Anda di halaman 1dari 503

Janeiro / Fevereiro de 2004

Brasil
ano 5 - n 1
o
ISSN 1518-9740

Neurologia
• Estresse e equilíbrio postural
• Fisioterapia na doença de Parkinson
• Transtorno de déficit de atenção
Fisioterapia
Traumato
• Efeitos dos saltos altos sobre articulações e coluna lumbar
• Prevalência de lombalgia em praticantes de exercício

Respiratório
• Aparelho respiratório e envelhecimento
• Facilitação do diafragma pelo método Kabat

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Março / Abril de 2004
Brasil
ano 5 - n 2
o
ISSN 1518-9740
Postura
• Análise da marcha em gestantes
• Personalidade e postura
• Equilíbrio estático de idosos e quedas

Desporto
• Acupuntura cinética e lesões desportivas
Fisioterapia • Ondas curtas e alongamento estático

Veterinário
Tratamento de um cão portador de displasia coxo-femoral

Respiratório
Isostretching e respiração

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Maio / Junho de 2004
Brasil
ano 5 - n 3
o
ISSN 1518-9740
Biomecânica
Marcha e postura com calçado de salto alto

Desporto
· Avaliação postural da seleção brasileira masculina de basquete
· Ruptura por trauma do músculo deltóide
Respiratório
Fisioterapia
· Influência do decúbito ventral em pacientes com hipoxemia
· Complicação na respiração com pressão positiva intermitente
Sexologia
Fisioterapia e aprimoramento da vida sexual feminina

Estimulação elétrica
Limites da estimulação elétrica neuromuscular no fortalecimento
dos músculos

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Julho / Agosto de 2004
Brasil
ano 5 - n 4
o
ISSN 1518-9740

Obstétrica
· Dor sacroilíaca e lombar durante a gestação
· Estimulação transcutânea na dor do trabalho de parto

Traumato
· Artroplastia total do joelho
Fisioterapia
· Ultra-som no tendão calcâneo

ATM
TENS no controle da dor miofascial

Fisiologia
Bases estruturais e moleculares da contração muscular

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Setembro / Outubro de 2004
Brasil
ano 5 - n 5
o
ISSN 1518-9740

Músculo-esquelético
· Eletromiografia com cicloergômetro padrão e aquático
· TENS em hérnia discal lombar
· Estereofotografia de moiré e detecção de escoliose
Joelho
Fisioterapia
· Correção das alterações posturais na luxação recidivante
de patela
· Avaliação proprioceptiva no pós-operatório de ligamento
cruzado anterior

Paralisia espástica
· Toxina botulínica tipo A e paralisia espástica
· Biofeedback-EMG na reabilitação da postura e do padrão
de marcha em paralisia cerebral

Comportamento
Stress e disfunções da ATM

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Novembro / Dezembro de 2004
Brasil
ano 5 - n 6
o
ISSN 1518-9740

Neuro funcional
• Hemiplegia e toxina botulínica tipo A
• Desenvolvimento motor em criança institucionalizada
• Hemisfericidade e prática mental

Esporte
Fisioterapia
• Handebol e instabilidade da articulação glenoumeral
• Avaliação cardiológica do atleta
• Síndrome da dor femoropatelar

Anatomia
Suprimento sanguíneo do osso escafóide

Respiratório
Uso do ventilador mecânico como recurso fisioterapêutico na UTI

a tlântica
e d i t o r a www.atlanticaeditora.com.br
Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 1

○ ○
Fisioterapia Brasil
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Índice
(vol.5, nº1 janeiro/fevereiro 2004 - 01~88)
EDITORIAL
Reflexões sobre a pós-graduação acadêmica lato sensu, a pós-graduação profissional
e a produção cientifica, Marco Antonio Guimarães da Silva ................................................................................................................04

ARTIGOS ORIGINAIS
Alterações hemodinâmicas frente aos exercícios de membros superiores com Thera-band em pacientes
hipertensos controlados, Rodolfo Borges Parreira, Juliana Albano Spiller, Shirley Aparecida Fabris de Souza .................................. 07
Correlação entre hemisfericidade e o aprendizado psicomotor em tarefas de comunicação gestuais,
Yara Sonia Vallado, Geane P.O. Delgado, Denise Oliveira Rezende, Vernon Furtado da Silva, Wesley de P. Melo ....................................12
Saltos altos e artralgias nos membros inferiores e coluna lombar, Flávia Maria Oliveira de Albuquerque,
Elirez Bezerra da Silva
Fisioterapia .....................................................................................................................................................................................16
prática
A interferência da mobilização intra-articular na amplitude de coxofemoral em idosos, Gláucia Ramos Pereira
Henriques, João Santos Pereira, Marco Antônio Guimarães da Silva .............................................................................................................22
Facilitação do diafragma pelo método Kabat como reexpansão pulmonar em pacientes com traumatismo
cranioencefálico e ventilação com suporte pressórico, Sérgio Nogueira Nemer, Jefferson B. Caldeira, Paulo R. S. Filho,
Leandro M. Azeredo, Cláudia S. Geraldo, Ricardo Gago, Monclar R. Polycarpo, Léa K. Ferreira, Cátia M. Coimbra,
Rodrigo A. Ramos, Paulo Cesar P. de Souza ...................................................................................................................................................29
Prevalência de lombalgia em praticantes de exercício contra-resistência, Karynne Grutter Lisboa Lopes dos Santos,
Marco Antônio Guimarães da Silva, João Santos Pereira, Luiz Alberto Batista ...........................................................................................37

REVISÕES
Alterações no consumo de oxigênio, na difusão da membrana alvéolo-capilar e anormalidades músculo
esqueléticas observadas após transplante cardíaco, Luciana Leitão Santos, Gisele Alves Guimarães ....................................45
Análise da influência do estresse no equilíbrio postural, Glória Maria Moraes Vianna da Rosa, Wilma Costa Souza,
Leonardo
GinásticaDavi Laborativa
Pistarino Pinto, Glauco Alexandre Gaban, Alexsandra Dias Serafim, Enio Thalles Batista de Faria ...............................50
Adaptação funcional do aparelho respiratório aos efeitos do envelhecimento: aplicabilidade dos exercícios
globais de força e resistência, Alexandre de Mayor, Renata Ungier de Mayor .................................................................................56
A intervenção fisioterapêutica na doença de Parkinson, Soraya Carvalho da Costa Monte, João Santos Pereira,
Marco Antônio Guimarães Silva ......................................................................................................................................................................61

ESTUDO DE CASO
Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: tratamento fisioterapêutico com abordagem
ludoterapêutica, Alcioney Valeski, Bárbara Lucia Pinto Coelho, Michelle Corrêa Rodrigues .................................................................66

ATUALIZAÇÃO
Graduação da resistência ao movimento durante a imersão na água, Juliana Monteiro Candeloro,
Fátima Aparecida Caromano ...........................................................................................................................................................................73

RESUMOS DE TRABALHOS E CONGRESSOS . ......................................................................................................................77


NORMAS DE PUBLICAÇÃO . .............................................................................................................................................................86
EVENTOS . ..................................................................................................................................................................................................88

índice+exp+editorial.pmd 1 11/02/04, 12:05


2 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Fisioterapia Brasil
Editor científico
Prof. Dr. Marco Antônio Guimarães da Silva (UFRRJ/UCB – Rio de Janeiro)
Conselho científico
Profa. Dra. Fátima Aparecida Caromano (USP - São Paulo)
Prof. Dr. Guillermo Scaglione (Univ. de Buenos Aires – UBA – Argentina)
Prof. Dr. Hugo Izarn (Univ. Nacional Gral de San Martin – Argentina)
Prof. Dr. LC Cameron (UNIRIO - Rio de Janeiro)
Profa. Dra. Margareta Nordin (Univ. de New-York – NYU - Estados Unidos)
Prof. Dr. Mario Antônio Baraúna (Univ. do Triângulo Mineiro - UNIT – Minas Gerais)
Profa. Dra. Neide Gomes Lucena (Univ. Fed. da Paraíba - UFPB – João Pessoa)
Prof. Dr. Norberto Peña (Univ. Federal da Bahia - UFBA – Bahia)
Prof. Dr. Paulo Sérgio Siebra Beraldo (Coord. Mestrado Sarah Kubitschek – Brasília)
Prof. Dr. Roberto Sotto (Univ. de Buenos Aires – UBA – Argentina)

Grupo de assessores
Dr. Antonio Neme Khoury (HGI - Rio de Janeiro) Dra. Lisiane Fabris (UNESC – Santa Catarina)
Dr. Carlos Alberto Caetano de Azeredo (Rio de Janeiro) Dr. Jorge Tamaki (PUC - Paraná)
Dra. Claudia Bahia (FAFIS/IAENE - Salvador) Dra. Marisa Moraes Regenga (São Paulo)
Dr. Carlos Bruno Reis Pinheiro (Rio de Janeiro) Dra. Luci Fabiane Scheffer Novaes (Univ. do Sul de Santa Catarina)
Prof . Dr . Elaine Guirro (Unimep – São Paulo)
a a
Dr. Nilton Petrone (Univ. Estácio de Sá - Rio de Janeiro)
Dr. Esperidião Elias Aquim (Univ.Tuiuti - Paraná) Dr. Paulo Henrique Eufrásio de Oliveira (FAFIS/IAENE - Bahia)
Dr. Farley Campos (UCB - Rio de Janeiro) Dr. Paulo Eraldo C. do Vale (UNICID - São Paulo)
Profa Hélia Pinheiro Rodrigues Corrêa (UCB – Rio de Janeiro) Dr. Philippe E. Souchard (Instituto Philippe Souchard)
Dr. Hélio Pio (Rio de Janeiro) Profa. Solange Canavarro Ferreira (UNESA - HFAG - Rio de Janeiro)
Prof. Dr. João Santos Pereira (UERJ - Rio de Janeiro) Dra. Suely Marques (Rio de Janeiro)

Revista Indexada na LILACS - Literatura


Latinoamericana e do Caribe em Ciências da Saúde

Rio de Janeiro Editoração e arte


Rua da Lapa, 180/1103 Andréa Vichi
20021-180 - Rio de Janeiro - RJ andrea@atlanticaeditora.com.br
Tel/Fax: (21) 2221-4164 / 2517-2749 Administração
e-mail: atlantica@atlanticaeditora.com.br Bárbara de Assis Jorge
www.atlanticaeditora.com.br barbara@atlanticaeditora.com.br
São Paulo Atendimento ao assinante
Praça Ramos Azevedo, 206/1910 Ingrid Haig
Editor executivo ingrid@atlanticaeditora.com.br
01037-010 - São Paulo - SP Dr. Jean-Louis Peytavin
Tel: (11) 3362-2097 jeanlouis@atlanticaeditora.com.br Todo o material a ser publicado deve ser
Assinaturas enviado para o seguinte endereço
Editores associados
6 números ao ano + 1 CD-ROM por correio ou por e-mail
Dr. André Luís Santos Silva
1ano: R$ 156,00 Drª. Tiene Deccache
Jean-Louis Peytavin
Rio de Janeiro: (21) 2221-4164 Publicidade e marketing Rua da Lapa, 180/1103
Representante de Assinatura: A.Shalon René Caldeira Delpy Jr. 20021-180 - Rio de Janeiro - RJ
(11) 3361-5595 rene@atlanticaeditora.com.br jeanlouis@atlanticaeditora.com.br

www.atlanticaeditora.com.br
Ilustração da capa: Ex-votos na gruta do Santuário de Bom Jesus da Lapa, Bahia – Foto: Sarah Milgram, 2003

I.P. (Informação publicitária): As informações são de responsabilidade dos anunciantes.


© ATMC - Atlântica Editora Ltda - Nenhuma parte dessa publicação pode ser reproduzida, arquivada ou distri-
buída por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia ou outro, sem a permissão escrita do proprietário do
copyright, Atlântica Editora. O editor não assume qualquer responsabilidade por eventual prejuízo a pessoas ou
propriedades ligado à confiabilidade dos produtos, métodos, instruções ou idéias expostos no material publica-
do. Apesar de todo o material publicitário estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção
na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou do valor do produto ou das asserções de seu fabricante.

índice+exp+editorial.pmd 2 11/02/04, 12:05


4 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Editorial

Reflexões sobre a pós-graduação


acadêmica lato sensu, a pós-graduação
profissional e a produção cientifica
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Prof. Dr. Marco Antonio Guimarães da Silva

Ainda pensando em um tema para o editorial e, já temendo cobranças


do nosso editor executivo, um francês que trabalha com a precisão e
pontualidade de um relógio suíço, resolvo, fazendo uma digressão no pensar
e, sabe Deus por que, checar o correio eletrônico. Feliz idéia, porque uma
das mensagens anunciava a aprovação, em primeiro lugar em um concurso
público, de uma ex-aluna de um dos cursos de pós-graduação realizados
pela parceria Universidade Castelo Branco e Atlântica Educacional em Brasília.
Desconheço o número de candidatos que concorreram com a nossa ex-
aluna, mas, a julgar pelo desemprego no país e pela quantidade absurda de
inscritos em outros concursos públicos, imagino que a candidata em questão
teve que vencer uma concorrência numérica expressiva, provavelmente de
centenas ou até mesmo de milhares de candidatos. A lista de mensagens
incluía, também, convite para participar de banca examinadora de defesa de
dissertação de mestrado de um outro ex-aluno. Os dois fatos em si e mais as
publicações que alguns dos nossos ex-alunos vem fazendo em periódicos
indexados são, em parte, frutos da política educacional inovadora implantada,
há alguns anos, por nós e renovada a quase todo momento. Não representam,
por isso, surpresas. A surpresa chegaria, mais tarde, na informação de que
um Conselho Regional de uma profissão da área de saúde, que não a nossa,
estava passando a informação de que os cursos de pós-graduação organizados
pela citada parceria, na área daquele Conselho, não tinham validade porque
não eram reconhecidos ou recomendados pelo Conselho Federal daquela
profissão. Os senhores ou senhoras que transmitiram as informações
desconheciam o parecer CES 908/98 do Conselho Nacional de Educação -
CNE/CES- que lá pelas tantas diz o seguinte:

“Assim sendo, a formação pós-graduada de caráter profissional, que pressupõe


necessariamente o exercício, sob supervisão, da prática profissional, poderá ser oferecida
tanto por instituição de ensino superior com atuação tradicional em uma área
específica como em ambientes de trabalho dotados de corpo técnico-profissional
possuidor de titulação profissional ou acadêmica reconhecida e de instalações
apropriadas ou por Sociedade Nacional Especializada ou, ainda, mediante a
celebração de convênios ou acordos entre instituições de ensino superior e estas sociedades.
O valor do título obtido, entretanto, variará segundo as situações a seguir
* Editor científico de Fisioterapia Brasil descritas:
Pós Doutorado na UFRJ 1) Curso de especialização oferecido por instituição de ensino superior: o título
Professor de mestrado recomendado tem reconhecimento acadêmico, e para o exercício do magistério superior, mas não
pela CAPES tem necessariamente valor para o exercício profissional sem posterior manifestação

índice+exp+editorial.pmd 4 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 5

dos conselhos, ordens ou sociedades nacionais profissionais respectivos, nas áreas da


saúde e jurídica;
2) Curso de especialização realizado em ambientes de trabalho qualificados,
credenciados por IES que possuam pós-graduação stricto sensu na área ou em área
correlata ou autorizado pelo CNE ou, por sua delegação, pelos CEE: os títulos
terão reconhecimento profissional e acadêmico;
3) Curso oferecido mediante celebração de convênios ou acordos entre instituições
de ensino, ordens ou sociedades, conselhos nacionais ou regionais com chancela nacional
profissional: os títulos, neste caso, terão tanto reconhecimento acadêmico como
profissional;
4) Cursos oferecidos por instituições profissionais mediante convênio com ordens,
sociedades nacionais, ou conselho: o título tem reconhecimento profissional, mas não
será reconhecido para fins acadêmicos sem a expressa manifestação de uma instituição
de ensino superior.
Em qualquer um dos casos mencionados, os títulos profissional ou acadêmico
reconhecidos terão validade nacional.”

A resolução CNE/CES no 01 de 03/04/01 oferece uma nova leitura para


a pós-graduação acadêmica, sem revogar ou alterar, contudo, o parecer 908/
98, descrito parcialmente acima.
Do exposto podemos concluir que somente a Universidade poderá expedir
o titulo de pós-graduação acadêmica. Os diferentes Conselhos Federais para
fazê-lo terão que estar amparados por convênio que envolva uma Instituição
de Ensino. Os títulos de reconhecimento profissional serão emitidos pelos
Conselhos Profissionais ou por Universidades que possuam curso de Mestrado
ou Doutorado na área ou em área correlata. No caso especifico da parceria
Atlântica/UCB, a titulação oferecida poderá, a critério da Universidade, ser o
de reconhecimento profissional e acadêmico, já que a Universidade em questão
possui curso stricto sensu em área correlata e se prepara para lançar curso na
área de fisioterapia.
Mas o que justifica a inserção de um tema como este, corpo estranho, à
primeira vista, em um editorial?
Sabemos que a Universidade é a grande indutora de proliferação de
trabalhos científicos e que dela saem, direta ou indiretamente, quase que a
totalidade dos artigos enviados às revistas de divulgação cientifica. Portanto,
cursos organizados no âmbito universitário tendem a gerar produção cientifica.
E quanto aos cursos organizados na esfera profissional, sem o entorno
universitário? Seriam também fomentadores de alguma produção cientifica?
Não poderia fazer pré-julgamentos sobre a indução à produção de artigos em
um curso de pós-graduação realizado fora do âmbito de uma universidade ou
sem a influência da mesma, porque o reconhecimento destes cursos por parte
do nosso Conselho na nossa área ainda é recente. Mas a julgar pelo pragmatismo
que envolve os profissionais que se voltam somente à área profissional, sem
vínculos acadêmicos, potenciais clientes dos cursos pós-graduação profissional,
poder-se-ia deduzir que haverá dificuldades em obter desta massa crítica
produção cientifica. Poderá haver uma ruptura no elo da transmissão de
conhecimentos baseados em evidências, caso a minha opinião seja plausível.
O termo “baseados em evidência” é aqui utilizado para classificar trabalhos
que se caracterizam por delineamentos adequados e pela neutralização dos
erros sistemáticos; trabalhos em cujos resultados podemos confiar e que
freqüentemente usam as revistas cientificas como veículo, utilizando-se,
excepcionalmente, dos livros, para o mesmo fim. Isto nos remete a um outro
problema que a universidade tem tentado controlar: a utilização exacerbada
de livros como fonte de consulta.

índice+exp+editorial.pmd 5 11/02/04, 12:05


6 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Ainda somos fortemente influenciados por uma produção baseada em


livros e só agora, ainda muito aquém do desejado, a cultura pela busca de
informações cientificas, em periódicos, torna-se uma realidade. A prova disto
é que a Revista Fisioterapia Brasil em seus quatro anos de criação já alcançou a
marca de 12000 assinantes e esta em franca expansão, sobretudo após a sua
indexação pelo Lilacs/Bireme.
Sabemos que a realidade da pesquisa na área sócio-histórica é diferente, e
que, neste universo, os livros desempenham papel fundamental, mas cabe
repetir, mais uma vez: na área da pesquisa experimental ou quantitativa,
denominada área biológica ou dos fatores biofísicos, não cabe, excetuando
uma ou outra busca, espaço para consultas a livros.
Se resgatarmos o que disse Descartes sobre a responsabilidade dos que
trabalham com o método cientifico, poderemos observar a importância que
um periódico cientifico representa na vida dos que fazem ciência. O filosofo,
pai do cartesianismo, nos diz que o principio básico do método na investigação
cientifica é o de se organizar uma serie de diversos pensamentos, seja para
descobrir algo que se ignora, seja para levar para outros alguma coisa que se
descobriu. A revista cientifica acaba atuando nas duas pontas da afirmação
descartiana, porque permite ao pesquisador buscar, através do que está
publicado, as informações de que necessita para equacionar o problema
levantado, bem como lhe serve de veiculo para levar à comunidade cientifica
os resultados que encontrou.
Dessa forma, a ciência segue o seu rumo, alimentada pela entrada e saída
das informações fornecidas pelos investigadores que o mercado editorial
cientifico, através de seus periódicos, se encarrega de nos trazer.

Comunicado aos assinantes

Temos procurado neste cinco anos sempre aprimorar o sistema de distribuição do periódico para os nossos assinantes.
Na distribuição da última edição de novembro/dezembro, experimentamos uma nova sistemática de envio que, infelizmente,
não correspondeu às nossas expectativas e, com isto, alguns assinantes acabaram não recebendo seu exemplar. Para
muitos, reenviamos a revista pelo correio normal, porém, alguns assinantes ficaram sem seu exemplar, devido à edição
ter se esgotado. Para estes, nós estaremos acrescentando um número no final de sua subscrição. Para tanto, pedimos que
entrem em contato conosco. Aproveitamos para lembrar que na próxima edição, de março/abril, estará encartado o CD-
ROM das edições anteriores para todos os assinantes. Quem não recebeu a revista de novembro/dezembro no formato
papel poderá consultar a mesma no CD-ROM.
A partir desta edição, a revista será distribuída somente pelos Correios, com prazo de distribuição de 10 a 20 dias em
média. A devolução dos exemplares não entregues é garantida, mas, em caso de atraso de mais de 15 dias, por favor entre
em contato com a Editora, pelo telefone ou pelo e-mail: atlantica@atlanticaeditora.com.br.
As datas de chegada das edições no seu endereço são aproximadamente as seguintes: 1 de março, 1 de maio, 1 de
julho, 1 de setembro, 1 de novembro, 1 de janeiro.

Os editores

índice+exp+editorial.pmd 6 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 7

Artigo original

Alterações hemodinâmicas frente aos exercícios


de membros superiores com Thera-band em
pacientes hipertensos controlados
Hemodynamic alterations after exercises of upper limbs with
Thera-band in patients with controlled arterial hypertension

Rodolfo Borges Parreira*, Juliana Albano Spiller*, Shirley Aparecida Fabris de Souza**
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Acadêmicos de Fisioterapia da UNOPAR - Universidade Norte do Paraná, Londrina-PR, **Supervisora de estágio no Ambulatório de
Fisioterapia aplicada a Cardio-vascular, Universidade Norte do Paraná – UNOPAR

Resumo
O objetivo desta pesquisa foi verificar as alterações hemodinâmicas em 14 pacientes
Palavras-chave: hipertensos controlados com exercícios dinâmicos de membros superiores ativo livres e
alterações hemodinâmicas, ativo resistido com Thera-band. Foram divididos três grupos, onde o grupo I realizou
exercícios de membros exercícios ativos livres de braço, o grupo II realizou exercícios resistidos com Thera-
superiores, Thera-band.
band e o grupo III foi o controle. Para a análise estatística dos dados, foi utilizado o
método Anova com nível de significância a 0,05. Os resultados mostram que no Grupo
I, a média geral da freqüência cardíaca inicial e final (MgFCi e MgFCf) foi
respectivamente 80,44 bpm e 90,18 bpm e a média geral da PA inicial e final (MgPAi e
MgPAf) foi 126,4/78 mmHg e 136,2/83 mmHg respectivamente. No Grupo II a
MgFCi e MgFCf foi respectivamente 70,15 bpm e 82,4 bpm e a MgPAi e MgPAf
148/87 mmHg e 147,5/92,5 mmHg respectivamente. O Grupo III apresentou MgFCi
90,46bpm e MgFCf 100,12 bpm e a MgPAi 143/96 mmHg e MgPAf 138,2/94mmHg.
A variação da FC inicial-final (VFCi-f) do grupo I foi 1,74 bpm, do grupo II 12,25 bpm
e do grupo III foi de 9,66 bpm. Na análise da PA sistólica e diastólica inicial e final a
variação (VPASi-f e VPADi-f) do grupo I foi 9,8/5 mmHg, o grupo II de –0,5/5,5
mmHg e o grupo III foi de -4,8/-2 mmHg. Podemos concluir que atividades de membros
superiores com exercícios dinâmicos resistidos com o Thera band, como apresentado
pelo grupo II, representa os melhores valores na redução da pressão arterial, comparando-
se com o grupo I, indicando portanto uma modalidade no tratamento fisioterapêutico
ambulatorial na redução da pressão arterial em pacientes hipertensos.

Artigo recebido 25 de junho de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Rodolfo Borges Parreira, rua São Vicente, 618/504, Centro 86025-901 Londrina-PR, Tel: (43) 3323-4237,
E-mail: paceda@zipmail.com.br.

artigo 02 - Rodolfo.pmd 7 11/02/04, 12:05


8 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Abstract
The aim of this study was to verify the hemodynamic alteration in 14 controlled
Key-words: hypertensive patients with dynamic exercises of upper limb, active and active with
hemodynamics changes, resistance with Thera-band. Three groups were divided, where group I carried through
upper limb exercises, free active exercises of arm, group II carried through exercises resisted with Thera-
Thera-band.
band and group III was the control. The level of significance was chosen at p = 0,05.
The results showed that in Group I, the general average of the initial and final cardiac
frequency (gACFi and gACFf) was respectively 80,44 bpm and 90,18 bpm and the
general average of the initial and final arterial pressure (APgAi and APgAf) was 126,4/
78 mmHg and 136,2/83 mmHg respectively. In Group II the gACFi and gACFf were
respectively 70,15 bpm and 82,4 bpm and the APgAi and APgAf 148/87mmHg and
147,5/92,5 mmHg respectively. Group III presented gACFi 90,46 bpm and gACFf
100,12 bpm and the APgAi 143/96 mmHg and APgAf 138,2/94 mmHg. The variation
of the CF initial-final (VFCi-f) of group I was 1,74 bpm, of group II 12,25 bpm and
of group III it was of 9,66 bpm. In the analysis of the systolic arterial pressure and
diastolic initial and final the variation (VPASi-f and VPADi-f) of group I was 9,8/5
mmHg, group II of 0,5/5,5 mmHg and group III were of -4,8/-2mmHg. We can
conclude that activities of upper limbs with resisted dynamic exercises with Thera
Band, as presented by the group II, represent the best values in the reduction of the
blood pressure, when compared with the group I, indicating therefore a modality in the
physical therapy treatment for the reduction of the blood pressure in patient with
hypertension.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução magnitude da resposta dependem da intensidade do esforço


e do tamanho da massa muscular envolvida [6,7]. Atividades
As patologias cardiovasculares são atualmente as físicas têm sido empregadas em estudos epidemiológicos de
principais responsáveis pela mortalidade no mundo. A hipertensão arterial para tentar diminuir as respostas
prevalência de hipertensão em uma população geral varia hipertensivas.
entre 15-20% [1,2,3] e os níveis de pressão sofrem nítida As formas e os tipos de exercício físico para o sistema
elevação com a idade [2], chegando a índices de até 50% na cardíaco [1,5-19] e para a determinação das respostas
população idosa [3]. cardiovascular [18-28] são bem documentados. Os exercícios
A hipertensão arterial é definida como uma entidade de de membros inferiores e membros superiores apresentam
etiologia múltipla, de fisiopatogenia multifatorial, e sua respostas cardiovasculares diferentes [16,17,18], e estas
presença causa lesão dos chamados órgãos-alvo (coração, diferenças ocorrem em presença da massa muscular
cérebro, vasos, rins e retina) [4]. Fatores como quantidade e envolvida, da rede vascular e do sistema simpático, que
qualidade dos alimentos, tabagismo, fatores genéticos, determinam a freqüência cardíaca.
alcoolismo, obesidade, sedentarismo e estresse, contribuem O objetivo desta pesquisa foi verificar as alterações das
para a elevação da pressão arterial. Para tanto, mudança no respostas hemodinâmicas analisando a freqüência cardíaca e
estilo de vida como dieta balanceada, controle de peso e pressão arterial em pacientes hipertensos controlados com
exercícios físicos moderado em bases regulares trazem exercícios dinâmicos de membros superiores ativo livres e
benefícios para pacientes hipertensos. ativo resistido com Thera-band.
O exercício físico provoca várias alterações fisiológicas
no organismo, mas principalmente no sistema cardiovascular. Material e métodos
Por provocar um aumento das necessidades metabólicas, o
organismo reage para que ocorra um controle diante de uma Foram estudados 14 pacientes (86,6% do sexo feminino
rápida redistribuição do fluxo sangüíneo e uma elevação da e 13,3% do sexo masculino), com idade média de 49,78 ±
perfusão circulatória para os músculos em atividade [5] e a 4,28 anos e que apresentavam diagnóstico de hipertensão

artigo 02 - Rodolfo.pmd 8 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 9

arterial, estando os pacientes em tratamento no Ambulatório MgFCi 90,46 bpm e MgFCf 100,12 bpm (p = 0,358) e a
de Fisioterapia Cardiovascular, na Universidade Norte do MgPAi 143/96 mmHg e MgPAf 138,2/94 mmHg (p sistólico
Paraná, Londrina PR. Todos os pacientes faziam uso de = 0,712 e p diastólico = 0,904).
medicamentos anti-hipertensivos. Foram divididos em 2 A variação da freqüência cardíaca inicial e final (VFCi-f)
grupos com 5 pacientes cada grupo e 1 grupo com 4 do grupo I foi 1,74 bpm, do grupo II 12,25 bpm e a do
pacientes. O grupo 1 foi submetido a exercícios ativos livres grupo III foi de 9,66 bpm, representado no Gráfico 1. Na
de membros superiores (MMSS), o grupo 2 realizou exercícios análise da pressão arterial sistólica e diastólica inicial e final a
de MMSS com Thera-band, e o grupo 3 foi o grupo controle. variação (VPASi-f e VPADi-f) do grupo I foi 9,8/5 mmHg,
Todos os pacientes assinaram o termo de consentimento livre o grupo II de –0,5/5,5 mmHg e o grupo III foi de –4,8/-2
e esclarecido. mmHg, (Gráfico 2).
Os pacientes seguiram um protocolo de tratamento
aplicado no ambulatório de Fisioterapia Cardiovascular que Gráfico 1 – Variação da freqüência cardíaca inicial-final.
constava de aquecimento com caminhada leve, exercícios
calistênicos e alongamentos por 10 minutos, seguido de
endurance com bicicleta e esteira ergométrica por um período
de 30 minutos, desaquecimento com caminhada de baixa
intensidade para reduzir a freqüência cardíaca (FC) e pressão
arterial (PA) por 5 minutos e o relaxamento onde o paciente
descansa em decúbito dorsal com os joelhos semi-fletidos
para a FC e PA voltarem aos seus valores basais ou próximo
do basal por um tempo de 5 minutos.
O grupo 1 realizou exercícios ativos livres de abdução e
adução de braço vertical, abdução e adução de braço
horizontal e flexão de braço. O grupo 2 realizou exercícios
de abdução e adução horizontal de braço e abdução e adução
vertical de braço com Thera-band® (cor amarelo), com
comprimento total de 1,20cm, sendo as extremidades unidas
tornando-o assim com 47cm de diâmetro para a realização Gráfico 2 –Variação da pressão arterial sistólica e diastólica
dos exercícios, e o grupo 3 realizou apenas o protocolo inicial-final.
proposto da terapia. Os exercícios foram realizados a uma
freqüência de uma abdução-adução por segundo. As terapias
foram realizadas com período total de 8 sessões. Os pacientes
tiveram a PA medida por um esfigmomanômetro da marca
Tycos (Welch Allyn Company. USA, 1999) colocado no braço
esquerdo ao nível do coração e em posição sentada [29], e a
FC foi medida por um freqüêncímetro (Polar Electro Ou
Professorintie. Finland, 1999), colocado logo abaixo do
processo xifóide e o relógio no punho esquerdo. A PA e a
FC foram medidas antes e logo após os exercícios propostos
nesta pesquisa.

Resultados

Para a análise estatística dos dados, foi utilizado o método


estatístico Anova com nível de significância a 0,05. Discussão
No Grupo I, a média geral da freqüência cardíaca inicial
e final (MgFCi e MgFCf) foi respectivamente 80,44 bpm e Em uma rotina clínica é comum a administração de
90,18 bpm (p = 0,294) e a média geral da pressão arterial remédios no tratamento de hipertensão arterial [1,18,23],
inicial e final (MgPAi e MgPAf) foi 126,4/78 mmHg e 136,2/ porém há estudos que demonstraram evidências favoráveis
83 mmHg respectivamente (p sistólico = 0,155 e p diastólico do efeito anti-hipertensivo do treinamento físico com
= 0,256). No Grupo II a MgFCi e MgFCf foi respectivamente características aeróbicas. Um trabalho de Cade et al. [19]
70,15 bpm e 82,4 bpm (p = 0,334) e a MgPAi e MgPAf 148/ demonstrou a eficácia da atividade aeróbica na ação anti-
87 mmHg e 147,5/92,5 mmHg respectivamente (p sistólico hipertensiva em pacientes com hipertensão arterial sistêmica,
= 0,979 e p diastólico = 0,579). O Grupo III apresentou a concluindo que pacientes com capacidade física e emocional

artigo 02 - Rodolfo.pmd 9 11/02/04, 12:05


10 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

podem alcançar diminuição significativa na pressão arterial. mmHg), diferente do grupo placebo (+0,9/=0,8 mmHg).
Mas Senitko et al. [26] mostrou que exercícios de endurance Kiyonaga et al. [23] mostrou que houve uma redução na média
provocam a diminuição da pressão arterial semelhante entre da pressão sistólica e diastólica (20/10 mmHg) em 50% dos
um grupo de sedentários e um grupo de indivíduos treinados. pacientes após 10 semanas de treinamento aeróbico.
Nosso estudo demonstrou que a variação da FC inicial e Num determinado nível de consumo de oxigênio, tanto
no final dos exercícios de MMSS após oito sessões de FC quanto PA são elevadas durante o trabalho de MMSS em
fisioterapia, o grupo I, II e III foi respectivamente 1,74 bpm, comparação com os de MMII segundo Toner et al. [9] e
12,25 bpm e 9,66 bpm. A variação da PA sistólica e diastólica Powers & Howley [30]. O grande aumento da PA no trabalho
inicial e final foi do grupo I foi 9,8/5 mmHg, do grupo II de de braço se deve a vasoconstrição no grupo muscular inativo,
–0,5/5,5 mmHg e do grupo III de –4,8/-2 mmHg. Não houve pois quanto maior o grupo muscular envolvido na realização
diferença estatisticamente significativa para a FC nos grupos do exercício, maior a quantidade de vasos de resistência
I (p = 0,294), II (p = 0,334) e III (p = 0,358). Para a pressão dilatada. Essa maior resistência periférica se reflete numa
arterial sistólica e diastólica, também não demonstraram maior pressão arterial [6,9,26,30,31].
diferença estatisticamente significativa nos grupos I, II e III O sistema nervoso também contribui em grande parte
(p sistólico = 0,155 e p diastólico = 0,256), (p sistólico=0,979 com o controle hemodinâmico através do mecanismo
e p diastólico = 0,579) e (p sistólico = 0,712 e p diastólico = barorreflexo e da atividade nervosa simpática que após a
0,904) respectivamente. atividade física diminuem suas atividades nervosas
Pudemos verificar durante o estudo que o grupo I reduziu [6,9,24,25,27,29,28,31], mas ainda há controversas sobre tal
a freqüência cardíaca após a sessão de fisioterapia (Gráfico mecanismo. Chen et al. [27], demonstrou em ratos, uma
1), e apresentou em acentuado aumento na pressão arterial atenuação do tônus simpático e parassimpático (47 ± 12% e
sistólica quanto diastólica em relação aos outros grupos 71 ± 12%, respectivamente) mediado pela desaceleração
(Gráfico 2). Já a freqüência cardíaca foi mais acentuada no cardíaca durante o período precoce de recuperação.
grupo II quando comparado com os outros grupos em
questão. No grupo III tanto a pressão arterial sistólica quanto Conclusão
diastólica reduziram após o trabalho fisioterapêutico (FC
medida após o relaxamento). Isto se equipara com a maioria Atividade anti-hipertensiva não farmacológica como os
dos estudos e demonstra que exercício dinâmico, realizado exercícios físicos são bastante variados, muitas vezes o tipo
regularmente em hipertensos leves a moderados gera de atividade, intensidade, duração e condições climáticas
decréscimos significativos nos níveis de pressão arterial tornam os resultados muito diferentes.
sistólica e diastólica, tanto em repouso, como em esforço Portanto podemos concluir que exercícios dinâmicos
após período de treinamento com a realização dos exercícios livres (grupo I) aumentaram os níveis de PA e diminuiu a FC
aeróbicos e dinâmicos [6,13,15,21-24,26,27]. Ao compararem em comparação com o grupo III (controle) onde teve os
os efeitos do treinamento dinâmico/aeróbico de força, menores índices de valores na pressão arterial e o maior na
sugerem que um programa de exercício aeróbico de freqüência cardíaca, e exercício dinâmico resistidos com
intensidade moderada sem alterações na dieta, em não obesos Thera-band (grupo II) representou a maior elevação da FC
e com hipertensão controlada, parece oferecer pouco e um ligeiro decréscimo na PA sistólica e aumento na PA
benefício no que diz respeito a diminuições no nível de PA, diastólica. Todos os resultado não apresentaram diferença
oferecendo dessa forma pouco suporte para o efeito anti- estatisticamente significativas. Os menores valores de PA
hipertensivo do exercício dinâmico [21-23]. Já Brown et al. apresentados pelo grupo III se equiparam aos outros autores
[24] e Floras et al. [25] relataram não haver redução significativa onde exercícios aeróbicos promovem um decréscimo na
na PA e FC em exercícios dinâmicos de curta duração, e pressão arterial.
Legrarnate et al. (2002)[6] não encontrou mudanças na FC
antes e após exercício máximo. Estas respostas Referências
cardiovasculares frente às alterações da PA e FC que ocorrem
durante os exercícios são decorrentes do tipo de exercício 1. Fuchs FD, Moreira WD, Ribeiro JP. Eficácia anti-hipertensiva
realizado, intensidade, duração e as condições climáticas. do condicionamento físico aeróbico: uma análise crítica das
Em um estudo de Haddad et al. [18] com treinamento evidências experimentais. Arq Bras Cardiol 1993;61:187-89.
físico de membros superiores em paraplégicos num programa 2. Carneiro D, Jardim CBV. Pressão arterial em tribo Xavante:
de 12 semanas, os autores observaram que em repouso a comparação 15 anos depois. Arq Bras Cardiol 1993;61:279-
82.
freqüência cardíaca diminuiu em 14% e a pressão arterial
3. Mion Jr D, Pierini AMG, Guimarães A. Tratamento da
sistólica e a diastólica diminuíram em 4% e 15% hipertensão arterial: respostas de médicos brasileiros a um
respectivamente. Martin et al. [15] comparou atividades inquérito. Rev Ass Med Brasil 2001;47:249-54.
aeróbicas (experimental) com exercícios calistênicos (placebo), 4. Rocha JC. Avaliação clínica do paciente hipertenso. SOCESP
observou uma redução da PA no grupo experimental (-6/-9 1999;9:95-8.

artigo 02 - Rodolfo.pmd 10 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 11

5. Araújo CGS. Fisiologia do exercício físico e hipertensão treinamento físico de membros superiores aeróbio de curta
arterial: uma breve introdução. Hipertensão 2001;4:78-84. duração no deficiente físico com hipertensão leve. Arq Bras
6. Legramante JM, Galante A, Massara M, Attanasio A, Cardiol 1997;69:169-172.
Raimondi G, Pigozzi F, Iellarno F. Hemodynamic and 19. Cade R, Mars D, Wagemaker H, Zauner C, Packer D, Privette
autonomic correlates of postexercise hypotension in patients M, Cade M, Peterson J, Hood-Lewis. Effect of aerobic
with mild hypertension. Am J Physiol Heart Circ Physiol exercise training on patients with systemic arterial
2002;282:960-8. hypertension. Am J Med 1984;77:785-90.
7. Clausen GP - Circulatory adjustment to dynamic exercise 20. Fagart R. Habitual physical activity, and blood pressure in
and effects of physical training in normal subjects and in normal and hypertension. Int J Sports Med 1985;6: 57-67.
patients with coronary artery disease. Prog Cardiovasc Dis 21. Bjorntorp P. Effects of physical training on blood pressure
1976;18:459-95. in hypertension. Eur Heart J 1987;8(suppl 3):71-6.
8. Campos AL, Costa RVC. Atividade física em moderadas em 22. Franz IW. Blood pressure response to exercise in
grandes altitudes: modalidade cardiovascular e respiratória. normotensive and hypertension. Int J Sports Med
Arq Bras Cardiol 1999;73:113-15. 1989;10:596.
9. Toner MM, Glickman EL, McArdle WD. Cardiovascular 23. Kiyonaga A, Arakawa K, Tanaka H, Shindo M. Blood
adjustments to exercises distributed between the upper and pressure and hormonal responses to aerobic exercise.
lower body. Med Sci Sports Exerc 1990;2:773-8. Hypertension 1985;7:125-31.
10. Fardy PS, Yanowitz FG, Wilson PK. Formulação da 24. Brown MD, Dengel DR, Hogikyan RV, Supiano MA.
prescrição de exercícios. In: Reabilitação cardiovascular, Sympathetic activity and the heterogenous blood pressure
aptidão física do adulto e teste de esforço. Rio de Janeiro: response to exercise training in hypertensives. J Appl Physiol
Revinter; 1998. p.161-71. 2002;4:1434-42.
11. Negrão CE, Rondon MUPB, KuIyoshi FHS, Lima EG. 25. Floras JS, Sinkey CA, Aylward PE, Seals DR, Thoren PN,
Aspectos do treinamento físico na presença de hipertensão Mark AL. Postexercise hypotension and sympathoinhibition
arterial. Hipertensão;4:84-6. in borderline hypertensive men. Hypertension 1989;14:28-35.
12. Ellis E, Alison J. Fisioterapia cardiorrespiratória. Rio de 26. Senitko AN, Charkoudian N, Halliwill J. Influence of
Janeiro; 1997. p. 101-14. endurance exercise training status and gender on postexercise
13. Seals DR, Hagberg JM. The effect of exercise training on hypotension. J Appl Physiol 2002;96:2368-74.
human hypertension: a review. Med Sci Sports Exerc 27. Chen Y, Chandler MP, DiCarlo SE. Acute exercise attenuates
1984;16:207-15. cardiac autonomic regulation in hypertensive rats.
14. Jo Y, Arita M, Baba A et al. Blood pressure and sympathetic Hypertension 1995;26:676-83.
activity following responses to aerobic exercise in patients 28. Chandler MP, Rodeibaugh DW, DiCarlo SE. Arterial
with essential hypertension. Clin Exper Theory Practice baroreflex resetting mediates postexercise reductions in
1989;11:411-7. arterial pressure and heart rate. Am J Physiol Heart Circ
15. Martin JE, Dubbert PM, Cushman WC. Controlled trial of Physiol 1998;275:1627-34.
aerobic exercise in hypertension. Circulation 1990;81:1560-7. 29. Pierin AMG, Alavarce JCL, Mion Jr. D. A medida indireta
16. Kelley G, McClellan P. Antihypertensive effects of aerobic da pressão arterial: como evitar erros. Rev Bras Hipertens
exercise: a brief meta-analytic review of randomized 2000;7:31-6.
controlled trials. Am J Hypertension 1994;7:115-9. 30. Powers SK, Howley ET. In: Aplicação ao condicionamento e
17. Bevegård SG, Freyschuss V, Strandell T. Circulatory ao desempenho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Manole; 2000. p.171-2.
adaptation to arm and leg exercise in supine and sitting 31. Kulics JM, Collins HL, DiCarlo SE. Postexercise hypotension
position. J Appl Physiol 1966;21:37-46. is mediated by reductions in sympathetic nerve activity. Am
18. Haddad S, Silva PRS, Barretto ACP, Ferraretto I. Efeito do J Physiol Heart Circ Physiol 1999;276:27-32. C

artigo 02 - Rodolfo.pmd 11 11/02/04, 12:05


12 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Artigo original

Correlação entre hemisfericidade e o aprendizado


psicomotor em tarefas de comunicação gestuais
Correlation between hemisphericity and psychomotor
learning in gesture communication

Yara Sonia Vallado, Geane P.O. Delgado, Denise Oliveira Rezende, Vernon Furtado da Silva, D.Sc., Wesley de P. Melo

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Mestrado em Ciência da Motricidade Humana, Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro

Resumo
O objetivo deste estudo foi correlacionar ganhos de aprendizagem psicomotora
Palavras-chave: expressos em comunicação gestual (Linguagem de sinais) em escolares do ensino médio.
Hemisfericidade, comunicação Teoricamente, para que seja utilizada a comunicação gestual, especialmente na Língua
gestual, Língua de Sinais de Sinais Brasileira (LIBRAS), cada um dos hemisférios cerebrais de uma pessoa
Brasileira (LIBRAS).
ouvinte mostra uma decodificação predominantemente diferente. Sendo assim, no
hemisfério esquerdo prevalecem funções lingüísticas e no hemisfério direito prevalecem
funções viso-espaciais. A questão de pesquisa foi associada à possibilidade de que em
casos de mono hemisfericidade esquerda, esta relação pudesse não ocorrer. Uma
amostra de 100 alunos de ambos os gêneros, na faixa etária compreendida entre 15
e 17 anos, permitiu a identificação de 11 estudantes bi-hemisféricitos (HB), 7
hemisféricitos esquerdo (HE) e 5 hemisféricitos direito (HD), sendo que tais
identificações foram definidas pelo Teste de Movimento Conjugação Lateral dos
Olhos (CLEM). Os componentes destes grupos foram submetidos posteriormente
ao teste de sinais significativos de LIBRAS. Os dados obtidos foram tratados
estatisticamente através de uma análise de variância cujos resultados revelaram
diferenças significativas em ganhos favoravelmente ao grupo mono-hemisférico
esquerdo sendo p < 0,05, como observado através do teste posterior de Tukey. Este
resultado contraria a teoria da direcionalidade hemisférica quando o fenômeno da
hemisfericidade não
é considerado.

Artigo recebido em 24 de novembro de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Prof. Dr. Vernon Furtado da Silva, Mestrado em Ciência da Motricidade Humana, Universidade Castelo Branco, Avenida
Santa Cruz, 1631 Realengo 21710-250 Rio de Janeiro RJ, E-mail: vfs@castelobranco.br

artigo 05 - Vernon.pmd 12 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 13

Abstract
The aim of this study was to establish a correlation between hemispheres and the
Key-words: psychomotor learning in connection with the gesture communication. When the gesture
Hemisphericity, gesture communication is practiced, especially in the Brazilian Sign Language (LIBRAS), each
communication, Brazilian of the brain hemispheres of the listening person reveals a predominantly different
Sign Language (LIBRAS)
decode. Therefore, in the left hemisphere prevails the linguistic functions and in the
right hemisphere the space-vision. In this study participated 100 students of both sexes,
15 to 17 years old. Once selected, the group was submitted to the CLEM test in order
to identify the preference of the hemisphere processing. The students were then divided
in three hemispheric groups, that is, the right hemisphere, the left hemisphere and the
bi-hemispheres. The components of each group were submitted to an individual selective
test including significative competency in relation to the communicative gestures signs.
The results were statistically treated through variance analyse with p ≤ 0,05. The results,
according to the performance of each student, indicated evidences that the linguistics
aspects are preferably processed in the left hemisphere.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução pelo menos em parte ser determinada, pelo meio ambiente.


Também é possível se afirmar que o hemisfério esquerdo
O cérebro é dividido em duas partes, sendo, estas, está relacionado com as habilidades verbais, enquanto as
denominadas hemisférios. De um modo geral, o hemisfério habilidades não-verbais dependem mais do hemisfério
esquerdo controla a metade direita do corpo e vice-versa, em direito [1].
razão do cruzamento das fibras nervosas na região A hemisfericidade cerebral está relacionada não só aos
correspondente ao tronco encefálico. Os hemisférios cerebrais fatores genéticos, maturativos, neuroquimicos, já citados, mas
aparentemente são iguais, mas na realidade, têm diferenças também, a outras influências, como posturas assimétricas
anatômicas, neuroquímicas, funcionais, que de certa forma, durante o período pré-natal. Estas assimetrias posturais
estão definidas geneticamente, mas que se aprimoram com a favorecem processamentos hemisféricos diferenciados tanto
maturação, com a interação com o meio, proporcionando perceptivos como motores. Dois terços dos fetos no terceiro
assim a especialização de cada hemisfério. Outras assimetrias trimestre da gestação, estão posicionados com o seu lado
também podem estar presentes em cérebros humanos [1]. direito externamente. Estimulação sensorial lateralizada
No presente estudo entendemos como hemisfericidade durante o desenvolvimento pré e pós-natal pode determinar
cerebral a acentuada tendência do processamento de assimetrias cerebrais [3].
informações ser representado em um dos hemisférios, Os fetos do sexo masculino têm um hemisfério cerebral
independente da especificidade do indivíduo. Ou seja, é a direito maior do que o hemisfério cerebral esquerdo. Além
capacidade superior de um dos hemisférios sobre o outro, disso, há evidências de que o cérebro masculino pode ser na
para a execução de determinadas funções. média mais lateralizado ou assimétrico do que o feminino.
Na maioria das pessoas, a área de Broca está localizada Essas e outras diferenças na organização cerebral podem
na área cortical do lobo frontal do hemisfério esquerdo, sendo estar subjacentes diferenças entre os gêneros, como, por
responsável pela compreensão da linguagem e pela produção exemplo, a maturação mais precoce das mulheres, o melhor
da fala. A área de Broca realiza o planejamento dos desempenho das mulheres em tarefas lingüísticas, o melhor
movimentos para a produção da linguagem falada e também desempenho dos homens em tarefas viso-espaciais, e a maior
a organização gramatical. A área de Wernicke é responsável incidência de canhotos entre os homens.
pela compreensão da linguagem falada e está localizada na O sistema nervoso do neonato já está bem desenvolvido
área cortical parieto-temporal do lobo esquerdo [2]. o que permite a criança, gradualmente com a maturação,
Com referência às funções lingüísticas, a dominância é adquirir o sentido de direcionalidade, temporalidade,
determinada geneticamente, mas a preferência manual pode, ritmicidade e lateralidade e a coordenação motora.

artigo 05 - Vernon.pmd 13 11/02/04, 12:05


14 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

De acordo com Goleman, citado por Fernandes [3], a Instrumentos: teste CLEM
partir dos 5-6 anos de idade os hemisférios apresentam
relativa plasticidade em sua habilidade para desenvolver O Teste de Movimento Conjugação Lateral dos Olhos
diferentes funções, e só então começam a se especializar. (CLEM) é correlacionado por parâmetros científicos com
As funções simbólicas predominam sobre as motoras, a índices altamente significativos, comparados aos resultados
partir do décimo ano de vida. É durante a infância que a obtidos através da eletroencefalografia e a tomografia por
lateralização consolida os processos específicos de habilidades emissão de prótons [5], cujo objetivo é detectar as tendências
dentro dos hemisférios cerebrais esquerdo e direito de preferência de processamento hemisférico de um
considerando-se uma população normal [3]. indivíduo.
Atualmente, temos muitas formas de comunicação através Alguns cuidados na aplicação do teste foram tomados,
de sinais visuais como, por exemplo, a sinalização homógrafa como por exemplo, aplicação individualmente em condições
usada para a comunicação naval; a comunicação através de físicas, mentais e emocionais adequadas aos procedimentos
sinais nos aeroportos, no trânsito, etc. A Língua Brasileira de e objetivo da testagem, evitando dessa forma distrações
Sinais (LIBRAS), língua materna dos indivíduos portadores visuais e auditivas.
de surdez, é uma das formas de comunicação, que se realiza O presente teste foi aplicado com o indivíduo sentado,
visualmente através de movimentos coordenados, estruturação dentro de uma cabina própria. Foi realizada uma filmagem
espaço-temporal é ao mesmo tempo, uma forma simbólica de da direção dos movimentos dos olhos, relacionando questões
comunicação, apresentando conotações emocionais que são pertinentes à natureza de cada hemisfério, ou relativamente
transmitidas através de expressões faciais e corporais. A Língua à natureza bi-hemisférica do indivíduo.
de Sinais apresenta características para as quais cada um dos Foram selecionadas e aplicadas a as perguntas cujo
hemisférios cerebrais de pessoas ouvintes desenvolve objetivo era examinar a capacitação hemisférica direita. A
características hemisféricas diferentes [4]. reação contra-lateral dos olhos foi registrada pela filmadora
Considerando os conceitos já mencionados, presentes em e analisada durante o processamento de sua resposta.
indivíduos com processamentos hemisféricos diferentes, Os resultados foram aferidos através das imagens registradas
este trabalho objetiva verificar, nos indivíduos já em uma fita de vídeo, assinalando também o movimento do
selecionados, através da aplicação do Teste CLEM, como olhar nas fichas contendo as figuras tipo “face de relógio”,
hemisféricitos direito, esquerdo e bi-hemisféricitos, qual a conforme Borg, citado por Fairweather e Sidaway [5].
diferença existente nos processamentos envolvendo uma Posteriormente foi feita uma análise entre os registros das
comunicação por sinais visuais. Para esta análise, recorremos imagens e dos cartões para garantir a fidedignidade
a alguns sinais utilizados na Língua de Sinais Brasileira, a dos resultados.
qual engloba funções lingüísticas e como tal possivelmente Para a verificação da capacidade diferenciada de
realizada preferencialmente por indivíduos hemisféricitos reprodução, compreensão dos sinais envolvendo posições
esquerdos; ao mesmo tempo, esta comunicação requer não espaciais, direcionalidade, movimentos seqüenciais, praxia
só a decodificação percepto-visual, a transposição do visual fina, foi utilizada uma lista de dez sinais da LIBRAS.
para movimentos corporais, manuais e expressivos, Os seguintes sinais foram utilizados: bom dia, obrigado,
utilizando a percepção espacial, a relação espacial, difícil, trabalho, homem, perguntar, amigo, cachorro,
movimentos seqüenciais rítmicos e memória sendo estes nascer, branco.
aspectos mais pertinentes ao hemisfério direito.
Considerando os conceitos já expostos, questionamos qual Procedimentos
é o hemisfério que melhor processa funções lingüísticas
mais relacionadas com o hemisfério esquerdo e funções A pesquisa foi realizada individualmente, no turno da
viso-espaciais, mais próprias do hemisfério direito, ou ambos manhã, em sala com boa luminosidade e silenciosa. Os
os hemisférios participam em igualdade. indivíduos participantes, já selecionados como
hemisféricitos diferenciados (HD, HE e BH), inicialmente
Método receberam a explicação sobre a natureza da pesquisa.
Questionou-se também o conhecimento prévio dos sinais
Amostra da LIBRAS. Só participaram os que não conheciam os
mesmos. Foi realizado um treino individual, com a
Após a aplicação do Teste CLEM em 100 indivíduos apresentação de cada sinal por duas vezes, pelo pesquisador
selecionando-os como bi-hemisféricitos (HB), hemisféricitos e reprodução por duas vezes pelo participante. Após este
esquerdo (HE) e hemisféricitos direito (HD), todos na treino, os dez sinais foram reproduzidos em seqüência pelo
faixa etária entre 15 e 17 anos, foi realizado o estudo com pesquisador. Finalmente, foi solicitada ao participante a
referência ao aprendizado da LIBRAS com a participação de reprodução um a um, à medida que cada sinal era nomeado
23 indívíduos. pelo pesquisador.

artigo 05 - Vernon.pmd 14 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 15

Avaliação Fig. I

Foram contabilizados como acertos a reprodução exata


dos sinais testados, tanto em relação aos aspectos visuo-
espaciais, a coordenação dos movimentos, a sua
direcionalidade e ao significado lingüístico dos mesmos.

Tratamento estatístico

Os dados oriundos dos resultados à apresentação dos


sinais da LIBRAS foram estudados através de uma análise
de variância modelo Oneway, com testes posteriores de Tukey
para se definir a direção das possíveis diferenças entre grupos. Conclusão
Também foi utilizada estatística descritiva, com médias e
desvios mostrados em tabelas comparativas. Para o teste da Concluiu-se, após a comparação dos resultados obtidos,
hipótese principal, utilizou-se a probalidade de erro alpha £ entre os indivíduos HB, HE e HD uma significativa
0,05. prevalência favorável aos indivíduos HE sobre os HD,
sugerindo que mesmo quando a comunicação não é
Resultados e discussão realizada verbalmente e sim através de movimentos viso-
espaciais com conotações emocionais, cuja competência é
Os resultados da análise de variância utilizada no estudo mais pertinente ao hemisfério direito, ainda assim, a LIBRAS
dos dados dos testes indicaram haver significância estatística apresenta maior incidência de processamento no hemisfério
conforme mostrado na Tabela I. Ou seja, com F(2,19) 77,14; esquerdo sinalizando que os aspectos lingüísticos
p < 0,05. Utilizando-se os testes posteriores de Tukey ficou predominam sobre os espaciais no aprendizado e
evidente que o grupo de indivíduos bi-hemiféricitos foi compreensão da LIBRAS.
significativamente superior em performance do que o grupo
hemisféricito direito e também superior ao grupo Referências
hemisféricito esquerdo, todavia, neste caso, sem significância
considerável. Também revelou aquela análise detalhada que 1. Brodal A. Anatomia neurológica com correlações clínicas.
os hemisféricitos esquerdos foram melhores que os indivíduos São Paulo: Roca; 1984.
hemisféricitos direitos. 2. Cupello RCM, Miranda ABR. Rupturas em trajetos
Foi possível concluir, após a comparação dos resultados cerebrais subjacentes a alguns sinais neurolingüísticas
obtidos, entre os indivíduos HD, HE e BH significativa encontrados em diversos tipos de afasia. Fono Atual 2003;
prevalência favorável aos indivíduos HE sobre os HD, 6(23):42-59.
sugerindo que nos mesmos, quando a comunicação não é 3. Fernandes V. Papel dos hemisférios do cérebro. [citado
2003 set 24]. Disponível em URL: http://www.
realizada verbalmente e sim através de movimentos viso-
interfisio.com.br.
espaciais com conotações emocionais, cuja competência é 4. Moura MC, Lodi AC, Pereira MC. Língua de sinais e educação
mais pertinente ao hemisfério direito, ainda assim, a LIBRAS do surdo. São Paulo: Sociedade Brasileira de Neuropsicologia;
apresenta maior incidência de processamento no hemisfério 1993.
esquerdo, sinalizando que os aspectos lingüísticos 5. Fairweather MM, Sidaway B. Estratégias pedagógicas
predominam sobre os espaciais no aprendizado e hemisféricas utilizadas na aquisição e na retenção de uma
compreensão da LIBRAS. Em relação ao BH e HE não habilidade motora. American Alliance for health physical
ocorreu prevalência significativa. education, recreation and dance 1995; 65. C

Tabela I - Apresentação das médias dos grupos e hemisféricos, desvio-


padrão e testes posteriores respectivos.
Grupos Média DP Test posterior (Tukey) Sig.
hemisféricos
HD (G1) 4,60 1,34 HD x HE (0,04) e BH (0,004)
HE (G2) 6,50 1,04 HE x HD(0,04) e BH(0,689)
BH (G3) 7,00 1,18 BH x HD(0,004) e HE(0,689)

Para efeito de uma melhor compreensão sobre os


resultados, os dados acima estão mostrados na Figura 1.

artigo 05 - Vernon.pmd 15 11/02/04, 12:05


16 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Artigo original

Saltos altos e artralgias nos membros


inferiores e coluna lombar
High-heels and articular pain in lower limbs
and lumbar spine
Flávia Maria Oliveira de Albuquerque*, Elirez Bezerra da Silva, M.Sc.**
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Universidade Gama Filho – UGF, **Fisioterapeuta e Professor de Educação Física,


Professor Fisioterapia Desportiva - UGF

Resumo
Introdução: a marcha em calçados de salto alto causa várias alterações posturais
Palavras-chave: que devem ser acomodadas na cinemática dos membros inferiores, pelve e coluna
Dor músculo-esquelética, lombar. Objetivo: verificar o efeito dos calçados de salto alto sobre a dor articular e
calçados femininos, alterações muscular nos membros inferiores, pelve e coluna lombar. Material e Métodos: foram
articulares degenerativas.
analisadas 20 mulheres, divididas em dois grupos iguais, de acordo com o uso de
salto alto ou baixo e que permanecem em posição ortostática em média de seis horas
por dia. Através de questionário e ficha de avaliação postural, foram realizados testes
de inspeção e palpação articular e muscular específicos para membros inferiores e
coluna lombar. Resultados: o grupo que utilizou saltos altos apresentou dores e
alterações em proporções maiores, principalmente nos pés, tornozelos e
compartimento medial dos joelhos, bem como estresse tecidual, dor considerável à
palpação do quadrado lombar. Um achado bastante relevante foi o fato de todas as
participantes do grupo experimental (100 %) apresentarem eversão do antepé e
marcha em pronação excessiva, contribuindo para maior pressão na faceta e retináculo
medial do joelho em 60% das voluntárias. Conclusão: os calçados de salto alto causam
dor na faceta medial do joelho, eversão do antepé e marcha em pronação significativas.

Artigo recebido 9 de dezembro de 2003; aceito 15 de janeiro de 2004


Endereço para correspondência: Flávia Maria Oliveira de Albuquerque, Rua Voluntários da Pátria, 161/701 Ipiranga 31140-630 Belo Horizonte MG,
Tel: (31) 3421-6086/8818-6086, E-mail: flavia.albuquerque@globo.com, Elirez Bezerra da Silva: elirezsilva@openlink.com.br

artigo 01a - Flávia.pmd 16 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 17

Abstract
Introduction: High-heeled gait causes a lot of postural changes that must be
Key-words: accommodated in the kinematics of the lower limbs, pelvis, and spine during gait.
Muscle-skeletal pain, female Objective: To verify the effects of high-heeled shoes on articular and muscle pain in the
shoes, degenerative bone and lower limbs, pelvis and lumbar spine. Material and Methods: Twenty women were analyzed,
joint disease.
divided equally in two groups, according to the wearing of high-heeled shoes or low and
that spent an average of six hours in a standing position. The examining postural test
consisted of questionnaire, viewing and specific palpation trials for lower limbs and
lumbar spine. Results: High-heeled group had much greater changes and pain, mainly in
the feet, ankles and medial compartment of the knees, as well as tissue stress, such as
considerable pain to the palpation of the square lumbar spine muscle. All of the subjects
(100%) of experimental group presented everted forefoot and excessive pronated gait
as the most relevant aspect that leads to higher pressure in medial facet and retinaculum
of the knee in 60% of the volunteers. Conclusion: High-heeled shoes, higher than five
centimeters, cause pain in the medial facet of the knee, significant everted forefoot and
pronation of the foot during gait.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução para frente, os músculos abdominais e paraespinhais


contraem [8]. Com a retroversão pélvica, os músculos
Observado por Opila, entre outros autores, a marcha em ísquiotibiais se tornam relaxados.
calçados de salto alto, comparada à de salto baixo, causa várias Estudos recentes têm mostrado que o calçado inadequado
alterações posturais como força compressiva sob a cabeça especialmente usado pelas mulheres, por longo tempo, tem
dos metatarsos, aumento da flexão plantar do tornozelo, sido o principal causador de alterações no antepé [9-11]. O
passadas mais curtas e em menor velocidade, oscilação da aumento na altura do salto leva a um aumento de força
pronação e supinação do pé, aumento da flexão do joelho na compressiva sob a cabeça dos metatarsos [1]. Saltos a partir
fase de apoio, diminuição da flexão do joelho e do quadril na de 5 cm diminuem a carga sob o calcâneo e transferem a
fase de oscilação, bem como diminuição da amplitude de carga para as cabeças dos metatarsos [10]. A forma anterior
movimento da pelve anteroposteriormente [1-5]. do calçado tem uma importante influência na distribuição
O aumento das cargas compressivas, as alterações dos picos máximos de pressão [12]. Um calçado muito
biomecânicas do pé e a instabilidade do contato do calcanhar estreito e fechado na frente impõe uma força lateral dirigida
devem ser acomodados na cinemática dos membros ao hálux e primeiro metatarso, bem como uma força
inferiores, pelve e coluna durante a marcha. Por outro lado, medialmente direcionada ao quinto pododáctilo e quinto
movimentos compensatórios alteram os padrões de stress metatarso. Segundo Xing, o hábito, iniciado pelas chinesas,
tecidual o que pode contribuir para os sintomas de dor lombar de usar sapatos de ponta fina e de saltos altos tem provocado
associada ao uso de saltos altos [4]. Muitos observadores uma das alterações mais comuns do pé, o hálux valgo [10].
clínicos enfatizam que saltos altos aumentam a lordose lombar Um grande número de pesquisas tem sido realizado
[5]. No entanto, Bryan et al. realizaram um estudo sugerindo quanto ao estudo comparativo das alterações provocadas pela
que a percepção do aumento da lordose lombar deve ter sido marcha em saltos altos, baixos e sem calçado. No entanto,
influenciada pela proeminência glútea [6]. A análise postural, vários autores, entre eles, Snow [2] mencionaram a
com diferentes alturas de saltos mostrou que em saltos necessidade de estudos quantitativos e investigações clínicas
elevados a pelve tende a retroverter, causando retificação da para avaliar a relação entre o uso prolongado de saltos altos
coluna lombar [7]. Isso, provavelmente, é uma tentativa de e alterações ortopédicas, articulares e degenerativas.
superar a inclinação anterior do tronco que está associada ao Este estudo teve por objetivo verificar o efeito dos
uso de calçados altos. Para reposicionar o centro de gravidade calçados de salto alto sobre a dor articular e muscular nos
do corpo mais posteriormente e aliviar a sensação de cair membros inferiores e coluna lombar.

artigo 01a - Flávia.pmd 17 11/02/04, 12:05


18 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Material e métodos sem queixa de dor. As participantes realizaram movimentos


ativos dos pés e tornozelos (dorsiflexão/flexão plantar;
Sujeitos inversão/eversão; circundução) e dos joelhos (flexo/extensão,
rotação) em posição sentada. Os movimentos de flexão/
Participaram do presente estudo 20 mulheres, saudáveis, extensão, inclinação e rotação da região lombar foram
voluntárias e ativas, que foram categorizadas em dois grupos observados em posição ortostática.
de acordo com o uso de salto alto ou baixo. Mulheres usuárias Os testes de palpação abrangeram as articulações do pé e
de salto plataforma, bem como as que relataram alterações tornozelo (fáscia plantar, cabeça dos metatarsos, calcâneo,
de ordem ortopédica ou neurológica foram excluídas do maléolos e ligamentos, interósseos), do joelho (retináculo
estudo. A faixa etária do grupo de salto baixo variou de 19 a medial e lateral, faceta medial e lateral, borda superior e
48 anos (32,4 ± 10,6), a estatura foi de 1,53 a 1,65 m (1,6 ± inferior da patela) e coluna sacrolombar (músculo quadrado
0,04 m) e o peso corporal entre 50,5 a 65 kg (56,5 ± 5,49); a lombar, vértebras lombares e do sacro), com as voluntárias
idade do grupo de salto alto variou entre 19 a 41 anos (27,5 na posição decúbito dorsal e ventral.
± 7,72), a estatura foi de 1,58 a 1,75 m (1,66 ± 0,06) e o peso Aproveitando-se o teste de palpação da articulação do
corpóreo entre 47 a 64,8 kg (56,96 ± 5,81). joelho, foram avaliados o derrame intra-articular e a crepitação
articular.
Calçados O teste de derrame intra-articular foi realizado em
decúbito dorsal com uma mão exercendo pressão na região
As participantes foram selecionadas de acordo com o uso distal do quadríceps e outra no centro da patela em direção à
de calçados mais freqüentes e divididas em dois grupos: 10 tróclea, comprimindo e descomprimindo a mesma. Em caso
que utilizavam saltos abaixo de 5 centímetros e 10 mulheres de presença de derrame, é possível sentir o sinal da tecla que
usuárias de saltos acima de 5 cm. a patela faz ao ser comprimida contra a tróclea.
Por ter sido realizado no verão, os calçados eram abertos, A crepitação articular foi percebida através da mesma
tipo sandálias. O número do calçado do grupo de salto baixo posição anterior com a participante realizando a flexo-
variou entre 35 a 37 (35,85 ± 1,07) e o de salto alto de 33 a extensão do joelho.
38 (35,85 ± 1,77). A altura dos calçados de saltos altos foi de À inspeção foram avaliadas as formas, os arcos, o
5 a 10 cm (6,3 ± 1,3 cm) e a de saltos baixos ou rasteiros alinhamento dos dedos e bordos internos/ externos dos pés.
variou de 0 a 4 cm (1,4 ± 0,44 cm). Os joelhos foram observados quanto ao alinhamento dos
Ambos os grupos trabalhavam em posição ortostática membros inferiores com a participante em posição
por no mínimo 4 a 12 horas diárias, média de 6 a 7 horas/ ortostática. co
dia por período mínimo de um ano. Foram avaliadas a mobilidade da coluna lombar ântero-
posterior, as inclinações laterais e o equilíbrio lombo-pélvico
Artralgia nos membros inferiores nos três planos: frontal, sagital e horizontal. Para a análise
e coluna lombar dos três planos, os olhos do fisioterapeuta foram posicionados
ao nível das cristas ilíacas com as voluntárias em posição
Com a utilização de questionário e ficha de avaliação ortostática. No plano frontal (voluntária de costas para o
postural foram realizados testes específicos para membros terapeuta), foi observada a altura das cristas ilíacas pelo
inferiores e região lombar. As participantes foram questionadas posicionamento do dorso das mãos do examinador exercendo
quanto ao conforto do calçado, ao incômodo no pé ao fim do pressão para baixo, verificando se ambas estavam situadas
dia e à escolha por um determinado calçado [13]. no mesmo plano horizontal. No plano sagital, pela localização
Por se tratar de um estudo com o objetivo de avaliar da espinha ilíaca ântero-superior e da espinha ilíaca póstero-
alterações provocadas pelo tipo de calçado, ênfase foi dada inferior, com a participante de perfil. Os dedos indicadores
aos testes em postura estática, bem como testes palpatórios do terapeuta foram posicionados sobre as espinhas e foi
[14]. O teste dinâmico (da marcha) foi realizado na intenção verificado se ambas situavam-se na horizontal ou se havia
de levantar dados de observação clínica, visto que vários desequilíbrio, por estarem situadas em um plano oblíquo.
autores registraram informações mais detalhadas e precisas No plano horizontal, o terapeuta apoiou levemente a polpa
em outros artigos. O material utilizado para avaliação incluiu dos polegares contra as espinhas ilíacas ântero-superiores da
fita métrica, papel para plantigrafia, lápis ou caneta, tinta pessoa examinada e observou a posição de seus polegares de
guache, goniômetro, régua grande (60 cm) e máquina digital. cima para baixo. Estes deviam estar em uma mesma linha
O critério de avaliação da dor foi de acordo com a queixa horizontal, situada em plano frontal ao paciente. Se um dos
das voluntárias aos testes articulares e de palpação. polegares estivesse mais posterior do que o outro, a pelve
Os testes articulares compreenderam a amplitude dos encontrava-se desalinhada no plano horizontal, ou seja, em
movimentos das articulações dos membros inferiores e da rotação para esse lado [14].
lombar onde foi verificado se havia boa mobilidade articular A flexibilidade da cadeia muscular posterior foi testada

artigo 01a - Flávia.pmd 18 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 19

com as participantes de pé, joelhos em extensão, pés estruturas, que foram relacionadas abaixo de acordo com
aproximados, realizando flexão do tronco com as mãos em as áreas mais sensíveis à palpação.
direção ao chão, sem forçar. Observando de perfil, foram
analisados a amplitude, o posicionamento ou a presença dos Discussão
seguintes itens: o ângulo tíbio-társico, joelhos, ângulo
coxofemoral, cuvette lombossacral, retificações vertebrais, A quantidade de mulheres que usou salto alto e referiu
posição cervical e distância dedo-chão. O ângulo tíbio-társico dor aos testes articulares foi duas vezes maior que a
maior que 90º indicou retração do solear, pois puxa a tíbia quantidade de mulheres que usou salto baixo, apesar desta
para trás. A flexão dos joelhos ao teste de flexão do tronco diferença não ter sido significativa (Tabela I). A dor à palpação
comprovou retração dos ísquiotibiais; caso se encontrassem dos pés, tornozelos e coluna lombar também foi mais referida
em hiperextensão seria devida à retração do solear. O ângulo por mulheres que usaram salto alto, mas também estas
coxofemoral maior que 90º indicou retração dos músculos diferenças não foram significativas (Tabelas II e IV).
pelvitrocanterianos, principalmente o piriforme. Em caso de Na articulação do joelho, na faceta medial, a quantidade
depressão arredondada na região de L5-S1 indicaria a de mulheres que usou salto e referiu dor foi maior
presença de cuvette lombossacral (desequilíbrio estático). Na significativamente que a quantidade de mulheres que usou
região da coluna, foi observado se toda a coluna formava salto baixo (Tabela III). As maiores compensações
uma suave curva do sacro ao occiptal ou se havia retificação ascendentes ocorrem nos joelhos devido ao torque sagital
em alguma área e, em especial, a distância dedo-chão (a ponta prolongado nessa articulação durante a fase de apoio, pois
dos dedos deveria tocar o chão com todos os outros fatores, aumenta o trabalho do músculo quadríceps, prolonga o
já apresentados, normais) [14]. estresse sobre o ligamento patelar e a pressão sobre a
articulação fêmoro-patelar [3,15,16]. Portanto, tais pressões
Análise dos dados podem conduzir, precocemente a alterações degenerativas,
principalmente no compartimento medial do joelho devido
Foi utilizado o teste não-paramétrico qui-quadrado para a haver aumento do torque em varo, levando a compro-
um nível de significância igual a 0,05 do programa Primer of metimento maior no lado medial. Foi ainda afirmado que
Biostatistics, version 4.0 by Stanton A. Glantz, da alterações osteoartríticas nos joelhos são mais comuns no
McGrawHill, 1996. lado medial que no lateral. Segundo os estudos clínicos
de Joseph [17], o aumento da flexão do joelho e da
Resultados atividade muscular do quadríceps, associada à marcha em
salto alto, sugere que mulheres com problemas de joelho
Ao questionamento subjetivo, nove mulheres, do grupo como condromalácia patelar não deveriam usar esses tipos
de salto baixo, afirmaram que seu calçado era confortável e de calçados.
que não machucava o pé ao fim do dia; quanto à escolha, A quantidade de mulheres que usou salto alto com marcha
seis preferiram o conforto e quatro, a beleza. No grupo de em pronação e com eversão do antepé foi significativamente
salto alto, seis afirmaram que seu calçado era confortável e maior do que a quantidade de mulheres que usou salto baixo
quatro, que não. No entanto, na questão seguinte, nove [Tabela V]. O equilíbrio do corpo começa nos pés, pois são
reafirmaram que machucava ou incomodava o pé ao fim do a base de sustentação do nosso corpo. Quando estamos de
dia. Na questão escolha do calçado, cinco escolhiam pela pé, o corpo humano oscila constantemente sobre sua base,
beleza e altura, quatro informaram que era exigência da de acordo com a forma e orientação da mesma. Sem bons
profissão ou do local de trabalho e uma preferiu o conforto. apoios dos pés no chão, não há boa estática, levando,
Quanto à presença ou ausência de dor, os dados podem portanto, a desequilíbrios ascendentes. A posição do pé em
ser observados de acordo com a Tabela I. flexão plantar, por elevação do salto, e, usualmente, a largura
estreita do calcanhar causa alteração na pronação e supinação
Tabela I - Presença ou ausência de dor a um ou mais testes articulares. do pé durante a marcha, levando à instabilidade do tornozelo
Dor e contribuindo para instabilidade geral [18]. A quantidade
Sim Não de mulheres que usou salto alto que apresentou
Salto alto 6 4 encurtamento da cadeia muscular posterior do corpo foi
Salto baixo 3 7 maior do que a quantidade de mulheres que usou salto baixo.
χ 2 (1) = 0,808; p = 0,369 Todavia, esta diferença não foi significativa [Tabela VI]. A
retração do sóleo é bastante comum porque os calçados de
Os dados correspondentes aos testes de palpação dos saltos altos fazem com que ele trabalhe sempre em
pés e tornozelos podem ser visualizados na Tabela II. As encurtamento [15]. O sóleo traciona a tíbia para trás e a
mulheres usuárias de salto alto apresentaram mais queixas coloca em permanente posição de rotação lateral, a qual se
e alterações nos pés e tornozelos, em pelo menos duas torna responsável pela maioria das artroses posteriores da

artigo 01a - Flávia.pmd 19 11/02/04, 12:05


20 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Tabela II – Alteração e/ou dor à palpação dos pés e tornozelos.


Salto alto Salto baixo χ2 (1) p
Fáscia plantar 5 2 0,879 0,348
Ligamento talofibular anterior 2 1 0,000 1,000
Ligamento talofibular posterior 2 0 0,556 0,456
Ligamento deltóide 1 0 0,000 1,000
Bordo interno do calcâneo 2 0 0,556 0,456
Cabeça do 2º, 3º, 4º e 5 º metatarsos. 1 0 0,000 1,000
Neuroma de Morton 1 0 0,000 1,000
Hálux valgo 4 1 1,067 0,302
Quinto varo 4 0 2,812 0,094

A Tabela III mostra os dados obtidos à palpação dos joelhos.

Tabela III – Alteração e/ou dor à palpação dos joelhos.


Salto alto Salto baixo χ2 (1) p
Retináculo medial 6 2 1,875 0,171
Retináculo lateral 2 2 0,312 0,576
Faceta medial 6 0 5,952 0,015
Faceta lateral 2 2 0,312 0,576
Pólo inferior da patela 2 2 0,312 0,576
Derrame intra-articular 6 6 0,208 0,648
Crepitação articular 9 8 0,000 1,000

A Tabela IV mostra as observações encontradas ao exame clínico da região lombar.

Tabela IV – Alteração e/ou dor à palpação da região lombar.


Salto alto Salto baixo χ2 (1) p
Músculo quadrado lombar 10 8 0,556 0,456
L5-S1 2 0 0,556 0,456

Tabela V – Desalinhamento na marcha e desequilíbrio lombo-pélvico.


Salto alto Salto baixo χ2 (1) p
Eversão do antepé/ Marcha em pronação 10 5 4,267 0,039
Desequilíbrio estático lombo-pélvico 6 4 0,200 0,655

Tabela VI - Flexibilidade da cadeia muscular posterior (toca o chão). dos metatarsos, alinha o pé em flexão plantar e causa
Flexibilidade aumento do choque de carga vertical durante a marcha.
Sim Não Logo, os mecanismos normais do pé são alterados e
Salto alto 3 7 compensações ocorrem nas articulações superiores como
Salto baixo 6 4 aumento da flexão do joelho e do quadril, da lordose lombar,
bem como alteração nos tecidos moles para absorverem as
patela e dos pés valgos. Isso foi também observado por cargas verticais [19]. Ao exame dos pés e tornozelos das
Merrifield [16] que confirmou a tendência do pé rodar usuárias do salto alto foram observadas calosidades na região
externamente, principalmente com o uso de salto alto. Na plantar que indicou maior pressão/apoio dos pés onde se
tentativa de melhorar a estabilidade, a usuária, localizam os calos.
freqüentemente, anda a passos curtos, como se estivesse Os resultados encontrados neste estudo corroboraram
andando no gelo. O salto alto, conforme mencionado por aqueles encontrados por McBride & Corrigan onde os calçados
Snow [2] leva a um aumento do pico de pressão na cabeça de salto alto provocaram alterações e efeitos prejudiciais nos

artigo 01a - Flávia.pmd 20 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 21

padrões da marcha, bem como nas articulações e músculos muscles and line of gravity with different heel heights. Spine
ascendentes dos membros inferiores e coluna lombar, pois 1984;9:223-27.
ao usar salto elevado, o centro de gravidade é deslocado 8. Opila AK, Wagner SS, Schiowitz S, Chen J. Postural alignment
para frente o que faz com que a coluna lombar retroverta in barefoot and high-heeled stance 1990;71:905-9.
9. Frey C. Foot health and shoewear for women. Clinical
para manter o centro de gravidade entre os pés. Isso
Orthopaedics 2000; 372: 32-44.
mantém a lombar em má posição, contribuindo para 10. Chen BX. Treatment of hallux valgus in China. Chinese
aumentar o estresse tecidual, o qual pode acelerar alterações Medical Journal 1992;105:334-9.
degenerativas [20,21]. 11. Schwartz RP, Heath AL, Morgan DW, Towns RC. A
quantitative analysis of recorded variables in the walking
Conclusão pattern of normal adults. J Bone Joint Surg 1964;46:321-34.
12. Mann RA, Coughlin, MJ. Lesser toe deformities in
Da análise dos resultados, concluiu-se que os calçados de instructional course lectures. Griffin, PP. American Academy
salto alto (maior que cinco centímetros) causam dor na faceta of Orthopaedic Surgeons 1987; 137-59.
13. Gefen A, Megido RM, Itzchak Y, Arcan M. Analysis of
medial do joelho, eversão do antepé e marcha em pronação muscular fatigue and foot stability during high-heeled gait.
significativas. Gait Posture 2002;15:56-63.
14. Santos A. Equilíbrio pélvico. Joelhos. Pés. Avaliação do
Referências equilíbrio torcional dos membros inferiores. Flexibilidade
da cadeia muscular posterior. In: Diagnóstico clínico postural:
1. Opila-Correia KA. Kinematics of high-heeled gait. Arch um guia prático. São Paulo: Summus; 2001. p.15-104.
Phys Med Rehabil 1990;71:304-9. 15. Albuquerque FO. Distúrbios da articulação fêmoro-patelar
2. Snow RE, Williams KR, Holmes GB Jr. The effects of por overuse. [Monografia]. Recife: Universidade Federal de
wearing high- heeled shoes on pedal pressure in women. Pernambuco; 1991. p.23-25.
Foot Ankle 1992;13:85-92. 16. Merrifield HH. Female gait patterns in shoes with different
3. Kerrigan DC, Todd MK, Riley PO. Knee osteoarthritis and heel heights. Ergonomics 1971;14: 411-7.
high-heeled shoes. Lancet 1998; 351: 1399-401. 17. Joseph J. The pattern of activity of some muscles in women
4. De Lateur BJ, Giaconi RM, Questad K, Ko M, Lehmann JF. walking on high heels. Ann Phys Med 1968;9:295-9.
Footwear and posture. Compensatory strategies for heel 18. Rolf IP. Pés: o primeiro desafio. In: A Integração das estruturas
height. Am J Phys Med Rehabil 1991;70:246-54. humanas. São Paulo: Martins Fontes; 1988. p.31-33.
5. Opila CK. Kinematics of high-heeled gait with consideration 19. Radie EL, Parker HG, Pugh JW, Steinberg RS, Paul IL, and
for age and experience of wearers. Arch Phys Med Rehabil Rose RM. Response of joints to impact loading III. J
1990;71:905-9. Biomechanics 1973;6:51-57.
6. Bryan JM, Mosner E, Shopped R, Stull MA. Investigation 20. McBride ID, Wyss UP, Cooke TDV et al. First
of the validity of postural evaluation skills in assessing lumbar metatarsophalangeal joint reaction forces during high-heeled
lordosis using photographs of clothed subjects. J Orthopedic gait. Foot Ankle; 1990.11:282-8.
Sports Phys Ther 1990;12:24-29. 21. Corrigan JP, Moore DP, Stephens MM. Effect of heel height
7. Bendix T, Sorenson SS, Klausen K. Lumbar curve, trunk on forefoot loading. Foot Ankle 1993;14:148-152. C

artigo 01a - Flávia.pmd 21 11/02/04, 12:05


22 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Artigo original

A interferência da mobilização intra-articular


na amplitude de coxofemoral em idosos
Interference of intra-articular mobilization
in the hip amplitude of elderly people
Gláucia Ramos Pereira Henriques*, João Santos Pereira, D.Sc.**, Marco Antônio Guimarães da Silva, D.Sc.**
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, **Programa de mestrado Ciência da Motricidade Humana/PROCIMH/UCB-RJ

Resumo
O processo de envelhecimento atinge todo o organismo alterando a independência
Palavras-chave: do indivíduo. A articulação deteriora-se gradativamente promovendo rigidez articular
Sistema motor, devido às retrações inevitáveis na cápsula que impedem as amplitudes de movimento
envelhecimento, dentro dos parâmetros de normalidade. Foram avaliados 30 indivíduos na faixa etária
articulação, quadril.
entre 60 e 69 anos, divididos em 2 grupos: controle e experimental. Os resultados
mostraram, com nível de significância α = 5 %, que a mobilização intra-articular interfere
na amplitude articular de coxofemoral no plano sagital, em idosos sem patologias
associadas.

Abstract
The aging process reaches all the organism altering the personal independence. The
Key-words: joint gradually gets depraved and therefore promote a joint rigidity due to an inevitable
Motor system, elderly, retraction in the capsule which does not allows a range of movement amplitudes in the
joint, hip. normal concepts. In this study 30 persons between 60 and 69 years old were evaluated,
divided in two groups, the control group and the experimental. The results showed,
through a significant level α = 5 %, that the intra-articular mobilization interferes in the
hip amplitude in the sagital level, in elderly people without diseases related.

Artigo recebido 15 de dezembro de 2003; aceito 15 de janeiro de 2004


Endereço para correspondência: Gláucia Henriques, Rua Dalva da Fonseca, 150/602–bl 2, Vila Santa Isabel 27522-000 Resende RJ,
Tel: (24) 3354-7457, E-mail: fisioterapia.cicuta@ubm.br

artigo 03a - Gláucia.pmd 22 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 23

Introdução suas estruturas hajam alterado suas características de


mobilidade [11]. As técnicas devem respeitar a cinética íntima
O processo de envelhecimento determina importante de cada articulação e das estruturas periarticulares, buscando
perda funcional osteoarticular e deve ser cuidadosamente recuperar os movimentos elementares de deslizamento e
avaliada no idoso, pois desencadeia doenças com alta rolamento necessários à harmonia articular, através de
morbidade e baixa mortalidade. Suas prevalências e incidências pequenas oscilações desenvolvidas entre as extremidades
são diretamente proporcionais ao atual aumento da longevidade ósseas. A mobilização intra-articular promove o “afrouxa-
da população brasileira [1,2], principalmente se não houver a mento” das fibras do tecido conjuntivo quando este é sub-
intervenção de profissionais que possam minimizar este metido à tensão de afastamento no momento da mobilização,
processo. As possibilidades de minimização do quadro de resultando em aumento da amplitude de movimento e
eugeria, embora reduzidas, ainda são possíveis [3]. conseqüente melhora da função [12], devido teoricamente
Com o envelhecimento articular, torna-se mais provável ao aumento do comprimento das fibras capsulares e quebra
que a perda de amplitude de movimento resulte em redução das adesões intracapsulares fibroadiposas, resultando no
da capacidade em realizar atividades básicas da vida diária [4]. aumento da quantidade de movimento intra-articular em
O funcionamento normal de uma articulação implica em uma articulação, repercutindo no movimento angular do
que a amplitude articular seja o mais próximo possível das segmento [13].
amplitudes fisiológicas e que as estruturas osteoarticulares
conservem suas propriedades, principalmente as de rotação Objetivo
e deslizamento. Estas condições estão relacionadas às
estruturas cápsulo ligamentares, cartilaginosas e ósseas [5]. Este estudo objetiva investigar a interferência da
Estas alterações são progressivas e ocorrem principalmen- mobilização intra-articular na amplitude de movimento
te na coluna vertebral e nos membros inferiores. Nessas angular da coxofemoral.
articulações o desgaste é mais acentuado devido à atuação
das forças de compressão sofridas durante toda a vida [6]. Material e métodos
A dinâmica a que esses tecidos são submetidos altera suas
propriedades, desenvolvendo uma adaptação funcional às A fim de eliminar a possibilidade de vieses potenciais
demandas mecânicas que lhes são impostas [7]. nos resultados, utilizamos métodos de coleta de dados
Importantes alterações ocorrem durante o envelheci- apropriados. Tal procedimento nos permitiu tirar conclu-
mento nos tecidos periarticulares, especialmente nas cama- sões significativas dos resultados. Esta pesquisa apresen-
das superficiais. O colágeno é um componente importante tou caráter quantitativo e tipologia descritiva e quase
da cartilagem e do tecido conjuntivo e pode se tornar cada experimental.
vez mais rígido, devido à ligação cruzada entre as fibras de
colágeno. A elastina é um outro componente fibroso Amostra
importante do tecido conjuntivo. Com o envelhecimento,
a elastina é suplantada pela pseudoelastina, que é um A população alvo foi composta por 30 indivíduos, de
colágeno parcialmente degradado ou uma proteína elastina ambos os sexos, divididos em 2 grupos, controle e
defeituosa [8]. A água e as proteoglicanas diminuem, experimental, selecionados aleatoriamente na cidade de Barra
enquanto as fibras colágenas aumentam em número e Mansa, Estado do Rio de Janeiro, durante o período de março
espessura. Como conseqüência, a cartilagem fica mais a maio de 2003.
delgada e surgem rachaduras e fendas na superfície, o que Os critérios de exclusão compreenderam:
dificulta o deslizamento entre as extremidades articulares - Não estar enquadrado na faixa etária em questão;
[2]. O aumento na concentração de fibrila de 68/mm2 no - Apresentarem patologias osteoarticulares em membros
jovem para 140 fibrilas/mm2 no ancião [7], tornaria os inferiores;
ligamentos mais resistentes e menos flexíveis. A estas altera- - Não concordarem com os termos de compromisso,
ções são somadas a diminuição da movimentação do idoso assumido com o pesquisador.
e a alteração da quantidade e qualidade do líquido sinovial, É importante ressaltar que os preceitos éticos-legais foram
o resultado destes fatores desencadeia no idoso, diminuição considerados conforme rege a Resolução 196/96, do
da flexibilidade articular alterando a amplitude de movi- Conselho Nacional de Saúde de 10/10/1996 (Brasil, 1996),
mento articular [9,6], aumentando o risco de lesões em que trata das recomendações éticas quando da realização de
movimentos que exigem maior amplitude articular, limitan- pesquisas que envolvam seres humanos.
do a magnitude e a velocidade de movimento destas A coleta de dados com o objetivo de aferir a amplitude
articulações [10,8]. articular de coxofemoral nos movimentos de flexão e
As mobilizações que objetivem ganhar amplitude articular extensão, foi realizada com o goniômetro antes e após as 10
devem ser consideradas nos casos em que as articulações e sessões de mobilização intra-articular.

artigo 03a - Gláucia.pmd 23 11/02/04, 12:05


24 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Instrumento de medida Durante a fase de experimento, a mobilização intra-


articular da coxofemoral foi realizada com movimentos
Utilizou-se o goniômetro universal para a medição em de decoaptação, anteriorização e posteriorização da cabeça
graus da amplitude articular de coxofemoral, pois segundo femoral, favorecendo o movimento da cabeça femoral sobre
Clapper [14], este mostra uma variação significativamente o acetábulo no plano sagital. A mobilização da articulação
menor, sendo um instrumento mais confiável. realizou-se de forma direta, ou seja, movida passivamente
pelo mobilizador, usando técnicas de oscilação da cabeça
1 - Goniometria para flexão de quadril femoral [16].

Norkin & White [15], determinam a testagem, com o Figura 2 - Final da amplitude de movimento ativo para extensão de
indivíduo em decúbito dorsal com a coxofemoral em posição coxofemoral.
neutra. Inicialmente o joelho é estendido, mas à medida que
é completada a amplitude de flexão do quadril, permite a sua
flexão. O eixo do goniômetro sobre o trocanter maior do
fêmur, o braço proximal com a linha média lateral da pelve e
o braço distal com a linha média lateral do fêmur.

Figura 1 - Final da amplitude de movimento ativo para flexão


de coxofemoral.

A intervenção

As oscilações foram realizadas em 2 séries, com uma


freqüência de 2 a 3 por segundo por cerca de 1 minuto,
seguidas por um período de repouso de vários segundos [13].

a. Decoaptação
2 - Goniometria para extensão de quadril
A decoaptação é a tentativa de separação das peças
Norkin & White [15], determinam a testagem, com o articulares com o objetivo de por em tensão de afastamento,
indivíduo em decúbito ventral com a coxofemoral em posição os elementos capsulares e ligamentares que podem ser
neutra. Inicialmente o joelho é estendido, mas à medida que responsáveis pela limitação de amplitude, proporcionando o
é completada a amplitude de extensão do quadril, permite a alongamento destas estruturas, aumentando o espaço
sua flexão. O eixo do goniômetro sobre o trocanter maior fisiológico diminuído [11].
do fêmur, o braço proximal com a linha média lateral da Com o paciente em decúbito dorsal, o mobilizador,
pelve e o braço distal com a linha média lateral do fêmur. posicionado homolateralmente, sustentando o segmento a
ser mobilizado com as mãos próximas à articulação
Procedimentos coxofemoral e obedecendo a uma angulação de 45º e joelho
a 90º. O mobilizador posiciona seu antebraço no oco poplíteo
Na primeira etapa realizou-se uma avaliação inicial, com com as mãos próximas à articulação coxofemoral e imprime
o objetivo de detectar ausência de patologias que pudessem uma força de afastamento no sentido caudal do segmento a
intervir nos resultados obtidos. A aferição da amplitude ser decoaptado.
articular pela goniometria da coxofemoral, foi empregada, Posteriormente foram realizadas mobilizações rítmicas,
antes do procedimento de mobilização e após 10 terapias exercendo uma força débil sobre a cabeça femoral no sentido
de intervenção. antero-posterior e postero-anterior.

artigo 03a - Gláucia.pmd 24 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 25

Figura 3 - Posicionamento adotado pelo mobilizador com o Figura 5 - Mobilização da cabeça femoral no sentido postero-anterior.
objetivo de realizar a decoaptação da coxofemoral.

b. Mobilização antero-posterior

O paciente em decúbito dorsal e o mobilizador situado Tratamento estatístico


homolateralmente, exercendo força débil no sentido de
posteriorização da cabeça femoral, no final da amplitude intra- Inicialmente empregou-se a estatística descritiva, com
articular percebida [11,17]. apresentação de valores médios, desvio padrão e índice
de confiança. A seguir utilizou-se a estatística inferencial
Figura 4 - Mobilização da cabeça femoral no sentido Antero-posterior. com o objetivo de verificar se havia diferença entre os
valores médios apresentados na variável amplitude de
coxofemoral, quando submetida à mobilização intra-
articular.

c. Mobilização postero-anterior

Paciente em posição de decúbito ventral, mobilizador


situado homolateralmente, exercia uma força débil no
sentido de anteriorização da cabeça femoral, no final da
amplitude intra-articular percebida (11;17).

Tabela I -1ª avaliação da amplitude coxofemoral (AACF) do grupo controle.


A A C F
  Flexão(º) Flexão(º) Extensão(º) Extensão(º)
NR ORD D E D E
Média 93.53 91,13 11,86 12,20
D Padrão 20,88 18,01 6,28 6,97
Ic [ m; 95%] 81,9683; 105,0983 81,1545; 101,1120 8,3838; 15,3494 8,3393; 16,0606
Nota: Estatística descritiva desenvolvida a partir dos dados primários dos 15 (quinze) indivíduos do grupo controle.

Tabela II - 2ª avaliação da amplitude de coxofemoral (AACF) do grupo controle.


A A C F
  Flexão(º) Flexão(º) Extensão(º) Extensão(º)
NR ORD D E D E
Média 93,53 90,80 12,06 12,66
D Padrão 20,95 18,56 6,14 7,18
Ic [ m; 95%] 81,6646; 104,8686 80,5177; 101,0822 8,6627; 15,4705 8,6861; 16,6472
Nota: Estatística descritiva desenvolvida a partir dos dados primários dos 15 (quinze) indivíduos após 45 (quarenta e cinco) dias da 1ª avaliação
no grupo controle.

artigo 03a - Gláucia.pmd 25 11/02/04, 12:05


26 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Tabela III - Avaliação da amplitude decoxofemoral (AACF) do grupo experimental.


A A C F
  Flex(º) Flex(º) Ext(º) Ext(º)
NR ORD D E D E
Média 76,46 79,13 6,66 6,06
D Padrão 29,41 23,44 3,81 4,43
Ic [ m; 95%] 60,1782; 92,7550 66,1479; 92,1187 4,5561; 8,7771 3,6125; 8,5207
NOTA: Estatística descritiva desenvolvida a partir dos dados primários dos 15 (quinze) indivíduos do grupo experimental.

Tabela IV - 2ª Avaliação da amplitude de coxofemoral (AACF) do grupo experimental.


A A C F
  Flex(º) Flex(º) Ext(º) Ext(º)
NR ORD D E D E
Média 105,46 106,73 11,80 12,33
D Padrão 8,66 12,09 2,67 2,69
Ic [ m; 95%] 100,6668; 110,2665 100,0371; 113,4295 10,3169; 13,2830 10,8434; 13.8232
NOTA: Estatística descritiva desenvolvida a partir dos dados primários dos 15 (quinze) indivíduos do grupo experimental.

Análise estatística Foram testadas as seguintes hipóteses H0: µ1=µ2 X H1:


µ1 ≠ µ2. O nível de significância utilizado foi de 5%. A
Controle (1a avaliação) x Controle (2a avaliação) análise pelo teste t-student apresenta resultados estatis-
ticamente significativos, evidenciando H1 quando submetidos
Foram testadas as seguintes hipóteses H0: µ1=µ2 X H1: as variáveis, à mobilização intra-articular, como pode ser
µ1 ≠ µ2. O nível de significância utilizado foi de a=5 %. observado nos seguintes dados:
Teste utilizado: t-student do tipo “antes x depois” (dados Variáveis Estatística teste t= valor de p
pareados) encontrando-se os seguintes valores para as variáveis: ACFFD -4,0888 0,0011
ACFFE -4,8026 0,0003
Variáveis Estatística teste t = valor de p
ACFED -4,9079 0,0002
ACFFD 0,6359 0,5351
ACFEE -6,1943 0
ACFFE 0,7702 0,454
ACFFD – Amplitude de coxofemoral para flexão direita; ACFFE –
ACFED -0,2464 0,809
Amplitude de coxofemoral para flexão esquerda;
ACFEE -0,4809 0,638
ACFED – amplitude de coxofemoral para extensão direita; ACFEE –
ACFFD – Amplitude de coxofemoral para flexão direita; ACFFE – Amplitude de coxofemoral para extensão esquerda.
Amplitude de coxofemoral para flexão esquerda;
ACFED – amplitude de coxofemoral para extensão direita; ACFEE –
Amplitude de coxofemoral para extensão esquerda. A partir da evidência de H1 enunciaram-se novas
hipóteses H0: µ1 < µ2 X H1: µ1 > µ2, concluindo-se pelo
Em todas as variáveis testadas há evidência estatística teste t-student, que em todas as variáveis encontramos
de H0, concluindo-se que, para 14 graus de liberdade, não evidências de H0 para 14 graus de liberdade. Evidencia-se
existe diferença estatisticamente significativa entre as variá- que a média da 1ª avaliação é significativamente menor que a
veis da 1ª avaliação e 2ª avaliação grupo controle. Utilizan- da 2ª avaliação, ou seja, efeito positivo após o tratamento,
do-se a alternativa não paramétrica (Wilcoxon) foram como sugere a análise estatística:
encontrados os mesmos resultados, confirmados pelos Variáveis Estatística teste t= valor de p
valores abaixo. ACFFD -4,0888 0,9994
Variáveis Estatística teste z= valor de p ACFFE -4,8026 0,9999
ACFFD 0,1664 0,8678 ACFED -4,9079 0,9999
ACFFE 0,0208 0,9834 ACFEE -6,1943 1
ACFED -0,0837 0,9333 ACFFD – Amplitude de coxofemoral para flexão direita; ACFFE –
ACFEE 0 1 Amplitude de coxofemoral para flexão esquerda;
ACFED – amplitude de coxofemoral para extensão direita; ACFEE –
Experimental (1a avaliação) x Experimental (2a avaliação) Amplitude de coxofemoral para extensão esquerda

artigo 03a - Gláucia.pmd 26 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 27

Utilizando-se a alternativa não paramétrica através do articular, minimizando o processo de envelhecimento, como
Wilcoxon, foram evidenciadas as demais variáveis H1 e afirma Goulitty [24].
enunciadas as hipóteses: H0: µ1< µ2 x H1: µ1> µ2. Os Na mobilização intra-articular, os movimentos
resultados encontrados foram semelhantes aos apresentados provocados passivamente pelo mobilizador, alternando
pelo teste paramétrico (t-student) como mostram os dados: compressão e descompressão da cartilagem, favorece ao
aumento da permeabilidade da cartilagem, desenvolvendo
Variáveis Estatística teste z= valor de p uma lubrificação normal indispensável à mobilidade (24).
ACFFD -2,6644 0,9961 A cápsula espessada durante o processo de envelhecimento,
ACFFE -3,5495 0,9998 devido à organização anárquica do colágeno, estirou-se à
ACFED -3,8106 0,9999 mobilização intra-articular, alongando e redirecionando as
ACFEE -3,6876 0,9999 fibras de colágeno, o que permite maior amplitude articular,
devido à flexibilização maior do tecido capsular. Estas
ACFFD – Amplitude de coxofemoral para flexão direita; ACFFE – condições permitem, segundo Goulitty [24], James [25],
Amplitude de coxofemoral para flexão esquerda;
ACFED – amplitude de coxofemoral para extensão direita; ACFEE – Obermann [26] e Nordim & Frankel [7], o aumento da
Amplitude de coxofemoral para extensão esquerda. amplitude de movimento conquistada, como encontrado no
grupo experimental.

Discussão Conclusão

O grupo controle, devido seleção aleatória, era constituído O envelhecimento articular gera limitações na amplitude
de indivíduos de ambos os sexos, praticantes e não praticantes de movimento devido retrações na cápsula articular, a tensão
de atividade física regular. aumentada nos ligamentos e a degeneração da cartilagem. A
Os resultados permitiram identificar que as variáveis, mobilização intra-articular através do alongamento seletivo
amplitude de coxofemoral direita e esquerda, que apresenta- da cápsula, indicou significância estatística para a = 5%, o
vam uma média maior do que o grupo experimental na 1ª aumento da amplitude articular, minimizando o efeito do
avaliação. Isto provavelmente deve-se ao fato de alguns envelhecimento natural nas condições limitadoras do
participantes do grupo controle, praticarem atividades físicas movimento, permitindo ao idoso melhor qualidade de vida e
regularmente, o que poderia ter subido a média do grupo. diminuindo o índice de patologias geradas pela alteração da
Walker [18] ressalta que nenhuma relação consistente foi cinemática articular da coxofemoral.
encontrada entre a quantidade de atividade física e a amplitude
de movimento. A tendência geral dos resultados desta Referências
pesquisa não o apoiou, encontrando respaldo nos estudos
de Dufour [19], Fedrigo [20] e Ríos [21], que afirmam ser a 1. Martos J H. Efectos de um programa de 15 semanas de
atividade física fator diferenciador das condições dos tecidos, jercicio físico aeróbico sobre la salud física de personas
favorecendo a sua capacidade física. mayores mediante a determinación de la resistencia
Devido aos dados primários obtidos no grupo controle, cardiorrespiratoria, la adiposidad e la fuerza muscular.
cuidado ainda maior foi tomado no grupo experimental, onde Educación física y desporte. Revista Digit@l Buenos Aires
condição “sine qua non” foi admitir somente indivíduos do 2001(7):41.
2. Papaléo N, Matheus CF, Eurico T. Geriatria –
sexo feminino que não praticassem nenhuma atividade física,
fundamentos, clínica e terapêutica. 1ª ed, São Paulo:
promovendo assim maior homogeneidade do grupo e maior Atheneu; 2000. p.137-40.
fidedignidade nos resultados. 3. Lianza S. Medicina de Reabilitação. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Após 45 dias, o grupo controle foi submetido a 2º Guanabara Koogan; 1995. p.63-84.
avaliação. Os resultados não evidenciaram alterações das 4. Kauffman, T. Manual de reabilitação geriátrica. Rio de
variáveis quando comparados com os dados da 1º avaliação. Janeiro: Guanabara Koogan; 2000, p.55-57.
É possível supor que se o tempo entre a 1º e 2º avaliações 5. Bailey A J; ManselL J P. Do subchondral bone changes
fosse maior, essas condições poderiam ser alteradas exacerbate or precede articular cartilage destruction in
evidenciando as perdas gradativas e geradas pelo avançar da osteoarthritis of the elderly? Gerontology 1997;(4): 296-304.
idade, descritas por Kauffman [22], Kemoung [23] e 6. Thomas. Exercícios para a terceira idade. Revista de
Psicofisiologia 1998;1:3-20.
Sherphard [10].
7. Nordin M, Frankel VH. Biomecânica básica do sistema
O grupo experimental foi submetido a mesma mensuração músculo esquelético. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara
realizada pelo grupo controle. Pode-se observar diferença Koogan; 2003. p.51-85.
estatisticamente significativa nos dados resultantes da 8. Kauffman T. Impact of aging – related musculos-keletal
intervenção realizada na coxofemoral, mostrando através da and postural changes on falls. Top Geriatr Rehabil
unanimidade nos resultados, aumento do ângulo da amplitude 1990;(5):34-43.

artigo 03a - Gláucia.pmd 27 11/02/04, 12:05


28 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

9. Kenési C. Nociones de biomecánica articular. Enciclopédia Réadaptation. Paris: Elsevier; 1999. 26 (008E-10), p.1-6.
médico quirúrgica Appareil Locomoteur. Paris: Elsevier; 18. Walker JM et al. Active mobility of the extremities in older
1995; 14(16a). p. 1-6. subjects. Phys Ther 1984;64(6):919-23.
10. Sherphard RJ. Aging an Exercise. In: Fahey TD, ed. 19. Dufour M et al. Cinesioterapia - avaliações: Técnicas passivas
Enciclopedia of Sports Medicine and Science. Toronto;1998. e ativas – Membro Inferior. São Paulo: Médica Panamericana;
p.22-35. 1987; II, p.17-19.
11. Pierron GA, Lerroy JMD. Movilización pasiva de las 20. Fedrigo CRM. Fisioterapia na terceira idade – O futuro de
articulaciones periféricas. Enciclopedia médico-quirúrgica ontem é a realidade de hoje. Reabilitar 1999;(5):18-26.
Appareil Locomoteur Paris: Elsevier; 1995;26(074 a). p. 1-8. 21. Ríos LJC, Ignacio JC, Puch PP. La actividad física em la
12. Cantu RI, Grodin AJ. In: Gaithersburg MD, ed. Myofascial tercera edad. Educación física y desportes. Buenos Aires:
manipulation: theory and clinical application. Aspen;1992. Revista Digit@l 2000;(5):18-26.
p.31-37. 22. Kauffman T. Posture and age. Top Geriatr Rehabil
13. Edmond SL. Manipulação e mobilização. 1ª ed. São Paulo: 1987;(2):13-28.
Manole; 2000. p.180-95. 23. Kemoung Rabourdin JP. Rééducation en gériatrie – Encycl
14. Clapper MP, Wolf SL. Comparison of the reliability of the Méd Chir Kinésithérapie – Médecine physique –
Orthoranger and the standard goniometer for assessing Réadaptation. Paris: Elsevier; 1997; 26 (590a-10). p. 1-8.
active lower extremity ranger of motion. Phys Ther 24. Goulitty P, Petidant B. La mobilisation passive. Ann
1988;68:214-26. Kinésithér 1993 ;20(2):77-80.
15. Norkin CC, White DJ. Manual de goniometria. 2ª ed. Porto 25. James B, Parker AW. Active and passive mobility of lower
Alegre: Artes Médicas; 1997. p.138-54. limb joints in elderly men and women. Am Phys Med Rehabil
16. Giroud M. Mobilisations passives analytiques specifiques. 1989;68:162-7.
Ann Kinésithér 1985;12 (5):233-5. Obermann WR, Burger BJ. End – range mobilization techniques
17. Dupré JP, Bhyssenne DKG, Poitou N. Bilan Articulaire de la in adhesive capsulite of the shoulder joint: a multiple subject
hanche. Encycl Méd Chir Kinésithérapie – Médecine Physique- case report. Phys Ther 2000;80(12):1204-13. C

artigo 03a - Gláucia.pmd 28 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 29

Artigo original

Facilitação do diafragma pelo método Kabat como


reexpansão pulmonar em pacientes com traumatismo
cranioencefálico e ventilação com suporte pressórico
Diaphragm facilitation through Kabat method as pulmonary
re-expansion in patients with traumatic brain injury and
pressure support ventilation

Sérgio Nogueira Nemer*, Jefferson B. Caldeira**, Paulo R. S. Filho**, Leandro M. Azeredo**, Cláudia S. Geraldo**, Ricardo
Gago**, Monclar R. Polycarpo**, Léa K. Ferreira**, Cátia M. Coimbra**, Rodrigo A. Ramos**, Paulo Cesar P. de Souza***

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Professor de fisioterapia em UTI da Universo, Professor do curso de Pós-graduação em fisioterapia cárdio-respiratória da Universo,
Professor do curso de fisioterapia pneumo-funcional da Universidade Castelo Branco, Chefe da equipe de fisioterapia e rotina da ventilação mecânica do
Hospital de Clínicas de Niterói,  **Fisioterapeutas do Hospital de Clínicas de Niterói, *** Chefe da UTI do Hospital de Clínicas de Niterói

Resumo
A fisioterapia respiratória tem apresentado grandes dificuldades em mostrar evidência
Palavras-chave: de suas técnicas. O objetivo deste estudo é mostrar que a fisioterapia respiratória, através
Re-expansão pulmonar, do reflexo de estiramento diafragmático pelo método Kabat, pode melhorar alguns
reflexo de estiramento, parâmetros da função pulmonar e a oxigenação em pacientes com traumatismo
suporte pressórico.
cranioencefálico (TCE), durante a ventilação com suporte pressórico (PSV). Foram
avaliados 40 pacientes (idade: 45 ± 16.80 anos) com TCE e escala de coma de Glasgow
na admissão na unidade de terapia intensiva (UTI) menor ou igual a oito. Todos os
pacientes foram entubados, ventilados e tiveram a pressão intracraniana (PIC)
monitorizada ao menos nos quatro primeiros dias. O estudo começou quando os pacientes
estavam em condições de iniciar o desmame, em PSV. Nesta fase, a facilitação do dia-
fragma, através do reflexo de estiramento, foi realizada nos pacientes avaliados, enquanto
o volume corrente (VC), a complacência dinâmica do sistema respiratório (Cdyn,rs) e a
saturação de oxigênio (SpO2) eram medidos em três momentos: antes, durante e após
uma hora do término da técnica. Durante a técnica, a pressão positiva expiratória final
(PEEP) e a pressão de suporte (PS) foram mantidos em 5 e 10 cmH2O respectivamente,
enquanto a FiO2 foi mantida em 0.35. Considerando o valor inicial e aquele medido
após uma hora do término da técnica, de acordo com o teste t de Student, os seguintes
resultados foram obtidos: A SpO2 aumentou de 95,95 ± 1,93 % para 97,55 ± 1.48 %
(P = 0,0001), o VC aumentou de 437,00 ± 102,71 ml para 522,50 ± 107,10 ml (P =
0,0001) e a Cdyn,rs aumentou de 43,70 ± 10,27 ml / cm H2O para 52,25 ± 10,71 ml
/ cm H2O (P = 0,0001). Concluindo, neste grupo de pacientes com TCE grave, nossos
resultados mostraram que a facilitação do diafragma, através do reflexo de estiramento
durante a PSV, foi eficaz em promover reexpansão pulmonar e melhorar a oxigenação.

Artigo recebido 16 de dezembro de 2003; aceito 15 de janeiro de 2004.


Endereço para correspondência: Sérgio Nogueira Nemer, Rua Miguel de Fria, 95, bloco B / 101, Icaraí 24220-001Niterói RJ,
E-mail: snnemer@predialnet.com.br

artigo 04a - Sérgio.pmd 29 11/02/04, 12:05


30 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Abstract
Chest physical therapy has presented great difficulties in showing evidence of its
Key-words: technics. The aim of this study is to show that chest physical therapy, through stretch
Pulmonary re-expansion, reflex of the diaphragm by Kabat method can improve some parameters of the
stretching reflex, pulmonary function and the oxygenation in patients with traumatic brain injury (TBI)
pressure support.
ventilated in pressure support ventilation (PSV). Forty patients (age: 45,0 ±16,80) with
TBI and Glasgow coma scale less than or equal to eight in admission to intensive care
unit (ICU) were evaluated. All patients were intubated, ventilated and had the intracranial
pressure (ICP) monitorized at least in the first four days. The study started when the
patients had conditions to begin the weaning, in PSV. In these phase, the diaphragm
facilitation, through stretch reflex was done in patients evaluated, while the tidal volume
(Vt), the dynamic compliance of the respiratory system (Cdyn,rs) and the oxygen
saturation (SpO2) were measured in three moments: before, during and one hour after
the end of the activity. During the stretching, the positive end expiratory pressure
(PEEP) and the pressure suport (PS) were kept in 5 and 10 cmH2O respectively, while
the FiO2 was kept in 0,35. Considering the initial values and those measured one hour
after the end of the technique, according to the Student’s t test, the following results
were obtained: The SpO2 increased from 95,95 ± 1,93 % to 97,55 ± 1,48 % (P =
0,0001), Vt increased from 437,00 ± 102,71 ml to 522,50 ± 107,10 ml (P = 0,0001)
and Cdyn,rs increased from 43,70 ± 10,27 ml / cm H2O to 52,25 ± 10,71 ml / cm
H2O (P = 0,0001). In conclusion, in this group of patients with severe TBI, our results
showed that the diaphragm facilitation, through the stretch reflex during PSV, succeeded
in promoting pulmonary re-expansion and in improving the oxygenation.

Introdução A fisioterapia respiratória e, sobretudo, a motora são cada


vez menos observadas nas UTIs; os fisioterapeutas destas
A fisioterapia respiratória em Unidade de Terapia Intensiva unidades estão progressivamente mais mecanizados e muitas
(UTI) apresenta enormes dificuldades em comprovar vezes, só auscultam os pulmões, aspiram as vias aéreas e
evidência de suas técnicas. Muitos estudos sugerem esta ajustam o ventilador mecânico. Boa parte dos fisioterapeutas
afirmativa [1,2,3], no entanto é cada vez mais difícil encontrar das UTIs se direcionou apenas para a assistência ventilatória,
uma UTI que não tenha um serviço de fisioterapia. Mesmo que sem dúvida, tem recursos mais eficazes em reverter a
com pouco evidência, é fato inegável que os chefes da maioria hipoxemia e aumentar a expansão pulmonar, mas estes se
das UTIs não querem ficar sem fisioterapia. Desta pequena esquecem que suas próprias técnicas em associação com a
história, podemos escolher uma entre duas hipóteses, ou os ventilação mecânica podem melhorar ainda mais a função
chefes das UTIs estão pagando os fisioterapeutas em vão, ou pulmonar. Os estudos que abrangem a fisioterapia
a fisioterapia possui alta credibilidade, mesmo sem maiores respiratória, sobretudo em UTI, basicamente usam esta
evidências. Como os chefes das UTIs, via de regra, são além apenas para desobstrução pulmonar, sendo raro encontrar
de bons médicos, bons administradores, a primeira hipótese estudos que tratem de fisioterapia respiratória para a re-
deve ser descartada. Talvez, o que esteja acontecendo seja expansão pulmonar. Mais raros ainda são os estudos de
uma falta de dados avaliando a efetividade da fisioterapia em fisioterapia respiratória que mostram melhora na função
UTI [4], ou uma raridade de fisioterapeutas dispostos a não pulmonar, e quando esta ocorre, geralmente é restrita durante
só trabalhar, como também comprovar seu trabalho. Da o momento da técnica.
mesma forma que os médicos necessitam colher seus dados As técnicas de Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva
para suas publicações, o fisioterapeuta tem que fazer o mesmo, (PNF) ou método Kabat é uma forma de tratamento
pois a cada dia que passa, as experiências apenas pessoais são fisioterapêutico iniciada pelo Dr. Herman Kabat nos anos
cada vez menos creditadas. Há uma necessidade urgente de 40 [5]. Em 1947, Margaret Knott e em 1953, Dorothy Voss
estudos que justifiquem a função da fisioterapia na UTI [4] e se uniram ao Dr. Kabat e em 1956, o primeiro livro de PNF
só pode caber a nós, fisioterapeutas, justificar esta função. foi publicado [5]. O método foi inicialmente usado no

artigo 04a - Sérgio.pmd 30 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 31

tratamento de portadores de poliomielite, porém outros Foto 1 – Posicionamento do fisioterapeuta.


estudos revelaram sua eficácia em várias doenças. Dentro
das inúmeras técnicas que o método utiliza, uma nos parece
talvez ainda mais especial, que é o reflexo de estiramento,
que segundo o Dr. Kabat, em 1947, declarou que esta talvez
possa ser a única forma de produzir contração em um
músculo fraco [6]. Obviamente, esta afirmativa exclui as
estimulações elétricas, mas está envolvendo diretamente a
cinesioterapia. Além de inúmeras utilidades, o método pode
ser usado para estimular e reforçar músculos dos membros,
do tronco e também os músculos respiratórios, entre eles, o
diafragma, que como todos nós sabemos, é o mais importante
músculo da respiração. As técnicas de PNF raramente são
observadas como recursos fisioterapêuticos na maioria das
UTIs. No entanto, em nosso serviço, acreditamos e fazemos
uso quase que rotineiro destas técnicas, não só para os
músculos dos membros e tronco em pacientes acamados com Foto 2 – Posicionamento das mãos do fisioterapeuta.
ou sem doenças neurológicas, como na recuperação de
pacientes com doenças como a Síndrome de Guillain-Barré
ou após traumatismo raqui-medular, estimulando também a
musculatura respiratória.
O objetivo deste estudo é avaliar a variação de alguns
parâmetros da função pulmonar através da facilitação do
diafragma realizada pelo reflexo de estiramento diafragmático
(como descrito pelo método Kabat) em pacientes ventilados
com suporte pressórico.

Material e métodos

O estudo foi realizado entre o período de maio de 2001 a


janeiro de 2003 na unidade de terapia intensiva (UTI) do
Hospital de Clínicas de Niterói. Avaliamos 40 pacientes (29
homens e 11 mulheres) com traumatismo cranioencefálico
(TCE) e escala de coma de Glasgow na admissão à UTI 300 (Sweden). Os monitores utilizados foram Hewlett
menor ou igual a 8. Todos os pacientes foram entubados e Packard Agilent V24C e Agilent CMS 2001 (USA). Sabendo-
ventilados de forma invasiva, além de terem a pressão se da dificuldade de se alcançar manualmente o diafragma,
intracraniana (PIC) monitorizada ao menos nos 4 primeiros os pacientes obesos, ou com abdome mais proeminente, assim
dias. O estudo foi realizado somente quando o paciente como os que apresentavam cirurgia abdominal, distensão
estivesse iniciando o processo de desmame, sem necessidade abdominal, ou qualquer complicação abdominal que afetasse
de qualquer sedação e de aminas vasoativas, durante o a mecânica respiratória ou ainda aqueles que apresentassem
primeiro ou segundo dia de ventilação com suporte pressórico reação à dor ou expressão facial de dor à palpação nesta região,
(PSV). Portanto, pacientes mais graves, que só permaneceram foram excluídos do estudo. Os pacientes que apresentavam
em ventilação mecânica controlada, não evoluindo para a doença pulmonar prévia e doenças neuromusculares também
ventilação com suporte pressórico, não foram incluídos no foram excluídos do estudo.
estudo. Mesmo estando estáveis e em PSV, mas como A maioria dos pacientes já estava sem monitorização da
conseqüência à lesão cerebral e/ou à sedação residual, PIC (devido a sua normalidade por mais de 48 horas),
nenhum paciente encontrava-se em condição de obedecer enquanto aqueles que ainda tinham a PIC monitorizada,
aos comandos verbais e de aumentar a profundidade da apresentavam esta em valores abaixo de 10 mm Hg e
respiração. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética de encontravam-se estáveis sob o ponto de vista hemodinâmico.
nossa instituição, não requerendo consentimento de Todos os pacientes foram submetidos ao reflexo de
informação, já que se tratava apenas de condutas estiramento diafragmático como preconizado pelo método
cinesioterápicas de rotina e sem qualquer interferência na Kabat, empurrando para cima e lateralmente com os
evolução da doença. Os ventiladores mecânicos utilizados polegares ou os dedos, abaixo das últimas costelas [7].
foram os Dräger Evita 1 e 2 (Germany) e os Siemens Servo Objetivando eficaz resposta de contração da musculatura

artigo 04a - Sérgio.pmd 31 11/02/04, 12:05


32 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

diafragmática, o reflexo de estiramento foi realizado no final análise estatística foi processada pelo software estatístico
da expiração, onde este músculo se encontra mais alongado. SAS System.
A seguir, a facilitação do diafragma tomava continuidade a
cada respiração, sem excesso de pressão no abdome do Resultados
paciente, respeitando o volume minuto e sempre sem
provocar dor. O tempo de realização da técnica foi de 15 A idade foi de 45,08 ± 16,8, o APACHE II (Acute
minutos. Todos os pacientes estavam posicionados em Physiology and Chronic Health Evaluation) foi de 15,80
decúbito dorsal, com a cabeceira elevada entre 30 a 45 graus. ± 4,98, o tempo em ventilação mecânica foi de 11,58 ±
As fotos 1 e 2 mostram o posicionamento do fisioterapeuta, 6,35, e a escala de coma de Glasgow na admissão à UTI
de suas mãos, e do paciente durante a técnica. foi de 5,8 ± 1,32. A tabela I mostra as principais
Antes do procedimento ser realizado, todos os pacientes características dos 40 pacientes avaliados no momento da
tinham sido submetidos à vibração associada à compressão admissão à UTI. Como todos os pacientes avaliados
torácica, seguida de aspiração traqueal, a fim de evitar estavam estáveis e já tinham passado pela fase mais crítica
elevações na resistência das vias aéreas (Raw) e reduções na de sua inter nação, felizmente não houve óbitos.
complacência dinâmica do sistema respiratório (Cdyn,rs). Inicialmente, seis pacientes não toleraram o desmame,
Objetivando normalização dos sinais vitais após as condutas porém posteriormente todos foram desmamados. Nos
anteriores, cinco minutos de intervalo foram esperados até pacientes que ainda tinham a PIC monitorizada, esta não
que a primeira mensuração do volume corrente (VC), da mostrou alterações significativas com o reflexo de
Cdyn,rs e da SpO2 (saturação de oxigênio) fossem mensurados estiramento diafragmático.
e registrados. O VC e a Cdyn,rs foram obtidos através da
média de cinco respirações consecutivas, enquanto a SpO2 Tabela I – Principais características dos pacientes avaliados na admissão
considerada foi aquela que permaneceu constante durante à UTI.
dois minutos sem qualquer alteração. Não foi permitida Variável média desvio padrão mínimo máximo
qualquer mudança na fração inspirada de oxigênio (FiO2) Idade 45,08 16,80 17 68
durante o estudo e esta permaneceu em 0,35 antes, durante e PIC 16,00 6,00 6 28
após as condutas. Durante a técnica, todos os pacientes foram APACHE II 15,80 4,98 6 26
mantidos com uma pressão de suporte em 10 cm H2O e Glasgow 5,80 1,32 3 8
PEEP (pressão expiratória positiva final) em 5 cm H2O.
A SpO2, a Cdyn,rs e o VC foram mensurados em três Houve uma elevação significativa da SpO2 inicial (95,95
momentos: o primeiro, antes da técnica ser realizada, o segundo, ± 1,93 %) em relação à segunda medida, obtida durante a
durante a técnica, e o terceiro, após uma hora do término da técnica (98,05 ± 1,32 %; P = 0,0001). Houve uma redução
técnica. O segundo momento, embora tenha sido mencionado, significativa da SpO2 obtida durante a técnica em relação ao
não foi considerado “real”, pois este foi durante a técnica. O terceiro momento (medida uma hora do término da técnica),
objetivo principal foi comparar a variação dos parâmetros de 98,05 ± 1,32 % para 97,55 ± 1,48 % (P = 0,0001), porém,
avaliados no primeiro momento em relação ao terceiro com um fator positivo, a SpO2 não voltou ao valor inicial.
momento. A Cdyn,rs foi obtida através da seguinte fórmula: Comparando-se apenas a medida anterior à técnica com
aquela após uma hora do término desta, houve uma elevação
C dyn,rs = VC / Pressão de pico – PEEP também significativa, de 95,95 ± 1,93 % para 97,55 ± 1,48
% (P = 0,0001).
Houve uma elevação significativa do VC inicial
Análise estatística (437,00 ± 102,71 ml) em relação à segunda medida,
obtida durante a técnica (582,75 ± 111,08 ml; P =
A análise estatística foi realizada pelos seguintes 0,0001). Houve uma redução significativa do VC obtido
métodos: para verificar se existe variação significativa no durante a técnica em relação ao terceiro momento (de
valor da SpO 2, do VC e da Cdyn,rs durante as três 582,75 ± 111,08 ml para 522,50 ± 107,10 ml; P = 0,0001),
avaliações, foi realizada a análise de variância para medidas porém também sem retornar ao valor inicial. Compa-
repetidas. O teste de comparações múltiplas de Bonferroni rando-se apenas a medida anterior à técnica com aquela
foi utilizado para identificar quais avaliações diferiram entre após uma hora do término da mesma, houve também
si. O teste t de Student emparelhado foi utilizado para uma elevação significativa, de 437,00 ± 102,71 ml para
verificar se existe variação significativa entre a primeira 522,50 ± 107,10 ml (P = 0,0001).
medida das três variáveis avaliadas para a segunda medida. Houve uma elevação significativa da Cdyn,rs inicial (43,70
O critério de determinação adotado foi o nível 5 %, ou ± 10,27 ml / cm H2O) em relação à segunda medida, obtida
seja, quando o valor de p do teste estatístico for menor durante a técnica (58,27 ± 11,10 ml / cm H2O; P = 0,0001).
ou igual a 0,05, então existe significância estatística. A Houve uma redução significativa da Cdyn,rs obtida durante

artigo 04a - Sérgio.pmd 32 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 33

Tabela II – Variação da SpO2 , do VC e da Cdyn,rs antes e após uma hora do término da técnica.
Variável média desvio padrão mínimo máximo F valor
SpO2 (1) 95,95 1,93 92,0 99,0
SpO2 (3) 97,55 1,48 94,0 100 0,0001
VC (1 437,00 102,71 280 690
VC (3 522,50 107,10 340 760 0,0001
Cdyn,rs (1) 43,70 10,27 28,0 69,0
Cdyn,rs (3 52,25 10,71 34,0 76,0 0,0001

Fig. 1- Variação da SpO2. Fig. 2 - Variação do VC.

a técnica em relação ao terceiro momento (de 58,27 ± 11,10 enfermeiros. Se olharmos por este ângulo, a presença do
ml / cm H2O para 52,25 ± 10,71 ml / cm H2O; P = 0,0001), fisioterapeuta na UTI poderia ser restrita apenas para remoção
porém novamente sem retornar ao valor inicial. Comparando- das secreções e técnicas coadjuvantes. É lógico que não
se apenas a medida anterior à técnica com aquela após uma podemos nos esquecer da fisioterapia motora, que é essencial,
hora do término desta, houve também uma elevação indispensável e não realizável nem com longínqua semelhança
significativa, de 43,70 ± 10,27 ml / cm H2O para 52,25 ± por outro profissional. Portanto, apesar de tantos benefícios
10,71 ml / cm H2O (P = 0,0001). que a fisioterapia oferece, continuamos bastante limitados.
A tabela II mostra as variações do VC, da SpO2 e da Seguindo esta linha de pensamento, objetivamos ampliar
Cdyn,rs, antes (1) e após uma hora do término da técnica (3), nosso arsenal de técnicas e divulgar que a fisioterapia, através
com o respectivo p valor em relação ao aumento das variá- da cinesioterapia respiratória, também pode ser bastante útil
veis nestes dois momentos. O momento 2 foi desprezado para aumentar o volume pulmonar. Sabemos que pacientes
para os resultados finais, já que eram valores obtidos apenas mais graves, como aqueles com Lesão Pulmonar Aguda (LPA)
durante a técnica. e Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA),
As figuras 1 e 2 mostram a variação do VC e da SpO2 apresentam dificuldade de aumento do volume pulmonar até
antes, durante e após uma hora do reflexo de estiramento mesmo com as manobras de recrutamento alveolar, portanto
diafragmático. O gráfico da Cdyn,rs não foi colocado, pois não temos a pretensão de acreditar que a cinesioterapia
apresentaria exatamente a mesma variação do VC. respiratória aumentaria de forma significativa o volume
pulmonar nestes pacientes. Por outro lado, já existem inúmeras
Discussão limitações em nossas técnicas, e pelo menos nós,
fisioterapeutas, não devemos acrescentar outras.
Embora a fisioterapia, através da cinesioterapia respira- Sabendo das dificuldades em comprovar nossas técnicas,
tória, atravesse uma fase de descrença até por alguns principalmente em pacientes ventilados de forma invasiva,
fisioterapeutas, é necessário que se tente comprovação de excluímos pacientes com doença pulmonar prévia e com
nossas técnicas, para assim justificar nossa presença nas UTIs. doenças neuromusculares, da mesma forma que estes
Esta necessidade se reforça pelo fato de que a monitorização geralmente também são excluídos dos estudos que abordam
respiratória e os ajustes ventilatórios são também feitos pelos ventilação mecânica na SDRA [8]. Excluímos também os
médicos e a aspiração traqueal também é feita pelos pacientes obesos, ou com abdome mais proeminente, ou ainda

artigo 04a - Sérgio.pmd 33 11/02/04, 12:05


34 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

aqueles com cirurgias abdominais, entre outros já citados, já aos efeitos da ventilação prolongada na atividade
que realmente não seria possível obter o mesmo êxito com diafragmática, no entanto, há relatos de que após 12 dias de
estes, pois não estamos tentando provar que o reflexo de ventilação mecânica controlada em neonatos, a maioria das
estiramento diafragmático seja milagroso, mas que pode ser fibras diafragmáticas já se encontra atróficas [23]. Portanto,
muito útil e eficaz em determinados pacientes. É verdade a inatividade diafragmática está associada à ventilação
que os pacientes avaliados neste estudo não mais estavam mecânica prolongada, e como prevenção, sempre que
graves e tinham pulmões previamente saudáveis, mas, como possível, devemos evitá-la. Em relação à ventilação mecânica,
podemos observar nos resultados, tiveram sua mecânica tentativas de PSV poderiam ser feitas diariamente nos
respiratória e troca gasosa bastante melhorada. pacientes não dependentes de ventilação mecânica controlada,
Alguns estudos sobre fisioterapia respiratória mostram objetivando prevenir maior atrofia diafragmática. Em relação
aumento da complacência do sistema respiratório e melhora à fisioterapia, o treinamento muscular inspiratório pode ser
da gasometria arterial [9,10,11], enquanto que outros, feito objetivando melhorar a endurance e a força muscular
realizados apenas com exercícios (como respiração diafrag- inspiratória. Embora haja limitada evidência de que a
mática e respiração com os “lábios franzidos”) mostram fisioterapia possa ajudar no desmame [4] e que o treinamento
apenas redução no consumo de oxigênio, justificada pela muscular inspiratório possa aumentar a força e a endurance
redução da freqüência respiratória [12]. No entanto, estes muscular inspiratória [24], alguns estudos mostram que tal
efeitos muitas vezes permaneceram apenas durante a conduta pode facilitar o desmame [25,26]. No entanto, maior
realização dos exercícios [9-12]. Embora o posicionamento atenção deve ser dada aos critérios para selecionar pacientes
possa ser mais efetivo em manter o volume pulmonar, a para o treinamento muscular inspiratório, pois muitas vezes
facilitação neurofisiológica da respiração é útil para pacientes a inadequada Pi max, que indica o treinamento, pode ser
ainda inconscientes, sonolentos, ou nos que ainda estão conseqüente à desnutrição, ou a distúrbios eletrolíticos, como
parcialmente dependentes de ventilação mecânica invasiva, hipopotassemia, hipomagnesemia e hipofosfatemia. Nestas
principalmente se estes se encontram em desmame difícil situações, não há sentido algum em realizar o treinamento,
[13]. Acredita-se que a estimulação proprioceptiva aumenta pois além da fadiga precoce que ocorreria, apenas com a
de forma reflexa a profundidade da respiração [13]. reposição destes eletrólitos, provavelmente a força muscular
Em um de nossos estudos prévios [14], 30 dos 40 inspiratória se normalizaria. Outras situações incoerentes de
pacientes estudados no atual estudo haviam sido avaliados e se realizar o treinamento, são em doenças progressivas e
comparados com um grupo controle de 27 pacientes. A degenerativas, como na Esclerose Lateral Amiotrófica, onde
pressão inspiratória máxima (Pi max) havia melhorado de – não há como ocorrer ganho de força e trofismo muscular,
38,6 ± 8,9 para – 42,2 ± 9,1 cm H2O (P = 0,00007 – Teste pela própria evolução da doença, mas mesmo assim, alguns
de Wilcoxon) após sete dias do uso da facilitação do fisioterapeutas teimam em treinar os músculos destes
diafragma. O aumento foi estatisticamente significativo em pacientes, obtendo apenas fadiga como resultado. Ainda em
relação ao grupo controle, que não foi submetido a nenhuma relação à fisioterapia, de acordo com nosso estudo prévio
conduta de treinamento muscular respiratório (- 42,2 ± 9,1 [14], acreditamos que o reflexo de estiramento diafragmático
cm H2O x – 39,2 ± 6,7 cm H2O respectivamente; P < 0,01 – também possa colaborar em melhorar a força muscular
Teste t de Student). O estudo atual não avaliou a Pi max, inspiratória, embora outros estudos sejam necessários para
pois não obtivemos um aumento proporcional de pacientes confirmar nossa hipótese.
também no grupo controle, fator que inviabilizou a As manobras de recrutamento alveolar estão cada vez
continuidade da comparação com a Pi max. No entanto, mais diversificadas, porém duas são as formas básicas de
temos motivos e constatação neurofisiológica de que quando promover o recrutamento, que servem de origem para as
um músculo é submetido ao reflexo de estiramento, há demais variações. Um dos métodos é através da pressão
aumento de sua força [6]. positiva contínua em vias aéreas (CPAP) em torno de 40 cm
A ventilação mecânica controlada piora a capacidade da H2O por cerca de 40 segundos [27, 28], elevando assim a
força gerada pelo diafragma [15-21], sobretudo, quando capacidade residual funcional. O outro método é através da
associada à sedação [15]. Em situações específicas, como após elevação da pressão máxima em vias aéreas, em ventilação
fadiga muscular respiratória, lesão cerebral, sepse, entre outras, controlada a pressão (PCV) [29], alcançando em torno de 50
a ventilação mecânica controlada pode ser benéfica. Na sepse, cm H2O por cerca de 2 minutos [30], elevando assim o volume
a ventilação mecânica controlada pode proteger o diafragma corrente, a capacidade inspiratória e como conseqüência, a
através da redução do estresse mecânico imposto nas capacidade vital. Com o significativo aumento obtido do VC
miofibrilas diafragmáticas, que sofrem pela hiper-fragilidade durante o reflexo de estiramento diafragmático por 15
de seu sarcolema, induzida pela sepse [22]. Em ratos, 72 a 96 minutos, nos baseamos no aumento da Cdyn,rs e temos
horas de inatividade em ventilação mecânica controlada já motivos para acreditar que houve algum grau de recrutamento
são suficientes para reduzir a força diafragmática em mais de alveolar. Como não houve elevação da pressão de suporte,
50 % [23]. Poucos estudos existem em humanos em relação nem redução no “tempo de rampa” (rise time), nem aumento

artigo 04a - Sérgio.pmd 34 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 35

da profundidade da inspiração, fatores estes que podem Referências


aumentar o volume corrente durante a PSV [31], o único
mecanismo que pode explicar o aumento do volume corrente 1 Novak RA, Shumaker L, Snyder JV et al. Do periodic
é o reflexo de estiramento diafragmático. Após o reflexo de hyperinflation improve gas exchange in patients with hipoxemic
estiramento diafragmático ser realizado, há uma súbita respiratory failure? Crit Care Med 1987;15: 1081-85.
descompressão na parede abdominal que funciona de forma 2. Poelaert J, Lannoy B, Vogelaers D et al. Influence of chest
similar à inspiração profunda. Como a inspiração profunda physiotherapy on arterial oxygen saturation. Acta Anaesthesiol
Belg 1991;42:165-70.
também aumenta o fluxo inspiratório durante a PSV [31], o
3. Eales CJ, Barker M, Cubberley NJ. Evaluation of a single
aumento do volume corrente pode ser justificado. Pelo fato
chest physiotherapy treatment to post-operative, mechanically
de que um músculo após ser submetido ao reflexo de ventilated cardiac surgery patients. Physiother Theory Pract
estiramento, ter uma contração mais eficaz, e nesta situação, 1995;11:23-8.
a conseqüência seria a maior profundidade da inspiração, o 4. Stiller K. Physiotherapy in intensive care – Towards an
aumento do VC também pode ser justificado sob o ponto de evidence-based practice. Chest 2000;118:1801-13.
vista neurofisiológico em decorrência do reflexo de 5. Adler SS, Beckers D, Buck M. Facilitação Neuromuscular
estiramento. No entanto, sabemos que se a descompressão Proprioceptiva - Método Kabat. São Paulo: Manole; 1999.
súbita fosse realizada na caixa torácica superior, também 6. Adler SS, Beckers D, Buck M. Procedimentos básicos para a
haveria elevação do volume corrente durante a conduta. Por faciltação. Em: Adler SS, Beckers D, Buck M. Facilitação
outro lado, como se suspeita de que a cinesioterapia Neuromuscular Proprioceptiva - Método Kabat. São Paulo:
respiratória possa reduzir a SpO2 [2], preferimos não fazer Manole; 1999. p.3-14.
condutas na caixa torácica superior, restringindo nosso estudo 7. Adler SS, Beckers D, Buck M. Funções vitais. Em: Adler SS,
Beckers D, Buck M. Facilitação Neuromuscular Propriocep-
à parede abdominal, minimizando assim o suposto colapso
tiva - Método Kabat. São Paulo: Manole; 1999. p.233-48.
alveolar que haveria durante uma compressão torácica.
8. The acute Respiratory Distress Syndrome Network. Ventilation
Acreditamos que a continuidade do reflexo de estiramento with lower tidal volumes as compared with traditional tidal
diafragmático, mantendo o volume corrente significativa- volumes for acute lung injury and the acute respiratory distress
mente mais elevado por cerca de 15 minutos, promoveu syndrome. N Engl J Med 2000; 342:1301-8.
algum recrutamento alveolar, já que a Cdyn,rs também foi 9. Stiller K, Jenkins S, Grant R et al. Acute lobar atelectasis: a
elevada de forma significativa. Os pacientes não tinham comparison of five physiotherapy regimes. Physiother Theory
qualquer lesão pulmonar, mas apresentavam a Cdyn,rs ainda Pract 1996;12:197-209.
algo reduzida (43,70 ± 10,27 ml /cm H2O) antes da conduta, 10. Jones AYM, Hutchinson RC, Oh TE. Effects of bagging
mas após esta, mostraram uma elevação da Cdyn,rs para and percussion on totalstatic compliance of the respiratory
52,25 ± 10,71 ml / cm H2O (P = 0,0001). Estes resultados system. Physiotherapy 1992;78:661-6.
reforçaram nossa hipótese de recrutamento alveolar, ou de 11. Hodgson C, Denehy L, Ntoumenopoulos G et al. The acute
reexpansão pulmonar, através do aumento da capacidade cardiorespiratory effect of manual lung hyperinflation on
ventilated patients [abstract]. Eur Respir J 1996; 23 (suppl):37S.
inspiratória e vital em virtude do reflexo de estiramento
12. Jones AYM, Dean E, Chow CCS. Comparison of the oxygen
diafragmático.
cost of breathing exercises and spontaneous breathing in
Embora tenha ocorrido uma queda significativa nos três patients with stable chronic obstructive pulmonary disease.
parâmetros avaliados após o término da técnica, os níveis Phys Ther 2003:83;424-31.
que permaneceram após esta, foram significativamente 13. Hough A. Physiotherapy to increase lung volume. In: Hough
maiores que os iniciais e assim se mantiveram ao menos por A. Physiotherapy in respiratory care – An evidence-based
mais de uma hora, mostrando que a conduta atingiu os approach to respiratory and cardiac management. Kingdom:
objetivos esperados. Nelson Thornes Ltd 2001:147-65.
14. Nemer SN, Reis PS, Geraldo CS, Caldeira JB, Santos LR, Souza
Conclusão PCP. Efeitos da facilitação do diafragma pelo método Kabat
em pacientes ventilados com suporte pressórico [abstract].
A fisioterapia respiratória não deve cair em descrença, Rev Bras Ter Intensiva – Suplemento I, 2002: 112-3.
mas necessita de mais estudos para ter maior evidência. Ainda 15. Polkey MI and Moxham J. Clinical aspects of respiratory muscle
dysfunction in the critically ill. Chest 2001;119:926-39.
há técnicas eficazes e pouco exploradas, como o reflexo de
16. Sassoon CSH. Ventilator-associated diaphragmatic dysfunction.
estiramento diafragmático, que pode auxiliar na reexpansão Am J Respir Crit Care Med 2002:166;1017-8.
pulmonar e na melhora da oxigenação. 17. Sassoon CSH, Caiozzo VJ, Manka A et al. Altered diaphragm
Com os resultados obtidos, concluímos que o reflexo de contractile properties with controlled mechanical ventilation.
estiramento diafragmático pelo método Kabat foi eficaz em J Appl Physiol 2002;92:2585-95.
aumentar a SpO2, o VC e a Cdyn,rs neste grupo de pacientes 18. Le Bourdelles G, Viires N, Boczkowski J et al. Effects of
com TCE grave, mostrando ser uma boa conduta fisiotera- mechanical ventilation on diaphragmatic contractile properties
pêutica, sobretudo em associação com a PSV. in rats. Am J Respir Crit Care Med 1994;149: 1539-44.

artigo 04a - Sérgio.pmd 35 11/02/04, 12:05


36 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

19. Azuneto A, Peters JI, Tobin MJ et al. Effects of prolonged mechanical ventilation: adjunctive use of inspiratory muscle
controlled mechanical ventilation on diaphragmatic resistive training. Crit Care Med 1989;17:143-7.
function in healthy adults baboons. Crit Care Med 26. Martin AD, Davenport PD, Franceschi AC et al. Use of
1997;25: 1187-90. inspiratory muscle strenght training to facilitate ventilator
20. Radell PJ, Remahl S, Nichols DG et al. Effects of prolonged weaning. Chest 2002;122:192-6.
mechanical ventilation and inactivity on piglet diaphragm 27. Amato MBP, Barbas CSV, Medeiros DM et al. Effect of a
function. Intensive Care Med 2002;28:358-64. protective-ventilation strategy on mortality in the acute respiratory
21. Powers SK, Shanley RA, Coombes JS et al. Mechanical distress syndrome. N Eng J Med 1998; 338:347-54.
ventilation results in progressive contractile dysfunction in 28. Barbas CSV. Lung recruitment manouvers in acute respiratory
the diaphragm. J Appl Physiol 2002;92:1851-8. distress syndrome and facilitating resolution. Crit Care Med
22. Ebihara S, Hussain SNA, Danialou G et al. Mechanical 2003; 31(4) (Suppl): S265-S271.
ventilation protects against diaphragm injury in sepsis. Am 29. Lachmann B. Open up the lung and keep the lung open.
J Respir Crit Care Med 2002;165:221-8. Intensive Care Med 1992; 18: 319-21.
23. Laghi F and Tobin MJ. Disorders of the respiratory muscles. 30. Villagrá A, Ochagaiavía A, Vatua S et al. Recruitment
Am J Respir Crit Care Med 2003:168;10-48. manouvers during lung protective ventilation in acute
24. Hough A. Pulmonary rehabilitation. In: Hough A. Physiotherapy respiratory distress syndrome. Am J Respir Crit Care Med
in respiratory care – An evidence-based approach to respiratory 2002;166:165-70.
and cardiac management. United Kingdom: Nelson Thornes 31. Brochard L. Pressure support ventilation. In: Tobin MJ.
2001: 211-47. Principles and practice of mechanical ventilation. New York:
25. Aldrich TK, Karpel JP, Uhrlass RM et al. Weaning from Mac Graw Hill; 1994. p.239-58. C

artigo 04a - Sérgio.pmd 36 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 37

Artigo original

Prevalência de lombalgia em praticantes


de exercício contra-resistência
Prevalence of low back pain in weight lifting
Karynne Grutter Lisboa Lopes dos Santos, M.Sc.*, Marco Antônio Guimarães da Silva, D.Sc.**, João Santos Pereira,
D.Sc.**, Luiz Alberto Batista, D.Sc.***

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Universidades Castelo Branco e Estácio de Sá, **Universidade Castelo Branco, ***Universidades Castelo Branco e UERJ do Rio de Janeiro

Resumo
Estudos provam que a queixa de lombalgia é um dos problemas mais comuns da
Palavras-chave: sociedade. Autores especializados no assunto relatam a existência de uma diversidade de
lombalgia, exercício fatores que podem gerar disfunções na coluna lombar, disfunções estas que se associariam
contra-resistência, a traumas mecânicos, características psicossociais e comportamentais, tipo de ocupação,
promoção de saúde.
morfologia (estatura, idade, peso, obesidade), tipo de atividade física, entre outros dados.
Com o aumento do número de praticantes de musculação em academias e a grande
prevalência de dor lombar nesta classe, o levantamento epidemiológico torna-se
importante para reforçar a sua prevenção e tratamento de maneira a assegurar a saúde e
qualidade de vida desses participantes. O objetivo do presente estudo é fazer o
levantamento da prevalência de dor lombar em praticantes de musculação em academias
do Rio de Janeiro. Para tal, foi utilizado um questionário epidemiológico, auto-aplicável,
adaptado do Quebec Back Pain Disability Scale, enfatizando perguntas sobre a dor lombar e
indagando idade, sexo, estado civil, profissão e descrição da atividade física que realiza.
Tem-se como preocupação fazer um levantamento dos fatores predisponentes e aspectos
da lombalgia, para que no futuro, seja possível promover-se a elaboração de um programa
de educação para a saúde. O referido questionário foi aplicado em 160 praticantes de
musculação, sendo 117 mulheres e 43 homens, com idade média igual a 27,98 ± 9,61, em
academias do Rio de Janeiro. Utilizou-se tanto as técnicas da estatística descritiva, no
sentido de caracterizar os dados médios das respectivas variáveis. Quanto às tabelas de
freqüências, foram utilizadas técnicas da estatística inferencial, por meio de um teste
não paramétrico χ2, a fim de verificar-se a interdependência entre as distribuições de
freqüências observadas, para uma significância de p < 0,05. Os achados apontam para
as seguintes características: a prevalência da dor lombar atingiu 57,1%, existem relações
de dependência da variável sexo com o tempo de prática (p = 0,0401) e o manifesto da
dor (p = 0,2862). Para a variável idade, verificou-se a existência de uma relação de
dependência com o tempo de prática (p = 0,0008), perfeitamente aceitável e coerente.
Entre as variáveis dor lombar, freqüência da dor lombar e manifesto da dor encontraram-
se relações de dependências significativas (p < 0,05), denotando que as mesmas são
inter-relacionadas. Para as demais variáveis e os respectivos cruzamentos, não foram
encontradas relações significativas de dependências.

Artigo recebido em 15 de janeiro de 2004; aceito em 5 de fevereiro de 2004


Endereço para correspondência: Karynne Grutter Lisboa Lopes dos Santos, Avenida General San Martin, 570/401 Leblon 22441-010 Rio de Janeiro RJ,
Tel: (21) 2259-6161/97751724, E-mail kjgol@ig.com.br

artigo 13 - Karynne.pmd 37 11/02/04, 12:05


38 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Abstract
Many studies in the literature have pointed the low back pain (LBP) complaint as one
Key-words: of the society´s most common problems. The authors of these studies have reported a
low back pain, weight lifting, diversity of factors that can generate dysfunctions in the lumbar spine, which could be
health promotion. associated with mechanical injury, psychological, social and behavioral characteristics,
occupational type, morphology (height, age, weight, obesity), type of physical activity,
among others. With the increase of weight lifting and the large prevalence of LBP in
this population, an epidemiological survey becomes important to reinforce the prevention
and treatment to improve health and quality of life. The aim of this study is a survey
of the prevalence of LBP in weight lifting individuals. An epidemiological questionnaire
adapted from Quebec Back Pain Disability Scale was used, giving emphasis to LPB and
data like: sex, marital status, profession and description of physical activity. The aim of
this survey is to identify the onset of this syndrome, the associated factors, with the
objective to promote future health education programs. The questionnaire was applied
in 160 weight lifting individuals (117 female and 43 male), medium age 27,98 ± 9,61, in
fitness centers of Rio de Janeiro. A descriptive statistical treatment was used to
characterize the medium values of data from the respective variables as well asthe
table of frequency. To verify the interdependence among frequency distribution observed
a no parametric test χ2 was used. The level of significance for this study was chosen at
p < 0,05. The following characteristics appear in the results: the prevalence of LBP
found was 57,1%, and the statistic analysis indicated dependence between sex and
duration of practice (p = 0,0401), sex and pain onset (p = 0,2862), age and duration of
practice (p = 0,0008). Between the variables LBP, frequency of LBP and pain onset,
was found a significant relationship of dependence (p < 0,05). For the other variables
and respective crossings, significant relationship of dependence were not found.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução Muitas disfunções da coluna lombar acontecem na


presença de instabilidade articular dessa região, ao existir
Em função da ampla incidência de quadros dolorosos, a movimentação articular excessiva, sem controle muscular pro-
coluna vertebral tem sido tema em pesquisas [1]. Ela perfila- tetor, afetando a qualidade e a quantidade do movimento [12].
se entre um dos principais motivos de queixa dos problemas O desequilíbrio muscular constitui um fator importante,
ortopédicos [2-4]. É uma das doenças mais comuns no mundo pois a coluna necessita de estabilidade durante seus movi-
ocidental, vindo a afetar aproximadamente 80-85% da mentos para evitar a sobrecarga excessiva. Esta estabilidade
população em alguma época de sua vida [5-8]. parte de estruturas ligamentares íntegras e de uma boa
A síndrome dolorosa lombar ou lombalgia, definida como musculatura, principalmente a abdominal.
uma dor localizada na região lombar, em quase sua totalidade Mais de 80% de todos os casos de dor lombar são
de etiologia idiopática, representa alto custo para o sistema causados por músculos do tronco fracos, ao invés de desor-
atual de saúde [9]. Geralmente, identifica-se dor, aumento de dens estruturais [13]. O espasmo do músculo psoas desem-
temperatura e espasmo muscular na região lombar, diminuição penha um papel relevante nas patologias da região lombar
da mobilidade do tronco e dor irradiada para os segmentos [14]. Os músculos ajudam a regular a postura, provendo de
corporais inferiores [10]. informação o sistema de controle motor sobre a posição
Pesquisas sugerem numerosas condições como causas de do corpo no espaço. Os músculos e tendões dos segmentos
lombalgia, incluindo tensões musculares, alterações liga-mentares, espinhais, por mudanças degenerativas ou trauma mecâ-
fraturas, rompimento do disco intervertebral e lesões miofasciais, nicos, poderão apresentar contração muscular insuficiente,
por exemplo, estiramentos musculares e tendinites [11]. associada a desalinhamento do segmento espinhal [15].

artigo 13 - Karynne.pmd 38 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 39

Como já citado anteriormente, muitos tecidos estão maior freqüência em pessoas que fazem trabalhos de
capacitados a produzir sintomas de lombalgia; o disco sobrecarga [26].
intervertebral é, porém a fonte primária deste mal, em Médicos especialistas no assunto acreditam que os grandes
contraste com as articulações facetárias [16]. inimigos da coluna são a má postura no trabalho e no dia-a-
O disco intervertebral desempenha um papel de dia, a vida sedentária ou a atividade física excessiva [4].
amortecedor e de repartidor de pressão. Com o avançar da Freqüentemente, prescreve-se exercício físico na
idade, ele se desidrata, desaparecendo aos poucos suas prevenção e no tratamento da lombalgia. Há, porém uma
capacidades elásticas. O núcleo perde o caráter gelatinoso, as falta de conhecimento sobre seus tipos, sua freqüência e sua
fibras do anel se rarificam e se debilitam. Então, o disco se duração; é bom lembrar que concretiza-se num tratamento
degenera, sua altura decresce, favorecendo o aumento das não invasivo e relativamente barato. A inatividade física age
forças de pressão, sobre as facetas articulares posteriores, prejudicialmente no sistema músculo-esquelético [27].
provocando a artrose. A prática da atividade física em relação à saúde vem
A herniação discal é fundamentalmente a liberação do interessando a vários autores [28].
material nuclear do confinamento do ânulo fibroso Pesquisadores como Pollock et al. [29], Astrand e Rodahl,
envolvente, levando a compressão das raízes nervosas Saltin e Rowell, Prat et al., Bee e Mitchel, apud Pellegrinotti
adjacentes, manifestando a ciatalgia [17,18]. [30] descrevem o grande benefício preventivo e terapêutico
As cargas adicionais na coluna lombar são suportadas dos exercícios físicos, reconhecidos e recomendados pelos
pelo corpo vertebral e disco intervertebral anteriormente e especialistas envolvidos com a questão da saúde.
pelas duas facetas articulares posteriormente. As articulações A atividade física pode ser definida como qualquer
facetárias são o centro motor da unidade funcional. Quando movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos
solicitadas anormalmente, geram processo irritativo, que resulte em energia expandida, incluindo o exercício, o
inflamatório e a sinovite que, em longo prazo, provocam o esporte, o trabalho e as atividades domésticas [31].
surgimento de sinais artrósicos, acusados radiologicamente Atualmente, as doenças hipocinéticas representam grande
pelo pinçamento articular, pela osteofitose e pela esclerose causa de óbito na população adulta, superando as doenças
subcondral [19-22]. infecciosas [32].
Em quadros mais avançados, as fraturas vertebrais É consenso dos profissionais da área das ciências do
resultarão em modificações posturais, incluindo agravamento esporte que os indivíduos fisicamente mais ativos apresentam
da cifose torácica, retificação da lordose cervical com mais saúde do que os inativos, ou tendem a experimentar
protrusão da cabeça e pescoço, aumento da lordose lombar, menores taxas de morbidade por causas crônicas
escoliose, anteriorização e rebaixamento das costelas e degenerativas [33].
aproximação da 12ª costela à crista ilíaca. Estas alterações Quando a atividade física é praticada com freqüência,
contribuirão para a diminuição da estatura, entre 10 e 20 cm, diminui a intensidade e a velocidade de implantação de
para a sobrecarga de músculos, tendões e ligamentos disfunções músculo-esqueléticas, neuro-musculares e cardio-
adjacentes para a diminuição do volume das cavidades pulmonares, decorrentes do envelhecimento orgânico. Ainda
abdominal e torácica, chegando a protrusão abdominal e que iniciada em idade avançada, a prática de exercícios tende
alteração das funções cardíaca, pulmonar, gástrica e vesical. a aperfeiçoar a qualidade do desempenho físico e a reverter
Tais distúrbios podem dificultar a respiração e causar parcialmente as disfunções já instaladas [34].
constipação, hérnia de hiato, incontinência urinária e, ainda, Os principais objetivos fisiológicos a serem alcançados
limitações nos movimentos da coluna, fraqueza generalizada, por meio de um programa de treinamento são os seguintes:
alterações no equilíbrio e conseqüente prejuízo da auto- aumento da capacidade de produzir trabalho, benefício da
imagem [23]. troca energética, melhor circulação periférica, diminuição da
As características físicas e os fatores de risco associados gordura corporal, decréscimo dos níveis de gordura
a lombalgia, incluem flexibilidade, discrepância no sangüínea, prevenção contra doenças arterio-coronarianas,
comprimento de membros inferiores, disfunção da articulação desenvolvimento de valências físicas, por exemplo, a
sacroilíaca, intensidade do treinamento e limitações de força flexibilidade, a força, a coordenação neuro-muscular e a
muscular [24]. agilidade, mais proveitosa qualidade de vida e
A lombalgia resultaria de processos degenerativos, desenvolvimento da estética corporal [35,36].
originados por mudanças relacionadas à idade ou por forças A flexibilidade é um componente considerável de aptidão
biomecânicas alteradas. Várias síndromes produzem física. Exercícios pretendidos em benefício do desenvolvimento
degeneração progressiva da coluna lombar, como nos casos da flexibilidade incorporam-se na maioria dos programas de
da osteoartrite facetária, da estenose espinhal lombar, das condicionamento, a fim de aprimorarem o desempenho atlético
discopatias e da espondilolistese [15,25]. e a redução do risco de lesões nos esportes [37].
Investigações revelam que a degeneração do disco A prática desportiva precisa de um bom nível de
intervertebral e a espondilólise lombar se registram com flexibilidade, pois exige a utilização completa dos arcos

artigo 13 - Karynne.pmd 39 11/02/04, 12:05


40 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

articulares, especificamente envolvidos nos gestos des- adequadamente em um programa de treinamento, provocam
portivos, a fim de alcançar-se uma performance de alto uma sensação de fadiga que persiste mesmo após os períodos
rendimento [38]. regulares de recuperação, acarretando alterações emocionais,
A atividade física, contudo, só produzirá efeitos comportamentais e físicas.
benéficos em seus praticantes, caso seja escolhida com A maioria dos episódios de lombalgia detectada por causa
critério, aprendida, apreciada e, fundamentalmente, dosada do treinamento é secundária a contusões, tensão muscular
em intensidade e volume; outrossim, espera-se que seja ou síndrome facetária, e associada a mecanismo traumático
adequada a cada tipo de participante, ao grupo e aos ou movimentos repetitivos [47].
objetivos pro-postos. Quer se dizer com isso que, além As lesões desportivas, em geral, classificam-se em dois
dos princípios científicos do treinamento desportivo - tipos: lesão traumática aguda, que é resultante de uma pancada
individualidade biológica, adaptação, sobrecarga, ou torção devido ao deslocamento, fratura ou distenções; e
continuidade, interdepen-dência volume-intensidade e lesão por repetição, advinda de treinamento repetitivo e
especificidade [39] -, outros importantes critérios devem microtraumas [48].
ser empregados e respeitados [40]. Aproximadamente, metade de todas as lesões referentes
A abordagem tradicional que destaca a necessidade de às práticas desportivas, tanto em adultos como em crianças e
esforços físicos contínuos e vigorosos, repercutindo em adolescentes, pode ser atribuída a microtraumas repetitivos
ganhos significativos nos componentes da aptidão física, vem ou ao excesso de treinamento. A etiologia destas lesões é
se modificando. A participação regular em exercícios físicos multifatorial, contribuindo para elas, tanto fatores intrínsecos,
de força moderada prestar-se-ia mais evidentes do que os como extrínsecos. Os fatores intrínsecos abrangem
advindos de esforços mais vigorosos, trazendo mais bene- alinhamento anatômico das extremidades e amplitude de
fícios a saúde. Existem fortes indícios de que programas de movimento articular, enquanto que os extrínsecos incluem
exercícios envolvendo esforços físicos moderados têm mais calçados inapropriados, superfície de treinamento inadequada
probabilidade de serem adotados e mantidos ao longo de e erros nos treinos [49].
toda a vida, em comparação com aqueles vigorosos [41]. Sherman [47] considera que o exercício deveria ser
Stein [42] acredita que traumas mecânicos, alterações realizado, sempre que possível, em superfícies macias, pois
metabólicas, além de problemas psicológicos, resultariam, da na infância e adolescência, as áreas de risco são governadas
atividade física feita de forma inadequada. pelos centros primários e secundários de ossificação, surgindo
Diversos investigadores do tema insistem que os alunos na forma de osteocondrose, degeneração ou necrose, seguida
devem submeter-se a exame médico, antes de serem avaliados por regeneração ou recalcificação.
pelo professor [39]. Recomendou-se o exercício no tratamento da lombalgia,
Machado e Fernandes Filho [39] advogam que a prescrição durante décadas. A melhoria da aptidão aeróbia elevaria o
do exercício incluirá a avaliação médica e a análise da fluxo de sangue e a oxigenação dos tecidos, inclusive dos
freqüência, da intensidade do treinamento, da duração do músculos, ossos e ligamentos da coluna vertebral. O exercício
exercício e de sua modalidade. aeróbio também é passível de amortecer o impacto
Danos na coluna lombar acometem, com freqüência, atletas psicológico da dor lombar, agindo positivamente sobre o
competitivos e “recreativos”. Documenta-se a ocorrência de humor, a depressão e a tolerância à dor [24].
lombalgia em vários atletas de diferentes jogos esportivos, Li e Bombardier [50] assevera que na terapia física da
incluindo o futebol americano, o golfe, a ginástica, a corrida e lombalgia, cabem exercícios que envolvem atividades
o tênis. Presentifica-se em maior grau em esportistas que aeróbicas de baixo impacto e de condicionamento abdominal.
participam de jogos de velocidade e contato [24]. Nas academias os exercícios resistidos, a bem do
A atividade esportiva, cujos fins são competitivos, expõe desenvolvimento das valências físicas, força e resistência
riscos de dores e doenças na coluna lombar, associados aos muscular, associados a alongamentos específicos, assinalam-
esforços musculares acentuados e repetitivos [43]. se em forma de fatores de proteção à coluna. À proporção
A lombalgia, ao atacar os atletas jovens, decorre dos que o músculo é sobrecarregado, através de exercícios com
elementos posteriores da coluna. Homologam algumas pesos devidamente orientados e controlados, a força e a
publicações que a ocorrência de alta freqüência de resistência à fadiga, aumentarão, diminuindo-se, então, o risco
espondilólise, causada pela extensão máxima, repetida em de lesões [43].
jogos esportivos e na ginástica [44]. Na opinião de Novaes e Vianna [51], ao revelarem a grande
As fraturas de tensão são danos de overtraining ou síndrome diversificação nas atividades das academias. Os clientes podem
do excesso de treinamento, comuns entre atletas e indivíduos optar pela musculação, passando, antes ou depois, por várias
fisicamente ativos, sendo reconhecida entre recrutas do modalidades de ginástica (aeróbica, localizada, step training,
exército por um cirurgião prussiano em 1855 [45]. body pump, natação, hidroginástica, alongamento, lutas
Garcia Júnior e Mortatti [46] complementam que as squash, tênis, e até pelas atividades mais recentes no mundo
variáveis intensidade e volume, quando não dosadas fitness, como bikeclass, spinning, aerobox, slide e outros).

artigo 13 - Karynne.pmd 40 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 41

Segundo Dos Santos [52] as modalidades mais praticadas Como instrumentação aplicou-se um questionário
nas academias são a musculação, 60,6%, a localizada, 27,1%, epidemiológico, auto-aplicável adaptado do Quebec Back Pain
e a aeróbica, 10,8%. Disability Scale. Deu-se ênfase às perguntas sobre a dor lombar
Os achados citados no parágrafo anterior corroboram e também sobre outros dados - idade, sexo, estado civil,
com os estudos de Novaes [53], ao defendem que o paradigma profissão e descrição da atividade física.
atual de beleza é retratado pelo corpo atlético com Todas as questões foram fechadas, porém algumas
musculatura muito bem definida. Aconselham, para atingir continham ítens para serem especificados, por exemplo: “De
tal fim, sobretudo a ginástica localizada e a musculação, além que maneira a dor se manifesta em atividade ou repouso, e
de um baixo percentual de gordura corpórea, através das em qual (is) movimento (s) e em qual (is) posição (ões),
atividades aeróbicas. respectivamente”?
Costa [54] complementa, atentando que o alto percentual O questionário Quebec Back Pain Disability Scale,
na prática da musculação, parte do fato de que esta atividade devidamente validado, sofreu pequenos reajustes,
admite grande diversidade de horários, proporciona a principalmente quanto às perguntas sobre dor lombar;
realização de exercícios personalizados e, também, o também excluiram-se dados como hábitos pessoais e fatores
desenvolvimento de outras qualidades físicas diferentes das individuais (fumo, álcool, atividade física extra, sono), fatos
desenvolvidas na ginástica. psicológicos e psicossociais (perfil de personalidade, relações
Segundo Pereira [55], a musculação funciona como uma afetivas com amigos e família).
atividade preventiva e de recuperação, visando a uma melhor Os questionários foram distribuídos e recolhidos pela
qualidade de vida. Acredita que ninguém se machuca por autora do estudo, com o intuito de atender aos objetivos da
executar exercícios. O que normalmente ocorre é a lesão ser pesquisa. Explicou-se, de modo geral, em que consistia o
ocasionada pela execução inadequada de exercícios, pelo estudo, esclarecendo sua importância em benefício dos
exagero ou pela utilização de alguma técnica indevida. A próprios pesquisados. Sendo assim, os alunos aceitaram
maioria dos casos de lesões na musculação ocorre por excesso participar, respondendo as perguntas do instrumento.
de sobrecarga de trabalho, o chamado overtraining. O presente estudo observou o tratamento estatístico a
O número crescente de academias, escolas e univer- bem das normas básicas, mantenedoras da cientificidade da
sidades com recursos para o treinamento com pesos também pesquisa. O nível de significância atingiu p < 0,05, isto é,
confirma a popularidade desta forma de condicionamento 95% de certeza nas afirmativas e/ou negativas que o presente
físico [56]. estudo venha denotar.
O elevado número de praticantes de musculação e de O tratamento estatístico foi dividido em duas partes: a
academias que oferecem tal atividade, junto a sobrecarga que primeira relativa à estatística descritiva, na qual se determinaram
esta modalidade é capaz de causar à região lombar da coluna as distribuições de freqüências para os dados de natureza
vertebral, aliam-se a falta de literatura sobre o tema. Torna- discreta, isto é, os que obedecem ao sistema de contagem
se, pois, necessário um levantamento epidemiológico. Tal conforme o processo específico de classificação, além dos dados
levantamento identificaria a prevalência de lombalgia em alunos de natureza contínua, quer dizer, aqueles que obedecem a um
de musculação e ofereceria substrato, para programas de sistema métrico bem definido, e colocam em prática, os
prevenção, a saúde e qualidade de vida desta classe. parâmetros de média, desvio-padrão, mínimo e máximo.
Portanto, o objetivo geral deste estudo é identificar a A segunda parte tratou da estatística inferencial, por
prevalência de lombalgia em praticantes de musculação, de meio da qual aplicaram-se os testes de hipóteses. Utilizou-
ambos os sexos, no município do Rio de Janeiro e demonstrar se, então, o teste não paramétrico Qui-Quadrado; através
a correlação entre dor lombar e a prática dessa atividade. dele fez-se a análise comparativa, entre as distribuições de
Isto com o propósito de investigar a relação entre dor lombar freqüências derivadas dos cruzamentos entre as questões
e atividade física, objetivando, no futuro, a elaboração de um levantadas e as respectivas variáveis discricionárias (faixa
programa de educação para a saúde. Este programa visaria o etária e presença de dor).
bem estar físico, social e psicológico dos praticantes.
Resultados
Material e métodos
A prevalência da dor lombar atingiu 57,1%, dos
A amostra contou com 160 (cento e sessenta) praticantes praticantes. Existem relações de dependência da variável sexo
de musculação em academias, sendo 117 mulheres e 43 com o tempo de prática (p = 0,0401) e o manifesto da dor (p
homens, com idade média igual a 27,98 + 9,61, escolhidos = 0,2862). Para a variável idade, verificou-se a relação de
aleatoriamente do Município do Rio de Janeiro. Acrescenta- dependência com o tempo de prática (p = 0,0008),
se que foram excluídos indivíduos que executavam outro tipo perfeitamente aceitável e coerente.
de atividade física, e que estivessem se submetendo a algum As variáveis dor lombar, freqüência da dor lombar e
tipo de tratamento para a dor lombar. manifesto da dor, encontraram-se relações de dependências

artigo 13 - Karynne.pmd 41 11/02/04, 12:05


42 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

significativas (p < 0,05), denotando que as mesmas são inter- A execução do exercício de agachamento com sobrecarga,
relacionadas. Para as demais variáveis e os respectivos provoca o aumento da pressão intradiscal e do trabalho da
cruzamentos, não foram encontradas relações significativas musculatura paravertebral, sobretudo nas execuções
de dependência. incorretas [22].
Nos exercícios abdominais, o movimento de flexão
Tabela I - Descrição das variáveis e parâmetros. completa do tronco ativa a função paradoxal do músculo
Parâmetro Descrição íliopsoas, de flexor do quadril para extensor da coluna lombar
Sexo Sexo [36]. Quando o psoas se contrai, ele se une ao ilíaco na flexão
Faixa etária Faixa etária da articulação do quadril e tende a tracionar as vértebras
P21 Tempo de prática
lombares, numa direção anterior e inferior. Por seu turno, se
P22A Freqüência semanal
P22B Horas/Aula
os músculos abdominais se contraírem simultaneamente,
P31 Dor lombar evita-se a inclinação da pelve para frente e ocorre a flexão
P33 Freqüência da dor lombar, a flexão do quadril, ou ambas. Mas se os abdominais
P35 Manifesto dor são fracos, a pelve se inclina para frente, sob a influência do
ilíaco, enquanto ocorre a extensão lombar [54].
Segundo Costa [54], as diferentes posições assumidas por
Tabela II - Resultados da estatística inferencial, segundo um indivíduo e os diferentes exercícios para os membros
a aplicação do teste χ2 por sexo. superiores proporcionam diferentes sobrecargas nos discos
Sexo Qui-Quad g.l Sig.p Resultado intervertebrais. A curvatura lombar se acentua, ao utilizarem
Idade 12,14 7 0,0960 Independentes altas cargas de trabalho para membros superiores, especialmente
P21 11,64 5 0,0401 Dependentes
quando estes se encontram elevados acima da cabeça. Além
P22A 7,74 3 0,0517 Independentes
P22B 8,91 4 0,0634 Independentes disso, os movimentos de flexão de braço e glúteos em “quatro
P31 2,13 1 0,1444 Independentes apoios”, em função das altas intensidades de trabalho exigidas
P33 3,25 5 0,6615 Independentes e da grande incidência de execuções inadequadas, podem resultar
P35 3,78 3 0,2862 Independentes em uma postura hiperlordótica da região lombar.
Por um outro lado, o treinamento de força pode aumentar
ou preservar a massa muscular, especialmente de indivíduos
Tabela III - Resultados da estatística inferencial, segundo em fase de envelhecimento, contribuindo para o decréscimo
a aplicação do teste χ2 por faixa etária. de lesões ortopédicas e manutenção da independência
Idade Qui-Quad g.l Sig.p Resultado funcional [57].
P21 67,54 35 0,0008 Dependentes
P22A 35,94 21 0,0222 Dependentes
P22B 32,31 28 0,2621 Independentes
Conclusões
P31 1,74 7 0,9728 Independentes
P33 52,27 35 0,0304 Dependentes Em decorrência da grande prevalência da lombalgia na
P35 13,71 21 0,8817 Independentes população em geral, a sua prevenção constitui uma estratégia
primordial de intervenção terapêutica.
A constatação de que o número de academias, em todo o
Discussão Brasil, tem crescido de forma impressionante só vem
incentivar e respaldar a necessidade do embasamento
A prevalência de dor lombar em praticantes de científico aos profissionais que atuam nessa área.
musculação, expressa nesta pesquisa chegou a 57,1%. Inadiável é esforçar-se para que a intensidade da atividade
Neste tipo de atividade, a prevalência é alta, quando física seja dosada segundo cada faixa etária, acresce que o
comparadas com outras como as do basquetebol, 11 a fator individualidade biológica sempre deverá presentificar-
12%, voleibol, 11%, golfe, 10%, corrida, 5%, tênis, 50% se com nitidez em qualquer programa de atividade física.
e futebol, 30% [24] e também, com a ginástica de Outrossim, na musculação em academia torna-se
academia, que é de 50,4% [52]. imprescindível controlar as variáveis como a dosagem dos
Algumas questões podem estar relacionadas com a alta exercícios em intensidade (número de exercícios ou repetições
prevalência nesse tipo de atividade física, que por sua vez, se realizadas na unidade de tempo, percentual de peso levantado
assemelham a ginástica de academia. e duração dos intervalos de tempo entre os estímulos),
Pollock e Wilmore [29] sugerem que as atividades de volume (número de exercícios, repetições e duração); tipo
alto impacto, como as corridas, a dança aeróbica e o de exercício; a realização de exercícios de alongamento, antes
basquetebol, correlacionadas às grandes forças de e depois das aulas, e o aquecimento antes das aulas.
compressão aplicadas sobre a coluna, podem precipitar ou Os exercícios para prevenção da lombalgia precisam
agravar os problemas lombares. incorporar-se à vida diária, não só dos alunos de academia,

artigo 13 - Karynne.pmd 42 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 43

mas também, de toda a comunidade, em geral, com o intuito 16. Mimura M, Panjabi MM, Oxland TR, Crisco JJ, Yamamoto I,
de se obter resultados satisfatórios, ao garantir a redução da Vasavada A. Disc degeneration affects the multidirectional
prevalência de algias lombares. flexibility of the lumbar spine. Spine 1994;19(12):1371-80.
Ao prescreverem-se as atividades físicas de maneira 17. Camargo TCR, Álvares V. Atuação fisioterápica em paciente
portador de hérnia discal lombar em L4-L5. Fisioter Mov
adequada e segura, recomenda-se, inicialmente, conhecer as
1997;9(2):36-43.
condições atuais de saúde e condicionamento físico de cada
18. Dias CL, Aires JM, Weidebach W. A clínica e o tratamento
indivíduo. Os alunos devem submeter-se às avaliações médica fisioterápico da hérnia discal lombar. Coluna Fisioterápica
e física, estabelecendo, assim, a intensidade do treinamento, 2001;1(1):10-14.
a duração do exercício e a modalidade. 19. Fazzi A, Barros Filho TEP, Basile Jr R. Lombalgia do
É aconselhável que a elaboração de programas educativos, compartimento posterior: importância no processo
tanto de prevenção, quanto contra a recorrência da lombalgia, degenerativo. Rev Bras Ortop 1992; 27(3):106-11.
através da atividade física, se direcione no sentido de 20. Cailliet R. Síndrome da dor lombar. Porto Alegre: Artmed; 2001.
desencadear conhecimentos, atitudes e comportamentos 21. Cox JM. Dor lombar: mecanismo, diagnóstico e tratamento.
compatíveis com uma dinâmica social fisicamente ativa e São Paulo: Manole; 2002.
desenvolvida, no cotidiano de vida, ao longo da existência 22. Coimbra R, Oliveira L. Compressão intradiscal em L5/S1
no exercício de agachamento. Rev Bras Ativ Fís Saúde
das pessoas, independente da sua área de atuação.
1998;3(4):27-34.
23. Driusso P, Oishi J, Rennó ACM, Ferreira V. Efeitos de um
Referências programa de atividade física na qualidade de vida de
1. Cheren JA. A coluna vertebral dos trabalhadores. Méd Reabil mulheres com osteoporose. Rev Fisioter Univ São Paulo
1992;(31):17-25. 2000;7(1,2):1-9.
2. Tavares ARA, Feitosa EL, Bezerra LMM. Proposta de 24. Nadler SF, Malanga GA, Stitik TP, Smith SD. Lack of focused
implantação do fisioterapeuta na escola, face a alterações research poses treatment challenge. [citado 2000 sept 19].
posturais. Coluna Fisioterápica 2001;1(1):18-21. Disponível em: URL:<http://www.biomech.com.
3. Bouter LM, Van Tulder MW, Koes BW. Methodologic issues 25. Nam E, Haak MH. lumbar injuries require sport-specific
in low back pain research in primary care. Spine treatment. [citado 2002 sept 28]. Disponível em:
1998;23(18):2014-20. URL:<http://www.biomech.com.
4. Schettino LC, Gomes D, Lima A. Dez dúvidas sobre os 26. Hutton WC, Toribatake Y, Elmer WA, Ganey TM, Tomita
problemas de coluna. O Globo. Rio de Janeiro, 11/01/2004. K, Whitesides TE. The effect of compressive force applied
5. Nascimento AZ, Aguiar CM, Ferreira PH. O Efeito do protocolo to the intervertebral disc in vivo. Spine 1998; 23::2524-37.
de McKenzie e da mobilização vertebral no ganho da mobilidade 27. Campello M, Nordin M, Weiser S. Physical exercise and low
da coluna lombar. Fisioter Mov 1999;13(1):27-48. back pain. Scandinavian Journal of Medicine & Science in
6. Leboeuf-Y de C, Lauritsen JM. The prevalence of low back Sports 1996;(6):63-72.
pain in the literature. Spine 1995; 20(1):2112-18. 28. Monteiro AG, Silva SG, Arruda M. Aspectos metabólicos e
7. Frymoyer JW. Can low back pain disability be prevented? cardiorrespiratórios na ginástica aeróbica. Rev Bras Ativ Fís
Baillière’s Clinical Rheumatology 1992;6(3):595-606. Saúde 1998;3(4):42-8.
8. Klein AB, Snyder-Mackler L, Roy SH, Deluca CJ. 29. Pollock ML, Wilmore JH. Exercícios na saúde e na doença:
Comparison of spinal mobility and isometric trunk extensor avaliação e prescrição para prevenção e reabilitação. Rio de
forces with electromyographic spectral analysis in identifying Janeiro: Medsi; 1993.
low back pain. Phys Ther 1991;71(6):445-54. 30. Pellegrinotti IL. Atividade física e esporte: a importância no
9. Pereira APB, Souza LAP, Sampaio RF. Back School: um contexto saúde do ser humano. Rev Bras Ativ Fís Saúde
artigo de revisão. Rev Bras Fisioter 2001;5(1):1-8. 1998;3(1):22-28.
10. Cappaert TA. The sacroiliac joint as a factor in low back pain: a 31. De Vitta A, Neri AL, Padovani CR. Nível de atividade física e
review. Journal of Sport Rehabilitation 2000;9(2):169-83. desconfortos músculo-esqueléticos percebidos em homens e
11. Salter RB. Distúrbios e lesões do sistema musculoesquelético. mulheres, adultos e idosos. Rev Bras Fisioter 2003;7(1):45-52.
Rio de Janeiro: Medsi; 2001 32. De Freitas AM, Tubino MJG. Aderência às práticas
12. Loureiro MA, Martins DM, Ferreira PH. Relação entre esportivas. Fitness & Performance 2003; 2(4):213-20.
curvatura lombar e ação muscular lombo-pélvica. Fisioter 33. Matsudo SMM, Araújo TL, Matsudo VKR, Andrade DR,
Mov 1997;10(1):102-10. Valquer W. Nível de atividade física em crianças e
13. Carpenter DM, Graves JE, Pollock ML, Leggett SH, adolescentes de diferentes regiões de desenvolvimento. Rev
Foster D, Holmes B, Fulton MN. Effect of 12 and 20 weeks Bras Ativ Fís Saúde 1998;3(4):14-26.
of resistance training on lumbar extension torque 34. Caromano FA, Kerbauy RR. Efeitos do treinamento e da
production. Phys Ther 1991;71(8):36-44. manutenção da prática de atividade física em quatro idosos
14. Ricard F, Sallé JL. Tratado de osteopatia: São Paulo: Robe; sedentários saudáveis. Rev Fisioter Univ São Paulo
1996. 2001;8(2):72-80.
15. Iversen MD. Rehabilitation: Endurance training offsets chronic 35. Costa MG. Ginástica localizada. Rio de Janeiro: Sprint; 1996.
low back pain. [citado 2000 sept 19]. Disponível em: URL: 36. Geraldes AAR. Ginástica localizada: teoria e prática. Rio de
http://www.biomech.com. Janeiro: Sprint; 1993.

artigo 13 - Karynne.pmd 43 11/02/04, 12:05


44 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

37. Watson AWS. Development and evaluation of procedures 47. Sherman G. Custom Orthoses: Biomechanical concerns in
for valid and reliable estimation of the flexibility of athletes. the young athlete. [citado 2000 sept 19]. Disponível em:
Ver Fisioter Univ São Paulo 1997;4(2):66-75. URL:<http://www.biomech.com.
38. Dantas EHM, Soares JS. Flexibilidade aplicada ao personal 48. Micheli LJ, Wood R. Back Pain in young athletes. Archive of
training. Fitness & Performance 2001;1:7-12. Pediatric Adolescent Medicine 1995;149:15-18.
39. Machado JFV, Fernandes Filho J. Caracterização dos critérios 49. Krivickas LS. Anatomical factors associated with overuse
de seleção utilizados para a formação de equipes esportivas: sports injuries. Am J Sports Med 1997;24(2):132-146.
análise preliminar no contexto de esportes coletivos e 50. Li LC, Bombardier C. Physical therapy management of low
individuais. Fitness & Performance 2001;1:15-24. back pain: an exploratory survey of therapist approaches.
40. Geraldes AAR, Dantas EHM. O conceito de fitness e o Phys Ther 2001;81(4):1018-27.
planejamento do treinamento para a performance ótima 51. Novaes JS, Vianna JM. Personal training & condicionamento
em academias de ginástica. Rev Bras Ativ Fís Saúde físico em academia. Rio de Janeiro: Shape; 1998.
1998;3(1):29-36. 52. Dos Santos KGLL. A prevalência de lombalgia em mulheres
41. Guedes DP, Guedes JERP, Barbosa DS, De Oliveira JA. praticantes de ginástica em academia. [Dissertação]. Rio de
Níveis de prática de atividade física habitual em adolescentes. Janeiro: Universidade Castelo Branco; 2002.
Rev Bras Med Esporte 2001;7(6):187-199. 53. Novaes JS. Ginástica em Academia no Rio de Janeiro: uma
42. Stein R. Atividade física e saúde pública. Rev Bras Med pesquisa histórico-descritiva. Rio de Janeiro: Sprint; 1991.
Esporte. 1999;5(4):147-9. 54. Costa MG. Ginástica localizada: grupos heterogêneos. Rio
43. Toscano JJO, Egypto EP. A influência do sedentarismo na de Janeiro: Sprint; 1998.
prevalência de lombalgia. Rev Bras Med Esporte 2001;7(4): 55. Pereira N. Musculação: compromisso profissional com um
132-7. treinamento de qualidade. Órgão Oficial do Conselho Federal
44. Kujala UM, Taimela S, Oksanen A, Salminen JJ. Lumbar de Educação Física. 2002;(4):3-4.
mobility and low back pain during adolescence. Am J Sports 56. Fleck SJ, Kraemer WJ. Fundamentos do treinamento de força
Med 1997; 25(3):363-8. muscular. Porto Alegre: Artmed; 1999.
45. Verscheure SK, Hoefelein MR. Factors affecting the treatment 57. Veloso U, Monteiro W, Farinatti P. Exercícios contínuos e
of stress fractures in athletes: an analysis of the literature. Journal fracionados provocam respostas cardiovasculares similares
of Sport Rehabilitation 1999; 8(2):135-47. em idosas praticantes de ginástica? Rev Bras Med Esporte
46. Garcia Júnior JR, Mortatti AL. Overtraining: aspectos 2003;9(2):78-84. C

fisiológicos. Treinamento Desportivo 1998;3(3):73-84.

artigo 13 - Karynne.pmd 44 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 45

Revisão

Alterações no consumo de oxigênio, na difusão da


membrana alvéolo-capilar e anormalidades músculo
esqueléticas observadas após transplante cardíaco
Impairment of oxygen uptake, alveolo-capillary
membrane diffusion and musculoskeletal abnormalities
after heart transplantation

Luciana Leitão Santos*, Gisele Alves Guimarães**

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta graduada pela Universidade Católica do Salvador, **Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade Católica do Salvador

Resumo
Objetivo: Observar as anormalidades persistentes após transplante cardíaco e a influência
Palavras-chave: destas na capacidade para o exercício. Métodos: Foi realizada revisão da literatura
Transplante cardíaco, especializada nos últimos 13 anos através das bases de dados Medline, Lilacs e livros
exercício, difusão alovéolo- publicados no período. Resultados: Ainda que, após a intervenção cirúrgica, haja um
capilar.
incremento na performance cardíaca, nos sintomas e na hemodinâmica, as alterações no
consumo de oxigênio, na difusão da membrana alvéolo-capilar e anormalidades músculo-
esqueléticas persistem após o transplante cardíaco, apesar da discreta melhora. Conclusões:
Anormalidades músculo-esqueléticas, na difusão da membrana alvéolo-capilar e no
consumo de oxigênio adquridas no curso da insuficiência cardíaca congestiva não são
curadas após transplante cardíaco. Esses resultados interferem diretamente na capacidade
para o exercício desses pacientes.

Abstract
Objective: To observe persistent abnormalities after heart transplantation and its
Key-words: influence on exercise capacity. Methods: A literature review was realized including the last
heart transplantation, 13 years in Medline and Lilacs database and books published in the same period. Results:
exercise, alveolo-capillary Even though, after surgical intervention, there was a improvement in cardiac performance,
diffusion.
symptoms and hemodynamics, uptake oxigen changes, alveolo-capillary membrane
diffusion changes and musculoskeletal abnormalities persist after heart transplantation,
despite minimal improvement. Conclusions: Impairement on oxigen uptake, alveolo-capillary
membrane diffusion and musculoskeletal after heart transplantation acquired in congestive
heart failure are not cure after heart transplantation. These results interfere directly on
exercise capacity in these patients.

Artigo recebido 24 de fevereiro de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Luciana Leitão Santos, Rua Guilherme Marback, 6 Bonfim 40415-160 Salvador BA, Tel : (71) 312-7071/9141-5129,
E-mail: luciana-leitao@bol.com.br

artigo 06 - Luciana.pmd 45 11/02/04, 12:05


46 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Introdução Alterações observadas após o


transplante cardíaco
A insuficiência cardíaca grave constitui-se num estado
fisiopatológico no qual um déficit na função cardíaca é Apesar de todo o aprimoramento da técnica, a
responsável pela incapacidade do coração em bombear infecção permanece como uma das principais causas de
sangue em um ritmo capaz de suprir as necessidades morbidade e mortalidade significativa após o transplante,
metabólicas dos tecidos. A insuficiência cardíaca grave tem mesmo com a utilização de modernos antimicrobianos [1].
como causas mais comuns a aterosclerose, cardiomiopatia, Além dessa complicação, o transplantado está sujeito aos
valvulopatia, hipertensão arterial sistêmica (HAS) e efeitos da imunossupressão [1-6] e do descondicionamento
pericardiopatia, as quais têm como condições associadas pré-transplante [7-10]. A qualidade de vida do paciente após
mudanças nos hábitos de vida e ao envelhecimento o transplante melhora consideravelmente, revelando
populacional global. No Brasil, as causas mais comuns são: melhorias quanto às limitações funcionais, possibilitando o
miocardiopatia dilatada, seguida de miocardiopatia chagásica retorno ao trabalho e reintegração na sociedade [11]. Após a
e isquêmica [1]. intervenção cirúrgica, há uma melhora na hemodinâmica, na
O transplante cardíaco é a terapêutica de escolha para performance cardíaca e nos sintomas, mas, ainda assim, a
pacientes portadores de insuficiência cardíaca congestiva capacidade para o exercício é prejudicada [12-14]. A presente
(ICC) refratária ao tratamento clínico no qual a intervenção revisão apresenta algumas das alterações observadas em
medicamentosa e cirúrgica convencional prévia (troca de pacientes submetidos a transplante cardíaco, as quais
válvulas, aneurismectomia, revascularização miocárdica ou influenciam no desenvolvimento de fadiga e conseqüente
implante de marcapasso/desfibrilador) falharam [1,2]. Tal intolerância ao exercício demonstradas por esses pacientes.
fato tornou-se possível devido à evolução tecnológica,
medicamentosa e de pesquisas direcionadas para essa Consumo de oxigênio (VO2)
intervenção.
O presente estudo tem por objetivo apresentar as O consumo máximo de oxigênio, potência aeróbica
alterações no consumo de oxigênio, na difusão da membrana máxima ou VO2 máximo são sinônimos para designar o
alvéolo-capilar e as anormalidades músculo-esqueléticas momento no qual a captação de O2 alcança um platô durante
persistentes nos pacientes submetidos à transplante cardíaco a prática de atividade física e não mostra qualquer aumento
e a influência dessas na capacidade ao exercício, ressaltando adicional ou aumenta pouco com uma carga adicional de
a importância desses conhecimentos para o bom andamento trabalho. Um trabalho físico adicional será realizado pelas
do programa de reabilitação cardíaca. reações de transferência de energia da glicólise com formação
de ácido lático. Sendo assim, o indivíduo ficará exausto e
Metodologia incapaz de continuar a realização da atividade proposta [15].
O VO2 mede a capacidade funcional dos pulmões e do
Esse artigo de revisão de literatura teve suas referências sistema cardiovascular, relacionando-se e dependendo dos
obtidas através de pesquisa por meio da base de dados sistemas de fornecimento, transporte, chegada e utilização
Medline e Lilacs. As palavras-chave utilizadas foram: do oxigênio [15,16]. O VO2 máximo e o limiar anaeróbico
transplante cardíaco, exercício e músculo esquelético. A busca têm sido utilizados para avaliar a gravidade do
de artigos inclui ainda checagem manual de referências e comprometimento cardíaco [16-19]. O consumo de oxigênio
capítulos de livros. Foram encontrados artigos publicados está intimamente ligado com a velocidade de utilização de
em várias línguas, sendo selecionados apenas aqueles ATP [16]. Os pacientes cardiopatas e transplantados
publicados nos idiomas inglês e português. Dessas referências, habitualmente não atingem o consumo máximo de O2,
foram selecionados 20 artigos que preencheram outros definindo-se então o VO2 de pico como o maior VO2 obtido
critérios de inclusão: ano de publicação compreendido entre [19], sendo observado que tais pacientes atingem VO2
1988 e 2001 e apresentação de dados referentes às alterações máximo menor que o predito em testes de exercício [16-19].
observadas após o transplante cardíaco. Foram excluídos Pacientes com significativa vasculopatia do enxerto
todos aqueles artigos que tratavam de transplante cardíaco alógeno têm também uma baixa tolerância ao exercício com
em crianças bem como os que apresentavam descrições do consumo de oxigênio máximo menor que os valores preditos
procedimento cirúrgico e outros procedimentos médicos e após o transplante. Outros fatores com rejeição, denervação
farmacológicos. cardíaca (a qual pode influenciar na capacidade para alcançar
Dos artigos selecionados, 6 são do Brasil, 4 dos Estados a freqüência cardíaca máxima predita para a idade), terapia
Unidos, 3 do Canadá, 3 da Alemanha, 2 do Reino Unido, 1 imunossupressora, descondicionamento, alteração músculo
da França e 1 da Suécia. Os livros ou capítulos de livros esquelética e falha do coração a longo prazo antes do
utilizados também tiveram anos de publicação coincidentes transplante podem contribuir para o VO2 máximo abaixo do
com os dos artigos. predito não só em pacientes com vasculopatia do aloenxerto

artigo 06 - Luciana.pmd 46 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 47

como em todos os receptores de transplante cardíaco [16,18- Em contrapartida, a transferência do monóxido de carbono
24]. A limitação ao exercício é observada na maioria dos (CO) é limitada unicamente pela difusão sendo, por esse
pacientes avaliados de acordo com o consumo máximo de motivo, o gás de escolha para observar as propriedades de
oxigênio e máxima carga de trabalho encontrada, levando a difusão do pulmão [19,20,7,8]. A redução do volume
uma capacidade de trabalho e absorção de oxigênio sanguíneo capilar por processo patológico é capar de
reduzidas [21]. diminuir a capacidade de difusão pulmonar. A capacidade
de difusão do pulmão para o CO é norteada pela área e
Difusão na membrana alvéolo-capilar espessura da barreira sangue-gás e pelo volume de sangue
nos capilares [25].
A transferência de gás movimentado desde a atmosfera Observou-se discreta melhora no fator de remoção
até os alvéolos através da barreira sangue-gás ocorre por pulmonar para o CO como resultado do aumento na
difusão. O fluxo sanguíneo pulmonar é grandemente capacidade pulmonar total, atribuída a melhora no mecanismo
aumentado durante o exercício intenso fazendo com que o do gradil costal [7]. Apesar da melhora na função ventilatória
tempo de passagem do eritrócito no capilar seja diminuído. que ocorre após um ano, não ocorreu melhora adicional após
Conseqüentemente, o tempo disponível para a oxigenação é esse período. A capacidade de difusão tem sido mostrada em
menor, porém indivíduos normais respirando ar ambiente correlação com a diminuição da capacidade ao exercício.
não apresentam queda mensurável na PO2 capilar final [25]. Entretanto, esse fator vem sendo mostrado também como
Contudo, se a barreira sangue-gás encontra-se comprometida não limitante da capacidade ao exercício em pacientes com
por algum processo patológico que dificulte a difusão do ICC e transplantados. As anormalidades ventilatórias têm
oxigênio, a velocidade de elevação da PO2 nos eritrócitos é sido reportadas em conexão com a diminuição da capacidade
correspondentemente lenta e esta pode não alcançar o nível para o exercício após transplante [7,8].
de PO2 do gás alveolar antes que o tempo disponível para
sua oxigenação no capilar tenha terminado. Como resultado, Anormalidades músculo-esqueléticas
observa-se uma diferença na PO2 existente entre o gás alveolar
e o sangue capilar final. O exercício severo reduz o tempo Existem dois tipos de fibra músculo-esquelética
disponível para a oxigenação com conseqüente diminuição classificadas por suas características contráteis e metabólicas.
da PO2 [25]. Desse modo, um paciente com debilidade na As fibras do tipo I são de contração lenta com padrão de
barreira sangue-gás tem mais chances de apresentar atividade elétrica tônico [23]. Contêm numerosas
comprometimento na difusão, caso ele se exercite [8]. mitocôndrias relativamente volumosas, sendo resistentes à
Pacientes com ICC apresentam freqüentemente fadiga e bem apropriadas para o exercício aeróbio
deficiência da função respiratória causada por aumento da prolongado por possuírem alta concentração de enzimas
área cardíaca e efusão pleural recorrentes [8]. Outros fatores mitocondriais necessárias para alimentar o metabolismo
que contribuem são: congestão venosa pulmonar com edema aeróbio.Já as fibras tipo II são de contração rápida com
intersticial, fibrose progressiva e diminuição da perfusão padrão de atividade elétrica fásico. Possuem alta
alveolar [21]. Alterações pulmonares restritivas e obstrutivas fadigabilidade e capacidade de gerar energia rapidamente
ocorrem no curso da deficiência cardíaca. Com a progressão para produzir contrações rápidas e vigorosas. Dependem
da patologia, mudanças estruturais na membrana alvéolo essencialmente de seus sistemas glicolíticos a curto prazo
capilar acontecem resultando em debilidade na capacidade bem desenvolvidos para a transformação de energia.
de difusão. As alterações na função respiratórias Acredita-se que o treinamento específico (e talvez a
correlacionadas com mudanças hemodinâmicas são utilizadas inatividade) possa induzir uma verdadeira transformação
como parâmetro para avaliação do estágio e severidade da de fibras tipo I para tipo II e vice-versa [15].
doença em pacientes com ICC [7]. Pacientes com falência cardíaca crônica, a longo prazo,
A prevalência de anor malidades ventilatórias demonstram alterações na histologia e bioquímica músculo-
obstrutivas e restritivas são melhoradas após um ano. A esquelética incluindo atrofia muscular, diminuição da
capacidade de difusão persiste diminuída após esse percentagem de fibras tipo I e aumento nas fibras tipo II e
período, sugerindo que as mudanças estruturais na II b acompanhadas por um decréscimo na capacidade
membrana alvéolo-capilar desenvolvidas no curso da ICC enzimática oxidativa, seguida de decréscimo na capacidade
não regrediram, embora o principal estímulo, a congestão aeróbia.Tais adaptações músculo-esqueléticas em resposta
venosa pulmonar, seja revertido após o transplante [7]. à falência cardíaca resultam em surgimento anaeróbio
Este estudo teve como resposta o transplante como precoce e fadiga, tendo papel importante na determinação
produtor de um aumento na taxa e severidade das da tolerância e da resposta à intervenção terapêutica [23].
anormalidades na difusão pulmonar. Outra possível explicação para o aumento do número de
Fisiologicamente, o fluxo sanguíneo disponível limita a fibras tipo II em pacientes com ICC é o resultado da seleção
transferência de oxigênio para dentro do capilar pulmonar. de células tipo I mortas devido ao aumento na formação

artigo 06 - Luciana.pmd 47 11/02/04, 12:05


48 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

de radicais livres em fibras oxidadas, transformando as fibras funcionais nas células endoteliais, incluindo uma incapacidade
tipo I em tipo II [23]. de relaxamento do endotélio dependente [10].
Pacientes com ICC a longo prazo demonstram A dispnéia pode ser exacerbada pelas anormalidades na
metabolismo anaeróbio precoce na musculatura esquelética musculatura respiratória. O trabalho de respirar é grandemente
durante o exercício. As anormalidades intrínsecas no músculo aumentado em pacientes com ICC [8,9]. A desoxigenação da
podem também contribuir para o metabolismo anaeróbio musculatura respiratória acessória ocorre durante o exercício
precoce. A diminuição do número de fibras tipo I (as quais em pacientes com ICC crônica [9]. A dispnéia apresentada
têm alto potencial para a oxidação aeróbia) e o aumento no durante o exercício submáximo é significativamente
número de fibras tipo II b é um potente estímulo para o correlacionada com parâmetros da função muscular
aparecimento precoce de metabolismo anaeróbio, respiratória, sendo aliviada após transplante. Tal fato pode ser
contribuindo para a fadiga durante o exercício [20]. atribuído às pressões pulmonares menores, melhora da função
O descondicionamento possibilita o aumento na produção da musculatura esquelética ou uma combinação desses [10].
de lactato durante o exercício submáximo na musculatura A capacidade ventilatória sustentável máxima esteve
esquelética.Observou-se que, além de alterações na significativamente diminuída em pacientes com ICC. Esta
composição da fibra, houve diminuição do número de aumenta após transplante, mas permaneceu reduzida quando
capilares ao redor de cada fibra.A hipóxia muscular devido a comparados transplantados com indivíduos normais. Essa
hipoperfusão esteve presente nos pacientes estudados [20]. descoberta é coerente com a diminuição da endurance da
Pacientes com ICC, a longo prazo, também demonstram musculatura respiratória em pacientes com ICC, a qual
depósitos de lipídios aumentados e fibrose músculo reverte-se parcialmente pós-transplante. Observou-se uma
esquelética, sugerindo uma miopatia generalizada [26] causada melhora da endurance da musculatura respiratória, mas não
tanto pelas anormalidades cardíacas quanto músculo- houve uma normalização [10].
esqueléticas. Alterações na morfologia mitocondrial também
sugerem capacidade enzimática oxidativa reduzida [20]. Conclusão
Os pacientes em estágio final da ICC submetidos à
transplante tem melhora na capacidade funcional e na Observou-se que as anormalidades na difusão continuam
capacidade para o exercício, ainda que reduzida. O aumento, presentes na maioria dos pacientes submetidos à transplante
ainda que discreto, na capacidade para o exercício está cardíaco. Entretanto, não foram encontradas evidências que
relacionada com a performance cardíaca melhorada, aumento suportem a hipótese de que a diminuição na capacidade de
do índice cardíaco, melhora da função pulmonar pela difusão da membrana alvéolo-capilar seja responsável pelo
diminuição da pressão capilar pulmonar, vasodilatação desempenho reduzido ao exercício. Este parece estar reduzido
periférica e ativação neurohumoral. A distribuição do tipo de devido à debilidade na perfusão pulmonar, baixos volumes
fibra não mudou após transplante, com persistência do correntes e fraqueza dos músculos respiratórios. Alterações
predomínio de fibras do tipo II. O número de capilares histológicas da musculatura esquelética podem ter um papel
adjacentes às fibras individualmente também não mudou [23]. importante na fisiopatologia da fadiga durante o exercício
A área de secção transversa da fibra aumentou após o após transplante cardíaco. Se o transplante reverte as
transplante. Entretanto, o aumento na área de fibra tornou- anormalidades na difusão da membrana alvéolo-capilar, no
se significativo apenas 12 meses após o transplante e as áreas consumo de oxigênio e nas anormalidades músculo-
de fibras foram, ainda assim, abaixo dos valores considerados esqueléticas, tais fatos não foram observados. A capacidade
normais [26,10]. O atraso no aumento da área de fibra pode de exercício, embora melhorada, não é normalizada de
ser atribuído às altas doses de corticóide da maneira significativa. Tais fatos influenciam diretamente nas
imunossupressão.Terapia com altas doses de corticóide está respostas do paciente ao programa de reabilitação cardíaca.
associada com atrofia músculo esquelética [26].
Pacientes com ICC possuem depleção rápida anormal de Referências
fosfocreatina e aumento da acidose intracelular durante o
exercício. Tais anormalidades metabólicas persistem após o 1. Couto WJ et al. Transplante cardíaco e infecção. Rev Bras
transplante. Observou-se uma continuada diminuição na Cir Cardiovasc 2001; 16(4):289-304.
capacidade para o metabolismo oxidativo [9]. 2. Regenga MM. Fisioterapia em pré e pós-operatório de
Os defeitos músculo-esqueléticos podem ser permanentes transplante cardíaco. In: Fisioterapia em Cardiologia da
e irreversíveis no momento em que o paciente está doente o unidade de terapia intensiva à reabilitação. São Paulo: Roca;
2000. p.337-57.
suficiente para ser submetido ao transplante [9]. Contra esse
3. Dec W, Jacobs ML. Transplante cardíaco.In: Eagle KA et al.
fato, está a possibilidade de melhora sintomática e do alívio Cardiologia. Rio de Janeiro: Medsi;1993. p.1561-88.
da fadiga após transplante.O uso de corticóides pode causar 4. Assef MS et al. Transplante cardíaco no Instituto Dante
tanto a miopatia por esteróides como a perda muscular. Em Pazzanese de Cardiologia: Análise da sobrevida. Rev Bras
animais, a ciclosporina causa mudanças estruturais e Cir Cardiovasc 2001;16(4):289-304.

artigo 06 - Luciana.pmd 48 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 49

5. Buffolo E, Baruzzi ACA, Souza JAM. Transplante de 4° ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;1996. p.299-319.
coração. In: Knobel E. Condutas no paciente grave. 2°ed. 16. David CM. Metabolismo do oxigênio no exercício. In:
São Paulo: Atheneu;1999. p.1118-23. Ventilação Mecânica - Da fisiologia à prática clínica. 1° ed.
6. Moraes Neto F et al. Transplante cardíaco: A experiência do Rio de Janeiro: Revinter;2001. p.163-76.
Instituto do Coração de Pernambuco com 35 casos. Rev 17. Salles F. Adaptações ao exercício pós-transplante cardíaco.
Bras Cir Cardiovasc 2001;16(2):152-9. Arq Bras Cardiol 2000;75:79-84.
7. Ewert R et al. Ventilatory and diffiusion abnormalities in 18. Salles F. Respostas cardiorrespiratórias durante exercício em
long-term survivors after orthotopic heart transplantation. portadores de transplante cardíaco. Análise ergoespirométri-
Chest 1999;115:1305-1311. ca comparativa com indivíduos normais. Arq Bras Cardiol
8. Al-Rawas O et al. Exercise intolerance following heart 1998;70:15-18.
transplantation-The role of pulmonary diffusing capacity 19. Ewert R et al. Relationship between impaired pulmonary
impairment. Chest 2000;118:1661-70. diffusion and cardiopulmonary exercise capacity after heart
9. Stratton JR et al. Effects of cardiac transplantation on transplantation. Chest 2000;117:968-75.
bioenergetic abnormalities of skeletal muscle in congestive 20. Sullivan JM et al. Skelatal muscle biochemistry and histology
heart failure. Circulation 1994;89:1624-31. in ambulatory patients with long-term heart failure.
10. Mancini DM et al. Diminished respiratory muscle endurance Circulation 1990;81:518-27.
persists after cardiac transplantation. Am J Cardiol 1995;75: 21. Schwaiblmair M et al. Lung function and cardiopulmonary
418-21. exercise performance after heart transplantation.Chest
11. Amato MS et al. Avaliação da qualidade de vida de pacientes 1999;116: 332-39.
com doença de chagas submetidos a transplante cardíaco. 22. Kavanagh T et al. Cardiorespiratory responses to exercise
Rev Soc Bras Med Trop 1997;30(2):159-60. training after orthotopic cardiac transplantation. Circulation
12. Schaufelberger M et al. Skeletal Muscle characteristics, muscle 1988;77:162-71.
strength and thin muscle area in patients before and after 23. Bussières ML et al. Changes in skeletal muscle morphology
cardiac transpantation. Eur Jour Heart Fail 2001;3:59-67. and biochemistry after heart transplantation. Am J Cardiol
13. Strzelczyk TA et al. Value of the bruce protocol to determine 1997;78: 630-34.
peak exercise for patient after cardiac transplantation. Am 24. Braith WR. Skeletal muscle strengh in heart transplant
Heart J 2001;142: 466-75. recipients. J Heart Lung Transplant 1993;12:1018-23.
14. Mettauer B et al. VO2 kinetics reveal a central limitation at 25. West JB. In: Fisiologia respiratória moderna. 5° ed. São Paulo:
the on set of subthreshold exercise in heart transplantation Manole;1996. p. 1-152.
recipients. J Appl Physiol 2000;88:1228-38. 26. Scott JP. Cyclosporine in heart transplant recipients : An
15. McArdle DW et al. Músculo esquelético: Estrutura e função. exercise estudy of vassopressor effects. Eur Heart J
In: Fisiologia do exercício- Energia, nutrição e desempenho. 1992;13(4): 531-34. C

artigo 06 - Luciana.pmd 49 11/02/04, 12:05


50 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Revisão

Análise da influência do estresse no equilíbrio postural


Analysis of the influence of stress on postural balance

Glória Maria Moraes Vianna da Rosa, M.Sc.*, Wilma Costa Souza, M.Sc.**, Leonardo Davi Pistarino Pinto***,
Glauco Alexandre Gaban***, Alexsandra Dias Serafim****, Enio Thalles Batista de Faria*****

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Profª. da Universidade Gama Filho (UGF) e da Universidade de Nova Iguaçu, **Fisioterapeuta, Profª. da UGF e
Instituto Metodista Bennett, ***Fisioterapeuta, ****Fisioterapeuta, Profª. da UNIFOA (Volta Redonda), Fisioterapeuta da Maternidade
Carmela Dutra (SMS-RJ), *****Acadêmica de Fisioterapia da UGF

Resumo
O equilíbrio postural refere-se ao alinhamento dos segmentos articulares necessários
Palavras-chave: para manter o centro de gravidade dentro dos limites máximos da estabilidade. Três
equilíbrio postural, estresse, sistemas sensoriais contribuem para a manutenção do equilíbrio postural: visão,
ansiedade, desequilíbrio, vestibular e somatossensorial assim como a cognição que permite o indivíduo
sistema vestibular.
desenvolver estratégias de equilíbrio antes mesmo da ocorrência de um evento. O
estresse é definido como uma mobilização química coordenada do corpo humano,
para atender às exigências da luta de vida ou morte ou de uma rápida fuga frente a um
evento que amedronte ou ameace o organismo. As reações ao estresse variam de um
indivíduo para outro e entre elas destacam-se irritabilidade, ansiedade, depressão, apatia,
raiva, pânico e dificuldade de concentração. A ansiedade, que é um sintoma de estresse,
parece influenciar no equilíbrio postural provavelmente por diminuir a capacidade
perceptiva além de intervir nos sistemas somatossensorial, visual e vestibular. Sendo
assim, é necessário incorporar na fisioterapia, além do re-treinamento sensorial, as
terapias cognitivo-comportamentais para obtenção de maior êxito neste campo de
intervenção terapêutica, embora sejam necessárias maiores pesquisas para se desenvolver
e validar tais planos terapêuticos.

Artigo recebido 24 de abril de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Glória Maria Moraes Vianna da Rosa, Av. Oliveira Botelho, 504, Alto 25960-001 Teresópolis RJ, Tel: (21) 26423545/
99975790, E-mail: glrosa@terenet.com.br

artigo 07 - Glória.pmd 50 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 51

Abstract
The postural balance refers to the proper linear position of the necessary joint segments
Key-words: to keep the gravity center within the maximum limits of stability. Three sensory systems
postural balance, stress, contribute to the maintenance of the postural balance: sight, vestibular and
anxiety, vestibular system, somatossensorial, as well as the cognition which permits the individual to develop balance
unbalance.
strategies before the occurrence of an event. Stress is defined as a coordinate chemical
mobilization of the human body, to meet the demands of the fight for life or death or of
a fast getaway in face of an event that frighten or threaten for the organism. The
reactions to stress vary from person for other and among them outstand irritability,
anxiety, depression, apathy, rage, panic and concentration difficulty. The anxiety, which
is a stress symptom, seems to influence the postural balance probably because it decreases
the perceptive capacity besides its interference on the somatossensorial, visual and
vestibular systems. It is necessary to incorporate in physical therapy treatment, besides
the sensorial re-training, behavioral cognitive therapies to obtain a better result in this
field of therapeutical intervention although further researches are necessary to develop
and to validate such therapeutical plans.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução sistema nervoso central ou se há uma chance maior de


ocorrerem ao mesmo tempo [9].
A postura, usualmente definida como o arranjo relativo Este trabalho tem por objetivo, analisar, através de revisão
das partes do corpo, envolve um complexo mecanismo para da literatura, a possível influência do estresse no equilíbrio
atingir o equilíbrio nas diversas atitudes corporais assumidas postural visando com isso a possibilidade de se propor uma
no dia a dia [1,2]. abordagem investigatória e terapêutica desses distúrbios de
Equilíbrio é a capacidade de manter-se equilibrado ou a equilíbrio voltada também para os aspectos psicológicos além
capacidade de manter o centro de gravidade sobre a base de dos de ordem vestibular, visual e somatossensorial
apoio [3]. O equilíbrio depende da capacidade de manter uma favorecendo, através uma intervenção multiprofissional, a
posição, de se estabilizar durante as atividades voluntárias e prevenção de doenças ou sua recuperação mais rápida e eficaz.
de reagir às perturbações externas [4,5].
Três sistemas sensoriais contribuem para a manutenção Desenvolvimento
do equilíbrio postural: visão, vestibular e somatossensorial
[6]. A cognição parece também ter papel importante nesse Equilíbrio postural
controle como observado por Perrin et al. [7].
O estresse é definido como uma mobilização química O equilíbrio postural refere-se ao alinhamento dos
coordenada do corpo humano, para atender às exigências da segmentos articulares necessários para manter o centro de
luta de vida ou morte ou de uma rápida fuga frente a um gravidade dentro dos limites máximos da estabilidade [10].
evento que amedronte ou ameace o organismo [8] e por isso, A manutenção do equilíbrio postural é um complexo
envolve diversas respostas do ser humano. mecanismo de controle, alimentado por um fluxo de impulsos
É provável que a ansiedade (que é considerado sintoma neurológicos provenientes dos sistemas proprioceptivo,
de estresse) possa influir na habilidade do indivíduo usar o vestibular e óculo-motor cujas informações são processadas
sistema somatossensorial, visual e vestibular para o adequado pelo sistema nervoso central e retornam pelas vias eferentes
controle do equilíbrio [9]. para manter o controle do equilíbrio corporal pela contração
Hipotetiza-se também que um elevado estado de dos músculos antigravitacionários [6].
ansiedade poderia influir na capacidade cognitiva [1]. Embora o equilíbrio seja freqüentemente considerado um
Na verdade, não está claro se as alterações do equilíbrio e processo estático, é na verdade, um processo dinâmico que
desordens de ansiedade têm uma patofisiologia comum no envolve vias neurológicas múltiplas [10].

artigo 07 - Glória.pmd 51 11/02/04, 12:05


52 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

O sistema somatossensorial (ou proprioceptivo) contribui A cognição também parece ter papel importante no
para o equilíbrio ao fornecer informação acerca da localização controle postural levando o indivíduo a desenvolver
relativa das partes corporais. estratégias de equilíbrio antes mesmo da ocorrência de um
Ele fornece informações sobre a posição e o movimento evento [7]. Segundo os autores o controle postural pode
do corpo em relação à superfície de apoio, e sobre a posição envolver um sistema de referência baseado em conhecimento
e o movimento dos segmentos do corpo em relação uns aos anterior e um processo de correção quando surgem súbitas
outros. Este sistema também pode fornecer informações modificações. Este último depende do aprendizado ou
sobre alinhamento dos segmentos do corpo em relação uns experiência e da cognição.
aos outros e à superfície de apoio, descrevendo o estiramento O equilíbrio ortostático é influenciado por diversos fatores
muscular e a posição articular do tornozelo ou de articulações fisiológicos, como a respiração, os batimentos cardíacos e o
mais proximais. O sistema somatossensorial é particularmente retorno venoso [17,18] e fatores mecânicos como diferentes
sensível aos movimentos rápidos, como os produzidos por bases de apoios [19], mudanças súbitas de peso ao segurar
perturbações repentinas nas posições articulares [11]. uma carga [20], aumento progressivo de massa em gestantes
A informação proveniente desse sistema tem origem em [21], fraqueza muscular, alterações na acuidade proprioceptiva
fontes periféricas, como músculo, cápsula articular e outras e na amplitude de movimento [10].
estruturas de tecidos moles e é retransmitida ao bulbo e tronco Do ponto de vista clínico, a separação entre os processos
cerebral através da via medial - leminiscal da coluna dorsal de equilíbrio, sensoriais e motores significa que um indivíduo
[12]. Essa informação ajuda a coordenar os movimentos dos pode apresentar um equilíbrio deficiente por duas razões: A
olhos, da cabeça e do pescoço, a fim de estabilizar o sistema posição do centro de gravidade com relação à base de suporte
visual e a manter as posturas e os padrões coordenados do não está sendo percebida com precisão; Os movimentos
movimento [13]. automáticos necessários para levar o centro de gravidade para
O sistema vestibular é uma das ferramentas mais uma posição equilibrada não estão sincronizados ou
importantes do sistema nervoso no controle da postural. coordenados de maneira eficiente [22].
Ele é ao mesmo tempo um sistema sensorial e motor. Na
sua função de sistema sensorial, ele fornece ao sistema Estresse
nervoso central (SNC) informações sobre a posição e o
movimento da cabeça e a direção da gravidade. O SNC usa Nos anos recentes, o termo estresse tem aparecido com
essas informações, combinadas com as fornecidas por freqüência na literatura relacionado às diversas manifestações
outros sistemas sensoriais, para construir uma imagem da psicofisiológicas que são observadas no organismo quando
posição e do movimento do corpo todo e do ambiente que este se vê frente a uma situação que o ameace ou amedronte.
o cerca. Reações fisiológicas do organismo frente a eventos
Além de fornecer informações sensoriais, o sistema estressantes foram primeiramente descritas por Selye [8] que
vestibular também contribui diretamente para o controle as dividiu em 3 fases. Na fase de alarme, o organismo se depara
motor. O SNC utiliza as vias motoras descendentes, que com um agente estressor, o que provoca a liberação de
recebem informações vestibulares e de outros tipo, para diversos hormônios deixando - o em estado de prontidão ou
controlar as posições estáticas da cabeça e do corpo e para alerta. Se o estressor é de grande intensidade ou de longa
coordenar os movimentos posturais. Este sistema, que duração, surge a fase de resistência que é caracterizada pela
contribui com informações importantes para a sensação e a tentativa do organismo restabelecer seu equilíbrio interno
percepção do movimento e da posição do corpo como um usando a energia adaptativa de reserva. Na fase de exaustão
todo, consiste em dois tipos de sensores de movimento: os finalmente, não há mais resistência para lidar com o estressor,
canais semicirculares e os órgãos otolíticos. Os canais ocorrendo aumento das estruturas linfáticas, exaustão
detectam o movimento rotacional da cabeça e os órgãos psicológica e física com o aparecimento de doenças [23].
otolíticos detectam a aceleração linear [14]. Walter Cannon, fisiologista americano, descreveu em 1932
O sistema visual sinaliza a posição e o movimento da a resposta de luta ou fuga observada no organismo a partir
cabeça em relação aos objetos circunjacentes. Este sistema de manifestações fisiológicas reguladas pelo sistema nervoso
pode fornecer ao SNC informações necessárias para simpático e pelo sistema endócrino quando o indivíduo sente-
determinar se o sinal das estruturas otolíticas corresponde a se ameaçado [24].
uma inclinação em relação à gravidade ou a uma translação Com base no trabalho de Cannon, pode-se definir estresse
linear da cabeça. O sistema visual também fornece como uma mobilização química coordenada do corpo
informações sobre a direção vertical, a posição e o movimento humano, para atender às exigências da luta de vida ou morte
da cabeça em relação aos objetos circunjacentes e orienta a ou de uma rápida fuga frente a um evento que amedronte ou
cabeça a manter uma posição correta além de informar acerca ameace o organismo [8].
do movimento dos objetos circundantes, oferecendo assim, A partir da década de 60, psicólogos vêm estudando a
orientação da velocidade do movimento [15]. experiência do estresse principalmente do ponto de vista de

artigo 07 - Glória.pmd 52 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 53

como ele é percebido pelas pessoas, as diversas formas de se Diversos estudos têm relacionado ansiedade e desordens
lidar com ele e de como o estresse pode afetar a saúde [24]. do equilíbrio como os mostrados por Yardley & Redfern
A importância da percepção das pessoas acerca dos [30]. Em seus estudos observaram que pacientes com tonteira
eventos estressantes passou a ser melhor investigada contando persistente após desordem vestibular referiram associação
- se nessa área com a grande contribuição de Richard Lazarus entre episódios de tonteira e períodos de atividade mental,
e colaboradores ao elaborar o conceito de Apreensão estresse ou fadiga.
Cognitiva ainda na década de 50, e posteriormente, integrando É provável que a ansiedade possa influir na habilidade
este conceito no modelo psicológico do estresse. [25]. do indivíduo usar o sistema somatosensorial, visual e
Um evento qualquer pode ser mais ou menos estressante vestibular para o adequado controle do equilíbrio embora
dependendo da forma como individualmente o interpretamos. isto ainda não esteja claro [9].
Além da forma como o indivíduo percebe o evento, sua Para Balaban & Porter [30] a ansiedade talvez exerça efeito
habilidade em lidar com o estressor pode efetivamente direto no funcionamento do sistema vestibular através de
diminuir os efeitos do estresse [26]. numerosas interconexões centrais entre o sistema de
Atualmente, considera-se que as reações do estresse se equilíbrio e o sistema nervoso autônomo através da formação
expressam por um conjunto de modificações que ocorrem reticular e locus coerulus. Alternativamente, é possível que o
no organismo frente a um evento que as pessoas considerem processamento central da informação perceptual, necessária
como ameaça ao seu bem estar [27]. à orientação, seja afetada pela atividade mental que
O estressor é, portanto, o evento considerado ameaçador, acompanha a ansiedade ou o estresse [31].
perigoso ou desafiador pelo indivíduo. Hipotetiza-se também que um elevado estado de
O estresse é considerado positivo em situações que ansiedade poderia influir na capacidade cognitiva e na
impulsionam os indivíduos no sentido da satisfação de suas possibilidade de se utilizar a experiência prévia como
necessidades, porém, ao atingir certos níveis, é nocivo, referência. Em situações de estresse o indivíduo encontrar-
favorecendo inclusive o surgimento de distúrbios orgânicos se-ia invadido pela avaliação pessimista de um perigo que o
e/ou psicológicos. ameaça ou pela dificuldade de uma situação social. A vertigem
É necessário acrescentar que as reações ao estresse variam poderia surgir como a expressão somática da ansiedade [1].
de um indivíduo para outro, e mesmo em um único indivíduo Estudos como os de Yardley & Redfern [30]
variam em momentos diversos, já que fatores sociais e demonstraram que distúrbios de equilíbrio podem estar
psicológicos parecem modificar o impacto do estressor. associados a elevado nível de ansiedade já que estes
Entre as manifestações psicológicas ligadas ao estresse observaram que pacientes com tonteira persistente, após
destacam-se irritabilidade, ansiedade, depressão, apatia, raiva, desordem vestibular, referiram associação entre episódios
pânico e dificuldade de concentração [23]. de tonteira e períodos de atividade mental. Mouzani et al.
O estresse parece influenciar o equilíbrio provavelmente [32] também observaram que a presença da ansiedade
por diminuir a capacidade perceptiva devido à redução da pode agravar a vertigem em pacientes com disfunção
concentração. vestibular. Contudo, em muitos casos foi observado que
o mal estar vertiginoso aparentemente não teve causa
Ansiedade e desordens de equilíbrio psicológica desencadeadora, mas pode levar a uma angústia
secundária.
O termo ansiedade refere-se a um estado de tensão ou Interessante pesquisa desenvolvida por Bohnout et al.
apreensão associada à expectativa de alguma coisa que [33] encontrou correlação significativa entre altos níveis
acontecerá no futuro próximo. O indivíduo com ansiedade de ansiedade e baixa performance do equilíbrio em 7 estu-
generalizada vive muitos meses sob tensão constante, sem dantes saudáveis.
causa aparente, o que lhe provoca distúrbios orgânicos de Outros autores, como Wada et al. [34] encontraram
vários tipos [28]. importante influência do estado de ansiedade no equilíbrio
O termo vertigem pode ser descrito como uma sensação postural. Foram investigadas 31 mulheres, estudantes com
de movimento irregular ou giratório seja de si mesmo ou de idade entre 18 e 20 anos, sem qualquer alteração do equilíbrio.
objetos externos [29]. Gagey & Weber [1], ressaltam que em O resultado da medida do estado de ansiedade (Inventário
linguagem usual a palavra vertigem pode ser associada a uma de estado de ansiedade de Spilberg) mostrou que 16
emoção agradável como na expressão “vertigem do amor”. indivíduos da amostra encontravam-se com elevado estado
Na condição patológica a palavra está ligada a emoções de ansiedade. Todos os participantes da amostra foram
negativas, já que esta pode vir acompanhada de náuseas, submetidos à teste em plataforma de força para a medida
vômitos, dores epigástricas, sudorese, taquicardia, entre das oscilações corporais com olhos abertos e depois fechados.
outros. A sensação de vertigem é também freqüentemente Os autores concluíram que o estado de ansiedade afetou o
associada ao medo do vazio e da altura ou ao sentimento de equilíbrio postural antero/posterior em estudantes em pé
vergonha em público. com olhos abertos.

artigo 07 - Glória.pmd 53 12/02/04, 10:52


54 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Segundo Maki & Mellroy [34] indivíduos saudáveis com Referências


elevado estado de ansiedade submetidos à realização de tarefas
cognitivas (contas aritméticas), mostraram inclinação anterior. 1. Gagey PM, Weber B. Uma breve historia da Posturologia.
Desta forma, concluíram que elevados níveis de ansiedade, Posturologia, regulação e distúrbios da posição ortostática.
provocada pela realização da tarefa, motivou o deslocamento 2ª ed. São Paulo: Manole; 2000. p. 1-7.
anterior do centro de gravidade. 2. Bricot B. Postura normal e postura patológica. Postulorogia.
2ª ed. São Paulo: Ícone; 2001. p.270.
Por outro lado, a cognição, como citado anteriormente,
3. Crutchefield CA, Shumway-cook A, Horak FB. Balance and
também parece ter papel importante no controle postural coordination training. In: Scully RM, Barnes MR (eds). Physical
levando o indivíduo a desenvolver estratégias de equilíbrio Therapy. Philadelphia: JB Lippincott; 1989. p. 825-843.
antes mesmo da ocorrência de um evento [7]. Sendo assim, 4. Berg KO, Wood-dauphinee SL, Williams JT. Measuring
fatores que dispersam a cognição necessária para a balance in the elderly: validation of an instrument. Can J
manutenção do equilíbrio podem ser os responsáveis por Public Health 1992;83:7-11.
seu distúrbio. O fato da ansiedade mostrar-se capaz de alterar 5. Berg KO, Maki BE, Williams JI et al. Clinical and laboratory
a concentração do indivíduo pode justificar sua influência measures of postural balance in an elderly population. Arch
nos distúrbios de equilíbrio postural. Phys Med Rehabil 1992;73:1073-80.
Nos últimos anos, a fisioterapia tem-se mostrado efetiva 6. Nashner LM. Sensory, neuromuscular, and biomechanical
contributions to human balance. In: Nashville, TN. Balance:
na redução dos sintomas em pacientes com desordens de
Proceedings of the American Physical Therapy Association
equilíbrio. De modo geral, esta se baseia na utilização de Forum. 1989. p. 13-15.
mecanismos comportamentais tais como a adaptação, a 7. Perrin P, Schneider D, Deviterne D et al. Training improves
substituição e o reaprendizado. Os exercícios implicam em the adaptation to changing visual conditions in maintaining
movimentos lentos da cabeça, do corpo e dos olhos com human posture control in a test of sinusoidal oscillation of
objetivo de eliciar os sintomas e promover a adaptação a the support. Neuroscience letters 1998;245:155-58.
estes [9]. 8. Selye H. Stress, a tensão da vida. São Paulo: Ibrasa; 1965.
A fisioterapia baseada em exercícios de habituação e 9. Skalare DA, Konrad HR, Maser JD et al. Special issue on
treinamento de equilíbrio pode promover a independência the interface of balance disorders and anxiety, na
introduction and overview. Anxiety disorders 2001;15:1-7.
nas atividades da vida diária, nas tarefas de alto nível e de
10. Prentice W. Técnicas de reabilitação em medicina esportiva.
cuidado pessoal [35]. 3ª ed. São Paulo: Manole; 2002. p. 612.
Entretanto, o fato de alguns pacientes com desordens de 11. Matthews PBC. Mammalian muscle receptors and their
ansiedade, desenvolverem sintomas de desequilíbrio como central actions. London: Edward Arnold; 1972.
parte da reação de ansiedade justifica uma abordagem 12. Stern EB. The somatosensory systems. In: Cohen (ED)
psicológica nos casos onde há a ligação entre distúrbios de Neuroscience for Rehabilitation. Philadelphia: JB
equilíbrio e estresse [9] até mesmo por que o tratamento que Lippincott; 1993.
passar por uma etapa cognitiva para o resgate do equilíbrio 13. Rowinski MJ. Afferent neurobiology of the joint. In: Gold
poderá tornar o paciente mais ansioso e conseqüentemente JA, Davies GJ, eds. Orthopaedic and Sports Physical Therapy.
mais desequilibrado posturalmente. 2ª ed. St. Louis: CV Mosby; 1985.
14. Herdman SJ. Reabilitação vestibular. 2ª ed. São Paulo:
Manole; 2002.
Conclusão 15. Fox CR, Cohen H. The visual and vestibular systems. In:
Cohen H. (ed) Neuroscience for Rehabilitation. Philadelphia:
Por ter a cognição papel importante no controle postural, WB Saunders; 1993. p. 97-128.
além dos sistemas somatossensorial, visual e vestibular, a 16. Imbiriba LA. A influencia da respiração e dos batimentos
alteração na concentração do indivíduo pode interferir no cardíacos no equilíbrio postural. [Dissertação]. Rio de Janeiro:
processo de manutenção do equilíbrio. Programa de Engenharia Biomédica - COPPE/UFRJ; 1997.
O fato da ansiedade parecer ser capaz de influenciar 17. Inamura K, Mamo T, Iwase S et al. One minute wave in
na concentração de pessoas clinicamente estressadas e body fluid volume change enhanced by postural sway during
upright standing. J Appl Physiol 1996; 81(1):456-69.
na habilidade do indivíduo usar o sistema somatos-
18. Kirby RL, Price NA, Macleod D. The influence of the foot
sensorial, visual e vestibular, distúrbios de equilíbrio position on standing balance. J Biomech 1987;20(4):423-27.
mostram-se realmente suscetíveis à influência do estado 19. Carlsöö S. The influence of frontal and dorsal loads on muscle
de estresse. activity and on the weight distribuition in the feet. Acta
Por tudo isso, é necessário incorporar na fisioterapia além Orthopaedi Scandinavia 1964;34:299-309.
do re-treinamento sensorial, as terapias cognitivo- 20. Oliveira LF, Simpson DM, Nadal J. Calculation of area of
comportamentais para obtenção de maior êxito neste campo stabilometric signals using principal component analysis.
de intervenção terapêutica, embora sejam necessárias maiores Physiological Measurements 1996; 17(4): 305-12.
pesquisas para se desenvolver e validar tais planos 21. Nashner L. Computerized dynamic posturography. In:
Jacobson G, Newman C, Kartush J. Handbook of balance
terapêuticos.

artigo 07 - Glória.pmd 54 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 55

function and testing. St. Louis: Mosby Yearbook; 1993. p.280- 29. Yardley L, Redfern MS. Phychological factors influencing recovery
307. from balance disorders. J Anxiety Disord 2001;15:107-9.
22. Lipp MEN. Stress, conceitos básicos. Em Lipp MEN. (Org). 30. Yardley L, Watson S, Britton J et al. Effects of anxiety arousal
Pesquisa sobre stress no Brasil. São Paulo: Papirus; 1996. p. and mental stress on the vestibulo-ocular reflex. Acta
17-31. Otolaryngology 1995;115:597-602.
23. Hockenbury DH, Hockenbury SE. Psychology. New York: 31. Mouzani D, Casolari L, Guidetti G et al. Phychological
Worth Publishers; 1997. distress and disability in patients with vertigo. J Psychosom
24. Gatchel, RJ, Baum AR, Krantz DS. An introduction to health Res 2001;50:319-23.
psychology. New York: McGraw Hill; 1989. 32. Bohmout B, Gangloff P, Vouriot A, Perrin PP. Mood state
25. Aronson E, Wilson DT, Akert R. Social psychology. San and anxiet. Neurosci Lett 2002;23(1):96-100.
Francisco: W.H. Freeman and Company; 1997. 33. Wada M, Sunaga B, Nagai M. Anxiety affects the postural
26. Auerbach SM, Gramling SE. Stress management sway of the antero-posterior axis in college students. Neurosci
psychological foundations. New Jersey: Prentice Hall; 1998. lett 2000;302:157-59.
27. Lent R. Cem bilhões de neuronios. São Paulo: Atheneu; 2001. 34. Cohen HS. A incapacidade nas funções vestibulares. In:
28. Stedman. Dicionário médico. 23ª ed, vol II, Rio de janeiro: Herdman SJ (Org): Reabilitação vestibular. São Paulo:
Guanabara Koogan; 1979. Manole; 2002. C

artigo 07 - Glória.pmd 55 11/02/04, 12:05


56 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Revisão

Adaptação funcional do aparelho respiratório aos efeitos


do envelhecimento: aplicabilidade dos exercícios globais
de força e resistência
Functional adaptation of the respiratory system to the effects of
the aging process: use of global exercises of strength
and endurance

Alexandre de Mayor*, Renata Ungier de Mayor*


○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta especialista em U.T.I., **Fisioterapeuta mestranda em Saúde da Mulher e da Criança (Instituto Fernandes Figueira -
FIOCRUZ-RJ)

Resumo
Este estudo de revisão bibliográfica aborda a aplicação de exercícios globais de força
Palavras-chave: e endurance no indivíduo idoso, a partir da compreensão dos efeitos morfofuncionais
Envelhecimento, respiração, decorrentes do envelhecimento sobre a biomecânica respiratória. A literatura mostra
exercício. que os indivíduos idosos se beneficiam da prática de atividade física regular, que minimiza
os efeitos da inatividade sobre suas atividades funcionais, dado que esta constitui um
agravante para a instalação de quadros patológicos.

Abstract
This literature review concerns the use of global exercises of strength and endurance
Key-words: in the elderly, based on the understanding of the morpho-functional effects of aging on
Aging, breathing, exercise. respiratory biomechanics. Studies show that elderly persons benefit from the practice
of frequent physical activity, which minimizes the effects of inactivity on their functional
activities, knowing that it increases the severity of pathological conditions.

Artigo recebido 16 de julho de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Alexandre de Mayor, Av. Ataulfo de Paiva 135 sala 907, Leblon 22440-030 Rio de Janeiro RJ, Tel.: (21)2259-0969 -
Alexandre de Mayor, E-mail: demayor@fisioglobal.com.br - Renata Ungier de Mayor, E-mail: ungier@fisioglobal.com.br

artigo 08 - Alexandre.pmd 56 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 57

Introdução de processo inflamatório, diferente do que é encontrado


em um pulmão enfisematoso. Devido à atrofia do epitélio
A elevação da expectativa de vida da população mundial ciliar e das glândulas da mucosa brônquica, o mecanismo
faz crescer o interesse por parte dos profissionais da área de de clearance é reduzido, predispondo a um maior risco de
saúde em medidas que mantenham a independência, a autono- infecções [9].
mia e a qualidade de vida dos indivíduos idosos [1]. Estudos No alvéolo, por sua vez, a superfície de revestimento é
sobre as repercussões do envelhecimento se fazem necessários, composta por três tipos de células: as células endoteliais dos
de modo a permitir que estes indivíduos se adaptem às capilares, os pneumócitos tipo I e os pneumócitos tipo II
sucessivas modificações orgânicas que estão por ocorrer. [7]. Os pneumócitos tipo II secretam o surfactante pulmonar,
O envelhecimento constitui, fisiologicamente, modifica- que tem a função de reduzir a força de aproximação da
ções morfofuncionais em diversos sistemas orgânicos, entre superfície de revestimento alveolar, além de permitir que os
eles o aparelho respiratório. Tais modificações podem favore- alvéolos sejam inflados durante a inspiração, mantendo o
cer a inatividade e conseqüentemente o aparecimento de equilíbrio pressórico em alvéolos de diferentes tamanhos e
diversas patologias [2]. reduzindo o esforço dos músculos respiratórios [6]. Não
O presente estudo de revisão bibliográfica tem como existem dados evidentes que comprovem mudanças na
objetivo revisar os efeitos morfofuncionais do envelhecimen- quantidade ou qualidade do surfactante produzido, nem no
to sobre a biomecânica respiratória e a eficácia da aplica- número ou funcionamento das células pneumócitos tipo II
ção de exercícios globais de endurance e força muscular no em idosos [8].
processo de adaptação funcional do idoso. Isso se justifica Exatamente como o pulmão, a parede torácica também é
pelo fato de que, apesar de o indivíduo idoso responder de elástica. Porém, ao contrário do pulmão, sua complacência
maneira positiva aos estímulos solicitados, muitas vezes é diminui progressivamente com a idade. Mudanças na geome-
subestimada a sua real capacidade física, ocasionando um sub- tria do arcabouço torácico ocorrem pela diminuição da massa
aproveitamento dos exercícios [3,4,5]. Por esta razão, as respostas óssea (osteoporose) em decorrência de fraturas completas
morfológicas não são tão evidentes e tampouco favorecem, do (por esmagamento vertebral) ou parciais (vértebra em cu-
ponto de vista funcional, a esperada qualidade de vida. nha), resultando em um aumento do diâmetro ântero-poste-
rior e na acentuação da curvatura fisiológica da coluna
Desenvolvimento torácica. A osteoporose do idoso é resultado da diminuição
da função osteoblástica, dos níveis de calcitonina e da enzima
A biomecânica respiratória e as alterações 1 á-hidroxilase, o que reduz os níveis de vitamina D3 ativa,
decorrentes do envelhecimento causando menor absorção de cálcio no intestino e, conseqüen-
temente, osteoporose [10]. A inatividade do idoso, resultado
O parênquima pulmonar é um tecido complacente, devido da disfunção crônica músculo-esquelética, pode resultar em
à elasticidade oferecida por seus componentes e à diminuição deformações ósseas, ossificação ectópica ao redor das articu-
da força de aproximação da superfície de revestimento lações (osteófitos), perda da mobilidade articular e encurta-
alveolar desenvolvida pelo surfactante. A complacência do mento e/ou esclerose ligamentar [11]. As mudanças do arca-
pulmão é aumentada pela idade [6]. bouço torácico, além de diminuírem a complacência da pare-
Os alvéolos, bronquíolos e vasos sanguíneos são compos- de torácica, modificam a curvatura do músculo diafragma,
tos por fibras conjuntivas colágenas, elásticas e reticulares, alterando a sua capacidade de gerar força [8,9]. A força de
interligadas e organizadas geometricamente. Por esta razão, contração diafragmática é representada pela pressão diafrag-
se estendem durante a força gerada na inspiração e, após a mática (Pdi), resultado da diferença entre a pressão dos
aplicação desta força, se recolhem permitindo o retorno à músculos abdominais (Pab) e a pressão pleural (Ppl). Estudos
sua forma original. Esta interligação de fibras conjuntivas em idosos entre 67 e 81 anos em comparação com grupo
confere às estruturas pulmonares uma interdependência, ou controle mais jovem mostram uma redução de 13% da Pdi
seja, caso um alvéolo tenda a se fechar, os demais contri- durante uma inspiração máxima [8]. O decréscimo na força
buem para sua abertura [7]. Estudos bioquímicos sugerem dos músculos respiratórios em idosos está relacionado a um
que não ocorrem mudanças no conteúdo de fibras conjun- déficit nutricional e parece relevante quando a situação clínica
tivas com o envelhecimento [8]. A força de recolhimento exige uma demanda adicional destes músculos, como por
do tecido pulmonar diminui porque a fibra colágena torna- exemplo, na pneumonia e na insuficiência ventricular
se mais estável, diminuindo o número de ligações intermo- esquerda. Enright et al. [12] correlacionam valores de pressão
leculares, enquanto a rede de fibras elásticas perde sua inspiratória máxima (MIP) e pressão expiratória máxima
organização pela presença de fibras pseudo-elásticas. Quanto (MEP), com peso corporal e massa corpórea. Neste estudo,
aos aspectos morfológicos, encontra-se um homogêneo alar- valores de MIP e MEP mostraram-se significativamente
gamento dos ductos alveolares sem evidência de destruição. correlacionados com a força dos músculos esqueléticos peri-
Não há infiltrados celulares nos alvéolos, sugerindo ausência féricos, como no teste da preensão de mão (handgrip).

artigo 08 - Alexandre.pmd 57 11/02/04, 12:05


58 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

A força dos músculos esqueléticos periféricos diminui menos complacente, aumentando o volume de ar aprisionado
com a idade, devido à atrofia muscular principalmente das (RV) e conseqüentemente aumentando a capacidade residual
fibras tipo II (fast twitch), enquanto as fibras tipo I (slow twitch) funcional (FCR) [8]. A capacidade pulmonar total (TLC) não
não sofrem mudanças substanciais [3,9]. As fibras do tipo I diminui significativamente ao longo da vida. Isso ocorre
caracterizam-se por apresentar um tempo de contração porque a diminuição da complacência da parede torácica é
relativamente lento, devido a uma baixa atividade de miosina contrabalançada pela maior distensibilidade pulmonar. Por
ATPase na fibra muscular e alto conteúdo mitocondrial que outro lado, a capacidade vital forçada (FVC) e o fluxo
favorece as atividades enzimáticas oxidativas. Estas fibras são expiratório forçado no primeiro segundo (FEV1) diminuem
mais adaptadas para contrações continuadas (endurance) [7]. com a idade. Como fluxo é uma medida que reflete a relação
A alteração entre a quantidade de unidades contráteis e não de um dado volume em relação a uma unidade de tempo,
contráteis (tecido adiposo e conjuntivo) dentro do músculo, temos então, no indivíduo idoso, uma relação entre força de
assim como o déficit na relação entre ativação e recrutamento contração e tempo de resposta motora diminuídas. Além
muscular, também são fatores determinantes para a disso, a alta prevalência de doenças crônico-degenerativas
diminuição da força muscular periférica, resultando, no idoso, no idoso, associada com a inatividade, faz com que estes
em dificuldades nas atividades da vida diária [3,9]. indivíduos apresentem maior comprometimento da função
Estes dados permitem concluir que as mudanças músculo- pulmonar [9].
esqueléticas associadas à idade afetam a função muscular O pico de fluxo expiratório (PEF) também decresce com
respiratória e, por isso, medidas que visem trabalhar a função a idade em indivíduos idosos não fumantes, sugerindo que
respiratória, sem abordar a globalidade do corpo, serão de as alterações morfológicas das pequenas vias aéreas sejam
pouca eficácia. decorrentes da presença de um padrão obstrutivo. Isso não
implica dizer que, para estes indivíduos, esse padrão seja
As provas de função pulmonar considerado fisiologicamente inadequado para a manuten-
ção das suas funções. O volume de fechamento (CV), que
As provas de função pulmonar constituem a análise é o volume em que as pequenas vias aéreas começam a se
prática da fisiologia respiratória [13]. Com o objetivo de fechar durante a expiração, alcança, com o envelhecimento,
quantificar a perda da função pulmonar, acompanhar a 55% a 60% da TLC. Tanto a alteração do PEF quanto do
evolução do envelhecimento sobre o sistema respiratório e CV deve-se à alteração da organização e composição dos
observar o impacto das terapêuticas empregadas, alguns tecidos de suporte destas vias aéreas, as fibras conjuntivas
estudos procuraram relacionar as repercussões do elásticas e colágenas.
envelhecimento com a função pulmonar. A ventilação voluntária máxima (MVV) é uma medida da
Como pode ser observado na Tabela I, em relação aos função muscular, pois avalia a capacidade de trabalho da
valores preditivos, todos os indivíduos idosos apresentavam musculatura respiratória em relação às forças elásticas e
função pulmonar normal. Entretanto, em valores absolutos, resistivas do sistema respiratório. Quando a MVV está
pode-se observar o declínio nos níveis de capacidade vital diminuída, mostra que o indivíduo está com a capacidade
(VC) e fluxo expiratório, assim como um aumento do volume aeróbica reduzida. Isso é determinante para os músculos
residual (RV), demonstrando, porém, que se encontram respiratórios, principalmente o diafragma, entrarem mais
dentro do que se pode esperar em decorrência do rapidamente em fadiga. O consumo de oxigênio (V’O2)
envelhecimento [14]. durante o exercício, que entre os 20 e 30 anos encontra-se
Um homem de 60 anos em repouso tem um aumento no no pico máximo, é significativamente menor nos indivíduos
gasto energético estimado em 20% em comparação a um idosos sedentários do que naqueles que permanecem
indivíduo de 20 anos de idade durante a ventilação corrente. praticando uma atividade física regular [8]. Estes achados da
Este indivíduo passa a respirar com volumes mais altos função pulmonar estão de acordo com os estudos de
porque o pulmão torna-se mais distensível e a parede torácica DeLorey e Babb [14], que afirmam que o envelhecimento

Tabela I - Função pulmonar


FVC FEV1 FEV1/FVC PEF TLC RV/TLC MVV Dlco
Indivíduos (% pred) (% pred) (% pred) (% pred) (% pred) (% pred) (% pred) (% pred)
Jovens 4,43 ± 0,94 3,50 ± 0,75 (79 ± 4 ) 8,84 ± 1,77 5,85 ± 1,15 (24 ± 4) 150,9 ± 36,9 25,7 ± 5,14
(35 a 45 anos) (109 ± 9) (104 ± 9) (118 ± 1) (99 ± 11) (115 ± 13) (105 ± 14)
Senior 4,12 ± 1,08 2,92 ± 0,74 (72 ± 5) 7,85 ± 2,37 6,54 ± 1,31 (37 ± 6) 120,5 ± 30,6 21,6 ± 4,57
(65 a 75 anos) (115 ± 17) (104 ± 13) (109 ± 14) (114 ± 13) (110 ± 12) (110 ± 16)
Idosos 3,08 ± 1,00 2,04 ± 0,67 (67 ± 7) 5,82 ± 1,33 5,55 ± 1,69 (45 ± 5) 86,0 ± 25,9 13,85 ± 2,75
(85 a 95 anos) (109 ± 18) (109 ± 16) (100 ± 20) (110 ± 22) (97 ± 11) (97 ± 11)
Fonte: [14]

artigo 08 - Alexandre.pmd 58 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 59

causa importantes restrições à mecânica respiratória durante reduz a fraqueza muscular. A melhora na endurance favorece
o exercício. Isso significa, contudo, que indivíduos idosos a adaptação dos grupamentos musculares esqueléticos a uma
tenham limitação para o exercício, a menos que a função maior demanda metabólica que, por sua vez, aumentam a
cardiovascular sobrecarregue a função respiratória. tolerância à fadiga muscular, inclusive dos músculos
respiratórios, entre eles o diafragma. Esta melhora muscular
Efeitos fisiológicos do exercício no idoso permite uma melhor resposta global do organismo às
atividades funcionais, beneficiando uma maior autonomia e
Alguns estudos utilizam inadequadamente o termo independência. A diminuição do desuso muscular é
“fisioterapia torácica”, designando uma série de condutas acompanhada por um aumento do nível de mobilidade
restritas e de difícil validação [15]. Desse modo, o aprofun- funcional e atividade global [17], ou seja, a melhor qualidade
damento do estudo de uma técnica em particular permanece de vida, está relacionada ao conjunto dos efeitos do exercício,
carente de uma inserção da abordagem fisioterápica em um e não a uma função específica.
contexto global do paciente. Os benefícios de cada conduta Em idosos, o aumento da força muscular ocorre, não
não devem ser analisados somente do ponto de vista de somente como resultado da hipertrofia, mas também por
seus efeitos sobre o parênquima pulmonar, mas também uma adaptação neural da fibra muscular [4]. Entre as
deve ser levada em conta sua relação com os aspectos adaptações neurais, estão incluídas uma melhor sincronia no
biomecânicos (mobilidade articular, contração muscular, estímulo deflagrado nas unidades motoras e uma maior
posicionamento, etc). habilidade de recrutamento de unidades motoras para
Para a manutenção de uma vida independente, é permitir o adequado ajustamento na força a ser utilizada.
indispensável no idoso, a atividade de locomoção. Indivíduos Harridge et al. [18] realizaram um treinamento muscular de
acima de 75 anos apresentam alterações neuro-musculares resistência progressiva para o músculo quadríceps femoral,
que, associadas à reduzida atividade diária, apresentam em indivíduos idosos entre 85 e 97 anos de idade, 3 vezes
diminuição da função sensório-motora, causando, por sua por semana, durante 12 semanas. Ao final do estudo,
vez, diminuição do equilíbrio e aumentando o risco de quedas, observou-se, entre os indivíduos participantes do programa
fraturas e confinamento ao leito [4]. Toda situação que leve o de treinamento, um aumento médio de 134% na força do
idoso à inatividade deve ser evitada, uma vez que a inatividade músculo quadríceps femoral e de 10% na área de secção
tem uma grande relação com a alta incidência de mortalidade cruzada muscular. Outros artigos, citados por este autor,
no idoso por pneumonia comunitária [2]. apontam na mesma direção. Nguyen [19] relata que a carga
A caminhada é um exercício aeróbico que tem por repetitiva imposta pelos exercícios de força pode, como efeito
finalidade trabalhar não somente os grupamentos musculares secundário, manter ou aumentar a densidade mineral óssea.
periféricos, mas também os músculos respiratórios. À medida
que o nível de trabalho é aumentado, a captação de oxigênio Conclusão
aumenta linearmente até chegar ao V’O2 máximo. Aumento
de atividade acima deste nível somente pode ocorrer através A função respiratória não pode ser dissociada das
da glicólise anaeróbica com produção de lactato. Indivíduos atividades funcionais nos seres humanos. Alterações
inativos entram nesse processo anaeróbico com níveis morfofuncionais são progressivamente impostas a todos os
relativamente baixos de atividade [16]. A combinação da indivíduos ao longo da vida, sendo que, ao acometer o
caminhada com exercícios de força muscular, equilíbrio, aparelho respiratório, conferem limitações significativas
flexibilidade e alongamento aumentam a função sensório- [8,9,14]
motora em idosos [4]. Segundo Canguilhem [20], “Quando classificamos como
Em indivíduos idosos que praticam exercícios regulares, patológico um sintoma ou um mecanismo funcional isolado,
o sistema respiratório pode se adaptar a níveis mais altos de esquecemos que aquilo que o torna patológico é sua relação de inserção
exigência física [8]. Coggan et al. [5] relatam, em estudo, o na totalidade indivisível de um comportamento individual”. Ou
efeito do exercício de endurance sobre a capacidade oxidativa seja, é preciso conhecer o indivíduo para saber se as
e o aumento do número de capilares musculares em indivíduos restrições impostas pelo envelhecimento serão significativas
idosos entre 60 e 70 anos de idade. Os achados foram um ou não, para a manutenção de uma função adequada dentro
aumento de 20% na densidade capilar, enquanto o número do contexto da sua vida. O mesmo autor se refere à doença
de capilares por fibra muscular aumentou em 25%. como uma nova norma fisiológica, onde a terapêutica deve
Exercícios regulares não eliminam completamente a perda ter como objetivo a adaptação. Em um contexto de
muscular relacionada à idade, mas podem aumentar a nor malidade, o envelhecimento também provoca
resistência (endurance) e a força muscular nos indivíduos idosos alterações nas normas fisiológicas vigentes, demandando
de maneira similar à observada nos indivíduos jovens [17]. medidas objetivas que facilitem sucessivas adaptações,
Outro dado importante é que a suplementação alimentar, sem necessárias para que tais novas normas não favoreçam a
nenhuma prática regular de exercícios concomitantes, não instalação de um quadro patológico.

artigo 08 - Alexandre.pmd 59 11/02/04, 12:05


60 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Não há dúvida de que a prática de atividade física regular pathophysiology, diagnosis, oxygen therapy In: Textbook
favorece a adaptação do indivíduo idoso às modificações of medical physiology. Philadelphia: W B Saunders; 1996;
decorrentes do envelhecimento. Os efeitos benéficos p.537-45.
proporcionam um envelhecimento mais saudável, acarretando 8. Janssens JP, Pache JC, Nicod LP. Physiological changes in
respiratory function associated with ageing. Eur Respir J
uma lentidão das alterações fisiológicas decorrentes deste
1999;13:197-205.
processo, tanto nos idosos saudáveis como naqueles ditos 9. Gorzoni ML, Russo MR. Envelhecimento respiratório In:
“fragilizados” [9]. De um modo geral, os exercícios impõe, Freitas EV et al. Tratado de geriatria e gerontologia. 1a ed. Rio de
ao aparelho respiratório, uma maior solicitação mecânica, Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. p.340-43.
estimulando a ação dos componentes pulmonares e 10. Meuleman J. Osteoporosis and the elderly. Med Clinics North
extrapulmonares. Os resultados obtidos através dos exercícios America 1989;73:1455-70.
globais, mostram que indivíduos idosos respondem 11. De Deyne PG. Application of passive stretch and its
positivamente aos estímulos e obtêm ganhos morfofuncionais implications for muscle fibers. Phys Ther 2001;81(2):819-
significativos. Por esta razão, cabe ao fisioterapeuta não 27.
subestimar sua capacidade física e solicitar o estímulo 12. Enright PL, Kronmal RA, Manolio TA, et al. Respiratory
muscle strength in the elderly: correlates and reference values.
adequado para se obter os ganhos funcionais desejados. Am J Respir Crit Care Med 1994;149:430-38.
13. West JB. Teste de função pulmonar In: Fisiologia respiratória
Referências moderna. 5a ed. Rio de Janeiro: Manole; 1996. p.139-152..
14. DeLorey DS, Babb TG. Progressive mechanical ventilatory
1. Paschoal SMP. Qualidade de vida na velhice In: Freitas EV constraints with aging. Am J Respir Crit Care Med
et al. Tratado de geriatria e gerontologia. 1a ed. Rio de Janeiro: 1999;160:169-77.
Guanabara Koogan; 2002. p.79-84. 15. Hill SL, Webber B. Mucus transport and physiotherapy – a
2. Clemente MG, Budiño TG, Seco GA et al. Neumonía new series. Eur Respir J 1999;13:949-50.
adquirida en la comunidad en el anciano. Factores 16. West JB. O sistema respiratório sob esforço In: Fisiologia
pronósticos. Arch Bronconeumol 2002;38(2):67-71. respiratória moderna. 5a ed. Rio de Janeiro: Manole; 1996. p.123-
3. Williams GN, Higgins MJ, Lewek MD. Aging skeletal muscle: 38.
physiologic changes and effects of training. Phys Ther 17. Fiatarone MA, O’Neill EF, Ryan ND, et al. Exercise training
2002;82(1):62-8. and nutritional supplementation for physical frailty in very
4. Nishimoto K, Nakamura S, Imai T et al. Increasing gait elderly people. N Engl J Med 1994;330(25):1769-75.
performance in elderly women using a step exercise training 18. Harridge SA, Kryger A, Stensgaard A. Knee extensor
program. J Phys Ther Sci 1999;11:71-8. strength, activation and size in very elderly people following
5. Coggan AR, Spina RJ, King DS, et al. Skeletal muscle strength training. Muscle Nerve 1999;22:831-39.
adaptations to endurance training in 60- to 70-yr-old men 19. Nguyen TV, Center JR, Eisman JA. Osteoporosis in elderly
and women. J Appl Physiol 1992;72:1780-86. men and women: effects of dietary calcium, physical activity,
6. West JB. Mecânica da respiração In: Fisiologia respiratória and body mass index. J Bone Miner Res 2000;15:322-331.
moderna. 5a ed. São Paulo: Manole; 1996. p.83-108. 20. Canguilhem, G. O normal e o patológico. 3a ed. Rio de Janeiro:
7. Guyton CA, Hall JE. Respirator y insufficiency Forense; 1978. C

artigo 08 - Alexandre.pmd 60 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 61

Revisão

A intervenção fisioterapêutica na doença de Parkinson


The physical therapy intervention in Parkinson disease

Soraya Carvalho da Costa Monte*, João Santos Pereira, D.Sc.**, Marco Antônio Guimarães Silva, D.Sc.**

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Especialista em Fisioterapia Neurológica, **Professor Titular do PROCIMH, Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro

Resumo
A proposta deste estudo é avaliar as condutas terapêuticas não medicamentosas
Palavras-chave: utilizadas na doença de Parkinson. Realizou-se revisão bibliográfica dos últimos anos
Doença de Parkinson, com intuito de mostrar e comentar a importância e a eficácia da fisioterapia na doença
atividade física. de Parkinson.

Abstract
The aim of this study was to assess therapy, except drugs, in Parkinson disease. It was
Key-words: done a literature review of the last years to show and comment the importance and
Parkinson disease, efficacy of physical therapy in Parkinson disease.
physical activity.

Artigo recebido 24 de novembro de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Soraya Carvalho da Costa Monte, Rua Canhoba, 27 Santa Cruz 23575-040 Rio de Janeiro RJ

artigo 09 - Soraya.pmd 61 11/02/04, 12:05


62 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Introdução ocupacional de grande importância. Uma vez confirmado o


diagnóstico, o tratamento deve ser iniciado. O paciente e a
A doença de Parkinson (DP), com uma prevalência de família precisam de orientação relacionada às atividades
1% na população geral, é uma patologia de evolução lenta diárias e aconselhamento de como enfrentar a doença.
que reduz progressivamente os movimentos voluntários,
observando-se alterações motoras, que acometem a marcha, Tratamento fisioterapêutico
o equilíbrio e a postura. Bioquimicamente a doença de
Parkinson consiste na diminuição da concentração de A fisioterapia atua nos sinais e sintomas da doença de
dopamina (DA) no estriado. Isto decorre da morte neuronal Parkinson, tais como: rigidez, bradicinesia, tremor e marcha.
na substância negra (geralmente acima de 80%) reduzindo a O programa de exercícios cinesioterapêuticos ativo livre e
produção de DA e conseqüentemente sua ação no estriado. passivo tem como objetivo desacelerar a progressão da
Estudo bioquímico demonstrou que ocorre aumento da doença, impedindo o desenvolvimento de complicações e
concentração de DA logo no início da vida seguindo-se, a deformidades secundárias e manter ao máximo as
partir dos 20 anos perda lenta e progressiva [1]. Através da capacidades funcionais do paciente [5].
anatomia patológica observa-se despigmentação da substância A curto prazo as seguintes metas são relevantes para o
negra (devido à morte neuronal e conseqüentemente redução tratamento do paciente com parkinsonismo [6,7]:
da melanina) e o aparecimento de inclusões fibrilares
intracitoplasmática (corpúsculos de Lewy). Tem sido proposto • Manter ou aumentar a amplitude de movimentos em
que a DP seja uma aceleração anormal do processo de todas as articulações;
envelhecimento. • Impedir contraturas e corrigir as posturas defeituosas;
O diagnóstico clínico da doença de Parkinson baseia-se • Impedir a atrofia por desuso e a fraqueza muscular;
na história da doença do paciente, no exame clínico e na • Promover e incrementar o funcionamento motor e a
epidemiologia. Os exames complementares tais como mobilidade;
tomografia computadorizada cerebral (TCC) e Ressonância • Incrementar o padrão de marcha;
Magnética de Crânio (RMC), são utilizados para diagnóstico • Melhorar os padrões de fala, respiração, expansão e
diferencial. A Tomografia por emissão de pósitrons (PET), mobilidade torácicas;
disponível em raros hospitais no Brasil, tem como finalidade • Manter ou aumentar a independência funcional nas
avaliar a funcionalidade dos núcleos da base na Doença de atividades da vida diária;
Parkinson e outras doenças degenerativas do SNC sendo de • Ajudar o ajustamento psicológico à incapacidade
grande utilidade para se observar à progressão desta doença. funcional nas atividades da vida diária;
Um método fácil e de grande utilidade prática para • Melhorar o equilíbrio e a instabilidade postural.
avaliação da doença, são as escalas de pontuação que podem
ser utilizadas para analisar a evolução clínica da doença ou a Já a longo prazo o programa fisioterapêutico tem por
eficácia do tratamento. Entre elas temos as escalas de Webster, finalidade:
UPDRS, e Hohen Yahr [2] que nos proporcionam uma
avaliação clínica e evolutiva da doença. • Retardar ou minimizar a progressão e efeitos dos
Confirmando-se o diagnóstico de DP, o passo seguinte sintomas da doença;
será analisar o impacto desta doença sobre o desempenho • Impedir o desenvolvimento de complicações e
das atividades diárias do indivíduo. Deverá, então, o deformidades secundárias;
parkinsoniano, ser inquirido pormenorizadamente sobre sua • Manter ao máximo as capacidades funcionais do
capacidade para as atividades da vida diária, tais como de paciente;
falar, alimentar-se, deglutir, levantar-se da cadeira, vestir-se, • Melhorar a qualidade de vida do paciente, reintegrando
manter a higiene pessoal, escrever, rolar na cama, andar, a sociedade.
trabalhar e manter o convívio social [3,4].
Com base nestes conceitos, resolvemos elaborar esta Exercícios de amplitude de movimento
revisão de literatura com a finalidade de atualizar as diferentes
condutas desta doença no tratamento fisioterapêutico. Os exercícios ativos e passivos devem ser feitos várias
vezes ao dia (dentro da amplitude de movimentos). Os
Desenvolvimento exercícios ativos irão ajudar a fortalecer os músculos
extensores alongados, enquanto que estirará os flexores que
Embora o tratamento medicamentoso seja se grande se apresentam retesados e encurtados. Quando o paciente
importância para melhora dos sintomas, a terapêutica para se encontra limitado no movimento ativo que ele pode
os indivíduos parkinsonianos envolve cuidados médicos e realizar, geralmente deve-se utilizar o movimento passivo e
reabilitatórios, sendo a fisioterapia, a fonoaudiologia e a terapia ativo assistido. As contraturas de músculos específicos podem

artigo 09 - Soraya.pmd 62 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 63

responder as técnicas de inibição antagonista, como a técnica posteriormente aumenta com a extensão do tronco, que é
de facilitação neuromuscular proprioceptiva (contrair-relaxar). importante para o parkinsoniano. [5,8]
No entanto, como o relaxamento muscular que ocorre Conseguindo-se diminuir a rigidez através do relaxamento,
geralmente não é completo, o fisioterapeuta deverá utilizar- o movimento pode ser iniciado. Para o indivíduo com doença
se de movimentos lentos, rítimicos e rotatórios dentro de de Parkinson, esse movimento deve ser em toda amplitude.
uma amplitude total de movimento. O estiramento passivo Com as técnicas de relaxamento, torna-se mais fácil começar
prolongado e/ou as técnicas de estiramento mecânico que com movimentos distais e gradualmente aumentar o
usam splints e outros aparelhos podem ser necessárias para movimento, indo para os músculos proximais e tronco. A
melhorar a amplitude de movimento naquelas articulações posição sentada é a melhor posição para iniciar, começando
onde as contraturas estiverem mais acentuadas [6]. com um balanço de braços e aumentando sempre a amplitude.
Os exercícios de amplitude de movimentos para serem Como os padrões simétricos bilaterais são mais fáceis que os
realizados em casa devem ser acompanhados por algum padrões recíprocos, eles devem ser inicialmente utilizados.
equipamento adaptativo, como por exemplo as polias na Para ampliar rotação de tronco (que ajuda a diminuir a rigidez
parede, se a bradicinesia não for muito grave [6]. proximal) pode ser usada facilitação neuromuscular
proprioceptivo (PNF) e iniciação rítmica. Adicionalmente, o
Exercícios de mobilização tratamento pelo neurodesenvolvimento (NTD) e a técnica
de mobilização podem ser úteis para aumentar a mobilidade
Um programa de exercícios para o paciente com escapular e pélvica [6,8,9].
parkinsonismo deverá ser baseado nos padrões de movimento À medida que o movimento aumenta, as atividades bilaterais
funcional, que trabalhe os vários seguimentos do corpo ao podem ser substituídas por padrões recíprocos. A utilização
mesmo tempo. Os movimentos extensores, abdutores e de atividades funcionais também é importante. Nas atividades
rotatórios devem ser realizados várias vezes. Os movimentos de marcha devem ser encorajados os passos e balanceios de
devem ser rítmicos, recíprocos e progredir até que atinjam braços amplos. Adicionalmente, as mudanças na direção, as
uma amplitude total do movimento. Os estímulos verbais, mudanças nos padrões de movimento, as atividades de parar e
tácteis e auditivos irão auxiliar o paciente a reconhecer o iniciar a marcha devem ser bastante enfatizadas [8,9].
movimento. Os comandos verbais, música, metrônomos, Além do tratamento ambulatorial, o parkinsoniano deve
espelhos e a marcação do chão serão auxiliares para se receber um programa domiciliar, sendo necessário encorajar
aumentar a mobilidade geral do paciente. [6] os exercícios moderados e consistentes como parte do dia
O treinamento da marcha é realizado para superar déficits, normal. A fadiga deve ser evitada e os exercícios devem ser
tais como: marcha desequilibrada, alinhamento e reflexos graduados para a capacitação do indivíduo. O terapeuta deve
posturais defeituosos. Tem como objetivo aumentar o passo, ter em mente que habilidades aprendidas, como alguns
alargar a base de apoio, aumentar o movimento contralateral esportes, são por vezes menos afetadas que os movimentos
do tronco e do braço. automáticos [5].
A mobilização dos músculos da face é outro importante A dança de baile é também uma excelente forma de terapia
exercício, devido a interação social limitada na presença da para os pacientes com Parkinson, já que promove
rigidez acentuada e da bradicinesia. Esses sinais podem movimentos rítmicos, rotação, equilíbrio e coordenação [10].
influenciar no estado psicológico e na motivação do paciente. Finalmente, a Doença de Parkinson é uma doença
Deve-se praticar movimentos faciais diários, exageradamente, progressiva, degenerativa. A terapia e os exercícios podem
usando um espelho para o feedback visual. [6] modificar a progressão, mas não podem interromper ou
revertê-la [1,8,9].
Relaxamento e atividade física
Cinesioterapia
Para aumentar o movimento é preciso reduzir a rigidez.
Muitas técnicas de relaxamento parecem efetivas, incluindo A cinesioterapia é, etimologicamente a “arte de curar que
o balanço lento e cuidadoso, a rotação dos membros e do utiliza todas as técnicas do movimento”. Ela faz parte de um
tronco e até mesmo o uso da yoga. Com o parkinsoniano o conjunto de terapias que emprega diversos agentes físicos
sucesso no relaxamento pode ser melhor obtido na posição (água, eletricidade, ondas, calor), que se completam
sentada, já que a rigidez pode aumentar em decúbito dorsal. mutuamente conforme a doença a tratar, conjunto este
Além disso, como os músculos proximais estão mais denominado mais freqüentemente de fisioterapia [11].
freqüentemente envolvidos que os músculos distais, o A intervenção da Fisioterapia, através do recurso
relaxamento pode ser mais fácil de se conseguir seguindo cinesioterapêutico visa proporcionar melhora nos distúrbios
uma progressão distal para proximal. A posição invertida deve motores da doença de Parkinson, proporcionando assim
ser usada com cuidado. Inicialmente esta posição facilita melhor adaptação às atividades da vida diária, seja de ordem
algum relaxamento (aumento no tono parassimpático) e física, psíquica e social [12].

artigo 09 - Soraya.pmd 63 11/02/04, 12:05


64 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Cinesioterapia é o emprego de exercícios ou movimentos neurológica é tornar o paciente mais independente possível
como forma de tratamento, com base no princípio de que para realização de suas tarefas de vida diária [14].
um órgão ou sistema se adapta ao estresse ao qual for Existe uma grande variedade de métodos terapêuticos
submetido. Os exercícios terapêuticos envolvem aplicação e disponíveis para tratar pessoas com disfunções neurológicas,
ajustes de estresses de forma apropriada para produzir as sendo que a hidroterapia está se tornando mais aceita, ocupando
adaptações desejadas sem provocar lesões. Os efeitos dessa um lugar definitivo no tratamento destes indivíduos.
intervenção são cumulativos com a manutenção do processo Embora as pesquisas dos tratamentos hidroterápicos em
e revertem caso o processo seja interrompido. pacientes com lesões neurológicas sejam bastante limitadas
O objetivo da cinesioterapia é manter e ou melhorar a até o presente momento, a hidroterapia vem sendo utilizada
performance muscular, promovendo o estado funcional do por muitos fisioterapeutas. Possivelmente a escolha pela
indivíduo. hidroterapia se deva aos efeitos que esta proporciona ao
organismo humano e a grande aceitação por parte dos
O programa de exercícios depende de: pacientes [14].
• Características do tecido muscular (músculos de força, Várias são as técnicas que podem ser aplicadas na
velocidade ou endurance) hidroterapia. O Watsu (Walter Shiatsu, schiatsu aquático) é
• Habilidade do sistema nervoso central para direcionar uma das técnicas que promovem o relaxamento muscular e
e coordenar o movimento o alongamento de musculaturas encurtadas, melhorando as
• Propriedades do sistema de alavancas: comprimento do amplitudes de movimento e trazendo bem-estar geral ao
braço de alavanca paciente [14]. Os métodos de Bad Ragaz e Halliwick podem
• Amplitude de movimento articular ser empregados para o desenvolvimento de força muscular,
• Componentes psicológico ou emocional para melhorar as amplitudes de movimento e proporcionar
um condicionamento físico adequado para os pacientes com
Exercícios respiratórios a doença de Parkinson [14].
Todas as técnicas utilizadas na hidroterapia não devem
Os exercícios respiratórios auxiliam o relaxamento e ser estanques e tão pouco trabalharem segmentos
trabalham de forma eficaz na expansão torácica, aumentando individualmente. Isto garante o trabalho global do indivíduo
a capacidade vital do paciente, prevenindo assim as limitações e é mais condizente com o ambiente aquático que é
músculo-esqueléticas, que podem contribuir para alta extremamente dinâmico [14].
incidência de complicações pulmonares, por ventilação
inadequada. Conclusão
Embora haja limitações respiratórias causadas pelas
alterações posturais típicas do parkinsoniano, estas não estão A Fisioterapia tem um papel importante na manutenção
diretamente ligadas à mortalidade por falência respiratória. física dos pacientes com doença de Parkinson colaborando
A bradicinesia e a rigidez na DP, além de determinarem na melhora dos aspectos motores, psíquicos e evitando o
dificuldade na execução e na repetição dos atos motores em aparecimento de posturas inadequadas que contribuem
geral, afetam os músculos respiratórios, levando-os a fadiga para o agravamento dos sintomas. Juntamente com o
e conseqüentemente limitando a ventilação. tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico pode-se
Ao iniciar um programa de fisioterapia respiratória para proporcionar, em muitos casos, a estabilização dos estágios
esses pacientes, devemos considerar a resistência imposta à da doença, melhorando o prognóstico desta patologia de
mobilização do tórax tanto pela postura em flexão como pela tão difícil tratamento.
presença de rigidez torácica, típicas da DP. Há necessidade para o paciente com DP de um programa
A reabilitação dos portadores de DP tem sido direcionada de tratamento preventivo ou reabilitador, não só motor, mas
especialmente para as limitações motoras, fazendo-se também direcionado para a função respiratória com intuito
necessária avaliação funcional respiratória a fim de identificar de aumentar a amplitude torácica, o que proporcionará
as disfunções e estabelecer programa de tratamento melhora da capacidade funcional desses pacientes, trazendo-
direcionado [13]. lhes maior independência e, por conseguinte melhor qualidade
de vida. A abordagem psíquica e fonoaudiológica, em muitos
Hidroterapia casos, também são necessárias.

A hidroterapia é um recurso da fisioterapia utilizando a Referências


água como agente externo, realizando exercícios aquáticos
terapêuticos em piscinas aquecidas e cobertas, utilizada na 1. Umpherd DA. Fisioterapia neurológica. 2 ed. São Paulo:
reabilitação de várias patologias, com orientação restrita do Manole; 1994.
profissional de fisioterapia. O objetivo da reabilitação aquática 2. Committee Unified Parkinson’s Diaease Rating Scale. In:

artigo 09 - Soraya.pmd 64 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 65

Fahn S, Marsdin CD, Calne DB, Galdstein M. Recent advanced Parkinson disease. Phys Ther 2000;80 (11):1087-
development in Parkinson’s disease. Florahm Park, NJ: 96.
Macmillan Health Care Information; 1987. p.153-64. 9. Meg EM. Movement disorders in people with Parkinson
3. Webster DD. Critical Analysis of the disability in Parkinson disease: A model for physical therapy. Phys Ther
disease. Mod Trat. 1968;5: 257-82. 2000;80(6):578-97.
4. Cardoso F. Tratamento da Doença de Parkinson. Arq 10. Zarate D, Patrícia DTV. Aplicacione de la mosicoterapia em
Neuropsiquiatr 1995;53(1):1-10. la medicina. Rev Méd Chile 2001; 129 (2):219-23.
5. Deane KH, Jones D, Playford ED, Ben-Shlomo Y, Clake 11. Xhardez. Manual de Cinesioterapia: Técnicas - Patologia -
CE. Physical therapy for patients with Parkinson’s disease: a Indicações – Tratamento. 2 ed. São Paulo: Atheneu; 1990.
comparison of techniques. Cochrane Database Syst Rev 12. Prado RA, Terezinha NL, Koda LC, Gomes C. Proposta de
2001;(3):2817. tratamento com estimulação elétrica funcional - FES,
6. O’Sullivan SB, Schimitz TJ. Fisioterapia: Avaliação e associada a cinesioterapia na doença de Parkinson. Med
tratamento. 2 ed. São Paulo: Manole; 1993. Reabil 2000; (52):23-7.
7. Schenkmanm CTM, Uchibhatla M, Chandler J, Pieper C. 13. Cardoso SRX, Pereira JS. Analise da função respiratória na
Reliability of impairment and physical performance doença de Parkinson. Arq Neuropsiquiatr 2002;60(1):91-5.
measures for persons with Parkinson’s disease. Phys Ther 14. Morini SR, Adachi SC, Henrique SHFC. Programa de
1997;77:19-27. hidroterapia na reabilitação de um paciente portador
8. Nieuwboer A, Dom R, Weerdt W, Bogaerts K, Nuyens G. da doença de Parkinson. Fisioterapia Brasil 2002;3(2):
Development of an activity for scale for individuals with 117-27. C

artigo 09 - Soraya.pmd 65 11/02/04, 12:05


66 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Estudo de caso

Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade:


tratamento fisioterapêutico com
abordagem ludoterapêutica
Attention deficit problems/hyperactivity:
physical therapy with ludotherapy approach
Alcioney Valeski, M.Sc.*, Bárbara Lucia Pinto Coelho**, Michelle Corrêa Rodrigues***
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC, Coordenador do Centro de Pesquisa e
Equoterapia Haras Araranguá, SC – CEPEHA, **Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade do Extremo Sul Catarinense –
UNESC, ***Acadêmica do curso de Fisioterapia da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC

Resumo
O objetivo deste artigo é relatar a atuação da Fisioterapia no tratamento do Transtorno
Palavras-chave: de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), utilizando-se a abordagem ludoterapêutica.
Transtorno de déficit de Para tanto, apresenta-se o caso de um paciente infantil, 11 anos, do sexo masculino,
atenção, hiperatividade, diagnosticado como portador dessa condição, atendido no Hospital Regional de Araranguá,
ludoterapia.
situado no Estado de Santa Catarina. O paciente foi submetido a 8 sessões de tratamento,
duas vezes por semana. Em todas as sessões, foram realizados exercícios de alongamento
passivo de membros inferiores, aperfeiçoamento da coordenação motora, equilíbrio,
concentração e, conseqüentemente, a correção postural. Conclui-se que suprir as necessidades
da criança com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade oferece novos desafios
aos fisioterapeutas, porém, existe a necessidade de estudos que identifiquem as reais alterações
motoras e, principalmente, as que apresentam direta ou indiretamente, relação com a
funcionalidade, para que a Fisioterapia tenha parâmetros de elaboração da intervenção.

Abstract
The aim of this article is to report the contribution of physical therapy to Attention
Key-words: Deficit Problems/Hyperactivity, through the ludotherapy approach. It presents the
Upset of deficit of attention, case of an 11 years old boy, attended at Araranguá Regional Hospital, in Santa Catarina
hiperactivity, ludotherapy. state. The patient accomplished eight sessions of treatment, twice a week. In every
session, the treatment consisted of passive stretch exercises in lower limbs, coordination
improvement, balance, concentration, and consequently posture correction. The results
show that providing the children presenting Attention Deficit Problems/Hyperactivity
needs creates physical therapists new challenges, but studies are necessary to identify
the real coordination changes, mainly the ones that are, directly or indirectly, related to
neurological functions, in order to achieve parameters to work out the intervention.

Artigo recebido 16 de setembro de 2003; aceito em 15 de dezembro de 2003.


Endereço para correspondência: Prof. Alcioney Valeski, Caixa Postal 331 – 88900-000 Araranguá SC, E-mail: cepeha@hotmail.com

artigo 10 - Alcioney.pmd 66 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 67

Introdução além do comum), tais aspectos, entretanto, são normalmente


encontrados em indivíduos sem o problema, por isso, para
O Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade haver o diagnóstico desse transtorno, a falta de atenção e a
(TDAH) é um transtorno do desenvolvimento do tempo de hiperatividade devem interferir significativamente na vida e
atenção, impulsividade e/ou hiperatividade, assim como do no desenvolvimento normais da criança ou do adulto [2].
comportamento, no qual estes déficits são significativamente O transtorno deve estar presente por, pelo menos, seis
inapropriados para idade mental. Tem início na primeira meses, comprometer o funcionamento escolar ou social e
infância, é geralmente crônico ou persistente ao longo do ocorrer manifestações antes dos sete anos [3,4]. Porém, antes
tempo; e não é resultado direto de atraso severo de linguagem, dos quatro ou cinco anos, é difícil ser feito o diagnóstico,
surdez, cegueira, autismo ou psicose infantil [1]. pois o comportamento das crianças nessa idade é muito
Os indivíduos que apresentam este transtorno demonstram variável e a atenção não é tão exigida quanto em crianças
dificuldades de aprendizagem, deficiência do controle motor e mais velhas. Mesmo assim, algumas crianças desenvolvem o
equilíbrio. Algumas crianças, com dificuldades de aprendizado transtorno numa idade bem precoce [2].
apresentam problemas em relação ao controle motor, os quais Estima-se que cerca de 3 a 6% das crianças na idade
se manifestam principalmente durante o uso das mãos e nas escolar (entre 5 a 10 anos) apresentem TDAH [2,5,6]. A maior
atividades relacionadas com o equilíbrio. incidência ocorre no sexo masculino, numa proporção
Assim sendo, o objetivo deste artigo é relatar a atuação equivalente a 2:1.
da Fisioterapia no tratamento do Transtorno de Déficit de Todavia, a diferença da proporção meninos/meninas
Atenção/Hiperatividade (TDAH), utilizando-se abordagem encontrada entre estudos populacionais e clínicos
ludoterapêutica, apresentando-se o caso de um paciente, de provavelmente deve-se ao fato de que as meninas apresentam
11 anos, diagnosticado como portador dessa patologia, menos sintomas de conduta, sendo, portanto, menos
atendido na clínica de Fisioterapia do Hospital Regional de encaminhadas a avaliações e tratamento [6,7]. Porém, mesmo
Araranguá, situado no Estado de Santa Catarina. apresentando-se mais comumente em crianças, não sendo
A motivação para o estudo decorre do fato de que o devidamente tratado, o transtorno continuará se
TDAH é uma patologia totalmente relacionada aos distúrbios manifestando na fase adulta. Em adolescentes e adultos, no
motores, sendo, por isso, a Fisioterapia instada a atuar no entanto, ainda existem poucos dados a respeito de qual é a
tratamento dessa condição. Além disso, a escassez de trabalhos incidência da população afetada [2].
na literatura especificamente tratando da intervenção Quanto aos fatores de risco, a ocorrência do TDAH está
fisioterapêutica em indivíduos com essa patologia reitera a associada a um certo número de fatores de risco pré-natais:
importância do estudo. tabagismo, alcoolismo materno, alimentação rica em açúcar,
Conforme se relata, o distúrbio de hiperatividade com problemas familiares, exposição a determinadas substâncias
déficit de atenção é uma condição freqüente em crianças, e sofrimento emocional pré-natal, porém, o fator de risco
sendo considerado importante problema médico-social. mais aceito é o de uma vulnerabilidade herdada ao transtorno,
Caracteriza-se por distúrbios motores, cognitivos e que vai manifestar-se de acordo com a presença dos fatores
comportamentais, que comprometem o aprendizado de ambientais, desencadeando níveis mais baixos de
crianças normais. metabolismo no cérebro do que os indivíduos que não
apresentam o transtorno. Contudo, quanto mais forte a carga
Revisão da literatura genética, menor a importância desses desencadeadores [6].
Em geral, as principais variáveis causas relacionadas à
Existe atualmente uma variedade considerável para o etiologia do TDAH, apontadas pela literatura, são: fatores
emprego de uma nomenclatura para o problema do déficit neurológicos, reações tóxicas e herança genética. Nesse
de atenção. Na literatura especializada, encontram-se diversas sentido, entre os possíveis fatores etiológicos encontram-se:
siglas para descrever este distúrbio, dentre elas: SHDA substâncias ingeridas na gravidez (nicotina e álcool);
(Síndrome de Hiperatividade com Déficit de Atenção), PHDA sofrimento fetal (sobretudo durante o parto); exposição ao
(Perturbação de Hiperatividade com Déficit da Atenção), chumbo e fatores neurológicos.
ADD (do inglês Attention Deficit Disorder) e TDAH (Transtorno Quanto à patogenia do TDAH, recentes trabalhos
de Déficit de Atenção/ Hiperatividade). científicos encontram evidências que podem ser reunidos
Dessa forma, para essa revisão, adotou-se a nomenclatura em dois grandes grupos: um que aponta para o déficit
“TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade)” funcional de certos neurotransmissores (dopamina e
por considerá-la a mais usada entre os diversos estudiosos noradrenalina) e outro que enfatiza o déficit funcional do
dessa condição. lobo frontal, mais precisamente do córtex pré-frontal [1,8,17].
O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade Portanto, estudos estruturais e metabólicos, adicionados
baseia-se nos sintomas de desatenção (pessoa muito distraída) aos estudos genéticos e familiares, conferem ao TDAH uma
e hiperatividade (pessoa muito ativa, por vezes agitada, bem delineação de transtorno neurológico [1].

artigo 10 - Alcioney.pmd 67 11/02/04, 12:05


68 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Com relação à fisiopatologia, o TDAH está diretamente das razões é a falta de uniformidade dos resultados [12].
relacionado com o controle motor deficitário e, por extensão, As medicações mais testadas em estudos cuidadosos e
com as dificuldades no aprendizado e a falta de atenção mais usadas na prática clínica são os chamados
exacerbada. Podendo-se, assim, observar um ciclo vicioso, onde estimulantes. No Brasil, o único estimulante encontrado
tudo se inicia pelo controle motor deficitário levando às diversas no mercado é o metilfenidato [13], comercializado com o
complicações, conforme se demonstra na figura 1 a seguir [9]. nome de Ritalina [6].
Outra classe de medicações bastante utilizada e que de-
Fig.1 - Ciclo vicioso do controle motor deficitário. monstrou clara eficácia é a dos antidepressivos tricíclicos [6].
Pode parecer paradoxal que medicações chamadas de
estimulantes possam ajudar crianças e adolescentes hiperativos
e impulsivos, entretanto, essas medicações estimulam a função
das áreas cerebrais responsáveis pelo comportamento inibitório
e, por isso, tendem a melhorar o “freio inibitório”. Como os
antidepressivos tricíclicos, os estimulantes aumentam a
disponibilidade dos neurotransmissores que pareçam estar
deficitários nessa área [14].
Porém, apesar dos efeitos salutares da medicação, esse
tratamento é limitado em diferentes for mas: estão
associados aos efeitos colaterais, alguns pais e professores
não aceitam a medicação devido a preocupações filosóficas/
religiosas; esses tratamentos não curam o TDAH no sentido
Fonte: Shepherd (1996) de normalizar totalmente o comportamento da criança e
os efeitos da medicação desaparecem quatro horas depois
O diagnóstico do TDAH é fundamentalmente clínico [7], da administração [14].
sendo que até a presente data, não existe qualquer método Dessa forma, essas limitações para o tratamento
laboratorial, de neuroimagem ou neurofisiológico entre exames medicamentoso promoveram a busca de intervenções
complementares capaz de confirmar o diagnóstico, como se adicionais que possam levar à maior manutenção da mudança
espera de praxe no estudo das doenças pediátricas [10]. comportamental por mais tempo e em diferentes ambientes,
O diagnóstico é feito a partir da demonstração de tais como intervenções psicoterapêuticas e estratégias de
características neurocomportamentais de desatenção e manejo cognitivo-comportamentais em casa e na escola [6].
hiperatividade/impulsividade, comprometedoras do Todavia, a medicação permite que essas outras abordagens
funcionamento do indivíduo e impróprias para determinada terapêuticas sejam mais eficazes [15].
fase do desenvolvimento [1]. Referentemente às complicações, estudos demonstram
Dessa forma, os critérios de diagnóstico para TDAH que crianças com TDAH apresentam um risco aumentado
foram estabelecidos pela Associação Americana de de desenvolverem outros transtornos psiquiátricos na
Psiquiatria, através do Manual Diagnóstico e Estatístico de infância, adolescência e idade adulta, incluindo
Transtornos Mentais (DSM-IV) [11], que apresenta três comportamento anti-social, abuso ou dependência de álcool
subtipos do transtorno: predominância dos sintomas de e drogas, transtornos do humor e de ansiedade [5,7],
desatenção, predominância dos sintomas de hiperatividade e conforme se demonstra na figura 2, a seguir, que representa
impulsividade, e predominância de ambos. a evolução provável do TDAH não tratado [15].
Assim, o DSM-IV, de 1994, distingue 3 tipos de TDAH,
Fig.2 - Evolução provável do TDAH não tratado.
dependendo das manifestações que predominam no quadro
clínico: 1. Tipo predominantemente desatento (TDAH-D);
2. Tipo predominantemente hiperativo-impulsivo (TDAH-
HI) e 3. Tipo combinado (TDAH-C).
O quadro clínico, de uma forma geral, consiste-se na
apresentação de algumas alterações, tais como dificuldade de
atenção e concentração, problemas de aprendizado, distúrbios
do comportamento, retardos da fala e distúrbios motores.
Quanto aos exames complementares, o eletroence-
falograma (EEG) e a ressonância magnética são bastante
solicitados no tratamento das crianças com TDAH. Entretanto,
os dados fornecidos por estes exames e de estudos que os
avaliaram em crianças com essa patologia são conflitantes. Uma Fonte: Kewley e Latham (2001)

artigo 10 - Alcioney.pmd 68 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 69

Materiais e métodos Aos 7 (sete) anos, ingressou na A.P.A.E., ficando por 3


(três) anos, quando, por encaminhamento, passou a freqüentar
A amostra constituiu-se de um paciente infantil, de 11 a escola onde está matriculado atualmente, na 1ª série do Ensino
anos, do sexo masculino, que apresenta Transtorno de Fundamental. Sua alimentação é normal e sem a necessidade
Déficit de Atenção/ Hiperatividade. O estudo foi realizado de auxílio, sendo que a criança não pede comida, a mãe tem
na clínica de Fisioterapia do Hospital Regional de Araranguá, que oferecer. Não apresenta nenhum caso na família e tem
SC. Para o desenvolvimento do estudo, foi realizada três irmãos. Aos 7 (sete) anos, ingressou na A.P.A.E., ficando
avaliação fisioterapêutica-neurológica infantil e ortopédica, por 3 (três) anos, quando, por encaminhamento, passou a
na qual constavam dados de identificação, anamnese e exame freqüentar a escola onde está matriculado atualmente, na 1ª
físico. Também se aplicou o Teste do DSM-IV, com a mãe série do Ensino Fundamental. Sua alimentação é normal e
do paciente. sem a necessidade de auxílio, sendo que a criança não pede
No total, foram realizadas oito sessões, iniciando-se com comida, a mãe quem tem que oferecer. Não apresenta nenhum
a avaliação fisioterapêutica-neurológica infantil e ortopédica caso na família e tem três irmãos.
e teste do DSM-IV com a mãe do paciente; nas demais A medicação administrada ao paciente é Gaballon (ácido
sessões, foram realizados os procedimentos fisioterapêuticos gama-aminobutírico, vitaminas B1 e B6, pontotenato de cálcio
mediante abordagem ludoterapêutica, pelo fato de tratar-se e lisina de cálcio), indicado para estafa física, mental e
de paciente infantil. antianoréxico (administrado pela manhã); além de Ritalina
Para facilitar a análise, foi preenchida ficha de evolução (metilfenidato), que é indicado para hiperatividade e favorece
fisioterapêutica, procedimento rotineiro e obrigatório da no tratamento dos outros problemas associados ao
entidade, que per mite melhor acompanhamento do transtorno, além de contribuir nos programas paralelos de
tratamento, na qual constam nome do paciente, idade, tratamento - psicológico, educacional e social - (administrado
diagnóstico clínico, diagnóstico fisioterapêutico, fisioterapeuta pela manhã) e Neozine (levomepromazina), indicado para
responsável, procedimentos fisioterapêuticos e evolução do tratar sintomas psicóticos e também para agitação ou
paciente em cada sessão. irritabilidade de pacientes com outros problemas neurológicos
Os equipamentos utilizados para o tratamento (administrado à noite).
fisioterapêutico foram bolas, tatame, cones, jogos de montar A queixa principal, conforme relato da mãe, é quanto à
peças, canetas coloridas, espuma (barbear), barras paralelas, comunicação, concentração e coordenação motora.
balancim e escada com dois degraus.
O tempo de duração de cada sessão foi de 40 minutos, Discussão
realizadas duas vezes por semana.
Para a avaliação, foram coletados os dados de
Relato do caso identificação e obtido o diagnóstico clínico, caracterizado
por “alteração de equilíbrio”, com suspeita de Transtorno
Paciente nasceu de gravidez transcorrida normalmente, a de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Durante a
termo, apesar de a mãe apresentar hipertensão e tomar avaliação, percebeu-se que o quadro clínico e a história da
medicamentos, sendo que o parto foi cesariana. Após 24 horas doença mostraram-se compatíveis com a patologia
do nascimento, teve convulsão, sendo realizados imediatamente diagnosticada, confirmando-se com o diagnóstico médico
os procedimentos necessários, porém, nunca mais veio a apresentado pela mãe e ratificado através da realização do
apresentar essa ocorrência. Paciente nasceu de gravidez teste estabelecido pela Associação Americana de Psiquiatria,
transcorrida normalmente, a termo, apesar de a mãe apresentar através do DSM-IV, sendo o paciente classificado como
hipertensão e tomar medicamentos, sendo que o parto foi tipo combinado (TDAH-C). A queixa principal, conforme
cesariana. Após 24 horas do nascimento, teve convulsão, sendo relato da mãe, é quanto à comunicação, concentração e
realizados imediatamente os procedimentos necessários, coordenação motora. Durante a avaliação, percebeu-se que
porém, nunca mais veio a apresentar essa ocorrência. o quadro clínico e a história da doença mostraram-se
Com 7 (sete) meses de idade, a mãe começou a perceber compatíveis com a patologia diagnosticada, confirmando-
alterações no desenvolvimento da criança (como engatinhar, se com o diagnóstico médico apresentado pela mãe e
andar), posteriormente, foi diagnosticado alteração de ratificado através da realização do teste estabelecido pela
equilíbrio, provavelmente decorrente do Transtorno de Associação Americana de Psiquiatria, através do DSM-IV,
Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Com 7 (sete) sendo o paciente classificado como tipo combinado
meses de idade, a mãe começou a perceber alterações no (TDAH-C).
desenvolvimento da criança (como engatinhar, andar), As crianças com TDAH do tipo combinado (TDAH-
posteriormente, foi diagnosticado alteração de equilíbrio, C), com predomínio de sintomas de hiperatividade/
provavelmente decorrente de Transtorno de Déficit de impulsividade, são mais agressivas e impulsivas do que as
Atenção e Hiperatividade (TDAH). crianças com outros dois tipos. O tipo combinado apresenta

artigo 10 - Alcioney.pmd 69 11/02/04, 12:05


70 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

também um maior prejuízo no funcionamento global, quando força, resistência à fadiga, preparo cardiovascular, mobilidade,
comparado aos outros grupos [6]. flexibilidade, estabilidade, coordenação, equilíbrio e
O diagnóstico fisioterapêutico foi alteração funcional habilidades funcionais [16].
relacionada à diminuição de equilíbrio e coordenação A ludoterapia foi incorporada à terapêutica pelo fato
motora, além de alteração de marcha. O diagnóstico de tratar-se de paciente infantil, considerando-se que o
fisioterapêutico foi alteração funcional relacionada à comportamento lúdico contribui para aquisição das
diminuição de equilíbrio e coordenação motora, além de habilidades de cada domínio do desenvolvimento [17]. O
alteração de marcha. ato de brincar estimula a curiosidade, a iniciativa e a
Dessa forma, através da revisão literária realizada e mediante autoconfiança, proporcionando a aprendizagem, o
uma visita à instituição A. P. A. E., pôde-se fazer a comparação desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da
com os sinais clínicos manifestados pelo paciente, constatando- concentração e da atenção. Além disso, independente do
se que as reações desse paciente caracterizam-se, muitas vezes, contexto histórico, cultural e social, toda criança brinca.
pela imaturidade de respostas e pela incapacidade de controlar Desde o seu nascimento, ela experimenta, descobre,
o grau de atividade ou de impulsividade. Dessa forma, através inventa, exercita e combina suas habilidades através da
da revisão literária realizada e mediante uma visita à instituição brincadeira [1].
A. P. A. E., pôde-se fazer a comparação com os sinais clínicos Assim sendo, o ato de brincar mostra-se indispensável à
manifestados pelo paciente, constatando-se que as reações saúde física, intelectual, emocional e social da criança.
desse paciente caracterizam-se, muitas vezes, pela imaturidade Mediante a ludoterapia, dessa forma, foram direcionados
de respostas e pela incapacidade de controlar o grau de os procedimentos fisioterapêuticos, como alongamentos,
atividade ou de impulsividade. exercícios de equilíbrio e coordenação motora, visando a
Além disso, foi possível verificar, conforme as literaturas proporcionar ao paciente uma melhor qualidade de vida e
pesquisadas, que a criança com TDAH apresenta distúrbios adaptação ao meio em que vive. Entretanto, é de fundamental
motores, cognitivos e comportamentais, sendo que os importância o conhecimento das características do
distúrbios motores são um dos principais motivos de queixas Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade para
de professores e pessoas em geral que lidam com indivíduo conduzir a terapia de maneira que o paciente se sinta
com essa condição. Os problemas motores são confortável e seguro.
freqüentemente descritos de maneira global, compreendendo No total foram realizadas 8 sessões de tratamento, com o
a precariedade das funções de equilíbrio e a coordenação tempo de duração de 40 minutos, tendo-se observado, em
imperfeita entre os membros e/ou o corpo inteiro. duas sessões, traços de irritabilidade e pouca iniciativa para a
Tendo-se como base o conhecimento do comportamento realização das atividades, entretanto, na maioria das sessões,
e desenvolvimento motor normal e a avaliação fisioterapêutica o paciente mostrou-se colaborativo.
neurológica e ortopédica, buscou-se através das alterações Quanto aos procedimentos fisioterapêuticos adotados,
motoras, de atenção e aprendizagem que o paciente apresenta, esses podem ser assim elencados: alongamento passivo para
desenvolver atividades fisioterapêuticas, adaptando-as às membros inferiores (quadríceps, isquiotibiais, tríceps sural e
necessidades do mesmo. iliopsoas) e alongamento de paravertebrais (Série de Willians
Dessa forma, o tratamento tem os seguintes objetivos: e Prece Maometana), visando à mobilidade; exercícios para
trabalhar o equilíbrio, aperfeiçoar a coordenação motora, aperfeiçoar coordenação motora de membros superiores e
desenvolver habilidades de manipular objetos, treinar marcha, membros inferiores; treino de marcha nas barras paralelas e
desenvolver a consciência do corpo e do espaço e maximizar com cones; treino de equilíbrio, coordenação motora e
o controle postural. correção postural no balancim e bola de ginástica; pontos-
Portanto, o tratamento fisioterapêutico realizado tem chaves Bobath e diagonal de Kabat para correção postural.
como base a cinesioterapia ativa associada à abordagem Com relação à ludoterapia, foram realizadas atividades
ludoterapêutica. como joguinhos de montar, desenho, “zig-zag” entre cones,
A cinesioterapia é o tratamento das doenças através do derrubar cones com bolas de diversos tamanhos, arremesso
movimento. A cinesioterapia ativa é a parte da Fisioterapia e chute com bolas, “batata-quente”, colagem de gravuras,
que utiliza o movimento provocado pela atividade muscular “andar na ponte”, entre outras atividades, direcionadas à
do paciente com uma finalidade terapêutica precisa, sendo coordenação motora, equilíbrio e correção postural.
descrita pela ação da atividade das fibras musculares contráteis Em todas as sessões, dessa forma, foram realizados
do paciente, de maneira analítica ou global, voluntária ou exercícios de alongamento passivo de membros inferiores,
automática reflexa. Tal atividade é realizada com uma mediante a ludoterapia, aperfeiçoamento da coordenação
finalidade terapêutica local, regional ou geral. motora, concentração, equilíbrio e, conseqüentemente,
A cinesioterapia, através de seus exercícios terapêuticos, correção postural.
promove a prevenção de disfunção, assim como o As figuras 3 e 4, a seguir, ilustram algumas das atividades
desenvolvimento, melhora, a restauração ou manutenção de desenvolvidas no tratamento fisioterapêutico.

artigo 10 - Alcioney.pmd 70 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 71

Fig. 3 - Exemplo de atividade fisioterapêutica desenvolvida com paciente. entre os membros e/ou o corpo inteiro, afetando,
principalmente, o desempenho escolar do paciente.
A etiologia do TDAH permanece obscura, porém se
acredita que ela seja um conjunto de fatores ambientais e
genéticos bem estabelecidos, que precisam ser incorporados
a alguma hipótese etiológica unificadora da doença. A
hipótese patogênica mais aceita é o de haver uma
vulnerabilidade herdada ao transtorno, que se manifesta de
acordo com presença de desencadeadores ambientais,
traduzindo-se num déficit funcional de certos
neurotransmissores ou de um déficit funcional do lobo
frontal, mais precisamente do córtex pré-frontal, o que
ocasionaria um defeito na condução dos impulsos nervosos
Fonte: Dados dos autores
e condicionaria o aparecimento dos sintomas.
Fig. 4 - Exemplo de atividade fisioterapêutica desenvolvida com paciente.
As pessoas com TDAH normalmente são encaminhadas
a tratamento quando entram na escola, ocasião em que o
distúrbio é mais notado, em função da inadaptabilidade à
instituição ou devido à falta de concentração para as atividades
escolares, sendo a Fisioterapia, integrada à equipe
multidisciplinar, uma das áreas que podem contribuir para
um eficaz tratamento dessa patologia, contribuindo para uma
maior independência e segurança nas atividades rotineiras
do paciente, sobretudo escolares, além de proporcionar ao
portador e seus familiares uma visão clara e objetiva sobre as
adaptações necessárias à vida diária, para um melhor convívio
na sociedade, trabalhando também o fator psicológico,
bastante influenciado pela doença.
Fonte: Dados dos autores Todavia, por se tratar de um distúrbio crônico, embora
na maioria das vezes ocorra uma remissão dos sintomas na
Neste contexto, as metas gerais a longo prazo são adolescência e vida adulta, a orientação para pessoas com
melhorar o estado dos sintomas neurológicos detectados na TDAH por fisioterapeutas deve ser vista e planejada numa
avaliação, melhorar ou manter o nível ótimo de base a longo prazo, pois um envolvimento contínuo
funcionamento físico, contribuir para o fator psicológico e proporciona ao fisioterapeuta adequar o tipo de tratamento
impedir ou retardar a presença e/ou desenvolvimento de oferecido, variando de acordo com os sintomas apresentados
complicações secundárias. por cada paciente e os benefícios advindos com a Fisioterapia.
Entretanto, o prognóstico foi considerado reservado, em Neste sentido, as necessidades que a criança com
função das características típicas da patologia diagnosticada, Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade apresenta
que se trata de um transtorno crônico; esperando-se, então, precisam ser analisadas no contexto de seu desenvolvimento
minimizar os efeitos adversos que caracterizam essa condição, educacional, emocional e motor. Portanto, a questão
trabalhando a coordenação motora e equilíbrio funcional para geralmente não é se a criança irá se beneficiar da terapia, mas
uma melhor qualidade de vida, assim como a correção quais os tipos de reparo são mais essenciais para a mesma,
postural. em determinado estágio de seu desenvolvimento e,
Por outro lado, as evidências que suportam a efetividade conseqüentemente, a abordagem fisioterapêutica eleita. Sendo
do tratamento dos déficits motores em crianças com assim, algumas crianças com incoordenação motora lidam
distúrbios de aprendizagem são ainda fragmentárias, pois a muito bem com seus problemas depois que eles são
criança com distúrbios de aprendizagem apresentam padrões identificados, direcionando, desta forma, a abordagem
altamente variáveis de incapacidade que tornam difícil prever fisioterapêutica que mais lhe convém.
ou medir a resposta à terapia [18]. Além disso, vale lembrar da importância do diagnóstico
precoce nos casos de patologias neurológicas, para que se inicie
Conclusão o tratamento fisioterapêutico o mais cedo possível, prevenindo
assim possíveis deformidades e alterações estruturais, bem
O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade trata- como melhorando a qualidade de vida e preparando o paciente
se de um problema neurobiológico que compromete as para as alterações que irão ocorrer na sua vida diária,
funções de equilíbrio e promove uma coordenação imperfeita aumentando o seu grau de funcionalidade e adaptação.

artigo 10 - Alcioney.pmd 71 11/02/04, 12:05


72 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Por outro lado, com o estudo realizado e o conhecimento e Hiperatividade: o que é? Como ajudar? Porto Alegre: Artes
obtido sobre a atuação da Fisioterapia, pôde-se desenvolver Médicas Sul; 1999.
um programa de tratamento que proporcionasse ao paciente 7. Rohde LAP, Ketzer LO. In: Fichtner N. Prevenção,
estímulos e prazer em realizar o tratamento, já que as diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais da infância
e da adolescência: um enfoque desenvolvimental. Porto
crianças afetadas por essa condição necessitam de
Alegre: Artes Médicas; 1997.
afetividade e atenção especial por parte do profissional que 8. Bastos FL, Bueno MC. Diabinhos: tudo sobre o Transtorno
esteja conduzindo o tratamento. de Déficit de Atenção/Hiperatividade (ADD). In: Reno
Ainda deve-se salientar que, os objetivos do tratamento Neurociências. [citado 2003 mar 18]. Disponível em
fisioterapêutico foram tão logo se mostrando eficientes, URL:http://geocities.yahoo.com.br/neurocientista/
uma vez que o paciente a cada sessão correspondia, pesquisa/add.htm.
mostrando-se colaborativo e realizando as atividades 9. Shepherd BR. Fisioterapia em pediatria. 3 ed. São Paulo:
propostas, assim como a mãe relatava as melhoras obtidas, Santos; 1996.
como a apresentação de maior concentração e 10. Caparroz J. Comportamento motor da criança com TDAH,
coordenação motora. sua relação com aprendizado e a possível atuação da
Fisioterapia (2001). [citado 2003 mar 26]. Disponível em URL:
Dessa forma, suprir as necessidades da criança com http//www.fisioterapia.com/publicacoes/cmcctdah.asp.
Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade oferece 11. Associação Americana de Psiquiatria. Manual diagnóstico e
novos desafios aos fisioterapeutas, porém, existe a necessidade estatístico de transtornos mentais - DSM-IV. Porto Alegre:
de estudos que identifiquem as reais alterações motoras e, Artes Médicas; 1994.
principalmente, as que apresentam direta ou indiretamente, 12. Diament A, Cypel S. Neurologia infantil. 3 ed. São Paulo:
relação com a funcionalidade, para que a Fisioterapia tenha Atheneu; 1998.
parâmetros de elaboração da intervenção. 13. Fichtner N. Prevenção, diagnóstico e tratamento dos
transtornos mentais da infância e da adolescência: um enfoque
Referências desenvolvimental. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.
14. Reinecke MA, Dattilio FM, Freeman A. Terapia cognitiva
com crianças e adolescentes: manual para a prática clínica.
1. Barros JMG. Jogo infantil e hiperatividade. Rio de Janeiro: Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 1999.
Sprint; 2002. 15. Kewley GD, Latham PA. Pertubação de Hiperactividade com
2. Abuchaim CM, Abuchaim ALG. Transtorno de Déficit de Défice de Atenção - “mal” diagnosticada e tratada? In:
Atenção e Hiperatividade. [citado 2003 mar 25]. Disponível Update: Revista de Educação Permanente e Clínica Geral,
em: URL: http://www.abcdocorposalutar.com.br Lisboa 2001;12(139).
3. Holmes DS. Psicologia dos transtornos mentais. 2 ed. Porto 16. Kisner C, Colby LA. Exercícios terapêuticos: fundamentos
Alegre: Artes Médicas; 2001. e técnicas. 3 ed. São Paulo: Manole; 1998.
4. Silva FG. Hiperatividade ou Déficit de Atenção. In: Revista 17. Cunha JV. In: Caparroz J. Comportamento motor da criança
Nova Escola, maio 2000. com TDAH, sua relação com aprendizado e a possível
5. Petribú K, Valença AM, Oliveira IR. Transtorno de Déficit atuação da Fisioterapia. [citado 2003 mar 26]. Disponível
de Atenção e Hiperatividade em adultos: considerações sobre em: URL: http//www.fisioterapia.com/publicacoes/
o diagnóstico e o tratamento. Belo Horizonte: Universidade cmcctdah.asp.
Federal de Minas Gerais; 2001. 18. Umphred DA. Fisioterapia neurológica. 2 ed. São Paulo:
6. Rohde LAP, Benczik EBP. Transtorno de Déficit de Atenção Manole; 1995. C

artigo 10 - Alcioney.pmd 72 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 73

Atualização

Graduação da resistência ao movimento durante


a imersão na água
The graded resistance during the movement
in water immersion

Juliana Monteiro Candeloro*, Fátima Aparecida Caromano, D.Sc.**


○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Pesquisadora Voluntária do Lafi-ReaCom do Curso de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da USP, **Profa. Dra. do
Curso de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da USP. Este texto faz parte da dissertação de mestrado a ser defendida pela primeira autora

Resumo
Este artigo tem como objetivo apresentar uma revisão bibliográfica com atualização
Palavras-chave: e exemplos práticos sobre o uso da água como resistência durante a realização de
Hidroterapia, força muscular cinesioterapia em imersão (hidroterapia). Este estudo foi elaborado a partir dos
e física. fundamentos físicos, como viscosidade, turbulência, profundidade da água, velocidade
dos movimentos, braço de alavanca, área frontal de resistência ao movimento, mudança
de direção dos movimentos e densidade (uso de flutuadores), que permitem prescrever
exercícios de fortalecimento com diferentes graus de intensidades.

Abstract
The aim of this paper is to present an up-to-date review, and examples of the usage
Key-words: of water as a mean of resistance during the practice of physical exercise in immersion
Hydrotherapy, muscular (hydrotherapy). This review was based on the physical properties of water, such as
strenght and physics. turbulence, viscosity, water level/deepth, movement speed, torque, frontal area of
resistance to the movement, change in movement direction and density (using floaters).
They allow the prescription of strenght exercises with different intensity degrees.

Artigo recebido 9 de dezembro de 2003; aceito em 10 de janeiro de 2004.


Endereço para correspondência: Profa. Dra. Fátima Aparecida Caromano, Lafi-Reacom - Laboratório de Fisioterapia e Reatividade Comportamental, Rua
Cipotânea, 51 Cidade Universitária da USP 05360-000 São Paulo SP.

artigo 12 - Juliana.pmd 73 11/02/04, 12:05


74 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Introdução Área frontal do objeto a ser deslocado


na água
Sabe-se que, para produzir o aumento da força muscular
é necessária a prática de exercícios físicos com resistência Para realizar um movimento na água é necessário superar
ao movimento. Geralmente, no treinamento realizado em a resistência que a água oferece, então, quanto maior a
solo, consegue-se estabelecer esta resistência por meio de superfície de contato frontal do objeto com a água, maior
pesos proporcionais à quantidade de trabalho que um será a força para superar a resistência da água e
músculo ou grupo muscular pode realizar. O treinamento conseqüentemente, mais difícil será o movimento.
de exercícios visando aumentar a força muscular, realizado Exemplo: caminhada de frente causando maior resistência
em meio aquático, é considerado eficaz e fundamenta-se que a caminhada lateral.
nas propriedades físicas da água para fornecer resistência Progressão: sem uso de palmares, uso de palmares
ao movimento. alternando em membros superiores e inferiores para uso de
Para calcular a resistência ao movimento de um objeto palmares nos dois braços ao mesmo tempo.
através do ar ou líquido utiliza-se à fórmula:
Velocidade dos movimentos
R = d x C x v2 x A/ 2.G
A resistência da água é proporcional ao quadrado da
Nesta fórmula, “R” é a resistência, “d” a densidade, “C” velocidade, então ao dobrar a velocidade do movimento,
coeficiente de arrasto, “v” a velocidade, “A” a área frontal quadruplica-se a resistência oferecida ao movimento.
do objeto e “G” a força da gravidade. Como a densidade Exemplo: extensão de tríceps - posição ereta, pernas
do corpo imerso e a ação da força da gravidade dentro da levemente abduzidas e fletidas, com o cotovelo na lateral do
água (em oposição ao empuxo, desde que mantido o mesmo corpo, flexionado e palma da mão voltada para baixo.
nível de imersão) são sempre constantes podemos dizer que Estender e fletir o cotovelo.
a resistência da água é proporcional ao coeficiente de arrasto, Progressão: quanto mais rápido a velocidade do
ao quadrado da velocidade do movimento e à área frontal movimento maior resistência será oferecida aos grupos
do objeto. musculares.
A partir do uso das variáveis físicas citadas, o fisioterapeuta
poderá criar diferentes situações de resistência ao movimento, Densidade
conforme será discutido a seguir:
Os flutuadores são materiais menos densos que a água,
Viscosidade pois possuem grande volume de ar e pequeno peso.
Portanto, oferecem resistência a qualquer movimento contra
A viscosidade é o resultado do atrito entre as moléculas o empuxo, realizado em velocidade maior que a crítica,
de um líquido devido à força de coesão das partículas (é a sendo que esta resistência é proporcional ao numero e ao
força de atração entre moléculas vizinhas do mesmo tipo tamanho dos flutuadores.
de matéria) e adesão (é a força de atração entre moléculas Exemplo: Patinar na água com movimentação de braços
vizinhas com diferentes tipos de matéria). A viscosidade - Em pé, deslizar os pés para frente e trás de forma alternada
tor na a água um meio ideal para o trabalho de e sem deslocamento do corpo. Os braços farão movimentos
fortalecimento muscular, pois neste meio, a resistência circulares na altura do tórax.
aumenta à medida que a força é exercida contra água ou Progressão: iniciar o exercício sem o uso de flutuadores,
ainda pode ser praticamente eliminada, facilitando o prosseguir inserindo flutuadores pequenos (alternando as
movimento o que permite controle do fortalecimento sessões enfocando em membros superiores e membros
dentro da tolerância do paciente e da amplitude de inferiores), evoluir para uso de flutuadores pequenos
movimento articular com que inicia o tratamento. Esta (membros superiores e em membros inferiores
resistência pode ser de até 800 vezes maior que a resistência simultaneamente) e posteriormente utilizar flutuadores
oferecida pelo ar. grandes (primeiro alternando membros superiores com
inferiores e depois com o uso simultâneo em ambos os
Coeficiente de arrasto membros).

O coeficiente de arrasto está relacionado com a forma Braço de alavanca


e o alinhamento do objeto com a água. Quanto mais
alinhado o objeto, menor será o coeficiente de arrasto, ou O corpo humano é composto por sistemas de alavancas
seja, a mão em concha terá uma maior resistência do que a que tem um fulcrum (articulação), um ponto de aplicação de
mão estendida. força (músculo) e um ponto de aplicação de resistência (peso).

artigo 12 - Juliana.pmd 74 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 75

A posição relativa desses três pontos determina o tipo de que tracionam para frente qualquer coisa que se encontre
alavanca. A maioria das alavancas no corpo humano é em seu interior. Isso significa que haverá muito menos esforço
classificada como de terceira classe, ou seja, o músculo está para o corpo que estiver em posição secundária ou posições
localizado entre a resistência e o fulcrum. subseqüentes. Quando um movimento é realizado em um
Na água, a resistência é igual à quantidade de água deslocada sentido constante, a turbulência forma correntes circulares
durante o exercício, ou seja, se o membro esta fletido ele desloca na mesma direção, e o movimento se torna cada vez mais
menos água do que quando o está estendido. fácil, bem como, ao inverter o sentido do movimento, a
Exemplo: abdução e adução de ombro - posição ereta, musculatura terá que se contrapor a uma parede de
com água na altura do ombro, de lado para a barra paralela. turbulência atuando em oposição ao movimento, o que exige
Progressão: Abduzir o ombro com flexão de cotovelo, um esforço maior. A turbulência se gradua pela velocidade
progredindo para abdução do ombro com extensão de cotovelo. do movimento, comprimento e forma da alavanca e posturas
e equipamentos não aerodinâmicos.
Posição dos flutuadores Exemplo: caminhada frente/trás - caminhar com passos
normais em linha reta, quando atingir o outro lado da piscina
Aqui se unem os conceitos de aumento do número e retornar de costas até a posição inicial.
tamanho de flutuadores. Pois, com o uso de flutuador diminui Progressão: caminhar cada vez mais rápido, com o corpo
a densidade do membro, facilita a abdução e resiste à adução. bem estendido e uso de flutuadores.
Exemplo: abdução e adução de quadril - em posição ereta,
de frente para a borda da piscina, abduzir a aduzir uma das Movimento em fluxo laminar ou turbulento
pernas. Repetir com a outra perna.
Progressão: iniciar faz sem uso de flutuadores, passando Durante o fluxo alinhado ou laminar, ocorre um
para uso de flutuadores proximal (acima do joelho) e movimento contínuo do fluido, com todas as moléculas se
progredindo para uso de flutuadores distal, (neste caso, movendo paralelas umas as outras e os trajetos não se cruzam.
adiciona-se também o uso de conceito de braço de alavanca). Ocorre apenas uma pequena fricção entre as camadas do
fluido, pois elas se separam para se moverem ao redor do
Profundidade da água objeto e suavemente unem-se novamente depois.
O fluxo turbulento produz um aumento na fricção entre
Em terra o centro de gravidade de um corpo localiza-se as moléculas do fluido e entre o objeto e o fluido. O
em frente ao sacro (nível S2). Na água, está localizado na movimento das moléculas é rápido, aleatório e não acontece
altura dos pulmões. Conseqüentemente o grau de sustentação em uma linha aerodinâmica. Isso resulta em uma área de
parcial do peso varia com a profundidade da água. Com água baixa pressão atrás do objeto em movimento, que tende a
no nível de C7, as mulheres e os homens suportam 8% do segurá-lo. A resistência ao fluxo turbulento é maior que ao
peso corporal, no nível do processo xifóide 28% em mulheres fluxo alinhado.
e 35% em homens e, no nível da espinha ilíaca ântero-superior Exemplo: caminhada na piscina
47% em mulheres e 54% em homens. Progressão: no inicio fisioterapeuta caminha à frente do
Exemplo: agachamento - Em pé, seguro na paralela, paciente depois o paciente caminha sozinho, e posteriormente
pernas afastadas aproximadamente 20cm. Lentamente o fisioterapeuta provoca turbilhonamento da água.
flexionar os joelhos e abaixar o dorso ereto até que as coxas
fiquem paralelas com o chão. Estenda as pernas sem alterar Mudança de direção dos movimentos
a posição da coluna e retorne a posição inicial.
Progressão: quanto mais rasa for a piscina, maior será o Um determinado movimento faz com que a água
peso, sustentado nos músculos e em conseqüência a movimente na mesma direção, se o movimento for invertido
resistência que suportam o agachamento e o retorno à posição ele irá mover-se contra o fluxo da água. Então quando se
de bipedestação. reverte a direção do movimento, precisa-se de uma força para
parar o membro em movimento, outra para vencer a
Turbulência turbulência causada pelo movimento e mais uma força para
se iniciar o movimento em direção oposta ao que estava sendo
Quando se olha para o fundo da piscina e consegue-se realizado. Portanto, quanto mais repetições nas mudanças
ver um objeto nitidamente, sem movimento algum da água, de direção dos movimentos, cada vez maior será a resistência
dizemos que a água esta tranqüila. Caso haja pessoas se que a água oferecerá.
movimentando, não será possível ver o fundo, ocorre um Exemplo: movimento de todo membro inferior desenhando um
movimento irregular das camadas do fluido o que chamamos círculo - Em pé, corpo ereto, segurando na barra paralela da
de água turbulenta (turbulência). O movimento através do ar piscina. Eleve uma das pernas na lateral, movimente de
ou da água provoca o surgimento de correntes turbilhonantes forma circular fazendo três repetições no sentido horário e

artigo 12 - Juliana.pmd 75 11/02/04, 12:05


76 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

inverter realizando três repetições no sentido anti-horário. decisão clínica sobre o desenvolvimento de um programa de
Progressão: quanto mais curto e rápido o movimento for exercícios fisioterapêuticos progressivos, do mais fácil para
realizado maior será a resistência. o mais difícil, até o máximo de resistência que a água e os
acessórios possam oferecer, tornando as intervenções
Associação das propriedades físicas hidroterapêuticas seguras e eficientes.
da água para obter a máxima intensidade A água favorece aspectos comportamentais do tratamento
de resistência em imersão fisioterapêutico. A reeducação de força muscular é muitas
vezes estressante e monótona e, sendo possível variar as
O fisioterapeuta, utilizando sua criatividade, pode associar formas, velocidades, decúbitos e outros fatores relacionados
as diferentes propriedades físicas da água produzindo um ao treinamento aquático, é possível um tratamento mais
número quase que incalculável de exercícios com grau de criativo e eficiente.
resistência crescente. Esta associação pode se dar entre duas, A introdução de dificuldade na resistência ao movimento
três ou até quatro variáveis diferentes. A seguir, serão expostos se dá pelo feedback do paciente ao fisioterapeuta durante cada
alguns exemplos deste tipo de associação. sessão. Sugere-se a elaboração de programas de treinamento
Em trabalho de fortalecimento muscular de um grupo de força muscular associando o treinamento localizado ao
isolado (por exemplo, abdução e adução de quadril com trabalho corporal geral.
extensão de joelho) iniciamos com movimento acima da Pode-se concluir que ao simples movimento na água,
velocidade crítica da água sem uso de qualquer flutuador. acima de sua velocidade crítica, oferece resistência muscular.
Após podemos introduzir flutuadores pequeno acima do Se for possível aproveitar recursos físicos isoladamente ou
joelho aumentando a velocidade; em seguida coloca-se o combinados para atender a necessidade do objetivo de
flutuador grande no tornozelo, com flexão plantar e, estimulo tratamento do fisioterapeuta, pode-se atingir um grau elevado
verbal para realização do movimento na maior velocidade de resistência, muitas vezes associando atividades funcionais
possível e em pequenas amplitudes de movimentos. e com as necessidades e prioridades do paciente, antes do
No trabalho corporal de fortalecimento (por exemplo, inicio do trabalho de fortalecimento em solo.
abdução e adução de membro inferior e superior em decúbito Deve-se lembrar ainda que, nos casos de disfunções
dorsal) inicia-se somente com a resistência que água oferece respiratórias, somente a imersão até o pescoço já é suficiente
na acima velocidade crítica; na segunda fase faz-se uso de para aumentar o trabalho respiratório em 60%, em
flutuadores pequenos, ora em membro inferiores ora em decorrência do deslocamento do sangue da periferia para
membros superiores, com flutuadores (alinhados com a água); região central e da resistência à inspiração oferecida pela
na terceira fase usa-se flutuadores pequenos (alinhados com pressão hidrostática.
a água) nos membros inferiores e superiores ao mesmo tempo Desta forma, o trabalho com resistência exige do
com aumento da velocidade e na quarta fase faz-se o uso de fisioterapeuta organização e cuidados, considerando cada
flutuadores grandes (desalinhados com a água) em membros paciente isoladamente e sempre relembrando os efeitos
superiores e inferiores simultaneamente, com grande fisiológicos que ocorrem devido à imersão.
velocidade, e mudança de direção.
Referências
Discussão
1. White T, Smith BS. The efficacy of aquatic exercise in
Uma busca feita por artigos que abordassem treinamento increasing strenght. Sports Med Training and Rehab
1999;9(1): 51-9.
de força na água, por meio dos bancos de dados, Medline,
2. Baum G. Aquaeróbica: Manual de treinamento. São Paulo:
Lilacs, Physical Therapy e Bireme, publicados nos últimos 15 Manole; 1999.
anos, não resultou em nenhum trabalho que relate o 3. Campion M. Hidroterapia: Princípios e Prática. São Paulo:
treinamento de força na hidroterapia, nem indicações de Manole; 1999.
como a graduação da resistência da água na hidroterapia 4. Hanson B, Norm A. Exercícios Aquáticos terapêuticos. São
poderia ser realizada ou que efeitos produziria. Por isso, a Paulo: Manole; 1998.
necessidade deste estudo, a fim de trazer o assunto para 5. Ruoti R, Morris D, Cole AJ. Reabilitação aquática. 1ª ed. São
discussão e estimular pesquisas experimentais nesta área. Paulo: Manole; 2000.
O esclarecimento das propriedades físicas da água como 6. Santos, Carlos A. Natação: Ensino e aprendizagem. Rio de
opção de resistência aos movimentos fundamentarão a Janeiro: Sprint; 1996. C

artigo 12 - Juliana.pmd 76 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 77

Resumos de trabalhos e congressos

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Henrique Güths1, Gaspar Rogério Treinamento muscular inspiratório melhora a cinética de


Chiappa1, Glória Menz Ferreira2, recuperação do oxigênio após exercício máximo em
Viviane Delatorre2, Ricardo Stein1, pacientes com insuficiência cardíaca
Jorge Pinto Ribeiro1; Pedro
Dall’Ago1,2,3 Introdução: Durante o período de recuperação após teste cardiopulmonar
(TCP), pacientes com insuficiência cardíaca (IC) apresentam redução da força
1
Hospital de Clínicas de Porto Alegre, e da resistência dos músculos inspiratórios. A fraqueza dos músculos
Serviço de Cardiologia - UFRGS, inspiratórios está associada com o prolongamento da cinética do oxigênio
Porto Alegre, Rio Grande do Sul durante a fase de recuperação.
2
Curso de Fisioterapia do Centro Objetivos: O objetivo deste estudo foi testar a hipótese que o treinamento
Universitário La Salle – muscular inspiratório (TMI) reverte à fraqueza dos músculos inspiratórios após
UNILASALLE exercício e melhorar a cinética do consumo de oxigênio durante a recuperação
3
Departamento de Ciências Fisiológicas em pacientes com IC.
da Fundação Faculdade Federal de Ciências Materiais e Métodos: Participaram deste estudo 28 pacientes com IC, fraqueza
Médicas de Porto Alegre – FFFCMPA, muscular inspiratória (PImáx<70 % do predito). Os pacientes foram
Porto Alegre, designados para um programa de TMI com duração de 12 semanas (n=16),
Rio Grande do Sul incluindo 7 sessões de 30 minutos por semana, com um incremento semanal
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia de 30 % da PImáx (Threshold); e um grupo controle (n=12), que participaram
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de do mesmo programa, porém sem carga resistiva. A PImáx foi mensurada
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 no repouso e após 10 minutos do TCP, assim como antes e depois do
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus programa de TMI. Para avaliar a cinética do oxigênio (VO 2) durante a
da UNIVALI recuperação, antes e após o TMI, foram calculados o VO2 slope no terceiro
minuto e o período de recuperação (VO 2/t–slope) através de regressão
linear. O tempo médio correspondente a 50% da recuperação do VO2 pico
(T1/2VO2) foi também calculado.
Resultados: Não houve diferenças significativas nas características basais entre
os grupos. Após o TMI, houve um aumento significativo da Pimáx (antes:
69±3 cmH2O; após: 129±15 cmH2O, p<0,0001), não havendo alteração no
grupo controle. O VO2/t-slope aumentou somente no grupo TMI (antes:
0,892±0,7; após: 1,378±0,7 l.min/min, p<0,001). O T1/2VO2 diminuiu (antes:
1,47±0,3; após: 1,03±0,1 min, p<0,0001) somente no grupo TMI. A redução
da PImáx no décimo minuto foi menor após o TMI (antes: 23±8%; após:
10±2%, p<0,001).
Conclusões: O treinamento muscular inspiratório melhorou a cinética do
oxigênio durante ao período de recuperação e reduziu a queda da força
muscular inspiratória após exercício máximo em pacientes com insuficiência
cardíaca. Estas observações indicam que a fraqueza da musculatura
inspiratória é um determinante reversível da cinética do consumo de oxigênio
no período de recuperação em pacientes com IC.

resumos_a.pmd 77 11/02/04, 12:05


78 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

K. Herbst-Rodrigues K1, V.F. Santos1, Comparação da PEmáx e PImáx na capacidade pulmonar


P.A. Lima1, M.V.H. Herbst-Rodrigues2 total, capacidade residual funcional e volume residual
em adultos normais
1
Universidade de Mogi das Cruzes,
Mogi das Cruzes, São Paulo Introdução: A força dos músculos ventilatórios pode ser mensurada
2
Instituto do Coração – InCor, indiretamente pelas pressões inspiratória (PImáx) e expiratória máximas
São Paulo, São Paulo (PEmáx). Estes valores auxiliam na avaliação da capacidade do indivíduo
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia respirar espontaneamente, no treinamento muscular respiratório, e com
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de isso, na reabilitação da função ventilatória. A avaliação da Pimáx a partir
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 do volume residual (VR) e da Pemáx a partir da capacidade pulmonar
de novembro de 2003, Itajai SC, total (CPT) pode sofrer interferência dos componentes da caixa torácica e
Campus da UNIVALI do pulmão. Quando as pressões são avaliadas a partir da capacidade residual
funcional (CRF) essa interferência é eliminada já que é o ponto de repouso
do sistema.
Objetivos: Verificar se avaliação das pressões em diferentes volumes pulmonares
altera o valor da força dos músculos respiratórios. Propor a padronização da
medida que represente maior fidedignidade na avaliação muscular respiratória.
Materiais e Métodos: Foram estudados 107 indivíduos (50 mulheres e 57
homens), com idade entre 17 e 30 anos sem doença pulmonar prévia.
Foram excluídos 22 indivíduos (7 mulheres e 15 homens) que apresentaram
valores menores que o mínimo predito para sua idade. Para avaliação da
PImáx, os indivíduos realizaram as medidas a partir da CRF e do VR e
para avaliação da PEmáx as mesmas foram realizadas na CRF e na CPT.
Todas as medidas foram coletadas com o indivíduo sentado
confortavelmente com as narinas ocluídas e o bocal conectado ao
manovacuômetro. Após 3 medidas foi escolhida a maior, contanto que
esta não fosse a última, caso isso ocorresse seria realizada nova medida.
Todas as medidas foram realizadas pelo mesmo examinador a fim de
excluir a interferência do comando verbal.

Resultados:
Masculino Feminino
CRF VR p CRF VR p
PImáx 156 + 32,95 167 + 37,88 0,180 114 + 31,94 125 + 35,67 0,061
CRF CPT p CRF CPT p
PEmáx 140 + 29,95 164 + 25,18 <0,001 94 + 22,64 118 + 17,43 <0,001

Conclusões: Não há diferença na medida da Pimáx quando realizada a


partir da CRF ou do VR. A PEmáx é maior quando medida a partir da
CPT. A partir disto propõe-se que a PEmáx seja sempre medida a partir
da CRF.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

resumos_a.pmd 78 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 79

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Wellington Pereira dos Santos Utilização da máscara oro-nasal para a mensuração das
Yamaguti, Ana Cláudia Coelho, pressões respiratórias máximas em indivíduos saudáveis
Antônio Fernando Brunetto
Introdução: A técnica para a mensuração das pressões respiratórias máximas
Universidade Estadual de Londrina – (PRM) convencionalmente descrita preconiza a utilização de um bocal como
UEL, Londrina, Paraná interface entre o manovacuômetro e o paciente. Em algumas condições
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia clínicas como na paralisia facial, traumas de face e mandíbula e fissuras
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de palatinas a utilização do bocal para essa medida torna-se inviável. O uso da
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 máscara oro-nasal pode ser uma opção para a mensuração das PRM em tais
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus condições.
da UNIVALI Objetivos: Esta pesquisa teve como principal objetivo comparar os valores
das PRM obtidos através do método com bocal e com máscara oro-nasal, em
indivíduos saudáveis.
Materiais e Métodos: Foi utilizado para este estudo um manovacuômetro
digital MVD500 (Globalmed), um bocal e uma máscara oro-nasal com
coxim inflável e flexível. Foram avaliados 27 indivíduos saudáveis (13 H e
14 M), com média de idade de 21,85 ± 2,35 anos. As PRM foram mensuradas
através de um bocal e de uma máscara oro-nasal. O primeiro método
aplicado foi randomizado através de um sorteio. Foram realizadas dez
manobras de pressão inspiratória máxima (PImax) e dez de pressão
expiratória máxima (PEmax), com um intervalo de 1 minuto entre cada
mensuração. Após a aplicação do primeiro método, o indivíduo descansava
durante 20 minutos antes da aplicação do segundo método. A PImax foi
realizada a partir do volume residual e a PEmax a partir da capacidade
pulmonar total. Foi considerado o máximo valor entre as dez medidas de
PImax e PEmax em cada método para a análise estatística. O estudo foi
cego para os resultados tanto para o avaliador quanto para o avaliado, sendo
os resultados anotados por um segundo avaliador. Aplicou-se o teste t de
Student dependente considerando uma diferença estatisticamente significativa
para p<0,05. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da instituição e
todos os indivíduos assinaram um termo de consentimento.

Resultados: Os resultados estão expressos na tabela abaixo pela média ± desvio


padrão:
Máscara Bocal p
PImax 146,52 ± 35,88 139,48 ± 33,15 0,02*
PEmax 152,00 ± 46,66 148,30 ± 40,43 0,26
*Diferença estatisticamente significativa

Conclusões: O método de mensuração das PRM pela máscara oro-nasal é tão


confiável quanto o método realizado com bocal.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

resumos_a.pmd 79 11/02/04, 12:05


80 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Marlus Karsten1, Walter Celso de Lima2 Validação de um teste para avaliação da capacidade funcional
de idosos com a utilização de banco e cadência livre
1
Universidade do Vale do Itajaí –
UNIVALI, Itajaí, Santa Catarina Introdução: A avaliação da capacidade funcional de indivíduos idosos com o emprego
2
Universidade do Estado de Santa de testes submáximos tem sido largamente empregada. Os testes submáximos que
Catarina – UDESC, Florianópolis, empregam o banco como ergômetro geralmente possuem duas características que
Santa Catarina dificultam a sua utilização pela população em questão [idosos], a cadência é fixa e a
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia altura do banco geralmente é desproporcional à sua condição física.
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de Objetivos: Desenvolver e validar um teste para avaliação da capacidade funcional
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 de indivíduos com idade entre 60 e 69 anos, que utiliza um banco de 15
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus centímetros de altura como ergômetro e cadência livre.
da UNIVALI Materiais e Métodos: O Teste de Banco com Cadência Livre [TBCL] foi comparado
com o Teste da Caminhada de Seis Minutos [TC6min] em uma amostra da população
da foz do Rio Itajaí-Açú. Verificou-se o tempo necessário para que o TBCL fosse
sensível às alterações cardiovasculares, respiratórias e de conforto comparadas às
encontradas na aplicação do TC6min e identificou-se a correlação do desempenho
[capacidade funcional] dos participantes em ambos os testes. Cada teste foi executado
duas vezes pelos participantes e os dados da segunda execução foram comparados.
Os parâmetros cardiovasculares [freqüências cardíaca - FC e pressão arterial - PA],
respiratórios [saturação arterial de oxigênio – SpO2] e de conforto [percepção de
dor nos membros inferiores - DOR e percepção de esforço - SSE] foram
mensurados e utilizados no tratamento estatístico, que incluiu: teste F, teste t de Student
e teste de Wilcoxon, todos com nível de significância á = 0,05; a Correlação de
Pearson foi empregada na avaliação da validade.
Resultados: Na comparação entre as segundas medidas dos testes avaliados não
houve diferença estatística entre as médias da PA e da SpO2. A FC mostrou
comportamento distinto entre os testes, com p=0,0436 no 5º minuto e p=0,0121
no 6º minuto. A DOR apresentou p= 0,0018 no 4º minuto e p=0,0007 no 6º
minuto e a SSE teve p=0,1638 no 4º minuto e p=0,0003 no 6º minuto. Nas variáveis
que apresentaram diferença estatística significativa os valores do TBCL eram maiores
Os valores de r (coeficiente de correlação), foram iguais ou maiores que 0,7 para a
FC, PA, SpO2 (5º e 6º minutos) e capacidade funcional (4º a 6º minutos).
Conclusões: A validade do TBCL foi determinada para a população estudada;
o TBCL, no 4º minuto de aplicação, alcançou efeito similar ao TC6min nas
variáveis analisadas, com exceção da sensação de DOR, devendo ser aplicado
neste período de tempo.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Alexandre Doval Costa, Marcelo de Avaliação de alterações cardiorrespiratórias em pacientes


Mello Rieder, Silvia Regina Rios Vieira criticamente enfermos por dois métodos de desmame da
ventilação mecânica
Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Serviço
de Medicina Intensiva - UFRGS, Porto Objetivos: Analisar os parâmetros de intercâmbio gasoso, mecânica respiratória
Alegre, Rio Grande do Sul; 2o Congresso e de monitorização cardiovascular, durante o desmame da VM, utilizando as
Sul-Brasileiro de Fisioterapia Respiratória, 1a técnicas de PS e peça T e comparar estas variáveis em subgrupos de pacientes
Jornada Catarinense de Fisioterapia cardíacos e não cardíacos.
Cardiorrespiratória, 13 a 15 de novembro de Materiais e Métodos: O estudo foi um ensaio clínico randomizado cruza­do,
2003, Itajai SC, Campus da UNIVALI comparando PS e peça T. Foram analisados 20 pacientes, com idade de 57 ± 15

resumos_a.pmd 80 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 81

anos, que estavam em VM por um período entre 2 a 54 dias. Os dados analisados


incluíam: saturação periférica de oxigênio (SaO2), dióxido de carbono no ar
exalado (PetCO2), freqüência respiratória (f), volume de ar corrente (VT), volume
minuto (VE), freqüência cardíaca (fc) e pressão arterial (sistólica, diastólica e média).
Os dados foram registrados nos tempos zero, quinze e trinta minutos, após a
instituição da técnica de desmame sorteada, com intervalo de 30 minutos de
repouso antes da realização da técnica seguinte. Foi feita uma compa­ração
intragrupos e intergrupos para os 20 pacientes. Além disso, os pacientes fo­ram
divididos em cardíacos (n = 11) e não cardíacos (n = 9) e compa­rados entre si
em relação aos parâmetros cardiovasculares.
Resultados: A comparação entre PS e peça T demonstrou que os valo­res de
SaO2, VE e VT, foram mais elevados durante a PS em todos os tempos (p <
0,001), assim como os de PetCO2 demonstraram aumento quando em PS nos
três tempos (p < 0,05). Os valores de f diminuíram quando submetidos a PS
nos tempos zero e quinze (p < 0,05). Não houve diferença entre PS e peça T
para os valores de pressão arterial e fc. A comparação entre as técnicas em
cardíacos e não cardíacos demonstrou que os valores de fc diminuíram nos
cardíacos, no tempo 30 (p < 0,05). A fc era maior nos pacientes não cardíacos
quer em PS quer em peça T (p < 0,05). Nas medidas eletrocardiográficas, na
comparação entre os grupos cardíacos versus não cardíacos, foram verificadas:
alterações de segmento ST em 7(64%) pacientes cardiopatas e em 2(22%) não
cardiopatas (p < 0,05); arritmias foram vistas em 3(27%) dos cardiopa­tas e em
1(11%) não cardiopata; a taquicardia sinusal foi observada somente nos não
cardiopatas, em núme­ro de 5(56%) (p < 0,01).
Conclusões: Comparando PS com peça T uma melhor resposta foi observada
nas medidas de parâmetros respiratórios e de oxigenação com o uso de PS.
Não foram observadas diferenças significativas nas medidas de parâmetros
car­diovasculares e eletrocardiográficos.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Daiana Cristine Bündchen, Daiane Importância da atividade física no tratamento da HAS


Rossato Stefanelo; Evanilda Barbosa, avaliada pelo consumo de O2
Luciana Barbosa, Ângela Pereira,
Angélica Rubin, Paulo Viecili Introdução: O sedentarismo tem sido considerado um fator de risco para a
saúde da população. A hipertensão arterial sistêmica (HAS) acomete cerca de
Instituto de Cardiologia da Cruz Alta, 25% da população e é elemento determinante para o aceleramento da
Cruz Alta, Rio Grande do Sul aterosclerose sistêmica. Juntas aumentam os riscos para doenças cardiovasculares.
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia A prática regular de atividade física, bem como o controle da pressão arterial
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de tem sido considerado fatores de proteção contra processos degenerativos.
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 Objetivo: Estudar a efetividade da atividade física no tratamento não
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus farmacológico de hipertensos sedentários avaliados pelo método do consumo
da UNIVALI máximo de oxigênio (VO2).
Materiais e Métodos: Participaram 26 indivíduos com HAS em uso de medicação,
sendo 73% feminino (57,8 ± 10 anos) e 27% masculino (61,2 ± 9 anos). Do
total da amostra, 61,5% hipercolesterolêmicos, 26,9% hipertri- gliceridêmicos,
15,3% tinham índice massa corpórea maior 30 kg/m2 e 11,5% eram diabéticos.
Os indivíduos submetidos à avaliação da capacidade funcional através do teste
ergométrico (TE), tendo como padrão o protocolo de Bruce para a obtenção
indireta do VO2 máximo. Foram submetidos a um programa de

resumos_a.pmd 81 11/02/04, 12:05


82 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

condicionamento físico progressivo, com intensidade de treinamento de 70%


da carga, três vezes por semana, em sessões de até 40 minutos em esteira
rolante. Foram mensuradas freqüência cardíaca e a pressão arterial no pré,
pico e pós-atividade, durante 12 semanas ininterruptas. No final do programa
realizou-se um novo TE para comparação. Os dados foram analisados através
do programa Sigmastat, usou-se Teste t para fins comparativos, e considerou-
se p < 0,05 significante.
Resultados: Após o treinamento foi observado um aumento significativo do
VO2 (24,2 ± 16,8 x 33,1± 14,6 ml/kg/min; p < 0,00001), uma queda na pressão
sistólica (PAS) pré-atividade (143,3 ± 22,5 x 130,5 ± 19 mmHg; p<0,004), na
PAS pós-atividade (139,4 ±19,3 x 127 ± 13,8 mmHg; p < 0,002). Em relação à
pressão arterial diastólica (PAD) constatou-se uma redução pré-atividade (89,7
± 14,5 x 81,4 ± 10,5 mmHg; p<0,001) e no pico do exercício (89,6 ± 11,2 x
81,5 ± 9,7 mmHg; p=0,009).
Conclusões: A realização de atividade física regular programada para
pacientes hipertensos sedentários otimizou os níveis pressóricos, bem como
aumentou a capacidade máxima do consumo de oxigênio. Dessa maneira, a
atividade física deve ser amplamente incentivada em indivíduos hipertensos
mesmo sob medicação.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Franck M Peçanha, Giulia A Análise dos efeitos da tapotagem e vibrocompressão sobre


Wiggers, Christine P Gonçalves, a função pulmonar de indivíduos normais
Fabíola F Bersot, Michelle C Roseti,
Vanine D Duarte, Priscila G Januário Objetivos: Estudos prévios demonstram resultados conflitantes dos efeitos
da vibração e tapotagem sobre a função pulmonar. O propósito deste estudo
Centro Universitário de Vila Velha, foi avaliar o efeito da tapotagem e da vibrocompressão na função pulmonar.
Vila Velha, Espírito Santo Materiais e Métodos: 11 indivíduos do sexo feminino, sadios, com idade média
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia de 21 ± 1,2 anos foram submetidos aleatoriamente à aplicação das técnicas de
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de tapotagem e vibrocompressão, sendo respeitado um intervalo de no mínimo
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 48 horas entre a realização das técnicas. As manobras foram aplicadas durante
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus 20 minutos, pelo mesmo fisioterapeuta, sendo os testes de função pulmonar
da UNIVALI realizados antes e 30 minutos após a realização das técnicas.
Resultados: Após a tapotagem ocorreu significante redução da CVF (antes:
3,57 ± 0,47 L/min vs. depois: 3,52 ± 0,47 L/min; p=0,02), do VEF1 (antes:
3,03 ± 0,39 L/s vs. depois 2,97 ± 0,39L/s; p=0,005) e FEF (antes: 3,73 ± 0,92
L/s vs. depois: 3,01 ± 0,51 L/s; p=0,02) com relação VEF1/CVF sem alteração
significante (antes: 86,33 ± 4,64 L/s vs. depois: 86,53 ± 5,25 L/s; p>0,05). A
vibrocompressão provocou redução significante no FEF (antes: 3,65 ± 0,71 L/
s vs. depois: 3,58 ± 0,80 L/s; p = 0,002) e na relação VEF1/CVF (antes: 88,7 ±
4,12 L/s vs. depois: 88,1 ± 4,38 L/s; p<0,05).
Conclusões: As manobras de tapotagem e vibrocompressão exercem efeito
obstrutivo sobre a função pulmonar de indivíduos normais, entretanto, este
efeito é semelhante entre as manobras.

resumos_a.pmd 82 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 83

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Cláudia Mara Campestrini Bonissoni, Efeitos de um programa de vinte sessões de exercícios


Louise Maria Borsarini de Oliveira, aquáticos na força muscular respiratória, mobilidade torácica
Mônica Vettori Medeiros e pico de fluxo expiratório em homens acima de 60 anos

Universidade do Vale do Itajaí – Introdução: Com o envelhecimento ocorrem importantes alterações funcionais
UNIVALI, Itajaí, Santa Catarina no sistema respiratório, resultando em uma menor capacidade respiratória. Entre
2o Congresso Sul-Brasileiro de Fisioterapia elas, destaca-se a redução da força muscular respiratória, a redução do pico de
Respiratória, 1a Jornada Catarinense de fluxo expiratório máximo instantâneo e a diminuição da mobilidade torácica.
Fisioterapia Cardiorrespiratória, 13 a 15 Objetivos: A pesquisa teve como objetivo avaliar o efeito de vinte sessões de
de novembro de 2003, Itajai SC, Campus exercícios aquáticos em idosos acima de 60 anos do sexo masculino em relação
da UNIVALI à força muscular respiratória, mobilidade torácica e pico de fluxo expiratório
máximo instantâneo.
Materiais e Métodos: O estudo foi realizado com dez indivíduos do sexo
masculino, idosos acima de 60 aos, na Clínica-Escola de Fisioterapia na UNIVALI.
Inicialmente foi realizada uma avaliação verificando força muscular respiratória,
mobilidade torácica e pico de fluxo expiratório máximo instantâneo, sendo
reavaliados a cada cinco sessões. Os indivíduos foram submetidos a um protocolo
de exercícios aquáticos de vinte sessões.
Resultados e Conclusões: Os dados obtidos demonstraram vinte sessões de
exercícios aquáticos melhoram significativamente (p<0,05) a força muscular
respiratória, a mobilidade torácica e o pico de fluxo expiratório máximo
instantâneo de idosos do sexo masculino. Os exercícios aquáticos proporcionam
aos idosos uma melhora da função dos músculos esqueléticos e respiratórios
resultando num melhor condicionamento cardiorrespiratório e, conseqüente-
mente, melhora da qualidade de vida.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Taina Reis Pereira, Mirna Marques Levantamento dos indícios de problemas de saúde nos garis
da Fonseca, Robson da Silva
Almeida, Derval Gomes Pereira As horas desgastantes de esforço físico podem gerar graves problemas de
saúde nos garis. Por essa razão essa profissão deve ser cuidadosamente estudada,
Universidade Estadual do Sudoeste a fim de promover uma maior eficiência, satisfação e produtividade. Este
da Bahia, Jequié-BA trabalho objetiva analisar os indícios de danos físicos e fisiológicos dos garis
sabendo que os mesmos são submetidos à carga horária alta de trabalho que
exige intensa aplicação de força, além da exposição aos meios físicos. A
metodologia foi abordada de forma quantitativa e qualitativa a partir da aplicação
de um questionário com uma amostra de 13 trabalhadores do município de
Ipiaú-BA. Foi observada uma maior incidência de dor na região lombar da
coluna vertebral (22%), além de dores nos MMSS (20%) e MMII (16%), dores
de cabeça e vertigens (20%) e danos à derme das mãos e dos pés (18%) fazendo
um comparativo entre os sexos. Os resultados demonstram que as queixas de
dor estão relacionadas à inadequação ergonômica do ambiente de trabalho e
uma falta de conscientização própria dos garis em se proteger de agentes externos
danosos. São propostas medidas de segurança do trabalho e projetos orientadores
para adequação ao trabalho, reduzindo, assim, o risco de lesões futuras.

resumos_a.pmd 83 11/02/04, 12:05


84 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Produtos e tecnologia

O consultório inteligente de ConsultórioOnLine


A empresa Consulnet de Porto Alegre lança o serviço ConsultórioOnLine para todos os profissionais
de saúde. Acessível por computador ou telefone celular, este consultório do futuro permite consultar
dados de pacientes, agendar consultas, controlar o fluxo de caixa. Tudo por um preço amigável e sem
se preocupar com a tecnologia: basta clicar e entrar na Internet.

O ConsultórioOnLine foi criado para resolver todos os problemas encontrados pelo profissional,
desde as urgências até o atendimento do paciente, em todas as situações do cotidiano. Baseada na
tecnologia aplicada a bancos de dados e usando a mesma plataforma dos serviços de home banking,
a ferramenta ConsultórioOnLine permite ao profissional da saúde uma série de facilidades:
• Banco de imagens;
• Agenda de consultas por dia e local de atendimento;
• Mobilidade: acessar o seu consultório através do celular ou Palm;
• Banco de dados (fichário) dos pacientes;
• Consultor de marketing;
• Interatividade com paciente;
• Fluxo de caixa; etc.
A segurança e o sigilo necessários para manter suas informações são maiores do que as
fornecidas por um sistema de home banking. O acesso é pessoal e as informações são criptografadas.
Tudo para garantir a total confidencialidade.

ConsultórioOnLine é uma nova tecnologia aplicada à gestão de clínicas e consultórios. A


tecnologia empregada na construção do ConsultórioOnLine possibilita controle total da
ferramenta sem no entanto exigir do usuário precauções com os seguintes aspectos:
• Cópias de segurança (Backups);
• Sistemas de Firewall e anti-vírus;
• Configuração do Sistema; etc.
Os profissionais de saúde que já adotaram a solução Consultório OnLine deram adeus a
todos estes problemas.

A quem se destina ConsultórioOnLine?


ConsultórioOnLine pode ser usado por qualquer profissional da saúde. O serviço é modular.
Pode ser empregado para a gestão do seu consultório ou clínica ou ainda fazer parte da estrutura
de gestão de um hospital.

O que motivou seu desenvolvimento?


O desenvolvimento de um serviço como este é parte de um processo natural imposto pela
rápida evolução das tecnologias de comunicação. Para os profissionais da saúde que atuam em
vários locais e não tem tempo a perder este novo modelo é perfeito.

Em que tipo de mobilidade estamos falando?


A possibilidade de você poder acessar o seu consultório, seja a ficha clínica de um paciente
ou a sua agenda de marcação de consultas pelo seu telefone celular, Palm ou computador. Não
importa onde você esteja, não importa o meio, o que interessa é que se você precisar da informação
ela está ao seu alcance no exato momento que você precisa dela.

artigo 14 - online.pmd 84 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 85

Quantos usuários já se utilizam do serviço ConsultórioOnLine?


São mais de três anos de desenvolvimento contínuo e um ano de operação comercial. Já são
mais de 3.000 usuários com tendência a uma forte aceleração na medida em que a operação
comercial avança. Importantes nomes e organizações de saúde estarão se incorporando já neste
inicio de ano, aumentando significativamente estes números.

Como funciona o serviço?


O conceito adotado é o da simplicidade. Embora a tecnologia empregada seja altamente sofisticada
o uso dos recursos é muito simples. Através da Internet você assina o serviço, cadastrando-se, e
configura os recursos que vai empregar. Se tiver alguma dificuldade durante este processo ou
posteriormente na sua utilização você conta com ajudas que detalham cada uma das etapas ou se
utiliza do suporte online (chat) ou ainda dispõe de uma linha 0800. Também existe um modulo de
demonstração e treinamento que você pode empregar. E o que faz toda a diferença, basta dominar
um módulo do serviço que automaticamente você domina todo o restante. Pronto, agora basta
qualquer computador com acesso a Internet, Palm ou o seu telefone celular para que você possa ter
acesso ao seu Consultório Inteligente.

Como funciona o acesso à agenda de consultas e ficha do paciente?


E no modo remoto?
Você utiliza os recursos como se estivessem instalados naquele computador que no momento
você está usando. Se você tem uma rede de computadores, não muda nada, basta que esta rede
compartilhe um acesso a Internet para que todos possam usar simultaneamente o serviço. Sua
secretária pode estar trabalhando a agenda de marcação de pacientes enquanto você,
simultaneamente, está trabalhando com uma ficha clínica de um paciente e neste mesmo momento
a sua outra secretária que está no seu outro consultório que fica num hospital esta agendando
outra consulta na agenda do consultório do hospital. E os acessos são restritos por senhas que
você determina. As secretarias, por exemplo, podem ficar restritas ao uso das respectivas agendas.
E o sistema ainda envia automaticamente para o seu celular, na forma de uma mensagem, o
status das suas agendas já consolidadas. No modo remoto o acesso pode ser feito através do
telefone celular, utilizando o serviço de dados da operadora, mais conhecido como WAP ou
ainda através de um Palm conectado a Internet. O sistema está modelado para obter o melhor
de cada um dos dispositivos. Isto garante ao usuário um acesso rápido e simplificado ao serviço.

Em que o serviço pode auxiliar o profissional e agradar


seus pacientes?
Você vai ter uma importante ferramenta de marketing trabalhando de forma integrada com a
sua gestão operacional. Um exemplo, quando um paciente é agendado, se autorizado, ele poderá
ser notificado através de uma mensagem no telefone celular, com alertas padronizados, com 24
horas e duas horas que antecedem a consulta, evitando assim esquecimentos ou atrasos. Na data
de aniversário dos pacientes o sistema poderá enviar uma mensagem de felicitação por E-mail e ou
celular de forma automática. Você pode permitir que os seus pacientes possam auto-agendarem
suas consultas, usando a Internet. Caso você necessite fazer um remanejo na agenda, fruto de uma
emergência, os pacientes que serão atingidos podem ser notificados pelo celular imediatamente. O
sistema controla os retornos programados de consultas mantendo pacientes e você ou sua secretaria
informados. Você pode mandar mensagens personalizadas definindo critérios de seleção para
grupos de pacientes. Esses são apenas alguns exemplos. São todas ações que fidelizam e encantam
seus pacientes. São recursos integrados a sua rotina operacional trabalhando o seu marketing de
forma continua. Em muito pouco tempo serão os pacientes que irão perguntar: “O seu consultório
tem serviços inteligentes, não tem?”

Onde e quanto?
O serviço pode ser contratado através do site www.consultorio-online.com. Para
profissionais que não têm necessidade do Módulo Banco de Imagens em seu consultório o
custo é de R$ 50,00 mensais.

artigo 14 - online.pmd 85 11/02/04, 12:05


86 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

Normas de publicação Fisioterapia Brasil

A revista Fisioterapia Brasil é uma publicação com periodicidade 3. Revisão


bimestral e está aberta para a publicação e divulgação de artigos
científicos das áreas relacionadas à Fisioterapia. São trabalhos que versem sobre alguma das áreas relacionadas à
Os artigos publicados em Fisioterapia Brasil poderão também ser Fisioterapia, que têm por objeto resumir, analisar, avaliar ou
publicados na versão eletrônica da revista (Internet) assim como em sintetizar trabalhos de investigação já publicados em revistas
outros meios eletrônicos (CD-ROM) ou outros que surjam no futuro, científicas. Quanto aos limites do trabalho, aconselha-se o mesmo
sendo que pela publicação na revista os autores já aceitem estas dos artigos originais.
condições.
A revista Fisioterapia Brasil assume o “estilo Vancouver”
(Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical 4. Atualização ou divulgação
journals, N Engl J Med. 1997; 336(4): 309-315) preconizado pelo
Comitê Internacional de Diretores de Revistas Médicas, com as
São trabalhos que relatam informações geralmente atuais sobre
especificações que são resumidas a seguir. Ver o texto completo em
tema de interesse dos profissionais de Fisioterapia (novas técnicas,
inglês desses Requisitos Uniformes no site do International Committee
legislação, por exemplo) e que têm características distintas de um artigo
of Medical Journal Editors (ICMJE), htpp://www.icmje.org, na
de revisão.
versão atualizada de outubro de 2001.
Os autores que desejarem colaborar em alguma das seções da
revista podem enviar sua contribuição (em arquivo eletrônico/e-
5. Relato de caso
mail) para nossa redação, sendo que fica entendido que isto não
implica na aceitação do mesmo, que será notificado ao autor.
O Comitê Editorial poderá devolver, sugerir trocas ou retorno São artigos de dados descritivos de um ou mais casos explorando
de acordo com a circunstância, realizar modificações nos textos um método ou problema através de exemplo. Apresenta as
recebidos; neste último caso não se alterará o conteúdo científico, características do indivíduo estudado, com indicação de sexo, idade
limitando-se unicamente ao estilo literário. e pode ser realizado em humano ou animal.

6. Comunicação breve
1. Editorial

Esta seção permitirá a publicação de artigos curtos, com maior


Trabalhos escritos por sugestão do Comitê Científico, ou por um
rapidez. Isto facilita que os autores apresentem observações,
de seus membros.
resultados iniciais de estudos em curso, e inclusive realizar
Extensão: Não devem ultrapassar três páginas formato A4 em
comentários a trabalhos já editados na revista, com condições de
corpo (tamanho) 12 com a fonte English Times (Times Roman)
argumentação mais extensa que na seção de cartas do leitor.
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
Texto: Recomendamos que não seja superior a três páginas, formato
sobrescrito, etc; a bibliografia não deve conter mais que dez
A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12, com todas as
referências.
formatações de texto, tais como negrito, itálico, sobre-escrito, etc.
Tabelas e figuras: No máximo quatro tabelas em Excel e figuras
digitalizadas (formato .tif ou .gif) ou que possam ser editados em
2. Artigos originais Power Point, Excel, etc
Bibliografia: São aconselháveis no máximo 15 referências
São trabalhos resultantes de pesquisa científica apresentando bibliográficas.
dados originais de descobertas com relaçaõ a aspectos experimentais
ou observacionais, e inclui análise descritiva e/ou inferências de
dados próprios. Sua estrutura é a convencional que traz os seguintes 5. Resumos
itens: Introdução, Métodos, Resultados, Discussão e Conclusão.
Texto: Recomendamos que não seja superior a 12 páginas, Nesta seção serão publicados resumos de trabalhos e artigos
formato A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12, com inéditos ou já publicados em outras revistas, ao cargo do Comitê
todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico, sobre-escrito, Científico, inclusive traduções de trabalhos de outros idiomas.
etc.
Tabelas: Considerar no máximo seis tabelas, no formato Excel/ 6. Correspondência
Word.
Figuras: Considerar no máximo 8 figuras, digitalizadas (formato Esta seção publicará correspondência recebida, sem que
.tif ou .gif) ou que possam ser editados em Power-Point, Excel, etc. necessariamente haja relação com artigos publicados, porém
Bibliografia: É aconselhável no máximo 50 referências relacionados à linha editorial da revista. Caso estejam relacionados a
bibliográficas. artigos anteriormente publicados, será enviada ao autor do artigo ou
Os critérios que valorizarão a aceitação dos trabalhos serão o de trabalho antes de se publicar a carta.
rigor metodológico científico, novidade, interesse profissional, concisão Texto: Com no máximo duas páginas A4, com as especificações
da exposição, assim como a qualidade literária do texto. anteriores, bibliografia incluída, sem tabelas ou figuras.

normas+eventos.pmd 86 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004 87

PREPARAÇÃO DO ORIGINAL - Descobertas principais do estudo (dados concretos e estatísticos).


- Conclusão do estudo, destacando os aspectos de maior novidade.
1. Normas gerais Em seguida os autores deverão indicar quatro palavras-chave para
facilitar a indexação do artigo. Para tanto deverão utilizar os termos
1.1 Os artigos enviados deverão estar digitados em processador de utilizados na lista dos DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) da Biblioteca
texto (Word), em página de formato A4, formatado da seguinte maneira: Virtual da Saúde, que se encontra no endereço internet seguinte: http://
fonte Times Roman (English Times) tamanho 12, com todas as formatações decs.bvs.br. Na medida do possível, é melhor usar os descritores existentes.
de texto, tais como negrito, itálico, sobrescrito, etc.
1.2 Numere as tabelas em romano, com as legendas para cada 5. Agradecimentos
tabela junto à mesma.
1.3 Numere as figuras em arábico, e envie de acordo com as Os agradecimentos de pessoas, colaboradores, auxílio financeiro e
especificações anteriores. material, incluindo auxílio governamental e/ou de laboratórios
As imagens devem estar em tons de cinza, jamais coloridas, e com farmacêuticos devem ser inseridos no final do artigo, antes as referências,
qualidade ótima (qualidade gráfica – 300 dpi). Fotos e desenhos devem em uma secção especial.
estar digitalizados e nos formatos .tif ou .gif.
1.4 As seções dos artigos originais são estas: resumo, introdução, 6. Referências
material e métodos, resultados, discussão, conclusão e bibliografia. O
autor deve ser o responsável pela tradução do resumo para o inglês e o As referências bibliográficas devem seguir o estilo Vancouver
espanhol e também das palavras-chave (key-words). O envio deve ser definido nos Requisitos Uniformes. As referências bibliográficas devem
efetuado em arquivo, por meio de disquete, CD-ROM ou e-mail. Para os ser numeradas por numerais arábicos entre parênteses e relacionadas
artigos enviados por correio em mídia magnética (disquetes, etc) anexar em ordem na qual aparecem no texto, seguindo as seguintes normas:
uma cópia impressa e identificar com etiqueta no disquete ou CD-ROM
o nome do artigo, data e autor. Livros - Número de ordem, sobrenome do autor, letras iniciais de
seu nome, ponto, título do capítulo, ponto, In: autor do livro (se
2. Página de apresentação diferente do capítulo), ponto, título do livro (em grifo - itálico), ponto,
local da edição, dois pontos, editora, ponto e vírgula, ano da impressão,
A primeira página do artigo apresentará as seguintes informações: ponto, páginas inicial e final, ponto.
- Título em português, inglês e espanhol.
- Nome completo dos autores, com a qualificação curricular e Exemplo:
títulos acadêmicos. Livro:
- Local de trabalho dos autores. May M. The facial nerve. New-York: Thieme; 1986
- Autor que se responsabiliza pela correspondência, com o Capítulo ou parte de livro:
respectivo endereço, telefone e E-mail. Phillips SJ. Hypertension and Stroke. In: Laragh JH, editor.
- Título abreviado do artigo, com não mais de 40 toques, para Hypertension: pathophysiology, diagnosis and management. 2nd ed.
paginação. New-York: Raven press; 1995. p.465-78.
- As fontes de contribuição ao artigo, tais como equipe, aparelhos, etc.
Artigos – Número de ordem, sobrenome do(s) autor(es), letras
3. Autoria iniciais de seus nomes (sem pontos nem espaço), ponto. Título do
trabalha, ponto. Título da revista ano de publicação seguido de ponto
Todas as pessoas consignadas como autores devem ter participado e vírgula, número do volume seguido de dois pontos, páginas inicial e
do trabalho o suficiente para assumir a responsabilidade pública do seu final, ponto. Não utilizar maiúsculas ou itálicos. Os títulos das revistas
conteúdo. são abreviados de acordo com o Index Medicus, na publicação List of
O crédito como autor se baseará unicamente nas contribuições Journals Indexed in Index Medicus ou com a lista das revistas nacionais,
essenciais que são: a) a concepção e desenvolvimento, a análise e disponível no site da Biblioteca Virtual de Saúde (www.bireme.br). Devem
interpretação dos dados; b) a redação do artigo ou a revisão crítica de uma ser citados todos os autores até 6 autores. Quando mais de 6, colocar
parte importante de seu conteúdo intelectual; c) a aprovação definitiva da a abreviação latina et al.
versão que será publicada. Deverão ser cumpridas simultaneamente as
condições a), b) e c). A participação exclusivamente na obtenção de recursos Exemplo:
ou na coleta de dados não justifica a participação como autor. A supervisão Yamamoto M, Sawaya R, Mohanam S. Expression and localization
geral do grupo de pesquisa também não é suficiente. of urokinase-type plasminogen activator receptor in human gliomas.
Cancer Res 1994;54:5016-20.
4. Resumo e palavras-chave
(Abstract, Key-words) Os artigos, cartas e resumos devem ser
enviados para:
Na segunda página deverá conter um resumo (com no máximo
150 palavras para resumos não estruturados e 200 palavras para os Jean-Louis Peytavin
estruturados), seguido da versão em inglês. Atlantica Editora
O conteúdo do resumo deve conter as seguintes informações: Rua da Lapa, 180/1103 - Lapa
- Objetivos do estudo. 20021-180 Rio de Janeiro RJ
- Procedimentos básicos empregados (amostragem, metodologia, Tel: (21) 2221 4164
análise). E-mail: jeanlouis@atlanticaeditora.com.br

normas+eventos.pmd 87 11/02/04, 12:05


88 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 1 - janeiro /fevereiro de 2004

13 a 17 de junho
Calendário de eventos European Federation for Research in Rehabilitation
Rehabilitation Sciences in the New Millennium –
Challenge for Multidisciplinary Research 8th Congress
2004 Ljubljana, Slovenia
Informações: www.cd-cc.si/EFRR2004
Março
21 a 26 de março 30 de junho a 3 de julho
8th Congress International Federation Physical Therapy 2004: Annual Conference & Exposition
of Manipulative Therapy of the American Physical Therapy Association
International Convention Centre Cape Town Chicago, Illinois
South Africa Informações: www.apta.org
Informações: www.uct.ac.za/depts/pgc/
Julho
25 a 28 de março 8 a 10 de julho
Reafis – Congresso nacional de fisioterapia (Reatech) Biomecânica craniofacial e fisiopatologia
Centro de Exposições Imigrantes, São Paulo SP temporomandibular
Informações: Pacin Eventos (11) 5589.1489 Prof. Dr. Mariano Rocabado
Centro de Convenções de Pernambuco
Recife PE
Abril
Informações: bodutra@oclusivo.com.br
17 a 25 de abril
www.oclusivo.com.br
Ventilação mecânica invasiva e não-invasiva
Prof. Leonardo Costa (UFRJ), Alexandre Cossenza (UERJ)
Premier Center Agosto
Rio de Janeiro 27 a 28 de agosto
Informações: (21) 2548 6942 Confit – Congresso de fisioterapia no trabalho
fisiocurso@click21.com.br Centro de Exposições Imigrantes
São Paulo SP
22 a 24 de abril Informações: Pacin Eventos (11) 5589-1489
5º CIOT - Congresso do Instituto de Ortopedia e
Traumatologia do Hospital das Clínicas da Setembro
Faculdade de Medicina de São Paulo 29 de setembro a 2 de outubro
Centro de Convenções Rebouças, São Paulo SP XII Simpósio Internacional de Fisioterapia Respiratória -
Informações: (11) 3168 1149, Prática Baseada em Evidência
E-mail: ciot2004@connecteventos.com.br Centro de Convenções Topázio Imperial
www.ciot2004.com.br Ouro Preto MG
Informações: Congress Eventos (31) 3273 1121
23 a 24 de abril
II Congresso Brasileiro de Fisioterapia da Escoliose
Outubro
Centro de Eventos Hotel Plaza São Rafael
Porto Alegre RS 27 a 30 de outubro
II Congresso Internacional de Fisioterapia Manual
Informações: felliniturismo.com.br
Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco
Informações: www.fisioterapiamanual.com.br
Maio
16 a 19 de maio
Novembro
I Congresso Paulista de Fisioterapia Respiratória do
5 a 7 de novembro
Estado de São Paulo
II Congresso Internacional de Fisioterapia
SOBRAFIR – Regional São Paulo
I Congresso Nacional de Fisioterapia Social
São Pedro SP
III Simpósio Brasileiro sobre o Diagnóstico
Informações: www.sobrafir.com.br
Cinesiológico Funcional
Rio Centro, Rio de Janeiro RJ
Junho Informações: www.sbf.org.br
3 a 5 de junho
Congresso Nacional do Departamento de Ergometria 10 a 13 de novembro
e Reabilitação Cardiovascular V Interdisciplinary World Congress on Low Back and
Centro de Convenções Hotel Serrano Pelvic Pain
Gramado RS Austrália
Informação: felliniturismo.com.br info@worldcongresslbp.com

normas+eventos.pmd 88 11/02/04, 12:05


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 89

○ ○
Fisioterapia Brasil
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Índice
(vol.5, nº2 março/abril 2004 - 89~172)

EDITORIAL
Que venha o tornado!, Marco Antonio Guimarães da Silva .................................................................................................................. 91

ARTIGOS ORIGINAIS
A influência da personalidade na postura, Kelser de Souza Kock, Lilian Gerdi Kittel Ries ......................................................... 92
Análise da marcha de gestantes: um estudo preliminar, Fabiana Flores, Sperandio, Gilmar Moraes Santos,
Mônica Silva de Souza, Camila Costa de Araújo, Daiane d’Agostini Nesi .................................................................................................. 98
Fisioterapiarespiratórias
Repercussões prática da aplicação da técnica de isostretching em indivíduos sadios,
Ana Carolina Brandt, Denise da Vinha Ricieri, Luciane Elisa S. Griesbach ............................................................................................. 103
Acupuntura cinética como efeito potencializador dos elementos moduladores do movimento
no tratamento de lesões desportivas, Daisy Franca, Vasco Senna-Fernandes, Célia Martins Cortez ...........................................111
Efeito do alongamento estático após diatermia de ondas curtas versus alongamento estático
nos músculos isquiotibiais em mulheres sedentárias, Carlos Eduardo Pinfildi, Rodrigo Paschoal Prado,
Richard Eloin Liebano ....................................................................................................................................................................................119
A melhora da capacidade do alcance funcional em mulheres idosas após os exercícios
de Cawthorne e Cooksey, Angela dos Santos Bersot Ribeiro, João Santos Pereira .............................................................................. 125
Estudo da imagem e esquema corporal de crianças portadoras de paralisia cerebral
do tipo tetraparética espástica, Fernanda Ishida Corrêa, Tamine Teixeira da Costa, Moisés Veloso Fernandes .............................131
Estudo do equilíbrio estático de idosos e sua correlação com quedas, Mário Antônio Baraúna,
Suzi Rosa Miziara Barbosa, Roberto Sérgio Tavares Canto, Ruiz Angelo Ventura da Silva, Cristiano Diniz Campelo Silva,
Karla Maria Pereira Baraúna .........................................................................................................................................................................136
Ginástica Laborativa
REVISÃO
Análise comparativa de dados clínicos do lúpus eritematoso sistêmico e abordagem fisioterapêutica,
Emília Cardoso Martinez, Glauber Alvarenga Peroba, Rodrigo Renato da Silva ........................................................................................ 142

ESTUDOS DE CASOS
Tétano: relação de dois casos internados no hospital regional de Araranguá em Santa Catarina
e abordagem fisioterapêutica, Alcioney Valeski, Bárbara Lucia Pinto Coelho, Daniela Constâncio ..............................................148
Tratamento fisioterapêutico precoce em recém-nascido com luxação congênita de quadril,
André Gustavo Moura Guimarães, Ivete Furtado Ribeiro, Luiz Fábio Magno Falcão ............................................................................... 154
Tratamento fisioterápico em um cão portador de displasia coxo femoral utilizando
piscina terapêutica, Gabriela Correia de Almeida e Silva .................................................................................................................... 160

RESUMOS DE TRABALHOS E CONGRESSOS . ....................................................................................................................164


NORMAS DE PUBLICAÇÃO . ........................................................................................................................................................... 170
EVENTOS . ................................................................................................................................................................................................172

índice+exp+editorial.pmd 89 05/04/04, 18:35


90 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Fisioterapia Brasil
Editor científico
Prof. Dr. Marco Antônio Guimarães da Silva (UFRRJ/UCB – Rio de Janeiro)
Conselho científico
Profa. Dra. Fátima Aparecida Caromano (USP - São Paulo)
Prof. Dr. Guillermo Scaglione (Univ. de Buenos Aires – UBA – Argentina)
Prof. Dr. Hugo Izarn (Univ. Nacional Gral de San Martin – Argentina)
Prof. Dr. LC Cameron (UNIRIO - Rio de Janeiro)
Profa. Dra. Margareta Nordin (Univ. de New-York – NYU - Estados Unidos)
Prof. Dr. Mario Antônio Baraúna (Univ. do Triângulo Mineiro - UNIT – Minas Gerais)
Profa. Dra. Neide Gomes Lucena (Univ. Fed. da Paraíba - UFPB – João Pessoa)
Prof. Dr. Norberto Peña (Univ. Federal da Bahia - UFBA – Bahia)
Prof. Dr. Paulo Sérgio Siebra Beraldo (Coord. Mestrado Sarah Kubitschek – Brasília)
Prof. Dr. Roberto Sotto (Univ. de Buenos Aires – UBA – Argentina)
Profa Dra Tania de Fátima Salvini (UFSCAR - São Paulo) 

Grupo de assessores
Dr. Antonio Neme Khoury (HGI - Rio de Janeiro) Dra. Lisiane Fabris (UNESC – Santa Catarina)
Dr. Carlos Alberto Caetano de Azeredo (Rio de Janeiro) Dr. Jorge Tamaki (PUC - Paraná)
Dra. Claudia Bahia (FAFIS/IAENE - Salvador) Dra. Marisa Moraes Regenga (São Paulo)
Dr. Carlos Bruno Reis Pinheiro (Rio de Janeiro) Dra. Luci Fabiane Scheffer Moraes (Univ. do Sul de Santa Catarina)
Profa. Dra. Elaine Guirro (Unimep – São Paulo) Dr. Nilton Petrone (Univ. Estácio de Sá - Rio de Janeiro)
Dr. Esperidião Elias Aquim (Univ.Tuiuti - Paraná) Dr. Paulo Henrique Eufrásio de Oliveira (FAFIS/IAENE - Bahia)
Dr. Farley Campos (UCB - Rio de Janeiro) Dr. Paulo Eraldo C. do Vale (UNICID - São Paulo)
Profa Hélia Pinheiro Rodrigues Corrêa (UCB – Rio de Janeiro) Dr. Philippe E. Souchard (Instituto Philippe Souchard)
Dr. Hélio Pio (Rio de Janeiro) Profa. Solange Canavarro Ferreira (UNESA - HFAG - Rio de Janeiro)
Prof. Dr. João Santos Pereira (UERJ - Rio de Janeiro) Dra. Suely Marques (Rio de Janeiro)

Revista Indexada na LILACS - Literatura


Latinoamericana e do Caribe em Ciências da Saúde

Rio de Janeiro Editoração e arte


Rua da Lapa, 180/1103 Andréa Vichi
20021-180 - Rio de Janeiro - RJ Aline Figueiredo
Tel/Fax: (21) 2221-4164 / 2517-2749 Administração
e-mail: atlantica@atlanticaeditora.com.br Bárbara de Assis Jorge
www.atlanticaeditora.com.br barbara@atlanticaeditora.com.br
São Paulo Atendimento ao assinante
Praça Ramos Azevedo, 206/1910 Ingrid Haig
Editor executivo ingrid@atlanticaeditora.com.br
01037-010 - São Paulo - SP Dr. Jean-Louis Peytavin
Tel: (11) 3362-2097 jeanlouis@atlanticaeditora.com.br Todo o material a ser publicado deve ser
Assinaturas enviado para o seguinte endereço
Editores associados
6 números ao ano + 1 CD-ROM por correio ou por e-mail
Dr. André Luís Santos Silva
1ano: R$ 156,00 Drª. Tiene Deccache
Jean-Louis Peytavin
Rio de Janeiro: (21) 2221-4164 Publicidade e marketing Rua da Lapa, 180/1103
Representante de Assinatura: A.Shalon René Caldeira Delpy Jr. 20021-180 - Rio de Janeiro - RJ
(11) 3361-5595 rene@atlanticaeditora.com.br jeanlouis@atlanticaeditora.com.br

www.atlanticaeditora.com.br
I.P. (Informação publicitária): As informações são de responsabilidade dos anunciantes.
© ATMC - Atlântica Editora Ltda - Nenhuma parte dessa publicação pode ser reproduzida, arquivada ou distri-
buída por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia ou outro, sem a permissão escrita do proprietário do
copyright, Atlântica Editora. O editor não assume qualquer responsabilidade por eventual prejuízo a pessoas ou
propriedades ligado à confiabilidade dos produtos, métodos, instruções ou idéias expostos no material publica-
do. Apesar de todo o material publicitário estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção
na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou do valor do produto ou das asserções de seu fabricante.

índice+exp+editorial.pmd 90 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 91

Editorial

Que venha o tornado!

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Prof. Dr. Marco Antonio Guimarães da Silva


marco@atlanticaedu.com.br

Quase todos nos lembramos do Mágico Oz (filme de Mestrado, Doutorado e, principalmente, para aqueles que
Victor Fleming, EUA, 1939). Os seus 65 anos de existência fazem os cursos de especialização que estão sob a nossa
não o envelheceram. Pelo contrário, ainda nos permitem, responsabilidade.
neste problemático mundo terceiro milenista, ter o desejo No final dos anos 70, voltando de uma viagem à Europa,
de sermos apanhados por um tornado e transportados para buscava uma solução econômica que me permitisse viajar
uma terra, “além do arco íris”, onde os nossos desejos, mais. Eram anos difíceis para os professores de Univer-
ao menos de um emprego digno e decente, pudessem sidades Federais, (ainda hoje o são) que não podiam pensar
ser realizados. em viagens intercontinentais. Foi então que, na tentativa de
Para os que não viram o filme, o que move os seus equacionar o problema, enviei, para algumas universidades
personagens, em busca do mágico de Oz, é a busca de alguma da Espanha e Portugal, um programa de um curso de
solução para os desejos e carências de cada um deles. Ao biomecânica, que já vinha ministrando no Brasil e em paises
final da história, todos descobrem que já possuíam dentro da América do Sul, propondo a realização destes cursos
de si mesmos aquilo que procuravam do lado de fora. Não naquelas instituições. Para espanto de alguns colegas que
precisavam de nenhuma mágica. me disseram à época que eu não conseguiria porque ninguém
O primeiro passo que nos aproxima do filme parece já me conhecia, em apenas dois meses, já estava de malas
ter sido dado pela mãe natureza, que, providencialmente, se prontas. A partir daí, foram mais de 30 cursos ministrados
encarregou de trazer para estes tristes trópicos o Catarina, nestes dois paises.
nosso primeiro furacão. Mas e os demais passos? Mais tarde, nos anos 80, com o desejo de propor e fazer
Considerando que não somos a Dorothy, que não temos o trabalho em empresas, procurei, nas páginas amarelas, alguma
cachorro Totó nem a bruxa boa (Glenda) e tampouco o instituição que pudesse dar respaldo ao trabalho pretendido
mágico, parece que também teremos que descobrir, por nós e ali encontrei a Associação Brasileira de Prevenção de
mesmos, que temos o que precisamos para alcançar os Acidentes (ABPA). Daí por diante, foram mais de 300
nossos objetivos. palestras e cursos em empresas do grupo e um livro editado
Ter que o precisamos precisa ser lido aqui como sobre prevenção de dor nas costas.
esforçamo-nos, durante o curso de graduação e pós- Estes dois exemplos podem ilustrar que o inicio de tudo
graduação, para a divulgação acadêmica do nosso nome, está em nós mesmos e que não podemos nos ater a “meios
através de publicações e participações em eventos científicos, convencionais” na busca do nosso tão sonhado emprego.
e, principalmente, descobrirmos a nossa parcela de Que venha o tornado!
criatividade.
Voltando ao Mágico de Oz, há uma passagem em que a
Dorothy, dando-se conta de que necessitava chegar a cidade
Esmeralda, pergunta a Glenda: “Mas por onde inicio?”
“Quase todo mundo começa pelo principio, querida”,
responde Glenda. * Editor científico de Fisioterapia Brasil
É preciso estabelecer um começo. Cada um traçará o Pós Doutorado na UFRJ
seu próprio inicio. Mas gostaria de trazer uma experiência Professor de mestrado recomendado
pessoal que já tenho levado para os meus alunos de pela CAPES

índice+exp+editorial.pmd 91 05/04/04, 18:35


92 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Artigo original

A influência da personalidade na postura


The influence of personality on the posture

Kelser de Souza Kock*, Lilian Gerdi Kittel Ries, M.Sc.**


○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta do Hospital Nossa Senhora da Conceição – Tubarão – SC, **Fisioterapeuta, Professora da Disciplina de Fisioterapia
Aplicada à Pediatria II – Centro de Educação Física, Fisioterapia e Desportos, Universidade do Estado de Santa Catarina –
Florianópolis - SC

Resumo
Esta pesquisa objetiva verificar a influência da personalidade na postura. Tem como
Palavras-chave: base a tipologia junguiana, a qual define psicologicamente dois tipos de personalidade:
personalidade, postura, extrovertida e introvertida. Especificamente, procura evidenciar o padrão postural mais
imagem corporal. comum em ambos os tipos psicológicos. Os instrumentos utilizados foram o simetrógrafo,
para a avaliação postural e o questionário de Neymann-Kohlstedp, para análise da
personalidade. Esses puderam avaliar, através de um estudo de campo, os sessenta
indivíduos acadêmicos do CEFID - UDESC. Os resultados obtidos indicam que a
cabeça anteriorizada e a protusão de ombros, embora vistas nos dois tipos psicológicos,
foram mais freqüentes nos introvertidos. Outro dado expressivo foi a grande quantidade
de indivíduos com alteração na coluna vertebral em ambos os tipos psicológicos. Conclui
que, de acordo com os dados alcançados, sugere uma relação entre personalidade e
postura, porém na maioria das vezes o fator psicológico não foi bastante capaz de
alterar a constituição física.

Abstract
The purpose of this study is to know how the personality have an influence on
Key-words: posture. It is based on Junguian tipology who estabilish psichologicaly two types of
personality, posture, personality: extrovert and introvert. Specifically, the aim at to prove the most common
body image. (usual) pattern of posture in both psycologies types. Simetrograph was the instrument
used to posture evaluation and Neymann-Kohlstedp questionary to personality analysis.
Those methods could evaluate sixty students from CEFID-UDESC. The results showed
that anterior position of the head and of the shoulders, although it was present at two
psychologies types, were most frequent in introvert. Another important result was the
great index of vertebral column alteration in both types of personality. It was concluded
that, based on the results, there is some relation between personality and posture, but in
most of times the psychology factor wasn’t able to change the body form.

Recebido 21 de maio de 2003; corrigido 16 de março de 2004; aceito 20 de março de 2004.


Endereço para correspondência: Kelser de Souza Kock, Rua Galdino José de Bessa, 164 Oficinas 88702-220 Tubarão SC, Tel: (48) 622-2794/
9996-9811, E-mail: kelserkock@yahoo.com.br

artigo 01 - Kelser.pmd 92 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 93

Introdução (UDESC) do Centro de Educação Física, Fisioterapia e


Desportos (CEFID).
O presente trabalho descreve a influência da personalidade Foram escolhidos 30 indivíduos do sexo masculino e 30
na postura segundo a perspectiva da tipologia junguiana. Jung do sexo feminino através de uma amostragem não
[1], define basicamente dois tipos psicológicos: extrovertido e probabilística intencional, no período de outubro / 2000 a
introvertido. Em pesquisas anteriores [2-8], já foi demonstrado fevereiro 2001. Os integrantes da amostra não eram
o aspecto global do indivíduo, onde mente e corpo funcionam portadores de qualquer tipo de patologia.
em uníssono.
Caminhando nesse sentido, tentou-se observar o grau da Instrumentos de pesquisa
influência da personalidade na postura, bem como verificar
os limites extremos posturais de cada personalidade. Tendo Foram utilizados um simetrógrafo [9], para avaliação
em vista a possível correlação entre a personalidade e o vício postural e o questionário de Neymann-Kohlsdtedp [10] para a
postural mais comum de cada tipo, pode-se fazer um análise da personalidade (extrovertido/mediano/introvertido).
tratamento preventivo, evitando futuros problemas posturais
que venham a ocorrer. Além disso, através da anamnese, o Descrição dos instrumentos
terapeuta pode avaliar se o paciente possui uma personalidade
extremada (extrovertido/introvertido), estabelecendo um a) Questionário de Neymann-Kohlstedp: é constituído
diagnóstico que não se preocupará somente com a correção de 50 perguntas fechadas, as quais analisam a personalidade
da postura, mas também fará o encaminhamento a segundo a tipologia junguiana.
profissionais especialistas nessa área. Outro fator importante b) Simetrógrafo (“quadro quadriculado”): Responsável
a ser considerado é a consciência do esquema corporal, pela pela avaliação postural. Consiste num tabuleiro portátil, com
qual o paciente poderá fazer uma auto-correção de sua postura. placa de acrílico transparente, medindo cerca de 1,95 m de
Como hipóteses, esperava-se que os tipos introvertidos, altura por 90 cm de largura, sob uma moldura de alumínio.
pela predominância do subjetivismo e valorização do mundo Um braço metálico é fixado perpen-dicularmente sobre a
interno [1], poder-se-iam mostrar-se numa postura de moldura superior, projetando-se aproximadamente 60 cm
fechamento anterior, caracterizados pela rotação interna de para frente. O prumo de chumbo preso a este braço divide
membros superiores (MMSS) e membros inferiores (MMII), o tabuleiro no sentido vertical em duas medidas iguais. Sobre
cifose torácica e protusão de ombros, nitidamente marcados o tabuleiro de acrílico apresentam-se linhas horizontais e
pela cadeia Ântero-Lateral de Dennis-Struyf [4]. Pelo verticais, dividindo toda a superfície em quadrados de 7,5
contrário, os tipos extrovertidos, marcados pela objetividade cm. Estes quadrados permitem localizar e registrar os defeitos
e exaltação do mundo externo [1], poder-se-iam apresentar- da postura.
se numa postura de abertura, caracterizados pela rotação
externa de MMSS e MMII e retração de ombros,
Coleta de dados
mostrando-se com predominância da cadeia Póstero-Lateral
de Dennis-Struyf [4]. E na faixa intermediária, os tipos Os escolhidos foram abordados no Centro de Educação
medianos, por possuírem traços dessa ou daquela Física, Fisioterapia e Desportos (CEFID) e através de uma
personalidade, poder-se-iam apresentar-se numa postura com conversa informal, era esclarecido o assunto e as questões
parâmetros mais próximos da normalidade.
de estudo. Após a conversa era entregue o questionário de
O método utilizado teve como natureza a pesquisa aplicada,
Neymann-Kohlstedp para a avaliação da personalidade
de campo, sendo descritivo de correlação. Através da
(extrovertido / mediano / introvertido). Os indivíduos, então,
comparação dos dados obtidos pelo questionário de Neymann-
respondiam o questionário e devolviam logo em seguida ao
Kohlstedp (analisa a personalidade) e pela avaliação postural,
aplicador. Em alguns minutos a resposta do tipo de
pôde-se constatar que os tipos introvertidos apresentaram
personalidade era dada ao questionado. Logo após, os
maior taxa de anteriorização da cabeça e protusão de ombros
indivíduos eram levados à sala de mecanoterapia da Clínica
que os extrovertidos. Outro dado expressivo foi a acentuada
de Fisioterapia do CEFID para serem submetidos a uma
percentagem de alteração na coluna vertebral em ambos os
avaliação postural. Eles, então, estavam trajados com roupa
tipos psicológicos. No mais, pode-se dizer que a personalidade
de banho e se colocavam, junto ao simetrógrafo, dando
não foi um fator tão relevante capaz de alterar a postura.
início a avaliação. Posteriormente, era informado ao
indivíduo a presença ou não de desvios posturais.
Material e Métodos

População e amostra Organização dos dados

A população da referente pesquisa foi constituída pelos A personalidade, dividida em dois tipos gerais por Jung
acadêmicos da Universidade do Estado de Santa Catarina [1], foi acrescida de mais um tipo intermediário, totalizando

artigo 01 - Kelser.pmd 93 05/04/04, 18:35


94 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

3 (três) tipos psicológicos: introvertido, mediano e Análise dos tipos psicológicos relacionados
extrovertido. Considerando que não existe um indivíduo a parâmetros normais de postura
puramente introvertido ou extrovertido, achou-se melhor
acrescentar o tipo mediano, que seria a soma das características Analisando os resultados da postura em AP (ântero-
introvertidas e extrovertidas numa mesma pessoa. posterior) relacionada com os tipos psicológicos, pode-se
Os dados relacionados à personalidade foram obtidos perceber que a “nor malidade postural” é vista
pelo questionário de Neymann-Kohlstedp, através de 50 frequentemente em ambos os tipos de personalidade.
(cinqüenta) perguntas fechadas. Para essas perguntas, as Esperava-se que esse parâmetro mais próximo do normal
únicas respostas possíveis eram sim ou não. Assim, cada fosse visto comumente no tipo mediano, o que não ocorreu,
resposta definia um traço introvertido ou extrovertido. exceto na postura da cabeça e dos ombros (Figura 1).
Somando-se essas respostas, formava-se o tipo psicológico Com relação aos extremos de personalidade, os
de cada indivíduo. Dessa maneira, foi possível defini-los em introvertidos apresentaram mais normalidade nos mamilos,
porcentagens: triângulo de Talles, cristas ilíacas e joelhos e em
• tipos extrovertidos: acima de 55 % de extroversão ou contrapartida, os extrovertidos obtiveram o parâmetro mais
abaixo de 45% de introversão; normal apenas na linha alba e patelas (Figura 1).
• tipos medianos: entre 45% de introversão / extroversão É interessante observar também que, os maléolos, hálux
e 55 % de introversão / extroversão; e artelhos foram geralmente normais nos três tipos de
• tipos introvertidos: acima de 55% de introversão ou personalidade (Figura 1).
abaixo de 45% de extroversão.
Com relação ao exame postural, a ficha de avaliação
pôde informar qualquer anormalidade existente; assim, foi Figura 1 - Relação entre tipos de personalidade e parâmetros normais de
possível correlacionar a personalidade e a postura. postura (AP).

Resultados e discussão

Análise dos tipos psicológicos

Na análise dos tipos psicológicos dos 60 indivíduos


avaliados, verifica-se que houve predominância dos tipos
medianos (40%) e extrovertidos (45%) sobre os introvertidos
(15%) nos dois sexos. Outro fator importante a ser destacado
é a pequena quantidade de indivíduos do sexo feminino
(5%) dentro do tipo psicológico introvertido, chegando a
metade, com relação ao sexo masculino (10%) (Tabela I).
Convém lembrar que, Jung [1] classifica a personalidade
em dois tipos gerais: introvertido e extrovertido. O tipo
extrovertido vive de maneira tal que, o objeto representa
em sua consciência, como grandeza determinante, uma
função mais importante do que a do seu ponto de vista
subjetivo. O tipo introvertido distingue-se do extrovertido
pelo fato de que não se orienta pelo objeto e pelo Ao analisar-se os tipos de personalidade com a postura
objetivamente, mas por fatores subjetivos. em PA (póstero-anterior), observa-se que os tipos medianos
O acréscimo do tipo mediano é justificado pela soma de apresentarem mais normalidade na postura escapular
traços introvertidos e extrovertidos, já que é assim que o (esquerda e direita) e nos pés. Em compensação, no outros
questionário de Neymann-Kohlsted funciona. Os tipos parâmetros ela foi igual ou inferior, com relação aos demais
medianos, por apresentarem características desta ou daquela tipos psicológicos (Figura 2).
personalidade, obtiveram um grande número de indivíduos, Os resultados que merecem destaque são a freqüente
totalizando 40% do total (Tabela I). taxa de alteração na coluna vertebral e a grande normalidade
na prega glútea e linha poplítea encontradas em ambos tipos
Tabela I - Relação entre tipos de personalidade e sexo. de personalidade (Figura 2).
Introvertidos Medianos Extrovertidos Total Na postura vista de perfil relacionada com os tipos
Masc 6 (10%) 11 (18,3%) 13 (21,6%) 30 (50%) psicológicos, os resultados demonstram que, os tipos
Fem 3 (5%) 13 (21,6%) 14 (23,3%) 30 (50%) medianos obtiveram maior taxa de normalidade apenas na
Total 9 (15%) 24 (40%) 27 (45%) 60 (100%) coluna vertebral, ombros e MMII. No mais, os resultados

artigo 01 - Kelser.pmd 94 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 95

dos extrovertidos e introvertidos analisados de acordo com posturais no plano sagital. Dennis-Struyf [4], diz que é nesse
os parâmetros normais de postura, foram superiores ou plano que a personalidade se torna mais evidente na forma
equivalentes (Figura 3). corporal. E Kendall [11], comenta que desvios posturais
Os dados obtidos que se referem a maior normalidade relacionados à dominância são vistos comumente no plano
nos introvertidos foram encontrados no tronco, MMSS, pelve, coronal. Assim, explica-se a preferência pelo plano sagital,
joelhos e pés. Já nos extrovertidos, apenas a cabeça e abdômen além de tornar-se enfadonha a descrição detalhada de
mostraram-se com maior frequência normais (Figura 3). todos os parâmetros posturais. A inferência dos resultados
foi feita através do teste qui-quadrado, o qual não
Figura 2 - Relação entre tipos de personalidade e parâmetros normais de encontrou significância estatística (p>0,05) em nenhuma
postura (PA). das variáveis avaliadas.
Na variável cabeça, pode-se perceber que a postura
normal é freqüente tanto nos tipos psicológicos extrovertidos
(70,3%) quanto nos introvertidos (55,5%). Em relação à
postura alterada observa-se que nos diferentes tipos de
personalidade ocorre um predomínio da cabeça anteriorizada,
sendo mais freqüente nos introvertidos (44,4%) do que nos
extrovertidos (22,2%). Já a posteriorização da cabeça
somente foi encontrada no tipo psicológico extrovertido
(7,4%) (Tabela II).

Tabela II - Relação entre tipos de personalidade e postura da cabeça.


Cabeça Introvertidos Extrovertidos
Normal 5 (55,5%) 19 (70,3 %)
Anteriorizada 4 (44,4%) 6 (22,2%)
Posteriorizada 0 (0%) 2 (7,4%)
Total 9 (100%) 27 (100%)

Figura 3 - Relação entre tipos de personalidade e parâmetros normais de


Cabe observar, que esses resultados parecem demonstrar
postura (Perfil).
a predominância das cadeias AL e PL [4], nos tipos
introvertidos e extrovertidos, respectivamente. O fecha-
mento anterior leva a uma cabeça anteriorizada e, pelo
contrário, a abertura induz à posteriorização da cabeça.
No parâmetro postural ombros, percebe-se que não
houve indivíduos com retração, enquanto que a protusão
foi freqüente e um pouco mais acentuada nos tipos
introvertidos (55,5%). A normalidade evidenciou-se nos
extrovertidos (55,5%) (Tabela III).

Tabela III - Relação entre tipos de personalidade e postura do ombro.


Ombros Introvertidos Extrovertidos
Normais 4 (44,4%) 15 (55,5%)
Protusos 5 (55,5%) 12 (44,4%)
Retraídos 0 (0%) 0 (0%)
Total 9 (100%) 27 (100%)

Análise dos tipos introvertido e Assim como nos resultados supracitados, pode-se
extrovertido relacionados à postura observar uma pequena relação entre as cadeias de Dennis-
Struyf [4] e a personalidade. A cadeia AL, devido ao
Discutindo agora os tipos extremos de personalidade, fechamento, produziu uma porcentagem de protusão de
aparecem os tipos extrovertidos e introvertidos. Para que a ombros um pouco mais elevada nos introvertidos do que
demonstração dos dados não fique demasiado entediante e nos extrovertidos.
desinteressante, preferiu-se relacionar os dados mais Nos resultados referentes à coluna vertebral vista de
relevantes referentes à pesquisa, enfatizando os desvios perfil é interessante frisar que a cifose torácica acentuada é

artigo 01 - Kelser.pmd 95 05/04/04, 18:35


96 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Figura 4 - Relação entre postura de coluna vertebral (perfil) e tipo de personalidade. Em relação à estática pélvica, os
introvertidos apresentaram leve-
mente mais normalidade (66%),
enquanto que os extrovertidos
mostraram-se mais retrovertidos
(48,1%). Nenhum deles possuiu
anteversão (Tabela IV).
Obser vando os resultados
referentes ao plano frontal do joelho,
obteve-se o parâmetro normal mais
freqüente nos introvertidos (77,7%).
O valgismo foi encontrado somente
nos extrovertidos (14,8%) e o
varismo foi semelhante nos dois
tipos (Tabela V).
Já no plano sagital, a norma-
lidade foi semelhante em ambos, os
freqüente (entre 50%) nos dois tipos psicológicos. Os dados joelhos semi-fletidos só foram encontrados nos extrovertidos
referentes à hiperlordose lombar e retificação lombar foram (25,9%) e o genu recurvatum foi levemente maior nos
semelhantes em ambos tipos de personalidade. A introvertidos (44,4%) (Tabela V)
porcentagem de retificação torácica foi maior nos Os dados encontrados na patela mostram que a
introvertidos. Os valores referentes à taxa de normalidade, medialização foi mais freqüente nos extrovertidos (37%
hiperlordose cervical e retificação cervical foram superiores contra 11,1% dos introvertidos) e sua lateralização
nos extrovertidos. (Figura 4). evidenciou-se nos introvertidos (33% contra 0% dos
Nos dados alcançados pela avaliação da coluna vertebral extrovertidos). A normalidade foi levemente superior nos
vista em posição póstero-anterior, percebe-se que a extrovertidos (Tabela V).
escoliose foi maior nos tipos extrovertidos (70,3%), Dennis-Struyf [4] comenta que a cadeia PL (tipo
enquanto que o parâmetro normal da coluna vertebral na extrovertido) apresenta-se em rotação externa (R.E.) de
posição póstero-ânterior foi maior nos tipos introvertidos MMII e a cadeia AL (tipo introvertido), ao contrário, mostra-
(44,4%). Entretanto, mais de metade de ambos tipos se em rotação interna (R.I.) de MMII. Kapandji [12], diz
psicológicos apresentaram postura alterada da coluna que durante a R.I., o fêmur arrasta a patela para dentro. E,
vertebral no plano coronal (Figura 5). durante a R.E. produz-se o inverso, o fêmur arrasta a patela
para fora.
Sendo assim, observa-se uma diferença entre os resultados
Figura 5 - Relação entre postura da coluna vertebral (PA) e tipos encontrados e as referências bibliográficas. Além do que, o
de personalidade.
parâmetro postural patela possuiu um p de 0,0593, onde a
significância estatística mais se aproximou a 0,05. Sugerindo,
uma certa relação antagônica entre as variáveis estudadas.
Com relação aos resultados do arco longitudinal dos pés,
a normalidade foi levemente superior nos introvertidos
(88,8%) e o pé cavo mais freqüente nos extrovertidos (25,9%).
Não foi encontrado pé chato em ambos (Tabela VI).
Os dados referentes ao retropé assemelharam-se nos
dois tipos psicológicos. Apresentando normalidade pouco
acima de 40%, valgismo levemente superior a 30% e varismo
entre 20% (Tabela VI).

Tabela IV - Relação entre tipos de personalidade e postura pélvica.


Pelve Introvertidos Extrovertidos
Normal 6 (66,6%) 14 (51,8%)
Antevertida 0 (0%) 0 (0%)
Retrovertida 3 (33,3%) 13 (48,1%)
Total 9 (100%) 27 (100%)

artigo 01 - Kelser.pmd 96 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 97

Tabela V - Relação entre tipos de personalidade e postura dos joelhos psicológica. Assim, os tipos gerais ficaram como extremos
e patelas. de personalidade, caracterizados teoricamente pela
Joelhos (AP) Introvertidos Extrovertidos predominância das cadeias AL (introvertida) e PL
Normais 7 (77,7%) 16 (59,2 %) (extrovertida) [4]. Desse modo, os tipos medianos possuem
Valgo 0 (0%) 4 (14,8%) características de ambas as personalidades junguianas.
Varo 2 (22,2%) 7 (25,9%) Supunha-se que, dessa maneira, os medianos teriam um
Total 9 (100%) 27 (100%)
parâmetro postural mais próximo da normalidade, o que
Joelhos (Perfil) Introvertidos Extrovertidos não foi encontrado. Provavelmente pela confirmação da
Normais 5 (55,5%) 13 (48,1 %)
hipótese nula.
Semi-fletidos 0 (0%) 7 (25,9%)
Recurvados 4 (44,4%) 7 (25,9%) Como sugestão para um outro trabalho, propõe-se que
Total 9 (100%) 27 (100%) a análise da personalidade seja realizada por um psicólogo e
PATELAS Introvertidos Extrovertidos a avaliação da postura seja analisada por critérios menos
Normais 5 (55,5%) 17 (62,9%) subjetivos, como digitalização de fotos, propiciando uma
Mediais 1 (11,1%) 10 (37%) abordagem mais aprofundada à avaliação.
Laterais 3 (33,3%) 0 (0%) É desejo do autor que, com essa pesquisa, a idéia de
Total 9 (100%) 27 (100%)
unicidade e globalidade [2-8], onde mente e corpo funcionam
Tabela VI - Relação entre tipos de personalidade e postura podálica. em uníssono, se tornem mais evidentes. Mesmo com
resultados pouco expressivos, mas que induzem uma certa
Pés (Arco Long.) Introvertidos Extrovertidos
Normais 8 (88,8%) 20 (74%) relação entre personalidade e postura, a noção do indivíduo
Chato 0 (0%) 0 (0%) como unidade é interessante para uma visão mais
Cavo 1 (11,1%) 7 (25,9%) abrangente do ser humano.
Total 9 (100%) 27 (100%)
Pés (Retropé) Introvertidos Extrovertidos Referências
Normais 4 (44,4%) 13 (48,1%)
Valgo 3 (33,3%) 9 (33,3%) 1. Jung CG. Tipos psicológicos. 9ª ed. Rio de Janeiro: Zahar;
Varo 2 (22,2%) 5 (18,5%) 1967.
Total 9 (100%) 27 (100%) 2. Lowen A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética. 4ª
ed. São Paulo: Summus; 1977.
3. Keleman S. Anatomia emocional: a estrutura da experiência.
São Paulo: Summus; 1992.
Conclusão 4. Denys-Struyf G. Cadeias musculares e articulares: O método
GDS. São Paulo: Summus; 1995.
Pelos resultados apresentados, observa-se que a 5. Kurtz R, Prestera H. O corpo revela. 2ª ed. São Paulo: Summus;
influência psicológica evidenciada no padrão postural não 1989.
ocorreu tanto quanto o esperado. Os dados obtidos mostram 6. Bergès J. Os gestos e a personalidade. Rio de Janeiro:
Civilização brasileira; 1972.
que a frequência de indivíduos com cabeça anteriorizada e
7. Weil P, Tompakow R. O corpo fala. 41ª ed. Rio de Janeiro:
ombros protusos é maior nos introvertidos, embora eles Vozes; 1997.
também apareçam nos extrovertidos. Esse resultado parece 8. Deitos F et al. Diálogo corporal. Santa Maria: A Kaza do Zé;
demonstrar a predominância da cadeia AL nos introvertidos. 1997.
Com base nos dados que se relacionam com a hipótese 9. Adams RC et al. Jogos, esportes e exercícios para o deficiente
nula, onde não há influência da personalidade na postura, físico. 3ª ed. São Paulo: Manole; 1985. p.181-3
pode-se dizer que, de forma geral, o fator psicológico não 10. Justo H. Somos diferentes. Porto Alegre: S. Antônio; 1976.
foi bastante capaz de alterar a constituição física. De acordo p. 276-7
com Keleman [3] e Vayer [13], a genética, além da 11. Kendall FP et al. Músculos: provas e funções. 4ª ed. São Paulo:
Manole; 1995.
personalidade, é um fator importante na configuração da
12. Kapandji IA. Fisiologia articular. 2a ed. São Paulo: Manole;
forma corporal. 1980.
Além disso, é importante frisar que o acréscimo do tipo 13. Vayer P. O Equilíbrio corporal: uma abordagem dinâmica dos
mediano à tipologia junguiana extrovertida e introvertida se problemas da atitude e do comportamento. Porto Alegre:
deu com objetivos de classificação e melhor definição Artes Médicas; 1984. C

artigo 01 - Kelser.pmd 97 05/04/04, 18:35


98 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Artigo original

Análise da marcha de gestantes: um estudo preliminar


Analysis of the gait of pregnant women: preliminary study
Fabiana Flores Sperandio, M.Sc.*, Gilmar Moraes Santos, M.Sc.**, Mônica Silva de Souza***,
Camila Costa de Araújo***, Daiane d’Agostini Nesi***

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Docente da disciplina de Fisioterapia Aplicada a Ginecologia e Obstetrícia I e II da UDESC, **Docente da Disciplina


de Ortopedia e Traumatologia da UDESC, *** Fisioterapeutas, Projeto de pesquisa financiado pela Probic

Resumo
O principal objetivo deste estudo foi analisar as características biomecânicas da
Palavras-chave: marcha com e sem calçado esportivo entre as 13a 15a, 25a 27a e 34a 36a semanas de
biomecânica, dor lombar, gestação, e relacionar o nível de incapacidade por dor lombar nos 3 períodos gestacionais
gestação. estudados. Dados cinéticos e espaço-temporais da marcha foram coletados através da
esteira ergométrica Kistler-Gaitway™, no Laboratório de Biomecânica da UDESC. Os
valores de dor lombar foram obtidos aplicado-se o Questionário de dor lombar de
Oswestry. Os dados foram analisados através da estatística descritiva e inferencial (p <
0,05). Existiu correlação entre a dor lombar gestacional e as variáveis biomecânicas
sem calçado (passada, passo direito) e com calçado (primeiro pico de força direito e
esquerdo, segundo pico de força direito, cadência, duplo apoio e simples apoio esquerdo)
durante o primeiro período estudado. Houve tendência à redução dos valores para o
comprimento da passada, cadência e taxa de aceitação de peso no decorrer da gravidez
nas duas situações. O inverso ocorreu com o tempo de apoio simples e duplo apoio.

Abstract
The main objective of this study was to analyze the biomechanical characteristics
Key-words : of the gait with and without sport shoes in the 13-15, 25-27 and 34-36 weeks of
biomechanics, low back pain, gestation, and to relate the level of incapacity for low back pain in the 3 periods
gestation. studied. Kinetic and time-space data of the gait were collected through the met Gaitway-
Kistler, in the Biomechanics Laboratory of UDESC. The values of low back pains were
obtained by appling the Questionnaire of lumbar pain of Oswestry. The data were
analysed through the descriptive statistics and inferencial (p < 0,05). Existed correlation
between the low back pain of gestation and the biomechanical parameters without
shoes (step, right step) and with shoes (first pick of right and left force, second pick of
force right, cadence, double support and simple left support) during the first studied
period. There was tendency to the reduction of the values for the length of the step,
cadence and tax of weight acceptance in elapsing of the pregnancy in the two situations.
The inverse occured with simple support time and double support.

Recebido 25 de maio de 2003; corrigido 31 de julho de 2003; aceito 15 de março de 2004.


Endereço para correspondência: Fabiana Flores, Clínica Escola de Fisioterapia Udesc-Cefid, Rua Paschoal Simone, 358 Coqueiros 88080-350,
Florianópolis SC, Tel: 248-8155, E-mail: fabi_flores@bol.com.br

artigo 02 - Fabiana.pmd 98 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 99

Introdução devido a abortos, trabalhos de parto prematuro, pré-


eclâmpsia e dificuldade de locomoção das gestantes até o
O período gestacional compreende diversas mudanças laboratório, especialmente, no terceiro período avaliado.
corporais e submete a mulher a adaptações fisiológicas e A amostra foi dividida em grupos, por períodos
anatômicas [1,2] que visam ao preparo de um meio adequado gestacionais. O primeiro período foi composto por 15
para o feto em crescimento [3]. Durante a gravidez ocorrem gestantes sem calçado e 14 com calçado, o segundo por 11
mudanças na forma, tamanho e inércia do corpo da mulher [4]. gestantes sem calçado e 10 com calçado entre 25a-27a
Essas alterações biológicas poderiam gerar transformações semanas, e o terceiro grupo, que compreendeu o intervalo
hormonais e anatômicas com predisposição a lesões musculo- entre a 34a-36a semanas gestacionais apresentou 5 gestantes
esqueléticas, ou ainda, alterar o curso de enfermidades pré- que foram avaliadas com e sem calçado. Geralmente, de 8
existentes [5]. Para Gleeson e Pauls [6] as mudanças posturais a 20 sujeitos são estudados em pesquisas sobre mudanças
ocorridas durante a gestação não são com freqüência fisiológicas na gestação [22].
patológicas, mas alterações incontroladas que podem causar Utilizou-se como instrumento de medida a esteira Kistler-
síndrome de dor lombar, aguda ou crônica.
GaitwayTM. As plataformas de força forneceram a força de
A dor lombar na gravidez apresenta alta freqüência, sendo
reação do solo na superfície de contato durante a fase de
que para metade de todas as gestantes este acometimento é
apoio do movimento [23].
inevitável [7-11] existindo, porém, falta de conhecimento
O instrumento de avaliação da dor lombar foi o
sobre a patogenia e as manifestações clínicas [7,12,13].
Questionário Oswestry de Incapacidade por Dor Lombar
Cecin [14] verificou que, apesar do progresso da
[24,25], bem como um questionário específico [21], em
ergonomia aplicada à coluna vertebral e do uso de
que as gestantes eram instruídas a preencherem a cada novo
sofisticados métodos de diagnóstico, as lombalgias tiveram
um crescimento 14 vezes maior que o crescimento da experimento.
população. Isto resulta em uma grave situação sócio- Na aquisição dos dados utilizou-se a velocidade média
econômica, geradora de prejuízos incalculáveis. A dor lombar ao caminhar 5m e então, realizou-se a calibração do
é um dos maiores problemas de saúde na sociedade ocidental instrumento para a normalização dos dados, através da
[15]. A licença ou o atestado médico, não são capazes de aquisição do peso da gestante. O software Gaitway™ foi
eliminar a dor lombar [11,16]. configurado para tempo de coleta de 12s com freqüência
O aumento de peso ocorrido durante o período de amostragem de 600Hz. A coleta dos dados foi realizada
gestacional faz com que a mulher crie compensações, como após 6 minutos de caminhada na esteira.
o aumento da base de suporte com o intuito de manter o Os dados obtidos foram submetidos à estatística
equilíbrio do corpo [17-19]. descritiva e ao teste de correlação de Spearman com um p
As mudanças anatômicas ocorridas durante a gestação d” 0,05 no programa Statistic 99.
podem causar alterações no andar da gestante, contribuindo
para uma variedade de condições de uso excessivo do sistema Resultados e discussão
musculo-esquelético [20]. Todavia, percebe-se a escassez de
estudos que caracterizem a dinâmica do andar da gestante, As gestantes foram pesadas na esteira Kistler-Gaitway™,
relacionando-a às mudanças ocorridas durante este período durante a calibração. Pôde-se perceber que as mulheres
[20,21]. analisadas tiveram um aumento médio de massa, quando
O trabalho objetivou analisar o comportamento comparadas com o peso pré-gestacional, de 3,9 kg até o 1º
biomecânico da marcha durante as 13ª-15ª, 25ª-27ª e 34ª-36ª período de gestação, de 9,2 kg até o 2º período e de 11,8 kg
semanas de gestação, comparando os valores do pé direito até o 3º período estudado. Estes valores também foram
(D) e do pé esquerdo (E) nas situações com calçado e descalço encontrados por diferentes autores [26-28].
e relacionar estas alterações com o nível de incapacidade
por dor lombar. Variáveis biomecânicas da marcha obtidas
na esteira Kistler-Gaitway™
Materiais e métodos
Analisou-se as seguintes variáveis espaço-temporais:
O estudo teve aprovação do Comitê de Ética da comprimento do passo (CPA), comprimento da passada
Udesc. A amostra investigada apresentou média: 27,06 ± (CP), tempo de apoio simples (TAS), tempo de duplo apoio
5,06 anos de idade, e foi constituída por mulheres entre a (TDA) e cadência (CAD). As variáveis cinéticas foram: o
13ª-15ª, 25ª-27ª e 34ª-36ª semanas de gestação (controle pela primeiro pico de força (PPF), segundo pico de força (SPF),
D.U.M. e Ultra-sonografia obstétrica). e taxa de aceitação de peso (TAP). As figuras 1 e 2
Todas as gestantes apresentavam o pé direito (D) como demonstram os valores médios obtidos durantes a marcha
dominante. Entretanto, grande parte da perda amostral, foi em 3 períodos gestacionais.

artigo 02 - Fabiana.pmd 99 05/04/04, 18:35


100 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Fig. 1 - Demonstra os valores médios obtidos durante a marcha de gestantes com calçado nos 3 períodos gestacionais.

Fig. 2 - Demonstra os valores médios obtidos durante a marcha de gestantes sem calçado nos 3 períodos gestacionais.

A análise da marcha, principalmente na fase de apoio, Tabela I – Correlação entre a dor lombar gestacional e as variáveis espaço-
possibilita a diferenciação entre estruturas patológicas e temporais da marcha durante a gestação na 13ª-15ª, 25ª-27ª e 34ª-36ª
padrões normais de caminhar [23,29]. semanas gestacionais na situação com e sem calçado (p < 0,05).
Variavéis Período p (com p (sem
Dados espaço-temporais e cinéticos espaço-temporais gestacional calçado) calçado)
(semanas)
Foi avaliada a correlação entre a dor lombar gestacional Passada 13ª-15ª 0,07 0,04
e as variáveis biomecânicas da marcha (Tabela I e II) Passo esquerdo 13ª-15ª 0,08 0,07
Não existiu correlação entre a dor lombar gestacional Passo direito 13ª-15ª 0,06 0,02
Cadência 13ª-15ª 0,00 0,33
e as variáveis cinéticas da marcha durante a gestação na
Duplo apoio 13ª-15ª 0,00 0,42
13ª-15ª, 25ª-27ª e 34ª-36ª semanas gestacionais na situação Apoio simples esquerdo 13ª-15ª 0,02 0,13
sem calçado. Apoio simples direito 13ª-15ª 0,10 0,07
No 1º período estudado houve correlação significativa Passada 25ª-27ª 0,12 0,13
moderada na situação sem calçado entre a dor lombar Passo esquerdo 25ª-27ª 0,16 0,11
gestacional referida com a passada e o passo direito (Tabela I). Passo direito 25ª-27ª 0,09 0,17
Entretanto, na análise dos valores com calçado houve Cadência 25ª-27ª 0,69 0,66
Duplo apoio 25ª-27ª 0,09 0,35
correlação da dor lombar gestacional com a marcha no
Apoio simples esquerdo 25ª-27ª 0,47 0,59
primeiro pico esquerdo, primeiro pico direito, segundo pico Apoio simples direito 25ª-27ª 0,39 0,97
direito, cadência, duplo apoio e apoio simples esquerdo das Passada 34ª-36ª 0,88 0,53
primíparas. Passo esquerdo 34ª-36ª 0,85 0,52
Os valores da dor lombar gestacional do segundo período Passo direito 34ª-36ª 0,94 0,57
e do terceiro período não demonstraram existir correlação Cadência 34ª-36ª 0,43 0,14
significativa com as variáveis cinéticas e espaço-temporais Duplo apoio 34ª-36ª 0,36 0,18
Apoio simples esquerdo 34ª-36ª 0,27 0,28
da marcha de gestantes, tanto nas situações de análise com Apoio simples direito 34ª-36ª 0,41 0,15
e sem calçado.

artigo 02 - Fabiana.pmd 100 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 101

Analisando-se o comportamento da marcha, verificou- Estudando as variáveis cinéticas primeiro pico de força
se que a cadência e a passada, apresentaram redução destes e segundo pico de força pode-se perceber a tendência do
valores com a evolução da gestação (figura 2). Valores aumento médio dos valores com o transcorrer da gestação,
semelhantes foram encontrados por Santos [21] em estudo exceto entre os dois últimos períodos para o segundo pico
biomecânico da marcha de duas mulheres no quinto, sexto de força, na situação com calçado. Santos [21] também
e sétimo meses gestacionais. Isto pode ter ocorrido, em virtude encontrou valores crescentes da variável primeiro pico de
das mudanças na forma, tamanho e inércia do corpo da força do 6° para o 8° mês de gestação.
mulher [4,5,19]. Essas alterações podem estar relacionadas ao aumento
do peso da gestante e às alterações músculo-esqueléticas e
Tabela II – Correlação entre a dor lombar gestacional e as variáveis hormonais. A relaxina é a responsável por aumentar a
cinéticas da marcha durante a gestação na 13ª-15ª, 25ª-27ª e 34ª-36ª semanas
elasticidade das articulações [5,18,28].
gestacionais na situação com calçado (p < 0,05).
Percebe-se que o segundo pico de força apresentou
Variáveis Período r(X,Y) r² t p valores maiores do que o primeiro. Conforme Hamil e
Cinéticas Gestacional Knutzen [31], o segundo pico é geralmente de maior
Primeiro pico magnitude que o primeiro e indica o papel que a musculatura
esquerdo 13ª-15ª -0,64 0,41 -2,9 0,01
deve exercer para o desenvolvimento de força, com a
Primeiro pico
direito 13ª-15ª -0,66 0,43 -3,03 0,01 finalidade de acelerar o corpo para fora do solo.
Segundo pico Em relação à variável taxa de aceitação de peso foram
esquerdo 13ª-15ª -0,38 0,14 -1,41 0,18 encontrados valores de média decrescentes durante a
Segundo pico gestação nas situações com e sem calçado esportivo. Para
direito 13ª-15ª -0,58 0,34 -2,46 0,02 Amadio e Serrão [23,30], esta variável corresponde à
Taxa aceitação
peso esquerdo 13ª-15ª -0,34 0,12 -1,25 0,23
aceitação do peso corporal, assegurando estabilidade e
Taxa aceitação permitindo a progressão do membro durante o ciclo da
peso direito 13ª-15ª -0,3 0,09 -1,07 0,30 marcha. É provável que a diminuição dos valores da taxa
Primeiro pico de aceitação de peso durante a gestação esteja relacionada à
esquerdo 25ª-27ª 0,08 0,01 0,23 0,82 alteração no equilíbrio, em decorrência da mudança do
Primeiro pico
centro de gravidade [8,12,31].
direito 25ª-27ª 0,17 0,03 0,48 0,64
Segundo pico
esquerdo 25ª-27ª -0,12 0,02 -0,35 0,73 Variáveis de incapacidade por dor lombar
Segundo pico
direito 25ª-27ª -0,2 0,04 -0,58 0,57 Através da Tabela III, observa-se o grau de incapacidade
Taxa aceitação por dor lombar durante a gestação, preconizado pelo
peso esquerdo 25ª-27ª -0,05 0 -0,15 0,88 Questionário de Oswestry [24].
Taxa aceitação
peso direito 25ª-27ª -0,12 0,01 -0,34 0,74
Primeiro pico Tabela III – Demontra a faixa de incapacidade por dor lombar, de acordo
esquerdo 34ª-36ª 0,05 0 0,09 0,93 com Questionário de Oswestry na situação com e sem calçado.
Primeiro pico Faixa de 13-15 25-27 34-36
direito 34ª-36ª 0,03 0 0,05 0,96 incapacidade: com sem com sem com sem
Segundo pico calçado calçado calçado
esquerdo 34ª-36ª 0,1 0,01 0,18 0,87 Mínima 12 13 8 9 3 3
Segundo pico Moderada 2 2 2 2 1 1
direito 34ª-36ª -0,1 0,01 -0,18 0,87 Severa 1 1
Taxa aceitação
peso esquerdo 34ª-36ª -0,22 0,05 -0,4 0,71
Taxa aceitação Durante o estudo com 200 mulheres no período de 24/
peso direito 34ª-36ª -0,26 0,07 -0,47 0,67 36 horas após o parto não houve relação entre o ganho de
peso gestacional e a dor lombar [7]. Entretanto, o sintoma
Os valores médios de duplo e simples apoio tiveram um de dor lombar durante a gestação, esteve presente em 80%
acréscimo leve da 13ª-15ª semanas até a 34ª-36ª semanas dos casos, com curva ascendente no terceiro trimestre
gestacionais. Este fato pode estar relacionado com a variável gestacional e dependência direta das atividades domésticas
cadência, já que ocorreu a diminuição do número de passos no estudo sobre dor lombar [32]. O desconforto na coluna
por minuto. Pode-se igualmente, relacionar estas alterações, lombar pode ocorrer devido tanto ao ganho de massa
com o ganho de massa, já que a gestante fica mais pesada e durante a gestação, quanto às alterações hormonais, que
aumenta a fase de apoio da marcha. diminuem a estabilidade da sacro-ilíaca [33,34].

artigo 02 - Fabiana.pmd 101 05/04/04, 18:35


102 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

De acordo com Nicholls e Grieve [35], em um estudo back pain in the first and third trimesters of pregnancy. Jospt
com 12 gestantes, 50% delas referiram maior dificuldade 1998; 28(3):133-38.
na realização das atividades domésticas por dor lombar. 13. Leboeuf-Yde, C. Body weight and low back pain: A systematic
literature review of 56 journal articles reporting on 65
epidemiologic studies. Spine 2000;25(2):226-31.
Conclusão 14. Cecin HA. Proposição de uma reserva anatomofuncional, no
canal raquidiano, como fator interferente na fisiopatologia das
As alterações geradas no corpo da gestante em lombalgias e lombociatalgias mecânico degenerativas. Revista
decorrência da gravidez têm influência em vários aspectos da Associação Médica Brasileira 1997;43(4):295-310.
do sistema da mulher e os resultados encontrados nesta 15. Brynhildsen J, Hansson A, Persson A, Hammar M. Follow-
pesquisa sugerem mudanças também no mecanismo da up of patients with low back pain during pregnancy. Obstetrics
marcha. & Ginecology 1998;91:182-6.
16. Östgaard HC, Andersson, GBJ, Karlsson K. Prevalence of
Quanto ao comportamento da dor lombar, observou-se
back pain in pregnancy. Spine 1991;16(5):549-52.
que ela foi presente e significativa no primeiro período, 17. Ferreira C, Nakano AMS. Lombalgia na gestação: etiologia,
apresentando maior valor dentro da faixa de incapacidade fatores de risco e prevenção. Femina 2000;28(8):435-38.
mínima. Existiu correlação significativa na situação sem 18. Kisner C, Colby LA. Exercícios terapêuticos: fundamentos e
calçado na passada e no passo direito. Houve correlação técnicas. 3ª ed. São Paulo: Manole; 1998.
significativa da dor com a marcha com calçado no primeiro 19. Rezende JA. Gravidez: conceito, duração. In: Rezende J.
pico de força, no segundo pico de força direito, cadência, Obstetrícia. 7ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1995.
20. Foti T, Davids JR, Bagley AA. Biomechanical analysis of gait
duplo apoio e simples apoio esquerdo. No segundo e terceiro
during pregnancy. J Bone Joint Surg 2000;82(5):625-32.
períodos estudados não foi apontado correlação estatis- 21. Santos GM. Avaliação biomecânica do andar durante a gestação
ticamente significativa nas duas situações avaliadas. [Dissertação]. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM); 1998.
Referências 22. Kent T, Gregor J, Deardorff L, Katz V. Edema of pregnancy:
a comparison of water aerobics and static immersion.
1. Reece A. Compêndio de medicina fetal e materna. Porto Alegre: Obstetrics & Gynecology 1999;94(5).
Artes Médicas; 1996. 23. Amadio AC, Serrão JC. Instrumentação em cinética. In: Saad
2. Gazeano MM, Oliveira LF. Alterações posturais durante a M, Batistella LR. Análise da Marcha: Manual do CAMO-
gestação. Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde SBMFR. São Paulo: Lemos; 1997.
1998;3(2):13-21. 24. Fairbank JCT, Davies JB, Couper J, O’Brien JP. The Oswestry
3. Skiner JS. Prova de esforço e prescrição de exercício. Rio de low back pain disability questionnaire. Phys Ther
Janeiro: Revinter; 1991. 1980;66(8):271-3.
4. Jensen RK, Doucet S, Treitz T. Changes in segment mass and 25. Davidson M, Keating JL. A comparison of five low back
disability questionnaires: reliability and responsiveness. Phys
mass distribution during pregnancy. J Biomech 1996;29(2):
Ther 2002;82(1).
251-56.
26. Decherney AH, Pernoll M. Obstetric and gynecologic diagnosis
5. Paul JA, Sallé H, Frings-Dresen MHW. Effect of posture on
and treatment. 8a ed. Connecticut: Appleton e Lange; 1994.
hip joint movement during pregnancy, while performing a
27. Artal R, Wiswell RA, Drinkwater, BL. O exercício na gravidez.
standing task. Clinical Biomechanics 1996;11:111-5. 2ª ed. São Paulo: Manole; 1999.
6. Gleeson PB, Pauls JA. Obstetrical Physical Therapy: Review 28. Polden M, Mantle J. Fisioterapia em ginecologia e obstetrícia.
of the Literature. Phys Ther 1988;68(11):1699-702. 2a ed. São Paulo: Santos; 2000.
7. Fast A, Shapiro D, Ducommun EJ, Friedmann LW, Bouklas 29. Nigg B.M. Biomechanics of running shoes. Champaign:
TBS, Floman Y. Low back pain in pregnancy. Human Kinetics Publishers Inc., 1986. apud Amadio Ac,
Spine1987;12(4):368-71. Serrão JC. Instrumentação em Cinética. In: Saad, Marcelo &
8. Paul JA, Frigs-Dresen MHW. Standing working posture Batistella, Linamara Rizzo. Análise da Marcha: Manual do
compared in pregnant and non-pregnant conditions. CAMO-SBMFR. São Paulo: Lemos; 1997.
Ergonomics 1994;37(9):1563-75. 30. Amadio AC. Fundamentos biomecânicos para a análise do
9. Colliton J. Back Pain and Pregnancy: Active Management movimento humano. São Paulo: EEFUSP; 1996.
Strategies. The Physician and Sports medicine 1996; 24(7). 31. Hamill J, Knutzen M. Bases biomecânicas do movimento
10. Sihvonen T, Huttunen M, Makkonen M, Airaksinen O. humano. São Paulo: Manole; 1999.
Functional changes in back muscle activity correlate with pain 32. Souza MS, Araujo CC, Castellen M, Sperandio FF. Afinal,
intensity and prediction of low back pain during pregnancy. toda gestante terá dor lombar? Femina 2003; 31(3):273-77.
Arch Phys Med Rehabil 1998;79(10):1210-12. 33. Östgaard HC, Andersson MD, Schultz AB, Miller JAA.
11. Kihlstrand M, Stenman B, Nilsson S Axelsson O. Water- Influence of some biomechanical factors on low-back pain in
gymnastics reduced the intensity of back low pain in pregnant pregnancy. Spine 1993;18(1):61-5.
women. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica. 34. Lee D. A cintura pélvica. 2ª ed. São Paulo: Manole; 2001.
1999;78(3):180-5. 35. Nichols JA, Grieve DW. Posture, performance and disconfort
12. Franklin ME, Conner-Kerr T. An analysis of posture and in pregnancy. Applied Ergonomics, 1992;23(2):128-32. C

artigo 02 - Fabiana.pmd 102 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 103

Artigo original

Repercussões respiratórias da aplicação da técnica de


isostretching em indivíduos sadios
Respiratory repercussions of isostretching technique application
in healthy individuals
Ana Carolina Brandt, M.Sc.*, Denise da Vinha Ricieri, M.Sc.**, Luciane Elisa S. Griesbach***
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Docente dos Cursos de Fisioterapia da Universidade Tuiuti do Paraná e Uniandrade (Curitiba PR), **Fisioterapeuta,
Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade Tuiuti do Paraná (Curitiba/PR), ***Fisioterapeuta

Resumo
O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto da aplicação do isostretching, um
Palavras-chave: exercício postural global, sobre o comportamento respiratório tóraco-abdominal numa
isostretching, movimentos população sadia. A técnica foi aplicada em seis jovens sedentárias, com idade média de
respiratórios tóraco- 22,33 ± 2,42 anos, previamente submetidas a uma avaliação respiratória pontuada e à
abdominal, fotogrametria,
análise angular fotogramétrica da inspiração e expiração máxima na postura ortostática
diagnóstico cinesiológico
funcional. e caracterização do padrão muscular ventilatório utilizado. O isostretching foi aplicado
em sessões diárias de 45 minutos, durante 10 dias úteis, perfazendo duas semanas.
Após a aplicação da técnica, a avaliação foi repetida e os resultados comparados. Houve
um aumento de 0,9% e 0,73%, respectivamente, para a pontuação registrada para
exame físico e avaliação funcional. A análise angular dos valores encontrados nos registros
pós-aplicação da técnica mostrou uma maior contribuição do compartimento abdominal
para o movimento respiratório, em relação ao comportamento obtido nos registros
pré-intervenção. Os resultados são compatíveis com a melhora da atuação diafragmática
durante a mobilização de médios a altos volumes respiratórios, e sugerem que o
isostretching pode promover impacto efetivo e mensurável sobre a função respiratória
de seus praticantes, mesmo em regimes de aplicação diferenciados daqueles estabelecidos
pelos seus precursores.

Abstract
The aim of this study was to evaluate the isostretching technique’s impact, a postural
Key-words : global exercise, on the chest wall respiratory movements behavior in healthy young
isostretching, chest wall ladies. For this purpose, the technique was applied on six sedentaries female subjects,
movements, photogrammetry, 22,33 ± 2,42 years old, previously submitted a pointed respiratory evaluation and a
functional kinesiologic diagnosis.
photogrammetry angular analysis of maximum inspiration and expiration in the

Recebido em 22 de julho de 2003; aceito 15 de março de 2004.


Endereço para correspondência: Ana Carolina Brandt, Rua Pedro Foltran, 3989 Bigorrilho, 80710-200 Curitiba PR, E-mail: acbrandt@bol.com.br

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 103 05/04/04, 18:35


104 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

orthostatic posture and characterization of ventilatory muscle type utilized. The


isostretching was applied in forty-five minutes long diary sessions by 10 days, during 2
weeks. After the sessions, the evaluation was repeated and the results were compared.
The scored results for physical examination and functional evaluation showed an
improvement of 0,9% and 0,73%, respectively. The angular values analysis in the post-
applications technique showed a bigger compartiment contribution to respiratory
movements than obtained on pre-application registers. The results are compatible with
more effective diaphragmatic performance during high and medium respiratory volumes
and suggest that the isostretching technique can promote effective impact on respiratory
function of their practitioners, even in differencied regimens of those established by its
precursors.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Siglas utilizadas no texto:

Σa = somatório angular de identificação do padrão respiratório.


(∆ aX – ∆ a M) ANT = diferença entre os deslocamentos angulares obtidos para
compartimento torácico superior (X) e torácico inferior (M), na vista anterior.
(∆aX – ∆aM)LAT = diferença entre os deslocamentos angulares obtidos para compartimento
torácico superior (X) e torácico inferior (M), na vista lateral.
(∆aX – ∆aU)ANT = diferença entre os deslocamentos angulares obtidos para compartimento
torácico superior (X) e umbilical (U), na vista anterior.
(∆aX – ∆aU)LAT = diferença entre os deslocamentos angulares obtidos para compartimento
torácico superior (X) e umbilical (U), na vista lateral.
X = compartimento torácico superior
M = compartimento torácico inferior
U = compartimento abdominal
∆a = Deslocamento angular do compartimento avaliado, calculado pela diferença entre
os valores dos ângulos inspiratórios e expiratórios.
∠exp = valor do ângulo expiratório, em graus, no momento da expiração máxima ou na
capacidade residual funcional.
∠insp = valor do ângulo inspiratório, em graus, no momento da inspiração máxima ou na
capacidade pulmonar total.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução qualquer da cadeia. Os músculos inspiratórios são estáticos.


Eles devem ser flexibilizados através da insistência sobre a
Nosso sistema muscular é composto basicamente por expiração. Portanto, em todas as posturas é essencial insistir
dois tipos: os músculos estáticos, ou tônicos e os músculos sobre a expiração profunda.
dinâmicos, ou fásicos. Os músculos estáticos representam Duas cadeias destacam-se como função estática: a cadeia
2/3 da nossa musculatura. São organizados em forma de anterior e a posterior. A cadeia mestra anterior é de
cadeias musculares, onde cada músculo ou grupo muscular fundamental importância na respiração pelo seu papel sobre
constitui um elo [1]. Isto determina que um estiramento o tórax e o diafragma. Quando esta cadeia está encurtada,
local é compensado por um encurtamento em um ponto a cadeia é projetada para frente, a região torácica aumenta

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 104 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 105

sua curvatura cifótica e os ombros encontram-se rodados Avaliação respiratória inicial e final
internamente. Portanto, trabalhar somente a respiração não
se preocupando com a parte postura pode ser ineficaz [2]. As avaliações respiratórias foram integradas por
O método Isostretching foi criado em 1974 por Bernard indicadores funcionais de referência e tiveram sua
Redondo na França e é considerado um complemento ao metodologia baseada em padrões internacionais de avaliação
tratamento dos inúmeros desequilíbrios que acometem a da função respiratória [5]. Compuseram as avaliações: (a)
postura. É não somente um método complementar, mas Anamnese e dados antropométricos; (b) Exame Físico e
também um método preventivo que fortalece e equilibra o Testes Funcionais Respiratórios; (c) Avaliação Biomecânica
corpo evitando compensações [3]. O isostretching foi dos Movimentos Respiratórios da Parede Torácica.
desenvolvido com intuito de preparar e proteger a
musculatura do relaxamento ou retração que essa possa (a) Anamnese e dados antropométricos
sofrer pela falta de uma atividade física postural adequada. A anamnese foi composta de dados de identificação
Tem por objetivo fortificar o corpo, através de exercícios
pessoal e histórias pessoal e familiar de doenças respiratórias
propícios. Um método postural, global e ereto. É considerado
e não-respiratórias. Os dados antropométricos de peso e
postural, pois os exercícios são executados dentro de uma
estatura foram coletados para o cálculo de índice de massa
posição vertebral correta, por alguns segundos, o tempo de
corporal.
uma longa expiração; global, porque o corpo todo trabalha
a cada exercício; e ereta, porque a técnica solicita à coluna
(b) Exame físico e testes funcionais respiratórios
vertebral um autoengrandecimento [3]. A freqüência mínima
de administração da técnica aos pacientes deve ser de duas A segunda abordagem dos componentes da amostra foi
vezes por semana, e o período previsto para a atividade feita através do exame físico e dos testes funcionais
deve ser dividido em séries progressivas, garantindo a respiratórios, e orientou quanto à condição respiratória de
manutenção da concentração individual em cada exercício, cada voluntária. Esta condição respiratória, que recebeu o
chave para o sucesso na realização desse método. impacto da aplicação da técnica de Iso-Stretching, foi
Uma das principais bases do método é a respiração. Segundo posteriormente reavaliada dentro das mesmas bases, de
Redondo [3], há a necessidade de um trabalho respiratório modo a oferecer parâmetros sobre o quanto a abordagem
para desenvolver a capacidade pulmonar e melhorar a postural da técnica se reflete em modificações da dinâmica
mobilidade diafragmática para dividir melhor as pressões entre e da mecânica respiratória.
a parte superior e inferior do tronco. O diafragma tem um O exame físico foi realizado de acordo com Porto [6],
papel importante na estática da coluna e em virtude disto deve enquanto os testes funcionais respiratórios foram executados
ser suficientemente flexível e móvel para aumentar ou reduzir, de acordo com o protocolo de Ricieri & Lodovico [7], mas
conforme a necessidade, o tronco superior [2]. o diferencial da avaliação esteve na atribuição de pontos
Partindo das premissas fundamentais da técnica e das aos resultados registrados em cada teste. Três níveis de
repercussões anunciadas sobre a função respiratória, este pontuações permearam todos os resultados, traduzindo em
estudo teve por objetivo a avaliação do impacto da aplicação pontos as condições clínicas da amostra, e permitindo uma
intensiva da técnica sobre a função respiratória de jovens comparação objetiva entre os registros coletados antes e
sadias sedentárias, medida por indicadores funcionais de após a aplicação da Técnica de Iso-Stretching.
referência e pela biofotogrametria computadorizada.
b.1. Pontuação para registros do exame físico
Material e método Cada registro obtido no exame físico recebeu três níveis
de pontuações, cujos critérios de estratificação encontram-
Esta foi uma pesquisa primária descritiva sobre desfecho se descritos no Quadro 1.
clínico de uma intervenção fisioterapêutica específica [4],
que seguiu as determinações da Resolução 196/96 – CNS
b.2. Pontuação para registros dos testes funcionais respiratórios
sobre estudos envolvendo seres humanos.
Para cada registro obtido a partir dos testes integrantes
Compuseram a amostra seis jovens voluntárias, do sexo
da avaliação funcional respiratória foram igualmente atribuídos
feminino, acadêmicas do 4o. ano do Curso de Fisioterapia
três níveis de pontuações, cujos critérios encontram-se
da Universidade Tuiuti do Paraná. O estudo foi desenvolvido
descritos no Quadro 2.
nas dependências da Clínica-escola de Fisioterapia da
Universidade Tuiuti do Paraná e os procedimentos
metodológicos incluíram três etapas de abordagem dos Compuseram a Avaliação Funcional Respiratória os
componentes da amostra: (1) Avaliação Respiratória Inicial; seguintes testes: (a) Pico de Fluxo Expiratório; (b) Pressões
(2) Aplicação da Técnica de Iso-Stretching; (3) Reavaliação Estáticas Máximas, Inspiratória e Expiratória; (c) Volumes
Respiratória Final. Inspiratórios Máximos; (d) Resistência Muscular Respiratória.

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 105 05/04/04, 18:35


106 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

(c) Avaliação biomecânica dos movimentos respiratórios Para estudar a caracterização do padrão ventilatório
da parede torácica recorreu-se à equação desenvolvida por Ricieri et al. [8],
O estudo do comportamento mecânico da parede associando ∆a de cada compartimento em cada vista:
torácica e caracterização do padrão respiratório foi realizado
através do uso da Biofotogrametria Computadorizada como Σa = [(∆aX – ∆aM) + (∆aX – ∆aU)]ant + [(∆aX – ∆aM) + (∆aX
instrumento de avaliação, sendo utilizada a rotina de avaliação – ∆aU)]lat
dos movimentos respiratórios de Ricieri et al. [8,9].
Quadro 2 - Pontuação atribuída como critério de classificação do impacto
A aquisição de imagens foi feita através de uma câmera
da doença/disfunção sobre as funções avaliadas na rotina proposta.
filmadora digital Sony TRV-140, estando as voluntárias em
posição ortostática e sendo isoladas para fotointerpretação Pontuação Descritor Critério de consideração
atribuída funcional para os resultados coletados
as imagens adquiridas na vista anterior e lateral, nos seguintes
em cada variável
momentos: (1) Inspiração Máxima, a partir do volume
0 pontos Disfunção Valores encontrados
residual; (2) Expiração Máxima, a partir da capacidade
respiratória encontrados abaixo de 60%
pulmonar total. dos valores referência,
Como etapa preliminar, foi realizada a análise da considerados para o exame/teste.
mobilidade tóraco-abdominal, total e por compartimentos, 3 pontos Limitação Valores encontrados entre
calculada através do deslocamento angular (∆a) entre valores funcional 60 e 80% dos valores
angulares inspiratórios (∠insp) e expiratórios (∠exp) máximos, referência, considerados para
de acordo com a equação: o exame/teste.
5 pontos Função Valores encontrados acima de
normal 80% dos valores referência,
∆a = ∠insp – ∠exp considerados para o exame/teste.

Quadro 1 - Pontuação atribuída a cada teste integrante do exame físico.


Unidade de
Testes realizados 5 pontos 3 pontos 0 pontos
Avaliação
Exame físico Morfologia Sem alterações Presença de Presença de deformidades
deitado do tórax morfológicas assimetrias e/ou instaladas e cicatrizes
alterações morfológicas cirúrgicas[A]
Padrão Respiratório Costo-diafragmático Predomínio torácico Paradoxal e Assincronia
Ritmo Respiratório Eupneico Dispnéia, Bradipnéia, Ritmos patológicos
Taquipnéia
Mobilidade torácica Mobilidade normal Mobilidade Mobilidade diminuída em
diminuída em uma mais de uma região ou
região ou hemitórax hemitórax
Exame físico Força Muscular Expande sob a Expande sob a palpação, Não expande sob a
sentado Respiratória[B] palpação, apresenta apresenta consistência, palpação, não apresenta
consistência, não vence resistência consistência, não vence
vence resistência resistência
Palpação anterior Sem anormalidades Anormalidades Anormalidades presentes
presentes em uma em mais de uma região ou
região ou hemitórax hemitórax
Palpação posterior Sem anormalidades Anormalidades Anormalidades presentes
presentes em uma em mais de uma região ou
região ou hemitórax hemitórax
Percussão Torácica Som claro Atimpânico Timpanismo ou Macicez
submacicez
Frêmito Tóraco-Vocal Som claro pulmonar FTV ausentes ou FTV aumentado
diminuídos
Ausculta Murmúrio vesicular Murmúrio vesicular Presença de ruídos
pulmonar[C] presente sem ruídos diminuído sem ruídos adventícios
adventícios adventícios
Referentes a procedimentos relacionados a doenças respiratórias; [B]Critério de avaliação manual de Cuello; [C]Realizada regionalmente em
[A]

ambos pulmões.

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 106 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 107

Aplicação da técnica de iso-stretching Gráfico 1 - Pontuação obtida no exame físico pela somatória dos pontos
atribuídos em cada teste, antes e após a aplicação da técnica de Isostretching.
O método foi aplicado durante dez dias seqüenciais, no
período de duas semanas consecutivas, compreendidas entre
13/08/2002 e 23/08/2002, totalizando dez sessões com
duração de cinqüenta minutos cada.
As sessões de isostretching eram divididas em duas
partes: a primeira constava do aquecimento, com duração
de 10 minutos e a segunda da aplicação dos exercícios
propriamente ditos, com duração de 40 minutos.
O aquecimento foi realizado na bicicleta estacionária.
Os exercícios de isostretching foram realizados nas posições
em pé, sentado e deitado. Em cada posição escolheram-se 4
exercícios que foram repetidos 3 vezes cada um (a primeira A pontuação para o exame físico deitado totalizava 35.00
para compreender, a segunda para corrigir e a terceira para pontos, enquanto que para o exame físico sentado a pontuação
executar da melhor maneira). Segundo Redondo [3], o tempo total era equivalente a 45.00 pontos. O percentual alcançado
de manutenção de cada exercício é determinada pela pelo grupo amostral na avaliação inicial foi de 96.20% para
expiração, a qual deve durar 10 segundos ou mais. Neste o primeiro exame e 99.27% para o segundo exame. Na
trabalho, a respiração foi mantida por 15 segundos em avaliação realizada após a aplicação da técnica observou-se
um aumento de 0.9% para a somatória dos pontos obtidos
cada repetição.
no exame físico deitado, e de 0.73% para o exame físico sentado.
As séries de exercícios foram compostas da seguinte
maneira:
Pontuação da avaliação funcional
- exercícios simétricos;
respiratória
- exercícios assimétricos;
- exercícios com bastão (de 1 m) e Os testes integrantes da avaliação funcional respiratória
- exercícios com bola. totalizaram 20.00 pontos. Através dos resultados registrados,
Todas as sessões foram diretamente supervisionadas a o grupo alcançou a média de 16.50 pontos ou 82,5% na
fim de orientar as voluntárias quanto à postura correta, à avaliação inicial, e a média de 17.0 pontos ou 85% na
manutenção da respiração e à conscientização corporal. reavaliação, num aumento de 0.5%.

Resultados Avaliação biomecânica dos movimentos


respiratórios da parede torácica
Características da amostra
Na aplicação da equação para análise do deslocamento
A amostra apresentou características de homogeneidade angular (∆a) a expansão inspiratória dos compartimentos
que viabilizaram a análise conjunta dos resultados obtidos, durante a inspiração foi evidenciada por valores positivos
partindo do princípio de uma amostra normal, atribuindo- para ∆a, enquanto que valores negativos evidenciaram uma
se “normal” o conceito de “mais freqüente” [10]. A Tabela retração inspiratória do compartimento analisado. Os
I apresenta as características antropométricas da amostra. resultados obtidos, antes e após a aplicação do Iso-Stretching
estão apresentados nas Tabelas II e III.
Tabela I - Características da amostra.
Gráfico 2 - Pontuação média obtida na avaliação funcional respiratória
Variável Média Desvio padrão
Idade (anos) 22,33 2,42
pela somatória dos pontos atribuídos em cada teste, antes e após a aplicação
Peso (kg) 61,33 7,79 da técnica de Iso-Stretching.
Estatura (m) 1,65 0,04
IMC (kg/m2) 22,54 2,38

Pontuação do exame físico

Uma vez que todos os testes do exame físico foram


pontuados, a média do total dos pontos alcançados serviu
como referência de comparação para valores pré e pós-
aplicação da técnica (Gráfico 1).

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 107 05/04/04, 18:35


108 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Tabela II - Deslocamentos angulares medidos na vista anterior em cada posição faz a base do Iso-stretching, acrescentando um
compartimento analisado antes e após a aplicação do iso-stretching. intenso trabalho muscular, ativo e consciente. No trabalho
Valores Padrão
de Beloube et al. [11], que utilizou o método isotretching
obtidos X ant Mant Uant Ventilatório em dois adolescentes, verificou-se uma melhora nas retrações
Pré-Sessões Média ∆a 3,87 1,36 -0,87 7,24 ± 1,92 musculares e diminuição dos graus escolióticos e cifóticos,
DP 0,82 1,29 0,76 o qual podem interferir na respiração.
Pós-Sessões Média ∆a 3,57 1,07 -0,58 6,65 ± 2,86 A parede abdominal estabiliza a base do tórax durante a
DP 1,37 0,71 0,71 inspiração, promovendo a expansão do tórax e também
proporciona uma importante estabilização das vísceras. Tem
Tabela III - Deslocamentos angulares medidos na vista lateral em cada relação topográfica e funcional com o tórax, diafragma e
compartimento analisado antes e após a aplicação do iso-stretching. com o dorso, constituindo um elo funcional entre as cadeias
posterior e respiratória, ratificando a importância do trabalho
Valores Padrão
obtidos X ant Mant Uant Ventilatório
global. Portanto, a efetividade do diafragma depende da
parede abdominal e também da coluna lombar, pois é um
Pré-Sessões Média ∆a 3,63 -0,16 -1,80 9,23 ± 2,73
DP 0,88 0,52 0,89
dos locais de sua inserção. A influência do isostretching na
respiração é determinada pela expiração (que determina o
Pós-Sessões Média ∆a 3,55 1,32 0,12 5,66 ± 5,10
DP 2,67 0,83 0,64 tempo de manutenção da postura), pelo autocrescimento
da coluna (local de inserção do diafragma-coluna lombar) e
A caracterização do padrão ventilatório (Σa) foi efetuada pelas contrações isométricas.
pela comparação entre os resultados obtidos antes e após a O estudo mostrou que os indicadores funcionais de
aplicação do da Técnica de Iso-Stretching, de modo que os referência, como exame físico, testes funcionais musculares
maiores valores para resultados alcançados representaram de força e volume não foram suficientes para expressar o
um maior predomínio do compartimento torácico durante impacto da aplicação da técnica de Isostretching sobre o
a respiração. O inverso foi verdadeiro: menores valores como aparelho respiratório. A composição amostral de sujeitos
resultado da aplicação da equação representaram uma maior sadios pode ser a razão deste achado; embora em todas as
contribuição da mobilidade abdominal durante o movimento unidades de avaliação pontuadas o aumento dos valores
respiratório (Gráfico 3). percentuais tenha sido de 0,9% para o exame físico deitado,
0,73% para o exame físico sentado e de 0,5% para avaliação
Gráfico 3 - Valores obtidos na aplicação da equação de caracterização funcional respiratória, é importante ressaltar que os valores
do padrão ventilatório. iniciais já eram próximos da pontuação máxima possível em
cada unidade. Basicamente, este resultado expressa que em
um grupo sem limitações respiratórias, como o grupo
amostral deste estudo, não é possível que os valores pós-
sessões superem a normalidade. Assim, os esforços
voltaram-se para os achados cinesiomecânicos respiratórios
que pareceram ser os melhores indicadores deste impacto.
A expiração desenvolvida através da projeção semicerrada
dos lábios, tal como utilizada durante a aplicação da técnica
de Iso-Stretching, é também denominada de respiração
freno-labial ou “pursed-lips breathing” (PLB) pela descrição
original [12]. Como forma de padrão ventilatório, ou seja,
investida de objetivos terapêuticos, a PLB pode ser descrita
como uma resistência expiratória variável, criada pela
Padrão Anterior: resultado da aplicação da equação para valores constrição dos lábios, com objetivo de manter positiva a
obtidos na vista anterior; Padrão Lateral: resultado da aplicação pressão nas vias aéreas nesta fase da respiração. Investigada
da equação para valores obtidos na vista lateral; Ântero-lateral:
resultado da combinação aditiva dos resultados anterior e lateral.
em oito estudos ao todo, em toda literatura disponível nas
bases de citações científicas, a PLB teve sua primeira
apresentação, como recurso terapêutico, na década de 60
Discussão [12]. É uma manobra freqüentemente citada por ser adotada
por pacientes portadores de doença pulmonar obstrutiva
O precursor da técnica de Isostretching admite que “a crônica durante a respiração espontânea [13].
harmonia do corpo se forja pela qualidade, equilíbrio, entre a força, São atribuídos os seguintes efeitos à aplicação da técnica:
leveza, potência de contração e possibilidade de alongamento”. Segundo (1) recrutamento ativo da musculatura abdominal durante
ele, o controle respiratório, o domínio das sensações e da a expiração; (2) alterações positivas no padrão fisiológico da

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 108 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 109

respiração, como aumento do tempo expiratório e volume camento abdominal. Kenyon et al. [15] relatou que, durante
corrente e redução na fração tempo respiratório e freqüência a ventilação tranqüila, particularmente na postura em pé,
respiratória; (3) redução da capacidade residual funcional; e ocorre um aumento da pressão do compartimento abdominal
(4) melhora na saturação de oxigênio arterial [14]. pela descida das vísceras, estira os músculos abdominais
O efeito da PLB sobre o padrão e a mecânica da passivamente; esta tensão passiva nos músculos abdominais
respiração em 11 voluntários sadios, em repouso e durante representa uma importante ação de desinsuflação sobre o
o exercício numa bicicleta ergométrica, foram estudados compartimento torácico baixo durante a ventilação tranqüila.
em 1996 por Spahija e Grassino [13]. De acordo com os Assim, justifica-se que o movimento abdominal apresente
resultados encontrados, a aplicação da PLB durante o menor amplitude que o movimento do tórax na posição
repouso resultou em: (1) manutenção no volume minuto e ortostática. Os resultados angulares corroboraram esta
redução na freqüência respiratória, pelo aprofundamento evidência: estirados na posição ortostática, o compartimento
nos níveis de ventilação para médios volumes; (2) abdominal move-se menos que o compartimento torácico,
confirmação das propriedades já atribuídas à técnica, como porém ambos movimentam-se no mesmo ritmo.
aumento do tempo expiratório, tempo total da respiração e Pelos resultados encontrados, acredita-se que a
volume corrente; (3) aumento do recrutamento muscular aplicação clínica da técnica, com objetivos respiratórios
diafragmático; e (4) ausência de efeitos acumulativos sobre primários ao invés de posturais, seja de valor em situações
a capacidade residual funcional [14]. clínicas em que a reeducação diafragmática seja um objetivo
Este estudo partiu do princípio de que a aplicação da terapêutico a ser atingido. Sugere-se ainda que a técnica
PLB na técnica de Isostretching é feita numa condição que seja estudada em grupos de portadores de doenças
mais se assemelha ao repouso, pesquisada por Spahija e respiratórias para avaliar seu real impacto sobre os
Grassino. A forma de registro de imagem em nosso estudo, indicadores funcionais respiratórios quando estes se
para análise biofotogramétrica, somente permitiu avaliar encontrarem em situações de déficit clínico.
mobilidade e recrutamento dos compartimentos da parede
torácica durante a inspiração e expiração máximas. As tabelas Conclusão
2 e 3 evidenciam, pelos valores angulares que apresentam,
um aumento da contribuição abdominal para a mobilização Com os resultados alcançados foi possível concluir que
aérea nos resultados pós-sessões, mais evidentes nas medidas a técnica de Isostretching apresenta um aumento do
feitas pela vista lateral. Este resultado vai ao encontro dos recrutamento diafragmático durante a respiração, como
achados de Spahija e Grassino [13] que identificaram o resultados de sua aplicação intensiva em um grupo de jovens
aumento do recrutamento muscular diafragmático como sadias. Este recrutamento se evidencia pelo aumento da
um dos efeitos da aplicação da PLB em repouso em contribuição do compartimento abdominal durante as
indivíduos sadios. manobras inspiratórias pós-sessões. Os estudo mostrou que,
Não obstante, dois destaques merecem ser apresentados em sujeitos sadios, os indicadores normalmente utilizados
para reforçar as conclusões apresentadas: (1) as medidas pela avaliação fisioterapêutica tradicional não são efetivos
mais evidentes na vista lateral; (2) os valores não tão para avaliar tal impacto e que a análise biomecânica da
expressivos para o compartimento abdominal (U), quando parede torácica, através da biofotogrametria, foi o indicador
comparados aos valores observados no tórax superior (X) mais efetivo para avaliar as repercussões respiratórias
e inferior (M). anunciadas pela técnica de Iso-Stretching.
Desde o trabalho de Ricieri et al. [8,9] sabe-se que a
análise dos movimentos respiratórios através da Agradecimentos
biofotogrametria apresenta uma maior correlação entre
movimentos e volumes nas imagens adquiridas na vista Nossos agradecimentos ao Prof. Ms. Marcelo Márcio
lateral, ou seja, aquelas que registram os movimentos ântero- Xavier e Esperidião Elias Aquim pelo apoio recebido no
posteriores e crânio-caudais. Os autores relatam que tórax e Ambulatório de Fisioterapia Respiratória da Universidade
abdome movimentam-se ventralmente durante a inspiração, Tuiuti do Paraná para a realização das avaliações respiratórias
sendo que o tórax movimenta-se mais no sentido vertical, contidas neste estudo. Este estudo foi realizado na Clínica
enquanto que o abdome apresenta movimentos basicamente de Fisioterapia da Universidade Tuiuti do Paraná e contou
no sentido ântero-posterior. Esta característica mecânica com o apoio técnico-científico do Instituto Brasileiro de
explica o fato de que os maiores valores, e mais conclusivos Fisioterapia Aplicada/IBRAFA-RJ.
para estudos bidimensionais de análise de imagem, tenham
sido encontrados para o deslocamento angular na vista lateral Referências
(vide Tabela III).
Ainda se faz necessária uma argumentação clara para 1. Bienfait M. Os desequilíbrios estáticos - Fisiologia, patologia
explicar os pequenos valores encontrados para o deslo- e tratamento fisioterápico. São Paulo: Summus; 1995.

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 109 05/04/04, 18:35


110 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

2. Souchard PE. O Stretching Global Ativo. São Paulo: diafragmáticos. Curitiba: Anais da VI Semana de Pesquisa da
Manole; 1996. UTP 2002;34.
3. Redondo B. Isostretching: a ginástica da coluna. São Paulo: 10. Sackett DL, Straus SE, Richardson WS, Rosenberg W, Haynes
Skin, 2001. RB. Evidence-based medicine: how to practice and teach EBM.
4. Castro AA. Projeto de Pesquisa III: Tipos de estudo. New York: Churchill Livingstone; 2000.
[citado 2002 oct 31]. Disponível em URL: http// 11. Deloube DP, Costa SRM, Junior EA, Oliveira RJDP. O método
www.evidencias.com/aldemar. isostretching nas disfunções posturais. Fisioter Bras 2003;
5. ATS/ERS Statement on respiratory muscle testing. Am J 4(1):72-4.
Respir Crit Care Med 2002;166:518-612. 12. Thoman RL, Stoker GL, Ross JC. The efficacy of pursed-lips
6. Porto CC. Exame clínico. In: Semiologia médica. São Paulo: breathing in patients with chronic obstructive pulmonary
Manole; 1994. p. 262-80. disease. Am Rev Respir Dis 1966;93(1):100-6.
7. Ricieri DV, Lodovico A. Uma abordagem diferenciada para 13. Spahija JA, Grassino A. Effects of pursed–lips breathing and
um protocolo de avaliação da função respiratória e qualidade expiratory resistive loading in healthy subjects. J Appl Physiol
de vida de portadores de câncer em regime de internação 1996;80(5):1772-84.
hospitalar. São Pedro/SP, Anais do XI Congresso 14. Ricieri DV. Fisioterapia Baseada em Evidências: bases científicas
Internacional de Fisioterapia Respiratória. Rev Bras Fisiot 2002 para prescrição de padrões ventilatórios freno-labial, expi-
Supl Agosto: 47. ração com pressão positiva e facilitação neuromuscular
8. Ricieri DV, Lodovico A, Baraúna MA. Análise Fotogramétrica proprioceptiva modificada unilateral aplicadas à recuperação
Angular dos movimentos respiratórios da parede torácica e funcional em distúrbios da respiração. Reabilitar 2003;19:
sua correlação com a variação de volume. São Pedro/SP, Anais (no prelo).
do X Simpósio Internacional de Fisioterapia Respiratória. Rev 15. Kenyon CM, Cala SJ, Yan S, Aliverti A, Scano G, Duranti R,
Bras Fisiot 2002;4(3):45. Pedotti A, Macklem PT. Rib cage mechanics during quiet
9. Ricieri DV, Cuello G, Lodovico A, Xavier MM. Análise breathing and exercise in humans. J Appl Physiol
fotogramétrica de padrões ventilatórios intercostais e 1997;83(4):1242-55. C

artigo 03 - Ana Carolina.pmd 110 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 111

Artigo original

Acupuntura cinética como efeito potencializador


dos elementos moduladores do movimento
no tratamento de lesões desportivas
Kinetic acupuncture as potential effect of movement
modulation elements in treatment of sport injuries
Daisy Franca*, Vasco Senna-Fernandes**, Célia Martins Cortez, D.Sc.**
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Acupunturista, Professora de Ambulátório de Acupuntura e Eletroacupuntura de Academia Brasileira de


Arte e Ciência Oriental - ABACO, **Médico, Cirurgião plástico, Cirurgião de mão, Acupunturista, Professor da ABACO,
***Médica, Professora de Fisiologia da UERJ

Resumo
Este trabalho se baseia no estudo do tratamento de lesões desportivas através da
Palavras-chave: Acupuntura Cinética, que é um método sistemático o qual associa a Acupuntura à
Acupuntura, cinesioterapia, Cinesioterapia durante a reabilitação do sistema músculo-esquelético, potencializando
locomotores distúrbios. os elementos moduladores do movimento, através da propriocepção. Tal associação
visa preparar a estrutura lesada para receber o estímulo fisioterápico, considerando que
a Acupuntura é capaz de: inibir o ciclo espasmo-dor, melhorando as valências físicas e
a performance do fuso muscular e tendinoso durante os movimentos. Além disso, a
Acupuntura promove sinergismo com a Cinesioterapia na recuperação do movimento,
pois o estímulo acupuntural pode ser de ação prolongada através da manutenção da
inserção de agulhas ou sementes em pontos específicos, durante o tratamento. Neste
estudo, foram incluídos 31 casos de atletas de diversas modalidades (tênis, futebol,
voleibol, ginástica olímpica, capoeira, balé e jiu-jitsu) portadores de distúrbios locomotores,
tais como: tendinite de tendão de Aquiles, lombalgia, dorsalgia, torcicolo, tenossinovite,
Síndrome do Túnel do Carpo, Síndrome do Pronador, contusão muscular, tennis elbow e
gonalgia por lesão de menisco; sendo 13 homens e 18 mulheres, com faixa etária
compreendida entre 11 a 40 anos. Todos apresentavam dificuldade na realização de
atividades físicas por presença da dor, que prejudicavam o seu desempenho geral. Os
parâmetros de avaliação dos resultados foram: Escala Visual Analógica (EVA) da
intensidade da dor (0-10 mm, sendo 0 sem dor e 10 a pior dor); Escala de Avaliação
Numérica (EAN) de melhora clínica em relação à dor (MCRD) (0-100%, sendo 0 sem
melhora e 100% a melhora total; e o número de sessões (NS) que influenciam
indiretamente a performance geral do atleta. A taxa média de redução da intensidade
da dor calculada com os dados da EVA (de 9,3 ± 0,9 mm para 1,5 ± 1,3 mm) foi de
84,0 ±14,6% (χ2 = 4,8), e a taxa média de MCRD pela EAN foi de 86,1 ± 3,1% (χ2 =
2,8). A média do número de sessões realizadas foi 5,5 ± 3,1. Dessa forma, a taxa média
de melhora por sessão foi de 15,6 ± 1,1%. Houve importante correlação entre as taxas

Recebido 24 de novembro de 2003; corrigido 3 de fevereiro de 2004; aceito 15 de março de 2004.


Endereço para correspondência: Daisy Franca, Rua Alice, 1150 Laranjeiras 22241-020 Rio de Janeiro RJ, E-mail: dlmfranca@aol.com

artigo 04 - Daizy.pmd 111 05/04/04, 18:35


112 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

de melhora calculadas com os dados da EVA e a taxas da avaliação com a EAN (r =


0,9358, P > 0,0001). Todos os indivíduos que estavam em período de competição ou
apresentação, e que tinham se afastado recentemente de suas atividades, retornaram
aos seus treinamentos, no máximo, após a terceira sessão: 53% retornaram após a
primeira sessão, 37% após a segunda e 11% após a terceira. Os resultados mostraram
que a Acupuntura Cinética foi eficiente na reabilitação desportiva para evitar as
conseqüências resultantes da suspensão do treinamento na vida do atleta durante
uma lesão.

Abstract
The aim of this paper is to evaluate the treatment of sport injuries by kinetic
Key-words: acupuncture. It is a systematic method that associate Acupuncture to kinesitherapy
hip dysplasia, cinesiotherapy, during the rehabilitation of the musculoskeletal system, promoting the kinetic
sensori-motor stimulation. modulators elements through the proprioception. This association is based on preparing
the injured structure to receive the physical therapist stimulation, considering that
acupuncture is able to inhibit the pain-spasm cycle, improving the physical values and
the performance of muscle spindles during the movements. So, acupuncture promotes
synergism with kinesitherapy to restore movements, and through its stimulation may
have a long acting by maintaining the insertion of needles or seeds in specific points
during the treatment time. In this study, we treated 28 cases of athletes from different
sport kinds (tennis, football, volleyball, gymnastics, triathlon, brazilian kick-boxing,
ballet and jiu-jitsu) with locomotory disorders (such as Achilles tendon tendonitis, low
back, dorsal pain, tenosinovitis, carpal tunnel syndrome, pronator syndrome, muscle
bruise, tennis elbow, knee pain with meniscus injury), being 13 men and 18 women,
with ages ranging from 11 to 40 years. All of them presented difficulties in doing
physical exercises, due to pain and performance disturbance. The treatment results
were evaluated by parameters: Visual Analogue Scale for pain score (0-10mm, 0
being no pain and 10 worse pain), Numeric Rating Scale (NRS) of clinical improvement
related to pain (CIRP) (0-100%, 0 being no improvement and 100% a total
improvement, and Number of Sessions (NS), which influence indirectly the athlete
general performance. The mean rate of pain intensity reduction calculated under
VAS’s data (from 9,3 ± 0,9 mm 1,5 ± 1,3 mm) was 84,0 ± 14,6% (χ2 = 4,8), and the
mean rate of CIRP of NRS was 86,1 ± 3,1% (χ2 = 2,8). The mean rate of the
number of accomplished sessions was 5,5 ± 3,1. In that way, the mean rate of pain
improvement of each session was of 15,6 ± 1,1%. There was an important correlation
between the improvement rates between VAS and NRS (r = 0,9358, P > 0,0001).
Every patient in period of competition or presentation, and who was inactivated
because of locomotory disorder, could return for their training after one, two or
three treatment sessions: 53% returned after the first session, 37% after second, and
11% after the third session. Through these data it is possible to observe that kinetic
acupuncture can play an important rule in sport rehabilitation related to the non-
training period of injured athlete.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

artigo 04 - Daizy.pmd 112 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 113

Introdução esforço. Tal tratamento visa à eliminação do quadro álgico


e da expansão da flogose, a prevenção da fibrose e a
O bom desempenho de um atleta requer higidez estimulação progressiva da propriocepção, bem como a
funcional dos seus vários sistemas orgânicos [1]. A melhora da coordenação motora; até a reintegração do atleta
sobrecarrega do sistema músculo-esquelético em resposta à no treinamento esportivo [2,9]. Contudo, vários autores
intensa atividade física, durante o treinamento, às [10,11] ressaltam a importância da reeducação proprio-ceptiva
competições ou apresentações, exige do corpo níveis de força neuromuscular na fase de remodelação (fase 3), através da
muscular, de amplitude articular e transferência de peso identificação sensório-receptora das características do
muito acima dos fisiológicos. Os movimentos corporais movimento, tais como a orientação, a localização espacial, a
realizados no esporte sofrem mudanças inesperadas e, velocidade e a atividade muscular [2], por meio dos exercícios
quando são associados a interrupções rápidas, bruscas e de de Cadeia Cinética Fechada (CCN) [10]. Este é um método
grande impacto, podem levar a perda de acomodação das de exercícios no qual o segmento terminal é fixo com
estruturas osteoarticulares e miotendinosas [2]. Assim, o considerável resistência externa, o que impede ou limita sua
aparelho locomotor quando submetido à sobrecarga, as suas movimentação. Visa o aprimoramento proprioceptivo e
valências físicas (Força, Endurance e Flexibilidade) [3] neuromuscular; assim como aumenta tolerância a cargas de
precisam se manter integras. Para que isso aconteça é alongamento, estabilidade dinâmica e postural.
necessário um bom preparo físico e constitucional capaz de Porém, uma parte dos pacientes evolui para estágios
evitar ou superar qualquer tipo de lesão que venha a ocorrer. subagudo e crônico da lesão com dificuldade de recuperação
Quando o atleta sofre uma lesão, seja por traumatismo e de retorno às suas atividades esportivas. Isto causa danos
local direto ou por sobrecarga repetitiva, o padrão à sua performance, pois, já se sabe que dentro de um período
neuromuscular se altera profundamente, assim como, as suas de 7 a 28 dias de inatividade pode atenuar as valências físicas
atividades proprioceptivas, que vão influenciar negati-vamente [2,12]. Powers e Howley utilizam o ditado “use-o ou perca-
todas essas valências físicas, reduzindo a performance geral o” [13], lembrando que cinco semanas de treinamento
do competidor, principalmente pela presença da dor, edema, ocasionam rápido ganho de mitocôndrias musculares e que
isquemias, tensão muscular, contratura muscular reflexa, etc. após uma semana sem treinamento, a perda pode chegar a
A presença do processo inflamatório gera a espoliação de 50% do que foi adquirido [14].
proteínas, que resulta em edema e estimulação dos fibroblastos, O tratamento do aparelho locomotor por acupuntura é
retenção de metabólitos de difícil eliminação pelo organismo, praticado desde a antiguidade no mundo oriental,
deflagrando uma sucessão de eventos que culminam com a especialmente quando se trata de processos inflamatórios
formação de fibrose no local, o encurtamento dos tecidos crônicos e resistentes às condutas convencionais [15,16,17].
envolvidos e, até, a incapacidade funcional [4]. No entanto, os trabalhos sobre o tratamento de acupuntura
A literatura médica mostra que, no mundo do esporte, no esporte são escassos.
as estruturas do aparelho locomotor mais freqüentemente O uso de acupuntura na Medicina Tradicional Chinesa
lesadas são os músculos e, em seguida, as articulações. As (MTC) para tratamento e reabilitação das lesões traumato-
lesões podem resultar de contusões, entorses, luxações, ortopédicas (LTO) e musculoesqueléticas (LME) foi muito
tendinites, fraturas e outros [5]. Podem ser, inicialmente, de comentado por Hua Tuo [15]. Para a MTC [16], a dor é causada
natureza mecânica, por mau condicionamento físico e por pela presença de estagnação de Qi e sangue no canal tendíneo-
treinamento excessivo com exercícios desgastantes, levando muscular síndrome Bi do membro inferior, que evolui
o sistema músculo-esquelético ao sofrimento constante gradualmente com formação de edema na região afetada. A
mediante solicitações de grande mobilidade osteoarticular. reabilitação na MTC tem como objetivo de circulação de Qi e
Posteriormente, surgem os efeitos de natureza química em sangue, regulando o yin e o yang, eliminando a dor, removendo
resposta à desidratação local, que causa insuficiência na a estase e relaxando o espasmo muscular [18,19].
drenagem dos músculos e tendões ocasionando uma nutrição Em recente estudo [20], demonstramos a eficiência da
celular incorreta e acúmulo de toxinas no organismo [4]. A Acupuntura Cinética (AC) na reabilitação de casos de LME,
dor é sem dúvida a manifestação sintomatológica mais e que a acupuntura é um excelente recurso pré-cinético na
importante destas lesões, sendo considerado o principal fator fisioterapia por apresentar quesitos favoráveis à inibição do
limitante e mais preocupante na reabilitação [6]. ciclo espasmo-dor. A aplicação de acupuntura potencializa a
O tratamento convencional [7,8] aplicado para lesões ação da cinesioterapia, levando a uma reabilitação mais eficaz.
não cirúrgicas é por meio medicamentoso (analgésico, A AC mostrou beneficiar, significantemente, os pacientes de
antiinflamatórios e corticosteróides) associado à fisioterapia, LME em relação à dor e ao ganho de abertura de arco articular,
que é normalmente dividido em 4 fases distintas: 1) A fase podendo, por isso, ser capaz de prevenir o processo fibrótico
aguda-inflamatória (até 72 horas após a lesão); 2) A fase de e melhorar a atividade motora desses pacientes.
reparação (de 72 horas até 2 a 6 semanas); 3) A fase de O objetivo do presente trabalho foi estudar a eficiência
remodelação (até 6 meses); e 4) A fase de readaptação ao da AC (AC) como tratamento de lesões traumato-ortopédicas

artigo 04 - Daizy.pmd 113 05/04/04, 18:35


114 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Tabela I - Resultados da avaliação por EVA e EAN e número de sessões de AC em função do tipo de atividade física e da classe de DME.
Ind. Atividades DMS EVA Pré EVA Pós EAN (%) Nº de Melhora/ Sessão
físicas sessões sessão(%) de retorno

1 Educação Cervicalgia 8 3 70 6 11,7 2


Física
2 Dorsalgia 8 3 70 3 23,3 0
3 Punho 8 1 90 4 22,5 0
4 Lombalgia 9 2 80 5 16,0 2
5 Lombalgia 8 2 80 4 20,0 1
6 Gonalgia 7 2 90 4 22,5 0
7 Futebol Lombalgia 10 2 80 13 6,1 FT
8 Tendinite Tendão de Aquiles 9 4 60 3 20,0 2
9 Dorsalgia 10 4 60 11 5,4 FT
10 Malaba- Lombalgia 8 0 100 4 25,0 0
rismo
11 Trauma na mão 10 0 100 5 20,0 0
12 Trauma da coxa 10 2 80 8 10,0 0
13 Tendinite Tendão de Aquiles 10 1 90 10 9,0 1
14 Balé Lombalgia 8 1 90 13 6,9 1
15 Lombalgia 9 2 100 6 16,7 1
16 Trauma em Calcâneo 9 3 70 3 23,3 2
17 Coxa Posterior 10 1 90 10 9,0 1
18 Ginástica Trauma no joelho 10 0 100 5 20,0 3
Olímpica
19 Tenosinovite do Punho 9 0 100 8 12,5 0
20 Tênis Contusão intercostal direito 10 0 100 2 50,0 2
21 Tendinite Tendão de Aquiles 10 0 100 5 20,0 3
22 Alpinismo Torção lig. medial do tornozelo 8 3 70 5 14,0 FT
23 Jiu Jitsu Trauma em cotovelo 10 0 100 3 33,3 1
24 Trauma em dedo 10 0 100 1 100,0 0
25 Trauma em coxa 10 0 100 5 20,0 1
26 joelho 10 2 80 5 16,0 2
27 Luta Livre Trauma de tornozelo 10 3 70 5 14,0 2
28 Trauma em Coxa 10 1 90 6 15,0 1
29 Torcicolo 10 1 90 1 90,0 1
30 Ombragia 9 0 100 4 25,0 1
31 Capoeira Gonalgia 10 3 70 4 17,5 0

Tabela II - Médias da intensidade e melhora da dor e do nº de sessões Material e método


de AC. Média D. Padrão
EVA da Intensidade da Dor (0-10mm) Este estudo clínico foi realizado no Ambulatório de
Pré-tratamento 9,3 mm ±0,9 Pesquisa em Acupuntura da ABACO, no período de 2000 a
Pós-tratamento 1,5 mm ±1,3 2003 e incluiu 31 indivíduos, sendo 17 mulheres e 13
EAN da Melhora Clínica em homens, na faixa etária de 11 a 40 anos. Os tempos de
relação à Dor (%) 86,10% ±3,1 evolução dos quadros variam de uma semana a três anos.
Nº de Sessões 5,5 ±3,1 Dentro dessa amostragem tivemos: 10 casos de dor em
região da coluna vertebral (cervicalgia, dorsalgia e lombalgia);
(LTO) e lesões músculo esqueléticas (LME) resultantes da 5 casos por trauma em região anterior e posterior de coxa;
prática de atividades desportivas. A AC é um método 3 casos de tendinite do tendão de Aquiles; 2 casos de trauma
sistemático que associa Acupuntura à Cinesioterapia durante no tornozelo; 4 casos de lesão no joelho; 1 caso de tendinite
a reabilitação do sistema músculo-esquelético. Os resultados no punho; 1 caso de trauma no dedo; 1 caso de trauma no
são discutidos sob o enfoque do alívio do quadro álgico e cotovelo; 1 caso de torcicolo; 1 caso de contusão de
potencialização do sistema proprioceptivo muscular favorecen- intercostais; 1 caso de trauma no calcâneo; 1 caso de lesão
do a volta mais rápida ao treinamento de sua atividade esportiva. na mão.

artigo 04 - Daizy.pmd 114 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 115

Figura 1 - (a) Taxas de indivíduos tratados que estavam fora de atividade Todos os pacientes foram previamente submetidos à
(inativos) e aqueles que estavam em período de competição ou apresentação, avaliação médica associada a laudos de Ortopedia,
discriminando os indivíduos que ainda se mantinham em treinamento, diagnosticados de acordo com a MTC, dando ênfase à pesquisa
apesar da lesão (em atividade), e os que haviam parado recentemente por de nódulos álgicos. A seguir, foram submetidos ao estudo
causa da dor e que retornaram após as três primeiras sessões. (b) Taxas de cinesiológico e, posteriormente, ao tratamento adequado ao
indivíduos que retomaram suas atividades esportivas após a primeira, quadro patológico, seguindo as três etapas da AC [20]:
segunda e terceira sessões de AC.
1ª etapa: O paciente era submetido à acupuntura
sistêmica de acordo com a MTC [16] e crâniopuntura -
YNSA[21]. Foram utilizadas agulhas de aço inoxidável, de
vários comprimentos (5mm a 30mm) e de calibres. Em casos
resistentes à conduta primária, aplicou-se eletroacupuntura
através de um eletroestimulador (*) de corrente alternada
assimétrica ajustado ao modo denso-disperso conforme
preconizada por Han [22] para tratamento de quadro álgico
severo; ventosa para contraturas; e moxibustão para
síndromes de deficiência [16];
2ª etapa: A cinesioterapia foi aplicada de acordo com
cada patologia em conjunto com os acupontos da
crâniopuntura, que eram mantidos estimulados e revisados
em relação ao Hibiki [21]. Em caso de presença de rigidez
articular ou contratura muscular segmentar persistente,
foram pesquisados nódulos álgicos, que foram tratados pela
manobra dinâmica de Jiao [23].
3ª etapa: Na auriculopuntura [24] foi preconizado o uso de
sementes de mostarda protegidas por micropore em acupontos
auriculares, de acordo com cada quadro sindrômico. A aplicação
era renovada de semana em semana, sendo os pacientes
orientados em relação higiene auricular.
Todos os pacientes foram submetidos à avaliação álgica
periódica durante o tratamento por meio dos dois métodos
subjetivos bem conhecidos: Escala Visual Analógica (EVA)
para a intensidade da dor (0-10mm, sendo 0 sem dor e 10 a
pior dor) e a Escala Avaliação Numérica (EAN) para
a melhora clínica em relação à dor (MCRD) (0-100%,
Figura 2 - Freqüências relativas dos indivíduos tratados pela AC em função da taxa de sendo 0 sem melhora e 100% a melhora total) [25].
melhora da dor e o número de sessões de AC.
Resultados

Neste estudo, o parâmetro de avaliação mais


importante foi o quadro álgico, do qual dependem
a amplitude, a marcha e a performance, principal-
mente em quadros agudos [26,27].
A Tabela I discrimina os resultados obtidos pela
avaliação com a EVA em função dos tipos de
atividade física e das classes de DME. Essa tabela
mostra as taxas de melhora e o número total de sessões
de AC realizadas para cada caso tratado, bem como
o número de sessões que possibilitou o retorno do
indivíduo às suas atividades de treinamento.
A Tabela II apresenta as médias de todos os
casos e os respectivos desvios padrões dos valores

(*) DS-100C (Sikuro- Sistema e Equipamentos Eletrônicos Ltda.).

artigo 04 - Daizy.pmd 115 05/04/04, 18:35


116 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Figura 3 - Freqüências relativas dos indivíduos tratados pela AC em função da taxa de A figura 3 permite a comparação dos
melhora da dor e da modalidade esportiva: alpinismo (Alp), balé, capoeira (Cap), educação física resultados obtidos em função da modalidade
(EF), futebol (Fu), ginástica olímpica (GO), jiu jitsu (JJ), luta livre (LL), malabarismo (Mb) esportiva dos indivíduos tratados pela AC.
e tênis (Te).
Discussão

À medida que o mundo desportivo se


estende, altos níveis de exigência e de performance
são solicitados aos atletas. As lesões do aparelho
locomotor (LAL) no esporte são inevitáveis.
Assim, a conduta adotada para a sua
recuperação tem que ser rápida e eficiente, já
que o tempo de afastamento do treinamento
para recuperação de injúrias é um fator
determinante na perda de performance geral em
desportistas bem preparados. O quadro se
torna mais alarmante após quatro semanas de
repouso, pois a abstinência prolongada ao treino
leva à perda gradativa das adaptações neurais
e hormonais. Todavia, a acupuntura pode
minimizar tais efeitos durante a reabilitação, pois
é um tratamento que estimula o aumento do
aporte sangüíneo no local da lesão, o que
melhora a oxigenação dos tecidos e favorece a
produção de ATP [28]. Além disso, a
oriundos da avaliação do nível de dor segundo a EVA e a Acupuntura é um excelente método analgésico muito eficiente
EAN, antes e depois do tratamento sistemático de AC. Nesta por apresentar três mecanismos de ação fundamentais: (1)
tabela pode ser observado que a média da intensidade de bloqueio aferente segmentar; (2) bloqueio descendente supra-
dor caiu de 9,3 ± 0,9 mm para 1,5 ± 1,3 mm na EVA, espinal, mediante as vias piramidais, e (3) ativação de processos
tendo sido a taxa média de MCRD avaliada pela EAN de analgésicos endógenos (liberação encefalinas e endorfinas).
86,1 ± 3,1%. A média do número de sessões realizadas foi Dessa forma, a acupuntura leva à redução do uso
5,5 ± 3,1. Dessa forma, a taxa média de melhora por sessão indiscriminado de drogas antiinflamatórias e analgésicas, que
foi de 15,6 ± 1,1%. Houve importante correlação entre as podem interferir na performance do atleta e trazer danos
taxas de melhora calculadas com os dados da EVA e a taxas importantes à saúde, pelos seus efeitos colaterais [28,29].
da avaliação com a EAN (r = 0,9358, P > 0,0001). A taxa Assim, a acupuntura pode proporcionar ao atleta uma
média de melhora calculada com os dados da EVA (de 9,3 alternativa no tratamento de LAL [17,30].
± 0,9 mm para 1,5 ± 1,3 mm) foi de 84,0 ± 14,6%. Os aumentos do aporte sanguíneo, de oxigenação tissular,
As figuras 1 permitem a avaliação da eficiência da AC da atividade fagocitária e da liberação de substâncias
como suporte terapêutico para casos de atleta com LME e vasoativas são outros exemplos de respostas fisiológicas que
que não podem se afastar das suas atividades físicas. A figura são estimuladas pela acupuntura; e que favorecem a
1a mostra que dos 31 indivíduos tratados, apenas 9,7% recuperação do sistema músculo esquelético. O posicio-
estavam inativos e 29% não chegaram a parar suas atividades namento anatômico de pontos de acupuntura próximos aos
em função da dor, mas estavam em situação de sofrimento, vasos linfáticos facilita as trocas metabólicas [28].
e que 32% retornou aos seus treinamentos após a primeira A AC é uma conduta que tem como vantagem a aplicação
sessão do tratamento. Todos os indivíduos que estavam em sincronizada de dois procedimentos terapêuticos em uma só
período de competição ou apresentação, e que tinham se sessão, sendo dividida em três fases respeitando o momento
afastado recentemente de suas atividades, retornaram aos cinético do paciente. A inserção das agulhas é feita em pontos
seus treinamentos, no máximo, após a terceira sessão: 53% sistêmicos, microssistêmicos e locomotores (sejam eles loco-
retornaram após a primeira sessão, 37% após a segunda e regionais, segmentares, à distância, ou somatotópicos) [20].
11% após a terceira, como confirmado pela figura 1b. Durante a primeira fase da AC, a pré-cinética, o sistema
A figura 2 apresenta a relação entre as freqüências músculo-esquelético é preparado pela acupuntura para as
relativas dos resultados terapêuticos, de acordo com o nível fases seguintes, pois melhora o quadro álgico e promove
de melhora da dor em valor percentual e o número de miorrelaxamento. Na fase pré-cinética, cada paciente é
sessões de AC. reavaliado de acordo com o seu quadro clinico que,

artigo 04 - Daizy.pmd 116 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 117

geralmente, inclui dificuldade de movimentação da região de melhora de 70% foi mais freqüente entre a terceira e
lesionada, devido à presença de contratura ou nódulos sexta sessões dos tratamentos.
musculares dos antagonistas correspondentes. Esses resultados já eram esperados por nós, pois
No presente estudo, os 31 indivíduos que foram recentemente [20] demonstramos a eficiência da AC na
tratados por AC eram praticantes de atividades desportivas reabilitação de casos de LME. Segundo Silbernagl e
ou artísticas de expressão corporal e freqüentemente Despopoulos [30] o sistema músculo-esquelético é sensível
participavam de competições ou apresentações que aos efeitos da acupuntura mediante a ativação dos
requerem treinamento físico contínuo. Apenas 9,7% desses proprioceptores que deflagram reflexos de alongamento.
31 indivíduos estavam inativos (figura 1a) e 29% não Logo após a inserção da agulha, além do processo
haviam parado suas atividades, apesar da dor, porque inflamatório por microtrauma, ocorre estímulo elástico sobre
estavam em pleno período de competição ou apresentação. os fusos. Um estímulo muito intenso pode gerar potenciais
O tratamento por AC mostrou ser muito eficaz neste de ação nas fibras nervosas aferentes dos fusos musculares
último grupo, pois com o tratamento eles não precisaram (fibras Ia) e órgãos tendíneos (fibras Ib). Devido ao auto-
suspender suas atividades. Nestes casos houve relatos de reflexo, tais potenciais mudam a tensão do músculo, mediante
melhora total de dor e da performance já na primeira sessão, efeito inibidor simultâneo sobre os antagonistas relacionados.
com o restabelecimento da capacidade funcional plena para Como esses receptores se localizam na profundidade dos
a competição. acupontos, estando interligados aos mesmos, eles reagem a
A eficiência do tratamento foi especialmente notável nos alterações de tensão e de comprimento muscular, que
61% dos indivíduos que estavam em período de competição ocasionam respostas neuromotoras evocadas da periferia
ou apresentações e que tinham parado recentemente o através do alfa-motoneurônio. Em adição, devido à
treinamento por causa da dor. Todos eles puderam se influência das fibras do gama-motoneurônio na tensão das
reintegrar às suas equipes de trabalho, no máximo, após a fibras musculares intrafusais nas vias eferentes, os
terceira sessão de AC. Dentre esses (χ2 = 2,3 P < 0,0001), propriocepetores ativam o mecanismo de contração
foi significante a taxa de indivíduos (90%) que retomou muscular, que induz a um reflexo de relaxamento, ou seja,
seus treinamentos com uma e duas sessões (figura 1b). alongamento da musculatura contraída e indução reflexa
Esses resultados mostram a eficiência da AC na para finalização da resposta reflexa. Através deste
reabilitação desportiva para evitar as conseqüências, muitas mecanismo, o estímulo acupuntural leva a finalização do
vezes dramáticas para sua vida de atleta, resultantes da impulso nos alfa-motoneurônio, através da recuperação do
suspensão do treinamento, durante um período de potencial de membrana, que promove miorrelaxamento e
recuperação de um quadro de LME ou LTO. redução de taxas de impulsos. Esse mecanismo protege o
O nível de melhora dos pacientes foi avaliado pelos músculo de uma sobrecarga [30].
métodos que usam a EVA e a EAN. Essas duas escalas Na prática da AC em lesões esportivas, podemos observar
forneceram resultados com forte correlação entre si (r = que esta se assemelha a uma associação entre os métodos
0,9358 (P > 0,0001). Foram estatisticamente significantes de Reeducação Proprioceptiva Neuromuscular (RPN)
(tabela 2) as médias das taxas de MCRD avaliada pela EAN [10,31] e de Cadeia Cinética Fechada [10,32]. A RPN
(86,1 ± 3,1%, χ2 = 2,8) e calculada com os dados resultantes consiste em um método de treinamento que tem por objetivo
da aplicação da EVA (84,0 ± 14,6 %, χ2 = 4,8) em relação elevar as respostas motoras inconscientes pela estimulação
à redução da intensidade da dor. A taxa média de MCRD dos sinais aferentes e mecanismos centrais responsáveis pelo
por sessão foi de 15,6 ± 1,1%, de acordo EAN, tendo sido controle articular dinâmico [10]. Um efeito que pudemos
5,5 ± 3,1 a média do número de sessões realizadas. notar ao realizar a manobra dinâmica de Jiao [23] no trigger
Como mencionado na introdução, a reabilitação de um point na região acometida, é que a acupuntura age sobre os
atleta pode ser resumida em 4 fases, sendo as duas últimas proprioceptores, diminuindo a consistência dos nódulos
de grande importância para a prevenção de recidivas e novas musculares e promovendo o miorrelaxamento geral, bem
lesões. Através deste estudo, observamos que a AC pode como alivia o quadro álgico. Tudo isto resulta em ganho da
sintetizar essas quatro fases em um período curto de mobilidade e potencialização da RPN.
tratamento, em relação às condutas convencionais. Com uma O grupo de atletas que apresentou a maior freqüência
média de cinco sessões de AC (figura 3) a maioria dos casos relativa de casos de resolução clínica da dor (figura 3) foi o de
agudos tratados alcançou a resolução clínica da dor. É lutadores de jiu jitsu (freqüência relativa FR = 3/4, melhora/
importante notar na figura 3, que houve caso de resolução sessão = 33,3%). A resolução clínica também foi alcançada no
clínica na primeira sessão do tratamento, mostrando a tratamento dos dois atletas de tênis e dos dois de ginástica
possibilidade de se alcançar, em uma única sessão, os olímpica, tendo sido necessárias em média, respectivamente,
objetivos desejados para as duas últimas fases da reabilitação 3,5 e 7,5 sessões para tal resultado. Taxas de melhora abaixo de
de atletas, a remodelação completa das estruturas em termos 70% foram observadas apenas em dois casos entre os jogadores
de força e elasticidade e a readaptação ao esforço. O nível de futebol (FR = 2/3) com 3 e 11 sessões (Tabela I).

artigo 04 - Daizy.pmd 117 05/04/04, 18:35


118 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

A melhor taxa de melhora por sessão do tratamento in soccer. J Orthop Sport Phys Ther 2001;31(11); 655-60.
também foi observada dentre os lutadores de jiu jitsu (Tabela 10. Hall CM, Brody LT. Therapeutic exercise: moving towards
I), onde tivemos um caso de resolução clínica de trauma de function. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 1999.
11. Risberg MA, Mork M, Jenssen HK, Holm I. Design and
dedo com apenas uma sessão (100% de melhora/sessão). implementation of a neuromuscular training program
Em um caso de torcicolo entre os lutadores de luta livre following anterior cruciate ligament reconstruction. J Orthop
com 90% de melhora/sessão e um caso de contratura Sport Phys Ther 2001;31(11):620-31.
intercostal unilateral em um jogador de tênis com 50% de 12. Ciullo JV, Zarin J. Biomechanics of the musculo-tendineous
melhora/sessão. Foram observados dois casos de 25% de unit; relation to athletic performance and injury. Clinics in
melhora /sessão, um de ombralgia em lutador de luta livre Sports Medicine 1986;2(1):71-86.
e o outro de lombalgia em um malabarista, os demais 13. Powers SC, Howley ET. Exercice physiology: Fitness and
Performance. McGraw Hill; 1997.
apresentaram taxas de melhora/sessão abaixo de 24%. 14. Mujika I, Padill S. Muscular characteristics of detraining in
Sob o ponto de vista fisioterapêutico, a acupuntura humans. Med Sci Sports Exerc 2001;33(8):1297-303.
mostrou ser excelente método coadjuvante na realização dos 15. Ding JH. A Note on the theories and the applications of traditional
exercícios cinesioterápicos. Particularmente no alongamento chinese medicine in orthopedics. In: Feng CH, Chen BX,
estático, em que o segmento osteomuscular é levado ao LeCompte G, eds. China’s New Achievements in Orthopedics
máximo permitido pela flexibilidade do atleta, foi observado Surgery. 1a ed. Beijing: New World Press; 1993. p.157-9.
ganho precoce de amplitude de arco articular. Também foi 16. Cheng XN. Chinese acupuncture and moxibustion. 1a ed.
Beijing: Foreign Languages Press; 1987.
observada melhora no realinhamento articular e no 17. Lohya PB. Role of acupuncture in locomotor disorders in:
fortalecimento muscular por efeito dos exercícios que resgatam compilation of the abstracts of acupuncture and moxibustion
movimentos específicos da atividade esportiva do indivíduo. papers – The First World Conference on Acupuncture-
Tais exercícios visam o ganho ou manutenção da flexibilidade, Moxibustion. Beijing, China, Nov. 22-26 de nov de 1987. p. 62-3.
da força muscular e trofismo muscular, bem como ativam os 18. Sun C. Chinese massage therapy. Shandong Science and
proprioceptores para manutenção da postura e estabilidade Technology Press; 1990.
articular apropriadas à modalidade esportiva. 19. Zhang EQ. Health preservation and rehabilitation. Shanghai:
Shanghai College of Traditional Chinese Medicine;1990.
20. Senna-Fernandes V, França D, Cortez C, Silva D. Kinetic
Conclusão acupuncture: systemic therapy of face neuromucscular and
locomotor system by acupuncture associated to kinesiotherapy.
Nossos resultados mostram que a AC ou Cine- Fisioter Bras 2003;4(3):185-94.
sioacupuntura, que é um método sistemático que une dois 21. Yamamoto T. Yamamoto New Scalp Acupuncture – YNSA.
procedimentos sinérgicos, potencializa o processo de Tokyo: Axel Springer Japan; 1998.
reabilitação do aparelho locomotor. Também verificamos que 22. Han JS. What is the best parameters of electroacupuncture
(ea) stimulation for the treatment of pain and drug addiction.
a ação da acupuntura intercede direta ou indiretamente nas Beijing: Neuroscience Research Institute, Beijing Medical
valências físicas em relação ao sistema músculo esquelético, University Beijing, China. Abstracts of ICMART ’98
favorecendo à performance do indivíduo na atividade desportiva, International Medical Acupuncture Congress.
quando associada ao trabalho cinesioterápico. Com isso o atleta 23. Jiao S. Scalp acupuncture and clinical cases. Beijing: Foreign
ganha uma recuperação mais acelerada, sem ficar muito tempo Languages Press; 1997.
fora de suas atividades de treinamento físico. 24. Nogier PMF. Treaty of auriculotherapy. Moulins-les-Metz :
Maisonneuve ; 1972.
25. White A. Measuring pain. Acupunct Med 1998;16(2).
Referências 26. Brown D, Rothery P. Models in Biology, Mathematics,
1. Gould JA. Orthopedic and sport physical therapy. 2ª ed. Statistics and Computing. Chichester: John Wiley; 1993.
Mosby; 1993. 27. Spiegel MR, Theory and problems of statistics. São Paulo:
2. Fox EL, Bowrs RW, Foss ML. Physiological bases of physical McGraw Hill; 1985.
education and athletics. 4a ed. Philadelphia: WB Saunders;1988. 28. Draehmpaehl D, Zohmiann A. Akupunktur bei Hund und
3. Bowers RW, Fox EL. Sports physiology. 3a ed. Dubuque, IA: Katze-Wissenschaftliche Grundlagen und Praxis. Enke
WC Brown;1988. Ferdinand; 1998.
4. Cailliet R. Shoulder pain. FA Davis Company; 1991. 29. Pomeranz B. Acupuncture analgesia - Basic research. In: Stux
5. Peterson L, Renstrom P. Sport injuries: Their prevention and G, Hammerschlag R, eds. Clinical acupuncture – Scientific basis,
treatment. Martin Dunitz; 1986. Berlin/New York: Spring-Verlag; 2001. p.1-21.
6. Cailliet R Soft tissue pain and disability. FA Davis Company; 30. Silbernagl S, Despopoulos A. Color atlas of physiology. 4a
1995. ed. Stuttgart-New York: Thieme Medical; 1991.
7. Kjaer M. The treatment of overuse injuries in sports. Scand J 31. Fremerey RW. Proprioception after rehabilitation and
Med Sci Sports 2001;11(4):195-6. recosntruction in knees with deficiency of the anterior cruciate
8. Magee DS. Orthopedic physical assessment. WD Saunders; 2000. ligament. J Bone Joint Surg 2000;82(6).
9. Gerulli G, Benoit D, Caraffa A, Ponteggia F. Proprioceptive 32. Steindler A. Kinesiology of the human body under normal and
training and prevention of anterior cruciate ligament injuries pathological conditions. Springfield IL: Charles C Thomas; 1955. C

artigo 04 - Daizy.pmd 118 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 119

Artigo original

Efeito do alongamento estático após diatermia de ondas


curtas versus alongamento estático nos músculos
isquiotibiais em mulheres sedentárias
Effect of static stretch after short-wave diathermy versus static
stretch on ischiotibial muscles in sedentary women

Carlos Eduardo Pinfildi*, Rodrigo Paschoal Prado*, Richard Eloin Liebano, M.Sc.**

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Professor Assistente em Fisioterapia Geral II do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva – IMES –
FAFICA, **Fisioterapeuta, Docente da UNICID em Fisioterapia Geral II e Docente do Instituto Municipal de Ensino Superior de
Catanduva – IMES – FAFICA

Resumo
O sedentarismo é uma das principais causas que leva a uma diminuição da flexibilidade
Palavras-chave: muscular, causando algumas vezes alterações posturais. O alongamento é uma das
músculos isquiotibiais, técnicas mais utilizadas na fisioterapia para aumentar a flexibilidade muscular. O objetivo
diatermia de ondas curtas,
desse estudo foi analisar o efeito da diatermia de ondas curtas na flexibilidade dos
alongamento estático,
flexibilidade. músculos isquiotibiais em mulheres sedentárias. Trinta mulheres sedentárias com limitação
da flexibilidade dos músculos isquiotibiais foram selecionadas através de 2 testes de
flexibilidade e distribuídas ao acaso em 3 grupos (10 mulheres em cada grupo). Foi
utilizado um sistema de polias com 7 kg para realização do alongamento. Grupo 1
(controle) não realizou nenhum tratamento, Grupo 2 – realizou alongamento estático
por 3 minutos somente e o Grupo 3 realizou alongamento estático por 3 minutos após
20 minutos de diatermia de ondas curtas. Os grupos 2 e 3 realizaram o tratamento 3
vezes por semana durante um mês. Três dias após o término do estudo, as voluntárias
foram avaliadas através de 2 testes de flexibilidade dos músculos isquiotibiais com o
goniômetro. Os testes ANOVA e Tukey mostraram que as diferenças entre os grupos
foram estatisticamente significativas (p < 0,005) para ambos os testes. Os resultados
desse estudo mostraram que o uso de diatermia de ondas curtas antes do alongamento
estático pode ser mais efetivo para o aumento da flexibilidade muscular do que os
procedimentos utilizados nos grupos 2 e 1.

Recebido 15 de dezembro de 2003; aceito 15 de março de 2004.


Endereços para correspondências: Carlos Eduardo Pinfildi, rua Aracajú, 1352, Vila Santo Antônio 15801-250 Catanduva SP, Tel: (17) 3524-8203 /
9717-7712, E-mail: cepinfildi@hotmail.com, Rodrigo Paschoal Prado, rua Rio grande do sul, 801, Higienópolis, 15804-040 Catanduva SP, Tel: (17) 3522-3983 /
9717-5734, E-mail: paschoalrp@hotmail.com.

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 119 05/04/04, 18:35


120 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Abstract
The sedentarism is one of the main causes that lead people to a decrease of muscular
Key-words : flexibility, causing sometimes posture damage. The stretch is one of the most used
ischiotibial muscles, short-wave techniques in physical therapy to increase muscular flexibility. The aim of this study
diathermy, static stretching, was to analyse the short-wave diathermy effect in the ischiotibial muscles in sedentary
flexibility.
women. Thirty sedentary women with limited flexibility ischiotibial muscles were selected
through 2 ischiotibial muscles flexibility tests and randomly divided in 3 groups (10
women each group). It was used a pulley system with 7 kg (15,4 lb) in one of the sides
to stretch. Group 1 (control) realized no treatment, group 2 realized static stretch for 3
minutes only and group 3 realized static stretch after 20 minutes of short-wave diathermy
for 3 minutes. The groups 2 and 3 realized the treatment 3 times a week for one
month. Three days after the study ended, the women were evaluated through 2 ischiotibial
muscles flexibility tests with goniometer. The Anova and Tukey tests showed that the
differences among the groups were statistically significant (P < 0,005) for both tests.
The results of this study showed that the use of short-wave diathermy prior to static
stretch group 3, may be more effective for increasing ischiotibial muscles flexibility
than the procedure used in the groups 2 and 1.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução havendo diferença entre os alongamentos de 30 e 60


segundos. Para obter um aumento ou manter a flexibilidade,
O alongamento é uma das técnicas mais utilizada na um indivíduo sedentário deve-se alongar por pelo menos
fisioterapia para se obter um aumento da amplitude de uma vez ao dia, 3 ou 5 dias por semana e mantê-lo alongado
movimento (ADM) por meio do aumento da flexibilidade por maior tempo possível [9,4,14].
muscular. Também atua na diminuição do tônus, Segundo Souchard [15] quando se alonga um músculo
encurtamento e espasmo muscular, além de ser utilizado aquecido, este se torna mais flexível facilitando o
para preparar a musculatura antes dos exercícios físicos, alongamento, porém retorna ao seu comprimento normal
evitando assim, lesões musculares [1-5]. após resfriado. Um músculo não aquecido quando alongado,
Para a escolha adequada de um alongamento, é necessário obtém um aumento no seu comprimento, mantendo assim
verificar o objetivo e a capacidade de cada indivíduo. Os esse novo comprimento.
tipos mais utilizados são: alongamentos ativo, passivo, balístico, Recentemente vários autores observaram que o tecido
facilitação neuromuscular proprioceptiva e estática [6,7]. O conectivo quando aquecido antes do alongamento, aumenta
alongamento estático é o mais utilizado para se obter aumento a extensibilidade do tecido encurtado, tornando-o mais
da flexibilidade e relaxamento muscular [8]. confortável [12,14,16,17]. Quando a temperatura muscular
Atualmente não há um consenso sobre a duração e aumenta, o tecido conectivo cede mais facilmente,
freqüência do alongamento, quando se refere ao aumento diminuindo a força e o tempo de alongamento [8,18].
da flexibilidade muscular [9,10]. O alongamento não se torna Wessling, DeVane, Hylton [8] utilizaram em seu estudo
eficaz quando utilizado por menos de 6 segundos, mas é o alongamento estático e ultra-som combinado no músculo
eficiente quando utilizado de 15 a 30 segundos com um tríceps sural, comparando com o alongamento estático
número maior de repetições [11-13]. somente. Knight et al. [12] utilizaram como fonte de calor o
Madding et al. [13] concluíram em um estudo que o ultra-som contínuo, exercícios de aquecimento ativo e calor
alongamento por 15 segundos é tão eficaz quanto o de 2 superficial. Ambos os estudos mostraram que o alongamento
minutos, enquanto outros autores como Bandy, Iron e estático combinado com o ultra-som contínuo apresentou
Briggler [10] concluíram em sua pesquisa que o alongamento melhores resultados do que os outros métodos
por 30 e 60 segundos é mais eficaz do que o alongamento Devido aos resultados positivos das pesquisas que
por 15 segundos para o aumento da flexibilidade, não utilizaram aquecimento antes do alongamento [8,12,14,17],

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 120 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 121

foi escolhido a diatermia de ondas curtas contínuo como e assinaram um termo de consentimento, declarando que
meio de calor profundo por ter uma ampla utilização no elas não estavam participando de nenhum programa de
meio clínico e pela falta de pesquisas com este equipamento alongamento, e também que concordavam em participar
[19,20]. do estudo. Os critérios de exclusão para o estudo foram
Dessa forma este estudo foi realizado com o propósito gravidez, patologias vasculares, desordens neuromuscular,
de determinar o efeito do alongamento estático após diatermia lesões em quadril, joelho e tornozelo e doenças malignas.
de ondas curtas versus alongamento estático na flexibilidade Para participar do estudo, as voluntárias tinham que
dos músculos isquiotibiais em mulheres sedentárias. exibir mais de 20º de perda de ADM em ambos os testes
utilizados no estudo para verificar a flexibilidade dos
Material e Método músculos isquiotibiais.

Para a realização dessa pesquisa foi utilizado um Procedimento


equipamento de ondas-curtas modelo Diatermax 350p da
marca KLD Biossistemas Equipamentos Eletrônicos Ltda, As voluntárias foram selecionadas com dois testes de
com 350 W de pico de potência, tipo contínuo e pulsado flexibilidade dos músculos isquiotibiais.
com repetição de pulso de 30 a 400 Hz, oscilação da No Teste 1 (T1), a voluntária permanecia deitada em
freqüência de 27,12 Mhz e comprimento de onda de 11,06 decúbito dorsal com os membros inferiores estendidos, mas
metros. Foram utilizados também dois eletrodos capacitivos o joelho direito e o quadril fixados com faixas elásticas. O
flexíveis de borracha. pesquisador sempre marcava o trocânter maior do fêmur
As voluntárias foram mensuradas com goniômetro com uma caneta permanente onde era posicionado o eixo
universal para avaliar a ADM no início e no término da do goniômetro. O mesmo pesquisador posicionava o
pesquisa. O alongamento estático foi realizado por um goniômetro no ponto marcado, com o braço estacionário
sistema com duas polias e uma corda. Uma das do goniômetro na linha axilar média do tronco e o braço
extremidades foi fixada ao tornozelo esquerdo da móvel posicionado paralelamente a superfície lateral da coxa
voluntária, enquanto a outra extremidade era fixada a um usando como referência o côndilo lateral do fêmur. O
peso com 7 kilogramas. Antes do início do estudo, foi pesquisador pedia para a voluntária realizar a flexão ativa
realizado um estudo piloto para determinar o peso utilizado do quadril esquerdo (arbitrariamente escolhido) com o joelho
no alongamento. estendido, definindo como ponto de mensuração quando a
As voluntárias eram fixadas ao divã em decúbito dorsal voluntária sentisse um leve desconforto ou um retesamento
com faixas elásticas. Uma das faixas era fixada no joelho nos músculos isquiotibiais.
direito da voluntária e a outra no quadril, para obter um Neste momento era mensurada a ADM com o
melhor posicionamento para o alongamento (Fig. 1). goniômetro usando o método descrito por Norkin, White
[21]. A posição zero era considerada como posição neutra
Figura 1 – Sistema de polias. do quadril e a posição total era considerada como 90º de
flexão do quadril (Fig. 2).

Figura 2 – Teste (T1) de flexibilidade dos músculos isquiotibiais.

Fonte:Dados do Autor

Trinta mulheres sedentárias entre 18 e 25 anos do


Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva –
IMES – FAFICA foram selecionadas. As voluntárias leram Fonte: Dados do Autor

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 121 05/04/04, 18:35


122 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

No Teste 2 (T2) o pesquisador sempre marcava o aquecidos até elas referirem um calor confortável [19].
trocânter maior do fêmur, o côndilo lateral do fêmur e Foi utilizada a técnica coplanar, onde foi colocado um
maléolo lateral da tíbia. Cada voluntária era posicionada em eletrodo na origem proximal dos músculos isquiotibiais,
decúbito dorsal, com o quadril esquerdo e joelhos flexionados sob a tuberosidade isquiática e o outro eletrodo na origem
à 90º por mensuração goniométrica. O quadril e o joelho distal, sob a junção músculo-tendinosa do joelho esquerdo.
direito eram fixados com duas faixas elásticas. Após aquecido, a voluntária era alongada no sistema de
O mesmo pesquisador do T1 posicionava o quadril polias (Fig. 4).
esquerdo e o joelho flexionados a 90º. O segundo pesquisador Três dias após o término do estudo, as voluntárias foram
posicionava o eixo do goniômetro no joelho esquerdo sobre avaliadas com o T1 e T2. Os pesquisadores que realizaram
o côndilo lateral do fêmur, com o braço estacionário do essa avaliação foram os mesmo que realizaram a primeira
goniômetro na face lateral do fêmur, usando como referência avaliação, e eles não sabiam a qual grupo a voluntária pertencia.
o trocânter maior do fêmur e o braço móvel do goniômetro
era posicionado na face lateral da fíbula usando como Figura 4 – Técnica Coplanar.
referência o maléolo lateral. O pesquisador pedia para
voluntária fazer a extensão ativa do joelho esquerdo, definindo
como ponto de mensuração quando a voluntária sentisse
um leve desconforto ou um retesamento nos músculos
isquiotibiais [21]. A posição neutra era considerada como
90º de flexão do joelho e a extensão total do joelho era
considerada como zero grau (Fig. 3).

Figura 3 – Teste (T2) de flexibilidade dos músculos isquiotibiais.

Fonte: Dados do Autor

Resultados

Nesta pesquisa foi comparado qual protocolo de


tratamento foi mais eficiente. Entretanto, foi utilizado 2 testes
de flexibilidade dos músculos isquiotibiais, para avaliar o
valor da ADM entre o início e o término da pesquisa para
cada grupo. Para a análise estatística dos resultados foi
Fonte: Dados do Autor.
realizado o teste ANOVA (Análise de Variância) para verificar
Após selecionadas, as 30 voluntárias foram randomizadas
Tabela I - Valores em graus do pré-teste e pós-teste do Teste 1.
em 3 grupos com 10 em cada grupo.
O Grupo 1 (G1) não realizou protocolo de tratamento Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3
e serviu como grupo controle. Grupos pré- pós- pré- pós- pré- pós-
Voluntárias teste teste teste teste teste teste
O Grupo 2 (G2) realizou alongamento estático somente
por 3 minutos, 3 vezes por semana durante um mês. O 01 50º 55º 35º 47º 42º 72º
02 53º 50º 37º 55º 38º 75º
alongamento estático foi realizado da mesma maneira do
03 50º 50º 40º 50º 45º 70º
grupo 3. 04 68º 50º 48º 75º 41º 60º
O Grupo 3 (G3) recebeu diatermia de ondas curtas 05 38º 40º 30º 59º 50º 70º
contínuo por 20 minutos antes de realizar o alongamento 06 42º 42º 48º 61º 42º 68º
estático. O alongamento estático foi realizado por 3 07 50º 48º 37º 47º 51º 75º
minutos, 3 vezes por semana durante um mês. As 08 53º 51º 32º 43º 55º 77º
voluntárias eram secadas com uma toalha para remover o 09 63º 60º 56º 68º 39º 65º
10 46º 46º 50º 61º 47º 72º
suor. Logo após, a voluntária deitava sobre o divã na posição
de decúbito dorsal e seus músculos isquiotibiais eram Fonte: Dados do Autor.

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 122 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 123

o efeito do tratamento e o Teste de Comparação Múltipla Discussão


de Tukey dois a dois para verificar a diferença entre os
tratamentos. O calor e o alongamento são freqüentemente utilizados
Os testes ANOVA e Tukey mostraram que as diferenças clinicamente para aumentar a flexibilidade e restaurar perdas
entre os grupos foram estatisticamente significantes (p < de ADM [8,10,11,22]. O calor vigoroso (maior que 4º acima
0,005) para ambos os testes. da temperatura corpórea) aumenta a extensibilidade do
As Tabelas I e II mostram os valores em graus da ADM tecido colágeno e diminui a viscosidade dos tecidos e tendões
do Teste 1 e Teste 2, respectivamente, de cada voluntária, [16,20]. A diatermia de ondas curtas pode produzir um calor
onde eram avaliadas no início e no término do estudo, vigoroso em grandes áreas, levando a um relaxamento
chamados de pré-teste e pós-teste. muscular, diminuição do espasmo muscular e diminuição
Os gráficos I e II ilustram as médias aritméticas obtidas do encurtamento muscular [23,24].
dos valores entre o pré-teste e o pós-teste. Alguns autores utilizaram o ultra-som, exercícios de
aquecimento e calor superficial combinado com o
Tabela II - Valores em graus do pré-teste e pós-teste do Teste 2.
alongamento estático nos músculos isquiotibiais, contudo o
Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3 alongamento combinado com o ultra-som mostrou melhor
Grupos pré- pós- pré- pós- pré- pós- resultado do que os outros métodos [8,12,14].
Voluntárias teste teste teste teste teste teste
Este estudo é uma das primeiras documentações sobre
01 38º 40º 43º 53º 38º 54º o efeito do alongamento estático após diatermia de ondas
02 43º 42º 32º 40º 43º 60º
curtas versus alongamento estático na flexibilidade dos
03 34º 32º 30º 44º 48º 62º
04 58º 58º 48º 60º 35º 61º músculos isquiotibiais em mulheres sedentárias. Sendo que
05 40º 38º 40º 48º 44º 70º este foi designado para obter um melhor entendimento de
06 35º 35º 35º 45º 45º 70º protocolos de alongamento para aumentar a ADM e como
07 32º 34º 32º 40º 32º 55º o uso da diatermia de ondas curtas pode afetar este protocolo
08 35º 37º 30º 40º 32º 60º na prática clínica [19,20].
09 42º 42º 45º 60º 30º 44º
Os músculos isquiotibiais foram escolhidos, porque eles
10 35º 42º 30º 40º 25º 50º
são um dos principais músculos que sofrem encurtamento
Fonte: Dados do Autor. com o sedentarismo [2,4,11]. A diatermia de ondas-curtas é
Gráfico I – Médias aritméticas do T1. usada para aquecer estruturas profundas, sendo utilizada
nesse estudo para aquecer os músculos isquiotibiais por
inteiro, melhorando a efetividade dos fusos musculares [20].
Atualmente não há um consenso sobre duração e
freqüência de alongamento quando se refere ao aumento
da flexibilidade muscular, contudo foi utilizado 3 minutos,
uma vez ao dia e 3 dias por semana durante um mês,
porque para obter um aumento ou manter a flexibilidade,
a mulher sedentária deve alongar pelo menos uma vez ao
dia, 3 ou 5 dias por semana e mantê-lo alongado o maior
tempo possível [4,9,14].
De acordo com os dados, depois de um mês do protocolo
Fonte: Dados do Autor. de alongamento, mostrou que o grupo 3 foi mais eficiente
Gráfico II – Médias aritméticas do T2 do que os outros grupos. Acredita-se que o grupo 3 mostrou
melhor resultado em ambos os testes, porque a elevação da
temperatura aumenta a taxa de disparo das fibras tipo II
aferente do fuso muscular e gama eferente e um aumento
na taxa de disparo das fibras tipo Ib dos órgãos tendinosos
de golgi (OTG) [25-29].
Essas mudanças na taxa de disparo dos nervos
contribuem para redução da taxa de disparo do
motoneurônio alfa, relaxando o músculo e aumentando assim
a flexibilidade muscular com o alongamento [27,28].
A elevação da temperatura também pode mudar a
viscoelasticidade do tecido conectivo e resultar numa
Fonte: Dados do Autor. elongação plástica depois do alongamento [8,29,30].

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 123 05/04/04, 18:35


124 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

Conclusão heat and stretching on the range of hip motion. J Orthop


Sports Phys Ther 1984;6:110-15.
Ambos os grupos experimentais (G2 e G3) aumentaram 15. Souchard P. O stretching global ativo: A reeducação postural
a amplitude de movimento em ambos os testes, mas o uso global a serviço do esporte. 2ª ed. São Paulo: Manole; 1996.
p.170.
da diatermia de ondas curtas por 20 minutos antes do
16. Lehmann JF, Masock AJ, Warren CG, Koblanski JN. Effect
alongamento obteve uma maior aumento na flexibilidade of therapeutic temperatures on tendon extensibility. Arch Phys
dos músculos isquiotibiais. Este estudo permitirá maiores Med Rehabil 1970;51:481-7.
opções na efetividade do aumento da flexibilidade muscular. 17. Church JB, Wiggm MS, Moode FM, Crist R. Effect of warm-
up in flexibility treatments on vertical jump performance. J
Referências Strength Cond Res 2001;15:332-6.
18. Rosembaum D, Hennig EM. The influence of stretch and
1. Fountain FP, Gersten JW, Senger O. Decrease in muscle spasm warm-up exercises on Achilles tendon reflex actively. J Sports
produced by ultrasound, hot packs and IR. Arch Phys Med Sciences 1995;13:481-90.
Rehabil 1960;41:293-99. 19. Shields N, Gormley J, O´hare N. Short-wave diathermy: current
2. Halbertsma JP, Goeken LNH. Stretching exercises: Effect on clinical and safety practices. Physiother Res Int 2002;
passive extensibility and stiffness in short hamstring of healthy 7:191-202.
subjects. Arch Phys Med Rehabil 1994;75:976-81. 20. Goats GC. Continuous short-wave (radio-frequency)
3. Gracies JM. Physical modalities other them stretch in spastic diathermy. Br J Sp Med 1989;23:123-27.
hypertonia. Phys Med Rehabil Clin N Am 2001;12:769-92. 21. Norkin CC, White, DJ. Measurement of joint motion: A
4. Halbertdsma JP, Bolhuis AIV, Goeken LNH. Sport stretching: Guide to Goniometry. 2nd ed. Philadelphia: FA Davis Co;
effect on passive muscle stiffness of short hamstring. Arch 1995. p.221.
Phys Med Rehabil 1996;77:688-92. 22. Draper DO, Anderson C, Schulthies SS, Ricard MD. Immediate
5. Worrel T, Smith TL, Winegardner J. Effect of hamstring stretch and residual changes in dorsiflexion range of motion using
an ultrasound heat and stretch routine. J Athl Train
on hamstring muscle performance. J Orthop Sports Phys
1998;33:141-44.
Ther 1994;20:154-9.
23. Draper DO, Miner L, Knight KL, Ricard MD. The carry-over
6. Spernoga SG, Uhl TL, Arnold BL, Gansneder BM. Duration
effects of diathermy and stretching in developing hamstring
of maintained hamstring flexibility after a one-time, modified
flexibility. J Athl Train 2002;37:37-42.
hold-relax stretching protocol. J Athl Train 2001;36:44-8.
24. Peres SE, Draper DO, Knight KL, Ricard MD, Durrant E.
7. Roberts JM, Karen W. Effect of stretching duration on active
Pulsed shortwave diathermy and prolonged long-duration
an passive range of motion in the lower extremity. Sports
stretching increase dorsiflexion range of motion more than
Med 1999;33:259-63. identical stretching without stretching. J Athl Train 2001;37:43-
8. Wessling KC, deVane DA, Hylton CR. Effects of static stretch 50.
versus static stretch and ultrasound combined on triceps surae 25. Jami L. Golgi tendon organ in mammalian skeletal muscle:
muscles extensibility in healthy women. Phys Ther Functional properties and central actions. Physiol Rev
1987;67:674-9. 1992;72:623-66.
9. Depino GM, Webright WG, Arnold BL. Duration of 26. Moore JC. The Golgi tendon organ: A review and update.
maintained hamstring flexibility following cessation of an Am J Occup Ther 1984;38:227-36.
acute static stretch protocol. J Athl Train 2000;35:56-9. 27. Mense S. Effect of temperature on the discharge of muscle
10. Bandy WD, Irion JM, Briggler M. The effect of time and spindles and tendon organs. Pflugers Arch 1978;374:159-66.
frequency of static stretching on flexibility of the hamstring 28. Fischer M, Schafer SS. Temperature effect on the discharge
muscles. Phys Ther 1997;77:1090-6. frequency of primary and secondary endings of isolated cat
11. Bandy WD, Irion JM. The effect of time on static stretch on muscle spindle recorded under a ramp and hold stretch. Brain
flexibility of the hamstring muscles. Phys Ther 1994;74:845-52. Res 1999;840:1-15.
12. Knight CA et al. Effect of superficial heat, deep heat, and 29. Taylor DC, Dalton JD, Seaber AV, Garrett WE. Viscoelastic
active exercise warm-up on the extensibility of the plantar properties of muscle tendon units: The biochemical effects
flexors. Phys Ther 2001;81:1206-14. of stretch. Am J Sports Med 1990;18:300-09.
13. Madding SW et al. Effect of duration of passive stretch on 30. Magnusson SP, Simonsen EB, Aagaard P, Boesen J, Kajaer M.
hip abduction range of motion. J Orthop Sports Phys Ther Determinants of musculoskeletal flexibility: Viscoelastic
1987;8:409. properties cross-sectional area, EMG and stretch tolerance.
14. Henricson A, Fredericksson K, Persson I et al. The effect of Scand J Med Sci Sports 1997;7:195-202. C

artigo 05 - Carlos Eduardo.pmd 124 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 125

Artigo original

A melhora da capacidade do alcance funcional em mulheres


idosas após os exercícios de Cawthorne e Cooksey
Functional reach improvement in normal older women after
Cawthorne and Cooksey exercises
Angela dos Santos Bersot Ribeiro*, João Santos Pereira, D.Sc.**
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

*Fisioterapeuta, Ciências da Motricidade Humana, Universidade Castelo Branco RJ, **Professor titular do PROCIMH,
Universidade Castelo Branco RJ

Resumo
O envelhecimento natural é acompanhado por um déficit funcional em todos os
sistemas do organismo, inclusive no sistema vestibular, que pode resultar em distúrbios
Palavras-chave: no equilíbrio. Uma abordagem terapêutica específica para a estimulação da função
envelhecimento, estimulação vestibular, no idoso, pode gerar aprendizado motor e, portanto, contribuir para a
vestibular, capacidade do prevenção e melhora destes distúrbios. Quinze mulheres, entre 60 e 69 anos, média =
alcance funcional, equilíbrio.
64,8 (± 2,95) foram submetidas aos exercícios de Cawthorne e Cooksey, durante três
meses, três vezes por semana, durante sessenta minutos. Outras quinze mulheres
compuseram o grupo controle (idade média = 65,46 ± 2,85). Todas foram avaliadas
segundo a Capacidade do Alcance Funcional (CAF). Para análise dos resultados utilizaram-
se os testes T-Student e Wilcoxon. O nível de significância determinado foi de p < 0,05.
À comparação dos dados do grupo experimental, nas avaliações pré e pós-intervenção,
observou-se diferença significativa (p < 0,05), com melhora no índice da CAF. Os
exercícios de Cawthorne e Cooksey foram capazes de promover melhora significativa
no equilíbrio desta amostra e podem ser aplicados como medida preventiva e curativa
nos distúrbios do equilíbrio em idosos.

Abstract
The aging is accompanied with a functional deficit in all of the body’s systems,
including the vestibular system, and it can result in balance disturbance. A specific
Key-words : therapeutic approach for a vestibular function stimulation, in elderly people, can promote
aging, vestibular stimulation, the motor learning and, so, it can contribute to the prevention and to the improvement
functional reach, balance. of these disturbances. Fifteen women, aged 60 to 69, mean = 64,8 (± 2,95) were
submitted to the Cawthorne and Cooksey exercises during three months, three times a
week, during sixty minutes. Others fifteen ones compose the control group (mean of
age = 65,46 ± 2,85). All of them were evaluated according to the Functional Reach
(FR). For analysis of these results was used the T-Student and Wilcoxon tests. The level

Recebido 15 de dezembro de 2004; aceito 15 de março de 2004.


Endereço para correspondência: Angela dos Santos Bersot Ribeiro, Rua Bráulio Cunha, 67 Bairro Ano Bom 27323–320 Barra Mansa RJ, Tel: (24)
3323-0377/9994-2072, E-mail: fisioterapia.cicuta@ubm.br

artigo 06 - Angela Bersot.pmd 125 05/04/04, 18:35


126 Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004

of significance that was determined was about p < 0.05. In a comparison to the dates
from experimental group, in the assessment of before and after intervention, was
observed a significant difference (p < 0.05), with an improvement on the FR index.
The Cawthorne and Cooksey exercises were able to promote a significant improvement
on the balance of this sample and they can be administered as a prevention and as a
way to cure the balance disturbances in elderly people.

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Introdução A hipoatividade inerente ao processo de envelhecimento


contribui para a diminuição dos inputs sensoriais globais no
O movimento é fundamental para o bem-estar e para a idoso. Em se tratando do sistema vestibular, a diminuição
qualidade de vida do idoso. Uma vez que o envelhecimento destes inputs determinaria um atraso e/ou uma menor
representa a passagem do tempo e não a presença de eficácia na elaboração das respostas motoras (os próprios
patologia, pode o idoso apresentar estratégias magníficas para outputs) necessárias à manutenção do equilíbrio, ou seja,
garantir a sua independência e cabe ao terapeuta implementar determinaria uma falência ou deterioração dos mecanismos
e potencializar estas estratégias para melhorar sua qualidade de manutenção do equilíbrio, o que estará diretamente
de vida [1]. associado com a presença de quedas [7-10].
Se o desenvolvimento global humano começa na A chamada “reabilitação vestibular” foi criada há mais
concepção e só se encerra com a morte [2], não é no de vinte e cinco anos e inicialmente foi desenvolvida para o
envelhecimento que o desenvolvimento termina. Embora tratamento de pacientes com vertigens e/ou transtornos
menos intensos, nesta fase da vida ainda serão observáveis do equilíbrio [5,11]. Entretanto, muitos autores concordam
os fenômenos de neuroplasticidade, responsáveis pela em afirmar que idosos “normais”, ou seja, sem antecedentes
aquisição de novos conteúdos de memória, dos processos neurológicos ou otorrinolaringológicos, mas com transtornos
de aprendizagem e na remodelagem pós-lesão [3]. A do equilíbrio, podem melhorar notavelmente com as
execução de exercícios de caráter repetitivo permite criar estimulações vestibulares. [4,11-13].
uma “imitação” do input sensorial normal, esperando-se que, Segundo Kronhed et al. [14] um estudo sueco de 1988
através destes inputs, os outputs dos sistemas sejam usando questionários demonstrou que existe um decremento
modificados [4]. Esta característica do aprendizado motor é significativo na estabilidade entre as idades de 60 e 75 anos.
plenamente aceitável e possível no idoso, conquanto sua O sistema vestibular como parte do conjunto sensorial
capacidade de adaptar-se esteja presente, uma vez que os responsável pelo equilíbrio também envelhece, e pode
processos de neuroplasticidade também estão. determinar déficits de equilíbrio que não estejam diretamente
Os impulsos específicos do sistema vestibular são associados à presença de uma patologia, mas apenas ao
provenientes do tipo de movimento que os receptores envelhecimento natural. As próprias atividades de vida diária,
sensoriais deste sistema, os cílios, realizam. Através destes que normalmente envolvem uma série de condições de
inputs o sistema consegue informar-se sobre os movimentos conflito sensorial, podem determinar situações de risco para
e a posição da cabeça no espaço em relação à gravidade e quedas, também no idoso saudável, uma vez que este tem
sobre a sua velocidade de aceleração [4-6]. Estas informações dificuldade para selecionar informações sensoriais confiáveis
carreadas pelas aferências vestibulares somam-se àquelas para a manutenção do controle postural [8].
carreadas pelas aferências proprioceptivas, visuais e auditivas Considerando-se que os exercícios de reabilitação
que são integradas, e o conjunto destas sensações espaciais é vestibular possuem a característica de serem repetitivos
memorizado em um “banco de dados”, sendo cada [4,15], e, portanto, permitirem a criação do input sensorial
movimento novo comparado a estes esquemas memorizados, normal com a conseqüente geração dos outputs, que é a
criando-se os automatismos, de forma que os ajustes base do aprendizado motor e, que exercícios de treinamento
necessários à manutenção do equilíbrio ocorram [9]. específico para um determinado sistema são relatados como

artigo 06 - Angela Bersot.pmd 126 05/04/04, 18:35


Fisioterapia Brasil - Volume 5 - Número 2 - março /abril de 2004 127

significativamente relevantes na melhora da função deste a altura da fita métrica, enquanto o seu braço fica paralelo
mesmo sistema [8], exercícios e/ou movimentos que à fita, ou seja, o ombro estará com um grau de flexão de
estimulem especificamente a função do sistema vestibular 90º. Com o punho cerrado o indivíduo se estica para a
podem influenciar as reações de equilíbrio. frente o máximo possível, enquanto mantém os dois pés
Horak et al. [16] consideram que uma terapia específica planos sobre o chão, sem tocar na parede ou na fita métrica.
para o equilíbrio pode, além de proporcionar o aprendizado
motor, potencializá-lo, através da aplicação dos conceitos Procedimentos
do aprendizado motor como: prática, feedback, experiência
e reeducação do equilíbrio. Os Exercícios de Cawthorne e Todos os indivíduos selecionados foram avaliados
Cooksey, aplicados nesta pesquisa, utilizam estes conceitos, segundo o instrumento de medida descrito. Destes, quinze
uma vez que propiciam situações de desequilíbrio, através foram submetidos aos exercícios de estimulação da função
de atividades variadas, nas quais os indivíduos devem buscar vestibular (de Cawthorne e Cooksey), compondo o grupo
estratégias para a manutenção eficaz da postura, e incluem experimental, e outros quinze não foram submetidos a eles,
exercícios de habituação com movimentos da cabeça, caracterizando o grupo controle. Os exercícios foram
pescoço e olhos, podendo estar associados com a marcha, aplicados três vezes por semana, durante sessenta minutos,
exercícios de controle postural e exercícios de por nove semanas. Após este intervalo de tempo todos os
condicionamento geral [15]. participantes da amostra foram reavaliados. Os resultados
da avaliação e da reavaliação foram comparados.
Material e métodos
Tratamento e análise dos dados
População e amostra
Os dados iniciais e finais obtidos pela CAF foram
Foi utilizado um grupo de idosos, escolhidos analisados e comparados por dois testes estatísticos de
aleatoriamente, pertencentes à Associação de Moradores significância: o Teste T-Student e o Teste de Wilcoxon.
do Bairro Vila Independência do município de Barra Mansa Nestes testes são enunciadas duas hipóteses chamadas de
RJ, não institucionalizados, do sexo feminino, com idade H0 – hipótese nula e H1 – hipótese alternativa. Para H0
variando entre 60 e 69 anos. não existe diferença significativa entre as médias, para H1
Os participantes foram submetidos a uma avaliação com existe diferença significativa entre as médias. Quando a
um médico clínico geral com o objetivo de se analisar a hipótese H1 (x1 ≠ x2) foi evidenciada, novas hipóteses foram
existência de patologias que pudessem influenciar na testadas, onde para Ho: x1 < x2 e para H1: x1 >x2, no caso
pesquisa. Os critérios de exclusão foram a presença de dos testes pareados, e Ho: xe < xc e H1: xe > xc, sendo xc
patologias neurológicas, otorrinolaringológicas, distúrbios a média do grupo controle e xe a média do grupo
vasculares, metabólicos, degenerativos ou neoplásicos. experimental, para os testes não pareados. O nível de
significância determinado foi de 5%, ou seja, p< 0,05.
Instrumento de avaliação
Resultados
A Capacidade do Alcance Funcional (CAF) é descrita
como uma avaliação do equilíbrio estático funcional, tendo A idade média para o grupo experimental foi de 64,8
sido relatada como bastante confiável e sensível às alterações (±2,956) e para o grupo controle de 65,46 (± 2,850).
do equilíbrio que ocorrem durante o envelhecimento. Ela é Nos 15 idosos do grupo controle, a análise e comparação
útil para determinar o risco de quedas em idosos. Duncan et dos dados da CAF pelo teste T-Student encontrou-se valor
al. [17] assim classificam a CAF: 0 para a incapacidade total; t = 0,1979 e p = 0,8459 evidenciando-se a hipótese Ho e
1 para o alcance menor do que 15,0 cm; 2 para o alcance concluindo-se que, para 14 graus de liberdade, não houve
entre 15,0 cm e 25,0 cm; 3 para o alcance maior que 25,0 diferença significativa entre os resultados relativos à CAF
cm. Alcance menor que 15,0 cm está associado a um al