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A ATUAÇÃO DAS MULHERES NA GUERRA DO PARAGUAI: ENTRE MITOS E

HISTÓRIA, MUITAS PERSONAGENS IMPORTANTES

Hadylse Maria Lourdes Palhano*

Rosilene Aparecida Oliveira de Souza**

Jérri Roberto Marin***

Objetivou-se com essa pesquisa analisar algumas obras, teses acadêmicas e a imprensa
que ao abordar o tema pincelam as mulheres como partícipes da Guerra do Paraguai contra a
Tríplice Aliança. As mulheres, quase sempre, são excluídas da “História Oficial”, a qual se
encarregou em legitimar os heróis nacionais, homens e brancos. Assim, abordaremos como
ocorreu o processo de envolvimento das mulheres na Guerra e como foi tratada pelos países
essa participação feminina.

Para Flores (2010, p. 23), como em todas as guerras a mulher é parte fraca. Para o
homem a glória, para a mulher sempre restou à desconfiança, o medo, desconforto, estupros,
trabalhos pesados, fome e privações em todos os sentidos. E para aquelas mulheres
sobreviventes ainda restaria o duro fardo da reconstrução do país pós - guerra.

A Guerra do Paraguai eclodida em 1864 só teve o seu término em março de 1870. Foi
o conflito externo latino-americano de maior repercussão para os países envolvidos, tanto pela
mobilização e perdas humanas, quanto em seu caráter político e financeiro. O enfrentamento
entre a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) e o Paraguai tornou-se verdadeiro
divisor na história desses países.

No Brasil, D. Pedro II, em janeiro de 1865, criou o serviço de Voluntários da Pátria1


com o objetivo de despertar o sentimento patriótico das pessoas na defesa do país. Não só

1
Decreto Imperial 3.371. Ver FLORES, p. 33.

*UFMS, Graduanda em História.


**UFMS, Graduanda em História.
***Orientador e Professor Doutor da UFMS, Departamento do Curso de História.
2

homens se alistaram, mas mulheres tocadas por um sentimento patriótico aderiram ao serviço
voluntário de diversas maneiras: preparando os filhos e enviando-os para o serviço militar,
outras se encarregaram de bordar bandeiras nacionais e as ofereciam as tropas de voluntários
que partiram para a luta, outras ainda serviram como enfermeiras nos “hospitais de sangue.”2

Nesse período, ainda não existia a profissão de enfermeira, muitas mulheres que
auxiliaram os médicos não tinham nenhum conhecimento específico. Era uma missão difícil,
pois não havia recursos nesses hospitais, muitas vezes faltando até mesmo às orientações de
um médico. Os locais eram improvisados, sem higiene e com superlotação. Uma personagem
feminina ganhou destaque nesse meio, Ana Néri, baiana e de elevado poder aquisitivo.3

Ana Néri teve três filhos, dos quais dois escolheram a profissão de médico. Em 1864,
Ana escreveu ao Presidente da Província da Bahia, Manoel Pinto de Souza Dantas, pedindo
para acompanhar os filhos na guerra e se ofereceu para trabalhar como enfermeira, uma vez
que detinha conhecimentos sobre ervas medicinais. O Presidente da Província sabendo do seu
poderio financeiro e de seus conhecimentos a contratou como enfermeira brasileira. Segundo
Flores (2010, p. 54), este pioneirismo a faria Matriarca da Enfermagem e precursora da Cruz
Vermelha Brasileira.

Trabalhou nos hospitais militares de Salto, Corrientes e Humaitá, em


Assunção, com recursos próprios, montou uma enfermaria junto ao filho
médico, atendendo soldados feridos, independente de nacionalidade. Sofreu
pressão do médico chefe, enciumado de seus conhecimentos de ervas

2
Junto ao campo de batalha eram instalados os “hospitais de sangue”, construções modestas, em sua maioria
barracas ao ar livre, carentes de leitos, médicos, remédios, alimentos e higiene. FLORES, Hilda Agnes Hübner.
Mulheres na Guerra do Paraguai. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 50.
3
Ana Néri, baiana de Cachoeira de Paraguaçu, nascida a 13 de dezembro de 1814, de família abonada. Seus
pais, José Ferreira de Jesus e Luiza Maria das Virgens, batizaram-na com nome de Ana Justina Ferreira. Aos 23
anos casou com o oficial português, Capitão de Fragata Isidoro Antônio Néri. FLORES, Hilda Agnes Hübner.
Mulheres na Guerra do Paraguai. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 53.
3

medicinais, aos quais aliava atenção entre o desânimo e todo tipo de


enfermidades da alma dos pacientes.4

Outras mulheres também serviram ao país costurando os uniformes das tropas do


Exército. Eram, em sua maioria, mulheres humildes que recebiam uma baixa remuneração
para prover as peças dos uniformes e assim sustentar as suas famílias. Vale ressaltar que essas
costureiras tiveram grandes habilidades em improvisar quando a matéria - prima da confecção
se tornou escassa.

Nesse sentido, a contribuição das mulheres foi fundamental para sustentar os países
por um período tão longo no conflito. Foram várias as formas de envolvimento feminino no
decorrer da guerra, com funções diversificadas de acordo com seu status social. No Paraguai
algumas classificações se destacaram tais como residentas ou destinadas. As residentas eram
as mulheres que seguiam espontaneamente o Exército, acompanhando filhos, maridos, pais e
irmãos5. E as destinadas eram as “desafetas”, mães, esposas ou filhas de políticos
considerados traidores da Pátria, a maioria integrante da elite.6

Encontramos relatos sobre as vivandeiras ou agregadas (como foram chamadas no


Paraguai) não tinham nenhum parentesco com os soldados, eram mulheres andarilhas que se
tornaram companheiras e/ou amásias de soldados. Acabavam por servir de lavadeiras,
cozinheiras e alimentavam um pequeno comércio junto ao exército, com gêneros de primeira
necessidade. As vivandeiras acompanhavam o soldado “desde os confins do sertão”, dando-
lhe “herdeiros para sua pobreza e para suas glórias.”7

Desta forma, utilizaremos de fontes bibliográficas, memórias e da imprensa na


construção de imagens e discursos do feminino e sua participação efetiva na Guerra, seja na
forma de rebaixar o inimigo como disseminar o sentimento nacionalista.

4
Ibidem, p. 54.
5
Ibidem, p. 58.
6
Ibidem, p. 66.
7
Ibidem, p. 44.
4

Mulheres na Guerra do Paraguai: Representações da imprensa

A participação feminina no maior conflito da América Latina teve, sem dúvida


nenhuma, no período pós - guerra a sua importância minimizada e por vezes até
negligenciada. Num cenário típico masculino “as mulheres foram banidas de estudos que
possibilitam retirá-las de sua invisibilidade.” (ORTOLAN, p. 84, 2006). Por outro lado, o
envolvimento feminino no período da Guerra foi representado pela imprensa como exemplos
de patriotismo e motivação para as tropas. As imagens e notícias vinculadas procuravam
representá-las como guerreiras espartanas, fortes e destemidas.

A apropriação do feminino pela imprensa paraguaia teve como papel a construção da


heroína que deveria servir de exemplo aos paraguaios e temida pelos inimigos. Esse aspecto é
melhor compreendido no estudo de doutorado de Fernando Lóris Ortolan8 - Imagens do
Feminino na Guerra do Paraguai- , o qual nos previne que a imprensa nunca é isenta de
interesses, sejam eles do escritor da classe que representa ou mesmo do poder dominante no
momento da escrita.

Desta forma, é necessário enfatizar que ao analisarmos as declarações vinculadas pela


imprensa sobre a participação das mulheres na Guerra do Paraguai verificou-se a existência
de exageros nas suas publicações.9 De 1864 a 1870, sob o governo de Francisco Solano

8
A partir da noção de representação, é possível, numa análise que envolve a produção textual e a imagética
compreender como estruturou o universo cultural da mulher paraguaia, qual imagem se projeta dela e quais
significados podem revelar a sua realidade. Considerando nosso propósito é importante entendermos como as
representações foram construídas através do discurso da imprensa, que interesses e posições defendiam e como
foram difundidas no decorrer da Guerra do Paraguai (MÉTIS: história & cultura. ORTOLAN, Fernando Lóris. P.
84).
9
Os artigos veiculados pela imprensa paraguaia permitem avaliar as estratégias empregadas pelo governo,
incentivando e animando a população paraguaia, inclusive as mulheres para o combate. No Paraguai, os órgãos
de imprensa estavam vinculados ao Estado; por isso os jornais paraguaios participavam intensamente dessas
discussões, defendendo e representando os interesses do governo. Ibidem, p. 85.
5

López, surgiram os periódicos de acampamento que utilizou de elementos patrióticos e


nacionalistas, ao mesmo tempo em que informavam a população sobre os deslocamentos das
tropas, objetivavam manter a estima das tropas paraguaias elevadas e rebaixar o inimigo por
meio de discursos depreciativos e racistas.10

A imprensa ao reforçar os atos de bravura das mulheres tinha o interesse de difundir o


patriotismo entre os homens, uma vez que se as mulheres conseguiam tal feito a população
masculina ficaria obrigada a superá-las em bravura11. A ajuda dessas mulheres era primordial
na colaboração com o abastecimento, vestuário e nos serviços hospitalares, mas a
possibilidade delas pegarem em armas era exaltado e destacado pela imprensa.12

A ilustração do Cabichuí representou as mulheres do belo sexo13 vestidas em elegantes


vestidos, solicitando autorização do vice - presidente Sánches para pegar em armas. Na
ilustração observamos o apelo do periódico em noticiar a mobilização das mulheres e o desejo
de combater o inimigo.

Figura 1 – As filhas da Pátria: imagem do feminino na guerra

10
Cabichuí, publicado em Paso Pucú e tendo alcançado a localidade de San Fernando, surge em 1867 e teve 97
edições. Nesse jornal redigido em espanhol e guarani, além das informações sobre a Guerra, reuniões patrióticas
ou ações heroicas de homens e mulheres no país, difundia e satirizava os “negros” brasileiros e contra o
“negrito” D. Pedro II. ORTOLAN, 2007, p. 19.
11
Os registros que se referem a este anseio e a esta vontade de lutar evidenciam a intenção desses jornais,
fortemente vinculado aos interesses do Estado Paraguaio. Ibidem, p. 7.
12
No dia 15 de dezembro de 1867, as mulheres de Areguá, em uma manifestação, teriam se apresentado perante
as autoridades locais para solicitar autorização com o objetivo de serem admitidas no exército (Cabichuí de 9 de
janeiro de 1868, ano 2, n. 72, p. 4. Apud Ortolan, 2007, p.7).
13
A partir de 1867, muitas assembleias foram realizadas pelas mulheres da elite na capital e depois se
propagaram pelas localidades da campanha. Nessas ocasiões, fica evidente a distinção de classes. O belo sexo
(mulheres da sociedade, principalmente de Assunción), empregou todos os esforços e meios para ajudar na
defesa de seus interesses pessoais ou de classe, uma vez que a guerra os tinha comprometido.
6

Legenda: As filhas da Pátria, solicitando armas para lutar contra o ímpio e covarde invasor.
Fonte: Jornal Cabichuí, 9 de dezembro de 1867, ano 1, n. 63, p. 2.

A imprensa no Brasil também funcionou como instrumento de incentivo ao sentimento


nacionalista e patriótico. A presença das mulheres na guerra era retrada como incentivo ao
alistamento voluntário, mas ao contrário da imprensa paraguaia o fato de uma mulher pegar
em armas para defender seu país dividia opiniões.14Enquanto uns defendiam a figura da
mulher soldado, rompendo com os padrões estabelecidos, outros defendiam que a mulher
deveria ajudar na guerra exercendo as mesmas funções que realizavam em casa,
permanecendo à sombra dos homens, tal pensamento retrata a forte imposição patriarcal da
época.15

Nesse sentido, é importante destacar que a imagem de Jovita teve grande


popularidade, foi muito utilizada pela imprensa brasileira como exemplo de bravura e para
encorajar os soldados em servirem ao país. Sobre Jovita podemos destacar: “todos corriam

14
Sobre Jovita Feitosa, jovem brasileira de 17 anos, de família simples que cortou os cabelos e se apresentou ao
Exército. Logo descoberta, virou notícia e sua história chegou aos jornais, dividindo opiniões. Jovita chegou a
patente de sargenta (DOURADO, 2005, p. 95-97).
15
A ofensa mais grave à dignidade dos homens que se prezam e à daqueles que militarão é sem dúvida a
presença da jovem Jovita Alves Feitosa nas fileiras do segundo batalhão de voluntários do Piahy [...] a mulher
poderá servir quando muito para formar um ou outro cartucho um ou outro cantil de água [...] não poderá jamais
lançar mão de um sabre e bater-se quando se apresentam as ocasiões (MATOS, K. Jovita Feitosa, p. 20 Apud
DOURADO p 97).
7

para verla. Las fotografias se reproducen todos lós dias y era raro qui em no tuviera un retrato
de La voluntaria do Piauí.16”

Figura 2 – Jovita Alves Feitosa

Fonte: Litografia no jornal Liga e Progresso 17

Desta forma, a imprensa, tanto paraguaia como brasileira durante o período de guerra
difundiu imagens da mulher guerreira. Muitos artigos e imagens ressaltavam e atribuíam as
mulheres espaços nunca anteriormente ocupados. Constatou-se que após o término da guerra
os espaços voltaram a ser ocupados pelos homens e a igualdade de gênero ficou apenas no
discurso.

Mulheres invisíveis x mulheres respeitáveis

A história das guerras em geral remeteu a figura feminina apenas aos papéis
coadjuvantes. Por desafiarem a “ordem natural” e imposta, seus feitos são relegados ao
esquecimento, e quando lembrados raramente essas mulheres possuem nome ou mesmo

16
CUARTEROLO, M. Soldado de la Memória, p. 147 Apud DOURADO, 2005, p. 98.
17
CUARTEROLO, M. Soldado de la Memória, p. 147 Apud FLORES, 2010, p. 34.
8

sobrenome. Quando suas participações são citadas, essas são mencionadas apenas como filha
de, a esposa de, sempre de personagens que possuíam alguma patente importante.

A historiografia vem revelando a participação das mulheres na Guerra do Paraguai.


Trazendo ao debate as injustiças sofridas por esse público durante a Guerra.18

A atuação feminina, em suma, foi relegada a segundo plano, uma vez que essas
mulheres atuavam na retaguarda, plantando, cozinhando, cuidando dos feridos,
comercializando e até mesmo carregando a pé a carga das tropas e seus filhos, não atuando
diretamente na linha de frente do combate, fatos que na maioria das vezes caem no
esquecimento.19 Assim, ao longo dos séculos XIX e XX as produções de memorialistas
retrataram a história de homens transformados em heróis e só se referiram as mulheres
quando essas respeitáveis senhoras tinham esposos notáveis.

Tanto as tropas paraguaias como as brasileiras registraram a presença das mulheres, a


esta presença a historiografia mais atual deu o nome de exército invisível. Eram esposas,
amantes, companheiras, mães e prostitutas, que só se tornaram visíveis caso tivessem
realizado algum ato de bravura, todavia, quando muito citavam apenas o primeiro nome e
usavam apelidos racistas para descrevê-las:

A preta Ana, mulher de um soldado, prevenira os cuidados da administração militar


nesta obra caridosa. Colocada durante o combate no meio do quadrado 17º, ela se
desvelara com todos os feridos, tirando ou rasgando das próprias roupas o que
faltava para os curativos ou ligaduras: proceder tanto mais digno de nota e de

18
Ao contrário do que pensamos, a presença feminina não se restringiu a uma minoria. Eram mulheres de várias
nacionalidades, e estavam presentes durante todo o conflito. Apesar disso eram discriminadas e não recebiam
determinados direitos, reservados apenas aos homens [...] formavam um contingente que não tinha direito a
remédios, abrigo, cuidados e eram submetidas a violências simbólicas (explícitas e implícitas) MARIN, 2005 in
DOURADO, 2005, p. 10.
19
As mulheres que foram vistas e mencionadas pelos memorialistas, que tiveram direitos a nomes e sobrenomes,
destacavam-se individualmente por serem casadas com homens que pertenciam a elite imperial, como, por
exemplo, Ana Néri, casada com um oficial da marinha; como Ludovina Portocarrero, casada com o comandante
do Distrito Militar do Baixo Paraguai e Dona Senhorinha, casada com o Guia Lopes. DOURADO, 2005, p. 17.
9

admiração quanto fora o da maioria das companheiras miserável. Escondidas quase


todas sob as carretas, ali disputavam lugar com horrível tumulto20.

Outro fato, o qual deu destaque às mulheres invisíveis, foi o ataque paraguaio ao forte
Coimbra, em 1864. Cerca de setenta mulheres, a maioria delas esposa de militares. Elas
fabricaram 3500 balas de fuzil adaptando com pedaços de suas roupas os cartuchos
menores.21 Mulheres comuns só foram mencionadas devido aos seus feitos, como forma de
exemplo de bravura:

No episódio do Forte Coimbra ficaram conhecidas também, por ato de bravura,


Aninha Cangalha e Maria Fuzil. Ambas na calada da noite, apesar da presença do
inimigo, desceram a barranca do rio Paraguai, trazendo água para os soldados
sedentos.22

Entre as invisíveis, encontramos menção a Maria Curupaiti23 e Jovita Alves Feitosa.


Ambas conquistaram admiração e respeito, ao se disfarçarem de homem para se alistarem,
tomarem armas para enfrentar o inimigo.

Desta forma, o registro das mulheres brasileiras na Guerra do Paraguai foi quase todo
marcado pelas mulheres invisíveis, com raras exceções e ainda poucas menções a senhoras
respeitáveis. Na historiografia paraguaia os registros da presença das mulheres são em
número maiores, sendo em sua maioria divididas, segundo a historiografia, em dois grupos
específicos: residentas24 e destinadas25.

20
TAUNAY, A. A Retirada da Laguna: Episódio da Guerra do Paraguai, p. 85.
21
DOURADO, Maria Teresa. Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: A presença feminina na Guerra do
Paraguai, p. 25.
22
FLORES, Hilda Agnes Hübner. Mulheres na Guerra do Paraguai, p. 24.
23
Nome dado a Maria Francisca da Conceição, natural de Pajéu das Flores, Pernambuco. Casada aos treze anos
com um cabo de esquadra do Corpo de Pantaneiros. O marido fora destacado para o ataque ao forte de Curuzu
[...] Maria estava decidida a acompanhar o marido de qualquer maneira. [...] cortou os cabelos, vestiu um
uniforme do esposo, arranjou um boné e insinuou-se nas fileiras por ocasião do embarque. PASCAL, M. A. M.
As mulheres e a Guerra do Paraguai, p. 146 – 147.
24
As residentas eram mulheres sobre as quais não recaíam acusações de traição. Suas famílias não estavam
vinculadas às conspirações contra o presidente Solano López. Acompanhavam o exército como auxiliares,
10

A presença feminina no conflito foi largamente estimulada e aceita pelo governo


paraguaio. Ao destacar os feitos das mulheres paraguaias Solano López tinha dois objetivos, o
primeiro era manter a tropa motivada e o segundo era difundir o menosprezo e temor ao
inimigo ao ser preciso engajar as mulheres na frente de batalha.

Entre as heroínas paraguaias podemos destacar Francisca Cabrera,26 Barbara Alen e


Dolores Caballero.27 Os feitos dessas mulheres paraguaias eram noticiados na imprensa com
diversas ofensas as tropas brasileiras, pois afirmavam a bravura das mulheres prontas para a
batalha em detrimento aos “macacos” negros brasileiros.

As mulheres paraguaias, acusadas de traição ao país ou ao presidente Solano López,


eram condenadas ao desterro interno. Suas terras eram confiscadas e as mesmas eram
obrigadas a realizarem longas marchas a pé, carregando os equipamentos das tropas, quase
sem nenhuma comida. A maioria das senhoras da alta sociedade foram consideradas
destinadas, e sujeitas às sansões impostas por Solano López, como exemplo o caso da senhora
Dolores Urdapilleta Caríssimo.28

cuidando dos feridos e executando as tarefas que lhes fossem dadas, inclusive o de acompanhar o trabalho das
destinadas. ZAMBONI, V. As mulheres paraguaias na guerra entre a Tríplice Aliança e Paraguai: A
flexibilização das fronteiras de gênero (1868-1870), p. 1198.
25
As destinadas eram mulheres paraguaias cujos membros da família ou até mesmo elas, de forma direta foram
acusadas de traição contra López e o país. Eram tratadas como prisioneiras, e realizavam os trabalhos mais
pesados necessários à manutenção do exército paraguaio. ZAMBONI, V. As mulheres paraguaias na guerra
entre a Tríplice Aliança e Paraguai: A flexibilização das fronteiras de gênero (1868-1870), p. 1198.
26
O Cabichuí, periódico paraguaio, anunciou o ato de heroísmo de D. Francisca Cabrera: que ao notar que os
soldados brasileiros estavam próximos, se escondeu no mato com seus quatro filhos pequenos. Para se defender
possuía apenas uma faca e falou para seu filho mais velho que, se caísse em mãos inimigas, deveria continuar
lutando. CABICHUÍ, 12 de agosto de 1867, ano 1, p. 4 Apud ORTOLAN, 2006, p. 91.
27
O mesmo Cabichuí relatou à aventura de ambas as mulheres no momento em que “limpavam o suor do rosto e
cuidavam do gado”, foram atacadas por um “monstruoso jaguar”. Mataram-no apenas com uma faca, um cinto e
um pedaço de pau, oferecendo a pele do animal ao Marechal Solano López. CABICHUÍ, 22 de junho de 1868,
ano 2, n. 91, p. 3-4 Apud ORTOLAN, 2006, p. 91.
28
Fora casada com o juiz Bernardo Jovellanos que morreu na prisão, para onde fora enviado ao desagradar, com
suas decisões, o presidente Francisco Solano López. Durante a guerra, Dolores foi acusada de traição e
condenada ao desterro interno. Ela e outras mulheres na mesma situação foram obrigadas a fazer longas marchas
forçadas, quase sem comida [...] Os filhos pequenos de Dolores morreram de fome nessa marcha. DORATIOTO,
11

A destinada mais citada na historiografia, cuja imagem, ainda hoje, é um misto de


realidade e lenda foi Pancha Garmendia29. Segundo os relatos, ela teria sido considerada
traidora e condenada à morte, por motivo de vingança, uma vez que não cedeu a corte de
Francisco Solano López no passado.

Outra personagem envolta num certo imaginário foi a companheira de Francisco


Solano López, Elisa Linch.30 “Uma conclusão hipotética, que reúna os fragmentos numa
explicação coerente, poderia ser a de que Elisa Linch tornou-se mais bela do que realmente
era.31” De acordo com a maioria dos textos sobre a sua biografia, revelam Elisa como uma
mulher com habilidades, culta, inteligente, ambiciosa, o que para os padrões da época eram
vistos com certa rejeição pelas famílias mais privilegiadas, mas que de certa forma conseguira
se impor ao homem que não admitia tal atitude de ninguém.

Considerações Finais

A presença feminina no campo de batalha foi por muito tempo deixado de lado. Sua
participação nas vias de fato na Guerra do Paraguai foi ofuscado pelos grandes feitos dos
homens que tiveram sua história narrada pelos memorialistas. Nessas obras observamos de
forma velada a menção de algumas mulheres e só recentemente foram publicados trabalhos
cuja pesquisa colocou em foco o esforço dessas mulheres na Guerra.

Francisco. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 80
– 81.
29
No obstante, Pancha Garmendia – fue ajusticiada com Lanza en Arroyo Guazú el 11 de diciembre de 1869.
Com 40 años de edad. Es difícil creer que López, hombre de mucha voluntad, haya ordenado esta ejecución em
represália contra uma pobre mujer que ya no era más que uma sombra de si misma vencida por el infortúnio.
ALCALA, G. Residentas, Destinadas y Traidoras, p. 15 Apud DOURADO, 2005, p. 34.
30
Elisa Linch, chegou a Buenos Aires em 1855, onde nasceu seu primeiro filho com Solano López e, no mesmo
ano, mudou-se para Assunção. Depois, teve cinco filhos com o Marechal, mas eles mantinham casas separadas,
devido o clima moral da época e porque ela não poderia se casar. Permaneceu no Paraguai por 15 anos, até o
final da guerra, em 1870, quando caiu prisioneira das tropas brasileiras em Cerro Corá. DOURADO, Maria
Teresa. Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: A presença feminina na Guerra do Paraguai, p. 43.
31
Ibidem, p. 41.
12

O belo sexo foi utilizado pela imprensa para estimular o patriotismo e manter a coesão
do grupo. Era o meio de incentivá-las a colaborarem com o Estado nesse momento específico.
A coragem das mulheres paraguaias era amplamente exaltada nos jornais locais que a
comparavam a heroínas, mexendo com o imaginário local. O uso da imagem foi muito
significativo, uma vez que eram poucos os letrados no Paraguai.

Todavia, foram poucas as mulheres que tiveram seus nomes mencionados, sendo
usados termos depreciativos e racistas. Com o término da Guerra muitas mulheres foram
excluídas dos interrogatórios, uma vez que a “voz feminina” não era considerada relevante.

Desta forma, caberiam as mulheres o papel de reconstruir o país. No caso do Paraguai,


em razão do grande número de mortos do sexo masculino, restaria a tarefa de povoar os
vazios demográficos e retornar para suas funções domésticas. Pretende-se continuar esse
estudo na pós - graduação.

Referências

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002.

DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: A presença feminina
na Guerra do Paraguai. Campo Grande, MS. Ed. UFMS, 2005.

FLORES, Hilda Agnes Hübner. Mulheres na Guerra do Paraguai. Porto Alegre: EDIPUCRS,
2010.

ORTOLAN, Fernando Lóris. Imagens do Feminino na Guerra do Paraguai. MÉTIS: história & cultura,
v 5, n. 9, p. 83 – 95, jan./jun. 2006.
13

TAUNAY, Alfred D´Escragnolle. A Retirada da Laguna. São Paulo. Melhoramentos, 1963.

Jornais

Cabichuí, 9 de dezembro de 1867, ano 1, n. 63, p. 2.