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Neurose de angústia e transtorno de pânico

Neurose de angústia
e transtorno de pânico
Maria Mazzarello Cotta Ribeiro

Resumo
Partindo da afirmativa lacaniana “a angustia é o que não engana” até a perplexidade do sujeito
diante da pergunta “Como você quer que eu me posicione?”, este texto faz um levantamento histó-
rico dos primeiros estudos sobre as crises de angústia e os ataques de pânico. Retoma o estudo
sobre a Neurose de Angústia feito por Freud, cuja descrição nosográfica foi a usada pelas classi-
ficações psiquiátricas até 1980. Neste percurso, podemos acompanhar como a expressão Síndro-
me de Pânico veio em substituição à nomenclatura anterior, chegando a Transtorno de Pânico.
É abordada ainda a evolução do conceito de angústia e sua apresentação clínica nos indivíduos
submetidos ao real que os invade. As posições de sujeito e objeto são evidenciadas, revelando a
falência do funcionamento psíquico diante de um desamparo radical, levando ao desvanecimen-
to do sujeito. As questões clínicas referentes ao tratamento psicanalítico e psiquiátrico desses
pacientes são trazidas à discussão através do relato de uma sintomatologia exuberante e de uma
pesquisa das fantasias inconscientes que compõem todo o quadro.

Palavras-chave
Angústia, Neurose de Angústia, Síndrome de Pânico, Transtorno de Pânico, Sintomatologia,
Libido, Falta, Posição de Sujeito e Objeto, Real, Simbólico, Imaginário, Objeto a, Desamparo
radical, Gozo, Desejo.

A angústia é “o que não engana”1. ma ou um quadro patológico em si mes-


O que se procurou entender desde mo, ora como sinal, causa ou consequên-
sempre foi a angústia. Também é ela o que cia de algum acontecimento. Haveria uma
surge em primeiro lugar! ..., depois vem o dificuldade em contextualizá-la?
recalque. A angústia é um estado afetivo A angústia, com sua presença incisi-
experimentado por todos nós, numa ou va nos homens, só veio a ser relacionada
noutra época, por nossa própria conta, nos à subjetividade, com a psicanálise, quan-
alerta Freud. Por ser tão íntimo e, ao mes- do esta reconheceu a existência de uma
mo tempo, tão desconhecido, esse afeto cisão interna no sujeito. Antes disto, vá-
sempre despertou interesse e inquietação rias áreas do conhecimento, como a filo-
nos estudiosos da alma humana, levando- sofia, a estética, a religião, as artes, as ci-
os a uma multiplicidade de descrições na ências em geral, tentavam dar uma expli-
tentativa de dar à angústia um estatuto. cação para a angústia, e com isto, quem
Assim, ela foi classificada ora como sinto- sabe, aplacar seus efeitos devastadores so-

1. LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.131.

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bre o homem. A Igreja, por exemplo, con- duzido para o português. Um pouco mais
siderava esse estado afetivo uma decorrên- tarde, na França, H. Legrand Du Saulle
cia do desejo do homem pelo amor de (1876) também privilegia o transtorno do
Deus. Também as sociedades primitivas medo diante de espaços, mas retira o en-
depositavam nos deuses ou na Natureza a foque de serem públicos. Ele destaca a
responsabilidade de seus afetos. amplidão e o vazio dos espaços, não im-
A filosofia, por sua vez, não conside- portando se públicos ou privados. Já Emil
rava essa dimensão cindida do ser dentro Kraepelin (1878), psiquiatra alemão, re-
dele próprio. Era impossível pensar o ho- feriu-se aos ataques de angústia como neu-
mem fora de uma consciência de si mes- rose de terror (Schreckneurose) atribuindo
mo. A angústia seria a expressão do te- à angústia um valor etiológico. Depois
mor de consequências que, porventura, a foram descritos, também na França, os
ira de seres superiores poderia ter sobre o “terrores mórbidos” por E. Doyen (1885)
homem. Este ainda não era visto como enfatizando que apesar da percepção, pelo
portador de uma vida pulsional que se paciente, de uma irracionalidade do afe-
movimenta no seu interior e deixa em to, isso não impedia a ocorrência das cri-
evidência sua divisão. ses, e a “ansiedade paroxística” de Bris-
Mais tarde, a filosofia introduziu a saud (1890) que ressaltava a ausência de
ideia da angústia diante do Nada, com S. fatores físicos na vivência de forte senti-
Kierkegaard. Os pensadores se seguiram, mento de morte iminente. S. Freud em
aprofundando essa concepção do homem 1894 apresenta a classificação de “neuro-
angustiado pela sua própria existência, se de angústia”. Já no século XX, surge na
chegando à psiquiatria, com sua concei- França a “grande ansiedade” de Henri Ey
tuação biológica, e à psicanálise, inovan- (1950), que enfatiza o caráter paralisante
do com a revelação de uma divisão estru- do medo. No Brasil temos Iracy Doyle,
tural do homem e o seu desamparo psí- psiquiatra e psicanalista, que em 1955, em
quico. seu Nosologia Psiquiátrica, afirma ser a an-
Os primeiros estudos reconheciam gústia, apresentada nesses quadros, um
clinicamente as crises de angústia e as fo- sintoma neurótico, de motivações múlti-
bias. Essas últimas, sendo uma tentativa plas e raízes muito precoces. Foi uma das
de barrar a angústia e usando de desloca- pioneiras no Brasil a preconizar o encami-
mento e objetos substitutivos, foram se nhamento desses pacientes para o psica-
classificando nosograficamente, de acor- nalista, dizendo que “só ele seria capaz de
do com o objeto fóbico escolhido. Então, lidar com a complexidade de tais situações”2.
temos: agorafobia, claustrofobia, acrofo- Em 1979, A. Nobre de Melo, psiquiatra
bia, hidrofobia, fobia de animais, fobia so- brasileiro, considera o pânico uma emo-
cial, etc. ção primária observável desde o nascimen-
Antes da psicanálise, esses quadros to e ligada à vida afetiva. Outros psiquia-
eram descritos pela psiquiatria e para fa- tras também concorreram com novas des-
lar da angústia, citando apenas alguns au- crições para os transtornos psíquicos de-
tores, começamos, em 1872, com o termo sencadeados pela angústia, chegando aos
agorafobia que foi introduzido pelo psiqui- nossos dias como Transtorno de Pânico.
atra alemão Karl Frederic Westphal refe- Para a medicina, sempre vigorou o
rindo-se às crises de angústia em lugares, enfoque organicista, mas alguns psiquia-
não só abertos, mas públicos, apontando
uma questão social nos ataques. Nessa 2. DOYLE, Iracy. Nosologia psiquiátrica. Impresso no
época publicou o texto “A agorafobia, uma Estabelecimento General Gustavo Cordeiro de Fari-
doença neuropática”, que se encontra tra- as: Rio de Janeiro, 1961, p.74.

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Neurose de angústia e transtorno de pânico

tras se afastaram desta concepção e apon- gústia à Neurose de Angústia descrita por
taram uma dimensão mais subjetiva para Freud, passando, nesse intervalo, pelas
esse transtorno. Assim, Ludwig Binswan- fobias, neurose de terror, ansiedade paro-
ger, psiquiatra suíço, na década de 1920, xística, síndrome do pânico, chegando aos
correlaciona a angústia à dimensão exis- compêndios psiquiátricos atuais como
tencial fundamental da “derrelição”, ter- Transtorno de Pânico, terminologia hoje
mo tomado do filósofo Martin Heidegger. consagrada.
“É uma existência confrontada com uma si- Neurose de Angústia e Transtorno de
tuação de desamparo total, encontrando-se, Pânico, a princípio, parecem ser duas en-
de repente, abandonada e desprovida de qual- tidades clínicas distintas, tratadas por ci-
quer ajuda, seja humana ou divina”3. ências também distintas. A primeira seria
Donald F. Klein, no início da década do domínio da psicanálise e a segunda da
de 1960, considerou em muitos casos a psiquiatria? Parece que assim se estabele-
participação de alguns aspectos emocio- ceram a partir do momento em que a clas-
nais, entre eles, a angústia de separação. sificação nosográfica do Distúrbio de Pâ-
Esta, quando vivenciada pelas crianças, se nico foi oficialmente usada pelo DSM-III,
transformaria na vida adulta nos ataques em 1980, que o descreve como “o apareci-
de pânico. Avançando nos seus estudos, mento súbito de uma apreensão intensa, medo
ele relacionou esses ataques a descargas ou terror, associados frequentemente com sen-
descoordenadas de neurônios que seriam timentos de catástrofe iminente”4. Apresen-
os responsáveis pelas respostas da criança ta uma lista de acometimentos físicos e
às situações de separação da mãe. Assim, termina dizendo que os ataques duram,
associava os ataques de angústia também geralmente, minutos; mas podem chegar
a transtornos no funcionamento bioquí- a horas. A subjetividade envolvida nas
mico, enquanto outros pesquisadores de- crises não era considerada, e abordagens
fendiam a ideia de um distúrbio metabóli- psicológicas só seriam aceitas com o su-
co. porte medicamentoso. Em 1995, foi edi-
A indústria farmacêutica, baseada nas tado o DSM-IV, em que a expressão Sín-
causas orgânicas estabelecidas para esses drome do Pânico não aparece mais.
transtornos, muito se desenvolveu e avan- Alguns anos depois, esta entidade foi
çou na eficácia de produtos para a con- incorporada à Classificação Internacional
tenção das crises. Tem se esmerado na pro- de Doenças da OMS – CID, hoje, a CID-
dução de medicamentos, direcionando-os, 10, onde no Capítulo V: Classificação de
cada vez mais, para sintomas específicos. Transtornos Mentais e de Comportamen-
Porém, esta terapêutica ainda não pode to (1993), encontramos Transtorno de
ser considerada totalmente eficaz, pois não pânico ou Ansiedade paroxística episódi-
garante a evitação da eclosão da angústia, ca, F41.0. Está descrito como a ocorrên-
e não consegue impedir que os pacientes cia de “ataques recorrentes de ansiedade gra-
se sintam ameaçados pelo seu retorno. ve (pânico), os quais não são restritos a qual-
Por ser a angústia um afeto devasta- quer situação ou conjunto de circunstâncias
dor e multissintomático, sua descrição clí- em particular e que são, portanto, imprevisí-
nica deu muitas voltas levando a modifi- veis. (...) os sintomas dominantes variam de
cações na nomenclatura, de crises de an- uma pessoa para outra, porém, início súbito

4. DSM-III, Manual de Diagnóstico e Estatística dos Dis-


3. PEREIRA, Mário Eduardo Costa. Pânico – contribui- túrbios Mentais da American Psychiatric Association.
ção à psicopatologia dos ataques de pânico. : São Pau- Washington, D.C. USA. Lisboa: Editora Portuguesa
lo: Lemos Editorial, 1997, p.31. de Livros Técnicos e Científicos, 1980, p. 221.

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de palpitações, dor no peito, sensações de cho- cas concernentes à neurastenia. A partir


que, tontura e sentimentos de irrealidade (des- daí, desenvolveu seu próprio conceito de
personalização ou desrealização) são comuns. Neurose de Angústia, a Angstneurose, dis-
(...) há um medo secundário de morrer, per- tinguindo-o do conceito de neurastenia,
der o controle ou ficar louco. Os ataques du- que enfatizava o baixo investimento libi-
ram minutos, podendo ser mais prolongados. dinal. Na Neurose de Angústia a ênfase
(...) Um ataque de pânico com frequência é foi colocada na geração de angústia de-
seguido por um medo persistente de ter outro corrente do acúmulo de excitação somá-
ataque”5. É feita também uma diferencia- tica, de natureza sexual, não descarrega-
ção entre transtorno e ataques de pânico, do por uma ação psíquica específica ou
explicando que esses últimos ocorrem adequada sendo, então, gasto em reações
como parte de transtornos fóbicos já exis- somáticas inadequadas, desenvolvendo
tentes. O termo pânico se consagrou pelo uma intrigante gama de sintomas mani-
caráter súbito e aparentemente inexplicá- festada, particularmente, no corpo. São
vel das crises. Pesquisas estatísticas suge- eles: arritmia cardíaca, distúrbios respira-
rem maior incidência de transtorno de tórios (dispneia), dores no peito (anginas),
pânico nas mulheres, e de ataques de pâ- congestões, sudorese, insônia, ataques de
nico, secundários a quadros de depressão, tremuras e calafrios, ataques de medo com
nos homens. paralisia motora, ataques de fome devo-
Como vimos, no final do século XIX radora, parestesias, sensação de desfaleci-
os pesquisadores já conheciam e descre- mento, vertigem locomotora, pavor notur-
viam os ataques de angústia e de pânico, no, distúrbios gastrointestinais, irritabili-
e os associavam, etiologicamente, a dis- dade, expectativa ansiosa, despersonaliza-
túrbios orgânicos: funcionais, metabólicos, ção ou desrealização, etc, que podem ser
enzimáticos, etc e ao resultado de esfor- facilmente confundidos com doença orgâ-
ços e tensões muito intensos. nica. Salienta que todos eles “podem ser
George M. Beard (1879), neurologis- agrupados em torno do sintoma principal da
ta norte-americano, descreveu a Neuras- angústia, já que cada um deles mantém com
tenia, uma patologia decorrente de uma ela uma relação definida”6. Embora as duas
debilidade do cérebro cuja fonte estaria afecções tenham etiologia orgânica, origi-
nas práticas sexuais nocivas, principalmen- nando-se de uma excitação no campo so-
te a masturbação excessiva. Clinicamen- mático, a Neurose de Angústia é o resul-
te, apresentava fadiga física de origem tado da atuação de fatores que impedem
nervosa, com sintomas variáveis e múlti- a excitação sexual somática de ter uma
plos. Conhecedor dessa concepção, Freud correspondência psíquica. Uma falha na
em 1894 escreve o texto “Sobre os critéri- elaboração do representante psíquico cor-
os para destacar da neurastenia uma sín- respondente à excitação somática acarre-
drome particular intitulada ‘neurose de taria os ataques de angústia. “O mecanis-
angústia’”, e diz nele que deveríamos se- mo da neurose de angústia deve ser procura-
parar da neurastenia todos os sintomas do em uma deflexão (desvio) da excitação
neuróticos que tinham mais a ver entre si sexual somática da esfera psíquica, com um
do que com as descrições neuropatológi- consequente emprego anormal dessa excita-

6. FREUD, Sigmund. Sobre os critérios para destacar


5. CID-10, Classificação de Transtornos Mentais e de Com- da neurastenia uma síndrome particular intitulada
portamento da OMS de Genebra. Porto Alegre: Artes ‘neurose de angústia’ (1894). ESB. Rio de Janeiro:
Médicas, 1993, p.137. Imago, 1976, v.III, p.108.

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ção”7. E no ano seguinte, continua: “(...) é Mescladas ao estudo da Neurose de


uma tensão física que não consegue penetrar Angústia estão as fobias, que se instalam
no âmbito psíquico e, portanto, permanece no com o objetivo de evitar a angústia ao fixá-
trajeto físico”8. A libido acumulada se trans- la em um objeto substitutivo. Na agorafo-
formava em angústia. Atribuía sua gêne- bia, por exemplo, o paciente invadido pelo
se, principalmente, ao coito insatisfatório, pânico desenvolve quadros de inibição e
inclusive chega a mencionar que os sinto- de limitações de funções do eu por temer
mas das crises de angústia repetem as ser acometido pelos sintomas de não ter
modificações respiratórias e de frequência como ser socorrido, e acredita que evitan-
cardíaca que também ocorrem na copula- do determinados locais ou situações esta-
ção normal. ria livre do retorno dos ataques. Esses epi-
A primeira menção de Freud ao ter- sódios são consequentes a alguma amea-
mo Neurose de Angústia foi no “Rascu- ça inconsciente, imaginária ou real de per-
nho A”, sem data, enviado a Fliess, prova- da de um ente querido ou a iminência da
velmente em 1892. Retorna a ele no “Ras- própria morte, representantes da ameaça
cunho B”, de 1893, acrescentando que a de desamparo. Não muito raro encontra-
Angstneurose, Neurose de Angústia, tem mos intensos sentimentos de raiva e cul-
duas formas de se apresentar: em ataques pa, mesclados aos ataques de pânico, como
súbitos de angústia, Angstanfall, ou em também uma oscilação entre a busca de
manifestações crônicas. Em ambos os ca- independência e o medo da liberdade e
sos, predomina uma angústia sem que se da autonomia. Assim, o desamparo, que é
reconheça claramente seu objeto. O “Ras- estrutural no homem, nesse momento
cunho E”, escrito no ano seguinte, tam- toma uma proporção inusitada de uma
bém é dedicado a esse tema. catástrofe interna.
Freud conhecia intimamente estes Percebendo ser o recalque o respon-
ataques, pois ele mesmo fora vítima deles sável por uma importante diferença entre
em vários momentos de sua vida. Em sua as patologias psíquicas, Freud então as se-
obra há relatos de ter sido acometido por parou em dois grupos. Denominou Neu-
angústia de morte, acompanhada de sin- roses Atuais, a neurastenia, a neurose de
tomas cardíacos e vertigens. angústia e a hipocondria, que foi incluída
Embora a angústia seja o afeto por ex- em 1914, no artigo “Sobre o narcisismo,
celência dos transtornos psíquicos, foi em uma introdução”. Sob a denominação de
1894 que Freud a distinguiu e classificou o Neuroses de Transferência ou Psiconeu-
seu aparecimento súbito nos pacientes roses, agrupou a histeria de conversão, a
como Neurose de Angústia, terminologia histeria de angústia (fobias) e a neurose
adotada, por muitos anos, entre os trans- obsessiva. Esse segundo grupo reunia a
tornos neuróticos nas classificações psiqui- característica de ter sua origem num con-
átricas até por volta de 1979/80. flito psíquico e seus sintomas estavam sub-
Na psiquiatria, passou a ser denomi- metidos aos efeitos do recalcamento.
nada Síndrome ou Transtorno de Pânico. Retoma a Neurose de Angústia em
duas Conferências. Em 1916/17, Conf.
XXV, “Angústia”, quando descreve e dis-
tingue a angústia realística, onde o perigo
7. FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos dirigi- está no mundo externo, e a angústia neu-
dos a Fliess. Rascunho B (1893). ESB. Rio de Janei- rótica, onde o perigo está no mundo in-
ro: Imago, 1976, p.126. terno, reafirmando o papel do recalque. E
8. FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos dirigi-
dos a Fliess. Rascunho E (1894). ESB. Rio de Janei- na Conferência XXXII, “Angústia e vida
ro: Imago, 1976, p.269. pulsional”, de 1932, em que acrescenta às
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duas anteriores a angústia moral desen- questão do trauma e a teoria da angústia,


volvida pela ação do Supereu sobre o de- mas não a neurose de angústia.
sejo pulsional e, voltando ao trauma do Lacan, no “Seminário: a angústia, li-
nascimento, fala de uma primeira angús- vro 10”, amplia a questão da angústia di-
tia, a angústia tóxica, causada por altera- zendo que ela se instala na iminência da
ções na respiração e nos batimentos car- falta vir a faltar, pela irrupção do objeto a,
díacos no momento do nascimento, sin- dimensão do Real. O desejo seria o antí-
tomas esses, também, descritos nos ata- doto para a angústia. Se ele não pode ad-
ques de angústia. Alterações de neuro- vir, o indivíduo é igualado a objeto de gozo
transmissores, químicas e fisiológicas ce- ou de desejo do Outro.
rebrais também são defendidas pela psi- As crises de angústia da nossa ances-
quiatria para os Transtornos de Pânico. tral Neurose de Angústia se atualizam hoje
Freud finaliza esta Conferência afir- nos Transtornos de Pânico. Não falamos
mando que “não mais sustentaremos ser a mais em Neurose de Angústia. Falamos,
libido que é transformada em angústia”. Pri- escutamos e recebemos no consultório
meiro vem a angústia,... depois o recalque! Transtornos de Pânico, evidenciando a
Da teoria do trauma psíquico afirma “a falência do funcionamento psíquico não
existência de uma dupla origem da angústia: só como uma descarga pulsional, mas,
uma, como consequência direta do momento muito mais, como uma reação desespera-
traumático, e a outra, como sinal que amea- da do sujeito diante da condição de de-
ça com uma repetição de um tal momento”9. samparo radical do existir, sendo avassa-
No intervalo entre essas duas Confe- lado pela invasão do real, não encontran-
rências escreveu, “O Estranho”, em 1919, do garantias no simbólico. Colette Soler,
onde dá um enfoque existencial à angús- no artigo “Discurso e Trauma”, de 2004,
tia, quando é estudado o conceito do ressalta a irrupção da angústia diante da
Unheimlich, que é essa impressão de coi- ausência de um Ideal do Eu, que em ou-
sas conhecidas de há muito, mas incomo- tros tempos era representado pelo mestre,
damente estranhas. Seria uma manifesta- pelo Outro. Hoje, esse Ideal do Eu se apre-
ção daquilo que deveria permanecer ocul- senta com uma existência fragmentada e
to e vem à tona. A vivência do Édipo e a inconsistente, que não ampara o sujeito.
angústia de castração, contidos nos com- Diante disto, lembra C. Soler, inaugura-
plexos infantis recalcados, são desperta- se uma “solidariedade coletiva que se oferece
dos abruptamente, sem a devida prepara- como um Outro de substituição, uma repa-
ção do psiquismo. Em 1921, na “Psicolo- ração derrisória, mas, compensadora e con-
gia de grupo e a análise do eu”, Freud abor- soladora do non sense real”10.
da o uso do termo pânico para o medo sem Na era do capitalismo, que há muitos
justificativa para a ocasião e sua irrupção, anos estamos vivendo, o indivíduo é des-
como pânico, entre os indivíduos de um considerado pelas exigências dessa socie-
grupo, quando cessam os laços emocionais dade consumista e de objetos descartáveis,
que, anteriormente, os uniam e lhes em- o próprio sujeito. Tudo lhe causa angús-
prestavam força. E em 1926, no artigo “Ini- tia, desde a magnitude do perigo em com-
bições, Sintoma e Angústia”, enfoca a paração com suas próprias forças até a

9. FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias 10. SOLER, Colette. Discurso e trauma. In: Retorno do
sobre psicanálise (1932). Conferência XXXII – An- Exílio – o corpo entre a psicanálise e a ciência. Org.
gústia e vida pulsional. ESB. Rio de Janeiro: Imago, Sonia Alberti e Maria Anita Carneiro Ribeiro. Rio de
1976, v.XXII, p.119. Janeiro: Contra Capa, 2004, p.72.

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Neurose de angústia e transtorno de pânico

ameaça de rompimento dos laços emoci- As marcas do inesperado, do súbito,


onais, que confirmaria sua derrelição. O do conhecido que nos parece desconhe-
sujeito não encontra espaço para sua in- cido nas crises de pânico vêm ratificar a
serção nos grupos, sem trauma, assim existência do objeto a, o real, inominável,
como também se vê na iminência de uma não simbolizável. Submetido a uma soci-
possível exclusão de algum grupo social, edade de gozo implacável, o indivíduo,
intelectual, econômico ou familiar, tendo reduzido a um resto e posto como objeto,
como pano de fundo episódios de depres- torna-se depositário da angústia. Vê-se
são. delimitado por três posições de referência
A psicanálise, diferenciando-se da em relação à dimensão do Outro: a de-
psiquiatria organicista, trouxe à tona a manda, o gozo e o desejo do Outro. Mui-
subjetividade desse indivíduo acometido tas vezes, tenta uma saída pelo masoquis-
pelos ataques de pânico. O reconhecimen- mo, colocando-se numa posição de humi-
to da existência do desejo inconsciente e lhação e assujeitamento a esse Outro,
os desdobramentos da pulsão nas mani- como servidão, na busca de proteção, po-
festações da pulsão de morte se tornaram rém, essa tentativa mostra-se ilusória.
evidências mais importantes para a clíni- Neste cenário, o sujeito emaranhado na
ca psicanalítica, em detrimento das con- pergunta “Como você quer que eu me
siderações orgânicas. posicione?”, e sob as exigências do Ideal
Retomando a expressão que abre este do Eu, sucumbe à angústia. Ameaçado
texto, “a angústia é o que não engana”, pelo desamparo e não encontrando suas
acrescentamos, “ela não é sem objeto”11. identificações sustentatórias, sente-se des-
Sendo a angústia um afeto, portanto, vanecer, e o corpo, aí, entra em cena. ϕ
não redutível ao recalque, ela fica fora da
rede de significantes, onde ocorre o enga-
no. A angústia, fora desta rede, não enga-
na, não ilude. É o que é: angústia. É o Real,
na sua falta total de sentido, invadindo o
Imaginário, quebrando sua busca ilimita-
da de sentido, levando à perda das refe-
rências.
“Os significantes fazem do mundo uma
rede de traços em que a passagem de um ci-
clo a outro torna-se então possível. (...) o sig-
nificante gera um mundo, o mundo do sujei-
to falante, cuja característica essencial é que
nele é possível enganar”12. Próteses de feli-
cidade se seguem.
As afirmações acima nos lembram a
Carta 52 onde trabalhamos as inscri-
ções, os traços, as mudanças de regis-
tros e as falhas na tradução, onde ocor-
re o engano.

11. LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.101.
12. LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.87.

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Maria Mazzarello Cotta Ribeiro

ANXIETY NEUROSIS
AND PANIC DISORDER Bibliografia:
Abstract BESSET, Vera Lopes. Angústia. São Paulo: Escuta,
Starting from the Lacanian statement anguish 2002. 216 p.
is something that never misleads” to the BICALHO, Clovis Figueiredo Sette. A angústia e
perplexity of the subject before the question a cultura da ilusão. Revista Estudos de Psicanálise,
n.21, 1998. 118 p. Publicação do Círculo Brasilei-
“What do you want from me?”, this text ro de Psicanálise. Belo Horizonte, Minas Gerais.
makes a historical survey of the first studies
on the crises of anguish and the attacks of CORREA, Carlos Pinto. A clínica da fobia. Revis-
ta Estudos de Psicanálise, n.20, 1997, p.113. Publi-
panic. It recovers the study on the Anxiety cação do Círculo Brasileiro de Psicanálise. Belo
Neurosis done by Freud, whose nosographic Horizonte, Minas Gerais.
description was used by Psychiatric CID-10, Classificação de transtornos mentais e de
Classifications till 1980. In this way, we can comportamento da OMS de Genebra. Porto Alegre:
see how the term Syndrome of Panic came to Artes Médicas, 1993. 351 p.
replace the previous classification, coming to DOYLE, Iracy. Nosologia psiquiátrica. Impresso no
the name of Panic Disorder. It also discusses Estabelecimento General Gustavo Cordeiro de
the evolution of the concept of anguish and Farias, Rio de Janeiro, 1961. 617 p.
its clinical presentation in individuals DSM-III, Manual de diagnóstico e estatística dos dis-
subjected to the “real” that invades them. The túrbios mentais da American Psychiatric Association.
positions of subject and object come to Washington, D.C. USA. Lisboa: Editora Portugue-
sa de Livros Técnicos e Científicos, 1980. 473 p.
evidence, revealing the failure of the psychic
functioning before a radical helplessness, FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos diri-
gidos a Fliess. Rascunho A (1892). ESB. Rio de
leading to the fading of the subject. The Janeiro: Imago, 1976, v.I, p.245.
clinical issues related to psychiatric and
psychoanalytic treatment of these patients are FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos diri-
gidos a Fliess. Rascunho B (1893). ESB. Rio de
brought to discussion through the description Janeiro: Imago, 1976, v.I, p.247.
of an exuberant symptomatology and the
FREUD, Sigmund. Extratos dos documentos diri-
search of the unconscious fantasies that make gidos a Fliess. Rascunho E (1894). ESB. Rio de
up the whole picture. Janeiro: Imago, 1976, v. I, p.261.
FREUD, Sigmund. Sobre os critérios para desta-
Keywords car da neurastenia uma síndrome particular inti-
Anguish, Anxiety Neurosis, Syndrome of tulada ‘neurose de angústia’ (1894). ESB. Rio de
Panic, Panic Disorder, Symptomatology, Janeiro: Imago, 1976, v.III, p.107.
Drive, Fault, Positions of Subject and Object, FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma in-
Real, Symbolic, Imaginary, Object a, Radical trodução (1914). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976,
v.XIV, p.89.
helplessness, Enjoyment, Desire.
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias so-
bre psicanálise (1916/17). Conferência XXV- An-
gústia. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.XVI,
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FREUD, Sigmund. O Estranho (1919). ESB. Rio
de Janeiro: Imago, 1976, v.XVII, p.275.
FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e a análise
do eu (1921). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
v.XVIII, p.89.
FREUD, Sigmund. Inibições, sintoma e angústia
(1926). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.XX,
p.107.

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Neurose de angústia e transtorno de pânico

FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutó- SOBRE A AUTORA


rias sobre psicanálise (1932). Conferência XXXII
– Angústia e vida pulsional. ESB. Rio de Janeiro:
Imago, 1976, v.XXII, p.103. Maria Mazzarello Cotta Ribeiro
Psicóloga. Psicanalista.
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Anotações do
Membro e ex-presidente do Círculo Brasileiro
Seminário: A angústia em Freud e Lacan. Minis-
trado no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. de Psicanálise e do Círculo Psicanalítico
Belo Horizonte, 2007/8. de Minas Gerais.
Filiada à Federação Internacional
LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. de Sociedades Psicanalíticas – IFPS.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 366 p.
MENEZES, Lucianne Sant’Anna de. Pânico e de- Endereço para correspondência:
samparo na atualidade. Revista Agora, Rio de Ja- Rua Tomé de Souza, 860/806 - Savassi
neiro, v.VII, n.2, jul/dez 2005, p.193-206. 30140-909 - BELO HORIZONTE/MG
Tel.: (31) 3261-1572
MATOS, Andréa Pimenta Sizenando e PASSOS, E-mail: mazzarellocotta@yahoo.com.br
Tereza Cristina Rique. Um trilhamento da angús-
tia. Revista Estudos de Psicanálise, n.20, 1997. 113
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RECEBIDO EM: 30/06/2009


APROVADO EM: 24/08/2009

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