aquele que abdica do espírito crítico/o debitador)

8
Afonso da Maia (de “Os Maias”)

Afonso da Maia era, pela pena de Eça de Queiroz, “baixo, maciço, de ombros quadrados e
fortes. A sua cara larga, o nariz aquilino e a pele corada. O cabelo era branco, muito curto e
a barba branca e comprida.” Uma personagem histórica, no dizer de Carlos (da Maia).

Talvez seja, na obra, o personagem por quem quase todos nutrirão alguma espécie de
simpatia. É uma pessoa culta e elegante. Eça não lhe atribui defeitos. Liberal, parte para
Inglaterra, de onde volta quando o seu pai morre. Casa. Mais tarde, muito mais tarde, por
desgraça do filho, abraça a educação do neto Carlos.

Sofre com o atraso do País. É sensível e generoso. Ama a natureza, os animais (o Reverendo
Bonifácio é o seu grande companheiro), os amigos e aqueles que, por vicissitudes várias, são
mais frágeis. A sua moralidade e princípios são à prova de bala.

Afonso morre, vítima de apoplexia, ao descobrir o amor incestuoso do seu neto...com a sua
neta (irmã de Carlos). Afonso da Maia é o futuro que não se cumpriu.

Portugal representado: O Portugal “atrasado” e “adiado”, pelos olhos de um reformista;


Traços e manias, características: Liberal, cultura, fino gosto, carisma;
Legado: Grandeza moral
O equivalente moderno: Um progressista empático (intelectual).

9
Almeida Garrett, Escritor

Joaninha (de “Viagens na minha Terra”)

Almeida Garrett tentou, com as personagens de “Viagens na Minha Terra”, passar uma visão
simbólica do País, procurando, através das mesmas, deslindar as causas da decadência de
Portugal. Como romântico, com o final do drama, que traz a morte de Joaninha e a partida de
Carlos para se tornar Barão, Garrett põe o dedo na ferida, apresentando a crise de valores em
que aqueles que se deixam enlear no excessivo apego ao materialismo.

Joaninha, a prima (e amada) de Carlos, é o exemplo da rapariga doce e simples, a


despretensiosa figura-central da obra (que não pediu para o ser, ou que pede desculpa quando
sabe que o é ou está a sê-lo). Outra “fermosa Lianor”.

Joaninha simboliza o Portugal idílico, porque ingénuo (no sentido de virtuoso), próprio do
Romantismo: um Portugal impraticável e desfasado da realidade.

Portugal representado: O Portugal que já não o é (mas ainda não o sabe);


Traços e manias, características: trágico, inocente;
Legado: A vitória do materialismo;
O equivalente moderno: A rapariga do campo que descobre a cidade.

10
Romeiro (de “Frei Luís de Sousa”)

Esta personagem da peça “Frei Luís de Sousa” apresenta-se como peregrino, escondendo, na
verdade, a verdadeira identidade (a de Dom João de Portugal).

Os cerca de vinte anos de ausência (aprisionado) fizeram mossa, e a mulher, que já não o
esperava (e casara, entretanto) não o (re)conhece.

Dom João, o “encoberto”/”o desejado”, o “Ninguém”, como iconicamente se identifica, foi


um presságio que se cumpriu.

"Ninguém" é a palavra que concentra a carga mais emotiva de toda a trama: é o vazio de
quem foi dado como morto, que já não tem família; a mulher não o soube reconhecer e já
outro ocupava o seu lugar, na casa que fôra sua. A morte nem sempre é física.

A cena de identificação do quadro/retrato de Dom João de Portugal opõe-se à destruição, pelo


fogo, do quadro de Manuel Sousa Coutinho. Esse sucumbir às chamas é o presságio para a
tragédia.

Portugal representado: O pós- Alcácer-Quibir;


Traços e manias, características: Trágico, premonitório, supersticioso;
Legado: O Sebastianismo;
O equivalente moderno: Aquele amor que já estava desaparecido, mas que entra novamente
na vida do outrora amado(a), entretanto já encaminhado/a noutra opção de vida; o “salvador
da pátria (que aparece não se sabe muito bem como nem de onde, mas que promete “mundos
e fundos”)

11
Alexandre Herculano, Historiador

Dom Bibas (de “O Bobo”)

“O Bobo” é um romance histórico de Alexandre Herculano, o historiador e autor português


responsável pela introdução deste género narrativo em Portugal, misturando história com
ficção.
Dom Bibas é o Bobo da côrte do pai de Dom Afonso Henriques, o Conde Dom Henrique (já
morto, no tempo de acção da obra). Fruto da sua ocupação, Dom Bibas tem livre-trânsito pelo
castelo de Guimarães (nasceu, com esta novela, a crença de que a cidade Guimarães é
atravessada por passagens subterrâneas que saiam do Castelo. O curioso é que escavações
arqueológicas em 1994 vieram alimentar ainda mais essa ideia, com o achamento de dois
túneis nas imediações). Por isso, e por participar em todos eventos da Côrte, tem acesso a
informações que não são do conhecimento de quase ninguém.
Num desses eventos, Dom Bibas satiriza o Conde de Trava, companheiro de Dona Teresa,
Mãe de Afonso Henriques. O Conde não gostou, castigando o Bobo pela ousadia. Acoçado e
humilhado, o Bobo irá procurar vingar-se do galego, acabando por essa vingança juntar-se ao
conflito aberto entre Mãe e filho:

A narração decorre no ano de 1128, dias antes da batalha de São Mamede, que colocou
frente-a-frente Dom Afonso Henriques, e seus apaniguados, e a sua Mãe, Dona Teresa, com
Peres Trava e restantes tropas afectas àquele partido.

Esta obra tem o condão de colocar as personagens históricas num plano mais reservado,
dando a oportunidade a Dom Bibas de “brilhar”. O próprio Herculano referiu-se ao Bobo
como alguém “que a História não conheceu”.

Assim, o Bobo exemplifica todos aqueles que faziam vida naquela e noutras Côrtes, mas
acaba também por representar figuras anónimas, “que a História não conheceu”, mas que
acabaram por fazer acontecer momentos e episódios inolvidáveis da História do mundo.

Portugal representado: o pré-Portugal (mas quase-quase a “nascer”);


Traços e manias, características: gozão, crítico, zombeteiro, despreocupadamente
preocupado;
Legado: “Rir é o melhor remédio”; A história faz-se com todos, fortes ou fracos.
O equivalente moderno: um comediante (que elenca verdades incovenientes), um artista de
“stand-up” (activista social) ou simplesmente um indivíduo altamente culto que esteja bêbado
(e com vontade de falar em público).

12
José Saramago, Romancista

Blimunda (de “Memorial do Convento”)


Blimunda Sete-Luas é filha de Sebastiana Maria de Jesus, uma vidente, condenada ao
degredo, acusada de ser visionária e cristã-nova, num auto-de-fé. Nesse mesmo evento
conhece Baltasar.
Fisicamente, e até muito mais do que isso, são os olhos que vencem na figura de Blimunda:

"... olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de
fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos
brilhantes como lascado carvão de pedra..." .
Blimunda perde a virgindade no dia em que conhece Baltasar, ou seja, na sequência do seu
encontro após o auto-de-fé. É muito jovem e é marcada pelos poderes que possui: é, como a
mãe, vidente. Possui a faculdade de, quando em jejum, "ver por dentro" das coisas e das
pessoas. A isso junta o poder de “recolher vontades”.

Blimunda consegue ver além das aparências: ela vê dentro e através das pessoas e das coisas.
O único ser que ela se recusa a ver é Baltasar, o “seu homem”.
É uma personagem fora-do-comum, quer hereditariamente (é filha de uma feiticeira), quer
pelo valor simbólico do seu nome ("Sete-Luas") e pela faculdade de vidência ("ver por
dentro").
O seu amor por Baltasar (uno, porque formam um só) é verdadeiro, forte e sincero. Por ele,
está disposta a todos os sacrifícios. Para ele remete toda a sua afeição, que é verdadeira,
espontânea e duradoura. Adicionalmente, o amor por ele é também um símbolo de aceitação
e renúncia, uma vez que nunca o olha por dentro.

O amor que vivem, um amor não-cristianizado, é puro e inquebrável.

Blimunda apenas vê Baltasar por dentro no derradeiro momento da vida deste, no auto-de-fé
onde é queimado, em Lisboa, e percebe que ele, tal como esperava, é puro, “e seu”.

A título de curiosidade, Saramago escreveu o seguinte, na primeira edição do romance


Memorial do Convento, em 1982:

“À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova”

A Isabel desta dedicatória é Isabel da Nóbrega, companheira, à altura, do escritor.


Posteriormente, esta dedicatória seria substituída por uma outra, a outra mulher (Pilar del
Rio).

13
Sobre Blimunda, escreveu a mesma Isabel da Nóbrega:

“Quanto à Blimunda, a protagonista do Memorial do Convento: ele escreveu o livro, eu


disse que não queria lê-lo senão no fim e, quando comecei a ler, o que é que vi? O nome,
Baltasar, Sete-Sóis e ela era Mariana Amália. E eu: “Mariana Amália?! Mas ele
endoideceu! Não há direito de pôr Mariana Amália na figura desta mulher: “Chamei-o:
“Está lindo, está tudo certo menos uma coisa que tens de emendar – Mariana Amália. Tem
paciência, quando foste á biblioteca e recolheste nomes de época, hás-de ter encontrado um
que se possa ver”. Ele voltou para a secretária – isto para aí à uma da manhã –, e daí a um
bocado apareceu e começou a dizer nomes. Ouvi “Blimunda”, pedi-lhe que voltasse atrás e,
quando repetiu o nome: “ Ó Zé, parece impossível! Como é que tinhas este nome na tua lista
e não viste que aquela mulher é exactamente Blimunda?”. Pegou no manuscrito, que era
enorme, e foi emendar tudo, tirar Mariana Amália e pôr Blimunda. É engraçado, porque ele
chamava-me sempre “bruxinha”.”

Está bom de ver em quem Saramago se inspirou para criar a personagem de Blimunda...

Portugal representado: Época da Construção do Convento de Mafra


Traços e manias, características: Bondade, pureza, sinceridade e entrega;
Legado: Emancipação da Mulher;
O equivalente moderno: A figura da Mulher que nasceu para ser o que é, sem restrições
“serôdias”; A Vidente que não é charlatã, a Mulher sensitiva (e que vê para lá de observar).

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Vergílio Ferreira, Escritor

Alberto Soares (de “Aparição”)


Alberto Soares (talvez um alter-ego do próprio autor) é o personagem principal de
“Aparição”, obra de pendor existencialista.

Alberto chega a Évora como novo professor do Liceu local. É um homem descrente, a tentar
ultrapassar a morte do pai, que chega a uma cidade tradicional (logo à partida, percebe que a
relação não será fácil).

Alberto, quando jovem, cresceu num ambiente marcado pela ruralidade, preso a uma moral
tradicional e católica, e era, por isso, por influência familiar e social, crente.

Já adulto, duvidou do que havia absorvido em jovem, fruto daqueles comportamentos


tradicionais, colocando em causa Deus e a sua existência.

A morte do pai teve como consequência o adensar das dúvidas. Mais tarde, Alberto, num
passo digno de Nietzsche, que no início do século XX anunciara a morte de Deus, crê ter
descoberto que o homem se constrói e afirma com a negação de/a Deus.

Estas constantes inquirições fazem-no viver relações um tanto ou quanto problemáticas (com
mulheres e com conhecidos), sendo a que mantém com Sofia a mais notória.

Tornar-se-á, com o tempo e com as circunstâncias (as várias mortes de pessoas que o
rodeiam: Sofia, Cristina, Carolino...) um ser angustiado, truncado entre a descoberta do ser
metafísico e profundo e a procura afectiva (algo que, no fundo, já ansiava).

Já reformado, e de regresso à aldeia onde tudo começara, (re)lembra o passado. Pensa no ser
agoniado e torturado que outrora foi, desejoso por deslindar o limite das coisas.

Por fim, sentado numa sala vazia, parece ter encontrado a paz pela qual suspirou.

“Sei e não temo.”

Será que sabia?

Portugal representado: O Portugal da década de 50, em plena ditadura fascista;


Traços e manias, características: nada a assinalar;
Legado: A capacidade de auto-análise e questionamento crítico;
O equivalente moderno: Não há (60 anos é pouco tempo para esse exercício).

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Conclusão
Em verdade, este trabalho procurava referir-se a quinze personagens, em vez das doze aqui
elencadas, mas por razões de unidade e de coerência, decidiu-se pela não inclusão de três das
inicialmente pensadas. A razão para essa decisão partiu da reavaliação do caso “Bernardo
Soares” (Livro do Desassossego), por ser duvidoso que o semi-heterónimo de Pessoa possa
caber no epíteto “personagem”. Depois, Quina, de “A Sibila”, remetia, de certa forma, ainda
que distintamente, para Blimunda, de “Memorial do Convento”. Por fim, os Mau-Tempo,
família “herói colectivo” de “Levantado do Chão”, tem mais a ver com uma questão de
princípios: não fazer menção à referida obra é um exercício de respeito devido a João
Domingos Serra, verdadeiro autor da mesma (sob outro nome, “Uma família do Alentejo”),
que não merecia a desonesta apropriação de que foi vítima (por parte de Saramago).

Ainda assim, foi possível traçar um quadro minimamente completo de algumas personagens,
relembrando, de uma ou outra forma, o porquê de o “Velho do Restelo” ou o “Adamastor”
ainda serem usados como referências ou, até, alcunhas depreciativas.

Portugal será tão mais rico na medida em que conseguir potenciar os traços identitários da
sua singular (e rica) cultura.

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