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Boris

Akunin
Jogada de mestre
Tradução de Teresa Rebelo da Silva

Editorial Presença
Título original: Turietsky Gambit
Autor: Boris Akunin
Copyright © Boris Akunin, 1998
Edição original publicada por Zakharov Publishers, Moscou, Rússia e Edizioni Frassinelli, Milão, Itália.
Todos os direitos reservados.
Edição portuguesa publicada por acordo com Linda Michaels Limited, International Literary Agents.
Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 2008
Tradução: Teresa Rebelo da Silva Fotografia: Corbis / VMI
Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda.
1ª edição, Lisboa, março, 2008
Depósito legal nº 271 684/08

Reservados todos os direitos para Portugal à Editorial Presença


Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo 2730-132
Barcarena
Email: info@presenca.pt
Internet: http://www.presenca.pt
capítulo
1
Onde uma mulher moderna dá por si num beco sem saída

La Revue Parisienne
14 (2) de julho de 1877

Nosso correspondente, que há quinze dias se reuniu ao exército russo


no Danúbio, informa que no dia 1º de julho (pela ordem de serviço do dia
13, segundo o calendário europeu) o tsar Alexandre agradeceu ao seu
exército vitorioso que se apoderou do Danúbio e penetrou no Império
Otomano. O documento do Imperador declara que o inimigo está
totalmente vencido e que em menos de duas semanas a Igreja de Santa
Sofia em Constantinopla será dominada pela cruz ortodoxa. Em seu
avanço, o exército não tem encontrado praticamente nenhuma resistência,
com exceção das picadas de mosquito que fustigam as comunicações
russas, provocadas pelos destacamentos móveis dos chamados Bachi-
Bouzouks ("cabeças loucas"), semibandidos, semiguerrilheiros, conhecidos
pelos costumes selvagens e pela sanguinária ferocidade.

A mulher é uma criatura fraca, com quem não se pode contar, disse Santo
Agostinho. E ele tem razão, aquele obscurantista misógino, mil vezes razão. Pelo
menos, no que diz respeito a uma certa pessoa chamada Varvara Suvorova.
Tudo começara como uma aventura divertida e eis agora a situação em que
ela se encontra, e é bem feito, a pobre imbecil! A mãe tinha o hábito de dizer
que, mais cedo ou mais tarde, Varia acabaria mal e, bem, foi isso o que
aconteceu. Quanto ao pai, homem de grande sabedoria, dotado de uma paciência
de santo, num dia de violenta altercação dividiu a vida da filha em três períodos:
o do diabo de saias, o do castigo do céu e o da niilista desmiolada. Até então,
Varia se orgulhava desta definição da sua personalidade, afirmando não
pretender ficar por aí, mas infelizmente sua autoconfiança acabava de lhe pregar
uma bela peça.
Como pôde passar pela sua cabeça aceitar uma parada naquele albergue, ou
seja lá como chamem aquela sinistra espelunca? O cocheiro, Mitko, esse pérfido
bandido, começou a se lamentar: "É preciso dar água aos cavalos, eles têm que
beber..." E a que a situação a levou... Senhor! E agora o que fazer, o que fazer?...
Instalada numa mesa de madeira tosca, num dos cantos daquele barracão
sombrio e imundo, Varia tremia de medo. Só tinha experimentado na vida
angústia tão terrível e tão desprovida de esperança quando, aos seis anos,
quebrou a xícara preferida da avó e se escondeu embaixo do sofá, esperando a
punição que irremediavelmente viria.
Ela bem que podia rezar, mas as mulheres de vanguarda não rezam. A
situação era contudo completamente desesperada.

Recapitulemos. O trajeto de S. Petersburgo a Bucareste tinha sido rápido e,


podemos dizer, confortável. Um trem rápido (dois vagões de luxo e dez de carga
cheios de armas) levara Varia à capital do reino da Romênia em três dias.
Oficiais e funcionários militares que iam para o campo de operações não tinham
sido bem sucedidos com esta jovem de olhos castanhos e cabelos curtos, que
fumava e se recusava obstinadamente a deixar que beijassem sua mão. Em cada
estação, Varia recebia ramos de flores e pequenos cestos de morangos. As flores,
jogava-as pela janela, porque era burguês receber flores, mas ao fim de algum
tempo não teve outro remédio senão recusar também os morangos, que
começaram a lhe causar pequenas bolhas avermelhadas. Em suma, a viagem
tinha sido agradável e divertida, se bem que do ponto de vista intelectual e no
que dizia respeito às ideias, os cavalheiros presentes tivessem se revelado
criaturas francamente desinteressantes. Encontrou, porém, um jovem porta-
estandarte que conhecia Lamartine e até ouvira falar de Schopenhauer. Na
verdade, ele era mais elegante lhe fazendo a corte do que os demais, mas, como
boa camarada, Varia tinha explicado que ia encontrar seu noivo e o jovem
adotara imediatamente uma conduta irrepreensível. Fisicamente, no entanto, ele
não era de todo mau, parecido com Lermontov. Bem, esqueçamos o belo porta-
estandarte!
A segunda etapa da viagem passou também sem o mínimo incidente.
Bucareste estava ligada a Turnu-Megurele por uma diligência regular. Fora
necessário encarar o caos e engolir muita poeira, mas, em compensação, ela
estava neste momento a dois passos do destino: dizia-se efetivamente que o
quartel-general do exército do Danúbio estava do outro lado do rio, em
Tsarevitsy.
Faltava então a última parte do Plano elaborado em S. Petersburgo (na sua
cabeça, era assim que ela se referia a ele, "o Plano", com maiúscula). A última,
se bem que particularmente difícil. Na noite anterior, ao abrigo da escuridão, ela
atravessara o Danúbio numa barca, sendo depositada um pouco a montante de
Zimnitsa, no local onde, quinze dias antes, a heroica divisão 14 do general
Dragomirov ultrapassara a barreira impenetrável que o rio constituía.
Encontrava-se agora em território turco e em plena zona militar, correndo assim
o risco de, a qualquer momento, ser capturada. Os destacamentos cossacos iam e
vinham pelas estradas; um segundo de desatenção e seria o fim, o regresso
forçado a Bucareste. Mas Varia era uma garota engenhosa e, prevendo a
situação, tomou suas medidas.
Numa pequena aldeia búlgara, situada na margem sul do Danúbio, teve a boa
surpresa de descobrir um albergue. Depois, a sorte continuou a lhe sorrir: o dono
do albergue entendia russo e prometeu, em troca da modesta soma de cinco
rublos, indicar-lhe um guia, um vodatch digno de confiança. Varia comprou uma
calça muito larga em estilo turco chalvar, uma camisa, grandes botas, um vestido
sem mangas e um chapéu de tecido bizarro. Assim equipeda, transformara-se de
jovem europeia em adolescente búlgaro, magricela, que em nada chamava
atenção de um destacamento. Quanto ao percurso, deu-se ao trabalho de escolher
um itinerário um tanto quanto complicado, contornando as colunas militares e
chegando a Tsarevitsy não pelo norte, mas pelo sul. Era lá, no estado-maior do
exército, que estaria Petia Iablokov, seu... Para dizer a verdade, a relação de Petia
com Varia não era muito clara. Seria noivo? Camarada? Marido? Digamos que
ele era o antigo marido e futuro noivo. E, como não podia deixar de ser, um
camarada.
Tinham partido, antes do nascer do dia, numa carroça que rangia
desconjuntadamente. No início, Mitko, o pouco loquaz cocheiro de bigode
castanho, que mascava tabaco sem parar e cuspia na estrada em grandes jatos
marrons (o que a cada vez fazia Varia tremer de horror), cantarolava canções
folclóricas balcânicas, mas logo se calara, mergulhando em profundas reflexões.
Agora ela sabia bem demais quais eram!
Bem que ele podia tê-la matado, imaginava ela arrepiada. Ou pior. Não havia
nada mais fácil, e quem se preocuparia com isso? Atribuiriam a culpa aos
bandidos, como se chamavam? Os Bachi-Bouzouks.
No momento, tinha certeza de estar viva, mas a situação começava a ficar
esquisita. Mitko, o tratante, levara sua passageira para um albergue que mais
parecia um antro de bandidos e, depois de instalá-la numa mesa e encomendar
queijo e vinho, dirigira-se para a porta, fazendo-lhe sinal de que em breve
voltaria. Varia, que não queria ficar nesse local imundo e malcheiroso, tentara
segui-lo, mas Mitko tinha explicado que precisava ficar sozinho, impelido,
digamos, por uma necessidade fisiológica. Como Varia não compreendeu,
ilustrou a coisa com um gesto e a jovem, incomodada, voltara para a mesa.
A necessidade fisiológica prolongava-se além de todos os limites. Varia
comera um pedaço de queijo horrível e salgado e bebera um trago do vinho
amargo que lhe tinham servido e depois, incapaz de suportar por mais tempo a
atenção que despertava entre os sinistros clientes do estabelecimento, saíra para
o pátio. Aí, ficara sem fôlego.
Não havia vestígio da carroça. Sua mala com todas as suas coisas estava lá e,
dentro dela, uma pequena caixa de farmácia, na qual, entre ataduras e
compressas, escondera o passaporte e todo seu dinheiro.
Varia se preparava para começar a correr estrada afora quando o dono do
albergue saiu do estabelecimento com sua camisa vermelha, seu nariz carmesim
e sua cara marcada de verrugas. Gritando de raiva, ele a fez compreender que
antes de ir embora tinha que pagar a conta. Varia voltou atrás, com medo do
proprietário, mas não tinha como pagar. Tranquilamente, voltou para sua cadeira,
tentando viver a situação como numa aventura, sem conseguir.
Não havia uma única mulher na sala e os camponeses, sujos e tagarelas,
tinham um comportamento completamente diferente do dos mujiques russos.
Estes últimos são agradáveis e, antes de se embebedarem, discutem a meia-voz.
Os primeiros gritavam a plenos pulmões, bebiam vinho tinto de um só trago e
riam-se constantemente, com um riso grosseiro e alarve (era assim que Varia os
via). No outro canto da sala, numa enorme mesa comprida, jogava-se aos dados
e cada lançamento era acompanhado de grandes berros. A certa altura, a querela
tornara-se mais violenta e um dos jogadores, um homenzinho completamente
embriagado, apanhara com uma caneca na cabeça. Nesse momento, estava
debaixo da mesa, sem que ninguém lhe prestasse a mínima atenção.
O patrão apontara para Varia com um sinal de cabeça, proferindo a seu
respeito propósitos visivelmente lascivos, e nas mesas vizinhas todos se tinham
virado para ela, murmurando algo que não pressagiava nada de bom. A jovem
encolhera-se, enterrando o seu barrete até os olhos. No albergue, ela era a única
que o usava, mas não o podia tirar, porque os seus cabelos se espalhariam pelas
costas. Não que fossem assim tão compridos quanto isso. Como convinha a uma
mulher moderna, Varia cortava-os, mas eles teriam mesmo assim revelado de
imediato que ela pertencia ao sexo fraco. "Sexo fraco", uma expressão perversa,
inventada pelos homens. Perversa, por certo, mas infelizmente exata.
No momento, a jovem era o centro das atenções gerais, e os olhares, que
caíam sobre ela eram viscosos e pérfidos. Apenas se mantinham indiferentes os
jogadores de dados e, numa mesa ao lado da dela, mais perto do balcão, um
homem todo encurvado, com o nariz na caneca de vinho, que lhe virava as
costas. Ela só via seus cabelos negros cortados rente e as têmporas grisalhas.
Um medo violento a invadiu. Não entre em pânico, tentava ela dizer a si
mesma. Você é adulta, uma mulher forte, e não uma bonequinha de salão. Tenho
que lhes contar que sou russa e que vou ver meu noivo, que é do exército. Somos
os libertadores da Bulgária e aqui todos gostam de nós. A língua búlgara é fácil,
basta acrescentar "ta" às palavras russas.
Ela virou o olhar para a janela: e se Mitko reaparecesse? Possivelmente tinha
ido a um charco dar de beber aos cavalos e logo estaria de volta. Mas na estrada
poeirenta ela não avistara nem Mitko nem a carroça e, pelo contrário, descobrira
uma coisa na qual não reparara até então. As casas da aldeia eram dominadas por
um pequeno minarete todo danificado. E então!? Seriam eles muçulmanos? No
entanto, os búlgaros são cristãos, são ortodoxos, todo mundo sabe disso. Mais
ainda, bebem vinho, que o Corão proíbe. Mas se a aldeia é cristã, por que um
minarete? E se é muçulmana, de que lado eles estão, do nosso ou dos turcos?
Acho difícil que estejam do nosso. Nesse caso, os "ta" acrescentados a
"exército" e a "estado-maior" não vão me ajudar em nada. Meu Deus, o que
fazer?
Aos quatorze anos, numa aula de catecismo, Varenka Suvorova tivera uma
ideia de uma evidência indiscutível. Como era possível que ninguém tivesse se
lembrado antes? Se Deus começou criando Adão para depois criar Eva, isso não
significava de forma alguma que os homens fossem mais importantes, mas que
as mulheres eram mais perfeitas. O homem é um protótipo experimental da
espécie humana, enquanto a mulher é a versão final aprovada, corrigida e
completada. Era claro como o dia! E contudo, por mais bizarro que fosse, a vida
interessante e verdadeira pertencia totalmente ao homem, enquanto as mulheres
se limitavam a dar à luz e a bordar: crianças, bordados... Por que essa injustiça?
Porque os homens eram mais fortes. Por isso, era necessário ser forte.
E Varenka tomara a decisão de viver de outra maneira. Nos Estados Unidos,
já havia uma primeira mulher médica, Mary Jacobi, e uma primeira mulher
padre, Antoinette Blackwell. Na Rússia, mantinham-se as tradições e os velhos
costumes. Mas não era grave, bastava dar tempo ao tempo.
Depois do ginásio, como nos Estados da América do Norte, Varia decidira
lutar por sua independência (como o pai, o advogado Suvorov, tinha se mostrado
fraco!) inscrevendo-se numa escola de parteiras, transformando-se assim de
"castigo do céu", que ela era até então, numa "niilista desmiolada".
A experiência não fora conclusiva. Varenka terminara a parte teórica sem
dificuldade, se bem que todo um conjunto de aspectos no processo da criação do
ser humano lhe tenha parecido espantoso e inacreditável. Mas quando se tratou
de assistir realmente a um parto, foi a catástrofe. Incapaz de suportar os gritos da
parturiente e a visão horrível da minúscula cabeça toda achatada que se extirpava
lentamente das carnes rasgadas e sanguinolentas, Varia, para grande vergonha
sua, desmaiara, após o que só lhe restara se virar para os cursos de telegrafia. De
início, parecia lisonjeiro tornar-se uma das primeiras mulheres telegrafistas
russas, e até falaram dela no jornal A Gazeta de S. Petersburgo (ver o artigo "Os
novos tempos", no número de 28 de novembro de 1875). Infelizmente o trabalho
se revelara terrivelmente tedioso e desprovido de qualquer perspectiva. E foi
essa a razão que levou Varia, para grande alívio dos pais, a se instalar em seus
domínios de Tambov, não para ficar à toa, bem entendido, mas para educar e
instruir os filhos dos camponeses. Foi ali, na pequena escola recém-construída,
ainda com cheiro de madeira fresca, que ela travou conhecimento com Petia
Iablokov, estudante em S. Petersburgo. Petia ensinava aritmética, geografia e as
bases das ciências naturais, e Varia estava encarregada de todas as outras
matérias. Os camponeses não levaram muito tempo para compreender que a
frequência da escola não lhes daria nenhuma compensação ou vantagem e se
apressaram a retirar os filhos de lá (não interessa queimar o cérebro, é preciso
trabalhar), mas Varia e Petia tiveram tempo de fazer projetos para o futuro de
suas vidas: uma existência que eles desejavam livre, moderna, fundada no
respeito recíproco e na sábia partilha das responsabilidades.
Ele acabara rapidamente com a humilhação que significava depender da
generosidade dos pais. O casal instalara-se num bairro de Vyborg, alugando um
apartamento cheio de ratos, mas com três divisões. Tratava-se, com efeito, de
viver como Vera Pavlovna e Lopukhov, os heróis de Que fazer? de
Tchernychevski: cada um tinha seu território, sendo o terceiro quarto reservado
para se encontrarem e receberem amigos. Varia e Petia tinham se apresentado à
senhoria como marido e mulher, mas só coabitavam estritamente como
camaradas: à noite, liam, tomavam chá e discutiam na sala comum, depois
desejavam-se uma boa noite e cada um se recolhia a seu quarto. Viveram assim
durante um ano, um ano perfeitamente feliz, alma com alma, no verdadeiro
sentido do termo, sem baixezas e vulgaridade. Petia frequentava a universidade e
dava aulas, Varia, que tinha feito um curso de estenografia, chegava a ganhar
cem rublos por mês. Registrara os protocolos dos julgamentos de um tribunal,
transcrevera as memórias de um general vencedor de Varsóvia regressado à
infância, após o que, com uma recomendação de amigos, fora contratada para
datilografar o romance de um Grande Escritor. (É melhor ocultar seu nome,
porque as coisas vieram a conhecer um fim muito pouco elegante). Perdida de
admiração por aquele autor conhecido, Varia recusara de modo categórico todo e
qualquer pagamento, considerando que esse trabalho era para ela uma grande
honra. Infelizmente, o mestre interpretou seu gesto de maneira diferente. Era um
homem terrivelmente velho, já passado da casa dos cinquenta, tendo a seu cargo
uma família numerosa, e ainda por cima de uma grande feiura. Em contrapartida,
é preciso reconhecer que ele tinha o dom da palavra e que sabia convencer: a
inocência é apenas um preconceito ridículo, a moral burguesa é odiosa e a
natureza humana não tem nada de vergonhoso. Varia ouvia atentamente seus
discursos e depois falava deles longamente com Petia, pedindo-lhe conselho
durante horas. Petroucha reconhecia que o respeito pelo mito da virgindade e dos
bons costumes eram cadeias impostas à mulher, mas desaconselhava vivamente
que Varia tivesse relações físicas com o Grande Escritor. Ele se enervava,
tentava demonstrar que ele não era tão importante assim, apesar dos seus méritos
passados, sublinhando que muitas pessoas de vanguarda o viam agora como um
reacionário. O final deste episódio tinha sido, como já dissemos, bem
desagradável. Um dia, interrompendo o ditado de uma cena particularmente
intensa (Varia tinha lágrimas nos olhos enquanto a anotava), o escritor começara
a respirar ruidosamente e a fungar e depois, agarrando desajeitadamente sua
jovem datilógrafa pelas costas, arrastara-a para o divã. Ela suportou por alguns
momentos as propostas sem sentido que ele murmurava, bem como o contato de
seus dedos que tremiam e que não se entendiam com os botões e os colchetes de
seu vestido, mas depois, bruscamente, compreendera da maneira mais clara...
mais exatamente, sem compreender, ela sentira que toda aquela situação era
incorreta e não podia acontecer. E, assim, repelira o Grande Escritor e fugira da
casa dele para não mais voltar.
Este incidente teve um efeito deplorável em Petia. Estávamos no mês de
março; com a primavera ainda precoce, o Neva exalava um odor de vastidão e
degelo, e Petia apresentara um ultimato: as coisas não podiam continuar assim,
eles eram feitos um para o outro, a relação deles superara a prova do tempo.
Ambos eram seres vivos e não servia de nada contrariar as leis da natureza. Ele
estava pronto a aceitar, obviamente, um amor físico fora do casamento, mas era
melhor resolver o assunto de forma correta, o que evitaria dificuldades.
E ele se portara tão bem que a discussão abordara apenas o tipo de
casamento que convinha escolher: o casamento civil ou o casamento religioso.
Os debates se prolongaram até abril. Em abril explodia a tão esperada guerra de
libertação dos irmãos eslavos e, como bom cidadão, Petia Iablokov apresentara-
se como voluntário. Na véspera de sua partida, Varia fizera-lhe duas promessas:
a de lhe dar em breve uma resposta definitiva e a de descobrir a forma de
passarem a guerra juntos. E a verdade é que a encontrara. Foi preciso um certo
tempo, mas ela desencantara. Nem o hospital militar de campanha nem o da
retaguarda tinham aceitado seus serviços, ninguém queria reconhecer seu curso
de parteira inacabado. O exército também recusava mulheres telegrafistas. Varia
estava quase se desesperando quando chegou uma carta da Romênia: Petia se
queixava de não ter sido admitido na infantaria devido aos pés chatos e
anunciava ter sido colocado no estado-maior do grande príncipe Nicolai
Nicolaevitch, comandante-em-chefe, pelo fato de o voluntário Iablokov ser
matemático e de o exército sentir desesperadamente a necessidade de
codificadores.
Varia pensou então que não seria difícil encontrar trabalho no estado-maior
ou, na pior das hipóteses, de passar despercebida na massa da retaguarda do
exército, e concebera imediatamente o seu plano, que se revelara espantosamente
feliz nas suas duas primeiras etapas e que na terceira acabava de redundar em
catástrofe.

O desenlace se aproximava. O patrão gordo de nariz vermelho proferiu


palavras ameaçadoras e, enquanto enxugava as mãos com um pano cinzento,
dirigiu-se a Varia, num andar bamboleante, com a sua camisa vermelha a fazê-lo
parecer um carrasco se aproximando do local de execução. Varia sentiu a boca
seca e uma ligeira náusea. E se ela se fizesse passar por surda-muda? Isto é, por
surdo-mudo?
O homem que estava de costas para ela com o nariz enfiado na caneca
levantou lentamente, aproximou-se da mesa da jovem e se sentou na sua frente,
sem proferir uma palavra. Ela divisou uma cara pálida e muito jovem, quase de
um rapaz, apesar das têmporas grisalhas. Tinha olhos azuis, bigode fino e boca
refratária ao sorriso. Era uma cara estranha, que em nada se parecia com a dos
outros camponeses, se bem que o desconhecido estivesse vestido do mesmo
modo que eles, ainda que seu casaco tivesse um ar mais novo e a camisa
estivesse mais limpa.
Sem sequer se virar, o homem de olhos azuis fez um gesto de desprezo na
direção do patrão do estabelecimento e o terrível carrasco se retirou de imediato
para trás do balcão. Mas este episódio não tranquilizou minimamente Varia, que,
pelo contrário, pensou que o mais terrível estava para começar. Ela franziu a
testa, pronta para ouvir uma língua estrangeira. Era melhor não dizer nada e se
contentar em sacudir a cabeça. Era preciso sobretudo não esquecer que com os
búlgaros era tudo ao contrário: quando se sacode a cabeça de cima para baixo,
isso significa "não", da esquerda para a direita, quer dizer "sim".
O homem de olhos azuis, porém, não lhe fez nenhuma pergunta. Ele suspirou
com ar pesaroso e afirmou com um ligeiro gaguejar, mas num russo perfeito: —
Ah, s-s-s-enhorita, teria feito melhor em esperar seu noivo em casa. A verdade é
que não estamos num romance de Mayne Reid e as coisas p-p-poderiam ter
acabado muito mal.
capítulo
2
Onde se vê aparecer um grande número de homens sedutores

O Inválido Russo (S. Petersburgo)


2 (14) de julho de 1877

... Ao declarar-se um armistício entre a Porta Sublime e a Sérvia,


numerosos patriotas da causa eslava, valentes cavaleiros da terra russa
que serviam como voluntários sob as ordens do valoroso general
Tcherniaev, responderam ao apelo do tsar libertador. Hoje, com o risco das
suas próprias vidas, atravessam as montanhas selvagens e as sombrias
florestas em direção à terra búlgara, onde se vão juntar ao exército
ortodoxo e concluir o seu feito guerreiro com a tão almejada vitória.

Varia não compreendeu imediatamente o que acabava de ouvir. De início,


começou num gesto maquinal à abanar a cabeça de cima para baixo e depois da
esquerda para a direita, e em seguida ficou subitamente estarrecida, de boca
aberta.
— Não se surpreenda — proferiu, com uma voz cansada, o estranho
camponês. — Percebe-se imediatamente que é uma jovem, pois tem uma mecha
de cabelo saindo do gorro. E vai um. (Varia escondeu com um gesto furtivo a
traidora madeixa). O fato de ser russa é também evidente: nariz arrebitado,
desenho das maçãs do rosto tipicamente russo, cabelos claros e, sobretudo,
ausência de bronzeado. E vão dois. No que diz respeito ao noivo, também é
simples: desloca-se sozinha, tentando não chamar atenção, viajando, portanto,
por razão pessoal. E o que pode levar uma jovem de sua idade para o meio de
um exército em ação, se não for um motivo romântico? E três. Agora, quatro: o
bigodão, que a trouxe aqui para desaparecer em seguida, era seu guia? E seu
dinheiro estava, certamente, escondido no meio de suas coisas? Não é muito
astucioso. Devemos carregar as coisas preciosas sempre conosco. Como se
chama?
— Suvorova Varia. Varvara Andréevna — murmurou Varia cheia de medo.
— Quem é você? O que faz aqui?
— Meu nome é Erast Petrovitch Fandorin. Sou um voluntário sérvio e volto
da zona turca, onde era prisioneiro.
Deus seja louvado, Varia começava a se perguntar se não estaria tendo uma
alucinação. Um voluntário sérvio voltando da zona turca! Olhou com respeito
para as têmporas grisalhas e, não se contendo, perguntou, apontando além do
mais com o dedo, num gesto pouco elegante: — Foram eles que o torturaram,
não? Li sobre o horror dos campos turcos. É sem dúvida por causa disso que
gagueja?
Erast Petrovitch Fandorin empertigou-se e respondeu contrariado: —
Ninguém me torturou. Deram-me café de manhã à noite, só me dirigiam a
palavra em francês. Eu era tratado como um convidado do Kaimakan de Vidin.
— De quem?
— Vidin é uma aldeia perto da fronteira romena. E o kaimakan é o
governador. Quanto à gagueira, é resquício de um antigo traumatismo.
— Conseguiu fugir, é isso? — perguntou ela com inveja. — E vai se juntar
ao exército ativo para voltar a combater?
— Não. Desse ponto de vista, para mim já chega.
Varia exprimiu muito claramente no rosto a maior perplexidade, porque o
voluntário considerou necessário acrescentar: — A guerra, Varvara Andréevna, é
uma coisa horrível. Ninguém tem razão e ninguém tem culpa e há pessoas boas e
pessoas más dos dois lados. O único problema é que, em geral, são as pessoas
boas que são mortas em primeiro lugar.
— Nesse caso, por que se alistou como voluntário na Sérvia? — perguntou
ela num tom provocador. — Ninguém o forçou a isso!
— Fui impelido por considerações egoístas. Eu estava d-d-do-ente e tinha
necessidade de cuidados.
— Será que a guerra pode curar as pessoas?
— Sim, a visão do sofrimento dos outros permite suportar melhor o nosso.
Cheguei à frente quinze dias antes da derrota do exército de Tcherniaev. Depois
disso, vaguei durante muito tempo pelas m-m-montanhas, a maior parte das
vezes atirando a torto e a direito. Graças a Deus, creio nunca ter atingido
ninguém.
Ele parece interessante, a menos que não passe de um cínico, pensou Varia
com certa irritação, e observou com ar maldoso: — Mas devia ter ficado com
seu kaimakan esperando o fim da guerra. Por que fugiu?
— Não fugi. Youssouf Paxá me deixou partir.
— E o que o levou a vir para a Bulgária?
— Tenho um assunto para tratar aqui — respondeu Fandorin laconicamente.
— E para onde vai?
— Vou para Tsarevitsy, para o estado-maior do comandante-em-chefe. E
você?
— Para Bella. Diz-se que o quartel-general de Sua Majestade está lá.
O voluntário guardou um instante de silêncio, as finas sobrancelhas
percorridas por alguns tremores, depois suspirou e disse: — Mas posso ir
também para o estado-maior do comandante-em-chefe.
— É verdade? — exclamou Varia maravilhada. — Vamos juntos, concorda?
Não sei o que teria feito se não o tivesse encontrado!
— Errado. Teria pedido ao dono do albergue que a levasse ao destacamento
russo mais próximo e o assunto estaria encerado.
— Eu teria pedido isso? Ao dono do albergue? — repetiu Varia com um
arrepio de terror.
— Aliás, não é um albergue, é um mehana.
— Que seja, um mehana. Mas a aldeia é muçulmana?
— Sim.
— Então teriam me entregado aos turcos.
— Nos quero ofendê-la, Varvara Andréevna, mas para os turcos você não
tem nenhum interesse, ao passo que seu noivo teria certamente dado uma
recompensa a quem a levasse.
— Eu prefiro ficar com você. — (Varia mostrava-se suplicante.) — Por
favor!
— Só tenho um cavalo, e ele está meio inválido. Não podemos montá-lo os
dois. No que toca a dinheiro, tenho unicamente três k-k-kuruchs. Isso chega para
pagar o vinho e o queijo, mas é tudo... Seria necessário um outro cavalo ou pelo
menos um burro. E um burro custa pelo menos cem kuruchs.
O novo amigo de Varia calou-se e ficou pensativo, aparentando fazer contas
e olhando os jogadores de dados. Em seguida, suspirou de novo.
— Espere um pouco. Já volto.
Aproximou-se lentamente da mesa e ficou cinco minutos observando os
jogadores. Em seguida, disse qualquer coisa incompreensível para Varia que fez
com que todos largassem os dados com um único movimento e se virassem para
ele. Fandorin apontou Varia com um sinal de cabeça, e os olhares centrados na
sua pessoa a deixaram se sentindo minúscula em sua cadeira. Depois, ressoou
um enorme riso visivelmente escabroso e humilhante para a jovem mulher.
Fandorin, entretanto, sem mostrar a mínima veleidade em tomar a defesa de sua
honra, apertou a mão de um homem corpulento de bigode e sentou no banco. Os
outros se afastaram-se para lhe dar lugar e, imediatamente, os curiosos se
atropelaram em volta da mesa.
Tanto quanto parecia, o voluntário entregava-se a uma partida. Mas com que
dinheiro? Três kuruchs? Ia precisar de muito tempo para ganhar o suficiente que
lhe permitisse comprar um cavalo! Subitamente, Varia ficou receosa, percebendo
que acabara de confiar sua pessoa a um homem que desconhecia por completo.
Um homem com uma presença estranha, uma forma de falar bizarra e um
comportamento pouco habitual. Por outro lado, que outra escolha tinha?
Os observadores deram um grito: o gordo acabara de jogar. Depois, ouviram-
se os dados rolando uma segunda vez e as paredes da casa tremeram sob o efeito
de um urro geral.
— Doze — declarou Fandorin calmamente, antes de se levantar. — Onde
estão meus ganhos?
O gordo saltou da cadeira e agarrando o voluntário pela manga, começou a
explicar alguma coisa, com os olhos desesperadamente fora das órbitas.
Repetia sem fim:
— Ocbte vetnaj, ochte vetnaj...1
Fandorin escutou-o tranquilamente e sacudiu a cabeça. No entanto, sua
atitude conciliadora não satisfez minimamente o gordo, que se pôs a berrar cada
vez mais, agitando as mãos. Fandorin fez então um movimento ainda mais
decidido e foi aí que Varia se lembrou do paradoxo búlgaro, que sacudir a cabeça
de cima para baixo significa recusa.
Nessa altura, desistindo das palavras, o jogador azarento tentou passar à ação
e preparou-se para desferir em Fandorin um murro magistral. Os curiosos se
afastaram num instante, mas Erast não se mexeu e apenas sua mão direita
deslizou para dentro do bolso como que por acaso. O gesto foi pouco
perceptível, mas teve sobre o gordo um efeito mágico. Perdendo de repente toda
a contenção, ele lançou um soluço e balbuciou algo em tom de lamento. Desta
vez, Fandorin agitou a cabeça da direita para a esquerda, lançou duas moedas ao
dono do estabelecimento, que se aproximara, e encaminhou-se para a saída. Nem
sequer dirigiu um olhar a Varia, mas ela não tinha necessidade de ser convidada.
Saltando da cadeira, reencontrou-se instantaneamente ao lado de seu salvador.
— O segundo a contar do canto — disse Erast piscando os olhos com ar
concentrado e detendo-se no pátio.
Seguindo seu olhar, Varia descobriu junto à cancela uma fila de cavalos,
burros e mulas, comendo feno tranquilamente.
— Cá está, eis seu B-B-Bucéfalo — disse o voluntário, apontando um
pequeno burro castanho. — Não tem bom aspecto, mas ao menos não vai cair de
muito alto!
Varia começava a compreender:
— Acaba de ganhá-lo?
Fandorin assentiu em silêncio, enquanto soltava o jumento castanho
magricela.
Ajudou a jovem a se instalar na sela de madeira, saltou com uma certa
ligeireza para a sua e seguiram os dois pela rua da aldeia vivamente iluminada
pelo sol do meio-dia.
— Estamos longe de Tsarevitsy? — perguntou Varia, bamboleando ao ritmo
dos pequenos passos do seu meio de transporte de orelhas felpudas.
— Se não nos perdermos, chegaremos lá à tarde — declarou majestosamente
do alto o cavaleiro.
Transformou-se num verdadeiro turco, tendo estado tanto tempo prisioneiro
deles, pensou Varia encolerizada. Ele devia ter dado o cavalo à senhora. É o
narcisismo masculino típico. O pavão! O presunçoso! Só quer se mostrar
importante para a patinha feia. E eu, que até tenho uma boa presença, acabo no
papel de Sancho Pança, ao lado do Cavaleiro da Triste Figura.
De repente, ocorreu-lhe um detalhe do episódio: — O que tem no bolso?
Uma pistola?
Fandorin não compreendeu imediatamente.
— Em que bolso? Ah, no meu bolso... Infelizmente nada.
— E se ele não tivesse tido medo?
— Eu nunca teria jogado com um parceiro que não tivesse.
Varia estava intrigada.
— Mas como ganhou um burro de uma vez só? Ele não deve ter jogado o
burro contra três kuruchs...
— Claro que não!
— O que jogou então?
— Você — respondeu Fandorin sem se perturbar. — Uma jovem contra um
burro é uma boa aposta. Perdoe-me, Varvara Andréevna, mas eu não tinha outra
saída.
— Perdoar? — Varia deu um tal pulo no burro que quase caiu de lado. — E
se tivesse perdido?
— Sabe, Varvara Andréevna, que eu tenho uma particularidade estranha.
Não suporto os jogos de azar, mas quando me vejo obrigado a jogar, ganho
sempre. Les caprices de la fortune2. Minha liberdade também foi ganha nos
dados com o paxá de Vidin.
Não sabendo como reagir a uma declaração tão pouco séria, Varia decidiu
que estava mortalmente ofendida. Assim, a partir daí cavalgaram em silêncio.
Verdadeiro objeto de tortura, sua maldita sela provocava-lhe problemas, mas
ela sofria sem dizer nada, contentando-se em mudar de tempos em tempos seu
centro de gravidade.
— É duro? — perguntou Fandorin. — Quer que lhe dê meu casaco?
Varia não respondeu, primeiro porque a proposta lhe pareceu um tanto ou
quanto indecente e, em segundo lugar, por uma questão de princípio.
O caminho serpenteou demoradamente entre pequenas colinas arborizadas,
indo desembocar numa planície. Durante todo o trajeto, não tinham encontrado
ninguém, o que começava a inquietá-la. Varia bem tentara lançar alguns olhares
de viés a Fandorin, mas este, impávido como uma pedra, mantinha uma calma
absoluta e não se mostrava disposto a recomeçar a conversa.

E ela teria um belo aspecto ao chegar a Tsarevitsy em semelhante figura!


Para Petia, digamos, era indiferente. Para ele, ela bem se podia vestir com
serapilheira, que ele nem sequer se aperceberia, mas estavam lá os membros do
estado-maior, toda a sociedade. Apresentar-se como um espantalho... Varia tirou
o seu barrete, passou a mão pelo cabelo e perdeu definitivamente o moral. Os
seus cabelos que, em tempos normais já não tinham nada de extraordinário, com
essa tonalidade cor de rato a que chamavam castanho-claro, estavam ainda por
cima emaranhados devido ao disfarce e caíam de um modo deplorável. Não os
lavava desde Bucareste e isso perfazia três dias. Não, era melhor manter o
barrete. Quanto ao resto, o traje de um pobre camponês búlgaro não lhe
assentava mal. Era prático e produzia um belo efeito, à sua maneira. As calças
evocavam um pouco os célebres bloomers que usaram outrora as sufragistas
inglesas, para lutar contra a humilhação que as cuecas e as saias constituíam. Se
ao menos tivesse podido colocar um cinto largo à cintura, como no Rapto do
Serralho (Petia e ela tinham assistido à ópera no Outono anterior, no teatro
Mariinsky), então é que obteria mesmo um efeito pitoresco.
Repentinamente, as reflexões de Varvara Andréevna foram interrompidas da
maneira mais indelicada. O voluntário inclinara-se e agarrara o seu burro pela
rédea. O estúpido animal imobilizara-se bruscamente e pouco faltou para Varia
saltar por cima de sua cabeça.
— O que há? É doido?
— Agora, aconteça o que acontecer, cale-se! — disse-lhe Fandorin em voz
baixa e com um ar profundamente sério, fixando algo à frente.
Varia levantou a cabeça e descortinou, envolto numa nuvem de poeira, um
destacamento desordenado de cavaleiros que vinham na sua direção. Era bem
uma vintena de homens. Viam-se seus grandes barretes felpudos e o sol
provocava por momentos tênues reflexos em seus equipamentos e armas. Um
dos cavaleiros cavalgava à frente do destacamento e Varia conseguiu distinguir
uma tira de tecido verde enrolada em volta do barrete de pele.
— Quem são estes homens, são Bachi-Bouzouks? — perguntou Varia muito
alto, com um tremor na voz. — O que vai acontecer? Estamos perdidos? Vão
nos matar?
— Se ficar em silêncio, creio que não — respondeu Fandorin num tom não
muito seguro. — Sua súbita vontade de falar não vem nada a calhar.
Ele cessara completamente de gaguejar, o que provocou em Varia
inquietação ainda maior.
Erast Petrovitch voltou a segurar o burro pela rédea, colocou-se ao lado do
caminho e, empurrando o barrete da garota quase até os olhos, disse-lhe em voz
muito baixa: — Olhe seus pés e nem um som.
Mas ela não resistiu e lançou um olhar discreto aos célebres bandidos dos
quais todos os jornais falavam há dois anos.
O que cavalgava na frente (era sem dúvida o bey) tinha barba ruiva, usava
jaqueta acolchoada suja e esfarrapada, mas suas armas eram de prata. Ele passou
ao lado deles sem fitar os pobres camponeses. O bando, pelo contrário, teve
comportamento menos digno. Vários rodearam Fandorin e Varia, trocando ditos
em voz rouca. Os Bachi-Bouzouks tinham caras tão horríveis que Varia queria
fechar os olhos. Nunca imaginou que pudessem existir seres humanos com tais
feições. Repentinamente, no meio de todas aquelas caras de pesadelo, ela
descobriu um rosto humano, com tudo o que havia de comum. Era um homem
pálido, um olho ensanguentado e inchado. O outro olho, pelo contrário, castanho
e cheio de uma tristeza sem fim, fitava-a bem de frente.
Era um oficial russo com o uniforme empoeirado e rasgado. Eles o
mantinham sentado de costas na sela. As mãos estavam amarradas atrás, do
pescoço pendia bizarramente a bainha de seu sabre e ele tinha sangue no canto
da boca. Varia mordeu os lábios para não gritar e, não suportando o desespero
que se lia no olhar do prisioneiro, baixou os olhos. Mas um grito, ou mais
exatamente um soluço histérico, escapou de sua garganta de súbito seca pelo
medo: um dos bandidos tinha, pendurada na sela, uma cabeça humana de cabelos
louros e longo bigode. Fandorin apertou-lhe o braço com força e disse qualquer
coisa curta em turco — ela só compreendeu "Youssouf Paxá" e "kaimakan" —,
mas essas palavras não tiveram nenhum efeito nos bandidos. Um deles, que tinha
um nariz enorme completamente torto e uma barba pontiaguda, levantou o lábio
superior da égua de Fandorin e, descobrindo os dentes compridos bem
estragados, cuspiu de desprezo, proferindo ditos que provocaram o riso dos
outros. Depois, fez estalar o chicote na garupa do animal que, amedrontado,
saltou para o lado, adotando imediatamente um pequeno trote descoordenado.
Varia bateu com os calcanhares no ventre barrigudo de seu burro e seguiu, sem
querer acreditar que o perigo passara. Tudo dançava em volta dela, a horrível
cabeça de olhos fechados de dor com sangue no canto dos lábios não a deixava
em paz. Uma frase insensata, quase obsessiva, repetia-se no seu espírito: os
bandidos cortadores de cabeças são bandidos que cortam cabeças.
— Por favor, não é hora de desfalecer, eles podem re-re-gressar — disse
Fandorin, em voz baixa.
Ele não sabia que estava falando a verdade. Um minuto mais tarde, ouviram
atrás deles um galope que se aproximava. Erast Petrovitch olhou de relance e
sussurrou-lhe: — Não olhe para trás, continue sempre em frente!
Mas Varia desobedeceu e virou-se, procedimento que devia ter evitado. Eles
tinham tido tempo de se afastar uns duzentos passos dos Bachi-Bouzouks, mas
um dos cavaleiros, o que trazia a cabeça cortada, voltava em grande velocidade,
com seu tenebroso troféu batendo na garupa do cavalo.
Desesperada, Varia olhou para o companheiro. Tendo aparentemente perdido
seu eterno sangue-frio, com a cabeça toda para trás, ele bebia água de um grande
cantil de cobre.
Sua montaria saracoteava melancolicamente, recusando-se obstinadamente a
acelerar o passo. Um minuto mais tarde, o rápido corcel chegou perto dos
viajantes desarmados e empinou. Inclinando-se para o lado, arrancou o barrete
de Varia e explodiu num riso selvagem, ao ver os cabelos em liberdade se
espalharem sobre os ombros.
— Oh! Oh! — gritou ele e seus dentes brancos reluziram. Com um
movimento rápido da mão esquerda, Erast Petrovitch, sombrio e concentrado,
fez voar no ar o grande barrete de pele do bandido, batendo ao mesmo tempo em
sua nuca raspada com o pesado cantil. Ouviu-se um ruído líquido e repugnante, a
água do cantil gorgolejou e o Bachi-Bouzouk rolou na poeira.
— O burro que vá para o diabo! Dê-me a mão! Monte! Corra a toda a
velocidade e não se vire sob nenhum pretexto! — ordenou-lhe Fandorin com
uma voz entrecortada, deixando mais uma vez de gaguejar.
Vendo que Varia estava mais morta do que viva, ele a ajudou a montar no
cavalo do bandido, tirou a espingarda do estojo preso à sela e partiram a galope.
O cavalo do Bachi-Bouzouk disparou e Varia meteu a cabeça entre os
ombros, com medo de perder o equilíbrio. O vento soprava em seus ouvidos, seu
pé esquerdo teve a infelicidade de perder um estribo comprido demais, tiros
crepitavam atrás deles, alguma coisa pesada bateu dolorosamente em seu quadril
direito. Lançando um rápido olhar, ela viu a cabeça castanha avermelhada que
dançava e, dando um pequeno grito, largou as rédeas, o que era a última coisa
que devia ter feito.
Um momento depois, sem apoio, era lançada no ar, descrevendo uma curva e
indo bater numa coisa verde, mole e rumorejante, um arbusto da estrada.
Era o momento certo para desmaiar, mas, estranhamente, isso não aconteceu.
Varia ficou sentada no mato, a mão no rosto arranhado, enquanto em volta
balançavam os galhos que quebrara na queda.
Durante esse tempo, na estrada, eis o que estava acontecendo. Na medida do
possível, Fandorin esporeava cada vez mais sua pobre égua, que se esforçava ao
máximo, lançando para a frente as pernas finas. Ele estava quase chegando ao
arbusto onde Varia se encontrava, atordoada pelo choque, mas atrás, apenas a
uma centena de passos, com uma salva de tiros, surgia a horda de perseguidores,
pelo menos dez cavaleiros. De repente, o cavalo do voluntário perdeu
velocidade, sua cabeça teve um gesto de dor e inclinou-se cada vez mais para o
lado, para finalmente tombar devagarinho no chão, esmagando a perna do
cavaleiro. Varia gritou. Fandorin se libertou o mais rapidamente que pôde do
cavalo, que em vão tentava se endireitar e pôr o corpo em pé. Depois, lançando
um rápido olhar a Varia, levantou a espingarda e começou mirar os Bachi-
Bouzouks.
Não tinha pressa em disparar, apontava cuidadosamente e sua postura
impunha-se de tal forma que nenhum dos bandidos quis ser o primeiro a afrontar
o disparo. Abandonando o caminho, o destacamento se dispersou pelo prado,
formando um largo semicírculo em redor dos fugitivos. Os tiros terminaram e
Varia compreendeu que eles queriam pegá-los vivos.
Fandorin recuava no caminho, mirando os bandidos um de cada vez,
aproximando-se cada vez mais de varia. Quando ele estava perto do arbusto,
Varia gritou: — Atire, está esperando o quê?
Mas Erast, sem se virar, murmurou: — A espingarda não está carregada.
Varia lançou um olhar para a esquerda: lá estavam os Bachi-Bouzouks com
seus grandes gorros de pele. Depois olhou para trás e descobriu além da
vegetação rasteira algo que reteve sua atenção.
Chegavam cavaleiros a pleno galope: na frente, montado em poderoso corcel
negro, os cotovelos bem afastados como um jóquei, galopava, ou mais
exatamente voava, um homem com um chapéu americano. Era seguido de perto
por outro de uniforme branco com dragonas douradas. Atrás deles, a trote, vinha
um pequeno grupo compacto de uma dezena de cossacos de Kouban. No fim de
tudo, a uma boa distância, via-se saltitando na sela um homem bizarro, de
chapéu alto e longa sobrecasaca.
Varia, como que enfeitiçada, observava essa estranha cavalgada. Nessa hora
os cossacos começaram a assobiar e ulular. Os Bachi-Bouzouks fizeram também
ouvir suas vozes e se reagruparam. O resto do bando chegava em seu socorro,
com o bey ruivo na cabeça. Os horríveis bandidos haviam esquecido a existência
de Varia e Fandorin e tinham presentemente outras preocupações.
Ia se desenrolar uma batalha campal. Esquecendo seu medo, Varia não
cessava de virar a cabeça de um lado para o outro. O espetáculo era, de fato, ao
mesmo tempo terrível e belo.
Mas o combate findou mal começara. O cavaleiro de chapéu americano (ele
estava agora bem perto e Varia pôde vislumbrar seu rosto moreno, uma barbicha
à la Louis-Napoléon e um bigode cor de trigo revirado para cima) puxou as
rédeas e parou. De repente, sem que se saiba de onde a tirara, tinha na mão uma
pistola de cano longo. A pistola fez pum! pum!, cuspiu duas pequenas nuvens
coléricas e brancas e o bey cambaleou docemente sobre a sela, como um homem
embriagado, e se inclinou para o lado. Um dos Bachi-Bouzouks o agarrou e o
apoiou no pescoço do cavalo, e o destacamento bateu em retirada sem travar a
batalha.
Varia e Fandorin, ele apoiado num gesto entediado em sua inútil espingarda,
viram desfilar diante deles num galope endiabrado o atirador mágico, o cavaleiro
de uniforme branco (eles puderam perceber o brilho de uma dragona de general)
e em seguida o grupo de cossacos eriçados de lanças.
— Eles têm um oficial russo prisioneiro! — gritou-lhes o voluntário.
Entretanto, aproximava-se deles o último integrante do grupo miraculoso,
um civil que, aparentemente, não se interessava pela perseguição.
Por trás dos óculos, olhos claros e redondos avaliaram os socorridos com
comiseração.
— São tchetniks? — perguntou o civil, com forte sotaque inglês.
— No, sir — respondeu Fandorin, e acrescentou outra coisa nessa mesma
língua que Varia não compreendeu, porque na escola secundária só estudara
francês e alemão.
Ela puxou impacientemente a manga do voluntário e ele explicou com ar de
um homem apanhado em falta: — Disse que nós não somos tchetniks, mas
russos, e que tentávamos nos reunir aos nossos.
— Quem são os tchetniks?
— Revoltosos búlgaros.
— Oh, mas é uma senhora (a expressão bochechuda do inglês exprimiu o
mais vivo espanto). Contudo, é um disfarce e tanto! Eu não sabia que os russos
usavam mulheres na espionagem. É uma heroína, senhora. Como se chama? Isso
vai interessar muito aos meus leitores.
Tirou um bloco de notas da bolsa de viagem e foi só nesse momento que
Varia notou na sua manga uma braçadeira de três cores que tinha o número 48 e
a palavra "correspondente".
— Sou Varvara Andréevna Suvorova e não pratico nenhum ato de
espionagem. Meu noivo está no estado-maior — disse ela com orgulho. — E
este senhor, meu companheiro de viagem, é Erast Petrovitch Fandorin, um
voluntário sérvio.
Incomodado, o correspondente tirou com um gesto rápido o chapéu alto e
passou a falar em francês: — Imploro que me desculpe, moça. Seamus
McLaughlin, colaborador do jornal Daily Post de Londres.
— É o jornalista inglês que falou dos horrores cometidos pelos turcos na
Bulgária? — perguntou Varia tirando o gorro, ao mesmo tempo em que se
esforçava por arrumar desajeitadamente os cabelos.
— Sou irlandês — corrigiu com severidade McLaughlin. — Não é a mesma
coisa.
— E eles? Quem são eles? — perguntou ela, apontando com um aceno de
cabeça na direção de onde subia uma nuvem de poeira e de onde ressoavam
tiros. — O homem do chapéu, quem é ele?
— É um cowboy fora de série, o senhor Paladin em pessoa, um escritor
notável, favorito dos leitores franceses e o grande trunfo do jornal La Revue
Parisienne.
— La Revue Parisienne?
— Sim, é um diário francês com tiragem de cento e cinquenta mil
exemplares, o que, para a França, é um número bem bom — explicou com
desprezo o correspondente. — O meu Daily Post vende diariamente duzentos e
quarenta mil exemplares, veja a diferença!
Varia abanou a cabeça para ajeitar os cabelos e começou a limpar a poeira do
rosto.
— Senhor, surgiu no momento exato. Foi a providência que os enviou.
O inglês, ou antes, o irlandês, encolheu os ombros: — Foi Michel que nos
trouxe aqui. Ele foi afastado da ação e simplesmente colocado no estado-maior, e
a inação o enlouquece. Esta manhã, os Bachi-Bouzouks fizeram das suas na
retaguarda russa e Michel se lançou pessoalmente em sua perseguição. Quanto a
mim e Paladin, somos como dois cachorros, seguimos por toda parte. Em
primeiro lugar, por sermos velhos amigos, conhecemo-nos desde o Turquestão,
depois porque, onde Michel estiver, encontramos sempre um bom tema para
reportagens... Bem, eis que regressam e, seguramente, como se costuma dizer,
meteram os pés pelas mãos.
— Por que "seguramente"?
O correspondente sorriu condescendentemente, mas foi Fandorin, que até ali
quase não participara da conversa, que respondeu em lugar dele.
— Viu que os Bachi-Bouzouks tinham cavalos frescos, enquanto os dos
perseguidores estavam esgotados.
McLaughlin aprovou:
— Absolutely so!
Varia olhou duramente os dois. Quando se trata de fazer uma mulher passar
por imbecil, eles ficam logo de acordo! No entanto, Fandorin foi imediatamente
perdoado. Tirando do bolso um lenço de uma brancura irrepreensível, passou-o
pelo rosto da jovem que, no calor da ação, esquecera completamente os
arranhões. O correspondente estava errado, contudo, ao anunciar o fracasso dos
perseguidores: Varia ficou feliz ao constatar que eles tinham conseguido
recuperar o oficial prisioneiro. Dois cossacos transportavam pelos pés e pelos
braços um homem desfalecido, de uniforme negro. Contanto que não estivesse
morto...
Desta vez, vinha à frente o belo cavaleiro de branco, a quem o britânico
chamara Michel. Era um jovem general de olhos azuis cheios de alegria que
tinha uma barba bem singular: cuidada, leve e dividida em duas, formando como
que duas asas que partiam para os lados.
— Escaparam, os patifes! — gritou ele de longe, acrescentando uma
expressão sonora cujo significado escapou a Varia.
Tirando o chapéu alto e limpando o crânio calvo e rosado, McLaughlin
ameaçou-o com um dedo.
— There is a lady here.
O general endireitou-se, lançou um olhar a Varia e logo caiu na indiferença,
o que era mais do que compreensível: cabelos sujos, cara arranhada, vestuário
nada adequado. Ele se apresentou, no entanto, antes de lançar um olhar
interrogativo a Fandorin.
— Major-general Sobolev o segundo, da corte de Sua Majestade Imperial.
Mas Varia, vexada por ver a pouca atenção que o general atribuía a sua
pessoa, perguntou-lhe de maneira provocante: — Sobolev o segundo, e quem é
Sobolev o primeiro?
O general mostrou espanto.
— Que pergunta! Meu pai, o tenente general Dimitri Ivanovitch Sobolev,
comandante da divisão de cossacos do Cáucaso. Não me diga que nunca ouviu
falar dele?
— Não, nunca ouvi falar dele nem de você — disse Varia com voz fria. Ela
mentia, porque toda a Rússia conhecia Sobolev o segundo, o herói do
Turquestão, que conquistara Khiva e Makhram. Diziam-se coisas diversas do
general. Uns o consideravam um soldado de excepcional valor, um cavaleiro
sem medo, intocável, vendo nele um futuro Suvorov ou mesmo um Bonaparte;
outros o denunciavam como pedante e ambicioso. Os jornais contavam que
Sobolev conseguira enfrentar sozinho um bando de Tekins e que, ferido sete
vezes, não recuara; atravessando um deserto árido à frente de um destacamento,
desfizera o terrível exército de Abdurrahman Bey. E, no entanto, outros
conhecidos de Varia contavam rumores de natureza completamente diferente,
falando de execução de reféns e de um misterioso desaparecimento do tesouro de
Kokand.
Mas, observando os olhos claros e luminosos do belo general, Varia
compreendeu que os sete ferimentos e o exército de Abdurrahman Bey eram
verdadeiros e a história dos reféns e do dinheiro do khan, apenas invenções
maldosas de gente invejosa.
Tanto mais que Sobolev começava de novo a olhar para Varia, desta vez
mostrando interesse.
— Mas o que os traz a este lugar onde corre sangue, senhora? E ainda por
cima vestida dessa maneira! Confesso que estou intrigado.
Varia se apresentou e contou em poucas palavras suas aventuras. Seu instinto
lhe dizia efetivamente que Sobolev não a trairia e não a reconduziria a Bucareste
sob escolta.
— Seu noivo tem sorte, Varvara Andréevna — disse o general, acariciando
Varia com o olhar. — Uma jovem excepcional. Permita, entretanto, que
apresente meus camaradas. Julgo que já travou conhecimento com o senhor
McLaughlin e aqui tem Serge Verechtchaguin, meu adjunto, irmão do pintor. —
Um adolescente magro e belo com um barrete circassiano inclinou-se com
emoção perante Varia. — De resto, ele também desenha à perfeição. Durante
uma missão de reconhecimento no Danúbio, assinalou com correção admirável
as posições turcas, o que nos foi muito útil. Mas onde está Paladin? Ei, Paladin,
venha cá, vou apresentá-lo a uma bonita mulher.
Varia observou com curiosidade o francês que chegara por último. Era
espantosamente bonito (uma braçadeira na manga trazia a indicação
"Correspondente" e o número 32) em seu tipo, não menos que Sobolev: nariz
fino ligeiramente chato, bigode claro revirado para cima, pequena barba
espanhola arruivada, olhos cinza plenos de inteligência. Mas, no momento, seus
olhos estavam prestes a lançar relâmpagos de cólera.
— Estes bandidos são a vergonha do exército turco — exclamou com paixão
o jornalista francês. — Só sabem degolar civis, mas quando se trata de combater,
desaparecem. Se eu estivesse no lugar de Kerim Paxá, desarmaria todos e os
enforcaria!
Mas McLaughlin interrompeu seu arrebatamento.
— Acalme-se, valente cavaleiro, está aqui uma senhora. Tem sorte, acaba de
ganhar a imagem de herói romântico, então não faça má figura! Repare como ela
se interessa por você!
Varia corou e lançou ao irlandês um olhar furioso mas ele se limitou a rir.
Paladin, em contrapartida, portou-se como um francês: desceu do cavalo e se
inclinou.
— Charles Paladin, senhorita, para servi-la.
— Varvara Suvoròva — respondeu ela muito cortesmente —, muito prazer
em conhecê-los. Obrigada a todos, senhores, por terem chegado tão
oportunamente.
— Mas permita que pergunte seu nome — disse Paladin, lançando um olhar
intrigado a Fandorin.
— Erast Fandorin — respondeu o voluntário, olhando bizarramente não para
o francês mas para Sobolev. — Participei na campanha da Sérvia e estou a
caminho do estado-maior, ao qual devo transmitir uma informação importante.
O general observou Fandorin dos pés à cabeça e quis manifestar
respeitosamente a sua simpatia.
— Aposto que passou por muitas dificuldades, não? O que fazia antes da
Sérvia?
Depois de um pequeno momento de hesitação, Fandorin respondeu.
— Era do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Sou conselheiro titular.
Aquilo era inesperado. Então era um diplomata? Para dizer a verdade, os
novos encontros tinham esmorecido um pouco a impressão intensa (por que não
dizer?) que produzira nela seu pouco loquaz companheiro de estrada, mas agora,
de novo, ela voltou a fitá-lo com admiração. Um diplomata alistado
voluntariamente, admitamos que não é comum. Não, não havia nada de que se
queixar. Todos três, Fandorin, Sobolev e Paladin, eram espantosamente
sedutores, cada um a sua maneira.
— Que informações? — disse Sobolev subitamente encrespado.
Fandorin ficou em silêncio, não mostrando visivelmente nenhuma vontade
de responder à pergunta.
Mas o general falou-lhe em tom enérgico.
— Pare de brincar de grandes segredos da corte de Madri, porque no mínimo
é incorreto em relação às pessoas que acabam de salvar sua vida.
O voluntário baixou apesar de tudo a voz e os correspondentes tentaram
escutar.
— Venho de Vidin, general, e há três dias Osman Paxá pôs-se a caminho
para tomar Plevna com um corpo de exército.
— Quem é esse Osman e o que é isso de Plevna?
— Osman Nuri Paxá é o melhor senhor da guerra do exército turco. Foi ele
que venceu os sérvios. Precisamente há quarenta e cinco anos, e é bom não
esquecer que ele já é michur, isto é marechal de campo, e seus homens não têm
nada a ver com os que protegiam o Danúbio. Quanto a Plevna, é uma pequena
cidade a trinta verstas daqui, na direção oeste. É preciso chegar lá antes de
Osman e ocupar esse ponto estratégico que protege o acesso a Sofia.
Sobolev deu tal palmada na própria perna que o cavalo pulou para o lado.
— Ah, se eu tivesse ao menos um destacamento! Infelizmente, Fandorin, já
não estou no serviço. É necessário mesmo que se dirija ao comandante-em-
chefe. De minha parte, devo acabar minha missão de reconhecimento, mas vou
lhe dar uma escolta até Tsarevitsy. Esta noite, terei o prazer de recebê-los,
Varvara Andréevna. Na barraca dos correspondentes de guerra, ninguém se
aborrece!
— Com muito prazer — disse Varvara, olhando amedrontadamente o jovem
oficial prisioneiro que jazia no chão.
Dois cossacos se ocupavam do ferido, acocorados a seu lado.
— Está morto? — perguntou ela em voz baixa.
— Pelo contrário, não podia estar mais vivo — respondeu o general. — Teve
sorte, a criatura, agora vai viver cem anos. Quando chegamos perto dos Bachi-
Bouzouks, eles atiraram na cabeça dele, antes de fugirem. Mas uma bala, como
todos sabem, não é inteligente. Partiu de viés e só lhe arrancou um pouco de
pele. Então, rapazes, já acabaram o curativo do capitão? — perguntou aos
cossacos com voz forte.
Os dois cossacos ajudaram o oficial a se levantar. Ele quase desfaleceu, mas
conseguiu manter o equilíbrio e afastou com determinação os dois homens que
tentavam ampará-lo. A seguir, deu alguns passos inseguros. A cada instante as
pernas pareciam ceder mas, com mão na costura da calça, declarou em voz
rouca: — Eremei Perepelkin, do estado-maior general, Excelência. Vinha de
Zimnitsa e voltava para meu local de serviço, no estado-maior do destacamento
ocidental, onde acabei de ser nomeado para o departamento de operações do
tenente general Krudener. No caminho, fui atacado por um destacamento da
cavalaria irregular do inimigo e feito prisioneiro. Sou culpado... Não achei que
isso fosse possível em nossa retaguarda... Nem sequer tinha uma pistola, apenas
minha espada.
Desta vez, Varia pôde examinar o oficial mártir mais de perto. Era de
estatura mediana, corpulento, cabelos castanhos desgrenhados, boca estreita
quase sem lábios e olhos castanhos marcados por expressão severa. Um só olho,
para dizer a verdade, porque o segundo ainda não se via. Em contrapartida,
deixaram de transparecer em seu olhar a angústia mortal e o desespero.
— Está vivo e isso é bom — disse Sobolev amenamente. — Quanto à
pistola, um oficial deve ter sempre uma com ele, mesmo um oficial do estado-
maior. Andar sem pistola é como uma senhora indo à rua sem chapéu; toma-se
por prostituta.
Ele riu ligeiramente, mas foi interrompido pelo olhar furioso de Varia.
— Desculpe, moça.
Nesse momento, um fogoso cavaleiro aproximou-se do general, e apontou
algo com o dedo.
— Excelência, parece Semenov!
Varia virou a cabeça e ficou nauseada. O cavalo baio dos bandidos que ela
cavalgara tão mal acabava de reaparecer e pastava como se nada tivesse
acontecido, enquanto a horrível coisa continuava a balançar no seu flanco.
Sobolev desmontou, aproximou-se do cavalo e observando-o como
especialista, virou e revirou a horrível bola.
— Acha realmente que é Semenov? — disse ele pouco convencido.
— Está enganado, Netchitailo, Semenov não tinha uma cabeça assim.
— Por que diz isso, Mikhail Dmitrievitch? — respondeu o cabo cossaco
inflamado. — Veja a orelha rasgada e repare... — ele entreabriu os lábios
violetas do morto. — Falta-lhe um dente da frente. Com certeza é Semenov.
— Talvez — aprovou o general com um ar pensativo. — Em que estado o
deixaram! — Depois, virando-se para Varvara, acrescentou. — É um dos
cossacos do segundo esquadrão, sequestrado esta manhã pelos homens de Daoud
Bey.
Mas Varia já não o ouvia. A terra e o céu tinham dado uma reviravolta,
ocupando agora o lugar uma do outro. Paladin e Fandorin tiveram somente
tempo de amparar a jovem que, de súbito, perdeu as forças.

________________
1 Em português: Outro jogo, outro jogo... (NT)
2 "Os caprichos da sorte". Em francês no original. (NT)
capítulo
3
Quase inteiramente consagrado a astúcia oriental

La Revue Parisienne
15 (3) de julho de 1877

A águia de duas cabeças, brasão da Rússia, reflete de maneira perfeita


o sistema de governo deste país, onde o mínimo assunto, por menos
importante que seja, é confiado não só a uma, mas pelo menos a duas
instâncias que se digladiam mutuamente sem assumirem, nem uma nem
outra, a mínima responsabilidade. Passa-se o mesmo com o exército. Por
lei, é o grande príncipe Nicolai Nicolaevitch, atualmente acantonado na
vila de Tsarevitsy, o comandante-em-chefe e, contudo, a pouca distância de
seu estado-maior, na bela cidadezinha de Bella, encontra-se o quartel-
general do Imperador Alexandre II, que tem a seu lado o grande chanceler,
o ministro da Guerra, o chefe da Segurança1 e todos os altos dignitários.
Se acrescentarmos a isso o fato de o exército romeno aliado da Rússia ter o
seu próprio comandante na pessoa do príncipe Karl Hohenzollern-
Singmaringen, nem é mesmo o próprio rei do pássaro de duas cabeças que
evocamos, mas um conto popular russo bem conhecido, que fala de um
cisne, de um caranguejo e de um lúcio desgraçadamente atrelados a uma
mesma carruagem...

— Então, para acabar, devo chamá-la de "senhora" ou "senhorita"? —


perguntou o tenente-coronel da polícia, negro como um escaravelho,
acompanhando seu discurso com uma careta desagradável. — Não estamos num
salão de baile e eu não a estou cortejando! Estamos no estado-maior do exército
e conduzo um interrogatório, portanto faça o favor de não bancar a fina.
O tenente-coronel, que se chamava Ivan Kharitonovitch Kazanzakis, não
fazia o mínimo esforço para tentar compreender a situação de Varia e tudo
levava a crer que a coisa terminaria em repatriamento forçado para a Rússia.
Na véspera, tinham chegado a Tsarevitsy já de noite. Fandorin apresentara-se
imediatamente ao estado-maior, ao passo que Varia, completamente extenuada,
se ocupara do essencial. As baronesas Vreskoi, enfermeiras do destacamento
sanitário, tinham-lhe arranjado roupas, aqueceram água e a jovem começara por
fazer sua toilette antes de se deixar cair numa cama do hospital, aproveitando o
fato de estarem praticamente desocupadas. O encontro com Petia fora adiado
para o dia seguinte, uma vez que ela tinha uma evidente necessidade de estar em
plena forma para enfrentar a importante explicação que tinha a dar.
De manhã, não a deixaram dormir. Dois policiais de capacete e carabinas ao
ombro tinham vindo buscar a "jovem que dizia se chamar Suvorova" para levá-la
imediatamente à seção especial do destacamento ocidental, sem lhe darem tempo
sequer de se pentear.
Por várias horas já ela tentava explicar a seu carrasco, um homem de cara
lisa, sobrancelhas espessas e uniforme azul, as relações com o codificador Petia
Iablokov.
— Senhor, chame então Petia Afanassievitch, ele confirmará tudo — repetia
ela vezes sem fim ao tenente-coronel que respondia invariavelmente: — Cada
coisa a seu tempo.
O policial estava particularmente interessado nos detalhes de seu encontro
com "a pessoa que afirmava ser o conselheiro titular Fandorin". Ele anotou
cuidadosamente tudo o que ela dizia de Youssouf Paxá de Vidin, do café e da
língua francesa e do jogo de dados. Mas se interessou especialmente quando
soube que o voluntário falara em turco com os Bachi-Bouzouks e queria a todo o
custo saber de que maneira se exprimira, se de modo fluente ou não. A
elucidação deste estúpido detalhe demorou pelo menos uma boa meia hora.
Mas, no momento em que Varia estava à beira de uma crise histérica sem
lágrimas, a porta do casebre de terra batida onde se localizava a seção especial
abriu-se bruscamente para deixar entrar, ou melhor, irromper, um general muito
digno, olhos autoritariamente fora das órbitas e bigode avantajado.
— General Mizinov, ajudante de campo — declarou ele em voz forte logo
que assomou à porta. E dirigindo-se ao tenente-coronel: — Kazanzakis,
presumo?
Apanhado de surpresa, o tenente-coronel empertigou-se, colocando-se em
sentido impecável, conseguindo somente balbuciar algo impreciso. Varia fitou
intensamente Lavrenty Arkadievitch Mizinov, chefe da Terceira Seção, a da
Segurança, responsável pelo corpo de policiais, no qual a jovem via o déspota
oriental e carrasco da liberdade.
— Isso mesmo, Excelência — acabou por articular o ofensor de Varia, em
voz rouca. — Tenente-coronel Kazanzakis do corpo de polícia. Anteriormente,
servi sob Kichinev, no momento atual estou destacado junto à direção do
departamento especial do estado-maior ocidental. Procedo ao interrogatório de
uma prisioneira.
— Quem é ela? — perguntou o general, levantando um sobrolho e lançando
a Varia um olhar desprovido de qualquer tolerância.
— Varvara Suvorova. Diz que veio para cá a título pessoal, reencontrar um
certo Iablokov, soldado da decodificação, que seria seu noivo.
Mizinov mostrou certo interesse.
— Suvorova? Seremos parentes? Meu bisavô do lado materno chamava-se
Alexandre Vassilievitch Suvorov-Rymniksky.
— Espero que não — cortou Varvara em voz seca.
O oficial deu uma risada cheia de compreensão, não mais prestando atenção
alguma à jovem prisioneira.
— Pare de me incomodar com ninharias, Kazanzakis. Onde está Fandorin? O
relatório indica que ele está com você.
— Com efeito, coloquei-o sob guarda — declarou orgulhoso o tenente-
coronel, e baixando a voz, acrescentou: — Tenho boas razões para achar que
estamos na presença do próprio Anvar Effendi, nosso visitante tão esperado.
Todos os detalhes encaixam, Excelência. No que diz respeito a Osman Paxá e
Plevna, trata-se evidentemente de contrainformação. Mas como ele preparou
bem o assunto...
— Cretino — rugiu Mizinov com tal violência que se viu a cabeça do
tenente-coronel desaparecer entre os ombros. — Traga-o imediatamente a minha
presença!
Kazanzakis precipitou-se para fora, enquanto Varia pressionava as costas da
cadeira, mas o general a esquecera, bufando e tamborilando nervosamente na
mesa, até o tenente-coronel voltar com Fandorin.
O voluntário tinha ar extenuado e seus olhos, com olheiras profundas,
indicavam claramente que não o tinham deixado dormir.
— B-b-bom-dia, Lavrenty Arkadievitch — disse ele brandamente, fazendo
igualmente uma pequena saudação em direção a Varia.
— Meu Deus, Fandorin, é você mesmo? — disse o oficial, dando um
pequeno grito. — É até difícil reconhecê-lo! Envelheceu dez anos! Sente-se,
meu amigo, estou contente em revê-lo!
Depois de instalar Erast Petrovitch, ele também se sentou, de costas para
Varia. Quanto a Kazanzakis, ficou empertigado na soleira da porta.
— Como está? — perguntou Mizinov. — Gostaria de lhe apresentar minhas
profundas...
Fandorin cortou-lhe a palavra delicadamente, mas com firmeza.
— Deixemos isso — disse ele —, estou p-p-perfeitamente bem. Diga-me
antes se este senhor (apontou o tenente-coronel com um movimento de cabeça
que traduzia desprezo) transmitiu as informações sobre Plevna... Cada hora
conta.
— Sim, sim e tenho uma ordem do comandante-em-chefe, mas queria
simplesmente ter certeza de que era realmente você. Tome, escute.
Ele retirou um papel do bolso, muniu-se de um monóculo e leu: — "Para o
barão Krudener, tenente general, comandante do destacamento ocidental. É dada
a ordem de tomar Plevna e de ali se entrincheirar, mantendo sob seu comando
pelo menos uma divisão. Nicolai."
Fandorin fez um aceno de cabeça aprovando.
— Tenente-coronel, codificar imediatamente e enviar a Krudener por
telégrafo — ordenou Mizinov.
Kazanzakis recebeu respeitosamente o papel e correu para executar a ordem,
fazendo soar as esporas.
— Nesse caso, pode retomar o serviço? — perguntou o general.
Erast Petrovitch fez uma careta.
— Lavrenty Arkadievitch, creio que fiz o meu d-d-dever, informando as
manobras que Osman Paxá realiza em nosso flanco. Quanto a entrar em guerra
contra a pobre Turquia, que não precisava de nossos valorosos esforços para
afundar por si mesma, tenha a amabilidade de me dispensar.
— Não, meu caro amigo. Fora de questão. Não o dispenso! — declarou
Mizinov com humor. — Se a palavra patriotismo nada significa para você, eu me
permito lembrar, senhor conselheiro titular, que não está aposentado, tem
simplesmente uma dispensa ilimitada. Por outro lado, embora ligado ao corpo
diplomático, não deixa de fazer parte da Terceira Seção, que foi colocada sob
minhas ordens!
Varia não conseguiu se conter e soltou um pequeno grito. Fandorin, que ela
tomava por um homem respeitável, era um agente da polícia! O que não o
impedia, no entanto, de representar o papel de herói romântico: palidez sedutora,
olhares langorosos, têmporas nobremente grisalhas. Como acreditar nas pessoas,
depois disso!
— Excelência — disse Erast Petrovitch em voz baixa, sem suspeitar que
acabava de se perder para sempre aos olhos de Varia —, não é a você que eu
sirvo, é à Rússia. E me recuso a participar de uma guerra que não só não faz
nenhum sentido para meu país, mas que também lhe é nefasta.
— No que diz respeito à guerra, não nos compete decidir, nem a você nem a
mim. Compete ao Imperador — declarou Mizinov em voz cortante.
Houve uma pausa penosa. Quando o chefe da Segurança retomou a palavra,
seu tom de voz era completamente diferente — Erast Petrovitch, meu amigo —
disse ele em tom penetrante. — Bem sabe que centenas de milhares de russos
arriscam a vida, o país se curva sob o peso de uma guerra... Por meu lado, tenho
um mau pressentimento. Tudo está andando com muita facilidade e tenho medo
de que as coisas acabem mal.
Vendo que não obtinha resposta, o general esfregou os olhos com um gesto
cansado e continuou em tom de confidência.
— Minha tarefa é difícil, Fandorin, muito difícil. A confusão se instalou em
toda parte, as coisas acontecem sem o mínimo bom senso. Sinto falta de
colaboradores, sobretudo de qualidade. Sabe bem que eu não quero impor a você
um trabalho de rotina, mas tenho um problema particularmente delicado e para o
qual é a pessoa indicada.
Desta vez, Erast Petrovitch mexeu a cabeça num movimento de interrogação,
e o general continuou.
— Lembra-se de Anvar Effendi? O secretário do sultão Abdul-Hamid? Você
sabe, aquele do caso Azazel?
Erast Petrovitch teve um tremor pouco perceptível mas ficou em silêncio.
Mizinov deu uma risada.
— Quando eu penso que esse idiota do Kazanzakis confundiu você com ele,
imagine! Temos informações que indicam que essa interessante personagem
dirige pessoalmente uma operação secreta contra nosso exército. É um homem
de grande temeridade, de ânimo exaltado, que não recua perante nada. Ele é bem
capaz de aparecer pessoalmente em nossas linhas. Então, isso o interessa?
— Estou escutando, Lavrenty Arkadievitch — disse Fandorin, dirigindo um
olhar de soslaio a Varia.
— Perfeito — disse Mizinov, satisfeito, e gritou: — Novodvortsev, o dossiê!
Um comandante de certa idade com cordões de ajudante de campo entrou em
passo comedido, entregou ao general uma pasta vermelha e retirou-se
imediatamente. Pela porta, Varia viu a cara suada do tenente-coronel Kazanzakis
e fez-lhe uma careta ao mesmo tempo irônica e de desprezo: bem feito, seu
sádico, seu destino é ficar aí fora mofando!
— Nesse caso, eis o que temos de Anvar — disse o general, fazendo estalar
as páginas. — Não quer tomar nota?
— Sou perfeitamente capaz de decorar — respondeu Erast Petrovitch.
— Pouco sabemos do primeiro período de sua vida. Ele nasceu há cerca de
trinta e cinco anos, julga-se que é originário de Hevrais, pequena cidade
muçulmana da Bósnia. Não sabemos nada dos pais dele. Foi educado na Europa,
numa das prestigiadas escolas de Lady Esther, das quais decerto se lembra por
conta de Azazel.
Era a segunda vez que Varia ouvia este estranho nome e, como da primeira
vez, Fandorin teve uma reação bizarra: levantou o queixo como se bruscamente
o colarinho da camisa tivesse ficado apertado demais.
— Anvar Effendi apareceu há uma dezena de anos, quando a Europa
começou a se interessar pelo grande reformador turco Midhat Paxá. Nosso
Anvar, que então ainda não era Effendi, era seu secretário. Veja, eis as folhas de
serviço de Midhat. — Mizinov retirou um documento da pasta e limpou a
garganta. — Na época, ele era governador-geral do eixo do Danúbio e foi sob
sua autoridade que Anvar organizou na região um serviço de diligências,
construiu uma ferrovia mas, igualmente, montou toda uma rede de "islahans",
estabelecimentos escolares destinados a órfãos, tanto muçulmanos quanto
cristãos.
— Ah, é? — disse Fandorin interessado.
— É, sim... Foi uma bela iniciativa, não foi? De maneira geral, Midhat Paxá
e Anvar desenvolveram na região uma tal atividade que se chegou seriamente a
recear ver a Bulgária sair da área de influência russa e Nikolai Pavlovitch
Gnatiev, nosso embaixador em Constantinopla, teve que usar toda a sua
influência junto ao sultão Abdul-Aziz para refrear o zeloso governador. Depois
disso, quando se tornou presidente do conselho de estado, Midhat fez aprovar
uma lei sobre o ensino obrigatório, uma lei excelente que, aqui para nós, ainda
não temos na Rússia. E adivinha quem elaborou esta lei? É verdade, foi Anvar
Effendi. Tudo isso seria muito comovente se, além do trabalho com a educação,
nosso homem não tivesse, desde essa época, tomado parte na maioria das
intrigas da corte, conhecendo o grande número de inimigos que seu protetor
tinha. Tentaram enviar assassinos para matar Midhat, jogar veneno em seu café,
um dia colocaram bem em seu leito uma cortesã com lepra, e fazia parte das
atribuições de Anvar a proteção do grande homem contra todas essas deliciosas
farsas. Desta vez, a influência russa na corte do sultão revelou-se mais forte e,
em 1869, o paxá foi exilado para o mais longe possível, como governador geral
da selvagem e miserável Mesopotâmia. Quando Midhat Paxá tomou a iniciativa
de empreender suas reformas lá também, explodiu uma revolta em Bagdá. Sabe
o que ele fez? Reunindo os notáveis da cidade e os representantes do clero,
proferiu breve discurso, cujo conteúdo foi este — repito palavra por palavra,
porque admiro sinceramente sua energia e seu estilo: "Veneráveis Mulahs,
senhores notáveis! Se dentro de duas horas as desordens não tiverem terminado,
darei ordem para enforcarem todos e incendiarei os quatro pontos cardeais da
bela cidade de Bagdá. Tanto pior se no seguimento disso o grande padischah,
que Alá o tenha em alta proteção, me enforcar também, para me punir deste
malefício." É evidente que, duas horas mais tarde, a calma reinava na cidade. —
Mizinov deu uma risada e sacudiu a cabeça. — Depois disso, pôde iniciar as
reformas. Em menos de três anos, duração da presença de Midhat em Bagdá, seu
fiel colaborador Anvar Effendi conseguiu instalar o telégrafo, pôr em
funcionamento um serviço de transporte, fazer navegar barcos no Eufrates, criar
o primeiro jornal iraquiano e recrutar alunos para uma escola de comércio. O que
diz disso? E já nem falo de assuntos menos importantes, como a criação da
companhia de navegação por ações "Osmano-Osmanienne", cujos escritórios
chegam até Londres, passando pelo Canal de Suez. Para acabar, e graças a uma
intriga extremamente sutil, Anvar conseguiu derrubar o grão-vizir Mahmud
Nedim, que dependia a tal ponto do embaixador da Rússia que os turcos o
tinham apelidado de "Nedimov". Midhat dirigiu então o governo do sultão, mas
só conseguiu se manter no posto durante dois meses e meio, tendo nosso Gnatiev
se revelado de novo o mais forte. O maior vício de Midhat, absolutamente
imperdoável aos olhos de todos os outros paxás, é seu caráter incorruptível. Foi
assim que iniciou uma luta contra o suborno, tendo pronunciado perante
diplomatas europeus uma frase que lhe foi fatal: "É hora de mostrar à Europa
que os turcos não são prostitutas miseráveis!" A palavra "prostitutas" valeu-lhe a
expulsão de Constantinopla, acabando como governador em Salônica. A
pequena cidade grega conheceu então uma nova prosperidade, enquanto a corte
do sultão afundava de novo no sono, na volúpia e na dilapidação dos bens do
estado.
Erast Petrovitch cortou brutalmente a palavra do general.
— Vejo que está a-a-apaixonado por esse homem — disse ele.
— Por Midhat? Sem sombra de dúvida. — O general encolheu os ombros.
— E o veria com alegria na cabeça do governo russo. Infelizmente, ele não é
russo, mas turco. E mais, um turco próximo da Grã-Bretanha. Nossos objetivos
são diametralmente opostos, é por isso que Midhat é um inimigo. E um inimigo
particularmente perigoso. A Europa nos teme e não gosta de nós; em
contrapartida, ela tem Midhat em grande estima, sobretudo desde que ele deu
uma constituição a seu país. No momento, Erast Petrovitch, peço sua paciência.
Vou ler uma longa carta que recebi há um ano de Nikolai Pavlovitch Gnatiev. Ela
dará uma excelente ideia do adversário com que vamos ter que lutar.
O chefe da Segurança retirou da pasta um conjunto de papéis cobertos por
uma pequena letra metódica de contador e iniciou a leitura.

"Meu caro Lavrenty, na nossa Istambul protegida por Alá, os


acontecimentos se sucedem com uma tal rapidez que eu próprio não
chego a acompanhá-los e, no entanto, sem falsa modéstia, há
bastantes anos que o teu fiel servidor mede o pulso do Grande Doente
da Europa. Com o meu contributo, este pulso estava progressivamente
a enfraquecer e prometia parar em breve, mas eis que desde o mês de
Maio..." Trata-se do ano anterior, de 1876, fez questão de precisar
Mizinov. "Mas, eis que desde o mês de Maio, este pulso recomeçou de
tal forma a bater que nos perguntamos se o Bósforo não vai
ultrapassar as suas margens e se os muros da cidade imperial não se
vão desmoronar, impedindo-te dependurar o teu escudo em qualquer
parte que seja.
Tudo se resume ao fato de, em maio, a capital do grande e
incomparável sultão Abdul-Aziz, Sombra do Muito Alto e protetor da
fé, ter assistido ao regresso triunfal do exílio de Midhat Paxá,
acompanhado de sua eminência parda, o muito astuto Anvar Effendi.
Desta vez, o sábio Anvar, que adquiriu experiência, começou a
agir com segurança, simultaneamente à europeia e à oriental.
Primeiro, atacou à europeia: seus agentes se espalharam pelos
estaleiros navais, pelo arsenal, pela Casa da Moeda, e os operários,
que não eram pagos há muito tempo, saíram em massa para as ruas.
Depois disso, ele recorreu a um truque tipicamente oriental. Em 25 de
maio, Midhat Paxá declarou aos crentes que fora visitado à noite pelo
profeta (quem pode confirmar!) que confiou a seu escravo a tarefa de
salvar a Turquia em perigo.
Durante esse tempo, o meu bom amigo Abdul Aziz passava o
tempo como de costume, no seu harém, na agradável companhia da
mulher preferida, a deliciosa Mihri Hanim, que estando prestes a dar
a luz, manifestava caprichos atrás de caprichos e exigia a presença
constante de seu senhor. Esta bela circassiana de cabelos dourados e
olhos azuis, além da beleza excepcional, também esvaziou
inteiramente o cofre do sultão. Só no ano anterior, ela esbanjara nas
lojas francesas de Pera mais de dez milhões de rublos, e compreende-
se perfeitamente que, como diriam os ingleses inclinados à hipocrisia,
os habitantes de Constantinopla tenham por ela pouco ou nenhum
afeto.
Acredite em mim, Lavrenty, senti-me impotente para fazer o que
quer que fosse. Tentei suplicar, ameaçar, intrigar como um eunuco
num harém, mas Abdul-Aziz manteve-se surdo e mudo. Em 29 de maio,
uma multidão enraivecida de vários milhares de pessoas juntou-se em
redor do palácio de Dolmabahçe (uma construção horrível, como
todas de estilo europeu e oriental), mas o padischah nem sequer
tentou acalmar os súbditos. Fechou-se na ala da residência reservada
às mulheres e a qual eu não tenho acesso e passou o tempo ouvindo
Mihri Hanim tocando valsas vienenses ao piano.
Durante esse tempo, Anvar assediou o ministro da guerra, agindo
de modo a conduzir esse homem prudente e circunspecto a uma
mudança de orientação política. Segundo as informações que de meu
agente, colocado junto ao paxá na qualidade de cozinheiro (daí o
caráter um tanto ou quanto particular destas informações), as
negociações decisivas decorreram da seguinte maneira. Anvar
apareceu na casa do ministro exatamente ao meio-dia e foi dada a
ordem de servir chá com tchureks. Um quarto de hora mais tarde, um
grito escandalizado de Sua Excelência fez-se ouvir no seu gabinete.
Depois disso, o paxá ficou uma meia hora sozinho, andando para
cima e para baixo no escritório, dando cabo de dois pratos de halva,
de que ele era grande apreciador. Depois, desejou interrogar
pessoalmente o traidor e dirigiu-se a casa da guarda. Às duas e trinta,
pediu para trazerem frutos e doces. Às quatro horas menos um quarto,
conhaque e champanhe. Um pouco depois das quatro horas, tendo
tomado o café, o paxá e o seu hóspede dirigiram-se a casa de Midhat.
Conta-se que, como recompensa da sua participação no conluio, o
ministro teve a promessa, da parte dos seus protetores, do cargo de
grão-vizir e de um milhão de libras esterlinas.
Ao fim da tarde, os dois conspiradores de primeira linha tinham
conseguido um acordo perfeito e, durante essa mesma noite, deu-se o
golpe de estado. A armada bloqueou o palácio pelo lado do mar, o
chefe da guarnição da capital substituiu a guarda por homens de sua
confiança e o sultão foi conduzido ao palácio Ferije, na companhia da
mãe e de Mihri Hanim.
Quatro dias mais tarde, o sultão tomou a iniciativa de acertar a
barba com uma tesoura de manicure, mas tão desajeitadamente que
abriu as veias dos pulsos e morreu rapidamente. Convidados para
verificar o óbito, os médicos das embaixadas europeias concluíram
unanimemente por suicídio, não mostrando o corpo nenhuns vestígio
de pancada ou violência.
Numa palavra, tudo conduzido de forma limpa e elegante, como
num bom jogo de xadrez. Esse é o estilo de Anvar Effendi.
Mas isso foi apenas a abertura, em seguida houve o
desenvolvimento do jogo.
Tendo feito seu papel, o ministro da guerra tornara-se
presentemente um obstáculo sério porque, completamente
desinteressado pelas reformas e pela ideia de uma constituição,
preocupava-se sobretudo em saber quando e como receberia seu
milhão. Além disso, comportava-se no momento como se fosse
personagem principal do governo, não parando de repetir que
destronara Abdul-Aziz e não Midhat Paxá.
Anvar Effendi encarregava-se, por seu lado, de dar crédito a esta
mesma versão junto de um valoroso jovem oficial, ajudante de campo
do defunto sultão. Este oficial chamava-se Hassan Bey. Ele era o
irmão da bela Mihri Hanim e mantinha a maior popularidade junto
das deliciosas damas da corte, uma vez que possuía um físico bastante
agradável, tinha uma reputação de bravura e representava na
perfeição as romanças italianas. Todos lhe chamavam simplesmente o
Circassiano.
Alguns dias depois de o sultão ter tão desajeitadamente acertado a
barba, a sua inconsolável viúva deu a luz uma criança morta e ela
própria morreu em horrível sofrimento. Foi precisamente nesse
momento que Anvar e o Circassiano se tornaram tão íntimos. Foi
assim que, um dia, Hassan Bey veio visitar o amigo a sua residência.
Constatou que Anvar não estava lá; em contrapartida, todos os
ministros estavam reunidos com Midhat Paxá. No palácio, todos
conheciam o Circassiano e recebiam-no como um familiar. Ele tomou
café com os oficiais de dia, fumou um pouco, falando disso e daquilo.
Depois, como quem não quer a coisa, deu uns passos no corredor e
bruscamente precipitou-se na sala de reunião. Ele não tocou nem em
Midhat nem nos seus notáveis, em contrapartida, disparou duas balas
de revólver no peito do ministro da guerra, dando-lhe o golpe de
misericórdia com um iatagã2. Os ministros mais razoáveis fugiram
mas dois deles quiseram fazer de heróis. E fizeram muito mal, porque
o Circassiano matou um e feriu gravemente o segundo. O valoroso
Midhat Paxá tentou intervir, acompanhado por dois dos seus oficiais
às ordens. Hassan Bey disparou a queima-roupa sobre os dois
homens, sempre sem tocar no Paxá. Acabaram por vencer a
resistência do assassino, mas ele ainda teve tempo para matar um
oficial de Polícia e ferir outros sete soldados. Durante tudo isto, o
nosso Anvar estava devotamente na mesquita e são muitos os que o
podem testemunhar.
Hassan Bey passou a noite aferrolhado a cantar em voz alta árias
da Lúcia di Lammermoor, com tal categoria que, seduzido pelo seu
talento, Anvar Effendi tentou mesmo obter o seu perdão, mas os
ministros, furiosos, foram intratáveis e, de madrugada, o assassino foi
enforcado numa árvore. As mulheres do harém, que amavam tão
ternamente o seu Circassiano, vieram assistir à sua execução e
derramaram muitas lágrimas, atirando-lhe beijos de longe.
A partir desse momento, Midhat Paxá não tinha mais obstáculos
no seu caminho, se não fosse o destino ter-lhe pregado uma partida
com a qual ele não contava. O grande estratega fez efetivamente uma
má jogada, ao escolher para sua marioneta o novo sultão Mourad.
Desde a manhã de 31 de maio, logo após o golpe de estado,
Midhat Paxá tinha-se de fato dirigido ao príncipe Mourad, sobrinho
do falecido sultão, provocando neste um medo intenso. Aqui, vejo-me
obrigado afazer um breve desvio para explicar a triste situação do
herdeiro do trono, no Império Otomano.
O problema é que, se bem que tivesse quinze mulheres, o profeta
Maomé não tinha filhos e não deixou nenhuma instrução em matéria
de sucessão ao trono. É por isso que, durante séculos, cada uma das
mui numerosas sultanas sonhou fazer subir ao trono o seu filho,
trabalhando de todas as maneiras para fazer desaparecer os filhos das
suas rivais. Há mesmo na corte um cemitério especial para os
príncipes mortos assim sem outro motivo, o que faz com que, segundo
os critérios turcos, nós, os russos, sejamos simplesmente ridículos com
os nossos Boris e Gleb e com o nosso tsarevitch Dimitri.
No Império Otomano, o trono transmite-se não de pai para filho,
mas do irmão mais velho para o irmão mais novo. Quando uma
linhagem de irmãos está esgotada, é a vez da nova geração, sempre
com a passagem do mais velho para o mais novo. Todos os sultões têm
um medo atroz do seu irmão mais novo, ou do mais velho dos seus
sobrinhos, e as probabilidades de cada um dos príncipes viver até
aceder ao trono são mínimas. O príncipe herdeiro é mantido no mais
total isolamento, ninguém o pode visitar e tenta-se mesmo,
perfidamente, escolher-lhe concubinas estéreis. Segundo uma velha
tradição, os servidores do futuro padischah têm a língua cortada e os
tímpanos perfurados. Podes imaginar, com uma tal educação, o estado
da sua saúde mental. Soliman II, por exemplo, passou trinta e nove
anos recluso, a recopiar e a ilustrar o Corão. E quando, finalmente, se
tornou sultão, não levou muito tempo a pedir para voltar a solidão e
para abdicar. Eu compreendo-o completamente, como é bem mais
agradável passar o tempo a colorir imagens!
Voltemos, porém, a Mourad. Era um belo homem que estava longe
de ser estúpido e que possuía mesmo uma grande cultura, mas
infelizmente era muito influenciável e, por outro lado, sujeito a uma
bem compreensível mania da perseguição. Foi com alegria que ele
confiou ao sábio Midhat as rédeas do poder, o que fazia com que os
planos dos conjurados se realizassem na perfeição. Infelizmente, a
rápida ascensão depois da singular morte do seu tio exerceram sobre
ele uma tal influência que começou a perder a cabeça e a ter acessos
de violência. Consultados secretamente, os psiquiatras europeus
chegaram à conclusão de que sua doença era incurável e seu estado
só podia piorar.
Observa o extraordinário espírito de precaução de Anvar Effendi.
No próprio dia da ascensão de Mourad, quando tinha ainda um
aspecto radioso, our mutual friend pediu subitamente para se tornar
secretário do príncipe Abdul-Hamid, irmão do sultão e herdeiro do
trono. Sendo informado do assunto, compreendi imediatamente que
Midhat Paxá não tinha uma confiança total em Mourad V. Anvar
aprendeu a conhecer o novo herdeiro do trono, julgou-o sem dúvida
aceitável e Midhat Paxá fez a Abdul-Hamid a seguinte proposta:
promete que nos promulgas uma constituição e serás padischah.
Escusado dizer que o príncipe aceitou.
Sabe o que se passou a seguir. Em 31 de agosto, Abdul-Hamid II
subiu ao trono em vez de Mourad V, que enlouquecera. Midhat tornou-
se grão-vizir. Quanto a Anvar, ele ficou junto do novo sultão, nos
bastidores e tornou-se o chefe não declarado da polícia secreta e,
portanto (ha! ha!), seu distinto colega, Lavrenty!
É interessante reparar que na Turquia quase ninguém conhece
Anvar Effendi. Ele nunca se mostra e não é visto na sociedade. Eu, por
exemplo, só o vi uma vez, no dia em que me vim apresentar ao novo
sultão. Anvar mantinha-se ao lado do trono, na sombra, tinha uma
grande barba negra (falsa, na minha opinião) e óculos escuros, o que
constituía uma leviandade perante a etiqueta da corte. Durante a
audiência, Abdul-Hamid várias vezes se voltou para ele, como para
obter um apoio ou um conselho.
Eis aquele com quem presentemente vais ter de te defrontar. Se a
minha intuição não se engana, Midhat Paxá e Anvar vão continuar a
manipular o sultão a seu bel-prazer e dentro de um ano ou dois..."

Mizinov interrompeu a leitura que já durara muito.


— O que se segue não é interessante — disse ele limpando a testa coberta de
suor —, tanto mais que o mui inteligente Nicolai Pavlovitch foi mesmo assim
enganado por sua intuição. Midhat Paxá não conseguiu permanecer no trono e
acabou partindo para o exílio.
Erast Petrovitch, que escutara com a maior atenção e sem mexer um dedo (ao
contrário de Varia que não parara de se retorcer na cadeira dura demais),
perguntou de imediato: — Conheço agora a abertura e vejo também o
desenvolvimento da partida, mas como será o fim do jogo?
O general fez um aceno de cabeça, em sinal de aprovação.
— Aí é que está o busílis. O último ato revelou-se de tal maneira complexo
que mesmo um homem tão experimentado como Gnatiev foi apanhado
desprevenido. Em 7 de fevereiro deste ano, Midhat Paxá foi convocado pelo
sultão, colocado sob guarda e conduzido a bordo de um cargueiro que obrigou o
ministro em desgraça a efetuar longa viagem pela Europa. Quanto ao nosso
Anvar, traindo o benfeitor, tornou-se eminência parda já não do chefe do
governo, mas do próprio sultão. Nessa posição, fez o que pôde para que as
relações com a Rússia fossem rompidas. E eis que pouco tempo depois, no
momento em que a existência da Turquia esteve seriamente ameaçada, segundo
os relatórios dos nossos agentes, Anvar Effendi teria abandonado o país para se
dirigir ao teatro das operações militares, com a intenção de mudar o curso dos
acontecimentos com operações secretas, das quais só podemos imaginar o
conteúdo.
Nesse momento, Fandorin assumiu estranha atitude.
— Primo: nenhuma obrigação. Secundo: liberdade total de ação. Tertio:
reportar unicamente ao general.
Se Varia não compreendeu o significado das palavras, o general ficou
radiante e respondeu de imediato: — Então aqui está o Fandorin de antigamente.
Senão, meu amigo, estaria mudado. Não me queira mal, falo não na qualidade de
superior, mas na qualidade de mais velho, como um pai... Não devemos nos
sepultar em vida. Deixe os túmulos para os mortos. Na sua idade, é uma forma
de agir! Como diz a canção, tem toute la vie devant vous3.
— Lavrenty Arkadievitch — começou o voluntário, diplomata e policial, as
faces normalmente pálidas vermelhas por um momento, enquanto a voz tomava
ressonância metálica. — Não creio ter s-s-solicitado de sua parte considerações
de ordem privada...
Julgando esta observação de uma grosseria indesculpável, Varia enterrou a
cabeça nos ombros, pensando que, atingido em seus melhores sentimentos,
Mizinov ficaria seriamente ofendido e começaria a gritar.
Mas o oficial contentou-se em suspirar e respondeu de modo um tanto frio:
— Suas condições são aceitas. Tem, portanto, inteira liberdade de ação. De resto,
era exatamente assim que eu encarava seu trabalho. Só tem que observar, escutar
e, se algo chamar sua atenção... Bom, não me compete dar lições!
— Atchim! — Assustada por ter espirrado, Varia encolheu-se na cadeira.
O susto do general foi bem maior que o dela. Virou-se sobressaltado e dirigiu
um olhar espantado à testemunha involuntária desta conversa confidencial.
— Senhora, o que está fazendo aqui? Não saiu da sala com o tenente-
coronel? Como se atreve?
— Devia ter reparado em mim — respondeu a jovem, muito dignamente. —
Não sou um mosquito para que ignore minha presença. De resto, estou sob
prisão e ninguém me autorizou a sair.
Ela teve a impressão de ver um ligeiro estremecimento passar pelos lábios de
Fandorin. Não, ela se enganara, essa personagem não sabia sorrir.
— Bem, pouco importa — e uma ameaça discreta fez-se ouvir na voz de
Mizinov. — Senhora, que não é minha parente, acaba de tomar conhecimento de
um certo número de coisas que não tinha nada que saber. E, por segurança de
Estado, coloco-a sob prisão administrativa provisória. Será conduzida sob
escolta ao isolamento da guarnição de Kichinev, onde ficará detida até o fim da
campanha. Não tem que culpar senão a si mesma!
Varia empalideceu.
— Mas eu nem sequer reencontrei meu noivo...
— Voltará a vê-lo depois da guerra — cortou Maliouta Skouratov4, virando-
se para a porta com a intenção de chamar seus opritchniks.
Mas, nesse momento, Erast Petrovitch juntou-se à conversa.
— Lavrenty Arkadievitch, acho que seria suficiente pedir à jovem Suvorova
para p-p-prestar juramento.
— Dou minha palavra! — apressou-se a exclamar Varia, contente por ter
encontrado um defensor.
— Desculpe, caro amigo, mas não podemos correr risco — disse o general
com uma voz cortante, sem mesmo dirigir o olhar à jovem. — E, depois, há esse
noivo. De resto, pode-se lá ter confiança numa garota? Conhece o provérbio, o
cabelo é comprido, mas a inteligência curta.
— Não tenho cabelo comprido! Quanto à inteligência, isso é mesquinho! —
E Varia foi atraiçoada por um pequeno tremor da voz. — O que tenho a ver com
esse Anvar e esse Midhat?
— Tomo o assunto sob minha r-r-responsabilidade, Excelência. Fico
responsável por Varvara Andréevna.
Com a cara franzida, marcada pelo descontentamento, Mizinov mantinha-se
em silêncio e Varia pensou que, mesmo entre os agentes da polícia,
aparentemente havia pessoas que de fato não eram desprezíveis. Era, ainda
assim, um voluntário sérvio a serviço...
— Não é muito brilhante — resmungou o general.
Depois, virando-se para Varia, perguntou em tom marcado pela má vontade.
— Sabe fazer alguma coisa? Sabe escrever corretamente?
— Sim, tenho diploma em estenografia! Trabalhei como telegrafista! E
também como parteira! — acrescentou ela sem saber bem por que dissera esta
pequena mentira.
— Estenógrafa e telegrafista? — Mizinov mostrou um ar muito espantado.
— Então, por maioria de razão, Erast Petrovitch, autorizo esta moça a
permanecer aqui com uma única condição: ela exercerá a função de sua
secretária. De qualquer modo, vai precisar de um mensageiro ou de um elemento
de ligação que não levante muitas suspeitas. Mas lembro o seguinte: assumiu a
responsabilidade pelos atos dela.
Varia e Fandorin reagiram em uníssono.
— Ah, isso não!
E eles prosseguiram sempre em coro, mas apresentando argumentos
diferentes.
Erast Petrovitch disse:
— Não tenho necessidade de secretária.
Varia afirmou:
— Eu me recuso a trabalhar na polícia secreta!
O general encolheu os ombros e se levantou.
— À vontade! Novgorodtsev, a guarda!
— Estou de acordo! — gritou Varia.
Fandorin nada disse.

________________
1 Equivalente a ministro do Interior, responsável na época pelas polícias

urbanas, militares e secretas.


2 Sabre, arma de combate e de execução, usada por turcos e árabes. (NT)
3 Em francês no original. "A vida toda pela frente". (NT)
4 Alma danada de Ivan, o Terrível. Juntamente com Alexis Bosnarov e

Athanas Viazenski, um dos boiardos leais que apenas obedeciam a Ivan, o


Terrível. Foi canonizado em 1652 e seus restos mortais trasladados para Moscou.
capítulo
4
Onde o inimigo sofre o primeiro golpe

Daily Post (Londres)


15 (3) de julho de 1877

... O destacamento do impetuoso general Gourko acaba de tomar a


cidade de Tyrnovo, antiga capital do reino búlgaro, e dirige-se em passo
enérgico rumo ao desfiladeiro de Chipkino, além do qual se estendem
planícies indefesas, que se prolongam até a própria Constantinopla. Redif
Paxá, o vizir da guerra, e Abdul-Kerim Paxá, o comandante-em-chefe,
foram demitidos de suas funções e apresentados perante um tribunal. No
presente, só um milagre poderá salvar a Turquia.

Detiveram-se no pátio. Tinham que esclarecer o assunto. Fandorin pigarreou


e declarou: — Lamento verdadeiramente que as coisas tenham evoluído desta
forma. Nem preciso dizer, Varvara Andréevna, que está inteiramente livre e não
tenho a mínima intenção de constrangê-la a qualquer tipo de colaboração.
— Agradeço — respondeu ela secamente. — É muito generoso de sua parte.
Confesso que outra atitude me levaria a pensar que armou esta situação de
propósito. Estava perfeitamente consciente da minha presença e sabia muito bem
como ia acabar. E então, tem realmente necessidade de uma secretária?
Uma vez mais, brilhou uma pequena centelha nos olhos de Fandorin, o que,
num homem normal, podia ser considerado sinal de bom humor.
— Não lhe f-f-falta espírito de observação, Varvara Andréevna, mas está
sendo injusta. Eu tinha de fato um objetivo ao me comportar assim, mas era
inteiramente no seu interesse. Lavrenty Arkadievitch certamente a obrigaria a
voltar e Kazanzakis, por seu lado, faria com que fosse escoltada pela polícia.
Agora, pode ficar aqui, de modo inteiramente legítimo.
Varia foi incapaz de rebater, mas também não queria exprimir seus
agradecimentos a um miserável espião.
— Vejo que, com efeito, manifesta incríveis habilidades em sua pouco
respeitável profissão — afirmou ela em tom cáustico. — Mostrou mais sutileza
que o antropófago-mor!
— Lavrenty Arkadievitch, comedor de homens? — exclamou Erast
Petrovitch, espantado. — É uma definição que não combina com você! Por outro
lado, o que há de pouco respeitável em servir aos interesses do Estado?
Como falar com uma pessoa que pensa deste modo?
Varia desviou-se ostensivamente e olhou o acampamento: casinhas de muros
brancos, barracas em fileiras bem alinhadas, postes telegráficos novos em folha.
Na rua, um soldado corria, agitando de modo bem familiar os longos braços
desajeitados.
— Varia, Varenka! — gritou de longe o soldado e, tirando o capacete de
larga viseira, começou a agitá-lo. — Aqui está você finalmente!
— Petia — disse ela, dando um pequeno grito de espanto.
E, esquecendo imediatamente Fandorin, correu ao encontro daquele que a
fizera percorrer mil e quinhentas verstas.
Abraçados, beijaram-se muito naturalmente, sem o mínimo pudor, como
nunca tinham feito. Era uma alegria reencontrar o rosto sem beleza mas
agradável e radiante de felicidade de Petia. O jovem tinha emagrecido, sua pele
estava bronzeada e o corpo mais curvado. A túnica do uniforme negro
ornamentado com dragonas vermelhas caía-lhe mal, mas seu sorriso continuava
o mesmo, amplo e espelhando adoração.
— Então, está de acordo? — perguntou Petia.
— Sim — disse Varia simplesmente, embora tivesse a intenção de não estar
de acordo imediatamente e começar por uma longa e séria conversa, ao longo da
qual imporia um certo número de condições de princípio.
Petia deu um grito de criança e quis voltar a beijá-la, mas Varia já tinha se
recomposto.
— É preciso, no entanto, que discutamos as coisas em detalhes.
Primeiramente...
— Discutiremos tudo! Mas não agora, à noite, na barraca dos jornalistas, está
bem? Eles organizaram uma espécie de clube. Já conhece o francês? Sim,
Charles Paladin. É simpático. Foi ele que me disse que você estava aqui. Neste
momento, tenho muito trabalho. Só fugi por um minuto e se perceberem me
castigam. Até logo! Até logo!
E voltou a partir, levantando poeira com suas pesadas botas e virando para
trás repetidas vezes.
Infelizmente, à noite, não foi possível o encontro. Um mensageiro veio trazer
uma pequena mensagem do estado-maior: "Tenho que trabalhar a noite toda. Até
amanhã. Amo você. P."
O que fazer? Trabalho é trabalho, e Varia começou a se organizar. As
enfermeiras lhe ofereceram abrigo. Gentis e prestativas, tinham infelizmente
mais idade, em torno dos trinta e cinco anos, e de divertido nada tinham. Foram
elas que reuniram o indispensável para substituir a bagagem perdida nas mãos do
audacioso Mitko: roupas, sapatos, um frasco de água-de-colônia (ela que tinha
maravilhosos perfumes de Paris!), meias, roupa interior, um pente, pinças, um
sabonete perfumado, pó de arroz, creme para o sol, outro para o frio, leite
amaciador contra os efeitos do vento, essência de malmequer para lavar os
cabelos e outros objetos úteis. Desnecessário dizer que os vestidos eram
horríveis, excetuando possivelmente um, azul-claro com pequena gola de renda.
Varia tirou os punhos, que já não estavam na moda, e o efeito foi feliz.
No entanto, a partir da manhã seguinte, começou a se aborrecer. As
enfermeiras tinham ido para o hospital, após a chegada de dois feridos de
Lovtcha. Varia tomou café sozinha e foi enviar um telegrama aos pais. Primeiro
para não se preocuparem, segundo para enviarem dinheiro (a título de
empréstimo, exclusivamente, eles que não imaginassem que o pássaro voltava
para o ninho!). Perambulou depois pelo acampamento, observou longamente um
estranho trem que não estava sobre trilhos — trazido da outra margem por tração
mecânica. Locomotivas com rodas enormes, cuspindo muito vapor, puxavam
pesados canhões e vagões de munição. O espetáculo era impressionante, um
verdadeiro triunfo da técnica. Sem saber mais como passar o tempo, decidiu
fazer uma pequena visita a Fandorin, que tinha agora uma barraca individual no
setor do estado-maior. Erast Petrovitch também estava à toa e ela o encontrou
estirado na cama de campanha com um livro turco nas mãos, do qual copiava
palavras.
— Então servindo aos interesses do Estado, senhor policial? — disse Varia,
que decidira que o mais conveniente era adotar com o agente um tom
ironicamente negligente.
Fandorin se levantou e colocou nos ombros um casaco militar sem dragonas
(certamente ele também tinha sido obrigado a vestir o que encontrou). Pelo
colarinho entreaberto da camisa, Varia vislumbrou um cordão de prata. Haveria
ali uma cruz? Não, aquilo parecia mais um medalhão. Seria interessante saber o
que tinha lá dentro. Será que o senhor policial é dado a romantismos?
O conselheiro titular fechou o colarinho e respondeu com a maior seriedade.
— Quando se vive num Estado, é preciso tanto amá-lo e protegê-lo quanto
abandoná-lo, ou se assiste ao parasitismo e ao mero compadrio de lacaios.
Ferida pelo "compadrio de lacaios", Varia tentou evitar o golpe.
— Existe, contudo, uma terceira possibilidade: pode-se destruir um Estado
injusto para reconstruir um outro no lugar.
— Infelizmente, Varvara Andréevna, um Estado não é uma casa, é mais
como uma árvore. Não é construído, ele cresce sozinho seguindo as regras da
natureza, e esse processo é muito lento. Neste caso, não é um pedreiro que faz
falta, mas um jardineiro.
Esquecendo a intenção de se manter no tom planejado, Varia exclamou com
paixão: — Nós vivemos numa época muito difícil e de tal forma complexa! As
pessoas honestas gemem sob o jugo da estupidez e da arbitrariedade e você aí
discutindo como um velho e se alegrando com jardinagem!
Erast Petrovitch encolheu os ombros.
— Querida e deliciosa Varvara Andréevna, estou cansado de ouvir lamúrias
sobre nossa "época difícil". Sob o tsar Nikolai, quando a época era bem mais
difícil do que a nossa, suas "pessoas honestas" eram comandadas com autoridade
e, infatigáveis, celebravam de todas as formas sua existência feliz. Se se tornou
possível nos queixarmos da estupidez e da arbitrariedade é porque as coisas
estão no bom caminho.
Varvara Andréevna murmurou então entre dentes o pior dos insultos: — Para
terminar, não é senão... nada além de um servidor do trono!
E como Fandorin não reagisse, ela explicou na linguagem que lhe era
acessível: — Um escravo fiel, desprovido de inteligência e consciência!
Mal acabou de falar, teve medo de sua grosseria, mas Erast Petrovitch não se
zangou e disse com um suspiro.
— Não sabe como se comportar comigo. Um. Não quer me mostrar
reconhecimento e isso a irrita. Dois. Esqueça qualquer ideia de dívida comigo e
nos entenderemos perfeitamente. Três.
Esta condescendência mergulhou Varia numa cólera ainda maior, tanto mais
que o agente, esta serpente de sangue frio, tinha perfeita razão.
— Eu já reparei que se comporta como um professor de dança: um-dois-três,
um-dois-três. Quem lhe ensinou essa estúpida forma de falar?
— É verdade, tive mestres — respondeu Fandorin, não avançando
explicações.
E fazendo tábua rasa das mais elementares regras de educação, voltou a
mergulhar em seu livro.

Via-se de longe a barraca dos jornalistas credenciados no estado-maior. Na


entrada, uma longa corda sustentava pequenas bandeiras de diferentes países,
estandartes de revistas e jornais, mas também, bizarramente, suspensórios
vermelhos decorados com estrelas brancas.
Petia formulou uma suposição:
— Ontem à noite devem ter festejado a vitória de Lovtcha e um deles deve
ter festejado a ponto de perder os suspensórios...
Ele ergueu a cortina da barraca e Varia introduziu a cabeça. Uma certa
desordem não impedia que o clube fosse, à sua maneira, acolhedor: mesas de
madeira, cadeiras de lona, um pequeno balcão com filas de garrafas. Cheirava a
tabaco, cera de velas e água-de-colônia masculina. Num canto, uma mesa
comprida apresentava pilhas de jornais russos e estrangeiros. Eram incomuns,
porque eram feitos de tiras telegráficas. Dando uma olhada no Daily Post, Varia
se surpreendeu ao descobrir uma edição do dia. A redação devia enviá-lo por
telégrafo. Incrível...!
Varia notou com satisfação particular que só havia ali duas mulheres que
usavam lunetas e não eram muito novas. Em contrapartida, os homens eram
numerosos e viam-se mesmo alguns que ela conhecia. Em primeiro lugar, lá
estava Fandorin, sempre com seu livro na mão. Era mesmo um idiota, não podia
ir ler na sua barraca? No outro canto, desenrolava-se um jogo de xadrez com
vários participantes: num canto da mesa, McLaughlin andava para a frente e para
trás, fumando um charuto e exibindo um sorriso condescendente e bonachão. No
outro canto, instalados diante de um tabuleiro, encontravam-se Sobolev, Paladin
e duas outras pessoas que Varia não conhecia, todos com ar profundamente
concentrado.
— Ora, eis nosso pequeno búlgaro! — exclamou o general Michel,
visivelmente aliviado por se levantar da cadeira. — Não o reconheço! Está bem,
Seamus, digamos que fica zero a zero.
Paladin deu um sorriso afável na direção dos que recém-chegados e fixou o
olhar em Varia (o que foi agradável), mas continuou jogando. Em contrapartida,
passando a mão pelo bigode engomado, ignorando todas as regras, um oficial
vestindo uniforme de uma brancura mais que deslumbrante, surgiu bruscamente
perante Sobolev e disse, em francês: — General, por favor, apresente sua
deliciosa amiga! Apaguem as velas, senhores! Não precisamos mais delas, o sol
acaba de se levantar!
As duas senhoras mais velhas lançaram a Varia um olhar que não podia ser
mais reprovador e ela mesma, aliás, ficou um pouco desconcertada pela
abordagem.
Sobolev deu uma pequena risada.
— O coronel Loukan, representante pessoal do nosso precioso aliado, Sua
Alteza Karl, príncipe da Romênia. Mas previno, Varvara Andréevna, o coronel é
mais mortal para os corações femininos do que um canhão.
Seu tom exprimia claramente que não convinha prestar muita atenção ao
romeno e Varia respondeu com um ar afetado, apoiando-se no braço de Petia.
— Encantada. Meu noivo, Petia Iablokov, alistado voluntariamente.
Tomando galantemente a mão de Varia com dois dedos (um anel ornado de
diamante de tamanho imponente cintilou), Loukan estava prestes a beijar a mão
da jovem, mas ela se sentiu incomodada.
— Em S. Petersburgo não se beija a mão das senhoras modernas.
Em suma, havia lá pessoas interessantes, e Varia estava contente por ter
vindo. Sentia-se, no entanto, despeitada ao ver que Paladin não acabava aquela
maldita partida de xadrez. O jogo deveria, contudo, estar prestes a chegar ao fim:
todos os outros parceiros de McLaughlin já haviam capitulado e o francês não
tinha visivelmente nenhuma chance, o que, de resto, não parecia derrubá-lo. Ele
lançava frequentemente olhares para Varia, sorria despreocupado e assobiava
uma cançoneta da moda.
Sobolev foi se colocar junto ao jogador e, observando o tabuleiro, retomou
maquinalmente o refrão.
— Brincalhão... brincalhona... Renda-se, Paladin, isso começa a parecer um
verdadeiro Waterloo!
— A guarda morre mas não se rende!
E, puxando bruscamente a barba estreita e pontiaguda, o francês avançou um
peão. Viu-se então, de súbito, o irlandês se encrespar e começar a bufar.
Varia saiu para tomar ar e admirar o pôr do sol. Quando voltou, o tabuleiro
desaparecera e a conversa se centrava, nem mais nem menos, nas relações entre
o Homem e Deus.
McLaughlin, que respondia visivelmente a uma réplica de Paladin, afirmava
com paixão: — Neste caso, não pode se tratar de respeito mútuo. As relações do
homem com o Altíssimo se baseiam no reconhecimento intrínseco da
desigualdade. Não ocorre, com efeito, às crianças pretender uma igualdade em
relação aos pais! O filho reconhece sem reserva a superioridade do pai, assim
como sua dependência, ele tem respeito e é por isso que se mostra obediente, de
resto para seu próprio bem.
— Permita-me aproveitar sua metáfora — disse o francês, com um sorriso,
fumando seu cachimbo turco. — Tudo isso é verdadeiro apenas para as crianças
de tenra idade. Ao crescer, o filho nunca mais cessa de pôr em causa a
autoridade do pai, mesmo quando mil vezes mais sábio e mais poderoso do que
ele. É um fenômeno natural e saudável, sem o qual seria sempre um bebê. É
precisamente essa fase que a humanidade vive hoje em dia, ela que avançou na
idade. Mais tarde, quando chegar ainda mais longe, virão necessariamente novas
relações com Deus, fundadas na igualdade e no respeito mútuo. E virá o dia em
que a criança terá de tal forma crescido que o pai lhe será totalmente inútil.
— Bravo, Paladin, fala tão bem quanto escreve — exclamou Petia. —
Infelizmente, o problema é que Deus não existe, não existe senão matéria,
juntamente com princípios elementares de regras fixas. Quanto a você,
aconselho a aproveitar seus conceitos como matéria-prima para La Revue
Parisienne, por certo dará um tema excelente.
— Para fazer um bom escrito não é necessário um tema — declarou o
francês —, basta saber escrever.
McLaughlin estava escandalizado.
— Aí vai longe demais! Sem tema, mesmo um equilibrista verbal como você
não conseguiria nada de bom.
— Mencione um assunto qualquer, por mais trivial, e eu redijo um artigo que
minha revista publicará com agrado. — Paladin estendeu a mão. — Quer
apostar? Minha sela espanhola contra seu binóculo Zeiss!
A assistência ficou em suspenso.
— Aposto duzentos rublos em Paladin — declarou Sobolev.
— Um assunto qualquer? — repetiu lentamente o irlandês. — Não importa
qual?
— Absolutamente! Se quiser, escrevo sobre a mosca que acaba de pousar no
bigode do coronel Loukan.
O romeno apressou-se a enxotar a intrusa e disse: — Trezentos rublos no sr.
McLaughlin. Mas que assunto escolher?
— Qualquer coisa, nem que seja sua velha bota caindo — McLaughlin
apontou as botas empoeiradas do francês — e tente escrever algo que o público
parisiense leia com entusiasmo.
Sobolev levantou as mãos abertas.
— Assim eu desisto. Botas velhas, convenhamos, é de fato um exagero.
Por fim, mil rublos foram apostados no irlandês, ao passo que ninguém mais
apoiava o francês. Varia sentiu pena dele, mas como nem ela nem Petia tinham
dinheiro, aproximou-se de Fandorin, que continuava folheando seu livro de
hieróglifos turcos, e sussurrou-lhe com ar maldoso:
— O que espera? Pode muito bem apostar nele. O que isso lhe custa? Deve
ter recebido algumas moedas sonantes e valiosas do general! Eu devolvo mais
tarde.
Erast Petrovitch fez uma careta e disse sem entusiasmo: — Cem rublos em
Paladin!
Em seguida, afundou de novo na leitura. Loukan resumiu a situação: —
Temos, portanto, dez contra um. O ganho não será enorme, senhores, mas está
garantido.
Foi nesse instante que irrompeu na barraca um capitão que Varia conhecia
bem. Ele estava irreconhecível: uniforme impecável, botas cintilantes, uma
imponente venda negra no olho (sinal de que o hematoma ainda não devia ter
sumido), ataduras brancas envolvendo a cabeça.
— Excelência, senhores, estava com o barão Krudener — declarou ele com
ar digno. — Tenho uma informação importante para a imprensa. Pode tomar
nota: capitão Perepelkin, do estado-maior, departamento de operações.
Perepelkin. Nicopole foi tomada de assalto. Aprisionamos dois paxás e seis mil
soldados! Nossas baixas são ínfimas. É a vitória, senhores!
— Droga. E eu, mais uma vez, sem tomar parte! — gemeu Sobolev,
precipitando-se para fora sem pedir licença a ninguém.
O capitão acompanhou o general com olhar desvairado, mas ele já estava
rodeado de jornalistas por todos os lados e começou a responder às perguntas
com alegria evidente, exibindo seus conhecimentos em francês, inglês e alemão.
Varia ficou espantada com o comportamento de Erast Petrovitch.
Jogando o livro na mesa, afastou resolutamente os correspondentes de
imprensa e perguntou em voz discreta.
— Desculpe, capitão, não estaria enganado? Sabe muito bem que Krudener
recebeu ordem para tomar Plevna, e Nicopole fica na direção diametralmente
oposta.
Algo em sua voz se impôs ao capitão, que cessou imediatamente de dar
atenção aos jornalistas.
— Não, senhor, não estou enganado. Fui eu que recebi o telegrama do
estado-maior, assisti à descodificação e depois o levei ao barão. Lembro-me
perfeitamente do texto: "Ao tenente-general barão Krudener, comandante do
destacamento ocidental. Dou-lhe ordem para ocupar Nicopole e lá se
entrincheirar com pelo menos uma divisão. Nikolai."
Fandorin empalideceu.
— Nicopole — perguntou ele num tom ainda mais baixo. — E quanto a
Plevna?
O capitão encolheu os ombros.
— Não faço a mínima ideia.
De súbito, ouviram-se vários passos e um tinir de armas. A porta da barraca
foi brutalmente levantada e viu-se, recortada, a figura do tenente-coronel
Kazanzakis, de triste memória. Atrás dele cintilavam as baionetas de uma
escolta. O oficial fixou por momentos o olhar em Fandorin, ignorou Varia, mas
mostrou um sorriso de alegria ao descobrir Petia.
— Ah, eis meu amigo! É como eu pensava. Soldado voluntário Iablokov,
está preso! Levem-no! — ordenou ele, virando-se para a escolta.
Dois homens vestidos de uniforme azul entraram rapidamente no clube e
agarraram um Petia paralisado de medo.
— Mas está louco! — gritou Varia. — Deixe-o imediatamente.
Kazanzakis nem sequer se dignou a responder. Estalou os dedos e o
prisioneiro foi imediatamente levado, enquanto o tenente-coronel ficava algum
tempo na barraca, lançando em volta um sorriso enigmático.
Varia dirigiu-se a Fandorin com voz sonora.
— Erast Petrovitch, o que se passa? Pergunte a ele.
— Qual é o motivo? — perguntou o conselheiro com ar irritado, olhos fixos
no pescoço do policial.
— No texto decodificado por Iablokov foi alterada uma palavra. Em lugar de
Plevna, ele escreveu Nicopole, é tudo. Há três horas, a guarda avançada de
Osman Paxá ocupou a cidade de Plevna, desguarnecida, e agora ameaça nosso
flanco. Eis do que se trata, senhor observador.
Varia ouviu subitamente a voz de Paladin, que falava um russo correto, mas
com delicioso carregar nos erres.
— Ora bem, McLaughlin, eis o milagre de que falava e que pode salvar a
Turquia!
— Não é um milagre, senhor correspondente, é uma simples traição — disse
o tenente-coronel, os olhos cravados em Fandorin, a quem disse: — Não sei
verdadeiramente como vai explicar isso a Sua Excelência.
— Fala demais, tenente-coronel. — O olhar de Erast Petrovitch desceu ainda
mais, para o primeiro botão do uniforme do policial. — A presunção não deve
lesar a causa.
— Como? — A cara de Kazanzakis foi percorrida por um pequeno tique. —
E me dá lição de moral? Você? Era só o que me faltava! Saiba, senhor-prodígio,
que eu tive oportunidade de obter algumas informações sobre você. Dentro das
minhas competências. E, moralmente falando, elas revelam um perfil muito
pouco respeitável. Sua vida ultrapassa em muito sua idade. Percebi que teve a
habilidade de conseguir um magnífico casamento, não foi? E duplamente
vantajoso: belo dote e conservação da liberdade. Não foi mal concebido! Felici...
Ele não terminou porque, habilmente, como um gato que dá uma patada,
Erast Petrovitch dirigiu a mão para seus lábios enfatuados. Varia deu um
pequeno grito, enquanto um dos oficiais agarrava Fandorin pelo braço, para
soltá-lo logo em seguida, pois ele já não mostrava o menor sinal de violência.
— Duelo de pistola — anunciou Erast Petrovitch com voz absolutamente
normal, olhando desta vez o tenente-coronel nos olhos. — E para já,
imediatamente, antes que o comando se meta no assunto.
Kazanzakis enrubesceu. Seus olhos, negros como balas, estavam injetados de
sangue. Depois de uma curta pausa, engolindo saliva, declarou: — Por ordem de
Sua Majestade Imperial, os duelos estão formalmente proibidos no período da
guerra e sabe disso perfeitamente, Fandorin.
E saiu da barraca, batendo a porta num golpe seco.
Varia perguntou: — Erast Petrovitch, e agora?
capítulo
5
Onde é descrita a organização de um harém

La Revue Parisienne
18 (6) de Julho de 1877

CHARLES PALADIN

Um velho par de botas


Esboço do front

Todo esgarçado, o couro se tornou mais suave do que a boca de um


cavalo. Não podíamos nos apresentar em sociedade calçados deste modo, e
de resto, eu não o faço, minhas botas têm um destino diferente.
Elas foram feitas sob medida, há dez anos, por um judeu de Sofia que
me extorquiu dez libras, enquanto me dizia: "Senhor, eu já estarei
enterrado alimentando uma moita e você ainda as usará, mantendo no
coração a recordação emocionada de Isaac."
Menos de um ano depois, quando me dirigia às escavações de uma
cidade na Síria, o salto da minha bota esquerda caiu e tive que voltar ao
acampamento. Avançava sozinho, coxeando na areia escaldante ao mesmo
tempo em que amaldiçoava o velho bandido de Sofia, prometendo a mim
mesmo jogar as botas na fogueira o mais breve possível.
Mas meus colegas, arqueólogos britânicos, também não chegaram às
escavações. Foram atacados e degolados, até o último, pelos cavaleiros de
Rifat Bey, que consideram todos os giaours filhos de chaitan. Não joguei as
botas na fogueira, troquei o salto e mandei adorná-las de prata.
Em 1873, em maio, ao me dirigir a Khiva, meu guia Assaf teve a ideia
de roubar meu relógio, minha espingarda e meu cavalo morzelo Yatagan. À
noite, enquanto eu dormia, colocou uma cobra, cuja picada é mortal, na
minha bota esquerda. Mas ela estava de tal forma deformada que a cobra
retomou o caminho do deserto. De manhã, o próprio Assaf me contou a
história, vendo o que acabava de acontecer pela mão de Alá.
Seis meses mais tarde, o navio Adrianopol bateu num rochedo no golfo
de Thermaikos e tive que nadar duas léguas e meia até chegar à margem.
As botas me puxavam para o fundo, mas não as tirei. Sabia que esse gesto
seria sinônimo de capitulação e que, com elas, eu resistiria até o fim.
Minhas botas me ajudaram a aguentar. Fui o único sobrevivente da
catástrofe, todos os outros pereceram.
Hoje, encontro-me num local em que se mata. A morte esvoaça por aqui
todos os dias. Mas eu estou sereno. Calço minhas botas que, ao fim de dez
anos, passaram de negras a ruças e, debaixo de fogo, sinto-me como numa
pista de dança com sapatos de baile nos pés.
Com receio de poder estar sobre o corpo do velho Isaac, nunca deixo
meu cavalo pisar numa moita.

Há três dias que Varia trabalhava com Fandorin. Era preciso libertar Petia e
Erast Petrovitch considerava que o único meio possível era encontrar o
verdadeiro culpado. E foi a própria Varia que suplicou ao conselheiro titular que
a aceitasse como colaboradora.
Para Petia, tudo corria mal. Varia não estava autorizada a vê-lo, mas sabia
por Fandorin que todas as provas estavam contra ele. Recebendo do tenente-
coronel Kazanzakis a ordem para codificação do próprio comandante-em-chefe,
Petia tinha imediatamente iniciado seu trabalho e depois, conforme as instruções,
levara pessoalmente o despacho ao telégrafo. Varia achava que, distraído por
natureza, Petia bem podia ter confundido as duas cidades, tanto mais que todos
tinham ouvido falar da fortaleza de Nicopole, enquanto até então raros
conheciam a pequena cidade de Plevna. Infelizmente, Kazanzakis não acreditava
na distração. De resto Petia se obstinava em repetir que se lembrava
perfeitamente de ter codificado Plevna, uma palavra tão engraçada. O pior era
que, segundo Erast Petrovitch, que assistira a um dos interrogatórios, Iablokov
escondia visivelmente alguma coisa e o fazia de forma bem desajeitado. Petia
nunca tinha mostrado talento algum na arte de mentir, Varia bem sabia. E foi
assim que se chegou ao tribunal.
Fandorin tinha, contudo, uma estranha forma de procurar o verdadeiro
culpado. Todas as manhãs, vestindo um estranho traje listrado, praticava
ginástica inglesa por muito tempo. Depois, passava grande parte do dia na cama,
limitando-se na maioria das vezes a fazer uma curta visita ao departamento de
operações do estado-maior. À noite, frequentava invariavelmente o clube dos
jornalistas, fumando pequenos charutos, lendo um livro, tomando vinho sem se
mostrar minimamente afetado e apenas participando das conversas se obrigado a
isso. Ele não lhe atribuía nenhuma missão e à noite, antes de se retirar, limitava-
se a dizer: "Até amanhã, voltamos a nos ver no clube."
O sentimento de impotência quase enlouquecia Varia. Durante o dia,
perambulava pelo acampamento de olhos abertos, atenta a tudo, tentando
descobrir algum fato suspeito. Mas não descobria nada e, cansada, ia até a
barraca de Erast Petrovitch, para sacudi-lo um pouco e obrigá-lo a agir. Uma
desordem absolutamente indescritível reinava no antro do conselheiro titular:
espalhados ao acaso, livros, cartas, garrafas empilhadas que antes tinham contido
vinho búlgaro, roupas, balas de canhão usadas sem dúvida como halteres. Um
dia, sem dar por isso, Varia sentou-se num prato de plov frio que não devia ter
sido abandonado em cima de uma cadeira. Este incidente a enraiveceu de
verdade e nunca mais conseguiu tirar a mancha de gordura do seu único vestido
bom.

Na noite de 7 de julho, por ocasião de seu aniversário, o coronel Loukan deu


uma pequena festa no press-club, o clube de imprensa (era assim, à moda
inglesa, que se começara a designar a barraca dos jornalistas), tendo
encomendado de Bucareste três caixas de champanhe, afirmando ter pago trinta
francos por garrafa. Mas esse dinheiro fora gasto em vão, porque bem depressa
esqueceram todos o generoso doador, em benefício do verdadeiro herói do dia:
Paladin.
De manhã, munido do binóculo Zeiss conquistado a um McLaughlin
ridicularizado (seus miseráveis cem francos tinham, entre parênteses, rendido a
Fandorin a bonita soma de mil francos, e tudo graças a Varia), o francês efetuara
uma expedição audaciosa: dirigira-se sozinho a Plevna e, sob a proteção da
braçadeira de jornalista, penetrara nas linhas do inimigo, conseguindo até uma
entrevista com um coronel turco.
— Perepelkin indicou-me obsequiosamente a forma de me aproximar da
cidade, evitando as balas — contava Paladin, rodeado de ouvintes cheios de
admiração — e, com efeito, isso não foi nada complicado. Os turcos nem sequer
tiveram a amabilidade de pôr vigias corretamente e foi só quando eu já tinha
praticamente entrado na cidade que encontrei o primeiro asker. "Por que está
olhando para mim dessa forma? — disse-lhe eu —, apresse-se em me levar a seu
chefe mais graduado." No Oriente, senhores, é essencial uma pessoa se
comportar como padischah. Se gritar e insultar os outros é porque é legítimo
fazê-lo. Ele me levou ao coronel Ali Bey: barrete turco vermelho, espessa barba
negra, insígnia de Saint-Cyr no peito. Perfeito, disse eu a mim mesmo, a doce
França vai me evitar problemas. Apresentei-me. Sou um representante da
imprensa francesa. O destino me colocou no campo russo, mas sinto um tédio
mortal, não há o mínimo exotismo, nada a não ser álcool, que corre em jorro. O
respeitável Ali Bey poderia dignar-se a me conceder uma entrevista para o
público parisiense? Dignou-se. E eis-nos confortavelmente instalados nos
deliciando com uma bebida gelada. Meu Ali Bey me interroga: "Ainda existe
aquele simpático café na esquina da Rue Raspail com a Rue de Sèvres?" Para
dizer a verdade, não faço a mínima ideia, porque há muito tempo não vou à
capital, mas não é por isso que deixo de responder: "Claro e está até cada vez
mais animado." Falamos das grandes avenidas, do can-can francês, das coquetes
parisienses. O coronel acabou por descontrair completamente; sua barba, que era
realmente muito imponente, de tal maneira que parecia o marechal de Retz,
tornou-se ainda mais vaporosa, e ei-lo suspirando: "Ah, logo que esta maldita
guerra acabar regresso a Paris o mais cedo possível! — Mas, ela acabará em
breve, Effendi? — Sim, respondeu Ali Bey, não vai durar muito tempo. No
momento em que os russos me expulsarem de Plevna, assim como aos três ou
quatro homens que tenho sob minhas ordens, poderemos colocar um ponto final.
Eles terão o caminho livre até Sofia." Eu mostrei um ar condoído: "Ai, ai, ai, é
um homem corajoso, Ali Bey! Enfrentar todo um exército russo com tão poucos
homens! Eu tenho efetivamente que falar nisso no meu jornal. Mas onde está
então o valoroso Osman Nuri Paxá com seu corpo de exército?" O coronel tirou
o barrete turco e fez um gesto de desprezo. "Ele prometeu estar aqui amanhã.
Mas não vai cumprir a palavra, as estradas são ruins. O mais cedo que
conseguirá é depois de amanhã à noite." Em resumo, passamos um bom
momento juntos, evocando Constantinopla, Alexandria e foi a muito custo que
consegui deixá-lo, porque ele já dera ordem para matar um carneiro. Seguindo o
conselho do Sr. Perepelkin, dei conhecimento da minha entrevista ao estado-
maior do grande príncipe, que considerou minha discussão com Ali Bey
interessante — disse modestamente o correspondente, em jeito de conclusão. —
Imagino que, a partir de amanhã, o coronel turco terá uma pequena surpresa!
Logo que Paladin acabou a descrição, Sobolev precipitou-se sobre ele,
abrindo amplamente os braços de general.
— Ah, Paladin, homem de grande coragem! É um verdadeiro gaulês, deixe-
me lhe dar um abraço!
A cara do jornalista desapareceu debaixo da imensa barba, enquanto
McLaughlin, que jogava xadrez com Perepelkin (o capitão retirara por fim a
venda negra e abordava o tabuleiro com os dois olhos concentrados e franzidos),
observou secamente:
— O capitão só o usou na qualidade de espião e não estou certo, meu caro
Charles, de que sua aventura seja completamente irrepreensível do ponto de vista
da ética jornalística. O correspondente de um Estado neutro não tem direito de
abraçar uma ou outra causa num conflito e menos ainda de assumir a função de
espião, na medida em que...
Mas o enfadonho celta foi atacado com tal veemência por toda a assistência,
incluindo Varia, que teve que se calar. De repente, fez-se ouvir uma voz sonora e
decidida.
— Mas vejam só como se divertem aqui!
Virando-se, Varia viu recortado na entrada um belo oficial hussardo, alto,
moreno, com a cara enfeitada por um bigode sedutor, olhos ligeiramente
proeminentes e cheios de indiferença e uma cruz de São Jorge nova pendurada
num colar. A atenção geral de que foi objeto não incomodou em nada o recém-
chegado que, pelo contrário, mostrou-se senhor da situação.
O oficial se apresentou.
— Conde Zurov, capitão de cavalaria do regimento dos hussardos de
Grodno.
Depois, virando-se para Sobolev: — Não me reconhece, Excelência?
Conquistamos juntos Kokand, na época em que eu fazia parte do estado-maior
de Constantin Petrovitch.
— Mas sim, claro, lembro-me bem — acrescentou o general. — Acho que
me lembro que foi levado a corte marcial por causa de um jogo de cartas durante
uma campanha e por um duelo com um intendente cujo nome já não sei.
— Deus é misericordioso, tudo se resolveu — respondeu o hussardo com
ligeireza. — Disseram-me que poderia encontrar aqui meu velho amigo Erast
Petrovitch Fandorin. Espero que seja verdade.
Varia olhou imediatamente para o conselheiro titular, sentado num canto. Ela
o viu levantar, dar um suspiro com ar agastado e dizer sem entusiasmo.
— Hipólito! O que faz aqui?
O hussardo correu para ele e começou a sacudi-lo pelos ombros, com tanto
empenho que a cabeça de Erast Petrovitch ia para frente e para trás.
— Com que então, está aqui, que o diabo te carregue! Quando penso no
boato de que os turcos tinham te empalado na Sérvia! Oh, mas não se cuidou,
meu amigo, está irreconhecível! E é para ganhar esse ar mais sério que pinta as
têmporas?
Verdade seja dita, o círculo de relações do conselheiro titular era muito
estranho: o Paxá de Vidin, o chefe da Segurança e agora este belo rapaz, imagem
de Epinal em estilo brigão. Discretamente, Varia se aproximou, para não perder
uma pitada da conversa.
Zurov cessou de sacudir o interlocutor, contentando-se nesse momento em
dar-lhe umas pancadinhas nas costas.
— Ah sim, o destino nos pregou algumas peças, a você e a mim! Vou contar
minhas aventuras mais tarde, a sós, não são coisas que uma senhora possa ouvir.
— Lançou um olhar divertido a Varia. — O final é conhecido: vi-me sem
vintém, na mais completa solidão e com o coração irremediavelmente
despedaçado. — Dito isso, novo olhar na direção de Varia.
— Quem p-p-poderia imaginar isso? — comentou Fandorin, chegando para
trás.
— Mas gagueja um pouco? É resultado de uma comoção? Isso não é nada,
acaba passando. Em Kokand, a explosão de uma granada me projetou no ângulo
da parede de uma mesquita e bati os dentes durante um mês. Nem vai acreditar,
mas cheguei a não conseguir acertar o copo na boca. Depois passou tudo.
— E agora vem de onde?
— Isso, irmão Erast, é uma longa história.
O hussardo abarcou com a vista os frequentadores do clube que o
observavam com evidente curiosidade e declarou:
— Não fiquem de lado, senhores, aproximem-se! Proponho-me a contar
minha sherazade a Erast.
— Sua odisseia — corrigiu a meia-voz Fandorin, retirando-se para trás de
Loukan.
— Uma odisseia é quando se passa na Grécia, comigo é bem uma sherazade.
— Zurov fez uma pausa destinada a aumentar a curiosidade dos ouvintes e
começou a narrativa.
— Assim, senhores, na sequência de circunstâncias que Fandorin e eu somos
os únicos a conhecer, acabei por ir parar em Nápoles, sem vintém. Pedi
emprestados quinhentos rublos ao cônsul da Rússia — o cão não me deu mais
que isso — e embarquei, com a intenção de me dirigir, por mar, a Odessa. Na
viagem, infelizmente, tomado pelo demônio, eu tive a deplorável ideia de jogar
com o capitão e o piloto e me depenaram, esses bandidos, até a última moeda. É
claro que apresentei um protesto, colocando em maus lençóis os proprietários do
navio, o que fez com que, chegados a Constantinopla, eles me tenham posto na
rua... Devo dizer que me desembarcaram sem dinheiro, sem minhas coisas e até
sem chapéu. Ora, estávamos no inverno, senhores. Um inverno turco, na
verdade, mas mesmo assim estava frio. Não tinha outra solução senão correr
para nossa embaixada onde, ultrapassando dificilmente todos os obstáculos,
consegui ser recebido pelo próprio embaixador. Nikolai Pavlovitch Gnatiev é um
homem de bem. Não posso lhe emprestar dinheiro, disse ele, porque tenho
posição de princípio contra toda forma de empréstimo. Em contrapartida, conde,
se isso lhe convier, estou pronto a recebê-lo como ajudante de ordens, já que
tenho grande necessidade de homens de valor. Se aceitar, receberá uma soma
inicial e tudo o que se seguir. Eis-me, pois, oficial ajudante de ordens.
Sobolev abanou a cabeça.
— Do próprio Gnatiev? Certamente que a velha raposa descobriu algo de
especial aí.
Zurov encolheu os ombros, fez modestamente um gesto com os braços que
significava que ele não sabia a razão e continuou.
— Logo no primeiro dia do novo serviço, provoquei um conflito
internacional e estive na origem de uma troca de notas diplomáticas. Nicolai
Pavlovitch mandou-me ao encontro de Hassan Hairul, o principal sacerdote
turco, alguém como o papa em Roma, um homem conhecido pela santidade e o
ódio aos russos.
— O Sheik-ul-Islam assemelha-se mais ao seu procurador do Santo Sínodo
— corrigiu McLaughlin, ocupado em anotar tudo num caderno.
— Sim, é isso — concordou Zurov. — É isso que eu digo. Hairul e eu
sentimos imediatamente antipatia um pelo outro. Dirigi-me a ele da maneira
mais protocolar, por intermédio de um intérprete: "Vossa Eminência, sou
portador de mensagem urgente do general Gnatiev." Ele, o cão, os olhos me
lançando faíscas, respondeu em francês, expressamente para que o drogomano (o
intérprete) não suavizasse as coisas: “É hora da oração. Espere.” Depois, sentou
nos calcanhares e, virando-se para Meca, começou a salmodiar: “Oh grande e
todo-poderoso Alá! Concede a teu fiel servidor a graça de ver em sua vida os vis
giaours, indignos de pisar teu solo sagrado, ardendo no inferno.” Ah, bem, ele
foi longe demais! Depois, desde quando alguém se dirige a Alá em francês?
Bom, pensei, também vou introduzir algumas novidades no cânone ortodoxo. E
eis que, no fim, Hairul se vira para mim, com cara sorridente, como se não
tivesse acabado de desprezar um giaour! “Dê-me a carta do seu general”, disse
ele. “Pardonnez-moi, Eminence”, respondi. “Para nós, russos, é exatamente a
hora da missa cantada. Seja suficientemente amável para esperar alguns
minutos.” E então, ajoelhei-me e eis-me começando a rezar na língua de
Corneille e Rocambole: “Deus misericordioso, seja generoso com seu boiardo e
escravo pecador, quero dizer com o cavaleiro Hipólito, dê-me a alegria de ver
estes cães muçulmanos grelhando na frigideira!” Em resumo, tornei ainda mais
complexas as relações russo-turcas, que já não eram boas. Hairul não aceitou a
mensagem, insultou-nos com voz forte em sua língua e nos pôs na rua, eu e o
drogomano. Nicolai Pavlovitch fez-me algumas repreensões, pró-forma, claro,
mas eu tive a impressão de que ele ficou bem satisfeito. Visivelmente, ele sabia o
que fazia quando me encarregou da missão.
Sobolev mostrou a sua aprovação.
— Bravo, belo gesto, digno de nossas aventuras habituais no Turquestão!
— Não muito diplomático, no entanto — interveio o capitão Perepelkin,
contemplando o hussardo de modos tão desprendidos com olhar reprovador.
— Aliás, não fiquei muito tempo na carreira diplomática — disse Zurov com
um suspiro, antes de acrescentar, pensativo: — Não é visivelmente minha
vocação.
Erast Petrovitch deu uma risada forte.
— Um dia, passeava na ponte de Gaiata, exibindo meu uniforme russo e
lançando olhares para as garotas bonitas. Na verdade, elas usam um xador, mas
as coquetes escolhem um tecido de tal transparência que se tornam mais
sedutoras. E eis que vejo passar numa charrete um ser divino, que exibia, por
baixo do véu do chapéu, imensos olhos de veludo que cintilavam. A seu lado,
um eunuco abissínio obeso, um verdadeiro porco, impossível de imaginar mais
adiposo. Atrás, em outra charrete, as criadas. Eu me detenho, inclino-me
dignamente, como convém a um diplomata e ela, descalçando a luva da mão
branca — Zurov juntou as mãos — enviou-me um beijo.
— Ela descalçou a luva? — repetiu Paladin, tomando ares de especialista. —
Isso é grave, senhores. O profeta considerava que as mãos eram a parte mais
desejável do corpo humano e interditou formalmente todas as muçulmanas
devotas de passearem sem luvas, para evitar a tentação do coração dos homens.
O que quer dizer que o fato de descalçar a luva, c'est un grand signe, era como
se uma mulher europeia retirasse... Não, eu dispenso a apresentação de um
paralelo — disse ele, incomodado, olhando para Varia.
Esta interrupção serviu ao hussardo, que prosseguiu.
— Está vendo! Poderia eu, depois disso, ofender esta senhora não lhe
prestando atenção? Agarro o cavalo pelas rédeas e o detenho, com a intenção de
me apresentar. Nesse momento, aquele eunuco baderneiro desfere magistral
chicotada perto da minha cara. Que solução me resta? Retiro meu sabre,
trespasso o corpo dele, limpo a lâmina em seu caftã de seda e volto para casa
abatido. Tinha perdido todo o interesse na senhora. Sentia claramente que o
assunto acabaria mal. E meus pressentimentos eram justificados, a conclusão não
podia ter sido mais lastimável.
— Por quê? — perguntou Loukan, que ardia de curiosidade. — Era mulher
de um paxá?
— Pior — disse Zurov com um suspiro. — A de Sua Majestade muçulmana,
Abdul-Hamid II. E o eunuco pertencia ao sultão. Nicolai Pavlovitch fez o
possível para defender minha causa, chegando ele mesmo a dizer ao padischah:
“Se meu tenente tivesse suportado uma chicotada da parte de um escravo sem
reagir, eu teria arrancado as dragonas dele com minhas próprias mãos, por ter
desonrado o título de oficial russo.” Mas como quer que sejam tolerantes com o
uniforme de oficial russo? Expulsaram-me em vinte e quatro horas. Primeiro
cargueiro com destino a Odessa. Felizmente a guerra explodiu pouco tempo
depois. Quando fui pedir licença de férias, Nicolai Pavlovitch disse: "Agradeça
ao Senhor, Zurov, não era a primeira mulher, mas uma “kutchumkadine”,
“mulher de menor importância”.
— “Kutchuk” e não “kutchum” — corrigiu Fandorin, corando
repentinamente, fato que Varia estranhou.
Zurov emitiu um pequeno assobio aprovador.
— Aha! Mas como sabe disso?
Erast Petrovitch ficou em silêncio com ar profundamente descontente.
— O Sr. Fandorin foi convidado de um paxá turco — insinuou Varia de
modo sonso.
A informação encheu o conde de curiosidade.
— E foi adulado pelo harém inteiro? Vá lá, conte, não seja miserável.
— Não pelo harém inteiro, mas pela “kutchuk-hanum” — resmungou o
conselheiro titular que, visivelmente, não tinha nenhum desejo de entrar em
detalhes. — Era uma jovem muito agradável e muito sensível e completamente
moderna. Sabe francês e inglês, ama Byron e se interessa por medicina.
O agente revelava ali um lado novo e inesperado de sua personalidade que,
bizarramente, não agradou nada a Varia.
— Uma mulher moderna não aceitaria viver num harém na qualidade de
décima quinta esposa — disse ela em tom seco. — É humilhante e, de maneira
geral, são costumes bárbaros.
— Peço perdão, moça, mas o que diz não é justo — declarou em russo
Paladin, carregando nos erres, antes de passar ao francês. — Veja, meus anos de
peregrinação pelo Oriente me permitiram estudar bem de perto o modo de vida
muçulmano.
McLaughlin cortou-lhe a palavra.
— Ah, sim, Charles, conte! — pediu ele. — Lembro da série de textos que
escreveu sobre a vida num harém. Eram excelentes.
E, satisfeito com a sua grandeza de alma, o irlandês expandiu um largo
sorriso.
Paladin começou seu relato em tom professoral.
— Toda instituição social, incluindo a poligamia, tem que ser considerada no
contexto histórico.
Nesse ponto Zurov fez uma tal careta que o francês se conteve e passou a
falar em linguagem corrente.
“Na realidade, as condições de vida no Oriente fazem com que o harém seja
para algumas mulheres a única forma de sobrevivência. Avaliem vocês mesmos:
desde sempre, os muçulmanos foram povos de guerreiros e profetas. Os homens
viviam da guerra, eram mortos e uma grande quantidade de mulheres ficava
viúva e, pura e simplesmente, não conseguiam marido. Quem podia alimentá-las
e às crianças? Maomé tinha quinze mulheres e não se tratava de uma inclinação
para a luxúria, mas de sua humanidade. Ele tomava conta das mulheres dos
companheiros de combate e, no sentido ocidental, essas mulheres nem sequer
deveriam ter o título de esposa. Porque, de fato, senhores, o que é realmente um
harém? Imaginam um repuxo de água sussurrante, odaliscas meio nuas
saboreando preguiçosamente quadradinhos de rahat-lokoum, o ruído dos colares
de pérolas, o odor estonteante dos perfumes, tudo flutuando num vapor de
volúpia e lascívia.”
— Sem esquecer, no meio de tudo isso, deste viveiro, com um amplo manto,
um narguilé na mão e um sorriso de felicidade nos lábios rosados — acrescentou
o hussardo sonhador.
— Receio decepcioná-lo, senhor capitão de cavalaria. Um harém, além das
mulheres, inclui toda uma multidão de parentes pobres, muitas crianças, entre as
quais muitas que não são suas, um grande número de criadas, escravas que aí
terminam seus dias e mais ainda. E é toda esta tribo que o homem, o senhor, tem
que alimentar e manter. E quanto maior sua riqueza e seu poder, maior é o
número de mulheres a seu cargo e mais pesadas suas responsabilidades. O
sistema de harém não é só humano, ele é o único possível nas condições de vida
do Oriente, ou um grande número de mulheres simplesmente morreria de fome.
Varia não se conteve: — Parece estar descrevendo um falanstério, no qual o
marido faz o papel de um Charles Fourier. Não seria preferível dar à mulher o
meio de ganhar a própria vida em vez de ocupar a posição de escrava?
— A sociedade oriental é lenta e pouco inclinada a mudanças, Srta. Barbara
— respondeu o francês com deferência e pronunciando o nome dela tão
gentilmente que seria de todo impossível levá-lo a mal. — Ela oferece muito
poucos postos de trabalho, é preciso lutar por cada um deles, e nessa luta uma
mulher não conseguiria manter a concorrência com um homem. Mas uma esposa
não é de forma alguma uma escrava. Se o marido não lhe convém, ela pode
sempre recuperar sua liberdade. Para isso, basta tornar a vida do cônjuge
suficientemente impossível para que um dia ele exclame encolerizado: “Deixo
de te considerar minha mulher!” Confesse que não é muito difícil levar um
marido a esses extremos! Depois disso, ela pode juntar seus bens e partir. No
Oriente, o divórcio é simples, não é como no Ocidente. Além disso, a situação
faz com que o homem esteja só, enquanto as mulheres constituem toda uma
coletividade. Devemos nos surpreender ao ver que o verdadeiro poder está nas
mãos do harém e não nas do senhor? As personagens principais do Império
Otomano não são nem o sultão nem o grão-vizir, são a mãe e a esposa preferida
do padischah. E, seguramente, o kizlar-aga, o eunuco-mor do harém.
— Mas, afinal, quantas esposas pode ter um sultão? — perguntou
Perepelkin, lançando um olhar culpado na direção de Sobolev. — Faço esta
pergunta por fazer, só para saber.
— Quatro, como todo crente. Mas além das esposas legítimas, um padischah
tem igualmente seu ikbal, algo como as favoritas, e todas as jovens gedikli,
“jovens agradáveis ao olhar”, que aspiram a um lugar no ikbal.
— Bom, já é melhor — aprovou Loukan, retorcendo o bigode ao ver que
Varia lhe lançava um olhar de desprezo.
Sobolev (mais um que estava entusiasmado!) perguntou com voluptuosidade:
— Mas, além das esposas e das favoritas, o sultão também tem escravas?
— Todas as mulheres do sultão são escravas, mas apenas até o nascimento de
sua primeira criança. Quando a criança nasce, a mãe recebe o título de princesa e
passa a se beneficiar de todos os privilégios a que tem direito. A todo-poderosa
sultana Besma, por exemplo, mãe do defunto Abdul-Aziz, era, de início, uma
criada dos banhos, mas ensaboou tão habilmente a cabeça de Mehmed II que ele
começou por escolhê-la para favorita e depois fez dela a esposa preferida. As
mulheres, no Oriente, têm possibilidades de carreira infinitas.
— Posto isso, deve ser terrível quando se tem sob sua responsabilidade essa
quantidade de gente — disse um dos jornalistas, com um ar pensativo. —
Francamente, é demais.
— Alguns sultões chegaram às mesmas conclusões — disse Paladin, com um
sorriso. — Ibrahim I, por exemplo, estava farto de suas esposas. As coisas foram
mais simples para Ivan, o Terrível, e para Henrique VIII: bastou mandar executar
a antiga mulher ou fechá-la num mosteiro e limitaram-se a escolher uma nova.
Mas o que fazer quando se tem um harém?
— E o que ele fez? — exclamou a audiência, interessada.
— Os turcos, senhores, não são pessoas que recuem perante dificuldades. O
padischah ordenou que metessem todas as mulheres em sacos e as afogassem no
Bósforo. No dia seguinte, Sua Majestade estava solteiro e pôde constituir novo
harém.
Os homens desataram a rir e Varia exclamou: — Deviam ter vergonha,
senhores, é simplesmente horrível!
Paladin a tranquilizou.
— De cem anos para cá, senhorita, os costumes nos haréns se suavizaram,
graças a uma mulher notável, que é de resto minha compatriota.
— Conte — pediu Varia.
— As coisas se passaram da seguinte forma. Um cargueiro francês
atravessava o Mediterrâneo trazendo a bordo, entre os passageiros, uma jovem
de dezessete anos de rara beleza. Esta jovem se chamava Aimée Dubuc de
Rivery e era originária da encantadora ilha de Martinica, que já oferecera ao
mundo um bom número de beldades lendárias, entre as quais a senhora de
Maintenon e Joséphine de Beauharnais. Nossa jovem Aimée conhecia muito
bem esta última, que ainda se chamava simplesmente Joséphine Tascher de La
Pagerie, e as duas jovens tinham laços de amizade. A história não explica as
razões pelas quais a bela crioula decidira navegar em mares que nessa época
eram cheios de piratas. Sabe-se unicamente que ao largo da Sardenha, o navio
foi abordado por corsários e a jovem francesa acabou indo parar no mercado de
escravos de Argel, onde foi comprada pelo próprio dey, aquele mesmo que
monsieur Popristchin diz que tem uma verruga no nariz. O dey era velho e já não
era atraído pela beleza feminina, mas, em contrapartida, tinha o maior interesse
em manter boas relações com a Porta Sublime, e assim a pobre Aimée partiu
para Istambul na qualidade de presente vivo oferecido ao sultão Abdul-Hamid I,
avô do atual Abdul-Hamid II. O padischah tratou a garota com a maior
consideração, como um tesouro sem preço, não a constrangendo em nada e nem
sequer lhe impondo a conversão ao Islã. O sábio soberano soube dar prova de
uma paciência que Aimée recompensou com o amor. Na Turquia, a jovem era
conhecida pelo nome de Nachedil-Sultan. Deu à luz o príncipe Mehmed, que
reinou e entrou na história como um grande reformador. A mãe lhe ensinara
francês e desenvolvera nele o amor pela literatura e pelo livre pensamento
francês. Foi depois de seu reino que a Turquia se voltou para o Ocidente.
— É um verdadeiro contador de histórias, Paladin — resmungou
McLaughlin. — Como sempre, embelezou as coisas.
O francês deu um sorriso malicioso e silenciou, enquanto Zurov, que já dava
sinais evidentes de impaciência, exclamou de repente com entusiasmo: — A
propósito, senhores, e se jogássemos cartas? Por que ficamos discutindo
indefinidamente? É verdade, isso cansa!
Varia se espantou com o suspiro profundo de Fandorin.
— Erasmo, não o convido — apressou-se a acrescentar o conde —, é o
próprio diabo que lhe dá as cartas!
Perepelkin estava escandalizado.
— Excelência, espero que não admita um jogo de azar em sua presença!
Mas Sobolev o silenciou com um gesto, como se afastasse uma mosca
incômoda.
— Deixe correr, capitão, não seja desmancha-prazeres. No seu departamento
de operações é fácil, ao menos fazem alguma coisa. Estou todo enferrujado pela
inatividade. Pessoalmente, não jogo, tenho uma natureza por demais
incontrolável, mas assisto ao jogo com prazer.
Varia reparou que Perepelkin olhava o belo general como um cachorro
espancado.
— Com pequenas apostas, por que não? — disse Loukan, sem grande
convicção. — Em nome da consolidação de nossa camaradagem de guerra.
— Para consolidar, está bem, e só pequenas apostas — aceitou Zurov que
colocou imediatamente baralhos novos na mesa. — Primeira partida a cem
rublos. Quem vai, senhores?
A banca se formou num minuto e em breve, na barraca, ouviam-se palavras
mágicas:
— Saiu ouros.
— Eu digo paus!
— Ás de ouros!
— Hahaha, corto.
Aproximando-se de Erast Petrovitch, Varia perguntou: — Por que ele o
chama de Erasmo?
Mas Fandorin, decididamente pouco inclinado a confidências, contentou-se
em responder.
— Velho hábito.
— Olá! — gemeu Sobolev em voz alta. — Aposto que Krudener se
aproxima de Plevna e aqui estou eu, como uma carta de baixo valor que os
jogadores rejeitam.
Perepelkin permanecia a dois passos de seu ídolo, fazendo de conta que
também se interessava pelo jogo.
Furioso e isolado, com seu tabuleiro de xadrez debaixo do braço,
McLaughlin resmungou algo em inglês que ele mesmo traduziu para o russo.
— Tínhamos um clube de imprensa, agora temos uma casa de jogo!
— Ei, garçom, tem alguma coisa forte? Traga aí! — gritou o hussardo
apontando o bar com a cabeça. — Se estamos em festa, que a façamos como
deve ser!
Com efeito, o serão anunciava-se alegre.
No dia seguinte, em contrapartida, o clube de imprensa estava
irreconhecível: sombrios e abatidos, os russos não se mexiam em suas cadeiras,
enquanto os correspondentes iam de um lado para o outro, agitados, trocando
sem parar frases a meia-voz; de tempos em tempos, um deles tomava
conhecimento de um detalhe novo e corria para o telégrafo. Acontecimentos
estavam em marcha.
Notícias inquietantes tinham começado a percorrer o campo no meio do dia
e, perto das cinco horas, saindo do perímetro de tiro (o conselheiro titular
ensinava à ajudante a usar o revólver do modelo ”colt”), Varia e Fandorin
encontraram um Sobolev sombrio e excitado.
— Estamos em maus lençóis! Estão sabendo? — disse ele, esfregando as
mãos num gesto nervoso.
— Plevna? — perguntou Fandorin, certo da catástrofe.
— Foi um esmagamento total. O general Childer-Childner avançou sempre
em frente, sem batedores, querendo chegar antes de Osman Paxá. Os nossos
eram sete mil, mas os turcos eram muito mais numerosos. Marchando em frente,
nossas colunas foram apanhadas no meio do fogo cruzado. Rozenbaum, o
comandante do regimento de Arkhangelsk, foi morto; Kleinhaus, o do regimento
de Kostroma, mortalmente ferido; o major-general Knorring voltou de maca.
Perdemos um terço dos nossos homens. Um verdadeiro massacre. Eis os três ou
quatro homens de que Ali Bey dispunha! Os próprios turcos estavam diferentes,
ao contrário do costume. Bateram-se como diabos.
— E Paladin? — perguntou brevemente Fandorin.
— Nada. Balbucia justificativas. Kazanzakis levou-o para interrogatório...
Agora, vai começar. Eu talvez acabe também por receber uma missão.
Perepelkin me fez compreender que eu tenho uma chance.
E com seu passo leve, o general dirigiu-se para o estado-maior.
Varia passou o resto do dia no hospital, ajudando a esterilizar os
instrumentos. Tinham trazido tão grande número de feridos que foi necessário
instalar duas novas barracas. As enfermeiras caíam de cansaço. Pairava no ar um
cheiro de sangue e sofrimento, os feridos gritavam e rezavam.
Só à noite é que ela conseguiu ir ao clube dos correspondentes, onde, como
já foi dito, a atmosfera era totalmente diferente da que se observara na véspera.
Apenas a mesa de jogo, em que os entusiastas continuavam jogando há mais
de vinte e quatro horas, conhecia animação. Zurov, completamente pálido, dava
as cartas com gestos vivos, puxando a fumaça do cigarro. Não comera nada e
não parava de beber, sem, no entanto, se embriagar. Ao seu lado acumulava-se
um grande monte de notas de banco, moedas de ouro e declarações de dívida. Na
frente dele, o comandante Loukan, cabelos desgrenhados, dava a impressão de
ter perdido a cabeça. Um outro oficial dormia ali perto, a cabeça loura pousada
nos braços cruzados. O garçom esvoaçava em volta deles como uma borboleta
gorda, pronto a atender imediatamente os desejos do feliz hussardo.
Fandorin não estava lá, tampouco Paladin, e McLaughlin jogava xadrez.
Quanto a Sobolev, debruçado sobre um enorme mapa que monopolizava toda a
sua atenção, assim como a dos oficiais reunidos em volta dele, não concedeu
sequer um olhar a Varia.
Lamentando ter vindo, a jovem disse.
— Conde, não tem vergonha? Houve tantos mortos!
— Mas nós, nós ainda estamos vivos, moça — respondeu Zurov com um ar
distraído e tamborilando nas cartas. — Não vamos nos enterrar antes de tempo.
Ah, Loukan, está blefando! Eu dobro a aposta.
Loukan, tirando do dedo o anel de diamante, lançou: — Pago para ver.
E com a mão tremendo, estendeu-a, com extrema lentidão, para as cartas de
Zurov, postas negligentemente na mesa, viradas para baixo.
Foi nesse preciso momento que Varia viu entrar sorrateiramente na barraca o
tenente-coronel Kazanzakis. Tinha o ar de um sinistro corvo negro que acaba de
farejar um delicioso cheiro de cadáver e, lembrando-se da maneira como
terminara sua aparição anterior, ela teve um arrepio.
McLaughlin virou-se para o recém-chegado.
— Senhor Kazanzakis, onde está Paladin?
O tenente-coronel fez um silêncio significativo e depois, esperando que os
outros se calassem, respondeu sucintamente: — Está comigo, redigindo um
documento explicativo. — E, clareando a voz, acrescentou: — Depois disso,
decidiremos.
Foi a voz baixa de Zurov que cortou com desenvoltura a pausa que se
instalara.
— Eis, portanto, Kazanzakis, o célebre policial! Saúdo-o, lábio rachado.
E, com seus olhos impertinentes brilhando de bom humor, olhou com ar
provocador para o tenente-coronel, que ficou subitamente vermelho até as
orelhas.
— Também tenho informações que lhe dizem respeito, senhor arruaceiro —
disse em voz lenta, fixando o hussardo nos olhos. — Sua reputação já está feita e
eu o aconselharia a moderar a língua, ou chamo um guarda e mando prendê-lo
por jogos de azar no campo. E confisco a banca.
— Percebemos imediatamente quando estamos em presença de um homem
sério — disse o conde com um risinho. — Mensagem compreendida! Ficarei
mudo como um túmulo.
Loukan virou finalmente as cartas de Zurov, emitiu um longo gemido e
colocou a cabeça entre as mãos. O conde avaliava com ar cético o anel que
acabara de ganhar.
Varia ouviu subitamente a voz irritada de Sobolev: — Mas não, major, não se
trata de uma traição! Perepelkin tem razão, ele é o cérebro do estado-maior.
Simplesmente Osman chegou em marcha forçada e nossos fanfarrões não
esperavam tanta rapidez da parte dos turcos. Agora a brincadeira terminou.
Temos um adversário à altura e a guerra vai ser a sério.
capítulo
6
Onde vemos Plevna e Varia resistindo a um assalto

Wiener Zeitung (Viena)


30 (18) de julho de 1877

Nosso correspondente em Chumen, onde atualmente está acantonado o


quartel-general turco dos Bálcãs, comunica-nos o seguinte: Depois da sua
esmagadora derrota em Plevna, os russos se veem numa situação absurda.
Suas colunas estão espalhadas ao longo de dezenas e mesmo centenas de
quilômetros, do sul ao norte. Suas comunicações estão mal protegidas, suas
retaguardas, a descoberto. A manobra genial de Osman Paxá sobre o
flanco russo permitiu aos turcos ganhar tempo necessário para proceder a
um reagrupamento de forças, e a pequena cidade búlgara tornou-se para o
urso russo um espinho doloroso em seu flanco felpudo.
Os meios próximos da corte de Constantinopla dão mostras de um
otimismo contido.

De um lado, as coisas iam mal, podia-se mesmo dizer que a situação era a
pior possível. O pobre Petia continuava aferrolhado. Depois da catástrofe de
Plevna, o horrível Kazanzakis tinha outras coisas em mente, mas a ameaça de
tribunal se mantinha. A própria sorte da guerra mudara. Para usar a imagem dos
contos populares, o pequeno peixinho dourado tinha agora escamas cortantes.
Por outro lado (e Varia tinha vergonha de confessar a si mesma), ela nunca
achara a vida tão interessante. É isso mesmo: interessante é a palavra exata. A
explicação era de uma simplicidade indigna. Pela primeira vez na vida a jovem
se via cortejada por tantos admiradores ao mesmo tempo, e que admiradores!
Era diferente da experiência com os companheiros de trem, diferente da
experiência com os estudantes cheios de acne de S. Petersburgo. E a perversa
natureza feminina, que ela tentava em vão sufocar de todas as formas, instalava-
se em seu coração tolo e vaidoso e desabrochava. Não era próprio.
Foi assim, por exemplo, que nessa manhã de 18 de julho, dia importante e
memorável, do qual voltaremos a falar, Varia despertara sorridente. Antes
mesmo de acordar, mal sentiu a luz do sol através das suas pálpebras fechadas,
mal começou a espreguiçar-se, teve um sentimento de alegria, satisfação e festa.
Só um pouco mais tarde, quando a razão acordou depois de seu corpo, é que ela
se lembrou da situação de Petia e da guerra. Com força de vontade, obrigou-se a
assumir expressão carrancuda e a pensar em coisas tristes, mas, desobediente
porque mal acordada, sua mente não podia evitar ser invadida por coisas que
poderiam ter sido sugeridas por Agafia Tikhonovna, a casamenteira de Gogol, se
acrescentarmos à ligação viva de Petia a glória de Sobolev, a descontração de
Zurov e os talentos de Charles, assim como o olhar pestanejante de Fandorin...
No fim da contas, Erast Petrovitch não tinha lugar aqui porque, mesmo forçando
a coisa, era difícil incluí-lo no grupo de seus admiradores.
Suas relações com o conselheiro titular não eram claras. Nem sempre sua
função junto a ele era a de colaboradora formal. Fandorin não lhe desvendava
seus segredos e, no entanto, era evidente que ele trabalhava num assunto que,
visivelmente, não era desprovido de importância. Por vezes, desaparecia por
longos períodos ou, ao contrário, ficava fechado na barraca, sendo então visitado
por misteriosos mujiques búlgaros, com chapéus de pele de carneiro e cheiro
forte. Eles vinham sem dúvida de Plevna, pensava Varia, mas o orgulho a
impedia de fazer perguntas. Fale desse assunto! Os habitantes de Plevna não
eram figuras tão fora do comum no campo russo. Até o próprio McLaughlin
tinha um informante pessoal que lhe comunicava fatos únicos acerca da vida da
guarnição turca. É verdade que o irlandês não transmitia ao comando russo as
informações assim obtidas, metendo em primeiro lugar a "ética do jornalista".
Em contrapartida, os leitores do Daily News sabiam melhor como Osman Paxá
passava o tempo do que os poderosos redutos que, não apenas dia a dia, mas de
hora a hora, cercavam de uma maneira cada vez mais apertada a cidade
assediada.
No entanto, desta vez, também o destacamento ocidental do exército russo se
tinha preparado seriamente para o combate. O assalto estava previsto para esse
dia e todos afirmavam que ia sem falta ser desfeito o "mal-entendido de Plevna".
Na véspera, usando um bastão, Erast Petrovitch desenhara no chão para mostrar
a Varia o conjunto das fortificações turcas, explicando-lhe que, segundo as
informações absolutamente certas que ele possuía, Osman Paxá dispunha de
vinte mil homens e quarenta e oito canhões, enquanto o general Krudener
reunira à volta da cidade trinta e dois mil soldados e cento e setenta e seis
canhões, sem esquecer que ainda contavam com os romenos. Fora elaborada
uma operação ardilosa, mantida estritamente secreta, incluindo uma manobra
dissimulada de cerco e um falso ataque. As explicações de Fandorin eram tão
claras que, imediatamente convencida da vitória do exército russo, Varia nem
sequer se deu ao trabalho de escutar com atenção, limitando-se a observar o
conselheiro secreto, perguntando-se quem seria a jovem loura fechada em seu
medalhão. Kazanzakis dissera coisas estranhas em relação a seu casamento. Era
então a mulher dele? Ela parecia jovem demais para isso, era uma verdadeira
menina.
As coisas tinham-se passado da seguinte maneira. Três dias antes, tendo ido
visitar Erast Petrovitch na sua barraca depois do café, Varia o encontrara
dormindo profundamente, atravessado na cama, completamente vestido, as botas
cobertas de lama. Tinha estado ausente todo o dia anterior, e se percebia que só
voltara de madrugada. Ela se preparava para se retirar sem fazer barulho, quando
notou que o colarinho desabotoado deixava a descoberto em seu peito o
medalhão de prata. A tentação foi grande demais. Aproximara-se pé ante pé da
cama, fitando o rosto de Fandorin. O homem tinha respiração regular, a boca
estava entreaberta e o conselheiro titular parecia um rapazote que, para se
divertir, pintara as têmporas de pó branco.
Tomando todas as precauções, Varia pegou o medalhão com dois dedos e,
abrindo o fecho, descobriu um minúsculo retrato.
Uma verdadeira bonequinha Madchen Gretcben1: caracóis dourados, olhos
pequeninos, boca pequenina, faces amorosas. Nada de excepcional. Ela queria
ter lançado ao homem que dormia um olhar de censura, quando se sentiu corar
completamente: sob as pestanas compridas, olhos sérios de um azul vivo e
pupilas muito negras a fixavam.
Seria estúpido dar explicações e Varia simplesmente fugiu, o que também
não foi muito inteligente, mas evitava pelo menos uma cena desagradável.
Depois, por mais estranho que possa parecer, Fandorin comportou-se como nada
tivesse acontecido.
Erast Petrovitch era um homem frio e desagradável que evitava tomar parte
das conversas não iniciadas por ele, mas, se tomasse, acabava invariavelmente
por emitir opiniões que revoltavam Varia. Pode-se citar, por exemplo, o debate
sobre Parlamento e democracia que se levantara num piquenique (tinham ido em
grupo para as colinas, arrastando Fandorin, se bem que ele tenha tentado resistir
e ficar fechado no seu canto). Paladin falou da constituição introduzida no ano
anterior na Turquia pelo ex-Grão-Vizir Midhat Paxá. Varia se interessou muito.
Ali estava efetivamente, um país selvagem, asiático, que tinha, no entanto, um
parlamento. Era muito diferente da Rússia.
A partir daí, começaram a comparar os sistemas parlamentares. McLaughlin
era adepto do sistema britânico. Paladin, se bem que francês, defendia a via
americana. Sobolev insistia num sistema particular, especificamente russo, que
conseguisse juntar nobreza e camponeses. Quando Varia reclamara o direito de
voto para as mulheres, o riso foi geral. Aquele mercenário do Sobolev zombou
dela.
— Ora, Varvara Andréevna, se deixarmos vocês, mulheres, brincar de
sufragistas, só enviariam ao parlamento rapazes bonitos, gentis e amorosos. Se
tivessem que escolher entre Fedor Mikhailovich Dostoiévski e Zurov, nosso
capitão de cavalaria, a quem dariam seu voto, confesse? Repare que não a obrigo
a responder!
— Senhores, mas será obrigatório enviar pessoas ao parlamento? —
exclamou o hussardo, inquieto.
O bom humor era geral.
E Varia teve oportunidade de dissertar sobre a igualdade de direitos e de
evocar o território americano do Wyoming, que autorizava o voto das mulheres
sem se dar mal com isso, mas ninguém levou a sério seu discurso.
Varia, então, virou-se para Fandorin.
— E você, por que se mantém calado?
E ele sustentou posições tão escandalosas que teria sido melhor ficar calado.
— Pelo meu lado, Varvara Andréevna, sou um adversário resoluto da d-d-
democracia — disse ele, corando. — Ao nascer, um homem não vale tanto
quanto outro e não se pode fazer nada sobre isso. O princípio democrático
restringe os direitos dos mais inteligentes, mais talentosos e mais trabalhadores,
colocando-os na dependência da vontade estúpida dos imbecis, das pessoas
desprovidas de talento e dos preguiçosos, que são em maior número na
sociedade. Es-p-p-peremos primeiramente que nossos compatriotas se libertem
de suas caraterísticas rudes e adquiram o direito de usar o título de cidadão,
então poderemos começar a pensar num parlamento.
Uma declaração tão inaudita deixara Varia perplexa e foi Paladin que voou
em seu socorro.
— E no entanto — sussurrara o jornalista francês em tom suave —, se um
país já introduziu o direito de voto (a conversa se dava em francês) não é justo
humilhar metade de uma população que, além disso, é a melhor.
A estas belas palavras, Varia sorriu, virou-se de lado e pôs-se a pensar em
Paladin.
Felizmente, Kazanzakis acabou por deixá-lo em paz. O general Krudener não
tomava posições estratégicas com base em entrevistas! O pobre Paladin tinha
metido pés pelas mãos e se servido de todos os recursos para dar explicações e
tentar se justificar. E esse ar de homem perseguido e infeliz o tornava ainda mais
atraente aos olhos de Varia. Se anteriormente ela o considerava um pouco
convencido, lisonjeado pela admiração geral, e se Varia fizera questão de manter
distância, presentemente ela já não sentia necessidade disso, adotando atitude
simples e afetuosa. Era um homem fácil, alegre, nada que se comparasse a Erast
Petrovitch. Por outro lado, ele sabia muitas coisas sobre a Turquia, o Oriente
Antigo, a história da França. Seu gosto pela aventura o levara a todos os cantos
do mundo. E como relatava agradavelmente seus récits drôles, com espírito,
vivacidade e sem a mínima afetação! Varia adorava ver Paladin responder suas
perguntas, fazendo uma pausa especial, dirigindo-lhe um sorriso enigmático e
dizendo com um ar misterioso: "Oh, c'est toute une histoire, mademoiselle."
Após o que, ao contrário de Fandorin, que escondia tudo, ele contava a dita
história imediatamente.
Na maioria das vezes, as histórias eram divertidas, mas de vez em quando
eram terríveis.
Varia se lembrava especialmente de uma: “Vocês costumam, Srta. Varia,
acusar os asiáticos de pouco respeito pela vida humana e têm razão (a conversa
se referia às crueldades dos Bachi-Bouzouks). Mas sabemos bem que não são só
os bárbaros, os selvagens, que, em termos de desenvolvimento, não estão muito
afastados, digamos, de tigres e crocodilos. Passo a descrever uma cena que tive
ocasião de presenciar no país mais civilizado entre todos, a Inglaterra. Oh, e que
história... Os britânicos atribuem tal apreço à vida humana que a seus olhos não
há pior pecado que o suicídio, e toda tentativa nesse sentido é punida com a
morte. No Oriente, ainda não se chegou a isso! Há alguns anos, eu estava em
Londres e um condenado seria enforcado na prisão. Ele cometera um crime da
maior gravidade: tendo conseguido uma lâmina de barbear, tentara cortar o
pescoço e teria conseguido se não tivesse sido salvo a tempo pelo médico da
prisão. Estupefato ao descobrir a lógica apresentada pelo juiz, eu disse a mim
mesmo que tinha absolutamente que assistir a essa execução. Pondo em campo
minhas relações, consegui um passe e asseguro que não fiquei decepcionado
com o espetáculo.”
“Tendo danificado as cordas vocais e podendo apenas emitir sons
inarticulados, o condenado foi dispensado de usar, pela última vez, a palavra.
Houve, em contrapartida, longas reuniões com o médico que afirmava que
aquele homem não podia ser enforcado porque a ferida podia voltar a abrir e que
respiraria diretamente pela traqueia. Pondo-se de acordo, o procurador e o
diretor da prisão tinham apesar disso dado ordem ao carrasco de proceder à
execução. Verificou-se, contudo, que o médico tinha razão: com a pressão da
corda, sua garganta se abriu imediatamente e, pendurado na forca, o homem
começou a respirar com um horrível assobio. Permaneceu assim cinco, dez,
quinze minutos sem morrer, apenas o rosto é que ganhava um tom azulado.
“Decidiram então consultar o juiz que pronunciara a sentença, mas, era de
madrugada, levaram muito tempo para acordá-lo. Chegando uma hora mais
tarde, o juiz adotou o julgamento de Salomão: deu ordem para soltarem o
homem da forca e de voltar a enforcá-lo, passando desta vez a corda já não
acima do ferimento mas mais abaixo. O que foi feito. Desta vez as coisas
correram normalmente e aí tem portanto os frutos da civilização.”
À noite Varia sonhou com o enforcado e sua garganta que ria. “A morte não
existe”, dizia a garganta com a voz de Paladin, antes de começar a sangrar. “Só
existe um retorno à casa de partida.”
A casa de partida, essa, vinha de Sobolev.
— Infelizmente, Varvara Andréevna — tinha o hábito de lhe dizer o jovem
general balançando com amargura a cabeça raspada —, minha vida é uma
corrida de obstáculos, mas o juiz não para de me desqualificar e de me fazer
voltar à casa de partida. Veja você, comecei na cavalaria e me distingui na guerra
contra os poloneses. Infelizmente, uma história estúpida com uma garota local
valeu-me perder imediatamente minha promoção... Depois disso, tendo feito
estudos na academia do quartel-general, fui enviado para o Turquestão. Lá,
entrei num duelo estúpido com um desfecho fatal e de novo voltei ao início.
Casei-me com uma princesa, pensando que conheceria a felicidade... Bela ilusão
e eis-me mais uma vez sozinho, privado de perspectiva de futuro. Pedi para
voltar para o deserto, onde não poupei nem minhas forças nem a dos meus
homens, e é um milagre que ainda esteja vivo e, de novo, eis-me sem nada.
Arrasto-me por aqui na qualidade de parasita, esperando uma nova oportunidade
e me perguntando se minha hora algum dia chegará.
Mas se ela conseguira facilmente sentir pena de Paladin, o mesmo não
acontecia com Sobolev. Primeiro porque, no que dizia respeito à casa de partida,
Michel exagerava um pouco e bancava o galã: com trinta e três anos, ter o título
de general, fazer parte da corte do Imperador e ser condecorado com duas cruzes
de S. Jorge e com a Espada de Ouro, não era muito comum! Depois, ele levava
longe demais o desejo de se lamentar. Enquanto ainda era aluno da escola
militar, os mais velhos tiveram que lhe explicar que, em matéria de amor, a
vitória se conquista de duas maneiras: com ataques de cavalaria ou longos
trabalhos de sapa para aproximar o coração feminino da comiseração.
Em seus trabalhos de aproximação, Sobolev era desajeitado, mas a corte que
ele fazia a Varia a lisonjeava: era com efeito um verdadeiro herói, apesar da
barbicha ridícula que usava no meio da cara. Quando ela fazia delicadamente
alusão a uma eventual mudança no formato da barba, o general abria
negociações: estaria pronto a fazer o sacrifício, mas unicamente a troco de
garantias precisas. Ora, não era intenção de Varia dar garantias.
Cinco dias antes, Sobolev chegou muito feliz. Acabava de obter um
destacamento, dois regimentos cossacos, e tomaria parte do assalto a Plevna,
com a missão de proteger o flanco sul do exército. Varia desejou a ele um feliz
recomeço. Como chefe do estado-maior, Michel tinha escolhido Perepelkin,
contando do sinistro capitão as seguintes coisas:
— Ele andava me fazendo propostas e eu aceitei. E depois, sabe, Varvara
Andréevna, Eremel Ionovitch pode não ser um homem divertido, mas é
competente. Apesar de tudo, vem do estado-maior geral. É conhecido no
departamento de operações, onde lhe dão informações preciosas. Além disso,
vejo que ele é pessoalmente dedicado a mim. Não esqueci a maneira como me
salvou dos Bachi-Bouzouks. E confesso que tenho a fraqueza, pobre pecador, de
atribuir entre meus subordinados uma importância particular à dedicação.
No momento, não faltavam ocupações a Sobolev e, no entanto, há dois dias,
Serge Verechtchaguin, seu ordenança, viera trazer da parte de Sua Excelência um
suntuoso ramo de rosas vermelhas que, nesse dia, estavam numa jarra, eretas
como os bravos de Borodino, não denunciando nenhuma veleidade em se
desfolhar e impregnando a barraca inteira de um perfume denso e sensual.
A brecha aberta pela partida do general foi imediatamente ocupada por
Zurov, adepto convicto do ataque de cavalaria. Varia desatou a rir relembrando a
forma corajosa com que o capitão conduziu sua operação de reconhecimento
prévio.
— Que bela vista, moça! Viva a natureza! — tinha ele declarado uma tarde,
ao sair da enfumaçada sala de imprensa atrás de Varia, que sentiu vontade de
admirar o pôr do sol.
E sem perder o ritmo, mudou de assunto.
— É um homem sério, Erasmo, não é? Tem a alma tão limpa quanto um
lençol. E depois é um excelente camarada, se bem que, temos que dizer, de
natureza um pouco enfadonha.
Nessa altura o hussardo fez uma pausa, com seus belos olhos arrogantes
fixos na jovem, observando sua reação. Mas Varia esperava que ele prosseguisse.
— Além do mais, é bonito, moreno e tudo. Com uniforme de hussardo seria
bem sedutor — continuava Zurov em sua jogada. — Claro, agora tem esse ar
molenga, mas se o tivesse visto antes! Um verdadeiro gêiser, um corcel árabe!
Varia prestava uma atenção desconfiada ao bem-falante, de tal forma lhe era
impossível imaginar o conselheiro titular como um corcel árabe.
— E por que essa mudança? — perguntou ela na esperança de saber algo do
passado tão misterioso de Erast Petrovitch.
Mas Zurov apenas encolheu os ombros.
— Só Deus sabe. Perdi-o de vista um ano inteiro. E não pode ser outra coisa
senão um amor infeliz. Vocês mulheres nos tomam todos por pedaços de madeira
sem coração, quando na realidade temos alma ardente e frágil. — Ele baixou os
olhos com amargura. — Quando se tem o coração destroçado, fica-se velho aos
vinte anos.
Varia riu.
— Vinte anos como? Não acredito que você tenha rejuvenescido assim.
— Não estou falando de mim, falo de Fandorin — explicou o hussardo. —
Sabia que ele tem só vinte e um anos?
— Fandorin, vinte e um anos? Ah, pare com isso! Eu mesma tenho vinte e
dois.
— É o que digo — disse Zurov, encantado com o andar da conversa. —
Precisa de alguém mais sério, já na casa dos trinta.
Mas Varia já não o escutava. O que acabara de ouvir mergulhou-a na mais
total estupefação. Fandorin só tinha vinte e um anos! Vinte e um anos! Era
inacreditável. Então, por isso Kazanzakis o chamou de "menino-prodígio". Na
verdade, o conselheiro titular tinha mesmo uma cara de adolescente, mas sua
conduta, seu olhar, as têmporas grisalhas! O que aconteceu com você, Erast
Petrovitch, para que esteja assim?
Interpretando a perplexidade da jovem à sua maneira, o hussardo se
empertigou: — Está vendo aonde quero chegar, menina. Se esse espertalhão do
Erasmo me ultrapassou, eu me retiro imediatamente. Digam seus inimigos o que
disserem, Zurov é um homem de princípios. Ele não ataca nunca o que pertence
a outra pessoa.
Varia acabou por escutar.
— É de mim que está falando? Se sou eu “o que pertence a Fandorin”, não
me ataca, mas se não for, está interessado? Será que compreendi direito?
Zurov mexeu diplomaticamente as sobrancelhas, sem sequer dar mostra da
menor perturbação.
— Eu pertenço e sempre pertencerei só a mim mesma, mas eu tenho
namorado — disse Varia ao audacioso, em tom severo.
— Ouvi falar. Mas não conto o senhor prisioneiro entre meus amigos —
respondeu o capitão de cavalaria, recuperando seu bom humor e dando assim por
terminada a missão de reconhecimento.
O ataque propriamente dito veio imediatamente.
— Proponho uma pequena aposta, menina. Se eu adivinhar quem vai sair em
primeiro lugar do clube, você me dá um beijo. Se eu me enganar, raspo a cabeça
completamente como um Bachi-Bouzouks. Decida! Verdade que não corre
grande risco, no momento há pelo menos vinte pessoas na barraca.
Varia sentiu contra a vontade seus lábios se entreabrirem num sorriso.
— Certo, então, quem vai ser o primeiro a sair?
Zurov fingiu refletir e sacudiu a cabeça com ar desesperado.
— Adeus, meus lindos caracóis... Vai ser o coronel Sabline. Não,
McLaughlin. Não... Simon, o garçom! É nele que eu aposto!
Tossiu ruidosamente e um segundo depois viu-se o garçom surgir. Limpou as
mãos no colete de seda e, observando com ar muito sério o céu limpo,
murmurou: "Desde que não chova!" Depois, voltou à barraca, sem sequer olhar
para Zurov.
— É um milagre, um sinal do céu! — exclamou o conde.
E, afagando o bigode, inclinou-se para uma Varia que ria às gargalhadas.
Ela pensou que ele ia beijar seu rosto, como Petia fazia sempre, mas Zurov
curvou-se para seus lábios e o beijo foi longo, estranho e vertiginoso. Depois de
um momento, sentindo que estava a ponto de desfalecer, Varia repeliu-o e levou
as mãos ao coração.
— Espere, vou lhe dar uma bofetada daquelas — ameaçou ela com voz
fraca. — Pessoas bem intencionadas já tinham me avisado, eu sabia que você era
um trapaceiro.
— Se me der uma bofetada, desafio-a para um duelo e certamente serei
vencido — ronronou o conde, arregalando os olhos.
Era absolutamente impossível querer mal a ele...
De repente, a porta se abriu e Varia viu aparecer a cara redonda de Luchka,
uma boba exercia a função de garçonete e cozinheira, assim como de ajudante de
enfermagem, no caso da chegada em massa de feridos.
— Senhorita, há um militar a sua espera — disse ela. — Um moreno de
bigode e um ramo de flores. O que eu digo?
Fala-se do lobo... pensou Varia, e voltou a sorrir. A maneira como Zurov
levara seu assalto divertiu-a profundamente.
— Que ele espere. Não demoro muito — disse ela, retirando a capa.
Mas não era o hussardo que andava de um lado para o outro entre as barracas
da enfermaria, onde tudo estava finalmente pronto para voltar a acolher feridos,
era um outro pretendente, por sinal, o coronel Loukan, todo perfumado.
Varia deu um profundo suspiro, mas era tarde demais para recuar.
— Ravissante comme l'aurore!2 — disse o pretendente que estava prestes a
debruçar-se sobre a sua mão para a beijar, mas que se conteve, lembrando-se de
como eram as mulheres modernas.
Varia fez um gesto com a cabeça para recusar o ramo de flores, olhou para a
farda com galões de ouro do aliado da Rússia e perguntou secamente: :- Para quê
esta farda de parada a uma hora tão matinal?
— Parto para Bucareste, onde tenho que assistir a um conselho de guerra
com a presença de Sua Majestade — anunciou o coronel, com um ar importante.
— Vim me despedir e gostaria de aproveitar para convidá-la para um café.
O coronel bateu palmas e da esquina da rua avançou uma carruagem
elegante, e no lugar do cocheiro, um soldado de uniforme e luvas brancas.
Loukan inclinou-se para Varia.
— Por favor.
Intrigada apesar de tudo, a jovem tomou o lugar no assento magnificamente
suspenso.
— Aonde vamos? À cantina dos oficiais?
O romeno contentou-se em sorrir misteriosamente, como se sua intenção
fosse a de conduzir a sua passageira pelo menos até o fim do mundo.

De uma maneira geral, o coronel adotara nos últimos tempos uma conduta
bizarra. Continuava a jogar cartas noites inteiras, mas, se nos seus primeiros
confrontos com Zurov mostrara um ar de perseguido infeliz, tinha se recuperado
totalmente e, embora continuando a perder somas não negligenciáveis, o certo é
que mantinha o moral.
— Então, como foi o jogo de ontem à noite? — perguntou Varia, os olhos
fixos nas olheiras escuras de Loukan.
O rosto dele se iluminou.
— A sorte acabou por me sorrir. Fim da sorte insolente de seu Zurov.
Conhece a lei dos grandes números? Se dia após dia jogarmos grandes somas,
cedo ou tarde obtemos a desforra.
Pelo que ela podia recordar, Petia expusera esta teoria de maneira um pouco
diferente, mas ela não se lançaria agora numa discussão!
— O conde tinha a seu favor uma sorte cega e eu tinha o cálculo matemático
e uma grande fortuna. Observe. — E ele levantou o dedo — Ganhei de volta
meu anel de família. É um diamante indiano de onze quilates. Um antepassado
meu trouxe-o de uma cruzada.
— Eu não sabia que os romenos tinham participado das cruzadas! — disse
imprudentemente Varia, o que lhe valeu ter que escutar uma conferência sobre a
genealogia do coronel, cuja família remontava ao legado romano Lucanus
Mauritius Tullus.
O carro saiu dos limites do campo, parando num pequeno bosque com
sombras, onde, junto de um velho carvalho, o olhar foi atraído para uma mesa
coberta com uma toalha branca engomada sobre a qual se apresentava uma tal
diversidade de pratos deliciosos que Varia sentiu imediatamente fome. Estavam
ali, ao mesmo tempo, queijos franceses, frutas, salmão defumado, fiambre
rosado, lagostins vermelhos; por outro lado, num balde de prata, estava
confortavelmente mergulhada uma garrafa de Château-Lafite.
Era preciso reconhecer que Loukan também tinha certas qualidades.
No momento de levantar o primeiro copo, ouviu-se ao longe um ribombar
surdo e Varia sentiu o coração apertar. Como se distraíra dessa maneira? Era o
assalto que começava. Nesse momento, havia homens caindo mortos, feridos
gemendo e ela...
Repelindo com um ar culpado uma primeira taça de vinho cor de esmeralda,
disse: — Senhor, fazei com que tudo se passe como eles previram.
O coronel esvaziou seu copo de um só trago, voltou a servir-se
imediatamente e enquanto mastigava, observou: — O plano deles é bom,
obviamente. Na qualidade de representante pessoal de Sua Majestade, estou não
só a par, mas também participei de certa forma de sua elaboração. A manobra
para rodear a proteção da fila de colinas é particularmente astuciosa. As colunas
de Chakhovskoi e de Veliaminov atacam Plevna pelo leste, enquanto o pequeno
destacamento de Sobolev atrai a atenção de Osman Paxá para o sul. Nos mapas,
é sedutor. — Loukan esvaziou outro copo. — Infelizmente, a guerra, senhorita
Varvara, não se passa nos mapas. E seus compatriotas não vão ter êxito.
— Mas por quê? — exclamou Varia, inquieta.
O coronel deu um pequeno riso e depois bateu com a mão na cabeça.
— Eu, moça, sou um estrategista e vejo mais claramente que seus chefes de
estado-maior. Tenho aqui — e ele apontou com a cabeça para sua pasta — a
cópia do relatório que enviei ontem ao príncipe Karl. Nele, prevejo um fiasco
completo para as forças russas e tenho certeza de que Sua Excelência saberá
apreciar minha clarividência. Seus chefes militares são orgulhosos e presunçosos
demais; superestimam seus soldados e subestimam os turcos. Como subestimam
também nós, nós, seus aliados romenos. Isso não tem importância; depois da
lição que vão receber hoje, o próprio tsar virá nos pedir ajuda, vai ver!
O coronel cortou um grande pedaço de roquefort, enquanto Varia sentia o seu
bom humor se dissipar definitivamente.
As tristes previsões de Loukan revelaram-se exatas.

À tarde, Varia e Fandorin estavam à beira da estrada de Plevna, enquanto


diante deles desfilavam sem parar carroças de feridos. O cálculo das baixas
ainda não estava completo, mas, no hospital, disseram-lhes que pelo menos sete
mil soldados tinham sido postos fora de combate. Contavam que Sobolev se
distinguira, atraindo sobre ele o contra-ataque turco, que sem os seus cossacos a
derrota teria sido cem vezes pior. Espantavam-se também com a qualidade dos
artilheiros turcos, que tinham demonstrado uma habilidade satânica, dizimando
as colunas que se aproximavam, antes mesmo de os batalhões terem tempo de
tomar posições para o ataque.
Varia reportou essas informações a Erast Petrovitch, que não disse nem
sequer uma palavra. Possivelmente, ele já sabia de tudo, possivelmente estava
em estado de choque. Vá saber...
A coluna parou subitamente, uma carroça tinha perdido uma roda. Varia, que
tentava olhar o menos possível para os feridos, dirigiu um olhar mais atento ao
carro inclinado e deu um grito. Achou reconhecer o rosto de um oficial. Ao se
aproximar, viu que não se enganara: tratava-se mesmo do coronel Sabline, um
dos frequentadores do clube. O homem estava inconsciente. A capa que o cobria
estava suja de sangue e seu corpo parecia estranhamente curto.
— Conhece-o? — perguntou o enfermeiro que o acompanhava. — Um obus
arrancou-lhe as duas pernas. Não teve muita sorte.
Varia recuou e começou a soluçar convulsivamente. Chorou muito tempo,
depois as lágrimas secaram. Um pouco mais tarde, sentiu frio, e as carroças com
feridos não paravam de chegar.
— No clube, Loukan é considerado um imbecil, mas revelou-se de fato mais
esperto do que Krudener — disse ela, porque não conseguia ficar em silêncio
mais tempo.
Fandorin avaliou-a com olhar interrogativo e ela se explicou.
— Ele disse ainda esta manhã que o assalto não daria certo, que o dispositivo
era bom, mas que os comandantes eram ruins. E os soldados também...
— Ele disse isso? — admirou-se Fandorin. — Ah, bom! Isso muda...
Mas não terminou a frase, franzindo as sobrancelhas.
— Isso muda o quê?
Silêncio.
— Mas o que isso muda? Responda!
Varia começava a se enervar.
— Que mau hábito você tem de dizer “a” e nunca chegar a “b”! Enfim, o que
isso significa?
Ela tinha um enorme desejo de agarrar o conselheiro titular pelos ombros e
sacudi-lo com força. Garoto mal-educado e convencido! Que, além do mais,
brincava de chefe índio Tchingatchguk.
Mas Erast Petrovitch abriu bruscamente a boca.
— Isso significa, Varvara Andréevna, que nós estamos diante de uma traição.
— Uma traição? Que traição?
— É o que vamos esclarecer. — Fandorin esfregou a testa — O coronel
Loukan, homem de inteligência nada excepcional, é o único a prever a derrota
do exército russo. É um. Ele sabia do dispositivo e como representante do
príncipe Karl tinha até recebido uma cópia. E são dois. O sucesso da operação
dependia da manobra secreta ao abrigo das colinas. E são três. Nossas colunas
foram atingidas pela artilharia turca sem visibilidade direta. São quatro.
Conclusão?
— Os turcos sabiam antecipadamente quando e onde atirar — resmungou
Varia.
— Quanto a Loukan, ele sabia antecipadamente que o assalto seria
infrutífero. De fato, e aí vão cinco: nestes últimos dias descobriu-se que esta
personagem estava repentinamente cheia de dinheiro.
— É um homem rico, que tem bens de família, domínios. Ele me contou
tudo isso, mas eu não prestei muita atenção.
— Não há muito tempo, Varvara Andréevna, o coronel tentou me pedir
emprestados trezentos rublos. Depois disso, se acreditarmos em Zurov, ele
chegou a perder quinze mil rublos em poucos dias. Hipólito pode ter exagerado,
claro...
— Ele é certamente capaz disso — concordou Varia. — Mas neste caso é
verdade. Loukan perdeu muito dinheiro. Foi ele mesmo que me disse esta
manhã, antes de partir para Bucareste.
— Ele partiu?
Erast Petrovitch embrenhou-se em seus pensamentos, contentando-se de
tempos em tempos em balançar a cabeça. Varia ficou de lado, tentando ver o
rosto dele, mas não notou nada de especial: com os olhos pestanejantes,
Fandorin observava o planeta Marte.
Depois, ele começou a falar muito lentamente: — Escute, m-minha querida
Varvara Andréevna. — Varia sentiu-se imediatamente reconfortada. Primeiro
porque ele tinha dito “minha querida”, mas também porque ele tinha recomeçado
a gaguejar. — Vou ter que lhe pedir para m-me ajudar, quando eu tinha
prometido...
— Farei com alegria tudo o que pedir! — exclamou ela um pouco
precipitadamente, antes de acrescentar: — Trata-se de salvar Petia?
— É isso mesmo. — Fandorin olhou-a fixamente, com jeito estar avaliando a
moça. — Mas a missão é m-m-muito difícil e não tem nada de agradável. Eu
gostaria que fosse também a Bucareste, que procurasse Loukan e fizesse uma
ideia clara dele. Tentar saber, por exemplo, se ele é verdadeiramente tão rico
quanto diz. Use a vaidade dele, de sua fanfarronice e estu-tu-pidez. Ele já lhe
contou uma vez o que nunca deveria ter contado. Não deixará de bancar o pavão
com você — Erast Petrovitch mostrou-se incomodado —, pois você é uma p-p-
pessoa jovem, atraente...
Bruscamente, ele perdeu o fio da meada e interrompeu a frase com um
acesso de tosse, porque, sob o efeito da surpresa, Varia tinha acabado de
assobiar. Acabara de receber um cumprimento da estátua do comendador. Claro
que um elogio bem modesto: “pessoa jovem e atraente”, mas finalmente,
finalmente...
Fandorin, contudo, tratou logo de estragar as coisas.
— Evidentemente não precisa ir sozinha, de resto isso pareceria estranho. Eu
sei que Paladin está com vontade de ir a Bucareste. Ele certamente não se
recusará a acompanhá-la.
Não, decididamente, não é um homem, é um pedaço de gelo, pensou Varia.
Tente descongelar um pouco! Será que não percebe que o francês está
interessado em mim? Claro que sim, ele vê tudo isso, mas nem é com ele...
Erast Petrovitch pareceu interpretar o amuo dela à sua maneira.
— Quanto a dinheiro, não se preocupe. Sabe que tem direito a um salário, a
despesas de deslocamento e outras. Darei tudo isso. Quando chegar lá, compre o
que quiser, pode se distrair.
— Oh, na companhia de Charles eu não corro o risco de me aborrecer —
replicou ela em tom vingativo.

________________
1 Alusão a Gretchen, personagem feminina do Fausto de Goethe. {NT)
2 "Encantadora como a aurora": em francês, no original. (NT)
capítulo
7
Onde se vê Varia perder o título de mulher honesta

Notícias do governo de Moscou


22 de julho (3 de agosto) de 1877

O relatório de domingo

Ao ser informado de que esta cidade, onde nossos frequentadores da


retaguarda se distraíram agradavelmente ao longo dos últimos meses, fora
no seu tempo fundada pelo príncipe Vlad, designado "o Empalador" e
conhecido igualmente pelo nome de Drácula, este seu fiel servidor
compreendeu muitas coisas. Não mais se admira ao ver que um rublo se
troca aqui, no melhor dos casos, por três francos, que a mais modesta
refeição num albergue ruim se torna assim tão cara quanto um banquete no
"Bazar Slave", enquanto um quarto de hotel custa o preço de uma estada
no palácio de Buckingham. Estes malditos vampiros sugam de boca cheia o
sangue russo, lambendo os beiços com deleite e não deixando de se
mostrar esquisitos. O mais desagradável é que, na sequência da eleição de
um príncipe alemão de linhagem inferior pelas autoridades da cidade,
instalou-se um odor de wurst e mostarda nesta província danubiana,
exclusivamente devedora de sua independência à Rússia. Os hospodars
erguem os olhos para Herr Bismarck, enquanto nós, russos, encontramo-
nos na situação da cabra alemã do conto: espremem nossa teta, mas torcem
o nariz. Podíamos ser levados a acreditar que não é em nome da liberdade
dos romenos que derramamos nosso sangue nas planícies de Plevna...

Varia se enganara, enganara-se redondamente. A viagem para Bucareste não


foi de todo um passeio divertido.
Além de Paladin, muitos outros correspondentes de guerra tinham tido a
ideia de descansar um pouco na capital do principado romeno. Sabendo que nos
dias e até semanas seguintes não aconteceria nada de interessante nas operações
militares e que os russos precisariam de tempo para se recompor da sangria de
Plevna, o grupo de jornalistas foi atraído, com efeito, para outras tentações.
Os preparativos foram demorados e a partida só se efetuou ao fim de três
dias. Sendo uma senhora, Varia foi instalada na charrete de McLaughlin,
enquanto os outros partiam a cavalo, e por isso ela só de longe via o francês em
seu Yatagan, melancólico pela lentidão da caravana. Era obrigada a conversar
com o irlandês, que expôs a Varia um relato exaustivo sobre as condições
climáticas dos Bálcãs, de Londres e da Ásia central, explicou o funcionamento
das molas da suspensão de seu carro e descreveu em detalhes dois ou três
estudos de xadrez. Nessas circunstâncias, o estado de espírito de Varia se
deteriorou; durante as paradas, ao entusiasmo e à alegria dos companheiros de
viagem, e mesmo perante à expressão animada de Paladin, Varia só respondeu
com olhares carrancudos.
Tudo melhorou no segundo dia — tinham já passado Alexandria —, pois
Zurov juntou-se à caravana. O capitão de cavalaria distinguira-se no combate e,
devido a sua bravura, Sobolev nomeara-o ajudantes de ordens. O general tivera
mesmo a veleidade de propor seu nome para uma cruz da Ordem de Santa-Ana,
mas o hussardo preferira uma semana de descanso, dizia ele que para distender
os membros.
O capitão começou por distrair Varia com uma demonstração de seus
talentos de djiguit: pegava pequenas flores azuis em pleno galope, fazia
malabarismos com moedas de ouro, punha-se em pé em cima da sela. A seguir,
tentou trocar de lugar com McLaughlin. Depois de uma recusa fleumática mas
definitiva, instalou o pobre cocheiro em sua égua russa, tomou o lugar dele e se
esforçava, virando-se de dois em dois minutos, por fazer a jovem rir, narrando
suas façanhas heroicas, assim como as intrigas invejosas de Jerome Perepelkin,
com quem o novo ajudante mantinha relações conflituosas. E a viagem
transcorreu assim.
Como Erast Petrovitch previra, Varia não teve nenhuma dificuldade em
encontrar Loukan. De acordo com as instruções recebidas, ela desceu no hotel
Royal, o mais caro da cidade, e perguntando ao porteiro se conhecia o capitão,
ficou sabendo que Son Excellence era muito conhecido ali e vinha ao restaurante
se distrair há duas noites, havendo todas as probabilidades de regressar nesse dia.
Ainda faltava muito para a hora do jantar e Varia decidiu dar uma volta pela
artéria central da cidade que, depois da aldeia de barracas, parecia a Nevsky
Prospekt: carruagens de enorme elegância, toldos listrados sobre as vitrines de
lojas, moças meridionais belas de cortar a respiração, jovens que pareciam saídas
de um quadro, com suas cabeleiras castanhas e redingotes em azul pálido, branco
ou mesmo rosa e, sobretudo, uniformes por todo lado, uniformes em série.
Falava-se russo, falava-se francês e quase nada de romeno. Instalando-se num
café de verdade, Varia desfrutou de duas xícaras de chocolate e quatro bolos e
estava prestes a se esvair de felicidade quando, passando na frente de uma
chapelaria, olhou ocasionalmente para a vitrine de vidro e deu um grito. Eis por
que os homens a olhavam sem dar mostras de vê-la.
Aquela figura horrorosa num vestido azul desbotado, com um chapéu de
palha amolecido, desonrava a mulher russa. E isso enquanto perambulavam nas
calçadas messalinas vestidas na última moda parisiense.
Varia chegou ao restaurante bem atrasada. Combinara encontrar McLaughlin
às sete, mas só chegou depois das oito. Como um verdadeiro cavalheiro que era,
o correspondente do Daily Post aceitara suas desculpas (ela nunca poderia ter
entrado no restaurante sozinha, pois correria o risco de ser tomada por mulher de
costumes fáceis!) e não a censurou pelo seu atraso, contentando-se por mostrar
um ar profundamente infeliz. Tanto pior, não era mais do que uma represália
merecida. Ele a torturara por todo o trajeto com seus conhecimentos
meteorológicos e, naquele momento, era preciso que ele servisse para alguma
coisa!
Loukan ainda não chegara e, por caridade, Varia pediu ao companheiro para
explicar de novo os ataques da defesa persa. O irlandês, que nem reparou nas
mudanças ocorridas na jovem (ela despendera contudo seis horas e seiscentos e
oitenta e cinco francos, ou seja, quase todo o seu dinheiro), respondeu-lhe
secamente que ignorava a existência de tal estudo. Restou-lhe portanto perguntar
se tal calor de fim de julho era habitual naquela latitude. Ele achava que era
habitual, mas muito longe do calor úmido de Bangalore.
Às dez e meia, quando as portas douradas do restaurante se abriram em toda
a sua largura para deixar passar o descendente, um pouco tocado pelo vinho, do
legado romano, Varia, que não podia estar mais contente por vê-lo, saltou da sua
cadeira e começou a fazer sinais com uma alegria nada fingida.
Para falar verdade, uma complicação imprevista surgiu na pessoa de uma
pequena moreninha rechonchuda que vinha atrelada ao cotovelo do coronel. A
dita complicação moldou em Varia um olhar de ódio não dissimulado, acrescido
de inquietação. Estranhamente, ela nunca imaginara que Loukan pudesse ser
casado.
Mas o coronel mostrou, na solução do problema, uma capacidade de decisão
completamente militar: deu uma palmadinha na companheira, exatamente no
início da cauda de seu vestido, e a moreninha retirou-se indignada, proferindo
algumas palavras venenosas. Era evidente que não era sua mulher, pensou Varia,
inquietando-se ainda mais. — Nossa flor do campo abriu as pétalas e revelou-se
uma rosa suntuosa! — berrou Loukan, atravessando a sala ao encontro de Varia.
— Que belo vestido! E o chapéu! Meu Deus, estarei nos Champs-Elysées?
Era um vaidoso e um grosseirão, claro, mas seus ditos eram mesmo assim
agradáveis de ouvir. Varia permitiu-lhe também que lhe beijasse a mão,
ignorando seus princípios em benefício de seus objetivos. O coronel acenou com
a cabeça ao irlandês, com uma benevolência condescendente (não era um rival) e
sentou-se na mesa deles sem pedir licença. Varia teve a impressão de que
McLaughlin também estava contente por reencontrar o romeno. Estaria ele
cansado de dissertar sobre o clima? Não, certamente que não!
Os criados já estavam levando as cafeteiras e o bolo, pedidos pelo
parcimonioso correspondente, e traziam uma grande quantidade de doces, frutas
e queijos.
— Vai sentir muita saudade de Bucareste! — prometeu Loukan. — Nesta
cidade tudo me pertence!
— Em que sentido? — perguntou o irlandês. — Quer dizer que há muitos
prédios grandes aqui?
O romeno nem se dignou a responder.
— Pode me felicitar, moça. Meu relatório foi devidamente apreciado e estou
esperando uma promoção muito em breve!
— Que relatório? — perguntou de novo o irlandês. — Que promoção?
— É a Romênia inteira que está prestes a ser promovida — declarou o
coronel com ar grave. — Tornou-se muito evidente que o imperador russo
superestimou as forças de seu exército. Eu sei de fonte segura — ele baixou a
voz com soberba e debruçou-se para a frente até quase fazer cócegas no rosto de
Varia com a ponta do bigode — que o general Krudener vai ser demitido do
comando e as forças que cercam Plevna serão colocadas sob as ordens do nosso
príncipe Karl.
McLaughlin tirou um caderno do bolso e começou a anotar.
— Não gostaria de dar uma pequena volta pela noite de Bucareste, senhorita
Varvara? — sugeriu Loukan ao ouvido de Varia, aproveitando uma pausa. —
Mostrarei coisas que nunca teve oportunidade de ver na sua triste capital
nórdica. Juro que terá recordações inesquecíveis!
— É uma decisão do imperador da Rússia ou simples desejo do príncipe
Karl? — perguntou o jornalista, impertinente.
— O desejo de Sua Majestade é mais do que suficiente — cortou o coronel.
— Sem a Romênia e seu valoroso exército de dez mil homens os russos ficam
impotentes. Sabe, senhor jornalista, que meu país tem à frente um grande futuro.
Num curto período de tempo, o príncipe Karl será rei. Quanto a este seu servidor
— acrescentou ele, virando-se para Varia —, vai se tornar uma pessoa muito
importante. Talvez chegue mesmo a senador. A intransigência que demonstrei foi
apreciada em seu justo valor. Então, quanto ao nosso passeio romântico? Insisto.
— Vou refletir sobre isso — prometeu Varia, tentando não se comprometer e
preocupada sobretudo em pensar o que fazer para orientar a conversa na direção
necessária.
Naquele preciso momento, Zurov e Paladin entraram no restaurante. Do
ponto de vista dos objetivos, a presença deles não era oportuna, mas Varia ficou
mesmo assim feliz por vê-los: na sua presença ele seria um pouco mais
moderado.
Seguindo o olhar da jovem, o coronel resmungou com ar descontente.
— Reparo agora que o Le Royal está se tornando um terminal de trens.
Devíamos ter passado para uma sala particular.
— Boa noite, senhores — declarou alegremente Varia ao acolher os amigos.
— Bucareste é uma pequena cidade, não? O coronel acaba precisamente de se
vangloriar da sua perspicácia. Ele previu que o ataque de Plevna resultaria em
fracasso.
— Verdade? — perguntou Paladin, avaliando Loukan com olhar atento.
— Está encantadora, Varvara Andréevna — disse Zurov. — O que quer
beber? Martel? Garçom, traga copos!
O romeno esvaziou um copo de conhaque e observou os dois recém-
chegados com olhar sombrio.
— Previu onde? Quando foi isso? — perguntou McLaughlin.
— Num relatório dirigido a seu soberano — explicou Varia. — E hoje, a
sagacidade do coronel é apreciada com seu justo valor.
— Sirvam-se, senhores, bebam! — Loukan acompanhou o convite com um
gesto generoso e depois saltou da cadeira. — Tudo por minha conta. Quanto a
Suvorova e eu mesmo, vamos dar um passeio. Ela prometeu.
Paladin franziu as sobrancelhas com ar espantado, enquanto Zurov,
desconfiado, exclamava: — O que estou ouvindo, Varvara Andréevna? Vai
passear com Loukan?
Varia estava quase entrando em pânico. Partir com Loukan significaria
perder para sempre a reputação. E sem saber o que podia acontecer. Recusar
implicaria comprometer a missão.
— Volto logo, senhores — balbuciou ela com voz gelada. E dirigiu-se com
passo apressado para a saída. Precisava recuperar a presença de espírito.
Detendo-se no meio da sala, na frente do grande espelho ornado com volutas
de bronze, ela levou a mão à testa escaldante. O que fazer agora? Subir para o
quarto, fechar-se à chave e não abrir mesmo que batessem à porta? Desculpe,
Petia! Não me julgue com severidade demais, senhor conselheiro titular! Varia
Suvorova não vale nada como espiã.
A porta rangeu em sinal de aviso e, no espelho, mesmo nas suas costas,
apareceu a cara vermelha e furiosa do coronel.
— Desculpe, senhorita, mas Mikhail Loukan não permite que o tratem desta
forma. Pode-se dizer que deu os primeiros passos e, agora, quis me desonrar
publicamente. Está lidando com a pessoa errada! Aqui, não é o clube de
imprensa! Aqui estou na minha casa.
Já não havia vestígios de galanteria no futuro senador. Os olhos castanhos de
Loukan soltavam faíscas.
— Venha, moça, o carro está na porta.
E uma mão morena coberta de pelos, com dedos de uma força subitamente
surpreendente, como que de ferro, pousou em seu ombro.
— Está louco, coronel! Não sou uma cortesã! — exclamou Varia lançando
olhares desesperados em volta.
Havia muita gente na entrada do hotel, essencialmente homens em ternos de
verão e oficiais romenos. Eles observavam com curiosidade a cena picante, mas
não davam minimamente sinal de que tomariam a defesa da dama (de resto, seria
mesmo uma dama?).
Loukan disse algumas palavras em romeno e os espectadores riram com
compreensão.
— Bebeu demais, Maroussia? — perguntou um deles em russo, e riram cada
vez mais.
O coronel agarrou Varia com firmeza pela cintura e conduziu-a tão
habilmente para a saída que ela nem sequer teve possibilidade de resistir.
— É um grosseiro! — exclamou ela, tentando bater em Loukan. Mas ele teve
tempo de segurar seu pulso. Seu rosto ficou subitamente perto do dela, que
sentiu um odor de tabaco e água de colônia. Vou vomitar, pensou Varia, em
pânico.
Contudo, no segundo seguinte, os braços do coronel aliviaram a pressão. Ela
ouviu um estalo sonoro, seguido de uma queda violenta e seu ofensor voou
contra a parede. Uma face estava vermelha de uma bofetada, a outra branca de
um sólido murro. A dois passos dele, ombro a ombro, estavam Paladin e Zurov.
O correspondente desentorpecia os dedos da mão direita, o hussardo esfregava o
punho da esquerda.
— Um contratempo acaba de ocorrer entre os aliados — constatou Hipólito.
— E é apenas o início. Não vai se safar só com estas duas pancadas na cara,
Loukan. Tal comportamento com uma mulher acaba com alguns buracos na pele.
Loukan se sacudiu, endireitou-se, passou a mão pelo rosto e olhou
sucessivamente para as duas personagens. Varia ficou principalmente surpresa ao
constatar que os três homens pareciam ter esquecido completamente da sua
existência.
— Fui provocado para um duelo? — O romeno falava com voz sibilante,
articulando com dificuldade as palavras francesas. — Tenho que me bater contra
os dois ao mesmo tempo, ou posso enfrentar um de cada vez?
— Escolha o que preferir — disse secamente Paladin. — E se tiver sorte com
o primeiro, tem que se haver com o segundo.
— Não — indignou-se o conde. — Não é correto. Fui o primeiro a falar de
buracos na pele, é em mim que deve atirar.
— Atirar? — disse Loukan com um riso maldoso. — Desculpe, senhor
trapaceiro, mas cabe a mim a escolha das armas! Sei perfeitamente que são
atiradores de elite. Mas aqui estamos na Romênia e vamos nos bater com sabre.
Ele gritou algo aos espectadores, e imediatamente vários oficiais romenos
tiraram os sabres das bainhas e os estenderem com o punho virado para a frente.
— Escolho o jornalista — declarou o coronel, fazendo estalar os dedos e
agarrando sua arma pelo punho. (De minuto em minuto via-se que ele
recuperava o sangue-frio e se mostrava cada vez mais alegre.) Escolha qualquer
uma dessas armas e venha comigo ao pátio. Vou primeiro trespassá-lo, e depois
corto as orelhas do senhor brigão.
Suas afirmações foram calorosamente acolhidas pela multidão e apareceu
mesmo um para gritar um hurra!
Paladin encolheu os ombros e pegou o sabre mais próximo. Mas os curiosos
foram repentinamente afastados por McLaughlin.
— Parem! Charles, não seja idiota! É uma loucura! Ele vai matá-lo! O duelo
de sabre é um esporte dos Bálcãs e você não pratica!
— Aprendi esgrima com sabre e é quase a mesma coisa — respondeu o
francês sem se perturbar e avaliando o peso da arma que acabara de escolher.
Mas Varia tomou finalmente a palavra.
— Senhores, não é necessário! É tudo culpa minha. O coronel bebeu um
pouco, mas ele não quis me ofender, tenho certeza. Parem já com isso, antes que
este jogo acabe por se tornar estúpido! Que consideração têm por mim?
Por mais lamurioso que fosse o tom de sua voz, seu pedido não teve o
mínimo efeito. Sem mesmo dirigir um olhar à dama cuja honra estava, verdade
seja dita, na origem do incidente, o grupo de homens seguiu em passo firme pelo
corredor que conduzia ao pátio interior, trocando fortes exclamações. Só
McLaughlin se manteve ao lado de Varia.
— É idiota! — disse ele com humor. — Esgrima com sabre! Eu conheço o
uso que os romenos dão à arma. Eles não começam por convidar o adversário a
pôr-se em guarda. Eles cortam rodelas como chouriços. Um escritor deste nível
desaparecer assim, estupidamente... Sempre este orgulho desmesurado dos
franceses. Este vaidoso do Loukan também não vai se safar. Vão prendê-lo e
ficará na prisão até a anistia que se seguirá à vitória. Nós, na Grã-Bretanha...
— Meu Deus, Meu Deus...! O que fazer? — murmurava Varia desesperada,
sem escutá-lo. — Sou a única culpada!
— A galanteria, senhora, é um péssimo defeito — aquiesceu subitamente o
irlandês, com ligeireza. — Já na guerra de Troia...
Um berro dado ao mesmo tempo por numerosas vozes masculinas ressoou
do pátio.
— O que houve? Não é possível que já tenha acabado! — Varia apertou a
mão no coração. — Tão rápido! Tente ver, Seamus, eu imploro!
McLaughlin calou-se. Escutava. A angústia tingiu seu rosto bonachão.
Visivelmente, não tinha vontade alguma de ir ver o que ocorria no pátio.
Mas Varia o pressionou.
— Vá, o que está esperando? É possível que ele precise de cuidados
médicos. Que indecisão!
Ela se precipitou pelo corredor, mas Zurov veio a seu encontro, fazendo tinir
as esporas.
— Que desgraça, Varvara Andréevna! — gritou ele de longe. — Que perda
irreparável!
Convencida do pior, a jovem se apoiou na parede e seu queixo começou a
tremer.
— Como pudemos, nós, russos, perder a tradição do duelo de sabre! —
continuava a se lamentar Hipólito. — É belo, grandioso, impressionante! Não é
simplesmente pum-pum e assunto encerrado. Assiste-se a um verdadeiro
bailado, à recitação de um poema, La Fontaine de Baktschi-Sarai1.
— Deixe de idiotice, Zurov — disse Varia num soluço. — Conte claramente
o que aconteceu.
O capitão de cavalaria olhou para ela e olhou para McLaughlin. Estava
completamente alvoroçado.
— Oh, deviam ter assistido! Tudo se passou em dez segundos. Eu conto:
pequeno pátio protegido, chão ladrilhado, luz do lampiões de gás. Nós, os
espectadores, apinhados na galeria, embaixo unicamente dois homens, Paladin e
Loukan. Nosso aliado entrega-se a exercícios de movimento, agita o sabre,
desenha oitos no céu, atira no ar uma folha de carvalho e a corta em duas. A
multidão, entusiasmada, aplaude. O francês está ali, esperando, sem o mínimo
movimento, que nosso pavão acabe sua exibição. De repente, Loukan salta para
a frente e desenha uma clave de sol na atmosfera. Paladin, ainda imóvel, apenas
inclinando o corpo para trás, para se esquivar do ataque, dá um pequeno golpe
diretamente na garganta do romeno, com a ponta do sabre, eu nem sequer tive
tempo de ver. O outro fez um gorgolejo e tombou para a frente, as pernas
estremeceram várias vezes e foi tudo. E ei-lo reformado sem pensão. Fim do
duelo.
— Verificaram? Ele está de fato morto? — perguntou apressadamente o
irlandês.
— O que há de mais morto! — confirmou o hussardo. — Há tanto sangue
que parece o Lago Ladoga. Varvara Andréevna, não se sente bem? Está
completamente pálida! Apoie-se em mim.
E ele passou o braço pela cintura de Varia, o que na circunstância era de se
registrar.
— E Paladin? — conseguiu ela articular.
Com ar indiferente, Zurov levantou um braço e respondeu
despreocupadamente.
— O que querem que aconteça? Ele foi ver o kommandantur. Com certeza
não vão felicitá-lo. Não abriu a garganta de um aluno de escola militar, foi a de
um coronel. Vão repatriá-lo para a França e isso na melhor das hipóteses.
Espere, vou soltar um botão da sua roupa, vai respirar melhor.
Varia não via nada, não ouvia nada. Sentia-se coberta de vergonha. Dizia a si
mesma que perdera para sempre o título de mulher honesta. Brincar com fogo,
fazer espionagem, eis onde aquilo a tinha levado. Era apenas uma imbecil
desmiolada, e os homens eram todos uns brutos. Um ser humano acabava de ser
morto por sua causa e ela não mais voltaria a ver Paladin. Mas o pior era que o
fio que conduzia à teia de aranha inimiga estava quebrado.
O que diria Erast Petrovitch?

________________
1 De autoria do poeta russo Alexandre Pushkin. (NT)
capítulo
8
Onde Varia encontra o anjo da morte

Le Messager du Gouvernement (S. Petersburgo)


30 de julho (11 de agosto) de 1877

Vítima da epidemia de enterite e sofrendo dolorosamente de disenteria,


o soberano passou os últimos dias em visita aos hospitais que transbordam
de feridos e soldados doentes de tifo. Sua Majestade imperial demonstra a
seus homens uma simpatia tão sincera que nos deixa emocionados. Os
jovens soldados se atiram como crianças aos presentes que ele leva,
manifestando sua alegria da maneira mais ingênua, e o autor destas linhas
teve em muitas ocasiões a oportunidade de ver os belos olhos azuis do
soberano embebidos de lágrimas. Não poderíamos assistir a estas visitas
sem nos sentir invadidos por um sentimento de terna veneração.

Eis o que diz Erast Petrovitch.


— Levou tempo para voltar, Varvara Andréevna. Quantas coisas
interessantes perdeu! Após receber seu telegrama, dei ordem para revistarem
cuidadosamente a barraca e os pertences do morto. Essa busca não conduziu a
nada de interessante. Em contrapartida, anteontem recebemos de Bucareste os
documentos que Loukan carregava. Aí...
Varia levantou receosamente os olhos para, pela primeira vez, olhar de frente
para o conselheiro titular. Na expressão de Fandorin, não leu nem piedade, nem,
o que teria sido pior, desprezo; nada senão concentração e, possivelmente, um
certo entusiasmo. Seu alívio deu imediatamente lugar à vergonha: demorou
porque temia voltar ao acampamento, choramingando por sua preciosa reputação
e esquecendo totalmente de pensar na missão, pobre egoísta!
— Fale, mas fale de uma vez por todas! — disse ela impaciente, enquanto
Fandorin observava com interesse a lágrima que escorria lentamente por seu
rosto.
— P-p-perdoe sinceramente por arrastá-la a essa história — disse ele com ar
culpado. — Eu esperava t-t-tudo, menos isso...
Percebendo que se a conversa não tomasse imediatamente um tom sério ela
não conseguiria evitar os soluços, Varia cortou-lhe a palavra, com coragem.
— O que descobriu nos papéis de Loukan?
Seja pela eventualidade de uma crise de lágrimas lhe ter ocorrido, seja
porque considerava o assunto esgotado, Fandorin não voltou a mencionar o
episódio de Bucareste.
— Notas interessantes no seu caderno. Observe. — Ele retirou do bolso um
belo livrinho encadernado em brocado que abriu numa página marcada e Varia
percorreu com o olhar uma coluna de números e letras:

Voltou a ler a página mais lentamente e mais uma vez ainda. Queria provar
sua perspicácia.
— Está codificado? Não, os números se repetem... É uma lista? Números de
regimentos? Números de soldados? Ou então perdas e reforços obtidos? — Com
a testa franzida, ela não conseguia parar. — Loukan era, portanto, efetivamente
um espião. Mas o que significam as letras "Z", "J" e "i"? Serão fórmulas ou
equações?
— Está lisonjeando o morto, Varvara Andréevna. É muito mais simples. Se
fossem equações, elas seriam das mais elementares. Equações com uma única
incógnita!
— Uma única incógnita? — admirou-se Varia.
— Repare mais cuidadosamente. A primeira coluna é composta de números e
Loukan usou em seguida dois traços. De 19 a 29 de julho, segundo o calendário
ocidental. De que se ocupou o coronel nesses dez dias?
— Como quer que eu saiba? Eu não o vigiei — Varia refletiu. — Ele deve ter
ido ao estado-maior e circulado pela linha da frente.
— Eu não vi uma única vez Loukan se aproximar da l-l-linha da frente. Na
verdade, só o encontrei num único lugar.
— O clube?
— Precisamente. E o que ele fazia lá?
— Nada, jogava.
— B-b-bravo, Varvara Andréevna.
Ela olhou de novo a lista.
— Assim, ele terá anotado ganhos e perdas. O "Z" é sempre seguido por um
sinal de menos, o "J" do de mais. Ele anotava portanto com um "Z" suas perdas,
com o "J" seus ganhos. É tudo?
Decepcionada, Varia encolheu os ombros. — Mas em que isso revela seu
trabalho de espião?
— Não há trabalho de espião. A espionagem é uma arte sábia, aqui nós só
temos um assunto de corrupção de baixo nível e uma traição. Em 19 de julho, na
véspera da primeira batalha de Plevna, o clube foi brindado com a presença do
brigão do Zurov, e Loukan se meteu no jogo.
— Assim, portanto, "Z" é Zurov? — exclamou Varia. — Espere...
— Com os olhos fixos nos números, calculou a meia-voz. — Quarenta e
nove... e vão sete... cento e quatro... — ela somou. — Ao todo, ele terá perdido
para Zurov quinze mil e oitocentos rublos. Parece verossímil. Também Hipólito,
lembra, falava de quinze mil rublos. Mas o que significa o "i"?
— Eu p-p-penso que é o célebre anel, inel em romeno. No dia 20, Loukan o
perdeu e o recuperou no dia 29.
— Então, o que significa o "J"? — perguntou Varia, esfregando a testa. —
Não me recordo de ter visto algum jogador cujo nome começasse por "J". Esse
homem teria perdido de Loukan... puxa, trinta e cinco mil rublos! Eu não me
lembro de o coronel ter obtido um ganho tão alto. Certamente teria se
vangloriado.
— Neste caso, não haveria de quê. Não era ganho no jogo, mas honorários
como pagamento de uma traição. Na primeira vez, foi em 21 de julho, dia em
que o coronel foi esmagado por Zurov, que o misterioso "J" lhe enviou dinheiro.
A seguir, o defunto recebeu do protetor desconhecido cinco mil rublos em 23,
em 25 e em 27. Ou seja, dia sim, dia não. E foi isso que lhe permitiu continuar a
jogar com Hipólito. No dia 29, Loukan recebeu quinze mil rublos de uma só vez.
Por que uma soma tão grande e por que precisamente no dia 29?
Varia deu um pequeno grito, tinha compreendido.
— Ele vendeu o dispositivo do segundo ataque de Plevna! A malograda
ofensiva foi no dia 30 de julho, ou seja, no dia seguinte!
— Mais uma vez, bravo! Aqui está, ao mesmo tempo, o segredo da p-p-
perspicácia de Loukan e da surpreendente precisão de tiro dos turcos que
dizimaram nossas colunas, logo antes de tomarem posição.
— Mas o que é este "J"? Não suspeita de ninguém?
— Claro que sim — resmungou Fandorin, em voz muito baixa —, suspeito
de uma pessoa... Mas, no momento, não faz sentido.
— Em outras palavras, basta identificar este "J" e Petia recupera sua
liberdade, Plevna será tomada e a guerra termina?
Erast Petrovitch refletiu um minuto, franziu a testa lisa e respondeu com a
maior seriedade.
— Sua cadeia lógica não está inteiramente correta, mas em princípio está
certa.

Nessa primeira tarde, Varia não se atrevia a entrar na sala de imprensa. Era
certo que todos a acusavam pela morte de Loukan (ninguém sabia de sua
traição), assim como do exílio do francês de quem todos gostavam. Depois de
Bucareste, o jornalista não voltara ao campo. Segundo Erast Petrovitch, ele
começara por ser preso, e lhe deram a seguir vinte e quatro horas para abandonar
o território do principado romeno.
Na esperança de encontrar Zurov ou, pelo menos, McLaughlin, para tentar
saber por eles o grau de severidade das opiniões a seu respeito, a pobre culpada
andava ao redor da barraca decorada com pequenas bandeiras de todas as cores,
mantendo uma distância de cem passos. Não havia absolutamente outro lugar
para passear e ela não tinha a mínima vontade de voltar para sua tenda. As duas
enfermeiras, criaturas deliciosas mas um pouco limitadas, continuariam
indefinidamente debatendo quais médicos eram simpáticos e quais malvados,
questionando-se depois se o pedido de casamento que o tenente Strumpf da cama
dezesseis, que acabara de perder um braço, fizera a Nastia Prianichnikova era
para ser levado a sério.
A porta da barraca foi levantada, Varia avistou uma silhueta imponente,
vestida com o uniforme azul da polícia e virou-se precipitadamente, fazendo de
conta que estava admirando a vista da pequena aldeia de Bogot que desde há
muito tempo se tornara odiosa e acolhia presentemente o estado-maior do
comando supremo. Que injustiça! Este ignóbil intrigante, este opritchnik do
Kazanzakis entra no clube sem dificuldade, enquanto ela, que é apenas uma
vítima inocente das circunstâncias, vagueia pela poeira do caminho, como um
vira-latas! Varia sacudiu a cabeça de indignação e tomou a firme decisão de
voltar seus aposentos, quando a voz manhosa do infame grego ressoou nas suas
costas.
— Senhorita Suvorova! Que feliz encontro!
Varia se virou e fez uma careta, certa de que a pouco habitual amabilidade do
coronel daria lugar imediatamente a uma picada de serpente.
Kazanzakis olhava para ela, com seus grossos lábios alargados num sorriso e
uma expressão incompreensível, quase no limite da solicitação.
— No clube só se fala em você. Esperam-na com impaciência. Não é todos
os dias, sabe, que as espadas se cruzam em nome de uma bela senhora, e mais
ainda com um desenlace fatal.
Tensa e de sobreaviso, Varia esperava uma armadilha, mas o policial sorria
cada vez mais docemente.
— Ontem, o conde Zurov pintou o episódio com as cores mais deliciosas,
hoje, há aquele artigo...
— Que artigo? — perguntou Varia, que começava seriamente a sentir medo.
— Paladin, nosso amigo banido, escreveu uma coluna completa em La
Revue Parisienne. Ele conta o duelo. É diabolicamente romântico. Chama você
de "la belle m'lle S17".
— Mas então — e a voz de Varia tremeu ligeiramente — ninguém está
contra mim?
Kazanzakis franziu as espessas sobrancelhas: — Salvo possivelmente
McLaughlin e Eremei Ionovitch. Mas o primeiro é conhecido pelo humor
resmungão; quanto ao segundo, aparece raramente e em geral só na companhia
de Sobolev. De fato, Perepelkin foi condecorado com a cruz de São Jorge por
seu último combate. Pergunta-se que mérito particular ele teve... Eis o que vale
estar no lugar certo, na hora certa.
O tenente-coronel estalou os lábios cheio de inveja e passou prudentemente
ao essencial.
— Todos se perguntam o que aconteceu a nossa heroína e eis que a cara
dama se consagra a importantes assuntos de Estado. Então, o que diz nosso
astuto Fandorin? Quais são as conclusões dele sobre as misteriosas inscrições de
Loukan? Não se espante, Varvara Andréevna, estou sabendo. Na verdade,
sempre dirijo a Seção Especial.
Ah, então é isso que ele tem em mente, pensou Varia olhando o tenente-
coronel de soslaio. Conta comigo para lhe revelar o segredo, o homenzinho!
Olhem que disposição, tudo para me fazer abrir a boca!
— Erast Petrovitch falou alguma coisa, mas não compreendi muito bem —
disse ela com um pestanejar ingênuo. — Sobre um certo "Z" e um certo "J". Mas
é melhor perguntar ao conselheiro titular. Em todo caso, Petr Afanassievitch
Iablokov não é culpado, isso agora é evidente.
— Possivelmente não é culpado de traição, mas deu prova de imprudência
repreensível. — Varia reencontrou na voz do policial um tom metálico que ela
bem conhecia. — Que seu noivo permaneça mais um tempo na prisão, não lhe
fará mal algum! — Dito isso, Kazanzakis mudou imediatamente de tom,
lembrando sem dúvida que nesse dia estava representando outro papel. — Tudo
vai se resolver! Pode ter certeza, Varvara Andréevna, que eu tenho bom caráter e
estou sempre pronto a reconhecer um erro. Por exemplo, o caso do incomparável
Paladin. Sim, é verdade, sujeitei-o a interrogatório, suspeitei dele e tinha motivo
para isso. A famosa entrevista com o coronel turco induziu nosso comando a dar
um passo em falso, morreram homens. Pensei na hipótese de que o coronel Ali
Bey fosse uma personagem mítica, inventada pelo francês, seja por gabolice de
repórter, seja por outras razões menos inocentes. Agora vejo que fui injusto. —
Baixou a voz e continuou em tom de confidência. — Recebemos informações de
nossos agentes em Plevna. Osman Paxá tem perto dele, com efeito, um certo Ali
Bey, que é ajudante ou conselheiro. Este homem quase nunca aparece em
público. Nosso agente só o avistou de longe e só viu uma barba negra muito
espessa e óculos escuros. O próprio Paladin, de resto, tinha falado da barba.
— Uma barba, óculos? — Varia também baixou a voz. — Não seria, como
se chama... o famoso Anvar Effendi?
— Chiu!
Kazanzakis lançou em volta um olhar nervoso e falou ainda mais baixo.
— Tenho certeza de que é ele. É uma personagem muito ardilosa.
Aproveitou-se completamente do nosso correspondente, falando-lhe de três ou
quatro homens que tinha à disposição e dizendo-lhe que o grosso das forças não
chegaria tão cedo. Não foi um truque muito complicado, ainda que
inteligentemente concebido. E nós, pobres cretinos, caímos na armadilha.
— Disto isto, se Paladin não teve nada a ver com a primeira derrota de
Plevna e se Loukan, que ele matou, era um traidor, foi errado recambiar o
jornalista, não foi? — perguntou Varia.
— Com efeito, tem razão. O infeliz simplesmente não teve sorte — concluiu
o tenente-coronel com um gesto de mão que revelou sua indiferença. — Veja,
Varvara Andréevna, como sou franco. Eu, entre outras coisas, dei-lhe uma
informação secreta. E não quer me confiar um assunto tão simples... Recopiei a
página do livrinho de Loukan e faz três dias que dou voltas na cabeça sem
chegar a lugar nenhum. De início pensei que estava codificado, mas não parece
isso. Será uma enumeração de corpos de exército ou uma indicação de seus
movimentos? O número de baixas ou de reforços? Seja simpática, conte-me a
que resultados chegou Fandorin.
— Eu só digo uma coisa: é muito mais simples do que isso — deixou
escapar Varia com condescendência.
E, reajustando o chapéu, dirigiu-se em passo ligeiro para o clube de
imprensa.

Os preparativos para o terceiro e último assalto à fortaleza de Plevna


ocuparam todo o mês de agosto que, nesse ano, foi particularmente tórrido.
Decorreram no maior secretismo, o que não impediu todo o acampamento de
afirmar abertamente que o combate por certo se realizaria no dia 30, data da festa
do soberano. De manhã à noite, a infantaria e a cavalaria trabalhavam nas
planícies e nas colinas vizinhas, em manobras conjuntas. As estradas estavam
dia e noite atravancadas de trens de armas de assalto e de campanha. Davam
pena ver os jovens soldados esgotados, com seus dólmãs encharcados de
transpiração, seus barretes cinzas de poeira e os lenços de pescoço que pouco
protegiam do sol. Mas o sentimento geral era o da vingança e alegria: desta vez
era o fim, nossa paciência esgotara. Os russos levam tempo para começar, mas
depois andam depressa, e aquela mosquinha nojenta de Plevna veria se abater
sobre ela nossa poderosa pata de urso.
Tanto no clube quanto no refeitório dos oficiais, onde Varia fazia as
refeições, todos tinham subitamente se tornado estrategistas: cada um desenhava
planos, exibia conhecimento sobre os paxás turcos, perguntava-se onde seria a
ofensiva principal. Sobolev passara por lá várias vezes, mas mantinha um ar
misterioso e importante, não jogava xadrez, observava Varia com dignidade e já
não se queixava de seu triste destino. Um amigo do estado-maior tinha feito
saber que, no assalto que se preparava, um major-general teria um papel
decisivo, ou pelo menos de grande importância, e teria sob suas ordens duas
brigadas e um regimento. Os méritos de Mikhail Dmitrievitch tinham portanto
acabado por ser reconhecidos.
Uma grande animação reinava no acampamento e Varia tentava com todas as
forças se manter a par dessa atividade geral. Estranhamente, não conseguia. Na
verdade, não participava das conversas sobre tropas de reserva, deslocamentos e
comunicações. Não a deixavam visitar Petia. Fandorin estava mais sombrio do
que a noite e só respondia às perguntas com sons desarticulados e ininteligíveis.
Zurov aparecia sempre perto do patrono, lançava a Varia olhares de lobo
enjaulado, dirigia caretas desajeitadas ao garçom do clube, mas não jogava
cartas e não bebia: uma disciplina de ferro reinava no destacamento de Sobolev.
Em voz baixa, o hussardo confiara à assembleia que o “jovem Jérôme” tomara
em suas mãos “as coisas e as pessoas” e não deixaria ninguém respirar. Quanto a
Mikhail Dmitrievitch, protegia-o e o impedia de receber a lição que merecia.
Decididamente, ao assalto!
O único acontecimento feliz de todos esses dias foi o regresso de Paladin
que, finalmente, esperara em Kichinev que as coisas se acalmassem e, sabendo
de sua completa reabilitação, precipitara-se de volta ao teatro de operações. Mas
o próprio francês, cujo regresso alegrara Varia, já não se mostrava como antes. Já
não contava histórias divertidas para distraí-la, evitava falar do incidente de
Bucareste e passava o tempo correndo pelo acampamento para recuperar seu
mês de ausência, redigindo reportagens e mais reportagens para sua revista. Na
realidade, Varia tinha um sentimento idêntico ao que experimentara no
restaurante do hotel Royal, quando, sentindo o cheiro de sangue, os homens
tinham se descontrolado, esquecendo-se totalmente de sua existência. Isso só
confirmava mais uma vez que o homem estava, pela própria natureza, perto do
mundo animal; o instinto animal se exprimia nele de maneira mais evidente do
que na mulher. É por isso que, sendo precisamente um ser mais desenvolvido,
mais fino e mais complexo, a mulher era a variante mais autêntica do Homo
sapiens. Infelizmente, não tinha ninguém com quem partilhar suas reflexões. Ao
escutá-la, as duas enfermeiras limitavam-se a rir, tapando a mão com a boca.
Quanto a Fandorin, balançava a cabeça com ar distraído, ao mesmo tempo em
que pensava noutros assuntos.
Numa palavra, foi para ela um período de aborrecimento, morno e sem
interesse.

Na madrugada de 30 de agosto, um terrível estrondo acordou Varia.


Começava o primeiro bombardeio. Na véspera, Erast Petrovitch tinha explicado
que, além da habitual preparação de artilharia, os turcos seriam submetidos a
uma ação psicológica — na arte militar, era um termo novo. Ao primeiro raio de
sol, no momento preciso em que os fieis devem dirigir a primeira oração a Alá,
trezentos canhões russos e romenos abririam fogo de barragem sobre as
fortificações turcas. Às nove em ponto, o bombardeio devia terminar. Prevendo
um ataque, Osman Paxá faria forças novas avançarem para a primeira linha, mas
os aliados continuavam imóveis e o silêncio ameaçava se instalar na planície de
Plevna. Às onze em ponto, os turcos, perplexos, veriam desabar sobre eles uma
nova rajada de artilharia que duraria até uma da tarde. Depois, nova calmaria. O
inimigo transporta seus feridos e seus mortos, repara às pressas os estragos
sofridos, faz avançar novos canhões para substituir os avariados, mas uma vez
mais o ataque não vem. Os turcos, que não têm nervos sólidos e que, como se
sabe, são capazes de uma ação forte e breve, mas não resistem a um esforço
prolongado, começam a se desorientar, o pânico se instala possivelmente em
suas linhas. Segundo todas as probabilidades, a totalidade do seu alto comando
reúne-se na linha da frente, aponta os binóculos e não compreende nada do que
se passa. E é nesse momento, às catorze horas e trinta, que uma terceira salva de
tiros de canhão assalta o inimigo, após o que, uma hora depois, as colunas
correm para cima dos turcos esgotados pela espera.

Varia retorcia-se entre os lençóis imaginando os infelizes defensores de


Plevna. Deve ser horrível esperar um acontecimento decisivo uma hora, duas
horas, três horas, sempre sem ver aparecer nada. Ela não resistiria, tinha certeza.
Era bem pensado, não havia nada a apontar, não se podia deixar de reconhecer
isso, a esses gênios do estado-maior!
Bu-um! Bu-um! bum! bum! Ainda vai durar muito, pensou Varia. Tinha que
ir tomar café.
Sem conhecimento do plano sutil da preparação de artilharia, os jornalistas
tinham partido para a linha da frente antes do nascer do dia. Para ocuparem as
posições destinadas à imprensa, precisaram de acordo prévio com o comando e,
ao fim de longas discussões, ficara decidido que seriam colocados numa colina
entre Grivitsa, onde estava o centro das posições russas, e a estrada Lovtcha,
além da qual se estendia o flanco esquerdo. A maioria dos correspondentes
queria ficar mais perto do flanco direito, porque, evidentemente, era ali que seria
desencadeado o ataque principal, mas Paladin e McLaughlin levaram os colegas
a mudar de opinião, com o argumento principal de que mesmo se o flanco
esquerdo desempenhasse apenas um papel secundário, era lá que estava Sobolev,
e as coisas não se passariam sem incidentes pitorescos.
Depois de tomar café com as duas enfermeiras, que estavam completamente
pálidas e se sobressaltavam ao mínimo tiro, Varia foi procurar Erast Petrovitch.
Ele não estava no estado-maior nem na seção especial mas, ao olhar por acaso
para a barraca dele, encontrou-o instalado muito tranquilamente na cadeira de
braços dobrável, um livro na mão, tomando café e balançando na ponta do pé um
chinelo marroquino de bico revirado.
— Quando vai para a linha da frente? — perguntou Varia, sentando-se na
cama, porque era o único local disponível.
Erast Petrovitch encolheu os ombros. Seu rosto resplandecia de boas cores. A
vida do acampamento convinha perfeitamente ao ex-voluntário.
— Não vai ficar aqui o dia inteiro, vai? Paladin disse que a batalha de hoje
vai ser o maior assalto da história mundial a uma posição forte. Mais grandiosa
do que a tomada da colina de Malakoff.
— Seu Paladin gosta de embe-be-lezar as coisas — respondeu o conselheiro
titular. — Waterloo e Borodino foram mais importantes, sem falar da batalha dos
povos de Leipzig.
— Verdadeiramente é uma pessoa diferente das outras! O destino da Rússia
está em jogo, milhares de homens morrem. Ele, ele fica aqui lendo um livro!
Enfim, é imoral!
— E acha moral ob-b-servar à distância e sem correr risco a maneira como as
pessoas se matam? — Oh, milagre! Um sentimento humano, de irritação, tinha-
se feito ouvir na voz de Erast Petrovitch! — M-m-muito obrigado, eu já tive
ocasião de assistir a um espetáculo desses e até de participar. E não me agradou.
Prefiro ficar na companhia de Tácito.
Embrenhou-se ostensivamente na leitura. Varia saltou da cama, bateu com o
pé e quando se dirigia para a porta, ouviu Fandorin dizer: — Tenha cuidado,
sim? Não se afaste do posto dos jornalistas. Nunca se sabe.
Espantada, ela parou e se virou para olhar Erast Petrovitch.
— Preocupa-se comigo?
— É verdade, Varvara Andréevna, que necessidade tem de ir lá? Primeiro,
haverá grandes tiros de canhão. Depois, os homens vão se lançar à frente e as
nuvens de poeira serão tão grossas que não verá nada, ouvirá unicamente uns
gritando "hurra!", enquanto outros berram de dor. Veja como é interessante! O
trabalho que nos compete não se passa lá, passa-se aqui, na retaguarda.
Varia lembrou-se de repente de um termo que lhe pareceu adequado à
situação: — De atalaia! — disparou ela para Fandorin, deixando-o sozinho com
seu Tácito.

Ela não teve nenhuma dificuldade em encontrar a pequena colina onde


estavam colocados os correspondentes de guerra, assim como os observadores
dos países neutros. Da estrada inteiramente ocupada por carroças pesadamente
carregadas de munições, avistou ao longe a grande bandeira branca que se
balançava suavemente ao vento e, a seus pés, uma grande multidão: uma centena
de pessoas, sem dúvida, se não fosse mais. O responsável do setor, um capitão
com a voz trêmula à força de gritar, que trazia uma braçadeira vermelha e cuja
função era enviar os trens de munições para as diferentes direcções, sorriu
rapidamente e fez um gesto com a mão na direção da bela garota com chapéu de
renda.
— Por ali, menina, por ali! E não se afaste deste caminho. A artilharia
inimiga respeita a bandeira branca, mas em todos os outros locais nunca se está
livre de um azar. Vamos, vamos, para onde vai, grande cretino! Eu disse obuses
de quatro libras para a sexta!
Varia tocou as rédeas do simpático cavalo russo pedido emprestado à
enfermaria e tomou a direção da bandeira, olhando curiosamente ao redor.
Na base da cadeia de colinas, por trás das quais se estendiam os arredores de
Plevna, toda a planície estava disseminada por pequenas ilhas. Era a infantaria
que, desdobrada em companhias, esperava ha erva a ordem de ataque. Os
soldados trocavam algumas palavras em voz baixa, de longe em longe fazia-se
ouvir um riso mais alto que soava falso. Os oficiais reunidos em grupos,
fumavam. Uns e outros, com olhares espantados e desconfiados, observavam
Varia, que passava montada à amazona, como se ela fosse um ser de um mundo
diferente e irreal. Perante este campo, todo em movimento e ruídos, a jovem
sentiu-se incomodada. Viu muito distintamente o anjo da morte voar por cima da
erva poeirenta, examinando os homens e marcando certas caras com o seu selo
invisível.
Esporeou o seu cavalo e atravessou o mais depressa possível aquela tão
sinistra sala de espera.
No posto de observação, em contrapartida, todos se mostravam animados e
cheios de uma alegre expectativa. Reinava uma atmosfera de piquenique e
alguns, de resto, tomando lugar à volta de toalhas brancas postas por terra,
estavam ocupados a comer com grande apetite.
Foi recebida por Paladin, que acabava de chegar ao acampamento e se
mostrava tão entusiasmado quanto os outros.
— Começava a me perguntar se viria!
Varia reparou que ele tinha calçadas as suas célebres velhas botas.
— Estamos aqui feitos idiotas desde o nascer do sol, ao passo que os oficiais
russos só começaram a chegar por volta do meio-dia. Kazanzakis nos fez a
fineza de se juntar a nós há um quarto de hora e foi ele que nos disse que o
ataque só começaria às três. — O jornalista estava muito bem disposto e não
tinha nenhuma vontade de se calar. — Eu compreendo que também conhecia
essas disposições antecipadamente. Não é bonito, Srta. Barbara, devia ter me
avisado como amigos que somos. Sabe que me levantei às quatro da manhã e
que, para mim, isso é pior que morrer?
O francês ajudou a jovem a descer do cavalo, instalou-a numa cadeira
dobrável e começou a dar explicações.
— Veja, lá embaixo, na colina que em frente, são as posições fortes dos
turcos. Veja os obuses que explodem com efeito de repuxo. É ali o ponto central
da posição deles. O exército russo-romeno estendeu-se numa linha reta de uma
quinzena de quilômetros, mas daqui só podemos ver uma parte desse enorme
dispositivo. Olhe aquela colina arredondada. Não, não essa, a outra onde pode
ver uma barraca branca. É o posto de comando, o quartel-general provisório. É lá
que se encontra o príncipe Karl da Romênia, comandante do destacamento
ocidental, o Grão-duque Nikolai, comandante-em-chefe, e o próprio imperador
Alexandre. Oh, lá está, eles lançam foguetes! Que belo espetáculo, não acha?
Por cima do espaço vazio da planície que separava os exércitos inimigos,
rolos de fumaça desenhavam arcos pontiagudos, como se alguém tivesse cortado
o céu em fatias, feito uma melancia. Varia levantou a cabeça e viu, muito alto no
ar, três balões coloridos. O primeiro estava muito perto, o segundo mais longe,
acima do quartel-general do imperador, e o terceiro, na linha do horizonte.
— São balões que permitem corrigir o tiro de artilharia por intermédio de
pequenas bandeirolas que servem de referência — explicou Kazanzakis, que
acabava de se aproximar.
O policial estava com um ar ainda mais desagradável do que o costume. Com
a excitação, fazia estalar os dedos, as narinas dilatavam-se nervosamente. O
vampiro pressentia o cheiro de sangue humano! Varia afastou ostensivamente a
sua cadeira para mais longe, mas o tenente-coronel fez de conta que não se tinha
apercebido da sua manobra e voltou para ao pé dela, apontando com o dedo na
direção onde, por trás da fila de colinas, o fragor das armas era mais forte.
— Nosso amigo Sobolev fez das suas, como sempre. Segundo o plano, o
papel dele era atrair a atenção do reduto de Krichin, enquanto o grosso das
tropas atacava pelo centro. Mas o vaidoso não teve paciência de esperar.
Desprezando as instruções, lançou-se de manhã num ataque frontal. Perdeu não
somente o contato com o resto do exército, visto que a cavalaria turca se interpôs
entre eles, como se arrisca também a ter comprometido toda a operação. O que
vai acontecer.
Kazanzakis tirou do bolso o relógio de ouro, arrancou o quepe com um gesto
que demonstrava emoção e fez o sinal da cruz.
— São três horas. Vai começar o ataque.
Virando-se, Varia viu que toda a planície se pusera em movimento. As
pequenas ilhas de dólmãs brancos se agitavam, reagrupando-se rapidamente
numa linha. Na base da colina passavam correndo homens pálidos precedidos
por um oficial de certa idade e grande bigode, que mesmo mancando não
diminuía a velocidade.
— Não se atrasem! Os sabres mais altos! — gritou ele com uma voz
penetrante, ao voltar-se. — Sementsov, cuidado contigo! Eu arranco-te a cabeça!
Outras colunas aproximavam-se já, mas Varia continuava a acompanhar com
o olhar a primeira, com o seu comandante de uma certa idade e esse Sementsov
que ela não conhecia.
A companhia espalhou-se numa linha e correu lentamente em direção ao
longínquo reduto, no alto do qual repuxos de terra jorravam cada vez mais.
— No que vão se meter! — disse uma voz ao lado dela.
Ao longe, na planície, os obuses explodiam cada vez em maior número, a
fumaça que cobria o chão impedia a visão, mas a companhia de Varia avançava
por enquanto sem obstáculos e parecia que ninguém atirava neles.
— Avance, Sementsov, avance! — murmurava a jovem fechando as mãos
com força.
Em breve, o conjunto das colunas espalhadas pela planície impediu-a de ver
a “sua”. Mas, quando o espaço até ali vazio que se estendia em frente ao reduto
ficou ocupado até o meio pelos dólmãs brancos, mesmo no meio da massa
humana, que se assemelhava a pequenos arbustos bem alinhados, começaram a
explodir obuses: um primeiro, um segundo, um terceiro, um quarto. Depois, um
pouco mais próximo, mais uma vez: um primeiro, um segundo, um terceiro, um
quarto. Depois, outros e outros ainda.
— Eles disparam ininterruptamente! — ela ouviu alguém dizer. — Eis o
resultado da preparação da artilharia. Teriam feito melhor não bancando os
espertos com essas novas ideias psicológicas. O negócio é atirar sem parar.
— Estamos batendo em retirada! Recuamos!
Kazanzakis agarrou o ombro de Varia, apertando com muita força.
Indignada, ela o olhou de alto a baixo, mas compreendeu depressa que ele
estava com a cabeça em outro lugar. Libertando-se como pôde, olhou a planície,
que estava oculta por uma camada de fumaça, na qual cintilavam manchas
brancas e voavam torrões de terra negra.
Na colina, fez-se silêncio. Emergindo da névoa azulada, uma multidão
silenciosa corria, passando por ambos os lados do posto de observação. Varia viu
vermelho nos dólmãs brancos.
A fumaça se dispersava pouco a pouco. Em breve, pôde descortinar a
planície coberta de crateras negras das explosões e os pontos brancos dos
dólmãs. Olhando mais cuidadosamente, Varia percebeu que os pontos brancos
tinham movimento, e ouviu um lamento surdo que parecia sair da própria terra.
Os canhões tinham precisamente acabado de se calar.
— A primeira fase da operação está terminada — disse o oficial que o
estado-maior destacara para ligação com os jornalistas. — Osman está
solidamente implantado. Vai ser difícil. Vamos retomar a preparação da artilharia
e depois voltamos a avançar.
Varia sentiu náuseas.
capítulo
9
Onde Fandorin avança por ordens superiores

Les Nouvelles Russes (S. Petersburgo)


31 de agosto (12 de setembro) de 1877

... Tendo em mente os objetivos paternais que o seu amado comandante lhe
tinha dispensado, o valoroso soldado exclamou: "Mikhail Dmitrievitch, eu
morro, mas a mensagem será transmitida!" Este jovem herói de dezenove anos
saltou para seu corcel e partiu a galope pela planície acariciada por ventos de
chumbo, em direção às forças centrais do exército que estavam separadas pelos
Bachi-Bouzouks, escondidos numa curva do terreno. As balas assobiavam por
cima da sua cabeça, mas ele não parava de esporear sua montaria,
murmurando: "Mais depressa! Mais depressa! É de mim que depende o
resultado do combate!"
O destino fatal é infelizmente mais poderoso do que a bravura. Uma rajada
de tiros detonou e o valente mensageiro caiu ao chão. Coberto de sangue, pôs-se
em pé e correu para o inimigo, brandindo sua espada, mas já os Bachi-
Bouzouks o atacavam em grande número, como corvos negros. Deitaram-no por
terra e durante muito tempo, com uma crueldade sem nome, dedicaram-se a
trinchar com seus sabres o corpo privado de vida.
Assim morreu Serge Verechtchaguin, o irmão do célebre pintor.
Assim desapareceu um talento muito promissor, cujo destino não permitiu
que se desenvolvesse em toda a sua força.
Assim pereceu o terceiro mensageiro enviado por Sobolev ao soberano...

Por volta das sete da noite, Varia voltou ao famoso cruzamento onde, agora,
em vez do capitão de voz rouca, estava um tenente, também de voz trêmula,
dirigindo as operações. Su papel era ainda mais penoso porque se tratava
presentemente de coordenar dois fluxos contrários: como da primeira vez,
carroças de munições eram encaminhadas para a frente, mas, ao mesmo tempo,
da frente, evacuavam-se os feridos.
Tendo assistido ao primeiro ataque, a jovem cedera, compreendendo que não
suportaria uma segunda vez esse espetáculo e decidiu voltar para a retaguarda.
De resto, no caminho, derramara algumas lágrimas, feliz de não ter ninguém nas
proximidades vendo-a chorar. Hesitava em voltar ao acampamento. Tinha
vergonha.
A infeliz não se poupava censuras: pobre mimosa fraca, pequena lambisgoia,
sexo frágil. E no entanto sabia muito bem que ia ver a guerra e não, o desfile de
Pavlovsk. Ao mesmo tempo, não queria dar o prazer ao conselheiro titular de
perceber que a razão, mais uma vez, estava do lado dele.
Mas, afinal, voltou à colina.
Ia devagar e, à medida que os ruídos do combate se aproximavam, seu
coração apertava. Os tiros tinham praticamente cessado e só se ouvia o rugido
dos canhões. Em contrapartida, na estrada de Lovtcha, onde, isolado dos outros,
se batia o destacamento de Sobolev, as rajadas se sucediam e, se bem que
fracamente audíveis a esta distância, faziam-se ouvir numerosas vozes humanas.
O general Michel confrontava-se claramente com sérias dificuldades.
De repente, Varia estremeceu. McLaughlin, todo salpicado de lama, saía dos
arbustos. Seu chapéu caíra para o lado, tinha a cara toda vermelha e a testa
inundada de suor.
— Então? O que está acontecendo? — perguntou Varia, segurando o cavalo
do irlandês pela brida.
— Eu acho que está indo — respondeu ele enxugando o rosto com o lenço.
— Ufa! Eu me enfiei pelo meio do mato e pensei que não sairia mais de lá!
— Mas está indo como? Os redutos foram tomados?
— Não, no centro os turcos resistiram, mas, há uns vinte minutos, o conde
Zurov passou perto do nosso posto de observação. Com a pressa de chegar ao
estado-maior do imperador, contentou-se em gritar: "Vitória! Entramos em
Plevna! Não tenho tempo de parar, senhores, sou portador de uma mensagem da
maior urgência!" Kazanzakis cortou-lhe o passo. Este senhor é um grande
vaidoso e quis certamente acompanhar aquele que anunciaria uma boa notícia.
Nunca se sabe, pode sempre obter um pequeno benefício. — McLaughlin
balançou a cabeça com reprovação. — Recolhendo a informação, os jornalistas
saíram correndo. — Sabe que, nestes casos, cada um tem seu telegrafista — e
garanto que neste mesmo momento os telegramas anunciando a tomada de
Plevna voam rumo a diversas redações.
— E por que está aqui?
O correspondente respondeu com dignidade: — Senhorita Suvorova, eu
nunca me precipito. Analiso os assuntos com prudência. É preciso obter as
informações detalhadamente. Em vez de um breve anúncio, vou também enviar
um artigo completo que sairá na mesma tiragem da manhã que seus pequenos
telegramas.
— Então podemos voltar para o acampamento? — perguntou Varia aliviada.
— Penso que sim. Aprenderemos mais no estado-maior do que nesta savana.
De resto, logo vai anoitecer.

Infelizmente, no estado-maior nada se sabia de preciso. O quartel-general


não enviara nenhuma informação sobre a tomada de Plevna e, pelo contrário,
parecia que o ataque fora repelido em todos os pontos essenciais e as baixas
eram colossais, vinte mil homens, no mínimo. Contava-se que o soberano não
podia estar mais abatido e, interrogados sobre uma eventual vitória de Sobolev,
os oficiais contentavam-se em fazer um gesto negativo: como um general, que só
tinha duas brigadas, poderia ter tomado Plevna, quando os sessenta batalhões do
centro e do flanco direito não tinham conseguido ocupar a primeira linha dos
redutos?
Ninguém compreendia nada. McLaughlin triunfava, orgulhoso de sua
prudência; quanto a Varia, ela culpava Zurov, que não passava de um fanfarrão,
um mentiroso que contara uma história qualquer, semeando a confusão geral.
A noite caiu e os generais, aborrecidos, reuniram o estado-maior. Varia
avistou Nikolai Nicolaevitch, que entrava na barraca de operações com seus
oficiais. Sua cara de cavalo, enquadrada por espessas suíças, era percorrida por
tiques. Em voz baixa, trocavam informações sobre as enormes baixas sofridas:
um quarto do exército tinha tombado, mas em voz alta só se falava da conduta
heroica dos soldados e oficiais.
Passava da meia-noite quando Fandorin reencontrou Varia. Ele estava com ar
muito sombrio.
— Venha, Varvara Andréevna. O alto comando deseja nos ver — disse ele.
— Eu também?
— Sim. Eles querem ver toda a seção especial, incluindo nós dois.
E em passo apressado dirigiram-se à pequena casa de terra batida onde
estava localizado o serviço do tenente-coronel Kazanzakis.
Na sala que Varia bem conhecia se reuniram todos os oficiais da seção
especial do destacamento ocidental, mas seu superior não estava presente.
Em contrapartida, ameaçadoramente carrancudo, presidia à mesa o próprio
Lavrenty Arkadievitch Mizinov.
— Ah, o senhor conselheiro titular nos dá a honra de comparecer com a
senhora sua secretária — disse ele em tom azedo. — Perfeito, só nos resta
esperar Sua Excelência o senhor tenente-coronel, e podemos começar. Onde está
Kazanzakis? — vociferou.
— Ninguém viu Ivan Kharitonovitch hoje à tarde — respondeu timidamente
o oficial mais graduado.
— Bravo! Ah, eles são bons, os defensores dos segredos de Estado!
Mizinov saltou da cadeira e deu alguns passos na sala, fazendo ressoar as
botas.
— Isso não é um exército, é um acampamento de feira! Um circo ambulante!
Cada vez que se tem necessidade de encontrar alguém, dizem que não está.
Desapareceram todos! Nunca se encontra ninguém!
— Excelência, fala por enigmas. De que se trata? — perguntou Fandorin em
voz baixa.
— Não sei de nada, Erast Petrovitch, não sei de nada! — exclamou Mizinov.
— Eu esperava que você e Kazanzakis pudessem me dar uma explicação. —
Calou-se por um momento e depois, fazendo um esforço para se recompor,
continuou mais calmamente. — Bom, não esperaremos mais ninguém. Acabei
de ver o soberano, e assisti a uma cena muito curiosa: o major-general Sobolev o
segundo, da corte de Sua Majestade o tsar, dirigiu-se aos gritos a Sua Majestade
imperial assim como a Sua Excelência, o irmão do tsar, e o soberano e o
comandante-em-chefe fizeram o possível para se justificar com ele.
— Não é possível! — disse um dos policiais, completamente estupefato.
— Silêncio! — vociferou o general. — Calem-se e escutem. Sabe-se agora
que ao fim de cerca de três horas, depois de tomar o reduto de Krichinsk em
seguida ao ataque frontal, o destacamento de Sobolev avançou pela região sul de
Plevna, penetrando na retaguarda do grosso das tropas turcas. Infelizmente, ele
foi obrigado a parar, por não dispor nem de sabres nem de artilharia suficientes.
Sobolev enviou várias vezes mensageiros para exigir reforços imediatos, mas os
Bachi-Bouzouks todas as vezes os interceptaram. Por fim, ao fim de seis horas,
seu ajudante de ordens Zurov, acompanhado de uns cinquenta cossacos,
conseguiu passar. Os cossacos voltaram para perto de Sobolev, onde cada
homem era necessário, e Zurov prosseguiu sozinho para o quartel-general.
Esperavam os reforços, mas em vão. E não há nada de espantoso nisso, uma vez
que Zurov nunca chegou ao quartel-general e a notícia da vitória no flanco
esquerdo nunca chegou a nós. À tarde, os turcos fizeram um deslocamento e se
jogaram sobre Sobolev com toda a força de suas armas, o que fez com que, por
volta da meia-noite, depois de perder boa parte de seus homens, Sobolev tenha
sido obrigado a bater em retirada, retomando a posição de partida. E no entanto,
tínhamos ocupado Plevna! Eu dirijo portanto aqui uma pergunta a todos os
presentes: onde pode ter ido parar Zurov, que desapareceu em pleno dia no
próprio centro de nossas forças? Quem pode me dar uma resposta?
— O tenente-coronel Kazanzakis, sem dúvida — disse Varia.
E toda a assistência se virou para ela. Emocionada, relatou o que
McLaughlin lhe dissera.
Depois de longa pausa, o chefe da Segurança dirigiu-se a Fandorin.
— Suas conclusões, Erast Petrovitch?
— A batalha foi perdida e é tarde demais para ficar desesperado. Esse tipo de
emoção prejudica o raciocínio — respondeu secamente o conselheiro titular. —
Eis o que é necessário f-f-fazer. Dividir em quadrados o território que separa o
posto de observação dos jornalistas do quartel-general. É vai um. Passar a pente
fino cada um dos quadrados a partir dos primeiros raios de sol. E vão dois. Na
descoberta dos cadáveres de Zurov e Kazanzakis, não tocar em nada e não pisar
no chão em redor. E são três. Em todo caso, procurar os dois homens nos
hospitais, entre os feridos graves. E quatro. N-n-no momento, Lavrenty
Arkadievitch, não há mais nada a fazer.
— E qual é sua teoria? Que relatório devo apresentar ao soberano? É uma
traição?
Erast Petrovitch suspirou.
— Seria antes uma manobra d-d-diversionista. Dito isso, só amanhã de
manhã é que entenderemos claramente.

Nessa noite, ninguém dormiu. As tarefas eram numerosas. Debruçados sobre


um mapa, os colaboradores da seção especial dividiram o território em
quadrados de meia versta de lado e constituíram as equipes de investigação.
Varia dirigiu-se aos seis hospitais e enfermarias para verificar os oficiais que
tinham sido internados. Nessa noite, ela se viu confrontada com tantas situações
horríveis que de manhã se sentiu mergulhada num estranho estado de
insensibilidade embrutecida. Mas não encontrou Zurov ou Kazanzakis. Em
contrapartida, teve ocasião de ver muitas caras conhecidas, entre as quais
Perepelkin. O capitão tinha, também ele, tentado atravessar as linhas inimigas
para buscar reforços, mas recebera um golpe de yatagan na clavícula. Não tinha
tido sorte com os Bachi-Bouzouks. Ele estava numa cama, pálido, infeliz, os
olhos castanhos fundos nas órbitas quase tão tristes como no dia de seu primeiro
e inesquecível encontro. Varia precipitou-se para sua cama, mas ele se virou sem
dizer nada. Por que esta inimizade?
O primeiro raio de sol encontrou Varia sentada num banco na seção especial.
Fandorin a instalara lá quase à força, dando-lhe ordem para descansar e sentindo
o corpo pesado, entorpecido, encostou-se na parede e se abandonara a uma
sonolência perturbada e dolorosa. Os membros doíam e tinha o coração
apertado. Eram os nervos e a noite em branco, não era de estranhar.
Ainda era noite quando as equipes de busca se dispersaram, cada uma na
direção de seu quadrado. Às sete e quinze um mensageiro apresentou-se a
galope, vindo do quadrado quatorze. Entrou correndo na pequena casa e
Fandorin saiu imediatamente, abotoando a túnica enquanto andava.
— Venha, Varvara Andréevna, encontraram Zurov — disse ele sucintamente.
— Morto? — disse ela num soluço.
Erast Petrovitch não respondeu.

O hussardo estava de bruços, a cabeça virada para o lado. Ainda de longe


Varia avistou o cabo de prata de uma faca cossaca enterrada na sua omoplata
esquerda, o que teria causado sua morte. Desmontando, viu o homem de perfil: o
olho aberto que exprimia espanto tinha um belo brilho de vidro, a têmpora,
perfurada por um tiro, estava escurecida pela queimadura da pólvora.
Varia soltou um novo soluço sem lágrimas e virou-se para não continuar a
presenciar o espetáculo.
— Não tocamos em nada, conforme suas ordens, Sr. Fandorin — relatou o
policial que dirigia a equipe. — Não lhe faltava percorrer mais do que uma
versta para chegar ao posto de comando. Há aqui uma curva no terreno e por isso
ninguém viu nada. Quanto ao tiro, como ouvi-lo no canhoneio? As coisas são
claras: surpreenderam-no e deram-lhe um golpe de punhal das costas quando ele
não esperava. Depois terminaram o serviço com uma bala na têmpora esquerda.
O tiro foi disparado a curta distância.
— Bem, bem... — respondeu de maneira vaga Erast Petrovitch, inclinado
sobre o corpo.
O oficial baixou a voz.
— O punhal pertencia a Ivan Kharitonovitch, reconheci-o imediatamente.
Ele nos mostrou, dizendo que era um presente de um príncipe da Geórgia...
Ao que Erast Petrovitch respondeu: — Só nos faltava essa...
Varia se sentiu ainda pior e franziu os olhos para afastar a náusea que a
invadia.
— Há v-v-vestígios de passos de cavalo? — perguntou Fandorin, agachando-
se.
— Infelizmente! Como pode ver, ao longo do riacho só há seixos miúdos e
mais acima está tudo pisado. Ontem, os esquadrões devem ter passado por lá.
O conselheiro titular levantou-se e ficou um minuto imóvel ao lado do corpo.
Seu rosto estava hirto, cinza, de acordo com as têmporas grisalhas. E pensar que
ele tinha pouco mais de vinte anos, refletiu Varia, com um arrepio.
— Obrigado, tenente. L-l-leve o morto para o campo. Voltamos, Varvara
Andréevna.
No caminho, ela perguntou:
— Será possível que Kazanzakis seja um agente turco? É inverosímil! Ele é
desagradável, certamente, mas mesmo assim...
Fandorin deu uma risada desprovida de alegria.
— Não a esse ponto, não é?
Quase pelo meio do dia foi encontrado o tenente-coronel, depois que Erast
Petrovitch tinha ordenado que voltassem a verificar mais cuidadosamente o
pequeno bosque nas proximidades do local onde fora abatido o pobre Hipólito.
Pelas descrições feitas (Varia não foi ver pessoalmente), Kazanzakis foi
encontrado meio sentado, meio deitado numa rocha, atrás de um arbusto espesso.
Tinha um revólver na mão direita e um buraco na cabeça.
Foi o próprio Mizinov que apresentou as conclusões dos resultados do
inquérito.
— Antes de mais nada, faço questão de afirmar que estou o mais descontente
possível com os resultados do trabalho do conselheiro titular Fandorin — disse
ele para começar, num tom de voz que não pressagiava nada de bom. — Erast
Petrovitch, devo dizer que um inimigo perigoso e altamente experiente causou
enorme prejuízo a nossa causa e quase comprometeu o destino da nossa
campanha. Operou aqui, debaixo de seu nariz e não conseguiu identificá-lo.
Reconheço que a tarefa era árdua, mas não é um iniciante. O que se pode esperar
dos colaboradores da seção especial? Foram recrutados em diversas direções do
governo, onde só tinham sido encarregados de trabalhos de instrução comuns,
mas você, com seus talentos, não pode ser perdoado!
Pressionando a mão na testa dolorida, Varia lançou um olhar a Fandorin. Ele
parecia absolutamente imperturbável. No entanto, de uma maneira muito pouco
perceptível (além de Varia é quase certo que ninguém viu nada), as maçãs de seu
rosto tinham avermelhado ligeiramente. Era claro que as declarações do chefe o
haviam atingido no íntimo.
— Em conclusão, senhores, o que houve? Um escândalo sem precedentes na
história mundial. O departamento secreto do destacamento ocidental, o
destacamento mais importante do nosso exército do Danúbio, era dirigido por
um traidor.
— Pode-se considerar como fatos provados, Excelência? — perguntou
timidamente o mais graduado dos oficiais.
— Julgue por si mesmo, comandante. Reconheço que o fato de Kazanzakis
ser de origem grega — e existe um grande número de agentes turcos entre os
gregos — não é ainda uma prova, claro. Mas lembre-se que figura no livrinho de
Loukan um misterioso “J”. Agora, compreendemos o que é esse “J”, ele
significava “gendarme”.
O comandante, com o bigode grisalho, interveio: — Mas “gendarme” se
escreve com “G”.
— Em francês se escreve com “g”, mas em romeno é “jandarm” com ”J” —
explicou com condescendência o alto responsável. — Era Kazanzakis que
puxava os cordões do coronel romeno. Eu continuo. Quem se precipitou para
acompanhar Zurov, portador de uma mensagem, da qual dependia o desenrolar
do combate e possivelmente o da guerra? Kazanzakis. Eu continuo. A quem
pertencia o punhal com o qual Zurov foi assassinado? A seu chefe. Eu
continuo... Mas, para dizer a verdade, por que continuar? Incapaz de extrair a
lâmina presa nas costas da vítima, o assassino compreendeu que não conseguiria
desviar as suspeitas e se suicidou. Faltam muito precisamente duas balas no
tambor de seu revólver.
— Mas um espião não tinha nenhuma razão para se suicidar, teria tentado se
esconder — continuou o comandante em seu tom de voz tímido.
— Esconder-se onde, me diga? Não podia atravessar a linha de fogo e, na
nossa retaguarda, a partir de hoje teria sido objeto de nossas buscas. Também
não podia procurar refúgio com os búlgaros e não tinha como se juntar aos
turcos. Antes uma bala que a forca, aí ele raciocinou bem. Por outro lado,
Kazanzakis não era um espião, era mais precisamente um traidor. Novgorodtsev,
onde está a carta? — perguntou ele, virando-se para seu ajudante de ordens.
Ele tirou de uma pasta uma folha de uma brancura de neve dobrada em
quatro.
— Descobrimos esta carta no bolso do suicida — explicou Mizinov. — Leia
em voz alta, Novgorodtsev.
O oficial dirigiu a Varia um olhar perturbado. Mas o general o pressionou.
— Leia, leia! Não estamos num colégio de meninas nobres, e Suvorova é do
grupo de investigação.
Novgorodtsev pigarreou e, corando, começou a ler.
— Querido pequeno Vania, querido Kharitontchik, meu amor... A ortografia,
senhores, é mais do que fantasiosa — interrompeu o oficial. — Eu leio como
está escrito. E depois, que arabescos!

Meu amor. A vida sem ti vai ser tão triste que gustava de acabar
com ela, será melhor. Tu me beijaste, acarissiaste-me e eu também,
também fiz a mesma coisa, mas o destino maldito testemunhou-o e
com a sua faca na costa, foi tomado pela inveja. Sem ti eu sou pueira,
lama. Eu pesso-te, volta depressa! E se encontrares mais algém que o
Besso nessa tua orrível Kichinov, eu venho e juro pela minha mãe que
lhe ponho as tripas de fora.
Teu por mil anos.
O teu Traquinas.

— "Teu" no sentido de "tua"? — perguntou um oficial.


— Não, não é "tua", mas "teu" — escarneceu Mizinov. — A questão é essa.
Antes de fazer parte da direção do corpo de polícia de Kichinev, Kazanzakis
serviu em Tbilisi. Indagamos imediatamente e a resposta já chegou. Leia o
telegrama deles, Novgorodtsev.
E o jovem oficial leu este novo documento visivelmente com mais prazer do
que o primeiro.

A Sua Excelência o general L. A. Mizinov,


em resposta a sua pergunta de 31 de agosto,
chegada a uma hora e cinquenta e dois minutos da tarde.
Ultraurgente.
Ultrassecreto.

Tenho a honra de informar que durante sua presença na direção


da polícia de Tbilisi, desde janeiro de 1872 a Setembro de 1876, o
tenente-coronel Ivan Kazanzakis mostrou-se um trabalhador sério e
enérgico e que não foi alvo de nenhuma sanção oficial. Pelo contrário,
mostrou-se digno da Ordem de São Stanislas do terceiro grau e foi
agraciado por duas vezes com os agradecimentos de Sua Excelência,
o governador-geral do Cáucaso. No entanto, informações de nossos
agentes, obtidas durante o verão de 1876, fazem menção a gostos
singulares de que ele dera prova, assim como a relações contra natura
que ele chegara mesmo a manter com o príncipe Vissarion Chalikov, a
quem chamam o Traquinas Besso, pederasta bem conhecido de Tbilisi.
Fui levado a não prestar atenção a esses rumores, que nenhum fato
confirmava. porém, tendo em conta a circunstância de, apesar da
idade avançada, o tenente-coronel Kazanzakis ser celibatário e de não
se conhecer alguma ligação com mulheres, decidi fazer um pequeno
inquérito interno secreto. Consegui verificar que o tenente-coronel
Kazanzakis conhecia efetivamente o Traquinas, mas a existência de
relações íntimas entre eles não pôde ser provada. Contudo, considerei
adequado pedir a transferência do tenente-coronel Kazanzakis para
outro local, sem nenhuma consequência para sua folha de serviço.

Coronel Pantchulidze
Chefe da direção da polícia de Tbilisi.

— E aqui está — disse com azedume Mizinov, para resumir a situação. —


Ele mandou aos outros um colaborador duvidoso, dissimulando completamente a
causa a seus superiores. E hoje é todo o exército que paga. Por causa da traição
de Kazanzakis, há três meses que marcamos passo às portas desta maldita Plevna
e não sabemos ainda quanto tempo vamos ficar aqui! O aniversário do soberano
foi perturbado! Presentemente, Sua Majestade chegou ao ponto de considerar a
ideia de bater em retirada, estão vendo? — Ele engoliu nervosamente a saliva.
— Três assaltos infrutíferos, senhores, três! Lembre-se, Erast Petrovitch, que
foi Kazanzakis que levou a primeira ordem da tomada de Plevna aos
codificadores. Eu não sei como ele conseguiu substituir "Plevna" por
"Nicopole", o que está claro é que as coisas não foram feitas sem este Judas!
Varia se sobressaltou e pensou que, para Petia, a situação podia começar a
melhorar. Entretanto, depois de alguns movimentos de lábios mal coordenados, o
general continuou: — É evidente que para servir de exemplo a todos os que
gostam de guardar silêncio, eu apresentarei o coronel Pantchulidze em tribunal,
tentando obter sua destituição total. Entretanto, seu telegrama nos permite, por
dedução, restabelecer toda a cadeia de acontecimentos. Afinal, as coisas são
muito simples. Os agentes turcos, que pululam por todo o Cáucaso, descobriram
sem dúvida o vício secreto de Ivan Kazanzakis e o tenente-coronel foi recrutado
na sequência de uma chantagem. A história é velha como o mundo. "Pequeno
Vânia, pequeno Kharitontchik"! Ufa! Que nojo! Se ele ainda o tivesse feito por
dinheiro!
Varia se preparava para abrir a boca em defesa dos atores do amor do mesmo
sexo que, no fim das contas, não são responsáveis por serem diferentes por obra
da natureza, mas Fandorin se antecipou.
— Permitem que veja a carta? — perguntou ele. Virou a folha em todos os
sentidos, passou o dedo pela dobra e perguntou: — Onde está o envelope?
— Erast Petrovitch, você me espanta — disse o general com um gesto de
impaciência. — De que envelope se trata? Não é efetivamente pelo correio que
chegam essas mensagens.
— Esta carta estava sim-simplesmente em seu bolso interior? Bom, bom...
Fandorin encrespou-se. Lavrenty Arkadievitch encolheu os ombros.
— Eis o que é melhor fazer, Erast Petrovitch. Não se exclui que o traidor
tenha tido tempo de recrutar outros oficiais além do coronel Loukan. Sua tarefa é
tentar saber se não subsistem no estado-maior ou em volta outros dentes do
diabo. Comandante — disse ele ao oficial mais graduado, que saltou de sua
cadeira e se pôs em sentido. — Nomeio-o para dirigir provisoriamente a seção
especial. A tarefa é a mesma. Com assistência total ao conselheiro titular.
— Às ordens!
Bateram na porta e um homem de óculos azuis espreitou.
— Licença, Excelência?
Varia reconheceu o secretário de Mizinov, um homem pequeno com nome
difícil de decorar, de quem estranhamente ninguém gostava e de quem todos
tinham medo.
— O que há? — perguntou o chefe da Segurança circunspecto.
— Aconteceu alguma coisa grave no posto policial. O comandante da prisão
veio anunciar que um dos prisioneiros acabou de se suicidar.
— Pchebychevski, perdeu a cabeça? Eu dirijo uma reunião importante e você
vem me incomodar com ninharias!
Varia apertou as mãos no peito e no segundo seguinte o secretário
pronunciou as exatas palavras que ela estava com tanto medo de ouvir: — Mas é
que se trata de Iablokov, o codificador, que se enforcou. Ele deixou uma carta
que tem relação direta... É por isso que tomei a decisão de... Mas se venho em
má hora, queira me desculpar, eu me retiro.
O funcionário fungou com ar vexado e fez menção de desaparecer por trás da
porta.
— A carta, imediatamente! — rugiu o general. — E que o comandante se
apresente imediatamente!
Tudo flutuava perante os olhos de Varia. Ela tentava se levantar mas não
conseguia, presa por um torpor invencível. Viu Fandorin debruçado sobre ela,
quis dizer-lhe alguma coisa, mas só conseguiu balbuciar miseráveis sons
confusos.
— Agora fica evidente que foi Kazanzakis que modificou a ordem! —
exclamou Mizinov, percorrendo a carta com o olhar. Escutem isto: "Mais
milhares de mortos e tudo foi resultado da minha estupidez. Sim, sou
mortalmente culpado e não negarei mais. Cometi um erro imperdoável ao deixar
na minha mesa o telegrama codificado que dava ordem para ocupar Plevna,
afastando-me por um assunto pessoal. Na minha ausência, alguém alterou uma
palavra da mensagem e eu a despachei sem mesmo verificar. Ah, o verdadeiro
salvador da Turquia não é Osman Paxá, sou eu, Petia Iablokov. Senhores juízes,
não vale a pena estudar meu caso, eu próprio formulo minha condenação." Meu
Deus, como tudo isso faz sentido. Enquanto o rapaz estava ocupado com seus
assuntos pessoais, Kazanzakis efetuou rapidamente a correção. Bastou-lhe um
minuto para isso!
O general amassou a carta, que jogou no chão com um gesto nervoso. Rolou
até os pés do comandante da prisão, hirto numa posição impecável de sentido.
— Er... Erast Pet...rovitch, como pode ser — conseguiu balbuciar Varia a
grande custo. — Petia?
— Capitão, o que aconteceu com Iablokov? Morreu?
— Olhe, eles nem sequer são capazes de fazer um verdadeiro nó corrediço!
— disse ele esganiçadamente. — Soltaram-no e estão tentando fazê-lo voltar à
vida.
Varia empurrou Fandorin e correu para a porta, esbarrou no umbral e saiu
para o patamar, foi obrigada a parar, cega pelo sol. O conselheiro titular estava
de novo a seu lado.
— Varvara Andréevna, acalme-se. Tudo bem, vamos lá imediatamente.
Retome seu fôlego, está pálida como cal.
Ele tomou cuidadosamente a jovem pelo cotovelo, mas por estranho que
fosse, este contato ainda que tão delicado provocou em Varia um acesso de
repulsa irreprimível. Dobrou-se e vomitou, bem em cima dos sapatos de Erast
Petrovitch. Depois disso, sentou-se nos degraus e tentou compreender por que a
terra estava numa posição diagonal sem que ninguém escorregasse.
Algo agradável tocou em sua testa, algo gelado, e Varia gemeu de prazer.
— Não nos faltava mais nada — disse a voz sonora de Fandorin. — Ela está
com tifo.
capítulo
10
Onde se vê o soberano ser presenteado com um sabre de ouro

Daily Post (Londres)


9 de dezembro (27 de novembro)

Nestes últimos dois meses, é efetivamente o velho general Totleben, de


quem conhecemos a grande experiência e de quem os britânicos decoraram
o nome depois da campanha de Sebastopol, que dirige o cerco de Plevna.
Mais engenheiro do que chefe de homens, Totleben abandonou a tática dos
ataques frontais, preferindo submeter o exército de Osman Paxá a um
bloqueio convencional. Os russos perderam muito tempo e Totleben viu-se,
por isso, sujeito a críticas violentas, mas hoje é preciso reconhecer que o
prudente técnico teve razão. Há um mês, os turcos foram definitivamente
isolados de Sofia e, desde então, em Plevna, reina a fome e falta munição.
Fala-se cada vez mais de Totleben como um segundo Koutousov (marechal-
de-campo russo que, em 1812, esgotou as forças de Napoleão, recuando
continuamente. Nota da redação). Espera-se a qualquer momento a
capitulação de Osman com seu exército de cinquenta mil homens.

Num dia frio e desagradável (céu cinza, chuviscos gelados, lama pegajosa),
Varia juntava-se ao exército numa carruagem de aluguel. Permanecera um mês
inteiro no hospital epidemiológico de Tyrnovsk, onde poderia perfeitamente ter
morrido, porque numerosos eram os que morriam de tifo, mas o certo é que tudo
tinha acabado bem. Depois disso, passara dois meses afundada no tédio,
esperando que os cabelos voltassem a crescer: é evidente que não podia voltar
tosquiada como um tártaro. Mas os malditos cabelos tinham levado tempo e
ainda agora não era possível penteá-los: estilo escovinha espetada. Tinha um
aspecto inacreditável, mas sua paciência estava no fim — mais uma semana de
inação e teria enlouquecido perambulando pelas ruelas inclinadas da pequena
cidade que ela não suportava mais.
Petia tinha conseguido visitá-la uma vez. A instrução de seu processo não
estava terminada, mas já saíra da prisão e trabalhava. O exército tinha
aumentado e codificadores faziam falta. Ele tinha mudado muito: emagrecido,
usava uma grande barba rala, que não lhe ficava nada bem, e a cada três palavras
invocava o nome de Deus ou o serviço do povo. Varia ficara sobretudo
perturbada ao ver que, na chegada, seu noivo a beijara na testa. Por que um gesto
que se faz com um morto no caixão? Estaria assim tão horrível?
A estrada de Tyrnovsk estava obstruída por trens de abastecimento e o carro
não avançava, por isso Varia, na qualidade de conhecedora da região, pediu ao
cocheiro para se desviar para o sul, contornando o acampamento. Era mais
longo, o caminho era ruim, mas chegariam mais depressa. Com a estrada livre, o
pequeno cavalo trotou mais alegremente. A chuva também quase tinha parado.
Mais uma hora ou duas e estarei em casa. Varia deu uma risada. Falei casa!
Uma barraca úmida, exposta ao vento!
Passando Lovtcha, começaram a encontrar cavaleiros solitários que eram
sobretudo cavalariços ou ordenanças, mas logo Varia avistou o primeiro
conhecido.
Uma silhueta desengonçada de chapéu alto e sobrecasaca, empoleirada como
podia em cima de uma pobre égua ruça tristonha, não podia se enganar, era
McLaughlin! Varia teve um sentimento de déjà-vu: no dia da terceira batalha de
Plevna ela regressava da mesma maneira para o acampamento quando
encontrara o irlandês. A diferença é que então fazia calor, e ela tinha certamente
melhor aspecto.
Mas, vendo bem, era bom ver McLaughlin em primeiro lugar. O irlandês era
um homem direto, sem estratagemas nem evasivas, e sua reação indicaria
imediatamente se podia aparecer em público com esse cabelo ou era melhor dar
meia volta. Por outro lado, ele lhe daria notícias...
Varia arrancou corajosamente o chapéu, deixando aparecer a escovinha, que
lhe provocava enorme vergonha. Para saber, melhor ser direta.
— Senhor McLaughlin! — chamou ela com voz forte, levantando-se do seu
banco, quando a carruagem se aproximou do correspondente. — Sou eu! Para
onde vai?
O irlandês virou a cabeça e tirou o chapéu alto.
— Oh, Srta. Varia! Estou feliz em vê-la com boa saúde. Foram considerações
de higiene que a levaram a cortar o cabelo dessa forma? Está irreconhecível!
Varia teve a sensação de que desmoronava.
— É horrível? — perguntou ela com uma voz estrangulada.
McLaughlin apressou-se a tranquilizá-la.
— Nada disso! Mas parece mais um rapazinho do que no nosso primeiro
encontro.
— Vamos na mesma direção? — perguntou ela. — Então venha ao meu lado,
podemos conversar. Além disso seu cavalo não é dos melhores!
— É uma horrível mula. Minha Bessy não descobriu nada melhor do que
engravidar do potro de um soldado de cavalaria e agora está redonda como um
barril. Ainda por cima, Frolka, o fornecedor do estado-maior, não gosta de mim,
porque, por razões de princípio, eu nunca lhe dou gorjeta (na tchai, "para o chá",
como dizem), e assim ele me impinge essas pilecas! Pergunto-me onde ele as
encontra! No entanto, tenho uma missão secreta da mais alta importância.
McLaughlin se calou com um ar significativo, mas via-se bem que não
conseguia mais guardar seu segredo.
Tendo em conta a habitual reserva do irlandês, era surpreendente e ficava-se
com a impressão de que o jornalista tinha efetivamente descoberto algo de
enorme importância.
— Mas venha então sentar aqui um minuto — disse Varia de forma
cautelosa. — Deixe o pobre animal descansar um pouco. E depois, tenho aqui
pequenos bolinhos com doce e uma garrafa térmica de café com rum...
McLaughlin tirou do bolso um relógio de corrente em prata.
— Half past seven... another forty minutes to get there... All right, an hour.
It'll be half past eight... — murmurou ele em sua língua impossível, antes de
suspirar: — Bom, de acordo, mas só um minuto. Vamos até a bifurcação e
depois tomo o caminho de Petyrnitsy.
Prendendo as rédeas à carruagem, instalou-se ao lado de Varia. O primeiro
bolinho foi engolido quase inteiro e a metade do segundo trincada de uma só
vez, acompanhada por um delicioso gole de café bem quente.
— O que vai fazer em Petyrnitsy? — perguntou Varia casualmente. —
Reencontrar mais uma vez seu informante de Plevna, é isso?
McLaughlin olhou-a como que para pô-la à prova e ajustou a posição das
lunetas, totalmente embaçadas.
— Jure que não conta a ninguém, pelo menos antes das dez da noite —
exigiu ele.
— Eu juro — disse Varia precipitadamente. — Qual é então essa notícia?
Abalado com a ligeireza do juramento da jovem, McLaughlin estava
hesitante, mas era tarde demais. De resto, ele tinha claramente necessidade de se
abrir.
— Hoje, 10 de dezembro, ou seja, 28 de novembro de 1877 segundo seu
calendário, é um dia histórico — disse ele muito solenemente para começar e
antes de baixar a voz. — Mas isso, em todo o acampamento russo, só um homem
sabe por enquanto, este seu servidor aqui. É certo que McLaughlin não dá
gorjetas aos que se limitam a cumprir estritamente as obrigações profissionais,
mas em contrapartida ele sabe recompensar um bom trabalho, pode acreditar.
Bom, bom, nem mais uma palavra sobre isso! — disse ele levantando a mão,
para evitar a pergunta que estava prestes a sair dos lábios de Varia. — Não
revelo minha fonte de informação. Digo simplesmente que tive repetidas vezes
ocasião de verificar as informações e que nunca me induziram a erro.
Varia lembrou-se que um jornalista dissera um dia com inveja que o
correspondente do Daily Post recolhia informações sobre a vida em Plevna não
de um búlgaro comum, mas talvez mesmo de um oficial turco. Eram poucos os
que acreditavam nisso, para dizer a verdade. E se fosse verdade?
— Mas fale então, encerre meu desassossego!
— Não esqueça, nem uma palavra a ninguém antes das dez horas. Você
jurou.
Impaciente, Varia assentiu com um sinal de cabeça. Oh, esses homens com
seus estúpidos rituais! Claro que ela não diria nada a ninguém.
McLaughlin inclinou-se em seu ouvido.
— Esta noite Osman Paxá vai se render.
— E essa agora! — exclamou Varia.
— Psiu! Esta noite, às dez em ponto, negociadores vão se apresentar ao
tenente general Ganetski, comandante do corpo de granadeiros, cujas forças
ocupam a margem direita do Vid. Serei o único jornalista a testemunhar esse
grande acontecimento. Nessa ocasião, informarei disso o general, às nove e
trinta, nunca antes, de maneira que as sentinelas não atirem por engano. Pode
imaginar o artigo que vou escrever!
— Imagino — aprovou Varia entusiasmada. — E então, não posso contar a
ninguém?
— Causaria minha desgraça! — exclamou McLaughlin, tomado de pânico.
— Deu sua palavra!
A jovem o tranquilizou.
— De acordo, de acordo! Até as dez fico calada como uma pedra.
— Chegamos ao cruzamento. Pare! — O correspondente deu um toque nas
costas do cocheiro. — Vá pela direita, Varia. Eu viro à esquerda. Já estou
saboreando o efeito dos acontecimentos. Estou lá com o general tomando chá,
falando disso e daquilo e às nove e trinta tiro o relógio do bolso e declaro com ar
indiferente: "De fato, Ivan Stepanovitch, dentro de meia hora chegarão
representantes de Osman Paxá." Nada mal, hein?
McLaughlin explodiu num riso nervoso e pôs o pé no estribo.
Um minuto mais tarde, Varia o perdia de vista, dissimulado pela cortina
cinza de chuva que recomeçava a cair mais forte.
Em três meses, o acampamento mudara a ponto de estar irreconhecível. Já
não havia uma única tenda, apenas barracas de madeira que se alinhavam em
filas absolutamente retas. As ruas estavam todas pavimentadas e havia por todo
lado postos telegráficos e placas com indicações cuidadosas. É realmente outra
coisa quando à frente do exército se encontra um engenheiro, pensou Varia.
Na seção especial, que nesse momento ocupava não menos do que três
edifícios, disseram-lhe que Fandorin tinha agora um cottage à disposição, e a
sentinela teve prazer evidente em pronunciar a nova palavra e em indicar-lhe o
caminho.
O "cottage" n° 158 revelou-se uma modesta isba de tábuas, com uma única
divisão, na extremidade do pequeno conjunto atribuído ao estado-maior. O dono
estava em casa, ele mesmo abriu a porta, olhando para Varia de um modo que
confortou seu coração.
— Bom dia, Erast Petrovitch, eis-me de volta — disse ela experimentando
subitamente intensa emoção.
— Feliz por voltar a vê-la — disse Fandorin brevemente.
Afastou-se para deixá-la entrar. A sala era o mais simples possível,
unicamente com uma parede de ginástica e todo um arsenal de aparelhos. Um
mapa em grande escala estava pendurado na parede.
— Deixei minhas coisas com as enfermeiras. Petia está trabalhando e por
isso vim vê-lo imediatamente — explicou ela.
— Vejo que está curada — Erast Petrovitch examinou-a dos pés à cabeça e
fez um gesto de aprovação. — Mudou de p-p-penteado. É a nova moda?
— Sim, é muito prático. E aqui, o que acontece?
— Nada. Continuamos c-c-cercando o turco. — A voz do conselheiro titular
deixou transparecer um sentimento de cólera. — Esperamos há um mês, dois
meses, três meses. Os oficiais se embebedam de tédio, os intendentes roubam, o
tesouro empobrece. Numa palavra, tudo bem. É a guerra à moda russa. A Europa
suspira de alívio ao ver as forças vivas desertando de nosso país. Se Osman Paxá
se aguentar mais quinze dias, nós p-p-perdemos a guerra.
Erast Petrovitch falou num tom tão desiludido que Varia sentiu piedade e
murmurou: — Ele não vai se aguentar.
Fandorin se animou e fixou os olhos da jovem de modo inquisitivo.
— Sabe de alguma coisa? O que sabe? Quem lhe contou o quê?
Claro, ela contou tudo. Com Erast Petrovitch não havia reservas: ele
certamente não se precipitaria em espalhar a notícia aos sete ventos!
Depois de escutá-la até o fim, o conselheiro titular franziu a testa.
— Ganetski? P-p-por que Ganetski?
Aproximou-se do mapa e murmurou entre dentes: — Ganetski está l-l-longe,
G-G-Ganetski. Bem na ponta do flanco. Por que não vêm ao quartel-general?
Espere, espere!
Com expressão subitamente alterada, o conselheiro titular tirou o casaco
pendurado num prego e precipitou-se para a porta.
— O que há? O que houve? — gritou Varia, correndo atrás dele.
— É uma provocação — afirmou Fandorin a meio do caminho, em tom de
voz pouco perceptível. — Ganetski tem uma defesa particularmente frágil. E
atrás dele fica a estrada de Sofia. Não é uma capitulação, é uma tentativa de
penetração. Eles querem adormecer Ganetski para que não atire.
— Meu Deus! — disse Varia, que acabava de compreender. — E não serão
negociadores. Para onde está correndo? Para o estado-maior?
Erast Petrovitch parou.
— São nove menos vinte. No estado-maior, isso vai demorar. Vão nos
mandar de um responsável para outro e o tempo vai passar. Vamos procurar
Sobolev. Ele está a meia hora de galope, não vai consultar o comando. Tenho
certeza de que saberá assumir o risco. Atacará em primeiro lugar. Se não
conseguir salvar Ganetski, pelo menos penetrará no flanco do exército deles.
Tryphon, meu cavalo!
Olhem essa, ele agora tem um ordenança — pensou Varia, desconcertada.

Durante toda a noite ouviu-se a voz das armas e, de manhã, soube-se que,
ferido no combate, Osman acabava de capitular com todo o seu exército: dez
paxás e quarenta e dois mil homens depunham as armas.
Estava terminado. O cerco de Plevna chegava ao fim.
Os mortos eram em grande número. O corpo de exército de Ganetski,
apanhado desprevenido por um ataque de surpresa, foi praticamente dizimado. E
todos não paravam de falar no nome do general branco, Sobolev II, esse Aquiles
invulnerável que, no momento decisivo, tinha assumido riscos e perigos e,
passando por uma Plevna deixada deserta pelos turcos, atacado Osman pelo
flanco que ele deixara desguarnecido.
Cinco dias mais tarde, em 3 de dezembro, o soberano, que abandonava o
teatro de operações, organizava em Paradime um desfile de despedida de sua
guarda. Foram convidados os altos dignitários e os heróis que tinham se
distinguido particularmente no momento do último combate. Varia pôde seguir
na viatura pessoal do próprio tenente general Sobolev, cuja estrela acabava de
subir ao zênite. Assim se confirmava que o brilhante Aquiles não esquecera a
velha amiga.
A jovem nunca tinha encontrado uma sociedade tão seleta. Havia com que
satisfazer o olhar, vendo cintilar tantas dragonas e tantas condecorações. Para
dizer a verdade, nunca imaginara que houvesse um tão grande número de
generais no exército russo. Na primeira fila, esperando a chegada das
personalidades mais distintas, estavam os mais graduados e, entre eles, Michel,
de uma juventude indecente, vestido como sempre com sua túnica branca e sem
capote, apesar do dia ensolarado mas frio. Todos os olhos estavam fixos no
salvador da pátria que, conforme parecia a Varia, se tornara mais alto, mais largo
de ombros e com uma cara mais majestosa. Os franceses têm sem dúvida razão
ao dizerem que a glória é o melhor dos fermentos.
Ao lado de Varia, dois oficiais bronzeados tagarelavam em voz baixa. Um
deles lançava repetidamente olhares para Varia, com seus olhos negros e
lânguidos. Era agradável.
— ... e o tsar disse: “Em sinal de respeito a sua bravura, Muchir, devolvo seu
sabre, que pode usar na nossa Rússia onde, espero, não terá nenhum motivo de
insatisfação.” Eis a cena, pena que você não tenha assistido.
— Em compensação, eu estava de guarda no conselho no dia 29 —
respondeu o segundo, ciumento. — E ouvi, com meus ouvidos, o tsar dizer a
Milioutin: "Dimitri Alexandrovitch, peço, na qualidade de cavaleiro mais velho
da Cruz de S. Jorge aqui presente, a autorização de passar a usar a dragona da
ordem no meu sabre. Penso tê-lo merecido...“ Peço! Está me ouvindo?
— Sim, não é correto — concordou o oficial dos olhos negros. — Eles
deviam ter pensado nisso! Não se trata de um ministro, trata-se de um simples
ajudante-chefe! Enquanto que o tsar tinha sido de tão grande generosidade! Uma
cruz de S. Jorge de segundo grau a Totleben e a Nepokoitchitski, e de terceiro
grau a Ganetski. E aí, por causa de uma dragona!
— E o que ele deu a Sobolev? — perguntou Varia com vivacidade, mesmo
não conhecendo os dois vizinhos.
Mas isso não tinha importância, era um reflexo da guerra e, depois, as
circunstâncias eram especiais.
— Oh, nosso Ak Paxá terá certamente algo de excepcional! — respondeu
com prazer o oficial dos olhos negros — porque já sabemos que Perepelkin, seu
chefe do estado-maior, acaba de ser promovido! E isso se compreende: não se
pode mesmo assim ver um pobre capitão ocupar um posto desta importância!
Quanto a Sobolev, ele vê se abrirem na sua frente horizontes de cortar a
respiração. É um homem de sorte, nada a dizer. Se ao menos ele não tivesse essa
má inclinação para a vulgaridade e os efeitos fáceis...
— Chiu! — fez o segundo. — Ei-los.
Quatro militares acabavam de chegar ao patamar da feia casinha
pomposamente denominada "palácio de campo". Era o imperador, o
comandante-em-chefe, o filho do tsar e o príncipe da Romênia. Alexandre
Nicolaevitch trazia um capote militar de inverno e Varia viu no punho do seu
sabre uma pequena mancha laranja brilhante, que era certamente a famosa
dragona.
A orquestra atacou a marcha solene do regimento de Preobrajenski.
Viu-se então surgir das fileiras um coronel da guarda que fez continência e
depois declarou com voz de barítono sonoro que tremia de emoção.
— Majestade! Permita-me, em nome dos oficiais de sua guarda pessoal,
oferecer-lhe um sabre em ouro com a inscrição “Em homenagem a sua bravura”!
Que represente uma lembrança da campanha cumprida em conjunto. Foi
comprado com o dinheiro pessoal dos oficiais.
Um dos vizinhos segredou a Varia: — Assim é que deve ser! Bravo, senhores
oficiais!
O soberano recebeu o presente e com sua luva enxugou uma lágrima.
— Agradeço-lhes, senhores, agradeço-lhes. Estou comovido. De minha
parte, farei chegar um sabre a cada um de vocês. Efetivamente, há seis meses
que partilhamos...
Ele não terminou e limitou-se a fazer um gesto com a mão. Em torno dele
ouviram-se homens fungando de emoção, um deles chegou mesmo a soluçar.
Varia avistou repentinamente, no grupo de funcionários que se mantinham muito
perto do patamar, Fandorin. Como era possível que ele estivesse ali? Não era
uma figura importante, era somente conselheiro titular. Entretanto, ela
reconheceu imediatamente, ao lado de Erast Petrovitch, o chefe da Segurança... e
tudo se esclareceu. Afinal, o verdadeiro herói da captura do exército turco era
Fandorin. Sem ele, não se teria organizado um desfile. Ele também sem dúvida
receberia uma distinção.
O olhar de Erast Petrovitch cruzou com o dela e o conselheiro titular fez uma
careta sombria. Visivelmente, não compartilhava o júbilo geral.
Depois da parada, quando ela se divertia em colocar de novo em seu lugar o
oficial de olhos negros, que tentava arranjar em S. Petersburgo amigos comuns
para uma aproximação, Fandorin chegou perto dela e disse, inclinando-se
ligeiramente: — Peço que me desculpe, coronel. Varvara Andréevna, o
imperador deseja nos ver.
11
capítulo

Onde se vê Varia penetrar nas altas esferas da política

The Times (Londres)


16 (4) de dezembro de 1877

Derby e Carnavon ameaçam pedir demissão

Na reunião de ontem do conselho de ministros, o conde Beaconsfield


propôs que se pedisse ao parlamento um crédito extraordinário de seis
milhões de libras esterlinas para constituir um corpo expedicionário que
poderia, rapidamente, ser enviado aos Bálcãs, a fim de defender os
interesses do Império, contra as pretensões excessivas do imperador
Alexandre. A proposta foi aceita, apesar da oposição de Lord Derby, do
Foreign Office, e de Lord Carnavon, ministro das Colônias, que se
declararam contrários a um confronto direto com a Rússia. Em minoria, os
dois ministros apresentaram sua demissão a Sua Majestade, a rainha, de
quem não se conhece ainda a reação.

Para assistir à grande parada, Varia vestira o que tinha de mais elegante, pelo
que não precisava corar de vergonha ao se apresentar perante o soberano (tendo
em conta as circunstâncias particulares). Foi esse o primeiro pensamento que lhe
ocorreu. Chapéu malva-pálido com uma brilhante fita violeta, vestido de viagem
malva com bordados no corpete e cauda de dimensões modestas, sapatos pretos
com botões de madrepérola. Era discreto, sem pretensões, mas de bom gosto,
graças às lojas de Bucareste.
— Vão nos dar uma condecoração? — perguntou ela a Erast Petrovitch,
freando o passo dele.
Ele apresentava também indumentária esmerada: calça com pregas, botas
brilhando como um espelho, uma vaga pequena condecoração na lapela da
sobrecasaca cuidadosamente engomada. Não havia nada a dizer, o conselheiro
titular tinha bom porte, tirando o simples fato de parecer verdadeiramente jovem.
— Acho que não.
— Por quê? — perguntou ela espantada.
— Seria uma honra excessiva — respondeu ele pensativo. — Nem todos os
g-g-generais foram condecorados e nós estamos no número dezesseis.
— E, no entanto, sem nós... Quero dizer, sem você, Osman Paxá teria
certamente conseguido sua incursão. Imagine o que isso teria provocado?
— Ima-ma-magino. Mas depois de uma vitória, normalmente não se pensa
mais nisso. Não, agora é a vez da política, acredite na minha experiência.
O "palácio de campo" contava unicamente com seis salas e era o patamar que
servia de sala de recepção. Uma boa dezena de generais e oficiais superiores já
se amontoava lá, esperando a vez de sua audiência. Tinham todos um ar
duplamente infantil e deslumbrado. Já se adivinhavam as condecorações e a
promoção. Varia foi imediatamente objeto dos olhares curiosos, como era fácil
de compreender. Ela, num movimento de orgulho, dirigiu por cima de suas
cabeças um olhar para o sol de inverno, muito baixo no céu. Que eles se
preocupassem em especular quem poderia ser esta jovem vestida de violeta e por
que ela seria recebida por Sua Majestade.
A espera se prolongava, mas Varia não se aborrecia com isso.
— Quem está sendo recebido durante tanto tempo, general? — perguntou ela
muito dignamente a um velho homem de suíças desgrenhadas.
— Sobolev — respondeu o general, adotando um ar importante. — Entrou
há mais de meia hora. — Ele se endireitou, acariciou no peito uma condecoração
completamente nova, presa a uma fita laranja e negra, e acrescentou: —
Desculpe, senhora, não me apresentei. Ivan Stepnovitch Ganetski, comandante
do corpo de granadeiros.
E ele se calou, na expectativa. A jovem fez-lhe pequena saudação com a
cabeça.
— Varvara Andréevna Suvorova. Tenho muito prazer em conhecê-lo.
Foi então que Fandorin avançou e, com uma falta de modos que não lhe era
habitual em tais circunstâncias, pôs fim à conversa.
— Diga, g-g-general, antes do ataque recebeu McLaughlin, o correspondente
do Daily Post?
Ganetski mediu este garoto vestido de civil com olhar descontente mas,
considerando sem dúvida que não havia pessoas sem importância na antecâmara
do imperador, respondeu respeitosamente: — Sim, claro, recebi-o. E tudo o que
aconteceu foi culpa dele.
— Tudo o quê? — perguntou Erast Petrovitch com ar obstinado.
— Como, ainda não sabe? — Via-se que não era a primeira vez que o
general se desfazia em explicações. — Conheço McLaughlin de S. Petersburgo.
É um homem sério e um amigo da Rússia, se bem que súdito da rainha Vitória.
Quando ele me anunciou que de um minuto para o outro eu receberia a visita do
próprio Osman Paxá, que vinha se render, enviei imediatamente mensageiros
para a linha da frente com ordem a meus homens de não atirar. Velho imbecil,
corri para vestir meu dólmã de gala. — O general deu um sorriso confuso e Varia
pensou que ele era terrivelmente simpático. — E eis que os turcos tomaram
todos os meus postos de guarda sem um tiro. Felizmente meus rapazes estiveram
à altura e conseguiram se manter até Mikhail Dmitrievitch pegar Osman pela
retaguarda.
— E para onde foi McLaughlin? — perguntou o conselheiro titular, olhando
diretamente Ganetski com seus frios olhos azuis.
O general encolheu os ombros.
— Não faço a mínima ideia. Tive muitas outras coisas em que pensar. A
confusão foi imediatamente tamanha que não pode imaginar! Os Bachi-
Bouzouks avançaram até meu estado-maior e foi por pouco que consegui salvar
a vida em minha farda de gala!
A porta se abriu de par em par e surgiu no patamar um Sobolev com
expressão iluminada, onde os olhos ardiam com um brilho particular.
— Então, qual é a recompensa? — perguntou um general caucasiano de
casaco circassiano.
A assembleia reteve a respiração, mas Sobolev, nada apressado em
responder, guardou um silêncio que teve grande efeito. Percorreu todos com o
olhar e piscou os olhos jovialmente para Varia.
A jovem continuou entretanto na ignorância relativamente à recompensa do
imperador ao herói de Plevna, porque, atrás das costas daquele que estava em
glória, surgiu a cara bem familiar de Lavrenty Arkadievitch Mizinov. Com um
gesto com o dedo, o chefe da Segurança do Império fez sinal a Fandorin e a
Varia para o seguirem, e o coração dela começou a bater com muita força.
Quando passou por Sobolev, o general sussurrou-lhe ao ouvido: — Varvara
Andréevna, quero falar com você urgentemente.
O vestíbulo conduzia diretamente à sala de oficiais e Varia viu um general e
dois outros oficiais graduados instalados na frente de uma escrivaninha. À direita
ficava o apartamento privado do soberano, à esquerda seu gabinete de trabalho.
Pelo caminho, Mizinov dava as instruções: — Respondam às perguntas com
voz forte, clara e de maneira circunstancial. Contem tudo, mas não se percam em
detalhes.
Dois homens estavam na pequena divisão muito simples, com móveis
simples de bétula da Carélia. Um estava sentado numa poltrona e o outro, em pé,
de costas para a janela. Varia começou, claro, olhando para o que estava sentado,
mas não era Alexandre, era um velhinho seco, com óculos de armação dourada,
olhar inteligente, lábios finos e olhos gelados que não se deixavam penetrar.
Reconheceu o príncipe Kortchakov, o próprio chanceler de Estado, muito
parecido com seus retratos, talvez apenas mais discreto. Era uma figura de certa
forma lendária. Ele já devia ser chanceler antes de Varia ter nascido. Mas,
sobretudo, estudara no liceu Tsrskoie Selo com o grande poeta Puchkin e foi se
referindo a ele que escrevera: “Criança elegante, amigo da alta sociedade,
observador brilhante dos costumes.” Contudo, com vinte e quatro anos, a
“criança elegante” fazia antes evocar um outro poema deste mesmo autor,
incluído no programa de escola de Varia:

Quem será aquele entre nós que no declínio da vida,


Se encontrará sozinho a glorificar nosso liceu?
Pobre e querido amigo! Para as novas gerações,
Hóspede estranho, maldito e mal-amado.
Ele pensará em todos nós e na nossa juventude
Secando os olhos com uma mão trêmula.

O chanceler tinha efetivamente a mão ligeiramente trêmula. Tirou do bolso


um lenço de cambraia e assoou-se, o que não o impediu minimamente de
examinar Varia da forma mais minuciosa, ela em primeiro lugar, em seguida
Erast Petrovitch, em quem o olhar da lendária personagem se deteve muito
longamente.
Entretanto, fascinada pelo augusto acadêmico, Varia esquecera
completamente a personagem principal. Confusa, virou-se para a janela, refletiu
um instante e fez a pequena vênia que fazia no liceu quando a diretora entrava
em sala de aula.
Ao contrário de Kortchakov, o soberano interessou-se mais por ela do que
por Fandorin. Os célebres olhos dos Romanov, atentos, observadores e
sensivelmente salientes, observavam com severidade e exigência. Eles penetram
até o âmago da alma, é o que consta, pensou Varia, ligeiramente pouco à
vontade. Psicologia de escravo e preconceito. Ele tenta simplesmente imitar o
“olhar do basílico” de que tanto se orgulhava o pai, de sinistra memória. E ela
começou, também, a examinar ostensivamente aquele que impunha sua vontade
ao imenso império de oitenta milhões de habitantes.
Primeira observação: mas é verdadeiramente um ancião! Pálpebras inchadas,
suíças e bigode pontiagudo fortemente marcados de cinza, dedos nodosos,
deformados pelo reumatismo. É verdade, no fim das contas, daqui a um ano ele
fará sessenta anos. Tem quase a idade da minha avó. Segunda observação: ele
não está tão bem como os jornais afirmam. Tem sobretudo um aspecto
indiferente, cansado. O mundo já não tem segredos para ele, nada pode
surpreendê-lo, já nada pode entusiasmá-lo. Terceira observação, a mais
interessante: apesar da idade e da posição, as mulheres não lhe são indiferentes.
Senão, Majestade, por que percorrer com o olhar meu peito e minha figura? O
que contam dele e da princesa Dolgorouky, que é duas vezes mais nova, deve ser
verdade. E Varia perdeu imediatamente o medo do tsar libertador.
— Majestade, o conselheiro titular Fandorin. Ele está com sua colaboradora,
a Srta. Suvorova.
Foi nestes termos que o chefe da Segurança imperial os apresentou.
O tsar não disse “bom dia”, nem sequer fez um aceno de cabeça. Terminou
sem se apressar o exame do corpo de Varia, depois virou a cabeça para Erast
Petrovitch e declarou com voz doce e bem colocada, que poderia ser uma voz de
ator: — Eu me lembro do assunto Azazel. E Sobolev acabou igualmente de me
falar de você.
Sentou-se e fez um sinal de cabeça a Mizinov.
— Explique-se! Mikhail Alexandrovitch e eu vamos escutar.
Mesmo imperador, ele bem que podia ter me oferecido uma cadeira, por eu
ser mulher, pensou Varia, desfavoravelmente impressionada e perdendo de uma
vez por todas a fé no príncipe monárquico.
— Tenho quanto tempo? — perguntou respeitosamente o general. — Eu sei,
majestade, como está ocupado hoje. E os heróis de Plevna estão esperando.
— O tempo que for necessário. O problema de fato não é só estratégico, mas
diplomático — respondeu o imperador, que acrescentou, dirigindo a Kortchakov
um sorriso afetuoso: — Mikhail Alexandrovitch, que aqui veem, veio de
propósito de Bucareste. Não hesitou em sacudir seus velhos ossos pelas estradas
ruins!
O príncipe fez maquinalmente um sorriso artificial, de onde estava ausente
qualquer sinal de alegria, e Varia lembrou-se que, no ano anterior, o chanceler
vivera uma tragédia pessoal. Ele perdera alguém, um filho ou um neto.
— Peço que não fique ressentido comigo, Lavrenty Arkadievitch — disse o
chanceler com voz melancólica —, não consigo evitar as dúvidas. Seria
verdadeiramente de uma audácia louca demais, mesmo para Disraeli. Quanto aos
heróis, eles esperam. Aguardar uma recompensa é uma das ocupações mais
agradáveis. Assim sendo, exponha os assuntos e nós escutamos.
Mizinov endireitou-se com um ar vaidoso e, contra todas as expectativas,
dirigiu-se não a Fandorin mas a Varia.
— Senhorita Suvorova, conte minuciosamente seus dois encontros com
Seamus McLaughlin, o correspondente do Daily Post, na hora do terceiro ataque
a Plevna e na véspera da tentativa de penetração de Osman Paxá.
Já que pediam, por que não?
Varia contou.
E aconteceu que os dois, o tsar e o chanceler, sabiam escutar muito bem.
Kortchakov só lhe cortou a palavra duas vezes. A primeira vez, para lhe
perguntar:
— De que conde Zurov se trata? Será o filho de Alexandre Platonovitch?
A segunda vez, para sublinhar:
— Portanto, McLaughlin e Ganetski se conheciam bem, pois ele o tratou
pelo nome e o patronímico.
Quanto ao soberano, contentou-se em bater com a palma da mão na mesa,
num gesto irritado, quando Varia falou dos informantes que grande parte dos
jornalistas tinha em Plevna.
— Ainda não me explicou, Mizinov, como foi possível que Osman tenha
conseguido reagrupar todo o seu exército para tentar avançar sem que seus
espiões não tenham nos advertido a tempo.
O chefe da Segurança começou a se agitar e estava prestes a iniciar suas
justificativas quando Alexandre o freou com um gesto: — Veremos isso depois.
Continua, Suvorova.
“Continua“! Olhem isso! Desde o primeiro ano da escola que nos tratam de
“você”. Varia fez ostensivamente uma pausa, mas terminou seu relato.
— As coisas parecem claras — disse o tsar olhando para Kortchakov —,
temos que pedir a Chouvalov para fazer uma observação.
— Da minha parte, não estou convencido — respondeu o chanceler. —
Escutemos as conclusões do respeitável Lavrenty Arkadievitch.
Varia tentou em vão compreender onde se situava a divergência entre o
imperador e seu principal conselheiro diplomático e foi Mizinov que a
esclareceu.
Tirando várias folhas da manga e clareando a voz, tomou a palavra no tom
do melhor aluno que recita uma lição de cor: — Se me permite, vou passar do
particular ao geral. Assim, eis do que se trata. Antes de tudo, devo assumir
minha culpa. Durante o cerco de Plevna, um inimigo astucioso e cruel agiu
contra nós, e meus serviços se mostraram incapazes de identificá-lo a tempo.
Foram precisamente as maquinações deste inimigo habilmente camuflado que
nos fizeram perder tanto tempo e tantos homens e que, em 30 de novembro,
quase conseguiram jogar por terra os frutos dos nossos esforços de vários meses.
Ao ouvir estas palavras, o imperador fez o sinal da cruz.
— O Senhor desejou salvaguardar a Rússia.
— Depois do terceiro assalto, nós cometemos — ou mais exatamente eu,
porque as conclusões foram minhas — um grave erro. Acreditamos que o
principal agente turco era o tenente-coronel Kazanzakis, deixando assim ao
verdadeiro culpado uma liberdade de manobra total. Hoje, não se pode mais
duvidar: quem nos prejudica desde o princípio é o cidadão britânico
McLaughlin. McLaughlin é incontestavelmente um agente de primeira classe,
um ator incomparável que se preparou longa e seriamente para sua missão.
— Como esse personagem pôde ser aceito no exército em campanha? Dão
vistos a correspondentes sem investigação prévia?
— Claro que não, eu direi mesmo que nós procedemos a investigações
extremamente minuciosas. — O chefe da Segurança fez um gesto de impotência.
— Para cada jornalista estrangeiro fizemos vir da sua redação a lista de artigos e
consultamos nossas embaixadas. Cada correspondentes é homem conhecido,
escritor, e não caíam suspeitas de hostilidade em relação à Rússia sobre nenhum
deles. E McLaughlin em particular. Eu repito, é um homem muito sério. Ele
soube criar laços de amizade com numerosos generais e oficiais russos, desde a
campanha da Ásia Central, e suas reportagens do ano passado sobre as
atrocidades cometidas pelos turcos na Bulgária valeram-lhe uma reputação de
amigo dos eslavos e de franco partidário da Rússia. No entanto, durante todo
este tempo, ele deve ter agido com instruções secretas de seu governo que, como
se sabe, considera nossa política no Oriente com hostilidade não dissimulada.
“Nos primeiros tempos, McLaughlin limitou-se a uma atividade de simples
espião. É claro que transmitiu para Plevna informações sobre o nosso exército,
aproveitando ao máximo a liberdade que imprudentemente demos aos jornalistas
estrangeiros. Sim, é verdade, um grande número deles tinha na cidade sitiada
contatos que nós não controlávamos, o que nunca despertou a mínima suspeita
aos nossos serviços de contraespionagem. Posteriormente, é necessário tirar as
lições que se impõem. Aí, mais uma vez, sou eu o culpado... Tanto quanto lhe foi
possível, McLaughlin agiu por interposta pessoa. Sua Majestade recorda-se
seguramente do incidente relativo ao tenente-coronel romeno Loukan, cujo bloco
de notas mencionava um certo J. Eu pensara imprudentemente que se tratava do
policial Kazanzakis. Infelizmente, enganava-me. J significava jornalista e
designava o cidadão britânico.
“Entretanto, no momento do terceiro assalto, compreendendo que o destino
de Plevna e o da guerra estavam em jogo, McLaughlin passa à manobra
diversionista direta. Estou persuadido de que ele não agiu apenas por sua
responsabilidade, mas com instruções dos superiores, e lamento não ter tido
desde o princípio colocado sob vigilância discreta o coronel Wellesley, o agente
diplomático britânico. Já tive oportunidade de pôr Sua Majestade ao corrente das
manobras antirrussas desse senhor, que se mostra claramente mais ligado aos
interesses turcos do que aos nossos.
“Reconstituamos presentemente os acontecimentos de 30 de Agosto. Agindo
por sua própria iniciativa, o general Sobolev conseguiu penetrar na defesa turca
e atingir os limites a sul de Plevna. Compreende-se por quê. Conhecendo pelo
seu agente o plano do nosso ataque, Osman tinha, com efeito, agrupado todas as
suas forças no centro e o ataque de Sobolev surpreendeu-o. Infelizmente, o nosso
comando não foi informado a tempo do êxito do general, que não tem forças
suficientes para continuar sua ação. Como todos os outros jornalistas e os
observadores estrangeiros, entre os quais refiro de passagem a presença entre
outros do coronel Wellesley, McLaughlin encontra-se por acaso numa posição-
chave da nossa frente, entre o centro e o flanco esquerdo. Às seis horas, o conde
Zurov, ordenança de Sobolev, consegue atravessar aí defesas dos flancos dos
turcos. Passando próximo dos jornalistas que ele conhece bem, anuncia a vitória
do seu destacamento. O que se passa a seguir? Todos os correspondentes se
precipitam para a retaguarda, a fim de anunciarem o mais rapidamente possível
por telegrama o sucesso do exército russo. Todos, à exceção de McLaughlin. A
Srta. Suvorova encontra-o cerca de meia hora mais tarde, sozinho, coberto de
lama e saindo estranhamente dos arbustos. O jornalista teve claramente todo o
tempo e a possibilidade de pegar o mensageiro e matá-lo, matando na mesma
ocasião o tenente-coronel Kazanzakis que, para sua infelicidade, seguira as
pisadas de Zurov. Sabemos que ambos conheciam bem McLaughlin e não
tinham nenhuma razão para suspeitar de perfídia. Quanto a encenar o suicídio do
tenente-coronel, nada mais fácil: ele arrasta o corpo pelos arbustos, dispara duas
vezes no ar com a pistola do policial e está feito. E eu me deixei apanhar na
armadilha."
Mizinov baixou os olhos com ar confuso, o que não o impediu de continuar
sua narrativa sem esperar as novas críticas que o soberano poderia ter vontade de
lhe dirigir.
— No que diz respeito à recente investida, McLaughlin agiu de acordo com
o comando turco. Ele foi, podemos dizer, o maior trunfo de Osman. O cálculo
era simples e seguro: Ganetski é um general de grande mérito mas, peço-lhes
que desculpem a franqueza, de inteligência relativamente mediana. Como
sabemos, nem sequer lhe ocorreu pôr em dúvida a informação do jornalista, e
aqui convém render homenagem ao espírito de decisão do tenente-general
Sobolev...
Varia considerou esta última afirmação altamente indelicada com Fandorin,
que estava ali sem nada dizer, incapaz de defender sua causa. Teria sido
convidado para simplesmente ouvir os outros falarem? Ela não se conteve e
exclamou: — Mas é a Erast Petrovitch que é preciso render homenagem! Foi
Fandorin que correu até Sobolev e o convenceu a atacar!
O imperador fitou com olhar espantado esta audaciosa jovem que ousava
desrespeitar o protocolo e o velho príncipe Kortchakov balançou a cabeça com
ar reprovador. Ela teve a impressão de que o próprio Fandorin se perturbou,
porque passou o peso do corpo de um pé para o outro. Enfim, ela incomodara a
todos.
— Continue, Mizinov — ordenou o imperador com um sinal de cabeça.
Mas o chanceler levantou um dedo completamente enrugado.
— Com autorização de Sua Majestade. Se McLaughlin se lançou numa
tarefa desta importância, por que sentiu necessidade de manter informada esta
moça?
E o dedo apontou Varia.
— Mas é evidente! — Mizinov enxugou a testa suada. — Ele contava com o
fato de Suvorova sair apregoando uma notícia tão extraordinária pelo campo
afora. O assunto chegaria ao estado-maior e provocaria a maior exultação e
desordem! O canhoneio que se seguiria seria rapidamente tomado por uma salva.
Até mesmo, no regozijo geral, hesitariam em levar a sério o primeiro pedido do
infeliz Ganetski e se perderia tempo verificando. Foi muito bem engendrado,
improvisação de um hábil manipulador.
— Pode ser — admitiu o príncipe.
— Mas para onde foi esse McLaughlin? — perguntou o tsar. — Eis alguém
que seria interessante interrogar. Seria necessário igualmente confrontá-lo com
Wellesley. Desta vez, tenho certeza de que o coronel não conseguiria se
desculpar!
Kortchakov suspirou de modo sonhador.
— Sim! Um assunto tão comprometedor permitiria neutralizarmos
totalmente a diplomacia britânica.
— Infelizmente, ele não foi encontrado entre os mortos e feridos. — Mizinov
suspirou também, mas seu suspiro tinha um tom diferente. — Ele conseguiu
escapar. Interrogo-me como. É hábil como uma serpente. Também não
encontramos entre os prisioneiros o famoso Ali Bey, conselheiro do sultão. O
célebre barbudo que fez fracassar nosso primeiro assalto e que, como supomos,
seria ninguém menos que o próprio Anvar Effendi. Enviei a Sua Majestade um
relatório sobre esta figura.
O soberano assentiu com a cabeça.
— Então, o que diz agora sobre isso, Mikhail Alexandrovitch?
O chanceler piscou os olhos.
— Digo que pode levar a algo interessante, Majestade. Se tudo o que acaba
de ser dito é verdade, desta vez os ingleses foram longe demais, ultrapassaram os
limites. Manobrando bem, podemos tirar proveito do assunto.
— Diga, o que imaginou? — quis saber o tsar com curiosidade.
— Majestade, com a tomada de Plevna, a guerra chega à fase final. A vitória
definitiva contra os turcos é uma questão de semanas. Eu repito: a vitória contra
os turcos. Mas é necessário que as coisas não evoluam como em 1853, quando
começamos com uma guerra contra os turcos e acabamos frente à Europa inteira.
Nossas finanças não suportariam, sabe bem o que nos custou esta campanha.
O tsar fez uma careta, como que torturado por uma dor de dente, e Mizinov
abanou a cabeça com um ar aflito.
— A determinação de McLaughlin e a brutalidade dos meios me inquietam
muito — prosseguiu Kortchakov. — Elas são o testemunho de que, para impedir
nosso acesso aos estreitos, a Grã-Bretanha está pronta a usar não importa que
meios, até os mais radicais. Não esqueçamos que sua esquadra navega no
Bósforo. E durante este tempo, a muito amável Áustria prepara-se para atraiçoá-
lo, ela que, a seu tempo, já soube cravar uma faca nas costas de seu pai,
Majestade. Para dizer a verdade, enquanto combatíamos Osman Paxá, eu, pelo
meu lado, refleti especialmente sobre outra guerra, a guerra diplomática. Penso,
de fato, que derramamos nosso sangue, que mobilizamos muito dinheiro e
recursos mas, para finalizar, podemos ficar sem nada. Essa maldita Plevna fez-
nos perder um tempo precioso, corroendo a reputação do nosso exército.
Desculpe, Majestade, perdoe este velho por bancar o pássaro de mau agouro
num dia como este...
— Pare, Mikhail Alexandrovitch — disse o imperador, com um suspiro. —
Não estamos em desfile. Então eu não percebo as coisas?
— Antes das explicações de Lavrenty Arkadievitch, eu estava num estado de
espírito muito pessimista. Se tivessem me perguntado há uma hora, “Diga, velha
raposa, o que podemos esperar da vitória?”, teria respondido com toda
honestidade: “Autonomia da Bulgária e uma pequena fatia do Cáucaso. Eis o
máximo que podemos obter, triste benefício por dezenas de milhares de mortos e
milhões de rublos.”
Alexandre fez um pequeno movimento para a frente: — E agora?
O chanceler dirigiu a Varia e Fandorin um olhar expressivo, cujo significado
Mizinov compreendeu.
— Majestade, eu percebo aonde Mikhail Alexandrovitch quer chegar. De
resto, cheguei à mesma conclusão e não foi por acaso que insisti em trazer o
conselheiro titular Fandorin. Quanto à Srta. Suvorova, podíamos talvez deixá-la
sair.
Varia corou violentamente. Aqui, portanto, não confiavam nela. Que
humilhação, ser mandada embora e logo no momento mais interessante!
Foi então que Fandorin abriu a boca na audiência, pela primeira vez: — P-p-
peço-lhes que desculpem minha audácia. Mas isso não é razoável.
O imperador franziu as suas sobrancelhas arruivadas.
— O que não é razoável?
— Não se pode ter confiança parcial num colaborador. Isso cria vexames
inúteis e o trabalho se ressente. Varvara Andréevna sabe tantas coisas que, de
qualquer modo, ela adivinharia f-f-facilmente o resto.
— Tem razão — reconheceu o tsar. — Fale, príncipe.
— Devemos usar essa história para desacreditar a Grã-Bretanha aos olhos do
mundo. Manobras diversionistas, assassinatos, conluio com uma das partes em
desprezo da neutralidade, tudo isso é inaudito. Para falar francamente, estou
estupefato com essa imprudência do conde Beaconsfield. E se tivéssemos
apanhado McLaughlin e ele falasse? Que escândalo! Que pesadelo! Para a
Inglaterra, evidentemente. Ela não teria mais nada a fazer senão repatriar sua
esquadra e tentar se justificar perante a Europa inteira e demoraria tempo
curando as feridas! No conflito oriental, em todo caso, o gabinete de Saint-James
não teria ousado intervir. E sem Londres, nossos amigos austro-húngaros
ficariam tranquilos. Tiraríamos o maior benefício da nossa vitória e...
Alexandre cortou a palavra do velho de forma brusca.
— Isso não passa de suposição. Não temos McLaughlin. E o problema
consiste em saber o que convém fazer.
— Encontrar seu rastro — respondeu Kortchakov, sem se perturbar.
— E como?
— Não sei, Majestade. Não sou chefe da terceira seção.
O chanceler se calou, cruzando os pequenos braços no magro ventre.
Mizinov compreendeu que era sua vez de falar.
— Estamos convencidos da culpa dos ingleses e temos provas indiretas, mas
nenhuma prova direta. É preciso por isso encontrá-las... Ou fabricá-las. Hum...
— Explique-se — disse o tsar, impaciente. — E não faça rodeios, Mizinov,
não estamos num jogo de salão.
— Às ordens, Majestade. Atualmente, McLaughlin está ou em
Constantinopla ou, mais provavelmente, a caminho da Inglaterra, uma vez que
sua missão está terminada. Em Constantinopla, temos uma completa rede de
agentes secretos e não será muito difícil sequestrar esse patife. Na Inglaterra será
mais difícil, mas com algum empenho...
— Eu não quero ouvir isso! — exclamou Alexandre. — Apresenta propostas
inadmissíveis!
— Disse para não fazer rodeio, Majestade — disse o general com um gesto
de impotência.
— Trazer McLaughlin num saco não seria má ideia — disse o chanceler,
pensativo —, mas é bem difícil e incerto. Arriscamo-nos a piorar as coisas em
vez de melhorar. Em Constantinopla, ainda vá; em Londres, não aconselharia.
— De acordo — disse Mizinov, sublinhando a fala com vigoroso aceno de
cabeça. — Se McLaughlin aparecer em Londres, não o tocamos. Mas
provocamos um escândalo na imprensa britânica, denunciando o comportamento
inadmissível do correspondente. O público inglês não aprecia essas ações que
não se encaixem minimamente em seu famoso fair play.
Kortchkov aprovou.
— Seria ouro sobre azul. Para atar as mãos de Beaconsfield e Derby, um
bom escândalo nos jornais seria amplamente suficiente.
Ao longo desta discussão, Varia foi se aproximando discretamente, com
pequenos passos, de Erast Petrovitch, até que finalmente ficou perto dele.
— Quem é Derby? — perguntou ela em voz muito baixa.
— O chanceler — respondeu Fandorin num sopro, quase sem mexer os
lábios.
Mizinov se virou, irritado, e fez um movimento ameaçador de sobrancelhas.
Mas o chanceler prosseguiu.
— Seu McLaughlin é visivelmente um velhaco de primeira que não se
atrapalha nem com preconceitos nem com sentimento. Se o encontrarmos em
Londres, podemos, antes de fazer estalar o escândalo, ter com ele uma conversa
confidencial, mostrar as nossas provas, ameaçar torná-las públicas... Com efeito,
se o escândalo arrebentar, ele é um homem acabado. Conheço os hábitos anglo-
saxônicos: na sociedade, ninguém mais apertará a mão dele, mesmo coberto de
medalhas dos pés à cabeça. Estão em jogo dois assassinatos e isso não é
negligenciável. Estamos a dois passos de um processo criminal. Ele é um
homem inteligente. E se lhe prometermos uma bela soma de dinheiro e um
pequeno domínio em qualquer lugar para lá do Volga... Ele pode nos fornecer
informações preciosas que Chouvalov saberá usar para pressionar Derby.
Bastaria ameaçar revelar o assunto e o gabinete britânico num instante ficaria
manso como um cordeiro... O que diz disso, general? Será que há chance de
McLaughlin aceitar esta combinação de ameaça e corrupção?
— Ele não terá outra solução — prometeu o general, absolutamente seguro
neste assunto — Eu também pensei nessa variante e foi por isso que eu trouxe
Erast Fandorin. Sem o acordo de Sua Majestade, eu não ousaria encarregá-lo de
uma missão tão delicada. A aposta é forte demais. Fandorin é inventivo,
determinado, tem uma maneira original de perceber as coisas e, sobretudo, já
esteve em Londres, encarregado de uma missão secreta particularmente difícil,
que desempenhou de forma brilhante. Ele fala inglês e conhece McLaughlin
pessoalmente. Se for preciso sequestrá-lo, saberá fazê-lo. Se a decisão for outra,
saberá convencê-lo. Se não conseguir, ajudará Chouvalov a organizar um
magnífico escândalo. Uma vez que presenciou os acontecimentos, pode
testemunhar contra McLaughlin. Além do mais, é dotado de espantosa força de
persuasão.
— E Chouvalov, quem é? — perguntou Varia, sempre num murmúrio.
— Nosso embaixador — respondeu o conselheiro titular, com ar distraído.
Era evidente que ele pensava em outra coisa e mal escutava o general.
— Então, Fandorin, acha que consegue? — perguntou o imperador. — Está
de acordo em ir a Londres?
— Estou de acordo, M-M-Majestade — disse Fandorin. — Por que não?
Sentindo que o conselheiro titular não revelava a fundo seu pensamento, o
monarca olhou para ele com ar escrutinador, mas Fandorin nada acrescentou.
Alexandre recapitulou:
— Bom, Mizinov, aja nas duas direções. Procure-o em Constantinopla e em
Londres. Mas não perca tempo, já não nos resta muito.
E saindo do gabinete, Varia perguntou ao general: — E se McLaughlin não
for encontrado nem em Constantinopla nem em Londres?
— Acredite na minha intuição, minha querida — respondeu ele com um
suspiro — Nós ainda teremos ocasião de encontrar esse gentleman.
capítulo
12
Onde vemos os acontecimentos tomarem rumo inesperado

O Boletim de S. Petersburgo
8 (20) de janeiro de 1878

Os turcos exigem a paz!

Depois da capitulação de Vessel Paxá, depois da tomada de Philipopol


e da rendição da antiga Adria que, ontem, abriu de par em par suas portas
ao cossacos do general branco, o destino da guerra está definitivamente
selado e esta manhã um trem de negociadores turcos apresentou-se aos
dispositivos de combate do nosso valoroso exército. O trem ficou retido em
Andrianople, enquanto os paxás eram conduzidos ao estado-maior do
comandante-em-chefe, acantonado atualmente na pequena vila de
Guermanly. Quando Namyk Paxá, o chefe da delegação turca, com setenta
e seis anos, tomou conhecimento das condições prévias para a assinatura
do tratado de paz, exclamou, no cúmulo do desespero: "Votre armée est
victorieuse, votre ambition est satisfaite, et la Turquie est détruite."1
Bem, diríamos nós, é verdadeiramente a sorte que ela merece, a
Turquia!

Eles nem chegaram a se despedir como deve ser. Varia foi arrastada do
patamar do "palácio de campo" por Sobolev, que a seduziu pelo magnetismo de
sua glória e de seu sucesso e a levou para seu estado-maior para festejar a
vitória. Ela só teve tempo de fazer um pequeno sinal de cabeça para Fandorin
que, na manhã seguinte, já não estava lá. Tryphon, seu ordenança, disse: "Ele
partiu. Volta em um mês."
Mas passou-se um mês e o conselheiro titular ainda não regressara. Sem
dúvida que se revelara mais difícil do que o previsto encontrar McLaughlin na
Inglaterra.
Não se pode dizer que Varia se aborrecesse, antes pelo contrário. Uma vez
levantado o campo militar de Plevna, a vida se tornara apaixonante. Todos os
dias se mudava de local, viam-se novas cidades, paisagens de montanha de
cortar a respiração, e havia festas sem fim para celebrar as vitórias quase
quotidianas. O estado-maior do comando supremo fora primeiramente
transferido para Kazanlyk, do outro lado da cordilheira dos Bálcãs, depois ainda
mais para o sul, para Guermanly. Desta vez, já nem sequer havia inverno. As
árvores mantinham-se verdes e só os cumes das montanhas longínquas tinham
neve.
Na ausência de Fandorin, Varia não tinha nada para fazer. Continuava a
pertencer ao estado-maior e a receber regularmente seu salário, tendo recebido
assim dezembro e janeiro, mais um subsídio de deslocamento, a que se veio
juntar mais um prêmio pelo Natal. Reunira assim uma quantia vultosa, que não
sabia como usar. Um dia, em Sofia, quis comprar uma linda pequena lamparina
em cobre (que se assemelhava à de Aladin), mas imaginem! Paladin e Gridnev
quase se bateram em duelo para decidir qual deles ia ter a honra de lhe oferecer a
bugiganga. Ela teve que ceder.
A este respeito, algumas palavras sobre Gridnev. Sobolev trouxera este porta-
bandeira de dezoito anos para perto de Varia. O herói de Plevna e Cheinov
estava ocupado dia e noite com tarefas militares, mas não esquecia a jovem.
Quando arranjava tempo para passar pelo estado-maior, nunca deixava de visitá-
la; enviava enormes buquês de flores, convidava-a nos dias de festa (o Ano
Novo tinha sido celebrado duas vezes, segundo o calendário ocidental e na data
russa). Mas tudo isso não parecia suficiente ao empreendedor Michel, que pusera
à disposição da jovem um de seus ajudantes, "para lhe prestar ajuda e apoio no
caminho e defendê-la". O ordenança começara por fazer frente e olhar de lado
seu novo chefe de saias, mas rapidamente foi conquistado e mesmo invadido por
sentimentos românticos a respeito de Varia. Era divertido e lisonjeador. Gridnev
não era bonito (fino estrategista, Sobolev nunca teria escolhido um belo rapaz),
mas era agradável e fogoso como um jovem cachorrinho. A seu lado, com seus
vinte e dois anos, Varia se sentia adulta e madura.
Sua situação era bem estranha. No estado-maior, tudo levava a crer que a
consideravam amante de Sobolev e, na medida em que o general branco era
unanimemente adorado e lhe perdoavam tudo, ninguém julgava Varia. Pelo
contrário, ficava-se com a impressão de que uma pequena parte do esplendor do
célebre Aquiles se refletia em sua pessoa, e muitos dos oficiais teriam ficado
sem dúvida escandalizados ao saberem que ela ousava não corresponder a seus
sentimentos, para se manter fiel a um obscuro e insignificante soldado da
codificação.
Com Petia, para dizer a verdade, as coisas não iam muito bem. Não, ele não
manifestava nenhum ciúme e não lhe fazia cenas. No entanto, depois do suicídio
fracassado, as relações dos dois ficaram difíceis. Primeiro, ela quase não o via.
Petia tentava "redimir sua culpa" pelo trabalho, na medida em que não lhe era
possível, no seu departamento de codificadores, redimir-se pelo sangue.
Duplicava seu serviço, dormia no local numa cama de campanha, não
frequentava o clube de jornalistas e não tomava parte nas festas. Foi na sua
ausência que Varia teve que festejar o Natal e o Ano Novo. Quando ele
encontrava a jovem, seu rosto se iluminava com uma alegria doce e terna, mas
falava-lhe como teria falado ao ícone da Santa Virgem de Vladimir: ela era pura,
ela era a sua única esperança, sem ela ele estaria completamente perdido.
Varia sentia imensa piedade. Mas, ao mesmo tempo, uma questão
desagradável ocorria-lhe cada vez mais frequentemente: poderia se casar por
piedade? E a resposta era “não”. Mas parecia mais inconcebível ainda dizer a
ele, “Sabe, Petia, eu refleti e não serei sua mulher.” Era a mesma coisa que matar
um ferido. Enfim, quer se virasse num sentido ou no outro, as soluções deixavam
muito a desejar.
O clube de imprensa, que presentemente se deslocava de lugar para lugar, era
como de costume frequentado por um grande número de pessoas, mas estava
longe de ser tão animado como na época inesquecível de Zurov. Também
jogavam cartas, mas moderadamente e apenas pequenas apostas. Quanto às
partidas de xadrez, tinham acabado de vez com o desaparecimento de
McLaughlin. Os jornalistas nunca evocavam o nome do irlandês, pelo menos na
presença dos russos, mas os outros dois correspondentes britânicos eram
ostensivamente boicotados e tinham deixado de aparecer no clube. Por vezes
faziam festas, claro, e aconteciam escândalos. Por duas vezes quase correra
sangue, e nas duas vezes, como que de propósito, Varia estivera na origem dos
incidentes.
No primeiro ainda estavam em Kazanlyk. O pequeno ordenança, ainda
provisório, que não compreendera muito bem o estatuto de Varia, tinha feito uma
brincadeira infeliz ao qualificá-la de "princesa Marlborough" e dando a entender
claramente que o "príncipe Marlborough" era Sobolev. Paladin exigira desculpas
ao insolente, e o outro, fortemente ébrio, recalcitrou e lá foram eles para um
duelo de pistola. Nessa noite, Varia não estava no clube, senão teria seguramente
terminado com este conflito absurdo. Mas tudo mesmo assim saíra bem: o oficial
perdeu seu tiro; Paladin, em resposta, arrancou-lhe o barrete, e em seguida o
ofensor recuperou o bom senso e reconheceu o erro.
Na segunda vez, o próprio francês foi provocado e de novo por uma
brincadeira que, desta vez, parecera a Varia bem divertida. Varvara Andréevna já
era acompanhada em caráter permanente pelo jovem Mitia Gridnev. Paladin
observara imprudentemente em voz alta que a "Srta. Barbara" se parecia
atualmente com a imperatriz Ana Ioanovna com seu amante e, sem temer a
terrível reputação do correspondente, o subtenente exigira reparação. Na medida
em que a cena se desenrolou na presença de Varia, não houve troca de tiros. Ela
dera ordem a Gridnev para ser condescendente e a Paladin de retirar suas
palavras. O jornalista admitira sua culpa imediatamente, reconhecendo que a
comparação não fora feliz e que monsieur le sous-lieutenant evocava mais
Hércules após capturar uma corça. Ficou por aí.
Por momentos, Varia teve a impressão de que Paladin lhe dirigia olhares que
só podiam ser interpretados de uma maneira. E, no entanto, o francês tinha com
ela o comportamento de um nobre. Tanto ele como os outros jornalistas
passavam vários dias na linha da frente e, atualmente, eles se viam mais
raramente do que no cerco de Plevna. Um dia, contudo, eles tiveram uma
conversa a sós que Varia reconstituiria depois na íntegra, para anotar palavra por
palavra em seu diário. (Depois da partida de Erast Petrovitch, teve
estranhamente a ideia de fazer um diário. Era, sem dúvida, por não ter mais nada
para fazer.) Eles estavam sentados junto à lareira num albergue de montanha,
tomando vinho quente, e a temperatura ambiente tinha impelido o jornalista a
confidências.
— Ah, mademoiselle Barbara, se não fosse eu... — brincara Paladin, sem
saber que repetia quase literalmente as frases de Pierre Bezoukhov, esse herói de
Guerra e Paz, pelo qual Varia tinha verdadeira veneração. — Se eu estivesse em
outra situação, se eu tivesse outro caráter e outro destino... — E ele lhe lançou
um olhar que seu coração bateu de pular. — Eu teria inevitavelmente tentado
rivalizar com o brilhante Michel. Diga-me, será que, contra ele, eu teria nem que
fosse uma pequena chance?
— Claro — respondeu honestamente Varia, antes de se recompor, a sua
resposta parecendo um convite ao namoro. — Quero dizer, Charles, que teria
nem mais nem menos chance do que Mikhail Dmitrievitch. Quer dizer, nenhuma
chance. Ou quase...
Ela tinha mesmo assim acrescentado "ou quase". Oh, eterno feminino, odioso
e indomável!
Uma vez que Paladin estava com um ar mais descontraído do que nunca, ela
fez uma pergunta que há muito tempo tirava seu sossego.
— Charles, você tem família?
O jornalista sorriu.
— O que a interessa de fato é saber se eu tenho mulher?
Varia ficou perturbada.
— Não unicamente. Se tem pais, irmãos, irmãs...
Mas ela se repreendeu interiormente: afinal, por que ser hipócrita? Era uma
pergunta perfeitamente normal e ela acrescentara em tom decidido: — Também
gostaria de saber se tem mulher, naturalmente. Sobolev, por exemplo, não
esconde ser casado.
— Infelizmente, Srta. Barbara, nem mulher, nem noiva. Não tenho e nunca
tive. Meu modo de vida não permite. Tive aventuras, é natural, falo disso sem
falsa vergonha porque é uma mulher moderna, sem afetações estúpidas. —
Varia, lisonjeada, sorriu. — Quanto a minha família, só tenho pai. Somos muito
unidos e sinto muita falta dele. Neste momento, ele está na França. Um dia falo
dele. Depois da guerra, está bem? É uma grande história!
Em resumo, ela não lhe era indiferente, mas ele não desejava ser rival de
Sobolev. Por orgulho, sem dúvida.
Esta circunstância não impedia minimamente o francês de manter relações
amigáveis com Michel. A maior parte das vezes que desaparecia, ia
precisamente para o destacamento do general branco, tanto mais que este se
encontrava em permanência na extrema linha da frente do exército em marcha e
os correspondentes de imprensa tinham sempre alguma coisa a ganhar junto a
ele.

Em 8 de janeiro, ao meio-dia, Varia viu chegar uma carruagem acompanhada


de um cossaco que Sobolev lhe enviava para convidá-la a reunir-se a ele em
Adrianople, cidade recém-conquistada. O banco em pele perfeitamente macia
daquela carruagem confiscada ao inimigo estava enfeitado com uma braçada de
rosas de estufa. Ao querer organizar esta braçada desordenada num ramo, Mitia
Gridnev rasgou as luvas novas em folha com os espinhos, mostrando-se
violentamente contrariado. Varia teve que consolá-lo, prometendo, para se
divertir, as luvas dela mesma (o suboficial tinha mãos pequenas de menina).
Mitia franziu as sobrancelhas claras e fungou com ar vexado e ficou meia hora
amuado, pestanejando com seus espessos cílios. Na verdade, as pestanas são a
única parte de sua figura com a qual o pobre insignificante teve sorte, pensou
ela. Eram semelhantes às de Erast Petrovitch, mas claras. A partir daí, seus
pensamentos dirigiram-se naturalmente para Fandorin, perguntando-se onde
estaria. Desde que volte logo... Quando ele estava com ela... Sentia-se mais
segura? As coisas pareciam mais interessantes? Ela não podia dizer assim de
repente, mas a verdade é que quando ele estava a seu lado era melhor.
Quando chegaram, o dia acabava. A cidade estava em silêncio, as ruas
desertas e apenas ressoava o passo sonoro dos destacamentos de cavalaria e o
tumulto das peças de artilharia que eram posicionadas ao longo da estrada.
O estado-maior provisório estava instalado no edifício da estação de trem e
Varia ouviu muito ao longe temas militares. Uma fanfarra tocava o hino ao tsar.
Todas as janelas do edifício novo de tipo europeu estavam iluminadas. Na praça
em frente brilhavam os fogos de campo e as chaminés da cozinha de campanha
fumegavam com ar atarefado. Mas o que mais espantou Varia foi ver, no cais,
um trem de passageiros absolutamente normal: pequenos vagões elegantes,
locomotivas lançando pacificamente pequenas nuvens de fumaça, como se não
tivesse havido guerra.
É evidente que na sala de espera se celebrava o acontecimento. Nas mesas
desordenadas, agrupadas ao acaso, viam-se pratos simples e um considerável
número de garrafas. Os oficiais faziam a festa. No momento em que Varia e
Gridnev entraram na sala, todos tinham acabado de gritar "hurra", copos e
olhares virados para a mesa do comandante. A célebre túnica branca do general
sobressaía entre os uniformes negros do exército e a farda cinza dos cossacos.
Na mesa de honra, além do próprio Sobolev, encontravam-se os oficiais
superiores (dos quais Varia só conhecia Perepelkin) e Paladin. Todos tinham um
ar alegre e as faces coradas e era evidente que o festim já durava algum tempo.
— Varvara Andréevna! — gritou Aquiles, saltando da cadeira. — Estou feliz
por ter aceitado vir! Senhores, um "hurra" para nossa única dama!
Todos se levantaram e deram um grito de tal forma ensurdecedor que Varia
teve medo. Nunca tinha sido saudada de maneira tão enérgica. Teria feito mal em
aceitar o convite? A baronesa Vreiskaia, que dirigia o hospital de campanha, ao
qual estavam ligadas as duas companheiras de quarto de Varia, costumava
prevenir as garotas: — Mesdames, mantenham-se à distância dos homens
quando eles estão empolgados por uma batalha ou, pior ainda, por uma vitória.
Nesses momentos, desperta neles uma selvageria atávica e seja quem for, mesmo
um cadete, vira provisoriamente um bárbaro. Deixem que fiquem sozinhos
alguns momentos, recuperando o bom senso, e eles oferecem de novo ao mundo
um rosto civilizado e voltam a ser controláveis.
Mas, enfim, além da galanteria exacerbada e da explosão de vozes um pouco
exagerada, Varia nada notou de particularmente selvagem nos companheiros de
mesa. Instalaram-na no lugar de honra, à direita de Sobolev, com Paladin do
outro lado.
Um pouquinho mais tranquila depois de uma taça de champanhe, a jovem
perguntou: — Michel, o que é este trem? Nem sequer me lembro da última vez
em que vi uma locomotiva em cima dos trilhos, e não de rodas para o ar caída
num fosso.
— Mas então não sabe de nada! — exclamou um jovem coronel, sentado na
ponta da mesa. — A guerra acabou! Hoje chegaram os negociadores de
Constantinopla. E vieram de trem, como no tempo da paz!
— E quantos são? — espantou-se Varia. — Um trem inteiro?
— Não, Varenka — explicou Sobolev —, são só dois. Mas a queda de
Adrianople desencadeou nos turcos um tal pânico que, para não perderem um
minuto, limitaram-se a atrelar o vagão dos mensageiros a um trem normal. Um
trem sem passageiros, claro.
— E onde estão esses negociadores?
— Enviei-os de carruagem ao grande príncipe, porque a partir daqui a
ferrovia está destruída.
— Que pena, há uma eternidade que não ando de trem — suspirou Varia
sonhadora. — Encostar num espaldar macio, um livro, uma xícara de chá
quente... E durante esse tempo ver desfilando pela janela os postos telegráficos,
ouvir o barulho das rodas...
— Vou proporcionar uma voltinha — disse Sobolev. — Infelizmente não
temos muita escolha quanto ao itinerário. Daqui só podemos ir até
Constantinopla.
— Senhores, senhores! — exclamou Paladin. — Que excelente ideia! La
guerre est en fait finie. Os turcos já não disparam. De resto, a locomotiva tem
uma bandeira turca! E se déssemos uma pequena volta até San Stefano? Aller et
retour? O que diz a isso, Michel? — Tendo começado num russo razoável, cada
vez mais exaltado pelo projeto, passou a falar definitivamente em francês. — A
senhorita Barbara faria um passeio de primeira classe, eu escreveria uma
reportagem suntuosa e um oficial do estado-maior viria conosco para reconhecer
a retaguarda do exército turco. Eu juro, Michel, sem o mínimo problema! Daqui
a San Stefano e volta! Eles nem perceberão nada! E se por acaso desconfiarem
de alguma coisa, de qualquer maneira não ousarão atirar: temos seus
negociadores! Michel, sabe que de San Stefano se veem as luzes de
Constantinopla como se fosse na palma da mão! É lá que se concentram as casas
de campo dos vizires turcos! Oh, que bela ocasião!
— Seria uma loucura irresponsável! — declarou o tenente-coronel
Perepelkin, em tom cortante — E espero, Mikhail Dmitrievitch, que tenha o bom
senso para não se deixar tentar.
Que homem rígido e desagradável, este Eremei Perepelkin! Para dizer a
verdade, no decorrer daqueles poucos meses, Varia tinha sentido a mais viva
antipatia por esta figura, mesmo sentindo uma fé total nos louvores feitos de
todos às qualidades técnicas excepcionais do chefe de estado-maior de Sobolev.
Não esquecendo que ele não tem se dado mal! É efetivamente notável: em
menos de seis meses, saltou do posto de capitão para o de tenente-coronel,
arrancando no percurso uma cruz de S. Jorge e uma espada de Santana por
ferimentos em combate. E tudo graças a Michel. No entanto, ele a olhava de
soslaio, como se ela, Varia, lhe devesse alguma coisa. Varia compreendia a
atitude dele da seguinte forma: estava com ciúme, ele gostaria que Aquiles só
pertencesse a ele. Seria interessante saber a que ponto Eremei Ionovitch estava
envolvido no assunto do pecado de Kazanzakis. Um dia, numa discussão com
Sobolev, ela tinha até se permitido uma pequena alusão pérfida a respeito e
Michel riu tanto que quase sufocou.
Desta vez, no entanto, o detestável Perepelkin tinha razão. A "maravilhosa
ideia" de Charles pareceu a Varia de uma estupidez absoluta, mas recebeu apoio
total dos homens em festa: um coronel cossaco chegou mesmo a dar ao francês
uma amigável palmada nas costas, chamando-o de "homem exaltado". Sobolev
sorria, mas calava.
— Deixe-me ir lá, Mikhail Dmitrievitch — pediu um general de cavalaria
cossaco com ar fanfarrão (seu nome devia ser Stroukov). — Coloco meus
homens nos compartimentos e faremos um agradável passeio. E, quem sabe,
pode ser que encontremos um outro Paxá para prender. E sim, ainda temos
direito a isso! No momento, ainda não recebemos ordem para cessar as
atividades militares.
Sobolev lançou um olhar rápido a Varia e ela reparou que seus olhos
ganharam repentinamente um brilho pouco habitual.
— Não, Stroukov! Nos primeiros tempos, temos que nos contentar com
Adrianople. — Aquiles deu um sorriso ávido e levantou a voz. — Senhores, eis
minhas ordens! — Um silêncio total instaurou-se imediatamente na sala. —
Transfiro meu centro de comando para San Stefano! Façam avançar o terceiro
batalhão de caçadores na composição. Mesmo que fiquem apertados como num
barril de arenques, é necessário que entrem todos. Viajo no vagão do estado-
maior. Depois o trem regressa aqui para buscar reforços e continua em idas e
vindas sem parar. Amanhã, pelo meio do dia, terei lá um regimento completo.
Sua tarefa, Stroukov, é se reunir a nós com sua cavalaria até amanhã à noite. No
momento, basta-me um batalhão. Segundo os relatórios de reconhecimento, não
devemos encontrar unidades turcas prontas para combate. Em Constantinopla só
resta a guarda do sultão, cuja missão é proteger Abdul-Hamid.
— Não são os turcos que devemos temer, Excelência — disse Perepelkin
com voz dissonante. — Podemos partir do princípio de que os turcos não vão
tocá-lo. Eles estão desalentados. Em contrapartida, o comandante-em-chefe não
vai cumprimentá-lo.
— Nada menos certo, Eremei Ionovitch — disse Sobolev, piscando os olhos
com malícia. — Todos sabem que Ak Paxá é louco e isso permite que as coisas
corram bem. Por outro lado, o anúncio da tomada de uma localidade nos
arredores de Constantinopla, no próprio momento em que decorrem as
conversações, pode ser de grande utilidade para sua majestade imperial. Podem
me censurar publicamente, mas me agradecerão no silêncio do escritório. E não
será a primeira vez. Por outro lado, não queiram pôr em discussão uma ordem
que já foi dada!
— Absolument! — disse Paladin com um meneio de cabeça entusiasta. —
Un tour de gênie, Michel! Minha ideia não foi a melhor. Mas a minha
reportagem vai ser muito mais interessante!
Sobolev levantou-se e ofereceu cerimoniosamente o braço a Varia.
— Não seria agradável, Varvara Andréevna, admirar as luzes de
Constantinopla?

O trem cortava a obscuridade com um andamento vivo, e Varia tinha apenas


o tempo suficiente para ler o nome das estações: Babaeski, Liueburgaz, Tchorlu.
As estações eram iguais a tantas outras, como as que se podem ver, por exemplo,
na região de Tambov, simplesmente eram amarelas em vez de serem brancas:
luzes, silhuetas elegantes de ciprestes; uma vez, a renda metálica de uma ponte
deixou perceber num relâmpago o fio de uma ribeira acariciada pela Lua.
O compartimento era confortável, com divãs de felpa e uma grande mesa de
caju. Os guardas e Gulnora, a égua branca de Sobolev, tinham seguido viagem
na parte do vagão reservado aos acompanhantes e ouviam-se relinchos sem
parar. Gulnora não conseguia recuperar a sua calma depois do enervamento
provocado pelo embarque. Além do general e de Varia, o salão acolhia Paladin e
vários oficiais, entre os quais Mitia Gridnev, adormecido pacificamente num
canto. Reagrupados à volta de Perepelkin, que marcava num mapa o avanço do
trem, os oficiais fumavam, o correspondente tomava notas no seu bloco de
apontamentos. Quanto a Varia e Sobolev, mantinham-se afastados, junto à janela,
enredados numa conversa que não era das mais fáceis.
— ... Pensei que era o grande amor...
Michel confessava a meia-voz, fazendo de conta ter os olhos fixos na
escuridão atrás da janela, mas Varia sabia bem que era o próprio reflexo que ele
olhava no vidro.
— Bom, não vou contar histórias. Não pensava no amor. Minha verdadeira
paixão é a ambição, tudo mais vem depois. Eu sou assim. Mas a ambição não é
um pecado quando visa fins elevados. Acredito no destino e na estrela de cada
um, Varvara Andréevna, e a minha estrela arde com um brilho vivo e o meu
destino é especial. Sinto isso do fundo do meu coração. Quando era apenas aluno
da escola militar...
Delicadamente, Varia reconduziu a conversa para o que a interessava.
— Tinha começado a falar de sua mulher.
— Ah, sim! Casei por ambição, confesso. Cometi um erro. A ambição é uma
coisa boa quando nos leva a prosseguir na frente das balas, mas, sobretudo, não
deve ser associada ao casamento. Vou contar como as coisas se passaram. Eu
voltava do Turquestão. Para mim, eram os primeiros raios de glória, mas isso
não mudava nada, era apenas um recém-chegado, um plebeu. O meu avô
começara na parte mais baixa da escala das graduações. E eis que tinha à minha
frente a princesa Titov. Uma linhagem que remonta a Riourik, o primeiro
príncipe russo. Para mim, era passar diretamente do quartel para a alta
sociedade. Como poderia ter evitado a tentação?
Sobolev falava com uma voz entrecortada, com amargura. Dava a sensação
de estar a ser sincero e Varia apreciou esta sinceridade. Além disso, claro, ela
percebia bem onde é que ele queria chegar. Poderia tê-lo detido a tempo, ter
desviado a conversa, mas não teve coragem. Quem no seu lugar, teria essa
coragem?
— Rapidamente compreendi que não tinha nada a ver com a alta sociedade.
O clima não era adequado ao meu feitio. E temos vivido assim: eu em
campanha, ela na capital. Logo que a guerra termine, vou pedir divórcio. Posso
me permitir isso, mereço. E ninguém me julgará: na verdade, sou um herói. —
Sobolev fez um sorriso malicioso. — Então, Varenka, o que me diz?
— Sobre o quê? — perguntou ela com ar inocente.
A sua maldita natureza coquete exultava. Estas confidências não levavam a
nada, só podiam trazer complicações e, no entanto, ela tinha o coração em festa.
— Devo me divorciar ou não?
— Nesse assunto, só você pode decidir. — Ela ia dizer tudo o que era
necessário e ia dizer imediatamente.
Sobolev deu um suspiro profundo e se jogou de cabeça.
— Há muito tempo que a observo. É inteligente, sincera, corajosa, tem
caráter. Tenho necessidade de uma companheira como você. Com você eu seria
ainda mais forte. E também não se arrependeria, eu lhe garanto. Em suma,
Varvara Andréevna, considere que estou propondo...
— Excelência! — gritou Perepelkin. — Que o diabo o carregue! San
Stefano! Desembarcamos?

A operação ocorreu sem o mínimo obstáculo. Completamente estupefata, a


guarda (seis soldados meio adormecidos e era tudo) foi desarmada num abrir e
fechar de olhos e os homens espalharam-se pela cidade em pequenas secções.
Enquanto raros tiros se faziam ouvir nas ruas, Sobolev ficou na estação. Mas
tudo terminou em perto de meia hora. Como perdas, só havia a lamentar um
ferido ligeiro e tinham sido os seus próprios colegas a atingi-lo
inadvertidamente.
O general inspecionou rapidamente o centro da cidade, iluminada por postes
de luz a gás. Logo a seguir, começava um sombrio labirinto de ruelas tortuosas e
enfiar-se por ali não faria sentido. Para residência e estado-maior, Sobolev
escolheu o edifício imponente da filial do banco Osmano-Osmanienne. Uma
primeira companhia tomou posição na porta e no interior, uma segunda ficou na
estação e a terceira distribuiu-se em equipes de ronda nas ruas da vizinhança. O
trem voltou a partir imediatamente para buscar reforços.
Foi impossível informar o comando supremo da tomada de San Stefano: a
linha tinha caído. Sem dúvida, os turcos tinham tratado de cortá-la.
— O segundo batalhão estará aqui o mais tardar ao meio-dia — disse
Sobolev. — No momento, não prevemos nada de interessante. Admiremos as
luzes da capital de Bizâncio e conversemos para passar o tempo.
O estado-maior provisório foi instalado no segundo andar, no escritório do
diretor. Das janelas tinha-se uma vista magnífica das luzes longínquas da capital
turca; uma porta de ferro conduzia diretamente à sala do tesouro do banco.
Pesadas prateleiras metálicas suportavam sacos regularmente alinhados, com
selo de lacre. Decifrando as letras árabes, Paladin anunciou que cada saco
continha cem mil libras.
— E diziam que a Turquia estava arruinada — disse Mitia, espantado —
Aqui tem milhões!
— É por isso que não vamos sair daqui, ao menos temos certeza de que
ninguém vai tocar em nada — decidiu Sobolev. — Já me acusaram uma vez de
ter subtraído o tesouro do khan. Bastou uma vez.
A porta da sala do tesouro ficou entreaberta e não se falou mais nos milhões.
Trouxeram da estação um aparelho telegráfico, que foi instalado na antecâmara,
ligado a um fio que atravessava o espaço inteiro. De quinze em quinze minutos,
Varia tentava entrar em contato nem que fosse com Adrianople, mas o aparelho
não dava sinal de vida.
Ao fim de um momento, chegou uma representação de comerciantes e do
clero que imploraram para não pilharem as casas nem destruírem as mesquitas, a
troco de uma contribuição, cerca de cinquenta mil libras, por exemplo, já que os
pobres habitantes da cidades eram incapazes de reunir mais dinheiro. Quando o
chefe da representação, um turco gordo e de nariz chato, vestindo sobrecasaca e
fez, compreendeu que estava diante do lendário Ak Paxá em pessoa, o montante
da referida contribuição viu-se imediatamente multiplicado por dois. Sobolev
tentou acalmar os enviados, explicando-lhes que não estava autorizado a receber
contribuições. O turco de nariz achatado lançou um olhar para a porta semiaberta
da sala do tesouro e levantou respeitosamente os olhos ao céu.
— Eu compreendo, Effendi. Cem mil libras, para uma grande pessoa como
você, não é nada!

Na região, as notícias se espalhavam depressa. Ainda não tinham passado


duas horas da partida dos suplicantes de San Stefano e no escritório de Ak Paxá
apresentou-se uma embaixada de comerciantes gregos, vindos da própria
Constantinopla. Não propuseram nenhuma contribuição, mas ofereceram doces e
vinho aos “valorosos guerreiros cristãos”. Explicaram que a cidade reunia
grande número de cristãos ortodoxos e pediram para não darem tiros de
artilharia, mas, se fosse absolutamente necessário disparar, que não apontassem
para o bairro de Pera, onde havia um grande número de lojas e armazéns cheios
de mercadorias, mas para Gaiata, ou, melhor ainda, para os bairros armênios e
judeus. Tentaram oferecer a Sobolev uma espada de ouro ornada de pedras
preciosas. Foram postos na rua e regressaram aparentemente tranquilizados.
— Bizâncio, a cidade imperial! — declarou Sobolev, emocionado,
observando da janela as luzes cintilantes da grande metrópole. — Sonho
constante e inacessível dos soberanos russos. Lá estão as raízes da fé e da nossa
civilização. Aí está a explicação de todo o Mediterrâneo. E assim tão próxima!
Bastaria estender a mão e tomá-la. Será que, mais uma vez, vamos voltar de
mãos abanando?
— Não é possível, Excelência — exclamou Mitia Gridnev. — O tsar não
permitirá!
— Infelizmente, meu pobre Mitia! Aposto que nossos sábios, os Kortchakov
e os Gnatiev, já abriram negociações e se impacientam na fila diante dos
ingleses. Não vão ter o ânimo necessário para se apossarem do que pertence à
Rússia de acordo com o direito antigo, tenho certeza que não! Em 1829, Dibitch
estendeu-se até Adrianople, hoje, como se pode ver, estamos em San Stefano. No
entanto, isso não levará a nada. Pessoalmente, concebo uma Rússia grande e
forte que agregará as terras eslávicas de Arkhangelsk a Constantinopla e de
Trieste a Vladivostok! Só nesse momento seria cumprida a missão histórica dos
Romanov e se poderia então, ao cessarem as guerras constantes, passar à
organização de seu desgraçado Império. Mas se se recuar, isso quererá dizer que
nossos filhos e netos terão mais uma vez que derramar seu sangue e o dos outros
para tentar alcançar as muralhas da vila imperial. É esse o caminho da cruz
destinado ao povo russo!
— Imagino o que se passa neste momento em Constantinopla — disse
Paladin com ar sonhador e olhando também através da janela. — Ak Paxá está
em San Stefano! No palácio reina o pânico, evacuam o harém, os eunucos
correm para todos os lados, removendo os bens principais que ficaram para trás.
Gostaria de saber se Abdul-Hamid já atravessou o rio asiático! Ninguém imagina
que você, Michel, chegou com um único batalhão. Se se tratasse de um jogo de
pôquer, seria um admirável blefe, com a garantia total de se ver o adversário
pousar as cartas e passar.
Perepelkin recomeçou a se preocupar.
— Isso vai de mal a pior! Mikhail Alexandrovitch, Excelência, não o escute!
Seria correr para a derrota! Já está na boca do lobo! Não há nada a fazer com
Abdul-Hamid!
Sobolev e o correspondente olharam fixamente um para o outro.
— E que risco eu corro, na verdade? — O general apertou as mãos com tal
força que os dedos estalaram. — Bem, se a guarda do sultão não tiver medo e
tentar atirar em nós, eu bato em retirada e é tudo. O que dizia, Charles, a guarda
de Abdul-Hamid é poderosa?
— Abdul-Hamid tem uma boa guarda, mas ele não deixará que ela se afaste
dele a nenhum preço.
— O que significa que não nos perseguirão. Penetrar na cidade numa coluna,
bandeiras ao vento ao ribombar dos tambores, comigo à frente, montado em
Gulnora.
Cada vez mais entusiasmado, Sobolev começou a andar pelo escritório, para
frente e para trás.
— É preciso agir antes do amanhecer, para que eles não percebam que somos
tão poucos. E dirigir-nos diretamente para o palácio. Sem um único tiro! Acha
que vão me entregar as chaves da cidade imperial?
— Com toda certeza! — exclamou Paladin, inflamado. — E isso
representará a capitulação total!
— Colocar os ingleses perante o fato consumado! — O general cortou o ar
com a mão em forma de gume. — Quando eles compreenderem o que está
acontecendo, a cidade já estará nas mãos dos russos e os turcos terão capitulado.
E se por acaso alguma coisa não correr bem, para mim é igual. Em relação a San
Stefano, também ninguém me deu autorização para tomá-la!
— Será um desfecho sem precedentes! E dizer que vou ser testemunha
direta! — balbuciou o jornalista, com emoção.
— Não, não uma testemunha, mas um ator! — disse Sobolev, dando-lhe uma
palmadinha no ombro.
Bruscamente, Perepelkin colocou-se na frente da porta. Tinha um ar
profundamente desesperado, os olhos castanhos saindo das órbitas, gotas de suor
escorrendo pela testa.
— Não deixarei que partam! Como chefe do estado-maior, protesto! Retrate-
se, Excelência! Lembre-se de que é um general da corte de Sua Majestade, e não
um Bachi-Bouzouk qualquer! Suplico-lhe!
— Afaste-se, Perepelkin, está me aborrecendo! — O tom de voz do terrível
habitante dos céus mostrou-se violento na resposta ao racionalista. — Quando
Osman Paxá tentou avançar contra nós, suplicou-me para não dar início à
operação militar antes de receber ordens. Até se ajoelhou! E quem tinha razão?
Pois é! Verá, terei nas mãos as chaves da cidade imperial!
— Que audácia! — exclamou Mitia. — Não acha admirável, Varvara
Andréevna?
Varia não respondeu, pois se perguntava se o projeto deveria maravilhar
alguém. A determinação louca de Sobolev a arrepiava. Além disso, colocava-se
uma questão em relação a ela mesma: o que fazer? Devia pôr-se a caminho, ao
som do tambor, na companhia de um batalhão de caçadores, agarrada ao estribo
de Gulnora? Ou, então, passar a noite sozinha numa cidade inimiga?
— Gridnev, deixo meus guardas pessoais, fique a vigiando o banco. Senão,
as pessoas daqui vão se apoderar do tesouro e a culpa será minha — disse o
general.
O subtenente tentou implorar:
— Excelência! Mikhail Dmitrievitch! Eu também quero ir a Constantinopla.
— E quem vai cuidar de Varvara Andréevna? — disse Paladin em tom de
censura em seu russo impreciso.
Sobolov tirou o relógio de ouro do bolso, abrindo ruidosamente a tampa.
— São cinco e meia. Dentro de duas horas, duas horas e meia, o dia vai
começar a nascer. Ei, Goukmassov!
Um subtenente cossaco de belo e distinto porte entrou fulgurantemente na
sala.
— Às ordens, Excelência!
— Reúne as companhias! Que se forme o batalhão em coluna de marcha!
Estandartes e tambores na frente! E também os cantores! Vamos avançar com
beleza! Selem Gulnora! Execução! Às seis em ponto saímos!
O ordenança partiu como uma flecha. Sobolev, deliciado, disse: — Desta
vez, Varvara Andréevna, ou volto um herói ainda maior que Bonaparte ou para
mim é o fim.
— Não, não é o fim — respondeu ela, fitando o general com admiração
profunda, de tal forma naquele momento ele se revelava soberbo, um verdadeiro
Aquiles.
Supersticioso como bom russo que era, Sobolev cuspiu três vezes por cima
do ombro direito, para afastar a má sorte. Perepelkin tentou intervir uma última
vez.
— Ainda não é tarde demais para mudar de opinião, Mikhail Dmitrievitch!
Permita-me recordar Goukmassov!
Ele até deu um primeiro passo na direção da porta, mas, nesse instante...
Nesse instante preciso, ouviu-se na escada o ruído de numerosos passos. A
porta se abriu e entraram duas pessoas: Lavrenty Arkadievitch Mizinov e
Fandorin.
— Erast Petrovitch — gritou Varia, que esteve a ponto de pular no pescoço
dele, mas se conteve a tempo.
Mizinov resmungou:
— Sim, ele está aqui! Perfeito!
Distinguindo atrás dos dois homens um grande número de uniformes da
polícia, Sobolev encrespou-se.
— Excelência? Como é possível estar aqui? De fato, agi sem o parecer de
meus superiores, mas me prenderem por isso é talvez excessivo!
Mizinov se admirou.
— Prendê-lo? Por que razão? Passei por imensas dificuldades para chegar
aqui num trem de carga com meia companhia. O telégrafo não funciona, a
estrada está cortada. Suportei três ataques e perdi sete homens. Observe minha
túnica, furada por uma bala.
Mostrou um buraco na manga. Erast Petrovitch deu um passo à frente. Não
mudara em nada, depois da partida, estava simplesmente vestido de forma mais
elegante, um verdadeiro dândi: cartola, capa com capelina, colarinho duro.
— Bom dia, Varvara Andréevna — disse o conselheiro titular, em tom
acolhedor. — O s-s-seu cabelo voltou a crescer. Acho que fica melhor assim.
Ele se inclinou ligeiramente diante Sobolev.
— Soube que recebeu uma espada com diamantes, Excelência. Felicito-o, é
uma grande honra.
Contentou-se com um rápido acenar de cabeça na direção de Perepelkin e, no
fim, dirigiu-se ao correspondente:
— Salaam aleikoum, Anvar Effendi.

________________
1 Em francês, no original. "Seu exército é vitorioso, sua ambição é satisfeita
e a Turquia é destruída". (NT)
capítulo
13
Onde se vê Fandorin pronunciar longo discurso

Wiener Zeitung (Viena)


21 (9) de janeiro de 1878

... Na etapa final da guerra, a relação de forças entre os dois


adversários é tal que não podemos mais ignorar a ameaça que constitui a
expansão pan-eslava na fronteira sul do Império Austro-Húngaro. O tsar
Alexandre e seus satélites — Romênia, Sérvia e Montenegro —
concentraram uma força de ataque de setecentos mil homens armados com
mil e quinhentos canhões. E tudo isso contra quem? Contra um exército
turco desmoralizado que, segundo os cálculos mais otimistas, não conta
hoje com mais de cento e vinte mil soldados famintos e atemorizados.
A situação é grave, senhores! É preciso ser um avestruz para não se ver
o perigo que espreita a totalidade da Europa civilizada. Toda demora é
sinônimo de morte, e se nos deixamos ficar, de braços cruzados, olhando as
hordas citadas...

Fandorin tirou a capa e, na sua mão direita, brilhou o aço polido de um


bonito pequeno revólver. Ao mesmo tempo, Mizinov estalou os dedos e dois
policiais entraram no escritório e apontaram as carabinas para o correspondente.
— Mas que brincadeira é essa? — gritou Sobolev. — Que significa salaam
aleikoum? Por que Effendi?
Varia se virou para Charles. Ele estava junto à parede, braços cruzados no
peito, e observava o conselheiro titular com um sorriso ao mesmo tempo
desconfiado e irônico.
— Erast Petrovitch — balbuciou Varia —, era McLaughlin que você tinha
ido procurar na Inglaterra.
— E fui mesmo à Inglaterra, Varvara Andréevna, não para procurar
McLaughlin, que eu bem sabia não estar lá, e nem podia estar.
— Mas não objetou quando Sua Majestade...
Varia silenciou, consciente de estar a dois passos de trair um segredo de
Estado.
— Nesse momento, eu não tinha nada para apoiar minha teoria e, de
qualquer modo, precisava mesmo ir à Europa.
— E o que descobriu?
— Como era de se prever, o gabinete inglês não está metido no assunto. E
vai um. É verdade, em Londres não somos amados. É verdade, estão preparando
uma grande guerra. Mas daí a matar mensageiros e organizar manobras
diversionistas vai uma grande distância. Seria contrário ao espírito esportivo dos
ingleses. Aliás, o conde Chouvalov me confirmou isso.
“Passei pela redação do Daily Post, onde fiquei convencido da inocência
total de McLaughlin. E vão dois. Amigos e colegas definem Seamus como um
homem reto e sem estratagemas, hostil à política inglesa e, além disso, é
possivelmente ligado ao movimento nacionalista irlandês. Nada disso se encaixa
no retrato de frio agente do pérfido Disraeli. Na volta, passei por Paris, aliás já
fazia parte do meu itinerário, e me detive lá alguns dias. Dei um pulo na redação
de La Revue Parisienne.”
Paladin fez um movimento e os policiais ergueram as armas, prontas a
disparar. O jornalista balançou a cabeça, mostrando que compreendia e escondeu
as mãos atrás das costas, sob as abas de sua sobrecasaca de viagem.
Erast Petrovitch continuou como se nada tivesse acontecido.
— Foi lá que fiquei sabendo que na redação ninguém jamais viu o célebre
Charles Paladin. Ele envia seus brilhantes artigos, ensaios e cartas por correio ou
telégrafo.
— E depois? — perguntou Sobolev, escandalizado. — Charles não é um
gatinho de salão, é um amante de aventuras.
— E numa medida bem superior à que Sua Excelência supõe. Folheei os
velhos anais de La Revue Parisienne e constatei uma coincidência bem curiosa.
As primeiras publicações do senhor Paladin foram enviadas há dez anos da
Bulgária, isto é, na época em que Midhat Paxá era governador do eixo do
Danúbio, sendo seu secretário um jovem funcionário chamado Anvar. Em 1868,
Paladin fez chegar de Constantinopla uma série de ensaios brilhantes sobre os
costumes da corte do sultão. É o primeiro período de notoriedade de Midhat
Paxá, o momento em que ele foi convidado à capital para dirigir o conselho de
Estado. Um ano depois, o reformador foi enviado em exílio honorífico para uma
longínqua província da Mesopotâmia e, como que levado pelo encanto, a pluma
brilhante do talentoso jornalista transferiu-se também de Constantinopla para
Bagdá. Durante três anos (precisamente o tempo que Midhat Paxá passou ali na
qualidade de governador do Iraque) Paladin fala das escavações assírias, dos
xeques árabes e do Canal de Suez.
Encolerizado, Sobolev cortou a palavra do orador.
— Está falseando a realidade! Charles viajou por todo o Oriente. Enviou
trabalhos de outros locais que você não menciona porque contradizem sua teoria.
Em 1873, por exemplo, ele estava comigo em Khiva. Juntos, quase morremos de
sede, quase derretemos com o calor. E não havia lá nenhum Midhat, senhor
agente!
— E de onde ele vinha, quando chegou à Ásia Central? — perguntou
Fandorin ao general.
— Acho que vinha do Irã.
— Acho que ele não vinha do Irã, mas do Iraque. Em fins de 1873, o jornal
publicou seus estudos líricos sobre a Hélade. Por que repentinamente sobre a
Hélade? Porque o patrão de nosso Anvar Effendi foi enviado na época a
Salônica. Na verdade, Varvara Andréevna, lembra a história das velhas botas?
Varia que, fascinada, não tirava os olhos de Fandorin, aquiesceu com um
pequeno sinal de cabeça. Tudo o que o conselheiro titular relatava era
perfeitamente delirante, mas ele o afirmava com tal convicção e se exprimia tão
bem, com tanta autoridade! Já nem sequer gaguejava.
— Ele mencionou um naufrágio que se deu no golfo de Therma, em
novembro de 1873. Faço-a notar que é na costa desse golfo que se situa a cidade
de Salônica. Fiquei também sabendo, ao ler esse artigo, que em 1876 o autor
estava em Sofia e em 1871 em Madjur, porque foi precisamente nesse ano que os
árabes massacraram a expedição arqueológica britânica de sir Andrew Weyard.
Após a leitura deste texto, comecei a duvidar seriamente de Paladin, mas suas
artimanhas hábeis me derrotaram mais de uma vez...
Fandorin colocou o revólver no bolso e se virou para Mizinov.
— Agora, calculemos os danos que sofremos, causados pelas atividades do
Sr. Anvar. O jornalista Charles Paladin reuniu-se à equipe dos correspondentes
de guerra em fins de junho do ano passado. Época em que o nosso exército
prosseguia de vitória em vitória. Havíamos passado o Danúbio, o exército turco
estava desmoralizado, o caminho para Sofia e, do outro lado, para
Constantinopla estava aberto. O destacamento do general Gourko já se apossara
do desfiladeiro de Chibkin, chave da grande cadeia balcânica. Na verdade,
tínhamos a guerra ganha. O que aconteceu nesse momento? Um erro fatal de
codificação conduziu nosso exército a tomar Nicopole, local sem o mínimo
interesse, enquanto o exército de Osman Paxá penetrava numa Plevna vazia, sem
encontrar o mínimo obstáculo, comprometendo assim a evolução da nossa
marcha. Lembremos as circunstâncias deste episódio misterioso. O codificador
Iablokov cometeu um erro grave ao deixar na mesa um despacho secreto. Por
que agiu assim? Porque estava sob o efeito da emoção, ao saber da chegada
inesperada da senhorita Suvorova, sua noiva.
Todos os olhares se viraram para Varia que, repentinamente, sentiu-se uma
espécie de prova material.
— E quem anunciou a Iablokov a chegada da noiva? O jornalista Paladin.
Com a cabeça perdida de felicidade, Iablokov saiu correndo, e bastou a Paladin
recopiar o documento codificado, substituindo “Plevna” por “Nicopole”. O
código do nosso exército é, digamos, pouco complexo, e Paladin conhecia a
operação que o exército russo se preparava para levar a cabo, pois foi na sua
presença, Mikhail Dmitrievitch, que eu lhe falei de Osman Paxá. Lembra-se do
nosso primeiro encontro?
Sobolev balançou a cabeça com um ar sombrio.
— Agora, lembremos desse mítico Ali Bey de quem Paladin teria obtido
uma entrevista — “entrevista” que nos custou dois mil mortos —, após a qual o
exército russo ficou marcando passo na frente de Plevna, durante muito tempo e
em difíceis condições. Foi uma manobra arriscada, pois Anvar não podia fazer
mais do que lançar a ideia, mas não tinha outra saída. Com efeito, os russos
acabaram por deixar um corpo pouco numeroso face a Osman, por decidirem
progredir para o sul com o grosso de suas forças. Como resultado, a derrota do
nosso primeiro assalto fez nascer em nosso comando uma ideia excessiva do
perigo que Plevna representava e nosso exército se apresentou em seu máximo
poderio contra esta pobre cidadezinha búlgara.
— Espere, Erast Petrovitch — tentou objetar Varia —, mas Ali Bey existiu
realmente. Os nossos espiões o viram em Plevna.
— Voltaremos a isso mais tarde. Neste momento, repensemos as
circunstâncias da segunda ofensiva contra Plevna, cujo fracasso atribuímos
inicialmente à traição do coronel romeno Loukan, que teria entregue nossos
dispositivos aos turcos. Tinha razão, Lavrenty Arkadievitch, “J” no bloco de
notas de Loukan significava mesmo "jornalista", mas referia-se não a
McLaughlin, e sim a Paladin. Que não teve nenhuma dificuldade em recrutar o
pobre vaidoso, que se mostrava presa fácil pelas dívidas de jogo e as ambições
desmesuradas. Depois, em Bucareste, o jornalista soube habilmente usar a
menina Suvorova para se desembaraçar de um agente que perdera todo valor e
que, pelo contrário, começava a representar um certo perigo. Por outro lado, não
excluo a ideia de que Anvar precisasse retomar contato com Osman Paxá.
Afastar-se do nosso exército por uns tempos, suportando uma reabilitação
prevista antecipadamente, dava-lhe essa possibilidade. O correspondente francês
ausentou-se por um mês. E foi precisamente nesse momento que nosso serviço
de informações nos comunicou que o comandante turco tinha a seu lado um
misterioso conselheiro de nome Ali Bey. Este mesmo Ali Bey se deu ao trabalho
de se mostrar um pouco ao mundo, fazendo-se notar pela imponência de sua
barba. Como deve ter rido de nós, senhor espião.
Paladin não respondeu. Fitava o conselheiro titular com a maior atenção,
com o ar de quem espera alguma coisa.
— A aparição de Ali Bey em Plevna era necessária para afastar as suspeitas
que pesavam sobre Paladin, na sequência da infeliz entrevista. Dito isso, não
duvido um único instante do grande benefício que Anvar soube tirar desta estada
de um mês: ele pelo menos acertou com Osman Paxá as ações posteriores e se
afirmou como contato útil. Todos sabem que nosso serviço de contraespionagem
não se opunha a que os correspondentes estrangeiros tivessem nas cidades
cercadas seus próprios informantes. Anvar Effendi podia até mesmo, se
houvesse necessidade, ir a Constantinopla. Plevna ainda não tinha as vias de
comunicação cortadas, era simples. Bastava ir a Sofia e ali tomar um trem que
no dia seguinte o deixaria em Istambul.
“O terceiro assalto representava um grande perigo para Osman Paxá,
sobretudo devido a seu ataque surpresa, Mikhail Dmitrievitch. Desta vez, Anvar
teve sorte e nós não. O pérfido azar jogou contra nós: quando ele estava no posto
de comando com os demais jornalistas, seu ordenança Zurov passou correndo,
dizendo-lhes que o general estava em Plevna. Anvar percebeu perfeitamente
todo o significado da informação, assim como adivinhou o sentido da missão de
Zurov. Era preciso ganhar tempo, dar a Osman Paxá a possibilidade de rever a
disposição de suas forças e expulsar Mikhail Dmitrievitch e seu modesto
destacamento de Plevna, antes da chegada dos reforços. Anvar arriscou e
improvisou mais uma vez. Ele se mostrou audacioso, agiu com virtuosismo e
enorme talento. E, como sempre, do modo mais impiedoso.
“No momento em que, sabendo do avanço vitorioso do flanco sul, os
jornalistas correram para o telégrafo, cada um tentando chegar primeiro, Anvar
lançou-se na perseguição a Zurov e Kazanzakis. Montado no seu célebre
Ianytchar, não teve nenhuma dificuldade em alcançá-los e, aproveitando o
espaço deserto, assassinou os dois. É provável que no momento do ataque ele
estivesse entre os dois homens, com o capitão de cavalaria à direita e o policial à
esquerda. Anvar atira à queima-roupa na têmpora esquerda do hussardo e, no
instante seguinte, enfia uma bala na testa do tenente-coronel, que se virou ao
ouvir o tiro. Tudo não demora mais do que um segundo. Em volta, as tropas se
deslocam, mas os cavaleiros estão num caminho ermo, ninguém os vê. Quanto
aos dois tiros, no meio do canhoneio constante, duvido que chamassem atenção
de alguém. O assassino deixa o corpo no local, não sem antes cravar nas costas a
faca do policial. Quero dizer que ele começou por matá-lo e só depois, quando já
estava morto, é que o apunhalou, e não o contrário, como acreditamos num
primeiro momento. O objetivo de sua ação é simples, jogar as suspeitas sobre
Kazanzakis. Estas mesmas considerações levam Anvar a transportar o corpo do
tenente-coronel para um arbusto próximo e a simular um suicídio.”
— E a carta? — exclamou Varia —, a carta deste príncipe georgiano?
— Isso foi um golpe de grande habilidade — reconheceu Fandorin. — Os
serviços de espionagem turcos tinham sem dúvida conhecimento das inclinações
particulares de Kazanzakis depois de sua estada em Tbilisi. Suponho que Anvar
Effendi estava de olho no tenente-coronel, com a ideia de poder talvez um dia
recorrer à chantagem. Mas os acontecimentos tomaram outro rumo e esta
informação foi revelada para nos fazer perder a pista. Anvar pegou simplesmente
uma página em branco e nela redigiu num instante uma carta caricatural do
homossexual. Aqui levou seu zelo longe demais e duvidei imediatamente da
carta. Primeiro, é difícil de acreditar que um príncipe georgiano possa escrever
tão mal o russo, ele pelo menos fez o ginásio. Em segundo lugar, lembram-se
talvez de que questionei Lavrenty Arkadievitch em relação ao envelope e ele
disse que a carta estava no bolso do morto, sem envelope. Nesse caso, como ela
pode ter permanecido tão impecável? Kazanzakis supostamente andou com ela
durante um ano inteiro!
— Tudo isso é perfeito — interveio Mizinov — e é a segunda vez em vinte e
quatro horas que me expõe suas reflexões, mas volto a perguntar: por que
guardou tudo isso para si mesmo? Por que não nos falou de suas dúvidas?
— Quando se contesta uma versão é necessário avançar com outra e eu não
conseguia juntar os pedaços — respondeu Erast Petrovitch. — Nosso homem
usava meios muito diversificados. Tenho vergonha de admitir mas, por uns
tempos, aos meus olhos o suspeito principal era o tenente-coronel Perepelkin.
— Eremei? — Sobolev gesticulou manifestando profunda admiração. —
Isso, senhores, é claramente paranoia.
Perepelkin pestanejou várias vezes e desabotoou o colarinho que o apertava.
— Sim, é estúpido — concordou Fandorin —, mas o tenente-coronel me
surgia sempre como suspeito. Sua própria aparição tinha algo de estranho: sua
captura e libertação milagrosa, o tiro à queima-roupa fracassado. Geralmente, os
Bachi-Bouzouks atiram melhor. Depois, houve aquela história da codificação:
ora, foi precisamente Perepelkin que levou ao general Krudener a ordem de
avançar sobre Nicopole. E quem incitou o ingênuo jornalista Paladin a encontrar
os turcos em Plevna? E este “J” misterioso no bloco de notas de Loukan?
Lembrem-se de que Zurov chamou Perepelkin de “Jérôme”. Isso por um lado.
Por outro, reconheçam, Anvar Effendi fabricou uma capa simplesmente ideal. Eu
podia construir todas as teorias lógicas que quisesse, mas bastava considerar
Charles Paladin e tudo desmoronava. Observe bem este homem. — Fandorin
chamou a atenção geral para Paladin, que fez uma pequena saudação imbuída da
maior modéstia. — Podemos acreditar que este jornalista sedutor, espirituoso,
europeu dos pés à cabeça, e o pérfido e cruel chefe dos serviços secretos turcos
sejam uma única e mesma pessoa?
— Jamais — declarou Sobolev. — Ainda agora não acredito!
Erast Petrovitch sacudiu a cabeça com ar satisfeito.
— Voltemos agora à história de McLaughlin e à tentativa de penetração
fracassada dos turcos. Ali era tudo simples, sem o mínimo risco. Insinuar no
ouvido deste homem confiante a notícia “sensacionalista” não representou
nenhuma dificuldade. O informante cuja identidade o irlandês ocultava tão
cuidadosamente e do qual sentia tanto orgulho trabalhava seguramente para
você, Effendi.
Chocada por esta forma de se dirigir a Charles, Varia se sobressaltou. Não!
Algo não estava bem. Ele não era um “Effendi”!
— Soube se beneficiar habilmente da ingenuidade de McLaughlin, assim
como de sua vaidade. Ele invejava tanto o brilhante Paladin, sonhava tanto em
ser melhor do que ele! Até esse momento, só conseguira batê-lo no xadrez e,
mesmo assim, nem sempre, e de repente surgia uma ocasião extraordinária!
Exclusive information from most reliable sources! E que informação! Por uma
notícia assim qualquer repórter está disposto a vender a alma ao diabo. Se
McLaughlin não tivesse encontrado por acaso Varvara Andréevna e se os dois
não tivessem conversado... Osman teria espezinhado o corpo de granadeiros,
rompido o bloqueio e se retirado para Chipka. E a situação na frente teria sido
desastrosa.
— Mas se McLaughlin não é um espião, para onde foi? — perguntou Varia.
— Lembra-se da descrição de Ganetski do modo como os Bachi-Bouzouks
atacaram o estado-maior e a dificuldade que ele teve em sair vivo? Acho que não
era Ganetski que interessava aos turcos, era McLaughlin. Era indispensável
afastá-lo, e ele desapareceu. Sem o mínimo vestígio. Segundo todas as
probabilidades, o pobre irlandês, enganado e desonrado pela suspeita, está hoje
em algum ponto no fundo do rio Vid, com uma pedra no pescoço. A menos que,
fiéis a seu delicioso costume, os Bachi-Bouzouks o tenham cortado em pedaços.
Varia se contraiu ao recordar o correspondente de cara gorda devorando
bolinhos com doce, em seu último encontro. Não lhe restava mais de duas horas
de vida...
— Não teve piedade do pobre McLaughlin? — perguntou Fandorin ao espião
turco.
Com um gesto elegante, Paladin (ou talvez Anvar Effendi?) gesticulou que
prosseguisse, antes de esconder de novo a mão nas costas.
Varia lembrou-se de que, segundo a ciência psicológica, mãos escondidas nas
costas são sinal de caráter dissimulador e da vontade de não dizer a verdade.
Seria possível? Ela se aproximou do jornalista, olhos fixos em seu rosto,
tentando descobrir nos traços familiares algo de estranho, de terrível. O rosto de
Paladin estava como sempre, talvez apenas um pouco mais pálido. Ele não
olhava para ela.
— A ofensiva não teve êxito mas, uma vez mais, você saiu incólume da
aventura. Dei meu melhor para voltar de Paris o mais rapidamente possível e me
reunir ao teatro de operações. Já sabia com toda certeza quem você era e tinha
consciência do grande perigo que representava.
— Podia ter mandado um telegrama — resmungou Mizinov.
— Que telegrama, Excelência? “O jornalista Paladin é Anvar Effendi”? Teria
pensado que Fandorin enlouqueceu. Lembre-se do tempo que demorei para lhe
expor as provas, não queria deixar de lado a versão da intervenção inglesa.
Quanto ao general Sobolev, como pode ver, ainda não está convencido, apesar da
amplitude das minhas explicações.
Sobolev sacudiu a cabeça com ar obstinado.
— Vamos escutar até o fim, Fandorin, depois do que daremos a palavra a
Charles. A instrução de um assunto não pode consistir apenas no discurso do
procurador.
— Obrigado, Michel — disse Paladin, com um breve sorriso. Comme dit
l'autre, a friend in need is a friend indeed1. Uma pergunta para monsieur le
procureur. Como começou a suspeitar? Au commencement. Seja gentil para
satisfazer minha curiosidade.
— É simples! — explicou Fandorin. — Cometeu uma enorme imprudência.
Não se deve zombar da sorte e subestimar a esse ponto o adversário! Bastou-me
ver a forma como assinava seus primeiros textos em La Revue Parisienne,
Charles Paladin d'Hevrais, para me lembrar que, segundo certos informantes,
Anvar Effendi, nosso principal adversário, teria nascido na pequena cidade
bósnia de Hevrais. Paladin d'Hevrais era, reconheça, um pseudônimo bem
transparente. Podia ser uma coincidência mas, em todo caso, levantaria
suspeitas. É provável que no início de suas atividades de jornalista ainda não
imaginasse que a máscara de correspondente serviria para ações de caráter
completamente diferente. Estou persuadido de que começou a escrever para os
jornais franceses movido por motivos perfeitamente inocentes: era uma forma de
aproveitar seus talentos literários fora do comum e ao mesmo tempo suscitar nos
europeus um interesse para os problemas do Império otomano e, em particular,
para a figura do grande reformador Midhat Paxá. Aliás, cumpriu a tarefa de
forma admirável. O nome do sábio reformador Midhat surge nos artigos mais de
cinquenta vezes. Pode-se dizer que foi você precisamente quem fez dele uma
figura popular e respeitada em toda a Europa e particularmente na França, onde
ele, aliás, se encontra agora refugiado.
Varia lembrou-se de que Paladin falara de um pai ardentemente amado que
vivia na França. Seria possível que tudo isso fosse verdade? Aterrorizada, fitou o
correspondente. Ele continuava no mais perfeito sangue-frio, mas ela teve a
impressão de que seu sorriso era um pouco fabricado.
— A este propósito, não acredito que traiu Midhat Paxá — prosseguiu o
conselheiro titular. — Trata-se de um jogo sutil. Agora, depois da derrota da
Turquia, ele vai voltar, cingido pelos louros do mártir e ocupará de novo a chefia
do governo. Do ponto de vista da Europa, é a personagem ideal. Em Paris, sua
popularidade é imensa — Fandorin levou a mão à testa e Varia observou de
repente como ele estava pálido e como tinha um ar cansado.
— Tentei chegar o mais depressa possível, mas as trezentas verstas que
separam Sofia de Guermanly tomaram mais tempo do que as mil e quinhentas
entre Paris e Sofia. Estas estradas secundárias são indescritíveis. Graças a Deus,
Lavrenty Arkadievitch e eu chegamos a tempo. Quando o general Stroukov me
anunciou que Sua Excelência partira para San Stefano na companhia do
jornalista Paladin, eu compreendi que para Anvar Effendi era a última cartada,
através da qual ele arriscaria tudo. Não é por acaso que o telégrafo não funciona.
Eu tinha muito medo, Mikhail Dmitrievitch, de que este indivíduo se
aproveitasse de seu caráter aventureiro e seu gosto pelas honrarias para
convencê-lo a avançar até Constantinopla.
— E por que essa perspectiva lhe daria medo, procurador? — perguntou
Sobolev com ironia. — Os guerreiros russos teriam entrado na capital do estado
turco, e depois?
— Como pode falar assim? — exclamou Mizinov, levando a mão ao peito.
— Está doido! Seria o fim de tudo!
— O fim de quê? — tentou retorquir Aquiles, encolhendo os ombros.
Mas Varia viu inquietude em seus olhos.
— O fim de seu exército, o fim de suas conquistas, o fim da Rússia! —
declarou num tom de voz terrível o chefe da Segurança.
— O conde Chouvalov, nosso embaixador na Inglaterra, enviou-nos uma
informação codificada. Ele viu pessoalmente o memorandum secreto do
escritório de Saint-James. Em virtude de um acordo secreto entre a Grã-Bretanha
e o Império Austro-Húngaro, se um só soldado russo pusesse um pé em
Constantinopla, a esquadra encouraçada do almirante Gorbee abriria fogo
imediatamente, enquanto o exército austro-húngaro passaria a fronteira sérvia e a
fronteira russa. Percebe, Mikhail Dmitrievitch? Estaríamos ameaçados de uma
derrota muito mais terrível do que a da Crimeia. O país está exausto. Após a
epopeia de Plevna, não temos uma frota no mar Negro. O tesouro está vazio. A
catástrofe seria total.
Sobolev, derrotado, calou.
— Mas Sua Excelência teve a sabedoria e o bom senso de não avançar além
de San Stefano — disse Fandorin respeitosamente. — Lavrenty Arkadievitch e
eu não precisávamos correr.
Varia viu o rosto do general de branco ficar vermelho. Sobolev tossiu e
concordou com um sinal de cabeça cheio de dignidade, os olhos presos no chão
de mármore.
O azar quis que nesse instante preciso o subtenente Goukmassov assomasse
à porta. Lançou um olhar de desprezo aos uniformes azuis dos policiais e gritou:
— Excelência, permita que preste contas do andamento da situação.
Varia foi invadida por um sentimento de piedade em relação ao pobre
Aquiles e desviou o olhar, enquanto aquele imbecil do Goukmassov continuava
no mesmo tom.
— São seis horas em ponto! De acordo com a ordem recebida, o batalhão
está preparado para se pôr em marcha, Gulnora está selado. Só esperamos Sua
Excelência, e partimos de imediato para a cidade imperial!
— Pare com isso, cretino — balbuciou o herói, rubro. — A cidade imperial
que vá para o diabo!
Não compreendendo o que se passava, Goukmassov saiu da sala recuando. E
mal a porta se fechou, ocorreram coisas que ninguém esperava.
— Et maintenant, mesdames et messieurs, la parole est a la defense! —
declarou Paladin com voz forte.
Retirou bruscamente a mão direita das costas. Segurava um revólver que por
duas vezes lançou um trovão e um relâmpago.
Num mesmo movimento, como se estivesse planejado, Varia viu os dólmãs
dos dois policiais explodirem no lado esquerdo do peito. As carabinas caíram
por terra com um ruído metálico, os dois desabaram quase sem som.
Com os ouvidos ensurdecidos pelos tiros, Varia não teve tempo nem para ter
medo nem para gritar. Paladin estendeu a mão, agarrou-a solidamente pelo
cotovelo e puxou-a, protegendo-se atrás do corpo dela, como um escudo.
Cena muda, como em O Revisor de Gogol — pensou Varia sem a mínima
emoção, vendo um policial imponente surgir na porta e estacar. Erast Petrovitch
e Mizinov empunhavam suas armas. O general parecia enraivecido, o
conselheiro titular tinha um ar infeliz. Sobolev abria os braços num gesto de
perplexidade e permanecia nessa posição. Mitia Gridnev, com a boca aberta,
abria e fechava suas admiráveis pestanas. Perepelkin, que levantara as mãos para
abotoar o dólmã, esquecia de baixá-las.
— Charles, está louco! — gritou Sobolev dando um passo à frente. — Que
ideia é essa de se esconder atrás de uma senhora!
— Fandorin acaba de provar que sou turco — respondeu Paladin com ar
irônico e Varia sentiu na nuca sua respiração quente. — Ora, sabe-se que os
turcos não têm modos com as mulheres.
— Ui, ui — gemeu Mitia.
E, baixando a cabeça como um pequeno vitelo, lançou-se para a frente.
O revólver de Paladin estalou de novo, bem sob o cotovelo de Varia, e o
jovem subtenente tombou de cara no chão com um último grito.
Todos estacaram de novo.
Paladin puxou Varia para trás.
Sem levantar a voz, deu um aviso claro: — Aquele que se mexer será
abatido.
Varia teve a impressão de que a parede se abria nas suas costas e,
repentinamente, ela se viu numa outra sala. Oh, sim! Era a sala do tesouro do
banco! Paladin fechou a porta e correu o ferrolho. Não havia ninguém além
deles.

________________
1 Em francês e inglês, no original. “Como diz o outro, um amigo na

necessidade é um amigo de verdade". (NT)


capítulo
14
Onde se fala do mal da Rússia e onde ecoa a língua de Dante

Boletim do governo (S. Petersburgo)


9 (21) de janeiro de 1878

... suscita reflexões pouco agradáveis. Eis alguns extratos do discurso


do senhor Kh. Reitern, secretário de Estado e ministro das Finanças,
pronunciado na última quarta-feira no decorrer da reunião da União pan-
russa. “Em 1874, pela primeira vez após vários anos, alcançamos um saldo
positivo das receitas em relação às despesas”, diz o ministro. As previsões
do orçamento para 1876 foram calculadas pela contabilidade do Estado
com um saldo positivo de 40 milhões de rublos. Porém, um ano quase
completo de ações militares custou ao tesouro um bilhão e vinte milhões de
rublos, e faltam-nos meios para prosseguir em nossa campanha. As
reduções das despesas no orçamento civil fizeram com que em 1877 não se
tenha construído na Rússia uma única versta de ferrovia. A dívida interna e
externa do Estado tomou proporções incomuns e constitui assim...

Paladin soltou o cotovelo de Varia que, horrorizada, se afastou rapidamente.


Através da pesada porta, chegava o som de vozes fortemente amortecidas.
— Quais são suas condições, Anvar?
Era Erast Petrovitch.
— Não há condições! — exclamava Mizinov — Abra imediatamente essa
porta ou eu a arrebento a dinamite!
— Contente-se em dar ordens a seus policiais! — disse Sobolev. — Se usar
dinamite ela está perdida!
— Senhores — gritava em francês Paladin, que, afinal não era Paladin —,
isso está ficando indecente! Não me deixam conversar tranquilamente com uma
senhora!
— Charles! Ou seja qual for seu nome! — gritava Sobolev em tom de voz
baixo e retumbante, como só os generais possuem. — Se tocar num cabelo que
seja de Varvara Andréevna, eu o enforco sem o mínimo julgamento e sem
instrução!
— Mais uma só palavra e eu a mato antes de me suicidar! — desferiu
Paladin, subindo o tom de voz e assumindo entonação trágica, ao mesmo tempo
em que piscava divertidamente para Varia, como se acabasse de se permitir
entrar numa brincadeira, um pouco ambígua, mas cômica.
Atrás da porta, fez-se silêncio.
— Não me olhe como se de repente tivessem me nascido chifres e garras,
Srta. Barbara — disse docemente Paladin em seu tom de voz habitual,
esfregando os olhos num gesto cansado. — É evidente que não tenho a mínima
intenção de matá-la e nem desejaria pôr sua vida em risco.
— Ah, sim!? — perguntou ela, perfidamente. — Então por que toda esta
encenação? Por que matou três homens que nada tinham feito? Qual a razão de
tudo isso?
Anvar Effendi (no momento convinha esquecer Paladin) puxou seu relógio.
— São seis e cinco. Preciso dessa encenação para ganhar tempo. A
propósito, é inútil se preocupar com o subtenente. Sabendo que se afeiçoou a ele,
fiz apenas um buraco na barriga da perna dele, nada verdadeiramente grave. E
mais tarde ele vai poder se vangloriar de ter sido ferido em combate. Quanto aos
policiais, nada a fazer, é o serviço deles que exige.
— Ganhar tempo para fazer o quê? — perguntou Varia, inquieta.
— De acordo com o plano, em uma hora e vinte minutos, ou seja, às sete e
meia, o regimento de atiradores anatolianos deve chegar a San Stefano. É um
dos melhores destacamentos da guarda turca. Calculou-se que, a esta hora,
Sobolev já teria tido tempo de avançar para os arredores de Istambul e, apanhado
sob o fogo da frota inglesa, teria batido em retirada. Os soldados da guarda
atingiriam por trás os russos que recuavam de modo desordenado. Era um plano
magnífico e até o último minuto evoluía exatamente como previsto.
— De que plano está falando?
— É como lhe digo, um plano magnífico. Para começar, seria preciso levar
Michel a se interessar pelo trem de passageiros que tentadoramente estava na
estação. Nisso, me ajudou muito e eu agradeço. Falou de “abrir um livro”,
“tomar um xícara de chá“. Foi sublime. A seguir era muito simples: o orgulho
sem limites do nosso incomparável Aquiles, seu gosto pelo risco e a fé em sua
sorte deveriam concluir o assunto. Oh, Sobolev não seria morto! Eu o teria
evitado. Primeiro porque sou sinceramente amigo dele, depois porque a prisão
do grande Ak Paxá pelos turcos seria um ponto de partida único para a segunda
etapa da guerra dos Bálcãs... — Anvar suspirou. — Que pena que as coisas
tenham sido interrompidas. Seu grande amigo Fandorin merece aplausos. Como
dizem os sábios orientais, é o karma!
— O que eles querem dizer com isso? — perguntou Varia, espantada.
— Srta. Barbara, é uma moça instruída, uma intelectual, e no entanto, não
conhece um certo número de coisas elementares — disse num tom de reprovação
o estranho interlocutor da jovem. — Karma é um dos conceitos de base da
filosofia indiana e da filosofia budista. É de certo modo idêntico à noção cristã
de destino, mas é muito mais sutil. O mal do Ocidente é desprezar a sabedoria do
Oriente. E, no entanto, o Oriente tem muitos mais séculos de civilização, sendo
mais sensato e mais complexo. Minha Turquia fica exatamente na encruzilhada
dos dois, e este país poderia ter um grande futuro.
Mas Varia interrompeu muito secamente suas reflexões: — Não é hora para
palestras. O que planeja fazer?
— Que pergunta! — espantou-se Anvar. — Claro que planejo esperar até
sete e meia. A primeira parte do plano falhou mas, mesmo assim, os atiradores
da Anatólia estão para chegar. Vai haver um combate. Se nossa guarda vencer —
e ela tem a seu favor a superioridade do número e a excelência do treinamento
de seus soldados, fora o efeito surpresa —, estou salvo. Se Sobolev e seus
homens resistirem... Mas não façamos projetos antecipados. De fato — ele fitou
Varia com ar muito sério —, conheço sua coragem, mas não tente avisar seus
amigos do que os espera. Não teria tempo de abrir a boca para gritar, porque eu
seria obrigado a amordaçá-la. E o farei, apesar do respeito e da simpatia que
sinto por você.
Dizendo isso, tirou a gravata, deu um nó bem firme e meteu-a no bolso.
— Amordaçar uma mulher? — zombou Varia. — Eu preferia seu papel de
francês!
— Pode ter certeza de que, com o peso do que está em jogo, um espião
francês agiria no meu lugar exatamente da mesma forma. Habituei-me a não me
preocupar comigo e arrisquei muitas vezes minha vida em assuntos importantes.
Isso me dá o direito de não me preocupar com a vida de terceiros. Este aqui,
Srta. Barbara, é um jogo de igual para igual. Um jogo cruel, mas a vida, de uma
maneira geral, está cheia de crueldade. Acha que eu não tive pena do valoroso
Zurov e do rapaz corajoso que era McLaughlin? Tive e muita, mas há valores
mais preciosos do que os sentimentos.
— Que valores? — exclamou Varia. — Quer explicar, senhor ardiloso, quais
são essas ideias superiores em nome das quais se pode matar um homem que o
considera amigo?
— Excelente tema de discussão. — Anvar ofereceu-lhe uma cadeira. —
Sente-se, Srta. Barbara, temos muito tempo à frente. E não olhe para mim com
essa hostilidade. Não sou um monstro, sou apenas um inimigo de seu país. Não
gostaria que me considerasse um demônio desprovido de sensibilidade, como me
descreveu Fandorin, em quem reconheço perspicácia excepcional. Entre
parênteses, que eu deveria há tempos ter posto fora de cena... Sim, eu matei. Mas
todos que aqui estamos, todos matamos, incluindo seu Fandorin, o defunto
Zurov e Mizinov. Quanto a Sobolev, é um descomunal assassino, pode-se dizer
que nada em sangue. Há somente dois papéis possíveis no nosso comportamento
masculino: o de matar e o de ser morto. Não invente um mundo de ilusões,
menina, vivemos todos numa selva. Tente me julgar sem preconceito,
esquecendo que é russa e eu turco. Sou um homem que escolheu na vida uma via
muito difícil. Por outro lado, um homem a quem você não é indiferente. Estou
até um pouco apaixonado por você.
Melindrada com o "um pouco", Varia franziu as sobrancelhas.
— Sou infinitamente reconhecida.
— Bem, eu me expliquei mal — disse Anvar, abrindo os braços para
sublinhar seu arrependimento. — Não posso me entregar a uma paixão profunda,
isso seria um luxo imperdoável e perigoso. Mas deixemos isso. Permita-me antes
responder à pergunta. Enganar ou matar um amigo é uma grande adversidade,
mas por vezes, somos levados a passar por isso. Tive oportunidade... — Notou-
se um espasmo nervoso no canto da boca. — Contudo, quando nos dedicamos
inteiramente a um grande objetivo, somos obrigados a sacrificar as relações
pessoais. Vou dar exemplos muito próximos. Tenho certeza de que, na qualidade
de jovem moderna, considera com bons olhos as ideias revolucionárias. É
verdade, não é? Ora, em seu país, a Rússia, os revolucionários já começaram a
disparar alguns tiros. E em breve vai irromper uma verdadeira guerra secreta,
acredite na opinião de um profissional. Rapazes e moças, cheios de idealismo,
vão começar a explodir palácios, trens, carruagens. E de cada vez, além do
ministro reacionário ou do governador inimigo do povo, haverá inevitavelmente
vítimas inocentes: famílias, colaboradores, servidores. Mas, em nome do ideal,
isso conta pouco, tem que ser feito. Espere um pouco e verá seus idealistas
tentando ganhar abusivamente a confiança de alguém, espionando, enganando,
assassinando seus renegados. Tudo em nome de um ideal.
— E qual é, pessoalmente, seu ideal? — perguntou Varia em tom cortante.
— Pois bem, vou contar. — Anvar apoiou o cotovelo na prateleira dos sacos
de dinheiro. — Pelo meu lado, vejo a saída não na revolução, mas na evolução.
A evolução deve, contudo, ser dirigida em bom rumo. É necessário conduzi-la. O
nosso século dezenove é decisivo para o destino da humanidade, estou
profundamente convencido. É necessário ajudar as forças da sabedoria e da
tolerância a emergirem, senão, em futuro próximo, a Terra se arrisca a conhecer
perturbações dolorosas e inúteis.
— E onde estão a sabedoria e a tolerância? Nas terras de seu Abdul-Hamid?
— Não, claro que não. Penso nos países em que o homem aprende pouco a
pouco a respeitar a si mesmo e aos outros, a se conduzir não pela força do
bastão, mas da convicção, a apoiar os fracos, a tolerar os que não pensam como
ele. Ah, como são promissores os processos em curso na Europa Ocidental e nos
Estados Unidos da América! Bem entendido que estou longe de idealizar esses
países. Eles também têm muita lama, crime, estupidez. Mas o caminho, de uma
forma geral, é justo. É precisamente essa via que o mundo deve seguir, senão a
humanidade se arrisca a cair no caos e na tirania. A mancha clara no mapa do
planeta ainda é bem pequena, mas cresce rapidamente. Basta unicamente
preservá-la da pressão do obscurantismo. Uma grande partida de xadrez está em
curso e eu jogo com as pedras brancas.
— E, se bem compreendo, a Rússia joga com as pedras pretas?
— É isso mesmo. Seu enorme país representa hoje em dia o maior perigo
que ameaça a civilização. Pela sua imensidão, sua população numerosa e inculta,
sua máquina governamental pesada e agressiva. Há muito tempo que eu me
interesso pela Rússia, aprendi a língua, viajei muito, li os trabalhos dos
historiadores, estudei o mecanismo do estado, convivi com suas personalidades
mais notáveis. Preste atenção no que diz esse adorável Michel que ambiciona ser
um novo Bonaparte. A missão do povo russo seria a tomada da cidade imperial e
a união de todos os eslavos. Mas com que objetivo? Para que os Romanov
imponham mais uma vez sua vontade à Europa? Que perspectiva tenebrosa! O
que digo não é agradável de ouvir, Srta. Barbara, mas a Rússia representa uma
ameaça terrível para a civilização. Ela é agitada no interior por forças selvagens
e destrutivas que, cedo ou tarde, se libertarão e, nesse momento, o mundo vai
sofrer. É um país instável e absurdo que adotou tudo o que havia de pior no
Ocidente e no Oriente. A Rússia tem que ser recolocada em seu lugar, é preciso
encurtar seus braços. Isso também será bom para os russos e permitirá à Europa
continuar seu desenvolvimento na boa direção. Sabe, Srta. Barbara — e ela
ouviu repentinamente um tremor na voz de Anvar —, amo muito a minha infeliz
Turquia. É o país das grandes oportunidades perdidas. Mas estou pronto a
sacrificar conscientemente o Estado otomano desde que isso permita afastar a
humanidade da ameaça russa. Se quisermos continuar na partida de xadrez, sabe
o que é um gambito? Não? Em italiano, gambetto significa "rasteira", dare il
gambetto, "passar uma rasteira". Numa partida de xadrez, "gambito" é a jogada
em que se sacrifica uma peça para garantir uma superioridade estratégica. Fui eu
que elaborei o esquema da partida de xadrez que está se desenrolando e, desde o
início, insinuei para a Rússia uma figura atraente, a gorda, apetitosa e fraca
Turquia. O Império otomano vai tombar, mas Alexandre não vai ganhar a
partida. Em conclusão, a guerra se desenrolou de uma maneira tão feliz que
afinal nem tudo está perdido para a Turquia. Ainda pode contar com Midhat
Paxá. É um homem notável, Srta. Barbara, e foi de propósito que eu o excluí do
jogo por uns tempos, mas agora vou reintroduzi-lo... Se tiver essa possibilidade,
claro. Midhat Paxá vai voltar a Istambul sem estar comprometido com nada e
ficará com o poder. Talvez a Turquia possa então, ela também, passar da zona do
obscurantismo para a da luz.
Ouviu, atrás da porta, a voz de Mizinov: — Senhor Anvar, por que tanta
demora? É uma falta de coragem! Saia, eu lhe garanto o estatuto de prisioneiro
de guerra.
— E o cadafalso pelo assassinato de Kazanzakis e Zurov! — acrescentou
Anvar num murmúrio.
Varia encheu o peito de ar, mas o Turco estava alerta. Ele tirou a mordaça do
bolso e sacudiu a cabeça de forma significativa. Depois gritou: — Tenho que
refletir, senhor general! Dou-lhe a resposta às sete e meia.
Depois disso, manteve-se muito tempo em silêncio. Andou pela sala de um
lado para o outro, em passo agitado, consultando continuamente o relógio.
— Desde que eu saia daqui — murmurou por fim esse estranho homem,
dando um murro na prateleira metálica. — Sem mim, Abdul-Hamid vai esmagar
o nobre Midhat!
Depois, como que apanhado em falta, fitou Varia com seus olhos azuis e
luminosos e explicou: — Desculpe, Srta. Barbara, estou nervoso. Nesta partida
de xadrez minha vida não é insignificante. É também uma peça, mas eu atribuo a
ela mais valor do que ao Império otomano. Podemos resumir as coisas deste
modo: o império é o bispo e eu sou a rainha. Mas, para ganhar, pode-se chegar
ao ponto de sacrificar a rainha... Em todo caso, fica evidente que eu não perdi a
partida, tenho certeza de pelo menos empatar o jogo! — Riu nervosamente. —
Consegui manter seu exército em Plevna por muito mais tempo do que esperava,
desperdiçando tempo e forças. A Inglaterra teve tempo de se preparar para o
confronto, a Áustria perdeu o medo. Mesmo que a guerra não conheça uma
segunda etapa, a Rússia ainda assim perdeu. Precisou de vinte anos para se
recuperar da campanha da Crimeia e passará outros vinte anos curando as feridas
que esta guerra acabou de lhe provocar. E isso num momento do fim do século
dezenove em que cada ano conta muito. Em vinte anos, a Europa terá
conseguido um grande avanço. Quanto à Rússia, resta-lhe assumir o papel de
potência de segunda ordem. Dilacerada pela úlcera da corrupção e do niilismo,
vai deixar de representar uma ameaça ao progresso.
Desta vez, Varia perdeu a paciência.
— Mas quem é você para julgar quem representa um bem para a civilização
e quem a prejudica! Estudou o mecanismo do nosso Estado, frequentou os
grandes. E o conde Tolstói? E Fedor Mikhailovitch Dostoiévski, encontrou-o? A
literatura russa, leu? Com certeza não teve tempo... Dois vezes dois é sempre
igual a quatro, e três vezes três sempre nove, não é? Duas retas paralelas nunca
se encontram? É no seu Euclides que elas não se encontram, no nosso
Lobatchevski elas se encontraram!
Anvar encolheu os ombros.
— Não compreendo sua metáfora. No que diz respeito à literatura russa, eu
li, claro. É uma bela literatura, tão válida quanto as literaturas inglesa e francesa.
Mas a literatura é um jogo, num país normal ela não pode ter grande
importância. Não esqueça que também sou de certa forma um escritor. Mas é
necessário tratar de assuntos sérios, e não se divertir arquitetando fábulas
comoventes. Olhe a Suíça, não tem grande literatura, mas a vida lá é
incomparavelmente mais digna do que na sua Rússia. Passei lá quase toda a
infância e adolescência, pode acreditar em mim...
Ele não teve tempo de terminar porque ouviram ao longe o barulho de
tiroteio.
— Está começando! Atacaram antes da hora!
Anvar encostou a orelha na porta e seus olhos brilhavam de reflexo febril.
— Maldição! E como se fosse de propósito, esta maldita sala do tesouro não
tem uma única janela!
Varia tentou em vão acalmar seu coração, que batia furiosamente. O troar dos
tiros se aproximava. Ouviu Sobolev dar ordens, mas não conseguiu entender o
que dizia. Alguém gritou “Alá” e depois uma saraivada de tiros.
Rolando o tambor do revólver, Anvar murmurava: — Podia tentar uma saída,
mas só tenho três balas... Detesto a inação!
Ele se sobressaltou, havia tiros no próprio prédio.
— Se os nossos ganharem, ganharem, vou mandá-la para Adrianople —
disse ele com voz precipitada. — No momento, sem dúvida a guerra vai acabar.
Não haverá uma segunda etapa. É pena. As coisas não se passam sempre como
prevemos. Talvez voltemos a nos encontrar um dia. Agora, como não pode
deixar de ser, você me detesta, mas com o tempo compreenderá que tenho razão.
— Não sinto ódio de você — disse Varia. — Considero simplesmente
aflitivo ver um homem tão talentoso tratar de assuntos tão abjetos. Recordo a
descrição que Mizinov fez de sua vida...
— Verdade? — disse Anvar com um ar distraído, concentrando-se para
melhor ouvir o tiroteio.
— Sim. Quantas intrigas e quantos mortos! O circassiano que cantava árias
de ópera antes de sua execução era seu amigo, não era? Também o sacrificou?
— Não gosto de pensar nessa história — disse ele em tom severo. — Sabe
quem eu sou? Sou uma parteira, ajudo a criança a vir ao mundo, e minhas mãos
estão mergulhadas no sangue até os cotovelos...
Ouviu-se um tiroteio muito perto.
— Vou abrir a porta — disse Anvar, armando o revólver — e ajudar os meus.
Fique aqui e de jeito nenhum ponha a cabeça de fora. Não vai durar muito.
Ele abriu o ferrolho e subitamente ficou imóvel. Ninguém mais atirava.
Chegavam apenas fragmentos de vozes, e era impossível compreender se em
russo ou turco. Varia prendeu a respiração.

— Vou quebrar sua cara! Ficar escondido num canto esperando que as coisas
acabem, meu Deus! — gritou alguém.
Ao ouvir esta voz tão suavemente familiar, Varia teve um sentimento de
alegria.
Eles aguentaram! Eles resistiram!
Os tiros se afastavam cada vez mais; ouviu-se muito claramente um "hurra"
prolongado.
Anvar estava imóvel. Tinha os olhos fechados e uma expressão calma e
triste. Quando o tiroteio acabou por completo, tirou o ferrolho e entreabriu a
porta.
— Acabou, Srta. Barbara. Sua prisão acabou. Pode sair.
— E você? — disse ela, suspirando.
— A rainha foi sacrificada sem grande vantagem. É pena. Quanto ao resto,
continua imutável. Vá e boa sorte!
— Não! — disse ela protestando. — Não o deixarei aqui. Renda-se, eu
testemunharei a seu favor no processo.
— Para que fechem minha boca e acabem me enforcando de qualquer jeito?
— gracejou Anvar. — Não obrigado. Há duas coisas no mundo que eu detesto
particularmente, humilhação e capitulação. Adeus, vou ficar sozinho por alguns
minutos.
Agarrou Varia pela manga e, empurrando-a levemente, obrigou-a a
atravessar a porta. Um instante depois, o ferrolho estava fechado.
Varia tinha pela frente um Fandorin completamente pálido. Junto à janela,
cujos vidros estavam quebrados, o general Mizinov admoestava seus agentes
ocupados em varrer os estilhaços de vidro. Lá fora era dia.
— Onde está Michel? — perguntou ela inquieta. — Foi morto? Ferido?
— Está são e salvo — respondeu Erast Petrovitch, examinando
detalhadamente a jovem. — Está no seu elemento, persegue o adversário. O
pobre Perepelkin é que foi ferido mais uma vez: arrancaram a metade de uma
orelha dele com um golpe de yatagan. Vai lhe valer uma nova condecoração.
Não se preocupe também com o subtenente Gridnev, está vivo.
— Eu sei — disse ela.
Fandorin franziu ligeiramente os olhos. Mizinov, aproximando-se deles,
recomeçou as queixas.
— Mais um buraco no meu capote. Que dia! Ele a deixou sair! Agora
podemos entrar com dinamite.
E, aproximando-se docemente, passou a mão pelo aço da porta.
— Acho que dois sacos será perfeito. A não ser que seja demais... Seria bom
pegá-lo vivo, esse patife!
Da sala do tesouro ouviu-se subitamente uma ária de ópera, assobiada
harmoniosamente e com desenvoltura. Mizinov se escandalizou.
— E vejam só, ele assobia! Que canalha! Espere um pouco, já vou ajudar!
Novgorodtev! Mande um homem buscar dinamite no destacamento de
sapadores!
— Não vai ser n-n-necessário — disse Erast Petrovitch em voz baixa,
escutando atentamente.
— Gagueja de novo — observou Varia. — Isso quer dizer que está tudo
acabado?
Enfiado em sua túnica branca de gola vermelha, Sobolev entrou, fazendo
troar as botas.
— Bateram em retirada! — anunciou ele com a voz alquebrada pelo
combate. — As baixas foram enormes, mas não é grave, estamos esperando
novo contingente. Quem assobia tão agradavelmente? Lucia di Lammermoor,
adoro!
O general começou a cantar com agradável voz de barítono um pouco rouca:

Del ciel clemente un riso,


La vita a noi sara!

Acabou a última estrofe, colocando nela todo o sentimento necessário,


quando um tiro ecoou atrás da porta.
Epílogo

Notícias do governo de Moscou


19 de fevereiro (3 de março) de 1878

A PAZ FOI ASSINADA!

"Hoje, dia de aniversário da grande data que viu, há dezessete anos, as


benesses supremas recaírem sobre os nossos camponeses, uma nova página
radiosa acaba de se inscrever na crônica do reino do tsar libertador. Os
responsáveis russos e turcos assinaram em San Stefano a paz, pondo fim à
gloriosa guerra de libertação dos povos eslavos sob o domínio turco.
Segundo os termos do tratado, a Romênia e a Sérvia adquirem uma
independência total, e foi criado um vasto reino búlgaro. Quanto à Rússia,
ela obteve uma compensação pelas suas despesas de guerra, 410 milhões
de rublos, dinheiro esse que será essencialmente pago na forma de
concessões territoriais, entre as quais a Bessarabia e Dobrodja, a que se
juntam Argadan, Kars, Batoum, Bajazet..."

— A paz está assinada e é uma boa paz. E você que previu o pior, senhor
pessimista... — disse Varia que, mais uma vez só falava do que queria falar.
O conselheiro titular já se despedira de Petia, e o ex-prisioneiro e atualmente
homem livre Petia Iablokov já subira para o compartimento a fim de ocupar o
lugar e arrumar a bagagem. Em consequência da feliz conclusão da guerra, o
jovem não só tinha sido completamente inocentado, mas também honrado com
uma medalha por aplicação no serviço.
Eles já poderiam ter partido há duas semanas, e Petia insistira para que o
fizessem, mas Varia se demorava sem saber muito bem por quê.
Com Sobolev, a separação correra mal, ele tinha ficado vexado. Tanto pior.
Um herói de sua têmpera encontraria rapidamente alguém que o consolasse.
E era chegado o dia de se despedir de Erast Petrovitch. Desde a manhã Varia
estava nervosa. Por não encontrar um alfinete de peito, fez uma cena impossível
com o pobre Petia, terminando numa crise de lágrimas.
Fandorin ficava em San Stefano, uma vez que a assinatura do tratado de paz
não pusera fim de forma alguma ao trabalho diplomático. Para se despedir, ele
veio direto de uma recepção, ainda de smoking, cartola e gravata de seda branca.
Ofereceu a Varia um ramo de violetas de Parma, suspirou profundamente,
dançando de um pé para o outro, mas não brilhou minimamente pela eloquência.
— Este tratado de paz é vantajoso d-d-demais, a Europa não o reconhecerá.
Anvar jogou bem com sua armadilha, eu perdi. Fui condecorado quando deviam
ter me levado ao tribunal.
— Como é injusto consigo mesmo, como é duro! — disse ela com ardor e
receando chorar. — Por que está sempre se esforçando para se punir? Sem você,
não sei onde todos estaríamos...
— Lavrenty Arkadievitch disse mais ou menos o mesmo — declarou
Fandorin, gracejando — e ele prometeu a recompensa que eu escolhesse, desde
que esteja nas suas mãos.
A informação agradou a Varia.
— É verdade? Fico muito contente! E então, o que pediu?
— Que me mandem trabalhar na outra ponta do mundo, o mais longe
possível de tudo isso — disse ele com um gesto de mão indefinido.
— Que asneira! E o que disse Mizinov?
— Ficou colérico. Mas palavra dada é palavra dada. Quando as c-c-
conversações acabarem, deixo Constantinopla por Port-Said e daí, de barco, vou
para o Japão. Fui nomeado segundo secretário da embaixada de Tóquio. Não há
nada mais longe.
— Para o Japão...
Ela não conseguiu conter as lágrimas, que enxugou com a luva, num gesto
enraivecido.
O sino que anunciava a partida soou, a locomotiva fez ouvir sua voz. Petia se
debruçou na janela.
— Varenka, está na hora. O trem vai partir.
Erast Petrovitch mostrou um ar incomodado e baixou os olhos.
— A-a-adeus, Varvara Andréevna. Foi um grande prazer...
Mas ele não acabou.
Varia apertou-lhe a mão nervosamente, seus olhos piscavam cada vez mais
depressa para limpar as lágrimas que surgiam.
— Erast... — não pôde evitar o grito.
As palavras não chegaram, ficaram na garganta. O queixo de Fandorin
estremeceu, mas ele não disse nada.
As rodas deram os primeiros estalidos, o vagão se movimentou.
— Varia! Vou partir sem você! — gritou Petia, desesperado. — Ande logo!
Ela se virou, hesitou ainda um segundo e saltou para o degrau que percorria
lentamente a plataforma.
— ... E antes de mais nada, um bom banho quente. Depois, ir à loja de
Philipov comprar doce de damasco de que você tanto gosta. A seguir, ir à livraria
ver as novidades, depois à universidade. Imaginas todas as perguntas que nos
vão fazer, consegues imaginar...
Varia mantinha-se na janela, acompanhando com movimentos de cabeça a
feliz tagarelice de Petia. Ela tinha vontade de olhar a silhueta negra na
plataforma, mas, curiosamente, a silhueta tinha um comportamento estranho,
seus contornos se diluíam. Ou seria alguma coisa nos olhos dela?

The Times (Londres)


10 de março (26 de fevereiro) de 1878

GOVERNO DE SUA MAJESTADE DIZ "NÃO"

Lord Derby declarou hoje que o governo britânico, apoiado pelos


governos da maioria dos países europeus, se recusa categoricamente a
reconhecer as condições ultrajantes da paz imposta à Turquia pelos
apetites desmesurados do tsar Alexandre. O tratado de San Stefano é
contrário aos interesses da defesa europeia e deve ser reconsiderado num
congresso convocado para esse fim, do qual tomará parte a totalidade das
grandes potências.