Anda di halaman 1dari 100

ISSN 0011-7641

Ano CV – Nº 834 – 3º quadrimestre de 2017

ECEME — A Escola “dos Métodos” p.4


RICHARD FERNANDEZ NUNES, CARLOS EDUARDO DE FRANCISCIS RAMOS,
FLÁVIO ROBERTO BEZERRA MORGADO E ROGÉRIO AMORIM GONÇALVES

O preparo psicológico do combatente p.17


REINALDO NONATO DE OLIVEIRA LIMA E BÁRBARA MARRA DE CARVALHO SOUZA NEVES

3Das
o bandeiras às
QUADRIMESTRE DE fronteiras
2017 p.38
ADN 1
DANTE RIBEIRO DA FONSECA
A DEFESA NACIONAL

Editor
Alexandre Moreno dos Santos

Corpo Redatorial
Richard Fernandez Nunes (presidente)
Carlos Eduardo De Franciscis Ramos
José Maria da Mota Ferreira
Reinaldo Nonato de Oliveira Lima
Ricardo Ribeiro Cavalcanti Baptista
Fernando Velôzo Gomes Pedrosa (relator)
Carlos Eduardo de Moura Neves
Túlio Endres da Silva Gomes

Composição
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO
Praça Gen. Tibúrcio, 125
Praia Vermelha – Rio de Janeiro-RJ – CEP 22.290-270
Tel.: (21) 3873-3868

Revisão
Jorge Rodrigues Lobato Fac-Símile da portada do No 1, Ano I – 10/10/1913 de A DEFESA NACIONAL

Diagramação
Julia Duarte
juliaduarte@gmail.com

Impressão
Globalprint

Direção, edição e distribuição


BIBLIEX
Palácio Duque de Caxias
Praça D. de Caxias, 25 – 3o andar – Ala Marcílio Dias
Centro – Rio de Janeiro-RJ – CEP 20.221-260
Tel.: (21) 2519-5711 – Fax: (21) 2519-5569
www.bibliex.eb.mil.br

Os conceitos técnico-profissionais emitidos nas


NOSSA CAPA
3º QUADRIMESTRE DE 2017

matérias assinadas são de exclusiva responsabilidade


ISSN 0011-7641

dos autores, não refletindo necessariamente


a opinião da revista e do Exército Brasileiro. Homenagem aos 100 anos da entrada do Brasil na
A revista não se responsabiliza pelos dados Ano CV – Nº 834 – 3º quadrimestre de 2017 Primeira Guerra Mundial, em outubro de 1917.
cujas fontes estejam devidamente citadas.
Salvo expressa disposição em contrário, O Laurindo Pitta participou do conflito em 1918, em
é permitida a reprodução total ou parcial das matérias tarefas de apoio, e é o único remanescente da Divisão
publicadas, desde que mencionados o autor e a fonte.
Naval em Operações de Guerra (DNOG).
Aceita-se intercâmbio
A DEFESA NACIONAL

com publicações nacionais ou estrangeiras. Prestou serviço de rebocador ao Arsenal de Marinha


Os originais deverão ser enviados para a ECEME do Rio de Janeiro e à Base Naval do Rio de Janeiro
(adefesanacional@gmail.com) até a década de 90.
e serão apreciados para publicação, sempre
Em 1997, a Marinha o restaurou, adaptando um com-
que atenderem os seguintes requisitos:
documento digital compatível com o programa partimento onde apresenta a exposição permanente A
Participação da Marinha na Primeira Guerra Mundial.
ECEME — A Escola “dos Métodos” p. 4
Microsoft Word®, formato A4, fonte Arial 12, margens
Ano CV – Nº 834

RICHARD FERNANDEZ NUNES, CARLOS EDUARDO DE FRANCISCIS RAMOS,


FLÁVIO ROBERTO BEZERRA MORGADO E ROGÉRIO AMORIM GONÇALVES

de 3cm (Esq. e Dir.) e 2,5cm (Sup. e Inf.), O preparo psicológico do combatente p. 17


REINALDO NONATO DE OLIVEIRA LIMA E BÁRBARA MARRA DE CARVALHO SOUZA NEVES Desde então, vem sendo empregado na realização do
entrelinhamento 1,5.
Passeio Marítimo pela Baía de Guanabara.
Das bandeiras às fronteiras p. 38
DANTE RIBEIRO DA FONSECA

As figuras deverão ser fornecidas em separado,


com resolução mínima de 300dpi. Fonte: www.marinha.mil.br

As referências, sob exclusiva responsabilidade dos autores,


Fotografia: © Carlos Luis M. C. da Cruz, disponível
devem ser elaboradas de acordo com as prescrições da em commons.wikimedia.org (sob a licença Creative
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Commons Atribuição CC BY-SA 3.0)

PUBLICAÇÃO QUADRIMESTRAL Tratamento de imagem e diagramação: Julia Duarte

A venda de números avulsos


será feita na Administração:
Tel.: (21) 2519-5715

2 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


EDITORIAL
Prezados leitores,
Ao longo de mais de um século de funcionamento, a Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército (ECEME) consolidou-se como “a escola do método”,
em referência ao seu foco tradicional no uso do método de solução de problemas
militares, até recentemente conhecido como o “estudo de situação”. O primeiro
artigo desta edição, ECEME – A Escola “dos Métodos”: do ensino integral à educação
integrada, de autoria do Gen Bda Richard Fernandez Nunes, com os coronéis
Carlos Eduardo De Franciscis Ramos, Flávio Roberto Bezerra Morgado e Rogério
Amorim Gonçalves, amplia essa percepção, incluindo os métodos pedagógicos
que guiam o processo ensino-aprendizagem daquela Escola e os métodos de
pesquisa científica, trazidos mais recentemente à Instituição com a criação do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares. Dentro dessa perspectiva,
os autores propõem que a ECEME seja vista hoje como “a escola dos métodos”.
Em outubro de 2015, o Exército Brasileiro criou o Centro de Psicologia
Aplicada do Exército, encarregado de conduzir pesquisas científicas no campo
da psicologia aplicada aos contextos militares e de realizar avaliações psicológicas
do pessoal militar. O artigo de autoria do Cel Reinaldo Nonato de Oliveira Lima
e da 2º Ten Bárbara Marra de Carvalho Souza Neves trata sobre O preparo
psicológico do combatente no contexto do poder de combate, destacando a importância
que a Instituição atribui ao preparo psicológico dos seus integrantes, com especial
atenção para o combatente, que normalmente é submetido a extremos limites de
estresse ao longo da vida militar.
O artigo A coordenação civil-militar e o gerenciamento de crises na Guerra do Vietnã
é de autoria do CT Raphael do Couto Pereira, do Corpo de Fuzileiros Navais
da Marinha do Brasil. Trata-se do estudo de um caso histórico, no qual o autor
examina o emprego de pelotões de ação combinada durante a Guerra do Vietnã.
Esses pelotões, compostos por membros de milícias locais e praças do Corpo
de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, trouxeram resultados muito positivos
para as forças norte-americanas, pois o contato constante com as comunidades
desencorajava a cooptação da população local pela guerrilha.
A palavra “bandeirante” nos remete imediatamente às expedições que
partiram do planalto de São Paulo para desbravar o interior do Continente e

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN


tomar posse de terras ignotas para a Coroa de Portugal. No artigo Das bandeiras
às fronteiras: São Paulo, Belém e a expansão a oeste de Tordesilhas, o Prof. Dr. Dante
Ribeiro da Fonseca, da Universidade Federal de Rondônia, amplia esta
concepção, apresentando o papel das bandeiras que tinham por base a vila de
Belém, na capitania do Grão-Pará. O autor destaca não apenas a participação
nortista no processo de delineamento das fronteiras, mas seu pioneirismo,
anterior ao ciclo do ouro, que desencadeou as expedições mais profundas das
bandeiras paulistas.
Os professores Eduardo Atem de Carvalho, da Universidade Estadual
do Norte Fluminense, e Rogério Atem de Carvalho, do Instituto Federal
Fluminense, trazem o artigo Um sucessor para o Leopard 1A5BR no Exército
Brasileiro: um estudo prospectivo. Os autores examinam a evolução dos carros de
combate e de seu emprego em combate, discutem questões industriais envolvidas
na sua concepção e produção e lançam vistas para o futuro, analisando as
diversas opções existentes no mercado ou a possibilidade de desenvolvimento
de novos projetos com vistas à substituição dos carros de combate atualmente
em uso no Exército Brasileiro.
A nova contribuição do Cel Carlos Roberto Carvalho Daróz, antigo
professor de História do Colégio Militar do Recife e atualmente professor do
Curso de Especialização em História Militar Brasileira da Universidade do Sul
de Santa Catarina (UNISUL), apresenta O 7º Corpo de Voluntários da Pátria: de
São Paulo ao Paraguai. O artigo traça a trajetória de uma unidade composta
por civis voluntários que, começando sem qualquer treinamento anterior nem
experiência militar, teve destacada participação na contraofensiva ao Paraguai
e cujas grandes perdas dão testemunho da determinação e dos sacrifícios dos
voluntários paulistas.
Encerrando esta edição, o artigo A otimização da operacionalidade da
Brigada de Infantaria Paraquedista por meio da racionalização administrativa, do Maj
Allan de Almeida Serrão, discute o impacto das atividades administrativas no
desempenho militar das unidades operacionais, em um estudo comparativo
com o modelo adotado pela Brigada de Infantaria Ligeira Paraquedista
“Almogávares”, do Exército Espanhol.
Esperamos que a leitura desta edição de A Defesa Nacional estimule o
desenvolvimento profissional dos leitores militares e contribua para o debate
sobre a defesa nacional no âmbito acadêmico e na sociedade em geral.
Encerrando o ano de 2017, fazemos votos de um Feliz Natal e de que o novo
ano faça renascer as esperanças no coração dos brasileiros.

ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


SUMÁRIO
ECEME — A Escola “dos Métodos”: do ensino integral à educação integrada ..................... 4
Richard Fernandez Nunes
Carlos Eduardo De Franciscis Ramos
Flávio Roberto Bezerra Morgado
Rogério Amorim Gonçalves

O preparo psicológico do combatente no contexto do poder de combate ............................. 17


Reinaldo Nonato de Oliveira Lima
Bárbara Marra de Carvalho Souza Neves

A coordenação civil-militar e o gerenciamento de crises na Guerra do Vietnã ................. 28


Raphael do Couto Pereira

Das bandeiras às fronteiras: São Paulo, Belém e a expansão a oeste de Tordesilhas ..... 38
Dante Ribeiro da Fonseca

Um sucessor para o Leopard 1A5BR no Exército Brasileiro: um estudo prospectivo ........ 54


Eduardo Atem de Carvalho
Rogério Atem de Carvalho

O 7º Corpo de Voluntários da Pátria: de São Paulo ao Paraguai ........................................ 70


Carlos Roberto Carvalho Daróz

A otimização da operacionalidade da Brigada de Infantaria Paraquedista


por meio da racionalização administrativa ................................................................................. 82
Allan de Almeida Serrão

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN


ECEME — A Escola “dos Métodos”
Do ensino integral à educação integrada

Richard Fernandez Nunes*


Carlos Eduardo De Franciscis Ramos**
Flávio Roberto Bezerra Morgado***
Rogério Amorim Gonçalves****

Introdução experimentados coronéis. Concluir quais-


quer desses cursos representa a aquisição de

A
Escola de Comando e Estado-Maior competências para o exercício de cargos de
do Exército (ECEME) — Escola Ma- elevada responsabilidade e a renovação de
rechal Castello Branco — vem con- compromissos assumidos com a Instituição,
solidando reputação de excelência no ensino desde a incorporação às fileiras do Exército.
militar ao longo de seus mais de cem anos A projeção da ECEME no cenário inter-
de história. É o estabelecimento de mais alto nacional é considerável. Centenas de oficiais
nível do sistema de educação e cultura do de nações amigas, de todos os continentes,
Exército Brasileiro, no qual tanto oficiais da têm frequentado o Curso de Estado-Maior há
linha bélica quanto médicos e engenheiros várias décadas. Muitos desses oficiais têm al-
militares realizam os cursos de altos estudos1 cançado cargos relevantes em seus países. Mais
e de política e estratégia.2 recentemente, a criação do CIEE, em 2013,
Ingressar nos cursos de altos estudos potencializou essa posição de destaque desfru-
militares é um marco na carreira do oficial, tada pela Escola.
pois significa triunfar em um difícil e dispu- A também recente criação do Instituto
tado concurso de admissão. Ser selecionado Meira Mattos (IMM) e o reconhecimento dos
para os cursos de política e estratégia ratifica cursos de seu Programa de Pesquisa e Pós-
o reconhecimento da Força ao potencial de -Graduação em Ciências Militares (PPGCM)3

* Gen Bda (AMAN, Art/84, EsAO/93, ECEME/01), comandante da Escola de Comando e Estado-Maior
do Exército.
** Cel Inf (AMAN/90, EsAO/98, ECEME/07), chefe do Instituto Meira Mattos e pró-reitor de Pesquisa
e Pós-Graduação da ECEME.
*** Cel Cav (AMAN/91, EsAO/98, ECEME/06), chefe da Seção de Doutrina da ECEME e coordenador
militar da área temática “Conflitos Bélicos”, do Observatório Militar da Praia Vermelha.
**** Cel Art R/1 (AMAN/85, EsAO/94, ECEME/05), instrutor do Curso de Preparação ao concurso de
admissão à ECEME.

6 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


pela CAPES completam o papel desempenha-
do pela ECEME como centro de estudos de
excelência. A Escola, agora, conta em seus cor-
pos docente e discente com professores e alu-
nos civis nos cursos de Mestrado Acadêmico e
de Doutorado em Ciências Militares.
Ao longo de sua exitosa trajetória, a
ECEME tem-se notabilizado por “pensar o
Exército” e prestar relevantes contribuições ao
Sistema de Desenvolvimento da Doutrina Mi-
litar Terrestre (SIDOMT) bem como tem sub- Figura 1 – Fachada da ECEME
sidiado, por meio de seus projetos interdisci- Fonte: ECEME
plinares, estudos sobre temas de interesse dos
órgãos de direção-geral, operacional e setorial. dade, combinado distintas metodologias nos
Calcada no trinômio ensino-pesquisa- seus processos de ensino-aprendizagem.
-doutrina, a ECEME conduz seus cursos em re- É propósito deste artigo apreciar essas
gime de dedicação exclusiva, em tempo integral. metodologias e demonstrar como a comple-
Tendo adotado a metodologia do ensino por mentaridade que elas proporcionam é capaz
competências,4 a Escola vê-se agora diante da ne- de constituir o motor da evolução de um sis-
cessidade de evoluir de uma integralidade quan- tema de ensino integral para um processo de
titativa para uma integração qualitativa, contex- educação integrada, compreendendo todos
tualizada e sinérgica de todas as suas atividades. os vetores e iniciativas da Escola.
A integração dos processos e proje-
tos e a interação entre as diversas estrutu- A relevância do método
ras componentes das organizações, cada vez
mais sujeitas a ambientes complexos e em Segundo Nascentes (1955), a palavra
permanente transformação, constituem de- método tem sua origem etimológica no ter-
safio para os gestores da atualidade. A ECE- mo grego methodos, composto de meta (depois
ME, logicamente, vivencia essa realidade. de, fim) e de hodos (via, caminho). Servir-se
Em virtude de haver adotado, aprimo- de um método é, antes de tudo, tentar or-
rado e consolidado metodologia de estudo denar o trajeto através do qual se possam
de situação para a solução de problemas mi- alcançar os objetivos projetados. É um cami-
litares, formando gerações de planejadores nho para se chegar a um fim.
e comandantes para os mais altos escalões A adoção de uma metodologia para a
da Força, a ECEME passou a ser conhecida resolução de problemas militares ganhou força
como “A Escola do Método”.5 entre os prussianos quando, após as guerras na-
Mas esse cognome precisa ser con- poleônicas, passaram a sistematizar os trabalhos
textualizado aos atuais desafios enfrentados de seus estados-maiores, entendidos como ór-
pela Escola. A Escola do Método tem, na ver- gãos compostos por oficiais com tarefas defini-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 7


das para assessoramento aos comandantes nos A participação vitoriosa do Brasil na
processos de tomada de decisão. O general Hel- II Guerra Mundial, para a qual concorre-
muth Von Moltke, chefe do Estado-Maior Geral ram vários oficiais formados ou vinculados
Prussiano, durante a segunda metade do séc. à Escola, conferiu inegável prestígio à ECE-
XIX, cunhou o Método das Diretivas Gerais ME, devido ao reconhecimento obtido pelos
(HOLBORN, 2015), com vistas ao planejamen- trabalhos de estado-maior que realizaram,
to criativo e à execução flexível das operações em âmbito nacional e internacional. No pós-
em todos os escalões da força terrestre. A con- -guerra, o aprimoramento do trabalho de
tundente vitória alcançada na Guerra Franco- comando e do estudo de situação do coman-
-Prussiana, em 1870, demonstrou sua eficácia. dante, conforme as reformas pedagógicas
Derrotada naquele conflito, coube promovidas por Castello Branco,8 conso-
à França criar a École Supérieure de Guerre, lidou a qualidade do método preconizado
onde passou a funcionar, a partir de 1876, o pela Escola. Seu emprego, ajustado à reali-
primeiro curso, em regime de dedicação inte- dade nacional, contribuiu para a formulação
gral, para capacitar oficiais a exercer funções de uma doutrina militar brasileira, capaz de
de estado-maior. Tal iniciativa, coerente com orientar o preparo e o emprego da Força
um mundo em acelerado processo de indus- Terrestre para as suas diversas missões, jus-
trialização e modernização, foi seguida pelas tificando plenamente o epíteto “A Escola do
principais potências da época. Método”, atribuído à ECEME.
A criação da ECEME, decorrente da ne- Mas a abordagem metodológica não
cessidade de prover o Estado-Maior do Exérci- se restringe àquela necessária para o plane-
to (EME)6 com oficiais adequadamente prepa- jamento das operações militares. A integrali-
rados para suas tarefas de direção-geral, foi a dade da educação vivenciada pelos alunos da
resposta do Brasil a essa onda modernizadora. ECEME compreende o estudo de variados
O envio para estágios, na Alemanha, de capi- assuntos, que suscitam questões para as quais
tães e tenentes, que passaram à História como se aplica apropriado método de análise. Tal
os “Jovens Turcos”,7 também foi simbólico da método é incluído no currículo do Curso de
crescente busca por renovação. Preparação e exigido no concurso de admis-
Ao término da I Guerra Mundial, a são à Escola, sendo posteriormente praticado
contratação da Missão Militar Francesa re- na realização dos trabalhos escolares. A apli-
presentou impulso inovador e estruturante cação desse método pelos oficiais formados
para a Força Terrestre. Teve grande impor- na ECEME contribui para cunhar marca de
tância para a evolução da ECEME, de 1920 a reconhecida qualidade ao assessoramento
1940. Em termos pedagógicos, foi introduzi- que têm proporcionado a processos decisó-
da a metodologia do estudo de caso, trazen- rios nos diversos escalões da Força Terrestre,
do mais realismo ao aprendizado, com exer- diante da ampla variedade de problemas a
cícios táticos na carta e no terreno, ênfase no solucionar, muitos deles inéditos.
trabalho de comando e no processo ativo, No que diz respeito à pesquisa acadê-
pelo qual o aluno aprendia fazendo. mica, a epistemologia das Ciências Militares

8 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


subentende, logicamente, metodologia pró- No domínio cognitivo, em que é aplicada na
pria para a apreciação de seu objeto de estu- ECEME, abrange os objetivos que enfatizam
do. Os trabalhos elaborados pelos alunos da os processos mentais, os resultados intelectu-
Escola, nas linhas de pesquisa dos Estudos ais como conhecimento, compreensão e aná-
da Paz e da Guerra e da Gestão de Defesa, lise, entre outras habilidades de raciocínio.
em estrita observância ao método científico, Trata-se de um sistema ordenado por níveis
estão em perfeito alinhamento com o pro- (ou categorias) para a classificação da apren-
cesso de ensino-aprendizagem conduzido na dizagem, do mais simples ao mais complexo.
centenária Escola Marechal Castello Branco. Segundo Ferraz e Belhot (2010), a Taxonomia
de Bloom é também uma possibilidade de or-
Metodologias aplicadas na ECEME ganização hierárquica dos processos cogniti-
vos, consoante os níveis de complexidade e
Método baseado na Taxonomia de objetivos de desenvolvimento desejados.
Bloom Na ECEME, a metodologia para a rea-
Diversos são os instrumentos metodo- lização de estudos e solução de questões está
lógicos existentes em apoio ao planejamento calcada, principalmente, na compreensão
didático e pedagógico bem como de organi- do nível de desempenho (ND), ou seja, na
zação, estruturação e definição de objetivos profundidade de raciocínio que deve ser de-
instrucionais e de instrumentos de avaliação. monstrada pelo aluno/candidato na solução
A Taxonomia de Bloom9 é um desses instru- dos problemas propostos. São cobrados os
mentos, cuja finalidade é auxiliar a identi- ND compreensão (nas servidões apresentar,
ficação e a declaração dos objetivos ligados caracterizar e justificar) e análise (nas servi-
ao desenvolvimento cognitivo, que engloba dões analisar, comparar e estudar).
a aquisição do conhecimento, competência e A aplicação do método pode, então,
atitudes, visando facilitar o planejamento do ser resumida na identificação do objeto a ser
processo de ensino e aprendizagem (FER- trabalhado e na composição do nível de de-
RAZ; BELHOT, 2010). sempenho exigido para a solução da questão,
Desta forma, a metodologia da Taxo- expressa por um verbo no infinitivo. Estes as-
nomia de Bloom foi um desses instrumen- pectos são verificados ao longo das diversas
tos adotados e preconizados pela ECEME partes constitutivas da resposta: a introdução,
para a apresentação de estudos sobre temas o desenvolvimento e a conclusão.
diversos e para a solução de questões teó- Os alunos do Curso de Preparação à
ricas propostas no contexto das disciplinas ECEME (CP/ECEME), conduzido à distân-
de fundamentação. Sua aplicação pode ser cia, e os candidatos do Concurso de Admis-
observada em dois momentos distintos: pre- são (CA) são orientados a responder aos
paração e concurso de admissão à Escola e questionamentos levando em consideração
durante a realização dos cursos presenciais. os seguintes parâmetros: conhecimento,
Essa taxonomia compreende três do- método e expressão escrita. Apesar de o co-
mínios: o cognitivo, o afetivo e o psicomotor. nhecimento ser o aspecto mais valorizado,

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 9


a interpretação acurada, a esquematização tomar uma série de decisões, em curto espa-
adequada e a redação clara e precisa tam- ço, a fim de alcançar os seus objetivos, utili-
bém são fundamentais para a obtenção de zando um processo racional de tomada de
bons resultados (ECEME, 2017). decisão para cada situação.
Naturalmente, essa metodologia con- No que diz respeito aos problemas
tinua a ser observada na realização de diver- militares, as forças armadas brasileiras têm
sos trabalhos escolares exigidos durante os empregado processo para a sua solução ba-
cursos presenciais da ECEME. Em todos os seado em análise metódica, consoante a te-
casos, a fundamentação com lógica e coerên- oria de René Descartes e de acordo com a
cia é mais valorizada que a resposta objetiva maioria das doutrinas militares adotadas no
propriamente dita. A ênfase na argumentação mundo (BRAIT, 2010).
tem-se refletido na especial atenção atribuída Baseado nesse método lógico, nota-
ao Pensamento Crítico, hoje, uma das disci- damente geométrico, analisa-se a missão,
plinas eletivas mais requisitadas na Escola. considerando-se as condições de tempo e
Com a obrigatoriedade do CP/ECE- espaço e decompondo-se as demais condi-
ME, a partir de 2018, para todos os oficiais cionantes intervenientes, a fim de se elabo-
da linha bélica, inclusive os que, não dese- rarem linhas de ação capazes de superar as
jando candidatar-se ao CA, encaminharem- capacidades inimigas, até se chegar a uma
-se para a “Carreira em Y”,10 a metodologia decisão adequada.
nele aplicada será comum aos diferentes A Doutrina Militar de Defesa estabe-
perfis profissiográficos que, a partir de en- lece que, em termos de organização, prepa-
tão, irão se originar, o que lhe confere espe- ração e condução da guerra, as responsabili-
cial relevância. dades são escalonadas nos níveis de decisão
Cabe ressaltar que esse tipo de abor- político, estratégico, operacional e tático
dagem de temas de interesse das Ciências (BRASIL, 2007).
Militares suscita a produção de trabalhos O nível operacional, correspondente
que se coadunam com a publicação na revis- a um teatro ou área de operações, ou zona de
ta A Defesa Nacional, cuja seleção de artigos e defesa,11 é o responsável pelo planejamento e
ensaios é encargo da ECEME, uma vez que a condução da campanha militar, integrando
editoração e a publicação são finalizadas pela forças terrestres, navais e aéreas, buscando
Biblioteca do Exército (BIBLIEx). atingir os objetivos e o estado final desejado
definidos no nível estratégico, por meio do
O método do processo de Plano Estratégico de Emprego Conjunto das
planejamento Forças Armadas (PEECFA).
Segundo Moore (2010), a pesquisa A Doutrina de Operações Conjuntas es-
psicológica tem desvendado muitos dos ata- tabelece o Processo de Planejamento Conjunto
lhos inteligentes e sofisticados que nossos cé- (PPC) como o instrumento utilizado por um
rebros utilizam para nos ajudar a terminar estado-maior conjunto para realizar o planeja-
o dia, ou seja, o ser humano é obrigado a mento e a condução de uma campanha militar.

10 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


O planejamento no nível operacional processos de planejamento.
é constituído de dois componentes, que se É indispensável que todo oficial de
desenvolvem simultaneamente: um compo- estado-maior seja um profundo conhece-
nente conceitual, associado à compreensão dor dos métodos de processo de planeja-
do problema (o que fazer); e um componen- mento utilizados nos níveis operacional
te detalhado, dedicado à solução deste pro- e tático, tendo em vista que uma de suas
blema (como fazer). Estes componentes inte- principais competências, constantes nos
ragem de forma cíclica e contínua, desde mapas funcionais, é o planejamento e a
o início do planejamento até a obtenção condução de operações militares.
do estado final desejado (BRASIL, 2011). Em consequência, parte fundamental
Alinhado com o nível operacional, dos planos de disciplinas dos CAEM é dedi-
o Exército Brasileiro adota, no nível táti- cada ao método de planejamento operativo,
co, o Processo de Planejamento e Condu- que se constitui na principal ferramenta para
ção das Operações Terrestres (PPCOT), a solução dos problemas militares existentes
o qual visa a planejar, preparar, execu- no ambiente operacional complexo do mun-
tar e reavaliar continuamente o cumpri- do atual. O ensino dessa metodologia é rea-
mento das missões atribuídas a todos os lizado de modo integrado, por meio de uma
escalões de emprego da Força Terrestre sistemática chamada de “cascata”, por meio
(BRASIL, 2014). da qual se proporciona o entendimento das
O PPCOT também é constituído pe- etapas correspondentes aos distintos níveis
los componentes conceitual e detalhado. decisórios, desde o político até o tático.
O Planejamento Conceitual, constante da O compromisso da ECEME para com
MCOE (Metodologia de Concepção Ope- a Instituição, de manter os oficiais de estado-
rativa do Exército), visa a obter uma com- -maior a par da evolução dos assuntos mi-
preensão inicial do ambiente operacional nistrados na Escola, materializa-se com a pu-
e do problema, permitindo, no curso das blicação da revista semestral do PADECEME
operações, aprimorar tal entendimento, (Programa de Atualização dos Diplomados
reavaliando-o continuamente. O Plane- da ECEME), coletânea temática de artigos,
jamento Detalhado (Exame de Situação) em sua grande maioria, redigidos por ins-
destina-se a estabelecer uma sequência ló- trutores e alunos da Escola.
gica e ordenada dos diversos fatores que
envolvem o processo decisório nas ope- O método científico em Ciências
rações, quais sejam: missão, inimigo, ter- Militares
reno e condições meteorológicas, meios, Para Marconi e Lakatos (2006), o co-
tempo, e considerações civis. nhecimento científico é real, incerto, siste-
Verifica-se o alinhamento existente mático, verificável, falível e aproximada-
entre os níveis operacional e tático, ten- mente exato. Por tudo isso, para que este
do em vista que ambos utilizam os com- conhecimento seja transformado em ciência,
ponentes conceitual e detalhado em seus é imperiosa a utilização de métodos especí-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 11


ficos. O método científico se traduz por um A despeito de a pesquisa acadêmica
conjunto de atividades sistemáticas e racio- ter-se iniciado na ECEME há várias déca-
nais, que permite ao investigador alcançar das,14 fundamentalmente como contribui-
conhecimentos válidos e verdadeiros, por ção ao aprimoramento da doutrina militar,
meio de um caminho a ser seguido. Nes- foi somente com a criação da Seção de Pós-
te mesmo alinhamento, Severino (p. 100, -Graduação, em 2001, que se alcançou a ne-
2014) afirma que cessária sistematização dessa atividade.
A ECEME é essencialmente uma es-
a ciência se faz quando o pesquisador cola de pós-graduação. Todos os seus cursos
aborda os fenômenos aplicando recursos
regulares correspondem a especializações
técnicos, seguindo um método e apoian-
do-se em fundamentos epistemológicos. lato sensu, conforme prevê a Lei Nº 9.786,
de 8 de fevereiro de 1999 – Lei do Ensino
O moderno conceito de método es- no Exército.
tabelece que o método científico é a teoria A criação do IMM, em 2012, repre-
da investigação e só alcança seus objetivos sentou significativa evolução desse status,15
quando cumpre total ou parcialmente as uma vez que resultou no reconhecimento,
seguintes etapas: identificação do proble- pela CAPES, dos cursos de mestrado aca-
ma; busca de conhecimentos e instrumen- dêmico, de doutorado e de pós-doutorado
tos afetos ao problema; tentativa de solu- em Ciências Militares. Duas linhas de pes-
ção do problema, produção de novas ideias quisa foram definidas: Estudos da Paz e da
(hipóteses); obtenção de uma solução (total Guerra e Gestão de Defesa. Desta forma, os
ou parcial); investigação do impacto da so- alunos militares passaram a poder candi-
lução verificada; comprovação da solução; datar-se a esses programas stricto sensu, que
e correção de procedimentos (BUNGE, também são oferecidos a estudantes civis,
1980 apud MARCONI; LAKATOS , 2006). por meio de edital publicado anualmente.
Neste sentido, o reconhecimento das Essa iniciativa provocou o aprimo-
Ciências Militares como pertencente ao rol ramento da pesquisa acadêmica conduzi-
das ciências estudadas no país12 bem como da pela Escola e fomentou a celebração de
sua regulamentação por meio de ato do acordos e parcerias com instituições nacio-
comandante do Exército13 indicavam a ne- nais e estrangeiras. Os projetos de pesqui-
cessidade de desenvolvimento de uma me- sa ganharam em consistência e relevância.
todologia própria aplicada à investigação Tudo isso alicerçado na adesão, cada vez
de conhecimentos relativos à esfera militar mais criteriosa, à metodologia científica
ou estudados sob a sua ótica. adequada às Ciências Militares, constan-
A metodologia científica aplicada às te nos planos de disciplinas dos cursos da
Ciências Militares, logicamente associada ECEME.
aos programas de pós-graduação, compõe Com isso, as centenas de monogra-
a terceira vertente metodológica observa- fias elaboradas a cada ano — trabalhos de
da na ECEME. conclusão de curso (TCC), dissertações de

12 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


mestrado, teses de doutorado e artigos de (factuais, conceituais, procedimentais e atitu-
pós-doutorado — têm-se caracterizado tanto dinais) e inter-relacionar os diversos métodos
pela abrangência quanto pela profundidade adotados.
dos temas estudados. Neste sentido, iniciativas integradoras
Tem-se observado crescente produção vêm sendo adotadas com o intuito de se alcan-
de artigos científicos, publicados tanto na Co- çar adequado grau de convergência dos veto-
leção Meira Mattos – revista das ciências militares res que materializam a prática pedagógica da
— o meio avaliado pelos pares, indexado e Escola. Para isso, os projetos interdisciplinares
quadrimestral de divulgação acadêmica da (PI), por sua profundidade, abrangência e rele-
ECEME — quanto em revistas congêneres, vância, passaram a se constituir nos elementos
nacionais e internacionais. focais dessa sinergia. Em vez de seguirem ru-
mos autônomos e sem sincronia com as demais,
Do ensino integral à educação integrada atividades como o Programa de Leitura, o En-
sino de Idiomas, os Assuntos da Atualidade, e
Os cursos presenciais da ECEME são os Ciclos de Estudos Estratégicos estão sendo
conduzidos em tempo integral e demandam planejadas de modo a se alinharem aos temas
dedicação exclusiva de todos os integrantes da selecionados para os PI.
Escola. No CCEM, a fase presencial correspon- Cabe destacar que o PI do CPEAEx, de
de a dois anos; nos demais, a um ano letivo. nível político-estratégico, é realizado em co-
Os cursos proporcionados aos oficiais ordenação com o Estado-Maior do Exército
brasileiros, inclusive o de preparação, têm ca- (EME), desde a definição do tema até a sua
ráter corporativo, inserindo-se no itinerário apresentação ao Alto-Comando do Exército,
formativo, iniciado nas escolas de formação16 e passando por entregas parciais ao longo de sua
continuado na Escola de Aperfeiçoamento de elaboração. O PI do CCEM, de nível operacio-
Oficiais (EsAO). Em todo esse processo, avul- nal e tático, é desenvolvido pelo 2º Ano e co-
tam de importância a consolidação dos valores ordenado com os demais órgãos do SIDOMT
mais caros à Instituição e o aproveitamento das (3ª Subchefia/EME, Centro de Doutrina do
experiências vivenciadas por alunos e instruto- Exército e Assessoria de Doutrina do DECEx),
res ao longo da carreira. Tais circunstâncias não sendo apresentado ao Comando de Operações
apenas favorecem como também recomendam Terrestres (COTER).
a integração entre os diversos cursos, disciplinas Além destes, também são realizados PI
e atividades conduzidas na Escola. pelo CCEM/Med e pelo CDEM, em coordena-
Analisado o ambiente escolar, verificou- ção com a Diretoria de Saúde e com o Departa-
-se que há oportunidades a explorar capazes mento de Ciência e Tecnologia, respectivamente.
de agregar valor ao processo ensino-aprendiza- Por se constituírem em núcleos focais
gem, tirando-se proveito do seu caráter integral de integração das atividades escolares, são
para potencializar a atuação do considerável divulgados a todo o efetivo da ECEME, por
conjunto de talentos reunido na ECEME, apro- meio das chamadas Jornadas de Integração,
fundar os conteúdos desenvolvidos na Escola nas quais são apresentados o andamento dos

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 13


ca. E o XVI Ciclo de
Estudos Estratégicos,
promovido em maio,
versou sobre a “Crise
na Segurança Pública
e Defesa Nacional”,17
com a realização de
painéis e a apresenta-
ção de diversos traba-
lhos.
Quanto ao PI
do CPEAEx, o tema
Tabela 1 – Integração acadêmica dos trabalhos em curso na ECEME, organi- principal é o de “Uma
zados em grupos de estudo, sob supervisão do IMM: ano 2017
Nova Agenda de Se-
Fonte: Departamento de Pesquisa e Pós-Graduação (DPPG) do IMM, 2017
gurança e Defesa” sob
a perspectiva do Exér-
projetos bem como o estágio alcançado pelos cito. De igual modo, assuntos da atualida-
trabalhos correlatos da pesquisa acadêmica a de correspondentes foram discutidos em
cargo do IMM. Assim, organizam-se grupos tempos disponibilizados para todos os cur-
de estudo, compostos por alunos de todos os sos. Por fim, o XVII Ciclo de Estudos Es-
cursos, indistintamente, constituindo-se em tratégicos, realizado em setembro, tratou
fóruns de discussão de temas afins, de tro- de “Uma Nova Agenda de Defesa Nacional
ca de informações e de apoio mútuo. para o Brasil”.18
Devido à natureza dos temas e à Entre outras relevantes ações inte-
sequência de abordagem das disciplinas gradoras está a adoção das disciplinas eleti-
curriculares, é recomendável que o PI do vas para o CCEM (1º e 2º anos), de caráter
CCEM seja o eixo integrador das atividades extracurricular, que reúnem instrutores e
do 1º semestre letivo, ao passo que o do 2º docentes das diversas divisões da Escola,
semestre corresponda ao PI do CPEAEx. sempre buscando a matricialidade do co-
Em 2017, por exemplo, o tema esco- nhecimento, com abordagens complementa-
lhido para o PI do CCEM foi o da “Segu- res aos currículos dos cursos e alinhadas com
rança Integrada”. Ele motivou a discussão os assuntos pesquisados na Escola.
de assuntos da atualidade, selecionados por Ainda neste sentido, o desenvolvi-
sua relação com o emprego do Exército em mento e a sistematização de uma disciplina
operações no ambiente interagências, par- integradora, de caráter obrigatório, para
ticularmente em face da crise vivida pela os discentes civis dos cursos de mestrado e
segurança pública. Os conceitos inseridos doutorado do PPGCM, têm permitido a de-
no PI foram, em boa parte, confrontados sejada integração dos conhecimentos pecu-
com trabalhos afins de pesquisa acadêmi- liares das Ciências Militares, de domínio dos

14 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


discentes militares, mas ainda inatingíveis nacional e Segurança Pública; e 8) Recursos
aos discentes civis. A estrutura de créditos Naturais e Fontes de Energia. Sob a coorde-
da disciplina “Tópicos Introdutórios às Ci- nação do IMM, cada um desses tópicos será
ências Militares” contempla, além de aspec- observado por um grupo de trabalho com-
tos teóricos, também as visitas técnicas e os posto por um coordenador militar, um coor-
trabalhos em campo, como parte das ativi- denador acadêmico, observadores (incluin-
dades já realizadas pelos diversos cursos da do os diversos instrutores e alunos de nações
Escola. Como exemplo, cita-se a participação amigas), adjuntos de coordenação (alunos
em exercícios táticos integradores; em exer- civis bolsistas do PPGCM), e colaboradores
cícios de planejamento estratégico e opera- externos.
cional e nas viagens de estudos estratégicos, Dentre as formas de divulgação dos
entre outras. trabalhos do OMPV, destaca-se a elaboração
Em síntese, integração é a palavra de de análises estratégicas apoiadas em mapas
ordem. Os resultados que se tem observa- temáticos, desenvolvidos por meio de softwa-
do indicam maior convergência de todas as re de geoprocessamento,20 que proporciona-
ações realizadas e de todos os métodos em- rão um aprimoramento das práticas pedagó-
pregados, comprometendo toda a Escola gicas da Escola e serão disponibilizadas para
com os propósitos de cada curso e todas as os diversos órgãos do Exército e entidades
atividades com o objetivo maior da ECEME: parceiras bem como para toda a sociedade.
forjar líderes para os altos escalões do Exér- Fica, assim, patente que a Escola que “pen-
cito e desenvolver as competências compatí- sa o Exército” precisa aprimorar constan-
veis com esse desafio, além de proporcionar temente a maneira de “pensar o Brasil e o
a desejável integração civil-militar no estudo sistema internacional”.
de temas de interesse para a segurança e a
defesa do Brasil.
Por fim, cabe destacar neste artigo a
mais recente iniciativa integradora da Es-
cola: a criação do Observatório Militar da
Praia Vermelha (OMPV).19 Trata-se de um
instrumento de acompanhamento geopolíti-
co da conjuntura, por meio do qual questões
estratégicas receberão tratamento multidis-
ciplinar, calcado nas diversas metodologias
empregadas na ECEME.
Inicialmente, as áreas temáticas sele-
cionadas são: 1) Conflitos Bélicos; 2) Siste-
mas de Armas; 3) Terrorismo; 4) Missões de Figura 2 – Logo do Observatório Militar da Praia
Paz; 5) Guerra Cibernética; 6) Movimentos Vermelha
Populacionais; 7) Crime Organizado Inter- Fonte: ECEME

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 15


Conclusão mental importância para o aprimoramento do
conhecimento produzido na Escola e para a con-
Os diferentes métodos utilizados na ECE- cretização dos propósitos de seus cursos.
ME são instrumentos indispensáveis, não apenas A evolução de um ensino integral para
para o processo de ensino-aprendizagem con- uma educação efetivamente integrada é um de-
duzido pela Escola, como também para as com- safio que impõe a adoção de práticas matriciais
petências funcionais que os concluintes de seus em uma organização de natureza hierárquica.
cursos devem desempenhar. Só assim é possível alcançar a necessária interdis-
A Escola está fortemente comprometida ciplinaridade e interação entre os diversos cur-
com o Processo de Transformação do Exército, sos, aperfeiçoando o conhecimento produzido.
exercendo papel de destaque e inovação em dois A ECEME do século XXI prossegue em
de seus vetores: Educação e Cultura, no qual se sua busca incansável por inovação e relevância,
constitui no estabelecimento de mais alto nível; e sem abandonar os ensinamentos e os valores
Doutrina, contribuindo decisivamente para a sua consolidados pela Escola desde 1905. No cerne
formulação e divulgação. Devido à diversidade de uma educação integrada, novas ideias podem
de seus cursos e à amplitude dos seus currículos, e devem conviver com antigos e perenes ideais.
coopera também, ainda que indiretamente, para A Escola do Método tem-se convertido
o avanço dos demais vetores desse processo. cada vez mais em uma instituição de ensino onde
Consciente de sua relevância para a Ins- se processa uma “síntese de métodos”, um pro-
tituição, a ECEME percebe que a integração de cesso de integração que a aproxima de sua visão
seus processos pedagógicos, representada pelo de futuro, de constituir-se em um centro de ex-
alinhamento de suas atividades e pela comple- celência reconhecido como um dos melhores do
mentaridade de suas metodologias, é de funda- mundo em sua área de atuação.

Referências

BRAIT Jr., Ângelo. O Exame de Situação e o Estudo de Situação do Comandante Tático: Uma
Verificação de Compatibilidade. Dissertação (Mestrado em Ciências Militares) – Programa de
Pós-Graduação em Cências Militeres. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, 2010.

BRASIL. Exército Brasileiro. Departamento de Educação e Cultura do Exército – DECEx. EB60-IR-05.008


– Instruções Reguladoras do Ensino por Competências: Currículo e Avaliação. Rio de Janeiro, 2013.

__________. Exército Brasileiro. EB20-MC-10.211: Processo de Planejamento e Condução das


Operações Terrestres. Brasília, 2014.

__________. Ministério da Defesa. MD 51-M-04: Doutrina Militar de Defesa. Brasília, 2007.

__________. Ministério da Defesa. MD 30-M-01: Doutrina de Operações Conjuntas. Brasília, 2011.

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO. Guia do Aluno. Rio de Janeiro,


2017. Disponível em: <www.eceme.eb.mil.br/images/cpeceme/publicacoes/04_Guia_do_Alu-

16 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


no_2017.pdf>. Acesso em: 28 set. 2017.

EXÉRCITO BRASILEIRO. EB10-R-05. 002 – Regulamento da Escola de Comando e Estado-


-Maior do Exército. Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: <www.sgex.eb.mil.br/sistemas/be/co-
piar.php?codarquivo=450&act=se>. Acesso em: 08 set. 2017.

FERRAZ, Ana Paula do Carmo Marcheti; BELHOT, Renato Vairo. Taxonomia de Bloom: revisão
teórica e apresentação das adequações do instrumento para definição de objetivos instrucionais.
Revista Gestão e Produção, São Carlos, v.17, n. 2, p. 421-431, 2010.

HOLBORN, Hajo. A Escola Germano-Prussiana: Moltke e a ascensão do Estado-Maior. In: PA-


RET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna: de Maquiavel à era nuclear. vol. I. 2 ed. Rio de
Janeiro: BIBLIEx, 2015, seção 10, p 349-368.

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos da metodologia científi-


ca. 6ª ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2006.

MOORE, Don. Processo Decisório. 7 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

NASCENTES, Antenor. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro:


Oficinas Gráficas do Jornal do Comércio, 1955.

NUNES, Richard F. O Instituto Meira Mattos da ECEME e o Processo de Transformação do


Exército Brasileiro. Coleção Meira Mattos, revista das ciências militares. Rio de Janeiro: ECE-
ME, v. 2, n. 26, mai./ago. 2012.

PERES, Carlos Roberto; CÂMARA, Hiram de Freitas (Org). ECEME- A Escola do Método: um
século pensando o Exército. Rio de Janeiro: BIBLIEx editora, 2005.

SALERNO, Mario Sérgio. Projeto de organizações integradas e flexíveis: processos, grupos e


gestão democrática via espaços de comunicação-negociação. São Paulo: Editora Atlas, 2008.

SEVERINO, Joaquim Antônio. Metodologia do Trabalho Científico. 23ªed. São Paulo: Editora
Cortez, 2014.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

1
Os cursos de altos estudos militares (CAEM) conduzidos pela Escola são: o Curso de Comando e Estado-
-Maior (CCEM), o Curso de Comando e Estado-Maior para Oficiais Médicos (CCEM/Med), o Curso de
Direção para Engenheiros Militares (CDEM) e o Curso de Comando e Estado-Maior para Oficiais de
Nações Amigas (CCEM/ONA) (EXÉRCITO BRASILEIRO, 2016).
2
Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (CPEAEx) e Curso Internacional de
Estudos Estratégicos (CIEE) (EXÉRCITO BRASILEIRO, 2016).
3
Portaria 1.009, do MEC, de 10 de outubro de 2013, reconhece o curso de Mestrado em Ciências Mili-
tares. A 164º Reunião do CTC CAPES reconhece o curso de Doutorado em Ciências Militares.
4
O Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx) e a sua Diretoria de Educação Superior Militar
(DESMil) passaram a adotar a metodologia do ensino por competências em suas escolas, com vistas a preparar

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 17


seus alunos para o desempenho dos diferentes cargos demandados pela Força Terrestre, baseada na integração
contextualizada de conhecimentos, habilidades, atitudes, valores e experiências (BRASIL, 2013).
5
PERES, Carlos Roberto; CÂMARA, Hiram de Freitas (Orgs). ECEME – A Escola do Método: um século
pensando o Exército. Rio de Janeiro: BIBLIEx editora, 2005.
6
A ECEME foi criada, com a denominação de Escola de Estado-Maior, em 02 out 1905. Era subordinada
ao EME, que, por sua vez, havia sido criado em 24 out 1896. A atual denominação da Escola foi adotada
em 1955. E a transferência de sua subordinação para o DECEx/DESMil (àquela época denominados
DEP/DFA) ocorreu em 1969.
7
Assim chamados por analogia aos oficiais turcos que também estagiaram no Exército Alemão e que, ao
retornarem à Turquia, modernizaram não apenas o Exército, mas as próprias instituições turcas, culmi-
nando com a revolução que fundou a república secular naquele país, sob o comando do Gen Atatürk.
8
Concluiu o Curso de Estado-Maior em 1931, permanecendo como instrutor até 1936. Ao retornar com
a FEB da Campanha da Itália, assumiu a função de diretor de Ensino da Escola. Comandou a ECEME
de 1954 a 1956.
9
Na década de 1950, nos EUA, um grupo de pesquisadores em Educação, coordenados pelo professor
Benjamin Bloom, produziu a Taxonomia de Objetivos Educacionais, que, mais tarde, tornou-se conhe-
cida como “Taxonomia de Bloom”.
10
Os oficiais superiores da linha bélica, após a realização do CP/ECEME, terão de se enquadrar em uma
das três opções seguintes: realizar o CCEM na ECEME, mediante aprovação no CA; frequentar o Cur-
so de Gestão e Assessoramento de Estado-Maior (CGAEM), na Escola de Formação Complementar do
Exército (EsFCEx); ou habilitar-se em uma Qualificação Funcional Específica (QFE).
11
Comandos operacionais que podem ser ativados pelo comandante supremo, de acordo com a Estrutura
Militar de Defesa.
12
Parecer 1.295/2001, do Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior, no qual esta-
belece normas relativas à admissão de equivalência de estudos e inclusão das Ciências Militares no rol
das ciências estudadas no país.
13
Portaria Nº 734, de 19 de agosto de 2010, que conceitua Ciências Militares, estabelece a sua finalidade e
delimita o escopo de seu estudo.
14
A pesquisa científica tem início na ECEME com a elaboração de monografias por seus alunos, iniciada
no ano de 1966. Após a instituição do Sistema de Ensino do Exército, Lei Nº 9786, de 1999, a ECE-
ME inicia, em 2001, a sistematização da pesquisa atrelada à pós-graduação, com a inserção do estudo
metodológico e a adoção de normas técnicas, buscando desenvolver as Ciências Militares nos padrões de
exigência universais praticados no Sistema de Educação Superior Nacional.
15
Maiores informações poderão ser obtidas no artigo publicado por: NUNES, Richard F. A Criação do
Instituto Meira Mattos e o Processo de Transformação do Exército Brasileiro. Coleção Meira Mattos,
revista das ciências militares. Rio de Janeiro: ECEME. v.2, n. 26,mai./ago., 2012.
16
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Instituto Militar de Engenharia (IME) e Escola de Saúde
do Exército (EsSEx).
17
Anais do XVI Ciclo de Estudos Estratégicos, “Crise na Segurança Pública e Defesa Nacional”, disponível
em: <//portal.eceme.eb.mil.br/eventos/index.php/CEE/XVIcee>. Acesso em: 28 set. 2017.
18
Anais do XVII Ciclo de Estudos Estratégicos, “Uma nova agenda de Defesa Nacional para o Brasil”,
disponível em: <//portal.eceme.eb.mil.br/eventos/index.php/CEE/xviicee>. Acesso em: 28 set. 2017.
19
Publicada no Boletim Escolar nº 174, de 20 de setembro de 2017.
20
QGIS: software livre de geoprocessamento que possibilita a manipulação de base de dados geoespaciais
matriciais e vetoriais em um ambiente de banco de dados geográficos, disponível em: <www.qgis.org/
en/site/>. Acesso em: 28 set. 2017.

18 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


O preparo psicológico do combatente
no contexto do poder de combate

Reinaldo Nonato de Oliveira Lima*


Bárbara Marra de Carvalho Souza Neves**

Um processo mais complexo de deformação das noções de longevidade e brevidade acontece com
o homem em combate. Aqui a coisa vai mais longe, aqui se distorcem e se contorcem mesmo as
noções básicas e primordiais. No combate, os segundos se esticam e as horas se achatam.
VASSILI GROSSMAN, 2014

Considerações iniciais Exército, mas que, certamente, são inerentes


também aos integrantes das Forças irmãs —

A
área da Defesa Nacional é muito Marinha e Aeronáutica.
abrangente, tanto quanto os fatores O principal componente do aparato
que conformam o Poder Nacional de defesa é o seu poder de combate.
em suas mais diversas manifestações ou ex- Segundo o Glossário das Forças Arma-
pressões, que, em essência, embasam a sobe- das (MD 35-G-01), poder de combate é a
rania da Nação.
Entretanto, nesse intrincado contexto, capacidade global de uma organização
reside um elemento de suma importância, para desenvolver o combate, a qual re-
que respalda todos os demais, qual seja, o sulta da combinação de fatores mensurá-
veis e não mensuráveis que intervêm nas
aparato de defesa, integrado por compo-
operações, considerando-se a tropa com
nentes altamente estratégicos, como Forças seus meios, valor moral, nível de eficiência
Armadas, base industrial de defesa, infraes- operacional atingido e o valor profissional
trutura logística, desenvolvimento tecnológi- do comandante. (BRASIL, 2015, p. 211)
co, entre vários outros. (grifos nossos)
Quanto ao aparato de defesa, o
presente artigo propõe-se a enfatizar Desse conceito, depreende-se que o
considerações sobre os recursos humanos perfil psicológico do combatente, a par do
das Forças Armadas, mais especificamente seu preparo tático, encerra absoluta relevân-
direcionadas para os combatentes do cia, pois está relacionado à vontade de lutar,

* Cel Art Rfm (AMAN/72, EsAO/81, ECEME/88; 99.) Atualmente, é instrutor da ECEME (Geopolítica).
** 2º Ten OTT (Psicologia), graduada em Psicologia (UNESA/07); pós-graduada em Direito Especial
(UERJ/13); formada em Perícias Judiciais e Mediação de Conflitos (ESAJ-TJRJ/11). Atualmente, trabalha
na área psicopedagógica da ECEME.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 19


à postura diante da adversidade
e ao sentimento de segurança de-
corrente do amparo proporcio-
nado à sua retaguarda familiar.
Esse aspecto encerra es-
treita ligação com o moral da
tropa, cujo conceito é aqui apre-
sentado em consonância com
o que estabelece o Manual de
Doutrina das Forças Armadas
(MD 51-M-04):

Moral da Tropa é um princípio


de guerra que define o estado
de ânimo ou atitude mental de
um indivíduo, ou de um grupo Figura 1 – Operações militares se desenvolvem sob permanente
de indivíduos, que se reflete na tensão
conduta da tropa. Fonte: Makin, 2014
A estabilidade e o moral indi-
viduais são fundamentados na
apresentar as mais diversas e inesperadas re-
qualidade da formação, na natureza do
indivíduo e determinados por suas rea- ações decorrentes do extremo “estresse do
ções à disciplina, ao risco, ao adestramento combate” a que é submetido, independente
e à liderança. do treinamento padronizado recebido quan-
O contínuo aprimoramento e a manuten- do de sua formação.
ção de um moral elevado são essenciais ao
Aliás, esse aspecto remete à questão do
sucesso na guerra. Nem sempre força nu-
mérica, bom armamento e adequados re- julgamento de militar que, por algum desvio
cursos logísticos compensam a carência de de conduta em operações, se vê frente a um
moral e descrença nos objetivos da guerra. tribunal. Nesse caso, entende-se, salvo me-
(BRASIL, 2011, p. 42) (grifos nossos) lhor juízo, como “coerência jurídica” o fato
de o julgamento se processar em corte cons-
Essas considerações acentuam com má- tituída por juízes que tenham vivência nas
xima clareza a relevância do aspecto psicoló- lides castrenses, que tenham passado, pre-
gico na composição do poder de combate. ferencialmente, por situações operacionais
É importante ressaltar que todos os semelhantes às do réu em pauta. Daí, a es-
combatentes recebem o devido preparo para sencialidade da Justiça Militar, que atua vol-
a atividade-fim — o combate. Porém, essa as- tada eminentemente para as especificidades
sertiva não significa que o militar perde a sua da profissão militar e para as circunstâncias
individualidade. Esta se faz sempre presente. que envolvem as operações militares com
Assim, fruto exclusivamente de condi- suas consequências estressantes. Essa visão
cionantes de foro íntimo, o combatente pode de postura da Justiça não deve, portanto, ser

20 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


confundida com parcialidade, mas entendi- mais aprofundado do que se fazia até então
da como reforço do amplo direito de defesa. em termos de ergonomia, esta de caráter es-
Outro aspecto a se observar na condu- pecificamente voltado para a adaptação físi-
ta dos combatentes em conflitos nos dias de ca do homem à máquina. (A revista VEJA,
hoje refere-se a seu adestramento com equi- de 26 Out 2016, publica elucidativa matéria
pamentos bélicos altamente sofisticados. sobre a ciberpsicologia.) Com o advento e a
Se, por um lado, esses equipamentos, proliferação das “máquinas inteligentes”, é
dado seu potencial de letalidade e precisão, preciso cuidar para que elas não sejam “mais
contribuem para reforçar a autoconfiança inteligentes” do que seus operadores, ou
frente ao inimigo e a ameaças difusas, por seja, estes passam a ser muito mais exigidos
outro, passam a exigir do combatente mais em termos de qualificação profissional e de
responsabilidade e habilidades em termos responsabilização funcional.
de sua utilização, de modo a obter os efeitos Outra razão para que o combaten-
desejados e, simultaneamente, a não causar te seja muito bem preparado psicologica-
danos indesejáveis a populações que se en- mente nos dias atuais é o fato de, no con-
contrem à margem das operações bélicas, texto da fluidez das operações bélicas, ele
visto que os combates não mais ocorrem em ter de tomar decisões rápidas e no nível de
áreas nitidamente delimitadas como antiga- pequenas frações ou, até mesmo, isolada-
mente. mente, fato agravado quando as operações
Na atualidade, as interferências desse ocorrem entremeadas no seio de popu-
tipo sofisticado de equipamento no compor- lações ou comunidades. E, por extensão,
tamento humano são de tal ordem que já se essa consideração é válida também para
desenvolvem estudos inclusive sobre a deno- operações de força de paz, que exigem um
minada “ciberpsicologia”, que faz uma nova mínimo de conhecimento sobre a cultura
abordagem da relação do ser humano com do povo da área onde elas se processam,
a máquina e vice-versa, ou seja, um estudo bem como para operações de garantia da
lei e da ordem (GLO), ambas com deman-
das de um preparo psicológico mais acura-
do da tropa.
Em síntese, mais do que nunca, o
condicionamento psicológico do comba-
tente revela-se tão importante quanto
seu preparo físico, técnico e operativo, de
modo a compor um poder de combate re-
almente eficaz. E, assim, esse condiciona-
mento está a merecer atenção toda especial
Figura 2 – Armamentos sofisticados exigem acurado no contexto das operações bélicas, que,
preparo do combatente hoje, se apresentam sob os mais variáveis
Fonte: Portaldefesa.com matizes políticos, militares e sociais.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 21


Aspectos do preparo psicológico Essa circunstância exige que o militar,
desde cedo, aprenda a desenvolver capaci-
Quando o sentimento de angústia bovina dades e habilidades que o coloquem acima
e do irremediável dá lugar à sensação de suas vulnerabilidades. Dele se requer que
terrível de pavor, o que ajuda as pessoas
é o ópio insensato do otimismo.1
esteja sempre pronto para cumprir a missão,
VASSILI GROSSMAN, 2014 para combater e lutar sem esmorecimen-
to. Não é um trabalhador comum, não tem
direitos trabalhistas e atua sob sacrifícios
A Estratégia Nacional de Defesa aponta pessoais e familiares. Ele está sempre à dis-
para a necessidade de reestruturação das For- posição do chamamento pátrio; não tem o
ças Armadas, visando atender às demandas direito de optar, de escolher. O militar não
de um complexo e incerto cenário mundial. tem querer. Em última análise, assume o
Essa realidade implica mudanças que exigem compromisso de, se preciso for, sacrificar
o desenvolvimento de capacitações de toda a própria existência em prol da defesa da
ordem para os militares, a fim de atender pátria. Em decorrência dessa abnegação
às referidas demandas e atentar para incer- profissional, sua família também se vê às
tos desafios de um novo tempo. Daí decorre voltas com os percalços da vida na caserna.
o imperativo de flexibilidade, aqui entendi- Assim, ele pode ser transferido para qual-
da como a capacidade das forças militares quer lugar, tendo de conviver com escalas
de cumprir distintas missões no contexto do e horários, sem a certeza de poder cum-
combate, o que vai exigir do combatente estar prir os compromissos pessoais e familiares.
sempre atento para a possibilidade de surgi- Sua família faz e refaz matrículas escolares,
mento do inesperado. Assim, diante das ca- moradias, amigos e vínculos. Quando opta
racterísticas inerentes à profissão militar e dos pela carreira, o militar sabe que estará su-
desafios que se podem apresentar em novos bordinado a um modelo diferenciado, a
cenários, cresce a preocupação com a forma- uma vida de sacrifícios, a uma forma de
ção e o preparo do militar do Exército Brasi- atuar que tem um status peculiar, qual seja,
leiro. Portanto, há que se considerar, então, o que rege as Forças Armadas. Durante o
que a profissão militar é caracterizada por exercício de suas funções, por exemplo, as
fatores desafiadores, além da possibilidade faltas e os erros ou a atuação em desconfor-
sempre iminente de o militar ser empregado midade com as regras militares levam-no a
em situações-limite, que envolvem alto risco ser punido por um sistema disciplinar pró-
de vida para si e para seus subordinados. A prio, que prevê várias gradações de pena,
profissão militar é única, diferente de todas desde a simples advertência até prisão e
as que se conhecem. Daí, ela apresenta pro- expulsão. O militar possui um código de
priedades singulares, que a discernem de honra, um conjunto de regras que rege sua
outros ofícios, refere-se a um serviço que, vida na caserna e fora dela e que garante
durante toda a carreira, leva o combatente o funcionamento incólume da instituição a
a conviver com o risco. que pertence.

22 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


Em decorrência, sintomas emocionais
e comportamentais, principalmente o estres-
se de combate, podem manifestar-se de for-
ma variada de acordo com cada indivíduo/
sujeito/pessoa, como, por exemplo: falta de
cuidado; desatenção; impulsividade; para-
lisação; pânico; isolamento social; incapa-
cidade de relaxar; baixo nível de energia;
imobilidade; falta de apetite ou apetite em
demasia; discurso acelerado; desempenho
prejudicado; higiene deteriorada; perda ou
diminuição sensoperceptiva; medo; insônia;
terror; irritabilidade; ressentimento; raiva;
fúria; dor; culpa; vergonha; solidão; tristeza
profunda; desesperança; apatia; frieza; en-
torpecimento; exaustão etc. Ou seja, não há
um sintoma específico que se possa apontar Figura 3 – Patrono do Exército
e afirmar categoricamente como estresse de Fonte: Lima, 2013

combate. Partindo dessas tantas e possíveis


causas de adoecimento psíquico, talvez se te- O preparo psicológico no Exército
nha maior clareza da dimensão do sofrimen- Brasileiro
to real experienciado por muitos e muitos
militares, que, por conta da carreira, da mis- O insigne chefe militar e patrono do
são recebida e da renúncia à própria vida, Exército Brasileiro — o duque de Caxias —,
reprimem sentimentos, emoções e compor- segundo registros biográficos, sempre ma-
tamentos em prol de um bem maior, de uma nifestou grande preocupação com o estado
causa idealizada. Todavia, como aspecto de espírito dos seus comandados, o que de-
positivo, a exposição ao combate pode pro- monstra ímpar sensibilidade por visualizar
duzir coesão, lealdade aos pares e a líderes, na alma da Força Terrestre a própria alma
identificação com uma tradição da unidade, do soldado.
senso de elitização, senso de missão, estado No Exército Brasileiro, enfatiza-se que
de alerta, vigilância, resistência e permanên- seus integrantes constituem a “força da nos-
cia em ação, tolerância aumentada, senso de sa Força”. Realmente, o amplo somatório de
utilidade, fé aumentada e atos heroicos de energias pessoais e matizes psicológicos re-
coragem e autossacrifício. sulta em um amálgama de forças positivas,
Diante das inúmeras nuances que com- embora intangíveis, capazes de contribuir
põem o quadro ora descrito, resta discorrer para a impulsão da Força quanto ao cum-
sobre como se processa, no Exército Brasilei- primento de suas missões constitucionais e à
ro, a preparação psicológica do combatente. concretização de seus objetivos.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 23


Os programas de instrução militar Essa atuação pode-se desenvolver tanto no
(PIM), que estabelecem o preparo da tropa nível estratégico quanto no tático. Daí, suas
combatente, expressam, no cômputo de “ha- complexidade e amplitude de aplicação, o
bilidades socioemocionais”, a importância de que demanda elevada especialização para
se manterem os militares sempre predispos- seu emprego. Portanto, esse é mais um as-
tos a desenvolver o espírito de sacrifício e a pecto que o Exército Brasileiro trata com
enfrentar adversidades. persistente acurácia.
Tem a ver, principalmente, com o em- Um aspecto que adquire primordial
prego em combate. significado nessa temática é a ação de coman-
O Manual de Operações Psicológicas – do, em todos os níveis, ao manter os subordi-
C 45-4, do Exército Brasileiro, preconiza nados sempre atentos para as adversidades
que tais operações “constituem uma par- com que podem deparar no transcurso da
te essencial do poder como especial forma carreira militar, normalmente sujeita às mais
de persuasão” e que “sua importância tem diversas e imprevistas demandas. Tanto nos
aumentado em função da evolução dos cursos de formação quanto nos de especiali-
métodos científicos de atuação sobre a mo- zação, os combatentes do Exército são sub-
tivação humana”. Ainda segundo o C 45- metidos a exercícios operativos que primam
4, “as operações psicológicas, quando em- por se aproximar o máximo possível da re-
pregadas em proveito direto das unidades alidade do combate. Um exemplo marcante
operacionais, incrementam seu poder de são as instruções especiais aplicadas aos ca-
combate” (BRASIL, 1999, p. 1-1). detes da AMAN e a alunos da Escola de Sar-
Assim, além de estimu-
lar o combatente a atuar com
o imprescindível ímpeto no
combate, as operações psico-
lógicas também encerram o
propósito de anular a influ-
ência de ações psicológicas
adversas sobre nossas tropas
— uma espécie de “contra-
operações psicológicas”. Ou
seja, da mesma forma como
buscam fortalecer o moral das
nossas tropas, as operações
psicológicas agem também no
sentido de desestimular a atu-
ação de tropas confrontantes
(inimigas) bem como de ob- Figura 4 – A ação de comando é primordial para o moral da tropa
ter o apoio de atores neutros. Fonte: arquivo pessoal do Cel Luiz Augusto de Oliveira Santiago

24 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


gentos das Armas como mais uma atividade
propícia a forjar a fibra desses combatentes,
que, depois de formados, serão condutores
de homens em missões adversas. Tais ativi-
dades traduzem-se em ótimas oportunida-
des para o desenvolvimento também do pre-
paro psicológico do militar, que, em muitos
desses cursos, chegam a atingir o limite da
própria resistência física e emocional.
No caso de operações de paz sob a égide
das Nações Unidas (ONU), os militares veem- Figura 6 – Integrantes do CPAEx (no Centro de Estudos
-se diante principalmente do enfrentamento de Pessoal)

da diversidade cultural, o que pode redundar Fonte: Centro de Estudos de Pessoal

em impactos psicológicos. Essa realidade exi-


ge preparação prévia e específica do militar, dade popular. As diferenças ora considera-
particularmente alertando-o sobre costumes das podem exercer forte influência no esta-
e idiossincrasias que poderá encontrar. do psicológico do combatente.
Hoje, o combatente não pode mais No âmbito das Forças Armadas brasilei-
atuar sem conhecer a cultura dos naturais ras, o preparo de militares e civis para as mis-
da área onde as operações se desenvolvem, sões de paz processa-se no Centro Conjunto
sejam de paz, sejam bélicas. Esta assertiva de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB),
também é válida para operações internas situado na cidade do Rio de Janeiro e vincu-
(garantia da lei e da ordem), em que devem lado diretamente ao Ministério da Defesa, po-
ser considerados costumes locais e receptivi- rém subordinado ao Exército Brasileiro por
intermédio da 1ª Divisão de Exército. Para
efeito de planejamento, orientação e supervi-
são das atividades de instrução e adestramen-
to, a vinculação se estabelece com o Coman-
do de Operações Terrestres (COTER) e com
o Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEX), esta especificamente vol-
tada para orientação técnico-pedagógica.
A missão especifica do CCOPAB consis-
te em apoiar a preparação de militares, poli-
ciais e civis brasileiros e de nações amigas para
missões de paz e desminagem humanitária.
No contexto do ensino nesse Centro,
Figura 5 – Preparação de militares e civis no CCOPAB
destacam-se vários cursos e estágios, como
Fonte: Flávia Mello, Blog de Notícias (flaviamellol.
wordpress.com)
Exercício Avançado de Operações de Paz;

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 25


Curso de Desminagem Humanitária; Curso no exterior e para cursos no âmbito
para Assessores de Imprensa e Jornalistas em do Exército que tenham a avaliação
Área de Conflito; Estágio de Preparação de psicológica como pré-requisito;
Comandantes; Estágio de Coordenação Civil- • conduzir pesquisas na área da Psi-
-Militar; Estágio de Logística e Reembolso em cologia em proveito do Exército; e
Operações de Paz; Estágio de Tradutores e • desenvolver instrumentos psico-
Intérpretes Militares; e Estágio de Preparação lógicos de seleção e avaliação para
para Missões de Paz. Todas essas instruções são os processos seletivos regulados no
permeadas por considerações que remetem ao âmbito de Exército. (BRASIL, 2015)
preparo psicológico.
Especificamente no âmbito do Exército Um aspecto que merece destaque é
Brasileiro, encontra-se o Centro de Psicologia o entendimento da avaliação psicológica no
Aplicada do Exército (CPAEx), instalado no Exército, cuja finalidade se reporta a
Centro de Estudos de Pessoal, também com
sede no Rio de Janeiro. emitir um prognóstico de adaptação à car-
reira militar, aferindo o grau de compa-
O CPAEx é uma instituição de pesquisa
tibilidade das características intelectivas
e avaliação na área da Psicologia Organizacio- (cognitivas), motivacionais/emocionais e de
nal, destinada à pesquisa científica da psicolo- personalidade do candidato com os perfis
gia aplicada aos contextos militares e à realiza- psicológicos exigidos para os cargos a serem
ção de avaliação psicológica de candidatos em ocupados, após o período de formação mili-
tar. (BRASIL, 2015)
processos de seleção de pessoal.
Segundo a portaria de sua criação, o
Esta consideração vai ao encontro de uma
CPAEx tem por missão:
gestão eficiente dos recursos humanos, ao se pro-
• planejar, coordenar, executar e ge-
curar colocar “o homem certo no lugar certo”.
renciar atividades relacionadas à
Outra organização que tem efetiva par-
Psicologia Militar e à Psicologia Or-
ticipação no preparo psicológico dos militares
ganizacional;
é o Centro de Comunicação Social do Exército
• prestar apoio técnico aos diversos
(CComSEx), integrante do Gabinete do Co-
órgãos do Exército nas atividades de
mandante do Exército e instalado no Quartel-
seleção, avaliação, preparo, acompa-
-General em Brasília-DF.
nhamento e desmobilização psicoló-
O CComSEX desenvolve intensa ativi-
gica, em proveito da melhoria do cli-
dade junto ao público interno no sentido de
ma organizacional, da qualidade de
estimular o orgulho de se pertencer ao Exér-
vida no trabalho e da eficiência ope-
cito, com o propósito de manter elevado o
racional das organizações militares;
moral de seus integrantes. Essa atividade
• realizar avaliação psicológica para
reforça consideravelmente o espírito de cor-
missões de paz, para missões nos
po do pessoal do Exército, com reflexos al-
destacamentos de segurança de re-
tamente positivos no poder de combate da
presentações diplomáticas do Brasil

26 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


Figura 7 – O CComSEx encontra-se instalado no QG do Exército, Brasília-DF
Fonte: inforbrasilia.com.br

Força Terrestre. poder de combate.


Um órgão que também exerce impor- Do exposto, constata-se que é vasta a
tante papel na manutenção do moral da tropa gama de atividades desenvolvidas no âmbito
é o Serviço de Assistência Religiosa do Exérci- do Exército Brasileiro em prol do preparo
to (SAREx). De natureza ecumênica, o SAREx, psicológico não só do combatente, mas de
por meio de seus capelães e pastores, presta todos os seus integrantes.
assistência espiritual aos militares que encon-
tram na fé um sustentáculo para enfrentar as Conclusão
adversidades que, normalmente, se apresen-
tam na atividade militar, em especial no com- Ao longo do presente artigo, procu-
bate. Como exemplo marcante, podem ser ci- rou-se ressaltar a essencialidade do preparo
tadas declarações de ex-combatentes da Força psicológico do militar, em especial do com-
Expedicionária Brasileira (FEB), de heroica batente, no contexto de sua importância
atuação nos campos de batalha italianos, por como razão primeira das Forças Armadas,
ocasião da II Guerra Mundial. Naquele entre- que, por sua vez, representam parcela im-
vero bélico contra tropas nazistas altamente prescindível do Poder Nacional.
adestradas, muito do conforto espiritual pro- As vicissitudes, incertezas e medos a
porcionado aos combatentes brasileiros se deu que o soldado é normalmente submetido
pela ação intensa do frei Orlando — patrono constituem fatores capazes de inibir o ímpe-
do SAREx —, com nítido reflexo positivo no to no cumprimento de missões adversas.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 27


Em decorrência, a ação que se mostra que a atividade militar apresenta para que o
mais adequada para eliminar ou atenuar esses combatente conheça suas limitações físicas e
fatores negativos reside em um eficaz trabalho emocionais e possa, assim, desenvolver uma
na psique do militar, a quem a nação confia suas predisposição interior para superá-las e adqui-
armas para assegurar a defesa nacional. rir um efetivo desempenho funcional, seja apri-
Quando se penetra no universo da Psi- morando-se mentalmente, seja desenvolvendo
cologia, depara-se com uma incrível miríade de atitudes de engrandecimento pessoal diante de
aspectos intangíveis, dentre os quais se destaca adversidades e desafios. Para tal, deve mirar-
a individualidade do ser humano. Esse aspecto -se nos exemplos de heroísmo e de liderança
é uma constante sempre presente na atuação legados pelos próceres de ontem e de hoje, que
dos combatentes, e, por mais que sua formação enobrecem a Força Terrestre brasileira.
e seu adestramento sejam coletivos e unifor- Finalmente e por oportuno, diante do
mes, essa individualidade aflora no momento quadro ora apresentado, cumpre referir-se à
da ação e pode refletir insondáveis impactos possibilidade da ocorrência de casos (estatistica-
psicológicos. mente raros) de “desvios de conduta” (patolo-
Assim, é fundamental que o chefe militar, gias?) por parte de combatentes em ação, par-
como condutor de homens e mulheres, princi- ticularmente atribuídos a reações individuais
palmente sob condições adversas, não ignore decorrentes do estresse.
essa particularidade do mundo psíquico. Esse aspecto merece uma “visão co-
Nesse contexto e diante da magnitude erente” quando do julgamento em foro
da missão constitucional do Exército Brasileiro, jurídico, visto que a idiossincrasia de cada
justifica-se a importância que a Instituição vem ser humano, em que pese o adestramento
atribuindo ao preparo psicológico dos seus inte- padronizado e coletivo recebido, pode pro-
grantes, com especial atenção para o combaten- duzir impactos inimagináveis no comporta-
te, que normalmente é submetido a extremos mento. Em decorrência, fica nítida a impor-
limites de estresse ao longo da vida militar. Essa tância da Justiça Militar, hábil para compor
importância fica bem caracterizada tanto pelas tribunais mobiliados com julgadores que
organizações especificamente voltadas para o detenham consistente conhecimento das
mister do preparo psicológico, quanto pela ação lides castrenses e que, preferencialmente,
de comando, em todos os níveis, no sentido de sejam portadores de experiência em ope-
se manter elevado o moral da tropa, princípio rações militares. Essa propositura pretende
fundamental do poder de combate. dar ênfase à legalidade de se conceder a um
Um aspecto também interessante a se réu que exercia atividade sob extrema ten-
considerar na preparação psicológica em am- são maior amplitude ao seu direito de defe-
biente castrense é a geração de oportunidades sa e ao contraditório.

Referências

BRASIL. Ministério da Defesa. MD 35-G-01 – Glossário das Forças Armadas. 5ª Ed. Brasília,
DF: Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, 2015.

28 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


__________. Ministério da Defesa. MD 51-M-04 – Manual de Doutrina das Forças Armadas. Bra-
sília, DF: Ministério da Defesa, 2011.

__________. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, DF: Ministério da


Defesa, 2012.

__________. Exército Brasileiro. Portaria nº 1.351 - Comandante do Exército, de 24 Set 2015.


Cria e ativa o Centro de Psicologia Aplicada do Exército e dá outras providências.

__________. Exército Brasileiro. Portaria nº 309 - EME, de 23 Nov 2015. Aprova a Diretriz para a
Implantação do Centro de Psicologia Aplicada do Exército (EB20D-01.030).

__________. Exército Brasileiro. Portaria nº 1.813 - Comandante do Exército, de 16 Dez 2015.


Aprova as Instruções Gerais para a Avaliação Psicológica nos Concursos de Admissão aos Cursos de
Formação de Oficiais e Sargentos de Carreira e ao Estágio de Instrução e Adaptação para Capelães
Militares do Exército Brasileiro (EB10-IG-09.007), 1ª Edição, 2015, e dá outras providências.

__________. Exército Brasileiro. C 45-4 – Manual de Operações Psicológicas. 3ª Ed. Brasília, DF:
Estado-Maior do Exército, 1999.

COHEN, Eliot A. Comando Supremo. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2004.

GROSSMAN, Vassili Semiônovich. Vida e Destino. 1ª Ed. Tradução de Irineu Franco Perpétuo.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

GROSSMAN, Vasily Semionovich. Um Escritor na Guerra: Vasily Grossman com o Exército


Vermalho 1941-1945. Editado e traduzido do russo para o inglês por Antony Beevor e Luba
Vinogradova. Tradução de Bruno Cassoti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

KENNEDY, Carrie H. e ZILLMER, Eric A. Psicologia Militar. Rio de Janeiro: Biblioteca do


Exército, 2009.

LIMA, Vivi Fernandes de. Mitos na Berlinda. TOK de História. 19/10/2013. Disponível em: <//
tokdehistoria.com.br/2013/10/19/mitos-na-berlinda/>. Acesso em 15/08/2017.

MAKIN, Jenny. Combat Stress reveals a record rise in soldiers seeing mental health help.
RAWA News. Southern Daily Echo, May 17, 2014. Disponível em: <www.rawa.org/temp/
runews/2014/05/17/combat-stress-reveals-a-record-rise-in-soldiers-seeing-mental-health-help.
phtml>. Acesso em 15/08/2017.

Revista VEJA, Ed. 2501, nº 43, 26 Out 2016.

<www.ccopab.eb.mil.br/pt/sobre-o-ccopab>; acesso em 09 Mar 2017.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

1
Referência aos judeus russos transportados nos vagões como gado, rumo aos campos de confinamento.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 29


A coordenação civil-militar e o
gerenciamento de crises
na Guerra do Vietnã
Raphael do Couto Pereira*

Lições importantes do Vietnã Fuzileiros Navais e apoios aéreos, para au-


mentar o poder de combate nessa região do

D
urante a guerra do Vietnã, foram Vietnã. Para exercer o comando e controle
desenvolvidas as primeiras inten- desses meios, foi estabelecida a III Força An-
ções consistentes de um serviço de fíbia de Fuzileiros Navais (III MAF, na sigla
Assuntos Civis pelo Corpo de Fuzileiros em Inglês),1 cujo comando foi confiado ao
Navais dos Estados Unidos, em especial na general Lewis W. Walt (Figura 3).
Coordenação Civil-Militar, através dos cha-
mados pelotões de ação combinada (combined Para o general Westmoreland, os esforços
do combate deveriam focar, no senso estri-
action platoons). Essas ações deixaram marca-
tamente militar, em operações chamadas
das as necessidades de aproximação entre o “procurar e destruir”, ou seja, o uso de for-
elemento militar e o civil. Mais precisamen- ças norte-americanas concentradas e supe-
te, em 8 de março de 1965, os Fuzileiros riores militarmente para destruir as forças
Navais norte-americanos desembarcavam comunistas em batalhas convencionais e até
mesmo contra a guerrilha, trazendo assim
nas praias de Da Nang, no Vietnã do Sul. a paz e estabilidade para o Vietnã do Sul.
O 1º Batalhão de Fuzileiros Navais dos Es- Porém, elementos do Alto-Comando dos
tados Unidos no Vietnã, comandando pelo Fuzileiros Norte-Americanos, tais como o
então tenente-coronel Charles E. McPartlin general Victor Krulak e os sucessivos co-
mandantes da III MAF, os generais William
(Figura 1), desembarcou sob a supervisão
R. Collins, Lewis W. Walt e Frederick Kar-
do comandante do Teatro de Operações do ch, mantinham uma visão diferente. (AN-
Vietnã, o general Willian Westmoreland (Fi- DREW, 2015, p. 4, tradução livre)
gura 2), para conduzir operações conjuntas
com as Forças Armadas vietnamitas, de segu- Para esses generais, o confronto dire-
rança do Aeródromo de Da Nang. Em 5 de to contra as tropas comunistas não era des-
maio do mesmo ano, o presidente Lyndon cartável, mas se deveria focar na estratégia
B. Johnson aprovou o envio da 3ª Divisão de de pacificação das áreas, atentando assim

* CT Fuz Nav (EN/09), graduando no Curso de Segurança Pública e Social (UFF) e mestrando em Defesa
e Segurança Civil, pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança
(UFF). Atualmente, exerce a função de observador militar na Missão das Nações Unidas para o Refe-
rendo no Saara Ocidental (MINURSO).

30 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


defendida pelo Alto-Comando do Exército,
ou os esforços de pacificação defendidos pe-
los Fuzileiros Navais — seguiu por mais al-
guns anos. E, para a maioria das pessoas, o
general Westmoreland, como o militar mais
antigo no comando no Vietnã, ganhou o de-
bate (ANDREW, 2015, p. 4).
O general Walt adotou, na III MAF,
a metodologia de pacificação e teve por in-
tenção inicial entender o complexo ambiente
operacional em que estava imerso. A análise
das localidades e características populacionais
que afetavam as suas operações, especialmen-
te nas vilas ao redor de Da Nang, Chu Lai e
Figura 1 – Da esquerda para a direita, Gen Krulak, Phu Bai (Figura 4), tiveram prioridade. Em
Ten Cel McPartlin e Gen Karch em estudo do ter- sua análise, constatou a presença de mais de
reno na elevação 372 a oeste de Da Nang 150.000 residentes em vilas que colocavam o
Fonte: www.armchairgeneral.com (2016) Aeródromo de Da Nang e de Phu Bai dentro
do alcance do fogo de morteiro 81mm, que
para as vilas. Esse esforço de pacificação por vezes impedia a operação das aeronaves.
envolveria, segundo Andrew (2015, p. 4), Ficou claro que a III MAF deveria expandir
o estabelecimento de uma segurança física, o seu perímetro de segurança englobando
tendo que também dar subsídios para que essas vilas. Esse fato levaria esses militares a
as vilas conseguissem prosperar economica- tomarem uma postura ainda não enfrentada
mente e no meio da democracia, negando na guerra do Vietnã, que era o contato dire-
assim ao inimigo a possibilidade de adqui- to com a população e suas nuances.
rir comida, suporte financeiro e
informações valiosas. Eles tinham
também a consciência de que essa
aproximação com a população le-
varia tempo, até que se construísse
uma relação de confiança. E que
tal proximidade reduziria as possi-
bilidades de baixas do lado norte-
-americano, sendo a forma mais
efetiva de se buscar a estabilização
do país. Esse debate interno acerca
da estratégia a ser abordada — a Figura 2 – General William Westmoreland
fricção do combate convencional, Fonte: www.history.com (2016)

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 31


O general Walt desenvolveu um con-
ceito para complementar o plano de pacifi-
cação da III MAF e aumentar a segurança
do Aeródromo. Esse conceito era o do pelo-
tão de ação combinada. Para o general Walt,
esse sistema, baseado nos pelotões de ação
combinada, tinha uma meta simples, que
era ajudar na defesa local das forças do ní-
vel tático, com treinamento, equipamentos,
suporte e a presença constante do elemento
de combate norte-americano (TOWNSEND,
2013, p. 31). O contato direto dos militares
norte-americanos com as Forças Populares
do Vietnã2 e com os residentes das vilas po-
deria resultar vantajoso. A maior vantagem
seria ter esses pelotões como elementos de
inteligência, em que, com o convívio nas áre- Figura 4 – Zonas do Vietnã do Sul

as, seria possível estabelecer um fluxo de in- Fonte: www.dtic.mil (2016)

formações da população, para combater de


forma mais eficaz os Vietcongues.3 tão e também a disponibilidade de pessoal
Porém, para atender aos objetivos do preparado, principalmente psicologicamen-
general Walt, surgiu outra problemática, a te, para se relacionar com a população local
necessidade de um efetivo maior de Fuzilei- e agir de forma totalmente descentralizada.
ros Navais para controlar as áreas em ques-
A necessidade de pessoal qualificado

A necessidade de pessoal especializado


mostrou-se como um fator de grande peso,
pois, até então, a doutrina e o preparo de
militares habilitados a planejar e exercer as
atividades da coordenação civil-militar ain-
da eram insipientes. A solução vislumbrada
para suprir tal deficiência inicial foi estabe-
lecer um processo seletivo interno, no qual
o militar prioritariamente deveria ser vo-
luntário e, preferencialmente, ser sargento e
comandante de esquadra de tiro. Esses mili-
Figura 3 – General Lewis W. Walt tares eram então considerados como os mais
Fonte: www.gettyimages.com (2016) aptos e experientes no campo da liderança

32 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


para realizar operações nas vilas e em contato
direto com os cidadãos vietnamitas. Eles deve-
riam ainda ter pelo menos quatro meses de ex-
periência em combate, ser recomendados por
seus comandantes diretos e não poderiam ter
registros de indisciplina ou de manifestação de
xenofobia (TOWNSEND, 2013, p. 29-30).
Os pelotões de ação combinada foram
compostos por 14 fuzileiros navais norte-ame-
ricanos, um enfermeiro da Marinha e 35 sol-
dados das Forças Populares do Vietnã (Figura
5). A liderança do pelotão era dividida, com o
comando sendo exercido por um sargento das
Forças Populares do Vietnã e tendo por au-
xiliar um sargento fuzileiro naval americano.
Essa estrutura reforçou o papel de liderança e
integração entre os militares dos dois países e
ainda facilitou a sua inserção nas comunidades
(ALLNUT, 1969, p. 17).
Em 1966, só havia sete pelotões inse-
ridos nas vilas vietnamitas, chegando a 114
em 1968. Durante esse período, o conceito

Figura 6 – Artigo sobre os pelotões de ação combi-


nada, na revista Marine Times
Fonte: www.capmarine.com

de aplicabilidade e a missão dos pelotões de


ação combinada foram mantidos em sua es-
sência, mas a guerra passou da atrição clás-
sica entre duas forças opositoras para o foco
na guerrilha, por parte dos vietcongues.
Houve, assim, necessidade de aumentar do
número de pelotões, que passaram a ter um
Figura 5 – Pelotão de ação combinada (combined dos seus focos na montagem e no incremen-
action platoon) to das redes de inteligência (ALLNUT, 1969,
Fonte: TOWNSEND, 2013, p. 34 p. 20, 21).

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 33


em vez de uma função a ser realizada somente
por unidades ou pessoal especializados para
a conquista de objetivos puramente militares
(RIETJENS, 2008. p. 23, 24).
A condução das atividades no campo
tático, para a conquista desses objetivos, asse-
melha-se aos ditames consagrados atualmen-
te na coordenação civil-militar, em suas duas
vertentes: a metodologia da Organização das
Nações Unidas (ONU) ou a da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Para
a ONU, temos que:

A coordenação civil-militar é uma função


de assessoria militar nas missões integra-
das das Nações Unidas, que facilita as inte-
rações entre os componentes militar e civil
Figura 7 – Fuzileiros navais entregam doação de 17 da missão bem como com os atores huma-
toneladas de mantimentos para a vila de Tra Kieu, nitários, promovendo o desenvolvimento
nas proximidades de Da Nang dos atores presentes na área da missão,
Fonte: ANDREW, p. 55 para que deem suporte aos objetivos da
missão das Nações Unidas. (ONU, 2010,4
p. 14-15, tradução livre)
Com essa mudança de postura por
parte dos vietnamitas, com a introdução da Já para a OTAN, a cooperação civil-
guerrilha, o inimigo não agiria mais como -militar é definida como:
um exército regular, logo não vestiria neces-
sariamente um uniforme. A necessidade de A coordenação e cooperação, em suporte
atitudes com viés mais político — aumento da à missão, entre o comandante da OTAN e
aceitabilidade pela população, redução dos atores civis, incluindo a população nacio-
nal e as autoridades locais bem como orga-
efeitos colaterais, uso adequado da força e uma
nizações e agências internacionais, nacio-
aproximação gradual e paciente — adentra no nais e não-governamentais. (OTAN, 2003,
ambiente operacional como novo ingrediente. p. 1-1, tradução livre)
No escopo dessas necessidades, a aproximação
da população tornou-se evidente, e o concei- Pode-se notar que, na última abor-
to da coordenação civil-militar abrangeria as dagem, permite-se ao componente militar
necessidades por ora apresentadas, criando alcançar o estado final desejado através da
o balanço correto entre os esforços militares e coordenação, sincronização e eliminação de
civis. Ficou claro que esse seria um “trabalho conflitos entre suas atividades e as dos atores
de cada soldado” e um processo ou conceito civis. Essas atividades podem ainda ser pau-
de operação voltado para os objetivos políticos, tadas exclusivamente para a consecução de

34 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


objetivos, podendo trabalhar as ações com a DREW, 2015, p. 49). Durante um dos confron-
finalidade de ter conhecimentos da área da tos em Nam Yen, alguns elementos das Forças
inteligência. E, não obstante, ligar as ativi- Populares acreditavam que os Fuzileiros esta-
dades militares aos objetivos políticos. Assim, riam perdendo a batalha e decidiram se juntar
podemos notar que as abordagens do pelo- ao suposto lado vencedor atirando contra os
tão de ação combinada, juntamente com as norte-americanos.
suas lições apreendidas, podem ter sido um Já na localidade de Phu Bai, os Fuzilei-
dos elementos que contribuíram para o esta- ros Navais Norte-Americanos encontraram
belecimento da doutrina OTAN. elementos das Forças Populares organizados e
já estabelecidos antes mesmo de sua chegada
O saldo que o Vietnã deixou na ao Vietnã, o que trouxe vantagens, pois a segu-
integração inicial entre civis e militares rança da vila já existia, e eles estavam atrelados
a um forte fator motivacional, que seria lutar
A iniciativa de se formarem os pelotões pelo sentimento de proteção de sua terra e sua
de ação combinada é considerada por mui- família. Isso fez com que houvesse a otimização
tos historiadores como um dos programas da implementação do programa de pelotões
de maior sucesso durante a guerra do Vietnã de ação combinada (TOWNSEND, 2013, p.
(TOWNSEND, 2013, p. 31). Esse sucesso deu- 39-40). Os fuzileiros sofreram até perceberem
-se na análise por completo do programa e seus que a conquista dos camponeses deveria ser
resultados, mas cabe destacar que, em algumas com o contato direto e não através de grupos
ocasiões, o programa apresentou falhas e tam- impessoais. As Forças Populares eram as que
bém encontrava forte oposição do comandan- poderiam alavancar ou parar com essa campa-
te do Teatro de Operações do Vietnã, general nha (TOWSEND, 2013, p. 39).
Willian Westmoreland. Mas para o general Krulak, um dos sal-
Na primeira operação de grande vulto, dos mais importantes na Operação Starltile
a Operação Starlite,5 os elementos das Forças não foi o número de vietcongues mortos e sim
Populares do Vietnã, inseridos juntamente o valor do estabelecimento do fluxo de valiosas
com os Fuzileiros Navais Norte-Americanos informações de inteligência, que veio como re-
nos pelotões de ação combinada eram milicia- sultado da integração entre as forças militares
nos locais leais ao regime de Saigon. Eles eram e os civis nas vilas. Isso reforçou a sua ideia de
minimamente treinados, com o propósito de que o combate convencional deveria dar espa-
tão somente estabelecer a segurança das suas ço para as ações de pacificação. Através desse
vilas de origem, e estavam despreparados para fluxo de informação oriundo da integração
a escala de violência que enfrentariam duran- entre militares e civis, o general Krulak, em
te a operação. Por vezes, eles se escondiam nas uma mensagem para o comandante-geral dos
trincheiras e se recusavam a seguir juntamente Fuzileiros Norte-Americanos, conseguiu detec-
com os fuzileiros. Além disso, eles tinham uma tar que os vietcongues estavam abandonando o
demanda logística desproporcional, pois con- confronto direto e partindo para uma postura
sumiam duas vezes mais água e comida (AN- de guerrilha. Para ele, ainda, o sucesso ineren-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 35


te à Starlite se deu devido aos programas com- do sobre outras culturas, nós nos Estados
binados de ações civis-militares, principalmen- Unidos estamos falhando em treinar e nos
preparar para esse tipo de cooperação
te em Da Nang, Phu Bai e Chu Lai, pois trouxe
internacional, essa é uma área que temos
desenvolvimento econômico e segurança para muito ainda o que fazer. (MILES, 2013,
essas vilas. O general ressaltou que a verdadei- apud TOWNSEND, 2013, p. 43)
ra vitória no Vietnã só poderá ser obtida com
a pacificação das vilas através das ações cívico- Essa preocupação com a cultura e lin-
-militares (ANDREW, 2015, p. 55). guagem apareceu também em um estudo
Outro saldo importante dessa inte- encomendado sobre a viabilidade do uso de
gração entre militares e civis foi a redução dos pelotões de ação combinada na guerra do
efeitos colaterais. Ou seja, os Fuzileiros Navais Iraque. O estudo recomendou que os fuzi-
Norte-Americanos eram mais relutantes em leiros designados para a missão deveriam re-
solicitar ataques aéreos ou de artilharia que ceber um treinamento de imersão na cultura
não fossem precisos em locais onde tinham o e idioma de seis meses em seu Instituto de
receio de atingir civis que eles conhecessem Línguas e Defesa, localizado em Monterey,
pessoalmente, reduzindo assim os efeitos cola- na Califórnia (SAVAGE, 2005, p. 16).
terais, que são determinantes na condução da
guerra moderna, pois impactam diretamen- Governabilidade e influência direta:
te na opinião pública. Essa integração trouxe fortalecimento de instituições, criação
ainda a imersão dos militares americanos na de líderes e serviços básicos sociais
cultura vietnamita, onde a sua maioria conse-
guiu aprender até mesmo a língua local. Esse Um ponto decisivo para a efetividade
aprendizado e imersão em uma nova cultura das ações de coordenação civil-militar, bem
não só facilitava a vida do militar na região, mas como o efeito final desejado de uma ação mi-
também trazia maior legitimidade às ações das litar de intervenção em um território, é que
forças e benefícios culturais e emocionais para essa ação consiga ser gerida por uma admi-
os militares. A proficiência em uma segunda nistração pública sem a ajuda externa. Ou
língua, em geral a da nação hospedeira, não seja, que a vida civil daquele local consiga ser
era uma característica predominante na cul- restabelecida e continue a funcionar por in-
tura militar norte-americana. Mas esse contato termédio de serviços públicos básicos, sempre
com os vietnamitas mostrou que esse é um as- corroborando os objetivos militares predeter-
sunto para o qual se deve ter atenção. Segundo minados. E os Fuzileiros Navais Norte-Ame-
relatos do Comandando Militar Europeu dos ricanos atentaram para esse tema no Vietnã.
Estados Unidos, menos de dez por cento dos Havia uma precária estrutura pública, que
membros do Departamento de Defesa falam funcionava para atender demandas básicas
uma segunda língua. das cidades e vilas. O general Walt, vislum-
brando a importância do assunto, aproxi-
Em oposição a muitos parceiros Europeus, mou-se e estabeleceu contato direto com os
que em sua maioria falam quatro ou cinco
governos das províncias. Esse engajamento
línguas e tem um conhecimento profun-

36 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


adicionou credibilidade ao programa de pelo- -americanas nas vilas. Assim sendo, foi lançado
tões de ação combinada, como uma força apta o Programa de Ação Civil Médica, em que os
a ajudar a estrutura do governo do Vietnã do enfermeiros da Marinha foram inseridos nos
Sul (TOWNSEND, 2013, p. 47). De forma pelotões de ação combinada.
indireta, os governadores das províncias ti-
veram maior legitimidade perante os seus ci- Esta resposta imediata aos primeiros socor-
ros e à habilidade dos enfermeiros em pro-
dadãos e os seus governos centrais, com uma
ver medicação para acabar ou prevenir do-
administração funcionando sem necessitar da enças imediatamente aumentou a confiança
ajuda de um ator externo. Além disso, a pro- das pessoas nos pelotões de ação combinada.
ximidade e coordenação entre civis e milita- (TOWNSEND, 2013, p. 49, tradução livre)
res ajudou a identificação e o recrutamento
de líderes locais para que suprissem as linhas E os resultados colhidos foram deter-
sucessórias de governabilidade. minantes para a otimização do contato en-
Algumas vilas mais isoladas possuíam tre civis e militares, pois o programa de ação
dificuldades de abastecimento pela parte go- combinada foi uma espécie de ação cívica es-
vernamental, e a presença militar nesses lo- pontânea, que evoluiu a partir da satisfação
cais ressalta outro aspecto, que é a importân- das necessidades geradas pelos moradores
cia do estabelecimento de serviços básicos, das vilas e do desenvolvimento de um espírito
tais como distribuição de água, alimentos e de união, dentro dos quais se identificam os
atendimento médico, para barrar as influ- interesses mútuos do protegido e do protetor.
ências e o aproveitamento das forças inimi-
gas convencionais ou de guerrilha. Como os Conclusão
militares estavam em contato direto com os
moradores das vilas e líderes locais, eles sa- O conceito de coordenação civil-Militar
biam quais assistências e os locais exatos que não é um fenômeno recente, e já é intrínseco
mais necessitavam de ajuda. das operações militares do século XX, princi-
palmente no período pós-Guerra Fria, quan-
Havia dois serviços essenciais que os ele- do foi visualizada a sua importância e a po-
mentos dos pelotões de ação combina- tencialidade de uso para as Forças Armadas.
da poderiam contribuir no Vietnã. Esses
serviços eram atendimento médico e se-
Por exemplo, as equipes de reconstrução
gurança das colheitas de arroz. (TOWN-
das províncias criadas no Afeganistão em
SEND, 2013, p. 48, tradução livre)
2004 têm suas raízes no Projeto de Al-
deias Estratégicas, implementado pelas
O primeiro serviço essencial para o qual Forças Armadas dos Estados Unidos du-
o programa contribuiu foram os atendimentos rante a Guerra do Vietnã. Neste exemplo,
médicos, pois foram vistos como um serviço militares das Forças Especiais foram postos
juntamente com os civis representantes da
básico de custo menor para implementação
USAID6 em uma campanha de conquista de
e manutenção e tiveram também um grande corações e mentes, para promover o desen-
impacto psicológico em favor das tropas norte- volvimento, ao mesmo tempo em que se tra-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 37


vava uma campanha de contrainsurgência7 dos efeitos colaterais, diminuindo o número
(RANA, 2004, p. 573-573) de mortes civis, e aumento do efetivo contro-
le territorial. Considerando que atualmente a
Assim, a iniciativa de aproximação e tolerância para erros e perdas desnecessárias
integração entre civis e militares, através da é bem reduzida na opinião pública, as ações
utilização do programa de pelotões de ação combinadas entre civis e militares atendem
combinada, trouxe economia de forças, pois bem a essa necessidade. Certamente os pla-
o contato constante com os moradores de- nos de integração devem ser incrementados
sencorajava a cooptação por parte da guerri- e deve ser considerada uma imersão de tro-
lha, evitando o desbalanceamento do poder pa, como foi realizada no Vietnã, para que
de combate e demandando, assim, menor haja adaptação à nova ordem mundial e à
número de soldados para o combate. Além demanda por maior relacionamento inter-
disso, o programa trouxe o melhor entendi- pessoal. Mas se mantém a percepção que a
mento do campo de batalha, crescimento dos coordenação civil-militar é uma das poten-
aspectos culturais individuais, aumento do cialidades das Forças Armadas e necessita de
fluxo de informações de inteligência, redução maior atenção.

Referências

ALLNUT, B. C. Marine Combined Action Capabilities: the Vietnam experience. McLean, VA:
Human Sciences Research Inc., 1969.

ANDREW, R. The First Fight: U.S Marines in Operation Starlite, August 1965. Washington,
DC: U.S Marines Corps Reserve, 2015.

BRASIL. Ministério da Defesa. Glossário das Forças Armadas. 5ª Ed. Brasília: Estado-Maior
Conjunto das Forças Armadas, 2015. Disponível em: <www.defesa.gov.br/arquivos/legislacao/
emcfa/publicacoes/doutrina/md35_g_01_glossario_ffaa_5_ed_2015.pdf>.

HEMINGWAY, A. Our War Was Different: Marine Combined Action Platoons in Vietnam. An-
napolis, MD: Naval Institute Press, 1994.

LEHRACK, O. J. Leatherneck: Operation Starlite: The First Battle of the Vietnam War. Milita-
ry.com. Disponível em: <www.military.com/NewContent/0,13190,Leatherneck_050815_Starli-
te,00.html>.

PEREIRA, R. C. Dissolução de Conflito entre comunidades no Haiti. Revista Marítima Brasilei-


ra. V.136 Nº 07/09. Rio de Janeiro. 2016. p. 180-190.

ONU. Civil-Military Coordination in UN Integrated Peacekeeping Missions (UN-CIMIC).


[s.l.]: Department of Peacekeeping Operations, 2010. Disponível em: <//docs.unocha.org/sites/
dms/Documents/DPKO%20UN-CIMIC%20(2010).pdf>.

38 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


OTAN. North Atlantic Treaty Organization. AJP 9. NATO Civil-Military Co-Operation (CIMIC)
Doctrine. [s.l]: NATO Standardization Agency, 2003. Disponível em: <www.nato.int/ims/docu/
ajp-9.pdf>.

RANA, R. Contemporary Challenges the civil-military relationship: Complementarity or incom-


patibility? International Review of the Red Cross, Vol. 86, Nº 855. Genebra. set. 2004. Disponí-
vel em: <www.icrc.org/eng/assets/files/other/irrc_855_rana.pdf>.

RIETJENS, S. J. H. Managing Civil-Military Cooperation: Experiences from the Dutch Provin-


cial Reconstruction Team in Afghanistan. Armed Forces & Society, Volume: 34 issue: 2, page(s):
173-207, New York, Jan. 2008.

SAVAGE, T.B. The Combined Action Platoon and Its Applicability in Future Conflict. Quanti-
co, VA: School of Advanced Warfighting, Marine Corps University, 2005. Disponível em: <www.
dtic.mil/dtic/tr/fulltext/u2/a509462.pdf>.

TOWNSEND I. J. Combined Action Platoons in the Vietnam War: a unique counterinsurgency


capability for the contemporary operating environment. Tese de mestrado. Fort Leavenworth,
KS: School of Advanced Military Studies, 2013.

WELTSCH, M. D. The Future Role of the Combined Action Program. Tese de mestrado em
Arte e Ciência Militar. Fort Leavenworth, KS: United States Army Command and General Staff
College, 1991. Disponível em: <www.dtic.mil/dtic/tr/fulltext/u2/a243540.pdf>.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

1
A nomenclatura atual mudou para Marine Expedicionary Force. É um grupamento operativo de fuzi-
leiros navais nível divisão.
2
Composta pelas Forças Armadas do Vietnã, que integraram a coalizão juntamente com os Estados Unidos.
3
O termo vietcongue é derivado da expressão “công sán Viêt Nam”, que significa “comunista vietnami-
ta”. Eram guerrilheiros que compunham a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã e que lutavam
contra a coalizão formada pelos Estados Unidos e Vietnã do Sul.
4
Elaborada pelo Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA – Office
for the Coordination of Humanitarian Affairs) em 2010.
5
Conhecida também como a batalha de Van Tuong, foi a primeira grande ofensiva norte-americana.
Essa ofensiva se deu de forma preventiva contra o regimento vietcongue para assegurar a utilização e
integridade da base aérea de Chu Lai bem como suas torres de comunicação. A operação inicialmente
seria chamada de “Satelite”, mas, durante a redação de sua ordem, ocorreu uma falta de energia, e um
dos funcionários, ao escrever à luz de velas, cometeu um erro na escrita. (LEHRACK, 2005)
6
United States Agency for International Development – Agência Norte-Americana para o Desenvolvi-
mento Internacional.
7
Estratégia em que se busca derrotar focos de revolta pelo emprego das mesmas táticas do inimigo,
normalmente a guerrilha, com o propósito de eliminar o apoio da população à guerrilha. Para tal, essa
estratégia inclui, se necessário, reformas sociais, econômicas e políticas na região. (BRASIL, 2015, p. 66)

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 39


Das bandeiras às fronteiras
São Paulo, Belém e a expansão a oeste de Tordesilhas

Dante Ribeiro da Fonseca*

Introdução não poderia continuar no paganismo, dada


sua nova sujeição ao Estado Nacional Abso-

A
abordagem do processo de conquis- lutista e Católico; assim a obrigatoriedade de
ta e colonização portuguesa do Bra- adoção da fé era conferida unilateralmente
sil, tendo como ênfase a ação militar, pelas leis ibéricas. A conversão então explica,
impõe a observação de dois outros aspectos em parte, a enorme evidência atribuída pe-
relevantes. São eles: o religioso e o econô- los reis ibéricos às ordens religiosas no trato
mico. Quanto ao aspecto religioso, podemos com os nativos. No Brasil, essa proeminência
destacar a mentalidade de cruzada, que durou até 1758, ano em que foi publicado o
presidiu inicialmente a conquista da terra. Diretório dos Índios, lei que inaugura a de-
Foi esse aspecto ideológico norteador da cadência da ação missionária nessa questão,
ação missionária e também militar. De fato, pois, através dela, foi substituído o clérigo
logo após a conquista de Ceuta pelos portu- pelo elemento laico.
gueses em 1415, que inaugurou o domínio Quanto ao recorte econômico, sabe-
português do périplo africano em direção mos que a conquista da América também re-
às Índias Orientais, o papa Martinho V ex- presentou uma obstinada busca de riquezas
pediu a bula Rex regum. Essa bula, de 1418, pela Europa. Por isso, o avanço pelo terri-
conferiu o caráter de cruzada à ação por- tório segue a rota da instalação de sistemas
tuguesa na África Ocidental, conclamando de produção ou das descobertas das riquezas
todos os reis cristãos a se unirem na luta naturais. Foram os casos da cana-de-açúcar
contra os mouros. e também do ouro no Brasil, ou do extrati-
Do mesmo modo, proselitismo cristão vismo vegetal amazônico. A ação econômica
e ação militar coadjuvam a conquista da colô- também esteve umbilicalmente vinculada à
nia brasileira. A palavra gentio, utilizada em ação militar na conquista da terra. Os vários
documentos coloniais para designar o nativo povos nativos viam seus territórios serem
brasileiro, é de origem bíblica e nesse caso conquistados pelo europeu e buscavam de-
significa não católico, pagão. Mas esse nativo fendê-los. Era então que a função essencial-

* Doutor em Ciências: Desenvolvimento Socioambiental (UFPA), professor da Universidade Federal


de Rondônia (UNIR). É sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia (IHGRO) e da
Academia de Letras de Rondônia (ACLER) e sócio correspondente do Instituto Geográfico e Histórico
do Amazonas (IGHA). (zeliafonseca@brturbo.com.br)

40 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


mente guerreira do nativo se contrapunha No topo da hierarquia, o mestre de campo,
à função militar do colonizador. Devemos seguido do capitão-mor, sargento-mor e ca-
alertar, porém, que aquilo que consideramos pitão; mais abaixo, em postos subalternos, as
atividade militar terrestre nos séculos iniciais patentes como alferes, sargentos, furriéis, ca-
da colonização não era atributo exclusivo do bos de esquadra, porta-estandartes e tambor
exército regular. Era responsabilidade tam- completavam as patentes militares das orde-
bém do colono civil, através de vários me- nanças. Foram registradas, contudo, inúme-
canismos legais, instituídos ao longo da for- ras exceções a essa regra, próprias de socie-
mação do Estado Nacional Português. Entre dades em que, como na nossa, a mestiçagem
esses mecanismos está a bandeira, cujas pa- tornou-se comum. Quando indivíduos de
tentes eram atribuídas ao colono pelas auto- origem africana, indígena ou mestiça de-
ridades metropolitanas e coloniais. monstravam valor militar ou enriqueciam,
Essas instituições já haviam estabeleci- frequentemente eram alçados às patentes
do na metrópole aquilo que se chamou de superiores.
militarização da sociedade portuguesa. Fo- Os corpos de ordenanças, existentes
ram transferidas para o Brasil e, em parte, em Portugal já no século XVI, representa-
adaptadas às novas condições de conquista ram um desdobramento da organização mi-
aqui encontradas. Os próprios cargos da litar portuguesa mais antiga, na qual exis-
administração colonial uniam a função civil tiam as bandeiras. Essas bandeiras medievais
e militar, daí porque a profusão de títulos constituíam-se como organizações militares
como capitães-generais, capitães-donatários, espontâneas e tumultuárias a que o Regi-
sargentos-mores e outros. Na organização mento das Ordenanças procurou disciplinar
militar terrestre portuguesa, encontramos ainda naquele século. No Brasil, foi através
primeiramente o exército mantido pelo Es- desse regimento que se vulgarizou a defini-
tado Absolutista na figura dos corpos regu- ção de bandeira. As adaptações do instituto
lares ou tropa de linha. Além da estrutura das bandeiras por aqui não se fizeram espe-
militar permanente e profissional, existiam rar. Primeiramente, de emprego defensivo
também os corpos de milícias e ordenanças. e estático na metrópole, a bandeira passou
Eram constituídos pelos súditos que, quan- a exercer diversas outras funções. Seus co-
do convocados pelo Estado, os compunham mandantes eram, em geral, também coman-
sem perceber nenhum tipo de remunera- dantes das milícias e ordenanças nomeados
ção. Destinavam-se ao apoio ou mesmo, em pelas autoridades coloniais ou reinóis.
alguns casos, à substituição das tropas regu- O caráter expansionista atribuído às
lares profissionais. Havia nessas tropas uma bandeiras foi mais praticado nas áreas pe-
hierarquia de patentes que plasmava a or- riféricas aos centros políticos e econômicos
dem social do antigo regime colonial. Situa- coloniais. São Paulo e Belém do Pará foram
vam nos escalões mais baixos os brancos po- os núcleos irradiadores das ações que vieram
bres, mestiços de toda ordem, negros livres e a romper com os limites de Tordesilhas. É
escravos, além dos indígenas, tapuios ou não. por essa via de entendimento que podemos

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 41


considerar que a ação de indivíduos como tas a oeste. Assim é que, entre 1479 e 1480,
Raposo Tavares e Francisco de Melo Palheta, foi assinado o Tratado de Alcovas. Nele os
assim como de Ricardo Franco de Almeida monarcas espanhóis aceitam a posse portu-
Serra, revestiam-se do caráter militar, em- guesa da Guiné, diversas ilhas na costa da
bora os dois primeiros não integrassem o África e demais terras descobertas ou a se
exército regular da época, como foi o caso descobrirem ao sul das ilhas Canárias (ilhas
do último. de possessão espanhola), desde que não per-
O processo de conquista e ocupação tencessem a nenhum rei cristão.
portuguesa efetiva na bacia do rio Amazonas Com a chegada de Colombo à Améri-
pode ser situado entre construção do Forte ca, em 1492, buscaram as monarquias ibéri-
do Presépio, origem da atual cidade de Be- cas melhor definição na divisão entre si do
lém, em 1616, e o Tratado de Madri (1750). Novo Mundo. Assim é que o papa Alexandre
No norte da colônia, é a partir de Belém que VI emite, em 1493, uma série de documen-
se dá o avanço sobre Tordesilhas. O Tratado tos visando solucionar a questão da partição
de Madri representa o início da consolida- das novas terras como: o breve Inter coetera,
ção jurídica do processo de expansão portu- a bula Inter coetera, a bula Eximiae devotionis,
guesa para oeste dessa linha. Eventos poste- a bula Dudum siquidem, de 26 de setembro.
riores, que se prolongarão até o século XX, Seja pela imprecisão, seja por não agradar
consolidarão a fronteira noroeste tal como a às pretensões dos monarcas em lide, todas
conhecemos hoje. É nesse período que ocor- as tentativas de acordo foram frustradas até
re a conquista portuguesa da área dos rios 1494. Naquele ano, foi assinado o tratado de
Madeira, Mamoré e Guaporé. Esses rios de- Tordesilhas, que serviria de imprecisa bali-
limitaram um trecho da referida fronteira. za para as possessões ibéricas na América do
Nesta exposição, a ênfase da análise histórica Sul nos séculos vindouros. Determinava o
recairá sobre as ações militares da conquista tratado o estabelecimento de uma linha geo-
e colonização desse espaço. désica, que, seguindo do polo ártico ao polo
antártico (sentido norte-sul) à distância de
A divisão do Novo Mundo entre as po- trezentos e setenta léguas a oeste das ilhas de
tências ibéricas Cabo Verde, serviria de fronteira. Pelo trata-
do, as terras a oeste dessa linha pertenciam
Mesmo antes da chegada dos euro- à Espanha, e, a leste, a Portugal. O ano de
peus à América, as nações ibéricas pugna- 1500 marca a posse portuguesa desse terri-
vam pela divisão das terras encontradas e tório a leste da linha de Tordesilhas com a
conquistadas na busca do caminho marítimo chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil.
para as Índias. Inicialmente as bulas e tra-
tados relativos ao tema concentravam maior As bandeiras e a expansão territorial
precisão na costa da África e ilhas adjacentes.
Com o passar do tempo, passaram a dividir, A historiografia nacional firmou a con-
entre Portugal e Espanha, as terras supos- vicção predominante de que o rompimento

42 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


que afirma: “caberá aos bandeirantes de São
Paulo a função histórica de triplicar a área
do Brasil estabelecida pelo tratado de Tor-
desilhas”. Na mesma obra, Teixeira Soares
apresenta o mapa da Figura 1.
Da observação desse mapa, depreen-
de-se que mesmo a fronteira dos rios Madei-
ra e Amazonas foi anexada ao território na-
cional pela ação dos bandeirantes paulistas,
pois que, no mapa, o vetor do avanço sai de
São Paulo, seguindo depois para o Amazo-
nas. Taunay (2012, p. 185) também imprime
essa percepção, ao declarar que:

A solução de continuidade existente en-


tre as áreas hoje mato-grossenses da ba-
Figura 1 – Rompe-se o cordão de Tordesilhas cia amazônica e as que se distribuem pelo
Fonte: SOARES, 1975 Pará e o Amazonas começou a ser apagada
em 1742 com a famosa viagem de Manuel
Félix de Lima e Joaquim Ferreira Chaves,
da linha de Tordesilhas no Brasil e a resul- de Vila Bela a Belém do Pará.
tante consolidação territorial portuguesa,
sobre o espaço antes convencionado como Em ambos os casos, no trecho de Tau-
pertencente à coroa de Espanha, foi obra nay e no mapa de Soares, o vetor de incor-
dos bandeirantes de Piratininga. Essa vincu- poração desse território parte de São Paulo e
lação é tão forte que a palavra bandeirante chega ao rio Guaporé. Tavares, em razão do
passou mesmo a ser sinônimo de paulista. bandeirismo de preação, e Lima, em razão
Normalmente a palavra é vinculada auto- do surto minerador.
maticamente ao movimento de expansão e Devemos, no entanto, apontar aqui
ocupação das fronteiras brasileiras a partir duas imprecisões. Primeiramente nos re-
do planalto de São Paulo durante o período correndo do mapa. A linha maior, que, par-
colonial. tindo do Itatim, chega à ilha de Marajó, ou
A predominância da interpretação, seja, às proximidades Belém, seria o roteiro
centrada em São Paulo, de um dos mais im- da famosa viagem do bandeirante paulista
portantes fenômenos de nossa História pode Antônio Raposo Tavares, que traçaria, com
ser entendida na origem mesmo da historio- pequenas modificações, as futuras fronteiras
grafia sobre o tema. Para citar dois autores do Brasil. Ocorre, porém, que, após minu-
de peso, e de resto essa é a História conta- cioso estudo, o historiador Jaime Cortesão
da na maioria dos livros didáticos, temos o (2012, p. 377) define o seguinte roteiro da
embaixador Álvaro Teixeira Soares (1975), expedição:

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 43


I - de São Paulo ao Paraguai; so de ocupação das fronteiras, citamos aqui
II - do Paraguai até aos serros do sis- o paulista Paulo Prado, que, em sua obra Re-
tema chiquitano; trato do Brasil, declarou corretamente que as
III - daqui até a região dos chiriguano; “bandeiras amazônicas, que pelo Madeira se
IV - exploração das faldas orientais ligaram às de São Paulo, alcançaram os limi-
dos Andes; tes do Javari e ocuparam a Guiana” (1981,
V - regresso pelo Guapaí até a planí- p. 56). A quase correta observação de Paulo
cie crucenha; Prado, visto que não registrou o pioneiris-
VI - finalmente, o grande trajeto flu- mo do bandeirismo nortista, apreendeu-a de
vial pelo Guapaí-Mamoré-Madeira- um escrito de Capistrano de Abreu, confor-
-Amazonas até Gurupá. me ele mesmo declara: “Devo este esquema
a uma nota magistral e inédita de Capistrano
Em resumo, a bandeira de Raposo de Abreu” (Idem, nota 1).
Tavares seguiu o caminho diferente daquele Podemos resumir então que as fron-
tradicionalmente indicado nos mapas. Não se- teiras portuguesas na América do Sul foram
guiu o rio Guaporé, em razão de que seu obje- expandidas a partir de duas frentes de colo-
tivo era capturar, na segunda parte do empre- nização: pioneiramente, a frente amazônica
endimento, os índios chiriguanos residentes e, após o início do Ciclo do Ouro, a frente
nas faldas dos Andes. Enfim, contrariamente paulista. Essas frentes se encontraram no rio
ao que Cortesão defende, Tavares estava inte- Madeira, fechando o périplo da ocupação da
ressado em escravizar os indígenas e não em fronteira oeste e ligaram uma região à outra
estabelecer as novas fronteiras coloniais. com o estabelecimento da rota das monções
Em segundo lugar, está a afirmação de do Norte. Essas monções eram expedições
Taunay. Desconsidera ela todo o movimen- comerciais que, a partir da metade do século
to anterior que, partindo de Belém, já havia XVIII, abasteciam exclusivamente o norte
ocupado a região do baixo Madeira. Resta, do Mato Grosso através de Belém. O atribuir
contudo, a Taunay o mérito de ter reconhe- ao elemento paulista mérito de ter expandi-
cido implicitamente que a ocupação do nor- do nossa fronteira oeste é fruto de verdade
te do Brasil não foi obra paulista. Em seu apenas parcial.
Escorço Biográfico de Pedro Taques de Almeida
Pais Leme (1714-1777), declara que o recuo O Norte e o Sul da colônia portuguesa
do meridiano de Tordesilhas para o coração
da América do Sul deveu-se ao avanço das Embora tenhamos notícias de incursões
bandeiras paulistas, embora declare, com navais de portugueses na foz do rio Amazonas
menor ênfase, que foram eles os “constru- desde os primeiros anos do século XVI, o pri-
tores do áspero Brasil Meridional e Central” meiro registro de europeu a encontrar a foz
(In LEME, 2004, p. 61). do Grande Rio indica o navegante Vicente
Dentre aqueles poucos autores que re- Pinzon, a serviço do rei de Espanha. Também
gistraram a participação nortista no proces- foram os espanhóis os primeiros navegantes

44 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


europeus daquele rio. Após a primeira ex- tendo encontrado abrigo entre os nativos da
pedição espanhola, entre 1540 e 1542, ou- ilha de Santa Catarina, organizou, em ano
tras expedições devassaram aquele curso de próximo a 1523, uma expedição composta por
água. Nesse ínterim, se realizava lentamente a quatro ou cinco dos seus amigos de infortúnio
expansão portuguesa no território a leste da e algo em torno de dois mil índios guaranis.
linha de Tordesilhas. Assim é que, em 1535, Essa expedição partiu do atual estado do Pa-
D. João II doou a João de Barros uma das ca- raná e atingiu comunidades incaicas na região
pitanias criadas no Brasil naquele momento, de Potosí e Sucre, as quais saqueou. Seu líder
na foz do rio Amazonas. Apesar do dispêndio ordenou depois a retirada da expedição para
de recursos próprios, a tentativa de coloniza- o Paraguai, onde foi assassinado pelos índios.
ção daquela parte da colônia fracassou. Mais Essa expedição permitiu o conhecimento da
ao sul da colônia, foi fundada São Paulo em ligação entre o rio da Prata e a Região Andina.
1540. Desses dois pontos do território a leste A bandeira existiu como instituição
de Tordesilhas, é que a linha de fronteira será militar portuguesa desde a Idade Média. Foi
rompida pelo avanço português para oeste. É mudando com o passar do tempo e se adap-
de interesse observar que o início do avanço tando às modificações na arte da guerra tal
português sobre o território convencionado como praticada no meio colonial, conforman-
como espanhol ocorre já durante a União Ibé- do-se como as companhias de ordenanças ou
rica. Esse período foi assim chamado porque, milícias. Tornou-se comum no Brasil desde o
de 1580 a 1640, Portugal e Espanha foram primeiro quartel do século XVII. Os oficiais
governados pelos monarcas espanhóis. A ra- das bandeiras eram aqueles mesmos nomea-
zão desse fato foi ter falecido em luta contra dos para comandar as ordenanças ou milícias,
os mouros, na Batalha de Alcácer-Quibir em destinadas, na colônia, às atividades militares
1578, sem deixar herdeiros diretos, o rei por- e de polícia. Segundo Cortesão, pouco a pou-
tuguês D. Sebastião, cuja sucessão coube aos co, essas atribuições foram transformadas pela
seus parentes mais próximos, os reis de Espa- bandeira colonial naquelas de: [...] “ataque,
nha. apresamento, exploração e reivindicação de
A partir do último quartel do século soberania” (CORTESÃO, 2012, p. 75). Em
XVI, São Paulo inicia a desenvolver uma ex- suma: através de um processo adaptativo às
tensa lavoura comercial de alimentos. Esses condições locais, torna-se bandeira livre de
produtos eram destinados principalmente ao “assalto e exploração do sertão” (Idem, p. 76).
mercado litorâneo da colônia. Essa lavoura es- A atividade de apresamento para escra-
tava baseada toda ela no trabalho do indíge- vização do nativo desenvolvida pelos paulistas
na escravizado. Foi a partir dessa base social pode ser dividida em fases. De 1628 a 1641,
e econômica que se desenvolveu o bandeiris- não se distanciavam muito de São Paulo, e
mo naquele espaço. É importante notar uma os grupos mais afetados foram os guaranis.
manifestação anterior mesmo ao fenômeno Aproximadamente a partir de 1640, a estra-
do bandeirismo no Brasil. Trata-se da iniciati- tégia dos jesuítas espanhóis consistiu em or-
va do náufrago português Aleixo Garcia, que, ganizar os nativos em reduções mais distan-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 45


tes e armar seus índios contra os ataques dos Afonso D’Escragnolle Taunay (2012, p. 208)
paulistas. Também o nativo não reduzido in- declara:
teriorizava sua fuga da área de ação bandei- Foi o ouro o verdadeiro causador da
rante. Assim, as penetrações dos bandeiran- tomada de posse definitiva das terras centrais.
tes pelo interior do território em busca de Não existissem o arraial do Bom Jesus do Cuia-
escravizar os indígenas dilataram-se mais e bá e o arraial guaporeano, futura Vila Bela, e
mais. Uma bandeira que se notabilizou pelo Alexandre de Gusmão disporia de débil base
enorme percurso que realizou foi aquela de argumentação para invocar o uti possidetis em
liderada pelo mestre de campo Raposo Ta- favor da fixação da fronteira do Brasil a dois mil
vares. Iniciada em 1639, em São Paulo, essa quilômetros a oeste da linha tordesilhana.
bandeira foi ao sul do Brasil. Sendo malsu- Devemos ir um pouco mais adiante
cedida no ataque às missões religiosas daque- para que não haja dúbia interpretação. A ex-
la região, dirigiu-se ao norte, em busca dos ploração mineral foi responsável não apenas
“índios serranos”. Esses nativos são os chi- pela tomada de posse, mas pela ocupação
riguanos (guaranis), que residem nas faldas efetiva do território a oeste de Tordesilhas
dos Andes ainda hoje, na região do Oriente pelos bandeirantes paulistas. Porém, o fenô-
Boliviano, que faz fronteira com o Brasil. O meno apenas poderá ser constatado a partir
contingente bandeirante era típico: poucos do chamado Ciclo do Ouro. E, assim mesmo,
brancos, alguns mamelucos e muitos índios, naquela parte que chamamos de Brasil Cen-
portando algumas armas de fogo, e a maioria, tral. A razão disso é exatamente porque pro-
arcos e flechas. Após seguirem o curso do rio moverá a fixação da população em território
Paraguai, navegaram os rios Mamoré, Madei- espanhol. Não nos esqueçamos de que a legi-
ra e Amazonas. O final do percurso foi sua timação dessa fronteira se dará com o Trata-
chegada a Gurupá, em 1642, com reduzida do de Madri, de 1750, cujo princípio basilar
parte da tropa. Estavam em estado tão lasti- foi o uti possidetis, ou seja, a terra pertence
mável que o padre Antônio Vieira declarou ao rei cujos súditos a ocuparem. Mas Taunay
que eles mais pareciam desenterrados do que fala da ocupação com os olhos fixos em São
vivos. Esse foi o primeiro registro de navega- Paulo, vê a árvore, mas não a floresta. Não
ção europeia em todo o curso do rio Madeira. se refere a Belém, uma das bases dessa ocu-
Muitas vezes, essas entradas combi- pação. Na Amazônia, não houve o Ciclo do
navam o objetivo de busca de cativos com Ouro, e, no entanto, a região participou de
a pesquisa mineral. Podemos citar como forma primordial, importante e decisiva no
exemplo a bandeira de Fernão Dias Paes processo de ocupação da região a oeste de
Leme, iniciada em 1674. Embora não hou- Tordesilhas, em período mesmo anterior a
vesse trazido metais ou pedras preciosas, foi esse ciclo. Aduzimos, ainda, que a ocupação
grande a quantidade de indígenas cativados ocorreu inicialmente na Amazônia mais em
em Minas Gerais. função da defesa do território que em razão
Em sua importante obra História das do Ciclo das Drogas do Sertão, também um
Bandeiras Paulistas, o historiador paulista ciclo ambulante e inicialmente não fixador

46 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


de população no sertão. Sem a constituição Maranhão. Comandados pelo senhor De La
de núcleos de colonização portuguesa a oes- Ravardière, um grupo de colonos franceses
te de Tordesilhas, não haveria consolidação iniciou a ocupação das terras no litoral ma-
da expansão da fronteira que seria legitima- ranhense em 1612. A ação portuguesa contra
da pelos tratados de limites. essa invasão é bem-sucedida. Sob o comando
do capitão-mor Alexandre Moura, os france-
A expansão da mineração no Sul e o ses são expulsos do Maranhão em 1615. No
combate aos “estrangeiros” no Norte final daquele mesmo ano, esse comandante
nomeia um membro de sua expedição, Fran-
Destarte, foi a escassez de nativos nos cisco Caldeira Castelo-Branco, capitão-mor
arredores mais próximos de São Paulo que do Grão-Pará. No início do ano seguinte,
fez entrar em decadência a economia agríco- Castelo-Branco, que chegou ao Pará acompa-
la do planalto de Piratininga, já claramente nhado de duzentos homens, fundou o Forte
observada no último quartel do século XVII. do Presépio, de onde iniciou a dar combate a
Foi então que, em 1693, a bandeira de An- inúmeros núcleos coloniais instalados por ou-
tônio Rodrigues Arzão descobriu o ouro no tros povos europeus naquelas terras.
Caité; no ano seguinte (1694), Bartolomeu É, portanto, dentro do período deno-
Bueno de Siqueira descobriu jazidas do mes- minado União Ibérica (1580-1640) que a li-
mo minério próximas a Itaverava, ambas em nha de Tordesilhas será rompida no norte
Minas Gerais. Descobrimentos sucessivos fize- amazônico com a criação de capitanias por-
ram avançar de fato a fronteira portuguesa tuguesas a oeste daquela linha. As entradas
na América. Isso porque, diferentemente das de apresamento do indígena e busca de re-
bandeiras anteriores, a descoberta de ouro cursos naturais devassarão o espaço a oeste
e diamantes ocasionava o transplante e a fi- de Tordesilhas mais intensamente do que
xação da população colonial portuguesa nas antes da união dos reinos. Contudo, é no
novas regiões mineradoras. Nos períodos an- Grão-Pará onde, além de devassar os sertões,
teriores, a atividade das bandeiras consistia as entradas propiciarão primeiramente ao
em avançar sobre os territórios considerados elemento português a fixação em território
como espanhóis, fazer seu reconhecimento, espanhol. A dificuldade de o monarca de Es-
prear nativos e retornar para São Paulo. Cin- panha expulsar com suas tropas elementos
co anos depois da descoberta de Itaverava, de outras nacionalidades que se instalavam
em 1699, Portugal recebia 725 quilogramas em territórios da Amazônia, considerados de
de ouro extraído no Brasil. sua posse, fez com que atribuísse essa fun-
Enquanto esses eventos ocorriam a ção ao elemento português. Pesava também,
partir de São Paulo, ao norte da colônia, a como consta no Tratado de Madri (1750), o
linha de Tordesilhas também era rompida. fato de “não haverem averiguado até agora
A conquista e o estabelecimento definitivo os verdadeiros limites daqueles domínios, ou
dos portugueses na Amazônia relacionam- a paragem donde se há de imaginar a Linha
-se à tentativa de fixação dos franceses no Divisória”, circunstância adicionalmente uti-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 47


lizada com oportunidade pelos portugueses lados na Amazônia. Os governantes portugue-
para se estabelecerem a oeste de Tordesilhas. ses do Estado do Maranhão quase que imedia-
Pela Carta Régia de 1621 (13 de junho), tamente puseram-se a incentivar a instalação
o monarca espanhol Felipe IV estabeleceu o de novas capitanias para garantir o controle
Estado do Maranhão. Separado do Estado do desses territórios. Dois anos após a criação da
Brasil, foi constituído pelas capitanias gerais Capitania Real do Pará, foi criada a capitania
do Maranhão, Pará, Ceará e Piauí, com capi- de Gurupá (1623). Posteriormente, mais três
tal em São Luiz. Os administradores dessas capitanias foram entregues ao governo de par-
capitanias eram escolhidos no seio do apare- ticulares. Em 1627 foi criada a capitania de Ca-
lho burocrático e militar português. Em 4 de eté, entregue a Feliciano Coelho de Carvalho,
novembro de 1621, foi emitido aviso em que filho do então capitão-general do Pará, que em
o monarca comunicava as providências para 1634 a perdeu em favor de Álvaro de Sousa.
povoar e fortificar a costa do Brasil: Naquele mesmo ano de 1634, foi criada a ca-
pitania do Cabo Norte e entregue ao governo
…dos demais rios e os que forem tão lar- de Bento Maciel Parente. Em 1637 foi criada
gos que não alcance artilharia de uma par-
a capitania de Cametá e entregue ao mesmo
te a outra se fortifiquem e, ainda que esta
conquista seja da Coroa de Castela, se Feliciano Coelho de Carvalho em compensa-
pode encomendar a de Portugal por ser ção pela perda de Caeté. Assim, cinco capita-
mais em conta, e que pela notícia de que nias conquistadas, possuídas e dirigidas pelos
na outra costa há povoados de ingleses e portugueses existiam em ambos os lados da
holandeses, se poderia enviar em reco-
fronteira tordesilhana antes do final da União
nhecimento e, conforme o que houvesse,
tomar resolução e fazer o necessário para Ibérica (1640) e mais de um século antes do
expulsá-los. (Apud CALÓGERAS, 1998, Tratado de Madri (1750). Instaurou-se, desse
p. 90; apud SILVA, 1855, p. 57, tradução modo, uma complicada estrutura, em que a
livre, grifo nosso) autoridade dos dirigentes das capitanias reais,
administradas por elementos nomeados pelo
Nos anos posteriores, inúmeras entra- rei, contrapunha-se à autoridade dos capitães-
das foram autorizadas pelo rei de Espanha e -donatários. Ainda assim, esse internamento e
dirigidas por bandeirantes. A bandeira fluvial posse garantiu aos portugueses aquelas terras.
comandada por Pedro Teixeira em 1639 to-
mou posse do rio Amazonas para Portugal em Os rios Madeira, Mamoré e Guaporé e a
nome do rei da Espanha. Dela participou Ben- vizinhança espanhola
to Maciel Parente, futuro capitão-general do
Pará e capitão-donatário da capitania do Cabo O rompimento da linha de fronteira
Norte (atual Amapá). Em geral essas bandei- foi então produto da ação militar de homens
ras fluviais agiam, como aquelas de São Paulo, envolvidos com as atividades econômicas pe-
para sondar ou conquistar o território, escra- riféricas à principal área da economia colo-
vizar os nativos, mas também para expulsar nial até o final do século XVII: a açucareira.
súditos de outras monarquias europeias insta- Ocorre, porém, que, enquanto as incursões

48 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


do bandeirismo paulista descobriram o ouro que hoje abriga o município amazonense de
e, por essa razão, passaram a fixar núcleos Parintins. Em 1683 o padre jesuíta Superior
de povoamento colonial a oeste de Tordesi- da Missão, Jodoco Peres, subiu o rio Madeira
lhas, apenas a partir do final do século XVII, até a foz do rio Mataurá (na época, denomi-
esse fenômeno é observado na Amazônia nado Iruris). No retorno, trouxe consigo um
desde a terceira década daquele século. Ape- filho do principal iruri, que, segundo Sera-
sar disso, é da ação desencadeada a partir do fim Leite (2000. p. 391), aprendeu no colé-
planalto de São Paulo que se fixará a colo- gio de Belém o tupi e o português.
nização portuguesa nos limites da fronteira Em 1688 o filho do cacique mais dois
oeste, composto pelos rios Guaporé, Mamo- padres jesuítas retornam ao rio Madeira,
ré e Madeira, mas apenas a partir da primei- onde fundam um aldeamento missionário
ra metade do século XVIII. entre os iruris. Esse aldeamento fracassa em
De um modo geral, a ação missionária razão da falta de missionários, doenças e ata-
era parte integrante da ocupação colonial. ques dos colonos que visavam à escravização
Foi o que aconteceu nas províncias jesuíticas daqueles nativos. Assim, esses missionários
espanholas de Moxos e Chiquitos, situadas passaram a concentrar seus esforços nos al-
onde hoje estão nossas fronteiras do Mato deamentos de Tupinambaranas e Abacaxis
Grosso, Rondônia e Acre com a Bolívia. Em (baixo rio Madeira), sendo que esse último
Moxos, esse processo iniciou no rio Mamo- praticamente foi o aldeamento que substi-
ré e savanas ocidentais entre 1683 e 1700. tuiu o de Iruris. Todas as tentativas da insta-
Santíssima Trinidad, hoje capital do depar- lação de missões na parte alta e média do rio
tamento boliviano do Beni, que faz fron- Madeira foram caracterizadas pela precarie-
teira com Rondônia, foi fundada em 1686. dade durante o século XVIII.
Em uma segunda etapa, que transcorreu de Evidentemente, como em São Paulo,
1700 a 1720, essas missões ocuparam o espa- entradas em busca de nativos e para prati-
ço do rio Mamoré abaixo até sua confluência car o extrativismo vegetal foram realizadas
com o rio Guaporé. Finalmente, a penetra- no rio Madeira, particularmente a partir da
ção foi consolidada entre 1720 e 1750, quan- primeira década do século XVIII. Além des-
do foram fundadas as missões a jusante. sas, existiram também bandeiras punitivas,
Tal, porém, não foi o caso da ocupa- como foi aquela enviada ao rio Madeira em
ção portuguesa na área Madeira/Guaporé, 1715, comandada pelo capitão-mor João de
tardia em relação aos espanhóis. A instala- Barros Guerra, que acoimou e escravizou
ção de núcleos coloniais portugueses no rio os índios torás e muras. O comandante da
Madeira deu-se, inicialmente, pela ação jesu- expedição encontrou seu fim quando uma
ítica. Já em 1669, os padres jesuítas Manoel árvore tombou da margem do rio sobre sua
Pires e Gorzoni navegaram nesse rio, onde embarcação. Segundo Noronha (1862, p. 30),
fundaram a primeira aldeia de Tupinamba- essa expedição punitiva foi uma resposta ao
ranas, na ilha de mesmo nome situada no rio ataque desses grupos às missões religiosas de
Amazonas, defronte à foz do rio Madeira, Canumá e Abacaxis. Com a morte de João de

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 49


Barros Guerra, assume o comando o capitão Nesse mesmo ano, a bandeira de An-
de infantaria Diogo Pinto de Gaia auxiliado tônio Pires de Campos (1723) atinge a região
pelo sargento-mor das ordenanças Francis- que chamou reino dos Parecis, navegando pelo
co Fernandes, que submetem parte desses rio Sepotuba, que nasce na serra dos Parecis e
grupos em 1718. Nesse evento, percebemos desagua no rio Paraguai (CAMPOS, 1862, p.
mais um capítulo de inspiração cruzadística: a 443). Os parecis são grupos falantes do arua-
guerra justa contra o infiel, o gentio que cria que, como os moxos e baures. Mètraux sustenta
obstáculos ao avanço da cristandade. que, já no século XVI, a expedição de Gozalo
Solis Holguin teria atingido a Serra do Nor-
O ouro de Cuiabá e Mato Grosso te (localizada nos atuais estados de Rondônia
e Mato Grosso) e entrado em contato no país
Nesse mesmo ano (1718), registrou-se dos “pareches”. Na relação de Pires de Cam-
a primeira investida bandeirante no rio Cuia- pos, há a primeira referência aos nhambiqua-
bá, quando Antonio Pires de Campos navegou ras e cabixis, que viviam ao norte dos parecis
esse rio na atividade de preação do nativo (SÁ, (MÈTRAUX, 1942, p. 160), no atual estado de
1904, p. 7). No ano seguinte (1719), o bandei- Rondônia.
rante paulista Pascoal Moreira Cabral desco- No alto rio Madeira, quase defronte da
briu ouro no rio Coxipó-Mirim, afluente do foz do rio Jamari, o padre João Sampaio, que
rio Cuiabá, atraindo mineradores para a região acompanhou a expedição Palheta em parte do
nos anos seguintes (COELHO, 1850, p. 139). percurso, criou a missão jesuítica portuguesa
Em 1722 Miguel Sutil descobre ouro no rio de Santo Antônio das Cachoeiras em 1728. Essa
Cuiabá (COELHO, 1850, p. 140). Constituída missão teve curta duração. Nessa época, o ca-
para investigar as condições de povoamento do cau nativo era importante produção extrativa
alto rio Madeira, a expedição comandada pelo do Pará e existia em abundância no rio Madeira
sargento-mor Francisco de Melo Palheta parte e no rio Beni. Era explorado pelos portugue-
de Belém naquele mesmo ano (1722), atingin- ses e espanhóis através de expedições de coleta,
do a missão jesuítica espanhola de Exaltación como registra a crônica ainda no ano de 1781:
de la Santíssima Cruz de los Cajuvavas, no bai-
xo Mamoré. Segundo a descrição do missioná- Entramos quase três léguas pelo rio Beni a
rio de Exaltación, a expedição era composta de dentro. Eu e o Capitão Joaquim José Fer-
reira achamos grande correnteza no rio e
alguns mestiços, cem indígenas e vinte e cinco muitas matas de cacau e ranchos velhos,
soldados. Informa ainda que Palheta pretendia praticados nos tais cacauais, que supomos
seguir adiante para observar outras povoações, serem dos espanhóis que ali vêm fazer sua
demonstrando interesse em obter informações colheita. (PONTES; MENDONÇA, 1985,
p. 165)
sobre Santa Cruz de La Sierra e Potosí. Foi, en-
(N. da R.: Características originais do tex-
tretanto, dissuadido da ideia pelo referido mis- to preservadas pelo autor.)
sionário (MATTEOS, 1946, tomo VI, p. 282-
283). Daquele ponto então, retornaram para Contudo, essa prática extrativista não
Belém, lá chegando a princípios de 1723. fixava população colonial portuguesa signifi-

50 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


cante no alto Madeira, pois era uma atividade O surgimento dos núcleos de coloni-
ambulante e sazonal. zação portuguesa na região guaporeana foi
No Cuiabá, além dos indígenas a serem consequência da descoberta do ouro, que
escravizados, outra riqueza era cobiçada: o provocou um enorme incremento popula-
ouro. O cronista Barbosa de Sá informa-nos cional. A administração metropolitana, en-
que o coronel de milícias Antônio Pires de volvida na tarefa de negociar com a Espanha
Campos (COELHO, 1850, p. 152), na sua su- um novo tratado que assegurasse seu territó-
bida pelo rio Cuiabá, escravizou muitos indí- rio colonial até a fronteira oeste, aproveitou-
genas coxiponés. Assim também Pascoal Mo- -se dessa verdadeira corrida ao metal pre-
reira Cabral, que, subindo o Coxipó-Mirim, cioso. Diversos arraiais haviam ali surgido e
aprisionou muitos nativos do mesmo grupo possuíam, em 1740, uma população minera-
(SÁ, 1904, p.10-11). Do mesmo modo, no dora estimada em 40.000 habitantes (LAPA,
Mato Grosso (Guaporé) assim ocorria. 1973, p. 23). Assim, em 1743, foi criado pelo
As duas frentes de penetração para oes- governo português no rio Guaporé o distrito
te de Tordesilhas, que partiram de Belém e de Pouso Alegre, que, três anos depois, veio
São Paulo, se encontraram no ano de 1731.1 a ser transformado no município de Vila
Nesse ano, os irmãos Fernão e Artur Pais de Bela da Santíssima Trindade. A indecisa so-
Barros, acompanhados de seus sobrinhos João berania disputada entre os Estados Ibéricos
Martins Claro e José Pinheiro, que foram ao na região causou, em 1744, a fundação da
apresamento dos parecis, encontraram ouro missão de Santa Rosa no lado oriental do rio
na região guaporeana (SÁ, 1904, p. 31-32). Guaporé pelos jesuítas espanhóis (SÁ, 1904,
Retornaram àquela região em princípios do p. 44). A partir de 1746, foram incrementa-
ano de 1733, acompanhados do sargento-mor das as negociações que viriam a resultar no
Antônio Fernandes de Abreu, e, no local onde Tratado de Madri. Contudo, antecipando-se
encontraram o metal precioso, fizeram roças mais uma vez aos resultados daquele trata-
e pesquisaram a região, retornando a Cuiabá do, a coroa portuguesa criou, em 1748, a ca-
em dezembro daquele ano (SÁ, 1904, p.32). pitania de Mato Grosso e Cuiabá, que teve
A continuidade das pesquisas minerais como primeira capital a cidade de Vila Bela
conduziu ao descobrimento de ouro no rio da Santíssima Trindade.
Corumbiara pelos bandeirantes sorocabanos
Antônio de Almeida e Moraes e Tristão da Consolidação da fronteira Madeira-
Cunha Gago. Barbosa de Sá afirma que esses -Guaporé
achados se deram em 1745 e foram abando-
nados no ano de 1748. As hostilidades dos Todo esse movimento incrementa a
indígenas impediram a continuidade dos navegação de súditos portugueses por aque-
achados (SÁ, 1904, p. 45). Gonçalves da les rios fronteiriços em expedições de cunho
Fonseca registra que, em 1750, havia ainda a político/militar ou comercial. Determinado a
expectativa de retorno à mineração no local impedir a evasão do metal pelo contrabando,
(FONSECA, 1866, p. 376). o governo de Portugal proíbe a navegação do

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 51


rio Madeira em 1733. Tal incremento popula- No primeiro semestre de 1749 efetuou-
cional em região de mineração provocou, como -se a viagem do sargento-mor João de Sou-
era de se esperar, o surgimento de um lucra- za Azevedo (ou de Azevedo, ou d’Azevedo),
tivo comércio. As monções, nome pelo qual que partiu de Belém e subiu os rios Madeira,
eram conhecidas essas expedições comerciais, Mamoré e Guaporé em demanda do Mato
saíam inicialmente de São Paulo com destino Grosso (SAIND-ADOLP, 1845, p. 10). Há dois
às regiões mineradoras (Monções do Sul). Pa- registros quanto à natureza dessa viagem: o
ralelamente, buscavam-se outras rotas de abas- primeiro é encontrado em Saind-Adolp, que
tecimento pelos rios que se dirigiam ao norte, menciona acompanhar a viagem “várias canôas
intentando uma ligação comercial com Belém carregadas de fazendas”, o que caracterizaria
(PA), transgredindo a proibição real. o transporte monçoeiro (1845, p. 10); o segun-
Em 1742 um grupo de mineradores en- do afirma que a expedição foi realizada com
dividados, sob a liderança de Manuel Félix de autorização do Governo Metropolitano para
Lima e Francisco Leme do Prado, partiu do ar- observação das missões jesuíticas espanholas
raial de São Francisco Xavier em expedição que (PINTO, 1987, p. 135). De fato, uma carta de
buscava estabelecer ligações comerciais com as Marco Antônio Azevedo Coutinho, secretário
missões espanholas da região guaporeana. Atin- de Estado de Portugal ao governador do Esta-
giram a missão de São Miguel, no rio Baures, e do do Maranhão, datada de 15 de setembro de
depois seguiram para a missão de Santa Maria 1748, autoriza este último a credenciar pessoa
Madalena, no rio Itonamas. Desrespeitando para investigar as condições da colonização es-
proibição real, navegaram o rio Madeira e che- panhola no rio Madeira. Essa pessoa era Souza
garam a Belém em 1743, onde foram presos. Azevedo (Noticias, vol. 107, p. 47). A expedição
Francisco Leme do Prado separou-se de João de Souza Azevedo possuía as duas fun-
do grupo de Félix de Lima em Santa Maria ções. A mercantil, ou seja, permitido pelas au-
Madalena para tentar contato comercial com a toridades coloniais, teria subido o Madeira em
missão de Exaltación de la Santíssima Cruz de direção ao Mato Grosso com suas mercadorias e
los Cajuvavas. Como Félix de Lima, foi mal- embarcações. Retribuiu a permissão praticando
sucedido em seu intento de comerciar com a espionagem sobre o estado da ação missioná-
as missões espanholas, mas, contrariamente a ria espanhola naqueles rios.
este, retornou ao Mato Grosso. Lá chegando, Além da expedição de Félix de Lima, há
a janeiro de 1743, prestou informações sobre notícias, embora esparsas e pouco investigadas,
o que viu às autoridades portuguesas. Naquele de outras expedições que utilizaram a rota dos
mesmo ano, José Barbosa de Sá foi enviado ao rios Madeira, Mamoré e Guaporé para suas in-
alto Mamoré por ordem do ouvidor de Cuia- vestidas de caráter comercial. Fica clara nessas
bá, João Gonçalves Pereira, para examinar o iniciativas a transgressão às ordens reais, tanto
estado das missões espanholas da Província quanto ao que se refere à navegação no rio Ma-
de Moxos. Acompanhava-o João dos Santos deira quanto ao comércio proibido com a colô-
Varneque, que havia retornado com Francisco nia espanhola. Nos meses próximos à expedi-
Leme do Prado. ção de Souza Azevedo, há o registro de outra

52 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


expedição feita por Miguel da Silva e Gaspar ...a corôa de Portugal tem ocupado as
Barboza de Lima. Os dois saíram do Maranhão duas margens do rio dos Amazonas, ou
Marañon, subindo até a boca do rio Java-
e dirigiram-se ao Mato Grosso pelo rio Madei-
rí, ...sucedendo o mesmo pelo interior do
ra, com suas canoas carregadas de mercadorias, Brasil com a internação que fez esta corôa
que venderam em Vila Bela. até o Cuiabá e Mato Grosso. (Tratado de
Em julho do mesmo ano, por ordem do Madri, 1750)
rei de Portugal, partiu de Belém uma expedi- (N. da R.: Características originais do tex-
to preservadas pelo autor.)
ção chefiada pelo sargento-mor Luiz Fagundes
Machado, tendo como astrônomo o mestre de
campo José Gonçalves da Fonseca, que tinha A nova fronteira seguiu pelo rio Gua-
por objetivos observar os núcleos de coloniza- poré até o ponto médio do rio Madeira, de
ção espanhóis na região guaporeana e fazer o onde, em linha reta, seguiria para a nascen-
mapeamento mais detalhado dos rios da região. te do rio Javari.
Destarte, na década em cujo último ano se Em 1752 chega ao Guaporé o pri-
assina o Tratado de Madri (1750), consolidando meiro capitão-general do Mato Grosso, D.
juridicamente os resultados da ação bandeirante Antônio Rolim de Moura que instala sua
sobre o oeste brasileiro, intensifica-se a penetra- primeira capital, Vila Bela da Santíssima
ção lusa no território fronteiriço do Madeira- Trindade. Naquele mesmo ano, por Provi-
-Guaporé. Estimulado pela cobiça do ouro e do são Régia, os rios Guaporé, Mamoré, Ma-
comércio, negociando clandestinamente com os deira e Amazonas tornam-se via obrigató-
espanhóis e buscando a melhor via de abasteci- ria de ligação entre Belém e Vila Bela. Esse
mento com a região mineradora, o trânsito de percurso será conhecido como a Monção
súditos do rei de Portugal, clérigos, militares, co- do Norte e servirá ao comércio de todo o
merciantes e mineradores ocupou aquela fron- norte do Mato Grosso, consolidando, com
teira de tal forma que reconheceram as potên- a ligação desses importantes rios, a fron-
cias ibéricas no texto do tratado que: teira oeste.

Referências

BERREDO, Bernardo Pereira de (1748). Annaes Históricos do Estado do Maranhão. 3. ed., Flo-
rença: Typographia Barbêra, 1905. Vol I. Com um estudo sobre a vida epocha e escriptos do autor.

CALÓGERAS, Pandiá. A política exterior do Império. Brasília: Senado Federal, 1998. Ed. fac-simi-
lar, vol. 1. As origens. Coleção biblioteca básica brasileira.

CAMPOS, Antonio Pires de. Breve noticia que dá o capitão Antonio Pires de Campos do gentio
barbaro que ha na derrota da viagem das minas do Cuyabá e seu recôncavo. Revista Trimensal do
Instituto Historico Geographico e Ethnographico do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia de D. Luiz
dos Santos, 1862. Tomo XXV, 3º. Trimestre, pp. 437-449.

CARDOSO, Alírio. A conquista do Maranhão e as disputas atlânticas na geopolítica da União Ibérica

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 53


(1596-1626). Rev. Bras. Hist. [online]. 2011, vol. 31, n.61, pp. 317-338. ISSN 1806-9347. <//dx.doi.
org/10.1590/S0102-01882011000100016>.

CASAL, Manuel Ayres de. Corografia brazilica, ou, Relação historico-geografica do reino do Brazil,
composta e dedicada a Sua Magestade fidelissima por hum presbitero secular do gram priorado do
Crato. Rio de Janeiro: Impressão Regia, 1817.

COELHO, Felippe José Nogueira. Memorias chronologicas da capitania de Mato-Grosso, princi-


palmente da provedoria da fazenda real e intendência de outro. Revista Trimensal de História e
Geographia ou Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro. Rio de Janeiro: Typographia
Universal de Laemmert, 1850. Segunda Serie. No. 18, 2º. Trimestr, pp. 137-199.

CORTESÃO, Jaime Zuzarte. O Tratado de Madrid. Brasília: Senado Federal, 2001. Tomos I e II.

CORTESÃO, Jaime. Raposo Tavares e a formação territorial do Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo: FUNDAP, 2012.

FONSECA, José Gonçalves da. Notícia da situação de Mato-Grosso e Cuyabá: estado de umas e ou-
tras minas e novos descobrimentos de ouro e diamantes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Rio de Janeiro, 1866. Vol. 29, pp. 352-390,

FONSECA, José Gonçalves da. Primeira exploração dos rios Madeira e Guaporé feita por José
Gonçalves da Fonseca em 1749. In: MORAES, José de; ALMEIDA, Candido Mendes de. Memorias
para a historia do extincto estado do Maranhão cujo território comprehende hoje as províncias
do Maranhão, Piauhy, Grão-Pará e Amazonas. Rio de Janeiro: Brito & Braga; J.P. Hildebrant, 1874.
Tomo Segundo.

LAPA, José Roberto do Amaral. A economia colonial. São Paulo: Perspectiva, 1973.

LEITE, Serafim (S. J.). História da Companhia de Jesus no Brasil. Belo Horizonte. Editora Itatiaia,
2000. Tomo III: século XVI, o estabelecimento. Coleção Reconquista do Brasil, volume 203.

LEME, Pedro Taques de Almeida Pais. História da capitania de São Vicente. Brasília: Senado Fede-
ral, Conselho Editorial, 2004. Contendo o escorço biográfico do autor por Afonso de E. Taunay.

LIMA, Abnael Machado de. Conquista do Vale do Guaporé. Jornal Eletrônico Gente de Opinião.
Disponível em: <www.gentedeopiniao.com/lerConteudo.php?news=8856>. Acesso em 10/01/2015.

MÉTRAUX, Alfred. The native tribes of eastern Bolivia and western Matto Grosso. Smithsonian Institution,
Bureau of American Ethnology, Bulletin 134. Washington: United States Government Printing Office, 1942.

MONTEIRO, John Manuel. Os negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São
Paulo: Cia. das Letras, 1994.

MORAES, José de (Pe.). História da Companhia de Jesus na extincta província do Maranhão e Pará.
In: ALMEIDA, Candido Mendes de. Memorias para a historia do extincto estado do Maranhão cujo
território comprehende hoje as províncias do Maranhão, Piauhy, Grão-Pará e Amazonas. Rio de
Janeiro: Brito & Braga; J.P. Hildebrant, 1860. Tomo Primeiro.

54 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


NORONHA, José Monteiro de. Roteiro da viagem da Cidade do Pará até as últimas colônias do
sertão da Província. Belém: Tipografia de Santos & Irmãos, 1862.

Notícias pertencentes a comunicação do Matto Grosso com o Estado do Maranhão (1748), p. 33.
BIBLIOTECA NACIONAL (BRASIL). Anais. Rio de Janeiro, 1987. Vol. 107, 191 pp.

OLIVEIRA, Lucia Lippi. Bandeirantes e pioneiro: as fronteiras no Brasil e nos Estados Unidos. No-
vos Estudos CEBRAP, Nº37, novembro 1993, pp. 214-22.

PINTO, Emanuel Pontes. Território Federal do Guaporé: fator de integração da fronteira ocidental
do Brasil. Rio de Janeiro: VIAMAN, 2003.

PINTO, Orlando da Rocha. Cronologia da construção do Brasil: 1500-1889. Lisboa: Livros Hori-
zonte, 1987.

PONTES, Antônio Pires da Silva. Diário de Viagem de Antônio Pires da Silva Pontes. In MENDON-
ÇA, Marcos Carneiro de. Rios Guaporé e Paraguai primeiras fronteiras. Rio de Janeiro: Xerox do
Brasil, 1985.

PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. 2. ed. São Paulo: IBRASA; Brasí-
lia: INL, 1981.

REIS, Arthur Cézar Ferreira. A política de Portugal no Vale Amazônico. Belém: Novidade, 1940.

SÁ, Joseph Barbosa de. Relação das povoaçoens do Cuyabá e Mato Grosso de seos princípios thé os pre-
zentes tempos. BIBLIOTHECA NACIONAL (Brasil). Annais. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1904.

SAIND-ADOLP, J. C. R. Milliet. Diccionario geográfico historico e descriptivo do Imperio do Bra-


sil. Pariz: Casa de J. P. Aillaud, 1845. Tomo segundo.

SILVA, José Justino de Andrade e. Collecção chronologica da legislação portuguesa, 1620-1627.


Lisboa: J. J. A. Silva, 1855.

SOARES, Álvaro Teixeira. História da formação das fronteiras do Brasil. Rio de Janeiro: Conquista, 1975.

SOUTHEY, Roberto. História do Brasil. 1ª ed. Rio de Janeiro: Garnier, 1862. Tomo 5, 6 vols.

TAUNAY, Afonso D’Escragnolle. História das Bandeiras Paulistas. Salvador: Centro de Documenta-
ção do Pensamento Brasileiro (CDPB), 2012.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

1
Há contradição quanto ao ano do descobrimento da primeira mina no Mato Grosso. Barbosa de Sá
informa que foi no ano de 1734, mas Nogueira Coelho declara: Por estes dous documentos se mostra
que o descobrimento de Mato-Grosso tem sua incerteza em quanto ao captiveiro do gentio, e que em
quanto às suas minas ellas não tiveram descobrimento antes do anno de 1737. (COELHO, 1850, p. 151).

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 55


Um sucessor para o Leopard 1A5BR
no Exército Brasileiro
Um estudo prospectivo

Eduardo Atem de Carvalho*


Rogério Atem de Carvalho**

Introdução paradas a partir de aviões, mísseis anticar-


ro e helicópteros. Segundo, o CC não pode

D
e todos os grandes sistemas de ar- ser usado em certos ambientes operacionais
mas terrestres, nenhum é mais de- (geralmente declarado o mais importante
cisivo para a vitória que o carro de para o combate naquela era); aqui se têm as
combate (CC). Um século se passou desde florestas, selvas e áreas urbanas. Terceiro,
sua introdução nos campos de batalha de o CC é inútil em alguma forma de comba-
Flandres e, desde então, embora sua morte te (em particular aquela assumida ser a do
tenha sido prevista por diversas vezes (MA- futuro), podendo-se incluir na lista a exis-
CKSEY, 2008), a cada novo conflito, a cada tência de forças “invulneráveis” aos CC, tais
nova modalidade de guerra, ele ressurge de- como contra infantaria leve com caracterís-
cisivo. Seu emprego correto ainda garantirá ticas de alta mobilidade e movendo-se entre
por muitos anos a supremacia nos teatros civis (terroristas e insurgentes). Ainda assim,
terrestres, seja subjugando outros CC, seja o carro de combate tem atravessado todas
rompendo linhas inimigas ou mesmo des- as eras do combate, desde a sua invenção
truindo fortificações e túneis de um inimigo durante a Primeira Guerra Mundial, e está
furtivo. presente em todos os exércitos modernos do
Segundo Ancker (2012), os argumen- mundo. O autor prossegue apresentando a
tos contra os carros de combate tomam três questão: por quê? E ele afirma que a exis-
formas. A primeira, o CC é obsoleto porque tência do CC não está condicionada a ser um
alguma nova arma se revelou efetiva contra sistema de armas autossuficiente: grande,
ele. Ao longo do tempo, podem-se citar as com lagartas, pesadamente blindado, dis-
mais notórias: armas nucleares, armas dis- pondo de uma torre móvel equipada com

* Ten R/2 Cav (CPOR-RJ/83), graduado em Engenharia Mecânica (UFF), mestre em Engenharia Mecâ-
nica (PUC-RJ), doutor em Engenharia Mecânica (Texas A&M University), professor da Universidade
Estadual do Norte Fluminense.
** Bacharel em Informática (UFRJ), mestre e doutor em Engenharia de Produção (UENF), professor ti-
tular do Instituto Federal Fluminense e diretor do Polo de Inovação Campos dos Goytacazes, instrutor
(Temp.) da Escola Superior de Guerra nos cursos CAEPE, CSIE e CTEAD. Foi aluno da Turma 1987-89
da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

56 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


armas e empregado em grandes quantida- tro. E deste fato irão surgir soluções táticas
des. O que sobrevive é o conceito de armas e tecnologias que rapidamente irão neutrali-
combinadas, usando poder de fogo abrigado zar ou tornar relativa a eficiência de um sis-
e móvel como base. tema de armas recém-surgido. O trabalho de
E continua afirmando que o estudo da Ancker (op. cit.) apresenta diversos contrae-
guerra ao longo da História revela a neces- xemplos para as três formas de críticas aos
sidade de três capacidades essenciais para CC. Existem mais referências disponíveis, e
o combate terrestre: a habilidade de mover o último tabu a cair foi o emprego de forma-
pelo campo de batalha para ganhar posição ções blindadas em áreas urbanas (Kendall,
de vantagem (mobilidade), a habilidade de 2006; Carvalho e Carvalho, 2016). Listam-se
desferir um golpe capaz de destruir ou des- as armas cuja entrada em serviço levou ao
moralizar o inimigo (choque ou potência de inevitável anúncio do fim da era dos CC e o
fogo) e, por fim, a habilidade de resistir aos que de fato aconteceu.
golpes contrários desferidos pelo inimigo Entrada em serviço de armas anti-
(proteção). Na verdade, existe o ressurgi- carro disparadas a partir de aviões. Com a
mento do interesse dos exércitos pelos CC, entrada em serviço de aviões especializados
com o aumento de suas possibilidades de na destruição de CC, como os Ju-87 Stuka,
emprego, refletido pelo anúncio recente do Il-2 Sturmovik, Hawker Typhoon etc., ao
desenvolvimento de novos CCs, tais como o final da Segunda Guerra Mundial, muitos
alemão, o russo, israelense, coreano, além da previram que seria impossível para os CC
reversão da aposentadoria da frota de diver- continuarem a existir (MACKSEY, 1971). A
sos países da OTAN. O que os muitos críticos previsão falhou ao não levar em conta a ne-
não observam é que o que permanece não é cessidade da total superioridade aérea para
o CC em si, mas a combinação de Armas que a materialização do ataque ao solo e que,
é construída em torno da mobilidade e do mesmo durante a Primeira Guerra do Gol-
poder de fogo blindado, seja construído em fo, todo o poderio aéreo aliado falhou em
torno de um CC convencional ou de outra destruir as formações blindadas do Iraque,
plataforma. o que só foi atingido quando os CC aliados
os confrontaram (CLANCY, 1994). O feti-
Os carros de combate e a evolução da che do poder aéreo como a arma absoluta
guerra a reinar nos campos de batalha levaria Isra-
el a sofrer sua única derrota na história, na
A história militar é pródiga em des- Segunda Guerra do Líbano, diante do Hez-
mentir os argumentos contra o emprego dos bollah (FARQUHAR, 2012).
CC quando do surgimento de alguma arma Quando as imagens e relatos da Guer-
“definitiva” que vai neutralizá-los, a ponto ra do Yom Kippur começaram a atingir o
de torná-los inviáveis. A razão é óbvia: um mundo, inundando TVs e jornais com fotos
adversário sempre irá tentar achar um meio de carcaças de CC destruídos por mísseis an-
de tornar ineficazes as possibilidades do ou- ticarro, surgiu uma perturbadora possibili-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 57


dade: agora bastaria uma dupla de infantes da OTAN e os CC do Pacto de Varsóvia, e a
a pé para destruir um CC, disparando um substituição das frotas terrestres pelas aéreas
míssil a milhares de metros de distância. Ao nunca ocorreu. Ao contrário, os dois siste-
fim das hostilidades, porém, outra realidade mas se tornaram complementares. Ancker
emergiu: no desespero da contraofensiva, (op. cit.) apresenta alguns terrenos que já fo-
Ariel Sharon vislumbrou uma brecha entre ram considerados como impraticáveis para
os 2º e 3º exércitos egípcios e, sem esperar o emprego de CC, mas que acabaram sendo
pela chegada de sua infantaria, atacou sem a palco de diversas batalhas protagonizadas
proteção da mesma. Virou a maré da batalha, pelos mesmos.
mas pagou caríssimo por isso (EVEN, 2017). Florestas eram julgadas impenetrá-
Depois do conflito, os CC foram rapidamente veis por carros de combate. A premissa era
adaptados com novas blindagens, e reforçou- tão arraigada que os Aliados foram surpre-
-se a necessidade do emprego conjunto com endidos duas vezes no mesmo lugar, nas Ar-
a infantaria e a engenharia de combate. Os dennes, pelas formações blindadas alemãs
mísseis podem fornecer potência de fogo, na Segunda Guerra Mundial. Em 1940, a
mas não oferecem proteção contra a ação Linha Maginot foi tornada inútil por um en-
da infantaria inimiga, afora seu alto custo de volvimento através da floresta. E em 1944,
aquisição. Foram, portanto, incorporados aos os americanos foram surpreendidos por um
arsenais modernos e relativamente neutrali- contra-ataque alemão vindo, de novo, da
zados. Os conflitos recentes no Oriente Mé- mesma direção geral (HORN, 2007).
dio voltaram a provar a supremacia das for- Selvas com solo plano também foram
ças-tarefas blindadas nos campos de batalha. consideradas impenetráveis. A experiência
O surgimento do helicóptero de ata- japonesa na campanha de conquista do su-
que causou outro forte tremor nos campos doeste asiático foi totalmente ignorada por
de batalha e chegou a ser apresentado pelos aqueles que assim decretavam. Os Marines
seus defensores como a arma tática defini- usaram centenas de M4 Shermans nas re-
tiva do combate moderno. Tipicamente tão tomadas das ilhas do Pacífico, mas isso foi
ou mais caros que um avião caça de mesma totalmente apagado. E mesmo a imagem de
geração e armados com mísseis que custam M-113 e M-41 manobrando nos rios e pla-
cerca de US$ 100.000 cada, como Hellfire nalto central do Vietnã (ANCKER, op. cit.).
e o Brimstone, requerem horas de manu- Cidades. Este último tabu, como men-
tenção equivalentes a um sistema sofisticado cionado acima, caiu recentemente, com a
de armas. São vulneráveis a outros helicóp- atuação dos CC em patrulhas no Iraque,
teros, mísseis antiaéreos portáteis, aviões de sendo estes os únicos veículos realmente ca-
ataque turboélice, como o A-29 Super Tuca- pazes de entrar e sair das zonas vermelhas.
no, e canhões de emprego geral em torres As referências anteriormente citadas narram
automáticas, tais quais o ZSU 23-4. O fim da com detalhes.
União Soviética evitou o confronto apocalíp- Um dos cenários considerados classi-
tico esperado entre helicópteros de ataque camente mais adversos para o emprego dos

58 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


CCs é seu uso em áreas urbanas (ANKER, e disponibilidade das guarnições blindadas
op. cit.), consequentemente os CC seriam in- e permitiu o emprego de simuladores, tá-
capazes de lidar com guerrilheiros, terroris- ticas e técnicas de padrão OTAN. E, a par-
tas ou qualquer forma de tropa leve atuando tir do material importado original, hoje é
em áreas densamente urbanizadas. As ope- possível simular exercícios conjuntos com
rações realizadas pelas Forças Armadas de outras Armas (DEFESANET, 2016). Porém,
Israel, com emprego maciço de formações este CC já atingiu seu limite como material
blindadas acabaram provando que é possível de primeira linha, mesmo no cenário sul
e recomendável o emprego de forças blinda- americano (JERCHEL, 1998), e mais ainda
das nesta situação, caso estas estejam prepa- se o Brasil pretende participar em forças de
radas para tal (ISRAEL DEFENSE, 2016). O paz da ONU que tenham impacto maior,
Exército russo passou por experiência trau- em especial no Teatro Africano, onde sua
mática na Chechênia (GEIBEL, 2001) e está relação mais próxima com as ex-colônias
retornando ao emprego de blindados em portuguesas indica, no futuro, ações de im-
preparação para emprego em conflitos assi- posição de paz e não somente de manuten-
métricos, com ênfase nos novos blindados de ção de paz. Não é possível pensar no Exér-
transporte de pessoal (Armata T-15). cito Brasileiro (EB) nas próximas décadas
ainda contando com material adequado a
A importância dos carros de combate confrontos com inimigos armados com ma-
para o Exército Brasileiro terial fabricado até os anos 70 a 90 (contan-
do as modernizações) do século passado.
O Brasil tem um imenso território, e Não será essa a realidade a ser enfrentada
a Região Sul e Roraima apresentam regi- nos teatros de operação previstos.
ões indicadas para viaturas sobre lagartas. Dispor de uma família de blindados
Adicionalmente, o país apresenta um longo moderna e ao mesmo tempo econômica e
histórico de participação em forças de paz e tecnologicamente viável é um grande de-
mesmo envio de tropas em caso de guerra, safio para o Comando da Força Terrestre.
para campos de batalhas distantes, tornan- Mas é também inadiável. Nesse sentido,
do a necessidade de uma frota de CCs aptos este trabalho não pretende esgotar o assun-
a defender o território nacional, bem como to, apenas compartilhar algumas reflexões
ser enviados a diversas partes do mundo, com o público especializado, estimulando
uma necessidade constante. Desde os anos o debate. Para uma visão aprofundada da
80 que o Exército busca uma solução que o complexidade do processo de aquisição
permita ter um “carro de batalha” de pri- de material bélico estrangeiro pelo Brasil,
meira linha, mas infelizmente não logrou recomenda-se a leitura do trabalho semi-
êxito apesar dos esforços (BASTOS, 2011; nal do Ten Cel Emerson Pângaro (Pângaro,
DEFESANET, 2012). Hoje, o Brasil conta 2015), que aborda as questões legais nacio-
como seu principal veículo o CC Leopard nais e internacionais, bem como econômi-
1A5BR, que elevou o nível de adestramento cas, do processo.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 59


Produção de um carro de combate: O domínio das tecnologias
questões industriais Este item refere-se ao corpo de conhe-
cimentos necessários para produzir em solo
Ter o máximo possível de indepen- nacional os componentes que se desejam.
dência quanto ao fornecimento da nova so- Este domínio, por sua vez, pode-se dar de
lução para carro de combate do EB é dese- duas formas, desenvolvendo a tecnologia ou
jável, por motivos estratégicos óbvios: não adquirindo a tecnologia:
faltam na História exemplos de países que a) Desenvolver a tecnologia: traz maior
tiveram o fornecimento de armas, munições independência e benefícios em termos
e componentes cortado nos momentos mais de aplicações duais (em outras áreas),
necessários, como o clássico caso das aero- além de formação de pessoal. Como
naves Mirage 5 para Israel (Israel Defense, desvantagem, consome maior tempo e
2015) e, mais próximo, o caso dos mísseis impõe maiores riscos. Pode não conse-
Exocet para a Argentina na Guerra das Mal- guir atingir em tempo hábil o nível de
vinas (Freedman, 2005). A decisão de o que maturidade desejado.
produzir em um CC, porém, não é trivial, b) Adquirir a tecnologia: é mais rápido e
como não é quando se trata de qualquer com menos riscos. Porém, envolve de-
produto complexo. No Brasil já temos his- pendência, inclusive de comercialização
tória de programas bem-sucedidos neste para terceiros e uso em outros projetos;
sentido, como por exemplo, o Super Tuca- não forma recursos humanos com tanta
no, projetado especificamente para atender profundidade de conhecimentos quan-
à Doutrina da FAB, e que ainda se mostrou to ao desenvolvimento; e existem ques-
um sucesso industrial e comercial. O Super tionamentos sobre se é realmente pos-
Tucano possui uma boa combinação de sub- sível “absorver” tecnologia. O elemento
conjuntos de projeto e fabricação inteira- de custos também pode ser questiona-
mente nacionais (como a estrutura), passan- do, visto que a tecnologia adquirida en-
do por outros nacionalizados e adaptados no volve pagamento de royalties e limites à
país (como a aviônica), até aqueles importa- comercialização, o que pode reduzir a
dos (como o turbopropulsor). Outro projeto escala e influenciar nos custos.
que caminha para uma solução similar é o da
família de blindados Guarani. Em resumo, desenvolver significa assu-
A forma de se avaliar o que produzir mir menor risco comercial e estratégico, po-
de um carro de combate e, essencialmente, rém com maior risco tecnológico, enquanto
de qualquer produto final complexo, passa que adquirir, significa o oposto: ter menos ris-
por dois aspectos principais, que são o domí- co tecnológico e mais comercial e estratégico.
nio das tecnologias envolvidas e a necessária
escala industrial para manter os custos de Escala industrial
produção controláveis. Estes aspectos serão A escala industrial refere-se basica-
analisados a seguir. mente à quantidade economicamente viável

60 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


para se produzir um determinado produ- Conforme citado anteriormente, fica
to. Por vezes, a análise da escala industrial ainda mais clara a opção de que, por vezes,
aponta soluções que se opõem às questões vale mais a pena dominar o projeto do que
tecnológicas vistas anteriormente, portanto, propriamente a fabricação de determina-
critérios de avaliação da escala devem ser dos itens.
cuidadosamente levados em conta, como
visto a seguir. Modelo decisório
É possível produzir um modelo deci-
Critérios de avaliação sório “multicritério”, que, em face das alter-
Deve-se notar que, atualmente, desen- nativas existentes, conduza a um plano de
volver a tecnologia não significa necessaria- produção e/ou nacionalização consistente.
mente produzi-la. Como exemplo, tem-se Deve-se compreender, porém, que este pla-
o casco da viatura blindada de combate de no será dinâmico, devido à janela de tempo
infantaria (VBCI) Namer, israelense, proje- de produção. Naturalmente, quanto mais
tado em Israel, mas fabricado nos EUA, por tempo previsto para produzir a quantidade
questões de disponibilidade (custo) de ins- necessária para equipar o EB, maior será o
talações industriais (ZIDON, 2012). Assim, risco de o plano ser impactado por questões
deve-se considerar que, para cada subcon- orçamentárias, cambiais e macroeconômicas.
junto, seu desempenho relativo aos objetivos Como está fora do escopo deste artigo apre-
do processo decisório (utilidade) deve ser sentar tal modelo em detalhes, apresenta-se
medido quanto aos aspectos tecnológicos e aqui apenas sua base:
de fabricação. Por sua vez, cada um desses • Objetos – subconjuntos do CC
aspectos é avaliado por duas variáveis: • Aspectos – tecnologias e fabricação
a) Custo: refere-se ao esforço financei- • Critérios – custo e criticalidade
ro para desenvolver e/ou produzir
determinado item; quanto maior, Como exemplo, tem-se o subconjunto
pior quando comparado à alternati- sistema de pontaria, formado por hardware,
va concorrente. Por exemplo, quan- software, sistemas ópticos e sistemas termo-
to maior for o custo de produzir o -ópticos. Para cada item do subconjunto, de-
tubo do canhão, melhor será adqui- vem ser avaliados os aspectos tecnológicos e
ri-lo pronto. de fabricação, sob a luz de custos e criticali-
b) Criticalidade: refere-se a quão estra- dade. Tome-se o hardware do sistema de pon-
tégico para a organização, no caso o taria (simulação proposta, de acordo com a
EB, é dominar a tecnologia e/ou fa- visão dos autores):
bricação daquele item; este critério, • Quanto a desenvolver ou adqui-
por vezes, se opõe ao custo. Em ou- rir tecnologia: dada a base tecno-
tras palavras, o alto custo pode indi- lógica nacional na área, é possível
car a não fabricação, mas a sua cri- desenvolver a tecnologia (projetar
ticalidade pode indicar o contrário. o hardware) em tempo hábil e com

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 61


a qualidade desejada — ao menos aspecto, com o crescente índice de tecnologia
do processador central. Sua criti- embarcada nos veículos militares, estes estão
calidade é alta, e seu custo é de de- caminhando para uma situação similar à dos
senvolvimento é médio. modernos caças, nos quais o custo total de
• Quanto a fabricar a tecnologia: propriedade é de 3 a 5 vezes maior que o de
novas tecnologias de produção aquisição, ou seja, para produtos militares
de circuitos impressos permitem de alta tecnologia, o custo de aquisição, às
fabricá-los em pequenos lotes a vezes, responde por cerca de 15-20% apenas
custos baixos (Anderson, 2004), do custo total, o restante sendo associado a
porém, deve ser considerado o componentes, serviços e munições (Herrmann
processador. Neste caso, seria re- et al., 2004). Isso aponta para uma solução
comendável adquirir algum “de há muito compreendida por Israel, qual seja:
prateleira” (component off the shelf focar na produção dos itens estratégicos e de
– COTS), sem restrições de aqui- ciclo de vida mais curto, de maneira a unir
sição e baixo custo. Fabricar é de independência e escala industrial. Explica-
alta criticalidade e baixo custo re- se: durante a vida operacional de um caça,
lativo. Parte dos componentes do quantas vezes se troca sua estrutura central,
item seria importada. por exemplo? Tipicamente, nenhuma. Já
componentes eletrônicos e do turbopropulsor
Assim, para este item específico, apon- são substituídos com frequência e, portanto,
ta-se para a decisão de dominar por comple- além de menores e mais baratos, terão
to o ciclo de produção, ao menos de um dos fornecimento necessário durante toda a vida
subitens, o processador, visto que seu projeto útil do equipamento. Se o país que vendeu o
e produção dependem de uma escala muito caça não quiser vender mais a aeronave, não há
maior, para além, inclusive, da indústria bé- problema. O problema existe se não for possível
lica apenas. adquirir mais peças do motor e munições. É
claro que produzir partes da estrutura ainda
Ranking básico sugerido é vantajoso, mas, quando se tem escala, seja
Deve ser considerado que atualmente, no próprio produto, seja quando a planta
em face do aumento da blindagem e poder de produtora pode fabricar, a custos competitivos,
fogo das VBCI, já é perfeitamente considerável para outros produtos.
que a família de blindados1 baseada no CC não Baseado em uma avaliação prelimi-
se limite a veículos de socorro, de engenharia e nar e sem ter posse dos custos detalhados
lança-pontes, como usualmente, mas também de produção e projeto, os autores suge-
ao blindado transporte de tropas, o que pode rem o seguinte ranking de subconjuntos a
aumentar a escala de produção e reduzir se nacionalizarem, com as devidas justifi-
custos tanto de aquisição quanto de operação cativas:
e manutenção, custos estes que compõem o 1) Munições. Prioridade máxima e abso-
chamado total cost of ownership (TCO)2. Nesse lutamente indispensável. Nenhum exército da

62 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


importância do EB pode abrir mão de ter potencialmente, amortecedores, sejam pro-
as diversas munições para seu CC fabricadas jetados exclusivamente para o modelo a fa-
em solo nacional, com a tecnologia comple- bricar. São de maior rotatividade relativa —
tamente dominada. Depois do homem e das elementos de esteiras e amortecedores são
armas em si, as munições são o principal ele- de fabricação simples e críticos.
mento da guerra. 6) Conjunto motriz. Elementos com
2) Sistema de comunicações. Na era alta rotatividade e vitais para a operacio-
da guerra centrada em redes,3 é vital ter o do- nalidade do CC. Sua produção pode ser
mínio sobre o sistema de comunicações, pri- realizada por subsidiárias dos grandes fa-
meiramente para evitar que o adversário o bricantes em plantas já existentes no país.
invada e segundo para potencializar a ca- Deve-se atentar para alguns detalhes, como,
pacidade de combate do elemento blinda- por exemplo, é economicamente vantajoso
do através de uma eficiente coordenação de fabricar o bloco do motor? ou apenas seus
seus meios. componentes que são trocados com mais fre-
3) Hardware e software do sistema de quência?
pontaria. É a alma combatente do CC. É vital 7) Armamento principal. Apesar de
ter segurança de que a eletrônica e o software ser de suma importância, apresenta vida útil
são auditáveis, e portanto não existem bugs relativamente grande, e sua produção, em
e cavalos de troia ou similares embutidos no especial a do cano em si, é complexa e cara.
sistema, em especial naqueles adquiridos de Devido à sua importância estratégica, é in-
fornecedores externos. Além disso, a eficien- teressante poder fabricar este elemento do
te integração do hardware, software e sistemas canhão ou adquiri-lo e manter em estoque
ópticos e térmicos aumenta a fluidez e preci- para trocas, caso não seja possível fabricar.
são da informação relativa aos alvos, aumen- Notar que, no modelo decisório proposto,
tando a consciência situacional da tripulação este é um subconjunto de alto valor estra-
e sendo, portanto, um diferencial no campo tégico, porém de tecnologia que não vale a
de batalha. pena desenvolver e produzir devido aos cus-
4) Elementos ópticos e termo-ópticos tos envolvidos.
do sistema de pontaria. Compõem com o 8) Blindagem extramóvel. É um sub-
hardware e software, sendo um pouco menos conjunto de classificação complexa, uma vez
críticos porque, embora façam parte do mes- que, em tempos de paz, este material fica ar-
mo sistema, não permitem invasão por parte mazenado nas unidades, poupando combus-
do adversário. tível durante exercícios e outras atividades,
5) Conjunto rodante. O poder dos mas quando da participação em forças de
blindados está na sua proteção e no seu mo- paz, deve-se prever seu consumo e substi-
vimento, junto com o conjunto motriz, este tuição em ritmo mais acelerado, em especial
elemento é vital. Troca de posição no ranking quando em operações envolvendo conflitos
caso o CC seja de projeto integralmente na- assimétricos. Sua tecnologia tende a ser mais
cional, ou seja, rodetes (ou rodas), esteiras e avançada que a do casco, no caso de com-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 63


pósitos cerâmicos, ou bem simples, como a tar um projeto existente, ou simplesmente
“gaiola” anti-RPG. fabricar sob licença?
9) Torre. Guarda os elementos de com-
bate e, em termos industriais, é o elemento O Futuro carro de combate nacional:
mecânico de maior complexidade, agregan- características básicas
do tecnologia no que tange à blindagem.
Neste aspecto, sofre também com a questão Que características básicas deveria ter
de escala, embora dominar a fabricação de um carro de combate nacional? A seguir, são
blindagens compostas seja interessante do listadas aquelas cuja natureza não se altera
ponto de vista geral para a indústria bélica. por longos períodos.
Adicionalmente, em modernizações, geral- a) Conjunto motor diesel, com cerca de
mente a torre é afetada, portanto é interes- 1.500HP. Ou relação peso/potência
sante ter pelo menos parte do maquinário mínima de 23HP/t. Este valor re-
industrial para manipular este subconjunto. presenta a média atual dos carros de
10) Casco. Mais baixa prioridade existentes no mercado, seus pesos de
de todas, é o subconjunto que agrega me- catálogo, divididos pela potência dos
nos tecnologia e o menos afetado em toda seus motores. Existe uma convergência
a vida útil do blindado. Sua produção só é bastante consistente. Como exemplo,
economicamente viável se for possível usar o podem-se citar o americano M1A1, com
maquinário para outros blindados, ou seja, suas 65 toneladas de peso e 1.500HP de
para poder cobrir o próprio investimento no potência na sua turbina impulsora; o
maquinário. Merkava 4, isralelense, de mesmo peso
Como se pode ver, a decisão de o que e potência, porém empregando motor a
desenvolver e o que produzir não é simples diesel; por fim, o alemão Leopard 2A6,
e pode variar no tempo. Sendo assim, o pla- ligeiramente mais leve (62,3t). A razão
no de produção do blindado, como de qual- peso/potência deste veículo é de 23HP/t
quer outro produto complexo e que não seja (FOSS, 2006). Pode-se considerar, po-
fabricado massivamente, deve prever limia- rém, que, no futuro, haverá adição de
res, que, quando ultrapassados, devem ge- blindagem composta extra ou moder-
rar mudanças nos planos de produção. Por nizações, enquanto kits inteligentes, que
exemplo, aumentos no dólar podem passar destruam armas anticarro ainda não
a justificar a fabricação de componentes que estiverem disponíveis — e tudo isto irá
antes eram importados e vice-versa. Cortes aumentar o peso da viatura.
orçamentários podem aumentar as janelas b) Suas lagartas não devem exercer pres-
de entrega e dificultar o plano de nacionali- são média sobre o solo maior que 1kgf/
zação também — como se tem visto no Pro- cm2. Os blindados atuais brasileiros
grama HX-BR, por exemplo. Outro fator sobre lagartas têm sido capazes de
preponderante é a primeira decisão a se to- operar em todo o território nacional
mar: produzir algo totalmente novo, adap- com este parâmetro. Caso seja possível

64 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


reduzir, melhor. Está ligado ao item g) Sua torre oferecerá metralhadora .50
acima. Este valor pode ser obtido de guiada de dentro da torre, por meio
maneira indireta, observando que im- de comando tipo joystick.
plementos agrícolas funcionam plena- h) Sua torre oferecerá metralhadora
mente nas diversas regiões do Brasil 7,62x51mm para o municiador.
e, então, compilando as informações i) Seu casco permitirá instalação futura
disponíveis nos diversos catálogos de sensores e sistema ativo antimíssil e
de fabricantes e atlas de equipamen- projétil anticarro.
tos agrários disponíveis (JAWORSKI, j) A alimentação do canhão será manu-
1997), bem como trabalhos técnicos al. A adição do sistema automatizado
(HETHERINGTON 1987). eleva o custo e o peso do veículo, tor-
c) Sua blindagem no arco frontal e torre na a manutenção mais complexa e o
permanente deve ser capaz de resistir espaço na torre ainda mais confinado.
a um disparo de canhão de 125mm A tendência se amplia com as dimen-
russo ou 120mm ocidental. Este tipo sões ainda maiores do novo canhão de
de especificacação segue as do israe- 130mm. A alimentação “humana” é
lense Merkava (ZIDON, 2012) e ale- mais rápida e “fácil” de reparar, uma
mão Leopard 2 (JERCHEL, 1998). vez que um combatente pesa a média
No restante, deve ser capaz de receber de um ser humano e, em caso de feri-
blindagem extra até equalização com mentos, pode ser substituído. Os siste-
o arco frontal. O mínimo é a resistên- mas empregados, por serem engenhos
cia ao ataque de projétil tipo RPG. mecânicos, podem falhar por falta de
d) Seu sistema de comunicação deve ser manutenção, trepidação, impacto etc.
capaz de oferecer ligação eletrônica Seu custo é multiplicado por toda a
protegida para atualização de dados e vida do veículo. Exércitos como o in-
de voz com o escalão superior devido glês, americano e de Israel não adota-
e o de reserva. ram este sistema até hoje.
e) Seus sensores devem ser capazes de k) Existência de camuflagem térmica,
identificar ameaças nos comprimentos como desenvolvida pela Suécia, poden-
de onda visíveis e infravermelho. do ser móvel (BAe SYSTEMS, 2011). A
f) Sua torre disporá de canhão 120mm existência de sistemas deste tipo permi-
de alma lisa padrão OTAN, com capa- te que o veículo ajuste sua assinatura
cidade para atualização para 130mm térmica através da leitura da tempe-
no futuro, como já apresentado pela ratura externa e da sua emulação por
Rheinmetall, uma vez que se espera painéis cerâmicos que revestem o veí-
que um CC tenha uma vida útil de culo. Estes painéis também podem as-
cerca de 40 anos (JANE’S, 2016) e, sumir cores diferentes, misturando-se
durante estes, venha sofrer diversas com as cores ao redor ou assumindo
melhorias. formas similares a outros objetos.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 65


Candidatos usados 2017). Tem como vantagem o baixo custo
e como desvantagem a obsolescência geral
A busca de um candidato que mais se do veículo básico antes da reforma. O Bra-
aproxime do considerado ideal e em fun- sil possui uma centena dos modelos A3 TTS,
ção das características básicas citadas acima que podem ser convertidos em modelo com
pode, em algum instante, deparar com listas características e recursos bem atuais. Esses
como as que se seguem. Os primeiros can- kits já foram extensivamente testados em
didatos seriam CC usados de geração mais combate nas versões conhecidas em Israel
moderna. Oferecem como grande vantagem como a família “Magash”. Seu peso final, na
seu custo inicial já amortecido, porém ofe- versão Mark II, chega atingir 59 toneladas,
rece vida útil bem menor e alta defasagem movendo-se a até 55km/h, e equipado com
tecnológica. Boa parte de suas peças e sub- motor Continental AVDS-1790 Diesel (EUA)
sistemas pode ser fabricada em território na- ou MTU MT 881 KA-501 (Alemanha), am-
cional. Nesta lista entram: bos com cerca de 1.000HP. Esses veículos
1) Leopard 2A4. É um carro com ex- podem armazenar 500 litros de óleo diesel. É
celente construção mecânica, pode ser atu- uma solução transitória, que talvez apresen-
alizado pela KMW em sua fábrica no Brasil te problemas de mobilidade no Brasil, po-
e oferece uma plataforma considerada con- rém pode ser um veículo temível ao dispor
fiável por todos os seus usuários. Sua des- de um canhão de 120mm e capacidade de
vantagem é que o custo do veículo somado resistir a disparos de canhões de 125 mm e
ao do kit que transforma sua versão para mísseis em todo o arco frontal e de alta so-
A7, incluindo troca de motor, caixa de câm- brevivência em campos de batalha, uma vez
bio, suspensões e atualização de eletrônicos, que, ao contrário do modelo original, não
pode-se revelar não sendo vantajoso diante emprega circuitos hidráulicos de alta pres-
dos interesses políticos que se apresentam são para acionar a sua torre ou armamento,
quando da compra de um veículo novo (por tornando-se, por exemplo, o núcleo de ação
exemplo, as contrapartidas de exportação de choque das forças-tarefas lideradas por
pelo Brasil). O preço unitário pode ser es- RCB (regimento de cavalaria blindado) (IS-
timado por compra realizada pelo Canadá RAEL DEFENSE, 2017).
(DEFENSE UPDATE, 2007). 3) IVECO Ariete Mk2/ C2. Carro de
2) M-60 Sabra Mark-III. É um kit de- combate produzido pela Iveco e Oto-Melara
senvolvido por Israel para o Exército da para o Exército Italiano. Conta com motor
Turquia como solução temporária até que de 1.200HP e blindagem tradicional. Não se
este decida sobre qual será seu novo modelo sabe se será posto à venda com a possível en-
de CC. Permite que antigos blindados M-60 trada da geração seguinte de CC. Além dis-
recebam extensas modificações, com substi- so, requer extensas modificações para atin-
tuição de canhão para unidade de 120mm, gir os patamares especificados.
sistema hidráulico e eletrônicos, além de Destes, apenas o Leopard 2A4 pode
blindagem extra (ARMY TECHNOLOGY, ser uma opção a ser considerada mais se-

66 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


riamente, neste estágio. As outras opções Índia e antigas repúblicas soviéticas (ZALO-
requereriam investimentos desproporcio- GA, 2017). Esta versão moderna do T-72
nais aos benefícios e só se explicariam caso poderia interessar ao Exército Brasileiro,
já houvesse uma frota antiga de tais veículos embora não exista tradição de compra des-
disponíveis no país. te tipo de material terrestre pelo Brasil, e
o espaço confinado nas torres dos modelos
Candidatos novos da antiga União Soviética seja proibitivo do
ponto de vista ergonômico. Em caso de con-
A segunda lista pode ser composta de corrência internacional, será, sem dúvida,
blindados novos, ainda em fabricação. São um dos modelos oferecidos.
estes: 7) US Army M1A2. Normalmente este
4) Leopard 2A7. O modelo novo do CC não entraria nas listas, por ser movido à
Leopard parece incorporar todas as lições turbina, o que eleva em demasia o consumo
recentes aprendidas em conflitos atuais. Di- de combustível e reduz a autonomia real do
vide também a geração com o modelo cha- veículo a pouco mais de 150km em combate,
mado de Leopard “Evolution”, ainda fora de valores pífios para um país das dimensões do
produção, apresentado apenas como protó- Brasil e sem a colossal capacidade logística
tipo em feiras especializadas. Como não americana. Sua versão A2 tem o custo mé-
chega a ser produzido em quantidades de dio, para o US Army, de aquisição (inicial),
dezenas de milhares, como os modelos ame- de cerca de USS 6,21 milhões de dólares
ricanos e russos, tende a ter um custo inicial (USDOD, 1999), é um veículo com caracte-
maior. Porém oferece como troca uma filial rísticas expedicionárias e com 10.000 unida-
da fábrica em território nacional. des ao total, fabricadas. Como desvantagem,
5) IVECO Ariete Mk2/ C2. Está pre- tem, além do já mencionado curto raio de
vista sua volta à produção, pelo consórcio ação, a manutenção cara e todas as exigên-
Iveco e Oto-Melara. Seu novo modelo deve- cias que são impostas quando se compra ma-
rá receber motor de 1.500HP, nova suspen- terial bélico “made in USA”.
são e controle de fogo, além da obrigatória 8) Outros fornecedores. Existem ou-
atualização na blindagem. O Brasil já esta- tros países, como Índia, Paquistão, China,
beleceu fortes laços fabris com o consórcio e Coreia, Japão, Suécia, França etc., que tam-
seria um parceiro natural. Como desvanta- bém desenvolveram CC para suas necessida-
gem, o fato de não ter tido grande aceitação des e possíveis teatros de operação. As difi-
no mercado mundial. Seria um competidor culdades de exportação são imensas, fora do
secundário, diante do Leopard 2 ou de um seleto clube que detém imensos recursos fi-
projeto nacional. nanceiros, máquina de propaganda e desin-
6) Uralvagonzavod T-90. Embora ca- formação, capacidade de superar qualquer
minhe para ser substituído pelo T-14 Arma- bloqueio imposto por órgãos multilaterais
ta, estes veículos da era pós-soviética estão etc. Contar com estes fornecedores é ainda
sendo fabricados e já são usados por Argélia, mais arriscado, porque se vergam facilmente

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 67


diante da pressão de países, ONGs e órgãos este não encontrarão apoio nem retorno do
de mídia nacionais atuando a soldo de inte- Governo Federal. É verticalizado e de longa
resses estrangeiros. maturação. Inclui a fabricação de itens de
Por fim, existem as possíveis soluções alto custo e baixa prioridade no país.
que, de fato, acreditamos, interessam ao 11) Modelo especificação nacional
Exército Brasileiro: soluções nativas ou coli- projeto estrangeiro — fabricação nacional
gadas, que permitirão um forte grau de au- parcial. Hoje é a alternativa mais segura
tonomia em médio e longo prazo nesta área. de se ter um uma família de carros de com-
9) Modelo totalmente nacional. Um bate de primeira linha, com chance de ser
modelo totalmente nacional, apenas tendo fabricado em território nacional, ainda que
como base modelos já existentes, é um so- parcialmente. Para defletir os imensos cus-
nho antigo do Brasil. Houve algumas tenta- tos de uma empreitada como esta, o EB po-
tivas ao longo de nossa história, ao final dos derá optar por estabelecer os parâmetros
anos 1980 e início dos 1990, que infelizmen- de projeto e certas características finais que
te não lograram sucesso. Eram modelos sim- obrigatoriamente deseja ter no veículo bem
ples e de transição, mas cumpriam seu papel como um índice de nacionalização realista e
e apresentavam as vantagens e desvantagens que de fato vise às peças que sejam de alta
já discutidas. É um modelo de altíssimo risco rotatividade. Dessa forma, é possível fabri-
em um país onde as autoridades civis e boa car relativamente pequenas quantidades de
parte dos formadores de opinião não têm blindados, sem comprometer a qualidade
conhecimento básico sobre a área de Defesa nem explodir os custos. Por exemplo, o EB
e tenderão a gerar um veículo naturalmente poderá optar por fabricar o casco do CC e a
limitado, já que não existe mais conhecimen- estrutura básica da torre na Alemanha — já
to humano atualizado e acumulado nesta que não existe reposição prevista ao longo
área da indústria brasileira. Tecnicamente, é da vida para estas duas peças —, importar os
baixa a probabilidade de um projeto destes tubos de canhão, motor e caixa de redução e
gerar um protótipo viável em menos de uma fabricar a eletrônica e partes consumíveis da
década. suspensão, componentes elétricos, conjuntos
10) Modelo de projeto estrangeiro de partes das lagartas, torre remota móvel,
e nacional — fabricação nacional parcial. sensores críticos, assentos, rodas, partes con-
Aqui se enquadra a maior glória e maior sumíveis dos motores, itens de comunicação
amargura da indústria bélica terrestre nacio- e tudo o que for crítico e de alta taxa de subs-
nal: o carro de combate EE Osório. Projeto tituição, como já descrito.
em conjunto da Vickers britânica com a En-
gesa brasileira, era um dos melhores CC de Conclusões
sua geração (Dunstan, 2006). Este modelo
representa altíssimo risco para qualquer em- Para que o Exército Brasileiro tenha
presário brasileiro, uma vez que os custos de sucesso na busca, definição e implemen-
se desenvolver um sistema de armas como tação de um plano para provê-lo de car-

68 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


ros de combate de primeira linha, com a CC Challenger I chegaram à conclusão de
devida independência de fornecedores que seria necessário fabricar um mínimo
externos, a solução que parece ser mais de 500 unidades para se justificar o custo
viável dentro da realidade atual é a fabri- de toda a empreitada, isso levando-se em
cação de subconjuntos que, ao longo da conta que o Reino Unido já dispunha de
vida útil da viatura — que, em tempos de indústria bélica madura, economia saudá-
paz, pode chegar a 30 anos —, necessitam vel e sanidade fiscal quando este número
ser substituídos com maior frequência. A foi definido. Portanto, buscar uma solução
título de comparação, os estudos britâni- economicamente viável no longo prazo pa-
cos que levaram ao desenvolvimento do rece ser a melhor saída para o Brasil.

Referências

ANCKER, C. “Whiter Armour?”. Military Operations, vol 1, issue 2 no. 2, fall 2012, pp. 4-8.

ANDERSON, D. M. Build-to-order & Mass Customization. Cambria: CIM Press, 2004.

ARMY TECHNOLOGY, “Sabra M60A3 Main Battle Tank Upgrade, Israel”, disponível em: <www.
army-technology.com/projects/sabra/>. Acesso em 26/09/2017.

BAE SYSTEMS, “ADAPTIV – A Cloack of Invisibility”, 2011, disponível em: <www.baesystems.


com/en/feature/adativ-cloak-of-invisibility>. Acesso em 26/09/2017

BASTOS, E. C. S. Blindados no Brasil: Um Longo e Árduo Aprendizado. Vol. 1. Bauru, SP: Taller
Comunicação, 2011.

CARVALHO, E. A.; CARVALHO, R. A. Guerras Assimétricas e as Transformações Decorrentes


nos Ramos Operativos dos Exércitos: Como os Conflitos Assimétricos forçam a Adição de novas
Habilidades em Cada Ramo Específico das forças Blindadas. Olinda: Livro Rápido Editora, 2016.

CLANCY, T. Armored Cav: A Guided Tour of an Armored Cavalry Regiment. New York: Berkley,
1994.

DUNSTAN, S., BRYAN, T. Challenger 2 Main Battle Tank 1987-2006. Oxford, UK: Osprey
Publishing, 2006.

DEFENSE UPDATE, “Canada Acquires 120 Leopard 2 Tanks from German, Dutch Surplus”,
Disponível em: <defense-update.com/newscast/0407/news/160407_leo2.htm>. Acesso em
26/09/2017.

EVEN, J., Maoz, S. B. At the Decisive Point in the Sinai: Generalship in the Yom Kippur War.
Foreign Military Studies, Lexington, 2017.

GEIBEL, A., “Some Russian Tankers’ Experiences In the Second Chechen War”, Armor
Magazine, Fort Benning, GA., pp. 25-28, july-august (2001).

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 69


GOTT, K. D. Breaking the Mold: Tanks in the Cities. Fort Leavenworth, KS: Combat Studies
Institute, 2006.

DEFESANET. “Uma história belicosa”, 2012, Disponível em <www.defesanet.com.br/defesa/


noticia/6771/uma-historia-belicosa>. Acesso em 25/09/2017.

DEFESANET. “Simulador de Apoio de Fogo é ativado em Santa Maria”, 2016. Disponível em


<www.defesanet.com.br/terrestre/noticia/22611/EB---Simulador-de-Apoio-de-Fogo-e-ativado-em-
Santa-Maria-(RS)/>. Acesso em 25/09/2017.

FARQUHAR, S. C. Back to Basics: A Study of the Second Lebanon War and Operation CAST
LEAD. [s.l]: Amazon Digital Services LLC, 2012.

FOSS, C. F. Jane’s Tank Recognition Guide. 4th ed., Smithsonian, 2006.

FREEDMAN, L. The Official History of Falkland Campaign, Volume II: War and Diplomacy.
Londres: Taylor & Francis, 2005.

HERRMANN, J. W. et alli. New Directions in Design for Manufacturing. In: 8th Design for
Manufacturing Conference, Proceedings of the ASME 2004 International Design Engineering
Technical Conferences, Volume 3d, USA, 2004.

HETHERINGTON, J. G. and LITTLETON, I., “The Role of the Mean Maximum Pressure
in Specifying Cross-Country Mobility for Armoured Fighting Vehicle Design”, Journal of
Terramechanics, vol. 24, no.4, pp. 263-280, 1987.

HORN, A. To Lose a Battle: France 1940. New York: Penguin Books, 2007.

ISRAEL DEFENSE, “On the Way to the Tunnels”, issue no 32, may-june 2016, pp 76-80.

ISRAEL DEFENSE, “Israel has no problem developing a fighter aircraft – the problem is money”,
2015. Disponível em <www.israeldefense.co.il/en/content/%E2%80%9Cisrael-has-no-problem-
developing-fighter-aircraft-%E2%80%93-problem-money%E2%80%9D>. Acesso em 25/09/2017.

ISRAEL DEFENSE, “Turkish Tank Crew Saved by Israeli Armor”, Disponível em: <www.
israeldefense.co.il/en/content/turkish-tank-crew-saved-israeli-armor>. Acesso em 26/09/2017.

JANE’S 360, “Gun for the future Tanks”, 2016, Disponível em: <www.janes.com/article/61205/gun-
for-future-tanks-es2016d1 Acesso em 26/09/2017>. Acesso em 25/09/2017.

JAWORSKI, T. Equipamentos Para Escavação – Compactação e Transporte. Disponível em: <www.


dtt.ufpr.br/Equipamentos/Arquivos/Apostila%20de%20Equipamentos%20Digitalizada_Tadeo_
Jaworski.pdf>. Acesso em 26/09/2017.

JERCHEL, M. Leopard 2 Main Battle Tank 1979-98. Oxford, UK: Osprey Publishing, 1998.

MACKSEY, K. Tank Warfare: A history of Tanks in Battle. London: Granada Publishing Limited,
1971.

70 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


MACKSEY, K. Tank Versus Tank: The Illustrated Story of Armoured Battlefield Conflict in the
Twentieth Century. London: Grub Street Publishing, 2008.

PÂNGARO, E. L. A. Aquisição de Material de Defesa Pelo Brasil: Prós e Contras. Revista da Escola
Superior de Guerra, v. 30, n. 60, p. 43-62, jan./jun. 2015.

USDOD, “Department of Defense – Annual Report FY 99”, disponível em: <www.globalsecurity.org/


military/library/budget/fy1999/dot-e/army/99m1a2.html>. Acesso em 26/09/2017.

ZALOGA, S. J. T-90 Standard Tank: The First Tank of the New Russia. Oxford, UK: Osprey
Publishing, 2017.

ZIDON, O. Armored Fighting Vehicles of the Israely Defense Force in the 21th Century. Lihue,
HI: Wizard Publications, 2012.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Normas


Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

1
Conjunto de diferentes tipos de blindados que compartilham componentes de projeto e construção
comuns e integrados, como, por exemplo, grupo motriz, transmissão e chassis.
2
Em Português: custo total de propriedade.
3
Do Inglês network centric warfare, é uma doutrina que busca converter uma vantagem informativa,
oferecida pelas tecnologias da informação e comunicação, em uma vantagem competitiva através da
integração de uma rede de forças, geograficamente dispersas, porém bem conectadas e informadas.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 71


O 7º Corpo de Voluntários da Pátria
De São Paulo ao Paraguai

Carlos Roberto Carvalho Daróz*

Introdução Solano López, desencadeou o maior conflito


já ocorrido na América do Sul, unindo Brasil,

O
s Corpos de Voluntários da Pátria Argentina e Uruguai contra o Paraguai.
foram a solução encontrada pelo A situação do Exército Imperial bra-
Império brasileiro para enfrentar a sileiro em 1864 não era das mais favoráveis
invasão paraguaia de seu território. As uni- para enfrentar um inimigo agressivo, como
dades de voluntários foram numeradas do se apresentaram os paraguaios. O descaso
1º ao 57º, mas precisar sua quantidade exata do governo e a falta de interesse da socie-
é tarefa difícil, visto que muitas foram renu- dade para com os assuntos militares haviam
meradas, algumas, fundidas em outras uni- deixado o Exército em situação de vulnera-
dades e outras, extintas.1 bilidade. Os soldos eram baixos e estavam
Embora os Voluntários da Pátria te- estagnados desde 1825; o recrutamento era,
nham sido, no contexto global da Guerra do frequentemente, realizado à força, arregi-
Paraguai, bem-sucedidos, com determina- mentando desocupados e desqualificados; e
dos corpos se destacando até mesmo entre as o efetivo total da força era claramente insufi-
unidades de linha do Exército, alguns foram ciente para atender as necessidades defensi-
severamente afetados pelas doenças e pela vas do Império.
elevada quantidade de baixas. Esse foi o caso Em razão da baixa prioridade dada
do 7º Corpo de Voluntários da Pátria (CVP), pelo governo, faltava praticamente tudo
objeto do presente estudo, que, em razão aos soldados: os quartéis eram pequenos e
das perdas sofridas, terminou sendo extinto desconfortáveis, a alimentação era restrita a
em 1866, e seus remanescentes, distribuídos uma refeição quente por dia, o fardamento
para o 35º CVP (DUARTE, 1980). era “despadronizado” e de qualidade infe-
O apresamento pelos paraguaios do rior e o armamento era escasso e obsoleto.
navio brasileiro Marquês de Olinda, que fa- Dionísio Cerqueira, que durante a guerra
zia a linha entre Montevidéu e Corumbá, em assentou praça como soldado e chegou ao
12 de novembro de 1864, e a subsequente in- posto de tenente, descreveu a situação de ca-
vasão do território brasileiro pelas forças de restia do Exército Imperial:

* Cel Art R/1 (AMAN/ 91, EsAO/99), sócio titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil
(IGHMB), professor do curso de pós-graduação em História Militar da Unisul, Palhoça-SC; mestrando
em História do Brasil (Universidade Salgado de Oliveira, Niterói-RJ). (cdaroz@yahoo.com.br)

72 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


O nosso pequeno e mal aparelhado exér- possuindo aproximadamente 9.100.000
cito deixava muito, senão tudo, a desejar, habitantes, possuía um exército muito me-
desde a instrução técnica e o preparo indis-
nor, com apenas 18.320 homens, embora o
pensável para a guerra até o comissariado
de víveres e forragens, o serviço sanitário, efetivo da Guarda Nacional fosse estimado
o aprovisionamento de armas, fardamen- em 200.000 soldados (ALMEIDA, 2010).
to, equipamento, meios de transporte etc. No que diz respeito à articulação,
(CERQUEIRA, 1980, p.63) o Exército Imperial encontrava-se com a
maioria de suas unidades concentradas no
O descaso do Império para com o sul do país, devido às campanhas empreen-
Exército tinha suas origens no período re- didas na região do Prata, particularmente
gencial, quando a força terrestre passou a ser a guerra contra Aguirre, no Uruguai. No
vista com desconfiança pelas autoridades im- Rio Grande do Sul, estavam estacionados
periais, em razão da participação de oficiais cerca de 6.000 homens, constituindo o
e soldados em motins, rebeliões, tumultos e “Exército do Sul”; no Mato Grosso, o efeti-
revoltas. Para salvaguardar seu poder políti- vo total reunia 875 soldados do exército e
co, por meio de um caráter militar, o Império 231 guardas nacionais; no Uruguai, perto
criou, em 1831, a Guarda Nacional, institui- de Montevidéu, havia 9.466 homens, sob
ção presente em todas as províncias do país, as ordens do brigadeiro Manuel Luís Osó-
ligada às oligarquias regionais, que se cons- rio, com quartel-general instalado em Pais-
tituía em um mecanismo de controle da po- sandu (FROTA, 2000). Quase toda a infan-
pulação eficaz e de baixo custo (CARVALHO, taria brasileira já se encontrava no Sul.
1988). Com missão definida em lei de Diante da constatação de que a
guerra seria prolongada e em face da
defender a Constituição, a liberdade, a in-
dependência e a integridade do Império;
quantidade elevada de baixas provocadas
para manter a obediência às leis, conservar pelos combates, o Governo Imperial ve-
ou estabelecer a ordem e a tranquilidade rificou a necessidade de recompletar os
pública [...],2 claros abertos nas fileiras das unidades e
ampliar o tamanho do Exército. Apesar
a Guarda Nacional foi utilizada pelo gover- de dispor de uma numerosa Guarda Na-
no como um contraponto ao Exército Impe- cional — cerca de 200.000 soldados —, as
rial, fazendo com que a simples existência oligarquias escravagistas que controlavam
das duas instituições com finalidades análo- a instituição em nível regional dificulta-
gas contribuísse para o desprestígio da força vam o fornecimento de homens para a
terrestre. guerra, temendo desguarnecer suas áreas
Quando invadiu o território brasi- de influência política e perder o controle
leiro, o Paraguai possuía uma população da população.
de cerca de 400.000 habitantes, dos quais A solução encontrada foi recorrer
77.000 pertenciam ao exército (57.000 na ao voluntariado, o que ocorreu logo nos
ativa e 20.000 reservistas). O Brasil, mesmo primeiros dias de 1865.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 73


Voluntários e compulsados o recrutamento de guardas nacionais, insti-
tuição a cuja convocação muitos dos mem-
O efetivo do Exército Imperial fixado bros ligados às elites locais costumavam re-
em lei3 era de 18.000 praças para circuns- sistir (DORATIOTO, 2002).
tâncias ordinárias e 24.000 para situações O fervor patriótico inicial, contudo, se
extraordinárias, podendo, ainda, esse quan- desvaneceu com o longo, custoso e sangren-
titativo ser reforçado por 4.000 guardas na- to desenrolar da guerra, cuja razão de baixas
cionais. Diante da ofensiva paraguaia, ficou beirava os 40%. A diminuição do entusiasmo
evidente que, com tal efetivo, o Exército Im- popular tornou o número de voluntários
perial não teria condições de fazer frente à cada vez mais escasso, levando o governo
ameaça, levando o governo brasileiro a criar a converter o recrutamento de voluntário
os Corpos de Voluntários da Pátria, com o para coercitivo, exigindo dos presidentes de
propósito de arregimentar a maior quanti- províncias cotas de “voluntários” que deve-
dade possível de homens, por meio do de- riam recrutar e enviar para a guerra. Dessa
creto nº 3371, de 7 de janeiro de 1865. forma, presidiários, índios, pobres das cida-
A legislação incentivava a participação des, migrantes rurais, imigrantes e escravos
do povo na guerra. Aos voluntários da Pátria começaram a ser recrutados à força e deslo-
eram oferecidas vantagens e regalias, como cados para o Paraguai.4
soldo de 300 mil réis, liberdade a escravos,
concessão de terras, patentes de oficiais ho- O Corpo de Voluntários de São Paulo
norários, baixa do serviço após a guerra, se organiza
pensão para a família em caso de morte, en-
tre outras (MAESTRI, 2016). Atendendo à convocação do gover-
Além dessas medidas legais e adminis- no Imperial, no dia seguinte à assinatura
trativas, uma intensa campanha de propa- do decreto que instituiu os Voluntários da
ganda foi desencadeada para sensibilizar a Pátria, as lideranças da Província de São
população. O próprio imperador D. Pedro Paulo deram início a uma mobilização para
II se deixou fotografar envergando unifor- contribuir com o esforço de guerra. Nesse
me militar e foi o primeiro Voluntário da Pá- sentido, realizou-se na Câmara Municipal
tria a se alistar, para dar o exemplo. O conde de São Paulo uma reunião com o objetivo
D´Eu, marido da princesa Isabel, acompa- de criar uma sociedade para auxiliar o go-
nhou o gesto do imperador e também se vo- verno e socorrer as famílias dos alistados e
luntariou para lutar na guerra. dos soldados que retornassem inválidos da
Imaginando que o conflito não se es- guerra. Em poucos dias, os estatutos da so-
tenderia por muito tempo e vendo na remu- ciedade estavam concluídos, ficando o Dr.
neração e benefícios uma forma de ascensão Joaquim Antônio Pinto Júnior, comissiona-
social, cerca de 10 mil voluntários se apre- do no posto de tenente-coronel, encarrega-
sentaram para os Corpos de Voluntários da do de arregimentar os voluntários e organi-
Pátria, o que permitiu ao governo suspender zar o corpo.

74 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


Para subsidiar a estruturação da nova Com a divulgação do voluntariado na
unidade, foi estabelecida uma campanha imprensa paulista e em cartazes afixados nas
de arrecadação de recursos e donativos. O esquinas das ruas da capital paulista, cen-
bacharel Antônio Pereira Pinto Júnior, por tenas de voluntários se apresentaram para
exemplo, ofereceu-se para financiar o soldo compor o novo corpo, inclusive vindos do
de dez praças durante o tempo que a guerra interior da província. Foi o caso do tenente
durasse. Já o comandante superior da Guar- Pio Correia da Rocha (Figura 1), de Arara-
da Nacional de Mogi Mirim, coronel Antô- quara, que perderia a vida, aos 22 anos de
nio Joaquim de Freitas Leitão, prometeu idade, na batalha da Isla Carapá, em julho
500$000 como prêmio para o primeiro bra- de 1866. É interessante notar que, por ter
sileiro que erguesse a bandeira do Brasil em sido organizado logo no início do voluntaria-
qualquer local ou fortificação invadido pelos do, o corpo paulista contou, no início, com
paraguaios.5 voluntários genuínos.
Por se tratar de uma unidade de vo-
luntários, quase todos oriundos do meio ci-
vil e da Guarda Nacional, um dos maiores
problemas era assegurar seu equipamento
e treinamento adequado, para torná-la apta
a entrar em combate no mais curto prazo.
O presidente da Província de São Paulo, Dr.
João Crispiniano Soares, atualizou o minis-
tro da Guerra sobre tais necessidades e so-
licitou o auxílio do Império para finalizar a
organização do Corpo.

O Corpo de Voluntários da Pátria que se


está organizando nesta cidade conta com
235 praças, que estão sendo alistadas e
aquarteladas na Casa de Correção, por fal-
ta dos necessários cômodos no quartel da
guarnição.
Esse Corpo precisa de disciplina. Não há
disciplina sem a constituição de comandos
de companhia pelos competentes oficiais.
Necessita de instrução. Infelizmente não
disponho de instrutores. Não tem arma-
mento, nem fardamento.
Figura 1 – Tenente Pio Correia da Rocha Já comuniquei ao Ministério a cargo de V.
Fonte: //jbitten.wordpress.com Exª. que mandei preparar blusas de pano
Comentário do autor: O tenente, natural de Araraqua-
de linho para dar a esse Corpo alguma
ra, foi um dos primeiros voluntários do 7º CVP a se aparência militar. [...] Hoje apresento a
alistar. Morreria na batalha da Isla Carapá, em 1866. V. Exª. o figurino que julgo próprio para

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 75


o fardamento do Corpo e peço a V. Exª. la província, o que fez em 24 de julho.9 As
uma solução certo que, desejando ver o lideranças políticas e a imprensa paulistas,
Corpo armado, instruído e fardado, não
no entanto, pretendiam que o Corpo fosse
faço questão sobre a forma do fardamento;
pelo que o figurino que ofereço só pode direcionado para o sul do país e incorpora-
ter vantagem de adiantar a solução que re- do ao corpo de exército do general Osório.
clamo da solicitude de V. Exª.6 Cedendo às pressões políticas, o Ministério
da Guerra anulou a designação do 7º CVP
A correspondência do presidente de para o Mato Grosso e determinou o seu re-
São Paulo revela as dificuldades logísticas gresso a São Paulo, de onde a unidade de-
enfrentadas por praticamente todos os CVP veria seguir para o Sul (DUARTE, 1980).
quando de sua organização, particularmente Sob essas novas ordens, o Corpo par-
no que diz respeito ao fardamento, arma- tiu de Santos em 13 de agosto, por via ma-
mento e instrução. Mesmo diante de tantas rítima, e, após escalas em Santa Catarina e
dificuldades, em maio, o Corpo de Voluntá- na cidade do Rio Grande, chegou a Porto
rios de São Paulo, que recebeu do Ministé- Alegre em 29 de agosto, onde desembar-
rio da Guerra a designação numérica de 7º, cou e foi aquartelado em diversos imóveis
completou sua organização, contando com no centro da cidade. O 7º permaneceu
666 homens, divididos em oito companhias; cerca de 15 dias na capital rio-grandense,
no total, 38 oficiais, 24 músicos e 604 praças período que foi aproveitado para intensifi-
(DUARTE, 1980). A instrução preliminar fi- car a instrução e a execução de serviços de
cou sob a direção do coronel da Guarda Na- guarda (DUARTE, 1980).
cional Francisco Antônio de Oliveira, e foi Durante sua estadia em Porto Ale-
ministrada nas dependências da Escola de gre, o Corpo registrou suas primeiras bai-
Infantaria, com o auxílio dos novos oficiais xas fatais, por doença, flagelo que se aba-
comissionados.7 teu sobre a quase totalidade de unidades
Como o Dr. Joaquim Antônio Pinto enviadas ao Paraguai durante a guerra. Vi-
Júnior solicitou sua dispensa do comando timados pela varíola, morreram em Porto
do 7º, foi escolhido para liderar a unidade o Alegre um oficial e 35 soldados (DUARTE,
major reformado do Exército Francisco Jo- 1980). Dezenas de soldados também con-
aquim Pinto Pacca, que foi comissionado no traíram a moléstia e, quando da partida
posto de tenente-coronel.8 do Corpo para Montevidéu, no dia 15 de
outubro, permaneceram baixados ao hos-
O 7º Segue para a guerra – as primei- pital, sendo substituídos por 140 homens
ras baixas procedentes do Depósito de Voluntários.
O próprio comandante, Pinto Pacca, foi
Superadas as dificuldades iniciais, acometido pela doença e precisou ser subs-
em 8 de junho de 1865, o 7º CVP recebeu tituído no comando pelo major Joaquim
ordem para marchar em direção ao Mato Antônio Dias pouco antes do embarque,
Grosso, a fim de reforçar a guarnição daque- seguindo para o Rio de Janeiro em licen-

76 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


ça de dois meses para tratamento de saúde realizar a transposição do rio Paraná e in-
(DUARTE, 1980). vadir o território paraguaio. Nesse período,
Prosseguindo em sua viagem, o navio durante os três primeiros meses de 1866, o
que conduzia o 7º CVP passou por Montevi- 7º CVP utilizou o tempo para realizar exer-
déu, Buenos Aires e Martin Vaz, chegando, cícios e manobras e se ambientar ao terreno
em 8 de dezembro à Vila de Urquiza, já em (FRAGOSO, 2010).
território argentino, na margem esquerda Em 10 de março, o tenente-coronel
do Rio Paraná. O Corpo permaneceu acam- Pinto Pacca retornou de sua licença e reassu-
pado nesse local aguardando transporte du- miu o comando do 7º, bem a tempo de par-
rante 19 dias, e, mais uma vez, a insalubrida- ticipar da invasão do Paraguai. Entre baixas
de e o tifo ceifaram a vida de mais soldados, e recompletamentos, contava o Corpo, na
inclusive a do comandante da 6ª Compa- ocasião, com 31 oficiais e 491 praças, totali-
nhia, capitão Francisco de Assis Pereira Cas- zando 522 combatentes (FRAGOSO, 2010).
tro, que morreu no hospital em Corrientes A transposição do rio Paraná seria efe-
(DUARTE, 1980). tuada no Passo da Pátria, diante da fortifi-
O 7º chegou a Corrientes no dia de cação paraguaia denominada Itapiru, com o
Natal, onde desembarcou e foi incorporado auxílio da Marinha Imperial. Na madrugada
a uma grande Divisão de Voluntários da Pá- de 28 de março, o exército recebeu ordens
tria, que, a cada dia, recebia novos contin- para ocupar posição junto à margem do rio,
gentes do Brasil (DUARTE, 1980). com a transposição prevista para a primeira
semana de abril (DORATIOTO, 2002).
Batismo de fogo no Passo da Pátria Diante do Forte Itapiru, havia um
pequeno banco de areia denominado Ilha
Na manhã de 28 de dezembro, uma de Sant’Ana, que poderia, em mãos para-
grande coluna de tropas brasileiras recém- guaias, dificultar a travessia do rio. O chefe
-chegadas marchou para o acampamento da Comissão de Engenheiros, tenente-coro-
de Lagoa Brava, onde foram incorporadas nel José Carlos de Carvalho, teve a ideia de
ao 1º Corpo de Exército do general Osório ocupar a ilha com a artilharia, atendendo
(FRAGOSO, 2010). a dois propósitos: impedir a instalação dos
Nos primeiros dias do ano de 1866, foi paraguaios e dali bombardear a fortificação
organizada a 19ª Brigada, composta pelo 7º guarani (DUARTE, 1980).
CVP, pelo 42º CVP e pelo Batalhão de Enge- Uma vez aprovado o plano, na ma-
nheiros. Sob o comando do tenente-coronel drugada de 5 de março, uma força de 900
Francisco Gomes de Freitas, a brigada foi homens, composta por uma bateria de ca-
designada para servir junto ao Comando- nhões, uma bateria de morteiros, uma bate-
-Geral de Artilharia,10 fazendo a proteção ria de foguetes a Congreve, o Batalhão de
dos canhões e prestando outros serviços ne- Engenheiros, um batalhão de infantaria de
cessários. Na ocasião, os exércitos da Tríplice linha e o 7º CVP, ocuparam silenciosamen-
Aliança estavam concentrando tropas para te a ilha. O comando de força foi atribuído

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 77


ao tenente-coronel João Carlos de Villagran lutaram com extrema bravura, o que levou o
Cabrita, que batizou o banco de areia como Governo Imperial a condecorar a unidade e
Ilha da Redenção (JOURDAN, 1871). diversos de seus integrantes.
Ainda sob a proteção da noite, as
peças de artilharia entraram em posição, Querendo distinguir e honrar o 7º de
Voluntários do Exército Imperial, o qual,
enquanto os engenheiros iniciaram a es-
tendo ocupado a ilha paraguaia em frente
cavação de uma extensa trincheira, e os ao Forte de Itapiru [...], no qual se hou-
infantes procuraram instalar-se defensi- ve com disciplina, perícia e valor acima de
vamente. Ao amanhecer, os paraguaios todo o elogio, hei por bem, em memória
verificaram que a ilha havia sido ocupada a tão brilhante feito d´armas, conceder ao
referido batalhão a insígnia de cavaleiro
e logo abriram fogo, provocando algumas
da Ordem Imperial do Cruzeiro [...]
baixas entre os homens do 7º CVP (FER- Com a rubrica do Imperador, Marquês de
REIRA, 1866). Tão logo foi finalizada a Olinda.11
posição, duas companhias do Corpo per-
maneceram como guarda avançada, em O exército aliado realizou a transposi-
regime de rodízio, sempre sob o fogo dos ção do Paraná com sucesso ao longo de todo
canhões paraguaios. o dia 16 de abril, mas o 7º CVP somente cru-
Compreendendo que a posição bra- zou o rio dois dias depois, acompanhando a
sileira na ilha constituía uma séria ameaça artilharia (FRAGOSO, 2010).
para o Forte Itapiru, o comando paraguaio
desencadeou um contra-ataque na noi- Estero Bellaco e Tuiuti
te de 9 para 10 de março, com uma força
de cerca de 500 homens. Protegidos pela Ao se retirarem do Passo da Pátria, os
escuridão, os paraguaios conseguiram de- paraguaios se reorganizaram na região do
sembarcar na ilha e investiram contra as Estero Bellaco, onde foram novamente ata-
trincheiras brasileiras, a do 14º Batalhão cados pelas tropas aliadas. Durante o comba-
de Infantaria de Linha, à esquerda, e a do te, o 7º CVP, integrando a 19ª Brigada, reali-
7º CVP, à direita do dispositivo. Após um zou a proteção do flanco direito da artilharia
encarniçado tiroteio, que durou vários mi- brasileira (FRAGOSO, 2010).
nutos, a infantaria brasileira, apoiada pelos No dia 14 foi exonerado do comando
engenheiros, conseguiu sustar o ataque. Já do 7º o tenente-coronel Pinto Pacca, nova-
próximo do alvorecer, com a munição es- mente acometido por doença, assumindo
casseando, o tenente-coronel Pinto Pacca a função em caráter interino o major Jo-
ordenou uma carga de baionetas, expul- aquim Antônio Dias. Dois dias mais tar-
sando definitivamente a força inimiga de de, foi designado comandante do Corpo o
seu setor. Nesse combate, as baixas do 7º tenente-coronel Carolino da Silva Tosta,12
foram 13 mortos e 35 feridos (DUARTE, antigo comandante do 53º CVP da Bahia,
1980). Na luta corpo a corpo durante o ata- que havia sido dissolvido em fevereiro de
que a baioneta, diversos homens do Corpo 1866 (DUARTE, 1980).

78 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


paraguaio tentou uma manobra de envol-
vimento, mas o 7º formou um quadrado
e conseguiu repelir a investida. Em segui-
da, o Corpo contra-atacou e conquistou
algum território, apenas para ver a cava-
laria paraguaia fazer nova tentativa, dessa
vez bem-sucedida, obrigando os brasilei-
ros a ceder terreno. Recebendo o reforço
do 12º Batalhão de Infantaria de linha, o
7º CVP carregou contra os paraguaios e
conseguiu retomar a posição junto ao Po-
treiro Pires. Ao cair da tarde, a ofensiva
paraguaia estava definitivamente contida
(DUARTE, 1980).
As moléstias continuaram a assolar
as tropas brasileiras no inóspito território
paraguaio. Uma semana após a Batalha
do Tuiuti, o comandante e o subcoman-
dante do 7º, tenente-coronel Carolino
Tosta e major Joaquim Dias, baixaram ao
hospital. Em consequência, foi nomeado
para liderar o Corpo o major em comis-
são João Antônio de Oliveira Valporto. 13 A
19ª Brigada foi extinta, assim como o 42º
CVP, também organizado em São Paulo,
Figura 2 – Alferes do 7º Corpo de Voluntá- que cedeu sua ala direita ao 7º CVP para
rios da Pátria recompletar suas perdas. 14 Recomposto,
Fonte: RODRIGUES; BARROSO, 1922 o 7º foi incorporado à 5ª Brigada de In-
fantaria (FRAGOSO, 2010).
Após o combate do Estero Bellaco, as No princípio de julho os brasileiros
forças da Tríplice Aliança cerraram sobre identificaram a instalação de uma bateria
Tuiuti, no intuito de travar contato com paraguaia do outro lado da lagoa Pires. Na
o inimigo em fuga. No final da manhã do manhã do dia 16, o general Polidoro da
dia 24 de maio, os paraguaios abriram Fonseca Jordão, que havia assumido o co-
fogo contra os aliados. Rapidamente o 7º mando do 1º Corpo de Exército dois dias
CVP se deslocou e entrou em posição à antes, ordenou um ataque contra a aludi-
retaguarda do Potreiro Pires, juntando- da posição, cabendo ao 7º CVP a ocupação
-se a outras unidades brasileiras ali po- da bateria após sua captura, o que foi feito
sicionadas. Um regimento de cavalaria sem nenhuma baixa (DUARTE, 1980).

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 79


Devastação na Isla Carapá No dia 5 de agosto, o tenente-coronel
Pinto Pacca, recuperado das enfermidades,
Na madrugada do dia 18, diversas regressou novamente ao teatro de operações
unidades brasileiras, entre as quais o 7º CVP, e reassumiu o comando do 7º CVP, agora
receberam ordem para atacar um entrinchei- com suas fileiras severamente desfalcadas
ramento inimigo na região conhecida como em razão das baixas em combate e doenças
Isla Carapá. O deslocamento por terreno (DUARTE, 1980).
difícil foi realizado por picadas na mata, que
haviam sido abertas pelos paraguaios, para as Considerações finais
quais seus canhões estavam apontados de en-
fiada. O desconhecimento do terreno e a au- Os desgastantes combates travados
sência de um reconhecimento prévio levaram durante a invasão do Paraguai produziram
os brasileiros direto para uma armadilha. milhares de baixas, o que impôs ao Exérci-
Ao se aproximarem das baterias para- to Imperial uma pausa nas operações. Para
guaias, os batalhões brasileiros foram rece- comandar a nova fase da campanha, foi de-
bidos por um intenso canhoneio. Estima-se signado o marquês de Caxias, que assumiu
que os canhões guaranis dispararam cerca suas funções em 18 de novembro de 1866,
de quatro mil tiros na jornada (DUARTE, no acampamento de Tuiuti.
1980). Não havendo espaço para manobra e De imediato, Caxias promoveu uma
sob intenso fogo de artilharia, não restou aos completa reorganização do exército, no senti-
brasileiros alternativa senão retrair, deixan- do de padronizar as unidades, recompletá-las
do para trás centenas de mortos e feridos. e dar-lhes um poder de combate adequado.
O major Valporto, comandante do 7º CVP, Nesse sentido, muitas unidades desfalcadas
registrou as dificuldades encontradas e as de efetivo foram extintas, e outras, fundidas
perdas em sua parte de combate: em novas organizações. E foi exatamente esse
o destino do 7º, na ocasião bastante reduzido
[...] A posição do inimigo era forte, visto pelas baixas, particularmente depois do malsu-
como havia entre nós um vale feito pela
cedido assalto à Isla Carapá. Assim, em 20 de
natureza, além daquele feito junto das
trincheiras, cujas muralhas acobertaram dezembro de 1866, ao reorganizar o 1º Corpo
os atiradores até os ombros: tentei carre- de Exército, o marquês de Caxias extinguiu o
gar sobre o forte, mandando os cornetei- 7º CVP, sendo seus remanescentes incorpora-
ros tocar “avançar” e “fogo” e falando aos dos ao 35º CVP, que havia sido organizado em
soldados debaixo de um vivo fogo do ini-
Porto Alegre.16
migo, mas não pude conseguir, porque as
nossas fileiras já estavam minguadas pelos Em pouco mais de um ano, o Corpo de
ferimentos e mortes [...]. Ficaram fora de Voluntários de São Paulo enfrentou as agruras
combate 8 oficiais, sendo um morto e sete e dificuldades típicas da organização de uma
feridos; das praças de pré, foram mortas unidade nova a partir do zero e, a despeito
13, feridas 145, e extraviadas por se igno-
da falta de experiência de seus integrantes,
rar seus destinos 12 [...].15
houve-se muito bem na contraofensiva contra

80 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


o Paraguai. A expressiva quantidade de baixas nho e um registro do empenho e do sacrifício
— fato que concorreu para encerrar precoce- dos voluntários de primeira hora da Província
mente a trajetória do Corpo — é um testemu- de São Paulo na Guerra do Paraguai.

Referências

Bibliografia
ALMEIDA, Fabiana Aparecida. Vivendo a Guerra do Paraguai: memórias de um Voluntário da
Pátria. Revista Brasileira de História Militar, n.3, dez. 2010, disponível em <www.historiamili-
tar.com.br/Artigo5RBHM3.pdf>. Acesso em 20 set. 2016.

CARVALHO, José Murilo. Teatro de sombras: a política imperial. São Paulo: Revista dos Tribu-
nais; Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, 1988.

CERQUEIRA, Dionísio. Reminiscências da campanha do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca


do Exército, 1980.

DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

DUARTE, Paulo de Queiroz. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai, v.2, t.1. Rio de
Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980.

FERREIRA, Luís Vieira. Passagem do Paraná. Da Comissão de Engenheiros do 1º Corpo de


Exército em operações na campanha do Paraguai. Apontamentos. Rio de Janeiro: s/e, 1866.

FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai, v.2. Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2010.

FROTA, Guilherme de Andréa. Quinhentos anos de história do Brasil. Rio de Janeiro: Biblio-
teca do Exército, 2000.

IZECKSOHN, Vitor. O Cerne da Discórdia. Rio de Janeiro: E-Papers Serviços Editoriais, 2002.

JOURDAN, Emilio Carlos. Guerra do Paraguay. Typographia Perseverança, 1871.

MAESTRI, Mário. Silva Barbosa: diário de um voluntário na guerra contra o Paraguai – da


defesa de São Borja à morte de Francisco Solano López. In: SQUINELO, Ana Paula (Org.). 150
anos após – a Guerra do Paraguai: entreolhares do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, v.1.
Campo Grande: Ed. UFMS, 2016, pp.109-136.

RODRIGUES, José Wasth; BARROSO, Gustavo. Uniformes do Exército Brasileiro - 1730-


1922: Obra Commemorativa do Centenário da Independência do Brasil. Aquarellas e Docu-
mentação de José Wasth Rodrigues. Texto organizado por Gustavo Barroso. Paris: A. Ferroud
– F. Ferroud, Succr., 1922.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 81


SOUSA, Jorge Prata. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de
Janeiro: Mauad, 1996.

Fontes
Aviso do Ministro da Guerra de 8 de junho de 1865. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacio-
nal: ofícios trocados entre os presidentes de província e os ministros das pastas da Guerra e da
Justiça.

BRASIL. Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa pelo Ministro e Secretário dos Negócios
Guerra. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1865.

__________. Lei de 18 de agosto de 1831, Artigo 1º. Coleção de Leis do Império 1830-1831.

__________. Lei n. 1220, de 20 de julho de 1864. Leis do Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1865.

Decreto Imperial de 1º de maio de 1866. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios


trocados entre os presidentes de província e os ministros das pastas da Guerra e da Justiça.

Ofício s/n do presidente da Província de São Paulo ao ministro da Guerra, de 24 de fevereiro


de 1865. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios trocados entre os presidentes de
província e os ministros das pastas da Guerra e da Justiça.

Ofício nº 155 do presidente da Província de São Paulo ao ministro da Guerra, de 15 de abril


de 1865. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios trocados entre os presidentes de
província e os ministros das pastas da Guerra e da Justiça.

Ordem do Dia nº 115, de 6 de janeiro de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo


do Arquivo Histórico do Exército.

Ordem do Dia nº 154, de 17 de maio de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo do


Arquivo Histórico do Exército.

Ordem do Dia nº 158, de 28 de junho de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo


do Arquivo Histórico do Exército.

Ordem do Dia nº 157, de 21 de junho de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo


do Arquivo Histórico do Exército.

Ordem do Dia s/nº, de 1º de agosto de 1866, do Quartel-General do general Polidoro. Acervo do


Arquivo Histórico do Exército.

Ordem do Dia nº 14, de 20 de dezembro de 1866, do marquês de Caxias. Acervo do Arquivo


Histórico do Exército.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Nor-


mas Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

82 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


1
Cf. Ordem do Dia nº 14, de 20 de dezembro de 1866, do Marquês de Caxias. Acervo do Arquivo Histórico
do Exército. Inicialmente, os Corpos de Voluntários foram numerados continuamente, configuração
que perdurou até o final de 1866. Em 20 de dezembro daquele ano, ainda sob o impacto da Batalha
de Tuiuti, o marquês de Caxias promoveu uma reorganização total das forças brasileiras e, a título de
padronização, determinou que todas as unidades de infantaria passassem a ser organizadas com oito
companhias, conforme estabelecia a regulamentação da arma. Caxias ordenou, ainda, que, para evitar
confusão com os vinte e um batalhões de infantaria de linha do Exército e facilitar a transmissão de or-
dens, os vinte e um primeiros Corpos de Voluntários fossem reordenados e recebessem nova numeração.
Para atender à nova organização, algumas unidades de voluntários foram fundidas e outras, dissolvidas,
devido à redistribuição de efetivos para compor as oito companhias.
2
BRASIL. Lei de 18 de agosto de 1831, Artigo 1º. Coleção de Leis do Império 1830-1831, p.50.
3
BRASIL. Lei n. 1220, de 20 de julho de 1864. Leis do Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1865.
4
Para saber sobre o recrutamento forçado e o recrutamento de Guardas Nacionais e de escravos, ver
IZECKSOHN, Vitor. O Cerne da Discórdia. Rio de Janeiro: E-Papers Serviços Editoriais, 2002 e SOUSA,
Jorge Prata. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad,
1996.
5
BRASIL. Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa pelo Ministro e Secretário dos Negócios Guerra.
Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1865.
6
Ofício s/n do presidente da Província de São Paulo ao ministro da Guerra, de 24 de fevereiro de 1865.
Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios trocados entre os presidentes de província e os
ministros das pastas da Guerra e da Justiça.
7
A cadeia de comando do 7º CVP, quando de sua organização, era constituída pelos seguintes oficiais:
CVP – tenente-coronel Francisco Joaquim Pinto Pacca; fiscal ˈ major em comissão Joaquim Antônio
Dias; 1ª Companhia – capitão Antônio Ferraz do Amaral; 2ª Companhia – capitão Antônio Alves Mar-
ques; 3ª Companhia – capitão Diogo Antônio Barros; 4ª Companhia – capitão Antônio Carlos da Silva
Teles; 5ª Companhia – capitão Felício Ribeiro dos Santos Camargo; 6ª Companhia – capitão Francisco
de Assis Pereira Castro; 7ª Companhia – capitão Fortunato de Campos Freire e 8ª Companhia – capitão
Joaquim Compton Delbouk (DUARTE, 1980).
8
Ofício nº 155 do presidente da Província de São Paulo ao ministro da Guerra, de 15 de abril de 1865.
Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios trocados entre os presidentes de província e os
ministros das pastas da Guerra e da Justiça.
9
Aviso do ministro da Guerra de 8 de junho de 1865. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional:
ofícios trocados entre os presidentes de província e os ministros das pastas da Guerra e da Justiça.
10
Ordem do Dia nº 115, de 6 de janeiro de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo do Ar-
quivo Histórico do Exército.
11
Decreto Imperial de 1º de maio de 1866. Coleção de manuscritos do Arquivo Nacional: ofícios trocados
entre os presidentes de província e os ministros das pastas da Guerra e da Justiça.
12
Ordem do Dia nº 154, de 17 de maio de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo do Arquivo
Histórico do Exército.
13
Ordem do Dia nº 158, de 28 de junho de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo do Ar-
quivo Histórico do Exército.
14
Ordem do Dia nº 157, de 21 de junho de 1866, do Quartel-General do general Osório. Acervo do Ar-
quivo Histórico do Exército.
15
Ordem do Dia s/nº, de 1º de agosto de 1866, do Quartel-General do general Polidoro. Acervo do Arquivo
Histórico do Exército.
16
Ordem do Dia nº 14, de 20 de dezembro de 1866, do marquês de Caxias. Acervo do Arquivo Histórico
do Exército.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 83


A otimização da operacionalidade da
Brigada de Infantaria Paraquedista por
meio da racionalização administrativa
Allan de Almeida Serrão*

Introdução emprego de civis, a terceirização de ativida-


des administrativas, a racionalização das or-

O
término da Guerra Fria, o desen- ganizações militares (OM) operativas, entre
volvimento tecnológico dos meios outras que certamente irão impactar a cul-
de combate e a evolução da Arte tura organizacional do EB. Segundo o PTE
da Guerra desencadearam uma racionaliza- (2010), estima-se que quase um terço do efeti-
ção de meios e efetivos em grande parte dos vo incorporado é empregado nas rotinas das
exércitos de países com alto padrão de pron- OM em atividades outras, que não as relativas
tidão e experiência em combate. à atividade fim (BRASIL, 2010, p. 38).
O Exército Brasileiro vive atualmente Soma-se, ainda, o fato de que as OM
um processo de transformação e a racionali- estão inseridas no Sistema da Administração
zação de efetivos é um dos temas que care- Pública Federal, que tem aumentado consi-
ce de estudo e discussão. Este processo tem deravelmente mecanismos de controle e fis-
por finalidade adequá-lo às novas demandas calização. Isto impacta o efetivo de pessoal
do combate moderno bem como desenvol- das OM envolvido nesta atividade para aten-
ver novas capacidades. Segundo o processo der esta demanda, que tende a apresentar-se
em questão, os fatores críticos para efetivar a de maneira crescente.
transformação se concentram em três princi- Segundo SOUZA (2001), dentro da or-
pais áreas: doutrina, recursos humanos e gestão ganização do Exército Brasileiro, o Coman-
(BRASIL, 2010, p. 4). Dessa forma, a raciona- do de Operações Terrestres iniciou, em 1992,
lização administrativa é tema de vital impor- uma série de estudos visando à centralização de
tância para otimizar o emprego de militares toda a atividade administrativa das unidades de
combatentes em suas atividades finalísticas. uma mesma guarnição. Isso acabou ocorrendo,
No tocante aos recursos humanos inicialmente, com a Brigada de Infantaria Pa-
do Processo de Transformação do Exército raquedista (Bda Inf Pqdt), sediada no Rio de
(PTE), prevê-se o ajuste na composição dos Janeiro-RJ, e a 6ª Brigada de Infantaria Blinda-
efetivos, com a adoção de medidas como o da (Bda Inf Bld), sediada em Santa Maria-RS.

* Maj Cav (AMAN/99, EsAO/07, ECEME/16); comandou o 1º Esquadrão de Cavalaria Paraquedista no


biênio 2013-14. Atualmente, serve no Comando da 10ª Região Militar.

84 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


O Exército Brasileiro tem demonstrado drados por um mínimo de militares, libe-
interesse em racionalizar os encargos adminis- rando parcela do efetivo profissional para
a atividade operacional. (Apud PEDRO,
trativos das OM operativas. Contudo, as me-
2012, p. 32)
didas adotadas até aqui não surtiram o efeito
desejado. Durante meados da década de 1990,
A Brigada de Infantaria Paraque-
tentou-se, sem êxito, implantar nas OM opera-
dista (Bda Inf Pqdt), tropa de elite do
tivas (Op) as bases administrativas, estruturas
Exército Brasileiro, compõe as Forças de
que deveriam abarcar todos os encargos admi-
Atuação Estratégicas (FAE) e as Forças de
nistrativos (CRUZ NETO, 2013, p.17).
Ação Rápida Estratégicas (FAR-E). Esta
Com o intuito de aprimorar a execução
brigada possui características especiais,
da atividade meio (gestão administrativa) das
como grande mobilidade e flexibilidade,
brigadas, o Exército Brasileiro deu início ao
além de elevado grau de prontidão e ope-
Projeto Brigada Piloto em Gestão, no ano
racionalidade, o que possibilita capacida-
de 2011, com duração prevista para quatro
de de pronta resposta e projeção de força
anos, ou seja, até 2014 (PEDRO, 2012, p.33).
em qualquer parte do território nacional
Segundo Ewerton Lauriano Pedro
e do entorno estratégico do país. Assim,
(2012), ao serem observados os relatórios
tem sido empregada em situações de crise
disponíveis das brigadas que operacionali-
e eventos com repercussão internacional,
zaram o Projeto Brigada Piloto em Gestão,
com destaque para: a Conferência das Na-
verifica-se que um dos grandes óbices para
ções Unidas sobre Desenvolvimento Sus-
a Brigada atingir a sua operacionalidade é o
tentável – RIO+20, em 2012, provendo
excesso de pessoal operacional voltado para
a segurança de diversos chefes de estado
as atividades administrativas. Esse diagnós-
e de governo; a Jornada Mundial da Ju-
tico revela que a gestão administrativa deve
ventude, em 2013, realizando a segurança
ser eficaz e eficiente para manter a briga-
do papa Francisco; e a ocupação para a
da com elevado grau de operacionalidade,
pacificação dos complexos da Penha e do
diminuindo, dessa forma, o emprego de
Alemão, em 2011 e da Maré, em 2014.
efetivos operacionais em funções adminis-
Dessa forma, faz-se necessário o es-
trativas. Segundo o Relatório da Visita de
tudo sobre a racionalização de efetivos
Acompanhamento do Projeto Brigada Piloto
empregados na administração de orga-
em Gestão na 4ª Bda Inf Mtz:
nizações militares, particularmente as de
elevado nível de prontidão, a fim de ele-
[...] a racionalização em Brigadas Opera-
tivas visando ao provimento de uma es- var sua operacionalidade e, por consequ-
trutura de gestão corrente que minimize ência, a capacidade de pronta resposta do
o impacto na atividade fim de uma GU Exército Brasileiro.
Operacional. Nesse estudo, a Bda propõe O estudo realizado teve como obje-
a criação de uma Base Administrativa de
Brigada que otimizará os processos da ati-
tivo verificar se a atual estrutura adminis-
vidade meio, devendo ser mobiliada com trativa da Bda Inf Pqdt prejudica o exer-
85 (oitenta e cinco) servidores civis enqua- cício de suas atividades operativas. Neste

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 85


sentido, o estudo limitou-se às estruturas da deu-se privilegiar as pesquisas documen-
Base Administrativa da Brigada de Infanta- tal, bibliográfica e de campo, esta com
ria Paraquedista e dos batalhões de infan- questionário respondido por especialistas.
taria paraquedista, de forma a apresentar Quanto à pesquisa de campo, fo-
generalizações sobre estruturas adminis- ram realizadas entrevistas semiestrutura-
trativas de unidades administrativas (UA) das, com a finalidade de obter dados que,
nos níveis grande unidade (Comando da posteriormente, foram trabalhados pelas
Bda Inf Pqdt) e unidade. Também foi es- análises qualitativa e quantitativa.
tudada a estrutura administrativa da tro- O universo desta pesquisa foi res-
pa aeroterrestre do Exército Espanhol, trito e composto por especialistas sobre
integrante da Organização do Tratado do o tema. Para seleção do universo, foram
Atlântico Norte (OTAN). A escolha des- observados os critérios de relevância, re-
se país deveu-se ao seu recente emprego presentatividade e acessibilidade.
em campanhas militares em diferentes
regiões do Globo (Líbia, Líbano e Afega- Desenvolvimento
nistão), caracterizando elevado grau de
prontidão e operacionalidade. O EB adota os conceitos de forças
de atuação estratégicas (FAE) e de forças
Metodologia de ação rápida estratégicas (FAR-E). Para
isso, reúne tropas que possuem caracterís-
O método empregado foi o compa- ticas como grande mobilidade, flexibilida-
rativo, pois analisou a estrutura adminis- de, além de elevado grau de prontidão e
trativa do Exército Espanhol, comparan- operacionalidade. Essas tropas devem ter
do-a com os dados colhidos da estrutura capacidade para atuar, a partir do aciona-
administrativa da Bda Inf Pqdt. Essa com- mento, em um curto espaço de tempo, em
paração foi determinante para entender qualquer parte do território nacional, ou
conceitos que serviram como base para a mesmo fora dele.
racionalização proposta.
A forma de abordagem da pesquisa A Brigada de Infantaria Paraquedista
foi predominantemente qualitativa, por
meio da análise de dados colhidos e da A Bda Inf Pqdt tem sido empregada
opinião de público especializado. Entre- frequentemente em situações de crise e
tanto, houve, também, abordagens quan- nos eventos com repercussão internacio-
titativas, uma vez que se buscou quantifi- nal, bem como em operações de garantia
car os resultados da opinião deste público da lei e da ordem de vulto, desde a déca-
especializado, utilizando, para isso, técni- da de 1990, empregando a quase totali-
cas estatísticas. dade de seu efetivo operacional, em face
Sobre os procedimentos técnicos da complexidade das missões recebidas.
empregados na coleta de dados, preten- Contudo, nos anos de 2013 e 2014, muitas

86 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


OM da Bda Inf Pqdt não operaram com • executar operações de combate
suas frações de combate completas nas para destruir e vencer forças ini-
operações de grande vulto. migas, podendo empregar o lan-
A missão da Bda Inf Pqdt é desdo- çamento aeroterrestre e/ou o aero-
brar até três forças-tarefas batalhão de transporte;
infantaria paraquedista (FT BIPqdt), no • participar de operações de amplo
prazo máximo de 24 horas após o seu espectro integrando forças multi-
acionamento, em qualquer parte do ter- nacionais; e
ritório nacional ou em outras regiões de • conduzir operações de garantia da
interesse estratégico no exterior, para: lei e da ordem (BRASIL, 2015).

Figura 1 – Organograma da Bda Inf Pqdt


Fonte: www.bdainfpqdt.eb.mil.br

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 87


A Bda Inf Pqdt possui aproximada- distribuídos entre todas as OM da Bda Inf
mente 5.400 militares e 15 organizações mi- Pqdt, o que representa aproximadamente
litares (OM) subordinadas (BRASIL, 2015): 22% do efetivo total desta grande unidade
• Cmdo Bda Inf Pqdt; (GU). Alguns cargos previstos em QCP re-
• 25º Batalhão de Infantaria Para- querem que o militar seja de Intendência ou
quedista (25º Btl Inf Pqdt); possua uma habilitação em Administração,
• 26º Batalhão de Infantaria Para- Direito, Contabilidade ou Intendência, para
quedista (26º Btl Inf Pqdt); execução de sua função. Esses cargos especí-
• 27º Batalhão de Infantaria Para- ficos serão referenciados no presente traba-
quedista (27º Btl Inf Pqdt); lho como “especialistas”.
• 8º Grupo de Artilharia de Campa- De acordo com a Figura 1, observa-se
nha Paraquedista (8º GAC Pqdt); que a Bda Inf Pqdt possui sua organização
• 20º Batalhão Logístico Paraque- incompleta, pois não possui ativada a Com-
dista (20º B Log Pqdt); Batalhão panhia Anticarro Paraquedista.
de Dobragem e Manutenção Para- Verifica-se, portanto, que a Bda Inf
quedas e Suprimento pelo Ar (Btl Pqdt possui uma demanda administrativa
DOMPSA); elevada, levando-se em consideração seu nú-
• Companhia de Precursores Para- mero de OM subordinadas e o grande efeti-
quedista (Cia Prec Pqdt); Compa- vo de pessoal, que poderá aumentar com a
nhia de Comando (Cia Cmdo) da ativação da Companhia Anticarro.
Bda Inf Pqdt; Muitas atividades administrativas de-
• 1º Esquadrão de Cavalaria Para- senvolvidas nas OM do EB, nas quais se in-
quedista (1º Esqd C Pqdt); serem as OM da Bda Inf Pqdt, são realizadas
• 21ª Bateria de Artilharia Antiaé- pelo efetivo de pessoal destinado às atividades
rea Paraquedista (21ª Bia A AAe operacionais. Observa-se ainda que a criação
Pqdt); de muitos sistemas de controle, sejam eles
• 1ª Companhia de Engenharia de operacionais ou administrativos, aumentou a
Combate Paraquedista (1ª Cia E demanda em efetivo de pessoal para operá-
Cmb Pqdt); -los, o que nem sempre tem sido acompanha-
• 20ª Companhia de Comunicações do com a criação de novos cargos nos quadro
Paraquedista (20ª Cia Com Pqdt); de cargos previstos (QCP) das OM.
• 36º Pelotão de Polícia do Exército Organizações militares tipo base ad-
Paraquedista (36º Pel PE Pqdt); e ministrativa estão geralmente inseridas em
• Destacamento de Saúde Paraque- guarnições militares onde a atividade fim é
dista (Dst Sau Pqdt). considerada mais importante, e a atividade
de apoio (também chamada atividade meio),
Cerca de 1.200 (mil e duzentos) milita- na qual a base administrativa está inserida, é
res ocupam vagas em quadro de cargos pre- colocada em segundo plano. No entanto, ela
vistos (QCP) com encargos administrativos é a responsável por toda a gama de ativida-

88 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


des administrativas, financeiras, contábeis, 16 militares, dos quais aproxima-
patrimoniais e de pagamento de pessoal... damente 19% são especialistas; a
(VILLARINHO JUNIOR, 2009, p 12). Seção de Pagamento de Pessoal
O Cmt Bda Inf Pqdt delega a função possui cinco militares, dos quais
de ordenador de despesas (OD) da Bda Inf 60% são especialistas; a Seção do
Pqdt, conforme possibilita o Art. 26 do Re- FUSEx possui três militares, não
gulamento de Administração do Exército contando com especialistas; e a Se-
(RAE). Esse oficial com o encargo de OD não ção de Transporte Administrativo
faz parte da Base Administrativa (B Adm) da possui três militares, não possuin-
Bda Inf Pqdt. do especialistas.
A B Adm da Bda Inf Pqdt é responsá- • Divisão Administrativa: possui em
vel pela gestão administrativa da GU. Está seu organograma a Chefia, Seção
inserida no Comando da Brigada de Infan- de Administração, Seção de Apro-
taria Paraquedista, não se configurando, visionamento, Seção de Finanças,
portanto, em uma OM. Seu efetivo de pesso- Seção de Aquisição, Seção de Al-
al é composto por oficiais do Cmdo da Bda moxarifado, Seção de Manuten-
Inf Pqdt e por praças da Cia Cmdo da Bda ção e Transporte e Seção de Supri-
Inf Pqdt, dos quais aproximadamente 13% mento, perfazendo um total de 62
são especialistas, seja em Administração, militares, dos quais aproximada-
Contabilidade ou Direito. Possui a seguinte mente 34% são especialistas. Esta
constituição, de acordo com o Quadro de divisão possui a seguinte composi-
Cargos Previstos, em vigor desde 31 de ou- ção de pessoal: a Seção de Admi-
tubro de 2014: nistração possui 13 militares, dos
• Divisão de Comando: enquadra o quais aproximadamente 62% são
Comando da Base Administrativa, especialistas; a Seção de Finanças
que é composto pelo comandante possui sete militares, dos quais
e subcomandante. aproximadamente 71% são espe-
• Divisão de Pessoal: possui em seu cialistas; a Seção de Aquisição pos-
organograma a Chefia, Seção de sui sete militares, dos quais aproxi-
Ajudância-Geral-Secretaria, Seção madamente 71% são especialistas;
de Pagamento de Pessoal e Seção a Seção de Almoxarifado possui 11
do FUSEx (Fundo de Saúde do militares, dos quais aproximada-
Exército) e Seção de Transporte mente 9% são especialistas; a Se-
Administrativo, perfazendo um to- ção de Aprovisionamento possui
tal de 28 militares, dos quais apro- 13 militares, dos quais aproxima-
ximadamente 21% são especialis- damente 15% são especialistas; a
tas. Esta divisão possui a seguinte Seção de Manutenção e Transpor-
composição de pessoal: a Seção de te possui oito militares, não pos-
Ajudância-Geral-Secretaria possui suindo especialistas; e a Seção de

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 89


Suprimento possui dois militares, Administrativa são as que possuem a
não possuindo especialistas. maior parte dos cargos administrati-
• Divisão de Patrimônio: possui em vos, onde as funções administrativas
seu organograma a Chefia, Seção mais importantes estão relacionadas
de Patrimônio, Seção de Tecnolo- àquelas que requerem o emprego de
gia da Informação e Seção de Ser- intendentes ou de especialistas em
viços Gerais, perfazendo um total Administração, Direito e Contabili-
de 36 militares, dos quais aproxi- dade para sua execução;
madamente 63% são especialis- • seu efetivo de pessoal é de 134 mi-
tas. Esta divisão possui a seguinte litares, oriundos do Cmdo da Bda
composição de pessoal: a Seção de Inf Pqdt e da Cia Cmdo da Bda Inf
Patrimônio possui sete militares, Pqdt, e possui 40 militares extra
dos quais aproximadamente 71% QCP, com destaque para a Div Adm
são especialistas; a Seção de Tec- e Div Patm. Os militares extra QCP
nologia da Informação possui 12 são oriundos de praticamente todas
militares, não contando com espe- as OM da brigada, particularmente
cialistas; e a Seção de Serviços Gerais das operativas;
possui 16 militares, não contando • 100% dos militares da B Adm da
com especialistas. Bda Inf Pqdt possuíam experiência
• Divisão de Saúde: possui em seu or- prévia ou treinamento para o exercí-
ganograma a Chefia e a Formação cio de suas funções;
Sanitária, perfazendo um total de • o tempo médio para atingir o ple-
seis militares, não possuindo espe- no desempenho das funções admi-
cialistas. A Formação Sanitária possui nistrativas mais importantes foi de
cinco militares, não possuindo espe- aproximadamente quatro meses;
cialistas. • apesar de o QCP facultar que o Cmt
da B Adm da Bda Pqdt pode acu-
Do estudo realizado, tomando por base mular a função de OD, tal função, na
o QCP e a real distribuição do pessoal, verifica- prática, é exercida por outro militar
ram-se os seguintes aspectos na B Adm da Bda que não integra a B Adm.
Inf Pqdt:
• seus cargos estão distribuídos no O batalhão de infantaria paraquedis-
QCP do Cmdo da Bda Inf Pqdt e da ta é a unidade básica de emprego da brigada.
Cia Cmdo da Bda Inf Pqdt, possuin- Possui aproximadamente 740 militares e tem
do em torno de 24% de especialistas, a seguinte constituição, de acordo com o Qua-
seja em Administração, Direito, Con- dro de Cargos Previstos, em vigor desde 28 de
tabilidade ou do Serviço de Inten- novembro de 2014: Comando e Estado-Maior;
dência; Base Administrativa; Companhia de Comando
• as divisões de Patrimônio, Pessoal e e Apoio; e três companhias de fuzileiros.

90 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


Cerca de 74 militares ocupam vagas em a Seção de Manutenção e Transporte, composta
QCP com encargos administrativos distribuídos de 10 militares, contando com 10% de especia-
nas frações do Btl, o que representa aproxima- listas. Ressalta-se que, nesta divisão, o seu chefe
damente 10% do efetivo total desta unidade. acumula a função de fiscal administrativo, e os
No entanto, alguns cargos previstos no QCP chefes da Seção Administrativa, Seção de Almo-
requerem que o militar seja de Intendência ou xarifado, Seção de Aprovisionamento e Seção
possua uma habilitação em Administração ou de Manutenção e Transporte também acumu-
Contabilidade para execução de sua função. lam outras funções.
O Comando e Estado-Maior é composto A Divisão de Saúde (Div Sau) possui em
pelo comandante do Batalhão, o subcoman- seu organograma a Chefia e a Formação Sani-
dante e o Estado-Maior. tária, perfazendo um total de três militares, não
A Base Administrativa é que reúne a contando com especialistas.
maioria dos encargos administrativos do bata- A Companhia de Comando e Apoio
lhão. Possui 38 militares. É composta pela Di- (CCAp) é composta pelo Pelotão de Comando,
visão de Comando, Divisão de Pessoal, Divisão Pelotão de Comunicações, Pelotão de Supri-
Administrativa e Divisão de Saúde. mento, Pelotão de Manutenção e Transporte,
A Divisão de Comando engloba o Co- Pelotão de Saúde, Pelotão Anticarro e Pelotão
mando da Base. de Morteiros Médios. Possui efetivo de 217 mili-
A Divisão de Pessoal (Div Pess) possui a tares. Esta companhia possui encargos adminis-
seguinte composição: a Chefia, composta pelo trativos apenas no Pelotão de Suprimentos, que
chefe da divisão; a Ajudância-Geral-Secretaria possui 36 militares, dos quais aproximadamen-
possui quatro militares, não contando com es- te 19% são especialistas.
pecialistas; a Seção de Pagamento de Pessoal As companhias de fuzileiros (Cia Fuz) são
possui três militares, dos quais aproximada- compostas, cada uma, pelo Comando da Com-
mente 67% são de especialistas; e a Seção de panhia, Seção de Comando e por três pelotões
Relações Públicas, composta apenas pelo seu de fuzileiros e um Pelotão de Apoio. Estas com-
chefe e que não é formada por especialista. Res- panhias são voltadas exclusivamente para as ati-
salta-se que o chefe desta divisão também é o vidades operativas do batalhão.
Ajudante-Secretário. Do estudo realizado, tomando por base
A Divisão Administrativa (Div Adm) pos- o QCP e a real distribuição do pessoal, verifica-
sui a seguinte composição: a Chefia, composta ram-se os seguintes aspectos no BI Pqdt:
pelo chefe da divisão; a Seção de Administra- • possui aproximadamente 740 milita-
ção possui dois militares, contando com 50% res, e cerca de 74 (setenta e quatro)
de especialistas; a Seção de Próprios Nacionais militares ocupam vagas em QCP
Residenciais possui um militar, não contando com encargos administrativos distri-
com especialistas; a Seção de Aprovisionamento buídos nas frações do Btl, o que re-
possui oito militares, contando com 25% de es- presenta aproximadamente 10% do
pecialistas; a Seção de Almoxarifado possui dois efetivo total da unidade. Contudo,
militares, contando com 50% de especialistas; e apenas sete ocupam vagas de espe-

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 91


cialistas, seja como Intendente, seja A Brigada de Infantaria Ligeira Paraque-
com habilitação em Administração e dista “Almogávares” VI
Contabilidade, o que representa cer-
ca de 1% do efetivo; No exército espanhol, a Brigada de In-
• a Base Administrativa e a CCAp pos- fantaria Ligeira Paraquedista “Almogávares” VI
suem encargos administrativos, sen- (BRIPAC) é uma grande unidade constituída,
do que a maior parte dos encargos adestrada e equipada para ser empregada como
administrativos se concentra na Divi- tal, de acordo com a doutrina específica terrestre.
são Administrativa da Base Adminis- Constitui, junto com as demais brigadas da Força
trativa; Terrestre, um dos elementos fundamentais para
• as funções administrativas destaca- projeção de forças, podendo, nas operações des-
das como mais importantes estão re- ta classe, ser projetada como tal ou servir de base
lacionadas às funções que requerem para constituição de agrupamentos táticos. Sua
o emprego de especialistas em Admi- característica e sua especialidade dão flexibilida-
nistração e Contabilidade; de ao emprego da Força em todo o espectro do
• 50% dos militares que desenvolvem conflito (ESPAÑA, 2015).
as atividades administrativas possu- A BRIPAC se articula em um quartel-ge-
íam experiência prévia ou treina- neral e um número fixo, em cada uma delas,
mento para o exercício de suas fun- de pequenas unidades de combate, apoio ao
ções; combate e apoio logístico ao combate (ESPAÑA,
• o tempo médio para atingir o ple- 2015). Possui a seguinte constituição, segundo o
no desempenho das funções admi- site da BRIPAC:
nistrativas mais importantes foi de • Quartel-General; Batalhão do Quar-
aproximadamente seis meses; tel-General; Bandeira de Infanta-
• existem no total 17 militares extra ria Ligeira Paraquedista “Roger de
QCP na 1ª Seção do EM, na Div Pess Flor” I (BPAC-I);
e na Fisc Adm, que são oriundos do • Bandeira de Infantaria Ligeira Pa-
próprio batalhão. Destes, aproxima- raquedista “Roger de Lauria” II
damente 24% são provenientes de (BPAC-II);
frações com encargos operacionais. • Bandeira de Infantaria Ligeira Pa-
Ressalta-se que um militar extra raquedista “Ortiz de Zarate” III
QCP no batalhão ocupa função de (BPAC-III);
identificador de corpo de tropa, que • Grupo de Artilharia de Campanha;
não existe em QCP. • Batalhão de Sapadores Paraquedis-
• apesar de estar previsto em QCP que tas; e
o Cmt da B Adm acumule a função • Grupo Logístico
de fiscal administrativo, tal função,
na prática, é exercida por outro mili- O Batalhão do Quartel-General é uma
tar, que não integra a B Adm. unidade muito heterogênea porque enqua-

92 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


dra elementos muito diferentes, como a Com- em assuntos econômico-financeiros às unida-
panhia do Quartel-General, a Companhia de des, centros ou organismos (UCO) integrados
Transmissões, a Companhia de Defesa Anticar- ao Quartel-General do Exército, à Força e em
ro, a Companhia de Reconhecimento Avança- apoio à Força (ESPAÑA, 2008, p.1-1).
do, a Companhia de Inteligência, a Companhia A Seção de Assuntos Econômicos (SAE-
de Defesa Nuclear, Química e Bacteriológica, a CO) tem por missão levar a cabo a direção, obten-
Seção de Polícia Militar e a Banda de Guerra ção e controle dos recursos financeiros colocados
(ESPAÑA, 2015). à disposição do Comando bem como auxiliá-lo
O Quartel-General tem a missão de exer- e assessorá-lo na tomada de decisões, para satis-
cer o comando, emprego, instrução e prepara- fazer as necessidades de caráter econômico no
ção da BRIPAC e emprego das unidades que âmbito de sua responsabilidade (ESPAÑA, 2008,
a compõem. O Quartel-General está dividido p.1-1). A Seção de Assuntos Econômicos é o ór-
em: Estado Maior; Seção de Assuntos Econô- gão responsável pela Administração Econômica
micos; e Oficina de Comunicação. A Seção de no seio da Brigada. É importante destacar que a
Assuntos Econômicos (SAECO) é a Unidade do SAECO faz parte do QG.
Serviço de Administração Econômica (USAE), A SAECO, para cumprir suas atribui-
integrada dentro do escalão básico, para apoio ções, dispõe de quatro áreas funcionais, em que

Figura 2 – Organograma da SAECO


Fonte: Manual PA4-902 – Sección de Asuntos Económicos

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 93


se administram as distintas tarefas a realizar. herdadas do passado. Portanto,
Elas são: Chefia, Gestão Econômica, Contra- não há a premissa de preencher o
tação e Contabilidade (ESPAÑA, 2008, p.1-2). QC das SAECO com civis no Exér-
A Chefia exerce o comando da SA- cito Espanhol.
ECO e, além de ser responsável pelo bom • os militares que servem nas seções
andamento da própria unidade, tem como são do Corpo de Intendência, res-
encargo sua direção, podendo ter competên- ponsável pela administração econô-
cias delegadas para efeito de contratação (ES- mica, bem como da especialidade
PAÑA, 2008, p.1-2). Técnica Administração. Portanto,
A área de Gestão Econômica é encarre- não há militares combatentes das
gada de receber e comprovar as liquidações atividades operativas nas SAECO.
das Unidades de Serviço de Administração • o único pessoal não previsto no
Econômica que dependam, funcionalmente, QC, em alguns casos, que trabalha
de elaborar as propostas de pagamento, da nas SAECOs é o pessoal civil acima
preparação e apresentação das contas, assim mencionado.
como de efetuar a movimentação de fundos • o sistema de movimentações para
considerados necessários à contratação (ES- os militares da área administrativa
PAÑA, 2008, p.1-2). é o mesmo que o aplicado para os
A área de Contratação é encarregada integrantes das armas combatentes,
de confeccionar os diversos expedientes de com a ressalva de que somente se
contratação, de receber, tramitar, preparar e movimentam para OM administra-
realizar as atuações necessárias derivadas das tivas. Em qualquer caso, as funções
distintas fases da contratação bem como de que o militar da SAECO realizará
prestar apoio ao órgão de contratação corres- na nova OM, em caso de movimen-
pondente (ESPAÑA, 2008, p.1-2). tação, serão similares às executadas
A área de Contabilidade realiza o regis- anteriormente, por isso, estas mo-
tro contábil em seus aspectos orçamentários, vimentações têm repercussões no
financeiros e, se for o caso, analítico, fornecen- âmbito pessoal ou familiar, mas não
do ao Comando informações necessárias para devem representar uma perda da
a tomada de decisão (ESPAÑA, 2008, p.1-2). eficácia no desempenho das suas
Do estudo mais aprofundado a respei- funções. Portanto, embora os mili-
to da BRIPAC, pode-se constatar que: tares que trabalham na administra-
• o quadro de cargos (QC) das seções ção estejam submetidos ao mesmo
de assuntos econômicos das briga- sistema de movimentações, é possí-
das não tem civis organicamente. vel presumir que não há solução de
No entanto, em alguns casos, fun- continuidade na atividade admi-
cionários civis servem nas seções de nistrativa, uma vez que os mesmos
assuntos econômicos, como resul- desempenharão funções semelhan-
tado de situações administrativas tes, porém em OM diferentes.

94 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


Resultados e discussão requerem o emprego de especialis-
tas em Administração e Contabili-
Nota-se que a estrutura organizacional dade. Foram destacadas em ambos
da Brigada de Infantaria Paraquedista e a da os universos as funções relativas ao
BRIPAC se assemelham e se equivalem, pois, a controle dos próprios nacionais resi-
despeito de a estrutura de logística da BRIPAC denciais e de pagamento de pessoal;
ser mais reduzida, sua estrutura de engenharia • a B Adm da Bda Inf Pqdt possui 40
é maior, ao tempo em que ambas as brigadas militares extra QCP, com destaque
possuem a mesma quantidade de batalhões de para a Div Adm e Div Patm. Os mi-
infantaria e grupos de artilharia. Ressalta-se litares extra QCP são oriundos de
ainda que não foram encontradas na Bda Inf praticamente todas as OM da Briga-
Pqdt estruturas semelhantes às da Companhia da, particularmente das operativas.
de Inteligência e da Companhia de Defesa Nu- Já no BI Pqdt, existem no total 17
clear, Química e Bacteriológica existentes na militares extra QCP nas seguintes
BRIPAC e que, de maneira análoga, não foi repartições: 1ª Seção do EM, Div
encontrada na BRIPAC estrutura semelhante Pess e Fisc Adm. Estes militares são
à da Companhia de Precursores Paraquedista oriundos do próprio batalhão, sen-
(Cia Prec Pqdt) existente na Bda Inf Pqdt. do que aproximadamente 24% são
Do estudo mais aprofundado realizado provenientes de frações com encar-
na Base Administrativa da Bda Inf Pqdt e em gos operacionais. Ressalta-se que um
um BI Pqdt, tomando por base os respectivos militar extra QCP no batalhão ocupa
QCP e a real distribuição do pessoal nos cargos função de identificador de corpo de
previstos, pode-se constatar que: tropa, que não existe em QCP;
• apesar de estar previsto em QCP • 100% dos militares da B Adm da
que o Cmt da B Adm do BI Pqdt Bda Inf Pqdt possuíam experiência
acumule a função de fiscal admi- prévia ou treinamento para o exer-
nistrativo, tal função, na prática, é cício de suas funções. Já no BI Pqdt
exercida por outro militar que não esse percentual foi de 50%; e
integra a B Adm e que poderia in- • o tempo verificado pelos chefes
tegrar o EM visto que, na prática, é da Div Adm da B Adm da Bda Inf
um oficial superior; Pqdt, da B Adm e Fisc Adm do BI
• as funções mais importantes destaca- Pqdt, para dominar plenamente as
das na B Adm da Bda Inf Pqdt estão principais funções administrativas,
relacionadas às funções que reque- foi em torno de seis meses. Ressalta-
rem o emprego de intendentes ou -se que estes locais concentram os
de especialistas em Administração maiores encargos administrativos
e Contabilidade para sua execução. desempenhados por especialistas
Já no BI Pqdt, as funções destacadas em Intendência, Administração e
estão relacionadas às funções que Contabilidade.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 95


De maneira semelhante à da B Adm da A Bda Inf Pqdt é uma GU de emprego
Bda Inf Pqdt, a Sección de Asuntos Económicos estratégico do Exército Brasileiro, que deve
da BRIPAC está inserida na estrutura do Co- possuir alto grau de prontidão para ser empre-
mando da BRIPAC para apoiar toda a Grande gada em qualquer parte do território nacional
Unidade. A estrutura da SAECO comparada bem como no seu entorno estratégico. Possui
com a da B Adm da Bda Inf Pqdt é mais en- uma B Adm responsável pela gestão adminis-
xuta, devido a o seu organograma contemplar trativa da GU, que reúne 15 OM, contudo não
estrutura voltada para a gestão econômica, se constitui em um OM.
contratação e contabilidade, assemelhando-se Dos dados levantados com a presente
à das divisões Administrativa e de Pessoal da B pesquisa, no tocante à B Adm da Bda Inf Pqdt,
Adm da Bda Inf Pqdt. Destaca-se que não há pode-se concluir que:
militares extra QCP na SAECO, e seu efetivo • apesar de possuir em seu QCP um
reúne somente militares do Corpo de Inten- efetivo de 134 militares, ainda pos-
dência e da especialidade técnica de Adminis- sui mais 40 extra QCP, que são pro-
tração, os quais são movimentados somente venientes das demais OM da Bda, o
entre OM administrativas, o que não ocorre na que pode estar impactando negati-
B Adm da Bda Inf Pqdt. vamente as atividades das OM ope-
Verifica-se que a SAECO possui estrutura rativas.
voltada exclusivamente para a gestão econômi- • apesar do fato de 100% dos milita-
ca, contratação e contabilidade, o que não ocorre res possuírem experiência prévia
com a B Adm da Bda Inf Pqdt. Para fins de exe- ou treinamento, a grande quanti-
cução das atividades administrativas, é possível dade de militares extra QCP (cerca
que a SAECO possua demanda administrativa de 30%) sugere que há necessidade
menor, se comparada à da B Adm da Bda Inf de se reformular o atual QCP e que
Pqdt, devido ao fato de possuir um rol de tarefas pode haver necessidade de refor-
administrativas mais específicas e ter vinculada a mular a capacitação que está sendo
si menos organizações militares independentes. conduzida principalmente para os
militares que desenvolvem as prin-
Conclusão cipais atividades administrativas:
intendentes e especialistas em Admi-
O Exército Brasileiro vive um processo nistração, Direito e Contabilidade, o
de transformação que está sendo conduzido que poderia redundar em uma re-
para prepará-lo a atender os desafios do futu- dução na demanda por um maior
ro, bem como alçá-lo à condição de uma força efetivo destinado às atividades admi-
moderna e eficiente. Para tanto a racionaliza- nistrativas.
ção de efetivos é um assunto importante que • o tempo médio de seis meses levan-
pode contribuir de maneira efetiva para o atin- tado para pleno desempenho das
gimento dos objetivos propostos para a citada funções administrativas representa
transformação. cerca de 17% do tempo destinado

96 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


aos oficiais e 11% do tempo das com encargos exclusivamente ope-
praças no exercício de suas fun- racionais — as companhias de fuzi-
ções, se for considerada uma rota- leiros e o Estado-Maior.
tividade de dois anos para os ofi- • o tempo médio de seis meses levan-
ciais e de três anos para as praças. tado para pleno desempenho das
• a B Adm da Bda Inf Pqdt se as- funções administrativas representa
semelha à SAECO, contudo esta cerca de 26% do tempo destinado
possui estrutura voltada exclusiva- aos oficiais e 17% do tempo das
mente para gestão econômica, con- praças no exercício de suas fun-
tratação e contabilidade, o que não ções, se for considerada uma rotati-
ocorre com aquela. vidade de dois anos para os oficiais
• a racionalização de efetivos vislum- e de três anos para as praças. Pode
brada na Transformação do Exérci- ser possível reduzir este tempo, ca-
to cita a contratação de civis, o que pacitando 100% do efetivo que re-
pode ser uma alternativa para a so- aliza as atividades administrativas,
lução de continuidade ocasionada bem como reduzir a demanda por
pelas movimentações dos militares um maior efetivo destinado e estas
que executam trabalhos especiali- atividades.
zados nas áreas de Administração
e Contabilidade na B Adm, apesar Por fim, conclui-se que, do estudo re-
de tal fato não ocorrer no Exército alizado, pode estar havendo prejuízos para o
da Espanha, que optou pela aloca- desempenho das atividades operativas na Bda
ção exclusiva de militares de Inten- Inf Pqdt, em função de os QCP da B Adm e
dência e da especialidade técnica das OM subordinadas carecerem de reformu-
de Administração nas SAECO. lação e aperfeiçoamentos, pois parte dos mi-
litares que vêm sendo utilizados para suprir
Com relação aos dados levantados com a demanda administrativa, que não está con-
a presente pesquisa, no tocante aos BI Pqdt, templada nos respectivos QCP, provém das
pode-se concluir que: frações com encargos eminentemente opera-
• os 17 militares que estão remane- cionais. Portanto, para minimizar tais prejuí-
jados no âmbito do batalhão, so- zos, pode-se aperfeiçoar os QCP, investir em
mados ao militar que ocupa fun- melhor capacitação e aprofundar estudos so-
ção que não existe em QCP e à bre a viabilidade de se contratarem civis para a
desvinculação da função de fiscal execução de algumas funções administrativas
administrativo do Cmt da B Adm, específicas na B Adm da Bda Inf Pqdt, como
podem indicar a necessidade de as realizadas na Seção de Aquisições, Licitações
aperfeiçoar o QCP, uma vez que e Contratos e no Almoxarifado, com intuito de
tais remanejamentos estão afetan- reduzir as soluções de continuidade nos pro-
do frações e órgãos de Comando cessos administrativos.

3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 97


Referências

BRASIL. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa, 2ª Ed. Brasília: EGGCF 2008.

BRASIL. Estado-Maior do Exército. O Processo de Transformação do Exército. Brasília, DF, 2010.

BRASIL. Brigada de Infantaria Pára-quedista. Disponível em <www.bdainfpqdt.eb.mil.br/>.


Acessado em 10/03/15, às 20:25h.

BRASIL. Decreto nº 98 820. Regulamento de Administração do Exército. Brasília, DF,


DOU,1990.

CRUZ NETO, Arlindo José da. Redução dos encargos administrativos nas organizações militares
operativas do Exército Brasileiro. 2013. 155 f. Tese (Doutorado em Ciências Militares). Instituto
Meira Mattos, Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2013.

ESPAÑA. Mando de Adiestramiento y Doctrina. Sección de Asuntos Económicos. Granada, ES,


2008).

ESPAÑA. BRIGADA PARACAIDISTA - BRIPAC. Disponível em <www.ejercito.mde.es/unidades/


Madrid/bripacii/Organizacion/index.html/>. Acessado em 05/05/2015, às 20:00hs.

PEDRO, Everton Lauriano. As vantagens e desvantagens da implantação da Base Administrati-


va, no processo de aquisição de materiais, nas Brigadas de Infantaria. Trabalho de Conclusão de
Curso. Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Rio de Janeiro-RJ, 2012. 34f.

SOUSA, Edivaldo Barbosa Rodrigues de. Bases administrativas em OM valor


Unidade: validação de sua implantação. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso de Altos Estudos
Militares). Escola de Comando e estado Maior do Exército. Rio de Janeiro-RJ, 2001. 36 f.

VILLARINHO JUNIOR, Wanderley Casimiro. A gestão de pessoas no


Exército Brasileiro como ferramenta motivacional para a valorização dos
quadros de uma base administrativa. Trabalho de Conclusão de Curso. Escola de Comando e Esta-
do Maior do Exército / Universidade Castelo Branco. Rio de Janeiro-RJ, 2009. 46 f.

N. da R.: A adequação do texto e das referências às prescrições da Associação Brasileira de Normas


Técnicas (ABNT) é de exclusiva responsabilidade dos articulistas.

98 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017


3 o QUADRIMESTRE DE 2017 ADN 99
Biblioteca do Exército
Cada vez mais a serviço dos ideais,
dos valores e das necessidades da
cultura militar brasileira.

ISSN 0011-7641

www.bibliex.ensino.eb.br
100 ADN 3 o QUADRIMESTRE DE 2017