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Luiz Guilherme Marques

A JUSTIÇA DA FRANÇA
Um modelo em questão

2ª Edição

Editora AMCGuedes
2016
Direitos Reservados
Luiz Guilherme Marques

Capa
L.

Revisão
Lúcia Amorim

Este livro é uma homenagem a Paul Magnaud.

ISBN: 978-85-8356-0

MARQUES, Luiz Guilherme. A Justiça da França:


Um modelo em questão. 2ª Ed. Rio de Janeiro:
Editora AMCGuedes, 2016.
I. Direito. II. Direito Comparado. III. História. IV.
França. V. Título.
Rio de Janeiro, 2016.
2 3
Dedicatória:
- Vera Lúcia Ribeiro Rodrigues, minha esposa
- Tereza Cristina de Almeida Marques e Jaqueline Mara de
Almeida Marques, minhas filhas

Eu nasci para escrever este livro


“A Justiça da França – um modelo em questão”,
para ver a Justiça de Minas Gerais (e do Brasil também)
aproveitando o que a França tem de melhor.

Sem o apoio de Reynaldo Ximenes Carneiro, José Norberto


Vaz de Mello, José Guido de Andrade, Nelson Missias de Morais,
Doorgal Gustavo Borges de Andrada, Amilar Campos Oliveira,
Ernane Fidélis dos Santos, Rubens Xavier Ferreira, José Fernandes
Filho, José da Costa Loures, Márcio Aristeu Monteiro de Barros,
Sérgio Léllis Santiago, Antonio Sérvulo dos Santos, Fátima Nancy
Andrighi, Sálvio de Figueiredo Teixeira, Paulo Geraldo de Oliveira
Medina, Herbert Carneiro, Jane Ribeiro Silva e Marcelo Piragibe
eu não teria chegado onde cheguei em termos profissionais.
Sem os exemplos de Antonio de Arruda Marques, Mitizi
da Silva Marques, Mariana Curvo da Silva e Gilberto Pontes de
Andrade eu não seria o que sou como ser humano.
Por alguma coincidência determinada por Deus, a
AMCGuedes cresceu junto comigo.
Sem a minha esposa Vera Lúcia Ribeiro Rodrigues eu
não seria feliz do jeito que sou.

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A INFLUÊNCIA DE PAUL MAGNAUD SOBRE
A JUSTIÇA DO SEU PAÍS

Henry Leyret, que reuniu e comentou algumas sentenças


e escritos de Paul Magnaud, no livro “Les Jugements du
Président Magnaud” (P. V. Stock Éditeur, Paris – FR, 1911, p.
330) onde afirma: “A repercussão provocada pelo julgamento
do presidente Magnaud no processo de Chiabrando trouxe
como consequência o ministro da justiça ter endereçado aos
membros do Ministério Público uma circular referente à
repressão da vadiagem e da mendicância. Comparando essa
circular com as sentenças do tribunal de Château-Thierry
sobre o assunto, constataremos que o referido ministro se
apropriou pura e simplesmente das ideias do presidente
Magnaud”.
Essa foi uma das várias inovações de Magnaud que se
tornaram referência para o Direito francês, e, (por que não dizer?),
mundial.
Infelizmente, quase tudo cai no esquecimento.
Todavia, se no Direiro francês a figura ditatorial de
Napoleão Bonaparte acabou eclipsando, com seus Códigos, a
de Magnaud, na área da Justiça, no meu entender, ninguém fez
mais respeitável o Judiciário francês do que Magnaud.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

SUMÁRIO

1.1. APRESENTAÇÃO DA 1ª EDIÇÃO........................... 13


1.2. APRESENTAÇÃO 2ª EDIÇÃO ................................ 15
1.3. INTRODUÇÃO DA 2ª EDIÇÃO ............................... 19
2. DIREITO FRANCÊS ..................................................... 21
2.1. Características ........................................................... 21
2.2. História da justiça....................................................... 23
2.2.1. Justiça medieval .................................................. 36
2.2.2. Justiça do trabalho e do comércio ...................... 38
LISTA DE ABREVIATURAS 2.2.3. Justiça da igreja .................................................. 40
2.2.4. Tribunal da inquisição nasceu na França ............. 41
CA – Corte de Apelação 2.2.5. Evolução da justiça e do direito ......................... 42
CRC – Câmaras Regionais de Contas 2.2.6. Juízes profissionais: origem ................................. 44
DEA – Diploma de Estudos Aprofundados 2.2.7. Fortalecimento do judiciário: época de Luís XV..... 47
DESE – Diploma de Estudos Superiores Especializados 2.2.8. Novo regime ...................................................... 59
DEUG – Diploma de Estudos Universitários Gerais 2.2.9. Revolução francesa: reforma de justiça .............. 59
FF – Franco Francês 2.2.10. Eleições de juízes............................................... 60
JT – Jurisdições Trabalhistas 2.2.11. Consulado ......................................................... 61
TC – Tribunais do Comércio 2.2.12. Centralização administrativa .............................. 63
TCI – Tribunais do Contencioso da Incapacidade 2.2.13. Tribunal Revolucionário ..................................... 66
TGI – Tribunais de Grande Instância 2.3. Histórias do direito .................................................... 76
TPSS – Tribunais de Processos de Seguridade Social 3. PODER JUDICIÁRIO .......................................,............ 87
3.1. Grandes magistrados ................................................. 94
3.1.1. Paul Magnaud .................................................... 94
3.1.2. Parodi René ....................................................... 97
3.1.3. Paul Didier ......................................................... 100
3.l.4. BrilIat-Savarin ................................................ 102
3.1.5. Michel de Montaigne ..................................... 104
3.1.6. Montesquieu ................................................. 108
3.2. Magistratura honesta ................................................. 121

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

4. ÓRGÃOS DA JUSTIÇA FRANCESA .......................... 125 5.2. Juízes leigos ............................................................... 169
4.1. Orgãos judiciários ...................................................... 128 5.3. Juízes togados judiciários: Formas de recrutamento ....... 170
4.1.1. Tribunais de grande instância ............................. 128 5.4. Juízes como “bouche de la loi” ................................. 174
4.1.2. Tribunais de instância ......................................... 134 5.5. Sistema colegiado ..................................................... 181
4.1.3. Tribunais do comércio ....................................... 136 5.6. Especialização ........................................................... 181
4. l.4. Jurisdições trabalhistas ...................................... 140 5.7. Unidade de corpos judiciários .................................. 182
4.1.5. Tribunais de processos de seguridade social ..... 142 5.8. Dicotomia justiça judiciária - justiça administrativa ... 183
4.1.6. Tribunais do contencioso da incapacidade ......... 142 5.9. Hierarquização ......................................................... 184
4.1.7. Tribunais paritários de arrendamentos rurais ...... 143 5.10. Gestão através de assembleia ................................. 186
4.1.8. Juízes de instrução ............................................. 144 5.11. Corte suprema: órgão consultivos ........................... 187
4.1.9.Justiça juvenil...................................................... 145 5.12. Corte suprema: os juízes ........................................ 187
4.1.10. Jurisdições militares ......................................... 146 5.13. Corte suprema: processos ...................................... 188
4. l. 11. Corte de Justiça da República ....................... 148 5.14. Magistrados fora da magistratura ........................... 188
4.1.12. Tribunais marítimos comerciais ........................ 149 5.15. Sentenças concisas ................................................. 188
4.1.13. Tribunais de polícia .......................................... 149 5.16. “Em nome do povo francês” .................................. 189
4.1.14. Tribunais correcionais ..................................... 150 5.17. Animosidade contra a “Ciência” processual ............ 189
4.1.15. Tribunais do júri .............................................. 150 5.18. Estatuto da magistratura ......................................... 190
4.1.16. Cortes de apelação ......................................... 151 5.19. Conselho superior da magistratura: controle externo ...... 192
4.1.17. Cortes de cassação ......................................... 153 5.20. Acesso à justiça e ao direito .................................. 193
4.1.18. Tribunal dos conflitos ....................................... 155 5.21. Nobreza de toga .................................................... 198
4.2. Órgãos da justiça administrativa ................................ 156 5.22. Direitos humanos ................................................... 199
4.2.1. Conselho de estado ............................................ 156 5.23. Presença do juiz de instrução na fase
4.2.2. Tribunais administrativos .................................... 160 investigatória do Processo Penal ..................................... 199
4.2.3. Cortes administrativas de apelação ..................... 161 5.24. Responsabilidade civil do estado
4.3. Órgãos especiais ....................................................... 163 e responsabilidade regressiva dos juízes .......................... 201
4.3.1. Corte de contas ................................................. 163 5.25. Desconfiança em relação aos juízes ...................... 201
4.3.2. Câmaras regionais de contas .............................. 163 5.26. Participação feminina .............................................. 204
4.3.3. Corte de disciplina orçamentaria e financeira ........ 164 5.27. Demanda reprimida ................................................ 204
4.4. Jurisdições separadas ................................................ 164 5.28. Conselho constitucional .......................................... 210
4.4.1. Conselho constitucional....................................... 164 6. NORMAS CONSTITUCIONAIS ................................ 215
4.4.2. Alta corte de justiça............................................. 165 6.1. Constituições de 1791 a 1946 ................................. 215
6.2. Constituição de 1958 (atual) ....;............................... 216
5. CARACTERÍSTICAS DA JUSTIÇA JUDICIÁRIA ........ 167 7.A JUSTIÇA COMO SERVIÇO PÚBLICO..................... 219
5.1. Tradicionalismo ......................................................... 167 8. ESCOLA NACIONAL DE MAGISTRATURA ............ 221

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

9. ÓRGÃOS DE CLASSE ................................................. 227 APRESENTAÇÃO DA 1ª EDIÇÃO


9.1. União sindical dos magistrados .................................. 227
9.2. Associação profissional dos magistrados ................... 228 Tenho o prazer de apresentar esta importante obra
9.3. Sindicato da magistratura ........................................... 228 jurídica do Juiz Luiz Guilherme Marques. Trata-se de trabalho
10.0 MINISTÉRIO PÚBLICO (PARQUET) ..................... 231 de profunda pesquisa sobre o Judiciário francês.
11. AUXILIARES DA JUSTIÇA ........................................ 233 Principalmente agora, quando, no Brasil há certa
11.1. Advogados .............................................................. 233 tendência de reduzir a autonomia do Poder Judiciário, mormente
11.2. Trabalhadores sociais .............................................. 234 com a espúria tentativa de criação de desordenado controle
11.3. Escrivães ................................................................. 234 político sobre o mesmo, o estudo vem enriquecer
11.4. Oficiais ministeriais .................................................. 235 consideravelmente as fontes de pesquisa, para tomadas de
11.4.1. “Avoués” ..................................................... 235 posição referentes ao tema de suma gravidade.
11.4.2. Advogados dos conselhos ........................... 235 O autor faz completo estudo do Judiciário na França,
11.4.3. Oficiais de justiça.......................................... 236 depois de tecer substanciosas considerações sobre a formação
11.5. Notários .................................................................. 236 não apenas da Justiça francesa, como da própria evolução do
11.6. Escrivães dos tribunais do comércio......................... 237 direito naquele País, com precisas informações de aspectos
11.7. Oficiais e agentes de polícia...................................... 237 particulares, como o da valorização do direito público em detrimento
11.8. Peritos judiciais......................................................... 238 do direito privado, com a perfeita distinção das importantes fases
12. O ENSINO JURÍDICO ............................................... 239 delimitadoras, de antes e após Revolução Francesa, sem deixar,
13. O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA ................................... 241 porém, de analisar períodos anteriores, responsáveis por algumas
14. CONCLUSÕES ........................................................... 243 diversificações de princípios entre regiões.
15. NOTAS DEREFERÊNCIA .......................................... 245 Em sua exposição, fazendo distinção entre a chamada
16. APÊNDICE................................................................... 257 Justiça Judiciária e Justiça Administrativa, o autor deixa entender
16.1. Carta Judiciária Francesa ........................................ 257 que, de fato, a autonomia do Judiciário, como Poder
16.2. Associações Internacionais de Magistrados ............. 263 independente, ainda está distante da realidade, .principalmente
16.2.1. Associação Europeia dos Magistrados ......... 263 em razão do controle de constitucionalidade, exercido por órgão
16.2.2. União Internacional dos Magistrados ........... 264 eminentemente político.
17. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................... 265 Pela própria posição da doutrina francesa, o autor
18. ÍNDICE REMISSIVO .................................................. 271 demonstra que não há concordância de ser o Judiciário Poder,
com a informação das várias opiniões que surgem a respeito,
mas ressalta a acentuada tendência legislativa de que o País tem
que caminhar para seu fortalecimento e colocá-lo no
posicionamento ideal, ao lado do Executivo e do Legislativo.
No meu pensar, o mais importante do estudo
apresentado é o fato de a pesquisa, pormenorizada, minuciosa e

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

completa, não apenas da Magistratura, mas de todos os órgãos APRESENTAÇÃO DA 2ª EDIÇÃO


que, de alguma forma, estão envolvidos na atividade judiciária,
ter sido realizada por magistrado que pertence a outro sistema
de características bem diferenciadas.
Nas entrelinhas das diversas posições apresentadas, o autor Transcorridos 15 anos, eis que vem a lume a 2ª edição
deixa bem claro que um dos pontos fundamentais da contestação desta obra “A Justiça da França: um modelo em questão”, na
ao Judiciário como Poder estaria no fato de não se vislumbrar na qual o seu autor Luiz Guilherme Marques efetua um notável
divisão de Montesquieu a atividade do julgamento como expressão trabalho de pesquisa sobre a justiça francesa, tanto no que tange
da vontade do povo, o único responsável pela criação do mesmo. à sua estrutura quanto ao seu funcionamento. Paralelo a isto
Tal sentimento, todavia, talvez seja levado pela antiga forma de se contextualiza tal panorama com os acontecimentos históricos que
nomear o magistrado francês, muitos dos quais leigos, urdiram tal configuração, com desdobramentos ora consoantes
tradicionalmente, composta a magistratura por homens de elite, com os pensamentos das épocas e em outras tantas com
sem qualquer vinculação social com o povo. Deste exemplo inequívoco e personalíssimo traço francês.
histórico, o Brasil pouco.tem a apresentar, porque o magistrado Sob o aspecto das Ciências Jurídicas, não vejo o que
brasileiro comum, principalmente em períodos mais recentes, é acrescentar à excelente apresentação elaborada por Ernane
homem que vem do povo, com ascensão ao cargo, depois de Fidélis dos Santos, exceto reforçar a sua percepção e temor
vencer difíceis obstáculos, como concurso de provas e títulos, (quinze anos atrás) de uma redução da “autonomia do Poder
exceção feita apenas aos chamados quintos constitucionais, os Judiciário, mormente com a espúria tentativa de criação de
quais, no entanto, não desnaturam o Poder, já que passam a desordenado controle político sobre o mesmo”, fenômeno este
participar da completa independência que o caracteriza. que tenta se replicar no atual momento da nossa história.
Mercê de Deus, pode-se até dizer que, no Brasil, o Difícil travessia.
Judiciário não é Poder que emana do povo, mas o próprio povo Eis que o mundo rompe suas amarras com os ideais
no exercício do Poder. iluministas e sobre seus escombros constrói – nos moldes de um
A formação dos Tribunais Superiores, através da indicação Shopping Center – um suntuoso e admirável ícone que sintetiza
do Executivo e aprovação do Legislativo, em princípio, não afeta e reduz a felicidade humana a uma necessidade urgente e fugaz
a completa independência do Poder Judiciário, já que, ao contrário de fruição dos prazeres sob o signo do individualismo. Neste
do que ocorre na França, onde a autoridade judiciária é garantida contexto, o semelhante pouco representa em termos de afeto e
pelo Presidente da República, o Supremo Tribunal Federal, no muito de óbice à consecução dos desejos. Inauguramos, desta
Brasil, se posta como o autêntico guardião da Constituição. forma, um viver de cada um por si, onde a farinha sempre é
A leitura do trabalho de Luiz Guilherme Marques vale a pouca e o pirão será repartido entre uns poucos comensais. É
pena, mesmo porque, conhecendo o polêmico sistema francês, nesta bitola estreita que o brasileiro trafega seus sonhos de vencer
muito se aprende para aprimoramento do nosso. na vida e mesmo passar num concurso público e assumir um
cargo no qual embalará seus projetos de ascensão social e mesmo
Ernane Fidélis dos Santos consumo conspícuo. Neste processo valores são deslocados e

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

entre eles, o império das leis se estabelece em detrimento das conhecimento hegemônico estruturado em objetividade,
regras informais de convivência que sempre nortearam a vida sistematização, controle, predição, neutralidade e precisão impõe
humanamente concebível. Submetemos os nossos destinos às à sociedade em geral um “novo modo de pensamento [que]
decisões de uns poucos sobre os quais desconhecemos quase dispensa comprovações, verificações, constatações”. Como
tudo, exceto o traquejo midiático, pois que sombras fugidias a um tipo de conhecimento reconhecidamente hegemônico, que
percorrer labirintos que povoam os pesadelos individuais e estabelece pré-requisitos de verdade, precisão e comprovação
coletivos. Abrimos mão do nosso livre arbítrio em favor de uma convive com relações sociais que patenteiam “o falso, o formal,
codificação formal de condutas predeterminadas, mas nem o aparente, o relativo...”?. Desta forma infalível, as Ciências
sempre ilibadas. Jurídicas se impuseram como únicas e naturais substitutas das
Apesar do furor dos debates, da intensa exposição formas precedentes de administração da justiça e, por
midiática e das ações catastróficas suscitadas pela ideologia consequência, com a legitimidade para desqualificar julgamentos
política, indubitavelmente a hegemonia da modernidade repousa, éticos de valor.
com aparente neutralidade, na ciência em sua imbricação com a Vivemos num cenário em que a sanção jurídica se faz
tecnologia. É na ciência como técnica, preconizando uma causa imprescindível para quase todas as ações humanas, posto que a
eficiente, que repousam os pilares mestres que legitimam tudo o forma como se estrutura tende a desqualificar as relações antes
mais, pois que a hegemonia permeia, em escala global, o concerto regidas pelos costumes. Tal situação imprime um movimento que
das relações sociais, dado que imprime um modo específico de deságua numa tendência a uma excessiva judicialização das
pensar. Tanto no passado quanto no presente as formas sociedades e tal fato implica numa redução da plenitude da vida,
hegemônicas de conhecimento não guardaram dependência aos doravante pautada/adestrada por um padrão aparentemente
seus acertos ou grau de verdade, pois que se estruturam em neutro, porém definido e decidido por sombras. Sombrio é
legitimações que interditam possíveis questionamentos. reconhecer que se necessita de sanção jurídica para educar um
Os dicionários, com algumas diferenças de palavras nos filho assim como para invadir um país e destruí-lo conforme o
informam que ciência é basicamente um conjunto organizado de método preconizado por especialistas em morte. Mais
conhecimentos sobre determinado objeto, especialmente os preocupante é reconhecer que nestas decisões nem sempre vale
obtidos mediante a observação dos fatos e um método próprio. o escrito, mas preponderam as interpretações viciadas e/ou que
Sabemos que a ciência moderna é mais que isso, que observa chancelam interesses pontuais. Espanta, deveras, a naturalização
regras de sistemática, objetividade, controle, predição, precisão da frase: não é moral, mas é legal, como a legitimar uma
e mais uma infinidade de estatutos. Já no distante limiar do século tautologia de inegável e definitiva hipocrisia.
passado, Max Weber alertava o poder da Ciência em Decerto que, enquanto as almas (o espírito de
desqualificar julgamentos éticos de valor por questões de humanidade) não se atrofiarem de vez, os Quixotes, embora de
neutralidade e mensurabilidade. Em resumo, as relações sociais forma dispersa, sempre brotarão, como se frutos de geração
em vigor nas sociedades atuais, não são permeadas em sua renitentemente espontânea, bastando para tanto a presença das
totalidade pelo pensamento científico hegemônico. Marcondes injustiças recobrindo as sociedades. Talvez a maior dificuldade
Filho detecta um descompasso uma vez que fica patente que um em ser um Quixote moderno não seja a mesma que Miguel de

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Cervantes Saavedra impôs ao original Cavaleiro da Triste Figura. INTRODUÇÃO DA 2ª EDIÇÃO


Os Quixotes reatualizados não são vítimas da caduquice nem
enlouqueceram. Pelo contrário, são os mais atualizados e
conectados aos contextos contemporâneos. Lúcidos, sabem de
antemão que estão desarmados e que serão batidos em todas Quando escrevi a primeira edição deste livro minha
as batalhas, mas darão continuidade a esta eterna luta posto que realidade profissional era totalmente outra, bem como a realidade
confrontam e se reconfortam com a única forma de se manterem brasileira: eu ainda não podia falar tudo que gostaria e a Justiça
íntegros e de preservarem o sentimento do mundo. brasileira ainda não tinha entrado na crise que agora vive.
Creio que após tal rasgo laudatório ao humanismo O livro foi escrito em 2000, quando era presidente da
soterrado, resta então falar do autor deste livro que ele considera república Fernando Henrique Cardoso, a quem se imputava
– qual o filho favorito – a seu melhor e mais completo trabalho. muitas iniciativas prejudiciais ao Brasil, mas que não
Importante a segurança de tal escolha, posto que escritor de comprometiam o quanto depois veio a acontecer nos governos
fôlego avantajado, escreveu mais de 150 livros e publicou quase de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que terminaram o
uma centena deles. Decerto tem consciência (e desejos) de que primeiro como réu em processo criminal diante da 13ª Vara da
esta obra pode ser uma contribuição ao nosso sistema judiciário Justiça Federal sob a imputação de crimes graves e a segunda
e, desta presunção, desdobramos do estudioso do direito, o
que sofreu impeachment.
cidadão cioso de suas responsabilidades sociais, disposto a
Minhas palavras eram contidas, porque, afinal, além de
expressar a sua inconformidade com uma realidade onde
ser esse o meu primeiro livro, eu ainda tinha uma longa trajetória
preponderam as injustiças e as iniquidades. Seguindo a trilha
a percorrer na Magistratura mineira.
paterna, desde 1981 que Luiz Guilherme Marques é um diligente
servidor da Justiça, primeiramente como Promotor e Agora, dezesseis anos depois, com tempo para me
posteriormente na condição de Juiz de Direito. Divorciado do aposentar por tempo de contribuição previdenciária (ou ser
natural corporativismo e individualismo reinantes, sempre aposentado, se vier a acontecer, como acidente de percurso),
manteve uma postura de respeito às leis, mas buscou revesti-las tenho este adendo a fazer, pois não quero cingir-me
de um caráter moral, de um conteúdo de humanidade, trilhando simplesmente a mostrar o resultado de uma pesquisa
um caminho que saciasse a sede de justiça e não somente aprofundada sobre a realidade francesa, mas principalmente
atendesse os códigos, leis e jurisprudências. quero dizer aos meus compatriotas brasileiros que a nossa Justiça
De toda sorte, com esta reedição, mais uma vez, ele tem de melhorar.
retoma as lutas encadeadas com a postura de um samurai que Na época eu tinha que contentar-me em falar e não ser
não se abate com os insucessos e, seguramente rejuvenescido ouvido, mas agora falo com a intenção de exercer alguma
se solidariza com os tantos Quixotes dispersos pelo mundo e influência, se não sobre o Judiciário e demais operadores do
pelos rincões do nosso país. Direito, pelo menos informar aos brasileiros que há países onde
a Justiça tem mais recursos que a nossa e que a nossa deve
Marcelo Cavalcante procurar se aperfeiçoar.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

“A Justiça da França – um modelo em questão” é o 2. O DIREITO FRANCÊS


mesmo livro da primeira edição, mas tem este dado novo: a
dedicatória a Sérgio Fernando Moro, que equiparo ao juiz Paul 2.1. CARACTERÍSTICAS
Magnaud, ambos que reputo como os magistrados mais
completos de que tive notícia em toda a História da Justiça. Em termos de Direito, a França classifica-se como um
Não que não tivesse havido grandes juízes, mas esses dos países da grande família romano-germânica, notando-se no
representam a afirmação inteligente, corajosa e inabalável do país, atualmente, uma excessiva Valorização do Direito Público
juiz de primeira instância, que, da base, abalam a cúpula. em detrimento do Direito Privado, portanto, em termos de Justiça,
Considero a Justiça de primeira instância a mais admirada um prestígio maior da Justiça Administrativa em detrimento da
pelos jurisdicionados, justamente porque está próxima e lhes Justiça Judiciária.
serve diretamente. Os sistemas jurídico e Judiciário franceses são muito
No sistema brasileiro, a ingerência do Executivo e do peculiares, não tendo semelhança a não ser com aqueles países
Legislativo a partir da segunda instância prejudica muito a imagem que os imitam. ANCEL (1980:23) afirma textualmente que “As
do Judiciário, tirantes os magistrados que estão nessa instância leis francesas sobre as sociedades comerciais, o cheque, o Direito
como egressos da primeira, tendo sido naquela aprovados em marítimo da segunda metade do século XIX se inspiram,
concursos públicos. amplamente, nos sistemas estrangeiros...” Essa “importação”, é
Acho que a única forma de prova de notável saber pouco comum no Direito francês, motivada provavelmente pelo
jurídico para efeito do trabalho no Judiciário é o concurso público, forte nacionalismo do povo francês. Pelo mesmo motivo, poucos
pois a tarefa do juiz é específica e de nada adiantam títulos juristas franceses manifestam interesse pelo Direito Comparado,
acadêmicos etc. se não o demonstrar através do respectivo apesar de se contarem franceses entre os grandes
concurso, em que, além das provas orais e escritas, terá de comparativistas, como, por exemplo, Raymond Saleilles,
mostrar adequação psicológica através do exame psicotécnico, Edouard Lambert, René David e Marc Ancel.
que deveria ser prova eliminatória, aliás, a primeira das provas. ALMEIDA (1998), apresenta-nos o seguinte perfil geral
Ou tenho vocação para ser juiz ou não a tenho: o mais do Direito francês:
são filigranas. 1 – A concepção do Direito como regra de
conduta tendente à realização da. justiça;
Juiz de Fora – MG, 21 de novembro de 2016. 2 – Estrutura da regra jurídica concebida com
Luiz Guilherme Marques, juiz de direito e pesquisador elevado grau de generalidade e abstração;
3 – Primazia do Direito substantivo sobre o
Direito processual (pelo menos, no discurso jurídico
oficial); o Direito de ação como meio de efetivação de
Direitos subjetivos;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

4 – Distinção entre Direito público e Direito 15 – Utilização, na interpretação da lei, de um


privado; a subdivisão do Direito objetivo e da ciência pluralismo metodológico em que, segundo
jurídica em ramos de Direito; combinações variáveis, são atendíveis os elementos
5 – 0 Estado como base da organização literal, teleológico, sistemático e histórico.
política; coincidência tendencial entre ordem jurídica 16 – Aplicação analógica como meio
e normas de origem estadual; privilegiado de integração de lacunas da lei.
6 – Organização do poder político em 17 – Organização judiciária ordinária ou
conformidade com a Constituição escrita; separação comum hierarquizada em três níveis; tribunais de 1ª e
de poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário); de 2ª instância dispersos no território; Tribunal Supremo
democracia política representativa (salvo algumas vocacionado para a uniformização da jurisprudência.
descontinuidades históricas); 18 – Jurisdição Administrativa composta por
7 – Consagração constitucional de direitos, Tribunais Administrativos com competência para o
liberdades e garantias individuais (as exceções controle da legalidade dos atos da Administração Pública.
pertencem mais ao domínio da não aplicação efetiva 19 – Formação universitária em Direito como
do que da sua recusa explícita em normas legais); requisito geralmente exigido para o exercício de profissões
8 – Fiscalização da constitucionalidade das leis. jurídicas superiores (Magistraturas e Advocacia).
9 – Competência legislativa distribuída entre 20 – Dualidade de Magistraturas – judicial e ao
as instituições parlamentares e as governamentais. Ministério Público – compostas na sua quase totalidade
10 – Primado da lei, tanto no plano hierárquico por magistrados integrados em carreiras profissionais.
como no da sua importância relativa, enquanto fonte 21 – Tendêncial unidade, da profissão de
de Direito aplicável a todas as áreas jurídicas. advogado, a quem incumbe o patrocínio judiciário e o
11 – Concentração de uma parte significativa aconselhamento jurídico dos clientes.
das regras legais em códigos, organizados de modo (ALMEIDA, 1998:72/74).
sistemático e segundo critérios doutrinários.
12 - Declínio da importância do costume. 2.2. HISTÓRIA DA JUSTIÇA
13 – Contraste entre o discurso dominante e o
oficial, que recusa à jurisprudência o valor de fonte de NASCIMENTO (1997:3) mostra o vaíor do conhecimento
criação normativa, e a sua efetiva importância enquanto da História para bem se entender as instituições jurídicas, quando
meio de conhecimento, e de evolução do Direito. afirma que “A lição vem de J. Ortolan, de quem aprendemos que
14 – Influência da doutrina na construção e o bom conhecimento de uma legislação depende do bom
compreensão dos sistemas jurídicos, nas reformas conhecimento da sua história. É esta uma verdade muito clara”.
legislativas e, em diferentes graus, no modo de Robert BADINTER, afirma que “é impossível apreender
aplicação do Direito. determinadas regras da Justiça francesa e caracterizar suas

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dificuldades, quando não inseridas em sua época.” (BADINTER, foram ganhando prestígio à medida que o feudalismo ia ganhando
1994:7/10). espaço na realeza, até chegarem ao ponto de negarem
Sem se conhecer a História da Justiça francesa é cumprimento às normas legais editadas pelo rei, tornando-se,
impossível compreendermos suas instituições, já que todas têm precursores, de forma direta ou indireta, da Revolução Francesa.
raízes geralmente profundas no passado. As mudanças Após a Revolução, foram reduzidos a simples servidores do
ocorreram geralmente de forma gradativa (com exceção daquelas esquema governamental.
ocorridas na Revolução Francesa), sempre combinando o Sigamos, então, na esteira das citações, a evolução da
passado com as tendências mais modernas. Justiça francesa que, acompanhadas de algumas palavras nossas,
Para facilitar sua compreensão, dividiremos a história da apresentam ao Leitor como ela ocorreu.
Justiça francesa em dois períodos: o primeiro, anterior à Na primeira parte nos valeremos principalmente das
Revolução Francesa (ou seja, o chamado Antigo Regime), e o informações da Professora ARLETTE LEBIGRE, respeitada
segundo, a ela posterior. Mas, inicialmente, abordaremos alguns historiadora do Direito francês, que mostra detalhes interessantes
aspectos de um período mais remoto. da Justiça francesa na época anterior à Revolução ocorrida em 1789.
Afirma-se que nada se sabe sobre a Justiça dos celtas A Justiça medieval era complexa, devido, na certa, ao
que habitavam o território onde hoje é a França. Alguns estudiosos isolamento dos feudos, cada um com regras próprias, juízes e
do Celtismo dizem, no entanto, que os druidas (elite religiosa e população com pouco ou nenhum grau de instrução. Assim: “...
intelectual) detinham as funções judiciárias, sendo curioso o a Idade Média não conheceu ‘uma’ Justiça, mas ‘diversas’
detalhe de que os réus condenados à morte somente eram Justiças.” (LEBIGRE, 1995:20).
executados depois de cinco anos da data da sentença, com a Em determinada fase da Idade Média, a Igreja Católica
finalidade de propiciar-lhes tempo para se arrepender. tomou a iniciativa de proibir os ordálios (provas pelo fogo, água
Com a invasão romana, o sul da França adotou o estilo fervente, ferro em brasa e duelo), que tinham sido implantados
romano de Direito e Justiça, com a influência cada vez maior do no território francês pelos povos germânicos que ali aportaram,
Direito escrito em detrimento dos costumes, ficando o norte mas que representavam uma forma de Justiça primitiva: em 1215,
bastante refratário a essa influência, permanecendo muito mais no 4° Concílio de Latrão, os ordálios, caídos de certa forma em
ligado aos costumes. Com as invasões dos francos na parte norte, desuso, foram definitivamente proibidos pela Igreja, que já os
ficou mais evidente a diferença entre o norte e o sul do país. havia proibido a seus padres. (LEBIGRE, 1995:197).
Os francos não conheciam a, escrita e dirigiam sua vida O rei Luís IX, conhecido posteriormente como São Luís
pelos costumes. Implantaram suas regras, que perduraram por e cuja estátua se encontra na Cour de Cassation francesa, numa
muito tempo, até que, com o fortalecimento da realeza, foi homenagem àquele que marcou a história da Justiça de forma
ocorrendo certa unificação na “legislação”, que terminou por se indelével, “escandalizado que a vida humana pudesse ser exposta
consolidar, sobretudo, na época de Napoleão Bonaparte. por razões puramente materiais”, ou proibir a batalha nas causas
Os juízes, que na Idade Média, eram meros civis em 1254. Quatro anos mais tarde ele estendeu a proibição
“empregados” dos senhores feudais de maior ou menor poder, às causas criminais. A medida, porém, era prematura e, em 1306,

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Felipe, o Belo, sob a pressão dos senhores feudais. (revogou as das “cortes laicas” (tribunais laicos) em favor de um
leis progressistas de seu antecessor) (LEBIGRE, 1995:198). adversário mais favorecido pela fortuna ou pelo
O duelo somente seria abolido muitos séculos depois. O nascimento. (LEBIGRE, 1995:23).
Rei Luís IX, acima citado, incentivou as soluções pacíficas,
atendendo seus súditos em audiências para solução de Em determinado momento nasce o Parlamento de Paris,
pendências judiciais entre os mesmos, decidindo ou delegando posteriormente órgão jurisdicional de 2ª instância até a época
poderes para seus assessores mais importantes, dentre os quais da Revolução Francesa, formado por pessoas de grande
o senhor de Joinville. expressão no meio social:
A tortura, instituto de Direito Processual na Roma antiga Até o dia em que alguns barões da corte do rei
quando fosse o réu escravo e que havia sido, durante muitos começam a manter o hábito de se reunirem quatro vezes
séculos, aparentemente esquecida, passou a ser usada diuturna por ano (Natal, Festa de Nossa Senhora das Candeias,
e claramente, com aceitação geral dos homens da Justiça: Pentecostes e no Dia de Todos os Santos) ‘in
No fim do século XIII a tortura faz sua aparição parlamento’, literalmente em lugar “onde se fala”, ou
no processo penal, mais exatamente sua reaparição, seja, um local onde são examinadas as causas a ele
pois o Direito romano a empregava no caso de escravos, submetidas. Surgia então em 1250, o Parlamento de
considerados juridicamente como objetos inanimadas. Paris, e com ele o nome, que remontava hierarqui-
E mais: “Cinco séculos de tortura judiciária. Os juízes camente à corte do rei, e atuaria nos julgamentos dos
a adotaram sem que o legislador tivesse necessidade oficiais dos reis, bem como sobre aqueles oriundos da
de instaurá-la. (LEBIGRE, 1995:205). justiça privada. A ideia do bem-comum predomina e
A Justiça da Igreja Católica, fundada no Direito seu êxito foi completo e imediato. Outros parlamentos
romano escrito, foi se fortalecendo gradualmente e se sucedem, com o fortalecimento da realeza e da Justiça
impondo seu estilo à Justiça comum, ainda rudimentar do rei, até o momento em que os Parlamentos passam a
e baseada principalmente nos costumes locais. A questionar a autoridade real: Toulouse, Grenoble,
competência das oficialidades se estende aos laicos cada Bordeaux, Dijon, Rouen ... as partes não mais
vez que um processo diz respeito de perto ou de longe necessitando de se deslocarem até Paris para apresentar
ao domínio da Igreja: crimes contra a fé ou dogmas, seus recursos de apelação firmando-se, dessa forma o
infrações consideradas como pecados (adultério, Direito superior de justiça da realeza através das cortes
sacrilégio, usura, blasfémia), bem como as causas soberanas sobre o conjunto do território. (LEBIGRE,
relativas ao casamento e afiliação, testamentos, 1995:32/33).
contratos passados sob juramento. A Igreja propõe,
dentro de um espírito puramente caritativo, a segurança Pelo prestígio de seus membros, grande era o destaque
de sua justiça às “pessoas miseráveis”, pessoas pobres da Justiça na vida das comunidades, tanto grandes como
sem recursos e proteção, que receavam a parcialidade pequenas. E, ainda conforme LEBIGRE:

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Toda uma parte da vida social da antiga França E, quanto à falta de fixação da competência: “A que
gravita em volta da vida Judiciária, costumando-se dizer jurisdição recorrer quando o julgamento do preboste vos foi
que a Justiça do rei era de duas espécies: a delegada, desfavorável?” (LEBIGRE, 1995:42).
exercida pelos mandatários do rei, e a retida, exercida Em 1552, o rei Henrique II decidiu criar cortes in-
pelo rei em pessoa. O povo, perplexo com a noção ermediárias entre os bailios e os parlamentos, limitados os
abstraía de delegação, prefere a segunda fórmula, recursos ao quarto grau de jurisdição:
mostrando haver compreendido pelo menos o essencial: Na maior parte dos casos, o edito de 1552
esta justiça é a justiça comum, diante da qual cada um, teve então por efeito criar um quarto grau de
pode acusar seu adversário, a qualquer tempo, ou ser jurisdição, e o bom advogado considerava um ponto
acusado. (LEBIGRE, 1995:37). de honra chegar até ao parlamento da corte.
Chegou-se a criar um adágio sugestivo no século XVII:
Sobre a complexidade da Justiça, ainda LEBIGRE Um demandista necessita de três coisas: um saco de
afirma que: papel, um saco de dinheiro e um saco de paciência.
‘A organização Judiciária do Antigo Regime Surgiram ainda os chamados ‘juízes extraordinários’
desafia a lógica ...’mencionando os prebostes e bailios (‘juízes especializados em matéria profissional ou
(juízes inferiores) e os prebostes senhoriais (juízes administrativa’) e os ‘juízes consulares, ancestrais
subalternos) ... e dizendo que ‘a pequena guerra entre dos nossos tribunais de comércio” estando os
inferiores e subalternos acontece sobre esse terreno tão questionamentos da área administrativa sob a
mal delimitado que se presta a todas as usurpações e jurisdição específica dos Depósitos de Sal, Casas de
a todos os conflitos de competência’ fazendo o ‘paraíso Mármore das Aguas e Florestas, Câmaras de Contas,
dos advogados, sobretudo os de má-fé’. Francisco I Cortes de Ajudas e Cortes de Moedas. (LEBIGRE,
criou mais um cargo: o de preboste dos marechais (juiz 1995:45/ 47).
militar), e estes, através de ‘uma série de éditos vão
pouco a pouco, preocupados com a segurança, LEBIGRE destaca como pontos importantes da justiça
estender a competência a toda delinquência do meio retida que:
rural.’ (LEBIGRE, 1995:38,40/41). “... sem prejuízo da delegação, o rei guarda
intacto o que restará por muito tempo como a
Com referência aos múltiplos graus de jurisdição expressão mesma da soberania: o Direito – e o dever
LEBIGRE prossegue: – de julgar seus súditos. [...] O rei é senhor de julgar
“Os advogados não formulam apelação uma só quem, quando e como ele quiser.” (48). Os tipos de
vez, como no nosso sistema que só admite dois graus de cartas reais eram os seguintes: “de chancela, graça,
jurisdição. Eles podem, se o querem, acumular recurso remissão e trégua”. (53)’’As duas modalidades de
de apelação de forma ilimitada...” (LEBIGRE, 1995:42). Justiça tiveram sua utilidade, conforme a referida

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autora, numa análise que procura ser imparcial: Num quem desse o de maior valor. Desrespeito à regra do
sistema que não se preocupou com a separação dos sigilo: A regra do segredo das decisões é violada
poderes, justiça delegada e justiça retida aparecem deforma habitual (75).
assim como complementares.’ (57) Os homens da
justiça “formam a mais poderosa das grandes Corporativismo:
estruturas do Estado principalmente com a ordenança Sempre o mesmo cuidado em preservar a honra
de 21 de outubro de 1467 sobre a inamovibilidade dos da Magistratura, ameaçada tanto pelas estúpidas
oficiais de judicatura e outros: ... os ofícios ‘de rivalidades de suas elites, como pelos abusos de seus
judicatura e outros’ tinham escapado por completo da pequenos juízes. (81) A Revolução Francesa extingue
autoridade real, onde um processo irreversível faz deles os ofícios: Como todos os ofícios, os cargos de
uma ‘mercadoria’ negociável ‘a dinheiro sonante’ e, judicatura desaparecem na noite de 4 de agosto de
para encerrar, um bem de família transmissível por 1789. Seus proprietários, cujo capital global foi
herança. (59) (LEBIGRE, 1995). avaliado entre 426 e 456 milhões de libras, tiveram a
satisfação de receber um título de crédito do Estado e,
Continuaremos a citar LEBIGRE, indicando o número alguns anos depois, serem reembolsados. Estranho
da página de onde o conteúdo foi transcrito. destino de uma ‘mercadoria’, durante tanto tempo
Como consequência, a independência da ‘vendida a peso de ouro’, e que acaba assim, paga em
Magistratura vai se impor à Monarquia absoluta para cifras de papel. (83).
o melhor e o pior e Henrique IV, através da Declaração
real de 12 de dezembro de 1604, vai reconhecer a O poder dos juízes:
patrimonialidade dos ofícios (60). O chamado ofício “As Cortes são senhoras de sua jurisprudência,
(de juiz) é o ‘meio de promoção social por excelência aplicam ou ignoram a seu bel-prazer o ensinamento
em todos os níveis’ (67), surgindo ‘grandes famílias de dos doutrinadores. [...] Mas havia juízes com ideias
magistrados’, denominadas de ‘a nobreza togada’(68). avançadas e humanitárias: ...na segunda metade do
século XVIII a pena de prisão, então quase inexistente,
Proventos dos juízes: será introduzida no nosso sistema penal sem
O presente espontâneo transformou-se intervenção do legislador, por iniciativa de magistrados
rapidamente em contribuição obrigatória, embora convencidos, pelas utopias dos filósofos do Iluminismo,
uma ordenança de 1402 tenha decidido que as de seu valor redentor e educativo”. (90).
especiarias seriam taxadas para evitar os abusos. (74)
Os juízes dessa época foram muito criticados por serem No entendimento de Colbert, exposto em sua
corruptos, quando se dizia que muitos recebiam “Dissertação de 1665”, citada por LEBIGRE:
presentes de ambos os litigantes, decidindo a favor de

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“Os magistrados da ordem Judiciária procedimento inquisitório destronou o procedimento


representam face ao rei um contra-poder infinitamente acusatório, a detenção se tornou a regra, quando na
mais perigoso do que os oficiais das Aguas e Florestas, Idade Média era a exceção (187).
os marinheiros ou os negociantes”. (97).
Os juízes seguiam, nos processos, a mesma filosofia dos
Judiciário como um dos deflagradores da Revolução doutrinadores da época, quando não se pensava na
Francesa: ressocialização do criminoso, mas na sua punição pura e simples
Às vésperas da Revolução, o poder Judiciário como mera forma de defesa da sociedade:
exige mais que o respeito por suas tradições e por sua ‘Dissuadir do crime pelo terror do sofrimento’.
liberdade (98). (212) (LEBIGRE, 1995).
Surgimento recente da polícia: ... o Antigo
Regime somente teve verdadeira polícia no último METHWIER informa detalhadamente a distribuição
século de sua existência... (146). numérica dos membros do Parlamento de Paris em 1788, que
foi a seguinte:
Despreparo dos auxiliares da Justiça: 144 magistrados, sendo nove presidentes (o
... Um aresto do parlamento de Paris de 4 de primeiro presidente é d’Aligre); 37 conselheiros de
outubro de 1550, prescreve aos juízes ‘não mais Grande Câmara; oito presidentes e 86 conselheiros de
receber e nem instituir sargentos, se eles não sabem inquéritos e requerimentos; um procurador geral e três
ler e escrever’, seguimento lógico de um aresto advogados gerais (os quatro do Ministério Público).
proferido pela mesma corte que obrigava os sardentos Presentes: La Rochefoucauid, Robert de Saint-Vincent,
a apresentarem seus relatórios por escrito. (148) Duval d ‘Eprémesnil, Huguet de Sémonville, Adrien
Desbordamentos do inquisitório depois de um começo Duport, Montmorrency-Luxembourg, Béthune-
bem intencionado: No século XIV, o procedimento Charost, Praslin, Aumont, Uzès, Luynes e os duques
penal está em plena mutação. [...] o procedimento de Choiseul, Coigny e Fitz-fames. Esses homens do
inquisitório ganha terreno sobre o procedimento Parlamento de Paris e outros parlamentares (juízes
acusatório de forma lenta, mas segura. Ainda mais, de 2ª instância) de outras cidades comandaram a
um pouco mais de um século e ele será totalmente chamada “rebelião parlamentar”, recusando-se a
suplantado. (178) ...em 1670, com a ordenança de cumprir as leis editadas pelo monarca. (METHMER,
Saint-Germain-en-Laye, surgem duas imagens 1993: 50).
complementares e opostas: o juiz armado de todos os
recursos de um procedimento rigoroso, o acusado BLUCHE, RIALS e TULARD garantem que o
reduzido às suas forças, desprovido dos Direitos mais Judiciário francês da época de Luís XVI contribuiu imensamente
elementares da defesa. (182). Desde que o para que a Revolução Francesa acontecesse:

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Luís XVI cometeu certamente um erro, logo em membros, e tinha igualmente o dever de vingar os
novembro de 1774, ao restabelecer os parlamentos. Como crimes cometidos contra um de seus membros. Os
cortes de justiça, (delegada), os juízes, nos processos, parentes das vítimas entravam assim em guerra contra
seguiam a mesma filosofia dos parlamentos que se os parentes do criminoso, e esta é a origem da guerra
autointitulavam guardiães das leis e aproveitavam seu privada que durou até ao fim da Idade Média. Como
Direito de registro e de ‘admoestações ‘para tentar tais vinganças perturbavam a paz do país, a autoridade,
controlar o governo real. Magistrados, proprietários de para fazer cessar a guerra, impunha às duas famílias
seus cargos em virtude de sua patrimonialidade, os uma ‘composição ‘; o ofensor pagava à vítima ou aos
parlamentares desejavam não obstante ‘representar’ a seus parentes uma soma variável segundo a condição
nação. Sua oposição, que se confundia em parte com a social da vítima e a gravidade do dano. A soma devida
contestação jansenista, envenenara a segunda metade por um assassínio, chamada em latim “o preço do
do reino de Luís XV; em 1771, o chanceler Maupeou os homem”, e em língua franca weregeld, variava de mil e
substituíra por agentes-funcionários, que anunciavam oitocentos sous de ouro por um personagem da comitiva
a Magistratura moderna. Restabelecidos por Luís XVI, do rei, a duzentos por um homem de condição servil. O
os parlamentos se mostram mais calmos, mas costume fixava, ainda, o valor de cada parte do corpo,
despertarão depois. Com tiradas humanitárias que pé, mão, olho; as tradições compiladas estão cheias de
dissimulam a defesa de seus privilégios – tarifas de danos. Para decidir os pleitos, os Francos
conscientemente ou não, pois muitos jovens magistrados empregavam também o processo do ‘julgamento de
são progressistas e alguns têm espírito aberto – os Deus’, baseado no sentimento de que Deus intervinha
parlamentares farão fracassar as reformas, necessárias em favor do inocente contra o culpado. Quando um
atiçarão a revolta contra um ‘despotismo’que procurava guerreiro acusava o outro diante do Tribunal, o juiz
melhorar a condição de vida dos franceses, e darrão fazia-os combater a ambos e condenava o vencido. Esta
assim o primeiro impulso à Revolução (1989:10). é a origem do duelo privado, concebido como uma
‘reparação pelas armas’em caso de ofensa feita à honra.
Outro autor, SEIGNOBOS, oferece dados notáveis As mulheres e as pessoas de condição inferior que não
sobre a França, que passamos a citar: podiam combater deviam submeter-se a uma prova pelo
Os Francos conservavam, em matéria de ferro em brasa ou com água fervente, designada pelo
justiça, ideias e processos muito diferentes do Direito nome germânico de ordálio (Urtheil); o resultado decidia
romano. Como todos os antigos povos da Europa, a sentença. (SEIGNOBOS, 1938: 52).
praticavam o Direito e o dever de vingança designado
em francês pelo nome corso de vendetto, conservado Sobre a influência dos francos na França, o mesmo Autor
na Córsega até nossa época. A família inteira era relata:
responsável pelos atos criminosos de cada um de seus

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Dos costumes dos Francos ficaram alguns a origem dos bailiados e das senescalias que duraram
traços na vida da França. Da tradição francesa da Idade até 1789. Estes agentes, escolhidos entre os nobres
Média passaram o ordálio, o duelo, e o prêmio de cavaleiros, exerciam em nome do rei todas as funções,
combate. No Direito privado, entrou a partilha igual como outrora os condes carolíngios; julgavam,
das heranças entre os filhos, o uso da doação, a administravam e recebiam as rendas; diferenciavam-
comunhão de bens entre os esposos. Esta relação entre se, porém dos condes hereditários, pelo fato de
as moedas devia persistir até a Revolução na França. continuarem simples funcionários que o rei nomeava
A unidade de regime que terminou por unir num só corpo ou substituía à vontade. São Luís cedeu o palácio da
todos os súditos dos reis Francos, não alterou jamais a Cidade que tomou o nome de Palácio da Justiça, em
diferença profunda entre a população galo-romana da uso até hoje. Os membros destas cortes conservaram
região ao sul do Loire e a população miscigenada dos o nome de conselheiros que ainda usam. (112).
Francos da região ao Norte do Loire, diferença de fala,
de usos e de sentimentos que ficou sendo o caráter A Justiça Violenta do Senhor Feudal:
fundamental da França. Na região Norte, a única que Ao senhor reservara-se o poder de julgar os
havia sido o país dos Francos, é que na Idade Média habitantes de seu domínio, mas não o considerava com
iria criar-se a civilização francesa. (77/79). o dever de fazer justiça aos seus súditos. Apenas via
nele uma fonte de rendas, o Direito de aplicar multas e
2.2.1. Justiça Medieval confiscar os bens dos condenados à morte. Nos aios
que enumeravam as rendas de um domínio, a justiça
O rei fazia justiça à maneira dos senhores, estava indicada depois das terras e dos moinhos. Uma
ordenando a luta entre os queixosos. A justiça para os justiça desta espécie não comportava pena de
camponeses e a gente do povo dos seus domínios, detenção. Não existia outra prisão para os detidos
estava adstrita aos administradores que aplicavam as além da “chartre” (cárcere, do latim carcer) reservado
multas. (94). à justiça da Igreja. A repressão consistia ou em multas
Viscondes e bailios administravam a Justiça de 1° grau: e confiscos em proveito do senhor, ou em castigos
O príncipe delegava seus poderes a lugar- corporais, chicote, mutilação e forca. O senhor não se
tenentes (viscondes ou bailios) encarregados de dava ao incômodo de julgar; arrendava a sua justiça,
distribuir a justiça e administrar em seu lugar. (109) tal como fazia com o seu moinho, a um empreiteiro
Felipe Augusto, tomando por modelo a Normandia, designado pelos termos latinos de preboste no Norte e
criou em quatro lugares do seu domínio bailios bailio no Sul. Em cada domínio tinha um
encarregados de exercer os poderes do rei sobre a administrador, muitas vezes chamado “maire”
região. Agentes da mesma espécie foram criados mais (major), a princípio escolhido entre os camponeses;
tarde no oeste e no sul e chamaram-se senescais, sendo mas a função acabou por tornar-se hereditária. O

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“maire” fazia a polícia com a ajuda dos “sargents” ofício formavam também ordinariamente uma
(servidores) armados. E fácil imaginar que espécie de confraria religiosa que tomava parte, incorporada, nas
justiça o vilão podia esperar de agentes diretamente cerimonias e celebrava a festa do santo patrono do
interessados em condenar, e a que abusos podiam ofício (São Crispim para os sapateiros e Santo Eloi
entregar-se os empreiteiros da justiça e os “maires”. para os ourives). O número de ofícios variava muito
Os documentos não os mencionam e apenas os de acordo com as cidades, sendo pequeno nas menores
podemos entrever num inquérito/eito no século XIII cidades onde várias profissões análogas estavam
nos antigos domínios do conde de Toulouse. Os reunidas em uma mesma corporação, e muito maior
camponeses não tinham de suportar somente os nas grandes cidades onde o mesmo tipo de trabalho
encargos fixados pelo hábito, pois o senhor ou seus estava dividido em várias corporações. Em Paris, desde
agentes usavam do poder discricionário de que 1160, o trabalho do couro estava dividido por cinco
dispunham para impor novos encargos; a isto se ofícios: sapateiros, curtidores, remendões, fabricantes
chamava de “mau costume”. Contra os abusos do de boldriés e fabricantes de sacos de couro; num
senhor e dos seus agentes o camponês não dispunha levantamento de impostos referentes a 1291 estão
de nenhum recurso útil, não podendo mesmo levar a enumerados mais de trezentos ofícios. Cada ofício
sua queixa perante qualquer Tribunal. Um seguia as regras de trabalho fixadas por um antigo
jurisconsulto do século XIII assim diz expressamente: costume. Alguns membros da corporação, designados
“Entre ti e o teu vilão não há juiz além de Deus”, pouco por nomes diferentes, jurados, guardas, juízes
alterando ou diminuindo o poder efetivo que lhe (“prudhommes” – no Sul “bailes”) eleitos por
assistia sobre as pessoas. Era-lhes quase impossível processos diferentes, estavam encarregados de exercer
recusarem-se a mandar-lhe os filhos e seria difícil às a autoridade. Deviam reunir e dirigir a assembleia,
suas filhas e mulheres recusarem-se às fantasias do julgar as pendências entre os membros, cobrar as taxas
senhor. (121/123 e 125). e multas, fazer as despesas, vigiar o trabalho e apor a
marca da corporação sobre os objetos reconhecidos
2.2.2. Justiças do Trabalho e do Comércio conforme as regras. (154/ 155). Para decidir as
questões entre os mercadores, tornava-se necessário
Na região francesa submetida a este regime, aplicar-lhes um Direito e um processo adequados às
todos os habitantes que exerciam na cidade a mesma necessidades do comércio, e esta justiça ficou a cargo
profissão formavam uma corporação à qual dos juízes consulares, sendo a origem dos nossos
necessitavam pertencer, a fim de ter o Direito de tribunais de comércio. Em todas estas inovações,
fabricar ou de vender as mercadorias provenientes banco, letras de câmbio, desconto, comandita,
dessa profissão. A corporação chamava-se um ofício, consulado e justiça comercial, os franceses foram
em latim “ministerium” (serviço). Os membros de um alunos dos italianos. (160).

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

2.2.3. A Justiça da Igreja queimar vivos os heréticos. A autoridade eclesiástica,


a fim de constranger os leigos à obediência, continuava
O poder de julgar os fiéis, reconhecido aos também a usar o poder de excomungar, poder que
bispos, foi solidamente organizado no século XII. Cada exercia desde a oficialização da religião cristã. A
bispo nomeava um juiz especial chamado oficial, excomunhão, chamada ‘arma Espiritual’, servia aos
encarregado de julgar os processos eclesiásticos na sua prelados contra os nobres que usurpavam um domínio
diocese, e a oficialidade tornou-se um Tribunal agindo da Igreja, ou contra os príncipes em conflito de poder
com a colaboração de pessoal auxiliar constituído de com o clero. Era pronunciada numa assembleia solene
procuradores, escrivães, advogados e notários. Esta e em termos calculados para aterrar os crentes, pois
justiça da Igreja estendia a sua competência em dois anunciava que o culpado iria para o inferno. O
sentidos, indicados por duas fórmulas: 1ª) ‘Pela razão excomungado não era apenas privado de todos os
da pessoa’, ela reclamava o Direito de ser a única a sacramentos, mas ficava também defeso a todos os
julgar todos os clérigos, não somente os padres, fiéis terem quaisquer relações com ele. A partir do
monges e auxiliares encarregados de uma função século XI, o clero empregava contra os senhores um
eclesiástica, mas também os clérigos tonsurados. A novo processo, a interdição, que consistia em suspender
oficialidade reclamava ainda os processos das pessoas todas as cerimônias religiosas em todos os domínios
que a Igreja tivesse resolvido tomar sob a sua proteção, do senhor em luta contra a Igreja, a fim de obrigar os
como os peregrinos, os cruzados e mesmo as viúvas e súditos a fazerem pressão sobre ele e levarem-no assim
os órfãos, na qualidade de ‘pessoas miseráveis’. 2ª) a submeter-se às vontades da Igreja. Os prelados
‘Pela razão da matéria’, a justiça da Igreja pretendia haviam experimentado a partir do século XII,
julgar no cível os processos dos leigos cujo objeto especialmente na região do Ródano, impedir as guerras
dissesse respeito a um dos sacramentos administrados particulares impondo a “paz de Deus”, reduzida depois
pelo poder espiritual, as questões de casamento e à trégua de Deus, de três dias por semana. Os relatos
separação de corpos, as sepulturas e os testamentos, contemporâneos, porém, não fornecem exemplo que
as questões do estado civil, porque o estado das pessoas a mostre aplicada na prática (faz-se alusão a ela na
só era constatado pelo ato de batismo. No crime, o Normandia, a propósito do Direito e Justiça do duque).
oficial procedia judicialmente contra todos os atos (166/167).
interditos pela Igreja, como a heresia e a feitiçaria, a
2.2.4. O Tribunal da Inquisição Nasceu na França
violação de juramento, a blasfêmia, o adultério, e os
atentados aos costumes, a usura, o fato de trabalhar Para descobrir mais facilmente os heréticos
aos domingos e os de não observar a quaresma... Era albigenses, o Papa criou uma justiça especial chamada
o que se chamava “entregá-los ao braço secular”. A “inquisítio” (investigação) da atividade herética. Esta
partir do século XI, estabelecera-se o costume de comissão, nomeada pela Santa Sé com a missão de
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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

procurar os heréticos, tinha o poder de substituir todos onde se aplicava o Direito romano para os ‘países de
os tribunais leigos ou eclesiásticos. Empregava um Direito escrito’. Os bailios e os senescais, encarregados
processo de inquisição (isto é, de investigação) de substituir o rei nas diferentes partes do domínio,
contrário ao costume do tempo, o qual não permitia o continuaram a ser cavaleiros nobres a quem repugnava
julgamento de um homem desde que contra ele senão o trabalho da escrita necessário num Tribunal. Faziam-
apresentasse um acusador. Perseguia “ex-officio” se substituir, então, por dois intendentes, o intendente
quem quer que fosse denunciado como suspeito, e civil para os processos entre particulares, e o intendente
julgava-o em segredo, condenando-o à penitência criminal para as questões penais. Ordinariamente eram
pública ou prisão perpétua numa cela ou ainda à morte burgueses com estudos de Direito e que compareciam
na fogueira. Estabelecida a princípio no sudoeste da de toga; chamavam-lhes ‘juízes de toga’, e eles faziam-
França, esta justiça estendeu-se a quase todos os se, por sua vez, ajudar pelos mais antigos advogados
países católicos, ficando célebre sob os nomes de Santo do Tribunal, e que lhes serviam de conselheiros e muitas
Ofício e Inquisição” (173). vezes preparavam as sentenças. Assim se criara uma
classe de juízes profissionais, com assento como
2.2.5. Evolução da Justiça e do Direito conselheiros nos Parlamentos, ou como juízes nos
Ao mesmo tempo em que o rei aumentava o tribunais de bailiado ou de senescalia. Os litigantes
seu poder material pelo imposto e pelo exército não tinham o Direito de vir explicar pessoalmente as
permanente, estendia-o ainda mais ao utilizar-se do suas questões perante o Tribunal; eram representados
seu Direito de servir a justiça, reconhecido em todos pelos procuradores que preparavam os processos e
os tempos como uma parte essencial das funções reais. pelos advogados que o defendiam. O bailio real tomou-
Os negócios haviam-se complicado de tal modo, que o se na França o mais antigo centro de administração
rei não podia exercer pessoalmente a sua autoridade, local, onde se discutiam os negócios da região, e era
fazendo-se então substituir por agentes, aos quais dirigido, não por nobres, mas por uma categoria de
delegava uma parte do seu poder de julgar. Os legistas escolhidos entre os burgueses da região. Todos
delegados que haviam substituído diretamente o rei esses burgueses, juízes, advogados e procuradores,
em Paris formavam um corpo chamado Parlamento, haviam feito estudos de Direito nas universidades ou
separado do conselho do rei, e conservavam o título aprendido o ofício pela prática. Chamavam-lhes ‘gente
de conselheiros. O Parlamento de Paris julgava em de toga’ ou ‘homens da lei’’. Estas pessoas, sempre
grau de apelação todos os processos cíveis e criminais ocupadas em estudar livros de Direito, autos escritos
que haviam passado pelos tribunais inferiores de todo ou peças de processo, trouxeram ao Tribunal hábitos
o velho domínio real, – excetuada a Normandia, que de espírito muito diferentes daqueles dos nobres – e
conservava o seu antigo Parlamento em Rouen, e o mesmo dos almotacéis das cidades – que julgavam
Languedoc que tinha em Toulouse um Parlamento segundo a tradição; eles modificaram profundamente

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a maneira de distribuir a justiça. (SEIGNOBOS, Direito romano exercia-se muito desigualmente sobre
1938:192/193). as diversas partes do Direito. O que menos mudou foi
o Direito privado da família e das sucessões. A tradição
2.2.6. Juízes Profissionais: Origem no Norte da França conserva a comunidade dos bens
entre os esposos, a dotação da viúva, a partilha igual
Houvera até então na França uma espécie da herança entre os filhos e a limitação do Direito de
diferente de Tribunal para cada categoria de pessoas: testar que, do uso em Paris, passaram para o Código
a Corte do Senhor para os nobres vassalos, outra Civil francês. O Direito romano penetrou, contudo, na
justiça para o pessoal do campo, a corte de burgueses prática dos contratos, fazendo admitir que um contrato
para as pessoas da cidade, e Tribunal da Igreja para é fundado não sobre fórmulas solenes, mas sobre
os clérigos. Cada Tribunal julgava de acordo com um intenção das partes, podendo ser constatada por um
costume, que diferia não apenas em relação à condição ato escrito ou mesmo por uma simples promessa com
da pessoa sujeita à justiça, mas também conforme as juramento. Ele torna mais frequente o uso do
localidades. Os dos tribunais da igreja e das regiões testamento e consolida mesmo a possessão feudal
de Direito escrito do Sul, derivavam do antigo Direito aplicando-lhe a teoria do ‘domínio útil’, (193/195).
romano: mas nos restantes tribunais o juiz não
dispunha de outra regra além do costume transmitido A justiça exercitada pelos Parlamentos no século XVI
pela tradição, e praticamente baseava-se, para cada era venal e desinteressada do Justo:
questão, na lembrança dos julgamentos proferidos em Todas as justiças dos senhores, baseadas na sua
casos análogos, coisa que. se chamava um precedente. categoria de proprietários, conservavam o Direito de
O juiz, ajudado pelas recordações dos antigos julgar os habitantes do domínio; o juiz nomeado pelo
habitantes da região, devia “encontrar o julgamento”, senhor, a maioria das vezes ignorante do Direito,
isto é, a regra a aplicar e a sentença a proferir. O regime continuava a explorar os camponeses por meio das
transformou-se pouco apouco, quando os julgamentos custas do processo e das multas. Das sentenças destes
passaram a ser ditados por juízes de profissão, e os juízes de aldeia podia-se apelar para o juiz real (do
processos defendidos pelos advogados que haviam bailiado ou da senescalia), que tomava por conselheiros
estudado o Direito romano. No costume permaneceu os advogados de seu Tribunal. No reinado de Henrique
sempre a regra oficial do Parlamento de Paris e dos II, o bailiado foi transformado numa sede presidial e o
tribunais do domínio real, excetuando o Sul. O rei rei vendeu aos conselheiros o cargo de conselheiros-
proibiu mesmo o ensino do Direito romano, nunca juiz, que lhes atribuía o poder oficial de julgar
substituiu inteiramente a tradição, mas uma parte das definitivamente os processos civis. Os processos civis
suas regras foi pouco a pouco sendo adotada pelas mais importantes e os criminais eram levados em
cortes da Igreja e pelos tribunais do rei. A ação do apelação aos Parlamentos, que continuavam sendo o

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Tribunal supremo, exceção feita para as causas então redigidos em latim, passaram a ser redigidos em
privilegiadas que podiam ser levadas até ao Grande francês, e os processos civis dos leigos julgados desde o
Conselho criado no século XV. O Parlamento de Paris século XII pelo Tribunal eclesiástico do juiz eclesiástico,
conservava o seu poder sobre todo o antigo domínio foram transferidos para os tribunais seculares do rei. O
real, salvo a Normandia e o Languedoc. A sua função latim, língua da Igreja, e a jurisdição eclesiástica,
essencial era receber as apelações, isto é, rever as Tribunal da Igreja, foram afastados da vida pública e
sentenças dadas pelos tribunais ordinários. Cada substituídos, na mesma ocasião, pela língua nacional e
Parlamento aplicava a lei à sua maneira, e não houve pelo Tribunal nacional. (232).
até a Revolução nenhum órgão para manter a unidade
da jurisprudência. (230/231). Século XVII – nascimento do Conselho de Estado para
processos de interesse do Estado:
Juízos colegiados e duplo grau de jurisdição – Francês Para os detalhes da administração do reino,
jurídico – Justiça estatal e não eclesiástica: Luís XIV conservara alguns corpos chamados
A partir desse tempo fixaram-se dois hábitos na conselhos, compostos de gente de toga. O único que
justiça francesa: 1 – sentenças são dadas por um corpo deixou traços perduráveis no regime da França foi o
que forma o Tribunal; 2 – os tribunais formam uma Conselho de Estado, encarregado ao mesmo tempo
hierarquia de dois ou vários graus chamados instanciais, de preparar as ordenações e os regulamentos e de
de maneira que o pleiteante ou o condenado possa julgar e os processos entre os particulares e o Estado.
sempre apelar da sentença do Tribunal inferior para o Esse Tribunal que subsistiu até agora com as mesmas,
Tribunal superior que pronuncia a sentença definitiva. atribuições, continuou sendo Tribunal supremo da
O juiz de paz único, o júri sem apelo foi criado depois justiça administrativa, agindo sobre um processo muito
da Revolução, segundo o modelo inglês. Para as questões mais expedito que o dos tribunais ordinários. Esta
comerciais foram criados, segundo os italianos os juízes forma de justiça, criação francesa oposta à tradição
consulares (origem de tribunais de comércio). Para dos países de língua inglesa, serviu de modelo a quase
julgar o banditismo uma justiça soberana, distribuída todos os países do continente. No interior do reino, o
pelo “prévôts dês maréchaux” (230) que ficaram poder do rei era exercido de fato pelos “intendentes
encarregados da polícia das estradas e da perseguição de justiça, polícia e finanças”. (287).
aos vagabundos. Foi esta a origem das “prévôtales”
(231) mais tarde transformadas em conselho de guerra 2.2.7. Fortalecimento do Judiciário: Época de Luís XV
e do pessoal da polícia chamado “mar-echaussée” (232)
de que saiu a gendarmeria francesa. A prática da justiça A autoridade real era tão tibiamente exercida
foi transformada no reinado de Frederico I por duas que não impunha obediência aos súditos, e, durante
inovações de grande alcance. Os atos Judiciários, até mais de meio século, o Parlamento de Paris pode viver

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impunemente em conflito constante com os ministros depois de 1750, o Parlamento aumentou as suas
do rei, servindo do velho costume das representações pretensões e justificou-as por meio de teorias novas
restabelecido em 1715. Os éditos, que faziam nesse inspiradas no exemplo da Inglaterra. Declarou, em
tempo a vez de leis, eram enviados ao Parlamento que 1753, o rei ligado aos seus súditos por ‘uma espécie de
os transcrevia em registros, único meio então de contrato’, e disse mais que ‘o príncipe encerrado em
publicá-los. Antes de registrá-los, o Parlamento podia seu palácio não podia conhecer a verdade’ e que o
fazer observações chamadas “remontrances” Parlamento tinha obrigação de dizer-lha. Acabou por
(representações ao rei), às quais o rei dispensava se inculcar o ‘órgão representativo’ da nação e
atenção que entendia. Pretendia-se fazer executar o reclamou o poder de ‘verificar livremente’ os éditos
edito ia pessoalmente ao Parlamento “tenir un lit de da criação dos impostos, o que implicava no Direito
justice” (44), para ordenar o registro. Quando o de recusá-los. Criado somente para aplicar a lei,
conflito se tornava agudo, acontecia o Parlamento arrogava-se o Direito de fazê-la. Os outros Parlamentos
deixar de distribuir a justiça de modo a irritar os da França, excitados pelo exemplo do de Paris,
litigantes contra os ministros. Às vezes mesmo, os declararam-se solidários e sugeriram que todos os
membros do Parlamento davam em massa a sua Parlamentos do reino formassem uma corporação
demissão. O governo não a aceitava por não poder única. Entraram depois em conflito com o intendente
indenizá-los do valor dos cargos, mas transferia o ou o governador da sua província e tentaram impedir
Parlamento para uma pequena cidade onde os a coleta dos impostos. O Parlamento de Paris,
magistrados se aborreciam, e ambas as partes, aproveitando um processo contra um jesuíta, exigiu que
fatigadas desses manejos, solucionavam o conflito. As lhe dessem a conhecer os estatutos da Companhia de
representações eram secretas, mas pediam-se cópias Jesus, declarou-os contrários às leis fundamentais do
ao escrivão do Parlamento e essas cópias circulavam reino e obrigou o governo a expulsar os jesuítas e a
manuscritas ou mesmo impressas. Nesse tempo em que fechar os seus colégios onde era educada a maioria dos
nenhuma informação sobre os negócios públicos filhos de famílias ricas. Obteve assim um grande sucesso
chegava até à população, as representações eram um sobre o partido da Corte, devotado à Companhia de
sistema de publicidade que dava a conhecer os atos Jesus, e preparou uma geração de homens libertos da
dos ministros e os expunha à crítica. Quando o povo influência dos jesuítas e favoráveis às ideias galicanas.
de Paris estava descontente, era esse um meio eficaz Os conflitos entre os Parlamentos e os ministros, que a
de exercitar a opinião pública contra o governo. O pouco e pouco se foram tornando mais graves, duraram
Parlamento começara a declarar que, sendo ‘guardião até ao momento em que um ministro resoluto e sem
das leis fundamentais do reino’, se sentia na obrigação escrúpulos, Maupeou, aproveitando-se de lhe terem
de impedir os éditos contrários a essas leis, que, aliás, recusado tomar parte na assembleia, mandou prender
não definia. Quando Luís XV se tomou impopular, os oponentes e, desistindo, substituiu o Parlamento de

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Paris por vários tribunais formados de juízes dóceis entre havia em toda a Europa país algum cuja justiça comum
os quais foi dividida a alçada, evidentemente muito dependesse menos do governo que na França, mas
grande, do Parlamento. (303/305). tampouco havia um só país com tantos tribunais de
exceção. Estas duas coisas estavam mais estreitamente
Judiciário contribuiu para haver a Revolução Francesa: ligadas do que imaginam geralmente. Como o rei quase
O conflito começou quando a Assembleia dos nada podia fazer em relação aos juízes, não tendo o
notáveis, reunida em 1787, recusou a aprovar um novo Direito de revogá-los nem transferi-los para outro lugar
imposto igual para todos; continuou quando o e nem mesmo elevá-los a um posto superior; numa
Parlamento de Paris se opôs aos impostos e aos palavra, como não podia dominá-los nem pela ambição
empréstimos, e tornou-se agudo quando esse nem pelo modo, sentiu-se rapidamente tolhido por esta
Parlamento, excitado por uma luta de ano e meio deu independência. Isto o levou a retirar-lhes o
fórmulas estrangeiras à tradição francesa, sugeridas conhecimento dos negócios que interessavam
pelo exemplo inglês. ‘O princípio da Monarquia diretamente o poder e criar para seu uso particular
francesa reside em que os impostos sejam tolerados uma espécie de Tribunal independente, assim
por aqueles que os devem suportar’. ‘A liberdade não oferecendo aos seus súditos uma aparência de justiça
é um privilégio, é um Direito’. ‘A França é uma sem assustá-los pela realidade. Nos países como a
monarquia governada pelo rei de acordo com as leis’. Alemanha, onde a justiça comum jamais tinha sido
‘O Direito de cada cidadão consiste em não ser tão independente do governo quanto os tribunais
condenado... antes de ser entregue aos juízes franceses de então, não se tomou nenhuma precaução
competentes’. (323/324). como esta e não houve nunca uma justiça
administrativa. O príncipe dominava os juízes a ponto
CAPPELLETTI (1999:54/55) afirma o controle de de não precisar de comissários. Quem lê os decretos e
constitucionalidade das leis exercido pelos parlamentos (juízos declarações do rei publicados no decorrer do último
de 2° grau) quando estes diziam ‘exatamente em face dos século da monarquia, como também os decretos do
soberanos franceses seu poder e dever d’examiner dans les Conselho promulgados na mesma época, não encontra
édits et autres lois qui nous sont apportés s’il n’y a rien de muitas atas em que o governo, após ter tomado uma
contraire ... aux lois fondamentales du royaume.’ (examinar medida, não acrescente que as contestações que
dentre as editadas e outras leis que são trazidas a nós se não poderia gerar e os processos que poderia provocar
existe nada de contrário... às leis fundamentais do reino). exclusivamente da alçada dos intendentes e do
TOCQUEVILLE (1994), afirma que a justiça conselho. A fórmula habitual é a seguinte: ‘Sua
Administrativa já existia na época do Antigo Regime: Majestade manda, além do mais, que todas as
A justiça administrativa e a estabilidade dos contestações que poderão surgir quanto à execução
funcionários são instituições do antigo regime. Não do presente decreto, circunstâncias e dependências

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sejam apresentadas ao intendente para que as julgue, vejamos muitas vezes o intendente ou o conselho puxar
exceto quando houver recurso ao conselho. Proibimos para si processos cuja ligação com a administração
aos nossos tribunais e cortes de justiça que deles pública é quase invisível ou até inexistente. Um gentil-
tomem conhecimento´. Nos negócios regulamentados homem que brigou com seu vizinho e que não ficou
por velhos costumes ou leis onde esta precaução não satisfeito com a decisão dos juízes pede ao conselho
fora tomada, o conselho intervém constantemente por que examine o caso. O intendente que recebeu o pedido
via de evocação, retira das mãos dos juízes togados o responde: ‘Apesar de só se tratar aqui de Direitos
negócio que interessa a administração e deles toma privados cujo conhecimento é da alçada dos tribunais,
conta. Evocações deste tipo enchem os registros do Sua Majestade sempre pode, quando assim o quer,
conselho. Pouco a pouco a exceção generaliza-se e encarregar-se do exame de qualquer caso sem prestar
acaba transformada em teoria. Não promulga mais contas de seus motivos a ninguém. Toda a gente do
leis e sim uma máxima de governo destinada a povo que perturbou a ordem por algum ato de violência
demonstrar que todos os processos com algum interesse é mandada para o preboste através de uma avocação.
público ou administrativo, de agora em diante, não Os motins que o alto custo das sementes gerou tantas
são mais da alçada dos juízes togados, cujo único papel vezes levaram a avocações deste tipo. Nestes casos, o
é julgar interesses particulares. Neste pormenor, só intendente chama certo número de graduados e forma
encontramos a fórmula, pois a ideia pertence ao antigo uma espécie de conselho da Prefeitura improvisado
regime. Desde então, a maioria dos negócios litigiosos que ele próprio formou e que fica encarregado do
gerados pela arrecadação do imposto são da julgamento criminal. Encontrei sentenças assim
competência exclusiva do intendente e do conselho. O decretadas condenando pessoas aos trabalhos forçados
mesmo acontece com tudo que se relaciona com a e até à morte. Processos julgados pelo intendente ainda
política dos transportes e viaturas públicas, da limpeza são frequentes em fins do século dezessete. Os
pública, da navegação nos rios etc. Geralmente são legisladores modernos declaram que o Direito
os tribunais administrativos que julgam todos os administrativo progrediu muito desde a Revolucão;
processos de interesse das autoridades públicas. Os ‘Antes se confundiam os poderes judiciais e
intendentes zelam cuidadosamente para que esta administrativos: foram desemaranhados e colocou-se
jurisdição excepcional se estenda sempre mais; cada um deles no seu devido lugar”. Para apreciar o
advertem o controlador geral e guiam o conselho. A progresso do qual aqui falam é preciso não esquecer
razão apresentada a respeito por um dos magistrados que se, por um lado, o poder Judiciário do antigo
merece ser citada: ‘O juiz togado’, diz ele, ‘obedece a regime ultrapassava sem cessar a esfera natural de
regras fixas que o obrigam a reprimir um fato contrário sua autoridade, por outra, nunca o exercia por
à lei, mas o conselho sempre pode fugir às regras com completo. Se examinarmos tão-somente uma das duas
uma finalidade útil´. ‘Este princípio faz com que coisas em pauta, teremos uma ideia incompleta e falsa

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do objeto. As vezes permitiam aos tribunais decretar cobertura aos seus agentes recorrendo a medidas
regulamentos de administração pública, o que era ilegais e arbitrárias, ao passo que desde então pode
evidentemente fora de sua alçada ; outras vezes eram deixá-las infringir legalmente as leis! Quando os
proibidos de julgar verdadeiros processos, o que os tribunais do antigo regime queriam processar um
excluía do setor de sua competência. É bem verdade representante do poder central, surgia geralmente um
que expulsamos muito indevidamente a justiça da decreto do conselho que liberava o réu de seus juízes
esfera administrativa onde o antigo regime a deixou mandando-o comparecer perante comissários
penetrar, mas ao mesmo tempo o governo intrometia- nomeados pelo conselho, pois, como o escreveu um
se sem cessar na esfera natural da justiça e esta conselheiro de estado dessa época, os juízes teriam
situação perdura como se a confusão dos poderes não prevenção contra o acusado e isto comprometeria a
fosse tão perigosa deste lado quanto do outro e talvez autoridade do rei. Avocações como esta não ocorriam
até pior. Não nos esqueçamos de que a intervenção da vez ou outra e. sim todos os dias, não somente em
justiça na administração só prejudica os negócios, ao relação aos funcionários graduados como também aos
passo que a intervenção da administração na justiça menos importantes. Bastava estar ligado à
corrompe os homens que se tornam ao mesmo tempo administração por um fio qualquer, por mais ténue que
revolucionários e servis. Uma das nove ou dez fosse, para nada ter que temer. Um capataz do serviço
constituições estabelecidas “ad aeternum” na França de viação e obras encarregado de fiscalizar a corvéia
nos últimos sessenta anos diz expressamente que é processado por um camponês que maltratou. O
nenhum funcionário da administração poderá ser conselho toma conta do caso e o engenheiro chefe
julgado pela justiça comum sem que o processo tenha escreve confidencialmente ao intendente: ‘Para falar
sido previamente autorizado. Acharam este artigo tão a verdade, o capataz é muito culpado, mas não é uma
bom que quando destruíram a constituição da qual razão para dar sequência ao caso, pois é da maior
fazia parte tiveram o cuidado de salvá-la das ruínas e importância para a administração da viação e obras
que desde então sempre o colocaram cuidadosamente que a justiça comum não ouça nem receba queixas
fora do alcance dos revoluções. Os administradores dos corveáveis contra os capatazes, pois isto
ainda costumam chamar o privilégio que este artigo perturbaria as obras por processos contínuos gerados
lhes confere uma das grandes conquistas de 1789, mas pela animosidade pública contra nossos funcionários.
nisto estão novamente enganados pois o governo da Numa outra circunstância, o proprio intendente escreve
antiga monarquia tinha tantos cuidados quanto os que o seguinte ao controlador geral a propósito de um
temos hoje para evitar aos funcionários, o dissabor empreiteiro do governo que pegou no campo do vizinho
de se apresentarem na justiça como simples cidadãos. ferramentas das quais se serviu: ‘Nunca repetirei
A única diferença essencial entre as duas épocas é a bastante quão nocivo seria para os interesses da
seguinte: antes da Revolução, o governo só podia dar administração entregar seus funcionários às decisões

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da justiça comum, cujos princípios jamais concordarão avanço nas concepções da pessoa humana como
com os nossos’. Estas linhas foram escritas há detentora natural de Direitos de igualdade e liberdade,
exatamente um século, mas temos a impressão de que sobrepondo às instituições o princípio da legalidade e
os administradores que as redigiram são nossos reconhecendo a soberania do povo para instituí-las.
contemporâneos. (TOCQUEVILLE, 1994:89/91). Ela marcou o advento de uma nova era histórica
(Contemporânea) para a humanidade, tendo sido
TOCQUEVILLE, falando dos “cadernos de queixas”, marcante a sua influência nas instituições de outros
menciona as reivindicações dos nobres com relação ao Poder países, em cujas constituições foram inseridos os
Judiciário, e diz: princípios básicos da Revolução. Esta se firmou em
Poder Judiciário – Do mesmo modo, na dois pilares básicos: a força e disposição do povo
organização Judiciária, a tendência é subordinar, pelo sofrido e revoltado, a ação patriótica da Assembleia
menos em grande parte, o poder dos juízes da nação, Nacional, nutrindo ideias libertárias dos filósofos e
através da assembleia. Assim, diversos cadernos escritores em voga, sobretudo Voltaire e Rousseau. [...]
declaram: Que os magistrados serão responsáveis A Revolução rompeu definitivamente com o passado,
perante a nação representada em assembleia; que só decretando a extinção imediata de instituições
poderão ser destituídos com o consentimento dos tradicionais e privilégios como, por exemplo, os
estados gerais; que nenhum Tribunal poderá, sob Direitos e regalias da nobreza; as corporações de
pretexto algum, ser perturbado no exercício de suas ofícios, inclusive a ordem dos advogados; alguns
funções sem o consentimento destes estados; que as impostos e taxas que contrariavam os princípios
prevaricações do supremo Tribunal como também dos revolucionários (“taille, aides, gabelle, dîme”); rendas
parlamentos serão julgadas pelos estados gerais. senhoriais e Direitos feudais, fixos ou casuais. A Igreja
Segundo a maioria dos cadernos, os juízes só devem sofreu duro golpe com a Revolução, que nacionalizaram
ser nomeados pelo rei após um pedido feito ao povo. lhe os bens e instituiu a constituição civil do clero,
(TOCQUEVILLE, 1994: 208). intervindo nas circunscrições eclesiásticas, suprimindo
a autoridade e a jurisdição dos bispos. Estava, portanto,
SILVA (1994) analisa com clareza: extinta a jurisdição eclesiástica, assim como a senhorial.
A Revolução Francesa talvez tenha sido o A justiça real tornara-se, por sua vez, incompatível com
maior movimento cívico que a humanidade conheceu. as ideias revolucionárias. Um decreto de 03/11/1789
Não é porque tenha resolvido os problemas sociais, colocava em vacância todos os parlamentos, mantendo
que não tenha tido erros e frustrações; mas teve o apenas em funcionamento as câmaras de plantão; aos
mérito inaudito da ruptura fatal com as instituições 29 do mesmo mês e ano todos os provimentos de cargos
até então vigentes, cujas principais características da judicatura foram suspensos, mantendo-se
eram os privilégios, estabelecendo considerável provisoriamente as jurisdições inferiores (municipais).

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Após decidir que os juízes seriam eleitos pelo povo, único pessoalmente, cada qual segundo a sua consciência. O
soberano, e que o rei não o poderia recusar, a Assembleia mesmo sentimento animava os eleitores que repeliam o
instituiu nova organização Judiciária por lei de 24/10/ costume inglês de se combinarem para conseguir a
1790. Em consequência foram extintos todos os tribunais eleição de um candidato, ao que se dava o nome de
especiais (“..amirautes, queiries, maitrise des eaux et ‘cabala’. Estas prevenções contra a organização dos
forêts, bureaux des finances, cour des aides, cour des partidos persistiram até o fim da Revolução. A
monnaies, chambre des comptes”); todos os tribunais de Assembleia, cingindo-se aos pedidos das ‘listas’, discutiu
privilégios (“requêtes de lal’hôtel, les officialités, le grand e votou uma Constituição. Foi esta a primeira vez que
conseil, 1. Juridiction prévôtale, le Tribunal des o governo passou a ser regulado por meio de um texto
maréchaux, e outras”); e os tribunais ordinários formal, e a partir de então, nunca mais a França deixou
(“vigueries, châtellenies, prévôtés, vicomtés, de ter, como os Estados Unidos, uma constituição
sénéchausées, baillages, châtelet, présidiaux, conseil escrita. Os partidários da igualdade chamavam-se a si
provincial d’Artois, conseils supérieures et parlements”). mesmos de patriotas (o que então significava amor pelo
Assim desapareceu esse grande corpo Judiciário, nascido bem público). (SEIGNOBOS, 1938:330/331).
com a monarquia. É óbvio que se aboliram radicalmente
a venalidade e a hereditariedade dos ofícios públicos e 2.2.8. Novo Regime
da Magistratura, instituindo, quanto a esta última, a ‘
escolha dos juízes por eleição. (SILVA, 1994: 96/97). Ao mesmo tempo em que os privilégios, a
Assembleia suprimira todas as autoridades
Esta segunda parte será baseada, sobretudo, em obras estabelecidas no interior do reino, intendentes,
de SEIGNOBOS (1938), BURKE (1989) e BACHELIER governadores, funcionários da justiça e das finanças,
(1994) que tratam das sucessivas modificações da vida dos juízes Parlamentos e os contratadores das ajudas’ (332).
impostas pelos sucessivos regimes políticos da França, da época
da Revolução Francesa até o final da segunda Guerra Mundial. 2.2.9. Revolução Francesa: Reforma da Justiça
SEIGNOBOS consigna:
A Constituição de 1791: Os membros da A unidade da nação francesa repousa desde
Assembleia recusaram também seguir o costume inglês então, não já na obediência a um mesmo rei, mas na
de se dividir abertamente em partidos, e os grupos de uniformidade das instituições aceitas pelos
representantes da mesma tendência que apareceram nas representantes da cada região na aplicação de
reuniões sucessivas sempre evitaram formar um partido, princípios comuns. A Declaração dos Direitos resumia-
chamado pelos adversários uma “facção”. Seu ideal, os numa fórmula de Direito natural. Os homens nascem
conforme os hábitos individualistas do povo francês, e morrem iguais em direitos”, sendo este também o
era uma reunião de homens imparciais, agindo sentido da divisa: ‘A nação, a lei, o rei’. Desde então o

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epíteto de real foi substituído pelo termo nacional. Este manter a ordem, de policiar e mesmo de cobrar os
sentido de unidade voluntária afirma-se desde 1789 impostos. O governo real nomeava apenas os ministros,
pelas Federações, formadas espontaneamente entre os os diplomatas e os oficiais do exército. (333/354).
guardas nacionais de diferentes cidades, e teve por Outras inovações:
símbolo a festa nacional da Federação celebrada O andamento dos negócios públicos foi
solenemente em Paris em 14 de julho de 1790, modificado de acordo com princípios novos. Os negócios
aniversário da tomada da Bastilha, sobre o altar da dos departamentos e das municipalidades deviam ser
Pátria erguido no Campo de Marte. O termo federação, resolvidos pelas autoridades locais, sem necessidade de
vindo dos Estados Unidos, exprimia a adesão aprovação do governo. A justiça foi declarada gratuita,
voluntária dada ao novo regime pelas regiões e remodelada de maneira a abreviar os processos e a
autônomas reunidas para formar a França. (333). diminuir-lhes os gastos. Do antigo regime subsistia o
princípio de que um Tribunal é formado de vários juízes,
2.2.10. Eleições de juízes conservando-se também o pessoal auxiliar dos
advogados, procuradores, escrivães e oficiais de justiça.
O pessoal encarregado de exercer a autoridade Somente as categorias de jurisdição foram suprimidas,
pública foi a princípio recrutado, como nos Estados sendo equiparados todos os tribunais e fazendo-se a
Unidos, por eleição (direta ou em dois graus). Este foi apelação de um Tribunal para outro. Foram criadas três
o sistema aplicado não somente aos administradores novas formas de justiça: 1ª) Com o nome inglês de juiz
de departamento e de distrito e às municipalidades das de paz, um juiz por cantão ficou encarregado de
comunas, mas também aos juízes, aos recebedores dos conciliar as divergências de menor importância ou de
distritos, e mais tarde mesmo aos bispos e aos curas. julgá-las rapidamente; 2ª) A justiça criminal foi imitada
O Direito de sufrágio era apenas concedido aos do regime inglês das “assises” presididas por um juiz,
contribuintes, sistema que afastava do voto os que se com a ajuda do júri formado de cidadãos; 3ª) Uma
ocupavam dos serviços domésticos e quase todos os criação puramente francesa, o “Tribunal de Cassation”
artesãos. Uma contribuição mais alta do que para o foi encarregado de manter a unidade da jurisprudência
primeiro grau era exigida para se poder ser eleito eleitor em toda a França, anulando os julgamentos contrários
segundo grau. Os eleitos eram naturalmente homens à lei. (334/335).
da região conhecidos dos eleitores, especialmente
burgueses notáveis, gente da lei, negociantes ou 2.2.11. Consulado
proprietários. A Revolução dava a todas as regiões de
França administrações eletivas autônomas, inteira- Da organização Judiciária criada pela Revolução,
mente independentes do poder central, como nos apenas foi conservado o Tribunal de cassação (que foi
Estados Unidos, e conferia-lhes o poder efetivo de chamado de corte), os juízes de paz e o júri que operava

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

em sessões periódicas. A eleição foi abolida e todos os já de um rei, mas de um governo. Era uma restauração
juízes deviam ser nomeados pelo governo. Havia um parcial do antigo regime, mas com um pessoal
Tribunal para cada “arrondissement”, distribuindo a radicalmente diferente. Os antigos proprietários de
justiça em primeira instância, e o recurso fora cargos, que constituíam uma aristocracia local escolhida
restaurado, como no antigo regime, perante as cortes em parte na nobreza de toga, sentiam-se independentes
de apelação, instaladas ordinariamente no mesmo lugar do governo central; obedeciam-lhe mal e mantinham
dos antigos Parlamentos e cujos membros retomaram as práticas locais contrárias à unidade. Pelo contrário,
o antigo nome de conselheiros. O corpo dos advogados os novos agentes vindos da burguesia média formavam
e escrivães, oficiais de justiça e procuradores, foi um corpo nacional de funcionários recrutados em todo
reconstituído. As finanças foram distribuídas por vários o território; estranhos aos lugares onde exerciam as suas
serviços, cada um dos quais entregue a um chefe funções dependiam estreitamente do governo, do qual
residente em Paris, encarregado de uma só espécie de recebiam a profissão que era o seu meio de existência.
operações e comando, gente bastante numerosa e (356/357).
bastante poderosa para fazer a coleta de impostos. Era
um novo corpo de funcionários nomeados e demitidos 2.2.12. Centralização Administrativa
pelo governo, diretores, inspetores, controladores,
recebedores encarregados de distribuir e cobrar as Pela primeira vez, a nação francesa era
contribuições, recebedores e tesoureiros encarregados administrada e julgada por verdadeiros funcionários,
de reunir os fundos e de transmiti-los, recebedores e instrumentos dóceis do poder central, e só a partir
verificadores do registro, empregados das alfândegas. desse momento ela ficou submetida a um regime
Os impostos sobre as bebidas e o monopólio do tabaco verdadeiramente centralizado. Esta centralização, tão
foram restaurados sob o nome de Direitos reunidos, e diferente do antigo regime como do regime autônomo
coletados por funcionários especiais. Estes agentes, da Revolução, ficou sendo até os nossos dias o
estranhos à região em que operavam, quase todos arcabouço permanente da vida pública sob os diferentes
recebendo uma percentagem sobre as importâncias que regimes políticos. (357).
arrecadavam, tinham interesse em aumentar o
rendimento dos impostos muito mais do que em poupar Passaremos a citar BURKE, com indicação das páginas
a população. Assim foi instituído um sistema ao final de cada trecho.
centralizado de agentes do governo oposto ao regime A independência dos Parlamentos (tribunais de
de autonomia eletiva criado pela Revolução. A nação 2ª instância, com funções reguladoras e adminis-
já não tomava parte na direção dos seus negócios, nem trativas): A fim de suprimir todos os laços entre a
na escolha dos seus chefes locais, e os franceses Coroa e a justiça pública e a levar todo o país a
deixavam de ser cidadãos para se tomarem súditos, não obedecer passivamente aos ditadores de Paris, foram

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

abolidas aquelas antigas câmaras judiciais tão cheias Referindo-se à extinção dos ofícios e a criação das
de independência: os Parlamentos. (133). “esses chamadas “Câmaras de Férias”:
Parlamentos impuseram, senão os melhores, pelo Assim, o golpe foi muito duro, pois, por um
menos consideráveis corretivos aos excessos e vícios decreto de 3 de novembro de 1789, a jovem Assembleia
da monarquia.” (192). Constituinte tomou a decisão que se conhece bem:
Dependência dos juízes do período napoleônico “todos os parlamentos continuarão em férias e aqueles
em relação ao imperador: A atual organização é que retomariam retomarão o estado de férias”. As
estritamente Judiciária. Ao invés de imitar a antiga Câmaras de Férias assegurariam a partir daí o
monarquia, fazendo com que os juízes sentassem no funcionamento da Justiça.” (11).
banco da independência, o atual governo os reduziu à
obediência mais cega. (193). Com a extinção da Ordem dosAdvogados, por força de lei
revolucionária, alguns dos advogados foram convidados a integrar os
Desconfiança em relação à Justiça Administrativa Tribunais, que passaram a ser compostos somente por eles.
(segundo alguns autores, criada com a Constituição de 1791): Pelo mesmo decreto de supressão de 2 de setembro de
É curioso observar que os órgãos administrativos 1790, estava dito que por homem da lei era necessário entender
foram cuidadosamente retirados da jurisdição desses os antigos advogados graduados. Assim os futuros lugares de
novos tribunais. Isso significa retirar do império das leis juízes eleitos seriam reservados aos advogados, “a conquista
aquelas pessoas que deveriam estar, com maior razão, da Magistratura valia bem o sacrifício das ordens”. (12).
totalmente submetidas a elas. Os indivíduos que lidam A eleição de juízes permaneceu “oficial” (na prática, era
com o dinheiro público são os que mais deveriam ser diferente) por nove anos, ou seja, até antes de Napoleão tomar
estritamente mantidos dentro da sua competência... o poder em 1799:
Esses órgãos administrativos serão os instrumentos a A eleição permanecerá como o sistema oficial
serem utilizados pelos atuais chefes franceses para em vigor de 1790 a 1799. (15).
passarem da democracia à oligarquia. (194). Iniciando a escolha de juízes dentre os que
“exerceram a profissão de homem da lei”, um decreto
ROYER fornece algumas informações sobre o período de outubro de 1792 foi claro no sentido de que a partir
de 1789 a 1815, ou seja, do início da Revolução Francesa até o de então será suficiente ter 25 anos de idade, (p. 18),
final do império napoleônico. Segundo ele, quando explodiu a mostrando que até os advogados já tinham caído em
Revolução Francesa havia: desgraça logo no começo do regime revolucionário.
‘Cerca de 80.000 magistrados titulares de E, nas eleições do inverno de 1792/1793, “os eleitores
ofício, segundo estimativa de Raymonde Monnier, dos escolheram para o Tribunal de Distrito jacobinos
quais 1.300 parlamentares e perto de 70.000 juízes geralmente sem qualificação jurídica”. (18).
senhoriais’ (10) (ROYER: 1983).

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

2.2.13. Tribunal Revolucionário Da metade para o final do período revolucionário as


nomeações se tornaram a regra: De 1795 a 1799, as nomeações
Em 10 de março de 1793, Danton pronunciou vão se multiplicar para passar de cem por mês ... (22).
o grande discurso que se conhece bem sobre o tema Como se sabe, Napoleão Bonaparte não se
sejamos terríveis para evitar ao povo de ser ... e que tomou imperador logo de imediato, mas foi assumindo
iria terminar na criação do Tribunal Criminal gradativamente o domínio absoluto do poder de 1799
Extraordinário, oficializado a partir de 29 de outubro a 1814. Logo de início procurou por em prática suas
sob o nome de Tribunal Revolucionário. Composto de ideias, claras, quanto a ele próprio ser o centro de todo
cinco (posteriormente dezesseis) juízes e de dezesseis o poder, apagando o Legislativo e fazendo um
(mais tarde sessenta) jurados, seu pessoal era Judiciário bem organizado para aplicar as leis e ser
inteiramente nomeado pela Convenção sob proposição obediente a ele, o Imperador. Numa determinada fase
de dois Comitês de Salvação Pública e de Segurança da sua escalada pelo poder, Napoleão, transformado
Geral. (19). em Cônsul vitalício, deixou ao Senado o Direito de
nomear os juízes do Tribunal de Cassação, dispondo
As eleições de juízes duraram pouco tempo: que seriam escolhidos sobre uma proposição do
De uma maneira geral, a Convenção cessa Primeiro Cônsul (ele, Napoleão), que apresentaria três
progressivamente de recorrer ao corpo eleitoral. Por nomes para cada cargo vago. (24) Com o advento do
aplicação de vários decretos, de 7 de outubro de 1793 império napoleônico, foram trazidos “novos retoques
e de 19 de fevereiro e 13 de março de 1794, ela toma à organização judiciária”, dentre os quais os
por hábito de preencher ela mesma as vagas, ‘presidentes da Corte de Cassação, das Cortes de
introduzindo assim a conjugação, depois a concor- Apelação e de Justiça criminal seriam nomeados
rência entre os dois princípios da eleição e da vitaliciamente pelo Imperador’ (ROVER: 25).
nomeação dos magistrados. (20/21).
Resumindo o que aconteceria nos tempos futuros após
A essa altura os juízes eleitos são comandados totalmente 1815, MARTINAGE, é clara:
pela Convenção: Todos os regimes monarquistas que se
Mais importante ainda, a convenção, não sucederam após 1815, restauração, monarquia de
somente não respeita mais os juízes eleitos, mas, julho, 2° Império após o episódio da Segunda
sobretudo, ela interfere nas suas decisões. Jean Louis República, tentaram descartar os magistrados cujas
Haipérin bem mostrou a significação da prática dos tendências políticas não estão de acordo com aquelas
decretos de anulação dos julgamentos pela do regime da situação.
Convenção... (21). Ninguém pode negar que os advogados são
parte importantíssima da estrutura da Justiça. Vale a

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

pena lembrar um pouco da sua história, sobretudo dos Waldeck-Rousseau etc. Magistrados famosos do século
advogados de Paris. A profissão de advogado começou XIX podem ser representados nas pessoas de Anthelme
a ser regulamentada na França no século XIII e a Brillat-Savann (1755-1826) e Bavoux (1774-1848).
primeira lista de advogados parisienses, com cerca de
50 nomes, data de 1340. Rememoremos o famoso Affaire Dreyfus.
Depois de séculos postados sob o controle do (Caso Dreyfus) – o mais famoso erro Judiciário
Parlamento de Paris (órgão Judiciário de 2ª instância), de todos os tempos, sobre o qual talvez se tenha escrito
os advogados caminham para sua independência no mais que sobre o processo de Jesus ou de Sócrates.
século XVII, com a criação da Ordem dos Advogados, Alfredo Dreyfus, capitão israelita do exército francês,
dirigida por um “bâtonnier”. Com a Revolução foi acusado de ser o autor de uma carta oferecendo
Francesa, o “Barreau” de Paris é suprimido em 1790, documentos militares aos alemães, encontrada pelo
podendo, assim, qualquer leigo trabalhar como serviço de contraespionagem da França. Condenado
advogado, mas vários desses antigos advogados em 1894 como traidor, sofreu a deportação para a Ilha
continuam a trabalhar na profissão, inclusive do Diabo e a degradação militar. Começou então uma
defendendo clientes perante o terrível Tribunal campanha de enormes proporções pela revisão do
Revolucionário. Somente em 1810 a profissão de processo e que dividiu famílias, amigos e toda a França
advogado é novamente oficializada, mas o imperador em dois partidos, tal como o havia feito a Revolução
Napoleão Bonaparte, temeroso da independência dos Francesa. Os mais diversos interesses coligaram-se a
advogados, decide que os representantes da classe favor ou contra o acusado, fazendo dele uma bandeira
serão nomeados pelo Procurador Geral (membro do de luta. A nobreza, o clero, os antissemitas, os
Ministério Público). Em 1830, com Luís Felipe no poder, reacionários de todo tipo, os militares, eram contra a
é concedido aos advogados escolherem seus revisão, achando que ela colocava em jogo a honra
representantes, o que acontece até hoje. No ano de do exército francês caso as autoridades reconhecessem
1872 os Tribunais Administrativos separam-se da ter errado na condenação de Dreyfus, que fora julgado
Administração. Em 1900, as mulheres foram por um conselho de guerra, de cuja seriedade não se
autorizadas a advogar. podia duvidar. A esquerda, os liberais, os progressistas,
Na sociedade francesa do século XIX o papel eram pela revisão e conseguiram levar a julgamento
dos advogados foi tão relevante que a 3ª República foi o verdadeiro culpado, o comandante Esterhazy, que
chamada por alguns de “República dos Advogados”, foi absolvido. Zola então escreve a sua famosa carta ao
destacando-se as figuras de Désiré Dalloz (1795-1869), presidente da França, Loubert, intitulada ‘Acuso’, pela
Alexandre Duranton (1783-1866), Jean-Baptiste qual foi condenado e teve de se exilar na Inglaterra e em
Duvergier (1792-1877), Pierre Antoine Berryier (1790- que acusava o conselho de guerra que absolveu Esterhazy
1868), Gambetta, Jules Favre, Jules Grévy, Poincaré, de ter agido assim ‘por ordem superior’. Rui Barbosa,

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

seguindo a paixão que envolveu o mundo todo pelo dois anos. Em 1906, surgiu o primeiro concurso público,
processo, escreveu notável artigo a favor de Dreyfus. A verificando-se os conhecimentos teóricos e práticos dos
Corte de Cassação em 1899 manda Dreyfus a novo candidatos.
conselho de guerra, onde novamente foi condenado e em Após a Segunda Guerra Mundial, com o enfraquecimento
seguida agraciado pelo presidente Loubet. Em 1902 novo do Direito Privado (área de atuação do juiz jurisdicional), em
pedido de revisão efeito e em 1906 a Corte de Cassação detrimento do Direito Público (área do juiz administrativo), o
reconhece definitivamente a inocência de Dreyfus, sem Judiciário se viu mais fraco ainda, na França.
enviá-lo a novo julgamento. Ele foi reintegrado no A partir de 1946, as mulheres começaram a ingressar na
exército, lutou na guerra de 1914 e morreu em 1935. Na Magistratura francesa, sendo elas, em fevereiro de 1995, 46%
luta a favor do acusado salientaram-se grandemente do total, ocupando, no entanto, graus menos elevados da
Clemenceau e os advogados Labori e Demange. O hierarquia funcional. Em 28 de março de 1947 instalou-se o
processo revelou o grande senso de justiça do povo francês Conselho Superior da Magistratura.
e ficou conhecido como “l´affaire” (o caso) por A partir de 1957, por influência do prestigioso jurista e
excelência. Por incrível que pareça, este homem pelo magistrado Marc Ancel, passou-se a adotar a entrevista do
qual todo o universo se interessou, quando foi candidato com a comissão do concurso como mais um meio de
procurado pelo extraordinário jornalista Pierre Van avaliação, ao lado das provas normais.
Paassen para fazer um apelo que impedisse a execução Em 1958 foi criada a Escola Nacional da Magistratura
de Sacco e Vanzetti, só teve uma atitude: ‘Faça o favor francesa.
de retirar-se imediatamente desta casa!’ Essa foi a Verificadas as várias formas de recrutamento de
resposta de um homem pelo qual a França esteve à magistrados, 81% deles ingressaram pela via normal da ENM,
beira de uma guerra civil ou uma revolução, como nota percentual este que corresponde a mais de 5.500 magistrados.
o jornalista. Era um personagem muito pequeno para Vale a pena conhecer a história da Corte de Cassação, tão bem
tão grandes acontecimentos. Clemenceau, a quem o descrita por CAPPELLETTI (1999):
episódio foi relatado, disse: “Era o militarista mais Na França, já antes da Revolução, verificamos
arrogante. Dreyfus nunca ocultou o seu desprezo pela que uma “demande en cassation” sob certos aspectos
canalha jornalística que Zola e eu representávamos”. semelhante à “querela nullitatis” do Direito italiano e
B. - Pierre Van Paassen, Estes dias tumultuosos. comum, podia ser proposta ao soberano, que dela tomava
(SOIBELMAN, 1940). conhecimento através do “conseil des Parties”, isto é,
através de uma seção, propositadamente para isto
Sigamos em direção ao presente. especializada, do próprio conselho de Governo. Tal
BOIGEOL relata que, para ser magistrado no começo “demande en cassation” era dirigida contra as sentenças
do século XX, eram exigidas do candidato somente duas dos “Parlements”, ou seja, dos órgãos de justiça de última
condições: ser formado em Direito e ser advogado há pelo menos instância surgidos em várias cidades da França. O

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instituto da “demande en cassation”, que vinha, essencialmente legislativa e política e, de qualquer


portanto, a se inserir na luta secular desenvolvida, na maneira, com certeza, não judicial: ele foi, como o
França, entre a monarquia centralizadora e as tendências definiu Calamandrei, ‘um ofício de natureza
descentralizadoras dos “Parlements”, podia dar lugar à constitucional, destinado a manter na sua integridade
anulação (“cassation”, de “casser” que significa o cânone da separação dos poderes’, que foi
exatamente romper, anular), por parte do soberano, das considerado ser ‘a primeira condição para a normal
sentenças proferidas com violação de ordenanças régias. existência do Estado’. Precisamente, em consideração
Mas se o arquétipo do atual juízo de cassação pode-se desta sua função, foi proposto que o “Tribunal de
encontrar já na “querela nullitatis” e na “demande en cassation” fosse, ao invés, chamado de “conseil
cassation” pré-revolucionária, o verdadeiro ato de National pour la conservation des Lois”, um nome que,
nascimento de cassação moderna se tem, porém, tão-só por certo, teria mais eficazmente indicado a função
com a legislação e com as ideologias da Revolução. As originária daquele órgão, isto é, a função de impedir,
ideologias eram aquelas teorizadas nos escritos de utopicamente, que a interpretação das leis caísse na
Rousseau e de Montesquieu, da onipotência da lei, da esfera de um órgão pertencente a um poder diverso
igualdade dos cidadãos perante a lei e da rígida do Legislativo. O “Tribunal de cassation” foi, em
separação dos poderes, na qual ao juiz – passivo e síntese, uma típica expressão da desconfiança profunda
“inanimada bouche de La loi” – competia o único dos legisladores revolucionários nos juízes franceses:
dever de aplicar aos casos concretos o texto da lei, um a mesma, desconfiança que, nos primeiros anos da
dever concebido como puramente mecânico e em nada Revolução, os levou a repetir a absurda tentativa
criativo. O “Tribunal de Cassation” foi instituído, justinianéia de proibir aos juízes todo poder de
exatamente, por decreto de 27 de novembro – 1° de interpretação das leis, reservando tal poder ao “corps
dezembro de 1790, como um órgão não judicial de Législatif”, que devia prover à própria interpretação,
‘controle constitucional’, em outras palavras, órgão mediante decreto a pedido dos juízes, toda vez que estes
colocado junto do poder Legislativo – “il y aura près estivessem em dúvida sobre o significado de um texto
du corps législatif un Tribunal de cassation”, como, Legislativo (é o assim chamado “référé facultatif”,
de modo muito preciso, textualmente proclamava o suprimido, juntamente com a proibição da
decreto de 1790 – para evitar que os órgãos interpretação judicial, pelo “code Napoléon”). Por
Judiciários, no exercício de suas funções, invadissem outro lado, como não deviam existir interferências do
a esfera do poder Legislativo, subtraindo-se à estreita poder Judiciário na esfera do Legislativo, nem mesmo
e textual observância das leis. Não obstante o nome “sub specie interpretationis”, assim não devia
de Tribunal – nome que seria transformado tampouco acontecer o inverso: e por isso, o “Tribunal
posteriormente em ‘cortes’, “cour” – o “Tribunal de de cassation”, muito embora podendo anular, a
Cassation” teve, no entanto, na origem, natureza requerimento do particular (ou também de oficio,

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

“dans l’intérêt de la loi”), as sentenças que contivessem mesmo além da letra, o verdadeiro sentido da lei, mas,
“une contravention expresse au texte de la loi”, devia, com certeza, a função de julgar da validade das leis,
porém, abster-se então, rigorosamente, “para não isto é, de sua correspondência com uma norma superior
usurpar funções judiciais que não lhe competiam, de às próprias leis, o primeiro instituto, a cassação, supõe
pronunciar-se, por qualquer modo sobre a a onipotência da lei positiva, como manifestação da
interpretação da lei ou sobre a decisão da vontade suprema das Assembleias Populares; o
controvérsia”. Para a nova decisão da controvérsia, segundo, supõe, ao contrário, a sujeição da lei ordinária
o “Tribunal de cassation” remetia ao assim chamado a uma “lex superior”, subtraída às volúveis oscilações
“giudice di rinvio” que era plenamente livre no seu de uma talvez ocasional maioria parlamentar, o
julgamento e podia, por conseguinte, também rebelar- primeiro instituto, enfim, supõe a máxima
se contra a censura da cassação, repetindo, tal qual, a desconfiança, o segundo supõe, ao invés, a mais alta
precedente decisão: com a única consequência de que, confiança nos juízes, quando não, com certeza, a sua
se também a segunda decisão era depois submetida “supremacia” no ordenamento constitucional do
ao “Tribunal de cassation” e p0r este cassada, e, no Estado. De fato, já no início do século XIX, com o
entanto, o segundo “giudice di rinvio” persistia na atenuar-se do rigor das ideologias revolucionárias,
opinião havida por ilegítima pela cassação, em tal também o “Tribunal de cassation” francês denominado
circunstância tornava-se necessário o denominado depois “cour de cassation”, foi radicalmente se
“référé obligatoire” ao corpo Legislativo, o qual emitia transformando: e é assim transformado que ele
um decreto de interpretação da lei, vinculatório – penetrou na Itália e em outros Países, entre os quais
finalmente – para o terceiro “giudice di rinvio”. recordo, além da Bélgica, da Holanda, de Luxemburgo
Contudo, se o instituto da cassação tivesse e da Grécia, também a Espanha, da qual, por quanto
permanecido, nos quase dois séculos de sua história, posso supor (sem, no entanto, ter realizado pesquisas
aquilo que ele foi originariamente, neste caso bem específicas sobre o assunto), deve ter passado ao
dificilmente se poderia conceber uma contraposição México. Reconhecido aos juízes, com o Código de
mais absoluta e inconciliável entre a ideia, que está na Napoleão, o poder de interpretação das leis, a “cour de
base do instituto da cassação, e a ideia que inspira, ao cassation” tornou-se, na realidade, o supremo órgão
invés, todo sistema de controle judicial de Judiciário de controle dos erros de Direito cometidos
constitucionalidade das leis, o primeiro instituto é, por pelos juízes inferiores. Com a lei de 1° de abril de 1837
assim dizer, a incorporação da ideia da mais radical foi abolido, também, o “référé obligatoire” e foi disposto
separação dos poderes, pelo que “la loi c’est la loi” e que, verificando-se sobre um ponto de Direito um
não já aquilo que os juízes pensam ser a lei. O segundo contraste entre o primeiro “giudice di rinvio” e a “cour
instituto supra, ao contrário, que seja contrária a de cassation”, o novo pronunciamento da corte, emitido
órgãos Judiciários não apenas a função de interpretar, pelas seções reunidas, tivesse não mais apenas um efeito

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negativo – de anulação – mas, igualmente, um efeito lentamente formado pelas sentenças dos magistrados
positivo, vinculatório para o segundo “giudice di encarregados dos processos entre romanos e
rinvio”, obrigado a conformar-se à decisão da “cour estrangeiros, que julgavam inspirando-se nos costumes
de cassation” sobre o ponto de Direito por ela julgado. comuns aos povos do Mediterrâneo, aperfeiçoado e
A partir, pois, da fundamental lei de 1º de abril de 1837, reduzido a sistema pelos juristas orientais do século III
‘de modo sempre mais decidido e consciente, a corte de depois de Cristo, discípulos dos filósofos gregos. Este
cassação tornou-se o que hoje é, ou seja, a suprema Direito, que só tinha de romano a língua, tornara-se um
corte reguladora da interpretação jurisprudencial´. Vale Direito internacional fundado sobre os princípios gerais
dizer, ela se tomou a corte que exercita o controle de de razão, de equidade e de humanidade, e condensava
legalidade...’ (CAPPELLETTI, 1999:40/44). todo o pensamento jurídico do mundo antigo de tal
modo que foi denominado “a razão escrita”. Assim se
2.3. HISTÓRIA DO DIREITO conservou sob a designação de “Direito escrito”, até a
Revolução. (SEIGNOBOS 1938:33).
A importância da História do Direito foi bastante
ressaltada por François Baudoin (1520-1573) que dizia que “sem O uso do Direito romano na França persistia somente
a História do Direito a Jurisprudência é uma ciência cega”. no sul do país e na vertente sul do Maciço Central.
No período céltico, todos os gauleses participavam do (SEIGNOBOS,1938:54). Vale a pena inserir aqui um texto de
processo eleitoral que escolhia seus legisladores e chefes. NASCIMENTO (1997), onde é mostrada a “convivência”, no
Cada república procedia a escolha, de forma temporária, território francês, do Direito romano e o Direito dos francos
dos seus chefes civis e militares. A ideia de nação sobrepujava a (então invasores):
das pessoas, por maior que fosse sua importância. O chefe dos A presença dos germanos no Império Romano
druidas (sacerdotes celtas) era investido de poderes absolutos. do Ocidente mostra que o seu sistema jurídico, de
Anualmente, realizava-se uma assembleia, à qual compareciam caráter costumeiro, não se impôs em sentido unitário.
representantes das repúblicas gaulesas, para decidirem sobre as Prevalecendo então o princípio da personalidade das
questões mais importantes. As mulheres e os homens gozavam leis, pôde o Direito romano vigorar ao lado do Direito
dos mesmos Direitos. dos invasores. E isto se explica, como bem assinala
SEIGNOBOS assim se expressou sobre o Direito Raymond G. Gettel, pelas seguintes razões: ‘Possuem
Francês: os invasores uma concepção do Direito diversa da dos
O Império deu à Gália, o Direito romano. Não o romanos. Os Direitos, entre os povos teutônicos
velho Direito nacional dos antigos romanos, tradicional, adscrevem-se aos indivíduos, como pessoas, sem tomar
grosseiro e desumano, construído por regras e símbolos em conta a sua condição de membros do Estado; o
aplicados com um rígido respeito pelas formas, sem Direito faz parte da sua personalidade e acompanha-
cuidar da justiça nem da humanidade. Era um Direito o onde quer que seja, sem que se modifique na sua

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essência e sem que se possa abandoná-la. Perante a não dispor de uma sala bastante grande para conter os
concepção territorial do Direito romano, aplicável a seus ouvintes. Ele ousou aplicar a lógica de Aristóteles
todas as pessoas do império, o Direito germânico à teologia, no que foi combatido por S. Bernardo que
assenta uma base pessoal, pelo que cada homem goza ficara fiel à autoridade da Igreja e fez condenar a sua
da salvaguarda do seu próprio estatuto legal. Em doutrina. (SEIGNOBOS, 1938: 175/176).
consequência deste princípio, a população romana,
depois da invasão, continua a reger-se pelo seu próprio As Universidades foram assim analisadas pelo mesmo
sistema jurídico, o que levou os governantes e os juízes Autor:
germânicos ao conhecimento das suas normas e Até o século XIII, a Universidade de Paris era
prescrições. Roma, por isso, influiu no sistema legal um estabelecimento da Igreja, não ensinando nenhuma
dos germanos, e, como consequência, poucas gerações ciência de interesse secular, nem o Direito como em
depois, surgem compilações de Direito escritas em Bolonha, nem a medicina como em Salermo, mas
latim por eruditos romanos (NASCIMENTO, apenas matérias eclesiásticas, a teologia e o Direito
1997:135). canônico, em suma, a Universidade de Paris ensinava
só a religião. A universidade organizou-se no século
Sobre o renascimento dos estudos jurídicos ocorrido no XIII por dois processos diferentes, um de acordo com
século XII, SEIGNOBOS assim discorre: a origem dos alunos, outro de acordo com a natureza
O século XII foi a era do renascimento dos estudos. Reunia professores e alunos de todos os
intelectual; os livros de Direito do tempo de Justiniano, países cristãos sem ter em conta a diferença das
estudados sobretudo na Itália, tornaram-se a base dos línguas, visto como só se falava latim. (SEIGNOBOS,
estudos de Direito. Na França, o ensino teve por 1938: 176/178).
instrumento algumas obras dos filósofos gregos,
especialmente a lógica de Aristóteles, vertidas em latim O Direito escrito substituindo o costume:
por intermédio das traduções árabes; esta última obra O Direito romano transformou particularmente
foi o texto principal das interpretações e discussões. A o processo e o Direito penal. O costume formara-se
polêmica mais apaixonada teve lugar sobre uma questão entre homens incultos, incapazes de representarem uma
de metafísica lógica, a questão dos universais entre os ideia abstrata, e que não podiam agir senão sobre
nominalistas que sustentavam que a espécie não noções expressas por meio de símbolos visíveis. Todo
passava de um nome designando uma abstração, e os o processo consistia em atos, penhores de luta,
realistas que a pretendiam uma realidade. O método de juramento das testemunhas, duelo, provas pelo ferro
discussão foi renovado nos meados do século XII, por em brasa ou pela água acompanhadas de fórmulas
um francês bretão, Abelardo, que lecionava em Paris sacramentais. A pena era fixada de acordo com o ato
no alto do monte de Santa Genoveva, ao ar livre, por criminal, sem que a intenção fosse tomada em conta;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

aplica-se mesmo a um animal: um touro ou cavalo que do rei acharam no Direito romano a máxima “O que
tivesse morto um homem era enforcado. Ao contrário, foi resolvido pelo príncipe tem força de lei”, e
o Direito romano habituou a julgar, não mais somente aplicando-a ao rei da França concluíram que o rei por
de acordo com as formas, mas depois de ter procurado sua vontade podia fazer a lei, e que esta era obra do
nos atos escritos e nas declarações das testemunhas a poder real. Desde então o rei, sem mais cuidar do
realidade dos fatos e as intenções das partes. Em costume, pôs-se a fazer ordenações que tomavam o
matéria de crime, a pena variava segundo a intenção lugar da lei, acabando mesmo por lhes dar o nome
do culpado. O criminoso era olhado como um perigo romano de “editos”. (SEIGNOBOS, 1938:196).
público se fosse deixado impune. O juiz não tinha, pois,
necessidade de esperar um acusador; devia agir “ex- Sobre o costume LEBIGRE afirma que:
officio”, isto é, em virtude da sua função. Bastava que O Direito medieval é essencialmente
um crime lhe fosse denunciado ou viesse ao seu costumeiro, influenciado pelo Direito romano na região
conhecimento pela voz pública para fazer deter e sul. O costume, – uso imemorial próprio dos habitantes
encarcerar quem quer que dele fosse suspeito. Abriria de um território, prática comum consagrada pela
então um inquérito (o que o latim dos cursos da Igreja repetição (“uma vez não é costume”) – e a sua
chamava inquisição) e se punha a instruir, isto é, aceitação não obedecem a ninguém. Ele se impõe a
preparar o processo. De acordo com o costume, o todos, senhores e subordinados, por tanto tempo que
acusado não podia ser condenado a não ser que todos, de comum acordo, não decidiram modificá-lo.
confessasse o crime ou duas testemunhas jurassem tê- Ele é o freio mais eficaz ao arbítrio senhorial.
lo visto cometer. Os juízes eram levados, para obter a Acrescentemos que a justiça, civil e penal, é exercitada
confissão, a retomar o antigo sistema da tortura, que em público, sob o controle da coletividade que, no
passou a chamar-se ‘question’ (interrogatório). Este começo do período feudal, era ali representada por
sistema, chamado extraordinário visto ser contrário alguns de seus membros desempenhando o papel de
ao costume, tornara-se desde os fins do século XV o juízes. (LEBIGRE, 1995:21).
método habitual dos tribunais e ficou-o sendo até à
Revolução. (SEIGNOBOS, 1938: 195/196). A influência do Direito Romano aconteceu em maior
escala na região do sul da França, pois o norte, inclusive Paris,
Sobre o nascimento das leis, ele acrescenta: sempre foi arredio a tudo o que fosse de origem latina. Sobre a
O Direito romano revolucionou o princípio fraqueza da lei, a mesma autora opina que: “Parente pobre da
fundamental do Direito público. O costume, regra Doutrina e da jurisprudência, a lei não é, todavia, ausente do
suprema do Direito, era olhado na Idade Média como domínio da repressão.” (LEBIGRE. 1995:138).
inflexível e imutável; o próprio rei devia respeitá-lo e Voltaire, que era advogado, além de extraordinário
não tinha o poder de mudá-lo. Os legistas conselheiros literato, escreveu um livro muito interessante, publicado em 1766

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

(Commentaire sur le livre des Délits et des Peines par un provado; mas outros jurisconsultos, menos
Avocat de Province), do qual extraímos alguns trechos que esclarecidos, e talvez mais conceituados tivesse uma
retratam a realidade jurídica francesa da época: opinião contrária: Afirmavam que a fuga do acusado
Se um dia as leis humanas suavizassem na era uma prova do crime; que o desprezo que ele
França alguns costumes por demais rigorosos, sem, demonstrava pela Justiça, não comparecendo,
contudo, dar facilidade ao crime, é de se acreditar que mereceria o mesmo castigo. Assim, segundo a corrente
se reformará também o Direito processual nos artigos dos jurisconsultos que o juiz tenha adotado, o inocente
onde os legisladores agiram com um zelo excessivo. A será absolvido ou condenado. [...] Se se trata de
ordenança criminal, em muitos pontos, parece ter-se processo penal, o acusado não tem Direito a advogado.
dirigido unicamente para a condenação dos acusados. [...] O parlamento de Toulouse tem uma jurisprudência
[...] No nosso foro criminal tudo se faz secretamente. muito singular quanto às provas de depoimentos.
Um só juiz, com seu escrivão, ouve cada depoimento Admitem-se as meias-provas, que no fundo não são
um após outro. Esta prática, estabelecida por senão dúvidas: porque se sabe que não há meias-
Francisco I, foi autorizada pelos comissários que verdades; mas em Toulouse admitem-se quartos e
redigiram a ordenança de Luís XIV, em 1670. [...] Os oitavas de provas. Pode-se aí ter, por exemplo, um
depoentes são, normalmente, pessoas do povo, a quem ouvir dizer por um quarto, outro ouvir dizer mais vago
o juiz, em comum acordo, pode mandar dizer o que ele por um oitavo; em resumo; oito rumores, que não são
quiser. Esses depoimentos são ouvidos uma segunda mais que um eco de uma suspeita mal fundada, podem
vez, sempre secretamente, denominando-se se transformar em uma prova completa, com base
reinquirição. E se, após a reinquirição, eles se retratam nesse princípio, ocorreu a condenação de Jean Calas...
nos seus depoimentos, ou se alteram as circunstâncias (VOLTAIRE: 1766).
essenciais, são punidos por falso testemunho. Se um
homem simples, não sabendo se exprimir, mas que é Para BLUCHE, RIALS e TULAR quando ocorreu a
honesto, e se lembrando de que disse muito ou pouco, Revolução Francesa, “a unificação do Direito (francês), há muito
que compreendeu mal o juiz, ou que o juiz o entendeu em marcha, prossegue lentamente; o Direito romano domina no
mal, modifica o que disse por uma questão de sul, enquanto o Direito é consuetudinário no norte da França,
honestidade, é punido como um criminoso, e é forçado com quase 300 costumes diferentes.” (1989: 9).
frequentemente a sustentar uma afirmação falsa pelo Sobre o Código Napoleão (Código Civil de 1804), assim
receio de ser considerado uma testemunha falsa. discorreu SEIGNOBOS:
Fugindo, o acusado se expõe a ser condenado, tenha A unidade do Direito privado, preparada pelos
o crime sido provado ou não. Alguns jurisconsultos, trabalhos da Convenção, foi efetivamente estabelecida
na verdade, asseguram que o contumaz não deveria pelo “Código Napoleão”. Foi este Código um
ser condenado se o crime não fosse claramente amálgama dos costumes do norte e do Direito romano

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

do sul, mas o costume de Paris predominou no regime estrangeira, e este título constituía então uma novidade. Mas este
da família e das heranças, com a partilha igual entre Departamento desapareceu no mesmo ano da promulgação do
os filhos e a comunhão de bens entre os esposos, Código -1804 ...”
admitindo o casamento sob o “regime dotal”, em uso Seguindo na esteira da História do Direito francês,
no sul. Este Código ficou sendo a base do Direito podemos mencionar a Lei Schoelcher de 27 de abril de 1848,
francês, introduzido posteriormente em outros países, que aboliu a escravatura nas possessões francesas. Nesse mesmo
e, mais tarde, completado pelos códigos de comércio, ano foi abolida a pena de morte. Em 1869 foi fundada em Paris
de processo e de Direito penal. (SEIGNOBOS, a Sociedade de Legislação Comparada e, em 21 de maio de
1938:357/358). 1884, foi votada a Lei Waldeck-Rousseau, que autorizou a
criação de sindicatos.
ALMEIDA assim analisou o impacto da Revolução Em 1890, iniciou-se o ensino de Direito Comparado na
Francesa sobre o Direito francês: Universidade de Paris, onde, em 1900, foi realizado o I
Tanto ou mais do que a recepção do Direito Congresso Internacional de Direito Comparado. Em 10 de julho
romano, a Revolução Francesa é um fato histórico de 1901 foi aprovada a lei que autorizou a criação de associações
decisivo para os elementos internos convergentes das sem fins lucrativos.
ordens jurídicas integrados nesta família de Direitos. Entre os juristas franceses que mais se destacaram nos
No chamado período intermediário, que decorreu desde séculos XIX e XX podemos citar Édouard-René Lefebre de
a ‘Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão’ Laboulaye, Rodolphe Dareste de La Chavanne (1824-1924),
(1789) até a promulgação do ‘Code Civil’ (1804), Frédéric Joüon dês Longrais (1892-1975), Adolfe Tardif (1824-
verificaram-se profundas alterações no Direito francês, 1890), Paul Viollet (1840-1914), Eugène Leiong (1847-1925),
a maior parte das quais se inseriu de modo estável no Maurice Prou (1861-1930) e Roger Grand (1874-1962), além
sistema jurídico onde surgiram. (ALMEIDA, 1998:40). de Jacques de Maleville, C. Aubry, F.-C. Rau, A. Duranton, R.
Troplong, J.-C. F. Demolombe, G. Baudry-Lacantinerie, Fr.
Eventos significativos para o Direito dos países de Civil Gény, Marcel Planiol e A. Esmein.
Law foi a edição dos Códigos napoleônicos, a saber: Código Apesar dos grandes avanços do Direito francês,
Civil (1804), Código de Processo Civil (1806), Código do mencionamos o período do regime de Vichy (1940-1944) como
Comércio (1807), Código de Processo Penal (1808) e Código representando um grande retrocesso na área dos Direitos
Penal (1810), que serviram de base para os demais códigos de Humanos. Quando foram editadas leis antissemitas: o estatuto
outros países. dos judeus, de 3 de outubro, e as leis de 2 de junho e 4 de
Um dado histórico curioso é mencionado por ANCEL outubro, todas de 1940.
(1980:22), quando afirma que “Bonaparte, com o propósito de
bem preparar o seu Código Civil, instituíra, em 1801, no
Ministério da Justiça, um Departamento de Legislação

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO
3. PODER JUDICIÁRIO

Afinal de contas, na França, o Judiciário é ou não é um


Poder? O debate é realmente acirrado, como sói acontecer entre
os franceses, que investem toda sua energia na discussão de
qualquer assunto, e, principalmente, num desse grau de
importância, pois, em última instância, está em jogo a ideia de
democracia, ou seja, o povo escolher os que vão exercer o
poder “em nome do povo francês”. Verifiquemos o que dizem
alguns juristas.
VILLIERS (1998), ferrenho opositor à tese do Judiciário
como poder, tratando do tópico poder Judiciário, assim o define:
Denominação dada por certas constituições
(por exemplo, a Constituição de 3 de setembro de 1791,
ou a Constituição dos Estados Unidos) aos tribunais
por elas instituídas com a finalidade de dizer o Direito
solucionando os litígios a eles encaminhados. A noção
de um poder Judiciário exprimindo a soberania no seu
domínio de competência, paralelamente aos poderes
Legislativo e Executivo, procede de uma leitura
desatenta de Montesquieu. Com efeito, no capítulo VI
do livro XI do “De l’esprit des lois”, Montesquieu define
bem um poder que é o poder de julgar, mas é de se
completar que esse ‘poder de julgar não deve ser dado
a um senado permanente, mas exercido por pessoas
tiradas do corpo social [...] para formar um Tribunal
que não dure mais do que a necessidade o exija. Dessa
maneira, o poder de julgar, tão terrível entre os
homens, não estando ligado a certo estado, nem a certa
profissão, se torna, por assim dizer, “invisível e nulo”,
esse que é muito exatamente excluir quem os tribunais
constituem e substituem os órgãos profissionais. Afora,
um pouco mais adiante, Montesquieu completa: “Dos

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

três poderes dos quais nós falamos, esse de julgar é, Judiciário francês considerado um poder, com estribo em
de alguma forma, nulo. Restam somente dois. A BOBEIO, MATTEUCCI e PASQUINO (1998: 91/92) que
expressão de poder Judiciário é de toda maneira dizem: “No estado unitário, não existe nenhum centro
equívoca, e, portanto, infeliz, porque ela não pode ter autônomo de poder fora do governo central, constituindo-
a mesma significação orgânica que essas de poder se a divisão dos poderes numa base exclusivamente
Legislativo e de poder Executivo: os planos não são funcional, onde o Legislativo e o Executivo tendem a ser
idênticos e, em caso algum, os magistrados não podem controlados, inevitavelmente, pelas mesmas forças
ser considerados como representantes do povo no políticas com a consequência de ser o Judiciário o mais
sentido do artigo C. 3 (A soberania nacional pertence fraco dos três, reduzindo-se, de fato, a um ramo da
ao povo que a exerce por seus representantes [...]). A administração pública’. (BOBBIO et al.: 1986-91/92).
Constituição da 5ª República reserva a denominação
de ‘autoridade Judiciária’ para designar o conjunto TRUCHE diz que para o Estado:
dos juízes e membros do Ministério Público, e f az de ‘a Justiça não é um poder, pois, e felizmente,
sua independência um princípio constitucional do qual ela não constitui um grupo suscetível de proferir
o Presidente da República, assistido pelo Conselho decisões que se imponham a todos. Ela é uma
Constitucional, é o avalista. [...]´ (VILLIERS, 1998). autoridade que tem poderes. Compete ao Estado fixar
os limites desses poderes derrogatórios do Direito
Para DUVERGER (1996), simpatizante do Judiciário- comum e de lhe procurar os meios de colocá-los em
poder, não há dúvida que o Judiciário é um verdadeiro poder, prática. (1998:180).
tanto que, quando, ao tratar do assunto no capítulo “O poder
Jurisdicional”, afirma: TERQUEM, um violento opositor à doutrina do
Em 1787, a Constituição dos Estados Unidos Judiciário-poder, ataca o Judiciário e o Ministério Público da
divide os poderes públicos federais em três departamentos: forma mais rude possível:
o departamento Legislativo, o departamento Executivo ‘Imagina-se em que se transformaria nossa
e o departamento Judiciário. Desde então, todos os sociedade, submetida em todos os aspectos à
juristas das democracias ocidentais distinguem esses três consciência dos juízes e membros do Ministério
poderes. Fala-se aqui do poder ‘jurisdicional’, e não do público, que, como o reclamam alguns, não
poder ‘Judiciário’. Mais corrente, a segunda denominação dependeriam senão deles próprios e de sua consciência,
introduziu na França uma confusão: os tribunais sem depender dos representantes eleitos pelo povo, e
Judiciários não sendo mais que uma ordem de jurisdição, que os cidadãos não teriam mesmo o Direito de criticar
ao lado dos tribunais administrativos e tribunais publicamente?’(1998: 116).
especializados. Alguns usam como argumento o fato da DAVID, engrossando a corrente oposicionista, diz:
França ser um país unitário e, por este motivo, não ser o

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

‘A hereditariedade e a venalidade dos cargos processos individuais marque esta vontade de ruptura.
da judicatura, o papel político que os parlamentos Uma, reforma histórica inédita está em andamento. O
tentaram arrogar-se na França antiga, fizeram dos relatório Truche traça um primeiro esboço. O projeto
juízes franceses, outrora, uma espécie de casta dotada de Elisabeth Guigou avança dentro dessa via. “E,
duma inteira autonomia em relação aos funcionários respondendo indiretamente a uma indagação de
da administração. [...] O estatuto dos nossos Francis Terquem e outros sobre a legitimidade do
magistrados aproximou-se consideravelmente dos Judiciário, que não seria “representante do povo”,
funcionários, e a ideia de que existe um verdadeiro esclarece que o Judiciário é “um terceiro poder,
poder Judiciário desvaneceu-se na França. ‘ (DAVID, instância de julgamento colocada, no coração da
1996: 123/124). democracia, entre os representantes e os represen-
tados.” (SALAS, 1998: 11/13).
Posição de defesa aberta do Judiciário é assumida por
SALAS, magistrado da Escola Nacional de Magistratura Procurando uma explicação, podemos achar que o fator
francesa, que reconhece o estado atual do Judiciário na França marcante para o estado atual de limitação do Judiciário na França
e pensa no futuro: foi a Revolução Francesa, com a brusca mudança ocorrida,
Não é mais aceitável o sistema que, há dois passando-se a entender o juiz como mera bouche de la loi,
séculos, faz do Judiciário, uma dependência do enquanto a lei passou a ser tratada como expressão da vontade
Executivo. Jamais, no passado, se assistiu a conflitos do povo e, portanto, exigindo obediência estrita. O legislador
tão violentos e públicos entre esses dois setores do foi excessivamente valorizado, como ‘representante do povo’,
estado. Entre 1993 e 1996, os conflitos entre a justiça enquanto que o Judiciário tem sofrido, desde aquela época, sérias
e o Executivo se fazem abertamente de poder a poder. restrições, a ponto de serem tratados por muitos como simples
O Estado deve criar um novo espaço Judiciário, se funcionários públicos, pelo fato de os juízes não serem eleitos.
quiser continuar a governar de forma democrática Os homens do Executivo, também eleitos pelo povo, passaram
onde o olhar da opinião torna visíveis suas menores a ser considerados “representantes do povo”, portanto, legítimos
faltas e escandalosas suas escapatórias. Uma ruptura para exercer o poder, uma vez que a ideia de “legitimidade”, na
se impõe com uma tradição política, que nada valida França, é ligada ao voto.
nem se compreende mais. Lançado por Jacques Chirac ACKERMAN e BASTARD (1993), após estudarem
em 12 de dezembro de 1996 e prolongado pelo discurso várias propostas de melhoria da qualidade dos serviços
de investidura de LioneI Jospin em 20 de junho de Judiciários, entram pelo campo de legitimidade e da
1997, o canteiro da justiça está enfim aberto. O independência:
engajamento tomado por esse último de não mais Estas mudanças da organização e do funcio-
nomear procuradores sem, o aval do Conselho Superior namento dos serviços se observam no cotidiano no
da Magistratura e de não dar nenhuma instrução nos trabalho dos membros dos tribunais, nas suas relações

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

com os jurisdicionados e nas suas relações com os Indispensável e premente para o poder político,
auxiliares da justiça. Para que elas possam ser a Magistratura é, na tradição francesa, estreitamente
reconhecidas como conquistas da instituição Judiciária por ele controlada, O sistema colocado em vigor por
e que elas possam ser valorizadas como tais, é Napoleão I, que se caracteriza por uma hierarquização
necessário ainda que elas se inscrevam no quadro de muito estrita das jurisdições e das funções, não mudou
uma Justiça cuja legitimidade da ação e independência muito desde aquela época. Ele permite ao poder de
de seus membros sejam mais bem conhecidas. Trata- ter mais que um Direito de simplesmente observar de
se de uma condição para que as transformações e as longe cada fase da carreira dos magistrados. O poder
inovações que marcam a gestão dos tribunais possam do Conselho Superior de Magistratura, criado em
ser apreciadas na sua amplitude real. Longe de nós a 1946, foi entravado pelas reformas de 1958, que
ideia de considerar que a falta de recursos da qual reforçaram o poder do presidente da República sobre
sofre a Justiça é uma ilusão. A penúria realmente os juízes. Só os comportamentos dos magistrados a
existe. Mas ela não deve fazer esquecer a partir daí mais organizados e a prática, sobretudo,
multiplicidade e a diversidade das mudanças que tocam liberal dos presidentes da república limitaram os
à organização e à gestão das jurisdições. A visibilidade inconvenientes do sistema. Uma reforma constitucional
e a difusão mais ampla dessas mudanças são, sem recente permite ter, para o futuro, algumas esperanças.
dúvida, entravadas pela crise de legitimidade da qual (COLCOMBET: 118).
sofre a instituição Judiciária no seu conjunto.
(ACKERMAN, BASTARD: 1993-100/101). Acreditamos que a solução final será a consagração do
Judiciário francês como um verdadeiro “poder”, no mesmo nível
No entanto, não é livre de questionamentos a tese de dos poderes Executivo e Legislativo.
que somente pelo voto se adquire a legitimidade, obtida mesmo Observando-se os dez diplomas constitucionais
sem o voto popular, como é o caso do Judiciário. O debate franceses, editados o primeiro em 1791 e o último em 1958, vê-
dura há mais de 200 anos na pátria de Montesquieu. se que: em três deles (1791, 1795 e 1848) o Judiciário é chamado
GARAPON (Pouvoir 74) propõe repensar a questão de poder; cada um vigorou por quatro anos; sendo editados no
do juiz, quando afirma ser ela ‘muito antiga porque Aristóteles já a século XVIII e o outro no século XIX. Na história do
respondeu há muito tempo, mas também radicalmente moderna constitucionalismo francês não é incomum considerar o Judiciário
tanto que a configuração da nossa democracia – radicalmente um poder, podendo ocorrer, numa futura revisão constitucional,
inédita – obriga a repensar a questão do juiz’. O prestígio da seu retorno à situação de poder.
Magistratura, Conselho Superior de Magistratura, no entanto, vem Enquanto essa revisão constitucional não acontece, os
aumentando, embora ainda existam forças que a ela se opõem. juízes franceses vão mostrando ao povo a importância do seu
COLCOMBET (Pouvoir 74), mostra que a única trabalho no dia-a-dia da sociedade, com seu prestígio cada vez
solução para o Judiciário francês é uma reforma constitucional: maior frente a todas as camadas sociais. A própria classe política

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

sente a necessidade de entregar à responsabilidade do Judiciário Magnaud nasceu em 1849 na cidade francesa de
a solução de problemas difíceis que ela não quer assumir, Bergerac, filho de um funcionário público sem maior projeção.
parecendo aproximar-se o momento da consagração Paul Magnaud presta o serviço militar, destacando-se na Guerra
constitucional do Judiciário francês, não retornado ao passado, de 1870 entre a França e a Alemanha. Posteriormente faz o
mas inserido na atualidade. curso de Direito em Paris, ingressando na Magistratura em 1881.
3.1. GRANDES MAGISTRADOS
Após um começo de carreira em alguns postos menos
3.1.1. Paul Magnaud destacados, é nomeado, em 1887, presidente do Tribunal da
cidade de Château-Thierry, onde trabalharia até 1906 e ficaria
conhecido como o Presidente Magnaud.

(No sistema Judiciário francês o cargo de presidente de


qualquer Tribunal dá ao juiz que o exerce muito maior destaque
que os outros juízes desse Tribunal, e o Leitor verá a importância
do tema logo adiante quando se tratar do trabalho de Magnaud
no Tribunal de Paris, onde ele não será presidente sequer da
câmara onde passou a atuar e, portanto, ficando desconhecidos
seus votos, neutralizados pelos dois juízes da sua câmara).

Entre algumas de suas decisões mais famosas, podemos


citar a que se refere a um julgamento que, quando ocorreu, chamou
a atenção de todo o país e tornando-se objeto de explorações
político-partidárias, quando absolveu uma mulher por furto
famélico; num outro julgamento absolveu um rapaz que não
conseguia emprego e que era acusado de mendicância e vadiagem;
absolveu também uma mulher acusada de adultério fundamentando
sua sentença no entendimento de que não havia prejuízo público,
mas apenas para a vida dos próprios cônjuges; e, através de
inúmeras decisões surpreendentes para a época, pretendeu a
descriminalização do adultério, o reconhecimento do que depois
se tratou como estado de necessidade, avançou no sentido do
Direito de greve, de segurança do trabalho, da valorização da
mulher e sua igualdade em relação ao homem, etc.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Em 1906 Magnaud era eleito deputado pelo partido 3.1.2. René Parodi
radical-socialista, cumprindo seu mandato de quatro anos,
quando tenta, sem êxito, promover reformas legislativas,
especialmente, na área penal.

Retornando à Magistratura em 1910, foi designado para


exercer seu cargo no Tribunal de Paris, onde não era mais
presidente, prestando serviço militar na 1ª Guerra Mundial como
oficial superior, recebeu a comenda da Legião de Honra pela
sua conduta corajosa, aposentando-se em 1918. Tornado
Conselheiro Honorário da Corte de Apelação de Paris (cargo
honorífico), foi amigo pessoal de Clemenceau e Émile Zola, que
muito divulgaram seu nome através da mídia da época.

Magnaud foi feminista por influência de sua mulher, e


afilhada da escritora e feminista George Sand uma das primeiras
mulheres a ingressar na maçonaria.

Sobre ele muito se escreveu, mas o livro mais completo


se chama le bon Juge, que tem como autor André Rossel,
reeditado em 1983 pela Editora A 1’Enseigne de 1’arbre
verdoyant. Um juiz francês disse, certa vez, que Magnaud
deveria ter vivido na época dos Parlamentos ou numa época da
Justiça francesa que ainda não chegou ... e que ele é um
representante verdadeiro dos juízes franceses ... Em suma, era René Parodi, nascido em Rouen (Seine-Maritime) em 8 de
um polemista ardoroso, corajoso e pouco respeitoso com tudo dezembro de 1904, faleceu na prisão de Fresnes em 16 de abril
o que contrariasse suas ideias de entusiasta do progresso. de 1942, foi um membro da Resistência Francesa.
Magnaud morreu em 1926 na cidade de Saint-Yrieix, com 78
anos de idade. Magistrado, ingressou na Resistência em 1940, publicou
o jornal Résistance, contribuiu para a fundação do movimento
Libération-Nord e dirigiu um grupo de resistentes. Preso em
fevereiro de 1942, morreu na prisão. É considerado companheiro
da Liberação.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Nascido em Rouen, René Parodi era filho do filósofo René Parodi foi torturado, mas se recusou a falar. Foi
Dominique Parodi e irmão do resistente e políticoAlexandre Parodi. levado de volta à cela em 16 de abril de 1942, praticamente morto.

René se tornou magistrado e foi nomeado para servir Foi sepultado no Cemitério do Père-Lachaise em Paris.
em Châlons-sur-Marne, depois em Reims e Versailles, onde era
substituto. René Parodi tem seu nome ligado à Companhia da
Liberação, a título póstumo, pelo decreto de 20 de novembro
Em 1939, engajou-se como voluntário. de 1944.

Após o armistício de junho de 1940, retoma sua atividade Parodi, magistrado e resistente, tornou-se o símbolo e o
de magistrado; mas, no final de 1940, reúne um grupo de mártir da Resistência Judiciária. Na Liberação, quando a
resistentes para trabalhar na propaganda escrita e edita o Magistratura foi questionada por sua atitude de colaboração e
jornal Résistance. sustentação do regime de Vichy, a lembrança do engajamento e
da morte de René Parodi permitiu legitimar-se a Magistratura
Ele contribuiu com Christian Pineau para a criação do engajada na causa cidadã.
Comité d’études économiques et syndicales, que se tornou o
movimento Libération-Nord. A partir de dezembro de 1941, Homenagens e Distinções
René Parodi se tornou membro do Conselho Diretor. Cavaleiro da Legião de Honra.
Foi nomeado substituto adjunto ao Tribunal de Seineen Companheiro da Liberação, conforme decreto de 20 de
em junho de 1941. Acumulou esse cargo com o de Versailles e novembro de 1944.
com sua atividade de resistente. Outras homenagens:

René Parodi e o grupo que ele dirige passaram à ação A ”square” Alexandre-et-René-Parodi, em Paris, associa seu


concreta. Durante o verão de 1941, afundam barcaças e nome ao do seu irmão Alexandre, este também companheiro da
conseguem bloquear o canal de Yvonne. Liberação.
A promoção de 2014 dos auditores de justiça da Escola
Mas, em 6 de fevereiro de 1942, foi preso em sua casa Nacional da Magistratura lhe prestou homenagem ao se batizar
pela Gestapo e preso em Fresnes. com seu nome: « René Parodi est le symbole de la résistance
judiciaire française ».
Em março de 1942, durante sua prisão, o grupo que dirigia (http://www.wikiwand.com/fr/Ren%C3%A9_Parodi)
consegue acender as luzes das usinas Renault de Billancourt para
serem vistas e bombardeadas pelos ingleses durante um ataque
aéreo especial.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

3.1.3. Paul Didier Nosso Paul Didier estudou no Liceu Montaigne, depois
no Liceu Louis le Grand e, posteriormente, na Faculdade de
Direito de Paris.

Tornou-se doutor em Direito, licenciou-se em Letras,


diplomou-se em Estudos Administrativos e Financeiros e em
Ciências Penais, tendo se inscrito como advogado em 1911 no
barreau de Paris.

Lutou nas forças francesas durante a 1ª Guerra Mundial,


tendo sido feito prisioneiro dos alemães.

Ingressou na Magistratura francesa como juiz em 1919,


tendo inicialmente trabalhado na judicatura e, posteriormente,
ocupou cargos administrativos junto ao Ministério da Justiça até
que em 1940 a ela retornou.

Em 1941, quando os juízes franceses foram obrigados a


prestar juramento de fidelidade ao “regime de Vichy”, ou seja,
aquele imposto pelos alemães na França ocupada, recusando-
se a prestá-lo, foi preso e punido administrativamente com
aposentadoria compulsória.

Participou da Resistência Francesa e, terminado o


Paul Didier nasceu em Carcassonne em 1889. período de ocupação alemã na França, voltou à atividade na
área administrativa (Ministério da Justiça) e, posteriormente, na
Seu pai, que também se chamava Paul Didier, era judicatura.
diplomado em Química, doutor em Ciências, antigo aluno da
Escola Normal superior e examinador do concurso de ingresso Faleceu em 1961, com 71 anos de idade.
na Escola Especial Militar de Saint Cyr, teve que deixar o cargo
por motivos políticos.

Seu avô materno, Ferdinand Théron, foi deputado radical


de 1885 a 1910.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

3.1.4. Brillat-Savarin Em 1789, época complexa politicamente, foi eleito


membro dos Estados Gerais, participando da Constituinte, e
depois foi presidente do Tribunal de Ain, sendo deposto do cargo
sob suspeita de deslealdade aos ideais revolucionários e simpatia
pela monarquia. Eleito, nesse período, prefeito de Belley (1793).

Acusado de inimigo do povo pelos revolucionários, é


obrigado a emigrar, passando pela Suíça, Alemanha, Holanda e
por fim chega aos Estados Unidos, onde vive por quase dois
anos.

Retornando à França em setembro de 1796, recupera


os bens que lhe tinham sido confiscados e readquire seu prestígio,
ao ser nomeado pelo Diretório o Secretário de Estado Maior
do Exército do Reno.

Posteriormente, passou a exercer o cargo de comissário


do governo (cargo similar ao de representante do Ministério
Público) no Tribunal de Versalhes.

Em 1801 é nomeado conselheiro da Corte de Cassação,


ali permanecendo até sua morte, em 2 de fevereiro de 1826.

Escreveu sobre vários assuntos, inclusive um ensaio sobre


René Constant, em estudo bem elaborado sobre Brillat- a administração Judiciária.
Savarin, intitulado Brillat Savarin – Magistrat et Gastronome,
apresenta alguns dados sobre esse homem brilhante em todas
as áreas pelas quais se interessou.

Nascido em 1° de abril de 1755 numa família onde existia,


por tendência, a vocação para o Direito, exerceu primeiro a
advocacia, depois passou ao cargo de lugar-tenente (um tipo de
magistrado) em Belley, trabalhando também como professor de
Direito na universidade de Dijon.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

3.1.5 – Michel de Montaigne setembrode 1592)  foi  um jurista,  político, filósofo,


escritor, cético e humanista francês, considerado como o
inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras analisou as
instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre
os dogmas da  sua  época  e  tomando  a  generalidade  da
humanidade como objeto de estudo.

Ele criticou a educação livresca e mnemônica,


propondo um ensino voltado para a experiência e para a
ação. Acreditava que a educação livresca exigiria muito
tempo e esforço, o que afastaria os jovens dos assuntos mais
urgentes da vida. Para ele, a educação deveria formar
indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à
vida prática.

Vida e obra

Montaigne nasceu no Castelo de Montaigne, em


Saint-Michel-de-Montaigne, após seu nascimento, o pai
entregou-o a uma enfermeira de uma aldeia vizinha e veio
com três anos de volta para a família. Seu pai lhe deu um
tutor alemão que lhe falava somente em latim. Assim, o latim
era quase a língua materna de Montaigne. Este tinha um
espírito por um lado vigilante e metódico e por outro, aberto
Foi magistrado durante dezesseis anos, em Bordeaux,
às novidades. Após estes estudos enveredou pelo Direito.
oficiando na primeira e na segunda instâncias, mas não acreditava
Exerceu a função de magistrado primeiro em Périgueux (de
na justiça das leis que tinha de aplicar. Por isso, deixou a
1554 a 1570) depois em Bordéus onde travou profunda
Magistratura e foi escrever sobre Filosofia.
amizade com La Boétie.
A Wikipédia informa sem muita precisão: Retirou-se para o seu Castelo de Montaigne quando
tinha 34 anos para se dedicar ao estudo e à reflexão. Levou
Michel Eyquem de Montaigne (Castelo de Montaigne, 28 nove anos para redigir os dois primeiros livros dos Essais.
de fevereiro de 1533 — Castelo de Montaigne, 13 de Depois viajou pela primeira vez para Alemanha, Suíça e
Itália durante dois anos (1580-1581). Fez o relato desta
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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO
viagem no livro Journal de Voyage, que só foi publicado pela Montaigne não tem um sistema. Não é um moralista,
primeira vez em 1774. nem um doutrinador. Mas não sendo moralista, não tendo
um sistema de conduta, uma moral com princípios rígidos, é
Foi presidente da Câmara de Bordéus durante quatro um pensador ético. Procura indagar o que está certo ou
anos. Regressou ao seu castelo e continuou a corrigir e a errado na conduta humana. Propõe-se mais estudar pelos
escrever os Essais, tendo em vista o estilo parisiense de seus ensaios certos assuntos do que dar respostas. No fundo,
exposição doutrinária. Os seus Ensaios compreendem três Montaigne está naquele grupo de pensadores que estão a
volumes (três livros) e vieram a público em três versões: Os perguntar em vez de responder, e é na sua incerteza em dar
dois primeiros em 1580 e 1588. Na edição de 1588, aparece respostas, que surge certo cepticismo em Montaigne. Como
o terceiro volume. Em 1595, publica-se uma edição póstuma não está interessado em dar respostas apriorístico tem certa
destes três livros com novos acréscimos. reserva em relação a misticismos e crenças. É de notar certo
alheamento em relação ao Cristianismo e às lutas de
Seus Essais são principalmente autorretratos de um religião que se vivia em França na época. Embora não deixe
homem, mais do que o autorretrato do filósofo. Montaigne de refletir em assuntos como a destruição das Novas Índias
apresenta-se-nos em toda a sua complexidade e variedade pelos espanhóis. Ou seja, as suas reflexões visam os clássicos
humanas. Procura também encontrar em si o que é singular. e a sua própria contemporaneidade. Tanto fala de um
Mas ao fazer esse estudo de auto-observação acabou por episódio de Cipião como fala de algum acontecimento do
observar também o Homem no seu todo. Por isso, não nos é seu século como fala de qualquer seu episódio doméstico.
de espantar que neles ocorram reflexões tanto sobre os temas
mais clássicos e elevados ao lado de pensamentos sobre O facto de ter introduzido outra forma de pensar
a flatulência.  Montaigne  é  assim  um  livre  pensador,  um através de ensaios, fez com que o próprio pensamento
pensador sobre o humano, sobre as suas inconsistências, humano encontrasse uma forma mais legítima de abordar o
diversidades e características. E é um pensador que se dedica real. A verdade absoluta deixa de estar ao alcance do homem,
aos temas que mais lhe apetecem, vai pensando ao sabor sendo doravante, possível tão-somente uma verdade (?) por
dos seus interesses e caprichos. aproximações.
Se por um lado se interessa sobremaneira Registre-se que Michel de Montaigne foi tio pelo lado
pela Antiguidade Clássica, esta não é totalmente passadista materno de Santa Joana de Lestonnac.
ou saudosista. O que lhe interessa nos autores antigos,
especialmente os latinos, mas também gregos, é encontrar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_de_Montaigne)
máximas e reflexões, que o ajudem na sua vida diária e na
sua autodescoberta. Montaigne tenta assim compreender-se,
através da introspecção, e tenta assim compreender os homens.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

3.1.6 – Montesquieu padres oratorianos. Revelou-se um crítico severo e irônico


da monarquia absolutista decadente, bem como do clero
católico. Adquiriu sólidos conhecimentos humanísticos e
jurídicos, mas também frequentou em Paris os círculos da
boêmia literária. Em 1714, entrou para o Tribunal provincial
de Bordéus, que presidiu de 1716 a 1726. Fez longas viagens
pela Europa e, de 1729 a 1731, esteve na Inglaterra.
Proficiente escritor, concebeu livros importantes e
influentes, como Cartas persas (1721), Considerações sobre
as causas da grandeza dos romanos e de sua decadência
(1734) e O Espírito das leis (1748), a sua mais famosa obra.
Contribuiu também para a célebre Enciclopédia, juntamente
com Diderot e D’Alembert.

Biografia
Montesquieu nasceu em 18 de janeiro de 1689, em
Bordeaux, na França, no Castelo de La Brède, propriedade
da família. A mãe, Marie Françoise de Pesnel, tinha origem
inglesa e de família com negócios na área de vinhos e o pai,
Jacques Secondat de família nobre francesa.
Seu aprendizado inicial foi em casa e somente aos onze
anos entrou para o Colégio Juilly. Era um colégio que tinha
como alunos os filhos das mais ricas famílias, comandado
Consigna a Wikipédia sobre esse magistrado e jurista: por padres oratorianos que ensinavam os alunos utilizando a
Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de doutrina iluminista da época. Aos 16 anos entrou para a
Montesquieu, conhecido como Montesquieu (castelo de La faculdade de Direito da Universidade de Bordeaux, formou-
Brède, próximo a Bordéus, 18 de Janeiro de 1689 — Paris, se em Direito, em 1708, e foi para Paris prosseguir em seus
10 de Fevereiro de 1755), foi um político, filósofo e escritor estudos. Com a morte do pai, cinco anos depois, voltou à
francês. Ficou famoso pela sua teoria da separação dos cidade natal, La Brède. Em 1715 casou-se com a rica Jeanne
poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas de Lartigue. Um ano depois, com a morte de um tio, herdou
constituições internacionais. uma fortuna, assumiu a presidência do parlamento de
Aristocrata, filho de família nobre, nasceu no dia 18 Bordeaux e foi nomeado Barão de Montesquieu.
de Janeiro de 1689 e cedo teve formação iluminista com

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Iniciou, na Academia de Bordeaux, estudos na área Montesquieu fascinado pelo progresso das Ciências
do Direito romano, biologia, física e geologia. Físicas/Naturais e de suas descobertas a respeito das leis que
Com estes estudos, Montesquieu pode se aprofundar regiam o mundo físico, tratadas diversas vezes em seus ensaios
no estudo iluminista que tinha iniciado no Colégio Juilly, propôs a partir daí que a realidade social, semelhantemente,
aliando as ciências naturais e as questões humanas. Em também devia reger-se por leis. E, por conseguinte trocou sua
pouco tempo o autor publicou textos sobre o assunto, como Magistratura pelo estudo para desvendar as leis sociais. Tendo
Les causes de l’écho, Les glandes rénales e La cause de la tomado conhecimento dos vários problemas sociais da Europa,
pesanteur des corps. além de ter sido um grande leitor e conhecedor dos impérios
Sua primeira obra de maior repercussão foi publicada antigos, tais como: Roma, Grécia, Cartago, Egito, Pérsia,
em 1721, intitulada de “Cartas Persas”, que é uma sátira China, Macedônia, Japão e os povos Hebreu, Árabe, Turco,
aos costumes e filosofia francesa. O autor imprimiu uma dentre outras etnias e países.
alta dose de sarcasmo colocando dois viajantes persas em Nesse período escreveu sua principal obra, “Do
Paris, trocando correspondências sobre a França com Espírito das Leis” que se tornou referência mundial para
amigos na Pérsia. Nesta obra a crítica às autoridades advogados, legisladores e outros cientistas sociais. A obra
políticas e religiosas, bastante comum entre os iluministas, é faz um vasto estudo nas áreas de Direito, história, economia,
constante em todo o livro. Por meio dos dois personagens geografia e teoria política que percorreu mais de dez anos
Montesquieu aproveita para criticar tudo o que o até sua publicação em 1748.
incomodava na sociedade francesa da época. Ele sofreu ao mesmo tempo uma avalanche de elogios
Depois do êxito alcançado com “Cartas Persas” foi e de represálias de todos os lados. Chegou a publicar
admitido nos grandes círculos intelectuais de Paris. Aos 39 posteriormente um livro resposta chamado “Defesa do Espírito
anos foi estudar na Academia Francesa e como parte dos das Leis”. O autor faleceu em fevereiro de 1755. Encontra-se
estudos iniciou uma maratona de viagens pela Europa que sepultado na L’eglise Saint-Sulpice, Paris na França.
proporcionaram a Montesquieu a oportunidade de conhecer
obras importantes para sua formação como as do historiador Contexto Histórico: visão política e ideias principais
Pietro Giannone (1676-1748) e do filósofo Vico (1668-1744). Um breve retrocesso histórico se faz necessário para
Depois de passar pela Itália, Holanda e Alemanha terminou compreender alguns acontecimentos gerais que levaram às
sua peregrinação na Inglaterra lugar onde concluiu sua características da corrente iluminista, da qual Montesquieu
formação intelectual. Na ilha britânica relacionou-se com se destacou como um dos principais teóricos. O embasamento
os círculos políticos, entrou para a maçonaria e para a de um poder divino atribuído aos monarcas europeus
Academia Real. Neste período teve grande contato com a enfraquece a partir do momento que Lutero, em 1518, lê a
doutrina iluminista e liberal. Com a conclusão das viagens passagem “o justo viverá pela fé” da Epístola de São Paulo
Montesquieu ficou recluso por dois anos, dedicando-se aos romanos. Sua interpretação de que os indivíduos não
exclusivamente a escrever. deveriam recorrer à Igreja para pagar indulgências gerou

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

conflitos ao redor de toda a Europa até que, em tese, o Desde o fim da Idade Média, quando os reis começam
Tratado de Vestefália (1648) colocasse fim às guerras, a tomar o poder que os senhores feudais tinham sobre suas
reconhecendo a soberania de cada Estado em termos de terras, a nobreza ociosa passa a franquear o trono e a
escolha de religião. Com isso, a explicação para as coisas almejar o poder. Os reis buscam então o apoio das massas,
passa a não mais estar no transcendental, mas no próprio não confiando mais no pessoal de sua corte e, fazendo isso,
homem e eis que surge o Iluminismo como tentativa de fazer concedem gradualmente mais benefícios àqueles, na forma
das ciências naturais as ciências da razão e da de menos servidões, no fim das contas. O poder absolutista,
experimentação. Tal indutivismo aparece como uma quebra cada vez mais cruel e centralizado, culmina drasticamente
de paradigmas com o que se tinha no século XVII, a com o governo de Luís XIV (1643 - 1715). A insatisfação já
construção de um racionalismo aplicado à geometria, à era grande nesta época de altos gastos com o luxo na corte
dedução, que Baruch Spinoza mostra bem em sua Ética de – como mostra bem a arte rococó, com seus quadros
1677. O foco agora são os ensinamentos históricos, factuais exaltando os prazeres do cotidiano aristocrático, suas festas,
– o que propicia a Sociologia comparativa de Montesquieu sua sensualidade – enquanto a população estava imersa na
– e a tentativa de aglomerar o conhecimento comum na miséria. Com o nascente sistema capitalista em ação, uma
ciência, nas artes e nos ofícios – a Encyclopédie de Diderot nova esperança surge no imaginário das pessoas, a saber, a
e de D’Alambert. A própria música do tempo destes homens superação da escassez dos bens necessários à vida, a
detinha uma característica comum a dos estudiosos, de certa superação de um antigo e comum temor popular. Ademais,
forma. Aparece o conceito de virtuosismo, no início do século a emancipação do indivíduo enquanto sujeito de sua
XVII, atribuído àquele que explorava ao máximo o seu atividade econômica – dotado de propriedade privada,
instrumento, desenvolvendo novas linguagens musicais a graças ao liberalismo precoce de Locke –, em oposição ao
serem expressas. Isso se manifestou na inovação barroca mercantilismo estatal, foram importantes fatores, existentes
com um estilo quase que discursado – a ópera – e estilos principalmente na Inglaterra, para o que se seguiria.
estritamente instrumentais – a suíte e o concerto –, que A arquitetura rococó pomposa e cortesã era a mesma
possuem linhas agudas e graves definidas e que deixa aos arquitetura repleta de janelas que deixavam adentrar a luz,
instrumentos de frequência média a possibilidade de variar e em 1789 eclode a Revolução Francesa e a junção entre
a melodia de acordo com a nuança de cada autor, burguesia e classes populares, embora momentânea, foi
demonstrando seu característico virtuosismo. Porém, a selada. A volta ao pensamento indutivo, à forma humana,
partir da segunda metade do século XVIII e com a morte do ao equilíbrio do Neoclassicismo foi o legado que homens
compositor Bach, uma transição musical para algo mais como Montesquieu deixaram para a arte do século posterior.
simplificado foi inevitável. Como tudo o mais, os trabalhos A teoria política criada por ele e que se reflete na divisão
iluministas também proporcionaram uma transição a algo dos poderes estatais, por exemplo, são aulas de vida para
que, a priori, seria mais estável. acadêmicos e políticos até os dias de hoje.
• Montesquieu defendia a divisão do poder em dois:

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

• Poder Executivo (órgão responsável pela administração Em 1721, publicou as Cartas Persas (Lettres
do território e concentrado nas mãos do monarca ou persanes), obra da sua juventude, e consistia num relato
regente); imaginário, sob a forma epistolar, sobre a visita de dois
• Poder Legislativo (órgão responsável pela elaboração das persas, Rica e Usbeck, a Paris, durante o reinado de Luís
leis e representado pelas câmaras de parlamentares): o poder XIV. As duas personagens escrevem para seus amigos na
Legislativo era dividido em dois: a câmara dos lordes, Pérsia descrevendo tudo o que veem em Paris. Por meio
indicados pelo rei, representando a aristocracia, e a câmara desta narrativa, critica os costumes, as instituições políticas
dos comuns, de representantes eleitos pelo povo. e os abusos da Igreja Católica e do Estado absolutista na
• Montesquieu não considerava o Judiciário como um dos França da época.
Poderes.
• Era a favor da Monarquia Parlamentar. O Espírito das Leis (L’esprit des lois)
Montesquieu elaborou uma teoria política, que
Outra importante teoria de Montesquieu trata das apareceu na sua obra mais famosa, o O Espírito das Leis
relações das formas de Governo e seus princípios, segundo (L’esprit des lois, 1748), inspirada em John Locke e no seu
o autor as formas seriam as seguintes: estudo das instituições políticas inglesas. É uma obra
• República - Democracia (Princípio–Patriotismo) volumosa, na qual se discute a respeito das instituições e
*Formas de Governo das leis, e busca-se compreender as diversas legislações
• Aristocracia (Princípio–Moderação) existentes em diferentes lugares e épocas. Esta obra inspirou
• Monarquia (Princípio-Honra) os redatores da Constituição de 1791 e tornou-se fonte das
• Despotismo (Princípio – Terror) doutrinas constitucionais liberais, que repousam na
Montesquieu atribuiu mais algumas classificações a estas separação dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.
formas de governo, tais como: “O Espírito das Leis” foi proibido em diversos
*Formas Puras: círculos intelectuais e também incluída no Index Librorum
• Monarquia: Governo de um só (Princípio-Honra) Prohibitorum da Igreja Católica. Foi também duramente
• Aristocracia: Governo de vários recriminado pelo clero francês, na Sorbonne e em diversos
• Democracia: Governo do povo (Princípio-Virtude) artigos, panfletos e outros escritos. Toda essa reação
*Formas Impuras: negativa deu a obra uma maior abrangência e repercussão
• Tirania: Corrupção da Monarquia que a conseguida por “Cartas Persas”.
• Oligarquia: Corrupção da Aristocracia “O Espírito das Leis” analisa de maneira extensa e
• Demagogia: Corrupção da Democracia profunda os fatos humanos com um rigoroso esboço de
Obras, crítica e filosofia de Montesquieu interpretação do mundo histórico, social e político. A
Cartas Persas (Lettres persanes) pertinência das observações e a preocupação com o método
permitem encontrar no seu trabalho elementos que prenunciam

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

uma análise sociológica. Eis algumas das principais ideias de Apesar de ser muito influenciado pelos clássicos
Montesquieu expressas nesta obra tão importante: (notadamente Aristóteles), o seu esquema de governos é
As leis escritas ou não, que governam os povos, não diferente destes últimos. Montesquieu, ao considerar a
são fruto do capricho ou do arbítrio de quem legisla. Ao democracia e a aristocracia um mesmo tipo (agrupados na
contrário, decorrem da realidade social e da História concreta república) e ao falar de despotismo como um tipo em si e
própria ao povo considerado. Não existem leis justas ou não a corrupção de outro (neste caso, da monarquia), mostra-
injustas. O que existe são leis mais ou menos adequadas a um se mais preocupado com a forma com que será exercido o
determinado povo e a uma determinada circunstância de época poder: se é exercido seguindo leis ou não.
ou lugar. O autor procura estabelecer a relação das leis com Ao procurar descobrir as relações que as leis têm com a
as sociedades, ou ainda, com o espírito dessas. natureza e o princípio de cada governo, Montesquieu desenvolve
O que Montesquieu descreve como espírito geral de uma alentada teoria de governo que alimenta as ideias fecundas
uma sociedade aparece como resultante de causas físicas (o do constitucionalismo, pelo qual se busca distribuir a
clima), causas morais (costumes, religião…) e das máximas autoridade por meios legais, de modo a evitar a violência e o
de um governo (ARON, R.). Modernamente, seria o que abuso de poder de alguns. Tais ideias se encaminham para uma
chamamos vulgarmente de uma identidade nacional que se melhor definição da separação dos poderes, ainda hoje uma
constitui conforme os fatores citados acima. das pedras angulares do exercício do poder democrático.
As máximas anteriormente descritas dizem respeito aos, Montesquieu admirava a constituição inglesa, mesmo sem
segundo o próprio autor, tipos e conceitos que dariam conta compreendê-la completamente, e descreveu cuidadosamente
daquilo que as causas não abrangem. Seriam, por conseguinte, a separação dos poderes em Executivo, Judiciário e
o princípio (o que põe os governos em movimento, o princípio Legislativo, trabalho que influenciou os elaboradores da
motor em linguagem filosófica, constituído pelas paixões e Constituição dos Estados Unidos da América.
necessidades dos homens) e a natureza (aquilo que faz um O poder Legislativo, convocado pelo Executivo,
governo ser o que é determinado pela quantidade daqueles que deveria ser separado em duas casas: o corpo dos comuns,
detêm a soberania) de um governo. composto pelos representantes do povo, e o corpo dos nobres,
Segundo estas duas características fundamentais de formado por nobres, hereditário e com a faculdade de impedir
um governo, Montesquieu distingue três formas de governo: (vetar) as decisões do corpo dos comuns. Essas duas casas
• Monarquia - soberania nas mãos de uma só pessoa (o teriam assembleias e deliberações separadas, assim como
monarca) segundo leis positivas e o seu princípio é a honra; interesses e opiniões independentes. Refletindo sobre o abuso
• Despotismo - soberania nas mãos de uma só pessoa (o do poder real, Montesquieu conclui que “é preciso que o poder
déspota) segundo a vontade deste e o seu princípio é o medo; limite o poder” daí a necessidade de cada poder manter-se
• República - a soberania está nas mãos de muitos (de todos autônomo e constituído por pessoas e grupos diferentes.
= democracia, ou de alguns = aristocracia) e o seu princípio É bem verdade que a proposta da divisão dos poderes
motor é a virtude; ainda não se encontra em Montesquieu com a força que se

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

costumou posteriormente a atribuir-lhe. Em outras passagens em três poderes, inspirado no sistema político constitucional
de sua obra, ele não defende uma separação tão rígida, pois da Inglaterra quando de sua viagem. Essa separação,
o que ele pretendia de fato era realçar a relação de forças e segundo o autor, é essencial para que haja a liberdade do
a necessidade de equilíbrio e harmonia entre os três poderes. cidadão em se sentir seguro perante o Estado e perante outro
Montesquieu não era um revolucionário. Sua opção cidadão, pois se fosse dado a mais de um desses poderes o
social ainda era por sua classe de origem, a nobreza. Ele poder de legislar e ao mesmo tempo julgar essa medida seria
sonhava apenas com a limitação do poder absoluto dos reis, extremamente autoritária e arbitrária perante o cidadão que
pois era um conservador, que queria a restauração das estaria praticamente indefeso, ou seja, estaria à mercê de
monarquias medievais e o poder do Estado nas mãos da um juiz legislador.
nobreza. As convicções de Montesquieu refletem-se à sua Montesquieu diz claramente que: “Não haverá
classe e, portanto, o aproximam dos ideais de uma também liberdade se o poder de julgar não estiver separado
aristocracia liberal. Ou seja, ele critica toda a forma de do poder Legislativo e do Executivo, não existe liberdade,
despotismo, mas não aprecia a ideia de o povo assumir o pois se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado
poder. A sua crítica, no entanto, serviu para desencadear a apenas estabeleçam leis tirânicas para executá-las
Revolução Americana e instaurar a república burguesa. tiranicamente”. Ainda completa: “O poder de julgar não
deve ser outorgado a um senado permanente, mas exercido
Das leis em suas relações com os diversos seres por pessoas extraídas do corpo do povo, num certo período
A lei é natural dos seres, própria deles. A lei deriva do ano, de modo prescrito pela lei, para formar um Tribunal
da natureza das coisas e não do arbítrio (vontade) de um, que dure apenas o tempo necessário.”.
qual seja a crítica ao sistema hobbesiano. É em virtude disso
que devemos ter em mente que o barão de La Brède foi sem Citações
dúvida um dos pensadores mais renomados e um articulador • “A religião é menos um tema de santificação do que um
de ideias ricas de esplendor e princípios éticos e morais tema de discussões que pertence a todos.”
embasados no cotidiano de sua época, e com conhecimentos • “A subtileza do pensamento consiste em descobrir a
úteis para o tempo presente. Montesquieu foi o proclamador semelhança das coisas diferentes e a diferença das coisas
do Direito em virtude, e com a sua formação e inteligência semelhantes.”
propôs divisões para o Direito em sua essência principal, • “Recebemos três educações diferentes: a dos nossos pais,
que nada mais é que prender-se à igualdade e liberdade de a dos nossos mestres e a do mundo. O que aprendemos nesta
cada cidadão. última, destrói todas as ideias das duas primeiras.”
• “Nas mulheres jovens, a beleza supre o espírito. Nas velhas,
O juiz não pode criar leis o espírito supre a beleza.”
Como já foi acima mencionado, “o Espírito das
Leis” de Montesquieu defende a divisão do poder público

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

• “As leis, no sentido mais amplo, são as relações necessárias 3.2. MAGISTRATURA HONESTA
que derivam da natureza das coisas.”
• “Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas SILVA (1994) procurando analisar o Judiciário francês,
se as que lá existem são executadas, pois boas leis há por afirma que:
toda a parte.”
• “As viagens dão uma grande abertura à mente: saímos do A Magistratura francesa não é modelar, mas
círculo de preconceitos do próprio país e não nos sentimos marcou, salvo melhor juízo, uma trajetória progressiva
dispostos a assumir aqueles dos estrangeiros.” no século passado e na primeira metade do século em
• “Quanto menos os homens pensam, mais eles falam.” curso, desempenhando o papel de modelo para a quase
• “A pessoa que fala sem pensar, assemelha-se ao caçador totalidade dos países ocidentais, para as suas ex-
que dispara sem apontar.” colônias e para alguns países do oriente médio,
• “Para se tornar verdadeiramente grande, é preciso estar modernizando as estruturas muçulmanas no que se
ao lado das pessoas, e não acima delas.” refere ao Direito positivo. A principal razão dessa
• “Leis inúteis enfraquecem as leis necessárias.” influência se deve à força do pensamento filosófico
• “Defenderei sempre o Direito de discordarem de mim.” oriundo da Revolução Francesa, incluindo-se no lastro
• “Só o poder freia o poder.” [O Espírito das Leis, Livro XI, pós-revolucionário a tendência pela codificação que
Capítulo IV] viria culminar com o Código de Napoleão, reconhecido
monumento jurídico do início do século passado. A
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Montesquieu) evolução da Magistratura é, todavia, tema sempre
atual; ainda hoje se debate, na França e em outros
países considerados desenvolvidos, temas como a
independência da Magistratura, a eficiência da justiça.
A verdade é que há quase cem anos já se lutava na
Europa para se libertar das injunções da política
através do poder central e já se dera importante passo
nesse sentido com a instituição do concurso público
para a seleção dos magistrados. Mas ainda não se
libertou de todo, lá, sobretudo no que se refere às
promoções, da ciência dos interesses, denominação
empírica e realística que se poderia dar à política. Teria
sido um passo à frente a organização da Magistratura
em carreira? Do ponto de vista da classe, sim, pois é
fator de segurança para o magistrado e sua família,

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

certamente porque ele precisa de tranquilidade a uma depuração maciça, suspendendo por três meses
espiritual para produzir bem em qualidade e a garantia de inamovibilidade e afastando 614
quantidade. Além disso, hoje em dia é comum e magistrados; em 1940, o Governo de Vichy suspende
necessário todas as profissões buscarem garantias para novamente a inamovibilidade, que seria restaurada
o futuro. Todavia, a luta incessante por galgar postos após a Segunda Guerra Mundial como princípio
mais elevados tem ocasionado, em toda parte, constitucional. Decreto de 1852 fixa pela primeira vez
resultados mais negativos que positivos: em vez de, um limite de idade para o exercício do cargo de juiz
como se almeja, constituir legítimo estímulo ao (75 anos para os membros da Corte de Cassação e 70
aperfeiçoamento do sagrado mister, a pletora por para os demais). Como preito de justiça ou com
promoções tem se tornado obsessão, tendo como sentimento de solidariedade à classe a que pertence, é
consequências o aviltamento da carreira e o ainda o magistrado quem fala: Comme celle de
rebaixamento do nível ético do magistrado. Chega-se 1’Ancien Régime, la magistrature du XIX e siècle
a dizer mesmo que o alto conceito do magistrado inglês continue à avoir le souci de sa dignité. Beaucoup de
se deve à inexistência, em seu país, de uma carreira magistrats exercent leur fonction comme un
hierarquizada da Magistratura. Lá o magistrado, com sacerdoce... Si on les critique, on ne reproche en tout
raras exceções, é nomeado para o mesmo posto por cas jamais aux magistrats de ne pas être intégres et
toda a vida. Não aspira, em regra, a promoções e, honnêtes. Comme le note le premier président Portalis
portanto, não necessita, na sua trajetória profissional, en 1840: on attaque les opinions, les moeurs ou les
dos favores da política. Uma frase sintetiza a realidade capacités mais jamais l’integrité des juges (A
que talvez não seja a regra, mas que ostenta Magistratura do século XIX, tanto quanto a do período
considerável parcela de verdade: “Qu’importe qu’on anterior à Revolução Francesa de 1789, tem a
ne puisse contraindre le juge si on a mille moyens de le preocupação e o compromisso com a sua dignidade.
seduire” (Não importa se não podemos subjugar os Muitos magistrados exercem sua função como um
juízes se temos várias formas de corrompê-los). A sacerdócio ... Se a gente os critica, não se pode reprová-
marcha das conquistas das garantias da Magistratura, los jamais por falta de integridade ou honestidade.
sobretudo da inamovibilidade, não foi sem percalços. Conforme afirmava Portalis em 1840: nós atacamos
Narra-se que tal garantia foi reduzida sob o Império suas opiniões, seus costumes ou sua competência
e, sob a Restauração, quase 300 magistrados são profissional, mas jamais a integridade dos juízes).
eliminados no período de 1815 a 1818. Após 1848
pronunciaram-se 14 suspensões; após 1870 houve 15
revogações de magistrados inamovíveis; no ano de
1880, demissão de mais de 500 magistrados, dentre os
quais 300 procuradores; em 1883 o Legislativo procede

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4. ÓRGÃOS DA JUSTIÇA FRANCESA

Afinal de contas, como estabelecer as diferenças entre


os órgãos jurisdicionais e não-jurisdicionais? Tarefa difícil, que
DUVERGER (1996) procura cumprir quando menciona
atribuições dos órgãos jurisdicionais:
– Assegurar o respeito da hierarquia das normas;
– Poder de interpretar o Direito; e
– O poder de aplicar o Direito e de sancionar suas
violações. (DUVERGER, 1996)
Para facilitar o estudo da estrutura da Justiça francesa,
apresentaremos algumas das classificações existentes,
acompanhadas de alguns comentários.
DUVERGER (1996) adota, de forma aproximada, o
mesmo padrão, apenas mudando os nomes, dizendo que na
França há uma corrente que considera o poder jurisdicional
dividido em tribunais judiciários, tribunais administrativos e
tribunais especializados.
GUNTEN, MARTIN e NIOGRET (1994) apresentam
uma classificação muito imperfeita: Tribunal dos Conflitos,
jurisdições administrativas, jurisdições judiciárias penais,
jurisdições judiciárias civis, jurisdições civis especializadas e
jurisdições judiciárias de recursos.
COUCHEZ (1998) traz uma interessante classificação
dos órgãos judiciários franceses, mas restritos à área civil. O
Ministério da Justiça francês, no seu site jurídico na Internet,
trata da organização da Justiça de forma precária e incompleta.
A classificação que, todavia, nos parece mais didática é a de
Francis Kernaleguen, apresentada no seu manual intitulado
Institutions Judiciaires, que seguiremos em nosso livro,

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acrescentando entre as jurisdições de hierarquia somente o Tribunal 1.1.1.1.4 – Jurisdições trabalhistas
de Conflitos, que ali não é tratado, ao lado da Corte de Cassação 1.1.1.1.5 – Tribunais dos processos de seguridade social
e das Cortes de Apelação, e excluindo as jurisdições internacionais 1.1.1.1.6 – Jurisdições da incapacidade
(Corte Internacional de Justiça, Corte Penal Internacional, Corte 1.1.1.1.7 – Tribunais paritários dos arrendamentos rurais
Europeia dos Direitos do Homem, Corte de Justiça da 1.1.1.2 – Jurisdições penais de primeira instância
Comunidade Europeia e Tribunal de Primeira Instância das 1.1.1.2.1 – Jurisdições de instrução
Comunidades Europeias) porque estão fora do objetivo deste livro. 1.1.1.2.1.1 – Juiz de instrução
1.1.1.2.1.2 – Jurisdições para menores
A Justiça francesa pode ser dividida em dois grandes 1.1.1.2.1.3 – Jurisdições militares
grupos: 1.1.1.2.l.4 – Corte de justiça da república
A – Justiça Judiciária; 1.1.1.2.1.5 – Tribunais marítimos comerciais
B – Justiça Administrativa. 1.1.1.2.2 – Jurisdições de julgamento
Para decidir sobre conflitos de competência entre essas 1.1.1.2.2.1 – Tribunais de polícia
duas Justiças existe o Tribunal dos Conflitos. 1.1.1.2.2.2 – Tribunais correcionais
1.1.1.2.2.3 – Tribunais do júri
Outros órgãos jurisdicionais existentes como jurisdições 1.l. l.2.2.4 – Jurisdições de menores
separadas: 1.1.1.2.2.5 – Juiz da infância
1 – Conselho Constitutional; 1.1.l.2.2.6 – Tribunal da infância
2 – Alta Corte de Justiça. 1.1.1.2.2.7 – Tribunal do júri da infância
Mencionamos, em seguida, os órgãos jurisdicionais, com 1.1.1.2.2.8 – Tribunais do exército
alguns dados sobre os mesmos, obedecendo ao planejamento 1.1.1.2.2.9 – Tribunal das forças armadas
deste trabalho, que visa dar uma primeira e rápida informação l.l.l.2.2.10 – Tribunais prebostais
da estrutura da Justiça da França, apenas que mudando a 1.1.1.2.2.11 – Tribunais militares do exército
numeração dos itens abaixo para facilitar a compreensão: 1.1.1.2.2.12 – Tribunais territoriais das forças armadas
1.1.1.2.2.13 – Alto tribunal das forças armadas
Órgãos Judiciários: 1.1.1.2.2.14 – Corte de justiça da república
l – Ordens jurisdicionais 1.1.1.2.2.15 – Tribunais marítimos comerciais
1.1 – Ordem judiciária 1.1.2 – Jurisdições da hierarquia
1.1.1 – Jurisdições da base 1.1.2.1 – Cortes de apelação
1.1.1.1 – Jurisdições civis de primeira instância 1.1.2.2 – Corte de cassação
1.1.1.1.1 – Tribunais de grande instância 1.1.2.3 – Tribunal dos conflitos
1.1.1.1.2 – Tribunais de instância 1.2 – Ordem administrativa
1.1.1.1.3 – Tribunais do comércio 1.2.1 – Conselho de estado

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1.2.2 – Jurisdições de direito comum Com modificações sucessivas, chegou-se, através da


1.2.2.1 – Tribunais administrativos ordenança 58-1273, de 22 de dezembro de 1958, ao sistema
1.2.2.2 – Cortes administrativas de apelação atual dos (TGI), ou seja, cada um tem pelo menos três juízes,
1.3 – Jurisdições especiais que trabalham com um procurador da república (membro do
1.3.1 – Corte de contas Parquet) e um escrivão. Quando este Tribunal tem mais de 5
1.3.2 – Câmaras regionais de contas juízes, é dividido em câmaras, cada uma presidida por um vice-
1.3.3 – Corte de disciplina orçamentária e financeira presidente sendo, algumas delas, dividida em seções.
2 – Jurisdições separadas
2.1 – Conselho constitucional A França continental é dividida administrativamente em
2.2 – Alta corte de justiça 22 regiões, 96 departamentos e mais de 36.000 comunas. Em
cada departamento existe pelo menos um TGI. Paris, Lyon e
Marselha têm arrondissements, que são divisões administrativas,
4.1. ÓRGÃOS JUDICIÁRIOS com suas respectivas subprefeituras. Os arrondissements mais
4.1.1. Tribunais de Grande Instância (1) importantes de cada uma destas cidades têm um TGI. No entanto,
mesmo cada departamento tendo pelo menos um TGI, nem
Os Tribunais de Grande Instância (TGI) são, realmente, sempre as circunscrições Judiciárias coincidem com as áreas
a “Justiça comum”, pois, regra geral, sua competência é geográficas dos departamentos, havendo 175 TGIs dentro da
estabelecida por exclusão, ou seja, é competente para conhecer França continental e seis nos outros departamentos ultramarinos,
e julgar todos os processos não expressamente da alçada de totalizando 181. A existência dessa disparidade se deve a critérios
outros Tribunais. São chamados de “clínicas gerais”, pois, puramente políticos, de difícil solução.
principalmente os juízes dos pequenos TGIs têm atribuições as
mais variadas. A hierarquia dentro dos TGIs é rígida. Assim, no topo
está o Presidente do Tribunal (5), vindo, em grau de importância
Comecemos por mencionar alguns dados históricos. decrescente, o Primeiro Vice-Presidente (6), o Vice-Presidente,
o Primeiro Juiz e, enfim, os demais Juízes. Esta excessiva
Os Tribunais de Grande Instância surgiram após a hierarquização constitui objeto de insatisfações.
Revolução Francesa, ou seja, existem há mais ou menos 200
anos, portanto, “recentemente”, para o conceito dos franceses, Quanto à competência dos TGIs, como dito
que consideram “antigo” o que seja realmente muito mais antigo anteriormente esta é geralmente do tipo residual (“aberta”, na
que esses tribunais. A Assembleia Constituinte de 1790 ao expressão de alguns doutrinadores), ou seja, os TGIs são
extinguir muitas jurisdições do regime monárquico (Antigo competentes para os processos que não são da competência de
Regime), criou 545 Tribunais de Distrito, cada um composto de nenhum outro órgão jurisdicional ou assemelhado.
cinco juízes eleitos.

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COUCHEZ et al. (1998), explicam com clareza a causa de danos causados por veículos, reparação de danos
complicada competência dos TGI em matéria civil em razão da causados pela energia nuclear, reparação de danos resultantes
matéria, que é a seguinte: de pesquisa biomédica, contencioso postal e de
A – competência da formação colegial (câmara de três ou cinco telecomunicações, serviço público do estado civil, nome,
juízes): prenome, títulos nobiliárquicos e nacionalidade, celebração de
– ações pessoais ou imobiliárias, ações de estado das pessoas; casamento e fraude à lei, troca de sexo, capacidade civil e
– ações sobre propriedade, ações sobre a vida econômica; eleitoral, internamento administrativo de alienados mentais,
– processos que tramitam necessariamente em segredo de justiça; contestação do imposto e seu reembolso e contencioso dos
B – competência de juiz único: Direitos aduaneiros.
– divórcio, alimentos e separação;
– processo de execução; Os TGIs dividem-se administrativamente em cinco
C – jurisdição do presidente: assembleias: uma assembleia plena dos juízes, procurador e
– decisões sobre cautelares; funcionários cartorários, uma assembleia de juízes e do Ministério
– decisões sobre determinados requerimentos. Público, uma assembleia dos juízes, uma assembleia dos
membros do Parquet e uma assembleia dos funcionários
cartorários. A intenção do decreto 83-1162, de 23 de dezembro
Há também a competência em razão do valor da causa, de 1983, é criar uma mentalidade grupal para melhor
independente da matéria objeto do processo, contanto que não
entrosamento e produtividade. Cada uma dessas assembleias
se trate de matéria trabalhista, comercial, de seguridade social pode emitir normas para cumprimento por aqueles que são seus
ou de outro Tribunal especializado, caso seu valor ultrapasse aderentes, além de funcionar como órgão consultivo e nomear
50.000 francos franceses. Os TGIs têm competência também pessoas para determinadas funções específicas.
em matéria penal como Tribunal Correcional, que julga casos de
delitos, e para processos que seriam da competência normal de No entanto, fora o poder das assembleias, o presidente
tribunais administrativos, numa verdadeira derrogação da regra de cada TGI detém uma grande dose de poder, pois administra
de competência absoluta da justiça administrativa nas causas o TGI, supervisiona os juízes do respectivo TGI e os Tribunais
em que o Estado intervém. Conforme PETIT (1997) estes de Instância (TI) de sua circunscrição Judiciária e emite
processos são os seguintes: expropriação por causa de utilidade ordenanças de administração Judiciária, inclusive destinando cada
pública, modos de aquisição a título gratuito, desmembramento juiz para câmaras e seções determinadas, dando preferência ao
de terras agrícolas, empresa administrativa imobiliária, servidões rodízio anual e fazendo a distribuição de processos entre os juízes,
administrativas de utilidade pública, responsabilidade pessoal dos podendo modificar as suas atribuições.
agentes da administração, funcionamento defeituoso do serviço
da justiça, responsabilidade dos membros de estabelecimentos Quando não há exigência absoluta de colegiado ou de
de ensino por danos causados ou sofridos por alunos, “juiz único”, o trabalho fica geralmente a cargo de um único juiz,
responsabilidade das pessoas jurídicas de Direito público por
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a requerimento das partes, com vistas à simplificação do – seção de estado das pessoas: filiação – nulidade ou revogação
processo. Sendo necessária uma decisão colegiada e não se de adoção – casamento (nulidade ou ruptura abusiva de
completando o quorum mínimo exigido, convocam-se promessa) – contestações relativas ao estado civil; 2ª seção:
advogados previamente cadastrados como suplentes de juiz. nacionalidade – Direito Aéreo – acidentes nos serviços públicos,
industriais e comerciais – empréstimos ao Estado – litígios
A tendência do Processo Civil francês é a opção pelo envolvendo a universidade e as pessoas de Direito público; 3ª
sistema do “juiz único”. PERROT, em palestra sobre o assunto, diz: seção: responsabilidade médica – procedimentos coletivos;
2ª câmara: contratos em matéria imobiliária – regimes matrimoniais
I – as estruturas Judiciárias 4. O declínio do colegiado na primeira – sucessões – liberalidades;
instância. Não consistiria a solução em abandonar o colegiado 3ª câmara: propriedade literária e artística – propriedade
tradicional para substituí-lo por uma Justiça de juiz singular, pelo industrial;
menos na primeira instância, como sempre ocorreu nos países 4ª e 5ª câmaras: contratos e obrigações – Direito securitário;
anglo-saxônicos, e na Bélgica desde 1919? 6ª e 7ª câmaras: Direito de construção;
8ª câmara: Direito de copropriedade;
PERROT menciona ainda o Relatório Coulon, que
9ª câmara: Direito dos contratos e obrigações bancárias;
preconiza o sistema de juiz singular para os TGIs, ideia essa que
10ª câmara: infrações militares – atentados aos bens e às pessoas;
pudemos verificar pessoalmente na França e que encontra cada
11ª câmara: infrações financeiras, fiscais e aduaneiras;
vez mais um número maior de adeptos, dentre os quais Mireille
12ª e 13ª câmaras: estelionatos, abusos de confiança, falsos,
Imbert-Quaretta (Pouvoir 74, p. 88/89):
infrações aos meios de crédito e pagamento;
‘A regra do colegiado no Tribunal de grande instância 14ª câmara: estelionatos, abusos de confiança, falsificação,
está sendo cada vez mais derrogada na prática. Na área infrações aos meios de crédito e pagamento – proxenetismo –
civil, todas as inovações de magistrados investidos de tóxicos;
funções especiais, juiz da execução, juiz da família, são juízes 15ª câmara: processos de maiores e de menores;
trabalhando no sistema de juiz único.’ 16ª câmara: proxenetismo – tóxicos – débitos de bebidas –
infrações relativas ao Código de saúde Pública – infrações
Alguns TGIs, por sua importância, possuem várias militares;
câmaras. O de Marselha tem onze, o de Lyon tem dez e o de 17ª câmara: difamação – Código Eleitoral – imprensa – polícia
Paris, trinta e um. O TGI de Paris merece uma referência especial de jogos – rádio – correios;
pelo seu prestígio e complexidade. Mencionemos suas câmaras 18ª câmara: propriedade comercial;
(a 1ª com suas três seções) e respectivas competências: 19ª câmara: acidentes de trânsito;
23ª câmara: comparecimentos imediatos – infrações militares;
1ª câmara: 1ª seção: – seção social: Direito Internacional e
24ª câmara: atentados aos bens e às pessoas;
responsabilidade dos auxiliares da Justiça – Direito de Imprensa;
28ª e 30ª câmaras: cheques – infrações ao Código de Trânsito;

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29ª câmara: estelionato – abuso de confiança – falsos – infrações condições de chegar depressa ao Tribunal e ali ser bem recebido,
aos meios de crédito e pagamento; conseguindo solução rápida para seu problema. Na prática,
31ª câmara: infrações econômicas e sociais – contratações. porém, os TIs não são considerados pelos jurisdicionados como
sendo assim tão acessíveis tanto geográfica como afetivamente...
4.1.2. Tribunais de Instância (2) Sua competência pode ser dividida em jurisdicional e
A Lei de 16-24 de agosto de 1790 criou as justiças de não jurisdicional.
paz por influência dos exemplos inglês e holandês, adaptadas ao A) JURISDICIONAL
ideário da Revolução Francesa. Os juízes de paz eram,
inicialmente, escolhidos entre leigos pelo voto popular, com o – civil: causas de valor inferior a 7.622,43 EUR (1.981,83
objetivo de propiciar a conciliação das partes. Posteriormente, EUR em causas que não comportam apelação e de 1.981,83 a
ocorreram outras modificações até chegar-se à sua substituição 7.622,43 EUR em causas de duplo grau de jurisdição), locações
pelos TIs em 1958 (ordenança 58-1273 de 22 de dezembro de residenciais e vários casos de locações comerciais, contratos de
1958), agora como verdadeiros órgãos jurisdicionais, compostos crédito ao consumidor, contestação à penhora de remunerações,
por juízes togados, encarregados de julgar além de conciliar. matérias agrícolas, ações possessórias e demarcatórias, pensão
alimentícia, revisão de renda viagère, e muitos outros casos,
Existem atualmente 473 TIs na França (nos quais atuam mostrando que o legislador pretende que os TIs sejam o juiz
860 juízes), sendo onze nos departamentos ultramarinos, ou seja, natural das pequenas causas que interessam à maioria dos
seu número é 2,41 vezes maior que o dos TGIs. Cada TI trabalha cidadãos;
no sistema de juiz único, ou “juiz singular”, no dizer do jurista
José Carlos Barbosa Moreira. – penal: contravenções; na área de tutelas de maiores e
menores; no contencioso de eleições políticas ou profissionais;
Em Paris existe um TI para cada um dos 20 desempatador nos contenciosos trabalhista e de arrendamentos
arrondissements, que funcionam com mais de um juiz togado,
rurais.
exercitando o chamado “juízo de proximidade” para causas
consideradas menos complexas, havendo também, um TI B) NÃO JURISDICIONAL: preside diversas comissões
especializado em matéria penal chamado Tribunal de Polícia. administrativas ou delas participa, recebe declarações de
Os advogados novatos iniciam seu trabalho normalmente neste nacionalidade, recolhe manifestações de vontade em caso de
Tribunal, mas o fato de um juiz ser designado para um TI não nacionalidade, participa das eleições dos Tribunais de Comércio
significa que ele seja principiante ou pouco capaz. Ele é um juiz etc. Nos TIs de Paris cerca de 60% das causas versam sobre
do TGI da circunscrição Judiciária escolhido pelo presidente locação residencial e 40% sobre contratos de crédito ao
desse TGI. A proximidade anteriormente mencionada deve ser consumidor.
tanto “geográfica” quanto “afetiva”, ou seja, o jurisdicionado tem

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Alguns especialistas consideram os Tribunais de Instância composto por delegados consulares eleitos, membros e antigos
como o Judiciário do futuro, por suas enormes vantagens sobre membros dos TCs além de antigos membros das Câmaras de
os demais tribunais. Nos vários TIs atuam 1605 conciliadores, Comércio e Indústria. Cada juiz consular é eleito por dois anos,
escolhidos entre voluntários, e que sejam, preferencialmente, podendo ser reeleito por mandatos de quatro anos.
formados em Direito.
Os Presidentes dos TCs são eleitos por quatro anos dentre
4.1.3. Tribunais do Comércio (3) os juízes consulares com pelo menos seis anos de antiguidade,
não sendo remunerados pelo seu trabalho. Para tornar-se eleitor
Criados sob inspiração das repúblicas italianas da Idade a condição necessária é estar inscrito no Registro do Comércio.
Média para resolução de litígios ocorridos durante as grandes
feiras, pelo prestígio dos comerciantes e industriais, os tribunais Alguns consideram que a tramitação dos processos é
de comércio são os tribunais mais antigos da estrutura jurisdicional mais rápida nos TCs que nos TIs. De acordo com o valor da
francesa. Em 1553 um edito os tornou permanentes e, passando causa, a sentença comporta apelação ou não. A referência é
ilesos pelo crivo da Revolução Francesa, chegaram até nossos 3.811,22 EUR e, sendo seu valor superior, a apelação é possível,
dias com poucas alterações. Atribui-se a causa de sua devendo ser interposta perante a Corte de Apelação competente.
permanência pelo regime revolucionário, segundo Existe uma Comissão Nacional de Disciplina que pode aplicar
KERNALEGUEN (1993), ao fato de seus membros serem punições aos juízes consulares.
eleitos dentre os comerciantes (e industriais, evidentemente).
Cremos, no entanto, que a explicação correta é a que demos O Ministério Público começou a atuar nos TGs, após a
acima, ou seja, o prestígio dos comerciantes e industriais, Lei de 10 de julho de 1970, quando se trata de processos
portanto burgueses, numa revolução que se sabe não ter se envolvendo empresas em dificuldades financeiras. Com a
originado do “povo”, mas, sim da “burguesia”. supressão de 36 TCs em 1999, seu número atual é de 191.
KERNALEGUEN afirma, com razão, que os TCs são os únicos
tribunais de composição uniforme. Os litígios que envolvam algum Nos departamentos de Alsácia-Moselle foi mantido o
comerciante ou industrial são julgados pelos TCs, salvo onde sistema alemão, existindo uma Câmara Comercial em cada um
não exista nenhum Tribunal deste tipo quando, então, a dos sete TGIs, formada por um juiz togado e dois juízes
competência será de um TGI. Seu procedimento é oral. consulares. Nos departamentos ultramarinos, a Justiça comercial
é exercida por Tribunais Mistos de Comércio, em número de
Para ser “juiz consular” o candidato deve preencher os sete, onde trabalham um juiz togado e três juízes consulares. Na
seguintes requisitos: ter mais de 30 anos de idade, estar inscrito França existem 23 jurisdições compostas de juízes de carreira
no Registro do Comércio há mais de cinco anos e não sofrer ou atuando em matéria comercial em TGI.
ter sofrido processo que demonstre inidoneidade financeira
(falência, por exemplo), e ser eleito por um colégio eleitoral De há muito tempo, pretende-se uma reforma da Justiça
Comercial, destacando-se, sobre o tema, o Relatório

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Montebourg, ligado a uma Comissão da Assembleia Nacional organizado sobre a honestidade, a diligência e o trabalho de
(sobre a atividade e o funcionamento dos Tribunais de Comércio, homens. Se nós os encontramos, tanto melhor, se não os
quando aborda a situação do Tribunal de Auxerre, em 1998), e o encontramos, é um drama. Isso mostra a fragilidade do Tribunal
programa do Ministério da Justiça de 14 de outubro de 1998. O do Comércio.”
Relatório da Comissão, datado de 2 de abril de 1999, propõe a
modificação da carta Judiciária dos TCs e a participação de juízes O projeto de criação do estatuto dos juízes consulares
togados nos TCs, sugerindo modificações iniciais a vigorarem a pretende reforçar a imparcialidade e a qualidade da Justiça
partir de 1° de janeiro de 2002 e as finais para após lº de janeiro Consular adotando as seguintes modificações:
de 2003, prevendo o recrutamento de 350 juízes togados. – Criação de novas regras de incompatibilidade e
instituição de disposições visando impedir toda interferência entre
A leitura do Relatório, elaborado por uma Comissão da
as funções jurisdicionais e o exercício de uma atividade
Assembleia Nacional (sobre a atividade e o funcionamento dos profissional ou de mandatos Judiciários;
Tribunais de Comércio, quando aborda a situação do Tribunal – Obrigação para todos os juízes de subscrever uma
de Lyon, em 1998), dá a perceber que há uma corrente favorável declaração de interesses econômicos; reforço das regras
à manutenção dos TCs como são atualmente, ali representada disciplinares a fim de assegurar a eficácia dos procedimentos
principalmente: contra os juízes e os antigos juízes consulares;
– pelo depoimento de um membro do Ministério Público – Início de uma formação reforçada para os juízes
que ali atua, o qual diz que as decisões do TC de Lyon são organizada pela Escola Nacional da Magistratura;
boas, tanto que pouquíssimas são reformadas (1,5%); – Modificação do regime eleitoral dos juízes consulares
– pelo depoimento de uma juíza do TGI de Lyon, que com vista a alargar o corpo eleitoral e reforçar a transparência
afirma que seria de bom alvitre consultar os jurisdicionados e os do processo de eleição.
juízes dos TGIs para dizerem se entendem que a extinção do COUTANT (1998), defensor da estrutura atual dos
TC de Lyon seria boa para ambos; TCs, após utilizar diversos argumentos em favor de sua tese
– depoimento do presidente do TC de Lyon, que procura como, por exemplo, a existência da Escola de Tours (destinada
esconder a fragilidade de uma justiça de leigos, ficando também aos juízes consulares), e a excelente qualidade das decisões dos
evidente que a escolha dos juízes consulares depende muito da
TCs, propugna pela reforma dos mesmos, mas no sentido de
intervenção do presidente do Tribunal e não dos eleitores aumentar sua competência e prestígio. Enquanto isso, outros
(associados). propõem pura e simplesmente a sua extinção. Na Justiça francesa
Dando a entender que um órgão jurisdicional tem de ter os TCs são, realmente, os mais polêmicos.
estrutura organizacional sólida independente de quem o dirige, o
deputado-relator afirma em certo ponto: “Nós temos o
sentimento de que o sistema não pode repousar, tal como ele é

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4.1.4. Jurisdições Trabalhistas (4) e os candidatos devem ser franceses, idade mínima de 21 anos,
além de provar não ter sido processado por infração dos artigos
KERNALEGUEN (1999) classifica as Jurisdições 5 e 6 do Código Eleitoral. O mandato é de cinco anos, sendo
Trabalhistas (JTs), em francês denominados Conseils de possível a reeleição. Para ser eleitor exige-se a idade mínima de
Prud’Hommes, entre os tribunais de composição heterogênea, 16 anos, podendo votar os trabalhadores estrangeiros, todos
pois, apesar de paritários no dia-a-dia dos processos, se provando sua qualidade de empregado ou empregador, de
necessário, neles atuam juízes dos TI como desempatadores. acordo com cada caso.
Tratam dos litígios entre empregados ou aprendizes e Os conselheiros são considerados magistrados para
empregadores quando versam sobre contrato individual de efeito dos deveres funcionais: segredo funcional,
trabalho ou de aprendizagem, de acordo com o Código do incompatibilidades e outros, e, no exercício do cargo, recebem
Trabalho e também desacertos entre trabalhadores por ocasião uma quantia em dinheiro a título de incentivo. Cada JT tem um
do trabalho. presidente e um vice-presidente, com mandato de um ano, eleitos
alternativamente entre as duas categorias que os compõem. Cada
Esta instituição surgiu em Lyon, antes da Revolução seção tem um departamento de conciliação e outro de julgamento.
Francesa, sendo por ela suprimida e, posteriormente, foi recriada Os processos passam inicialmente pelo primeiro departamento.
pela Lei de 18 de março de 1806. Sendo estendida a outras Não havendo acordo, irão para o departamento de julgamento.
cidades industriais a partir de 1809, adquirindo caráter paritário
somente em 1848. Atualmente, por força das Leis de 19 de DESPAX (1967) expõe o que os jurisdicionados
janeiro de 1979 e de 30 de dezembro de 1986, deve existe pelo esperam dos juízes classistas, ou seja, um número mais elevado
menos uma JT dentro do território onde existir um TGI. Na de conciliações, solução mais rápida, procedimentos mais simples
França eles são em número de 271. Nos territórios ultramarinos e despesas menores que as dos outros tribunais, e fornece uma
existem cinco Tribunais do Trabalho. informação interessante: “A imensa maioria das ações é intentada
não por um empregado, mas por um ex-empregado, contra seu
Cada JT é dividida em cinco seções: indústria, comércio, antigo patrão.” (DESPAX, 1996:114/118).
agricultura, enquadramento e atividades diversas, sendo cada
seção composta de pelo menos oito conselheiros (quatro Cabe recurso de apelação somente para as causas de
empregados e quatro empregadores). Cada seção pode ser valor superior a 22.000 francos franceses (referência Decreto
dividida em câmaras, com competências específicas. n° 98-1174 de 21 de dezembro de 1998, revisado anualmente
por decreto).
A Lei de 6 de maio de 1982 criou um Conselho Superior
com a finalidade de estudar e formular pareceres e sugestões
para o bom funcionamento dos JTs. Seus conselheiros são eleitos

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

4.1.5. Tribunais de Processos de Seguridade Social Apelação, mas pela Corte Nacional da Incapacidade e da
Tarifação do Seguro dos Acidentes do Trabalho.
Em número de 116, os Tribunais de Processos de
Seguridade Social tratam de litígios de natureza previdenciária 4.1.7. Tribunais Paritários de Arrendamentos Rurais (5)
do Código de Seguridade Social. Cada TPSS é composto de
um juiz de TGI (ou aposentado) e de dois leigos, sendo um Criados através de uma ordenança de 4 de dezembro
representante dos trabalhadores e o outro dos empregadores de 1999 para dirimirem litígios entre arrendantes e arrendatários
ou trabalhadores independentes. Os juízes leigos são escolhidos rurais, prestigiado o instituto da conciliação. Antes da reforma
pelo presidente da Corte de Apelação da circunscrição Judiciária de 1958, a competência na primeira instância era dos tribunais
de uma lista apresentada pelos sindicatos mais representativos. cantonais e, na segunda instância dos tribunais de
arrondissements, sendo esses últimos extintos com a reforma,
SERGE BRAUDO, no seu Dicionário de Direito Privado quando as Cortes de Apelação passaram a decidir em segunda
publicado na Internet, fornece uma série de informações: instância. Trata-se de uma jurisdição paritária e intermitente,
presidida por um juiz de TI, que julga juntamente com dois
Os TPSS são divididos em câmaras, a arrendadores e dois arrendatários.
competência geográfica de cada Tribunal é
departamental, o procedimento é oral, as causas de Os juízes leigos são eleitos pelos arrendadores e
valor até 3.811,22 EUR não comportam apelação, e, arrendatários, com mandato de seis anos. Os candidatos,
acima desse valor, o julgamento da apelação compete obrigatoriamente de nacionalidade francesa, devem ter mais de
à Corte de Apelação da circunscrição Judiciária. 26 anos de idade e serem arrendadores ou arrendatários há pelo
menos cinco anos. Os membros do Tribunal Paritário só são
4.1.6. Tribunais do Contencioso da Incapacidade convocados, quando da ocorrência de casos na área de sua
competência.
Competentes para julgamento de causas que versam
sobre incapacidade ou invalidez física ou mental no seu aspecto Devido a essas peculiaridades, pode ocorrer que os
médico. A circunscrição Judiciária de cada Tribunal é regional, processos de sua competência sejam transferidos para algum TI
existindo, portanto, 26 TCIs, compostos por juízes Judiciários da circunscrição, no entanto, mesmo assim, aplicando-se as
ou administrativos da ativa ou aposentados, funcionários da ativa regras próprias da jurisdição de arrendamentos rurais. O
ou aposentados, trabalhadores, empregadores, trabalhadores procedimento é oral. Se o valor da causa é superior a 3.811,22
autônomos e médicos. EUR comporta recurso de apelação para a Corte de Apelação
da circunscrição Judiciária. Caso contrário, transita em julgado
As decisões que não comportam recurso podem ser na 1ª instância.
questionadas na Corte de Cassação, e as sujeitas à apelação
são julgadas em segunda instância não por uma Corte de

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

4.1.8. Juízes de Instrução (6) Com a valorização dos Direitos humanos, o Direito do
juiz de instrução de mandar prender vem perdendo terreno para
Os juízes de instrução são originários dos TGIs, sendo a regra da presunção de inocência, a ponto de o suspeito não
designados por decreto do Presidente da República, e sua poder, a partir da Lei de 4 de janeiro de 1993, ser chamado de
atuação territorial é a da circunscrição do respectivo TGI. Sua acusado ou semelhante, mas somente “pessoa colocada sob
maior atuação é a instrutória que ocorre obrigatoriamente em investigação”.
caso de crimes, facultativamente em caso de delitos e, no caso
de contravenções, somente se houver requerimento do Ministério Pretende-se reduzir o poder do juiz de instrução,
Público. Investigando os fatos descritos no requerimento, o juiz atribuindo-se a um juiz a investigação e a outro o poder de mandar
de Instrução dependerá de requerimento complementar, se no prender. Além da atividade instrutória, o juiz de instrução tem
curso das investigações, descobrir novos fatos a serem outras de natureza jurisdicional como, por exemplo, quando, ao
investigados. final da instrução, na presença do então suspeito e seu advogado,
lhes dá conhecimento das provas que coletou. A Câmara de
Quanto à pessoa do infrator, o juiz instrutor não fica Acusação verifica se a atuação do juiz de instrução está dentro
limitado ao requerimento, podendo indiciar todas as pessoas da legalidade ao analisar recursos dos investigados.
que ele conclua serem autoras da infração. São considerados
imparciais e, concluindo pela culpa ou inocência do imputado, 4.1.9. Justiça Juvenil (6)
providencia de acordo com essa convicção, no sentido do
processamento ou do arquivamento. Quando se trata de infração penal praticada por
adolescente a instrução é obrigatória nos casos de crime, delito
Os juristas franceses em geral dizem que esse sistema e contravenção da 5ª classe, visando uma avaliação de sua
inquisitório é melhor que o acusatório, pois o juiz de instrução personalidade. O encarregado da instrução, no primeiro caso, é
iguala réus ricos e pobres, poderosos ou desvalidos, procurando um juiz de instrução, e, nos dois outros, o Ministério Público
sempre a verdade, enquanto no sistema acusatório os réus ricos pode optar entre juiz da área ou um juiz de instrução.
ou poderosos sempre constituem advogado, que os livram da
condenação ou, no mínimo, a protelam. Na pesquisa da verdade, O juiz deverá demonstrar especial vocação para a área,
ele pode interrogar o suspeito, ouvir testemunhas, determinar e se desejar ser designado para a área juvenil. Originários dos
acompanhar escutas telefônicas etc., podendo, expedir os TGIs, constitui exceção importante no Processo francês, pois o
famosos mandados de comparecimento (ordem para alguém juiz da área que realizou a instrução é, normalmente, o juiz do
comparecer à sua presença), de condução (ordem à força pública julgamento do processo.
para trazer alguém à sua presença), de depósito (ordem de prisão
contra quem interesse à instrução) e de arresto (ordem de prisão No julgamento de adolescentes existem três
de alguém que interesse à instrução e que esteja em fuga). competências: Tribunais de Polícia (contravenções menos graves),
Juízes e Tribunais Juvenis (ambos para contravenções da 5ª classe

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

e delitos praticados por adolescentes menores de 18 anos), e os Para julgamento, as Jurisdições Militares se dividem em:
Tribunais de Júri Juvenis (crimes praticados por menores de 16 l – Jurisdições de tempo de paz:
a 18 anos). – Tribunais das Armadas: para forças militares que estão
Os Tribunais Juvenis são compostos por um juiz da área fora do território francês. São formados, no julgamento de delitos
(que o preside) e dois cidadãos nomeados pelo Ministro da e contravenções da 5ª classe, por três juízes togados (um
presidente e dois assessores), e, no caso de crimes, por sete
Justiça para um mandato de quatro anos. Em número de 139,
estes Tribunais não podem julgar os cúmplices e coautores juízes togados (um presidente e seis assessores). A função do
maiores. Os dois juízes leigos devem ser franceses, com mais de Ministério Público é exercida por um comissário governamental.
30 anos de idade e que manifestem grande interesse pela área. Se o julgamento de um processo não aconteceu devido à força
militar não estar mais no exterior, o julgamento passa para a
Os Tribunais de Júri Juvenis existem em sua forma atual Justiça comum (Tribunal Correcional etc.);
desde 1951, sendo bastante semelhantes aos Tribunais do Júri – Tribunal das Forças Armadas: para julgamento de
para maiores: é composto por um presidente (membro da Corte processos previstos em acordos internacionais específicos. Sede
de Apelação), dois juízes de menores e nove jurados, podendo em Paris. Sua composição e competência são as mesmas dos
julgar cúmplices e coautores maiores. Tribunais das Armadas.
– Tribunais Prebostais: competentes para julgar as
Em 1998, 376 adolescentes foram assistidos por contravenções das quatro primeiras classes praticadas pelas
estabelecimentos do setor público, 1.084 por estabelecimentos pessoas que seriam julgadas pelos Tribunais das Armadas. São
e serviços do setor associativo e 143.677 adolescentes compostos de um preboste, oficial da polícia militar.
acompanhados até 1° de janeiro de 1998.
2 – Jurisdições de tempo de guerra:
4.1.10. Jurisdições Militares – Tribunais Militares das Armadas: para forças militares
que estão fora do território francês. São compostos de cinco
Para melhor compreensão do tema, torna-se importante juízes (um presidente, juiz da Justiça comum ou juiz militar, e
separar as duas fases distintas: instrução e julgamento. A instrução quatro juízes militares);
nos processos de competência das Jurisdições Militares compete – Tribunais Territoriais das Forças Armadas: funcionam
a juízes da Magistratura civil escolhidos pelo Ministro da Defesa em território francês, sendo compostos de cinco membros (um
ou a juízes da Magistratura militar. O juiz instrutor das Jurisdições presidente e outro juiz, ambos togados, e três juízes militares,
Militares tem as mesmas atribuições do juiz de instrução. As estes sem formação jurídica). Julgam crimes e delitos “contra os
atribuições do Ministério Público são desempenhadas por um interesses fundamentais da nação” e conexos. Se o julgamento
comissário governamental e uma Câmara de Controle da de um processo não aconteceu devido à força militar não estar
Instrução funciona como Câmara de Acusação da Justiça comum. mais no exterior, o julgamento passa para um Tribunal territorial;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

– Alto Tribunal das Forças Armadas: com sede em Paris. 4.1.12. Tribunais Marítimos Comerciais
Compete-lhe julgar os militares dos altos postos. São compostos
de cinco juízes: um juiz Judiciário fora da hierarquia, um assessor O Direito Marítimo é considerado simultaneamente, um
conselheiro da Corte de Apelação e três juízes militares de posto dos mais antigos aplicados na Europa e um dos mais modernos.
igual ou superior ao do réu. Existe em andamento um projeto de Tudo começou com a Ordenança sobre o Comércio do Mar,
lei de reforma do Código de Justiça Militar, levando em conta a de Colbert, Ministro do Comércio de Luís XIV. São competentes
programação 1996/2000 de redução do efetivo militar de 440.206 para o julgamento de delitos e contravenções relativos à marinha
para 357.183 e o número de civis de 83.023, bem como do mercante, sendo a instrução feita por um oficial da marinha e
reduzido número de julgamentos no Tribunal dasArmadas de Paris não pelo juiz de instrução.
e da retirada da força militar francesa do território alemão.
Para julgamento são compostos por um juiz de Tribunal de
4.1.11. Corte de Justiça da República Grande Instância (presidente), um administrador dos processos
marítimos, um agente dos processos marítimos, um capitão de
Criado pela Lei constitucional 93-952 de 27 de julho de longo curso e, conforme a graduação do acusado, um marinheiro,
1993, a Corte de Justiça da República tem competência para um mestre ou um agente dos processos marítimos.
julgar os Ministros de Estado por crimes e delitos praticados no
exercício do cargo. Um requerimento específico dirigido à Corte Esta justiça especializada é regida pelo Código Disciplinar
de Cassação é assinado por uma comissão de requerimentos e Penal da Marinha Mercante (Lei de 17 de dezembro de 1926),
composta de sete magistrados (três juízes da Corte de Cassação, modificado em 1960, ab-rogada a parte disciplinar. Aplica-se
dois juízes do Conselho de Estado e dois juízes da Corte de em todos os lugares onde se encontra algum navio francês e em
Contas) ou pelo Ministério Público que atua diante da Corte de todas as circunstâncias, com exceção dos casos previstos no
Cassação. Com o deferimento da Corte para início da ação Código de Justiça Militar para a Marinha.
penal, é nomeada uma comissão de instrução composta de três
juízes “fora de hierarquia da Corte de Cassação”. A área 4.1.13. Tribunais de Polícia (7)
investigatória desta comissão se restringe aos fatos descritos no
requerimento e, para investigar outros fatos, a comissão de Já dissemos, anteriormente, que os juízes dos TIs são,
instrução deve aguardar autorização. Concluída a instrução a ao lado dos juízes de TGIs de pequeno porte, os únicos
comissão de instrução decide pelo arquivamento ou pelo envio “generalistas” na estrutura Judiciária francesa. Efetivamente,
do processo à Corte de Justiça da República. como regra geral, os TIs são competentes tanto para processos
penais como civis. Como exceção, em Paris, Lyon e Marselha
A Corte de Justiça da República é composta de quinze existem TIs exclusivamente penais, com competência para
membros (seis senadores, seis deputados e três juízes fora de julgamento de contravenções, cujas penas se resumem a multas
hierarquia da Corte de Cassação). O presidente da Corte é um de no máximo 3.048,97 EUR. Como já visto, há um só juiz para
dos juízes togados. cada Tribunal desse tipo.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Como regra geral, não há representante permanente do (com exceção dos casos de crimes militares e terrorismo) de
Ministério Público em TI e, portanto, em TP. A ação penal, no doze membros, sendo três juízes togados e nove jurados.
entanto, deve ser mobilizada pelo Ministério Público, representado
no caso de contravenções da 5ª classe por um membro do Os doze juízes decidem sobre o fato e o Direito e,
Parquet ligado a um TGI, e, nos casos de contravenções menos também, sobre a culpabilidade e a pena. Um detalhe interessante
graves, por um comissário de polícia. Existe a possibilidade da é que as decisões de culpabilidade contra o réu necessitam contar
vítima ou seus parentes se constituírem “parte civil”, ou seja, com pelo menos dois terços dos doze votos, enquanto que sobre
atuarem na assistência à acusação visando indenização. a pena necessitam apenas da maioria simples. A vítima, ou seus
parentes, podem atuar na assistência à acusação, constituindo-
Em 1998 foram condenados 108.862 acusados por se em “parte civil”.
contravenção de quinta classe e 593.277 por contravenções das
quatro primeiras classes. O julgamento se divide em duas partes: a matéria criminal
é julgada pelos juízes togados mais os jurados, e a matéria civil
4.1.14. Tribunais Correcionais (8) o é somente pelos juízes togados. Em 1998 foram condenados
3.260 acusados por crimes, sendo que, em 10 de julho de 1998,
Os TGIs são competentes tanto para os processos haviam 49.593 vagas nos 186 estabelecimentos penitenciários
penais como os civis, e os tribunais com maior número de juízes franceses, ocupados, na mesma data, por 57.844 detentos
são divididos em câmaras e estas em seções. Marselha Lyon e (portanto, existe superlotação). Entraram na prisão, naquele ano,
Paris possuem câmaras correcionais nos respectivos TGIs. Sua 71.768 presos e de lá saíram 72.886 presos.
competência é para julgamento dos delitos, cujas penas são
privativas de liberdade ou multas de valor igual ou superior a 4.1.16. Cortes de Apelação (10)
3.811,22. Como já visto, há um só juiz para cada Tribunal desse
tipo, existindo a possibilidade da vítima ou seus parentes se As Cortes de Apelação são originárias dos Parlamentos
constituírem “parte civil”, ou seja, atuarem na assistência à do Antigo Regime. Na época do consulado foram criadas 27
acusação visando indenização. Cortes de Apelação, sendo que atualmente existem 30 Cortes
na França metropolitana, três nos departamentos ultramarinos
Em 1998 foram condenados 449.330 acusados por delitos. (Guadalupe, Martinica e Guiana e Reunião) e duas nos territórios
também ultramarinos (Nova Caledônia e Polinésia).
4.1.15. Tribunais do Júri (9)
As Cortes de Apelação possuem competências em
Instituídos na França em 1810, os Tribunais do júri são matéria civil (recursos civis dos Tribunais de Grande Instância,
competentes para o julgamento de crimes. Em cada departamento Tribunais de Instância, Tribunais do Comércio, Tribunais
existe pelo menos um Tribunal do Júri, sabendo-se que no país Trabalhistas, Tribunais dos Processos de Seguridade Social e
existem 96 departamentos. Os Tribunais do júri são compostos Tribunais dos Arrendamentos Rurais) e penal (apelações contra

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

decisões dos Tribunais Correcionais, Tribunais de Polícia e dos Dentro do território francês existem grandes
juízes de instrução). Cada Corte é dirigida por um primeiro circunscrições Judiciárias abrangidas por Cortes de Apelação
presidente e cada câmara por um presidente. Os demais juízes (CAs), sendo que, dentro de cada uma delas, existem outras
são denominados conselheiros da Corte de Apelação. subdivisões onde se encontram os Tribunais de Grande
Instância (TGI) e outra dentro do território destes últimos,
Na França é permitido o recurso de apelação, se onde encontramos os Tribunais de Instância (TIs). No
ultrapassado o teto estabelecido em matéria civil e em matéria ANEXO l apresentamos a distribuição geográfica das
penal, sendo que na maioria das causas o processo é julgado circunscrições Judiciárias.
apenas uma vez, sem possibilidade de recursos, que apenas
retardam a solução definitiva da demanda. 4.1.17. Corte de Cassação (11)

As Cortes de Apelação possuem cinco assembleias: uma


assembleia plena dos juízes, procurador e funcionários
cartorários, uma assembleia de juízes e do Ministério Público,
uma assembleia dos juízes, uma assembleia dos membros do
Parquet e uma assembleia dos funcionários cartorários, com o
propósito de criar uma mentalidade grupal que propicie melhor
entrosamento e produtividade. Cada uma delas pode emitir
normas para cumprimento por aqueles que são seus aderentes,
além de funcionar como órgão consultivo e nomear pessoas para
determinadas funções especializadas. As Cortes de Apelação
dividem-se em câmaras civis, correcionais, social (para
julgamento de apelações contra decisões em matéria de
seguridade social, contrato de trabalho e leis sociais), de acusação
(para julgamento de apelações contra decisões dos juízes de
instrução) e de menores de idade (para julgamento de apelações
contra decisões dos juízes da juventude e dos tribunais da área). Originária do Conselho das Partes, que julgava os
recursos contra os acórdãos dos Parlamentos no Antigo Regime.
Competem às Cortes de Apelação os seguintes recursos: É “juiz do Direito e não do fato” e não pode decidir o mérito, ou
apelação, oposição de terceiro e oposição, sendo que os seja, não julga os argumentos desenvolvidos, só julga a forma.
julgamentos desses recursos são proferidos por, no mínimo, três Deve julgar “a correlação jurídica de uma decisão e não se
conselheiros. Na França ultramarina existem dois Tribunais pronunciar sobre um processo”. Interposto um recurso de
Superiores de Apelação. provimento em cassação, se a Corte de Cassação entende que
a decisão recorrida não está de acordo com o Direito, não a
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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

reforma, mas sim envia o processo a uma Corte de Apelação A Corte é composta de 87 conselheiros (chamados
diferente daquela que o julgou para novo julgamento. conselheiros da Corte de Cassação), 43 conselheiros
referendários e 13 auditores (chamados auditores da Corte de
Mas, como exceção, a Corte decide sobre o fato e o Cassação), estes últimos destacados para a área de
mérito quando dá provimento a um recurso penal de revisão documentação e estudos, podendo ajudar nas decisões. Ao
(interposto pelo réu condenado definitivamente), para corrigir primeiro presidente da Corte seguem-se, hierarquicamente, os
erro Judiciário ou, no processo civil. A partir da Lei de 6 de seis presidentes de câmaras e, mais abaixo, os oitenta
agosto de 1981, é de cinco o número mínimo de juízes (ou até Conselheiros da Corte. (29).
três) que decide os recursos.
4.1.18. Tribunal dos Conflitos (12)
A Corte de Cassação é composta de seis câmaras, sendo
uma criminal e cinco civis. A criminal julga recursos contra É o Tribunal competente para dirimir conflitos positivos
decisões dos órgãos da esfera penal; a 1ª câmara civil julga ou negativos de jurisdição ou quando tribunais das duas áreas
recursos de Direito das pessoas, contratos, seguro e Direito tomam decisões contraditórias dentro de um mesmo processo.
Internacional Privado; a 2ª câmara civil julga recursos de divórcio, O TC define se uma causa é da competência de algum Tribunal
responsabilidade delitual e procedimento; a 3ª câmara civil julga jurisdicional ou administrativo, sendo suas decisões irrecorríveis.
recursos de Direitos reais, propriedade e urbanismo; a câmara E composto de três membros do Conselho de Estado (Tribunal
comercial e financeira julga recursos de Direito dos negócios; e máximo dentro da hierarquia da justiça administrativa), três da
a câmara social julga recursos de Direito do Trabalho e de Corte de Cassação (órgão jurisdicional mais graduado dentro
Seguridade Social. da justiça Judiciária) e dois outros juízes nomeados pelos seis
primeiros, com dois suplentes. O mandato é de três anos.
A Corte de Cassação tem cinco assembleias: uma
assembleia plena dos juízes, procurador e funcionários O TC é, legalmente, presidido pelo Ministro da Justiça,
cartorários, uma assembleia de juízes e do Ministério Público, mas, de fato, o é pelo vice-presidente, eleito pelos seus pares,
uma assembleia dos juízes, uma assembleia dos membros do somente intervindo o Ministro da Justiça como desempatador.
Parquet e uma assembleia dos funcionários cartorários, com o Um decreto de 26 de outubro de 1849 traça as regras pertinentes
objetivo de formar uma mentalidade grupal que propicie melhor a esse Tribunal. Na França, com a dicotomia justiça Judiciária-
entrosamento e produtividade. Cada uma dessas assembleias justiça administrativa, verifica-se um número expressivo de casos
pode emitir normas para cumprimento por aqueles que são seus de questionamentos sobre competência de uma e de outra, pois
aderentes, além de funcionar como órgão consultivo e nomear é objeto de uma série de exceções, a regra geral de que todo
pessoas para determinadas funções especializadas. processo em que a administração seja parte tenha de ser julgado
pela justiça administrativa.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

4.2. ÓRGÃOS DA JUSTIÇA ADMINISTRATIVA Mole (1781-1855) – Stendhal (Henri Beyle ) (1783-1842) –
Odilon Barrot (1791-1873) – Edouard Laferrière (1841-1901)
4.2.1. Conselho de Estado – Jean Romieu (1858-1953) –Léon BIum (1872-1950) – René
Cassin (1887-1976) – Alexandre Parodi (1901-1979) –
Raymond Odent (1907-1979) – Pierre Laroque (1907-1997)
– Bernard Chenot (1909-1995) – Georges Pompidou (1911-
1974) – Michel Debré (1912-1996).

O Conselho de Estado foi criado por Napoleão


Bonaparte em 1799, originando-se do Conselho do Rei do
Antigo regime, para redigir os projetos de leis e os regulamentos
da administração pública e resolver as dificuldades que surgem
em matéria administrativa, conforme preconizava o art. 52 da
Constituição do ano VIII. O Conselho tem duas funções: a)
ajudar na redação de projetos de leis, ordenanças e decretos
do Conselho de Estado e interpretação de textos administrativos;
e b) julgar as causas em que a Administração é parte (contencioso
O Conselho de Estado é a Corte Suprema do administrativo).
contencioso administrativo. Aqui já se está no campo do Direito
Público, ou seja, aquele que na França, com o crescimento do Os conselheiros de Estado não são considerados juízes,
papel do Estado após a Segundo Guerra Mundial, tornou-se mas sim funcionários públicos, não se beneficiando da garantia
cada vez mais valorizado. Como está no site jurídico do Conselho constitucional de inamovibilidade dos juízes, mas De VILLIERS
de Estado (http://www.conseil-etat.fr/ce-data/actux.htm), “o (1998:41) atribuiu-lhe uma “independência incontestável, e
Conselho de Estado existe há bastante tempo. É necessário, reconhecida”, dizendo que o Conselho Constitucional tem os mesmos
sem dúvida, retornar a Felipe o Belo para encontrarmos os benefícios constitucionais do art. 64 da Constituição francesa.
primeiros traços dessa instituição que, desde então, jamais deixou
a estrutura do Estado. Embora em forma “moderna”, o Conselho Os membros do Conselho de Estado (cerca de 270)
de Estado tem 200 anos. E o art. 52 da Constituição de 22 são os auditores de 2ª classe (provenientes da Escola Nacional
Frimário ano VIII que prevê sua criação”. de Administração) e os auditores de 1ª classe (escolhidos entre
os anteriores), totalizando 30 auditores; – mestres de
No mesmo site são mencionadas algumas personalidades requerimentos (em média 120), sendo ¾ escolhidos entre os
exponenciais que participaram do Conselho de Estado: – Jean- auditores e 1/4 entre altos funcionários da Administração; –
Jacques Cambacérès (1753-1824) – Etienne-Denis Fasquiei- conselheiros de estado (em média 120), sendo 2/3 escolhidos
(1767-1862) – Georges Cuvier (1769-1832) – Louis-Mathieu
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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

entre os mestres de requerimentos e 1/3 entre altos funcionários (1996: 1), é necessário verificar se, no caso, “a ação da
da Administração; – Conselheiros de estado em serviço administração... se manifesta como poder público, não devendo
extraordinário (em número de doze) nomeados por 4 anos. O ser julgada pelos tribunais Judiciários”. Esta é a regra básica,
presidente do Conselho de Estado é o Primeiro-Ministro, mas seguida pelos tribunais administrativos, pelos tribunais Judiciários
quem exerce de fato a presidência é o vice-presidente do e pelo Tribunal dos Conflitos para decidir os conflitos positivos
Conselho de Estado. e negativos de competência entre as duas Justiças.

Como órgão jurisdicional o Conselho de Estado atua DAVID (1996:69/70) afirma que:
em três situações diferentes:
“... os tribunais administrativos, na França,
– juízo de 1° grau: eleições do Parlamento Europeu,
não se reconhecem com o poder de dar ordens à
anulação de decretos ou ato regulamentar ministerial, etc.; administração; eles se limitam a anular os atos ilegais
– juízo de 2° grau no julgamento de apelações contra que puderam ser executados, e a reconhecer o Direito
decisões dos Tribunais Administrativos; dos particulares de receberem uma indenização. Por
– juízo de cassação de decisões administrativas. outro lado, a lentidão da justiça administrativa e a
O Conselho de Estado, como já dito, tem duas funções dificuldade de fazer executar as decisões tomadas pelos
totalmente distintas: a primeira é jurisdicional, como de qualquer tribunais administrativos frequentemente enfraquecem
órgão Judiciário, e a segunda, é de assessoria aos outros dois a eficácia do Direito administrativo.”
poderes.
Já CAPPELLETTI (1999:48) coloca o Conselho de
Na sua função não jurisdicional, o Conselho de Estado, Estado como verdadeiro controlador do Estado:
atuando como órgão de conselho, compõe-se de uma assembleia
geral ordinária (35 membros), uma assembleia geral plena (em “Pouco a pouco, no entanto, um órgão da
média 100 membros), uma comissão permanente, uma seção administração, o “Conseil d’Etat”, foi assumindo esse
de finanças, uma seção de trabalhos públicos, uma seção do papel, adotando os procedimentos e conquistando grau
interior e uma seção social. de independência típico de verdadeiro Tribunal
Judiciário,... dele proveio amplo sistema de controle
Como órgão jurisdicional, compõe-se de uma assembleia Judiciário ou, para quem prefira, quase Judiciário, não
do contencioso (julgamento de processos importantes), uma apenas das violações da lei por parte da administração,
seção do contencioso (julgamento de processos delicados), dez mas também dos abusos e desvios da discricionariedade
subseções encarregadas de instruir os processos e subseções administrativa”.
reunidas (encarregadas de julgar). Para se definir se uma causa
é da competência da Justiça Administrativa, conforme CHAPUS

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

CONSELHO DE ESTADO Apelação) trata da organização e funcionamento desses órgãos


Ano-1998 (33) jurisdicionais, incluindo suas regras processuais.

A Lei n° 86-14 de 6 de janeiro de 1986 fixa as regras


Requerimentos: 10.232 que garantem a independência dos membros dos Tribunais
Administrativos e Cortes Administrativas de Apelação, tendo
Processos registrados: 8.427 Evolução 98/97 (%)+17,2
criado um Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e
Decisões proferidas: 9.450 Evolução 98/97 (%) -15,4 Cortes Administrativas de Apelação em moldes semelhantes aos
do Conselho Nacional da Magistratura.
Processos em instância (31.12): 8.479 Evolução 98/97 (%)-18,4

TRIBUNAIS ADMINISTRATIVOS
Movimentação - Ano 1998
4.2.2. Tribunais Administrativos
Requerimentos: 132.918
Originários dos Conselhos de Prefeitura da época pós-
revolucionária, os TribunaisAdministrativos são a primeira instância Processos registrados: 123.834 Evolução 98/97 (%) +21,9
dos processos do contencioso administrativo, dividindo-se, para
Decisões proferidas: 104.615 Evolução (96) (%) +8,6
julgamento, em câmaras, cada qual composta de três membros,
havendo casos em que se julga no sistema de juiz único. Existem Processos em instância (31.12): 207.920 Evolução 98/97 (%)+10,2
35 TribunaisAdministrativos na França, dos quais 27 na metrópole.
O TA de Paris possui treze câmaras, compostas de seções.

As regras de competência territorial são diferentes das 4.2.3. Cortes Administrativas de Apelação
comuns previstas no Código de Processo Civil francês, sendo um
tanto complexas. Para se definir se uma causa é da competência As Cortes Administrativas de Apelação constituem a 2ª
da Justiça Administrativa, conforme CHAPUS (1996:1), torna- instância dos processos do contencioso administrativo. Existem
se necessário verificar se, no caso, “a açâo da administração... se sete Cortes Administrativas de Apelação no país, presididas por
manifesta como poder público, não deve ser julgada pelos tribunais membros do Conselho de Estado. Cada Corte tem 3 câmaras,
Judiciários”. Esta é a regra básica, seguida pelos tribunais com exceção da Corte de Paris com quatro câmaras.
administrativos, Judiciários e o Tribunal de Conflitos para decidir
os conflitos positivos e negativos de competência entre as duas O Decreto 73-682 de 13 de julho de 1973 (Código dos
Justiças. O decreto 73-682 de 13 de julho de 1973 (Código dos Tribunais Administrativos e das Cortes Administrativas de
Tribunais Administrativos e das Cortes Administrativas de Apelação) trata da organização e funcionamento desses órgãos
jurisdicionais e suas regras processuais.
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A Lei n0 86-14 de 6 de janeiro de 1986 fixa as regras 4.3. ÓRGÃOS ESPECIAIS


que garantem a independência dos membros dos Tribunais
Administrativos e Cortes Administrativas de Apelação, inclusive 4.3.1. Corte de Contas
tendo criado um Conselho Superior dos Tribunais administrativos
e Cortes administrativas de Apelação em moldes parecidos com É um Tribunal da ordem administrativa, herdeiro das
os do Conselho Nacional da Magistratura. Câmaras de Contas do Antigo Regime, sendo dirigido pelo seu
primeiro presidente e contando com 270 juízes, entre auditores,
CORTES ADMINISTRATIVAS DE APELAÇÃO conselheiros referendários e conselheiros-mestres. (34). Dividido
em sete câmaras, suas atribuições são jurisdicionais e
Distribuição de atividades, por Corte-Ano 1998 (*) administrativas. No primeiro caso, é juiz de (e única) instância das
CORTES FRANCESAS contas de entidades mais graduadas na escala administrativa e de
segunda instância nos recursos contra decisões das Câmaras
Regionais de Contas. Não decide jurisdicionalmente a situação
Corte Processos Decisões Processos em
Registrados Proferidas Andamento
dos ordenadores. No segundo caso, verifica a boa execução dos
orçamentos, controla as contas dos organismos de Seguridade
l. Paris 3.298 2.200 6.223 Social e das empresas públicas, exercendo controle sobre os
ordenadores no que se refere à eficácia e regularidade do emprego
2. Lyon 2.160 1.586 4.569 dos créditos, fundos e valores administrados por eles.

3. Bordeaux 2.210 1.402 4.192 A legislação que trata das jurisdições financeiras é
composta das leis de 2 e 27 de dezembro de 1994 e da lei de
4. Nantes 2.093 1.645 4.289 24 de julho de 1995. O Código das Jurisdições Financeiras trata
da organização, funcionamento e das regras processuais dessa
5. Nancy 2.488 1.330 6.062 justiça especializada.
6. Marselha 2.081 1.036 3.999 4.3.2. Câmaras Regionais de Contas
7. Douai - - - As Câmaras Regionais de Contas são os Tribunais
Administrativos encarregados do controle das contas das
TOTAL 14.330 9.199 29.334
comunidades locais. As CRCs, em número de 24 (com 324
juízes), cada uma com um presidente e seus conselheiros. A
Evolução 97/98 +14,9 +23,3 +22,1
legislação que trata das jurisdições financeiras é composta das
* Requerimentos 17.135 leis de 2 e 27 de dezembro de 1994 e da lei de 24 de julho de
Fonte: site do Conselho de Estado 1995. Suas atribuições são jurisdicionais e administrativas, sendo

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os recursos julgados pela Corte de Contas, aplicando-se a elas, O Conselho Constitucional, criado pela Constituição de
no que couberem, as regras da Corte de Contas. 1958, decide sobre a constitucionalidade dos textos não
regulamentares aos tratados, à Constituição e aos princípios
O Código das Jurisdições Financeiras trata da constitucionais, eleições a nível nacional e situações que colocam
organização, funcionamento e das regras processuais dessa em jogo determinadas disposições constitucionais. Como
justiça especializada. exemplos das três situações, podemos citar a declaração de
inconstitucionalidade de leis, a anulação de eleições para deputado
4.3.3. Corte de Disciplina Orçamentária e Financeira e a declaração de vacância do cargo de Presidente da República.
Tribunal administrativo encarregado de punir O Conselho é formado por nove membros nomeados por
pecuniariamente os ordenadores que cometem faltas no nove anos, sendo possível a recondução, assim distribuídos: três
gerenciamento de créditos orçamentários públicos é formado pelo escolhidos pelo Presidente da República (dentre os quais o presidente
primeiro presidente da Corte de Contas, dois conselheiros da do Conselho), três pelo Presidente da Assembleia Nacional e três
mesma Corte e três conselheiros do Conselho de Estado. Os pelo Presidente do Senado. Uma crítica que se faz ao Conselho
ministros e os eleitos locais não são julgados por essa Corte, Constitucional é a de ser composto através de indicações políticas.
existindo benesses que inviabilizam a punição dos culpados. O Os ex-presidentes da República são membros-natos do Conselho.
Código das Jurisdições Financeiras trata da organização,
funcionamento e das regras processuais dessa justiça especializada, Declarada a inconstitucionalidade de um texto pelo
sendo os recursos apresentados junto ao Conselho de Estado. Conselho Constitucional, o mesmo não poderá ser promulgado.
Quanto às leis em vigor, não é possível a declaração de sua
4.4. JURISDIÇÕES SEPARADAS inconstitucionalidade, com base no princípio francês da soberania
do cidadão, consubstanciado nas leis editadas pelos seus
4.4.1. Conselho Constitucional
representantes eleitos. CAPPELLETTI (1999:78) diz que, nos
A hierarquia das normas obedece, conforme últimos tempos, a jurisprudência constitucional francesa evoluiu,
DUVERGER (1996:418), a seguinte: – Constituição e princípios menos que a da Itália, da Alemanha e dos Estados Unidos.
constitucionais, – tratados internacionais, – leis orgânicas, – leis,
4.4.2. Alta Corte de Justiça
– ordenanças, – princípios gerais de Direito, – decretos do
Presidente da República, – decretos do Primeiro ministro, – Com a competência de julgar o Presidente da República
portarias ministeriais, – portarias dos chefes de serviços centrais, por crime de alta traição, é composto de 24 membros titulares e
– portarias dos chefes de serviços particulares (reitores de 12 suplentes, escolhidos de forma paritária pelos Deputados e
Universidades, etc.), – portarias de diversas autoridades Senadores entre seus pares. O Ministério Público é representado
territoriais. Mais adiante, o ilustre jurista classifica as normas pelo Procurador-Geral que oficia junto à Corte de Cassação,
legais em constitucionais, legislativas e regulamentares. assistido por outros membros do Parquet: o Primeiro Advogado
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Geral e dois Advogados Gerais. O fato de não haver definição 5. CARACTERÍSTICAS DA JUSTIÇA JUDICIÁRIA
legal do que seja “alta traição” toma o Presidente da República,
de fato, irresponsável. No presente capítulo trataremos principalmente de
algumas características da Justiça Judiciária, considerando que
NÚMERO DE ÓRGÃOS JURISDICIONAIS ela é a mais conhecida e é a mais contatada pela população e
que, na verdade, desperta mais interesse entre aqueles que lidam
Resumo numérico
com o Direito. No nosso entender, suas características mais
1 – Jurisdições de Ordem Judiciária (incluídos territórios marcantes são as seguintes:
ultramarinos e coletividades territoriais): uma Corte de Cassação;
um Tribunal dos Conflitos; 35 Cortes de Apelação; dois Tribunais 5.1. TRADICIONALISMO
Superiores de Apelação; 181 Tribunais de Grande Instância (dos
quais 37 com competência comercial); cinco Tribunais de Na menção aos órgãos jurisdicionais vimos, por exemplo,
Primeira Instância (dos quais três com competência comercial); que os Tribunais do Comércio existem há mais de quatro séculos;
139 Tribunais Juvenis; 116 Tribunais de Seguridade Social; 473 os Tribunais de Instância e de Grande Instância, os Tribunais
Tribunais de Instância; 271 Conselhos de Prudentes (Justiça Marítimos Comerciais, as Cortes de Apelação, a Corte de
Trabalhista); cinco Tribunais do Trabalho; 191 Tribunais do Cassação, a Corte de Contas e a Alta Corte de Justiça (com os
Comércio (36 foram suprimidos em 1999); 26 Tribunais de nomes atuais ou criados a partir de seus antecessores) existem
Incapacidade; – Tribunais Paritários de Arrendamentos Rurais; desde a Revolução Francesa (1789) e os Tribunais Trabalhistas
– Juízes de Instrução; – Jurisdições Militares; uma Corte de foram criados logo após essa época. A estrutura extremamente
Justiça da República; 14 Tribunais Marítimos Comerciais; mais hierarquizada do Judiciário, à moda militar, permanece desde a
de 100 Tribunais do Júri. época de Napoleão Bonaparte. Grande parte dos fóruns
franceses localizam-se em edifícios muito antigos, quase sempre
2 – Jurisdições de Ordem Administrativa: um Conselho inadequados às suas necessidades atuais. A história da Justiça
de Estado; um Tribunal dos Conflitos; sete Cortes Administrativas ocupa um espaço muito grande na mente de muitas pessoas que
de Apelação; 35 Tribunais Administrativos; dirigem a instituição ou que nela atuam. O Judiciário francês é
3 – Órgãos Especiais: Uma Corte de Contas; 24 Cortes ligado à tradição, a ponto de BADINTER (Internet) ter afirmado:
Regionais de Contas; uma Corte de Disciplina Orçamentária e “Bernanos comparava, satisfeito, a justiça
Financeira. francesa a uma catedral que os séculos tinham
4 – Jurisdições separadas: l Conselho Constitucional; Alta modificado, transformado, aumentado, mas na qual, por
Corte de Justiça. trás dos acréscimos e ornamentações sucessivos, o
TOTAL GERAL: 1.635 Tribunais (em sentido amplo) observador atento poderia encontra o plano original”.
(não incluídos os Tribunais Paritários de Arrendamentos Rurais Tudo isto gera certa imobilidade, criando dificuldades
e os Tribunais Militares de várias denominações). para adaptação às atuais exigências dos jurisdicionados.
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KERNALEGUEN (1999:156) faz uma crítica a essa belíssima “Sainte Chapelle”. Destaca-se também a
tendência ao imobilismo: “Conciergerie”, de triste memória pelos desmandos e
A sede e a circunscrição dessas jurisdições atrocidades cometidos pelos revolucionários de 1789.
testemunham uma larga indiferença aos recortes
administrativos e tecnocráticos modernos em proveito 5.2. JUÍZOS LEIGOS
das marcas da história: numerosas circunscrições
mantêm contornos das antigas províncias e numerosas A figura do “juiz leigo” é uma constante na estrutura
sedes são rebeldes aos dados demográficos e Judiciária da França. Vejamos alguns dados estatísticos: para uma
econômicos atuais. Resulta disso uma repartição assaz população de 58,2 milhões de habitantes, existem 6.288
desequilibrada das Cortes de Apelação, algumas não magistrados de ordem Judiciária e 858 juízes de ordem
englobando mais que dois departamentos (como Bastia administrativa. O número de juízes leigos dos Tribunais Trabalhistas
ou Chambéry) enquanto outras se estendem sobre e dos Tribunais de Comércio, sem incluir os outros Tribunais, é de
quatro (Aix), cinco (Rennes) ou seis (Paris) 17.956 (Fonte: Ministério da Justiça francês, setembro/1999).
departamentos. Da mesma forma, exceto Paris, Relacionemos aqueles em que atuam esses homens e
somente quatro Cortes têm uma circunscrição com mulheres bem intencionados e instruídos, mas sem o conhecimento
população superior a três milhões de habitantes, técnico imprescindível para exercer o cargo de juiz: Tribunais do
encontrando-se cinco com menos de um milhão de Comércio, Conselhos de Prudentes (Tribunais do Trabalho),
habitantes. A atividade das Cortes de Apelação é, Tribunais de Processos de Seguridade Social, Jurisdições de
portanto, muito desigual: a Corte de Paris recebeu Incapacidade, Tribunais de Arrendamentos Rurais, Corte de
mais de 42.000 processos civis novos em 1996 Justiça da República, Tribunais Marítimos Comerciais, Tribunais
enquanto que a de Bastia recebeu somente 1.275. do Júri, Tribunais de Menores, Tribunais do Júri juvenil, Tribunais
Os próprios Palácios da Justiça, onde o Prebostais, Tribunais Militares das Armadas, Tribunal Territorial
Judiciário funciona em diferentes cidades, são das Forças Armadas, Alto Tribunal das Forças Armadas, Corte
conservados como relíquias repassadas de lembranças de Contas, Câmara Regional de Contas etc.
guardadas carinhosamente. O Palácio da Justiça de Convém notar que os pedidos de gratuidade não são
Paris (onde funcionam o Tribunal de Grande Instância, decididos por magistrados, mas sim pelos chamados Escritórios
a Corte de Apelação e a Corte de Cassação) ocupa um de Ajuda Jurisdicional, compostos por juízes, auxiliares da justiça,
grande espaço na história da Justiça francesa, representantes da administração pública e pessoas do povo.
procurando os historiadores, como Max Le Roy, H.
Veyrier, A. Robida e Henri Stein, a origem e as sucessivas
mudanças e vários acréscimos no portentoso edifício
na área habitada no século XIII pelo famoso rei São
Luís que, durante seu reinado, mandou construir a

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5.3. JUÍZES TOGADOS JUDICIÁRIOS: FORMAS DE c) Recrutamento, por concurso, para candidatos com
RECRUTAMENTO até 40 anos de idade, que tenham concluído qualquer curso
superior com duração mínima de quatro anos e possuam
Para o exercício temporário da Magistratura, adota-se experiência profissional mínima de oito anos como juiz leigo.
na França o sistema múltiplo de recrutamento, não sendo Aprovados no referido concurso, fazem um estágio de 31 meses
obrigatório que o magistrado (juiz ou membro do Ministério na Escola Nacional da Magistratura, em Bordeaux (onde são
Público) tenha formação jurídica. Os magistrados, de faixas denominados auditores de justiça), e, após sua conclusão, são
etárias diferentes, são selecionados entre profissionais de origens nomeados juízes ou membros do Ministério Público.
diversas e experiências de vida diversificadas, resultando uma d) Recrutamento, por títulos, para candidatos com idade
Magistratura rica de valores não só na área jurídica, como passa entre 27 e 40 anos, portadores de diploma em Direito, com
a ser integrada por profissionais de outras áreas como, por experiência profissional de pelo menos quatro anos. Aprovados
exemplo, sociólogos e psicólogos. na referida seleção, fazem um estágio de 27 meses na Escola
O recrutamento para a Magistratura francesa é efetuado Nacional da Magistratura, em Bordeaux (onde são denominados
pela Escola Nacional de Magistratura, por meio de concurso ou auditores de justiça) e, após sua conclusão, são nomeados juízes
títulos, podendo ser a título permanente ou temporário. ou membros do Ministério Público do 2° grau.
O Recrutamento a Título Vitalício é feito da seguinte forma: e) Recrutamento, por títulos, para candidatos com idade
a) Recrutamento, por concurso, para candidatos de até entre 27 e 40 anos, portadores de diploma de curso superior e
27 anos de idade, que tenham se formado em qualquer curso com doutoramento em Direito. Para estes candidatos não é
superior com quatro anos de duração ou mais, sem necessidade exigida experiência profissional. Aprovados na referida seleção,
de experiência profissional. Aprovados no referido concurso, fazem um estágio de 27 meses na Escola Nacional da
fazem um estágio de 31 meses na Escola Nacional da Magistratura, em Bordeaux (onde são denominados auditores
Magistratura, em Bordeaux (onde são denominados auditores de justiça), e, após sua conclusão, são nomeados juízes ou
de justiça), e, após sua conclusão, são nomeados juízes ou membros do Ministério Público do 2° grau.
membros do Ministério Público. f) Recrutamento, por títulos, para candidatos com idade
b) Recrutamento, por concurso, para candidatos de até entre 27 e 40 anos, que trabalhem em ensino e pesquisa de
40 anos de idade, funcionários públicos com experiência mínima Direito com título de DESS jurídico (Diploma de Estudos
de quatro anos e que tenham concluído qualquer curso superior Superiores Especializados) e experiência profissional nas áreas
com quatro anos de duração ou mais. Aprovados no referido de ensino e pesquisa do Direito de pelo menos três anos.
concurso, fazem um estágio de 31 meses na Escola Nacional da Aprovados na referida seleção, fazem um estágio de 27 meses
Magistratura, em Bordeaux (onde são denominados auditores na Escola Nacional da Magistratura, em Bordeaux (onde são
de justiça), e, após sua conclusão, são nomeados juízes ou denominados auditores de justiça), e, após sua conclusão, são
membros do Ministério Público. nomeados juízes ou membros do Ministério Público do 2° grau.

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g) Recrutamento, por títulos, para candidatos com idade de Instância ou Tribunal de Grande Instância’ 1° grau para um
inferior a 35 anos, que tenham concluído curso superior com período de 7 anos de exercício do cargo.
duração mínima de quatro anos e experiência profissional mínima c) Seleção de candidatos recrutados pela Escola
de sete anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de Nacional de Administração ou, ainda, professores e mestres de
imediato, juízes ou membros do Ministério Público do 2° grau, conferência de universidades, com experiência profissional mínima
com estágio probatório de seis meses no máximo. de quatro anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados,
h) Recrutamento, por títulos, para candidatos de até 35 de imediato, para um grau inferior na hierarquia Judiciária, com
anos de idade, que tenham concluído curso superior com duração formação de seis meses para cessão de cinco anos, levada em
mínima de quatro anos e experiência profissional mínima de sete conta a progressão funcional vigente na estrutura da justiça
anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de imediato, administrativa.
juízes ou membros do Ministério Público do 1° grau 1° grupo, d) Seleção de candidatos recrutados pela Escola
com estágio probatório de seis meses no máximo. Nacional de Administração ou, ainda, professores e palestristas
i) Recrutamento, por títulos, para candidatos com idade de universidades, com experiência profissional mínima de quatro
inferior a 35 anos, que tenham concluído curso superior com duração anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de imediato,
mínima de quatro anos, com experiência profissional mínima de para um grau inferior na hierarquia Judiciária, com formação de
nove anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de seis meses para cessão de cinco anos, levada em conta a
imediato, juízes ou membros do Ministério Público do 1° grau progressão funcional vigente na estrutura da justiça administrativa.
2° grupo, com estágio probatório de seis meses no máximo. e) Seleção de candidatos recrutados pela Escola
Nacional de Administração ou, ainda, professores e palestristas
O Recrutamento a Título Temporário ocorre da seguinte de universidades, com experiência profissional mínima de dez
forma: anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de imediato,
a) Conselheiros da Corte de Apelação em serviço para um grau superior na hierarquia Judiciária, com formação
extraordinário, para candidatos com idade entre 50 e 60 anos, de seis meses para cessão de cinco anos, levada em conta a
portadores de diploma de curso superior com duração mínima progressão funcional vigente na estrutura da justiça administrativa.
de quatro anos e experiência profissional comprovada de quinze f) Recrutamento extra para os Tribunais de Grande
anos. Aprovados na seleção, são nomeados, de imediato, Instância e Cortes de Apelação 1998/1999
conselheiros da Corte de Apelação de 1° grau para um período f.1) Recrutamento para candidatos entre 35 a 45 anos
de 10 anos de exercício. Número de vagas: 50. de idade, portadores de diploma de curso superior com duração
b) Recrutamento de magistrados a título temporário para mínima de quatro anos, com experiência profissional mínima de
candidatos com até 65 anos de idade, portadores de diploma dez anos. Se formados em Direito, são exigidos oito anos de
de curso superior com duração mínima de quatro anos e experiência profissional. Aprovados na referida seleção, são
experiência profissional mínima de sete anos. Aprovados na nomeados, de imediato, juízes de Tribunal de Grande Instância
referida seleção, são nomeados, de imediato, juízes de Tribunal 2° grau. Número de vagas: 50.

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f.2) Recrutamento para candidatos entre 40 a 55 anos de levantam dúvidas sobre o seu significado e o seu
idade, portadores de diploma de curso superior com duração alcance e, quando comparado com outro, possa, em
mínima de quatro anos e experiência profissional mínima de 12 certa medida, estar ou em contradição ou restringido,
anos. Aprovados na referida seleção, são nomeados, de imediato, ou, ao inverso, desenvolvido, julgo que, então, o juiz
conselheiro da Corte de Apelação 2° grau. Número de vagas: 40. detém os mais latos poderes de interpretação; ele não
f.3) Recrutamento para candidatos com idade superior deve dedicar-se obstinadamente à investigação de qual
a 50 anos de idade, portadores de diploma de conclusão de tenha sido, há cem anos, o pensamento dos autores do
curso superior com duração mínima de quatro anos e experiência código ao redigirem este ou aquele artigo; ele deve
profissional mínima de 15 anos. Se formados em Direito, exige- interrogar-se sobre o que seria esse pensamento se o
se experiência profissional de oito anos. Aprovados na referida mesmo artigo tivesse sido hoje redigido por eles; ele
seleção, são nomeados, de imediato, conselheiro de Corte de deve a si próprio responder que, em presença de todas
Apelação 1° grau. Número de vagas: 100. as modificações que, desde há um século, se operaram
nas ideias, nos costumes, nas instituições, no estado
5.4. JUIZ COMO “BOUCHE DE LA LOI” (?) econômico e social da França, a justiça e a razão
impõem que se adapte liberal e humanamente o texto
O Direito francês faz parte da chamada família romano- às realidades e às exigências da vida moderna. A esta
germânica, na qual a fonte principal do Direito é a lei e em que a maneira de ver corresponde o desenvolvimento
jurisprudência se presta somente a interpretar a lei, pensando-se espetacular que se verificou na França a partir do início
na jurisprudência contra legem como heresia perigosa. Após a do nosso século, na matéria da responsabilidade civil.
Revolução Francesa surgiu entendimento de que o Juiz não poderia Algumas palavras constantes de um artigo do Código
interpretar a lei, tarefa essa que competiria apenas ao Legislativo, Civil, art. 1384 – palavras às quais, é certo, os seus
devendo o juiz aplicá-la. Como age o juiz francês na interpretação autores não atribuíram nenhum significado particular
da lei? Sobre o assunto assim se expressou DAVID (1996): –, foram carregadas pela jurisprudência de um novo
Considerando a interpretação do código civil, sentido; este texto foi utilizado para se desenvolver
na celebração o seu centenário, o primeiro presidente ao extremo a responsabilidade do fato das coisas,
do Tribunal de Cassação francês, Ballot-Beaupré, num deixando-se de lado qualquer ideia de erro. A
discurso famoso, pronunciado em 1904, repudiou o jurisprudência francesa veio, assim, sanar a
método histórico de interpretação que até então havia passividade do legislador, que não havia interferido
imperado na doutrina de modo inconteste. na regulamentação dos problemas, quanto à
Quando o texto, sob uma forma imperativa, é responsabilidade, colocados pelo desenvolvimento da
claro e preciso, não se prestando a nenhum equívoco, mecânica e especialmente pela multiplicação dos
o juiz é obrigado a inclinar-se e a obedecer. Mas quando acidentes de automóvel. O desenvolvimento revolucio-
o texto apresenta qualquer ambiguidade, quando se nário verificado nesta matéria não deve iludir-nos.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Bem vistas as coisas, ele é único, e de modo nenhum estatuir como o faria se fosse ele o legislador; inspira-
característico dos métodos usuais da jurisprudência se, nesta investigação, na tradição e na jurisprudência.
francesa. Na França, como nos outras países da família O art. 1° do código civil suíço não é letra morta;
romano-germânica, os trabalhos preparatórios acontece mesmo que os juízes descobrem, por vezes
continuam a ter importância; quando são claros e as dum modo um pouco artificial, lacunas na ordem
circunstâncias não levantam, depois da publicação da legislativa para fazerem uso do poder que lhes é
lei, um problema inteiramente novo, o qual é evidente atribuído. Contudo, de um modo geral, ele tem sido
que o legislador não pôde prever, os juízes franceses, pouco utilizado. Esta prescrição, que suscitou um tão
normalmente, atentam aos trabalhos preparatórios do vivo interesse nos teóricos, parece ter introduzido, em
mesmo modo que os seus colegas dos outros países da definitivo, bem poucas modificações no Direito suíço,
família romano-germânica. (103/194). no plano prático. A ‘livre investigação científica’,
Mais adiante, tratando da função ‘meramente preconizada por F. Gény, é exercida respeitando o
interpretativa’ da jurisprudência, diz o mesmo autor: dogma da plenitude da ordem legislativa, era mais
simples conservar esta ficção. Por consequência, se
Submissão dos juízes à lei. O papel da nós quisermos analisar a medida que a jurisprudência
jurisprudência nos países da família romano-germânica participa da evolução do Direito, é necessário
apenas pode precisar-se em ligação com o da lei. resignarmo-nos a procurar esta função atrás do
Verificando-se a propensão atual dos juristas, em todos processo de interpretação, verdadeiro ou fictício, dos
estes países, nos nossos dias, para procurarem apoio textos Legislativos. A jurisprudência desempenha um
num texto de lei, o papel criador da jurisprudência papel criador, na medida em que, em cada país, se
dissimula-se sempre ou quase sempre atrás da pode, neste processo, afastar a simples exegese; tentei
aparência de uma interpretação da lei. Só já demonstrar, quanto a este aspecto, a situação nos
excepcionalmente os juristas se afastam deste hábito países da família romano-germânica. Qualquer que
e os juízes reconhecem francamente o seu poder seja a contribuição trazida pela jurisprudência à
criador de regras de Direito. Eles persistem na sua evolução do Direito, esta contribuição, nos países da
atitude de submissão quotidiana à lei, ainda que o família romano-germânica, é diferente da do legislador.
legislador reconheça, expressamente, que a lei pode O legislador que, na nossa época, estabelece os
não ter previsto tudo. O juiz deve, neste caso, nos quadros da ordem jurídica, recorre a uma técnica
nossos países, pronunciar uma decisão; não se pode particular que consiste na formulação dos comandos,
refugiar atrás da fórmula do non liquet, como era na elaboração das regras de Direito. A jurisprudência
permitido ao juiz, na época romana, quando o Direito é muito excepcionalmente autorizada a utilizar esta
era incerto. O art. 1º, al. 2 do código civil suíço técnica; a disposição do código civil francês (art. 5°),
formulou, para este caso, uma regra: o juiz deve que proíbe aos juízes estatuírem por via geral e

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

regulamentar, tem o seu equivalente em todos os justificar a decisão que vai proferir. Se numa nova
Direitos da família romano-germânica, salvo certo decisão os juízes aplicam uma regra que já tinham
número de exceções certamente interessantes, mas que anteriormente aplicado, isto não é devido à autoridade
deixam intocado o principio. (DAVID, 1996:118/119). que esta regra adquiriu pelo fato de a terem consagrado;
com efeito, esta regra não tem nenhum caráter
E, abordando a fragilidade da jurisprudência frente à lei imperativo. E sempre possível uma mudança da
como fonte do Direito, o mesmo Autor acentua: jurisprudência, sem que os juízes estejam obrigados a
Alcance do Direito jurisprudencial. A justificá-la. Ela não ameaça os quadros, nem os
jurisprudência abstém-se de criar regras de Direito, próprios princípios do Direito. A regra jurisprudencial
porque esta é, segundo os juízes, tarefa reservada ao apenas subsiste e é aplicada enquanto os juízes – cada
legislador e às autoridades governamentais ou juiz – a considerarem como boa. Concebe-se que,
administrativas chamadas a completar a sua obra. nestas condições, se hesite em falar aqui da regra. A
Dever-se-á considerar que, apesar desta posição de rejeição da regra do precedente, segundo a qual os
modéstia, as regras de Direito sejam de fato criadas juízes devem ater-se às regras que eles aplicaram num
pelos juízes? Entre regras de Direito jurisprudencial e caso concreto, não é um mero acaso. A regra de Direito
regras de Direito formuladas pelo legislador existem, tem sido sempre considerada, desde a Idade Média,
em todo o caso, duas importantes diferenças. A nos países da família romano-germânica, como
primeira diz respeito à importância relativa, num dado devendo ser de origem doutrinal ou legislativa, porque
sistema, de umas e outras. A jurisprudência move-se importa que ela seja feita de forma ponderada, para
dentro de quadros estabelecidos para o Direito pelo abarcar uma série de casos típicos que ultrapassam os
legislador, enquanto a atividade do legislador visa limites e se libertam das contingências de um processo
precisamente estabelecer estes quadros. O alcance do determinado. No plano dos princípios parece-nos
Direito jurisprudencial é, por isto, limitado, sendo a importante que o juiz não se transforme em legislador.
situação nos países da família romano-germânica, É isto que se procura nos países da família romano-
neste aspecto, exatamente o inverso da que é admitida germânica; a fórmula segundo a qual a jurisprudência
nos países de common law. As “regras de Direito” não é uma fonte de Direito parece-nos ser inexata, mas
estabelecidas pela jurisprudência, em segundo lugar, exprime uma verdade se a corrigirmos, afirmando que
não têm a mesma autoridade que as formuladas pelo a jurisprudência não é uma fonte de regras de Direito.
legislador. São regras frágeis, suscetíveis de serem “Non exemplais, se legibus judicanclun est”.
rejeitadas ou modificadas a todo o tempo, no momento
do exame duma nova espécie. A jurisprudência não Dando justo valor aos juízes franceses, grandes estudiosos
está vinculada pelas regras que ela estabeleceu; ela do Direito e modelos de competência, o mesmo Autor afirma:
não pode mesmo invocá-las, de modo geral, para

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

A importância da jurisprudência francesa não Contrapondo-se ao juiz Judiciário, que tem de decidir
se restringe, assim, às fronteiras da França; as decisões atrelado à lei, o juiz da área administrativa é favorecido pelo fato
do Tribunal de Cassação francês e as do Conselho de de ser o Direito Administrativo “fundamentalmente um Direito
Estado são estudadas e exercem certa influência em jurisprudencial”, conforme expressão de CHAPUS (1998:6), o
vários países, vizinhos ou distantes, de língua francesa, que o faz um juiz no sentido mais perfeito da palavra, que é o de
e, além destes, em outros países, europeus ou extra um verdadeiro “criador do Direito”.
europeus, pertencentes à família romano-germânica,
onde se atribui uma particular importância, em alguns 5.5. SISTEMA COLEGIADO
domínios do Direito, à jurisprudência francesa”.
De todos os órgãos jurisdicionais mencionados, cujo
Já ALMEIDA (1998:53/54), diz do papel realmente número excede a 30, somente os Tribunais de Instância e os
criador da jurisprudência francesa, citando o exemplo do aresto Juízes Juvenis trabalham no sistema de juiz único. Na França
Jeand’heur da Corte de Cassação, que passou a regular a questão considera-se que toda decisão colegiada tem mais chance de
da ‘responsabilidade civil extracontratual decorrente da guarda ser a decisão acertada. Essa tese é levada às últimas
de coisas’. consequências e chega a criar resistência em muitos quando se
Uma situação interessante é abordada por CAPPEL- trata dos Tribunais de Instância e se pretende que os juízes dos
LETTI (1999), quando afirma que a complexidade da vida Tribunais de Grande Instância possam trabalhar no sistema de
moderna e o crescimento dos poderes Legislativo e Executivo juiz único. As necessidades atuais de simplificação, agilidade e
obrigam o Judiciário a uma arrancada decisiva frente a essa nova baixo custo financeiro têm trabalhado contra o colegiado.
realidade, principalmente das ações coletivas, caso queira
sobreviver. Analisa, com uma ponta talvez de pessimismo o 5.6. ESPECIALIZAÇÃO
Judiciário europeu (naturalmente, incluído o francês):
A autoridade Judiciária, ou a “ordre A existência de um tão grande número de tribunais
judiciaire”, viu progressivamente diminuir a própria demonstra como a especialização é considerada importante na
relevância político-social, motivo pelo que se pode França. Começando pela grande divisão entre Justiça Judiciária
dizer, sem demasiado exagero, que, em face dos e Justiça Administrativa, cada qual com, digamos, a metade da
poderes Legislativo e Executivo, a sua impotência competência geral dos processos, veem-se, ainda, tribunais
tornou a Magistratura ordinária na débil e quase altamente especializados como o de Conflitos, dos Processos
marginal ‘sobrevivente’ de outros tempos. de Seguridade Social, de Incapacidade, de Arrendamentos
Ele cita Lawrence Friedman que fala no “resto do Rurais, Marítimos Comerciais, Juvenis, do Júri Juvenil, os vários
passado”. E, realmente, se comparado o Judiciário francês atual Tribunais Militares em tempo de paz e de guerra, a Corte de
com os Parlamentos do Ancien Régime tanto um quanto outro Justiça da República e a Alta Corte de Justiça, além da Corte
autor tem razão (CAPPELETTI, 1999). Constitucional. A existência do “generalista” no Judiciário fica

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

somente por conta dos juízes dos Tribunais de Grande Instância, aceitar ser nomeado para uma região qualquer, mesmo que
a quem compete uma grande quantidade de funções nos distante da sua. Havendo mais de um interessado para o mesmo
pequenos Tribunais. cargo, tem preferência aquele que obteve melhor classificação
durante o curso.
5.7. UNIDADE DOS CORPOS JUDICIÁRIOS Posteriormente, os magistrados podem mudar de cargo,
de uma especialidade para outra, desde que lhes interesse. Desta
A Ordenança 58.1270 de 22 de dezembro de 1958, situação resulta, geralmente, um entrosamento muito grande entre
modificada recentemente, reafirma a unidade dos corpos as duas categorias, com resultados geralmente salutares para a
Judiciários, que compreende os juízes e membros do Ministério boa solução dos processos, mas seus detratores alegam que o
Público. Estas duas carreiras constituem ramificações da diálogo é excessivo, e gerando a desigualdade de tratamento
Magistratura, com tanta ligação entre si que, quando se refere em relação aos advogados.
ao número de juízes e de membros do Parquet, poucos sabem Conforme diz Nicole Obrégo (Internet):
exatamente quantos membros há em cada categoria, “Na França nós conhecemos, no que concerne
mencionando-se apenas o número total de magistrados. à administração das jurisdições aquilo que nós
A unidade aqui estudada começa pelo concurso chamamos ´a diarquia’, ou seja, o presidente (juiz) e o
promovido pela Escola Nacional da Magistratura, o mesmo para procurador (representante do Ministério Público)
as duas carreiras, posteriormente seguido pelo estágio na referida administram juntos seu Tribunal e, ao nível de Corte
Escola. Deferidos seus requerimentos, os profissionais das duas de Apelação, um texto em preparação tende a
carreiras podem passar de uma para a outra carreira. concretizar essa regra fazendo do primeiro presidente
Quanto ao início da carreira de juiz e membro do e do procurador geral os administradores conjuntos
Ministério Público, Michel Joubrel e Raymond Lévy dão algumas de sua Corte com a ajuda de um serviço administrativo
informações interessantes e entrelaçando-se os dados que cada colocado sob sua autoridade”.
um deles fornece, tem-se que, ao final do estágio na Escola, os
auditores de justiça poderão ser nomeados para um cargo de 5.8. DICOTOMIA JUSTIÇA JUDICIÁRIA – JUSTIÇA
juiz ou membro do Parquet. Entre si podem combinar a escolha ADMINISTRATIVA
dos cargos vagos de juízes e representantes do Parquet,
preenchendo-os sem maiores dificuldades; caso não haja este DUVERGER (1996:425) esclarece que:
tipo de entendimento, cada auditor procede a sua escolha para Quanto à Justiça administrativa, chama a atenção o
o cargo de juiz ou membro do Parquet dentro da lista de cargos fato de o presidente do Conselho de Estado ser o Primeiro-
vagos e conforme suas notas durante o curso. O auditor poderá Ministro, tendo como substituto o Ministro da Justiça e, os
levar em conta uma determinada região do país e, neste caso, membros da Justiça administrativa não serem juízes, mas
para ele pouco importará que o cargo seja o de juiz ou membro simples funcionários públicos, sem a garantia constitucional
do Parquet. Ele pode querer exercer um dos dois cargos e da inamovibilidade.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Embora a estrutura do Conselho de Estado possa dar a diferença gritante de vencimentos, pois, durante o curso, o
entender certa dependência em relação ao Executivo e ao auditor de justiça recebe quase a metade dos vencimentos do
Legislativo, DE VILLIERS (1998: 41) atribui-lhe uma juiz principiante.
“independência incontestável e reconhecida”, dizendo que o Após a nomeação, continua uma situação de
Conselho Constitucional tem os mesmos benefícios hierarquização exagerada. Os inúmeros graus diferenciam
constitucionais do art. 64 da Constituição francesa. profissionais que deveriam receber o mesmo tratamento e a
E, mais, a divisão entre julgadores de uma área e de mesma remuneração. A tabela de vencimentos líquidos em 1º de
outra, é criticada por alguns, ainda mais que os da área abril de 1999 mostra a diferença entre o que ganha um auditor
administrativa têm vantagens financeiras superiores aos do de justiça (aluno da ENM, nível 355, ou seja, 1.380 EUR, em
Judiciário. A Constituição em vigor dá como atribuição do juiz relação a um conselheiro da Corte de Cassação: 5.790 EUR
Judiciário (homólogo do administrativo) atributo de guardião das (nível B3), estando abaixo deste último, em escala decrescente
“liberdades individuais” (Direito Privado), com impedimento os níveis: B2 – 36.031,26; B1/A3 – 5.270 EUR; A2 – 5.010
implícito de ingerência na área de competência da Administração EUR; Al – 4.820 EUR; 852 – 4.670 EUR; 819 – 4.490 EUR;
(Direito Público). A separação entre as duas Justiças é absoluta. 807 – 4.420 EUR; 781 – 4.280 EUR; 732 – 4.010 EUR; 694
Os juízes administrativos, sempre favorecidos pela – 3.800 EUR; 656 – 3.600 EUR; 617 – 3.380 EUR; 580 –
Administração, são mais bem remunerados que seus colegas da 3.180 EUR; 544 – 2.980 EUR; 494 – 2.710 EUR; 450 – 2.470
Justiça Judiciária. EUR. (Verifica-se que o auditor de justiça recebe, durante seus
31 meses de curso, apenas 55% do vencimento que receberá
5.9. HIERARQUIZAÇÃO quando for nomeado juiz ou membro do Parquet, o que é muito
pouco principalmente para aqueles que já são casados, gerando
Comecemos pela cogência da jurisprudência da Corte descontentamento contra o esquema em vigor).
de Cassação e do Conselho de Estado, respectivamente cortes O ingresso de juízes diretamente nas Cortes de Apelação,
supremas das áreas Judiciária e administrativa, em relação às por exemplo, é questionado por aqueles que ingressaram na
cortes de 2ª instância e destas em relação aos tribunais de 1ª carreira pelo caminho longo da ENM quando tinham 27 anos
instância. Na França, de fato, a ideia da “jurisprudência de idade ou menos, geralmente com pouco futuro na carreira. E,
vinculante” é uma realidade, pois os juízes não contrariam os pior ainda, a subordinação ao Ministério da Justiça, órgão político
entendimentos jurisprudenciais dos órgãos que lhes são superiores que, por mais isenção que tenha e por mais que seja cobrado
e, uma vez editada a jurisprudência, passa a ter força de lei para pela opinião pública (que é muito poderosa na França), prejudica
os órgãos Judiciários inferiores. seriamente a independência do Judiciário.
Quanto ao aspecto administrativo, tudo começa com a A propósito, esta hierarquização à moda militar foi
separação estabelecida entre os auditores de justiça (aprovados introduzida por Napoleão Bonaparte com o objetivo de controlar
em concurso e que seguem o curso de 27 ou de 31 meses da melhor o Judiciário, cassando-lhe sua independência. Citemos
Escola Nacional da Magistratura) e os juízes, inclusive com como exemplo a situação de enorme superioridade dos

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

presidentes de Tribunais de Grande Instância, de Cortes de 5.11. CORTES SUPREMAS: ÓRGÃOS


Apelação e da Corte de Cassação (inclusive com função CONSULTIVOS
fiscalizadora) sobre seus colegas presidentes de câmaras, e destes
em relação aos demais membros dos respectivos tribunais. A Corte de Cassação, além de órgão Judiciário, é
DUVERGER (1996:428) mostra uma realidade do consultiva, conforme diz KERNALEGUEN (1999:161):
Judiciário francês: ... “as jurisdições de ordem Judiciária podem solicitar
Os magistrados da ordem Judiciária são o parecer da Corte de Cassação, quando são acionadas por
independentes no sentido de que eles são escolhidos através demandas e, tratando-se de uma questão nova de Direito,
de um concurso difícil para admissão na Escola Nacional apresente uma dificuldade séria e alegada em vários processos.
da Magistratura cuja banca procura selecionar os candidatos Embora o parecer não obrigue, a jurisdição solicitante, o
com base em critério mais objetivo possível. Eles são parecer tem uma autoridade moral que lhe dá credibilidade”.
inamovíveis, ou seja, eles não podem ser removidos ou Vedada consulta em matéria penal, o Conselho de Estado
exonerados sem a concordância do Conselho Superior da também tem uma função consultiva, além da função jurisdicional.
Magistratura. Sua progressão funcional, no entanto
comporta numerosos graus hierárquicos e depende 5.12. CORTES SUPREMAS: OS JUÍZES
largamente do Executivo, o que limita sua independência.
Comparando as Cortes Supremas dos Estados Unidos
5.10. GESTÃO ATRAVÉS DE ASSEMBLEIA e do Canadá com as duas francesas (Corte de Cassação e
Conselho de Estado), CAPPELLETTI (1999:117/120) diz que
Os Tribunais de Grande Instância, as Cortes de Apelação as primeiras, que têm apenas nove membros, decidem de forma
e a Corte de Cassação têm, cada um, cinco assembleias: uma mais unificada e, por isso, conseguem muito maior
assembleia plena dos juízes, procurador e funcionários cartorários, respeitabilidade que as francesas (além das alemãs e italianas),
uma assembleia de juízes e do Ministério Público, uma assembleia que, pelo fato de terem um número muito maior de membros, se
dos juízes, uma assembleia dos membros do Parquet e uma dividem em câmaras, o que acaba gerando “o enfraquecimento
assembleia dos funcionários cartorários. Este sistema de da própria autoridade dos tribunais, dos magistrados singulares
assembleias existe também em outros Tribunais, como os Tribunais que os integram e de suas decisões”.
de Comércio. A intenção é criar uma mentalidade grupal para Observa-se que a Corte de Cassação tem 87
melhor entrosamento e produtividade. Cada uma dessas Conselheiros e o Conselho de Estado cerca de 270 Conselheiros
assembleias pode emitir normas para cumprimento por aqueles nem todos desempenhando funções jurisdicionais.
que são seus aderentes, além de funcionar como órgão consultivo
e nomear pessoas para determinadas funções especializadas.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

5.13. CORTES SUPREMAS: PROCESSOS “attendu” (considerando), o que confere ao texto certo
paralelismo monótono. A fundamentação legal é
Também CAPPELLETTI (1999:117/120) é quem sempre indicada. Em comparação com as sentenças
observa o número excessivo de recursos que chegam às Cortes portuguesas e alemãs, são em menor número as
Supremas francesas, gerando, naturalmente, decréscimo da menções jurisprudenciais e são raras as citações
qualidade dos arestos, não se podendo esquecer que a finalidade doutrinárias, Não há votos de vencidos”.
dessas Cortes é, basicamente, de balizar o Direito e não funcionar
como mais uma instância. 5.16. “EM NOME DO POVO FRANCÊS”

5.14. MAGISTRADOS FORA DA MAGISTRATURA Em um texto de Claude Hanoteau lê-se que “Em nome
do povo francês, o magistrado faz justiça para aqueles e aquelas
Outra característica do Judiciário francês é a existência de que comparecem diante dele”. As manifestações das autoridades
magistrados (atualmente 166) que atuam diretamente no Ministério francesas são todas, aliás, ditas dessa forma.
da Justiça na elaboração das políticas Judiciárias e preparação de
textos Legislativos ou regulamentares, além de exercerem atribuições 5.17. ANIMOSIDADE CONTRA A “CIÊNCIA”
de gestão e administração em geral. Outros são “destacados” para PROCESSUAL
exercerem funções em diferentes Ministérios, órgãos administrativos,
organismos públicos ou instituições internacionais (aproximadamente A maioria dos juristas franceses entende que o Processo
269 magistrados), como, por exemplo, Comissão Nacional de se resume a procedimento, não merecendo o status de ciência.
Informática e Liberdades, Comissão das Operações da Bolsa, VINCENT e GUINCHARD (1996), mostram o conceito em
Sociedade Nacional de Ferrovia Francesa, Delegação que se tem geralmente o Processo Civil na França:
Interministerial do Município, Escola Nacional da Magistratura, O Procedimento Civil, alguns preferem falar
Tesouro Público, Secretaria Geral do Governo, Comissão das Direito Judiciário Privado, é um pouco a criança
Comunidades Europeias, Corte de Justiça das Comunidades problema da família jurídica, ou, em todo caso, o que
Europeias etc. A justificativa para isso é a abertura da não tem sempre boa reputação: disciplina árida e
Magistratura para o mundo exterior. complexa, ela seria apanágio dos advogados
mesquinhos, daqueles de quem se diz que utilizam
5.15. SENTENÇAS CONCISAS precisamente todas as armas do procedimento porque
sua causa é sem razão.
ALMEIDA (1998:57) é preciso quando afirma que:
“As sentenças francesas são tendencialmente Assim, trata-se o Direito do Processo como mero
curtas e concisas. A matéria de facto é resumida. Como Procedimento. A justificativa dada é a experiência vivida com a
regra, cada uma das frases começa pela palavra

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valorização excessiva do Processo no começo do século, que – disposições regulamentares (editadas pelo Executivo):
gerou o abuso, a chicana... Decreto de 11/01/1935, modificado, proíbe aos
Os Códigos de Processo franceses não são dos mais magistrados toda manifestação em seu próprio favor; – Art. 42
técnicos que existem. O “processualismo”, no entanto, é uma do Decreto 61-78, relativo à aplicação aos magistrados do antigo
coisa ultrapassada até na própria Itália, conforme palavras de quadro da França Ultramarina da Ordenança 58-1170 de 22/
CAPPELLETTI (1999:13): 12/1958 instituindo Lei Orgânica relativa ao Estatuto da
“O nexo entre processo e Direito substancial, Magistratura; – Decreto 93-11 de 07/01/1993, tomado pela
que as últimas gerações do processualismo italiano aplicação da Ordenança 58-1270 de 22/12/1958, modificado,
estão redescobrindo, depois de descurado por longo instituindo Lei Orgânica relativa ao Estatuto da Magistratura; –
tempo em virtude da ‘excessivamente aclamada Decreto 93-545 de 26/03/1993, tomado pela aplicação dos
autonomia da ação e da relação processual’...” artigos 40-5 e 41-7 da Ordenança 58-1270 de 22/12/1958,
instituindo Lei Orgânica relativa ao Estatuto da Magistratura; –
5.18. ESTATUTO DA MAGISTRATURA Decreto 93-549 de 26/03/1993, tomado pela aplicação do art.
76-3 da Ordenança 58-1270 de 22/12/1958, modificada,
Dispensamo-nos de transcrever os textos legais que instituindo Lei Orgânica relativa ao Estatuto da Magistratura; –
compõem o Estatuto para, em lugar disso, falarmos sobre seu Decreto 96.214 de 19/03/1996 tomado pela aplicação dos arts.
conteúdo em vários pontos deste livro. O Estatuto é composto 3° a 5° da Lei Orgânica 95-64 de 19 de janeiro de 1995.
de vários diplomas legais geralmente classificados em: Essas leis (em sentido amplo) regulam a vida dos juízes
– disposições legislativas (emanadas do Congresso e membros do Ministério Público de forma bastante detalhada.
Nacional): Encontra-se em andamento uma reforma do estatuto, cujo
Ordenança 58-1270 de 22/12/1958, modificada, anteprojeto vem sendo analisado e criticado principalmente pelos
instituiu a Lei Orgânica relativa ao Estatuto da Magistratura; Lei sindicatos de magistrados, sendo alguns pontos aplaudidos pelos
Orgânica 70-642 de 17/07/1970, modificada, relativa ao Estatuto juízes, como modificação no desenvolvimento da carreira dos
da Magistratura. Contém disposições relativas ao recrutamento juízes. Esta será similar àquela dos magistrados de ordem
de magistrados a título temporário; – Lei Orgânica 86-1303 de administrativa; a unificação do grau de progressão, pela fusão
23/12/1916, relativa à manutenção em atividade dos magistrados do primeiro e do segundo grupo, permitindo uma aceleração da
fora de hierarquia da Corte de Cassação; – Lei Orgânica 88-23 progressão da carreira e possibilidade de promoção a partir de
de 07/01/1988, modificada, mantém em atividade magistrados sete anos em atividade, ao invés dos dez anos atuais.
de Cortes de Apelação e Tribunais de Grande Instância; – Lei
Orgânica 95-64 de 19/01/1995 modificando a Ordenança 58-
1270 de 22/12/1958, relativa ao Estatuto da Magistratura,
instituindo o recrutamento de conselheiros de Corte de Apelação
em serviço extraordinário;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

5.19. CONSELHO SUPERIOR DA MAGISTRATURA: nomeações referentes aos membros do Ministério Público, com
CONTROLE EXTERNO exceção dos cargos providos por ordem do Conselho de Ministros.
Ela dá seu parecer sobre as sanções disciplinares referentes aos
O Conselho Superior da Magistratura é um órgão membros do Ministério Público. Esta formação compõe-se do
importantíssimo na estrutura da Magistratura francesa. Esse Presidente da República, o Ministro da Justiça, cinco membros do
“controle externo” é considerado excelente para os magistrados Ministério Público, um juiz, um conselheiro de Estado designado, e
(juízes e membros do Ministério Público), muito melhor do que mais três personalidades mencionadas na alínea precedente.
anteriormente, quando a intervenção do Executivo se fazia Em ambas as formações, o Conselho é constituído de
diretamente na vida funcional do magistrado. Pretendem os sete Magistrados e cinco membros ligados diretamente à classe
magistrados que o Conselho Superior da Magistratura seja política. Lei orgânica regulamenta a matéria.
fortalecido, mesmo com a participação de pessoas que não sejam As normas que dispõem sobre a estrutura e o funciona-
magistrados de carreira. mento do Conselho encontram-se se complementando em:
O Conselho possui duas formações distintas: uma para Disposições legislativas: – Lei Orgânica 94-100 de 05/
os juízes e outra para os membros do Ministério Público. 02/1994 sobre o Conselho Superior da Magistratura; – Art. 38
A própria Constituição, no seu art. 65, é clara: O da Lei de 29/07/1881, modificada, sobre a liberdade de
Conselho Superior da Magistratura é presidido pelo Presidente imprensa;
da República. O Ministro da Justiça é seu vice-presidente de Disposições regulamentares: – Decreto 94-199 de 09/
Direito. Ele pode substituir o Presidente da República. Além do 03/1994 relativo ao Conselho Superior da Magistratura.
Presidente da República, e do Ministro da Justiça o conselho é
composto de cinco juízes e um membro do Ministério Público, 5.20. ACESSO À JUSTIÇA E AO DIREITO (14)
um conselheiro de Estado designado pelo referido Conselho de
trabalho, e três pessoas que não pertençam nem à Assembleia Elisabeth Guigou, ex-ministra da Justiça da França, em
Nacional nem ao Senado e nem à ordem Judiciária, designadas discurso proferido em 2 de abril de 1998 na Sorbonne, tratou
respectivamente pelo Presidente da República, pelo Presidente do “acesso à Justiça, acesso ao Direito”, expondo todo o ideário
da Assembleia Nacional e pelo Presidente do Senado. Essa da Magistratura francesa sobre o assunto, que pode ser resumido
formação propõe as nomeações dos conselheiros da Corte de nestes pontos: – o acesso ao Direito constitui um Direito
Cassação, para aquelas de primeiro presidente de Corte de fundamental dos cidadãos, que deve ser inscrito em uma política
Apelação e para aquelas de presidente de Tribunal de Grande pública; – é necessária a evolução cultural dos profissionais do
Instância. Os outros juízes são nomeados sob seu parecer Direito; – para a solução dos litígios devem ser priorizados os
favorável. Ela estatui como conselho de disciplina dos juízes, acordos. Grandes metas a alcançar: a Justiça francesa vem
sendo presidida pelo primeiro presidente da Corte de Cassação. procurando facilitar aos cidadãos o conhecimento das leis, com
A formação do Conselho Superior da Magistratura em a distribuição de folhetos explicativos em linguagem simples, a
relação aos membros do Ministério Público dá seu parecer para as facilidade para o ajuizamento de demandas, (com o alargamento

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

da competência dos Tribunais de Instância, em que o “Trata-se de uma ajuda à consulta jurídica
procedimento é mais simples e mais ágil, além de outras formas assegurada por um serviço de ajuda que permite obter
da chamada “Justiça de Proximidade”), vem procurando informações sobre a extensão dos Direitos e das
conscientizar os “homens da Justiça” sobre a necessidade de se obrigações, conselhos sobre os meios de fazer valer os
engajarem nessa mentalidade nova de simplificação e praticidade, Direitos e uma assistência em via de estabelecimento
e procurando fazer entender a todos que as “soluções amigáveis” de um ato jurídico ou uma assistência diante das
são as verdadeiras soluções, além de que o incentivo à comissões não jurisdicionais”.
conciliação, à arbitragem e à mediação têm sido uma constante,
sem falar na Lei n° 91-647 de 10 de julho de 1991, que trata da Entre as inovações que pretendem viabilizar o acesso à
chamada “ajuda jurídica” sob os dois aspectos da ajuda Justiça e ao Direito podemos citar as Casas da Justiça e do
jurisdicional (gratuidade total ou parcial nos processos) e ajuda Direito. A informação a que tivemos acesso sobre o assunto foi
ao acesso ao Direito (consulta e assistência aos procedimentos veiculada pelo Ministério da Justiça francês no seu site jurídico
não jurisdicionais como conciliação e mediação). na Internet, que transcrevemos, traduzido:
“Uma justiça de proximidade.
Quanto à assistência Judiciária pode-se dizer o seguinte: As dificuldades de acesso ao Direito, o
– para ser concedida é necessário que o interessado a desconhecimento dos Direitos, o crescimento da
requeira, para tanto preenchendo formulário próprio; pequena delinquência suscitam, da parte da população,
– comprovando insuficiência de recursos próprios e que expectativas às quais a instituição Judiciária deve
o mérito da demanda lhe é em tese favorável; levar respostas adaptadas ao contexto local. O
– os profissionais que vão atuar no processo recebem distanciamento dos locais de justiça de certos bairros
remuneração do Estado; (os tribunais de grande instância, ao mesmo título que
– quem decide sobre os pedidos de gratuidade são os o conjunto dos serviços públicos) é frequentemente
Escritórios de Ajuda Judiciária, que existem onde há Tribunais notado como uma ausência do Direito, ele próprio.
de Grande Instância, os quais são rigorosos na análise dos Inscrevendo-se em uma política geral de aproximação
pedidos; dos serviços do Estado e dos cidadãos, as Casas da
– as pessoas jurídicas de fins não lucrativos podem pedir Justiça e do Direito instauram modos novos de
gratuidade. funcionamento que fazem a justiça mais acessível, mais
rápida e mais compreensível. Suas missões foram
Em 1998 foram deferidos 703.746 pedidos de traçadas pela lei de 18 de dezembro de 1998 (art. 21),
assistência Judiciária, sendo 424.414 nos processos civis ou relativa ao acesso ao Direito e à solução amigável dos
administrativos, e 279.332 nos processos criminais. Incrementa- conflitos.
se na França a chamada “ajuda ao acesso ao Direito”, que o Acesso ao Direito, resposta à pequena
Ministério da Justiça conceitua assim: delinquência.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Afora a coordenação da intervenção Judiciária ajuda às vítimas, que assegura locais de permanência
sobre uma comunidade e o reforço da participação de acolhimento;
entre magistrados, eleitos, professores, policiais, – advogados que aconselham e orientam com
associações e assistentes sociais, a implantação de uma consultas jurídicas gratuitas.
Casa de Justiça visa objetivos precisos: responder, de Certas Casas de Justiça e do Direito
maneira adaptada, à pequena delinquência cotidiana desenvolveram atividades e serviços complementares
(mediação penal, acompanhamento das penas, etc.); e inovadores: mediação familiar, permanências
responder aos pequenos litígios de ordem civil associativas...
(problemas de vizinhança, familiares, etc.); permitir o Quais são as condições para criação de uma
acolhimento, a ajuda e a informação do público e, Casa de Justiça e do Direito?
notadamente, proteção das vítimas. A Casa da Justiça e do. Direito é um lugar de
Quem intervém nas Casas de Justiça e do justiça colocado sob a autoridade dos chefes de
Direito e por quais serviços? jurisdição. A decisão da implantação nasce de uma
O funcionamento de uma Casa de Justiça e do Direito vontade conjunta: um acordo preliminar associa os
supõe a constituição de uma equipe que compreende: magistrados, os serviços exteriores da Proteção
– chefes de jurisdição (presidentes de Tribunais Judiciária da Juventude e a Administração Peniten-
e representantes do Ministério Público) responsáveis ciária, a Ordem dos Advogados, as associações de
pela estrutura, organização, funcionamento, ligações ajuda às vítimas e de mediação, os eleitos locais e o
com a classe política e outros participantes; vice-prefeito da cidade. O projeto de convênio tem de
– magistrados que podem determinar locais de ser validade pelo Ministério da Justiça. Sua assinatura
funcionamento das Casas; engaja as autoridades Judiciárias, o prefeito e uma ou
– um escrivão que assegura o acolhimento, o várias comunidades locais.
secretariado e a sequência dos processos; O Secretariado-Geral para a Política da
– assistentes sociais que realizam investigações Cidade colocado ao lado do diretor dos processos
rápidas, mediações e asseguram os controles Judiciários criminais e das graças do Ministério da Justiça,
sob o comando da autoridade Judiciária; assegura a instrução dos pedidos de instalação das
– um educador da Proteção Judiciária da Casas da Justiça e do Direito e a coerência dos projetos
Juventude, que assegura a continuidade educativa dos ao plano nacional.
adolescentes e as medidas de reparação; Como são financiadas as Casas da Justiça e
– um agente de provas, que assegura o do Direito?
cumprimento das penas e a ajuda aos egressos da prisão; A comunidade local coloca espaços à
– um conciliador, que concretiza determinados disposição, assumindo os encargos materiais (compra
litígios civis; um representante de uma associação de de mobiliário, instalação telefônica) e os encargos de

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

funcionamento normal (aquecimento, eletricidade, ...). 5.22. DIREITOS HUMANOS


O Estado assume os encargos financeiros dos
magistrados e funcionários da Justiça, remunera as O art. 6-1 da Convenção Europeia de Salvaguarda dos
investigações rápidas e mediações e subvenciona certas Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (publicada
associações e o Ministério de Justiça destina-lhe uma na França pelo Decreto 74-360 de 3 de maio de 1974) trata de
subvenção de 50.000 F, geralmente destinada ao vários temas sob a rubrica “o Direito a um processo justo”: prazo
equipamento informático. razoável de duração do processo; publicidade dos atos
processuais, inclusive o julgamento; Tribunal independente e
A ajuda ao acesso ao Direito não foi bem sucedida, apesar imparcial; e, na área penal: presunção de inocência; informação
dos esforços governamentais, pois, entrada em vigor a lei de 1991, detalhada sobre a imputação; concessão de tempo necessário
existem Conselhos Departamentais somente em 14 dos 100 para preparação da defesa; ser assistido gratuitamente por
departamentos, o que é muito pouco ainda. Há, no entanto, quem advogado, se for pobre; poder arrolar testemunhas; ser assistido
seja otimista, como é o caso de IMBERT-QUARETTA por intérprete, caso não fale o francês. Quanto ao prazo razoável
(POUVOIR: 74) que assim se expressa sobre a tendência para este não é fixado com rigor, pois se leva em conta a complexidade
a simplificação do relacionamento jurisdicionado-juiz: de cada causa e a conduta das partes, o que faz acelerar ou
“Cada vez mais o acesso à justiça se confunde retardar o andamento do processo. Em matéria penal as normas
com o acesso imediato ao juiz. [...] Nada de da referida Convenção são ainda mais exigidas dos juízes.
necessidade de intermediário para levar um processo A pressão internacional é muito forte, como, por exemplo,
diante desses magistrados novos; nada de necessidade se vê pela leitura do Relatório de uma Missão Internacional de
de formalismo: na maioria dos casos, uma carta com Inquérito, Federação Internacional das Ligas dos Direitos do
aviso de recebimento é suficiente”. Homem, que, em época recente, compareceu à França para
verificar se a legislação antiterrorista francesa é adequada às
5.21. NOBREZA DE TOGA regras acima, no que diz respeito à detenção provisória e ao
exercício do Direito de defesa, concluindo pela negativa.
Desde os primeiros tempos de sua existência na França
os juízes são membros de sua elite social. No início eram homens 5.23. PRESENÇA DO JUIZ DE INSTRUÇÃO NA FASE
designados pelos senhores feudais para oficiarem dentro de seus INVESTIGATÓRIA DO PROCESSO PENAL
domínios. Depois, passaram a ser os homens ricos, que
compravam ou herdavam o cargo de juiz e atualmente, conforme Vejamos o caso de infração penal de ação pública.
diz BOIGEOL (1995). Tomando o representante do Parquet conhecimento de uma
“Os magistrados franceses geralmente infração penal de ação pública, tem ele três opções:
procedem das classes sociais mais elevadas: da – Inicia a ação penal;
burguesia industrial ou alta função pública”. – Determina à polícia a abertura de investigação;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

– Arquiva a informação que lhe chegou às mãos. amplamente e prender com a mesma facilidade, o que costuma
A vítima pode constituir-se em assistente de acusação e gerar muita polêmica.
dar início à ação penal.
Para iniciar a ação penal o Ministério Público tem quatro 5.24. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO E
opções: RESPONSABILIDADE REGRESSIVA DOS JUÍZES
– determina o comparecimento imediato do acusado,
para casos de delito em que a pena máxima é de sete anos de CAPPELLETTI diz que:
prisão, caso seja certa a autoria da infração, podendo o Tribunal Na França foi introduzido o que se pode
determinar a detenção provisória; considerar um sistema de seguro social (estatal) contra
– convoca o acusado a comparecer espontaneamente a os riscos de mau funcionamento que os cidadãos
uma audiência do Tribunal Correcional a convite da polícia; podem encontrar quando utilizam a máquina
– manda citar diretamente o acusado, sendo a citação Judiciária, [...] salvo ação regressiva, total ou parcial
entregue por Oficial de Justiça; contra o juiz, o Estado assume sua própria
– em caso complexo de crime, instaura uma informação responsabilidade em lugar de seus funcionários, e dita
Judiciária, tendo um juiz de instrução (escolhido pelo presidente responsabilidade tende a representar séria realidade,
do TGI) como presidente da investigação, o qual é assessorado ao invés da ficção ou burla que ocorria em tempos
pela polícia. Ao final da investigação, o juiz de instrução opina anteriores, como na França até a reforma dos anos70.
pelo arquivamento ou pelo início da ação penal. (CAPPELETTI, 1999: 69/70).
ROSA (1975) dá algumas informações sobre o Juizado
de Instrução como: 5.25. DESCONFIANÇA EM RELAÇÃO AOS JUÍZES
Procedimento autônomo e não judicial,
destinado a obter provas ‘definitivas’ da autoria e da “Tanto quanto você, eu acredito que a Justiça
materialidade da infração penal. é uma coisa importante demais para ser aplicada por
Noronha (1989:23), trata do assunto: juízes”.
“Não se negam as vantagens deste (juizado de A frase de Josée Blanchette retrata bem o pensamento
instrução), proporcionando ao magistrado apreciar ao de muitos franceses.
vivo e com presteza os elementos delituosos, e ao Com o advento da Revolução Francesa e após um
indiciado maiores garantias”. período de grande prestígio dos Parlamentos, como vimos no
Pode-se dizer, no entanto, que o juiz de instrução é o estudo da história do Judiciário francês, o legislador, salvo
juiz mais poderoso que se possa imaginar, pois, uma vez colhidas raríssimas exceções, sempre foi muito severo com os juízes,
por ele as provas da autoria e da materialidade de uma infração procurando restringi-los a meros funcionários públicos, sob o
penal essas provas são, como diz Rosa (1975), ‘definitivas’ para controle permanente e rigoroso do Legislativo e do Executivo,
a ação penal, além, é claro, dos poderes que ele tem de investigar situação que perdura há mais de 200 anos.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

DUVERGER esclarece que: e florestas, os homens do mar ou os negociantes”.


“O princípio de separação entre as autoridades (LEBIGRE, 1995:230).
administrativas e Judiciárias, adveio durante a Revolução de A famosa historiadora do Direito francês termina com
1789 em consequência dos excessos cometidos nas jurisdições uma afirmação grave:
do antigo regime, resultando na criação de duas ordens de “Em todos os tempos os franceses desconfiam
jurisdição”. (1996: 425). de sua justiça. Mais ou menos, segundo a época”.
Nota-se certo receio de que o Judiciário se torne forte o
suficiente para reeditar os incidentes dos Parlamentos do Antigo Esta desconfiança atinge também a Justiça administrativa:
Regime. DAVID (1996: 69/70) diz que:
O Judiciário, sem ser um “poder” na pátria de “... os tribunais administrativos, na França,
Montesquieu, tem os juízes submetidos a uma hierarquização não se reconhecem com o poder de dar ordens à
asfixiante e divididos entre juízes Judiciários e juízes administração; eles se limitam a anular os atos ilegais
administrativos (com grande vantagem para os últimos), com executados, e a reconhecer o Direito dos particulares
ascensão funcional controlada pelo Conselho Superior da de receberem uma indenização. Por outro lado, a
Magistratura (onde há poucos magistrados) e submetido ao lentidão da justiça administrativa e a dificuldade de
Ministério da Justiça é, ainda, por muitos pressionado, que o fazer executar as decisões tomadas pelos tribunais
reputam “sem legitimidade”. Estes querem votar para escolher administrativos frequentemente enfraquecem a
os juízes ou então que eles aceitem ser meros “funcionários eficácia do Direito administrativo”.
públicos “ ... Somente uma parte da população e alguns políticos
mais simpáticos ao Judiciário saem a campo, além dos próprios Na França a desconfiança se transforma em atos
juízes, em defesa da independência do Judiciário e do seu concretos dos governantes do momento, como vimos na história
reconhecimento como terceiro poder. Até Montesquieu é do Judiciário. Mudado o regime político, trocam-se os juízes,
interpretado como defensor da tese de que o Judiciário não é dentro da assim chamada depuração da Magistratura. Vejamos
um “poder”, como vimos anteriormente. Esta desconfiança o que diz BRAUNSCHWEIG sobre o assunto:
parece encontrar raízes no papel preponderante que os “Eliminar magistrados que não simpatizam
Parlamentos do Antigo Regime (principalmente o de Paris) tiveram com suas opiniões, sua conduta sob o regime precedente
na deflagração da Revolução Francesa ... isso reforçado pela e sua adesão ao mesmo, substituindo-os por homens
crença das pessoas de que só pode exercer o poder quem é que tenham a confiança dos novos dirigentes, pode
escolhido pelo voto... Mas essa desconfiança vem de longe: no sinalizar no sentido que as depurações dos
entendimento de Colbert, exposto na sua Dissertação de 1665: monarquistas ou republicanos se assemelharam e que
“Os magistrados da ordem Judiciária em geral cada uma constituiu simplesmente uma
representam frente ao rei um poder contrário operação de revanche com relação a precedente”.
infinitamente mais perigoso que os oficiais das Águas

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

5.26. PARTICIPAÇÃO FEMININA de demandas, dá explicações para o fenômeno e afirma que a


solução é a reforma processual para se acelerar os processos,
O número de magistradas (juízes e membros do Ministério que leve em conta o considerável desenvolvimento da litigiosidade.
Público) aumenta a cada dia, correspondendo a mais de 65% O acontecimento processual marcante deste último meio
do total, somando 5.260 de um total de 8.068. Na época da século terá sido sem dúvida, e não só na França, o considerável
primeira edição deste livro, ou seja, em 2001, o número de aumento da massa litigiosa. Foi esse dado primeiro que pesou
magistradas era de menos de 50%, mas a crescente feminização, muito fundo nas transformações do processo civil francês.
no meu entender, demonstra o desinteresse dos homens em ser O desenvolvimento quantitativo: Quando se evoca
magistrados da Justiça Judiciária, preferindo outras áreas, tal problema, logo se pensa no crescimento quantitativo
inclusive a Justiça Administrativa e a advocacia. do volume das causas. As demandas apresentadas nos
tribunais multiplicam-se em condições inquietantes. Na
5.27. DEMANDA REPRIMIDA França, foi possível verificar que, no espaço de vinte
anos, o número de causas triplicou, e por motivos
Esta realidade não é somente francesa, mas dos tribunais fáceis de compreender. Numa sociedade que evolui
de qualquer país do mundo. A procura crescente dos rapidamente, as leis sucedem-se em ritmo acelerado e
jurisdicionados para soluções da Justiça é um fenômeno curioso, fatalmente geram um contencioso mais abundante,
pois, ao mesmo tempo em que muitos duvidam das soluções tanto mais quanto os nossos contemporâneos, mais
Judiciárias, a Justiça é procurada na busca de uma resposta para bem informados de seus Direitos do que no século
os problemas mais graves. Esse volume de demandas gera a passado, já não hesitam em dirigir-se aos tribunais
dificuldade em se dar uma resposta rápida. ante a menor dificuldade e, se necessário, percorrendo
todos os degraus da hierarquia Judiciária, desde o juiz
KERNALEGUEN (1999:163), afirma que: de primeiro grau até a Corte de Cassação. Mas não
“... o número de processos recebidos é existe milagre. Com um pessoal Judiciário que
constantemente superior ao número de processos praticamente não aumentou em número, o resultado
julgados. Desde 1982, o estoque de processos restantes mais claro de semelhante situação consiste em que
a julgar cresceu em proporções inquietantes”. nossos tribunais, que já não conseguem deter essa maré
Depois de ter dito que em 1996 a Corte de Cassação montante, só podem proferir seus julgamentos ao fim
julgou 26.000 recursos, em nota, na mesma página, dá os de muitos meses, quando não de muitos anos. Há aí
números de processos recebidos pela Corte: de 17.856 em 1982 um fenômeno de massa que não é peculiar à Justiça –
a 34.942 em 1992 e 38.452 em 1997. a Universidade conhece também o mesmo problema –
PERROT (1995), no seu discurso sobre O Processo Civil mas que acarreta, no mundo Judiciário, consequências
Francês na véspera do século XXI (traduzido por José Carlos temíveis, se considera que a Justiça é fator de Paz
Barbosa Moreira), reconhece o aumento avassalador do número social e que não lhe é possível desempenhar plenamente

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

seu papel sem que as decisões sejam proferidas dentro que nos rendamos à evidencia: sociologicamente, o
de prazos razoáveis e executadas com rapidez. Processo deslocou-se na direção de camadas
populacionais de condições mais modestas, que vivem
O desenvolvimento quantitativo: Esse primeiro de seus ganhos e são comumente designadas por
fenômeno é notavelmente agravado pelo fato de que “classes médias”. Ora, essa situação – da qual nem
a massa litigiosa não se limitou a aumentar em sempre se tem medido as incidências Judiciárias – fez
quantidade: também qualitativamente se modificou a aparecer duas preocupações novas que o jurista
fundo. Eis aí um aspecto em que se pensa bem menos moderno tem de encarar. 1) Antes de tudo, há o
e que, todavia, merece a maior atenção. No século XIX; problema do acesso à Justiça. Numa época em que os
os litígios versavam em geral sobre a propriedade das processos gravitavam em torno de uma fortuna
terras, sobre alguns contratos comerciais cuidadosa- familiar solidamente enraizada e atingiam camadas
mente catalogados e disciplinados pela lei, sobre a relativamente abastadas da população, o acesso à
definição de sucessões ou de regimes matrimoniais, por Justiça quase não suscitava problema: contratava-se
vezes, ademais, com alguns problemas de filiação; isto um advogado e proviam-se facilmente as despesas
é, em resumo, sobre fortuna adquirida objeto de judiciais. Em nossos dias, muitos hesitam em
disputas que não exibam necessariamente solução aventurar-se a um processo do qual se ignora quanto
imediata. Litigava-se com frequência, família contra custará, e a solicitar os serviços de um auxiliar da
família, ao longo de várias gerações. Ora, em nossos Justiça. Ora, isso é muito grave, pois afeia o acesso à
dias, é diferente o contexto. A grande maioria dos Justiça, que é uma liberdade pública cujo exercício se
processos envolve questões que impregnam nossa vida deve assegurar a todos. Digamos que a Justiça
quotidiana: é o assalariado que encontra dificuldades moderna se empobrece. Daí a necessidade de instituir
para obter do empregador uma indenização por um sistema de assistência Judiciária, comparável um
despedida; é a vítima de acidente rodoviário que não pouco à seguridade social no tocante à saúde pública.
recebe da companhia seguradora a prestação Foi o que fez uma lei francesa de 1991. Mas alguns
reparadora com que contava; é um locatário cuja ainda se perguntam se é o suficiente. 2) A segunda
locação foi rescindida e está ameaçado de despejo; é preocupação concerne à duração dos processos: o
uma mãe abandonada que espera em vão uma pensão tempo tornou-se em nossos dias um dos parâmetros
alimentar ou se bate para conservar a guarda dos da Justiça moderna. Quando se litigava, como no
filhos; e que dizer dos processos que nossa sociedade começo do século, sobre a definição de sucessões, sobre
de consumo fez nascer, com créditos distribuídos a o Direito de propriedade, sobre servidões ou usufrutos,
torto e a Direito e que não raro põem o consumidor na a lentidão dos processos era talvez algo de irritante,
necessidade de ir a juízo para escapar de cláusulas mas a gente acabava por se resignar a ela, atribuindo
abusivas ou à cobrança de juros astronômicos. Cumpre a responsabilidade ao formalismo judicial, a cujo

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

respeito ocasionalmente se pilheriava. Hoje, levada em Não é exagero dizer – e é o que desejaríamos agora
conta a natureza dos litígios, já não é possível resignar- mostrar – que todas as mais importantes reformas
se: uma pensão alimentar, uma indenização por processuais francesas têm sido ditadas para uma única
despedida ou destinada a ressarcir um dano não pode e mesma preocupação, a da aceleração da Justiça.
esperar meses. Eis porque a celeridade se converteu A justiça administrativa também mostra um quadro de
num dos primeiros imperativos da Justiça moderna. insuficiência no que diz respeito aos Tribunais Administrativos e
3) O problema neste fim de século XX: como enfrentar Cortes Administrativas de Apelação, que poderemos deduzir
a inflação contenciosa, aceitando ao mesmo tempo o conforme os dados estatísticos abaixo, referentes ao ano de 1998:
procedimento? Vê-se então, porém, onde está o
paradoxo que faz pensar um pouco na quadratura do TRIBUNAIS ADMINISTRATIVOS
circulo. De um lado, nossos tribunais estão entulhados
de um contencioso sempre mais abundante, que retarda Processos registrados: 123.834
fatalmente o curso da Justiça. Mas, de outro lado, a
natureza dos litígios que chegam à Justiça exige Decisões proferidas: 104.615
solução cada vez mais rápida: eis aí um imperativo
absoluto, ainda mais imperioso que no século passado. CORTES ADMINISTRATIVAS DE APELAÇÃO
Como superar a contradição? Neste fim de século, é
com tal dilema que se confronta a Justiça francesa. A Processos registrados: 14.330
solução que ocorre de imediato consistiria em
aumentar o número de juízes. É certo que, na França, Decisões proferidas: 9.199
o pessoal Judiciário não tem aumentado na proporção
do número de processos: já há perto de um século ele Pesquisa de opinião pública promovida em 1991 pela
permanece fixado, sem modificação, em cerca de 6.000 Comissão Senatorial Haenel-Arthuis concluiu que 75% dos
juízes. Um aumento maciço de juízes, contudo, não é franceses entendem que a Justiça francesa não cumpre a contento
praticável por motivos orçamentários. Cumpre ser seu papel e 66% da população respondeu que o problema maior
lúcido: nenhuma esperança existe por esse ângulo! De é a demora das soluções jurisdicionais, aparecendo também
resto, nem desejável é um aumento rápido, se não se outras críticas como dificuldade de acesso à Justiça, custo alto e
quer baixar perigosamente a qualidade do tratamento diferenciado em detrimento dos pobres. Em pesquisa
recrutamento, que tem de manter-se em nível alto. Há posterior, este resultado foi confirmado parcialmente. Desta
meio século, portanto, vem-se esforçando a França deficiência resulta o surgimento e o desenvolvimento das
para resolver o problema de maneira indireta, dirigindo chamadas “formas alternativas de regulamentos dos litígios”:
as reformas para as estruturas Judiciárias (I), para o “Dado característico do período contemporâneo
procedimento (II) e enfim para a decisão judicial (III). é a diminuição do papel desempenhado pelas jurisdições

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

propriamente ditas na regulamentação dos litígios.” De fato, nesta constituição, se, por um lado, não é
(VINCENTet al: 1996). previsto um poder “difuso” dos juízes de controlar a
conformidade das leis à própria constituição, é
A conciliação e a mediação são incentivadas, mas a última previsto, por outro lado, um conselho constitucional,
não é tão utilizada na França, como acontece nos Estados Unidos, cuja organização é disciplinada por uma “ordonnance”
conforme informa Serge Braudo, em estudo publicado na Internet. de 7 de novembro de 1958, posteriormente modificada.
A carência de recursos humanos é demonstrada por dados Este conselho é composto dos ex-Presidentes da
estatísticos. Assim, em 1857, com uma França de 37.000.000 República e de outros nove membros, três dos quais
de habitantes, havia 6.254 magistrados, enquanto, em 1990, o nomeados pelo Presidente da República, três, pelo
país já tendo 58.000.000 de habitantes e uma vida muito mais Presidente da assembleia nacional, e três, pelo
complexa (com número maior de processos), o número de Presidente do senado: Além de várias funções, que aqui
magistrados era menor, ou seja, de 6.009. Desta forma, o número não nos interessam – como, por exemplo, o controle
de magistrados por habitantes caiu de um magistrado para cada da regularidade das eleições presidenciais e das eleições
6.000 habitantes (1857) para um magistrado para cada 9.666 parlamentares – o conselho constitucional tem,
habitantes (1990). também, a função que os juristas franceses chamam
Atualmente (dado de 31/01/2000) existem na França de “le controle de la constitutionnalité des lois”. Este
4.953 juízes de ordem Judiciária, conforme informação de controle desenvolve-se do seguinte modo: quando um
Christian Goste. Ainda deve ser observado que no século XIX texto Legislativo ou um tratado internacional já está
o número de pessoas jurídicas (evidentemente não computadas definitivamente elaborado, mas ainda não
entre os habitantes) aumentou muito, bem como suas demandas. promulgado, o Presidente da República, o Primeiro-
Ministro ou o Presidente de uma ou de outra câmara
5.28. CONSELHO CONSTITUCIONAL do Parlamento (isto é, da “Assemblée Nationale “ ou
do “sénat”) pode remeter o próprio texto Legislativo
As palavras de CAPPELLETTI são esclarecedoras: ou o tratado ao “conseil constitutionnel”, a fim de
Mas, o País que oferece os mais típicos e mais que este se pronuncie sobre sua conformidade à
numerosos exemplos de um controle político, não constituição. Para algumas leis, ditas “orgânicas”
judicial, de constitucionalidade é, sem dúvida, a (“lois organiques”), de que se pode dizer, grosso modo,
França. Na realidade, a exclusão de um controle que concernem especialmente à organização dos
judicial de constitucionalidade é uma ideia que sempre poderes públicos), o pronunciamento do “conseil
se afirmou – por razões históricas e ideológicas [...] constitutionnel” é, ao contrário, sempre obrigatório.
nas constituições francesas, e que se encontra de novo O “conseil constitutionnel” deve decidir dentro de um
afirmada, ainda hoje, se bem, que talvez com algumas mês ou, em certos casos, dentro de oito dias; neste
atenuações, na urgente constituição francesa de 1958. ínterim, a promulgação da lei fica suspensa. O

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

pronunciamento do “conseil constitutionnel” é emitido válida e, por conseguinte, aplicável, mas, antes, um
por maioria de votos, depois de um procedimento que ato (e precisamente um parecer vinculatório) que vem
se desenvolve em segredo, sem audiências orais, sem a se inserir no próprio processo de formação da lei – e
contraditório, um procedimento em que não existem deste processo assume, portanto, a mesma natureza.
verdadeiras partes, embora sendo admitida, na (CAPPELLETTI, 1999: 27/29).
prática, a apresentação de memoriais escritos por parte
dos órgãos interessados. Se o pronunciamento do
“conseil constitutionnel” for no sentido da
inconstitucionalidade, a lei não poderá ser promulgada
nem poderá, por conseguinte, entrar em vigor, senão
depois da revisão da constituição. E suficientemente
clara – e, de resto, mais ou menos reconhecida por
numerosos estudiosos franceses – a natureza não
propriamente jurisdicional da função exercida pelo
“conseil constitutionnel”: e isto não apenas, como
escreve um autor, pela natureza antes política que
Judiciária do órgão, natureza que se revela, quer na
escolha e no status dos membros que dele fazem parte,
quer, sobretudo, nas diversas competências do próprio
órgão e nas modalidades de seu operar; mas também
e especialmente pelo caráter necessário, pelo menos
no que diz respeito às leis orgânicas, do controle que
se desenvolve, portanto, sem um verdadeiro recurso
ou impugnação de parte (“ubi non est actio, ibi non
est jurisdictio”), bem como pelo caráter preventivo
da função de “controle” por aquele órgão exercida.
Tal função vem, na verdade, a se inserir –
necessariamente, no que concerne às “leis orgânicas”,
e somente à instância de certas autoridades políticas,
no que se refere a outras leis – no próprio item da
formação da lei na França: é, afinal de contas, não
um verdadeiro controle (a posteriori) da legitimidade
constitucional de uma lei para ver se ela é ou não é

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

6. NORMAS CONSTITUCIONAIS

6.1. CONSTITUIÇÕES DE 1791 A 1946

CONSTITUIÇÃO DE 1791 – no Capítulo V, Do Poder


Judiciário, traz 27 artigos, prevendo a proibição do rei e os
membros do Legislativo de exercerem a judicatura; e eleição de
juízes e a nomeação dos membros do Ministério Público pelo
povo.
CONSTITUIÇÃO DE 1795 – no Título VIII, Poder
Judiciário, traz 72 artigos, sendo que, depois das disposições
gerais, trata da justiça civil, da justiça correcional e criminal, do
Tribunal de Cassação e da Alta Corte de Justiça, garantindo que
os “juízes não podem ser destituídos a não ser por ilícito
legalmente julgado, nem suspenso a não ser por uma acusação
admitida”.
CONSTITUIÇÃO DE 1799 – no Título V, Dos
Tribunais, traz 9 artigos, onde se garante a vitaliciedade aos juízes,
menos os de paz.
CARTA CONSTITUCIONAL DE 1814 – quando trata
Da Ordem Judiciária, traz 12 artigos, onde garante a
inamovibilidade dos juízes nomeados pelo rei, menos os de paz.
CARTA CONSTITUCIONAL DE 1830 – quando trata
da Ordem Judiciária, traz 12 artigos, onde garante a
inamovibilidade dos juízes nomeados pelo rei, menos os de paz.
CONSTITUIÇÃO DE 1848: no Capítulo VIII: Do
Poder Judiciário, traz 20 artigos, garantindo a vitaliciedade aos
juízes.
CONSTITUIÇÃO DE 1852: não trata do Judiciário.
LEI CONSTITUCIONAL DE 1875: não trata do
Judiciário.
CONSTITUIÇÃO DE 1946 – no Título IX, Do
Conselho Superior da Magistratura, traz dois artigos, é garantida

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

a inamovibilidade aos juízes e é dito que o Conselho Superior Presidente da República, e o Ministro da Justiça, cinco
da Magistratura garante a independência dos magistrados. membros do Ministério Público e um juiz, un
conselheiro de Estado designado pelo referido
6.2. CONSTITUIÇÃO DE 1958 (ATUAL) Conselho de Estado, e as três personalidades mencio-
nadas na alínea precedente.
TÍTULOVIII A formação do Conselho Superior da
Da Autoridade Judiciária Magistratura competente em relação aos juízes faz
Art. 64. O Presidente da República é o avalista proposições para as nomeações dos conselheiros da
da independência da autoridade Judiciária. Ele é Corte de Cassação, para aquelas de primeiro presidente
assistido pelo Conselho Superior da Magistratura. de Corte de Apelação e para aquelas de presidente de
Uma lei orgânica traz o estatuto dos Tribunal de Grande Instância. Os outros juízes são
magistrados. nomeados sob seu parecer favorável.
Os juízes são inamovíveis. Ela estatui como conselho de disciplina dos
Art. 65. O Conselho Superior da Magistratura juízes. Ela é então presidida pelo primeiro presidente
é presidido pelo Presidente da República. O Ministro da Corte de Cassação.
da Justiça é seu vice-presidente de Direito. Ele pode A forma ção do Co nselh o S upe rior da
substituir o Presidente da República. Magistratura em relação aos membros do Ministério
O Conselho Superior da Magistratura Pú blico dá seu pa rec er pa ra as no mea çõ es
compreende duas formações, uma competente em referentes aos membros do Ministério Público, com
relação aos juízes, a outra em relação aos membros exceção dos cargos providos por ordem do Conselho
do Ministério Público. de Ministros.
A formação competente em relação aos juízes Ela dá seu parecer sobre as sanções
compreende, afora o Presidente da República, e o disciplinares referentes aos membros do Ministério
Ministro da Justiça, cinco juízes e um membro do Público. Ela é então presidida pelo Procurador Geral
Ministério Público, um conselheiro de Estado do Ministério Público que atua junto à Corte de
designado pelo referido Conselho de Estado, e três Cassação.
personalidades que não pertençam nem à Assembleia Uma lei orgânica determina as condições de
Nacional nem ao Senado nem à ordem Judiciária, aplicação do presente artigo.
designadas respectivamente pelo Presidente da Art. 66. Ninguém pode ser detido arbitraria-
República, pelo Presidente da Assembleia Nacional e mente. A autoridade Judiciária, guardiã da liberdade
pelo Presidente do Senado. individual, assegura o respeito a esse princípio nas
A formação competente em relação aos condições previstas em lei.
membros do Ministério Público compreende, afora o

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Observando-se os dez diplomas constitucionais vê-se 7. A JUSTIÇA COMO SERVIÇO PÚBLICO


que: em três deles (1791, 1795 e 1848) o Judiciário é chamado
de poder; cada um vigorou por quatro anos; foram editados
dois no século XVIII e um no século XIX, sendo de se notar Na França existem aproximadamente 2.500.000
que os três foram editados em épocas “revolucionárias”. A funcionários públicos e cerca de 1.000.000 de funcionários de
explicação que se dá para o tratamento constitucional dado ao entidades públicas. A maioria dos juízes Judiciários franceses
Judiciário, ao Legislativo e ao Executivo é que, na época, o país não aceita para si a classificação de funcionário público. Tratados
enfrentava uma situação de instabilidade com a predominância na constituição em vigor como “autoridades Judiciárias”, tendo
quase absoluta do Legislativo, e era preciso que o Presidente da inclusive a garantia da inamovibilidade, é certo que estão muito
República tivesse nas mãos praticamente sozinho as rédeas de acima do que se entende por “funcionário público”.
toda a estrutura do país. Assim, por exigência de De Gaulle e
aprovação de quem o apoiava, a Constituição de 1958 foi editada E certo que a Constituição não diz que o Judiciário é um
e está em vigor até hoje. poder. No entanto, não dá a Constituição de 1958 (em vigor) o
qualificativo de poder ao Legislativo e ao Executivo: simplesmente
O Legislativo passou a ter, na prática, pouco poder; o nada menciona a respeito, deixando a discussão para os
Judiciário ficou como mero julgador de questões pouco hermeneutas mais ou menos qualificados. Entendemos
significantes; o Ministério Público foi atrelado à força ao inadequado dizer-se que os juízes Judiciários são funcionários
Ministério da Justiça (que pode interferir inclusive nos processos, públicos ou servidores públicos.
dando-lhe ordens detalhadas sobre como agir); e a Justiça
Administrativa constitui um esquema à parte, como se fosse o Quanto aos juízes administrativos a denominação parece
próprio Governo analisando suas próprias iniciativas ou omissões ser menos discutível, devido à estrutura específica. No entanto,
para corrigir os erros. num livro chamado Le service Publique de la Justice, constante
de vários pequenos estudos, dentre os quais um de Elisabeth
A “reforma da Justiça” vem sendo processada lentamente Guigou, ex-Ministra da Justiça, constatamos que a matéria é
por força da iniciativa governamental, tendo por trás de si a polêmica (ou polemizada) na França.
esmagadora pressão da opinião pública francesa, que é irresistível
para quem quer que seja. A ex-ministra (La Justice au Service du Citoyen) é
taxativa no sentido de que a Justiça é um serviço público:
“A Justiça é um serviço público porque a ideia
mesma de serviço público está ligada à ideia de
justiça”. (11)

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TRUCHET defende tese mais respeitosa ao Judiciário: 8. ESCOLA NACIONAL DE MAGISTRATURA


“Dizer da Justiça que ela é um serviço público
não é nem traí-la nem lhe render inteiramente... justiça.
Ela é isso, e mais que isso”.
Fundada, por força da Ordenança 59-77 de 7 de janeiro
SAUVÉ diz que o Judiciário francês é, ao mesmo tempo, de 1959, sob o nome de Centro Nacional de Estudos Judiciários,
poder e serviço público: é a instituição encarregada da formação dos juízes e membros
“Assim então, após ter examinado a do Ministério Público, não incluídos os magistrados de ordem
jurisprudência do Conselho Constitucional, do administrativa, que são formados pela Escola Nacional de
Tribunal dos Conflitos, do Conselho de Estado e da Administração, respeitada a dicotomia Justiça Judiciária e Justiça
Corte de Cassação, podemos concluir por essa Administrativa.
afirmação paradoxal: a Justiça é, ao mesmo tempo,
O Decreto 59-772 de 25 de junho de 1959, modificado
um serviço público e um dos três poderes reconhecidos sucessivas vezes, trata do Estatuto particular dos Funcionários
pela Constituição.” da ENM, dentre os quais o Diretor e outros funcionários
graduados: Diretor de Formação Inicial, Diretor da Formação
Um juiz francês, perguntado, disse que aceita o rótulo
Contínua, Subdiretor Encarregado da Coordenação das Missões
de funcionário público, se assim também se admitirem os
de Formação, subdiretor de Estudos, subdiretor de Estágios,
membros dos Poderes Executivo e Legislativo ... Resta saber se
subdiretor da Formação Contínua e Secretário Geral.
na França há um consenso sobre o que seja funcionário (ou
servidor) público... O Decreto 72-355 de 4 de maio de 1972, modificado
sucessivas vezes, é o diploma legal que regula mais fortemente a
estrutura da ENM, sediada em Bordeaux. Colocada sob a
responsabilidade do Ministério da Justiça, é administrada por
um Conselho de Administração presidido pelo Primeiro
Presidente da Corte de Cassação. Como ilustração e para
conhecimento do leitor, mencionaremos a programação da ENM
para os auditores de justiça que iniciaram seu estágio em
fevereiro de 2000.
O calendário é o seguinte:
Fevereiro/2000:
– recepção na ENM de Bordeaux;

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– depois uma semana de estágio denominado seis semanas nos Tribunais de Instância, seis semanas na justiça
“descoberta das jurisdições” (onde os auditores de justiça ouvem juvenil, seis semanas na área de juiz de instrução, seguido dos
falar do ato de julgar e têm um contato concreto com a vida dos “estágios complementares” nas polícias civil e militar, no serviço
tribunais); de proteção Judiciária da juventude, no serviço penitenciário,
– para os auditores que efetuam estágio em jurisdição na área dos oficiais de justiça, nos cartórios, na área
estrangeira esse estágio de “descoberta das jurisdições” é administrativa dos serviços forenses, além de estágio junto a
acrescido de mais uma semana para melhorar os conhecimentos advogados; (em março se define a situação futura de cada auditor,
e facilitar a comparação com o sistema francês; – posteriormente ou seja, se começará posteriormente como juiz ou membro do
vem a fase do chamado “estágio exterior”, ou seja, fora das Parquet, e em que área oficiará, – em seguida, de abril a 31 de
instituições Judiciárias francesas, que dura dez semanas, assim: agosto de 2002 vêm os estágios preliminares, quando cada
nos órgãos públicos, empresas públicas ou privadas, órgãos da auditor estagiará na área já definida como sua e na qual passará
União Europeia e da internacionalização do Direito; futuramente a exercer a judicatura ou as funções do Parquet,
– de abril a dezembro/2000 segue-se a denominada de acordo com o caso.
“escolaridade de Bordeaux”, ou seja, orientação teórica sobre Diz a Direção da Escola: “A formação dos auditores de
assuntos considerados importantes: a instituição, a decisão, a justiça é de tipo generalista, pluridisciplinar”. Realmente, a
economia, a sociologia e a Europa e a internacionalização, sendo programação do curso procura atingir uma gama enorme de
abordados temas como função do juiz de Tribunal de Grande ramos do conhecimento, para preparar o juiz e o representante
Instância, função do juiz de Tribunal de Instância, função do juiz
do Ministério Público, tanto na parte técnico-jurídica como na
de instrução, função do juiz de aplicação das penas, função do visão ampla da vida social, das modernas tecnologias e do
juiz da infância, função do Ministério Público, estatuto da conhecimento da realidade humana. A ENM desenvolve
Magistratura, Conselho Constitucional, jurisdição administrativa, atividades diversas, em caráter permanente, oferecendo vários
autoridade Judiciária, ética e deontologia, funcionamento das cursos de aperfeiçoamento para os magistrados já em exercício
jurisdições, ato de julgar, processo civil e penal, Medicina Legal,
(“formação contínua”), pois estes têm Direito a alguns dias de
Psiquiatria, relacionamento entre Justiça e mídia, a empresa, e licença a cada ano para participarem de cursos de
as técnicas contábeis e financeiras, família, desvios aperfeiçoamento.
comportamentais, culturas estrangeiras, escritório de informação
jurídica, Convenção Europeia dos Direitos do Homem, Justiça A ENM francesa possui um Departamento Internacional,
Internacional, informática e novas tecnologias, línguas sediado em Paris (Île-de-la-Cité, 8, Rue Chanoinesse), que, no
estrangeiras; em seguida, começa a fase denominada “formação período de 1960 a dezembro de 1998, recebeu cerca de 3.500
em jurisdição”, que compreende o período de janeiro/2001 a magistrados de mais de 90 países, dos quais 85 brasileiros. A
março/2002, iniciando-se pelo chamado “estágio jurisdicional”: Escola mantém, no setor parisiense, relacionamento constante
oito semanas no Parquet, sete semanas junto aos Tribunais de com grande número de Escolas de Magistratura de países
Grande Instância, três semanas na área de aplicação das penas, estrangeiros, inclusive a Escola Nacional da Magistratura do
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Brasil e a Escola Paulista da Magistratura. Condição sine qua O ciclo de formação inicial segue o mesmo estilo da
non para admissão de estrangeiros aos estágios é a autorização formação dos magistrados franceses, com duração de 20 meses,
expressa da autoridade competente do país de origem do sendo oito meses de ensinamentos teóricos e 12 meses de estágio
candidato, encaminhado por via diplomática, e avaliação dos jurisdicional.
conhecimentos de língua francesa do candidato, feita por entidade
credenciada pela ENM francesa. Objetivos: – aquisição dos métodos e técnicas das
diferentes funções Judiciárias; – conhecimento das atribuições
Os estágios para estrangeiros são os seguintes: dos advogados, escrivães etc., e do contexto de suas decisões;
l – Formações generalistas: – princípios fundamentais do ofício de juiz; – ciências humanas e
Ciclo de formação inicial: 2/maio a dezembro; técnicas modernas de comunicação, dentre as quais a informática.
Conhecimento da Justiça francesa: 10/janeiro a – conhecimento da Justiça francesa: destinando-se a aprofundar
23/junho;
os conhecimentos sobre a Justiça francesa.
Apresentação das instituições Judiciárias francesas: 4/
outubro a 26/novembro. Divide-se em três fases: primeira – um mês e meio de
2 – Cursos especiais estudos teóricos; segunda – quase quatro meses de
Avaliação das atividades jurisdicionais: inspeção acompanhamento de atividades jurisdicionais; terceira – quatro
(destinado aos magistrados africanos): 20/março a 31 março. dias de aprofundamento de algum tema especializado. –
Elaboração da decisão de justiça: inspeção (destinado apresentação das instituições Judiciárias francesas tendo como
aos magistrados africanos): 15/maio a 9/junho; objetivo o conhecimento da Justiça francesa. Divide-se em duas
Do inquisitório ao acusatório, evolução do sistema penal fases: primeira – duas semanas de estudos teóricos; segunda –
(destinado aos magistrados da América Latina): 18/setembro a seis semanas de acompanhamento de atividades jurisdicionais.
22/setembro;
Justiça francesa/Justiça da Europa (destinado aos A Escola Nacional de Magistratura Francesa serviu de
magistrados do Leste Europeu): 6/novembro a 10/novembro; modelo para as suas congêneres portuguesa e espanhola, sendo
Luta contra o crime organizado (destinado aos muito respeitada na Europa. Sendo sempre procurada, para
magistrados da Europa central e oriental): 4/dezembro a 12/ atualização, por magistrados das ex-colônias francesas,
dezembro. começou, recentemente, a receber magistrados de países do
Estágios individuais: Janeiro a dezembro. leste europeu.
3 – Formação de professores: janeiro a dezembro.
Breves informações genéricas sobre estágios de
Formações Generalistas.

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9. ÓRGÃOS DE CLASSE

Na França, que, como visto, é um país unitário,


altamente centralizado, somente existem três entidades de classe
dos juízes:
1) União Sindical dos Magistrados, (16)
2) Associação Profissional de Magistrados e (17).
3) Sindicato da Magistratura. (18)
Os três órgãos representativos da classe disputam, com
acirramento, a preferência dos juízes franceses, com colorações
de direita, esquerda e centro, e todos editam publicações
periódicas, que contêm, especialmente, informações sobre
assuntos de interesse como a tramitação do futuro estatuto da
Magistratura e outras leis de reforma do Judiciário, mantendo
sites na Internet. Destaca-se, no entanto, o fato da USM editar
uma valiosa revista sob o nome de Le Nouveau Pouvoir
Judiciaire, atualmente no número 352.

Embora as três entidades tenham utilizado o nome


“magistrados”, só os juízes podem se filiar. Os membros do
Parquet possuem sua própria associação, como se verá, em
item específico.

Passamos a destacar algumas informações sobre cada


uma dessas entidades.

9.1. UNIÃO SINDICAL DOS MAGISTRADOS


Criada em 1969, é a entidade que possui o maior número
de associados. Seguem-se alguns trechos de seu Estatuto:
Art. 1° E constituído entre os magistrados de ordem
Judiciária e os auditores de justiça aderentes aos presentes
estatutos, um sindicato profissional conforme o livro IV do código

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do trabalho, que toma por nome “União Sindical dos no que diz respeito à organização e funcionamento da justiça,
Magistrados”. assim como o recrutamento, a formação e a carreira dos
Art. 2° Este sindicato é específico; ele é autônomo e se magistrados; defender os interesses profissionais dos membros
interdita todo engajamento político, como toda afiliação a uma do corpo Judiciário; informar seus membros sobre os planos
federação. Ele tem por objeto: a) assegurar a independência da profissionais e sindicais; velar pela defesa das liberdades e dos
função Judiciária, garantia essencial dos Direitos e liberdades princípios democráticos”.
do cidadão, b) defender os interesses morais e materiais dos (A respeito de entidades internacionais de magistrados
juízes de ordem Judiciária e dos auditores de justiça, notadamente vide Anexo 2).
no que diz respeito ao seu recrutamento, formação e a evolução
de sua vida profissional, c) contribuir para o progresso do Direito
e das instituições Judiciárias, a fim de promover uma justiça
acessível, eficaz e humana”.

9.2. ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAL DOS


MAGISTRADOS

É a mais nova das três entidades, tendo surgido, cm 1981,


como opção para os juízes insatisfeitos com o desempenho e a
postura das duas outras entidades então existentes.

9.3. SINDICATO DA MAGISTRATURA

Trecho de seu Estatuto:


Art. 1° É constituído, em aplicação ao preâmbulo da
constituição de 4 de outubro de 1.958, entre todos os membros
do corpo Judiciário tal que definido no art. 1° da ordenança
número 70-642 de 17 de julho de 1970, um sindicato profissional
no sentido do Livro IV do Código do Trabalho.
Art. 2° Esse sindicato é autônomo e toma o nome de
“Sindicato da Magistratura”.
Art. 3° O sindicato tem por objetivos: velar para que a
autoridade Judiciária possa exercer sua missão com toda a
independência; estudar e promover todas as reformas necessárias

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10. MINISTÉRIO PÚBLICO (“PARQUET”) (19)

Várias correntes procuram apresentar a origem do


Parquet. Para uma delas, a instituição nasceu na Idade Média,
quando se criou a figura dos “Procuradores do Rei”, sendo que
uma Ordenança de 1303 faz referência aos advogados do rei.
Os membros do Parquet são Magistrados, considerados como
tal em todos os aspectos.
A hierarquização no Parquet é uma realidade, sendo
estruturada da seguinte forma:
l – Diante das jurisdições de 1° grau: – Procurador da
República, auxiliado por Procuradores da República Adjuntos e
Substitutos de Procurador da República; (44)
2 – Diante das Cortes de Apelação: Procurador Geral,
auxiliado por Advogados Gerais e Substitutos Gerais;
3 – Diante da Corte de Cassação: – Procurador Geral,
Primeiro Advogado Geral, Advogados Gerais e, por delegação,
Advogados Gerais que servem nas Cortes de Apelação;
4 – Diante da Corte de Justiça da República: –
Procurador Geral que serve na Corte de Cassação, auxiliado
de dois Advogados Gerais;

5 – Diante da Alta Corte de justiça: – Procurador Geral


que serve na Corte de Cassação, auxiliado de dois Advogados
Gerais.
A instituição tem as seguintes características:
– subordinação hierárquica;
– indivisibilidade;
– irrecusabilidade;
– irresponsabilidade;
– independência;
– proibição de participar de greve;
– obrigação de manter segredo funcional.

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São suas atribuições: 11. AUXILIARES DA JUSTIÇA


– nos processos penais: – atuar em todas as fases dos
processos: receber representações, denúncias e processos 11.1. ADVOGADOS (21)
verbais; supervisionar e dirigir a polícia Judiciária; exercer a ação
pública; representar da sociedade nas audiências; executar as Nas localidades onde haja um Tribunal de Grande
decisões da justiça. Instância, existe uma representação chamada barreau, cujo
– nos processos civis: – defender os interesses do Estado presidente tem o título de bâtonnier. Se um barreau possui
(controle dos atos da vida civil, prenome, nome, nascimento, menos de oito advogados, é administrado pelo referido Tribunal
casamento, sexo; proteger os fracos (infância abandonada. de Grande Instância. Há na França 35.270 advogados, dos quais
adoção, pátrio poder, incapazes); nos processos comerciais; cerca de 13.000 em Paris. Os advogados são chamados de
– ajudar o reerguimento de empresas comerciais com mestres e, dentro da estrutura Judiciária francesa, sua atuação é
dificuldades Financeiras; participar das reuniões de comitês que limitada aos tribunais nos quais outros profissionais assemelhados
tratam de empresas (CODEFI e CORRI) etc. (avoués e advogados dos Conselhos) não detêm o monopólio,
O recrutamento de membros do Parquet é o mesmo sendo que, assim, para se saber onde um advogado pode atuar,
dos juízes e somente após sua saída da Escola Nacional da verifica-se se, legalmente, não há no setor, monopólio de um
Magistratura, serão definidas as duas carreiras. A mudança de desses outros profissionais, o que significa que a profissão de
carreira pode ocorrer sem necessidade de outro concurso, se advogado, na França, não é tão prestigiada em relação, por
deferido o requerimento do interessado. A fragilidade do Parquet exemplo, como a de advogado dos Conselhos.
francês reside no fato de estar subordinado hierarquicamente ao Cada barreau congrega os advogados que são seus
Ministro da Justiça que, legalmente, pode dar ordens pessoais associados, podendo o profissional, regra geral, oficiar somente
aos representantes do Ministério Público sobre como atuar em nos processos que tramitam pelos tribunais da sua circunscrição.
processos individualizados, embora, na prática, isso não ocorra Existe um Conselho Nacional de Advocacia, que não interfere
há algum tempo, por liberalidade ministerial. Somente uma na área de cada barreau, que é absolutamente independente.
reforma constitucional poderá alterar o quadro atual. Onde há Corte de Apelação existe um Centro de
Conforme informações de Christian Coste (dado de 31/ Regional de Formação de Advogados (CRFPA). Para ser
01/2000) é de 1.549 o número de magistrados do Parquet, advogado, além das exigências corriqueiras, o candidato, regra
dos quais 161 prestando serviços na administração central, 33 geral, deve frequentar um curso de um ano em um CRFPA e, ao
na Corte de Cassação e 12 auditores de justiça adidos a essa seu término, atua como estagiário durante dois anos. Somente
Corte, correspondendo a 24% do total de 6.518 magistrados desta forma poderá se inscrever como advogado em algum
(expressão que, na França, inclui juízes e membros do Ministério barreau.
Público). Além das limitações acima mencionadas, ou seja, o
O órgão de classe do Ministério Público denomina-se advogado só pode atuar em processos da região onde está
Associação dos Magistrados do Parquet. inscrito, é importante saber que existem órgãos jurisdicionais

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

em que é dispensável a constituição de advogado. São eles os 11.4. OFICIAIS MINISTERIAIS


473 Tribunais de Instância, os 227 Tribunais do Comércio, os
270 Tribunais Trabalhistas e os Tribunais Paritários de Os oficiais ministeriais são, no conceito de
arrendamentos rurais, ou seja, pelo menos 970 dos 1652 KERNALEGEN (1999): “pessoas titulares de um cargo sendo-
Tribunais e Cortes de vários tipos, sem contar que somente os lhes permitido exercer uma função a título de monopólio”. Dá
avoués (profissão diferente da do advogado comum) podem como características dos vários ramos dessas atividades
redigir apelação na 2ª instância c que somente os advogados de (Avoués, Advogados dos Conselhos e Oficiais de Justiça): a
Conselhos (outra profissão diferente) podem oficiar nos patrimonialidade dos ofícios (o titular do ofício pode transferi-lo
processos dos órgãos da justiça administrativa, Corte de para terceiro, através de uma contraprestação em dinheiro, desde
Cassação e Tribunais da União Europeia, o que significa que que o adquirente do cargo preencha determinados requisitos
existe um grande número de advogados disputando um pequeno legais, reminiscência dos antigos ofícios existentes no Antigo
mercado de trabalho. Regime) e a regulamentação das profissões (seus membros
integram câmaras, geralmente departamentais, regionais e a
11.2. TRABALHADORES SOCIAIS câmara nacional).

Atuam intensamente nas áreas penal, de família e juvenil, 11.4.1. “Avoués” (23)
com atribuições muito variadas e de grande importância nos
processos onde se faz necessária sua colaboração. Encontra-se Os avoués, em número de 407 na França, são os
em andamento, enquanto este livro é escrito, um concurso extra profissionais a quem a lei dá exclusividade para a redação dos
promovido pelo Ministério da Justiça para preenchimento de arrazoados das partes diante das Cortes de Apelação, exceto
150 vagas de educadores de variadas modalidades para as dos territórios ultramarinos e dos departamentos do Alto-
trabalharem na área juvenil. Reno, Baixo-Reno e Moselle, onde as postulações competem a
advogados aí residentes.
11.3. ESCRIVÃES (22)
11.4.2. Advogados dos Conselhos (24)
Na França, existem 1.555 escrivães-chefes e 5.717
escrivães, todos funcionários públicos. Para ingresso nos dois Originários dos advogados dos Conselhos do Rei, sua
cargos existem concursos internos e externos. O curso é legislação reguladora são a Ordenança de 10 de setembro de
ministrado na Escola Nacional de Escrivanias, em Dijon, com a 1817 e os decretos de 15 de março de 1978 e de 28 de outubro
duração de 14 meses para escrivães-chefes e 13 meses para de 1991. Em número de 89, os advogados dos Conselhos são
escrivães, sendo seus participantes remunerados durante o curso. os profissionais autorizados a representar as partes diante do
Conselho de Estado, Cortes Administrativas de Apelação,
Tribunais Administrativos e jurisdições disciplinares, da Corte

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

de Cassação em matéria civil (menos causas trabalhistas, para obtenção do diploma de notários é feita individualmente,
expropriações, etc.), e, matéria penal, exceto quando o acusado ou em colaboração com a universidade, para os candidatos de
possa fazer sua própria defesa, bem como no Conselho seis departamentos: Charente, Dordogne, Gironde, Landes, Lot-
Constitucional, Tribunal de Conflitos e jurisdições europeias e et-Garonne e Pyrénées-Atlantiques.
internacionais. Exercem a assim chamada “alta advocacia”.
11.6. Escrivães dos Tribunais do Comércio
11.4.3. Oficiais de Justiça (25)
São profissionais liberais titulares de um cargo de oficial
São originários da fusão de duas profissões da época público ministerial. Em número de 264, em 227 ofícios, as tarifas
do Antigo Regime, quando havia a venalidade dos ofícios, ou por eles recebidas foram fixadas pelo Decreto de 29 de abril de
seja, os sargentos (encarregados das citações) e os oficiais 1980, modificado em 1986.
(encarregados da assessoria aos juízes nas audiências). Existem
atualmente na França 2.084 ofícios e 3.228 Oficiais de Justiça. 11.7. Oficiais e Agentes de Polícia
Para ser Oficial de justiça, o candidato necessita fazer um estágio
de dois anos e ser aprovado em exame previsto na legislação Atuam na área penal, seguindo a política penal elaborada
que regulamenta a profissão (Ordenança de 2 de dezembro de pelo Ministério Público. Conforme preconiza o Ministério da
1945 e Decretos 56-222 de 29 de fevereiro de 1956, 75-770 Justiça:
de 4 de agosto de 1975, 86-734 de 2 de maio de 1986, 92- “A polícia Judiciária tem por missão assistir a justiça
984 de 9 de setembro de 1992 e 94-299 de 12 de abril de nas suas múltiplas atribuições: – ela constata as infrações e
1994). recebe representações, – ela colige as provas e investiga os
autores das infrações (investigação inicial e pesquisa de
11.5. Notários flagrância).” (Internet).

Existem na França 7.656 notários, pertencentes a 4.600 Conforme determina o mencionado Ministério da Justiça,
ofícios. a polícia Judiciária executa as missões que lhe são confiadas
No site http://www.chambre-lozere.notaires.fr/ pelas autoridades Judiciárias (notadamente pelo juiz de
encontramos todos os links dos sites referentes ao notariato da instrução), como execução dos mandados (ir procurar uma
França, dentre os quais destacamos o http://perso.infonie.fr/ pessoa para conduzi-la até o juiz) e inquirições.A polícia Judiciária
berghil, que se refere ao Centro de Formação Profissional dos age dentro do quadro estrito das missões que lhe são confiadas,
Notários. O referido Centro de Bordeaux é regido pelo Decreto devendo prestar conta de sua execução. As pessoas que exercem
89-399 de 20 de junho de 1989, sendo um estabelecimento de as funções de polícia Judiciária são as que se seguem: prefeitos
utilidade pública, sob a autoridade do Centro Nacional de Ensino e seus adjuntos, policiais militares e funcionários de polícia
Profissional e controle do Ministério da Justiça. A preparação habilitados.

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Os agentes de polícia Judiciária são os guardas 12. O ENSINO JURÍDICO


campestres, guardas particulares juramentados, inspetores da
SNCF, agentes aduaneiros... Não poderíamos mencionar o ensino jurídico na França,
base, regra geral, para as profissões jurídicas, com exceção de
11.8. Peritos Judiciais alguns casos de concurso para a Magistratura.
CAENEGUEM (1998:151), afirma que:
O exercício da profissão é regulado pelos Decretos “Durante a Revolução, as universidades do
74-1184 de 31 de dezembro de 1974 e de 27 de dezembro “ancien regime”, e suas faculdades de Direito em
de 1985. Alguns tipos de peritos formam associações, existindo particular, foram abolidas. Alguns anos depois, as
os Peritos Contadores da França (com informações no site escolas de Direito foram fundadas de novo, e em 1808
http://experts-comptables-fr.org/expfra.htm), o Sindicato o ensino universitário do Direito recomeçou, embora
Francês dos Peritos Profissionais em Obras de Arte e Objetos em base diferente”.
de Coleção (com informações no site http://www.franceantiq.fr/
sfep/spes-fr.asp?index=6), Câmara Sindical Francesa dos Passando da fase histórica para a atualidade, pode-se
Negociantes e Peritos em Filatelia (com informações no site dizer que para quem pretende estudar Direito na França existem
http://www.cnep.fr) etc. diversas opções de curso:
Recebem sempre honorários periciais, mesmo em caso
de gratuidade de justiça, pois, nesse caso, seus honorários são Para quem não concluiu o segundo grau: capacitação
pagos pelo Estado. em Direito, curso de dois anos que, após sua conclusão, permite
ao estudante ingressar no 2° ano do DEUG (Diploma de Estudos
Universitários Gerais);
Para quem tem o segundo grau:
– Magistério de Direito, curso reservado aos melhores
alunos;
– DEUG com duração de dois anos;
– Licenciatura em Direito, obtida um ano após a
conclusão do DEUG;
– Mestrado em Direito, obtido um ano após conclusão
da Licença em Direito;
– DEA (Diploma de Estudos Aprofundados), obtido um
ano após o Mestrado em Direito;
– Doutorado, termina 3 ou 4 anos após a conclusão do
DEA;

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

– DESE (Diploma de Estudos Superiores 13. O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA


Especializados), obtido um ano após a conclusão do Mestrado.
Também não poderíamos deixar de mencionar a atuação
Além destes cursos, existem outros destinados aos do Ministério da Justiça, considerando sua importância na vida
servidores públicos, quando se preparam para concursos de da Magistratura francesa.
progressão funcional. Como vimos, as Escolas de Direito
disponibilizam para os estudantes uma série de cursos, em Procuraremos resumir ao máximo nossa exposição a
diferentes níveis, desde aqueles destinados a quem sequer tem o respeito, indicando os setores do Ministério que têm relação
segundo grau até o Doutoramento, por exemplo. direta com a Justiça:
Inspeção Geral dos Serviços Judiciários;
O ensino jurídico constitui-se, de forma evidente, na base Direção dos serviços Judiciários;
para uma melhor qualificação dos profissionais da área jurídica. Direção dos Processos Civis e da Justiça;
Direção dos Processos Penais e das Graças;
Direção da Administração Penitenciária;
Direção da Proteção Judiciária da Juventude;
Escolas ligadas ao Ministério da Justiça: Escola Nacional
da Magistratura, Escola Nacional das Escrivanias, Centro
Nacional de Formação e de Estudos da Proteção Judiciária da
Juventude e Escola Nacional da Administração Penitenciária.

Daremos algumas referências sobre os dois setores mais


importantes, que são:

Inspeção Geral dos Serviços Judiciários – dirigida pelo


Inspetor Geral, com as seguintes competências: a) inspeção
permanente das jurisdições de ordem Judiciária (menos a Corte
de Cassação) e dos serviços e organismos que dependem do
Ministério da Justiça; b) cumprimento de missões específicas que
lhe são determinadas pelo Ministro da Justiça. O Inspetor Geral
corresponde ao cargo de Mediador da República, integrando a
Comissão de Simplificação das Formalidades Administrativas,
encarregado da simplificação da burocracia do Ministério e
membro da Comissão de Progressão Funcional dos Magistrados.

240 241
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Direção dos Serviços Judiciários – cuida da boa 14. CONCLUSÕES


organização e do bom funcionamento das jurisdições Judiciárias,
inclusive o recrutamento, a nomeação e a gerência da Exercendo inicialmente um cargo subordinado aos
Magistratura profissional e dos funcionários das escrivanias. senhores feudais mais preocupados em impor a disciplina do
que, realmente, fazer justiça, os juízes da Idade Média francesa
Com estas informações, podemos constatar que a ligação foram se transformando em poderosos membros da sociedade,
entre o Judiciário e o Ministério da Justiça é muito grande, embora vindo a formar a chamada “noblesse de robe” (nobreza de toga).
mantida a independência do Judiciário. Quanto ao Ministério No período que antecedeu a Revolução Francesa, os
Público, sua hierarquização faz com que o Ministro da Justiça juízes franceses (cujos cargos eram comprados livremente ou,
seja o chefe da instituição. então, herdados) estavam preocupados, como a grande maioria
dos franceses, em tirar proveito da desordem que reinava no
país, em virtude das falhas administrativas cometidas pelo rei
Luís XVI.
Advindo a Revolução de 1789, os juízes perderam seus
cargos, passando o Judiciário à situação de dependência em
relação ao poder dominante no momento (Legislativo ou
Executivo, de acordo com a época) e, com exceção de um ou
outro período em que foram de certa forma valorizados, de
alguma forma, o Judiciário foi tratado como mero avalista de
governantes mantidos no poder de forma legítima ou
ilegitimamente.
O último golpe fulminante contra o Judiciário foi desferido
pela Constituição de 1958, ainda em vigor, inspirada em De
Gaulle, e cuja revisão vem sendo tentada sem sucesso,
restabelecendo seu prestígio, para que volte a ser um verdadeiro
Poder.
A Justiça francesa é altamente qualificada em termos
técnicos e recursos materiais, sendo acreditada pelo povo,
respeitada pelos governantes, mas aprisionada por uma
Constituição que atendeu a uma situação de emergência quando
editada e que, no entanto, necessita ser modificada, pois não se
justificam e nunca se justificaram os poderes excessivos que o
Presidente da República passou a ter diante de um Legislativo

242 243
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

quase impotente de fato, e um Judiciário que simplesmente se 15. NOTAS DE REFERÊNCIA


obriga a julgar questões menos importantes da vida da
(1) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
coletividade.
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/
Torna-se necessário o fortalecimento do Judiciário para
tgi.htm.
que possa se equiparar aos outros dois poderes, pois, embora a
Justiça Administrativa faça o papel de controladora do Estado, Para pesquisa na Internet sobre o Tribunal de Grande
ela não é o Judiciário, mas sim um misto dos três Poderes, sem Instância de Mâcon no site do Ministério da Justiça francês: http:/
ser um deles. /perso.wanadoo.fr/tgi-macon.
E necessária a independência do Ministério Público, que
ainda é subordinado ao Ministério da Justiça. Para pesquisa na Internet sobre o Tribunal de Grande
Instância de Sables d’Olonne: http://perso.wanadoo.fr/
justice.olonne.
Sobre presidente de TGI:
V. art. 65 da Constituição.
V. arts. 3,28, 28-1 e 36 da Ordenança 58-12’70.
V. arts. 2, 3, 4, 20 e 46 do Decreto 93-21.
V. arts. 1°, 3 e 15 da Lei Orgânica 94-100.
V. arts. 11 a 14 do Decreto 94-199.
Sobre primeiro vice-presidente de TGI:
V. art. 3 da Ordenança de 22 de dezembro de 1958.
V. art. 4 do Decreto 93-21.
(2) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/
ti.htm.
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
Tribunal de Instância de Angoulême: http://perso.club-internet.fr/
tgi16/ACCUEIL.htm.
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
Tribunal de Instância de Cognac: http://perso.club-internet.fr/
tgi16/ACCUEIL.htm.
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
Tribunal de Instância de Melun: http://home.worldnet.fr/jusmelun.

244 245
Luiz Guilherme Marques 13.0 MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
(3) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do multas, penas complementares. As penas de prisão são a reclusão
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/ ou a detenção criminal perpétua ou com prazo determinado (fala-
tcom.htm. se em detenção criminal logo que se trata de uma infração política
Para pesquisa na Internet no site do Tribunal do Comércio e de reclusão, se trata de um crime de direito comum). Delito:
de Bobigny: http://www.tc-bobigny.fr. infração julgada pelos triburnais correcionais e punidos com penas
de prisão de 10 anos ou mais, multas e penas complementares.
(4) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do A prisão pode ser substituída por penas alternativas, tais como
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/ o dia de multa ou de trabalho de interesse geral.
csph.htm.
(6) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
(5) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/ chiffres/
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/ justicef/ mineur99. htm.
tbaux.htm.
Para pesquisa na Internet sobre o Código penal francês
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do o site: http://www.rabenou.org/penal-tit.html de Jérôme Rabenou
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/ traz o texto integral.
juginstr.htm e igualmente no site: http://www.justice.gouv.fr/arbo/
justicef/justmine.htm. Sobre juiz de menores: V. art. 2 do Decreto 93-21.

Sobre juiz de instrução: V. art. 2 do Decreto 93-21 Sobre primeiro juiz de menores: V. arts 4 e 5 do Decreto
93-21.
Sobre primeiro juiz de instrução: V. arts. 4 e 45 do
Decreto 93-21. (7) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/
Para pesquisa na Internet sobre o Código de Processo tpolice.htm.
Penal francês o site http://www.rabenou.org/cpp/PlLlT3.html de
Jérôme Rabenou contém o texto integral. Para pesquisa na Internet sobre os Tribunais de Polícia
no Código de Processo Penal francês o site http://
No site do Ministério da Justiça da França: www.rabenou.org/cpp/PlL2T3.html de Jérôme Rabenou traz o
(http://www.justice.gouv.fr/motscles/alphabet.htm) se texto integral.
vêem os conceitos de contravenção, crime e delito.
Contravenção: infração punida com multa de até 10.000 francos (8) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
e 20.000 francos se há recidiva e de certas penas Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/
complementares, como a suspensão da permissão de conduzir tricorre.htm.
veículo (carteira de motorista). Crime: infração grave passível
de uma ou várias penas determinadas pela lei: penas de prisão, Para pesquisa na Internet sobre os Tribunais de Polícia
no Código de Processo Penal francês o site http://
246 247
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

www.rabenou.org/cpp/PlL2T3.html de Jérôme Rabenou traz o Decreto 93-21 – Sobre primeiro presidente de Corte de
texto integral. Apelação:
V. art. 65 da Constituição V. artes, l, 3, 3-1, 13-2, 35,
Para pesquisa na Internet sobre os Tribunais Correcionais 39, 40 da Ordenança 58-120.
no Código de Processo Penal francês o site http:// V. arts. 5,19, 20 e 44 do Decreto 93-21.
www.rabenou.org/cpp/PlL2T2.html de Jérôme Rabenou traz o V. arts. 1,3 e 15 da Lei Orgânica 94-100.
texto integral. V. arts. 7 a 10, Í6,18 e 37 do Decreto 94-199.
(9) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do (11) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/ do Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/
courassi.htm. communau/ce09cass.htm.
Sobre presidente de Tribunal do Júri: V. art. 20 do Para pesquisa na Internet sobre a Corte de Cassação da
Decreto 93-21. França: http://www.courdecassation.fr.
(10) Para pesquisa na Internet sobre os Tribunais do Júri Sobre Corte de Cassação:
no Código de Processo Penal francês o site http:// – assembleia geral:
www.rabenou.org/cpp/PlL2Tl.html de Jérôme Rabenou traz o V. art. 13-4 da Ordenação 58-1270.
texto integral. . colégio (comissão de progressão):
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do V. art. 13-4 da Ordenança 58-1270.
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/justicef/ . comunicação de peças (CSM):
courappe.htm. V. art. 43 do decreto 94-199.
. disciplina:
Para pesquisa na Internet sobre a Corte de Apelação de V. art. 40 do decreto 94-199.
Besançon no site do Ministério da Justiça francês: http:// . incompatibilidades:
www.justice.gouv.fr/reportag/accfc.htm. V. arts. 9 et 9-1 da Ordenança 58-1270.
Para pesquisa na Internet sobre as Cortes de Apelação . lista dos eleitores dos juízes da Corte de Apelação de
no site do Ministério da Justiça francês: http:// Paris (CSM):
www.justice.gouv.fr/region/fjudl.htm. V. art. 16 do Decreto 94-199.
. magistrados:
Sobre conselheiros das Cortes de Apelação V. arts. 4 e V. art. 65 da Constituição.
20 do decreto 93-21 – em serviço extraordinário: V. arts. 3 a 5 V. art. l e 37-1 da Ordenança 58-1270.
da Lei Orgânica 95-64 de 19/01/1995 V. art. 5 do Decreto 96- V. art. 15 da Lei Orgânica 94-100.
214. Sobre presidente de câmara de Corte de Apelação: V. V. art. 37 do Decreto 94-199.
arts. 3 e 39 da Ordenança 58.1270 .V. arts. 4, 19 e 20 do
248 249
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

. magistrados fora de hierarquia: Sobre juízes fora da hierarquia:


V. arts. 28-1, 35, 39 e 40 da Ordenança 58-1270. V. arts. 3, 13-3, 28-1, 35, 35-2, 37 e seguintes, .40 da
V. arts. l e 2 da Ordenança 86-1303. Ordenança 58-1270.
V. arts. 5 e 39 do Decreto 93-21. V. art. 1° da Lei Orgânica 86-1303.
V. arts. L e 2 da Lei Orgânica 94-100. V. arts. l e 5 do Decreto 93-21.
V. art. 2 do Decreto 94-199. V. art. 2 da Lei Orgânica 94-100.
. missões de informação: V. arts. 2 a 6 do Decreto 94-199.
V. art. 20 da Lei Orgânica 94-100. Sobre primeiro presidente da Corte de Cassação:
. primeiro presidente: V. art. 65 da Constituição.
V. art. 65 da Constituição. V. arts. 35, 51 e 76 da Ordenança 58.1270.
V. art. 51 da Ordenança 58-1270. V. arts. 19, 20 e 30 do Decreto 93-21.
V arts. 19 e 30 do Decreto 93-21. V. arts. 3 e 4 do Decreto 94-199.
V. art. 3 do Decreto 94-199. Sobre presidente de câmara da Corte de Cassação:
. responsabilidade dos magistrados: V. art. 10 do Decreto 93-21.
V. art. 11-1 da Ordenança 58-1270. (12) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
. secretariado geral: do Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/
V. art. 2 do Decreto 93-21. justicei/tconflits.htm.
V. art. 3 da Lei Orgânica 94-100.
V. art. 44 do Decreto 94-199. (13) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site:
.juramento: http://www.conseil-etat.fr/ce-data/actux.htm.
V. art; 6 da Ordenança 58-1270. Sobre Escola Nacional de Administração:
. serviço de documentação e estudos: V. arts. 14, 41, 76-2 e 76-3 da Ordenança 58-1270.
V. art. 7 do Decreto 93-21. V. art. 2 do Decreto 93-549.
Sobre conselheiro da Corte de Cassação: Sobre conselheiro de Estado:
V. art. 1° da lei Orgânica 86-1303. V. art. 65 da Constituição.
- em serviço extraordinário: V. arts. 40 e 40-5 da Ordenança 58-1270.
V. arts. 40-1a 40-7 da Ordenança 58-1270. V. art. 5 da Lei Orgânica 94-100.
V. art. 31do Decreto 93-21. Sobre mestre de requerimentos:
V. Decreto 93.548. V. art. 40 da Ordenança 58-1270.
- referendário da Corte de Cassação:
Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site do
V. arts. 28, 28-1, 80-1 da Ordenança 58-1270.
Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/chiffres/
V. arts. 2, 4, 9,16,19 e 22 do Decreto 93-21.
admini99.htm.
V. art. 3 da Lei Orgânica 94-100.

250 251
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Sobre conselheiro-mestre da Corte de Contas: - poderes:


V. art. 40-5 da Ordenança 58-1270. V. arts. 18-1, 25-2,25-3, 32 a 34, 36, 40, 40-4 e 41-3
V. Decreto 93-548. da Ordenança 58-1270.
Sobre auditores de justiça: V. art. 21, 23 e seguintes, 29 e 30 do decreto 93-21.
– classificação, declaração de aptidão. Sobre os graus da carreira:
V. arts. 18-2, 21 e 26 da Ordenança 58-1270. V. art. 2 da Ordenança 58-1270.
– demissionário. V. art. 17 do Decreto 93-21.
V. art. 26 da Ordenança 58-1270. . progressão ou promoção de grau:
– formação profissional. V. arts. 28 e 40-5 da Ordenança 58-1270.
V. arts. 14 e 19 da Ordenança 58-1270. V. arts. 32 e 35 do Decreto 93-21.
– nomeação como magistrado. V. art. 8 da Ordenança 94-100.
V. art. 26 da Ordenança 58-1270. V. art. 32 do Decreto 93-21.
– recrutamento. . primeiro grau:
V. arts. 15 e seguintes da Ordenança 58-1270. V. arts. 2, 13-2, 23, 24, 27 e seguintes, 35 da Ordenança
– juramento. 58-1270.
V. art. 20 da Ordenança 58-1270. V. art. 42 do Decreto 61-78.
Sobre nomeação: V. arts. 4, 5, 9, 10, 12, 13, 15, 16, 22, 26, 27 e 33 do
V. art.. 65 da Constituição. Decreto 93-21.
V. arte, 2, 3-1, 6,7,9, 22 a 25-3 26 a 28-1, 29, 36, 37 . segundo grau:
a 40-2, 40-6 e 41-9 da Ordenança 58-1270. V. arts. 3-1,13-2, 26, 28 e seguintes, 35 da Ordenança
V. art. 16 da Lei Orgânica 70-642. 58-1270.
V. art. 3, 7,9,10,11,16, 20, 24, 27e 51 do Decreto 93-21. V. art. 11 da Lei Orgânica 70-642.
V. arts. l e 2 do Decreto 93-548. V. art. l, 3, 7, 9 e seguintes, 12, 15, 45, 46, 48 e 49 do
V. art. 4 do Decreto 93-549. Decreto 93-21.
Sobre progressão funcional: Sobre a hierarquia judiciária:
V. arts. 4, 39 e 40-4 da Ordenança 58-1270. V. art. 2 da Ordenança 58-1270.
V. art. 32 do decreto 93-21. V. arts. l, 2, 4,11 e 33 do Decreto 93-21.
V. Tabela de progressão funcional. Sobre juízes fora da hierarquia:
Sobre Comissão de Progressão: V. arts. 3, 13-3, 28-1, 35, 35-2, 37 e seguintes, 40 da
V. art. 2 do decreto de 10 de janeiro de 1935. Ordenança 58-1270.
- eleição, composição. V. art. 1° da Lei Orgânica 86-1303.
V. arts. 13-1, 35, 25-1, 35-2 da Ordenança 58-1270. V arts. l e 5 do Decreto 93-21.
V. art. 39 do Decreto 93-21.

252 253
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO
V. art. e 2 da Lei Orgânica 94-100. V. arts. 2, 3, 4, 20 e 46 do Decreto 93-21.
V. art. 2 a 6 do Decreto 94-199. V. arts. 2 e 3 da Lei Orgânica 94-100.
Sobre vencimentos dos magistrados: V. arts. 11 a 15 do Decreto 94-199.
V. arts. 18, 42, 50 e 58-1 da Ordenança 58-1270. Sobre procurador geral:
V. art. 49 do Decreto 93-21. - diante da Corte de Cassação:
(14) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site V. art. 65 da Constituição.
do Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/arbo/ V. arts. 35, 44, 63 e 76 da Ordenança 58-1270.
justicef/aidejuri.htm. - diante das Cortes de Apelação:
V. arts. l, 3, 3-1,13-2, 37-1, 39, 40 e 44 da Ordenança
(15) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site 58-1270.
da Escola Nacional da Magistratura francesa: http:// V. arts. 5,19, 20, 39 e 44 do Decreto 93-21.
www.enm.justice.fr. V. arts. 2 e 3 da Lei Orgânica 94-100.
V. arts. 7 a 10,16 e 18 do Decreto 94.199.
(16) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
da Union Syndicale des Magistrats: http://juripole.univ-nancy2.fr/ (21) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
USM. da Confederação Nacional dos Advogados da França: http://
juripole.univ-nancy2.fr/CNA-ANASED.
(17) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
da Associação Profissional de Magistrados: http:// Sobre advogado:
www.nouvelleapm.fr. V. arts. 9-1/19, 25-4, 30, 32, 40, 52 e 54 da Ordenança
58-1270.
(18) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site
V. art. 42 do decreto 61-78.
do Sindicato da Magistratura: http://www.syndicat-
V. art. 14 da Lei Orgânica 70-642.
magistrature.org/.
V. art. 43 do Decreto 94-199.
(19) Para pesquisa na Internet sobre o assunto no site Sobre advogado junto ao Conselho de Estado e à Corte
do Ministério da Justiça francês: http://www.justice.gouv.fr/ de Cassação:
justicef/minipubi .htm. V. arts. 40, 52 e 54 da Ordenança 58-1270.
(20) Sobre advogado geral: V. art. 14 da Lei Orgânica 70-642.
V. arts. 3, 39, 40-1 e seguintes da Ordenança 58-1270. (22) Sobre funcionário público:
V. art. l ° da Lei Orgânica 86-1303. V. arts. 17,22,33 40-5 40-7 68 762 da Ordenança 58-
V. arts. 4,10 e 31 do decreto 93-21. 1270.
Sobre Procurador da República: V. art. 14 da Ordenança 70-642.
V. arts. 3, 28-1 e 36 da Ordenança 58-1270. V. arts. 11 e 17-1 do Decreto 93-21.
V. do Decreto 93-548.

254 255
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

Sobre escrivão: 16. APÊNDICE


V. art. 14 da Lei Orgânica 70-642.
Sobre escrivão-chefe:
V. arts. -22, 23 e 33 da Ordenança 58-1270. 16.1. CARTA JUDICIÁRIA FRANCESA (CARTE
V. arts. 11 e 33 do Decreto 93-21. JUDICIAIRE)
(23) Informações na Internet sobre o assunto no site da Cortes de Apelação (CA)
Câmara Nacional de Avoués: http://wvvw.avoues.fr. Tribunais de Grande Instância (TGI)
Tribunais de Instância (TI) da França
Sobre avoué: AGEN (CA) – Agen (TGI) – Agen (TI), Nerac (TI),
V. art. V. arts. 9-1, 25-4, 30 e 32 da Ordenança 58- Villeneuve-ur-Lot (TI) – Auch (TGI) – Auch (TI), Condom (TI),
1270. Leetoure (TI), Mirande (TI) – Cahors (TGI) – Cahors (TI),
V. arts. 14 e seguintes da Lei Orgânica 70-642. Figeac (TI), Gourdon (TI) – Marmande (TGI) – Marmande (TI)
(24) Para pesquisa na Internet: http://www.ordre- AIX EN PROVENCE (CA) – Aix en Provence (TGI)
avocats-cassation.fr. – Aix-en-Provence (TI), Martigues (TI), Salon-de-Provence (TI)
(25) Sobre Oficiais de Justiça: – Digne (TGI) – Digne (TI), Barcelonnette (TI), Forcalquier (TI)
V. art. 9-1, 25-4 e 32 da Ordenança 58-1270. – Grasse (TGI) – Grasse (TI), Antibes(TI), Cannes (TI), Cagnes-
V. art.. 14 e seguintes da Lei Orgânica 70-642. sur-Mer (TI),Vence (TI) – Nice (TGI) – Nice (TI), Menton (TI)
(26) Sobre Ministro da Justiça: – Marseille (TGI) – Marseille (TI), Aubagne (TI) – Tarascon
V. art. 65 da Constituição. (TGI) – Tarascon (TI), Aries (TI) – Draguignan (TGI) –
V. art. 2 do Decreto de 10 dejaneiro de 1935. Draguignan (TI), Brignoles (TI), Frejus (TI) – Toulon (TGI) –
V. arts. 5,12,13,18,18-1, 21, 26, 27, 27-1, 28, 28-1,50- Toulon (TI), Hyères (TI).
1, 58-1, 63, 65 e 66 da Ordenança 58-1270. AMIENS (CA) – Amiens (TGI) – Doullens(TI),
V. art. 16 da Lei Orgânica 70-642. Montdidier (TI) – Laon (TGI) – Laon (TI), Vervins (TI) – Saint
V. art. 1° da Lei Orgânica 88-23. Quentin (TGI) – Saint-Quentin (TI) – Soissons (TGI) – Soissons
V. arts. 6,19,23,24,27, 30, 34, 36, 44 do Decreto 93-21. (TI), Château-Thierry (TI) – Beauvais (TGI) – Beauvais (TI),
V. arts. 3, 6,11,12,16, 25, 26, 32,35, 37, 38, 39, 41 e Clermont (TI) – Compiègne (TGI) – Compiègne (TI) – Senlis
42 do Decreto 94-199. (TGI) – Senlis (TI) – Abbeville (TGI) – Abbeville (TI) – Peronne
(27) Para pesquisa na Internet: http:// (TGI) – Peronne (TI).
’www.droit.umontreal.ca/palais/magistrature/aem/aem.htm ANGERS (CA) – Angers (TGI) – Angers (TI), Cholet
(TI), Segret (TI) – Saumur (TGI) – Saumur (TI), Bauge (TI) –
(28) Para pesquisa na Internet: http://
Laval (TGI) – Laval (TI), Château-Gontier (TI), Mayenne (TI)
www.droit.umomtreal.ca/palais/magistrature/uim/uim.htm.
– Le Mans (TGI) – Le Mans (TI), La Flèche (TI), Mamers (TI),
Saint-Calais (TI).

256 257
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

BASTIA (CA) – Basüa (TGI)– Bastia (TI), He Rousse COLMAR (CA) – Colmar (TGI) – Colmar (TI),
(TI), Corte (TI) – Ajaccio (TGI) –Ajaccio (TI), Sartene (TI). Guebwiller (TI), Ribeauvillé (TI), Sélestat (TI) – Saverne (TGI)
BESANÇON (CA) – Besançon (TGI) – Besançon (TI), – Saverne (TI), Molsheim (TI) – Strasbourg (TGI) – Strasbourg
Baume-les-Dames (TI), Pontarlier (TI) – Montbéliard (TGI) – (TI), Brumath (TI), Haguenau (TI), Illkirsh-Graffenstaden (TI),
Montbéliard (TI) – Long-Le-Saunier (TGI) – Long-Le-Saunier Schilügheim (TI), Wissembourg (TI) – Mulhouse (TGI) –
(TI), Saint-Glaude (TI) – Lure (TGI) – Lure (TI), Luxeuil-les- Mulhouse (TI) , Altkirsh (TI), Huningue (TI), Than(TI).
Bams (TI) – Vesoul (TGI) –Vesoul (TI), Gray (TI) – Dôle (TGI) DIJON (CA) – Dijon (TGI) – Dijon (TI), Beaune (TI),
– Dôle (TI), Arbois (TI) – Belfort (TGI) – Belfort(TI). Châtillon-sur-Seine (TI) Semur (TI) – Chaumont (TGI) –
BORDEAUX (CA) – Bordeaux (TGI) – Bordeaux (TI). Chaumont (TI), Langres (TI), Saint–Dizier (TI) – Châlon-sur-
Arcachon (TI), Bazas (TI), Blaye (TI), Lesparre-Médoc (TI), Saône (TGI) – Châlon–sur–Saône (TI), Autun (TI), Le Creusot
La Réole (TI) – Angoulème (TGI) – Angoulème (TI), Barbezieux (TI), – Louhans (TI), Montceau-les-Mines (TI) – Mâcon (TGI)
(TI), Cognac (TI), Confolens (TI), Ruffec (TI) – Bergerac (TGI) – Mâcon (TI), Charolles (TI).
–Bergerac (TI), Sarlat (TI) – Périgueux (TGI) – Périgueux (TI), DOUAI (CA) – Douai (TGI) – Douai (TI) – Avesnes-
Nontron (TI), Ribérac (TI) – Libourne (TGI) – Libourne (TI). sur-Helpe (TGI) – Avesnes-sur-Helpe (TI), Maubeuge (TI) –
BOURGES (CA) – Bourges (TGI) – Bourges (TI), Cambrai (TGI) – Cambrai (TI) –Dunkerque (TGI) –Dunkerque
Saint-Amand-Montrond (TI), Sancerre (TI),Vierzon (TI) – (TI) – Hazebrouck (TGI) – Hazebrouck (TI) – Lille (TGI) –
Châtauroux (TGI) – Châtauroux (TI), Le Blanc (TI), La Châtre Lille (TI), Roubaix (TI), Tourcoing (TI) –Valenciennes (TGI) –
(TI), Issoudun (TI) – Libourne (TGI) – Libourne (TI) – Nevers Valenciennes (TI) – Arras (TGI) – Arras (TI), Saint-Pol-sur-
(TGI) – Nevers (TI), Château-Chinon (TI), Clamecy,(TI), Ternoise (TI) – Béthune (TGI) – Béthune (TI), Carvin (TI),
Cosne-sur-Loire (TI), Nevers (TI). Houdain (TI), Lens (TI), Liévin (TI) – Boulogne-sur-Mer (TGI)
CAEN (CA) – Caen (TGI) – Caen (TI), Bayeux (TI), – Boulogne-sur-Mer (TI), Calais (TI), Montreuil (TI) – Saint-
Falaise (TI), Vire (TI) – Lisieux (TGI) – Lisieux (TI), Pont- Omer (TGI) – Saint-Omer (TI).
1’Evêque (TI) – Avranches (TGI) – Avranches (TI), Mortain GRENOBLE (CA) – Grenoble (TGI) – Grenoble (TI),
(TI) – Cherbourg (TGI)– Cherbourg (TI), Valognes (TI) – la Mure (TI), Saint-Marceilin (TI) – Gap (TGI) – Gap (TI),
Coutances (TGI) –Coutances (TI), Saint-Lô (TI) – Alençon Briançon (TI) – Valence (TGI) –Valencc (TI), Die (TI),
(TGI) – Alençon (TI), Mortagne-au-Perche (TI) – Argentan Montélimar (TI), Nyons (TI), Romans-sur-Isère (TI) – Bourgoin-
(TGI) –Argentan (TI), Domfront (TI). Jallieu (TGI) – Bourgoin-JaIlieu (TI) – Vienne (TGI) – Vienne
CHAMBERY (CA) – Chambery (TGI) – Chambery (TI).
(TI), Aix-les-Bains (TI) – Albertville (TGI) – Albertville (TI), LIMOGES (CA)– Limoges (TGI)– Limoges (TI), Bellac
Moutiers (TI), Saint-Jean-de-Maurienne (TI) – Annecy (TGI) – (TI), Rochechouart (TI), Saint-Yrieix-la-Perche (TI) – Brive-
Annecy (TI) – Bonneville (TGI) – Bonneville (TI) – Thonon- la-GailIarde (TGI) – Brive-la-GailIarde (TI) –Tulle (TGI) – Tulle
les-Bains (TGI) – Thonon-les-Bains (TI), Bonneville (TI), Saint– (TI), Ussel (TI) – Guéret (TGI) – Guéret (TI). Aubusson (TI),
Julien (TI). Bourganeuf (TI).

258 259
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

LYON (CA) – Lyon (TGI) – Lyon (TI), Villeurbanne (TI) – Blois (TGI) – Blois (TI), Romorantin (TI), Vendôme (TI)
(TI) – Belley (TGI) – Belley (TI) – Bourg-en-Bresse (TGI) – – Montargis (TGI)– Montargis (TI), Gien (TI).
Bourg-en-Bresse (TI), Nantua (TI), Trévoux (TI) – Montbrison PARIS (CA) – Paris (TGI) – Paris: l Tribunal de Polícia
(TGI) – Montbrison (TI) – Roanne (TGI) – Roanne (TI) – Saint e 20 TI– Fontainebleau (TGI) – Fontainebleau (TI), Montereau
Etienne (TGI) – Saint Etienne (TI), Le Chambon–Feugerolles (TI) – Meaux (TGI) – Meaux (TI), Coulomiers (TI), Lagny-
(TI) – Villefranche-sur-Saône (TGI) – Villefranche-sur-Saône sur-Marne (TI) – Melun (TGI) – Melun (TI), Provins (TI) –
(TI). Auxerre (TGI) – Auxerre (TI), Avallon (TI), Tonnerre (TI) –
METZ (CA) – Metz (TGI) – Metz (TI), Boulay-Moselle Sens (TGI) –Sens (TI) – Evry (TGI) –Evry (TI), Corbeil-Essones
(TI), Château-Salins (TI), Sarrebourg (TI) –Thionville (TGI) – (TI), Etampes (TI),Juvisy-sur-Orge (TI), Longjumeau (TI),
Thionville (TI), Hayange (TI) – Sarreguemines (TGI) – Palaiseau (TI) – Bobigny (TGI) – Bobigny (TI), Aubervilliers
Sarreguemines (TI), Forbach (TI), Saint-Avold (TI). (TI), Aulnay-sous-Bois (TI), Montreuil (TI), Noisy-le-Sec (TI),
MONTPELLIER (CA) – Montpeilier (TGI) – Pantin (TI), Le-Raincy (TI), Saint-Denis (TI), Saint-Ouen (TI)
Montpeilier (TI), Lodève (TI), Sete (TI) – Carcassonne (TGI) – Créteil (TGI) – Créteil (TI), Charenton (TI), Ivry-sur-Seinev,
– Carcassonne (TI), Casteinaudary (TI), Limoux (TI) – Narbonne Nogent-sur-Marne (TI), Saint-Maur-des-Fossés (TI), Villejuif
(TGI) – Narbonne (TI) – Mfflau (TGI) – Millau (TI), Saint- (TI), Vincennes (TI).
Affrique (TI) – Rodez (TGI) –Rodez (TI), Espalion (TI), PAU (CA) – Pau (TGI) – Pau (TI), Oloron-Sainte-Marie
Villefrance–de–Rouergue (TI) – Beziers (TGI) – Beziers (TI), (TI), Orthez (TI) – Dax (TGI) – Dax (TI) – Mont-de-Marsan
Saint-Pons-de-Thomières (TI) – Perpignan (TGI) – Perpignan (TGI) – Mont-de-Marsan (TI), Saint-Sever (TI) – Bayonne
(TI), Céret (TI), Frades (TI). (TGI) – Bayonne (TI), Biarritz (TI) – Tarbes (TGI) –Tarbes
NANCY(CA) – Nancy (TGI) – Nancy (TI), Luneville (TI), Bagrières-de-Bigorre (TI), Lourdes (TI).
(TI), Toul (TI) – Briey (TGI) – Briey (TI), Longwy (TI) – Bar- POITIERS (CA) – Poitiers (TGI) – Poitiers (TI),
le-Duc (TGI) – Bar-le-Duc (TI), Saint-Mihiel (TI) –Verdun (TGI) Châtelleraud (TI), Civray (TI), Loudun (TI), Montmorillon (TI)
– Verdun (TI) – Epinal (TGI) –Epinal (TI), Mirecourt (TI), – La Rochelle (TGI) – La Rochelle (TI) – Rochefort (TGI) –
Neuchâteau (TI), Remiremont (TI) – Saint–Dié (TGI) – Saint- Rochefort (TI), Marennes (TI) – Saintes (TGI) – Saintes (TI),
Dié (TI). Jonzac (TI), Saint-Jean-d’Angely (TI) – Bressuire (TGI) –
NÎMES (CA) – Nimes (TGI) – Nimes (TI), Uzès (TI), Bressuire (TI), Parthenay (TI) –Niort (TGI) – Niort (TI), Melle
LeVigan (TI) – Privas (TGI) – Privas (TI), Largentière (TI), (TI) – La Roche-sur-Yon (TGI) – La Roche-sur-Yon (TI) –
Tournon (TI) – Carpentras (TGI) – Carpentras (TI), Orange Fontenay-le-Comte (TI) – Les Sables-d’Olonne (TGI) – Les
(TI) – Ales (TGI) – Ales (TI) – Mende (TGI) – Mende (TI), Sables-d’O1onne (TI).
Florac (TI), arjevoís (TI) – Avignon (TGI) – Avignon (TI),Apt REIMS (CA) – Reims (TGI) – Reims (TI) – Charleville–
(TI). Mézières (TGI) – Charleville–Mézières (TI), Rethel (TI), Rocroi
ORLÉANS (CA) – Oriéans (TGI) – Oriéans (TI), (TI), Sedan (TI), Vouziers (TI) –Troyes (TGI) – Troyes (TI),
Pithiviers (TI) – Tours (TGI) – Tours (TI), Chinon (TI), Loches Bar–sur–Aube (TI), Bar–sur–Seine (TI) Nogent–sur–Seine (TI)

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Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

– Châlons–sur–Marne (TGI) – Châlons–sur–Marne (TI), Châteaudun (TI), Dreux (TI), Nogent-le-Rotrou (TI) – Nanterre
Epernay (TI), Vitry–le–François (TI). (TGI) – Nanterre (TI), Antony (TI), Asniè-res-sur-Seine (TI),
RENNES (CA) – Rennes (TGI) – Rennes (TI), Fougères Boulogne-Billancourt(TI), Clichy (TI), Colombes (TI),
(TI), Montfbrt-sur-Meu (TI), Redon (TI), Vitré (TI) – Dinand Courbevoie (TI), Levallois-Perret (TI), Neuilly-sur-Seine (TI),
(TGI) – Dinand (TI) – Guingamp (TGI) – Guingamp (TI), Lannion Puteaux (TI), Vanves (TI) – Pontoise (TGI) – Pontoise (TI),
(TI) – Saint-Brieuc (TGI) – Saint-Brieuc (TI), Loudeac (TI) – Ecouan (TI), Sannois (TI), Gonesse (TI), Montmorency (TI).
Brest (TGI) – Brest (TI) – Morlaix (TGI) – Morlaix (TI) – Observações:
Quimper (TGI) – Quimper (TI), Châteaulin (TI), Quimperié (TI) 1) As Cortes de Apelação localizam-se geralmente nas
– Saint-Malo (TGI) – Saint-Malo (TI) – Nantes (TGI) – Nantes cidades mais importantes, onde também existem os Tribunais de
(TI), Château-briant (TI) – Saint–Nazaire (TGI) – Saint–Nazaire Grande Instância e Tribunais de Instância. Nas cidades de médio
(TI), Paimboeuf (TI) – Lorient (TGI) – Lorient (TI), Auray (TI), porte existem apenas os Tribunais de Grande Instância e Tribunais
Pontivy (TI) –Vannes (TGI) – Vannes (TI), Ploermel (TI). de Instância, nas menores, os Tribunais de Instância. Tudo isso
RIOM (CA) – Riom (TGI) – Riom (TI) – Cusset (TGI) depende, no entanto, de critérios políticos, ocorrendo muitas
– Cusset (TI), Gannat (TI), Vichy (TI) – Montiuçon (TGI) – exceções a esta regra, que é objeto de preocupação do Ministério
Montiuçon (TI) – Moulins (TGI) – Moulins (TI) –Aurillac (TGI) da Justiça, que vem propondo uma racionalização da “carta
– Aurillac (TI), Mauriac (TI), Murat (TI), Saint-Flour (TI) – Le judiciária”, embora sem sucesso.
Puy (TGI)– Le Puy (TI), Brioude (TI), Yssingeaux (TI) – 2) Nas cidades diminutas, que são a maioria, não há
Clermont-Ferrand (TGI) – Clermont-Ferrand (TI), Ambert (TI), órgãos judiciários, fazendo elas parte das circunscrições acima
Issoire (TI), Thiers (TI). enumeradas.
ROUEN (CA) – Rouen (TGI) – Rouen (TI),Yvetot (TI)
– Bernay (TGI) – Bernay (TI), Pont-Audemer (TI) – Evreux 16.2. ASSOCIAÇÕES INTERNACIONAIS DE
(TGI) – Evreux (TI), Les Andelys (TI), Louviers (TI) – Dieppe MAGISTRADOS
(TGI) – Dieppe (TI), Neufchâtel-em-Bray (TI) – Le Havre (TGI)
– Le Havre (TI). 16.2.1. Associação Europeia dos Magistrados (27)
TOULOUSE (CA) –Toulouse (TGI) –Toulouse (TI),
Murei (TI),Vllïefranche-de-Lauraguais (TI) –Foix (TGI) – Foix E uma organização não-governamental, que agrupa as
(TI), Pamiers (TI), Saint-Girons (TI) – Saint-Gaudens (TGI) – associações nacionais de magistrados de 27 países, sendo a mais
Saint-Gaudens (TI) – Albi (TGI)– Albi (TI), Gaillac (TI) – Castres importante da Europa e o maior grupo regional da União
(TGI) – Castres (TI), Lavaur (TI) – Montauban (TGI) – Internacional dos Magistrados. Ao lado da União Internacional
Montauban (TI), Castelsarrasin (TI), Moissac (TI). dos Magistrados, é a única organização não governamental
VERSAILLES (CA) –Versailles (TGI) –Versailles (TI), representativa perante o Conselho da Europa, a Comissão de
Mantes-la-Jolie (TI), Poissy (TI), Rambouillet (TI), Saint- Bruxelas e o Parlamento Europeu. A Associação tem como
Germain-en Laye (TI) – Chartres (TGI) – Chartres (TI),

262 263
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

objetivos representar e defender os interesses morais e materiais 17. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


dos magistrados europeus.
Seus membros são as associações de magistrados dos
15 países que formam a União Europeia (dentre os quais a ACKERMAN, Werner & BASTARD, Benoit. Innovation et
França) e mais as dos seguintes: Estônia, Fyrom, Hungria, gestion dans 1’institution judiciaire. l. ed., Paris: Librairie
Islândia, Israel (como observador), Letônia, Liechtenstein, Malta, Genérale de Droit et a Jurisprudence, 1993.
Noruega, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Suíça e República ALMEIDA, Carlos Ferreira de. Introdução ao direito
Checa. Cada uma das associações aderentes se obriga a cumprir comparado. Coimbra: Almedina, 1998.
os seguintes objetivos: salvaguardar a independência e a posição ANCEL, Marc. Utilidade e métodos do direito comparado.
constitucional e moral do Poder Judiciário, além de fazer o Porto Alegre-RS: Sérgio Antonio Fabris, 1980.
intercâmbio cultural entre os magistrados dos países-membros. ANGIBAUD, Brigitte. Le parquet. l. ed., Paris: Presses
Universitaires de France,1999.
16.2.2. União Internacional dos Magistrados (28) AUCOC, Léon. Le conseil d’état avant et depuis 1789. Paris:
Imprimerie nationale, 1976.
Fundada em 1953, é uma organização profissional BACHELIER, Christian et alli. L’épuration de la magistrature
internacional apodíctica que agrupa associações nacionais de de la révolution à la liberation. Paris: Editions Loysel,
magistrados (dentre as quais a francesa) e cuja admissão é 1994.
decidida pelo Conselho Central. Sua Finalidade principal é a BLUCHE, Frederic et alli. A revolução francesa. Rio de
salvaguarda da independência do Poder Judiciário. A União Janeiro-RJ: Jorge Zahar Editores, 1989.
congrega 47 associações ou grupos representativos nacionais BOIGEOL, Anne. La transfbrmations dês modalités d’entrée
dos cinco continentes. Seu órgão deliberativo é o Conselho dans la magistrature: de la necessite sociale aux vertus
Central do qual fazem parte dois representantes de cada professioneles. Revista Pouvoir, nº 74, setembro de
associação. Possui representatividade perante o Conselho 1995, p. 27/40.
Econômico e Social e o Escritório Internacional do Trabalho BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução em França.
das Nações Unidas e perante o Conselho da Europa. Brasília-DF: Editora Universidade de Brasília, 1989.
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ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAL DOSMAGISTRADOS– 228
ASSOCIAÇÕES INTERNACIONAIS DE MAGISTRA-
DOS – 263
AUXILIARES DA JUSTIÇA – 32, 92, 132, 169, 233
AVOUÉS – 233, 234, 235, 256

270 271
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

BACHELIER – 58 CONSTITUIÇÃO DE 1958 (ATUAL); – 165, 216, 218, 219,


243
BASTARD – 91, 92
CONSTITUIÇÕES – 54, 57, 87, 108, 210, 215
BLUCHE – 33, 83
CONSULADO – 39, 61, 151
BOIGEOL – 70, 198
CORTE DE CASSAÇÃO – 67, 70, 71, 76, 103, 123, 126,
BRILLAT-SAVARIN – 102 127, 142, 148, 153, 154, 155, 165, 166, 167, 168, 180, 184,
BURKE – 58, 63 185, 186, 187, 190, 192, 204, 205, 217, 220, 221, 231, 232,
234, 241, 249, 250, 251, 255
CÂMARAS REGIONAIS DE CONTAS – 128, 163
CORTE DE CONTAS – 128, 148, 163, 164, 166, 167, 169, 252
CAPPELLETTI – 180, 201
CORTE DE DISCIPLINA ORÇAMENTARIA E
CARACTERÍSTICAS DA JUSTIÇA JUDICIÁRIA – 167 FINANCEIRA – 128, 164, 166
CARTA JUDICIÁRIA FRANCESA – 257 CORTE DE JUSTIÇA DA REPÚBLICA – 127, 148, 166,
CENTRALIZAÇÃO ADMINISTRATIVA – 63 169, 181, 231

CHAPUS – 158, 160, 181 CORTE SUPREMA –156

CIÊNCIA PROCESSUAL – 189 CORTES ADMINISTRATIVAS DE APELAÇÃO – 128,


160, 161, 162, 166, 209, 235
COLCOMBET – 92, 93
CORTES DE APELAÇÃO – 62, 67, 126, 127, 143, 151,
CONSELHO CONSTITUCIONAL – 88, 128, 157, 164, 152, 153, 166, 167, 168, 173, 185, 186, 190, 231, 235, 248,
165, 166, 184, 210, 211, 220, 222, 236 255, 257, 263
CONSELHO DE ESTADO – 47, 127, 148, 155, 156, 157, COUCHEZ – 125, 130
158, 159, 160, 161, 162, 164, 166, 180, 183, 184, 187, 216,
217, 220, 235, 255 COUTANT – 139

CONSELHO SUPERIOR DA MAGISTRATURA – 71, DAVID – 21, 89, 90, 159, 174, 178, 203
90, 186, 192, 193, 202, 215, 216, 217, DEMANDA REPRIMIDA – 204
CONTROLE EXTERNO – 192 DESCONFIANÇA EM RELAÇÃO AOS JUÍZES – 201

272 273
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

DICOTOMIA JUSTIÇA JUDICIÁRIA – JUSTIÇA HAENEL – 209


ADMINISTRATIVA – 183
HIERARQUIZAÇÃO – 93, 129, 184, 185, 202, 231, 242
DIREITO FRANCÊS – 7, 21, 25, 84, 85, 174, 203
HISTÓRIA DA JUSTIÇA – 20, 23, 24, 25, 167, 168
DIREITOS HUMANOS – 85, 145, 199
HISTÓRIA DO DIREITO – 76, 85
DUVERGER – 88, 125, 164, 183, 186, 202
IMBERT- QUARETTA – 132, 198
ELEIÇÕES DE JUÍZES – 60, 66
JUIZ COMO “BOUCHE DE LA LOI” – 174
EM NOME DO POVO FRANCÊS – 87, 189
JUÍZES DE INSTRUÇÃO – 144, 152, 166,
ENSINO JURÍDICO – 239, 240
JUÍZES LEIGOS – 142, 143, 146, 169
ESCOLA NACIONAL DA MAGISTRATURA – 71, 99,
139, 170, 171, 182, 185, 186, 188, 223, 232, 241, 254 JUÍZES PROFISSIONAIS: ORIGEM – 44

ESCRIVÃES – 40, 61, 62, 225, 234 JUÍZES TOGADOS JUDICIÁRIOS: FORMAS DE
RECRUTAMENTO – 170
ESCRIVÃES DOS TRIBUNAIS DO COMÉRCIO – 237
JURISDIÇÕES MILITARES – 127, 146, 147, 166
ESPECIALIZAÇÃO – 181
JURISDIÇÕES SEPARADAS – 126, 164, 166
ESTATUTO DA MAGISTRATURA – 190, 191, 222, 227
JURISDIÇÕES TRABALHISTAS – 127, 140
EVOLUÇÃO DA JUSTIÇA E DO DIREITO – 42
JUSTIÇA COMO SERVIÇO PÚBLICO – 219
FORTALECIMENTO DO JUDICIÁRIO: ÉPOCA DE
LUÍS XV – 457 JUSTIÇA DA IGREJA – 26, 37, 40

GESTÃO ATRAVÉS DE ASSEMBLEIA – 186 JUSTIÇA JUVENIL – 145, 223

GRANDES MAGISTRADOS – 94 JUSTIÇA MEDIEVAL – 25, 36

GUIGOU – 91, 193, 219 KERNALEGUEN – 125, 136, 140, 168, 187, 204

GUINCHARD – 189 LAFERRIÈRE – 157


LEBIGRE – 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 33, 81, 203
GUNTEN – 125

274 275
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

LEYRET – 7 OFICIAIS E AGENTES DE POLÍCIA – 237


MAGISTRADOS FORA DA MAGISTRATURA – 188 OFICIAIS MINISTERIAIS – 235
MAGISTRATURA HONESTA – 121 ÓRGÃOS DA JUSTIÇAADMINISTRATIVA – 156, 234
MATHIEU – 156 ÓRGÃOS DA JUSTIÇA FRANCESA – 125
MICHEL DE MONTAIGNE – 104, 105, 107 ÓRGÃOS DE CLASSE – 227
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA – 84, 101, 125, 138, 169, 185, ÓRGÃOS ESPECIAIS – 163, 166
188, 194, 195, 197, 202, 218, 221, 234, 236, 237, 241, 242,
245, 246, 247, 248, 249, 251, 254, 263 ÓRGÃOS JUDICIÁRIOS – 72, 74, 125, 126, 128, 184,
263
MINISTÉRIO PÚBLICO (PARQUET) – 7, 23, 33, 68, 88,
89, 103, 131, 137, 138, 144, 145, 146, 147, 148, 150, 152, PARTICIPAÇÃO FEMININA – 204
154, 165, 170, 171, 172, 182, 183, 186, 191, 192, 193, 196, PAUL DIDIER – 100, 101
200, 204, 215, 216, 217, 218, 221, 222, 223, 231, 232, 237,
242, 244, PAUL MAGNAUD – 3, 7, 20, 94, 95

MONTESQUIEU – 14, 72, 87, 92, 108, 109, 110, 111, 112, PERITOS JUDICIAIS – 238
113, 114, 115, 116, 117, 118, 119, 120, 202 PERROT – 132, 204
NASCIMENTO – 23, 77, 78 PETIT – 130
NIOGRET – 125 PLANIOL – 85
NOBREZA DE TOGA – 63, 198, 243 PODER JUDICIÁRIO – 13, 14, 32, 53, 56, 73, 87, 88, 90,
NORMAS CONSTITUCIONAIS – 215 215, 264

NORONHA – 200 PRESENÇA DO JUIZ DE INSTRUÇÃO NA FASE


INVESTIGATÓRIA DO PROCESSO PENAL – 199
NOTÁRIOS – 40, 236, 237
RENÉ PARODI – 97, 98, 99
NOVO REGIME – 59, 60
RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO E RES-
OBRÉGO – 183 PONSABILIDADE REGRESSIVA DOS JUÍZES – 201
OFICIAIS DE JUSTIÇA – 61, 62, 223, 235, 236, 256
276 277
Luiz Guilherme Marques A JUSTIÇA DA FRANÇA - UM MODELO EM QUESTÃO

REVOLUÇÃO FRANCESA: REFORMA DE JUSTIÇA– 59 TRIBUNAIS DE POLÍCIA – 127, 145, 149, 152, 247
ROBIDA – 168 TRIBUNAIS DE PROCESSOS DE SEGURIDADE
SOCIAL – 142, 169
ROSA – 200
TRIBUNAIS DO COMÉRCIO – 126, 136, 151, 166, 167,
SALAS – 90, 91 169, 234, 237
SAUVÉ – 220 TRIBUNAIS DO CONTENCIOSO DA
SEIGNOBOS – 34, 35, 44, 58, 59, 76, 77, 78, 79, 80, 81, INCAPACIDADE – 142
83, 84 TRIBUNAIS DO JÚRI – 127, 146, 150, 166, 169, 248
SENTENÇAS CONCISAS – 188 TRIBUNAIS MARÍTIMOS COMERCIAIS – 127, 149,
SILVA – 56, 58, 121 166, 167, 169

SINDICATO DA MAGISTRATURA – 227, 228, 254 TRIBUNAIS PARITÁRIOS DE ARRENDAMENTOS


RURAIS – 127, 143, 166, 234
SISTEMA COLEGIADO – 181
TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO – 41
TERQUEM – 89, 91
TRIBUNAL DOS CONFLITOS – 125, 126, 127, 155, 159,
TOCQUEVILLE – 50, 56 166, 220
TRABALHADORES SOCIAIS – 234 TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO – 66, 68
TRADICIONALISMO – 167 TRUCHET – 220
TRIBUNAIS ADMINISTRATIVOS – 23, 52, 68, 88, 125, UNIÃO INTERNACIONAL DOS MAGISTRADOS –
128, 130, 158, 159, 160, 161, 162, 163, 166, 203, 209, 235 263, 264
TRIBUNAIS CORRECIONAIS127, 150, 152, 248 UNIÃO SINDICAL DOS MAGISTRADOS – 227, 228
TRIBUNAIS DE GRANDE INSTÂNCIA – 126, 128, 151, VILLIERS – 87, 88, 157, 184
153, 166, 173, 181, 182, 186, 190, 194, 195, 222, 257, 263
VINCENT – 189
TRIBUNAIS DE INSTÂNCIA – 126, 131, 134, 136, 151,
153, 166, 167, 181, 194, 223, 234, 257, 263 VOLTAIRE – 57, 81, 83

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