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A Interpretação das Escrituras

A. W. Pink
______________________________________
Traduzido do original em Inglês
Interpretation of the Scriptures
By A. W. Pink
Via: PBMinistries.org
(Providence Baptist Ministries)
OEstandarteDeCristo.com © 2016
Tradução por William Teixeira, Camila Rebeca Almeida e Cesare
Turazzi
Revisão por William Teixeira e Camila Almeida
Edição e Capa por William Teixeira
1ª Edição em Português: Setembro de 2016
As citações bíblicas nesta tradução são da versão Almeida
Corrigida Fiel | ACF Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011
Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.
______________________________________
Agradecimentos
Nós editores do EC, William e Camila, queremos aproveitar a
ocasião para externar os nossos mais sinceros agradecimentos a...

Silas e Andrea Croce, um casal abençoado, que por seu amor e


generosidade, tem aberto a sua casa e seus corações para nós e nos
ajudado em tudo nas horas que mais precisamos.
Victor Corradi, generoso apoiador de nosso trabalho de
traduções, cuja ajuda em tempo oportuno manifestou o inefável
amor e cuidado de Deus por nós.
Josué Sakurai, um homem bíblico, cujo temor a Deus e
notória reverência à Sua Palavra nos encorajam a estudar a sã
doutrina e viver piedosamente.
Cesare Turazzi, abnegado irmão em Cristo, que de boa
vontade foi nosso cooperador nesta tradução e em outros trabalhos
para nosso Deus.
Louvamos e glorificamos ao nosso Deus por todos vocês, amados
irmãos, e oramos que vocês cresçam, cada vez mais, na graça e no
conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém!
Sumário
Prefácio

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Prefácio
“As Sagradas Escrituras são a única, suficiente, correta e
infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos”.
[1]
Esta frase é o grande prefácio e fundamento de toda a
Confissão Batista. Uma compressão correta desta gloriosa
afirmação determinará a piedade e veracidade da nossa fé e vida
Cristãs.
Deus nos deu um Livro de Livros, obviamente Ele queria que
o lêssemos, entendêssemos e praticássemos o que entendemos.
Devido a isso os Cristãos deveriam amar a leitura e estar entre os
melhores leitores. Mas quão diferente é a nossa realidade! O
“Cristão comum” dos nossos dias entende pouco ou quase nada de
Bíblia, não gosta de ler, frequentemente não consegue
compreender o que lê, é um péssimo leitor. Irmãos, não convém
que isso seja assim! Precisamos nos arrepender e mudar.
Urgentemente!
Há em nossa geração, como houve em todas as outras
passadas, uma ignorância geral a respeito do verdadeiro ensino das
Escrituras, de sua verdadeira interpretação. Isso é explicado, pelo
menos em parte, pelo grande desinteresse e negligência, mesmo
daqueles que se dizem Cristãos, em saber a interpretação correta
daquilo que “está escrito”. Porque levaríamos a Palavra de Deus a
sério se não levamos o próprio Deus a sério? A nossa atitude para
com a Palavra de Deus revela muito da nossa atitude para com o
próprio Deus.
Assim como a doutrina é segundo a piedade, a piedade é
segundo a doutrina bíblica. Sem um conhecimento bíblico
verdadeiro é impossível sermos Cristãos verdadeiros. Eu não
posso ser Cristão, se não conheço as “sãs palavras de nosso
Senhor Jesus Cristo” (1 Timóteo 6:3).
Por outro lado, “muitos podem ter um conhecimento geral da
Bíblia, porém há uma grande falta no que diz respeito à capacidade
de raciocinar a partir das Escrituras de uma forma
doutrinariamente consistente. Nós devemos conhecer a Bíblia
doutrinariamente e devemos conhecer nossa doutrina
biblicamente. A menos que cheguemos a um conhecimento
doutrinário consistente das Escrituras, o nosso conhecimento da
[2]
Palavra de Deus é tanto deficiente quanto defeituoso”.
Diante deste triste cenário nada podemos fazer senão nos
juntarmos ao profeta Isaías em seu clamor: “À lei e ao
testemunho!” (8:20), voltemos às Escrituras Sagradas, voltemos à
pura Palavra de Deus! Mas somente ter as Escrituras nas mãos não
é suficiente, é preciso saber interpretá-las, e corretamente! E para
isto esta obra magistral será de grande utilidade para o leitor ávido
por saber o real significado do que “está escrito”, para aquele que
diante das Escrituras abertas diz sinceramente em seu coração:
“Fala, Senhor, porque o teu servo ouve!” (1 Samuel 3:9). O autor
dispensa apresentações, é provavelmente o melhor exegeta do
século XX. Quem está familiarizado com seus escritos sabe que as
obras do amado A.W. Pink são marcadas por profundo apego à
Palavra de Deus e fidelidade às Sagradas Letras. O autor é um
exemplo vivo da doutrina que aqui ensina de forma
maravilhosamente bíblica.
Havendo traduzido, revisado, lido e meditando sobre a obra,
considero-me capaz de afirmar que dificilmente encontraremos
debaixo do céu — para usar as palavras do autor — um “tratado
sobre hermenêutica”, tão bíblico e completo, tão profundo e ao
mesmo tempo tão prático. Deixemos que o próprio autor fale sobre
sua obra:
Nestes capítulos temos nos esforçado para colocar diante de
nossos leitores quais as regras que temos usado há muito
tempo em nosso próprio estudo da Palavra. Elas foram
projetadas mais especialmente para os jovens pregadores, nós
não poupamos esforços para torná-los tão lúcidos e completos
quanto possível, colocando em suas mãos esses princípios de
exegese que nos eram de grande proveito.
Se você é um pregador jovem, como eu, certamente receberá
uma valiosíssima ajuda para desenvolver seu ministério de
pregação da Palavra; visto que se requer dos despenseiros que
cada um se ache fiel, as regras de Interpretação das Escrituras aqui
propostas lhe ajudarão a apresentar-te a Deus aprovado, como
obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a
palavra da verdade (1 Coríntios 4:2; 2 Timóteo 2:15).
Finalmente permitam-me compartilhar com vocês um
conselho que recebi de um senhor norte-irlandês muito sábio cujo
falar inspira temor reverente. Estávamos falando sobre pregação e
pregadores, ele me disse: “William, o grande pregador não é aquele
que conhece a Bíblia de capa a capa. O grande pregador não é
aquele que domina a Palavra de Deus, mas aquele que é dominado
pela Palavra de Deus!”.
Que sejamos dominados pela Palavra de nosso Deus! Para a
glória de Deus! Amém!
Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível,
Ao único Deus sábio, Salvador nosso — Pai, Filho e Espírito,
Seja glória e majestade, domínio e poder,
Agora, e para todo o sempre. Amém e Amém!

William Teixeira,
11 de setembro de 2016.
Capítulo 1
________________________________________

O homem é notoriamente uma criatura de extremos, e em


nenhum lugar esse fato se faz mais evidente do que na atitude
tomada por aqueles que diferem quanto a esse assunto.
Considerando que alguns têm afirmado que a Bíblia está escrita em
uma linguagem tão simples que não exige nenhuma explicação, um
número muito maior suportou os papistas buscando persuadi-los
de que seu conteúdo é tão acima do alcance do intelecto natural,
que seus assuntos são profundos e elevados, que a sua linguagem
é tão obscura e ambígua que o homem comum é totalmente
incapaz de compreendê-la por seus próprios esforços, e, portanto,
é um ato de sabedoria de sua parte trazer suas conclusões ao
julgamento da “santa mãe igreja”, que descaradamente afirma ser o
único intérprete divinamente autorizado e qualificado dos oráculos
de Deus. É

assim que o Papado retém a Palavra de Deus dos


leigos e impõe seus próprios dogmas e superstições
aos mesmos. A maior parte dos leigos está muito
contente que isto seja assim, pois dessa forma eles
sentem-se livres da obrigação de examinarem as
Escrituras por si mesmos. O caso também não é
muito melhor com muitos protestantes, pois na
maioria dos casos são muito indolentes por eles
mesmos, e apenas acreditam no que ouvem nos
púlpitos.
A principal passagem invocada pelos Romanistas, em uma
tentativa de reforçar a sua argumentação perniciosa de que a Bíblia
é um livro perigoso — por causa de sua suposta obscuridade — se
posto nas mãos das pessoas comuns é 2 Pedro 3:15-16. É nessa
passagem que o Espírito Santo nos disse que o apóstolo Paulo, de
acordo com a sabedoria dada a ele, falou em suas epístolas de
“pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes
torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria
perdição” (2 Pedro 3:16). Mas, como Calvino há muito tempo
apontou, “não somos proibidos de ler as epístolas de Paulo, pelo
fato delas conterem algumas coisas difíceis de entender, pelo
contrário, elas são recomendadas para nós, pois podem nos
proporcionar uma mente serena e ensinável”. Deve-se notar
também nesse verso que há “pontos” e não que há “muitos
pontos”, e que eles são “difíceis de entender” e não “impossíveis
de serem entendidos”! Além disso, a obscuridade não está neles,
mas na depravação da nossa natureza que resiste às exigências da
parte de Deus e no orgulho de nossos corações, que despreza a
busca da iluminação provinda de Deus. O termo “indoutos” aqui
se refere não ao analfabetismo, mas ao ser ignorante a respeito de
Deus; e “inconstantes” são aqueles que não possuem nenhuma
convicção, os quais, como cata-ventos, viram-se à medida que um
vento de doutrina sopra sobre eles.
Por outro lado, existem algumas almas mal orientadas que
suportam que o pêndulo seja movido para o extremo oposto,
negando que as Escrituras precisam de qualquer interpretação. Eles
asseveram que elas foram escritas para as almas simples, e que elas
dizem o que

significam e significam o que elas dizem. Eles


insistem que é necessário crer na Bíblia, e não a
explicar. Todavia, é errado colocar essas coisas em
oposição uma à outra: ambas são necessárias. Deus
não requer de nós uma fé cega, mas uma fé
inteligente, e por isso três coisas são indispensáveis:
que a Sua Palavra deva ser lida (ou ouvida),
compreendida e que nos apropriemos dela

pessoalmente. Ninguém menos que o próprio Cristo


exortou: “Quem lê, entenda”

(Mateus 24:15) — a mente deve ser exercitada


sobre o que é lido. Que uma certa quantidade de
compreensão é imperativa é mais claramente
mostrado na parábola de nosso Senhor acerca do
semeador e da semente: “Ouvindo alguém a palavra
do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e
arrebata o que foi semeado no seu coração... Mas, o
que foi semeado em boa terra é o que ouve e
compreende a palavra” (Mateus 13:19,23). Então
não poupemos nenhum esforço para chegarmos ao
significado do que lemos, pois que uso podemos
fazer do que é ininteligível para nós?
Outros tomam a posição de que o único intérprete que eles
precisam, o único que é adequado para essa tarefa, é o Espírito
Santo. Eles citam: “E vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas
as coisas... E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não
tendes

necessidade de que alguém vos ensine” (1 João


2:20,27). Declarar que eu não preciso de ninguém,
senão do Espírito Santo para me ensinar pode soar
muito honroso a Ele, mas isso é de fato verdade?
Todas as afirmações humanas devem ser testadas,
pois nada deve ser dado como certo à medida que as
coisas espirituais estão em causa. Nós respondemos
que essa posição não é honrosa ao Espírito Santo,
caso contrário, Cristo teria agido inutilmente ao dar
“pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento
dos santos, para a obra do ministério”

(Efésios 4:11-12). Devemos sempre ter em mente


que há um passo muito curto entre confiar em Deus
e tentá-lO, entre a fé e a presunção (Mateus 4:6-7).
Também não devemos esquecer qual é o método
comum e usual que Deus usa para suprir as
necessidades de Suas criaturas, a saber, de forma
mediada e não imediatamente, por causas
secundárias e por agentes humanos. Isso diz respeito
tanto ao reino espiritual quanto ao natural. Aprouve
a Deus dar a Seu povo instrutores capacitados, e em
vez de ignorá-los com altivez devemos (após
testarmos o seu ensino – Atos 17:11) aceitar com
gratidão qualquer auxílio que eles

possam nos conceder.


Longe de nós escrevermos qualquer coisa que venha a
desencorajar o jovem crente de reconhecer e perceber sua
dependência de Deus, e sua necessidade de estar constantemente
voltando-se para Ele em busca de sabedoria do alto, e isso
particularmente quando estiver engajado na leitura ou na
meditação sobre a Sua Santa Palavra. No entanto, ele deve ter em
mente que o Altíssimo não obriga a Si mesmo a responder às
nossas orações de qualquer maneira ou forma particular. Em
alguns casos, Ele tem o prazer de iluminar nosso entendimento
direta e imediatamente, porém mais frequentemente Ele nos
ilumina através da instrumentalidade de outros. Assim, Ele não
somente nos afasta individualmente do orgulho, mas também
honra aquilo que Ele mesmo institui, pois Ele nomeou homens
qualificados para “alimentar o rebanho” (1
Pedro 5:2), e para “lhes falar a palavra de Deus”; a
fé dos quais somos convidados a imitar (Hebreus
13:7). É verdade que, por um lado, Deus tem escrito
Sua Palavra como um caminho santo, de modo que
aquele que nele caminha, mesmo que seja um tolo,
não errará (Isaías 35:8); e ainda assim, por outro
lado, há “mistérios” e “as profundezas de Deus” (1
Coríntios 2:10); e enquanto há “leite” adequado aos
pequeninos há também “alimento sólido”, que
pertence apenas àqueles que são experientes
(Hebreus 5:13-14).
Retornemos agora do geral para o particular; permita-nos
evidenciar que existe uma real necessidade de

interpretação.
Em primeiro lugar, a fim de explicar as aparentes
[3]
contradições, tais como: “Tentou Deus a Abraão, e disse-lhe...
Toma agora o teu filho, o teu único filho... e oferece-o ali em
holocausto” (Gênesis 22:1-2 – tradução literal). Agora coloque ao
lado dessa declaração o testemunho de Tiago 1:13: “Ninguém,
sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode
ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”. Esses versos parecem
claramente contradizerem um ao outro, mas o crente sabe que esse
não é o caso, embora ele possa falhar em demonstrar que não há
inconsistência nas mesmas. É, portanto, o significado desses
versos que deve ser verificado. E isso não é muito difícil.
Claramente a palavra “tentar” não é usada no mesmo sentido em
ambas as passagens. A palavra “tentar” tem tanto um significado
primário quanto um secundário. Primariamente essa palavra
significa experimentar, provar, fazer teste. Em segundo lugar,
significa desencaminhar, seduzir ou incitar ao que é mal. Sem
sombra de dúvida, o termo é usado em Gênesis 22:1 em seu
sentido primário, pois mesmo que não houvesse ocorrido a
intervenção divina no último momento, Abraão não haveria
cometido nenhum pecado em matar Isaque, uma vez que Deus o
havia ordenada a fazê-lo.
Pela tentação do Senhor a Abraão nessa ocasião devemos
entender que Ele não buscava incitá-lo a fazer o que é mal como
Satanás faz, mas sim que Ele provou a lealdade do patriarca,
dando-lhe a oportunidade de mostrar o seu temor, sua fé e seu
amor para com Ele. Quando Satanás tenta, ele coloca uma sedução
diante de nós com o objetivo de nos levar à ruína; mas quando
Deus nos tenta ou prova, Ele tem Seu coração o nosso bem-estar.
Toda provação é, portanto, uma tentação, pois ela serve para
manifestar a disposição predominante do coração — seja sagrada
ou profana.

Cristo foi “em tudo foi tentado, mas sem (habitação)


pecado” (Hebreus 4:15).

Sua tentação era real, mas não houve conflito dentro


dEle (como há em nós) entre o bem e o mal — Sua
santidade inerente repeliu as ímpias sugestões de
Satanás como a água repele fogo. Devemos “tende
grande gozo quando cairdes em várias tentações” ou
“em várias provações” [Cf. Tiago 1:2], uma vez que
essas são meios para mortificar nossas
concupiscências, testes de nossa obediência e
oportunidades para provar a suficiência da graça de
Deus. Obviamente que não somos chamados a ter
grande gozo nos estímulos ao pecado em si!
Outrossim, “O Senhor está longe dos ímpios” (Provérbios
15:29), e ainda em Atos 17:27, somos informados de que Ele “não
está longe de cada um de nós” — essas palavras foram dirigidas a
um público pagão! Essas duas declarações parecem se contradizer,
sim, e a menos que elas sejam interpretadas, de fato elas se
contradizem. Deve-se, então, verificar em que sentido Deus “está
longe” e em que sentido Ele “não está longe” dos ímpios — isto é
o que quero dizer por “interpretação”.

Uma distinção deve ser feita entre a presença


poderosa ou providencial de Deus e Sua presença
favorável. No que diz respeito à Sua essência
espiritual ou onipresença Deus está sempre perto de
todas as Suas criaturas (pois Ele “enche os céus e a
terra” – Jeremias 23:24) sustentando as suas
existências,

conservando suas almas em vida (Salmos 64:9),


concedendo-lhes as misericórdias de Sua
providência. Mas desde que os maus estão longe de
Deus em suas afeições (Salmos 73:27), dizendo em
seus corações: “Retira-te de nós; porque não
desejamos ter conhecimento dos teus caminhos” (Jó
21:14), desse modo a Sua presença graciosa está
longe deles: Ele não Se manifestará a eles, nem tem
comunhão com eles, nem ouve suas orações (“ao
soberbo conhece-o de longe” – Salmos 138:6), nem
lhes socorrerá no momento da sua necessidade, e
ainda vai ordenar-lhes: “Apartai-vos de mim,
malditos” (Mateus 25:41). Em relação àqueles a
quem o justo Deus está graciosamente perto, está
escrito: “Perto está o Senhor dos que têm o coração
quebrantado, e salva os contritos de espírito.

Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de


todos os que o invocam em verdade” (Salmos
34:18, 145:18).
Vejamos mais um exemplo:

“Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho


não é verdadeiro” e “Ainda que eu testifico de mim
mesmo, o meu testemunho é verdadeiro” (João
5:31, 8:14).

Outro par de opostos! No entanto, não há nenhum


conflito entre essas passagens quando corretamente
interpretadas. Em João 5:17-31, Cristo estava
declarando sete vezes Sua igualdade com o Pai: pela
primeira vez em serviço, em seguida, na vontade. O
verso 19 significa que Ele não poderia fazer nada
que fosse contrário ao Pai, pois Eles eram de
perfeito acordo (veja v. 30). Da mesma forma, Ele
não podia dar testemunho de Si mesmo
independentemente do Pai, pois isso seria um ato de
insubordinação. Em vez disso, Seu próprio
testemunho estava em perfeito acordo com isso — o
próprio Pai (v. 37) e as Escrituras (v. 39), davam
testemunho de Sua Divindade absoluta. Mas em
João 8:13-14, Cristo estava dando uma resposta
direta aos fariseus, os quais disseram que seu
testemunho era falso. Isso Ele negou enfaticamente,
e apelou novamente para o testemunho do Pai (v.
18). Agora, vemos um último exemplo: “Eu e o Pai
somos um” e “Meu Pai é maior do que eu” (João
10:30, 14:28). Na primeira passagem, Cristo estava
falando de Si mesmo de acordo com o Seu ser
essencial; na última, Cristo se referia ao Seu caráter
de mediação ou posição oficial.
Em segundo lugar, a

interpretação é necessária para evitar sermos


enganados pelo mero som das palavras.
Muitíssimos têm formado concepções erradas da
língua utilizada em diferentes versos por causa de
sua incapacidade de compreender seu sentido.

Para muitos, parece algo ímpio dar um significado


diferente a um termo além daquele que parece ser
seu significado óbvio; e mais, uma advertência

suficiente contra isso deve ser dada no caso daqueles


que tão fanática e teimosamente se apegam às
Palavras de Cristo: “este [pão ázimo] é o meu
corpo”, a ponto de recusarem-se a permitir que essa
expressão deva significar: “isto representa o meu
corpo” — Caso semelhante aparece em: “os sete
castiçais, que viste, são [ou seja, simbolizar] as sete
igrejas” (Apocalipse 1:20). Essa advertência
estende-se ainda ao erro do Universalismo, o qual se
baseia em termos

indefinidos e lhes dar um significado ilimitado. O


Arminianismo erra no mesmo sentido. “Para que,
pela graça de Deus, provasse a morte por todos”

(Hebreus 2:9), aqui Caim, Faraó e Judas não devem


ser incluídos na expressão “todo homem”. Essa
expressão deve ser entendida à luz de Lucas 16:16;
Romanos 12:3 e 1 Coríntios 4:5; e a expressão
“todos os homens” que aparece em 1

Timóteo 2:4-6, não deve ser entendida no sentido de


todos sem exceção, mais do que quando expressões
semelhantes aparecem em Lucas 3:15; João 3:26 e
Atos 22:15.
“Noé era homem justo e

perfeito em suas gerações” (Gênesis 6:9). De Jó,


também, diz-se que ele era “perfeito e reto” (1:1 –
trad. lit.). Quantos se deixaram ser enganados pelo
som dessas palavras. Quantos conceitos falsos têm
sido formados acerca de seu próprio significado!
Aqueles que acreditam no que eles denominam “a
segunda bênção” ou a “inteira santificação”
consideram que essas passagens confirmam a sua
afirmação de que a perfeição e a completa ausência
de pecado é atingível nessa vida. No entanto, um
erro tal como esse é muito indesculpável, pelo fato
de que o que está escrito em seguida mostra
claramente que esses homens estavam muito longe
de serem sem defeito moral: um embriagou-se e o
outro amaldiçoou o dia do seu nascimento. A
palavra “perfeito” na passagem em questão e em
passagens semelhantes significa “honesto, sincero”,
que se opõe à hipocrisia. “Todavia falamos
sabedoria entre os perfeitos” (1 Coríntios 2:6). Em
Filipenses 3:15, a palavra “perfeito” significa
“maduro” como distinto de infantil — o mesmo
acontece com outra ocorrência de “perfeitos” em
Hebreus 5:14.
“Eu vou fazer bebido seus

príncipes, e os seus sábios... e dormirão um sono


perpétuo, e jamais acordarão, diz o Rei, cujo nome
é o Senhor dos Exércitos” (Jeremias 51:57).
Essas palavras são citadas por materialistas
grosseiros, que acreditam na aniquilação das almas
dos ímpios. Eles não precisam que nos detenhamos
por muito tempo, pois a linguagem é claramente
figurativa. Deus estava prestes a executar o juízo
sobre o orgulho da Babilônia, e como um fato
histórico a cidade forte foi capturada enquanto o seu
rei e seus cortesãos estavam bêbados, sendo mortos,
de modo que eles não mais acordaram na Terra.
Que “sono eterno” não pode ser entendido
literalmente é absolutamente evidente a partir de
outras passagens que anunciam expressamente a
ressurreição dos ímpios – Daniel 12:2; João 6:29.
“Não viu iniquidade em

Israel, nem contemplou maldade em Jacó”


(Números 23:21). Muitas vezes essas palavras têm
sido consideradas separadamente, sem qualquer
relação com o seu contexto. Elas constituíam uma
parte da explicação de Balaão a Balaque, do motivo
pelo qual ele não podia amaldiçoar a Israel para que
esse fosse
exterminado pelos midianitas. Tal linguagem não
significa que Israel estava em um estado sem
pecado, mas que até então eram livres de qualquer
rebelião aberta ou apostasia contra Yahwéh. Eles
não haviam sido culpados de qualquer crime
hediondo como idolatria. Eles haviam se portado de
modo a não serem

considerados merecedores de maldições e


extermínio. Mas depois, o Senhor viu
“perversidade” em Israel, e entregou a Babilônia
para executar Seu julgamento sobre ele (Isaías 10).
É injustificável aplicar essa declaração em relação à
Igreja de modo absoluto, pois Deus “vê iniquidade”
em Seus filhos, como Sua vara de correção
demonstra; embora Ele não o impute para
condenação penal.
Em terceiro lugar, a

interpretação é necessária para a inserção de uma


palavra explicativa em algumas passagens. Assim:
“Tu és tão puro de olhos, que não podes ver
[aprovar]
o mal, e a opressão não podes [indulgentemente]
contemplar” (Habacuque 1:13).

Alguns termos de qualificação como esses são


necessários, caso contrário, devemos considerá-los
como contradizendo passagens como: “Os olhos do
Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus
e os bons” (Provérbios 15:3). Deus nunca
contempla o mal com indulgência, mas Ele o faz
para castigá-lo. Mais uma vez. “Quem tem resistido
à sua vontade [segredo ou decretiva]?” (Romanos
9:19); “nem fez conforme a sua vontade [revelada
ou preceptiva]” (Lucas 12:47) — a menos que
sejam feitas essas distinções a Escritura iria
contradizer a si mesma. Novamente: “Bem-
aventurados os que [evangelicamente, isto é, com
desejo e esforço genuínos] guardam os seus
testemunhos” (Salmos 119:2), pois ninguém é capaz
guardar os testemunhos de Deus de acordo com o
estrito rigor da Sua Lei.
Para concluir nossos

exemplos acerca da necessidade de interpretação


vamos citar um verso muito familiar e simples:
“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e
eternamente”

(Hebreus 13:8). Será que isso “quer dizer o que


significa?”. Certamente, diz o leitor; e o escritor
concorda de coração. Mas você tem certeza de que
realmente entende o significado do que é dito?
Cristo não sofreu nenhuma mudança desde os dias
da Sua carne? Ele é absolutamente o mesmo que foi
ontem? Ele ainda experimenta fome, sede e cansaço
corporais? Ele ainda está na “forma de servo”, em
um estado de humilhação, ainda é “o homem das
dores”?

Obviamente, a interpretação torna-se aqui


necessária, pois deve haver um sentido em que Ele
ainda permanece “o mesmo”. Ele é imutável em Sua
pessoa essencial, no exercício de Seu ofício de
Mediador, em Sua relação e atitude para com Sua
Igreja — Ele a ama com um amor eterno. Contudo,
Ele mudou em Sua humanidade, por que essa foi
glorificada; e também mudou em relação à posição
que Ele ocupa agora (Mateus 28:18; Atos 2:36).
Assim, os versos mais

conhecidos e mais elementares exigem um exame


cuidadoso e meditação com oração, a fim de que
cheguemos ao verdadeiro significado de seus
termos.
Capítulo 2
________________________________________

No capítulo anterior procuramos mostrar a necessidade da


interpretação, nesse buscaremos determinar a importância do que
se entende por cada frase da Sagrada Escritura. O que Deus disse
para nós é de inestimável importância e valor, contudo, que
proveito podemos tirar disso, a menos que o seu significado seja
claro para nós? O Espírito Santo nos deu mais do que uma
sugestão disto quando Ele explicou o significado de certas
palavras. Assim, no primeiro capítulo do Novo Testamento se diz
de Cristo: “E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que
traduzido é: Deus conosco” (Mateus 1:23). E, novamente:
“Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)” (João 1:41).
Outrossim: “E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por
lugar da Caveira” (Marcos 15:22). Mais uma vez: “Porque este
Melquisedeque, que era rei de Salém primeiramente é, por
interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é
rei de paz” (Hebreus 7:1-2). Essas expressões deixam claro que é
essencial que devemos compreender o sentido de cada palavra
usada nas Escrituras. A Palavra de Deus é composta de palavras,
ainda que essas não transmitam nada para nós enquanto
permanecem

ininteligíveis. Assim, determinar precisamente a


importância do que lemos deve ser a nossa primeira
preocupação.
Antes de estabelecermos algumas das regras a serem
observadas e os princípios a serem utilizados na interpretação da
Escritura, gostaríamos de salientar várias coisas que necessitam ser
encontradas naqueles que desejam ser intérpretes das Escrituras.
Boas ferramentas são realmente indispensáveis para um bom
trabalho, mas mesmo as melhores ferramentas possuem pouco
proveito nas mãos de alguém que não é qualificado para usá-las.
Métodos de estudo da Bíblia possuem apenas uma importância
relativa; mas o espírito com que se estuda as Escrituras é
totalmente importante. Não precisamos fazer nenhuma
argumentação para provar que um livro espiritual exige um leitor
de mente espiritual, pois “o homem natural não compreende as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não
pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1

Coríntios 2:14). A Palavra de Deus é uma revelação


de coisas que dizem respeito aos nossos mais altos
interesses e bem-estar eterno, e ela exige uma
aceitação implícita e cordial. Algo mais do que a
formação intelectual é necessária: o coração e a
cabeça devem ser retificados. Somente onde há
honestidade de alma e espiritualidade de coração
haverá clareza de visão para perceber a Verdade; só
então a mente será capaz de discernir a importância
completa do que é lido, e entender não somente o
significado literal de suas palavras, mas também os
sentimentos que elas foram projetadas para
transmitir, e qual é a maneira adequada de reagir a
essas percepções.
Vamos repetir aqui o que escrevi em Studies in the Scriptures
há vinte anos atrás: “Há uma séria razão para acreditar que muito
da leitura e do estudo da Bíblia dos últimos anos tem sido
espiritualmente inútil para as pessoas envolvidas nele. Sim, nós
vamos mais longe: tememos muito que, em muitos casos, isso tem
se mostrado mais uma maldição do que uma bênção. Essa é uma
linguagem forte, estamos bem conscientes disso, mas não é mais
forte do que aquela que o caso exige. Os dons de Deus podem ser
usados indevidamente e misericórdias divinas podem ser

abusadas. Que isto tem acontecido assim no


presente caso é evidenciado pelos frutos produzidos.
Mesmo o homem natural pode se dedicar (e muitas
vezes se dedica) ao estudo das Escrituras com o
mesmo entusiasmo e prazer com que se dedicaria a
um estudo das ciências. Quando este for o caso, a
quantidade de conhecimento que obtém é maior, e
assim também é o seu orgulho. Como um químico
envolvido na realização de experiências
interessantes, o pesquisador intelectual da Palavra
fica muito eufórico quando ele faz uma nova
descoberta, mas a alegria deste último não é mais
espiritual do que a do primeiro. Assim como o
sucesso do químico geralmente aumenta seu senso
de autoestima e faz com que ele menospreze aqueles
que são mais ignorantes do que ele próprio, como,
infelizmente, tem sido o caso daqueles que estudam
os números, as tipologias e as profecias encontrados
na Bíblia...”.
Uma vez que a imaginação do homem, como todas as outras
faculdades do seu ser moral, é permeada e viciada pelo pecado, as
ideias que ela sugere, mesmo quando ponderando sobre os
oráculos divinos, são propensas a serem enganosas e corruptas. O
fato de sermos incapazes, por nós mesmos, de interpretar a Palavra
de Deus corretamente revela parte da enfermidade que nosso
pecado trouxe sobre nós; mas é parte do ofício gracioso do
Espírito Santo guiar os crentes à verdade, e lhes permitir apreender
as Escrituras. Essa é uma operação distinta e especial do Espírito
nas mentes do povo de Deus, na qual Ele comunica sabedoria
espiritual e luz a eles, pois essas coisas são necessárias para um
correto entendimento da mente de Deus em Sua Palavra, e também
para que haja um apropriar-se das coisas celestiais que nela se
encontram. Pela expressão “uma operação distinta”, queremos
dizer algo ab extra ou para além de Seu trabalho inicial de
vivificação; porquanto é um fato abençoado que na regeneração
Ele “nos deu entendimento para que conheçamos ao Verdadeiro”
(1 João 5:20), mas é preciso mais para que possamos “conhecer o
que nos é dado gratuitamente por Deus” (1 Coríntios 2:12). Isto é
evidente a partir do caso dos apóstolos, pois acompanharam e
conversaram com Cristo pelo período de três anos, no entanto,
somos informados que em uma data posterior: “Então abriu-lhes o
entendimento para compreenderem as Escrituras”

(Lucas 24:45).
Como o que já foi aludido deve impressionar o Cristão a
respeito da necessidade de santo cuidado ao ler a Palavra, para que
ele não extraia conteúdos para o seu próprio prejuízo! Como isso
deve humilhá-lo diante do autor das Escrituras e fazê-lo perceber
sua total dependência dEle! Se o novo nascimento fosse suficiente
por si só para capacitar o crente a compreender as coisas divinas, o
apóstolo nunca pediria, em relação aos santos de Colossos, para
que eles fossem “cheios do conhecimento da sua vontade [de
Deus], em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (1:9), nem que
ele teria dito a seu filho na fé, “Considera o que digo, e o Senhor te
dê entendimento em tudo” (2 Timóteo 2:7). Nunca houve uma
noção mais tola nem uma ideia mais perniciosa foi entretida do
que aquelas que sustentam que os santos mistérios do Evangelho
de certo modo encontram-se dentro dos limites da razão humana e
que podem ser conhecidos de forma proveitoso e prática sem a
ajuda eficaz do bendito Espírito da Verdade. Não estou dizendo
que o Espírito Santo nos instrui de qualquer outra forma que não
por e através de nossa razão e compreensão, pois de outro modo
seríamos reduzidos ao nível de criaturas irracionais; mas me refiro
ao fato de que Ele deve iluminar as nossas mentes, elevar e guiar
os nossos pensamentos, aquecer nossas afeições e mover as nossas
vontades, a fim de, assim, capacitar os nossos entendimentos para
apreendermos as coisas espirituais.
O Espírito Santo não ensina individualmente o Cristão e nem
por qualquer meio o torna independente ou lhe impede de fazer
uso diligente e consciente do ministério do púlpito, pois esse é um
importante meio designado por Deus para a edificação de Seu
povo. Existe um meio termo entre a atitude do eunuco etíope que,
quando indagado: “Entendes tu o que lês?”, respondeu: “Como
poderei entender, se alguém não me ensinar?”

(Atos 8:30-31) e o uso errado feito de “não tendes


necessidade de que alguém vos ensine” (1 João
2:27). Existe um meio termo entre uma dependência
servil mediante instrumentos humanos e uma
independência arrogante daqueles a quem Cristo
chamou e qualificou para apascentar Suas ovelhas.
“Não obstante, a sua compreensão da Verdade, a
sua apreensão disto e a fé nela, não são coisas sobre
as quais se deve descansar nem em que se deve
atribuir sua autoridade, eles não são designados por
Deus para seres ‘dominadores da vossa fé’, mas
‘cooperadores de vosso gozo’ (2 Coríntios 1:24). E
é aí que depende todo o nosso interesse naquela
grande promessa de que seremos 'todos ensinados
por Deus', pois não somos assim, a menos que
aprendemos com Ele as coisas que Ele revelou em
Sua Palavra” (John Owen).
“E todos os teus filhos serão ensinados do Senhor” (Isaías
54:13, e cf. João 6:45). Essa é uma das grandes marcas que
distinguem o regenerado. Há multidões de religiosos não-
regenerados que são bem versados na letra da Escritura, e
familiarizados com a história e as doutrinas do Cristianismo, mas
seu conhecimento só veio a partir de meios humanos de
informação — pais, professores de escola dominical, ou a sua
leitura pessoal. Há dezenas de milhares de professos que não
possuem a graça divina, embora possuam um conhecimento
intelectual das coisas espirituais que é considerável, consistente e
claro; contudo, eles não são divinamente ensinados, como fica
evidente pela ausência dos frutos que sempre acompanham
aqueles que são ensinados pelo Senhor. Da mesma forma, há um
grande número de pregadores que abominam os erros do
Modernismo e batalham pela Fé. Eles foram ensinados em
institutos bíblicos ou treinados em seminários teológicos, mas
temos grande temor de que eles são estranhos a uma obra
sobrenatural da graça em suas almas, e que o seu conhecimento da
verdade consiste meramente em noções

desacompanhadas de qualquer unção divina, poder


salvífico ou efeitos de transformação. Por aplicação
diligente e esforço pessoal pode-se garantir uma
vasta quantidade de informação bíblica, e se tornar
um hábil expositor da Palavra; mas não é possível
obter dessa mesma forma um conhecimento que
afete e purifique seus próprios corações. Ninguém,
senão o Espírito da Verdade pode escrever a Lei de
Deus em meu coração, imprimir a Sua imagem na
minha alma, e me santificar pela Verdade.
Em primeiro lugar, está a mais essencial qualificação para
compreender e interpretar as Escrituras, a saber, uma mente
iluminada pelo Espírito Santo. Essa necessidade é fundamental e
universal. A respeito dos judeus nos é dito: “E até hoje, quando é
lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles” (2 Coríntios
3:15). Embora o Antigo Testamento seja profundamente venerado
e diligentemente estudado pelos “ortodoxos”, contudo seu
significado espiritual permanece imperceptível para eles. Esse
também é o caso com os gentios. Há um véu de má vontade sobre
o coração do homem caído, pois “a inclinação da carne é inimizade
contra Deus”

(Romanos 8:7). Há um véu de ignorância sobre a


mente deles. Como uma criança que soletra as letras
e aprende a pronunciar palavras, contudo não
entende o significado das palavras que pronuncia,
assim também nós podemos conhecer o significado
literal ou gramatical da Palavra e ainda não
possuirmos nenhum conhecimento espiritual da
mesma e, portanto, pertencer àquela geração a
respeito da qual está escrito: “Ouvindo, ouvireis,
mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não
percebereis” (Mateus 13:14). Há um véu de
preconceito sobre nossas afeições. “Nossos corações
estão envoltos por fortes afeições ao mundo, e por
isso não podemos discernir claramente a verdade
prática” (Thomas Manton). O que entra em conflito
com os interesses naturais e requer a negação de nós
mesmos não é bem-vindo. Há um véu de orgulho
que efetivamente nos impede de vermos a nós
mesmos no espelho da Palavra.
Entretanto, o véu não é completamente removido do coração
na regeneração, por causa disso a nossa visão é ainda muito
imperfeita e nossa capacidade de lidar com a verdade de forma
espiritualmente proveitosa é pouco considerável. Em sua primeira
epístola à igreja de Corinto, o apóstolo disse: “se alguém cuida
saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” (8:2). É
uma grande misericórdia quando o Cristão é levado a perceber
esse fato. Enquanto ele permanece nesse mundo mal e o princípio
corrupto da carne continua nele, o crente precisa ser conduzido e
ensinado pelo Espírito. Isso é muito evidente a partir do caso de
Davi, porquanto ele declarou: “Tenho mais entendimento do que
todos os meus mestres”, mas antes vamos encontrá-lo orando a
Deus: “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua
lei... Ensiname, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos...

Dá-me entendimento” (Salmos 119:18,33,34,99).


Observe que o Salmista não se queixou da
obscuridade da lei de Deus, mas percebeu que a
falha estava em si mesmo. Nem pediu novas
revelações (por sonhos ou visões), mas, em vez
disso, pediu uma visão mais clara daquilo que já
havia sido revelado. Aqueles que são ensinados
melhor e por mais tempo estão sempre mais prontos
para se sentarem aos pés de Cristo e aprenderem
com Ele (Lucas 10:39).
Deve ser devidamente observado que o verbo no Salmo
119:18, literalmente, significa “descobrir, desvendar os meus
olhos”, o que confirma a nossa frase de abertura no último
parágrafo. A Palavra de Deus é uma luz espiritual objetivamente,
mas para discerni-la corretamente é necessário que haja visão ou
luz subjetivamente, pois é apenas por e em Sua luz que “vemos a
luz” (Salmos 36:9). A Bíblia é aqui denominada “Lei de Deus”,
porque está revestida de autoridade divina, proferindo os
mandatos da Sua vontade. Ela contém não somente bons
conselhos, que somos livres para aceitar segundo bem nos
agradem, mas éditos imperiosos que rejeitamos por nossa conta e
risco. Nessa Palavra há “coisas maravilhosas”, as quais eu não
posso atingir através da utilização da simples razão. Elas são as
riquezas da sabedoria divina, que estão muito acima da bússola do
intelecto do homem. Aquelas “coisas maravilhosas” o crente anseia
para ser ou discernir claramente, mas ele é incapaz de fazê-lo sem a
ajuda divina. Por isso, ele ora para que Deus assim desvende seus
olhos que ele possa contemplá-las para uma boa finalidade, ou
apreendê-las para a fé e obediência, isto é, entendê-las prática e

experimentalmente no caminho do dever.


“Eis que Deus é excelso [eleva a alma acima do meramente
natural] em seu poder: quem ensina como ele”? (Jó 36:22).
Ninguém; quando Ele instrui, Ele o faz eficazmente.
“Assim diz o Senhor, o teu Redentor, o Santo de
Israel: Eu sou o Senhor teu Deus, que te ensina o
que é útil, e te guia pelo caminho em que deves
andar” (Isaías 48:17), isto acontece por que Seu
“ensino” consiste naquilo que produz uma conduta
piedosa.

Não é meramente uma adição sendo feita à nossa


capacidade mental, mas um mover da alma à
atividade sagrada. A luz com que Ele aquece o
coração, inflama os afetos. Assim, longe de ufanar
seu destinatário, como acontece com o
conhecimento natural, o ensino de Deus humilha.
Revela-nos a nossa ignorância e estupidez, nos
mostra nossa pecaminosidade e inutilidade, e faz
com que o crente se considere pequeno aos seus
próprios olhos. O ensino do Espírito também nos
leva a ver claramente a vaidade absoluta das coisas
altamente estimadas pelo não-regenerado,
mostrando-nos a transitoriedade e a inutilidade
comparativa das honras, riquezas e fama terrenas,
levando a segurar todas as coisas temporais com
uma mão frouxa. O conhecimento que Deus nos
comunica é transformador, que nos leva a um
esforço sincero para negarmos à impiedade e às
paixões mundanas, e a viver sóbria, justa e
piedosamente nesse mundo. Ao contemplarmos a
glória do Senhor somos “transformados de glória em
glória na mesma imagem” (2

Coríntios 3:18).
O próprio caráter do ensino divino demonstra quão urgente é a
nossa necessidade do mesmo. Ele consiste em grande parte em
superar a nossa antipatia natural e hostilidade às coisas divinas.
Por natureza, nós temos amor ao pecado e ódio à santidade (João
3:19), e isto deve ser efetivamente subjugado pelo poder do
Espírito antes que venhamos a desejar o leite puro da Palavra —
observe o que tem de ser deixado antes que nós possamos receber
com mansidão a Palavra enxertada (Tiago 1:21; 1 Pedro 2:1); ainda
que isso seja nosso dever, somente Deus pode nos permitir realizá-
lo. Por natureza, nós somos orgulhosos e independentes,

autossuficientes e confiantes em nossos próprios


poderes. Esse espírito maligno se agarra ao cristão
até o fim da sua peregrinação, e só o Espírito de
Deus pode operar nele aquela humildade e mansidão
que são necessárias para que tomemos o lugar de
uma criança diante da Palavra. O amor pela honra e
pelo louvor entre os homens é outra afeição corrupta
das nossas almas, um obstáculo insuperável para a
admissão da verdade (João 5:44, 12:43), que tem de
ser purgado para fora de nós. A oposição feroz e
persistente feita por Satanás para impedir a nossa
apreensão da Palavra (Mateus 13:19; 2 Coríntios
4:4) é demasiado poderosa para que nós a
resistamos por nossa própria força; ninguém senão o
Senhor pode nos libertar de suas sugestões malignas
e expor seus sofismas mentirosos.
Em segundo lugar, um espírito imparcial é necessário se
quisermos discernir e apreender o verdadeiro ensinamento da
Sagrada Escritura. Nada mais obscurece o julgamento do que o
preconceito — ninguém é tão cego quanto àqueles que não querem
ver. Particularmente essa é o caso com todos os que vêm para a
Bíblia com o objetivo de encontrar passagens que provam “nossas
doutrinas”. Um coração honesto é a primeira qualidade com que o
Senhor caracterizou os ouvintes representados pela “boa terra”
(Lucas 8:15), e onde isto existe não só estamos dispostos, mas
desejosos de ter os nossos próprios pontos de vista corrigidos. Não
pode haver nenhum avanço feito pela nossa apreensão espiritual
da Verdade até que estejamos prontos a submeter as nossas ideias e
sentimentos ao ensino da Palavra de Deus. Enquanto nos
agarramos às nossas opiniões preconcebidas e parcialidades
sectárias, em vez de estarmos prontos a abandonar todas as crenças
não claramente ensinadas nas Escrituras, nem nossas orações e
nem nossos estudos poderão ser proveitosos para a nossa alma.
Não há nada que Deus odeia mais do que a falta de sinceridade, e
nós somos culpados disso, se enquanto Lhe pedimos para nos
instruir, ao mesmo tempo nos recusamos a abandonar o que é
errôneo. Sentir sede da própria Verdade, com uma determinação
sincera de que ela molde todo o nosso pensamento e dirija a nossa
prática, é indispensável se quisermos ser espiritualmente
iluminados.
Em terceiro lugar, uma mente humilde.

“Essa é uma lei eterna e inalterável designada por


Deus, a saber, quem quiser conhecer Sua mente e
vontade, como reveladas nas Escrituras, deve ser
humilde e modesto, renunciando à toda confiança
em si próprio. O conhecimento de um homem
orgulhoso é o trono de Satanás em sua mente. Supor
que as pessoas sob o domínio de orgulho, vaidade e
autoconfiança podem entender a mente de Deus de
uma forma correta é renunciar à Escritura, ou
inúmeros testemunhos positivos em contrário” (John
Owen). O Senhor Jesus declarou que mistérios
celestes estão ocultos aos sábios e entendidos, mas
revelou aos pequeninos (Mateus 11:25).

Aqueles que assumem uma atitude de prepotência, e


são sábios em sua própria estima, permanecem
espiritualmente ignorantes e não esclarecidos.
Qualquer conhecimento que pode ser adquirido pelo
homem através de suas habilidades e competências
naturais não é nada para glória de Deus, nem para o
proveito eterno de suas almas, pois o Espírito
recusa-se a instruir os soberbos. “Deus resiste aos
soberbos” (Tiago 4:6). “Deus se põe contra ele,
prepara-se, por assim dizer, com toda a Sua força
para se opor ao seu progresso. Que expressão
formidável! Se Deus apenas nos entregar a nós
mesmos, caímos em ignorância e escuridão; sendo
assim, qual deve ser o caso terrível daqueles contra
quem Ele se opõe?” (John Newton). Mas, bendito
seja Seu nome, Ele “dá graça aos...”, aos que
possuem uma disposição como de criança.
Em quarto lugar, um coração dedicado à oração. Posto que a
Bíblia é diferente de todos os outros livros, ela faz exigências sobre
os seus leitores que nenhum outro livro faz. O que um homem tem
escrito, outro homem pode dominar; mas apenas o inspirador da
Palavra é competente para interpretá-la para nós. É nesse exato
momento que muitos falham. Eles se aproximam da Bíblia como
fariam com qualquer outro livro, confiando que uma cuidadosa
atenção e diligência na leitura serão suficientes para compreender o
seu conteúdo. Devemos, primeiramente, nos colocar de joelhos e
clamar a Deus por entendimento: “Inclina o meu coração aos teus
testemunhos... dá-me inteligência para entender os
teus mandamentos... ordena os meus passos na tua
palavra” (Salmos 119:36,73,133). Nenhum
progresso real pode ser feito em nossa apreensão da
Verdade até que percebamos nossa necessidade
profunda e constante de termos os nossos olhos
ungidos por Deus. “Se algum de vós tem falta de
sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá
liberalmente” (Tiago 1:5). É porque fazem uso dessa
promessa que muitos simples lavradores e donas de
casa Cristãos são ensinados pelo Espírito, enquanto
estudiosos sem oração não conhecem o segredo do
Senhor. Não só precisamos orar: “o que eu não
vejo, ensiname tu”, mas também pedir a Deus que
escreva a Sua Palavra em nossos corações.
Em quinto lugar, um propósito santo.

Muitos são enganados nesse assunto, confundindo


uma ânsia de adquirir conhecimento bíblico com o
amor pela própria Verdade. Alguns leem a Bíblia
apenas por curiosidade para descobrir o que ela diz.
Um sentimento de vergonha de ser incapaz de
descobrir o seu ensino é o que compele outros. O
desejo de estar familiarizado com o seu conteúdo de
modo a sustentar sua própria argumentação é o que
motiva outros. Se não houver nada melhor que nos
motiva a ler a Bíblia além de um mero desejo de ser
bem versado nos detalhes, é mais do que provável
que o jardim de nossas almas permanecerá estéril. O
motivo inspirador deve ser o exame honesto. Eu
examino as Escrituras a fim de conhecer melhor o
seu Autor e Sua vontade para mim? O meu
propósito dominante e que me motiva é que eu
possa crescer na graça e no conhecimento do
Senhor? É

que eu possa conhecer de forma mais clara e


totalmente como eu deveria ordenar os detalhes da
minha vida de um modo que será mais agradável e
honroso para Ele? É meu proposito que eu possa ser
levado a uma caminhada mais íntima com Deus e a
gozar de comunhão mais ininterrupta com Ele?
Nada menos do que isso é um objetivo digno para
que seja conformado e transformado pelo seu ensino
santo.
Nesse capítulo temos tratado apenas do lado elementar de
nosso assunto, no entanto, algo que é de fundamental importância,
e para o que poucos atentam. Mesmo nos dias prósperos dos
Puritanos, Owen teve que queixar-se: “é muito pequeno o número
daqueles que diligente, humildade e conscientemente se esforçam
para conhecer a verdade da voz de Deus nas Escrituras, ou para se
tornarem sábios nos mistérios do Evangelho se esforçando desse
modo, por meio do que somente a sabedoria é atingível. E é de
admirar se muitos, a maioria dos homens, vagarem após as
imaginações vãs deles mesmos ou de outras pessoas?”. Que não
seja mais assim com aqueles que leem esse capítulo.
Capítulo 3
________________________________________

O capítulo anterior tratou de algumas das qualificações mais


básicas, e ainda assim essenciais, que devem necessariamente ser
encontradas em qualquer um que buscar conhecer o significado
espiritual da Sagrada Escritura. Portanto, o capítulo anterior é
apropriado para o povo de Deus em geral. Mas nesse capítulo
propomos tratar daquilo que têm uma aplicação mais particular
àqueles a quem Deus chamou para pregar e ensinar a Sua Palavra:
aqueles cuja integralidade de seu tempo e energias devem ser
dedicados para a busca do bem-estar espiritual e eterno das almas,
e também à melhor capacitação de si mesmos para esse trabalho
mui abençoado, solene e importante. As suas tarefas principais são
(1) proclamar a verdade de Deus, e (2) exemplificar e recomendar
a sua mensagem por buscar diligentemente praticar o que prega,
estabelecendo diante de seus ouvintes um exemplo pessoal de
piedade prática.

Visto que eles devem pregar a Verdade, nenhuma


dor deve ser poupada no esforço para que nenhum
erro esteja misturado à sua pregação, posto que é o
leite puro da Palavra que eles devem oferecer.
Pregar o erro em vez da verdade não é somente
desonrar gravemente a Deus e a Sua Palavra, mas
enganar e envenenar as mentes dos ouvintes e
leitores.
A tarefa do pregador é muito mais nobre e solene do que
qualquer outro chamado, o mais privilegiado e ao mesmo tempo o
mais cheio de responsabilidade. Ele professa ser um servo do
Senhor Jesus Cristo, um mensageiro enviado pelo Altíssimo.
Deturpar seu Mestre, pregar outro Evangelho além do Seu,
falsificar a mensagem que Deus tem confiado a ele, é o pecado dos
pecados, que o atrai sobre si o anátema do Céu (Gálatas 1:8), e será
visitado com o castigo mais doloroso que aguarda qualquer
criatura. A Escritura evidencia que a medida mais pesada da ira
divina está reservada para pregadores infiéis (Mateus 23:14; Judas
13). Portanto, o aviso é dado: “muitos de vós não sejam mestres,
sabendo que receberemos mais duro juízo” (Tiago 3:1), isto é, se
formos infiéis ao que nos é confiado. Cada ministro do Evangelho
ainda terá que prestar contas cabalmente de sua mordomia Àquele
a quem Ele alega tê-lo chamado para apascentar as Suas ovelhas
(Hebreus 13:17), a responder pelas almas que estavam confiadas
ao seu cuidado. Se ele falhar em alertar diligentemente o ímpio, e
ele morrer em sua iniquidade, Deus declara: “o seu sangue eu o
requererei de ti” (Ezequiel 3:18).
Assim, o dever principal e constante do pregador é conformar-
se àquela injunção: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como
obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a
palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15). Em toda a Escritura não há
nenhuma exortação dirigida aos pregadores que seja de maior
importância do que essa, e poucas se igualam a ela. Sem dúvida, é
por isso que Satanás tem sido tão ativo na tentativa de obscurecer
suas duas primeiras cláusulas, lançando uma grande nuvem de pó
sobre a última. A palavra Grega para “procura” aqui significa “seja
diligente”, não poupe esforços, mas faça de sua preocupação
primordial e esforço constante o agradar ao seu Mestre. Não
procure os sorrisos e lisonjas de vermes de pó, mas a aprovação
do Senhor. Isso deve ter precedência sobre todo o restante; sem
isso, a atenção para o segundo aspecto mencionado será em vão.
Subordine completamente todos os outros objetivos a fazer de ti
mesmo alguém agradável a Deus — teu próprio coração e caráter,
as tuas relações e andar diante dEle, ordenando todos os teus
caminhos segundo a Sua vontade revelada. De que valem os seus
“serviços”, suas ministrações, se Ele

desagradar-Se de ti?
“Obreiro que não tem de que se envergonhar”. Seja
consciente, diligente, fiel, no uso que você faz do seu tempo e os
talentos que Deus lhe confiou. Dê atenção constante ao preceito.

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o


conforme as tuas forças” (Eclesiastes 9:10). Dê o
seu melhor para Ele. Seja dedicado e assíduo, não
descuidado e desleixado. Ver o quão bem você pode
fazer cada coisa, e não quão rápido. A palavra
Grega para “obreiro” é também traduzida como
“trabalhador”, e no Inglês do século XX, bem
poderia ser traduzido como “operário”. O ministério
não é lugar para frívolos e ociosos, mas para aqueles
que estão dispostos a gastarem-se e serem gastos na
causa de Cristo. O pregador deve trabalhar mais do
que o mineiro, e passar mais horas por semana em
seu estudo do que o homem de negócios em seu
escritório. Um obreiro é exatamente o oposto de um
preguiçoso. Se o pregador deve mostrar-se a Deus
aprovado e ser um obreiro que não tem do que se
envergonhar, então ele terá que trabalhar enquanto
os outros dormem, e fazê-lo até que ele se canse
mentalmente.
“Medita estas coisas; ocupa-te nelas, para que o teu
aproveitamento seja manifesto a todos. Tem cuidado de ti mesmo e
da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te
salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo
4:15-16). Essa é uma outra parte da ordem que Cristo colocou
sobre Seus servos oficiais, ela é a mais completa e exigente. Ele os
obriga a ocuparem os seus corações com a obra, a aplicarem todos
os seus pensamentos a ela, a separarem-se completamente para ela
e a dedicarem todo o seu tempo e força para a obra. Eles devem
manterem-se afastados de todos os assuntos seculares e atividades
mundanas, e mostrar toda a diligência na tarefa que lhes foi
atribuída. O fato dessa ser uma tarefa árdua é consequência das
diferentes designações dadas a eles. Eles são chamados de
“soldados” para denotar os esforços e fadiga que estão envolvidos
no bom desempenho de sua vocação; “vigias e sentinelas” para
demonstrar o cuidado e preocupação que acompanham o seu
ofício; “pastores e mestres” para mostrar as várias funções de
liderar e apascentar aqueles que foram comprometidos ao seu
cuidado.

Entretanto, em primeiro lugar, eles devem dar


atenção ao seu crescimento pessoal em graça e
piedade, se eles desejam ministrar eficazmente aos
outros.
Particularmente o ministro precisa prestar atenção a essa
ordem, “tem cuidado de ti mesmo”, em seu estudo das Escrituras,
lendo-as devocionalmente antes que ele faça isso
profissionalmente; ou seja, buscando sua aplicação e bênção à sua
própria alma antes de procurar por temas para o sermão. Como o
piedoso Hervey expressou: “Assim, nós podemos sempre ser
afetados quando estudamos os oráculos da Verdade. Estudá-los, e
não como críticos frios, que são apenas juízes do seu significado,
mas como pessoas profundamente interessadas em tudo o que eles
contêm; que são particularmente confrontados em cada exortação,
e orientados por cada preceito; de quem são as promessas, e a
quem pertencem os privilégios preciosos. Quando somos

habilitados a assim conceber e apropriar-nos do


conteúdo desse livro inestimável, então vamos
saborear a doçura e sentir o poder das Escrituras.

Então, saberemos por feliz experiência que as


palavras do nosso Mestre Divino não são apenas
sons e sílabas, mas espírito e são vida”. Ninguém
pode estar constantemente dando aquilo que é
revigorante e temperado, a menos que esteja
tomando para si, continuamente. Aquilo que ele
declara aos outros é o que os seus próprios ouvidos
já ouviram primeiramente, seus próprios olhos têm
visto, e suas mãos manuseado.
A simples citação da Escritura no púlpito não é suficiente, as
pessoas podem tornar-se familiares à letra da Palavra por lê-la em
casa; é a exposição e a aplicação da mesma que são tão
necessárias. “E Paulo, como tinha por costume, foi ter com eles; e
por três sábados disputou com eles sobre as Escrituras, expondo e
demonstrando que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse
dentre os mortos...” (Atos 17:2-3). Mas, “abrir” as Escrituras de
modo a ajudar os santos, requer algo mais do que o treinamento de
alguns meses em um instituto bíblico, ou um ou dois anos em um
seminário. Ninguém, senão aqueles que foram pessoalmente
ensinados por Deus na dura escola da experiência são qualificados
para “abrir”

a Palavra, de modo que a luz divina seja lançada


sobre os problemas espirituais do crente, pois
enquanto a Escritura interpreta a experiência, a
experiência é muitas vezes a melhor intérprete da
Escritura. “O coração do sábio instrui a sua boca, e
aumenta o ensino dos seus lábios” (Provérbios
16:23), e esse “aprendizado” não pode ser adquirido
em qualquer uma das escolas humanas.

Ninguém pode saber o que a humildade é por meio


da concordância, nem crescer na fé através do
estudo de certas passagens das Escrituras. A
humildade é adquirida através de descobertas
dolorosas da praga de nossos corações, e a fé é
aumentada por um conhecido profundo de Deus.
Nós mesmos devemos ser consolados, antes que
possamos consolar outros.
“Buscar meras noções da verdade, sem um esforço por uma
experiência de seu poder em nossos corações, não é o caminho
para aumentar nossa compreensão das coisas espirituais. Somente
está em condições de aprender de Deus, aquele que sinceramente
entrega a sua mente, consciência e afeições ao poder e governo do
que é revelado a ele. Os homens também podem ter outras
finalidades em seus estudos das Escrituras, como o benefício e
edificação dos outros. Mas se essa conformação de suas próprias
almas com o poder da Palavra não for posta em primeiro lugar em
suas mentes, eles não lutam legitimamente, nem eles serão
aperfeiçoados. E se em algum momento, quando nós estudamos a
Palavra, nós não temos esse propósito expresso em nossas mentes,
mas se após a descoberta de qualquer verdade nos esforçamos
para não ter algo semelhante a isso em nossos próprios corações,
perdemos nossa principal vantagem nisso” (John Owen). Há muito
a temer que muitos pregadores terão motivos para lamentar no dia
vindouro: “Puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha,
porém, não guardei” (Cantares de Salomão 1:6); como um
cozinheiro que prepara refeições para os outros, enquanto ele
mesmo fica com fome.
Enquanto o pregador deve meditar na Palavra
devocionalmente, ele também deve lê-la estudiosamente. Se ele
deseja tornar-se capaz de apascentar o seu rebanho com “o mais
fino trigo”

(Salmos 81:16), então ele precisa estudá-la de forma


diligente e diária, e isso até o fim de sua vida.
Infelizmente muitos pregadores abandonam o seu
hábito de estudo, logo que eles são ordenados! A
Bíblia é uma mina inesgotável de tesouro espiritual,
e quanto mais as suas riquezas são desveladas para
nós (por árdua escavação), mais percebemos o
quanto há ainda não conquistado, e quão pouco nós
realmente entendemos o que foi recebido. “E, se
alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe
como convém saber” [1 Coríntios 8:2].
A Palavra de Deus não pode ser compreendida sem um estudo
constante e laborioso, sem uma análise cuidadosa e em oração dos
seus conteúdos. Isso não quer dizer que ela é secreta e obscura.

Não, ela é tão simples e inteligível como


naturalmente outras coisas podem ser, a Palavra está
dada melhor forma possível para dar instrução a
respeito das coisas santas e profundas de que trata.
Mas nada pode ser ensinado através dos melhores
meios possíveis de instrução que não traga dores em
si mesmo. A promessa de entendimento não é feita
ao procrastinador e indolente, mas ao diligente e
zeloso, para aqueles que procuram um tesouro
espiritual (Provérbios 2:3,5). As Escrituras precisam
ser examinadas, buscadas diariamente, com
persistência e perseverança, se o ministro deseja
tornar-se completamente familiarizado com a
totalidade do que Deus revelou e se ele quiser pôr
diante de seus ouvintes “um banquete de coisas
gordurosas”. Sobre o pregador sábio é dito: “tanto
mais ensinou ao povo sabedoria; e atentando, e
esquadrinhando, procurou o pregador achar palavras
agradáveis” (Eclesiastes 12:9-10), aqui é como se
toda a sua alma estivesse envolvida na descoberta do
melhor modo de instrução.
Nenhum pregador deveria se contentar em ser nada menos do
que “um homem poderoso nas Escrituras” (Atos 18:24). Mas, para
atingir isso ele deve subordinar todos os outros interesses. Um
antigo escritor curiosamente disse: “O pregador deve ser com o seu
tempo como o avarento é com o seu ouro: Guardá-lo com
cuidado, e gastá-lo com cautela”. Ele também deve lembrar-se
constantemente do Livro que ele está prestes a anunciar, de modo
que ele o manuseie com a maior reverência e possa declarar: “meu
coração temeu a tua palavra” (Salmos 119:161). Ele deve
aproximar-se desse ofício com humildade de espírito, pois é
somente aos tais que o Senhor “dá maior graça” [Tiago 4:6]. Ele
sempre deve vir a ele em espírito de oração, clamando: “o que não
vejo, ensina-me tu” (Jó 34:32); a graça iluminadora do Espírito
frequentemente desvela mistérios ao manso e necessitado, os quais
permanecem ocultos para os mais instruídos e eruditos. Um
coração santo é igualmente indispensável para a recepção da
verdade sobrenatural, pois o entendimento é esclarecido pela
purificação do coração. Deixe haver também uma expectativa
humilde do auxílio divino, pois o “seja-vos feito segundo a vossa
fé” [Mateus 9:29] é válido aqui também.
É somente por dar atenção às coisas que têm sido apontadas
nos parágrafos anteriores que são estabelecidos os fundamentos
necessário para qualquer homem se tornar um expositor
competente. A tarefa diante dele é expor, com clareza e precisão, a
Palavra de Deus. Seu trabalho é inteiramente exegético: anunciar o
verdadeiro significado de cada passagem com a qual ele lida, que
ela esteja de acordo com seus próprios preconceitos ou não. Assim
como o trabalho do tradutor é transmitir o verdadeiro sentido do
Hebraico e do Grego para o Português, assim também o trabalho
do intérprete deve é apreender e comunicar precisamente o
significado das ideias a linguagem da Bíblia foi concebida para
transmitir. Como o renomado Bengel tão bem expressou: “Um
expositor deve ser como o construtor de um poço, o qual não
coloca nenhuma água nele, mas faz de seu objetivo permitir que a
água flua, sem desvio, interrupção ou contaminação”. Em outras
palavras, ele não deve ter a menor liberdade com o texto sagrado,
nem dar-lhe um significado que não seja legítimo, nem modificar a
sua força, nem encobrir algo que esteja nele revelado, mas buscar
anunciar o que tal texto realmente significa.
Estar em conformidade com o que acaba de ser dito exige uma
abordagem imparcial, um coração honesto e um espírito de
fidelidade, por parte do intérprete. “Nada deve ser extraído a partir
do texto, senão o que é cedido pela explicação justa e gramatical de
sua linguagem”

(Patrick Fairbaim). É fácil concordar com esse


dictum, porém muitas vezes difícil de pôr em
prática. A ausência dessa disposição mental torna o
pregador condenável; uma tendência mental sectária
e o desejo de agradar os seus ouvintes fizeram com
que não poucos fugissem da evidente força de certas
passagens, e se tornassem bastante estranhos ao
verdadeiro significado delas.

Lutero disse: “Nós não devemos buscar fazer a


Palavra de Deus significar o que nós desejamos. Nós
não devemos torcê-la, mas deixar que a Palavra
venha a nos moldar, e dar-lhe a honra por isto ser
melhor do que nós podemos fazer com ela”.

Qualquer coisa diferente disso é altamente


condenável. Grande cuidado sempre deve ser
tomado para não expormos nossas próprias mentes,
em vez da mente de Deus. Nada pode ser mais
censurável do que um homem proclamar um:
“Assim diz o Senhor”, quando ele está apenas
expressando os seus próprios pensamentos. Ainda
assim, quem, mesmo involuntariamente, ainda não
fez isso?
Se em relação ao farmacêutico é exigido por lei que ele siga
exatamente a prescrição do médico, e se os oficiais militares devem
transmitir as ordens de seus comandantes na íntegra ou sofrerão
penalidades severas, quanto mais compete a alguém que lida com
as coisas divinas e eternas, aderir estritamente ao texto do Livro! A
tarefa do intérprete é buscar o que é descrito em Neemias 8:8: “E
leram no livro, na lei de Deus; e declarando, e explicando o
sentido, faziam que, lendo, se entendesse”. A referência é àqueles
que da Babilônia haviam retornado à Palestina. Enquanto no
cativeiro, haviam gradualmente deixado de usar o hebraico como
língua cotidiana, e passaram a usar o aramaico. Portanto, havia
uma necessidade real de explicar as palavras hebraicas em que a lei
foi escrita (cf. Neemias 13:23-24). No entanto, o registro desse
acontecimento sugere que ele é de importância permanente e que
tem uma mensagem para nós. Na boa providência de Deus há
pouca necessidade hoje que o pregador explique o hebraico e o
grego, uma vez que já existem traduções confiáveis dessas línguas
para nossa própria língua materna; embora ocasionalmente, e
apenas muito moderadamente, o pregador possa traduzir e explicar
essas línguas originais.
Mas a sua atividade principal é “explicar o sentido”
da Bíblia em Português e fazer com que os seus
ouvintes “entendam” o seu conteúdo. Sua
responsabilidade é a de aderir estritamente à ordem:
“Aquele que tem a minha palavra, fale a minha
palavra com verdade” (Jeremias 23:28).
Capítulo 4
________________________________________

O pregador deve ser,

acima de tudo, um homem do Livro, bem versado


no conteúdo da Palavra de Deus, alguém que é
capaz de extrair de seu tesouro “coisas novas e
velhas” (Mateus 13:52). A Bíblia deve ser o seu
único livro-texto e de suas águas vivas ele deve
beber profunda e diariamente. Pessoalmente, não
uso nada mais do que a King James Versão
Autorizada Inglesa e a Concordância de Young, com
uma referência ocasional à Interlinear de Grego e a
King James Versão Americana Revisada.

Consulto os Comentários apenas após fazer um


inicial e exaustivo estudo de uma passagem.
Recomendo fortemente aos jovens pregadores que
sejam muito vigilantes para não permitirem que os
comentários se tornem substitutos, em vez de um
auxílio, ao seu próprio minucioso e pleno exame e
ponderação das Sagradas Escrituras. Assim como há
um meio termo entre imaginar ou que a Bíblia é tão
clara e simples que qualquer um pode entendê-la ou
tão difícil e profunda que seria um desperdício de
tempo para a pessoa mediana lê-la, assim também
há entre ser essencialmente dependente das obras
dos outros e simplesmente ecoar as suas ideias, e
depreciar totalmente a luz e a ajuda que podem ser
obtidas a partir dos antigos servos de Deus.
É aos pés de Deus que o

pregador deve posicionar-se, aprendendo com Ele o


significado de Sua Palavra, na esperança de que Ele
desvele os Seus mistérios, buscando nEle a sua

mensagem. Em nenhum lugar, senão nas Escrituras


ele pode discernir o que é agradável ou desagradável
ao Senhor. Somente ali são revelados os segredos da
sabedoria divina, sobre a qual o filósofo e o cientista
não conhecem nada. Como o grande Puritano
holandês justamente salientou: “Tudo o que não é
retirado das mesmas, o que não é construído sobre
elas, o que não está mui exatamente de acordo com
elas, embora possa recomendar-se pela aparência da
mais sublime sabedoria, ou apoiar-se na antiga
tradição e no consenso dos homens eruditos, ou
tenha o peso de argumentos plausíveis, é inútil, fútil
e, em suma, uma mentira. ‘À lei e ao testemunho!
Se eles não falarem segundo essa palavra, é porque
não há luz neles’. Que o teólogo se deleite nos
oráculos sagrados; que ele se exercite neles de dia e
de noite, e medite neles, e extraia toda a sua
sabedoria deles. Que ele mantenha todos os seus
pensamentos em torno deles, que, no que diz
respeito à religião, ele não aceite nada não possa ser

encontrado ali” (Herman Witsius).


1. Tratando agora

daqueles princípios que devem orientar o estudante


em seus esforços para interpretar a Palavra de Deus,
colocamos em primeiro lugar, a necessidade de
reconhecer a interrelação e interdependência entre
o Antigo e o Novo Testamentos. Fazemos isso
porque o erro nesse ponto, inevitavelmente resulta
em um mal-entendido grave e em uma não pequena
perversão nas últimas Escrituras.

Não propomos introduzir uma refutação da heresia


moderna do

“dispensacionalismo”, mas tratar dessa seção de


nosso assunto de forma

construtiva. Após uma comparação longa e


cuidadosa dos escritos da escola Dispensacionalista
com as Institutas de Calvino, e após observarmos o
tipo de fruto produzido por ambas, é nossa
convicção que esse eminente

reformador foi muito mais profundamente ensinado


pelo Santo Espírito do que aqueles que
reivindicaram receber uma grande “nova luz sobre a
Palavra de Deus”

há um século. Queremos, portanto, pedir que cada


pregador que possui as Institutas de Calvino
empreguem a sua melhor atenção aos seus dois

capítulos sobre: “A Similaridade o Antigo e o Novo


Testamento” e “A Diferença Entre os Dois
[4]
Testamentos”.
A semelhança entre os dois Testamentos é muito maior e mais
importante do que a sua diferença. O

mesmo Deus Triuno é revelado em cada um dos


Testamentos, o mesmo caminho da salvação é
estabelecido, o mesmo padrão de santidade é
anunciado, os mesmos destinos eternos do justo e
do ímpio são evidenciados. O Novo Testamento tem
todas as suas raízes no Antigo, de modo que muito
em um torna-se ininteligível à parte do outro. Não
somente um conhecimento da história dos patriarcas
e das instituições do judaísmo são indispensáveis
para a compreensão de

muitos detalhes nos Evangelhos e nas Epístolas, mas


seus termos e ideias são idênticos. Que é
inteiramente insustentável para nós supormos que a
mensagem proclamada pelo Senhor Jesus era algo
novo ou radicalmente diferente das primeiras
comunicações de Deus fica evidente a partir de Sua
advertência enfática: “Não cuideis que vim destruir a
lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir”
(Mateus 5:17) — isto é, para vindicá-los e
fundamentá-los, para livrá-los das perversões e
deturpações humanas, e para fazer o bem que eles
exigem e declaram. Assim, longe de haver qualquer
antagonismo entre o

ensinamento de Cristo e o ensino dos mensageiros


de Deus que O precederam, quando anunciou a
“regra de ouro” Ele afirmou, “porque esta é a lei e
os profetas” (Mateus 7:12).
Certamente não havia

conflito entre o testemunho dos apóstolos e o


testemunho de seu Mestre, pois Ele expressamente
ordenou-lhes a ensinarem os Seus convertidos “a
guardar todas as coisas que eu tenho mandado [não
o que mandarei!]” (Mateus 28:20).

Nem o sistema doutrinário de Paulo difere de algum


modo daquele anunciado no Antigo Testamento. No
início da primeira epístola que leva seu nome, ele é
específico em nos informar que o Evangelho, para o
que Deus lhe tinha separado, não era outro senão o
único “o qual antes prometeu pelos seus profetas nas
santas escrituras” (Romanos 1:1-2), e quando ele
afirmou que a justiça de Deus foi revelada agora,
sem lei, ele teve o cuidado de acrescentar: “tendo o
testemunho da lei e dos profetas” (3:21). Quando
ele vindicou a sua doutrina sobre a justificação pela
fé sem as obras da lei, ele fez isso apelando para o
caso de Abraão e o testemunho de Davi (Romanos
4). Quando ele advertiu os Coríntios contra se
acomodarem com uma falsa sensação de segurança
por causa dos dons espirituais que haviam sido
concedidos a eles, ele lembrou-lhes os israelitas que
tinham sido altamente favorecidos por Deus, ainda
assim isso não os guardou de Seu desagrado quando
pecaram, ainda que “beberam todos de uma mesma
bebida espiritual” (1 Coríntios 10:1-5). E quando
ilustrando importante verdade prática, ele cita a
história dos dois filhos de Abraão (Gálatas 4:22-31).
Em muitos aspectos, o

Novo Testamento é uma continuação e um


complemento para o Antigo. A diferença entre a
Antiga e Nova Alianças mencionadas em Hebreus é
relativa e não

absoluta. O contraste não é realmente entre dois


opostos, mas sim entre uma gradação do mais baixo
para o plano mais elevado; um preparando o outro.
Embora alguns tenham errado muito em judaizar o
Cristianismo, outros têm entretido uma concepção
muito carnal do judaísmo, deixando de perceber os
elementos espirituais nele, e que sob ele Deus tão
verdadeiramente administrou as bênçãos do Pacto
Eterno para aqueles que Ele tinha escolhido em
Cristo assim como Ele o faz agora, sim, que Ele fez
isso de Abel em diante. Justamente, então, Calvino
repreendeu a loucura dos nossos Dispensacionalistas
modernos — quando

reprovando aqueles de seus precursores que


apareceram em seus dias — ao dizer: “Agora, o que
seria mais absurdo do que Abraão ser o pai de todos
os fiéis, e ainda assim não possuir sequer o lugar
mais baixo entre eles? Antes ele não pode ser
excluído do número, nem mesmo da posição mais
nobre, sem a destruição da Igreja”.
Quando Cristo ou um dos

Seus apóstolos falaram, em quase todos os pontos


vitais eles fundamentaram o seu argumento apelando
às Escrituras do Antigo Testamento, a partir do qual
são encontrados textos-prova em quase todas as
páginas do Novo. Inúmeros exemplos podem ser
apresentados para mostrar que ambas as ideias e a
linguagem do Antigo deram a sua impressão no
Novo Testamento; mais de seis centenas de
expressões de um são repetidas no outro. Cada
cláusula do “Magnificat” (Lucas 1:46-55) e até
mesmo da Oração da Família (Mateus 6:9-13) é
extraída do Antigo Testamento. Por conseguinte,
cabe ao estudante dar igual atenção as duas
principais as divisões da Bíblia, não somente para
familiarizar-se

completamente com a última, mas esforçando-se


para beber profundamente do espírito da primeira, a
fim de capacitar-se para compreender o Novo
Testamento.

A menos que ele faça isso, será impossível para ele


apreender o corretamente o verdadeiro significado
tanto dos Evangelhos quantos das Epístolas. Não
basta somente ter um conhecimento dos tipos para
compreender os antítipos, pois o que significaria que
“Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós”, a um

ignorante de Êxodo 12 (1 Coríntios 5:7); e quanto


de Hebreus 9 e 10 é

inteligível à parte de Levítico 16? Porém, muitas


palavras importantes do Novo Testamento podem
ser corretamente definidas apenas referindo-se à sua

utilização no Antigo Testamento, como


“primogênito, resgate, propiciação”, etc.
Que deve haver uma

harmonia fundamental entre o Judaísmo e o


Cristianismo fica evidente pelo fato de que o mesmo
Deus é o autor de ambos, e é imutável em Suas
perfeições e nos princípios de Seu governo. O
primeiro foi de fato dirigido mais ao homem
exterior, foi transacionado sob formas e relações
visíveis, e dizia respeito principalmente a um
santuário e herança terrena; no entanto, todos eles
foram uma “sombra das coisas celestiais” (Hebreus
8:5, 10:1). “No Novo Testamento, temos uma
maior, porém muito intimamente relacionada
exposição da verdade e do dever do que no Antigo,
que envolve tanto as similaridades quando as
diferenças dos dois pactos. As similaridades são
mais profundas e relacionam-se aos elementos mais
essenciais das duas economias; as diferenças são de
natureza mais circunstancial e formal” (Patrick
Fairbairn). Pessoalmente, gostaria de dizer que as
principais variações aparecem quando observamos
que em um, nós temos a promessa e a previsão, no
outro, a realização e o cumprimento; no primeiro
temos os tipos e sombras (a “lâmina”), depois a
realidade e substância ou o “grão cheio na espiga”.
A dispensação Cristã supera a Mosaica por sua mais
completa e mais clara manifestação das perfeições
de Deus (1 João 2:8), em um derramamento mais
abundante do Espírito (João 7:39; Atos 2:3), em seu
mais amplo alcance (Mateus 28:19-20), e em maior
medida de liberdade (Romanos 8:15; Gálatas 4:2-7).
2. O segundo princípio
que o expositor deve estudar muito cuidadosamente
é o da citação bíblica.

É de não pequena ajuda afirmar que as leis da


correta interpretação podem ser obtidas a partir da
observação diligência da maneira como e o
propósito para o qual o Antigo Testamento é citado
no Novo. Deve haver pouca margem para dúvidas
de que o registro que o Espírito Santo forneceu a
respeito da maneira que o nosso Senhor e os Seus
apóstolos entenderam e aplicaram do Antigo
Testamento foi grandemente designada para lançar
luz acerca de como, geralmente, o Antigo
Testamento deve ser usado por nós, bem como
fornecer instruções sobre os pontos específicos por
meio daquelas passagens na Lei ou nos profetas que
eram mais imediatamente citadas. Ao examinar
atentamente as palavras

mencionadas e o sentido dado a elas no Novo


Testamento, não somente seremos libertos de um
literalismo servil, mas também seremos melhor
habilitados para perceber a plenitude da Palavra de
Deus e a aplicação variada que pode ser
legitimamente feita dela. Um campo amplo, mas
geralmente negligenciado, está aberto para a
exploração, mas em vez de nos esforçarmos aqui
para fazer um exame profundo do mesmo, vamos
simplesmente fornecer algumas ilustrações.
Em Mateus 8:16, somos informados de que em certa ocasião
Cristo “curou todos os que estavam enfermos”, e, em seguida, sob
a orientação do Espírito Santo, o evangelista adicionou: “para que
se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías [a saber, em 53:4],
dizendo: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as
nossas enfermidades”. Este uso daquela predição messiânica é
muito esclarecedor, sugerindo que ela tinha um significado mais
amplo do que fazer expiação pelos pecados de Seu povo; ou seja,
durante os dias de Seu ministério público, Cristo compadeceu-se
da condição dos doentes, e tomou sobre Seu espírito os
sofrimentos e as dores daqueles a quem Ele ministrou, de modo
que os Seus milagres de cura exigiram muito de Sua compaixão e
resistência. Ele foi pessoalmente atingido pelas aflições deles.
Cristo começou a Sua obra mediadora de remover o mal que o
pecado tinha trazido ao mundo por curar aquelas doenças
corporais, as quais eram os frutos do pecado, e assim fazendo,
prefigurou a maior obra que Ele realizaria na cruz. A conexão entre
o um e o outro foi mais claramente indicada quando Ele
respectivamente disse ao paralítico: “Os teus pecados estão
perdoados” e “levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa”
(Mateus 9:2,6).
Considere a seguir, como Cristo usou o Antigo Testamento
para refutar os materialistas dos seus dias. Os saduceus
sustentavam a noção de que a alma e o corpo estão tão
estreitamente unidos que se um morrer o outro morrerá também
(Atos 23:8). Eles viam o corpo morrer, e daí concluíram que a
alma também morria. Muito notável, na verdade, é ver a sabedoria
encarnada arrazoando com eles em seu próprio terreno. Isso Ele
fez citando Êxodo 3, em que o SENHOR disse a Moisés: “Eu sou o
Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”. Mas em que
essas palavras correspondem à questão? O que havia nelas que
expôs o erro dos saduceus? Nada explicitamente, mas muito
implicitamente. A partir delas, Cristo chegou à conclusão de que
“Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:32).
Não é que Ele foi o Deus deles, mas que Ele permanecia sendo
assim: “Eu sou o Deus deles”, portanto eles permanecem vivos.
Havendo sido provado que os seus espíritos e almas ainda viviam,
seus corpos seriam ressuscitados no momento oportuno, pois, por
ser o “Deus” deles, isso garantia que Ele seria para eles e por eles
tudo o que essa relação implica, e não deixaria parte de sua
natureza ser detida pela corrupção. É nisso que Cristo estabeleceu
o importante princípio da interpretação de que podemos tirar
alguma inferência clara e necessária a partir de uma passagem,
desde que não ela não se oponha a qualquer declaração definitiva
das Sagradas Escrituras.
Em Romanos 4:11-18, temos um exemplo notável de
raciocínio apostólico de duas curtas passagens de Gênesis, onde
Deus fez a promessa a Abraão que ele seria o pai de muitas nações
(17:5) e que, em sua descendência seriam benditas todas as nações
da Terra (22:18). Uma vez que essas garantias foram dadas ao
patriarca simplesmente como um crente, antes da nomeação divina
da circuncisão, Paulo fez a conclusão lógica de que elas pertenciam
a judeus e gentios igualmente, desde que cressem como Abraão e,
assim, teriam imputada a eles a justiça de Cristo, de modo que o
bem dessas promessas pertencia a todos os que “andam nas
pisadas da sua fé”. É aí que somos claramente ensinados que a
“semente” da bênção mencionada nessas antigas profecias era
essencialmente de natureza espiritual (cf. Gálatas 3:7-9, 14:29),
incluindo todos os membros da família da fé, onde quer que sejam
encontrados. Como Stifler pertinentemente observou: “Abraão é
chamado o pai não em um sentido físico, nem em sentido
espiritual: ele é pai por ser o chefe do clã da fé, e assim o modelo
da mesma”. Em Romanos 9:6-13, o apóstolo foi igualmente
expresso em excluir dos benefícios dessas promessas os
descendentes meramente naturais de Abraão.
Romanos 10:5-9, fornece uma ilustração impressionante deste
princípio na maneira em que o apóstolo “abriu”

Deuteronômio 30:11-14. Seu propósito era retirar


dos judeus a noção de

obediência à lei como necessária para a justificação


(Romanos 10:2-3). Ele fez isso através de
argumentar a partir dos escritos de Moisés, e, então,

estabeleceu uma distinção entre a justiça da Lei e a


justiça da fé. Os judeus haviam rejeitado a Cristo
porque Ele não veio até eles de uma forma que
atendesse as suas expectativas carnais, e, portanto,
eles recusaram a graça oferecida por Ele. Eles
consideravam que o Messias estava longe, quando
na verdade Ele estava “perto” deles. Não havia
necessidade, então, que eles subissem ao Céu, pois
Cristo tinha descido dali; nem descessem ao abismo,
pois Ele havia ressuscitado dos mortos. O apóstolo
não estava apenas acomodando o seu propósito à
linguagem de Deuteronômio 30, mas mostrando o
seu significado Evangélico. Como disse Thomas
Manton: “Todo esse capítulo é um sermão sobre
arrependimento evangélico” (veja vv. 1-2).
Obviamente, a passagem em questão apontava para
um momento após a ascensão de Cristo, quando
Israel seria disperso entre as nações, de modo que as
palavras de Moisés não eram

estritamente aplicáveis a essa dispensação do


Evangelho. A substância dos versos 11 a 14 é que o
conhecimento da vontade de Deus é livremente
acessível, de modo que ninguém é obrigado a fazer
o impossível para obtê-lo.
Em Romanos 10:18, é dado mais do que uma indicação das
profundezas insondáveis da Palavra de Deus e da grande
amplitude de sua aplicação. “Quem creu na nossa pregação? [Do
Evangelho, pois eles não o obedeceram, v. 16]. “Mas digo:
Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois por toda a terra saiu
a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo”, citado a
partir do Salmo 19:4. O anúncio do Evangelho não era restrito

(Colossenses 1:5-6), mas era tão geral e livre quanto


as declarações divinas desde os céus (Salmos 19:1).
“A revelação universal de Deus na natureza era uma
predição providencial da proclamação universal do
Evangelho. Se a primeira não fosse gratuita, ainda
que baseada na natureza de Deus, assim seria a
última. A manifestação de Deus na natureza é para
todas as Suas criaturas a quem é feita, em sinal de
sua participação nas revelações mais claras e mais
elevadas”

(Hengstenberg). Não somente a profecia do Antigo


Testamento anuncia que o Evangelho deve ser dado
a todo o mundo, mas o céu misticamente declarou a
mesma coisa. Os céus não falam a apenas uma
nação, mas a toda a raça humana!

Se os homens não creram não foi porque não


ouviram. Outro exemplo da

significação mística de certas Escrituras é


encontrado em 1 Coríntios 9:9-10.
Em Gálatas 4:24, a pena inspirada de Paulo nos informa que
certos acontecimentos domésticos na casa de Abraão “são uma
alegoria”, de forma que Agar e Sara representavam “os dois
pactos”, e que seus filhos prefiguravam os adoradores que esses
pactos eram adequados para

produzir. Assim, por meio dessa revelação divina


por meio e através do

apóstolo, nós soubemos Deus havia escondido um


mistério profético nesses fatos da história; que essas
ocorrências domésticas profeticamente prefiguravam
transações de importância vital para o futuro; e que
elas ilustravam grandes verdades doutrinárias e
exemplificavam a diferença na conduta de homens
espiritualmente escravos e homens espiritualmente
livres. Esse foi o caso, segundo o que nos mostrou o
apóstolo, ao declararmos o sentido oculto desses
eventos. Eles eram uma parábola em ação: Deus
moldou de tal forma as questões da família de
Abraão a ponto de levar essas a tipificaram coisas de
grande magnitude. Os dois filhos foram ordenados a
prenunciar aqueles que seriam nascidos do alto e
aqueles que nasceram da carne; que mesmo os
descendentes naturais de Abraão, eram apenas
ismaelitas em espírito, mas estranhos à promessa.

Embora o exemplo de Paulo aqui certamente não


abra nenhum precedente para o expositor dar livre
curso à sua imaginação e distorcer acontecimentos
do Antigo Testamento levando-os a ensinarem algo
que lhe agrada; o apóstolo indica que Deus ordenou
de tal modo as vidas dos patriarcas tendo em vista
conceder-nos lições de grande valor espiritual.
Acima, nós propositalmente selecionamos uma variedade de
exemplos, e a partir deles, o estudante aplicado (mas não o leitor
apressado) descobrirá algumas valiosas indicações e auxílios
divinos sobre como as Escrituras devem ser entendidas, e os
princípios pelos quais elas devem ser interpretadas. Que os
exemplos sejam relidos e cuidadosamente ponderados.
3. É necessário ser diligentemente e constante ao cuidar para
que estritamente conformemos todas as nossas

interpretações à analogia da fé, ou como Romanos


12:6 expressa: “profetizamos de acordo com a
proporção da fé”. Charles Hodge — que por solidez
doutrinária, erudição espiritual e capacidade crítica,
é insuperável — afirma que o significado original e
próprio da palavra “profeta” é intérprete, aquele que
declara a vontade de Deus, que explica a Sua mente
aos outros. Ele também diz que a palavra citada,
“proporção”, pode significar tanto proporção quanto
medida, regra e padrão. Desde que a “fé” nesse
verso deve ser

considerada objetivamente (pois, havia “profetas”


como Balaão e Caifás que estavam desprovidos de
qualquer fé interior ou salvífica), então essa
importante expressão significa que o intérprete da
mente de Deus deve ser mais específico e
escrupuloso em cuidar para que ele sempre o faça
segundo o padrão revelado que Deus nos deu.
Assim, “fé” aqui é usada no mesmo sentido de
passagens como “fé” em Gálatas 1:23; 1 Timóteo
4:1, etc.; ou seja — “uma só fé”

de Efésios 4:5; “a fé que uma vez foi entregue aos


santos” (Judas 3) — a Palavra de Deus escrita.
A exposição feita de qualquer verso nas Sagradas Escrituras
deve ser inteiramente de acordo com a analogia da fé, ou, em
outras palavras, aquele sistema da verdade que Deus deu a
conhecer ao Seu povo. Isso, é claro, exige um conhecimento
abrangente do conteúdo da Bíblia, esta é uma prova segura de que
nenhum neófito é qualificado para pregar ou tentar ensinar aos
outros. Tal conhecimento abrangente só pode ser obtido por uma
leitura sistemática e constante da própria Palavra, e somente então
qualquer homem é capacitado para avaliar os escritos de outras
pessoas! Visto que toda a Escritura é inspirada por Deus, não há
contradições na mesma; portanto, obviamente, segue-se que
qualquer explicação dada de uma passagem que se choca com o
claro ensino de outros versos é manifestamente errada. Para que
qualquer interpretação seja válida, ela deve estar em perfeita
harmonia com o esquema total da Verdade divina. Uma parte da
Verdade é mutuamente relacionada e dependente das outras, e,
portanto, há pleno acordo entre elas. Como Bengel disse a respeito
dos livros da Escritura: “Eles formam juntos um belo,

harmonioso e gloriosamente conectado sistema da


Verdade”.
Capítulo 5
________________________________________

Dizer que toda nossa interpretação deve obedecer estritamente


à analogia da fé pode parecer muito simples e óbvio, mas é
surpreendente descobrir quantos homens, tanto experientes quanto
inexperientes, não seguem esse princípio. Naturalmente, aqueles
que cobiçam “originalidade”, e têm certa inclinação a querer
mostrar algo novo ou surpreendente (principalmente a partir de
passagens obscuras), sem levar em conta esse princípio básico,
estão fadados ao erro. Mas, como John Owen observou:
“Enquanto nós honestamente observarmos essa regra, não
correremos perigo de, pecaminosamente, corromper a Palavra de
Deus, mesmo sabendo que nunca obteremos a interpretação exata
de todas as passagens da bíblia”. Por exemplo, aprender que “Deus
é espírito” (João 4:24), incorpóreo e invisível nos impede de
interpretarmos mal as passagens em que olhos e ouvidos, mãos e
pés são atribuídos a Ele; e quando somos informados de que nEle
“não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17), sabemos
que Deus, ao dizer que “se arrepende”, fala isso à maneira dos
homens. Da mesma forma, quando o Salmo 19:11 e outros versos
exibem santos sendo recompensados por demonstrarem graça e
boas obras, outras passagens nos mostram que tal recompensa não
provém de méritos, mas é concedida pela graça divina.
Nenhum verso deve ser explicado de modo que entre em
conflito com o que é ensinado, clara e uniformemente, nas
Escrituras como um todo, o qual está diante de nós como única
regra de fé e obediência. Isto exige do expositor não só um
conhecimento amplo da Bíblia, mas também que ele se dê ao
trabalho de coletar e comparar todas as passagens que tratam e têm
relação direta com o tema proposto, para que ele possa obter a
mente completa do Espírito a respeito do assunto. Tendo feito isso,
qualquer passagem ainda obscura ou duvidosa deve ser
interpretada à luz das mais claras. Nenhuma doutrina deve ser
fundada em uma única passagem, à semelhança dos mórmons, que
utilizam 1 Coríntios 15:29 para embasar o batismo pelos mortos,
ato praticado por essa seita; ou como os papistas apelam para
Tiago 5:14-15 ao defenderem a “extrema-unção”. Somente pela
boca de duas ou três testemunhas qualquer verdade é estabelecida,
como nosso Senhor insistiu em seu ministério (João 5:31-39, 8:16-
18). Cuidados devem ser tomados para que nenhum ensinamento
importante seja baseado apenas em qualquer tipo de expressão
figurada, ou mesmo parábola; em vez disso, tais estruturas devem
ser utilizadas somente para ilustrar passagens literais e claras.
Portanto, que fique claro ao expositor que nenhuma parte da
Escritura deve ser interpretada sem levar em conta sua relação com
o todo. Ser fiel a essa regra fundamental preservará o confronto
entre diversas passagens. Assim, quando ouvimos Cristo dizer:
“Meu Pai é maior do que eu” (João 14:28), nos atentarmos à Sua
declaração anterior, “Eu e Meu Pai somos um” (João 10:31)
excluirá qualquer ideia de que Ele era, em Seu Próprio Ser, inferior
ao Pai em qualquer sentido; por conseguinte, o testemunho [de
Cristo]

em João 14:28 necessariamente se refere ao Seu


papel de Mediador [dos homens], no qual foi
submisso à vontade do Pai. “Necessariamente”,
dizemos, porque o Filho não é outro senão “o
poderoso Deus” (Isaías 9:6), “o verdadeiro Deus” (1
João 5:20). Outra vez, palavras como “batiza-te, e
lava os teus pecados” (Atos 22:16) não devem ser
entendidas de maneira que contradigam “e o sangue
de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o
pecado” (1 João 1:7), mas consideradas apenas
como uma “lavagem” simbólica. “Para reconciliar
consigo mesmo todas as coisas” (Colossenses 1:20)
não pode ensinar o universalismo, ou cada passagem
afirmando a punição eterna dos perdidos seria
negada. 1 João 3:9 deve ser entendido de modo
consistente com 1 João 1:8.
4. A necessidade de se prestar muita atenção ao contexto é
outra questão de suma importância. Cada declaração das Escrituras
não só deve ser explicada em plena harmonia com a analogia da fé
como também, mais especificamente, em completo acordo com o
sentido claro e com o significado da passagem da qual ela faz
parte. O “sentido claro” deve ser diligentemente buscado. Poucas
coisas têm contribuído mais para interpretações equivocadas do
que a ignorância desse princípio óbvio. Com a separação de um
verso de seu contexto ou com a análise à parte desse se pode
“provar” não só absurdos como também mentiras disfarçadas pelas
próprias palavras da Escritura.

Por exemplo, “ouvir a igreja” não é uma exortação


que obriga os membros a submeterem os seus
julgamentos aos clérigos, mas, como Mateus 18:17
mostra, a assembleia local deve decidir a questão
quando um irmão transgressor recusa ser submisso à
exortação privada. Como certa pessoa disse, “Uma
mente engenhosa e hipócrita pode selecionar
diversos textos fundamentais da Escritura e, em
seguida, combiná-los da forma mais arbitrária
possível, de modo que, embora sejam a própria
Palavra de Deus, expressem os pensamentos do
homem e não do Espírito Santo”.
Determinar o significado preciso de certas expressões por
observar as circunstâncias e a ocasião de sua ocorrência é de
grande ajuda. Muitos pregadores, ao falharem nesse ponto, não
compreendem a verdadeira força dessas palavras tão bem-
conhecidas: “Ó Senhor, dá palavras aos meus lábios, e a minha
boca anunciará o teu louvor” (Salmos 51:15). A boca de Davi
havia sido fechada pelo pecado e por não o confessar; desse modo,
o Espírito havia se extinguido! Agora que ele tinha se confessado
perante o Senhor, Davi clamava para que Deus limpasse seus
lábios cobertos de vergonha. O

significado espiritual de um acontecimento é muitas


vezes percebido ao se prestar atenção ao que está
vinculado. Um exemplo notável disso é encontrado
em Mateus 8:23-26, a qual, tendo-a em mente,
possui uma aplicação para nós. A chave para isso é
encontrada na última parte do verso 23 e na leitura
dos versos 19-22. A ordem de pensamento é
bastante sugestiva: a passagem toda trata de “seguir”
a Cristo, e os versos 23-26 fornecem uma figura
representativa das marcas que o caminho do
discípulo possui, em meio a um mundo
tempestuoso: enfrentar provações, dificuldades e
perigos; e diversas vezes pensar que o Senhor
parece estar “adormecido”, desatento ou indiferente
às nossas tribulações! Mas, na realidade, é um teste
de fé, uma amostra de que Ele exige confiança
enquanto O esperamos, que Ele é nosso único
refúgio, suficiente para cada tempestade!
A parábola registrada em Lucas 15:3-32

jamais poderá ser interpretada corretamente se seu


contexto for ignorado. Por falta de usar essa
analogia, que confusão e desacordo desnecessários
têm ocorrido entre os comentaristas a respeito de
quem são as noventa e nove ovelhas deixadas no
deserto (caracterizadas como “simplesmente
pessoas/justos que não necessitam de
arrependimento”) e de quem é o “filho mais velho”
(que se queixou do tratamento generoso concedido a
seu irmão); observamos que essa parábola (dividida
em três partes) não foi dita por Cristo aos discípulos,
mas dirigida aos seus inimigos. Ela foi dada em
resposta aos fariseus e escribas que haviam
murmurado por nosso Senhor ter recebido
pecadores e comido com eles.

Seu plano era expor a condição de seus corações, e,


confirmar as Suas próprias ações graciosas. Ele a
expôs retratando a condição perdida de seus críticos
vis e dando a conhecer a base em que Ele recebeu
pecadores em comunhão conSigo, e revelando as
operações divinas que causam esse bendito
resultado. Uma vez que tais verdades claras são
compreendidas, não há dificuldades em entender os
detalhes da parábola.
Duas classes claramente distintas nos são apresentadas em
Lucas 15:1-2: os publicanos e pecadores desprezados que, vendo
sua grande necessidade, foram atraídos a Cristo; e os fariseus e
escribas, orgulhosos e cheios de presunção. Em cada uma das três
partes da parábola, ambos estão em vista, respectivamente. Em
primeiro lugar, o bom Pastor busca e protege sua ovelha perdida,
pois é Ele quem efetua a salvação; as noventa e nove que, a seus
próprios olhos, não precisavam de arrependimento tipificam o
fariseu hipócrita — deixados no “deserto”, em contraste com a
ovelha trazida para “casa”. Na segunda, são descritas as operações
secretas do Espírito no coração (retratadas sob a figura de uma
mulher dentro da casa), e por meio da “luz” a moeda perdida é
recuperada — enquanto as outras nove são entregues à própria
sorte. Na terceira, a única ovelha procurada pelo Pastor, pela
iluminação do Espírito, é conduzida ao Pai; enquanto que o filho
mais velho (aquele que se gabava, dizendo “eis que te sirvo há
tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento”) representa
o fariseu — um estranho ao alegre banquete! Aprenda com isso a
importância de se observar a quem uma passagem é destinada, em
quais circunstâncias e ocasiões ela ocorre e o objetivo central do
falante ou escritor, antes de tentar interpretar seus detalhes.
Cada verso iniciado pela palavra “pois”

nos obriga a traçar uma conexão existente:


geralmente ela tem a força de “porque”,
comprovando a existência de uma declaração
anterior. Da mesma forma, a expressão “Por causa
disto” e palavras como “por isso” e “portanto”
exigem muita atenção, de modo que possamos ter
diante de nós a promessa da qual a conclusão é
retirada. O mal-entendido generalizado de 2
Coríntios 5:17 fornece um exemplo do que acontece
quando há descuido no momento da análise. Nove a
cada dez vezes sua introdução “Assim que” não é
citada. Por não haver compreensão de seu
significado, um sentido completamente errado é
dado a “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as
coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.
Essa introdução, “Assim que”, indica que esse verso
não pode ser analisado como uma sentença isolada,
completa em si mesma, mas sim como uma sentença
intimamente ligada com algo exposto anteriormente.
Ao voltarmos para o verso anterior, veremos que ele
também começa com as palavras “Assim que”,
demonstrando ser uma passagem didática ou
doutrinária, e não uma que narre a vida de alguém
ou a experiência da alma, nem uma exortação,
exigindo obras.
Deve-se notar, com bastante atenção, que “se alguém” de 2
Coríntios 5:17 demonstra que aquilo não é algo realizado por
alguns poucos especiais, nem um retrato de cristãos maduros, mas
a expressão de algo que é comum a todos os regenerados. Na
realidade, o verso definitivamente não está tratando da experiência
cristã, mas do novo relacionamento [com Deus] para qual a
regeneração nos traz. E precisaríamos de tempo para responder
cuidadosamente a cada questão: Sobre qual assunto específico o
apóstolo estava escrevendo? O que o levou a escrever? Qual foi
sua abordagem específica nessa ocasião? Porém, basta dizer que
ele estava refutando caluniadores judaizantes e destruindo suas
mentiras. Nos versos 14-16, Paulo enfatiza que a união com Cristo
representa morte aos relacionamentos naturais, na qual toda
distinção carnal e biológica entre judeus e gentis acaba; além disso,
nos conduz a um novo fundamento, o da ressurreição, que nos
proporciona uma nova posição diante de Deus. Como membros de
uma nova criação, estamos sob um pacto inteiramente novo, e
para nós as limitações e restrições da antiga aliança “já se
passaram”. Este é o propósito fundamental da epístola para esse
fato manifesta plenamente.
5. Igualmente necessário é que o intérprete determine o escopo
de cada passagem, isto é, sua coerência com o que precede e com
o que se segue. Às vezes isso pode ser melhor feito por se notar o
livro particular em que se encontra. De modo notável, esse é o
caso de alguns leitores ao lerem o livro de Hebreus.

Quantos cristãos, que caíram em grandes pecados


ou que se desviaram durante algum tempo, têm,
após se arrependerem, se atormentado de maneira
desnecessária ao lerem versos como Hebreus 6:4-6,
10:26-31! Dizemos “de maneira desnecessária”, pois
tais versos foram dirigidos a uma classe de pessoas
muito diferente, cujo caso era totalmente outro.
Esses hebreus citados na carta ocupavam uma
posição única. Educados no judaísmo, haviam
abraçado o evangelho. No entanto, mais tarde, ao
sofrerem terríveis perseguições e verem que o
Messias não correspondia às suas esperanças, eles
estavam realmente tentados a abandonar o
cristianismo para retornar ao judaísmo. Nas
passagens mencionadas acima, esses cristãos
estavam claramente advertidos de que o abandono
da fé cristã seria fatal, de modo que aplicá-las a
cristãos desviados é algo completamente absurdo.
Usá-las para isso seria fugir do propósito e escopo
do texto.
Algumas vezes, para obter a chave de uma passagem é preciso
observar em qual parte do livro ela se encontra. Um exemplo
pertinente é encontrado em Romanos 2:6-10, texto que tem sido
mal interpretado por muitos. O grande tema dessa epístola é “a
justiça de Deus”, declarada nos versos 1:16-17. Sua primeira
divisão vai do capítulo 1:18

ao 3:21, na qual a necessidade universal da justiça


de Deus é demonstrada. A segunda vai do capítulo
3:21 ao 5:1, na qual a manifestação da justiça de
Deus está estabelecida. E a terceira, a imputação da
justiça de Deus está desde o capítulo 5:1 até o 8:39.
Em Romanos 1:18-32, o apóstolo estabelece a culpa
do mundo gentio; enquanto no capítulo 2, a do povo
judeu. Em seus primeiros dezesseis versos, ele
estabelece os princípios que estarão vigentes no
Grande Julgamento, e utiliza os versos 17-24 para
aplicá-los diretamente à nação favorecida. Os
princípios são:
(1) o

julgamento de Deus prosseguirá sobre o fundamento


de que o homem condenou a si mesmo (v. 1);
(2) ele será

conforme cada caso (v. 2);


(3) abusar da

misericórdia divina aumenta a culpa do réu (vs. 3-5);


(4) obras, e

não aparência exterior ou profissão verbal, decidirão


o caso (vs. 6-10); (5) Deus será

imparcial, não concedendo nenhum favoritismo (v.


11);
(6) a pena

total será contabilizada a partir dos diferentes níveis


de iluminação desfrutados por diferentes classes e
tipos de pessoas (vs. 11-15); (7) a

sentença será executada por Jesus Cristo (v. 16).


A partir dessa breve

análise (que exibe o quanto a passagem abrange),


torna-se bastante evidente que o apóstolo não estava
dando a conhecer o caminho da salvação ao declarar
“o qual recompensará cada um segundo suas obras;
a saber: A vida eterna aos que, com perseverança
em fazer o bem, procuram glória, honra e
incorrupção”

(Romanos 2:6-7). Assim, longe de afirmar que


pecadores conseguiriam obter a felicidade eterna
através de um bom comportamento ou da
obediência a Deus, seu propósito era exatamente o
contrário: mostrar o que a santa Lei de Deus exige
dos homens, e que esta exigência permaneceria no
Dia do Juízo. Visto que a natureza depravada da
humanidade torna impossível a qualquer homem,
judeu ou gentio, prestar obediência perfeita e
contínua à Lei divina, torna-se visível a total
desesperança da raça humana e é claramente
testemunhada a sua total necessidade de voltar-se de
si e olhar para a justiça de Deus em Cristo.
Outra passagem que,

quando não observada seu escopo, resulta em falsa


doutrina é 1 Coríntios 3:11-15. Ela frequentemente
é utilizada para sustentar a perigosa ilusão de que há
uma categoria de cristãos genuínos que perderam
toda a “recompensa” para o futuro, não tendo boas
obras consideradas; e que, ainda assim, entrarão no
Céu. Tal ideia é extremamente insultante para o
Espírito Santo, pois afirma que Ele concede o
milagre da graça à alma, habita a pessoa, mesmo
que não haja nenhum fruto espiritual para provar.
Tal ideia grotesca é totalmente contrária à analogia
da fé, pois Efésios 2:10 nos diz que aqueles a quem
Deus salva pela graça através da fé são “feitura dele,
criados em Cristo Jesus para boas obras”. Aqueles
que não andam em boas obras não são salvos, pois
“a fé sem obras é morta” (Tiago 2:20). A Escritura
declara: “Deveras há uma recompensa para o justo”
(Salmos 58:11), de modo que “cada um
[regenerado]

receberá louvor de Deus” (1 Coríntios 4:5), e


certamente não seria esse o caso se alguns deles não
fossem nada senão pepinos plantados na terra.
Essa interpretação não somente desonra a Deus e vai contra
todo o ensino da Escritura como também é refutada pelo próprio
contexto. Para compreendermos 1 Coríntios 3:11-15, os versos 1-
10 devem ser cuidadosamente analisados — de modo que
estabeleçamos o assunto sobre o qual Paulo trata. No início do
capítulo 3, o apóstolo retorna à acusação que havia feito contra os
coríntios no capítulo 1:11, onde ele os reprova por oporem um
servo de Deus contra outro, o que resultou em divisões —
principal razão para haver escrito a epístola. No capítulo 3:3, ele
aponta que essa conduta evidenciava a carnalidade daqueles
homens, e os lembra de que tanto ele quanto Apolo eram nada
“senão ministros” (v. 5). Paulo havia apenas plantado e Apolo
regado — foi Deus quem deu o crescimento. Uma vez que nenhum
deles era “alguma coisa” a menos que Deus abençoasse seus
esforços (v. 7), que loucura seria formar um ídolo de meros
instrumentos! Assim, é evidente, além de qualquer dúvida, que os
versos iniciais de 1 Coríntios 3

tratam do ministério oficial dos servos de Deus. É


mais claro ainda no grego, a palavra “homem” não
ocorre em nenhum na passagem, “todo homem”
sendo literalmente “cada um”, isto é, da classe
especial a que se refere.
O mesmo tema é abordado no verso 8. Embora haja
diversidade no trabalho dos servos de Deus (um é feito
evangelista; outro, doutor), ainda assim eles receberam uma missão
do mesmo Mestre e têm objetivos em comum a respeito do bem-
estar das almas. Por isso, é pecado e loucura exaltar um servo
acima do outro, ou instá-los para que disputem entre si. Ainda que
Cristo distribua dons diferentes a seus servos e os tenha repartindo
em diversos ministérios, “cada um receberá o seu galardão”.

O próprio edifício é de Deus e os ministros, seus


trabalhadores (v. 9).

No verso 10, Paulo se refere ao “fundamento”


ministerial que ele havia exercido (cf. Efésios 2:20),
e o que se segue diz respeito ao material utilizado
pelos construtores que vieram após ele. Se esse
material (a pregação do evangelho) honrou a Cristo
e edificou a santos, eles iriam suportá-los e seriam
recompensados. Mas, se, em vez disso, o pregador
usou para seus temas o aumento da criminalidade, a
ameaça da bomba, as últimas ações dos judeus, etc.,
como lixo sem qualquer valor seria queimado no dia
vindouro e seria recompensado. Assim, é os
materiais usados por pregadores em suas
ministrações públicas, e não a caminhada dos
cristãos privados, o que está aqui em vista.
Capítulo 6
________________________________________

A palavra “interpretação”

tem, nesse contexto, tanto um significado mais


rigoroso (ou estrito) como mais amplo (ou livre). No
primeiro sentido, significa extrair a força gramatical
da passagem; no segundo, explicar seu significado
espiritual. Se o expositor se limitar de forma rígida
às regras técnicas de exegese, ainda que tenha
serventia para o acadêmico, ele será de pouco
proveito para o povo simples de Deus. Dissertar a
respeito das propriedades químicas de um alimento
não saciará a fome do homem faminto, nem
tampouco traçar a raiz das palavras no grego e
hebraico (algo necessário, mas precisa estar em seu
devido lugar) deixará o cristão melhor habilitado a
combater o bom combate da fé. Isso, por um lado,
não quer dizer que desprezamos o conhecimento
acadêmico, nem, por outro, que apoiamos aqueles
que dão lugar à imaginação ao manusearem a
Palavra de Deus. Em vez disso, queremos dizer que
o principal objetivo do expositor deve ser o de unir a
verdade aos corações de seus ouvintes ou leitores —
ele deve demonstrar que o primeiro sentido pode ter
um poder vivificante, transformador e edificante
sobre o segundo.
Em artigos anteriores

dessa série, tem-se explicado que a tarefa do


intérprete é agir conforme Neemias 8:8, em que é
dito: “E leram no livro, na lei de Deus; e declarando,
e explicando o sentido, faziam que, lendo, se
entendesse”; para tanto, o pregador precisa,
semanalmente, investir horas em estudo particular.
Cada palavra do texto — a menos que usá-la de
forma contrária esteja claro na passagem analisada
— deve receber seu significado exato e preciso, de
acordo com seu uso em toda a Escritura. De outro
modo, o expositor estaria sendo descompromissado,
e exporia os oráculos de Deus não por seus próprios
termos, mas com ideias vãs e imaginações criadas
pelo homem. As leis da linguagem não devem ser
violadas ou o significado das palavras alterado para
atender nossos propósitos. Não iremos diminuir o
verdadeiro poder e significado de quaisquer termos,
mas explicá-los através de princípios íntegros, e não
por construções forçadas ou evasões jesuíticas.
A tarefa do intérprete é

determinar, por rigorosa investigação exegética, o


sentido exato das palavras usadas pelo Espírito
Santo e, na medida do possível, transmitir os
pensamentos de Deus em Sua própria linguagem. É
também verificar e determinar o significado exato dos termos
utilizados na Sagrada Escritura e cuidadosamente evitar que
opiniões pessoais interfiram em seu dever. O intérprete não pode
inserir nada que é seu, mas ele deve, simplesmente, empenhar-se
diligentemente para dar o verdadeiro sentido de cada passagem
analisada. Por um lado, ele não deve ignorar, ocultar ou reter nada
do texto; por outro, não deve acrescentar ou manipular algo para
atender aos seus próprios caprichos. A Escritura deve ser exposta a
fim de falar por si mesma, e isso ocorre somente à medida que o
pregador anuncia seu real significado. Ele não deve somente
explicar seus termos, mas também a natureza das ideias que eles
expressam; caso contrário, ele seria capaz de fazer uso dos termos
bíblicos e ainda assim dar-lhes um sentido antibíblico.

Pode-se descobrir com precisão o significado de


cada palavra em uma passagem e, no entanto, por
algum erro contextual ou por qualquer inclinação do
próprio autor, ter um entendimento errado a respeito
do que a passagem realmente ensina.
Um descuido que não seria

tolerado em qualquer outra circunstância,


infelizmente, é livremente permitido quando
cometido em relação à Bíblia. Artistas que são muito
minuciosos na escolha de suas cores ao pintar um
objeto natural são muitas vezes muito negligentes
quando buscam fazer um retrato santo. Assim, a
arca de Noé é representada como tendo uma série
de janelas em seus lados, enquanto tinha apenas
uma, e no topo! A pomba que veio a ele depois do
dilúvio ter diminuído é retratada com um ramo de
oliveira em seu bico, em vez de uma “folha”
(Gênesis 8:11)! O bebê Moisés na arca de juncos é
descrito com um sorriso encantador em seu rosto,
em vez de lágrimas (Êxodo 2:6)! Que nenhum tal
desrespeito criminoso pelos detalhes da Sagrada
Escritura caracterizem o expositor. Em vez disso,
deixe o máximo cuidado e dores serem tidos para
garantir a precisão, por examinarem cada detalhe,
pesando cada jota e til. A palavra usada em
“examinai as escrituras” (João 5:39) significa
diligentemente rastrear, como o caçador faz com o
rastro dos animais. O trabalho do intérprete é
anunciar o sentido e não apenas o som da Palavra.
Ao enumerar, descrever e

ilustrar algumas das leis ou regras que devem reger o


intérprete, nós já consideramos: Em primeiro lugar,
a necessidade de reconhecer e ser regulado pela
interrelação e interdependência entre o Antigo e o
Novo Testamentos. Em segundo lugar, a
importância e a utilidade de observar como as
citações a partir do Antigo Testamento são feitas no
Novo: a maneira pela qual e fins para os quais são
citadas. Em terceiro lugar, a absoluta necessidade de
conformar estritamente todas as nossas
interpretações à analogia geral da fé, ou seja, cada
verso deve ser explicado em plena harmonia com
esse sistema da Verdade que Deus nos revelou e que
qualquer exposição é inválida se se opõe o que é
ensinado em outras partes da Bíblia. Em quarto
lugar, a necessidade de prestar muita atenção a todo
o contexto de qualquer passagem sob consideração.
Em quinto lugar, a importância de determinação do
escopo de cada passagem, e o aspecto particular da
verdade aí apresentada.
Há muito no Sermão do

Monte que ilustra a força dessa regra, pois muitas


das suas demonstrações foram gravemente mal
interpretadas pela falha em perceber o seu alcance
ou propósito.

Assim, quando o nosso Senhor declarou: “Ouvistes


que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.
Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa
mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu
adultério com ela” (Mateus 5:27-28); tem sido
suposto que Ele estava estabelecendo um padrão
mais elevado de pureza moral que o enunciado no
Sinai. Mas um tal conceito está em desacordo direto
com seu propósito. Após solenemente afirmar (v.
17) que, longe de seu ser sua missão destruir a lei ou
os profetas, Ele tinha vindo para cumpri-los (ou
seja, aplicar e realizar as suas exigências), e por
certo Ele não se colocaria imediatamente contra o
seu ensino. Não, a partir do verso 21 em diante Ele
estava empenhado em anunciar a justiça que Ele
exigia dos cidadãos do Seu reino, que ultrapassava a
justiça “dos escribas e fariseus”, que defendiam os
dogmas dos rabinos, os quais tinham “invalidado o
mandamento de Deus” por suas tradições (Mateus
15:6).
Cristo não disse:

“Ouvistes que Deus disse dito no Sinai”, mas


“Ouvistes que foi dito aos antigos”, o que torna
inequivocamente claro que Ele estava se opondo ao
ensinamento dos anciãos, que haviam restringido o
Sétimo Mandamento do Decálogo ao ato de
relações sexuais ilegais com uma mulher casada;
insistindo que isso exigia conformidade das afeições
internas, proibindo todos os pensamentos e desejos
impuros do coração. Há muito em Mateus 5-7 que
não pode ser corretamente entendido a menos que o
principal objetivo e propósito do nosso Senhor nesse
discurso sejam claramente percebidos; caso não seja
assim, as suas
demonstrações mais claras se tornam mais ou menos
obscuras e suas ilustrações mais pertinentes parecem
irrelevantes. Não era o ensino real da lei e dos
profetas, que Cristo refutou aqui, mas as conclusões
errôneas que os mestres religiosos tinham extraído e
as falsas noções que foram formadas com base
nelas, e que eram tão dogmaticamente anunciadas
naquele tempo. O gume afiado da espada do
Espírito tinha sido anulado pelo fato dos rabinos
haverem rebaixado Seus preceitos, impondo sobre
eles sua própria interpretação o que os tornava
desagradáveis para os não-regenerados.
“Ouvistes que foi dito:

Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos


digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te
bater na face direita, oferece-lhe também a outra”
(vv.

38-39) fornece outro exemplo da necessidade de


determinar a abrangência de uma passagem antes de
tentar explicá-la. Pela falha em fazer assim, muitos
têm perdido a força desse contraste. Tem sido
suposto que o nosso Senhor estava aqui ordenando
uma norma de conduta mais misericordiosa do que
era exigido sob a economia mosaica; no entanto, se
o leitor voltar para Deuteronômio 19:17-21,
encontrará que esses versos davam instruções aos
“juízes” de Israel; essas instruções não deviam ser
regidas pelo sentimento, mas para administrar a
justiça estrita ao malfeitor: “olho por olho “, etc.
Mas esse estatuto, que pertence apenas ao
magistrado impor como penalidade judicial, havia
sido pervertido pelos fariseus, dando-lhe um carácter
geral, ensinando assim, que cada homem deveria
fazer cumprir a lei com suas próprias mãos. Nosso
Senhor aqui proibiu a prática da vingança pessoal, e
ao fazê-lo manteve o claro ensino do Antigo
Testamento (veja Êxodo 23:4-5; Levítico 19:18 e
Provérbios 24:29, 25:21-22, que proibiam
expressamente o exercício de malícia e retaliação
pessoal).
“Todo aquele, pois, que

escuta estas minhas palavras, e as pratica,


assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a
sua casa sobre a rocha; e desceu a chuva, e correram
rios, e assopraram ventos, e combateram aquela
casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a
rocha” (Mateus 7:24-25). Quantos sermões foram
lidos nesses versos, os quais não estavam lá, e
falharam tristemente em anunciar o que está neles,
por não compreenderem o seu escopo. Ali, Cristo
não estava envolvido no anúncio do Evangelho da
graça de Deus e revelando a Si mesmo como o
único fundamento da aceitação do pecador, mas
estava fazendo uma aplicação prática e
perscrutadora do sermão que Ele estava aqui
concluindo.
O “pois” no início indica

que Ele estava extraindo uma conclusão de tudo o


que havia dito anteriormente.

Nos versos precedentes, Cristo não estava


descrevendo negociantes de méritos ou falando
contra aqueles que confiavam em boas obras e
realizações religiosas para a sua salvação, mas estava
exortando seus ouvintes a entrarem pela porta
estreita (vv. 13-14), alertando contra os falsos
profetas (vv. 15-20), denunciando uma profissão de
fé vazia. No verso imediatamente anterior (v. 23),
longe de se apresentar como o Redentor, ternamente
atraindo os pecadores, Ele é visto como o Juiz,
dizendo aos hipócritas: “Apartai-vos de mim, vós
que praticais a iniquidade”.
Em vista do que acaba de

ser ressaltado, esse seria, no mínimo, um lugar


estranho para Cristo introduzir o Evangelho e
anunciar que Sua própria obra consumada era o
único fundamento de salvação sobre o qual os
pecadores deveriam descansar as suas almas. Isso
não somente não daria nenhum significado ao “pois”
introdutório, mas não seria coerente com o que se
segue imediatamente, onde, em vez de apontar para
a necessidade de confiar em Seu sangue expiatório,
Cristo mostrou quão indispensável é que nós
obedeçamos aos Seus preceitos. Verdadeiramente
não há redenção para qualquer alma, senão por
meio da “fé no seu sangue”
(Romanos 3:25), mas isso não é sobre o que Ele
estava aqui tratando. Antes, Ele estava insistindo que
nem todos os que lhe dizem: “Senhor, Senhor”,
entrarão em Seu reino, mas “aquele que faz a
vontade de meu Pai que está nos céus” (v. 21).

Em outras palavras, Ele estava testando a profissão


de fé, exigindo a realidade de que a fé genuína
produzirá boas obras. Aqueles que se julgam estar
confiando salvificamente no sangue do Cordeiro
enquanto ignoram os Seus mandamentos estão
fatalmente enganados sobre si mesmos. Aqui, Cristo
não compara o que ouviu e creu em Sua palavra a
um homem prudente que construiu a sua casa
seguramente sobre uma rocha, mas sim aquele que
“ouve e as cumpre” — como no verso 26, o que
constrói sobre a areia é aquele que ouve suas
palavras “e não as cumpre”.
“Concluímos, pois, que o

homem é justificado pela fé sem as obras da lei”


(Romanos 3:28); “Vedes então que o homem é
justificado pelas obras, e não somente pela fé”
(Tiago 2:24). A menos que o propósito de cada
escritor seja claramente apreendido, essas duas
declarações contradizem uma a outra. Romanos
3:28 é uma conclusão do que tinha sido anunciado
nos versos 21-27, a saber, toda vanglória diante de
Deus se torna impossível pelo método divino da
salvação. Pela própria natureza do caso, se a
justificação diante de Deus é pela fé, então deve ser
somente pela fé, sem a mistura de qualquer mérito
nosso. Tiago 2:24 como é claro a partir dos versos
17, 18 e 26, não está tratando de como o pecador
obtém a aceitação diante de Deus, mas como tal
pecado evidencia a sua aceitação. Paulo estava
refutando aquela tendência legalista que leva os
homens confiarem em e “estabelecerem a sua
própria justiça” pelas obras; Tiago estava lutando
contra esse espírito de Antinomianismo licencioso
que faz com que outros pervertam o Evangelho e
insistam que as boas obras não sejam essenciais para
qualquer finalidade. Paulo estava refutando
negociadores de méritos, que repudiavam a salvação
somente pela graça; Tiago afirmou que a graça
opera pela justiça e transforma as pessoas,
mostrando a inutilidade de uma fé morta que nada
produz além de uma profissão jactanciosa. O fiel
servo de Deus sempre alternará em advertir os seus
ouvintes contra o legalismo por um lado, e contra a
licenciosidade, por outro.
6. A necessidade de interpretação da Escritura pela Escritura.
O princípio geral é expresso nas palavras bem conhecidas:
“comparando as coisas espirituais com as espirituais”

(1 Coríntios 2:13), pois enquanto a afirmativa


anterior se refere mais especificamente à inspiração
divina pela qual o apóstolo ensinou, como o porta-
voz autoritativo do Senhor, ainda assim, os dois
versos 12 e 14 tratam da compreensão das coisas
espirituais, e, portanto, nós consideramos que a
última afirmativa do verso 13 tem uma força dupla.
A palavra grega traduzida como “comparando” é
usada na tradução da Septuaginta do Velho
Testamento usualmente para expressar o ato de
interpretar sonhos e enigmas, e C. Hodge
parafraseia: “comparando as coisas espirituais com
as espirituais” por “explicando as coisas do espírito
nas palavras do espírito”, indicando que a palavra
“espiritual” não tem substantivo relacionado com
ela, e, portanto, mais naturalmente concorda com o
termo “palavras” da frase anterior. Por estas razões,
consideramos que 1

Coríntios 2:13 enuncia uma regra muito valiosa e


importante para a compreensão e interpretação da
Palavra de Deus, ou seja, que uma parte dela deve
ser explicada por outra, pois a comparação das
coisas espirituais serve para iluminar e ilustrar uma e
outra, e, assim, a sua perfeita harmonia é
demonstrada. Algo mais do que um conhecimento
confuso ou vago das Escrituras deve ser buscado: a
verificação de que uma parte da verdade está em
pleno acordo com outras partes torna manifesta a
sua unidade — como as cortinas do tabernáculo
eram ligadas entre si por laçadas.
Muitíssimo mais do que

qualquer livro não-inspirado, a Bíblia é um volume


autoexplicativo, não só porque registra a realização
de suas promessas e o cumprimento de suas
profecias, não só porque seus tipos e antítipos
mutuamente revelam uns aos outros, mas, porque
todas as suas verdades fundamentais podem ser
descobertas por meio dos seus próprios conteúdos,
sem referência a qualquer coisa ab extra ou fora de
si mesma. Quando uma dificuldade for
experimentada em uma passagem, ela pode ser
resolvida por uma comparação e análise das outras
passagens, onde as mesmas palavras ou outras
semelhantes ocorrem ou onde os mesmos assuntos,
ou semelhantes, são tratados de forma muito
detalhada ou explicada da forma mais clara. Por
exemplo, aquela expressão de vital importância “a
justiça de Deus” em Romanos 1:17 — todos os
outros lugares onde ela ocorre nas epístolas de Paulo
devem ser cuidadosamente ponderadas antes que
possamos ter certeza de seu significado exato, e
tendo feito isso, não há necessidade de consultar
autores pagãos. Isso não deve ser feito somente por
observar cada palavra, mas as suas partes e
derivados, adjuntos e cognatos, devem ser
examinados em todos os casos, pois, com
frequência, assim uma luz será lançada sobre a
mesma. Que Deus demanda que estudemos a Sua
Palavra dessa forma, é evidente a partir fato de que
nenhum sistema de classificação ou arranjo de
informação foram fornecidos a nós sobre qualquer
de seus temas.

Os principais temas tratados nas Escrituras são apresentados a nós


mais ou menos fragmentados, sendo espalhados por suas páginas e
revelados sob diversos aspectos, alguns clara e completamente,
outros mais remota e laconicamente: em conexões diferentes e com
diferentes adições nas diversas passagens onde elas ocorrem. Isto
foi designado por Deus em Sua multiforme sabedoria para nos
fazer examinar a Sua Palavra. É evidente que se quisermos
apreender totalmente a Sua mente revelada sobre qualquer assunto
particular, devemos coletar e reunir todas as passagens em que tal
assunto é advertido, ou em que um pensamento ou sentimento
similar é expresso; e por esse método, podemos ter a certeza de
que se nós conduzirmos a nossa investigação num espírito reto, e
com diligência e perseverança, chegaremos a um conhecimento
claro da Sua vontade revelada. A Bíblia é um pouco como um
mosaico, cujos fragmentos estão espalhados aqui e ali através da
Palavra, e esses fragmentos devem ser reunidos por nós e

cuidadosamente montados, se quisermos obter a


imagem completa de qualquer um dos seus
inúmeros temas. Há muitas passagens nas Escrituras
que podem ser compreendidas apenas pelos
esclarecimentos e amplificações fornecidas por
outras passagens.
Capítulo 7
________________________________________

Contra as nossas concepções equivocadas de qualquer parte da


Sua Verdade, Deus, em Sua graça e sabedoria, plenamente nos
supriu ao nos conceder uma grande variedade de termos
sinônimos e diferentes modos de expressão. Assim como os
nossos variados sentidos, embora não sejam perfeitos, são eficazes
para transmitir à nossa mente uma impressão real do mundo
exterior por meio de sua operação conjunta, desse modo as
comunicações diferentes e complementares de Deus através dos
muitos escritores das Escrituras nos permitem rever as nossas
primeiras impressões e ampliar nossa visão sobre as coisas divinas,
ampliando o horizonte da verdade e nos permitindo obter uma
concepção mais adequada da mesma. O que um escritor expressa
em linguagem figurativa, outro apresenta em palavras simples.
Enquanto um profeta evidencia a bondade e misericórdia de Deus,
outro enfatiza a Sua severidade e justiça. Se um evangelista
apresenta as perfeições da humanidade de Cristo, outro torna
proeminente a Sua Divindade; se um O retrata como o Servo
humilde, outro revela-O como o Rei majestoso. Um apóstolo
insiste sobre a eficácia da fé, em seguida, outro mostra o valor do
amor, enquanto um terceiro lembra-nos que a fé e o amor são
apenas palavras vazias, a menos que eles produzem frutos
espirituais. Assim, a Escritura exige ser estudada como um todo, e
suas partes devem ser comparadas com as outras, se quisermos
obter uma compreensão adequada da revelação divina. Muito no
Novo Testamento é ininteligível quando separado do Antigo e não
poucas coisas nas Epístolas exige os Evangelhos e os Atos para sua
elucidação.
Mais especificamente, a importância de comparar Escritura
com Escritura aparece na confirmação que é oferecida.

Não que elas exijam qualquer tipo de autenticação,


pois são a Palavra dAquele que não pode mentir, e
devem ser recebidas como tal, por um
consentimento sem reservas à sua autoridade divina.
Não, antes, a nossa fé nelas devem ser o mais firme
e totalmente estabelecida. Como o sistema de dupla
entrada na

contabilidade fornece uma verificação segura para o


auditor, assim, pelas bocas de duas ou três
testemunhas a Verdade é estabelecida. Assim,
encontramos nosso Senhor empregando esse
método em João 5, tornando manifesto a
inescusável incredulidade dos judeus em Sua
divindade, apelando para as diferentes testemunhas
que atestaram o mesmo (vv. 32-39). Assim, Seu
apóstolo na sinagoga de Antioquia, ao estabelecer o
fato de Sua ressurreição, não se contentou em
apenas citar o Salmo 2:7 como prova, mas apelou
também ao Salmo 16:10 (Atos 13:33-36).

Assim também em suas Epístolas: um exemplo


notável disso é encontrado em Romanos 15, onde,
depois de afirmar que “Jesus Cristo foi ministro da
circuncisão para a verdade de Deus, para confirmar
as promessas feitas aos pais”, acrescentou, “e para
que os gentios glorifiquem a Deus pela sua
misericórdia”, citando o Salmo 18:49, como prova;
porém, uma vez que esse era um ponto
controvertido entre os judeus, acrescentou mais uma
prova, observe o seu “E mais uma vez” no início de
versos 10, 11 e 12. Assim também “por duas coisas
imutáveis [a promessa e o juramento de Deus]...
tenhamos a

firme consolação” (Hebreus 6:18).


As Escrituras necessitam ser comparadas com Escrituras para
fins de elucidação. “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para
comer; e se tiver sede, dá-lhe água para beber; porque assim lhe
amontoarás brasas sobre a cabeça; e o Senhor to retribuirá”
(Provérbios 25:21-22). Os comentaristas são quase igualmente
divididos entre duas visões completamente diferentes sobre o que
é representado pela expressão figurativa “brasas” sendo
amontoadas sobre a cabeça de um inimigo, quando o tratamos o
gentilmente; uma parte argumenta que isso significa o agravamento
de sua culpa, outros insistem que isso significa a destruição de um
espírito de inimizade nele e a conquista de sua boa vontade. Ao
comparar cuidadosamente o contexto em que essa passagem é
citada em Romanos 12:20, a controvérsia é terminada, pois deixa
claro que a última é a verdadeira interpretação, pois o espírito do
Evangelho não ordena qualquer ação que garanta a desgraça de um
adversário.

Ainda assim, um apelo ao Novo Testamento não


deve ser necessário a fim de expor o erro da outra
explicação, pois tanto a Lei como o Evangelho
ordena o amor ao próximo e a bondade para com
um inimigo. Como João nos diz em sua primeira
epístola, quando buscar nos inculcar a lei do amor,
que ele não estava dando um “novo mandamento”,
mas um mandamento que eles haviam recebido
desde o início; mas que agora era aplicado por meio
de um novo exemplo e motivo (2:7-8).
“E não podia fazer ali nenhuma obra maravilhosa; somente
curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos”

(Marcos 6:5). Alguns Arminianos são tão


determinados em negar a onipotência de Deus e a
invencibilidade de Sua vontade que eles têm apelado
para essa passagem como prova de que o poder do
Seu Filho encarnado era limitado, e que havia
ocasiões em que os Seus desígnios misericordiosos
eram frustrados pelo homem.

Mas uma comparação da passagem paralela em


Mateus 13:54-58, ao mesmo tempo evidencia a
mentira da afirmação de uma tal blasfêmia, pois ali
somos informados que “e não fez ali muitas
maravilhas, por causa da incredulidade deles”.

Assim, não foi qualquer limitação em Si mesmo,


mas algo neles que O deteve. Em outras palavras,
Ele agiu por um senso de adequação à circunstância.
A ênfase tanto em Marcos 6:5 quanto em Mateus
13:58 está na palavra “ali”, pois, como mostra o
contexto, isso ocorreu em Nazaré, onde Ele foi
desprezado. Realizar obras maravilhosas diante
daqueles que O viam com desprezo seria, a
princípio, lançar pérolas aos porcos; assim como
seria inadequado realizar milagres para satisfazer a
curiosidade de Herodes (Lucas 23:8); em outros
lugares Ele fez muitas obras sobrenaturais. Em
Gênesis 19:22, o Senhor não pôde destruir Sodoma
até que Ló fugisse dali, enquanto em Jeremias
44:22, Ele “não podia mais suportar” as maldades de
Israel; isso foi adequação moral, não incapacidade
física.
A comparação é útil também para a finalidade de
amplificação. Uma Escritura não somente apoia e ilumina a outra,
mas, muitas vezes, uma passagem suplementa e amplia a outra. Um
exemplo simples, embora impressionante, é visto no que é
conhecido como a Parábola do Semeador, mas que talvez possa ser
mais apropriadamente designada de: A Parábola do Grão e dos
Solos. A importância profunda desta parábola é intimada a nós
pelo Espírito Santo por Ele ter movido Mateus, Marcos e Lucas a
registrarem a mesma. Os três relatos contêm algumas variações
marcantes, e eles precisam ser cuidadosamente comparados a fim
de obtermos o retrato completo estabelecido neles. O seu âmbito é
revelado em Lucas 8:18: “Vede, pois, como ouvis”. Não fala do
ponto de vista da realização dos conselhos divinos, mas de pôr em
prática a responsabilidade humana. Isto é feito inequivocamente
claro a partir do que é dito sobre o que foi semeado em boa terra:
o frutífero ouvinte da Palavra. Cristo não o descreve como alguém
“em quem uma obra da graça divina é operada”, ou “cujo coração
havia se tornado receptivo através de operações sobrenaturais do
Espírito”, mas sim como aquele que recebeu a Palavra em “um
honesto e bom coração”. Verdade, de fato, é que a obra vivificante
do Espírito deve ser previamente realizada em qualquer um assim
receba a Palavra, de modo a tornar-se frutífero (Atos 16:14), mas
esse não é o aspecto particular da verdade que nosso Senhor
estava aqui apresentando; em vez disso, Ele estava mostrando que
o próprio ouvinte deve buscar a graça de frutificar, se ele deseja
dar fruto para a glória de Deus.
O próprio semeador é quase perdido de vista(!). Quase todos
os detalhes da parábola tratam dos vários tipos de solo no qual a
semente caiu, considerando-os ou improdutivos ou produtivos
apenas de alguma frutificação. Nisso, Cristo apresentou a recepção
que é dada à pregação da Palavra. Ele comparou o mundo a um
campo, que é dividido em quatro partes, de acordo com os seus
diferentes tipos de solo. Em Sua interpretação, Ele definiu os
diversos solos como representando diferentes tipos de pessoas que
ouvem a pregação da Palavra, e solenemente cabe a cada um de
nós diligentemente examinarmos a nós mesmos, para que
possamos determinar com certeza a que tipo nós pertencemos.
Esses quatro tipos — a partir das descrições dadas sobre os solos e
das explicações que Cristo forneceu sobre eles — podem ser

respectivamente chamados de: o coração duro, o


coração raso, o coração dividido e o coração
íntegro. No primeiro, a semente não obtém
sustentação; no segundo, ela não desenvolve
nenhuma raiz; no terceiro, não havia nenhum
espaço; no quarto, foi encontrado tudo o que de
bom faltou nos ouros três, e, portanto, houve
crescimento. Estes mesmos quatro tipos foram
encontrados em todas as gerações, entre os que se
sentaram sob a pregação da Palavra de Deus, e eles

provavelmente existem em cada igreja e assembleia


hoje na Terra; não é difícil distingui-los, se
medirmos os Cristãos professos por aquilo que o
Senhor afirma sobre cada um.
O primeiro solo é o ouvinte “junto ao caminho”, cujo coração
é totalmente receptivo, como a estrada é batida e endurecida pelo
tráfego do mundo. A semente não penetra em tal solo, e “as aves
do céu” a arrebatam. Cristo explicou isso como sendo um retrato
de alguém que “não compreende a palavra” (ainda que seja seu
dever cuidar de fazê-lo – 1 Coríntios 8:2), e o maligno tira a
palavra do seu interior; Lucas 8 acrescenta: “para que não se
salvem, crendo”. O segundo é o ouvinte “solo rochoso”, ou seja,
aquele solo que possui uma base de rochas, mas uma fina camada
de terra por cima. Uma vez que não haverá terra profunda a
semente não poderá desenvolver suas raízes, e o sol escaldante a
fará definhar. Esta é uma representação do ouvinte superficial,
cujas emoções são despertadas, mas que carece de qualquer exame
de consciência e convicções profundas. Ele recebe a Palavra com
uma “alegria”

natural, mas (no relato de Mateus) “chegada a


angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo
se ofende”. Estes são os que não têm raiz em si
mesmos, e consequentemente (como o relato de
Lucas nos informa) “apenas creem por algum
tempo, e no tempo da tentação se desviam”. Eles
nada têm além de uma fé temporária e evanescente;
muito tememos ser esse o caso da grande maioria
dos “convertidos” em missões especiais e nas
“campanhas evangelísticas”.
O terceiro, ou “solo o espinhoso”, é o ouvinte mais difícil de
identificar, mas o Senhor graciosamente forneceu uma ajuda
completa quanto a isso, aprofundando os detalhes de Suas
explicações sobre o que os “espinhos” significam. Os três relatos
dizem-nos que eles simples e naturalmente “cresceram”, o que
implica que nenhum esforço foi feito para tratar de removê-los; e
todas as três narrativas mostram que eles “sufocaram” a semente
ou a Palavra. O registro de Mateus define os espinhos como “os
cuidados deste mundo e a sedução das riquezas”. Marcos
acrescenta: “as ambições de outras coisas, entrando”. Enquanto
Lucas menciona também “os deleitas da vida”. Assim, somos
ensinados que há toda uma variedade de coisas que impedem
qualquer fruto que está sendo levado à perfeição; contra cada uma
destas coisas nós precisamos estar muito atentos e em oração. O
ouvinte “solo bom” é aquele que “entende” a Palavra (Mateus
13:23), pois a menos que o seu sentido seja compreendido, ela de
nada nos aproveita; provavelmente uma familiaridade experiencial
também está incluída. Marcos 4 menciona “recebe-a”

(cf. Tiago 1:21), enquanto Lucas 8 descreve esse


ouvinte como recebendo a Palavra “em um coração
honesto e bom”, que é aquele que se opõe a toda a
presunção carnal e ama a verdade pelo que ela é,
aplicando a Palavra ao seu próprio caso e julgando-
se por ela; “a guarda”, preza e medita sobre ela,
atende e obedece-a; e “produz fruto com
perseverança”.
Em um capítulo anterior chamamos a atenção para Mateus
7:24-27, como um exemplo da importância de determinar o alcance
de uma passagem. Vamos agora apontar para a necessidade de
compará-la com a passagem paralela em Lucas 6:47-49. Nela os
ouvintes da Palavra são comparados aos construtores sábios e aos
tolos. Os primeiros constroem a sua casa sobre o fundamento da
Palavra de Deus. O edifício é construído, e a esperança é cultivada.
A tempestade que veio sobre a casa é a tribulação ou prova a que é
submetida. Apenas Lucas começa seu relato dizendo que o homem
sábio veio a Cristo, para aprender dEle. Sua sabedoria apareceu no
problema que ele teve e as dores que sofreu a fim de encontrar
uma base segura sobre a rocha. O relato de Lucas acrescenta que
ele “cavou profundo”, o que se refere à sua seriedade e cuidado, e
significa que ele buscou espiritualmente aproximar-se das
Escrituras e de forma diligente examinou seu coração e profissão;
esse cavar fundo está em proposital contraste com “porque não
tinha terra profunda” (Marcos 4:5) do ouvinte “solo rochoso”.
Apenas Lucas usa a expressão “com ímpeto” para descrever a
violência da tempestade pela qual a casa foi provada: a sua
profissão sobreviveu aos ataques do mundo, da carne e do Diabo,
e ao escrutínio de Deus no momento da morte; o que prova que ele
era um cumpridor da Palavra e não apenas um ouvinte (Tiago
1:22). Inútil é a confissão dos lábios a menos que seja confirmada
pela vida.
A comparação de Escritura com Escritura é valiosa para fins de
harmonização ou para a preservação do equilíbrio da Verdade,
evitando assim que nos tornemos desequilibrados. Uma ilustração
disso é encontrada em conexão com o que é chamado de “a grande
comissão”, um registro tríplice desta, com variações notáveis, é
dado no último capítulo de cada um dos Evangelhos Sinópticos. A
fim de revelar um conhecimento correto ou total da completude da
ordem que Cristo deu aos Seus servos, em vez de limitar a nossa
atenção para apenas um ou dois destes relatos — como é agora tão
frequentemente o caso — os três relatos precisam ser reunidos.
Lucas 24:47, mostra que o dever do ministro é tanto “que o
arrependimento e a remissão dos pecados sejam pregados em seu
nome”, quanto a ordem que os pecadores “creiam nEle”; e Mateus
28:19-20, deixa claro que é dever do ministro tanto batizar aqueles
que creem quanto depois ensiná-los a guardar todas as coisas que
Ele ordenou, como também “pregar o evangelho a toda criatura”.
A qualidade é ainda mais importante do que a quantidade! Uma
das principais razões por que tão poucas das igrejas Cristãs em
terras pagãs são autossuficientes é que os missionários deixaram
muitas vezes de doutrinar e edificar seus convertidos
exaustivamente, deixando-os em um estado infantil, enquanto
partem para outros lugares buscando outras pessoas para
evangelizarem.
O não cumprimento desse importante princípio está na base de
grande parte da evangelização defeituosa de nossos dias, em que
os perdidos são informados de que a única coisa necessária para a
sua salvação é “crer no Senhor Jesus Cristo”. Outras passagens
mostram que o arrependimento é igualmente essencial:
“Arrependei-vos, e crede no evangelho”

(Marcos 1:15), “a conversão a Deus, e a fé em


nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21). É
importante notar que, sempre que os dois são
mencionados, o arrependimento sempre vem em
primeiro lugar, pois em relação à própria natureza
do caso, é impossível que um coração impenitente
creia salvificamente (Mateus 21:32). O
arrependimento é uma compreensão de minha
culpabilidade por ser um rebelde contra Deus, e me
desviar dEle e condenar-me. O arrependimento se
expressa na tristeza amarga pelo e ódio ao pecado.
Isso resulta em um reconhecimento de minhas
ofensas e no abandono de coração dos meus ídolos
(Provérbios 28:13), em um abaixar as armas da
minha guerra e em um abandono sincero de meus
maus caminhos (Isaías 55:7). Em algumas
passagens, como Lucas 13:3 e Atos 2:38; 3:19,
somente o arrependimento é mencionado. Em João
3:15 e Romanos 1:16; 10:4, apenas o “crer” é
especificado. Por que é assim? Porque as Escrituras
não são escritas como documentos de legisladores,
em que os termos são exaustivamente repetidos e
multiplicados. Cada verso deve ser interpretado à luz
das Escrituras como um todo; assim onde somente o
“arrependimento” é mencionado, o “crer” está
implícito; e onde somente o “crer” é encontrado, o
“arrependimento” é pressuposto.
7. Declarações breves devem ser interpretadas por outras
mais completas. É uma regra invariável da exegese que, quando
algo está mais clara ou completamente definido por um escritor do
que por outro, o último sempre deve ser entendido à luz do
primeiro, e o mesmo se aplica a duas declarações do mesmo
pregador ou escritor. Particularmente esse é o caso com os três
primeiros Evangelhos; as passagens paralelas devem ser
consultadas, e a mais curta deve ser interpretada à luz da mais
completa.

Assim, quando Pedro perguntou a Cristo: “Senhor,


até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e
eu lhe perdoarei? Até sete?”, isto não deve ser
considerado como significando que um Cristão deve
tolerar erros e exercer graça à custa da justiça; pois
Ele antes havia acabado de dizer: “Ora, se teu irmão
pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se
te ouvir, ganhaste a teu irmão”

[v. 15]. Não, antes a linguagem de Cristo em Mateus


18:22 deve ser explicada por Sua declaração mais
completa em Lucas 17:3-4: “Olhai por vós mesmos.
E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele
se arrepender, perdoa-lhe. E, se pecar contra ti sete
vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo,
dizendo: Arrependo-me; perdoa-lhe”. O próprio
Deus não nos perdoa antes que nos arrependamos
(Atos 2:38, 3:19)! Se um irmão não se arrepende,
nenhuma malícia deve ser nutrida contra ele; no
entanto, ele não deve ser tratado como se nenhuma
ofensa houvesse sido cometida.
Muito dano já foi feito por alguns que, sem qualificação,
interpretaram as palavras de nosso Senhor em Marcos 10:11:
“Qualquer que repudiar sua mulher e casar com outra, comete
adultério contra ela”, sujeitando assim a parte inocente à mesma
penalidade da parte culpada.

Mas essa afirmação deve ser interpretada à luz de


uma mais completa em Mateus 5:32: “Eu, porém,
vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a
não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa
adultério, e qualquer que casar com a repudiada
comete adultério”, repetido por Cristo em Mateus
19:9. Nessas palavras, o único Legislador de Seu
povo propôs uma regra geral: “Todo aquele que
repudia sua mulher faz com que ela cometa
adultério”, e então ele colocou uma exceção, ou
seja, que onde o adultério aconteceu ele pode
repudiar, e ele pode se casar novamente. Como
Cristo ensina a legalidade do divórcio em razão de
infidelidade conjugal, assim Ele ensina que é lícito o
inocente se casar novamente depois de um tal
divórcio, sem contrair culpa. A violação dos votos
de casamento rompe o vínculo do casamento, e
aquele que manteve os votos fielmente é, após o
divórcio ser obtido, livre para se casar novamente.
Capítulo 8
________________________________________

8. É necessário reunir e comparar todas as passagens que


tratam do mesmo assunto, onde os termos cognatos ou diferentes
expressões são usadas. Isto é essencial se o expositor quiser ser
preservado de concepções errôneas do mesmo, e para que ele
intenda a mente do Espírito. Tome essas palavras bem conhecidas
como um exemplo simples: “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mateus 7:7).
Poucos textos foram mais gravemente pervertidos do que esse.
Muitos o têm considerado como uma espécie de cheque em
branco, de modo que ninguém — não importa o seu estado de
alma ou seu modo de vida — pode preencher exatamente com o
que lhe agrada, e que, após fazer isto, ele tem apenas que
apresentar o cheque preenchido diante do trono da graça e Deus
fica obrigado a honrar isso. Tal caricatura da verdade não
mereceria refutação se atualmente ela não estivesse sendo tão
grandemente alardeada em alguns lugares.

Tiago 4:3 declara expressamente sobre alguns:


“Pedis e não recebeis, porque pedis mal”; há alguns
que “pedem” e não recebem! E porquê? Porque a
petição deles é carnal, “para o gastardes em vossos
deleites”, e, portanto, um Deus santo lhes nega.
Pedir a Deus em oração é uma coisa; pedir apropriada,
razoável, aceitável e efetivamente é outra coisa completamente
diferente. Se queremos verificar como o último deve ser feito, as
Escrituras devem ser examinadas para esse efeito. Assim, a fim de
garantir que Deus nos ouça, devemos nos aproximar de Deus
através do Mediador: “E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu
nome, Ele vo-lo concederá” (João 16:23). Mas, pedir ao Pai em
Seu nome significa muito mais do que apenas proferir as palavras
“Dê-me isto em o nome de Jesus”. Entre outras coisas, significa
pedir na Pessoa de Cristo, como identificados com e unidos a Ele;
pedindo o que é de acordo com Suas perfeições e será para Sua
glória; pedindo o que Ele pediria se estivesse em nosso lugar.
Novamente, devemos pedir com fé (Marcos 11:24), pois Deus não
abençoará ninguém por sua incredulidade. Cristo disse aos Seus
discípulos: “Se vós permanecerdes em mim e as minhas palavras
permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito”
(João 15:7), aqui mais duas condições são estipuladas. Para
receber devemos pedir de acordo com a vontade de Deus (1 João
5:14), como revelado em Sua Palavra. Que deplorável e indevido
uso tem sido feito de Mateus 7:7 pelo simples fato de não
buscarem interpretar esta passagem à luz de passagens paralelas!
Outro exemplo de falha nesse ponto é o uso frequente feito de
Gálatas 6:15: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a
incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova
criatura” (ou “nova criação”). É muito adequado e pertinente
utilizar esse verso ao mostrar que nem as ordenanças cerimoniais
do Judaísmo nem o Batismo e Ceia do Senhor do Cristianismo são
de qualquer valor para adequar-nos para o recebimento de nossa
herança com os santos na luz. Assim também, embora com muito
menos frequência, somos lembrados de que: “Em Jesus Cristo nem
a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé
que opera pelo amor” (Gálatas 5:6), isto é, da fé que advém da
gratidão a Deus pelo Seu dom inefável, e não por motivos legais,
pois essa fé somente pode ser obtida pelo dom de Deus. Mas quão
raramente é citado no púlpito que “a circuncisão é nada e a
incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de
Deus” (1 Coríntios 7:19). Isso diz respeito à nossa submissão à
autoridade divina, a nossa caminhada em sujeição à vontade de
Deus, e geralmente isto é omitido. É somente através da colocação
desses três versos lado a lado que obtemos uma visão equilibrada.
Não somos vitalmente unidos a Cristo a menos que tenhamos
nascido de novo; não nascemos de novo, a menos que tenhamos
uma fé que opera pelo amor; e nós não temos essa fé salvífica a
menos que isso seja comprovado por uma observância dos
mandamentos de Deus.
É dever do expositor reunir as várias descrições e
exemplificações dadas nas Escrituras de qualquer coisa em
particular, ao invés de formular uma definição formal de sua
natureza, pois é desse modo que o Espírito Santo nos ensina a
conceber isto. Tome o simples ato de fé salvífica, e observe as
numerosas e mui diferentes expressões usadas para descrevê-la.
Ela é citada como crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16:31), ou
repousar com confiança a alma nEle. Como vir a Ele (Mateus
11:28), o que implica o abandono de tudo o que se opõe a Ele.
Como recebê-lO (João 1:12), enquanto Ele é oferecido
gratuitamente aos pecadores no Evangelho. Como uma fuga para
buscar refúgio nEle (Hebreus 6:18), como o homicida que procura
refúgio em uma das cidades previstas para esse propósito (Número
35:6). Como olhar para Ele (Isaías 45:22). Como o olhar dos
israelitas feridos para a serpente na haste (Números 21:9). Como
uma aceitação do testemunho de Deus, e assim confirmando que
Ele é verdadeiro (João 3:33). Como a entrada em um caminho
(Mateus 7:13) ou em uma porta (João 10:9). Como um ato de
rendição completa ou entrega de nós mesmos ao Senhor (2
Coríntios 8:5), como uma mulher quando se casa com um homem.
O ato da fé salvífica também é apresentado como um chamado
ao Senhor (Romanos 10:13), como fez Pedro ao afundar (Mateus
14:30) e o ladrão moribundo. Como confiar em Cristo (Efésios
1:13) como o grande Médico, confiando em Sua suficiência para
curar as nossas doenças mortais. Como um descanso no Senhor
(Salmos 37:7) como em um alicerce seguro (Isaías 28:16). Como
um ato de apropriação ou de comer (João 6:51) para satisfazer um
doloroso vazio interior. Como um compromisso (2 Timóteo 1:12):
como um homem deposita o seu dinheiro em um banco seguro,
assim devemos entregar as nossas almas nas mãos de Cristo, para
o tempo e a eternidade (cf.

Lucas 23:46). Como fé no Seu sangue (Romanos


3:25). Como uma crença na Verdade (2
Tessalonicenses 2:13). Como um ato de obediência
ao santo mandamento de Deus (2 Pedro 2:21), em
conformidade com os termos do Evangelho
(Romanos 10:16).

Como um amor ao Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios


16:22). Como um converter-se ao Senhor (Atos
11:21), o que implica uma separação do mundo.
Como o recebimento do testemunho de Deus (1
João 5:9-10) como um motivo
todo-suficiente de segurança, sem a evidência de um
sentimento ou qualquer outra coisa. Como um
tomar da água da vida (Apocalipse 22:17). A
maioria destas vinte expressões é figurativa e,
portanto, melhor adequada do que qualquer
definição formal para transmitir à nossa mente um
conceito mais vivo do ato da fé salvífica e para
preservar-nos de uma visão unilateral do mesmo.
Muito mal tem sido feito por “neófitos”

incompetentes quando se trata do tema da


regeneração, limitando-se a um único termo,
“nascer de novo”. Esta é apenas uma das muitas
figuras utilizadas nas Escrituras para descrever esse
milagre da graça que é operado na alma quando essa
passa da morte para a vida e é trazida das trevas
para a maravilhosa luz de Deus. É denominado um
novo nascimento porque uma vida divina é
comunicada e há o início de uma nova experiência.
Mas também é comparada a uma ressurreição
espiritual, que apresenta uma linha muito diferente
do pensamento, e a uma “renovação” (Colossenses
3:10), que indica uma mudança no indivíduo em
relação ao que ele era originalmente. É a pessoa que
é divinamente vivificada e não apenas uma
“natureza” que é nascida de Deus: “Necessário vos é
nascer de novo” (João 3:7), e não apenas algo em
você deve nascer de novo; “Ele é nascido de Deus”
(1 João 3:9). A mesma pessoa que era
espiritualmente morta, estando todo o seu ser
alienado de Deus, é então vivificada: todo o seu ser
é reconciliado com Deus. Isto deve ser assim, de
outro modo não haveria nenhuma preservação da
identidade do indivíduo. É

um novo nascimento do próprio indivíduo e não de


algo nele. A natureza nunca é alterada, mas a pessoa
é, relativamente e não absolutamente.
Se nos limitarmos à figura do novo nascimento quando
consideramos a grande mudança operada em alguém a quem Deus
salva, não somente obteremos um conceito muito inadequado do
mesmo, mas um conceito completamente errado. Em outras
passagens isso é citado como: uma iluminação da mente (Atos
26:13), um minucioso e convencimento da consciência (Romanos
7:9), a regeneração do coração (Ezequiel 11:19), uma subjugação
da vontade (Salmos 110:3), um levar de nossos pensamentos à
sujeição a Cristo (2
Coríntios 10:5), a lei de Deus escrita sobre o
coração (Hebreus 8:10). Em algumas passagens algo
é dito ser removido do indivíduo (Deuteronômio
30:6; Ezequiel 36:26), o amor ao pecado, inimizade
contra Deus; enquanto em outras passagens, algo é
comunicado (Romanos 5:5; 1 João 5:20). As figuras
da criação (Efésios 2:10), regeneração (Tito 3:5) e
ressurreição (1 João 3:14) também são empregadas.
Em algumas passagens esse milagre parece ser uma
coisa concluída (1

Coríntios 6:11; Colossenses 1:12), em outros,


aparece como um processo ainda em curso (2
Coríntios 3:18; Filipenses 1:16). Embora a obra da
graça seja uma, ainda assim é multifacetada. Seu
objeto é uma criatura complexa e sua salvação afeta
cada parte de seu complexo ser.
O nascimento físico é a entrada nesse mundo para uma
criatura, uma personalidade completa, a qual antes da concepção
não possuía qualquer existência. Mas alguém regenerado por Deus
tinha uma personalidade completa antes dele nascer novamente. A
regeneração não é a criação de um indivíduo que até então não
existia, mas a espiritualização de alguém que já existe, a renovação
e reformação de alguém a quem o pecado incapacitou para a
comunhão com Deus, concedendo-lhe uma nova inclinação à
todas as suas faculdades. Tome cuidado para não pensar que o
Cristão é composto de duas personalidades distintas e diversas. A
responsabilidade é atribuída ao indivíduo e não à sua “natureza”
ou “naturezas”. Embora tanto o pecado quanto a graça, habitem no
santo, Deus o considera responsável por resistir e subjugar a um e
por submeter-se e ser regulado pela outra. O fato de que esse
milagre da graça também é comparado a uma ressurreição (João
5:25) deve nos impedir de formarmos uma ideia parcial do que é
intencionado por novo nascimento e por “nova criatura”, e de
forçar algumas analogias em relação ao nascimento natural, que
outras expressões figurativas não permitem. A grande mudança
interior também é comparada a uma divina “geração” (1 Pedro
1:3), porque a imagem do Criador é então impressa sobre a alma.
Como o primeiro Adão gerou um filho à sua imagem (Gênesis
5:3), assim também o último Adão tem uma “imagem” (Romanos
8:29) a transmitir aos Seus filhos (Efésios 4:24).
O que tem sido apontado

acima aplica-se com igual força ao assunto da


mortificação (Colossenses 3:5). Este dever Cristão
essencial é estabelecido nas Escrituras através de
uma grande variedade de expressões figurativas, e é
muito necessário que nós tomemos o cuidado de
reunilas e compará-las se quisermos ser preservados
de perspectivas defeituosas do que Deus requer de
Seu povo nesta importante questão de resistir ao e
vencer o mal. A mortificação é dita ser como uma
circuncisão do coração (Deuteronômio 11:16) e
como arrancar o olho direito e cortar a mão direita
(Mateus 5:29-30), o que nos dá a ideia de ser uma
coisa dolorosa. É uma negação de si mesmo e um
tomar a cruz (Mateus 16:24). É um despojar-se das
obras das trevas (Romanos 13:12), um despojar-se
do velho homem (Efésios 4:22), um separar-se de
toda imundícia e superfluidade da promiscuidade
(Tiago 1:21), cada um dos quais é necessário antes
que possamos nos revestir da armadura da luz ou do
novo homem, ou receber com mansidão a Palavra
enxertada, pois temos de deixar de fazer o mal antes
que possamos fazer o bem (Isaías 1:16-17). É um
não fazer nenhuma provisão para a carne (Romanos
13:14), um desfazer do corpo, ou seja, do pecado
(Romanos 6:6; Colossenses 2:11) e trazê-lo em
sujeição (1 Coríntios 9:27), um purificar-nos de toda
a imundícia da carne e do espírito (2 Coríntios 7:1),
é um abster-se de toda a aparência do mal (1
Tessalonicenses 5:22), a deixar de lado todo
embaraço (Hebreus 12:1).
9. Igualmente necessário é não separar o que Deus uniu. Por
natureza, todos nós somos propensos a ir para extremos,
especialmente aqueles que possuem uma tendência filosófica em
suas mentes, os quais, em busca de unidade de pensamento, estão
em grande perigo de forçar uma unidade para que ela entre na
esfera de seu conhecimento limitado. Para fazer isso, eles são
muito propensos a sacrificar um lado ou elemento da verdade em
detrimento a outro. Eu posso ser bastante claro e lógico à custa de
ser superficial e não abrangente. Uma advertência muito solene
contra esse perigo foi fornecida pelos judeus em relação à sua
interpretação das profecias messiânicas, pois eles atentarem
exclusivamente para aquelas que anunciavam as glórias de Cristo e
negligenciaram aquelas que prediziam os Seus sofrimentos de
modo que até mesmo os próprios apóstolos foram maldosamente
afetados por isso, e foram repreendidos por Cristo em relação a tal
loucura (Lucas 24:25-26). É nesse ponto que o povo de Deus, e em
particular os Seus ministros, precisam ser muito vigilantes. A
verdade é dupla (Hebreus 4:12): Cada doutrina tem o seu elemento
correspondente e complementar, todos os privilégios têm a sua
obrigação implícita. Esses dois lados da Verdade não se cruzam
entre si, mas correm paralelos um ao outro: eles não são
contraditórios, mas complementares, e ambos devem ser
sustentados por nós, se quisermos ser impedidos de grave erro.
Assim, nunca devemos

permitir que a grande verdade da soberania de Deus


afaste o fato da responsabilidade humana. A vontade
do Todo-Poderoso é realmente invencível, mas isso
não significa que não somos nada mais do que
bonecos inanimados. Não, nós somos agentes
morais, bem como criaturas racionais, e em tudo
somos tratados por Deus como tal. “É necessário
que venham escândalos”, disse Cristo, mas Ele
imediatamente acrescentou, “mas ai daquele homem
por quem o escândalo vem”

(Mateus 18:7). Aqui as duas coisas estão unidas: a


certeza infalível dos decretos divinos, a culpabilidade
e a criminalidade do agente humano. O mesmo
conjunto inseparável aparece novamente na
declaração relativa à morte de Cristo: “A este que
vos foi entregue pelo determinado conselho e
presciência de Deus, prendestes, crucificastes e
matastes pelas mãos de injustos” (Atos 2:23). Mais
uma vez, o nosso zelo pela doutrina da eleição não
deve fazer-nos ignorar a necessidade de utilizar os
meios. Aqueles pensam: “se eu sou eleito, serei
salvo, quer eu me arrependa e confie em Cristo ou
não faça nada disso”, estão mortalmente enganando
a si mesmos; prova disto é o que está escrito em 2

Tessalonicenses 2:13: “Mas devemos sempre dar


graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor,
por vos ter Deus elegido desde o princípio para a
salvação, em santificação do Espírito, e fé da
verdade”. Ninguém nunca será salvo até que creia
(Lucas 8:12; Hebreus 10:39), e, portanto, todos
devem ser exortados a fazê-lo.
A redenção particular

(i.e., Cristo fez expiação somente pelos pecados de


Seu próprio povo) não deve impedir os Seus servos
de pregar o Evangelho a toda a criatura e anunciar
que há um Salvador para todos os pecadores que se
apegam a Ele, e que os que assim fazem são salvos
do Inferno. Não divida as duas metades de João
6:37: todo aquele que o Pai dá a Cristo, virá a Ele,
ainda assim, cada um deve buscá-lO (Isaías 55:6;
Jeremias 29:13). A incapacidade do homem natural
não anula sua prestação de contas, pois embora
ninguém possa ir a Cristo, se o Pai não o atrair (João
6:44), sua recusa a vir é altamente censurável
(Provérbios 1:24-31; João 5:40). Também um
Cristo dividido não deve ser apresentado aos
pecadores para a sua aceitação. É uma ilusão
imaginar que o Seu sacrifício sacerdotal pode ser
recebido enquanto o Seu governo real for recusado
ou que Seu sangue me salvará embora eu despreze o
Seu governo. Cristo é “Senhor e Salvador”, e nessa
ordem inalterável (2 Pedro 1:11; 3:2,18), porque
temos que abaixar as armas da nossa guerra contra
Ele e tomar o Seu jugo sobre nós a fim de
encontrarmos descanso para a nossa alma. Assim, o
arrependimento e a fé são igualmente necessários
(Marcos 1:15; Atos 20:21).
Se por um lado a

justificação e a santificação devem ser claramente


distinguidas, por outro, elas não devem ser
dissociadas (1 Coríntios 1:30, 6:11). “Cristo nunca
entra na alma sozinho. Ele traz o Espírito Santo com
Ele, e o Espírito concede dons e graças. Cristo vem
com uma bênção em cada mão: o perdão em uma e
a santidade na outra” (Thomas Adams, 1650). No
entanto, quão raramente Efésios 2:8-9 é completado
pela citação do verso 10! Novamente, as verdades
gêmeas da preservação divina e da perseverança
Cristã não devem ser separadas, pois a primeira é
realizada pela instrumentalidade da última e não sem
ela. Somos de fato “guardados pelo poder de Deus”,
assim como “pela fé” (1 Pedro 1:5), e se em 1 João
2:27 [na versão usada pelo autor], o apóstolo
assegurou aos santos: “haveis de permanecer nele”,
no verso seguinte ele os exortou a “permanecer
nele”; como Paulo também os exortou aos Filipenses
a operarem a sua própria salvação com temor e
tremor, e depois acrescentou: “Porque Deus é o que
opera em vós tanto o querer como o efetuar,
segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13).
Balaão desejou morrer a morte dos justos, mas não
estava disposto a viver a vida de um. Meios e fins
não devem ser separados: nunca alcançaremos o
Céu, a menos que nós continuemos no único
caminho (o “estreito”) que leva a ele.
Capítulo 9
________________________________________

10. O simples negativo, muitas vezes implica, por outro lado,


o positivo. Essa é uma regra muito simples de exegese, mas uma
que demanda a atenção do jovem estudante. A declaração

negativa é, naturalmente, aquela em que algo é


negado ou onde a ausência de seu oposto é suposta.
No discurso comum o inverso de um negativo
geralmente é válido, como quando nós declaramos:
“Eu espero que não chova hoje”, é o mesmo que
dizer: “Eu confio que o tempo permanecerá firme”.
Que essa regra ocorre na Escritura é claro a partir
dos inúmeros casos em que a antítese é indicada.

“Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”


é explicado em: “Far-me-ás ver a vereda da vida”
(Salmos 16:10-11). “Não escondi a tua justiça
dentro do meu coração”, e depois o lado positivo
segue, “apregoei a tua fidelidade e a tua salvação”
(Salmos 40:9-10). “Por isso deixai a mentira, e falai
a verdade cada um com o seu próximo... Aquele
que furtava, não furte mais; antes

trabalhe” (Efésios 4:25,28). Muitos outros exemplos


poderiam ser dados, mas esses são suficientes para
estabelecer a regra da qual estamos lidando.
Ora, o Espírito Santo nem sempre usa a antítese, contudo, a
usa em muitos casos; vejamos alguns exemplos para que possamos
exercitar as nossas mentes em Sua Palavra: “Não esmagará a cana

quebrada, e não apagará o morrão que fumega”


(Mateus 12:20), significa que Ele ternamente cuida
dela e a nutre. “A Escritura não pode ser anulada”
(João 10:35) isso equivalente a dizer que ela
certamente será cumprida. “Sem mim nada podeis
fazer” (João 15:5) implica que, em união e
comunhão com Ele “podemos todas as coisas”
(Filipenses 4:13). Aliás, observe como o primeiro
serve para definir o último; não significa que
sejamos, então, capazes de realizar

milagres, mas, sim, capacitados para darmos fruto!


“Não vos ponhais em jugo desigual com os infiéis”
(2 Coríntios 6:14) tem a força de “Saí do meio deles
e apartai-vos”, como o verso 17 mostra. “Não
sejamos cobiçosos de

vanglórias” (Gálatas 5:26) implica que sejamos


humildes de espírito e

consideremos os outros superiores a nós mesmos


(Filipenses 2:3). “Estas coisas vos escrevo, para que
não pequeis” (1 João 2:1) é igual a “meu propósito é
inculcar e promover a prática da santidade”, como
tudo o que se segue mostra claramente.
Mandamentos negativos recomendam o bem oposto: “Não
tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Êxodo 20:7)
implica que devemos ter o Seu nome em máxima reverência e
santificá-lo em nossos corações.

Ameaças negativas são afirmações tácitas: “O


Senhor não terá por inocente o que tomar o seu
nome em vão”; antes Ele o condenará e punirá.
Promessas negativas contêm garantias positivas:
“Um coração quebrantado e contrito ó Deus, tu não
desprezarás” (Salmos 51:17), isso significa que tal
coração é aceitável a Ele.

“Não retirará bem algum aos que andam na retidão”


(Salmos 84:11) é o mesmo que dizer que tudo o que
é verdadeiramente bom para os tais, certamente, lhes
será dado. Conclusões negativas envolvem seus
opostos: “O pai do insensato não tem alegria”
(Provérbios 17:21), isso intenciona mostrar que ele
sofrerá muita tristeza e angústia por causa do filho
— oh, que as crianças desobedientes estejam
conscientes do sofrimento que eles causarão aos
seus pais. “Dar

importância à aparência das pessoas não é bom”


(Provérbios 28:21), mas é mal.

Declarações negativas trazem consigo assertivas


fortes: “Na verdade, Deus não procede impiamente;
nem o Todo-Poderoso perverte o juízo” (Jó 34:12),
antes Ele agirá de modo santo e governará com
retidão.
11. Em nítido contraste com o supracitado, deve-se salientar
que em muitos casos as declarações apresentadas sob a forma
interrogativa têm a força de uma negativa enfática. Essa é outra
regra simples que todos os expositores devem ter em mente.
“Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à
perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7), não, de fato. “E qual de
vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à
sua estatura?” (Mateus 6:27), ninguém pode fazê-lo por quaisquer
meios. “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se
perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua
alma?” (Mateus 16:26), absolutamente nada, ou melhor, ele está
incomensuravelmente em pior situação. “Serpentes, raça de
víboras! como escapareis da condenação do inferno?” (Mateus
23:33), eles não escaparão. “Como podeis vós crer, recebendo
honra uns dos outros, e não

buscando a honra que vem só de Deus?” (João


5:44), isso é moralmente

impossível. “Como crerão naquele de quem não


ouviram falar?” (Romanos 10:14), eles não crerão.
[5]
Por outro lado, a interrogação de Mateus 6:30 é
uma afirmação forte; enquanto que a de Mateus
[6]
6:28 é uma proibição.
12. O uso correto da razão em relação às coisas de Deus. Essa
é outra regra de exegese que é de importância considerável, ainda
que deve ser usada com santo cuidado e cautela, por um
julgamento maduro e por um conhecimento aprofundado da
Palavra. Por essa razão, não deve ser usado pelo neófito ou
inexperiente. O Cristão, como o não-Cristão, é dotado de
racionalidade, e o exercício dela, se santificada, certamente tem um
bom lugar na esfera do reino das coisas espirituais. Antes de
considerar a aplicação da razão ao expor a Verdade, vamos pontuar
seu domínio mais geral.

Dois exemplos disso podem ser selecionados a partir


dos ensinamentos do nosso Senhor. “Ora, se Deus
veste assim a erva do campo, que hoje existe e
amanhã é lançada no forno, porventura, não vestirá
muito mais a vós, homens de pouca fé?” (Mateus
6:30). Aqui encontramos Cristo demonstrando, por
um processo simples de lógica, a irracionalidade
absoluta da ansiedade desconfiada em relação ao
suprimento de necessidades temporais. Seu
argumento é extraído a partir da consideração da
providência divina. Se Deus cuida do campo, muito
mais Ele cuidará de Seu amado povo; Ele evidencia
Seu cuidado por vestir a erva do campo, logo, muito
mais Ele fornecerá roupas para nós.
“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos
filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que
lhe pedirem?” (Mateus 7:11). Aqui, novamente, o Senhor nos
mostra como essa faculdade deve ser usada por meio de um
processo de raciocínio santo. Ele estava falando sobre o tema da
oração, e apresentou um argumento para assegurar que os Seus
discípulos serão ouvidos no trono da graça. O argumento é
baseado em uma comparação entre desigualdades e a razão
extraída do menor ao maior.
Pode ser descrito assim: Se os pais terrenos, embora
pecadores, são inclinados a ouvir os apelos de seus
pequeninos, certamente nosso Pai celestial não

fechará os ouvidos para os clamores de Seus filhos:


pais naturais, de fato, respondem e concedem os
pedidos de seus filhinhos, portanto, muito mais o
nosso Pai graciosa e generosamente responderá
nossas orações e concederá bens aos Seus. Diz-se de
Abraão que ele raciocinava ou considerava assim
consigo mesmo: Não há nada impossível para Deus.
Da mesma forma o apóstolo: “Pois tenho para mim
[estou convencido por raciocínio lógico] que os
sofrimentos do tempo presente não são dignos de
serem comparados com a glória a ser revelada em
nós”

(Romanos 8:18). Outras ilustrações do raciocínio


inspirado de Paulo são

encontradas em Romanos 5: 9-10 e 8:31-32. Em


todos esses casos, somos ensinados sobre a
legitimidade e uso correto do raciocínio.
O Senhor Jesus, muitas vezes argumentou, tanto com os
discípulos quanto com os Seus adversários, como acontece com os
homens racionais, de acordo com os princípios do raciocínio que
Ele fez acerca da profecia e da conformidade do evento com a
previsão (Lucas 24:25-26; João 5:39,46). Ele assim o fez a partir
dos milagres que realizou (João 10:25,37,38; 14:10-11) como sendo
provas incontestáveis de que Ele foi enviado de Deus, e reprovou
os Seus desprezadores por não identificá-lO como o Messias:

“Hipócritas, sabeis discernir a face da terra e do céu;


como não sabeis então discernir este tempo? E por
que não julgais também por vós mesmos o que é
justo?”

(Lucas 12:56-57), essa foi uma repreensão direta e


contundente, porque em seu mais baixo fundamento
eles falharam em usar adequadamente os seus
poderes de raciocínio, como Nicodemos fez: “Rabi,
bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque
ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se
Deus não for com ele” (João 3:2). Assim, também,
o apóstolo quando exortando os fiéis a fugirem da
idolatria acrescentou: “Falo como a entendidos;
julgai vós mesmos o que eu digo” (1 Coríntios
10:15).
Em sua exposição magistral de Hebreus 4:3, Owen apontou
que o argumento do apóstolo repousou sobre a regra lógica de que
“quando há em questão dois opostos entre si, aquele que afirma
um, ao mesmo tempo nega o outro; e, o inverso também é
verdadeiro, aquele que nega um, afirma o outro. Aquele que
afirma ser dia, de fato, diz que não é noite, como se ele tivesse
usado formalmente tais palavras”. Seu propósito completo em 4:1-
11 foi demonstrar por vários testemunhos e exemplos que a
incredulidade separa do repouso de Deus, ao passo que a fé
concede entrada a esse descanso.

No verso 3, ele afirma: “Porque nós, os que temos


crido, entramos no repouso”, em comprovação
disso, ele acrescenta: “tal como disse: Assim jurei na
minha ira que não entrarão no meu repouso”. Ali o
apóstolo novamente citou o Salmo 95

(veja Hebreus 3:7,11,15,18). A partir da triste


experiência do fracasso de Israel ao entrar no
repouso por causa da sua incredulidade e
desobediência a Deus, Paulo chegou à conclusão
óbvia e inevitável que os crentes “entram” no
repouso.
Nós repetimos, é apenas por esse princípio de lógica que o
argumento do apóstolo em Hebreus 4:3 pode ser entendido. Se
algum dos nossos leitores estiver inclinado a ter problema com
essa afirmação, então nós respeitosamente o exortamos a examinar
e cuidadosamente ponderar nesse verso, e ver se ele percebe como
o texto-prova citado supre qualquer confirmação da proposição de
sua cláusula de abertura. A partir dessa exposição Owen apontou:
“Deste modo podemos perceber o uso da razão ou de deduções
lógicas na proposição, lidando e confirmando santas verdades

sobrenaturais e artigos de fé. A validade da prova do


apóstolo nessa passagem depende da certeza da
sentença lógica antes mencionada, a consideração
dessa remove toda a dificuldade. E negar essa
liberdade da consequência dedutiva, de acordo com
as corretas regras de raciocínio, é quase remover o
uso da

Escritura, e banir a razão daquelas coisas em que ela


deve ser principalmente empregada”.
Em Hebreus 8:13, encontra-se outro e ainda assim muito mais
simples exemplo de raciocínio sobre as Escrituras. “Dizendo Nova
aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se
envelhece, perto está de acabar” (Hebreus 8:13). O propósito do
apóstolo nessa epístola foi expor a superioridade imensurável do
Cristianismo sobre o

Judaísmo, e exortar os crentes hebreus a se


apegarem firmemente a Cristo, a verdadeira luz e
substância, e não se voltarem para as sombras e
símbolos de um sistema que havia servido ao seu
propósito. Entre outras razões, ele tinha apelado
para a promessa de uma “nova aliança” feita por
Yahwéh em Jeremias 31:31-34. Ele tinha citado isso
em Hebreus 8:8-12, e então extraiu uma inferência
lógica da palavra “nova”: Deus está chamando essa
melhor

economia de nova, sendo claramente implícito que a


anterior havia se tornado obsoleta; assim como o
Salmista (102:25-26), ao afirmar que a presente
terra e céus pereceriam, adicionou como prova que
eles “envelheceriam como uma roupa”.

Assim, a declaração feita em Hebreus 8:13, é (a


título de dedução lógica) apresentada como uma
prova da proposição indicada em 8:7: “Porque, se
aquela primeira fora irrepreensível, nunca se teria
buscado lugar para a segunda”.
Em Efésios 4:8, Paulo cita o Salmo 68:18, em seguida, mostra-
nos como devemos fazer um uso correto da razão ou exercer as
faculdades intelectuais e morais: Por isso diz: “Subindo ao alto,
levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens”, a exaltação de
Cristo pressupunha uma humilhação anterior. Mais uma vez: “Ou
cuidais vós que em vão diz a
Escritura: O Espírito que em nós habita tem
ciúmes?” (Tiago 4:5). Mas, como Thomas Manton
destacou em sua exposição desse verso, tal
afirmação não é

encontrada em nenhum lugar na Bíblia nesses


termos específicos, e acrescenta: “A Escritura ‘diz’ o
que pode ser inferido a partir do escopo dela própria
por justa consequência. Inferências imediatas são tão
válidas quanto palavras expressas. Cristo provou a
ressurreição não pelo testemunho direto, mas pelo
argumento (Mateus 22:32). Portanto, o que a
Escritura indica por uma boa consequência, deve ser
recebido como se fosse disto expressamente”.

Ainda outro dos apóstolos recorreu ao raciocínio,


quando disse: “Se recebemos o testemunho dos
homens, o testemunho de Deus é maior” (1 João
5:9), e infinitamente mais confiável; daí, não há
desculpas para aqueles que o rejeitam.
Aqueles que estão familiarizados com os escritos de Agostinho
e Calvino observarão quão frequentemente eles inferiram que
aquilo que for livremente concedido por Deus é algo de que o
homem caído, considerado em si mesmo, é destituído. Essa é uma
dedução óbvia da razão, e uma correta regra de exegese, sendo de
aplicação simples e universal, a saber, que tudo o que é
graciosamente oferecido em e por Cristo está faltando em nossa
condição natural. Assim, cada verso que fala da vida eterna como
um dom divino, ou que faz a promessa da vida eterna para aqueles
que creem, pressupõe necessariamente que estamos sem ela, e,
portanto,

espiritualmente mortos. Assim, também, o


recebimento do Espírito Santo pelo Cristão (Atos
2:38; Gálatas 3:2, 4:6) toma como certo que em sua
condição não-regenerada ele estava sem o Espírito,
depois de ter perdido Sua presença interior por
causa do pecado; o mesmo sendo graciosamente
restaurado a nós pela mediação de Cristo (João
7:39; Gálatas 3:14). Como resultado da Queda, o

Espírito Santo foi, no exercício da justiça divina,


retirado do coração humano e, consequentemente,
foi deixado não só sem um habitante divino, mas se
tornou uma presa de todas aquelas influências —
naturais, mundanas e satânicas — que, na ausência
do Espírito Santo, inevitavelmente atraem as
afeições para longe de Deus; mas na regeneração o
Espírito é novamente dado (Ezequiel 34:27).
Enquanto, por um lado, a faculdade da razão é muito superior
aos nossos sentidos corporais (o que distingue o homem e o eleva
acima dos animais), por outro lado, a razão é muito inferior à fé (o
dom de Deus para o Seu povo), e esta, por sua vez, ao Espírito
Santo, de Quem somos dependentes para a direção da razão e o
fortalecimento da fé. Há muita confusão mental e não poucos
pensamentos equivocados por parte dos santos sobre a posição e
extensão que a razão pode e deve ter em relação às Escrituras.

Certamente Deus não subordinou a Sua Palavra à


nossa razão para que nós

aceitemos apenas o que é aprovado por nosso


julgamento. No entanto, Ele supriu o Seu povo com
essa faculdade, e embora insuficiente, por si só, é
uma valiosa ajuda na compreensão da Verdade.
Embora a razão não deva ser feita o medidor de
nossa crença, contudo ela deve ser usada como
serva da fé, comparando Escritura com Escritura,
deduzindo inferências e extraindo consequências de
acordo com as leis legítimas da lógica. Nunca a
faculdade da razão é tão dignamente usada como no
esforço por compreender a Sagrada Escritura. Se
por um lado somos proibidos de nos estribarmos em
nosso próprio entendimento (Provérbios 3:5), por
outro, somos exortados a aplicar nossos corações ao
entendimento

(Provérbios 2:2).
Deus tem nos fornecido com um padrão infalível pelo qual
podemos testar cada exercício de nossa razão em Sua

Palavra, ou seja, a analogia da fé. E é aí que temos


uma salvaguarda segura contra o mau uso dessa
faculdade. Embora seja verdade que, muitas vezes,
mais está implícito nas palavras das Escrituras do
que é realmente expresso, ainda assim, a razão não é
uma lei em si mesma para fazer qualquer
suplemento que quiser. Qualquer dedução que
fazemos, não importa quão lógica pareça, qualquer
consequência que extraímos, não importa o quão
plausível seja, é errônea se for incompatível com
outras passagens. Por exemplo, quando lemos:
“Sede vós pois perfeitos, como vosso Pai que está
nos céus é perfeito” (Mateus 5:48), podemos
concluir que a perfeição sem pecado é atingível
nessa vida, mas se fizermos isso erramos, como
Filipenses 3:12 e 1 João 1:8 mostram. Outrossim, eu
poderia inferir a partir das palavras de Cristo,
“ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou
não o trouxer” (João 6:44), que, portanto, não sou
de modo algum responsável por ir a Ele, e que
minha incapacidade me

isenta de responsabilidade; assim, eu seguramente


cometeria um erro, como João 5:40 e outras
passagens mostram.
Capítulo 10
________________________________________

É de primeira importância que o expositor tenha sempre em


mente que não somente a substância e os sentimentos expressos
nas Sagradas Escrituras são de origem divina, mas que todo o seu
conteúdo é verbalmente inspirado. Suas próprias afirmações dão
considerável ênfase sobre esse fato. Disse o santo Jó: “as palavras
da sua boca guardei mais do que a minha porção” (23:12); ele não
apenas venerava a Palavra de Deus em sua totalidade, mas
altamente valorizava cada sílaba nela. “As palavras do Senhor são
palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro,
purificada sete vezes” (Salmos 12:6). Acreditamos que essa é mais
do que uma declaração geral sobre a preciosidade, pureza e
permanência do que sai da boca do Senhor, pois deve ser
devidamente notado que as afirmações divinas não são
simplesmente comparadas à prata refinada numa fornalha, mas em
“fornalha de barro”.

Embora o Espírito Santo tenha usado o vernáculo da


terra, contudo, Ele expurgou aquilo que usou de
toda escória humana, dando a alguns de seus termos
uma força totalmente diferente da sua origem
humana, conferindo-lhes um maior significado e
aplicando tudo com perfeição espiritual, como a
expressão “purificada sete vezes” expressa. Assim,
“toda a palavra de Deus é pura” (Provérbios 30:5).
O Senhor Jesus pôs repetidamente ênfase a esse aspecto da
Verdade. Ao dar a conhecer aos Seus discípulos os requisitos
fundamentais da recepção de suas respostas em oração, Ele disse:
“Se vós estiverdes em mim [mantiverem um espírito de constante
dependência e

permanecerem em comunhão com Ele], e as minhas


palavras permanecerem em vós [formando os seus
pensamentos e regulando os seus desejos], pedireis o
que quiserdes, e vos será feito” (João 15:7), pois em
tais casos eles pediriam apenas o que seria para a
glória de Deus e para seu próprio bem real.

Novamente, Ele declarou: “As palavras que eu vos


digo são espírito e vida” (João 6:63). A Palavra de
Deus, então, é composta de palavras, e cada uma
delas é selecionada pela sabedoria divina e
posicionada com precisão infalível.

Portanto, cabe a nós não pouparmos esforços na


busca de conhecermos o

significado exato de cada um dos seus termos, e


mais diligentemente verificar a ordem exata em que
eles são colocados, pois a correta compreensão de
uma passagem se dá primeiramente por nossa
obtenção de uma compreensão correta de sua
linguagem. Isso deveria ser tão óbvio a ponto de não
ser preciso nenhum argumento, mas é surpreendente
o quão frequentemente esse princípio fundamental é
ignorado e violado.
Antes de afirmar várias outras regras que devem orientar o
expositor, aquelas que particularmente se relacionam mais
diretamente com a interpretação de palavras e frases, vamos
mencionar vários alertas que precisam ser observados. Em
primeiro lugar, não assuma desde o início que tudo é simples e
inteligível para você, pois muitas vezes as palavras da Escritura são
usadas em um sentido diferente e mais elevado do que na
linguagem comum. Assim, não é suficiente se familiarizar com o
seu significado segundo consta no dicionário, antes temos de saber
como eles são usados pelo Espírito Santo. Por exemplo,
“esperança” significa muito mais na Palavra de Deus do que nos
lábios dos homens. Em segundo lugar, não conclua que você
chegou ao significado de um termo, por seu sentido ser bastante
óbvio em uma ou duas passagens, pois você não está em uma
posição para delimitar uma definição até ter avaliado cada
ocorrência do mesmo. Isso exige muito trabalho e paciência, mas
tal é necessário se quisermos ser preservados de ideias errôneas.
Em terceiro lugar, não conclua que qualquer termo empregado
pelo Espírito tem uma significação uniforme, pois esse está longe
de ser o caso. A força dessas advertências será feita mais evidente
nos parágrafos seguintes.
13. A limitação das declarações gerais.

Informações gerais devem, muitas vezes, ser


limitadas, tanto em si mesmas quanto em sua
aplicação. Muitos exemplos desse princípio ocorrem
no livro de Provérbios, e, obviamente, pois um
provérbio ou ditado é um princípio geral expresso de
uma forma breve, uma verdade moral estabelecida
em linguagem condensada e universal. Assim:
“Decerto sofrerá severamente aquele que fica por
fiador do estranho, mas o que evita a fiança estará
seguro” (11:15) anuncia a regra geral, ainda assim,
existem exceções na questão. “A coroa dos velhos
são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus
pais” (17:6), no entanto, isso está longe de acontecer
em todos os casos. “Aquele que encontra uma
esposa, acha o bem, e alcança a benevolência do
Senhor” (18:22), como muitos homens — o escritor
inclusive — já descobriram, todavia, a experiência
de não poucos tem sido o contrário. “A estultícia
está ligada ao coração da criança, mas a vara da
correção a afugentará dela” (22:15), mas Deus
reserva a Si mesmo o direito soberano de fazer esse
bem a quem Lhe agrada, onde Ele não abençoa esse
meio, a criança é endurecida em sua perversidade.
“Viste o homem diligente na sua obra? Perante reis
será posto” (22:29), embora, às vezes, os mais
diligentes se encontram com pouco sucesso material.
Informações gerais devem ser qualificadas, quando as
interpretarmos comparando-as, em um sentido ilimitado, com
outros versos. Um desses casos é a proibição de nosso Senhor:
“Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7:1), pois se
essa afirmação fosse considerada sem qualquer restrição
contradiria o Seu preceito: “julgai segundo a reta justiça”

(João 7:24); mas quantas vezes esse preceito é


lançado contra as cabeças daqueles que realizam um
dever Cristão. A capacidade de pesar ou julgar, para
formar uma estimativa e opinião, é umas das mais
valiosas de nossas faculdades, e o uso correto disso
é uma das nossas tarefas mais importantes. É muito
necessário que nós tenhamos os nossos sentidos
“exercitados para discernir [grego: “julgar
completamente”] o bem e o mal” (Hebreus 5:14) se
não queremos ser enganados pelas aparências, e
levados por cada impostor de lábios

bajuladores que encontramos. A menos que


formemos um juízo do que é verdadeiro e falso,
como podemos receber um e evitar o outro? Somos
convidados a

“acautelar-nos dos falsos profetas”, mas como


podemos fazê-lo a menos que nós julguemos ou
cuidadosamente meçamos cada pregador da Palavra
de Deus? Somos proibidos de ter comunhão com as
obras infrutuosas das trevas, mas isso nos obriga a
determinar quais são essas. Cristo não estava aqui
proibindo todo o julgamento dos outros, mas estava
repreendendo um julgamento importuno ou
autoritário; presunçoso, hipócrita, precipitado ou
apressado, insustentável, injusto e impiedoso. Muita
graça e sabedoria é necessária para que nós

apliquemos corretamente essa palavra do nosso


Mestre.
Outro exemplo pertinente é encontrado em nosso Senhor:
“Não jureis” (Mateus 5:34). Na parte do sermão do monte em que
essas palavras ocorrem, Cristo estava libertando os mandamentos
divinos dos erros dos rabinos e fariseus, e reforçando o seu rigor e
espiritualidade. No caso agora diante de nós, os mestres judeus
haviam restringido os estatutos mosaicos sobre juramentos à
simples proibição de perjúrio, incentivando o hábito de jurar pela
criatura e jurar levianamente em uma conversa normal. Nos versos
34-37, nosso Senhor investiu contra essas tradições e práticas
corruptas. Ele nunca pretendeu que Seu “não jureis” fosse tomado
absolutamente fica claro a partir de Sua proibição que os homens
jurassem por alguma criatura, e da Sua repreensão a todos os
juramentos em conversas cotidianas. A analogia geral da Escritura
revela a necessidade de juramentos em certas ocasiões. Abraão
jurou a Abimeleque (Gênesis 21:23-24) e exigiu que o seu servo
prestasse juramento (Gênesis 24:8-9); Jacó (Gênesis 31:53) e José
(Gênesis 47:31) ambos fizeram um juramento. Paulo confirmou
repetidamente seu ensino por solenemente chamar a Deus por
testemunha (Romanos 9:1; 2 Coríntios 1:23, etc.). Hebreus 6:16,
indica que os juramentos são tanto admissíveis quanto necessários.
Há muitas expressões usadas nas Escrituras indefinidamente
em vez de especificamente, e que não devem ser entendidas sem
qualificação. Algumas delas são mais ou menos aparentes, outras
só podem ser descobertas por uma comparação e estudo de outras
passagens que tratam do mesmo assunto. Assim: “...esta salvação
de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão” (Atos 28:28, e cf.
11:18) não significa que cada um deles seria salvo. Da mesma
forma: “E a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne
juntamente a verá” e “que do meu Espírito derramarei sobre toda a
carne”

(Isaías 40:5; Atos 2:17) eram simplesmente anúncios


que a graça de Deus transbordaria os limites
estreitos de Israel segundo a carne. Assim também
“o mundo” tem uma variedade de significados e
muito raramente é sinónimo de toda a humanidade.
Em passagens como João 7:4 e 12:19, apenas uma
pequena parte de seus habitantes foram incluídos.
Em Lucas 2:1, o mundo profano está em vista; em
João 15:18-19, o mundo dos que professavam ser o
povo de Deus, pois eram partidos religiosos de Israel
que odiavam Cristo. Em João 14:17 e 17:9, os não-
eleitos são referidos; compare com “o mundo dos
ímpios” (2 Pedro 2:5), enquanto que em João 1:29 e
6:33, a referência é ao mundo dos eleitos de Deus,
os que são realmente salvos por Cristo.
Outra palavra que é usada na Bíblia com considerável
amplitude é “tudo”, e muito raramente é encontrada sem qualquer
limitação. “E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o
recebereis”

(Mateus 21:22), obviamente, significa tudo o que


pedimos que é segundo a vontade de Deus (1 João
5:14). Quando os apóstolos disseram a Cristo:
“Todos te buscam” (Marcos 1:37), que “todos se
admiravam” dos Seus milagres (Marcos 5:20) e que
“todas as pessoas vieram a ele” no templo (João
8:2), essas expressões estavam longe de significar a
soma total dos habitantes da Palestina. Quando
Lucas diz aos seus leitores que ele tinha se
“informado minuciosamente de tudo desde o
princípio” (1:3), e quando somos informados de que
Cristo predisse todas as coisas (Marcos 13:23) aos
Seus apóstolos, tal linguagem não deve ser tomada
absolutamente. Da mesma forma, afirmações como
“porque todos

glorificavam a Deus pelo que acontecera”, “este é o


homem que por todas as partes ensina a todos
contra o povo e contra a lei”, “porque hás de ser sua
testemunha para com todos os homens” (Atos 4:21,
21:28, 22:15), devem ser consideradas
relativamente. Consequentemente, à luz desses
exemplos, quando ele lida com “Ele morreu por
todos” e “deu a si mesmo em resgate por todos” (2

Coríntios 5:15; 1 Timóteo 2:6), o expositor deve


determinar a partir de outras Escrituras (como Isaías
53:8; Mateus 1:21; Efésios 5:25) se se intenciona
toda a humanidade ou todos os que creem.
O mesmo é verdadeiro sobre a expressão “todo homem” (veja,
por exemplo, Marcos 8:25; Lucas 16:16; Romanos 12:3; e compare
com 2 Tessalonicenses 3:2; 1 Coríntios 4:5). Assim também o
termo “todas as coisas”. Nem a passagem: “e eis que tudo vos será
limpo” (Lucas 11:41), nem “todas as coisas me são lícitas” (1
Coríntios 6:12) pode ser tomada pelo valor literal, ou muitas
Escrituras seriam desmentidas. “Fiz-me tudo para todos” (1
Coríntios 9:22), essa passagem deve ser explicada por aquilo que o
precede imediatamente. “Todas as coisas” de Romanos 8:28, tem
referência aos “sofrimentos do tempo presente”, e “todas as coisas”
de 8:32, significa “todas as coisas que dizem respeito à vida e
piedade” (2 Pedro 1:3). Os “tempos da restauração de todas as
coisas” (Atos 3:21) é imediatamente modificado pelas palavras que
se seguem imediatamente: “as quais Deus falou pela boca dos seus
santos profetas, desde o princípio”, e certamente nenhuma delas
previu a restauração do Diabo e seus anjos à sua antiga glória. O
texto: “Para

reconciliar consigo mesmo todas as coisas”


(Colossenses 1:20) não deve ser entendido como
ensinado expressamente o Universalismo, ou cada
passagem afirmando a condenação eterna dos que
estão sem Cristo seria desmentida.
14. Afirmações positivas com uma força comparativa. Muitas
afirmações nas Escrituras são expressas de forma absoluta, ainda
assim elas devem ser entendidas relativamente. Isto é evidente a
partir desses exemplos explicados a seguir. “Não ajunteis tesouros
na terra”

(Mateus 6:19) esse verso é explicado no verso


seguinte: “Mas ajuntai tesouros no céu”. “Trabalhai,
não pela comida que perece” (João 6:27) não é uma
proibição absoluta, como é demonstrado por: “mas
pela comida que permanece para a vida eterna”. Da
mesma forma: “Não atente cada um para o que é
propriamente seu, mas cada qual também para o que
é dos outros” (Filipenses 2:4), ou seja, nós devemos
amar o nosso próximo como a nós mesmos. “Por
isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que
rega”, deve ser tomado relativamente, porque Deus
frequentemente emprega tanto um quanto o outro
como instrumentos para fazer essas mesmas coisas:
“mas Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:7),
isso mostra onde a ênfase deve ser colocada, e
Aquele a quem a glória deve ser atribuída. “O
enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos
cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos
vestidos; mas o homem encoberto no coração; no
incorruptível traje de um espírito manso e quieto,
que é precioso diante de Deus” (1 Pedro 3:3-4).
Há, no entanto, numerosos exemplos que não são
imediatamente explicadas para nós, mas que a analogia da fé deixa
claro.

“Falou mais Deus a Moisés, e disse: Eu sou o


Senhor. E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó,
como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome,
Yahwéh, não lhes fui perfeitamente conhecido”
(Êxodo 6:2-3 – trad. lit.). No entanto, é bastante
claro a partir das palavras de Abraão em Gênesis
15:6,8, a partir de seu chamado ao altar “Yahwéh-
Jiré” (Gênesis 22:14), e a partir de Gênesis 26:2,24,
e das palavras de Deus a Jacó em 28:13, que os
patriarcas estavam familiarizados com esse título
divino. Mas eles não O conheciam como o
Cumpridor de Suas promessas ou Sua real
fidelidade pactual; enquanto Moisés e os hebreus
agora teriam prova de Sua palavra dita em Gênesis
15:13-14, e seriam trazidos para a terra de Canaã.
“Os meus olhos estão continuamente no Senhor”
(Salmos 25:15), isto deve ser entendido em
harmonia com outras

Escrituras que mostram que houve momentos em


que os olhos de Davi foram afastados do Senhor, e,
como resultado, ele caiu em graves pecados; no
entanto, esse era o hábito do seu coração, o teor
geral de sua vida espiritual. Veja 1 Reis 15:5, para
mais uma demonstração comparativa sobre Davi.
“Sacrifício e oferta não quiseste”, isto é, não quiseste que
continuassem por mais tempo, como o que se segue mostra; as
sombras dão lugar à substância: “holocausto e expiação pelo
pecado não

reclamaste” (Salmos 40:6). Essas últimas palavras


devem, obviamente, ser entendidas relativamente,
pelo fato de tais ofertas já terem sido requeridas por
determinação divina. Mas mesmo a apresentação
dos sacrifícios mais caros (o cordeiro, ou um boi)
eram inaceitáveis a Deus, a

menos que procedessem daqueles que sinceramente


desejavam obedecê-lO e

servi-lO, como fica claro a partir de tais passagens


como Provérbios 21:27 e Isaías 1:11-15.
Conformidade comparativa com os preceitos da lei
moral era muito mais importante do que a
conformidade com a lei cerimonial (veja 1

Samuel 15:22; Salmos 69:30-31; Provérbios 21:3;


Oséias 6:6; 1 Coríntios 7:19).

Adoração é rejeitada, a menos que seja realizada por


amor e gratidão.

Semelhantemente devemos entender: “Porque nunca


falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do
Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de
holocaustos ou sacrifícios” (Jeremias 7:22), aquelas
não foram as primeiras ou principais coisas
ordenadas. Não, “mas isto lhes ordenei, dizendo:
Ouvi a minha voz”, isto é, a concepção de toda a
revelação no Sinai foi inculcar a sujeição prática à
vontade de Deus, e o ritual levítico era apenas um
meio para esse fim.
Palavras que são usadas para expressar perpetuidade não
devem ser estendidas para além da duração conhecida das coisas
ditas.

Como quando os judeus foram ordenados a manter


certas instituições nas suas gerações como sendo
ordenanças para sempre (Êxodo 12:24; Números
15:15), isso não significava que deviam fazê-lo por
toda a eternidade, mas apenas durante a economia
mosaica. Da mesma forma os montes perpétuos e
outeiros eternos de Habacuque 3:6, só falava de
permanência e estabilidade comparativa, pois a terra
ainda seria destruída. “Mas, quando tu deres esmola,
não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”
(Mateus 6:3), isto não deve ser

considerado absolutamente, caso contrário, qualquer


ato de beneficência que viesse ao conhecimento de
nossos companheiros seria proibido, e isso seria
contrário à analogia da fé. Os Cristãos primitivos
nem sempre escondiam as suas doações, como Atos
11:29-30 demonstra. O sigilo em si pode se tornar
um manto para a avareza, e sob a pretensão de
esconder boas obras nós podemos acumular
dinheiro para gastar conosco mesmos. Há momentos
em que uma pessoa de destaque pode justamente
estimular os seus irmãos por seu próprio espírito de

liberalidade. Este preceito divino foi projetado para


conter a ambição corrupta de nossos corações pelo
louvor dos homens. Cristo quis dizer que devemos
realizar atos de caridade o mais discretamente
possível, sendo a nossa

principal preocupação ter a aprovação de Deus, em


vez do aplauso dos nossos semelhantes. Quando
uma boa obra foi feita, não devemos fazer questão
de mantê-la em nossa mente, e em vez de
congratular-nos a nós mesmos por causa dela,
devemos prosseguir para outros deveres que ainda
temos a fazer.
Não devemos concluir a partir dos termos de Lucas 14:12-13,
que é errado que convidemos nossos amigos e parentes para
participar da nossa hospitalidade, embora uma comparação seja
assim expressa novamente em linguagem positiva; mas, antes,
devemos fazer com que os pobres e necessitados não sejam
negligenciados ou menosprezado por nós. “Porque a lei foi dada
por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”
(João 1:17). Quantas vezes essas palavras foram mal interpretadas,
sim, distorcidas; pois é um erro grave concluir a partir dessas
palavras que não havia “graça”, sob a economia Mosaica ou que
não haja nenhuma “lei” sob a economia Cristã. O

fato é que o contraste não é entre as mensagens de


Moisés e Cristo, mas as características de seus
ministérios. “Vós não me vereis mais” (João 16:10),
disse Cristo aos Seus apóstolos. No entanto, eles O
viram! O

que, então, Ele quis dizer? Que eles não O veriam


novamente em um estado de humilhação, sob a
forma de servo, em semelhança da carne do pecado,
porque, naquela ocasião o veriam em Seu estado
glorificado (compare com “semelhante ao Filho do
homem”, Apocalipse 1:13). Atos 1:3,
definitivamente, informa-nos que Cristo foi visto dos
apóstolos durante quarenta dias depois da

ressurreição, e, claro, Ele é agora visto por eles no


Céu. Quando o apóstolo declarou: “Porque nada me
propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este
crucificado” (1 Coríntios 2:2), ele não quis dizer que
Aquele era o seu único tema, mas sim que Cristo era
o seu assunto dominante e proeminente. Quando
somos exortados: “Não estejais inquietos por coisa
alguma” (Filipenses 4:6), nós certamente não
devemos entender que os cuidados com o objetivo
de agradar a Deus sejam proibidos, ou que não
devemos ter profunda preocupação pelos nossos
pecados.
Os exemplos acima (muitos outros poderiam ser adicionados)
mostram que o cuidado constante é necessário para distinguir entre
as declarações positivas e comparativas, e entre palavras com um
sentido absoluta e aquelas palavras que possuem um sentido
simplesmente relativo.
Capítulo 11
________________________________________

15. Linguagem Não-literal. Nós deixamos essa importante


regra da exegese para esse momento, porque é

necessária maturidade no julgamento para a sua


correta aplicação. Há uma

quantidade considerável de linguagem não-literal na


Palavra de Deus e é muito necessário que o
expositor a reconheça. Grande dano foi feito por
não fazê-lo, e muitos erros graves foram ensinados
como resultado de considerar como literal o que era
figurado. De um modo geral, as palavras da
Escritura devem ser entendidas em seu significado
puro e simples; sim, a sua significação natural e
óbvia deve sempre ser mantida a menos que alguma
razão evidente e necessária exija o contrário; como,
por exemplo, quando Cristo nos ordenou arrancar
um olho

direito e cortar a mão direita se os mesmos nos


levassem a pecar, ou quando Ele acusou os escribas
e fariseus de “devorar as casas das viúvas” (Mateus
23:14), pois manifestamente tal linguagem não deve
ser considerada em seu sentido literal. Mas há
muitos outros casos que não são tão evidentes como
esses, como quando Cristo disse: “E,
ocasionalmente [por acaso] descia pelo mesmo
caminho certo sacerdote” (Lucas 10:31), o que
significa que ele tomou esse caminho sem qualquer
finalidade particular ou propósito específico, pois
um entendimento literal das palavras negaria as
ordenações da Providência.
É necessária uma discriminação minuciosa, tanto espiritual
quanto mental, para distinguir entre o literal e o não-literal na
Escritura. Isso se aplica em primeiro lugar ao tradutor, como
algumas

ilustrações mostrarão. Ele tem que determinar em


cada ocorrência da palavra kelayoth se a traduzirá
literalmente como “rins” ou figurativamente como
“coração” e

“mente”, palavras que nas Escrituras fazem


referência à sede das afeições e sentimentos; a nossa
Versão Autorizada se refere à primeira por dezoito
vezes, e a última, treze vezes. Em passagens como
Salmos 16:7; 26:2; 73:21, “rins” tem referência ao
homem interior, especialmente à mente e à
consciência; como os rins devem eliminar as
impurezas do sangue, a mente e a consciência
devem nos livrar do mal. A palavra hebraica ruach
significa literalmente vento, e é assim traduzida
noventa vezes na Versão Autorizada; no entanto,
também é usada emblematicamente como espírito,
muitas vezes, e como o Espírito Santo por mais de
200 vezes. Muita sabedoria e discernimento
espiritual é exigido pelo tradutor para discriminar.
Lachash é traduzido como “brincos” em Isaías 3:20,
mas como “oração” em Isaías 26:16! A palavra
grega presbuteros significa literalmente uma pessoa
idosa, e é assim traduzido em Atos 2:17, e Filemom
[7]
9, mas na maioria dos casos se refere a “anciãos”
ou oficiais da igreja.
Agora, se um grande cuidado deve ser tomado pelo tradutor
para distinguir entre coisas diferentes, é igualmente assim com o
expositor. Que ele devidamente leve a sério as advertências
fornecidas pela experiência dos apóstolos. Quantas
vezes eles não conseguiram entender o significado
da linguagem de seu Mestre! Quando Ele declarou:
“O que contamina o homem não é o que entra na
boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina
o homem”, disseram-Lhe: “Explica-nos esta
parábola”, e Ele

respondeu: “Até vós mesmos estais ainda sem


entender?” (Mateus 15:11,15,16).

Quando Jesus lhes ordenou: “acautelai-vos do


fermento dos fariseus e dos saduceus”, eles
discorriam entre si e concluíram que era porque não
tinham trazido pão (Mateus 16:6-7). Quando Ele
lhes disse que tinha uma comida para comer, a qual
eles não conheciam, imaginaram que alguém havia
ministrado às Suas necessidades corporais durante a
sua ausência (João 4:32-33). Quando disse: “Nosso
amigo Lázaro dorme”, os apóstolos supuseram
(como qualquer um de nós teria feito!) que Ele se
referia ao sono natural. Muitas vezes é registrado
que eles “não compreendiam” as palavras de Cristo
(Marcos 9:32; Lucas 18:34; João 8:27, 12:16). Eles
entenderam muito pouco do que Jesus intencionava
quando perguntou: “Se eu quero que ele fique até
que eu venha, que te importa a ti?” (João

21:22-23).
O elemento figurativo é muito proeminente nas Escrituras,
especialmente no Antigo Testamento, onde as coisas naturais são
comumente usadas e adaptadas para explicar as coisas espirituais,
adequando suas instruções para o estado atual do homem, no qual
ele não pode ver as coisas de Deus, exceto através das lentes da
natureza. Cada palavra hebraica tem um sentido literal e se refere a
algum objeto sensível, e, portanto,

transmite uma ideia comparativa a algum objeto


impalpável. Enquanto no corpo, nós recebemos
informações através de nossos sentidos; não
podemos formar a menor ideia de qualquer objeto
divino ou celestial, senão conforme ele é

comparado e ilustrado por algo terreno ou material.


Realidades internas são explicadas por fenômenos
externos, como “rasgai o vosso coração, e não as
vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso
Deus” (Joel 2:13), e:
“bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça”. Misericórdias espirituais são postas diante
de nossos olhos sob suas figuras com as quais
estamos

familiarizados, mas expressivas na natureza, como


em: “Porque derramarei água sobre o sedento, e rios
sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a
tua posteridade, e a minha bênção sobre os teus
descendentes” (Isaías 44:3), e: “destilai, ó céus,
dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a
terra, e produza a salvação” (Isaías 45:8).
Outros antes de nós têm apontado que há uma analogia
divinamente projetada entre o mundo natural e o espiritual. Deus
assim formou os reinos visíveis como a sombra do invisível, o
temporal para simbolizar o eterno. Daí as similitudes muitas vezes
empregadas por Cristo, extraídas por Ele do reino natural, não
eram ilustrações arbitrárias, mas figuras pré-ordenadas de
sobrenatural. Existe uma ligação muito íntima entre as esferas da
criação e da graça, para que nós, assim, sejamos ensinados a olhar
de uma para a outra. “Por meio de Suas parábolas inimitáveis,
Cristo mostrou que quando a natureza era avaliada corretamente,
falava uma só língua com o Espírito de Deus; e quanto mais
completamente bem entendida, e isto mais

variada e completamente, será encontrada a


harmonia que subsiste entre os princípios da sua
constituição e os de Seu reino espiritual” (Patrick

Fairbairn). Quem pode deixar de perceber tanto a


adequação quanto a sublimidade do paralelo entre
essa alusão do reino natural e sua realização
antitípica: “Até que refresque o dia, e fujam as
sombras” (Cantares de Salomão 2:17), onde a
referência é tanto à primeira (João 8:56) quanto à
segunda vinda do Filho de Deus na carne (Filipenses
1:6-10)?
As palavras são usadas em sentido literal quando se referem ao
seu significado simples e natural; e figurativamente, quando um
termo se refere a um objeto ao qual ele não pertence natural ou
normalmente. Assim, o termo “duro” é a qualidade de uma pedra,
mas quando caracteriza o coração é empregado figurativamente. A
figura de linguagem

consiste em uma palavra ou palavras que estão


sendo usadas fora de seu sentido e maneira comuns,
para enfatizar algo e atrair a nossa atenção ao que é
dito.

Não que um significado diferente seja dado à


palavra, mas uma nova aplicação dela é feita. O
significado da palavra é sempre o mesmo quando
usada corretamente e, assim, figuras têm o seu
próprio sentido e explicam-se a si mesmas. Na
grande maioria dos casos, não há dificuldade em
distinguir entre o literal e o não-literal. Aqui também
há uma estreita semelhança entre a Palavra de Deus
e Suas obras na criação. A maioria dos objetos no
mundo natural são evidentes e simples, facilmente
distinguidos; todavia, alguns são obscuros e
misteriosos.

Há certas “leis” perceptíveis que regulam as ações


da natureza; no entanto, há exceções notáveis na
maioria delas. Assim, podemos ter certeza de que
Deus não empregou linguagem que só poderia
confundir e embaraçar os ignorantes, mas o
significado de muitas coisas na Sua Palavra pode ser
determinado apenas por trabalho diligente.
Se toda a Escritura tivesse sido redigida em linguagem
altamente figurativa e misteriosos hieróglifos, que estivessem
muito acima da capacidade do homem comum. Por outro lado, se
tudo fosse tão simples como ABC não haveria necessidade de
Deus prover mestres (Efésios 4:11).
Mas como aquele que ensina determina quando a
linguagem é literal e quando não-literal? Geralmente,
clara indicação é dada, especialmente no emprego
de metáfora, onde um objeto é usado para expor o
outro, como em: “Judá é um

leãozinho” (Gênesis 49:9). Mais particularmente: em


primeiro lugar, quando uma interpretação literal
manifestamente colidiria com a natureza essencial do
assunto tratado, como quando membros físicos são
atribuídos a Deus, ou quando o discípulo é
ordenado a “tomar a sua cruz” (viver uma vida de
autossacrifício) a fim de seguir a Cristo. Em
segundo lugar, quando uma interpretação literal
envolveria um absurdo ou impropriedade moral,
como em: “Quando te assentares a comer com um
governador, atenta bem para o que é posto diante de
ti, e se és homem de grande apetite, põe uma faca à
tua garganta” (Provérbios 23:1-2), isto é, não dê
qualquer espaço aos desejos; outro exemplo é a
metáfora que fala de amontoar brasas sobre a
cabeça de um inimigo (Romanos 12:20). Em
terceiro lugar, devemos consultar outras passagens, e
interpretarmos tal passagem como Salmo 26:6,
através de Genesis 35:1-2 e Hebreus 10:22.
De tudo o que foi dito acima, é evidente que temos de evitar
um literalismo rígido quando estivermos lidando com

representações sensoriais ou materiais de coisas


imateriais, e quando termos corporais são usados a
respeito de não-corporais, como por exemplo: “A
espada devorará” (Jeremias 46:10), pois devorar é
propriedade de uma criatura viva e fazendo uso de
seus dentes, mas aqui, por uma figura, isso é
aplicado ao fio da espada. E ainda: “Esqueça-se a
minha direita da sua destreza” (Salmos 137:5), aqui
o “esquecimento”, que pertence à mente, é aplicado
à mão, significando “perca o seu poder de direcioná-
la corretamente”. Novamente: “Virei-me para ver a
voz” (Apocalipse 1:12 -- trad. lit.), ou seja, aquele
que a proferiu. “Guarda o teu pé, quando entrares
na casa de Deus” (Eclesiastes 5:1), isso pode ser
considerado tanto em um sentido literal quanto
figurado. No primeiro caso, significaria: “que o seu
andar seja recatado, sem pressa e reverente
enquanto se aproxima do lugar de adoração”; no
segundo: “cuide dos movimentos de sua mente e das
afeições de seu coração, pois eles são para a alma o
que os pés são para o corpo”. É ao devido controle
do nosso homem interior que nossa atenção deve ser
principalmente dirigida.
Também é muito necessário

que o expositor constantemente tenha em mente que


muitas das coisas que pertencem ao Novo Pacto são
estabelecidas de acordo com as figuras do Antigo.

Assim, Cristo é mencionado como “nossa Páscoa” e


como Sacerdote “segundo a ordem de
Melquisedeque” (Hebreus 6:20). O paraíso é
descrito como “seio de Abraão” (Lucas 16:22). Os
santos do Novo Testamento são referidos como
descendência de Abraão e “o Israel de Deus”
(Gálatas 3:7, 6:16); como “a circuncisão” (Filipenses
3:3), e como “a geração eleita, o sacerdócio real, a
nação santa” (1 Pedro 2:9); enquanto em Gálatas
4:26, eles são informados de que sobre “a Jerusalém
que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós”.
Mais uma vez, a expressão “pois não tendes
chegado ao monte palpável” (Hebreus 12:18) não se
refere a qualquer monte físico, mas à ordem das
coisas que foram formalmente instituídas no Sinai,
as características morais que foram adequadamente
simbolizadas e surpreendentemente esboçadas pelos
fenômenos físicos que acompanharam a entrega da
Lei. Da mesma forma: “tendes chegado ao monte
Sião” (12:22) não mais significa um monte físico do
que “temos um altar”

(13:10) significa que os Cristãos têm um altar


tangível. É a antitípica, espiritual e celestial Sião que
está em vista, isto é, aquele estado glorioso ao qual a
graça divina trouxe todos aqueles que creem no
Evangelho.
Outrossim, o expositor

precisa estar atento para detectar a linguagem


irônica, pois geralmente significa o oposto ao que é
expresso, sendo uma forma de sátira para o
propósito de expor um absurdo e evidenciar o
ridículo. Essa linguagem foi usada por Deus quando
Ele disse: “Eis que o homem se tornou como um de
nós, conhecendo o bem e o mal” (Gênesis 3:22), e
quando Ele ordenou a Israel: “Ide, e clamai aos
deuses que escolhestes; que eles vos livrem no
tempo do vosso aperto” (Juízes 10:14); por Elias,
quando ele zombou dos profetas de Baal: “Clamai
em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que
esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer,
ou que intente alguma viagem; talvez esteja
dormindo, e despertará” (1 Reis 18:27); por Micaías
quando ele respondeu Jeosafá: “Sobe, e serás bem
sucedido; porque o Senhor a entregará na mão do
rei” (1 Reis 22:15); por Jó: “Na verdade, vós sois o
povo, e convosco morrerá a sabedoria” (12:2); em
Eclesiastes 11:9: “Alegra-te, jovem, na tua
mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua
mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e
pela vista dos teus olhos...”; por Cristo: quando Ele
disse: “esse belo preço em que fui avaliado por eles”
(Zacarias 11:13) e por Paulo: “Já estais fartos! já
estais ricos! sem nós reinais!” (1 Coríntios 4:8).
Também não devemos

considerar literalmente a linguagem da hipérbole ou


exagero, quando mais é dito do que é realmente
significado, como quando os dez espiões disseram
de Canaã: “as cidades são grandes e fortificadas até
aos céus”
(Deuteronômio 1:28), e quando somos informados
de que os seus exércitos eram “como a areia que
está na praia do mar em multidão” (Josué 11:4).
Assim também a descrição dada daqueles que
surgiram contra Gideão: “como gafanhotos em
multidão; e os seus camelos sem número” (Juízes
7:12), e “não houve nação nem reino aonde o meu
senhor não mandasse em busca de ti” (1 Reis
18:10). Outros exemplos são encontrados em: “Eles
sobem ao céu, descem ao abismo” (Salmos 107:26);
“Rios de água correr dos meus olhos” (Salmos
119:136); “O menor virá a ser mil, e o mínimo uma
nação forte; eu, o Senhor, ao seu tempo o farei
prontamente” (Isaías 60:22); “As suas viúvas mais se
multiplicaram do que a areia dos mares” (Jeremias
15:8), devemos ter em mente, ao lermos Apocalipse
7:9, que: “Há, porém, ainda muitas outras coisas
que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita,
cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter
os livros que se escrevessem” (João 21:25).
16. A elucidação dos tipos. Nenhum tratado sobre
hermenêutica seria completo se ignorasse essa importante e
interessante seção da exposição. No entanto, um vasto assunto
como esse é impossível de tratar adequadamente em poucas frases.
O Novo Testamento claramente ensina que muito no Antigo
predizia e esboçava o que estava por vir.

Desde os primeiros tempos aprouve a Deus preparar


o caminho para a grande palavra da redenção por
uma série de representações parabólicas, e o
trabalho do intérprete é explicar o mesmo à luz da
revelação mais ampla que Deus concedeu desde
então. Os tipos pertencem àquela esfera que diz
respeito à relação das dispensações divinas
anteriores e posteriores e, portanto, um tipo pode ser
definido como um modelo ou sinal de outro objeto
ou evento que é retratado de antemão, sombreando
algo que deve depois corresponder e prover a
realidade do mesmo. Mas surge a pergunta: Como
evitaremos o erro e o exagero em nossa seleção e
desvelamento dos tipos? O espaço só nos permitirá
oferecer as seguintes dicas e regras.
Em primeiro lugar, deve

haver uma semelhança genuína na forma ou espírito


entre qualquer pessoa, ato ou instituição, no âmbito
do Antigo Testamento e o que corresponda a isso no
Evangelho. Em segundo lugar, um tipo real deve ser
algo que teve a sua ordenação a partir de Deus,
sendo indicado por Ele que prefiguraria e
prepararia o caminho para coisas melhores sob
Cristo. Assim, a semelhança entre a sombra e a
substância deve ser real e não-imaginária, e
concebida como tal na instituição original da
sombra. É essa intenção anterior e conexão
preordenada entre eles que constitui a relação de
tipo e antítipo. Em terceiro lugar, traçando a ligação
entre um e outro, nós devemos perguntar: Qual era a
importância inerente do símbolo original? O que
simbolizava como uma parte da religião então em
vigor? E, então, o expositor deve prosseguir e
mostrar como ele foi adequado para servir como um
guia e ponte para os eventos e questões benditos do
reino do Messias. Por exemplo, por meio do
tabernáculo e seus serviços, Deus manifestou ao Seu
povo precisamente os mesmos princípios de
governo, e exigiu deles substancialmente uma
disposição e caráter idênticos, que Ele agora faz sob
a mais sublime dispensação do Cristianismo. Em
quarto lugar, devida consideração é necessária
quanto à diferença essencial entre as naturezas reais
do tipo e do antítipo: um sendo físico, temporário e
externo; o outro espiritual, eterno e, muitas vezes,
interno.
Capítulo 12
________________________________________

17. Exposição das parábolas. Este é um outro ramo do nosso


assunto sobre o qual pelo menos um capítulo inteiro deveria ser
dedicado, mas o perigo de sobrecarregar a paciência de alguns dos
nossos leitores torna isso desaconselhável. Devido à grande
simplicidade da sua natureza e da linguagem, é comumente
suposto que as parábolas são mais

facilmente compreendidas do que qualquer outra


forma de instrução bíblica, quando o fato é que
provavelmente o ensino mais errado foi propagado
por cauda da incompreensão do sentido de alguns de
seus detalhes; isso aconteceu com as parábolas mais
do que com qualquer outra porção da Palavra.
Grande

cuidado deve ser tomado com as parábolas, pois é


especialmente importante

determinar e, em seguida, manter em mente o


escopo ou principal propósito de cada uma. Mas em
vez disso, com muita frequência as parábolas são
abordadas exclusivamente para a finalidade de
encontrar apoio aparente para alguma doutrina
específica ou ideia que o pregador deseja provar. E,
em

consequência disso, muito nelas foi arrancado de seu


significado original, e elas foram entendidas de
modo a contrariar completamente outras passagens.

Também aqui a analogia da fé deve ser observada de


forma constante, e nossa interpretação de cada
parábola deve ser medida por ela.
A definição infantil de que “uma parábola é uma história
terrena com um significado celestial” expressa a ideia geral. É

uma forma de ensino pela qual as coisas espirituais


são representadas sob

imagens sensíveis. As parábolas são de fato


ilustrações em palavras, tendo algo da mesma
relação com a instrução daqueles a quem elas são
dirigidas, como fazem as ilustrações pictóricas
usadas em livros para elucidar o leitor da página
impressa. A partir da relação com a verdade
apresentada ou lição

aplicada podem ser reunidos certos princípios


importantes, mas simples e

óbvios, que precisam ser tidos em consideração no


estudo das parábolas de nosso Senhor. Em primeiro
lugar, a parábola, como uma imagem ilustrativa, só
pode apresentar o seu objeto parcialmente.
Nenhuma ilustração pode fornecer ou exibir todos
os aspectos de seu objeto, não mais do que a
“planta” de um edifício do arquiteto pode mostrar
segundos e terceiros andares, e muito menos os
representar como serão quando concluídos, embora
possa sugerir algo sobre deles. Assim, uma parábola
indica para nós apenas determinados alguns aspectos
do assunto. Por isso nós as encontramos agrupadas;
todas em um grupo representando o mesmo assunto,
mas cada uma estabelecendo uma característica
distinta do mesmo; como acontece nas parábolas de
Mateus 13, as quais lidam com os “mistérios do
reino dos céus”, e com aquelas de Lucas 15 que nos
mostram não somente a graça recebendo os
pecadores, mas buscando, encontrando, vestindo e
lhes dando um banquete.
Em segundo lugar, as parábolas são subordinadas ao ensino
direto; sendo projetadas não para a prova, mas para a ilustração de
uma doutrina ou dever. Deve sempre ser lamentado quando

Cristãos professos são culpados de colocar uma


parte das Escrituras contra outra, mas quando uma
parábola é utilizada para anular alguma doutrina
simples ou mandamento de Deus, o absurdo é
adicionado à irreverência. Daí, apelar para Mateus
18:23-25, para provar que o Deus de toda graça
pode revogar o Seu

perdão; ou negar a responsabilidade do homem com


base em que “a moeda de prata perdida” de Lucas
15 retrata o pecador por um objeto inanimado, é
tanto tolo quanto profano. Em terceiro lugar, é
igualmente evidente que devemos buscar determinar
o principal objetivo de Cristo na principal lição de
moral que Ele pretendia aplicar; ainda assim, esse
dever óbvio é muito negligenciado.

Com muita frequência, as parábolas são tratadas


como se seu propósito fosse deixado em aberto para
conjecturas e suas lições para inferência incerta. Tal
ideia ímpia e modo leviano de lidar com elas é
claramente refutada por aquelas

parábolas em que o próprio Cristo explicou aos Seus


discípulos. Assim, não somos deixados inteiramente
aos nossos próprios recursos, pois aquelas

interpretadas pelo Senhor devem ser consideradas


como amostras, cada uma

estabelecendo alguma verdade distinta, cada detalhe


possuindo um significado.
Em quarto lugar, é importante obter uma compreensão correta
da própria representação parabólica, uma vez que fornece a base
da instrução espiritual. Se não entendermos a alusão natural, não
podemos dar uma exposição satisfatória da linguagem em que é
estabelecida.

Devemos também ter cuidado para que não


estendamos a representação para além dos limites
que ela pretendia ir. Essa representação se torna
óbvia quando nos concentramos sobre a ideia
principal da parábola e permitimos que os seus
detalhes a tornem mais distinta. A parábola não deve
ser separada em partes, mas vista como um todo;
todavia, não esqueça que cada detalhe contribui para
a sua verdade central, não há um simples uso
exagerado de palavras. Normalmente, o contexto
deixa claro qual é o seu propósito e significado.
Assim, a parábola do rei fazendo uma prestação de
contas com os seus servos (Mateus 18:23) foi
proferida em resposta à pergunta de Pedro no verso
21; a do rico insensato em Lucas 12 foi ocasionada
por um espírito de cobiça por parte de quem
desejava obter uma parte da herança de seu irmão.
Aquelas em Lucas 15 foram a partir do que está
relacionado em seus versos de abertura. As
parábolas incidem sobre os aspectos mais
fundamentais do dever e do comportamento, em vez
de sobre os detalhes minuciosos desses.
Como esclarecido acima, muito ensino errôneo é resultado da
falta de atenção a essas regras simples. Assim, certos teólogos que
são basicamente defeituosos a respeito da Expiação têm
argumentado a partir da parábola do filho pródigo que, uma vez
que nenhum sacrifício foi necessário para reconciliá-lo com o Pai
ou fornecer acesso ao seio de Seu amor, Deus
perdoa absolutamente, por pura compaixão. Mas
isso é uma perversão clara da parábola, pois não é
como um Pai, mas como justo Governador que
Deus exige uma satisfação à Sua justiça. Igualmente
há uma deturpação grave da graça do

Evangelho, se entendermos a partir da parábola do


servo incompassivo (Mateus 18:23-35) que a graça
divina é sempre exercida aos homens sem um
sacrifício propiciatório aceito por Deus, para
reparação feita à Lei quebrada (Romanos 3:24).
Essas parábolas nunca foram destinadas a ensinar o
fundamento do perdão divino; é errado forçar
qualquer parábola a mostrar todo um sistema de
teologia. Alguns têm até mesmo extraído da
passagem em que Cristo proíbe Seus discípulos de
arrancarem o joio, um argumento contra a igreja
local exercer uma disciplina tão rigorosa a ponto de
desassociar membros heréticos ou

desordenados, o que é refutado por Seu ensino em


Apocalipse 2 e 3, onde essa frouxidão é severamente
repreendida.
Igualmente perigoso e desastroso é aquela interpretação que
fez a parábola dos trabalhadores na vinha ensinar a salvação pelas
obras. Uma vez que a parábola dá um notável exemplo da
importância de nos atentarmos para as definições, faremos
algumas observações sobre ela. Após a recusa do jovem rico a
deixar tudo e seguir a Cristo, e Ele buscar inculcar aos Seus
discípulos a solene advertência desta triste situação, Pedro disse:
“Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos?”
(Mateus 19:22-27). O

Senhor respondeu duplamente: a primeira parte,


como a questão era legítima, declarando que tanto
aqui e no futuro há abundante recompensa para
aqueles que O seguiram (vv. 28-29). Na segunda
parte, nosso Senhor sondou o coração de Pedro,
dando a entender que por trás de sua pergunta havia
uma disposição

errada, uma ambição carnal que Ele tinha tantas


vezes repreendido nos

apóstolos, quando eles disputaram a respeito de qual


deles seria o maior no reino e quem teria os
primeiros assentos no mesmo. Havia um espírito
mercenário agindo neles, pois consideravam que
eles tinham reivindicações de retribuições mais
elevadas do que outros, uma vez que eles foram os
primeiros a deixar tudo e seguir a Cristo,
aumentando assim a sua própria importância e
deixando Jesus sob obrigações. Daí a parábola de
Mateus 20:1-15, ser

precedida pelas palavras: “Mas muitos que são


primeiros serão últimos; e os últimos serão os
primeiros”, e seguida por palavras semelhantes.
Uma vez que não há espaço para duvidar que a parábola dos
trabalhadores da vinha foi designada para ilustrar as palavras em
Mateus 19:30 e 20:16, é claro que nunca foi destinada a ensinar o
caminho da salvação, de modo que interpretá-la assim é perder
completamente o seu

objetivo. A intenção do Senhor evidentemente era


inculcar aos Seus discípulos que a menos que eles
mortificassem os males provenientes de seus
corações, esses eram de tal caráter que roubariam
todo valor da devoção mais antiga e prolongada, e
que o último e mais breve serviço a Ele, em razão da
ausência de autoafirmação, seria considerado digno
aos Seus olhos de receber recompensa tanto quanto
o primeiro. Além disso, Ele queria que soubessem
que faria o que quisesse com aquilo que era Seu
próprio, logo, eles não deveriam ditar os

termos de serviço. Foi corretamente observado por


[8]
Trench em suas notas sobre essa parábola que
um “acordo foi feito pelos primeiros trabalhadores
contratados (20:2) antes de entrarem em seu
trabalho, exatamente o acordo que Pedro quis fazer:
“O que teremos?”; enquanto aqueles posteriormente
envolvidos eram de um espírito mais simples,
confiando que o senhor daria a eles tudo o que era
correto e justo”.
18. Palavras com significados diferentes. Existem muitos
termos nas Escrituras que não são de modo algum usadas de modo
uniforme. Algumas têm diversos sentidos, outras têm significados
variados de um modo geral. Isso não significa que elas são usadas
de forma arbitrária ou caprichosa, menos ainda que isso visa
confundir a mente dos

simples. Às vezes, é porque o termo original é muito


amplo para ser expresso por um único equivalente
em português. Às vezes, ocorre em outra forma com
ênfase. Mais frequentemente, são as várias
aplicações que são feitas para
vários objetos. Assim, é uma parte importante da
tarefa do expositor delimitar essas distinções, e, ao
invés de confundir, deixar claro cada sentido
diferente e, assim, “manejar bem a palavra da
verdade”. Assim, a palavra grega Paracleto é
traduzida como “Consolador”, em relação ao
Espírito, no Evangelho segundo

João, mas como “Advogado” em relação a Jesus


Cristo primeira epístola de João (2:1). Parece haver
pouco em comum entre essas expressões, mas
quando

descobrimos que o termo grego significa: “pessoa


chamada para o lado de alguém (para ajudar)”, a
dificuldade é removida, e a verdade abençoada é
revelada: o Cristão tem dois ajudantes divinos, Um
prático e Um legal; Um dentro de seu coração e Um
no Céu; Um ministra a ele, o Outro advoga por ele.
A palavra grega diatheke ocorre trinta e três vezes; seu
significado comum — como o hebraico berith — sendo “aliança”.
Na Versão Autorizada é assim traduzida por vinte vezes, e como
“testamento” por treze vezes. Ora, uma aliança, estritamente
falando, é um contrato entre duas partes, uma prometendo fazer
certas coisas mediante o
cumprimento de certas condições pela outra parte;
enquanto testamento é algo por meio do que alguém
concede certos dons. Não parece haver nada em
comum entre os dois conceitos, na verdade, são
totalmente contrários. Mas nós

acreditamos que nossos tradutores traduziram o


termo corretamente em ambos os sentidos, embora
nem sempre o fizeram felizmente; certamente deve
ser “aliança” em 2 Coríntios 3:6 e Apocalipse 11:19.
É justamente traduzido como “aliança” em Hebreus
8:6, e “testamento” em 9:15, pois ali é feito um

testamento para ilustrar uma determinada


correspondência entre a dispensação divina
preparatória e a última. O testamento não se torna
válido enquanto a pessoa está viva, ele só pode ter
efeito após a sua morte. Hebreus 9:15-17, trata de
uma disposição que mostra a maneira pela qual os
homens obtêm uma herança através das riquezas da
graça divina. Assim, em vez de usar syntheke, que
expressa mais exatamente uma aliança, o Espírito
Santo de modo proposital usa diatheke, que poderia
ter uma dupla aplicação.
Vejamos agora alguns exemplos em que a mesma palavra em
português tem muitas variantes. Como nas palavras bem

conhecidas do nosso Senhor: “Deixa que os mortos


sepultem os seus mortos”

(Mateus 8:22), assim a palavra “vemos” é usada em


dois sentidos diferentes em Hebreus 2:8-9: “Ora,
visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou
que lhe não esteja sujeito... Vemos, porém, coroado
de glória e de honra...”, onde primeiro faz referência
ao que já havia sido exposto, e em segundo lugar, à
percepção da fé. “Resgate” é por meio de poder,
bem como por preço.

Às vezes, Deus defendeu ou resgatou o Seu povo,


destruindo os seus inimigos: Provérbios 21:18; Isaías
43: 4; Faraó e seus exércitos no Mar Vermelho.
Muitos têm ficado grandemente perplexos com as
aplicações notavelmente diferentes feitas quanto à
palavra “carga” em Gálatas 6:2-5: “Levai as cargas
uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo...
cada um levará o seu próprio fardo”. O primeiro
tem em vista a carga de fraquezas do Cristão, que
deve

simpatizar em espírito de oração com seus irmãos e


irmãs, e ajudá-los de modo prático. Este último tem
referência à responsabilidade individual, seu estado
pessoal e destino, que ele mesmo deve cumprir, e
que não pode ser transferido para outros. A palavra
grega para o primeiro é “pesos”, ou fardos, os quais
exigem uma mão amiga. Este último significa um
“dever”, ou confiança imposta.
O significado do termo “carne” parece ser tão óbvio que
muitos consideram como um grande desperdício de tempo
examinar as suas várias conexões na Escritura. Supõe-se
rapidamente que a palavra é

sinônimo de corpo físico, e por isso uma


investigação cuidadosa não é feita. No entanto, na
verdade, “carne” é usada nas Escrituras para incluir
muito mais do que o aspecto físico do nosso ser.
Lemos sobre a “vontade da carne” (João 1:13) e “as
obras da carne” (Gálatas 5:19), algumas das quais
são atos da mente.
Somos proibidos de fazer provisão para a carne
(Romanos 13:14), o que

certamente não significa que devemos morrer de


fome ou negligenciar o corpo.

Quando se diz: “o Verbo se fez carne” (João 1:14),


devemos entender que Ele tomou para Si toda uma
natureza humana, consistindo de espírito (Lucas
23:46), alma (João 12:27) e corpo. “Nos dias da sua
carne” (Hebreus 5:7) significa o tempo de Sua
humilhação, em contraste com Sua presente
exaltação e glória. Mais uma vez, o leitor mediano
da Bíblia imagina que “o mundo” é equivalente a
toda a raça humana, e, consequentemente, muitas
das passagens na quais esse termo ocorre são mal
interpretadas. Muitos também supõem que o termo
“imortalidade”

não exige qualquer exame crítico, concluindo que se


refere à indestrutibilidade da alma. Mas nunca
devemos presumir entender algo da Palavra de
Deus. Se a concordância for consultada, será
encontrado que “mortal” e “imortal” nunca são
aplicados à alma do homem, mas sempre ao seu
corpo.
“Santo” e “santificar” representam em nossas Bíblias em
português uma e a mesma palavra hebraica e grega no original,
mas elas não são de modo algum usadas uniformemente, antes
possuem uma

variedade de abrangência e aplicação; daí as diversas


definições dos homens. A palavra é de tal modo
ampla que nenhum único termo em português pode

expressá-la. Que significa mais do que “separado” é


claro a partir do que é dito sobre o nazireu: “todos
os dias da sua separação, ele é santo ao Senhor”
(Números 6:8), dizer: “todos os dias da sua
separação, ele é separado”

seria uma tautologia sem sentido. Assim, sobre


Cristo, está escrito: “santo, inocente, imaculado,
separado dos pecadores” (Hebreus 7:26), onde
“santo”

significa muito mais do que “separado”. Quando


aplicada a Deus essa palavra indica a Sua majestade
inefável (Isaías 57:15). Em muitas passagens
expressa uma qualidade moral (Romanos 7:12; Tito
1:8). Em outras, refere-se à pureza (Efésios 5:26;
Hebreus 9:13). Muitas vezes significa consagrar-se
ou dedicar-se a Deus (Êxodo 20:11; João 17:19).
Quando o termo é aplicado ao Cristão conota, em
termos gerais: (1) a relação sagrada com Deus, em
cuja graça fomos levados a Cristo; (2) aquela
bendita graça interior pelo qual o Espírito nos fez
conhecer a Deus e nos capacitou a ter comunhão
com Ele e (3) a vida transformada

resultante disso (Lucas 1:75; 1 Pedro 1:15).


A palavra “juízo” é outra que exige um verdadeiro estudo. Há
julgamentos da boca de Deus que Seus servos devem fielmente
declarar (Salmos 119:13), ou seja, toda a revelação da Sua vontade,
a regra pela qual devemos andar e pelo que Ele ainda nos julgará.
Esses “juízos”

(Êxodo 21:1) são os decretos divinos que fazem


conhecida a diferença entre certo e errado. Há
também juízos da mão de Deus: “Bem sei eu, ó
Senhor, que os teus juízos são justos, e que segundo
a tua fidelidade me afligiste” (Salmos 119:75). Esses
são a disciplina graciosa que ele administra aos Seus
filhos; enquanto aqueles que são o castigo aos
iníquos (Ezequiel 5:15), são maldições judiciais e
punições. Em algumas passagens a palavra “juízo”
expressa o

conjunto de providências de Deus, muitas dos quais


são “um grande abismo”

(Salmos 36:6) e “inescrutáveis” (Romanos 11:33) a


qualquer mente finita, coisas que não devem ser
esquadrinhadas por nós. Eles indicam o Seu governo
soberano, pois “justiça e juízo são a base do Seu
trono” (Salmos 97:2), semelhantemente a retidão da
administração de Cristo (João 9:39). “Ele trará
justiça [julgamento]

aos gentios” (Isaías 42:1) intenciona a doutrina justa


de Seu Evangelho. Em Judas 14 e 15 a referência é
às operações solenes do último dia. “Ensina-me bom
juízo e ciência” (Salmos 119:66), essa passagem
consiste em um pedido por

prudência, uma compreensão mais clara para aplicar


o conhecimento de forma correta. “Fazer justiça e
juízo” (Gênesis 18:19) significa sermos justos e
equitativos em nossas relações.
Capítulo 13
________________________________________

19. O uso que o Espírito Santo faz das palavras. A


interpretação correta de muitas passagens somente pode ser
satisfatoriamente estabelecida por uma cuidadosa investigação de
como os seus termos são usados pelos escritores canônicos, pois
muitos deles possuem uma aplicação totalmente diferente de seus
significados encontrados no dicionário. A significação das palavras
das Sagradas Escrituras não deve ser determinada pela sua
etimologia, nem pelo sentido que lhes cabe nos escritos clássicos,
mas sim pela sua utilização efetiva nas Escrituras em hebraico e
grego — com a ajuda da versão Septuaginta. Cada termo deve ser
definido em harmonia estrita com o sentido que lhe é dado na
própria Palavra. É

porque o leitor médio da Bíblia interpreta muito de


sua linguagem de acordo com a forma como a
mesma é utilizada comumente por seus
companheiros que ele tem um conceito inadequado,
e muitas vezes degradante, de suas expressões. A
concordância o ajudará muito mais do que o
dicionário. Considere a palavra “castigo”. Nos lábios
humanos significa punir, mas esse está longe de ser
o seu significado quando lemos sobre Deus usando a
vara sobre Seus filhos, até mesmo “correção” está
muito aquém. Paideia é apenas outra forma de
paidon, que significa “crianças” (João 21:5). É
possível ter um vislumbre da conexão direta que
existe entre “discípulo” e “disciplina”; é igualmente
evidente no grego a relação entre o “castigo” e a
“criança” — disciplina de filho expressa isto com
mais precisão (Hebreus 12:7).
Considere a grande

verdade e glorioso privilégio da adoção.


Provavelmente não exagero dizer que apenas uma
pequena porcentagem de Cristãos tem qualquer
conceito bíblico sobre a adoção. Nos assuntos
humanos, refere-se a um procedimento através do
qual um menino ou menina que não estava sob a
guarda de um homem e uma mulher se torna
legalmente seu filho. A partir disso, conclui-se com
base no sacrifício expiatório de Cristo e na obra da
regeneração do Espírito que pessoas que
anteriormente não tinham qualquer relação com
Deus, então, tornam-se Seus filhos. Tal ideia não é
apenas grosseira, mas totalmente errada.
João 11:52 deixa bem claro que Cristo morreu por
Seu povo sob a consideração de serem filhos de
Deus, e não de modo a se tornarem filhos de Deus;
assim tanto os hebreus no Egito (Êxodo 5) quanto
os gentios em Corinto (Atos 18:10) foram
considerados por Deus como pertencentes a Ele
próprio antes do que os primeiros fossem resgatados
e os últimos tivessem o Evangelho pregado a eles.

“E, porque sois filhos [e não para torná-los assim],


Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu
Filho, que clama: Aba, Pai” (Gálatas 4:6). O

Espírito é dado para vivificar, para comunicar a


natureza de filhos e para nos revelar a nossa união
com Cristo.
A bênção inestimável da

adoção foi concedida ao eleito pela predestinação,


sendo o desígnio de Deus nela torná-los Seus filhos,
por um ato de Sua pura vontade soberana: “E nos
predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo,
para si mesmo, segundo o beneplácito de sua
vontade” (Efésios 1:5). Assim, não é nem o que
Cristo fez por eles, nem o que o Espírito opera neles
que os torna filhos de Deus. A adoção se refere
àquele estado de graça a que os eleitos são levados
em virtude de sua união com Cristo. É uma lei de
filiação em exercício, em e através do Filho, Deus
os designa à união e comunhão com Ele. A adoção
transmite o direito legal de todas as bênçãos que
desfrutamos tanto aqui quanto no porvir. “O próprio
Espírito testifica com o nosso espírito que somos
filhos de Deus; e, se filhos, herdeiros de Deus e
coerdeiros com Cristo” (Romanos 8:16-17). Como a
santidade é o que nos capacita para o Céu, a adoção
ou filiação transmite o direito ao Céu. “A adoção
não tanto designa a bênção em si preparada na
predestinação divina, ou a graça recebida no
chamado eficaz, quanto a herança que é concedida
aos santos, sim, a glória celestial; veja Romanos
8:23” (John Gill).
Os eleitos foram dados a

Cristo antes da fundação do mundo na relação de


filhos: “Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus
me deu” (Hebreus 2:13) será Sua própria
exclamação triunfante no último dia, e nenhum deles
será perdido. É bem verdade que pela Queda eles
ficaram separados de Deus e, portanto, havia
necessidade dEle ser reconciliado com eles e eles
com Ele; eles se tornaram mortos em delitos e
pecados, e, portanto, necessitavam ser vivificados
para andarem em novidade de vida. Mas observe
cuidadosamente como Gálatas 4:4-5 afirma que:
“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou
seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para
remir os [previamente dEle] que estavam debaixo da
lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”, e
porque éramos os tais, o Espírito nos foi dado. A
declaração de adoção foi feita pela primeira vez na
predestinação (Efésios 1:5), depois em Cristo, e, em
seguida, no crente. Como o Puritano Stephen
Charnock tão sucintamente afirmou: “A adoção nos
dá os privilégios de filhos, e a regeneração, a
natureza de filhos. A adoção nos coloca em um
relacionamento com Deus como Pai, a regeneração
opera em nós a imagem do Pai. A regeneração nos
faz relativamente Seus filhos, conferindo um poder
ou direito (João 1:12); a adoção nos faz
formalmente Seus filhos, por transmitir um princípio
(1 Pedro 1:23). Por meio da regeneração, somos
conformados à imagem divina; pela adoção, somos
feitos participantes da mesma”.
“Não cuideis que vim

destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas


cumprir” (Mateus 5:17).

Essa foi uma declaração importante, e uma correta


compreensão da mesma é essencial, particularmente
quanto ao significado exato da sua palavra final.

Determinados a negar a todo custo a verdade


evangélica que Cristo cumpriu a lei por uma
obediência vicária em favor de Seu povo, os
Socinianos insistem que nessa passagem “cumprir”
significa completar ou preencher completamente.
Mas essa definição é completamente arbitrária, e é
refutada pela regra da interpretação que agora
estamos ilustrando. Como o erudito Smeaton
apontou: Nenhum

exemplo de tal uso pode ser dado quando o verbo é


aplicado a uma lei ou a uma demanda expressa
contida no espírito da lei: caso em que
uniformemente significa “cumprir”. Assim é dito:
“quem ama o próximo cumpriu [ou seja, guardou] a
lei” (Romanos 13:8). O uso inflexível da linguagem
governa o sentido em tal frase, no sentido de que
Cristo deve ser entendido como dizendo que Ele não
veio para preencher ou completar a lei por
elementos adicionais, mas para cumpri-la por ser
feito segundo a lei. Em segundo lugar, “preencher” é
inadmissível enquanto aplicado ao segundo termo ou
objeto do verbo: Cristo não veio para preencher ou
expor os profetas, mas simplesmente para cumprir
suas predições. Sempre que a palavra usada aqui é
aplicada a qualquer questão profética, sempre é
encontrada em tal contexto que só pode significar
“cumprir”, e, portanto, não devemos nos desviar sua
significação constante. Em terceiro lugar, o verso 18
deve ser considerado como dando uma razão para a
declaração feita no verso 17. Mas, que tipo de razão
seria dada se devêssemos considerar os versos
ligados assim: “Eu vim para preencher ou completar
a lei, pois em verdade vos digo que, até que o céu e
a terra passem, nem um jota ou um til de modo
algum passará da lei, até que tudo seja
‘cumprido’?”.
Além disso, deve ser

cuidadosamente notado que o termo cumprir foi


aqui colocado por Cristo em antítese direta a
“destruir”, o que determina ainda mais o seu alcance
e significado, pois destruir a lei não é esvaziá-la do
seu significado, mas revogá-la ou anulá-la. Assim,
“cumprir” deve ser considerado em seu sentido
simples e natural, no sentido de realizar o que a Lei
e os Profetas requeriam, confirmá-los, fazer bem o
que eles exigiram e anunciaram. A lei só pode ser
cumprida por uma perfeita obediência sendo
prestada a ela.
O que acaba de ser posto

diante de nós leva-nos a apontar que a única forma


segura e satisfatória de resolver o velho conflito
entre teólogos Protestantes e Papistas quanto ao fato
da palavra “justificar” significar tornar justo ou
declarar justo é verificar como o termo é usado
pelos escritores canônicos, pois um apelo às
Sagradas Escrituras não deixa a menor dúvida sobre
a questão. Em primeiro lugar, quando nós somos
ditos “glorificar a Deus” nós não Lhe prestamos
glória, mas anunciamos que Ele é glorioso. Quando
somos convocados a santificar ao Senhor Deus em
nossos corações (1 Pedro 3:15), não O tornamos
santo, mas apenas afirmamos que Ele é santo. Do
mesmo modo, quando é dit:o “para que sejas
justificado quando falares, e puro quando julgares”
(Salmos 51:4), a intenção disso é que Ele seja
pronunciado justo em Seus vereditos judiciais. Em
nenhum desses casos há a menor ambiguidade ou
incerteza, em nenhum há qualquer transformação
operada no Objeto do verbo, pois sugerir isso seria
terrível blasfêmia. Quando a sabedoria é dita ser
“justificada por seus filhos” (Mateus 11:19),
obviamente, isso significa que ela é vindicada por
eles. Assim a palavra justificar também não tem
qualquer intenção diferente quando é aplicada à
aceitação do pecador diante de Deus.
Em segundo lugar, deve

ser notado que em muitas passagens a justificação é


colocada em oposição à condenação.

O significado de um termo é muitas vezes percebido


por avaliar aquele que é colocado em oposição a ele,
assim como “destruir” é oposto a “cumprir” em
Mateus 5:17. “Quando houver contenda entre
alguns, e vierem a juízo, para que os julguem, ao
justo justificarão, e ao injusto condenarão”
(Deuteronômio 25:1). “O que justifica o ímpio, e o
que condena o justo, tanto um como o outro são
abomináveis ao Senhor” (Provérbios 17:15).
“Porque por tuas palavras serás justificado, e por
tuas palavras serás condenado” (Mateus 12:37).
Assim, o sentido forense do termo é definitivamente
estabelecido, pois nessas e em outras passagens duas
sentenças judiciais são mencionadas, as quais são
exatamente o oposto uma da outra. Como condenar
um homem “não é torna-lo injusto”, mas é
simplesmente o pronunciamento de uma sentença
adversa contra ele, assim justificar não é realizar
qualquer aperfeiçoamento moral em seu caráter, mas
é simplesmente declará-lo justo. A palavra ainda é
explicada por Romanos 3:19-20: “...para que toda a
boca esteja fechada e todo o mundo seja [declarado]
condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne
será justificada diante dele”, onde culpa e não-
justificação são sinônimos.
Mas, em todas as gerações

Satanás e seus agentes têm trabalhado para fazer


com que os homens acreditem que quando a
Escritura fala sobre Deus justificando pecadores,
isso significa tornar os homens justos por meio de
algo que é infundido neles, ou algo produzido por
eles; desonrando assim a Cristo. Os primeiros
capítulos de Romanos são dedicados a uma
exposição dessa importantíssima verdade. Em
primeiro lugar, é mostrado que “não há nenhum
justo” (3:10), ninguém atende aos requisitos da lei.
Em segundo lugar, Deus providenciou uma justiça
perfeita em e por meio de Cristo, e isso é revelado
no Evangelho (1:16-17, 3:21-22). Em terceiro lugar,
essa justiça ou obediência vicária de Cristo é
imputada ou contada como sendo daqueles que
creem (4:11,24). Em quarto lugar, uma vez que
Deus creditou ao pecador que creu o cumprimento
da lei por seu Substituto, o pecador é justificado
(5:1,18). Em quinto lugar, portanto, ninguém pode
intentar qualquer acusação contra aquele que é
assim justificado (8:33). Assim, o pecador crente
pode exclamar jubilosamente: “No Senhor há justiça
e força” (Isaías 45:24).

“Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se


alegrará no meu Deus; porque me vestiu de roupas
de salvação, cobriu-me com o manto de justiça”
(Isaías 61:10). “Sairei na força do Senhor DEUS,
farei menção da tua justiça, e só dela” (Salmos
71:16).
Muitos supõem quando leem sobre a “presciência” de Deus
(Atos 2:23; 1 Pedro 1:2) que a expressão significa simplesmente
Seu conhecimento de antemão. Mas a presciência de Deus significa
muito mais, expressando certeza infalível, porque ela se baseia em
Seu decreto eterno. Deus prevê o que ocorrerá porque Ele
determinou o que ocorrerá. Na sua forma verbal a palavra é de
fato traduzida como “preordenou” em vez de “conheceu de
antemão” em 1 Pedro 1:20. Alguns Arminianos, em sua oposição
inveterada à verdade, têm insistido que a palavra “eleito” significa
uma pessoa superior ou excelente, ao invés de alguém escolhido,
apelando para Cristo ser chamado de “o eleito” de Deus em Isaías
42:1. Mas o Espírito Santo antecipou e refutou essa distorção
miserável por definir o termo em Mateus 12:18 (onde Ele cita
Isaías 42:1), “Eis o meu servo, a quem escolhi”. Marcos 13:20,
define o significado de “eleito” de uma vez por todas: “por causa
dos eleitos, a quem Ele escolheu”.
No discurso comum “príncipe” significa aquele que é inferior
ao rei, mas não quando Cristo é chamado de “o Príncipe da paz” e
“o príncipe da vida”, como resultado dEle ser o “Príncipe dos reis
da terra” (Apocalipse 1:5). Muitos têm estado intrigados pela
mostarda ter sido chamada de “maior das plantas” (Mateus 13:22),
e o amor sendo maior do que a fé (1 Coríntios 13:13), quando na
verdade a fé é a sua raiz, mas “maior” não significa maior em
tamanho no primeiro caso, ou superior no último, porém o mais
útil; os “melhores dons” de 1 Coríntios 12:31, e “maior” em 1

Coríntios 14:5, significam mais útil.


20. Distinguir entre coisas que diferem, pois se não o fizermos
a Bíblia parecerá contradizer-se, e nossas mentes estarão em um
estado de confusão desesperada. Se nós descuidadamente
generalizarmos e confundirmos coisas diferentes, nós não somente
formaremos uma concepção vaga delas, mas em muitos casos,
conceberemos algo completamente errado. É muito necessário que
o expositor atente diligentemente para essa regra, somente assim
ele será capaz de dar a verdadeira explicação para muitos versos.
Não somente é importante discriminar entre duas coisas diferentes,
porém muitas vezes fazer distinções entre os vários aspectos do
mesmo assunto.

Considere, em primeiro lugar, a palavra “cuidado”.


Em Lucas 10:41, encontramos nosso Senhor
repreendendo Marta porque ela estava “ansiosa e
afadigada com muitas coisas”, e Seu servo escreveu:
“E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado” (1
Coríntios 7:32); enquanto em Filipenses 4:6, os
Cristãos são exortados a “não estejais inquietos por
coisa alguma”. Por outro lado, somos exortados que
não deve haver divisão na igreja local: “mas antes
tenham os membros igual cuidado uns dos outros”
(1 Coríntios 12:25), e o apóstolo elogiou os santos
penitentes pelo “cuidado” deles e expressou a sua
própria preocupação com seu bem-estar lhes falar
sobre o “nosso cuidado” por eles (2 Coríntios 7:11-
12). Assim, há um “cuidado” que é proibido e um
cuidado que é necessário.

O primeiro é uma solicitude piedosa e moderada,


que conduz à vigilância e à diligência sacrificial no
desempenho do dever; o outro é um cuidado
destrutivo e excessivo que produz distração e
preocupação.
De modo semelhante, devemos distinguir nitidamente entre
dois tipos totalmente diferentes de temor: um que é adequado,
espiritual e útil; o outro carnal, inútil e prejudicial. Os crentes são
convidados a operar a sua própria salvação com temor e tremor
(Filipenses 2:12), ou seja, com um temor consciente de desagradar
Aquele que tem sido tão gracioso para com eles. Por outro lado, “o
perfeito amor lança fora o temor”
(João 4:18), ou seja, o medo servil que provoca
tormento, aqueles pensamentos terríveis que nos
fazem olhar adiante para o dia do juízo com
consternação.

Deus deve “ser reverenciado” (Salmos 89:7); ou


seja, tido na mais alta estima e reverência, o deve
coração profundamente impressionado com Sua
Majestade, maravilhado com Sua santidade inefável.
Quando lemos daqueles que: “Assim temiam ao
Senhor, mas também serviam a seus deuses” (2 Reis
17:33), significa por causa de um temor de Sua
vingança, eles passaram a adorá-lO exteriormente,
mas o amor de seus corações perversos foi colocado
sobre os seus ídolos. Assim, um temor filial inspira
gratidão e um desejo de agradar e honrar a Deus,
mas um temor servil produz terror na mente por
causa de uma consciência culpada, como foi o caso
de Adão (Gênesis 3:9-10), e é assim agora com os
demônios (Tiago 2:19). Um atrai a Deus, o outro
afasta dEle; um leva à escravidão e ao desespero; o
outro leva à humildade e promove o espírito de
adoração.
A fim de compreender certas passagens é absolutamente
necessário reconhecer que existe uma dupla “vontade” de Deus da
qual fala a Escritura, pelo que não queremos dizer a Sua vontade
decretiva e Sua vontade permissiva, pois em última análise, esta é
uma distinção que não distingue, pois Deus nunca permite
qualquer coisa que seja contrária ao Seu propósito eterno. Não,
nós nos referimos à distinção muito real que existe entre a Sua
vontade secreta e revelada, ou, como prefiro muito mais expressar
isto, entre Sua predestinação e Sua vontade preceptiva. A vontade
secreta de Deus consiste em Seus próprios conselhos que Ele não
divulga a ninguém. Sua vontade revelada é feita conhecida em Sua
Palavra, e é o que define o nosso dever e é o padrão de nossa
responsabilidade. A grande razão por que eu deveria adotar uma
certa conduta ou fazer uma determinada coisa é porque é a vontade
de Deus que eu faça isso, e me revelou isso nas Escrituras, como a
regra pela qual eu devo andar. Mas suponha que eu ajo em
contrário à Sua Palavra e desobedeço, eu não contrariei a Sua
vontade? Certamente. Então, isso significa que eu tenha frustrado
o Seu propósito? Seguramente não, por esse é sempre realizado,
não obstante a perversidade de Suas criaturas. A vontade revelada
de Deus nunca é cumprida perfeitamente por qualquer um de nós,
mas a Sua vontade secreta ou preordenada nunca é impedida por
qualquer um (Salmos 135:6; Provérbios 21:30; Isaías 46:10).
O que acaba de ser referido acima é reconhecidamente um
grande abismo, que nenhuma mente finita pode compreender
totalmente. No entanto, a distinção citada deve ser feita, se não
quisermos ser culpados de fazer as Escrituras se contradizerem.
Por exemplo, passagens como as seguintes evidenciam a
universalidade e invencibilidade da vontade de Deus que está
sendo cumprida: “Mas, se ele resolveu alguma coisa, quem então o
desviará? O que a sua alma quiser, isso fará” (Jó 23:13). “Mas o
nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou” (Salmos
115:3). “E todos os moradores da terra são reputados em nada, e
segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os
moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe
diga: Que fazes?” (Daniel 4:35). “Porquanto, quem tem resistido à
sua vontade?” (Romanos 9:19). Por outro lado, passagens como as
seguintes têm referência à vontade revelada ou preceptiva de Deus,
que pode ser resistida pela criatura: “E o servo que soube a
vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua
vontade...” (Lucas 12:47). “Porque esta é a vontade de Deus, a
vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3). “Em tudo dai graças,
porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”

(1 Tessalonicenses 5:18). A vontade secreta de Deus


é o Seu propósito eterno e imutável a respeito de
todas as coisas que Ele fez, e é operada por meio e
através das agências que Ele designou para esta
finalidade, e que não pode ser mais impedida por
homens ou demônios mais do que eles podem
impedir a sol de brilhar.
Capítulo 14
________________________________________

Devido a certas passagens do Antigo Testamento, não poucos


estiveram perplexos com essa palavra: “Deus nunca foi visto por
alguém” (João 1:18), essas palavras já foram usadas como um
argumento tolo por infiéis para “provar que a Bíblia está cheia de

contradições”. Tais versos necessitam de intérprete


para explicar o seu sentido, e, assim, distinguir entre
coisas que diferem. Algumas dessas declarações que
falam do Senhor “aparecendo” para um e outro das
grandes personagens do passado se referem à Sua
aparição como o Anjo da aliança; outras foram
manifestações teofânicas, em que Ele assumiu a
forma humana (cf. Ezequiel 1:26; Daniel 3:25), o
que profetizavam a encarnação divina; outras
significam que Ele foi visto pela fé (Hebreus 11:26).
Quando Isaías declarou: “eu vi também ao Senhor
assentado sobre um alto e sublime trono” (6:1), isso
significa que ele o fez com os olhos de seu
entendimento, em visão profética, e não com a visão
corporal. Deus, considerado essencialmente, é
“invisível” (1 Timóteo 1:17), pois Sua essência ou
natureza não pode ser vista (1 Timóteo 6:16), não,
nem por santos anjos nem pelos santos glorificados
no Céu. Quando se diz que O

veremos “face a face” (1 Coríntios 13:12), isso


indica “clara e distintamente”, em contraste com
“por espelho em enigma” (obscuramente) na
primeira parte do verso; embora o Senhor Jesus, na
verdade, será visto face a face.
Um exame cuidadoso das

diferentes passagens em que nosso Senhor é referido


como aparecendo ou voltando revela o fato de que
nem todas elas fazem alusão ao Seu retorno pessoal
e público, quando Ele “aparecerá segunda vez, sem
pecado, aos que o esperam para salvação” (Hebreus
9:28). Assim, “Não vos deixarei órfãos; voltarei para
vós”

(João 14:18), que tinha como referência, em


primeiro lugar, a Sua vinda corporal aos Seus
discípulos após a Sua ressurreição e, em segundo
lugar, a Sua vinda espiritual no dia de Pentecostes,
quando Ele lhes deu outro Consolador.

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e


meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele
morada” (João 14:23), vêm nas poderosas
influências da graça e consolação divinas. “E pela
cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo,
matando com ela as inimizades. E, vindo, ele
evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos
que estavam perto” (Efésios 2:16-17), o que foi
cumprido de forma mediada, no ministério de Seus
servos, pois quem os recebe, recebe a Cristo
(Mateus 10:40). “Lembra-te, pois, de onde caíste, e
arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando
não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu
castiçal, se não te arrependeres” (Apocalipse 2:5, e
cf. 2:16), essa passagem fala de uma visitação
judicial. “Ele virá a nós como a chuva” (Oséias 6:3),
todo avivamento espiritual e concessão de graça é
uma vinda do Senhor à alma.
Outro exemplo onde é
necessário distinguir entre coisas que diferem é ao
observarmos cuidadosamente os vários sentidos e
significados dados à palavra esperança. Em algumas
passagens a referência é à graça da esperança, a
faculdade pela qual esperamos um bom futuro,
como em: “fé, esperança, amor” (1 Coríntios
13:13), da qual Deus é o autor, “o Deus de
esperança” (Romanos 15:13). Em alguns versos é o
fundamento da expectativa, sobre o qual ela
repousa, como é dito sobre Abraão, “O qual, em
esperança, creu contra a esperança, tanto que ele
tornou-se pai de muitas nações”, o que é explicado
no que se segue: “conforme o que lhe fora dito:
Assim será a tua descendência” (Romanos 4:18),
sua esperança repousava sobre a promessa segura de
Deus. Em outros lugares é o objeto da esperança
que está em vista, as coisas que são esperadas, ou
Aquele em quem nossa confiança é colocada, como
em: “esperança que vos está reservada nos céus”
(Colossenses 1:5); “Aguardando a bendita
esperança” (Tito 2:13); “ó Senhor, esperança de
Israel” (Jeremias 17:13). Ocasionalmente, o termo
significa a garantia do que é produzido, como em:
“a minha carne repousará em esperança” (Salmos
16:9 – trad. lit.) e “nos gloriamos na esperança... e a
esperança não traz confusão” (Romanos 5:2,5).
Para esclarecer o

pensamento e fundamentar a doutrina é muito


necessário distinguir entre os três tempos e os vários
aspectos da salvação de Deus. Como somos
familiarizados com essa palavra, ela é usada com
frouxidão imperdoável (mesmo pela maioria dos
pregadores), através da falha em reconhecer que
esse é o termo mais abrangente encontrado nas
Escrituras, e da falha em se esforçar para averiguar
o modo como ele é utilizado nelas. Frequentemente
um conceito muito inadequado é formado sobre o
âmbito e conteúdo dessa palavra, e por ignorar as
distinções que o Espírito Santo tem feito, nada
senão uma ideia obscura e confusa é obtida. Quão
poucos, por exemplo, seriam capazes de fazer uma
simples exposição das seguintes afirmações: “Que
nos salvou” (2 Timóteo 1:9, e cf. Tito 3:5); “operai
a vossa salvação com temor e tremor” (Filipenses
2:12); “porque a nossa salvação está agora mais
perto de nós do que quando aceitamos a fé”
(Romanos 13:11 e cf. 1 Pedro 1:5). Agora, esses
versos não se referem a três salvações diferentes,
mas sim a três aspectos da mesma salvação. O
primeiro como um fato consumado, a salvação do
deleite no pecado e da penalidade pelo pecado.

O segundo como um processo presente, quanto ao


poder e atração pelo pecado. O

terceiro como uma perspectiva futura, a salvação da


própria presença do pecado.
Se o equilíbrio da

verdade deve ser preservado e se devem ser evitados


a má prática de opor um aspecto contra o outro, ou
de enfatizar em demasia um e ignorar o outro; um
cuidadoso estudo precisa ser feito sobre as diferentes
causas e meios da salvação. Há nada menos do que
sete coisas que concorrem nessa grande obra, pois
todos esses estão ditos, em uma passagem ou em
outra, “salvar-nos”. A salvação é atribuída ao Pai:
“Que nos salvou, e chamou com uma santa
vocação”
(2 Timóteo 1:9), devido ao Seu amor eletivo em
Cristo. Ao Senhor Jesus: “Ele salvará o seu povo
dos seus pecados” (Mateus 1:21), devido ao Seu
mérito e expiação. Ao Espírito Santo: “nos salvou
pela... renovação do Espírito Santo”

(Tito 3:5), devido às Suas operações todo-poderosas


e eficazes. À

instrumentalidade da Palavra: “a palavra em vós


enxertada, a qual pode salvar as vossas almas”
(Tiago 1:21), porque ela desvela a nossa necessidade
e revela a graça, pela qual podemos ser salvos. À
obra dos servos do Senhor: “Tem cuidado de ti
mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas;
porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo
como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4:16), por
causa da sua fidelidade à verdade. À conversão do
pecador, em que tanto o arrependimento e a fé são
exercidos por ele: “Salvai-vos desta geração
perversa” (Atos 2:40), pelo arrependimento
mencionado no verso 38; “pela graça sois salvos,
por meio da fé” (Efésios 2:8). Às ordenanças: “Que
também, como uma verdadeira figura, agora vos
salva, o batismo” (1 Pedro 3:21), selando a graça de
Deus em um coração crente.
Agora, essas sete causas

afirmativas da salvação precisam ser consideradas


em sua ordem e mantidas em seus devidos lugares,
pois de outra forma haverá incalculável prejuízo.
Por exemplo, se elevamos uma causa subordinada
acima de uma primária, logo, todo o senso de
verdadeira proporção é perdido. O amor e sabedoria
de Deus são a causa primária, o motivo primário de
todo o restante. Em seguida, estão os méritos e
satisfação de Cristo, que também são a base de tudo
o que se segue. As operações eficazes do Espírito
Santo produzem nos pecadores aquilo que é
necessário para a sua participação nos benefícios
propostos pelo Pai e adquiridos por Cristo. A
Palavra é o principal meio utilizado por Deus para a
convicção e conversão. Como o resultado da
operação do Espírito e da aplicação da Palavra em
poder em nossos corações, somos levados ao
arrependimento e à fé.
Nisso, é costume usual do Espírito Santo usar os
ministros de Cristo como Seus agentes
subordinados. A Ceia do Senhor e o Batismo são
meios pelos quais expressamos nosso
arrependimento e fé, e os temos confirmado a nós.
Essas causas concordantes também não devem ser
confundidas, de modo que atribuímos a um anterior
o que diz respeito a outro posterior. Não devemos
atribuir às ordenanças o que pertence à Palavra, nem
à conversão o que se origina por meio do Espírito,
nem dar a Ele a honra que é peculiar a Cristo. Cada
um deve ser cuidadosamente distinguido, definido e
mantido em seu devido lugar.
A necessidade de

distinguir entre as coisas que diferem é ainda


evidenciado pelo seguinte. O

caminhar em escuridão de Isaías 9:2 não é


ocasionado pelo Senhor retirar a luz de Sua face,
mas é devido à ausência de instrução ministerial, e,
portanto, deve ser explicado por Amós 8:11; já em 1
João 1:6 deve considerando que andar em trevas
consiste em uma revolta aberta contra Deus. A
palavra “morto” em João 6:49 significa morto
fisicamente; “não morra” no próximo verso significa
morto espiritualmente; “nunca verá a morte” em
João 8:51, tem referência à segunda morte. A
passagem “da morte para a vida” de João 5:24, é
legal, a recompensa da Lei, justificação; mas a
passagem “da morte para a vida”

de 1 João 3:14, experiencial, significa regeneração.


“Um novo homem” de Efésios 2:15, é aquele corpo
místico composto de judeus e gentios salvos, do qual
Cristo é a cabeça; enquanto o “novo homem” de
Efésios 4:24, é a nova condição e posição garantidas
pela regeneração, e que o beneficiário é ordenado a
fazer manifesto em seu comportamento diário.
Quando é dito que Cristo foi “sem pecado” em Seu
primeiro advento (Hebreus 4:15) significa que Ele
era pessoal e experimentalmente assim, sendo o
Santo de Deus; mas quanto é dito que Ele será “sem
pecado” na Sua segunda vinda (Hebreus 9:28)
indica que Ele será imperativamente assim, não mais
estará sob a culpa de Seu povo. Em passagens como
Romanos 5:1; Efésios 2:8; etc., “fé” significa o ato e
graça da fé, mas em 1 Timóteo 3:9, 4:1 e Judas 3,
“a fé” se refere ao corpo de doutrina revelada nas
Escrituras.
21. O significado espiritual da Escritura: não simplesmente na
aplicação que pode razoavelmente ser feita de uma passagem, mas
o seu conteúdo real. Nós temos em mente aquelas passagens onde
um objeto material ou transação histórica delineou ou indicou
objetos e experiências espirituais. Grande cuidado deve ser tido
aqui, para que por um lado não sejamos escravos do “literalismo”,
de modo que percamos o significado mais profundo e sentido mais
elevado de muitas coisas na Palavra de Deus; ou que, por outro
lado, usemos livremente a nossa imaginação e “leiamos” em um
verso o que não está lá ou “carnalizemos” o que deve ser
considerado em seu sentido simples e natural. Contra ambos os
males, o expositor precisa estar constantemente em vigilância.
Salientamos também que, em não poucos casos, as Escrituras
possuem tanto um sentido literal quanto místico, e uma das tarefas
que cabem ao intérprete é anunciar cada um deles de forma clara.
Alguns exemplos deixarão mais claro o que queremos dizer.
Os seis primeiros versos

do Salmo 19 contêm uma descrição sublime das


perfeições de Deus como são demonstradas na
criação material, especialmente nos corpos celestes;
no entanto, é bastante evidente que o apóstolo Paulo
também considerou o que é dito do sol e as estrelas
como sendo seu emblema divinamente designado do
reino da graça. Pois, em Romanos 10:4-17,
descobrimos que ele tinha diante de si o anúncio
universal do Evangelho, e que no verso 18, ele citou
o Salmo 19: “Mas digo: Porventura não ouviram?
Sim, por certo, pois ‘por toda a terra saiu a voz
deles, e as suas palavras até aos confins do
mundo’”. Ministros de Cristo são chamados
“estrelas” (Daniel 12:3; Apocalipse 1:20), pois como
as estrelas iluminam todas as partes da Terra, assim
os mensageiros evangélicos irradiam os raios da luz
e da verdade sobre a escuridão de um mundo ímpio.
E assim como não há nenhum discurso ou
linguagem em que a voz das estrelas celestes não é
ouvida, pois elas são tantas línguas proclamando a
glória de seu Criador, assim os ministros de Cristo
têm, em diferentes períodos da história, anunciado
as boas novas de Deus em toda linguagem humana.
No dia de Pentecostes homens de muitas nações
ouviram os servos de Deus falarem em suas próprias
línguas as grandezas de Deus, de modo que mesmo
então, o testemunho dos apóstolos foi anunciado
“em todo o mundo” (Atos 2:9-11, e cf. Colossenses
1:5,6,23).
É evidente a adequação da interpretação espiritual do apóstolo
sobre o Salmo 19:4, e ele nos fornece uma chave de valor
inestimável para a abertura do que se segue imediatamente. À luz
das profecias messiânicas é bastante clara, o que é dito nos versos
5 e 6 deve ser entendido, em última instância, sobre o próprio
Cristo, pois em Malaquias 4:2, Ele é expressamente chamado de “o
Sol da justiça”, que deve “trazer curas nas suas asas”. Como o sol é
um corpo celeste, assim o Salvador não é da Terra (João 8:23),
mas é “o Senhor do céu” (1 Coríntios 15:47). Assim o salmista
passou a dizer: “neles [nos céus] pôs uma tenda para o sol”. A
ênfase é ao luminar central no firmamento, todos os menores
sendo perdidos de vista. Assim é no Evangelho: somente um
objeto central é estabelecido e magnificado ali. Como nos céus
particularmente o sol exibe a glória natural de Deus, assim o
Evangelho, ao revelar o Filho, manifesta a glória moral de Deus.
Muito apropriadamente o Evangelho é comparado a uma “tenda”
ou tabernáculo (em vez de um templo fixo), pois, como Israel no
passado, assim ele tanto contém e ainda resguarda a glória de
Cristo, e é designado para se mover livremente de um lugar para
outro, em vez de ficar estático.
“O qual é como um noivo que sai do seu tálamo”. Assim como
o sol no início da manhã lança para trás as cortinas do seu
pavilhão, o raiar da luz dispersa a sombra da noite, assim no
Evangelho, Cristo aparece como um Noivo, removendo a
escuridão da não-regeneração de Seu povo, de modo a ser amado
e admirado por todos os que creem. “E se alegra como um herói, a
correr o seu caminho”, estando plenamente assegurado de Seu
triunfo (Apocalipse 6:2). “A sua saída é desde uma extremidade
dos céus”, em Miquéias 5:2, somos informados de que Cristo tem
“saídas [que] são desde os tempos antigos, desde os dias da
eternidade”. Essas saídas ocorreram, em primeiro lugar, na medida
em que o Pacto Eterno é em tudo bem ordenado e seguro, no qual
Ele prometeu “Eis aqui venho... Para fazer, ó Deus, a tua vontade”.
Em segundo lugar, nos anúncios de profecia, quando, de Gênesis
3:15

em diante, as cortinas foram gradualmente


removidas, pois a Pessoa do Messias vai sendo
desvelada em crescente distinção, até que em Isaías
53 Ele foi totalmente revelado. Em terceiro lugar,
nas missões Evangélicas por toda a Terra, que
continuará até à Sua ainda mais grandiosa aparição.
Quando Ele brilha em uma alma “nada se esconde
ao seu calor”. Essa interpretação é confirmada pelo
verso 7: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a
alma”.
O oitavo Salmo nos fornece um outro exemplo de uma
passagem da Escritura que tem um duplo significado: um natural e
um espiritual. O âmbito principal desse Salmo, como seus versos
inicial e final mostram, é magnificar o Criador, exaltando as
maravilhas de Suas mãos. Conforme Davi contemplava as belezas
e maravilhas do céu, ele tinha um senso de sua própria nulidade,
de modo que ele exclamou: “Que é o homem mortal [enosh:
homem frágil, insignificante], para que te lembres dele?

e o filho do homem [um diminutivo de “homem”],


para que o visites?”. Depois, a sua admiração
aprofundou-se quando ele passou a dizer: “Pois
pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e
de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha
domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste
debaixo de seus pés”.

É aí que vemos tanto a soberania quanto a graça


abundante de Deus, em tão altamente elevar alguém
tão humilde. Isto encheu o Salmista de assombro e
admiração, que Deus tivesse colocado todas as
criaturas do mundo em sujeição ao homem, em vez
de aos anjos (Gênesis 1:28). É nisso que vemos a
bondade de Deus para com a humanidade, e o alto
favor que lhe foi conferido. Mas isso não representa
o alcance e sentido total dos versos.
O Salmo 8:4-6 é citado pelo apóstolo em Hebreus 2:6-8, onde
ele estava provando a partir das Escrituras a superioridade
imensurável de Cristo sobre os anjos. Ele realmente foi por pouco
tempo (durante o período de Sua humilhação) feito menor do que
os anjos, mas depois que Ele concluiu triunfantemente a obra que
Lhe foi dada, Deus O exaltou muito acima deles. Assim, o que foi
dito por tempo indeterminado sobre o “homem”, sobre Davi,
Paulo aplica definitiva e espiritualmente a Cristo, para depois dizer:
“mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam
sujeitas”, ele imediatamente acrescentou: “Vemos, porém... Jesus”,
o que significa que vemos cumprido nEle os termos desse antigo
oráculo. Toda margem para dúvidas a esse respeito é removida
pelas próximas palavras de Paulo: “coroado de glória e de honra...
que fora feito um pouco menor do que os anjos”. O Salmo 8 é
messiânico e deve ser visto ainda ao lado daquelas passagens
citadas a partir dele em Mateus 21:16 e 1 Coríntios 15:27, que se
aplicam, sem dúvida, ao Senhor Jesus. A linguagem utilizada por
Davi, então, era muito mais do que uma exultação natural de
admiração pelas obras de Deus na criação, a saber, foi um êxtase
espiritual ao ser concedida uma visão sobre o mistério da graça, o
reino de Cristo e o amor do Pai pela pessoa do Mediador.
Mas a exultação do espírito de Davi foi estimulada com algo
mais do que aquilo que acaba de ser apontado: o “homem” a quem
ele contemplou era o “homem novo”, o “homem perfeito” de
Efésios 2:15 e 4:13, aquele homem espiritual do qual Cristo é a
Cabeça. A afirmação de Davi referia-se, em última análise, não
somente a Cristo pessoal, mas à Pessoa de Cristo místico, pois o
Redentor compartilha com os Seus remidos os despojos de Sua
vitória e admite-os a uma participação em Sua recompensa. Eles
são Seus “coerdeiros” (Romanos 8:17), e essa é a glorificação
deles que o Salmo 8:5-6, tinha em vista finalmente. Mesmo agora,
os anjos estão em uma posição de subordinação a eles (Hebreus
1:14) e no dia vindouro os remidos serão “coroados de glória e
honra”. “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no
meu trono” (Apocalipse 3:21, e cf. 21:7). A exaltação de Cristo é a
garantia do Cristão, pois Ele entrou no Céu como as primícias, o
penhor da colheita futura. Oh, que perspectiva há aqui para a fé
apossar-se da esperança e desfrutar desde agora! Se isso fosse mais
real para nós, estaríamos mais envolvidos em nos desviar de olhar
do presente para o futuro, seríamos repletos de admiração e
louvor, e as tribulações triviais e os problemas dessa vida nos
afetariam muito menos.
O Salmo 89 nos fornece mais uma ilustração do princípio que
estamos aqui tratando, e um muito impressionante e importante.

Historicamente, esse Salmo olha para trás, para o


que está registrado em 2

Samuel 7:4-17, ou seja, a aliança que o Senhor fez


com Davi; mas ninguém com os olhos ungidos pode
ler esse Salmo sem rapidamente perceber que
alguém maior do que o filho de Jessé está ali em
vista, nomeadamente, o seu Salvador. À luz de
Isaías 42:1: “Fiz uma aliança com o meu escolhido,
e jurei ao meu servo Davi”

(Salmos 89:3), é bastante claro que a referência


espiritual é ao Pacto de Graça que Deus fez com o
Mediador antes da fundação do mundo; compare:
“Então falaste em visão ao teu santo” (v. 19). Isto
ainda é confirmado no que imediatamente se segue:
“A tua semente estabelecerei para sempre, e
edificarei o teu trono de geração em geração” (v. 4),
o que não é verdade quanto ao Davi histórico.
Como observou Spurgeon: “Davi deve ter sempre
uma semente, e realmente isso é cumprido em Jesus,
além de suas expectativas. Que semente Davi tem na
multidão que surgiu dAquele que era ao mesmo
tempo o seu Filho e o seu Senhor! O Filho de Davi
é o grande Progenitor, o último Adão, o Pai da
eternidade; Ele vê a Sua semente, e neles contempla
o fruto do trabalho da Sua alma. A dinastia de Davi
nunca decai, mas, pelo contrário, está cada vez mais
consolidada pelo grande Arquiteto do Céu e da
Terra. Jesus é um Rei, bem como um Progenitor, e
Seu trono está edificado para sempre”. À medida
que lemos esse Salmo, verso após verso, somos
compelidos a olhar para além do literal em direção
ao espiritual, até que o clímax é atingido no verso
27, onde Deus diz sobre o antitípico Davi: “Também
o farei meu primogênito mais elevado do que os reis
da terra”.
Capítulo 15
________________________________________

1 Coríntios 10:1-4 fornece outra ilustração do que estamos


tratando aqui, a saber, o conteúdo espiritual de muitas passagens
na Palavra de Deus: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que
nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram
pelo mar. E

todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no


mar, e todos comeram de uma mesma comida
espiritual, e beberam todos de uma mesma bebida
espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os
seguia; e a pedra era Cristo”. Como uma questão de
fato, histórica e divinamente registrada, eles
comeram do alimento físico e beberam da água que,
literalmente, fluiu de uma pedra; ainda assim, por
mais três vezes o apóstolo declarou que o mesmo
ocorria de modo espiritual.

Ao fazê-lo, Paulo não estava apenas intencionando


que havia uma estreita analogia entre o
relacionamento de Deus com os hebreus do passado
e com os Seus santos hoje; antes, ele estava
insistindo que as experiências no deserto de Israel
segundo a carne esboçavam as experiências da alma
de Israel segundo o espírito. Não é apenas que as
instituições divinas sob o judaísmo possuíam um
significado simbólico e típico, mas que os Cristãos
entram na substância espiritual do que eles tinham
apenas como sombras. Cristo é o nosso altar
(Hebreus 13:10), nossa páscoa (1 Coríntios 5:7),
nosso Sumo Sacerdote (Hebreus 4:14). Em Cristo
nós somos circuncidados espiritualmente
(Colossenses 2:11).
“Mas chegastes ao monte Sião” (Hebreus 12:22) também deve
ser entendido espiritualmente, e não de modo literal. Isso deve ser
bastante óbvio, mas, por causa das ideias grosseiras e carnais dos
Dispensacionalistas modernos há necessidade que insistamos nesse
ponto. Essa é uma das muitas passagens em que as bênçãos e
privilégios da Nova Aliança são expressos em linguagem extraída
da Antiga, o antítipo sendo apresentado sob a fraseologia do tipo.
Assim, quando Cristo anunciou o livre caminho que agora há entre
o Céu e a Terra, e o que Sua obra redentora efetuaria, Ele o
descreveu em palavras tiradas da visão de Jacó: “Na verdade, na
verdade vos digo que daqui em diante vereis o Céu aberto, e os
anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (João
1:51). Tão notável e plena foi essa declaração, que contém muito
mais em si do que foi discernido pela maioria dos expositores. Ele
não somente declarou que seria restaurada uma relação bendita
entre os santos espíritos do mundo superior e os santos enquanto
aqui em baixo, mas também revelou a base sobre a qual essa
relação se baseia, fornecendo a chave para passagens como Atos
12:7 e Hebreus 1:14. Deve ser cuidadosamente observado que
Cristo aqui refere a Si mesmo como “o Filho do homem”, um
título que alude uniformemente à Sua auto-humilhação como o
último Adão, ou a algumas das consequências da Sua obediência
até à morte.
Como o resultado da morte expiatória de Cristo, um novo e
vivo caminho foi aberto na presença de Deus, os pecadores
lavados pelo sangue têm o direito de se aproximarem dEle, em
plena certeza de fé. Mas João 1:51 ensina algo mais do que o
Redentor ser o elo da união entre o Céu e a Terra, o único
Mediador entre Deus e os homens; a saber, que um dos frutos
preciosos de Sua obra expiatória é a restauração daquela relação,
há tempos rompida, entre os homens e os anjos. Como Cristo
derrubou a parede de separação entre judeus e gentios através da
Sua morte na cruz, tendo assim matado a inimizade que havia entre
eles, dessa forma Ele também pôs fim ao estranhamento que o
pecado causara entre anjos e homens; eles são considerados como
os dois ramos de uma mesma família, reunidos e unidos sob uma
cabeça (Efésios 1:10). Pelo sangue da Sua cruz, Cristo reconciliou
todas as coisas no Céu e na Terra (Colossenses 1:20), unindo-os
em uma feliz comunhão, e por essa razão um anjo diz a João: “Sou
teu conservo, e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus”
(Apocalipse 19:10). Assim João 1:51 nos ensina que Cristo é o
Mediador de uma comunhão espiritual entre os habitantes da Terra
e do Céu, e o Mantenedor dessa comunhão.
Agora, como Cristo anunciou a unidade que Ele produziria
entre os anjos e Seu povo por uma alusão à visão de Jacó, assim
Ele se referiu ao paraíso como o “seio de Abraão” (Lucas 16:22), e
Seu apóstolo falou da Nova Aliança (prefigurada por Sara) como
“a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós”
(Gálatas 4:26) e os santos do Novo Testamento como “circuncisão”
(Filipenses 3:3). De modo semelhante (para voltar a Hebreus
12:22), quando Ele disse: “Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade
do Deus vivo”, se referiu à “Sião” espiritual, ou àquele estado
abençoado e glorioso no qual os crentes foram chamados pelo
Evangelho. Essa linguagem olha para trás, é claro, para o Antigo
Testamento, onde (de acordo com as diferentes grafias em
hebraico e grego) é chamado de “Sião”, o que representou ou
exemplificou a maior revelação da graça divina nos tempos do
Antigo Testamento. Era o lugar de habitação de Deus (Salmos
76:2). Era o objeto do amor especial de Deus e o local de
nascimento dos seus eleitos: “O Senhor ama as portas de Sião,
mais do que todas as habitações de Jacó. Coisas gloriosas se dizem
de ti, ó cidade de Deus. (Selá)... E de Sião se dirá: Este e aquele
homem nasceram ali; e o mesmo Altíssimo a estabelecerá” (Salmos
87:2,3,5). A salvação e todas as bênçãos eram ditas ser
provenientes de Sião (Salmos 128:5, 134:3).
Sião não era apenas o local do templo, mas o trono a partir do
qual Davi reinou e governou o reino de Israel, emitindo suas leis e
estendendo o poder do seu governo sobre toda a terra santa. Como
tal, prefigurava o reino do Messias. É (em cumprimento da
promessa do Pai) para Sião celestial que o Senhor Jesus foi
exaltado (Salmos 2:6, e cf.

Hebreus 2:9), e Ele estende o Seu cetro sobre os


corações de Seu povo. Sião é onde o Davi espiritual
é entronizado, e de onde “a vara da Sua força” é
manejada, não só para trazer os Seus remidos em
submissão voluntária, mas dominará “no meio dos
teus inimigos” (Salmos 110:2; Isaías 2:3). Assim, ao
dizer aos crentes do Evangelho: “Mas chegastes ao
monte Sião, e à cidade do Deus vivo”, o Espírito
Santo assegura que a eles foi dada uma participação
pessoal em todas as coisas notáveis ditas sobre Sião
em qualquer passagem nas Escrituras, e que o
conteúdo espiritual daquelas boas coisas pertence
aos santos do Novo Testamento em particular, e que
eles têm acesso ao trono espiritual do antítipo Davi
— o trono da graça. Uma vez que “todas quantas
promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o
Amém...” (2 Coríntios 1:20), então aqueles que
estão em Cristo têm o direito e os títulos a todas as
coisas gloriosas faladas de Sião no Antigo
Testamento. Compare Josué 1:5 e Hebreus 13:5-6,
para uma ilustração desse princípio.
Há um outro tipo de passagens, um pouco diferentes daquelas
citadas acima, que precisa ser considerado no âmbito do presente
tópico sobre a importância espiritual de versos da Palavra. Estes
podem ser adequadamente introduzidos por uma declaração em
Apocalipse 11:8: “E
os seus corpos jazerão na praça da grande cidade,
que espiritualmente se chama Sodoma e Egito,
onde também o seu Senhor foi crucificado”. Como
poderia muito bem ser esperado, mesmo por aqueles
que têm apenas relativamente pequena familiaridade
com as numerosas obras sobre o Apocalipse, e com
as suas diversas interpretações, os comentaristas
diferem amplamente em suas explicações sobre esse
verso. Não nos propomos acrescentar a esse grande
número, tentando identificar as “duas testemunhas”
ou determinar se a “grande cidade” onde eles
jazerão mortos deve ser entendida literal ou
simbolicamente, nem se a referência é a algum lugar
ou algo no passado, no presente ou no futuro, pois
tais especulações não possuem nenhum valor
prático, oferecendo pequena ajuda na luta do bom
combate da fé. É suficiente para o nosso presente
propósito, simplesmente chamar a atenção do leitor
para as palavras que temos em itálico, e apontar
como essa afirmação estabelece mais uma vez o
princípio de exegese que estamos ilustrando aqui.
Ao dizer que a “grande cidade” de Apocalipse 11:8,
espiritualmente chama-se Sodoma e Egito, o Espírito Santo dá a
entender que ela é caracterizada pelos mesmos males que a
Escritura nos ensina a associar àqueles lugares, aquela imundície
de Sodoma e crueldade do Egito, ao afligirem a vida do povo de
Deus no passado, marcou a cena onde as duas testemunhas
testificaram sobre Deus e foram mortos por sua fidelidade. É

provável que a linguagem de Apocalipse 11:8


contenha uma alusão a Ezequiel 16:44-59, onde
repetida menção é feita sobre uma Sodoma mística.
“Mística”, dizemos, pois quando o Senhor declarou:
“Eu, pois, farei voltar os cativos delas; os cativos de
Sodoma e suas filhas” (v. 53), e a questão a ser
feita, se ainda haverá uma restauração das históricas
Sodoma e as outras cidades da planície, ou seja,
apenas materializam o que deve ser entendido
espiritualmente (por literalizar o que é figurado), e
deveria transferir o assunto aqui falado do governo
moral de Deus para com os homens, para o mero
reino natural dos arranjos providenciais divinos
referentes ao mundo material.
Quando o Senhor disse aos habitantes de Jerusalém: “Tu és
filha de tua mãe, que tinha nojo de seu marido e de seus filhos...
vossa mãe foi hetéia, e vosso pai amorreu” (Ezequiel 16:45), Ele
estava acusando-os de serem culpados das mesmas abominações
que caracterizavam os habitantes originais da Palestina, que muito
precocemente apostataram de Deus, sendo entre os primeiros
idólatras depois do grande dilúvio. “Vivo eu, diz o Senhor DEUS,
que não fez Sodoma, tua irmã, nem ela, nem suas filhas, como
fizeste tu e tuas filhas. Eis que essa foi a iniquidade de Sodoma,
tua irmã: Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve
ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do
necessitado” (16:48-49). Deus se dirigiu assim à nação judaica
apóstata e corrupta porque havia trilhado o caminho contaminado
e imitado os pecados da antiga cidade de má fama. Designar o
povo da aliança como “Sodoma”, porque a situação e costumes
desses eram idênticos, era uma das maneiras mais solenes e
impressionantes que poderiam ser empregadas para descrever a
sua depravação inveterada e caráter vil. Claro, então, é que
“hetéia”, “amorreu” e “Sodoma” nesses versos não devem ser
considerados mais literalmente do que “Davi” em Ezequiel 34:23,
ou “Balaão” e “Jezabel” em Apocalipse 2:14,20.
Mais uma ilustração desse tipo deve ser suficiente. Quando
Seus discípulos perguntaram a Cristo: “Por que dizem então os
escribas que é mister que Elias venha primeiro?”. Ele lhes
respondeu: “Em verdade Elias virá primeiro”, e nos é dito: “Então
entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista”
(Mateus 17:10-13). Essa é uma das passagens que os Teosofistas
apelam como apoio da sua crença na reencarnação, e se as palavras
do Senhor fossem tomadas em seu valor literal, então deveríamos
admitir que elas oferecem, no mínimo, alguma brecha para essa
teoria. Como os Dispensationalistas de nossos dias, os escribas
eram grandes defensores da letra da Escritura, e insistiam que
aquela promessa divina: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias,
antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”

(Malaquias 4:5), significava exatamente o que Ele


disse. Aqui é certamente outro caso em questão,
onde é necessário que o intérprete cuidadosamente
compare Escritura com Escritura e anuncie o
significado espiritual das palavras. Que João Batista
não era a pessoa real do tisbita é bastante claro a
partir de sua própria negação, pois quando ele foi
perguntado: “És tu Elias?”, Ele declarou
expressamente: “Eu não sou” (João 1:21). Por
conseguinte, a questão permanece: O que nosso
Senhor intencionava quando disse sobre o Seu
precursor “Elias virá primeiro”?
Que Cristo estava

afirmando uma verdade profunda, a qual pode ser


apreendida apenas por almas espiritual e
divinamente iluminadas, quando declarou que João
Batista era Elias, é muito evidente a partir de Suas
palavras aos apóstolos em Mateus 11:13-14:
“Porque todos os profetas e a lei profetizaram até
João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que
havia de vir”. Essas palavras também continham
uma repreensão indireta às suas crenças e
sentimentos carnais a respeito do esperado reino do
Messias. Seu acréscimo, “quem tem ouvidos para
ouvir, ouça” (v. 15) confirma o que acabamos de
sinalizar, pois essa exortação não era feita, exceto
quando algo difícil para o homem natural entender
estava em questão. João Batista foi rejeitado pelos
líderes de Israel. Herodes o decapitou, e Cristo
declarou que Ele também “padeceria” (Mateus
17:12), e isso era algo que dificilmente estaria de
acordo com suas opiniões. Um Messias sofredor,
cujo arauto tinha sido assassinado, era difícil de
harmonizar com o ensinamento dos escribas
relativos a Malaquias 4:5; ainda assim, não há nada
nesse verso que deve nos fazer tropeçar hoje, pois o
nosso Senhor revelou de modo muito claro o seu
significado.
Além da elucidação de

Malaquias 4:5, fornecida acima, deve ser ressaltado


que a passagem-chave que abre o mistério é Lucas
1:17, onde foi anunciado que João viria antes de
Cristo “no espírito e virtude de Elias”, linguagem
que significa manifestamente que ele não era uma
reencarnação do tisbita. A unidade essencial dos dois
homens em seu caráter e obra transmitiam a ideia de
que o anterior seria uma profecia do outro. O último
apareceu num momento em que as condições eram
muito semelhantes àquelas que caracterizaram o
estado de Israel nos dias de Acabe. As semelhanças
entre os dois homens são muitas e notáveis. João era
essencialmente um pregador do arrependimento. Ele
era um homem de grande austeridade, vestido de
forma semelhante ao profeta de Gileade. O
julgamento real foi feito a respeito de sua fidelidade,
e também pelo ódio e perseguição dos ímpios, mas
ele era zeloso pelo Senhor, tanto em reprovar o
pecado mesmo dos poderosos e na busca pela
reforma de sua nação. Tanto a sua missão quanto a
sua disposição eram semelhantes em caráter às de
Elias.
Antes de deixarmos essa

parte de nosso assunto complexo, um grupo muito


mais numeroso de passagens, que também diferem
consideravelmente daquelas já observadas, exige a
nossa atenção, a saber, as que delineiam os altos e
baixos da vida Cristã. Muitas delas são apresentadas
em termos simples e literais, outras em linguagem
altamente figurativa ou típica. Ainda outras estão
escondidas atrás de acontecimentos históricos que
foram divinamente designadas à sombra diante das
provações e tentações, as rebeldias e quedas, os
conflitos e castigos, as esperanças e as decepções, os
avivamentos e restaurações dos santos nesta época.
Temos deixado estas para o fim, não porque são de
menor importância, mas porque exigem um
expositor divinamente ensinado e maduro para lidar
com elas. Elas demandam alguém que esteja bem
familiarizado com o seu próprio coração, tanto com
o funcionamento da corrupção quanto com as
operações da graça em seu interior, bem como um
com um conhecimento considerável dos “caminhos”
de Deus, caso queria traçar as diferentes
experiências de Seu povo como se registradas nas
Escrituras. É relativamente fácil anunciar o
significado espiritual de Êxodo 15:23-25, ou do
Salmo 23, por exemplo; porém é mais difícil
(embora necessário) anunciar o do Salmo 38:9-10,
63:1-2, 107:17-20; Provérbios 24:30-34; Isaías
17:10-11 e Oséias 2:14-15.
Vamos agora ilustrar a

partir da história de Jonas, como esta retrata


espiritualmente a experiência de muitos santos
desviados. O Senhor deu a esse profeta um
mandamento, mas este era contrário às suas
inclinações naturais. Ele desobedeceu, buscando
fugir “da presença do Senhor”, fazendo com que
sua vontade própria enfraquecesse o espírito de
oração e apreço pela Palavra. Jonas desceu para um
navio, buscando as coisas do mundo. Deus começou
a castigá-lo, através do envio de “um grande vento
no mar” por causa de sua desobediência. Isso
deveria ter falado em voz alta à sua consciência,
mas, infelizmente, ele estava dormindo. Jonas não
percebeu a primeira manifestação da insatisfação
divina e, portanto, não estava incomodado quanto a
isso. Assim é com um santo desviado: a consciência
fica sonolenta quando Deus aflige, ele está muito
entorpecido para “ouvir a vara”.

Mas Deus não permitiria que Jonas ficasse


indiferente. Ele foi severamente despertado de seu
sono pelo comandante, as sortes foram lançadas e
caíram sobre o próprio Jonas. Sua fala “levantai-me,
e lançai-me ao mar” (1:12) era a linguagem desse
desânimo que vem sobre alguém quando é levado a
colher tempestades. No entanto, Deus não
abandonou Seu filho rebelde e desesperado: Ele
“preparou um grande peixe para engolir Jonas”, e
sobrenaturalmente o preservou. A sequência é
abençoada: disse esse homem errante: “Na minha
angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeu”
(2:2); sim, e o libertou.
Em suas características

essenciais, essas são as experiências comuns de um


crente que, ao seguir inclinações carnais, está
determinado a trilhar o seu próprio caminho. Em sua
misericórdia o Senhor corrige alguém assim por
causa de sua vontade própria e carnalidade. Quando
ele age como “um novilho ainda não domado”
(Jeremias 31:18), e adota uma conduta de
desobediência, Deus frustra os seus planos de
autogratificação e o impede de chegar a alguma
Társis em que ele pôs o seu coração. O Senhor não
permitirá que os Seus próprios façam o que
quiserem. Por meio de Sua providência, um “grande
vento” vem e frustra os seus desejos e projetos. Se
eles não conseguem ver a mão de Deus nisso, e não
se humilham penitentemente, em seguida, Sua vara
ainda recai mais pesadamente sobre eles.

Então, eles clamam a Deus em sua aflição. Observe


como Jonas olhou para além de todos os
instrumentos e reconheceu: “Porque tu me lançaste
no profundo”

(2:3) e confessou a sua loucura (2:8). Em sua


afirmação: “o que votei pagarei”

(2:9) nós vemos que ele foi restaurado a um espírito


de submissão; enquanto sua declaração: “a salvação
é do Senhor”, atribui livremente a sua restauração à
bondade divina. Assim Jonas 1 e 2 contêm um
retrato espiritual das tribulações de um santo que se
rebela e da fidelidade e misericórdia de Deus em
Seu lidar com ele.
Capítulo 16
________________________________________

Existem certos tipos de mentalidade, particularmente místicas e


fanáticas, que são propensas a substituir conceitos fantasiosos por
interpretações espirituais. A Palavra de Deus precisa ser
manuseada com temor reverente, e com muita oração por
discernimento e

orientação, para que não pisemos no solo sagrado


com os sapatos da sabedoria carnal; ou com a
mentalidade inexperiente, que busca novidades,
dando asas à sua imaginação, em vez de disciplinar-
se a respeitar estritamente a analogia da fé. Todo
pregador precisa estar constantemente em vigilância
contra substituir a engenhosidade humana pelo
ensino do Espírito. Satanás já imitou as operações
do Espírito, e falsificou um entendimento espiritual
das Escrituras, por perversões grosseiras das
mesmas. Um exemplo antigo disso é a Cabala, que
embora grandemente estimada entre os judeus, é
abundante nas explicações mais absurdas das
Sagradas Escrituras. A imprudente alegorização da
Orígenes é outro exemplo a ser evitado, pois ele
torceu os textos mais simples e claros nas formas e
sentidos mais grotescos. O estranho sistema de
exegese adotado por Swedenborg é mais um caso
disso. A imaginação precisa ser freada tanto por uma
consciência sensível quanto pelo espírito de uma
mente sã.
É justamente na medida em que realmente valorizamos a
interpretação espiritual da Palavra de Deus, que nós abominaremos
todas as falsificações. Deve-se vigiar contra dois extremos, tanto
por aqueles que promovem quanto por aqueles que recebem
alguma nova explicação de uma passagem: (1) um amor pelo que é
fantasioso e (2) um preconceito contra o que é novo. Existe um
meio termo entre apressadamente condenar ou aceitar, a saber,
examinar cuidadosamente e com oração o que é apresentado, testá-
lo por outras passagens e pela nossa própria experiência. Sem
dúvida, a maioria de nós pode lembrar de algumas interpretações
que eram novas, e que a princípio nos pareceu ser “exagerada”,
mas que agora consideramos sã e útil. Se o Espírito Santo não
tivesse nos informado que duas esposas de Abraão eram figuras
dos dois pactos (Gálatas 4:24), e que as palavras de Moisés em
Deuteronômio 30:11-14, deviam ser entendidas espiritualmente
sobre a justiça da fé (Romanos 10:6-9), nós consideraríamos tais
interpretações ridículas. Lembre-se que Deus concede luz a um
ministro que Ele não concede a outro. Mesmo que a explicação
dele não seja aceitável a você no momento, seja cuidadoso antes
de, precipitadamente, chamá-la de “uma perversão das Escrituras”,
para que o mesmo ensino que está sendo abençoado para a
nutrição do coração de um pobre filho de Deus não seja rejeitado
pela sua cabeça.
22. Dupla referência e significado.

É sempre preciso ter em mente que há uma


plenitude, bem como uma profundidade, nas
palavras de Deus, de modo que não acontece com
as palavras dos homens, de modo que raramente
uma única e breve definição explica adequadamente
um termo bíblico. Por essa razão, temos de estar
constantemente em vigilância contra a limitação do
escopo de qualquer declaração divinamente
inspirada, e afirmar que ela significa apenas assim e
assim. Portanto, quando somos informados de que
Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança,
essas palavras provavelmente têm pelo menos uma
alusão quádrupla: Em primeiro lugar, a encarnação
do Filho, pois Ele é claramente designado a
“imagem do Deus invisível” (Colossense 1:15). Em
segundo lugar, ao homem ser uma criatura tripartite,
pois “Deus disse: Façamos o homem à nossa
imagem” (Gênesis 1:26) — uma trindade na
unidade, que consiste em “espírito e alma e corpo”
(1 Tessalonicenses 5:23). Em terceiro lugar, à Sua
semelhança moral, que o homem perdeu na Queda,
mas que é restaurada na

regeneração (Efésios 4:24; Colossenses 3:10). Em


quarto lugar, à posição atribuída ao homem e a
autoridade com que foi investido: “domine”
(Gênesis 1:26). Adão era um “deus” ou governante,
sob o Senhor, de todas as criaturas do mundo.
Diante do que foi referido, é evidente que o ditado favorito
dos Dispensacionalistas — “a aplicação é múltipla, a

interpretação é apenas uma” — é errônea, pois


acima não são quatro

interpretações da “imagem de Deus” a partir do qual


podemos escolher, mas o quádruplo significado real
do próprio termo. Dizer que “a interpretação é
apenas uma” é também contradizer categoricamente
a explicação de nosso Senhor da parábola do
semeador, pois quando Ele definiu seus termos deu
três ou quatro significados diferentes para
“espinhos”; compare Mateus 13:22; Marcos 4:18-19
e Lucas 8:14. Estamos cordialmente de acordo com
o parágrafo nove do capítulo inicial da Confissão de
Fé de Westminster, quando ela diz: “A regra infalível
de interpretação da Escritura é a própria Escritura; e,
portanto, quando houver uma questão sobre o
verdadeiro e pleno sentido de qualquer Escritura
(que não é múltiplo, mas único), esse pode ser
investigado por meio de outros textos que o
expressem mais claramente”, exceto que não
concordamos com a limitação

mencionada nos parênteses. Estamos mais


preferivelmente ao lado de Joseph Caryl (um dos
autores da Confissão de Westminster), que, ao
comentar em um verso as palavras que eram
suscetíveis de vários significados, e que tinham sido
diversamente explicadas pelos expositores, disse:
“Em uma Escritura que pode, sem a censura de
qualquer verdade, admitir diversos sentidos, eu não
seria tão positivo quanto a um, de modo a rejeitar
todos os outros”.
Mesmo que fosse verdade que o significado gramatical de um
verso seja apenas um, no entanto, ele pode ter uma dupla
referência, como é certamente o caso com algumas das profecias
na Sagrada Escritura, que possuem um cumprimento maior, e um
menor. Ellicott, em sua introdução ao livro de Apocalipse, em seu
comentário, ao escrever sobre a profecia, disse: “As palavras de
Deus significam mais do que um homem ou uma escola de
pensamento possam abarcar. Há profundezas da Verdade
inexploradas que se encontram sob as frases mais simples. Assim
como estamos acostumados a dizer que a história se repete, assim
as profecias da Bíblia não se esgotam em um ou até mesmo muitos
cumprimentos. Cada profecia é uma única chave que abre muitas
portas, e o drama grandioso e imponente do Apocalipse foi talvez
negligenciado em uma época, para ser repetido na próxima”. Nós
tememos muito que nada, senão o miserável partidarismo tem feito
com que muitos desprezem tal conceito, e causado a rejeição de
todas as outras interpretações que não concordem com o seu
próprio sistema particular. Davi disse: “Teu mandamento é
amplíssimo”

(Salmos 119:96): consideremos isso para que nós


não diminuamos ou limitemos o mesmo.
A declaração do Pai acerca de seu Filho “com o seu
conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos” (Isaías
53:11) certamente tem uma força dupla: o “conhecimento” que Ele
possui e o conhecimento que Ele transmite. Como Thomas Manton
indicou: “isso pode ser considerado de uma ou outra maneira:
ativamente, quanto ao conhecimento que Ele deve anunciar;
passivamente, por nossa apreensão de Cristo”, pois o primeiro sem
o segundo não pode nos justificar. “Com o seu conhecimento”
pode ser considerado subjetiva e objetivamente. Primeiro, pelo seu
próprio conhecimento pessoal do Pai (João 17:25), que foi o
fundamento que Ele transmitiu aos homens (João 3:11) para a sua
salvação. Em segundo lugar, quanto ao nosso conhecimento
salvífico dEle, recebido dEle. Em vez de tergiversações quanto à
possibilidade ou não de Isaías intencionar incluir cada um desses
significados, sejamos gratos que ele foi orientado a usar uma
linguagem que incluía ambos os sentidos. Novamente, a expressão
figurativa de nosso Senhor quando Ele declarou que “as portas do
inferno” não prevalecerão contra “Sua Igreja” (Mateus 16:19)
admite uma dupla referência: à morte (Isaías 38:10) e ao poder do
mal. A morte e a sepultura têm prevalecido sobre todas as
instituições humanas, mas não sobre Cristo (Atos 2:27), ou a Sua
Igreja (Salmos 72:17; Mateus 28:20), nem qualquer arma forjada
contra ela prosperará (Isaías 54:17) — significados tão diferentes
não são mais surpreendentes do que a aplicação simbólica da
palavra “leão” a Satanás (1 Pedro 5:8) e a Cristo (Apocalipse 5:5).
“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das
transgressões” (Gálatas 3:19). Essa resposta admite dois
significados diferentes. Em primeiro lugar, o objetivo imediato da
lei ser anteriormente anunciada e executada posteriormente à
herança prometida a Abraão e à sua descendência era refrear a
carnalidade dos hebreus e evidenciar o seu pecado, ao fazer
conhecida a eles a vontade de Deus23 e a penalidade temível por
violar a Sua autoridade. Em segundo lugar, o seu propósito final
era preparar o caminho para Cristo, demonstrando a sua
necessidade dEle por causa de sua terrível culpa. O “por causa das
transgressões” é intencionalmente geral o suficiente para incluir
ambos: suprimir transgressões, e revelar os

transgressores. Assim também o verso seguinte tem


um duplo significado: “Ora, o medianeiro não o é de
um só [grupo], mas Deus é um” [Gálatas 3:20].
Considerando o contexto, “Deus é um só (v. 10 e
seguintes, especialmente 16-19) significa em
primeiro lugar, que o Seu propósito é imutável. O
Seu desígnio era o mesmo em ambos os pactos
abraâmico e do Sinai — a lei sendo dada com uma
finalidade graciosa em vista, preparar o caminho
para o Salvador: daí a pergunta e resposta no verso
21. No entanto, tendo em conta todo o contexto é
igualmente claro, em segundo lugar, que “Deus é
um só” significa que Seu método de salvação
permanece inalterado através de todas as
dispensações.

“É porventura Deus somente dos judeus? E não o é


também dos gentios? Também dos gentios,
certamente, visto que Deus é um só, que justifica
pela fé a circuncisão, e por meio da fé a
incircuncisão” (Romanos 3:29-30).
O que acaba de ser observado nos leva a ressaltar que os
termos “Israel”, “judeu” e “descendência de Abraão” têm todos
uma dupla alusão. A expressão “Israel segundo a carne” (1
Coríntios 10:18) é, obviamente, um discriminador, e não teria
sentido se não houvesse Israel segundo o Espírito, que é o Israel
regenerado, “o Israel de Deus” (Gálatas 6:16). O “Israel segundo a
carne” eram os descendentes naturais de Abraão, enquanto o Israel
espiritual, quer judeus, quer gentios, são aqueles que nasceram de
novo e adoram a Deus em espírito e em verdade. Quando o
salmista declarou: “Verdadeiramente bom é Deus para com Israel,
para com os limpos de coração” (73:1), ele certamente não se
referiu aos descendentes carnais de Jacó, pois a maioria deles não
tinha “um coração limpo”! Quando o nosso Senhor disse a
Natanael: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”
(João 1:47), Ele, obviamente, intencionava muito mais do que
alguém que descendia naturalmente de Jacó. Sua linguagem foi tão
distintiva quanto quando Ele disse: “Se vós permanecerdes na
minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (João 8:31).
“Um verdadeiro israelita” indicava um genuíno filho de Israel
espiritual, um homem de fé e de oração, santo e honesto. “Em
quem não há dolo” fornece mais uma confirmação de que as
características de um salvo estavam ali em vista (compare com
Salmos 32:1).
Quando Cristo disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas
perdidas da casa de Israel” (Mateus 15:24), Ele não poderia
intencionar os descendentes carnais de Jacó, pois, como muitas
Escrituras mostram claramente (Isaías 42:6; Romanos 15:8-9), Ele
também foi enviado aos gentios. Não, as “ovelhas perdidas da casa
de Israel” aqui indicam toda a eleição da graça. “E a todos quantos
andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre
o Israel de Deus” (Gálatas 6:16) isto não poderia referir-se à nação,
pois a ira de Deus estava sobre ela — é sobre o Israel eleito pelo
Pai, redimido pelo Filho e regenerado pelo Espírito que a paz e a
misericórdia divina descansam. “Não que a palavra de Deus haja
faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas”

(Romanos 9:6). Os judeus erroneamente


imaginaram que as promessas que Deus fez a
Abraão e à sua descendência pertenciam apenas aos
seus descendentes naturais: daí a sua reivindicação
“temos por pai a Abraão” (Mateus 3:9). Mas essas
promessas não foram feitas para os homens segundo
a carne, mas para os homens segundo o Espírito, os
regenerados, só eles são os “filhos da promessa”

(Romanos 9:8). As promessas de Deus a Abraão,


Isaque e Jacó foram dadas a eles como crentes, e as
promessas são propriedade espiritual e alimento dos
crentes, e de ninguém mais (Romanos 4:13,16). Até
esse fato ser compreendido, estaremos confusos em
relação às promessas do Antigo Testamento (cf. 2

Coríntios 1:20, 7:1; 2 Pedro 1:4).


“Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”
(Gálatas 3:7). Os filhos de Abraão são de dois tipos, físico e
espiritual: aqueles que são dele por natureza, e aqueles que são
vinculados a ele pela graça. “Ser o filho de uma pessoa em um
sentido figurado é equivalente a ser ‘semelhante a ele e envolvido
em seu destino’, bom ou mau. Ser ‘filho de Deus’ é ser como
Deus, e também, como o apóstolo afirma, é ser ‘herdeiro de Deus’.
Ser ‘os filhos de Abraão’ é ser semelhante a Abraão, imitar a sua
conduta e compartilhar a sua bem-aventurança” (John Brown).
Assim, ser “os filhos do maligno” (Mateus 13:38) é serem
conformes à sua imagem vil, tanto no caráter quanto na conduta
(João 8:44), e compartilhar sua condenação (Mateus 15:41). Cristo
disse aos judeus carnais do seu tempo: “Se fôsseis filhos de
Abraão, faríeis as obras de Abraão” (João 8:39). Estes são os seus
filhos espirituais que “andam nas pisadas daquela fé” que ele teve
(Romanos 4:12) e que são “benditos com o crente Abraão”
(Gálatas 3:9). Precisamos estar unidos a Cristo, que é “o Filho de
Abraão” (Mateus 1:1), a fim de obtermos as bênçãos que Deus
pactuou com o patriarca. O duplo significado da expressão “filhos”
ou “descendência de Abraão” foi claramente indicado no início,
quando Deus comparou a sua semente às estrelas dos céus e à areia
que está na praia do mar (Gênesis 22:17).
Semelhantemente, a palavra “judeus” é aplicada a duas classes
de pessoas muito diferentes, embora poucos hoje pensariam assim,
se eles se limitarem ao ministério de uma classe que se orgulha de
ter mais luz do que a maioria dos cristãos professos. Todavia, isso
é inequivocamente estabelecido pela declaração de Romanos 2:28-
29: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é
circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o
é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na
letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”.

Certamente nada poderia ser mais claro do que isso,


e à luz de uma tal

declaração parece extremamente estranho que haja


aqueles — gloriando-se de sua elevada ortodoxia, e
condenando amargamente todos os que diferem
deles — que insistem que o termo “judeu” se refere
apenas aos descendentes naturais de Jacó, e
ridicularizam a ideia de que haja alguma coisa como
um judeu

espiritual. Mas quando Deus nos diz: “é judeu o que


o é no interior”, Ele manifestamente quer dizer que
o verdadeiro “judeu”, o antitípico, é uma pessoa
regenerada, que tem o “louvor” ou a aprovação de
Deus.
Não é somente infantil, mas enganoso, afirmar que “Israel”
significa Israel e “judeu” significa judeu, e que quando a Palavra
de Deus faz menção de Jerusalém ou Sião nada mais é referido que
esses lugares reais. Aqueles que fazem tais afirmações estão apenas
enganando a si mesmos (e outros que são ingênuos o suficiente
para dar ouvidos a eles) pelo mero som das palavras. Desse modo,
afirmam que “carne” significa nada mais do que o corpo físico,
que “a água” (João 4:14) se refere apenas a esse elemento material,
ou que “a morte” (João 5:24) não significa nada, senão a
dissolução física. Há o fim de toda interpretação — anúncio do
sentido da Escritura — quando os tais adotam uma atitude tão tola.

Cada verso exige um estudo cuidadoso e em oração,


de modo que seja bastante apurado o que o Espírito
intenciona: o Israel carnal ou o espiritual, a
descendência literal de Abraão ou a mística, o judeu
natural ou o regenerado, a Jerusalém terrena ou a
celestial, a Sião típica ou o antitípica. Deus não
escreveu a Sua Palavra de tal forma que o leitor
mediano é feito independente daquela ajuda que Ele
designou dar por meio dos mestres aprovados por
Ele.
Nós podemos imaginar aqueles de nossos leitores que se
sentaram sob os erros do Dispensacionalismo dizendo: “Tudo isso
parece muito confuso, pois fomos ensinados a distinguir
claramente entre Israel e a Igreja, um sendo um povo terreno e o
outro sendo um celeste”.

Evidentemente, Israel era um “povo terreno”, assim


também eram os egípcios, os babilônios, e todos os
outros habitantes desse mundo. Este escritor e seus
leitores Cristãos também são um “povo terreno”,
pois nem os seus corpos nem as suas almas ainda
foram levadas ao Céu. Em resposta, o opositor dirá
que a herança de Israel era terrena. Mas nós
perguntamos, era mesmo? A herança dos patriarcas
era terrena? Hebreus 11:14-16 mostra claramente o
contrário, pois nos é dito “que buscam uma pátria”,
isto depois de terem entrado na terra de Canaã, “mas
agora eles [Abraão, Isaque e Jacó] desejam uma
[pátria] melhor, isto é, a celestial”. A herança de
Moisés era terrena? Deixe que Hebreus 11:26 nos
responda: “Tendo por maiores riquezas o vitupério
de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha
em vista a recompensa”, ou seja, uma recompensa
eterna (cf. Colossenses 3:24)! A herança de Davi era
mundana? Se assim for, como ele poderia falar de si
mesmo como “um peregrino na terra” (Salmos
39:12, 119:119)?

O Salmo 73:25 mostra no que o seu coração estava


estabelecido.
Não é suficiente afirmar que a herança de Israel era terrena:
que “Israel” deve ser definitivamente estabelecido, e também qual
herança delineava. Como a porção que o Senhor designou,
prometeu e deu a Abraão e seus descendentes, aquela terra de
Canaã, ao longo da era Cristã, foi justamente considerada como
prefigurando a herança celestial, para a qual os membros de Cristo
estão peregrinando na medida em que passam através desse
contexto de pecado e tribulação. A fim de obter a imagem típica
completa das variadas experiências espirituais e exercícios dos
eleitos de Deus como foram tão vividamente prenunciadas no
passado, temos que ter em consideração não somente a história
dos hebreus no Egito e suas jornadas pelo deserto, mas também o
que foi exigido deles a fim de adentrarem e ocuparem a terra de
Canaã.

Como já tantas vezes indicamos em nossos artigos


sobre a vida e os tempos de Josué, Canaã também
deve ser contemplada a partir de dois pontos de
vista, natural e espiritual: espiritualmente, como
retratando a herança dos israelitas regenerados, cuja
herança deve ser obtida e apreciada agora pela fé e

obediência, mas na qual não entraremos totalmente


até que o rio Jordão da morte seja atravessado.
Certamente, muito cuidado deve ser tomado com a
analogia da fé.
Embora Canaã fosse uma dádiva divina para Israel natural, no
entanto, a ocupação deles da mesma foi o resultado de sua própria
valentia. Aliás, Canaã foi lhes concedida pelo dom gratuito de
Deus, no entanto, precisou ser conquistada por eles. Nisso foi
figurado com precisão o que é necessário a fim de adentrar em
Canaã celestial. O livro de Josué não somente mostra a graça
soberana de Deus, exibe a Sua fidelidade à aliança e o grande
poder que Ele revela em favor do seu povo, mas também torna
conhecido o que Ele requereu deles no cumprimento de sua
responsabilidade, e mostra que o Senhor somente lutava por Seu
povo enquanto eles permaneciam em plena

dependência e estavam em completa sujeição a Ele.


Havia enormes obstáculos a serem superados,
inimigos terríveis e poderosos para serem vencidos,
uma guerra dura e prolongada a ser travada, e
apenas enquanto eles cooperavam ativamente, o
Senhor se mostrava forte em seu favor. “Porque se

diligentemente guardardes todos esses


mandamentos, que vos ordeno para os guardardes,
amando ao Senhor vosso Deus, andando em todos
os seus caminhos, e a ele vos achegardes, também o
Senhor, de diante de vós, lançará fora todas estas
nações... Todo o lugar que pisar a planta do vosso
pé será vosso...”

(Deuteronômio 11:22-24). Esse “se” não era de


incerteza, mas tinha relação com a sua prestação de
contas — como o “se” de João 8:31,51; Colossenses
1:23 e Hebreus 3:6,14 tem relação com a nossa.
A herança da Igreja é totalmente a partir da graça divina e
comprada pelo Mediador, no entanto, não é obtida pelos herdeiros
da promessa sem árduos esforços de sua parte. Deve-se entrar pela
porta estreita e caminhar pelo caminho estreito (Mateus 6:13-14).
Há uma corrida a ser executada que demanda a temperança em
todas as coisas (1

Coríntios 9:24-26). Há uma luta a ser travada (1


Timóteo 6:12; 2 Timóteo 4:7), e, a fim de sermos
bem-sucedidos nela, precisamos tomar “toda a
armadura de Deus” (Efésios 6:13) e fazer uso diário
da mesma. Há um conflito incessante com a carne a
ser efetuado (Gálatas 5:17), um Diabo a ser
firmemente resistido na fé (1 Pedro 5:8-9), um
mundo sedutor e hostil a ser vencido (Tiago 4:4; 1
João 5:4). Ainda assim, é bendita verdade que “nós,
os que temos crido, entramos no descanso”
(Hebreus 4:3). O jugo de Cristo deve ser tomado
sobre nós, embora a ordem divina permaneça,
“Procuremos, pois, entrar naquele repouso”

(Hebreus 4:11) que nos espera no alto, e do qual a


terra que mana leite e mel era o emblema.
Capítulo 17
________________________________________

23. A regra da ordem. A Palavra de Deus é como as Suas


obras: a disposição intencional e precisão minuciosa a caracterizam
por toda parte. Se “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo
para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1) no mundo
natural, seguramente o mesmo é válido em relação ao reino
espiritual, e tudo que diz respeito a ele. Mesmo aqueles que não
professam ser Cristãos reconhecem e admitem que “a ordem é a
primeira lei do céu”. Deus é um Deus de ordem, e muito
inequivocamente esse fato é demonstrado por toda a Sagrada
Escritura. Tudo nela é metódico e está em seu devido lugar: mude
esse arranjo, e a confusão e erro se segue imediatamente. Assim, é
de profunda importância que prestemos muita atenção à ordem em
que a verdade foi estabelecida pelo Espírito onisciente. A chave
para muitos versos deve ser encontrada ao observar a posição que
ele ocupa, a sua coerência com o que precede, e a sua relação com
o que se segue.
Se o seu conteúdo for considerado histórica, doutrinária ou
tipicamente, Gênesis deve introduzir a Palavra, pois é o livro dos
princípios. Este livro tem sido apropriadamente chamado de “a
sementeira da Bíblia”, pois nele encontra-se sob a forma inicial
quase tudo o que é posteriormente mais desenvolvido nos livros
seguintes.

Doutrinariamente, seu tema é o da eleição divina,


que é o primeiro ato da graça de Deus para o Seu
povo. Em seguida, vem Êxodo, que trata da
redenção através de compra e poder (6:6, 15:13). O
terceiro livro, como poderia ser esperado, vê o povo
de Deus como no fundamento da ressurreição,
sendo não tanto doutrinal quanto experiencial em
seu caráter. Levítico mostra para o quê nós somos
redimidos, tendo por tema a comunhão e adoração:
sua chave está pendurada na porta — o Senhor
falando a partir do tabernáculo (1:1). O quarto livro
lida com o lado prático da vida espiritual, traçando a
história do crente nesse mundo — pois o quatro é o
número da terra. “O deserto” (1:1) é um símbolo do
mundo em sua condição caída, o lugar de provação
e tribulação. Seu assunto é a caminhada e a guerra
dos santos.
A posição desses quatro livros manifesta claramente o desígnio
da obra divina, e nos ensina a ordem em que a verdade deve ser
apresentada. Uma ilustração igualmente impressionante é vista na
justaposição e ordem dos dois últimos livros de Salomão, pois o
tema de Eclesiastes é, sem dúvida: “proveito nenhum há debaixo
do sol”, enquanto que o de Cânticos fala da “plena satisfação no
Filho”: sobre um pode ser inscrito: “Qualquer que beber desta
água tornará a ter sede”; sobre o outro: “Mas aquele que beber da
água que eu lhe der nunca terá sede” (João 4:13-14). Em 2 Timóteo
3:16, Paulo nos informa que as Escrituras são proveitosas “para

ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir


em justiça”, e essa é a própria ordem que ele seguiu
em suas epístolas. Pois, Romanos é um tratado
doutrinário, as epístolas aos Coríntios é uma
reprovação de desordens na igreja, Gálatas é uma
correção de ensino errôneo e Efésios descreve
aquele caminhar que é o único digno de um filho de
Deus.
Os livros da Bíblia não são apenas infalivelmente
posicionados, mas o conteúdo de cada um é disposto em sequência
lógica e necessária. Assim, é muito interessante observar como
cada um dos patriarcas de Gênesis prefigurou alguma verdade
distinta e fundamental a respeito do crente. Em Abraão temos
ilustrada a eleição divina e o chamado eficaz. Em Isaque temos
descrita a filiação divina (por um nascimento sobrenatural) e a
vida de submissão à vontade de Deus. Em Jacó temos retratado o
conflito entre a carne e o espírito: as duas naturezas no crente,
indicado pelo seu nome duplo, Jacó‒Israel. Em José temos
exemplificado a grande verdade do

direito à herança: após um tempo de tribulação, foi


feito governante do Egito.

Assim, a ordem histórica é também doutrinal e


vivencial, progressiva e tende a um clímax. As cinco
grandes ofertas de Levítico 1—5 tipificam muitos
aspectos distintos da Pessoa e obra do Senhor Jesus,
e uma instrução de valor

inestimável deve ser obtida ponderando a sequência


delas.
Os Salmos 22, 23 e 24 nos apresentam uma tríade significativa
e abençoada, especialmente porque Cristo é visto neles. No
primeiro, nós contemplamos o sofrimento do Seu povo; no último
vemos como o Rei da glória recebe uma recepção real no Céu, e
somos supridos com uma descrição das características possuídas
por aqueles a quem Ele capacita para habitar conSigo ali; enquanto
o do meio nos mostra quão graciosamente Ele ministra e provê às
Suas ovelhas (a quem Ele está conduzindo ao aprisco celestial)
durante o intervalo em que eles são deixados na Terra. No Salmo
22 contemplamos o “bom pastor” (João 10:11), no 23 o “grande
pastor” (Hebreus 13:20), no 24 o “Sumo Pastor” (1 Pedro 5:4).
Novamente, se é essencial para o consolo do crente encontrar que
Romanos 7 descreve com precisão a sua experiência espiritual, e
que a sua fé deve lançar mão das promessas divinas de Romanos
8; é igualmente necessário que os pregadores não somente se
apeguem à absoluta soberania de Deus na eleição e reprovação,
conforme estabelecido em Romanos 9; mas que eles também
anunciem a livre oferta do Evangelho a todos os homens e
estimulem a cumprir a sua responsabilidade de aceitar essa oferta,
conforme apresentado em Romanos 10.
O que foi exemplificada nos parágrafos anteriores se aplicam
não somente no geral, mas é igualmente verdade nos detalhes. Por
exemplo, o arranjo dos Dez Mandamentos da lei moral (que
compreendem a soma da justiça) é profundamente significativo.
Eles foram escritos em duas tábuas de pedra, para indicar que eles
se dividem em dois grupos distintos. Os quatro primeiros se
referem à nossa responsabilidade em relação a Deus; os último
seis, às nossas obrigações para com os homens.

Vão é fingir que somos adoradores sinceros de


Deus, se os deveres do amor aos nossos próximos
forem negligenciados; igualmente inútil é a profissão
de piedade que, enquanto se abstém de ofensas
contra os nossos companheiros, retém da Majestade
do Céu a honra e glória que Lhe são devidas. Mais
uma vez, as cinco exortações contidas no Salmo
37:1-7 são dispostas em ordem lógica e inevitável.
Devemos renunciar à indignação e inveja se
quisermos confiar no Senhor, e devemos confiar
nEle antes que possamos nos deleitar nEle, e isso é
necessário a fim de entregarmos confiantemente o
nosso caminho a Ele, e descansarmos e esperarmos
pacientemente por Ele.
A ordem das bem-aventuranças em Mateus 5:3-11 está repleta
de instrução valiosa, e nós perdemos muito se não atentarmos bem
para isso. Nas primeiras quatro, são mostrados a nós os atos do
coração daqueles que foram vivificados pelo Espírito. Primeiro, há
um senso de necessidade, um reconhecimento da sua nulidade e
vazio. Em segundo lugar, há um julgamento de si mesmo, uma
consciência de culpa e lamento por sua condição perdida. Em
terceiro lugar, uma desistência de tentar justificar a si mesmo, um
abandono de todas as pretensões de mérito pessoal, um tomar de
seu lugar no pó diante de Deus. Em quarto lugar, o olho da alma se
desviou de si mesmo para Outro: eles são conscientes de sua
extrema necessidade de salvação. As quatro seguintes descrevem
os frutos encontrados no regenerado. Assim, nessas bem-
aventuranças Cristo declara as marcas do nascimento que
distinguem aqueles que são os súditos do Seu reino, e torna
conhecidos aqueles sobre quem repousa a bênção de Deus.
Que olho ungido pode deixar de ver a ordem perfeita na
oração modelo que Cristo deu aos Seus discípulos? Nela, Ele
forneceu uma diretriz simples, mas abrangente; revelando como
Deus deve ser abordado por Seus filhos, a ordem em que os seus
pedidos devem ser

apresentados, as coisas que eles mais precisam de


pedir, e a honra devida a Ele. Cada aspecto da
oração está incluído: adoração, súplica e
argumentação.

Cada cláusula nela ocorre no Antigo Testamento,


indicando que nossas orações devem ser bíblicas
para que sejam aceitáveis (1 João 5:14). Suas

petições são em número de sete, mostrando a


plenitude do que aqui é suprido.

Todos os seus pronomes estão no plural, ensinando


ao Cristão que as

necessidades dos seus irmãos e irmãs, e não apenas


as suas, devem estar diante dele quando se curvar
diante do trono da graça.
Que o estudante preste muita atenção para a ordem seguida
nestes exemplos adicionais, a qual nós deixamos para que examine
por si mesmo. Os milagres de Cristo em Mateus 8 e 9. As sete
parábolas de Mateus 13. O resultado sétuplo da justificação,
conforme estabelecido em Romanos 5:1-11. As sete graças de 2
Pedro 1:5-7, a presença e processo que permite que o santo se
assegure de sua vocação e eleição, tanto em relação a si mesmo
quanto para os seus companheiros, pois “estas coisas” do verso 10
são as mencionadas nos versos 5-7. Tudo na Escritura é de acordo
com um propósito definido.
O propósito especial de Lucas era estabelecer as perfeições da
humanidade do nosso Senhor, e é muito abençoado traçar as
diferentes passagens em seu Evangelho onde Cristo é visto como
um homem de oração. “E aconteceu que, como todo o povo se
batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu”
(Lucas 3:21). Lucas é o único que fornece esse detalhe
significativo, e quão precioso ele é. O batismo de Cristo marcou o
fim da Sua vida privada, e o início de Sua missão oficial. E aqui
somos informados que Ele permanecia em ato de devoção logo no
início do Seu ministério público. Jesus estava envolvido em
dedicar-se a Deus, em buscar graça para o trabalho grandioso que
estava diante dEle. Assim, a primeira visão que a multidão teve foi
dEle em oração! “Ele, porém, retirava-se para os desertos, e ali
orava” (Lucas 5:16). Isso ocorreu logo após Seus milagres de
misericórdia, quando “a sua fama, porém, se propagava ainda
mais, e ajuntava-se muita gente para o ouvir e para ser por ele
curada das suas enfermidades” (v.

15). Sua resposta a essa demonstração de


popularidade foi marcante, e cheia de instrução para
os Seus servos. Ele se retirou das aclamações das
multidões e ficou a sós com Deus. Novamente: “E
aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar,
e passou a noite em oração a Deus” (Lucas 6:12).
Isso ocorreu

imediatamente após os escribas e fariseus estarem


“cheios de furor” contra Ele, e logo antes dEle
selecionar os doze. Nosso Redentor não fez
nenhuma tentativa de combater os seus inimigos,
mas retirou-se para ter comunhão com o Pai. Antes
de chamar os apóstolos, Ele passou a noite
clamando a Deus.
“E aconteceu que, estando ele só, orando, estavam com ele os
discípulos; e perguntou-lhes, dizendo: Quem diz a multidão que eu
sou?” (Lucas 9:18). Isso aconteceu logo após Ele alimentar a
multidão; depois de se engajar no serviço público, Ele se retirou a
fim de ter devoção privada. Podemos inferir a partir da pergunta
que fez aos seus discípulos que a incredulidade dos homens estava
começando a lançar uma sombra sobre a sua alma, e que Ele agora
buscava por alívio e força do alto. “E aconteceu que, quase oito
dias depois destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a
Tiago, e subiu ao monte a orar. E, estando ele orando,
transfigurou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa ficou
branca e mui resplandecente” (Lucas 9:28-29).

Foi enquanto envolvido em oração que Cristo foi


transfigurado — quão

significativo e instrutivo! “E aconteceu que, estando


ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse
um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar,
como também João ensinou aos seus discípulos”
(Lucas 11:1). Essa é uma das passagens (veja
também os Salmos Messiânicos) que nos dão
algumas indicações sobre a natureza de Suas
súplicas. Enquanto O ouviam, os discípulos sentiram
que não sabiam nada sobre oração! “Disse também
o Senhor: Simão, Simão... eu roguei por ti, para que
a tua fé não desfaleça” (Lucas 22:31-32). Aqui nós
O contemplamos como o grande Sumo Sacerdote
fazendo intercessão por um dos seus próprios. E Ele
“apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e,
pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres,
passa de mim este cálice; todavia não se faça a
minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:41-42).

Aqui está o auge da oração: rendição completa e


aquiescência à vontade divina.
Nos sete milagres registrados no Evangelho de João, podemos
discernir uma ordem impressionante de pensamento, enquanto
retratam Cristo comunicando vida ao Seu povo. Em Sua
transformação da água em vinho nas bodas de casamento de Caná
(2:6-11) nos é mostrado, simbolicamente, a nossa necessidade de
vida — Cristo supre o que estava faltando. Na cura do filho do
homem nobre (4:47-54) que estava “à morte” vemos o retrato da
concessão de vida. Na cura do homem paralítico (5:3-9) vemos o
poder da vida, capacitando um aleijado desamparado a se levantar
e andar. Ao alimentar a multidão (6:11), vemos quão
graciosamente Cristo sustenta a nossa vida. Ao encaminhar-se aos
discípulos temerosos sobre o mar em meio à tempestade,
testemunhamos Jesus preservando as suas vidas, libertando-os do
perigo. Na resposta do homem cego cujos olhos Cristo abriu
(9:7,38) aprendemos qual deve ser a ocupação da vida — ele O
adorou: dessa forma, supremamente, devemos empregar a nova
natureza. Ao ressuscitar Lázaro do sepulcro (11:44), temos a
consumação da vida, pois a ressurreição dos santos é o prenúncio
da sua felicidade eterna.
O ensino do nosso Senhor a respeito das operações do Espírito
Santo no interior dos e em relação aos santos segue uma ordem
instrutiva que tende a um clímax. Primeiro, Ele fez menção de estar
“cheio do Espírito” (3:6,8), pois a vivificação é a Sua operação
inicial sobre os eleitos. Em segundo lugar, por meio da linguagem
figurada (cf. 3:5), Ele falou da presença interior do Espírito:
“...água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte
para a vida eterna” (4:14). Em terceiro lugar, Ele declarou que
deveria haver uma manifestação da mesma, e um refrigério para
os outros: “...rios de água viva correrão do seu ventre [a parte mais
íntima]. E isto disse ele do Espírito...” (7:38-39). Em quarto lugar,
Ele prometeu que o Espírito bendito estaria com eles de forma
permanente: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador,
para que fique convosco para sempre” (14:16). Em quinto lugar,
Ele anunciou que o Espírito os instrui plenamente: “Esse vos
ensinará todas as coisas” (14:26). Em sexto lugar, Ele declarou que
o Espírito tanto testemunhará dEle quanto os capacitará para
testemunhar dEle: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da
parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que
procede do Pai, ele testificará de mim.

E vós também testificareis, pois estivestes comigo


desde o princípio”

(15:26-27). Em sétimo lugar, Cristo afirmou que o


Espírito deve magnificá-lO: “Ele me glorificará,
porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de
anunciar”

(14:14), fazendo-Me totalmente desejável aos seus


olhos.
Capítulo 18
________________________________________

24. A regra da causa e efeito. Com isto intencionamos a


observação e rastreamento da conexão que existe entre certos
eventos notáveis na vida de um indivíduo

ou nação e o que levou ao mesmo. Por exemplo, os


eventos finais gravados na triste história de Ló nos
assustam e aterrorizam pela sua natureza lamentável
e revoltante; ainda assim, se considerarmos com
atenção tudo o que precedeu, então o trágico final
quase pode ser antecipado. Ou considere o caso
mais conhecido de negação de Cristo por Simão
Pedro, que parece estar completamente fora de
sintonia com o que conhecemos do seu caráter.
Realmente estranha é a anomalia apresentada: que
aquele que não teve medo de sair do navio e
caminhar sobre o mar até o seu amado Mestre, e
que corajosamente desembainhou a espada e cortou
a orelha do servo do sumo sacerdote quando uma
forte companhia veio para prender o Salvador,
tremeu na presença de uma empregada doméstica, e
teve medo de confessar ao Senhor Jesus! No
entanto, sua triste queda não foi um evento isolado
não tendo nenhuma relação com o que tinha
ocorrido antes; antes tudo fazia de algumas de suas
atitude e ações anteriores, sendo lógica, e

praticamente inevitável, consequência daquelas.


Estes são exemplos de um numeroso tipo de casos, e
eles devem ser cuidadosamente meditados quando
lemos as porções biográficas da Escritura.
Este princípio de interpretação será mais facilmente
compreendido quando destacamos que é o mesmo da lei da
semeadura e da colheita. Essa lei opera agora, nesse mundo, e é
uma parte importante da tarefa do expositor observar seu
desenrolar na vida dos personagens bíblicos. Consideremos, então,
alguns dos detalhes registrados sobre Ló antes de sua carreira
terminar em meio às sombras escuras de sua caverna no monte.
Após a referência inicial a ele em Gênesis 11:31, nada é dito ao seu
respeito até depois da triste peregrinação de Abraão no Egito.
Parece que Ló contraiu o espírito do Egito e adquiriu um gosto por
suas panelas de carne. Em Gênesis 13:6-7, lemos sobre uma
contenda entre os pastores de Abraão e Ló: a posterior recompensa
do Senhor e a conduta subsequente desse último parecem
claramente indicar qual deles era o culpado. A proposta que
Abraão fez ao seu sobrinho (13:8-9) foi uma das mais generosas e
a carnalidade de Ló ficou logo evidenciada na vantagem que ele
teve sobre Abraão. Em vez de deixar a escolha para o seu tio, Ló se
rendeu à concupiscência dos olhos e escolheu a planície do
Jordão, que era bem regada e “como a terra do Egito”! Em seguida,
ele “armou suas tendas até Sodoma” (13:12). Então ele foi e
“habitou em Sodoma” (14:12), abandonou a tenda de peregrino
por uma “casa” (19:3). Lá, ele se estabeleceu, envelheceu e
assentou-se à “porta” (19:1), enquanto as suas filhas casaram com
[9]
homens de Sodoma.
Semelhantemente, vamos

traçar brevemente os vários tropeços que levaram à


terrível queda de Pedro. Foi primeiro a sua
autoconfiança e orgulho quando declarou: “Ainda
que todos se escandalizem, nunca, porém, eu”
(Marcos 14:29). Nós não duvidamos de sua
sinceridade naquela ocasião, mas é claro que ele não
percebia a sua

inconstância. Ignorância acerca de si mesmo e


autoconfiança sempre acompanham um ao outro;
não até que o eu ao ser realmente conhecido seja
posto em desconfiança. Em segundo lugar, ele não
cumpriu a exortação do seu Mestre: “Vigiai e orai”
(Marcos 14:38-40), e em vez disso foi dormir
novamente — é apenas uma percepção de fraqueza
que faz com que alguém fervorosamente busque por
força. Em terceiro lugar, ele ignorou o alerta solene
de Cristo que Satanás desejava cirandá-lo (Lucas
22:31,33). Em quarto lugar, eis que ele agiu pela
força da carne ao desembainhar a espada (João
18:10). Naturalmente, ele tinha boas intenções, mas
espiritualmente, quão tolas eras as suas percepções;
quão completamente fora do lugar estava a sua arma
na presença do manso e humilde Salvador! Não
admira que em seguida somos informados que ele
seguiu a Cristo “de longe” (Mateus 26:58), pois ele
estava totalmente fora da direção do Seu Espírito. É
algo solene vê-lo ignorando o alerta providencial da
porta fechada (João 18:16). Ele estava frio
espiritualmente bem como fisicamente, mas quão
patético é vê-lo se aquecendo com o fogo do
inimigo (João 18:18). Que ele “assentou-se” em tais
circunstâncias (Marcos 14:54) mostra o quão sério
era o seu declínio. Todas essas coisas abriram o
caminho para o seu último praguejar e juramento
(Mateus 26:74).
Estes acima são casos

inconfundíveis e evidentes da operação da lei de


causa e efeito! Mas, voltemos agora para um tipo
diferente de casos, onde houve uma sementeira
diferente e uma colheita mais feliz. Em Gênesis 22
temos uma das cenas mais tocantes e surpreendentes
apresentadas nas Escrituras. Ali nós contemplamos a
graça que triunfa sobre a natureza, o espírito sendo
superior à carne. Ele foi o teste final e mais severo a
que foram submetidos a fé e obediência de Abraão.
Ele foi chamado para sacrificar o seu amado Isaque,
e ser ele mesmo o executor. Quão grandiosamente
respondeu, o patriarca duramente provado,
prendendo o seu único filho, colocando-o sobre o
altar, tomando a faca na mão e não retrocedendo até
que uma voz do Céu lhe ordenou não matar o rapaz.
Agora observe a bendita consequência menos
conhecida. O anjo da aliança disse-lhe: “Por mim
mesmo jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta
ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho,
que deveras te abençoarei, e grandissimamente
multiplicarei a tua descendência... porquanto
obedeceste à minha voz” (vv. 16-18). Assim o
Senhor se agradou em fazer menção da submissão
de Seu servo como a consideração de Sua graciosa
recompensa nesta ocasião: não que houvesse
qualquer proporção entre uma e outra, mas que Ele,
assim honrou a fé e obediência pelo qual Abraão O
honrou. Posteriormente, Ele fez promessas graciosas
para Isaque: “Porquanto Abraão obedeceu à minha
voz, e guardou o meu mandado...” (26:2-5).
Em Números 14 uma cena

muito diferente é apresentada para nossa


contemplação. Ali nós vemos as reações de Israel ao
triste relatório feito pela maioria descrente dos
espiões que Moisés enviara para fazer um
reconhecimento de Canaã. “Então toda a
congregação levantou a sua voz; e o povo
chorou...”, comportando-se como crianças teimosas.

Pior ainda, eles murmuraram contra Moisés e Arão,


e falaram da nomeação de um novo líder para
conduzi-los de volta ao Egito. Em risco considerável
para as suas vidas (v. 10), Josué e Calebe
protestaram com eles. O Senhor interveio, e lançou
uma sentença sobre aquela geração incrédula,
sentenciando-a a morrer no deserto. Em bendito
contraste, Ele disse: “Porém o meu servo Calebe,
porquanto nele houve outro espírito, e perseverou
em seguir-me, eu o levarei à terra em que entrou, e a
sua descendência a possuirá em herança” (v. 24).
Números 25 nos concede outro exemplo do mesmo
princípio. Deixando de lado os seus próprios
sentimentos, o filho de Eleazar agiu para a glória de
Yahwéh, e sobre ele o Senhor disse, ele “desviou a
minha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso
com o meu zelo no meio deles... Portanto dize: Eis
que lhe dou a minha aliança de paz; e ele, e a sua
descendência depois dele, terá a aliança do
sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu
Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel” (vv. 10-
13).
Agora, é quase

desnecessário sinalizar que nem Abraão, nem


Calebe, nem Finéias fizeram com que Deus estivesse
em dívida, ou O colocaram sob qualquer obrigação
para com eles.

Ainda assim, os seus casos ilustram um princípio


muito importante nos caminhos governamentais de
Deus. Esse princípio é afirmado em sua própria
declaração: “porque aos que me honram honrarei,
porém os que me desprezam serão

desprezados” (1 Samuel 2:30). Apesar de não haver


absolutamente nada de meritório sobre as boas obras
de Seu povo, Deus tem o prazer de dar testemunho
de Sua aprovação das mesmas e manifesta em
relação aos Seus mandamentos que “em os guardar
há grande recompensa” (Salmos 19:11). Assim, o
Senhor testemunhou a Sua aceitação do santo zelo
de Finéias, colocando um fim imediato à praga
sobre Israel, e ao vincular o sacerdócio à sua família.
Como Matthew Henry apontou: “A recompensa
correspondia ao serviço: ao executar a justiça, ele
fez expiação pelos filhos de Israel (v. 13), e
portanto, ele e os seus devem, doravante, ser usados
para fazer expiação pelo sacrifício”. Provérbios
11:31 declara o mesmo princípio: “Eis que o justo
recebe na terra a retribuição”. Como Spurgeon
observou: “Apesar de que as disposições da graça
divina são, ao máximo grau, soberanas e
independentes do mérito humano, ainda assim nas
relações da providência frequentemente é
perceptível uma regra da justiça, através da qual os
injuriados são amplamente vingados e os justos, por
fim, são libertos”.
Davi reconheceu: “Assim

que retribuiu-me o Senhor conforme a minha


justiça, conforme a pureza de minhas mãos perante
os seus olhos” (Salmos 18:24). Ele estava se
referindo a Deus libertá-lo de seus inimigos, em
particular de Saul. Como Davi se comportou em
relação ao rei? Será que ele cometeu qualquer
pecado que justificava a sua hostilidade? Será que
ele o prejudicou de alguma forma? Não, ele não
odiava Saul nem cobiçava o seu trono, e, portanto,
aquele monarca foi muito injusto ao perseguir tão
implacavelmente a sua vida. Davi era tão inocente a
esse respeito que ele apelou para o grande
Examinador dos corações: “Não se alegrem os meus
inimigos de mim sem razão” (Salmos 35:19).
Assim, quando ele disse: “retribuiu-me o Senhor
conforme a minha justiça”, ele estava longe de
manifestar um espírito farisaico. Em vez disso, ele
estava admitindo sua inocência diante do tribunal da
equidade humana. Desde que ele não tinha
nenhuma maldade para com seu perseguidor, ele
quis dar o testemunho de uma boa consciência. Em
tudo o que ele sofreu nas mãos de Saul, Davi não
revidou; ele não somente se recusou a matar, ou
mesmo ferir, quando Saul estava à sua mercê, mas
ele aproveitou todas as oportunidades para servir a
causa de Israel, apesar da ingratidão, inveja e traição
que recebeu em troca. Ao ser liberto e ao ter o trono
conferido a si, Davi reconheceu um dos princípios
básicos que operam no governo divino desse
mundo, e confessou que Deus tinha graciosamente o
recompensado por causa de sua integridade.
A Deidade não hesita em

tomar como um de seus títulos “o SENHOR, Deus


das recompensas” (Jeremias 51:56), e tem mostrado
através de toda a Sua Palavra, que Ele lida com o
pecador e com o santo como tal. A Josué Ele disse
que se ele desse à Sua palavra a sua devida estima,
meditasse nela de dia e de noite, para que pudesse
cuidar de fazer conforme a tudo o que nela está
escrito, “então farás prosperar o teu caminho, e
serás bem sucedido” (1:8, e cf. Jó 36:11;
Provérbios 3:1-4). Por outro lado, Ele disse ao
desobediente Israel: “Por que transgredis os
mandamentos do Senhor, de modo que não possais
prosperar? Porque deixastes ao Senhor, também ele
vos deixará” (2 Crônicas 24:20). Esse é um
princípio invariável em Seu governo. Sobre Uzias,
lemos: “...nos dias em que buscou ao Senhor, Deus
o fez prosperar” (2 Crônicas 26:5). O juízo de
Deus, mesmo sobre o reino de Acabe, foi adiado:
“porquanto se humilha perante mim” (1

Reis 21:29). Ao contrário, Ele disse a Davi que a


espada nunca se afastaria de sua casa: “porquanto
me desprezaste” (2 Samuel 12:9-10). O Novo
Testamento ensina a mesma coisa. “Bem-
aventurados os misericordiosos, porque eles
alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). “Se não
perdoardes aos homens as suas ofensas, também
vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (6:15);
“com a medida com que tiverdes medido vos hão de
medir a vós” (7:2). “Como guardaste a palavra da
minha paciência, também eu te guardarei”
(Apocalipse 3:10).
Deus estabeleceu uma

conexão inseparável entre santidade e felicidade, e


não é uma pequena parte do trabalho do expositor
ressaltar que enquanto os nossos caminhos Lhe
agradam, o Seu sorriso está sobre nós; mas quando
somos rebeldes, somos grandemente perdedores;
mostrar que embora o povo de Deus não esteja
debaixo da maldição da vara, ele está sob a sua
disciplina; e ele deve considerar ilustrações bíblicas
desse fato. É uma coisa ter os nossos pecados
perdoados, mas é outra bem diferente desfrutar dos
favores de Deus na providência e criação, bem
como espiritualmente; como as vidas dos
personagens bíblicos exemplificam

claramente. Deus não aflige de bom grado


(Lamentações 3:33), mas castiga porque nós Lhe
demos ocasião para fazê-lo (Salmos 89:30-33).
Quando nós não

entristecemos o Espírito Santo, Ele torna Cristo mais


real e precioso para a alma; o canal de bênção é
aberto e respostas reais são recebidas à oração. Mas,
infelizmente, quantas vezes damos a Deus a
oportunidade de dizer: “os vossos pecados apartam
de vós o bem” (Jeremias 5:25). Então, que o
pregador não perca nenhuma oportunidade de
provar pelas Escrituras que o caminho da obediência
é o caminho da bênção (Salmos 81:11-16), e
demonstrar que Deus ordena os Seus caminhos para
conosco de acordo com a nossa conduta (Isaías
48:10) — Ele fez isso com o próprio Cristo (João
8:29, 10:17; Salmos 45:7).
25. A regra da ênfase. A importância fundamental e
perpetuidade da lei moral foi indicada por ser escrita pelo próprio
dedo de Deus, e pelas duas tábuas em que foi inscrita haverem
sido colocadas em abrigo seguro dentro da arca santa. O valor
inestimável do Evangelho foi significado por ser anunciado aos
pastores por um anjo: “eis aqui vos trago novas de grande alegria,
que será para todo o povo”, e por ser acompanhado por uma
multidão dos exércitos celestiais louvando a Deus e dizendo:
“Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os
homens” (Lucas 2:10,14). O valor relativo de alguma coisa é
geralmente indicado pelo lugar e destaque que lhe é dado nas
Escrituras. Assim, apenas dois dos evangelistas fazem menção ao
nascimento real de Cristo; apenas um deles nos fornece quaisquer
detalhes sobre sua infância; apenas Marcos e Lucas se referem à
Sua ascensão; mas todos os quatro evangelistas descrevem a Sua
morte sacrificial e ressurreição vitoriosa! Quão claramente isso nos
informa sobre o que mais deve ser anunciado por Seus servos, e o
que deve envolver mais os corações e mentes do Seu povo!
Outro meio e método

empregado pelo Espírito para prender nossa atenção


e concentrar as nossas mentes em partes distintas da
Verdade é o seu uso de um grande número de
“figuras de linguagem”. Nelas Ele arranjou palavras
e frases de uma maneira incomum com a finalidade
de impressionar mais profundamente o leitor com o
[10]
que é dito. O erudito autor de The Companion
Bible [A Bíblia Companheira] (agora quase
inacessível) referiu mais detalhadamente esse
assunto do que qualquer escritor inglês e, a partir
dele nós agora selecionamos um ou dois exemplos.
A figura de anabasis ou gradação, no qual há uma
preparação até um clímax, como em: “Quem
intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É
Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois
é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou
dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e
também intercede por nós” (Romanos 8:33-34).
Assim, novamente em 2
Pedro 1:5-7: “...acrescentai à vossa fé a virtude...
caridade”. A figura oposta é a de catabasis ou
descida gradual, um notável exemplo disso é
encontrado em Filipenses 2:6-8.
A forma mais comum de

destaque é a repetição. Isto é encontrado na Palavra


em toda uma variedade de maneiras, como na
duplicação de um nome: “Abraão, Abraão” (Gênesis
22:11). Houve seis outras pessoas a quem o Senhor
se dirigiu assim: “Jacó, Jacó” (46:2), “Moisés,
Moisés” (Êxodo 3:4), “Samuel, Samuel” (1 Samuel
3:10), “Marta, Marta” (Lucas 10:41), “Simão,
Simão” (22:10), “Saulo, Saulo” (Atos 9:4). Depois,
houve o triste: “Jerusalém, Jerusalém” de nosso
Senhor (Mateus 23:37), e seu brado de angústia:
“Meu Deus, Meu Deus” (Mateus 27:46); como
ainda haverá o urgente: “Senhor, Senhor” dos
perdidos (Lucas 13:25). Tais formas de
intensificação da expressão como: “o santo dos
santos”, “Cântico dos Cânticos”, vaidade das
vaidades”, e o inefável “para todo o sempre”,
expressam o mesmo princípio. Novamente, “Espera
no Senhor, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração;
espera, pois, no Senhor” (Salmos 27:14);
“Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo,
regozijai-vos” (Filipenses 4:4). Ainda mais enfático
é o “santo, santo, santo” de Isaías 6:3, e a expressão:
“Ó terra, terra, terra!

Ouve a palavra do Senhor” (Jeremias 22:29), e


porque não: “Ao revés, ao revés, ao revés”
(Ezequiel 21:27), e também: “Ai! ai! ai! dos que
habitam sobre a terra!” (Apocalipse 8:13)?
Uma forma simples de

repetição estrutural ocorre na linguagem de


adoração encontrada tanto no início quanto no fim
do Salmo 8: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão
admirável é o teu nome sobre toda a terra!”. Outras
formas desse princípio são as que são tecnicamente
conhecidas como ciclóide, ou repetição circular,
onde a mesma frase ocorre em intervalos regulares,
como em “Faze-nos voltar, ó Deus” (Salmos
80:3,7,9); epíbole, ou repetição sobreposta, onde a
mesma frase é usada em intervalos irregulares, como
“a voz do Senhor” (Salmos 29:3,4,5,7,8,9);
epímone, ou persistência, onde a repetição ocorre
com o propósito de fazer uma impressão mais
duradoura, como em João 21:15-17, onde nosso
Senhor continuou a desafiar o amor de Seu
discípulo errante, e evidenciou a Sua aceitação de
suas respostas por declarar: “Apascenta os meus
cordeiros, apascenta as minhas ovelhas”.
No Antigo Testamento

muitos exemplos são encontrados do que é chamado


paralelismo hebraico, no qual o mesmo pensamento
é expresso em linguagem diferente. Por exemplo:
“Ele mesmo julgará o mundo com justiça; exercerá
juízo sobre povos com retidão” (Salmos 9:8). “A
soberba precede a ruína, e a altivez do espírito
precede a queda”

(Provérbios 16:18, e compare com Isaías 1:18). Em


outros casos, a verdade é demonstrada por um
contraste: “A maldição do Senhor habita na casa do
ímpio, mas a habitação dos justos abençoará”
(Provérbios 3:33, 15:17). No grego a ênfase é
indicada pela ordem das palavras em uma frase:
“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim”
(Mateus 1:18); “Mas Deus prova o seu amor para
conosco”

(Romanos 5:8).
A importância de prestar atenção à ênfase divina é indicada de
várias formas. “Em verdade, em verdade”, com o qual Cristo
prefaciou alguns dos Seus mais relevantes enunciados. Seu uso da
forma interrogativa ao invés da afirmativa em casos como: “Pois,
que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua
alma?” (Marcos 8:36) — muito mais forte do que: “Não
aproveitaria nada ao homem se...”, etc. A fim de convocar atenção
urgente ao que acabou de dizer, a expressão: “Aquele que tem
ouvidos para ouvir, ouça” de Cristo é usada novamente, com uma
pequena variação, em cada um dos seus discursos às sete igrejas de
Apocalipse 2 e 3. Várias exposições notáveis de Paulo são
precedidas por “esta é uma palavra fiel”. Quando explica o
significado de Melquisedeque, ele sinaliza esse princípio: “A quem
também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por
interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é
rei de paz” (Hebreus 7:2, e cf. Tiago 3:17). Com a finalidade de dar
destaque, outras declarações são introduzidas pela palavra “Oh”;
“Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união”
(Salmos 133:1, e cf. 1 João 3:1).
Capítulo 19
________________________________________

26. A origem das palavras. Uma enorme quantidade de tempo,


pesquisa e estudo tem sido dedicado a isso, e os homens de grande
erudição têm reunido os resultados de seu trabalho em volumes
que são enormes e caros. No entanto, na opinião do escritor, esses
estão longe de possuir aquele valor que tem sido muitas vezes
atribuído a eles, ele também não os considera quase indispensáveis
para o pregador, como muitos têm

afirmado. Sem dúvida, eles contêm informações de


considerável interesse para etimologistas, mas como
um meio para interpretar as Escrituras, os léxicos
são muito superestimados. Um conhecimento da
derivação das palavras usadas nas Escrituras
originais não pode ser essencial, pois é inalcançável
para a grande maioria do povo de Deus. Além disso,
as tentativas para chegar a essas

derivações, muitas vezes não são de todo uniformes,


pois os melhores hebraístas estão longe de ser
unânimes quanto às raízes particulares a partir do
qual são formadas várias palavras no Antigo
Testamento. Para nós parece muito

insatisfatório, sim, profano, voltar-se para poetas e


filósofos pagãos para descobrir como certas palavras
gregas eram usadas antes que fossem empregadas no
Novo Testamento. Porém, o que é ainda mais direto
ao ponto, um tal método é arruinado diante do
emprego real que o Espírito Santo faz de vários
termos.
Em vista do que foi dito na décima oitava regra de exegese,
não me proponho a escrever muito sobre esse ponto. Em vez
disso, vamos nos limitar a um único exemplo, que ilustra a frase
final do parágrafo anterior, e que, ao mesmo tempo, refuta um erro
que é muito difundido atualmente. Muitos dos que negam que os
ímpios serão punidos eternamente apelam para o fato de que
adjetivo grego aionios simplesmente significa “tempo duradouro”,
e que eis ton aiona (Judas 13) e eis aionas aionon (Apocalipse
14:11) significa “pela era” e “pelas eras das eras” e “para sempre”

e “para todo o sempre”. A simples resposta é dada;


ainda assim, é

insignificante para o ponto em questão.


Verdadeiramente, essas expressões gregas são
apenas termos temporais, pela razão suficiente de
que as mentes dos antigos eram incapazes de
compreender o conceito de eternidade.

Portanto, a linguagem empregada por aqueles que


foram destituídos de uma revelação escrita de Deus
não é de proveito nenhum, quer a favor ou contra a
respeito da imensidão da bem-aventurança do
redimido ou da miséria do perdido.

Para verificar isso devemos observar como os


termos são usados na Sagrada Escritura.
As conexões em que o Espírito Santo usou a palavra aionios
não deixa qualquer espaço para qualquer incerteza sobre o seu
significado na mente de um investigador imparcial. Essa palavra
não ocorre apenas em expressões como “destruição eterna”, “fogo
eterno”, “castigo eterno”, mas também em “vida eterna” (Mateus
25:46), “salvação eterna” (Hebreus 5:9), “eterna glória” (1 Pedro
5:10); e com toda a certeza esses são atemporais. Ainda mais
decisivamente, essa palavra está ligada com a subsistência da
Divindade: “Deus eterno” (Romanos 16:26). Novamente, a força e
o alcance da palavra são claramente vistos no fato de que ela é a
antítese daquilo que é de duração limitada: “as [coisas] que se
veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2
Coríntios 4:18). Agora, é óbvio que se as coisas temporais
durassem para sempre, não poderia haver contraste entre elas e as
coisas que são eternas. Igualmente certo é que se as coisas eternas
fossem somente “duradouras”, elas não seriam diferentes das
coisas temporais. O

contraste entre o temporal e o eterno é tão real e tão


grande como entre as coisas “visíveis e invisíveis”.
Mais uma vez, em Filemon, verso 15, aionios
(traduzido como “para sempre”) é colocado em
oposição a “por algum tempo”, mostrando que um é
o oposto do outro — “o retivesses para sempre”

manifestamente significa nunca o expulsar ou


mandá-lo embora.
Antes de deixar esse assunto deve ser salientado que o
desespero absoluto da condição dos perdidos encontra-se não
somente no fato de que sua punição é dita ser eterna, mas em
outras

considerações colaterais que são igualmente


definitivas. Não há um único caso registrado na
Escritura de um pecador sendo salvo após a morte,
nem qualquer passagem estendendo qualquer
promessa para tal. Por outro lado, há muito do
contrário. “O homem que muitas vezes repreendido
endurece a cerviz, de repente será destruído sem que
haja remédio” (Provérbios 29:1), o que não seria o
caso se, depois de “eras” em fogo purificador, ele
fosse finalmente admitido no Céu. Aos seus
inimigos, Cristo disse: “...morrereis no vosso
pecado. Para onde eu vou, não podeis vós vir” (João
8:21); pelo fato da morte haver selado o seu destino.
Este fato é igualmente certo a partir daquelas
terríveis palavras de Cristo: “a ressurreição da
condenação” (João 5:29), o que exclui todo
vislumbre de esperança quanto à sua recuperação na
próxima vida. Para o apóstata “já não resta mais
sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:26). “Porque
o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não
fez misericórdia”

(Tiago 2:13). “Cujo fim é a destruição” (Filipenses


3:19). Por isso é que está escrito no fim da
Escritura: “Aquele que é injusto, faça injustiça
ainda: e quem está sujo, suje-se ainda” (Apocalipse
22:11) — assim como a árvore cai, assim também
permanecerá ali para sempre.
27. A regra da comparação e contraste.

Embora esta regra seja muito menos importante para


o expositor do que muitas das outras, é de profundo
interesse; e, embora pouco seja conhecido, ainda
assim, esse princípio tem um lugar de destaque na
Palavra. E, considerando o que foi denominado “o
par de opostos”, que nos confrontam em todas as
esferas, não deveria nos causar nenhuma surpresa
encontrar que essa regra recebe tal frequente
ilustração e exemplificação nas Escrituras, e isso de
várias

maneiras. Deus e o Diabo, o tempo e a eternidade,


dia e noite, homem e mulher, bem e mal, Céu e
Inferno, são estabelecidos em oposição um ao outro.
No princípio criou Deus os Céus e a Terra, e a Terra
tem os seus dois hemisférios, norte e sul. Assim
também no Antigo e Novo Testamentos há judeus e
gentios, e após os dias de Salomão os israelitas
foram divididos em dois reinos; enquanto por toda a
cristandade, encontramos o possuidor genuíno da
graça e o aquele que é meramente professo, mas não
possui a graça. Seja qual for a explicação, somos
confrontados em todos os lugares com essa
misteriosa dualidade: o visível e o invisível, espírito e
matéria, terra e mar, forças de ação centrífuga e
centrípeta, vida e morte.
Como apontado em uma ocasião anterior, a própria verdade é
sempre dupla, e, portanto, a própria Palavra de Deus é comparada
a uma espada de dois gumes. Não somente é, em primeiro lugar,
uma revelação de Deus, e, em segundo lugar, dirigida à
responsabilidade humana; mas um grande número de passagens
nela tem uma força e significado duplos, um literal e espiritual;
muitas de suas profecias possuem um cumprimento duplo, um
maior e um menor; uma vez que a promessa e o preceito, ou o
privilégio e a obrigação correspondente, são sempre combinados.
Casos de pares são numerosos.

Os dois grandes luminares (Gênesis 1:16); dois de


cada espécie entrando na arca (6:19). As duas
tábuas em que a lei foi escrita. As duas aves
(Levíticos 14:4-7); os dois bodes (16:7); as duas
décimas de flor de farinha e os dois pães (23:13,17).
O milagre repetido da água a partir da rocha ferida
(Êxodo 17; Números 20), como também Cristo
alimentando por duas vezes uma grande multidão
com alguns pães e peixes. Os dois sinais a Gideão
(Juízes 6). As duas oliveiras (Zacarias 4). Os dois
mestres (Mateus 6:24); as duas fundações (7:24-27).
Os dois devedores (Lucas 7:41); os dois filhos
(15:11); os dois homens que foram ao templo para
orar (18:10). As duas testemunhas falsas contra
Cristo (Mateus 26:60); e os dois ladrões crucificados
com Ele. Os dois anjos (Atos 1:10). As duas “coisas
imutáveis” de Hebreus (6:18). As duas bestas
(Apocalipse 13).
Como Cristo enviou os Seus apóstolos em pares, assim por
toda a Bíblia dois indivíduos são mais ou menos intimamente
associados: em alguns casos, um complementa o outro, mas na
maioria há um contraste marcante entre eles. Assim, temos Caim e
Abel, Enoque e Noé, Abraão e Ló, Sara e Agar, Isaque e Ismael,
Esaú e Jacó, Moisés e Arão, Calebe e Josué, Noemi e Rute, Samuel
e Saul, Davi e Jônatas, Elias e Eliseu, Neemias e Esdras, Marta e
Maria, os fariseus e os saduceus, Anás e Caifás, Pilatos e Herodes,
Paulo e Barnabé. Às vezes, uma série de antíteses notáveis
reúnem-se na vida de um único indivíduo. Notavelmente esse foi o
caso de Moisés. “Ele era o filho de uma escrava, e o filho de uma
princesa. Ele nasceu de uma escrava, mas viveu em um palácio.
Ele foi educado na corte, e habitou no deserto. Ele foi o mais
poderoso dos guerreiros, e o mais manso dos homens. Ele tinha a
sabedoria do Egito, e a fé de uma criança. Ele não era eloquente, e
falava com Deus. Ele tinha a vara do pastor, e o poder do infinito.
Ele foi o doador da lei, e o precursor da graça. Ele morreu sozinho
no monte Nebo, e apareceu com Cristo na Judéia. Nenhum homem
compareceu a seu funeral, mas Deus o sepultou” (I. M.

Haldeman).
A. T. Pierson indicou que outra série de paradoxos marcantes é
encontrada naquela notável profecia sobre o Messias em Isaías 53.
Embora fosse o Filho de Deus, contudo a sua pregação não foi
crida.

Ele era tido por Deus como “renovo”, mas pelos


homens como “a raiz de uma terra seca”. Servo de
Yahwéh, em Quem a Sua alma se deleita, mas na
estima dos judeus Ele não possuía nenhuma
formosura ou beleza. Nomeado pelo Pai e ungido
pelo Espírito, ainda assim foi desprezado e rejeitado
pelos homens. Gravemente ferido e castigado pelos
pecadores, mas os pecadores crentes foram curados
pelas Suas pisaduras. Nenhuma iniquidade foi
achada nEle, mas as iniquidades de muitos estavam
sobre Ele. Embora Ele mesmo era o Juiz de todos,
foi levado diante do tribunal de criaturas humanas.
Sem geração, mas possuiu uma numerosa
descendência. Cortado da terra dos viventes, ainda
assim, vivo para sempre. Ele teve a sua sepultura
com os ímpios, no entanto, Ele estava com o rico na
sua morte. Embora contado com os injustos, Ele
justifica a muitos. Ele foi atacado pelo valente, mas
Ele saqueou o valente, libertando uma multidão de
cativos da sua mão. Ele foi contado com e
ridicularizado pelos transgressores, mas fez
intercessão por eles.
É de fato notável encontrar a dualidade das coisas que nos
confrontam com tanta frequência em conexão com o plano da
redenção. Com base na obra dos grandes cabeças federais, o
primeiro Adão e o último Adão, com os pactos fundamentais
ligados a eles: o Pacto das Obras e o Pacto da Graça. O último
Adão com as Suas duas naturezas distintas, constituindo-o
Mediador Deus-homem. Duas genealogias diferentes são dadas a
Ele, em Mateus 1 e Lucas 3. Há Seus dois adventos distintos: o
primeiro em profunda humilhação, o segundo em grande glória. A
salvação que Ele operou para o Seu povo é dupla: objetiva e
subjetiva ou coletiva e vital, a que Ele efetuou por eles, e outra que
Ele opera neles — uma justiça imputada a eles, e uma justiça
comunicada. A vida Cristã é uma estranha dualidade: os princípios
do pecado e da graça sempre se opõem um ao outro. As duas
ordenanças que Cristo deu às Suas igrejas: o Batismo e a Ceia do
Senhor.
Há muitos pontos de contraste entre os dois primeiros livros da
Bíblia. No primeiro, temos a história de uma família; no último a
história de uma nação. No primeiro os descendentes de Abraão são
apenas poucos em número; no outro eles aumentaram a centenas
de milhares. Em Gênesis os hebreus são bem-vindos e honrados
no Egito, enquanto que em Êxodo eles são odiados e evitados. No
primeiro, lemos de um faraó que diz a José: “Deus te fez saber
tudo isto” (41:39), mas no último, outro Faraó diz a Moisés: “Não
conheço o Senhor” (5:2). Em Gênesis ouvimos falar sobre um
“cordeiro”
prometido (22:8), em Êxodo sobre o “Cordeiro”
morto e seu sangue aspergido. No primeiro, temos
registrada a entrada de Israel no Egito; no último é
descrita a saída deles. No primeiro vemos os
patriarcas peregrinando na terra que mana leite e
mel; no outro os seus descendentes estão errantes no
deserto. Gênesis termina com José em um caixão,
enquanto Êxodo termina com a glória do Senhor
enchendo o tabernáculo.
É interessante e instrutivo comparar as passagens sobrenaturais
de Israel atravessando o Mar Vermelho e o Jordão. Há pelo menos
doze detalhes de semelhança entre elas, o que deixaremos que o
leitor verifique por si mesmo. Aqui, vamos considerar os seus
pontos de divergência. Em primeiro lugar, um conclui a saída de
Israel da casa da servidão, o outro iniciou a sua entrada na terra da
promessa. Em segundo lugar, o primeiro milagre foi operado no
fim para que pudessem escapar dos egípcios, este último lhes
permitiu se aproximarem e conquistarem os cananeus. Em terceiro
lugar, em conexão com um o Senhor fez o mar se abrir por um
forte vento oriental (Êxodo 14:21), mas com relação ao outro,
nenhum meio sequer foi usado — para demonstrar que Ele não
está vinculado a meios, mas que os emprega ou dispensa como
Lhe agrada. Em quarto lugar, o milagre anterior foi realizado à
noite (14:21), este último em plena luz do dia. Em quinto lugar, as
multidões do Mar Vermelho foram mortas porque o Senhor fez
com que as águas tornassem sobre os egípcios de modo que
“cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó,
que os haviam seguido no mar; nenhum deles ficou” (14:28),
enquanto que no Jordão nenhuma única alma pereceu. Em sexto
lugar, um foi operado para pessoas que um pouco antes estavam
cheias de incredulidade e murmuração (Êxodo 14:11), o outro para
um povo que era fiel e obediente (Josué 2:24, 3:1). Em sétimo
lugar, com a única exceção de Calebe e Josué, todos os adultos que
se beneficiaram do primeiro milagre morreram no deserto;
enquanto a grande maioria daqueles que foram favorecidos por
compartilhar deste último “possuíram as suas possessões”. Em
oitavo lugar, as águas do Mar Vermelho foram

“divididas” (Êxodo 14:21), as do Jordão que “vêm


de cima, pararão amontoadas”

(Josué 3:13). Em nono lugar, no primeiro, a morte


judicial do crente para o pecado foi tipificada; neste
último foi tipificada a sua unidade legal com Cristo
na Sua ressurreição, seguido por uma entrada
prática em sua herança. Em décimo lugar,
consequentemente, não houve “santificai-vos”, antes
do primeiro, mas essa convocação foi uma exigência
imperativa para o último (Josué 3:5). Em décimo
primeiro lugar, a resposta dos inimigos de Israel para
a intervenção do Senhor por Seu povo no Mar
Vermelho foi: “Perseguirei, alcançarei, repartirei os
despojos; fartar-se-á a minha alma deles...” (Êxodo
15:9); mas no segundo, “E sucedeu que, ouvindo
todos os reis dos amorreus, que habitavam deste
lado do Jordão... desfaleceu-se-lhes o coração, e não
houve mais ânimo neles, por causa dos filhos de
Israel” (Josué 5:1). Em décimo segundo lugar, após
o primeiro, “Israel viu os egípcios mortos na praia
do mar” (Êxodo 14:30); após o último, um monte
de doze pedras celebrou o evento (Josué 4:20-22).
Muitos exemplos desse princípio são encontrados ao
observarmos atentamente os detalhes de diferentes exemplos que o
Espírito Santo colocou lado a lado na Palavra. Por exemplo, quão
súbita e estranha é a transição que nos confronta enquanto lemos 1
Reis 18-19. É como se o sol estivesse resplandecendo
brilhantemente no céu claro, e no momento seguinte, sem qualquer
aviso, nuvens negras agitassem os céus. Os contrastes
apresentados nesses capítulos são nítidos e surpreendentes. No
primeiro capítulo vemos o profeta de Gileade no seu melhor; no
último podemos vê-lo no seu pior. No final de um “a mão do
Senhor estava sobre Elias”, enquanto ele corria adiante da
carruagem de Acabe; no início do outro, o temor do homem estava
sobre ele, e ele receava por sua vida. Ali, ele estava preocupado
somente com a glória do Senhor, aqui está ele preocupado apenas
consigo mesmo.

Ali, ele era fortalecido na fé e o ajudante do seu


povo; aqui ele dá lugar à incredulidade, e é o
desertor de sua nação. Em um, ele corajosamente
enfrenta os quatrocentos profetas de Baal de forma
destemida, aqui ele foge em pânico pelas ameaças
de uma única mulher. Do topo do monte, ele vai
para o deserto, e de suplicar ao Senhor para que Ele
vindicasse o Seu grande nome, passou a implorar-
Lhe que tirasse sua vida. Quem teria imaginado uma
sequência tão trágica? Quão forte é a exposição e
exemplificação do contraste da fragilidade e
inconstância do coração humano, mesmo em um
santo!
O trabalho de Elias e Eliseu formou duas partes de um todo,
um completando o outro, e, embora existam semelhanças
evidentes entre eles há também contrastes notáveis. Ambos eram
profetas, ambos habitavam em Samaria, ambos foram
confrontados com quase a mesma situação. A queda do manto de
Elias sobre Eliseu indica que este último era o sucessor do
primeiro, e que ele foi chamado para continuar a sua missão. O
primeiro milagre realizado por Eliseu foi idêntico ao último
realizado por seu mestre: ferir as águas do Jordão com o manto,
para que se dividissem para os dois lados (2 Reis 2:8,14). No início
do seu ministério Elias disse ao rei Acabe: “Vive o Senhor dos
Exércitos, em cuja presença estou” (2 Reis 3:14). Como Elias foi
acolhido pela mulher de Sarepta, e a recompensou, restaurando a
vida de seu filho (1

Reis 17:23), assim Eliseu foi atendido por uma


mulher em Suném e a recompensou, restaurando a
vida de seu filho (2 Reis 4).
Os pontos de concordância entre os dois profetas são
impressionantes, mas os contrastes em suas carreiras e trabalho
também são vívidos. Um apareceu de repente e de forma dramática
no cenário da ação pública, nenhuma palavra nos é dita a respeito
de sua origem ou como ele tinha sido chamado anteriormente; mas
sobre o outro, o nome de seu pai é registrado, e um relato é feito a
respeito de sua ocupação na época em que recebeu o chamado
para o serviço de Deus. O primeiro milagre de Elias foi cerrar os
céus, para que pelo espaço de três anos e meio não houvesse nem
orvalho nem chuva de acordo com a sua palavra; enquanto que o
primeiro ato público de Eliseu foi curar as fontes de água (2 Reis
2:21-22) e proporcionar abundância de água para o povo (3:20). A
principal diferença entre eles é vista no caráter dos milagres
operados por e conectado com eles: a maioria daqueles milagres
realizados pelo primeiro foram associados com morte e destruição,
mas a grande maioria daqueles atribuídos a Eliseu foram obras de
cura e

restauração. Elias era mais profeta de julgamento, o


outro de graça. O primeiro foi marcado pela solidão,
habitando longe das multidões apóstatas; este último
parece ter passado a maior parte de seu tempo na
companhia dos profetas, presidindo suas escolas.
Um foi levado ao Céu num carro de fogo, o outro
ficou doente na velhice e morreu de morte natural
(22:9).
Capítulo 20
________________________________________

No último capítulo nós

ressaltamos aqueles diferentes aspectos da Verdade


que são frequentemente enfatizados nas Escrituras,
colocando dois exemplos em justaposição a fim de
pontuar várias diferenças entre eles. Demos várias
ilustrações do Antigo Testamento da regra da
comparação e contraste; agora vamos mostrar que
o mesmo princípio é válido no Novo Testamento.
Considere, em primeiro lugar, as antíteses notáveis
entre o que é registrado em Lucas 18:35-42 e 19:1-
9. Aquilo que é narrado na primeira passagem
ocorreu enquanto Cristo se aproximava de Jericó (a
cidade da maldição – Josué 6:26), já a segunda
ocorreu depois dEle ter passado por ela. O sujeito da
primeira era um mendigo cego, o da segunda era o
“chefe dos publicanos”. Bartimeu ocupou um lugar
humilde, pois ele “sentou-se à beira do caminho”;
Zaqueu assumiu uma posição elevada, pois ele
“subiu a um sicômoro”. Aquele tinha a intenção de
obter esmola dos transeuntes; o outro estava
determinado a “vê-lO”, a saber, Cristo. Bartimeu
tomou a iniciativa e clamou: “Filho de Davi, tem
misericórdia de mim”; Cristo tomou a iniciativa em
relação Zaqueu, ordenando-lhe “descer”. O primeiro
suplicou por sua vista; a este último Cristo fez um
pedido peremptório: “hoje me convém pousar em
tua casa”. A multidão repreendeu Bartimeu por
clamar a Cristo; todos “murmuraram” por Cristo ser
hóspede de Zaqueu.
Há uma série

impressionante de contrastes entre o que é


encontrado nos versos iniciais de João 3 e João 4. O
que é registrado no primeiro ocorreu em Jerusalém,
no último o cenário é em Samaria. Em um temos
“um homem dos fariseus, chamado Nicodemos”; no
outro, uma mulher não nomeada. Ele era uma
pessoa distinta, um “mestre de Israel”; ela era de
uma das classes mais baixas, pois ela veio ao poço,
para “tirar água”. Ele era um judeu favorecido, ela
uma samaritana desprezada, uma semi-pagã.
Nicodemos era um homem de grande reputação, um
membro do Sinédrio; aquela com quem Cristo lidou
em João 4 era uma mulher de costumes dissolutos.
Nicodemos foi falar com Jesus; Cristo esperou pela
mulher no poço, e ela não tinha ideia que
encontraria o seu Salvador. O primeiro incidente
ocorreu “durante a noite”; este último ao meio-dia.
Para o fariseu justo aos seus próprios olhos, Cristo
disse: “Necessário vos é nascer de novo”; à
pecadora dos gentios Ele falou do “dom de Deus”.
Nada é dito sobre como a primeira conversa
terminou — aparentemente Nicodemos, naquela
época, não foi convencido; a última saiu e
testemunhou de Cristo.
Ao comparar o que está

registrado nas primeiras partes de João 12 e 13


alguns contrastes interessantes e instrutivos são
revelados. No primeiro lemos que: “Fizeram-lhe,
pois, ali uma ceia”; neste último, há uma ceia que
Ele designou. No primeiro, Ele está sentado à mesa;
no último Ele levantou-se à mesa. Naquele, Ele é
honrado; neste Ele executa o ofício de um servo. No
primeiro, vemos Maria aos pés do Salvador; no
outro vemos o Filho de Deus inclinando-se para
cuidar dos pés de Seus discípulos. Os pés falam da
caminhada. Os pés de Cristo foram ungidos com
perfume caro; os pés dos apóstolos foram lavados
com água. Enquanto Cristo passava por este mundo,
Ele não foi contaminado: Ele o deixou como entrou
nele: “santo, inocente, imaculado” (Hebreus 7:26).
Que Seus pés foram ungidos com nardo perfumado
nos fala do cheiro suave que sempre subiu dEle ao
Pai, perfeitamente glorificando-O em cada passo do
Seu caminho. Em nítido contraste com o caminhar
de Cristo, o caminhar dos discípulos era
contaminado, e a sujeira do caminho precisava ser
removida se eles quisessem ter “parte” ou comunhão
com Ele (13:8). Os pés de Cristo foram ungidos
antes dos deles serem lavados, pois em todas as
coisas Ele deve ter a “preeminência”

(Colossenses 1:18). Em relação ao primeiro, Judas


queixou-se; neste último, Pedro objetou.
Interpretativamente, um tinha o sepultamento de
Cristo em vista (12:7); o outro esboçou uma
importante parte de Sua presença ministerial nas
alturas (13:1).
Muitas ilustrações desse

princípio são encontradas em conexão com palavras


e expressões que são utilizadas apenas duas vezes
nas Escrituras, e surpreendente são os contrastes
entre elas. Apopnigo ocorre apenas em Lucas
8:7,33: uma tendo referência à semente ser sufocada
pelos espinhos; a outra, onde os porcos
endemoninhados se afogaram no mar. Em Lucas
2:1-5, apographe é usado em conexão com os
próprios primogênitos sendo inscritos na terra,
enquanto que em Hebreus 12:23, refere-se a Igreja
dos primogênitos inscritos nos Céus. Apokueo é
usado em Tiago 1:15,23 sobre o desejo dar a luz ao
pecado, e do Pai nos gerando pela Palavra da
Verdade. Apolausis é aplicado às coisas que Deus
nos deu para apreciarmos licitamente (1 Timóteo
6:17), e à recusa de Moisés para desfrutar dos
prazeres ilícitos do pecado (Hebreus 11:25).
Anthrakia só é encontrado em João 18:18, onde
Pedro juntou-se aos inimigos de Cristo nas “brasas”,
e em 21:9, onde os discípulos se alimentaram diante
das mesmas na presença de Cristo. Choramakros é
o “país distante” para o qual o filho pródigo partiu
(Lucas 15:13), e um muito diferente para o qual
Cristo foi em Sua ascensão (Lucas 19:12). Panoplia
é usado para a “armadura” do inimigo (Lucas
11:22), e para a armadura que Cristo providenciou
para os santos (Efésios 6:11,13).
Há duas referências ao

“vale do rei”: em uma Melquisedeque é retratado


simbolizando a Cristo (Gênesis 14:17-18); na outra,
Absalão ergueu um monumento para si mesmo (2
Samuel 18:18). Que notável (e provavelmente
proposital) contraste existe entre as expressões “e
caíram do povo aquele dia uns três mil homens”
(Êxodo 32:28), e “naquele dia agregaram-se quase
três mil almas” (Atos 2:41) — as únicas ocasiões em
que a expressão “quase três mil” é usada nas
Escrituras.

Semelhante também é esse exemplo: “eram com ele


[Davi] uns quatrocentos homens”
(1 Samuel 22:2), e “levantou-se Teudas, dizendo ser
alguém; a este se ajuntou o número de uns
quatrocentos homens” (Atos 5:36). Em 1 Samuel
28:24, lemos sobre o “bezerro cevado” da feiticeira
de En-Dor; em Lucas 15:23, somos informados do
“bezerro cevado”, que foi morto para o filho
pródigo! Katischuo ocorre apenas em “as portas do
inferno não prevalecerão contra ela”, a Igreja
(Mateus 16:18), e “os seus gritos, e os dos principais
dos sacerdotes, prevaleciam”

(Lucas 23:23) com Pilatos contra Cristo, relativo à


Sua crucificação.
Quanto perdemos ao

deixarmos de prestar atenção cuidadosa a essa


palavra: “comparando coisas espirituais com
espirituais” (1 Coríntios 2:13). Se passássemos mais
tempo em oração, meditação sobre as Escrituras,
teríamos mais frequentemente a oportunidade de
dizer com Davi: “Folgo com a tua palavra, como
aquele que acha um grande despojo” (Salmos
119:162). Não é ao leitor apressado ou superficial
que os tesouros são revelados. Que contraste
surpreendente e solene existe entre Cristo ser
“contado com os transgressores” (Marcos 15:28), e
Judas ser “contado com” os apóstolos (Atos 1:17).
Kataluma é usado somente em Lucas 2:7, onde é
traduzido como: “porque não havia lugar para eles
na estalagem”; e em Lucas 22:11, onde é traduzido:
“o aposento”, onde o Salvador participou da Páscoa
com seus discípulos. A mulher de Tiatira em Atos
16:14 teve o coração aberto pelo Senhor para que
ela pudesse “tomar para si” (que é o significado da
palavra grega traduzida por “entender”) a mensagem
do servo de Deus; mas a mulher de Tiatira em
Apocalipse 2:20 abriu a boca com a finalidade de
seduzir os servos de Deus! Apenas duas vezes lemos
sobre o Senhor Jesus ser beijado, e que contraste: o
beijo da mulher por devoção (Lucas 7:38), o beijo
de Judas por traição de Judas (Mateus 26:40)!
Em relação à

interpretação da Escritura a importância desse


princípio de comparar duas coisas ou passagens e
observar as suas variações pode ser ainda mais
definitivamente vista comparando a parábola do
nosso Senhor sobre o

banquete de casamento, em Mateus 22:1-10, e a


parábola da grande ceia de Lucas 14:16-24. Os
comentaristas têm descuidadamente assumido que
elas ensinam a mesma coisa, mas um exame atento
delas mostrará que apesar de terem muitas coisas em
comum, elas apresentam aspectos bastante
diferentes da Verdade: ilustrando, respectivamente, o
chamado exterior, geral e ineficaz do Evangelho e o
chamado interno, particular e eficaz de Deus. Na
primeira, são “servos” (no plural) que estão
envolvidos (vv. 3,4,6,8,10); enquanto na segunda é
“aquele servo” (v. 21), “seu servo” (v. 21), “o servo”
(vv. 22-23). Deve-se notar que as suas comissões
não são as mesmas: os servos são instruídos a
“chamar os convidados para as bodas” (v. 3), a
“dizer-lhes” (v. 4), e “convidarem para as bodas” (v.
9), e nada mais; enquanto que o servo não deveria
apenas “dizer aos convidados: Vinde” (v. 17), mas
também “trazê-los” (“força-os a entrar” – v.

23).
Quando essas distinções

são devidamente ponderadas, fica evidente que


enquanto em Mateus 22 os “servos”

são os ministros de Deus enviados a pregar o


Evangelho a toda criatura, “o servo” de Lucas 14
não é outro senão o Espírito Santo, que por Suas
operações de poder invencível e eficaz vivifica os
eleitos de Deus em novidade de vida.

Somente Ele é capaz de superar a aversão natural e


oposição deles às coisas divinas, assim como
somente Ele é capaz de trazer “aqui os pobres, e
aleijados, e mancos e cegos”. Nem ninguém mais
poderia verdadeiramente dizer sobre os seus
esforços: “Senhor, feito está como mandaste”
(Lucas 14:22). Como Cristo era o “servo” da
Divindade (Mateus 12:18-20) durante os dias da
Sua carne, assim o bendito Espírito é o “servo” de
Cristo durante esse período (João 16:14; Atos 2:33).
Essa interpretação é confirmada pelo fato de que os
servos foram “ultrajados” e até mesmo “mortos”
(Mateus 22:6). Além disso, nós lemos sobre eles: “E
os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos
quantos encontraram, tanto maus como bons; e a
festa nupcial foi cheia de convidados”

(Mateus 22:10), pois eles não eram capazes de ler os


corações; mas nenhuma declaração como essa é
feita sobre o Servo que “traz” (para o Céu) aqueles
com quem Ele lida.
Antes de deixarmos essa parte de nosso assunto, daremos um
outro exemplo de sua importância e valor. Ao fazer uso da regra
do contraste, somos capazes de determinar decisivamente a
controvérsia que os Socinianos têm levantado sobre esse verso
importante, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por
nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios
5:21). Essa é uma das declarações mais profundas e

abrangentes a serem encontradas nas Escrituras a


respeito da expiação, contendo um breve resumo de
todo o plano da salvação. Os inimigos do Evangelho
insistem que a expressão: “o fez pecado”, deveria
ser traduzida como: “feito uma oferta pelo pecado”,
mas isso é totalmente inadmissível, pois nesse caso a
antítese nos obrigaria a traduzir “para que nele
fôssemos feitos uma oferta pela justiça de Deus”, o
que seria um evidente absurdo. O contraste extraído
daqui

estabelece o significado exato dos termos usados. Os


crentes são legalmente declarados justos em Cristo
diante de Deus, e, portanto, o contraste exige que
Cristo foi legalmente declarado pecado, isto é,
culpado aos olhos da lei de Deus. A grande verdade
afirmada nesse verso é a troca de lugares em relação
às imputações dos mesmos: os nossos pecados
foram colocados na conta do nosso Fiador,
tornando-o judicialmente culpado; a Sua obediência
é considerada em nossa conta, fazendo-nos
judicialmente justos diante de Deus.
28. A regra da primeira menção.

Muito frequentemente isso é de grande ajuda para


chegar ao significado de uma palavra ou expressão.
Posto que há apenas um Proclamador em toda a
Palavra, e Ele sabia desde o princípio tudo o que Ele
diria, Ele ordenou as Suas

declarações de tal maneira a predizer desde o início


o que ocorreria a seguir.
Assim, observando a sua configuração e
associações, a ocorrência inicial de qualquer coisa
nas Escrituras geralmente nos sugere como,
posteriormente, ela será utilizada. Em outras
palavras, o primeiro pronunciamento do Espírito
Santo sobre um assunto muito frequentemente
indica, substancialmente, o que é encontrado nas
referências posteriores. Isto é de ajuda real para o
expositor, fornecendo-lhe uma espécie de chave
para o que vem a seguir. Tanto quanto sabemos, a
atenção foi originalmente dirigida a essa regra de
exegese por Lord Bacon (1600), e por mais de
quarenta anos esse escritor fez uso da mesma,
colocando-a à prova em dezenas de casos; e
enquanto ele tem encontrado alguns casos em que a
primeira menção de um termo não indica claramente
o seu alcance futuro, ele nunca se deparou com uma
que estivesse fora de harmonia com isso; e a grande
maioria delas foram de valor inestimável em servir
para definir o seu significado e alcance. Isto
aparecerá a partir das ilustrações que se seguem.
A primeira profecia registrada na Escritura fornece a chave
para todo o tema da predição messiânica, fornecendo um esboço
notável e previsão de tudo o que ocorreria a seguir. Disse o Senhor
Deus à serpente: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a
tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás
o calcanhar”

(Gênesis 3:15). Em primeiro lugar, deve-se notar


que essas palavras não foram dirigidas a Adão e
Eva, o que implica que o homem não era a parte
imediata no pacto de restauração; que esse não
dependia de nada, por ou a partir dele.

Em segundo lugar, que esse pronunciamento divino


foi feito após a Queda, e desse ponto em diante a
profecia é sempre consequente em caso da falha
humana, não ocorrendo durante o estado normal das
coisas, mas somente quando a ruína começou e o
julgamento é iminente — a próxima profecia foi
através de Enoque (Judas 14-15), pouco antes do
dilúvio! Na profecia de Gênesis 3:15, foi revelado
que toda a esperança humana deveria centralizar-se
em no Prometido.

Essa profecia revelou que o Prometido seria homem,


da “semente” da mulher, e, portanto, de nascimento
sobrenatural. Ela anunciou que Ele seria o objeto de
inimizade de Satanás. Ela predisse que Ele seria
temporariamente humilhado — ferido no calcanhar.
Ela também proclamou a Sua vitória final, pois Ele
esmagaria a cabeça da serpente, e, portanto, deveria
ser mais do que um homem.

Ela indicou a luta secular que haveria entre as duas


sementes: os filhos do Diabo e aqueles unidos a
Cristo.
“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão
clama a mim desde a terra” (Gênesis 4:10). Essa é a primeira vez
que a palavra de toda importância “sangue” é mencionada nas
Escrituras, e como todas as ocorrências iniciais dos termos
fundamentais, ela demanda a mais cuidadosa atenção e meditação.
Essa referência é profundamente importante, prenunciando
algumas das características mais essenciais e marcantes da expiação
de Cristo. Abel era um pastor (Gênesis 4:2) e foi odiado por seu
irmão, embora sem causa justa (1 João 3:12). Ele não morreu de
morte natural, mas teve um fim violento: assim o Bom Pastor foi
crucificado e morto pelas mãos dos injustos (Atos 2:23). À luz
desses fatos, quão profundamente significativas são as palavras: “A
voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra”. Essa é a
coisa mais importante, porém indescritivelmente

abençoada em conexão com o sangue de Cristo: ele


fala a Deus! É o “sangue da aspersão, que fala
melhor do que o de Abel” (Hebreus 12:24), pois
satisfez todas as exigências de Deus e adquiriu
benção inestimável para o Seu povo. A próxima
menção de “sangue” está em Gênesis 9:4, onde
aprendemos que a vida está no sangue. A terceira
referência é Êxodo 12:13, onde o sangue liberta do
anjo vingador. Coloque as três juntas e temos uma
descrição completa de todos os ensinamentos
posteriores da Escritura sobre o sangue. Eles tratam,
respectivamente, da morte, da vida e da salvação.
Capítulo 21
________________________________________

A primeira vez que o centro da natureza moral do homem — o


coração — é mencionado nas Escrituras temos uma previsão
infalível de tudo será depois ensinado sobre isto. “E viu o Senhor
que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a
imaginação dos pensamentos de seu coração era só má
continuamente” (Gênesis 6:5). Notavelmente completo é o esboço
nos fornecido aqui. Observe primeiro as palavras “E viu o
Senhor”, dando a entender que só Ele é totalmente conhecedor
dessa fonte da qual procedem as questões da vida. Em segundo
lugar, isso é sobre o que Seus olhos estão fixos: “o homem vê o
que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1
Samuel 16:7). Em terceiro lugar, o que é dito aqui a respeito do
coração do homem é explicativo de sua má conduta, uma vez que
a própria fonte sendo suja, imundos devem ser os fluxos que dela
brotam. Em quarto lugar, que o coração do homem está agora
radicalmente mal, e isto continuamente, sendo “enganoso [a
palavra hebraica é traduzida por “torcido” em Isaías 40:4, e
“machado” em Oséias 6:8]... mais do que todas as coisas
[incuravelmente], e perverso” (Jeremias 17:9); do qual, como
Cristo declarou, procedem todas as abominações cometidas pelo
homem caído (Marcos 7:21-23). Em quinto lugar, o “coração” é
equivalente a todo o homem interior: “toda a imaginação dos
pensamentos de seu coração”, isto é, “os propósitos e desejos”, e,
portanto, o coração não é somente a sede de seu pensamento, mas
de suas afeições e vontade.
“Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre
a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei o
homem que criei de sobre a face da terra” (Gênesis 6:6-7). Essa é a
referência inicial ao arrependimento, e apesar de sua linguagem ser
de fato metafórica — por uma figura de linguagem (antropopatia)
o Senhor atribui a Si mesmo sentimentos humanos — ainda assim
ela contém todos os elementos

essenciais do mesmo. Em primeiro lugar, é


surpreendente descobrir que essa graça está aqui não
atribuída à criatura, mas ao Criador, nos dizendo
que o arrependimento não se origina em um cuja
mente é inimizade contra Deus e cujo coração é
duro como uma pedra, mas é um dom de Deus
(Atos 5:31, 11:18; 2

Timóteo 2:25), operado nele pelo Espírito Santo.


Em segundo lugar, que o

arrependimento tem o pecado por seu objeto, pois é


a maldade dos homens que aqui é dita ter levado o
Senhor se arrepender. Em terceiro lugar, sua
natureza é claramente definida: como uma mudança
de mente (o arrependimento de Deus por haver feito
o homem) e uma tristeza de coração. Em quarto
lugar, a prova do arrependimento é evidenciada pela
reforma, ou uma mudança de conduta, uma
resolução para desfazer (tanto quanto é
humanamente possível) o que aquilo que leva à
tristeza — isto é visto na decisão do Senhor de
destruir o homem da face da Terra.
Em Gênesis 15:6, encontramos a primeira menção de três das
palavras mais importantes que são usados em

conexão com a salvação do pecador, e o mais


significativo e bendito é vê-las aqui unidas. “E creu
ele [Abrão] no Senhor, e imputou-lhe isto por
justiça”.

Que notável antecipação isto foi do mais completo


desdobramento do Evangelho, que pode ser
encontrado nos Profetas e do Novo Testamento!
Essa passagem

registra a resposta dada pelo “pai de todos os que


creem” (Romanos 4:11) à promessa maravilhosa
que o Senhor lhe fez: a de que, apesar de ser tão
velho (quase cem anos), ele deveria não só gerar um
filho, mas, finalmente, ter um número incontável de
sementes, e que a partir dele brotaria o Messias.
Como Romanos 4:19-20, afirma: “[Abraão] não
atentou para o seu próprio corpo já amortecido... E
não duvidou da promessa de Deus por
incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória
a Deus”. Primeiro, temos aqui a definição mais
simples de fé que pode ser encontrada na Bíblia:
“creu ele no Senhor”. Mais literalmente: “ele aman
Yahwéh”, isto é, seu coração respondeu com
confiança de que “ isto será assim”. Em outras
palavras, ao receber

implicitamente o testemunho divino, ele “confirmou


que Deus é verdadeiro” (João 3:33). Ele percebeu
que era a palavra dAquele “que não pode mentir”

[Tito 1:2].
Em segundo lugar, aprendemos aqui qual foi a resposta da
graça de Deus a essa confiança como de criança que tanto honra-
O: “imputou-lhe isto por justiça”. A palavra “imputou” significa
contou ou colocou em seu crédito; a mesma palavra hebraica
aparece no Salmo 32:2: “Bem-aventurado o homem a quem o
Senhor não imputa maldade”, isto é, nenhuma maldade será
cobrada dele. Não é o ato de fé de Abraão, que é aqui referido,
mas o Objeto glorioso para o que ela olha, a saber, sua Semente e
Filho prometidos, seu Salvador. Em terceiro lugar, aqui também
somos ensinados como um pecador crente é legalmente justificado
diante de Deus. Por natureza, ele não tem nenhuma justiça própria,
ao longo de todo o tempo em que ele viveu sem Cristo, suas
melhores obras não são nada mais do que trapos da imundícia aos
olhos do Deus santo. Não só esteve Abraão destituído de justiça,
mas ele não a obteve por nenhum esforço próprio: sua fé era o
único meio ou instrumento que o ligava a uma justiça que estava
fora dele mesmo. Depois de citar o seu caso, o

apóstolo passou a dizer: “Assim também Davi


declara bem-aventurado o homem a quem Deus
imputa a justiça sem as obras” (Romanos 4:6),
“com o coração se crê para a justiça” (Romanos
10:10).
Posto que tratamos acima de um aspecto tão fundamental da
Verdade, nós aproveitaremos o ensejo para considerar brevemente
Deuteronômio 25:1: “Quando houver contenda entre alguns, e
vierem a juízo, para que os julguem, ao justo justificarão, e ao
injusto condenarão”. Essa é a primeira ocorrência dessa importante
palavra, e sua configuração é muito sugestiva de seu significado.
Em primeiro lugar, a justificação é uma questão inteiramente
judicial, sendo a pronúncia de sentença do Juiz de toda a Terra.

Em segundo lugar, é o oposto de condenação,


quando alguém é condenado nos tribunais ele não é
transformado em mau, mas considerado culpado.
Em terceiro lugar, ele é considerado como “justo”, a
Lei não tem nada contra ele, porque no caso do
crente todos os seus requisitos foram plenamente
atendidos por seu Fiador. Nós também podemos
considerar, nesse contexto: “Não temais; estai
quietos, e vede a salvação do SENHOR, que hoje
vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca
mais os tornareis a ver” (Êxodo 14:13 – trad. lit.).

Quão profundamente significativo é esta primeira


menção de “salvação”, ela contém todos os
elementos principais de nossa libertação espiritual.
Foi a salvação do Senhor, e de ninguém mais, sim,
eles tiveram que cessar todas as atividades, a fim de
ver a mesma. Ela consistia de uma libertação
milagrosa da morte. Foi algo presente, o que eles
experimentaram naquele dia. Ela também foi
completa e eterna, pois eles “nunca mais” veriam
seus inimigos novamente”.
Muito sugestivo é a referência inicial ao cordeiro.

“Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro


para o holocausto?”

(Gênesis 22:7-8). Quão abençoado e significativo é


observar, em primeiro lugar, que essa conversa
aconteceu entre um pai amoroso e um filho
unigênito (Hebreus 11:17). Em segundo lugar, muito
notável é saber que o cordeiro não seria

demandado do homem, mas fornecido por Deus.


Em terceiro lugar, ainda mais notáveis são as
palavras “Deus proverá para si o cordeiro”, porque
era para atender aos Seus requisitos, e para a
satisfação de Suas reivindicações.

Em quarto lugar, o cordeiro não estava aqui


designado para servir de alimento (pois essa não era
a principal questão que estava em mente), mas “para
o

holocausto”. Em quinto lugar, ele era um substituto


para o filho da promessa, pois, como o verso 13
mostra, “o carneiro” (um cordeiro no auge de sua
força) não só foi fornecido por Deus, mas também
foi oferecido por Abraão, “em lugar de seu filho”!
Quão significativo é descobrir que a palavra
adoração é mencionada pela primeira vez em
conexão com esta cena: “eu e o moço iremos até ali;
e havendo adorado, tornaremos a vós” (v. 5). A
adoração exige que o

adorador se separe dos incrédulos, assim como


Abraão deixou os seus dois servos para atrás dele; a
adoração só é possível com base na ressurreição
(“terceiro dia” – v. 4); e consiste em oferecer a Deus
o nosso melhor — o nosso Isaque.
Como indicativas são as palavras de abertura da Bíblia: “No
princípio... Deus”, aqui é ensinado ao homem a primeira grande
verdade que ele precisa saber: que Deus é, em primeiro lugar, o
autor de todas as coisas, a fonte e origem de todo o bem. A
primeira aparição de Satanás na Bíblia nos revela seu caráter sutil,
os métodos que ele emprega, nos revela que a Palavra de Deus é o
principal objeto de seus ataques e o retrata como o arqui-
mentiroso. Como as primeiras palavras registradas do Redentor:
“Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?”
(Lucas 2:49), resumiram Sua missão e todos os Seus ensinamentos
posteriores, bem como nos deram a entender que isso não seria
apreciado e nem compreendido pelos homens. Muitos outros
exemplos dessa regra da primeira menção podem ser dados, mas
os acima são amplamente suficientes para exemplificar a sua
realidade e valor.

Eles revelam o quanto é importante rastrear as coisas


de volta à sua fonte, e mostrar que Deus pendurou a
chave na porta, para nós a usarmos. E demonstram
a autoria divina da Bíblia, mostrando como os livros
que foram escritos

posteriormente, invariavelmente empregam termos e


frases com significado

uniforme e em perfeita harmonia com a sua menção


inicial. Que provas que

Aquele, que conhecia o fim desde o início inspirou


homens santos do passado com as mesmas palavras
que eles selecionaram e o uso que fizeram delas.
29. A regra do progresso. Posto que as Escrituras são a
“palavra da vida” (Filipenses 2:16), elas são “vivas e eficazes”
(Hebreus 4:12). Longe de ser “um livro morto”, como os papistas,
blasfemando, afirmam, e uma letra morta”, como alguns
protestantes têm

ignorantemente asseverado, a Bíblia é imbuída com


a própria vida de seu Autor.

Este fato é claramente exemplificado no princípio de


progressão que marca todas as suas partes e a si
mesma como um todo. Isso pode ser testado e
verificado por qualquer pessoa competente, que irá
se dar ao trabalho de ler as Escrituras
sistematicamente, ou examinar um assunto do início
ao fim. À medida que isto for feito, ele vai perceber
que a verdade vai sendo desdobrada de forma
ordenada, gradual, progressiva, conduzindo ao
clímax. Não nos é

apresentada primeiro a erva, em seguida a espiga, e


depois o grão cheio na espiga. Enquanto a primeira
menção de uma coisa sugere o seu âmbito e mais ou
menos antecipa o que virá a seguir, as referências
posteriores amplificam isso, cada uma dando a sua
própria contribuição para o todo, e, assim, obtém-se
tanto uma mais clara quanto mais completa
compreensão do mesmo. O caminho da verdade é
como o dos justos: ele “vai brilhando mais e mais”.
Como dissemos há quase quarenta anos, o princípio acima
mencionado é impressionante e abençoadamente ilustrado em
conexão com o Cordeiro. Em Gênesis 22:8, o cordeiro é
profetizado: “Deus proverá para si o cordeiro”. Em Êxodo 12 o
cordeiro é claramente tipificado como “sem mácula”, cujo sangue
forneceu abrigo do anjo destruidor, e cuja carne deveria ser o
alimento do povo de Deus. Em Isaías 53:7, o cordeiro é
definitivamente personificado: “Ele... como um
cordeiro foi levado ao matadouro”. Em João 1:29,
encontramos o cordeiro identificado, como
apontando para Ele, o precursor de Cristo anunciou:
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo”. Em 1 Pedro 1:19, é feita referência a Ele
como o cordeiro que foi crucificado: “...Mas com o
precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro
imaculado e incontaminado”, em Apocalipse 5:6,
vemos o Cordeiro glorificado, pois aquele que teve
a visão em Patmos teve o privilégio de contemplar
no Céu, de pé, “um Cordeiro, como havendo sido
morto”.

Enquanto em Apocalipse 22:1, vemos o Cordeiro


satisfeito: “E mostrou-me o rio puro da água da
vida, claro como cristal, que procedia do trono de
Deus e do Cordeiro”. Nestas passagens podemos
vincular o escopo progressivo visto na validade do
sacrifício de Cristo. Em Gênesis 4:4, para o
indivíduo; em Êxodo 12:3, para a “casa” ou família;
em Levítico 16:21, para a nação e em Efésios 5:25,
para a Igreja e toda a eleição da graça.
Outro exemplo dessa regra do progresso pode ser visto por
rastrear as profecias messiânicas e observar como há “linha por
linha” até que a imagem seja completada. O assunto é muito vasto
para que lidemos com ele exaustivamente aqui, mas vamos olhar
para um único aspecto do mesmo, ou seja, aqueles que dizem
respeito ao nascimento do Messias. Em Gênesis 3:15, foi intimado
para que o destruidor de Satanás seria um membro da raça
humana: a semente da mulher. Gênesis 9:27, revelou de qual das
três

principais divisões da raça humana Ele descenderá:


“E [Deus] habite nas tendas de Sem”. Em Gênesis
22:18, foi dado a conhecer que Ele deveria ser um

israelita: descendência de Abraão. Em 2 Samuel


7:12-13, é anunciado que Ele viria da tribo de Judá:
descenderia de Davi. Em Isaías 11:10 Sua
ascendência é definida ainda mais claramente: Ele
iria nascer da família de Jessé. Em Isaías 49:1, foi
previsto que Ele seria nomeado pelo próprio Deus,
antes de seu nascimento, como, de fato, Ele foi.
Enquanto Miquéias 5:2 especificou o lugar onde Ele
nasceria: Belém. Tais exemplos como esses não só
demonstram claramente a inspiração divina da
Bíblia, mas a evidência de que o cânon das
Escrituras, como o temos agora, foi supervisionado
pelo próprio Deus, pois Sua ordem é tanto
cronológica como lógica.
Há um avanço constante observável nos respectivos propósitos
e escopo dos quatro Evangelhos. Obviamente, Mateus deve vir em
primeiro lugar, pois seu principal propósito é apresentar Cristo
como a realização das promessas do Antigo Testamento e o
Cumpridor das profecias então feitas a respeito do Messias. Pela
mesma razão, Marcos vem em segundo lugar, enquanto no
primeiro Cristo é visto testando o antigo povo da aliança, neste Ele
é visto como ministrando a eles. Mas o Evangelho de Lucas tem
um escopo muito mais amplo, sendo muito mais gentílico em seu
caráter. Nele Cristo é visto em conexão com a raça humana. O
Filho do Homem se relacionando e, ainda assim, contrastando com
os filhos dos homens. O

Evangelho de João nos conduz nos ergue para longe


do chão, enquanto nos

primeiros três relatos evangélicos Jesus é retratado


em suas relações humanas (como o Filho de
Abraão, o Servo de Deus e o homem perfeito), aqui
Sua glória divina resplandece e O comtemplamos
como o Filho de Deus em relação à família de Deus.
Este mesmo princípio também é exemplificada no
que está registrado em seus capítulos finais. Mateus
nos leva mais longe do que a ressurreição de Cristo;
em Marcos 16:19, é feita menção de Sua ascensão;
em Lucas 24:49, é dada a promessa da vinda do
Espírito no dia de Pentecostes; enquanto que o
Evangelho de João termina com uma referência à
Sua segunda vinda!
Os anúncios de previsão que o Salvador fez aos Seus
discípulos a respeito de Seus sofrimentos iminentes observam esse
princípio, sendo cumulativos em suas respectivas revelações.
“Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que
convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos
principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto” (Mateus
16:21). Essa passagem nos forneceu um esboço geral — de acordo
com a regra da primeira menção. “Ora, achando-se eles na Galiléia,
disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue nas mãos dos
homens; e matá-lo-ão” (17:22-23). Aqui, o fato adicional de que
Ele seria traído foi mencionado. “E o Filho do homem será
entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-
lo-ão à morte. E o entregarão aos gentios para que dele
escarneçam, e o açoitem e crucifiquem” (20:18-19). Essa passagem
nos revelou mais das indignidades horríveis que Jesus sofreria.
“Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis
em mim” (26:31). Aqui a perfídia de Seus próprios discípulos foi
predita. Como o Salvador comunicou essa triste notícia a eles
gradualmente! Que consideração por seus sentimentos!
É de se notar que nesses anúncios, como em todas as outras
referências que fez à Sua paixão, o Senhor falou apenas do lado
humano da mesma, sendo totalmente silencioso sobre o aspecto
divino. Em
perfeito acordo com essa regra do progresso, temos
de avançar para além dos Evangelhos (que dão um
relato histórico dos fatos externos) para as Epístolas,
onde o Espírito (enviado para guiar os apóstolos em
[11]
“toda a verdade” ) dá a conhecer o espiritual
concepção e significado interno da Cruz. Ali somos
informados de que a morte de Cristo era tanto
propiciatória quanto expiatória: uma satisfação à
justiça divina, um sacrifício que removeu os pecados
do povo de Deus. Assim também nas Epístolas
descobrimos que, ao mesmo tempo em que nos
Evangelhos os efeitos e bênçãos individuais da
redenção são mais evidenciados, nas Epístolas o
indivíduo não é mais proeminente, uma vez que
agora ele é visto como uma parte de um todo maior
— um membro do corpo de Cristo. É verdade, que
nos Evangelhos, o indivíduo não é ignorado.
Contudo, a proporção entre os aspectos individual e
coletivo mudou: o que é primordial nelas torna-se
secundário das Epístolas. Essa é a ordem natural no
desenvolvimento de verdade.
Capítulo 22
________________________________________

30. A regra da menção completa. Nós já tratamos do princípio


da primeira menção, e mostramos que a referência inicial sobre um
assunto ou a primeira ocorrência de um termo indicado a partir de
seu contexto e da maneira em que foi utilizado revela a força de
seu significado em todas as referências posteriores. Agora nós
trataremos da regra da menção progressiva, à medida em que pode
ser visto que o Espírito Santo tem observado um desenvolvimento
ordenado no desenrolar de cada aspecto da Verdade; e isto, como é
natural, em conexão com a revelação divina: há primeiro a erva,
em seguida a espiga e depois que o grão cheio na espiga. Isso pode
ser ainda ilustrado por um exemplo simples e bem conhecido, a
saber, as três alusões feitas a Nicodemos no Evangelho de João.
Em João 3 vemos a condição da meia-noite de sua alma; em 7:50-
51, vemos, por assim dizer, o amanhecer do crepúsculo; mas em
19:39-40, a luz do dia tinha totalmente raiado. Agora, esses
princípios são aumentados em um terço, pois, como A.T. Pierson
apontou em seu livro muito útil The Bible and Spiritual Criticism
[A Bíblia e a Crítica Espiritual] (atualmente esgotado), em algum
lugar na Bíblia a cada um dos seus temas de destaque é dado uma
apresentação completa e sistemática. Em outras palavras, um
capítulo inteiro é dedicado a um tratamento exaustivo daquilo que
é mais brevemente mencionado em outros lugares. Abaixo, nós
mencionamos brevemente alguns exemplos desse fato —
selecionados a partir do Dr. Pierson, e complementados por nossas
próprias pesquisas.
Êxodo 20 nos dá o Decálogo completa, os Dez Mandamentos
da lei moral são indicados de forma clara e ordenada. O Salmo 119
estabelece a extensão da autoridade, a importância e as diversas
excelência da Palavra de Deus escrita. Em Isaías 53, temos um
quadro completo dos sofrimentos vicários do Salvador. João 17
contém uma descrição completa sobre o assunto da intercessão,
revelando a substância das coisas que nosso grande Sumo
Sacerdote pede ao Pai por Seu povo. Em Romanos 3:10-20, temos
o diagnóstico mais detalhado da condição depravada do homem
caído que pode ser encontrado na Bíblia. Em Romanos 5:12-21, a
fundação da doutrina da representação federal é grandemente
desenvolvida. Em Romanos 7, o conflito entre as “duas naturezas”
no crente é descrito como em nenhum outro lugar. Em Romanos 9
a terrível soberania de Deus, na eleição ou reprovação, é tratada
mais longamente do que em quaisquer outros lugares. Em 1
Coríntios 15 a ressurreição do corpo do crente é retratada em seu
pleno esplendor. Em 2 Coríntios 8 e 9 cada aspecto da doação
cristã e os motivos variados, que devem nos levar a sermos
benevolentes são demonstrados. Em Hebreus 2:6-18, encontramos
a mais clara e abrangente declaração da realidade da humanidade
de nosso Senhor. Em Hebreus 11 temos um esboço
maravilhosamente completo da vida de fé. Hebreus 12 nos fornece
um extenso tratamento do assunto do castigo divino. Em Tiago 3
temos um resumo do que o resto da Bíblia ensina a respeito da
força e malícia da língua. O todo da Epístola de Judas é dedicado
ao tema solene de apostasia.
Nesses capítulos temos nos esforçado para colocar diante de
nossos leitores quais as regras que temos usado há muito tempo
em nosso próprio estudo da Palavra. Elas foram projetadas mais
especialmente para os jovens pregadores, nós não poupamos
esforços para torná-los tão lúcidos e completos quanto possível,
colocando em suas mãos esses princípios de exegese que nos eram
de grande proveito. Apesar de não ser uma regra distinta da
hermenêutica, algumas observações necessitam ser feitas sobre o
assunto de pontuação, porque desde que não existe nenhum dos
manuscritos originais, a forma e o modo de dividir o texto é muitas
vezes uma questão de interpretação. As primeiras cópias
apresentavam um texto corrido, sem capítulos e versos, e menos
ainda eles possuíam quaisquer marcações de suas frases e
sentenças. Também deve ser salientado que o extenso uso letras
maiúsculas em versos como Êxodo 3:14, 27:3; Isaías 26:4; Jeremias
23; Zacarias 14:20 e Apocalipse 17:6, 19:16, originou-se com a
[12]
Versão Autorizada de 1611, pelo que elas não são encontradas
em nenhuma das traduções anteriores. Elas não possuem qualquer
autoridade, e foram usadas para indicar o que os tradutores
consideraram de particular importância.
O uso de parêntesis é inteiramente uma questão de
interpretação, pois não havia nenhum nos originais e poucos nas
primeiras cópias Creek. Os tradutores os consideraram necessários
em alguns casos, de modo a indicar o sentido de uma passagem
por preservar a continuidade do pensamento, como em Romanos
5:13-17, que é incomumente longo. Alguns dos exemplos mais
simples e mais conhecidas são Mateus 6:32; Lucas 2:35; João 7:50;
[13]
Romanos 1:2. Não é para ser pensado que as palavras entre
colchetes são de menor importância; às vezes eles são uma
amplificação, como em Marcos 5:13; em outros, são explicativas,
como em Marcos 5:42; João 4:2. Em vez de possuir apenas uma
importância trivial, uma série de frases entre parênteses são de
profunda significação. Por exemplo: “Porque eu sei que em mim
(isto é, na minha carne,) não habita bem algum” (Romanos 7:18 –
trad. lit.), a ausência da palavra de qualificação tinha negado que
houvesse qualquer princípio da graça ou santidade nele. Exemplos
semelhantes são encontrados em 2 Coríntios 5:7 e 6:2. Por outro
lado, alguns são de propriedade duvidosa: nem todos vão
considerar que os parênteses encontrados nas seguintes passagens
são necessários ou mesmo oportunos: Marcos 2:10; João 1:14,
7:39; 1 Coríntios 9:21; 2 Coríntios 10:4 e Efésios 4:9-10. Abaixo
estão três passagens em que esse escritor considera o uso de
parênteses é uma verdadeira ajuda para a compreensão delas.
Em nossa opinião é necessária uma tripla mudança na
pontuação de 1 Coríntios 15:22-26. Em primeiro lugar, a frase
“depois virá o fim” deve ser colocada no final do verso 23 e não
no início do verso 24, pois completa a frase, em vez de começar
uma nova. Em segundo lugar, a totalidade do verso 25 necessita de
ser colocado em parêntesis, para que a sequência do pensamento
seja preservada. Em terceiro lugar, as palavras em itálico nos
versos 24 e 26 devem ser suprimidas, pois elas são não só
desnecessárias, mas enganosas. Pontuada assim, a passagem ficará:
“Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também
todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um [literalmente
“todos”] por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de
Cristo, na sua vinda. Depois virá o fim”. Como o pecado de Adão
resultou não apenas em sua própria morte, mas também na morte
de todos os que estavam nele como sua cabeça federal, assim a
obediência até a morte de Cristo não só obteve a sua própria
ressurreição, mas garante a ressurreição de todos os que estão
unidos a ele como sua cabeça federal: a ressurreição em honra e
glória — a ressurreição dos maus “para vergonha e desprezo
eterno” não se enquadra no escopo desse capítulo. A cláusula,
“depois virá o fim” denota não “a cessação de todos os assuntos
seculares”, mas significa a conclusão da ressurreição — a
conclusão da colheita (João 12:24).
Ao colocar a sua primeira frase no final do verso 23, o que se
segue no verso 24 começa uma nova sentença, embora não seja
um assunto novo. “Quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai,
[não em Seu aspecto mediatorial, mas apenas que um dos seus
aspectos que diz respeito à supressão de todos os rebeldes contra o
Céu] e quando houver aniquilado todo o império, e toda a
potestade e força. (Porque convém que reine até que haja posto a
todos os inimigos debaixo de seus pés). Ora, o último inimigo que
há de ser aniquilado é a morte”. Cristo ressuscitou para reinar:
todo o poder no Céu e na Terra foi dado a Ele com o propósito
expresso de subjugar e aniquilar todos os inimigos dEle mesmo e
de Seu pai, e essa questão da aniquilação da morte na ressurreição
gloriosa de todo o Seu povo. O grande objetivo ao longo desse
capítulo é mostrar a garantia que a ressurreição de Cristo dá para
os Seus remidos — o que era negado por alguns (v. 12). Que esse
assunto é continuado depois da passagem que estamos aqui
criticamente examinando resulta dos versos 29-32, onde outros
argumentos são citados — desde o caso daqueles que são
batizados até às próprias experiências de Paulo. Os versos 24-26
são projetados para assegurar aos corações dos crentes que embora
muitos inimigos poderosos procurem destruí-los, os seus esforços
são totalmente inúteis, pois Cristo triunfará sobre todos eles — a
própria morte está sendo aniquilada em sua ressurreição.
A maioria dos comentaristas tiveram dificuldades ao tentar
rastrear o curso do argumento do apóstolo em Hebreus 4:1-11. A
sua estrutura é realmente muito intrincada, mas não um pouco de
luz é lançado sobre ele, se colocarmos os versos 4-10 entre
parênteses. A exortação iniciada em 3:12, não é concluída até 4:12,
é alcançada: tudo o que intervém consiste em uma exposição e
aplicação da passagem que cita o Salmo 95 em 3:7-11. O elo de
ligação entre os dois capítulos é encontrado em: “E vemos que não
puderam entrar por causa da sua incredulidade” (3:19). Nessas
palavras se baseia a admoestação de 4:1-3, que nos convida a
levarmos a sério a advertência solene que é dada. A primeira frase
do verso 3, quando literalmente apresentada, fica: “Pois nós
entramos no descanso, nós que cremos” — a tensão histórica é
assim evitada. Não é nem “entraram” nem “entra”, mas uma
afirmação abstrata de um fato doutrinário — Somente os crentes
entram no repouso de Deus. A segunda metade do 4:3, cita
novamente o Salmo 95.
Nos parênteses de 4:4-10, o apóstolo entra em uma discussão
sobre o “repouso” que o salmista falou e que ele estava exortando
seus leitores a se esforçarem para entrar, dizendo-lhes para tomar
cuidado para que não ficasse fora do mesmo. Em primeiro lugar,
ele apontou (vv. 4-6) que Davi não se referiu ao próprio descanso
de Deus na criação e nem ao repouso do sábado que se seguiu do
mesmo. Em segundo lugar, nem era o repouso de Canaã (vv. 7-8)
para a qual Josué levou Israel. Em terceiro lugar, era algo então
futuro (v. 9), ou seja, o descanso anunciado no Evangelho. Em
quarto lugar, no verso 10, há uma notável mudança de número a
partir do “nós” no verso 1 e o “nós” do verso 3 com “aquele que
entrou no seu repouso”, onde a referência é ao próprio Cristo —
Sua entrada sendo tanto a promessa quanto a prova de que o Seu
povo também fará o mesmo: “onde Jesus, nosso precursor, entrou
por nós” (6:20). Em 4:11, o apóstolo retorna para a sua principal
exortação de 3:13 e 4:1-3. Lá, ele havia dito: “Temamos, pois, que,
porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça
que algum de vós fica para trás”; aqui ele dá a conhecer como esse
“temor” deve ser exercido: não no medo ou dúvida, mas como um
respeito reverente às ameaças e às promessas divinas, com um uso
diligente dos meios de graça prescritos.
“Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer
cada dia sacrifícios (primeiramente por seus próprios pecados, e
depois pelos do povo); porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se
a si mesmo” (Hebreus 7:27). Este é outro verso que tem
incomodado os comentaristas, mas toda dificuldade é removida
inserindo os parênteses acima. Nesse e no verso seguinte, o
apóstolo especifica alguns dos aspectos em que nosso Sumo
Sacerdote é superior aos sacerdotes da ordem Aarônica. Suas
perfeições, descritas no verso 26, isentou-o de todos as fraquezas e
imperfeições que pertencem aos sacerdotes levitas, e que os
desqualificavam para fazerem uma expiação eficaz a Deus pelo
pecado. Em bendito contraste, Cristo foi infinitamente agradável a
Deus: Ele é não somente sem transgressão e corrupção pessoal,
mas intrinsecamente santo em Si mesmo. Assim, não só não há
necessidade dEle oferecer qualquer sacrifício por Si, mas Sua
oferta por Seu povo foi de valor infinito e validade eterna.
“Porque isto fez ele, uma vez”, anuncia o fato glorioso de sua
suficiência absoluta: que isto não requer nenhuma repetição de Sua
parte, nem de acréscimo da nossa.
O uso de itálicos é também, em grande parte, uma questão de
interpretação. Na literatura comum eles são empregados para dar
ênfase, mas em nossas Bíblias estão inseridos pelos tradutores com
o objetivo de tornar o sentido mais claro. Às vezes, eles são úteis,
outras vezes prejudiciais. No Antigo Testamento, isto é, em certos
casos, mais ou menos necessário, pois o hebraico não tem
[14]
copulativo, mas junta-se o sujeito ao predicado, o que dá uma
ênfase de forma abrupta a que a mente dos falantes de português
está acostumada, como em: “Desde a planta do pé até a cabeça —
não há nele coisa sã... A vossa terra — assolada, as vossas cidades
— abrasadas pelo fogo” (Isaías 1:6-7). Na grande maioria dos
casos, esse escritor ignora as palavras adicionadas pelos homens,
considerando que isto seja a coisa mais reverente a ser feita, bem
como a que mais contribui mais diretamente para a obtenção do
sentido original. Em alguns casos, os tradutores perderam muito
do pensamento real da passagem, como na última frase de Êxodo
2, em que “atentou Deus para a sua condição” deveria ser “atendou
Deus para ela”, ou seja, “Sua aliança com Abraão, com Isaque, e
com Jacó”, do verso anterior. A última palavra de Daniel 11:32, é
demasiado restritiva — fazendo a Sua vontade também está
incluído.
Mas é no Novo Testamento que a maioria dos erros ocorrem.
Lá encontramos algumas de passagens onde adições desnecessárias
foram feitas e em que o significado foi mal compreendido,
falsificado pelas palavras acrescentadas pelos tradutores. Em
Romanos 8:27, “a vontade de Deus” é também contraída — Sua
aliança, Sua Palavra, Sua graça e misericórdia, não devem ser
excluídas. O “de outro” em 1 Coríntios 4:7, indevidamente
restringe o âmbito de aplicação — a partir do que você era quando
não-regenerado não deve ser excluído. “Inspirador” é preferível a
“autor” em 1 Coríntios 14:33, pois Deus é o Decretador de todas as
coisas (Romanos 11:36), ainda que não o Incitador de confusão. É
muito duvidoso que a expressão “a natureza do” seja permitida em
Hebreus 2:16, pois não é a encarnação divina que está em vista
(que temos no v. 14), mas sim o objetivo e consequência da
mesma. A sua palavra de abertura “porque” olha para trás,
remotamente, com os versos 9 e 10; imediatamente, para os versos
14 e 15. No verso 16 a razão é dada do porquê Cristo provou a
morte por “cada filho”, e por que Ele destruiu (anulou o poder de)
o Diabo, a fim de libertar seus cativos, isto é, porque Ele tomou
(assumiu) não a causa dos anjos (os caídos), mas tomou a semente
escolhida de Abraão — assim uma base é aqui estabelecida para o
que é dito no verso 17.
2 Coríntios 6:1, é uma circunstância ainda pior, pois, inserindo
as palavras “com ele” um pensamento totalmente estranho ao
âmbito do apóstolo é introduzido, e uma base é dada para uma
horrível vanglória. Paulo estava se referindo aos esforços
conjuntos dos servos de Deus: um planta e outro rega (1 Coríntios
3:5-6). Pois dizer que eles eram “trabalhadores junto com Deus”
seria dividir as honras. Se algum acréscimo deve ser feito, esse
deve ser algo como “sob” Ele. Os ministros da nova aliança foram
companheiros de trabalho, apenas “cooperadores” da alegria (1:24)
do povo de Deus. Assim também a pontuação correta (como o
grego requer) de 1 Coríntios 3:9, é: “Porque nós somos de Deus:
cooperadores no trabalho; vós sois lavoura de Deus e edifício de
Deus”. Um outro exemplo deve bastar. O acréscimo “para nos
conduzir” em Gálatas 3:24, causa uma grande perda do escopo da
passagem, e inculca uma falsa doutrina. O apóstolo não estava ali
tratando com o lado experimental das coisas, mas com o lado
dispensacional (como os versos do próximo capítulo de abertura
demonstrar); não com os perdidos, como tais, mas com o povo de
Deus sob a Antiga Aliança. A Lei nunca trouxe um único pecador a
Cristo, o Espírito Santo é que faz isso, e embora Ele use a Lei para
convencer almas de sua necessidade de Cristo, o Evangelho é o
meio que Ele emprega para conduzi-los a Cristo.
Agora uma ou duas breves observações e concluímos. O
trabalho do expositor é trazer à tona o significado gramatical e
espiritual de cada verso com que ele lida. A fim de fazer isso, ele
deve abordá-lo sem viés ou preconceito, e diligentemente estudá-
lo. Ele não deve assumir que sabe o seu significado nem aderir às
visões doutrinárias dos outros. Nem deve formar suas próprias
opiniões a partir de alguns versos isolados, mas cuidadosamente
comparar as suas ideias com toda a analogia da fé. Cada verso
requer ser examinado criticamente, e cada palavra cuidadosamente
ponderada. Assim, ele deverá notar o “é agradável” de Atos 10:35,
e não “deve ser”, e “são” (em vez de “serão”) em Hebreus 3:6,14
— tirando a tensão mental nesses versos poderiam inculcar falsa
doutrina. Um cuidado minucioso é necessário se quisermos
observar o “o Senhor e Salvador” de 2 Pedro 2:20 (não “seu”), e o
“nossos” e não “seus” de 1 Coríntios 15:3. Finalmente, não é da
competência do intérprete explicar o que Deus não explicou
(Deuteronômio 29:29), ou seja, os seus “caminhos” (Romanos
11:33), milagres, etc.

Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Gloria!

[1]
Capítulo I, parágrafo I, Sobre As Sagradas Escrituras, de A
Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 (CFB1689).
[2]
William R. Downing. Um Catecismo de Doutrina Bíblica.
Introdução: O Uso Prático de um Catecismo.
[3]
Na versão ACF, Gênesis 22:1-2 traz a palavra “provou” em vez
de “tentou”: “Provou Deus a Abraão, e disse-lhe... Toma agora o
teu filho, o teu único filho... e oferece-o ali em holocausto”. Este
detalhe aparentemente muito simples, fruto de uma tradução
primorosa, evitaria toda a aparente contradição sobre a qual Pink
discorrerá a seguir.
[4]
Capítulos X e XI, Livro II – N.T.
[5]
“Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e
amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós,
homens de pouca fé?”.
[6]
“E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?”.
[7]
Em Inglês: Elders.
[8]
Pink faz referência a Richard Chenevix Trench (1807-1886), e
seu livro: Notes on the parables of Our Lord [Notas sobre as
parábolas de Nosso Senhor].
[9]
Embora a argumentação de Pink sobre Ló seja notável e
mereça atenção, é também notório que Pink ao buscar
fundamentar seu ponto com algumas passagens das Escrituras,
acaba ignorando a analogia da fé e contradizendo o verdadeiro e
claro testemunho das Escrituras a respeito de Ló, que encontra-se
na Segunda Epístola de Pedro 2:7-8: “E livrou o justo Ló,
enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (porque este
justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa,
vendo e ouvindo sobre as suas obras injustas)”. Não me recordo
de algum caso nas Escrituras em que alguém é chamado de justo
três vezes em apenas dois versos, o que deixa claro que Ló era um
justo e não o contrário – N.T.
[10]
Ethelbert William Bullinger (15 de dezembro de 1837 - 2 de
junho 1913).
[11]
Cf. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos
guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas
dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir”
(João 16:13) – N.T.
[12]
Versão Autorizada da Bíblia Versão King James (King James
Version - KJV) – N.T.
[13]
A partir daqui até a conclusão, como em todo este livro, o
autor usa como referência a Versão King James, enquanto nós
tradutores usamos a versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel
(ACF) que apresenta algumas variações em relação a versão usada
por Pink, tanto no uso dos parênteses e itálicos, quando na redação
do próprio texto. Por este motivo foi um pouco dificultada a
compreensão de alguns detalhes e pontos específicos doravante
tratados.
[14]
Gramática: Diz-se do verbo que une o sujeito ao nome
predicativo do sujeito – N.T.
Table of Contents
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22