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A rede de fortificações na Amazônia brasileira: uma

abordagem sobre a militarização


(séculos XVII e XVIII)1

Mírcia Ribeiro Fortes*

RESUMO ABSTRACT

O presente artigo objetiva abordar sucin- This article briefly treats the organization
tamente a constituição da rede de fortificações of the network of fortresses in the Brazilian
na Amazônia brasileira, durante os séculos Amazon during the 17th and 18th centuries as
XVII e XVIII, como ação espacial de defesa e an action by Portugal for the defense of space
de conquista do território por Portugal frente and land conquest in view of the invasions by
às invasões de outros povos europeus. Por other European nations. Furthermore, it seeks
outro lado, visa, em linhas gerais, esboçar to roughly sketch how the process of hierar-
como se deu o processo de organização chical organization of the system of points
hierárquica do sistema de pontos que confi- which configured the present “territorial pro-
gurou a ‘produção territorial’ atual. duction” came about.

Palavras-chave: Região amazônica, forti- Key words: Amazon region, fortifica-


ficações, expansão territorial. tions, territorial expansion.

...a tarefa do Estado continua sendo em última (redes, fluxos, circulações), representá-lo para
análise apenas uma: a da proteção. O Estado pro- obter informação e marcá-lo por limites
tege o território contra as violações vindas de visíveis, ou não imediatamente perceptíveis.
fora, que poderiam reduzi-lo [...] servem a este Sobre estas práticas, Raffestin (1993) propôs a
objetivo [...] as fronteiras e as disposições para a seguinte questão: “Ao se apropriar de um
defesa destas [...] o tráfico e o desenvolvimento espaço, concreta ou abstratamente (por exem-
dos recursos do solo, em suma todos os meios plo, pela representação), o ator ‘territorializa’
que servem para aumentar a potência do Estado, o espaço”.
cuja missão última é e continuará sendo sempre
a da proteção (Friedrich Ratzel). A história da ocupação da Amazônia se
enquadra nessa concepção geopolítica. E,
INTRODUÇÃO mais ainda, por detrás da idéia de “território a
conquistar” construiu-se uma significância
Toda ação espacial no território permite para a Amazônia, a terra incognitae. A partir
garantir a posse e o controle sobre ele, estabe- desta imagem avidamente explorada, surgi-
lecer ordens e efetuar a integração. Entretanto, ram outras idéias com o intuito de, a partir da
para que haja a territorialidade é necessário difusão das mesmas, materializar estratégias
instalar um sistema territorial organizado geopolíticas, tais como “cristianização e paci-

*Aluna do Curso de Mestrado em Natureza e Cultura na Amazônia da Universidade do Amazonas.

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ficação do gentio”, “guerras justas contra a do a declaração do comandante francês Daniel


antropofagia”, “desbravamento do paraíso”, de la Touche, quando foi preso pelos por-
“Rio do Ouro”, entre outras. Isto quer dizer tugueses no Maranhão, em 1615 (Carvalho,
que todos os aspectos do meio ambiente só 1985: 95). O referido comandante, declarou,
existem para nós quando estão relacionados também, para o comandante português Diogo
às nossas intenções. de Campos Moreno, que havia elaborado um
desenho dessa área recém-descoberta: “Vos
Neste sentido, focalizar a rede de fortes hei de dar o desenho que fiz de tudo isto até o
de defesa na Amazônia brasileira, do final da Pará, em que me aventurei e trabalhei muito”
metade do século XVII ao final da primeira (Carvalho, idem).
metade do século XVIII, é, antes de tudo, reco-
nhecer o processo de militarização que operou Nota-se que os franceses mantiveram
na dinâmica de apropriação e controle da contatos com as populações indígenas antes
“natureza” amazônica pela Coroa portuguesa. dos portugueses:

Para a compreensão do significado da Há que se reconhecer que o pioneris-


construção da rede de fortes no vale amazôni- mo de colonização no Norte do
co, deve-se depreender que esta para surgir Brasil como uma empresa organiza-
pressupõe tessituras e implantação de pontos, da cabe aos franceses numa primeira
visto que esse tripé constitui o sistema terri- etapa, porque as duas tentativas por-
torial ou essencial visível, no dizer de tuguesas do século XVI, a de Aires
Raffestin. De início, torna-se necessário acen- da Cunha (1535) e a de Luiz de Mello
tuar que a trama da rede, nos séculos XVII e da Silva (1539) foram fracassadas
XVIII, assegurou o controle do e no espaço completamente (Carvalho, op. cit.:
amazônico, na medida que delimitou ter- 95-96).
ritórios e exprimiu a relação que os europeus
mantiveram com esta porção do espaço. A presença holandesa no litoral ama-
zônico teve início em 1599, com a construção
A FORMAÇÃO DA REDE DE dos fortes de Orange e de Nassau, na margem
FORTIFICAÇÕES esquerda do rio Xingu, os quais em 1625
foram tomados pelos portugueses, e feitorias
Antes da chegada dos conquistadores em Marioca (Gurupá) e Gurupatuba (Monte
luso-brasileiros na baía de Guajará, a Ama- Alegre), a serviço da Companhia das Índias
zônia, no século XVI, já fora explorada por Ocidentais. Entretanto, as expedições holan-
franceses, holandeses, irlandeses e ingleses, desas não se limitaram apenas à costa, pois
que fundaram núcleos desde o litoral do chegaram até as proximidades do rio Tapajós:
Amapá até o baixo curso do rio Amazonas, ou
seja, entre o Oiapoque e as proximidades da Pedro Adriansen, com 40 colonos,
foz do rio Tapajós. muitos dos quais haviam trazido as
respectivas famílias, depois de visi-
Os franceses, com o intuito de fundar tar o Tapajós, localizou-se entre o
estabelecimentos, freqüentemente percorriam Gurupatuba e o Jenipapo, no baixo
o litoral do Pará e do Maranhão, passando do Amazonas. Fundou uma colônia e
rio Pará para o interior até 250 léguas, segun- um forte. Abriu comércio com o gen-

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tio local, os Supana, encetando la- Seus estabelecimentos já se esten-


voura do tabaco e do urucu. Os resul- diam pela costa do Macapá, região
tados constataram-se no comércio das ilhas, Xingu, aproximando-se do
regular que se processou (...) com Tapajós. Ao lado dos estabele-
aquele porto holandês, para onde se cimentos coloniais levantavam pe-
exportavam as especiarias amazôni- quenas fortificações, que seriam raiz
cas (Reis, 1982: 26). das praças fortes que garantiam, ima-
ginavam, pelos tempos adiante, o
O Conselho das Índias em Madrid, em domínio cujas bases lançavam com
1615, obteve cópia de um mapa holandês tanto êxito e sob tantas facilidades
que continha informações vitais e secretas (1997: 24-25).
da foz do rio Amazonas até o litoral da Ilha
Margarita. Isso demonstra que “...os mapas Para defender o território das pretensões
podem servir (...) para sustentar pretensões de outros países, o governo de Portugal insta-
territoriais...” (Dreyer-eimbcker, 1992: 227), lou na região um dispositivo de defesa em
além de que a imagem ou a representação da pontos estratégicos – as fortificações –, que
realidade é um instrumento de poder e de lhe permitiu a exploração das riquezas natu-
ação. rais, até então contrabandeadas por outros
europeus, bem como a penetração, a con-
Quanto aos ingleses, desde 1594 já quista e o domínio do interior, como ressalta
incursionavam pela região. Estabeleceram Bertha Becker:
postos no Oiapoque e fortes como Torrego, na
ilha do Tocojus (Santana) fundado em 1628, O controle de posições estratégicas
North, fundado em 1629, e Cumaú, no Amapá, como instrumento de apropriação
fundado em 1632. Estes empreendimentos do território está na raiz da forma-
coloniais, organizados com capital privado, ção geopolítica brasileira. Geopolí-
possuíam plantações de tabaco e de cana, e tica de lógica sempre militar, que
fabricavam açúcar, recebendo ajuda, para tal, esteve presente na estratégia de
de índios aliados. conquista e defesa do território da
colônia pela Coroa portuguesa por
Assim, como esses europeus preten- três séculos (...) nas disputas pelo
dessem fixar uma base inicial de ocupação con trole das grandes bacias do
humana e econômica, através da criação de Prata e do Amazonas... (Becker e
estabelecimentos mercantis e militares, já que Egler, 1994: 35).
há tempos mantinham contato de escambo
com os índios e exploravam os recursos da Sem dúvida, a presença de franceses,
região pois estavam vinculados a empresas holandeses, irlandeses e ingleses fora a
comerciais monopolistas européias, os por- questão crucial que obrigou os lusitanos a
tugueses tomaram consciência do perigo que intensificar suas viagens ao longo do rio
representava a presença constante desses Amazonas, tanto para tomar posse de fato do
estrangeiros no litoral norte. território quanto para expulsá-los, o que foi
feito com a ajuda de grupos tribais.
Como escreve Arthur Reis:

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Um ano após a capitulação dos franceses Os fortes ingleses de Torrego, North e


no Maranhão, Francisco Caldeira Castelo Cumaú, foram tomados respectivamente em
Branco instala, em 1616, o Forte do Presépio 1629, 1631 e 1632. Sob as ruínas do Forte
(onde hoje está situado o Forte do Castelo) murado de Cumaú, os portugueses ergueram o
numa enseada do estuário do Amazonas. A Forte de Santo Antônio, em 1688.
fundação desta fortaleza servia como um sinal
de posse, ao mesmo tempo que significava A primeira incursão portuguesa subindo
uma estrutura de defesa e de conquista do vale o Amazonas, mais precisamente no rio
amazônico. Vale ressaltar que neste sítio Tapajós, foi realizada em 1626 por Pedro
defensivo surgiu o núcleo urbano Santa Maria Teixeira. A fortaleza de Tapajós, erigida no
de Belém do Grão-Pará. Deste, partiram as mesmo ano, teve suma importância pela sua
ações portuguesas para expulsar os estran- posição estratégica: as cabeceiras do rio
geiros, o que resultara na criação de novos Tapajós além de ficarem próximas às áreas de
estabelecimentos militares e na implantação mineração de Cuiabá, possivelmente teriam
de missões religiosas, ou seja, dos primeiros ligação, pelo rio Cuiabá, com o rio da Prata
núcleos de povoamento. (João Daniel, 1976: 39).

As ofensivas militares portuguesas ini- Mas foi somente com a expedição de


ciaram-se efetivamente em 1623, com a toma- reconhecimento da calha do rio Amazonas
da do Forte de Marioca aos holandeses, onde executada por Pedro Teixeira que o espaço
posteriormente foi construído o Forte Santo amazônico torna-se da Coroa portuguesa, em
Antônio de Gurupá, com o intuito, principal- nome de Felipe IV da Espanha, face à União
mente, de fiscalizar a Costa do Cabo Norte, Peninsular. Pedro Teixeira, em 1637, iniciou
por onde dirigiam-se as naus inimigas da a viagem a partir de Cametá rumo a Quito
Coroa lusitana para povoar e/ou comercializar com 47 canoas de guerra, 70 soldados e 1200
com as sociedades tribais. “índios de voga e guerra”, e tinha como pilo-
to o português Bento da Costa, o qual
No ano de 1624, o Conselho de Sua Ma- elaborou o primeiro mapa preciso do rio
gestade recebeu um memorial que “...denun- Amazonas. No retorno, em 1639, na con-
ciava a existência dos preparativos em fluência dos rios Aguarico e Napo fundou o
Holanda para enviar 4 navios para ir à con- núcleo Franciscano. Esta ação comandada
quista do Grão-Pará...” (Carvalho, op. cit.: com o objetivo de “território a conquistar”,
100). Os holandeses presumiam que poderiam delimitou a fronteira de Portugal e de
conquistar o Grão-Pará com muita facilidade, Castela. Cabe ressaltar que este procedimen-
porque argumentavam ser uma região pouco to já estava expresso no regimento de Bento
povoada e que o número de soldados por- Maciel Parente, capitão-mor do Grão-Pará
tugueses não chegava a cento e trinta. (1626), citado por Carvalho (Op. cit.: 103):
“Não deixar memória de qualquer nação
Neste sentido, em um só ano, 1624, os estrangeira invasora”.
portugueses destruíram as fortificações holan-
desas de Nassau, de Orange e de Gurupatuba. E Dentro do propósito de “território a con-
para a manutenção da fronteira norte e da mar- quistar” estava a orientação para uma política
gem esquerda do Amazonas, ergueram sobre as de ocupação:
ruínas do Forte de Gurupatuba o Forte do Paru.

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O referido Regimento de Parente con- O rio Negro é freqüentado pelos por-


tém as normas usuais para que se esta- tugueses há mais de um século, e
belecesse a colonização e o povoa- eles fazem ali um grande comércio
mento. As ordens de Lisboa eram para de escravos. Há continuamente um
que se aldeassem os índios e com eles, destacamento da guarnição do Pará
como aliados, se desse combate aos acampado nas bordas, para impor
estrangeiros. (Razões de guerra e defe- respeito às nações indígenas que as
sa) (Carvalho, op. cit.: 104). habitam e favorecer o comércio de
escravos nos limites prescritos pelas
Foi ainda no avanço da conquista do leis de Portugal. Ano a ano, esse
sertão amazônico que se construiu uma nova acampamento volante, ao qual se dá
linha de fortes: o nome de “tropa de resgate”, penetra
mais adiante nas terras (1992: 83).
A ocupação portuguesa tinha, antes
de mais nada, um sentido militar: Verifica-se que a fortaleza do Rio Negro
entre 1612 e 1802, cerca de 40 for- era a base tanto de operação militar para toda
talezas foram construídas na região, bacia do rio Negro, contra possíveis preten-
bloqueando seus acessos, por mar ou sões territoriais de outros países, quanto base
pelo interior, a outras potências de operação exploratória de recursos. Vale,
(Salati, 1990: 34). ademais, igualmente lembrar que o forte cons-
tituía-se em um ponto para as saídas das
Deste modo, a fortaleza de Pauxis, situa- tropas de resgate, além de que era daí que par-
da no estreito de Óbidos, foi mandada cons- tiam os soldados com avisos para diversos
truir pelo capitão-general Antônio de Albu- lugares próximos. Para Raffestin, os atores,
querque Coelho de Carvalho, quando este ao nesse sentido, através de uma rede de comu-
passar por aquele ponto achou que a situação nicação asseguram a permanência de funções
era muito vantajosa para uma fortificação, e controlam o espaço. Pode-se dizer, ainda,
pois as margens do rio se aproximam, forman- que a fortaleza era um locus de referência que,
do a “garganta do Amazonas”, com aproxi- na trama da rede, ligava as ações postas na
madamente 1.892 metros de largura. O padre bacia com Belém, que era o centro da tessitu-
jesuíta João Daniel considerou a fortaleza de ra territorial.
Pauxis a mais importante do Pará, porque
“podia atacar com suas balas” toda a largura A partir de 1787, a fortaleza passou a ter
do rio. outra importância: protegia os pesqueiros de
tartaruga no rio Solimões (Caldeirão), do qual
Outra fortaleza construída foi a de São saíam provisões para a tropa que estava aloja-
José do Rio Negro (1669), na margem esquerda da na Vila de Barcelos, e do lago do Pura-
deste rio e no seu ponto mais estreito. La quequara. Entretanto, esta posição foi paulati-
Condamine na sua viagem pelo Amazonas, no namente perdendo importância, pois em 1831
período de 1735 a 1745, relata que o forte era com a narrativa da passagem do Pacífico ao
o primeiro estabelecimento português que se Atlântico pelo tenente inglês Henrique Lister
encontrava ao norte do rio Amazonas. Ao des- Maw, o Forte do Rio Negro era apenas uma
cê-lo La Condamine escreve sobre sua impor- guarnição com aproximadamente cento e
tância estratégica: oitenta soldados, os quais eram utilizados pa-

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ra fazer ronda, em patrulha, pelas ruas da Bar- O Forte de São Gabriel das Cachoeiras
ra (Maw, 1989: 212). O referido tenente co- ou da Cachoeira Grande foi edificado por dois
menta ainda que a Guarnição da Barra era um motivos: com a preocupação de conter pos-
porto principal para as embarcações: ...todas síveis penetrações espanholas, especialmente
as embarcaçoens do rio, passando para baixo jesuítas que missionando pelo Orinoco e
ou para cima do Amazonas, são obrigadas a Cassiquiari desejavam implantar domínio; e
pararem na Barra, até que haja comunicação porque ali deviam descer os demarcadores
com a vila de Barcelos... (210) espanhóis (Reis, 1966). O Comandante das
Fronteiras que comandava esta fortaleza – su-
Segundo Reis, o Forte São José do Rio bordinado ao oficial que comandava o Forte
Negro foi um estabelecimento muito cobiçado de Maribatanas – era também incumbido de
pelos candidatos a cargo de comandante: facilitar o comércio de farinha que se fazia
com os índios. Segundo um documento a
Os comandantes, negociando com os lápis grafite de autoria anônima, escrito em
sertanistas, fechando os olhos ao que 1762, com o título Memória sobre o Governo
eles traziam na baixada, rumo de do Rio Negro, o destacamento de São Gabriel
Belém, faziam seu pé-de-meia gros- tanto guarnecia a fronteira quanto objetivava:
so, donde a disputa que se conhecia
entre os candidatos ao cargo. O ...conter em ordem as novas Povoa-
comando, todavia, esteve sempre em ções, que se estabeleceram nas vizi-
mãos de oficial de patente reduzida: nhanças da Cachoeira, e para poder
alferes e tenente (Reis, 1966: 19-20). reprimir qualquer sublevação, ou
rebelião daqueles Gentios, que pos-
A ação expansionista durante o século tos com desamparo seguirão resolu-
XVIII, principalmente entre 1750 e 1780, por ções mui contrárias ao interesse Por-
um lado estava repousada sobre a demarcação tuguês (Bol. de Pesquisa CEDEAM, v.
dos limites do território amazônico (Tratado 2, nº 2, p. 43, 1983).
de Limites de 1750), para garantir a posse ra-
tificada e/ou legítima de um território dis- O Forte de Maribatanas tinha a sua impor-
putado pelas duas Coroas ibéricas, e, por tância estratégica por ficar próximo das forta-
outro lado, estava vinculada à política pom- lezas espanholas de São Carlos e de São Fili-
balina. Neste contexto, construíram-se vários pe, esta última edificada defronte da primeira,
fortes nas fronteiras das áreas em litígio, tais ambas situadas às margens do rio Negro.
como o de São Gabriel das Cachoeiras (1762)
e o de São José de Maribatanas, no alto rio Como os holandeses do Suriname e os
Negro, o de Tabatinga (1766), no rio Solimões, ingleses da Guiana, passando do rio Es-
o de São Joaquim (1778), no rio Branco, e o sequibo ao rio Branco pelos rios Rupununi e
Forte Príncipe da Beira (1776), no rio Tacutu, respectivamente, buscavam escravos
Guaporé, e reedificaram-se outros, como, por para as plantações e procuravam relações
exemplo, o Forte São José de Macapá (1764), comerciais com os índios, os portugueses
que foi equipado com 62 canhões e por um ergueram o Forte de São Joaquim, que era
regimento de infantaria. guarnecido anualmente com uma Companhia
do Regimento do Forte São José de Macapá.

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No rio Solimões as autoridades portugue- tuguesa, “um objetivo, e não apenas uma con-
sas decidiram edificar o Forte de Tabatinga seqüência da defesa do território” (Becker e
porque sentiam-se ameaçadas pelos espanhóis Egler, 1994: 43).
que tinham o propósito de empurrar a fron-
teira de Mainas, visto que anteriormente Entendida a conquista e o domínio da
aldearam índios ao longo do Solimões, até região como resultante de forças geopolíticas
aproximadamente a Manacapuru: complexas, constituiu-se uma rede de fortifi-
cações linear, porque fluvial, as quais estavam
Toda a política de construção de for- estrategicamente localizadas às margens do
talezas portuguesas na Amazônia, rio Amazonas e nas confluências deste com
durante este período, deve ser anali- alguns tributários, e ao longo da fronteira, o
sada como uma resposta aos inte- que permitia o controle da navegação do sis-
resses imediatos de evitar os res- tema fluvial amazônico.
gates de índios escravos feitos por
colonos de outras nações (Freire et A rede de fortificações consistia em pon-
al., 1991: 44). tos hierárquicos e privilegiados: Forte do
Presépio, Forte de Macapá, Forte São José do
Na margem direita do rio Guaporé, o Rio Negro, Forte de Maribatanas e Forte de
Capitão-General, Governador de Mato Grosso, Tabatinga. E entre estes pontos, existiam
Luiz Albuquerque Pereira Cáceres, mandou pontos de menor importância: os acampa-
construir, em 1760, o forte N. S. da Conceição mentos militares com uma pequena bateria –
sob as ruínas da missão espanhola de Santa Desterro, Araguari, S. Pedro Nolasco,
Rosa, o qual, em 1776, já bastante deteriorado, Barcelos, Curiaú, S. José, S. Antônio, N. S. de
foi substituído pelo forte Príncipe da Beira Nazaré de Alcobaça, Periquitos, Bragança
(Barão de Marajó, 1992). Seria, provavel- entre outros – e as povoações dirigidas geral-
mente, a melhor fortificação da fronteira no mente por um soldado, o qual ficava respon-
que diz respeito à estrutura de sua construção. sável, na maioria das vezes, por um roçado de
Em se tratando de seu papel estratégico, sig- mandioca, plantações de café, de cacau e de
nificava integrar aos domínios lusitanos zonas anil, e que tinha sob sua tutela índios desci-
garimpeiras ao longo do vale do Guaporé. dos. Essa rede assegurava o controle do
espaço amazônico, produzindo uma imagem
É dentro desse contexto de ameaça exter- de produção territorial que se deu através de
na, que deve ser analisada a preocupação do elaboração de estratégias.
governo português em criar fortificações na
Amazônia nos séculos XVII e XVIII. Como Portanto, a expansão territorial, a ocu-
ressalta Carvalho (1985), foram razões de pação, a exploração da mão-de-obra indígena
segurança e de guerra que motivaram os e de especiarias e a manutenção do território
empreendimentos de defesa e de reconhe- foi montada à base de instalação de fortes mi-
cimento, primeiramente na calha do rio litares.
Amazonas e seus principais afluentes e, pos-
teriormente, na área da bacia hidrográfica É possível, no entanto, admitir que a con-
como um todo. Entretanto, deve-se levar em quista da região não se limitou à construção
consideração que o rompimento da linha de de fortes, como base concreta de controle.
Tordesilhas tornara-se, para a metrópole por- Concomitantemente à criação de fortalezas, as

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missões religiosas caracterizaram relações de Decisões que aconselhavam e estimulavam o


poder: expandiram-se, reuniram indígenas, casamento entre soldados portugueses e
controlaram recursos e espaços. Nesse senti- índias. Este estímulo era feito através de con-
do, a conquista lusitana possuía uma diretriz cessão de terras, de instrumentos de trabalho,
político-religiosa, onde os jesuítas tiveram de dinheiro e de armas.
grande importância.
O Governador da Capitania de São José
A Companhia de Jesus tendo um espírito do Rio Negro, Joaquim de Mello e Póvoas, na
militar, ou melhor dizendo, com uma disci- carta dirigida a Francisco Xavier de Mendon-
plina militar adquirida nos ensinamentos dos ça Furtado, em 1760, comprova tal fato referi-
Exercícios Espirituais, criara uma mentali- do no parágrafo anterior, quando escreve que:
dade de luta contra os hereges. Por con-
seguinte, os jesuítas não queriam apenas cate- (...) chegando a Vª de Ega, achey hum
quizar os índios, mas transformá-los em sol- Dessimento [...] ao mesmo tº tive
dados de Cristo, pois quando do aldeamento Suma aflição overme Sem osmeyos
dos gentios aplicavam-lhes disciplinas mi- precizos pª contentar aquelles
litares rigorosas. As guerras justas foram con- Índios, [...] de [...] vestuarios, e ferra-
seqüência desta concepção. Por isso surgiu a mentas, ecomo nada disto Levava
figura do índio militarizado – soldado contra [...] mevy precizado a destribuir
os inimigos da Coroa portuguesa e índios peloz Principaes naõ Só dosmeus
revoltosos – em postos de sargento-mor e de vestidos, etrastes do meu uso, mas
cabo-de-canoa-régia. ainda algúns Ruoéns, Bertª e Ferra-
mentas, q. Levava pª Dotes dos
No que se refere aos destacamentos mi- Soldados q. Cazasem naquelle Rio,
litares, geralmente não passavam de trinta (...) (Universidade do Amazo-
praças as quais nunca ficavam juntas, pois nas/Cedeam, 1983: 37).
enquanto algumas iam para direção de
povoações subalternas, outras eram utilizadas De um modo geral, pode-se afirmar que
nas diligências de serviço (Ferreira, 1983: as estratégias geopolíticas portuguesas na
160). Quanto à direção de núcleos de povoa- região amazônica se fizeram mediante a uma
mento, os capitães dirigiam vilas e os solda- coesa rede de fortes, missões religiosas, vilas e
dos ou cabos, povoações, sendo que os prin- povoações, que convergiam para os pontos
cipais eram utilizados pelos diretores a faze- centrais de São Luís do Maranhão, de Belém e
rem os descimentos a estes núcleos. Os dire- do Forte de Macapá.
tores das povoações estavam vinculados ao
comércio, porquanto possuíam roçados e CONSIDERAÇÕES FINAIS
índios empregados, e alguns cabos eram
inspetores de fábricas das manteigas dos ovos A rede de fortificações constituiu-se num
de tartaruga. reflexo da organização do espaço amazônico
colonial pela Coroa portuguesa. Exprimiu a
Embora não seja objetivo deste trabalho, relação que os portugueses mantiveram com o
convém destacar a progressiva desmilitariza- território. Primeiramente, obteve-se o conhe-
ção da Amazônia, motivada pelas recomen- cimento das características da região e mapea-
dações constantes de Alvarás, Cartas régias e mento cartográfico, feitos pelas expedições de

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reconhecimento, e posteriormente delimi- Se pensarmos a bacia hidrográfica como


taram-se campos operatórios de decisões sendo a superfície “tecida em malhas”, na
sobre a região (Tratados, Regimentos, Cartas qual estabeleceu-se a rede de fortificações,
régias, Tropas de Resgate, Guerras Justas entre verifica-se que foi elaborado um anfiteatro
outras) e de exploração (drogas do sertão, fronteiriço noroeste-oeste. Fato observável,
mão-de-obra escrava indígena). também, é que os fortes São Gabriel das
Cachoeiras, Maribatanas, São Joaquim e
A tessitura expressou a área de exercício Príncipe da Beira estavam localizados próxi-
do poder português, o qual ultrapassou o me- mos às “águas emendadas” – quando o divisor
ridiano de Tordesilhas: “A tessitura é sempre de águas de duas bacias fluviais permite a
um enquadramento do poder ou de um livre passagem das águas de uma bacia para
poder” (Raffestin, 1993: 54). De fato, com a outra: rio Negro/Cassiquiare/Orinoco, rio
construção de fortes projetaram-se, mesmo Branco/Essequibo, rio Guaporé/Paraguai. Lo-
que implícitas, as fronteiras e os limites com go, os portugueses tinham noção dos rios
Castela. cujas nascentes se encontravam próximas das
pretensões territoriais espanholas.
A malha da rede abrigou os pontos de
fortificação que se mantinham relacionados O eixo central, sem dúvida, nos séculos
com outros elementos territoriais (missões XVII e XVIII foi o rio Amazonas, por onde se
religiosas, núcleos urbanos e pequenos acam- dava a circulação dos recursos e se fazia a
pamentos militares). Estes pontos simboli- comunicação com a Europa. E mais, esta
zavam a posição do poder português na super- comunicação baseava-se nas informações que
fície frente aos fortes estrangeiros, às invasões auxiliavam a gestão e o controle do espaço e
e aos recursos. do tempo amazônico pelos portugueses.

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Mírcia Ribeiro Fortes

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