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N° 19 | Novembro de 2012 U rdimento

A dança urbana ou sobre a


resiliência do espírito da dança
Eugenia Casini Ropa1
Tradução de Milton de Andrade2

Resumo

O artigo propõe uma leitura crítica do fenômeno usualmente


denominado “dança urbana”, já característico e difundido
em cidades da Europa e outras partes do mundo. A dança
contemporânea, cada vez mais frequentemente, sai dos teatros
e penetra no tecido urbano, confrontando-se com a ordem
arquitetônica e com um público casual e distraído, encontrado
nos lugares do viver cotidiano onde a comunicação impõe aos
corpos dançantes modos distanciados de intervenção. Trata-se de
uma nova pesquisa artística e identitária para a dança ou de uma
nova estratégia de sobrevivência?

Palavras-chave: Dança urbana, dança


contemporânea, resiliência.

Abstract

The article proposes a critical reading of the phenomenon


usually termed “urban dance” since characteristic and
widespread in cities in Europe and other parts of the world.
Contemporary dance, increasingly often leaves the theater and
enters the urban tissue, confronting the architectural order and
a casual and distracted audience, found in places of daily life
where communication imposes to dancing bodies dissociated
modes of intervention. This is a new artistic and identity research
for dance or a new survival strategy?

Keywords: Urban dance, contemporary


dance, resilience.

1
Eugenia Casini Ropa é professora associada aposentada de História da Dança e da Mímica do Departamento de Música e Espetáculo
(DAMS) na Universidade de Bolonha, Itália. Estudiosa de teatro e dança do século XX, entre suas publicações, lembramos especial-
mente os volumes: La danza e l’agitprop (1988) e Alle origini della danza moderna (1990). Foi fundadora e curadora da Revista Teatro
e Storia (com Franco Ruffini, Ferdinando Taviani e outros). Fundou também em 2009 a revista on-line Danza e Ricerca, e ocupa-se de
inúmeras publicações e editoriais no âmbito da dança, das quais se destacam as coleções I libri dell’icosaedro (Ephemeria, Macerata)
e Danza d’autore (L’Epos, Palermo).
2
Professor Associado do Programa de Pós-Graduação em Teatro da UDESC.

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Nota-se, já há muito tempo, a dança linguagens, dos estilemas e das convenções


contemporânea sair das salas teatrais e de comunicacionais da arte para aproximá-los
seus confortáveis rituais de comunicação, às modalidades da vida, com a consequente
para insinuar-se ou irromper nos espaços necessidade do re-pensamento identitário,
da vida cotidiana das cidades e de seus ha- técnico, estético e ético da dança também
bitantes, visitando sem convite os lugares por meio de um confronto mais direto e
e as arquiteturas próprias de outros rituais desestabilizante com a realidade cotidiana
civis ou culturais: os lugares das chegadas urbana; a vontade política de uma forma
e partidas, do vender e do comprar, do re- de arte (muito frequentemente mal cuida-
pouso e do trabalho, da contemplação es- da pelos operadores culturais) de afirmar a
tética ou da memória histórica, até mesmo, própria existência, dando à dança uma iné-
da oração. Estações ferroviárias, shopping dita visibilidade pública e “democrática”; a
centers, centros sociais, fábricas operantes pesquisa de um novo público para a dança,
ou desativadas, igrejas, museus, túneis e mais amplo e diferenciado, curioso, dispo-
monumentos, estradas e praças são enca- nível ao envolvimento em experimenta-
radas pelos artistas da dança, que com os ções de fronteiras; e assim por diante...
seus distraídos frequentadores se confron- E o confronto com a cidade e as suas
tam num curioso desafio incruento e, às ve- estruturas urbanísticas e sociais, inicial-
zes, até mesmo embaraçante ou insensato mente semi-improvisado e aventuroso,
na aparência. deu efetivamente origem, forma e desen-
Surge, então, espontaneamente a per- volvimento no tempo a novos modos de
gunta sobre o que levou a dança a se colocar encontro e de manifestação da própria
em risco, a abandonar a relativa segurança dança, até criar um novo “gênero” multi-
dos lugares tradicionais nos quais a rela- forme: a dança urbana, que compreende
ção com o seu público foi patenteada por várias tendências estilísticas e especializa-
séculos, onde vinha no fundo escolhida e ções (dança-arquitetura, dança de rua, ver-
visitada com respeito e onde a mesma con- tical, aérea, itinerante, break dance, dança
venção discursiva parecia canalizar fluxos parcour, dança-circo, às quais talvez pos-
controlados de sentido e de emoção, para sam ser acrescentadas as formas das dan-
então se expor à casualidade, ao desconfor- ças interculturais da community dance, que
to, ao desinteresse difuso da vida das ruas. tem um processo diferente de desenvolvi-
Se nos teatros, de fato, a dança era o an- mento, mas que igualmente compartilha os
fitrião e o público era mantido a observar espaços urbanos)3.
as suas regras de fruição e de comunicação Nestas denominações já aparece evi-
(confortantes tanto para um, como para dente, quase como um denominador co-
outro), nos espaços não convencionais da mum na variedade formal, que a conta-
cidade ela se faz hóspede inesperado dos minação das técnicas e das práticas de
seus quase sempre despreparados espec- movimento entre dança contemporânea,
tadores, violando com pouca educação as ginástica, artes marciais, acrobacia, dis-
normas relacionais do anfitrião. ciplinas circenses, cultura hip hop, danças
Muitas causas concomitantes deste fe- populares e étnicas seja o catalisador e o
nômeno já foram identificadas e expostas procedimento criativo mais intensamente
em ângulos diferentes e não se tem muito frequentado por artistas da dança urbana
mais a dizer: a inadequação crescente dos (em conformidade com as tendências atu-
velhos ou antigos espaços teatrais às per- ais fusionistas das artes cênicas e adequa-
formances da dança contemporânea, se- do às condições de atração e visibilidade
dentas de uma nova relação de aproxima- necessárias em espaços abertos e disper-
ção e cumplicidade cinestésica e empática sivos). Além, naturalmente, do confronto
com o espectador; a inquietude diante da
crise geral da comunicação teatral; a ten- 3
Cf. An Introduction to Community Dance Practice, organizado por Diane
dência pós-moderna à desconstrução das Amans, New York: Ed. Palgrave-Macmillan, 2008.

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constante, vigilante e diferenciado com a mento sobre o homem e sobre o corpo dava
arquitetura e a ordem urbana da cidade4, impulso à saída da dança dos teatros para
com os seus edifícios e os seus percursos, sua expansão em espaços diferentes do ha-
com a heterogeneidade dos seus espaços e bitual para uma explosiva experimentação
das suas características mais ou menos hos- prática. Uma diferente inquietude epo-
pitaleiras, com seus lugares mais evidentes cal de liberação impeliva então a dança à
e com aqueles mais secretos para se habitar fuga das instituições teatrais nas quais ti-
com a dança. nha permanecido arraigada por séculos a
Aqui o corpo dançante, instrumen- perpetuar as ritualidades da elite, laicas e
to vivo da arte do movimento, se propõe espetaculares daquelas antigas sociedades,
como o fator alquímico que propicia o en- para a recuperação de valências antropo-
contro, que ativa a re-velação e a re-signi- lógicas aparentemente esquecidas e para a
ficação dos papéis em jogo. A plasticidade busca de uma requalificação artística, que
estática dos edifícios urbanos, com os seus superasse os artifícios do virtuosismo codi-
volumes imóveis, as suas tensões e os seus ficado e se enraizasse nas potencialidades
ritmos arquitetônicos congelados na pedra expressivas de cada ser humano, originá-
e no cimento, se confronta com aquela plas- rias no seu próprio corpo e então desejosas
ticidade viva, dinâmica e incessantemente de se manifestar.
metamórfica dos corpos que dançam e que As gerações de dançarinos entre os
despudoradamente, ou amorosamente, séculos XIX e XX redescobriram, porém,
ou ainda, indiferentemente, a penetram o sentido da corporeidade e as potenciali-
desafiando a solidez semântica. No novo dades expressivas do movimento fugindo
contexto se originam assim gradualmen- não somente dos teatros, mas também das
te percepções estranhas e desconcertantes cidades já em crescimento incontrolável,
tanto para os dançarinos como para os es- vividas nos tempos como ameaça alienante
pectadores. O estranhamento da função para a reconquista da liberdade psicofísica
física e social dos lugares e dos edifícios do homem6. Era, por outro lado, no con-
tende a criar um sentido de desorientação tato com a natureza incontaminada pelo
e de alerta nos sentidos de quem age e de progresso tecnológico e pela sua crescente
quem assiste, tornando-os mais agudos e opressividade que se procurava regene-
perceptivos, enquanto a absurda rituali- rar, por meio de uma nova arte da dança
dade lúdica dos corpos dançantes põe por fundada em leis naturais do movimento,
si perguntas embaraçadoras à frenética aquela perfeita máquina biológica pensan-
atividade utilitarista e dirigida que os cir- te – capaz de estar à altura das máquinas
cunda. O desafio prosêmico dos corpos e tecnológicas – que se descobria então como
aos corpos que dançam disseminam assim a unidade corpo-mente do ser humano. No
imprevistas derivações de sentido5 e novas vento envolvente de um antropológico “re-
interpretações metafóricas e criativas do torno às origens”, se fugia então da cida-
mundo circundante. de, golem urbanístico fagocitário e desper-
Apesar desta iniciativa de fuga da sonalizante, para afirmar a peculiaridade
dança dos teatros na procura, num outro criativa individual e de grupo e descobrir,
lugar, de uma nova seiva nutritiva parecer na livre manifestação rítmica e expressiva
desconcertante para alguns, vale a pena do corpo, novas fontes vitais para a dança
recordar que esta não é a primeira vez ela (e, utopicamente, para o novo homem e a
ocorre. Um século atrás um novo pensa- sociedade do futuro).
E justamente daquela reinvenção das
4 práticas e do sentido do corpo dançan-
Para a evolução de um pensamento geral sobre dança e arquitetura permanece fun-
damental o número 42/43, verão de 2000, da revista “Nouvelles de danse”, dedicado te, originadas no confronto com os luga-
exatamente a Danse et architecture.
5
Um interessante olhar semiótico às características comunicativas da dança urbana se
6
encontra em: Bizarri, Maria Cecília. La danza e la città. Esperienze di danza Cf. Alle origini della danza moderna, organizado por Eugenia Casini Ropa,
urbana, in “E/C”, série especial, ano II, nº 2, p. 33-37, 2008. Bologna: Il Mulino, 1990.

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res e as leis da natureza, são originadas as vanguarda, no seu ímpeto desconstrutivo e


formas e as técnicas inovadoras da dança “democratizante” da linguagem e da frui-
moderna do século XX, que entrará porém ção da dança (nos Estados Unidos já codifi-
rapidamente para as cenas do espetáculo. cada e institucionalizada na modern dance),
Nos nossos dias, por outro lado, a in- criavam as suas performances em espaços
quietude identitária e criativa, que provoca não convencionais e próprios de outras ma-
o transbordamento e o defluxo da dança nifestações da arte e do cotidiano: galerias,
dos lugares fechados da profissão, mostra museus, igrejas desconsagradas, sótãos,
necessariamente um sinal diferente. Hoje a garagens, ancoradouros, parques, pátios e
cidade não é mais, para as jovens gerações, ruas, chegando, nos casos mais extremos, a
o mecanismo alienante que espantava os experimentar os telhados e as paredes dos
antepassados induzindo-os a se abandonar edifícios, praticados com o uso de artifícios
dogmaticamente à natureza para a rege- que subvertiam a percepção gravitacional e
neração harmônica dos próprios corpos: é prospectiva do performer e dos espectado-
ambiente cotidiano de vida, habitat natu- res, e desestabilizavam ludicamente a rela-
ral, partner da experiência pessoal e social. ção com o ambiente imergindo-o num con-
Urbanização, metropolização e mecaniza- traditório non-sense8. No segundo caso, os
ção venceram a fácil batalha contra as utó- jovens afro-americanos dos bairros-guetos
picas nostalgias originárias e o corpo não adotavam em crescente medida os modos
é mais uma realidade desconhecida a ser da dança de rua, desde sempre patrimônio
descoberta com o estupor de uma revela- antropológico da cultura negra transpor-
ção quase profética: é enfim uma apurada tada, aperfeiçoando as técnicas corporais
máquina biológica, sempre aperfeiçoá- com o implante de elementos dinâmicos
vel, mas da qual se orgulha de possuir os contaminados, muitas vezes virtuosistica-
mecanismos mais secretos. Então, o corpo mente acrobáticos, inventados ou retoma-
dançante pode pretender aferir-se dialeti- dos das danças da África ou apropriados
camente com a cidade e, até mesmo, pene- de outras disciplinas de grande difusão
trar, despertar e animar com a sua vitalida- popular como os esportes, a ginástica ou as
de fisiológica as estruturas arquitetônicas, artes marciais, criando um novo território
traduzi-las em signos corpóreos, dialogar privilegiado e incruento de competição en-
com os volumes e as superfícies, provocar tre grupos antagonistas e instituindo nor-
o inorgânico, o permanente e o funcional mas comportamentais ritualizantes para o
com a organicidade e com a efêmera, im- desenrolar dos desafios9. Em ambos os ca-
previsível improdutividade simbólica do sos, o corpo dançante se demonstra seguro
gesto artístico: pode mudar o aparente- de si e orgulhoso do seu presencialismo e
mente imutável. protagonismo nos espaços urbanos que
Os marcos mais significativos desta conferem a ele uma inédita e eficaz visibi-
inversão de rota são geralmente identifica- lidade e aos espectadores um papel de co-
dos, a um nível artístico e sociológico, em adjuvantes inconscientes, mas orgânicos e
fenômenos originados na cultura america- necessários aos acontecimentos.
na metropolitana entre os anos sessenta e Difundidos na Europa e em outras áre-
setenta do século passado: de um lado, a as metropolitanas do mundo, estes estímu-
experimentação subversiva elitista da post-
modern dance e de outro, o desenvolvimen- 8
No âmbito deste gênero de experimentações, deve-se lembrar especialmente do tra-
to e a difusão popular da street (depois, balho de Trisha Brown com os seus equipement pieces (cf. Mazzaglia, Rossella.
Trisha Brown. Palermo: L´Epos, 2007) e de Lucinda Childs com a sua Street
break) dance, parte integrante da cultura hip Dance (cf. o já citado Banes, Sally. Terpsichore in Sneakers. Middletown: Wes-
hop. No primeiro caso7, jovens artistas de leyan University Press, 1987).
9
Vide os numerosos textos sobre cultura hip hop que tratam também das vertentes da
dança. Em especial, sobre as problemáticas espaciais neste âmbito, vide: Brunaux,
7
Sobre a post-modern dance americana vide o fundamental: Banes, Sally. Terp- Hélène, Espace architectural et danse urbaine. Les formes corporelles
sichore in Sneakers. Middletown: Wesleyan University Press, 1987; e, em italia- du hip-hop, in Arts, sciences et technologies, Actes du rencontres internatio-
no, o recentíssimo: Mazaglia, Rossella. Judson Dance Theater. Danza e con- nales, 22, 23 et 24 novembre 2000, Université de La Rochelle, Maison des Sciences
trocultura nell´America degli anni sessanta. Macerata: Ephemeria, 2010. de l’Homme et de la Société, 2000, p. 155-160.

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los trabalham de forma evidente ou subter- sivo da arte da dança ou de uma aquies-
rânea, somando-se aos exemplos de fusão cência ao efêmero permanente e decorativo
linguística já experimentados pelo teatro, que domina a civilização do espetáculo? É
aos problemas logísticos e econômicos, às uma autêntica pesquisa de novas modali-
inquietudes reivindicadas e aos impasses dades expressivas relacionais inspiradas
criativos, aos impulsos provocadores e às pelo genius loci ou uma mera transferência
tendências interculturais e socialmente em outro contexto de produções coreográ-
orientadas de uma parte da dança contem- ficas originadas num outro lugar? É sub-
porânea local. Assim, de novo entre dois versão ou adaptação?
séculos, o corpo dançante deixa para trás Além das possíveis interpretações de
os teatros para se aventurar no espaço ex- um fenômeno ainda em expansão e em
terno e a arte da dança se confronta com definição, é todavia necessário observar
outros desafios. concretamente como a dança urbana, nas
Se o que foi dito até aqui – e que sinteti- suas diferentes formas, tenha criado um
za em boa parte as interpretações dadas até circuito de festivais e mostras nacionais e
então à gênese do fenômeno – é verdadei- internacionais de várias entidades, como
ro, então a dança urbana dos nossos dias os artistas puderam trocar técnicas e pro-
poderia ter também, como a dança livre jetos e colaborar nas realizações espetacu-
de um século atrás, uma implícita verten- lares, e como o que nasceu como explosão
te utópica: isto é, a aspiração a uma fusão espontânea, urgência de espaço vital para
provocatória e fertilizante com a cidade, os a sobrevivência de alguns artistas contem-
seus espaços e as suas funções na intenção porâneos, tenha na verdade demonstrado
de revitalizar criativamente o ambiente ur- uma incitação de fato frequentemente efi-
bano, mudando a significação e as conven- caz para a imaginação, a criatividade core-
ções relacionais. Assim como por meio da ográfica e o encontro das diversas artes do
dança se desejava tempos atrás transformar corpo. Mais difícil permanece julgar o im-
o homem, agora talvez se pretenda com a pacto do estímulo nos espaços e sobretudo
dança transformar o seu habitat urbano, no público, a qualidade e a incisividade da
torná-lo reativo à presença no seu ventre sua desorientação e da alteração perceptiva
de uma arte vivente. Em ambos os casos o sinestésica e relacional, ou quanto o encon-
impacto se revelaria mais antropológico do tro urbano tenha contribuído a familiarizá-
que social ou artístico e a confiança na po- lo com a dança.
tencialidade transformadora da realidade e É necessário se perguntar de resto, e no
de sua percepção intrínseca à dança seria fundo, se a dança, na sua genética aleato-
exaltada. riedade, pode de fato incidir ou somente
Mas, nos fatos, o fenômeno hodierno é tocar por um instante a ímpar persistência
mais complexo e ambíguo. Na dança urba- urbana, se pode de fato deixar marcas du-
na se entrelaçam, de fato, inextricavelmen- ráveis ou somente lançar “sinais secretos
te provocação antropológica e aceitação do devir”.10
social; se quer desafiar criticamente aquela Em conclusão, gostaria de reler meta-
qualidade de vida à qual, apesar de tudo, foricamente a inteira vicissitude do último
implicitamente se aceita de pertencer e de século da dança, com as suas repetidas fu-
se adequar completamente. Idealmente é gas dos lugares e dos vínculos da tradição
uma tentativa de sabotagem no interior de precedente e as também repetidas reentra-
alguns mecanismos auto-reguladores da das nas novas ordens da cultura vigente à
máquina-cidade, mas ao mesmo tempo é luz da sua reafirmada essência antropoló-
um buscar no seu ventre sapiente refúgio gica e do seu consequente instinto de adap-
protetor para atividades expressivas que se
exaurem em ambientes fechados e na rejei- 10
A expressão é de Walter Benjamin, que a usa com felicidade nos anos vinte quanto
ção de teatros inóspitos. Trata-se de uma trata da sutil eficácia social do teatro das crianças. Cf. Walter Benjamin, Programma
di un teatro proletario dei bambini, in Asja Lacis, Professione: rivoluzionaria, Milano:
real vontade de um papel urbano subver- Feltrinelli, p. 83-89, 1976.

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tação ao ambiente. Como um organismo


vivente, o espírito vital da dança, inato no
ser humano, procura e encontra as opor-
tunidades e as formas para a sua sobrevi-
vência, sofrendo ou induzindo alterações e
mutações apropriadas a mantê-lo vivo em
variadas condições ambientais. Para fazê-
lo, deve se reforçar, confrontar as forças
hostis, mas também modificar comporta-
mentos, fontes de nutrição e relações, deve
saber adequar e explorar o melhor possí-
vel os recursos disponíveis por mais que
pareçam escassos e inadequados, intervir
nos próprios instrumentos e no ambiente
corroborando os próprios indícios de resi-
liência, ou seja, de existência e resistência
em vida.
A dança urbana de hoje seria então,
nesta perspectiva, somente a última das re-
petidas manifestações de resiliência do es-
pírito imortal da dança nunca de fato der-
rotado mesmo que sofredor, e capaz de se
regenerar a cada vez nutrindo-se do ar do
seu tempo.

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REFERÊNCIAS

Amans, Diane. (org.). An Introduction to Community Dance Practice. New York: Ed. Pal-
grave-Macmillan, 2008.

Banes, Sally. Terpsichore in Sneakers. Middletown: Wesleyan University Press, 1987.

Benjamin, Walter. Programma di un teatro proletario dei bambini, in Lacis, Asja. Professio-
ne: rivoluzionaria, Milano: Feltrinelli, p. 83-89, 1976.

Bizarri, Maria Cecília. La danza e la città. Esperienze di danza urbana, in “E/C”, série es-
pecial, ano II, nº 2, p. 33-37, 2008.

Brunaux, Hélène. Espace architectural et danse urbaine. Les formes corporelles du hip-hop, in
Arts, sciences et technologie. Actes du rencontres internationales, 22, 23 et 24 novembre
2000, Université de La Rochelle, Maison des Sciences de l’Homme et de la Société, p. 155-
160, 2000.

Casini Ropa, Eugenia (org.). Alle origini della danza moderna. Bologna: Il Mulino, 1990.

Danse et architecture, “Nouvelles de Danse”, n° 42/43, verão de 2000.

Mazzaglia, Rossella. Trisha Brown. Palermo: L´Epos, 2007.

_________________ Judson Dance Theater. Danza e controcultura nell´America degli anni ses-
santa. Macerata: Ephemeria, 2010.

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