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VÍRUS E BACTÉRIAS
bactérias.

Enquanto um homem de 70 quilos é formado por 70 trilhões


de células, em seu intestino existem 100 trilhões de bactérias.
Os outros 600 trilhões são encontrados na pele (10 mil em
cada dois centímetros), boca, cavidade nasal, seios da face e
aparelho gênito-urinário.

Durante a gravidez, o bebê é mantido em ambiente estéril. Se


ele assim permanecesse, ao vir à luz, teria poucos dias de vida,
devorado por germes agressivos e incapaz de obter no seio
materno a energia necessária para sobreviver.

Ao passar pelo canal do parto, o bebê se infecta com as


bactérias presentes na vagina e no aparelho urinário da mãe,
ricas em Lactobacillus. Nos partos cesarianos, o microbioma é
adquirido principalmente pelo contato com as bactérias da
pele materna das pessoas que convivem com ela. A diferença
na composição dos microbiomas entre os nascidos por via
vaginal ou cesariana persiste por meses e deve ter implicações
na saúde dos nenês.

A transição do leite materno para a dieta sólida está associada


à aquisição de um microbioma mais semelhante ao da vida
adulta, mas as doenças infecciosas, o uso de antibióticos e as
características da dieta podem interferir com sua composição.

Daí em diante, os germes com quem dividimos o corpo serão


adquiridos através do contato com os familiares e com os que
nos cercam, de modo que o microbioma adquirirá
características únicas que nos distinguirão dos demais seres
humanos, tanto quanto nossa aparência física.

Em 2006, um estudo mostrou que a mucosa intestinal de


indivíduos obesos era rica em bactérias do phylum Firmicutes,
enquanto as dos magros pertenciam predominantemente ao
phylum Bacteroidetes. Quando os obesos perdiam peso a
composição da �ora adquiria as características dos magros.

Experimentos subsequentes demonstraram que o


emagrecimento está associado à ação dos Bacteroidetes na
inibição da síntese de um hormônio que facilita o
armazenamento de gordura. Essa mudança da �ora explicaria
porque doses baixas de antibióticos ajudam o gado a
engordar.

Da mesma forma, seria possível combater a subnutrição por


meios de manipulações da �ora intestinal.

Nos últimos cinco anos, tem sido demonstrado que o


microbioma exerce papel importante em doenças
cardiovasculares, esclerose múltipla, diabetes, infecções por
germes patogênicos, doenças in�amatórias, como a doença de
Chron que acomete os intestinos, processos autoimunes, como
a asma, e até no autismo.

O caso do diabetes é especialmente ilustrativo. Pessoas com


obesidade grave e diabetes submetidas a uma cirurgia
conhecida como Y de Roux, na qual o intestino sofre um curto-
circuito para reduzir a capacidade de absorção de nutrientes,
perdem 20% a 30% do peso corpóreo. O mais impressionante,
entretanto, é que em cerca de 80% delas o diabetes
desaparece em dias.

Diversas evidências sugerem que o Y de Roux facilita o


aparecimento de bactérias que liberam fatores capazes de
interferir com o controle da sensibilidade à insulina,
mecanismo defeituoso nos que sofrem da doença.

A visão de que os germes são inimigos a ser combatidos, num


mundo cada vez mais higiênico e estéril, pertence ao passado.
Precisamos deles para sobreviver tanto quanto eles dependem
de nós.

No futuro manipularemos o compartimento bacteriano de


nosso ecossistema, para tratar de enfermidades de forma
personalizada. Infelizmente, os iogurtes disponíveis nos
supermercados estão longe de cumprir essa tarefa.

Publicado em 11/09/2012.

Revisado em 17/09/2012.