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HISTÓRIA POLÍTICA ∗

Maria Helena Rolim Capelato

Muitos autores têm feito referência a uma valorização recente da história política,
relegada a segundo plano por várias décadas. A análise das professoras drª Maria de Lourdes
M. Janotti e drª Márcia Mansor D’Alessio da produção de dissertações e teses de história no
Brasil entre 1985 e 1994 atesta que, também entre nós, a história política se impôs. Relacionada
a diferentes temas e objetos, a preocupação com os aspectos políticos da história indica uma
tendência importante da historiografia brasileira atual. Pretendo levantar algumas questões sobre
o significado desse interesse pela política, como fruto das mudanças históricas dos últimos anos,
no plano internacional e nacional.

Cabe, de início, ressaltar que a mudança de eixo do tema revolução para democracia
provocou alterações importantes nas investigações produzidas no campo das ciências sociais em
geral e da história em particular.

O esgotamento das experiências revolucionárias na década de 1970 fez com que o


reformismo e a moderação se apresentassem como alternativas aos projetos de revolução e
movimentos de contestação radical.

A visibilidade das políticas de cunho totalitário no mundo socialista, aliada a crises


econômicas, expôs a fragilidade desses modelos. Com isso, a situação ideológica tendeu a
reequilibrar-se pela direita.

A queda do muro de Berlim e a desestruturação da União Soviética foram festejados


como um triunfo da democracia sobre o totalitarismo. Mas as dificuldades decorrentes dessas
mudanças logo abalaram a crença dos otimistas de primeira hora na afirmação de uma ordem
mundial mais democrática. A integração dos países da Europa do Leste mostrou-se
problemática, e a emergência dos interesses localistas apontam no sentido da desintegração.

O ressurgimento recente dos movimentos nacionalistas, regionalistas, localistas, com


caráter religioso ou étnico causou perplexidade entre os historiadores que consideravam
definitivamente enterradas essas alternativas.


Nota: Este texto foi apresentado na mesa-redonda "Perspectivas metodológicas da produção de pós -
graduação em história política" do XVIII Simpósio Nacional da ANPUH, realizado em julho de 1995 em Recife.

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A noção de diferença, que orientou os movimentos de luta das minorias oprimidas nos
anos 1970, se reveste, agora, de um caráter excedente, justificador de preconceitos de toda
sorte.

A afirmação da democracia enfrenta esses e outros obstáculos. As dificuldades e


impasses se colocam, sobretudo no Terceiro Mundo, duramente atingido pela crise econômica
mundial.

A reordenação da economia mundial que projetou os “tigres asiáticos” não beneficiou, de


igual forma, outras áreas consideradas da “periferia” do capitalismo. A situação de miséria se
agravou em muitos países. A América Latina foi duramente atingida pela crise de 1974 e convive,
desde então, com os problemas da dívida externa, inflação, concentração extrema de riquezas e
conseqüente aprofundamento da desigualdade social, miséria e violência.

No Brasil, onde se deu a transição do regime militar para o democrático, o desafio


consiste na conciliação da democracia com a crise econômica. Além disso, a persistência de uma
política autoritária, excludente, personalista, também dificulta a consolidação de novos padrões
políticos.

A problemática da democracia se impôs por toda parte nos anos 1980, e suscitou a
ampliação do debate sobre as questões de natureza política. A historiografia geral e do Brasil,
mais recente, começou a incorporá-las.

Nos anos 1960-70, o deslocamento da revolução para as rebeliões políticas e culturais


produziu um tipo de revisão historiográfica que acabou privilegiando os estudos sobre os
movimentos sociais, grupos minoritários e cultura. Nos anos 1980, a substituição da revolução
pela democracia fez com que as atenções se voltassem para a história política. Se o tema da
revolução suscitou um estudo aprofundado das estruturas e relações econômicas e sociais, o
tema da democracia pressupõe conhecimento mais aprofundado do mundo da política.

Hoje, como lembra Maria Stella Bresciani, a historiografia renovada permite tecer as
tramas mais complexas e nuançadas das lutas políticas. A renovação, motivada pelos
acontecimentos que nos surpreenderam neste final de século, exige do historiador novos ângulos
de análise e reflexão aprofundada sobre o passado. Resta saber se estamos caminhando nesta
direção.

A partir dos resultados das professoras Maria de Lourdes e Márcia Mansor, quero
levantar uma questão que me pareceu intrigante. A ênfase nas resistências de diferentes formas
aponta para novos caminhos em busca de novas soluções; contrasta com uma perspectiva mais
geral que, com um olhar fatalista, observa a história do Brasil pelo ângulo da grande exploração
interna e externa do país e da grande traição ao povo brasileiro. O povo vitimado fica sempre à
margem de uma história que produz exclusões e opressões de todo tipo. Aqui se apresentam
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dois olhares que não se cruzam: o otimista, que enxerga as resistências como aberturas para uma
realidade diferente, e o pessimista, que não vê possibilidades de mudanças. Talvez, no
entrecruzamento dos olhares, possamos visualizar bons resultados.

Por ora, resta saber de que resistências estamos falando e qual o sentido da não
participação e exclusão em diferentes situações históricas. Se o leitmotiv do interesse pela
política na historiografia atual foi a recente construção da democracia no país, cabe lembrar que
este é um fato novo entre nós. Num país de forte tradição autoritária, onde o regime republicano
produziu uma democracia liberal excludente, a invenção de uma democracia em moldes novos,
ou seja, participativa, representa algo inusitado.

O surgimento de múltiplos e diversificados movimentos sociais de natureza política nos


anos 1970-80 desnorteou a direita e a esquerda. Mesmo na academia, onde predominava a
crença de que nada aconteceria fora dos limites de uma classe operária organizada, os
referenciais de análise se mostraram inadequados para a compreensão dos novos fenômenos. A
visão de uma sociedade civil polissêmica e imprevisível sugeriu a necessidade de novas categorias
para se pensar o processo democrático. Foi preciso inventar nomes para indicar a novidade. O
termo resistência ganhou status nesse contexto.

Os movimentos sociais, estudantis, de Igreja, de bairros, contra a carestia, pela moradia,


dos sem-terra, pelos direitos humanos, em defesa da mulher, dos negros, dos homossexuais,
contra a fome etc. têm especificidades, mas se encontram num ponto comum: a construção da
democracia no país. Mas a democracia não tem uma lógica interna inscrita na história. Ela
representa o elo de ligação de várias temporalidades. Trata-se de um fazer-se, difícil de ser
captado.

Essa questão, posta para o passado, remete o historiador a uma trama complexa que
precisa ser desvendada em todos os seus matizes e nuances, de forma a resgatar os diferentes
tipos de resistência que aconteceram em diferentes épocas neste país. A questão-chave que aqui
se coloca é a de saber de que resistências estamos falando. Os trabalhos revelam inúmeras
leituras do termo: das lutas contra o poder ou contra grupos dominantes às recusas aos valores
ou comportamentos impostos, desvios de conduta ou atitudes independentes, o termo adquire
muitas conotações. Resistência assume o significado de luta, mas também de independência,
autonomia, liberdade de conduta e de expressão.

Pergunto se esse grande guarda-chuva não encobre uma dificuldade de analisar a


multiplicidade e complexidade dos acontecimentos que compõem a história política brasileira.

A ênfase na resistência que não chega a lugar nenhum porque não leva a vitórias me
remete a um desdobramento dessa questão, ou seja, à relação dessa visão mais positiva da nossa
história, que assinala possibilidades de mudanças, com a visão pessimista, fatalista, que acentua
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as derrotas. Talvez possamos localizar dois momentos de afirmação dessas posturas. O primeiro,
de otimismo, corresponderia à fase de luta contra a ditadura e afirmação dos movimentos
democráticos; o segundo, pessimista, se relacionaria à eleição de Collor com todas as suas
conseqüências futuras. Pergunto se essa oscilação entre os dois pólos negativo e positivo não
seria um traço da mentalidade política brasileira.

Diante das derrotas, impõe-se um sentimento negativo em face da nossa história, que
salienta as marcas de opressão, exclusão, vitimização do povo (pelo sistema colonial, pela Igreja,
pelos grandes proprietários, pelas oligarquias políticas, pelo Estado, pela burguesia, pelo
imperialismo). Nessa perspectiva ficam sem registro as lutas contra esse estado de coisas e os
resultados conseguidos.

Das imagens do Brasil futura potência hegemônica no continente, às do Brasil Quarto


Mundo, as oscilações revelam uma dificuldade de relatar e analisar o entrelaçamento de
conquistas e derrotas que caracteriza qualquer história política. A cada derrota, não só os
vencedores, mas também os que saíram derrotados tendem a apagar da memória as lutas do
passado e do presente, o que nos remete a um eterno recomeçar. No imaginário coletivo,
intercalam-se duas alternativas. O Brasil não é, virá a ser, ou o Brasil não é, e nunca chegará a
ser.

Pensando numa possibilidade de rompermos com esse sentimento de negatividade ou


com essas emoções polarizadas que motivam os estudos sobre nossa história política, deixo aqui
uma sugestão para investigações futuras num campo que me parece lacunar no Brasil: o da
história política de longa duração. Em alguns países, França por exemplo, um dos caminhos de
renovação da história política conduz à “longa duração”, introduzindo o estudo das mentalidades
políticas e das representações através do uso do conceito de cultura política. Com isso, busca-se
recuperar o político através do estudo da tradição, das sobrevivências, das continuidades que
atravessam a ideologia, o pensamento, a mentalidade dos governantes, dos grupos dominantes e
do homem comum, bem como as representações do poder expressas por toda parte.

Uma abordagem desse tipo nos levaria a compreender o significado das representações
positivas e negativas sobre a história do Brasil e contribuiria para o desvendamento de outros
traços importantes da nossa cultura política.

Maria de Lourdes Janotti e Márcia Mansor D’Alessio constataram também que, nos
trabalhos atuais sobre história política, Vargas é o norte. Acredito que esse interesse pelo
período Vargas está relacionado com a problemática atual de configuração de uma nova cultura
política que se introduz a partir de baixo, ou seja, dos movimentos sociais para a “invenção” da
democracia. A idéia de cidadania participativa, novidade na história brasileira, convive com a

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velha noção de cidadania outorgada, imposta do alto desde os anos 1930, e com a concepção
de cidadania excludente que caracteriza nossa história republicana desde os seus primórdios.

O tema da participação política é chave para a compreensão da história brasileira. Visto


pela perspectiva da longa duração, pode contribuir para esclarecer muitas outras coordenadas
dessa história, permitindo melhor compreensão da cultura política do passado para poder
construir algo novo no presente.

O nosso futuro, como diria o sociólogo Edgar Morin, está em crise porque o presente é
incerto e angustiante. Isto justifica a necessidade de se revisitar o passado, não para nos
refugiarmos nele, mas para melhor nos situarmos frente aos desafios do momento...

A história política já se impôs entre nós, como mostra a análise das professoras Maria de
Lourdes e Márcia Mansor. Espero que assim continue, mas acho que é preciso, sempre, ir mais
longe; e ir mais longe, em história, significa ir mais fundo, atingir as profundidades da história no
seu tempo curto/rápido e de longa duração.

(Recebido para publicação em maio de 1996)

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