Anda di halaman 1dari 41

BOLETIM

SEGURANÇA E CIDADANIA
NOVEMBRO 2015

19
“EL ES NOS DE TE STA M ”.
T R O P E ÇOS D O P O L IC IA M E N TO
DE P R OX I MIDA D E E M FAVE L AS
R E SULTA D OS DA P E S Q U I SA
UP P : O QUE P ENSA M OS P O L I C I A I S , 2 01 4

LEONA R DA M U SU M EC I
RESUMO

O artigo analisa resultados da 3ª rodada do survey “UPP:


O que pensam os policiais”, realizado em 2014, que entrevistou
2.002 cabos e soldados das 36 unidades então existentes na
cidade do Rio de Janeiro. Em comparação com os das pesquisas
de 2010 e 2012, tais resultados mostram a persistência de
problemas relativos à formação, às condições de trabalho
e à vontade da maioria dos agentes de deixar o programa.
Mas revelam sobretudo um avanço das práticas de policiamento
convencional e repressivo, em detrimento daquelas associadas
à polícia de proximidade, com um crescente protagonismo
dos GTPPs, grupamentos calcados no modelo do Bope e das
tropas de elite dos batalhões. Apontam também sinais de forte
deterioração das relações entre policiais e moradores, assim
como um aumento das percepções de presença do tráfico
de drogas e do porte ilegal de armas nas UPPs. Em diálogo com
algumas pesquisas etnográficas recentes sobre favelas ocupadas,
o trabalho relaciona a crise por que passam essas unidades
a tropeços, lacunas e desvios de rota do próprio programa,
não simplesmente a um “retorno” do tráfico, que estaria
desafiando a chamada “pacificação”.
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 3

LEONARDA MUSUMECI Na sua terceira rodada, o survey


É PROFESSORA DO INSTITUTO DE
ECONOMIA DA UFRJ E PESQUISADORA
sobre experiências e percepções de
ASSOCIADA DO CENTRO DE ESTUDOS policiais de ponta das UPPs, realizado
DE SEGURANÇA E CIDADANIA (CESEC). previamente pelo CESeC em 2010 e
2012, gerou resultados que reforçam
inquietações manifestas desde o início
Coordenam, desde 2010, a pesquisa UPP:
da pesquisa e ecoam um cenário de
O que pensam os policiais BARBARA
MUSUMECI MOURÃO, JULITA LEMGRUBER, reversão de expectativas que vem sendo
LEONARDA MUSUMECI e SILVIA RAMOS. apontado também por outros estudos
A rodada de 2014 contou ainda com a
participação do pesquisador ALBERTO
recentes sobre o processo de “pacifi-
ALVADIA FILHO e dos estatísticos DORIAM cação” de favelas.1 Este artigo apresenta
BORGES e GREICE CONCEIÇÃO. os resultados do levantamento de 2014,
A coordenação de campo ficou a cargo de
SONIA NUNES e a aplicação dos questionários
buscando sempre que possível contex-
foi feita pela empresa EXATA PESQUISAS E tualizá-los, não só em comparação com
EVENTOS. O apoio financeiro a esse terceiro
os das rodadas anteriores,2 mas também
survey veio de doação da OPEN SOCIETY
FOUNDATIONS (OSF). Como nas rodadas em diálogo com algumas pesquisas qua-
anteriores, nesta também foi fundamental litativas sobre moradores e policiais de
a colaboração da COORDENAÇÃO DE
UPPs desenvolvidas nos últimos anos.
POLÍCIA PACIFICADORA DA PMERJ dando
suporte à pesquisa, divulgando-a entre os O trabalho de campo teve duração
comandos das UPPs e fornecendo as listas bem superior à dos precedentes, esten-
de cabos e soldados para sorteio da amostra.
Agradecemos aos diversos comandantes
dendo-se por três meses e meio, de
de unidades e aos outros oficiais da PM que 30 de julho a 19 de novembro. Isso se
contribuíram para tornar o levantamento deveu tanto à situação conturbada em
possível. O grande número de entrevistados
e nosso compromisso de manter em sigilo a
algumas favelas quanto a outros tipos
identidade deles nos impede de mencionar de obstáculos encontrados no processo
um a um, mas não podemos deixar de
de aplicação dos questionários, como a
registrar um agradecimento geral a todos(as)
os(as) policiais militares que se dispuseram não-divulgação prévia da pesquisa para
a responder às nossas muitas e longas os policiais sorteados ou a particular
perguntas.
dificuldade de entrevistar mulheres,
dado que a amostra desta vez foi estrati-
ficada por gênero. Em várias unidades o
pequeno número de policiais femininas
tornou necessário entrevistar todas ou
quase todas para garantir a consistência
dos resultados, o que deixou pouca ou
nenhuma margem para substituições.
Como se sabe, afastamentos tempo-
rários por licença médica, resposta a
inquéritos e outros motivos são muito
frequentes na Polícia Militar. Quanto
mais o levantamento se estendia, mais
a lista original que servira para sortear
a amostra tornava-se obsoleta. Testes
realizados posteriormente mostraram,
porém, que os critérios de substituição
adotados e mesmo a perda de algumas
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 4

entrevistas com mulheres policiais não 4,9% em 2014). Isso talvez reflita um
prejudicaram a abrangência e aleato- ritmo menor de incorporação de poli-
riedade da amostra, nem alteraram a ciais recém-formados e/ou a entrada
margem de erro dos resultados (4%). de agentes mais velhos, oriundos de
Foram ouvidos ao todo 2.002 poli- outros setores da PM. De todo modo,
ciais (1.896 soldados e 106 cabos; 1.548 a faixa amplamente majoritária con-
homens e 454 mulheres) em amostra tinua sendo de 24 a 33 anos, com uma
aleatória representativa do universo pequena variação entre 2012 e 2014 (de
de 7.643 policiais de ponta alocados 81,7 para 78,6%), dentro da margem de
naquele momento em 36 UPPs da erro da pesquisa.
cidade.3 Embora extensa (cerca de ¼ O grau de instrução alterou-se pouco
do universo), essa amostra não repre- entre os dois últimos levantamentos,
senta estatisticamente as unidades com ligeira queda da proporção de poli-
individuais, apenas o conjunto delas e ciais que têm curso superior completo ou
alguns subconjuntos construídos por incompleto (de 47,5 para 42,6% do total),
agregação. Sacrifica-se assim a grande mas aumentou bastante o percentual dos
diversidade entre as favelas e perde-se que disseram estar estudando na época da
a possibilidade de captar variações nas pesquisa (de 30,2 para 41,2%).
experiências e percepções dos policiais Em 2014, como em 2012, os evan-
que possam estar associadas a dife- gélicos prevaleceram sobre os católicos
renças locais.4 Mas, para obter resul- (41,9 contra 37,3%); os autodeclarados
tados desagregáveis por unidade, seria pretos e pardos sobre os brancos (67,6
necessário um levantamento bem mais contra 30,8%), e os casados sobre os
amplo, quase um censo geral dos poli- solteiros (63,5 contra 36,5%). Quanto
ciais militares das UPPs, cujo custo tor- à renda pessoal, observa-se desde o
naria a pesquisa inviável. primeiro survey uma concentração na
faixa de três a cinco salários mínimos
por mês, variando de 63 a 65% nas três
PERFIL DOS ENTREVISTADOS
rodadas do levantamento. Entre 2010
Se os resultados dos dois surveys e 2014, contudo, dobrou a parcela de
anteriores sugeriam uma tendência policiais que disseram ter renda mensal
à crescente feminização da tropa das superior a cinco salários mínimos (de
UPPs, tendo a participação de mulheres 14,8 para 30,1%) – o que possivelmente
aumentado de 0,8% em 2010 para se deve à instituição dos programas
11,4% em 2012, os de 2014 contrariam Proeis e RAS, em 2011 e 2012, que
essa expectativa, pois mostram ligeiro permitiram aos funcionários de segu-
recuo (na margem de erro da pesquisa) rança pública prestar legalmente ser-
da parcela de policiais femininas que viços remunerados nos seus horários
trabalham em favelas “pacificadas”: de folga.6 Ainda assim, em 2014, uma
9,7%.5 Em relação ao perfil etário, parcela muito alta dos entrevistados
houve certo envelhecimento do efetivo, (83,2%) afirmou que o rendimento,
registrando-se acréscimo da parcela incluindo gratificações, era insuficiente
de policiais com mais de 33 anos (16,4 para sustentar a família.
contra 6,7% em 2012) e redução da A grande maioria (76,3%) do efetivo
faixa mais jovem, com idades entre de 2014 ingressara na corporação dois a
18 e 24 anos (de 11,5% em 2012 para cinco anos antes. Praticamente metade
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 5

já trabalhava em UPP havia mais de dois


anos, mas só 31,7% estavam há mais de
dois anos alocados na unidade atual, o
da PM: esse deslocamento está previsto
para os sargentos e subtenentes respon-
sáveis pela supervisão, mas nenhuma

CERCA
DE METADE
DOS POLICIAIS
que sugere a existência de alguma rota- das duas categorias foi incluída na nossa
OUVIDOS
tividade entre as UPPs. De fato, respon- amostra.
EM 2014 NÃO
dendo a outra pergunta, 38% dos sol-
dados e cabos disseram já ter passado SE CONSIDERA
“MUITO BLÁ-BLÁ-BLÁ” E “ESTÁGIO ADEQUADAMENTE
por duas ou mais unidades. Além disso,
NA PRAIA”: CRÍTICAS À FORMAÇÃO
20,4% já haviam trabalhado anterior- FORMADA PARA
mente em outros setores da PMERJ, a Assim como na pesquisa anterior, TRABALHAR
maior parte deles (83,6%) em batalhões cerca de metade dos policiais ouvidos EM UPP”
convencionais.7 em 2014 (51,7%) não se considera ade-
Embora minoritárias, essas par- quadamente formada para trabalhar em
celas são significativas por sugerir certo UPP. Essa apreciação genérica aparen-
afastamento em relação a dois prin- temente diverge do fato de mais de 70%
cípios originais do programa: (a) de dos entrevistados considerarem adequa-
que todos os agentes de ponta fossem damente ministrados alguns conteúdos
desde o ingresso na PM especialmente essenciais ao tipo de trabalho proposto
designados e treinados para trabalhar pelo programa, como policiamento
em UPP, a fim de evitar a reprodução comunitário, policiamento de proxi-
dos “vícios” da polícia tradicional, e midade, direitos humanos e uso gradual
(b) de que os policiais permanecessem da força.8 Entretanto, há outros con-
nos mesmos territórios, de modo a teúdos também importantes para esse
criarem laços de convivência e con- trabalho que a maioria considerou ina-
fiança com os moradores, conhecerem dequadamente ensinados ou inexistentes:
bem as características e os problemas de prática de policiamento cotidiano em
cada favela, e poderem com isso desen- favelas, mediação de conflitos, procedi-
volver o chamado “policiamento de pro- mentos para violência doméstica e uso
ximidade”. Mas, segundo Albernaz e de armamento menos letal. Ademais,
Mazzurana (2015: 78), o último prin- a uma pergunta aberta (feita só aos que
cípio foi alterado com o tempo, restrin- se disseram despreparados) sobre o que
gindo-se os novatos a 2/3 do efetivo da achavam que havia faltado na formação,
UPP e passando-se a preencher o outro a maior parte (52%) reclamou da falta de
terço com policiais deslocados de outras conhecimento da realidade das favelas
unidades, para “compartilharem a expe- ou da completa ausência de treinamento
riência adquirida em outras áreas em direcionado especificamente ao trabalho
processo de pacificação”. Independen- em UPP. Isso parece indicar que mesmo
temente do sucesso maior ou menor os conteúdos avaliados como “adequa-
dessa estratégia, explica-se assim a per- damente” ministrados podem ser vistos
centagem relativamente próxima de 1/3 como excessivamente teóricos: ensina-se
dos policiais que disseram já ter passado bem a doutrina do “policiamento comu-
por mais de uma unidade. O que não nitário” ou “de proximidade”, mas não
fica esclarecido é o percentual de 20,4% se promove a aproximação cognitiva e
de cabos e soldados oriundos de bata- prática dos formandos aos ambientes
lhões convencionais e de outros setores específicos em que deveriam aplicá-la.
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 6

“Muita teoria e pouca prática”; todas as disciplinas do curso terão de


“muito blá-blá-blá”; “a realidade não abordar ao menos três estudos de caso
corresponde ao que é ensinado no (cf. Cortes e Mazzurana 2015).
curso”; “faltou mostrar o que é a rea- Tais mudanças representam sem
lidade da comunidade e que existem dúvida um avanço importante. Resta
diferentes comunidades”; “o que se saber se serão suficientes para trans-
mostra é diferente do que vemos aqui”; formar o “policiamento de proxi-
“faltou psicologia para [lidar com] a midade” na “filosofia (...) orientadora
hostilidade da comunidade”; “a for- das formas de atuação e policiamento
mação foi para batalhão, não para da corporação” (idem: 6), abrindo
UPP”; “o estágio foi feito na praia” [sic], caminho para a superação da lógica
ou “em batalhão”, quando “deveria bélica hoje predominante. E sobretudo
ter sido feito em UPP” – são algumas se conseguirão reduzir o abismo entre
das respostas que ilustram essa crítica. teoria e prática, no qual florescem
Seguem-se a ela 13,7% de apreciações o “currículo oculto” e a “pedagogia
negativas gerais sobre o curso (má qua- informal”, muitas vezes em completa
lidade dos professores e instrutores; oposição ao que os cursos formais pre-
estrutura e organização ruins; tudo ou tendem transmitir:
quase tudo péssimo) e 8% de recla-
mações sobre o período muito curto da “Estes procedimentos [informais]
formação.9 podem se tornar lesivos à proposta
educacional oficial por concorrer ou
Já se sublinhara, na rodada anterior
desconstruir conteúdos do currículo
da pesquisa, a grande defasagem exis-
formal quando trazem o entendimento
tente entre a pretensão de disseminar de que a construção do que é ser e fa-
um “novo paradigma” de polícia, zer polícia ocorre exclusivamente pela
baseado na noção de proximidade, e a tradição (experiência de trabalho dos
permanência dos velhos conteúdos e mais antigos) e quando reforçam valo-
métodos de ensino oferecidos aos poli- res e atitudes contrários aos explicita-
ciais militares (cf. Musumeci et al. dos no currículo formal” (idem: 8).
2013: 4-5; 21). Ainda que com muito
atraso – quase oito anos depois da inau- Como se verá logo a seguir, a pesquisa
guração da primeira UPP –, a PMERJ do CESeC indica que está ocorrendo
promoveu recentemente uma atuali- nas UPPs uma crescente reprodução de
zação do Curso de Formação de Sol- concepções e práticas tradicionais de
dados (CFSd), que deve entrar em vigor polícia, em detrimento do que possa ser
no final de 2015. A nova grade curri- entendido como “policiamento de pro-
cular não só aumenta a carga horária ximidade”. Não é o caso de atribuir tal
total do curso de 1.182 para 1.437 horas tendência unicamente a lacunas de for-
como cria as disciplinas Polícia de Pro- mação ou à vitória do currículo oculto.
ximidade (pela fusão das antigas Poli- Mas certamente reside aí um dos flancos
ciamento Comunitário e Prática Policial deixados abertos até agora pelo programa
Cidadã); Tecnologias Não-Letais (antes de “pacificação” de favelas e só o futuro
parte da disciplina Armamento) e Admi- dirá se e em que medida as inovações
nistração Institucional de Conflitos, pedagógicas de 2015 terão sido capazes
antes inexistente. Além disso, o estágio de reverter esse quadro. No início do
prático passará a durar dois meses e programa, quando questionados sobre
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 7

a necessidade de mudança urgente e


GRÁFICO 1_ATIVIDADES DE “PROXIMIDADE” QUE OS
radical na formação dos policiais, os POLICIAIS DIZEM REALIZAR COM MUITA FREQUÊNCIA
gestores diziam que tinham de “trocar NAS UPPs (% DE ENTREVISTADOS)
o pneu com o carro andando”. Resta
torcer para que os oito anos de rodagem 25,8
PRÁTICAS DE APROXIMAÇÃO
sem pneu não tenham danificado de vez COM OS MORADORES*
a roda e o eixo do carro.
19,8
LEVANTAMENTO DE PROBLEMAS 24,8
27,9
O QUE FOI FEITO DO 14,1
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS*
POLICIAMENTO DE PROXIMIDADE?

Ao lado das críticas à formação, os 8,1


ATIVIDADES COM CRIANÇAS, 13,7
resultados do levantamento de 2014 JOVENS OU IDOSOS 12,8
apontam uma fraca presença, quando 5,3
não um encolhimento, de atividades REUNIÕES COM MORADORES 5,0
5,0
identificáveis ao “policiamento de pro-
ximidade” nas UPPs,10 como mostra, ao 2010 2012 2014

lado, o Gráfico 1.
25,8 INCLUÍDAS SÓ NO QUESTIONÁRIO DE 2014.
(*) OPÇÕES
Vê-sePRÁTICAS
que pouco mais de ¼ dos poli-
DE APROXIMAÇÃO
COM OS MORADORES*
35,3
ciais realizava com frequência, em 2014, 33,2


algum tipo (não especificado) de prática 30,3
19,8
LEVANTAMENTO DE PROBLEMAS 24,8
25,7
de aproximação com moradores; menos e só 5,3% participavam frequentemente
27,9
22,4
de 20% buscavam levantar problemas da de reuniões
14,1
com moradores. Observa-se,
18,3 17,9 18,1
comunidade; cerca DE
MEDIAÇÃO deCONFLITOS*
14% realizavam além disso, no Gráfico 2, um progressivo 16,4 OS RESULTADOS
frequentemente mediação de conflitos; declínio dos percentuais de agentes que 13,8
8,1
APONTAM
10,2 9,9
pouco mais de 8% participavam de ati- dizem manter algum contato com insti- 8,1
ATIVIDADES COM CRIANÇAS, 13,7 UMA FRACA
vidades voltadasJOVENS
para crianças ou jovens
OU IDOSOS tuições12,8
locais. 4,5 4,5
PRESENÇA,
5,3
REUNIÕES COM MORADORES 5,0 QUANDO NÃO UM
5,0 ASSOCIAÇÃO IGREJAS GRUPOS ONG S IMPRENSA
GRÁFICO 2_INSTITUIÇÕES COM QUE DEPOLICIAIS
OS MORADORES MANTÊM CULTURAIS ENCOLHIMENTO, COMUNITÁRIA

ALGUM CONTATO (% DE ENTREVISTADOS)


2010 2012 2014 DE ATIVIDADES
2010 2012 2014
IDENTIFICÁVEIS
35,3 AO ‘POLICIA-
33,2
30,3 MENTO DE 56,4
ABORDAGEM E REVISTA
74,5
25,7 DE SUSPEITOS PROXIMIDADE’ 79,4
22,4
NAS UPPs”
18,3 17,9 18,1 REGISTRO DE OCORRÊNCIAS 32,3
16,4 49,3
13,8 NA DELEGACIA
45,5
10,2 9,9
8,1
29,3
4,5 4,5
RECEBIMENTO DE QUEIXAS 52,9
59,9

ASSOCIAÇÃO IGREJAS GRUPOS ONGPRISOES


S IMPRENSA
E APREENSÕES* 29,0
DE MORADORES CULTURAIS COMUNITÁRIA

2010 2012 2014


2010 2012 2014

56,4
22,4
18,3 17,9 18,1
16,4 BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
13,8 Novembro 2015 8
10,2 9,9
8,1
4,5 4,5

ASSOCIAÇÃO IGREJAS GRUPOS ONG S IMPRENSA


DE MORADORES CULTURAIS COMUNITÁRIA
GRÁFICO 3_ATIVIDADES DE POLICIAMENTO CONVENCIONAL
QUE OS POLICIAIS DIZEM REALIZAR COM MUITA FREQUÊNCIA
2010 2012 2014
NAS UPPs (% DE ENTREVISTADOS)

56,4
ABORDAGEM E REVISTA
DE SUSPEITOS
74,5
79,4

32,3
REGISTRO DE OCORRÊNCIAS
NA DELEGACIA
49,3
45,5

29,3
RECEBIMENTO DE QUEIXAS 52,9
59,9

PRISOES E APREENSÕES* 29,0

2010 2012 2014

(*) OPÇÕES INCLUÍDAS SÓ NO QUESTIONÁRIO DE 2014.

37,6 37,6

Em compensação, vão de 29 a com pouco ou nenhum diálogo com a 29,8

56,4% as parcelas de entrevistados na população local (Cano, Borges e22,2


Ribeiro 23,7
última pesquisa que disseram fazer com 18,9
2014: 157; Musumeci et al. 2013: 17).
14,4 15,1
13,3
muita frequência prisões e apreensões, Outra indicação de que o “novo
7,5
recebimento 7,7de queixas, registros de paradigma” de policiamento
7,2 vem per-
ocorrências em delegacia e abordagem dendo terreno, como mostra o Gráfico
e revista de suspeitos – tarefas típicas 4, está na redução do percentual de
ADMINISTRATIVO PONTO FIXO
do policiamento ostensivo tradicional policiais que dizem GAT/GTPP
realizar ronda a RONDA A PÉ

(Gráfico 3). Apesar de todos os percen-


2010 pé 11
e no acréscimo
2012 dos que trabalham
2014
tuais desse grupo de atividades também em patrulhas atualmente denominadas
terem decrescido bastante desde 2012, Grupamentos Táticos de Polícia de Proxi-
500
ele parece ser bem mais generalizado midade (GTPP). Estas últimas, apesar
no trabalho cotidiano dos policiais de de trazerem “proximidade” no nome,
UPP do que as práticas indicativas de são destacamentos “operacionais” que
400
aproximação e interlocução com os transitam livremente por todas as ruas
moradores. Os resultados confirmam, e becos da favela com policiais for-
assim, uma tendência já apontada em
300
temente armados, desempenhando
pesquisas precedentes: a restrição tarefas eminentemente repressivas ou
do chamado “policiamento de proxi- modos tradicionais de “prevenção pro-
midade” a um grupo mais ou menos
200 ativa”: perseguição às drogas, às armas e
especializado de “articuladores comu- aos “esticas” (pequenos traficantes que
nitários”, enquanto, para a grande permanecem no território); abordagem
100
maioria dos policiais, “proximidade” e revista de “suspeitos”; contenção de
se traduziria apenas na presença con- protestos ou “perturbações da ordem”
tínua e ostensiva dentro das favelas, na comunidade. Quando há situações
0
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

APREENSÃO DE DROGAS ARMAS APREENDIDAS


32,3
REGISTRO DE OCORRÊNCIAS
NA DELEGACIA
49,3
45,5

29,3
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 9
RECEBIMENTO DE QUEIXAS 52,9
59,9

PRISOES E APREENSÕES* 29,0

GRÁFICO 4_TIPO DE TRABALHO QUE OS POLICIAIS


2010 2012
REALIZAM
2014
NA MAIOR PARTE DO TEMPO
(% DE ENTREVISTADOS)

37,6 37,6

29,8

22,2 23,7
18,9
14,4 15,1
13,3
7,5 7,7 7,2

ADMINISTRATIVO PONTO FIXO GAT/GTPP RONDA A PÉ

2010 2012 2014

500

consideradas críticas em outras UPPs, salvo se ela abarcar a pura e simples


o efetivo desses grupos pode ser des- coexistência no território, ou os con-
locado temporariamente para apoiá-las
400 tatos verbais e físicos durante abor-
(Albernaz e Mazzurana 2015: 69). dagens policiais. Nem a própria des-
Observações etnográficas feitas por crição oficial fornece alguma pista do
300
outros pesquisadores mostram que, que possa significar “proximidade” num
pelo menos em algumas favelas, os inte- grupamento como esse, definido da
grantes dos GTPPs buscam mimetizar seguinte maneira:
200
as tropas de elite dos batalhões (Gates)
e das unidades especiais da PM (Bope, efetivo de uma patrulha com treina-
BPChoque), podendo manter para mento operacional especializado e
100
munida de equipamento especial, em-
tanto uma atitude deliberada de dis-
pregada em ações de Polícia Ostensiva
tanciamento em relação à população.
específicas que demandam ação rápida
O 0que inclui, por exemplo, não cum- e repressão qualificada. Exemplos de
2007
primentar os2008
moradores 2009
e tratar 2010
com 2011 2012 2013 2014
sua atuação: controle de tumultos e
rispidez, quando não com violência, os ações para restauração da ordem pú-
APREENSÃO DE DROGAS ARMAS APREENDIDAS
incontáveis “suspeitos” revistados dia- blica de maior magnitude. Por suas
riamenteCUMPRIMENTO
(Esperança 2014: 137-43). Ou
DE MANDADO características
OCORRÊNCIAS COMde FLAGRANTE
natureza e emprego
DE PRISÃO
empenhar-se em exibições de força que possuem base territorial ampla, atuan-
atemorizam a população e justificam o do em toda área da Unidade Policial de
Proximidade, respondendo diretamen-
apelido de “bondes” dado a esses desta-
te ao Comandante desta (PMERJ, Di-
camentos em alguns lugares, por ana-
100% retriz Geral de Polícia de Proximidade,
logia com os grupos de traficantes que, Boletim da PM, n. 139, 2014, apud Viva
com o mesmo propósito, desfilavam for- 25,1 15-16. Cf. também Albernaz
Rio 2014:
temente armados pelas ruas da comu- e Mazzurana 2015: 69, 71).13
43,7
nidade
75% (Soares 2015: 287).12
A julgar por tais relatos, chega a ser
66,5 A série de dados do ISP sobre as
POSITIVOS
irônica a presença da expressão “polícia 36 UPPs abrangidas em 201414 reforça
de proximidade” no nome dos GTPPs, ainda mais os indíciosNEGATIVOS
de reiteração
50%
60,1
NEUTROS

46,1
ASSOCIAÇÃO IGREJAS GRUPOS ONG S IMPRENSA
DE MORADORES CULTURAIS COMUNITÁRIA
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 10
2010 2012 2014

ABORDAGEM E REVISTA
DE SUSPEITOS
do velho paradigma de policiamento,
centrado em prisões e apreensões de
REGISTRO DE OCORRÊNCIAS
drogas. Como mostra o Gráfico 5, à
estado no32,3
56,4
74,5
79,4
o fato de elas terem crescido em todo o
mesmo período indica que a
“caça” às drogas49,3e aos traficantes con-

A “CAÇA” ÀS
DROGAS E AOS
NA DELEGACIA
45,5 TRAFICANTES
medida que a “pacificação” se estende tinuou sendo foco privilegiado da ação
CONTINUOU
a um número maior de favelas, cresce policial29,3
dentro e fora das UPPs.16
52,9 SENDO FOCO
o volumeRECEBIMENTO DE QUEIXAS
de ocorrências tradicional- Voltando aos resultados
59,9
do survey,
mente usadas para aferir a “produção nota-se que o percentual de entrevis- PRIVILEGIADO
policial”, exceto
PRISOESno caso das armas
E APREENSÕES* tados em29,0
2014 que disseram trabalhar a DA AÇÃO
apreendidas, cujo número diminui no maior parte do tempo em GTPP (22,2%) POLICIAL
período. Vale sublinhar que o aumento
15
é apenas um pouco inferior ao dos que DENTRO E FORA
dos outros registros não reflete necessa-2010 afirmaram 2012
realizar 2014
com frequência DAS UPPs”
riamente um aumento da criminalidade alguma espécie de atividade de apro-
ou da quantidade de drogas em circu- ximação com os moradores (25,8%).
37,6 37,6
lação, assim como a queda do número Isso poderia indicar à primeira vista
de armas apreendidas não significa uma especialização dual e contradi- 29,8
necessariamente que haja menos armas tória nas UPPs: de um lado, “articu-22,2 23,7
ilegais nas favelas. O que essas ocor- 18,9 comunitários”,
ladores mediadores
rências informam, sobretudo,
13,3 de conflitos e “policiais 15,1
é o dire- 14,4 sociais”, que
cionamento
7,5 dado
7,7 ao trabalho policial.15
E buscam desenvolver7,2atividades capazes

GRÁFICO 5_OCORRÊNCIAS DE “PRODUÇÃO


ADMINISTRATIVO PONTO FIXO POLICIAL” GAT/GTPP RONDA A PÉ
REGISTRADAS NOS TERRITÓRIOS
2010
DE 36 UPPs –2012
2007/2014 2014
(NÚMERO-ÍNDICE: 2007=100)

500

400

300

200

100

0
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

APREENSÃO DE DROGAS ARMAS APREENDIDAS

CUMPRIMENTO DE MANDADO OCORRÊNCIAS COM FLAGRANTE


DE PRISÃO

100%
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 11

de aproximá-los ao menos de alguns seg- diferenças enormes entre as atividades


mentos da população;18 de outro, mini- dos que atuam em GTPPs e dos que
-Bopes e mini-Choques, cujas atuação, trabalham a maior parte do tempo em
atitude e ideologia parecem destinadas outros tipos de serviço, especialmente
a promover o movimento oposto, de quanto à frequência de abordagens,
distanciamento e tensionamento das registros de ocorrência, prisões e apre-
relações entre polícia e população. ensões.19 Mas também há uma surpre-
Essa imagem, porém, pode resultar endente convergência no que se refere
algo simplista. Como mostram as a praticas genéricas de aproximação
Tabelas 1 e 2, a seguir, existem de fato com moradores, levantamento de

TABELA 1_ATIVIDADES DESENVOLVIDAS COM MUITA


FREQUÊNCIA, SEGUNDO TIPO DE TRABALHO REALIZADO
NA MAIOR PARTE DO TEMPO PELOS POLICIAIS
(% DE ENTREVISTADOS)

OUTROS TIPOS
GTPP
DE TRABALHO

ABORDAGEM E REVISTA DE SUSPEITOS 95,0 45,6

REGISTROS DE OCORRÊNCIA EM DELEGACIAS 71,2 21,3

PRISÕES E APREENSÕES 71,0 1 7,1

RECEBIMENTO DE QUEIXAS 31,8 28,6

PRÁTICAS DE APROXIMAÇÃO COM OS MORADORES 26,0 25,8

LEVANTAMENTO DE PROBLEMAS 22,7 18,9

MEDIAÇÃO DE CONFLITOS 15,7 13,7

ATIVIDADES COM CRIANÇAS, JOVENS OU IDOSOS 3,3 9,5

PARTICIPAÇÃO EM REUNIÕES NA COMUNIDADE 1,4 6,4

TABELA2_OCORRÊNCIAS DE QUE OS POLICIAIS PARTICIPARAM


PELO MENOS UMA VEZ NOS TRÊS MESES ANTES DA PESQUISA,
SEGUNDO TIPO DE TRABALHO POR ELES REALIZADO A MAIOR
PARTE DO TEMPO (% DE ENTREVISTADOS)

OUTROS TIPOS
GTPP
DE TRABALHO

APREENSÃO DE DROGAS 80,3 33,2

APREENSÃO DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE


67,4 24,6
INFRATOR

OCORRÊNCIA COM DISPARO DE ARMA DE FOGO 52,9 25,1

USO DE ARMA DE FOGO PELO(A) POLICIAL 33,2 13,7

APREENSÃO DE ARMA(S) DE FOGO 23,9 5,7

USO DE ARMAMENTO “MENOS LETAL” 22,1 1 1 ,1


BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 12

problemas e até mediação de conflitos.


Em outras palavras, trabalhar a maior
parte do tempo em GTPP não exclui
Apesar de todo esse detalhamento so-
bre os preparativos do ambiente para
a chegada da UPP em suas primeiras

A IMPRESSÃO
QUE SE TEM
fases, o plano em nenhum momento
É NÃO SÓ DE
necessariamente o envolvimento em
detalha o que é ou como se deva fazer RECUO COMO DE
algumas estratégias de proximidade.20
a “proximidade”. Trata-se, portanto, PERSISTÊNCIA
São bem poucos, é verdade, os policiais basicamente de uma ocupação mili-
dos mini-Bopes com essa característica DE UMA GRANDE
tar, já que é nítida sua maior preocu-
“híbrida”, mas, como se viu, são poucos pação com as fases iniciais (I e II) em CONFUSÃO E
também os do restante da tropa que rea- detrimento das últimas. Essa lacuna, INDEFINIÇÃO EM
lizam esforços frequentes de aproxi- que deveria ter sido preenchida pelo TORNO DO QUE
mação com os moradores, pelo menos Instituto de Segurança Pública – ISP –
SIGNIFIQUE ‘POLI-
até onde as categorias da nossa pesquisa por meio de um “Programa de Polícia
Pacificadora”, como previa o decreto CIAMENTO DE
permitem observar.
que estruturou a UPP, encontra-se até PROXIMIDADE’”
A impressão que se tem, a partir
hoje aberta (Rodrigues 2014: 76).
dos resultados expostos nesta seção e
também da leitura de outros trabalhos
No início, diz o autor, a lacuna pode
recentes sobre UPPs, é não só de recuo
ter favorecido em alguma medida o
como de persistência de uma grande
processo,
confusão e indefinição em torno do
que signifique “policiamento de proxi- porque lhe deu certa plasticidade prá-
midade”.21 Apresentado desde o início tica, deixando-o aberto à construção
como pedra angular do programa de cotidiana por atores que normalmen-
“pacificação”, esse tipo de policia- te não participariam no caso de uma
mento, em 2014, quase sete anos após construção formal, como lideranças
a inauguração da primeira UPP, ainda locais e policiais. No entanto, hoje,
com a ampliação do programa, ela soa
carecia de formalização doutrinária e
mais como ameaça que como opor-
metodológica, de uma padronização
tunidade para o seu gerenciamento
mínima entre as unidades, de insti- estratégico. Assim ela tem sido preen-
tucionalização dos canais de interlo- chida por um amplo referencial de fa-
cução entre policiais e moradores, de zeres que vai do “tiro-porrada-e-bom-
mecanismos de accountability (controle, ba”, expressão usada para se referir às
monitoramento, avaliação) e, como operações policiais baseadas na lógica
já visto, de conteúdos e métodos de da guerra, até a uma cosmética e nada
ensino adequados ao “novo paradigma” instrumental “polícia boazinha”, que
vê na UPP a oportunidade de melho-
de polícia que se pretendia imple-
rar a imagem da polícia. É provável
mentar nas favelas.22
que os problemas por que passam
É um dos idealizadores e primeiro atualmente as UPPs, sobretudo nos
coordenador das UPPs quem ressalta casos de desvios e uso arbitrário da
o contraste entre o baixo investimento força, tenham a ver com esse possível
na sistematização da “proximidade” e o descontrole gerencial (idem: 79).
minucioso planejamento das etapas ante-
riores de “recuperação” e “estabilização” Algum tempo após a implemen-
dos territórios ocupados pela polícia: tação, ainda experimental, das pri-
meiras unidades, esperava-se um
esforço concentrado de avaliação, de
organização do conhecimento prático
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 13

adquirido e de elaboração de diretrizes de abordagens e apreensões de drogas;


para a replicação e o gerenciamento do a circulação de mini-Bopes à caça de
programa nas outras favelas. Mesmo mini-traficantes (Esperança 2014) e até
que devessem persistir graus de flexi- a “aproximação predatória” (Rodrigues
bilidade, dadas as enormes diferenças 2014: 81), traduzida nas velhas práticas
nos ambientes de atuação do novo poli- de privatização de informações, cor-
ciamento, era imprescindível que essa rupção, abuso de poder e violência.
sistematização avançasse antes que o Na borda desse espaço, como se
vertiginoso crescimento do número de verá, existe ainda uma faixa de poli-
UPPs e de policiais deixasse escapar do ciais com atitudes de indiferença ou
controle um dos pilares centrais do pro- descrença, quando não de repulsa, a
grama: a substituição da truculência, qualquer espécie de aproximação com
do desrespeito e da “guerra” pelo os moradores. A frase “proximidade é o
diálogo com a população das favelas. Na cacete!”, ouvida de um policial de UPP
verdade, em 2012, o ISP chegou a con- por Vinicius Esperança (2014: 146),
tratar a consultoria de universidades e soa, assim, como eco perfeito à locução
institutos de pesquisa para o detalha- “UPP é o caralho!” brandida por mora-
mento do “Programa de Polícia Pacifi- dores refratários a qualquer tipo de
cadora”, mas só em 2015 o processo de aproximação com a polícia.
formalização e institucionalização das
UPPs parece estar sendo retomado (cf.
Albernaz e Mazzurana 2015). “INTRUSO, MALTRATADO E
ODIADO”: TENSÕES EM ALTA NA
Tal como as mudanças introdu-
RELAÇÃO POLÍCIA/COMUNIDADE
zidas no curso de formação, mencio-
nadas mais acima, essa retomada é sem Se o policiamento de proximidade
dúvida auspiciosa. Vale torcer para que foi pensado como “estratégia de cons-
sua aplicação efetiva não chegue tarde trução partilhada de legitimidade entre
demais e para que ainda seja possível os policiais e destes com os cidadãos”
recobrar controle sobre o espaço que (Muniz e Mello 2015: 52), não sur-
ficou tanto tempo aberto à interpre- preende que aos tropeços da “proxi-
tação e ao exercício informais da “pro- midade” correspondam sinais de cres-
ximidade”. Por ora, esse espaço mais cente deterioração das condições do
parece um saco de gatos, onde cabem convívio e dos graus de aceitação da pre-
desde a pura e simples presença no sença policial por parte dos moradores
território até estratégias mais profis- de favelas com UPP. Mais uma vez, é
sionalizadas de aproximação, como necessário sublinhar duas limitações da
a dos policiais-mediadores (Mourão nossa pesquisa que impõem ressalvas à
2014, 2015a),23 passando por inicia- análise: (1) a impossibilidade de desa-
tivas diversas dos chamados “policiais gregar espacialmente os resultados,
sociais” (Teixeira 2015); por promoção logo de captar diferenças entre as loca-
de festas, eventos e passeios,24 e por lidades e dentro delas; (2) o fato de o
muito trabalho administrativo.25 Nele survey ter colhido apenas percepções
cabem também a regulação autoritária e opiniões dos policiais, registrando,
de atividades econômicas e de lazer nas portanto, o que eles pensam que os
favelas (Cano, Borges e Ribeiro 2014: moradores pensam deles, não necessa-
172; Soares 2015: 230-1); um frenesi riamente o que os moradores de fato
37,6 BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 14 37,6

29,8


22,2 23,7
18,9
14,4 15,1
13,3
pensam. 7,7ainda um levantamen-
7,5 Falta com que foram verbalizados
7,2 os senti- HÁ UMA
to-espelho, com perguntas aos resi- mentos hostis na última rodada da pes- PROGRESSIVA
dentes análogas às respondidas pelos quisa. A pergunta do questionário trazia E EXPRESSIVA
ADMINISTRATIVO
policiais, capazes de identificar con- PONTO FIXO
sete opções fechadas, entreGAT/GTPP
elas “raiva”, RONDA A PÉ
QUEDA DA
vergências e divergências entre essas 2010 e um campo 2012aberto para “outros senti-
2014
PERCEPÇÃO
percepções, que são, por definição, afe- mentos”. Mais de ¼ (27,3%) das res-
27

tivas e subjetivas.26 postas foram “raiva”, mas em outras DE SENTIMENTOS


500
De todo modo, ainda que gené- 9%, os entrevistados não se conten- FAVORÁVEIS
ricos e unilaterais, extraem-se indícios taram com esse termo, talvez por con- E UM AUMENTO
de deterioração do ambiente nas UPPs siderá-lo muito leve ou pouco espe- DA SENSAÇÃO
400
comparando-se, ao longo dos três cífico, e fizeram questão de carregar DE QUE
surveys, as respostas sobre sentimentos nas tintas, utilizando o campo aberto
PREVALECEM
que os policiais percebem na popu- para descrever melhor o que achavam
300 A HOSTILIDADE,
lação. Como mostra o Gráfico 6, há uma que a maioria da população sentia por
progressiva e expressiva queda da per- eles: “ódio”, “ódio fatal”, “nojo”, “asco”, A RESISTÊNCIA,
cepção
200 de sentimentos favoráveis (sim- “aversão”, “repulsa”, “repugnância”, O MEDO, A
patia, admiração, respeito, aceitação) e “ojeriza”, “rancor”, “revolta”, “rejeição”, DESCONFIANÇA
um aumento da sensação de que pre- “desprezo”, “desdém” e assim por diante. E A REJEIÇÃO”
valecem
100 a hostilidade, a resistência, o Um dos entrevistados resumiu esse dra-
medo, a desconfiança e a rejeição. mático rol de sentimentos adversos
Impressiona não só o crescimento com a frase “eles nos detestam!”, que
0
da parcela que se percebe malquista tomamos emprestada para o título deste
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
pela comunidade, mas também a ênfase artigo. E, em resposta à pergunta sobre

APREENSÃO DE DROGAS ARMAS APREENDIDAS

CUMPRIMENTO DE MANDADO OCORRÊNCIAS COM FLAGRANTE


GRÁFICO 6_SENTIMENTOS QUE, SEGUNDO
DE PRISÃO
OS POLICIAIS,
A MAIORIA DA POPULAÇÃO DEMONSTRA EM RELAÇÃO A ELES
(% DE RESPOSTAS)

100%

25,1

43,7
75%

66,5
POSITIVOS

NEGATIVOS
50%
60,1
NEUTROS

46,1

25%
28,5

14,9
10,3
5,0
0%

2010 2012 2014

SIMPATIA 10,5
NEGATIVOS
50% BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
60,1 Novembro 2015
NEUTROS
15
46,1

25%
28,5

14,9
10,3
5,0
GRÁFICO 7_SENTIMENTOS QUE, SEGUNDO OS POLICIAIS,
0%
A MAIORIA DA POPULAÇÃO DEMONSTRA EM RELAÇÃO A ELES
(% DE RESPOSTAS)
2010 2012 2014

SIMPATIA 10,5

ACEITAÇÃO 6,1

RESPEITO 3,0

ADMIRAÇÃO 2,7

OUTROS POSITIVOS* 2,7

INDIFERENÇA 14,9

RAIVA / ÓDIO / HOSTILIDADE /


REJEIÇÃO / AVERSÃO
36,3

DESCONFIANÇA / RESISTÊNCIA 16,8

MEDO 7,1

(*) ESPERANÇA, CONFIANÇA, FELICIDADE, SEGURANÇA, GRATIDÃO.

78,9
75,1 2010
72,3 68,8 68,8 2012
66,1
65,1
2014
motivos de insatisfação 62,6 61,6
com o trabalho55,1 mencionava relação ruim com os
52,1
em UPP, que será comentada mais 48,5 moradores,46,5enquanto só 9,2% referi-
42,6
adiante, outro policial disse que, além ram-se a boas relações 35,3com moradores
de “intruso”,24,2sentia-se “maltratado e como a melhor coisa do trabalho em
odiado” pela maioria da população. UPP.28 Além de percepções e opiniões, 18,4 17,5

O Gráfico 7, acima, desagrega em algumas experiências 8,2 9,6


vividas pelos 4,3
6,4
4,0 5,5
1,1 0,3 0,5 1,4 1,5 2,7
alguns blocos de respostas os senti- policiais reforçam a impressão de um
mentos positivos,
PERTURBAÇÃO
DO SOSSEGO DE
negativos
TRÁFICO
e
DESACATO
neutrosRIXAS,
VIAS DE
ambiente muitoILEGAL
VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA
hostil
PORTE
DE
em boa parte dosROUBOS
FURTOS HOMICÍDIOS VIOLÊNCIA
SEXUAL
DROGAS FATO ARMAS
com que os policiais de UPP se veem tra- territórios ocupados. Nota-se na Tabela
tados pelos moradores locais, segundo 3 que, nos últimos três meses antes do
os resultados da última pesquisa. Nunca survey, 55,8% dos entrevistados haviam
é demais lembrar que esses resultados sido alvo pelo menos uma vez de algum
100%
dizem respeito ao conjunto das UPPs objeto arremessado por moradores;
e possivelmente ocultam grandes dife- 61,8% não haviam obtido resposta a um
28,3
renças entre as 36 localidades, assim cumprimento; 63% haviam-se sentido
40,6
como variações significativas dentro de46,2 desrespeitados e 65,8% haviam sido
75%
cada uma delas. xingados em pelo menos uma ocasião.
À pergunta sobre a pior coisa de Só 3,7%, no entanto, disseram que
se trabalhar em UPP, o grupo mais algum(a) morador(a)
35,5
prestara queixa
frequente
50% de respostas (28,1%) contra eles durante esses três meses.
31,4
26,4
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 16

TABELA 3_FREQUÊNCIA COM QUE OS POLICIAIS DIZEM TER SOFRIDO, NOS TRÊS MESES
ANTES DA PESQUISA, MANIFESTAÇÕES DE HOSTILIDADE POR PARTE DE MORADORES
(% DE ENTREVISTADOS)

NENHUMA UMA ALGUMAS MUITAS


VEZ VEZ VEZES VEZES

MORADORES ARREMESSARAM ALGUM OBJETO


44,2 8,4 22,7 24,7
CONTRA O(A) POLICIAL

POLICIAL FOI XINGADO(A) POR MORADORES 34,2 5,8 23,3 36,7

POLICIAL FOI DESRESPEITADO(A) POR MORADORES 37,0 6,7 23,4 32,9

MORADORES NÃO RESPONDERAM AO CUMPRIMENTO


38,2 4,0 24,1 33,7
DO(A) POLICIAL

MORADORES DERAM QUEIXA CONTRA O(A) POLICIAL 96,3 2,0 0,9 0,8


Reações análogas por parte de quanto algumas das mais antigas.
habitantes das favelas – arremesso de Temerosos com as consequências do
objetos e insultos – foram relatadas em reempoderamento dos traficantes e pre- OS CONFLITOS
pesquisas qualitativas no começo da ocupados em não se identificar como ENTRE POLÍCIA
instalação das UPPs e associadas à resis- “amigos da polícia”, os moradores
E POPULAÇÃO
tência ou desconfiança inicial dos mora- teriam passado com mais frequência
a evitar o contato ou mesmo a mani-
DESPONTAM
dores em relação à presença contínua
da polícia nas comunidades (Cano, festar desapreço e hostilidade contra EM CONTEXTOS
Borges e Ribeiro 2014: 181; Menezes os policiais. Discutiremos mais à frente E POR MOTIVOS
2014: 671).29 Esperava-se que, com o o tema do “retorno” e a interpretação DIVERSOS,
correr do tempo, à medida que a con- que tende a creditar-lhe inteiramente NÃO REDUTÍVEIS
vivência e a proximidade produzisssem os tropeços do policiamento de pro- À EQUAÇÃO
seus efeitos humanizadores, essas mani- ximidade. Cabe ressaltar por ora que,
SIMPLISTA
festações hostis tendessem a decrescer segundo observações etnográficas feitas
HOSTILIDADE
– o que, de fato, parece ter acontecido em 2013 e 2014, os conflitos entre
polícia e população despontam em con- À POLÍCIA =
em algumas UPPs mais antigas, pelo
menos até poucos anos atrás.30 Mas não textos e por motivos diversos, não redu- VÍNCULOS COM
só a tensão se manteve alta em outras tíveis à equação simplista hostilidade à O TRÁFICO”
localidades como, recentemente, parte polícia = vínculos com o tráfico:
das favelas onde a “pacificação” parecia
Quando os policiais recorriam ao capi-
razoavelmente consolidada voltou a
tal da força física para realizar prisões
apresentar níveis elevados de tensão e
e apreensões, os moradores, muitas
desconfiança – situação que o Gráfico 6, vezes, praticavam atos de agressão aos
acima, em certa medida traduz e que se policiais, estimulados por conflitos
confirma em pesquisas qualitativas rea- decorrentes de abordagens policiais,
lizadas nos últimos dois anos (Menezes tentativas de prisões, interrupções de
2014; Esperança 2014; Soares 2015). festas. Foram incontáveis os relatos
O discurso de alguns policiais e às de policiais que receberam pedradas
vezes também de moradores tende a e até gavetadas [sic] de moradores re-
voltados. Na favela da zona Norte, um
associar esse aumento de tensões ao
policial retornou à base com a cabeça
“retorno do tráfico” e à volta dos con- aberta atingida pelas pedras. Na favela
frontos armados em várias favelas com da zona Sul, até crianças se engajavam
UPP, tanto as de ocupação recente nas ações: “Eu fiquei muito surpreso,
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 17

para não dizer bem apavorado, no dia ou pelo menos da redução das práticas
que eu vi um policial fazendo uma pri- repressivas, frequentemente abusivas
são por tráfico de drogas, e crianças e violentas, no trato com a população
jogando pedras no policial que esta-
das favelas. Não deve ser por acaso que,
va na ocorrência.” (Representante da
no último survey do CESeC, os poli-
UPP 3, Favela da zona Sul). (Soares
2015: 165)
ciais dos GTPPs disseram-se vítimas
de agressões em proporção significati-
Outra pesquisa, realizada na UPP vamente mais alta que as dos agentes
Nova Brasília em 2013 – antes do recru- ocupados em outros tipos de serviços
descimento dos tiroteios no local –, (embora estas também sejam altas – ver
identificou nexos entre manifestações Tabela 4, abaixo).31 Tampouco deve
de hostilidade e ocorrência de abusos ser por acaso que os policiais-me-
policiais, especialmente durante abor- diadores identificados na amostra
dagens e prisões. Segundo o autor, registraram muito menos agressões
um “acordo de cavalheiros” estipulava e muito menos percepções de senti-
que ninguém atiraria nos policiais, mentos hostis do que o conjunto dos
caso contrário o temido Bope seria policiais entrevistados (cf. Mourão
acionado; em contrapartida, os agentes 2015a). Ainda que de forma esque-
da UPP não “esculachariam” as pessoas mática, pode-se dizer que esses
revistadas ou presas. À quebra dessa dois grupos encarnam, respecti-
contrapartida seguiam-se pichações vamente, o mínimo e o máximo
contra os policiais “esculachadores” de uma postura de aproximação e
e, por vezes, tumultos, pedradas, gar- diálogo com os moradores. Se isso é
rafadas ou até revides armados (Espe- verdade, a fórmula mais proximidade
rança 2014:137, 142). Um terceiro = menos conflito parece fazer sentido
estudo etnográfico, feito nas duas UPPs na prática, não apenas na teoria
mais antigas (Santa Marta e Cidade inspiradora do projeto original das
de Deus), captou um adensamento UPPs. Mas, ao que tudo indica, é a
desde 2012 e sobretudo em 2014 dos fórmula inversa que está prevale-
“rumores” quanto à volta não só da cir- cendo nas áreas ditas “pacificadas”,
culação de traficantes armados, mas como reconhece um membro da
também da violência e da corrupção cúpula da PMERJ ao tentar explicar
policiais (Menezes 2014: 676-7). a crise atual do programa:
Tudo indica, assim, que – para além
Vários fatores começaram a ser des-
da presença do tráfico e suas possíveis
virtuados na hora de desenvolver es-
influências nas atitudes dos moradores tratégia no resgate da confiança da
– há fontes de conflitos desencadeadas população. Foram criados Grupos de
por modos tradicionais de atuação da Apoio Tático, de cunho repressivo.
polícia que contrariam a promessa de Repressão e aproximação, como que-
um “policiamento de proximidade”, remos na UPP, são incompatíveis.32
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 18

TABELA 4_FREQUÊNCIA COM QUE OS POLICIAIS DIZEM TER SOFRIDO,


NOS TRÊS MESES ANTES DA PESQUISA, MANIFESTAÇÕES DE HOSTILIDADE
POR PARTE DE MORADORES, SEGUNDO TIPO DE TRABALHO REALIZADO
NA MAIOR PARTE DO TEMPO (% DE ENTREVISTADOS)

OUTROS TIPOS
GTPP
DE TRABALHO

MORADORES ARREMESSARAM ALGUM OBJETO CONTRA O(A) POLICIAL 78,7 49,3

POLICIAL FOI XINGADO(A) POR MORADORES 85,7 60,2

POLICIAL FOI DESRESPEITADO(A) POR MORADORES 83,6 57,2

MORADORES NÃO RESPONDERAM AO CUMPRIMENTO DO(A) POLICIAL 79,7 56,9


CONDIÇÕES DE (IN)SEGURANÇA: recorde, com 49 “confrontos”, seguida
REVANCHE DO TRÁFICO por Alemão (41), Rocinha (31), Vila
OU RETOMADA DA GUERRA
Cruzeiro (31) e Cidade de Deus (26). AUMENTOU
PARTICULAR?
A tentativa de verificar possíveis DE FORMA
nexos entre alguns dados do nosso survey
EXPRESSIVA A
Em 23/07/2012, morria a policial e a incidência desses episódios nas UPPs,
militar Fabiana Aparecida de Souza, PARCELA DE
por meio de cruzamentos com os grupos
de 30 anos, vítima de um ataque POLICIAIS QUE
que a PM classifica de “vermelho”,
armado à UPP Nova Brasília, no Com- “amarelo” e “verde”, produziu corre-
CONSIDERA
plexo do Alemão. Foi a primeira morte lações estatisticamente significantes, SEREM MUITO
de policial em serviço nos territórios mas quase sempre fracas. Talvez a defa- FREQUENTES
“pacificados”. De lá para cá, mais de NAS UPPs AS
sagem temporal entre as informações da
150 policiais de UPP foram baleados e
PM e as do CESeC, considerando-se as OCORRÊNCIAS
mais de 20, mortos em serviço.33 Essa
rápidas mudanças na geografia dos “con- DE TRÁFICO DE
vitimização é geralmente atribuída a
frontos”, tenha influenciado negativa- DROGAS E DE
confrontos com traficantes de drogas.
mente a robustez desses cruzamentos.38 PORTE ILEGAL
De janeiro a maio de 2015, segundo
Outro problema talvez tenha sido a agre-
a PMERJ, ocorreram nas UPPs quase DE ARMAS”
gação das UPPs por intervalos muito
500 episódios definidos como “con-
desiguais. De qualquer modo, se utili-
frontos”, em média cerca de cem por
mês.34 Só duas unidades – Fé/Sereno e zados com cautela, apenas como indi-
Santa Marta – não registraram nenhum cações, não como evidência estatística,
episódio e apenas outras nove foram alguns resultados podem servir de sub-
classificadas como “verdes” por regis- sídios ao debate sobre a crise atual da
trarem, cada uma, menos de cinco chamada “pacificação”.
episódios nesse período.35 As demais Note-se inicialmente que, entre os
24 incluídas na nossa pesquisa teriam surveys de 2012 e 2014, aumentou de
sido palco de um número maior de forma expressiva a parcela de policiais
ocorrências do gênero, variando de 7 que considera serem muito frequentes
a 13 nas “amarelas”36 e de 14 a 49 nas nas UPPs as ocorrências de tráfico
“vermelhas”.37 Nova Brasília deteria o de drogas e de porte ilegal de armas
INDIFERENÇA 14,9
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 19
RAIVA / ÓDIO / HOSTILIDADE /
REJEIÇÃO / AVERSÃO
36,3

DESCONFIANÇA / RESISTÊNCIA 16,8

MEDO 7,1
GRÁFICO 8_OCORRÊNCIAS QUE OS POLICIAIS CONSIDERAM MUITO FREQUENTES NAS UPPs
(% DE ENTREVISTADOS)

78,9
75,1 2010
72,3 68,8 68,8 2012
66,1
65,1
62,6 61,6 2014
55,1
52,1 48,5
46,5
42,6
35,3

24,2
18,4 17,5

6,4 8,2 9,6 4,3


4,0 5,5
1,1 0,3 0,5 1,4 1,5 2,7

PERTURBAÇÃO TRÁFICO DESACATO RIXAS, VIOLÊNCIA PORTE FURTOS ROUBOS HOMICÍDIOS VIOLÊNCIA
DO SOSSEGO DE VIAS DE DOMÉSTICA ILEGAL DE SEXUAL
DROGAS FATO ARMAS

(Gráfico
100% 8).
39
A percepção de que há a apresentar percentuais menores de
roubos e furtos frequentes também policiais que consideram muito fre-
cresceu, ao passo que a de violência quentes as ocorrências
28,3 listadas, com
doméstica decresceu
40,6 e a de outras especial destaque para o porte ilegal
46,2
ocorrências
75% – perturbação do sossego, de armas e o tráfico de drogas, em que
desacato e rixas – teve pequenas as diferenças entre aquelas unidades
variações para mais ou para menos e as “vermelhas” são particularmente
entre as duas últimas pesquisas. grandes e os 35,5coeficientes de corre-
50%
Algumas dessas percepções apre- lação são superiores aos obtidos para as
31,4
sentam correlação estatisticamente 26,4 demais ocorrências.
significante, ainda que fraca, com as A sensação de segurança dos poli-
faixas de incidência de confrontos ciais, como seria de esperar, também
25%
armados definidas pela PM, como se vê varia nesses três conjuntos de unidades,
36,2
na Tabela 5. As UPPs
28,0 “verdes” tendem
27,4 sendo significativamente mais alta nas

0%
TABELA 5_OCORRÊNCIAS QUE OS POLICIAIS CONSIDERAM MUITO FREQUENTES,
SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO
2010 DAS2012
UPPs POR QUANTIDADE
2014 DE CONFRONTOS REGISTRADOS
PELA PM DE JANEIRO A MAIO DE 2015 (% DE ENTREVISTADOS)
SATISFEITO(A) INSATISFEITO(A) INDIFERENTE
VERMELHAS AMARELAS VERDES TODAS
(14 A 49) (7 A 13) (0 A 6) AS UPPs

TRÁFICO DE DROGAS 81,9 66,7 48,3 68,8


100%

PORTE ILEGAL DE ARMAS 54,4 29,6 8,4 35,3


41,3
75%
DESACATO 60,2 76,7 67,0 56,8 68,7
POSITIVA

ROUBO 23,2NEGATIVA 14,9 10,6 17,5


50%
NEUTRA
POSSE E USO DE DROGAS 35,9 89,4 85,6 73,9 84,4

19,9
25%

19,9 22,8
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 20

TABELA 6_SENSAÇÃO DE SEGURANÇA DOS POLICIAIS, SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO


DAS UPPs POR QUANTIDADE DE CONFRONTOS REGISTRADOS DE JANEIRO A MAIO DE 2015
(% DE ENTREVISTADOS)

VERMELHAS AMARELAS VERDES TODAS


(14 A 49) (7 A 13) (0 A 6) AS UPPs

MUITO SEGURO(A) 0,8 2,0 5,5 2,4

SEGURO(A) 17,9 20,5 37,0 23,5

NEM SEGURO(A) NEM INSEGURO(A) 29,3 32,0 35,6 31,7

INSEGURO(A) 34,5 32,3 18,4 29,8

MUITO INSEGURO(A) 17,5 13,1 3,5 12,7

TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0

UPPs “verdes” do que nas demais (Tabela portando armas na comunidade (Tabela
6). Já a diferença entre “vermelhas” e 7).41 Esses resultados, apenas indica-
“amarelas” não é expressiva, levando-se tivos, mostram parcelas mais baixas nas
em conta a margem de erro da pesquisa. unidades “verdes” de agentes que dizem
Observe-se que, no conjunto, uma pro- ter visto armas em outras mãos que
porção bastante alta (42,4%) dos entre- não as da polícia. E também apontam
vistados de 2014 sentia-se insegura ou para alguma relação, embora tênue,
muito insegura trabalhando em UPP.40 entre menor incidência de confrontos
Verificaram-se também relações sig- e menos manifestações de hostilidade
nificantes entre os agrupamentos de dos moradores contra os policiais, rei-
UPPs segundo número de confrontos e terada pela percepção de sentimentos
algumas experiências dos entrevistados negativos da população numa faixa
no nosso survey; em particular, a de ter bem maior das unidades “vermelhas”
visto pelo menos uma vez, nos últimos (70,1%) do que nas dos agentes alo-
três meses, indivíduo(s) não policial(is) cados em unidades “verdes” (44%).

TABELA 7_EXPERIÊNCIAS VIVIDAS PELOS POLICIAIS AO MENOS UMA VEZ NOS ÚLTIMOS
TRÊS MESES ANTES DA PESQUISA, SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO DAS UPPs POR QUANTIDADE
DE CONFRONTOS REGISTRADOS DE JANEIRO A MAIO DE 2015 (% DE ENTREVISTADOS)

VERMELHAS AMARELAS VERDES TODAS


(14 A 49) (7 A 13) (0 A 6) AS UPPs

VIU INDIVÍDUO ARMADO NA COMUNIDADE 48,6 29,8 10,7 33,4

VIU GRUPO ARMADO NA COMUNIDADE 37,3 20,0 5,2 24,0

PARTICIPOU DE OCORRÊNCIA COM DISPARO DE ARMA DE FOGO 44,1 28,0 11,9 31,2

MORADORES ARREMESSARAM OBJETO CONTRA O(A) POLICIAL 56,7 63,5 44,7 55,8

POLICIAL FOI XINGADO(A) POR MORADORES 70,5 67,8 54,9 65,8

POLICIAL FOI DESRESPEITADO(A) POR MORADORES 65,7 68,3 51,6 63,0

MORADORES NÃO RESPONDERAM AO CUMPRIMENTO DO(A) POLICIAL 64,9 65,2 52,2 61,8
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 21

Tais indicações, contudo, não per- de quatro anos em queda. E que, apesar
mitem endossar o discurso que rela- de um recuo em 2013, eles sobem nova-
ciona univocamente a presença de tra- mente em 2014, a uma taxa maior nos
ficantes armados e a rejeição de parte territórios “pacificados” (17,6%) do que
dos moradores à UPP, como sugerem no resto da cidade do Rio (9,2%).43
algumas respostas de policiais a per- Estudos etnográficos recentes com
guntas abertas do nosso questionário policiais e/ou moradores dão conta de
e entrevistas colhidas em outras pes- uma presença mais ostensiva do tráfico
quisas. Trata-se de estratégia argumen- armado nesses territórios, mas enfa-
tativa posta em jogo para tentar explicar tizam que, mesmo nos de ocupação
a crise da “pacificação” com base numa mais antiga, nunca deixou de existir
lógica maniqueísta, reforçadora ao domínio dos traficantes sobre determi-
mesmo tempo da retórica da “guerra” e nadas regiões, geralmente as mais altas
dos clássicos estereótipos sobre a popu- ou mais afastadas do centro das comu-
lação de favelas.42 Como realça Soares nidades. Ainda que enfraquecido pela
(2015: 135), em estudo sobre duas presença da UPP, manteve-se, assim, em
comunidades com UPP, várias favelas, o poder desses grupos de
controlar porções do território, de impor
Seus argumentos [dos policiais entre-
certas regras aos moradores e de puní-los
vistados] revelam um posicionamen-
pela proximidade com os policiais.44
to da UPP como a figura do bem que
resgatou a favela das mãos do tráfico.
Segundo Vanessa Soares, que pes-
Os pressupostos que sustentam sua quisou duas UPPs relativamente
argumentação são claros: todo aque- antigas, uma da Zona Norte, outra da
le que se opõe às boas ações da UPP Zona Sul da cidade, em ambas a
possui ou possuiu alguma relação com
o tráfico; ou aqueles que não apóiam legitimidade do uso da violência pare-
a UPP apóiam os bandidos. Há quase ce não estar plenamente estabelecida
uma obrigação de apoiar a UPP para para nenhum dos polos desta disputa.
que se possa qualificar enquanto uma Tanto os policiais das UPPs quanto os
pessoa de “bem”. O trabalho da UPP traficantes parecem ser questionados
na favela consiste também em uma em alguns momentos, os primeiros
disputa entre bem e mal. quando são agredidos e os segundos
quando são denunciados pelos mo-
radores. Mas, em alguns momentos,
Não há como negar, por outro lado,
ambos encontram obediência nos mo-
o agravamento recente do cenário da
radores, o que implica a ambiguidade
segurança em boa parte das comu- de leis que marca a favela “pacificada”
nidades ditas “pacificadas”, que se (Soares 2015: 166).
expressa de modo mais claro pelo
aumento dos tiroteios, das mortes À medida que a disputa terri-
de policiais e dos homicídios come- torial se acirra, a tendência dos mora-
tidos pela polícia. Já nos referimos ao dores é manter-se distantes dos poli-
número de PMs baleados e mortos ciais, temendo ser identificados como
em serviço desde 2012. Cabe acres- X-9 (informantes) e sofrer retaliações:
centar que esse é também o momento “conforme o clima de conflito com o
em que aumentam nas UPPs os homi- tráfico esquentava, as relações entre
cídios decorrentes de intervenção UPP e moradores esfriavam na mesma
policial (“autos de resistência”), depois proporção” (idem: 171). Mas outro fator
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 22

importante para entender esse afasta- recrudescimento dos tiroteios. Com


mento, sugere a autora referindo-se à efeito, se os principais motivos de apoio
unidade da Zona Sul, é o baixo “capital dos moradores à ocupação policial são
social” acumulado pela UPP, não obs- a redução dos tiros, a diminuição do
tante seus vários anos de existência. medo e a melhoria de vida daí decor-
Vale dizer, os fracos vínculos de pro- rente, cada confronto em favela “paci-
ximidade e cooperação estabelecidos ficada” torna-se uma “denúncia de
com os moradores, em boa parte como falência do programa” – tanto para
decorrência da regulação autoritária de a imagem externa, repercutida pela
atividades; das abordagens frequentes mídia, quanto para os próprios resi-
e não raro truculentas; do desinteresse dentes da favela em questão (Soares
dos policiais pelo cotidiano da comu- 2015: 196). Novamente a observação
nidade e por informações locais que etnográfica parece convergir com os
não dissessem respeito a crimes, levan- dados do survey, embora, no nosso caso,
do-os, inclusive, a cometer sucessivas trate-se de avaliação de legitimidade
gafes, até mesmo em relação aos nomes feita pelos policiais, não pelos mora-
das favelas abrangidas (idem: 177-80). dores: como mostra a Tabela 8, as opi-
Que essa postura não é exclusiva da niões dos agentes de ponta sobre apoio
comunidade em foco parecem mostrar dos habitantes à permanência da UPP
os resultados, já comentados, do nosso tem alguma correlação com o número
último survey, apontando uma fraca de confrontos armados registrados nas
presença de atividades identificáveis comunidades (Tabela 8).
ao “policiamento de proximidade” no Por sua vez, a pesquisa de Palloma
conjunto das UPPs e uma prevalência Menezes nas UPPs Santa Marta e
daquelas associadas ao policiamento Cidade de Deus acrescenta outro com-
ostensivo tradicional, muito pouco ponente a essa complexa relação entre
favoráveis à construção de “capital reempoderamento do tráfico, baixa
social” ou à redução de tensões e con- legitimidade da polícia e distancia-
flitos entre polícia e população. mento ou hostilidade dos moradores: a
Também contribui para a perda “volta” da violência e da corrupção poli-
de legitimidade das UPPs o próprio ciais. Segundo a autora,

TABELA 8_MORADORES QUEREM QUE A UPP CONTINUE? OPINIÕES DOS POLICIAIS,


SEGUNDO CLASSIFICAÇÃO DAS UPPs POR QUANTIDADE DE CONFRONTOS REGISTRADOS
DE JANEIRO A MAIO DE 2015 (% DE ENTREVISTADOS)

VERMELHAS AMARELAS VERDES TODAS


(14 A 49) (7 A 13) (0 A 6) AS UPPs

A MAIORIA QUER 26,2 25,6 48,3 31,6

PARTE QUER, PARTE NÃO 35,6 37,8 33,9 35,8

A MAIORIA NÃO QUER 38,3 36,5 17,7 32,6

TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0


BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 23

a partir de 2011, e principalmente


de 2012, especulações começaram a
apontar para um novo fortalecimen-
Alguns conflitos violentos entre po-
liciais e criminosos indicam que,
mesmo com a UPP, velhas práticas

A CORROSÃO
DA CONFIANÇA
to dos traficantes. Começaram a sur- criminosas parecem ainda ocorrer
DOS MORADORES
gir notícias de que a venda de drogas por parte de policiais para quem a NA UPP PARECE
estava se intensificando novamente e “guerra” é instrumento particulari- LIGADA, NÃO SÓ
de que bandidos estavam voltando a zado, mais que um fim em si mesmo.
AO FORTALECI-
andar armados, de pistola, pelas fave- Nesse caso, não é a falta de formação
las com UPP – sobretudo nos bailes. específica ou de uma leitura adequada MENTO DOS
Em 2012, começou a se intensificar das estruturas locais que prejudicam TRAFICANTES
também a circulação de boatos sobre o processo de aproximação, mas, ao COMO AO
a “volta da corrupção” no Santa Mar- contrário, é o aprendizado particu-
“RETORNO” DAS
ta e na Cidade de Deus. A percepção larizado delas para a manutenção de
de que o projeto está “começando a negócios ilícitos que crescem com a VELHAS PRÁTICAS
entrar em crise” intensificou-se ain- imperfeição dos mecanismos formais POLICIAIS ILEGAIS
da mais entre 2013 e 2014. Além das de controle. Em algumas UPPs onde E TALVEZ AO
inúmeras notícias de violência poli- esses desvios puderam ser detectados,
NEXO ENTRE AS
cial naqueles locais, que vêm multi- era nítida a estagnação, ou mesmo o
plicando-se desde o desaparecimento retrocesso do projeto pelo descrédito DUAS COISAS”
do ajudante de pedreiro Amarildo, gerado na população local, ainda que
também cresceram as falas sobre tra- houvesse a prisão dos criminosos (Ro-
ficantes que estariam voltando a fazer drigues 2014: 81).
uso da força na favela de modo cada
vez menos cauteloso. Se antes os mo- Relacionados ou não, diretamente,
radores da Cidade de Deus e do Santa à corrupção, os confrontos derivariam
Marta diziam que o uso da força pelos
também de um novo reforço do viés
agentes do mercado ilegal de drogas
bélico e repressivo, manifesto na cres-
parecia estar sendo mais “regulado”
para não chamar atenção e evitar con-
cente centralidade dos GTPPs (quando
flitos com a UPP, hoje os “bandidos” não na intervenção direta do Bope) em
parecem já não ter mais medo de usar áreas “pacificadas”. Talvez aqui caiba,
a força física naquelas comunidades efetivamente, falar em revanche – reação
(Menezes 2014: 676-7) da velha cultura policial à tentativa de
implantação de um “novo paradigma”
A corrosão da confiança dos mora- de policiamento em favelas, não mais
dores na UPP parece ligada, assim, não assentado na lógica do confronto. Assim
só ao fortalecimento dos traficantes como o tráfico armado, mesmo enco-
como ao “retorno” das velhas práticas lhido, permaneceu atuante no interior
policiais ilegais e talvez ao nexo entre das comunidades, a cultura da “guerra”,
as duas coisas. Dessa perspectiva, o embora temporariamente submersa,
próprio aumento dos confrontos se manteve-se viva nos discursos e atitudes
explicaria menos por uma suposta de boa parte dos policiais de UPP,45
revanche do tráfico contra a “pacifi- parecendo encontrar agora um espaço
cação” do que pela reedição da “guerra ampliado para manifestar-se mais aber-
particular”, alimentadora de fontes ilí- tamente.46 E, por vezes, até à revelia
citas de renda para uma parcela de poli- dos comandos locais, como no exemplo
ciais. É o que sugere Robson Rodrigues, relatado por Soares sobre a ação do
ex-coordenador do programa: GTPP numa favela da Zona Norte:
SIMPATIA 10,5
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 24
ACEITAÇÃO 6,1

RESPEITO 3,0

... para evitar os tiros, e a consequente consequência, (3) oADMIRAÇÃO


questionamento2,7
deslegitimação daquela UPP, os po- sobre os reais propósitos do programa
liciais acabam perdendo regiões da e sobre quem OUTROS
seriam,POSITIVOS* 2,7
afinal de contas,
favela para o tráfico, que passa a se
os seus reais beneficiários (cf. Soares
concentrar, em geral, em regiões altas INDIFERENÇA 14,9
2015: 247-57).48 Todos esses aspectos
do morro, onde escondem seus arma-
mentos e drogas. Quando isto aconte-
parecem interconectar-se fortemente e
RAIVA / ÓDIO / HOSTILIDADE /
36,3
ce, alguns comandantes ordenam que não podem ser reduzidos
REJEIÇÃO à visão sim-
/ AVERSÃO

se evite circular na região, pois a che- plista de um “retorno” do tráfico, desa-


DESCONFIANÇA / RESISTÊNCIA 16,8
gada de um policial no local pode re- fiando uma suposta “pacificação”.49
sultar em uma troca de tiros, digna de
capa de jornal, que a qualifica como MEDO 7,1
falha no programa. TROPA INSATISFEITA, MAS
ACOMODADA?
(...) Alguns policiais me contavam
orgulhosos que suas guarnições eram A 78,9
satisfação dos policiais de UPP,
chamadas de “bondes”, o que para 75,1
que havia 72,3 aumentado
68,8 ligeiramente
68,8
66,1
eles significava que eles faziam um 65,1
entre 2010 e 2012, teve 62,6 expressiva 61,6
“trabalho sério”. O que entendiam 55,1
queda entre os dois últimos surveys, 52,1 48,5
por “trabalho sério” era o fato de que 42,6
46,5
sua guarnição tendia a desobedecer às
com o crescimento tanto da proporção
35,3
ordens do comandante e circular por de insatisfeitos quanto da parcela que se
24,2
regiões do morro onde era sabido ter declara indiferente (ver Gráfico 9). 18,4

uma maior concentração de trafican- 6,4 8,2 9,6


4,
tes armados, e por isso eram estas as 1,1

guarnições com mais frequência en- PERTURBAÇÃO TRÁFICO DESACATO RIXAS, VIOLÊNCIA PORTE FURTOS
DO SOSSEGO DE VIAS DE DOMÉSTICA ILEGAL DE
volvidas em confrontos (Soares 2015: GRÁFICO 9_COMO OS POLICIAIS SE SENTEM, A MAIOR
DROGAS FATO ARMAS
196-7; 288). PARTE DO TEMPO, TRABALHANDO EM UPP
(% DE ENTREVISTADOS)
Baixa acumulação de capital social,
abandono ou enfraquecimento do “poli- 100%
ciamento de proximidade”, reforço
das atividades e mentalidades repres- 28,3
sivas, aumento da violência e da cor- 40,6
46,2
rupção policiais, maior ostensividade 75%

do tráfico armado, retorno dos tiro-


teios e perda de legitimidade da UPP
são, assim, alguns dos ingredientes da 35,5
50%
crise atualmente vivida pelo programa.
31,4
Ingredientes a que se somam: (1) a frus- 26,4
tração dos habitantes de favelas com
mais uma das inúmeras promessas
25%
não cumpridas pelo poder público: a
36,2
melhoria das condições urbanísticas, 28,0 27,4
econômicas e sociais que supostamente
acompanharia a ocupação policial;47
0%
(2) as incertezas (seja de moradores
2010 2012 2014
ou de policiais) quanto à permanência
da UPP depois das Olimpíadas e, em SATISFEITO(A) INSATISFEITO(A) INDIFERENTE
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 25

Para os que responderam estar satis- setores da PM e a distância entre a


feitos em 2014, os três motivos mais fre- UPP e o batalhão. Quanto aos demais
quentes da satisfação foram boas con- (estado geral da sede; distância entre
dições de trabalho (21,2% das respostas), casa e trabalho; escala de serviço; uni-
gostar de trabalhar em UPP (20,3%) e forme; salários; local para alimentação;
acreditar no projeto/enxergar melhorias assistência psicológica; dormitórios;
(14,6%). Os insatisfeitos, por sua vez, auxílio-transporte; banheiros e estacio-
mencionaram em primeiro lugar con- namento), prevaleceram amplamente
dições de trabalho ruins (37%) e, em os qualificativos “ruim” e “regular”,
seguida (10,7%), aspectos negativos da variando tais avaliações de pouco menos
relação com os moradores (hostilidade, de 70 a mais de 95% dos entrevistados,
rejeição, desrespeito, não-colaboração conforme o quesito em questão.
etc.).50 No tocante às condições de tra- Apesar de 42,4% dos policiais
balho, 12,1% dos motivos de insatisfação terem-se declarado inseguros ou muito
referiam-se à escala de serviço, enquanto inseguros em trabalhar na UPP, o sen-
nos surveys anteriores esse item aparecia timento de insegurança apareceu em
frequentemente como razão para estar proporção relativamente pequena como
satisfeito(a). Em 2014, diversos policiais causa da insatisfação (cerca de 7%) e
insatisfeitos reclamaram de “ter de fazer ainda menor foi a parcela de respostas
escala extra nas folgas”, do “RAS com- espontâneas mencionando segurança
pulsório”, do excesso de carga horária, ou tranquilidade como motivo de satis-
da falta de tempo para a vida social e do fação (3,7%). Entretanto, o cruzamento
descumprimento das regras de escala direto entre as variáveis satisfação e
por parte dos comandantes. Já entre os segurança, feito com base em perguntas
satisfeitos que citaram como motivo fechadas, mostra que existe correlação
boas condições de trabalho, o que pre- significante, ainda que fraca, entre elas:
valeceu foram referências à gratificação 65,8% dos policiais insatisfeitos, dis-
pecuniária, mas houve alguns elogios seram sentir-se inseguros ou muito inse-
à escala “leve”, ao serviço de cinco dias guros, contra 23,9% dos satisfeitos e 34%
na semana e à jornada “tranquila” – o dos indiferentes. Ademais, insegurança,
que sugere que ao menos parte dos poli- risco de confronto ou proximidade com
ciais felizes com a escala é composta por “suspeitos” foram mencionados em
aqueles alocados no setor administrativo 20,8% das respostas (abertas) sobre
(alguns afirmam isso explicitamente). a pior coisa de se trabalhar em UPP,
Entre os insatisfeitos com as con- enquanto segurança/tranquilidade apa-
dições de trabalho, além da escala ruim receram em apenas 0,9% das respostas
e da jornada excessiva, o maior volume espontâneas sobre a melhor coisa desse
de respostas faz menção genérica a más trabalho.
condições e à falta de estrutura ou infra- Existe ainda alguma correlação,
estrutura. Noutra pergunta (fechada), mesmo tênue, entre satisfação e tipo
em que se pedia que avaliassem item a de serviço realizado a maior parte do
item algumas das condições de trabalho, tempo pelos policiais, havendo pro-
os únicos quesitos considerados “bons” porções de satisfeitos bem superiores à
pela maioria dos policiais em 2014 foram média entre os que realizam trabalho
a pontualidade da gratificação,51 o rela- administrativo (47,8%) ou desem-
cionamento com policiais de outros penham “outros serviços” (39,1%).
25%
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19

28,0
Novembro 2015
27,4
26 36,2

0%

2010 2012 2014

Estes últimos correspondem a uma SATISFEITO(A) INSATISFEITO(A) INDIFERENTE


GRÁFICO 10_AVALIAÇÃO DOS POLICIAIS SOBRE AS UPPs
categoria aberta residual que englobou
(% DE ENTREVISTADOS)
tarefas ligadas predominantemente à
“proximidade”, como ronda escolar, 100%
ensino, Proerd (programa de pre-
venção ao uso de drogas), P5 (relações
41,3
públicas), mediação de conflitos, desen- 75%
60,2 POSITIVA
volvimento de projetos sociais etc., mas
também, em menor proporção, tra- NEGATIVA
50%
balhos convencionais como condução NEUTRA
35,9
de veículos, motopatrulha, guarda de
armamento e outras. Curiosamente, 19,9
25%
a parcela de satisfeitos entre os que
militam nos GTPPs (26,6%) não se 19,9 22,8

diferencia muito da verificada no con- 0%


2012 2014
junto da tropa (28,4%).
Junto com o grau de satisfação,


caiu de forma expressiva entre os dois
OUTROS TIPOS
últimos levantamentos a parcela de poli- Entretanto, praticamente
QUALQUER COISA não
DE se alterou
SERVIÇO
MENOS UPP
ciais que avaliam positivamente o pro- nos dois últimos1,0% 3,5% dos
surveys a parcela ÁREA DE SAÚDE
grama UPP, tendo aumentado a faixa que prefeririam, caso tivessem escolha, OU ENSINO
JUNTO
1,9% COM
dos que expressam opinião negativa e estar em outroFORAtipo
DA PMde serviço que O GRAU DE
SERVIÇO INTERNO
variado pouco a dos que mantêm uma não UPP: 59,9%0,4% em 2012 e 58,9% em 3,0%
SATISFAÇÃO,
apreciação neutra (Gráfico 10). O nexo 2014. Continua sendo a maioria, mas,
CAIU DE FORMA
estatístico entre avaliação das UPPs e se se considera que no primeiro levan- BOPE
tipo de trabalho realizado é bastante tamento, em 2010, essa parcela era de EXPRESSIVA 7,2%
fraco e tampouco há convergência sig- 69,6%, parece ter ocorrido algum tipo ENTRE OS
UNIDADES CHOQ
nificativa entre avaliação do programa de acomodação na qual mesmo parte DOIS ÚLTIMOS
ESPECIALIZADAS 3,2%
BPM 21,6%
e número de confrontos nas comuni- dos policiais insatisfeitos
68,5% ou pouco LEVANTAMENTOS OUTR
ESPE
dades. Mais forte e óbvio parece ser o aderidos ao programa não veem tanta A PARCELA 11,2%
vínculo entre avaliação e satisfação: vantagem em sair dele. A análise de DE POLICIAIS
77% dos policiais satisfeitos qualificaram alguns cruzamentos e respostas abertas
QUE AVALIAM
positivamente o programa, ao passo que pode ajudar a entender melhor esse
só 18% dos insatisfeitos expressaram fenômeno à primeira vista paradoxal.
POSITIVAMENTE
essa opinião. Existe, comoFICARIA
é óbvio, O PROGRAMA
MAISuma
PERTO relação
DE CASA 24,4
Os vários sinais de crise ecoados entre estar ou não satisfeito(a) e desejo UPP”
GOSTA MAIS / IDENTIFICA-SE MAIS 24,2
pela pesquisa e espelhados em trabalhos ou não de mudar de trabalho: 82,8%
CONDIÇÕES DE TRABALHO MELHORES 12,6
etnográficos – deterioração das con- dos insatisfeitos querem sair de UPP e
TERIA MAIS ACEITAÇÃO /
dições de segurança, das relações com 70,8% dos satisfeitos querem ficar.
RECONHECIMENTO Mas
/ RESPEITO
9,0
os moradores e do nível de satisfação não só ambos os percentuais são infe- /
TERIA MAIS SEGURANÇA
8,8
TRANQUILIDADE
dos agentes –, somados à persistência riores a 100% como há ainda os indife-
FICARIA LONGE DA COMUNIDADE 4,7
de péssimas condições de trabalho em rentes – nem satisfeitos, nem insatis-
SERIA MAIS POLÍCIA/POLÍCIA DE VERDADE 3,3
diversas UPPs, levariam a esperar um feitos – que se dividem entre a vontade
TERIA MAIS AUTONOMIA/
grande aumento da proporção de poli- de ficar (40,5%) e a LIBERDADE
de sair (59,5%).
PARA AGIR
2,8
ciais desejosos de sair do programa e TambémTERIA
há relação, embora INSTITUCIONAL
MAIS RESPALDO mais fraca, 2,4
trabalhar em outros setores da PM. com o tipo de trabalhoNÃO queGOSTA
os policiais
DE UPP /
2,4
NÃO ACREDITA NO PROJETO

APRENDERIA MAIS 2,2

OUTROS MOTIVOS 3,3


BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 27
100%

28,3
40,6
46,2
75%
realizam a maior parte do tempo: entre segurança, ou conveniências pessoais,
os alocados em ponto fixo, o percentual há uma parcela de entrevistados para
dos que prefeririam trabalhar em outro quem querer trocar a UPP por outro
35,5
setor da PM (71,5%)
50% é bem superior à serviço sugere preferência por formas
média (58,9%) e, entre os31,4 do serviço tradicionais de policiamento. Note-se,
26,4
administrativo, é significativamente inicialmente, que, caso pudessem optar
inferior (38%). A distância entre tra- por outro trabalho, mais de 90% esco-
balho e local 25%de moradia também lheriam batalhão convencional (BPM)
parece ter certo peso: não só ela foi ou unidade especial, 36,2 como Bope,
28,0 27,4
mencionada espontaneamente como BPChoque e outras (Gráfico 11).
justificativa para querer trabalhar em Esse resultado é bastante parecido
0% Gráfico 12, adiante),
outro serviço (ver com o de 2012 (Musumeci et al. 2015:
mas foram altas as percentagens2010 dos Mas de lá para cá diminuiu
8).52 2012 2014 a pro-
que gostariam de sair entre os que ava- porção de justificativas que apontam
SATISFEITO(A) INSATISFEITO(A) INDIFERENTE
liaram a distância casa/trabalho como claramente uma rejeição às UPPs, um
“ruim” (73,1%) e entre os que disseram repúdio ao trabalho em favela ou uma
gastar mais de duas horas no desloca- valorização das atividades e da imagem
100%
mento da residência até a UPP (81,5%). tradicionais de polícia – tais como
Segurança é outro fator correlacionado “gosta mais/identifica-se mais” [com
com a vontade75%
ou não de sair: 78% o outro 41,3
tipo de serviço]; “teria mais
60,2
dos que se sentem muito inseguros gos- aceitação/reconhecimento/respeito”;
POSITIVA
tariam de ir para outro serviço e só 36% “ficaria longe da comunidade”; seria
NEGATIVA
dos que se 50%sentem muito seguros prefe- “mais polícia” ou “polícia de verdade”;
NEUTRA
ririam sair do programa. “teria mais35,9 autonomia e liberdade
Ao lado dos nexos entre 19,9 vontade para agir”; “não gosta de UPP” ou “não
25%
de sair e condições de trabalho, de acredita no projeto” e “aprenderia mais”
19,9 22,8
0%
GRÁFICO 11_TIPO DE SERVIÇO
2012 EM QUE OS POLICIAIS
2014 PREFERIRIAM ESTAR TRABALHANDO
(% DE RESPOSTAS DOS ENTREVISTADOS QUE GOSTARIAM DE SAIR DE UPP)

OUTROS TIPOS
QUALQUER COISA
DE SERVIÇO
MENOS UPP
1,0% 3,5%
ÁREA DE SAÚDE
OU ENSINO
1,9%
FORA DA PM
0,4% SERVIÇO INTERNO
3,0%

BOPE
7,2%

UNIDADES CHOQUE
ESPECIALIZADAS 3,2%
BPM 21,6%
68,5% OUTRAS
ESPECIALIZADAS
11,2%

FICARIA MAIS PERTO DE CASA 24,4


3,0%

BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19


BOPE
Novembro 2015
7,2%
28
UNIDADES CHOQUE


ESPECIALIZADAS 3,2%
BPM 21,6%
68,5% OUTRAS
ESPECIALIZADAS
11,2%
É POSSÍVEL
GRÁFICO 12_MOTIVOS POR QUE OS POLICIAIS PREFERIRIAM
ESTAR NO OUTRO TIPO DE SERVIÇO (% DAS RESPOSTAS QUE A APARENTE
DE ENTREVISTADOS QUE GOSTARIAM DE SAIR DE UPP) REDUÇÃO DAS
RESISTÊNCIAS
FICARIA MAIS PERTO DE CASA 24,4 SINALIZE QUE
GOSTA MAIS / IDENTIFICA-SE MAIS 24,2 ESSAS UNIDADES
CONDIÇÕES DE TRABALHO MELHORES 12,6 ESTÃO-SE
TERIA MAIS ACEITAÇÃO /
RECONHECIMENTO / RESPEITO
9,0 TORNANDO
TERIA MAIS SEGURANÇA /
8,8 CADA VEZ MAIS
TRANQUILIDADE

FICARIA LONGE DA COMUNIDADE 4,7


PARECIDAS COM
OS BATALHÕES,
SERIA MAIS POLÍCIA/POLÍCIA DE VERDADE 3,3
TERIA MAIS AUTONOMIA/ TANTO NO
LIBERDADE PARA AGIR
2,8
QUE TOCA ÀS
TERIA MAIS RESPALDO INSTITUCIONAL 2,4
FORMAS DE
NÃO GOSTA DE UPP /
2,4
NÃO ACREDITA NO PROJETO POLICIAMENTO
APRENDERIA MAIS 2,2
QUANTO NA
OUTROS MOTIVOS 3,3 LÓGICA DO
CONFRONTO,
OU AINDA
(Gráfico 12). Na soma, esse tipo de42,6agentes, gestores, moradores de favela
AS UPPS SÃO A POLÍCIA DO FUTURO
2012
NAS OPORTUNI-
motivação representa menos da metade e pessoas
39,4 de fora como
2014 uma “crise” do
(48,5%) das respostas de 2014 (contra programa, para alguns policiais talvez DADES DE
64,1% em 2012), ao passo que alegações 50,7 signifique apenas a expansão do “velho ‘APROXIMAÇÃO
AS UPPS VIERAM PARA FICAR
mais “utilitárias”, como a já mencionada paradigma”, 54,9
que diminui a sensação de PREDATÓRIA’”
distância de casa, condições de trabalho serem “menos polícia” e torna menos
AS UPPS AJUDARAM
melhores, A RECUPERAR
mais segurança, mais apoio 81,3
desvantajosa a permanência nas UPPs.
A CONFIANÇA DA POPULAÇÃO
institucional e outras análogas perfazem
NA POLÍCIA 45,4
Não fossem a longa distância de casa e
pouco mais da metade. as péssimas condições de trabalho em
AS UPPS FORAM CRIADAS SÓ PARA 62,7
Caso o “policiamento
GARANTIR A SEGURANÇA DA COPA
de proxi- diversas unidades, provavelmente os
DE 2014 estivesse
midade” E DAS OLIMPÍADAS
em viasDE de2016
expansão níveis de50,0
satisfação e a vontade de per-
e consolidação, isso poderia ser um manecer em UPP seriam bem supe-
sinal alvissareiro de ELEITOREIRO
recuo das resis- 79,8 aos registrados pela pesquisa –
riores
FOI UM PROJETO
67,7
tências e aumento da adesão ao projeto. mesmo com a crescente percepção de
Entretanto, tudo indica que está ocor- hostilidade dos moradores.
rendo exatamente o oposto nas UPPs A concordância com frases recor-
e é possível que a aparente redução das rentes sobre as UPPs apresentadas
resistências sinalize que essas unidades no questionário de 2014, em 3,0 compa-
estão-se tornando cada vez mais pare- ração com os percentuais do survey
cidas com os batalhões, tanto no que anterior, também parece confirmar
2012 17,6 15,6 51,3 12,5
toca às formas de policiamento quanto essa hipótese de uma relativa acomo-
na lógica do confronto, ou ainda nas dação de parte dos agentes – a des-
oportunidades de “aproximação preda- peito das inseguranças e tensões – à
tória” (Rodrigues 2014: 81). Noutras nova realidade do programa (Gráfico
2014 10,9 31,1 19,6 27,7 10,8
palavras, o que se afigura para muitos 13). Note-se que, embora metade ou

TOTALMENTE IDENTIFICADOS PARCIALMENTE RESISTENTES


FICARIA LONGE DA COMUNIDADE 4,7

SERIA MAIS POLÍCIA/POLÍCIA DE VERDADE 3,3


BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
TERIA MAISNovembro
AUTONOMIA/
2015
LIBERDADE PARA AGIR
2,8 29
TERIA MAIS RESPALDO INSTITUCIONAL 2,4
NÃO GOSTA DE UPP /
NÃO ACREDITA NO PROJETO
2,4

APRENDERIA MAIS 2,2

mais dos entrevistados continue con- OUTROS MOTIVOS 3,3


GRÁFICO 13_CONCORDÂNCIA COM ALGUMAS FRASES
cordando em que as UPPs foram um
ESTILIZADAS SOBRE AS UPPs (% DE ENTREVISTADOS)
projeto eleitoreiro e seu único objetivo
era garantir a segurança dos grandes 42,6 2012
AS UPPS SÃO A POLÍCIA DO FUTURO
eventos, essas proporções caíram desde 39,4 2014
2012 e aumentou ligeiramente a dos
que acreditam que “as UPPs vieram 50,7
AS UPPS VIERAM PARA FICAR
para ficar”. Ao mesmo tempo, diminuiu 54,9
muito a crença otimista na recuperação
da confiança da população por meio AS UPPS AJUDARAM A RECUPERAR 81,3
A CONFIANÇA DA POPULAÇÃO
dessa iniciativa, assim como decresceu NA POLÍCIA 45,4

um pouco (dentro da margem de erro


AS UPPS FORAM CRIADAS SÓ PARA 62,7
da pesquisa) a aposta na ideia de que GARANTIR A SEGURANÇA DA COPA
DE 2014 E DAS OLIMPÍADAS DE 2016 50,0
essa seria a “polícia do futuro”.
Por fim, como já havia sido feito em
2012, buscou-se estabelecer uma escala 79,8
FOI UM PROJETO ELEITOREIRO
67,7
sintética de níveis de adesão dos poli-
ciais às UPPs combinando cinco dife-
rentes perguntas do questionário (ver
Quadro 1, abaixo). A comparação com os percentuais foram muito diferentes
os resultados de 2012 não é muito precisa (3,5% de respostas espontâneas em 2012
3,0
porque houve mudança no modo de e 45,4% de fechadas em 2014), pode
obtenção de uma das respostas: trata-se não ser negligenciável o impacto dessa
2012 17,6 15,6 51,3 12,5
da afirmação de que “as UPPs deveriam mudança metodológica na comparação
acabar”, antes surgida espontaneamente entre os dois momentos.
numa pergunta aberta e transformada Os policiais que responderam de
em 2014 numa das frases estilizadas modo favorável a todas as cinco per-
2014 foram
guntas 10,9 considerados
31,1 totalmente 19,6 27,7 10,8
para as quais se pedia a concordância ou
discordância dos entrevistados. Como identificados com o projeto e os que

TOTALMENTE IDENTIFICADOS PARCIALMENTE RESISTENTES

QUADRO 1_PERGUNTAS SELECIONADAS E TIPOS DE RESPOSTAS


PARCIALMENTE PARA IDENTIFICAÇÃO
IDENTIFICADOS TOTALMENTE RESISTENTES
DE GRAUS DE ADESÃO DOS POLICIAIS AO PROJETO – 2012/2014
NEUTROS/AMBÍGUOS

RESPOSTAS
PERGUNTAS
FAVORÁVEIS DESFAVORÁVEIS NEUTRAS

SENDO UM(A) POLICIAL DE UPP, COMO SE SENTE


SATISFEITO(A) INSATISFEITO(A) INDIFERENTE
NA MAIOR PARTE DO TEMPO?

“A UPP É A POLÍCIA DO FUTURO”. CONCORDA


CONCORDA DISCORDA NA
OU DISCORDA:?

ATUALMENTE, (...) SUA OPINIÃO SOBRE O PROJETO


POSITIVA NEGATIVA NEUTRA
É POSITIVA, NEGATIVA OU NEUTRA?

PREFERIRIA ESTAR TRABALHANDO EM OUTRO


NÃO SIM NA
TIPO DE POLICIAMENTO, FORA DA UPP?

“AS UPPs DEVERIAM ACABAR”. CONCORDA


DISCORDA CONCORDA NA
OU DISCORDA:?
BPM 21,6%
68,5% OUTRAS
ESPECIALIZADAS
11,2% • 19
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA
Novembro 2015 30

FICARIA MAIS PERTO DE CASA 24,4


deram pelo
GOSTA menos
MAIS / três respostasMAIS
IDENTIFICA-SE favo- “neutros/ambíguos”, que representava
24,2
ráveis, parcialmente identificados. Do
CONDIÇÕES DE TRABALHO MELHORES
mais da metade dos agentes em 2012 e
12,6
mesmo modo, cinco respostas desfavo-
TERIA MAIS ACEITAÇÃO /
reduziu-se a menos de 20% em 2014.
RECONHECIMENTO / RESPEITO
9,0
ráveis classificavam o(a) policial como Tais resultados, contudo, são difíceis
TERIA MAIS SEGURANÇA /
totalmente avesso(a) ou resistente às UPPs
TRANQUILIDADE
8,8
de interpretar, e não apenas por causa
e pelo menos
FICARIAtrês
LONGE desfavoráveis,
DA COMUNIDADE como da 4,7
alteração metodológica em uma das
parcialmente resistente ou avesso(a).
SERIA MAIS POLÍCIA/POLÍCIA DE VERDADE
Aos variáveis.
3,3 Se em 2012 ainda havia certo
demais entrevistados,
TERIA MAISqueAUTONOMIA/
responderam resquício de clareza sobre o que signi-
LIBERDADE PARA AGIR
2,8
menos de três favoráveis e menos de ficava “o projeto” das UPPs – um poli-
três TERIA foi atribuída a classi- 2,4
MAIS RESPALDO INSTITUCIONAL
desfavoráveis, ciamento inovador para as favelas,
NÃO GOSTA DE UPP /
ficação neutros ou ambíguos.
NÃO ACREDITA NO PROJETO
2,4
baseado essencialmente na proxi-
No Gráfico 14, abaixo, os resultados
APRENDERIA MAIS midade e no diálogo, não no confronto
2,2
estão dispostos num gradiente, que vai e na repressão – podia-se considerar,
OUTROS MOTIVOS 3,3
de um nível máximo de adesão a um com certa segurança, que os policias
mínimo, passando por duas posições aderidos ou avessos eram favoráveis ou
intermediárias de aderência e rejeição contrários, em grau maior ou menor,
parciais, 42,6 2012
AS UPPSeSÃO
porAuma faixa
POLÍCIA DOde indiferença
FUTURO àquela proposta, por mais que seus
39,4 2014
ou de baixa definição. Comparados aos motivos de adesão ou rejeição pudessem
de 2012, os resultados mais recentes ser muito diversos. Mas, com o rumo
50,7
mostram, AS primeiro,
UPPS VIERAMuma PARAredução
FICAR do que as UPPs parecem ter tomado nos
54,9
extremo positivo e um aumento do últimos anos, já não se pode traçar essa
negativo, o que equivale a dizer que
AS UPPS AJUDARAM A RECUPERAR
linha com tanta firmeza, pois já não
81,3
há menos policiais
A CONFIANÇA totalmente ade-
DA POPULAÇÃO se sabe 45,4
muito bem a que “projeto” os
NA POLÍCIA
ridos e mais totalmente resistentes. agentes estariam aderindo, resistindo
MasAStambém apontam para o aumento
UPPS FORAM CRIADAS SÓ PARA
ou simplesmente se acomodando. A
62,7
GARANTIR
dasDEparcelas A SEGURANÇA DA COPA
tanto de adesão quanto justificativa para a satisfação, dada por
2014 E DAS OLIMPÍADAS DE 2016 50,0
de rejeição parcial, acompanhado de um ou uma dos nossos entrevistados,
um drástico encolhimento da faixa de talvez
79,8ilustre bem o que se quis dizer
FOI UM PROJETO ELEITOREIRO
67,7

GRÁFICO 14_GRAUS DE IDENTIFICAÇÃO DOS POLICIAIS


COM O PROGRAMA (% DE ENTREVISTADOS)

3,0

2012 17,6 15,6 51,3 12,5

2014 10,9 31,1 19,6 27,7 10,8

TOTALMENTE IDENTIFICADOS PARCIALMENTE RESISTENTES

PARCIALMENTE IDENTIFICADOS TOTALMENTE RESISTENTES

NEUTROS/AMBÍGUOS
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 31

até aqui e obrigue a fechar a análise


desse último gráfico com um ponto de
interrogação, no lugar de alguma pos-
mais intervenções militarizadas e mais
suspeição em relação aos moradores
de favelas, possíveis aliados ou prote-

UMA LEITURA
DA CRISE POR
QUE PASSA
sível resposta: “[Estou satisfeito(a) em tores dos traficantes. Em suma, mais do
ATUALMENTE
trabalhar na UPP porque] não é dife- mesmo: mais do que sempre se pensou e
O PROGRAMA
rente de trabalhar em batalhão. E a gra- fez – sem nenhum sucesso – na política
tificação é melhor”. de segurança do Rio de Janeiro, ao invés CREDITA OS
da mudança de paradigma anunciada PROBLEMAS
em sua origem pelo programa de “pacifi- PRINCIPAL OU
CONSIDERAÇÕES FINAIS E ALÉM
cação” de favelas. INTEGRALMENTE
Os resultados gerados em 2014 pela Buscando diálogo com pesquisas etno- AO ‘RETORNO’
pesquisa UPP: O que pensam os policiais gráficas recentes, a análise dos resul- DO TRÁFICO
parecem confirmar motivos de pre- tados do survey de 2014 desenvolvida
DE DROGAS,
ocupação já detectados nos levanta- neste artigo aponta para uma relação bem
mais complexa entre os fatores interve-
SUPOSTAMENTE
mentos anteriores a respeito do futuro
do programa. Motivos esses acrescidos nientes na crise atual das UPPs, em que A MAIOR AMEAÇA
de outros problemas que se tornaram sobressaem tropeços do próprio pro- À POLÍTICA DE
mais intensos ou mais explícitos de lá grama, como a grande demora na alte- ‘PACIFICAÇÃO’”
para cá, como o aumento dos tiroteios, ração do currículo de formação dos poli-
mesmo em áreas onde a “pacificação” ciais de ponta, só realizada quase oito
parecia razoavelmente consolidada; anos após o início da “pacificação”; o
o recuo das práticas identificáveis ao baixo investimento, até agora, na siste-
policiamento de proximidade; o cres- matização doutrinária e na institucionali-
cimento do número de policiais com zação prática do chamado “policiamento
percepção da presença muito frequente de proximidade”; o fraco ou nenhum
do tráfico de drogas e do porte ilegal de desenvolvimento de mecanismos insti-
armas, e o aumento também expressivo tucionais de controle, monitoramento e
da sensação desses policiais de serem avaliação da atividade policial; o crescente
detestados e rejeitados pela maioria dos protagonismo atribuído aos GTPPs – gru-
moradores de favelas com UPP. pamentos que só têm proximidade no
Uma leitura da crise por que passa nome, pois via de regra atuam como mini-
atualmente o programa – encontrável -Bopes, circulando fortemente armados
no discurso de policiais de ponta, no pelas comunidades, revistando uma quan-
de alguns gestores e em matérias na tidade enorme de moradores, reprimindo
imprensa – credita os problemas prin- ações de protesto nas favelas, intimidando
cipal ou integralmente ao “retorno” a população e por vezes provocando con-
do tráfico de drogas, supostamente a frontos com traficantes armados. Longe
maior ameaça à política de “pacificação”. de servirem como ponta de lança de um
Leitura que, no limite, desemboca em novo paradigma de policiamento, as UPPs
reforço da visão bélica e repressiva à qual parecem, assim, ter preservado e mesmo
o projeto original das UPPs justamente reforçado nos últimos anos concepções
buscava se contrapor. Elevado a “causa” e práticas tradicionais de polícia, tor-
das dificuldades, o tráfico de drogas, nando-se cada vez mais semelhantes aos
“inimigo” de sempre, estaria a demandar batalhões, com suas rotinas costumeiras,
da polícia mais repressão, mais abor- incluindo as ilícitas e abusivas, e suas
dagens, mais confrontos, mais fuzis, tropas de elite vestidas para guerrear.
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 32

Certamente também contribuem


para o desgaste da legitimidade do pro-
grama elementos que fogem do campo
homicídios e dos autos de resistência no
estado ao processo de “pacificação” vem
sendo posta em xeque por indicações de

FICAM
INTERROGAÇÕES
DE FUNDO SOBRE
de análise deste trabalho, mas que não que, se houve esse impacto, ele se res-
A EFETIVA
se pode deixar de mencionar: a evapo- tringiu ao âmbito da capital.53 Ademais,
POSSIBILIDADE
ração da UPP Social, não substituída não só os homicídios comuns voltaram
por nenhum outro programa efetivo a subir como as mortes provocadas pela DE SE REALIZAR
de coordenação de ações urbanísticas polícia vêm aumentando fortemente no UMA MUDANÇA
e socioeconômicas para as favelas ocu- estado desde 2012. DE PARADIGMA
padas pela polícia; o forte desgaste Ao lado de todos esses fatores que têm NOS MODOS
do governo do estado no período das corroído a confiança no programa dentro DE AÇÃO DA
grandes manifestações de 2013, que e fora das UPPs, ficam também interro-
POLÍCIA SEM
fez murchar o entusiasmo inicial em gações de fundo sobre a efetiva possibi-
UMA REFORMA
relação às UPPs; a crescente exposição lidade de se realizar uma mudança de
de casos de violência e corrupção – paradigma nos modos de ação da polícia ESTRUTURAL
entre os quais tornaram-se emblemá- sem uma reforma estrutural das próprias DAS PRÓPRIAS
ticos o “desaparecimento” do auxiliar instituições policiais. Será possível imple- INSTITUIÇÕES
de pedreiro Amarildo Dias de Souza na mentar projetos bem sucedidos e dura- POLICIAIS”
UPP da Rocinha em julho de 2013 e, douros de policiamento de proximidade,
mais recentemente, a execução extraju- especialmente em favelas, sem essa
dicial, com forjamento de auto de resis- reforma profunda? Pode-se esperar que
tência, filmada por moradores do morro experiências-piloto, mesmo de grande
da Providência em setembro de 2015; escala como as UPPs, sobrevivam à força
o próprio recrudescimento dos tiro- destruidora do modelo bélico-repressivo
teios, que alimentam a insegurança no – ainda mais se ele permanece vigente
interior e no entorno das comunidades; nas outras áreas não contempladas por
as incertezas (seja de moradores ou dos essas experiências, continua hegemônico
próprios policiais) quanto à perma- nas ideias e práticas da maior parte da cor-
nência do programa após as Olimpíadas poração e conta com o apoio de parcela
de 2016, assim como a dúvida sobre os expressiva da sociedade? Será realista
reais propósitos das UPPs e sobre quais apostar no poder transformador a médio
seriam os seus reais beneficiários: se, e longo prazo de programas inovadores,
de fato, elas visam à melhoria de vida progressistas e bem intencionados, porém
da população das favelas ou se servem desprovidos de condições concretas de
sobretudo ao processo de “gentrifi- sustentabilidade?
cação”, valorização imobiliária e explo- Quando se leem balanços da expe-
ração turística que acompanha o projeto riência dos GPAEs no Rio de Janeiro,54
de transformar o Rio de Janeiro em experiência que precedeu e inspirou a
ambiente de grandes eventos, negócios das UPPs, é quase inevitável responder
e lucros. Sob questionamento está negativamente a todas as perguntas
também a propaganda governamental acima, pois se percebe que, não obs-
e midiática que apresentou as UPPs tante as diferenças nas concepções das
como uma política de segurança, com duas iniciativas e nos momentos histó-
supostos impactos positivos para toda ricos em que surgiram, exatamente os
a população fluminense. Por exemplo, mesmos problemas apontados no caso
a própria atribuição da queda dos dos GPAEs repetem-se – em escala
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 33

ampliada – no atual programa de “pacifi-


cação”. A saber: falta de monitoramento
e avaliação; baixa institucionalização;
proximidade funcionarem como pontas
de lança para mudanças internas na ins-
tituição, elas é que tendem a ser fago-

NA PRÁTICA,
VERIFICA-SE
QUE, EM VEZ DE
extrema dependência de lideranças citadas, mais cedo ou mais tarde, pela
AS EXPERIÊNCIAS
carismáticas individuais no comando das cultura corporativa tradicional.
DE POLÍCIA DE
unidades; fragilidade dos mecanismos de No caso das UPPs, como nos ante-
controle interno e externo da atividade riores, pesa ainda – e pelos mesmos PROXIMIDADE
policial; falhas na seleção e na formação motivos – a baixa adesão de grande FUNCIONAREM
dos policiais de ponta; baixa capacidade parte dos policiais a projetos que pre- COMO PONTAS
de diálogo com organizações e lideranças tendem afastar-se do ethos guerreiro e DE LANÇA PARA
comunitárias; concepção paternalista e da eterna reprodução dos modos con- MUDANÇAS
tutelar, quando não francamente auto- vencionais de fazer polícia. Com o sério
INTERNAS NA
ritária, da regulação policial nas favelas agravante (não verificado na experiência
INSTITUIÇÃO,
ocupadas; fracasso da tentativa de “inte- dos GPAEs nem em outras similares)
gração dos serviços públicos, através de as condições de trabalho em diversas ELAS É QUE
da participação articulada das agências UPPs serem simplesmente abomináveis, TENDEM A SER
do Estado, da Sociedade Civil, além da o que contribui sobremaneira para que FAGOCITADAS,
própria comunidade” para melhorar as parcela expressiva dos agentes de ponta MAIS CEDO OU
condições de vida dos moradores;55 con- não se sinta nem um pouco valorizada, MAIS TARDE,
sequentemente, excessiva extensão do apoiada e beneficiada pelo programa de PELA CULTURA
mandato da polícia, que pode se trans- “pacificação”. Não surpreende, assim,
CORPORATIVA
formar em “intendência geral” da favela, que muitos policiais ouvidos nos três
TRADICIONAL”
convertendo o policial de ponta em “faz- surveys do CESeC o encarem como um
-tudo”56 e os comandantes em “síndicos “programa eleitoreiro” e como foco de
das comunidades” ou novos “donos do exploração política e midiática, total-
morro”.57 Como ocorreu com os GPAEs, mente distanciada da realidade concreta
as UPPs também parecem estar sendo que eles enfrentam no dia a dia.59
incapazes de manter a confiança dos Mas, apesar dos muitos motivos
moradores para além de um começo de desânimo e descrença na possi-
auspicioso no qual a suspensão dos tiro- bilidade de recuperação da proposta
teios, das incursões policiais violentas, original das UPPs, as dimensões iné-
da circulação de traficantes armados e ditas desse programa, as grandes espe-
da impunidade para práticas abusivas ranças que mobilizou e os sinais de que
da polícia gera receptividade e apoio de a atual cúpula da PMERJ está empe-
grande parte da população. nhada em tentar corrigir os desvios de
A facilidade com que tais inicia- rota apontados fazem com que se possa
tivas se degradam ou são sumariamente ainda acreditar numa reversão do atual
interrompidas estende-se também a cenário de crise, tensão, desgaste e
experiências mais antigas, como a do enfraquecimento do policiamento de
policiamento comunitário em Copa- proximidade em favelas.60 Reversão
cabana nos anos 1990,58 e mostra quão necessária para que as UPPs não se
frágeis são os fundamentos para o tornem mais uma entre outras opor-
sucesso e a permanência desses proje- tunidades de mudança desperdiçadas
tos-piloto: na prática, verifica-se que, ao longo das últimas duas décadas na
em vez de as experiências de polícia de segurança pública do Rio de Janeiro.
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 34

NOTAS

1. Ao longo do texto, o termo “pacificação” será cos; o RAS (Regime Adicional de Serviços),
utilizado sempre entre aspas para assinalar regulamentado em abril de 2012, autoriza
que se trata de uma categoria do discurso ofi- todos os servidores de segurança pública
cial e midiático, sujeito a diversas leituras e crí- a desempenhar tarefas especiais de poli-
ticas. Como lembra Oliveira (2014), esse termo ciamento ostensivo durante os períodos
aponta para uma visão militar, tutelar e “civili- de folga (ver http://www.rj.gov.br/web/im-
zatória”, que se aplica sempre a um Outro per- prensa/exibeconteudo?article-id=850254.
cebido como social e moralmente inferior. Na- Último acesso: 16/09/2015).
turalizá-lo implica, portanto, ocultar todo um
7. A pergunta sobre passagem anterior por ou-
conjunto de significados culturais e políticos
tros setores excluía expressamente o estágio
que se transmite de experiências históricas à
realizado durante a formação e a prestação de
situação atual: segundo o autor, muitas analo-
serviços complementares via Regime Adicional
gias podem ser traçadas entre a “pacificação”
de Serviço (RAS). O percentual se refere, por-
de grupos indígenas no passado e a dos mo-
tanto, a policiais que haviam de fato pertencido
radores das favelas cariocas contemporâneas,
a outras unidades fora do programa UPP.
particularmente o pressuposto de uma ação
tutelar exercida sobre uma população vulne- 8. Os conteúdos avaliados não correspondem,
rável e desprovida de “civilização”. necessariamente, a disciplinas do Curso de
Formação de Soldados da PM. Trata-se de
2. Os resultados da pesquisa de 2010 en-
temas propostos no questionário do CESeC
contram-se em CESeC (2010) e Soares et
para que os entrevistados classificassem o
al. (2012); os do survey de 2012, em CESeC
ensino de cada tema como “adequado”, “ina-
(2012), Soares (2012) e Musumeci et al. (2013).
dequado” ou “inexistente”.
Algumas perguntas do questionário foram al-
teradas em 2014 e introduziram-se algumas 9. A maioria dos policiais entrevistados em 2014
novas, por isso nem sempre se podem compa- (57,2%) disse que seu curso de entrada na
rar os dados dos três levantamentos. PM, incluindo estágio, havia durado de 7 a
9 meses; 39,6% afirmaram que durara de 10
3. Em julho de 2014, quando teve início a pes-
a 14 meses e 3,2%, disseram tê-lo concluído
quisa, já havia, na verdade, 38 UPPs, mas
em menos de 6 meses. A malha curricular do
duas foram excluídas do levantamento por
Curso de Formação de Soldados da PMERJ
serem recentes demais: Manguerinha, em
vigente desde 2012 previa uma carga horária
Duque de Caxias, única fora do município do
total de 1.182 horas, incluindo estágio, o que
Rio, inaugurada em abril, e Vila Kennedy, na
equivalia a 7 meses ou mais de duração (cf.
Zona Oeste da cidade, criada em maio da-
Cortes e Mazzurana 2015: 14-15).
quele ano. O total de policiais também já era
maior, mas a nossa lista só incluiu os das 36 10. Por “polícia de proximidade”, segundo a defi-
UPPs e, entre estes, só os que estavam “pron- nição oficial, deve-se entender “um conceito
tos” (isto é, não afastados ou licenciados) na e uma estratégia fundamentada na parceria
data inicial do levantamento. entre a população e as instituições da área
de segurança pública. Os policiais da UPP
4. Esta é decerto a maior limitação da pesquisa,
não são policiais de confronto e ‘guerra’, e
pois obriga a tratar implicitamente as favelas
sim de mediação de conflitos e de relação
com UPP como se fossem um conjunto ho-
com as comunidades. A polícia de proximi-
mogêneo – o que, alerta Valladares (2005:
dade busca, ainda, instaurar novas formas de
151-2), pode ter fortes implicações negativas,
interação e parceria entre as instituições po-
ao unificar “situações com características
liciais e a sociedade, privilegiando o atendi-
muito diferentes nos planos geográfico, de-
mento preventivo. Os policiais são orientados
mográfico, urbanístico e social”, reduzindo
a estreitar laços com a comunidade em que
“favela” (no singular) pura e simplesmente ao
atuam, conhecendo os moradores e os pro-
“locus da pobreza” ou “território urbano dos
blemas que possam gerar crimes e conflitos.
pobres”. Ou, ainda, ao território da violência
São pressupostos básicos do policiamento
e da ilegalidade, a que se aplicariam políticas
comunitário: ação pró-ativa; ação preventiva;
de segurança homogêneas, com resultados
integração dos sistema de defesa pública e
supostamente uniformes (Leite 2014; Macha-
defesa social; transparência; cidadania e ação
do da Silva 2015).
educativa” (Página “FAQ” do site UPPRJ:
5. Uma análise do contingente feminino das h t t p : //w w w. u p p r j .c o m / i n d ex . p h p /fa q .
UPPs com base no survey de 2014 e uma re- Último acesso: 16/09/2015).
flexão mais ampla, a partir de pesquisa quali-
11. Feita pelos Grupamentos de Policiamento de
tativa, sobre concepções e papeis de gênero
Proximidade (GPPs) formados por 2 a 4 po-
entre policiais dessas unidades encontram-se,
liciais, que desempenham atividades de polí-
respectivamente, em Mourão (2015b) e Mou-
cia ostensiva e se deslocam a pé (Albernaz e
rão (2013).
Mazzurana 2015: 69, 71). O GPP é considerado
6. O Proeis (Programa Estadual de Integração estratégico para os objetivos da “pacifica-
na Segurança), criado em 2011, permite aos ção” porque, ao menos em tese, “descentra-
policiais militares prestarem serviços, me- liza e personaliza a prestação de serviços de
diante convênio, a órgãos estaduais, muni- policiamento, permitindo maior aproximação
cipais e concessionárias de serviços públi- entre comunidade e policiais militares” (idem:
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 35

75). Em algumas localidades, porém, o que é evolução dos indicadores de “produção policial”
chamado GPP é o policiamento em ponto fixo no Estado do Rio entre 1991 e 2014, ver CESeC/
(Soares 2015: 194). Estatísticas/Evolução e Distribuição/Indicadores
de segurança pública no Rio de Janeiro [http://
12. O termo “bonde” também pode ser usado www.ucamcesec.com.br/estatisticas/].
para designar “um grupo de policiais que tra-
balha[m] juntos, fazendo o mesmo plantão, 18. Cf. Cano, Borges e Ribeiro (2014). Sobre os
cobrindo o mesmo turno”, não necessariamen- policiais mediadores das UPPs, ver Mourão
te integrantes de GTPP (Menezes 2014: 673). (2014, 2015a). Sobre o “policial social” de
Trata-se, em geral, dos grupos mais agressivos, UPP, com suas ambiguidades e ambivalên-
liderados por agentes que os moradores (e os cias, ver Teixeira (2015).
próprios policiais) identificam como “truculen- 19. Além das diferenças exibidas nas Tabelas 1 e 2,
tos” (Soares 2015: 212, 287). a pesquisa de 2014 registrou que 68,8% dos po-
13. É possível que haja significativas variações liciais que trabalhavam a maior parte do tempo
na atuação desses policiais em diferentes fa- em GTPP faziam em média 10 ou mais aborda-
velas, mas, pelo menos em algumas, o nome gens por turno de serviço, enquanto, no resto
mais adequado para o destacamento talvez da tropa, esse percentual era de 25%. Todos
fosse “Polícia de Pouca Proximidade”, como os cruzamentos de dados da pesquisa usados
sugere o pesquisador Vinicius Esperança neste trabalho são estatisticamente significan-
(2014: 137), que acompanhou diretamente tes, mas têm coeficientes de correlação baixos
várias operações do GTPP em Nova Brasília. (variando de pouco mais de 0,1 a menos de 0,6),
logo devem ser tomados apenas como indica-
14.
Instituto de Segurança Pública do Es- ções, não como evidência estatística.
tado do Rio de Janeiro (ISP-RJ) – Indi-
cadores por AISPs e por UPPs [http:// 20. É importante, contudo, diferenciar os entre-
www.isp.rj.gov.br/mapasite.asp?flag=003. vistados que afirmam realizar frequentemen-
Último acesso: 05/09/2015]. As séries para as te mediação de conflitos (sem que se saiba
UPPs iniciam-se em 2007, último ano antes da bem o que entendem por isso) do grupo de
implantação do programa, que serve de “marco policiais-mediadores especialmente treina-
zero” para a análise da evolução das ocorrên- dos para conduzir mediações nas UPPs, por
cias nos territórios que foram sendo progressi- meio de parceria entre a PM, o Tribunal de
vamente ocupados. Justiça e o Ministério Público estaduais. O
número total desses policiais-mediadores
15. A “produção policial” divulgada pelo ISP, seja não passava de 40 em 2014 e nenhum dos
para as UPPs ou para o resto do estado, não 16 identificados na amostra do survey disse
inclui, porém, a condução à delegacia de indi- trabalhar em GTPP (cf. Mourão 2015a).
víduos detidos em abordagens policiais sem
flagrante ou mandado judicial, simplesmente 21. Para Muniz e Mello (2015: 54), “as diversas
para realização do “sarque” (checagem de an- finalidades atribuídas à polícia de proximi-
tecedentes penais). Essa prática é ilegal, mas dade levam a uma concepção de mandato
bastante comum na UPP de Nova Brasília – policial tão estendido que combina táticas
onde o pesquisador Vinicius Esperança (2014: policiais convencionais de repressão e dissu-
144) contou mais de 200 TROs (Termos de Re- asão com outras modalidades alternativas de
gistro de Ocorrência) de “sarques” no interva-
intervenção como a mediação e resolução de
lo de um ano – e provavelmente também em
conflitos; o aconselhamento, orientação, au-
outras favelas “pacificadas”.
xílio e assistência comunitárias; a mobilização
16. Isso fica claro quando se examina a evolução e conscientização civil; a promoção de uma
dos registros de “produção policial” desagre- cultura civilista etc.”
gados por UPP. No caso das apreensões de
armas, é possível perceber um padrão que 22. O mesmo policiamento está sendo atualmen-
corresponde às etapas planejadas de “paci- te expandido para projetos-piloto em bairros
ficação” dos territórios: em muitos deles, há de classe média da cidade do Rio de Janeiro,
um pico de armas apreendidas logo antes da com o nome de CIPPs (Companhias Integra-
inauguração da UPP e em seguida um declí- das de Polícia de Proximidade), popularmen-
nio da curva, com eventual aumento no últi- te batizadas de “UPPs do asfalto”. A primeira
mo ano da série. As apreensões de drogas, ao unidade desse tipo foi inaugurada em feverei-
contrário, não seguem um padrão perceptível: ro de 2015, abrangendo partes dos bairros da
em algumas áreas, como Pavão-Pavãozinho, Tijuca e do Grajaú (cf. http://www.pmerj.rj.gov.
Providência, Turano, Macacos, Mangueira e
br/1a-companhia-integrada-de-policia-de-
Nova Brasília, elas crescem significativamente
-proximidade-cipp-completa-seis-meses/.
após a instalação da UPP; em outras, como Ci-
Último acesso: 16/09/2015). Ao contrário do
dade de Deus e Rocinha, elas diminuem, e em
várias outras mostram uma mesma tendência, que ocorreu nas UPPs, o projeto CIPP foi mo-
ou uma oscilação aleatória, antes e depois nitorado desde o início, por meio de um con-
da UPP. Tais diferenças precisariam ser mais vênio entre a PMERJ e o CESeC; os resulta-
bem estudadas, mas uma hipótese é de que dos da avaliação deverão ser divulgados até
reflitam distintas e mutáveis orientações dos o final de 2015.
comandos locais.
23. Um projeto que, lamentavelmente, parece es-
17. Por outro lado, em 2014, diversas áreas “pa- tar sendo desmobilizado, com a atribuição de
cificadas” tiveram uma brusca e inexplicável outras funções a esses policiais.
queda dos registros tanto de apreensão de dro-
gas quanto de prisões em flagrante, o que não 24. Veja-se a seção “Acontece” do site oficial UPPRJ
ocorreu no resto do estado, onde ambos os ti- (http://www.upprj.com/index.php/acontece.
pos de ocorrências continuaram em alta. Para a Último acesso: 21/09/2015).
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 36

25. Do conjunto dos policiais entrevistados pelo 34. Planilha “Ranking das UPPs por quan-
CESeC em 2014, 13,3% afirmaram realizar tra- tidade de confrontos”, fornecida ao
balho administrativo a maior parte do tem- CESeC pela Coordenação de Polícia
po (ver Gráfico 4, acima). Entre as policiais Pacificadora da PMERJ. Embora não haja um
femininas, essa percentagem foi de 47% (cf. esclarecimento explícito, a categoria “confron-
Mourão 2015b). to” utilizada pela PM parece supor sempre tro-
ca de tiros de arma de fogo com criminosos.
26. As pesquisas quantitativas que ouviram mo-
35. Barreira do Vasco/Tuiuti, Batan, Borel, Cer-
radores das favelas ocupadas não abrangem
ro-Corá, Chapéu Mangueira/Babilônia, For-
todas as UPPs. A mais recente, realizada em
miga, Jacarezinho, Prazeres/Escondidinho e
2014, focaliza apenas dez unidades, em cada Vidigal.
uma das quais foram entrevistados cem mora-
dores. Observa que, de modo geral, há adesão 36. Adeus/Baiana, Andaraí, Arará Mandela, Cha-
ao programa, avaliação positiva do impacto tuba, Coroa/Fallet/Fogueteiro, Fazendinha,
da UPP – especialmente na redução dos tiro- Macacos, Manguinhos, Pavão-Pavãozinho/
teios – e desejo de que ela continue após as Cantagalo, Providência, Salgueiro e Tabajaras.
Olimpíadas. Mas mostra também que as opini- 37. Alemão, Caju, Camarista Méier, Cidade de
ões variam muito entre os diferentes segmen- Deus, Lins, Mangueira, Nova Brasília, Parque
tos etários e que quase 60% da população não Proletário, Rocinha, São Carlos, São João, Tu-
confiam nos policiais; registra, além disso, ex- rano e Vila Cruzeiro.
periências de desrespeito, seletividade e vio-
lência nas abordagens policiais, tendo como 38. Não há dados sobre confrontos no período
alvo especialmente os moradores jovens e ne- correspondente ao da pesquisa.
gros (VILAROUCA e RIBEIRO 2014). 39. Não se trata de ocorrências registradas, ape-
nas da avaliação dos policiais sobre frequên-
27. As opções fechadas eram medo, descon-
cia de casos nas áreas de UPP onde traba-
fiança, simpatia, raiva, respeito, admiração e
lham.
indiferença. Não só podia-se escolher mais
de uma dessas alternativas como, no campo 40. Já o cruzamento entre sensação de segurança
aberto, vários policiais responderam mais de e tipo de trabalho realizado na maior parte do
um sentimento. Por isso, os percentuais dos tempo não apresentou resultado notável: os
Gráficos 7 e 8 se referem ao total de respos- policiais de GTPP disseram sentir-se seguros
tas, não ao de entrevistados. ou muito seguros numa proporção (29,9%)
apenas um pouco maior que a dos ocupados
28. Ambas as perguntas eram abertas e espontâ- em outros tipos de serviços (24,7%).
neas, e vários entrevistados forneceram mais
de uma resposta. Os percentuais referem-se, 41. Outras experiências listadas no questionário
assim, ao total de respostas, não ao de entre- – ter feito uso de arma letal ou não-letal e ter
vistados. apreendido drogas, armas ou adolescentes
infratores – apresentaram coeficientes de
29. Em grupos focais com cabos e soldados de correlação menores que 0,1 no cruzamento
UPP, conduzidos pelo CESeC na primeira ro- com a divisão das UPPs por quantidade de
dada da pesquisa, em 2010, também houve re- confrontos.
latos de hostilidades por parte de moradores,
42. Ver, a esse respeito, entre outros, Valladares
sobretudo jovens, que atiravam pedras e sacos
(2005); Ramos e Musumeci (2005); Cano,
de urina ou fezes contra os policiais, e xingavam
Borges e Ribeiro (2014: 176-8); Cecchetto et
ou cuspiam no chão quando passavam por eles.
al. (2013: 11-13); Soares (2015: 135).
30. Na pesquisa do CESeC, a pergunta sobre ex- 43. ISP-RJ (http://www.isp.rj.gov.br/Conteudo.
periências de ter sido hostilizados só foi feita asp?ident=61). Ainda não há dados de 2015
aos policiais em 2014, por isso não há possi- para as áreas com UPP.
bilidade de comparação com os surveys dos
anos anteriores. 44. Soares (2015: 164) relata casos de morado-
ras expulsas da comunidade por traficantes
31. Vale insistir que os baixos coeficientes de porque mantinham relações amorosas com
correlação dos cruzamentos fazem com que agentes da UPP, de comerciantes proibidos
os resultados devam ser tomados como indi- de vender aos policiais e de pessoas que fo-
cações, não como evidências. ram punidas, ou tiveram a porta de casa mar-
cada, por conversarem muito com a polícia
32. Entrevista do coronel Antonio Carballo, as- – fatos que provavelmente se repetem em
sessor de Assuntos Estratégicos do Estado outras favelas “pacificadas”.
Maior da PM. G1, 11/07/2015 [http://g1.glo-
bo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/07/ 45. Ver, a esse respeito, Cano, Borges e Ribeiro
policia-admite-erros-nas-upps-e-espe- (2014: 149-52); Musumeci et al. (2013: 8-10; 14).
cialistas-avaliam-mortes-de-pms.html.
46. Zaluar (2015: s/p) sugere que esse fortaleci-
Último acesso: 25/09/2015]
mento tem relação com as grandes manifes-
33. Segundo levantamento do G1, foram 4 mor- tações de 2013, quando muitos jovens poli-
tes de policiais de UPP em 2012, 3 em 2013, ciais de UPP foram deslocados para prestar
8 em 2014 e 7 só de 1º de janeiro a 8 de julho auxílio ao BPChoque ou aos batalhões con-
de 2015 (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/ vencionais, e assimilaram na prática “as téc-
noticia/2015/07/um-policial-morre-cada- nicas da repressão e o abuso no uso da força
-40-dias-em-upps-do-rio-desde-2014.html. que caracterizavam a PM em situação de en-
Último acesso: 21/09/2015). frentamento”, tendo oportunidade de colocar
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 37

em ato a “lógica da ação que impera na cul- 50. Os motivos de satisfação e insatisfação foram
tura organizacional”. A autora também asso- categorizados e agregados a partir de múl-
cia a esse período o reempoderamento dos tiplas respostas à pergunta aberta e espon-
traficantes nas UPPs: “com menos policiais tânea. O grupo “condições de trabalho”, por
presentes, os traficantes voltaram a exibir ar- exemplo, inclui elementos como escala, grati-
mas e se comportar provocativamente, sem se ficação, condições da sede, auxílio-transporte
esconder nos becos como faziam nos últimos etc. Como alguns policiais responderam mais
anos. Confrontos entre policiais e traficantes de um motivo, as percentagens se referem ao
voltaram a ocorrer e a caça aos ‘bandidos’ total de respostas, não ao de entrevistados.
hoje periga vir a ser novamente o modus ope-
randi de policiais militares mesmo nas UPPs”. 51. Na época do survey anterior, em 2012, a
gratificação dos policiais de UPP, paga pela
47. Soares (2015: 172) relata, inclusive, que, numa
prefeitura, costumava atrasar muito e a pon-
das favelas que pesquisou, reações de revolta
tualidade do pagamento foi o item com pior
de moradores, com xingamentos e arremesso
avaliação depois do salário: só 6,3% qualifi-
de sacos de urina, fezes e ratos, não tiveram
caram-no como “bom” e só 6% consideraram
como alvo apenas policiais da UPP, mas tam-
“bom” o salário que recebiam. Em 2014, pare-
bém funcionários do PAC, em resposta a re-
ce não haver mais atrasos; além disso, como
moções feitas de modo autoritário e a atrasos
já mencionado, o acréscimo de serviço extra
nas obras de reassentamento dos moradores
no RAIS e no Proeis elevou a média salarial
já removidos.
e aumentou significativamente a parcela de
48. Em análise feita de uma perspectiva distinta, policiais que consideram o salário “bom” (de
Eduardo Rodrigues (2014a e 2014b) destaca 6 para 21,5%), embora ao preço de uma carga
os rearranjos na “geopolítica da droga” de- de trabalho maior.
sencadeados pela instalação das UPPs, afe-
tando as relações de poder entre traficantes, 52. A proporção de policiais desejosos de traba-
policiais e milicianos na cidade do Rio de lhar em BPM, contudo, foi mais alta em 2014
Janeiro. Para o autor, os recentes ataques a que na rodada anterior (68,5 contra 59,4% ).
UPPs, o aumento dos crimes contra o patri- Cf. Musumeci et al. (2013: 8).
mônio e o re-fortalecimento das milícias nos
últimos anos (inclusive em favelas com UPP) 53. Ver a já mencionada série de dados do ISP
seriam algumas das consequências interrrela- para as áreas com UPPs, a cidade e o estado
cionadas do processo de “pacificação”, cujo do Rio de Janeiro. Cf. também MIsse (2014).
objetivo maior teria sido e continuaria sendo
o de extinguir ou desterritorializar, não o trá- 54. Cf., por exemplo, Albernaz, Caruso e Patrício
fico de drogas ou os grupos armados em ge- (2007); Cardoso (2010, 2014). A sigla GPAE é
ral, mas especificamente a facção criminosa de Grupamentos de Policiamento em Áreas
intitulada Comando Vermelho. Especiais.

49. A tentativa de “explicar” a crise por ataques


55. Diretriz de Planejamento 23/00, que instituiu
do tráfico contra a “pacificação” aparece em
o primeiro GPAE, nas favelas do Cantagalo
diversos editoriais e matérias recentes da
e Pavão-Pavãozinho. Boletim PM, n. 37, 9 de
grande imprensa – por exemplo, no título de
agosto de 2000, apud Albernaz, Caruso e Pa-
uma reportagem do Globo, de 30/03/2014:
trício (2007, p. 40). A mesma intenção inte-
“Menos de 24 horas após ação na Maré, trá-
gradora, com o mesmo insucesso, repetiu-se
fico desafia pacificação”. O curioso, porém, é
anos depois na criação do programa UPP So-
que o lead e a abertura dessa reportagem re-
cial (cf. Henriques e Ramos 2011; Foley 2014;
ferem-se ao caso de cinco policiais militares
Soares 2015).
“presos acusados de fazerem jogo duplo: tra-
balhavam na Unidade de Polícia Pacificadora
(UPP) da Rocinha, mas receberiam ordens, 56. Albernaz, Caruso e Patrício (2007, pp. 42-43).
em troca de propina, dos traficantes. Além de
passar informações sobre operações policiais, 57. Cano, Borges e Ribeiro (2014, pp. 173, 198).
eles fariam vista grossa à venda de drogas,
não reprimindo o tráfico de armas e munições 58. Cf. Musumeci, coord. (1996).
da quadrilha do traficante Antônio Francisco
Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, que cum- 59. Nas duas primeiras rodadas do survey, em 2010
pre pena no presídio federal de Campo Gran- e 2012, 49,3% e 53,7% dos policiais, respectiva-
de. Horas antes, no fim da noite de domingo, mente, disseram que a mídia retratava as UPPs
dois policiais da UPP da Rua Canitar, no Com- melhor do que elas eram na realidade. A per-
plexo do Alemão, foram baleados em uma gunta foi suprimida do questionário de 2014.
troca de tiros com traficantes”. Fica evidente
aí a oscilação entre um endosso à lógica bé- 60. Desde o início de 2015 e até o momento da
lica, ou à dicotomia simplória polícia X trafi- conclusão deste artigo, ocupavam cargos de
cantes, e o reconhecimento de imbricações algo comando na PMERJ alguns oficiais afi-
muito mais complexas entre esses supostos nados com a concepção de polícia cidadã,
“inimigos de guerra”. [http://oglobo.globo. comunitária e respeitadora dos direitos hu-
com/rio/menos-de-24-horas-apos-acao-na- manos. Entre eles, os idealizadores e imple-
-mare-trafico-desafia-pacificacao-12050817. mentadores do primeiro GPAE e das primeras
Último acesso: 25/09/2015]. UPPs.
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 38

BIBLIOGRAFIA

ALBERNAZ, Elizabete R.; CARUSO, Haydée; CESeC (CENTRO DE ESTUDOS DE SEGU-


PATRÍCIO, Luciane. Tensões e desafios de RANÇA E CIDADANIA). Resultados da
um policiamento comunitário em favelas segunda etapa do levantamento estatístico
do Rio de Janeiro: o caso do Grupamento sobre o que pensam os policiais das UPPs (apre-
de Policiamento em Áreas Especiais. São sentação de slides). Rio de Janeiro, 2012.
Paulo em Perspectiva, v. 21, n. 2, pp. 39-52, [http://www.ucamcesec.com.br/wordpress/
jul/dez 2007. [http://produtos.seade.gov. wp-content/files_mf/ppt_upp19dejulho.ppt.
br/produtos/spp/v21n02/v21n02_04.pdf. Último acesso: 15/08/2015]
Último acesso: 20/09/2015]
CECCHETTO, Fatima et al. Os jovens das
ALBERNAZ, Elizabete R.; MAZZURANA, Leo- favelas e a pacificação dos territórios no
nardo. Unidad de Policía Pacificadora –UPP: del Rio de Janeiro: estilos e estratégias de
origen del programa a la política de pacificación. convivência com a violência criminal
Rio de Janeiro: ISER, 2015. [http://www. e policial. Acta Científica – XXIX Con-
amuprev.org/documentos/2015851588.pdf. greso de la Asociación Latinoamericana de
Último acesso: 14/09/2015] Sociología. Santiago, Chile, 2013. [http://
actacientifica.servicioit.cl/biblioteca/
CANO, Ignacio; BORGES, Doriam; RIBEIRO, gt/GT24/GT24_Cecchetto_Correa.pdf.
Eduardo (orgs.). “Os donos do morro”: Uma Último acesso: 20/09/2015]
avaliação exploratória do impacto das Unidades
de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro. CORTES, Vanessa de Amorim; MAZZURANA,
Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Boll, 2014. Leonardo. Atualização curricular do CFSd:
[http://br.boell.org/sites/ default/files/os_ contribuições para a gestão educacional
donos_do_morro_-_miolo_web_baixa.pdf. na área da segurança pública. Cadernos
Último acesso: 30/08/2015] de Segurança Pública, ano 7, n. 6, julho
de 2015, pp. 1-15. [http://www.isp.rj.gov.
CARDOSO, Marcus. Como morre um projeto br/revista/download/Rev20150701.pdf.
de policiamento comunitário. O caso Último acesso: 08/09/2015]
do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho.
Tese de Doutorado. Brasília: Departa- ESPERANÇA, Vinicius. “Brincando de gato e
mento de Antropologia da UnB, maio rato” no Complexo do Alemão: UPPS, esticas
de 2010. [http://repositorio.unb.br/bits- e acordo de cavalheiros na Nova Brasília e
tream/10482/7918/ 1/2010_MarcusAn- no Alemão. Confluências - Revista Interdisci-
dr%C3%A9DeSouzaCardosoDaSilva.pdf. plinar de Sociologia e Direito, v. 16, n. 3, 2014,
Último acesso: 20/09/2015] pp. 125-150. [http://www.confluencias.uff.br/
index.php/confluencias/article/view/368/307.
CARDOSO, Marcus. O policiamento comunitário Último acesso: 13/09/2015]
na perspectiva dos moradores de favelas: apon-
tamentos etnográficos. Trabalho apresentado FOLEY, Conor. Pelo telefone: Rumors, truths
no VIII Encontro da Andhep – Políticas and myths in the ‘pacification’ of the favelas
Públicas para a Segurança Pública e Direitos of Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Human-
Humanos, GT 12. São Paulo: Faculdade itarian Action in Situations Other than
de Direito da USP, 28 a 30 de abril de War, March 2014 (HASOW Discussion
2014. [http://www.encontro2014.andhep. Paper, 11). [http://www.hasow.org/uploads/
org.br/resources/anais/1/1394923945_ trabalhos/117/doc/1760478317.pdf.
A RQ U I V O _ M AR C U SC AR D OSO . pdf. Último acesso: 31/08/2015]
Último acesso: 20/09/2015]
HENRIQUES, Ricardo; RAMOS, Silvia. UPP
CESeC (CENTRO DE ESTUDOS DE SEGU- social: ações sociais para a consolidação
RANÇA E CIDADANIA). Resultados da pri- da pacificação. In: URANI, André e GIAM-
meira etapa do levantamento estatístico sobre BIAGI, Fabio (orgs.). Rio: a hora da virada.
o que pensam os policiais das UPPs (apre- Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2011,
sentação de slides). Rio de Janeiro, 2010. pp. 242-254. [Disponível também em
[http://www.ucamcesec.com.br/wor- http://www.ie.ufrj.br/datacenterie/pdfs/
dpress/wp-content/files_mf/upps_final.ppt. seminarios/pesquisa/texto3008.pdf.
Último acesso: 15/08/2015] Último acesso: 30/08/2015]
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 39

LEITE, Márcia Pereira. Da “metáfora da guerra” MOURÃO, Barbara Musumeci. A face feminina
ao projeto de “pacificação”: favelas e polí- das UPPs. Boletim Segurança e Cidadania. Rio
ticas de segurança pública no Rio de Janeiro. de Janeiro: CESeC, n. 18, 2015b (a sair).
Revista Brasileira de Segurança Pública,
v. 6, n. 2, ago/set 2012, pp. 374-389. MUNIZ, Jacqueline; MELLO, Katia Sento Sé. Nem
[http://revista.forumseguranca.org.br/ tão perto, nem tão longe. O dilema da cons-
index.php/rbsp/article/view/126/123. trução da autoridade policial nas UPPs.
Último acesso: 20/09/2015] Civitas, v. 15, n. 1, jan-mar 2015, pp. 44-65.
[http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.
LEITE, Márcia Pereira. Entre a “guerra” e a “paz”: php/civitas/article/viewFile/19939/12832.
Unidades de Polícia Pacificadora e gestão Último acesso: 24/08/2015].
dos territórios de favela no Rio de Janeiro.
MUSUMECI, Leonarda (coord.). Segurança pública e
Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Con-
cidadania: A experiência de policiamento comuni-
trole Social, v. 7, n. 4, out/nov/dez 2014, pp.
tário em Copacabana (1994-95). Relatório final
625-642. [http://revistadil.dominio tem-
do monitoramento qualitativo. Rio de Janeiro:
porario.com/doc/DILEMAS-7-4_Art2.pdf.
ISER, 1996. [http://www.ucamcesec.com.
Último acesso: 15/08/2015]
br/wordpress/wp-content/uploads/2011/05/
PolicComunitCopacabana_texto+anexos.pdf.
MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. A experi-
Último acesso: 17/08/2015].
ência das UPPs: Uma tomada de posição.
Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Con-
MUSUMECI, Leonarda; MOURÃO, Barbara
trole Social, v. 8, n. 1, jan/fev/mar 2015,
Musumeci; LEMGRUBER, Julita; RAMOS,
pp. 7- 24. [http://revistadil.dominiotem-
Silvia. Ser policial de UPP: Aproximações e
porario.com/doc/DILEMAS-8-1-Art1.pdf.
resistências. Boletim Segurança e Cidadania. Rio
Último acesso: 15/08/2015]
de Janeiro: CESeC, ano 12, n. 14, dezembro de
2013. [http://www.ucamcesec.com.br/wor-
MENEZES, Palloma Valle. Os rumores da ‘paci-
dpress/wp-content/files_mf/boletim14.pdf.
ficação’: A chegada da UPP e as mudanças
Último acesso: 15/08/2015]
nos problemas públicos no Santa Marta
e na Cidade de Deus. Dilemas: Revista de OLIVEIRA, João Pacheco de. Pacificação
Estudos de Conflito e Controle Social, v. e tutela militar na gestão de popu-
7, n. 4, out/nov/dez 2014, pp. 665-684. lações e territórios. Mana, v. 20, n. 1,
[http://revistadil.dominiotemporario. 2014, pp. 125-161. [http://www.scielo.
com/doc/DILEMAS-7-4_Art4.pdf. br/pdf/mana/v20n1/a05v20n1.pdf.
Último acesso: 15/08/2015] Último acesso: 23/08/2015]
RAMOS, Silvia; MUSUMECI, Leonarda. Elemento
MISSE, Daniel Ganem. Cinco anos de UPP:
Um breve balanço. Dilemas: Revista de suspeito: Abordagem policial e discriminação
Estudos de Conflito e Controle Social, v. na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
7, n. 3, jul/ago/set 2014, pp. 675-700. Civilização Brasileira e CESeC, 2005.
[http://revistadil.dominiotemporario. RODRIGUES, Eduardo. Rio-verão-2014: quando
com/doc/DILEMAS-7-3-Art3.pdf. extinguir o Comando Vermelho passa a ser
Último acesso: 15/08/2015] a novíssima solução para a questão da vio-
lência urbana carioca (1ª parte). Capitalismo
MOURÃO, Barbara Musumeci. UPPs: Uma em desencanto, 10/04/2014 (2014a). [https://
polícia de que gênero? Rio de Janeiro: capitalismoemdesencanto.wordpress.
CESeC, 2013. [http://www.ucamcesec. com/2014/04/10/rio-verao-2014-quando-
com.br/wordpress/wp-content/uplo- -extinguir-o-comando-vermelho-passa-a-
ads/2013/12/3-UUPs-Barbara-web.pdf. -ser-a-novissima-solucao-para-a-questao-
Último acesso: 24/08/2015]. -da-violencia-urbana-carioca-1a-parte/.
Último acesso: 20/09/2015]
MOURÃO, Barbara Musumeci. Mediação
de conflitos nas UPPs: Sistematização RODRIGUES, Eduardo. Rio-verão-2014: quando
de uma escuta. Rio de Janeiro, CESeC, extinguir o Comando Vermelho passa a ser
setembro de 2014. [http://www.ucam- a novíssima solução para a questão da vio-
cesec.com.br/wordpress/wp-content/ lência urbana carioca (2ª parte). Capitalismo
uploads/2014/09/UPP-MEDIACAO-final.pdf. em desencanto, 28/04/2014 (2014b). [https://
Último acesso: 24/08/2015]. capitalismoemdesencanto.wordpress.
com/2014/04/28/rio-verao-2014-quando-
MOURÃO, Barbara Musumeci. Promessas e -extinguir-o-comando-vermelho-passa-a-
dilemas da mediação policial nas UPPs. -ser-a-novissima-solucao-para-a-questao-
Boletim Segurança e Cidadania. Rio de -da-violencia-urbana-carioca-2a-parte/.
Janeiro, CESeC, n. 15, 2015a (a sair). Último acesso: 20/09/2015]
BOLETIM SEGURANÇA E CIDADANIA • 19
Novembro 2015 40

RODRIGUES, Robson. Os dilemas da pacifi- Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Con-


cação: Notícias de guerra e paz em uma trole Social, v. 8, n. 1, jan/fev/mar 2015,
“Cidade Maravilhosa”. Rio de Janeiro: Ins- pp. 77-96. [http://revistadil.dominiotem-
tituto Igarapé, agosto de 2014 (Artigo Estra- porario.com/doc/DILEMAS-8-1-Art5.pdf.
tégico, 8). [http://igarape.org.br/wp-content/ Último acesso: 08/09/2015]
uploads/2014/07/artigo-8-p5.pdf.
Último acesso: 04/09/2015]. VALLADARES, Licia do Prado. A invenção da
favela: do mito de origem a favela.com. Rio de
SOARES, Barbara. Unidades de Polícia Paci- Janeiro: Ed. FGV, 2005.
ficadora: O que pensam os policiais,
ano II. Rio de Janeiro: CESeC, 2012. VILAROUCA, Márcio Grijó; RIBEIRO, Ludmila.
[http://www.ucamcesec.com.br/wor- Descortinando as práticas de pacificação:
dpress/wp-content/uploads/2011/09/ Resultados de um survey com residentes em dez
Relatorio2012comAnexos.pdf. UPPs. Trabalho apresentado no seminário
Último acesso: 04/09/2015]. internacional “Pacificação: o que é e a quem
se destina? Reflexões sobre a elaboração de
SOARES, Barbara; LEMGRUBER, Julita;
políticas e ações de pacificação ao longo da
MUSUMECI, Leonarda; RAMOS, Silvia. O
história do Brasil”. Rio de Janeiro: CPDOC/
que pensam os policiais das UPPs. Ciência
FGV, UFRRJ e Université Paris Est Marne la
Hoje, n. 294, julho de 2012. [http://www.
Valée, 3 e 4 de novembro de 2014.
ucamcesec.com.br/wordpress/wp-content/
uploads/2011/09/policiaisdasUPPs294.pdf. VIVA RIO. Relatório de experiências de enfrenta-
Último acesso: 15/08/2015] mento da violência em perspectiva comparada:
SOARES, Vanessa Brulon. (Des)organizando o Os casos de Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e
espaço social de favelas: O campo burocrático Cidade do Panamá. Rio de Janeiro, setembro
do Estado em ação no contexto da “pacifi- de 2014. [http://vivario.org.br/wp-content/
cação”. Tese de doutorado em Administração. uploads/2014/12/Relat%C3%B3rio_CAF_1.
Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Admi- pdf.
nistração Pública e de Empresas/FGV-RJ, Último acesso: 28/10/2015]
junho de 2015. [https://bibliotecadigital.fgv.
ZALUAR, Alba. Dilemas, desafios e problemas
br/dspace/bitstream/handle/10438/13848/
da UPP no Rio de Janeiro. Trabalho apre-
Tese%20-%20Vanessa%20Brulon%20
sentado no XII Congresso Internacional da
-%20Vers%C3%A3o%20Final%20
Associação de Estudos Brasileiros (Brasa).
Ap%C3%B3s%20Defesa%20(2).
Londres: King’s College, 20-23 de agosto
pdf?sequence=5&isAllowed=y.
de 2014. [http://www.brasa.org/wordpress/
Último acesso: 12/09/2015]
Documents/BRASA_XII/Proceedings/
TEIXEIRA, Cesar Pinheiro. O ‘policial social’: Alba%20Zalaur%20-%20Dilemas,%20
Algumas observações sobre o engajamento desafios%20e%20problemas%20da%20
de policias militares em projetos sociais UPP%20no%20 Rio%20de%20Janeiro.pdf.
no contexto de favelas ocupadas por UPPs. Último acesso: 28/09/2015]
CENTRO DE ESTUDOS DE SEGURANÇA
E CIDADANIA (CESEC)
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

RUA DA ASSEMBLEIA, 10, SALA 810


CENTRO – RIO DE JANEIRO – RJ
BRASIL – 20011-901

(55) (21) 2531-2033


(55) (21) 2232-0007 apoiadores :

www.ucamcesec.com.br
cesec@candidomendes.edu.br

ISSN 1807-528 2