Anda di halaman 1dari 100

CARMO WOOD GRAPHENEST

COMO A NOVA
RENASCER REVOLUÇÃO
DAS CINZAS INDUSTRIAL
EM DESTAQUE

32
Capitalismo
popular
Pedro Caldeira é um dos
maiores nomes da Bolsa
nacional, mas não está
sozinho nesta “caderneta
de cromos”. No tabuleiro
do mercado de capitais
português, o que não
tem faltado são jogadas
e jogadores que deram
origem a resultados
desastrosos, sobretudo para
os pequenos investidores.

42
Atletas de alto
rendimento
A lista dos 25 atletas mais
bem pagos de sempre
contém oito desportos,
com preponderância para o
golfe, basquetebol e boxe.
No total, as receitas destas
estrelas – onde pontifica
CR7 - ascenderam a mais
de 17 mil milhões de euros.
Uma fortuna que não
pára de crescer.

50
Gerir bem para
fazer feliz
Nadim Habib é economista
e há décadas que estuda
o mercado de trabalho
nacional. Em entrevista à
FORBES, explica por que
as empresas portuguesas
têm níveis de produtividade
tão baixos e lamenta que,
em Portugal, a gestão

24
ainda seja feita numa
óptica “taylorista”.

58 Dentro da bolha
Quando
o feitiço se vira… Álvaro Pinto e Paulo Trezentos seguiram à
Três anos depois de sair boleia da febre das criptomoedas e tiveram um
do Tinder após uma disputa enorme sucesso. Num curto espaço de tempo
judicial, Whitney Wolfe Herd
está a arrasar os ex-colegas colocaram a Aptoide num novo patamar e,
usando as mesmas armas: pelo caminho, amealharam uma boa maquia.
uma app de encontros
para mulheres pensada Souberam aproveitar a bolha das bitcoins como
exclusivamente para elas. ninguém. E agora, o que se segue?

4 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE VICTOR MACHADO


PALAVRA-CHAVE OPINIÃO
98 Pioneiros 72 Investimento em
Ser pioneiro é ter uma obrigações em 2018
responsabilidade imensa Paulo Monteiro,
na construção do futuro director de gestão
e do mundo. de activos do Banco Invest
EDITORIAL 84 Quando a convicção
08 Na crista moral nos atraiçoa
da onda Pedro Neves,
professor da Nova SBE

32

50

66

TOP+ melhores empregadores do


80
mundo. A FORBES revela-
11 No topo do mundo lhe quem são e quais os
Aliam a beleza à fortuna e parâmetros que fazem os
fazem virar cabeças sempre funcionários mais felizes.
que entram em cena. Ao fim
de 16 anos, Giselle Bündchen 20 Os conselhos de
perdeu o título da super- Mark Zuckerberg
modelo que mais factura no
O fundador do Facebook
globo para Kendall Jenner.
admite que no início da
Mas esta não é a única
carreira falhou a tentativa
surpresa deste ranking.
de criar empatia com os
seus colaboradores e
16 Os melhores defende que é preciso
empregadores acreditar numa missão para
Só há duas empresas se ter sucesso no mundo
portuguesas entre os 500 dos negócios.

6 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


VIDA
85 Mistério e glamour
Apesar de ser celebrado
em vários países do mundo,
nenhum Carnaval é tão
misterioso ou romântico como
o de Veneza. Seleccionámos
alguns dos eventos mais
exclusivos para si.

88 Cinco continentes,
o mesmo luxo 11
73 Do exclusivo Anantara na
Tunísia até ao elegante Zadún
no México, saiba quais os
hotéis que vão aparecer e 95
surpreender em 2018.

95 Até à eternidade
42 Na relojoaria de luxo, não
há peça mais amada do que
os relógios com calendário
perpétuo, como é o caso do
Patek Philippe 2499 que Yoko
Ono terá oferecido a John
Lennon por ocasião do seu
40.º aniversário.

96 Um design que não


se esquece
Chegou ao mercado nacional
no início do Verão e tem
estado a conquistar amantes
do todo-o-terreno. Fomos
experimentar o Range Rover
Velar e contamos-lhe como
correu a viagem.

LÍDERES NEGÓCIOS
63 Um admirável
mundo novo
73 Em passo
apressado 58
Christian Balivet e Christine Em dois anos, a Carmo Wood
Pausewang vieram para enfrentou dois incêndios.
Portugal para dar dimensão Jorge Milne e Carmo garante
à empresa da família. Em que a sua empresa vai
apenas dois anos consegui- renascer mais forte e com
ram que fosse considerado maior dimensão, porque
um dos negócios mais disrup- todos os desafios são
tivos do mundo. E isto sem uma oportunidade.
sequer ser algo novo.
78 Na crista
66 Ao comando da da onda eléctrica
hotelaria mundial Sem ter dúvidas de que o
Lidera uma empresa de 15 futuro dos automóveis
mil pessoas distribuídas por passa pela electricidade,
mais de 80 países. Gillian Tans a Divergent 3D quer tornar
está à frente da Booking. os carros mais leves, baratos
com há quase dois anos e e com infinitas possibilidades
tem mostrado que é possível de design.
fazer uma grande empresa
crescer ainda mais. 80 A nova mina de ouro
A portuguesa Graphenest
68 Um gestor corajoso tem-se dedicado ao estudo
Gary Guittard fornece do grafeno, um material
desde a pastelaria de bairro que promete revolucionar
à gigante Starbucks e muitas indústrias. As portas
continua a fazer chocolate do mundo já se abriram a
como há 100 anos. Só assim esta empresa de Paradela do
conseguiu fazer face à forte Vouga, e o futuro revela-se
concorrência no sector. risonho.
EDITORIAL

Na crista da onda
a bolha das empresas da Internet, no final
da década de 1990, e mais recentemente
a bolha do crédito, em 2008, revelam is-

A
so mesmo. Mas será que aprendemos al-
generalidade dos guma coisa com estes casos? Não. A febre em redor do universo das cri-
investidores tem ptomoedas é sinal disso mesmo. No espaço de apenas um ano, a Bitcoin,
pouca memó- a moeda mais popular no mundo digital, valorizou 1338%, e o montan-
ria. Em particular te angariado por via de ICO (initial coin offerings, ou emissões de crip-
quando se trata de tomoeda) atingiu um valor recorde de 3 mil milhões de euros, 12 vezes
períodos negativos. mais do que todo o montante alcançado até então.
Por vezes, basta um rasgo de ga- A febre em redor das bitcoins e da tecnologia blockchain é de tal or-
nhos para depressa se criar um en- dem que cada episódio é um autêntico regresso ao passado. No final de
tusiasmo imensurável e a raciona- 2017, por exemplo, a empresa de bebidas Long Island Iced Tea decidiu
lidade se desvanecer rapidamen- mudar de nome para Long Blockchain Corp, com o intuito de reflectir
te da folha de cálculo, enchendo o um novo reposicionamento da empresa na tecnologia blockchain e no
mercado com ondas de optimis- universo das criptomoedas. Após o anúncio do rebranding, as acções
mo ilimitado achando que o pior chegaram a valorizar mais de 400%, com os investidores a verem nisso
já passou. uma oportunidade de investimento. Contudo, até ao momento, a Long
Desde que Al Gore lançou a sua Blockchain Corp não promoveu qualquer negócio com o intuito de de-
“Verdade Inconveniente” que as senvolver novas áreas no campo da blockchain e das bitcoins. Continua
energias renováveis entraram no simplesmente a produzir limonada e outras bebidas. O que sucedeu com
vocabulário de todos os investido- a Long Blockchain Corp e outras empresas (como a Kodak), que altera-
res. Virou uma moda. Hoje em dia ram o seu nome para acompanhar a nova moda do digital, foi exacta-
não há uma empresa que se não mente o que sucedeu com muitas empresas em pleno pico da bolha da
se proclame "amiga do ambien- Internet – e que acabou muito mal.
te" e um governo que não descure Há duas características semelhantes entre as bolhas de sabão e as
uma política ambiental centrada bolhas que se formam nos mercados: ambas são transparentes, e quan-
em apoios fiscais e linhas de cré- do rebentam, quem está por baixo é que fica encharcado. Ora de água,
dito bonificadas para apoiar o de- ora de prejuízos. Mas até que flutuam no ar, tudo é maravilhoso. Tudo
senvolvimento das energias ver- corre bem. Sobretudo para quem as consegue acompanhar. É isso mes-
des. Isso é bom para a economia, mo que fizeram Álvaro Pinto e Paulo Trezentos, co-fundadores da Ap-
para o planeta. É óptimo para to- toide: detectaram uma oportunidade no mercado e seguiram à boleia
dos nós. Mas fez também com que da bolha das criptomoedas. O resultado não podia ser melhor: no espa-
muitas empresas seguissem à bo- ço de três semanas ficaram ricos. Amealharam cerca de 13 milhões de
leia da onda verde e, apesar de te- euros com a emissão de uma moeda digital, a AppCoin. Para os accio-
rem pouco a ver com isso, passas- nistas da Aptoide, esta operação foi uma operação de génio: se por um
sem a vender-se como tal. Foi is- lado a empresa ganhou imediatamente um incremento desses milhões
so que fez a Martifer em 2007, em no seu valor patrimonial, os donos do capital também não viram redu-
pleno pico da bolha das renová- zida a sua participação.
veis, ao promover a sua operação Como nos conta a História, todas as bolhas têm um fim. Acabam por
pública de venda como uma em- explodir. Mais tarde ou mais cedo, a realidade bate à porta. Mas para Ál-
presa produtora de energias reno- varo e Paulo, isso pouco importa. O
váveis quando a principal área de
negócio era a construção de tor-
cheque já foi passado e será depo-
sitado, em breve, em moeda fidu-
A febre em redor
res de geração de energia eólica. ciária num lugar bem apropriado. das bitcoins e
O capital foi disperso a 8 euros por À semelhança de outras start-ups da tecnologia
acção e os títulos chegaram mes-
mo a negociar acima dos 12 euros.
que fizeram ICO, também os dois
co-fundadores da Aptoide esco-
blockchain é de tal
Hoje, as acções da construtora es- lheram o caminho da fundação, e ordem que cada
tão a transacionar nos 0,40 euros. estão a ponderar instalá-la na Suí- episódio é um
Mark Twain escreveu um dia ça, país onde estão sediadas ca-
que “a história não se repete, mas da vez mais empresas dedicadas autêntico regresso
rima”. A bolha verde, assim como à blockchain. ao passado.

8 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


FEVEREIRO 2018 – NÚMERO 25

DIRECTOR DIRECÇÃO COMERCIAL E DE EVENTOS REDACÇÃO E PUBLICIDADE


Luís Leitão Alexandra Berger Torre ZEN, Av. D. João II, Lote 41 – 12º Piso,
luis.leitao@forbespt.com + 351 912 350 097 Parque das Nações, 1990-084 Lisboa
geral@forbespt.com
DIRECTOR DE ARTE PUBLICIDADE
Paulo Couto Joana Barros TIRAGEM
joana.barros@forbespt.com 10 000 exemplares
EDITORA
+ 351 933 537 510
Margarida Vaqueiro Lopes PERIODICIDADE
ASSINATURAS Mensal
JORNALISTAS
www.forbespt.com IMPRESSÃO
Alexandre Frade Batista, Joaquim Madrinha,
+351 219 010 546 Jorge Fernandes, Lda.
Rita Meireles e Pedro Carreira Garcia
EDITOR Rua Quinta Conde de Mascarenhas, 9,
COLABORAM NESTA EDIÇÃO 2820-652 Charneca da Caparica, Portugal
Upstar Publicações S.A.
Alan Ohnsman, Ann Abel, Brian Dawson Torre ZEN, Av. D. João II, Lote 41 – 12º Piso, DISTRIBUIÇÃO
Patek, Joann Muller, Kurt Badenhausen, Parque das Nações, 1990-084 Lisboa
Nathalie Robehmed, Sofia Ramos VASP. MLP - Quinta do Grajal Venda Seca,
N.º contribuinte: 508 999 804 2739-511 Agualva Cacém
e Stacy Perman (texto), José Pedro Tomaz e
N.º REGISTO NA ERC
Victor Machado (fotografia), Margarida Pina A Forbes Portugal é uma publicação da Upstar
e Carlos Tomé (tradução), Joana Vicente 126826
Publicações S.A., publicada sob o acordo de
Pinto (revisão), Paulo Monteiro DIREITOS INTERNACIONAIS licenciamento com a Forbes Media LLC. “Forbes”
e Pedro Neves (opinião) Forbes Media LLC e Getty é uma marca usada sob a licença da Forbes LLC.

A Forbes Portugal é uma revista mensal focada no mundo dos negócios e da economia. Mas é mais do que uma
publicação que se limita a contar boas histórias sobre empresas e números. A Forbes Portugal quer surpreender, inspirar,
dar ideias aos leitores. Ideias que possam ser usadas no dia-a-dia, levá-los a derrubar barreiras e a vencer.
O estatuto editorial encontra-se publicado na página da Internet www.forbespt.com

PARABÉNS!
A FORBES É VENCEDORA DO
PRÉMIO CINCO ESTRELAS PELO 2º ANO CONSECUTIVO

Vencedor na Categoria: REVISTAS DE ECONOMIA E DE GESTÃO

Marcas avaliadas: 4

Testes realizados: Focus Group | Inquéritos de satisfação |


Estudo de mercado à marca na categoria de consumo

9,48 8,65 8,84 8,69 8,87


Total de consumidores envolvidos: 5384
NOTORIEDADE RIGOR SATISFAÇÃO CONFIANÇA INOVAÇÃO
NA MARCA

Escala de 1 a 10

SATISFAÇÃO
10 Forbes Portugal – FevereiroGLOBAL:
2018 89,00%
Moda
Pela primeira vez desde 2002,
Gisele Bündchen deixou de ser a
modelo que mais factura. Kendall
Jenner, de 22 anos, ocupa agora
o primeiro lugar da tabela.
Por NATALIE ROBEHMED

1O
AS

MODELOS
MAIS
BEM PAGAS
FOTO DE AXELLE/BAUER-GRIFFIN/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 11
2 4
GISELE ADRIANA
BÜNDCHEN LIMA
Brasil Brasil
37 anos 36 anos
16 milhões 9,6 milhões
de euros de euros

1 3 5
KENDALL JENNER CHRISSY GIGI
NACIONALIDADE: EUA TEIGEN HADID
IDADE: 22 anos EUA EUA

RENDIMENTOS (2017): 32 anos 22 anos


20 milhões 12,4 milhões 8,7 milhões
de euros de euros de euros

G
raças à sua conta no Ins- sua irmã, Kylie Jenner, e as várias presen- ga figura de capa da Sports Illustrated con-
tagram e que lhe permite ças nas redes sociais. segue milhões graças a contratos que vão
divulgar anúncios junto de Em segundo lugar figura a brasileira para lá do mundo da moda.
85 milhões de seguidores, Bündchen, com uma facturação de cerca
Kendall Jenner encaixou de 16 milhões de euros, e que teve um ano MODA NAS REDES SOCIAIS
o montante mais eleva- mais tranquilo. Esta modelo de 37 anos O ranking deste ano não revela apenas uma
do da sua carreira no último ano e desti- continuou a posar para uma fragrância da alteração no pódio. Entre as 10 modelos que
tuiu a brasileira Gisele Bündchen do trono. Carolina Herrera, para a marca de calçado mais facturam no mundo, verificou-se uma
Tudo graças a uma facturação de 20 mi- Arezzo e para as jóias Vivara, no seu Brasil profunda alteração no último ano. Veja-se
lhões de euros no ano que passou. natal, mas o facto de ter participado num o caso de Bella Hadid (em 9.º lugar da lis-
Entre as principais fontes de receita menor número de campanhas provocou ta e com 5,5 milhões de euros), uma famo-
de Jenner estão os avultados contratos ce- uma quebra de 43% dos seus rendimentos sa recém-chegada ao Instagram e que en-
lebrados com a Estée Lauder, a La Perla, face aos 28 milhões de euros registados tra para a tabela das mais bem pagas gra-
a Adidas, e outras grandes marcas mun- em 2016. Em terceiro lugar surge Chrissy ças a um ano muito agitado em que posou
diais; as receitas publicitárias do progra- Teigen (12,4 milhões de euros), que entra para mais de uma dezena de marcas como
ma televisivo que mostra o dia-a-dia da para esta lista pela primeira vez. Com um é o caso das linhas de maquilhagem Dior,
sua família; a sua linha de vestuário Ken- número de seguidores considerável nas re- Nike e cosméticos Nars. A sua irmã, Gigi
dall + Kylie que detém juntamente com a des sociais, esta amante da cozinha e anti- Hadid, ganha 3,2 milhões de euros mais do

12 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


6 8 10
ROSIE HUNTINGTON! LIU ASHLEY
!WHITELEY WEN GRAHAM
Reino Unido China EUA
30 anos 29 anos 30 anos
8,6 milhões 6 milhões 5 milhões
de euros de euros de euros

7 9
KARLIE BELLA
KLOSS HADID
EUA EUA
25 anos 21 anos
8,3 milhões 5,5 milhões
de euros de euros

que ela, sendo que é a primeira vez que es- mação informática e que já ministrou for- das a entrar para a lista das mais bem pagas,
tas irmãs constam ambas na lista da FOR- mação a mais de 500 raparigas até à data. tem as suas próprias linhas para marcas co-
BES. “As redes sociais oferecem mais pos- “Percebi que, com a minha presença e com mo a Addition Elle, Dressbarn e Swimsuits
sibilidades de desenvolvermos o nosso pró- esta plataforma, conseguia chegar às jovens For All e participou em campanhas para a
prio conteúdo e de nos expressarmos,” afir- do meu país e de todo o mundo”, disse Kloss Lane Bryant e H&M, entre outras.
mou Ivan Bart, presidente da IMG Models. à FORBES. “E se conseguir ajudar meia dú- A moda está a dar passos no sentido
E as estrelas não se coíbem de as usar em zia de raparigas que seja, isso, só por si, já é da inclusão, no entanto Liu Wen (6 mi-
seu proveito. Karlie Kloss (8,3 milhões de significativo.” lhões de euros) continua a ser a única mo-
euros) é uma dessas figuras. Ao descentralizar a fama, as redes sociais delo não branca na lista das dez mais. Mas
Com um canal no YouTube e um talk deram poder a mulheres que dantes eram ig- as coisas estão a mudar: um estudo recen-
show que será transmitido na rede televisi- noradas pelo mundo da moda. Ashley Gra- te da FashionSpot concluiu que, pela pri-
va Freeform, Kloss conseguiu uma grande ham (5 milhões de euros) conta com uma meira vez, mais de 30% das modelos es-
audiência nas redes sociais — cerca de 12,6 grande audiência, não dependendo assim colhidas nos castings para as campanhas
milhões de seguidores numa série de pla- apenas dos editoriais para conseguir uma de publicidade de 2017 não eram brancas,
taformas— de modo a aumentar o prestígio maior exposição - editoriais estes que rara- o que significa que as modelos de outras
da Kode With Klossy, uma organização sem mente incluem modelos com medidas acima etnias estão agora a participar não só nos
fins lucrativos que pretende combater a dis- dos tamanhos de referência. Graham, a pri- desfiles, onde o cachet é baixo, mas tam-
paridade entre géneros na área da progra- meira modelo com formas mais arredonda- bém em anúncios lucrativos. J

FOTOS DE GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 13


Investimento

COMPRE PATEK PHILIPPE,


VENDA ARTE ITALIANA
Siga os conselhos de especialistas em investimentos em produtos de luxo – uma opção muito
mais prazerosa do que apostar em fundos. BRIAN DAWSON PATEK

AL BRENNER JOHN REARDON ANDREA ROBINSON


Presidente-executivo do MutualArt, Director internacional Mestre sommelier, autora
o maior repositório de informação da secção de relógios da e criadora da marca de copos
online sobre o mercado de arte Christie’s de Nova Iorque de vinho The One

COMPRAR COMPRAR COMPRAR


Njideka Akunyili Crosby. Esta artista nigeriana- Cronógrafos vintage da Patek Philippe das décadas Cabernet Sauvignon
americana (1) teve um ano notável, com exposições de 1940–1950. As oportunidades de compra deste Doubleback de 2014.
muito aclamadas no Metropolitan Museum (MET) tipo de cronógrafos da primeira era dourada do de- Pontuação máxima para
e noutros museus, para além de uma exposição a sign de relógios de pulso são imensas (3). Referências os vinhos de Washington
solo em Baltimore. Apesar de só dez das suas obras como o 130, 1579 e 1463 podem atingir preços eleva- com este vinho intenso e
terem chegado a leilão, sete delas foram muito além dos e subir ainda mais no futuro próximo. notas que se sobrepõem.
das estimativas já de si elevadas. Compre agora A produção é do antigo
para não se arrepender mais tarde. 5 jogador de futebol
americano Drew Bledsoe
1 (5)
. Se o abrir agora
devolve-lhe um sabor
ameixa-
3 -licoroso e se o
guardar envelhece
perfeitamente.

MANTER
Independent Masterpieces. Qualquer pessoa
que já tenha tido o prazer de experimentar um
relógio único Philippe Dufour— a sua simplicidade
refinadamente mecânica, por exemplo — sabe
MANTER que é um objecto especial. Escolha um para si
Francis Bacon. Um silêncio de espanto reinava na lei- e mantenha-o por uma ditosa eternidade.
loeira Christie’s a 6 de Outubro, quando o “Estudo do
Papa Vermelho” (2), cujo valor muitos estimavam vir a VENDER
atingir mais de 90 milhões de euros, não recebeu uma 4
Turbilhões Richard MANTER
única oferta. Um segundo Bacon seria arrematado, Mille. Com menos Gran Reservas de 2005 da Rioja. Estes vinhos
contudo, por 12,3 milhões de euros, mas este flop de duas décadas de têm vindo a afirmar-se graças às suas notas de
público deixaria o mercado um pouco tremido. idade, a empresa especiarias e cabedal. São vinhos aveludados
é conhecida pelos que mantêm as suas qualidades durante,
VENDER seus relógios com pelo menos, uma década.
A arte italiana do pós-guerra está omnipresente nos complicações
leilões, e as recentes alterações nas leis de exporta- extraordinárias (4). VENDER
ção de Itália tornaram este tipo de transações cada O valor de revenda Cabernet de culto da Califórnia de 1997. O vintage
vez mais fáceis. Mas mantém-se a dúvida sobre se es- é relativamente continua na berra mas estes vinhos envelhecidos
te mercado vai manter o ritmo. As vendas deste tipo elevado nos dias que durante 20 anos, salvo uma ou outra excepção,
de obras em 2017 desceu face a 2016— e o total de correm; vale a pena não estagiaram como deviam e têm um sabor gasto
vendas na Sotheby’s baixou 21%. apanhar esta onda. que mostra que o seu estado ideal já passou.

CRONÓGRAFO PATEK PHILIPPE: CORTESIA DA CHRISTIE’S; TURBILHÃO RICHARD MILLE LOTE 228: CORTESIA
14 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 DA CHRISTIE’S NJIDEK A AKUNYILI CROSBY: DONATO SARDELL A/GETT Y IMAGES; AKUNYILI, I REFUSE TO BE
INVISIBLE: CORTESIA DA CHRISTIE’S; BACON, ESTUDO DO PAPA VERMELHO: JACK TAYLOR/GETT Y IMAGES
NA
MESMA
MOEDA... Quem lê o negócios lê pela positiva.

Fique por dentro do mundo dos negócios com o jornal que tem um papel decisivo
Ler é poder.
na tomada de decisões. Em papel, no site ou mobile, toda a informação com o mesmo
rigor. Boas notícias ou más decisões? Só depende de si e do jornal que lê.
Emprego

ÍMANES DE
PROFISSIONAIS
Há duas portuguesas entre as 500 empresas que mais talento atraem
no mundo. O nosso ranking conta com uma tecnológica no lugar
cimeiro, e com algumas surpresas que não vêm dos EUA
A Jerónimo Martins e a Galp foram con- nho das funções” e “estímulo ao desen-
sideradas pela FORBES como as empre- volvimento e à excelência profissional”.
sas portuguesas mais atractivas para os Mais focados nos recém-licenciados estão
trabalhadores. Todos os anos, a edição dois programas de recrutamento e desen-
norte-americana publica a lista das 2 mil volvimento de jovens talentos promovidos
maiores empresas do mundo consoante pela dona dos supermercados Pingo Doce.
diferentes critérios. Na edição de 2017, no Já a Galp, mais parca em palavras na sua
sub-ranking Best Employers, ou melhores página web, promove o Generation Galp,
empregadores, figuram as duas multina- programa para trainees que visa integrar
cionais portuguesas, únicas representan- jovens de elevado potencial nos quadros
tes do país. A retalhista nacional, que con- da empresa. A atractividade salarial jun-
ta com mais de 96 mil colaboradores, figu- to dos quadros de gestão destas duas em-
ra no 274.º lugar, ao passo que a energéti- presas, tão decisiva para a escolha de em-
ca portuguesa ocupa a 286.ª posição, com pregos, perde-se nas médias: segundo da-
quase 6500 colaboradores. O ranking ba- dos da Deco Proteste referentes a 2016,
seou-se em 360 mil contribuições de pro- o salário médio mensal da retalhista ron-
fissionais de empresas públicas, espalha- da os 695 euros, ao passo que na Galp, com
dos por 58 países. mão-de-obra mais especializada, este é
Com operações em Portugal, Poló- de 2568 euros.
nia e Colômbia, a Jerónimo Martins de- A lista das empresas mais atractivas é
fende na sua página da Internet as razões encimada pela Alphabet, entidade norte-
pelas quais eventuais interessados se de- -americana criada em 2015 que agrega os
vem juntar à maior empresa portuguesa activos da gigante tecnológica Google. Se-
de grande distribuição: “perspectivas de gue-se a Microsoft, em segundo lugar, e a
progressão”, “valores e ambiente de tra- gestora Japan Exchange Group, na terceira
balho”, “reconhecimento do mérito”, “for- posição. Anote os nomes e… comece a man-
mação necessária ao correcto desempe- dar currículos. J PEDRO CARREIRA GARCIA

OS MELHORES EMPREGADORES DO MUNDO


A selecção foi feita por milhares de trabalhadores, que criticaram e elogiaram,
de acordo com diversos parâmetros, a sua empresa e as empresas de outros.
O resultado, coligido pela FORBES, está num ‘ranking’ no qual as seguintes
entidades ocupam os primeiros lugares. Fonte: FORBES e empresas

1 2 3 4 5
ALPHABET MICROSOFT JAPAN EXCHANGE GROUP APPLE NOBLE ENERGY
PAÍS: PAÍS: PAÍS: PAÍS: PAÍS:
EUA EUA Japão EUA EUA
SECTOR: SECTOR: SECTOR: SECTOR: SECTOR:
Tecnologia Tecnologia Finanças Tecnologia Petrolífero
FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO:
74,6 mil milhões de euros 70,8 mil milhões de euros 800 milhões de euros 180 mil milhões de euros 2,8 mil milhões de euros
N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS:
72 053 114 000 1161 116 000 2274

16 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


A Jerónimo Martins, liderada
por Pedro Soares dos Santos,
e a Galp Energia são as únicas
empresas portuguesas a garantir
um lugar entre os melhores
empregadores do mundo.

6 7 8 9 10
DAIMLER WILLIAMS IBM INVESTOR AB LG CORP.
PAÍS: PAÍS: PAÍS: PAÍS: PAÍS:
Alemanha EUA EUA Suécia Coreia do Sul
SECTOR: SECTOR: SECTOR: SECTOR: SECTOR:
Automóvel Petrolífero Tecnologia Finanças Electrodomésticos
FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO: FACTURAÇÃO:
140 mil milhões de euros 6 mil milhões de euros 66 mil milhões de euros 6 mil milhões de euros 7 mil milhões de euros
N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS: N.º DE FUNCIONÁRIOS:
282 488 5604 380 000 19 292 16 096

FOTO DE VICTOR MACHADO Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 17


Licenciada em Gestão, em 1994, ca e a Universidade Nova, com
pelo Instituto Superior de Eco- o MIT) também reserva blocos
nomia e Gestão (ISEG), Ana- da semana (quarta-feira de ma-
bela não resistiu, alguns anos nhã ou sexta-feira de manhã)
mais tarde, a fazer o seu pró- para si e não enche a sua agen-
prio MBA na Universidade Ca- da com reuniões, na tentativa 2
tólica. Depois de ter realizado o de ser mais eficiente no equi-
sonho de uma carreira interna- líbrio entre o tempo pessoal e
cional com a BP, quando este- profissional. Não gosta de stress
ve no México e em Londres, de- e apesar de lidar com circuns-
cidiu regressar a Lisboa. O seu tâncias inesperadas, prefere
último trabalho nesta multina- relativizar a importância das
cional, passados quase 14 anos coisas e costuma dizer aos seus
de carreira, foi como responsá- colegas “que ninguém vai mor-
3
vel pela marca BP Ultimate e rer, pois não estão numa sala de
pelo marketing estratégico de operações”.
Portugal e de Espanha. Desde 2013 que cultiva um
Madrugadora, é no início “diário de agradecimento” on-
do dia que “está no seu máxi- de escreve regularmente para
mo” e por isso guarda os temas praticar a gratidão. “É mais fácil
mais estratégicos, e que impli- focarmo-nos no mau do que no
cam mais concentração, para bom. Se nos esforçarmos para
essas horas matinais. Anabela pensar no que correu bem, co-
Possidónio, directora-executi- meçamos a olhar para as coi-
va do Lisbon MBA (uma parce- sas de forma diferente”, conclui
ria entre a Universidade Católi- Anabela. J SOFIA RAMOS

1. Livros: É autora Nova e o MIT (Instituto de e esforça-se por comer mais 6. Fotografia da turma de que “tenho de ir para casa”
de um capítulo do livro Tecnologia de Massachusetts). verduras. Interessa-se muito 2017: Foto dos alunos no pois estão à minha espera”.
“Como chegar a líder”, pelo tema da alimentação. MIT (Instituto de Tecnologia
onde escreveu sobre como 3. Certificado de Coaching: de Massachusetts), quando 8. O Lisbon MBA acreditado
escolher uma formação. Já o O coaching deu-lhe a 5. Boneco do México e tiveram em imersão nesta pela Associação dos MBA:
livro sobre mindfulness, está técnica para conhecer recordações de Xangai e do Universidade em Cambridge, Este é o último certificado
muito ligado ao coaching, de melhor os outros, apesar de Dubai: Este boneco trouxe-o EUA, em 2017. de 2015, conseguido de 5 em
onde recolhe alguns exercícios confessar “ser surpreendida, do México e a sua mensagem 5 anos.
práticos que partilha com os quase todos os dias, na sua é que “todos somos mortais e 7. Desenhos das filhas:
seus alunos. interacção com as pessoas”. por isso é importante retirar A Maria Luís, de 10 anos, 9. Secretária: Não tem
o melhor prazer da vida e da Matilde, de 5, papéis na secretária, pois
2. Posters: É uma peça de 4. Bebidas: Gosta de chás enquanto a vivemos”. ofereceram-lhe estes movimenta-se entre as duas
comunicação do Lisbon MBA e infusões e tenta beber As outras duas recordações desenhos no dia da mãe. “É um universidades, e procura ter
que destaca a parceria entre diariamente 1,5 litros de de viagem resultam de bocadinho delas” e é sempre o máximo da documentação
as três universidades: Católica, água. Prefere peixe à carne, parcerias internacionais. uma boa forma de se lembrar em formato digital.

18 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


8

Escritório do Líder

ESTUDANTE PARA A VIDA


Está há 4 anos à frente do Lisbon MBA. Entre dois escritórios ao longo do ano,
Anabela Possidónio gere o seu tempo de forma eficiente e cultiva um diário
de agradecimento para se lembrar porque é importante “aproveitar a viagem”.

FOTO DE VICTOR MACHADO Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 19


Motivação por...
… MARK ZUCKERBERG

Nunca esperei vir a formar uma empresa. A mi-


nha grande motivação era colocar as pessoas em
contacto entre si, aproximando-as deste mo-
do. Anos depois de criar o Facebook, algumas
empresas grandes quiseram comprar-nos. Qua-
se todos queriam vender, mas eu não. Queria ver
se conseguíamos ligar mais pessoas. Isto provo-
cou cisões na empresa e minou algumas relações,
e ao fim de cerca de um ano, quase todas as
pessoas da administração tinham saído. Esse
foi o período mais difícil para mim à frente do
Facebook. Acreditava no que estávamos a fazer,
mas sentia-me sozinho. E o mais grave é que a
culpa era minha. Isto ensinou-me que não basta
ter uma missão. Temos de incutir esse sentido de
missão nos outros. E eu não lhes tinha explicado
o que esperava construir.
O sentido de missão gera motivação e ajuda a
dar um sentido à vida das pessoas para lá da me-
ra sobrevivência ou de fazer dinheiro. Atrai ou-
tras pessoas igualmente interessadas em fazer
o que está certo. Quem aqui trabalha desenvol-
ve produtos porque quer fazer algo relevante e
que tenha um papel importante na forma como
as pessoas usam o Facebook. A empresa tem de
ser bem-sucedida para poder avançar, mas a ver-
dadeira motivação é ter essa capacidade de ge-
rar mudanças sociais positivas no mundo. E isto
aplica-se também à maioria das boas empresas.
Criar algo como o Facebook e gerir uma comu-
nidade como a nossa requer alguma inspiração.
Grande parte da nossa estrutura de chefia es-
tá sintonizada nesse sentido. A nossa orienta-
ção como empresa é a de disponibilizar serviços
para o maior número de pessoas possível para
podermos dar voz a todas as pessoas no mundo.
As pessoas pedem-me muitas vezes conselhos
sobre como criar uma empresa, ao que lhes res-
pondo sempre que o objectivo não deve ser nun-
ca criar uma empresa. Centrem-se nas mudan-
ças que queremos operar, procurem pessoas
que partilhem do mesmo sentido de missão e
acabarão por descobrir uma oportunidade de
desenvolver algo que faça sentido e com impacto
positivo no mundo.

Mark Zuckerberg é um dos jovens mais ricos da sua geração


graças ao Facebook, a maior e mais popular rede social do
mundo, que fundou em 2004 com apenas 19 anos a partir de
um dormitório na Universidade de Harvard. É considerado
uma das maiores mentes brilhantes do universo tecnológico.
Não basta ter uma
Em Maio de 2012, abriu o capital da empresa em Bolsa,
atingindo rapidamente o estatuto de milionário. Hoje,
missão. Temos de incutir
com 33 anos de idade, é presidente-executivo do Facebook
e detém uma participação de 17% na empresa, que está
esse sentido de missão
avaliada em cerca de 450 mil milhões de euros. nos outros.

20 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE BLOOMBERG/GETT Y IMAGES


APELO À UNIÃO
O Fórum Económico de Davos, que
teve lugar entre 23 e 26 de Janeiro,
focou-se na necessidade de o mundo
se unir para enfrentar a actual
situação de “fractura” que se sente
no globo. Em cerca de 400 sessões
discutiram-se novos modelos de
cooperação para responder a crises
geopolíticas, à escassez de recursos,
às transformações económicas
e à quarta revolução industrial.

22 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


2500
Mais de 2500 líderes de áreas
tão diversas como empresas,
organizações internacionais,
academia, media, artes, Governos e
sociedade civil juntaram-se durante
quatro dias na cidade suíça para um
dos maiores fóruns mundiais.

FOTO DE FABRICE COFFRINI/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 23


Os

milhões
do
ital
dig
A Aptoide é um dos casos de
sucesso do ecossistema nacional de
start-ups. Ao fim de seis anos desde
a sua fundação, Paulo Trezentos
e Álvaro Pinto conseguiram criar
um negócio que rivaliza com o
gigante da Google. Mas agora
decidiram mudar de rumo. E tudo
por conta do fascinante universo
das criptomoedas e da tecnologia
blockchain, que já produziu os
primeiros milionários, incluindo os
dois fundadores da Aptoide.
PEDRO CARREIRA GARCIA
Fotos de
VICTOR MACHADO

24 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


FORMAÇÃO:
Doutorado em
Engenharia
PAULO Informática
pelo Instituto
TREZENTOS Superior Técnico
CARGO:
Co-fundador e
presidente-executivo

FORMAÇÃO:
Licenciatura em Direito
na Faculdade de Direito
ÁLVARO da Universidade de
Lisboa
PINTO CARGO:
Co-fundador e
director de operações

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 25


A
 
Aptoide

20 de Dezembro de 2017, a Ap-


toide terminava aquela que foi
a primeira emissão de crip-
tomoeda efectuada por uma
empresa com sede em Portu-
gal. A Bitcoin, a moeda digital
que atingiu valorizações as-
tronómicas, não anda sozi-
nha no éter: está sim acompanhada por cente-
nas de novas moedas digitais, algumas criadas
por start-ups , que estão a chegar ao mercado. É
o caso da portuguesa Aptoide, que ao emitir a sua
própria criptomoeda encaixou, em apenas três
semanas, o equivalente a 13 milhões de euros.
Os chamados ICO (initial coin offerings, ou
emissões de criptomoeda) são a nova moda do
mundo digital. Trata-se de um mecanismo uti-
lizado pelas empresas para se financiarem sem
terem que despender qualquer percentagem de
capital e a um custo baixíssimo. Os ICO ganharam
particular popularidade em meados do ano pas-
sado, movimentando a partir daí valores nunca
Aptoide to] das app stores”, pode ler-se no whitepaper
da Aptoide - uma espécie de prospecto - publi-
cado antes da emissão. As AppCoins permitirão,
vistos no mundo inteiro. A Aptoide, aproveitan- FUNDAÇÃO: 2011 numa fase inicial, transacções na plataforma e
FUNDADORES: Álvaro Pinto
do as excelentes condições de mercado, agarrou dentro das aplicações. Os dois fundadores espe-
e Paulo Trezentos
a oportunidade no final do ano passado. Álva- FUNCIONÁRIOS (2016): 45
ram alargá-la a outras plataformas semelhan-
ro Pinto e Paulo Trezentos, fundadores da start- tes. Defendem que esta criptomoeda tem uma
O produto da Aptoide é igual ao
-up portuguesa, apresentaram a AppCoin, uma enorme vantagem, apelativa para investidores:
oferecido por grandes lojas como
moeda que, garantem, facilitará as transações a Google Play, do gigante Google: é a primeira emissão que serve uma comunida-
na área de negócio da Aptoide: a compra e ven- aplicações para Android. Mas de tão vasta como a dos utilizadores da Aptoide.
da de aplicações. difere por ser descentralizada: Além de apostarem no ICO, os dois empreen-
Mesmo antes desta operação, a Aptoide já era “Quando a Aptoide arrancou, dedores estão a reformular a empresa de alto a
notada como um dos casos de sucesso do ecos- havia só uma loja, a Google Play, baixo para investirem numa tecnologia indisso-
que tentou concentrar todos os
sistema nacional de start-ups. Fundada em 2011 serviços de distribuição de apps. ciável da aposta na criptomoeda: blockchain. E o
através de um spin-off de uma tecnológica es- É uma loja centralizada. Mas que é a blockchain, um dos novos credos da tec-
pecializada em sistemas Linux, a Caixa Mágica, há outros modelos: o modelo nologia contemporânea? Grosso modo, é uma
a Aptoide começou por registar um crescimen- que a própria Google seguiu no tecnologia que tem subjacente a existência de
to orgânico e acelerado: em 2013 já tinha uma YouTube, por exemplo, é, para um registo descentralizado. Em vez de ser ape-
nós, muito mais interessante”,
vasta base de utilizadores que alcançava mais explica Álvaro Pinto. “Nesse
nas uma entidade a possuir o registo de tran-
de 20 milhões de utilizadores únicos. Hoje, já são modelo há múltiplas lojas e canais, sacções, todos os intervenientes estão na pos-
200 milhões. Segundo Álvaro e Paulo, o objec- e qualquer pessoa pode ter um se desse registo, em permanente actualização e
tivo é chegar aos 1000 milhões em 2020. E, ao canal para distribuir conteúdo”, sincronização. É um mundo novo que está a vi-
que parece, não têm medo de competir com gi- acrescenta. Na Aptoide, por rar de pernas para o ar o ecossistema mundial
exemplo, é possível criar listas e
gantes como a Google Play, concorrente directa de start-ups, ansiosas por não perderem este
canais próprios da responsabilidade
na venda de aplicações para Android: “A inova- de cada utilizador. O modelo de comboio. Apesar das dúvidas e dos riscos que
ção que traz mudanças no mercado existe por- negócio assenta em duas fontes envolve o novíssimo mundo das criptomoedas.
que empresas mais pequenas têm um produto de receita: monetização de
que é de alguma forma disruptivo”, explica Ál- aplicações - a venda de aplicações, DESAFIOS DA CRIPTOMOEDA
varo à FORBES, na multicolorida sede da start- a possibilidade de utilizadores O furor internacional com a Bitcoin, uma das
comprarem itens digitais dentro
-up, em Lisboa. das apps - e publicidade efectuada moedas digitais mais conhecidas e com va-
A “loja de aplicações” da Aptoide tem sido na plataforma, a maior fonte de lorizações astronómicas, faz com que muitos
um sucesso. De acordo com as últimas contas receitas da empresa. levantem os alarmes de “bolha” com explosão
disponíveis, em 2016, a empresa dos dois em-
preendedores facturou 3 milhões de euros. Mas
Álvaro e Paulo não querem parar aqui. Querem Álvaro Pinto e Paulo Trezentos, depois de
crescer mais. E um dos passos para assegurar se baterem com a Google, estão agora a
esse crescimento foi o ICO das AppCoins. O ob-
jectivo da nova criptomoeda é “mitigar as ac-
reformular a Aptoide de alto a baixo para
tuais deficiências inerentes [ao funcionamen- apostarem na tecnologia blockchain.
26 Forbes Portugal – Fevereiro 2018
A Aptoide nasceu de um estágio de Verão em 2009
criado sob a alçada de uma empresa especializada em
sistemas Linux, a Caixa Mágica. No final de 2011, a casa-
-mãe apercebeu-se de que o projecto estava a ganhar
alguma tracção e acabou por criar um projecto autónomo.
Justificou-se assim o spin-off que deu origem à Aptoide de
hoje, fundada e liderada por Álvaro Pinto e Paulo Trezentos.

te a aproveitar a onda [para fazerem ICO]. Por


outro lado, há investidores prontos a comprar
tudo o que diz crypto”, contextualiza.
Em apenas oito dias de Dezembro último,
a Aptoide conseguiu alcançar em criptomoe-
da o equivalente a 11 milhões de euros. A somar
ao valor colectado na pré-venda, que decorreu
durante duas semanas em Novembro, o mon-
tante total ascende aos 13 milhões de euros - ou
60,12 mil Ethereums, a criptomoeda que deno-
minou a emissão. Valor incomum - pela quan-
tia generosa e pelo curto espaço de tempo em
que foi obtida, em troca de moedas - ou tokens,
no jargão da comunidade digital. “A perspec-
tiva da maioria das pessoas que contribuíram
para este ICO é de vir a utilizar os serviços que
nós nos propomos desenvolver. O facto de ser
uma plataforma com visibilidade dá credibi-
lidade ao projecto. E as pessoas acreditam no
potencial do blockchain poder trazer melho-
res serviços para esta indústria. Foi com ba-
se nisso que compraram as suas moedas”, re-
sume Álvaro.
O modelo do ICO é um modelo aberto, se-
melhante ao crowdfunding, pelo que “qual-
quer pessoa pode investir”, diz Álvaro. A Aptoi-
de conseguiu convencer mais de 3 mil investi-
dores, provenientes de todos os continentes, a
apostarem na sua criptomoeda. Só no último
iminente do mundo das criptomoedas. A rea- SUCESSO NO dia da operação, dia 20 de Dezembro, três en-
lização de ICO é uma tendência que acelerou MUNDO ANDROID tidades adquiriram o equivalente a 8,5 milhões
de forma muito expressiva a partir de Abril de A Aptoide tem registado um de euros em tokens, segundo o Etherscan, site
2017, segundo o site Coindesk. Nesse mês, o va- aumento quase exponencial das com o registo de todas as transacções de crip-
lor global angariado através de ICO foi de 86 mi- receitas nos últimos anos. Além tomoeda baseada em Ethereum. Sobre a pro-
disso, tem uma invejável solidez
lhões de euros. Já em Novembro, o valor subiu veniência dos compradores, especial destaque
financeira para uma start-up
para 618 milhões de euros. No total do ano pas- com tão pouco tempo de vida: a vai para a Ásia, muito fruto do trabalho das de-
sado, segundo o site especializado Coinsche- venda de apps para Android na legações da empresa em Singapura e Shenzen,
dule, o financiamento obtido através de emis- sua plataforma permitiu atingir o na China, dedicadas ao desenvolvimento de ne-
são de criptomoeda alcançou os 3,1 mil milhões break-even do investimento em gócio numa zona em grande parte responsá-
2016 e conferir à empresa capitais
de euros repartidos por 235 ICO - uma média vel pelo aumento de utilizadores da platafor-
próprios robustos, na ordem dos
de 13 milhões para cada empresa. Apesar do 3,9 milhões de euros. ma, explicam.
crescimento explosivo de ICO pelo mundo fo- Fonte: Informa DB. Para se perceber a dimensão do ICO da
3781

ra, há muitas dúvidas no que concerne a este empresa de Álvaro e Paulo, basta pensar que
tipo de ferramenta de financiamento. “O fac- Volume de negócios a Aptoide recorreu a duas rondas tradicionais
(em milhares
to de a Bitcoin estar a ter cada vez mais aten- de euros) de financiamento antes desta aventura digital:
ção e de o preço estar a subir faz com que seja capital-semente e uma Série A. Nesta última
mais atractivo para as empresas entrarem nes- angariou, em 2016, num consórcio composto
1191

ta área e emitirem as suas próprias criptomoe- por quatro fundos de capital de risco, apenas
392
286

das”, explica Teunis Brosens, analista do ban- 3,3 milhões de euros. Bem abaixo do que con-
co ING especialista nesta área, à FORBES. “Do seguiram captar nesta emissão de criptomoe-
lado das empresas, muitas estão simplesmen- 2013 2014 2015 2016 da. A Farfetch, por exemplo, o único unicórnio

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 27


Aptoide

“O levantamento de capital é sempre um processo muito


difícil, que exige muito foco dos fundadores”, explica
Álvaro Pinto, co-fundador da Aptoide.

português (empresa avaliada em mais de 1000


milhões de euros) conseguiu um financiamen-
to de 3,1 milhões de euros em 2010 numa Série
A, mas só angariou mais de 13 milhões de euros
(o valor do encaixe do ICO da Aptoide) apenas
dois anos mais tarde, e sempre junto do mer-
cado de capitais tradicional, ao levantar numa
Série B 14 milhões de euros.

VELOCIDADE DE CRUZEIRO
Quando em 2016 a Aptoide foi ao mercado fi-
nanciar-se, conseguiu fazê-lo numa ronda lide-
rada pelo fundo de capital de risco e.ventures,
especializado em investir em empresas da área
do mobile e de Internet de consumo. Nesta ron-
da, participaram também os fundos Portugal
Ventures, Golden Gate Partners e Gobi Ventu-
res. Foi um “namoro” moroso, que durou no-
ve meses até à assinatura do contrato. “O le-
vantamento de capital é sempre um processo
muito difícil, que exige muito foco dos funda-
dores. Implica falar com os investidores, esta-
belecer uma relação de confiança e, a partir
daí, as coisas tornam-se mais fáceis”, explica
Álvaro. O co-fundador da Aptoide não consi-
dera que angariar dinheiro no mercado de ca-
pitais tradicional - neste caso, junto de fundos
de venture capital - seja difícil, mas reconhece
que “é um processo que leva o seu tempo, mes-
mo tendo um projecto de qualidade. Só o pro-
cesso de due diligence da parte dos investido-

LOUCURA NO DIGITAL res “não se faz numa semana ou duas”, ironiza.


O valor angariado através de initial coin offerings (ICO) foi residual entre 2014 e 2016 em com- Uma morosidade relativa que difere da maior
paração com o conseguido só em 2017: até 2016, os ICO captaram globalmente pouco mais facilidade em angariar dinheiro através de um
de 260 milhões de euros, enquanto que só no ano passado as empresas que conduziram estas ICO, dado ser uma ferramenta de financiamen-
operações de financiamento conseguiram um valor agregado de mais de 3 mil milhões de euros. to que, como não é alvo de regulação especí-
Fonte: Coindesk e Oanda.com.
fica, não tem de seguir obrigações legais, nem
tem os custos inerentes a essas exigências, co-
mo a contratação de bancos. “Na sua expres-
são mínima, um amador conseguiria lançar

2O17

3OO1
um ICO implementando uma criptomoeda
em cima do Ethereum [criptomoeda concor-
rente da Bitcoin que permite a criação de no-
2O14 -16 vas moedas baseadas na sua infra-estrutura]

263
e, com pouco conhecimento técnico e usando
manuais on-line, poderia ter a sua criptomoe-
da em menos de 24 horas. E também gastan-
do dinheiro em Google AdWords para angariar
’investidores’, qualquer um o pode fazer”, con-
sidera Paulo Santos, fundador do portal Think
Finance e autor de artigos sobre Bitcoin no po-
Valor global dos ICO (em milhões de euros) pular site SeekingAlpha, dedicado aos merca-

28 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


dos financeiros. À FORBES, o especialista diz
que, partindo destes pressupostos, “um ICO se-
Mais de 3 mil investidores apostaram na
rá extraordinariamente mais barato, fácil e rá- criptomoeda criada pela Aptoide.
pido de lançar do que qualquer outra alternati- Só no último dia da operação, 3 entidades
va de financiamento accionista ou obrigacio-
nista tradicional.” adquiriram 8,5 milhões de euros em tokens.
Paulo Santos é contundente em relação às
perspectivas de futuro das criptomoedas: “O fi- los, estão associadas a uma parte daquilo que
nanciamento tradicional é extremamente re- aqueles fundos servem para comprar. Mas esta
gulamentado devido a esta realidade. Este fi- moeda não é uma security”, ou valor mobiliário,
nanciamento via ICO vai mostrar o que acon- explica o co-fundador. E também por isso, os
teceria sem essa regulação. O resultado será accionistas da Aptoide estão confortáveis e sa-
que praticamente todos os ICO cairão em ruína tisfeitos com a decisão de conduzirem um ICO.
completa”, antecipando que uma “percentagem À FORBES, fonte da Portugal Ventures de-
surreal” de ICO, acima de 95%, “perderão a to- fende que os ICO constituem “uma ferramen-
talidade do seu valor.” Muitos tokens passarão ta complementar ao capital de risco, particu-
a valer nada, garante. Já os venture capitalists larmente importante em ecossistemas em-
como Tim Draper, sócio do fundo Draper Fisher preendedores como o português onde o aces-
Jurvetson - investidor em empresas emblemáti- so a rondas de investimento muito elevadas é
cas como a Tesla de Elon Musk e na portuguesa A GÉNESE DA APPCOIN ainda limitado.” Já o líder da e.ventures, Jona-
Talkdesk, de Tiago Paiva -, acredita na massifi- Na comunicação que fez do ICO, than Becker (um dos 30 jovens com menos de
cação futura das criptomoedas. “O futuro será a Aptoide explica o que são as 30 anos da área financeira a ter em conta no
espinhoso, mas é-o sempre quando se trata de AppCoins e o que pretendem futuro) defende que o ICO, e a criação da App-
produtos revolucionários. O mundo irá adop- ser no ecossistema das app Coin, “era uma oportunidade única de criar um
tar a Bitcoin e os ICO aos solavancos”, explica stores. Detalha abundantemente protocolo aberto que a Aptoide aplicará na sua
o racional de investimento e a
à FORBES. Acredita que muitos comerciantes base de utilizadores já existente, que todos po-
proposta de valor relacionada
“irão querer aceitar Bitcoin em breve” nos pa- com as AppCoins. Revela que dem adoptar”, garante à FORBES.
gamentos. Mas, como investidor, só aprova ICO controlaram a proveniência do No mundo digital, a negociação dos tokens
de “start-ups que estejam a criar um ‘movimen- dinheiro através da confirmação no mercado secundário é um dos elementos
to’ através do qual tenham um grande núme- dos investidores, assegurando mais atractivos para muitos investidores. A
ro de seguidores que possam criar um merca- a qualidade da proveniência do emissão original da Aptoide aos investidores
do para os tokens a longo prazo”. O que pare- capital. Alertam ainda para o foi de 160 milhões de tokens, num total de 450
risco que representa investir
ce ser o caso da Aptoide, com uma vasta base em criptomoedas em múltiplos
milhões existentes. No início de Janeiro, a Ap-
de utilizadores. Porém “muitas estão apenas a canais de contacto, como o toide começou a cotar numa bolsa, a Binance.
tentar captar capital barato”, alerta. Twitter. Mas nem todas as start- O valor das AppCoins disparou nos primeiros
-ups primam pela transparência dias de negociação: dos 0,10 dólares do preço
DINHEIRO A TROCO DE TOKENS quando conduzem uma emissão de venda, a cotação no dia 10 de Janeiro ron-
A entrada de investidores no capital pressupõe deste tipo. “O reverso da medalha dava os 2,95 dólares (cerca de 2,46 euros) por
é que isto será fácil para pessoas
sempre a emissão de acções da empresa com token, numa valorização de 2850%. Para criar
honestas e desonestas. As
diluição da percentagem pertencente aos fun- desonestas só têm de fazer o confiança no mercado secundário, a start-up
dadores - tal como aconteceu nas rondas de in- ICO, não têm que criar toda uma anunciou que “queimou” - isto é, eliminou - os
vestimento prévias pelas quais a Aptoide pas- complexa actividade económica”, tokens não vendidos, como quem seca o mer-
sou. Em 2016, segundo o relatório de contas diz Paulo Santos, fundador do cado para aumentar o valor do dinheiro. Esta-
da Aptoide relativo a esse ano, a Portugal Ven- portal Think Finance. vam assim em circulação no dia 10 de Janei-
tures detinha 30% da empresa, ao passo que a ro 98 milhões de tokens, num total de 246 mi-
e.ventures era dona de 15% - referenciando ape- lhões existentes, segundo anunciou a empre-
nas os principais investidores. Mas com a no- sa na conta de Twitter dedicada à criptomoeda.
va forma de angariar capital que o ICO pressu- A Comissão do Mercado de Valores Mobiliá-
põe, os investidores adquirem tokens baseados rios (CMVM) esclarece, num alerta publicado no
na infra-estrutura blockchain, cambiáveis por final de 2017, que, em alguns casos, os ICO po-
serviços dentro da plataforma. Não entram na dem ficar de fora do espaço regulado ao não se
estrutura de capital. Não são acções, não são Paulo Santos, fundador do qualificarem como securities. O que faz com que
obrigações, não são empréstimos, e não são portal Think Finance e e autor os investidores não usufruam da protecção que
de artigos sobre a Bitcoin no
compra de serviços puros - afinal, está a com- site SeekingAlpha, antecipa que
a lei lhes dá quando se trata de valores mobiliá-
prar-se uma moeda - que entrariam na com- “praticamente todos os ICO rios. Alerta ainda que este tipo de investimen-
ponente da receita. São o quê? “A moeda não resultarão em ruína completa”, e tos representa riscos. Os negócios que se preten-
que uma “percentagem surreal”
é um título”, esclarece Paulo Trezentos à FOR- de ICO, acima de 95%, “perderão a dem financiar costumam estar “em fase inicial
BES. “Há algumas criptomoedas que são títu- totalidade do seu valor.” de desenvolvimento e os seus modelos de ne-

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 29


Aptoide

gócio [costumam ser] experimentais”, dizem. A


morosidade na convertibilidade em outras moe-
das e alta volatilidade também são apontadas
pelas autoridades, referindo-se às dificuldades
no câmbio através da blockchain e a esquemas
de valorização artificial das criptomoedas nas
exchanges como o pump and dump (compras
massivas organizadas nas redes sociais com vis-
ta a provocar uma subida da cotação para ven-
der posteriormente, num curto espaço de tem-
po). A possibilidade de ICO desonestos, com ob-
jectivo de financiar actividades ilícitas ou lava-
gem de dinheiro - sendo que as criptomoedas,
pelo facto de serem anónimas, são espaço pri-
vilegiado para este tipo de transacções - tam- “A blockchain é a tecnologia, não é o
bém é apontada pela CMVM.
objectivo. O nosso objectivo será sempre
APOSTA NA BLOCKCHAIN fazer uma app store”, antecipa Paulo
Um dos elementos-chave da AppCoin será a
criação de uma fundação que irá gerir os fun-
Trezentos, co-fundador da Aptoide.
dos captados no ICO, independente da gestão
da Aptoide. Uma espécie de instituição sem cadas à blockchain, mas “ainda estamos a dis-
fins lucrativos que assegura aos investidores o cutir onde”, asseguram.
bom uso das verbas e que garante a indepen- Quanto à gestão dos milhões angariados no
dência do desenvolvimento da criptomoeda. ICO, a Aptoide pretende, nos próximos três meses,
“O protocolo AppCoins é um protocolo aber- converter cerca de 50% a 70% do encaixe alcan-
to. Vai ser adoptado pela Aptoide, mas pode çado em Ethereums em moeda fiduciária - is-
ser adoptado por todas as empresas de todo O milionário e venture capitalist Tim to é, dólares, euros ou outra moeda das antigas.
Draper, investidor em empresas
o mundo que quiserem utilizar a tecnologia”, emblemáticas como a Tesla e o
Não ficarão excessivamente “longos” em crip-
explica Álvaro. À semelhança de outras start- Facebook, acredita na massificação tomoeda. Além de que assim se podem defen-
-ups que escolheram o caminho da fundação, das criptomoedas. “O futuro será der da volatilidade da criptomoeda Ethereum -
espinhoso, mas é-o sempre quando se
estão a ponderar instalá-la na Suíça, país onde trata de produtos revolucionários. O as necessidades do mundo tangível assim o exi-
estão sediadas cada vez mais empresas dedi- mundo irá adoptar a Bitcoin e os ICO.” gem. “Temos necessariamente de fazê-lo. A Ap-

UMA MÃO CHEIA DE ICO MILIONÁRIOS


O número de initial coin offerings (ICO) disparou a partir de 2017, captando valores na ordem dos milhares de milhões de euros. São inúmeras as empresas
que estão a criar tokens para, dizem, satisfazerem necessidades transaccionais dos seus sectores. Uma das mais recentes a anunciar uma emissão é a East-
man Kodak, antigo gigante da fotografia mundial. A KODAKcoin tem como objectivo ajudar os detentores de imagens a assegurar o cumprimento dos di-
reitos, facilitando o pagamento devido ao criador de cada vez que uma imagem é utilizada.
Fonte: Coindesk, Oanda.com, Medium.com, CoinTelegraph, ArsTechnica, CoinList. Conversão de dólar para euro à taxa de câmbio de 10 de Janeiro de 2018.

Filecoin Tezos Bancor The DAO Qash


ANO DO ICO: 2017 ANO DO ICO: 2017 ANO DO ICO: 2017 ANO DO ICO: 2016 ANO DO ICO: 2017
MONTANTE CAPTADO: MONTANTE CAPTADO: MONTANTE CAPTADO: MONTANTE CAPTADO: MONTANTE CAPTADO:
219 milhões de euros 194 milhões de euros 128 milhões de euros 127 milhões de euros 89 milhões de euros
A Filecoin propõe uma Os fundadores da Tezos, Empresa criadora de uma Um dos casos mais A Qash oferece uma solução
solução descentralizada de Arthur e Kathleen Breitman, solução blockchain para emblemáticos de como baseada em blockchain para
armazenamento de ficheiros, angariaram milhões que, hoje, permitir a convertibilidade os ICO podem correr mal. resolver eventuais problemas
num protocolo alicerçado na são alvo de diferendos judiciais de tokens, ao incluir essa Este fundo descentralizado de falta de liquidez entre
tecnologia blockchain, que entre o casal e o líder da possibilidade na natureza baseado na blockchain criptomoedas, em especial nos
permite o “arrendamento” fundação suíça onde residem das próprias criptomoedas. efectuou uma oferta inicial mercados emergentes com
de capacidade não utilizada. estes fundos. Entretanto, a Através daquilo que chamam cujo encaixe superou os 120 dificuldade na convertibilidade
A empresa norte-americana solução para o protocolo de smart contracts, assegurariam milhões de euros, mas mais de de moeda fiduciária. A Quoine,
é a recordista da captação criptomoedas ainda não foi uma fácil transacção e uma 50 milhões foram roubados empresa emissora desta
de fundos através de um desenvolvida pela empresa maior liquidez. O nome por hackers. A plataforma, moeda digital, foi fundada em
initial coin offering (ICO), e os investidores mantêm-se inspira-se numa moeda que fazia da transparência e Singapura e está hoje sedeada
alcançando um valor de mãos a abanar. Tim Draper, conceptual criada pelo autonomia bandeiras, acabou no Japão, bem no coração de
astronómico superior venture capitalist do fundo economista J. M. Keynes. por ser vítima de sérias um dos maiores mercados
a 200 milhões de euros. DFJ, é um deles. Tem sede em Telavive, Israel. vulnerabilidades no código. crypto do mundo.

30 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


toide tem uma estrutura, vai contratar mais pes-
soas especializadas na área de blockchain. Tem
285O
A aceitação da AppCoin
%

espécie de registo completo e descentralizado


de todas as transacções efectuadas num de-
um investimento que passa por pagar uma sé- no universo digital foi terminado sistema. “Começámos a perceber
rie de coisas que são pagas em moeda fiduciá- estrondoso. Nos primeiros que há problemas no mercado das aplicações
ria”, como salários, explica Álvaro. cinco dias de negociação da que poderiam ser resolvidas com tecnologia
criptomoeda da Aptoide na
O ICO teve como objectivo final dar o tiro blockchain”, explica Álvaro. A verificação da
bolsa Binance, a sua cotação
de partida para uma grande mudança na es- disparou 2850%, passando reputação das aplicações seguirá um modelo
tratégia da Aptoide. O propósito do encaixe, dos 0,10 dólares iniciais para semelhante ao que já acontece com os utiliza-
além de permitir investir no desenvolvimento 2,95 dólares a 10 de Janeiro. dores que validam transacções de criptomoe-
da tecnologia das AppCoins, vai ajudar a mu- da na blockchain, através do consenso da co-
dar a forma como a Aptoide opera, num autên- munidade. “Baseado em blockchain, conse-
tico pivot para a blockchain. “É como se con- guimos trazer para o mercado de distribuição
tinuássemos a desenvolver carros, mas o mo- de aplicações algumas propostas de valor que
tor, em vez de ser de combustão, é um motor hoje não existem”, segundo Álvaro. A moneti-
eléctrico. A blockchain é a tecnologia, não é o zação das aplicações também é um dos ele-
objectivo do nosso negócio. O nosso objectivo A Aptoide conduziu recentemente
mentos que será facilitado. Um programador
será sempre fazer uma app store”, concretiza uma reestruturação de pessoal. Vão poder vender a sua aplicação e receber dire-
Paulo Trezentos. contratar, entretanto, profissionais ctamente o dinheiro, sem intermediários e pe-
focados nos desafios da blockchain.
A blockchain é um conceito altamente téc- São na sua maioria engenheiros os ríodos de pagamento a 30, 60 dias, por exem-
nico que se pode descrever como sendo uma quadros da start-up. plo, graças à validação através da blockchain.
Menos intermediários também no negócio da
publicidade digital - a maior fonte de rendimen-
to da Aptoide - também pode significar “gan-
hos para toda a gente”, garante o co-fundador.
Apesar de “haver sempre riscos” relacionados
com esta migração, não têm dúvidas que o blo-
ckchain e as criptomoedas vieram para ficar. “E
nós queremos estar na corrida da massificação
do blockchain o mais cedo possível”, sublinha.
No entanto, em breve já não serão os úni-
cos em território português. A start-up eSoli-
dar - uma plataforma digital de leilões e de lojas
solidárias - anunciou em Janeiro que iria pro-
ceder a um ICO. A proposta é criar uma cripto-
moeda que ajude as entidades de solidarieda-
de social e os contribuidor a ter um maior con-
trolo sobre os donativos através da tecnologia
blockchain. A criptomoeda permitirá a “ras-
treabilidade dos donativos e do seu impacto”,
explica Marco Barbosa, fundador da start-up,
em comunicado, e o seu valor aumentará “de
cada vez que for usada“, concretiza.
Por vezes, a célebre frase follow the trend,
the trend is your friend (segue a tendência, a ten-
dência é tua amiga) pode até revelar-se provei-
tosa no curto prazo mas, como reza a história,
mais tarde ou mais cedo essa tendência aca-
ba sempre por ceder. Por isso, de duas uma: ou
se evita correr o risco de embarcar numa bo-
lha especulativa, ou, então, lança-se à sorte e
espera-se que quando ela rebentar já se esteja
fora do raio de acção dos salpicos. Tudo isto - a
criação de criptomoedas em catadupa, as va-
lorizações estonteantes, a corrida para a blo-
ckchain - até pode ser uma bolha, mas a visão
que deu a ganhar a Álvaro Pinto e a Paulo Tre-
zentos 13 milhões de euros em menos de um
mês, ninguém lhes tira. J

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 31


Wall Street
à portuguesa
Especulação, euforia, crises e casos e protagonistas. A história da Bolsa
portuguesa dava um filme. Desde a loucura dos anos 1980 aos escândalos
financeiros mais recentes, o mercado de capitais está repleto de episódios capazes
de convencer Oliver Stone a realizar um “Praça do Comércio Street” com um
enredo cheio de acção. A Bolsa não quer ser vista como um jogo, mas no tabuleiro
do mercado de capitais português o que não faltou foram jogadas e jogadores
que deram origem a um resultado pouco abonatório e sobre
o qual todos os intervenientes devem reflectir.
J OAQ U I M M A D R I N H A

32 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


FOTO DE VICTOR MACHADO Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 33
BOLSA

L
isboa, Praça do Comér-
cio, 1973. Às oito horas
da manhã, a fila para
a entrada do rés-do-
-chão da torre oriental
da Praça do Comércio
em Lisboa é já compri-
da. Todos querem che-
gar às mesas dos corretores para ditar as
ordens. Atrás das mesas, o senhor René
anota as ordens num quadro de ardósia
com a ajuda de um escadote. Cá fora, nas
arcadas entre a Bolsa e o café-restauran-
te “Martinho da Arcada”, filas de carrinhas
carregadas de títulos faziam uma espécie
de mercado secundário. “Era fascinan-
te, uma loucura”, exclama Pedro Caldei-
ra, depois de descrever o cenário que en-
controu no primeiro dia que foi à Bolsa de
Lisboa e que o convenceu a deixar o curso
de Engenharia no Instituto Superior Téc-
nico para enveredar na corretagem. “Per-
cebi imediatamente que era ali que que-
ria trabalhar. Era aquilo que queria fazer”,
diz o ex-corretor à FORBES.
Apesar dos indícios que apontam pa-
ra uma antiguidade superior a sete sécu-
los, é na década de 1970 que o mercado de
capitais português começa a ganhar po-
pularidade. “Até então, só uma população
muito restrita participava nos mercados,
como os empresários, banqueiros, alguns
profissionais liberais e herdeiros afortuna-
dos, e essencialmente residentes nas cida-
des de Lisboa e Porto”, diz Joaquim Rodri-
gues da Costa, co-autor do “The Lisbon Sto-
ck Exchange in the Twentieth Century. Pe-
dro Caldeira explica que no início daquela
década “vivia-se a Primavera Marcelista.
Havia a sensação que algo ia mudar”. Quan-
do iniciou o “estágio” com Abílio Sousa,
um dos maiores corretores da praça, es-
tavam cotadas 86 empresas, o maior nú-
mero de sempre (até então) e as valori-
zações expressivas atraíam investidores. GORDON GEKKO DA PR AÇA DO COMÉRCIO
“A maioria das pessoas não sabia o que Se a indústria cinematográfica decidisse fazer um filme sobre o mercado de capitais nacional
estava a fazer e o risco que corria. Que- na década de 1980 ao estilo “Wall Street”, de Oliver Stone, Pedro Caldeira seria com certeza
riam era entrar para ganhar como o vizi- a personagem principal, o Gordon Gekko, mas na parte da intermediação. Foi o corretor
nho ou o conhecido”, explica o ex-corre- dominante da Bolsa de Valores de Lisboa na década de 1980 e início da década de 1990. Quase
todas as operações passavam por si, enquanto “corretor proposto” por Abílio Sousa, um dos mais
tor, adiantando que a maioria das cotadas
relevantes brokers da década de 1970, e mais tarde como corretor individual e depois através
tinha os negócios nas colónias e além de da corretora que fundou em 1990, a Eurodealer. Teve um papel relevante na modernização e na
não haver informação também não havia internacionalização da Bolsa portuguesa e chegou a dar passos para criar um banco, vontade que
quem a soubesse interpretar. “Era pura es- esbarrou no poder político de então. Enquanto o mercado foi dominado pelo Touro deu milhões
peculação”, diz. de contos a ganhar aos clientes, mas em 1987, em virtude da afirmação de Cavaco Silva e ao crash
do mercado norte-americano em Outubro desse ano, que ficou conhecido como “segunda-feira
Em Abril de 1974, a euforia é travada
negra”, caiu em desgraça devido à alavancagem a que estava exposto na sequência de créditos
pela revolução. A Bolsa já não abre no dia contraídos para comprar acções. O caso, digno de um filme, acabou na Justiça, mas Pedro
24 e muitos empresários e banqueiros fo- Caldeira acabou absolvido de todas as acusações, ficando obrigado a entender-se com
gem do país. Abílio Sousa foi um deles. os credores, algo que diz ter feito. “Não devo nada a ninguém”, disse à FORBES.

34 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE VICTOR MACHADO


Segundo Joaquim
Rodrigues da Costa,
co-autor do livro
“The Lisbon Stock
Exchange in the
Twentieth Century”,
até ao início da década
de 1970, “só uma
população muito
restrita participava
nos mercados, como
os empresários,
banqueiros, alguns
profissionais liberais e
herdeiros afortunados.”

A revolta estava associada ao comunismo


e existia entre os homens de negócios um
grande receio de ir parar à prisão. Não foi
o caso de Pedro Caldeira. “Talvez devido
à juventude, não ligava muito à política e
os receios que existiam passavam-me ao
lado”, refere. Mas, para os investidores, a
liberdade implicou um crash de 81% e três
anos de encerramento. Para muitos foi o
fim de um ciclo, para Pedro Caldeira era
o início de uma ascensão que o colocaria O ARQUITECTO DAS PRIVATIZ AÇÕES
na história da Bolsa nacional. Aníbal Cavaco Silva fica na história como o primeiro-ministro das reprivatizações nos anos 1980,
tendo conseguido com o apoio do Partido Socialista um acordo para a revisão constitucional
À BOLEIA DA EUROPA que pôs fim ao princípio da irreversibilidade das nacionalizações, o primeiro passo para a
O título do primeiro single editado pela devolução de vários sectores económicos à iniciativa privada. No primeiro mandato, em
banda GNR em 1981 - “Portugal na CEE” conjunto com o seu ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, criou o maior pacote de incentivos
às empresas para que se lançassem no mercado de capitais, dando origem ao maior boom de
- é característico da época que se vivia
sempre de empresas cotadas. Ao mesmo tempo definiram um plano de privatizações que se
nos primeiros anos da década de 1980. iria estender após o ano 2000. Vendeu bancos, seguradoras e indústrias nacionalizadas após
O fim da ditadura abria novos horizontes o 25 de Abril de 1974, e abriu caminho às privatizações da Cimpor, Portugal Telecom (PT) e
ao país e o pedido de adesão à Comuni- Energias de Portugal (EDP), que fizeram da década de 1990 a era do capitalismo popular em
dade Económica Europeia (CEE) dá iní- Portugal. Fica também marcado por comentários com influência no mercado de capitais. Em
1987, a célebre afirmação proferida na RTP “está-se a vender gato por lebre”, referindo-se aos
cio a uma fase de prosperidade econó-
negócios bolsistas no final da década de 1980, deu início à correcção do mercado accionista
mica com reflexo no mercado de capi- nacional que iria durar até ao início da década de 1990. E, já como Presidente da República,
tais português. disse, em Julho de 2014, que o Banco Espírito Santo era sólido. Baseava-se na informação
Apesar de composto por pouco mais do Banco de Portugal mas, desta vez, estava enganado. Estavam ambos enganados.
de 20 empresas cotadas no início da dé-
cada, o mercado contava já com alguns dos (1900 euros), uma pequena fortuna nha como clientes grandes bancos de in-
negócios interessantes. Um deles era a à época. Mas a Caima não era a única. vestimento como o Baring Brothers, Cha-
Caima, hoje na esfera da Altri, holding Na década de 1980 companhias co- se Investment, Solomon Brothers e o First
liderada por Paulo Fernandes, também mo a Marconi, a Efacec, a Estoril-Sol e a Boston, e vários magnatas à procura de
detentor do grupo de media Cofina. Nu- Lisnave, eram apetecíveis para os inves- bons negócios em Lisboa. Chegou a ser
ma altura em que ainda se sentia o for- tidores, em particular para os estrangei- corretor de George Soros e de Robert Ma-
te condicionalismo industrial do Esta- ros, que começavam a olhar para Portu- xwell, um milionário checo do sector dos
do, a empresa de pasta de papel era uma gal como um mercado emergente. Com media no Reino Unido, e mais tarde do
das mais cobiçadas pelos investidores. a adesão à CEE à vista, Portugal estava discípulo de Soros, o alemão Jorge Sch-
Para ter uma ideia, a Caima foi para a no radar dos estrangeiros mais excên- nuts, que ficaria conhecido pelo “Mister
Bolsa em 1983 a 6500 escudos (32,5 eu- tricos. “Toda a gente me perguntava co- 10%”, por querer ter um décimo do capi-
ros) por acção e em 1987, no auge da eu- mo é que se podia investir em Portugal”, tal disperso em Bolsa de todas as empre-
foria, chegou a cotar nos 380 mil escu- diz o ex-corretor, que já nessa altura ti- sas cotadas. O interesse era de tal ordem
que, em 1985, Pedro Caldeira afirma ao
jornal Expresso que “caso os portugueses
Na década de 1980, empresas como a não comecem a investir, os estrangeiros
Marconi, a Efacec, a Estoril-Sol e a Lisnave, ficam com tudo”. E é nesse ano que en-
eram apetecíveis para os investidores, tra em campo o primeiro protagonista
do mercado de capitais nacional oriun-
em particular para os estrangeiros. do da esfera política.

FOTO DE X/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 35


BOLSA

Em 1990, a Bolsa nacional atingiu o seu apogeu, ao


cotar 144 empresas, o valor mais elevado de sempre.
Hoje, o PSI Geral é composto por apenas 51 empresas.

O GATO E A LEBRE
DAS OPV EM BARDA
Quando Cavaco Silva é eleito primeiro-mi-
nistro, em 1985, já a Bolsa vai no terceiro
ano consecutivo de valorização de dois dí-
gitos e a concretização da adesão de Por-
tugal à CEE leva a Bolsa nacional a regis-
tar a maior valorização anual de sempre:
151,6%. À semelhança do sucedido no iní-
cio da década de 1970, o optimismo rei-
nava, mas desta vez alimentado pelo in- O EMPRESÁRIO FOR A DO SISTEMA
vestimento estrangeiro e pelo potencial de Ficará para a história como o empresário que mais recorreu à Bolsa para financiar a expansão
crescimento que a adesão daria às empre- das suas empresas. No final da década de 1980 chegou a ter 15 companhias cotadas, sete delas
tiveram um fracasso estrondoso levantando suspeitas de que não tinham o valor anunciado nos
sas nacionais, e Cavaco Silva estava deter- prospectos das operações e serviam apenas para aproveitar os benefícios criados pelo Estado
minado a fomentar a economia. Com Mi- para estimular o mercado de capitais. Tentou ainda controlar o Banco Português do Atlântico
guel Cadilhe, ministro das Finanças, de- e a Soporcel, onde chegou a ter uma posição de 30%, mas não conseguiu. Perdeu para Pedro
finem um plano de reprivatizações com Queirós Pereira de uma forma estranha, pois foi a única vez que o Estado optou por não vender
o objectivo de devolver as empresas na- ao accionista maioritário. Seguiu para o sector do retalho onde construiu um império, ainda
que com alguns falhanços, como foi o caso da tentativa de internacionalização para o Brasil. Já
cionalizadas após a revolução de 1974 ao
no actual século lança uma Oferta Pública de Aquisição à Portugal Telecom que é vetada pelo
sector privado, e criam um conjunto de in- Estado. Falecido recentemente, Belmiro de Azevedo é visto pela comunidade empresarial como
centivos à dispersão de capital em Bolsa. um exemplo de resiliência e irreverência e um homem que subiu a pulso, e uma espécie de Warren
As reprivatizações só começam em Buffett português. Deixou uma fortuna avaliada em mais de 1,6 mil milhões de euros.
1989, com Unicer, Indústria Cervejeira,
o Banco Totta & Açores (BTA) e a Tranqui- Cavaco Silva afirma que “anda a vender- Apesar do período menos bom para
lidade, mas o pacote de estímulos lançado -se gato por lebre na Bolsa”, uma decla- as cotações entre 1985 e 1990, o número
em Março de 1987, que incluía, entre ou- ração que acabou por provocar o pânico, de Ofertas Públicas de Venda (OPV) dis-
tros, benefícios e a redução em 40% das acentuado alguns dias depois pela “se- parou e a quantidade de empresas cota-
taxas de contribuição industrial, veio aju- gunda-feira negra” nos EUA. Nos jornais das aumentou de 20 para 144, o maior nú-
dar ainda mais para a euforia que se vivia, falava-se em “susto pedagógico” e os in- mero de sempre. É nesta fase que a ban-
o que levou o primeiro-ministro a tentar vestidores retraíam-se. Porém, o mesmo ca começa a ganhar peso nas operações
deitar água na fervura. Em directo na RTP, não se passou com os empresários. de Bolsa, com tomadas firmes nas opera-
ções. “Apesar do momento menos bom,
NEGÓCIOS PENOSOS era possível fazer OPV bastante lucrati-
A história da Bolsa está repleta de Ofertas Públicas de Venda (OPV) pouco saudáveis. vas”, diz Pedro Caldeira, sublinhando que
“Geralmente surgem quando o mercado está em alta e são sobretudo bons negócios para quem “foi nesta época que muitos dos empre-
vende”, afirma Octávio Viana. Desde o êxtase da segunda metade dos anos 1980, do qual sobram sários que conhecemos hoje fizeram for-
dois sucessos - Jerónimo Martins e Corticeira Amorim -, existiram poucos negócios lucrativos tuna”. Um dos mais activos era Belmiro
para os pequenos investidores. As três últimas ofertas de privados – Martifer, EDP Renováveis
de Azevedo, que desde cedo percebera a
e Mota Engil África -, são verdadeiros “abre-olhos” para os investidores.
Em 2007, por exemplo, em pleno auge das energias renováveis, a Martifer, um spin-off da Mota- importância do mercado de capitais co-
-Engil, apresenta-se ao mercado como uma empresa produtora de energias renováveis quando mo instrumento para financiar a expan-
a principal área de negócio era a construção de torres de geração de energia eólica. O capital foi são dos seus negócios, mesmo no passado
disperso a 8 euros por acção, títulos que chegaram a 12 euros. Uma década depois, as acções da mais recente. “Costumo dizer que Belmiro
Martifer valem pouco mais de 0,35 euros, e a sua principal actividade é a construção naval, uma de Azevedo foi o melhor analista da Bol-
reinvenção conseguida através da obtenção da concessão dos Estaleiros de Viana do Castelo,
sa portuguesa. Tinha uma visão enorme.
onde se tem notabilizado a construir barcos para a empresa de cruzeiros fluviais Douro Azul.
Outro spin-off da Mota-Engil foi a Mota-Engil África, que vai ficar para a história como a entrada Os timings dele para comprar ou vender
e saída mais rápida de Bolsa. Chegou à Bolsa de Amesterdão a 11,5 euros por acção e foi retirada eram incríveis”, diz Ulisses Pereira, ana-
10 meses depois pela empresa-mãe a pouco mais de 6 euros. lista da Dif Brokers.

36 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE BLOOMBERG/GETT Y IMAGES


A ASCENSÃO DO PODER DA BANCA de valor. Boa parte dessa dinâmica de-
veu-se ao início das privatizações de em-
Além do início das privatizações de grandes empresas como a Cimpor (1994), a Portugal Telecom
(1995) e a EdP – Energias de Portugal (1997), a década de 1990 fica marcada pela consolidação e presas como a Cimpor, Portugal Telecom
ascensão da banca ao topo do poder económico e da aplicação do chamado “capitalismo renano”, (PT) e a EdP - Energias de Portugal (EDP).
nome dado ao modelo de estado social francês e alemão na década de 1990. A filosofia vinha Para o analista, “a explosão do capita-
da década anterior e chegou a ser defendida por Belmiro de Azevedo. A ideia era ligar o sector lismo popular dá-se com a privatização
industrial à banca através de participações cruzadas para aumentar a capacidade de crescimento da EDP, em 1997”. Para se ter uma ideia,
das empresas. O líder da Sonae chegou a aplicá-lo, primeiro em 1987, com o banco de investimento 700 mil portugueses compraram acções
britânico SG Warburg, com o qual criou a sociedade de investimento Efisa, e tentou controlar o
da eléctrica e, no primeiro dia de nego-
Banco Totta & Açores e o BPA em 1989 e 1995, respectivamente. Com as privatizações e a descida
do preço do dinheiro devido à convergência para o euro, a banca e empresas, sobretudo as ligadas ciação, a cotação das acções da empre-
à construção, que teve naquela época o seu apogeu, lançaram-se no projecto. Porém, devido ao sa aumentou 30%. “Havia muitos incen-
desempenho anémico da economia nacional na primeira década do séc. XX e à crise financeira, tivos à participação nas privatizações”,
a teoria desfez-se arrastando os dois sectores para uma crise sem precedentes. diz Octávio Viana, Presidente da Associa-
ção de Investidores e Analistas Técnicos,
A ERA DO CAPITALISMO “Belmiro de Azevedo referindo-se aos descontos para peque-
POPULAR foi o melhor analista nos accionistas, ao lockup – período em
da Bolsa portuguesa.
A Sonae e a Novopan, uma empresa do Tinha uma visão que as acções não podiam ser vendidas,
grupo de Belmiro de Azevedo, tinham enorme. Os timings o que diminuía a especulação, e aos in-
chegado à Bolsa de Valores do Porto em dele para comprar ou centivos que eram dados aos bancos pa-
vender eram incríveis”,
1984, e em 1985 foi a vez da Orbitur. Com diz Ulisses Pereira, ra “colocar” as acções. “Além disso, eram
estas três operações, Belmiro de Azeve- analista da Dif Broker. empresas sólidas, incumbentes e mono-
do manifesta a surpresa com o rápido de- polistas e a presença do Estado dava se-
senvolvimento do mercado de capitais e dar no processo de convergência, as pri- gurança”, adianta.
na sua importância para o grupo, cujo vatizações iriam continuar e assistia-se
relatório de contas de 1986 quantifica: a uma luta intensa na consolidação da EUFORIA
com estas três operações, tinham entrado banca, tudo misturado com a primeira TECNOLÓGICA
3,1 milhões de contos nos cofres da em- revolução tecnológica que daria no ano A década de 1990 fica também marca-
presa. O engenheiro chegou a tentar co- 2000 um crash bolsista à boa maneira da pela ascensão do poder da banca na
tar a Sonae na Bolsa de Londres, montan- dos tempos modernos. “Foi uma época economia nacional e Jardim Gonçalves,
do inclusive uma campanha de comuni- em que as pessoas tinham dinheiro e a na liderança do Banco Comercial Por-
cação no Financial Times, no The Eco- economia estava forte. Quando assim é, tuguês (BCP) desde a sua fundação, se-
nomist e no L’Express, mas não teve su- a Bolsa torna-se atraente”, exclama Ulis- ria uma peça fundamental na criação do
cesso. Ainda assim, no final de 1988, em ses Pereira, sublinhando que o valor do maior banco privado nacional e na con-
pleno bear-market, o grupo chegou a ter principal índice, o PSI-20, quadruplicou solidação do sector. Com as privatiza-
15 empresas cotadas na praça nacional,
sete delas provocaram uma tempestade SEDE DE PODER
política e foram consideradas um fracasso,
Jardim Gonçalves teve o mérito de criar um banco de raiz e cortar com a tradição portuguesa
acabando a maioria dos títulos por ficar das famílias de banqueiros. Primeiro, fez crescer o banco pela via orgânica através da inovação
na posse do Banco Português do Atlân- que deixou a concorrência a milhas, depois pela via das aquisições. Comprou o Banco Português
tico (BPA), o tomador firme das opera- do Atlântico em conjunto com a Companhia de Seguros Império, detida pelo Grupo José de
ções da Sonae. Mello, o Banco Pinto & Sotto Mayor e levou o BCP além-fronteiras, tornando-o no maior banco
As OPV eram um bom negócio pa- privado português. Para financiar o crescimento foi fazendo aumentos de capital sempre
com a preocupação dos accionistas não alcançarem posições que comprometessem a gestão
ra os bancos. Só com cinco operações
por si definida para a instituição, mas para dispersar as acções levou o banco a práticas pouco
do grupo de Belmiro de Azevedo, o BPA recomendadas. Entre outras, o BCP adquiria acções do banco para os clientes sem a autorização
movimentou 30 milhões de contos (150 destes e recorreu a contas off-shores, através das quais financiava a compra de títulos a grandes
milhões de euros) valor que terá rendido clientes. A conduta e a falta de resultados valeram-lhe uma guerra interna de accionistas que o
cerca de 1 milhão de contos (5 milhões leva a sair da presidência executiva do banco em 2005, mas fica até 2008 a presidir o Conselho
de euros), quantias estratosféricas pa- Geral e de Supervisão e o Conselho Superior. Mas em 2010, chega a factura das condutas de
gestão impróprias. É condenado pelo Banco de Portugal ao pagamento de uma multa de 1 milhão
ra a época. Mas, neste jogo da Bolsa, não de euros e fica inibido de exercer cargos em instituições financeiras durante nove anos. Em
foi só a Sonae que aproveitou para se ca- 2014 é condenado por manipulação de mercado com uma pena de dois anos de prisão suspensa
pitalizar. O grupo hoje denominado Dom mediante o pagamento de uma multa de 600 mil euros. Uma saída de cena pela porta pequena,
Pedro Hotels, da família Saviotti, o grupo que deixou um lastro de créditos de cobrança duvidosa que condicionaram a gestão do banco
Pestana e o empresário da construção ci- nos anos seguintes e fizeram do BCP uma história de destruição de valor.
vil João Vaz Guedes foram apenas alguns
que aproveitaram a onda. Com as privatizações, passou a ser
Depois da euforia com a adesão à CEE,
Portugal rumou ao Euro. O país recebia
normal os bancos terem posições
avultados fundos comunitários para aju- no capital das empresas cotadas.
Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 37
BOLSA

ções, a estratégia das participações cru- PODER ABSOLUTO


zadas intensificou-se e passou a ser nor- José Sócrates é a face mais visível do instrumentalismo do Estado na esfera dos negócios bolsistas
mal os bancos terem posições no capital após o ano 2000. Através da Caixa Geral de Depósitos, o banco público, detentor das golden
das empresas cotadas. A ideia até não era share, vetou, por exemplo, a OPA da Sonae à Portugal Telecom em 2007, que a concretizar-se
má, mas acabou por servir sobretudo pa- talvez pudesse evitar o desfecho que a empresa veio a ter, mas não só. Além de envolvido em
ra lutas de poder. O caso da Cimpor, on- inúmeros casos nebulosos, como o caso do licenciamento do centro comercial Freeport em
Alcochete, quando era ministro do Ambiente, existem indícios que através de Armando Vara
de o BCP e a construtora Teixeira Duarte
tenha condicionado vários negócios, como o financiamento do empreendimento imobiliário de
trabalharam em conjunto para contro- luxo Vale do Lobo, no Algarve, quando Vara era gestor da Caixa Geral de Depósitos, que originou
lar a cimenteira e, mais tarde, do papel perdas astronómicas para o banco público, mas também na compra da Cimpor pelos brasileiros
do Banco Espírito Santo na Portugal Te- da Camargo Corrêa, empresa onde Armando Vara foi presidente do conselho de administração
lecom, são dois exemplos de como os in- da subsidiária africana – Camargo Corrêa África – entre 2010 e 2014.
teresses dos grandes accionistas podem O ex-ministro e administrador do BCP e da CGD chegou mesmo a ser condenado a cinco anos
de prisão efectiva no caso “Face oculta” por três crimes de tráfico de influência. E José Sócrates,
levar as empresas para maus caminhos. no complexo caso “Operação Marquês”, que investigou o favorecimento do Grupo Lena,
No ano seguinte à primeira fase da o desfecho da OPA da Sonae à Portugal Telecom e as ligações ao Grupo BES, está acusado
privatização da EDP, a crise asiática as- de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção passiva.
susta os investidores. “Acho que foi aí que
quem nunca tinha tido acções aprendeu Para Octávio Viana, Presidente da Associação de liam 8,8 euros - uma valorização de 375%!
Investidores e Analistas Técnicos, a euforia da Bolsa
que se podia perder dinheiro na Bolsa ra- vivida durante os primeiros processos de privatização
Era mais uma “onda” com fundamentos
pidamente”, diz Ulisses Pereira, referin- sucedeu, em grande parte, aos vários inventivos que diferentes, mas com euforia semelhante
do-se à geração do capitalismo popular. o Governo conferia aos pequenos investidores para à vivida na segunda metade da década de
estes participarem nestas operações. “Além disso,
Mas a memória é curta. Com o adven- eram empresas sólidas, incumbentes e monopolistas, 1980, e que deixaria igualmente marcas.
to da Internet e dos negócios à volta de- e a presença do Estado dava segurança”, diz. Com o rebentar da bolha das dotcom,
la, gera-se rapidamente uma nova eufo- em Março de 2000, a euforia deu lugar à
ria. Em 1999 chegam à Bolsa empresas ressaca. A maior foi do Central Banco de
de cariz tecnológico como a PT Multimé- Investimento (CBI), que foi vítima do pri-
dia, a Novabase e a Pararede, cujos títu- meiro bailout do século. O banco tinha si-
los atingem valorizações de três dígitos do tomador na OPV da Pararede e ficou
em menos de um ano. Os títulos da Para- com muitas acções da empresa, o que
rede, por exemplo, são vendidos na OPV pressionou o balanço da instituição que
a 1,85 euros e em Fevereiro de 2000 va- teve de ser intervencionado pela Caixa

38 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTOS DE PATRICIA DE MELO MOREIRA /GETT Y IMAGES E D.R.
Central de Crédito Agrícola Mútuo. Hoje,
a Pararede chama-se Glintt, comercia-
No balanço das privatizações, só a Galp, a
liza terminais de pagamento multiban- EDP e a REN é que geraram lucros para os
co e software de gestão para farmácias, pequenos investidores, e estas duas últimas,
e os seus títulos valem cerca de 0,25 eu-
ros. A PT Multimédia acabou por sair do
muito à custa dos dividendos distribuídos.
universo do Grupo PT e fundiu-se com a
Optimus, o operador de telecomunicações ERROS GROSSEIROS paio. Os mercados não gostam de insta-
da Sonae, dando lugar à Zon Multimédia Com a adesão de Portugal à moeda úni- bilidade política, nem de economias ané-
e, posteriormente, à NOS. Já a Novaba- ca, o início do século tinha condições pa- micas. “O desempenho negativo da Bolsa
se continua no principal índice nacional ra correr bem à Bolsa portuguesa, mas fo- desde 2000 deve-se ao fraco crescimento
e tem seguido uma generosa política de ram várias as contingências que o impe- económico e às duas grandes crises”, diz
remuneração dos accionistas através de diram. Começou com a instabilidade po- à FORBES o economista Paulo Monteiro.
dividendos, mas, devido à queda do va- lítica gerada pela saída do primeiro-mi- E depois, a crise financeira de 2008 pôs
lor das acções, apresenta um balanço ne- nistro Durão Barroso para a Comissão Eu- a nu as fragilidades da economia portu-
gativo para quem investiu na tecnológica ropeia e a dissolução do parlamento pelo guesa. “Na banca nacional, os efeitos da
em plena euforia das dotcom. então Presidente da República Jorge Sam- crise financeira foram catastróficos”, sa-
lienta Paulo Monteiro, sublinhando os vá-
A QUEDA DA CIMPOR rios aumentos de capital realizados pelos
Liderada por António Sousa Gomes, a Cimpor chega à Bolsa como um exemplo de bancos e os danos colaterais nos sectores
internacionalização bem-sucedido e uma estratégia de crescimento que a levaria ao top 10 do não financeiros. Só desde o início do sé-
sector a nível mundial. Era um activo apetecível e a francesa Lafarge e a suíça Holcim chegaram a culo, os bancos nacionais terão angaria-
ter posições de relevo e intenções de adquirir a cimenteira. Esta última chegou a unir-se a Pedro do mais de 35 mil milhões de euros em
Queirós Pereira, dono da Semapa, que detém a Portucel e a cimenteira Secil, para obterem o capital e mesmo assim não foi suficiente.
controlo da Cimpor através de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) – a primeira das quatro Contudo, o séc. XXI fica também marca-
que a cimenteira foi alvo ao longo dos 18 anos que esteve cotada em Bolsa. A operação tem a
oposição da Teixeira Duarte, accionista da cimenteira, e do BCP, que financiava a posição de
do pela ingerência política na gestão de
Manuel Fino, empresário que chegaria a controlar a construtora Soares da Costa. Mas na luta pelo algumas empresas cotadas. “A Cimpor
poder no BCP, Fino desentende-se com Jardim Gonçalves, e a posição que o empresário tinha desapareceu e o que se vê hoje na Pharol
na Cimpor acaba na CGD. Em 2009, as cimenteiras brasileiras Camargo Corrêa e a Votorium são os ossos da PT”, exclama Ulisses Pe-
começam a posicionar-se para tomar a Cimpor, que já tinha 10% do mercado brasileiro, uma reira. Só estas duas empresas foram res-
operação, pode dizer-se, apadrinhada pelo poder político. As ligações de José Sócrates ao Brasil, ponsáveis pela erosão de quase 20 mil mi-
já notadas aquando da estratégia definida na Portugal Telecom após a OPA da Sonaecom, e com
lhões de euros de capitalização da praça
a chegada de Armando Vara à presidência do Conselho de Administração da Camargo Corrêa
África, em 2010. Com a Teixeira Duarte e o BCP em cheque devido à crise financeira e com a nacional, e é consensual entre os agen-
chegada da Troika, em 2011, o Estado abre-se à venda. Pedro Queirós Pereira ainda volta à carga, tes do mercado que o desfecho das duas
mas a CGD opõe-se, alegando a complexidade da operação. Quando a InterCement, da Camargo teve influência política.
Corrêa, adquire a Cimpor, esta era a nona maior cimenteira do mundo, tinha 8 mil empregados, Já fora da esfera política, o caso da PT
26 fábricas em 12 países e estava presente em quatro continentes. Após a compra foi é também um exemplo da permissivida-
desmantelada e retirada de Bolsa. No início do ano, o Tribunal da Relação de Lisboa
de da equipa de gestão, liderada por Hen-
considerou ilícito o prospecto da OPA lançada pela InterCement.
rique Granadeiro e Zeinal Bava, aos inte-
resses dos dois grandes accionistas, Ban-
co Espírito Santo e Ongoing, que defen-
dendo uma estratégia agressiva de dis-
tribuição de dividendos levaram à des-
capitalização da empresa. Paulo Mon-
teiro faz a ponte entre este caso e a mais
recente privatização: os CTT. “Ao distri-
buir mais lucros do que os gerados, a em-
presa está a descapitalizar-se”, explica o
economista. Com a área da banca a tar-
dar em gerar resultados e a dificuldade
da gestão em lidar com a concorrência
dos meios electrónicos, a ideia de empre-
sa sólida com negócio conservador ven-
dida aos investidores na OPV está a cair
por terra: em 2017, os lucros dos CTT de-
verão rondar os 30 milhões de euros, me-
nos de metade dos registados em 2016.
O aviso da queda dos lucros levou à cor-

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 39


BOLSA

IN VESTIR NO
LONGO PR A ZO
Apesar de todos os solavancos da Bolsa
nacional ao longo da sua existência, a estatística
parece dar força ao investimento em acções.
À imagem do que sucedeu em todo o mundo,
também em Portugal, entre 1900 e 2015, as
acções apresentaram ganhos bem superiores
a todos os outros activos.
Fonte Livro “Financial Market History – Reflections on the
past for investors today”.

Acções

3,50% Taxa de
Rendibilidade
média anual
(1900-2015)

Obrigações

0,80%

Bilhetes do Tesouro

-1,10%
recção do preço das acções que cotam
agora mais de 20% abaixo do preço da
GESTÃO DANOSA
O percurso da Portugal Telecom (PT) após a privatização é meritório. De incumbente
OPV. O administrador financeiro da em-
monopolista, a gestão da PT soube adaptar-se ao advento da Internet e dos telemóveis
presa, André Gorjão Costa, saiu e a ad- e crescer além-fronteiras, tornando-se numa das empresas de telecomunicações mais
ministração liderada por Francisco La- inovadoras a nível mundial. Contudo, depois da tentativa de OPA por parte da Sonae, Zeinal
cerda, que entre 2010 e 2012 comanda- Bava, várias vezes eleito entre os melhores gestores do sector a nível europeu, e Henrique
va os destinos da Cimpor, pôs em curso Granadeiro, levaram a PT para o caminho desejado pelos dois maiores accionistas: o BES e a
uma reestruturação agressiva da empre- Ongoing, que precisavam dos dividendos da operadora como um esfomeado de pão para a
sa. Chegou a ser avançado que os CTT po- boca. Segue-se a venda da participação de 50% que detinha na Brasilcel e o investimento na
deriam no futuro delegar a gestão do ne- Telemar, detentora do Grupo Oi, líder de mercado brasileiro que se revelou desastroso. Com
a resolução do BES, vem a saber-se da aplicação de 897 milhões de euros em papel comercial
gócio da correspondência, uma hipótese
da Rio Forte, holding do Grupo Espírito Santo. Enfraquecida, a Oi compra a PT antes da fusão
que Ulisses Pereira considera “ridícula”, das duas empresas e vende-a à Altice. Hoje, a Pharol, o novo nome da PT, vale em Bolsa pouco
no sentido em que vem defraudar os in- mais de 240 milhões de euros, um quarto do valor pelo qual foi privatizada em 1997, e os dois
vestidores. No entanto, para Octávio Via- gestores estão acusados de vários crimes no âmbito da “Operação Marquês”.
na, “não seria de admirar que assim que
a área ganhe massa crítica, os CTT façam desenvolvidas. “Embora os resultados por ser que tenha um horizonte temporal de
o spin-off da área da correspondência”. nós obtidos não sejam extrapoláveis pa- cem anos, a resposta é não. “É demasia-
No entanto, o responsável da ATM subli- ra o futuro, pensamos que eles ilustram do simplista afirmar que um investimen-
nha que “há uma questão política, pois os algumas conclusões interessantes, prin- to em acções é sempre rentável a longo
CTT ainda são estratégicos para o país”. cipalmente para investidores de um país prazo”, explica Ulisses Pereira. “Veja-se
sem tradição financeira”, diz José Rodri- por exemplo quem tenha comprado ac-
A CONFIANÇA VAI REGRESSAR gues da Costa. Uma delas é que, no longo ções do BCP no ano 2000. Quanto tem-
De acordo com as conclusões apuradas no prazo, as acções são mais rentáveis que po vai demorar a recuperar a perda de
“The Lisbon Stock Exchange in the Twen- os títulos de dívida e os depósitos bancá- 95% acumulada desde então?”, questio-
tieth Century”, entre 1900 e 2015, o mer- rios, e que o risco de perda diminui à me- na. “Se calhar, nem cem anos”, responde.
cado accionista nacional valorizou a um dida que o prazo aumenta, algo normal Nos últimos 15 ou 20 anos, prazos con-
ritmo anual de 11%, mas, como espelha a no universo dos activos de risco. Mas será siderados aceitáveis para investir em ac-
história, com um prémio de risco supe- esta conclusão razão suficiente para que ções, o principal índice da Bolsa nacio-
rior ao da generalidade das economias o leitor vá a correr comprar acções? A não nal perdeu quase dois terços do seu valor.

40 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE BLOOMBERG/GETT Y IMAGES


QUEDA DE UM IMPÉRIO
Foi determinante nos resultados de algumas privatizações, e no chumbo da OPA da Sonae à
Portugal Telecom, onde o BES era o maior accionista e cujos dividendos eram determinantes
para o financiamento do grupo. Dominava os corredores dos poderes político e económico e não
evitava quezílias na defesa dos seus interesses, como fez com o primo José Maria Ricciardi e com
Pedro Queirós Pereira que, em 2013, através de uma carta ao Governador do Banco de Portugal,
despoleta a investigação que dá origem à resolução do banco em Agosto de 2014. Durante anos
usou o BES para financiar os buracos criados pelas empresas do grupo até que no Banco Espírito
Santo Angola surge um demasiado grande e dá-se o colapso do império que arrasta
as poupanças de milhares de clientes da instituição e a PT.

José Rodrigues da Costa caracteriza as últi-


mas décadas como “uma fase menos boa”.
“Temos tido em Portugal, há uns anos pa-
ra cá, um ambiente político e social mui-
to pouco amigo do mercado de capitais e,
como tal, os emitentes e os investidores
ajustam-se a essas más condições”, ex-
plica. No entanto, uma das conclusões a
que o professor, em conjunto com os co-
legas, chegou no estudo que fizeram é que
“os investidores voltam sempre ao mer-
cado e a nossa convulsão após 1974 é dis-
so um exemplo paradigmático”, afirma.
Desde a década de 1970, a Bolsa por-
tuguesa mudou muito. Hoje há mais e me-
lhor regulação, há mais instrumentos fi-
nanceiros e mais informação para os in-
vestidores, mas o passado diz que a Bol-
sa e as acções não são para todos. Have-
rá sempre casos de má gestão e aprovei-
tamento de ondas de euforia, com pre-
juízos para os pequenos e menos in-
formados investidores. O potencial de
ganho estará sempre tão presente como
o risco de perda e o passado da Bolsa na-
cional deve ser visto como uma lição pa- Com as privatizações, passou a ser
ra as decisões de investimento futuras.
Como disse um dia Mark Twain, “a histó-
normal os bancos terem posições
ria não se repete, mas rima”. J no capital das empresas cotadas.
FOTO DE PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 41
De afundanços, tacadas e
ganchos se construíram o grosso
das fortunas dos 25 atletas com

O
carteira mais recheada.
s longos voos e os afundanços artísticos criaram o
mito e este degenerou numa marca comercial, con-
geminada com a Nike em 1985. Michael Jordan, que
se estreou na NBA dois meses antes de LeBron Ja-
mes nascer, é ainda hoje, aos 54 anos, o atleta com
o mealheiro mais recheado. Michael “Air Jordan” é
um dos cinco atletas do basquetebol que entra na
lista dos atletas com maiores receitas acumuladas.
O vai e vem de Jordan, entre abandono e regresso para mais
umas épocas, relembra-nos o que fez na Fórmula 1 outro nome
grande do desporto, Michael Schumacher, vítima de um aci-
dente de esqui nos Alpes a 29 de Dezembro de 2013. Das últi-
mas notícias conhecidas, o estado de saúde do quinto classifi-
cado deste ranking permanece crítico. Pior, o terceiro da lista
organizada pela FORBES, Arnold Palmer. O falecido homem da
companhia com o logótipo do guarda-chuvas foi um dos “Big
Three” do golfe, com Gary Player e Jack Nicklaus.
A fraca exposição do futebol (“soccer”) nos EUA é uma ra-
zão muito plausível para que a modalidade que arrasta multi-
dões na Europa, em África e também em vários pontos da Ásia,
só apareça na sétima posição, graças aos investimentos de Da-
vid Beckham… fora do futebol. O britânico aumentou a sua car-
teira de investimentos ao tornar-se proprietário de uma equipa
de futebol… nos EUA. Lá, em Nova Iorque, CR7 tem um dos seus
hotéis em parceria com o grupo Pestana. O império é, contudo,
insuficiente para Ronaldo entrar no “top 10”. Resta aos fãs (e
talvez ao próprio) a consolação de Messi ser menos milionário.
A lista dos 25 atletas mais bem pagos de sempre contém
oito desportos, com supremacia do golfe, basquetebol e boxe.
Somam-se 14,2 mil milhões de euros de receitas, ou, ajustado
à inflação, 17,3 mil milhões. Mas se na contagem de modalida-
des há diversidade, no género avulta a hegemonia masculina.

METODOLOGIA A estimativa da FORBES inclui salários, bónus, prémios, direitos


de imagem e licenciamentos de produtos, bem como receitas de livros, desenho
de campos de golfe e presenças em eventos. No caso de Arnold Palmer é consi-
derado o sector imobiliário. Rendimentos de investimentos não estão contem-
plados. O período de análise compreende o momento em que os atletas se tor-
naram profissionais e o dia 1 de Junho de 2017. Este dia foi o considerado para a
conversão dos valores de dólares em euros. Os valores estão ajustados à inflação.

ALEXANDRE FRADE BATISTA


e KURT BADENHAUSEN

42 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Há 15 anos pousou a
bola, depois do pai ter
sido violentamente
assassinado.
Cumprindo um
sonho deste, Michael
andou um ano pelo
deu palco aos ténis
Air Jordan em vários
episódios da série
“Príncipe de Bel-Air”,
ajudando a criar o mito
que se consolidou em
Space Jam, filme em
patrocinadores de
Jordan, que abandonou
definitivamente o
basquetebol em 2003.
Jordan tem ainda 90%
de uma equipa da NBA,
Charlotte Hornets,
01
beisebol, momento
que chegará ao cinema
que “contracenou”
com Bugs Bunny.
adquirida em 2010 por
132 milhões de euros Michael
Jordan
com a produtora do Nike, Gatorade, Hanes e que hoje vale 696
amigo Will Smith, que e Upper Deck são milhões.

1,65 MIL MILHÕES DE EUROS


IDADE: 54 ANOS
MODALIDADE: BASQUETEBOL
PAÍS: EUA

FOTOS DE HANDOUT/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 43


02 Oito meses decorridos da
lesão na coluna vertebral,
Tiger Woods apresentou-
-se em Dezembro no Hero
World Challenge para
mostrar como está o seu
03 04
Tiger Arnold Jack
swing. O 14 vezes campeão
ainda está em liberdade
Palmer Nicklaus
Woods
condicional após ter sido
preso em Maio, quando
a polícia o encontrou a 1,2 MIL MILHÕES DE EUROS 1000 MILHÕES DE EUROS
dormir numa berma de IDADE: 1929-2016 IDADE: 77 ANOS
MODALIDADE: GOLFE MODALIDADE: GOLFE
estrada dentro do seu
1,5 MIL MILHÕES Mercedes-Benz, sob efeito
PAÍS: EUA

Arnold Palmer, que faleceu


PAÍS: EUA

Tal como Palmer, Jack Nicklaus


de analgésicos (cinco
DE EUROS diferentes, que o atleta em Setembro de 2016 com
87 anos de idade, teve um
é uma lenda do golfe mundial:
no seu palmarés conta com 18
IDADE: 42 ANOS disse estar a tomar por auto- enorme impacto no mundo títulos de campeão mundial.
MODALIDADE: GOLFE medicação para combater do golfe. Não é por acaso que E tal como Palmer, também
PAÍS: EUA dores nas costas e insónias). é apelidado de "O Rei". O seu Nicklaus se dedicou a desenhar
Bridgestone, TaylorMade e reinado começou na década campos. "A maioria das pessoas
Monster Energy patrocinam 1950 e foi preenchido com 62 trabalha durante toda a vida
Woods, que para 2018 vitórias no PGA Tour. Mas o para, eventualmente, um dia
tem um desejo: um ano papel de Palmer no golfe vai possa parar e comece a jogar
muito além dos títulos. É graças golfe. Eu joguei golfe a minha
preenchido nos campos.
a esta lenda que o golfe desceu vida toda e quando parei, fui
das elites para a classe média. trabalhar", diz. A companhia
Deixou à modalidade dezenas que formou é responsável por
de livros e campos desenhados 410 percursos em 41 países,
pela sua empresa Palmer tendo Nicklaus intervindo
Courses Design. em três quartos deles.

05 06
Michael Phil
Schumacher Mickelson
890 MILHÕES DE EUROS 728 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 49 ANOS IDADE: 47 ANOS
MODALIDADE: AUTOMOBILISMO MODALIDADE: GOLFE
PAÍS: ALEMANHA PAÍS: EUA

Desde que bateu com a cabeça Anda há três décadas pelo


numa pedra numa estância golfe, mas desde que Tiger
de esqui, muito se especulou Woods se tornou profissional
sobre Schumi, designadamente em 1996, só superou o rival em
a morte em 2016. Este ano receitas em 2015. Mas mesmo
abre em Colónia, perto da sua sendo segundo, continua com
terra natal, um museu em que um registo financeiro invejável.
os milhões de fãs poderão Está a cumprir a 27.ª época, na
recordar a sua vida desportiva. qual os campos da Califórnia
Só mais outros cinco atletas aparecem em 13 das suas 42
fazem o pleno na lista da vitórias no PGA Tour. No ano
FORBES dos atletas mais bem passado prescindiu do U.S.
pagos desde 1990. A 3 de Open para assistir à formatura
Janeiro, dia do aniversário, Pelé, de liceu da filha.
rei noutros palcos, escreveu: "Lefty" está ligado à Amgen,
“Continue lutando, meu amigo. ExxonMobil, KPMG e Rolex,
Nunca desista”. entre outras marcas.

44 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


07
David
Beckham
714 MILHÕES
DE EUROS
IDADE: 42 ANOS
MODALIDADE: FUTEBOL
PAÍS: REINO UNIDO

Há quatro anos adquiriu os direitos após pendurar as chuteiras. O


de uma equipa de futebol em contrato com a Diageo, que inclui
Miami por 22 milhões de euros. os royalties do whisky escocês
Esta, no entanto, não poderá Haig Club, e a colecção da H&M
arrancar antes de 2020. A fortuna são parte da exploração da marca
do ex-jogador do Manchester Beckham, que abrange a linha de
United, Real Madrid, Paris Saint- vestuário de Victoria Beckam, sua
-Germain e LA Galaxy engordou mulher.

07 09 10 11
Kobe Floyd Shaquille LeBron
Bryant Mayweather O’Neal James
714 MILHÕES DE EUROS 700 MILHÕES DE EUROS 656 MILHÕES DE EUROS 652 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 39 ANOS IDADE: 41 ANOS IDADE: 46 ANOS IDADE: 33 ANOS
MODALIDADE: BASQUETEBOL MODALIDADE: BOXE MODALIDADE: BASQUETEBOL MODALIDADE: BASQUETEBOL
PAÍS: EUA PAÍS: EUA PAÍS: EUA PAÍS: EUA

Para Magic Johnson, os LA Faltam-lhe quase 15 milhões Correu seis equipas em 19 anos Com um contrato anual
Lakers nunca tiveram melhor de euros para chegar ao de NBA até se retirar, em 2011. de 29,5 milhões de euros
jogador que o “The Black nível da fortuna de Kobe A explorar os produtos Shaq pelos Cleveland Cavaliers,
Mamba”, que contribuiu Bryant, mas Floyd parece ter está a Authentic Brands Group, LeBron procura o seu
para os cinco títulos da NBA. encontrado forma de encurtar representante das marcas quarto campeonato. “King
Aposentado há um ano, lançou a distância: desafiou a estrela de Muhammad Ali, Marilyn James” está ligado à Intel e
a Kobe Inc. e um capital de aposentada dos LA Lakers Monroe, Elvis Presley e Michael Verizon, Nike, Coca-Cola,
risco com 100 milhões para para um jogo de basquetebol, Jackson. “Quero que a marca Beats by Dre e Kia Motors
financiamento, a Bryant Steel. com um milhão de dólares Shaq viva para sempre”, disse e tem participação na
No seu filme “Dear Basketball” (900 mil euros) em jogo. o quatro vezes campeão na cadeia de restauração com
jura amor ao basquetebol Se considerássemos neste NBA, seguido por 18 milhões de o crescimento mais rápido
e explica-lhe (ao basquete) ranking o combate com Conor pessoas nas redes sociais. O seu de sempre, a Blaze Pizzas. O
ternamente porque tem de o McGregor em Agosto (o lema de investidor é: “se mudar diário francês L’Equipe, no
abandonar. período considerado para este o mundo, provavelmente reconhecimento de Neymar
“Kobe Bryant é o melhor ranking foi o terminado a 1 de vai funcionar”. Foi assim que como personalidade do ano
jogador do mundo”… Barack Junho), Mayweather subiria investiu na Google... antes 2017, escreveu que “Neymar
Obama dixit. aos 900 milhões de euros. desta ser lançada em Bolsa. na Ligue 1 é um LeBron James”.

FOTOS DE GETT Y IMAGES E D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 45


12 13
Cristiano Greg
Norman
Ronaldo 629 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 63 ANOS
MODALIDADE: GOLFE

647 MILHÕES PAÍS: EUA

A sua Greg Normal Company,


DE EUROS com uma dúzia de empresas,
licenciou ao Authentic Brands
IDADE: 33 ANOS Group, em 2017, os direitos
MODALIDADE: FUTEBOL sobre os vinhos e vestuário.
PAÍS: PORTUGAL O astro aposentado mantém
controlo sobre o imobiliário e
o desenho de campos de golfe
(já são mais de 100). No perfil
da empresa é apresentado
como “o mais bem sucedido
atleta tornado empresário do
mundo”. “Great White Shark”
venceu quase uma centena
de torneios na carreira e está
no Hall of Fame (a galeria dos
famosos) do golfe desde 2001.

14
Mike
Tyson
625 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 51 ANOS
MODALIDADE: BOXE
PAÍS: EUA

“Onde estavas quando Tyson


mordeu e arrancou parte
da orelha a Holyfield?”. A
hipotética pergunta alude
Não se conhece o novo estratosféricos, depois o lado de Neymar e Kylian ao chocante momento no
ringue em 1997. A vida quase
capítulo do frente-a-frente dos cerca de 80 milhões Mbappé na frente de ataque
derrubou em 2003, aquando
salarial de Ronaldo e Messi, de euros auferidos nos 12 do Parque dos Príncipes. da bancarrota motivada pelo
mas aguardam-se novidades, meses terminados em Junho Faltaria negociar com os K.O. dos 350 milhões de euros
depois de o jogador passado. Uma pretensão que espanhóis, com quem amealhados na carreira. Tyson
argentino ter renovado poderá ser correspondida Ronaldo tem contrato até acabaria por se reerguer com
contrato com o Barcelona fora do Real Madrid – no 2021. Poderá ter sido uma o apoio da sétima arte – em “A
em Novembro. O melhor fecho desta edição falava-se bela prenda de aniversário Ressaca” – e das parcerias nos
futebolista do mundo da intenção do Paris Saint- para o madeirense nascido a jogos, motos e ginásios. Em
curso está já o investimento na
poderá subir para valores -Germain de o levar para 5 de Fevereiro. plantação de marijuana num
resort no deserto de Mojave.

46 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTOS DE GETT Y IMAGES E D.R.


16
Lionel
Messi
536 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 30 ANOS
MODALIDADE: FUTEBOL
PAÍS: ARGENTINA

Ligado ao Barcelona até 2021,


Messi, que ali chegou aos
13 anos, ganhou 30 títulos
na equipa A. Em Janeiro foi
noticiada uma alegada cláusula
no contrato que implica a
saída de Camp Nou a custo
zero – contornando a cláusula
de 700 milhões de euros –,
caso a Catalunha se torne
independente. Dias depois, o
site Football Leaks revelou que
Messi ganhará 100 milhões de
euros por época. À televisão
do Barça, o “Pulga” afirmou:
“Quero passar aqui toda a vida
e toda a minha carreira”.

17

15
Alex
Rodriguez
513 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 42 ANOS
MODALIDADE: BEISEBOL
PAÍS: EUA

Dois dos três maiores


contratos da história do

roger
beisebol ao longo dos 22 anos
em que A-Rod jogou, foram

federer
assinados pelo próprio. No
Regressou aos Laver, lenda do ténis ano passado abandonou a
courts no ano mundial, afirmou que modalidade devido a doping,
passado, depois Federer “com 36 anos um de vários casos em que
de uma lesão no joelho continua a jogar tão bem o polémico atleta esteve
envolvido. É analista na Fox
603 MILHÕES obrigar à primeira grande
paragem da sua carreira
quanto aos 21 anos”.
Patrocinado por Credit Sports e apresentador de
um reality show na CNBC,
DE EUROS desde que se tornou
profissional em 1998,
Suisse, Mercedes-Benz,
Nike e Wilson, o suíço usa
além de aparecer avulso em
programas como o galardoado
IDADE: 36 ANOS e logo superou Novak parte da fortuna e fama Shark Tank. Acresce, na
MODALIDADE: TÉNIS Djokovic no maior prize para ajudar em programas popularidade, a situação de ser
PAÍS: SUIÇA money do ATP Tour. Rod de educação em África. namorado de Jennifer Lopez.

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 47


18 20
Jeff
Gordon Manny
469 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 46 ANOS
Pacquiao
MODALIDADE: AUTOMOBILISMO
PAÍS: EUA

Tetracampeão numa das


455 MILHÕES
categorias rainhas do
automobilismo mundial, a
DE EUROS
Nascar, Gordon ganhou 93 IDADE: 39 ANOS
corridas. O ex-piloto está MODALIDADE: BOXE
ligado à Fox Sports e poderá PAÍS: FILIPINAS
entrar enquanto accionista na
Hendrick Motorsports, onde
fez a carreira.
No próximo mês acederá,
com mais seis pilotos, ao Hall
of Fame of America, a galeria
dos famosos dos desportos
motorizados, em que se
incluem carros, motos, veículos
todo-o-terreno, barcos e
aviões.

19
Oscar
De La Hoya
464 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 45 ANOS
MODALIDADE: BOXE
PAÍS: EUA

Até Manny Pacquiao defrontar


Floyd Mayweather, nenhum
combate promovera tanta
adesão televisiva como aquele,
em 2007, em que o “Golden
Boy” enfrentou o nono
classificado deste ranking – 2,5
milhões de subscrições. Mas De
La Hoya também ganhou com
o duelo do filipino com Floyd:
a sua Golden Boy Promotions,
Senador filipino há ano e si foi contra Mayweather, recente combate com
empresa promotora, arrecadou
quase 50 milhões de euros. meio e recém-promovido a em 2015, quando encaixou Jeff Horn, em Julho. Saiu
O aposentado campeão do coronel no exército do seu 115 milhões de euros. O 11 derrotado. Caso Conor
mundo já desafiou Mayweather país, Manny Pacquiao fez vezes campeão do mundo e McGregor aceite o desafio,
para mais um combate, e até se fortuna nos ringues de boxe. o único campeão do mundo será o próximo adversário
tem treinado às escondidas. O evento mais lucrativo para de oito divisões teve o mais do senador.

48 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


21
derek
jeter
437 MILHÕES
DE EUROS
IDADE: 43 ANOS
MODALIDADE: BEISEBOL
PAÍS: EUA

Por 14 vezes participante no jogadores e acusações de falta


jogo anual de estrelas norte- de empenho a acompanhar os
americanas de beisebol All- seus Miami Marlins, não está
Star, Jeter é agora dono a ter um arranque fácil nas
(com uma pequena posição) novas funções. Do total de mil
e presidente-executivo de milhões de euros pagos pela
uma equipa. Só que, entre equipa por 16 investidores, 25
dispensas ou vendas de milhões são seus.

22 23 24 25
Peyton Kevin Evander Andre
Manning Garnett Holyfield Agassi
428 MILHÕES DE EUROS 428 MILHÕES DE EUROS 424 MILHÕES DE EUROS 420 MILHÕES DE EUROS
IDADE: 41 ANOS IDADE: 41 ANOS IDADE: 55 ANOS IDADE: 47 ANOS
MODALIDADE: FUTEBOL MODALIDADE: BASQUETEBOL MODALIDADE: BOXE MODALIDADE: TÉNIS
AMERICANO PAÍS: EUA PAÍS: EUA PAÍS: EUA
PAÍS: EUA
Ao longo de 22 anos de carreira Com um pedaço da orelha Numa dezena de anos
Cinco vezes considerado nos Timberwolves, Celtics a menos do que antes do arrecadou mais de 120 milhões
o jogador mais valioso e Nets, Garnett acumulou combate de 28 Junho de 1997 de euros com a ligação à Nike.
(MVP), continua a ter a mais cerca de 300 milhões de euros com Mike Tyson, Holyfield Não só pelo patrocínio, mas
profícua carreira de jogador em salários. Em 1997, com mantém o evento como o de também pela valorização das
da NFL (National Football apenas 21 anos, firmou um maior receita na sua carreira: acções que recebeu por força
League, principal liga da contrato de 103 milhões de 28 milhões de euros. Em 2009, do contrato. Vencedor do
modalidade) dentro e fora euros, “loucura” que obrigou no programa de Oprah, o Grand Slam por oito vezes,
de campo. Entre as ligações os responsáveis da NBA a agressor pediu desculpa ao o agora treinador do tenista
comerciais está a Gatorade, impor regras nos contratos agredido, e este perdoou. Mike checo Novak Djokovic foi
marca de bebida energética dos rookies e limitar os salários. até já “devolveu” o pedaço de a grande desilusão no mês
para a qual protagonizou Em 2007 protagonizou uma orelha a Evander, num anúncio passado em Adelaide, ao falhar
já vários anúncios. Está transferência milionária, dos da cadeia Foot Locker. Mais o encontro de veteranos com
por estes dias no cinema, Timberwolves - onde esteve 12 uma receita para Holyfield, Mats Wilander devido a uma
no filme de animação épocas - para os Boston Celtics, que não pagou a hipoteca da lesão num ombro provocada
Ferdinando, onde dá voz ao que levou logo ao título da mansão de 109 assoalhadas na numa queda enquanto
ansioso touro Guapo. NBA. Reformou-se em 2016. Georgia e ficou sem ela. praticava snowboard.

FOTOS DE GETT Y IMAGES E D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 49


NADIM HABIB
PARA NADIM HABIB, É IMPOSSÍVEL UM PAÍS AVANÇAR QUANDO AS EMPRESAS QUEREM
PAGAR 600 EUROS A UM RECÉM-LICENCIADO E O PROBLEMA DE BASE ESTÁ NA BAIXA
PRODUTIVIDADE DAS EMPRESAS QUE , PARA SUBSISTIREM , TÊM DE RECORRER AOS
SALÁRIOS BAIXOS. O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO EXPLICA O QUE TEM DE MUDAR AO
NÍVEL DA GESTÃO DAS EMPRESAS PARA QUE PORTUGAL SEJA UM ÓPTIMO PAÍS PARA VIVER
E, SIMULTANEAMENTE, PARA DESENVOLVER UMA CARREIRA.

“Os portugueses
trabalham
muito e mal” TEXTO DE Joaquim Madrinha – FOTOS DE Victor Machado

50 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 51
NADIM HABIB

Q
uando decidiu mudar-se pa- Os portugueses trabalham muito?
ra Portugal em 1991, o pai não Sim, um português trabalha mais duas horas por dia que um traba-
gostou da ideia: deixar o nor- lhador alemão, que é o país da Organização para a Cooperação e
te da Europa, onde as oportu- Desenvolvimento Económico (OCDE) onde se trabalha menos horas
nidades profissionais e o ren- por dia. Os portugueses têm dois problemas: trabalham muito e mal.
dimento estão no mais alto É a tal questão da produtividade?
nível, não parecia uma op- Exacto. A produtividade mede-se pelos euros criados por cada ho-
ção muito racional. No en- ra de trabalho, e na Alemanha um trabalhador produz em média
tanto, a portuguesa que o con- 54 euros por hora enquanto um português não vai além dos 17 eu-
quistou em Londres ganhou. ros. Isto tem muitas consequências para a economia de um país.
Não se arrependeu, mas ao fim Nos baixos salários, por exemplo?
de seis meses percebeu que a Óbvio. Se um alemão produz três vezes mais do que um português,
noção nórdica de que os portugueses trabalham pouco é errada é natural que ganhe três vezes mais. Mas as consequências não se
– nunca tinha trabalhado tanto na vida – e dedicou-se ao estudo vêem só nos salários. Trabalhar muitas horas origina problemas pa-
das causas da tão baixa produtividade nacional. Hoje está con- ra a vida das pessoas. Por exemplo, as reuniões ao final da tarde, co-
vencido de que o problema não está nos trabalhadores, mas na mo é muito frequente em Portugal, não funcionam, porque as pes-
gestão, ainda muito colada ao “taylorismo”, e está optimista em soas já estão com a cabeça cansada e fora do trabalho.
relação ao futuro. São pouco produtivas?
Nadim Habib, professor na Nova SBE, acredita que as univer- A minha experiência diz-me que, quando a equipa quer uma reunião
sidades estão a fazer um bom trabalho e que há uma nova geração às 18 horas, é porque quer que eu aprove coisas que eu não quero.
de gestores a mudar as empresas. Para o docente, só uma gestão Sei também que a taxa de sucesso das decisões que tomo a essa ho-
mais científica das organizações permitirá aumentar a produti- ra é muito baixa. Depois, complicam a vida porque as pessoas que-
vidade, os salários e, no limite, o grau de felicidade dos trabalha- rem ir para casa, buscar os filhos à escola, estar com a família, com
dores. Afinal, mais do que para gerar lucros, “a gestão serve para os amigos. Sair tarde atrasa ou adia isto tudo, gerando stress e can-
nos fazer mais felizes”, acredita Nadim. saço. As pessoas saem do escritório cansadas, chegam a casa can-

HOR A S A MAIS NO ESCRITÓRIO


Se os portugueses trabalhassem as mesmas horas por dia que um
alemão, no final do ano conseguiriam tempo livre equivalente a
20 dias de trabalho. Agora imagine o salário se tivessem a mesma
produtividade. Para o professor da Nova SBE, o caminho para lá
chegar traça-se com mais e melhores gestores.
Fonte: Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

1740
1730
1703
1695
1682
1669

1713
1676
1653
1590

1621
1601
1551
1512
1472
1430
1424
1410
1363

LUXEMBURGO

REINO UNIDO

ESLOVÁQUIA
DINAMARCA
ALEMANHA

ESLOVÉNIA
AUSTRÁLIA
FINLÂNDIA
HOLANDA
NORUEGA

ESPANHA
ÁUSTRIA
BÉLGICA

CANADÁ
FRANÇA

SUÉCIA

ITÁLIA
JAPÃO
SUÍÇA

52 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


sadas, e no fim de-semana têm de fazer em casa o que não conse-
guiram durante a semana e terminam os dias de descanso estoira-
dos. Forma-se um círculo vicioso.
Nos países do norte da Europa sai-se mais cedo do trabalho…
Em Londres sai-se do trabalho às 17h30. Na Alemanha, a hora de
saída é entre as 16h30 e as 17 horas. Se ligarem para o escritório de
uma empresa alemã às 17h30 horas, ninguém atende, a não ser que
trabalhe lá algum português…
Mas estamos perante um problema individual ou cultural?
A educação assente na ideia de que para ter sucesso tem que se tra-
balhar, tem influência. Eu concordo que, individualmente, o meu su-
cesso está relacionado com a minha capacidade de trabalho, mas
até seis ou sete horas por dia. A partir daí, todo o trabalho é sinal do
meu insucesso e as estatísticas mostram isso mesmo. Economias

“Não acredito que a política


tenha grande influência
na economia. Fico até
nervoso quando ouço um
governante dizer que
vai criar emprego.”

2255
2212
2069
2035
1974
1974
1842

1928
1889
1910
1885
1883
1879
1763

1855
1832
1783
1770
1761

COREIA DO SUL

COSTA RICA
PORTUGAL

LITUÂNIA
ISLÂNDIA
HUNGRIA

CHÉQUIA

TURQUIA

POLÓNIA
IRLANDA

LETÓNIA
ESTÓNIA

MÉXICO
GRÉCIA
RÚSSIA
ISRAEL

CHILE
OCDE

EUA

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 53


GRANDE ENTREVISTA

como a grega, a brasileira ou a mexicana, onde se trabalha mais ho-


ras, não são bem-sucedidas.
E qual é a solução?
É necessário uma abordagem científica à gestão. Em Portugal, a ges-
tão ainda é vista como uma arte, que qualquer um faz. Temos mé-
dicos a gerir hospitais e advogados e engenheiros a gerir empresas.
Isto não quer dizer que alguns não saibam o que andam a fazer, mas
parece-me uma abordagem pouco científica relativamente a algo
muito importante para a sociedade. Essa é a grande diferença en-
tre nós e a Alemanha, a Dinamarca, e outros. Acredito que se me-
lhorarmos a qualidade da gestão existente num país melhoramos
o país, e países com boa gestão tendem a ser eco-
nomias fortes e a ter melhores governos.
Até os governos?
Eu não acredito que a política tenha grande in- NADIM
fluência na economia. Fico até nervoso quando HABIB
ouço um governante dizer que vai criar emprego,
NACIONALIDADE:
porque quando o faz isso acaba por custar uma Dinamarquesa
pipa de massa ao país. Mas empresas bem geri-
IDADE: 51 anos
das e produtivas ajudam o país. Com melhor ges-
tão teremos lucros e salários maiores e, em con- FORMAÇÃO: Mestre
sequência, mais receitas em IRS, IRC e IVA para o em Economia pela
London School of
Estado, que depois poderá melhorar os serviços
Economics.
que presta aos cidadãos. É mais uma vez o exem-
plo dos países do norte da Europa. Filho de mãe dina-
E como é que se melhora a gestão? marquesa e pai liba-
Com mais e melhores gestores. Em Portugal ain- nês, é um comunica-
dor nato que divide o
da há uma visão muito “taylorista” da gestão. seu tempo entre a fa-
Os primeiros gestores eram tipicamente engenhei- mília e a docência na
ros. Aliás, até há bem pouco tempo, tirar um curso Nova SBE, onde ensi-
de Gestão não era nada sexy. “Vais ser merceei- na Empreendedoris-
ro?”, dizia-se, e depois o aluno optava por Econo- mo e lecciona cadei-
ras relacionadas com
mia ou outro curso qualquer. Eu não tenho nada estratégia e inovação
contra os engenheiros. O Taylor (Frederick Wins- empresarial, tanto no
low), que escreveu “Os Princípios da Gestão Cien- Lisbon MBA como em
tífica”, que eu recomendo a todos os gestores e as- outros cursos minis-
pirantes, era engenheiro. São pessoas com uma trados na universida-
de. É também con-
noção de organização muito bem estruturada
sultor de várias em-
e arrumada. O problema é que vêem uma empre- presas nacionais e in- Hoje, os empregados passaram a colaboradores.
sa como uma máquina e hoje essa visão já não ternacionais e orador Os cínicos dirão que não há diferença, mas há.
se aplica à realidade. frequente em eventos O primeiro é um especialista em obediência. Se o
Mas continua a ser uma organização com empresariais. chefe o mandar sentar, ele senta-se, e se lhe per-
várias peças…. guntarmos porque está sentado, ele responde: por-
Sim, mas a relação entre elas é diferente. Hoje as que o chefe mandou. Já o colaborador pergunta por
pessoas têm formação, qualificações e são inteli- que se deve sentar. Pessoas inteligentes e qualifi-
gentes, e não ignorantes como no início do século passado em que cadas não conseguem obedecer sem perceber o porquê das ordens.
apenas 3% da população sabia ler e escrever. Como os chefes eram Isto acontece nas nossas casas.
poucos e sabiam tudo, fazia sentido existir uma hierarquia vinca- Como assim?
da com muitas regras e controlos, em que os chefes ditavam as re- Quando eu digo lá em casa que vamos a um restaurante, a minha
gras e os empregados cumpriam-nas. Hoje já não pode, nem deve mulher e os meus filhos não dizem que sim. Perguntam “a qual?”,
ser assim. Um modelo de gestão “taylorista” faz sentido num país e se não gostarem apontam outra opção. A educação veio criar de-
onde não haja formação, como nos países africanos. Não em Por- sobediência e as empresas têm de se adaptar a isso, porque é um
tugal. Além disso, estamos numa economia de relações, já não es- “problema” vantajoso para elas.
tamos na lógica da economia da transacção em que o empregado Um problema vantajoso?
dava horas de trabalho em troca de dinheiro do patrão. A educação gera proactividade, algo de que ouço os gestores a quei-
xarem-se constantemente, porque alegadamente ela não existe.
MAIS INTELIGÊNCIA, MAIS DESOBEDIÊNCIA Mas se dissermos a uma pessoa exactamente o que tem de fazer,
A relação do gestor com o empregado deve ser diferente? ela não tem opção. Ao invés de criar o processo, devemos dizer-

54 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


faz algum sentido uma pessoa liderar uma equi-
pa de dez pessoas num departamento que factu-
ra milhões de euros, mas ter que ver aprovadas as
despesas pelo superior antes de ser reembolsado?
Quer dizer, confiam-lhe milhões em facturação,
mas algumas dezenas de euros de gastos em te-
lemóvel e almoços, não. É ridículo o dinheiro que
se gasta em processos e trabalho que não geram
valor algum nas empresas.
Mas é necessário algum controlo, não?
Os “tayloristas” dirão que sim, porque se derem
dias de férias ilimitados como faz a Netflix, ama-
nhã ninguém vai aparecer no trabalho. Mas isto é
pensar que o empregado é um ignorante que pre-
fere não trabalhar. Só que a educação tornou as
pessoas inteligentes, e as pessoas inteligentes gos-
tam de trabalhar, porque o trabalho as faz cres-
cer, realizar, e dá-lhes dinheiro também. E todos
queremos ter dinheiro.
A abordagem tem de ser diferente, portanto?
Enquanto o chefe achar que é o que mais e me-
lhor faz, o crescimento da empresa vai estar limi-
tado ao crescimento dele, e as pessoas nunca cres-
cem muito individualmente. Eu, com os meus 51
anos de experiência, tenho que ter consciência de
que um jovem de 18 ou 21 anos sabe muito mais
do que eu sobre marketing e gestão de redes so-
ciais, por exemplo.
Então o que é um bom gestor?
É alguém que prepara a empresa para lidar com
qualquer futuro, o que significa que as empresas
de hoje, mais do que eficientes, têm que ser ágeis.
O mundo muda muito rapidamente. Quando Tho-
mas Edison criou a General Electric, em 1873,
a electricidade demorou 46 anos a chegar a um
quarto da população. A rádio demorou 31 anos,
a televisão levou 20 anos, mas o telemóvel já só le-
vou 13 anos e o Facebook precisou apenas de dois.
“Pessoas inteligentes e qualificadas Hoje não é possível planear Dezembro em Janei-
ro. A Toys “R” Us faliu por causa desse tipo de pla-
não conseguem obedecer sem neamento. Mandar vir material da China é bara-

perceber o porquê das ordens.” to, mas demora seis meses, e hoje não é possível
saber qual é a moda daqui a seis meses. Quando o
meu filho me pede um Fidget Spinner é para ago-
ra, não é para o Natal.
-lhe: a tua função é assegurar que a pessoa certa se encontra com a Isso quer dizer que os clientes também estão diferentes?
pessoa certa, na altura certa, e com a melhor experiência possível. Vive-se a era do poder do cliente. Hoje não é possível dividir os
Agora, inventa tu o processo. Assim já posso exigir. Se for eu a defi- clientes em segmentos de acordo com o nível de rendimento. Te-
nir o processo não posso. mos pessoas que usam o desconto de um hipermercado para poupar
Ainda vê muito “taylorismo” nas empresas portuguesas? 0,4 euros num pacote de bolachas de marca branca, mas depois com-
Sim. Continua a existir uma enorme distância entre o topo e o res- pram um automóvel de gama alta ou o último modelo do iPhone.
to da estrutura. Quantas empresas conhece em que o escritório do Eu diria que os clientes de hoje estão mais irracionais e emocionais.
presidente é no último andar do edifício, onde o tapete que está no E estas mudanças obrigam a uma inovação constante…
chão é mais grosso e as pessoas falam baixinho, como se estives- Sim, porque num mundo em mudança, as empresas que não se
sem no local dos iluminados? Os controlos à entrada e à saída são adaptarem sofrem ou morrem. Veja-se o que aconteceu num curto
outro exemplo. A marcação de férias, que tem de se fazer até ao fi- espaço de tempo no sector dos telemóveis. A Nokia, que liderou o
nal de Março, e que toda a gente faz, mas que ninguém cumpre. sector durante muitos anos, não viu a importância do e-mail e dei-
E uma das regras de que eu gosto mais é a “autorização das despesas”: xou-se ultrapassar pela Blackberry e depois esta não viu a impor-

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 55


GRANDE ENTREVISTA

“Temos um bom ensino, mas continuamos


a focar-nos muito na resolução dos
problemas, quando devíamos ensinar
as pessoas a encontrar os problemas.”
tância das redes sociais e foi ultrapassada pela Apple. São dois exem- ESQUEÇA O
plos de má gestão. O gestor é responsável por entender a mudança
“TAYLORISMO”
no mundo e preparar a organização para lidar com ela, seja qual for.
Em 1911, Frederick Winslon
Qual é o papel da tecnologia no actual contexto de mudança? Taylor escreveu “Os Princípios
A tecnologia funciona como ignição da inovação, mas inovar é fa- da Gestão Cietífica”, um livro
zer melhor, o que não significa necessariamente uma nova tecno- que Nadim Habib aconselha a
logia. Algumas das mudanças em curso devem-se às novas tecno- todos os gestores e aspirantes.
logias, porque ajudam a criar ferramentas para resolver pequenas Para quem está interessado
nos mais modernos conceitos
dores e irritações que sem elas não conseguiríamos. Por exemplo, de gestão, o professor da Nova
a Uber nasce da evolução dos satélites, do GPS e dos smartphones. SBE aponta outros dois livros
Mas empresas como a Ikea, a Zara, a H3 (hambúrgueres), que são como indispensáveis.
negócios que nada têm de tecnológico, são altamente inovadoras.
A inovação não está dependente da tecnologia.

HÁ ESPERANÇA NAS NOVAS GERAÇÕES


Tem algumas referências de inovação e boa gestão em Portugal?
Felizmente são cada vez mais. O Paulo Rosado e o Rui Paiva estão Good to Great
a fazer um magnífico trabalho na OutSystems e na WeDo Techno- – Why Some
logies, respectivamente. O José Neves, na Farfetch, é outro exemplo. Companies Make the
Há muitos, estaríamos aqui a falar um bom bocado sobre eles. Há uma Leap... and Others Don’t
nova geração de gestores, entre os 35 e os 45 anos, que estão a defi- Jim C. Collins
nir novos rumos. Estou muito confiante nesta geração e na mudan- Através de vários exemplos,
o autor descreve como várias
ça de cultura que eles vão provocar no tecido empresarial nacional. empresas conseguiram dar o
As mudanças culturais costumam demorar… salto de “boas” para ”excelentes”
Sim, é verdade, mas já está a acontecer. Estimo que nos próximos 15, e manter um desempenho
20 anos vamos ter um tecido empresarial muito diferente daque- financeiro superior aos
concorrentes durante um longo
le que temos hoje ao nível da gestão, o que significa que a vida dos prazo. E, mais importante, aponta
nossos filhos vai ser muito melhor do que a nossa. A continuar as- as razões pelas quais a maioria não
sim, Portugal será um óptimo país para viver, mas também para ter consegue. Publicado em 2001,
uma carreira, algo que agora não é. vendeu mais de 4 milhões de
exemplares.
Há diferença entre ser gestor e ser líder?
A mesma pessoa pode ser ambos, mas eu diria que o gestor é aquele
que faz bem e que quando sai da empresa a deixa a funcionar para
quem vier a seguir. O líder é uma pessoa talhada para um objectivo
definido. Vejamos um caso no mundo do futebol: o José Mourinho
é um líder. Por onde passa ganha, mas quando sai deixa um vazio.
Good Strategy,
Já o Bobby Robson foi um exemplo de excelente gestão, pois quan-
Bad Strategy
do esteve no Futebol Clube do Porto, além de ter ganho dois cam- – The Difference and
peonatos nacionais e uma Taça de Portugal, formou José Mourinho why it Matters
e André Villas-Boas. E deixou o clube preparado para continuar a Richard P. Rumelt
vencer. Já depois de ter saído, o clube ganhou três campeonatos se- É um mergulho no mundo da
guidos, e mais tarde os seus formandos venceram provas interna- estratégia empresarial. Ao longo
cionais de relevo. das mais de 240 páginas, Rumelt
Que avaliação faz sobre a estratégia nacional de fomento ao apresenta exemplos de sucesso
e de fracasso em empresas
empreendedorismo? bem conhecidas como a Apple
Sempre houve empreendedores e vão existir sempre pessoas que ou a cadeia de supermercados
não se encaixam na vida empresarial e que vão ter, ou tentar ter, norte-americana Walmart, e
quais os ingredientes para fundar
projectos próprios. Mas isto será um em cada mil, não vamos to-
uma estratégia que permita às
dos criar uma start-up. Se optarem por esse caminho, a minha re- empresas superar os obstáculos
comendação é que tenham uma abordagem científica e não total- do progresso.

56 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


mente instintiva. Há ciência. É importante aprender a fazer antes
de tentar fazer melhor. Um empreendedor de sucesso é uma pes-
soa que tem experiência, poupanças, apoio da família e olho para
detectar o falhanço.
Detectar o falhanço?
Sim, ver onde as empresas estão a falhar no serviço que prestam ao
cliente. Veja-se o caso dos táxis. Como era dantes o processo de ar-
ranjar um táxi? Tínhamos de ligar para uma central, dar o endere-
ço, ter dinheiro na carteira e um bolso só para as facturas. Era um
serviço com várias falhas e os senhores dos táxis sabiam disto, mas
nada fizeram até que a Uber aparece. Um dia fui à Novabase e per-
guntei quanto custaria desenvolver uma aplicação semelhante à da
Uber. Disseram-me: “80 mil euros”. Ora, tendo em conta que exis-
tem 15 mil táxis, por pouco mais de 5 euros a cada um, o sector po-
dia ter evitado que a Uber entrasse em Portugal com a força que en-
trou. Este é um caso de má gestão e do aproveitamento da tecnologia
para colmatar uma falha na prestação de um determinado serviço.
Que conselhos dá aos alunos para serem melhores gestores?
Aprender a fazer perguntas. A pergunta certa tem mais impacto do
que a resposta certa. Temos um bom ensino, mas continuamos a fo-
car-nos muito na resolução dos problemas, quando devíamos ensi-
nar as pessoas a encontrar os problemas. Só a fazer perguntas é que
encontramos o problema a resolver. A maioria das empresas não
sabe que problemas tem. Por exemplo, é frequente ver-se a falta de
vendas como um problema, mas é um sintoma. Um bom gestor faz
boas perguntas, e funciona como a faísca que faz disparar o poten-
cial da equipa. Todos já tivemos professores e chefes que puxaram
por nós, com quem sabíamos que tínhamos de trabalhar e de nos
preparar. Por causa das perguntas e não pelas respostas.
Porque acaba sempre as suas conferências com a felicidade?
Não sou particularmente religioso, mas acredito que estamos na Ter-
ra para ser felizes. As pessoas procuram a felicidade e têm direito a
ela. Não se pode aceitar a ideia de que para sermos ricos temos que
sacrificar a vida ou optar entre uma carreira profissional ou uma vi-
da familiar. Durante anos os homens abdicaram de ter vida familiar
e as mulheres uma carreira profissional. Não pode ser assim. Enten-
do que uma melhor gestão nas empresas torna as pessoas mais feli-
zes. Acredito que a gestão, a boa gestão, é ciência para a felicidade. J

“O EMPREENDEDORISMO
É UMA RESPOSTA AO FALHA NÇO”
Apesar de ensinar e estimular o empreendedorismo, Nadim Habib diz que há uma eu-
foria em torno das start-ups e deixa um conselho aos jovens que querem enveredar por
este caminho na fase inicial da carreira. “Não sabem onde se vão meter”, afirma. “Não
vão ter férias, não vão ter dinheiro, não vão dormir. Não é um estilo de vida, divertido, é
uma das coisas mais duras de fazer na vida e a taxa de insucesso é elevadíssima”, adianta.
Para o professor, vive-se um hype que está a provocar nos jovens aquilo que chama
de “a doença dos ídolos”, fazendo alusão ao programa de televisão. “As pessoas vão lá
sem saberem cantar, mas no final continuam a dizer: eu vou seguir o meu sonho. É uma
parvoíce”, refere Nadim, mostrando-se crítico da actual estratégia que o país está a
seguir nesta matéria. “Incentivar jovens de 22 anos, sem qualquer experiência, a criar
empresas, é condená-los ao trauma do insucesso”, afirma.
No curso de Verão que lecciona aos finalistas de gestão da Nova SBE com o intuito de
os preparar para o mercado de trabalho, o professor aconselha os alunos a arranjar em-
prego numa grande empresa porque será onde terão acesso a mais recursos para inovar
e fazer a diferença. “O empreendedorismo nasce do falhanço, não da paixão. Percebam
a falha da empresa onde trabalham e criem uma ao lado que faça melhor”, aconselha.

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 57


58 Forbes Portugal – Fevereiro 2018
BUMBLE

UM NEGÓCIO
MULTIMILIONÁRIO
TRÊS ANOS DEPOIS DE SAIR DO TINDER APÓS UM A
DISPUTA JUDICIAL , WHITNEY WOLFE HERD ESTÁ
A ARRASAR OS EX-COLEGAS USANDO AS MESMAS
ARM AS: UM A APP DE ENCONTROS PARA MULHERES
PENSADA EXCLUSIVAMENTE PARA EL AS – UM NEGÓCIO
QUE É TAMBÉM UM A PISTA PARA EMPREENDEDORES
NAVEGAREM EM ÁGUAS JÁ MUITO SATURADAS.

CLARE O’CONNOR

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 59


BUMBLE

m Outubro do ano passado, quando Whitney Wolfe


Herd começou a delinear a festa de lançamento de
um novo produto Bumble – a aplicação de encon-
tros de crescimento mais rápido dos EUA – a esco-
lha do local não foi inocente. O espaço que duran-
te 57 anos acolheu o restaurante do luxuoso hotel
Four Seasons e teve como clientes regulares Henry
Kissinger ou Vernon Jordan era ideal para promo-
ver um power lunch – almoço de negócios que reú-
ne gente com poder.
Hoje o restaurante tem outro nome, novo menu
e nova gestão. Bem como uma nova perspectiva de
negócio, sublinha Herd. “O power lunch deixou de
ser apenas para homens. Todas merecemos um lugar à mesa”,
diz Herd a uma plateia composta, maioritariamente, por jovens
e mulheres, antes de ceder o lugar no palco à estrela pop Fergie.
Uma coisa é certa, Herd, 28 anos, a mulher que mudou a dinâmi-
ca dos encontros on-line, tem lugar cativo à mesa. Isto porque no
Bumble são as mulheres quem manda e também quem dá o pri-
meiro passo. Resultado? Mais de 22 milhões de utilizadores re-
gistados, face aos 46 milhões do Tinder, e um crescimento anual
de 70%, quando o Tinder não vai além dos 10%. O diferencial es-
tá, pois, a diminuir rapidamente.
O Bumble só começou a ter lucros em Agosto de 2016, atra-
vés da venda de funcionalidades dentro da própria aplicação,
e terá ultrapassado os 100 milhões de dólares (cerca de 84,4 mi-
lhões de euros) no final do ano passado. Estima-se que este va-
lor duplique em 2018, graças à introdução de publicidade custo-
mizada e hiper-localizada. Segundo fontes próximas da funda-
dora do Bumble, esta terá recusado no início de 2017 uma oferta
de compra do Match Group no valor de cerca de 380 milhões de
euros. As mesmas fontes garantem que o Match Group abordou a
empresa no Outono para discutir uma valorização superior a mil
NO BUMBLE, SÃO AS MULHERES QUEM DÁ O
milhões de dólares (cerca de 844 milhões de euros). Herd detém
uma participação de 20% no Bumble, o suficiente para fazer de-
PRIMEIRO PASSO. A APLICAÇÃO JÁ TEM MAIS
la uma multimilionária. O Match Group recusou-se a comentar. DE 22 MILHÕES DE UTILIZADORES REGISTADOS.
Um regresso surpreendente, portanto, es- tivo) ao focar-se nas necessidades de um segmento: as mulheres.
te de Whitney Herd. Enquanto co-funda- Mais de 10% das utilizadoras do Bumble pagam uma subs-
RENASCIDA dora e vice-presidente da área de marke-
ting no Tinder, reinventou a forma de co-
crição mensal de 8,45 euros para ter acesso a extras, nomeada-
mente mais tempo para decidir se um potencial candidato mere-
DAS CINZAS nhecer pessoas e integrou uma das prin- ce resposta. De acordo com um estudo do banco de investimento
cipais histórias de sucesso da “era smar- Jefferies, no Tinder apenas 5% dos utilizadores pagam por extras
tphone”. A dada altura, porém, viu-se en- semelhantes. É claro que também ajuda o facto do segmento-al-
volvida num dos maiores dramas públi- vo de Herd representar a maioria da população. “Não guardo res-
cos desta mesma era. Em Junho de 2014 processou o Tinder por sentimentos contra nada nem ninguém. Estou demasiado ocupa-
assédio sexual, alegando que o seu ex-chefe e ex-namorado, Jus- da”, diz Herd. Mas se é verdade que o sucesso é a melhor vingan-
tin Mateen, a insultara chamando-lhe “prostituta” e “interesseira”, ça, também é verdade que atingir nove dígitos em três anos é o ti-
e bombardeara com mensagens (SMS) ofensivas e ameaçadoras, po de história que as pessoas gostam de ver adaptada a cinema.
que anexou à queixa apresentada junto das autoridades judiciais. O Bumble nasceu de circunstâncias alheias a Herd. Nos me-
O litígio foi resolvido mediante acordo, o qual não permite às ses entre a apresentação da queixa e a resolução do litígio com o
partes recorrer do mesmo. O valor acordado, como já foi noticia- Tinder, a empresária foi alvo das críticas que pululam nas redes
do pela Forbes, rondou os 844 mil euros. sociais sempre que uma mulher denuncia publicamente situações
Herd não perdeu tempo com ressentimentos, e decidiu usar de assédio sexual. “Uma série de estranhos não só me atacaram
as suas energias na criação de uma empresa rival. Ao fazê-lo, en- dizendo coisas horríveis, como usaram as redes sociais para dis-
trou num dos campos digitais mais estabelecidos e concorridos – secar a minha vida. Não estava a candidatar-me a um lugar, nem
mais de 90% das start-ups de encontros on-line ficam pelo cami- estava a concorrer a um reality show. Era apenas uma mulher en-
nho –, mas rapidamente se afirmou e ocupou um espaço (lucra- tregue à sua própria sorte”, sublinha.

60 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Quando esses insultos se transformaram em ameaças de vio-
lação e morte por parte de estranhos, Herd apagou a sua conta
no Twitter. Seguiram-se ataques de pânico e transtornos psicó- ALMAS
GÉMEAS
ticos. A jovem nascida em Salt Lake City, que estudara numa es-
cola privada e faz parte da terceira geração de alunos da Sou-
thern Methodist University, em Dallas, mudou-se para o Texas
juntamente com a família do então namorado e actual marido,
Michael Herd. “Estava arrasada”, diz. Para superar o trauma e
aprender com ele, decidiu criar uma rede social só para mulheres
chamada Merci. O mote centrava-se no positivismo como forma
de encarar a vida. “Nada de comentários sobre aspectos físicos. Não faltam aplicações e sites de encontros dirigidos
Apenas sobre aquilo que é a essência das pessoas”, explica. a nichos. Conheça alguns dos mais populares.
Fonte: App Annie.
Até que recebeu um e-mail de alguém
com um endereço desconhecido e um
OLHO nome russo: Andrey Andreev. Nascido
em Moscovo e residente em Londres,
DE LINCE Andreev fundara uma rede social de
Christian Mingle
encontros (dating) chamada Badoo, ac-
DOWNLOADS: aproximadamente 1 milhão
tualmente a maior do mundo com mais
O site que coloca a ênfase nas relações entre pessoas que “valorizam Deus”
de 360 milhões de utilizadores regista- foi lançado em 2001. Actualmente é propriedade de uma empresa que
dos em 190 países. Tinham-se conhecido num jantar, em 2013, detém uma rede de plataformas digitais de encontros. Uma das primeiras per-
guntas a que tem de responder quando se regista é quantas vezes vai à igreja.
quando Herd ainda estava no Tinder, e não passara desperce-
bida aos olhos de Andreev. “Para ser honesto, adorei a energia
e o entusiasmo de Whitney”, diz Andreev, 43 anos, que ganhou
fama de recluso por raramente dar entrevistas. “Achei que era
uma mulher muito cool e que devia seguir atentamente os seus Hater
passos”, acrescenta. Herd não respondeu ao e-mail e a equipa DOWNLOADS: 250 000
de Andreev entrou em contacto com os advogados de Whitney Fundada em 2016, esta aplicação permite encontrar a alma gémea compa-
para lhe desejar sucesso na batalha judicial que tinha pela fren- rando interesses e coisas que o/a tiram do sério. Detesta Vladimir Putin, pes-
soas que só gostam de andar devagar, a série de televisão x ou y? Descubra
te e para informá-la de que Andreev gostaria de trabalhar com com quem pode partilhar os mesmos desabafos.
ela. “A minha ideia inicial era convidá-la para ser directora de
marketing do Badoo”, lembra Andreev.
Como Herd planeava visitar a sua irmã em Paris, decidiu fa-
zer uma breve paragem em Londres. A oferta de trabalho que
ele tinha em mente não lhe interessava. “Pode continuar a so- Farmers Only
nhar: não estou disponível. Vou lançar uma empresa e o negócio DOWNLOADS: 300 000

dos encontros é aquilo que menos me interessa”, terá dito Herd. O site de encontros para “agricultores, rancheiros e country folks” tem sido
um êxito desde o seu lançamento, em 2005. A tal ponto que o seu fundador,
No entanto, não resistiu a falar sobre a Merci. Andreev gostou Jerry Miller, um nativo de Ohio, decidiu lançar uma nova plataforma em 2016
da ideia de uma marca social centrada em mulheres, mas in- – a curvesconnect.com – dirigida a pessoas com peso acima da média e res-
pectivos admiradores.
sistiu que ela devia focar-se no seu “ponto forte”, que era tam-
bém o dele: serviços de encontros. Passaram dias a deambu-
lar pelas ruas e parques londrinos, trocando ideias, discutindo
estratégias. Andreev elogiou o seu talento e propôs-lhe forma-
rem equipa. Da sua parte, estava disposto a investir no projecto JDate
e a disponibilizar os recursos e a infra-estrutura de marketing DOWNLOADS: 250 000
e branding que consolidara ao longo de uma década no Badoo. É aqui que judeus solteiros, homens e mulheres, podem encontrar a sua ca-
Em Setembro de 2014, após o acordo que pôs fim ao litígio ra-metade ou fazer novos amigos. Nasceu durante o boom das empresas
tecnológicas, em 1997, e quem não fizer parte da “tribo” pode especificar
com o Tinder – que não incluía uma cláusula de não concor- “se pretende ou não converter-se”.
rência –, Herd aceitou a oferta de Andreev, que faria um inves-
timento inicial na ordem dos 8,4 milhões de euros, ficando com
79% da empresa. A ideia era cobrir os custos com o marketing
do lançamento e também assegurar uma almofada financeira
para estimular o crescimento do negócio. Herd seria a funda- Wingman
dora, presidente-executiva e titular de 20%, e teria toda a au- DOWNLOADS: 10 000

tonomia inerente às funções em questão. Além disso, também Para os mais tímidos, que não querem sequer registar-se, esta aplicação permi-
te que os amigos o/a inscrevam num blind date. Criada pelo estúdio de design
poderia usar a infra-estrutura do Badoo e o know-how de An- Moa DW, tem a particularidade de incluir uma componente de gamificação:
dreev. Os dez anos de experiência acumulada no Badoo revela- ser o melhor cupido, ou seja, bater os outros na arte de juntar amigos solteiros.

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 61


BUMBLE

ram-se particularmente úteis: desde os testes A/B e a eficácia, riências que as mulheres têm quando
ou ineficácia, de certos serviços e funcionalidades, até à expe- usam apps de encontros.
riência de dar escala a um produto que não tem rival no mer-
cado de encontros.
MULHERES Lá fora estão mais de 40ºC. Apesar do ca-
lor opressivo de Agosto, os transeuntes
Entre Setembro e Dezembro de 2014, Herd deslocou-se umas AO PODER param para contemplar a nova sede do
15 vezes a Londres. Uma noite, depois de uns quantos cocktails, Bumble, num bairro residencial na zona
Herd descobriu aquilo que podia fazer a diferença no Bumble norte de Austin, Texas. No dia da inaugu-
e comentou com Andreev. “Sempre me agradou a ideia de ter o ração, o edifício amarelo-torrado foi co-
contacto de um tipo sem que ele tivesse o meu. E se forem as mu- berto com milhares de balões gigantes em tons pastel. As pessoas
lheres a dar o primeiro passo, a enviar a primeira mensagem? tiram selfies junto da fachada, os carros abrandam e os condutores
Se não o fizerem, o match desaparece ao fim de 24 horas, como perguntam que empresa é aquela. Para a equipa do Bumble, todas
a abóbora transformada em coche na história da Cinderela. Po- as oportunidades de marketing são boas, por mais mundanas que
dia ser algo como nos bailes de antigamente, em que os homens possam parecer, como um simples passeio de carro pela cidade.
convidavam as mulheres para dançar, mas ao contrário. Aqui, A empresa emprega 70 pessoas, 85% das quais mulheres, car-
quem toma a iniciativa é a mulher. Será que conseguimos apli- gos de topo incluídos, à excepção de Andreev. A nova sede não en-
car este conceito a um produto?” Este é o género de “clique” que gana: por todo o lado há cartazes e sinalética que ilustram os man-
só uma pessoa que compreende o público-alvo pode ter. Depois tras do Bumble: “És a abelha-rainha”, “Sê o presidente com quem os
de ensaiarem diversos nomes, acabaram por escolher Bumble. teus pais queriam que te casasses” ou “Dá o primeiro passo”. O uni-
A aplicação foi lançada em Dezembro de 2014 e ultrapassou os verso da colmeia e a estética associada, a par do amarelo caracte-
100 mil downloads logo no primeiro mês. “As mulheres esta- rístico do Bumble, têm um papel preponderante no conceito da app,
vam preparadas para este produto”, sublinha Dave Evans, um que funciona assim: quando há um match entre utilizadores do sexo
consultor na área que tem feito o levantamento das más expe- oposto, a mulher é quem toma a iniciativa de enviar uma mensagem
ou de ignorar o match. A aplicação permite que a mulher controle

HERD PROCESSOU O TINDER POR ASSÉDIO o contacto inicial, e isso dá-lhe outro conforto e segurança compa-
rando com serviços rivais, além de servir de filtro a fotografias não
SEXUAL ! AS PARTES CHEGARAM A ACORDO solicitadas (incluindo de órgãos genitais masculinos), que se torna-
ram uma verdadeira praga nas plataformas de encontros on-line.
E HERD RECEBEU MAIS DE 800 MIL EUROS. No ano passado, o Bumble baniu as selfies em tronco nu (comuns em
muitos perfis masculinos do Tinder) por serem as fotografias mais
rejeitadas. Isto não significa que o Bumble possa evitar todo o tipo
ANO DA INVESTIMENTO FUNDADORA LUCROS de situações desagradáveis, mas consegue, pelo menos, reduzir as
FUNDAÇÃO: INICIAL: E PRESIDENTE: (ESTIMADOS
EM 2017): probabilidades de elas acontecerem.
2014 8,5 milhões Whitney
de euros Herd 85 milhões Este ambiente mais controlado trouxe dividendos surpreendentes.
de euros Centenas de milhares de mulheres assinalaram no respectivo perfil
BUMBLE que não procuravam apenas um match, mas também novas amizades
e contactos profissionais. Daí ao BFF (uma app que aposta em ligações
platónicas entre mulheres) e ao Bizz, lançada oficialmente em Outu-
bro e que pretende rivalizar com o LinkedIn, foi um passo. Ambas uti-
lizam uma interface semelhante à do Bumble, em que a mulher é rai-
nha. “No fundo, estamos a purgar o sexismo e o aliciamento que exis-
te no networking. Acho que pode ser uma boa aposta”, explica Herd.
No ano passado, o Tinder também expandiu a sua actividade
para as relações platónicas com a criação da Hey! Vina, uma rede de
amizade para mulheres. Mas não só. A empresa-mãe, o Match Group,
que continua a ser o principal player do negócio de encontros on-li-
ne nos EUA, também está atenta ao mercado. Cotada em Bolsa e do-
na do Match.com, OkCupid, PlentyOfFish e de outras nove platafor-
mas de encontros on-line, seguramente que teria interesse em adi-
cionar o Bumble à sua carteira. “O Match Group tem tido sorte por-
que é dono de 45 marcas diferentes”, diz Brent Thill, analista no Je-
fferies e responsável por avaliar o desempenho do mercado de apps
de encontros. “Mas, aparentemente, a única marca de quem toda a
gente fala não é deles”, sublinha. Herd não quis comentar as ofer-
tas de compra que tem recebido, mas a venda do Bumble ao Match
Group seria um belo desfecho, depois de tudo o que sofreu às mãos
do Tinder em 2014. Uma das maiores produtoras de Hollywood até
já manifestou interesse em fazer um filme sobre a sua vida. “É uma
boa história”, admite Herd soltando uma gargalhada. J
66
A MULHER POR
DETRÁS DO
BOOKING.COM

68
COMO TORNAR
O PASSADO
DELICIOSO

Christian e Christine decidiram apostar numa


sociedade livre de produtos químicos. O negócio foi
considerado um dos mais disruptivos do mundo.

CRIADORES
DE UM NOVO
MUNDO TEX TO DE MARGARIDA VAQUEIRO LOPES
FOTOS DE VICTOR MACHADO

LÍDERES
V I DA S D E S U C E S S O
QUE INSPIR A M MILHÕES

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 63


L CHRISTIAN BALIVET E CHRISTINE PAUSEWANG

Q
uando o avô de Chris- uma prioridade sobretudo das no- Christian
tian Balivet, Gual- vas gerações que já não olham pa- Pierre Balivet
dim Redol, decidiu ra os produtos naturais como sen- e Christine
criar a Biocol Labs, do apenas “suplementos alimen- Pausewang
no final dos anos tares”, mas sim como verdadeiros Idade:
1970, os suplemen- caminhos para um maior equilí- 30 anos; 33 anos
tos naturais eram um caminho no- brio entre mente e corpo. Formação:
vo. Ninguém percebia muito bem o “Acho que estamos a caminhar, Marketing e
conceito e durante muitos anos foi verdadeiramente, para uma socieda- Publicidade pela
sempre associado a um estilo de vida de pós-químicos”, diz Christine, di- Universidade de
demasiado alternativo para poder rectora de marca, sócia-gerente da Artes de Londres;
Gestão de Retalho
ser tomado como ‘normal’. Sobre- spin-off da Biocol Labs a que entre- pela Universidade
tudo numa altura em que a indús- tanto ela e Christian deram forma. de Artes de Londres
tria farmacêutica esteve em franco A alemã de sorriso aberto refere-
Christian e Christine
crescimento, com o desenvolvimen- -se à analogia com o nome da nova
são namorados,
to de fármacos em todas as áreas. empresa – “The Post-Chemical So- sócios igualitários
Quarenta anos depois, Gualdim ciety” – antes de explicar por que se e líderes de um
ficaria espantado por ver o que o ne- separaram da casa-mãe: “Basica- dos negócios mais
to, Christian, e a namorada, Christi- mente precisávamos de atacar ou- disruptivos do
ne Pausewang, estão a fazer da em- tros mercados. Continuamos a tra- mundo. Alternando
o inglês com o
presa. E ainda mais por o seu ne- balhar com os laboratórios, com os
português, contam
gócio – com o toque de moderni- mesmos cientistas, aproveitamos to- com entusiasmo
dade que eles lhe deram, bem en- da a estrutura da Biocol Labs, mas cauteloso a história
tendido – ter sido considerado um estamos mais focados nestas linhas desta empresa que, E é aqui que entra Christian, filho de
dos mais disruptivos do mundo no e sobretudo no mercado externo”. ao fim de 40 anos, mãe portuguesa e pai francês, radi-
Global Futures Forum, que teve lu- É por isso que tanto a “Algo” quanto se desdobrou em cado em Londres há sete anos e de
gar em Londres, e que é organizado a “Sinto-me” ganharam versões em duas, e promete dar regresso a Lisboa em 2014. “Foi um
que falar. Christine
pela consultora multinacional The inglês: já chegaram ao Reino Unido, é peremptória sobre
caminho um bocado óbvio”, admi-
Future Laboratory. A escolha foi fei- aos EUA e a vários países do Norte os objectivos que te, embora nunca tivesse pensado
ta por um júri de elite que analisou da Europa onde, explicam, “as pes- traçaram para a juntar-se à empresa fundada pelo
empresas que actuam em áreas tão soas já estão mais disponíveis para empresa: “Temos a avô – e cujo capital continua a per-
diferentes quanto o retalho, a bele- este tipo de produto”. ambição pessoal de tencer a 100% à família. Passou pela
za, a medicina, o imobiliário ou a Mas que produtos são estes, en- mostrar que estamos Young & Rubicam, pela TBWA, pe-
aqui para ficar”.
arte, em todo o mundo. tão, que causam ainda tantas reti- la BBH London e estava na Crispin
No ano passado
A criação das linhas “Algo” e “Sin- cências em Portugal? Podem ser su- registaram vendas Porter+Bogusky (todas agências de
to-me” – no inglês “Something” e plementos para ajudar à digestão, mensais na ordem publicidade conceituadas interna-
“I feel” – aproximaram a Biocol La- a curar uma garganta inflamada, a dos 20 mil euros, e cionalmente) quando surgiu a hipó-
bs dos consumidores finais, onde a reduzir o cansaço e o stress ou uma estavam “apenas a tese de regressar. “Sobretudo depois
marca era praticamente desconhe- ajuda para dormir. Tudo cientifica- começar”. Como da crise, era preciso que a Biocol fa-
acreditam que
cida. Apesar de ser das mais reco- mente provado, testado e aprovado lasse ao consumidor final. Se eu tra-
grande parte do seu
nhecidas do mercado no que toca à e com os ingredientes naturais bem sucesso tem que ver balhava essa necessidade com clien-
indústria farmacêutica na verten- expostos nas embalagens, de forma com a comunicação, tes, por que não fazê-lo aqui, na fa-
te de produtos naturais, a verdade é inteligível e clara, porque muitas ve- o objectivo de mília?”, atira em jeito de justificação.
que o grande público praticamen- zes as pessoas não fazem ideia do facturar um milhão Foi então que começou a tra-
te desconhecia esta empresa por- que estão a tomar. Para Christine e já este ano parece- balhar naquilo que chama de “re-
tuguesa que há anos foi pioneira na Christian, informação é formação, lhes perfeitamente volução criativa”: criou um depar-
atingível.
aposta em soluções que deixem os e permite que as pessoas sejam parte tamento específico e voltou vários
químicos de lado. desta mudança que propõe. anos atrás para repescar o conceito
Com a actual evolução da in- de produção que tanto queria. Que
formação e conhecimento, o cada O FILHO PRÓDIGO é como quem diz, chamou a si vá-
vez menor recurso a químicos pa- Mas para se chegar a este estágio rias pessoas – amigos, colegas co-
ra tratar desconfortos, doenças ou foi preciso muito trabalho anterior. nhecidos – e pediu que lhe disses-
estados de espírito tem-se tornado Científico, mas também criativo. sem quais as suas maiores necessi-
dades. Depois criou em conformi-
“Temos que manter o entusiasmo actual sobre dade. Instigou os cientistas da Bio-
col Labs e inverteu o processo de
os produtos naturais e aproveitar a onda”, produção. “Por norma os laborató-
dizem os dois responsáveis. rios criam um produto e nasce a ne-

64 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


que tem também “Algo para sonhar” “as farmácias da próxima geração”
ou “Algo para sobreviver às festas”. – lugares onde o natural será mais
Conversámos com Christine e comum que os químicos. Para já,
Christian no Second Home, o espa- associam-se a marcas de luxo que
ço de co-work alojado no Merca- têm essa preocupação, como a ca-
do da Ribeira, em Lisboa. Para já, deia Design Hotels – que inclui uni-
é aqui que trabalham todos os dias dades como o Altis Belém Hotel &
– tirando as idas ao laboratório. SPA ou o Torre de Palma Wine Ho-
De sorriso aberto e gestos descon- tel e que está presente em mais de
traídos, são a imagem de confian- 50 países –, com quem desenvolve-
ça e de criatividade que os produtos ram um kit de kiagem 100% natu-
da Biocol Labs deixavam adivinhar. ral e que inclui 4 produtos para tra-
Apesar de a entrada no mer- tar os sintomas de que os viajantes
cado nacional ter corrido bem, mais costumam sofrer: dificuldades
é preciso fazer mais. “Os portugue- de digestão, jet-lag, ressacas e sis-
ses ainda não estão muito atentos tema imunitário fragilizado.
a este conceito de bem-estar (well- “Também já estamos em alguns
ness)”, explica Christine num in- spas e unidades onde há esta vonta-
glês livre de sotaque germânico. de de ter produtos naturais”, adian-
“Os nossos produtos não são bem ta a gestora da marca, antes de es-
saúde, mas também não são bele- clarecer que entraram no merca-
za. São um nicho muito específico do num sector mais premium mas
que ainda não convenceu” as pes- que o plano, a médio prazo, é mas-
soas por cá, talvez por falta de in- sificar a oferta. “É um público mais
formação. Por isso, a aposta agora maduro, mais preocupado com es-
é feita maioritariamente no estran- ta questão de reduzir os químicos”,
geiro – já comercializam em 20 paí- justificam. Com o objectivo de fe-
ses –, e só depois voltarão a focar- char 2018 com uma facturação de
-se no mercado nacional. um milhão de euros, estão agora a
A sede da empresa, garantem, tentar angariar entre 500 mil e um
ficará sempre em Portugal, porque milhão de euros para aplicar sobre-
“queremos transmitir nos nossos tudo na produção.
produtos esta forma de vida, esta Actualmente, tanto Christine
tranquilidade e harmonia” que se como Christian são presença as-
vive no país, esclarece Christine. sídua em eventos nacionais ou in-
Nascida na Alemanha mas uma ci- ternacionais onde se fala de em-
dadã do mundo, aprendeu a chamar preendedorismo, de inovação, de
casa a Lisboa e garante que há pou- ideias disruptivas e de liderança, o
cos lugares onde se viva com tanta que lhes permite aumentar a rede
qualidade como aqui. Além disso, de contactos e piscar os olhos a po-
o facto de quererem estar envolvi- tenciais interessados.
dos na comunidade faz de Portu- Com cerca de 30 pessoas a tra-
gal o lugar certo para se estar, uma balhar nos laboratórios, para já só
vez que permite proximidade com Christine e Christian constituem a
as pessoas. São princípios dos quais restante equipa: tratam da gestão, da
não abdicam e que fazem parte das logística, da criatividade, da produção
linhas orientadoras deste projecto com os cientistas, da relação com os
que, sendo inovador, já conta tan- fornecedores… E no entretanto, não
tas décadas de história. Por ven- deixam de apoiar a casa-mãe, com
cessidade. Nós queremos suprir ne- A linha “Sinto-me” derem produtos naturais, não es- quem trabalham em estreita par-
segue a mesma filosofia:
cessidades que já existam, ouvindo o suplemento “Sinto-me
tão sob o escrutínio das agências ceria. Que afinal, foi para dar con-
as pessoas e aquilo que procuram”. comilona”, por exemplo, que controlam o fabrico de medi- tinuação ao legado de Gualdim que
Daí a escolher para os produtos ajuda a emagrecer, camentos, mas sim das que apro- trocaram o mundo por Portugal. J
através da ingestão
nomes que fossem facilmente en- deste suplemento à base vam produtos alimentares. É aqui
tendíveis foi um saltinho. “Já repa- de produtos naturais, que ganham rapidez e flexibilida-
rou que quando entra numa farmá- que inibe o apetite. de, muito valiosas sobretudo por-
cia e está constipada, não pede um que os seus produtos estão à venda “Aquele que não tem uma
remédio em particular? Pede algo em farmácias e espaços de saúde. opinião sua, mas depende
para a constipação, ou algo para o Christian acredita, no entanto, do gosto e opinião de outros,
estômago...” Foi a partir desta lógi- que no futuro os seus produtos esta- é um escravo”,
ca que nasceu a “Algo”, uma linha rão à venda naquilo a que chamam FRIEDRICH KLOPSTOCK, POETA ALEMÃO.

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 65


L GILLIAN TANS Gillian Tans
Idade:
46 anos
Num mundo maioritariamente masculino, Gillian Tans destaca-se à frente Formação:
do Booking.com e apresenta a empresa como forte apoiante da inclusão Licenciada pela Escola
das mulheres na tecnologia. de Gestão Hoteleira de
Middleburg, Holanda

Tecnologia
Nacionalidade:
Holandesa
Cargo:
Presidente-executiva

no feminino
da Booking.com
Gillian começou a
carreira na cadeia
de hotéis Hershey,

O
 
na Pensilvânia, EUA,
tendo passado ainda
cenário ainda não é per- carreira e promoção justos para ambos os pelos grupos hoteleiros
feito, mas já há casos em géneros. Segundo a presidente-executiva, Golden Tulip Worldwide
e Intercontinental, bem
que a ideia de que os car- o Booking.com acolhe a diversidade mui-
como por diversos hotéis
gos superiores estão re- to bem – “tem uma cultura aberta, diver- independentes. Em 2002
servados para os homens sificada e empreendedora”, afirma. Por is- juntou-se à
não se verifica. A provar so mesmo é que quando alguém tem uma Booking.com onde
isso está a gigante mundial Booking.com – ideia, ela nunca é ignorada e, em muitos passou pelas vendas,
plataforma de alojamentos criada em Ames- casos, chega mesmo a ser testada com os operações, serviço de
apoio ao cliente e ainda
terdão em 1996 – que tem Gillian Tans co- clientes. Gillian acredita que essa cultura
pelo departamento
mo presidente-executiva. Aos 46 anos, Gi- é uma prioridade porque “são as pessoas informático. Em 2011
llian, que conseguiu em três anos duplicar que constroem o sucesso” e porque com- ascendeu à Direcção de
o tamanho da companhia, é uma das exe- portamentos justos promovem a igualda- Operações da empresa
cutivas de topo mais bem pagas do mun- de – seja de que tipo for. e em 2016 passou a
do – em 2016 ganhou cerca de 15 milhões A Booking.com foi criada com o ob- presidente-executiva.
de euros – e o seu aspecto fresco, jovial e jectivo de “dar a capacidade às pessoas Fala fluentemente
holandês, alemão e
despreocupado espelha muito a cultura de de experienciar o mundo”, lembra Gillian francês e visita cerca de
uma companhia que se quer afirmar pela à FORBES. É a terceira maior empresa de 20 países por ano.
inovação e modernidade. Consta que gos- e-commerce a nível global e trabalha pra-
ta de trabalhar sentada no chão da sede ticamente a 100% através da tecnologia –
da Booking.com quando não está a visitar um dos objectivos futuros passa por tes-
algum dos 188 escritórios espalhados pe- tar a inteligência artificial. Começou por dor escolhe esse tipo de alojamento” e não
lo mundo. A executiva dirige com mão fir- ser um serviço principalmente de hotéis, porque têm que enfrentar a concorrência.
me uma empresa de 15 mil empregados e mas hoje oferece uma maior variedade Além dos alojamentos, o Booking.com ofe-
trabalha bastante pela igualdade: actual- de alojamentos. Se por um lado, quando rece serviços para empresas, recomenda-
mente, 50% dos funcionários são do géne- foi criado, era um dos poucos websites que ções de destinos, experiências a realizar e,
ro feminino e 20% dos cargos tecnológicos existiam, hoje em dia enfrenta uma vasta até mesmo, informações no próprio des-
são ocupados por mulheres. concorrência. A mulher que gere esta gi- tino. Gillian quer garantir que a empresa
A FORBES falou com Gillian duran- gante mundial acredita que há dois facto- tem valor para o cliente em todos os mo-
te a Web Summit, em Lisboa, em Novem- res que a diferenciam das outras empre- mentos da viagem.
bro do ano passado. A provar este compro- sas: a execução e a cultura. Quando pensa As coisas nem sempre foram fáceis e a
misso da empresária, no pavilhão quatro, na gestão de uma empresa tão grande, Gi- presidente-executiva recorda, pelo menos,
a Booking.com tinha um espaço totalmen- llian confessa que o segredo passa por en- três vezes em que quase voltaram atrás em
te dedicado às mulheres – Women in Tech contrar as pessoas certas. Sejam homens decisões – embora não as revele, explica
Lounge – onde decorreu um programa de ou mulheres. Portanto é importante “esti- que aconteceram porque durante alguns
mentores. Essa é uma das iniciativas que mular a inovação, garantir que as pessoas anos as pessoas não acreditavam na evo-
criou para que a indústria se torne mais se mantêm curiosas e que continuam a ten- lução tecnológica e não queriam investir
inclusiva, a par com os Technology Play- tar coisas novas”, afirma acreditando que em empresas como a Booking.com. Hoje as
maker Awards, que reconhecem o traba- é desta forma que vão conseguir, como or- coisas são diferentes, “basta olhar em vol-
lho das mulheres na tecnologia, e a criação ganização, continuar a aprender e melho- ta”, diz Gillian referindo-se à dimensão da
de uma bolsa de estudos universitária na rar. Quando questionada sobre a compe- Web Summit, mas as pessoas continuam
área. A empresa fez ainda várias mudan- tição com empresas como a Airbnb, des- a subestimar a área, acredita. “As pessoas
ças a nível interno para promover a igual- carta a ideia de que sejam relevantes pa- dizem que quando uma empresa não es-
dade de género: garantir salários iguais ra os passos que tem dado. Se hoje estão tá a crescer é difícil, mas a verdade é que
para as mesmas funções e fazer proces- a apostar e a crescer no segmento de ca- quando uma empresa está a crescer tam-
sos de recrutamento, desenvolvimento da sas, é porque “cada vez mais o consumi- bém é difícil” e por isso é importante estar

66 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


NÚMEROS sentou, precisamente na Web Summit em
QUE FALAM Lisboa, um estudo que contou com a par-
Os números da ticipação de 761 mulheres que trabalham
empresa dizem a tempo inteiro para uma empresa de tec-
tudo e ilustram nologia em cargos não tecnológicos (como
bem a dimensão recursos humanos, apoio ao cliente, finan-
que tem hoje,
ças, entre outros).
mais de vinte anos
depois da sua A empresa queria perceber como é que
criação. as mulheres em cargos de chefia podem in-
fluenciar as restantes e os resultados não
15 mil podiam ser mais esclarecedores: 90% das
O Booking.com inquiridas consideram que ver mais mu-
tem cerca de 15
mil empregados lheres em cargos de chefia iria inspirá-las
distribuídos por a seguir carreira na área da tecnologia, e
70 países. Em
Portugal trabalham
92% concorda que outra das motivações
actualmente 46 para avançar na carreira passa por sabe-
pessoas, divididas rem que as chefias valorizam a igualdade.
por três dos 204
escritórios em todo A mesma pesquisa refere que o preconcei-
o mundo – Lisboa, to entre géneros começa logo no processo
Faro e Porto. de recrutamento, até porque 75% das mu-
43 lheres acredita que as oportunidades de
O website da empresa carreira na área são mais publicitadas a
encontra-se traduzido homens, sendo que o que as leva a ter in-
em 43 línguas.
teresse neste ramo é a liberdade para ino-
1,5 milhões var (81%), um ambiente de trabalho com
Têm disponíveis ritmo acelerado (70%) e horário de traba-
1,5 milhões de
propriedades em lho flexível (78%).
cerca de 229 países A evidenciar bastante a questão das di-
e territórios em todo ferenças entre géneros, 46% sentem que fo-
o mundo.
ram tratadas de forma díspar no local de
1,4 milhões trabalho apenas por serem mulheres. Esse
Em média, são número aumenta para 59% quando as in-
realizadas 1,4 milhões
de reservas por dia. quiridas ocupam cargos superiores e pa-
ra 58% entre as que desempenham cargos
executivos. Por fim, mas não menos im-
portante, chegou-se à conclusão de que
sempre um passo à frente. Considera que sentes apenas seis mulheres. Zhou Qun- quase metade das mulheres (48%) sentem
todos os anos são “um novo nível de com- fei – fundadora da Lens Technology – é a que são menos respeitadas do que se fos-
petências que se atinge” e é necessário que mulher mais rica que já marcou presença sem homens, ocupando a mesma posição.
se organize e faça bons planos. nesta lista. Ocupa o 26.º lugar e tem uma São estes números que fazem Gillian
Às mulheres que sonham em chegar a fortuna avaliada em 8,5 mil milhões de eu- ter visões muito claras sobre a forma co-
este e outros níveis na tecnologia, Gillian ros, valor bastante inferior aos 71,8 mil mi- mo a desigualdade na tecnologia deve ser
deixa o conselho: “não tentem controlar tu- lhões de euros de Bill Gates, o grande mag- contrariada: “As empresas devem tomar o
do, continuem a aprender e estejam sem- nata da tecnologia. Se tivermos em conta o controlo das questões da desigualdade de
pre abertas à mudança”. Há oportunidades valor das fortunas das seis mulheres jun- género porque se toda a gente o fizer, elas
para todos e esta empresa sediada na Eu- tas – 23,4 mil milhões de euros– percebe- vão inevitavelmente reduzir-se”, referiu
ropa, que ignorou os padrões e construiu a mos que não chega nem a metade dos valo- há uns tempos a responsável em declara-
sua própria cultura positiva para homens res totais dos três mais ricos que são, além ções aos jornalistas, no Fórum Económi-
e mulheres, é prova disso. de Gates, Jeff Bezos com 69,4 mil milhões co Mundial. Na mesma ocasião, a empre-
de euros e Mark Zuckerberg com 59,1 mil sária rejeitou intervenções políticas para
IGUALDADE ATRAVÉS milhões de euros. Mas este não é o único aplacar este problema e prometeu conti-
DA CULTURA problema e, entre outros, há que destacar nuar a trabalhar para que a Booking.com
Apesar dos esforços de Gillian, o precon- também a diferença salarial, o número re- seja um exemplo no que toca à justiça e à
ceito entre géneros a nível profissional não duzido de mulheres em cargos de chefia, igualdade. J RITA MEIRELES
deixou de existir. Se por um lado é inegá- a pouca adesão a cursos universitários na
vel que já foi mais evidente, por outro tam- área e até mesmo os diversos casos de as-
bém não podemos ignorar que ainda é uma sédio a que algumas empresas – como a
realidade. A provar este cenário está, en- Uber – estão associadas. “Lembre-se: ninguém pode fazer
tre outras, a indústria da tecnologia: na lis- De forma a dar a entender a dimensão com que se sinta inferior sem o seu
ta dos 100 milionários da tecnologia mun- do problema, e o motivo porque se preo- consentimento.”
dial, divulgada pela FORBES, estão pre- cupa com o tema, a Booking.com apre- ELEANOR ROOSEVELT, EX-PRIMEIRA DAMA DOS EUA.

FOTO DE BLOOMBERG/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 67


L GARY GUITTARD

Apesar do fraco conhecimento da marca, este fabricante de chocolate de São Francisco


conseguiu sobreviver à concorrência dos Davids e Golias do mercado.

Um negócio
de boas relações
P
 
ara muitos, a che- breviveu ao terramoto de São (a Hershey adquiriu a Schar-
gada das table- Francisco de 1906, à Grande ffen Berger em 2005). Actual-
tes de chocolate Depressão e às mortes ines- mente, segundo Gary, a empre-
bean-to-bar da peradas do pai e irmão de Ga- sa é lucrativa mas o fabrico de
Scharffen Berger ry, o presidente da empresa e chocolate continua a ser capi-
há cerca de 20 o sucessor escolhido, respec- tal intensivo e reinveste anual-
anos – a preços na ordem dos tivamente. mente uma média de 30% dos
9 euros, com as suas histórias O desafio lançado pela lucros no negócio. A Guittard
peculiares quanto à origem do Sharffen Berger consistia em é a maior empresa de choco-
chocolate usado e embalagens melhorar e proceder a uma late da América do Norte, mas
de pendor artístico — marcou o reengenharia das técnicas de a maioria das pessoas jamais
arranque do movimento arte- fabrico de forma a replicar o ouvira falar dela. Nunca firmou
sanal na área do chocolate na sabor dos lotes artesanais, só uma grande presença no reta-
América do Norte. Para Gary que em larga escala. “Quase lho, sobretudo para não com-
Guittard, presidente da Guit- perdi a cabeça a tentar che- petir com clientes chave como
tard Chocolate, a chegada da gar lá,” afirma. “Voltei à for- a See’s Candies, a icónica mar-
Scharffen Berger foi, no entan- ma como se fazia chocolate ca de confeitaria da Califór-
to, sinónimo de algo mais som- há 100 anos.” nia, propriedade do Berkshire
brio. “Cheirava-me que vinha Em suma, Guittard conse- Hathaway de Warren Buffett.
aí algo de perigoso para nós,” guiu encontrar a solução para A Guittard começou a tra-
afirma à FORBES. o “problema” usando tipos de balhar com a See’s, o seu maior
Ao usar métodos artesanais grãos que a empresa não usa- cliente, na década de 1930, co-
de todo o mundo e grãos de ca- va há décadas, receitas anti- meçando por fornecer chocola-
cau raros, a Scharffen Berger gas da famílias e novas téc- te preto e retomando o seu ne-
estava a mudar uma indústria nicas de processamento. Es- gócio de chocolate de leite qua-
que se virara durante muito tava a conseguir fazer choco- tro décadas mais tarde quan-
tempo para o fabrico industrial late com melhor qualidade do do a Nestlé, o fornecedor ori-
e para ingredientes mais bara- que os grandes nomes do sec- ginal da See’s, começou a ven-
tos com vista a reduzir custos. tor e a produzir esse mesmo ti- der trufas de chocolate da sua
Durante todos estes anos, ad- po de chocolate em quantida- marca e que competiam com
mite Guittard, a sua empresa e des que os fabricantes artesa- as da See’s. “Trabalhamos de
outras tinham “retirado gran- nais não conseguiam igualar. perto com eles,” afirma Brad
de parte do sabor dos grãos.” Kinstler, presidente-executi-
O mercado respondera à nova DELICIOSAMENTE vo da See’s. “O nosso chocola-
marca com forte entusiasmo, VALIOSO te muito específico, produzido
afirma o empresário, 71 anos, No mercado norte-america- por eles, é crucial para obter os
que conclui dizendo que “tive no do chocolate, que movi- nossos sabores. Temos requisi-
de mudar algumas coisas pa- menta 16 mil milhões de dó- tos especiais e a empresa con-
ra poder sobreviver.” lares, a Guittard gera mais de segue respeitar as nossas es- O negócio de Gary Guittard conduziria
ao estabelecimento de relações fortes,
Passou os quatro anos se- 70 milhões de receitas anuais, pecificações à risca.” nomeadamente com uma certa cadeia
guintes a fazer experiências, muito aquém da Hershey e da De entre os clientes de ta- de cafés de Seattle.
um processo que quase aca- Mars, que juntas abarcam cer- bletes, lascas, bolachas, choco-
bou com ele. ca de três quartos do mercado late doce moído e cacau em pó
Fundada pelo bisavô de Ga- dos EUA, mas muito acima do da Guittard contam-se a Willia-
ry em São Francisco, corria en- facturado por fabricantes de ms-Sonoma, a Baskin-Robbins
tão o ano de 1868, a E. Guittard pequenos lotes como a Aski- e uma série de padarias, lojas,
& Co. Chocolates & Cocoa so- nosie, Dandelion e Madécasse pasteleiros e chefs mais ou me-

68 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Na carteira de clientes da Guittard
constam nomes como a cadeia
internacional Starbucks.
briu que os mineiros ricos es- saber quem eram os seus ami-
tavam dispostos a pagar bem gos e aprendeu também uma
pelos seus chocolates, mudou lição importante: “Os que re-
o rumo da sua vida. Gary nun- negociaram permaneceram
ca planeara trabalhar na Guit- no activo. Quem não o fez de-
tard onde o seu irmão Jay se- sapareceu entretanto.”
ria o sucessor. Apaixonado Nos anos 1950, quando a
pelos grandes espaços aber- See’s começou a pedir que o
tos e por desportos de aven- seu chocolate fosse forneci-
tura, Gary frequentou a uni- do sob a forma líquida, Guit-
versidade no Colorado, traba- tard começou a enviar auto-
lhando depois em publicidade tanques de chocolate derreti-
em São Francisco. Em 1973 re- do directamente para a em-
gressou “com uma mão à fren- presa. Nesse Verão, no segui-
te e outra atrás” depois de ser mento do incumprimento de
despedido. O seu pai, Horace, uma data de entrega, a Guit-
disse-lhe que fosse trabalhar tard teve de despender 11 mil
noutro sítio e que aprendesse euros para transportar uma to-
um ofício, acabando por tra- nelada de chocolate por avião
balhar como caixeiro-viajan- para a Honolulu Cookie Co.
te, introduzindo novos produ- Mark Spini, vice-presidente
tos em mercearias. Dois anos de vendas, e há 31 anos a tra-
mais tarde entrou para a Guit- balhar na empresa, diz que
tard onde partilhava o escritó- “estamos a lidar com empre-
rio com o pai e o irmão, cen- sários que estão a desenvol-
trando-se nas vendas cres- ver o seu negócio. Já estivemos
centes de produtos de con- nessa situação também.” Nos
sumo, tais como uma linha anos 1970, uma dona de casa
de doçaria caseira. Em 1989, de Palo Alto, de nome Debbi,
no entanto, o pai morreria aos passava por lá regularmente
76 anos com esclerose late- quando andava a testar uma
ral amiotrófica, e o irmão te- receita de bolos de lascas de
ve um ataque cardíaco fulmi- chocolate. Mais tarde, lan-
nante aos 46 anos, o que fez çaria as Mrs. Fields Cookies.
com que Gary assumisse as Por volta da mesma altura,
rédeas da empresa. Estas per- um amigo de Gary que tra-
das deixaram-no destroçado, balhava numa nova empre-
mas garante que estava pron- sa de torrefacção de café em
to: “Tinha uma visão; sentia- Seattle telefonou-lhe a pedir
-me muito confiante. Comecei ajuda para desenvolver moca
por me centrar no que tinha para chocolate quente – des-
de ser feito e no que viria a se- de então a Starbucks continua
guir. Não dei por mim a dizer a ser nosso cliente. “Quando
‘Aha’ ou ‘Oh meu Deus’ ou ‘Ui os nossos clientes são bem-
Ui.’ Estava perante um facto e -sucedidos, crescemos com
uma realidade e tinha de dei- eles” afirma Clark Guittard, de
tar mãos à obra.” O negócio da 45, sobrinho de Gary e direc-
nos conhecidos — de Thomas que acabariam por se inver- família assentara sempre em tor de vendas internacionais.
Keller a Jacques Torres. ter dramaticamente. Tudo co- fazer tudo o que é preciso pa- J STACY PERMAN
meçou com o bisavô de Ga- ra desenvolver boas relações.
REINVENÇÕES ry, Etienne Guittard, que tro- Quando o preço do açúcar qua-
CONSTANTES cou a sua terra em Tournus, druplicou nos anos 1970, Gary
A Guittard começou, como França, pela Barbary Coast foi ter com cada um dos seus “A vida é realmente simples,
acontece com uma série de em São Francisco, na espe- clientes e pediu-lhes que re- mas os homens insistem em
novas apostas na área dos rança de enriquecer na Cor- negociassem os seus contra- complicá-la”.
negócios, com aspirações rida ao Ouro. Quando desco- tos. Com este exercício ficou a CONFÚCIO, PENSADOR E FILÓSOFO CHINÊS

FOTO D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 69


www.forbespt.com
Listas <
Os atletas mais bem pagos, as mulheres
mais poderosas do planeta e as maiores
fortunas do mundo são apenas três das
muitas listas que a FORBES publica todos
os meses. Descubra-os no nosso site.

Líderes ^
Porque o talento não tem limites,
fique a conhecer os muitos e bons
empreendedores que pelos seus gestos
de liderança e gestão se tornaram fontes
de inspiração de milhões.

Negócios <
Pequenas ou grandes, as empresas
que fazem mexer a economia nacional
merecem destaque na FORBES. Para lá
dos grandes números, conheça a história
e os feitos que as tornam especiais.
OPINIÃO PAULO MONTEIRO

Investimento
to à taxa de inflação que, em 2020, ain-
da é esperada situar-se abaixo do objec-
tivo dos 2,0%.

em obrigações
Ao contrário de muitos participan-
tes no mercado, sou tentado a concordar
com o BCE. Sendo verdade que a taxa de

em 2018 desemprego diminuiu e que a confiança


dos consumidores e empresários se si-
tua em alta, na minha opinião, há fac-
tores estruturais que manterão a infla-
ção em níveis baixos nos próximos anos,
assim como as taxas de juro na Zona Euro. A primeira é a demogra-
fia: de acordo com as Nações Unidas a população europeia regista-
rá um decréscimo de 3,5% até 2050. Em segundo lugar, o stock de dí-
vida continua muito elevado (cerca de 263% do PIB) - dívidas eleva-
das são um entrave ao crescimento e, consequentemente, à inflação.
Por último, a desigualdade dos rendimentos e da riqueza encontra-
-se em níveis muito altos. A recuperação económica foi acompanha-
da pelo aumento da desigualdade o que, conjugado com a persistên-
cia de dívidas significativas constitui um importante entrave ao con-
sumo e a um crescimento económico muito superior ao actual. Con-
sequências de uma inflação tendencialmente baixa em termos de in-
vestimento? Na minha opinião, a principal será a manutenção de ta-
xas de juro baixas e rendibilidades inferiores para os investidores em
obrigações.
No caso do Fundo AR PPR, cuja carteira é maioritariamente com-
al como esperado, a última reu- posta por obrigações, o desafio continuará a ser a diversificação e
nião do Conselho do Banco Cen- a identificação de oportunidades interessantes, ajustadas pelo ris-
tral Europeu (BCE), realizada co. A dívida pública core não oferece valor (que não seja o de refú-
no passado dia 14 de Dezem- gio e protecção em períodos de
bro, não trouxe grandes novida- maior turbulência nos merca-
des quanto à política monetá- dos), assim como a generalida-
ria na Zona Euro. As taxas de ju- de da dívida corporativa invest-
ro mantiveram-se inalteradas, ment grade. Como tal, continua-
em 0%, 0,25% e -0,40% para as remos a privilegiar os segmentos
operações de refinanciamento, de high yield e as emissões de
operações de cedência e de de- estrutura híbrida, num cenário
pósito de liquidez, respectiva- de crescimento moderado.
mente, e o programa de com- Nos mercados emergentes
pra de títulos continuará até Se- persistem alternativas interes-
tembro de 2018, ao ritmo mensal santes e o carry nos países pe- Há factores
de 30 mil milhões de euros, ou
até mais tarde se necessário, de-
riféricos continua atractivo, em
termos relativos. Contudo, a vo-
estruturais que
pendendo da trajectória da taxa latilidade deverá aumentar du- manterão a inflação
de inflação. E foi precisamente a rante 2018 pelo que a flexibili- em níveis baixos
trajectória projectada para a ta- dade na gestão será fundamen-
xa de inflação na Zona Euro que tal. Embora não se esperem su- nos próximos anos,
me chamou a atenção: se por um bidas significativas e abruptas assim como as
lado o BCE melhorou significati-
vamente as perspectivas para o
das taxas de juro na Zona Euro,
os riscos são assimétricos, acon-
taxas de juro na
crescimento do PIB em 2018, de selhando prudência. J Zona Euro.
1,8% para 2,3%, por outro man- Director de gestão de activos
teve-se muito cauteloso quan- do Banco Invest

72 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


NEGÓCIOS
E M PR E S A S QU E E STÃO
A FA Z E R H I S T Ó R I A

A Carmo Wood negoceia em mais de


30 países, o que a torna uma empresa
familiar de cariz profundamente
internacional.

NO REINO 78

DA MADEIRA
INOVAÇÃO
NO MUNDO
AUTOMÓVEL

Factura mais de 50 milhões de euros ao ano e é líder de mercado em


França. Esta empresa familiar de Pegões perdeu a maior fábrica nos 80
incêndios de Outubro passado, mas promete reerguer-se mais forte. NA MIRA DO
NOVO “OURO
TEX TO DE MARGARIDA VAQUEIRO LOPES | FOTOS DE VICTOR MACHADO NEGRO”

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 73


N CARMO WOOD

Q
 
uando, depois do 25 zar o stock existente na unidade de Apesar dos prejuízos
causados pelo
de Abril de 1974, a Pegões, que foi onde nasceu a Car- incêndio no fatídico
indústria de produ- mo Wood, e comprar madeira seca dia 15 de Outubro,
tos químicos de Al- para “acelerar o ciclo de produção” nenhum dos 350
funcionários da
fredo Milne e Carmo – é mais caro, mas é a única solução
Carmo Wood foi
foi ocupada e gerida para “não perder os clientes nas en- despedido, nem a
pelo MFA, tendo acabado por desa- comendas”, diz. empresa teve pausas
parecer, parecia que os negócios da Depois do fatídico dia 15 de Ou- na actividade. “Sabia
que tínhamos uma
família ficavam por ali. O filho Jor- tubro, Jorge alugou escritórios e foi equipa unida, mas não
ge tinha uma proposta para ir para para lá que se mudaram os colabo- imaginava que fosse
a Austrália e era o fim de uma era. radores da parte administrativa das tão motivada”, revela
Jorge Milne e Carmo,
No entanto, passaram pouco mais duas unidades ardidas. Os outros ar- presidente-executivo
de quatro décadas e Jorge Milne e regaçaram as mangas e ajudaram a da Carmo Wood.
Carmo já construiu um império de
madeiras: com presença em Portu-
gal, Brasil, França e Espanha, e ain-
da parcerias em dezenas de países,
a Carmo Wood fechou o ano passa-
do com um volume de negócios de
55 milhões de euros. Jorge rejeita o
“porreirismo” português e promete
continuar a expandir-se, assim sur-
jam oportunidades. Na mira estão os
EUA e alguns mercados da América
Latina, que deverão começar a rece-
ber produtos Carmo já durante este
ano. “Os planos de expansão man-
têm-se exactamente iguais”, garan-
te Jorge, sentado à grande mesa de
madeira da sala de reuniões da uni-
dade de Pegões.
A conversa com a FORBES es-
tava inicialmente marcada para a
maior fábrica da Carmo, em Oli-
veira de Frades, mas os grandes in-
cêndios de Outubro reduziram toda
a unidade a pó. Ali operavam a Car-
mo - Estruturas em Madeira e a Car-
mo S.A, empresas que pertencem ao
universo de 10 companhias da Car-
mo Wood. O valor destruído ronda
os 15 milhões de euros, mas ainda
é cedo para fazer contas ao prejuí-
zo. “Perdemos 5 milhões de euros
em stock, outros 5 milhões [que era
o valor] do edifício e 5 milhões em
máquinas. Mas quanto ao prejuízo
causado…vamos esperar pelos se-
guros, e depois ver”, diz-nos o pre-
sidente da empresa, olhar sereno e
voz enérgica. Admite que lhe cus-
tou “imenso” ver as duas empresas,
fruto de décadas de trabalho, redu-
zidas a coisa alguma, mas recusa-
MATÉRIA-PRIMA CERTIFICADA
A empresa só usa madeira certificada, de climas temperados ou frios, resinosas e somente de florestas
-se a baixar os braços. “O impor-
certificadas e renováveis, o que diminui o leque de opções. Apesar de não ter terrenos florestais, tem uma
tante é andar rápido”, repete duran- parceria com uma floresta de 60 mil hectares no sul do Brasil, onde vai buscar grande parte da madeira
te a manhã que passámos com ele. de pinheiro que utiliza. No entanto, no final do ano houve muita madeira que comprou a fornecedores
Jorge revela à FORBES que vai utili- portugueses a um preço bastante elevado “devido à lei da oferta e da procura”, justifica.

74 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


VELOCIDADE CRUZEIRO
A Carmo Wood esperava facturar 80 milhões de euros este
ano, mas os incêndios de Outubro, que destruíram duas das suas
unidades, reduziram as vendas para 55 milhões de euros. Ainda
assim, a empresa garantiu uma evolução positiva.
Fonte: Carmo Wood. *valor previsto.

Vendas (em milhões de euros)

55
37,6 43,6
30,6 31,6

2013 2014 2015 2016 2017*

Carmo Wood to bem protegida” – Jorge salienta a


Fundação:
gestão conservadora que sempre fez
1979 na Carmo Wood como a razão mais
Presidente-executivo: importante para agora a recupera-
Jorge Milne e Carmo ção ser menos dolorosa, pelo menos
Facturação na parte financeira. “Isto de começar
(em 2017): de nada faz com que estejamos ha-
55 milhões de euros bituados a não poder perder dinhei-
A Carmo Wood nas- ro”, diz com um sorriso e olhar sério.
ce da paixão de Jorge Primeiro, repete, nunca lhe “passou
Milne e Carmo pelo pela cabeça pagar menos pelos segu-
sector da madeira e ros”. Portanto, está confiante sobre o
pela transformação. capital que daí advirá e que ajudará
“Não gosto de vender
Para Jorge, a teoria do negócio é simples: por vender, sem ter
bastante na recuperação rápida da
actividade. Depois, esclarece, a Car-
“temos sempre que ser os melhores parte no processo”,
justifica. Aos 23 anos mo sempre foi “muito conservado-
de qualquer coisa. Se não formos nós ficou à frente da com- ra nas provisões”, o que permite ter
a fazer, vai ser a concorrência”. panhia que fundou
com o pai, Alfredo
reservas e capitais sólidos. Se fosse
preciso, estariam também em con-
Milne e Carmo, espe-
fazer o levantamento dos estragos e a Aliás, revela, os escritórios que alu- dições de fazer um aumento de ca-
cialista em produtos
limpeza dos terrenos. Assim foi pos- gou pertencem à Martifer que rapi- químicos, marketing pital, esclarece o presidente da em-
sível que os 350 funcionários da Car- damente lhos disponibilizou. e fluente em várias presa antes de afiançar que, no en-
mo continuassem a trabalhar nor- línguas. A empresa tanto, “não será necessário”.
malmente, sem pausas na activida- PASSOS PEQUENOS internacionalizou-se Quando abriu a Carmo, em 1979,
de. “Sabia que tínhamos uma equi- E FIRMES e ganhou dimensão a empresa contava com 20 pessoas
pa unida, mas não imaginava que As perdas geradas pelo incêndio obri- sobretudo em França, – cinco no escritório e 15 na fábrica
onde atingiu a lideran-
fosse tão motivada”, afirma o res- garam Jorge a rever significativamen- de Pegões, então instalada numa
ça de mercado no fi-
ponsável antes de contar que prati- te as contas da empresa: a previsão nal dos anos 1980, e aí área de 3 hectares. Hoje, a mesma
camente todas as pessoas se dispo- de receitas para o ano passado des- se tem mantido desde unidade estende-se por 15 hectares
nibilizaram a trabalhar até aos fins- ceu de 80 milhões de euros para 55 então. A Carmo tem e tem mais de uma centena de fun-
-de-semana para recuperar a empre- milhões de euros, mas tudo o resto empresas próprias no cionários. Os restantes estão nos es-
sa”. Para o gestor, o importante ago- vai seguir inalterado. Rio Grande do Sul, critórios, que se mantêm na capital.
Brasil, em Espanha e
ra é garantir que não haja lucro ces- A empresa decidiu implementar A empresa abriu entretanto ac-
em França (duas com-
sante e não perder clientes e forne- durante este ano o plano financeiro panhias em Bordéus), tividade no Brasil, em Espanha e em
cedores, daí a necessidade de agili- previsto para o triénio 2018/2021, e e o seu mercado mais França, onde é líder de mercado des-
zar processos. Até porque a concor- conta estar a laborar em pleno em Ju- recente é o do Reino de o final dos anos 1980. Aqui, tem
rência está atenta às oportunidades. nho, com carpintarias, oficinas, ar- Unido, onde a fruti- clientes tão conhecidos como a Moët-
“Somos todos muito solidários” du- mazéns e escritórios totalmente re- cultura está a animar o -Chandon ou a Hennessy e uma in-
rante os incêndios, “mas calma aí”, cuperados. As unidades de Oliveira sector agrícola. O uni- fluência tão grande que o “poste pa-
verso Carmo Wood
diz o empresário com uma garga- de Frades, que contam com 200 pes- ra vinha” – “un piquet”, em francês
conta ainda com uma
lhada, admitindo, no entanto, que soas, vão crescer em 30 novos pos- empresa de consul- – passou a ser conhecido como “un
há alguma entreajuda entre as em- tos de trabalho, garante. Além dos toria – a última a ser carmo”. Hoje, negoceia em mais de
presas das regiões mais afectadas. seguros – “temos a empresa mui- aberta, em 2013. 30 países através de parceiros que a

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 75


N CARMO WOOD

tornam numa empresa familiar de


cariz profundamente internacional.
A responsabilidade da interna-
cionalização, desde o primeiro ano,
pertence a Alfredo Milne e Carmo,
pai de Jorge, que se dedicou a levar
a Carmo Wood para Itália e Alema-
nha assim que ela foi criada. “O meu
pai era um marketeer incrível”, ex-
plica, revelando que foi ele quem fez
todas as viagens e contactos iniciais
no estrangeiro, uma vez que “nem se-
quer queria estar em Portugal”, de-
pois de ter perdido quase tudo, após
a revolução. Os mercados italiano e
alemão não eram óbvios, mas Jorge
diz que sempre gostou de começar
pelo que é mais difícil. E apostar em
países como Espanha, aqui ao lado,
Marrocos ou Senegal pode ficar pa-
ra depois, porque é mais fácil, e “dá
menos gozo”, esclarece.

PORTEFÓLIO
MULTIFACETADO
A Carmo oferece produtos em sec-
tores tão diferentes como a agricul-
tura, a construção, o turismo, a se-
gurança, as telecomunicações ou o
mundo equestre, embora tenha co-
A Carmo decidiu fazer dos fogos uma oportunidade e
meçado com o mobiliário urbano e os vai construir edifícios maiores e com mais capacidade.
parques infantis, sectores que ainda
hoje trabalha. Muitos deles são ser- A unidade de Pegões zer o projecto, o cálculo estrutural e ção de electricidade um produto em
foi a primeira casa da
viços “chave na mão”, que Jorge co- depois toda a concepção do produ- franco crescimento, o que se reflec-
Carmo Wood, no final
meçou a perceber serem muito pro- dos anos 1970. Na to. Foi assim que entrou na área dos te nas contas da empresa, que tem
curados pelos clientes. “Esta verti- altura, eram somente ferrosos agrícolas, também: afinal, nos mercados externos a origem de
calização acabou por surgir de vá- 3 hectares de terreno. se já fornecia os postes para estrutu- 60% da sua facturação.
Actualmente são
rias formas diferentes, consoante as 15 hectares onde se ras agrícolas, não faria sentido con-
oportunidades e a procura”, conta. acumula madeira para seguir disponibilizar também ara- RENASCER DAS CINZAS
E recorda, por exemplo, a entrada seguir para vários mes, redes, farpados, puxadores e Em 2017, a Carmo devia ter fechado
mercados. No dia em
na área equestre: a empresa fazia que visitámos a Carmo, portões? Para Jorge, a teoria do ne- o ano com um crescimento de 40%
algumas vedações e apercebeu-se havia 4500 postes à gócio é simples: “temos sempre que face ao ano anterior. Foi obrigada a
de que as camas dos cavalos eram espera de embarcar ser os melhores de qualquer coisa. rever esse valor em baixa, devido
para a Mauritânia.
feitas de aparas em madeira. Daí a Se não formos nós a fazer, vai ser a aos incêndios, e Jorge não se mostra
oferecer um cercado completo com concorrência”. Portanto, tenta estar particularmente preocupado. “Era
direito a vedações, boxes, picadeiros, sempre um passo adiante, a identifi- demasiado”, admite o responsável,
pisos e aparas foram alguns anos e car tendências e à procura de opor- que acredita que todas as situações
outras tantas oportunidades de ne- tunidades. são uma oportunidade e desconfia
gócios – que podem surgir através Em Portugal, a Carmo tem nas quando tudo corre de feição duran-
de parcerias, compras de empresas estruturas para suporte agrícola a te demasiado tempo. O seu instinto,
que já operem nas áreas ou a cria- principal área de negócio, repre- aliás, já o tinha avisado de que algu-
ção de uma companhia dedicada sentando quase 50% da factura- ma coisa menos boa devia vir por
dentro do grupo. Desta forma, faci- ção. A construção (30%) e os postes aí depois de vários investimentos
lita-se a vida aos clientes, que pre- de construção e mobiliário urba- certeiros. “Andava a sentir-me de-
cisam apenas de um fornecedor, e no e de jardim (20%) representam masiado confortável”. Portanto, es-
reforçam-se os laços de confian- o restante. A evolução do cabo na tá pronto para tirar o melhor parti-
ça. Com os deques, por exemplo, a Europa e a electrificação rural em do da destruição das estruturas de
teoria é a mesma: a Carmo pode fa- África fazem dos postes de condu- duas das suas empresas: já que caí-

76 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


ram, em vez de fazer igual ou mais a empresa cuja propriedade divide
pequeno, “vou fazer maior. E me- com a irmã, em partes iguais, mas
lhor. A carpintaria é maior, a fábri- cuja gestão lidera. Na Carmo o grau
ca de móveis vai aumentar para o de exigência é igual ou superior a
dobro, a oficina de metalomecâni- várias empresas estrangeiras, ga-
ca também…Vamos comprar máqui- rante, e os níveis de eficiência mui-
nas novas para substituir as que ar- to acima do que se vê no mercado
deram”, explica, e como tudo é feito nacional. Aqui valoriza-se o méri-
em madeira, está optimista quanto to e remunera-se em concordância
aos tempos de execução. A empresa com a eficácia. Assegura que a jus-
vai começar por contruir a carpinta- tiça e a lealdade são as duas coisas
ria da Carmo Estruturas em Madei- que mais retêm talentos, e que têm
ra, e a seguir virão os armazéns e as que se reflectir nas remunerações,
oficinas. Os escritórios serão a últi- nos prémios, na forma como se tra-
ma coisa, uma vez que são também tam as pessoas e no respeito pelos
a menos necessária a curto prazo. graus hierárquicos. “Sou pela me-
Em dois anos, a Carmo foi atin- ritocracia. Quero lá saber que uma
gida por dois incêndios. Em 2016 pessoa que está cá há seis meses e
houve um curto-circuito que pro- deu provas de ser excelente ganhe
vocou um pequeno fogo na unida- mais do que uma pessoa que está cá
de de Pegões, onde estamos, e que há dois anos. Não quero saber! Ga-
destruiu toda a parte onde são feitas nha mais porque é melhor do que o
as aparas em madeira. Ainda é pos- outro, porque pensa fora da caixa,
sível ver resquícios desse fogo na fu- fora do trabalho”.
ligem alojada na estrutura, mas tu- É por isso, também, que rejeita
do já foi reconstruído e está laborar aquilo a que chama de “porreiris-
normalmente. O do ano passado foi, mo”, típico em Portugal. Admite que
naturalmente, mais dramático e Jor- a educação em Inglaterra lhe mol-
ge só lamenta não ter levado avante dou o carácter, mas afiança que é por
o seu projecto inicial: ter um plano conduzir assim a empresa que tem
de protecção próprio, que pelo me- chegado longe. No mesmo sentido,
nos lhe tivesse dado a sensação de explica, esta é uma das razões pelas
ter feito todo o possível para salvar quais não há muita gente da família
máquinas e edifícios. a trabalhar na Carmo: uma empresa
Segundo o gestor, foi a própria familiar, afirma, é para dar dinhei-
Protecção Civil quem lhe garantiu ro à família, e não para dar trabalho
que para proteger a área exterior aos familiares. Rejeita a ideia de que
estariam lá as autoridades, e que, estes são mais motivados e acredita
portanto, só era preciso um plano de numa gestão técnica, eficaz e rigo-
protecção para incidentes internos. rosa. E defende que se as empresas
“A árvore mais próxima das nossas nacionais aplicassem este princípio,
instalações estava a 5 km”, conta. veríamos muitas mais a ter sucesso.
“A questão é que não houve qualquer O único dos seus filhos com fun-
NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE
protecção. Os bombeiros não apare- ções na empresa é Alfredo, agróno-
Em 2016, um curto-circuito na fábrica de Pegões provocou um
incêndio considerável que destruiu grande parte da unidade ceram, os meios aéreos não apare- mo, enólogo, “uma pessoa fantástica”,
onde são produzidas as aparas para camas de cavalos, um ceram, e o fogo foi andando naquele garante. “Mas é comercial” e respon-
importante negócio para a Carmo. Apesar de ainda se verem os domingo desgraçado”. E acrescenta de a um director que até é mais no-
resquícios desse incidente, a actividade já decorre a todo o vapor. que foi esta informação que transmi- vo. Para subir na estrutura terá que
tiu ao Presidente da República quan- mostrar que é melhor do que os ou-
do falou com ele: que não importa o tros, como faz qualquer colabora-
que diga a Protecção Civil, porque o dor da Carmo. J
planeamento já está a ser feito, o in-
vestimento já está a ser considera-
do. A Carmo Wood vai ter um siste-
ma de protecção próprio para evi-
“Eu sou como a fénix: renasço
tar novas catástrofes.
das cinzas”.
Aos 61 anos, é com esta mesma BESS MYERSON, POLÍTICA, MODELO E ACTRIZ
assertividade que Jorge comanda NORTE-AMERICANA.

Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 77


N DIVERGENT 3D

Kevin Czinger quer reduzir o tamanho da sua fábrica de automóveis


recorrendo a software e impressão 3D. É o contrário dos planos
de Elon Musk para a Tesla, mas igualmente radical.

Querida,
encolhi a fábrica
N
 
inguém precisa de relembrar mos cinco anos. E a sua mini-fábrica vai fa-
Kevin Czinger de como era a zer lotes de outras viaturas de teste — uma
zona industrial do nordeste espécie de carrinhas — para clientes cujos
dos EUA no auge da produ- nomes Czinger não revela para já. Investi-
ção industrial americana. dores como o multimilionário Li Ka-shing,
O cheiro acre, a fuligem ne- da Horizon Ventures, a Altran Technologies
gra libertada pelas chaminés e o seu empre- (uma consultora francesa de engenharia de
go de Verão numa siderurgia, a carregar car- alta tecnologia que opera no sector automó-
vão de coque com uma pá, estão bem pre- vel), bem como o próprio Czinger e outros,
sentes nas suas memórias de juventude em injectaram 24 milhões de euros na empre-
Cleveland nos anos 1970. Esta cidade do nor- sa. E em breve estará concluída uma nova
te do Ohio era então um símbolo do pode- ronda de investimento que pretende chegar
rio industrial — até que tudo se desmoro- aos 85 milhões. “O fabrico automóvel tradi-
nou de repente. Agora, este empresário de cional está, no fundo, falido do ponto de vis-
50 anos quer ajudar-nos a entrar numa no- ta económico e ambiental,” afirma Czinger.
va era de produção — uma capaz de resistir “Não podemos expandir e reduzir fábricas
às forças que dizimaram a sua terra natal e para acompanhar as mudanças no mercado.”
grande parte dos EUA. A Divergent 3D, afirma, abre caminho
Para termos uma ideia do que serão es- para um futuro melhor no que respeita à
tes novos tempos, basta olhar para a minia- forma como os produtos industriais são fei- O presidente-executivo da Divergent 3D, Kevin
tura de uma fábrica de automóveis, mais ou tos. Em vez das megafábricas de Detroit — Czinger, aposta numa transformação radical do sector
produtivo que mudará a forma como os produtos
menos do tamanho de uma grande mercea- ou das gigafábricas de Elon Musk — a pro- industriais são feitos.
ria, situada num parque de escritórios de ci- dução do século XXI será regida, acredita
mento e vidro nos subúrbios de Los Ange- Czinger, por redes de fábricas urbanas de culos deverá ser, em média, até 5,7mil euros
les. Por trás das portas de vidro, e estacio- pequena escala. Vão poder produzir veícu- mais barato, afirma Czinger. A verdade é que
nado numa recepção que mais parece uma los de baixo custo e baixo nível de carbono o empresário não está sozinho nesta apos-
galeria, está o Dagger, um motociclo com ar e terão lotes pequenos e altamente customi- ta. Até agora, a impressão 3D era usada so-
desportivo e produzido pela Divergent 3D, a záveis. Czinger acredita também que estas bretudo para fazer protótipos. Mas a tecno-
start-up que Czinger criou há cinco anos. Ao poderão ajudar a trazer de volta empregos logia está a mudar rapidamente, com má-
lado está o Blade, um carro desportivo pra- a algumas comunidades. quinas cada vez maiores e capazes de “ge-
teado que faz lembrar as viaturas do filme rar” peças maiores numa série de materiais
de ficção científica “Relatório Minoritário”. UM NOVO PARADIGMA de ponta, incluído metal em pó. As vendas
Czinger construiu ambos com uma abor- Construir uma fábrica de automóveis tra- de impressoras 3D avançadas, que estão a
dagem à produção patenteada e fortemen- dicional custa entre 400 milhões e mil mi- ser usadas para fazer motores para os fogue-
te assente em novas tecnologias digitais co- lhões de euros, para além de ferramentas e tões SpaceX e turbinas eólicas gigantes pa-
mo a impressão em 3D. São mais baratas do maquinaria que são amortizadas duran- ra a GE, estão a aumentar. A Ford Motor po-
que os métodos tradicionais de fabrico, me- te muitos anos, razão pela qual têm de pro- de não imprimir F-150s em 3D para já mas
lhores para o ambiente e podem ser tão re- duzir centenas de milhares de veículos pa- está a utilizar esta tecnologia para produzir
volucionárias para a indústria do transpor- ra serem lucrativas. A Divergent 3D promete equipamento para as suas fábricas.
te como as viaturas eléctricas ou os carros construir uma linha de produção de 20 mil A HP prevê que esta tecnologia venha a
automáticos. O Blade e o Dagger são protó- carros ou mais por ano num espaço tipo ar- contribuir para um futuro demarcado pe-
tipos, mas Czinger juntou-se ao grupo PSA, mazém, equipado com impressoras 3D em lo “fabrico distribuído” no qual as empre-
fabricante de viaturas da Peugeot e da Ci- larga escala, máquinas de corte laser e ro- sas compram o que precisam, quando pre-
troën – e liderado pelo português Carlos bôs de montagem. E tudo por cerca de 50 mi- cisam e onde precisam, afirma Tim Weber,
Tavares –, de modo a trabalhar numa série lhões de euros. E dados os custos de capital executivo na unidade de impressão em 3D
de projectos de desenvolvimento nos próxi- e de produção mais baixos, o fabrico de veí- da empresa.

78 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


de reduzir o peso do veículo e acrescentar
mais complexidade, ao mesmo tempo que
nos dá uma flexibilidade quase ilimitada em
termos de produção,” disse Tavares depois
de assinar um contrato com Czinger no ano
passado. “Estamos a falar de uma mudan-
ça radical para a nossa indústria.” A Diver-
gent 3D tem já contratos de desenvolvimen-
to com cerca de “meia dúzia de empresas”,
afirma Czinger. Se a Waymo, da Alphabet,
ou a Apple construírem um dia os seus pró-
prios veículos autónomos o sistema da Di-
vergent 3D pode ajudar na sua concretiza-
ção, afirma. “O meu foco é fazer isto a nível
global,” acrescenta Czinger.
Czinger tem um passado curioso.
Os seus dotes futebolísticos ajudaram-no
a entrar para Yale, onde seria nomeado Jo-
gador do Ano da Ivy League em 1980. For-
mou-se em Direito, trabalhou na procura-
doria federal e foi ainda bancário no Gold-
man Sachs, no início da década de 1990. Mais
tarde passou por empresas de investimento.
A Divergent 3D não é a sua primeira ten-
tativa de revolucionar a indústria automó-
vel. Em 2008 co-fundou a Coda Automoti-
ve, convencido de que conseguiria fazer dis-
parar as vendas de carros eléctricos com um
sedan pouco apelativo, produzido por chine-
ses. Mas o timing não era o melhor.
Quando as entregas começaram a au-

Czinger licenciou-se em Direito, mentar, a Tesla lançou o elegante Model S que


redefiniria o mercado de viaturas eléctricas.
foi bancário e trabalhou em investimento. Czinger pode ter agora mais sorte com a Di-

Agora quer revolucionar a indústria. vergent 3D. Não pretende competir em pé de


igualdade com a Tesla ou outros no fabrico
de carros. O modelo de negócio assenta no
“Imagine que tem um mercado como a que é usada na construção de modelos tra- licenciamento de tecnologia 3D aos fabri-
Amazon,” afirma Weber. “Encomenda um dicionais. Em vez de pintura, os carros são cantes. E desta vez, o timing pode estar certo.
carro. Se calhar foi desenhado na Lituânia, revestidos com uma cobertura de vinil co- À medida que a pressão no sentido da
mas é construído na sua terra natal e entre- lorido bastante duradouro e resistente a ar- sustentabilidade aumenta e as viaturas pró-
gue uns dias mais tarde. É este o rumo que ranhões. E uma vez que os carros são mais prias dão lugar ao transporte como serviço,
as coisas estão a seguir – talvez não para já, leves, exigem também menos combustível. especialmente em cidades congestionadas,
mas a quarta revolução industrial é preci- O grupo PSA abraçou o 3D da Divergent é uma forma eficiente de produzir carros
samente isso.” de modo a acelerar a sua eficiência fabril, par- limpos e baratos para frotas urbanas par-
Costa Samaras, professor assistente de te de um esforço mais amplo de reconfigu- tilhadas. Um carro para Los Angeles pode
Engenharia Civil e Ambiental na Universi- ração sob a direcção de Carlos Tavares. Num ser diferente de um para Paris. “No fundo
dade Carnegie Mellon afirma que a impres- estudo de seis meses para a PSA em 2016, os resume-se à capacidade de resistência do
são industrial em 3D vai “revolucionar uma engenheiros determinaram que se usassem nosso ambiente, e da nossa economia de-
série de cadeias de fornecedores actuais.” a tecnologia 3D da Divergent para desenvol- pende desta diversidade.” J ALAN OHNSMAN
A versão de Czinger dessa revolução assen- ver um SUV popular teriam enormes van- E JOANN MULLER
ta no uso de juntas metálicas complexas im- tagens: o tempo de desenvolvimento era de
pressas em 3D, como o “tecido conjuntivo” menos um ano, o peso do veículo seria re-
que se liga à estrutura em fibra de carbono, duzido para metade, e haveria um decrésci-
ou aos “ossos” do chassis de um carro, usan- mo de 75% de peças, para além de aumentar “Todos os fracassos são falhas de
do um material altamente aderente em vez a flexibilidade para alterações rápidas. “Isto adaptação. Todos os sucessos são
de solda. O resultado é uma carroçaria forte tem o potencial de reduzir drasticamente a adaptações conseguidas”,
e leve mas muito mais barata do que aquela dimensão e alcance da nossa pegada fabril, MAX MCKEOWN, ESCRITOR INGLÊS

FOTO D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 79


N GRAPHENEST

Graphenest cente ao tal consórcio da União Eu-


Fundação: ropeia, o “The Graphene Flagship”.
2014 Com a mão científica de Bruno Fi-
Fundadores: gueiredo – considerado pela FOR-
Vítor Abrantes BES um dos nomes sub-30 a seguir
(presidente), na ciência mundial –, e a acuida-
Bruno Figueiredo de técnica de Rui Silva, ambos en-
(responsável genheiros químicos, Vítor deu vi-
científico) e Rui
da a um método de sintetização de
Silva (responsável
técnico). grafeno que é o cerne desta empre-
sa sediada em Paradela do Vouga.
Decorria Outubro
Tal como muitos especialistas
de 2014 quando
os fundadores da mundiais, os fundadores da Gra-
Graphenest levaram phenest antevêem a afirmação do
ao laboratório da grafeno como material convencio-
Universidade de nal, a exemplo do alumínio ou co-
Aveiro o seu trabalho bre, entre 2020 e 2022. Nessa altu-
de investigação. ra poderá deixar de ser o “material
Um ano antes,
maravilha” que hoje lhe chamam.
Vítor, estudante
de Engenharia Na relação com o próprio peso,
Passaram 13 anos da descoberta do grafeno e só a União Europeia é 100 vezes mais forte que o aço,
Mecânica, chocara
investiu mil milhões de euros para investigar este material. mas flexível o suficiente para per-
com a notícia no
A Graphenest colocou Portugal no mapa da inovação. Facebook sobre a mitir que um ecrã de telemóvel se

O novo
bateria recarregável torça e contorça nas mãos. Mil vezes
em segundos. mais fino que uma folha de papel,
Procurou saber
nem mesmo o cobre tem tamanha
como poderia utilizar

ouro negro
o material e imergiu condutibilidade eléctrica.
na leitura de artigos Mas para perceber o que a Gra-
científicos para phenest faz actualmente é preciso

S
 
conhecer os métodos recuar na história: antes de entrar
de produção. O na universidade, aos 24 anos, Vítor
erendipidade: uma des- E volvidos três anos, em 2013, a preço da matéria- tinha um curso informático do li-
-prima, 150 a 250
coberta acidental, ao União Europeia lançaria a maior ceu e vendia móveis de escritório.
euros por grama,
estilo do tropeção de iniciativa de investigação científi- foi um anti-clímax
Alexander Flemming ca mundial: mil milhões de euros para o bolseiro, mas
na penicilina. Ou, já no de orçamento para que um consór- o passaporte do
século XXI, a forma co- cio de investigadores académicos empreendedorismo
mo dois cientistas da Universidade e industriais (como a Fiat, a Sano- (670 euros mensais)
de Manchester descobriram uma fi Aventis ou a IBM) tirem o grafe- ajudou a avançar
na investigação.
forma de isolar o grafeno quando no dos laboratórios e o façam aju-
Nesta história de
se entretinham a retirar camadas dar a economia a crescer através acasos também
de um bloco de grafite com fita-co- de novos empregos e oportunida- entra o encontro dos
la. Aperceberam-se de que conse- des. Há quem acredite que a par- sócios: funcionário
guiam chegar a uma folha de car- tir da próxima década este mate- da indústria do
bono com um átomo, característica rial estará a render milhares de mi- mobiliário, Vítor
que dá ao grafeno o título de ma- lhões de euros ao ano. participara na
montagem de
terial bidimensional. Este potente Tal como os investigadores da
equipamento nos
condutor de calor e electricidade é Universidade de Manchester, tam- laboratórios da
também o material mais leve, fino bém o engenheiro mecânico Vítor Universidade de
e forte que existe, ao ser constituí- Abrantes chegou ao grafeno pelo Aveiro, e aí conheceu
do por uma camada extremamente acaso: certo dia de 2013, ao pas- o professor
fina de grafite mas com uma estru- sar os olhos pelas notícias no Fa- coordenador do
tura de átomos individuais que lhe cebook, leu sobre uma bateria de doutoramento do
seu futuro sócio,
dão uma resistência extraordinária. telemóvel com grafeno, que recar-
Bruno. Rui, formado
A descoberta do grafeno, em regava em poucos minutos. A no- em Engenharia
2004, renderia a Andre Geim e Kon- tícia foi a epifania para o projecto Química, como
stantin Novoselov o prémio Nobel que viria a redundar na Graphe- Bruno, foi o último
da Física apenas seis anos depois. nest, empresa portuguesa perten- a juntar-se.

80 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Hoje passa horas agarrado ao tele- “O nosso maior activo
é a tecnologia e o
fone e em reuniões com quadros de segredo de como
topo. No dia da visita da FORBES ao aplicá-la e produzir
laboratório da Graphenest, o presi- barato”, diz Vítor
Abrantes (no centro
dente-executivo ausentou-se para da foto da direita).
apresentar o seu grafeno a um dos
maiores exércitos mundiais, numa CONTROLO
reunião via Skype que, contou-nos, ATÉ À VENDA
os colocou num restrito lote de po- Vítor Abrantes é, dos
tenciais fornecedores. Entretanto, três fundadores, o
que tem a maior quota
e de forma abstracta, Bruno explica da Graphenest. A
que o grafeno no meio militar per- ele pertence a ideia
mite drones mais ligeiros e equipa- inicial do negócio,
dos com baterias de maior auto- que o levaria a propor bar ao petróleo o cognome de “ou- GASTAR POUCO,
sociedade a Bruno
nomia. Rui é, dos três fundadores, Figueiredo e, depois,
ro negro”. Ecrãs e baterias flexíveis GERAR MUITO
o mais ausente, sempre ocupado a Rui Silva. Com os são outras das possibilidades que Em Dezembro de 2014, os fundado-
em manter operacional o equipa- 5% de controlo sobre este material oferece, para além res da Graphenest decidiram con-
mento “top secret”. stock options, o trio de abrir boas perspectivas no que correr ao financiamento da Portu-
tem mais de dois
Há cada vez mais aplicações terços do capital
toca a novos meios de diagnóstico gal Ventures, da qual receberam
em desenvolvimento deste mate- da Graphenest. e tratamento, no sector da saúde. 700 mil euros cerca de seis meses
rial profundamente resistente: fil- Em Portugal, a Unilever e a depois. Fonte oficial da sociedade de
tragem de água a baixo custo – in- Infineon, spin-off da Siemens, são capital de risco do Estado justifica
cluindo dessalinização, que a ca- duas das empresas que já aceita- o investimento com a tecnologia de
da seca nacional lá surge nas co- ram ouvir o “pitch” de Vítor, cujo produção de grafeno e a capacidade
gitações –, novas solas para sapa- desejo de explorar o grafeno o le- de escala da mesma, e com o custo
Fundadores 65%
tos de running e fitness, que já está vou a deixar o mestrado de De- de produção muito inferior aos ou-
Stock options 5%
em testes intensivos na montanha, senvolvimento de Produto a meio tros métodos alternativos. Em 2015,
Portugal Ventures 30%
e utilização em equipamento des- e mudar para Engenharia de Ma- a Graphenest já tinha a sua patente
portivo são só a ponta do iceberg. Este ano será o teriais - Mestrado que também não provisória e em Maio de 2016 teve
O grafeno entrará ainda em lentes da explosão das concluiu, porque, entretanto, criou a validação da tecnologia.
de contacto, pulseiras com ecrã ou receitas, antevêem os a Graphenest. “Quando vender a “A Graphenest está a desenvol-
baterias para automóveis eléctri- fundadores. Vítor diz empresa vou ter tempo de termi- ver parcerias com várias empresas
que superar os 200 mil
cos –até tem a desfaçatez de rou- euros é a expectativa nar”, promete. E neste momen- nacionais e internacionais com o in-
mais realista, mas to, a Graphenest tem um trunfo tuito não só de fornecer o grafeno,
admite poder fazer o que a fazer valer bastante dinhei- como também de desenvolver to-
dobro, em virtude dos ro: é que a pequena start-up pro- do o processo de incorporação do
contactos efectuados.
Para 2018 está duz grafeno num nível industrial mesmo nos produtos/soluções des-
prevista a contratação mas a um custo diminuto. Segun- ses seus clientes”, explica a Portugal
de cinco a sete do o “The Graphene Council”, en- Ventures em declarações à FORBES,
pessoas. Bruno não
tidade internacional de estudo de antes de destacar dois pontos fortes
admite sequer como
possibilidade não grafeno, a empresa portuguesa es- desta equipa: a solidez científica e a
atingir o break even. tá a fazê-lo a um custo mil vezes complementaridade entre os seus
Fonte: Graphenest *Receitas inferior ao do método tradicional. membros. Um novo investimento
(valores estimados, em euros).
À FORBES, no entanto, a equipa de será avaliado “quando a questão se
fundadores diz que estamos a fa- colocar, e enquadrada no contex-
lar apenas de metade desse valor. to que existir no momento. É sem-
410 000*

Mas apesar de poderem aliciar pre uma análise e decisão casuís-


30 000*

clientes pelo preço, os fundadores tica”, concluiu a mesma fonte. É por


escolhem alinhar com a concorrên- isso que para o responsável da Gra-
cia e investir os ganhos na capita- phenest é muito claro que “é hora de
lização da empresa, assegurando saltar a cerca” e ir lá fora procurar o
assim a sua imagem e credibilida- capital que falta a Portugal, adianta
de, algo que, consideram, um pre- Vítor. O presidente-executivo da em-
2017 2018 ço “explosivo” prejudicaria. presa reconhece o esforço do Gover-

O grafeno é o “mais promissor tema na ciência nos


dias de hoje”, lê-se no site da The Graphene Flagship.
FOTOS DE JOSÉ PEDRO TOMA Z Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 81
N GRAPHENEST

no no Fundo Coinvestimento de 200 -up, mas de empresa estabelecida,


milhões de euros, criado para PME e salienta Vítor. E, numa nota sinto-
start-ups, e do qual a Graphenest es- mática da juventude do projecto e
pera poder vir a beneficiar, mas pa- dos seus fundadores, Bruno afir-
ra conseguir explorar o potencial do ma que se acabaram as propostas
grafeno precisa de mais. numa folha A4 “descoordenada”.
“Não somos uma empresa fami- A Portugal Ventures considera
liar. A nossa ideia é sermos adquiri- que “o projecto está, genericamen-
dos por uma grande empresa”, diz VISIBILIDADE INTERNACIONAL te, a correr conforme previsto e o de-
Vítor, apontando uma “exit” a cin- A aceleração em Portugal é “bullshit” – gíria inglesa traduzível sempenho da equipa a corresponder
co anos. Para que seja possível, os por “treta” –, denuncia Bruno Figueiredo, co-fundador às expectativas iniciais”. Vítor con-
fundadores contam com uma ex- e responsável de estratégia da Graphenest. “Quando se fidencia-nos: “Ainda agora estava
falha, passa-se a ser mentor, para ensinar a não falhar. Aqui
plosão nas receitas, fruto da des- ao telefone com o CEO da Martifer
não ensinam a ter sucesso, ensinam a não falhar”, diz entre
coberta de um método de conten- sorrisos. Outra lacuna, diz o co-fundador, está nas fontes de e disse-lhe ‘temos que arranjar um
ção nos custos. Primeiro, fizeram capital, muito restrito aos bancos e business angels, exigindo- projecto para desenvolver convos-
engenharia inversa, estudando e se, para bem do ecossistema, que os que têm sucesso co. Se não forem vocês, será com a
desmontando as máquinas exis- retornem às origens e “alimentem a máquina”, passando de concorrência’”.
tentes no mercado. Com menos de empreendedores a investidores. O responsável aponta o Para atingir a escala de produ-
exemplo de um programa em Braga onde se viu misturado
10 mil euros criaram maquinaria ção industrial falta erigir o novo pa-
com empreendedores de áreas díspares, o que dissipou a
de produção de grafeno alternati- mais-valia que adviria de uma informação direccionada. vilhão e reforçar a maquinaria, as-
va àquela que no mercado se vende Antítese da acção na Alemanha, inserida num programa sim se cumpram as três rondas de
por cerca de 50 mil euros. Nas duas de aceleração em materiais avançados, a Admacom. Ali, capital previstas para captação de
máquinas do seu sistema – que o conheceram responsáveis da Henkel – parceira da iniciativa 50 a 75 milhões de euros. A isto aju-
segredo industrial nos impede de –, que lhes abriram portas. O programa viabilizou a criação darão viagens como a feita à Alema-
espelhar nestas páginas – investi- de contactos com académicos, empresários, business angels nha, em que o Vítor e Bruno falaram
e advogados. A Graphenest ostenta o “Start-up Certificate
ram 160 mil euros. 2017”, atribuído pela Henkel em função da resolução de um
com responsáveis da Carl Zeiss e da
“Após a validação da tecnolo- problema para o qual a solução não era óbvia e que poderá Sony, sendo que esta já está a avaliar
gia, está na hora de ir vender, abor- contribuir para tecnologia pioneira da multinacional dona um projecto da Graphenest, tal co-
dar o mercado”, atira Vítor, que, tal de marcas como a Loctite e Persil. mo está a fazer a Intel. Por cá, a Gra-
phenest colabora com uma empre-
Os fundadores da Graphenest acreditam sa que testará em breve equipamen-
que conseguirão vender a empresa a uma to desportivo injectado com grafe-
no e que, a ser validado, chegará aos
grande companhia daqui a cinco anos. Jogos Olímpicos. Um dos segredos
bem guardados na sala do Vouga-
como os seus sócios, se viu na obri- park, uma antiga fábrica de cereais
gação de complementar a forma- em Sever do Vouga transformada nu-
ção de engenheiro com a faceta de ma incubadora de empresas. “É uma
“marqueteiro”. “Não sabíamos como bola de neve, com o ganho de cre-
funcionava o mercado e as grandes dibilidade e de referências. As coi-
empresas não tinham background sas estão a adquirir um ritmo mais
para incorporação do grafeno [nos acelerado”, admite Vítor. Por seu la-
seus produtos], ou tinham ficado es- do, Bruno acrescenta que demorou
caldadas com experiências anterio- um ano até chegarem a este pon-
res”, explica o presidente. to. “Penámos um bocado a mostrar
quem somos, o que fazemos”, assi-
DE OLHOS NO FUTURO nala. E por isso, também, estão fo-
Para já, a Graphenest tem cinco pro- cados em colocar Portugal no mapa
jectos em mãos, com o desenvolvi- da produção e utilização do grafe-
mento pago pelos clientes, que em no, como têm conseguido fazer até
O QUE DIFERENCIA A GRAPHENEST troca receberão o produto adapta- aqui. J ALEXANDRE FRADE BATISTA
A inovação é o método de esfoliação líquida, como que do às suas exigências. “Não pode-
estratifica uma massa de papel em folhas, até uma escala mos colocar no mercado produtos
nanométrica. A matéria-prima, grafite, entra numa câmara que não estejam bem desenvolvidos
redonda montada com tecnologia da empresa, a que sucede
a atomização, saindo um líquido com mistura de solventes
e testados”, salienta. A própria co- “Se não está disposto a arriscar
orgânicos. Tudo com 99,5% de aproveitamento da grafite. No municação foi adaptada à dimensão o invulgar, terá que se contentar
circuito não entram ácidos, oxidantes ou reagentes agressivos, dos novos clientes, passando a ser com o normal”.
substituídos por etanol, água, acetona e líquidos de baixo custo. feita não com a chancela de start- JIM ROHN, EMPRESÁRIO NORTE-AMERICANO

82 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO DE JOSÉ PEDRO TOMA Z


Hotel & National Monument
Pestana Palace Lisboa
THE LUXURY OF TIME

Pestana Cidadela Cascais Pestana Palácio do Freixo Pestana Vintage Porto


Pousada & Art District Pousada & National Monument Hotel & World Heritage Site

+351 218 442 001 | pestanacollection.com


OPINIÃO PEDRO NEVES

Quando a convicção
va que a prática de acções morais
ou imorais é transversal à popu-
lação, não dependendo nem da

moral nos atraiçoa orientação política nem da reli-


gião). Mas o que é ainda mais in-
teressante – e o que nos traz de
volta ao tema do futebol – é que
normalmente assumimos que estas crenças se aplicam apenas às coisas
verdadeiramente importantes da vida, aos chamados temas fracturan-
tes da sociedade (questões que envolvem decisões de vida ou morte; edu-
cação e valores familiares; entre outros). Mas não.
Aparentemente, e tal como ficou patente numa revisão de literatura
publicada recentemente pela mesma autora na revista Advances in Politi-
cal Psychology, qualquer questão ou tema que seja importante para uma
pessoa pode ser formulado como sendo uma verdade objectiva e univer-
sal, ou seja, como sendo uma convicção moral. E se o carácter moral de
uma atitude é central, pois determina o esforço que uma pessoa coloca
na defesa desse mesmo princípio (e.g., maior participação cívica e polí-
tica ou um papel mais activo no cumprimento dos objectivos da organi-
zação em que trabalha), é igualmente problemático pois aumenta a in-
tolerância, a desconfiança, a incapacidade de negociar e resolver confli-
inha prometido a mim próprio que tos e a aceitação de que a violência é uma boa (senão a melhor) forma de
faria um esforço por não falar de lidar com aqueles que vêem o problema de forma diferente (ou seja, de
futebol nesta coluna. Mas hoje não uma forma moralmente errada).
resisto. Estou há demasiado tempo Fazendo a ponte com o tema que despoletou esta conversa, isto é di-
a ouvir discussões sobre a morali- zer que, quanto mais central e importante é o clubismo para uma pes-
dade (ou falta dela) das equipas, soa, mais essa pessoa defende e vibra com o seu clube, mas, simultanea-
dos árbitros, dos treinadores, dos mente, mais intolerante se torna em relação a todos os que não parti-
presidentes dos clubes, dos adep- lham desse valor moral – leia-se,
tos. Ou seja, a moralidade de qual- os adeptos dos outros clubes. Pois
quer pessoa que alguma vez se te- como é possível estar perante ta-
nha visto envolvida num jogo de fu- manha evidência (e que deveria ser
tebol, nem que fosse numa partida óbvia para todos) e continuar a fa-
entre solteiros e casados. E sobre o zer a “apologia do mal”.
core business do sector, neste caso Num mundo com tantas preo-
futebol, tenho ouvido muito pouco. cupações e temas que de facto me-
No último Verão, tive a oportu- recem a nossa militância e convic-
nidade de ouvir Linda Skitka, pro- ção moral, gastar recursos cogni-
fessora da Universidade de Illinois, tivos e emocionais a definir como
a falar numa conferência sobre a sendo “os maus” os que discordam Gastar recursos
forma como desenvolvemos e co-
locamos em prática a nossa cren-
de nós e fazem outras escolhas (se-
jam eles a empresa concorrente ou
cognitivos e
ça de que uma determinada atitu- o clube historicamente rival), é não emocionais a
de é normativa e fundamentalmen- só um desperdício de tempo mas, definir como sendo
te certa ou errada, ou seja, a nos- acima de tudo, um problema so-
sa convicção moral. A importância cial, pois tal como afirmava Jigoro “os maus” os que
das convicções morais na vida do Kano, fundador do Judo, “o adver- discordam de nós e
dia-a-dia ficou (ainda mais) patente
num estudo publicado em 2014 na
sário é um parceiro necessário ao
progresso, a vida da humanidade
fazem outras escolhas
revista Science que demonstrava baseia-se neste princípio”. J é, acima de tudo, um
como estas influenciam a felicida- problema social.
de e o sentido de propósito das pes- Professor na Nova School of Business
soas (e mais interessante, mostra- and Economics

84 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


94 96
LUXOS QUE A
VIDA TEM PAR A
OFERECER

NUVEM RANGE ROVER


DE SOM A Land Rover lançou
Uma coluna original, um SUV que se destaca
em forma de nuvem, pela simplicidade e
que levita e se ilumina segurança com que
ao ritmo da música se move por estradas
que transmite, está sinuosas. Uma aposta
a ganhar amantes. a considerar.

Viagem
O Carnaval é celebrado um pouco por todo o mundo, mas não há
mais romântico, glamouroso e misterioso do que o que acontece
na bela cidade de Veneza. Acompanhe-nos na viagem!
TEX TO DE MARGARIDA VAQUEIRO LOPES

O MAIS
MISTERIOSO E
BONITO CARNAVAL
FOTO DE MARCOAFOTO/GETT Y IMAGES Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 85
N
a antecipação da Qua-
resma, o tempo litúrgi-
co que pede abstinência
e contenção, o Carnaval
aparece como o tempo
das extravagâncias e dos
excessos. Acredita-se, aliás, que a origem
da sua palavra – do latim clássico car-
nem levare, segundo o dicionário Hou-
aiss – significa precisamente “adeus à
carne”. E se há povo que leva esta festi-
vidade – cuja origem é bastante dúbia,
mas que se acredita pagã – a sério, são
os venezianos. As máscaras exuberan-
tes, as festas exclusivas, os jantares faus-
tosos e os vários dias de comemoração
dentro e fora de portas fazem de Vene-
za a cidade carnavalesca por excelência.
Este ano, o Carnaval é dia 13 de Fe-
vereiro, mas a cidade italiana veste-se
a rigor muito mais cedo. A abertura da
época é a 27 e 28 de Janeiro com a tra-
dicional festa veneziana na água: gôn-
dolas e venezianos fantasiados animam
os canais na noite de sábado e na ma-
nhã de domingo e encantam os visitan-
tes numa antevisão do que será o Car-
naval de 2018.
No dia 4 pode contar com o famo-
so Voo da Colombina, um dos momentos
mais tradicionais em que uma acrobata
desce sobre a multidão da praça de São
Marcos lançando flores sobre todos. Re-
presenta Colombina, uma das persona-
gens da Commedia d’el Arte, que é a ins-
piração máxima das máscaras do carna-
val veneziano. Este tipo de teatro foi muito no último ano considerado, teria havido le de máscaras sumptuosamente ador-
famoso no século XVI e respondia ao cha- um adicional de 310 mil pessoas a passar nadas: durante os dias que antecedem a
mado teatro clássico: feito à base de im- em Veneza durante o dia, e um incremen- terça-feira de Carnaval há vários concur-
provisação e personagens populares, era to de 54 mil reservas em hotéis. Números sos para escolher a melhor fantasia e nin-
apresentado na rua. A Colombina – que fa- que impactam positivamente o emprego, guém quer perder a corrida. Pode tam-
zia par com Arlequim – era a criada astuta ainda que de curta duração, e o consumo bém assistir aos diversos espectáculos de
das histórias. Vai encontrar muitas Colom- – o mesmo artigo refere que em 2013 o rua que ao longo das semanas acontecem
binas e Arlequins no carnaval de Veneza e Carnaval terá significado um aumento de nas várias praças da cidade – acrobacias,
pode até comprar uma máscara comple- 49 milhões de euros neste campo. teatros, recitais de música… O grande de-
ta em vários artesãos que abrem a porta safio é escolher qual o evento que não
das suas oficinas e lhe mostram como se TODO O GLAMOUR quer perder. Para isso, conte com o com-
fazem estes artefactos, tradicionalmente SERÁ RECOMPENSADO pleto e acessível site oficial do Carnaval
e com elevada qualidade. É que durante o Carnaval o mote é gastar (http://www.carnevale.venezia.it/) e pre-
Um artigo assinado por alunos do Ins- dinheiro – afinal, é tempo de excessos – pare um calendário.
tituto de Investigação Económica da Uni- , avisam as autoridades e os vários pro- Vai precisar de um fato particular-
versidade de Ljubljana, na Eslováquia, motores de eventos. Não é que não pos- mente bem desenhado e confeccionado
calculou recentemente o impacto que o sa sentar-se apenas a observar a multi- se não quiser perder alguns dos mais ex-
Carnaval de Veneza teve na economia dão que por estes dias enche a cidade e clusivos espectáculos da cidade, que têm
da cidade entre os anos de 2004 e 2013: surpreender-se com um autêntico desfi- um rígido dress code. É o caso da Casa-

86 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


CASANOVA
COCKATIL PARTY
É uma das festas mais badaladas da cidade e
os lugares esgotam muito cedo. O bilhete
VIP, com aluguer de uma fantasia a preceito,
custa 750 euros e dá direito a jantar de gala,
a todas as performances e ainda à after party.
No site oficial do evento pode pedir para ser
convidado e a partir daí é só seguir as instruções.
Aqui, as fantasias são obrigatórias.

MINUETTO, JANTAR
E BAILE
No início do ano já havia datas completamen-
te esgotadas e é outra das festas mais concor-
Durante vários dias os concursos de máscaras ridas da cidade. Aqui dança-se o tradicional

sucedem-se por toda a cidade e é fácil encontrar


Minuetto, com direito a um professor que ensi-
nará os passos mais básicos aos estreantes, um
absolutas obras de arte enquanto se passeia. jantar de quatro pratos e música barroca toca-
da ao vivo. Cada bilhete custa 300 euros por
pessoa. As fantasias – obrigatórias – podem ser
nova Cocktail Party, que acontece no fa- vereiro – apesar de já não haver bilhetes alugadas na altura da reserva.
moso e romântico Palácio Contarini, e que entre os dias 5 a 7. A um jantar de cinco
já é uma instituição. Aqui só se entra com pratos seguem-se várias performances e
uma fantasia de época, claro. Para conse- claro, uma festa com música ao vivo e um
guir aceder à festa tem que pedir no site DJ animarão os mais resistentes. Todos os
que o convidem, mas se se apressar ain- jantares acontecem no Ca’ Vendramin Ca-
da conseguirá bilhetes. lergi, um palácio do século XVII erguido
Depois há o mais espectacular even- mesmo no centro do Grande Canal que
to de todos: o Baile de Doge, que aconte- alberga o Casino de Veneza.
ce no dia 10 de Fevereiro, o chamado Sá- Apesar de ser difícil conseguir reser- IL BALLO DEL DOGE
O baile por excelência: há mais de vinte anos
bado de Carnaval. Este ano celebra-se a vas nos hotéis da cidade, que esgotam a que este evento enche um dos palácios mais
25ª edição deste espectáculo exclusivo, muitos meses do Carnaval, há alguns lu- charmosos de Veneza e promete não desiludir
organizado pela conhecida designer An- gares que vale sempre a pena tentar, pa- na sua 25ª edição. O bilhete SUPER VIP (3500
euros) inclui um jantar de gala, acesso livre ao
tonia Sautter e que conta com acrobatas, ra garantir que a experiência é verda- bar de cocktails e ao Lounge Vip. O dress code é
bailarinos, músicos, salas secretas, mun- deiramente romântica e glamourosa: a fantasia total de época.
dos encantados, comida gourmet e cla- nossa sugestão é que marque um quar-
ro, as mais incríveis máscaras de Veneza. to no Hotel Danieli, com vista para o ca- VALENTINE BALL
É uma das surpresas deste ano. Como o Carna-
Subordinado ao tema ‘Renascimento e Ce- nal, e participe numa das exclusivas fes- val se celebra a 13 de Fevereiro, vai haver um
lebração’, volta a ter lugar no palácio Pi- tas organizadas em parceria com o Clu- prolongamento das festividades até ao dia dos
namorados. Afinal, Veneza é a cidade mais ro-
sani Moretta e promete deslumbrar todos be de Eventos Culturais. Tudo boas ra- mântica do mundo! Subordinado ao tema
os que já conseguiram garantir um lugar! zões para este ano rumar a Veneza e se “Amo-te…em Veneza”, também é preciso pe-
Há ainda o Jantar e Baile Oficiais, pro- perder nos canais misteriosos da cidade dir um convite no site do evento, e esperar que
a organização o contacte. Os bilhetes incluem
movido pela própria cidade, e que acon- mais romântica do mundo para uma ex- jantar e bar aberto e custam 350 euros por pes-
tece durante 12 dias, a começar a 3 de Fe- periência inesquecível. J soa. O dress code é black tie com máscara.

FOTOS DE GETT Y IMAGES E D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 87


COMO
Uma
Canggu, em Bali.

Hotéis ÁSIA re Gagnaire está por detrás do

VOLTA AO
restaurante e da boulangerie.
Capella Shanghai,
Jian Ye Li COMO Uma
Actualmente em fase de soft Canggu, Bali

MUNDO
opening, o mais recente hotel O terceiro hotel de Christina
da marca de luxo Capella está Ong na ilha de Bali trará, em
repleto de glamour ao estilo Fevereiro, a sua abordagem
de uma Xangai dos anos 1930. discreta ao luxo a esta que é
Ocupa um imóvel dessa déca- uma das zonas menos visita-
De Bogotá a Bali, eis os hotéis e estâncias da, construído em estilo arqui- das da costa sul de Bali. A ar-
tectónico shikumen, com as quitectura é de estilo asiático
mais apelativos para 2018.

G
suas paredes de arestas cuida- moderno e os quartos do rés-
dosamente trabalhadas e uma -do-chão dão acesso à piscina
raças aos novos hotéis com abertura série de corredores estreitos, de linhas sinuosas a partir das
prevista um pouco por todo o mun- pátios interiores e arcos em pe- suas varandas, enquanto os pi-
do, 2018 tem tudo para voltar a ser um dra embelezados sobre portas sos superiores têm vistas des-
ano fabuloso em matéria de viagens. e portões. O chef francês Pier- lumbrantes para o mar.
Projectos isolados ou expansões es-
tratégicas de marca e há anos em pre-
paração, estes 14 hotéis primam pela atenção ao por-
menor e pela sua determinação no sentido de redefi-
nir o conceito de luxo.
As grandes cadeias hoteleiras estão a fazer con-
sideráveis apostas em cidades que começam agora a
despontar fortemente para o turismo, como é o caso
de Varsóvia e Bogotá. Além desta dinâmica, verifica-
-se também que há uma série de novos projectos in-
dependentes que avançam com novas ofertas em des-
tinos que achávamos conhecer. Eis o que está no ma-
pa para 2018. J ANN ABEL
Capella
Shanghai

88 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


ÁFRICA
Anantara
Tozeur, Tunísia
Décadas depois de ganhar fama
como local onde decorreram as
filmagens da Guerra das Estre-
las, esta cidade no sudoeste do
país — uma porta de saída para
aventuras saarianas — conta fi-
nalmente com uma estância de
luxo. Abre neste Verão e terá 93
quartos e villas, algumas com
piscina privativa. Terá ainda um
spa sofisticado, uma grande sa-
la de refeições aberta todo o dia
Royal com mostras de cozinha tunisi-
Lancaster, no na e um restaurante tailandês
Reino Unido
em honra das origens do Anan-
tara no sudeste asiático.

EUROPA

Vista Palazzo, Anantara


Tozeur,
Lago de Como, Itália na Tunísia
Este hotel intimista será o pri-
meiro empreendimento de
cinco estrelas situado bem no
centro da cidade de Como,
combinando vistas espantosas
sobre o lago com fácil acesso
a restaurantes e lojas quando
abrir em Junho. Instalado num
antigo palazzo, tem 18 quartos
e suites e um “infinity bar” es-
pectacular no terraço cujo bal-
cão tem vista para o lago.

Four Seasons Hotel


Megève, França
Interpretação moderna de
um chalé alpino, o primei-
ro hotel europeu de monta-
nha da Four Seasons tem 55
quartos e suites, e cinco res-
taurantes e lounges, incluindo
uma nova encarnação do res-
taurante de duas estrelas Mi-
chelin “Le 1920”. Além de 235
pistas de esqui devidamente comemorou o seu 50.º ani- vista sobre a linha do horizon- do Hotel Europejski, aquele que
mantidas no Inverno, os con- versário com uma remodela- te londrino das suas amplas ja- já foi um dos hotéis mais luxuo-
vidados têm acesso preferen- ção no valor de 100 milhões nelas não mudou. sos da Rússia do séc. XIX. Con-
cial ao Clube de Golfe Mont de euros e que foi concluída servadores locais trabalharam
d’Arbois, localizado nas proxi- em Novembro. Todos os 411 Raffles Europejski, intensamente com arquitectos
midades do hotel. quartos e suites surgem ago- Polónia e designers polacos na renova-
ra com uma reinterpretação Há quem diga que a Europa de ção dos 106 quartos e suites.
Royal Lancaster, do estilo em voga quando foi Leste é a nova Europa ociden- O restaurante terá uma varan-
Reino Unido construído — silhuetas baixas, tal. A marca asiática Raffles pa- da e um menu polaco moderno,
Este ícone de meados do sé- linhas direitas e uma cor mais rece estar apostada nisso com enquanto a pâtisserie será uma
culo passado de Hyde Park ousada aqui e ali. A fabulosa uma remodelação significativa evocação do passado.

FOTOS D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 89


AMÉRICA LATINA / Hotel Cartesiano, Zadún, México
CARAÍBAS México A região de Los Cabo recebe
Puebla é uma cidade há muito uma nova infusão de luxo ma-
Silversands, Granada admirada pela sua rica histó- duro com o mais recente posto
A primeira grande estância a ria e pela arquitectura colonial. avançado da cadeia de hotéis
abrir na praia de Grand Anse Contudo, até há pouco tempo, de renome Ritz-Carlton. Situa-
em 25 anos, o Silversands, trará carecia de espaços à altura do do na costa de San José del Ca-
consigo um novo tipo de luxo a seu charme. Tudo isto mudou bo, esta estância conta com 115
esta ilha do sul quando abrir em em Novembro com a abertu- elegantes villas que misturam
Março. Além das suas 43 suites, ra do hotel Cartesiano, com 78 cultura e património locais —
cuja decoração assenta forte- quartos e suites em três edifí- muitas delas com piscinas pri-
mente no uso de materiais na- cios do séc. XVIII a poucos pas- vativas — dois campos de gol-
turais, terá uma piscina de 100 sos da praça central da cidade fe inseridos no circuito oficial
metros, a mais extensa nas Ca- e de muitos locais históricos. desta modalidade e um parque
raíbas. Os hóspedes e os even- O design é inspirado na arte e botânico do deserto.
tuais compradores das nove vi- nos padrões têxteis mexicanos
llas residenciais partilham um contemporâneos e elementos As grandes cadeias
spa num local recatado, um
hoteleiras estão a apostar em
arquitectónicos com secções cidades que começam agora
clube de praia e dois restauran- de alvenaria de grande beleza a despontar fortemente,
tes de inspiração global. decadente. como Varsóvia e Bogotá.

Zadún, Hotel Cartesiano,


na região de Los em Puebla,
Cabo, no México no México

90 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


The NoMad,
em Los Angeles,
nos EUA

Silversands,
em Granada

AMÉRICA DO NORTE Perry Lane Hotel, Rosewood Miramar


The NoMad, EUA Savannah, EUA Beach Montecito, EUA
Este empreendimento recen- Este hotel no Estado da Geor- O local do antigo Miramar by
te no meio de todo o boom ho- gia faz a ponte entre o seu pas- the Sea Hotel, no Condado de
teleiro que se regista actual- sado, que remonta ao período Santa Barbara, na Califórnia, —
mente na baixa de Los Angeles da guerra civil norte-america- uma referência com 100 anos
adapta o seu espírito elegan- na, e um presente mais dinâ- na comunidade local — ganha-
te nova-iorquino a uma Cos- mico, propondo-se oferecer rá nova vida este Verão quando
ta Oeste mais descontraída. hospitalidade moderna sulis- o Rosewood abrir este seu em-
O NoMad abriu em Janeiro no ta ao seu melhor. Situado na preendimento. Espalhado por
histórico edifício Giannini (on- principal artéria da baixa his- 16 hectares frente ao mar, terá
de antes estava o Bank of Italy) tórica o Perry Lane terá 167 124 quartos e 37 suites, muitas
e tem 241 quartos desenhados quartos residenciais de toque delas em bungalows com um só
por Jacques Garcia, restauran- refinado e abre na Primavera. piso, o que fará desta uma das
tes descontraídos e formais e A equipa responsável por este primeiras estâncias com aloja-
um café de inspiração italiana empreendimento passou cin- mento bem junto ao areal.
Grand Hyatt que funcionará todo o dia — co anos a estudar Savannah, Tanto o bar como o restaurante
- Bogotá, na geridos por Daniel Humm e Will de modo a transpor a riqueza e o clube de praia privado ofe-
Colômbia
Guidara do Eleven Madison Pa- da sua história para um hotel recem aos hóspedes magnífi-
rk e do NoMad New York. do séc. XXI. cas vistas para o oceano.

AMÉRICA DO SUL
Grand Hyatt - Bogotá Rosewood Miramar
Colômbia Beach, na Califórnia,
nos EUA
O primeiro hotel de luxo do
Hyatt numa das capitais mais
em voga da América do Sul
traz consigo as referências da
marca Grand Hyatt – design
pensado, serviço atencioso —
e reflectirá a energia pujante
desta metrópole. Situado bem
no coração do novo empreen-
dimento Ciudad Empresarial
Sarmiento Angulo, o hotel terá
373 quartos com janelas ao alto
do chão ao tecto, dois restau-
rantes com cozinha de autor e
um amplo spa.

FOTOS D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 91


quia prevê duas rotas pedestres distintas: uma
mais curta, com cerca de uma hora, que o leva
apenas às peças produzidas à escala humana
e termina na fábrica de faianças, e uma outra,
que se faz em cerca de duas horas, que inclui
conhecer também painéis e fachadas de azu-
lejo da autoria de Bordallo Pinheiro, peças to-
ponímicas, espaços com informações sobre a
vida do artista e uma visita à casa-museu Ra-
fael Bordalo Pinheiro.
Mas voltemos à rã, bem no centro da ro-
tunda da Avenida 1.º de Maio: de costas pa-
ra a estação de comboios, suba a avenida até
chegar ao largo do Tribunal. Aí, do outro lado
da praça, vai conseguir vislumbrar a figura do
Zé Povinho que espera por si em tamanho real.
Depois, contorne a igreja que está à sua direi-
Rota Bordalliana ta e no largo Dr. Miguel Bombarda encontrará

UM PASSEIO
a conhecida figura do Padre Cura. Estas duas
peças estão protegidas por uma estrutura de
vidro para impedir estragos maiores.

PELA HISTÓRIA
Quando acabar de admirar o Padre, procu-
re a rua Heróis da Grande Guerra, vire à esquer-
da, depois à direita e depois novamente à es-
As peças de Bordallo Pinheiro são ainda hoje objecto de estudo, querda para se surpreender com as Andorinhas
admiração e réplica dentro e fora do país. A cidade das Caldas da que vão estar a esvoaçar por cima da sua cabe-
Rainha, onde está a sua fábrica, decidiu prestar-lhe homenagem. ça, num dos edifícios da rua do Dr. Leão Azedo.

Q
Nesta altura, é possível que já se tenha rido com
uem chegar a Caldas da Rai- Couve (em cima) o Gato Assanhado que o saudou assim que pas-
nha de comboio, tal como fa- A recriação de uma das sou pela estação rodoviária. Se continuar a subir
zia sempre Raphael Bordallo saladeiras de Bordallo, na direcção do Centro Cultural das Caldas, vai
talvez das suas obras mais
Pinheiro quando ali ia de vi- encontrar à sua espera a Ama das Caldas – siga
conhecidas, pode ser vista em
sita à fábrica, vai deparar-se tamanho gigante na fachada para a direita e no final da rua, em frente à fon-
com uma rã de 1,4 metros a do posto de Turismo das te, volte novamente à direita. Aí pode apreciar a
dar-lhe as boas-vindas. Na verdade são três Caldas da Rainha.
rãs, mas apenas uma é gigante. Da autoria do Gato Assanhado (ao lado)
artista lisboeta, esta rã ganhou uma dimensão Quem passa pela estação
colossal quando a Câmara Municipal da cida- rodoviária das Caldas da
de decidiu prestar-lhe homenagem pelo tra- Rainha vai ter que afugentar
balho desenvolvido na fábrica que ainda hoje o medo ao passar por este
gato zangado.
produz peças da criadas por Bordallo Pinhei-
ro. Esta peça marca, aliás, o início da Rota Bor-
dalliana, uma sugestão de passeio cultural de-
dicada a este artista.
O autor do famoso “Zé Povinho” ficaria cer-
tamente surpreendido se hoje fizesse o cami-
nho entre a Estação de Caminho de Ferro e a
fábrica Bordallo Pinheiro: é que poderia en-
contrar 15 peças suas, à escala humana, em
vários pontos da cidade. A proposta da autar-

A Rota Bordalliana pretende homenagear


Raphael Bordallo Pinheiro e convidar mais
turistas a visitar as Caldas da Rainha.

92 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


Praça das Caldas, um dos mais antigos merca-
dos de frescos do país, onde os produtores da re-
gião vendem os seus produtos todos os dias da
semana. Enquanto mordisca uma pêra rocha
do Oeste ou uma maçã de Alcobaça, desça no
sentido da rotunda da Rainha [D. Leonor] e en-
tre no Parque D. Carlos I. Aí, os Macacos à esca-
la humana estão pendurados nas árvores – mas
prometemos que não caem! Este bonito jardim,
anexo ao Hospital Termal, mantém o charme do
século XVIII, mas foi bastante aumentado du-
rante o século XIX, até ao tamanho que tem ho-
je: inclui um lago artificial onde é possível fazer
passeios de barco, uma estufa com flores pró-
prias, um coreto e um restaurante-bar com uma
esplanada muito apreciada durante a Primave-
ra e o Verão. Conta ainda com campo de ténis e

A Saloia com Cesto parque de merendas, para além de ser um ver-


(em cima) dadeiro museu ao ar livre, com várias escultu-
Esta peça pesa, no ras espalhadas ao longo dos caminhos.
total, 85 kg e tem 1,80
É também casa do Museu de José Malhoa,
metros de altura. Foram
precisos 1440 minutos o primeiro edifício de Portugal a ser construí-
somente para a pintar. A do apenas para fins museológicos e que só por
caminho da rotunda da isso vale a visita. Mas não deixe de apreciar as
Rainha, cruza-se todos obras de um dos maiores pintores nacionais,
os dias com diversos antes de seguir viagem para o fim da sua rota:
transeuntes.
a caminhada é de cinco minutos entre o Mu-
Rã (em cima à esq.) seu e a Fábrica Bordallo Pinheiro. Claro que
Em jeito de boas-vindas, durante o passeio ainda vai encontrar a Sa-
a Rã está de costas para
loia que, de cesta no braço, parece descer a rua
a estação de comboios,
e olha para a larga como se também fosse a caminho da fábrica.
Avenida como que Mais de um século depois de ter sido cria-
a indicar o caminho da da, e tendo passado por falências, vários pro-
rota Bordalliana. prietários e muitas fases, aqui continuam a re-
criar-se as peças de Bordallo mas também há
artistas que vêem os seus desenhos tomar for-
ma com a arte da faiança de Raphael. E ape-
sar de não ser possível visitar a fábrica duran-
te o fim-de-semana, a loja está sempre aber-
ta para quem quiser levar para casa – em ta-
manho ‘normal’ – um pouco da história deste
artista. J MARGARIDA VAQUEIRO LOPES

FOTO DE Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 93


Tecnologia

UMA COLUNA
QUE LEVITA

Preço
3 800
euros

A mais recente criação do Richard Clarkson Studio mistura tecnologia com design
e está a apaixonar consumidores em todo o mundo.
Imagine que está em casa, embrulhado numa manta, a ler um é possível criar vários ambientes luminosos, que variam en-
livro e a ouvir música. A chuva cai lá fora e apesar de nem sem- tre uma nuvem escura a prometer chuva, alguns raios ou en-
pre gostarmos de nuvens, quando olha para o lado não pode tão uma nuvem branca e de luz suave a recriar um ambiente
deixar de sorrir: ali bem perto, uma nuvem flutua enquanto natural e muito relaxante.
ecoa – graças à tecnologia Bluetooth – a canção que escolheu Cada uma das colunas que sai do estúdio de Richard Cla-
para o acompanhar neste momento de descontracção. Pode rkson é única e original, uma vez que todas elas são feitas ma-
acontecer que daqui a pouco essa mesma nuvem pareça que nualmente e com formas que vão diferindo também devido
vai fazer desabar uma tempestade, mas isso só dependerá de às próprias fibras com que são fabricadas. Os designers tes-
si – ou, no caso, da música que escolher. taram vários materiais até chegar a este resultado final, mas
Confuso? É mesmo esta a proposta do estúdio norte-ame- prometem continuar a aperfeiçoar a capacidade de flutuação
ricano Richard Clarkson que, em conjunto com a holandesa da coluna, que actualmente levita cerca de 70 mm em rela-
Crealev – uma empresa especializada em fazer objectos flu- ção ao objecto em que se encontra pousada.
tuar – desenvolveu uma coluna de som que é também uma Pode encomendar a sua nuvem no site oficial deste ateliê
nuvem que flutua. Graças às luzes LED inseridas dentro do de design que faz envios para todo o mundo sem cobrar mais
aglomerado de fibras de poliéster que dão forma a esta nuvem, por isso. J MARGARIDA VAQUEIRO LOPES

94 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FOTO D.R.


Relógios

ATÉ À
ETERNIDADE
No mundo da relojoaria
de luxo, não há peça mais
amada do que os relógios
com calendário perpétuo.
São relógios extraordi-
nários que carregam um
mecanismo ímpar e que,
entre outras particula-
ridades, apenas neces-
sitam de ser configura-
dos uma vez por sécu-
lo – além de serem su-
ficientemente inteligen-
tes para distinguirem os
anos bissextos.
Entre os lendários ca-
lendários perpétuos per-
didos no tempo, a refe-
rência continua a ser o
Patek Philippe 2499 que
Yoko Ono terá oferecido a
John Lennon por ocasião
do seu 40.º aniversário.
Mas a sua popularidade
não se esgota no Beatle.
Este modelo é também
popular entre outras es-
trelas do rock clássico:
em 2012, o 2499 de Eric
Clapton de 1987 estabe-
leceu um recorde quan-
do foi vendido em leilão
por cerca de 2,8 milhões
de euros.
Visualmente, qual-
quer relógio com calen-
dário perpétuo não pas-
sa despercebido. Mas não
só. Transmitem uma po-
derosa mensagem de que
quem o usa está para fi-
car. O renomado colec- No centro: Marine Équation Marchante 5887 de
platina, da Breguet (190 mil euros). Segundo a ordem
cionador de relógios Vla- dos ponteiros do relógio: 5320G de 40mm em ouro
dimir Putin é visto fre- branco, da Patek Philippe (68 mil euros); Big Bang Unico
quentemente a usar um Perpetual Calendar Sapphire 45mm, da Hublot (91 mil
euros); Heritage Spirit Perpetual Calendar Sapphire,
calendário perpétuo de da Montblanc (17 mil euros); Da Vinci Perpetual
Patek Philippe. J Calendar, da IWC (24 mil euros).

FOTO D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 95


Automóvel lho taquímetro digital com velocíme-
tro digital ao centro, sistema de nave-

REQUINTE gação à direita e computador de bordo


à esquerda. Pela consola, onde deve-

E SIMPLICIDADE
riam estar os habituais botões, depa-
ramo-nos com um manancial de fun-
ções touchscreen.
As duas forças do universo dos SUV unem-se nesta nova criação Posicionado pela marca entre mo-
da Land Rover, o Range Rover Velar, um modelo onde se encontra delos sem grande inovação estética, o
um objecto de culto e a audácia para sair do asfalto. Range Rover Velar é, no entanto, um

N
produto inteiramente novo na Land Ro-
o interior, tudo é bege ver. O que não acontece no Range Rover
(da pele) ou negro (da Sport na concepção mecânica e no con-
camurça do tejadilho ceito. Mesmo o Evoque, abaixo do Velar,
aos ecrãs desligados). poderá ser interpretado como evolução
O interior do Velar acor- natural do antigo Land Rover Freelan-
da quando activamos a der. No Velar não há comparações pos-
ignição. Só aí conseguimos ver a rode- síveis na história da marca que este ano
la onde seleccionamos a mudança pa- completa 70 anos de vida. “É o mode-
ra arrancar ou colocamos em “park”. lo mais urbano e de estrada que dese-
Sobre nós corre a cortina do tejadilho nhámos até agora”, assumiu o director
panorâmico enquanto se iluminam os Foi uma das três unidades de pré-produção leva- de design da Land Rover, Gerry McGo-
ecrãs computorizados. Mesmo a instru- das ao Salão de Amesterdão de 1948 pela Rover e vern, à FORBES.
agora será restaurada no centro de clássicos Ja-
mentação é assim, desprovida de pon- guar Land Rover Classic Works. Tem característi-
Basicamente, os engenheiros do Ta-
teiros tangíveis ou algarismos impres- cas exclusivas do lote de 48 carros de pré-produ- ta, o grupo que detém a Jaguar e a Land
sos. O monitor atrás do volante permi- ção e foi encontrado por acaso pela marca. É por Rover, juntaram a base em alumínio
esta descrito como “o [Land Rover] mais impor-
te variar a informação segundo prefe- tante do mundo em termos históricos”. Terá papel do Jaguar F-Pace e anexaram-lhe um
rência do condutor: escolhemos o ve- de destaque na celebração dos 70 anos da marca. Land Rover. E se no coração do feli-

96 Forbes Portugal – Fevereiro 2018


no vibra a raça desportiva, na marca super-desportivo sem dotes de piloto,
de “sua majestade” há um sangue azul a electrónica do Terrain Response – sis-
a respeitar. Mas com pretensões dinâ- tema que actua sobre acelerador e con-
micas claras, usufruindo do emagreci- trolo de tracção para adaptar a resposta
mento potenciado pelo alumínio, ainda sob vários tipos de terreno –, torna este
que ficando um pouco aquém do Porsche UMA EDIÇÃO PREMIUM todo-o-terreno cada vez mais acessível
Macan, por exemplo. No alinhamento de gama do Velar há ao condutor comum. E com a suspen-
Seguimos viagem e percebemos que opções a partir de 71 mil euros. No entanto, são pneumática auto-nivelante conse-
nem as jantes de 22 polegadas com pneus para garantir o topo dos Diesel, é preciso guimos fazer tábua rasa de uma estra-
desportivos controlam com rigor esta praticamente o dobro desse valor: 136 mil da de terra onde abundam os desníveis
massa entre curvas cerradas. As mes- euros. A linha First Edition, testada pela e obstáculos. Tudo isto puxados por um
FORBES, inclui sistema de som de 1600W,
mas jantes – quatro gigantes que enal- V6 Diesel com 2 turbos e 300 cavalos.
volante e bancos dianteiros em couro
tecem o fulgor estilístico deste SUV –, aquecido e com função de massagem, E nem seria necessário descrever a
que nos fazem recear a entrada por tri- forro do tejadilho de camurça em tom dinâmica. O Velar é uma afirmação de
lhos de terra. Logo se percebe, no entan- ébano e head-up display – a evitar que estilo e, por isso, foi desvendado no Mu-
to, que os receios são infundados, uma tiremos o olhar da estrada para saber a seu de Design de Londres, no ano pas-
vez que o Velar, ao contrário da maioria que velocidade circulamos e qual o limite sado. A linha de cintura elevada, os pu-
naquela via, por exemplo. O sistema de
dos concorrentes, encontra o seu brilho xadores que se “fundem” com as portas
manutenção do carro na faixa de rodagem,
fora de estrada. Apesar de não ter a des- o cruise control com função de pára- quando estas estão trancadas, a traseira
treza de um “puro e duro”, como man- -arranca e travagem automática e na com saídas de escape proeminentes, o
dava até há uns anos a tradição Land função de estacionamento autónomo tecto negro baixo e as linhas prolonga-
Rover, o Velar tem progressão feroz em (com o cérebro digital a fazer a manobra das das ópticas dianteiras e traseira –
lama, pedra e areia. A suspensão per- por si) e os faróis matrix-laser LED com continuadas pelo traço das aplicações
mite elevar o carro para superar obstá- máximos por laser a permitir meio vítreas na lateral –, alimentam o cariz
quilómetro de iluminação cristalina ajudam
culos e cursos de água até 65 cm – esta a reduzir a fadiga. Ainda assim, terminámos
desportivo. Que no caso do Velar, tal co-
versão de topo First Edition incorpora, os 300 km de viagem nocturna com o mo acontece no Evoque, parece agra-
aliás, sensor de profundidade. pictograma de uma chávena de café e a dar tanto ao público masculino como
Tal como hoje é possível conduzir um inscrição: “Faça uma pausa” no tabliê. ao feminino. J ALEXANDRE FRADE BATISTA

FOTOS D.R. Fevereiro 2018 – Forbes Portugal 97


PALAVRA-CHAVE

“Entre o frívolo e o trágico: a “Agir, eis a inteligência verdadei-


amargura do pioneiro. Depois de ra. Serei o que quiser. Mas tenho
ter sofrido tantas humilhações por que querer o que for. O êxito
ser de vanguarda, quando chega à está em ter êxito, e não em ter
maturidade, o pioneiro vê os que vieram condições de êxito. Condições
depois usufruir do que ele descobriu, de palácio tem qualquer terra
ignorando-o. A consciência do real é larga, mas onde estará o palácio
um inútil oximoro que morde.” se não o fizerem ali?”
Ana Hatherly,
professora, escritora e artista plástica portuguesa.
Fernando Pessoa,
poeta português, autor de “Mensagem”.
“Se quiser chegar
onde a maioria
não chega,
“Hoje eu vou fazer o que os outros não faça o que a
fazem, assim amanhã eu posso conquistar
o que os outros não conseguem.” maioria não faz.”
BILL GATES,
Jerry Rice , ex-jogador de futebol Americano, fez 208 touchdowns na sua carreira, a melhor marca da NFL. magnata, filantropo e autor norte-americano,
um dos fundadores da Microsoft.

“Sempre que estiver


tentado a reagir da forma
habitual, pergunte se
quer ser um prisioneiro
do passado ou um
pioneiro do futuro.”
Deepak Chopra,
“Nós estamos
no estágio
“Se quiser médico indiano, licenciado
pela Universidade de Nova Deli.
do pioneirismo. ser original,
Estamos a dar prepare-
os primeiros
passos para -se para ser
a cooperação.”
Talmiz Ahmad,
copiado.”
ex-embaixador indiano COCO CHANEL,
na Arabia Saudita, Omã e estilista francesa, fundadora
Emirados Árabes Unidos. da marca Chanel.

“O caminho do pioneiro “O génio é o


olho do intelecto
é sempre difícil.” e a asa do
HARVEY S. FIRESTONE, pensamento. Está “Os pioneiros
empresário conhecido pelo seu trabalho sempre adiantado de um mundo
na empresa de pneus Firestone.
ao seu tempo e é sem guerras são
um pioneiro para os(as) jovens que
“O erro é muitas vezes o pioneiro a geração que lhe recusam o serviço
em novas terras, novas empresas precede.” militar.”
e novas formas de expressão.” William Gilmore ALBERT EINSTEIN,
Eric Hoffer, escritor norte-americano, Simms, físico alemão, desenvolveu
autor de clássicos como “The True Believer”. poeta e historiador. a teoria da relatividade.

98 Forbes Portugal – Fevereiro 2018 FONTE: KD FRASES, CITADOR, PENSADOR, BRAINYQUOTE


ASSINE JÁ COM DESCONTO
12 REVISTAS POR 40 EUROS
Assine a Forbes Portugal durante um ano e usufrua de um desconto especial
de 33% sobre o preço de capa. Apenas tem de solicitar a assinatura através
do nosso site ou directamente pela linha de apoio ao assinante.

www.forbespt.com
Linha de apoio ao assinante: 21 433 7036

TAMBÉM DISPONÍVEL EM VERSÃO DIGITAL PARA ANDROID E IOS