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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

100 ANAIS
DO XIII

anos
SIMPÓSIO
NACIONAL DE
HISTÓRIA E

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VIII SIMPÓSIO
NACIONAL DE
da CIÊNCIAS SOCIAIS

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COMITE CIÊNTIFICO
Dr. Cláudio Lopes Maia (UFG/Regional Catalão – História)
Dra. Eliane Martins de Freitas (UFG/Regional Catalão – História)
Dr. José Luis Solazzi (UFG/Regional Catalão – Ciências Sociais)
Dra. Lilian Marta Grisolio (UFG/Regional Catalão – História)
Dr. Paulo Cesar Inácio (UFG/Regional Catalão – História)
Dra. Regma Maria dos Santos (UFG/Regional Catalão – História)
Dr. Rogério Bianchi de Araújo (UFG/Regional Catalão – Ciências Sociais)

COMITÊ EDITORIAL
Dr. Daniel Alves (UFG/Regional Catalão – Ciências Sociais)
Dra. Carmem Lúcia Costa (UFG/Regional Catalão – Geografia)
Dra. Janaína Ferreira Silva (UFG/História)
Dra. Jeanne Silva (UFG/História)
Dra. Luzia Marcia R. Silva (UFG/História)
Dr. Maurício Viana de Araújo (UFU/ILEEL)
Dr. José Lima Soares (UFG/Regional Catalão – Ciências Sociais)
Dr. José Luis Solazzi (UFG/Regional Catalão – Ciências Sociais)
Dra. Lilian Marta Grisolio (UFG/Regional Catalão – História)

Organização e Revisão do Material


Ana Paula Florisbelo da Silva
Daniela Alves da Silva

EDITORA BONECKER
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Editora Bonecker Ltda.
(CIP)
Rio de Janeiro
A532 Anais do XIII Simpósio Nacional de História e VIII 1ª Edição
Simpósio Nacional de Ciências Sociais: 100 anos de
Maio de 2018
revolução Russa [recurso eletrônico] / Organizado-
res Lilian Marta Grisolio, José Luis Solazzi. – Rio de
Janeiro (RJ): Bonecker, 2018. 222 p. : 16 x 23 cm e-ISBN: 978-85-93479-81-6
Todos os direitos reservados.
Formato: PDF
Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader É proibida a reprodução deste livro
Modo de acesso: World Wide Web com fins comerciais sem prévia autori-
Inclui bibliografia zação do autor e da Editora Bonecker.
ISBN 978-85-93479-81-6

1. História. 2. Centenário. Revolução Russa. 3. Soviets. Projeto Gráfico e Capa: Filipe Chagas
4. Simpósio. I. Grisolio, Lilian Marta. II. Solazzi, José
Luis. III. Título.
CDD 940
Canção do Remendo e do Casaco
Sempre que o nosso casaco se rasga
vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser;
isso vai acabar, custe o que custar!
Cheios de fé vão aos senhores
enquanto nós, cheios de frio, aguardamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
nos mostram o que por nós conquistam:
Um pequeno remendo.
Ótimo, eis o remendo.
Mas onde está
o nosso casaco?
Sempre que nós gritamos de fome
vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar,
é preciso ajudá-los, custe o que custar!
E cheios de ardor vão aos senhores
enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos.
E ao voltar, sempre triunfantes,
exibem a grande conquista:
um pedacinho de pão.
Que bom, este é o pedaço de pão,
mas onde está
o pão?
Não precisamos só do remendo,
precisamos o casaco inteiro.
Não precisamos de pedaços de pão,
precisamos de pão verdadeiro.
Não precisamos só do emprego,
toda a fábrica precisamos.
E mais o carvão.
E mais as minas.
O povo no poder.
É disso que precisamos.
Que tem vocês
a nos dar?

Bertolt Brecht
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or que comemorar os 100 anos da Revolução Russa? Qual a importância
dessa data histórica para nossa contemporaneidade? São indagações e in-
quietações que, em pleno século XXI, acabam incidindo diretamente na
consciência coletiva das pessoas que vivem em sociedades complexas mar-
cadas por profundas desigualdades e contradições em pleno processo de globalização e
mundialização do capital. A Revolução Russa é compreendida por grandes estudiosos
como um dos mais importantes acontecimentos do século XX, pois além de derrubar o
czarismo absolutista russo, levou a ascensão de Lenin, consolidando o primeiro estado
socialista da História.
Dessa forma, o XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA - VIII SIMPÓSIO
NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS foi um evento organizado em parceria cooperativa
entre os Cursos de Bacharelado e Licenciatura de História e Ciências Sociais da UFG -
Regional Catalão e do Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional em História
com o apoio da FAPEG. A partir do tema proposto, “100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUS-
SA: CAPITALISMO E SOCIALISMO NO SÉCULO XXI”, reunimos importantes pesqui-
sadores das Ciências Humanas e suas pesquisas, que para além da discussão acadêmica,
promoveram um balanço sobre a Revolução e seus desdobramentos na atualidade.
Vivemos em um contexto histórico de claro ataque a democracia, de misérias,
guerras, epidemias, terrorismos, revigoramento de todos os tipos de preconceitos e dis-
criminações, fortalecimento dos aparatados repressivos, criminalização dos movimen-
tos sociais, recrudescimento do fascismo, que entre outros elementos são marcas visíveis
do nosso tempo. Assim, dentre seus objetivos, tivemos não só o incremento às análises,
estudos e a difusão dos direitos sociais, populares e da História política moderna, como
seu percurso histórico e influências políticas no imaginário político contemporâneo.
O propósito foi promover a refle-
xão crítica acerca dos problemas teóricos e práticos
que surgem da relação entre a revolução social e as formações so-
ciais na contemporaneidade. O conjunto de textos ora publicados constituem uma
seleção de pesquisas apresentadas nos diversos Grupos de Trabalhos (GTs) do evento
e objetiva alinhavar uma série de temáticas sobre a realidade histórica, gênero, religião,
cultura, racismo, feminismo, política, ditaduras educação, colonialidades, entre outros.
Vale destacar que essa seleção de artigos constitui um variado leque temático de traba-
lhos em andamento ou finalizados de graduação e pós-graduação, e percorre variadas
proposições que possibilitam um amplo quadro de temas e discussões.
Num momento em que o Brasil vive um cenário de golpe aos moldes de 1964,
intervenção militar, o mundo apresenta um panorama muito próximo ao começo do
século passado com guerras, ascensão do fascismo nas eleições europeias, aumento de
refugiados com números maiores que o da Segunda Guerra Mundial, e ainda, todo tipo
de desrespeito aos direitos humanos, fica mais evidenciado a necessidade de estudos
que nos ajude a construir uma nova realidade.
É com esse intuito que esperamos que esses artigos fomentem a reflexão e novas
pesquisas que de forma concreta atuem na transformação social em busca de uma so-
ciedade justa e igualitária.

Lilian Marta Grisolio


José Luiz Solazzi
SUMÁRIO
A África e o Brasil Afro-
17 Brasileiro: Saberes e fazeres
nas comunidades camponesas e
quilombolas de Monte Alegre de
Goiás
Carlos Roberto Machado de Oliveira, Ana Lúcia da Silva, Alex Lourenço da
Silva, Magda Valéria da Silva e Izabella Peracini Bento
A população Afro-brasileira dos Povos Kalunga, localiza-se no Sítio Histórico Cultural
Kalunga, no Nordeste Goiano. São africanos que vieram para o Brasil, e se tornaram,
ao longo do tempo importantes para a conservação da sociobiodiversidade que existe
no bioma-território Cerrado. Este artigo é parte de um projeto de pesquisa realizado no
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) intitulado “SABERES
E FAZERES NAS COMUNIDADES CAMPONESAS E QUILOMBOLAS DE MONTE
ALEGRE DE GOIÁS: trabalho, cultura e meio ambiente para a sustentabilidade”, que foi
desenvolvido com base nas reflexões consolidadas na disciplina África e Africanidades,
ofertada pela Coordenação de Pesquisa e Pós-graduação da UFG/Regional Catalão, em
parceria com o Programa de Pós-Graduação em Geografia - Regional Catalão/UFG.
Sendo assim, o presente artigo buscou compreender a partir do processo de oralidade
africana, existente no cotidiano desses povos, as atividades agroecológicas associadas ao
cultivo e manejo de sementes crioulas e as relações sociais de produção e o uso de plantas
medicinais nas Comunidades Camponesas e Quilombolas de Monte Alegre de Goiás-
-GO. As (Re)Existências construídas por esses sujeitos implementaram um novo ritmo de
vida e os mesmos tiveram que reinventar novas formas, conhecimentos e técnicas que os
auxiliassem no cotidiano da vida nos territórios cerradeiros.

Palavras-Chave: Afro-Brasileiro. Cerrado. Kalunga.

Abolicionismo no Norte de Goyaz:


31 Liberdade como posse ou para posse?
O caso de Faustino Pereira e
Joaquim Ayres
Radamés Vieira Nunes
Ao longo de toda década de 1880 nas páginas impressas, nas ruas, nos trieiros, clubes e
outros ambientes a abolição da escravidão ocupava significativo espaço nas mentes goia-
nas, principalmente em relação às incertezas quanto aos desdobramentos que causaria.
Na cidade de Porto Imperial, Joaquim Ayres da Silva, proprietário de escravos, acompa-
nhou de perto as conversas atento aos muitos posicionamentos sobre a questão. Nesse tra-
balho a proposta é perscrutar a trama que envolveu Joaquim Ayres e um negro chamado
Faustino Pereira de Oliveira, bem como seus desdobramentos atuais na cidade portuense.
O episódio, que ainda suscita ecos, foi acompanhado pelos principais jornais goianos se
tornando um símbolo do jogo de forças travado entre a população goiana sobre como as
ideias abolicionistas se assentariam em Goiás.

Palavras-chave: Norte de Goyaz. Abolicionismo. Memória.


A Condição de vida nas periferias
47 de São Paulo e o uso do Rap nas
salas de aula
Gustavo Mota e Lilian Marta Grisolio
Nesta pesquisa, analisamos como é representado as condições de vida dos trabalhadores
da periferia de São Paulo a partir das letras dos raps dos autores Racionais MC’s e Criolo.
O rap, como arte e instrumento de intervenção social, busca retratar a realidade da peri-
feria e os problemas comuns vividos pelos moradores como violência e preconceito. Refu-
tamos aqui, os discursos que responsabilizam as pessoas das periferias de São Paulo como
culpadas por seu próprio fracasso. Rap é uma sigla que significa Rhythm And Poetry, ou
em português, Ritmo e Poesia, denominado assim, pois integra uma combinação entre a
linguagem verbal e a linguagem musical, ou seja, melodia e ritmo. No decorrer das análi-
ses e leituras sobre o tema algumas possibilidades foram surgindo para o trabalho com o
rap nas escolas, tais como: Trabalhar os tipos de narrativas, relatos e outras fontes histó-
ricas; Explorar as diferentes possibilidades linguísticas e artísticas; Estudar as expressões
usadas e gírias dando enfoque para as linguagens e o que revelam; Combater a visão de
cultura única e erudita que se contrapõe a uma cultura “menor e popular”; Oportunizar
a análise crítica e interpretação sobre diversos temas; Desenvolver oficinas de criação e
produção como novos raps, releituras, apresentações. O presente trabalho usou como me-
todologia o materialismo histórico, analisando as músicas dos autores Racionais MC’s e
Criolo e propondo intervenções em sala de aula. O que estamos propondo aqui é que estes
novos temas e linguagens contribuam como um novo olhar sobre a História, com novos
métodos que respeite a vida e o conhecimento do aluno, o interesse e a função social da
História que é promover a criticidade, a problematização, o entendimento amplo sobre os
contextos históricos relacionando o presente e o passado.

Palavras-chave: Educação, Rap, Periferia.

África: Relação entre livro


61 didático e currículo no ensino de
Geografia
Ana Lúcia da Silva, Carlos Roberto Machado de Oliveira, Alex Lourenço da
Silva, Magda Valéria da Silva e Izabella Peracini Bento
A maneira como é retratada a África e sua relação com o Brasil nos livros didáticos e no
currículo de Geografia pode contribuir (ou não) para o reconhecimento deste continente
enquanto berço da humanidade, rompendo com ideias estereotipadas e pejorativas, re-
sultantes de uma visão histórica eurocêntrica que insiste em perpetuar e justificar as desi-
gualdades sociais e econômicas existentes em África, sem buscar os verdadeiros culpados
por séculos de exploração e dominação. A partir da criação da Lei nº 10.639/2003 que ins-
titui como obrigatório o ensino de história e Cultura Afro-Brasileira no currículo escolar
brasileiro, tornou-se necessário a adequação do livro didático, inclusive no Programa Na-
cional do Livro Didático (PNLD). Nenhum livro didático, por melhor que seja, conseguirá
atender todas as especificidades do ensino de Geografia ou de qualquer outra ciência.
Neste sentido, a atuação do professor tem papel fundamental na forma como ele será uti-
lizado em sala de aula. Muitas críticas direcionadas ao seu uso se relacionam, na verdade,
SUMÁRIO
à prática docente conservadora. O currículo escolar em qualquer nível educacional é algo
para ser pensado e questionado cotidianamente. É a partir daí que devemos repensar a
atuação e qualificação dos professores e seu papel na construção de uma sociedade mais
justa e igualitária, pois a existência da lei não garante uma prática educacional antirracista.

Palavras-chaves: África. Currículo. Livro didático.

Cinema Intervenção e o
69 empoderamento das mulheres na
comunidade
Isabella Cecília do Nascimento
Por que o empoderamento das mulheres é importante? Essa é uma questão crucial na
busca de compreensões acerca do contexto histórico, social e cultural do qual nós mu-
lheres fomos educadas, tratadas, julgadas, violentadas e assassinadas pela sociedade pa-
triarcal na qual estamos inseridas. Combater a tudo isso é muito difícil, o machismo está
enraizado por todos os lados, em nossas relações, instituições, mídias, em casa, nas ruas.
Na cidade de Catalão - GO quase não há políticas públicas e ações voltadas as mulheres,
principalmente as relacionadas ao conscientizar e grupos de apoio. O primeiro passo é
dar voz as essas mulheres para que venha a conscientização, ela é a base para alcançarmos
uma compreensão profunda sobre o que somos, o que queremos e como estamos vivendo.
E um caminho possível é através do cinema e seu enorme potencial de educar através de
suas narrativas e múltiplos imaginários. Com esse intuito surgiu o interesse em produzir
um documentário como produto final do meu tema de pesquisa. Um filme sobre mulhe-
res da comunidade contendo as narrativas de seus universos, um elas por elas, onde a voz
de uma empodera a outra.

Palavras-Chave: Mulheres. Empoderamento. Documentário.

Desnaturalizando o cotidiano
77 escolar: Problematizando o
pensamento hegemônico e os papéis
de gênero
Rúbia Cristina Duarte Garcia Dias; Eliane Martins de Freitas
O presente trabalho integra uma pesquisa em andamento no PPGH-MP da UFG/RC, e
tem como objetivo refletir sobre questões de gênero e sexualidade, no sentido de perceber
como estas vem sendo abordadas no interior das escolas de educação infantil, de modo
específico, em uma escola municipal do sudeste goiano. Leituras sobre o tema direcionou
nosso olhar para as formas como essas questões tem sido historicamente abordadas no
âmbito das escolas, incidindo na produção de saberes pautados na construção e repro-
dução das relações de poder na sociedade capitalista patriarcal, por vezes, por meio do
silêncio e da invisibilidade. Ancorada no referencial foucaultiano e pós estruturalista nos
propusemos construir uma proposta de material didático que problematize os padrões
estabelecidos como naturais. Um dos eixos do currículo escolar abordado foi a celebração
das datas comemorativas. Autores como: Maia (2016), Bezerra et al (2011), Maia (2014),
Paz (2010), Marquetti e Kasper (2016), Gobbi (2010), Tonholo (2013), Maia (2017), Silva
(2002) contribuem com as reflexões em nossa pesquisa. Os dados parciais permitem afir-
mar que o acesso a outra perspectiva, que traz a não normatização do ser, contribui para a
construção de uma educação contra hegemônica, indicando possibilidades para a quebra
de paradigmas e uma formação mais humana.

Palavras-Chave: Datas comemorativas. Gênero e Sexualidade. Hegemonia.

Entre o altar da Cãmara e o


87 plenário da Igreja: Políticos
evangélicos na cidade de Catalão-GO
Juliana Vaz da Silva Nunes
Nos últimos anos, as relações entre política e religião tornaram-se proeminentes no país
e no mundo, revelando múltiplas formas de interação entre as duas dimensões da re-
alidade, que por vezes se confundem e se interpenetram. Nossa proposta consiste em
compreender essa dinâmica na cidade de Catalão, sobretudo no que se refere à religião
cristã, mais precisamente, de tendência protestante. Queremos entender como o espaço
político tem se relacionado com o universo religioso no âmbito local, no cotidiano da
câmara municipal e de outras instituições da cidade. A partir da trajetória de dois vere-
adores (2013-2016) que professam fé evangélica, Vandeval Florisbelo e Donizete Negão,
o objetivo é mapear as articulações/negociações destes homens públicos com as igrejas e
líderes religiosos protestantes. Para perceber até que ponto os posicionamentos dos po-
líticos evangélicos estão relacionados com a fé que professam e com o grupo religioso ao
qual pertencem ou representam na esfera política.

Palavras-Chave: Política. Religião. Catalão.

Falando de Gênero e Diversidade nas


101 aulas de História
Pedro Henrique Gouveia Arantes e Eliane Martins de Freitas
As discussões de gênero e sexualidade tem sofrido com perseguições em todo o mundo,
no Brasil especialmente pelo movimento “Escola Sem Partido”, que tem como prioridade
proibir o debate de tais assuntos em sala de aula, conseguindo inclusive, retirar a palavra
gênero do Plano Nacional de Educação - PNE. O Brasil é o quinto país com a maior taxa
de feminicídios do mundo, uma estatística que reafirma as altíssimas taxas de desigual-
dades de gênero. As escolas ainda fazem um papel socializador que emprega estereótipos
de gênero que prejudicam a educação, pois foca na sexualidade e não na capacidade do
indivíduo. Tendo isso em vista, a proposta da pesquisa apresentada ao Programa de Li-
cenciatura –PROLICEN-IC/UFG foi a de produzir um material didático sobre a História
das mulheres no Brasil, especificamente no período da Primeira República, levantando
as discussões sobre gênero, sexualidade e buscando desconstruir estereótipos impostos
às mulheres, trabalhando com mulheres de todas as camadas sociais. Acreditamos que a
escola, a educação e principalmente a disciplina escolar de História tem um peso muito
SUMÁRIO
grande na visão política e social das crianças e esperamos com esse material, formar cida-
dãs e cidadãos mais ativos e livres de preconceitos e estereótipos de gênero. Neste sentido
o presente artigo apresenta os resultados parciais da primeira etapa da pesquisa, qual seja,
a pesquisa bibliográfica. A partir do método quantitativo apresentaremos os resultados da
busca realizada em realizada em três bases de dados (Scielo, Google Acadêmico e Biblioteca
Digital de Teses e dissertações da USP) acerca da história das mulheres, ou das mulheres
na história do Brasil, especificamente na Primeira República. As chaves de pesquisa uti-
lizadas foram: mulheres, mulheres na história do Brasil, mulheres na Primeira República
e mulheres no período de 1889 a 1930. Buscando por artigos científicos, livros, capítulos
de livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado. A escolha do recorte temporal
se deu em função de ser o período da luta das mulheres pelo sufrágio e também por me-
lhores condições de trabalho.

Palavras-Chave: Brasil. Mulheres. Pesquisa Bibliográfica.

Gênero e Educação Infantil: A


111 inferência das brincadeiras na
construção de identidades de gênero
Beatriz Anselmo e Carmem Lúcia Costa
O presente trabalho busca evidenciar como se inicia a construção de uma identidade
de gênero, a qual é imposta desde o nascimento de um indivíduo, preparando-o à uma
sociedade com papéis pré-determinados aos homens e as mulheres, hierarquizando essa
relação de poder instituído ao homem pelo patriarcado. Tal construção identitária deve-
-se a naturalização do que se remete ser feminino ou masculino. No presente estudo é
especificamente abordada a inferência dos brinquedos para essa construção, sendo estes,
fortemente reafirmados em sua funcionalidade e à sua cor, por exemplo.

Palavras-chave: Gênero e brinquedos; patriarcado; e poder

Imprensa e Memória nos 100 anos da


117 Revolução
Valdivino Nunes dos Santos Junior e Ludmila Jardim da Conceição
O presente trabalho estabelece uma análise histórica e sociológica sobre como a imprensa
brasileira aborda a memória da Revolução Russa no dia 7 de novembro de 2017, data em
que se completa 100 anos do ocorrido. Neste sentido, pesquisamos reportagens publica-
das na internet por meios de comunicação das mais variadas correntes de pensamento.
Estabelecemos nossa leitura sobre estas fontes entendendo estes meios de comunicação
enquanto formadores de grande parte da opinião pública - uma vez que apresentam os fa-
tos se escondendo atrás do signo de imparcialidade não constatado na prática – e partin-
do do pressuposto de que a memória passa por um processo que se constrói no presente,
mas que segue sendo reconstruída socialmente sempre que é novamente acessada por al-
gum motivo em algum momento. Por fim, buscamos entender a relevância da Revolução
nos dias imediatamente posteriores a sua deflagração e como o atual governo russo de
Wladimir Putin lidou com a ocasião no dia de seu centenário.

Palavras-chave: Imprensa. Memória. Revolução Russa.


Juventude e Política: Abordagens
125 sobre as reivindicações de 2013 no
Brasil - Analogia às manifestações
que ocorreram em 1968
Roneide Maria Vaz
O trabalho tem como proposta analisar a postura da juventude nas reivindicações polí-
ticas no Brasil, tendo como período de observação o ano de 2013. Para compreender as
informações de 2013 foi preciso contextualizar as atividades ocorridas nos movimentos
de 68, em que a classe juvenil, dentro dos fatos históricos, foram revolucionárias. Contex-
tualizamos as semelhanças e diferenças entre os dois momentos, interpretando os ideais e
as ações desses sujeitos sociais, de acordo com suas historicidades. A pesquisa tem como
objetivo principal demonstrar que no ano de 2013 houve uma pluralidade de protestos de
ruas, em sua maioria, representados pela classe jovem, que traziam uma multiplicidade de
desejos com vários tipos de contestações em relação aos governantes e às lutas por direi-
tos humanos. Os manifestantes se articulavam com o auxilio das redes sociais, buscando
a liberdade de expressão para concretizar seus anseios pessoais ou coletivos vinculados
aos direitos da cidadania, do direito de voz e das demandas por lutas sociais. Para con-
templar as diversas facetas que as manifestações trouxeram, fez-se necessário entender
que as mobilizações se propagaram e suas articulações foram se adaptando em torno das
necessidades dos grupos ali existentes, entre tais, o Movimento do Passe Livre (MPL), que
se destacou por defender o transporte público, tornando-se o ícone das manifestações e
dos protestos, como uma expressão de força e resistência na forma de agir dos sujeitos em
busca de transformações, não somente na política, mas nos contextos econômico, social
e cultural.

Palavras-chave: Juventude. Política. Manifestações.

Mística e formação da consciência


137 de classe na CPT
Bruno Viana Ulhôa Santos
O presente artigo é parte componente da dissertação que venho desenvolvendo no Pro-
grama de Pós-Graduação em História Profissional da Unidade Acadêmica Especial de
História e Ciências Sociais da UFG/RC e tem como objetivo central buscar compreender
o que é a mística e qual o papel que a mesma desempenha na construção da ideia de cam-
pesinato sob a perspectiva da luta de classe em movimentos de luta pela terra, especifica-
mente para a CPT. Para tanto, são três os caminhos a serem percorridos no levantamento
dos dados para o desenvolvimento deste trabalho: pesquisa historiográfica sobre a CPT,
a contextualização do momento em que surge e os dilemas que a envolvem; estudo sobre
as definições de campesinato envolvendo discussões sobre camponês e cultura; e por fim
uma análise sobre algumas músicas que compõe o “Caderno do Cancioneiro” e algumas
produções musicais da mesma entidade com vistas a esclarecer o papel que a música de-
sempenha na construção da ideia de campesinato nas canções utilizadas em momentos
de encontros e reuniões. A mística, compreendida por alguns estudiosos como um fenô-
meno político/religioso praticado em movimentos camponeses de luta pela terra, pode
ser entendida entre outros pontos na ideia de que não deve ser considerada universal, mas
SUMÁRIO
sim múltipla, particular e ao mesmo tempo coletiva. À luz de Edward Thompson busca-
mos analisar que é nas experiências compartilhadas que homens e mulheres se identifi-
cam enquanto classe, sendo então a mística elemento formador de consciência de classe.

Palavras-Chave: Mística. CPT. Luta pela terra.

Propaganda política e Gênero: A


149 representação de mulheres nos
cartazes da Guerra Civil Espanhola
(1936-1939)
Ana Paula Florisbelo da Silva
Este artigo busca analisar a representação de imagens de mulheres nos cartazes da Guerra
Civil Espanhola (1936-1939), tanto do lado do grupo defensor da Segunda República, a
Frente Popular (anarquistas, republicanos, comunistas, etc.), quanto do lado dos suble-
vados (monarquistas, carlistas, falangistas, etc.). Buscamos, com essa análise, desvendar
o período histórico da sociedade e, em especial, da mulher espanhola, principalmente
no que diz respeito às intencionalidades dos cartazes quanto ao papel e lugar da mu-
lher, e o que se esperava dela durante a Guerra Civil. Objetivamos, também, destacar
as diferenças entre os discursos e representações femininas dos dois lados em conflito,
regras e condutas de gênero que se manifestam através dos cartazes e de suas mensagens.
Metodologicamente nos apoiaremos no conceito de gênero, para pensar as construções
sociais sobre os papéis e identidades atribuídos a mulheres e homens (SCOTT, 1989), e
nas principais leis de funcionamento e regras de uso da propaganda política, tal como
caracteriza Domenach (2005), para refletirmos sobre as intencionalidades e mensagens
transmitidas pelos cartazes.

Palavras-Chave: Guerra Civil Espanhola. Cartazes de Guerra. Gênero.

Protestantismo e Educação: O
161 empreendimento presbiteriano em
Goiás (séc. XIX-XX)
Tamiris Alves Muniz e Sauloéber Tarsio de Souza
O presente trabalho busca analisar a relação protestantismo e educação e, por conseguin-
te, investigar o empreendimento educacional realizado pelos presbiterianos no Brasil,
em particular, no estado de Goiás. Em consonância com o projeto político-pedagógico
da Reforma, as igrejas protestantes demonstraram grande preocupação com as questões
sociais, sendo a educação, a criação de escolas, um meio de promover os ideais de uma
civilização cristã nos moldes protestantes. Os presbiterianos foram pioneiros na criação
de escolas e na introdução do sistema pedagógico americano no Brasil. O empreendimen-
to presbiteriano em Goiás se iniciou no final do século XIX e início do século XX, por
meio do trabalho da Missão Sul do Brasil, organização vinculada à Igreja Presbiteriana do
Norte dos Estados Unidos. Como resultado dessa ação inicial que se assentou no sudoeste
goiano, foi criada a Igreja Presbiteriana e a Escola Evangélica de Jataí (1942), que deram
suporte para a criação de outras igrejas e escolas no estado. Logo, é importante pensar a
associação entre religião e educação e compreender os aspectos históricos que levaram à
criação das primeiras escolas presbiterianas em Goiás, bem como sua finalidade educa-
tiva. A pesquisa se fundamenta no campo teórico da História das Instituições Escolares
influenciada pelos pressupostos da nova história, em particular, da História Cultural.

Palavras-Chave: Protestantismo; educação; Goiás.

Santa Dica de Goiás: Poder,


173 perseguição e mulheres
Lilian Marta Grisolio
Santa? Benzedeira, curandeira, milagreira? Política, militante dos pobres, aliada dos co-
ronéis? Oprimida ou opressora? São diversas as formas como Benedita Cipriano Gomes,
ou apenas Santa Dica, é reconhecida. História de vida conturbada que se mistura com a
história cultural, religiosa e política de Goiás, personagem que merece papel de destaque
na história das mulheres. É válido notar que os poucos materiais e trabalhos acadêmicos
escritos sobre ela destacam a Santa Dica que se deseja: pode ser do Movimento Santa
Dica, como ficou conhecido o movimento messiânico encampado por ela e o enfrenta-
mento com a Igreja Católica, ou da resistência contra a Coluna Prestes, o seu casamento
e a ligação com a política local, a participação na Revolução Constitucionalista de 1932,
ou ainda, sua memória na cultura popular regional. Buscaremos nesse artigo apresentar
esse amplo quadro de uma figura feminina reclamada por vários setores e ainda tão pouco
compreendida historicamente.

Palavras-Chave: Mulheres, História, Goiás, Religião, Política

Temas e fontes de pesquisa


195 histórica: As monografias
defendidas no curso de História/
UFG/RC - 1995-2016
Isabelle Artico e Eliane Martins de Freitas
O presente texto visa apresentar os resultados parciais do projeto Gênero e História das
Mulheres na produção monográfica do Curso de História/UFG/RC – 2009-2016. Esta pes-
quisa, desenvolvida junto ao Laboratório de Pesquisa Gênero, Etnicidade e Diversidade
– LaGED//INHCS/UFG/RC, é um subprojeto da pesquisa intitulada O Ensino de Histó-
ria: da pesquisa na graduação a atuação na sala de aula, e conta com financiamento do
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC/UFG/CNPq. O objetivo
geral da pesquisa é analisar a produção do conhecimento histórico realizada interior do
curso de História da UFG/RC no período de 2009 a 2016, em particular, as monografias
cujas temáticas envolvem relações de gênero, sexualidade e história das mulheres. Meto-
dologicamente dividimos a pesquisa em duas etapas, a primeira delas, realizada de agosto
a novembro de 2017 e cujos resultados apresentaremos aqui, teve como objetivo reunir,
organizar e catalogar o acervo de monografias do curso de História da Regional Catalão
desde 1995 (ano de conclusão da primeira turma) até 2016. Após a organização do acervo
SUMÁRIO
monográfico buscamos quantificar essa produção a partir dos seguintes marcadores: data,
temáticas e fontes históricas. O resultado deste trabalho nos possibilita construir um pa-
norama geral dessa produção no tempo, ou seja, ao longo das duas últimas décadas. Esse
panorama nos permitiu compreender as temáticas mais relevantes para as/os egressos
do Curso de História, bem como o lugar que as discussões sobre gênero, sexualidade e
História das Mulheres tem no conjunto dessa produção.

Palavras-Chave: Conhecimento histórico. História/UFG. Temas de pesquisa.

Temas e recortes espaciais na


203 pesquisa histórica: As monografias
defendidas no curso de História/
UFG/RC - 1995-2016
Monique Conceição Silva e Eliane Martins de Freitas
As monografias produzidas pelas/os alunas/os do curso de História da Regional Catalão/
UFG estão localizadas no Laboratório de Pesquisa em Gênero, Etnicidade e Diversida-
de (LaGED), e foram organizadas e catalogadas recentemente. Esse trabalho constitui-se
na primeira etapa da pesquisa intitulada Gênero e Sexualidade na produção monográfica
do Curso de História/UFG/RC, desenvolvida dentro do Programa Institucional de Vo-
luntários de Iniciação Científica – PIVIC/UFG/CNPq, como subprojeto da pesquisa O
Ensino de História: da pesquisa na graduação a atuação na sala de aula. O objetivo dessa
comunicação de pesquisa é apresentar o levantamento temático e espacial realizado nesse
acervo monográfico, com vista a compreender como a temática sexualidade tem se inse-
rido dentre as temáticas pesquisadas e, com isso em um segundo momento, compreender
como a categoria sexualidade é usada nas monografias e na produção do conhecimento
histórico ao longo da trajetória do curso. O trabalho de levantamento e a seleção das
monografias foram realizados juntamente com a organização e atualização do acervo de
monografias do curso de História RC/UFG, todas as monografias foram registradas em
uma lista, seguindo a ordem de ano e alfabética e suas cópias foram guardadas a parte
para futuros empréstimos.

Palavras-Chave: História/UFG. Pesquisa histórica. Temas de pesquisa.

Um olhar além da máscara: Resgate


213 da Caretada como forma de
preservação da identidade e cultura
local em Paracatu-MG
Keli Evangelista da Silva
O presente estudo apresenta um projeto de pesquisa sobre a Caretada, uma dança de
origem africana, também chamada de Caretagem, é uma tradição passada de geração em
geração nas comunidades remanescentes de quilombolas em Paracatu. Essa pesquisa pro-
cura abordar aspectos da cultura de Paracatu através desse festejo anualmente realizado
na cidade: a dança da Caretada, rito de fundo religioso que integra uma das tradicionais
festas juninas na região, a festa de São João. A Caretada é uma típica expressão dos afro-
-brasileiros do noroeste mineiro. Apenas homens participam. É neste contexto de extre-
ma configuração de máscaras, roupas e fitas coloridas, que a vida e a memória vibram a
todo o momento, ajustando e renovando expectativas. O uso das máscaras, presente em
várias outras culturas tem a ver com histórias próprias de colonização, adaptações, persis-
tências e alterações que dão um traçado único, especial e particular às práticas culturais
locais. A importância da pesquisa está em procurar alternativas que possam dar continui-
dade à pratica da Caretada, para tanto buscaremos formas de manter viva essa relevante
cultura imaterial de nossa cidade. Nesse sentido, iremos elaborar um material didático no
formato de Cartilha educativa e informativa, direcionado a professores que, ao abordar
temas relacionados a cultura popular, tradição, quilombolas ou danças religiosas dentro
das diversas disciplinas possam fazer uso desse material. A Cartilha educativa deverá ser
aplicada preferencialmente nas turmas do Ensino Fundamental II nas séries iniciais e em
diversos períodos do ano letivo, dependendo do assunto abordado pelo professor. Iremos
apresentar o formato da cartilha e seu conteúdo. Espera-se, que com esse material didá-
tico sendo trabalhado insistentemente na escola, os alunos adquiram um conhecimento
mais aprofundado sobre o assunto, percebam a importância dessa tradição e contribuam
para dar seguimento a essa prática tão importante.

Palavras-Chave: Caretada. Cultura. Cartilha.


100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

A África e o Brasil
afro-brasileiro:
Saberes e fazeres
nas comunidades
camponesas e
quilombolas de Monte
Alegre de Goiás
Carlos Roberto Machado de Oliveira
Mestrando em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Ana Lúcia da Silva
Mestranda em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Alex Lourenço da Silva
Graduando em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Magda Valéria da Silva
Profª. Drª. em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Izabella Peracini Bento
Profª. Drª. em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO,

Introdução
Este artigo é parte de um projeto de pesquisa (PIBIC) intitulado “SABERES E
FAZERES NAS COMUNIDADES CAMPONESAS E QUILOMBOLAS DE MONTE
ALEGRE DE GOIÁS: trabalho, cultura e meio ambiente para a sustentabilidade”, desen-
volvida pelo Instituto de Estudos Sócio-Ambientais (IESA), da Universidade Federal
de Goiás, com base nas reflexões consolidadas na disciplina África e Africanidades,
ofertada pela Coordenação de Pesquisa e Pós-graduação da UFG/Regional Catalão, em
parceria com o Programa de Pós-Graduação em Geografia - Regional Catalão/UFG.
A pesquisa faz um recorte espacial do Sítio Histórico Cultural Kalunga que se
localiza no Nordeste Goiano. Abrange os municípios de Monte Alegre de Goiás, Teresi-
na e Cavalcante. Enfatiza-se principalmente as práticas ambientais e socioculturais nas
Comunidades Quilombolas de Monte Alegre de Goiás. Assim, a investigação traz uma
reflexão sobre os saberes-fazeres materializados a partir das atividades agroecológicas

17
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

associadas ao manejo e cultivo de sementes crioulas, além das relações sociais de pro-
dução e o uso de plantas medicinais.
Outra problemática abordada é a relação socioespacial dos povos Kalunga que
foram escravizados e trazidos para esta região pelos mineradores que utilizaram do tra-
balho escravo para exploração dos recursos minerais. Diante das péssimas condições
impostas pelos mineradores aos trabalhadores escravizados houve vários movimentos
de resistência que culminou na formação da Comunidade Quilombola Kalunga.
As (Re)Existências construídas por esses sujeitos implementaram um novo ritmo
de vida e os mesmos tiveram que reinventar novas formas, conhecimentos e técnicas
que os auxiliassem no cotidiano da vida nos territórios cerradeiros. Os saberes e fazeres,
são conhecimentos herdados dos povos africanos que vieram para o Brasil, dando ori-
gem aos saberes dos povos aqui chamados de Afro-brasileiros, denominados especifica-
mente na região da Chapada dos Veadeiros de Povos Kalunga.
Diante disso, o presente artigo, traz uma reflexão sobre os saberes e fazeres que
propiciaram a adaptação nos territórios do Cerrado, através do uso de plantas medici-
nais, das práticas socioculturais e agroecológicas.

Material e Métodos
O foco desta pesquisa consistiu em compreender a relação sociometabólica entre
homem e natureza, a partir do cotidiano das Comunidades Camponesas e Quilombo-
las, dando ênfase aos Povos Kalunga. O desafio é “mergulhar” nessa realidade espacial
e temporal para compreender as atividades agroecológicas associadas ao processo de
(Re)Existência1 (cultivo e manejo de sementes crioulas, as relações sociais de trabalho e
produção, além do uso de plantas medicinais).
Esses conhecimentos e saberes tradicionais, associados ao processo de (Re)Exis-
tência, adquiridos pelos Povos Kalunga como instrumento de adaptação para sobrevi-
verem nos territórios do Cerrado, formam os chamados saberes e fazeres das Comuni-
dades Camponesas e Quilombolas, centralidade de estudo dessa pesquisa.
Diante desta questão, a pesquisa foi desenvolvida mediante uma proposta inicial,
estabelecida pelo Plano de Trabalho, a partir de algumas etapas: leitura bibliográfica
para compreender o histórico local e regional, conforme o contexto brasileiro; compre-
ensão da formação socioespacial de Monte Alegre de Goiás; classificação e identificação
dos processos de seleção e variedade das sementes crioulas e plantas medicinais. Disso,
decorreu a montagem de um banco de dados sobre as informações colhidas; elaboração,
sistematização e divulgação das informações coletadas e analisadas, ocorridas a partir
das realidades observadas durante o processo da pesquisa.

1  Mendonça (2015) entende a (Re)Existência enquanto um processo de permanência, modificada por uma ação.

18
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Assim, diante dos objetivos propostos no Plano de Trabalho foram realizadas


diversas leituras bibliográficas, fichamentos e catalogação de vídeos/documentários que
auxiliaram na compreensão dessa problemática e na construção de novos saberes. Em
relação às atividades de pesquisa de campo, estas não foram realizadas a contento, pois
não conseguimos apoio para transporte que se descolassem até a área pesquisada, uma
vez que, a mesma se localiza a mais de 700 km de Catalão/GO.
É importante ainda frisar que, mesmo diante dessas dificuldades encontradas
durante a realização da pesquisa foi possível atingir as metas estabelecidas pelo Plano de
Trabalho. Porém é notória a necessidade de ir a campo para assim consolidar as compre-
ensões adquiridas pelos levantamentos bibliográficos, pois é sabido que para efetivação
do processo de ensino aprendizagem a relação teoria x prática é de extrema importância.

Resultados e Discussões
Os Kalunga são descendentes de trabalhadores escravizados e trazidos para esta
região pelos mineradores no século XVIII para trabalhar na exploração dos recursos mi-
nerais. Segundo AVELAR; PAULA, (2003), “o negro era visto como um ser não europeu,
não cristão, como assim o eram os índios, não possuía alma nem atributos de humani-
dade, podendo ser tratados como animais, numa qualidade de simples mercadoria”.

Figura 01: Municípios dos estados de Goiás e Tocantins onde está territorializado o
Povo Kalunga.

Fonte: IBGE (2010). Organização: SOUZA, J. R (2015) 19


Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Diante desta condição em que os negros foram postos, houve vários movimentos
de resistência que resultaram em diversas consequências como aborto, suicídio e tam-
bém na fuga de diversos trabalhadores que formaram vários Quilombos, originando
assim a chamada “Comunidade Quilombola”. Segundo TAVEIRA; BORGES, (2015) o
quilombo Kalunga surgiu em decorrência da exploração do ouro no século XVIII com
a descoberta das “minas dos Goyazes”. Para garantir a extração dessa riqueza foram
trazidos homens e mulheres (escravizados) pelos bandeirantes paulistas, muitos deles
direcionados para as minas na cidade de Cavalcante, como também as minas existentes
em Morro do Chapéu, atual Monte Alegre de Goiás, e Arraias, no Tocantins, na época
conhecida como “rota do ouro”.
Os negros escravizados, cansados da submissão e dos castigos violentos sofridos,
principalmente nas minas de ouro, fugiram em busca de liberdade, escondendo-se entre
serras e montanhas. O local escolhido por eles, naquela região, foi denominado Kalun-
ga, esse espaço se revelou estratégico por ser de difícil acesso, cheio de serras e morros
– o que favorecia o esconderijo dos temidos “capitães do mato”.
Devido a todos esses acontecimentos e com o passar do tempo consolidou a
formação das Comunidades Quilombolas. Este território passa a ter um valor de per-
tencimento para os Povos Kalunga, auxiliando no processo de institucionalização do
Sítio Histórico Cultural Kalunga, atribuindo-lhe uma forma de propriedade de terra
(territórios coletivos), justificada pela relação de identidade que os Kalunga têm com
esse lugar. (ARANTES; ALMEIDA, 2012).
Com a formação destes núcleos quilombolas, o Povo Kalunga, teve que adaptar ao
Cerrado, usufruindo recursos da fauna e flora para sua sobrevivência. Com isso ao longo
do tempo adquiriram vários conhecimentos que se tornam um “saber tradicional” que
pode ser chamado de “saberes-fazeres”, que compõem a (Re) Existência desses sujeitos.
Os saberes-fazeres das Comunidades Camponesas e Quilombolas também es-
tão associados a “Oralidade Africa” que são conhecimentos repassados de geração em
geração, compondo assim a identidade Africana. Sobre esse processo de “Oralidade”,
Bonvini (2006) diz que:

[...] O vivido do grupo está ligado a essa palavra. Um implica o outro: o vi-
vido precisa ressoar na palavra e esta, proferida, deve repercutir no vivido.
Repercussão e vivido são duas dimensões fundamentais da oralidade. Eis
o jogo da vida e da sobrevivência do grupo e também o sentido profundo
da proferição, o sentido que é necessário atribuir aos diferentes textos em
situação de oralidade: provérbios, adivinhações, contos, máximas, nomes
próprios, cantos, etc. todos esses textos estão a serviso da memória cole-
tiva e da transmissão da experiência do grupo. (BONVINI, 2006, p. 9).

20
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Essa experiência de vida, repassada pelos grupos, no caso do território das Co-
munidades Kalunga, torna-se instrumento ou prova para a permanência e fixação dos
quilombolas que o ocupam. Daí origina-se o processo (Re)Existir. Esse processo de (Re)
Existência também pode ser oriundo da “Oralidade Africana” (dança, abraço, beijo, san-
gue, suor, esperma) que revela a identidade africana constituída cotidianamente, que foi
a base dos saberes e fazeres dos povos aqui chamados de Afro-brasileiros, denominados
especificamente na região da Chapada dos Veadeiros de Povos Kalunga. Embora tomba-
do como Patrimônio Cultural e Sítio Histórico existem ainda diversos conflitos que são
ocasionados pelos donos das fazendas e os Kalunga, conforme apresenta as pesquisas
de AVELAR; PAULA (2003).
O conflito persiste, devido ao fato dos fazendeiros locais, conhecidos popular-
mente como Paulistas (generalização costumeira feita pelos Kalunga e outros grupos
rurais a pessoas invasoras de terras), terem apresentado documentação das terras qui-
lombolas, algumas vendidas pelos próprios Kalunga, devido a pressões ou necessidades
e outras conseguidas com documentos falsificados, fruto de grilagem.
Esse processo trouxe consigo diversas consequências. Nessa perspectiva BAIO-
CHI (1995/96) descreve que, “No Ribeirão dos Bois (1978), cometem-se atrocidades,
invasões, despejo dos moradores, queimas de casa, sevícias e mortes físicas e psíquicas”.
Fato esse que deixa os Kalunga a mercê da sociedade, em precárias condições de vida.
Na busca de sobrevivência, muitos, precisaram render-se à condição de empregado da-
queles que de forma cruel tomou toda a sua terra e, consequentemente, sua dignidade.
Afirmando ainda mais os vários históricos de grilagem Avelar; Paula (2003) diz que

[...] os Kalunga, como qualquer grupo camponês, mantém suas raízes fi-
xadas na terra que lhes pertence, numa relação sentimental e carregada
de significados, ligados à sobrevivência material e cultural. No entanto,
estas raízes vêm sendo arrancadas, ao longo do tempo, pela ação de gri-
leiros e posseiros que lhes roubam a terra e os expulsam do local de ori-
gem, tirando-lhes não somente a fonte de sobrevivência material, mas a
própria identidade. (AVELAR; PAULA, 2003, p. 130)

Diante desse histórico processo de grilagem, falta de infraestrutura e até mes-


mo miséria, o estado tenta intervir com algumas ações com o objetivo de regularizar
a questão fundiária e políticas públicas que oferecem assistência social e moradia. Mas
segundo TAVEIRA; BORGES (2015), ainda hoje, o índice de analfabetismo é elevado,
as condições sanitárias e de habitação são precárias e o acesso às políticas públicas é in-
suficiente. Fato este que pode ser comprovado mediante uma pesquisa extraída da tese
de doutorado TAVEIRA, (2013) et.al. apud TAVEIRA; BORGES (2015)

21
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

[...] A pesquisa apurou a existência de 768 domicílios, nos quais vivem


2.979 pessoas. [...] Sobre os chefes de domicílios, a grande maioria é for-
mada por negros com baixíssima escolaridade. 91% possuíam no máxi-
mo o ensino fundamental completo. [...] Apenas 20% deles disseram estar
trabalhando, dos quais 3% com carteira assinada. Outros 13,7% estariam
procurando emprego. Esse quadro de vulnerabilidade faz as famílias Ka-
lunga dependerem de programas de transferência de renda. Diante de
69,7% famílias cadastradas no Cadastro Único de Programas Sociais,
63,5% delas são beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF). A ren-
da domiciliar per capita, já incluindo os valores transferidos pelo PBF,
apresenta os seguintes percentuais: 40,6% das pessoas vivem com até R$
70 por mês; 16,7% têm renda entre R$ 70 e R$ 140; 14,4% entre R$ 140
e R$ 255; 13,3% entre R$ 255 e R$ 510 e 14,7% ganham mais de R$ 510.
Sobre os domicílios: 93% deles são próprios, 1% alugado e 5% cedidos;
67% deles têm até cinco cômodos; 44% utilizam óleo ou querosene como
forma de iluminação e outros 44% têm fonte elétrica (rede ou gerador).
90% jogam o lixo doméstico em terrenos baldios, rios, queimam ou o en-
terram; em menos de 9% há coleta regular de lixo. [...] (TAVEIRA; BOR-
GES, 2015, p. 3.)

A presença das políticas públicas de incentivo a produção agropecuária é defi-


ciente. Apenas 3,6% dos domicílios tiveram acesso ao PRONAF; 0,3% ao Seguro Safra e
Seguro da Agricultura Familiar; o mesmo percentual foi beneficiado por ações de Assis-
tência Técnica e Extensão Rural. Nenhuma família vendia sua produção para o Progra-
ma de Aquisição de Alimentos (PAA) em 2011. O mesmo se aplica a educação e a saúde.
No interior do território Kalunga, segundo a pesquisa com as lideranças comunitárias,
há onze escolas de ensino fundamental e uma do ensino médio. Quanto à saúde, as lide-
ranças entrevistadas apontaram a existência de apenas uma Unidade Básica de Saúde. A
cobertura pelos agentes comunitários de saúde é boa: 88% dos domicílios recebem sua
visita periodicamente. Contudo, apenas 20% dos chefes de domicílios disseram haver
atendimento pelas equipes de saúde da família.
Esse “abandono” por parte do estado, que não oferece as mínimas condições
de vida para os Povos Kalunga, faz com que inúmeras pessoas saem das Comunidades
Camponesas e Quilombolas, onde é o território de origem das mesmas, para migrar ru-
mo aos centros urbanos, como por exemplo, Brasília e Goiânia ou até mesmo em outras
cidades em busca de melhores condições de vida.
Ressaltamos ainda que, ao deixar o território Kalunga, surgem novas territoriali-
dades, novas práticas ligadas ao trabalho e a cultura que dão novos sentidos aos migran-
tes, mas, que na medida em que esses indivíduos estabelecem elo de pertencimento e
afetividade com o território de origem, eles não conseguem romper com essa identidade

22
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

territorial (MOREIRA; ALMEIDA, 2013), pois, os conhecimentos e práticas tradicio-


nais relacionados às memórias e lembranças, adquiridas naquele território, constroem
um valor sentimental de pertencimento desse povo, naquele lugar.
Outro aspecto é que segundo ALVES (2015) a pobreza, a falta de oportunidades
de inclusão socioeconômica e a ausência de serviços públicos de saneamento básico,
eletrificação, saúde, educação e assistência social em grande parte da Comunidade Ka-
lunga violam a liberdade tão almejada pelos remanescentes de Quilombos.
Além disso, sabe-se que os Kalunga são muito ligados ao valor de pertencimento
à terra de origem, pois como dito anteriormente, é neste lugar que eles construíram
sua identidade cultural, dando origem ao processo (Re)Existir. Porém, esse processo
também é ameaçado, “pela influência do modo de vida moderno, fazendo com que eles
considerem a qualidade de vida que eles levam ruim” (ARANTES; ALMEIDA, 2012).
Deve-se considerar que esse abandono por parte do estado, denegriu a dignidade desses
povos que tem o direito de viver com a devida qualidade de vida, proporcionando dig-
nidade para os mesmos.
Vale ressaltar que ainda hoje, em pleno século XXI, muitos consideram o modo
de vida dos Kalunga como sinônimo de miséria, de maneira que, para se viver da forma
tradicional em que foi originada a cultura dos Povos Kalunga, esses não podem usu-
fruir dos benefícios da modernidade. Essa é uma noção equivocada e preconceituosa,
causando exclusão e discriminação desses povos para com o estilo de vida “moderno”
adotado pelas sociedades “modernas e heteronormativas”.
Diante desta problemática, AVELAR; PAULA (2003), dizem acreditar que a
Comunidade Kalunga necessita de um apoio governamental mais expressivo, que lhe
ofereça segurança em relação à posse e manutenção da terra; melhores condições de
vida com saúde e educação digna, a fim de amenizar o crescente processo de migração
para as cidades. Necessitam, ainda, de construção de estradas, dentre outros elementos,
que garantam seus direitos de cidadãos, para que este grupo étnico possa conquistar o
respeito que os liberte dos estigmas e exotismos que os enquadram como “habitantes do
outro lado da fronteira”.
Algo deve ser feito para solucionar tal situação. O estado deve proporcionar mí-
nimas condições de vida a qualquer indivíduo, de qualquer lugar, território ou socieda-
de, podendo assim, viver com a dignidade que lhe é merecida.
Para garantir a sobrevivência nos territórios do Cerrado, os Kalunga tiveram que
ao longo do tempo, baseados nas práticas cotidianas adquirir saberes e fazeres que pro-
porcionassem aos mesmos extrair nesta biodiversidade recursos naturais para alimen-
tação, moradia, além de plantas medicinais e diversas raízes usadas para amenizar os
males e auxiliar na manutenção da saúde desses povos. O quadro 01 apresenta algumas
plantas medicinais encontradas nas Comunidades Quilombolas de Diadema e Ribeirão.

23
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Quadro 01: Relação das plantas mais recorrentes em Diadema e Ribeirão.

NOME POPULAR NOME CIENTÍFICO UTILIZAÇÃO


Capim cheiro Cymbopogon citratus Digestivo e calmante
Menta Mentha s.p. Digestivo e para garganta
Mutamba Guazuma ulmifolia Queda de cabelo
Sucupira preta Bowdichia virgilioides Depurativa
Manjericão Ocimum basilicum Cólica e febre
Sambaíba Davilla latifolia Artesanato
Alfavaca Ocimum basilicum Diurética
Algodão Cochlospermum regium Bactericida e hemostática
Mandioca Manihot esculenta Crantz Alimento
Milho Zea mays L. Alimento
Banana Musa spp. Alimento
Flores ornamentais * Ornamentação
Hortaliças * Tempero / Alimento
Babosa Aloe arborescens Remédio para o sistema digestivo
Erva cidreira Melissa officinalis Calmante e digestivo
Plantas catalogadas com o auxílio de D.C e sua Irmã D.C. Visitas de campo realizadas em março, maio, julho,
agosto e novembro de 2011. Fonte: (ARANTES, 2011 et.al. apud ALMEIDA & ARANTES & ALMEIDA, 2012).

As raízes e plantas medicinais são encontradas em praticamente todos os quin-


tais dos povos Kalunga. Os saberes e fazeres provenientes dos conhecimentos dessas
raízes e plantas medicinais são oriundos, como dito anteriormente, do cotidiano desses
Povos Cerradeiros e despertam grande interesse por parte das “indústrias-quimicofar-
macêutica” que se apoderam de tais conhecimentos para posteriormente obter lucro
com o saberes e fazeres que são “arrancados” desses povos.
Além das raízes e plantas medicinais existem nas Comunidades Camponesas e
Quilombolas, “médicos das mazelas do corpo e da alma” que são curandeiros, raizeiros,
“feiticeiros” e benzedeiras, que através de simpatias ou “feitiços”, podem curar doenças,
tornando tais práticas adeptas à medicina popular e aos saberes e fazeres, sendo de extre-
ma importância cultural, uma vez que há historicamente, um difícil acesso ao modelo
vigente de assistência a saúde. (NOVAIS; MESQUITA; LELES, 2015).
Segundo os autores MONTEIRO (1985); PORTO (2007)et.al. apud NOVAIS;
MESQUITA; LELES (2015) no contexto da medicina oficial e da racionalidade científica
estas práticas são consideradas subalternas e ilegítimas. Criando assim, barreiras para
venda de plantas medicinais e perseguição a alguns raizeiros acusados de realizar um
“Ato Médico” (NOVAIS; MESQUITA; LELES, 2015). Com isso, a exploração do capital

24
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

torna-se ainda mais “perversa”, pois, os capitalistas “arrancam” os saberes e fazeres des-
ses povos e em seguida criminalizam tais práticas, causando preconceito por parte da
sociedade, além da extrema exploração.
Além dos diversos saberes e fazeres adquiridos em relação às raízes e plantas
medicinais que amenizavam os males e auxiliavam na manutenção da saúde desses po-
vos, os Kalunga desenvolveram diversas outras técnicas, que garantia a sobrevivência
na região do Cerrado. Fato este que, de acordo com ARANTES; ALMEIDA (2012), as
técnicas utilizadas para o cultivo ou pastagens são realizadas com utensílios manuais
como machado, foice e enxada. Após a derrubada é feita a queima controlada para então
iniciar o plantio.
A plantação de milho, arroz e cana-de-açúcar predomina nos roçados, en-
quanto que nos quintais se encontram algumas hortaliças. Segundo ARANTES; AL-
MEIDA (2012)

[...] A alimentação é essencialmente composta por arroz, feijão, carne e


macarrão e o preparo dos alimentos é feito com óleo, sal e alho. [...] o
preparo da farinha consiste em ralar a mandioca para obter a massa que
peneirada pode ir ao forno para torrar e o que resta pode ser aproveitado
como beiju. [...] sobre a fabricação manual com materiais do Cerrado, os
artesanatos não são muito mencionados, mas as construções das casas
são bem próprias da Comunidade. Utilizam palha de buriti, madeira, ti-
jolos e barro. (ARANTES; ALMEIDA, 2012,p.4)

Esses conhecimentos perpetuaram-se e estão sendo repassados de “geração em


geração”, formando um processo de (Re)Existência. Outro aspecto importante que deve-
mos mencionar é que o Sítio Histórico Cultural Kalunga, tornou-se um atrativo centro
turístico pelo fato de estar localizado na Chapada dos Veadeiros e possuir uma vasta
biodiversidade que, aliada por uma topografia composta por serras e morros, constitui
paisagens que são apreciadas por diversos segmentos turísticos, além dos diversos pes-
quisadores. Em relação ao turismo, ALMEIDA (2015), afirma que

o turismo contribui para assumir a identidade Kalunga e, ao mesmo tem-


po, transformá-la em um slogan para as conquistas e lutas pela terra e em
mercadoria para atrair os visitantes. [...] nota-se, que o campo do patri-
mônio, apresenta-se como um espaço de conflitos e de interesses contra-
ditórios nos quais estão presentes o Estado (Fundação Cultural Palma-
res, Ministérios, Prefeituras), a sociedade civil (os Kalunga e associações
não governamentais) e as instituições de pesquisa e empreendedorismo
(UFG, UnB, Embrapa, Sebrae). [...] Essa presença institucional, tutelar,
assistencialista, com interesses que divergem até das demandas locais for-

25
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

taleceu-se localmente na última década e tornou-se a diferença principal,


para os Kalunga, do significado de viver em um território patrimônio
quilombola. [...] O território é, portanto, um espaço fundamentalmente
multidimensional no qual se criam e recriam as condições de sobrevi-
vência dos Kalunga, os valores e as práticas socioculturais, econômicas
e sociais que lhes são próprios e os embates institucionais. Território e
identidade Kalunga se entrelaçam. (ALMEIDA, 2015, p.140)

Esses fluxos turísticos geram renda para as Comunidades Quilombolas, pois,


além de muitos Kalunga serem os próprios guias turísticos desses visitantes, eles têm a
possibilidade de apresentar o turismo cultural presente nas Comunidades Quilombolas
do Sítio Histórico Cultural Kalunga, por meio do artesanato, festejos religiosos, danças,
culinária e diversas manifestações culturais que valorizam a cultura Kalunga. Além de
atrair cada vez mais a presença de diversas pessoas e instituições que vem para conhecer
tais manifestações culturais que são realizadas a partir do próprio cotidiano dos Povos
Kalunga, há geração de renda para estas Comunidades Camponesas e Quilombolas e
isso fortalece sua identidade cultural.
Para que ocorra o desenvolvimento com sustentabilidade na Chapada dos Ve-
adeiros é preciso construir uma combinação entre políticas sociais e econômicas mais
amplas, voltadas especificamente, para a conservação da biodiversidade desta região,
resultando assim, na realização efetiva da transversalidade das políticas de governo e a
garantia de que as estratégias de conservação da biodiversidade na Chapada dos Veadei-
ros estariam se integrando e complementando (BARBOSA, 2008).
O “desenvolvimento sustentável”, aliado as estratégias de conservação da biodi-
versidade na Chapada dos Veadeiros (BARBOSA, 2008), também pode ser implementa-
do no Sítio Histórico Cultural Kalunga, uma vez que o mesmo se localiza nesta região da
Chapada dos Veadeiros e conta com os saberes e fazeres das Comunidades Camponesas
e Quilombolas que exerce importância para a conservação não somente da biodiversida-
de, mas também, para conservação da sociobiodiversidade existente nestes territórios.

Considerações finais
Os Povos Cerradeiros, localizados nas Comunidades Camponesas e Quilombo-
las, em especial, os Povos Kalunga, através da relação sociometabólica entre homem e
natureza, são de extrema importância para a conservação da sociobiodiversidade exis-
tente no Sítio Histórico Cultural Kalunga, localizado no Nordeste Goiano na Chapada
dos Veadeiros, pois além de constituírem uma identidade cultural estabelecida neste
território, eles criaram uma (Re)Existência frente à “perversa” exploração do capital, que
a todo o momento tende a se apropriar dos saberes e fazeres desses povos.

26
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Esse processo de (Re)Existência é oriundo da “Oralidade Africana” (dança, abra-


ço, beijo, sangue, suor, esperma) que revela a identidade africana que foi a base dos sabe-
res e fazeres dos povos aqui chamados de Afro-brasileiros, denominados especificamente
na região da Chapada dos Veadeiros de Povos Kalunga.
Esse modo de conservação da sociobiodiversidade do Cerrado existente neste
território é uma das importantes alternativas impostas no meio para solucionar o dese-
quilíbrio ambiental existente, não somente no bioma-território Cerrado, mas em todo o
planeta, pois, sabe-se que somente pelo fato de estarmos vivos, já causamos algum tipo
de impacto ao meio. Estes saberes e fazeres podem amenizar os impactos ocasionados
pela relação homem x natureza e assim, contribuir para o “equilíbrio ambiental”, que irá
garantir a possibilidade de usufruirmos dos recursos naturais no futuro, criando uma
relação baseada nos princípios da chamada sustentabilidade.
Já em relação às políticas públicas impostas pelo Estado com o intuito de solu-
cionar e regularizar os problemas relacionados às questões fundiárias, de assistência
social e moradia, pode-se dizer que, houve um avanço, porém há muito o que ser feito
para dar uma vida digna para estes povos, que devido às péssimas condições, acabam
migrando para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida e trabalho.
Outro aspecto a ser destacado estabelece relação com os preconceitos que ainda
não foram superados por uma parcela da sociedade; há os que detêm uma visão pre-
conceituosa em relação aos modos de vida, dos saberes tradicionais e culturais existen-
tes nestas Comunidades. Ser Kalunga não é sinônimo de miséria e precariedade. Esses
povos têm os mesmos direitos que quaisquer outros de outras localidades, territórios,
enfim partícipes da sociedade.
Todavia, até o presente momento, conclui-se que a melhor forma de conservarmos
as informações contidas pelos saberes e fazeres desse território é continuar desenvolvendo
pesquisas científicas e trocas de saberes com seriedade, para assim possibilitar condições
de manutenção da cultura e melhorias na qualidade de vida desse Povo Cerradeiro.

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29
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Abolicionismo no
Norte de Goyaz:
Liberdade como posse
ou para posse? O
caso de Faustino
Pereira e Joaquim
Ayres
Radamés Vieira Nunes
Universidade Federal do Tocantins - Campus Porto Nacional

Em junho de 1888 o jornal Publicador Goyano que comunicou o retorno de Joa-


quim Ayres da Silva, que conduzia seu filho Francisco Ayres da Silva, da capital goiana
para Porto Imperial1, trazia no mesmo número notas sobre o mais recém e impactante
acontecimento no Brasil, a abolição da escravidão. Vários jornais da época trataram
sobre o assunto poucos dias depois de 13 de maio, assunto este que já estava sendo deba-
tido amplamente em Goiás ao longo de toda aquela década. Nas páginas impressas, nas
ruas, nos trieiros, clubes e outros ambientes a abolição ocupava significativo espaço nas
mentes goianas, principalmente em relação às incertezas quanto aos desdobramentos
que causaria. Na cidade de Goyaz para tratar de negócios, política e cultivar sua influ-
ência junto a algumas autoridades da Capital, Joaquim Ayres como comerciante, líder
político portuense e proprietário de escravos acompanhou de perto as conversas atento
aos muitos posicionamentos sobre a questão.
Na mesma página em que figura o Major Joaquim Ayres da Silva, como o pai que
conduz seu filho de volta para Porto Imperial, sai numa coluna ao lado uma pequena
nota comemorando a data que se tornaria o consagrado 13 de maio, como sinônimo de
“liberdade, o Dia de ouro para o Brazil em que se firmou a lei mais sabia, mais sublime

1  Foi uma das principais cidades do então Norte goiano, antes da divisão do Estado de Goiás. Conforme os
documentos preservados no arquivo do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, em meados de 1738
era povoado de Porto Real do Pontal; em 1809 “o lugarejo foi elevado à categoria de julgado”; com a denomi-
nação de Porto Imperial tornou-se vila pelo decreto de 1831; pela lei provincial de 1861 ganhou a condição de
cidade; em 1890 o município de Porto Imperial, passou a ser denominada de Porto Nacional, situada na parte
central do Estado do Tocantins.

31
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

e mais humanitária, que figura para um povo independente. Os homens que a fizeram
devem orgulhar-se assim como eu hoje me orgulho de ser brasileiro”.2 Poderia ser uma
simples coincidência não fosse toda a trama que envolveu Joaquim Ayres e um negro
chamado Faustino sobre a questão de o último ser escravizado pelo primeiro. Por mais
de dois anos o caso foi acompanhado pelos principais jornais da capital goiana e motivo
de longas e calorosas discussões. Não por acaso, as colunas se dedicaram ao caso, mas
porque se tornou em símbolo do jogo de forças travado entre a população goiana sobre
como as ideias abolicionistas se assentariam em Goiás.
Joaquim Ayres da Silva foi acusado na capital de manter como escravo Faustino
Pereira de Oliveira, homem que se dizia livre, conforme testemunhos e uma “sertidão
da Tesouraria Geral da Fazenda”, que utilizou como provas da sua condição de liberto,
portanto, caracterizando como ilegal o fato de ser tomado como cativo seja por quem
fosse. No entanto, Joaquim Ayres negou a acusação do seu escravizado e apresentou
também provas que confirmaram a sua versão do fato, de que Faustino era efetivamente
seu escravo desde 1877, quando o comprou do Cap. João Roiz Nogueira, com escritura
firmada em 1884 na cidade de Porto Imperial, onde o mesmo se encontrava cativo, para
ele, dentro dos trâmites da lei. O juiz substituto interino, vereador Antonio Jose Ignacio,
tomou a seguinte decisão:

“Considerando que o cativeiro é contrarrazão natural (...) considerando


que ção mais forte e de maor concideração as razões que há a favor da
liberdade do que as que podem fazer justo o cativeiro (...) considerando
que a prova emcumbe aus que requerem contra a liberdade por que a seu
favor esta a prezunpção pleníssima de dereito; que em favor da liberdade
muitas couzas são outorgadas contra as regras geraes. Por estas razões e
por outras que desnecessário é expor – julgo o autor livre e pague o réo as
custas. Goyaz 16 de junho de 1885”.3

O comerciante portuense se sentindo prejudicado pela sentença resolveu apelar


para sua influência na capital e recorrer da decisão. Dessa vez, contando com o apoio
do desembargador Antonio Felix de Bulhões Jardim, um dos homens mais poderosos
da província, que, com o peso do seu nome, ficou responsável por redigir e encaminhar
a apelação em favor de Ayres. A estratégia do desembargador foi desqualificar todos os
argumentos utilizados pelo juiz para justificar a “inqualificável sentença” que optou pela
liberdade de Faustino. Além disso, colocou em descrédito o próprio juiz, consideran-
do-o como desqualificado, dotado de “notória e patente incapacidade” para a função.
Questionou a validade da sentença já que, “ninguém pode ser chamado à juiz fora do

2  13 de Maio – liberdade. In. Publicador Goyano. Goyaz, 23/06/1888. p.4.


3  Publicador Goyano. Goyaz, 2/08/1885. p. 4.

32
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

seu domicilio”, portanto se constituindo como o verdadeiro réu do processo por ignorar
ou desconhecer as leis, colocando-se como juiz fora da sua área de jurisprudência.4
Não se pode perder de vista que por trás desse imbróglio estavam em jogo os
interesses políticos dos diferentes grupos da elite goiana, em busca de hegemonia, o
que explica as dissidências e alianças no interior dos mesmos. A aliança entre Joaquim
Ayres e Antonio Felix de Bulhões é caracterizada pela troca de interesses em que um ne-
cessita do outro para conquista e manutenção do poder, o primeiro garante a influência
necessária e o controle dos votos para que o segundo goze de benefícios na comarca de
Porto Imperial, e o segundo garante ao primeiro apoio irrestrito nas outras instâncias
do poder, fortalecendo sua predominância na esfera municipal. Para além da dimensão
política a disputa em torno da liberdade ou não de Faustino sugere que houve em Goiás
a quebra de consenso sobre a escravidão.
Nota-se que as ideias abolicionistas, como a liberdade, os direitos dos escravos
garantidos pelas leis abolicionistas, provocaram efeito em Goiás, tornaram-se temas
decisivos para os quais não se poderia mais virar as costas e ignorar, um espaço de
disputa jurídica se estabeleceu e foi utilizado como instrumento também nos embates
políticos, não só pelas autoridades, mas por todos os grupos sociais, inclusive os cativos.
Cada parte envolvida nessas pendências jurídicas observa a lei conforme seus interesses,
convicções ou oportunidade. Os defensores de Faustino colocaram a liberdade como
prioridade, já para o defensor de Ayres o que deveria ser priorizado é o direito de posse
do senhor. Para um a injustiça consistia em escravizar um homem livre, para o outro
seria libertar um escravo, comprado legalmente, do domínio de seu dono. Felix Bulhões
argumenta, tentando convencer sobre a legalidade de manter Faustino como escravo e
a ilegalidade em considerá-lo homem livre:

“Faustino escravo fugido é açoitado em umas chácaras do lado da Baga-


gem, nesta capital, entendeo de conquistar (ou entenderão por elle) sua
liberdade, à mercê da inocência de um vereador da câmara municipal,
arvorado em juiz com jurisdição plena na causa (...) e manifesto que mão
occulta tem abusado e está abusando da absoluta imperícia do juiz agra-
vado, Este feito é tolo uma verdadeira tentativa de estelionato por meio
da Justiça. Começou-se por arvorar o velhacote do escravo fugido em
foro competente para reaccionar o senhor, residente em lugar diverso; e
sob o argumento de que a favor da liberdade, muitas regras de direito se
podem dispensar, dispensou o juiz todas as leis que regulão as compe-
tências. A lei, senhor tem disposição especial, peculiar para o caso: diz
terminantemente que para todos os efeitos cíveis o foro do escravo é o do
senhor – ainda mais: em causa de liberdade, o senhor é, por via de regra o

4 Ibdem.

33
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

réo; é para todas as demandas, salvo excepções expressas, ninguém pode


ser chamado à juiz fora do seu domicilio. Em que fundão os protectores
de Faustino para entenderem que seo caso está no numero de taes ex-
cepções? O réo não foi citado. [...] senhor, tudo isto reclamaria severa
punição criminal do Juiz da 1ª instancia...se tudo isto não fosse atenuado
por sua notória e patente incapacidade (...) V. Magestade provera com
justiça a quem dela carece (...) Goyaz, 28 de junho de 1885. Antonio F. de
Bulhões jardim.”5

A autora Maria Helena de Toledo Machado, no seu trabalho Teremos grandes


desastres, se não houver providências enérgicas e imediatas: a rebeldia dos escravos e a
abolição da escravidão, ajuda-nos a tornar esse momento mais inteligível. Ao descrever
alguns processos envolvendo revoltas de escravos ela analisa as lutas que passaram a
“antepor diferentes autoridades locais em torno da interpretação dos fatos e episódios
que exigiam definições sobre os direitos dos escravos e de seu controle social e jurídico
e sobre a implementação das leis abolicionistas, cíveis e criminais, constituindo, assim,
um território de disputa pública entre diferentes autoridades” (MACHADO, 2009, p.
367-400). Nesse sentido, Goiás também foi palco, nesse contexto, de tensões entre au-
toridades, eram comuns as manifestações públicas de desacordos entre policiais, juízes,
promotores, jornalistas, fazendeiros, comerciantes, em torno das ideias da abolição. O
território de disputa não se limitou apenas ao mundo do governo, mas esteve presente
também no mundo da casa e no mundo da rua, conforme define Ilmar Mattos (1990),
articulando esses diferentes espaços.
O predomínio dos proprietários de escravos no que diz respeito às relações es-
cravistas foi ruindo gradativamente, até o ponto em que Joaquim Ayres já não possuía
poder absoluto sobre a vida de seus cativos, ou sobre a vida do suposto cativo Faustino,
que em épocas anteriores certamente teria sua solicitação completamente ignorada. A
ação dos abolicionistas em Goiás foi determinante para levar casos como o de Faustino
adiante, mesmo frente à fortíssima oposição, ainda que a defesa pela liberdade fosse
apenas um pretexto para prejudicar adversários, ou para promover ou desqualificar a
imagem de alguém. Seja como for, parece-me que homens como Faustino, fossem es-
cravos ou apenas homens livres e pobres, aproveitaram-se dessa situação e jogaram com
ela em prol dos seus interesses e na construção de suas táticas.
Como resposta à apelação de Joaquim Ayres por intermédio de Felix Bulhões,
e sua insistência em garantir o direito de posse sobre o escravizado, o caso de Faustino
aparece no jornal Publicador Goyano6, nas palavras do curador do caso Paulo Francisco

5 Ibdem.
6  O jornal Publicador Goyano se define como Orgão em defesa do povo, ele só responde pelas publicações que
estão na Secção Editorial, que normalmente ocupam a primeira página. As outras três paginas são constituídas
por anúncios e artigos de particulares, pelos quais a redação não se responsabiliza. O jornal foi muito utilizado

34
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Povoa, com mais riquezas de detalhes e ataques diretos à figura de Joaquim Ayres da
Silva, justificando as razões que o levaram a negar a apelação. Apesar do relato tenden-
cioso, ele pode oferecer uma ideia do que esse personagem representava na região norte.
Apresentando uma versão completamente diferente da esboçada por Felix Bulhões, o
Curador afirma que

ninguém desconhece que em nossa província, principalmente no Norte,


existem mandões de aldeia, que dictão a lei ao som do bacamarte. Todo
mundo sabe que Joaquim Ayres é um potentado no Porto Imperial, e que
não há alli um só individuo que se anime a ir d’encontro à sua vontade, e
que assim, um pobre diabo que lhe cahe nas garras como escravo, embo-
ra possa provar a injustiça do seu constrangimento, não encontra apoio,
nem em autoridades nem em particulares, contra o dictador d’aquelle
lugar. E o que aconteceu ao nosso curratelado. Transportado do rio do
somno para a casa de Joaquim Ayres à pretexto de fazer parte da tripula-
ção dos botes – pertencentes à este senhor, que devião seguir para o Pará,
acha-se o nosso curatelado sob as garras d’este potentado, que o retem
como seu escravo. Assim o affirmão as quatro testemunhas que jurarão
n’este processo, e à ellas nos referimos. De volta ao Pará, onde nem ao
menos consentirão que desembarcasse, encontra em Porto Imperial um
moço de fora: recorre à sua proteção para promover a competente acção
contra seu pretenso senhor. E o que acontece?... o moço é perseguido até
o ponto de fugir e ser assassinado juntamente com o infeliz Miguel Lin-
ch. O suposto escravo é agarrado e mandado castigar pelo comandante
do destacamento à pedido de Joaquim Ayres! Atterrado de ameaças, não
encontrando apoio de autoridade alguma, nosso curatelado se ve cons-
trangido à curvar-se a triste condição em que as circunstancias o collo-
carão. Oferecendo-se oportunidade de vir a capital da província, nosso
curatelado, em sua ignorância, entendeu que podia fazer valer aqui seu
direito, e procurou o promotor publico, o ilustrado Dr. Natal, o qual deu
os primeiros passos a seu favor. (...) não procedem, portanto as alegações
firmadas por Perillo & Viggiano, não só porque na advocacia não se ad-
mite firma social, como também porque ninguém pode requerer em juízo
contencioso sem ser advogado ou obter licença, pagando os devidos di-
reitos, e sujeitando-se a responsabilidade. Não podem ser atendidas, por-
que a ellas não acompanhou, como a lei exige, certidão da matricula do
escravo. Finalmente, não podem ser apreciadas, porque não destroem as

por opositores ao grupo dos Bulhões, de maneira que, caso o periódico não se constitua efetivamente como um
veículo declaradamente contrário ao domínio dos Bulhões, foi um importante instrumento para fazer frente aos
veículos controlados por aquele grupo político supracitado.

35
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

provas produzidas pelos depoimentos contestes de quatro testemunhas, e


entre ellas (é de notar-se) um sobrinho de Joaquim Ayres.

Não é tão destituída de fundamento, como parece ao ilustre advogado


da parte, a presente causa. A favor da liberdade, hoje tão protegida por
vossa majestade imperial, as leis dispensão muitas formalidades (...) meu
curatelado não podia encontrar no Porto Imperial, pequena povoação do
Norte d’esta província, onde seu pretenso senhor gosa de influencia de
mandão de aldeia, justiça por sua causa. Recorreu a justiça da capital, on-
de a preponderância d’este não podia ter acção. (...) apesar da minha no-
tória incapacidade para desempenhar tão importante encargo, por amor à
humanidade e à grande causa da abolição que ocupa actualmente a aten-
ção d’este vasto império, aceitei-o. (...) o tabelião que lavrou a escriptura
de venda de meu curatelado, é o celebre Francisco Ignacio, que já esteve
prezo na cadeia d’esta capital, por crime de falsificação de testamento.
Onde temos a prova de que tanto a escriptura como a referencia não sejão
falsas? A aurea lei de vite e oito de Setembro, no artigo oitavo, paragrapho
segundo, diz “os escravos que, por culpa ou omissão dos interessados, não
forem dados à matricula, até um anno, depois do encerramento d’esta,
serão por esse facto considerados libertos. Dado mesmo o caso de que
meu curatelado fosse escravo, o appelante não provou sufficietemente que
este tivesse sido matriculado. (...) o cativeiro é contra o direito e a razão
natural, e a liberdade tem a seu favor prescripção pleníssima de direito e a
quem contra ella requer imcube o ônus da prova, pois mais fortes são e de
maior consideração as razões que há a favor da liberdade, do que as que
podem fazer justo o cativeiro.7

Como se pode notar, Joaquim Ayres da Silva é apresentado, nas palavras do cura-
dor do caso, com base em quatro testemunhas e na versão do próprio Faustino, como
um homem que detém muito poder no Norte de Goiás, sobretudo na cidade de Porto
Imperial. Importante observar que ao justificar a razão pela qual o caso foi tratado na
capital, o curador de Faustino caracteriza não só a figura de Ayres, mas também o Norte
de Goiás, com certa distinção em relação a outras localidades da província. Porto Im-
perial e o Norte aparecem como lugar de injustiças, onde homens como Joaquim Ayres
ignoram as leis e as autoridades legais e criam as suas próprias regras com base em suas
vontades e interesses, a partir da autoridade que possuem sustentadas pela força, rique-
za e mobilização de capital político.

7  Publicador Goyano. Goyaz, 9/08/1855. p. 3- 4.

36
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Porto Imperial é descrita como “pequena povoação do Norte d’esta província,


onde seu pretenso senhor goza de influencia de mandão de aldeia, justiça por sua causa”.
A cidade é vista como aldeia que possui um dono, diante do qual ninguém pode obter
vitória; apesar do reconhecimento de que em toda a província existem os seus mandões
de aldeia, há um destaque significativo, um “principalmente”, que reforça a ideia de que
as práticas de injustiça realizadas em nome dos “potentados” e ao som do “bacamarte”8
estão localizadas de forma mais evidente e potencializadas no Norte, onde o Estado e a
Justiça não chegam, por isso é preciso recorrer a eles onde funcionam efetivamente, ou
seja, segundo relato do curador, na capital da província.
Alguém poderia argumentar que as considerações feitas por Paulo Francisco
Povoa têm o objetivo claro de defender Faustino e atribuir culpa a Joaquim Ayres da
Silva, portanto podem não corresponder com a realidade. De alguma maneira tal ar-
gumentação não é equivocada, certamente poderá haver exageros, que devem ser pon-
derados tendo em vista o objetivo do relato, mas a forma como os detalhes do caso e as
ações do “dictador d’aquelle lugar” são apresentados sugere que tais práticas de mando-
nismo eram comuns e não estranharia ninguém caso realmente tenha acontecido. Não
interessa saber se Joaquim Ayres da Silva realmente fez tudo o que o curador afirmou ter
feito, mas sim que aquelas atitudes eram comuns a homens da sua posição.
Nessa perspectiva o relato do curador constitui significativa pista do que Joa-
quim Ayres da Silva representava para a cidade e cidadãos portuenses, bem como do
exercício do seu domínio que “ninguém desconhece e todo mundo sabe”. Como comer-
ciante e fazendeiro ele carecia de mão de obra escrava, naquele período com alto valor
de custo e pouca oferta, principalmente nas regiões centrais do país. Essa dificuldade se
deve em grande medida às leis abolicionistas que aos poucos inviabilizaram a escravi-
dão, ou pelo menos dificultaram sua existência dentro dos parâmetros legais da época
(FLORENTINO, 2005). Adquirir um escravo de forma legal não era tarefa fácil para
alguém do interior da província de Goiás.
Por isso, é muito provável a existência do comércio ilegal de escravos, ou mesmo
o uso do poder, força e negociações entre “mandões de aldeia” para tornar um sujeito li-
vre em sua terra de origem em escravo numa terra relativamente distante dela. Como foi
sugerido ter feito Joaquim Ayres com Faustino, tirando-o das proximidades do Arraial
do Rio do Sono sob o pretexto de compor a tripulação dos seus botes e levando-o para
Porto Imperial, onde o mesmo se tornaria cativo. Tais práticas tornam plausível a outra
ação atribuída a Ayres, ou seja, a falsificação de documentos. Mandatários locais para
adquirirem posses recorriam a acordos com os tabeliães, que, por temor, favor ou por

8  Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, Bacamarte é uma “antiga arma de fogo de cano largo
e em forma de capa campânula”. É significativa a citação da arma Bacamarte, pois se trata de uma arma típica
do século XVIII, o nome correspondia a um tipo de espada no século XVI e passou a nomear uma arma de fogo,
provavelmente em razão da inovação técnica. Ao que parece citar tal arma de fogo no final do século XIX pode
ser uma tentativa de apresentar descompasso, uma forma antiga e obsoleta de poder.

37
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

benefícios produziam documentos conforme o desejo de quem solicitou. Como o caso


de Faustino ganhou atenção da justiça e publicidade pela imprensa, não é de se espantar
que Ayres tenha se valido do seu poder para produzir provas em sua defesa, como a
escritura de que havia realmente comprado o cativo. Ainda mais que o ônus da prova
pesou sobre ele, já que naquele momento sob os fundamentos das leis abolicionistas “o
cativeiro é contra o direito e a razão natural, e a liberdade tem a seu favor prescripção
pleníssima de direito e a quem contra ella requer imcube o ônus da prova”.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, o poder de influência de um “potentado”
se estendia a qualquer autoridade local instituída, sejam as altas patentes do destacamen-
to, seja o juiz, pois seu domínio estava resguardado por um pacto de apoio recíproco
entre os diferentes níveis de poder. Quase sempre os interesses dos ditos potentados se
confundiam com os interesses públicos, porém a causa abolicionista na década de 1880
tratou de diminuir a coincidência de interesses o que provocou tensões pontuais entre
estes com aqueles que ocupavam os cargos públicos. Faz-se necessário ressaltar que em-
bora tenha tamanho domínio, isso não implica em total controle de todas as autoridades
locais, até porque no interior de um mesmo grupo ou família havia divergências, dispu-
tas e dissidências, o que é reforçado pelo fato do próprio sobrinho de Ayres ter testemu-
nhado contra ele, ou mesmo nos seus desafetos que também se aproveitaram da situação.
Portanto a afirmação de que “não há alli um só individuo que se anime ir d’encontro à
sua vontade” se configura num exagero retórico para acentuar o domínio de Joaquim
Ayres da Silva e sua capacidade de manipulação dos resultados de qualquer eventual
disputa. Havia quem rivalizava com ele, inclusive na disputa pelo controle político de
Porto Imperial, como por exemplo, os tenentes Luiz Leite Ribeiro e Frederico Ferreira
Lemos, detentores de poder semelhante ao de Ayres, também comerciantes, fazendeiros
e influentes social e politicamente, que hora se aproximavam por interesses convergen-
tes, hora se distanciavam em razão de algum objeto ou objetivo colocado em disputa.9
Quanto a ter perseguido, ameaçado e assassinado as pessoas que tentaram ajudar
Faustino, isso se constitui uma prática recorrente na província de Goiás, principalmente
em se tratando de pessoas com menor prestígio social que se colocam como obstáculo
aos desejos de homens de poder. Todavia, há que se observar que nesse caso não se trata
de qualquer tipo de perseguição, trata-se de perseguição aos prováveis abolicionistas
que em Porto Imperial tentaram fazer valer os direitos dos cativos, conforme as leis
abolicionistas no caso de Faustino. Uma forma de conter o avanço das ideias abolicio-
nistas, que contrariavam os donos de escravos, era mesmo o uso indiscriminado da
força contra aqueles que as defendiam e tentavam colocá-las em prática. Segundo Maria
Helena Toledo Machado, a historiografia quase sempre esquece como os abolicionistas
eram perseguidos em algumas regiões e localidades do Brasil pelos donos de escravos,
sofriam constantes ameaças de morte e todos os tipos de intimidação. Faz-se necessário

9  Publicador Goyano. Goiaz, 01/05/1886.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

pontuar que essas práticas de perseguição, intimidação, falsificação e ilegalidade não


dizem respeito unicamente a Goiás (MACHADO, 2009, 368-378).
As considerações atribuídas a Joaquim Ayres da Silva não foram desferidas ape-
nas pelo curador de Faustino, foram reforçadas também por um procurador da coroa
que interpôs no caso para desconsiderar os argumentos da apelação feita por Ayres,
confirmando a versão de Faustino e os veredictos favoráveis a ele. Ao dar seu parecer,
fez um histórico do processo entendendo que a venda de Faustino ao Alferes Ayres da
Silva, feita por um residente do Arraial do Rio do Sono, foi indevida. O representante
da coroa, que atende pelo nome F. de P. Lins dos Guimarães Peixoto, manifestou-se da
seguinte maneira:

“Por vezes Faustino quis libertar-se do injusto cativeiro a que estava re-
duzido, e foi sempre contrariado e ameaçado por seu pretenso senhor,
que naquella localidade é homem de influencia partidária e poderoso,
como dizem as testemunhas, temido até pelo próprio juiz de direito (...)
chegando a mandal-o castigar publicamente pelo commandante do des-
tacamento Alferes Pedro Nunes, com duas dúzias de bolos de palmatória
como igualmente juram as testemunhas!!! Na impossibilidade de rehaver
sua liberdade no foro da residência de seu presumido senhor, Faustino
veio para esta capital, onde esteve por algum tempo como pessoa livre
que era, ate que pode apresentar-se as autoridades expondo a injustiça e
crueldade que sofria, e afinal, bem ou mal aconselhado porpoz contra o
apellante a presente acção. No qual demonstrou ser pessoa livre, e como
tal foi reconhecida na 1ª instância (...) que foi confirmada em grão de
appellação para a relação pelo accordão (...) que se baseou nos jurídicos
fundamentos das razões do curador de Faustino e outras provas constan-
tes nos autos. Sendo embargado este accordão (...) e nada se allegando
como também se vê dos embargos, em que seu pretenso senhor reconhe-
ceu o direito de Faustino a sua libertação, contentando-se apenas com o
reconhecimento de sua boa fé, foi apesar disso reformada a 1ª decisão,
para julgar nulla a causa, e reformada sem fundamento algum jurídico,
o que se vê do accordão (...) no qual assignou-se vencido o terceiro juiz,
que bem fundamentou sua razão de decidir. Senhor, que recurso restará
a um infeliz quando reduzido a escravidão para demandar sua liberda-
de em uma pequena localidade do interior desta província, onde não há
advogados, e o seu pretenso senhor é um mandão, um potentado que o
manda castigar só por temer que elle tentasse provar o seu sagrado direi-
to de personalidade?!! Certamente nenhum outro senão o de procurar
justiça fora da localidade do tal mandão; pois foi o que fez Faustino. [...]
Senhor! O accordão do que se recorre contem uma decisão que trouxe ao

39
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

infeliz Faustino Pereira de Oliveira uma injustiça notória é de manifesta


nullidade por ser proferida contra as expressas disposições das ord. Cita-
das. E para reparar-se semelhante injustiça, interpuz o presente recurso
de revista, que espera-se ser attendido. O desembargador procurador da
coroa interino. F. de P. Lins dos Guimarães Peixoto.”10

O procurador da coroa, a partir dos relatos das testemunhas que suplantam todas
as outras provas dos autos, trata Joaquim Ayres como “homem de influência partidária e
poderoso, temido até pelo próprio Juiz de Direito”. Mais uma vez é reforçada a ideia de
que naquela “pequena localidade do interior desta província, onde não há advogados”,
não haveria como fazer justiça contra o pretenso senhor de Faustino, porque o mesmo
possui tamanha autoridade ao ponto de mandar castigar publicamente, com punição
de escravo, o juiz de direito, “primeira autoridade da comarca de Porto Imperial”. Este
último se trata do promotor de justiça Dr. Ignácio Soares de Bulhões Jardim, irmão de
Antonio Felix Bulhões que apoiou Ayres no caso. Pelo histórico apresentado acima é
possível notar as tentativas de negociações que o “mandão” nortense tentou fazer, acio-
nando sempre que necessário a rede de poder em que estava inserido.11
Mas ao que tudo indica, as ideias abolicionistas e a defesa pela liberdade estavam
bem assentadas no território goiano, quase inquestionáveis pelo menos na dimensão
pública, inclusive na cidade de Porto Imperial. O próprio Ayres em algum momento se
preocupou com a imagem que teria quando “reconheceu o direito de Faustino a sua li-
bertação, contentando-se apenas com o reconhecimento de sua boa fé”. O juiz de direito
da Comarca de Porto Imperial dificilmente iria contra Joaquim Ayres da Silva, não por
temor, mas pelos pactos estabelecidos com a família, em contrapartida, ir contra a causa
natural da liberdade, naquele contexto, também o denunciava, principalmente quando
a demanda chegava à capital. Talvez a ideia da coerção tenha sido um argumento, uma
forma de se isentar de qualquer culpa e justificar sua posição. Em outras palavras, a
ideia do temor deixa a mensagem de que se posicionar de forma favorável a Ayres, ou se
omitir diante do caso, não significou ser contra a liberdade de Faustino.
O jornal que publicou a peça jurídica do procurador da coroa foi o Jornal Goyaz,
pertencente a Felix Bulhões, por meio do qual se articulavam os interesses do seu gru-
po político que se afirmou por um tempo como sendo de tendência liberal, grupo do
qual Ayres também fazia parte, mais pela aliança do que pela doutrina. O periódico em
questão não explorou o caso, como o Publicador Goyano, certamente porque denun-
ciava contra alguns dos seus membros. Mesmo assim, curiosamente, tornou público
aquele parecer anunciando o desfecho do episódio e reafirmando a imagem de Joaquim
Ayres da Silva que aqui se tentou evidenciar. O Publicador Goyano, sob a assinatura

10  Goyaz. Goyaz, 03/12/1886. p. 2-3.


11  Publicador Goyano. Goyaz, 11/12/1886. p. 4.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

de A justiça, lança um questionamento: “Porque motivo o Sr. Desembargador Bulhões


consentio a publicação em seu jornal de uma peça jurídica que traz uma acusação tão
grave contra o seu irmão juiz de direito da comarca de Porto Imperial?” O próprio ques-
tionador apresenta uma resposta com possibilidades que soam bastante razoáveis: “ou o
Sr. Bulhões não prestou a devida atenção ao escripto e mandou publical-o ou o interesse
politico exige que ele prefira a boa vontade e amizade do procurador da coroa, aos laços
de sangue!!!”12 Ou quem sabe foi apenas uma forma de mostrar que não eram contrários
aos princípios da liberdade defendidos pelos abolicionistas. Os posicionamentos são
complexos e difíceis de analisar, por vezes são aparentemente contraditórios. Mas neles
é preciso observar o que se torna de conhecimento do público e o que se não torna.
As práticas e ações cotidianas nem sempre correspondem às posições assumidas
publicamente. Por exemplo, o poder de mando exercido por autoridades como Joaquim
Ayres da Silva foi a forma mais comum na Província de Goiás, prática conhecida por
todos, qualquer coronel ou similar usava seu prestígio para amedrontar, ameaçar, punir
os avessos as suas vontades, mas no espaço da imprensa e noutros discursos públicos to-
dos, até mesmo os próprios coronéis, condenavam tais práticas costumeiras. O mesmo
ocorre em relação ao debate abolicionista, as ideias defendidas nos espaços públicos di-
ferem das práticas. Dito de outro modo, não difere do que ocorre na política brasileira,
para não dizer na sociedade Brasileira ou na humanidade de forma geral, não há quem
não condene a corrupção, mesmo assim ela está disseminada por toda parte. Naquela
ocasião, já se tornava constrangedor em Goiás condenar os princípios abolicionistas,
embora a manutenção das relações escravistas não fosse estranha a quase ninguém.
Os adversários políticos do grupo dos Bulhões, prováveis conselheiros de Faus-
tino, jogaram com essa situação no Publicador Goyano, aproveitando-se do caso do seu
protegido para desqualificarem Felix Bulhões e seus aliados. Antes de ser pejorativa-
mente chamado de “Abolicionista Esclavagista Desembargador Bulhões”, coloca-se uma
pergunta pertinente, a mesma que me fiz insistentemente diante da documentação:
“Como é que este senhor desembargador, que se tem proclamado abolicionista enragé,
vai advogar contra a liberdade encontestavel de Faustino?”13 Não se sabe ao certo se
a liberdade de Faustino era incontestável, mas todos os posicionamentos dos homens
de poder, sobretudo os propagandeados via imprensa, são passíveis de contestação. As
convicções, via de regra efêmeras e multáveis, de homens como Felix Bulhões, Joaquim
Ayres da Silva e outros membros da elite goiana, só fazem sentido se observadas à luz da
ocasião e conveniências. Pregavam o abolicionismo, colocavam-se como protagonistas
locais da suposta extinção da escravidão, mas atuavam em favor do escravismo. Nisso
se nota a grande preocupação com a imagem pública e com a opinião pública, tudo que
se tornava assunto para os jornais era pensado e criado tendo em vista o crivo dos re-

12 Ibdem.
13  Publicador Goyano. Goyaz, 11/12/1886. p. 3.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ceptores, tal preocupação constituiu os leitores também, ainda que indiretamente, como
construtores dos periódicos goianos.
O filho Francisco Ayres da Silva, ainda na juventude, como estudante do ensino
secundário, que viajava com certa frequência da capital para Porto Imperial, presenciou
os debates abolicionistas em Goiás e viu como eles influenciaram na prática a vida de sua
família. Ficou entre as ideias que se propagavam e as práticas do seu pai. Viu como, prin-
cipalmente, os homens de poder tentaram conciliar o que para nós parece inconciliável,
a defesa pela liberdade e manutenção das relações escravistas, a opinião pública e os inte-
resses particulares. Assistiu às tensões e negociações entre os diferentes grupos sociais e
no interior deles. Presenciou como a causa da abolição se tornou sinônimo de uma nova
sociedade e desenvolvimento, irresistível até para aqueles que não queriam abrir mãos
dos seus cativos sob os quais construíram suas riquezas e poder de mando. Acompanhou
os diferentes projetos em disputa e a (in)flexibilidade de seu pai frente a eles.
Seria um equívoco afirmar que o debate abolicionista não chegou ao norte de
Goiás, ou se caso chegou foi com grande defasagem em relação aos outros lugares. Ou
mesmo pensar que esta parte central do país era uma terra sem lei, não reconhecendo
que as leis, bem como as ideias, estabeleceram-se num jogo com regras peculiares. Nes-
se aspecto a noção de isolamento e distância em relação a outros espaços foi um fator
positivo, pelo menos para homens como Joaquim Ayres que jogaram e se beneficiaram
com essa condição.
As ideias abolicionistas, como outras, chegaram ao norte no calor da hora, pro-
vocando, como vimos nesse caso pontual, efeitos na vida de muitos, alterando a per-
cepção sobre a realidade. A principal diferença é que em cidades como a de Joaquim
Ayres da Silva tais ideias enfrentaram obstáculos mais intransponíveis, especialmente
pela forma como os donos de escravos exerciam autoridade e pela falta de interesse e/
ou dificuldade em fiscalizar as relações escravistas sob a ótica das leis abolicionistas,
exemplificadas na recusa do juiz de direito da comarca de Porto Imperial em agir contra
Joaquim pela liberdade de Faustino, e na disputa travada entre os envolvidos pelo lugar
onde o caso seria julgado. Mesmo sendo atribuídas a Joaquim Ayres da Silva, atitudes
como falsear documentos, perseguir, castigar e até mesmo assassinar pessoas, a única
coisa que lhe pesou efetivamente aos ombros foi ter feito tudo isso para manter cativo
um homem supostamente livre. Ser contra a liberdade havia se tornado inconfessável,
pois significava ser contra o progresso, uma causa absolutamente injusta, o que lhe ren-
deu uma imagem construída pelos seus adversários em tom de ofensa, da qual por vezes
se tentou esquivar, a de “mandão, manda chuva” que

(...) em uma localidade influi tanto nas relações sociaes, civis ou parti-
culares à ponto de obstar o desenvolvimento, progresso e administração
da justiça do logar, desde que esses elementos forem contrários aos seus

42
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

interesses particulares. O mandão anda sempre cercado do peor pessoal:


proteje as causas injustas e inconfessáveis, que é em geral dinheiroso, con-
serva debaixo da sua dependência todo aquele, que recorre a sua bolsa.
Enfim o mandão é uma peste ou uma calamidade social.14

Embora tenha perdido o caso, Joaquim Ayres da Silva prosseguiu como homem
de muito poder no norte goiano e influência em toda província, esquivando-se das ima-
gens negativas. No ano seguinte figurou na primeira página do Goyaz, agora Orgam
Democrata, como candidato do Partido Liberal contra os candidatos conservadores15
para ocupar o cargo de membro da Assembleia Legislativa Provincial. Na mesma pá-
gina, várias notas com teor abolicionista, anunciando os últimos dias da escravidão, os
passos de abolicionistas como Joaquim Nabuco, a injusta perseguição aos “valentes abo-
licionistas”, a libertação de escravos em espécie de contagem regressiva, e com tom de
euforia comemorando o que naquela altura já era previsível, “não há diques que possam
conter a inundação abolicionista, que já atinge os tectos do edifício social”.16 De volta
da capital para Porto Imperial, logo após a abolição da escravidão no Brasil, Francisco
Ayres assistiu seu pai se tornar reconhecidamente um deputado liberal eleito pelo 2º
distrito, que corresponde aos eleitores do Norte.17
Joaquim Ayres da Silva acompanhou, como deputado, a mudança de regime
político no Brasil. No cargo de deputado, eleito consecutivamente, viu o Brasil deixar de
ser Império para se tornar República. Sua presença no poder representa o grau de trans-
formação política que ocorreu na província goiana em razão da Proclamação da Repú-
blica. Mudaram-se os termos e o nome dos partidos, mas nem tanto os personagens e
a forma de fazer política. Paralelamente a cidade natal do filho Francisco Ayres da Silva
mais uma vez registrou no nome a mudança de regime político, sem objeções notórias,
pois, após a proclamação de que o Brasil deixaria de ser um Império para se tornar
República, proclamou-se também que Porto já não poderia ser chamado de Imperial,
pois tal designação perdera o sentido de ser. A mudança no nome significou uma forma
de mudança de pertença, uma negação a tudo que foi associado ao termo Império, ab-
solutamente negativado, em decorrência de décadas de debates em todo Brasil, ou seja,
um sistema político e administrativamente obsoleto que se constituiu como empecilho
para o desenvolvimento do país. Para fugir do estigma, negar uma pertença que tornou
indesejada, confirmar o domínio republicano e consolidar o regime no estado, Porto
passou a ser Nacional.

14  Op. cit. p. 4.


15  Mobilizados, dentre outros, pelo jornal A União: orgam do partido conservador. A união. Goyaz, 7/04/1888.
16  Goyaz. Goyaz, 18/11/1887. p. 1.
17  Goyaz. Goyaz, 16/08/1888. p.4.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Como Joaquim Ayres era o responsável pelas assinaturas do Jornal Goyaz, em


Porto , Francisco Ayres da Silva, de volta ao acolhimento da sua família, provavelmen-
18

te leu naquele periódico da capital, em 1890, que “Porto Imperial – esta cidade pas-
sou a denominar-se – Porto Nacional”.19 Manter a designação anterior seria qualquer
coisa como (re)afirmar e (re)assumir o descompasso em relação à dinâmica brasileira.
A mudança embora não tenha redundado de imediato em transformações efetivas na
materialidade da cidade ou em sua organização social, significou uma renovação, e por-
que não a inovação, de diferentes sonhos, esperanças e expectativas daqueles que nela
habitavam e/ou nela se habituaram a viver. Para uns a possibilidade de ascender social-
mente, para outros a plena liberdade, para alguns mais acesso ao poder, para muitos
ampliação de direitos e igualdade social, maior integração da cidade com outras regiões
de uma nação em plena construção. Enfim, entre expectativas alcançadas e frustradas
não se tratou apenas de uma alteração nominal, mas a expressão de que havia na disputa
pelo nomear outros aspectos em jogo.
O capital político, material e simbólico de Joaquim Ayres se estendeu gradativa-
mente para os seus descendentes, seu filho o Dr. Francisco Ayres da Silva, como homem
influente, jornalista e líder local de partido político, com bom capital de relações sociais,
com prestígio social e cultural devido a sua formação em medicina, com boa condição
material decorrente dos negócios da família e os cargos públicos que ocupou, reconhe-
cidamente forte liderança política com poder e autoridade, sobretudo, nos arredores de
sua cidade, elegeu-se Deputado Federal em 1913. Poderíamos citar vários nomes, pois
desde então é comum um Ayres na cena política. O nome da vez, que está em atuação,
trata-se do Deputado Estadual Ricardo Ayres que tomou assento no poder em 2014.
Falando em jogo e em disputa pelo nomear vejamos rapidamente alguns dos
desdobramentos do caso abordado. Atualmente Joaquim Ayres da Silva dá nome a uma
das principais avenidas do centro de Porto Nacional. Os nomes de boa parte da sua
parentela estão igualmente estampados nas ruas do centro histórico da cidade. Alguém
poderia perguntar, mas quanto a Faustino Pereira de Oliveira? Bem, esse, como lem-
brança incômoda, foi estrategicamente lançado ao esquecimento, assim como a história
da escravidão e da Abolição no norte goiano de outrora.
Esse foi apenas mais um episódio, não exatamente igual nem tão diferente, entre
tantos outros ocorridos na história do Brasil com desfecho semelhante. Essa realidade
parece ainda atribuir razão a afirmação de Walter Benjamin, com ela e com a emergên-
cia que suscita encerramos o artigo. “Ora, os que num momento dado dominam são os
herdeiros de todos os que venceram antes. [...] Todos os que até hoje venceram partici-
pam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que
estão prostrados no chão” (BENJAMIN, 1987, p.222-232).

18  Goyaz. Goyaz, 10/04/1886. p. 4.


19  Op. Cit. 8/04/1890. p. 3.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

A condição de vida
nas periferias de
São Paulo e o uso
do Rap nas salas de
aula
Gustavo Mota
INHCS/UFG/RC
Dra. Lilian Marta Grisolio
INHCS/UFG/RC

Introdução
Inicialmente a proposta desse estudo era analisar as temáticas exploração e tra-
balho na periferia de São Paulo através das letras de rap e como isso poderia ser usado
nas escolas. Porém, o processo de leituras e análises constatamos que a partir da análise
das letras, fonte escolhida, constatou-se que os temas trabalho e exploração são aborda-
dos dentro de uma conjuntura maior, ou seja, na verdade o tema desenvolvido nos raps
tratam da condição de vida das populações periféricas. Assim, não podemos especificar
duas temáticas apenas, mas sim, uma gama de assuntos ligados a condição de vida das
populações na periferia. Além disso, a partir das considerações no parecer de aprovação
do nosso projeto ficou clara a necessidade de ampliar a análise proposta e articular com
a educação básica, condizente com o curso de Licenciatura em História, local desenvol-
vemos esta pesquisa. Feitas essas observações, fizemos um redirecionamento e altera-
ções na proposta e bibliografia citadas.
O título desse trabalho é o nome do CD lançado em 1998 pelos Racionais Mc’s.
Sobrevivendo no inferno é uma alusão bastante pertinente sobre a vida nas periferias no
Brasil. São inúmeras às dificuldades tais como: falta de acesso à saúde, educação, sanea-
mento básico, transporte de qualidade, acesso à cultura, entre outros. Nesta pesquisa, a
partir das letras dos raps que buscam retratar a realidade da periferia, analisamos como
se representa e se problematiza as condições de vida. Refutamos aqui, os discursos que
responsabilizam as pessoas das periferias de São Paulo como culpadas de seu próprio
fracasso. Essa individualização do fracasso, termo muito usado por especialistas polí-
ticos tem como objetivo desresponsabilizar o Estado e culpando as vítimas do descaso
por sua condição de vida.

47
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Optamos pelas músicas do cantor Criolo e do Grupo Racionais Mc’s, pois são
dois dos maiores expoentes desse segmento, além disso, trata-se de militantes que usam
a música e sua visibilidade como artistas reconhecidos para retratar e denunciar a re-
alidade nas periferias paulistas. Com isso, praticamente estava estabelecido o recorte
geográfico do trabalho visto que os artistas dialogam diretamente com suas origens e
usam como inspiração os bairros do Capão Redondo e Grajaú, na zona sul da cidade de
São Paulo. Vale destacar que isso facilitou o trabalho, pois abordar todo o conjunto de
periferias em São Paulo, cidade com mais de 12 milhões de habitantes. Existem muitos
trabalhos que abordam as diferenças entre bairros periféricos nas divisões das zonas do
município e diferentes valores e realidades e suas especificidades.1 No caso desse traba-
lho, interessou mais como estes músicos retratavam a realidade que vivem e como isso
pode no cotidiano escolar ser uma nova linguagem para temas em sala de aula.
A motivação em desenvolver esse tema de pesquisa foi para que eu pudesse en-
tender o meu entorno e as questões sociais do mundo em que nasci e fui criado. Sempre
fui rodeado por uma visão de mundo que me fazia pensar para além da minha realida-
de. Por muito tempo não entendia o porquê as pessoas viviam naquelas condições, mas
sabia que aquilo não era certo, a indignação pela forma como as pessoas eram tratadas
e a falta de condições básicas de vida sempre fizeram parte da minha vida. Esse trabalho
foi uma maneira de tentar apreender essas questões e colaborar na minha formação
como professor de História, consciente e atuante.
A música é uma linguagem essencial em nossa sociedade e por isso uma grande
aliada para as atividades escolares2. E com o rap pude encontrar algumas das respostas
que procurava, entendendo que as condições de vida das pessoas não é um estado na-
tural, não reside na falta de vontade de trabalhar, que milhões de pessoas trabalhado-
ras e honestas não estão em condição de miséria nas periferias por falta de mérito ou
competências. O que o rap denuncia, é que além do descaso, existem as intenções do
modelo econômico. Isso é histórico, e trabalhar com essa temática nas aulas de História
é a proposta defendida neste estudo.
Primeiramente, neste artigo, abordaremos a relação da música e da História para
mostrar como este já é um tema consagrado nas pesquisas sobre História e Educação.
Depois um breve histórico do rap como subgênero de canção e importante movimento
cultural. Em seguida ilustramos algumas análises realizadas com os raps usados aqui
como fonte e como estes possibilitam análises do real que podem ser importantes re-
cursos na sala de aula.

1  Como exemplo citamos a pesquisa realizada pela Fundação Abramo intitulada: Percepções e Valores Políti-
cos nas periferias de São Paulo disponível em www.fpabramo.org.br.
2  Ver: FERREIRA, 202.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Música e História
No texto História e música popular: um mapa de leituras e questões de Marcos
Napolitano, o autor faz um apanhado de leituras e autores em torno da reflexão historio-
gráfica da música popular brasileira, explicando a trajetória sobre os estudos da música
e sua relação com a História, quais os pioneiros e principais teóricos. Essa fundamenta-
ção é importante, pois nos aproxima com a fonte aqui analisada, principalmente no que
diz respeito a música popular:

A música popular é fruto de um cruzamento da música ligeira com as


músicas tradicionais, das danças de salão com as danças folclóricas. Até
aí nenhuma novidade, não fosse o momento histórico que propiciou este
encontro, marcado pela expansão da industrialização da cultura e pelo
surgimento das sociedades de massa. (NAPOLITANO, 2007, 155)

Neste texto, ainda, ele afirma que alguns estilos musicais eram mais privilegiados
nas pesquisas e na Academia, enquanto outros eram discriminados por serem conside-
rados estilos menos eruditos.

Os estudos sobre música popular brasileira se concentravam em alguns


temas privilegiados e consagrados, enquanto outros temas, abordagens e
fontes permaneciam praticamente inéditos ou pouco explorados. Na área
de ciências humanas há, nitidamente, um debate concentrado em dois
objetos: a MPB dos anos 1960 e o Samba. Esta tendência se repete nos
títulos de biografias e crônicas jornalísticas. (NAPOLITANO, 2007, 159)

Porém, atualmente tanto a Academia, de um modo geral, assim como a própria


História, já ampliaram o leque de temas e gêneros para estudo, abrindo para outros
gêneros da música popular. Segundo o autor, “não há mais o preconceito generalizado
ou as dúvidas se a música popular é um objeto legítimo ou não para o historiador” (NA-
POLITANO, 2007, P. 170).
A música sempre foi usada como objeto de transformação da realidade que nos
rodeia, afinal, em toda música, segundo Marcos Napolitano, encontra-se um sentido
sociocultural e uma ideologia caracterizando-a como parte inerente da História. O pro-
blema é perceber como a música trata os mais variados temas dentro da sociedade, ou
como ressalta o autor, “(...) a questão, no entanto, é perceber as fontes audiovisuais e
musicais em suas estruturas internas de linguagem e seus mecanismos de representação
da realidade, a partir dos seus códigos internos”. (IDEM)
Assim, é necessário buscar quem são esses agentes, o lugar da fala, quais eventos
são tratados, qual o local representado, as intencionalidades, os interlocutores, entre ou-
tros. Necessita localizá-la no tempo em que foi escrita para que assim ela possa ser enten-

49
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

dida. O historiador deve sempre atentar-se ao fato de a coleta de documentos ser sempre
coerente com o período, com o objeto e a problemática que as músicas contem, segundo
Napolitano, essa é uma regra básica para a análise de um documento não escrito.

Rap e História
O rap surgiu na Jamaica nos anos 60, e posteriormente levado aos Estados Uni-
dos, tendo grande influência nos bairros mais pobres, ganhando bastante popularidade
entre os jovens de baixa renda e desde suas origens sendo usado para a crítica social e
da realidade.
Rap é uma sigla que significa Rhythm And Poetry, ou em português, Ritmo e
Poesia, denominado assim, pois integra uma combinação entre a linguagem verbal e a
linguagem musical, ou seja, melodia e ritmo. Dessa forma, o Rap articula a linguagem
oral e a escrita, sendo uma característica predominante as rimas.
Usado quase como um discurso, o Rap procurou sempre denunciar as condi-
ções nos bairros pobres. As letras normalmente são extensas e relatam a vida cotidiana,
preconceitos, violência, etc. De maneira geral, são letras e ritmo que narram a miséria e
utilizam a linguagem dos jovens da periferia, gírias e expressões que tornam a música o
símbolo de uma forma de ser, pensar e agir. Unidas à outras artes como dança e grafite,
formam uma manifestação cultural.3
Identificada como linguagem própria dessa juventude periférica que fala das di-
ficuldades, revoltas, incertezas e sobrevivência, o rap foi se transformando ao longo das
décadas, surgindo ramificações, novas temáticas e estilos.
Nas letras de cantores como 2pac (rapper estadunidense considerado o maior
rapper de todos os tempos), Snoop Dogg, Akon, Eminen entre outros rappers, o rap foi
se consolidando no mercado fonográfico. No Brasil Sabotage (rapper assassinado em
janeiro de 2003), Black Alien, Emicida, Racionais e Criolo são alguns que se populariza-
ram. É importante destacar que o rap conquistou este espaço no cenário da música por
que é entendido como uma expressão da realidade de grande parcela da população e
seus dilemas e se tornou uma arma cultural contra a repressão e o preconceito.

Rap, Crítica social e Educação


Do final do feudalismo até a revolução industrial, a sociedade passou por uma
transformação nos meios de relação social4, como afirma Lessa e Tonet, “Após a Revolu-

3 Ver: O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva de Bruno Zeni disponível em http://www.scielo.
br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100020
4  No capitalismo, as relações sociais são, antes de mais nada, instrumentos para o enriquecimento pessoal.
(Lessa e Tonet, 2011)

50
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

ção industrial, a sociedade burguesa atingiu sua maturidade e amadureceram também


as suas classes fundamentais: a burguesia e o proletário”. (LESSA; TONET, 2011, 84)
Com a consolidação desse novo modelo econômico baseado no capital, a socie-
dade, passou a possuir uma nova forma de exploração do homem pelo homem. Durante
o processo de transição e a expropriação das massas camponesas, como por exemplo,
o sistema de cercamentos de terras comuns, a população foi sendo expropriada e bur-
guesia passa a controlar o sistema de produção. Os camponeses que outrora se viam
munidos de todos os artefatos necessários para produzir seu sustento, passam a vender
a força de trabalho. Nas palavras de Lessa e Tonet,

Contudo, para que a força de trabalho possa ser convertida em mercado-


ria, (...) é necessário que o trabalhador seja separado dos meios de produ-
ção e do produto produzido. (...) à burguesia europeia acumular capital
na escala necessária para transformar progressivamente o artesão medie-
val, que trabalhava em sua oficina, com suas ferramentas, sua matéria-
-prima e com a posse do produto final, em um trabalhador assalariado
justamente porque perdeu a posse de todo o resto, menos de sua força de
trabalho. (LESSA; TONET, 2011, 109)

Assim sendo, aqueles que não conseguem se adaptar a essa nova configuração
são destruídos pelo capitalismo.

Ou seja, o capital, que se expressa nessa nova forma de relação entre os


homens que é a mercadoria, se desenvolve na história como uma potên-
cia incontrolável. Tudo o que não consegue se adaptar a ele é por ele des-
truído. (LESSA; TONET, 2011, 123)

O capital passa a estruturar a nossa vida cotidiana, assim,

O capital de hoje tem apenas uma utilidade: comprar mais força de traba-
lho (diretamente ou indiretamente, quando compra meios de produção)
para aumentar a mais-valia e, assim, acumular mais capital num movi-
mento que se repete incessantemente. (LESSA; TONET, 2011, 126)

O homem passa a apenas a produzir e com essa produção passa a reproduzir,


também, a desumanização do próprio homem. Com o pouco que recebe pelo que faz,
o homem passa a se sujeitar a todo tipo de situações. Como podemos ver a crítica nas
letras dos racionais,

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Dinheiro é bom,
Quero, sim, se essa é a pergunta
Mas a dona Ana fez de mim um homem e não uma puta!5

Na música, eles fazem referência de como o homem faz tudo para ganhar seu
sustento, assim como uma prostituta. Vale lembrar a premissa básica do capitalismo em
relação à produção, força de trabalho e salário, a utilidade do trabalhador é produzir, e
para que dê lucro, deve produzir um valor maior do que ele mesmo vale, assim o dono
dos meios de produção extrai do trabalhador não apenas a sua força de trabalho, como
também a mercadoria e o lucro.
Assim sendo, a sociedade passa achar normal e defender esse tipo de relação,
os valores da sociedade capitalista como meritocracia, individualismo, propriedade e
desigualdade social são entendidos como naturais e como discutiremos mais à frente, a
escola é um fator determinante para continuação desse discurso. Exatamente por isso, a
defesa aqui, de que novas linguagens sobre a sociedade e sua realidade sejam utilizadas
na escola como forma de promover novos olhares mais críticos e plurais.
No processo de convencimento que as condições são naturais, que essa estru-
tura social é assim naturalmente e que no máximo a sociedade pode fazer ajustes, mas
não alterar o estado das coisas, a população mais pobre e de periferia sofre as maiores
consequências desse modelo econômico. Aqui, ressaltamos que não apenas nos refe-
rimos as periferias das grandes cidades, mas sim as periferias do mundo que foram
colonizadas, exploradas e abandonadas a sua própria sorte.
Nas letras dos Racionais MC’s encontramos trechos que mostram esses julgamen-
tos morais, sociais e essas condições de vida. Um ponto interessante a se ressaltar é como
está presente a religião evangélica nas letras deles, e como essa religião serve de alento a
muita mazela. Diferente das músicas do Criolo, onde é marcante a presença de religiões
afro-brasileiras. As letras analisadas foram de três músicas Do álbum Nada como um dia
após o outro do ano de 2002: Jesus Chorou, Vida Loka parte 1 e Vida Loka parte 2.
Jesus Chorou é uma música de quase 8 minutos de duração que parte de uma
análise inusitada: a lágrima. Nessa música o mundo e suas injustiças são a motivação
para o choro, inclusive de Jesus.

O que é, o que é?
Clara e salgada
Cabe em um olho
E Pesa uma tonelada
(...)
Na calada ela vem

5  Música Jesus Chorou de 2002.

52
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Refém da vingança
Irmã do desespero
Rival da esperança
(...)
(É quente)
Borrou a letra triste do poeta
(Só)
Correu no rosto pardo do profeta

A música trata também da desesperança, que apesar de lutar muito por suas ori-
gens e por sua raça, o rapper acaba sendo atacado por alguns, passado como charlatão
que não se preocupa com ninguém. Que só se importa com o dinheiro e com a fama. E
por isso acaba sendo sempre ameaçado.

Ih, o bico se atacou, ó! Falou uma pá do cê


Tipo o que?
Esse Brown aí é cheio de querer ser
Deixa ele moscar, vir cantar na quebrada
Vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada
Periferia nada, só pensa nele mesmo
Montado no dinheiro e cês aí no veneno?

Mas salienta que apesar disso, o rapper faz o que faz por sua raça, e que as pes-
soas falam isso para crescer às custas dele. Que as pessoas não entendem a importância
que ele tem, e toda a filosofia de não dar ouvidos as grandes emissoras por ser contra os
desserviços que elas fornecem contra as populações periféricas. E que por isso já sofreu
muita retaliação, e que não passa isso para ninguém.

Quem tem boca fala o que quer pra ter nome


Pra ganhar atenção das mulher e/ou dos homem
Amo minha raça, luto pela cor
O que quer que eu faça é por nós, por amor
Não entende o que eu sou, não entende o que eu faço
Não entende a dor e as lágrimas do palhaço

Discorre sobre outros importantes nomes, que assim como ele, lutaram por jus-
tiça, mas que apesar disso, morreram de forma violenta por conta de seus ideais, e mui-
tas vezes pelas próprias pessoas que ele defendia.

Gente que acredito, gosto e admiro


Brigava por justiça e paz, levou tiro
Malcolm X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Che Guevara, 2pac, Bob Marley


E o evangélico Martin Luther King

Nesta música o tom é de desilusão com um mundo injusto, o narrador se coloca


como atormentado pelas mazelas do mundo, mas ao mesmo defende que se não tiver
uma atitude pode ser engolido pela realidade, até enlouquecer ou matar.

Diz que homem não chora


Tá bom, falou
Não vai pra grupo irmão
Aí, Jesus chorou

Porra, vagabundo
Ó, vou te falar
Tô chapando
Eita, mundo bom de acabar!

Já a música Vida Loka parte 2 enfatiza a valorização excessiva do dinheiro, o ra-


cismo e as consequências da miséria. Podemos, a título de ilustração destacar um trecho
que revela uma forte crítica social, Mano Brow fala sobre o desejo de uma sociedade de
consumo, baseado no american way of life, contrapondo com a realidade da periferia de
São Paulo, o Capão Redondo e as dificuldades de vida nessa região:

Sempre quis um lugar


Gramado e limpo, assim verde como o mar
Cercas brancas, uma seringueira com balança
Disbicando pipa cercado de criança

How... how brown

Acorda sangue bom


Aqui é Capão Redondo “tru”
Não Pokemon
Zona Sul é invés, é estresse concentrado
Um coração ferido por metro quadrado

Mas que apesar dessa realidade, as pessoas ao seu redor dariam tudo pelas pes-
soas da sua família, e que se esse american way of life não for possível de alcançar, não
teria problema, pois os familiares por perto é só o que importa. As pessoas fariam todas
as loucuras para terem as pessoas que perderam por perto.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

É, mas se não der


“Nêgo”
O que é que tem?
O importante é nós aqui
Junto ano que vem

E o caminho
Da felicidade ainda existe
É uma trilha estreita
É em meio a selva triste

Quanto se paga
Pra vê sua mãe agora
E nunca mais vê seu pivete
Embora?
Dá a casa, dá o carro
Uma glok e uma fal
Sobe cego de joelho
Mil e cem “degrau”

Assim como os Racionais, o rapper Criolo na música Esquiva da Esgrima, do


álbum lançado em 2014, Convoque se Buda o rapper faz uma crítica ao lucro e a super-
valorização do dinheiro que substitui o respeito e a palavra. Ele é motivador de morte
e guerras. Relata ainda a vida na periferia, o acesso às armas e a violência, citando o
Grajaú onde foi criado. Cita importantes rappers nacionais em contraposição a uma
antiga agência de turismo, a Tia Augusta que levava jovens desacompanhados para a
Disneylândia. Ele ainda diz que o todo mundo, mesmo os considerados “maloqueiros”
tem saberes, adquiridos na observação da vida e na prática.

Ar-15 é mato e os muleque tão de fuzil


Do Grajaú ao Curuzú pra imigração meu povo é mula
Inspiração é Black Alien, é Ferréz, não é Tia Augusta
Verso mínimo, lírico de um universo onírico
Cada maloqueiro tem um saber empírico
Rap é forte, pode crer, Oui, Monsiuer

Faz ainda uma analogia entre os castigos que sofriam os negros escravizados e a
violência policial hoje. Denunciando o cheiro ruim e mazelas de quem vive na periferia
em comparação com o latifúndio e a opulência no Brasil. Retrata ainda a questão da rea-
lidade do Brasil a partir das manifestações de 2013, a violência com os manifestantes que

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

se protegiam usando vinagre contra o gás lacrimogêneo e ainda a polarização da esquerda


e direita com uma crítica ao comportamento da esquerda em relação aos acontecimentos.

Uma bola pra chutar, país pra afundar


Geração que não só quer maconha pra fumar
Milianos, mau cheiro e desengano
Cada cassetete é um chicote para um tronco
Alqueires, latifúndios brasileiros
Numa chuva de fumaça só vinagre mata a sede
Novas embalagens para antigos interesses
É que o anzol da direita, fez a esquerda virar peixe

De forma geral, portanto, podemos elencar os seguintes temas que são mais re-
tratados nas letras das músicas e são temáticas fundamentais para a História, gerando
inúmeras possibilidades de trabalho em sala de aula e desenvolvimento dos conteú-
dos. São eles a crítica ao modelo capitalista, a supervalorização do poder e do dinheiro,
consumismo e a individualização do fracasso, as condições de vida das populações da
periferia, a sobrevivência e a exclusão social, violência, abandono do Estado e das auto-
ridades, preconceito e racismo
Assim sendo, compreendemos que levar o rap para sala de aula é fazer a educa-
ção formal se apropriar de novas linguagens conhecidas da juventude e que pode auxi-
liar em novas visões de mundo. O importante é que não importa qual o recurso didático
se utilize - como textos, música, cinema, entre outros - é preciso desenvolver o conhe-
cimento, ampliar as problematizações e enriquecer o olhar do aluno para o mundo. O
rap é uma prática cultural reconhecida pela maioria dos jovens na sua vida cotidiana, e
escola pode fazer uso disso para promover a atuação e a transformação social desejada.
Em seu texto, Sobre as funções sociais da escola, as autoras Cardoso e Lara anali-
sam a visão do sociólogo francês, Pierre Bourdieu, sobre a escola, que ilustra bem uma
preocupação que permeou esse estudo. Segundo Bourdieu, a função social da escola é
conservar as desigualdades e reproduzir as classes sociais, sendo um instrumento, ou
nas palavras de Louis Ahthusser6, um aparelho ideológico do Estado.
Isso nos remete ao tema aqui desenvolvido sobre a naturalização das condições
de vida dos trabalhadores. Como poderiam transformar sua realidade? Como poderiam
alcançar a emancipação se o único local para o pensar e se transformar, à saber, a escola,
só reproduz valores e ideias que não perpetuam o mundo tal como ele está?
O cotidiano escolar, aulas, modelos, conteúdos, muitas vezes, completamente
diferentes do seu cotidiano real cria um estranhamento entre a comunidade e escola.
Essa crítica passa por compreender que a escola acaba reforçando os estereótipos que

6  ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3 ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

a sociedade impõe, pois segundo Bourdieu, a escola “é um dos fatores mais eficazes de
conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e
sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural”. Inúmeros tra-
balhos7 apontam a legitimação da escravidão como algo natural da época e que acaba
legitimando não apenas a própria escravidão como também, a desigualdade e o racismo
até os dias de hoje.
Segundo Cardoso e Lara, com uma função homogeneizante, a escola é uma insti-
tuição cindida, existem tipos e modelos para cada classe social. Supostamente oferecen-
do conhecimento para todos igualmente, ou seja, oportunidades iguais e que cada um
com seu mérito e capacidade vai usar para seu crescimento pessoal. Mas o que de fato
ocorre é que as escolas apenas acabam por legitimar as desigualdades, pois as crianças já
chegam na escola com diferenças culturais e de existência que promovem experiências e
condições completamente diferentes.
Assim, o fracasso das escolas públicas e das populações periféricas recai sobre a
falta de mérito, o desinteresse, a falta de vocação e aptidão para os estudos bem como a
falta de esforço. Segundo, as autoras, “isso ocorre porque a cultura escolar é tão próxima
da cultura da elite que as crianças das classes populares não podem adquirir, senão com
muito esforço, o que é herdado, pelos filhos das classes cultivadas” (CARDOSO; LARA,
2009, 1316). Dessa maneira, a escola ajuda a manter o status quo dominante.
Levando em consideração os estudos de Bourdieu,

a proposta de escola unitária e desinteressada, presente nos estudos de


Gramsci, da escola promotora do homem, de Saviani, da nova didática
preconizada por Alves, e a proposta da escola transformadora de Pérez
Gómez não se realizam porque, conforme já foi dito, não há interesse do
capital em realizá-la.” (CARDOSO; LARA, 2009, 1325).

Mesmo assim, um movimento em defesa da renovação da função social da escola


se colocou em movimento. A formação de novos educadores, novas propostas e métodos,
estudos críticos como os aqui citado vêm promovendo há décadas mudanças no papel e no
funcionamento das escolas. Evidentemente que muito ainda se tem ainda por fazer, mas
propor novas linguagens e temas como o estudo ora apresentado é um desses movimentos.
Pelo exposto neste relatório defendemos o “ensino de História numa perspectiva
crítica, pluralista e combativa, que contribua para a revisão dos currículos e métodos de
ensino, construção de novas práticas” (MENDES, 2014, 54). Acreditamos que o ensino
crítico da História é essencial, fundamental para que auxilie os não indígenas a rompe-
rem com seus preconceitos e para que desenvolvam uma visão mais plural e diversa da
nossa sociedade.

7  Ver: FERREIRA, R. F. Uma história de lutas e vitórias: a construção da identidade Rev. Cient., UNINOVE, São
Paulo: (n. 1, v. 3).

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

De tal modo, utilizar o rap em temáticas na sala de aula pode ser um desses ins-
trumentos inovadores que além de despertar o interesse dos alunos, pode auxiliar em
vários trabalhos. Concordamos, portanto, com o autor Roberto Camargos no artigo A
força do Rap:

é possível adentrar o campo das relações étnicas, compreendendo diver-


sas facetas do preconceito contra os negros na atualidade. Paralelamente,
abre espaço para se considerar ações que visam o seu combate e, princi-
palmente, a autoestima e afirmação da negritude. O professor que encarar
o desafio poderá constatar que essa música é boa não somente para se ou-
vir, mas também para se pensar a sociedade e a história. (CAMARGOS,
Carta Capital, 2015)

Conclusão
Aqui, neste artigo ora apresentado, mostramos o resultado de leituras e análises
que indicam que existe um discurso recorrente nos meios de comunicação e políticas
públicas que repetidamente fazem culpabilização individual das pessoas pelos seus fra-
cassos e miséria. Em nossa sociedade é normal atribuir ao indivíduo a falta de vontade,
esforço, persistência, dando exemplos que transformam a exceção em regra, ou seja, um
exemplo de sucesso é explorado e divulgado como se servisse para toda a população.
Entendendo isso com certa normalidade, a sociedade passa a ignorar e julgar as
populações periféricas, ignorando as condições reais em que vivem. Dessa forma, não
compreendem a miséria como resultado das condições históricas e de uma construção
feita pelo sistema baseado no poder do capital. Esse movimento apaga as características
fundantes da sociedade do capital que é manter a desigualdade social e os trabalhadores
nas condições que já se encontram para reprodução e conservação do estado das coisas.
O rap, partindo dessa realidade perversa em que milhões de pessoas estão subju-
gadas e julgadas como causadoras da sua própria miséria, denuncia os valores, discursos
e ações que pioram a condição de vida das pessoas pobres. E a escola, nesse sentido pode
ser grande aliada no processo de entendimento desses mecanismos de manutenção e
reprodução dessa situação.
Através das suas letras observamos diversos temas como: Preconceito e racismo,
violência e abandono do Estado e autoridades consumismo, a supervalorização do di-
nheiro, a falta de condições dignas de vida das populações da periferia, a condição do
negro e a questão carcerária, exclusão social, entre outros. Isso nos mostrou o enorme
potencial para as aulas de História que ao fazer uso do rap, linguagem familiar aos jo-
vens, pode construir novos olhares, e desconstruir preconceitos.

58
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Referências
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NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. Escritos de Educação. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

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ensino. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1975.

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Ed. PUCPR. 2009.

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FERREIRA, Martins. Como usar a música na sala de aula. 3ª Edição. Contexto. São
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60
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

África: Relação
entre livro didático
e currículo no
ensino de Geografia
Ana Lúcia da Silva
Mestranda em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Carlos Roberto Machado de Oliveira
Mestrando em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Alex Lourenço da Silva
Graduando em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Magda Valéria da Silva
Profª. Drª. em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO
Izabella Peracini Bento
Profª. Drª. em Geografia pela UFG/REGIONAL CATALÃO

Introdução
O presente trabalho consiste numa reflexão teórica do conteúdo África que está
inserido na Matriz Curricular de Geografia do Estado de Goiás, construída com base
nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Como forma de elucidar a discussão,
optamos por trabalhar com o livro didático da Coleção Expedições Geográficas do 9º
ano da segunda etapa do Ensino Fundamental.
Este artigo justifica-se pela importância de refletirmos acerca da Lei nº
10.639/2003, que foi criada com objetivo de tornar obrigatório o ensino da História e
Cultura Afro-Brasileira, no currículo escolar de forma interdisciplinar, englobando to-
das as áreas do conhecimento, em todas as escolas do Brasil nas diferentes modalidades
do ensino fundamental e médio.
Salienta-se ainda que este artigo é fruto das reflexões consolidadas na disciplina
África e Africanidades, ministrada pela Coordenação de Pesquisa e Pós-Graduação/
Universidade Federal de Goiás - Regional Catalão, onde foram abordados temáticas
referentes aos contextos africano e afro-brasileiro. Além disso, está sendo realizadas
diversas leituras e pesquisas realizadas na área de ensino de Geografia, o que contribuí
para um maior embasamento teórico-metodológico.
Neste sentido, as reflexões teórico-metodológicas acerca do ensino de Geogra-
fia devem contribuir para a construção de práticas docente e pedagógicas voltadas a
igualdade de direitos raciais. Tais práticas contribuirão para agir em situações de pre-

61
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

conceito, amenizando os problemas encontrados cotidianamente, pois sabe-se que o


preconceito ainda está arraigado em nossa sociedade e consequentemente no ambiente
escolar. Precisamos cada vez mais colocar em pauta temas relacionados ao racismo e
seus efeitos perversos, desconstruindo a ideia de superioridade de determinada raça em
detrimento a outra.
Para combater essas práticas racistas é necessário capacitar os professores com
base na Lei nº 10.639/2003, pois muitos ainda não têm embasamento teórico que pro-
porcione práticas pedagógicas que atingirão o objetivo proposto pela lei. Além disso,
é necessário investir em materiais didáticos específicos, como por exemplo, o livro di-
dático, pois o mesmo é o principal recurso utilizado em aulas de Geografia nas escolas
públicas estaduais em função da escassez de recursos financeiros.
É importante ressaltar que deve-se atentar pelo modo em que é posto o conteúdo
do Continente Africano no livro didático, pois é necessário relacionar a África com o
Brasil, bem como reconhecer a mesma como o berço da humanidade, contribuindo
para o rompimento de ideias equivocadas e preconceituosas que são originadas pela
visão eurocêntrica que foi imposta historicamente e insiste em ramificar e justificar as
mazelas existentes em África, omitindo os verdadeiros culpados por séculos de explo-
ração e dominação.

Abordagem do conteúdo África na matriz


curricular de Geografia
A Geografia, enquanto disciplina obrigatória na Educação Básica (Ensino Funda-
mental e Médio), contribui para a construção e formação da cidadania, propiciando aos
sujeitos uma leitura crítica da complexa relação espaço tempo, estabelecendo uma arti-
culação entre a experiência que o aluno traz do seu cotidiano com o saber sistematizado.
Os desafios e dificuldades encontrados no processo de ensino aprendizagem de
Geografia nas escolas da rede pública de educação são vários. O público atendido é
bastante heterogêneo no que se refere a aspectos culturais, sociais e econômicos. Sendo
assim, as metodologias pedagógicas devem atender as expectativas dos alunos, tornan-
do necessário que os docentes tenham formação e capacitação específicas.
Acreditamos que o conhecimento geográfico pode ser construído em sala de
aula na interação entre professores e alunos, onde ambos têm muito a contribuir neste
processo. Dessa forma, o docente atua como mediador do conhecimento, auxiliando
nas descobertas, deixando para trás aquela imagem do professor como detentor único
do saber e o aluno como mero receptor.
Em meio a relevância do papel da educação como prática emancipadora, surgi-
ram variadas e importantes discussões sobre os contrastes étnico raciais e suas consequ-
ências negativas para a sociedade brasileira. A promulgação da Lei nº 10.639, de janeiro

62
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

de 2003, reconhecendo e valorizando a influência da História e Cultura Africana para


o nosso país, pode ser entendida como resultado da ação de movimentos organizados e
da própria população civil na busca de amenizar o preconceito e a ideologia de superio-
ridade do ser humano branco. Para Munanga (2006)

“Apesar do processo de branqueamento físico da sociedade ter fracassa-


do, seu ideal inculcado através de mecanismos psicológicos ficou intacto
no inconsciente coletivo brasileiro, rodando sempre nas cabeças de ne-
gros e mestiços. Esse ideal prejudica qualquer busca de identidade basea-
da na “negritude e na mestiçagem”, já que todos sonham ingressar um dia
na identidade branca, por julgarem superior.” (MUNANGA, 2006, p.16).

Segundo a Lei nº 10.639/2003, ensinar História e Cultura Afro-Brasileira não de-


pende mais da vontade ou interesse pelo tema. É obrigatório sua presença no currículo
escolar, promovendo a mudança de posturas, atitudes e valores que demonstrem aos
cidadãos a pluralidade étnico racial no país, contribuindo direta ou indiretamente para
a valorização da identidade cultural do nosso povo.
Esta referida lei institui o dia 20 de novembro como o Dia Nacional da Consci-
ência Negra, sendo válida para todas as instituições de ensino no Brasil, tanto públicas
quanto privadas, abrangendo os ensinos fundamental e médio. A discussão dessa temá-
tica deve estar presente em todo o currículo escolar, com destaque para as disciplinas de
Educação Artística, Literatura e História.
Cabe destacar que a existência da lei não garante uma prática educacional vol-
tada efetivamente ao combate do racismo. A começar pela formação inicial dos pro-
fessores, onde essa temática não está incluída em grande parte da grade curricular dos
cursos de licenciatura. Na prática escolar, o que se percebe é que nem todas as disci-
plinas discutem a assunto, ficando sob a responsabilidade somente daquelas áreas do
conhecimento previstas na lei.
Por intermédio do ensino de Geografia, podemos lutar contra a visão hegemôni-
ca eurocêntrica e demais formas reais e simbólicas do preconceito racial. A história da
África merece uma página de destaque na história da humanidade, pois, de acordo com
pesquisas científicas, foi neste continente que originou as populações humanas moder-
nas, o Homo sapiens sapiens. Outro exemplo que demonstra a importância da África é
o conhecimento na área da medicina, bem desenvolvida no Egito Antigo, onde já eram
realizadas cirurgias bastante complexas para aquele momento histórico.
Tais aspectos mencionados devem ser discutidos em sala de aula, fazendo parte
do currículo escolar, em atendimento à Lei nº 10.639/2003. Em função da sobrecarga e
precarização do trabalho vivenciada pelos professores da rede pública nas últimas déca-
das, há uma dificuldade da parte desses profissionais em fazer pesquisa, seja de maneira
simples ou sistematizada, mesmo reconhecendo que esta é de fundamental importância

63
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ao fazer docente. Deveria ser produzido e disponibilizado às escolas materiais didáticos


de qualidade e em quantidades apropriadas, para que a discussão sobre a História da
África e sua influência direta ao Brasil fosse feita de fato.
A adequação do currículo com base na lei mencionada representa um passo para
a elaboração de materiais didáticos adequados às novas exigências sobre o ensino de His-
tória da África. O currículo escolar, seja ele em qualquer nível (a Lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional, de 1996, “estabelece dois grandes níveis de educação escolar: a
educação básica, que compreende a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino
médio, e a educação superior”), é algo para ser pensado e repensado constantemente.
Deve ser construído levando em consideração o contexto de cada país, estado, cidade.
Em Goiás, a Secretaria de Educação promoveu uma ampla discussão a fim de
construir um Currículo Referência. Esse Currículo Referência da Rede Estadual de
Educação de Goiás foi construído por meio de encontros regionais, com professores
agrupados por áreas do conhecimento (Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Mate-
mática e suas Tecnologias; Ciências Humanas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza
e suas Tecnologias). Os debates e discussões promovidos a partir desses encontros ti-
nham como objetivo a construção de uma proposta de bimestralização dos conteúdos
visando homogeneizar o currículo em toda a rede estadual goiana. Cabe salientar, que
este currículo referência que serviu de base para a bimestralização dos conteúdos está
de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs).
De acordo com o currículo referência, implantado nas escolas estaduais em
2012, organizado bimestralmente em expectativas de aprendizagens, eixos temáticos e
conteúdos, a África, enquanto continente, está presente no 4º bimestre do 8º ano, con-
forme aponta o quadro 1.

Quadro 1: Currículo Bimestralizado do 8º ano de Geografia – Ensino Fundamental.

Fonte: Currículo em Debate. Secretaria da Educação, Goiás, 2010.

64
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Em primeiro lugar, nos chama a atenção o fato de um conteúdo tão importante


como esse ser trabalhado em apenas um bimestre, no caso o quarto bimestre que cos-
tuma ser atribulado com semana de prova, recuperação, em virtude do fechamento do
ano letivo.
Procedendo a análise, constatamos que são dez as expectativas de aprendiza-
gens para trabalhar o conteúdo África, sendo uma delas enfocando os aspectos gerais
do continente, como a localização geográfica, vegetação, relevo, clima, tipos de solos,
hidrografia. O estudo das diferentes paisagens africanas, resultado de fatores naturais e
humanos, deve provocar a reflexão crítica dos alunos para que estes percebam que os
graves problemas sociais, econômicos e políticos enfrentados por grande parcela dos
países africanos não se explicam pelo determinismo geográfico. São processos oriundos
do capitalismo que devastaram o continente, arrancado dali riquezas naturais e seres
humanos que serviram para enriquecer ainda mais as metrópoles europeias através da
escravização. O processo de exploração africana perdura ainda hoje sem perspectivas
reais de melhora. Assim, concordamos com Cavalcanti (1998):

“O ensino de Geografia deve proporcionar ao aluno a compreensão de es-


paço geográfico na sua concretude, nas suas contradições, contribuindo
para a formação de raciocínios e concepções mais articulados e aprofun-
dados a respeito do espaço, pensando os fatos e acontecimentos mediante
várias explicações.” (CAVALCANTI, 1998 p.192).

A seguinte expectativa: “Desenvolver conhecimentos sobre cultura e manifesta-


ções culturais”, permite que o professor discuta as religiões de matrizes africanas e sua
influência no Brasil, frisando que os adeptos a essas religiões são alvos constantes de
preconceitos. Outra expectativa, neste sentido, merece destaque: “Localizar e identificar
no tempo e espaço a mobilidade e distribuição da população no território brasileiro,
reconhecendo a influência africana na diversidade cultural do Brasil”. Além da religião,
a música, a dança, a culinária, dentre outros aspectos da cultura brasileira, foi bastante
influenciado pela tradição africana.
O professor, mesmo diante de limitações, pode explorar a temática em sala
presente no currículo, solicitando aos alunos pesquisas extraclasse com o objetivo de
ampliar o conhecimento, desmistificando informações sobre África, inclusive esclare-
cendo de vez que se trata de um continente que abriga mais de cinquenta países inde-
pendentes politicamente.
Sabemos que somente a promulgação da Lei 10.639/2003 não vai resolver séculos
marcados pela inferiorização dos povos africanos e perpetuação desse processo com as
populações afro-brasileiras. Mas a vemos como um passo para a superação do preconcei-
to racial ainda arraigado no nosso país à medida que torna a discussão obrigatória no am-

65
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

biente escolar e, consequentemente, no ambiente acadêmico, que terá também que adap-
tar seus currículos para formar professores aptos a trabalhar coerentemente esta temática.

O conteúdo África no livro didático de


Geografia
Com o intuito de regulamentar a distribuição de livros didáticos para as escolas
da rede pública no âmbito municipal, estadual e federal foi implementado a partir de
1985 pelo governo federal o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Posterior-
mente, na tentativa de aperfeiçoar o programa em 2004 temos a criação do Programa
Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) e por fim em 2007 criou-se o
Programa Nacional do Livro Didático para a Alfabetização de Jovens e Adultos (PNLA).
Além de regulamentar a distribuição de livros didáticos para as escolas da rede
pública do país, estes três programas garantem a distribuição das obras gratuitamente
para todos os alunos da rede pública do país, bem como para qualquer outro programa
de Alfabetização.
Outro fato é que os programas oferecem uma diversidade de obras didáticas que
são encaminhados para as escolas, onde passam por um processo de seleção com a
participação dos professores que escolhem os livros de acordo com suas áreas de conhe-
cimento, observando se os mesmos estão de acordo com o Currículo Básico Comum.
A renovação dos livros didáticos ocorre ao final do terceiro ano de utilização.
Nesse período, os alunos utilizam os livros no decorrer do ano e devolvem ao final de
cada ano para que outros os reutilizem por mais dois anos. Apenas não incluí nesse
esquema os livros consumíveis, utilizados na primeira etapa do ensino fundamental.
Diante disso, nota-se que o livro didático ao ser trabalhado nas escolas públi-
cas, torna-se uma ferramenta de ensino essencial de emancipação, contribuindo para
a tomada de consciência crítica em relação a realidade posta. No caso do continente
africano, é necessário entendermos a importância da África, pois ela é o berço da hu-
manidade, sendo assim, é deste lugar que se inicia o processo de evolução humana. Daí
surge a necessidade de compreendermos o processo de inferiorização provocado pelo
eurocentrismo. Ao fazermos um link deste processo, temos a possibilidade de fazer com
que os nossos alunos compreendam a origem do racismo e do preconceito em relação
à cultura africana.
Na tentativa de contribuir significativamente para a consolidação desta tomada
de consciência, optamos por analisar o livro didático do ensino fundamental II, por
considerar tal etapa umas das mais importantes no que diz respeito a formação dos alu-
nos, essa fase é responsável pelo amadurecimento de ideias e conceitos da realidade em
que estamos inseridos, retratada pelo amadurecimento de ideias e concepções caracte-
rizadas pelo intenso fluxo de informações que em sua maioria são mascaradas e mani-

66
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

puladas, se torna assim necessário saber interpretar tais conteúdos com o objetivo de
formar cidadãos preocupados e atuantes na construção de um espaço mais igualitário.
Mas, de imediato detectamos um problema, uma vez que o tema África é abor-
dado na Unidade 7, nas páginas 210 a 244 do livro didático, Expedições Geográficas, do
9º ano do ensino fundamental, contrariando a Matriz Curricular de Goiás que aborda
este conteúdo no 8º ano.
Esse problema afeta diretamente a dinâmica do planejamento do professor que
tem que recorrer ao livro do 9º ano para trabalhar o conteúdo proposto pelo currículo.
Além disso, muitas vezes, o professor não consegue disponibilizar os livros para os alu-
nos, pois a turma do 9º ano está utilizando o mesmo.
Discutir os conteúdos geográficos se torna necessário pautar em relações com a
Geografia crítica que leve os alunos a refletir, se tornando cidadãos críticos, defendendo
seus próprios conceitos e ideias a partir de um conjunto de leis científicas. Devemos
possibilitar uma formação consciente dos alunos, além da apropriação de saberes bá-
sicos, levando em conta um contexto histórico-cultural e político, em conjunto com
os direitos humanos e cidadania, agregada a mudança de posturas, valores e atitudes.
Nesse sentido Silva & Conceição (2016) diz que

“Portanto, cabe ao professor o papel articulador, no processo de descons-


trução da imagem negativa em que o negro é exposto, assim sendo en-
tende-se, a geografia, como a disciplina capaz de apresentar as diferentes
faces do mundo e as inúmeras formas que os alunos podem se posicionar,
pois entender sua função e importância nesse processo é a base funda-
mental para desconstruir uma sociedade disciplinada em preconceitos
raciais.” (SILVA & CONCEIÇÃO, 2016, p. 04.)

Este tema deve levantar discussões na sala de aula e ao professor cabe o papel de
mediar e enriquecer tais debates, conduzindo os alunos a reflexões raciocínios dos da-
nos sociais e culturais gerados por ideologias racistas presentes em diversos locais, este
que deve ser combatido em escala local e global.

Considerações finais
A promulgação da Lei nº 10.639/2003 foi um avanço no sentido de levar as dis-
cussões sobre a valorização da História e cultura africana, para o ambiente escolar tendo
em vista que o currículo do ensino básico brasileiro teve que ser adaptado a esta situação.
Ao analisarmos a grade curricular dos cursos de licenciatura, encontramos a ca-
rência de formação específica para que os futuros professores estejam preparados para
desfazer os estereótipos causados pela visão eurocêntrica, que diminuí e menospreza a
importância dos conhecimentos surgidos em África.

67
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Outro avanço que podemos observar é em relação ao Programa Nacional do


Livro Didático (PNLD) que propiciou a elaboração de livros com maior rigor e qua-
lidade, sendo que os professores têm a oportunidade de analisar e, em conjunto com
demais profissionais da mesma área, escolher a obra que oferece melhores condições
de aprendizagem e conscientização dos reais motivos preconceito e inferiorização do
continente africano.
O ensino de Geografia nesse sentido pode contribuir para que o aluno supere o
senso comum, ampliando sua interpretação do mundo e das complexas relações sociais
de maneira crítica, percebendo-se enquanto agente de transformação, relacionando os
conceitos, métodos e teorias geográficas com o cotidiano dos alunos.

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pectiva do Continente Africano. Anais XVIII Encontro Nacional de Geógrafos. São Luís
(MA), 2016.

68
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Cinema Intervenção
e o empoderamento
das mulheres na
comunidade
Isabella Cecília do Nascimento
Universidade Federal Goiás/Regional Catalão

Apresentação
O cinema sempre me encantou, desde a primeira vez que vi um filme. Não ima-
ginava como era feita a produção de um, apenas sentia a magia que me provocava.
Criança é mesmo um universo de criatividade e sensibilidades, e eu era assim. Fui cres-
cendo e me costurando de vivências. Somente quando entrei na universidade é que
comecei realmente a estudar sobre o cinema em várias épocas, estilos, diretores (as) e
como faziam parte de um dado contexto histórico, de uma História no e pelo mundo. E
é isso que me proponho a escrever aqui, uma história da minha própria história que me
levará em algum momento posterior pesquisar a fundo os questionamentos e narrativas
que estão me instigando a descobertas.
Edgar Morin é um daqueles autores que te cativam de tal maneira até absorver
algumas de suas perspectivas sensíveis e coerentes. O primeiro escrito que tive contato
foi uma parte da Teoria da Complexidade em um grupo de estudos quando cursava gra-
duação. O grupo não foi adiante, mas foi o suficiente para cultivar-me. Uma expressão
que marcou desde então “(...) é preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas
em meio a arquipélagos de certeza.” (MORIN, 2000). A partir disso refleti inúmeras
vezes sobre a vida e o papel de educadora que me propus a tornar.
Trilhei um percurso acadêmico bem diverso, onde fiz pesquisas sobre os festi-
vais de música independente no Brasil, que expandiram meu olhar e contribuiu com a
construção do presente que vivo agora. Assim, entrei na produção cultural produzindo
festivais de música e artes integradas através de um coletivo musical e grupo de teatro
do qual fiz parte.
E nesses processos de envolvimento e interesse profundo pela cultura e educa-
ção, o cinema foi paralelamente esculpido em minhas indagações. Busquei ter contato
com películas fílmicas de várias partes do mundo. Há cada raridade de imagens e es-
téticas que impressiona. Sair da lógica hollywoodiana abre muitos caminhos. A indús-

69
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

tria americana é gigantesca e usurpa espaços privilegiados no mundo cinematográfico.


Porém, temos a vantagem de estarmos inseridos na geração das virtualidades em que
há ciberespaços de compartilhamentos e discussões. O site “Makingoff ” é uma das me-
lhores plataformas de difusão de filmes e fóruns. Há milhares de filmografias do mundo
todo contendo em cada um deles sinopse, crítica, ficha técnica, screenshots e links para
baixar. Foi um presente ter me tornado membro dessa comunidade virtual de cinema,
através dessa inserção uma gama de possibilidades se abriu e pude viajar em várias cul-
turas e histórias sem sair de casa.
Somei a essa luta o cinema e seu enorme potencial de educar e trazer conscien-
tização através da imagem e seus múltiplos imaginários. Aproxima diversas pessoas,
pois seu caráter é universal. Tudo que é audiovisual atrai e é multiplicado rapidamente,
bem elaborado é um recurso altamente didático e palpável. Por meio de minhas expe-
riências e uma extensa filmografia nasceu o interesse em produzir um documentário
como produto final do meu objeto de pesquisa. “Qual tema seria abordado?” me per-
guntava, e então me veio o feeling, um documentário sobre as mulheres da comunidade,
em Catalão-GO, onde suas narrativas serão compartilhadas com outras mulheres atra-
vés da película fílmica, em um processo de troca, como um elas por elas. Uma pesquisa
nesse campo é de fundamental importância para as mulheres e a comunidade local que
necessitam e muito de estudos e ações que ajudem a transformar essa realidade. E um
caminho possível para trazer a tona o debate e a conscientização crítica sobre esses pro-
blemas é através do cinema.
Progressivamente estou traçando o roteiro, a produção e pós-produção de como
será esse documentário, embora suas futuras protagonistas ainda não tenham sido en-
contradas, essa é uma etapa a ser trabalhada posteriormente. Estou num processo de
leituras sobre a História da mulher no Brasil e no mundo; conhecendo o trabalho das
diretoras brasileiras e como elas pensam a mulher em seus filmes; e também o papel
transformador do cinema na construção de uma educação formativa crítica e interdisci-
plinar, tanto na sala de aula dentro do Ensino de História como fora da escola, enquanto
formação cidadã.
Este breve artigo é uma introdução da pesquisa que segue em desenvolvimento,
na parte I é apresentado o conceito base deste trabalho: empoderamento das mulheres,
abordando alguns referenciais teóricos. A parte II, é uma apresentação do que ela será,
foi colocado apenas o modelo de ficha fílmica que será trabalhado posteriormente.

PARTE I: A dimensão conceitual de


empoderamento feminino
Nos últimos tempos ando refletindo muito sobre o universo mulher do qual ha-
bito. A sociedade brasileira e do mundo é alicerçada historicamente pelo machismo,

70
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

profundamente enraizado nas relações familiares, de trabalho, padrões de comporta-


mento estipulando o que é adequado e o que não é, estigmas e condicionamentos que
somados produzem e reproduzem opressões, violências, abusos, a naturalização da cul-
tura do estupro e o feminicídio. É impressionante a dimensão de tudo isso no íntimo
das mulheres e consequentemente em seus cotidianos. Influenciam várias áreas da vida.
E cada vez mais tenho buscado fontes que discutam a temática.
Li alguns livros de autoras como Helena Safiotti, Maria José Silveira, além de
reportagens, artigos em sites variados, vídeos e filmes que vem contribuindo com meu
embasamento teórico. Cada vez mais novas questões vem surgindo. Ando descobrindo
e redescobrindo o universo feminino apresentado com profundidade e sensibilidade
por Simone de Beauvoir em o “Segundo Sexo”. Ela traz estudos e pesquisas sobre as
mulheres, abordando fundamentos que partem desde o biológico ao sociocultural. Tra-
çando períodos e situações cotidianas, traz menções à literatura e à diários de mulheres
reais como uma forma de deixar bem exemplificável aquilo que quer mostrar em suas
reflexões. Isso tem enriquecido bastante meu conhecimento sobre a temática e a viabi-
lidade de abordá-las na prática.
A cada discussão reflito sobre como pensar a História e trabalhá-las na pesquisa.
Ainda estou conhecendo essas novas concepções, mas a narrativa dos sujeitos históricos
que ainda vou conhecer, certamente estarão presentes em minhas futuras intervenções
e filmagens.
Eu mulher, você mulher, nós mulheres necessitamos falar sobre o que nos acon-
tece, necessitamos combater a tudo isso, todos os dias, o grito de socorro ecoa pra sair
cada vez mais desse silêncio que mata milhares diariamente. Um dos caminhos cruciais
pra transformar essa realidade é através do empoderamento das mulheres, que em
uma sociedade patriarcal como a nossa é um desafio constante, e fortalecê-lo é uma
ação diária. E o que é o empoderamento feminino? Na América Latina há uma grande
experiência em empoderamento, muitas delas no Brasil, porém há pouca teorização,
tanto que para encontrar bibliografias é difícil. Uma das grandes referências de pesquisa
nessa área é a de Magdalena Léon, que ainda não tive um contato teórico direto, apenas
através de outras pesquisadoras. Aos poucos estou buscando suas leituras. Tratarei o
conceito de empoderar pela perspectiva feminista, visto que a pesquisa destina-se a
trabalhar com e pelas mulheres.
Segundo Cecília Sandenberg (2009), Léon (2001) mostra que as latino ameri-
canas discutiam muito as estruturas de poder através do modelo de poder sobre, e que
somente depois do Encontro Feminista Latinoamericano, ocorrido no México em 1987
é que debateram a relevância de outros tipos e estruturas de poder, iniciando assim
reflexões sobre empoderamento das mulheres. O termo central de empoderamento é
“poder’’ e por ter múltiplas dimensões interpretativas é preciso pensá-lo sob algumas
perspectivas distintas conforme apontadas por Moseadale (2005): o poder sobre, que

71
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

é a dominação de um sobre o outro; o poder de dentro, baseado na autoestima, au-


toconfiança. O poder para, a capacidade de se fazer algo; e o poder com, que é algo
compartilhado coletivamente.
Empoderamento com foco nas mulheres oprimidas, em um processo de ques-
tionamento das estruturas patriarcais e a transformação das mesmas no combate as
opressões, violências, discriminação social e de gênero para se criar condições de aces-
sibilidade para as mulheres atuarem cognitiva, psicológica, política e economicamente
com autonomia em suas vidas, tendo, portanto, a capacidade de fazer escolhas, mesmo
em conflitos com outrem. De acordo com Alice Costa:

“O empoderamento das mulheres representa um desafio às relações pa-


triarcais, em especial dentro da família, ao poder dominante do homem e
a manutenção dos seus privilégios de gênero. Significa uma mudança na
dominação tradicional dos homens sobre as mulheres, garantindo-lhes a
autonomia no que se refere ao controle dos seus corpos, da sua sexuali-
dade, do seu direito de ir e vir, bem como um rechaço ao abuso físico e a
violação sem castigo, o abandono e as decisões unilaterais masculinas que
afetam a toda a família.” (COSTA, pág. 7, 2000).

Como fazer isso? Reconhecendo sua condição na sociedade, os espaços que ocu-
pa e pode ocupar, conhecer seus direitos, denunciar violências, explorar suas aptidões
etc. Um dos grandes questionamentos que surge nesse sentido é: esse processo se dá
individualmente ou coletivamente? Ambos, esse vice e versa acontece de inúmeras for-
mas, e refletir sobre esse ponto é fundamental para compreender o que é o conceito e
a prática de empoderamento. A força do coletivo é o principal norteador e chave para
desencadear autoconhecimento e ações práticas que envolva várias pessoas. Segundo
Magdalena Léon:

“O empoderamento como autoconfiança e auto-estima deve integrar-se


em um sentido de processo com a comunidade, a cooperação e a solida-
riedade. Al ter em conta o processo histórico que cria a carência de poder,
torna-se evidente a necessidade de alterar as estruturas sociais vigentes;
quer dizer, se reconhece o imperativo da mudança” (LEON, 2001, p.97).

Agir em grupo tem a capacidade de integrar diferentes membros em um mesmo


circulo social, alicerçado pelo apoio mútuo no alcance de objetivos, compartilhamento
de histórias, ideias, resolução de problemas que propiciem a equidade e transformação
humana. Empoderar é um processo, e como tal precisa desencadear-se, através de ini-
ciativas, organizações, movimentos sociais e políticos promovendo ações coletivas de

72
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

conscientização (sobre si mesma e de todas dentro das estruturais sociais) pautada na


criticidade com capacidade de mobilização. Assim se ressignifica e fortalece os papéis
sociais das mulheres, tanto individualmente, como coletivamente.
Fiz uma seleção com 22 filmes de diretoras brasileiras que abordam temáticas
sobre a mulher e/ou o universo feminino. Aos poucos estou assistindo-os, elegendo os
mais relevantes e fazendo algumas análises sobre como essas diretoras estão pensando
e retratando as mulheres em suas obras, bem como a biografia dessas diretoras e sua
trajetória no cinema nacional e também a importância de trabalhá-los em sala de aula
através do Ensino de História. A lista abaixo contém as filmografias:

DIRETORA FILME ANO


A Hora da Estrela 1985
Suzana Amaral
Uma Vida em Segredo 2001
Laís Bodansky Chega de Saudade 2007
Mãe Só Há Uma 2016
Anna Muylaert
Que Horas Ela Volta 2015
Lúcia Murat A Memória que Me Contam 2012
Julia Murat Histórias que Só Existem Quando 2011
Lembradas
Um Céu de Estrelas 1996
Tata Amaral
Hoje 2001
Olhos de Ressaca 2009
Petra Costa
Elena 2012
Norma Bengell Eternamente Pagu 1988
Marília Rocha A Falta que Me Faz 2009
Meninas 2006
Sandra Werneck
Sonhos Roubados 2009
Carmen Miranda: Bananas Is My 1995
Helena Solberg Business
Vida de Menina 2003
Estela Renner O Começo da Vida 2016
Yasmin Thayná Kbela 2015
Adélia Sampaio Amor Maldito 1984
Paula Sachetta Precisamos Falar Sobre Assédio 2016

73
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

PARTE II: Cine Delas – A mulher no


cinema nacional e o ensino de História

Ficha de Análise Fílmica

FILME:
DIREÇÃO: nome/ano/minutos
SINOPSE:
ANÁLISE:
TEMAS:

Referências
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a utilização de filmes no ensino. São Paulo, 2003.

ADAMSON, BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. São Paulo: Ed. Martins


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76
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Desnaturalizando o
cotidiano escolar:
Problematizando
o pensamento
hegemônico e os
papéis de gênero
Rúbia Cristina Duarte Garcia Dias
Mestranda no PPGMPH/ UFG/RC
Eliane Martins de Freitas
PPGMPH/ UFG/RC

O presente texto constitui-se em uma pesquisa em andamento, pautado em re-


flexões e elaborações que se inserem nas demandas conceituais e procedimentais do
Programa de Pós-Graduação em História-Mestrado Profissional, na linha de Pesquisa
História, Sociedade e Práticas Educativas.
Ser professora pesquisadora, tendo como perspectiva de formação não somente
a construção do corpo, o “aqui e agora”, e sim o processo de constituição do ser e sua
humanização a partir da educação, me fez querer buscar, refletir e pesquisar acerca da
constituição dos sujeitos, especificamente o processo contínuo de ser e tornar-se o que
é, em um contexto histórico e sociocultural, bem como as referências socioeducativas.
Essa questão me remete a pensar o modelo hegemônico de escola capitalista, a
qual se insere numa perspectiva de padrões instrumentais quanto as práticas pedagógi-
cas, que constantemente em suas práticas estabelece a naturalização dos papéis de gêne-
ro, como se fossem “a-históricos”, fixos e binários, por conseguinte, deixam em segundo
plano a elaboração de materiais didáticos, assim como as práticas que potencializam a
sensibilidade, a formação cultural dos indivíduos, em especial das crianças, alunos/as
da Educação Infantil.
O embasamento teórico deste se inscreve no campo da didática da História e
das abordagens de gênero e sexualidade, tomando as leituras da área como fontes de
inspiração e, também, conceituais, para potencializar e ampliar as análises e discussões
acerca da pesquisa proposta, pois acredito que as mesmas fundamentarão o meu traba-
lho qualitativamente, imprimindo características próprias do campo de pesquisa. Nes-

77
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ses termos, utilizarei autores/as, como: Cerri (2001); Rusen (2007); Thompson (2002);
Mészáros, (2005); Canda (2009); Louro (2003); Goellner (2003); Beauvoir (1949); Ar-
güello (2005); Finco (2007); Löwy (2017); Manhas (2016); Rancière (2007); Foucault
(1988) e outros/as.
Fundamentada nestas leituras, acredito que um olhar mais aguçado sobre a pro-
blemática da pesquisa, exige que pensemos os processos de produção do conhecimento
no campo da Educação Infantil. Especialmente no contexto atual, pensar as questões
internas e externas à escola se tornou algo urgente e absolutamente necessário.
Assim, pensar e buscar mediar, de forma política, humana e desnaturalizada, as
questões que tangenciam as elaborações dos materiais didáticos é algo significativo, pois
garante a mediação das bases que constituem essas urgências atuais. Esta urgência tem
se apresentado devido,

[...] a oligarquia de direito divino do Brasil – a elite capitalista financeira,


industrial e agrícola – não se contenta mais com concessões: ela quer o
poder todo. Não quer mais negociar, mas sim governar diretamente, com
seus homens de confiança, e anular as poucas conquistas sociais dos últi-
mos anos. (LÖWY, 2017, s/p).

A afirmação do autor supracitado caracteriza o crescimento e alinhamento de


organizações e movimentos de direita que tem crescido nos últimos anos no Brasil e
constituído a configuração atual de nosso país, como por exemplo, o movimento “Es-
cola Sem Partido” (ESP).
Manhas (2016, p.16) responde o que é esse movimento nos seguintes termos:

O que seria a tão falada, e pouco explicada Escola Sem Partido?

Basicamente, trata-se de uma falsa premissa, pois não diz respeito a não
partidarização, mas sim à retirada do pensamento crítico, da problema-
tização e da possibilidade de democratizar a escola, esse espaço de parti-
lhas e aprendizados ainda tão fechado, que precisa de abertura e diálogo.

A fim de melhor compreendermos a configuração ideológica e temporal deste


movimento, cabe salientar a trajetória desse movimento. O mesmo foi,

Veiculado por meio de um sítio na internet desde 2004, o ESP ampliou


sua visibilidade em 2014, com a tramitação de projetos de lei sobre o te-
ma na Câmara dos Deputados e em alguns estados e municípios. Nesse
período começaram a circular notícias de docentes sendo intimados por
notificações extrajudiciais, cujo modelo é fornecido no site do movimen-

78
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

to, a fim de coibir a suposta “doutrinação ideológica” dos professores, in-


cluindo o tratamento pedagógico de temas relacionados a gênero e sexu-
alidade. (RIBEIRO, 2016, s/p)

Por meio de tais afirmações percebemos que a perspectiva da “Escola Sem Par-
tido” é tolher a construção do pensamento crítico e auto reflexivo na escola. Nesse sen-
tido, empreende ataques à educação e a construção da identidade e subjetividade dos
sujeitos, principalmente no que tange as questões relativas às abordagens de gênero e
sexualidade. A perspectiva deste movimento em relação a esta temática é a castração do
diálogo quanto a tudo que trata desta questão.
Em Foucault (1988, p.10) encontramos uma definição que nos ajuda a compre-
ender esse processo:

Isso seria próprio da repressão e é o que a distingue das interdições man-


tidas pela simples lei penal: a repressão funciona, decerto, como conde-
nação ao desaparecimento, mas também como injunção ao silêncio, afir-
mação de inexistência e consequentemente, constatação de que, em tudo
isso, não há nada para dizer, nem para ver, nem para saber.

A “mordaça” frente às questões críticas exprime clara e abertamente um estado


de repressão, construindo uma série de atitudes reacionárias, que imprimem o discurso
deste tema, em torno do silêncio. O silêncio possui uma marca significativa na forma
de dizer e expressar algo, pois exprime a tônica articulada em torno da construção de
relações de poder, estas relações são expressas por um discurso disciplinador que carac-
teriza que não há o que ser dito ou debatido, pois há um caminho natural e padrão à ser
seguido, especialmente quanto a crianças e adolescentes.
Foucault (1988, p, 32) nos mostra claramente isto, quando afirma que,

A partir do séc. XVIII, o sexo das crianças e dos adolescentes passou a


ser um importante foco em torno do qual se dispuseram inúmeros dis-
positivos institucionais e estratégias discursivas. É possível que se tenha
escamoteado, aos próprios adultos e crianças, uma certa maneira de falar
do sexo, desqualificada como sendo direta, crua, grosseira. Mas isso não
passou da contrapartida e, talvez da condição para funcionarem outros
discursos, múltiplos, entrecruzados, sutilmente hierarquizados e todos
estreitamente articulados em torno de um feixe de relações de poder.

Tais relações de poder e forma de discurso incorporam características no que


tange à concepção de infância e como estas estratégias discursivas naturalizam e desig-
nam o discurso padrão e expectativas hegemônicas.

79
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

[...] Compreendendo o tempo da infância como produção sociocultural,


entendo que a possibilidade do aparecimento de um tratamento distinto
da criança em relação ao mundo adulto esteve associado à produção de
lugares específicos a ela destinado, à produção de novas relações de au-
toridade e à elaboração de novas formas de comportamento. (VEIGA,
2004, p, 37)

Ao longo da história, percebemos que a educação institucionalizada possui, des-


de sua concepção, aspectos políticos e características que objetivam a constituição do
indivíduo pautadas em aspectos morais conformadores, construindo assim uma “iden-
tidade nacional” e uma conformação social e cultural inseridas em um único padrão.
Acreditamos que as permanências e marcas desse modelo de educação se dão
pela tônica enraizada/naturalizada acerca das instituições formais de educação, que,
mesmo após diversas reformas educacionais, prevalece (no imaginário hegemônico/so-
cial) como o espaço de “apresentação”, do mundo e sociedade (formação moral e cívica,
bem como o padrão heteronormativo à ser “naturalmente” seguido) para leigos que
nada sabem, por meio da relação educador-educando. Assim, os “leigos” poderão inter-
nalizar, a partir do discurso hegemônico, a forma correta de ver/saber/estar no mundo.
Segundo Freire (2005, p.65):

Quanto mais analisamos as relações educador-educandos, na escola, em


qualquer de seus níveis (ou fora dela), parece que mais nos podemos con-
vencer de que estas relações apresentam um caráter especial e marcante
- o de serem relações fundamentalmente narradoras, dissertadoras.

Nesse sentido, as relações de dissertação/narração de determinados momentos e


práticas, no ambiente escolar, contribui de forma relevante para a internalização de va-
lores e concepções construídas e constituídas como únicas e corretas para serem vividas
pelos sujeitos.
O estudo de Alves (2005) nos auxilia a pensar sobre estas questões, levando-nos à
chave da concepção e articulação da concepção de “ensinar tudo a todos”, apresentada na
obra Didática Magna de Comenius. A tarefa proposta por Comenius é importantíssima
para que possamos compreender a origem da escola moderna, da instrução pública, sob
o viés do pensamento da Reforma Protestante, ou seja, o período de concepção/surgi-
mento de um novo instrumento de trabalho utilizado pelo professor: o manual didático.
Alves (2005, p, 76) afirma que “[...] O manual didático surgiu com a pretensão de
consubstanciar uma síntese dos conhecimentos humanos de uma forma mais adequada
ao desenvolvimento e à assimilação da criança e jovem”, desde então, este instrumento
de trabalho do/a professor/a passou a servir em tempo integral aos envolvidos no pro-
cesso educacional.

80
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Ainda refletindo com este autor, vemos que:

[...] o atendimento quantitativo, estendido para muito além de seus limi-


tes, foi um dos principais motivos de critica ao ensino mútuo. Por pre-
tender ampliar ao máximo a oferta de instrução, a técnica se impôs à
custa de dois sérios prejuízos: a queda exagerada do contato entre alunos
e professores e o aligeiramento dos conteúdos didáticos.

A crítica mais vigorosa a essa técnica didática incidiu sobre outro aspec-
to, cuja consideração permite desvelar o seu papel na transição da velha
forma de ensino individual para uma nova, de caráter coletivo. (ALVES,
2005, p. 102-103).

Esta afirmação nos faz refletir sobre a amplitude do caráter deste instrumento
educacional, pois o mesmo possui, desde então, até os dias atuais, um papel de formação
coletiva e consequentemente de construção do saber e pensamento hegemônico.
Percebemos que:

Desde o período colonial havia a preocupação com o estabelecimento de


mecanismos de controle sobre a população e no século XIX a educação
escolar aparecia como uma possibilidade, na medida em que, abrindo-se
para as camadas mais baixas, a instrução elementar poderia atuar no sen-
tido da conformação social e cultural. (FONSECA, 2004, p, 45).

Compreender este percurso educacional contribui com a pertinência e a rele-


vância de repensarmos constantemente esta “identidade nacional” constituída desde
o principio, bem como os padrões sociais e culturais que vem sendo enraizadas/na-
turalizadas. Contribui para que repensemos com seriedade as elaborações no interior
da escola e do material didático utilizado na mesma, buscando contribuir para que os
mesmos possuam uma abordagem comprometida com a formação ética, social e hu-
mana. Sendo assim, promotores do conhecimento, pautados na diversidade, liberdade
e igualdade para todos/as.
Acreditamos que nortear os saberes em apenas uma perspectiva é impossibilitar
que o sujeito pense de forma autônoma e que construa sua subjetividade a partir de seu
sentir e suas experiências estéticas. Na nossa avaliação, tal ato pedagógico estabelece
uma relação de embrutecimento no ato de ensinar e aprender.
Refletindo com Rancière (2007, p. 31) “Há embrutecimento quando uma inteli-
gência é subordinada a outra inteligência”, e em uma perspectiva de educação padroni-
zante/heteronormativa, uma inteligência é subordinada à outra, visto que o correto a se
aprender/viver é o método exposto a partir da explicação do/a mestre/professor/a, que

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

no modelo de educação vigente segue o ciclo de explicações padronizantes. Segundo o


autor, “A lógica da explicação comporta, assim, o princípio de uma regressão ao infinito:
a reduplicação das razões não tem jamais razão de se deter”. (RANCIÈRE 2007, p, 21).
A constatação da existência desses processos lógico-explicativos faz da escola
um espaço de extrema importância na construção e interiorização de signos e valores,
especialmente as que são desenvolvidas e aplicadas na Educação Infantil, como pode-
mos ver em Silvana Goellner (2003, p. 37):

“A escola passa a ser observada como um espaço privilegiado para atuar


na interiorização de hábitos e valores que pudessem dar suporte à socie-
dade em construção: uma escola capaz de preparar os indivíduos moral
e fisicamente tendo por base educação do corpo, isto é, uma educação
suficientemente eficiente na produção de corpos capazes de expressar e
exibir os signos, as normas e as marcas corporais da sociedade industrial
evidenciando, inclusive, as distinções de classe.”

Tendo em vista estas reflexões, consideramos importante a elaboração de mate-


riais didáticos que abordem as questões de gênero e sexualidade para além dos aspectos
biologizantes e heteronormativos, bem como o estudo dos mesmos na escola possibili-
tam o rompimento da lógica de explicação hegemônica, visto que permite a ampliação
do repertório sobre esta perspectiva.
Refletir sobre os saberes e a internalização dos mesmos leva-nos a pensar sobre
os grupos sociais e a construção da identidade destes. Segundo Argüello (2005 p. 30-31):

“[...] A identidade na modernidade, elemento fundador da estabilidade,


da organização social, sofre um processo de instabilidade e fragmentação.
O indivíduo moderno viu fragmentada sua identidade e viu derrubadas
as sólidas bases que sustentavam as localizações sociais na quais os sujei-
tos eram posicionados. Esse modelo de identidade não servia mais para
definir o indivíduo da pós-modernidade, e é justamente na busca pela
legitimidade das identidades sociais e culturais que se deflagra todo um
movimento em que grupos inferiorizados, como as mulheres, os gays, as
lésbicas, os negros, entre outros, vão levantar suas bandeiras de luta e,
com elas, esses grupos vão produzir suas teorizações.”

Questionando os lugares em que se encontravam posicionados, estes grupos so-


ciais, concebidos como subordinados na sociedade, organizaram-se, nos anos 60 do
século XX, e saíram do ocultamento reivindicando espaço na sociedade, estabelecendo
as lutas dos “novos movimentos sociais”. Assim, construindo as lutas pelas identidades
e pela igualdade de gênero.

82
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

“A partir desses movimentos sociais e teóricos começa a ser questionada


a suposta “naturalidade” atribuída pelos discursos circulantes às iden-
tidades, tornando visíveis os atributos de valor imputados à identidade
considerada dominante: a de ser o centro, a de ser superior, a de ser a
“norma”, a de ser estável, enfatizando o caráter cultural e contingente de
tais atributos.” (ARGÜELLO, 2005, p, 31)

A organização destes grupos e movimentos sociais garantiu uma maior abertura


e possibilidade de conscientização e politização dos sujeitos, porém observamos, desde
que iniciamos nossa experiência na docência, especialmente na Educação Infantil, e tam-
bém por meio de leituras acerca da temática gênero e sexualidade, que mesmo havendo
movimentos sociais, realizados por determinados grupos em busca de conscientização
das possibilidades de trabalhar a diversidade e sexualidade no ambiente escolar, ainda há
lacunas, e as metodologias de ensino acabam permanecendo como metodologias adstri-
tas ao contexto normativo e estereotipado, como podemos notar em Louro (2003, p.45):

“Uma noção singular de gênero e sexualidade vem sustentando currículos


e práticas de nossas escolas. Mesmo que se admita que existem muitas for-
mas de viver os gêneros e a sexualidade, é consenso que a instituição esco-
lar tem obrigação de nortear suas ações por um padrão: haveria apenas um
modo adequado, legítimo, normal de masculinidade e feminilidade e uma
única forma normal de sexualidade, a heterossexualidade; afastar-se desse
padrão significa buscar o desvio, sair do centro, tornar-se excêntrico.”

Buscando ressignificar as concepções de gênero e sexualidade na Educação In-


fantil e contribuir com sua abordagem no interior da escola, nos propusemos elaborar/
construir um material didático, o qual buscamos, de forma explicativa, detalhar como
se deu a construção do material didático supracitado, expondo aspectos como: público
alvo, aspectos estruturais; recursos didáticos, linguagens, etc.
Pensar a construção de material didático na Educação Infantil requer pensar
uma série e experiências que as crianças vivenciam no cotidiano escolar. Para Finco
(2007, p, 107) “A experiência de meninos e meninas na educação infantil pode ser con-
siderada por muitos (as) como um rito de passagem contemporâneo que antecipa a
escolarização, através do qual se produzem marcos em seus corpos.”
Estes marcos constituem a construção da identidade a partir da internalização
de papéis de gênero e comportamentos padronizados como “normais”. Seguir a norma
requer atender as expectativas “do que é de menina” e “o que é de menino”.
É importante ressaltar, que a construção destas “expectativas” em relação aos
papéis de gênero não é uma construção escolar, pois muito antes do nascimento já há
uma dada expectativa sobre a “descoberta do sexo” do bebê. No entanto, a escola possui

83
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

uma característica significativa na manutenção dos hábitos, padrões e saberes sociais.


Por este motivo, voltamos nosso olhar para a elaboração dos materiais didáticos, bus-
cando contribuir com a reelaboração desse que é um dos instrumentos mais potentes
na manutenção de habitus.
Para pensar novas referências de abordagem destes temas buscamos perceber as
questões de gênero e sexualidade na Educação Infantil e notamos incômodo, percebe-
mos que há uma constância em “vigiar e punir” estes temas na educação das crianças,
buscando em múltiplas linguagens interiorizar “pureza e inocência” no comportamento
infantil, como se não houvesse o que olhar/buscar/refletir sobre estes,

“Ao buscar as causas sociais e culturais das diferenças entre meninos e


meninas, encontraremos suas origens em pequenos gestos cotidianos,
que chegam a passar despercebidas; em reações automáticas, cujos moti-
vos e objetivos nas escapam e que repetimos sem ter consciência do seu
significado, porque as interiorizamos no processo educacional.” (FINCO,
2007, p, 114).

Estes “gestos cotidianos” impregnam as práticas pedagógicas e reproduzem a


determinação dos comportamentos e posições diferenciadas para meninos e meninas.
Neste sentido, ressaltamos que a elaboração do material didático se constituiu
na perspectiva de um diálogo indireto, onde abordamos as questões de gênero e sexu-
alidade e a naturalização dos papéis de gênero e preconceitos por meio de historinhas
infantis, que carregaram mensagens desnaturalizantes e humanizadoras sobre as práti-
cas cotidianas
Buscando assegurar a inserção do tema em toda a rotina escolar, e assim garan-
tirmos um material que possa contribuir com a desnaturalização dos comportamentos
impregnados nesta rotina foi confeccionado como material didático uma “Pasta Temá-
tica” separada/dividida em conceitos, direcionada à Educação Infantil, especialmente à
aluno/as de Jardim I.
E, é nesta perspectiva que em dialogo com @s professor@s elegemos os con-
ceitos elaborados/desenvolvidos em nosso material didático. Para melhor visualizá-los,
iremos apresentá-los apontando o que almejamos com o desenvolvimento de cada um,
como se pode ver abaixo:

• Família: Desenvolvemos este tema expondo as diferentes formas de


constituição familiar existentes.

• Respeito: Possibilitamos a reflexão sobre o respeito ao diverso, compre-


endendo cada sujeito como único e legitimo.

84
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

• Datas Comemorativas: Possibilitamos a desnaturalização do trato com


as datas comemorativas “Dia dos Pais” e “Dia das Mães”.

Direcionamos a construção do material didático com uma linguagem direcio-


nada ao público infantil e estimulamos uma aproximação dos mesmos com a referida
“Pasta temática”, construindo a abordagem de todo o material de forma narrativa, por
meio de um personagem infantil. Esta personagem está inserida no que denominamos
de “O Baú de Lili”.
O “O Baú de Lili” possui em seu interior, as elaborações dos conceitos supraci-
tados. Se constituindo então, em um material didático para crianças do Jardim I (4 à 5
anos de idade), que possuindo uma abordagem sutil e lúdica, contribuiu com a cons-
trução do conhecimento histórico, levando referências significativas para a construção
da consciência histórica. Assim, “O Baú de “Lili” contem um (1) livro de apresentação,
um (1) livro de literatura infantil para cada conceito, um (1) CD com uma animação
abordando os conceitos e um (1) Jogo Pedagógico (quebra-cabeça) referente a um único
conceito, sendo este: família e as celebrações de datas comemorativas.
Consideramos urgente a inserção de novas referências para a educação e as prá-
ticas na educação infantil, pois,

“O que precisamos de fato é abrir e revolucionar essa instituição de en-


sino e aprendizagem, buscando a melhoria da qualidade da educação,
pois, segundo um dito popular, se uma pessoa do século XVIII aportasse
na terra hoje, a única instituição que reconheceria seria a escola, por ter
mudado pouco ou quase nada. Ou seja, ela é conservadora na forma e
no conteúdo, precisamos de atitudes que a transforme e não de leis que a
aprisionem ainda mais.” (MANHAS, 2016, p, 21).

Acreditamos que a desnaturalização do preconceito e da desumanização, “apri-


sionada” nas elaborações que perpassam os processos de escolarização, é uma forma de
abrir e revolucionar as práticas de ensino e aprendizagem, consequentemente, a insti-
tuição e os sujeitos envolvidos.

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86
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Entre o altar da
Câmara e o plenário
da Igreja: Políticos
evangélicos na
cidade de Catalão-GO

Juliana Vaz da Silva Nunes
Universidade Federal de Uberlândia

Quem são os vereadores evangélicos de Catalão? Quais as relações dos vereado-


res com seus partidos políticos e com a Igreja? Como são visto pelos evangélicos e pela
sociedade catalana? O que os vereadores têm em comum com os políticos religiosos
da esfera nacional? Em quais aspectos a política catalana se aproxima e se distancia da
política nacional, quando o assunto se trata de evangélicos no governo? São algumas
das indagações que abordaremos neste artigo.
Um dos vereadores pesquisados trata-se de Donizete Negão, começou sua vi-
da política no PSC, na cidade de Catalão, e já, na sua primeira candidatura em 2012,
conseguiu se eleger. No começo da legislatura do vereador, era favorável ao partido do
PMDB. Por interesses diversos e particulares, que não nos interessa detalhar, apoiou
e fez campanha para eleger o candidato a prefeito Adib Elias, pertencente à mesma
coligação. Após as eleições de 2012, tornou-se um dos dois representantes do PSC na
Câmara municipal. Durante a legislatura saiu do PSC para se filiar ao PSB. Essa tran-
sição é mais do que uma simples troca de siglas, principalmente, se observarmos que a
mudança significou o abandono da base coligada ao PMDB, que não conseguiu eleger
seu candidato Adib Elias para Prefeito. Dito de outro modo, a transição é um reajuste
de aliança, pois, a partir de então, fortaleceu a base do partido PSDB do então prefeito
eleito Jardel Sebba.
A presença de vereadores como Donizete Negão na Câmara de vereadores de
Catalão expressa a necessidade de maior investigação sobre as possíveis relações entre
política e religião, mas, principalmente, entre Estado e Igreja, na dimensão local. Esse
personagem evidencia como os partidos políticos têm voltado a atenção para os dife-
rentes grupos religiosos como estratégia para ampliar seus poderes e espaço no Estado.
Evidencia, ainda, que as relações entre as esferas são múltiplas.

87
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Ao longo do seu mandato, Donizete Negão tentou aproximação com os evan-


gélicos a partir de, basicamente, três formas de entradas. A primeira tentativa ocorreu
logo após o termino das eleições que o elegeu. Momento privilegiado, já que as igrejas
que não lançaram seus candidatos próprios, ou apoiaram algum candidato que não foi
eleito, estariam mais abertas para aceitar a parceria com um efetivo membro da Câmara
de vereadores. Sendo assim, Donizete visitou distintas igrejas evangélicas, se colocando
como um possível interlocutor de suas causas e necessidades. A partir de suas páginas,
nas redes sociais, isso é perceptível através, não apenas do registro de suas visitas através
de fotografias, mas também pelo requerimento, que tornou público, representando os
interesses e necessidade da COMEC (Conselho de ministros evangélicos em Catalão).1
A maior parte das visitas ocorreu em pequenas igrejas de bairros periféricos.
Instituições religiosas de pouca influência, em que o político tem mais fácil trânsito
e possibilidade de estreitar laços. Já que, normalmente, as grandes igrejas, com maior
influência, ou têm seus próprios contatos com prefeitos, secretários e/ou deputados, ou
têm restrição à associação de seu nome com políticos. A aproximação com a COMEC
funcionou, nesse primeiro momento, como uma forma de ganhar visibilidades nas de-
mais igrejas com o perfil acima mencionado. Principalmente se lembrarmos de que
apenas as pequenas igrejas possuem vínculo e pertencimento com a COMEC.
Outra entrada para aproximação de Donizete com os evangélicos se deu quando,
no meio de seu mandato, o vereador passou a frequentar eventos da igreja Assembleia
de Deus. Além disso, realizou atividades religiosas em sua própria casa, como encontros
de oração, por exemplo. Embora a Assembleia seja uma grande denominação, ela possui
muitas pequenas igrejas nos bairros da cidade, inclusive no setor do vereador que se tor-
nou a principal porta de entrada para o contato dele com os assembleianos. Certamente
Donizete Negão conseguiu algum tipo de resultado dessa tentativa de aproximação, no
mínimo, aumentou sua visibilidade como vereador evangélico, mas estava longe se tor-
nar, propriamente, o representante dos evangélicos na Câmara. O vereador Vandeval,
como veremos, é quem teve melhor relação com a referida denominação e mais espaço
de atuação e diálogo, inclusive na igreja sede.
A terceira entrada, não necessariamente a última, ocorreu nos últimos meses
de seu mandato, quando já havia se tornado aliado do PSDB. Conjuntamente com o
prefeito da ocasião Jardel Sebba, se aproximou da Igreja do Evangelho Quadrangular.
O vereador Donizete Negão, ao lado do prefeito, foi recebido e apresentado no culto
da igreja, oficializando e tornando público para os membros da igreja e demais
interessando a nova aliança. Naquele momento a cidade já vivenciava o frenesi das
próximas disputas eleitorais. Os pré-candidatos já estavam expondo suas pretensões e
os vereadores suas intenções de reeleição. Momento ideal para fazer parcerias e firmar
alianças. Ser apresentado como parceiro de uma das maiores denominações religiosas

1  Requerimento 006/2016.

88
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

da cidade, certamente, representou uma grande conquista para Donizete, pois, naquela
altura do jogo político, ter o apoio público do principal pastor, teoricamente, significava
a aprovação de sua futura candidatura junto aos membros da Igreja Quadrangular.
É relevante destacar que a igreja do Evangelho Quadrangular em Catalão, ma-
nifestava apoio aberto ao partido PMDB e oposição declarada ao PSDB. A despeito da
vitória do segundo partido sobre o primeiro, nas eleições de 2012, a igreja acentuou seu
posicionamento, fazendo coro com o partido derrotado na oposição ao PSDB. Até que,
no último ano da gestão de 2013/2016, a igreja rompe com o PMDB e declara aliança
pública ao partido PSDB. A referida igreja, nas eleições de 2016, como forte indício da
mudança de aliança partidária, não apresentou candidatos a vereador que fossem da
própria congregação religiosa, como era de costume. Ao contrário declarou apoio ao
candidato a vereador Donizete Negão, inclusive o recebendo na igreja. Vale lembrar que
Donizete Negão foi o mediador responsável pela a aproximação entre o PSDB e a igreja,
que se tornou possível por demandas que a instituição religiosa apresentou na negocia-
ção, como construção de bueiros e terreno para estacionamento nas proximidades do
templo, sede da denominação.
As tentativas de aproximação junto ao segmento evangélico, a partir dessas en-
tradas, conferiram certa visibilidade para o vereador, que tentava se reeleger. Mas não
se pode afirmar que o caminho traçado em direção aos cristãos evangélicos de Catalão
teve êxito, visto que seu pretenso objetivo de se tornar, mais uma vez, vereador, não foi
alcançado. Apesar de ter conseguido apoio de algumas lideranças, inclusive de uma das
denominações com maior número de membros na cidade, não foi possível converter o
apoio em número de votos. Ao que parece, o vereador não foi reconhecido pelo público
que almejou representar. Ou as lideranças religiosas não conseguiram direcionar os féis.
O fato é que na segunda candidatura, Donizete conseguiu apenas 768 votos, dos 1.328
votos que obteve na primeira. Essa diferença de 560 votos é muito significativa numa
cidade como a de Catalão.
O outro personagem desta investigação, o vereador Vandeval teve trajetória dis-
tinta ao longo do seu mandato de 2013/2016. Ele já é um dos políticos consagrados da
cidade, que, dificilmente, perde assento na Câmara de vereadores. É um dos principais
nomes do PMDB em Catalão, e o partido o dispensa muita atenção e suporte para sua
manutenção no poder. Por isso sempre foi candidato do mesmo partido, seja qual fosse
sua situação no cenário municipal. É importante salientar que a fidelidade de Vandeval
Florisbelo ao partido não se dá por uma questão ideológica, mas, principalmente, pelo
suporte e capital político e simbólico que lhe é oferecido. Tendo em vista que o PMDB
é um partido forte e tradicional em Catalão, especialmente, pela sua proximidade com
os empresários. Independente de estar como situação ou oposição, para os candidatos
que compõem o pelotão de elite do partido, do qual Vandeval faz parte, a permanência
é quase sempre o caminho mais seguro para a reeleição.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Nesse sentido, no costumeiro jogo pós-eleições de troca de alianças, das barga-


nhas e propostas oferecidas pelos partidos, tentando obter a maioria na Câmara, nor-
malmente, vereadores como Vandeval são menos flexíveis a mudança de apoio, mais
rígidos ainda e exigentes quanto à mudança de partido. O fato de ter participado de
nove candidaturas e estar cumprindo o seu sétimo mandato como o segundo vereador
mais bem votado da cidade, demonstra, no mínimo, que Vandeval tem habilidade e
familiaridade com o jogo político.
Este vereador é uma figura interessante para se pensar que o campo político nem
sempre se configura numa simples dicotomia com duplos opostos. Durante a gestão
2013/2014, este vereador, mesmo estando atuante durante a gestão do partido de opo-
sição, assumiu uma posição de cautela e não de enfrentamento explícito, como alguns
de seus colegas de partido. Passou a ideia de que se movimenta por suas próprias con-
vicções e pelo interesse da cidade e não por interesses partidários. Como estrategista,
ele consegue estabelecer diálogo com as diferentes forças que compõem a Câmara, sem
contrariar o partido, já que sempre vota a favor do PMDB.
Sobre sua relação com os evangélicos, durante o período observado, podemos
afirmar que se trata de algo que deve ser analisado com cuidado, pois, a primeira vista,
parece que o político não guarda relação alguma de sua gestão com o referido público,
principalmente, porque o carro chefe de seus projetos e requerimentos diz respeito à
educação e à saúde. Porém, caso se observe um pouco mais de perto e com mais aten-
ção, essa relação se torna mais evidente.
Diferente do vereador Donizete Negão, Vandeval Florisbelo não tem contato al-
gum com as pequenas igrejas vinculadas à COMEC, nenhuma tentativa de aproximação
direta com a instituição religiosa. Até porque este Conselho já estava favorável ao PSDB,
grande parte da sua liderança se ligou direta ou indiretamente com o partido. Inclusi-
ve Vandeval se posiciona contrário a alguns projetos do referido Conselho, que foram
pensados em conjunto ao PSDB, como o de criar uma secretaria para assuntos evangéli-
cos. Ele afirmou: “eu sou totalmente contra ter secretaria de assuntos evangélicos numa
prefeitura, eu não concordo com isso porque a nossa finalidade lá não é essa, a nossa
finalidade é salvação de nossas almas”.2 Soa contraditória a afirmação de Vandeval, pois
a presença de evangélicos na prefeitura, por meio de uma secretaria, é entendida como
desvio de finalidade, mas usar as instituições públicas com o intuito de salvar almas é
legítimo e apropriado.
As atividades organizadas pela COMEC para os evangélicos, como a Marcha
para Jesus, não receberam qualquer tipo de apoio por parte do vereador Vandeval. Esse
distanciamento em relação a essa parte dos evangélicos pode ser explicado, tanto pelo
seu partido, que, desde 2012, nutriu certa rivalidade com a COMEC, por apoiar seus
adversários, como pelo seu vínculo com a Assembleia de Deus, denominação que não

2  Entrevista com o Vereador Vandeval Florisbelo. Cedida em 19/06/2013.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

participa do Conselho e nem da sua agenda. Possivelmente a associação da sua imagem


com o referido evento, seja para ele mais prejudicial do que favorável como político.
Caso fosse de outra forma, ele se aproximaria e se aproveitaria do reduzido ajuntamento
sem o menor problema, tamanha sua habilidade de comunicação com os contrários.
Habilidade inerente também ao partido onde construiu sua trajetória política. Nesse
quesito há grande semelhança entre o vereador e a história do partido PMDB. Ambos
são capazes de estabelecer as mais inusitadas aproximações e alianças, com grupos to-
talmente contrários, para garantir a manutenção de sua permanência na cena política
(CHACON, 1995).
Vandeval é uma figura emblemática que tipifica políticos de tantas outras Câma-
ras de vereadores pelo país, que se mantém no poder acumulando mandatos, sobretudo
através da arcaica estratégia clientelista. Porém, a atenção dispensada para parte do pú-
blico evangélico, bem como sua aura de político religioso são elementos mais recentes
que passaram a compor sua trajetória. Ao longo do mandato, o vínculo do vereador Van-
deval se dá, especialmente, com a denominação Assembleia de Deus. Vínculo difícil de
ser identificado formalmente, pois se restringe mais no âmbito das negociações da igreja
com o partido ao qual o mesmo pertence. Feitas essas considerações, passaremos a refle-
tir sobre o que o cenário político dos vereadores tem em comum com o cenário político
maior, que abrange todo o país. Em outras palavras, a relação do micro com o macro.

Catalão espelho e contraponto do


Congresso Nacional
Uma preocupação que sempre nos ocupou desde o início da pesquisa é
compreender até que ponto a Frente Parlamentar Evangélica, ou como é mais conhecida
Bancada evangélica, influencia a dinâmica política de Catalão, mais precisamente os
vereadores evangélicos dessa cidade. Outro ponto que nos preocupa é saber quais as
semelhanças e diferenças, aproximações e distanciamentos entre a realidade catalana e
a realidade nacional, maiormente, no que se refere às relações entre política e religião.
Antes de qualquer análise comparativa, faz-se necessário descrever, ainda que, de
maneira geral, no que consiste a chamada Frente Parlamentar Evangélica e como essa se
formou. Não é novidade a existência de políticos com pertença protestante no Estado.
O que se configura como mais atual, sobre o que estamos nos referindo, é a participação
de políticos religiosos de maneira organizada. Com ação conjunta, com estratégias de
militância em prol das supostas causas evangélicas, fazendo do Estado qualquer coisa
como extensão de suas igrejas.
De acordo com o estudioso Leonildo Silveira Campos, essa presença massiva
de políticos com pertença evangélica foi identificada em 2002, principalmente, devido
aos muitos candidatos eleitos advindos de igrejas pentecostais e neopentecostais. Pos-

91
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

teriormente, a presença desse perfil de políticos da causa evangélica foi marcada por
certo descrédito, em grande parte, devido ao envolvimento de alguns nos escândalos
de corrupção3, que ocasionou uma diminuição brusca desse perfil político no Estado,
reduzido pela metade em 2006. Contudo, a partir de 2010, os evangélicos retornam,
consideravelmente, e com toda força, para tomar parte na Câmara Federal. Fase esta que
o autor denomina como “a ponta de um Iceberg”. É justamente nessa ponta que nos ate-
remos quando as igrejas almejam estender seu poder de atuação, inclusive, na política.
Mas, reconhecemos a importância dos momentos precedentes para consolidação dessa
realidade (CAMPOS, 2017).
Como resultado do fortalecimento da bancada evangélica, surgiu a Frente Par-
lamentar Evangélica no ano de 2003. É preciso deixar claro que a criação dessa Frente
não marca o surgimento da Bancada Evangélica, que existe, no Brasil, desde a década de
1980. Marca sim, sua atuação de forma mais intensa e organizada. Movimento impor-
tante por conseguir unificar, de alguma maneira, políticos evangélicos que chegaram ao
poder através de diferentes origens e interesses, sejam de ordem partidária ou denomi-
nacional. Com a estratégia que amplia o poder da bancada, aumenta sua visibilidade,
amplia a possibilidades de negociação e capital político, a Frente Parlamentar Evangéli-
ca, possivelmente, expressa a percepção de que a voz e voto articulados em bloco, entre
os supostamente “comuns”, apresentam mais efeitos do que se realizados individual-
mente. A pesquisadora Magali do Nascimento Cunha afirma que

“(...) a partir do congresso constituinte de 1986, quando foi formada a


primeira bancada evangélica. A partir dali, pode-se dizer que a postura
de isolamento desse segmento com relação a participação política –
até então interpretada como algo “do mundo”, identificado a paixões
terrenas – passou a conviver com outros ideais, referentes à participação
e visibilidade na vida pública que podem ser resumidos na formulação
“irmão vota em irmão”. Depois de altos e baixos numéricos, decorrentes
de casos de corrupção e fisiologismo, a bancada evangélica se consolidou
como força o que resultou na criação da Frente Parlamentar Evangélica
(FPE) em 2003. ”(CUNHA, 2016, p.149)

A Frente Parlamentar Evangélica consiste numa associação suprapartidária,


constituída no Congresso Nacional, portanto integrada por deputados e senadores. Foi
criada em 18/10/2003, por iniciativa do então deputado Adelor Vieira (PMDB/SC).
Atualmente está sob a coordenação do Deputado Federal de Goiás João Campos de
Araújo (PRB/GO). No estatuto que rege a Frente Parlamentar Evangélica, está expresso
o interesse que explica a união de parlamentares em torno dessa Frente parlamentar,

3  Escândalos de corrupção tais como: “Mensalão”, “sanguessuga”, entre outros. Na lista do caso sanguessuga,
por exemplo, 28 dos 60 membros da Frente Parlamentar Evangélica foram citados.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

independentemente de partido, qual seja, o de influir “(...) no processo legislativo, a


partir das comissões temáticas existentes nas casas do Congresso Nacional, segundo
seus objetivos, combinados com os propósitos de Deus, e conforme sua palavra”.4
Com essa proposição, muitos políticos da bancada evangélica intensificaram os
debates em torno de temáticas polêmicas e ganharam visibilidade como defensores de
um projeto conservador contra os valores progressistas. De forma geral, os parlamen-
tares evangélicos, nos últimos anos, têm procurado ocupar as principais comissões da
Câmara Federal que se dedicam, dentre outras, a questões como: educação, meio am-
biente e desenvolvimento sustentável, Segurança Pública e combate ao crime organiza-
do, Constituição, justiça e cidadania, direitos humanos e Agricultura, Pecuária, abaste-
cimento e desenvolvimento rural.
A criação da Frente Parlamentar Evangélica, a ascensão dos evangélicos na cena
política e sua visibilidade midiática, contribuíram para aumentar o interesse dos evan-
gélicos em Catalão, para participarem do poder político municipal. Dito de outro modo,
a maior participação dos evangélicos, a partir de 2002, na Câmara Federal, favorece
diretamente para maior aproximação dos religiosos no jogo político catalano. Obvia-
mente que esse somado a outros fatores que provocaram mudanças, não apenas a nível
local e nacional, mas também mundial como os já citados, crescimento dos adeptos da
religião e a disseminação da cultura gospel.
No caso específico de Catalão, este foi, certamente, até então, o momento em que
houve maior participação do segmento evangélico nas disputas eleitorais. Marcado por
grande movimentação entre os evangélicos, perceptível não apenas pelas candidaturas,
mas também pela articulação de boa parte das igrejas, de evangélicos desvinculados de
suas igrejas, projetos de candidaturas que não se concretizaram, partidos que procura-
ram alcançar esse público e se aproximaram para negociações. O assunto foi debatido,
inclusive pelas denominações contrárias ao envolvimento de religiosos com a política,
que se manifestaram mediante ao frenesi, demonstrando que ignorar essa relação entre
as duas esferas não foi uma opção, pois se tornou uma pauta importante na realidade
local. Vejamos mais detalhadamente em quais aspectos os vereadores evangélicos e as
igrejas evangélicas de Catalão se aproximam e se distanciam da Bancada Evangélica e da
participação das igrejas evangélicas na política no âmbito nacional.
A “representação” evangélica, na última gestão, tanto na Câmara de vereadores
como no Congresso nacional, é expressiva, pois ocupa, em ambos os espaços, pouco
mais de 10% dos assentos. A despeito da expressiva representatividade, há uma enorme
diferença quanto à forma de atuação. A bancada evangélica, apesar das divergências
internas, consegue atuar de maneira mais articulada e conjunta, sobretudo, em temas
específicos que, segundo a leitura dos membros, ameaçaria a moral e os valores cristãos.
Os parlamentares são de igrejas distintas, algumas inclusive não se comunicam entre

4  ESTATUTO DA FRENTE PARLAMENTAR EVANGÉLICA. Art. 2º. Brasília, 2015.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

si fora do espaço político, mas na Câmara encontraram ponto comum para unir seus
representantes, para garantir a influência da Igreja sobre o Estado.
Já os vereadores evangélicos do Município de Catalão não possuem a mesma
homogeneidade. Nas entrevistas realizadas com ambos, ficamos com a impressão de
que eles não se sentem pertencentes ao mesmo grupo. Donizete Negão sequer cita o
nome de Vandeval Florisbelo como representante dos evangélicos. Já Vandeval chega
a reconhecer Donizete Negão como candidato evangélico, mas deixa subentendido
que ele é o único que efetivamente representa o segmento na câmara, ou melhor, que
é reconhecido pelas igrejas como tal.5 O que deixa mais evidente essa heterogeneidade
entre os dois vereadores, ainda mais do que a declaração acima, são as suas atuações
na Câmara. Fora exceções, os dois estão de lados opostos nas votações. A explicação
para essa diferença entre eles não está, necessariamente, na filiação eclesiástica, mas sim
na filiação partidária. Porque em Catalão, mais forte do que o vínculo com as igrejas
evangélicas é o vínculo e o envolvimento com os partidos políticos. O que nos faz
questionar se, apesar da presença de dois vereadores evangélicos, de fato, existe uma
Bancada Evangélica no município.
O envolvimento do segmento evangélico com a política não é apenas uma busca
dos religiosos por maior espaço no Estado, é também uma busca dos partidos políticos
que perceberam, nesse grupo social, possibilidades para ascensão, benefícios e capital
político no jogo eleitoral. Trata-se de uma via de mão dupla. Nesse sentido, durante as
eleições, os evangélicos não são um todo homogêneo, estão envolvidos numa verdadei-
ra disputa pelos votos dos seus pares. O clima de disputa não se restringe apenas àquele
momento, mas segue, durante o mandato, já que os vereadores atuam como se perma-
necessem em campanha. Certamente nisso está uma explicação para a dificuldade de
aproximação entre eles em Catalão.
Outro aspecto que se deve pontuar nesse comparativo entre o nacional e o local,
diz respeito às igrejas que mais influenciam a dinâmica política. No âmbito nacional, as
duas principais denominações religiosas que causam maior impacto no Congresso fede-
ral são Assembleia de Deus e a Universal do Reino de Deus, inclusive são as igrejas que
conseguiram eleger maior quantidade de representantes políticos nas últimas eleições.6
Ambas as denominações usam, além do espaço das igrejas, os veículos de comunicação
para disseminar suas ideias e projetos. Munidas com esses dois principais instrumentos,
buscam, insistentemente, ampliar sua rede de influência e número de adeptos. Conside-
rando o resultado das urnas, podemos afirmar que obtiveram êxito no projeto de alcan-
çar maior participação na política, assim como pela ampliação da Bancada Evangélica.

5  Entrevista com Vereador Vandeval Florisbelo. Cedida em 19/06/2013.


6  Nas eleições de 2014, a igreja Assembleia de Deus elegeu 28 deputados e a igreja Universal do Reino de
Deus elegeu 11 deputados.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Espaço em que as duas denominações têm representatividade maior do que qualquer


outra igreja. Inclusive em relação aos políticos mais proeminentes da bancada.
Na cidade de Catalão, as denominações religiosas mais influentes são Assem-
bleia de Deus e a igreja do Evangelho Quadrangular. As duas possuem maior número
de membros e mais espaço nos veículos de comunicação local, sobretudo nas rádios.
Das duas denominações que possuem vínculo direto com a política, a primeira está
estrategicamente espalhada por praticamente todos os bairros da cidade, através das
congregações, ou seja, pequenas igrejas que se abrem pelos setores, mas que não são
independentes, já que estão sobre a supervisão da igreja sede. A segunda, apesar de
não ter pontos em todos os setores, é uma das igrejas que mais disponibiliza ativida-
des religiosas para a população, com programações diversificadas, direcionadas para
diferentes públicos, em horários alternativos, conseguindo alcançar grande público de
frequentadores/membresia.
A participação dessas instituições religiosas com a política não pode ser medida
apenas pela presença de representantes eleitos na Câmara de vereadores, mas também e,
principalmente, pelas negociações estabelecidas com o poder executivo local. Enquan-
to, no âmbito nacional, as igrejas têm se direcionado majoritariamente para o legislativo
do que para o executivo, em Catalão, é o contrário, pois a atenção está mais voltada
para o executivo do que para o legislativo. Isso pode ser evidenciado pelas declarações
públicas de apoio das igrejas aos candidatos a prefeito. Até porque é junto ao executivo
que essas igrejas conseguem transformar o apoio dos fiéis em votos com mais eficiência,
vez que, para vereador, quase sempre, os fieis já estão “comprometidos” com outros
candidatos, por razões que passam ao largo dos interesses das lideranças eclesiásticas.
As negociações da igreja com os políticos ainda são muito fundamentadas na troca de
favores, que favorecem as lideranças, mas nem sempre os fiéis.
A igreja Universal do Reino de Deus, a despeito do sucesso que consegue na di-
mensão nacional, não conseguiu ainda emplacar, em Catalão, e possui atuação inexpres-
siva nos assuntos políticos. A estratégia usada em todo país se mostrou ineficaz, tendo
em vista a realidade catalana, assim como a igreja Mundial, que se organiza de maneira
semelhante, e, do mesmo modo, não causa impacto na política local. As igrejas protes-
tantes históricas como Batista, Presbiteriana, Cristã Evangélica, Metodista e Luterana não
apresentaram indícios que evidenciam pretensões de se imiscuir nas questões políticas.
Os demais ministérios/igreja pequenos, inexpressivos e que surgiram recentemente ten-
tam se organizar em torno da COMEC, mas ainda com muita dificuldade de aglutinação
para propor qualquer tipo de ação coletiva, pois não há um ponto comum capaz de con-
vergir todos os múltiplos interesses, das inúmeras e divergentes igrejas e suas lideranças.
O último ponto que destacaremos desta reflexão, sobre o local em relação ao
nacional, em nossa opinião, o mais importante, será sobre as chamadas pautas morais.
De acordo com a pesquisadora Magali do Nascimento, a participação dos evangélicos

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

na política até 2010, passava, relativamente, despercebida pela sociedade como um to-
do. A bancada evangélica batalhava, no Congresso, por feriados gospels, por edificação
de praças da Bíblia e outros assuntos que pouco interferiam na vida daqueles que não
comungam da mesma fé e princípios religiosos. Mas, quando algumas pautas, como
a discussão de gênero, começaram a ganhar evidência no Brasil e chegaram com toda
força no Congresso nacional, a chamada Bancada da Bíblia7 muda de postura.
A partir de então, políticos da supracitada Bancada começaram a integrar co-
missões que refletiam sobre as questões de gênero, raça, sexualidade, entre outros. In-
tensos debates saíram do Congresso para a mídia por meio dos próprios parlamentares.
Nesse momento, figuras como Marcos Feliciano, Magno Malta, João Campos, entre ou-
tros políticos evangélicos, ficaram bastante conhecidos, não apenas pelos evangélicos.
Tornaram-se os defensores da moralidade cristã pela acirrada oposição que fizeram a
projetos, que, segundo esses representantes, eram contrários aos seus princípios e va-
lores religiosos. Por isso, a Bancada Evangélica passa a ser percebida como moralista e
conservadora e como entrave para os avanços progressistas (CUNHA, 2016, p. 149).
Não estamos querendo afirmar que a discussão de gênero e sexualidade, entre
outras demandas, se tornou pautas no Congresso apenas a partir de 2010, mas sim que
somente nesse momento é que se forma um contexto propício e favorável para que
essas bandeiras encontrassem mais respaldo e ganhassem eco. Conseguindo amparo
inclusive no espaço da política institucional, de maneira que, simplesmente ignorar, não
poderia mais ser a única opção. Essas pautas contribuíram significativamente para am-
pliação, fortalecimento e para unidade entre os parlamentares da Bancada Evangélica,
que ganhou apoio até dos católicos, especialmente, dos carismáticos. Construíram, a
partir dessas demandas, uma oposição, não seria exagero afirmar, inimigos em comum,
ou seja, aqueles que supostamente estariam do lado oposto na batalha travada no Con-
gresso. Consolidou-se, não apenas por parte da bancada evangélica, mas também, por
seus antagonistas, uma polarização que é lida por muitos evangélicos da seguinte ma-
neira, de um lado estão os seus pares favoráveis e defensores da moral e da família, do
outro, os seus contrários.
Essa polarização simplista, feita, especialmente, a partir das pautas morais, per-
versa em muitos sentidos, foi importante para legitimar a atuação de políticos evangéli-
cos e justificar sua inserção e participação no Congresso Federal. Consolidou a ideia de
que nunca foi tão importante ter “homens de Deus no governo do país”. Nessa perspec-
tiva, por mais contraditório que pareça, a discussão sobre gênero, aborto, sexualidade,
entre outros assuntos polêmicos, favoreceu, como nunca, os políticos evangélicos.
Antes de verificar como essa questão se assentou em Catalão, faz-se necessário
entender melhor a atuação da Bancada Evangélica nesse sentido, inclusive para
compreender o que está se chamando aqui de pautas morais. A Frente Parlamentar

7  Nome sugestivo, pois tenta englobar não apenas os evangélicos, mas todos os cristãos da Câmara federal.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Evangélica, dentre outras temas, faz coro contra a tentativa de criminalização da


homofobia, Casamento entre pessoas do mesmo sexo, Flexibilização do aborto e
legalização da maconha.8 Para combater esses pontos, criaram propostas como
proibição de adoção por gays, obrigatoriedade do ensino do criacionismo nas escolas,
dia do orgulho heterossexual, aborto como crime hediondo, redefinição do conceito de
família formada apenas entre homem e mulher, estabelecimento de normas de atuação
para os psicólogos em relação à questão de orientação sexual, projeto popularmente
chamado de “cura gay”, entre outros.9
Em Catalão essas pautas, apesar de discutidas em alguns espaços da cidade, co-
mo nas universidades e escolas, ainda não têm o mesmo peso como no cenário nacio-
nal. Essas temáticas polêmicas não são discutidas no âmbito da Câmara municipal, nem
se configuram como alvo de preocupação por parte das igrejas evangélicas da cidade.
Isso não significa que as tensões e embates em nível nacional não reverberaram em ní-
vel local, mas apenas que os efeitos causados são diferentes, dependendo da dimensão
que se observa. Nas eleições de 2012, alguns candidatos a vereador se apropriaram do
discurso de luta pelas causas dos evangélicos em favor da família. Obviamente, consi-
derando como estratégia para conquistar o eleitorado, assim como ocorreu na eleição
estadual e federal (SILVA, 2013).
A explosão provocada pela polarização construída no âmbito nacional, entre os
amigos e os inimigos da igreja e família, deixou estilhaços em Catalão, todavia insufi-
cientes para estabelecer o processo de identificação nós e eles, a relação nós e os outros,
fundamental para quem quer vencer no jogo eleitoral. O vereador evangélico que obteve
maior número de vitórias e que, por mais tempo ficou na câmara municipal, afirmou que
os projetos que pretende criar, especificamente, para a população evangélica da cidade,
são “criar o dia do evangélico, criar dispositivo para que todo o poder legislativo, execu-
tivo e judiciário tenha uma bíblia na entrada”10. Questões que passam ao largo do que
tem sido debatido no cenário nacional e que parecem não ser uma preocupação local.
Já o vereador Donizete Negão fez a seguinte afirmação, “depois que eu fui para
o meio político, aí eu não tenho uma igreja fixa, eu frequento várias porque eu visito e
gosto de comprar a briga, de ajudar vários pastores, vários ministérios”.11 O que nos faz
pensar, tendo em vista sua ação na Câmara, seus requerimentos e projetos, que, ou as
pautas morais não fazem parte da briga das igrejas que ele tem visitado, ou que ele não
comprou efetivamente a briga dos ministérios e pastores. Durante o mandato que estu-
damos, dos vereadores evangélicos, não encontramos nenhum projeto ou requerimento

8  Projetos como de Jean Wyllys 7270/2014; Eurico Junior 7187/2014; Iara Bernardi 122/2006; Marta Suplicy
612/2011.
9  Projetos como de Marcos Feliciano 8.099/2014; Anderson Ferreira 6583/2013; João Campos 234/2011;
Francisco Silva 4703/98.
10  Entrevista com o vereador Vandeval Florisbelo, Cedida em 25/09/2012.
11  Entrevista com o vereador Donizete Negão, Cedida em 07/07/2013.

97
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

referente às ditas pautas morais. Nenhuma discussão, nas sessões da Câmara, que tives-
se como foco essas temáticas. Talvez porque a Câmara de vereadores não teve nenhum
representante que fosse, declaradamente, antagonista dos evangélicos e dos seus valores.
Mas, durante as eleições, até mesmo candidatos que não exploram exacerbadamente
sua pertença religiosa, para obter votos, se apropria do discurso de luta pela causa evan-
gélica quando é conveniente. Quando Vandeval estava em Campanha, avaliando suas
gestões anteriores, disse que

“é muito importante ter um evangélico lá dentro porque aparecem leis


controversas. E nós temos que combater estas leis controversas para
os evangélicos, principalmente uma que apareceu lá e eu derrubei ela,
exigindo que todas as igrejas evangélicas daqui de Catalão pusessem
isolamento acústico porque acusaram de nós sermos muito barulhentos,
eu fui e derrubei esta lei, como também requerimento, apoiando o
casamento homoafetivo e eu também fui e derrubei lá. Então é muito
importante essa questão de ter uma bancada evangélica lá. Embora seja
só eu, eu torço para mais gente esteja lá, os evangélicos, para que nós
podemos, nestas circunstâncias, despovoar o inferno, porque temos que
ter pessoas ligadas a esse segmento lá. Porque é de muita importância, e
minha meta é ajudar toda a população de Catalão, mas, principalmente,
os domésticos de casa.”12

As pautas morais e religiosas são mais lembradas em contexto de campanha,


mesmo assim, se mostraram incapazes de produzir unidade do segmento evangélico em
Catalão. As igrejas continuam buscando satisfazer suas demandas pontuais e particu-
lares, muito mais através das negociações com os partidos políticos e o governo do que
propriamente com representantes políticos necessariamente evangélicos.
Para além da aproximação com a política, a comunidade evangélica, em nível
local, ainda não conseguiu unidade, ao que tudo indica, pelo próprio desinteresse das
maiores e expressivas denominações, que parecem ainda não desejarem tal coletividade.
Ou porque ainda não se faz necessária para obter aquilo que lhes interessa junto ao go-
verno local. As pautas morais e religiosas, quando analisadas na cidade de Catalão, não
funcionam como promotoras do processo de identificação, para construção de um nós
no fragmentado segmento evangélico local. Não funcionam como fator determinante
capaz de justificar e ampliar a participação de evangélicos na política. Não conseguem
garantir a ação conjunta e articulada dos vereadores evangélicos que compõem a Câma-
ra. Não é o foco das igrejas evangélicas. As relações entre política e religião, na cidade de
Catalão, nesse aspecto, não se movimentam pelo mesmo combustível que tem alimen-
tado a dinâmica no cenário nacional.

12  Entrevista com o vereador Vandeval Floresbelo. Cedida em 25/09/2012.

98
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

O que demonstra que a comparação entre o âmbito local e nacional é marcada,


não apenas por aproximações, mas também por distanciamento, como observamos ao
longo deste capítulo. Por mais que Catalão expresse elementos que se desenrolam como
tendência em todo país, expressa também suas especificidades que a torna diferente de
outras realidades e experiências.
Antes de encerrar esta reflexão, é necessário fazer duas ponderações sobre o
que foi discutido. A primeira é que outros estudiosos poderiam elencar outros tantos
temas que expressariam esse des(vínculo) entre a dimensão nacional e local. Mas os
apresentados, aqui, foram os que mais nos chamaram atenção e suscitaram reflexão,
por isso, reiteramos que não são os únicos apenas aqueles que nos interessamos
mais no momento da pesquisa. A segunda é apenas para ressaltar que a realidade
social não é estática, mas dinâmica, de tal maneira que o que foi estudado, analisado
e compreendido, está em pleno processo de transformação e pode aparecer, noutro
momento, com contornos e configurações diferentes dos que foram apresentados até
aqui, pois podem mudar as demandas, as alianças, os posicionamentos, as lutas, as
estratégias, as ambições, as pessoas, os grupos sociais, etc. O que evidencia o quão difícil
é transpor para forma escrita a complexa dinâmica social.

Referências
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Santana-BA: UEFS, 2011.

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99
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

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2013.

100
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Falando de gênero
e diversidade nas
aulas de História
Pedro Henrique Gouveia Arantes
Graduando em História/INHCS/UFG/RC
Eliane Martins de Freitas
PPGMPH/ UFG/RC

O presente texto visa apresentar os resultados parciais do projeto Falando de


gênero e diversidade nas aulas de História: produção de material de ensino para o ensino
escolar da História. Esta pesquisa, desenvolvida junto ao Laboratório de Pesquisa Gêne-
ro, Etnicidade e Diversidade – LaGED/INHCS/UFG/RC, é um subprojeto da pesquisa
intitulada O Ensino de História: da pesquisa na graduação a atuação na sala de aula, e
conta com financiamento do Programa de Licenciatura – PROLICEN-IC/UFG. O ob-
jetivo geral da pesquisa é a produção de material didático voltado para educação básica
utilizando os temas gênero e sexualidade, no intuito que o material produzido possa
estimular o debate e o ensino dos temas gênero, sexualidade e história das mulheres em
sala de aula. Contribuindo, assim, para uma educação menos sexista com mais igualda-
de e com menos estereótipos de gênero.
Escolhemos trabalhar com a história das mulheres porque vivemos em um país
que possui a quinta maior taxa de feminicídios do mundo. Todos os dias são retratadas
as mortes de mulheres por seus parceiros, o assunto domina as mídias, mas não há
uma conscientização sobre o tema somente um alarde utilizando a dor das vítimas e da
família em busca de audiência. Acreditamos que a ausência da discussão sobre gênero
nas escolas contribui para manutenção desse estado de coisas e para ao alto número de
crimes de feminicídios dentro do território nacional. Logo, esse material é a tentativa
de contribuir levando para o ambiente escolar esses temas para serem discutidos com
alunas/os e professoras/es.
É de fundamental importância conseguir discutir com crianças e adolescente em
formação que as mulheres são agentes históricos, que elas possuem uma história e que
sua história tem a mesma importância que a dos homens. Bem como, que as mulheres
não são “destinadas” naturalmente à reprodução, como tantas vezes foram reduzidas a
isso ao longo da história.
Trabalhar com a história das mulheres não é tarefa fácil, pois dentre as dificul-
dades de pesquisa as/os historiadoras/es defrontam-se com a escassez de fontes. Con-
forme a historiadora Michelle Perrot (2005 e 2007) a falta de fontes de pesquisa sobre as

101
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

mulheres só começa a ser superada no século XIX, lembrando que a história das mulhe-
res como um campo de estudos da ciência história só se constitui a partir dos anos 1970.
De acordo com Freitas (2016, p. 59): “Quase sessenta anos depois, e apesar da
consolidação do uso da categoria gênero no meio acadêmico, ainda podemos afirmar
que se trata de um campo em construção e, principalmente, de um campo em disputa”.
As estudiosas da área têm demonstrado que o campo passou por várias transforma-
ções neste período, desde as primeiras abordagens descritivas, ou preocupadas com o
“resgate” das “grandes personagens femininas”, a história das mulheres tem enfrentado
muitas críticas e incompreensões. Mas, conforme Tilly (1994), já dispomos de uma vas-
ta produção historiográfico que permite “escrever uma história analítica das mulheres”
(TILLY, 1994, p. 29).
Neste sentido, apresentamos a seguir a pesquisa bibliográfica realizada em três
bases de dados (Scielo, Google Acadêmico e Biblioteca Digital da USP) acerca da história
das mulheres, ou das mulheres na história do Brasil, especificamente na Primeira Re-
pública. A escolha do recorte temporal se deu em função de ser o período da luta das
mulheres pelo sufrágio e também por melhores condições de trabalho.
Em termos metodológicos partimos do pressuposto de que a pesquisa biblio-
gráfica é o primeiro passo de uma pesquisa científica, e que sua importância se dá em
função da necessidade de se conhecer o que já existe produzido sobre a temática pesqui-
sada. Assim, ao empreendermos a pesquisa sobre a história das mulheres na Primeira
República tínhamos como premissa a necessidade de contextualizar nosso objeto e de
conhecer a produção sobre o mesmo.
Optamos inicialmente por realizar a pesquisa nas bases de dados Google
Acadêmico e Scielo, e em seguida estendemos para Biblioteca Digital da USP. As chaves
de pesquisa utilizadas foram: mulheres, mulheres na história do Brasil, mulheres na
Primeira República e mulheres no período de 1889 a 1930. Buscando por artigos
científicos, livros, capítulos de livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado.
A pesquisa deu-se da seguinte maneira: a primeira etapa se caracterizou pela
busca simples dos títulos que continham um ou mais dos descritores utilizados. Em
seguida selecionamos as produções que abordavam: a história das mulheres no Brasil,
história das mulheres na Primeira República e as que falavam sobre as mulheres no pe-
ríodo que delimitado, mesmo que não fossem somente sobre as mulheres, mas que de
alguma forma abordavam a temática.
Na Scielo encontramos no primeiro momento 889 referências; no Google Acadê-
mico, 743 referências; e na Biblioteca Digital da USP, 9.760 referências, ressaltando que

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

nesta base a busca não foi exata devido a problema no site de buscas. Desse total de 11.392
arquivos encontrados nas três bases, foram selecionados 38, dentre artigos, dissertações e
teses de doutorado, tendo como critério de inclusão todas as produções que trouxessem
informações sobre as mulheres durante o período da Primeira República (1889 a 1930).

Tabela 1: Número de artigos escolhidos por base pesquisada

Chaves de pesquisa Base de dados Total por assunto Selecionados


Mulheres Scielo 889 8
Mulheres na História do BD USP 9.760 * 6
Brasil
História das mulheres no Google 661 11
Brasil Acadêmico
Mulher: moral e o imaginário Google 82 13
1889 a 1930 Acadêmico
11.392 38
*busca imprecisa devido à problema no mecanismo de busca do site

O campo historiográfico História das Mulheres é um campo recente na


historiografia brasileira, os primeiros trabalhos datam de meados dos anos 1980,
inaugurado, pelo hoje clássico Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, livro de
Maria Odila Leite da Silva Dias, publicado, em 1984. De lá para os dias atuais o campo
tem se consolidado significativamente, principalmente a partir do desenvolvimento de
outro campo historiográfico: os estudos de gênero. Essa consolidação não se deu de
forma tranquila, o campo da História, como qualquer outro campo científico, é um
campo em disputa.
Neste sentido, acreditamos que sistematizar o conhecimento produzido sobre a
história das mulheres no Brasil, e mais especificamente, sobre a História das mulheres
na Primeira República, é de suma importância para uma avaliação sistemática desse
campo, e pode ajudar a apontar as transformações e desafios pelos quais passou nas
quatro últimas décadas.
Ao analisarmos o material selecionado em nossa pesquisa bibliográfica chama a
atenção o fato de que as publicações encontradas localizam-se no período entre 1997 e
2017, distribuídos conforme gráfico a seguir.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Gráfico 1: Distribuição dos estudos segundo o ano de publicação

A leitura do Gráfico 1 nos permite constatar que a maioria dessas publicações


concentra-se no período de 2003 a 2017, ou seja, quase noventa por cento foi produzido
nas duas últimas décadas. Acreditamos que tal concentração pode ser explicada, dentre
outros fatores, pelo fato de que este período foi marcado pela expansão dos cursos de
Pós-graduação em História no Brasil. E também pela consolidação de grupos de estu-
dos de gênero.
Em relação ao material selecionado (38 publicações), dentre artigos, dissertações
e teses de doutorado, distribuídos conforme o gráfico a seguir.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Gráfico 2: Distribuição dos estudos por tese/artigo e dissertação por base de dados

O gráfico demonstra que mais da metade do material encontrado é oriundo da


base de dados Google Acadêmico. Tal resultado deve-se à maior abrangência desta base,
comparada às demais.
Quanto às temáticas, temos três materiais que selecionamos para poder trabalhar
neste primeiro momento, deixando claro que depois trabalharemos com o maior número
de artigos possíveis entre os selecionados para a produção do material didático, tentando
torná-lo mais vasto e repleto de informações sobre as mulheres na primeira república.
Ao escolher os materiais, os selecionamos nos baseando no que atendesse nossas
necessidades para a produção do material didático, mas optamos por selecionar teses,
dissertações, artigos e livros para serem trabalhados no primeiro momento, especifi-
camente escrito por mulheres, buscando romper com o androcentrismo que já é tão
forte na história, tentando deixar que as mulheres sejam protagonistas desse debate,
buscando uma não inviabilização de seus trabalhos e sim uma possível divulgação dos
mesmos. A história tem inviabilizado as mulheres em diferentes âmbitos e momentos.
Conforme afirma MENDES (2010): “A História, como disciplina machista, sexista e
autoritária que é, suprimiu de seu estudo determinados indivíduos. Isso é muito nítido
quando tentamos estudar as mulheres libertárias” (p. 19).
Selecionamos a dissertação de mestrado da Samanta Colhado Mendes (UNESP),
intitulada As mulheres anarquistas na cidade de São Paulo: 1889-1930, por meio da dis-

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

sertação iremos trabalhar mostrando o percurso das mulheres anarquistas na cidade de


São Paulo, trabalhando com seu impacto e sua importância no movimento anarquista e
apontando também como as mulheres anarquistas não são coadjuvantes de sua própria
história, trabalhando em cima da opressão sofrida pelas mulheres nesse período seja
moral, político ou econômico; trabalhando com o que a autora vai chamar de modelo
único de mulher: “a “esposa-mãe-dona-de-casa” assexuada e só dedicação aos filhos,
ao marido e ao lar”. Este estudo é muito importante para conseguir entender o impacto
político, econômico e social que as mulheres anarquistas e as mulheres de uma maneira
geral tem nesse período, a tese trabalha com artigos publicados na primeira república
em jornais anarquistas sobre como as mulheres viam a educação como peça fundamen-
tal para sua emancipação: intelectual, econômica e social. Matilde Magrassi, libertária
e operária vai dizer no jornal Amigo do povo: “[...] a luta das mulheres operárias não
deveria ficar restrita às fábricas, à reivindicação de melhores condições de trabalho e
melhores salários. Deveria ser uma luta contra a sociedade de classes, contra a explora-
ção do capital e contra o Estado” (MAGRASSI apud MENDES, 2010)
Por meio desse material buscamos trabalhar também a importância da educação
para as mulheres. A única solução vista pelas operárias anarquistas para a emancipação
feminina seria a educação e a emancipação intelectual como diz Maria Lacerda:

“Cumpre desembaraçá-la das peias que a encarceram mentalmente. En-


quanto não souber pensar será instrumento passivo em favor das institui-
ções do passado. E ela própria, inconsequente, trabalha pela sua escravi-
dão. E o cativeiro é tal que se revolta se outras mulheres querem elevá-la
à altura dos seus direitos clamando contra a violação do pensamento fe-
minino. Enquanto não pensar, em vão tentaremos quebrar os grilhões
para a nossa independência individual; a mulher é escrava; dependente
do salário, do homem, do seu capital. Assim é impossível a libertação. Seu
cérebro foi considerado infantil pelo egoísmo masculino dos ancestrais.
[...] A brasileira ardente, altiva, inteligente, idealista, generosa, num im-
pulso final, por entre relâmpagos da consciência adormecida, perceberá.
[...] Faltam-nos escolas. Faltam-nos educadores na acepção mais ampla
da expressão. Faze-los nascer deste mesmo povo – eis o que é preciso.”
(MOURA, 1922, apud MENDES, 2010)

Buscando com a representação das mulheres anarquistas a quebra do modelo


patriarcal burguês e católico de mulher ideal, mostrado que não existe um padrão a ser
seguido, conseguindo assim quebrar estereótipos ligados as mulheres e ao seu padrão
de vida (pré-definido pela sociedade) permitindo assim maior liberdade de escolhas e
exercício da criatividade (para imaginar o seu destino, como ser único e independente)
na tentativa de criar uma consciência para que as crianças consigam entender que as

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

mulheres são livres para ter suas escolhas e que elas são capazes de afetar e mudar o
mundo que as cerca assim como o seu próprio mundo.
O segundo estudo selecionado foi o artigo de Micol Seigel (New York University)
e Tiago de Melo Gomes (UNICAMP), intitulado Sabina das Laranjas: gênero, raça e
nação na trajetória de um símbolo popular, 1889-1930, publicado em 2002 pela Revista
Brasileira de História. O artigo faz uma discussão sobre raça e gênero no período da
primeira república e a relação dos acontecimentos e do processo com a construção de
uma nova identidade nacional, tudo isso por conta de uma passeata organizada em
1989 por estudantes de medicina defendendo uma quitandeira que foi desalojada do
seu ponto de venda. A vendedora de laranjas Sabina foi proibida pelo subdelegado de
vender seus produtos na frente da Faculdade de Medicina, onde tinha o ponto há muitos
anos: “Os acadêmicos de todos os anos da escola reuniram-se em frente ao edifício da
faculdade, [...] munidos de laranjas fincadas na ponta de suas bengalas e protestaram
andando pela cidade e atraindo mais pessoas para o protesto”. (Diário de Notícias, 26-7-
1889 apud SEIGEL e GOMES, 2002, pp. 171-172).
Após esse acontecimento a figura de Sabina se tornou tão conhecida que iria vir
a ser citada durante a primeira república em diversos momentos. A figura de Sabina foi
responsável por levantar questões sobre raça, gênero e sobre a identidade nacional, a
passeata feita em seu favor foi vista como algo carnavalesco, sendo o carnaval naquele
momento uma ferramenta de apoio aos abolicionistas. Trabalharemos com o fato de
Sabina ser descendente de escravos e o seu corpo como forma de resistências as opres-
sões, por ser mulher e negra, a mesma como pioneira para abrir caminho para afro bra-
sileiros em peças de teatro e revistas conseguindo levar isso para a culturas das massas
no Rio de Janeiro em 1890, utilizaremos sua figura para discutir questões raciais, sua
representação nos palcos, seu corpo e os símbolos de marginalização da sociedade nele
presente, assim como o movimento abolicionista e a influência de Sabina na formação
dos tipos de “baianas” e “mulatas” e sua hipersexualização no século XIX enquanto
mulheres afro-brasileiras.
Trabalharemos com o livro Mulher: A moral e o imaginário 1889-1930, de au-
toria de Clarisse Ismério e publicado em 1995 pela EDIPUCRS. Usaremos o livro para
discutir a questão da educação da mulher e seu impacto na sua vida e tanto na parte
profissional como na vida pessoal e no seu acesso à cultura, o livro faz uma análise
sobre o governo positivista rio-grandense e seu retrocesso na área da educação especifi-
camente na educação feminina, numa tentativa de colocar a mulher de volta ao espaço
privado não permitindo seu desenvolvimento profissional e intelectual, e acima de tudo
tentando marginalizar as mulheres e silenciá-las novamente num momento em que elas
começam a tomar a rédea de suas próprias vidas e destinos, tentando escrever e contar
sua própria história. Por meio do livro poderemos compreender como funciona a invia-
bilização da mulher e compreender ainda mais o movimento das mulheres anarquistas

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

e a questão do voto, das mulheres no chão da fábrica e sobre a opressão constante do


patriarcado tentando recolocá-las para dentro do espaço privado na tentativa de limitá-
-las novamente a um único tipo de papel: de mãe/dona de casa/esposa dedicada.
Cabe ressaltar, citando PERROT (2005), que temos clareza que: “a observação
das mulheres nos papeis diz mais sobre os discursos praticados na época do que das
mulheres em si”. Por isso é necessário muito cuidado ao tratar da história das mulheres,
uma vez que grande parte dos documentos foi produzida por homens que possuíam e
possuem um interesse voltado pra manutenção do patriarcado e do sistema de opressão
as mulheres. É necessário ter isso em mente para não cair nos estereótipos que sempre
recaem sobre as mesmas e acabar por reproduzi-los.

Considerações Finais
A história das mulheres é uma área da historiografia relativamente nova e por
isso é esperado alguns desafios a serem superados como a escassez de bibliografia.
Para Perrot (2005): “Mulheres tiveram negado até recentemente seu acesso ao espaço
público, o que dificultou o acesso a fontes e a de produzi-las a partir de pistas”. Tivemos
durante um longo período homens escrevendo sobre mulheres, e escrevendo sobre elas
de maneira estereotipada ou até mesmo inviabilizando sua existência e as ignorando
como agentes historiográficos.
O nosso trabalho após encontrar o material desejado foi tentar entender como
trabalharíamos com ele. Fizemos a seleção de três materiais, com eles selecionamos
um que focasse na emancipação da mulher e, na mulher como atuante e produtora do
próprio destino, também na mulher como atuante do próprio mundo onde ela era capaz
de gerar mudanças pra si mesma e também para os outros. Depois selecionamos um
material que permitisse levantar a discussão de gênero, raça e a criação de uma nova
identidade nacional e do impacto das mulheres na história, conseguindo entender seu
impacto na cultura e nas transformações como a entrada de afro-brasileiros no teatro.
E por fim, selecionamos o livro Mulher: a moral e o imaginário 1889-1930, onde será
possível levantar o debate sobre educação como emancipação da mulher e também
sobre como houve tentativas de voltar a mulher para o espaço privado.
Esperamos conseguir mostrar no material que será produzido, que existe uma in-
finidade de caminhos a serem seguidos e que as mulheres não precisam seguir o padrão
esperado pela sociedade burguesa, o de uma mulher devotada ao lar, aos filhos e ao mari-
do. Mas que podem se permitir viver e experimentar diversas coisas sem o medo de serem
julgadas ou de não conseguirem em função de seu gênero, etnia ou orientação sexual.

108
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Bases de dados
Scielo Brasil: <http://www.scielo.br>

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110
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Gênero e educação
infantil: A
inferência das
brincadeiras na
construção de
identidades de
gênero
Beatriz Siqueira Anselmo
Graduanda - Universidade Federal de Goiás
Carmem Lúcia Costa
Doutora -Geografia/UFG/ Catalão

Introdução
A partir dos estudos de diferentes correntes feministas, surgiu a concepção do
conceito gênero. Sendo o patriarcado um sistema de opressão dentro do capitalismo,
tem grande poder na construção da identidade de gênero, devido a extrema exigência de
um padrão socialmente aceito – heterossexual, branco e cristão -, entretanto, este, não
contempla a complexidade do termo gênero, ou seja, sua pluralidade, individualidade
e transformação, sendo este, construído no decorrer da vida de um indivíduo. Nesse
contexto, é importante evidenciar que essa construção de homens e mulheres leva em
consideração a diferença binária entre os sexos, moldando um indivíduo como machos
ou fêmeas, os quais devem cumprir papeis sociais preestabelecidos e naturalizados des-
de a infância. Esse processo se inicia em âmbito familiar e escolar, que atuam como ins-
tituições normativas, estabelecendo feminilidades e masculinidades a serem seguidas.
Dessa forma, faz-se necessário discutir o concerne dessa construção que se inicia
na infância, a partir das concepções familiares e das primeiras relações entre as crianças
que ocorre principalmente no início da educação básica. Seguindo a óptica do patriar-
cado, essas crianças são moldadas a partir das concepções culturais de uma sociedade
em um determinado período histórico; as feminilidades e masculinidades são expostas
desde muito cedo, preparando a criança para papeis sociais preestabelecidos, a partir de
brincadeiras diferidas entre meninos e meninas. Nesse sentido, as pesquisas bibliográ-

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ficas e as pesquisas empíricas evidenciam a diferente formação entre os sexos e, como


ocorre essa divisão, desde os materiais escolares, ao vestuário e a interação entre as
crianças, reafirmando o poder do masculino em função do feminino, sempre subjugado.

Movimento Feminista e a origem da


discussão de gênero
Primeiramente, faz-se necessário o entendimento acerca do movimento
feminista, que desde seu concerne no feminismo liberal, o qual teve como marco o
movimento sufragista, resgatando concepções da Revolução Francesa, que ocorrera em
1789. Olympe de Gouges quis reescrever o documento marco - Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão - de tal Revolução, pois este, não mencionava as mulheres,
ou seja, a mulher era subjugada a partir da hierarquização do masculino em relação
ao feminino; sendo assim, as mulheres formavam uma espécie de segunda classe,
não possuindo os mesmos direitos sociais e políticos que os homens. Dessa forma,
Gouges modificada o documento sob uma nova perspectiva, nomeia-se de Declaração
dos Direitos da Mulher e da Cidadã, proclamando que as mulheres também possuíam
direitos inalienáveis, tais como a liberdade, a propriedade e o direito ao voto feminino.
As feministas desse momento, portanto, possuíam um projeto igualitário, pau-
tado sob perspectiva Iluminista, reivindicando o direito das mulheres na óptica social
e política. Negavam a naturalização existente entre os sexos, pois acreditavam que as
diferenças enfatizadas por tal determinação binária eram devido à falta de educação
igualitária e de direitos civis e políticos.
Em meados de 1750, inicia-se a Revolução Industrial na Inglaterra, expandin-
do-se por quase toda Europa até 1850. Tal industrialização marca o desenvolvimento
do capitalismo, com isso, diversas mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas,
como por exemplo, a divisão social do trabalho, o qual atinge a classe proletária, espe-
cialmente as mulheres. Diante desse cenário, estudiosos como Marx, faz críticas a tais
mudanças ocorridas na sociedade nesse período. Com essa influência marxista, surge
uma nova concepção de feminismo, denominada feminismo marxista - entendia que a
causa da subordinação feminina deriva da própria organização da economia (liberal) e
da divisão social do trabalho. Portanto, a emancipação das mulheres ocorreria a partir
da abolição da propriedade privada e com o fim divisão sexual do trabalho.
A partir de tais correntes, surgiram outras a partir de 1970, como o feminismo
radical e, o feminismo interseccional. O primeiro tem como princípio a emancipação do
corpo da mulher, discute temas como maternidade e sexualidade, por exemplo. Além
disso, o movimento radical faz uma forte crítica ao patriarcado, o qual naturaliza os
papeis masculinos e femininos (enaltecendo o primeiro) na sociedade, estipulando um
determinado padrão, o que dificulta a autonomia do corpo feminino. Já o feminismo

112
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

interseccional, acredita que as mulheres não são um grupo homogêneo, ou seja, apesar
das mulheres serem oprimidas pelo patriarcado, devida a “obrigatoriedade” de seguir
diversas condutas, como roupas e sua aparência, por exemplo, tais opressões decorrem
de forma diferente, nesse momento, há a interseccionalidade entre sexo, raça, sexuali-
dade e classe, portanto, a opressão se daria de forma mais concisa a partir dos diversos
marcadores sociais.
Nesse contexto, a partir do embate do movimento feminista – sempre preocu-
pado em problematizar as relações de poder de maneira central - durante a segunda
metade do século XX surgiu o conceito gênero. Algumas feministas como Simone de
Beauvoir salienta que o conceito de gênero refere-se à uma construção social, ou seja,
apesar de nascermos machos ou fêmeas levando em consideração os aspectos biológicos
e fisiológicos da raça humana, a construção de gênero é decorrente de uma construção
social, realizada pela cultura. É importante diferenciar o conceito de sexo dentro desta
perspectiva, o qual diz respeito ao atributo anatômico e, portanto, binário, não levando
em conta tamanha multiplicidade na construção de indivíduos, diferenciando-os ape-
nas biologicamente. Segundo Louro, “É neste argumento que homens e mulheres são
biologicamente distintos e que a relação entre ambos decorre desta distinção, que é com-
plementar e na qual cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente,
acaba por ter o caráter de argumento final, irrecorrível”. (LOURO, 1997, p. 20-21).
O Gênero é marcado principalmente por pluralidade, individualidade e transfor-
mação. Sua pluralidade advém das diversas variações observadas no gênero. A indivi-
dualidade, devido a singularidade, pois é uma formação construída por cada indivíduo.
Já a transformação, é devido as mudanças que se pode ocorrer ao longo da vida de uma
pessoa. Nesse sentido, é observável que o gênero tenta decifrar as relações sociais levan-
do em consideração as complexidades do ser humano. Dessa forma, pode-se dizer que
gênero se difere ao sexo em razão de complexidade, dado que o sexo leva em considera-
ção a distinção binária, ou seja, feminino e masculino, por conta de aspectos biológicos
e fisiológicos. “Pois, se o corpo é sempre entendido a partir de um ponto de vista social,
o conceito de sexo estaria subsumido no conceito de gênero” (NICHOLSON, 2000).

A Construção do gênero na infância e a


atuação do Poder dominante
O aprendizado de gênero é construído na socialização com a família e a escola.
A partir deste momento há uma divisão entre o masculino e o feminino, levando em
conta relações estabelecidas na sociedade, naturalizando e segregando certos papéis a
partir da divisão binária entre os sexos. Nesse sentido, pode-se dizer que há a existência
do “poder disciplinar” nessas relações, pois estas advêm de práticas cotidianas que
condicionam a estruturação de papeis naturalizados. Ademais, educação básica

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

é um dos pilares para a interação e socialização das crianças na mesma faixa etária,
esse contato com outros indivíduos ajuda-os em seu aprendizado e desenvolvimento.
Entretanto, a escola é uma instituição normalizadora da era moderna, responsável
por uma intensa homogeneização e estereotipação dos corpos. Mesmo já sendo algo
ensinado pela família, quando chegam na escola, meninos e meninas desempenham
diferentes atividades e brincadeiras, rotulando-os de acordo com o aspecto social em
que estes vivem, naturalizando “coisas de meninas” e “coisas de meninos”. Segundo Joan
Scott (1995) “Brincadeiras de meninos e meninas, sobre o modo como se relacionam e
se manifestam culturalmente frente às questões de gênero, pode ser entendido como a
organização social da diferença sexual”.
Devido a uma imposição cultural e social, as crianças são moldadas na escola
e em âmbito familiar, a se comportarem de distintas maneiras de acordo com seu sexo
(homem dominante em contraponto a mulher dominada). Tal naturalização é direciona-
da a partir de brincadeiras predeterminadas; oferecer aos meninos armas, jogos de luta
e carros, por exemplo, é uma forma de estabelecer uma insensibilidade e agressividade,
preparando-os a concorrência de um espaço público; “homem não chora”, “Está pare-
cendo uma menininha”. Já ás meninas oferece-se bonecas e utensílios domésticos, é uma
forma de indicar-lhes o espaço privado como cenário de atuação na vida adulta. Dessa
forma, é imposta uma sensibilidade ás meninas, tornando natural a maternidade. No
momento que uma criança sai desse estereótipo - uma menina joga futebol, ou um meni-
no brinca com uma boneca; ela é uma anormalidade, pois certas brincadeiras são postas
como naturais de meninas ou meninos. “As crianças aprendem o sexismo na escola ao
se defrontar com a hierarquia do sistema escolar, onde os papéis feminino e masculino
estão determinados”. (ALAMBERT, apud VALENZUELA; GALLARDO, 1999, p.25).
A partir desta construção, a qual é naturalizada, percebesse que as relações de
poder são diferenciadas ao citarmos as interações entre homens e mulheres, ocorren-
do a hierarquização do primeiro – que para Foucault não é um privilégio que alguém
possui ou se apropria (apenas alguns), seria um instrumento de manobra, de posse – O
acesso a esse poder, funciona como uma espécie de estratégia já que o poder/Poder está
subliminarmente (ou não) representado por um determinado grupo, ou classe. O Poder
é exercido de diferentes maneiras, tanto institucionalmente (letra maiúscula), o qual po-
de ser representado como um aparelho de coerção do Estado, como por exemplo, a pro-
posta normatizadora da escola moderna e, até mesmo o próprio Estado na efetivação
de leis, pelo controle do território e domínio de recursos. Já o poder (letra minúscula)
não é institucionalizado, este é uma forma de resistência, já que representa um grupo
que não se ascende ao poder institucionalizado, portanto não coercitivo, mas resistente
a uma opressão, é um poder que pode ser exercido por todos.

114
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Metodologia
A pesquisa tem como proposta em primeiro momento um levantamento
bibliográfico referente as discussões e as leituras feitas em sala - gênero, sexualidade
e poder; e o Poder -; além de leituras referentes ao gênero, feitas desde a entrada no
grupo Dialogus - estudos interdisciplinares em gênero, cultura e trabalho. Para tal, são
enfatizados autores/as como Raffestan, Scott e Louro. Com intuito de compreender as
relações de gênero a partir de uma perspectiva de poder, sendo ele institucionalizado, ou
não, evidenciando a hierarquização do masculino em função do feminino. A pesquisa
pretende fazer uma leitura atenda sobre tais discussões, e engendrar discussões de
cunho político, social e cultural destas perspectivas. O segundo momento da pesquisa
parte de resultados empíricos evidenciados na observação da rotina de crianças entre 4
e 7 anos do jardim 1 e jardim 2.

Resultados e discussão
Espera-se com esta pesquisa compreender melhor as relações de gênero dentro
do patriarcado. O propósito é evidenciar a complexidade do conceito gênero e, como
as relações de poder estão inseridas nesse contexto; como se forma a identidade de
gênero nas escolas, as quais atuam naturalizando e predeterminando papeis sociais que
“devem” ser seguidas por homens e mulheres ao longo da vida. Além disso, foi analisada
a trajetória do movimento feminista, produzindo conteúdos teóricos que quebrem a
enfática hierarquização do masculino em relação ao feminino.
Foi observável na pesquisa em campo, realizada na escola, os símbolos de mas-
culinidade e feminilidade nos materiais escolares, por exemplo, meninas com mochilas
rosa ou cores mais claras, geralmente com desenhos de princesas; o vestuário dessas
crianças também segue essa lógica, além do uso de brincos, pulseiras, perfumes e até
mesmo maquiagens. Já os meninos, incorporam sua masculinidade desde muito cedo,
assim como a feminilidade entre as meninas, entretanto, de forma antagônica; estes
possuem mochilas de cores escuras, com super-heróis ou carros; além disso, os meninos
não possuem uma preocupação estética como as meninas. As brincadeiras são reali-
zadas de forma conjunta, como “pique-pega” e “esconde-esconde”, mas quando estas
atividades desempenham um papel de gênero, como brincar de “casinha”, não há parti-
cipação dos meninos.

Considerações Finais
A partir das leituras efetuadas para a realização deste artigo, é nítida a percepção
da importância dos movimentos feministas para a ressignificação de poder, o qual
hierarquiza as relações entre homens e mulheres, os quais foram construídos a partir

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

de um molde social, uma espécie de padrão a ser seguido, para haver uma aceitação
na sociedade, sem levar em consideração as múltiplas facetas de gênero, das etnias,
das raças e das sexualidades, estipulando um padrão heterossexual, masculino, cristão
e branco. Adjunto a isso, essa cobrança social é enraizada pelo patriarcado; tanto os
homens, quanto as mulheres desempenham papeis naturalizados nesse sistema de
opressão. Ademais, a multiplicidade de gênero é escondida em prol de uma divisão
binária entre os sexos, dessa forma, a masculinidade deve ser exaltada pelo homem,
assim como a feminilidade pela mulher.
Portanto, a partir destas perspectivas, as brincadeiras são mediadoras de uma
construção social, as quais influenciam na feminilidade e masculinidade das crianças
e, são rotuladas a partir de papeis sociais predeterminados, direcionando-as a um con-
ceito enraizado do que é ser uma mulher ou um homem. Tal conceito é naturalizado e
empregado nas crianças de acordo com seu sexo, o qual não representa a complexidade
da categoria gênero, subalternando a mulher e valorizando o masculino. Consequen-
temente, associando-os as brincadeiras, as crianças vão estabelecer padrões e papeis
sociais, do que refere ser mulher e homem, a partir das características biológicas e fisio-
lógicas do indivíduo.

Referências
ARAUJO, R. Gênero, Diversidade Sexual e Currículo. Práticas Discursivas e de não
subjetivação no ambiente escolar. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia, 2016.

BRASIL. Gênero e Diversidade na Escola: Formação de Professores em Gênero,


Sexualidade, Orientação Sexual e Relações Étnico-Raciais. Centro Latino-Americano
em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/IMS/UERJ).

LOURO, G. Gênero, sexualidade e educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. 10.


ed. Petrópolis, RJ; Vozes, 2008.

FILHA, C. X. Educação para a Sexualidade, para a Equidade de Gênero e para a


Diversidade Sexual. Campo Grande, MS: ED. UFMS, 2009.

RAFFESTAN. Pour une geographie du pouvoir. Geografia e política. v.29.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Imprensa e Memória
nos 100 anos da
Revolução
Valdivino Nunes dos Santos Junior
Graduando em História, UFG/RC
Ludmila Jardim da Conceição
Graduanda em Ciências Sociais, UFG/RC

História, Imprensa e memória nos 100 da


Revolução Russa
Os meios de comunicação e sua representação na atualidade fazem da
comunicação social um espaço interdisciplinar estratégico para a compreensão da
vida contemporânea. Particularmente em relação a imprensa e a sua aplicabilidade
metodológica, é possível perceber que seu uso encontra-se disseminado nas áreas
de trabalho das ciências sociais, na história e nas humanidades em geral. O uso da
imprensa demonstra um distanciamento do tempo em que a imprensa era considerada
uma fonte suspeita, a ser usada com cautela por apresentar problemas de credibilidade.
Incorporou-se então, a perspectiva de que todo documento, não apenas a imprensa
também é um monumento, sendo assim, deve ser considerado o campo da subjetividade
e da intencionalidade.
Considera-se essencial o “comportamento narrativo” no ato mnemônico, já que
este possibilita a comunicação de uma informação aos outros na ausência do aconte-
cimento que constitui o seu motivo. Deste modo, de acordo com as leituras é possível
afirmar que em todas as sociedades os indivíduos carregam em seu patrimônio genético
uma grande quantidade de informações, na sua memória a longo prazo. (LE GOFF,
1990, pp. 424 – 425)
Além disso, podemos afirmar que a imprensa no auge do seu surgimento revo-
luciona a memória ocidental, além da asiática. E, apesar das limitações da época os seus
efeitos sobre a memória foi muito importante, principalmente sobre as camadas cultas,
pois imprimiam, sobretudo, tratados técnicos e científicos que ajudaram no processo da
ampliação da memorização do saber.
Cruz e Peixoto (pp. 255 – 256) ressaltam que, os documentos deixaram de ser
considerados apenas um alicerce da construção histórica e passou a ser considerados
como parte desta construção em todos os momentos e articulações. Através do pro-
cesso de ampliação da nossa compreensão sobre as diferentes fontes incorporadas pelos

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

estudos históricos, como a imprensa, e utilizá-los como documento de pesquisa e ma-


terial didático.
Portanto, se faz necessário refletir acerca da historicidade da Imprensa, proble-
matizando as suas articulações ao movimento geral, mas também nas conjunturas mais
especificas ao longo do processo de construção, constituição e consolidação do poder
burguês e na luta pela hegemonia capitalista. Para as autoras (p. 257), “pensar a impren-
sa com esta perspectiva implica, em primeiro lugar, tomá-la como uma força ativa da
história do capitalismo e não como mero depositário de acontecimentos nos diversos
processos e conjunturas.” Isto quer dizer que se deve levar a cada conjuntura e especifi-
cidade que se investigada, os desdobramentos teóricos e metodológicos que a imprensa
encaminha, associando a análise de qualquer publicação ao campo de lutas sociais no
qual ela atua.
Considerando então, a imprensa uma força social, esta delimita espaços, consti-
tui decisões, demarca temas, mobiliza opiniões e consensos. Além disso, atua ativamen-
te na produção de hegemonia, articulando uma compreensão sobre a temporalidade,
propõe uma análise do presente, reconstroi a memória coletiva relacionado a sujeitos, a
eventos e a projetos, na intenção de articular as relações presente e passado, aplicando
as perspectivas futuras.
Le Goff (1990, pp. 426) afirma que, o estudo da memória social é um dos meios
fundamentais para que se abordem os problemas relacionados ao tempo e a história.
Uma das grandes preocupações das classes sociais, dos grupos e dos indivíduos que
dominaram e dominam as diferentes sociedades históricas, diz respeito a se tornarem
senhores da memória e do esquecimento, tendo em vista que, os esquecimentos e os
silêncios das histórias podem ser usados como mecanismos de revelação sobre a mani-
pulação da memória coletiva.
O estudo da memória coletiva sofreu grandes transformações com a constituição
das ciências sociais, esta desempenha um papel importante, incentivando a interdisci-
plinaridade que tende a se instalar nestas ciências. Influenciando assim a psicologia so-
cial, na medida em que está ligada às mentalidades e comportamentos e a antropologia,
na medida em que o termo “memória” expressa de forma mais relevante a realidade das
sociedades que estuda do que o termo “história”.
Sem desconsiderar, porém, o lugar da história que é responsável por procurar,
não os criadores, elaboradores e nem a produção, mas sim os denominadores da memó-
ria coletiva: “Estados, meios sociais e políticos, comunidades de experiências históricas
ou de gerações, levadas a constituir os seus arquivos em função dos usos diferentes que
fazem da memória.”
Cabe, portanto, a história, a sociologia, a antropologia, a comunicação social e às
demais áreas das ciências humanas, lutar pela democratização da memória social como
prioridade. “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura

118
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a
memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.” (LE GOFF,
pp. 467- 477)

Metodologia, pesquisa e resultados


Segundo Cruz e Peixoto pode se entender “os jornais como representação de uma
força ativa capaz de constituir a hegemonia social” precisamos levar em conta quando
se analisa um periódico elementos como o grupo social ou político ao qual o editorial
se vincula, quem são seus patrocinadores e o público que terá acesso ao conteúdo. A
análise cuidadosa das imagens também pode revelar detalhes que foram omitidos, com-
plementar a informação ou afirmar as reais intenções dos meios de comunicação que
muitas vezes o próprio texto tenta negar. Normalmente pesquisas de maior densidade
buscariam delimitar e analisar um certo período de circulação do editorial para enten-
der como o discursos e intenções são construídos e revelados por suas fontes.
A nossa pesquisa descarta o uso deste método porque priorizar a análise de no-
tícias de uma mesma data sobre um mesmo tema específico, e compensa a ausência do
acompanhamento periódico com uma variedade de fontes que abordam o centenário
da revolução por diferentes perspectivas ou nem tão diferente perspectivas como apon-
tarão os resultados deste trabalho.
Escolhemos analisar as notícias nacionais publicadas na internet no dia 7 de no-
vembro relacionadas ao tema, aqui cabe ressaltar que ainda nos dias finais da já agoni-
zante monarquia Romanov, a Rússia czarista utilizava o calendário Juliano como padrão
de referência que só foi substituído pelo calendário gregoriano no governo de Vladimir
Lenin, deste modo, a “Revolução de Outubro” como ficou conhecida a segunda etapa
revolucionaria marcada pela derrubada de Kerensky, ocorreu de fato em 7 de novembro
segundo calendário ocidental, 23 de outubro para os russos.
Constatamos que na Rússia atual a data ganhou um novo significado melhor
adequado com a política do antigo agente da polícia secreta soviética e atual chefe do
governo russo, em 1941 mesmo diante do que parecia ser uma eminente conquista de
Moscou por forças da Alemanha nazista, Stalin ordena que o tradicional desfile militar
em comemoração ao aniversário da Revolução se realize normalmente, logo depois, o
exército vermelho consegue façanha até então inédita na II guerra, pela primeira vez
no conflito um inimigo do Eixo consegue repelir uma invasão da máquina de guerra
Hitlerista, mesmo não se tratando de uma vitória militar o fato foi extremamente ex-
plorado pela propaganda soviética, com o tempo a data passou a representar o “poder
de resistência do povo russo”, um marco para o patriotismo barato mas que convence
bastante o eleitorado.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Dois eventos distintos se realizaram em Moscou no dia 7 de Novembro de 2017 e


separá-los é vital para compreensão de nosso estudo, o evento institucional foi a realiza-
ção do grande desfile das forças armadas russas com seus uniformes tradicionais e gran-
de poder bélico o outro foi um encontro de partidos “comunistas” de várias partes do
mundo, o primeiro se deu em comemoração a marcha sobre Moscou em 1941 e apenas
em louvor ao patriotismo devotado ao estado, o segundo sim celebrava o Centenário da
primeira experiência de Revolução Socialista da história.
Podemos constatar que, apesar das notícias virem de empresas de comunicação
em tese distintas, grande parte delas apresentam exatamente o mesmo texto com leves
diferenças na distribuição dos parágrafos e em alguns detalhes que certas edições não
ressaltam, o texto original foi produzido pela agencia de notícias internacionais Agen-
ce France-Presse (AFP) sendo simplesmente traduzido e publicado, o próprio editorial
dos jornais brasileiros indicam a AFP como fonte de seu noticiário, caberia então um
debate mais profundo sobre as formas de massificação da ideologia através da mídia
no mundo globalizado, tema seriamente discutidos por grandes nomes do pensamento
contemporâneo como Noam Chomsky e Milton Santos, autores que poderiam servir
como referenciais para quem se disponha realizar um estudo neste sentido, mas essa é
uma aspiração que extrapola os limites colocados por nós neste trabalho.
Apenas duas fontes diferem dessa lógica, estas estão vinculadas a grupos de
centro esquerda governistas ou recentemente tirados do poder que buscam autonomia
contra a forte hegemonia da mídia no Brasil, O Jornal Portal Vermelho estampa o título
“Brasileiros vão aos 100 anos da Revolução Russa e puxam Fora Temer”, traz a foto de
uma mulher com um cartaz nas mãos onde estaria escrito “Fora Temer” em russo. O
editorial buscou chamar a atenção para a manifestação que ocorreu em Moscou no dia
7 de Novembro em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, manifestação ini-
ciada com uma caminhada até a Praça da Revolução onde se encontra um “imponente
busto de K. Marx”, chamando atenção para o simbolismo do monumento. O Portal
Vermelho afirma que cera de 200 Partidos Comunistas de todo o mundo participaram
do ato, o PCdoB (que é dono do jornal on-line) teria “representado” o Brasil.
Com a manchete “Desfile da vitória abre homenagens aos 100 anos da Revolu-
ção Russa”, o jornal Brasil 247 se aproxima um pouco do texto publicado pelo Portal
Vermelho. O título relaciona a marcha que ocorreu no centro de Moscou com a come-
moração do centenário da Revolução Russa, destacando o triunfo da Revolução sobre
o regime Czarista, refletindo uma confusão proposital sobre os eventos descriminados
anteriormente, dando a entender que estes estavam relacionados quando na verdade
não estavam já que o desfile foi promovido pelo Kremlin, afim promover o naciona-
lismo lembrando da “vitória” do exército soviético sobre a Alemanha no contexto da
Segunda Guerra, desvendando uma tentativa de reconstrução da memória coletiva por
parte do jornal 247 referente essa data.. O texto enfatiza a quantidade de manifestantes,

120
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

simpatizantes do partido comunista da Rússia e de outros países e os membros de orga-


nizações de esquerda que teriam participado deste ato. Além disso, enfatiza também a
representatividade da estátua de Marx, situada na Praça da Revolução. Ademais, ressal-
ta-se o fato do atual governo da Rússia se manter afastada das comemorações referentes
a revolução no seu centenário.
Já o editorial do Jornal Nacional, primeiramente traz em seu título o termo “Re-
volução Comunista” ao se referir a revolução Russa, caracterizando um teor tenden-
cioso, na reafirmação da polarização. O jornal ressalta o fato de o atual governo não ter
fomentado um ato diretamente ligado as comemorações do centenário da revolução
russa, e ter promovido apenas um desfile militar na Praça Vermelha a fim de comemorar
a marcha do exército soviético para Moscou na Segunda Guerra Mundial. Esta ocasião,
para o governo representa um sentimento mais unânime entre a população Russa. As-
sim, é perceptível a intenção do governo em ressignificar a memória ligada a esta data.
Isso explica porque a comemoração eleita como legitima pela classe dominan-
te, segundo Le Goff (1990, pp. 463 – 464), tende a apropriar-se de alguns instrumen-
tos de suporte, como medalhas, selos de correio e afins para exprimir sensibilidade da
população e gerar outras representações. Diz ele: “se os revolucionários querem festa
comemorando a revolução, a maré da comemoração é, sobretudo, um apanágio dos
conservadores, para quem a memória é um instrumento de governo”.
O editorial mostrou preocupação em demarcar a polarização política existente
na Rússia atual, mas também os avanços e prejuízos que vieram com a instituição da
URSS. Destacou-se dados da organização internacional de 2014 que afirma que 99,7%
da população russa acima de 15 anos eram todos alfabetizados e pelo menos 57% já
tinham frequentado escolas técnicas ou cursos superiores, enfatizando que a educação
havia sido tema central para lideranças russas.
O professor de História da USP e pesquisador do IPEA Angelo Segrilo, em artigo
publicado no livro “Uma longa transição – Vinte anos de transformações na Rússia”
afirma que desde Pedro o Grande se inicia uma divisão em três correntes de pensamen-
tos sobre o que é a Rússia e que rumos deveria tomar, estas correntes são compostas
pelos Ocidentalistas que são partidários do pensamento do velho Czar e pretendiam
seguir um modelo ocidentalizado de desenvolvimento voltada para a cultura europeia,
pelos Eslavófilos que entendiam a nação enquanto um fenômeno único que deveria se
voltar para Ásia abandonando a cultura europeia, por fim na década de 20 do século
XXI surge a corrente Eurasianista que entende a Rússia tanto asiática quanto europeia
e deveria se formar então uma superetnia eurasiana. A maior parte da população não
defende a visão eslavófila ou ocidentalista em suas versões mais extremas, porém se
enquadra em algum ponto de convergência entre essa duas correntes, o que explica a
postura de distanciamento de Putin diante do centenário da Revolução mesmo tendo
sido ele uma criação do governo que restou das etapas revolucionarias iniciadas 1917.

121
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Sendo assim, fugindo da polarização o governo reafirma o seu projeto político baseado
no nacionalismo. De acordo com este editorial, Putin não esteve presente em nenhum
dos eventos daquele dia.

De topless, ativista do Femen grita num pedestal de um monumento soviético no centro de Kiev durante uma
comemoração do 100º aniversário da Revolução Russa Foto: GENYA SAVILOV / AFP

Russos carregam imagens dos líderes comunistas Joseph Stalin e Vladimir Lenin durante uma marcha marcando o
100º aniversário da Revolução Russa, no centro de Moscou, celebrado no dia 07/11 Foto: KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP

122
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Conclusões
Este trabalho confirma que os meios de comunicação de massa do Brasil estão
concentrados nas mãos de pequenos grupos e servem estritamente aos seus interesses
pessoais que em geral são também os interesses da classe dominante. Buscamos cha-
mar a atenção para o grande poder de manipulação da memória coletiva exercido pela
mídia em nossa sociedade, a manipulação da memória como forma de compreender
o passado é algo perigoso quando tratado com displicência pelo pesquisador e muito
mais perigoso quando tratado pelos sanguinários grupos dominantes em disputa pelo
controle do mundo capitalista moderno, estes grupos precisam constantemente justifi-
car e reafirmar seu poder diante das condições históricas de dominação que no fim são
simplesmente injustificáveis, por isso controlam não só a divulgação das notícias bem
como transmitem com ela sua ideologia hegemônica transvestida de “imparcialidade”
ou “compromisso com a verdade” como alegam todos os noticiários em vários momen-
tos de seu editorial.
Lembramos que grande parte deste artigo e a apresentação dele no evento do
departamento de História e Ciências sociais que marca os 100 anos da Revolução Russa
foi produzida dentro de uma ocupação de 37 dias do prédio da Direção da UFG Catalão
que reivindicava a construção da casa do estudante na Regional Catalão, a construção
de uma casa de estudante pode parecer algo reformista da perspectiva dos revolucio-
nários e revolucionárias russos do começo do século XX, entretanto em um país onde
todos os direitos foram negados a nossos antepassados, um país que 130 anos atrás
mantinha a maior parte de sua população escravizada ou vivendo na miséria, garantir o
acesso e a permanecia das filhas e filhos da classe trabalhadora na Universidade pode ser
tão revolucionário quanto a derrubada de kerensky naquele outubro/novembro de 17. E
se mesmo assim ainda restar na professora Janaina a dúvida expressada na apresentação
do trabalho, de que os “ecos” da Revolução Russa ainda estão vivos em nós e servin-
do muito bem para a compreensão do presente e mobilização da resistência ao modus
operandi de opressão da burguesia mundial, lembro que se a Revolução francesa deu
a burguesia os instrumentos finais para sua consolidação do poder, a Revolução Russa
foi apenas a primeira experiência dos dominados com o poder. Não esqueceremos da
senzala! Não nos esqueceremos o exemplo russo! Lutaremos e outros Outubros viram!

Referências
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Vermelho. Disponível em: < http://www.vermelho.org.br/noticia/304057-1 >. Acesso
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123
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

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Rússia comemora 100 anos de revolução com desfile em Moscou - CORREIO


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Rússia comemora os 100 anos da revolução comunista sem Putin – G1 Jornal Na-
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Rússia comemora com discrição centenário da Revolução de Outubro - Diário de


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124
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Juventude e
Política:
Abordagens sobre
as reivindicações
de 2013 no Brasil
– Analogia às
manifestações que
ocorreram em 1968
Roneide Maria Vaz
Mestrando – PPGMPH/UFG/Regional Catalão

Introdução
A proposta do texto é discutir os aspectos que impulsionaram a inclusão da
juventude nos debates políticos no Brasil, no ano de 2013 contextualizado com os
acontecimentos do ano de 1968, com o intento de comparar e estabelecer uma relação
entre os fatos que demonstraram semelhanças ou distinções aos acontecimentos
reivindicatórios que afloraram nas últimas décadas.
Pensar como são esses atores sociais que participaram das manifestações de
dois momentos históricos (1968 e 2013), faz-nos repensar as funções sociais que esses
sujeitos desempenharam perante suas articulações, que os constituíram como sujeitos
participantes dentro de suas historicidades. Entre a racionalidade e/ou espontaneidade,
os protestantes tornaram-se protagonistas que reivindicaram diversas transformações
sociais, como aclara Cerri (2007), os homens fazem a sua própria história de acordo
com as circunstâncias que se defrontam no seu dia a dia, sendo assim, há um processo
de sistematização sobre a sua consciência histórica que se formaliza de forma necessária
para a existência humana.
Levando em consideração os movimentos sociais que eclodiram no século XXI,
em especial 2013, há de se considerar uma pluralidade de ações e demandas desses novos
sujeitos. Doimo (1995), ao analisar as configurações das manifestações a partir da déca-

125
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

da de 70, remete-nos a uma nova vertente dessas mobilizações e novas formas de reivin-
dicar, que passaram a ser denominada de “novos movimentos sociais”. Essas mudanças
que advém para o novo são atribuídas às inovações ocorridas entre a sociedade contem-
porânea no contexto da modernidade tecnológica e das novas condutas culturais.
Nessa perspectiva, a autora afirma que os movimentos sociais de nossa contem-
poraneidade trazem não somente o potencial transformador nos aspectos políticos, mas
assegura uma nova visão de mudanças nos âmbitos sociais e culturais. Busca, através de
suas ações e reações, uma nova identidade com a pretensão de romper com as regras
alienantes das políticas autoritárias e/ou das tradições culturais. Doimo (1995, p. 48)
mostra em suas análises que passaram a surgir “novos sujeitos políticos, portadores de
uma nova identidade sócio-cultural, com contornos de projeto político voltado para a
“transformação social” e a radicalização da vida política”.
De acordo com os estudos de Gramsci (2004), a sociedade capitalista é um dos
fatores responsáveis por acelerar a intervenção dos cidadãos aos processos reivindicató-
rios. Afirma que a relação entre poderes das classes hegemônicas acentuam nas classes
exploradas a necessidade de autonomia para as reivindicações, onde há ausência das re-
gras e de direitos de cidadania, mas ao mesmo tempo não permite que as reivindicações
sejam cumpridas, pois há um potencial de conflitos entre as imposições capitalistas que
não deixam que os direitos sejam equivalentes a todos.
O conhecimento sobre as ocorrências do recorte temporal da década de 60 é ex-
tremamente importante para entender que a juventude ambicionou sair de sua norma-
lidade, transgredindo as regras religiosas, patriarcais e os poderes hegemônicos, e que
suas ações contribuíram ao legado de inspiração para outros povos em outros tempos.
Com base nestas ponderações, o trabalho se justifica e objetiva apresentar refle-
xões dos movimentos da juventude. Registraremos a importância de compreender os
sujeitos sociais que se posicionaram em dois importantes períodos: 1) em 1968, época
de abrangência mundial, principalmente na Europa, mas com prioridades para as des-
crições das ocorrências Brasil, durante o período de Ditadura Militar; e, 2) em 2013,
período que ocorreu o movimento organizado inicialmente com a intenção da defesa
do transporte público, mas depois outros requisitos de conquistas chamaram o público
em geral às ruas, engrossando o slogan “Vem pra rua”, através das redes sociais.

1968: breves considerações históricas


Por meio das manifestações, ocorridas em espaços públicos ou nas ruas, o ano de
1968 e os seus produtos históricos se afiguraram marcantes no que se refere à existência
de sujeitos sociais que entraram em cena em um tempo de repressão e governos
autoritários. Quiseram buscar novos caminhos que almejassem, principalmente,
a liberdade individual ou de sua coletividade, romper às regras existentes. Os

126
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

acontecimentos resultantes das manifestações ocorridas em 68 elegeram o ano como um


marco nas histórias das revoluções sociais e culturais do país. As atitudes revolucionárias
ocorridas ficaram nas memórias e contribuíram de forma inspiradora para à tona de
outros momentos reivindicatórios.
A pretensão da pesquisa fora do recorte temporal (o ano de 68) é explicar que
as lutas sociais tiveram ocorrências em outros momentos. As chamadas pela sociedade
às ruas para lutar pelos seus direitos contemplaram outros episódios, em outras épocas,
por exemplo, Eley (2005) diz que o radicalismo estudantil sobrepujou a instituições de
nível superior e conseguiu atingir a obstinação contumácia mais profusa da juventude.
As ações da juventude que reivindicavam mudanças sociais, culturais e políticas
foram importantes, que deram aos protestantes da época a sua representatividade como
sujeitos sociais nos espaços em que viveram. Portanto, 1968 foi ano serviu de inspiração
ao mundo, através de seus acontecimentos, como a primavera de Praga, as manifestação
em Paris, e os fatos históricos que sucumbiram aos protestos contra guerras, sistemas
ditatoriais e comportamentos conservadores, fazendo com que a juventude saísse de sua
normalidade e que ansiassem ideologias principiadas em desejos por mudanças.

As manifestações de 2013: pluralidade de


sujeitos e de lutas sociais
Presenciamos em 2013 uma onda de manifestações populares nas ruas, praças e
avenidas em muitas capitais do nosso país e em várias outras cidades. As primeiras arti-
culações para as mobilizações de ruas surgiram, a partir de São Paulo e Porto Alegre, em
seguida disseminaram pelas principais cidades do país, emitindo um recado claro em
relação ao descrédito aos políticos, políticas públicas e a busca pelas demandas sociais.
Ao registrar os primeiros acontecimentos das manifestações de 2013, foi per-
ceptível a presença de uma pauta reivindicatória que estava representada pela defesa do
transporte público, que solicitava a melhoria da qualidade dos transportes, a redução
das tarifas dos ônibus e o passo livre para estudantes. Esses movimentos de protestos
compostos de integrantes que almejavam os mesmos direitos se consagraram, inicial-
mente, com o nome “Movimento do Passe Livre” (MPL).
Esses novos atores sociais que se formaram no ano de 2013 apresentaram cará-
ter diversos e fragmentados que contemplavam as novas experiências do mundo con-
temporâneo. È importante relatar que embora existisse um coletivo de pessoas nestes
movimentos, assim como acontece em qualquer grupo, havia destoantes pensamentos
que não giravam na unanimidade em torno de um ideal, alguns grupos ou subgrupos se
mostraram em situações de oposições. Scherer-Warren (2014, p. 420), acresce as nossas
discussões quando informa que com a “diversidade de indivíduos mobilizados a partir
da repressão à manifestação de 13 de junho, o comparecimento aos protestos de rua não

127
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

só cresceu exponencialmente, como as pautas de luta se multiplicaram,especialmente


no campo dos direitos humanos.
Ao se confluírem, apresentavam em comum um coletivo organizado e predis-
posto à participação nas mobilizações para defender os seus interesses nas lutas sociais.
Essa ratificação é sustentada nas palavras de Doimo (1995, p. 125) ao dizer que, “A troca
de experiências coloca-se, então, como o principal recurso prático para a costura de um
campo de movimentos por natureza localizados, diversos e fragmentados”.
As chamadas pela sociedade às ruas para lutar pelos seus direitos contemplaram
outros episódios, em outras épocas, Eley (2005, p. 410) ao estudar a década de 60, afirma
que “O radicalismo estudantil transcendeu a universidade e alcançou a rebeldia mais
ampla da juventude”.
Ao abordar as manifestações de 2013, que se configurou dentro de um novo
contexto das mobilizações sociais ou protestos de ruas, é preciso destacar o papel das
redes sociais como uma contribuição fundamental para as novas articulações do público,
sendo convocados em tempo real que incitaram o surgimento dos fluxos instantâneos
e das várias demandas sociais. Em meio a essa mobilidade urbana, as reivindicações
ganharam interesses diferenciados oriundos da coletividade. Para retratar essa trajetória,
Sader (1988, p. 36) discorre sobre a formação de novos sujeitos coletivos, dizendo que
“eram os novos movimentos sociais que politizavam espaços antes silenciados na esfera
privada. De onde ninguém esperava, pareciam emergir novos sujeitos coletivos [...]”.
As manifestações de 2013 chamaram a atenção do país e do mundo em tempo
real e virtual, visto que, as convocações dos manifestantes foram intensas graças às redes
sociais, usando o slogan “Vem pra Rua”. Impulsionados pelas conexões virtuais, milha-
res de pessoas foram às ruas e participaram demonstrando as variadas facetas de interes-
ses coletivos. As mobilizações apresentavam uma multiplicidade de descontentamento
social, que incluíam aspectos relacionados à cultura, gênero e raça, desigualdades so-
ciais, as instabilidades políticas e econômicas e os repúdios aos grupos rivais partidários.
Diante das imposições das autoridades, em relação à repreensão dos manifes-
tantes, as situações tornaram mais tensas e saíram de sua normalidade. Para os autores
Daniel e Martins (2015, p. 107), “As ações policiais que ocorreram até o dia 13 de junho
foram uma tentativa do Estado de manter estagnada qualquer possibilidade de conti-
nuidade de mobilização”.
Gohn (2016) fragmenta as manifestações em três grandes momentos: 1) o de
“A desqualificação e o descaso” das autoridades para com esses manifestantes; 2) o de
“atos de violência”, revolta popular e susto pelo movimento de massa 3) e, finalmente,
“A vitória da demanda básica”. Nessa última etapa foi baseada na anulação de reajuste
no transporte público em muitos estados do nosso país, em meados do mês de junho.
Em análise sobre as manifestações de ruas em 2013, na cidade de Goiânia, os
autores Tavares et al (2016, p. 150) afirmam que as mobilizações se expandiam mesmo

128
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

tendo barreiras dos policiais e progrediram em suas propostas: “O ano de 2013 encer-
rou-se com a conquista, ao menos formal, da política de passe livre estudantil na região
metropolitana de Goiânia”.
Scherer-Warren (2014) faz uma referência às multiplicidades das ações dos ma-
nifestantes em 2013, afirmando que o transporte público tomou espaço e foco principal
nas discussões dos grupos e das redes sociais, mas, simultaneamente, surgiram outras
demandas de lutas sociais, em razão das leis não cumpridas, das políticas públicas não
satisfatórias, dos processos de terceirizações promovidas por alguns governantes, dos
recursos básicos relacionados à saúde, a moradia, a segurança pública, a corrupção e
outras por demandas político-culturais, como a luta contra a homofobia e a união de
pessoas do mesmo sexo.
Tais insatisfações foram os alicerces para que as manifestações tomassem pro-
porções gigantescas. Os descasos dos políticos e as rivalidades nas organizações parti-
dárias impossibilitaram as negociações. Diante das reais situações, muitas pautas rei-
vindicatórias, que poderiam trazer benefícios à sociedade, foram descartadas das listas
dos governantes como ações não prioritárias. Atualmente essas ações não cumpridas
estão sendo presenciadas por toda a sociedade como mais um desfecho de uma política
pública alinhada aos lemas antidemocráticos.
Scherer-Warren (2014) afirma ainda que houve desordens partidárias e que ex-
pressões estéticas e verbais que expressaram antagonismos na política, configuraram
novos cenários entre os partidos de intolerâncias recíprocas. Originando grupos par-
tidários, ora defendendo uma política conservadora, ora buscando uma radicalização
alinhada aos partidos de esquerda. E que essas divergências se propagaram eclodindo
em novas ações em outros momentos, presenciados nas mobilizações de 2014 e 2015.

A contraface entre 1968 e 2013


Ao relatar as principais manifestações que tiveram a juventude como protagonista
nas histórias nas mudanças nos contextos políticos e nas revoluções sociais e culturais,
se fez necessário revelar a importância desses sujeitos para a formação de uma
sociedade que pudesse usufruir dos princípios moldados na democracia e cidadania.
Compreendemos que em cada época, o caráter contestador das lutas sociais desses
personagens apresenta suas particularidades em concordâncias com as demandas de
cada geração.
Os conflitos geracionais foram fatores que promoveram novos anseios e buscas
de conquistas nas lutas sociais. Ao comparar as manifestações de 1968e de 2013, verifi-
camos que ambos os momentos as gerações não estavam satisfeitos com o que era dito
como normalidade. Enquanto as primeiras gerações (68) lutavam por uma liberdade
nos estilos musicais, por vestuários mais descolados (uso do jeans), a liberdade sexual e

129
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ao uso da maconha, a sociedade contemporânea trouxe os “gritos de liberdade e igual-


dade”, no que diz respeito às classes sociais, gênero e etnias.
É relevante enfatizar que no século XX houve um pensamento de ascensão so-
cial, libertário e revolucionário e no século XXI a juventude foi guiada pelos princípios
de liberdades democráticas e inovadoras. Esses jovens emergentes foram guiados pelas
tecnologias dos meios de comunicações, e se interagiram viés mundo virtual, que ser-
viu como meio para a divulgação das marchas e serviram de ferramenta para adesão e
formação de grupos.
Embora a juventude mediante as circunstâncias de sua realidade traga ideais di-
ferentes, entre os anos de análises. Será fundamental ressaltar que esses atores sociais se
constituíram enquanto sujeitos participativos. Os personagens executaram suas ações
em torno de suas expectativas de mudanças que contemplassem seus anseios e também
permeassem as inovações no âmbito de sua sociedade.
Independente de qualquer época, a juventude em especial, com suas atitudes em
donos de suas próprias histórias. Loureiro (1988) enfatiza a importância da participação
nas práticas políticas atribuindo ao processo uma prática educativa e descreve que “[...]
uma prática política, do jogo de poder, as pessoas adquirem ou transformam explica-
ções da vida, do real, e também adquirem e transformam habilidades como: relações
pessoais, organização de classe, trabalho e outras” (LOUREIRO, 1988, p. 83).
Colocando como viés de análises as formas de articulações dos manifestantes
de acordo com os períodos especificados, é preciso aclarar que entre as cinco décadas
aconteceram mudanças em relação nas formas de chamamentos aos públicos a se inte-
rarem dos acontecimentos. No primeiro momento, a que nos referimos ao ano de 1968,
os manifestantes vivenciavam um governo autoritário, as perseguições eram frequentes,
e não tinham os recursos das redes sociais, usavam o rádio, os jornais, as artes e as mú-
sicas para divulgar suas intenções contra a ditadura e para promover a contracultura.
Mas foram audaciosos e romperam os cenários de preponderâncias das autoridades e
das regras tradicionais.
Vivendo esse cenário de repreensão, muitos jovens da época, década de 1960,
em especial os estudantes, promoviam agitações nos pátios das universidades em busca
de seus ideais e de autonomia. Impuseram suas forças reivindicatórias perante as auto-
ridades, ao rompimento das regras culturais vigentes nas tradições religiosas ou pater-
nalistas, buscavam novas concretizações de satisfações aos seus desejos e suas liberda-
des. Essas agitações ganharam mais resistências e passaram ter abrangências em outros
espaços, nas praças, avenidas, restaurantes e ambientes frequentados pela juventude,
conquistando públicos variados, dentre eles, os artistas e intelectuais.
Muitos fatores foram essenciais nas articulações para esse público jovem na dé-
cada de 60, o rádio, os jornais, os debates nas universidades e os debates culturais, com
a inserção de músicos, de artistas de teatros e outros intelectuais que se aglutinaram aos

130
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

manifestantes e formaram uma intensa articulação à época. Nesse período, as ganâncias


da juventude por uma liberdade, possibilitaram juntos aos intelectuais, a revolução cul-
tural, que asseguraram a essa classe as inovações nas formas de agir, de pensar e repri-
mir as condutas conservadoras. Vale a pena ressaltar que esse ano foi representado por
diversas ações juvenis pelo o mundo, exaurindo novos rumos na política, na cultura e
na sociedade. Eley (2005) apresenta relatos que demonstram que “suas ações eram parte
de uma rebelião maior de gerações, no momento em que os acontecimentos no mundo
ampliavam as imagens de mudança” (ELEY, 2005, p. 398).
Na segunda análise, referente às manifestações de 2013, as formas de articulações
dos grupos foram essencialmente beneficiadas pelos diversos meios de comunicações,
ligados às redes sociais. As manifestações eram presenciadas entre diversas localidades
do mundo e do nosso país em tempo real, dando mais visibilidade aos acontecimentos
instantâneos. Segundo Fleury (2015, p. 12),

[...] a praticidade e mobilidade da internet, muitas manifestações


sociais encontraram neste ambiente uma nova forma de explorar
suas possibilidades. [...] fizeram com que muitos movimentos sociais
tomassem a internet como sua ferramenta básica para organização,
veiculação e exibição de ideias.

Pensar nas intenções dos jovens que fizeram desses dois momentos cenários de
grandes mobilizações remete-nos ao entendimento de como aconteceram suas práticas
e suas interações. Ao buscar informações acerca do ano de 1968, Hobsbawm (1995) diz
que a explosão do movimento estudantil foi mais direcionado as mudanças culturais do
que intenções voltadas para as questões econômicas e políticas, isso no que se refere as
diversas manifestações que ocorreram no mundo.
Ao colocar em destaque as ocorrências dos movimentos do Brasil, verificam-se
que as intenções da juventude na época estavam atreladas as autonomias nas decisões
dos sistemas políticos, pois vigorava um governo autoritário, com novas culturas e mo-
dernidades sociais. Filho (1998) afirma que “se esboçou a formulação de novos valores,
envolvendo não apenas a política e o poder, mas os costumes, as práticas cotidianas, as
relações entre as pessoas – uma revolução que apenas se iniciava, e que prosseguiria
para além, muito além, de 68” (FILHO, 1998, p. 32).
Uma das características marcantes da sociedade contemporânea está associada
às mudanças ocorridas de maneira mais intensas, proporcionadas pelo avanço do capi-
talismo e pelas inovações tecnológicas. Estas mudanças fizeram surgir entre as socieda-
des, novos contextos culturais e sociais. No que diz respeito às manifestações de 2013,
não houve uma centralidade nas intenções dos participantes, em muitos casos, esses
grupos por algumas vezes, não tinham um eixo central norteador e nem um líder para
as tomadas das decisões. A ausência de uma pauta única de reivindicações, a pluralida-

131
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

de de atores, as ausências de lideranças e o caráter apartidário, contribuíram para que as


essências dessas manifestações não fossem tão duradouras e consistentes em busca dos
ideais almejados pelas variedades de demandas do público.
Ao colocar em destaque as manifestações 1968 e as ocorridas em 2013, percebe-
-se que ambas tiveram pautas reivindicatórias bem marcantes. Houve destaque para as
reformas universitárias em primeiro momento, já que as universidades eram espaços
elitizados e não promoviam aberturas democráticas diante um governo de Ditadura Mi-
litar. A reforma na política educacional do ensino superior foi uma das primeiras pautas
das manifestações à época e que se estendeu no por longos anos durante o governo das
ditaduras. Em um segundo momento, as primeiras mobilizações sociais tinham como
objetivo defender melhorias das mobilidades urbanas, com prioridades à redução da ta-
rifa e o passe livre aos estudantes, nos transportes urbanos. Nas ações das mobilizações
mencionadas, embora presenciaram formas de governos diferentes, trouxeram algo em
comum em relação os resultados vindos do Estado. Na maioria das manifestações, os
participantes foram fragilizados pela violência impostas pelas autoridades, repreensão,
prisões e perseguições.
Ao registrar uma analogia entre o século XX, especificadamente o ano de 68, e o
século XXI, precisamente o ano de 2013, em relação aos principais princípios reivindi-
catórios, vê-se que os períodos demonstram distinções: no ano de 68, a revolução estu-
dantil trouxe um pacote de mudanças nos contextos culturais e sociais, embora questio-
nados as estabilidades econômicas, foi acentuado de forma mais exorbitante as questões
relacionadas às mudanças nos âmbitos culturais e sociais. Hobsbawm (1995) considera
que esta explosão do movimento estudantil foi mais atrelada com a Revolução cultural
do que econômico e político. Em relação ao contexto econômico, o autor afirma que o
ano foi considerado nem como um começo e nem como um fim, mas serviu de ques-
tionamento sobre as mudanças que estariam por vir e que afetaria a economia mundial.
No ano de 2013, as manifestações foram mais direcionadas aos contextos sociais
e econômicos. Os manifestantes almejaram adequar às políticas públicas nos moldes de-
mocráticos, para que houvesse estabilidades nos contextos da sociedade. Scherer-War-
ren (2014, p. 423), enfatiza que “[...] parte desses participantes, trata-se de um exercício
de cidadania, especialmente para aqueles que buscaram aprofundar seu conhecimento
de políticas públicas e das principais pautas políticas e sociais”.
Scherer-Warren (2014) diz ainda que as manifestações de 2013, vinculadas aos
movimentos organizados, tiveram suas origens em outros momentos estratégicos, por
exemplo, no caso das reivindicações femininas, descreve que essas mobilizações for-
taleceram os anos posteriores do século XX, informa que “como ocorreu no dia 11 de
julho e no dia 7 de setembro de 2013. Tais manifestações expressaram uma variedade de
pautas dos movimentos organizados e possuem algumas particularidades a serem lem-
bradas” (SCHERER-WARREN, 2014, p. 422). Para exemplificar com mais veracidade,

132
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

reproduzimos as informações de Hobsbawm (1995, p. 143) ao afirmar que “a entrada


em massa de mulheres casadas — ou seja, em grande parte mães — no mercado de
trabalho e a sensacional expansão da educação superior formaram o pano de fundo,
pelo menos nos países ocidentais típicos, para o impressionante reflorescimento dos
movimentos feministas a partir da década 60”.

Considerações Finais
Baseando-se nas influências da juventude nas manifestações em dois grandes
momentos, podemos considerar que os protestos tiveram suas intensidades e
intenções variadas, mas que foram essenciais para a constituição desses personagens
enquanto sujeitos capazes de lutar por mudanças políticas, sociais e culturais. Esses
acontecimentos que afloraram o século XX e XXI foram importantes ao entender que as
lutas sociais têm significados importantes dentro de diversos contextos e que não devem
ser esquecidas.
Há de se instituir que esses agentes sociais se posicionaram com ações diferen-
ciadas, de acordo com as realidades de seus tempos. Mas é meritório esclarecer que es-
ses sujeitos, no seu tempo de experiências, fizeram histórias e demonstraram através de
suas rebeldias, seus almejos que poderiam dar novos rumos às políticas, aos segmentos
sociais e culturais.
Os vários registros documentais históricos foram esclarecedores e mostraram
que as manifestações sobressaiam entre muitos resultados negativos, tanto no que se
refere ao não alcançar os objetivos e também as frustrações de ter sido contraposto,
muitas vezes, a base de violências e agressões. Mesmo apresentando essa imparcialida-
de de resultados, as mobilizações não foram recuadas, demonstraram que suas ações e
reações poderiam fortalecer em prol de seus objetivos. Scherer-Warren (2014, p. 420)
ratifica que “o primeiro direito a ser reivindicado foi o de liberdade de manifestação de
rua, de expressão e de participação na política. Porém, no próprio ato de participação
na rua, as contradições e conflitos se fizeram presentes”.
A autora diz ainda que a juventude foie é, historicamente, bastante idealista e,
muitas vezes, almeja mudar o mundo, o sistema político e as relações cotidianas. Isso
não é uma regra dos dias atuais, apesar de nem sempre ter tido credibilidade ao ponto de
ser arquivada durante os anos. Devido à diversidade de indivíduos que se mobilizaram,
as manifestações agregam outras expectativas aos protestos, com o objetivo de buscar os
seus direitos e dignidades. Os movimentos estão se emergindo e os participantes se iden-
tificando com novos sujeitos, apropriando das exigências do mundo contemporâneo.
Os jovens manifestantes mudaram suas intenções ou suas estratégias de manifes-
tação de acordo com as fases, como pontuadas no decorrer do texto. Ao contextualizar
os movimentos de 1968, percebemos que esses sujeitos sociais foram mais consistentes

133
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

em suas ações, apresentando resistência e vivacidade mesmo em momentos de grande


repressão. Esses sujeitos mostraram que os seus principais objetivos estariam voltados
para a reforma na educação universitária, insatisfação com o governo da Ditadura Mili-
tar e a busca por uma sociedade com menos disparidades econômicas e sociais, sobres-
saindo também às objeções para as mudanças nos contextos culturais.
É preciso ressaltar também que muitos de seus objetivos não foram concretiza-
dos, principalmente as mudanças nas estruturas políticas e as demandas pelas mudan-
ças no contexto educacional, pois vivenciaram momentos de grandes imposições go-
vernamentais, que permaneceram por vários anos. Olhando por outro ângulo, é preciso
vangloriar que essa classe revolucionária foi responsável por várias mudanças culturais
e sociais que eclodiram no final da década de sessenta e que fizeram esses jovens sair da
sua normalidade, transgredindo regras e adotando outros valores.
Na segunda análise, as abordagens sobre as manifestações que ocorreram no
Brasil em 2013, trouxeram às ruas a força da juventude em relação às diversas deman-
das. Destacaram como forma positiva as suas articulações, em que eram visíveis suas
ações afirmativas em relação às reivindicações aos direitos estabelecidos perante as leis e
suas posturas contrárias em relação às organizações dos representantes e suas condutas
morais. Sobressaíram também com a intencionalidade de demonstrar a pluralidade de
culturas e pensamentos, em que colocaram em defesa a liberdade em relação à expres-
são de gênero, classe e etnia.
Outro ponto importante desse novo tempo foi às facilidades de articulações que
esses sujeitos tiveram e que aconteceram praticamente todos via redes sociais. Como
abrangências em quase todas as residências ou comunidades, as formas de convocações
do público ocorreram quase em tempo real. As primeiras manifestações, denominados
de MPL, ações de pequenos grupos surgissem e expressassem seus objetivos.
Outros aspectos que devem ser registrados em relação às manifestações de 2013
são as oposições partidárias que se juntaram ao público nas articulações para expres-
sarem suas rivalidades partidárias e o surgimento de ideologias radicais, representadas
por organizações de grupos anônimos que surgiram e deram outros rumos às manifes-
tações. Com princípios baseado nos teores destrutivos, a favor da violência, as ações
ocorreram com base no vandalismo e contra os poderes hegemônicos. Um exemplo é o
grupo Black Bloc, que agiram contrariando os participantes pacíficos das manifestações
e buscando com suas atitudes intimidar as autoridades.
Finalizamos evidenciando que no ano de 1968, a teoria até o momento elaborada
tem contribuído sobremaneira para a que as articulações e intenções das manifestações
foram mais autênticas e tiveram mais resistências, embora fossem suprimidas por im-
posições, repressões e abusos pelas autoridades. As articulações que aconteceram no
ano de 2013 apresentaram uma amplitude de demandas, mas não se fortaleceram para
obter respostas positivas ou manter elos de durabilidade, colocando-as como uma re-

134
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

presentatividade de ordem frágil e de vida curta. Mediante essa fragilidade, há de se


perguntar onde estão esses grupos que foram ás ruas? Visto que: os problemas sociais,
culturais e políticos não foram resolvidos e, em muitos casos, os resultados desses mo-
vimentos afloraram a insatisfação social que estamos vivendo na atualidade.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

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136
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Mística e formação
da consciência de
classe na CPT
Bruno Viana Ulhôa Santos
Mestrando – PPGMPH/UFG/Regional Catalão

Tendo completado 40 anos de existência em 2015, a Comissão Pastoral da Terra


(CPT) nasceu em plena ditadura civil-militar, mais especificamente em 1975, quando
o chamado “milagre econômico” permitiu que o mercado imobiliário nacional e inter-
nacional explorasse território brasileiro indiscriminadamente. Foram construídas obras
de infraestrutura, como por exemplo, a Transamazônica, para dar espaço à pecuária, à
lavoura, à exploração dos minérios e da madeira e foram dizimadas centenas de comu-
nidades tradicionais de ribeirinhos, seringueiros, posseiros, e aldeias indígenas.
A CPT é um movimento que tem origem então em duas fontes primárias. A
primeira fonte é a realidade em que vivem as pessoas: são comunidades inteiras alijadas
do território que viram gerações inteiras ali nascerem e se reproduzirem; são famílias
expulsas da terra, seu único meio de vida, pelos métodos dos mais variados; são os sem-
-terra a quem é negado o direito de acesso à terra; são homens e mulheres explorados
em sua força de trabalho, submetidos a condições degradantes, muitas vezes em situa-
ções análogas à escravidão. A outra fonte que abastece o ser CPT é a palavra de Deus.
Como consta em seu site é por fidelidade “ao Deus dos pobres, à terra de Deus
e aos pobres da terra”, como está explicito em sua missão, que a CPT assume o com-
promisso de registrar e denunciar os conflitos de terra e da água e a violência contra os
trabalhadores e seus direitos. A citação a seguir compõe parte da missão da CPT1:

Convocada pela memória subversiva do evangelho da vida e da esperança,


fiel ao Deus dos pobres, à terra de Deus e aos pobres da terra, ouvindo o
clamor que vem dos campos e florestas, seguindo a prática de Jesus a CPT
quer ser uma presença solidária, profética, ecumênica, fraterna e afetiva,
que presta um serviço educativo e transformador junto aos povos da terra
e das águas, para estimular e reforçar seu protagonismo.

1  Citação retirada do site oficial da CPT. Texto elaborado, em novembro de 1998, por agentes que participam
da CPT há mais de dez anos e revisto e aprovado durante o I Congresso da CPT, realizado em Bom Jesus da Lapa,
em 2001. Acesso em 05/12/2017. < www.cptnacional.org.br/sobre-nos/missao>

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Dessas duas fontes nascem a Mística e a espiritualidade da CPT. Devido a mul-


tiplicidade dos problemas e dos mais variados contextos e regiões que envolvem as dis-
putas por terras no Brasil, se procurarmos uma organização com uma estrutura rígida
de cima a baixo, com instrumentos de acompanhamento e controle, com uma definição
de atribuições claras entre suas diversas instâncias, pode até encontrar isso em seus do-
cumentos, mas não na realidade. Em cada lugar onde a CPT se estabeleceu, buscando
respostas para os desafios da realidade imposta aos homens e mulheres da terra, foi
adquirindo contornos próprios e diferenciados que fazem dela muitas CPTs.
Segundo Antônio Canuto, do setor de Comunicação da Secretaria Nacional da
CPT, há tamanha diversidade de atuações que, ao mesmo tempo em que é uma riqueza
de enorme valor, representa fragilidade e dispersão. Tendo, portanto, uma série de ques-
tões internas à serem debatidas. Para exemplificar algumas, traremos cinco embates
enfrentados pela CPT retirados do texto de Antônio Canuto “Uma vez CPT, sempre
CPT” (CPT, 2016).

CPT nacional, regional, diocesana


Uma primeira grande tensão tem a ver com a forma de organização da entidade.
A CPT em vários lugares tem uma ligação direta com a diocese local. Sua atuação e seus
projetos dependem do bispo local, pode ter intervenção direta dele. Em outros lugares, a
CPT tem uma estrutura regional forte e bem montada, sendo ela mesma que define suas
formas de atuação, as prioridades, as atividades desenvolvidas, etc. Em outros ainda, há
enorme fragilidade, compondo, quase sempre, apenas pessoas de referência.
Essa diversidade pode ser verificada inclusive nos símbolos. Em cada regional a
CPT pode se identificar de uma forma. São elementos que remetem “as situações his-
tóricas que tiveram um apelo muito forte, sobretudo em algum momento da história e
das quais não se quer abrir mão”. Até hoje a CPT não tem uma logomarca única que a
identifique. (CANUTO, 2016)

Agente voluntário X Agente liberado


Outro elemento de tensão na CPT se relaciona com a identidade de seus agentes.
Geralmente existem agentes liberados, são agentes/funcionários, no entanto, antes de tu-
do são militantes da causa. Acontece algumas vezes de a lógica empregatícia ser mais forte.
Acontece que a CPT só existe porque conta com um número bastante expressi-
vo de pessoas que, voluntariamente, se dedicam a desenvolver atividades, acompanhar
comunidades mesmo sem qualquer tipo de vínculo empregatício. Existem limitações
no trabalho voluntário, pois há por vezes a dificuldade de mediar a necessidade urgente

138
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

de uma comunidade vivendo alguma situação de conflito, com a disponibilidade de o


agente estar presente. (CANUTO, 2016)

Pastoral Rural X Pastoral da terra


Outra questão vivida pela CPT é em relação a forma de presença pastoral.
Algumas regionais acabam descartando atividades de cunho litúrgico-religioso, sendo
esta responsabilidade da paróquia. São atuantes no acompanhamento de conflitos, com
assessoria jurídica, ou com acompanhamento a processos agroecológicos de produção,
ou se dedicando a realizar atividades de formação. Outras regionais desenvolvem mais
uma ação bastante aos moldes de uma Pastoral Rural aonde se valoriza a vida religiosa
das famílias e das comunidades. “No entanto, o que é comum a todos é a leitura popular
da Bíblia. A Bíblia alimentando a Mística da terra, da Resistência, do sonho de um novo
céu e uma nova terra.” (CANUTO, 2016)

Pastoral X ONG
Uma quarta tensão que a CPT vive é entre a entidade ser uma pastoral, ou ser
uma organização não governamental que atua junto às comunidades, se preocupando
mais com a produção de renda, focada nos resultados de sua atividade.
A CPT tem sofrido críticas, sobretudo nos últimos anos, por parte de agências
financiadoras por não apresentar resultados concretos (aos olhos das mesmas) com seus
trabalhos. E cada vez mais os projetos de agências financiadoras exigem que se tenha
bem definido os resultados que serão buscados e os resultados devem especificar o que
realmente se atingiu. (CANUTO, 2016)

Assessoria, apoio X liderança


Por fim, uma quinta tensão se dá quanto à forma em que atua a CPT. É uma
assessoria, um apoio ou um movimento? A questão se dá por que, historicamente, a
CPT rejeitou ser os representantes das comunidades. Ela sempre se colocou como apoio,
estímulo ou assessoria, atuando na retaguarda. O que almeja é que o trabalhador seja o
protagonista de sua ação. Assim, a CPT fomentou o nascimento de muitos movimentos
como, o MST. Por diversas razões, a CPT em alguns lugares acabou adquirindo um
caráter de movimento, formando seus próprios acampamentos e assentamentos e assim
acabando por se tornar liderança em manifestações e diversas atividades e mediadora
de conflitos. (CANUTO, 2016)
Mas, para Antônio Canuto, o que as “muitas CPTs” têm em comum, o que lhes
da unidade, é o espírito, a Mística que anima os seus membros. Mística que os leva a se

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

identificarem com os homens e mulheres que tem na terra, ou nela buscam, sua fonte
de vida e sustento; a se indignarem profundamente com as agressões e injustiças que so-
frem; a com eles compartilharem e celebrarem conquistas e vitórias (CANUTO, 2016).
Sendo a CPT uma rica colcha de retalhos, é preciso buscar compreender o papel
fundamental da mística de dar corpo e unidade em toda essa diversidade.
Trata-se, portanto, de como a mística participa da formação da “consciência de
classe” dos camponeses ligados à luta pela terra à luz do conceito de cultura de Thomp-
son. Para Thompson (1987), “a classe acontece quando alguns homens, como resultado
de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de
seus interesses entre si, e contra outros cujos interesses diferem dos seus”. E é no campo
da cultura que as experiências tomam forma de consciência de classe, “encarnadas em
tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais.” (THOMPSON, 1987).
O objetivo central de Thompson em “A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA
INGLESA” era colocar as pessoas comuns nos seus devidos lugares de sujeitos históri-
cos, ele via o processo histórico como resultado de relações estabelecidas e das ações de
sujeitos conscientes e ativos. Para Thompson, portanto, a consciência de classe é consti-
tuída a partir da experiência e da cultura de um determinado grupo social.
A mística, compreendida por alguns estudiosos como um fenômeno político/
religioso praticado em movimentos camponeses de luta pela terra, pode ser entendida
entre outros pontos na ideia de que não deve ser considerada universal, mas sim múltipla,
particular e ao mesmo tempo coletiva. Portanto, é nas experiências compartilhadas que
homens e mulheres se identificam enquanto classe, sendo então a mística elemento
formador de consciência de classe.
Como traz Antônio Alves de Almeida em seu artigo “A Mística Na Luta Pela
Terra” (2005) “... são fenômenos inseridos em um contexto Histórico-Religioso, assim
não existe mística, mas sim místicas”. Ou seja, o fenômeno das místicas passa, a rigor,
por um processo subjetivo ligado ao que sente o sujeito e, portanto, fenômeno único.
A mística, a princípio, era desenvolvida pelos agentes religiosos que prestavam
assessoria aos movimentos e tinha grande aceitação entre os sujeitos. Segundo Fabiano
Coelho (2010), pesquisador sobre a prática da mística, o investimento no fazer da mís-
tica é intenso por parte de alguns movimentos, devendo ela ser desenvolvida nos mais
distintos espaços e circunstâncias.

A mística pode ser realizada de maneira diversa e plural, levando


em consideração o contexto e a realidade do grupo. O seu fazer é em
forma de teatro, contendo músicas, poesias e muitos símbolos em seu
interior. Como uma prática cultural e política, é um momento em que
o Movimento consegue se comunicar eficazmente com os sujeitos,
construindo representações sobre tudo aquilo que compõe o modo de

140
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

ser Sem Terra, a mística se tornou essencial e estratégica na organização


do MST, sendo ela dotada de poder, isto é, desencadeadora de memória,
representação e ação política. (COELHO, 2010)

É comum ainda encontrarmos em alguns movimentos sociais a leitura de que a


mística é um momento que antecede as reuniões e encontros, sendo esta, um momento
de animação e encenação, como também deixa transparecer Coelho no trecho acima. Se-
gundo Ademar Bogo (2010), essa concepção não deve ser totalmente descartada, pois, a
preparação para esses momentos envolve pessoas que querem expressar, através de uma
mensagem, seja ela cantada, contada, encenada, etc. as razões pelas quais lutam, “criando,
de forma imaginária, o mundo que queremos alcançar, para que os presentes vejam e se
animem a ajudar a construir aquela ideia, aquele sonho.” (BOGO, 2010). No entanto, se-
ria um erro reduzir a mística a esses momentos. Para Bogo a mística é isso e muito mais.

Ela é a motivação que nos faz viver a causa até o fim. É aquela energia
que temos e que não nos deixa dizer não, quando nos solicitam ajuda. É a
vontade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, de querer ajudar e
realizar coisas que façam a luta ser vitoriosa. (BOGO, 2010)

Ainda para Ademar Bogo, a mística se expressa de muitas maneiras. “Cada


militante dá de si aquilo que possui, tal como carisma, talentos ou habilidades,
cooperando como elemento central do programa, sendo a parte física e mental da tática
e da estratégia do programa.” (BOGO, 2010)
Cada um como pode, se oferece para preencher espaços nem sempre previs-
tos. Assim ocorre quando diversos grupos se prontificam a elaborar diversas atividades
como cozinhar os alimentos para um encontro, a melhorar e ornamentar o ambiente,
cuidar da pauta e da segurança, preparar a cerimônia de abertura, etc. “E assim, o en-
contro se transforma numa grande festa, uma confraternização de seres humanos que
marcaram de se encontrar para pensar o que fazer de suas vidas e das vidas de tantos
outros seres e espécies.” (BOGO, 2010)
Ademar Bogo traz ainda que é possível ver e explicar o fenômeno da mística
sob diferentes olhares, e compartilha em seu artigo “A mística: parte da vida e da luta”
(2010) três interpretações sobre o tema: o sentido religioso, no qual

[...] podemos chegar a duas visões da mística: uma que se manifesta nos
místicos, aqueles indivíduos que tem por opção a relação cotidiana com a
divindade para explicar e solucionar os problemas sociais. [...] A outra é a
espiritualidade militante. Estes, pela força da fé apegam-se aos problemas
sociais e buscam soluções pelas contradições. Querem a igualdade e a
fraternidade entre as pessoas, mas buscam atacar as causas econômicas e
políticas dos problemas. (BOGO, 2010)

141
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

O sentido das ciências políticas aonde

[...] podemos encontrar algo próximo do que significa a mística, mas é


tratado com outro nome que se chama CARISMA. Por esta visão, as pes-
soas agem porque, além da motivação, possuem características, habilida-
des e convicções. [...] As habilidades ou o carisma, que se destacam mais
em uma pessoa do que em outra, escondem o mistério de saber fazer
naturalmente, aquilo que, mesmo querendo, outros não conseguem. Sen-
do assim, as diferenças das habilidades individuais ao invés de se cons-
tituírem em um problema, tornam–se grandes soluções, pois nos fazem
encontrar um lugar na luta de classes para colaborar com ela. Nos ajuda
também a perceber que a força está na coletividade e somente com ela
conseguimos alcançar os grandes objetivos. (BOGO, 2010)

E por fim o sentido filosófico e da valorização cultural, sendo aqui

[...] a mística a própria existência. Nasce da vida, das formas de


trabalhar, se organizar, conviver, lutar etc. Cada grupo social tem as suas
manifestações culturais; uns são mais alegres, outros são mais contidos,
mas todos vivem a memória de seus antepassados; desenvolvem valores e
acreditam na continuidade da vida, por isso preservam o ambiente como
o berço de todos os nascimentos. Os movimentos sociais resgataram este
sentido da mística e o trouxeram para a prática política. A luta de classes
tornou-se um lugar de convivência, admiração e esforço coletivo. Lutar
faz parte da existência como o trabalho ou a festa. (BOGO, 2010)

Se para Thompson é nas experiências compartilhadas que homens e mulheres


se identificam enquanto classe, aonde “a consciência de classe é a forma como essas
experiências são tratadas em termos culturais” (THOMPSON, 1987), a mística pode ser
entendida como parte essencial da formação dessa consciência para os movimentos de
luta pela terra. Para o MST, por exemplo,

A mística deve ser entendida como sendo o conjunto de motivações que


sentimos no dia-a-dia, no trabalho organizativo, que impulsiona nossa
luta para frente. Ela é responsável por reduzir a distância entre o presente
e o futuro, fazendo-nos viver antecipadamente os objetivos que definimos
e queremos alcançar (MST, 1991, p. 4).

Por sua vez, se entendermos que o fenômeno da mística compõe a consciência de


classe de determinados sujeitos, e é na experiência que esta se constitui, podemos supor
que a consciência de classe é formada também, em boa medida, pelos saberes sociais.

142
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Nesse sentido, a dissertação de Doriedson do Socorro Rodrigues, intitulada “Sa-


beres Sociais e Luta de classes: um estudo a partir da Colônia de Pescadores Artesa-
nais Z-16 – Cametá/Pará” traz luz ao debate sobre saberes sociais e conhecimentos, os
saberes quase sempre ligados ao estritamente empírico e o conhecimento tido como
resultado de produção científica. Rodrigues (2012) vai problematizar essa relação e des-
construir essa ambiguidade colocando saber e conhecer como processos que englobam
de forma mútua a produção do conhecimento. Para ele,

[...] os saberes que analisamos são considerados sociais por resultarem


em conhecimentos que expressam a visão de mundo e de relações sociais,
bem como o tipo de sociedade e de desenvolvimento para ela concebido,
as formas de organização, a participação e a comunicação elaborados pela
classe trabalhadora como respostas alternativas às contradições impostas
pelo capital. (RODRIGUES, 2012, p. 18)

Parte então da compreensão de que os trabalhadores também constroem e/


ou até reconfiguram valores, habilidades, estratégias e conhecimentos no contexto
de construção de um projeto de sociedade, “voltado inicialmente para a resolução de
problemas que lhes são cotidianos, mas que tende a se expandir para a materialização
de uma sociedade que não tome a extração da mais-valia como princípio e objetivação
de sua existência” (RODRIGUES, 2012).
Podemos entender, assim, que os saberes, originários das relações sociais e polí-
ticas vivenciadas por trabalhadores de uma forma geral, “são resultado de um processo
dialético de ressignificar habilidades, conhecimentos, valores e atitudes objetivados a
partir das contradições decorrentes das lutas travadas por esses trabalhadores” (RO-
DRIGUES, 2012).
Portanto, enxergar os saberes sociais como saberes relevantes para o entendi-
mento de determinados setores da sociedade e compreender que esses mesmos saberes
são constituídos e constituintes de uma determinada consciência de classe poderá aju-
dar a compreender o papel da mística na construção de visões e entendimentos sobre a
identidade camponesa.
Após fazer uma breve análise acerca da mística e como esta envolve concepções
e saberes sociais diversos, partiremos para um afunilamento. Buscaremos compreender
qual o papel que a música desempenha na mística e na formação da identidade campo-
nesa para a CPT.
Influenciado por Thompson (1987) e suas concepções de classe e luta de classe,
no qual apresenta uma visão dinâmica de classe social, onde essa se constitui como um
fenômeno histórico e não como efeito mecânico do processo de industrialização, e sua
sensibilidade histórica ao dar ênfase à “História dos de baixo”, é necessário pensar um

143
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

aspecto particular na música. Em inúmeras formas musicais, a música é a que mais se


aproxima das classes menos favorecidas que a interpretam e fazem usos a sua maneira.
Alguns autores há certo tempo têm pregado a necessidade de compreender a
história da arte integrada aos movimentos sociais e históricos, mas de modo algum
formam uma linha influente e, sobretudo, hegemônica na área estrita da música (MO-
RAES, 2000).
José Geraldo Vinci de Moraes em seu artigo “História e música: canção popular
e conhecimento histórico” (2000) afirma que a música, no caso de seu artigo, a “popu-
lar”, não deve ser compreendida somente através de seu texto, sob o risco de estar se
limitando a uma interpretação de texto. Assim, as escolhas que envolvem a elaboração
da música, como os sons, os instrumentos usados, as melodias e escalas são frutos de
“opções, relações e criações culturais e sociais, e ganham sentido para nós na forma de
música” (MORAES, 2000).
José Moraes afirma que

...a canção é uma expressão artística que contém um forte poder de


comunicação, alcançando ampla dimensão da realidade social. Se de fato
essas condições são reais e se estabelecem dessa maneira, aparentemente
as canções poderiam constituir-se em um acervo importante para se
conhecer melhor ou revelar zonas obscuras das histórias do cotidiano dos
segmentos subalternos. Ou seja, a canção e a música popular poderiam
ser encaradas como uma rica fonte para compreender certas realidades
da cultura popular e desvendar a história de setores da sociedade pouco
lembrados pela historiografia. (MORAES, 2000)

Na CPT e outros movimentos de luta pela terra são diversos os momentos no


qual as canções se fazem presente, sendo que alguns deles como o MST e a própria CPT
produzem materiais audiovisuais como CDs e cadernos de cancioneiros com as músicas,
hinos e mantras utilizados em encontros. A música está sempre presente nas místicas e
ocupa lugar de destaque, quase sempre estabelecendo relação entre gestos e símbolos,
dando lhes um sentido peculiar. Segundo Bogo (2002) a música é o elemento iniciador
de todos os encontros e é também um elemento que fomenta a conscientização. No
caderno do Cancioneiro da CPT (2015) de 40 anos da entidade, em sua apresentação,
fica claro o sentido das canções:

[...] um bom canto ajuda a não desistir da luta, a fortalecer a comunidade,


a festejar a vitória. Este Cancioneiro da CPT quer ser um instrumento de
memória, animação e de celebração. Os cantos aqui selecionados marcam
a história de lutadoras e lutadores do povo e de todo povo que luta, que
mesmo diante da escuridão, não deixa de cantar. (CPT, 2015)

144
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

É possível identificar nesse breve trecho e em uma análise mais aprofundada do


Cancioneiro citado acima alguns dos sentidos da mística levantados por Bogo (2002)
anteriormente. Primeiramente, e de forma mais explícita, o sentido de animação e de
celebração. Mas também é possível identificar um sentido de valorização da cultura
tradicional, diversas canções “marcam a história de lutadoras e lutadores do povo”.
O Cancioneiro da CPT (2015) traz, dentre diversas canções, composições
de artistas nacionalmente conhecidos e artistas que compõem o corpo de agentes da
própria entidade. Trago a seguir trechos de algumas canções que podem nos ajudar
a compreender melhor quais as ideias de campesinato estão explicitas e implícitas
nas músicas utilizadas em momentos nos quais a mística se manifesta. Vale aqui duas
ressalvas. Devido ao formato do presente artigo trarei poucos exemplos de músicas e me
limitarei a análises das letras das canções. Uma análise mais consistente e aprofundada
está em desenvolvimento no trabalho completo da dissertação do mestrado.

1 – 40 ANOS, CANTA EU, CANTA VOCÊ


(Zé Pinto)

1. É a Comissão Pastoral da Terra, outra primavera na alegria de festejar.


/ Mas na caminhada jamais se esquece o Deus da Vida. / Ele é nosso
guia, é quem nos convida a se organizar.

2. É a Comissão Pastoral da Terra, num canto novo que vem do povo


que quer sonhar. / Em plantar semente para ser mais gente um taco no
chão, / fazer movimento e romper as garras da escravidão.

3. É a Comissão Pastoral da Terra, faz do compromisso sua missão


de denunciar. / Resgatar a vida pra ver brotar flor de liberdade. / É a
reforma agrária, agroecologia, é felicidade.

Na canção de Zé Pinto, composta para os 40 anos da CPT, é facilmente


identificável alguns elementos da mística dos quais trouxemos de Ademar Bogo
anteriormente. Na primeira estrofe da canção o sentido religioso da luta da CPT se
destaca, sendo o “Deus da Vida” força motriz, “um guia” e aquele que “nos convida a se
organizar” para as lutas empreendidas. Fica claro também os objetivos almejados pela
CPT e seus membros, sendo alguns deles “romper as garras da escravidão” imposta
historicamente ao campesinato brasileiro, a busca pela liberdade, felicidade e reforma
agrária colocando estas como fim a ser alcançado.

145
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

12 - ANDAR COM FÉ
(Gilberto Gil)

[...]
1. Que a fé tá na mulher, a fé tá na cobra coral, ô-ô, num pedaço de pão.
/ A fé tá na maré [...]

2. A fé tá na manhã, a fé tá no anoitecer, ô-ô, no calor do verão. / A fé tá


viva e sã, a fé também tá no morrer, ô-ô, triste na solidão. [...]

Na canção de Gilberto Gil, que está entre as canções que compõe o Cancioneiro,
o sentido religioso também se destaca, sendo a fé elemento norteador de esperança. No
entanto também é possível identificar o elemento da fé no sentido filosófico de Bogo
(2002), pois seria aqui, a fé, a mística, a própria existência, aquilo que está vivo e em
movimento, como “a mulher”, “a cobra coral”, “a maré”, “o amanhecer” e “o anoitecer”.

35 - CANÇÃO DO LAVRADOR
(Raízes Caboclas)

1. Plantar/ É muito mais profundo/ Engrandece o mundo/ É uma prece


à natureza/ Quem planta espera/ No milagre do chão/ O pequenino
grão/ Inundando a mesa.

2. Por isso estou/ Cantando assim o meu plantio/ Comparando a um


grande rio/ Que subindo transbordou/ De alma cheia/ Meu olhar é uma
canoa/ Meu cantar de popa à proa/ O pão que a terra germinou.

A perspectiva trazida pela Canção do Lavrador e outras tantas canções presentes


no Cancioneiro da CPT (2015) (A VOLTA DA ASA BRANCA, BELEZA ILUMINADA,
CIO DA TERRA, etc.) nos remete à uma visão de campesinato tradicional, por vezes
mesmo saudosista, que ora enaltece a “boa vida” no campo, ora mostra com certa
saudade a vida que um dia foi vivida no meio rural. Um contraste com a atual realidade
dos homens e mulheres do campo submetidos, em sua maioria, a uma relação capitalista
com a terra, seja nas próprias terras ou prestando serviço a grandes latifundiários, o que
os coloca em situações ainda mais degradantes.
Há ainda exemplos de canções que se dirigem de forma mais direta às críticas
das relações de trabalho atualmente dominantes nos campos brasileiros, como a “Assim
Ninguém Chora Mais” de Zé Pinto, que traz: “Sabemos que o capitalista diz não ser
preciso reforma agrária. / Seu projeto traz miséria, milhões de sem-terra jogados na
estrada. / Com medo de ir pra cidade, enfrentar favela, fome e desemprego...”

146
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Sejam quais forem os sentidos expressos nas canções, as músicas que mediam
o fenômeno da mística são escolhidas e/ou produzidas a partir da realidade vivida por
camponeses e camponesas que lidam diariamente com as dificuldades da vida no cam-
po, seja pela luta para conquista de terras ou de sua permanência nelas.
A título de conclusão, seja como mensageira e/ou veículo de tradição, a mú-
sica conduz aos espectadores imagens e símbolos que provocam emoções, encorajam
a interpretação crítica do mundo e podem se transformar em um alicerce aonde se
faça possível a ação. Nos movimentos sociais as músicas surgem então com ênfase na
construção de uma consciência camponesa e assim, mais do que um elemento artístico,
a música se faz um elemento idealizador e edificador da consciência de camponesas e
camponeses da luta pela terra.

Referências
ALMEIDA, Antônio Alves de. A mística na luta pela terra. In: Revista Nera – Ano 8, N.
7 – julho/dezembro de 2005 – ISSN 1806-6755.

BOGO, Ademar. A mística: parte da vida e da luta. Diálogos, propostas, histórias: para
uma cidadania mundial. 2010. http://base.d-p-h.info/pt/fiches/dph/fiche-dph-8237.
html<acessado em 20/11/2017>

BOGO, A. O vigor da Mística. Cadernos de Cultura nº 2, MST, 2002

COELHO, Fabiano. A Prática da Mística e a Luta pela Terra no MST. Dourados, MS:
UFGD, 2010.

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São Paulo: Expressão Popular, 2016

CANUTO, Antônio. Uma vez CPT, sempre CPT. In. CPT: 40 anos de fé, rebeldia e
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Popular, 2016

RODRIGUES, Doriedson do Socorro. Saberes sociais e luta de Classes. Tese de


doutorado em educação, UFPA. Instituto de Ciências da educação, Programa de Pós-
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MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento
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MST. A Questão da Mística no MST. São Paulo, 1991

147
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

THOMPSON, E.P., A formação da classe operária inglesa I: A árvore da liberdade. Rio


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THOMPSON, E. P. Costumes em comum: Estudos sobre a cultura popular tradicional.


São Paulo: Cia. Das Letras, 1998.

148
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Propaganda
política e Gênero:
A representação
de mulheres nos
cartazes da Guerra
Civil Espanhola
(1936-1939)
Ana Paula Florisbelo da Silva
UFG – Regional Catalão

Introdução
A propaganda de Guerra através de cartazes foi um fenômeno comum na
primeira metade do século XX, e no presente trabalho buscamos analisar a representação
de mulheres em cartazes da Guerra Civil Espanhola. Entre os diversos encontrados,
buscamos separá-los em categorias que correspondem a papeis e imagens das mulheres
que são retratados nesses cartazes.
Para isso utilizamos os conceitos de representação e gênero que no presente tra-
balho são complementares, pois pensar gênero e representação implica pensar em cons-
trução histórica e relações de poderes.

A sociedade espanhola no início do


século XX
Na década de 30 a Espanha passava por um momento peculiar a nível europeu
e decisivo para o que seria o restante do século XX no país. A nível europeu, por mais
que tenha surgido repúblicas democráticas na Europa do pós-guerra, período de queda
definitiva dos velhos impérios, nenhuma delas tinha um programa reformista e parti-
cipativo tão avançado. A nível nacional, foi a única experiência democrática anterior
ao fim da ditadura franquista. Foi também o colapso da Monarquia, identificada com o
caciquismo e todo um sistema político que já não satisfazia a nascente Espanha indus-

149
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

trializada e urbana. “La modernización había sido efectiva y contribuyó al cambio de ré-
gimen al identificar […] la Monarquía con la España del pasado.” (TUSELL, 1999, p. 4).
Do fim do século XIX ao início da década de 30, “el problema fundamental de
España en ese período fue un problema político: la búsqueda de un sistema político que
gozase de legitimidad.” (CARR, 1983, p. 7). Embora iniciada em fins do século XIX,
a industrialização espanhola era, antes de 30, concentrada nas regiões industriais do
País Basco e Catalunha. Mas a modernização não significou uma elevação na qualida-
de de vida para todos. Nas primeiras décadas do século, três quartos dos assalariados
não eram capazes de satisfazer todas as necessidades de suas famílias somente com seu
salário, necessitando assim que sua mulher e filhos também trabalhassem para comple-
mentar a renda, geralmente em subempregos. (TUSELL, 1999, p. 12).
Para a mulher espanhola se acenava o início de lentas e limitadas transforma-
ções sociais que a permitiria se inserir no mundo do trabalho e da educação. Somente
a partir de 1910 começou a existir no país o sindicalismo feminino, embora também
seja importante lembrar que, apesar de se inserir cada vez mais no mercado de trabalho,
em 1930 uma pequena parcela feminina participava ativamente no mundo do trabalho:
cerca de 19 de cada 100 mulheres entre 12 e 19 anos; fenômeno, obviamente, mais con-
centrado no mundo urbano industrial, portanto localizado.

“En 1900 un 71 por 100 de las mujeres no sabía leer, mientras que en 1930
alfabetas y analfabetas se repartían por mitades; en las grandes ciudades
el porcentaje de éstas era inferior al 20 por 100. En 1900 sólo había una
estudiante universitaria mientras que eran casi 1.700 al comienzo de los
treinta. […] También en el trabajo la mujer desempeñó un papel creciente
hasta tal punto que en 1930 las trabajadoras del textil en Barcelona
empezaban a superar en número a los varones. […] En Cataluña se
localizaba el 40 por 100 de la población activa femenina en la industria allá
por 1930, mientras que en Granada —o incluso Madrid— más del 80 por
100 pertenecía al sector terciario, principalmente al servicio doméstico.
En la capital, de 86.000 mujeres activas en 1930, 62.000 estaban en el
servicio doméstico, 7.000 en el textil y sólo 4.000 en profesiones liberales
o asimiladas. En Cataluña el número de trabajadoras en la industria pasó
de 100.000 a 250.000 en el período de 1900 a 1930.” (TUSELL, 1999, p. 14)

Os direitos e liberdades da mulher se encontravam ainda muito limitados por


uma sociedade conservadora amparada por todo um aparato legal que a submetia a
tutela masculina, fosse do pai, marido ou outro homem tido como por ela responsável.
O Código Civil de 1889 definia o homem como único sujeito legal, de quem a mulher
dependia em sua vida profissional e social. Somente na Catalunha e a partir de 1934
foram retirados o requisito da licença marital como condição de ingresso da mulher

150
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

no trabalho. (TUSELL, 1999, p. 15). Apenas em novembro de 1933 a mulher espanhola


angariaria o direito ao voto. (GRAHAM, 2013, p. 23).
No início da República a Constituição ampliara o voto para as mulheres, direito
que nem mesmo a França de então concedia, repreendido pela direita e considerado
controverso pela esquerda. O número de mulheres presente na política era ainda mais
escasso, e se constituía geralmente em mulheres com passagens por sindicatos, de mili-
tâncias anarquistas ou socialistas, como Teresa Claramund e Virgínia González.
Sentindo que suas vozes não eram ouvidas, e que partidos e organizações de es-
querda ignoravam bandeiras da luta pela emancipação da mulher, grupos feministas nas-
ceriam na Espanha. É o caso da organização anarquista Mujeres Libres, que nasceria ofi-
cialmente em 1936 e chegaria a contar com a mobilização de mais de vinte mil mulheres.
Apesar de feminista, a organização se diferenciava do feminismo corrente de
sua época, de conteúdo sufragista. Lutava pela igualdade entre homens e mulheres e
pela livre mobilização destas ao lado dos homens na luta pela revolução social, posição
controversa para a CNT e para os movimentos de esquerda em geral, que consideravam
que uma organização feminina era fator de desunião para a classe operária.

“Lucía Sánchez Saornil, que foi a alma de Mujeres Libres antecipou, o


que posteriormente trouxe o feminismo dos anos 60, como o amor livre
e a liberação sexual, ao desafiar as relações de poder que tinham lugar no
espaço privado e a opressão ainda existente entre seus companheiros de
luta.” (SAORNIL, 2015, p. 29).

Mujeres Libres nasceria quase ao mesmo tempo que a Guerra Civil Espanhola,
conflito iniciado a partir da tentativa de golpe militar em 17-18 de julho de 1936 contra
a Segunda República e que só teria fim em 1 de abril de 1939, com a instauração da
ditadura liderada por Francisco Franco.
Segundo Graham (2013), o conflito foi uma guerra entre culturas distintas, que
trouxe à tona diversos atritos da sociedade espanhola: a nova cultura urbana versus a
tradição rural; o secular e a religiosidade católica; ideias liberais e autoritarismo; regio-
nalismos e centralismo; os tradicionais papéis de gênero e a nova mulher na luta por
sua emancipação e, principalmente, conflitos entre gerações. Uma tradicional e conser-
vadora visão de mundo, firmada na Igreja Católica e na monarquia espanhola, tentava
sufocar todo um modo de vida e de pensar que já se tornava realidade com a Segunda
República e a modernização, proporcionada pela industrialização e suas consequências
na sociedade.
Segundo Marco (1995), A Guerra Civil seria a eclosão final de um processo ini-
ciado no século XIX a partir da luta contra a invasão napoleônica e do ideário liberal
da burguesia espanhola, expressado nas propostas das Cortes de Cádiz (1812). Do con-
turbado século XIX até a década de 30, disputas monárquicas, a 1ª e a 2ª República e

151
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

vários golpes de Estado demonstram a polarização entre defensores de uma monarquia


absoluta, centralizada e católica e aspirantes de uma monarquia constitucional ou uma
república aos moldes burgueses, além de socialistas, anarquistas, comunistas, militantes
sindicais e grupos separatistas.

A representação feminina em cartazes da


Guerra Civil Espanhola
A propaganda cartazista da Guerra Civil Espanhola não fora um fenômeno iso-
lado: Era uma forma eficiente de propaganda política, utilizada amplamente em perí-
odos de guerra na primeira metade do século XX. Nascida no fim do século XIX, se
manifestava através de imagens e frases impactantes com o objetivo de propagandear
produtos, ideias e persuadir seu público alvo. Importantes fontes históricas, esses car-
tazes revelam intencionalidades, linguagens e discursos ideológicos que podem ajudar-
-nos a analisar a sociedade que o produziu e seu público alvo.
É importante destacar que, devido a heterogeneidade no lado republicano (co-
munistas, anarquistas, republicanos, moderados, etc.), os cartazes podem apresentar
diferenças de matiz e conteúdo, dependendo do órgão ou grupo que o emitiu. Separa-
mos em categorias os cartazes selecionados para a construção desse trabalho, embora
reconheçamos que muitas categorias podem se cruzar fazendo com que um cartaz te-
nha mais de uma mensagem a transmitir.
Toda representação possui estratégias e práticas que visam justificar ou legitimar
certo discurso ou visão de mundo. “As representações do mundo social assim construí-
das, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre
determinadas pelos interesses de grupo que as forjam.” (CHARTIER, s.d., p. 13). Assim
para a construção desse trabalho, é imprescindível a utilização do conceito de gênero:

“Visto que estes eram em proporção esmagadora desenhados por


homens, é naturalmente impossível supor que os papéis sexuais que eles
representam expressem as visões da maioria das mulheres. Contudo, é
possível comparar estas imagens de papéis e relacionamentos com as
realidades sociais do período e com as ideologias mais especificamente
formuladas.” (HOBSBAWM, 2005, p. 123).

A partir do conceito de gênero, que não é somente uma categoria de análise, mas
também uma categoria histórica, analisaremos a representação da mulher nos cartazes,
observando o que essas imagens nos transmitem sobre a sociedade espanhola do perío-
do da Guerra Civil, pensando principalmente nas intencionalidades, mensagens e este-
reótipos que esses cartazes fazem sobre as mulheres e os papéis em que estão inseridas.

152
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

“Enquanto categoria histórica, o gênero


pode ser concebido em várias instâncias:
como aparelho semiótico [...]; como sím-
bolos culturais evocadores de representa-
ções, conceitos normativos como grade
de interpretação de significados, organi-
zações e instituições sociais, identidade
subjetiva [...]; como divisões e atribui-
ções assimétricas de características e po-
tencialidades [...]; regulando não apenas
relações homem-mulher [...] etc. [...] ha-
vendo um campo, ainda que limitado, de
consenso: o gênero é a construção social
do masculino e do feminino.” (SAFFIO-
TI, 2004, p. 44-45).

Figura 1 - TEJADA, Saens de. (1937).


A mulher como mãe

Embora o tradicional papel da mulher como


mãe seja mais utilizado pela direita, podemos ver em
muitos cartazes da esquerda a mesma representação.
Domenach (2005) explica que a primeira fórmula da
propaganda é a simplificação: entre várias possibili-
dades e argumentações possíveis, é preciso tornar a
mensagem clara e concisa. “Esse esforço de precisão
e sintetização constitui a necessidade prévia de qual-
quer propaganda.” (DOMENACH, 2005, p. 69).
Assim, nesse esforço de generalização para
simplificar a imagem da mulher nos cartazes, es-
colhem a mulher como mãe, um papel tradicional
dentro de uma Espanha ainda em sua maioria tra-
dicional. Nos cartazes dos rebeldes podemos ver
inúmeros cartazes que exaltam a imagem da mu-
lher enquanto mãe, como no cartaz anterior em que
ela aparece erguendo o próprio filho, e a frase suge-
re que eles são o futuro da Espanha, um futuro a ser
protegido e por qual se deve lutar. Figura 2 – Autor desconhecido. (193?).
Nesse cartaz do bando nacional é interes-
sante observarmos que enquanto os numerosos

153
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

homens carregam armas e ferramentas de trabalho, a


mulher carrega uma criança. Vemos aqui uma divisão
de tarefas: a mulher como cuidadora, e o homem como
aquele que trabalha e luta. Ela também não está em po-
sição de destaque, mas em segundo plano em relação a
outros homens.

“Aunque en esta época revolucionaria las


mujeres comienzan a salir un poco de su
reducido círculo y se empieza a utilizar una
imagen rupturista en los carteles republica-
nos, en el fondo, siguen soportando la sumi-
sión al sistema patriarcal y tradicionalista.
(ESCARDA, 2008, p. 87).

Fica claro na maioria desses cartazes que ela é


uma mãe pobre, da classe trabalhadora ou camponesa, Figura 3 - Autor desconhecido. (1937).
o que adiciona certa fragilidade a sua imagem, muito
usada na condição de vítima ou sofredora ante as agruras da guerra. Nesses cartazes
buscam retratá-las como refugiada ou parte das pessoas que precisam de auxílio. É tam-
bém parte de uma estratégia de comoção, na qual mulheres e crianças são mais utiliza-
das, por serem entendidos como mais frágeis fisicamente e socialmente.

A mulher como vítima da guerra

É significativo que a jovem ao chão esteja com


roupas rasgadas que mostram suas pernas (demons-
trando fragilidade) e sua roupa seja branca (símbolo de
pureza). Tenta captar a solidariedade com as vítimas e
o ódio a quem causa isso, mais uma vez a lei de simpli-
ficação e do inimigo único, ao estampar nas bombas o
símbolo do fascismo. “Na medida do possível, tentar-
-se-á ligar esse grupo de adversários declarados a uma
só categoria ou a um só indivíduo.” (DOMENACH,
2005, p. 73).

Figura 4 – PARRILA. (1938).


154
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

A mulher como alegoria

Nesse tipo de representação feminina a mais


encontrada é a da mulher como símbolo da repú-
blica, embora haja também dela como a fome e a
miséria (cartazes da direita), por exemplo.
Esse tipo de representação da República ob-
viamente só aparecia nos cartazes confeccionados
por partidos ou grupos republicanos. O cartaz acima
busca ajuda internacional na luta contra os rebeldes.

“Sin embargo el Comité de No Interven-


ción firmado por Francia e Inglaterra en
agosto de 1936 y ratificado por otros 27
países frenó el apoyo al gobierno repu-
blicano; sólo recibió la ayuda de la Unión
Soviética y Méjico. Además del apoyo de
las Brigadas Internacionales, el Socorro
Rojo Internacional que tenía su sede en
París y que canalizaba la ayuda de sindi- Figura 5 - PARRILLA. (193?).
catos, organizaciones obreras y partidos
políticos de la izquierda internacional re-
presentó para la República Española un
ejemplo de solidaridad de la clase traba-
jadora de todo el mundo en su lucha con-
tra el fascismo.” (ESCARDA, 2008, p. 94).

A mulher como miliciana

Nos primeiros anos de guerra o lado repu-


blicano convocava à luta tanto homens quanto mu-
lheres, assim eram comuns os cartazes retratarem
mulheres em posições heroicas e de destaque, con-
clamando que as mulheres também defendessem os
ideais antifascistas.

“Esta mujer aparece en los carteles como


una mujer luchadora, activa y enérgica
en una postura igualitaria al hombre:
Figura 6 – OBIOLS, R. (1936).

155
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

todos luchan y persiguen un bien común.


Generalmente luce ataviada con el caracte-
rístico mono de las milicias republicanas de
color azul, portando armas como símbolo
de lucha.” (FERNÁNDEZ, 2014, p. 22).

É interessante observarmos que a postura fe-


minina em muitos desses cartazes lembra o quadro La
Liberté guidant le peuple, de Delacroix, com a mulher
na centralidade da imagem, empunhando bandeiras,
armas e conclamando/levando pessoas à luta.
O cartaz acima lembra o famoso cartaz de re-
crutamento norte-americano da Primeira Guerra, que
retrata Tio Sam apontando o dedo, com uma mensa-
gem que dizia “I want you for U.S. Army.”, por sua vez
inspirado no britânico “Lord Kitchener Wants You”.

Figura 7 - ARTECHE, C. (1936).

A mulher como ocupante do espaço deixado


pelos combatentes no mundo do trabalho

Esse tipo de cartaz era produzido pelo lado re-


publicano, e se tornou comum depois que se passou o
período inicial de tentativa de recrutar mulheres entre
os milicianos. De louvada a presença de mulheres nas
milícias passou a ser ridicularizada a partir de 1937.
Nesse período o lema passa a ser “homens na frente,
mulheres na retaguarda”.

“Tras pasar varios meses empezó a surgir


cierto rechazo hacia las mujeres milicianas
que se encontraban en el frente, el uso del
mono azul fue catalogado como una forma
de llamar la atención de los hombres, por lo
que su presencia en el frente distraía y no te-
nía el carácter antifascista y revolucionario
que tuvo al inicio de la guerra. A partir de
este momento la mujer desapareció de los
carteles que instaban al alistamiento en las
Figura 8 – RUBIO, J.A. (193?).
156
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

milicias y pasó a formar parte de la reta-


guardia, donde era también muy necesa-
ria ya que un gran número de hombres
habían acudido a la guerra para defender
a la república y se necesitaba mano de
obra para que la producción siguiese en
marcha.” (FERNÁNDEZ, 2014, p. 24).

Foi um fenômeno comum dos períodos de


guerra do século XX a convocação de mulheres pa-
ra os postos de trabalhos vagos, dos homens que fo-
ram para a guerra. Muitas discussões surgiam sobre
o assunto, pois muitos consideravam esse feito co-
mo algo temporário, que seria revertido após o fim
da guerra, o que na verdade não ocorreu: a mulher
se inseriu cada vez mais no mercado de trabalho,
reivindicando não só seu direito ao trabalho como
garantia de igualdade de salários. Nesse tipo de car-
Figura 9 - ANTONIO, J. (193?).
taz encontramos ainda outra imagem comum: a da
mulher camponesa, como podemos observar no
cartaz abaixo.

A mulher como uma prostituta/


sedutora/transmissora de DSTs
Não era somente o discurso fascista que
demonizava a mulher, acusando-a de prejudicar
o andamento da guerra e a vida dos soldados. As
mulheres eram vistas como um grande problema,
levando os soldados à promiscuidade e distraindo-
-os de seus deveres na guerra. Assim os cartazes
alertando para os riscos de mulheres com doenças
sexualmente transmissíveis buscavam amedrontar
a população masculina, em especial aos que luta-
vam na guerra civil. Mais um dos processos de sim-
plificação da propaganda misturado à misoginia no
sentido em que atribui a mulher o papel de trans-
missora de DSTs, colocando o homem no lugar de
vítima dessa mulher que personifica o perigo.
Figura 10 - GIL, Rivero. (1937).

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

A mulher como cuidadora/assistente


sanitária e médica

Outra imagem corrente nos cartazes em que


apareciam mulheres era a de enfermeira ou cuidadora.
Esses cartazes solicitavam a ajuda feminina no cuidado
com os feridos, pedindo para que se voluntariassem em
serviços sanitários. Reforça-se aqui a idealização da fi-
gura feminina em imagens angelicais/virginais, de uma
mulher que cuida e protege.

Conclusão
Ao analisar a representação de mulheres nos
cartazes da Guerra Civil Espanhola pudemos obser-
var diversos valores de gênero e intencionalidades,
muitos deles carregados de preconceitos, estereótipos,
machismo e misoginia. Criados por homens e muitas
Figura 11 – VICENTE, E. (193?).
vezes também direcionados a eles, esses cartazes nos
demonstram as contradições dentro de uma Espanha
que, ao mesmo tempo em que era profundamente patriarcal, monárquica e católica,
possuía o mais bem sucedido movimento anarquista internacional e um grupo femi-
nista (Mujeres Libres) que antecipou pautas que só veríamos se tornar corrente dentro
do(s) movimento(s) a partir da revolução cultural da década de 60.
Foram poucos os cartazes que representaram a imagem de uma mulher livre e
que atua na política e na guerra (lado republicano), concentrados no período inicial do
conflito enquanto o recrutamento feminino ainda era incentivado pela esquerda. Após
1937 sua presença na guerra foi entendida como desnecessária e perniciosa. Aparecia
nos cartazes então como a prostituta, ou como aquela que deveria cuidar e zelar de sua
família e de feridos, como vítima da guerra e como a ocupante (temporária) dos postos
de trabalho deixados pelos homens que foram à guerra. Apareceram nos cartazes então
a hierarquização entre seres socialmente desiguais, definições de papeis que já se encon-
travam definidas na estrutura social das relações entre gêneros.

158
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Referências

Fontes
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160
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Protestantismo
e Educação: O
Empreendimento
presbiteriano em
Goiás (séc. XIX-XX)
Tamiris Alves Muniz
Universidade Federal de Uberlândia
Sauloéber Tarsio de Souza
Universidade Federal de Uberlândia

Introdução
A relação religião e educação remonta aos tempos antigos e se expressa, prin-
cipalmente, através da atuação da Igreja Católica, que alimentou essa relação de forma
a participar da formação dos indivíduos, inculcar seus dogmas e valores e exercer um
controle sobre os mesmos. De acordo com Chervel (1990, p. 187), a finalidade religiosa
foi uma das primeiras preocupações do ensino escolar, a partir do qual o professor de-
veria inculcar nas crianças “o sentimento de seus deveres para com Deus, para com seus
pais, para com os outros homens e para com eles mesmos”.
Ao longo da Idade Média, a educação foi organizada inteiramente pela Igreja Ca-
tólica, sendo as primeiras escolas criadas em mosteiros e paróquias e o ensino subordi-
nado aos dogmas religiosos e de rejeição da cultura profana. Com a Reforma Protestan-
te e a proposta de mudanças no interior da Igreja, a emergência de uma nova concepção
religiosa e, por conseguinte, de novas instituições religiosas, os reformadores passam a
defender a educação como um instrumento importante para que as pessoas pudessem
aprender a ler e viessem a ler a Bíblia, se convertendo a nova fé e propagando-a. Para
tanto, reformadores como Lutero e Calvino chamaram os governantes à responsabili-
dade para que pudessem criar escolas, de forma a superar o ensino católico e fazer valer
sua visão religiosa e de sociedade.
No contexto brasileiro, a educação foi fortemente marcada pelo catolicismo,
principalmente, pelos jesuítas, que imbuídos da missão religiosa de converter os gentios
à fé católica e, também, com a incumbência colonizadora de provocar a aculturação, es-
tiveram a frente da educação durante quase todo o período colonial (1549-1759). Desta
feita, considera-se que a história da educação brasileira tem início com o trabalho dos

161
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

jesuítas, que iniciaram, também, a associação entre religião e educação no Brasil, por
meio da catequese.
A Igreja Católica seguiu exercendo grande influência no campo educacional bra-
sileiro por meio da criação de escolas e da presença do ensino religioso no currículo
escolar. Com a República e a separação entre Igreja e Estado no Brasil, a Igreja Católica
no Brasil, se lançou no processo de romanização, no sentido de defender e propagar a
fé católica frente às tendências secularizantes e liberais e a expansão de outros credos
religiosos no país, principalmente protestantes, o que resultou na organização de um
sistema educacional e, por conseguinte, na criação de inúmeras instituições escolares
católicas pelo país. (CURY, 1986)
Na esteira do projeto católico, salvo suas particularidades, suas distinções ideo-
lógicas, os primeiros grupos protestantes a se instalarem no Brasil também recorreram
a educação como meio de inculcarem seus valores e promoverem a nova fé, o que tam-
bém resultou na criação de muitas escolas pelo país.
Nessa direção, o presente trabalho busca investigar a história da educação pro-
testante em Goiás, em particular, a experiência presbiteriana. Logo, o trabalho que se
segue apresenta primeiro uma breve reflexão sobre o processo histórico que envolve a
inserção do protestantismo no Brasil, seu projeto missionário, e sua relação com o em-
preendimento educacional, ou seja, com a criação de escolas. Na sequência, é apresenta-
da uma discussão inicial sobre a implantação do presbiterianismo no estado Goiás e sua
ação educacional com a criação das primeiras escolas, a saber, o Instituto Presbiteriano
Samuel Graham (1942) e o Instituto Presbiteriano de Educação (1951).
Os resultados iniciais indicam que criação das primeiras escolas presbiterianas
em Goiás acompanhou o trabalho missionário norte-americano, que manifestava pre-
ocupação com a educação, utilizando-a também, como uma estratégia missionária e
ainda, um espaço de formação particular para os filhos das famílias evangélicas e de
propagação da cultura americana.

Protestantismo e educação no Brasil


As chamadas “Igrejas protestantes” estão diretas e/ou indiretamente vinculadas
a Reforma protestante do século XVI, que se apresentou como uma reação aos dogmas
católicos, assentando-se na ideia de justificação pela fé e na adoção da Bíblia como única
regra de fé e prática, que deveria ser lida e interpretada livremente por qualquer pessoa.
Segundo Mendonça e Velasques Filho (1990), o que se chama de protestantismo
brasileiro, na realidade, são vários “protestantismo”, uma vez que diferentes movimen-
tos e grupos protestantes se inseriram no Brasil a partir do início do século XIX, como
o protestantismo imigratório e o protestantismo de missão.

162
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

O protestantismo começou a adentrar em terras brasileiras após o decreto de a


abertura dos portos “às nações amigas” assinado por D. João VI em 1810, que possibili-
tou o comércio brasileiro com países protestantes. De acordo com Abreu (1997, p. 61),
“a população brasileira só foi diretamente afetada pela presença do protestantismo, por
volta de 1850, quando começaram a chegar no Brasil os primeiros missionários pro-
testantes, com a finalidade explícita de propagar a sua fé”. Como resultado da iniciativa
desses missionários, instalaram-se no Brasil as seguintes igrejas: Igreja Congregacional
(1858), Presbiteriana (1862), Metodista (1886), Batista (1882), Episcopal (1898) e a Igre-
ja Cristã Evangélica (1901).
O estabelecimento dessas igrejas deu-se, sobretudo, através de missões norte-
-americanas, de modo que, o protestantismo que se instalou no Brasil e, por conse-
guinte, seus valores, seu projeto de sociedade, guarda estreita relação com os valores
norte-americanos, particularmente, o ideal de civilização. Para esses protestantes, a
civilização estava associada a conversão religiosa, a partir da qual cada indivíduo se in-
vestiria de maior responsabilidade social, apresentaria valores e comportamentos con-
dizentes a vida em sociedade, atribuiria mais valor ao trabalho, almejando crescimento
pessoal e coletivo. Nesse sentido, Gonçalves (2009, p. 112) afirma que a “civilização foi
sinônimo de protestantismo”.
Assim, em consonância com o projeto político-pedagógico da Reforma protes-
tante, as primeiras igrejas demonstraram grande preocupação com as questões sociais,
que se efetivaram na criação de enfermarias, hospitais e, principalmente, escolas e co-
légios. A despeito de sua natureza político-social, a implantação de escolas no Brasil foi
também uma estratégia missionária do protestantismo, “com a finalidade de realizar
uma propaganda indireta dos ideais de uma civilização cristã nos moldes protestantes”.
(HACK, 2000, p. 59)

“A religião protestante, antes de fazer adeptos, precisa fazer leitores tanto


no campo como na cidade – alfabetizar e letrar as pessoas para compre-
ender a racionalidade de culto e da doutrina; no campo instruindo-os
para a preparação do culto (racional), a leitura da bíblia e do catecismo de
fé sem a presença do clero – uma fé laica; na cidade para educar as elites
para a transformação de mentalidade que estava presente nos objetivos
missionários – produzir não apenas uma civilização, mas um estilo de
vida, o American Way of Life.” (JARDILINO; LIMA; LOPES, 2011, p. 259)

Ainda segundo Dias (2016, p. 176), em função do alto índice de analfabetismo


do país, os missionários constataram que “era preciso oferecer à população protestante
um sistema educacional intercalado, não apenas que o instruísse para a conversão re-
ligiosa (leitura da Bíblia, livro de hinos e outras literaturas religiosas), mas que o pre-

163
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

parasse intelectualmente para sua integração em sociedade”, fato que ofereceu maior
estímulo a criação de escolas.
O projeto missionário protestante estava envolto no pensamento liberal, nos
ideais da Escola Nova, ideia de modernidade e progresso, fato que interessava as elites
locais, os liberais e positivas e muito contribuiu para o avanço das ideias liberais no país.
Assim, se permitiu sua entrada no Brasil, com o apoio dessas elites ao seu empreendi-
mento educacional, uma vez que a educação era considerada o carro chefe para formar
o cidadão republicano e vincular o Estado recém-independente ao progresso. (JARDI-
LINO; LIMA; LOPES, 2011)
A finalidade religiosa e o projeto político-social protestante que orientaram a
criação das escolas protestantes no Brasil, bem como o acolhimento desse projeto por
parte das elites locais, corrobora o fato de que as instituições escolares não são apenas
instituições singulares, mas também, “co-partícipes de projetos históricos, particular-
mente os vinculados às visões de mundo que se confrontam em uma dada conjuntura,
fazendo valer uma dada concepção”. (ARAÚJO, 2007, p. 96)
Conforme Hilsdorf (2003), a prática pedagógica dos colégios americanos de
confissão protestante era uma das fontes para a realização do projeto de inovação peda-
gógica no Brasil. As primeiras escolas de confissão protestante tiveram lugar na provín-
cia de São Paulo nas décadas de 1870 e 1880, “em cidades que eram focos de atuação de
liberais radicais e republicanos”. (HILSDORF, 2003, p. 64)
Segundo Hack (2000), os presbiterianos foram pioneiros na criação de escolas
e na introdução do sistema pedagógico americano no Brasil, sendo seguido por outros
grupos que também contribuíram para o estabelecimento de escolas. A implantação do
presbiterianismo no Brasil resultou do trabalho missionário do reverendo Ashbel Green
Simonton, que chegou ao país em 1859, enviado pela Missão Presbiteriana do Norte dos
Estados Unidos. Em 1862, Simonton fundou a primeira Igreja Presbiteriana do Brasil, a
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro e, ainda, o primeiro periódico evangélico do país
(Imprensa Evangélica, 1864) e o Presbitério do Rio de Janeiro (1865).
O trabalho inicial norte-americano se organizou no país administrativamente
por meio da Missão Brasil, que passou a ser sediada em São Paulo, que se encontrava
em franco desenvolvimento econômico e cultural, “possibilitando a irradiação não só
de igrejas, mas de escolas, para outras regiões do país”. (NASCIMENTO, 2005, p. 28).
Em função da grande extensão do território brasileiro e da necessidade de administrar
melhor o trabalho missionário, Nascimento (2005, p. 112) atesta que em 1896 a Missão
Brasil dividiu-se “em Missão Sul, compreendendo os Estados do Rio de Janeiro, Paraná
e Santa Catarina, e em Missão Central do Brasil, abrangendo Bahia, Sergipe, norte de
Minas Gerais e, posteriormente, Mato Grosso e Goiás”.
A Igreja Presbiteriana se preocupou desde o início com a criação de escolas. “A
escola seria um instrumento de propagação do Cristianismo nos moldes presbiteria-

164
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

nos, com penetração mais fácil e que atingiria a sociedade brasileira mais rapidamente”
(HACK, 2000, p. 59), além de ser considerada um meio importante para inserir o país
na senda do progresso e formar cidadãos, os novos convertidos “espiritualmente e cul-
turalmente diferenciados”. (JARDILINO; LIMA; LOPES, 2011, p. 262)
A primeira escola presbiteriana teve lugar na Província de São Paulo, em 1866,
mas funcionou por pouco tempo. Em 1869, foi fundando em Campinas, o Colégio In-
ternacional, mas o mesmo encerrou suas atividades em 1892. O primeiro grande em-
preendimento educacional se deu com a criação da Escola Americana, em 1870. Seu
plano de ensino abrangia: Jardim de infância, curso primário, secundário e superior.
Logo, a Escola se firmou no cenário brasileiro com grande infraestrutura, novos méto-
dos de leitura e materiais didáticos, professores renomados e alto padrão de ensino, e se
ofereceu como uma opção de ensino para as elites paulistas. Com o tempo, a Escola veio
a se tornar o Colégio Mackenzie. (HACK, 2000)
Em 1880 os presbiterianos criaram o Colégio Morton em São Paulo. Em 1881, os
missionários metodistas norte-americanos criaram o Colégio Piracicabano na cidade de
Piracicaba, São Paulo. Conforme atesta Fernando de Azevedo (1976, p. 628), as escolas
protestantes foram fundadas, sobretudo, pelas igrejas Metodista e Presbiteriana, e tiveram,
“no regime republicano, rápidos progressos que lhe abriram, na história da Educação do
país, não só um lugar indisputável, mas uma fase fecunda de atividades renovadoras”.
De acordo com o autor, “foi em grande parte através das escolas, sob influência
direta de ministros e educadores protestantes da América do Norte, que se processou
no Brasil a propagação inicial das ideias pedagógicas americanas que começaram a irra-
diar-se em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais”. (AZEVEDO, 1976, p.628)
Em linhas gerais, a pedagogia protestante estava assentada numa concepção pro-
gressista e liberal, preocupada com a formação integral do educando e a emancipação
do espírito. Nesse sentido, buscaram superar a visão de homem, de mundo e de educa-
ção proposta pelo catolicismo, buscando renovar a educação brasileira. O ensino dava
grande ênfase à instrução científica, com a introdução de diversos recursos didáticos,
ao treinamento manual, à ginástica e aos esportes em geral e contava com modernas
instalações. (ABREU, 1997; HACK, 2000)
Ademais, segundo Azevedo (1976, p. 629), as escolas filiadas “às diversas corren-
tes protestantes, trouxeram uma contribuição ponderável à Educação feminina; intro-
duziram a coeducação dos sexos, estabelecendo classes mistas desde 1871, em todos os
cursos do Mackenzie e em outros institutos”.
Não obstante tais práticas e ideais, a concepção protestante de educação estava
atrelada aos ideais religiosos, sendo, portanto, importante pensar essa relação com a
ideia de progresso e de projeto civilizador apresentado pela mesma e, também, sua con-
tribuição para a educação brasileira.

165
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Em seu projeto evangelístico, os presbiterianos norte-americanos se dedicaram


especialmente a ocupação do interior do Brasil a partir da criação de igrejas, escolas e
hospitais, com o intuito de disseminar seus valores religiosos e paralelamente, civilizar
essas regiões. É nesse contexto que o presbiterianismo é implantado em Goiás conforme
discussão a seguir.

Presbiterianismo e educação em Goiás


O empreendimento presbiteriano em Goiás se iniciou no final do século XIX e
início do século XX, por meio do trabalho da Missão Sul do Brasil, organização vincu-
lada à Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos, que motivada por um projeto
de atuação no interior do país, enviou missionários da cidade mineira de Araguari a
Goiás. Esses missionários constataram a falta de igrejas evangélicas e defenderam as
possibilidades de atuação no estado.
Segundo Araújo (2004), a serviço da Missão Sul da Igreja Presbiteriana, Jonh
Boyle foi o primeiro missionário presbiteriano a atuar em Goiás. Boyle realizava o tra-
balho de colportagem pelo interior do país, vendendo Bíblias e anunciando a mensagem
protestante. Ele atuou primeiro na região do Triângulo Mineiro, alcançando de início, a
cidade de Araguari em 1884, de onde seguiu para Goiás e ajudou na organização de um
núcleo presbiteriano em Santa Luzia, atual município de Luziânia.
Concomitante ao trabalho de Boyle e outros colportores que atuaram na região,
a mensagem protestante/presbiteriana em Goiás começou a frutificar quando as primei-
ras pessoas em contato e leitura da Bíblia se converteram a nova fé. Nessa direção, con-
sidera-se que um negociante que recebeu a Bíblia e foi evangelizado na cidade mineira
de Paracatu, ao chegar em Santa Luzia de Goiás, anunciou a nova fé aos seus familiares
e amigos fazendo novos convertidos e, por conseguinte, dando início ao protestantis-
mo em Goiás. Ao percorrer alguns vilarejos goianos em 1884 e chegar em Santa Luzia,
Boyle teria batizado essas primeiras pessoas. Logo, a Igreja Presbiteriana de Santa Luzia,
primeira igreja presbiteriana em Goiás, foi fundada em 16 de julho de 1893, sob admi-
nistração do presbitério de Minas Gerais. Dez anos depois, em 1903, uma crise interna
motivada por questões doutrinárias, pela ligação do protestantismo com a maçonaria e
principalmente pela administração norte-americana no Brasil, dividiu os presbiterianos
em Santa Luzia, culminando num cisma religioso, que dividiu a Igreja entre os presbi-
terianos do Brasil (vinculados a missão americana) e os independentes (nacionalistas),
de modo que a Igreja de Santa Luzia passou a pertencer a denominação independente.
(ARAÚJO, 2004)
Para Araújo (2004), a cisão do presbiterianismo provocou uma descontinuidade
no projeto evangelizador iniciado em Araguari com a Igreja Presbiteriana do Brasil e,
por conseguinte, há um “esquecimento” do trabalho protestante desta instituição em

166
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Goiás, que só fora retomado por volta de 1915, ainda sob responsabilidade do Presbité-
rio de Minas Gerais. Araújo atesta que:

“A partir de 1926, a Missão Oeste do Brasil assumiu o trabalho protestan-


te nesta região (parte de São Paulo, Minas Gerais e Goiás) até o ano de
1957. O campo de Goiás, ainda sob a tutela de Araguari expandiria para
outras cidades como Anápolis, Goiandira, Pires do Rio, Cachoeira, Ipa-
meri, Catalão dentre outras. Entretanto, um dos núcleos mais importan-
tes do Estado seria estabelecido oficialmente em 1935, na recém fundada
cidade de Goiânia. A Congregação Presbiteriana de Goiânia foi organi-
zada por Antônio Nunes ainda como campo evangelístico de Araguari.”
(ARAÚJO, 2004, p. 73)

Nesse mesmo tempo, a Missão Sul do Brasil (South Brazil Mission), vinculada a
Presbyterian Church of the United States of America, implementou-se o trabalho mis-
sionário norte-americano na região Sudoeste de Goiás, motivado por sua localização
geográfica, próximo ao estado de Mato Grosso, onde já havia um trabalho missionário
e também pelo projeto de ocupação do interior do Brasil, e por ser tratar de uma re-
gião promissora. Tempos depois, em uma nova fase, designada Período de Organização
(1917 a 1946), a Missão Central do Brasil, também vinculada a Igreja Presbiteriana do
Norte, absorveu a Missão Sul e passou a atuar mais efetivamente em Goiás, especial-
mente, na região Sudoeste do estado.
Segundo Nascimento (2005, p. 122), o investimento da Missão em uma dada
região/cidade levava em conta alguns critérios, tais como: “densidade populacional pro-
testante, condições higiênicas, água potável, fertilidade do solo, facilidade de transporte,
acesso aos materiais de construção e condições políticas”. A região Sudoeste de Goiás
atendia a esses critérios, se apresentava como uma região promissora, fato que estimu-
lou o trabalho missionário.
Como resultado desse empreendimento da Missão Central foram criados um
hospital e uma escola de enfermagem em Rio Verde, a Igreja Presbiteriana e a Escola
Evangélica de Jataí, em 1942, que foi a primeira escola presbiteriana em Goiás, que de-
pois passou a se chamar Instituto Samuel Graham. (DIAS, 2016)
A criação da Escola Evangélica de Jataí resultou do crescimento do núcleo pro-
testante na cidade, e a consequente necessidade de instruir os novos fiéis na leitura da
Bíblia, de modo a garantir a permanência e expansão do protestantismo na região, sen-
do também, uma demanda das primeiras famílias evangélicas que tinham seus filhos
matriculados na escola católica “Nossa Senhora do Bom Conselho”, e passaram a cobrar
uma escola com os mesmos princípios religiosos que confessavam. (DIAS, 2016; PIRES,
1997) Ademais, a criação dessa escola acompanhou o trabalho missionário norte-ame-

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

ricano, que manifestava preocupação com a educação, utilizando-a também, como uma
estratégia missionária.
Segundo Dias (2016), entre os anos de 1940-1950, a população goiana sofria com
o alto índice de analfabetismo, ultrapassando 70% da população. Tal realidade se fazia
presente também no município de Jataí, que contava em 1940 com 85,9% da população
analfabeta. Assim, de porte da ideia de civilização por meio da confissão de fé protes-
tante e da educação, a criação de uma escola em Jataí teria como principal missão “levar
a “luz” para essa região.
A escola recém-criada funcionou inicialmente de forma precária, numa casa ve-
lha anexa à Igreja, oferecendo o curso primário. Após algum tempo de funcionamento
e a crescente demanda, foi solicitado à Missão a construção de um novo prédio escolar
e a ampliação na oferta de cursos, em particular, o curso secundário e à criação de um
Curso Normal Regional para a formação de professores para a zona rural. Esse empre-
endimento foi delegado ao casal, Samuel e Ruth Graham, que foram designados à Jataí
em 1948, dada a experiência na formação de outros colégios no país. Entre 1948 e 1951,
a escola saltou de 23 para 116 alunos. (DIAS, 2016)
Passando a dispor de uma grande área e um prédio escolar, com maior infraes-
trutura, a Escola Evangélica de Jataí, ampliou a partir da década de 1950 a oferta de cur-
sos e vagas, passando, em 1952, com a morte de Samuel Graham, a se chamar Instituto
Presbiteriano Samuel Graham, em sua homenagem. Nessa direção, em 1953 foi criado
e instalado o Curso Normal Regional, que funcionou até 1962. Em 1954 começou a
funcionar um pequeno internato feminino, que foi ampliado com a construção de um
prédio próprio em 1956, bem como a construção de um internato masculino, dado a
procura da Escola por alunos vindos de outras cidades e regiões. Em 1959 iniciou-se o
curso secundário. Com as novas instalações, a escola passou a funcionar em período in-
tegral, em regime de semi-internato, o que foi considerado uma inovação para a época.
Desde sua fundação até 1970, o instituto funcionou em regime particular, tendo como
entidade mantenedora a Missão Brasil Central. Em 1971, visando uma assistência mais
ampla à população, foi celebrado um convênio com a Secretaria de Educação do Estado
de Goiás, passando o instituto a funcionar em regime de “escola conveniada” para os
cursos de 1º Grau e de Técnico em Magistério. (PIRES, 1997)
Quase uma década após a criação do Instituto Samuel Graham, foi fundado, em
1951, na cidade de Goiânia, a nova capital do estado, o Instituto Presbiteriano de Educa-
ção (IPE). Vinculada a Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, a criação dessa escola
foi idealizada por três mulheres presbiterianas e professoras, Gilda Machado Pimenta,
Martha Rochael França e Sebastiana Rochael Machado.
O Instituto funcionou provisoriamente no salão da Igreja e iniciou suas ativida-
des ofertando apenas o ensino primário. Contava com 67 alunos e quatro professoras,
sendo administrado pelo Conselho da Igreja, Conselho de Educação e Direção da Esco-

168
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

la. Logo foi construído o primeiro pavimento do edifício próprio e, em 1953, o segundo
pavimento. Atrelado ao desenvolvimento do país e de Goiânia, o Instituto aumentou o
número de alunos e se expandiu, implantando em 1969, o curso Ginasial, que, já em
1972 passou a funcionar em um prédio próprio.
Ambas as escolas, o Instituto Presbiteriano Samuel Graham em Jataí e o Instituto
Presbiteriano de Educação em Goiânia, se apresentaram não apenas como uma alter-
nativa confessional em seus municípios e região, mas como colégios inovadores, por
seguirem o modelo pedagógico norte-americano e assentarem numa concepção pro-
gressista e liberal e, por isso mesmo, foram muito estimados. Essas escolas permanecem
em atividade até os dias atuais e são consideradas instituições de ensino de referência
em seus municípios e mesmo, no Estado.
Atualmente, segundo relatório da Federação Nacional de Escolas Presbiterianas
(FENEP, 2006), existe cerca de vinte escolas presbiterianas em funcionamento em Goi-
ás, o que é um número expressivo e aponta para a força e sucesso do empreendimento
presbiteriano no estado e, logo, para sua influência na educação goiana, fato que precisa
ser mais investigado com vistas a contribuir com a construção da história da educação
no Brasil e, particularmente, em Goiás.

Considerações finais
Os quesitos evangelização e catequese constituíram a gênese da educação escolar
no país, permeando grande parte de sua história. Desde a criação das primeiras escolas
até os anos 1940, predominou no Brasil, as escolas confessionais, principalmente, as
escolas católicas.
As escolas protestantes começaram a ser implantadas no país a partir da segunda
metade do século XIX, como fruto do trabalho norte-americano, alcançando estabili-
dade com a criação da Escola Americana, em 1870, de iniciativa presbiteriana. Conside-
rando a eclosão da Reforma em 1517 pode-se dizer que o empreendimento missionário
e educacional protestante no Brasil foi tardio e, talvez, também por isso, não tenha tido
a mesma expressão católica em termos quantitativos, o que se soma a outros fatores,
como os aspectos culturais e econômicos.
A criação das primeiras escolas presbiterianas em Goiás acompanhou o trabalho
missionário norte-americano, que manifestava preocupação com a educação, utilizan-
do-a também, como uma estratégia missionária e ainda, um espaço de formação par-
ticular para os filhos das famílias evangélicas. Ademais, a criação dessas escolas repre-
sentou também a preocupação protestante em “civilizar” o interior do Brasil e expandir
a cultura norte-americana no país. Tais questões são problemáticas e aponta para uma
ideia de supremacia da cultura norte-americana e protestante/presbiteriana, fato que
precisa ser questionado.

169
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

O Instituto Presbiteriano Samuel Graham em Jataí (1942) foi a primeira escola


criada pelos protestantes presbiterianos em Goiás, sendo investida de maior recurso e
infraestrutura e, por certo, o maior empreendimento educacional presbiteriano no esta-
do. A construção do Instituto Presbiteriano de Educação, primeira escola presbiteriana
em Goiânia pode ser considerada um pouco tardia, se considerarmos o tempo passado
desde a criação da Primeira Igreja Presbiteriana na cidade, que data de 1935, momento,
aliás, promissor, dado a recém fundação da cidade como capital do estado e em com-
paração com a escola em Jataí, que acompanhou a criação da Igreja, e antecedeu, em
alguns meses, a inauguração do templo, em 1942. Portanto, a construção da escola em
Jataí se deu em um rápido período de tempo e, primeiro que a escola da capital, o que é
também um fato interessante.
Considerando os dois institutos educacionais, é possível constatar que o Institu-
to Presbiteriano Samuel Graham em Jataí, foi uma iniciativa da Missão Sul e depois da
Missão Central que absorvera a Missão Sul, enquanto o Instituto de Goiânia foi uma
iniciativa de um grupo de mulheres da Igreja, sendo a Primeira Igreja Presbiteriana de
Goiânia, sua mantenedora. Pode ser que essa distinção na criação e manutenção dessas
escolas, explique o fato do Instituto Samuel Graham ter recebido maior investimento e
infraestrutura desde sua criação, oferecendo cursos diversos, vários níveis de ensino,
inclusive, atuando na formação de professores através do curso Normal e abrigando os
alunos em tempo integral por meio do regime de internato.
As escolas protestantes/presbiterianas estavam associadas ao modelo americano, a
ideia de ascensão social, de progresso, de modernidade, em oposição ao conservadorismo
católico, o que favoreceu a implantação dessas escolas e chamou atenção da comunidade
não evangélica, especialmente, das elites locais, que permitiram que seus filhos estudas-
sem nas escolas protestantes, visando uma boa formação educacional para os mesmos.
Não obstante tais práticas e ideais, a concepção protestante de educação estava
atrelada aos ideais religiosos. As escolas eram também, instrumentos de transmissão
dos fundamentos do protestantismo, sendo, portanto, importante pensar essa relação
com a ideia de progresso e de projeto civilizador apresentado pela mesma, e, também,
sua contribuição para a educação brasileira, em particular, para a educação goiana, por
meio do trabalho educacional realizado pelo Instituto Presbiteriano Samuel Graham e
pelo Instituto Presbiteriano de Educação.
Nessa direção é importante considerar que as instituições escolares são também
instituições sociais, estão vinculados às visões de mundo e, por conseguinte, estão a
serviço de uma dada ideologia, de uma dada finalidade, e, por isso mesmo, envolvem
relações de poder e interesse que se dão no campo social, político, cultural e econômico.

170
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

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172
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Santa Dica de Goiás:


Poder, perseguição e
mulheres
Dra. Lilian Marta Grisolio
INHCS/PPGMP/ UFG/RC

Introdução
Se há algo que os historiadores concordam é a questão da ausência das mulheres
nas narrativas históricas e as distorções clássicas em como são retratadas. Compreender
como se desenhou esse silenciamento e ausência na História, e revelar as implicações
– como a naturalização da inferioridade e da capacidade política de atuação, por exem-
plo – permite expor às contradições e intencionalidades desse processo. Na luta para
inclusão e visibilidade do mundo feminino, o feminismo, de maneira geral, tem sido
capaz de transformar uma agenda específica em uma causa social. Conquistar o voto
não ficou restrito num movimento político, não apenas na participação institucional,
mas nos espaços públicos também. Para além disso, se identificava os mecanismos de
exclusão, de conservação do papel da mulher e restrição na participação da sociedade
como forma de manutenção se sua subalternidade.
A luta feminista atua nas mais diversas frentes pela busca da equidade e direitos
secularmente negados e justificados. Conforme Michelle Perrot,

O lugar das mulheres no espaço público sempre foi problemático, pelo


menos no mundo ocidental, o qual, desde a Grécia antiga, pensa mais
energicamente a cidadania e constrói a política como o coração da de-
cisão e do poder. “Uma mulher em público está sempre deslocada”, diz
Pitágoras. Prende-se à percepção da mulher uma ideia de desordem. Sel-
vagem, instintiva, mais sensível do que racional, ela incomoda e amea-
ça. A mulher noturna, mais ou menos feiticeira, desencadeia as forças
irreprimíveis do desejo. Eva eterna, a mulher desafia a ordem de Deus, a
ordem do mundo.

O corpo das mulheres, esse poço sem fundo, apavora. E, deste ponto de
vista, as ciências naturais e biológicas, em pleno florescimento a partir do
século XVIII, nada resolvem. Ancoram um pouco mais a feminilidade
no sexo e as mulheres em seus corpos, escrutados pelos médicos. Estes as

173
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

descrevem como doentes perpétuas, histéricas, à beira da loucura, nervo-


sas, incapazes de fazer abstração, de criar e, acima de tudo, de governar.
(PERROT, 1998, 8-9)

É dessa forma, que as lutas, bem como as pesquisas nas mais variadas áreas, vêm
trazendo novos olhares para questões enraizadas ou submersas numa única forma de
se escrever e narrar a História. “A misoginia por vezes assumiu a forma da negação das
mulheres como sujeito.” (MIGUEL e BIROLLI, 2014, p. 88). E foi esse enfrentamento,
que ao longo das últimas décadas tem alterado o cenário e ampliado as temáticas, méto-
dos e pesquisas numa perspectiva histórica. Não apenas do ponto de vista das heroínas
e das grandes personagens consagradas, mas sim, resgatar as mulheres nas suas contra-
dições e múltiplas relações.

A história das mulheres é relacional, inclui tudo que envolve o ser hu-
mano, suas aspirações e realizações, seus parceiros e contemporâneos,
suas construções e derrotas. Nessa perspectiva, a história das mulheres é
fundamental para se compreender a história geral: a do Brasil, ou mesmo
aquela do Ocidente cristão. (DEL PRORI; PINSKY, 1997, 8)

É nessa perspectiva que nos interessou o resgate de uma dessas personagens que
apesar de ainda pouco estudada, atravessa décadas e provoca debates e reflexões. Vale
destacar que faltam pesquisadores que se debrucem em questões regionais que colabo-
rem na formação e resgate das histórias locais. Ainda estamos em curso nesse processo
de entender o Brasil profundo e sua importância na formação da nossa identidade. Lon-
ge de querer responder questões, buscamos aqui formular mais perguntas sobre o lugar
dessa regionalidade e suas especificidades.

A atuação feminina na vida literária, educacional e artística brasileira no


século XIX foi efetiva e constante. Graças às pesquisas históricas mais
recentes, nomes esquecidos e vozes abafadas ou excluídas voltam à cena,
conferindo legitimidade e visibilidade às atividades intelectuais e políti-
cas de mulheres que, de fato, participaram da vida pública no Brasil no
passado. Aos que sugerem que tais mulheres tinham “ideias avançadas”,
estavam “à frente do seu tempo” e “fugiam às convenções sociais”, pode-
mos dizer que elas pensavam e agiam como indivíduos pertencentes à sua
época e, assim, entre outras atividades também se envolviam com política
(mais intensamente do que se tem assinalado e não apenas a partir do fi-
nal do século, quando as lutas sufragistas ganharam destaque) (PRADO;
FRANCO, 2012, 194)

174
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Com a certeza da importância do lugar político e social da mulher, encontramos


uma personagem que engloba todos esses elementos das tensões e contradições, dos
aspectos políticos e religiosos, das relações míticas às relações históricas e culturais. Que
fugia das convenções sociais. Parte integrante de uma sociedade complexa num con-
texto recheado de contrassensos, Santa Dica1, é uma dessas mulheres que nos permite
refletir sobre o que diz Michelle Perrot, “As mulheres não são passivas nem submissas.
A miséria, a opressão, a dominação, por reais que sejam, não bastam para contar a sua
história. Elas estão presentes aqui e além. ” (PERROT, 1998, 212).
Não superamos ainda completamente as ausências e silenciamentos, não supera-
mos a dificuldades acadêmicas e restrições, muito menos as perseguições e a violência,
entretanto é certo que muito se avançou na construção de novas perspectivas e formas
de luta. Santa Dica é uma dessas personagens que nos revela uma série de possibilidades
de análise sobre as mulheres na História.

Memórias sobre Santa Dica


A sociedade moderna é a era das relações e dos avanços tecnológicos, segundo
Walter Benjamim, o ritmo da sociedade dificulta às assimilações das experiências. Hoje
o velho é inútil, contudo, já representou o acúmulo de experiências vividas. Para o au-
tor, o tempo da produção artesanal dava condições ao homem de narrar, já o tempo no
mundo do capital absorveu nossas capacidades reflexivas de guardar. Tudo é provisório,
efêmero, descartável. Assim, ocorreu o depauperamento da memória, da arte de narrar
e do erfahrüng (experiência). (BENJAMIN, 2012)
A memória é o ensejo de uma nova história e sua dinâmica é ilimitada. Para Le
Goff, a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, tanto
individual como coletiva. Assim, a transmissão da memória e tradições é imprescindível
à sociedade humana. A memória é a presença do passado de forma seletiva e está em
consonância com o contexto familiar, social, político, e, portanto, atravessado por um
conjunto de elementos que a moldam e a transformam. (LE GOFF, 2003)

Na maior parte das vezes, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de


hoje, a experiências do passado (...) por mais nítida que parece a lembran-
ça de um fato antigo, ela não é a mesma imagem (...) porque nós não somos
os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas
ideias, nossos juízos, de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o
passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro,
e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista. (BOSI, 1998, 53-54)

1  Santa não é um título concedido numa canonização da Igreja Católica e sim um reconhecimento popular de
sua fé e poder de curar, benzer e profetizar.

175
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Essa reconstrução que recupera e revigora, moldando e ressignificando o pas-


sado está muito presente nas narrativas sobre a Santa Dica e seu movimento político
e religioso. A ação dessas narrativas mantém vivas um conjunto de práticas, tradições,
crenças e hábitos que se registram como experiências humanas. Aqui, não nos importou
a ideia de verdade sobre seus milagres, se foram os seus guias espirituais que protegeram
a comunidade de Lagoas, no dia do tiroteio promovido pela Política Militar do Estado
de Goiás ou, se de fato, ela teria ressuscitado três vezes.
A História se preocupa como as narrativas se renovam e se atualizam, e como
em cada novo contexto, conserva, e ao mesmo tempo, confere novos sentidos. Importa
aqui, compreender como a violência contra Santa Dica e sua relação com o poder local,
se insere num quadro mais amplo de enfrentamento, controle e perseguição das mulhe-
res na História.
Ao assistir o início do documentário “Santa Dica de guerra e de fé” do diretor
Márcio Venício Nunes, realizado em 2005, é possível perceber a complexidade de falar
da figura de Santa Dica. São inúmeras as referências religiosas que denotam o sincretis-
mo presente na história narrada: umbanda, espiritismo e catolicismo se misturam numa
mesma crença. No Terreiro de Umbanda - Martim de São Sebastião em Aparecida de
Goiânia, Willian da Guia - denominado padrinho de santo - relata que conseguiu autori-
zação e proteção dos guias espirituais de Santa Dica para a realização do documentário.
Todos os estudos, artigos, dissertações, documentários e reportagens sobre ela, oscilam
em narrar os aspectos religiosos e místicos que a circundam e as questões políticas que
inevitavelmente enfrentou diante do contexto em que atuou.
Benedita Cypriano Gomes, mais conhecida como Santa Dica, foi a filha mais
velha de oito irmãos, filhos de Benedito Cypriano Gomes, pequeno proprietário rural
de um engenho de cana-de-açúcar em Lagoa (atualmente Lagolândia-GO). Além de
uma produção modesta, também era conhecido por seu trabalho como trançador de
rédeas para cavalos e animais de transporte (por vezes, nas diferentes narrativas seus
pais eram apresentados como camponeses locais). A menina teve sua história entrelaça-
da com questões religiosas que rederam muitas versões. Uma das mais repetidas, e de
forma muito dessemelhante, é que ela teria ressuscitado várias vezes e que entrava em
catarse, enquanto entrava em contato com os seus guias espirituais.
Nascida em 13 de abril de 19092, na fazenda Mozondó, às margens do Rio dos
Peixes, distrito de Pirenópolis, mais conhecido como rio Jordão3. Alguns relatam que ela
teria rebatizado o rio, outros afirmam que foram os fiéis que encaravam a nova comuni-
dade como Canaã. A pesquisadora Eleonora Zicari Costa de Brito, autora da tese A cons-

2  Por vezes, em diferentes fontes de pesquisa, aparecem outras datas para seu nascimento.
3  Uma referência ao rio que separa Israel da Jordânia e tem grande importância histórica e religiosa, sendo
citado inúmeras vezes na Bíblia.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

trução de uma marginalidade através do discurso e da imagem: Santa Dica e a corte dos
anjos recuperou um documento onde a própria Dica declara não ter rebatizado o rio.
As narrativas indicam que muito cedo, desde os 13 anos, ela se destacava com
um comportamento diferente, chamava atenção por ser bonita e logo ficou conhecida
pelos seus poderes espirituais. Aglomerou um pequeno grupo de pessoas e logo a região
se consolidou com uma comunidade rural. Tornou-se líder e acabou por mexer com as
esferas de poder, tanto a Igreja como o Estado. Sua República dos Anjos, como ficou co-
nhecida a comunidade, seria um lugar para justiça e libertação. (GOMES FILHO, 2009)
Nesse sentido, vale ressaltar a estranheza que causa a ausência dessa personagem
na história oficial. Dica foi uma mulher com enorme carisma e características específi-
cas além de ser considerada a última líder messiânica da História do Brasil, em pleno no
século XX. Mesmo assim, pouco, e em áreas muito específicas, é que se ouve falar dos
feitos da Santa Dica. Se ela, por todas essas razões já não representasse uma importante
fonte de estudos, o seu enfrentamento com a Igreja Católica e os mandatários locais, sua
prisão e expulsão de Goiás, ou ainda a participação na Coluna Caiado contra a Coluna
Prestes, já valeria.
Desde os fins do século XVII, com a descoberta do ouro se iniciou a interiori-
zação do Brasil, com as bandeiras e expedições em busca de ouro e terras. No século
XVIII, surge a Capitania de Goiás com alguns núcleos urbanos e vilas, sendo o primeiro
governante da nova capitania Dom Marcos de Noronha, o chamado Conde dos Arcos.
Sob esse cenário de mineração, ambientes rústicos e relações de poder inten-
sas se desenvolveu a concentração das propriedades rurais e lideranças políticas locais.
Com a desorganização do serviço público, entre outros fatores, surge um fenômeno
muito complexo, contraditório e específico chamado coronelismo. De maneira geral, é
definido como:

(...) o “coronelismo” é, sobretudo um compromisso, uma troca de pro-


veitos entre o poder público, progressivamente fortalecido, e a decadente
influência social dos chefes locais, notadamente dos senhores de terras.
Não é possível, pois, compreender o fenômeno sem referência à nossa
estrutura agrária, que fornece a base de sustentação das manifestações de
poder privado ainda tão visíveis no interior do Brasil. (...) o chefe muni-
cipal, o elemento primário desse tipo de liderança é o “coronel”, que co-
manda discricionariamente um lote considerável de votos de cabresto. A
força eleitoral empresta-lhe prestígio político, natural coroamento de sua
privilegiada situação econômica e social de donos das terras. Dentro da
esfera própria de influência, o “coronel” como que resume em sua pessoa,
sem substituí-las, importantes instituições sociais. Exerce, por exemplo,
uma ampla jurisdição sobre seus dependentes, compondo rixas e desa-

177
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

venças e proferindo, às vezes, verdadeiros arbitramentos, que os interes-


sados respeitam. (...) Esta ascendência resulta muito naturalmente da sua
qualidade de proprietário rural. A massa humana que tira a subsistência
das suas terras vive no mais lamentável estado de pobreza, ignorância e
abandono. Diante dela, o “coronel” é rico. (LEAL, 1997, 40)

Não pretendemos aqui discutir o conceito e suas múltiplas interpretações e es-


pecificidades. Muitos estudos se preocupam com a temática.4 Aqui buscamos apenas
situar um período com especificidades regionais que se entrelaçam com a história de
Santa Dica e sua atuação no interior do Brasil.
A leitura das diversas narrativas sobre Dica, num primeiro momento, parece
uma peça de ficção literária, fruto da imaginação fértil e criativa, produto de uma li-
cença poética com grande elasticidade. Fala-se de uma mística religiosa do interior de
Goiás, que criou uma comunidade rural, resistiu a um tiroteio de mais de duas horas de
duração, fez milagres, ressuscitou três vezes, foi presa por meses, curava, benzia e pro-
fetizava. Mulher morena e bonita enfrentou a Coluna Prestes, foi mulher do prefeito da
cidade de Pirenópolis, lutou na Revolução de 30 e comandou com apenas 23 anos uma
tropa de 100 homens na Revolução Constitucionalista de 32 em São Paulo.5 E tudo isso
nas décadas de 20 e 30, no interior do país num contexto político de miséria e violência.
Momento em que as mulheres não tinham espaço para participação, a não ser reforçar
sua subalternidade com os papéis já designados a ela como mãe e esposa. Quais as reais
condições de aparecer num cenário tão adverso, uma mulher capaz de tantas proezas?
Entendemos que nesse contexto social, ela cumpriu papéis nem sempre bem
compreendidos e por vezes, demasiadamente distorcidos. Ela foi para a massa de ex-
plorados e excluídos uma voz de esperança. Foi curandeira, médica, conselheira, líder,
professora, guia espiritual. Diante da desigualdade e miséria ela catalisou sob vários
aspectos a insatisfação social. E nesse imaginário popular, portanto, ela ganhou papel
de destaque.
Por seu poder e liderança logo foi identificada como uma ameaça aos poderes
locais. A Igreja Católica apesar de se tornar no processo de colonização uma instituição
poderosa no Brasil, padecia com as dimensões coloniais do território. Apesar da organi-
zação e missões, ainda no século XIX a Igreja não conseguia alcançar todas as regiões e
arregimentar todos os fiéis desejados. É nessa brecha de territórios e províncias que esta-
vam à margem do poder oficial da instituição, que se desenvolveu uma religiosidade pró-

4  Ver CARONE, 1971 e JANOTTI, 1981.


5  Destacamos que no documentário citado,Bernarda Cipriano, irmã de Santa Dica, em depoimento diz que
foi curada por Dica reforçando o lado místico da Santa, já sua filha Quitéria Mendes interpreta que sua mãe
lutava pela igualdade, pela distribuição de terras, não gostava da concentração de poder nas mãos de poucos.
Estes dois aspectos da atuação de Dica, o político e o religioso, é que se destacam em quase todas as narrativas
encontradas.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

pria no país, uma mistura das três matrizes principais: índios, brancos e negros, que for-
maram o povo brasileiro. Apesar do ataque sistemático às suas culturas e tradições, não
foi possível evitar as trocas e entrelaçamentos que geraram novas relações e influências.
No caso religioso, longe das regras austeras da Igreja, nas regiões mais distantes,
como Goiás, nasce um tipo de religiosidade popular desse imbricamento cultural.

O catolicismo popular permaneceu vivo em amplas camadas da popu-


lação, nos subterrâneos religiosos populares que não entendiam o latim,
mas que continuaram entoando-o nas trezenas em louvor a Santo An-
tônio ou no mês de Maria, repetindo as ladainhas, numa circularidade
entre a cultura erudita e a cultura popular. Continuou presente, no de-
vocionário de todos aqueles que encontram no divino um lenitivo para
o seu sofrimento e uma esperança para seus desejos. O sentido da vida,
do trabalho, do amor, da família, da morte, que para muitos brasileiros
está ligado a um campo simbólico religioso, faz com que populares, cujas
clivagens culturais não são coincidentes com sua estratificação social, se-
jam refratários a distinguir o sagrado do profano, relutando em separar
o que para eles sempre fora uma homenagem completa e ambivalente.
(GAETA, 1997, 11)

Apesar de uma tentativa de regramento através das congregações e bispos que


instituíram uma verdadeira cruzada romanizadora, as culturas locais e necessidades
imediatas geraram manifestações sincréticas muito além do que as normatizações cató-
licas conseguiam evitar. As dioceses,

Instaladas nos velhos centros de religiosidade popular voltaram-se, a par-


tir desses lugares, para as manifestações exteriores do culto. Festas, ruas,
procissões, folias e foliões foram incessantemente devassados, vigiados e
normatizados. A cultura clerical esforçou-se na marginalização de todo
um corpo de comportamentos e práticas culturais socialmente admitidos
e que, a partir de então, começaram a ser criticados e condenados. (GA-
ETA, 1997, 9)

Evidentemente que isso gerou inúmeros confrontos e enfrentamentos, pois pa-


ra a instituição os leigos eram sempre apresentados como aproveitadores, charlatões e
marginais. É o caso de Santa Dica, com o agravante de ser mulher. Em Goiás, especifi-
camente, chegou um grupo denominado Ordem do Santíssimo Senhor Redentor6, mais

6  Segundo o site da ordem: “A Congregação do Santíssimo Redentor foi fundada em 9 de novembro de 1732,
em Scala, na Itália, por Santo Afonso Maria de Ligório e outros cinco companheiros. O carisma deste grupo é a
pregação das missões populares para as comunidades mais pobres e abandonadas do Reino de Nápoles”.Dispo-
nível em: http://redentorista.com.br/institucional/historia/

179
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

conhecido como Ordem Redentorista. No Brasil, uma grande romaria em Goiás, do


Divino Pai Eterno7, ainda é umas das grandes atuações de missão redentorista no senti-
do de controle da religiosidade popular analisado acima. Com esse propósito instalaram
dois sacerdotes em Trindade no ano de 1924.8
Santa Dica foi perseguida pela Igreja acusada de paranoia, histeria, delírios reli-
giosos extravagantes, charlatã, bruxaria, impostora e aproveitadora. Acabou por liderar
um movimento religioso que até hoje circunda o imaginário da região9. Em momentos
de catarse, ela entrava em contato com os anjos seus guias espirituais, estruturados em
batalhões e constituíam um “conselho espiritual”, que a ajudavam a administrar sua co-
munidade. Ela atendia a população que devia dirigir seus pedidos aos anjos. Santa Dica
misturava rituais e normativas próprios do catolicismo como promessa, crença em san-
tos, milagres, procissão, batizado, crisma, casamentos, com rituais de cura e benzeções.
Em 1924, dois números do jornal do Santuário de Trindade da Igreja Católica
chamam atenção pela violência com a qual denunciam e atacam Santa Dica.
O primeiro ataca:

É assim conhecida a moça histérica, impostora, visionária que vive lá pe-


las bandas do Rio do Peixe. O povo ignorante e supersticioso se deixa
prender por suas baboseiras e asneiras e em grande número para lá se
dirigem para ser batizado, chrismado e casado sobre os uspieios de tal
embusteira. [...] Tal mulher não passa de uma ignorante e hystérica que
está enriquecendo à custa do povo ignorante e propenso a cousas sensa-
cionaes. (Santuário de Trindade, Campinas, 1924 – nº 66)

O outro, pouco tempo depois, continua o ataque,

Ainda a “santa” do Rio do Peixe – Conforme notícias que recebemos con-


tinua a romaria ao Rio do Peixe em procura da tal moça dos anjos que
não passa de uma hysterica (a tal santa, santa é o modo de dizer que ella é,
do Rio do peixe, que deu para prohibir o trabalho no sábado. (Santuário
de Trindade, Campinas, 1924 – nº 70)

Essa última nota revela outro poder, o econômico, que evidentemente se inco-
moda com a atuação da Dica intervindo em questões do trabalho camponês e produção

7  Segundo o site do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno: “A Romaria do Divino Pai Eterno é um momento
de fé e gratidão, em que milhares de devotos vêm de todo o Brasil para deixar a sua homenagem a Deus Pai. Eles
pagam promessas, fazem penitência, rezam e retornam para suas casas renovados pelo amor e a misericórdia
Dele”. Disponível em: http://paieterno.com.br
8  Nessa ocasião já existia um importante jornal católico, o Santuário da Trindade, porém o convento só foi
construído em 1948.
9  Em Lagolândia se renova a fé em Santa Dica com novas guias que afirmam ter recebido de Dica o poder de
falar com os guias espirituais para ajudar seu povo.

180
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

nas terras. Os poderosos da região reclamavam sobre o surgimento da nova comuni-


dade, pois alguns aspectos do movimento entorno de Santa Dica atingia a organização
política e econômica da região. A orientação para não trabalhar no sábado é uma delas,
todavia o que mais incomodava era o discurso sobre a propriedade da terra.
Outros grandes problemas eram o discurso sobre o trabalho direto na terra co-
mo direito, o não pagamento de impostos e a divisão de tudo que fosse produzido, o que
remetia a uma ideia de justiça social no paraíso terrestre. A adesão de muitos trabalha-
dores das fazendas locais - que começavam se identificar como diqueiros - acentuava o
medo do poder local. Indiretamente suas ações e orientações acabavam por contestar o
sistema político e social vigente, tanto no que se refere à propriedade da terra, como na
forma de exploração do trabalho. O lema “a propriedade da terra é de Deus”, foi inter-
pretada de acordo com os perigos próprios da época: o discurso comunista.

Igreja e Contestação
Como já observado anteriormente, a Igreja foi reformulando suas práticas e esta-
belecendo ações de acordo com as necessidades de ampliação e manutenção de seu poder.

A Igreja Católica passou por várias fases diferentes desde o começo do


século, na tentativa de se ajustar às novas realidades, à modernização e à
industrialização. A primeira iniciativa nesse sentido foi à criação da Ação
Católica e seus grupos especializados, vinculando os leigos através de um
compromisso com a Igreja. Também podemos observar a demonstração
de força e poder sobre a sociedade através das grandes concentrações de
multidões católicas, prática até hoje difundida. Em maio de 1931 obser-
va-se a primeira demonstração de força através de uma grande mani-
festação popular que proclamou a Nossa Senhora Aparecida a padroeira
oficial do Brasil. No mesmo ano, outra demonstração é a inauguração do
Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro. Estas demonstrações popu-
lares resultaram num estreitamento da relação entre o Estado e a Igreja,
sendo o maior exemplo disso, a permissão do retorno do ensino religioso
nas escolas públicas, apoiado amplamente pelo Ministro da Educação de
Vargas, Francisco Campos. (GRISOLIO, 2002, 54)

Um elemento que no início do século XX é identificado como a maior preocupa-


ção da instituição, visível nas suas ações, é o anticomunismo, que desde o século XIX se
transformara num inimigo a ser combatido.
O Brasil diferente da sociedade europeia, no auge do surgimento das ideias so-
cialistas, ainda vivia sobre o regime escravista, baseada numa economia essencialmente

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

agrária e dependente da importação de quase todos os produtos. A indústria se restringia


a pequenas manufaturas e o sistema de meio de transporte era extremamente precário.
Dessa forma, as realidades europeias e brasileira apresentavam enormes diferen-
ças. Á época da publicação do Manifesto do Partido Comunista em 1848, escrito para
conscientizar e unir os operários das fábricas, o Brasil ainda vivia sob o trabalho servil e
o incipiente governo de D. Pedro II. Portanto, a recepção das ideias socialistas no Brasil
só se deu de fato no século XX10.

Em março de 1922, havia 73 militantes convertidos ao leninismo em to-


do o Brasil dispostos a fundar o novo partido. A maioria provinha do
anarquismo. Publicaram uma revista intitulada Movimento Comunista e
elegeram nove delegados, que se reuniram no Rio de Janeiro, nos dias 25 e
26, e em Niterói no dia 27 de março daquele ano. (KONDER, 2003, 46-47)

As décadas de 20 e 30 no Brasil foram marcadas por grandes agitações políticas,


bem como pela estruturação de novas formas de organizações sociais e econômicas,
além do crescimento significativo dos trabalhadores. Em 1922 surge o Centro Dom
Vital, fruto do trabalho dos intelectuais ligados à Igreja Católica e que há muito vinham
assumindo um importante papel de difundir os valores católicos às famílias de classe
média urbanas brasileiras.
Analisando a gênese do Centro Dom Vital, a autora Heloisa Helena T. Martins
interpreta a sua fundação como estratégia para “recuperar o prestigio e a força da Igreja
Católica na sociedade brasileira após a proclamação da república”. (MARTINS, 1994, 62)
No entanto, a fundação deste centro é produto direto de uma pluralidade de
fatores. A ideia de que a Igreja planejou uma maior inserção na sociedade apenas para
recuperar a hegemonia, desconsidera a produção laica de intelectuais ligados à Igreja
que preconizavam a necessidade de uma instituição para fazer frente aos acontecimen-
tos de 1917. Por algumas vezes Santa Dica foi comparada, não como elogio, mas sim
como sinal de afinidade perigosa, com o líder da revolução socialista de 1917 na Rússia,
Vladimir Lenin, como veremos mais à frente.
O ano de 1922 é um momento de singular agitação política e cultural no Brasil. A
fundação do jornal Santuário da Trindade em 1º de julho de 1922 ocorre concomitante-
mente a fundação do Partido Comunista, a Semana de Arte Moderna em São Paulo e a
revolta tenentista em Copacabana. Vale destacar, a nota sobre a fundação do PC publi-
cada pelo jornal Santuário de Trindade em abril de 1922, “No Rio de Janeiro constitui-se
um partido communista, semelhante em seus planos ao que arruinou a Rússia e que
ainda faz a infelicidade daquelle grande paiz.” (Santuário de Trindade, 08/04/1922)

10  Apesar de inúmeros escritos, grupos e intelectuais que simpatizavam com as ideias comunistas e as agita-
ções na Europa no século XIX, às questões no Brasil ainda possuíam outro teor devido ao contexto.

182
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

As ideias comunistas passam a ser combatidas como uma ameaça real, e Santa
Dica, e seus seguidores, caracterizavam na forma e discurso, um tipo de movimento
identificado com discursos contra a exploração e a dominação que ameaçava o poder
instituído. Esse modelo de comunidade ficou conhecido como messiânico. Não é pro-
posta desse artigo aprofundar tal conceito, porém vale salientar que apesar das carac-
terísticas, tais como: origem do movimento; liderança; atividade dos seguidores e orga-
nização de uma nova comunidade, o movimento de Santa Dica carece de análises que
aprofundem nas suas especificidades. Para Lises Negrão, em seu artigo “Revisitando o
messianismo no Brasil e profetizando seu futuro”,

Constituem-se como movimentos messiânicos, milenaristas, ou messiâ-


nico-milenaristas desde simples contestações pacíficas quanto a aspectos
selecionados da vida social, até rebeldias armadas, ambos os tipos infor-
mados pelo universo ideológico religioso, capazes de, ao mesmo tempo,
diagnosticar as causas das atribulações e sofrimentos e indicar caminhos
para sua superação, desde os mais racionais até os mais utópicos. O ima-
ginário religioso pregresso, sua exacerbação ou superação por uma nova
revelação profética, está sempre presente, interpretando a realidade, pos-
tulando objetivos e indicando os meios pelos quais estes serão alcança-
dos. (NEGRÃO, 2001, 119)

De tal modo, o movimento de Santa Dica foi identificado tanto pela Igreja como
pelo poder local como um grupo fanático, liderado por uma bruxa e charlatã com gran-
de poder de persuasão dos ingênuos, e, portanto, deveria ser enfrentada.

Orientando-se, sobretudo por valores e sentimentos tradicionais, em des-


compasso com os ideais de modernidade do momento, tais movimentos
tendem a ser vistos pelas vigências política e intelectual como irracio-
nalidades e arcaísmos, frutos da ignorância e do fanatismo. Sendo seus
adeptos historicamente recrutados entre indígenas destribalizados, po-
pulações camponesas, povos colonizados e setores populacionais margi-
nalizados ou excluídos da moderna civilização ocidental (os “primitivos
da modernidade”, segundo Hobsbawm), tendem a ser interpretados, na
ótica oficial, como arcaísmos deletérios e antiprogressistas, quando não
como episódios de loucura coletiva, a que se chega a partir de efeitos de-
sencadeadores da loucura do líder. (NEGRÃO, 2001, 119-120)

O jornal O Democrata, em 10 de outubro de 1924, publicou uma matéria em que


abria com um ataque ao movimento de Dica exaltando essas características, a manipu-
lação por parte de um aproveitador e charlatão de um povo ingênuo e atrasado. Neste
caso, uma mulher.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

De vez um quando, em nosso estado, como em toda a parte, surge um


santo ou uma santa com o seu grande cortejo de milagres e coisas sobre-
naturais enchendo de pasmo a admiração os nossos ingênuos e rústicos
patrícios sertanejos, creados dentro de uma fé e crença vivas (...) Magos,
bruxas, advinhos, cartomantes, hystericos formam essa poderosa legião
que domina discricionariamente o povo inculto.

É o cumulo da ignorância. (O Democrata, 10/10/1924)

A crítica severa remonta outros importantes movimentos no Brasil caso de Con-


testado, Canudos, Monges Barbudos, Caldeirão de Santa Cruz do Deserto e Borboletas
Azuis. Nesse caso, um aspecto fundamental que se destaca é o fato de se tratar de uma
liderança feminina. Que para além das formas tradicionais de se demonizar os líderes
dos movimentos antecessores, agregava-se aos insultos a Dica novas formas de ataque,
adjetivos exclusivos para mulheres: louca, feiticeira, prostituta, amante, macumbeira,
marafona, entre outros. Em Mulheres e Monstros de 1933, uma obra literária escrita por
Ariosto de Colona Marosini Palombo11, mais conhecido por seu pseudônimo “João de
Minas”. Nessa obra, o autor faz referência fictícia a uma segunda edição do movimento
de Dica entre 1926 e 1927 e a retrata da seguinte maneira:

O caso é que enxotada do estado, a saborosa morena, com os olhos quen-


tes e negros, foi ao Rio e lá conheceu um tal Mário Mendes, jornalista,
que veio consigo a Goiás, pro negócio de vender o céu a prestação aos
trouxas. Mário Mendes, com a amante, dava sessões espíritas ou de ma-
cumba nas fazendas, onde aparecia enfiado numa farda vermelha de ge-
neral, pra melhor assombrar e convencer os pobres sertanejos (MINAS,
1933, p. 61, grifo nosso)

Tal como os demais movimentos, a líder e seus seguidores também foram tra-
tados como fanáticos e ignorantes, mas o fato de ser mulher que lidera o grupo, suscita
uma velha forma de ataque as mulheres, a bruxa, má e perigosa, e neste caso, a sensuali-
dade e sedução. O autor poderia ater-se à crítica ao que ele entende como charlatanismo
e macumba, porém se refere a Dica como “saborosa morena de olhos quentes e amante”,
sexualizando a moça. Certamente, não faria tal menção se fosse um líder masculino.
De maneira geral, as formas de se atacar as mulheres reforçam estereótipos de
gênero que valida sua posição inferior na sociedade e quase sempre atingindo uma cer-

11  Nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, em 1896, se tornou um jornalista conhecido na década de 1920 e
1930, escreveu romances e trabalhou para jornais como O Minas Gerais, O Paiz e O Estado. Em 1935 criou uma
nova seita religiosa intitulada de Igreja Brasileira Cristã Científica, com base catolicismo popular, espiritismo,
umbandismo e no esoterismo. Escreveu várias bíblias, com um novo pseudônimo de Mahatma Patiala. Faleceu
em 1984. Ver: ALMEIDA, 2008.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

ta ideia de moral e bons costumes. Essas formas de ataque quase sempre passam por
xingamentos que revelam a opressão em relação ao seu corpo e sexualidade. Não raro
os textos ao tratar da Santa, falam em rara beleza ou beleza sertaneja. Como se isso, de
alguma maneira, se relacionasse com a atração de seus seguidores, seu casamento ou
revelasse a origem da sua persuasão.

Política, poder e ameaça popular


O discurso de Santa Dica sobre propriedade e miséria fez com que ela fosse com-
parada com Lenin12, seus seguidores identificados com exploradores e os proprietários
vítimas do movimento de invasão,

Ella mora em um rancho de capim, à margem do rio do Peixe, ultima-


mente cognominado Jordão. Alli pela inspiração dos seos exploradores
está se fundando uma cidade chamada Calamita dos Anjos em terras
alheias. Dica se tornou uma espécie de Lenine de sexo diferente. Prega
a partilha equitativa das terras pelo povo. O rústico fazendeiro que teve
sua fazenda invadida por Dica, pelos exploradores e pela aluvião dos fiéis,
abandonou a sua propriedade em poder daquella gente (...) (O Democra-
ta, 10/10/1924)

A partir da década de 1970, inúmeros autores passaram a estudar os movimentos


messiânicos sob uma perspectiva política e atravessados pela corrente marxista muito ca-
racterísticas da época13. Com esse viés produziu-se vários trabalhos – normalmente sobre
os mais conhecidos movimentos messiânicos que atribuíam propostas políticas e ideolo-
gias que passavam longe da realidade daqueles movimentos e dos discursos de seus líderes.
Por vezes, adaptavam os camponeses e comunidades com movimentos revolu-
cionários, de caráter comunista, precursores de uma nova ideologia no Brasil. Identifi-
camos aí dois pontos de destaque. O primeiro é que apesar de pouco aprofundamento
teórico e de pesquisa histórica esses trabalhos foram pontos de partida para novos estu-
dos que vieram a contrapor a hegemonia da visão que criminalizava os movimentos em
questão. O segundo ponto, é que, exatamente por esse contraponto que essas comunida-
des passaram a ser estudadas com uma imagem menos preconceituosa, e passam a ser
examinadas a partir da realidade de cada região e suas singularidades.
Para uma República recém-criada como o Brasil, que herdou a tradição dos po-
deres locais, o clientelismo, o patriarcalismo, a Igreja definidora dos valores morais,

12  Vale destacar a ojeriza da Igreja em relação à Lênin. O jornal Santuário de Trindade anunciava festivamente
a morte de Vladimir Lênin: “morre finalmente na Rússia o dictador sanguinário que arruinou aquelle paíz” (Jor-
nal SANTUÁRIO DE TRINDADE, 26/01/1924).
13  Ver MONIZ, 1978.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

estes movimentos, que de alguma maneira, mesmo de forma contraditória e disforme,


ameaçavam a ordem instituída, deveriam ser combatidos. Ou cooptados. O Estado osci-
lou entre as duas opções nos enfretamentos com Santa Dica. O que faz esse movimento
singular é a participação na vida política e militar em acontecimentos de grande rele-
vância no cenário nacional.
Não faremos desse artigo um memorial sobre essas passagens e seus encadea-
mentos, mas vale apontar um momento específico dessa história que nos ajuda a com-
preender o imbricamento que nos parece indissolúvel entre os fatos e os relatos, a nar-
rativa histórica e as crenças populares.
No decorrer da montagem da comunidade Dos Anjos já assinalada aqui, o Brasil
vivia uma grande agitação política. Em 1924 se organizou a Coluna Prestes, um mo-
vimento político-militar herdeiro do movimento tenentista, liderado por Luis Carlos
Prestes, que se opunham ao governo de Artur Bernardes (1922-1926) e às velhas oligar-
quias no poder. Com estratégias militares e de guerrilha passavam por diversas cidades,
totalizando mais de 24 mil quilômetros por todo o território.
Em Goiás, os coronéis se articularam e montaram suas próprias “colunas” para
o enfrentamento contra os forasteiros vistos como perigosos e subversivos. A segunda
coluna ficou conhecida como Coluna Caiado, com mais de mil homens organizada pe-
lo Senador Antônio Ramos Caiado. Apesar de todas as contradições evidentes, Santa
Dica recebeu convite e doação em dinheiro para se juntar ao grupo dos governistas e
interceptar a Coluna Prestes. O enfretamento nunca ocorreu, apesar de relatos de que
Santa Dica teria encontrado a sós com Siqueira Campos, fato não comprovado, mas
que alimenta o imaginário popular sobre a líder dos diqueiros. (GOMES FILHO, 2012)
A demonstração de organização e liderança foi o suficiente para que ela fosse
atacada novamente pela Igreja e pelos poderosos locais que não viam com bons olhos
sua fama e poder aumentar, inclusive fora das fronteiras goianas.14 Seu grupo foi cha-
mado de bando de desocupados, tiveram seus cavalos tomados e foram dispersados.
Em outubro de 1925, portanto, um mês após ser arregimentado pelas tropas oficiais, o
Reduto dos Anjos foi atacado.

E a Santa Dica? Sumiu-se ou antes aquietou-se. Ora, pois agora Ella po-
deria fazer uma boa obra: fazer cahir sobre os revoltosos que estão amea-
çando o nosso Estado aquele celebre chuva de machadinhos que promet-
tera para os que nela não acreditavam; com isso prestaria um bom serviço
aos goyanos. ”(Jornal SANTUÁRIO DE TRINDADE, 04/07/1925)

No Dia do fogo, como ficou chamado o dia 14 de outubro de 1925, a comunidade


foi surpreendida por um ataque da polícia descrita de inúmeras maneiras. Os relatos

14  Santa Dica foi retratada em nanquim por Tarsila do Amaral e foi tema de um longo poema do modernista
Jorge de Lima em 1925.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

indicam desde alguns minutos de tiroteio até duas horas de fogo intenso. Também a ver-
sões diferentes sobre o número de mortes. O relato oficial é de que a tropa era formada
por 114 homens. As narrativas falam que apesar de tantos homens e o intenso tiroteio,
os poderes da Santa salvaram as pessoas, “os anjos seguravam as balas”, “as balas que
chegavam à Santa Dica eram presas por seus cabelos” ou ainda, “caiam a seus pés em
forma de grãos de milho”. (BRITO, 1992). Sobre o dia do ataque o jornal da Igreja, além
de apoiar, inventa fatos e afirma que se as autoridades tivessem ouvido seus clamores
isso poderia ter sido evitado,

E a Dica dos Anjos? Quem tinha razão? O que previnimos succedeu tim
tim por tim tim. A polícia teve que intervir e prender a tal milagreira. Isso
porem não se deu sem derramamento de sangue. Eis o que diz o “Demo-
crata”: ‘Muitos crimes foram commetidos pelos que exploravam a igno-
rância do povo. A santa depois de conversar com os Anjos declarava que
alguns individuos morreriam em certo dia. E essas pessoas appareciam
mortas em certo tempo determinado assassinadas pelos seus comparsas.
Os soldados de polícia (enviados contra Ella e caterva) foram recebidos
à bala pelos fanáticos. Assim foram presos 83 devotos, morrendo diver-
sos afogados no rio do Peixe ou Jordão para onde correram a conselho
da santa Dica’. Se tivessem sido atendidas as nossas reclamações ter-se-
-ia evitado essa mancha na história de Goyaz.” (Jornal SANTUÁRIO DE
TRINDADE, apud BRITO, 1992)

Alguns dias depois Santa Dica foi presa na cidade de Raizama (atualmente Alto
Paraíso) e iniciou-se um longo processo15 onde ela era acusada de atentado contra a saú-
de pública com suas práticas de curandeirismo e ilusão da fé pública16. Dica foi conde-
nada a um ano de cadeia, mas solta pelo Superior Tribunal de Justiça de Goiás. Proibida
pelas autoridades a voltar ao Reduto dos Anjos, foi para o Rio de Janeiro, casou-se com
Mario Mendes17 e retorno a Goiás apenas em 1927.18
Destacam-se aqui duas importantes questões. Primeiro, é que no processo cons-
ta um relato de Dica sobre o estupro que ela sofreu por Manual José Torres, identificado
no processo. Porém, mesmo constando em depoimento, sua fala não teve nenhuma
ressonância na ação.

Que depois da noite que presumi ter sido deshonestada por Manuel Jo-
sé Tores, vulgo Coxeado, facto esse que ocorreu a uns dez dias, mais ou

15  PROCESSO n. 651, maço n. 9, Cartório de Crime de Pirenópolis (GO). 1925.


16  Ficou presa nesse período no presídio da capital, município de Goiás.
17  Que foi eleito como prefeito de Pirenópolis em 1934.
18  Santa Dica continuou em Lagoas até a sua morte em 9 de novembro de 1970.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

menos, não teve mais manifestação nenhuma daquelles phenomenos de


que era possuída e não pode mais realizar suas conferencias e nem mais
entrou naquelles transes (...) Em tempo – A declarante disse ainda que
o facto a que acabou de se referir no tocante a sua virgindade, ocorreu
quando Ella estava dormindo e contra a sua vontade19

Evidencia-se, assim, o fato que a única mulher no processo foi, dada às circuns-
tâncias, ignorada em todos os sentidos na sua defesa e na violência sofrida. Numa época
que a mulher não tinha visibilidade social, nem jurídica, Santa Dica foi julgada como
louca e merecedora dos seus castigos por seu comportamento desregrado. O que nos
chama a atenção é que mesmo as pesquisas consultadas sobre a Dica, quase nenhum
aborda o relato do estupro.20 Descrevem os mitos, as curas e o poder local de Dica, o
messianismo, e ignoram a denúncia constante no processo.
Conforme citado por Silvia Federici em Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acu-
mulação primitiva, por muito tempo a caça às bruxas descrevia as mulheres como lou-
cas, alucinadas que desacreditava as vítimas. Ela cita,

(...) as bruxas acusadas, frequentemente, davam razão aos seus persegui-


dores. Uma bruxa mitigava sua culpa confessando suas fantasias sexuais
em audiência pública, ao mesmo tempo alcançava certa gratificação eró-
tica ao se ater a todos os detalhes diante de seus acusadores masculinos.
Estas mulheres, gravemente perturbadas do ponto de vista emocional,
eram particularmente suscetíveis à sugestão de que abrigavam demônios
e diabos e estavam dispostas a confessar sua convivência com espíritos
malignos (...) (DALY, 1978, apud FEDERICI, 2017, p.291)

Nitidamente a violência foi ignorada, e ainda hoje se mantém a tendência de


acusar a vítima pelo seu próprio infortúnio. O estupro é uma violência masculina contra
a mulher com um fim claro de demonstração de força, poder, controle. É válido afirmar
que historicamente o estupro tem representado uma forma de agressão que cumpre
uma função social na sociedade patriarcal, um instrumento de medo e coerção cons-
ciente para manter as mulheres em contínuo estado de medo.
O perfil que Igreja e as autoridades montam da Santa Dica como uma mulher
que seduz pela lábia, aceita presentes, anda com homens, não tinha bons modos, se
portava mal, influenciava, enganava, mentia, comparada com feiticeiras, loucas e putas,
explica por que o relato do estupro foi ignorado. Da mesma maneira que ainda hoje, as
mulheres que usam roupas insinuantes, não se preservam, não tem comportamento re-
catado são culpadas por provocar e, portanto, responsáveis pela agressão que sofreram.

19  PROCESSO n. 651 apud BRITO, 1992.


20  Vale ainda mencionar que Santa Dica tinha apenas por volta de 16 anos nesta época.

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100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

A segunda questão que se destaca desse processo, é que sua liberdade foi conce-
dida, pois sua defesa - bem como seu alvará de soltura - acatou o argumento do laudo
psiquiátrico que indicava seus distúrbios psicológicos, especificamente, ataque de histe-
ria. Mantinha-se a ideia de mulher louca, fora de si e tresloucada, suas falas e liderança
seriam apenas fruto de histeria.21
No trabalho já citado de Calibã e as bruxas, Silvia Federici analisa a passagem do
feudalismo para o capitalismo pela perspectiva de como a mulher perseguida e morta
na Inquisição da Era Moderna, foi uma guerra deliberada e intencional para destruir o
controle da mulher sobre a sua função reprodutiva, intensificar o poder opressor do pa-
triarcado e preparar uma nova divisão sexual do trabalho. Sua pesquisa analisa como se
deu esse processo na prática, estabelecendo as conexões da caça às bruxas à formatação
de uma nova sociedade do capital.
O processo de desvalorização e demonização da mulher começava imprimindo
comportamentos morais e sociais sempre reprováveis.

Aquelas que usaram trabalhar fora do lar em um espaço público e para


o mercado, foram representadas como megeras sexualmente agressivas
ou até mesmo como putas ou bruxas (HOWELL, 1986). Com efeito, há
provas de que a onda de misoginia que no final do século XV cresceu
nas cidades europeias – refletida na obsessão dos homens pela “luta pelas
calças” e pela personagem da esposa desobediente, retratada na literatura
popular batendo em seu marido ou montando em suas costas como a um
cavalo – emanou também dessa tentativa (contraproducente) de tirar as
mulheres dos postos de trabalho e do mercado. (FEDERICI, 2017, p. 190)

Estas questões históricas são fundamentais para explicar de que modo o machismo,
a misoginia e o patriarcado enquanto instrumentos da nossa organização social colaboram
de fato sobre as análises da realidade. Santa Dica não era apenas uma pessoa com poderes
ou um charlatão qualquer, era uma mulher devassa, perigosa, pérfida, puta e interesseira.
Sem demérito às pesquisas consultadas, que sem dúvida realizam a importante
tarefa de trazer à tona esta personagem emblemática da história de Goiás, não se pode
deixar de salientar que a Santa Dica não pode ser compreendida apenas pelo recorte
da história do sagrado, da cultura popular ou da psicologia. Para além dessas questões
se encontra, em primeiro lugar, a forma como há séculos se estruturou uma sociedade
de patriarcal que aprofundou a subordinação da mulher, perseguiu e estigmatizou o
mundo feminino.

21  Apesar isso, ela ainda seria novamente convocada para participar na Revolução de 32 com um pelotão de
150 homens usando fardas do exército e ganhando patente de Capitão. Diante dos relatos de voltar do com-
bate sem nenhuma morte em seu pelotão, o fato foi atribuído novamente as forças de seus guias espirituais e
poderes milagrosos.

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Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

As mulheres foram as principais vítimas da Inquisição Moderna, que não foi


um ato desordenado e inconsciente, e muito menos foi uma realização exclusiva da
Igreja Católica22. Em verdade, as milhares de prisões, processos inquisitórios, desapare-
cimentos, estupros, torturas e o genocídio feminino ocorrem numa política ordenada
entre religião – tanto católica como protestante – em conjunto com a política de Estado.
Conforme Federici:

A Igreja Católica forneceu o arcabouço metafísico e ideológico para a


caça às bruxas e estimulou sua perseguição, da mesma forma que ante-
riormente havia estimulado a perseguição aos hereges. Sem a Inquisição,
sem as numerosas as bulas papais que exortavam as autoridades seculares
a procurar e castigar as “bruxas” e, sobretudo, sem os séculos de campa-
nhas misóginas da Igreja contra as mulheres, a caça às bruxas não teria
sido possível. Mas, ao contrário do que sugere o estereótipo, a caça às bru-
xas não foi somente um produto do fanatismo papal ou das maquinações
da Inquisição Romana. No seu apogeu, as cortes seculares conduziram a
maior parte dos juízos, enquanto nas regiões onde a Inquisição operava
(Itália e Espanha) a quantidade de execuções permaneceu comparativa-
mente mais baixa. (...) Além disso, a Inquisição sempre dependeu da co-
operação do Estado para levar adiante as execuções. (...) A colaboração
entre Igreja e Estado foi ainda maior nas regiões em que a Reforma levou
o Estado a se tornar a Igreja (...) A natureza política da caça às bruxas
também fica demonstrada pelo fato de que tanto as nações católicas como
as protestantes em guerra entre si quanto a todas as outras temáticas, se
uniram e compartilharam argumentos para perseguir as bruxas. (FEDE-
RICI, 2017, p. 302/303)

Santa Dica exemplifica esse conluio contra a mulher entre Igreja e Estado sobre-
maneira. A articulação do poder local, temerosos com o poder de liderança e capacida-
de de aglutinação das massas camponesas, aliado ao temor da Igreja - que as crendices
populares e o mundo da natureza afastassem os fiéis, é que de fato determinou a perse-
guição e ataques sofridos pela Dica.
Um segundo ponto essencial é que as mulheres foram caçadas sistematicamente
por suas atividades como parteiras, curandeiras ou na arte de adivinhação (como pres-
ságios ou conselhos sobre o futuro), e demais práticas normalmente, femininas. Santa
Dica não foi diferente desse processo longo de perseguição e morte que se estendeu por

22  Vale ressaltar que diferente do senso comum não foi na Idade Média que ocorreu a caça às bruxas, confor-
me Federici: (...) contrariamente a visão propagada pelo iluminismo, a caça às bruxas não foi o último suspiro
de um mundo feudal agonizante. É bem consagrado que é “supersticiosa” Idade Média não perseguiu nenhuma
bruxa - o próprio conceito de “bruxaria” não tomou forma até a baixa Idade Média, e nunca houve julgamentos
e execuções massivas durante a “Idade das Trevas”. (FEDERICI, 2017)

190
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

séculos. No entanto, cabe indagar o que Santa Dica como “bruxa” ou curandeira local
tinha de tão extraordinariamente diferente das demais curandeiras ou benzedeiras para
sofrer processo judicial, ser presa, sofrer ataques sistemáticos do principal jornal católica
da região e ser expulsa de Goiás?
A única diferença visível é o contexto de consolidação dos poderes locais e a
preservação da propriedade da terra que se vê ameaçada por uma mulher que conseguiu
articular uma comunidade com discursos de um paraíso com justiça social, distribuição
de alimentos produzidos e novas relações de trabalho. É significativo destacar que sua
atuação foi muito além das práticas de cura e contato direto com o sagrado, a maior
transgressão da Santa Dica, além do fato de ser mulher, era a organização de uma comu-
nidade utópica e subversiva aos olhos do modelo de capitalismo tardio que se consolida-
va no Brasil ainda rural23. Nessa sociedade burguesa, pós-inquisição,

A perseguição deu lugar a uma perspectiva paternalista que considera-


va a idolatria e as práticas mágicas como debilidades de pessoas igno-
rantes, que não deviam ser levadas a sério pela gente de razón (FEDE-
RICI, 2017, p. 413)

Por isso, não é de estranhar que os relatos sobre a Santa Dica oscilam em tratá-la
como grande liderança das massas camponesas – seja por seu discurso sobre a terra ou
por seus poderes espirituais – e, ao mesmo tempo, retratando-a como mulher ingênua e
manipulada pelo poder público ou por seu marido.
Todos esses fatores formam um imbricado quadro da complexa realidade da his-
tória regional, e das mulheres, de maneira mais ampla. A tentativa aqui, não é encerrar o
debate, ao contrário, o desejo é que traga novas indagações que tenham como intuito elu-
cidar a singularidade da história de Goiás e o lugar político e social da mulher, na tentativa
de entender, atuar e transformar a realidade. A história de Santa Dica, eivada de contradi-
ções e singularidades pode, certamente, contribuir na construção de novas perspectivas.

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194
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Temas e Fontes de
Pesquisa Histórica:
As monografias
defendidas no curso
de História/UFG/RC-
1995-2016
Isabelle Artico
Graduanda em História, INHCS/UFG/RC
Eliane Martins de Freitas
Doutora em História, PPGH-MP/UFG/RC

Repensar e recolocar a mulher na historiografia nos leva à discussão sobre os


papéis/representações de gênero, e gênero está ligado a diversos temas atuais como:
trabalho, violência e sexualidade, assim como o questionamento sobre hierarquias e
desigualdades sociais. Com o aumento dos debates sobre as condições das mulheres,
houve então a necessidade de analisar a produção dos pesquisadores e pesquisadoras
do curso de História da Regional Catalão sobre o tema e trazer a reflexão para o interior
do curso com essa pesquisa. Neste sentido o projeto Gênero e História das Mulheres na
produção monográfica do Curso de História/UFG/RC – 2009-2016, desenvolvido junto
ao Laboratório de Pesquisa Gênero, Etnicidade e Diversidade – LaGED//INHCS/UFG/
RC, é um subprojeto da pesquisa intitulada O Ensino de História: da pesquisa na gradu-
ação a atuação na sala de aula, e conta com financiamento do Programa Institucional
de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC/UFG/CNPq. O objetivo geral da pesquisa é
analisar a produção do conhecimento histórico realizada interior do curso de História
da UFG/RC no período de 2009 a 2016, em particular, as monografias cujas temáticas
envolvem relações de gênero, sexualidade e história das mulheres.
No presente texto apresentamos os resultados parciais da primeira etapa da pes-
quisa, realizada de agosto a novembro de 2017, que consistiu em reunir, organizar e
catalogar o acervo das trezentos e quarenta e cinco (345) monografias do curso de His-
tória da Regional Catalão desde 1995 (ano de conclusão da primeira turma) até 2016. E
quantificar essa produção a partir das seguintes chaves de pesquisa: data da defesa, te-
mática e fontes históricas. O resultado deste trabalho nos possibilita construir um pano-
rama geral dessa produção no tempo, ou seja, ao longo das duas últimas décadas. Esse

195
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

panorama nos permitiu compreender as temáticas mais relevantes para as/os egressos
do Curso de História, bem como o lugar que as discussões sobre gênero, sexualidade e
História das Mulheres tem no conjunto dessa produção.
Dentro dessa primeira etapa podemos notar a quantidade de temas e fontes mais
utilizados desde 1995, observar certas tendências de tempo e espaço pelas monografias
em relação às épocas e fazer um paralelo com as monografias de gênero, que são o foco
inicial da pesquisa.
Para a quantificação dessa produção optamos por aproveitar a pesquisa realizada
por Santos (2006), que trabalhou com a produção de 1995 a 2001 e apenas atualizar as
referentes ao período de 2002 a 2016.
No gráfico abaixo a categoria Outros caracteriza por temas que apenas pos-
suem uma monografia (prostituição, biografia, patrimônio, análise histórica, ditadura
e progresso).

Gráfico 1 - Dos temas de monografias de 1995 – 2001


Fonte: SANTOS, 2006

196
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Gráfico 2 - Dos temas de monografias de 2002 – 2016


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras

As fontes foram divididas em quatro categorias para uma melhor visão geral
inicial: 1) Orais (para relatos, memórias e entrevistas); 2) Documentos oficiais (para
documentos extraídos de jornais, revistas, documentos históricos diversos, legislativos
e administrativos); 3) Iconográficos e biográficos; e 4) Literários (para fontes vindas de
biografias, análise de discursos e obras).

197
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Gráfico 3 - Das fontes de monografias de 1995-2001


Fonte: SANTOS, 2006

Gráfico 4 - Das fontes de monografias de 2002 – 2016


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras

198
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Com os gráficos podemos constatar que o tipo de fonte mais utilizado para a
produção de monografias é o mesmo desde o início do curso em 1995, a fonte oral, que
condiz com os temas também mais pesquisados que é o de Trabalho, Religião e Estudos
Regional Históricos e que para serem pesquisados são necessários entrevistas, o resgate
da memória local e relatos.
Depois da reorganização e da classificação geral, iniciamos a segunda parte da
nossa pesquisa que consiste em separar e quantificar as monografias sobre gênero para
poder então analisar parcialmente os temas e fontes dessas monografias e iniciar nossa
discussão sobre o que é produzido dentro do curso.

Tabela 1 – Número de monografias sobre gênero desde 1995 – 2016


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras
1995 1996 1997 1999 2000 2002 2003
1 2 1 1 1 1 2
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
2 1 6 2 1 1 3
2011 2012 2013 2016
2 1 1 1

Utilizando o mesmo processo de catalogação dos temas e fontes das monogra-


fias, montamos gráficos para melhor visualizar as produções de temas e fontes.

Gráfico 5 - Temas das monografias sobre gênero 1995 – 2016


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras

199
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Gráfico 6 - Fontes utilizadas nas monografias sobre gênero de 1995 – 2016


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras

Os resultados parciais observados mostram novamente que o tema Trabalho sai


em destaque mesmo dentro da categoria gênero e a fonte oral também continua sendo
a mais utilizada para a pesquisa. Nosso próximo passo é aprofundar no debate sobre a
categoria gênero.
Por fim, cabe dizer que, entendemos que os temas utilizados para a produção de
pesquisas das monografias do curso de História ainda estão atrelados aos estudos regio-
nais de trabalho e religiosidade, temas de profundo impacto, já que a Catalão e região
estão envoltos de festas religiosas e seu desenvolvimento econômico construído a partir
da ferrovia e da chegada da indústria.

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202
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Temas e Recortes
espaciais na
Pesquisa Histórica:
As monografias
defendidas no curso
de História/UFG/RC-
1995-2016
Monique Conceição Silva
Graduanda em História/INHCS/UFG/RC
Eliane Martins de Freitas
Doutora em História/ PPGH-MP/UFG/RC

Introdução
O curso de História da Regional Catalão- Universidade Federal de Goiás (RC/
UFG), criado em 1991, com a sua primeira turma formada em 1995, em 2017 completa
26 anos, com 345 monografias defendidas. Inicialmente, o curso de História RC/UFG,
foi criado como anexo do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás
(UFG), contudo, em 2005, com a alteração no seu Projeto Pedagógico de curso houve a
separação do curso ministrado em Goiânia, com isso, dando autonomia para a elabora-
ção de uma matriz curricular própria.
Para a conclusão do curso de História/RC/UFG e a obtenção do diploma, um
dos requisitos é a apresentação da monografia de conclusão do curso.
Neste texto apresentamos a primeira etapa da pesquisa intitulada Gênero e Se-
xualidade na produção monográfica do Curso de História/UFG/RC, desenvolvida dentro
do Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica – PIVIC/UFG/CNPq,
como subprojeto da pesquisa O Ensino de História: da pesquisa na graduação a atuação
na sala de aula. A pesquisa parte do pressuposto que a sexualidade, assim como as re-
presentações de masculinidades e feminilidades, é um produto histórico, e que, portan-
to, a compreensão dos padrões de sexualidade no passado ajuda a iluminar um aspecto
fundamental da condição humana.

203
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Nosso objetivo é apresentar o levantamento temático e espacial realizado nes-


se acervo monográfico, com vista a compreender como a temática sexualidade tem se
inserido dentre as temáticas pesquisadas e, com isso em um segundo momento, com-
preender como a categoria sexualidade é usada nas monografias e na produção do co-
nhecimento histórico ao longo da trajetória do curso.
O acervo monográfico foi encontrado um pouco desorganizado, algumas mo-
nografias estavam fora das caixas-arquivo, algumas estavam dentro da caixa-arquivo
não correspondente ao seu ano e outras que estavam dentro não constavam na lista
de monografias que foi disponibilizada às bolsistas. No primeiro momento, todas as
monografias que não constavam na lista foram registradas. Logo, após as monografias
foram separadas por ano e por ordem alfabética, sendo reorganizadas, o que gerou uma
nova lista atualizada.
Durante a elaboração da nova lista, também foi feito o levantamento dos temas
mais recorrentes e das monografias que abordam a temática sexualidade e/ou seus as-
pectos. A nova lista, não somente com título, autora(o) e ano, mas também, como o
tema, fonte, cidade e observações. Sendo assim, a elaboração da lista foi essencial para
fazer o recorte espacial e temático. As monografias foram guardadas nas caixas da cor
branca, as cópias das monografias nas caixas de cor amarelo e as monografias da espe-
cialização nas caixas azuis.

Imagem 1: Acervo monográfico do Curso de História RC/UFG. LaGED

Fonte: Imagem disponibilizada pelas autoras.

204
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

As primeiras monografias defendidas abordam, em sua maioria, temáticas si-


milares como estudo da história local e da história regional, progresso e trabalho, além
de tratar, da religiosidade, que por sinal, é bastante forte e presente na região na qual se
encontra o campus da RC/UFG. Diante disso, e considerando que a maior parte das alu-
nas e alunos é do município de Catalão, ou de município vizinha, como Três Ranchos,
Ipameri, Goiandira, Anhanguera etc., podemos entender a correlação entre os temas e
os assuntos escolhidos, especialmente, a repetição das problemáticas, levando em conta
que são problemáticas provenientes das localidades de origem das/os graduandas/os.
De acordo com Ribeiro (2002):

“Outra observação que nos parece pertinentes é o fato de que frequen-


taram o Curso de História alunos de diversas procedências; apesar da
maioria ser de Catalão, recebemos também alunos de outros municípios
próximos, como Goiandira, Ouvidor, Três Ranchos, Cumari, Anhangue-
ra, Ipameri, Campo Alegre, etc. E cada um trouxe de se sua localidade
preocupações que lhes são próprias e específicas. De cada lugar vinha a
preocupação e o interesse, às vezes até obsessivos, por temáticas e proble-
máticas que erma as de sua região.”(RIBEIRO, 2002, p.18)

Ainda assim, o tempo disponível para o levantamento monográfico não foi o su-
ficiente para que fosse possível analisar detalhadamente cada monografia, o que ocasio-
nou a não identificação de uma parte do acervo. Diante disso, futuramente, nas próximas
etapas da pesquisa, as monografias com o recorte espacial não identificado poderão ser
revistas com tranquilidade, a fim de dar toda exatidão possível e dados, mais uma vez,
apurados. Mas, conforme está exposto no Gráfico 1, a maioria das monografias produzi-
das pelas(os) alunas(os) do Curso de História da RC/UFG, têm seu recorte espacial nas
cidades da região do campus da RC/UFG e pouquíssimas, até mesmo, saem de Goiás.
Obviamente, isso fez com que fossem produzidos novos conhecimentos, uma nova pers-
pectiva sobre a história de cada localidade, da região e até mesmo do Estado de Goiás.
Entretanto, por outro lado, houve uma centralização e repetição nas escolhas do espaço.
Como também pode ser visto no Gráfico 1, é alto o número de monografias que foram
produzidas sobre a história de Catalão e/ou trabalham com as problemáticas da cidade.

205
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Gráfico 1: Distribuição geográfica das pesquisas monográficas – 1995-2017


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras

Gráfico 2: Distribuição por temáticas das pesquisas monográficas – 1995-2017


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras.

206
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

A princípio, quando foi realizado o levantamento e organização das monografias


do curso de História/RC/UFG, que se encontram no Laboratório de Pesquisa em Gêne-
ro, Etnicidade e Diversidade (LaGED), pode-se ver a mudança dos temas das primeiras
monografias para as mais atuais, alguns temas foram sendo deixados de lado simulta-
neamente outros foram surgindo. Tais mudanças podem estar relacionadas a remode-
lação da grade curricular do curso, em 2005, e admissão de novos docentes. Embora,
monografias que abordam temáticas como “Mulheres” e “Gênero” tenham aumentado
significativamente, ainda não existe uma porcentagem expressiva de monografias que
abordam sexualidade e/ou seus aspectos.
Considerando que sexualidade é um tema que tem sido discutido e debatido na
sociedade cada vez mais, inclusive, meio universitário, verificamos que o índice de mo-
nografias sobre a temática, no entanto, não acompanha o crescimento dessa discussão
que está em ascensão, havendo um contraste da produção com a demanda sobre o tema.
Ademais, a baixa produção monográfica sobre sexualidade nesses 26 anos de existência
do curso de História/RC/UFG pode ser vista como um tabu ainda não quebrado na lo-
calidade/região na qual está instalada a Regional Catalão/UFG, tendo em vista, a grande
religiosidade, tradicionalismo e conservadorismo presentes na origem da construção de
Catalão e das cidades vizinhas, podemos entender a predileção, mesmo que involuntá-
ria, por parte das alunos e alunos por temas ligados ao estudo da história local, trabalho,
educação, religião e cultura.
Contudo, como afirma Foucault (1976, p.30), nunca foi deixado de falar sobre
sexo: ‘’Não se fala menos sobre sexo, pelo contrário. Fala-se dele de uma outra manei-
ra; são outras pessoas que falam, a partir de outros pontos de vista e para obter outros
efeitos’’. À vista disso, é desejado entender como as autoras(es) falam sobre sexo, tratam
a categoria sexualidade, de qual forma se é analisado, como se dar o uso e para quê ou,
até mesmo, como se é deixado de falar sobre.

“O próprio mutismo, aquilo que se recusa dizer ou que se proíbe mencio-


nar, a descrição exigida entre certos locutores não constitui propriamente
o limite absoluto do discurso, ou seja, a outra face de que estaria além
de uma fronteira rigorosa, mas, sobretudo os elementos que funcionam
ao lado de (com e em relação a) coisas ditas nas estratégias de conjunto.
Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é
preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são
distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso
é autorizado ou que forma de descrição é exigida a uns e outros”. (FOU-
CAULT, 1976, pp.30-31).

207
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Gráfico 3: Sexo das/os pesquisadoras/es que discutem a temática da sexualidade.


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras.

Durante organização do acervo monográfico, pôde- se ver que maioria das mo-
nografias produzidas que abordam Sexualidade e/ou seus aspectos foram produzidas
por mulheres, inclusive a primeira. Além disso, pode-se ver também, como mulheres
e homens abordam o tema. As monografias produzidas pelas formandas que entram
na categoria ou subcategoria sexualidade têm os seguintes títulos: Prostituição na Me-
noridade em Catalão (DAVID, 1996); A Educação Sexual para jovens e adolescentes no
Colégio Estadual Gilberto Arruda Falcão (SILVA, 2009); Santas Virgens na Legenda Áu-
rea: a virgindade no século XIII (SILVA, 2010); Religião e intimidade: a sexualidade e o
casamento nos escritos de Martinho Lutero (SILVA, 2013). Já as monografias produzidas
pelos formandos são: O Amor, a Sexualidade e o Erotismo na música brasileira décadas
de 1980-1990 (CARNEIRO, 2006); Masculinidades em (re)vista: construções e descons-
truções na Revista GQ Brasil (2013-2014) (ALVES, 2016).
A primeira monografia a trabalhar com a temática sexualidade foi defendida
em 1996, com o titulo Prostituição na menoridade em Catalão (DAVID, 1996). A autora
dessa monografia fez seu recorte espacial em Catalão mesmo, contudo, estudou a ali-
ciação de meninos e meninas menores de idade para a prostituição, discutiu como uma
atividade tida como imoral, que vai contra os princípios religiosos e da sociedade, além
de ser ilegal, é constituída, tratada e/ou ignorada na sociedade catalana. A monografia

208
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

conta com relatos e entrevistas. E, é dedicada à garota, de 14 anos, que concedeu entre-
vistas sobre a sua vida: ‘’À garota P.S.B., que apesar de toda discriminação enfrentada,
não teve constrangimento em expor sua vida’’.
A segunda teve defesa em 2006 e foi intitulada O amor, a sexualidade e o erotis-
mo na música brasileira décadas 1980-1990 (CARNEIRO, 2006). Analisa os aspectos da
produção musical brasileira das décadas de 1980 e 1990 e as abordagens sentimentais
e sexualizadas em alguns gêneros musicais e a relação dele com o público consumidor.
Talvez, seja significativo citar que o autor compara a leitura da monografia ao ato sexual:

“Uma vez que falamos de amor, erotismo e sexualidade podemos dizer


que as ‘’preliminares’’, compreendidas nos dois primeiros capítulos, pro-
põem um ‘’se conhecer’’, sugere explorar os pontos ‘’G’’ da questão, sem
pressa, mas com o objetivo de atingir um desenvolvimento que produza
certas intimidades necessárias para, ao final, no terceiro capítulo, se obter
o resultado esperado e uma resposta satisfatória quando se perguntar:
‘’Foi bom para você?”’(CARNEIRO, 2006, p.10).

A terceira foi defendida em 2009, de titulo A educação sexual para jovens e ado-
lescentes no Colégio Estadual Gilberto Arruda Falcão (SILVA, 2009), tem como objetivo
compreender como é abordada e trabalhada a orientação sexual com adolescentes e
jovens, no Colégio Estadual Gilberto Arruda Falcão, localizado no distrito de Santo An-
tônio do Rio Verde. E também, como é inserida a sexualidade em sala de aula tendo em
vista, que alunos possuem dúvidas e curiosidades sobre a sexualidade e, como o corpo
docente lida com isso.
A quarta, defendida em 2010, de titulo As santas virgens na Legenda Áurea: a
Virgindade no século XIII (SILVA, 2010), foi desenvolvida a partir de alguns capítulos
da Legenda Áurea, analisa o conceito de ideal de virgindade no século XIII. Sendo que
apenas mulheres virgens e consagradas teriam a chance de chegar a perfeição divina, a
autora trabalha com a legenda de algumas santas e examina a importância que a igreja
dava a virgindade feminina.
A penúltima, com defesa em 2013, com o título Religião e Intimidade: A sexu-
alidade e o casamento nos escritos de Martinho Lutero (SILVA, 2013), traz um estudo
partindo de problemáticas a cerca de como as representações do corpo enquanto sexu-
alidade era vista na religião e, também, sobre a prostituição, o sentindo do casamento
para Lutero e a relação entre o esposo e a esposa, as divergências entre ele e a Igreja
Católica sobre a sexualidade e o casamento.
A ultima monografia, Masculinidade em (re)vista: Construções e desconstruções
na revista GQ Brasil (2013-2015) (ALVES, 2016), tem como objetivo de compreender a
masculinidade e seus aspectos, tendo como fonte a revista QG Brasil, o autor analisa as
relações entre o modelo de masculinidade hegemônica e o modelo gay. Além de estudar

209
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

a suposta crise da masculinidade que estaria resultando em um ‘’ Novo Homem’’, com


uma nova oportunidade de vivenciar a masculinidade, indagando as discussões sobre
os papéis sociais, sexuais etc.
Diante disso, e na leitura dos resumos das monografias foi notado que as forman-
das abordam casamento, prostituição, educação sexual e virgindade dentro da temática
sexualidade. E, um dos formandos estuda as questões relacionadas a masculinidade.

Gráfico 4: Distribuição temporal das monografias.


Fonte: Dados sistematizados pelas autoras.

Ainda no processo de organização e seleção das monografias, pôde- se observar


dois fatores: a queda no número de monografias produzidas, e o aumento, mesmo que
pequeno, no número de monografias que abordam sexualidade. A queda do número de
monografias do curso de História/UFG/RC, pode estar relacionada a implantação de
12 de novos cursos, principalmente, o de Ciências Sociais, que pode ter influenciado
a transferência de curso de alunas/os da graduação em História para Ciências Sociais,
além de ser mais um curso da área das Ciências Humanas, sendo uma opção a mais a
ser ofertada pela RC/UFG.

210
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Considerações finais
Considerando que, em 2015, a Regional Catalão- Universidade Federal de Goiás
(RC/UFG) adotou o Sistema de Seleção Unificada (SISU) o qual usa a nota do Exame
Nacional do Ensino Médio (ENEM) como a única forma de ingresso na universida-
de. E, considerando o expressivo número de alunos de outros estados e cidades que
vieram para Catalão, proporcionando mudanças no cenário da cidade e no ambiente
universitário, como também, a atual e fervorosa discussão sobre gênero e sexualidade,
‘’Afinal de contas, famílias, lares e sexualidade, são produtos da mudança dos modos
de produção’’(SCOTT; 1995), pôde-se criar uma expectativa no que tange o aumento
do número de monografias que trabalhem a temática sexualidade no Curso de História
da RC/UFG. Além do mais, é válido citar a criação dos novos coletivos LGBTQ e femi-
nistas, em 2017, pelas(os) alunas(os) da RC/UFG, com participação efetiva de alunas e
alunos do Curso de História.

Referências

Monografias
ALVES, Jorge Luiz da. Masculinidades Em (Re)Vista: Construções E Desconstruções
Na Revista GQ Brasil (2013-20145). RC/UFG, 2016

CARNEIRO, Marlon Sérgio. O amor, A sexualidade e O Erotismo na música brasilei-


ra décadas 1980-1990. RC/UFG, 2006.

DAVID, Elias Luciene. Prostituição na Menoridade em Catalão. RC/UFG, 1996.

SILVA, Juliane Martins Silva. As santas virgens na Legenda Áurea: Virgindade no Sé-
culo XIII. RC/UFG, 2010

SILVA, Marciele Calvacante da. Religião E Intimidade: A Sexualidade E O Casamento


Nos Escritos De Martinho Lutero. RC/UFG, 2013

SILVA, Simone Nunes da. A educação sexual para jovens e adolescentes no Colégio
Estadual Gilberto Arruda Falcão. RC/UFG, 2009

Bibliografia
GARCIA, Lucas. História da Regional Catalão- Universidade Federal de Goiás. Dis-
ponível em: <https://www.catalao.ufg.br/p/6189-historia>. Acesso em 20 fev. 2018.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edi-


ções Graal, 1976.

211
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

FREITAS, Eliane M (org.). Produzindo História, Pensando O Local: a produção mo-


nográfica dos alunos do Curso de História CAC/ UFG (1995/2001). Uberlândia: Aspec-
tus, 2002.

RIBEIRO, José Eustáquio. História e Identidade: o processo de constituição historiográ-


fica de localidade regionais a partir de produção monográfica do Curso de História do
CAC/ UFG. In: FREITAS, Eliane M (org.). Produzindo História, Pensando O Local: a
produção monográfica dos alunos do Curso de História CAC/ UFG (1995/2001). Uber-
lândia: Aspectus, 2002.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade.
Porto Alegre, vol.20, n. 2, 1995.

212
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

Um olhar além da
máscara: Resgate
da Caretada como
forma de preservação
da identifdade e
cultura local em
Paracatu–MG
Keli Evangelista da Silva
Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão

Apresentação
Esse projeto procura abordar aspectos de uma cultura popular presente em Pa-
racatu utilizando como referência, um festejo anualmente realizado na cidade: a dança
da Caretada, rito de fundo religioso que integra uma das tradicionais festas juninas na
região, a festa de São João. A Caretada ou caretagem é uma típica expressão dos afro-
-brasileiros do noroeste mineiro. Apenas homens participam.
A apresentação é composta por 12 pares de homens dançantes com a metade
deles transvestidos de mulher usando colares, perucas, brincos, maquiagem e máscaras
que os impedem de ser reconhecidos por pessoas da comunidade e pelos visitantes. Du-
rante a apresentação da Caretada esses homens saem cantando e dançando pelas ruas
da cidade e dos povoados durante 24 horas ininterruptas em virtude a São João, do dia
23 de junho para o dia 24.
Apesar de não haver participação das mulheres na dança, sua presença é fun-
damental e elas contribuem com a confecção das roupas, com a organização da festa
durante todo o ano e são elas que fazem a comida que é servida nos intervalos da dança.
A indumentária é toda em fitas coloridas, terminadas por guizos de bronze. Os
caretas (dançarinos da caretada) usam também as máscaras que eram utilizadas para
que os senhores de escravos não reconhecessem quem estava dançando e espantar os
maus espíritos.

213
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

A instrumentação típica é composta de uma sanfona pé-de-bode, gaita ponto,


pandeiro, caixa, violão, viola, rabeca e maraca. Tudo originalmente histórico e rústico,
assim como as músicas cantadas pelos caretas.
A dança de origem africana alegra a cidade de Paracatu, em Minas Gerais, há
mais de 200 anos. Presume-se que ela tenha chegado juntamente com os escravos vin-
dos das diversas regiões da África, que deram origem aos povoados no entorno da ci-
dade. Ali demarcaram seu espaço, onde saiam somente para trabalhar nas lavouras dos
fazendeiros.
De acordo com Carvalho,

as manifestações culturais estão no centro do espaço ocupado hoje pelos


estudos comunicacionais. A partir deste diagnóstico inicial, as mesmas
podem ser entendidas como formas de expressão da cultura de um povo,
constituindo movimento de determinada cultura, em época e lugar espe-
cíficos. (CARVALHO, 2007, p. 64).

E para os povos residentes nos povoados do São Domingos, do São Sebastião e


da Lagoa, os dias festivos representam importantes momentos de socialização e tam-
bém de compartilhamento de valores populares agregados a cultura de seus familiares.
A festa religiosa acompanhada da apresentação da caretada permite que se constitua
uma noção de pertencimento coletivo a uma comunidade de fiéis, além de reforçar anu-
almente elementos da cultura local.
Considerando a festa um ato coletivo que exige a persistência e existência de
determinados grupos, podemos afirmar que ao longo das sociedades, os homens busca-
ram este momento de contato como forma de mudar, permanecer de tradições, comu-
nicar, louvar, aprender e até mesmo fortalecer os laços de solidariedade existente entre
os mesmos, características essas presentes em diversas manifestações culturais ao longo
da história do Brasil.
Enquanto acontecem tradicionalmente as rezas e barraquinhas nas festas juninas
nas igrejas da cidade, os povoados compartilham momentos de interação social movi-
dos pelo sagrado e divino, numa sequência de dramatização e ritmo. Apesar de tudo que
foi exposto sobre a importância da Caretada como cultura local, o interesse dos jovens
à prática do ritual da caretada está diminuindo visivelmente.
Sabemos que os valores culturais vão sendo mudados e os jovens vão buscando
novas práticas culturais que fazem parte da sua geração, mas sabemos também que o
ritual da caretada é uma forma de resistência dos remanescentes quilombolas de manter
viva a cultura e memória de seus antepassados. Por isso o objetivo desse estudo é buscar
formas de valorizar e manter viva a prática da caretagem.
Existem várias maneiras de valorizar a cultura popular: primeiramente pela di-
mensão de símbolos que possuímos através da comunicação, essa espetacular forma de

214
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

gestos, encantos da nossa cultura que afirmam e valorizam cada manifestação; temos
ainda a questão de disputas entre as manifestações que acelera uma competição sadia,
incentivando a criatividade, e a terceira é a afetividade, o afeto transforma a manifesta-
ção em uma divindade.
Dessa forma, e sob a perspectiva de Certeau (1995, p.10), “toda cultura requer
uma atividade, um modo de apropriação, uma adoção e uma transformação pessoais,
um intercambio instaurado em um grupo social”. Assim a cultura de uma determinada
localidade vai adquirindo características próprias.
Levemos também em consideração que a cultura popular está ligada geralmente
à cultura do prazer, que está muitas vezes atrelada a fomentação da economia local.
Nesse sentido, devemos observar e pensar a cultura popular na perspectiva da susten-
tabilidade cultural no processo de desenvolvimento local, assim, quando discutimos
cultura estamos necessariamente considerando a vertente da geração de emprego, renda
e negócios. Como nos explica Turner,

“Cultura é um sistema de símbolos que uma população cria e usa para


organizar-se, facilitar a interação e para regular o pensamento”. Embo-
ra os sistemas e os símbolos evidenciem formas de padrões, as culturas
populares se mantêm para demonstrar suas verdades, identificada pela
identidade cultural. (TURNER, 2007, p.46).

Isso explica nossa intenção: não perder parte da nossa cultura popular, afinal
aquilo que não é visto, nem falado e tampouco praticado, fatalmente acabará. E reali-
zar tal pesquisa está de acordo com nosso propósito maior que é tentar preservar em
Paracatu “cidade tombada como patrimônio cultural brasileiro”, a cultura popular da
Caretada que aos poucos vai se perdendo na imensidão de uma era digital.

Importância em manter a cultura local


Paracatu agora é patrimônio cultural brasileiro e preservar parte da cultura local,
é dever de cada um de nós que fazemos parte dessa comunidade. A Caretada é uma festa
popular que faz parte das nossas tradições e nada é mais relevante para a identidade de
um povo do que a cultura em que esse mesmo povo se define. Sem ela, tal identidade
desaparece, dissolve-se, deixando ali, consequentemente, uma passiva massa humana.
Daí ser fundamental o conhecimento ou reconhecimento, o incentivo e a manutenção
da cultura popular de forma que as futuras gerações se sintam não só herdeiras, mas
também protetores de grande e inestimável bem imaterial.
Mesmo sabedores de tudo isso, nada está sendo feito para divulgar ou fomentar
a prática da caretada e em alguns povoados que antes existiam apresentações da dança,

215
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

hoje em dia não acontece mais devido à falta de interesse das pessoas em prosseguir
com essa cultura.
Atualmente, a Caretada acontece somente nos povoados da periferia da cidade e
os seus membros participantes geralmente são formados por vizinhos, familiares ou até
mesmo por pessoas devotas de São João. Estas apresentações geralmente ficam restritas
nas próprias ruas dos bairros, onde cantam e contagiam os respectivos moradores.
A partir desse pressuposto é que surgiu a necessidade de agir, isto é, de se fazer
algo que não seja só teórico, mas uma ação viável e prática para manter viva parte da
nossa identidade. O que se pode perceber é que grande parte da população mais jovem
da cidade não conhece a Caretada, nunca viu, nem sabem que ela representa uma im-
portantíssima manifestação cultural local.
É fato que, quanto mais conhecemos, mais valorizamos nossa identidade, nossas
memórias e nossa cultura e esse conhecimento pode ser adquirido de várias formas: pe-
la internet, livros, filmes, relatos e até mesmo de diálogos entre as pessoas no dia-a-dia.
São os elementos embutidos nesse diálogo é que vão dando significados e moldando a
cultura popular.
Geralmente, Cultura Popular é entendida como um processo de manifestações
folclóricas e culturais de um povo, algo que remeta as tradições e costumes de deter-
minado lugar. Eis então os motivos para se buscar entender a Caretada como uma rica
expressão popular local. Pedroso (l999, p.32), enfatiza a importância de se preservar
nossas raízes e afirma que. “Um povo que não tem raízes acaba se perdendo no meio
da multidão. São exatamente nossas raízes culturais, familiares, sociais, que nos distin-
guem dos demais e nos dão uma identidade de povo, de nação”.
Entre outros fatores, esse desconhecimento pode ocorrer pela perda de identida-
de, porque a cultura está perdendo espaço para a tecnologia, ou por medo da violência
em sair de casa. Esse modelo de manifestação cultural muitas vezes era vista como uma
forma das pessoas se encontrarem e comunicarem. Hoje a internet cumpre esse papel,
você não precisa mais sair de casa para se comunicar.
A falta de segurança é um dos motivadores para a diminuição da participação
das pessoas em eventos sociais e culturais. Há uma tendência de ficarmos reféns do
medo. Com isso, saímos menos desse reduto e vamos perdendo aos poucos, nossa liber-
dade, nossos ritos, crenças, costumes, isto é, nossa identidade. A Caretada é uma dança
dinâmica que recebe e incorpora novos elementos e já se percebe mudanças em sua
prática, por isso a importância desse estudo para preservar sua história é muito grande.
Sobre isso Grando nos esclarece,

O processo de transformação das festas expressa também mudanças nas


relações entre capital e trabalho, nos meios de comunicação de massa e
nas inúmeras formas de negação de suas identidades que o processo de

216
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

globalização e padronização da cultura de consumo lhes impõem. Inclu-


sive com novos padrões religiosos que [...] obrigam a negação das identi-
dades coletivas e desqualificam de todos os elementos que os identificam
com a cultura tradicional, cujas raízes são familiares e comunitárias, para
produzir-se com uma nova identidade. (GRANDO, 2007, p. 23).

Enfim, se a população não tem conhecimento sobre suas manifestações cultu-


rais, como poderão lhe atribuir algum valor? E sem valorizar, consequentemente essa
manifestação cultural irá aos poucos se perder. A intenção dessa pesquisa vai além do
estudo dos aspectos sociais, divinos e simbólicos da Caretada, o que se pretende aqui
é buscar formas de conhecer para valorizar e tentar perpetuar a Caretada em Paracatu.
A resposta à prática a ser efetivada, seria a elaboração de um material paradidá-
tico no formato de Cartilha informativa apresentando a Caretada num formato mais
lúdico, mostrando como e onde ela acontece, quem são os envolvidos, qual o papel dos
participantes, a importância para os envolvidos, sempre ressaltando a relevância dessa
dança mostrando que ela representa um símbolo de uma luta, de resistência contra
nossos antepassados opressores.
A cartilha em um primeiro momento será realizada através de produção inde-
pendente. Iremos ofertar um número pequeno de exemplares que será oferecido para
professores, alunos e bibliotecas das escolas envolvidas. Posteriormente, pode se pensar
em parcerias com empresas da cidade para levantar uma quantidade maior de cartilhas
a serem distribuídas anualmente. Será aplicada inicialmente nas escolas municipais de
ensino fundamental II, existentes nos 3 povoados onde se pratica a dança: povoando
de São Domingos, no São Sebastião e na Lagoa. Futuramente poderá ser levada para as
outras escolas do município.

Justificativa e fundamentação do
trabalho
Realizar tal pesquisa, e junto a ela o material didático para ser utilizado por crian-
ças e jovens, vem ao encontro com um objetivo maior que é conhecer para valorizar e
perpetuar em Paracatu “cidade tombada como patrimônio cultural brasileiro”, a cultura
popular da Caretada que aos poucos vai se perdendo na imensidão de uma era digital.
Para o presente trabalho, foram realizadas seleção e leitura bibliográfica para
formalizar a conceituação teórica sobre a Caretada e para elaboração de uma cartilha
educativa e informativa.
Através das leituras feitas antes e durante o mestrado, buscamos embasamento
para irmos adiante com esse estudo que poderá contribuir não só para manter nossas

217
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

tradições, como também poderá auxiliar novas mentes pensantes e inquietas que futu-
ramente possam vir a ter interesse sobre tal assunto.
Para a confecção da cartilha serão realizadas pesquisas bibliográficas sobre cul-
tura popular, cultura local, tradição, caretagem, consciência histórica e como elaborar
material didático. As pesquisas serão realizadas na Rede Mundial de Computadores
(Internet), e em outras fontes como dissertações, resumos, resenhas, livros textos, livros
didáticos do ensino básico e artigos científicos.
A cartilha será elaborada em uma estrutura voltada para atender um público
heterogêneo, que inclui principalmente crianças e jovens com idades entre 11 e 12 anos.
Também atenderá a adultos de todas as faixas etárias, pertencentes a diferentes níveis
sociais de escolaridade que tenham interesse sobre o assunto. Para tal objetivo, o texto da
cartilha será apresentado em linguagem simples e de fácil entendimento e compreensão.

Elaboração do material didático


A necessidade em despertar o interesse das crianças e jovens para as manifes-
tações culturais locais especificamente sobre a Caretada é o que justifica a elaboração
da cartilha. Através da Cartilha, com seus textos, ilustrações, atividades e curiosidades
sobre a Caretada, esperamos atrair o interesse das crianças e jovens para essa cultura
local, ou pelos menos despertar o interesse em buscar conhecê-la, divulgá-la e quem
sabe avivar sua popularidade.
A Cartilha poderá ainda nos levar a refletir sobre nossa identidade e cultura a
partir dos saberes da dança como instrumento de comunicação e construção da iden-
tidade, porque transmite conhecimentos e traz visibilidade à cultura da comunidade.
Espera-se que com esse material didático sendo trabalhado ano após ano na esco-
la, os alunos adquiram um conhecimento mais aprofundado sobre o assunto, percebam a
importância dessa tradição e contribuam para a manutenção dessa prática tão importante.
O aproveitamento dos espaços, principalmente do espaço escolar é fundamental,
pois indica o que tem relevância para quem ocupa o lugar. Além disso, a escola está
num contexto de vulnerabilidade social. Nossos alunos precisam acreditar que podem
superar essa realidade.
Ao estudar sobre a Caretada, como parte integrante do conteúdo curricular, é
possível conhecer a contribuição do negro para a nossa cultura, desconstruir noções
de categoria racial e estabelecer relações mais saudáveis, necessárias nas escolas. No
mundo atual onde pessoas se manifestam de forma tão distinta e plural, o respeito à
particularidade e a tolerância de cada indivíduo torna-se fator de extrema importância.
O material didático será feito para subsidiar os trabalhos dos professores junto
aos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental II, que utilizando aspectos mais lú-

218
100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: capitalismo e socialismo no século XXI

dicos como brincadeiras, ilustrações e jogos para ensinar temas transversais, tornam-se
dessa forma, mais interessantes e eficientes, pois contribuirão para uma maior fixação
da aprendizagem. Dessa forma espera-se que mesmo vivendo em uma era digital, e
sabendo que a implementação do material na escola será um processo moroso, consi-
gamos fazer com que as crianças que carregam consigo o futuro do país, entendam a
relevante missão de levar adiante a cultura da Caretada em nosso município.
O presente trabalho constitui-se em um recorte de uma dissertação que está sen-
do escrita como trabalho final do mestrado em História que cursamos na Universidade
Federal de Goiás/RC e esse relatório foi proposto como trabalho final da disciplina:
Ensino de História e Diversidades. Dentro da proposta devemos fazer um relatório des-
critivo do material didático que iremos anexar à dissertação final que iremos apresentar.
A confecção do material didático (em andamento) demandará um tempo maior para
estudo, pesquisa, revisão e confecção gráfica, por esse motivo apresentamos aqui so-
mente um esboço do formato que será realizado, mostrando de forma bem simplificada
a estruturação da cartilha que está em construção.

Considerações finais
Através desse trabalho, que objetiva levar entendimento, apreensão e formação
da consciência histórica às crianças e jovens que farão uso do material paradidático,
espera-se que, além de tentar perpetuar a tradição da caretada na cidade, esse estudo
contribuirá para a formação dos envolvidos, quanto à compreensão de suas origens e
ainda fazer com que eles repensem seus valores, que hoje estão descaracterizados pela
moderna tecnologia. Dessa forma, viver a prática da Caretada poderá incentivar o sur-
gimento de novos aprendizes que perpetuarão a sua prática.
Sabemos que a mudança não acontecerá da noite para o dia, o processo é lento,
porem se nada for feito nenhuma mudança ocorrerá. A intenção desse estudo e da con-
fecção da cartilha nada mais é que uma demonstração de resistência em manter viva
nossa memória coletiva, e uma tentativa em preservar nosso passado e investir no futuro.

Referências
BITTENCOURT, Circe. Livros didáticos de história: práticas e formação docente. In:
SANTOS, Lucíola L. C. P. et al. (Org.). Convergências e tensões no campo da formação e
do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010, pp. 544-563.

CARVALHO. R.E. Educação Inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre. Media-
ção, 2004.

CERTEAU, Michel de. A Cultura no Plural. Campinas – São Paulo. Papirus, 1995.

219
Anais do XIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA e VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS

FISCARELLI, Rosilene Batista de Oliveira. Material Didático: discursos e saberes. Ara-


raquara, SP: Junqueira & Marin, 2008.

GRANDO, Beleni Salete. Cultura e Dança em Mato Grosso: Catira, Curussé, Folia de
Reis, Siriri, Cururu, São Gonçalo, Rasqueado e Dança Cabocla na Região de Cáceres.
Cuiabá-MT: Central do Texto; Cáceres: Unemat Editora, 2005.

PEDROSO, S. F. A carta cultural compartilhada: a passagem para a interculturalidade


no ensino de português língua estrangeira. Instituto de Estudos da Linguagem da Uni-
versidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Campinas, p. 32.1999.

TURNER, J. H. Sociologia Conceitos e Aplicações. São Paulo: Ed Markon, p.46. 2007.

220
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pela Editora Bonecker e impresso em papel offset 75 g/m².
O conjunto de textos ora publicados constituem uma seleção de pesqui-
sas apresentadas nos diversos Grupos de Trabalhos do XIII SIMPÓSIO
NACIONAL DE HISTÓRIA - VIII SIMPÓSIO NACIONAL DE CI-
ÊNCIAS SOCIAIS na Universidade Federal de Goiás/ Regional Ca-
talão. Este evento foi organizado em parceria entre os Cursos de
História e Ciências Sociais da UFG/RC e do Programa de Pós-
-Graduação Mestrado Profissional em História com o apoio
da FAPEG.

O presente volume apresenta uma gama de


trabalhos selecionados - em andamento ou fi-
nalizados de graduação e pós-graduação - com
múltiplas abordagens em pesquisas que visam in-
vestigar e contribuir com as questões relacionados
a realidade histórica, gênero, religião, cultura, racis-
mo, feminismo, política, ditaduras educação, colonia-
lidades, entre outros.