Anda di halaman 1dari 65

RESUMO

Descreve-se um método de leitura da imagem de uma Área Urbana que permite iniciar o
conhecimento desta com o objetivo de proceder à sua avaliação global e crítica, ao diag-
nóstico dos problemas e potencialidades que apresenta e à elaboração de propostas de in-
tervenção que efetivem a sua reabilitação física e o desenvolvimento socio-económico e
cultural da comunidade nela territorializada.
O método que se apresenta desenvolve o passo inicial duma “Metodologia de Planeamento
da reabilitação de Àreas Urbanas” que será publicado no Livro III da série Reabilitar o Ur-
bano da mesma autora.

RESUMÉ

On présente une méthode de lecture de l’image d’un morceau de ville lequel permet d’obte-
nir un début de connaissance globale et critique du tissu urbain en question, procéder au
diagnostique des problémes et des potencialités et a élaboration des hypothéses d’interven-
tion pour le réhabilier et pour appuyer le développement socio-économique et culturelle de
la communauté qu’y est instalée.
La méthode qu’on décrit développe la partie initiale d’une “Méthodologie de Planiication
de la Réhabilitation de Morceaux de Ville” que sera publiée dans le Livre III de la série
“Réhabiliter l’Urbain” de la même auteur.

ABSTRACT
PREFÁCIO

N
esta publicação apresenta-se um método de leitura da imagem de uma Área Urbana
o qual, em anterior trabalho (Valente Pereira, 1991), se considerou adequado para ini-
ciar o conhecimento desta com o objectivo de realizar a sua avaliação global e crítica,
proceder ao diagnóstico preliminar dos seus problemas e potencialidades e elaborar hipóteses
de intervenção que efetivem a sua reabilitação física e ambiental e o desenvolvimento da comu-
nidade nela territorializada.
O método de trabalho que se-
guidamente se expõe é um pro-
cesso expedito para formar uma
ideia global das suas caracterís-
ticas, problemas e potencialida-
des, exercitar a procura de solu-
ções a apresentar para discussão
com os diferentes agentes so-
ciais e prever os meios e recur-
sos necessários para organizar
os estudos e as acções que per-
mitirão iniciar e prosseguir as
tarefas de reabilitação da Área
e de organização da sua gestão
corrente.
Caso a imagem da Área seja bem conhecida pela equipa, esta pode utilizar o método para com-
pletar e corrigir esse conhecimento com visitas esclarecedoras aos locais.
O trabalho resultante da leitura é a base que permitirá apresentar as conclusões essenciais
do estudo aos políticos e técnicos municipais e aos outros agentes formais, para debate e de-
cisão antes da sua discussão alargada e pública.
A realização da leitura da imagem da Área é ainda fundamental para deinir e orientar, in-
tegrando-os, os estudos sectoriais necessários para obter um conhecimento mais objectivo e
aprofundado, estudos que se irão desenvolvendo ao longo do processo de planeamento confor-
me as exigências de informação que se forem manifestando (Valente Pereira, 1986).
Procura-se essencialmente, através do presente estudo, transmitir um conjunto de perspecti-
vas e propostas sobre a forma que consideramos mais abrangente e expedita de “agarrar” uma
parte da cidade para entender a sua presença viva e em transformação, para ser estimulado
a avaliá-la concretamente, a interrogar-se sobre o que nela responde ou não a exigências dos
modos e do meio de vida e, por esta via, provocar e alimentar a construção de hipóteses de
intervenção.
Pretende-se não ignorar a complexidade do meio urbano e encontrar um método de trabalho
que permita captá-la a traços largos, entendê-la nos seus aspectos essenciais e criar a familiari-
dade necessária com o meio no qual se irá trabalhar.
As sínteses a realizar deverão traduzir esse entendimento da Área o qual facilita a elaboração
criativa e integrada de propostas.
O registo das particularidades e dos pormenores característicos da Área reforça a possibili-
dade de construir e expressar soluções de reabilitação que respeitem e valorizem o carácter do
tecido urbano em análise.
O desenvolvimento do planeamento da reabilitação duma Área Urbana é um processo comple-
xo e que exige ter em conta uma intrincada trama de procedimentos; a utilização de conheci-
mentos, métodos e fontes de informação diversiicados; a comunicação, concertação e ação de
múltiplos agentes sociais.
Tal facto determina que seja necessário obter, desde início, uma compreensão da Área e das
suas possibilidades de transformação, global e acessível aos diversos intervenientes, para ser-
vir de base comum a partir da qual se organizarão e desenvolverão os diversos estudos e acções
que irão ajustando, corrigindo e aprofundando o conhecimento inicial resultante da leitura da
Área.
Considerou-se assim fundamental deinir as questões que permitem captar e avaliar as caracte-
rísticas estruturais e mais signiicativas e as particularidades duma Área Urbana, assim como
ilustrar o modo de as tratar e relacionar para informar e interpretar os diversos conteúdos que
a constituem. Estes servem para construir as bases do estudo e da intervenção ancorando-as
na especiicidade da realidade observada, ultrapassando ideias feitas e soluções standartizadas
e fazendo nascer, das próprias condições e características locais, as hipóteses de transformação
e os modos de as concretizar.
O método proposto pretende-se aberto, ou seja, as diferentes categorias de análise indicadas
são-no a título de exemplo, dado que se admite a formulação de categorias mais detalhadas
ou mais abrangentes dependendo, quer da dimensão, complexidade e outras características da
Área em estudo, quer do entendimento que os técnicos responsáveis tenham dos elementos que
deinem o tecido urbano.
Embora centrando-se na leitura da imagem, incluímos no presente estudo quadros resumo
relativos ao enquadramento desta na metodologia de planeamento da reabilitação de Áreas
Urbanas que desenvolvemos anteriormente (Valente Pereira 1991) e apresentamos no volume
III da série “Reabilitar o Urbano”, e aos estudos indispensáveis para preparação e apoio da lei-
tura da imagem descritos no Capítulos III desta publicação.
Destaca-se ainda no citado Capítulo as questões relativas às relações da Área com a sua envol-
vente.
O estudo deste aspecto permite superar uma postura que, mesmo involuntariamente, tende a
encarar a área delimitada como um universo coninado em si próprio e autónomo, com as con-
sequentes distorções, quer a nível da interpretação da realidade presente quer das propostas de
intervenção.
Para testar o método procedemos ao estudo de duas áreas lisboetas: Madragoa/Lapa e Benica.
Estas áreas foram escolhidas para o exercício teórico de aplicação por apresentarem caracterís-
ticas urbanas muito diferentes dadas as suas épocas de formação e consolidação, situação no
tecido da cidade e topograia do sítio onde se localizam.
A escolha destes exemplos teve ainda por objectivo evidenciar a importância de encarar qual-
quer tipo de tecido urbano existente na perspectiva da sua reabilitação, tal como a deinimos
(Valente Pereira 1986), e não apenas aqueles que correspondem a bairros ou centros históricos
a salvaguardar.
A oportunidade que nos foi dada pela Câmara Municipal de Loures de participar no Plano de
Salvaguarda do Núcleo Antigo de Sacavém(1) desde início e a nível de consultoria à coordena-
ção do Plano, pôs à prova a aplicabilidade do método num caso real e abre ao leitor a possibili-
dade de ajuizar do seu interesse e operacionalidade através da consulta do trabalho produzido
no referido âmbito e das apreciações críticas da equipa que o realizou.
A colaboração de dois bolseiros da Junta Nacional de Investigação Cientíica e Tecnológica
(JNICT)permitiu realizar estudos sectoriais nos domínios da arquitectura paisagística(2) e da
sociologia(3) para apoio à leitura da imagem e aprofundamento dos respectivos temas.
Posteriormente o método foi aplicado nos Planos de Salvaguarda das Vilas do Porto de Santa
Maria e de Santa Cruz da Graciosa, Açores, coordenados pela arquitecta Maria João Gon-
çalves, e na elaboração duma proposta para o Plano da Freguesia de Sacavém realizada pela
estagiária AnnaLaura Spalla, bolseira da COMET/LNEC.(4)
Cabe ainda referir que este estudo, elaborado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil
pela autora no âmbito dum projeto de investigação, foi parcialmente inanciado pela Câmara
Municipal de Lisboa..

(1) Plano de Salvaguarda do Núcleo Antigo de Sacavém, coordenado pela Arqta M. J. Gonçalves, Divisão de Planeamento
Urbanístico, Câmara Municipal de Loures, 1993.
(2) FERREIRA, M. I. CAETANO - Contribuição da Análise Palsagística para o Planeamento da Reabilitação de Áreas
Urbanas - Estudo de Caso - Madragoa/Lapa e Benica. Lisboa, LNEC, 1991.
FERREIRA, M. I. CAETANO - Planeamento do Desenvolvimento Socio-Urbanístico de Áreas Urbanas
1ª Parte- Contribuição da Análise Paisagística no Planeamento do Desenvolvimento Socio-Urbanístico de Áreas Ur-
banas. Lisboa, LNEC, 1989.
2ª Parte- Índices de Qualidade Ambiental. Lisboa, LNEC,1990.
(3) - ANTUNES, A.A. ROSA - Contribuição para a Deinição das Necessidades Sociais a Nivel do Quotidiano numa
Área Urbana
1ª Parte - Práticas Sociais Quotidianas das e Apropriação Social do Espaço, Lisboa, LNEC, 1989.
2ª Parte - Utilização e Apropriação de Áreas Urbanas, Lisboa, LNEC,1990.
(4) - ANNALAURA SPALLA - Un intervento di Recupero nella Periferia Orientale di Lisbona: piano di riqualiicazio-
ne ambientale e urbana della Freguesia di Sacavém e progetto di transformazione dei fronte d’aqua, Genova, Univer-
sitá degli Studi di Genova, Facoltá di Arquitettura, 1993
Capítulo I - METODOLOGIA

Objetivos

A
leitura da imagem de uma Área Urbana(1) é um método de conhecimento do meio ur-
bano a esta escala, e tem por objectivo proceder à sua avaliação e à elaboração cria-
tiva de soluções para reabilitá-lo desenvolvendo social, económica e culturalmente a
população nele territorializada e qualiicando o seu espaço.
Através da referida leitura procura-se obter, de forma expedita, directa e individualizada, um
retrato global, interpretativo e crítico da Área que permita identiicar as ideias de cidade que
expressa, os problemas que a afectam e as potencialidades que oferece e delinear objectivos,
políticas, estratégias e hipóteses de intervenção para a reabilitar e orientar a sua transformação.
É preocupação básica desta forma de aproximação ao conhecimento duma Área assimilá-la no
seu conjunto e dinâmica, entendê-la presente e viva, interpretá-la e avaliá-la, obter a partir dela
sugestões quanto às soluções e acções necessárias para realizar a sua qualiicação e desenvolvi-
mento sócio-urbanísticos.
Observa-se a imagem urbana:
• Para identiicar os aspectos que a caracterizam como meio urbano especíico;
• Para perceber como se relacionam entre si e como traduzem os processos de formação e
transformação urbanos, espaciais e dos modos de vida;
• Para apreender o que nela representa qualidade urbana e carácter próprios;
(1)O método seguido baseia-se no proposto por ALLAN B. JACOBS e LESLIE GOULD e que se encontra descrito no
documento “Observing and Interpreting the Urban Environement. Case Study: Naglee Park, San José California”.
Institut of Urban and Regional Development. University of California, Berkeley, WP372, 1982.
• Para identiicar onde é necessário intervir para resolver que problemas e que caracterís-
ticas e dinâmicas a própria Área possui para construir as soluções e acções de transfor-
mação.
A leitura da imagem da Área Urbana deve permitir realizar o esboço rápido e signiicativo da
situação presente e da sua dinâmica e dar-lhe a perspectiva crítica que suscita a construção
simultânea de orientações e propostas de acções de reabilitação e transformação urbanas.
É uma leitura personalizada, que se escora essencialmente na experiência já adquirida pelo téc-
nico (como tal e como urbanita) e que é indispensável para que este forme a sua própria per-
cepção da Área, se integre na realidade tal como se apresenta, seja sensibilizado e penetrado
por ela, esclareça a sua capacidade de perceber e avaliar o que vê, de construir as suas próprias
convicções estimuladoras da deinição das acções de intervenção.
A subjectividade, não exaustividade e rapidez da observação faz com que esta ique sujeita a
erros, que podem ser grosseiros, levante questões sem resposta ou de resposta percária. Consi-
deramos que, face às vantagens enunciadas, estes defeitos são menores e facilmente superáveis
no prosseguimento do trabalho e através da utilização de informação e métodos de análise
mais rigorosos.(1)
Percepcionar e interrogar a realidade em presença tem por inalidade, para além de interpretá
-Ia e avaliá-Ia, procurar encontrar respostas adequadas para o que deve ser feito para reabilitar
e orientar a transformação da Área Urbana.
Conhecimento e avaliação, diagnóstico e proposta são partes integrantes da leitura da Área,
provocando-se mutuamente para melhor esclarecimento e maior capacidade de resposta aos
objectivos da observação.
Todo o ciclo do estudo deve ser percorrido na decorrência desta, exercitando a capacidade pro-
positiva em paralelo com a de análise, interpretação e avaliação.
Pretende-se, através deste exercício inicial, para além de obter uma compreensão global da Área
e das suas possibilidades de transformação que sirva de base comum de discussão e construção
do processo de planeamento da sua reabilitação, superar as diiculdades dos métodos correntes
de análise que remetem para fase posterior a construção das soluções, desligando estas daquela.
A base comum de informação que a leitura proporciona terá de ser compreensível para os di-
versos agentes sociais formais e informais implicados e permitir proceder à integração dos seus
conhecimentos e exigências sem perder mas, pelo contrário, corrigindo e reforçando uma visão
comum da Área e dos objectivos e caminhos da sua reabilitação.
Em resumo, ao realizar a leitura da imagem da Área procura-se:
• Obter um retrato global, interpretativo e crítico da Área através da deinição das suas
características estruturais e mais signiicativas;
• Deinir e localizar os problemas e as potencialidades existentes na Área;
• Captar o carácter urbano da Área e os elementos que o exprimem;
• Perceber a dinâmica de transformação em curso na Área;
(1) No método de leitura que serviu de base para o desenvolvimento do nosso trabalho e que foi elaborado por A. JACOBS
considera-se que os riscos de erro são reduzidos através:
a - Da multiplicação do número de observadores e do confronto e discussão dos resultados individuais da observação;
b - Do teste dos resultados obtidos por meio do manuseamento de informação estatística e outra entretanto reunida;
c - Da discussão dos resultados com interlocutores conhecedores da realidade observada.
• Estabelecer, à medida da interpretação e avaliação dos resultados da leitura da imagem,
hipóteses relativas a objectivos, políticas, estratégias, soluções e acções de intervenção
para a sua reabilitação.
O trabalho resultante da referida leitura serve de base comum para iniciar as discussões e os
estudos que aprofundarão o conhecimento da Área e estabelecerão o processo de planeamento
/ acção da sua reabilitação. É, consequentemente, uma informação essencial para integrar os
diferentes contributos disciplinares e para iniciar, de forma participada e concertada entre os
diferentes agentes sociais, o processo de intervenção.

Método

A
leitura da imagem(1) faz-se por observação directa. Para a efectivar é necessário per-
correr a Área Urbana, ver e simultâneamente, interrogar o que se vê, procurar relacio-
nar, interpretar e avaliar as observações (formar uma opinião sobre “o que está bem e
o que está mal”) e cartografá-Ias.
Durante a leitura devem ainda registar-se os comentários e as questões sugeridas pela obser-
vação, ixar os aspectos que se considera que interessaria modiicar (problemas) e aqueles que,
por serem muito característicos ou exemplares são de conservar e podem, inclusivé, contribuir
para construir as propostas de intervenção (potencialidades).
É importante tomar nota das questões que será necessário esclarecer em estudos posteriores
por suscitarem dúvidas ou necessitarem de conirmação ou aprofundamento.
A observação realiza-se interpretando a coniguração espacial da Área Urbana, a sua estrutu-
ra e carater, os modos de uso e de apropriação territorial pela população e pelas actividades,
os ambientes e as imagens gerais resultantes.
Conjuntos de observações devem ser encadeados de modo a percecionar a estrutura social do
espaço e dos usos nele; as características morfotipológicas da Área e as ligações que esta esta-
belece com a envolvente; os processos de formação e ocupação do tecido urbano; a dinâmica
recente de transformação da área e as tendências de evolução que revela; os modelos e os valo-
res urbanos que lhes estão subjacentes; os problemas e as suas possíveis soluções; as potenciali-
dades e a sua exploração.
Quem, onde, como, o quê, quando, para quem e para quê; está bem ou está mal, são as inter-
rogações a formular a propósito das observações que se vão realizando e como forma de desen-
volver a capacidade de ver e de interpretar o que se vê, de dar globalidade e inteligibilidade à
leitura, de identiicar e integrar as diferentes componentes do sistema urbano, de exercitar a
imaginação criadora necessária à concepção de soluções. Da leitura da imagem da Área deve
resultar a percepção, em traços largos, da sua estrutura urbana, das características sociais, es-
paciais e de uso, dos modos de apropriação do espaço pelas pessoas e pelas actividades,
As suas características deinem-na como lugar de vida urbana, diferente de qualquer outro e
diferenciado nas suas partes, com forma e história próprias, com a diversidade das actividades
(1)O método seguido baseia-se no que ALLAN B. JACOBS e LESLIE GOULD propuseram e que se encontra descrito no
documento “Observing and Interpreting the Urban Environement. Case Study: Naglee Park, San José, California”. Insti-
tut of Urban and Regional Development. University of California. Berkeley, WP372,1982.
e das interações sociais que lhe dão vida.
Interessa identiicar as invariantes da Área que lhe têm proporcionado uma permanência como
lugar, o seu carácter ou a ausência duma presença própria, de regras estruturadoras que a orde-
nem e lhe imprimam personalidade.
Como foi airmado nos objectivos da leitura procura-se obter “um retrato global, interpretativo
e crítico da área”, “o esboço rápido, e signiicativo da situação presente e da sua dinâmica” para
a “elaboração criativa de soluções de reabilitação e de orientação da transformação da Área”.
Estes objectivos só são alcançáveis se, na observação, se valorizar a análise morfológica(1) sem
deixar de a informar com os conteúdos sociais. culturais e funcionais presentes e percecioná-
veis.
A análise morfológica exige ainda perceber as características funcionais e sociais que organiza-
ram as formas representativas do passado e que permanecem, eventualmente desadaptadas aos
novos conteúdos, e as dinâmicas de transformação visíveis nas alterações físicas e do ambiente
provocadas por novos usos, diferente estatuto social dos utilizadores e novos valores culturais.
A informação resultante da leitura deve ser cartografada, legendada e ilustrada (fotograica-
mente, através de esquissos ou de registos em video) de forma a traduzir, com clareza e no es-
paço, os resultados do exercício de observação.
A questão do registo da informação é extremamente importante dado que denota e exprime os
elementos fundamentais percecionados que traduzem o urbano naquele local e que são a base
da concepção dos projectos de intervenção.
O exercício de leitura da imagem urbana, realizado nestes moldes, faz corresponder observa-
ção e concepção (na medida em que a linguagem que explicita a observação é análoga à que
elabora a concepção das propostas de intervenção) e liga criativamente análise e síntese das ca-
racterísticas da Área com a construção das hipóteses de solução (dado que interpretar e avaliar
o o existente pressupõe constituir relações aglutinadoras, formular ideias que traduzem o que
se pensa ser uma “boa cidade” e visualizá-Ias nos espaços em análise).
Para atingir este objectivo recomenda-se que, para cada aspeto destacado para análise. se pro-
ceda de modo a. para além de identiicar as suas características, efectivar a sua avaliação. in-
dicando os problemas e as potencialidades que tais características revelam e as propostas de
intervenção que se considera poderem resolver os problemas e valorizar as potencialidades
identiicadas.
Estas propostas são apenas hipóteses decorrentes da questão analisada e pode veriicar-se, na
sequência do estudo, que não são adequadas devido, por exemplo, à prioridade de resolução
doutros aspectos cuja solução seja incompatível com aquelas.
A importância da sua formulação reside no registo das propostas à medida que vão surgindo
para, nas sínteses inais, serem compatibilizadas e seleccionadas ou reelaboradas, e no facto de
obrigar ao exercício da constante ligação entre análise, diagnóstico e elaboração de propostas.
É ainda útil como airmámos, registar, na sequência da análise, os estudos que interessaria
desenvolver, em fase posterior do trabalho, para melhor esclarecimento das questões tratadas
A análise morfológica permite perceber a lógica de conceção e apropriação do tecido urbano, defenir a sua estrutura, as
(1)
regularidades ou regras e as diferenças ou particularidades que apresenta, detectar as tipologias correntes e excepcionais
do ediicado e do espaço urbano.
e os temas de discussão alargada a assinalar, dada a sua importância para estabelecer opções
fundamentais relativas ao conceito de cidade orientador das soluções a propor (por exemplo, o
lugar do automóvel no espaço público versus importância do peão; opções relativas à estrutura
espacial dos usos do solo, ao grau de conservação/recuperação do ediicado, ao interesse de in-
troduzir novas construções de traça actual em tecido antigo).
A observação directa da imagem da Área deve ser feita separadamente por dois ou mais ob-
servadores.
A multiplicação do número de observadores enriquece a “leitura e a independência das res-
pectivas observações e é fundamental para, através da comparação e discussão dos resultados,
controlar os desvios resultantes de excessos de subjetividade e de falhas de observação.
A confrontação das leituras realizadas pelos diferentes observadores efectua um primeiro teste
das observações realizadas e permite evidenciar e avaliar as “ideias de cidade” subjacentes a
cada leitura.
Caso surjam interpretações contraditórias elas serão corrigíveis reobservando os aspectos que
criaram divergências de interpretação, procurando acertá-los ou, caso não seja possível, ultra-
passá-los utilizando outros métodos de conhecimento mais objectivos ou aceitando como real
e enriquecedora a diversidade de opiniões.
As dúvidas, lacunas e imprecisões da leitura são colmatadas, ao longo do trabalho e à medida
das necessidades, através da realização de estudos técnicos especializados.
A leitura da imagem urbana deve ser realizada por observadores que possuam um amplo co-
nhecimento das questões urbanas e da sua expressão morfológica ao longo dos tempos de for-
mação dos tecidos urbanos.
Embora interesse estimular a diversidade e originalidade de leitura dos diferentes observadores,
para maior riqueza descritiva e interpretativa da Área, considera-se importante a elaboração
prévia de um guião orientador da observação” que, não sendo condicionante, permita escla-
recer o que se pretende e estabeleça uma plataforma comum através da indicação das questões
essenciais que a leitura terá de contemplar para responder às necessidades do estudo e do modo
de proceder ao registo das observações.
O guião de leitura deve ser discutido pela equipa de planeamento da reabilitação da Área.
A referida discussão permite, inclusivé, adaptar perspectivas, objectivos do trabalho e a meto-
dologia da sua abordagem ao caso em estudo e às preocupações da equipa.
A leitura da imagem da Área é um procedimento tanto mais necessário quanto maior e mais
complexa esta fôr.
Se a Área tiver dimensões reduzidas a leitura pode ser substituida por um levantamento siste-
mático das suas características.
Neste caso é essencial proceder com maior detalhe à leitura da unidade territorial alargada e
envolvente da Área para poder compreender e avaliar a sua estrutura urbana a qual só será le-
gível se se ultrapassarem os limites territoriais deinidos para a intervenção de reabilitação.
São questões que se têm de resolver caso a caso dependendo da maior ou menor autonomia
morfológica da área de intervenção.
É essencial encontrar uma unidade de observação e análise que permita perceber a estrutu-
ra morfológica do tecido urbano e a sua lógica organizativa mesmo que para tal se tenha de
alargar o território de observação para além do perímetro de intervenção estabelecido e até,
eventualmente, propor novos limites para a área de planeamento da reabilitação.
Capítulo II - LEITURA DA IMAGEM E PLANEAMENTO DA
REABILITAÇÃO URBANA

O
método de leitura da imagem foi desenvolvido, como referimos na introdução, para
instrumentar uma proposta de metodologia de planeamento da reabilitação de Áreas
Urbanas que elaborámos e se encontra publicada.(1)

A leitura da imagem é o primeiro passo a percorrer pela equipa técnica para conhecer e avaliar
a Área Urbana e a sua dinâmica de transformação e construir as primeiras hipóteses de inter-
venção.
É a fase essencial da preparação da equipa técnica para poder enfrentar o diálogo com os ou-
tros agentes sociais implicados na reabilitação e organizar o planeamento propriamente dito,
o qual se realiza em termos de planeamento/acção, ou seja, planeando e intervindo, desenvol-
vendo os estudos técnicos detalhados à medida das tomadas de decisão quanto a prioridades e
para lhes dar cumprimento.
Para que o leitor possa conhecer as grandes linhas da metodologia apresentada sem recorrer à
referida publicação, extraímos dela o quadro geral que a resume e partes do texto que apresenta
a 1ª fase e desenvolve a respectiva 1ª etapa, na qual se enquadra a leitura da imagem da Área e
onde são referidos os estudos complementares necessários nesta fase. Esta informação permite
formar um quadro mais completo do conhecimento exigível para além do obtida pela leitura
(1) VALENTE-PEREIRA, L. - Metodologia de Planeamento da Reabilitação de Áreas Urbanas, Lisboa, LNEC, 1991
da imagem.
Embora considere que a leitura da imagem é um método que pode ser usado para cumprir ou-
tros objectivos (por exemplo, como estudo preparatório da elaboração dum projecto de arqui-
tectura ou de uma nova urbanização a integrar num tecido existente) ele adquire as suas máxi-
mas virtualidades e exigências como preparação para uma acção continuada de reabilitação,
quer de uma Área quer de um Aglomerado Urbano.
Quadro Resumo - Metodologia de Planeamento da Reabilitação
de Áreas Urbanas
Quadro Resumo - Metodologia de Planeamento da Reabilitação
de Áreas Urbanas - 1ª Parte
Capítulo III - ESTUDOS DE APOIO À LEITURA DA IMAGEM

A
ntes de iniciar a leitura da imagem de uma Área Urbana é necessário proceder a estu-
dos e recolhas de dados que permitam conhecer a Área como parte do contexto urbano
a que pertence e interpretar as características dessa pertença para se não correr o risco
de a considerar como um território isolado.
O resultado desses estudos assim como de outras bases de trabalho, são necessários para poder
interpretar os resultados da leitura
Temos assim que:
• Reunir bases cartográicas e iniciar
a recolha de todo o material que se en-
contre disponível sobre a Área;
• Obter informação que permita ca-
racterizá-la como parte do Aglomera-
do Urbano, Município, Região a que
pertence;
• Iniciar os estudos que permitam co-
nhecer a morfologia geral da paisa-
gem da Área e da sua Envolvente, assim como a história da evolução do tecido urbano e
a caracterização socio-económica da população.
A preparação para a leitura da Área inclui a obtenção de cartograia e de fotograias aéreas ac-
tualizadas, do cadastro da Área, o início da recolha da cartograia produzida ao longo do tem-
po, quer da Área quer do Aglomerado Urbano e um primeiro levantamento da toponímia da
Área e registo das unidades administrativas a que pertence (freguesias, bairros iscais, áreas
de jurisdição da Polícia de Segurança Pública, dos Bombeiros, código postal, ... ).
As escalas 1/25000 para o Aglomerado Urbano, e 1/10000 - 1/5000 para base de leitura da Área
são, de uma maneira geral, adequadas.
A observação da cartograia da Área e da sua Envolvente permite formar uma ideia das ca-
racterfsticas topográicas e morfotipológicas gerais, das barreiras e das continuidades do tecido
que marcam as relações entre as suas partes e com a envolvente.
Estes dados são importantes para facilitar a orientação no terreno e para organizar e interpre-
tar a leitura durante a observação.
O conhecimento da toponímia, a veriicar e a completar durante a leitura, auxilia a identiica-
ção dos locais a que se referem as observações e dos seus signiicados históricos.
A Área como Parte do Contexto Urbano

A
caracterização da Área como parte do contexto a que pertence corresponde a uma ta-
refa que se desenvolve independentemente da leitura, sendo aprofundada ao longo do
processo de planeamento e discutida com os níveis superiores de planeamento de acor-
do com as exigências do desenrolar do próprio processo.
Por vezes a resposta a alterações necessárias à reabilitação da Área cria necessidades de infor-
mação e intervençâo que excedem o âmbito desta mas que, inclusive, podem ser suscitadas de
baixo para cima (da Área para o Aglomerado Urbano) durante o processo de planeamento.
A informação que considerámos necessário obter, antes de iniciar a leitura e para caracterizar
o contexto da Área, tem por inalidade perceber a situação da Área nele, o papel urbano que
desempenha e virá a desempenhar como parte do todo em que está inserida.
Esta informação diz respeito a:
• Situação da Área no Aglomerado Urbano, no Município e na Região;
• Morfologia geral do Aglomerado Urbano, do Município e da Região;
• Grandes etapas da evolução histórica da ocupação urbana do solo e da evolução demográica e
socio-económica do Aglomerado, do Município e da Região
• Grandes eixos de acessibilidade urbana, municipal, e regional;
• Distribuição geral da população e dos usos do solo urbanos, municipais e regionais; cen-
tros urbanos principais e sua hierarquia;
• Áreas urbanas signiicativas (por razões de centralidade, históricas, turísticas, de prestí-
gio social, ... ) do Aglomerado, do Município e da Região;
• Orientações gerais relativas a objectivos, políticas e estratégias de planeamento do aglo-
merado urbano e das suas partes;
• Grandes projectos de urbanização e obras públicas a executar a curto e médio prazos,
planos existentes e aprovados, condicionamentos e compromissos urbanos e outras indi-
cações que identiiquem as grandes linhas da dinâmica de transformação em curso no
contexto urbano e com repercussões na área.
Esta informação deve ser fornecida pelas instâncias de planeamento do Aglomerado Urbano,
do Município e da Região. Nesta fase do trabalho apenas é necessário obtê-Ia em termos muito
gerais e de forma a poder situar comparativamente as características da Área, interpretar os
resultados da observação e estruturar hipóteses de intervenção adequadas às exigências e à di-
nâmica do contexto em que a Área se situa e que nela se irão relectir.
Cartas e esquemas legendados e respectivos textos interpretativos registam as sínteses da infor-
mação compilada e a caracterização da Área delas decorrente.
Estas primeiras sínteses interpretativas do contexto são ainda muito úteis como base de orien-
tação para organizar os estudos especíicos a desenvolver, à medida das necessidades, para co-
nhecimento mais aprofundado deste.
Cabe ainda referir que, dependendo da Área em estudo, será mais ou menos alargado o contex-
to que permite enquadrá-Ia e a importância dos estudos a desenvolver. O centro duma cidade
capital, por exemplo, terá de ser pensado à luz das questões nacionais e internacionais, uma área
residencial situada no interior do aglomerado, poderá dispensar a inserção a nível municipal.
Morfologia da Paisagem

U
m bom entendimento da morfologia da paisagem da Área é essencial para interpretar e
avaliar a estrutura da urbanização da Área, descortinar problemas morfológicos bási-
cos e veriicar como foram aproveitadas ou desperdiçadas as potencialidades naturais.
Nesta fase inicial é essencial a participação da arquitectura paisagística como instrumento
auxiliar da leitura e da sua interpretação e para estabelecer a ligação necessária, durante todo o
processo, entre os técnicos da arquitectura dos sítios entre si e com os outros especialistas.
Da análise da morfologia da paisagem, cujo desenvolvimento se apresenta detalhadamente no
trabalho realizado no âmbito dos estudos de caso(1) retivemos como necessária para apoio di-
recto da leitura, a deinição das plataformas de relevo, das linhas estruturantes da paisagem
e dos declives, assim como a representação tridimensional do terreno, a qual permite obter
uma visão abrangente deste.
A síntese destas informações conduz à deinição das unidades morfológicas da paisagem e das
suas formas de articulação, as quais permitem caracterizar e avaliar as potencialidades urbanas
dos traços essenciais da morfologia geral da paisagem e orientar a interpretação e avaliação do
seu modo de urbanização.

História da Evolução do Tecido Urbano

O
estudo da história da evolução do tecido urbano é, como referimos em trabalho ante-
rior(2), fundamental para a compreensão da morfologia urbana, para a interpretação
do ritmo e do modo do seu desenvolvimento”.
Percebe-se assim o porquê de certos usos do solo e das suas formas de expressão (tipologia,
morfologia), o grau de consolidação ou de transformação que a situação actual apresenta, as
tendências de evolução e os elementos de ixação do tecido urbano, certas características da
imagem urbana e do modo como a memória colectiva a assimila.
O conhecimento da evolução histórica é importante para julgar a persistência de certos usos, a
aptidão das formas urbanas para se adaptarem à mudança, o sentido da evolução da apropria-
ção social do território e para identiicar as regras básicas de ordenamento do espaço (constan-
tes espaciais mantidas ao longo da variação no tempo).
No referido trabalho indicam-se os temas a desenvolver no estudo da evolução histórica:
• Identiicação das etapas de formação, preenchimento e crescimento do tecido urbano;
transformação do seu parcelamento, traçado viário e ediicação; caracterização morfoló-
gica fundamental e tipologias principais de cada etapa; acontecimentos marcantes, ele-
mentos, agentes e processos estruturadores dessa evolução;
• Características gerais e evolução do tecido social e da apropriação da Área, pela popula-
ção e pelas actividades;
(1) FERREIRA, I. CAETANO - Contribuição da Análise Paisagística para o Planeamento da Reabilitação de Áreas
Urbanas - Estudos de Caso: Madragoa / Lapa e Benica. Lisboa, LNEC, 1991.
(2) VALENTE PEREIRA, L. - Método de Apoio Técnico à Ação de Desenvolvimento Socio-Urbanístico de Áreas Urba-
nas de Intervenção., Lisboa, LNEC, 1986 - Vol. II, págs. 7 e 27 a 30.
• Principais ideias e modelos de cidade que presidiram às diferentes fases de urbanização
da Área.
A síntese a realizar deve ter como preocupação retratar etapas características de forma com-
preensiva e ilustrativa, sem se alongar na descrição de factos, e dar especial relevo ao entendi-
mento do que é a Área na atualidade; dos processos que, ao atuarem nela, a formaram tal como
se apresenta; do potencial urbano que revela; das regras próprias e constantes que deinem o
seu modo de permanecer e de mudar.
Perceber o papel que a Área foi desempenhando ao longo do tempo no Aglomerado Urbano e
porquê, as formas que expressaram esse papel, as ideias chave que orientaram essa expressão, o
tipo de população que sucessivamente se apropriou da Área e as características básicas do seu
estatuto social e do seu modo de vida na relação com o espaço é um precioso auxiliar para a
compreensão da realidade presente e construção da sua qualiicação e desenvolvimento.
Para apoio imediato da leitura da imagem bastará indicar as grandes etapas de formação e
desenvolvimento do tecido urbano, espacializando-as; as características morfológicas essen-
ciais de cada etapa e os modelos de cidade que lhes estão subjacentes.
É importante ajuizar do grau de consolidação das diferentes partes do tecido indicando aquelas
que, ao longo do tempo, foram mais sujeitas a pressões de transformação e são, consequente-
mente, as mais “vivas” ou “frágeis” e as que permaneceram mais ou menos intactas, as áreas
mais “mortas” ou “sólidas”.
No prosseguimento do trabalho será necessário desenvolver estudos que permitam conhecer
detalhadamente quer a história dos edifícios e dos espaços, quer das características, usos, valo-
res e costumes da população, inclusivé para determinar como apresentar, esclarecer, valorizar
e tornar acessível à população a sua história.

Caracterização Socio-Económica da População

O
método de leitura da imagem dá de forma imprecisa e sujeita a erros grosseiros uma
ideia das características sócio-económicas da população que reside na Área, que nela
trabalha ou a frequenta por qualquer outro motivo.
Para controlar esta informação, torná-la mais precisa e idedigna é necessário desenvolver, em
paralelo, o estudo dos dados estatísticos disponíveis, os quais deverão ser analisados tendo por
base de referência o quarteirão.
As características a destacar para realizar minimamente a caracterização económica e social
da população residente dizem respeito à idade, composição das famílias e situação perante a
actividade distinguindo activos e inactivos, categorias e ramos de actividade.
Este estudo terá de ser desenvolvido ao longo do trabalho, quer através da análise de informação
estatística diversa (recenseamento eleitoral, dados oriundos dos sectores da saúde, segurança
social, ensino, polícia, ... ) quer de inquéritos diretos determinados de acordo com as necessi-
dades de informação que surjam à medida da deinição dos problemas de resolução prioritária.
A Área e a sua Envolvente

A
través desta leitura procura-se veriicar como se percepciona a Área do seu exterior, em
que medida se distingue ou se funde com a sua envolvente, que relações morfológicas e
de uso estabelece com ela, como se caracterizam as suas fronteiras e qual a consistência
formal que possuem para poder concluir se é necessário intervir nestes aspectos e, caso o seja,
construir propostas de intervenção.
Interessa consequentemente veriicar:
• Como se apresenta a Área ao aproximarmo-nos dela vindos do seu exterior;
• Quais as relações morfológicas e de uso que estabelece com a envolvente, avaliando a sua
qualidade e adequação:
• Quais as formas de acesso ao seu interior e que consistência formal apresentam as suas
fronteiras, ou seja, se estas delimitam ou não descontinuidades de tecido, inclusivé para
avaliar o interesse de acentuá-Ias ou esbatê-Ias através da intervenção de reabilitação, de
fechar ou abrir a Área ao seu exterior, de reforçar bruscas mudanças de caracter urbano
ou de as diluir através do tratamento dos espaços periféricos como áreas de transição.
É ainda necessário formar uma opinião sobre o modo como a Área se integra na paisagem ur-
bana do aglomerado, qual a sua visibilidade quando observada do exterior mais ou menos lon-
gínquo, para poder concluir se há ou não necessidade de controlar a sua imagem, não apenas
do ponto de vista interno da Área, mas também por via da sua contribuição para a imagem da
cidade. Este é um aspecto importante para a qualiicação da referida imagem e que não costu-
ma merecer atenção ao proceder ao estudo da transformação de áreas urbanas.
A perceção dos modos de aproximação à Área faz-se:
• Realizando os percursos de entrada na Área existentes e observando o modo como a esta
se expõe quando observada do exterior: visão alargada sobre a Área ou impossibilidade
de descortina-la quando observada à distância;
• Percorrendo a linha de periferia e veriicando as formas de acesso à Área: através de es-
paços coninados entre a ediicação, marcando “portas de entrada”, ou através de espaços
abertos formando “áreas de entrada”;
• Percorrendo o tecido de ligação da envolvente com a Área, ou seja, a faixa deste que de-
limita/distingue o interior da Área da sua envolvente;
• Observando as continuidades e descontinuidades morfológicas e de uso que ligam/sepa-
ram a Área da sua envolvente;
• Observando a Área de pontos longínquos e analisando a sua contribuição para a imagem
geral da cidade.
Este conjunto de observações deve permitir avaliar o modo como se apresentam as relações da
Área com a sua envolvente, indicar as intervenções necessárias para resolver eventuais proble-
mas morfológicos e de uso, corrigir desconexões formais e/ou funcionais que se veriiquem na
fronteira e deinir as medidas a tomar para valorizar a contribuição da Área para a imagem do
Aglomerado Urbano.
Esta questão, que geralmente não é analisada, tem a maior importância se a Área faz parte
das perspectivas panorâmicas do Aglomerado Urbano contribuindo, consequentemente, para
a composição da sua silhueta e cor.
O modo como a Área participa na imagem da cidade em que se integra terá de ser informado
e discutido a nivel do planeamento desta e pode ser um importante condicionamento da volu-
metria, da cor e doutras características da imagem da Área.
Capítulo IV - PREPARAÇÃO PARA O TRABALHO DE CAMPO

P
ara registo da leitura é necessário, para além das bases cartográicas, material de escrita,
fotográico, de registo sonoro, video ou outro que o observador considere necessário
para captar e transmitir as observações a efectuar.

A realização de algumas entrevistas de rua e com interlocutores privilegiados, o registo de


ruídos urbanos, ou outros tipos de obtenção de informação no local são excelentes auxiliares
da leitura da imagem.
Cada observador deve criar a sua própria forma de abordar a Área procurando, no entanto, não
perder de vista os objectivos que se pretendem alcançar e o tempo disponível, o qual deve ser
reduzido (um a dois meses no máximo).
A elaboração dum guião de leitura é uma tarefa fundamental a realizar nesta fase.
Resumindo, a preparação para realizar a leitura da imagem da Àrea Urbana inclui ter iniciado
e tirado as principais informações dos estudos de apoio descritos no capítulo anterior e a pre-
paração do trabalho de campo, ou seja::
• A aquisição duma primeira noção das características e da dinâmica de transformação
da Área como parte do seu contexto urbano, municipal e regional;
• A obtenção de cartograia, fotograias aéreas existentes (escalas 1/10000, 1/5000) e do
cadastro da Área;
• O levantamento da toponímia e das divisões administrativas e outras de interesse para
a gestão urbana;
• A obtenção de material de registo escrito, fotográico, video ou outros.
• A elaboração e discussão dum guião de leitura da imagem que estabeleça uma platafor-
ma comum de leitura para os diversos observadores e os ajude a entender como viabilizar
os objectivos desta.
• A realização de entrevistas de rua e com interlocutores privilegiados, o registo dos rui-
dos urbanos e outros registos que se considerem de interesse para auxiliar a leitura da
imagem.
Guião de Leitura da Imagem de uma Área Urbana
Objetivos da Leitura
Procura-se obter, de forma expedita(1), directa e personalizada, um retrato global, dinâmico e
crítico da Área o qual permita formar uma ideia da sua constituição, estrutura, características
e dinâmica de transformação, identiicar os problemas que a afectam, as potencialidades que
oferece e delinear objectivos, políticas, estratégias e hipóteses de intervenção para a reabilitar e
orientar a construção da sua transformação ao longo do tempo.

Preparação da Leitura
Antes de proceder à observação da Área considera-se necessário:
• Conhecer a situação e as principais relações da Área com o conjunto urbano da que per-
tence (cidade/município/região), o que a caracteriza como parte do referido conjunto e a
dinâmica de transformação a que está sujeita por via dessa pertença;
• Analisar as cartas topográicas da Área para perceber as características gerais da topo-
graia do terreno, o tipo de organização e estrutura do tecido urbano (malha urbana,
hierarquia viária, diferentes partes e eixos urbanos, tipologias urbanas e dos edifícios cor-
rentes e excepcionais, ... ), aspectos particularmente relevantes do seu tecido urbano e ou-
tras observações que se considerem de interesse extrair das cartas para orientar a leitura;
• Levantar a toponímia da Área;
• Formar uma ideia da evolução histórica do tecido urbano da Área.
Método de Leitura
O método a a aplicar consiste na observação direta da Área a qual se propõe que siga os seguin-
tes passos:
• Percorrer toda a Área (se possível de automóvel) e formar uma ideia geral da sua estru-
tura urbana, das partes e principais eixos que a deinem, da distribuição espacial das ac-
tividades, dos tipos de população, de ediicações e outras características gerais relevantes,
e elaborar uma carta que traduza a estrutura geral e as características muito relevantes
detectadas;
• Observar a envolvente próxima da Área e o modo como se relaciona com esta, as formas
de aproximação à Área e as características das fronteiras;
• Organizar, de acordo com a estrutura geral percepcionada, percursos a pé que permitam
visitar detalhadamente a Área e realizá-los observando: as pessoas (quem) e as activi-
dades (o quê) nos espaços (onde); o espaço público e semipúblico, a sua coniguração e
expressão a três dimensões; o ediicado, a sua expressão tipológica e a apropriação social
do espaço;
• Interrogar e avaliar o que se vê à medida da observação, relacionar entre si as observações
(1) O tempo necessário para proceder à observação depende mais da complexidade do que da dimensão da Àrea e, prin-
cipalmente, da experiência do observador. Considera-se, com base nos estudos de caso e outras aplicações realizadas,
que um observador medianamente experiente dispende 4 a 8 semanas para efectuar as observações. Posteriores visitas
são geralmente necessárias para esclarecer dúvidas e obter informações compllernentares, durante o registo e análise da
informação obtida.
realizadas para poder deinir, interpretar, cartografar e avaliar as características da
Área no que se refere a:
– morfologia geral da paisagem urbana;
– relações da Área com a sua envolvente - entradas e barreiras, continuidades e des-
continuidades morfológicas, funcionais e de imagem do tecido urbano, perspectivas
de aproximação, relações de uso, ... ;
– constituição e estrutura da Área - as pessoas e as relações sociais, seus valores e signi-
icados urbanos; o tecido social e a sua distribuição no espaço; as actividades e os lu-
xos; rganização, expressão, apropriação espacial e signiicado urbano das actividades
e dos lugares; os espaços urbanos e a ediicação, suas características morfotipológicas,
organização e expressão; os acontecimentos urbanos. As partes, eixos, marcos urba-
nos e pormenores notáveis, o mobiliário urbano e o “Lettering”, espécies vegetais e
animais presentes;
– dinâmica de transformação da Área: forças demográicas e económicas em acção
expressas através das modiicações visíveis do ediicado, do espaço urbano, dos equi-
pamentos e infraestruturas, das actividades e do tipo de população;
– signiicados e valores urbanos, características ambientais e elementos que deinem o
caracter da área.
Registo da leitura
É essencial que as observações feitas no local se traduzam em cartas anotadas de forma a re-
ferenciarem os espaços onde se veriicam as características observadas, precisando os locais a
que dizem respeito, sejam eles uma esquina de rua, uma parte da Área, um conjunto de quar-
teirões, um edifício, uma rua, um trecho dela, ou qualquer outro local.
As anotações nas cartas devem traduzir com idelidade a localização da observação realiza-
da. Se os contornos espaciais forem imprecisos essa imprecisão deve ser indicada usando, por
exemplo, o traço tracejado em vez do contínuo, a mancha em vez do contorno, etc.
Recomenda-se a anotação nas cartas das observações de forma sistemática e à medida da sua
realização, para não haver perda de informação mesmo que pareça pouco relevante para os
objectivos da leitura.
Ao realizar o trabalho de gabinete de registo da análise em ichas e de interpretação da obser-
vação é importante dispor, não só do conjunto dos registos das características da Área, mas das
ideias que ocorreram durante a leitura relativas a problemas, potencialidades, soluções e temas
de estudo que é necessário desenvolver de imediato por corresponderem a informações funda-
mentais para interpretar a leitura e que esta não consegue obter (por exemplo dados relativos
a características da população, facilmente disponíveis nos censos; a carreiras de transportes
públicos; informação relativa à evolução histórica da Área ... )
A documentação fotográica, em vídeo ou esquissos deve também icar claramente referenciada
em cartas e organizada de modo a ser facilmente identiicável e consultável durante o trabalho
de gabinete.
Capítulo V - LEITURA, INTERPRETAÇÃO E AVALIAÇÃO DA
IMAGEM DE UMA ÁREA URBANA

A
leitura da imagem, para que possa servir para transmitir, de forma adequada aos objec-
tivos do trabalho, o conhecimento, interpretação e avaliação de uma Área Urbana, tem
de se formular tendo por base um quadro de análise que estabeleça as características
que se considera traduzirem a realidade observada e a sua dinâmica de transformação.

Pretende-se um retrato a traços largos, diríamos quase caricatural, na medida em que uma
boa caricatura deine claramente o caricaturado com grande economia de meios e acentuando
com nitidez os traços essenciais e os pormenores signiicativos que o expressam.
A nossa proposta de quadro de análise diz respeito aos seguintes aspectos:
• Constituição e estrutura da Área, resultante da síntese de informação relativa a:
– constituição e estrutura morfotipológica
– constituição e estrutura activa
– constituição e estrutura social
– constituição e estrutura signiicativa.
• Mobiliário urbano e “lettering”, espécies vegetais e animais;
• Carácter urbano;
• Dinâmica urbana.
A síntese da informação que elucida estes items permitirá conhecer, nos seus aspectos essen-
ciais, a Área e a sua dinâmica de transformação e proceder à sua interpretação, detetando os
problemas e as potencialidades principais da Área e obtendo a informação que contribui para
a construção de hipóteses alternativas de solução dos primeiros e de exploração das segundas.
Como complemento da leitura da imagem, é necessário obter informação sobre as infraestru-
turas da Área, e conhecer os serviços urbanos existentes e o modo como se processam (servi-
ços de limpeza, de reparação de ruas, manutenção da iluminação e das áreas verdes, bocas de
incêndio e organização para combate a fogos, substituição e reparação de mobiliário urbano).
É ainda necessário dispor do cadastro da Área.
Se este não existir ter-se-à de proceder à sua elaboração e procurar garantir a sua permanente
atualização através da organização da gestão urbanística corrente da Área.

Constituição e a Estrutura Morfotipológicas

N
esta rubrica pretende-se reunir a informação necessária para caracterizar e interpretar
o espaço urbano, perceber como se constitui e organiza e que características o deinem
como elemento constitutivo da Área.
Para cumprir estes objectivos organizámos a informação de modo a poder conhecer, interpre-
tar e avaliar:
• As bases de formação do tecido urbano;
• A ocupação do solo;
• A malha urbana;
• O espaço urbano;
• O ediicado

As Bases de Formação do Tecido Urbano

A
passagem de um sítio rural a urbano realiza-se interpretando a paisagem rural à luz
da ideia de cidade que preside à época em que a referida transformação se processou e
segundo o correspondente modo de produção urbana.
Os elementos estruturadores do tecido urbano deinem-se tendo por base a morfologia do sítio
e a evolução histórica da constituição do seu tecido marcando, reforçando ou desfazendo os
traçados e a divisão da propriedade existentes de acordo com as sucessivas exigências das ur-
banizações e os conceitos de cidade que as informaram.
A primeira aproximação à leitura da constituição e estrutura morfológica da Área corresponde
à interpretação conjugada dos estudos preparatórios realizados sobre a morfologia da paisagem
do sítio onde esta se implanta para identiicar como se estrutura, e sobre a evolução histórica
da sua urbanização para detectar os elementos que presidiram, em cada época, à organização
do respectivo tecido.
A avaliação do modo como se processou a urbanização e dos elementos que a marcam, da ca-
pacidade havida para dominar correctamente a morfologia da paisagem local e para “coser” as
sucessivas intervenções é um passo essencial para orientar a deinição das propostas a elaborar
para manter e irmar a estrutura existente, para colmatá-ta ou para a deinir, caso o tecido se
apresente desestruturado ou desadaptado à morfologia do sítio.
Ocupação do Solo

R
eferimos, nesta rubrica, a informação quantitativa que se achar conveniente para dei-
nir os índices gerais de ocupação do solo dos diferentes tipos de usos (solo ediicado,
espaço público e espaço privado exteriores) os quais permitirão avaliar densidades de
ocupação e disponibilidades de terreno.
Estes índices devem ser determinados por zonas que tenham características de homogeneidade
morfológica, sobretudo se a Área apresentar partes muito diferenciadas, e avaliados comparan-
do-os com os valores médios correspondentes do Aglomerado, com os valores recomendados a
nível internacional e com os valores limite existentes na Área.
Caso se considere de interesse serão calculados, nesta fase, índices referidos a usos do solo mais
detalhados do que os indicados.

A Malha Urbana

A
análise da malha urbana, ou seja, da geometria desenhada no solo pela sequência dos
espaços públicos e privados (ocupados ou não pela ediicação) é uma das caracterís-
ticas mais marcantes e permanentes do tecido urbano e mais signiicativas das suas
potencialidades de uso e expressão formal, da sua legibilidade e penetrabilidade.
A malha urbana denota a forma de entendimento do sítio, da sua topograia, potencial cénico e
características climáticas, exigências de drenagem e ventilação, condicionamento ou elasticida-
de de adaptação a diferentes tipologias e formas de agrupamento da ediicação; marca a inter-
pretação que cada época teve/tem das exigências relativas à acessibilidade, modos de circulação
e de estada urbanos, às necessidades de resolução da ediicação e do espaço aberto privado e da
hierarquização e signiicado dos lugares.
Para analisar, interpretar e avaliar a malha urbana considerou-se necessário observar:
• Os traçados e as suas orientações dominantes, reveladoras do posicionamento da malha
no terreno, dos elementos de construção da sua geometria, das continuidades e descon-
tinuidades do tecido;
• A geometria desenhada pela malha, que indica a diversidade ou homogeneidade do te-
cido, a sua coniguração unitária ou por partes diferenciadas, a articulação ou desarticu-
lação existente entre as partes, a hierarquização formal/posicional dos elementos que a
constituem, os condicionamentos que afetam a deinição da divisão da propriedade;
• A rede formada pelos espaços públicos lineares (espaços que se caracterizam pela mar-
cada acentuação da dimensão do eixo correspondente ao comprimento, formando “es-
paços canais”). Esta rede deine as possibilidades de irrigação do tecido, de mudanças
de orientação de percursos e o tipo de acessibilidade criada. O modo como os espaços
públicos lineares se posicionam, relacionam e hierarquizam no interior da Área e se pro-
longam ou interrompem para além dela permite perceber a estrutura que traduz:
– O modo de urbanização do sítio em termos de acessibilidade interna e externa;
– A diferente atratividade quanto à localização das actividades;
– A deinição de zonas calmas e interiorizadas, de áreas abertas ao exterior e de pon-
tos ou eixos de convergência interna;
– As sequências e interrupções de percurso das diferentes hieraquias viárias;
– A adaptabilidade que oferece à implantação de diferentes tipologias do ediicado.
• Através da análise desta característica é possível avaliar a coerência e adequação do tra-
çado para cumprir uma implantação urbana clara, estruturada e adaptada à topograia e
as suas potencialidades de uso.
• O traçado da rede pode apresentar-se desestruturado ou, embora revelando uma estrutu-
ra, deinir acessibilidades e hierarquias que não se cumprem no terreno devido ao dese-
nho das vias que o concretizam (caso de alguns traçados da Madragoa) ou apresentarem
uma estrutura semidestruída por intervenções que, fechadas na sua própria lógica, se
esqueceram de cumprir a estrutura deinida em anteriores ocupações rurais ou urbanas
(caso de Benica). A malha, conforme o seu traçado, pode proporcionar uma larga gama
de usos sem se alterar e sem os restringir.
• A estrutura de relacionamento dos espaços públicos não lineares (espaços que se carac-
terizam pela pouca diferença da dimensão entre os seus diversos eixos). A estrutura de
relacionamento destes espaços denota como foram interpretadas:
– As exigências da estada pública,
– A concentração ou dispersão destes espaços no tecido,
– A sua hierarquização,
– A sua importância ou marginalização na deinição ou reforço da estrutura da malha
urbana,
– Os elementos ordenadores do seu posicionamento e desenvolvimento formal.
• A análise desta estrutura permite proceder à avaliação do equilíbrio da distribuição dos
espaços públicos não lineares no tecido e a necessidade, ou não, de criar, ampliar, elimi-
nar(1) ou deinir a hierarquia deste tipo de espaços.
• A hierarquia dos espaços de estada refere a sua importância não apenas relativamente à
Área, mas para o conjunto da cidade, ou a nível nacional e mesmo internacional(2) e
tem a ver essencialmente com a excelência do tratamento arquitectónico, sendo ainda im-
portantes as questões de uso, dimensão e posicionamento no tecido.
• O objectivo desta análise engloba assim, não apenas uma perspectiva de uso local, mas
ainda os aspectos de signiicado e forma no contexto urbano geral, se a Área em estudo
ou algum espaço nela tiver importância a este nível.
• Para o adequado conhecimento e reforço da capacidade propositiva relativamente ao es-
paço urbano consideramos essencial dar aos espaços de estada o mesmo relevo que tem
sido dado aos espaços de circulação em termos do seu estudo e resolução, deinindo in-
clusivé, hierarquias estruturadoras do seu uso e signiicado.
A interpretação e avaliação da malha urbana é um passo essencial para a compreensão e ava-
liação da Área, para diagnosticar a consistência e as potencialidades dum tecido urbano, pro-
ceder à veriicação da sua adequação ao terreno e construir soluções que corrijam desvios e
(1) - Eliminar espaços de estada parece ser, na prática, uma hipótese absurda, dada a sua normal escassez. No entanto
pode ser o caso, por exemplo, de urbanizações realizadas segundo os princípios do movimento moderno e onde se consi-
dere necessário densiicar e/ou dominar formalmente o espaço urbano por este estar diluido em múltiplos espaços amor-
fos, ou redesenhar e reutilizar espaços intersticiais ou de ligação amorfa entre «urbanizações».
(2) - Refere-se como exemplo o Terreiro do Paço, (Lisboa) e a Praça de São Marcos, (Veneza)
deiciências do traçado existente ou, caso se veriique a inexistência duma estrutura ordenado-
ra, proceder à sua criação dando coerência e legibilidade ao tecido urbano

O Espaço Urbano

O
conjunto dos espaços públicos organizam-se de forma sequencial irrigando o terri-
tório. A sua estrutura de relacionamento, a malha urbana, denota o modo como se
realizou a apropriação urbana do local e se estabeleceram relações com o seu exterior
alargado.
Para além da malha urbana, trama de sustentação e organização do tecido urbano constituída
pelos espaços públicos, o espaço urbano inclui espaços exteriores cuja deinição formal/posi-
cionamento no tecido os aponta como espaços semi-públicos e espaços privados. Estas desig-
nações referem, neste texto, características morfológicas e não o estatuto da propriedade (que
aliás não inclui espaços semi-públicos).
O espaço urbano privado é-o por via da sua inacessibilidade formal (fechado pela construção)
enquanto o semi-público é como tal classiicado porque, embora formalmente acessível, dado
que a ediicação não o fecha, o modo como o acesso se expressa formalmente cria dúvidas sobre
a possibilidade de nele entrar incondicionalmente, denota a preocupação de o ligar a um grupo
restrito de utilizadores, de o fechar/esconder de modo a dar-lhe uma certa privacidade que faz
pressupor regras de utilização e apropriação particularizadas.
Espaços públicos, semi-públicos e privados, formam o espaço urbano, e constituem as cate-
gorias que organizam, pela importância que atribuímos às diferenças de acessibilidade pública
na construção do espaço/imagem da cidade, a análise do espaço urbano como objecto em si,
como espaço arquitectónico, como forma concreta, individualizada e multidimensional dei-
nida para responder às necessidades de uso colectivo e individual no sentido lato de apropria-
ção/fruição/representação.
Numa primeira aproximação procurar-se-à agrupar os espaços urbanos por características fí-
sicas marcantes das suas possibilidades de uso, e que apontam para a deinição de diferentes
tipologias.
Interessará agrupar os espaços públicos lineares segundo as características do seu peril trans-
versal a três dimensões, o qual indica o tipo de circulação que permite e aponta as caracterís-
ticas do espaço canal que deine.
Os espaços públicos não lineares serão classiicados segundo o tipo de pavimentação e a exis-
tência ou não de mobiliário urbano adequada à estada urbana, características que marcam
intenções de utilização, e ainda os aspectos relacionados com a sua dimensão e hierarquia ur-
bana. Destacar-se-ão ainda, relativamente aos espaços não pavimentados e mistos, diferentes
designações que se relacionam com o seu arranjo paisagístico/utilização (jardim, parque, hor-
ta, terreno vago, ... )
A análise das actividades no espaço permitirá concluir posteriormente da adaptação/desadap-
tação deste àquelas e da consequente necessidade de intervenção num ou noutras para um bom
equilíbrio urbano.
Quanto aos espaços semi-públicos exteriores, o levantamento realizado nos estudos de caso
(Madragoa/Lapa e Benica - Lisboa) permitiu identiicar páteos e vilas, designações retiradas
da toponímia e que apresentam grande diversidade formal e a característica comum de se si-
tuarem no interior dos quarteirões acedendo directamente da via pública através de espaços de
entrada em corredor entalado na ediicação. Estes espaços permitem o acesso público a edifí-
cios que, de outro modo, seriam directamente inacessíveis, localizados como estão no interior
dos quarteirões.
Os espaços privados exteriores deverão ser agrupados com idêntico objectivo: facilitar a com-
preensão da variedade de tipologias representadas para posterior avaliação da adequação das
formas aos usos existentes e consequente necessidade de alterar umas ou outros caso haja desa-
justamentos importantes que devam ser corrigidos pela intervenção de reabilitação .
Nos estudos de caso referidos, os espaços privados exteriores são agrupáveis nos seguintes ti-
pos: jardim/quintal, saguão, logradouro e “campus” que enquadram diversos edifícios de
administração pública surgindo ainda em Benica uma propriedade agrícola.

O Ediicado

O
ediicado apresenta-se ao leitor da imagem urbana através das fachadas expostas as
quais constituem as “paredes” deinidoras do espaço urbano analisado na rúbrica an-
terior.
As fachadas são, nesta perspectiva, parte integrante do espaço urbano considerado como es-
paço arquitectónico multidimensional e não apenas, como o planeamento físico o considerava,
espaço a duas dimensões, ordenador da circulação e da implantação do ediicado ou deste so-
brante para, na melhor das hipóteses, ser “ajardinado”.
Ao tratar especiicamente o ediicado na leitura da imagem urbana procura-se, com base na
observação das fachadas, detectar as características gerais relativas à sua constituição e esta-
do de conservação, para apontar os problemas e potencialidades que permitirão caracterizar
as necessidades gerais de intervenção de reabilitação no ediicado.
A possibilidade de realizar esta análise através da leitura urbana pressupõe que quem a efectua
possui previamente os conhecimentos necessários para reconhecer, através da observação das
fachadas e com uma margem de erro reduzida, as características gerais construtivas e tipológi-
cas dos edifícios.
Exige, consequentemente, conhecimentos aprofundados da história da arquitectura e da cons-
trução, dado que cada época propõe soluções construtivas, organizativas e de expressão esté-
tica próprias, quer para a arquitectura corrente quer para programas especiais e revela-as na
expressão das fachadas, na resolução dos acessos, nas formas de agrupamento e de implantação
dos edifícios e na sua volumetria.
A leitura da imagem do ediicado como objecto próprio de análise e intervenção realiza-se de
forma e identiicar as características da Área no que se refere a:
• Épocas e tipos de ediicação, estado de conservação e volumetria geral;
• Tipologias correntes e excepcionais dos edifícios, das formas de agrupamento dos edifícios
e da agregação dos fogos nos edifícios de habitação;
• Património histórico e artístico.
A informação indicada é recolhida de modo a:
• Detectar e delimitar áreas degradadas e diferentes graus aparentes de degradação;
• Obter indicações relativas à variedade tipológica da ediicação presente na Área e à sua
distribuição espacial, de modo a deinir zonas características segundo os tipos de ediica-
ções que as constituem;
• Identiicar as tipologias dos edifícios presentes para interpretar o modo como o ediicado
contribui para a deinição do uso e do caracter urbanos e orientar a escolha de edifícios
representativos dessas variedades para proceder ao levantamento das características da
sua organização espacial e construtiva. Esta informação interessa para esclarecer a capa-
cidade de uso que oferecem, tendo em atenção as actuais exigências dos modos de vida e
os problemas construtivos que será necessário encarar para a sua reabilitação e conser-
vação, sem realizar o levantamento exaustivo do ediicado, operação demorada, onerosa
e de pouca utilidade nesta fase do trabalho que é de identiicação e localização geral de
problemas, tipos de soluções e estratégias de ac ção, para discussão geral e por grupos
de interesses e para decisão política. No decorrer do trabalho e à medida da tomada de
opções de intervenção e consequente estabelecimento de meios de estudo e acção serão
deinidos e realizados os levantamentos necessários para obter a informação rigorosa e
detalhada do ediicado e que permte proceder à elaboração dos projectos, reinventando
soluções ou reconstituindo a traça primitiva.
• Obter elementos para deinir os custos globais e a estratégia geral da reabilitação do
ediicado conforme o seu estado de conservação, a importância histórica, artística e cul-
tural, os meios disponíveis e a perspectiva sobre a reabilitação que venha a ser adoptada.
Esta deve icar claramente esclarecida e fundamentada, indicando as opções relativas à
importância que se atribui às exigências de reconstituição ou renovação, parcial ou inte-
gral, da ediicação. A perspectiva a adoptar sobre o grau e os critérios de conservação do
ediicado deverá surgir como consequência de um debate fundamentado, o qual não tem
sido realizado e que permitiria esclarecer até que ponto e porquê se deverá manter a ima-
gem existente, ou reinterpretá-Ia e introduzir-lhe a expressão da actualidade interligando
novo e antigo, ou criar uma nova imagem para o tecido existente.

Caracterização Geral dos Edifícios

E
sta informação é recolhida de modo a distinguir e delimitar zonas constituidas na sua
totalidade ou maioritariamente por edifícios da mesma época, ou que apresentem uma
mistura idêntica de edifícios de diversas épocas de construção, o que signiica que foram
sendo construídos e/ou reconstruídos ao longo dos mesmos períodos, assim como as zonas se-
gundo o seu grau de degradação/conservação e as volumetrias dominantes.
A identiicação, por áreas, dos conjuntos signiicativos de “misturas” de edifícios segundo as
épocas de construção, ou dos conjuntos ediicados no mesmo período e por vezes correspon-
dendo a um único projecto, é um auxiliar precioso para apoiar a indicação, por áreas, das
tipologias de ediicação presentes e do estado de conservação/degradação previsível da cons-
trução.
A volumetria do ediicado é também descrita em termos gerais distinguindo as características
volumétricas por partes da Área, ou seja, indicando a dominância do número de pisos que dife-
rencia umas das outras, acentuando a sua homgeneidade neste aspecto ou apontando as zonas
que se caracterizam pela diversidade das volumetrias dos edifícios que as constituem.
Época de ediicação, volumetria e estado de conservação são características que se relacionam
permitindo deinir partes distintas e homogéneas da Área sob uma multiplicidade de outros
aspectos os quais conduzem à identiicação dos problemas que as afectam e das soluções aplicá-
veis. É, portanto, uma análise da maior importância para interpretar a constituição e estrutura
morfotipológica da Área, deinir e enquadrar os levantamentos e estudos necessários para co-
nhecer detalhadamente os edifícios presentes, deinir as exigências da sua reabilitação e as suas
possibilidades de uso.

Tipologia dos Edifícios e dos Fogos

A
identiicação localizada da variedade tipológica dos edifícios da Área, auxiliada pela
leitura realizada na alínea anterior permite conhecer e avaliar, em termos gerais, o edi-
icado e orientar a escolha de edifícios representativos da variedade de tipos presente
para proceder ao levantamento detalhado das características da sua organização espacial e
construtiva.
Esta informação tem, como airmámos anteriormente, o interesse de esclarecer a capacidade
de uso que os edifícios oferecem em relação às actuais exigências dos modos de vida, das acti-
vidades económicas e o tipo de problemas construtivos que será necessário encarar para a sua
reabilitação ou conservação, sem realizar o levantamento exaustivo de todo o ediicado.
A identiicação e caracterização por áreas, das formas de agrupamento dos edifícios é ainda
uma importante informação para a caracterização morfotipológica da Área e para perspectivar
o modo de realizar a reabilitação física.
A forma de agrupamento de fogos nos edifícios de habitação, de fácil percepção por obser-
vação dos acessos, alerta para as questões da partilha e gestão dos espaços semiprivados dos
edifícios, das relações/confrontos de vizinhança que proporcionam, das possibilidades que ofe-
recem de transformação tipológica por junção ou divisão dos fogos existentes conforme estes
se apresentem excessivamente exíguos ou amplos, da irrigação do espaço urbano pela multi-
plicação de acessos pouco frequentados ou do espaçamento destes com saidas e entradas mais
concentradas.
O Património Histórico e Artístico

A
observação das fachadas permite proceder a uma primeira identiicação das ediicações
com interesse a nível da própria Área, a que se deve juntar a listagem do património
classiicado por ter valor nacional ou municipal.
A cartograia do património, distinguindo os diferentes níveis de interesse deste, dá uma me-
dida signiicativa da importância da Área sob este ponto de vista e é um auxiliar importante
para deinir os critérios de intervenção quanto às exigências de conservação/reconstituição e
possibilidades de renovação/substituição dos edifícios segundo as diferentes partes da Área.
A avaliação patrimonial, para poder contribuir para a deinição das orientações relativas aos
critérios de reabilitação das diferentes partes da Área, deverá abranger os edifícios, os elemen-
tos e pormenores dos edifícios e ainda os quarteirões, sítios, espaços públicos delimitados, es-
pécies vegetais, áreas verdes, e mobiliário urbano.
O estudo e avaliação da Área sob o ponto de vista histórico, artístico e cultural, que se deverá
desenvolver desde o início do trabalho, deverá ser aprofundado à medida das decisões de in-
tervenção e de modo a detalhar a informação sobre o património necessária à execução da sua
reabilitação e à gestão urbanística corrente.
A discussão alargada do valor do património da Área ixará a perspectiva sobre a sua conser-
vação/renovação e a decisão sobre o seu uso de forma espacialmente detalhada.

Constituição e Estrutura Activas

A
leitura das actividades da Área é espacializada de modo a permitir perceber como es-
tas se apropriam do espaço, que estrutura activa deinem nele, que tipos de actividades
se encontram presentes e como se misturam entre si ou se especializam por locais.
É ainda importante assinalar o tipo de unidades funcionais presentes (pequenas, médias ou
grandes unidades) veriicar:
• Se ocupam os r/c, se se estendem aos primeiros andares ou à totalidade dos edifícios;
• O tipo de clientela a que se dirigem;
• A área de inluência que têm;
• A antiguidade ou modernidade do sistema de funcionamento que revelam.
A estrutura activa deve incluir não apenas as actividades económicas, mas todas as activida-
des do quotidiano, incluindo o habitar, as que se reunem nos equipamentos (estudar, tratar
da saúde, cuidar dos idosos e das crianças, actividades culturais) e as que se desenvolvem no
espaço público sejam de circulação ou de estada.
A veriicação simultânea do conjunto das actividades presentes permite deinir:
• As áreas ou eixos de animação e de sossego ou de desinteresse pelo espaço urbano; ava-
liar a boa ou defeituosa irrigação do tecido;
• A pressão excessiva relativamente às características espaciais ou a desertiicação dos es-
paços existentes;
• A multi ou monofuncionalidade das diferentes partes e eixos da Área.
A avaliação da estrutura activa deve ser feita relativamente às características do tecido exis-
tente, às necessidades dos residentes, às exigências de funcionamento das actividades instaladas
e ainda às do Aglomerado Urbano para serviço da população em geral, concluindo da necessi-
dade ou não de proceder à introdução, expansão ou reconversão de actividades, precisando
os locais onde é necessário intervir para adequado funcionamento de todo o tecido, respeitan-
do as suas características e proporcionando à população a resolução do seu quotidiano num
ambiente seguro e com vida urbana.
São conhecidos os profundos desequilíbrios que se veriicam na implantação das actividades,
os quais provocam a existência de dormitórios e, no polo oposto, de áreas de implantação qua-
se exclusiva de actividades económicas com os conhecidos e graves inconvenientes quer locais,
quer afectando vastas áreas circundantes por via dos luxos e reluxos de circulação, da acumu-
lação de estacionamentos e do desiquilíbrio de utilização relativamente ao dia e à noite, aos dias
da semana e do im de semana.
Foi referido, aquando do estudo da inserção da Área no Aglomerado Urbano, que uma das
questões a considerar diz respeito às previsões ou decisões relativas à implantação de activi-
dades à escala do Aglomerado Urbano para conhecer as transformações que a Área em estudo
tenderá a sofrer por via delas.
Na avaliação da estrutura activa da Área é essencial ter em conta e discutir o impacto resultan-
te das referidas decisões, que poderão introduzir profundas alterações na constituição e estru-
tura não só das actividades existentes mas, e em consequência, das diferentes características
urbanas em geral.
É essencial, para realizar o controlo da qualidade do espaço e dos modos de vida, dominar a
localização das actividades orientando-as para locais onde não só tenham boas condições de
funcionamento como venham a contribuir para a valorização do funcionamento e do ambiente
urbanos.
O estabelecimento de critérios claros de localização das actividades e a criação de condições
para os fazer respeitar é condição básica do equilíbrio e qualidade urbanos e um dos factores
que deinem os modos de vida e a sua organização no espaço/tempo dos quotidianos urbanos.
O controlo da localização das actividades é diicultado pelas diferenças de valor fundiário que
provoca, pelas vantagens de funcionamento e de imagem oferecidos pela sua concentração, pela
ausência de planeamento de pormenor que cubra o território e contenha informação suiciente-
mente detalhada sobre os usos do solo e contemple os mecanismos para a sua discussão e ava-
liação permanentes permitindo, inclusivé por essa via, lexibilidade de aplicação sem prejuizo
da irmeza dos objectivos de qualidade urbana a alcançar.
A referida discussão e avaliação alimentaria em simultâneo, a sucessiva consciencialização/
resolução dos problemas ligados aos modos de vida e à sua dependência da orientação do de-
senvolvimento económico e do funcionamento das estruturas do poder a ele ligadas.
Conhecer, interpretar, avaliar e proceder à discussão alargada da constituição e estrutura
da localização das actividades no território à escala local é um importante contributo para
esclarecer e poder resolver a questão essencial da qualidade da vida urbana.
A existência duma política de solos que contrarie os efeitos perniciosos do funcionamento do
mercado, apoiada por um planeamento de pormenor e um marketing efectivos; a criação de in-
centivos, penalizações e de uma iscalização eicaz; o desenvolvimento de fundamentação que
elucide as vantagens das localizações propostas para as actividades, consciencialize a opinião
pública e a oriente para discutir e controlar a distribuição dos usos do solo de forma favorável
a um funcionamento urbano harmonioso são medidas que contribuiriam para regular esta
questão essencial.
A organização dos comerciantes e dos proprietários locais para o acompanhamento das suas
diiculdades e exigências de transformação, a procura de soluções vantajosas do ponto de vista
dos usos e que sejam, simultâneamente, viáveis e económicamente rentáveis podem contribuir
positivamente para manter o equilíbrio dos usos e promover o desenvolvimento local.
Para proceder à leitura e interpretação da estrutura activa deiniram-se os seguintes grupos
de actividades:
• Habitação, equipamentos, administração pública e actividades económicas, distinguin-
do-se nestas o comércio, os serviços e a indústria;
• Trânsito, transportes, estacionamento, cargas e descargas e circulação de peões;
• Estar, lazer, convívio, cultura, troca e expressão da marginalidade no espaço urbano.
A observação das actividades deve realizar-se de dia e de noite, durante a semana e ins de se-
mana dado haver, conforme estes períodos, alterações signiicativas no funcionamento destas,
com importantes repercussões no uso do espaço urbano e do ediicado.
A síntese da informação obtida apresenta a constituição e estrutura activa da Área.
A sua interpretação e avaliação permitem detectar os problemas e as potencialidades dos usos
urbanos existentes, elaborar propostas de intervenção e proceder à deinição das estratégias de
regulação e negociação dos usos do espaço.
Estas estratégias têm de ter em consideração as necessidades da população residente, de loca-
lização de actividades a nível do Aglomerado Urbano e de funcionamento das próprias activi-
dades.
A participação dos agentes sociais, em geral e por grupos de interesse, na organização das acti-
vidades urbanas, na apropriação e reabilitação dos espaços é, como temos airmado, um factor
determinante das estratégias de estudo e acção neste domínio.
Embora a instalação ou desaparecimento das atividades económicas não dependa das compe-
tências públicas, é essencial considerar como tarefa do planeamento local o acompanhamento,
dinamização e apoio às actividades urbanas.
Habitação, Equipamentos, Administração Pública e Atividades
Económicas

A
espacialização das actividades faz-se distinguindo-as por áreas, eixos ou outras coni-
gurações que traduzam a sua “arrumação” no território.
Dado que as actividades se misturam diversamente no espaço, as indicações relativas
ao seu “zonamento” referem a presença exclusiva ou dominante das actividades em análise e
a sua concentração ou dispersão nas zonas/eixos assinalados.
Teremos assim, no que diz respeito à habitação, áreas exclusivamente residenciais, de habita-
ção e outras actividades e sem habitação.
No que se refere a equipamentos, e na perspectiva de destacar as características com interesse
para formar uma ideia concreta e operacional da Área, fomos conduzidos, nos estudos de caso
realizados para teste do método, a assinalar os equipamentos por tipos e conforme se inseriam
de forma dispersa ou contínua no tecido ou se localizavam no interior de grandes lotes, assim
como a nomear os equipamentos cuja abrangência excedia notoriamente o âmbito da Área.
Quanto às actividades económicas a indicação da sua espacialização deve distinguir o comér-
cio, os serviços e a indústria assinalando actividades especíicas que se considere de interesse
destacar, (por exemplo, um hipermercado, importante centro comercial, ... ) e a indicação rela-
tiva ao facto de se apresentarem de forma concentrada ou dispersa nas áreas assinaladas.
Quanto à administração pública destacar-se-ão as instalações segundo a sua pertença a servi-
ços centrais ou locais.
A síntese desta informação corresponde a uma carta onde se marca a presença e a disposição
deste conjunto de actividades no território da Área e que permita formar uma ideia sobre as
características da Área quanto a:
• Possíveis faltas ou excessos de atividades;
• Mono ou polifuncionalidade;
• Grau e modo de irrigação do tecido pelas actividades,
• Situação das manchas e eixos de concentração de actividades;
• Continuidades descontinuidades que se estabelecem relativamente à envolvente.
A avaliação feita permite identiicar os problemas, as potencialidades e deinir os locais e as
actividades cujo estudo é prioritário para o aprofundamento da informação levantada e que
interessaria desencadear de imediato dada a importância dos usos na deinição e qualidade do
meio urbano, a sua complexidade e a desadequação do método de leitura da imagem para ob-
ter informações para além duma primeira ideia sobre o tipo de actividades presentes e o modo
como se apropriam do território.
Trânsito, Transportes, Estacionamento, Cargas e Descargas, Cir-
culação de Peões

A
leitura destas actividades orienta-se pelas preocupações já expostas e prossegue idênti-
cos objectivos.
Os locais de circulação são espacializados destacando:
• Os sentidos do trânsito relativos aos transportes públicos e privados;
• As carreiras e terminais dos transportes públicos existentes;
• Os pontos e eixos de maior intensidade de tráfego e de conlito relativos à circulação do
automóvel e deste com o peão;
• As soluções espaciais para realização das cargas e descargas, os locais onde estas são proi-
bidas e as áreas e/ou eixos onde não apresentam problemas agudos.
O estacionamento é assinalado indicando, por áreas, as soluções e as anomalias gerais encon-
tradas, assim como outras questões que se venham a observar através da leitura e que se consi-
derem com importância para equacionar as actividades referidas nesta rubrica.
Uma carta de síntese prepara a identiicação dos problemas e das potencialidades da Área, re-
lativamente a estas actividades, e as correspondentes hipóteses de solução.
Os estudos especializados que terão de ser desenvolvidos para melhor informação e para estru-
turar as soluções, excedem geralmente o âmbito territorial e as competências de intervenção
em áreas urbanas, sobretudo se há importantes transformações a realizar. É no entanto funda-
mental proceder a uma análise que informe sobre as necessidades especíicas da Área e procu-
rar as formas da sua satisfação.
O trânsito, os transportes e as infraestruturas são questões que mais evidenciam a necessidade
de relacionar escalas de intervenção e de irmar compromissos entre os agentes sociais atuan-
do aos diferentes níveis.

Estar Urbano

A
leitura das múltiplas actividades que se realizam no espaço público para além da cir-
culação, completa a informação correspondente às actividades urbanas.
As referidas actividades deverão registar-se assinalando-as nos locais onde se desen-
volvem. Esta informação é essencial para se perceber a variedade de oportunidades de relação
social e de apropriação que o espaço urbano oferece, incluindo a relativa à população margi-
nal, e aos locais escolhidos para a sua efetivação.
A importância que este conhecimento tem para o entendimento do espaço recomenda a elabo-
ração de estudos especíicos, de carater sociológico e antropológico sobre o assunto.
Há ainda que registar as diferenças de uso nos períodos do dia e da noite, as variações sema-
nais e sazonais e os eventos excepcionais ligados a festas, manifestações desportivas, culturais,
religiosas, políticas.
Constituição e Estrutura Social

A
través da leitura da imagem da Área procura-se ainda formar um conhecimento es-
pacializado das características da população instalada, ou vinda do exterior para
utilizar a Área, em termos dos grupos sociais dominantes que a constituem e onde se
localizam.
As características que se procurarão identiicar são as relativas à presença dos diferentes grupos
socio-económicos, etários e étnicos, interessando ainda formar uma ideia sobre a existência de
inactivos, de grupos de alto risco e de marginais.
Quanto mais estratiicada e espacialmente segregada fôr a população mais claros e, portanto,
menos sujeitos a erros serão os resultados da leitura da imagem. De qualquer modo serão ne-
cessariamente deicientes, apesar de apenas terem por inalidade introduzir os aspectos gerais
mais importantes relativos à população para interpretar o espaço urbano em termos do uso,
apropriação e sociabilidade existentes e apontar exigências de organização de intervenções
de acção social.
Certa ou erradamente interpretadas, as características das pessoas e das suas relações com o
espaço está implícita na leitura e avaliação do meio urbano e é uma base fundamental dessa
avaliação. Consideramos portanto necessário fazer o esforço de leitura da geograia humana
ligada aos usos percepcionados para veriicar, inclusivé, a relação entre certos tipos de quali-
dade, animação e pitoresco urbanos e a presença de grupos sociais especíicos que geralmente
a acção de reabilitação tende a transformar ou expulsar, se não de imediato, a médio prazo,
mesmo que se procure evitá-lo.
Resumindo, a constituição e estrutura social da Área tem por base a informação espacializada,
relativa à sua população (instalada no ediicado e vinda do exterior) indicando os grupos socio
-económicos, etários, étnicos, de activos e de inactivos, os grupos de risco e de marginais.
O interesse desta informação é, essencialmente, apoiar a interpretação, segundo os diferentes
grupos sociais presentes, da apropriação da Área e da sociabilidade no espaço público, aspec-
tos básicos para poder avaliar a qualidade urbana e deinir a necessidade, a prioridade e o tipo
de estudos sociológicos e antropológicos a desenvolver, seguidamente.
Pode ser útil, para adquirir sensibilidade quanto à paisagem humana da Área, proceder a uma
recolha fotográica dos diferentes tipos de pessoas em presença e das suas actividades.
A realização de entrevistas com interlocutores que conheçam bem a população (Junta de Fre-
guesia, Segurança Social, Saúde, Polícia, habitantes de longa data,... ) é importante nesta fase
do trabalho.
O confronto com a informação estatística, analisada na fase preparatória da leitura da imagem
serve de primeiro teste a esta informação.
Constituição e Estrutura Signiicativa

A
nalisada a Área segundo os principais elementos que a constituem ( as pessoas, as acti-
vidades e os espaços) pretende-se agora deinir, interpretar e avaliar os seus aspectos
signiicativos, ou seja, os que são especialmente registados pela memória dos utilizado-
res constituindo pontos fortes da imagem urbana.
São aspectos que marcam as características através das quais os utilizadores descrevem a ima-
gem, a apreciam e que:
• Permitem recordar e identiicar os locais conotando-os valorativamente:
• Deinem a legibilidade do tecido marcando pontos, eixos e áreas de referência;
• Simbolizam acontecimentos colectivos ou pessoais;
• Expressam o mapa mental da Área;
Uma leitura do tipo da proposta por Kevin Lynch, a recolha dos mapas elaborados para os
turistas e para a população em geral, o estudo dos mapas mentais duma amostra signiicati-
va de utilizadores, o comentário ao levantamento de locais destacados como referências pelo
observador e pela população e outros métodos permitem identiicar a estrutura signiicativa
da Área, mapiicá-Ia, proceder à sua avaliação, identiicar a amplitude geográica que alcança
(signiicado local ou para além das fronteiras da Área) e concluir da necessidade de qualiicar a
Área caso se encontre desprovida de signiicados urbanos ou estes tenham conotação negativa.
Nesta fase do trabalho a estrutura signiicativa da Área exprime apenas a interpretação dos
mapas elaborados para orientação/valorização turística da cidade, no que se refere à Área, e a
memorização valorativa da leitura do/s observador/es. Este exercício é essencial para que es-
te/s procedam à aproximação sintética da imagem global observada, destacando as referências
marcantes dessa memória e procurando as suas bases explicativas.
O registo da constituição e estrutura signiicativas é importante para decidir se é necessário
realizar estudos especializados e, caso seja, para servir de base para a sua programação.
A referida estrutura e, duma maneira geral, os aspectos ligados aos signiicados urbanos per-
manecem mal conhecidos, apesar da sua importância para a adaptação e apropriação urbanas
e consequente identiicação, estima e orgulho da população relativamente ao seu território.
Consideramos do maior interesse desenvolver esta linha de abordagem da leitura do meio ur-
bano dadas as potencialidades que oferece para a sua apreciação qualitativa e para a construção
de propostas de intervenção.
É ainda importante assinalar que a procura da identiicação e fundamentação dos signiicados
urbanos exige uma ampla participação da população e pode, por esta via e se bem explorado,
ser um motor fundamental de interesse e entendimento do meio pela comunidade, de mobili-
zação para assumir e realizar a reabilitação da Área
Como primeira orientação indicamos os seguintes temas a procurar elucidar:
• Sistema de legibilidade e orientação, eixos, pontos, percursos e áreas de referência.
• Marcos .
• Roteiros turísticos.
• Representações e marcas deixadas na imagem pela história dos quotidianos, passada e
actual.

Síntese da Leitura da Constituição e Estrutura Urba-


nas

C
om base nas análises efectuadas elabora-se a síntese dos aspectos fundamentais que se
destacaram para caracterizar a estrutura da Área de modo a responder aos objectivos
da leitura da imagem: deinir em traços gerais o “retrato” actual da Área, interpretá-lo e
avaliá-lo; identiicar e localizar os problemas, as potencialidades e as características relevantes
proporcionando a construção das hipóteses de intervenção que conduzirão à reabilitação da
Área e orientarão a sua transformação e o desenvolvimento da população nela territorializada.
A reabilitação urbana é uma acção de mudança territorial e social, que só aparentemente
se limita a “melhorar o que está”. Desencadeia movimentos imediatos ou a médio prazo de expulsão da
população e de actividades, de entrada de novos usos e grupos sociais, de alteração da imagem urbana pela intro-
dução de novos edifícios e espaços e/ou da valorização dos já existentes.
A reabilitação da Área pode produzir um esvaziamento que a transforme em museu urbano ou
dar-lhe uma vida urbana revigorada ou até excessiva. Não intervir dá livre curso à degradação
física e social, ou seja, a não intervenção provoca também transformações.
A avaliação da Área e a construção de hipóteses de intervenção pressupõe a resposta não de-
terminística às questões relativas ao tipo de espaço urbano e aos modos de vida que se proces-
sam nele e aos que tenderão a realizar-se após as intervenções que se apresentam como hipóteses
- que população ixa e lutuante; que actividades no espaço ediicado e no espaço exterior; que
tipo de sociedade, de ambiente natural e ediicado, de condicionamento ou liberdade perante
as presenças herdadas que constituem a Área; que deinição espacial/formal dos domínios de
apropriação pública e privada; que exigências qualitativas e como concretamente se exprimem;
que mobilidade proporciona o espaço reabilitado e através de que meios de circulação, ...
A aposta na heterogeneidade ou na homogeneidade social; na multi ou monofuncionalidade;
na largueza ou no coninamento dos espaços; na privatização ou na passagem ao domínio pú-
blico de áreas do espaço exterior; na conservação, elaboração criativa ou airmação agressiva
da expressão da actualidade na imagem urbana; na importância relativa do automóvel privado,
dos transportes públicos e do peão são, entre outras, as questões que informam as diferentes
“ideias ou conceitos de cidade” e que servirão de padrão avaliador do tecido existente e de
orientação para a construção das propostas de intervenção.
A “cidade diversa” corresponde a um conceito de qualidade urbana obtida pela presença de
diferentes padrões urbanos sucessiva e harmoniozamente conjugados no espaço.
Este conceito de “boa cidade” permite realizar uma reabilitação que respeite os diferentes tre-
chos ou áreas urbanas construídos nas diversas épocas, mas exige o esforço de criar e de gerir
uma oferta de residência socialmente diversiicada em cada um dos diferentes tipos de tecido
de modo a permitir o acerto entre as características urbanas deste e as preferências dos grupos
da população que gostam e querem neles viver.
A liberdade de escolha do local de morada que existia, embora com condicionamentos, dada
a diversidade de oportunidades socio-económicas que cada zona urbana e mesmo cada edifí-
cio ofereciam é um valor a recuperar ou esbarraremos, no que se refere à larga maioria da população, com
o desajuste entre as suas preferências quanto tipo e localização do lugar de residência e o trecho de cidade onde
teve de ir morar, com os consequentes desacertos e mal estar generalizado que tais desacertos provocam e com
o consequente agravamento dos problemas de segregação social e o seu cortejo de diiculdades sociais e de
organização espacial.
É importante, nesta fase, o exercício de construção de hipóteses de intervenção que concreti-
zem, na área em estudo, os diferentes padrões de qualidade urbana considerados adequados,
de modo a abrir o leque de oportunidades relativamente aos diferentes estratos populacionais,
a não multiplicar guetos, a proporcionar um tecido naturalmente integrador pela diversidade
de oportunidades que oferece.
É essencial que a síntese do conhecimento obtido sobre a Área transmita, de forma clara, a/s
“ideia/s de cidade” que está/ão nela expressa/s e que a avaliação se faça explicitando quais
“ideia/s de boa cidade” que servem de padrão/ões avaliador/es.
A discussão das hipóteses de intervenção que se realizará no seguimento do processo de pla-
neamento da reabilitação da Área terá assim bases concretas para se efectivar.
Os agentes sociais implicados no processo de reabilitação deverão aperceber-se dos diferentes
padrões de vida/imagem urbana propostos em alternativa para realizar a reabilitação ou não
poderão participar conscientemente na avaliação crítica da cidade em presença, na deinição e
na construção das opções concretas de desenvolvimento social e de qualiicação territorial.

Mobiliário Urbano, “Lettering”, Vegetação e Animais

A
informação sobre o mobiliário urbano. o “lettering” e as espécies vegetais e animais
existentes no espaço urbano da Área é importante para a formulação das normas a
respeitar no projecto e no uso de espaços exteriores relativamente a estes aspectos, e
de forma diferenciada para os diferentes trechos urbanos.
Deverá proceder-se, consequentemente,ao levantamento e indicação da distribuição na Área
destas existências e indicar:
• A sua caracterização quanto ao tipo de funções que desempenham;
• A variedade de tipos de desenho dos primeiros e de características dos segundos;
• O modo como se organizam por áreas ou misturados nos mesmos espaços.
Estas informações têm interesse para proceder à avaliação da sua eventual falta ou excesso,
adequação funcional e qualidade formal.
A carga publicitária que nos invade, a sua agressividade crescente, o seu não enquadramento
na imagem urbana e a geralmente enganadora informação que transmite exige uma relexão
que excede o âmbito da reabilitação duma área mas que seria importante conhecer, discutir e
ensaiar tipos de respostas a este nível.
As actividades e o mobiliário do espaço urbano estão intimamente relacionados e deverão ser
estudados em paralelo, quer para dar resposta a necessidades sentidas, quer para proporcionar
a descoberta de novos usos do espaço.
Outra questão da maior importância para a qualidade urbana relaciona-se com a presença de
espécie vegetais e animais, com o peso do “verde” relativamente ao construído, com as dife-
rentes expressões e funções que a “vegetação urbana” pode tomar e desempenhar na qualiica-
ção ambiental e na aproximação do citadino à natureza sem desfazer o caracter mineral que a
cidade oferece e que é uma das suas características.
A falta de contacto com o meio “natural” é cada vez mais sentida e provoca os fenómenos das
casas de im de semana, a multiplicação dos equipamentos turísticos e das saídas em massa da
cidade em ins de semana, férias e feriados e mesmo o abandono da cidade por quem não ne-
cessita dela para resolver o seu quotidiano laboral.
A excelência da cidade está posta em causa e a sua humanização apresenta-se como um proble-
ma de sobrevivência do ambiente, não só urbano mas também do rural, cada vez mais afetado
pela invasão dos fugitivos urbanos temporários e sem a “cultura da terra”.
Deverá atender-se, no que se refere ao mobiliário e ao “lettering”, a sua resposta aos seguintes aspetos:
• Iluminação;
• Atividades de estada, cultura, lazer;
• Capacidade de informação e orientação;
• Serviços à comunidade: transportes, telefone, limpeza urbana;
• Segurança.

Caráter Urbano

C
ada lugar tem a sua expressão própria e reconhecível, identiicável com épocas, estilos
urbanos, valores culturais e meios inanceiros que presidiram à sua construção, inluên-
cias climáticas e da topograia, com os modos de vida que procuraram servir e outros
múltiplos factores que lhe conferiram um dado carater.
Toda a intervenção urbana, como temos repetidamente airmado, corresponde a uma trans-
formação, a alterações físicas, sociais, ambientais e económicas, de maior ou menor amplitude
e que procuram: conservar e melhorar o existente, na medida em que se lhe reconhece quali-
dades a manter ou a alterá-lo por se veriicar a sua falta de qualidade e o incumprimento das
exigências urbanas.
Quer num caso quer noutro é necessário deinir a expressão particular do lugar em presença.
A intervenção de reabilitação, quer procure conservar o carater da Área ou alterá-lo, exige
identiicar as características que particularmente o deinem, como se exprimem, que soluções
de desenho urbano, que programas, que dominâncias de côr e forma, que claro/escuro, que
alinhamentos e recortes, que relações visuais entre espaços próximos entre si e longínquos se
estabelecem.
Esta análise da imagem para identiicar o carater urbano é da maior importância para deinir
o tipo de soluções urbanísticas que se ajustam ao existente e servir de base para a elaboração
das normas de desenho urbano, ou seja, das indicações que o planeamento deve fornecer aos
projectistas e promotores que irão interpretar e concretizar as ditas propostas: os projectos dos
edifícios e espaços exteriores a “integrar” na Área cujo carater se quer conservar ou dos que
se têm de construir para imprimir, a um tecido urbano de má qualidade, ou amorfo, carater
próprio e com valor.
Integrar uma nova proposta num ambiente existente quer dizer o quê? que características se
têm de respeitar? que fazer para que o novo não destoe nem agrida, antes colabore e potencie
o tipo de qualidade da imagem existente? que indicações o estudo da imagem pode dar para
poder “agarrar um espaço”, para completá-lo? para lhe dar a forma/aparência urbana que o
realiza como parte daquele sítio? onde e como se exige a um novo projecto que se “apaque” no
conjunto ediicado ou que tome a iniciativa de resolver uma imagem falhada ou amorfa? o que
falha numa imagem urbana?
O estudo do carater urbano duma Área, do todo ou da variedade e sequência das suas diferen-
tes partes, conforme a respectiva imagem o imponha, deve procurar responder a este tipo de
preocupações.
A leitura da imagem urbana, no sentido indicado, é uma tentativa que tem de ser feita a nível do
planeamento como contribuição indispensável para o estudo e o controlo do desenho urbano,
para dar conteúdo à arquitectura da cidade, para poder, como indicava Barnet, J. “desenhar a
cidade sem desenhar os seus edifícios”, para interessar a arquitectura nesta escala de interven-
ção formal perdida nos planos de zonamento, na justaposição de urbanizações e de edifícios
de autor cujo carater é comandado, as mais das vezes, pelo objectivo de criar uma imagem que
airme publicamente e publicite este e os seus clientes.
Estas questões estão em aberto. Urge estudá-Ias para dar conteúdo e poder estabelecer procedi-
mentos adequados para a elaboração, discussão e aplicação. de normas de controlo do desenho
urbano e da paisagem em geral, para recriar uma cultura estética do ambiente genericamente
interiorizada e não apenas espectacular e supericialmente expressa por obras elitistas, singu-
lares e pontuais.
Para obter informação sobre o carater urbano ter-se-á de procurar analisar as seguintes ques-
tões:
• Tipo de soluções formais relativas a:
– sequências de espaços públicos
– sequências de fachadas;
– pormenores signiicativos.
• Paleta de cores
• Ambiente humano
• Ambiente das actividades instaladas e de circulação
• Ambiente sonoro e luminoso
• Vegetação e tipo de arranjos paisagísticos
Dinâmica Urbana

A
s análises resultantes da leitura da imagem que temos indicado anteriormente desti-
nam-se a registar, interpretar e avaliar a Área em termos do seu retrato no momento
da observação.
Não se exploraram, até este momento, os aspectos reveladores da dinâmica de transformação
em curso na Área.
A leitura da imagem permite prececionar alterações recentemente efetuadas e as que se encon-
tram em curso a nível do espaço urbano, do ediicado, das actividades e do tipo de população
instalada e lutuante, ou seja, obter indicações sobre a referida dinâmica.
Esta é essencial para avaliar se a Área se encontra em decadência, perda de vitalidade ou se,
pelo contrário, é atractiva e sujeita a pressões de renovação.
A veriicação da existência e do tipo de obras de reparação ou substituição de imóveis e de ar-
ranjos exteriores, das características de modernidade ou de tradicionalidade das actividades
de comércio e serviços instalados e em instalação, de contrastes socio-económicos e etários
observáveis na população permite obter uma ideia sobre a existência e sentido das transforma-
ções em curso na Área.
Esta informação, que deve ser espacializada, referencia a dinâmica existente ou inexistente, re-
lativamente a toda a Área ou, diferenciadamente, às suas partes.
Por esta via percebem-se eventuais tendências de transformação e avalia-se o desenvolvimento
ou declínio da Área, as partes e eixos de estagnação e desenvolvimento.
É essencial completar esta informação com o levantamento, junto dos serviços municipais, dos
pedidos de licenciamento existentes, dos projectos e obras em curso empreendidas por par-
ticulares e de responsabilidade pública e do movimento relativo à instalação de actividades
comerciais, de serviços e escritórios e à perda ou aumento de residentes.
A informação produzida na imprensa através dos anúncios relativos a ofertas de compra e
venda de fogos e de imóveis, trespasses de estabelecimentos, propostas de aluguer e outras in-
formações como as que dizem respeito à variação do emprego, evolução dos preços dos terre-
nos e outros indicadores económicos são um importante contributo para conhecer e avaliar as
tendências de transformação em curso.
A mapiicação da informação obtida permite esclarecer a geograia das tendências de evolu-
ção urbana da Área, interpretar e avaliar as vantagens e inconvenientes dessa evolução e o
interesse dos investidores pelas diferentes partes do tecido.
As hipótese de intervenção são assim deinidas em termos do esforço que será necessário para
dinamizar ou conter os agentes sociais em acção na Área e para avaliar o impacto a médio
przo quer do processo de mudança em curso, quer das ações de reabilitação a empreender
para o orientar.
Resultados da Leitura da Imagem

O
conhecimento e diagnóstico da Área, em termos do existente e da dinâmica própria
de transformação, e o conjunto das hipóteses de intervenção formuladas permitem
preparar um documento de síntese que destaque as propostas alternativas relativas a:
• Objectivos, políticas e estratégias gerais de reabilitação da Área;
• Hipóteses gerais de intervenção que as servem;
• Operações de reabilitação que organizam, em acções concretas, o cumprimento das hi-
pótese de intervenção no que se refere ao curto e médio prazos.
É essencial, para a operacionalidade do trabalho realizado, que o produto inal das análises
efectuadas seja a deinição de operações de reabilitação informadas de modo a:
• Possibilitar a elaboração de estimativas gerais de custos e de prazos de execução;
• Obter as bases que permitem desenvolver a programação dos respectivos projectos de
execução;
• Deinir os meios inanceiros e organizativos a disponibilizar e a captar para as executar;
• Identiicar os agentes sociais que serão implicados nas operações;
• Fazer a discussão pública baseada em propostas concretas de acção.
É ainda indispensável efectivar uma proposta ou propostas alternativas para a estrutura orga-
nizativa, técnica e de inanciamento do processo de sustentação da reabilitação física e da di-
nâmica de desenvolvimento da Área ou corre-se o risco do esforço de planeamento realizado
se perca reduzindo-se à aprovação dum plano que rápidamente se desactualiza e a uma gestão
corrente que segue as antigas rotinas.
Relembramos que o trabalho realizado, apesar de ser levado até à deinição das operações de
reabilitação, está longe de concluir a fase de planeamento dado que corresponde a uma propos-
ta técnica provisória e que serve para provocar e apoiar a discussão entre os diferentes agentes
sociais tendo em vista:
• O acerto de ideias e actuações e o estabelecimento de consensos e compromissos de rea-
lização;
• A veriicação do interesse, capacidade e disponibilidade de meios de realização;
• A deinição dos estudos especializados a empreender para consolidação técnica do tra-
balho;
• A captação de inanciamentos e outras múltiplas acções que desencadeiam e constituem,
de facto, o processo de planeamento/acção de reabilitação urbana, processo no qual a
atuação técnica terá de ir encontrando, no interface com os diferentes agentes sociais, as
sucessivas respostas a nível técnico e metodológico (organização do processo de planea-
mento, decisão e execução).
O estudo a que chamámos leitura da imagem urbana e que se completa nesta etapa transmite
uma primeira opinião da equipa técnica que o realizou sobre o que é a Área e como deve ser
reabilitada e para dar uma primeira resposta às questões que necessitam resposta para orga-
nizar e informar o processo de planeamento o qual, uma vez desencadeado, irá conjugando
os conhecimentos, os estudos e as acções dos diferentes agentes sociais, incluindo os técnicos
das diferentes especialidades, para eventualmente o reformular e para realizar a reabilitação
urbana.
É importante mais uma vez acentuar que a leitura da imagem urbana, tal como a descrevemos,
é um instrumento de preparação técnica da equipa para poder apoiar, do ponto de vista me-
todológico, técnico e organizativo o processo de planeamento/acção e não para o substituir;
oferecendo a solução deinitiva e para todos os problemas, pressupostamente pronta a aplicar,
apesar da não veriicação da sua conformidade com as vontades e possibilidades dos agentes
sociais ou, o que é mais corrente, listando recomendações sem a preocupação de veriicar se são
viáveis, sem apresentar as soluções e operações que as cumprem.
O planeamento icaria assim esvaziado, facilitando a promoção de acções avulsas mais ou me-
nos de acordo com o plano dada a sua indeinição, ao sabor das circunstâncias, de resultados
imprevisíveis e por vezes globalmente danosos e abdicando da didática de desenvolvimento
que o processo de planeamento continuado no tempo e participado efectiva.
A apresentação do estudo e das propostas deverá ser feita de forma não académica e guiada
pela preocupação de tornar os seus conteúdos fácil e rapidamente compreensíveis aos agentes
sociais .
A falta de tempo de que normalmente dispôem os referidos agentes e a sua não necessária
preparação técnica exigem uma grande clareza e simplicidade de exposição, a rápida percep-
ção do que se recomenda concretamente que se faça, com que custos, quando e através de que
meios humanos, técnicos e logísticos.
As exigências de comunicação e discussão públicas do trabalho realizado reforçam a necessida-
de da sua clareza assim como da apresentação das formas concretas de operar que se propõem
e da indicação das intervenções que se veriicou poderem de facto ser cumpridas a curto prazo
dado que existe vontade poítica, se avaliou a disponibilidade dos meios inanceiros e se verii-
caram as capacidades técnica e de gestão para a sua realização.
Para poder ajuizar o contributo da leitura da imagem para o processo de planeamento e conhe-
cer o tipo de estudos e acções que completam esta primeira fase e o enunciado das seguintes
recomenda-se a leitura do extracto, que se apresenta em anexo, da metodologia de planeamento
proposta e já citada.

Lisboa, Março 1989


Capítulo VI - BIBLIOGRAFIA

ABRAMI, G. - Progettazione Ambientale, Roma, Dedalo, 1987.


ALEXANDER, C. - Uma Cidade não é uma Árvore, Lisboa, Arquitectura 95,1967 (22-29).
Ȥ Notes on the· Synthesis of Form, Cambridge, Mass. Harvard University Press, 1964.
Ȥ A Pattern Language, Atenas, Ekistics 23 (139) June 1967 ;
Ȥ he Environmental Pattern Language, Atenas, Ekistics 25 (150) May 1968.

ANTUNES, A: A; ROSA - Contribuição para a Deinição. das Necessidades Sociais a Nivel


do Quotidiano numa Área Urbana
Ȥ 1ª PARTE - Práticas Sociais Quotidianas e Apropriação Social do Espaço, Lisboa, LNEC,
1989
Ȥ 2ª PARTE - Utilização e Apropriação de Áreas Urbanas, Lisboa, LNEC, 1990
APPLEYARD, D. - he Environment as a Social Symbol: Wlthin a heory of Environmental
Action and Perception. Journal of the American Planning Association 45 (2), April, 1979.
Ȥ Towards a Urban Design Manifesto, Berkeley, Institut of Urban and Regional Develop-
ment, University of Califórnia, 1981.
Ȥ Urban Design Guidelines for Management, Berkeley, Institut of Urban and Regional De-
velopment, University of California, Working Paper N° 385, April 1982.
BAILL Y, A.S. - La Perception del Espacio Urbano - conceptos, metodos de estudio y su utili-
zation en la investigacion urbanística, Madrid, 1979.
BARNET, J. - An Introdution to Urban Design, New York, Harper & Row, 1982.
BERTRAND, M.J.; LlSTOWSKI,H. - Les Places dans la Ville , Paris, Dunod, 1984.
BOGANOVIC, B. - Symbols in the City and the City as a Symbol, Atenas, Ekistics, 39 (232),
1975 (140-146).
BROADBENT,G. - Emerging Concepts in Urban Space Design, Van Nostrand Reinhold (Inter-
national) Co, London, 1990
BROTCHIE, J. , NEWTON, P. , HALL, P. (editores) - he Future of Urban Form - the impact of
new tecnhology, New York, Croom Helm, London & Sydney Nichols Publishing Company, 19
CANIGGIA, G. , MAFFEI, G. L. - Composicione Architettonica e Tipologia Edilizia 1. Lettu-
ra deli’ Edllizia de Base, Padova, Marsilio,197
CASTEX, J., PANERAI. C. e PH. - Lecture d’une Ville: Versailles, Paris, Editions du Moniteur,
1980
CULLEN, G. - he Concise Townscape, London, Architectural Press, 1971.
DUPLAY, C. e M. - Méthode lllustrée de Créatlon Architectural, Paris, Editions du Moniteur,
1982.
FALCO, L. - I “Nuovi” Standard Urbanistici, Roma, Dedalo, 1987.
FERREIRA, M. I. CAETANO - Contribuição da Análise Paisagística para o Planeamento da
Reabilitação de Áreas Urbanas _ Estudo de Caso: Madragoa / Lapa e Benica. Lisboa, LNEC,
1991
Ȥ Planeamento do Desenvolvimento SocioUrbanístico de Áreas Urbanas
Ȥ 1ª PARTE - Contribuição da Análise Paisagística no Planeamento do Desenvolvimento
Socio-Urbanístico de Áreas Urbanas, Lisboa,LNEC,1989
Ȥ 2ª PARTE - Índices de Qualidade Ambiental, Lisboa, LNEC, 1990
GAITI, A. - II Disegno della Cittá, Roma, Dedalo, 1987.
GROTH,P. - Street Grids as Frameworks for Urban Variety, Cambridge, Harvard Architectu-
ral Review, 2, Spring 1981 ,MIT Press.
JACOBS, A. , GOULD, L. - Observing and Interpreting the Urban Environment. Case Study:
Naglee Park, San Jose, Berkeley, Institute of Urban and Regional Development, University of
California, Working Paper N° 372, February, 1982.
KRIER, R: - EI Espacio Urbano, Barcelona, Gustavo GiIi, 1981.
LYNCH, K. - A Imagem da Cidade, Lisboa, Edições 70, 1982(1 ª edição Harvard, Mass. 1960).
Ȥ A heory of Good City Form, MIT Press, 1981.
Ȥ City Design and City Appearance, in Principies and Practice of Urban Planning, Good-
man, W. and Freund, E. (editores), Washington International City Manager’s Association,
1968.
Ȥ Site Planning, Cambridge, MA, MIT Press, 1980.
Ȥ Managing the Sense of a Region, Cambridge MA, MIT Press, 1980.
Ȥ City Design: what it is and how it might be tought, Urban Design International , VI, 2,
1980.
PANERAI, P. et ai - Elementos de Analisis Urbano, Madrid, Instituto de Estudios de Admi-
nistration Local, 1983.
PITTALUGA, A. - IL Paesaggio nel Território, Roma, Dedalo, 1987.
PITTAS, M. - Deining Urban Design, Urban Design International 1(2) 40 1980.
RAPOPORT, A. ; KANTOR, R.E. - he Perception of Urban Complexity, AIP Journal, Mar-
ch,1970.
Ȥ Human Aspects of Urban Fm: towards a man-environment approach to urban form
design, Oxford, Pergamon Press, 1977.
Ȥ he Meaning of the Bullt Environment: a no Verbal Communication Approach, Beverly
Hills: Sage, 1982.
Ȥ SAN FRANCISCO DEPARTMENT OF CITY PLANNING - The Urban Design Plan of
San Francisco, California, 1971;
Ȥ Guiding Downtown Development, San Francisco, 1980.
SANTOS, C.N.F., VOGEL, A. - Quando a Rua Vira Casa, Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro
de Administração Municipal, Centro de Pesquizas Urbanas, 1981.
VALENTE PEREIRA, L. - Deinição da Forma Urbana no Planeamento Físico, Lisboa, 1982
(Memória N°570).
Ȥ A Imagem da Cidade. O Conceito de Cidade. Leitura Análise e Diagnóstico da Ima-
gem Urbana. O Plano de Desenho Urbano de São Francisco, Califórnia, E.U.A., Lisboa,
LNEC, 1984.
Ȥ Atelier Experimental, Internacional e Interdisciplinar para o Ordenamento duma Zona
Contígua ao Centro Histórico de Évora, Lisboa, LNEC, 1986.
Ȥ Método de Apoio Técnico à Acção de Desenvolvimento Socio-Urbanístico de uma Área
Urbana de Intervenção, Lisboa, LNEC, 1986.
Ȥ Reabilitar o Urbano ou como Restituir a Cidade à Estima Pública, Lisboa, LNEC, 1986.
Ȥ Metodologia de Planeamento da Reabilitação de Áreas Urbanas, Lisboa, LNEC, 1991
(Memória N°769).
Capítulo VII - EXEMPLOS DE FICHAS DE REGISTO DA LEI-
TURA E AVALIAÇÃO DE ÁREAS URBANAS

Madragoa/Lapa
Malha Urbana - Orientação, tipos de malha e sua articulação

Caracterização
A malha urbana orienta-se segundo as linhas dominantes de relevo e apresenta um reticulado
de vias, por vezes denso, escassos largos e praças localizados na coróa periférica da área. Forma
uma quadrícula irregular que se organiza apoiada em desenvolvimentos lineares periféricos.
Caracteriza-se por apresentar grandes quarteirões que interrompem continuidades de traçado,
pela estreiteza e fraca hierarquização das vias. Não estabelece relações de continuidade com o
tecido envolvente a We S. Organiza-se formando conjuntos de quarteirões semelhantes, agru-
pados entre si e que deinem áreas diferenciadas quanto ao potencial de uso e ocupação do solo.
É uma malha que se fecha ao exterior.

Potencialidades
• Tecido estruturado, legível, bem irrigado, facilitando a mudança de orientação dos per-
cursos, deinindo áreas diversas apesar da sua unidade global.
• Dimensão dos quarteirões muito variada.
• Malha que se fecha ao exterior proporcionando um ambiente calmo e isolado no coração
da cidade. Orientação do traçado que potencia o usufruto visual do rio.

Problemas
• Descontinuidades por desfazamento das quadrículas.
• Multiplos cruzamentos.
• Estreiteza e variação dos peris das vías.
• Barreiras ao longo de amplas faixas do tecido.
• Fraca penetrabilidade deste relativamente ao exterior.

Hipóteses de Intervenção
• Manter as características da malha e a impenetrabilidade do tecido impedindo a instala-
ção de usos com ela incompatíveis ou
• Realizar profundas alterações para facilitar os atravessamentos N/S e E/W e a penetrabi-
lidade da malha e proporcionar novos usos.

Temas de discussão
• Vantagens e inconvenientes da fraca hierarquização das vias, da interioridade e da aber-
tura ao exterior do tecido.
• Adequação deste tipo de tecido à instalação de actividades económicas einteresse e possi-
bilidades da sua adaptação para garantir a circulação e o estacionamento.

Estudos a Desenvolver
Estudo comparativo de malhas urbanas idênticas e de diferentes épocas veriicando a sua va-
riação e a dos tipos de uso, formas e densidades de ocupação do solo que aceitam.
Benica
A Malha Urbana - Orientação do traçado. tipos de malha e sua
articulação

Caracterização
A malha urbana desenvolve-se apoiada num eixo central orientado a E/W coincidente com o
vale e no qual se apoiam perpendicularmente desenvolvimentos lineares a N e a S. Esta estru-
tura encontra-se parcialmente destruida devido à implantação de urbanizações que se orga-
nizaram ignorando-a e ocupando grandes quarteirões, abertos e irregulares. penetrados por
vias de acesso local com impasses e onde os edifícios se dispõem como unidades autónomas. A
desestruturação da malha acentua-se com a existência de grandes áreas que incluem quintas,
terras expectantes, parques, conjuntos de edifícios isolados e um cemitério.

Potencialidades
• O vale e as vias de atravessamento N/S marcam uma estrutura clara e adaptada ao terreno
que deverá ser explorada para organizar a malha.
• A existência de terrenos expectantes e de numerosos espaços intersticiais formalmante
indeinidos poderá ser utilizada para “coser” tecidos e estruturar a malha urbana.

Problemas
• Malha com fortes descontinuidades e indeinições apresentando-se retalhada.
• Falta de elementos estruturadores que “agarrem” as mudanças de tipo de malha.
• A estrutura central (eixo E/W e vias perpendiculares) apresenta-se interrompida e incom-
pleta.
• A malha estabelece fracas relações com a envolvente dada a existência de barreiras (E e
W), de grandes extensões de terreno com fraca ou nula penetrabilidade pública, de vias
de trânsito intenso e parcialmente sobreelevadas.
• A ligação previlegiada que o vale estabelece com a periferia e a parte central de Lisboa está
mal explorada

Hipóteses de Intervençao
• Reforçar a estrutura de base daEN malha préexistente e deinir elementos ordenadores
tratando com especial atenção as áreas de transição entre tipos de malhas e as relações de
“urbanizações” ente si e com a referida estrutura.
• Potenciar e clariicar as relações com a envolvente (N/NE e através do vale).
• Resolver o uso e a ocupação dos espaços intersticiais e dos terrenos expectantes.

Temas de Discussão e Estudo


• Tipos e funções actuais da malha urbana (esquema circulatório versus elemento organi-
zador da ediicação e do desenho urbano).
• Soluções que possibilitem a estruturação dum tecido fragmentado.
Plano de Salvaguarda do Núcleo Antigo de Sacavém
A Malha Urbana - Tipos, Articulação e Orientações

Caracterização
• Identiicam-se 2 tipos de malha urbana: LINEAR e ORGÂNICA
• Estas malhas articulam-se através de um eixo de espaços públicos formado pelo conjunto
dos largos 5 de Outubro, Pedro José Gomes e 1º de Maio
• A malha linear tem a orientação Nascente/Poente e a malha orgânica situa-se no qua-
drante Norte/Nascente/Sul

Problemas
• MALHA URBANA LINEAR nas zonas de fronteira, as relações morfológicas com a área
envolvente estão mal deinidas.
• MALHA URBANA ORGÂNICA cria circuitos labirínticos e sem sentido orientador e
permite pouca legibilidade do espaço urbano; não é atrativa para a implantação de ativi-
dades econ´micas ou equipamentos pelos condicionamentos de legibilidadr, dimensão e
circulação que impõem; gera áreas residenciais com problemas de salubridade, ilumina-
ção e ventilação

Potencialidades
• MALHA URBANA LINEAR tem um forte sentido orientados e hierarquizado, propicia
boa legibilidnúmero e, consequentemente, diversidade de percursosade, com boa acessi-
bilidade, o que permite usos diferenciados em termos do ediicado: atividades económi-
cas, habitação, equipamento
• MALHA URBANA ORGÂNICA propicia diversidade de espaços públicos em termos de
tipologia, dimensão e diversidade de percursos
Propostas
• Conservar os tipos de malha e a sua articulação
• Completar as áreas construidas (quarteirões a poente) para uma melhor deinição da ma-
lha linear.
• Efetivar intervenções pontuais na malha orgânica para resolver problemas de salubridade.

A Malha Urbana - Síntese

Caracterização
• Área de intervenção é constituida por dois tipos de malhas urbanas que se desenvolvem
com a orientação W/E, (orgânica e linear) claramente identiicáveis e que se articulam
através de um conjunto de três espaços públicos urbanos não lineares em sucessão e for-
mando um eixo vertical NW/SE.
• É uma malha urbana bem irrigada por vias e espaços públicos não lineares, cujas redes de
distribuição se apresemtam hierarquizadas, completas e variadas.

Propostas
• Manter os dois tipos de malha urbana e a sua articulação, a qual se faz através de um con-
junto de espaços públicos urbanos não lineares
• Preencher com construção a área Sul dos quarteirões da zona da malha urbana linear de
forma a completar/constituir quarteirões fechados, tipo retangular.
• Avaliar da possibilidade e interesse de abrir uma via de sentido único nas trazeiras a Sul
dos quarteirões da malha linear, com o objetivo de rematar/constituir frentes de rua e
manter a centralidade automóvel criando alternativas à circulação viária existente.
• Reforçar e qualiicar a articulação das malhas urbanas da Área de Intervenção com as
malhas urbanas envolventes de forma a acentuar o seu carater de centro de cidade.
Espaços Públicos Lineares

Caracterização
• Espaços urbanos de circulação pedonal e de veículos.
• Espaços urbanos que propiciam a implantação de atividades económicas.
• Espaços urbanos equilibrados que propiciam conforto ao peão.

Problemas
• De conlito peão-automóvel devido à dimensão do peril.
• De desconforto devido à ausência de passeios.
• De limpeza (que é deiciente) e de recolha de lixo (que obriga à localização de contentores).
• De iluminação pública insuiciente.
• De acesso de certos tipos de veículos: bombeiros, lixo e limpeza

Potencialidades
• Qualidade direcional
• Qualidade formal de grande número de fachadas.
• Propicia a sediação de atividades económicas
Propostas
• Retirar trânsito automóvel ou limitá-lo a um só sentido.
• Arranjar pavimentação, sem passeios e recomendando a diferenciação de materiais.
• Intervir no ediicado potencializando a qualidade.

Espaços Públicos Não Lineares - Largo 5 de Outubro


Caracterização
• O Largo 5 de Outubro é o principal espaço público da Área.
• É o Largo da Igreja, antigo cruzamento dos dois eixos maiores e estruturantes do aglo-
merado, a estrada de Lisboa e a estrada
para Camarate.
• É um ponto de encontro, convívio e
passagem onde se praticam atividades
económicas diversiicadas, instaladas
no piso térreo do ediicado em lojas, ou
em regime ambulante, se bem que em
locais certos.
• As principais atividades de cariz cul-
tural da Vila, como as festas da Sra da
Saúde, a Semana da Loriga, do Alentejo,
da Juventude, e a Feira do Livro, assim
como espetáculos, comícios e outras manifestações realizam-se no Largo.

Tipologia
• Espaço público não linear

Atividades
• Habitação, comércio, equipamento, circulação automóvel e pedonal, estacionamento, car-
gas e descargas, encontro, convívio, recreio.

Pavimento
• Asfalto e calçada à portuguesa.

Lettering
• Não deinido, desordenado.

Pormenores
Friso em asulejo, guardas de varanda em ferro, Tv. da Oliveirinha/ rua sob arco, pedra de verga
com inscrição, torre da Igreja (não integrada), platibanda decorada, soleiras muito antigas.
Problemas
• Espaço público sobreocupado por estacionamento automóvel, condicionando fortemente
a circulação pedonal e limitando a fruiçãc do espaço, em particular no que respeita às
actividades de estada, lazer e convivia.

• Ocupação abusiva dos passeios por viaturas, impedindo o acesso às lojas e a visibilidade
de montras.
• Iuminaçao pública deiciente.
• Inexistência de mobiliário urbano de suporte às actividades de estada urbana.
• Existência de edifícios fortemente dissonantes.
• Existência de um coreto cuja escala não se integra e cuja dimensâo também na prática não
permite qualquer uso.
• Espaço urbano pequeno para o a realzaçáo das actividades culturais que já actualmente
se realizam.
• Existência de lojas fechadas.
• Baixo nlvel de qualiicaçao das actividades económicas e espaços

Potencialidades
• É o centro da A.I., fruto da sua localização, num ponto de «cruzamento».
• Desmonstra aptidao como espaço público urbano não linear, embora nao equipado e so-
breocupado com estacionamento e tráfego automóvel.
• Existência de dois ediicios de grande signiicado local; Torre medieval e Centro Escolar
Republicano.
• Existência de um conjunto ediicado harmonioso.
• Desnlvel acentuado entre entrada Norte e zona central do largo, que propicia estaciona-
mento no subsolo.

Propostas
• Digniicar e valorizar a qualidade a qualidade do espaço público central.
• Retirar o tráfego automóvel e o estacionamento à superfície, criando um parque de esta-
cionamento subterrâneo.
• Ampliar o Espaço público para norte, com renovação do quarteirão da Travessa da Oli-
veirinha.
• Reabilitar os edifícios sendo admissível a subida, em certos casos, de um piso.
• Reabilitar o edifício do Centro Escolar Republicano introduzindo um equipamento de
forte caracter urbano central ( capaz de atrair população não residente): Centro de Docu-
mentação da Área Metropolitana de Lisboa e Galeria de Arte.
• Reabilitar o edifício da Torre Medieval e formar, em conjunto com as estruturas arqueo-
lógicas do seu logradouro e estruturas construtivas primitivas do edifício operário em
frenre, em núcleo museológico com animação.
• Criar incentivos à qualiicação dos epaços e atividades económicas.
• Pavimentar o espaço esterior criando locais com aptidão para os diversos tpos de ativida-

des ligadas ao estar, lazer, convívio e espetáculo, aproveitando a topograia natural.


• Melhorar a iluminação pública.
• Captar para o Largo ou proximidades atividades de forte cariz urbano.

NOTA HISTÓRICA

Edifício do Centro Republicano


Mantém no essencial caracterlsticas originais, de inais do séc. XVIII e 1 a metade do séc XIX,
como se veriica na regularidade das fachadas principais (Este e Nordeste): os vãos das jane-
las na prumada das portas, o desenho das molduras de pedra nas janelas do décimo andar, os
beirais e os materiais de construção (alvenaria, tijolo e argamassa estucada e em certas paredes
“gaiola” de madeira). Mais necessitada de uma urgente operação de salvaguarda, encontra-se
a fachada Poente na qual se deverão eliminar os elementos que a descaracterizam. O edilcio
mantém ainda duas janelas de guilhotina e um lintel com uma inscrição bíblica do evangelho
de S. Mateus, datada de 1728 (anterior à construção do mesmo) (1).

Quarteirão Oeste
Antigo, embora muito transformado. Os edifícios que apresentam caracterlstícas originais (séc.
XVII - inicio do séc. XVIII) são os que se situam a Norte do Quarteirão (2) (3).
Os restantes edilcios, igualmente antigos, foram no entanto muito transformados e apresen-
tam características mais recentes (séc. XVIII - inícios de XIX), para além de terem sido revesti-
dos por reboco em placas cinzentas, característico dos anos 40 (a retirar e devolver ao conjunto
o seu aspecto original) (4).
A única construção recente neste quarteirêo é a fachada do Oculista (5).

Conjunto a Norte
Antigo (séc. XVII-XVIII) e único em Sacavém, pois, a partir de um arcopassagem se estrutura
uma rua pública com edifícios e muros de ambos os lados: rua com características medievais
ou iniciais da era moderna. o topónimo é antigo: Travessa da Oliveirinha (6).
Neste quarteirão acrescentaram-se, em décadas recentes (séc. XX), três pequenos edifícios tér-
reos a eliminar (7) (8).

Quarteirão da Igreja e da Torre


Os corpos mais antigos são a Torre medieval e o edifício que lhe é contíguo; conjunto prolonga-
do por um muro que envolve um pátio dentro do qual existe uma velha cisterna. O conjunto, de
origem medieval (ainda visível em certos aspectos da Torre, como as suas paredes de 2 metros
de espessura e a estreita escada interior) foi muito transformado entre os séculos XVI a XVIII
(a cobertura, a abertura de janelas de sacada e de peitoril).
A igreja, oitocentista, é a reconstrução de uma capela anterior (9).
Junto à Tone e à Igreja da Senhora da Saúde acrescentou-se em época recente (séc. XX), a casa
mortuártia e o campanário (10).
Quarteirão Nascente
Construido em inais do séc. XIX ou inícios do séc. XX, um grande bloco de habitação operária
marca profundamente este quarteirão e o largo (11).

Lado Sul
O largo é delimitado a Sul por dois edifícios isolados. O primeiro é um edifício antigo (anterior
ao terramoto) (12) e o segundo é um edifício de inais do séc. XIX - inícios de séc. XX com friso
de azulejos de gosto arte nova e platibanda decorada geometricamente (13).

Constituição e Estrutura Ativa

SÍNTESE
O tipo e a forma como as actividades se organizam no tecido urbano, criando zonas de incidên-
cia, concentração ou dispersão, e a sua diversidade, pernitem concluir que:

• O centro da área em estudo é constituido pelo con-


junto dos três espaços públicos urbanos não lineares -
Largo 5 de Outubro, Largo Pedro José Gomes Júnior,
e Largo 10 de Maio - e pelo troço da antiga Rua Di-
reita - hoje chamado Rua Almirante Reis e Rua Maria
Luisa Braamcamp. Aqui se concentram as activida-
des económicas (comércio e serviços)a administração
pública e (alguns) equipamentos. São estes espaços
públicos urbanos que também propiciam atividades
ligadas ao encontro, convlvio e recreio. A Poente e
Nascente desta zona, desenvolvem-se áreas de voca-
ção mais residencial.
• Residir na área em estudo, de um modo geral, é residir com poucas condições de habita-
bilidade, causadas pelo estado de conservação dos edifícios e alojamentos, pela dimensão
dos fogos e a falta de equipamento de base.
• Veriica-se uma excessiva carga de tráfego automóvel e estacionamento, desadequados à
capacidade de uso dos espaços públicos urbanos, o que se traduz num permanente conli-
to peão-automóvel e na limitação da prática das atividades ligadas à estada urbana. É
notória a apetência para a prática deste tipo de actividades, que se praticam com intensi
dade mesmo sem qualquer suporte em termos de mobiliário urbano ou arranjo dos espa-

ços públicos. As cargas e descargas fazem-se por toda a área. sem qualquer limitação de
horário.
• Em termos de Administração pública, verilcam-se carências - P.S.P., Cartório Notarial,
etc .. A criação do futuro Centro Administrativo, na sequência da criação do Concelho de
Sacavém, deve privilegiar as ligações.
• Em termos de transportes, até há pouco tempo existiam duas carreiras que atravessavam
a área. no Largo 1º de Maio-ligações a Unhos e Moscavide, esta última tendo sido des-
viada, o que se considera incorrecto pois induzia circuitos pedonais de travessia da zona
antiga.

Propostas
• Manter o carácter de centro, que a área de intervenção tem relativamente ao aglomerado
urbano de Sacavém.
• Cuidar que a futura expansão do centro se faça de forma tentacular de modo a irrigar o
tecido urbano da vila de Sacavém, e que a instalação das actividades económicas seja di-
recionada.
• Avaliar a possibilidade de localização do futuro centro administrativo, que surgirá na se-
quência da possiveI criação do Concelho de Sacavém,no território da antiga “Fábrica da
Louça”, dada a localização desta, na continuidade de um eixo estruturante da área e da
vila, e dada a sua proximidade a futuro interface intermodal de transportes.
• Manter e propiciar a concentração das actividades económicas, de comércio e serviços,
sem detrimento signiicativo da actividade residencial: os pisos térreos dos edilcios
localizados nos dois principais eixos estruturantes da área, poderão ser ocupados com
actividades económicas. Admite-se ainda, no caso de edifícios, que estes poderão sofrer
aumento de ediicabilidade. Só a partir da volumetria de 3 pisos, se permitirá a transfor
mação de uso do 1º piso para instalação de actividades económicas do tipo serviços, de-
vendo sempre assegurar-se a ocupação residencial e pro-
curar que nos pisos térreos se instalem actividades
geradoras de animação que evitem a desertiicação noc-
turna.
• Fomentar a qualiicação das actividades económicas.
• Implementar o Plano de Remodelação Viária, com carác-
ter de urgência.
• Fomentar a implantação de actividades de natureza cultu-
ral e de iniciativa privada e pública.
• Intervir nos edifícios mais signiicativos da área - Centro
Escolar Republicano, “Palácio Barroco”, Quinta do Ale-
xandre, Torre Medieval- afetando-os a novos usos de ca-
rácter cultural e de interesse local e regional.
• Proceder ao arranjo dos espaços públicos urbanos de modo a propiciar a prática das acti-
vidades ligadas à estada urbana.
• Manter a atividade residencial e as tipologias dos fogos.