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]orge Ferreira

(organizador)

O populismo e
sua história
debate e crítica

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janeiro
2001
COPYRIGHT© 2000 by Jorge Ferreira

CAPA
Evelyn Grumach Sumário
PROJETO GRÁFICO
Evelyn Grumach e joão de Souza Leite

Cll'-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTI.
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DEUVROS,RJ
INTRODUÇÃO 7

P868 O populismo e sua história: debate e crítica / organiza-


ção, Jorge Ferreira. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, -1'-- O POPULISMO E AS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL: NOTAS SOBRE A 17
2001.
TRAJETÓRIA DE UM CONCEITO

Angela de Castro Gomes


ISBN 85-286-577-2

1. Populismo - Brasil. 2. Brasil - Política e governo - O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA 59
1930- . 1. Ferreira, Jorge.
Jorge Ferreira
01-0964 CDD 320.981
CDU 32(81)
POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO 125

Maria Helena Rolim Capelato

'/:'" TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO: 167


Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou UM PROJETO PARA O BRASIL (1945-1964)
transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia
autorização por escrito. Lucília de Almeida Neves

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Impresso no Brasil
2001 5
JORGE FERREIRA

273
Introdução
CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO: REFLEXÕES A PARTIR DE DUAS

TRAJETÓRIAS SINDICAIS NO RIO DE JANEIRO

Elina G. da Fonte Pessanha


Regina Lúcia M. Morel

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• O COLAPSO DO COLAPSO DO POPULISMO OU A PROPÓSITO DE

UMA HERANÇA MALDITA

Daniel Aarão Reis Filho O "populismo", como noção para explicar a política brasileira
de 1930 a 1964, tornou-se uma das mais bem-sucedidas ima-
gens que se firmaram nas Ciências Humanas no Brasil. O ano
de 1930 seria o início do "populismo na política brasileira";
1945 marcaria rearranjos institucionais que teriam permitido a
sua continuidade na experiência democrática; 1964, finalmen-
te, significaria o se~ _c~lapso.
O sucesso da expressão, no entanto, não se limitou aos es-
tudos universitários, invadindo, da mesma maneira, as páginas
da imprensa e a linguagem cotidiana da população. O político
populista, assim, surge como l!r:i:1 personagem que agiria de má
U, mentindo e enganando o povo, sobretudo nas épocas de elei-
ções, prometendo tudo e nada cumprindo. Quando uma mes-
ma noção é compartilhada por intelectuais e professores uni-
versitários, mas também por jornalistas e trabalhadores, é mui-
to difícil investigar a sua origem na história política do país,
repensá-la e criticá-la. Aceita como um dado, como algo que é,
a expressão tornou-se, na cultura política brasileira, uma espé-
cie de "s~_ns()_ çQrol1m", no sentido elaborado por Antonio
Gramsci.
Embora tenha sofrido mudanças de caráter teórico ao lon-

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INTRODUÇÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

godo tempo, 0 "populismo", como cat.egor!a explicativa, teve Estado, com Vargas, surgia como todo-poderoso, capaz de in-
a função de responder a uma pergunta mqmetante: por que os fluenciar as mentes das pessoas; a sociedade - os trabalhado-
trabalhadores manifestaram apoio a Getúlio Vargas durante o res em particular - , amedrontada com a polícia e confundida
Estado Novo e quais as razões que os levaram, entre 1945 e pela propaganda política estatal do DIP, era transformada em
1964, a apoiar os líderes trabalhistas e votar no PTB? Em torno massa de manobra e, portanto, vitimizada. A partir daí, e até
da pergunta, formulações de vários matizes surgiram, sendo as 1964, as oposições liberais, com amplo acesso aos meios de co-
mais disseminadas as que aludem à manipulação dos trabalha- municação, delinearam, com maior nitidez, imagens que aludi-
dores, sempre desviados de um caminho que se queria ideal, e a am à cooptação política dos sindicatos, à corrupção estatal e à
uma postura antiestatal, sempre condenadora do Estado e demagogia eleitoral, todas patrocinadas pelos trabalhistas.
vitimizadora da sociedade. No entanto, em termos eleitorais e na capacidade de
Mas, se o "populismo" teve uma função, ele igualmente tem mobilização, os petebistas cresciam ao longo do tempo. Por essa
uma história. História que, retrospectivamente, teria sido con- época, nos anos 50, algumas teorias, ainda sem grandes reper-
firmada pela própria trajetória política do país. As primeiras cussões e restritas a pequenos círculos intelectuais, interpreta-
formulações sobre o "populismo" surgiram no contexto da vam a política brasileira a partir da relação dual entre campo e
democratização de 1945. No entanto, as idéias que estabelece- cidade, entre líderes carismáticos e "massas". Massas, vale di-
ram a noção naquela época não se basearam em categorias teó- zer, porque, a partir de critérios estabelecidos por aqueles mes-
ricas com respaldo acadêmico, mas, sim, procuraram fabricar mos intelectuais, os trabalhadores "ainda" não tinham consci-
imagens politicamente desmerecedoras do adversário, esforçan- ência de sua própria classe. O "populismo", portanto, surgiu
do-se para elaborar uma representação negativa daquele que se primeiro como uma imagem desmerecedora e negativa do ad-
queria combater no decorrer da própria luta política. As elites versário político, e somente depois como uma categoria
liberais que perderam o poder em 1930, contrariadas com o explicativa de âmbito acadêmico.
intervencionismo estatal na economia, o cerceamento do regio- Março de 1964, no entanto, repercutiu com grande impac-
nalismo político, os ataques à tradição liberal individualista, a to entre a intelectualidade. Assim, as teorias que circulavam ti-
elevação dos trabalhadores à categoria de cidadãos e as arbitra- midamente na década de 1950 e início dos anos 60 apropria-
riedades da ditadura do Estado Novo, mas sobretudo assusta- ram-se daquelas imagens pejorativas, tomando corpo e alcan-
das com o movimento "queremista", passaram a explicar o apoio çando rápido sucesso. O "populismo", cuja lógica estava entre
dos assalariados a Vargas ressaltando a demagogia, a manipula- o mundo rural e o urbano, ter-se-ia se baseado no controle e na
ção, a propaganda política, a repressão policial, entre outros cooptação dos trabalhadores, tendo por cúmplices cúpulas sin-
fatores, sugerindo uma relação destituída de reciprocidade: o dicais elitistas sem maiores vínculos com as bases operárias. Desse

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INTRODUÇÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

modo, olhando para trás, tudo se encaixava na teoria com pre- Barros e Jânio Quadros; de um general anódino, como Eurico
cisão: novo padrão de acumulação, inconsistência das organi- Outra; de um udenista golpista, como Carlos Lacerda; e de uma
zações sindicais, personalismo político, camponeses sem tradi- figura ainda mal estudada, como Juscelino Kubitschek. Após
ções organizativas que se tornaram operários, esquerdas iludi- 1964, o próprio general-presidente João Figueiredo igualmen-
das com o nacionalismo, trabalhadores esperando o sol e a chu- te entrou no rol, segundo algumas análises. Além do desconhe-
va dos líderes populistas. Sobretudo, na definição mais conhe- cimento das peculiaridades e da anulação de historicidades, pro-
cida, o "populismo" teria a tendência irresistível a trair. No en- jetos políticos que fincaram tradições políticas, e que ainda hoje
tanto, como lembra Adam Przeworski, repetindo uma pergunta se manifestam na sociedade brasileira, como o trabalhismo
de Fernando Claudin, "essa explicação exige uma outra: por petebista e o liberalismo udenista, dissolvem-se e confundem-se
que os trabalhadores seguiram tais líderes 'traidores'?"1 A per- em um mesmo rótulo: tratar-se-ia do "populismo".
gunta nunca foi satisfatoriamente respondida, mas, seja como Em fins dos anos 70, um novo acontecimento impactante.
for, retrospectivamente a experiência democrática pós-45 so- No ABCD paulista, os operários patrocinaram grandes greves e
mente poderia resultar em desastre - e dificilmente, dizia a questionaram o poder dos militares. Lula, bastante crítico, não
teoria, aconteceria de outra maneira: março de 1964 teria sig- poupou o passado. Entre diversas afirmações negativas sobre a
nificado o colapso do "populismo". política brasileira anterior a 1964, disse que a CLT era o AI-5
Um cenário de "populistas" e "pelegos", eis a imagem que dos assalariados. A teoria do "populismo", assim, tomou novo
temos da política brasileira entre 1930 e 1964. Formulada pelas fôlego. Agora, saudaram as esquerdas e diversos estudiosos,
oposições liberais, ela foi apropriada pela teoria, e esta, por sua haveria operários conscientes de sua classe; agora, teríamos um
vez, reforçou a própria imagem, sedimentando, na dimensão "novo" sindicalismo, bem diferente do "velho"; agora, teriam
imaginária de gerações de alunos de cursos de níveis médio e surgido lideranças que, saídas da própria classe, fundaram um
superior na área de ciências humanas, a idéia de que teria exis- partido de trabalhadores e não para os trabalhadores.
tido um "populismo na política brasileira". Assim, personagens Não foi casual, assim, que por essa época muitos passassem
de diferentes tradições políticas foram reduzidos a um denomi- a estudar o movimento operário na Primeira República, os anar-
nador comum: líderes trabalhistas como Getúlio Vargas, João quistas em particular. Ambos, libertários no passado pré-1930 e
Goulart, Leonel Brizola e até mesmo Miguel Arraes perfilaram- operários do ABCD paulista pós-1978, surgiam como atores
se ao lado de políticos regionais paulistas, como Adhemar de combativos, sem ilusões com as "ideologias dominantes" e, so-
bretudo, imbuídos de práticas autonomistas. A História, por-
1 •Adam Przeworski. Capitalismo e social-democracia. São Paulo, Companhia tanto, teria retomado o seu rumo, desviada que fora até então
das Letras, 1989, p. 15. pelos políticos populistas e sindicalistas pelegos. Entre 1930 e

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INTRODUÇÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

1964, um interregno lastimável, os trabalhadores, sabe-se lá por A noção de "populismo" tornou-se tão elástica e, de certo modo,
quê, teriam sido seduzidos pelos trabalhistas, traidores por de- a-histórica, que passou a explicar tudo - e, como ocorre nesses
finição, e pelos comunistas, autoritários por profissão. casos, a explicar muito pouco.
Com o fim do regime militar, pensava-se, a política brasilei- Outros intelectuais recusaram a maldição do "populismo" e
ra finalmente entraria em outro patamar, mais elaborado. Afi- procuraram alternativas. Muito contribuíram para isso as abor-
nal, o "populismo", ficara comprovado, teria entrado em co- dagens afinadas com a história cultural, com a nova história
lapso desde muito tempo. O autoritarismo de direita também se política e com a história social inglesa - E.P. Thompson em
esgotara. Não mais haveria espaços para líderes salvacionistas, particular. Aos poucos, uma vertente da historiografia brasilei-
verborrágicos, manipuladores, demagógicos. O momento his- ra, influenciada por reflexões revisionistas, recusou a imagem,
tórico seria o dos partidos, das instituições, das idéias políticas tão solidificada, do "populismo na política brasileira".
consistentes. A própria classe trabalhadora mais avançada do A história política brasileira entre 1945 e 1964 ainda está
país, no ABCD paulista, recusando o passado "pelego-populista", para ser construída. A sociologia, em um momento, e a ciência
dizia-se na época, surgiu no cenário nacional como sujeito polí- política, em outro, muito contribuíram para o avanço do co-
tico. Mas, para assombro daqueles preocupados com a questão nhecimento daquela temporalidade. Os historiadores, por sua
democrática, eis que surge, vitorioso na primeira eleição presi- vez, durante muito tempo alimentaram desconfianças em estu·
dencial com a redemocratização, um personagem sem partido, dar períodos mais recentes. Atualmente, contudo, superando as
histriônico, autoritário, arrogante e manipulador de imagens, suas próprias dificuldades, passaram a enfrentar, como muitos
que se dirige não à classe trabalhadora ou à sociedade civil or- definem, a história do tempo presente. No entanto, o que te-
ganizada, mas, sim, ao que chamava de "minha gente". mos sobre o período é uma história ainda a ser resgatada, con-
O choque, sem dúvida, não foi pequeno. Era preciso repen· tada e interpretada. Mesmo hoje, se retomarmos aquela per-
sar a política brasileira, reavaliar as teorias e reler a bibliografia gunta inconveniente - por que os trabalhadores apoiaram
com outros olhos. Alguns insistiram em reafirmar a teoria do Vargas e, mais tarde, os trabalhistas? - , as respostas, muito
"populismo". Tratar-se-ia, agora, não de um período delimita- possivelmente, se repetirão: manipulação política, propaganda
do e datado, mas, sim, de uma verdadeira maldição na política estatal, doutrinação das mentes, consciências desviadas, con-
do país. As tradições teológicas, messiânicas, escravistas, da co· trole operário, pelegos sindicais, camponeses que vestiram ma·
Ionização portuguesa, entre outras mazelas milenares, ter-nos- cacão, demagogia populista, cegueira nacionalista dos comunis-
iam condenado, quase de maneira irreversível, a conviver com tas, tradições messiânicas, resquícios sebastianistas e, até mes-
este tipo de gente. A prova maior seria que o neoliberalismo mo, totalitarismo. Trata-se de explicações frágeis e de difícil
dos anos 90 não passaria, na verdade, de um "neopopulismo". sustentação teórica e empírica. Todas, no entanto, ajudam a

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INTRODUÇÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

compor a expressão "populismo", que, como um "senso co- trabalhismo orientou-se por um eixo, por uma estrutura dorsal
mum" gramsciano, continua a freqüentar o vocabulário políti- nacionalista, distributivista e desenvolvimentista, permitindo a
co brasileiro. Afinal, quem se desvia de um caminho previamen- constituição de um projeto para o país, marcado por forte soli-
te estabelecido como "não-populista" só pode ser, obviamente, dariedade social.
um "populista". As análises sobre o sindicalismo mereceram um destaque
Esta coletânea tem objetivos diversos e plurais, embora obe- especial. Afinal, a imagem de trabalhadores destituídos de capa-
dientes a um eixo comum: discutir, criticamente, a noção de cidade associativa, consciência e combatividade tornou-se um
"populismo" como categoria explicativa. Assim, Angela de Cas- dos pilares de sustentação do assim chamado, pejorativamente,
tro Gomes acompanha a trajetória do conceito na produção "sindicalismo populista" - ou "velho", como queiram. Desse
acadêmica da história e das ciências sociais no Brasil, identifi- modo, Francisco Teixeira da Silva e Hélio da Costa, em texto
cando as principais propostas elaboradas para conformar a ca- conjunto, e bastante instigante, analisam trabalhos relativamen-
tegoria na experiência política brasileira, situando alguns con- te recentes a partir de suas inflexões teórico-metodológicas, sis-
textos, textos e autores, além de apontar questões centrais para tematizando criticamente as suas contribuições conceituais e
um debate que se prolonga até hoje. Eu mesmo, em meu artigo, empíricas, preocupando-se, ainda, com a história dos trabalha-
procuro demonstrar que a noção de "populismo" tem uma his- dores e suas experiências vivenciadas nos seus próprios termos,
tória, e estabeleço os diversos momentos de sua formulação, ou seja, em sua cultura, expectativas e história, sem diluí-las em
bem como relaciono as condições de sua produção com a pró- categorias apriorísticas e demiúrgicas. Igualmente preocupadas
pria história política do país, ressaltando, ainda, enfoques alter- em criticar interpretações que insistem no caráter "desviante"
nativos. Maria Helena Rolim Capelato, além de criticar as ge- do movimento sindical na experiência democrática de 1945 a
neralizações que apontam para um "populismo na América La- 1964, Elina Pessanha e Regina Morei, também em texto con-
tina", centra a discussão na validade do conceito de "populismo" junto, apresentam, em uma perspectiva comparativa, duas ex-
pelos historiadores que, atualmente, se voltam para o estudo do periências sindicais representativas do sindicalismo no Rio de
peronismo e do cardenismo. Lucília de Almeida Neves, inter- Janeiro: a dos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacio-
pretando as propostas e a atuação do PTB entre 1945 e 1964, nal-CSN, então empresa estatal, e a dos operários navais de vá-
argumenta que o trabalhismo, ao longo dessa temporalidade, rios estaleiros - públicos e privados - da Baía da Guanabara.
elaborou um programa de reformas sociais e um projeto de ci- Em oposição aos argumentos que atribuem uma excessiva
dadania bastante específico, no qual se mesclaram elementos da politização das cúpulas sindicais no período, as autoras anali-
social democracia e do assistencialismo estatal. Embora diversi- sam, por um lado, a abrangência do trabalho político das lide-
ficado e apropriado por organizações da sociedade civil, o ranças em sua relação com as bases, e, por outro, a construção

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INTRODUÇÃO

de uma "cultura de direitos", configurando uma situação de


cidadania até então sem precedentes na história do país. Por
fim, Daniel Aarão Reis Filho defende que, no Brasil, o tra-
balhismo se afirmou como uma corrente autêntica do movimento
das classes trabalhadoras, estabelecendo uma tradição, nomea-
da pelo autor de nacional-estatismo. A derrota do projeto em
1964, no entanto, permitiu que sociólogos e as esquerdas, em
busca de bodes expiatórios, formulassem a imagem do populismo
e seu colapso, embora, anos mais tarde, com o esgotamento do O populismo e as ciências
regime militar, o trabalhismo ressurgisse em correntes diversas,
a exemplo do PDT e do próprio PT, com a retomada do progra-
sociais no Brasil: notas sobre a
ma nacional-estatista. trajetória de um conceito*
Os propósitos da coletânea, portanto, são os de rever e ques-
tionar interpretações aceitas como consensuais, recusar e criti- Angela de Castro Gomes
car as ortodoxias, antigas ou mais recentes, alargar e aprofundar
a discussão sobre abordagens alternativas, conhecer e compre-
ender, sob outros enfoques, o passado recente deste país. En-
fim, resgatar a história e debater a noção de "populismo na
política brasileira", que, nesta coletânea, como diz Angela de
Castro Gomes, passa de pedra a vidraça, embora saibamos que
o gato ainda tem muitas vidas a consumir.

Jorge Ferreira

*Este texto foi apresentado no XI Congresso Internacional da Associação de


Historiadores Latino-americanistas Europeus (AHILA), realizado na Univer-
sidade de Liverpool de 17 a 22 de setembro de 1996, e posteriormente publi-
cado em Tempo. Revista do Departamento de História da Universidade Fede-
ral Fluminense, vol. 1, nº 2. RJ, Relume-Dumará, 1996.

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UM CONCEITO, MUITAS HISTÓRIAS

Não importa qual seja a escolha realizada; escrever sobre o


populismo no Brasil será sempre um risco. Por incompletude
ou por "má" compreensão, por adesão ou por rejeição, o texto
será alvo fácil para críticas de todas as espécies. Neste sentido, o
destino de qualquer reflexão que trate do tema reproduz, em
certa medida, o próprio destino de seu objeto de estudo. 1
Consciente, portanto, de tais percalços, devo esclarecer que
este trabalho assume uma abordagem historiográfica para en-
frentar o "tema" do populismo. Trata-se de acompanhar a traje-
tória de um conceito na produção acadêmica da história e das
ciências sociais no Brasil, tendo por base um período aproxima-
do que decorre de meados dos anos 50 até os dias atuais. Tal
desejo já é por si só ambicioso e exige uma estratégia altamente
seletiva de operacionalização. Portanto, não se pretende, de
nenhuma forma, nem discutir a questão dos significados do con-
ceito em outras experiências históricas (como a russa ou a nor-

1Mas, assumindo todas as responsabilidades, desejo agradecer os comentári-

os do colega Daniel Aarão Reis Filho a uma versão preliminar deste texto.

1 9
O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

te-americana), nem estender as observações aqui formuladas a ceito no uso corrente da sociedade, pois aí ele tem um significa-
outras vivências latino-americanas, e nem mesmo tentar esgotar do preciso e incorporado à memória coletiva daqueles que, em
0 debate sobre o tema em nosso país. O objetivo deste texto é graus variados, têm participação política: o de estigmatizador
procurar identificar e delinear as principais propostas elabora- de políticos e da política em nosso país. São populistas os polí-
das para conformar a categoria na experiência brasileira, situ- ticos que enganam o povo com promessas nunca cumpridas ou,
ando tão-somente alguns contextos, autores e textos. Desta for- pior ainda, os que articulam retórica fácil com falta de caráter
ma, seria possível sistematizar os rumos de uma formulação, em nome de interesses pessoais. É o populismo, afinal, que de-
ainda que com muitas ausências, localizando, de maneira monstra como "o povo não sabe votar" ou, em versão mais
esquemática, argumentos e questões centrais de um debate que otimista, "ainda não aprendeu a votar". Daí decorre uma série
se prolonga até hoje. de desdobramentos lamentáveis que, no limite e paradoxalmente,
De início, convém observar que se trata de um conceito com podem justificar a supressão do voto em nome da "boa políti-
um dos mais altos graus de compartilhamento, plasticidade e ca". Desta forma, o princípio da classificação, que identifica a
solidificação, não apenas no espaço acadêmico da história e das categoria na experiência brasileira, acabou por ser associado a
ciências sociais, como transcendendo este espaço e marcando o um critério de valor que hierarquiza e condena in totum o
que poderia ser chamado uma cultura política nacional. Ou seja, populismo e tudo que ele possa adjetivar. 2
o exame da categoria exige o reconhecimento da ocorrência de Naturalmente, este texto não pretende investigar a mecâni-
seu deslizamento de uma retórica sociológica erudita para uma ca do deslocamento antes referido, o que remeteria a reflexão
retórica política popular, presente nos meios de comunicação ao interessante e difícil terreno da transformação das idéias
de massa e no senso comum da população. políticas em elementos integrantes do vocabulário da cultura
Valorar este fato é importante, porque ele pode ajudar a política de um país, numa certa época. Mas, é o que se deseja
esclarecer alguns aparentes paradoxos. Se o conceito ainda vem ressaltar, seria impossível pensar, mesmo que simplificadamente,
sendo utilizado e defendido na academia como de valor, vem a trajetória acadêmica do conceito ignorando sua apropriação
igualmente sendo sistemática e fortemente criticado, e mesmo mais ampla, já que ela mesma passa a atuar como força de pres-
abandonado, por integrantes da mesma academia. Tal debate, são e conformação dos debates que se desenvolvem sobre sua
que se realiza há mais de uma década, pelo menos, evidencia utilização de uma forma abrangente.
tanto as variações de sentido do conceito quanto seus graus de
resistência e virtualidade.
2
Contudo, este nível de questionamento parece não afetar Luís Fernando Dias Duarte. "Classificação e valor na reflexão sobre identi-
dade social", em Ruth Cardoso (org.), A aventura antropológica: teoria e pes-
em praticamente nada a aceitabilidade e trânsito do mesmo con- quisa, 2ª ed. Rio de janeiro, Paz e Terra, 1988.

2 o 21
O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

O CONTEXTO DAS PRIMEIRAS FORMULAÇÕES o núcleo básico para a organização do Instituto Superior de
Estudos Brasileiros, o ISEB. 5
Reservas feitas à fluidez de toda tentativa de periodização, a Este seleto grupo intelectual tinha como objetivo mais ime-
escolha do marco inicial deste texto recaiu em meados da déca- diato formular uma interpretação para a crise nacional em cur-
da de 50, quando a academia vivia a juventude de seus vinte e so, interpretação que pretendia esclarecer e mobilizar as forças
poucos anos e era muito recente o interesse dos cientistas soci- progressistas do país, tendo em vista o desencadeamento de um
ais em construir análises sobre a estrutura do poder nacional. movimento amplo em prol de reformas de base. A atuação des-
Podemos simbolicamente assinalar, como ponto de partida des- tes intelectuais aposta, portanto, no E~E~! de uma vanguarda
te processo, as reuniões periódicas realizadas, a partir de agosto esclarecida que, produzindo uma nova visão de mundo, abaste-
de 195]., por um grupo de intelectuais, visando discutir os pro- ceria projetos políticos capazes de solucionar problemas estra-
blemas políticos, econômicos e sociais relacionados ao desen- tégicos por eles identificados e equacionados.
volvimento do país. Como tais reuniões, patrocinadas pelo Mi- Um dentre os principais problemas divisados na agenda do
nistério da Agricultura, ocorriam em Itatiaia - a meio caminho grupo é o do surgimento do populismo na política brasileira.
do Rio e São Paulo -, o grupo ficou conhecido como Grupo Ele pode ser sugestivamente exemplificado, neste texto, por um
de Itatiaia. 3 pequeno ensaio intitulado: "Que é o ademarismo?". Publicado
--- -,
São eles que, já em 1953, criam o Instituto Brasileiro de durante o primeiro semestre do ano de 1954, antes portanto do
Economia, Sociologia e Política (IBESP ) e, no mesmo ano, co- suicídio do presidente Vargas, o artigo tem como preocupação
meçam a publicar os Cadernos do nosso tempo. 4 Esta publica- e móvel imediato a projeção do político paulista Adhemar de
ção seria considerada o berço da ideologia nacional-desenvol- Barros como candidato à sucessão presidencial de 1955. Sem
vimentista que cresceria no decorrer da década, sendo o IBESP autor identificado, o ensaio considera imperativo responder à
pergunta-título, de forma a situar precisamente a que tipo de
manifestação política se está assistindo.
3 Participam do grupo e colaboram em sua publicação, dentre outros, nomes
como os de Alberto Guerreiro Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Hermes
Lima, lgnácio Rangel, João Paulo de Almeida Magalhães e, com destaque 50 IBESP, recém-formado, conveniou-se com a CAPES, liderada por Anísio

para esta reflexão, Hélio jaguaribe. Teixeira, para realizar um seminário sobre os problemas brasileiros. Esta é a
4 0 ano de 1953 é pleno de eventos significativos na história política brasilei-
origem do processo de transformação do IBESP em ISEB, ambos responsá-
ra. É o ano da campanha do "Petróleo é nosso", da grande greve que mobili- veis por estudos que seguiam, no fundamental, as formulações da Comissão
zou a cidade de São Paulo e da reforma ministerial do governo Vargas, por Econômica para a América Latina (CEPAL). Simon Schwartzman (seleção e
exemplo. Não é casual o boom ocorrido na área da reflexão social na segunda introdução). O pensamento nacionalista e os "Cadernos de nosso tempo".
metade da década, aquela dos anos JK. Brasília, UnB, 1981.

2 2 23
O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

De maneira breve, descarta-se a identificação do ademarismo mento de classe: não estão organizados e participando da polí-
com uma expressão da política de clientela, embora ele também tica como classe. As massas, interpeladas pelo populismo, são
se beneficie de práticas clientelísticas. Neste sentido, ainda que orÍginária~ do proletariado, mas dele se distinguem por sua in-
disponha de um partido, o Partido Social Progressista (PSP), consciência das relações de espoliação sob as quais vivem. Só a
sua influência, especialmente sobre o eleitorado de base rural, é superação desta condição de massificação permitiria a liberta-
de ordem pessoal. Assim, é o líder que dá substância ao partido, ção do populismo ou, o que seria quase o mesmo, a aquisição
e não a máquina eleitoral que sustenta o líder, como acontece- da verdadeira consciência de classe. A influência marxista é apon-
ria no caso dos políticos do Partido Social Democrático (PSD). tada então como perniciosa, por associar, de forma rápida e
Por outro lado, também não se trata de um fenômeno típico de descuidada, fenômenos populares a fenômenos progressistas de
política ideológica, embora o líder paulista exerça um certo apelo esquerda, sem atentar para o caráter reacionário de manifesta-
difuso desta natureza em relação a seu eleitorado urbano, reco- ções políticas como o populismo.
nhecido como amplo e diversificado. ·Em segundo lugar, o populismo está igualmente associado a
A classificação que lhe convém e que o artigo frisa como uma certa conformação da classe dirigente, que perdeu sua
freqüentemente utilizada na linguagem corrente é a de po- representatividade e poder de exemplaridade, deixando de cri-
pulismo. O que se ressalta logo a seguir, porém, é a ausência de ar os valores e os estilos de vida orientadores de toda a socieda-
esforços para a conceituação deste fenômeno nas condições bra- d~. Em crise e sem condições de dirigir com segurança o Esta-
sileiras e a necessidade de empreender tal tarefa. 6 De uma for- do, a classe dominante precisa conquistar o apoio político das
ma bem esquemática, pode-se dizer que o ensaio aponta duas massas emergentes. Finalmente, satisfeitas estas duas condições
condições fundamentais para a emergência/caracterização do mais amplas, é preciso um terceiro e~emento para completar o
populismo. Atuando como variáveis histórico-sociais, elas terão ciclo: o surgimento do líder populista, do homem carregado de
longa carreira em inúmeras formulações posteriores, integran- carisma, capaz de mobilizar as massas e empolgar o poder.
do-se ao esforço coletivo empreendido no campo das ciências É da combinação dinâmica destas condições que uma certa
sociais. configuração política pode ou não se desenhar, sendo a razão
Em primeiro lugar, o populismo é uma política de massas, pela qual o Brasil assistiu e poderia ainda assistir, segundo pro-
vale dizer, é um fenômeno vinculado à proletarização dos tra- jeções do ensaio, a bem-sucedidas manifestações populistas.
balhadores na sociedade complexa moderna, sendo indicativo O que importa aqui destacar é a seleção de variáveis históri-
de que tais trabalhadores não adquiriram consciência e senti- co-sociológicas efetuada para a construção do modelo, bem
como o perfil dos atores que o integram: um proletariado sem
6 Ver "Que é o ademarismo?", em Simon Schwartzman, op. cit., pp. 23-30. consciência de classe; uma classe dirigente em crise de

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hegemonia; e um líder carismático, cujo apelo subordina insti- dir, em novembro de 1955, a posse do presidente eleito, Jusceli-
tuições (como o partido, embora com ele conviva) e transcende no Kubitschek de Oliveira. Neste contexto, as formulações sobre
fronteiras sociais (de classe e entre os meios urbano/rural). o fenômeno populista estão imersas na temática mais abrangente
O ademarismo, em meados dos anos 50, e o janismo, mais do nacional-desenvolvimentismo,
... . - . - -
sendo ele entendido como uma
- ·------ ....
-"

para o final da mesma década,7 atualizariam questões que o getu- manifestação da transição dos países latino-americanos de uma
lismo já delineara desde os anos 40, impondo às ciências sociais fase de economia dependente de base agrário-exportadora para
brasileiras um campo de reflexão tanto mais significativo quan- uma fase moderna de expansão urbano-industrial, em que a exis-
to igualmente compartilhado por outras comunidades intelec- tência das massas é uma das características.
tuais latino-americanas. Pode-se dizer, assim, que a questão do Dos anos 40 aos 60, portanto, o populismo teria como que
populismo não mais abandonaria o horizonte das formulações duas faces absolutamente indissolúveis. A econômica, traduzida
deste campo de estudos, sendo possível entender por que os pelo processo de industrialização em curso, reconhecido como
cientistas sociais paulistas foram particularmente sensíveis às exitoso, no país; e a política, mais complexa e ambígua em ter-
análises deste fenômeno político, que se manifestava de forma mos de diagnósticos, materializada pela experiência de democra-
expressiva nos momentos de competição eleitoral no estado e cia (relativa, porém ímpar), exemplificada pelos anos JK. Os
na capital.8 inícios da década de 60, com a emergência da figura do presi-
Uma forma simples e ilustrativa de acompanhar o fluxo das dente João Goulart, o herdeiro de Vargas, e de seus competido-
reflexões realizadas é traçar brevemente a trajetória de H_~.li? res, Leonel Brizola e Miguel Arraes em particular, elevam o tom
Jaguaribe, um dos sociólogos de maior destaque no Grupo de do debate, que, como todos os demais, sofrerá o impacto do
Itatiaia: Como os demais colaboradores dos Cadernos do nosso movimento militar de 1964.
tempo, Jaguaribe está concentrado no esforço de compreensão O fenômeno do populismo passa então a integrar, com des-
da crise dos anos 50, solidamente dramatizada pelo suicídio de taque, a nova agenda de investigações que visava responder a
Vargas e pelos episódios acontecidos durante a tentativa de impe- uma grande e crucial questão: quais foram as razões do golpe?
É neste contexto intelectual e político que uma associação fun-
damental é traçada: as causas do golpe deitariam raízes no esgo-
7Vale observar que, também em meados dos 50, começam a surgir estudos de
sociologia eleitoral, como o artigo de Azis Simão, "O voto operário em São tamento da experiência'populista, que passa a possuir uma cla-
Paulo", Anais do 1 Congresso Brasileiro de Sociologia, São Paulo, 1955. ra periodização. Ela tem início em 1930, quando eclode o mo-
8Além das figuras referenciais de Florestan Fernandes e Azis Simão, grandes
vimento militar liderado por Vargas, e se conclui em 1964, quan-
lideranças nos estudos sobre a questão racial e a questão da participação po·
lítica dos trabalhadores, este grupo de cientistas sociais será integrado por do do movimento militar que depõe João Goulart. Desta for-
nomes que se tornarão obrigatórios, até hoje, nestas áreas de investig~ão. ma, tanto o tema quanto o período se transformam num impe-

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O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

rativo de pesquisa na área das ciências sociais. De 30 a 64 vive- Em São Paulo, ao longo deste período, um grande grupo se
se 0 "ciclo populista", e este adjetivo passa a se estender a dife- formara, reunindo sociólogos, cientistas políticos, economistas
rentes substantivos. e historiadores, como Juarez Brandão Lopes, José Albertino
Muitos intelectuais trabalharão nesta área. Alguns, como Rodrigues, Leôncio Martins Rodrigues, Emir Sader, Francisco
Jaguaribe, continuando uma reflexão que mantém laços de con- de Oliveira, Boris Fausto e José Álvaro Moisés, dentre outros.
tinuidade compreensíveis com o que já vinha sendo produzido. Devido aos limites e objetivos deste texto, é impossível apre-
Ele se destaca, por exemplo, ao integrar um importante volume, sentar contribuições tão numerosas e significativas. A intenção
organizado para circulação internacional por Celso Furtado, a é tão-somente registrar a importância de autores e de um pen-
convite de Jean-Paul Sartre, em 1968, e que seria publicado pos- samento político que percorre um longo período, tendo influên-
teriormente em português com o título: Brasil: tempos moder- cias na montagem da reflexão que se estrutura e dissemina a
nos.9 A partir desta data, e com o endurecimento trazido pelo AI- partir de meados dos anos 60. Talvez se possa dizer que só en-
5, o curso dos acontecimentos políticos recebe um novo impac- tão o populismo encontra, em um integrante do grupo citado,
to, para só tornar a sofrer uma inflexão quando da posse do pre- seu mais importante teórico no Brasil: o professor de ciência
sidente Geisel, em 1974. Jaguaribe estará lançando, neste mesmo política da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Weffort.
ano, Brasil: crise e alternativas, 10 com toda a primeira parte desti- Por esta razão, torna-se necessária uma incursão especial a suas
nada a um balanço sobre a natureza e a crise do populismo brasi- formulações.
leiro. Escrito como uma conferência, pronunciada em 1973 no
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ),
vinculado às Faculdades Cândido Mendes, o texto aponta a pre- O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA: SINDICATO E ESTADO
ocupação do autor não mais com as origens do regime militar,
mas com seu futuro, que assinala movimentos de flexibilização. Os trabalhos de Weffort são numerosos, e mais uma vez este
texto precisa recorrer a uma estratégia de escolhas para análise,
9
0 livro é da editora Paz e Terra, no Rio de Janeiro, e o artigo de Jaguaribe é a despeito de haver uma grande harmonia perpassando toda a
"Brasil: estabilidade social pelo colonial-fascismo?", pp. 49-76. Participam reflexão do autor ao longo do tempo. De certa forma, pode-se
da publicação, além de Celso Furtado, José Leite Lopes, Antonio Callado, assinalar em "Raízes sociais do populismo em São Paulo", pu-
Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e também Francisco Weffort.
1º0 livro foi publicado pela Zahar, no Rio de Janeiro, na coleção Biblioteca blicado em 1965 pela Revista Civilização Brasileira de Ênio da
de Ciências Sociais. Esta editora, assim como a Paz e Terra, tem papel signifi- Silveira, um artigo de referência inaugural. Em 1967, seguem-
cativo na divulgação de pesquisas na área das ciências humanas durante o
se dois outros artigos importantes: "Estado e _massas no Brasil",
regime militar.

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O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

também na revista citada, 11 e "O populismo na política brasilei- "Origens do sindicalismo populista no Brasil (a conjuntura do
ra". Este último foi escrito para compor o número especial da pós-guerra)", Estudos CEBRAP, n. 4, 1973; 13 e com um longo
revista francesa dirigida por Jean-Paul Sartre, Les temps texto, publicado em três partes, em 1978/9, pela revista do
modernes, organizado por Celso Furtado. Seria, contudo, di- CEDEC. 14
vulgado no Brasil em duas oportunidades relevantes: ao inte- Convém inicialmente situar que toda esta produção foi rea-
grar a coletânea, já mencionada, que traduz o número da revis- lizada num contexto de crise no pensamento das ciências soci-
ta francesa e tem como título Brasil: tempos modernos, e ao ais brasileiras, marcada pela necessidade imperiosa de explicar
compor o livro que reúne a produção de Weffort, em 1978, e o golpe de 1964 e de, para fazê-lo, revisar as interpretações até
que sugestivamente toma o nome deste artigo. 12 Por ser um tex- então compartilhadas e utilizadas como guias de formulação
to emblemático e por ter circulado nacional e internacional- política. Neste sentido, pode-se entender não só a reação a um
mente, foi selecionado como base para a análise da montagem paradigma analítico que recorria a causas de teor estrutural (só-
da proposta interpretativa de Weffort. cio-econômicas, com destaque), como igualmente a opção por
Além da produção mencionada, o autor marcou presença uma abordagem que privilegiará os atores políticos e que os
com sua tese de doutorado, de 1968, apresentada à USP e in- colocará, inclusive, como alvo de críticas por escolhas realiza-
corporada, com revisões, ao seu livro de 1978; com dois im- das em momentos estratégicos para o curso da história do Bra-
portantes artigos, a saber, "Participação e conflito industrial: sil. Daí o tom combativo de vários textos, os debates que susci-
Contagem e Osasco, 1968", Cadernos CEBRAP, nº 5, 1972, e tam e a emergência da "burguesia nacional" e do movimento
sindical, não mais em uma confortável posição de promotores
11 É importante destacar sempre a importância de Ênio da Silveira, falecido
do desenvolvimento do país. Daí também a centralidade do ator
em 1995, e da Civilização Brasileira para a divulgação do pensamento políti-
co brasileiro durante o período mais duro do regime militar. Como as duas
editoras já citadas, outros lugares de sociabilidade intelectual serão pontos llEste artigo suscita um debate, que se torna famoso na época, com Maria
de referência neste contexto: o IUPERJ, no Rio de Janeiro, ligado às Faculda- Hermínia Tavares de Almeida e Carlos Estevam Martins, e que envolve tanto
des Cândido Mendes; o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento uma dimensão acadêmica quanto uma dimensão militante de crítica e defesa
(CEBRAP); e o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC), das posições da liderança do Partido Comunista, que transcendia ao período
ambos em São Paulo, sendo o último vinculado a Weffort, nos anos 70/80. em foco na análise: a conjuntura da redemocratização. Sobre o debate, ver
12Brasil: tempos modernos tem uma segunda edição de 1977, da Paz e Terra Luiz Werneck Vianna, "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário:
no Rio de Janeiro. O populismo na política brasileira é de 1978 e também da resenha de algumas tendências", Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciên··
Paz e Terra. Estes dois últimos volumes, com os quais estou trabalhando, cias Sociais, Rio de Janeiro, nº 3, 1978.
14"Democracia e movimento operário: algumas questões para a história do
integram a Coleção de Estudos Brasileiros da editora, cujo Conselho Editori-
al era composto por Antônio Cândido, Celso Furtado e Fernando Henrique período 1945-1964'', Revista de cultura contemporânea, Ano 1, nº' 1 e 2;
Cardoso. Revista de cultura política, Ano 1, nº 1, São Paulo, CEDEC, 1978/9.

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O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Estado e, sem dúvida, do tema do populismo, articulador por Ou seja, o quadro analítico construído aponta para a insta-
excelência desta tríade fundamental. bilidade política do novo equilíbrio de poder, expressa quer na
Para Weffort, simplificando muito, pode-se dizer que o debilidade das "velhas" oligarquias rurais, quer na fraqueza das
populismo é o produto de um longo processo de transformação oligarquias "alternativas" e dos novos segmentos do em-
da sociedade brasileira, instaurado a partir da Revolução de presariado urbano. É esta instabilidade que funciona como start
1930, e que se manifesta de uma dupla forma: como estilo de para uma aproximação com as classes populares, percebidas e
governo e como política de massas. temidas pelos grupos dirigentes, mas sem condições orga-
Assumindo uma nítida perspectiva histórica, sua análise nizacionais e ideológicas de pressionar por uma participação
incidirá na construção de dois tempos para a investigação do mais efetiva e autônoma.
referido processo. O tempo das "origens" do populismo, que o Numa perspectiva teórica de sabor gramsciano, o autor pro-
remeterá para um estudo da natureza da Revolução de 30 e dos porá o conceito, que terá largo trânsito, de Estado de compro-
confrontos políticos que dela se desdobraram; e o tempo da misso, que é também um Estado de massas. Ou seja, a idéia do
república populista de 1945-1964, com a experimentação da compromisso remeteria a duas frentes que estabeleceriam, ao
liberal-democracia. No que se refere às origens, trata-se de assi- mesmo tempo, seus limites e potencialidades. Um compromisso
nalar a crise do liberalismo oligárquico brasileiro e a necessida- junto aos grupos dominantes, consagrando um equilíbrio instá-
de do alargamento institucional das bases sociais de poder do vel e abrindo espaço para a emergência do poder pessoal do
Estado. Isto não significava, contudo, entender o evento de 1930 líder, que passa a se confundir com o Estado como instituição;
como uma revolução burguesa, mas justamente precisá-la como e um compromisso entre o Estado/Príncipe e as classes popula-
uma transformação ainda encabeçada por forças oligárquicas, res, que passam a integrar, de forma subordinada, o cenário
capazes de tecer variadas alianças políticas. 15 Dentre estas, figu- político nacional. Estilo de governo e política de massas inte-
ram aproximações tanto com setores industriais econômica e grando o núcleo do que seria o populismo da política brasileira.
politicamente pouco articulados, quanto com as chamadas clas- Nesta formulação, fica muito claro que o compromisso/apelo
ses médias urbanas e também com as classes populares emer- às massas - segmentos urbanos em geral - é um recurso para
gentes. encontrar suporte e legitimidade em situação de crise de insta-
bilidade, de incerteza política. Por isso, a categoria-chave para
descrever a relação que se estabelece entre líder e massas é a de
15 É bom assinalar que data de 1970 a primeira edição do hoje clássico livro de

Boris Fausto, A Revolução de 1930: historiografia e história, São Paulo,


"manipulação populista", remetendo à idéia básica de controle
Brasiliense. O consultor editorial de sociologia e história desta editora era o e tutela do Estado, mas assumindo certas especificidades que
professor da USP, Leôncio Martins Rodrigues. exigem exame mais cuidadoso. Em primeiro lugar, pode-se di-

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o POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

zer que Weffort rejeita a formulação presente no ensaio dos capacidade de impulsão própria por não estar organizado como
anos 50 sobre o ademarismo, anteriormente mencionado, que classe. As massas ou os setores populares, não sendo concebidos
entende o populismo como um fruto do processo de "mas- como atores/sujeito nesta relação política, mas sim como desti-
sificação", segundo modelo europeu. Isto é, um processo sócio- natários/objeto a que se remetem as formulações e políticas
econômico que atomizou e enfraqueceu os vínculos de solidari- populistas, só poderiam mesmo ser manipulados ou cooptados
edade da classe trabalhadora, despolitizando-a; esvaziando-a de (caso das lideranças), o que significa precipuamente, senão lite-
sua força original. ralmente, enganados ou ao menos desviados de uma opção cons-
A categoria "manipulação" é proposta, portanto, não de ciente.
forma unidirecional, mas como possuidora de uma intrínseca Neste sentido, se o paradigma de classe operária europeu (e
ambigüidade, por ser tanto uma forma de controle do Estado outros) foi questionado, demandando-se uma ótica singular para
sobre as massas quanto uma forma de atendimento de suas reais a realidade brasileira, isso se deu para reforçar uma visão de que
demandas. Embora seja enfatizada a dimensão do "masca- o que existe entre nós são massas - por definição, desorganiza-
ramento" existente neste atendimento, já que os trabalhadores das e inconscientes - , alvo privilegiado, portanto, da política
brasileiros eram fracos numérica e politicamente, não dispondo de manipulação do Estado: do populismo. Quando o autor des-
de tradições de luta como os europeus, o impacto da política taca a importância de se saber até que ponto os "interesses reais
populista é aqui vivenciado de maneira distinta (como acesso à das classes populares foram efetivamente atendidos", ou até que
participação política e social), e precisaria ser analisado a partir ponto elas funcionaram apenas como massas de manobra, pode-
desta perspectiva. É interessante observar que Weffort chega se sentir toda a tensão presente em sua formulação. No caso, a
mesmo a sugerir a substituição de "manipulação" por "aliança" resposta encaminha uma espécie de "evolução" do populismo,
como categoria mais precisa para o que deseja situar. Contudo, já que se estabelece uma relação "originária" de dependência
não há investimento nesta modulação, nem por parte do autor, que poderia ser minimizada com o tempo, pois implicaria ambi-
nem por parte de muitos outros que seguem suas pegadas. güidade no reconhecimento da própria cidadania das massas,
Os motivos que iluminam a consagração da versão do consagrada por uma série de direitos legais. Aí residiria o nú-
populismo como política de manipulação de massas repõem a cleo da questão histórica da incorporação das massas à vida eco-
relação entre Estado e classes populares no centro das observa- nômica e política do país e da possibilidade de, a despeito da
ções. É evidente, no caso, o reconhecimento da assimetria de manipulação, o processo ter sido vivenciado como positivo,
poderes entre estes termos. Mas há mais do que isto. Há o dese- especialmente durante os anos 50, a década de ouro do popu-
nho de uma relação em que um dos termos é concebido como lismo.
forte e ativo, enquanto o outro é fraco e passivo, não possuindo Esta formulação é particularmente estratégica, pois permite

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O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

tanto uma interpretação para os acontecimentos de 1964 quan- mando-se finalmente em sujeitos políticos. Ou seja, a depen-
to uma leitura para o período inaugurado com a Constituição dência originária estaria sendo rompida, e o anacronismo ven-
de 1946 e assinalado pelas limitadas transformações então cido, o que teoricamente apontaria para uma situação favorável
implementadas. Em relação ao primeiro ponto, a crise dos anos ao desenvolvimento de uma democracia não mais limitada, de
60 é situada como uma crise da manipulação populista. uma democracia não mais populista.
Contudo, e este é o paradoxo que análises posteriores irão
Com efeito, a manipulação das massas entrou em crise, isto é,
apontar, 18 são exatamente as condições tidas como próprias à
abriu a porta a uma verdadeira mobilização política popular,
democracia (industrialização, urbanização, informação e mo-
exatamente quando a economia urbano-industrial começava a
bilização) que vão inviabilizá-la no Brasil de meados dos anos
esgotar sua capacidade de absorção de novos migrantes e quando
se restringiram as margens de redistributivismo econômico. 16 60. Nestes termos, e em uma leitura sem dúvida perversa, o
populismo não limitou nossa experiência democrática, antes a
Um atento exame deste pequeno trecho pode ressaltar, de possibilitou. Ora, é preciso deixar claro que este tipo de pers-
um lado, o estreito vínculo estabelecido entre o esgotamento pectiva não estava nos horizontes das formulações intelectuais
do modelo econômico de substituição de importações - das dos anos 50, marcadas pelo otimismo do crescimento econômi-
virtualidades do desenvolvimento industrial empreendido des- co e da participação política popular, inclusive por via eleitoral,
de 1930 -, e o esgotamento do regime político que estaria embora igualmente atentas à ascensão de novas lideranças
dominado pelo dilema da realização das reformas de base ou do populistas.
que se chamava o aprofundamento e internacionalização da in- A questão, voltando mais estritamente ao pensamento de
dustrialização.17 De outro lado, e mais significativo para esta Weffort mas não ficando a ele reduzida, era a do diagnóstico da
análise, a interpretação é a de que se exauriram as condições incompatibilidade entre transformações econômicas e
históricas que permitiam o funcionamento da manipulação mobilização social, de um lado, e manutenção institucional da
populista - da incorporação tutelada das massas-, chegando- democracia, de outro. Esta tensão, representada como imanejável
se ao momento em que estas ganhavam autonomia, transfor- politicamente, só permitiria alternativas radicais, quer pela rea-
lização "na marra" das reformas, quer por sua supressão, bem
16
Francisco Weffort. O populismo na política brasileira, op. cit., p. 70.
17
Esta interpretação, muito compartilhada nos 60 e 70, vincula-se às análises 18
Estou utilizando uma série de textos para tecer estes comentários, mas gosta-
desenvolvidas por Celso Furtado, sendo um bom exemplo o artigo "Obstácu- ria de destacar entre eles o livro de A. Rouquié, B. Lamounier e J. Scharzer,
los políticos ao crescimento económico do Brasil", Revista Civilização Brasi- (orgs.), Como renascem as democracias, Rio de Janeiro, Brasiliense, 1985 e,
leira, nº 1, Rio de Janeiro, 1965. nele, os artigos de Bolivar Lamounier e Maria do Carmo Campello de Souza.

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O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

como a da mobilização popular. Sustenta-se, assim, o esgota- daquelas ligadas ao Partido Comunista, que optaram por uma
mento completo do regime populista, que foi uma democracia aliança com Vargas, abrindo caminho para os desdobramentos
incompleta e não uma democracia parlamentar plena, na qual políticos posteriores. Vale a citação:
tristemente não pôde se transformar. 19
Por conseguinte, e mais uma vez de forma paradoxal, a aná- "Pretendo sugerir que se a análise histórica do período anteri-
lise desta experiência tornava-se fundamental para pensar os or a 45 explica a ruptura existente no movimento operário e a
rumos de uma luta pela redemocratização. O período do pós- perda de suas tradições, nem por isso se encontrava predeter-
minado no após-guerra o rumo que o movimento operário de-
45 seria extremamente valorizado, e nele as atenções se con-
veria seguir. São as orientações vigentes em 1945-46, retoma-
centrariam nas relações entre Estado e movimento operário/
das e afirmadas em 1950/4, que darão ao movimento operário
sindical, base da manipulação populista.
as características que veio a possuir até 1964 como dependên-
De forma muito breve, o que se fará é elencar alguns pontos
cia do regime populista brasileiro. " 2 º
marcantes para o delineamento desta análise. A centralidade da
conjuntura da redemocratização de 1945 é um deles. Momento
O fim do Estado Novo emerge como um novo momento
privilegiado, verdadeira "encruzilhada na história", ele marca-
original do pacto populista, desta feita retirando de Vargas o
ria um reforço da estratégia populista e do papel desordenador
monopólio da manipulação e atribuindo às lideranças politi-
do Estado em face do movimento operário. Mas isto não ocor-
camente engajadas uma especial responsabilidade pelos ru-
reria, a despeito das lideranças deste movimento, em especial
mos do regime. Esta responsabilidade é tanto mais visível
quanto reiterada em 1950/4, quando Vargas retorna ao po-
19Allálises já de meados dos anos 80 ressaltam como tal interpretação limita der e finalmente comete suicídio. Há uma efetiva perio-
escolhas políticas e atribui a wna natureza sócio-econômica inevitável o curso dização, elaborada a partir da dinâmica política estabelecida
do processo examinado. Ou seja, as questões são situadas como imanejáveis
pelos atores, não havendo possibilidade de adaptação do regime político e de entre Estado e movimento operário/sindical, onde os anos
execução de qualquer proposta intermediária. O que se discute hoje é muito 50 se destacam por serem o momento de maior intensifica-
menos a radicalidade e determinação dos eventos sócio-econômicos e muito
ção das pressões populares. O crescente enfrentamento que
mais que sua representação como imanejável no quadro institucional da época
conduziu à impossibilidade de sustentação da democracia. Sobre o tema, ver vinha -ocorrendo entre as forças que sustentavam o pacto
Wanderley Guilherme dos Santos, Sessenta e quatro: anatomia da crise, São populista eclode quando o movimento popular assume for-
Paulo, Vértice, 1986; Argelina Figueiredo, Democracia ou reformas? Alternati-
vas democráticas à crise política, São Paulo, Paz e Terra, 1993, e Allgela de
Castro Gomes, "Trabalhismo e democracia: o PTB sem Vargas", em Allgela C. 2°Francisco Weffort, "Origens do sindicalismo populista no Brasil (a conjun-
Gomes (org.), Vargas e a crise dos anos 50. Rio de janeiro, Relwne Dwnará/ tura do pós-guerra)", Estudos CEBRAP, nº 4, São Paulo, 1973, p. 71. Em
FGV, 1994. 1978/9, Weffort dá continuidade a esta análise no CEDEC.

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mas novas e mais autônomas, materializadas especialmente exemplo a se contrapor, as análises de Octavio Ianni e K. P.
pelos trabalhadores rurais. Erickson, 22 mas não é infundado estender suas observações à
O governo de Jânio Quadros, um líder populista de feição constituição da proposta de Estado de compromisso/Estado de
distinta, e o governo de João Goulart, o herdeiro de Vargas, mãssas:. Isto porque tais formulações têm nítida inspiração no
encerram o longo ciclo inaugurado em 30. É emblemático que conceito gramsciano de Estado bonapartista, modernizante,
tenha sido este último o político identificado pela ruptura do marcado pela ausência de hegemonia de classe e pela presença
pacto. O momento simbólico assinalado é o do abandono do de um Estado arbitral.
Plano Trienal, em meados de 1963, com as saídas de Celso Fur- Portanto, retomando a categoria populismo, R. C. Andrade
tado e Santiago Dantas de seus postos governamentais. Como o irá defender a tese de que, a partir do Estado Novo, inaugurou-
caminho escolhido foi o das reformas radicais, já que a premis- se no Brasil uma forma de supremacia burguesa cuja marca foi o
sa era a da impossibilidade de soluções negociadas, o movimen- "encobrimento" do governo direto da burguesia por meio do
to militar de março de 1964 acabou por sepultar a república controle de poderosos órgãos do poder Executivo e de seus
inaugurada em 1945. ministérios. Quanto ao pacto entre Estado e massas populares,
Em fins dos anos 70 e inícios dos 80, este é um debate pre- reconhecido por meio da legislação trabalhista, é reafirmado o
sente e marcante nas ciências sociais brasileiras. Além do impor- controle das massas, mas é questionada a idéia que "reduziria"
tante texto de Weffort, publicado em três partes na revista do o p.opulÍsmo a um modelo de manipulação resultante de confli-
CEDEC e já citado, pelo menos uma outra contribuição pode tos intra-elites. Para o autor, que tais análises ignorariam era
ser mencionada, pelo caráter de revisão do tema que assume. que o próprio controle populista necessitaria de um espaço de
Trata-se do artigo de Regis de Castro Andrade, "Perspectivas no livre expressão das massas, para então transformar suas deman-
estudo do populismo brasileiro",21 que procura fazer uma dis- das em doações, apropriando-se, com antecedência, de qual-
1
cussão conceituai e defender uma interpretação que se distanci- quer projeto autônomo alternativo. Além disso, as pressões po-
aria daquelas que enfatizam a dimensão das alianças políticas pulares nunca seriam de fato espontâneas, estando sempre liga- i
tecidas pelo populismo. Neste sentido, sem reduzir a questão
política à economia, importava não exagerar a independência 22Um dos trabalhos mais importantes de Ianni é O colapso do populismo no
da política, o que suscitava a idéia de um Estado tutelar, repre- Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968 (uso a 3ª ed. de 1975),
sentante de uma "diversidade nacional". O autor cita, como com relevo para sua segunda parte, intitulada "Populismo e nacionalismo",
onde o autor relaciona política de massas e nacional-desenvolvimentismo. O
influente livro de Kenneth Paul Erickson é Sindicalismo no processo político
21 Publicadoem Encontros com a Civilização Brasileira, nº 7, Rio de Janeiro, brasileiro, São Paulo, Brasiliense, 1979, fundado em pesquisas realizadas em
1 Civilização Brasileira, 1979, pp. 41-86. 196617, para seu doutorado.

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O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

das a lideranças organizadas (no PC, com destaque) politica- (ambigüidade por sinal presente em Weffort), sua utilização era
mente. quase uma imposição, pelo compartilhamento já alcançado e
Por estas duas ordens de razões, a manipulação (que não é pela falta de versões alternativas de maior trânsito.
descartada) jamais era completa, havendo momentos de mo-
bilização progressistas e conservadores. Ou seja, por meio desta
reflexão está sendo afirmado não só o caráter francamente bur- O POPULISMO, DE PEDRA A VIDRAÇA
guês do regime populista, como sua natureza ambígua e contra- i
ditória, tanto autoritária quanto democrática. Um equilíbrio sem Também em fins dos anos 70 e inícios dos 80, pode-se localizar
dúvida instável, que poderia ser rompido pelo crescente peso uma crescente insatisfação com o uso do conceito e o início de
dos setores populares, sobretudo em situações de crise econô- um esforço mais sistemático no sentido de elencar as questões
mica ou política. Desta forma, todos os exemplos de mobilização teóricas e históricas que, nesta abordagem crítica, ele obscure-
ocorridos entre os anos 40 e 60 mostrariam esta dupla face: a ceria. É possível associar, mais uma vez e sem mecanicismos,
do fortalecimento das forças populares e a da crença em um esta busca de novos ângulos interpretativos às transformações
Estado benevolente. que a sociedade brasileira vivenciava, particularmente no que
O que se deseja destacar, para finalizar este item, é como o diz respeito ao "renascimento" de movimentos sociais diferen-
debate sobre o conceito de populismo galvanizou as atenções ciados, dentre os quais o grande destaque residia na retomada
dos cientistas sociais durante mais de uma década, envolvendo do sindicalismo. O governo do general Geisel, em curso, anun-
temas como: a natureza da Revolução de 30; o papel da legisla- ciava uma distensão "lenta e gradual", o que tornava imperati-
ção trabalhista e sindical; o caráter de nossa experiência demo- vo pensar uma próxima - não se sabia o quão próxima - ex-
crática de pós-1945, além de iluminar as razões do movimento periência de Assembléia Nacional Constituinte. Classe traba-
militar de 1964. As muitas nuances para delinear o conceito, lhadora, mobilização política e redemocratização estavam na
próprias às formulações de cada autor, não foram obviamente ordem do dia, desdobrando-se em anistia, eleições diretas e or-
aqui contempladas, desejando-se registrar apenas a contribui- ganização sindical.
ção possivelmente mais influente - a de Weffort -, não só por Mudanças também ocorriam nas referências intelectuais dis- {
i'
fazer escola, como igualmente por suscitar polêmicas e varia- poníveis para pensar o país, já que, a nível internacional, este é
i
ções sobre o mesmo tema. Contudo, como se buscou apontar um rico momento de debates na área da história e das ciências
com o texto de Regis de Andrade, ainda que se procurasse, em sociais, gerando o que se tornará conhecido como a crise dos !
1

fins dos anos 70, flexibilizar a idéia de manipulação e reforçar paradigll1as totalizadores, fossem funcionalistas, estruturalistas
ainda mais a ambigüidade existente no conceito de populismo ou marxistas. Gramsci, muito utilizado nas análises sobre o fe-

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o POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

nômeno populista no Brasil, começava a ganhar competidores ormente, ganharam a denominação de "sociológico" e "políti-
dentro do próprio campo marxista, que se renovava, merecen- co".25 Mas a preocupação dominante não era a de fazer uma
do destaque a contribuição de E. P. Thompson, pelo impacto discussão teórica (que, de resto, vinha sendo realizada), e sim,
que teve na produção acadêmica brasileira. Neste caso, é signi- assumindo uma e_e_rse~c;tiv~}nterdisciplinar, produzir uma in-
ficativo o abalo sofrido por orientações marxistas de fundo terpretação histórica alternativa, fundada em pesquisa empírica
teleológico que postulavam um certo modelo de consciência de mais demorada e iluminada pelas novas contribuições da pro-
classe revolucionária para o operariado, permitindo todo um dução internacional sobre a formação da classe trabalhadora.
conjunto de interpretações que se respaldava no desvio ou na Neste sentido, uma série de pontos se colocavam como ob-
inconsciência daqueles atores quando, não preenchendo os re- jeto de flexibilização e/ou de questionamento. Em primeiro lu·
quisitos delineados, interferiam nos rumos dos acontecimentos gar, tratava-se de r_el'ensar a ruptura assinalada pela Revolução
históricos que insistiam em não seguir o curso imaginado. 23 de 1930 como instauradora de dois "tempos" para o movimen-
Correndo certamente um risco ainda maior do que o que já to operário, onde um se afigurava como "heróico", e o outro
vem sendo enfrentado, a estratégia deste texto será a de seleci- como "alienado". Isto ocorreria tanto porque mudara radical-
onar o meu próprio trabalho como exemplo de debate com a mente a composição social da classe trabalhadora, não mais for-
proposta populista. Alternativa que se afigura pretensiosa, mas mada por imigrantes estrangeiros (qualificados e politizados) e
que se não fosse contemplada faria o investimento soar falso, sim por migrantes rurais (desqualificados e sem tradições políti-
uma vez que algum texto precisaria ser tratado, e mencionar cas); quanto porque 1930 seria o marco da intervenção de-
minha própria produção facilita o recebimento de críticas. sordenadora do Estado, aspectos que, associados, produziriam
A invenção do trabalhismo 24 começou a ser pensada e pro- um verdadeiro desmonte da classe.
duzida exatamente no contexto já referido. Seu objetivo era A alternativa era não apenas construir laços de continuida-
dialogar com enfoques que até então eram muito abrangentes de e marcos de descontinuidade entre os dois tempos, já que de
nos estudos sobre movimento operário/sindical e que, posteri- forma alguma transformações eram ignoradas e negadas, como
igualmente defender, teoricamente, que um processo histórico
de construção de classe não sofre "desvio", pois não há um
23
Nos limites de um texto como este, tais observações funcionam apenas como
sinalização, não havendo qualquer intenção de analisar a recepção no Brasil
modelo prévio de percurso a ser seguido e muito menos um
de tão importante debate e contribuições específicas. ':
24
Angela de Castro Gomes. A invenção do trabalhismo (São Paulo, Vértice,
1988, e Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994) foi minha tese de 25 0 artigo que assinala e consagra esta terminologia é o de Luiz Werneck
'
doutoramento em Ciência Política, defendida no IUPERJ sob orientação de Vianna, "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário: resenha de algu-
Wanderley Guilherme dos Santos, em 1987. mas tendências", op. cit.

44 45
O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

resultado modelar a ser alcançado. Tais formulações implica- a ausência de lideranças "verdadeiras" e a "falta de consciên-
vam considerar uma classe trabalhadora diversificada e afastada cia" ou a "consciência possível". Este aspecto era importante 'I·

de purismos ideológicos, e uma ação estatal como variável de porque vinculava-se à explicação do sucesso das lideranças
interlocução, o que precisava ser qualificado para além de uma populistas, nunca oriundas da classe, e por isso mesmo tendo o
intervenção espúria que quebrava a ordem natural de um pro- poder de colocar sob suspeição aqueles que com elas se relacio-
cesso. navam, no caso as lideranças sindicais pelegas do regime
Portanto, a idéia era investigar a história da constituição da populista, entre ingênuos e traidores.
classe trabalhadora no Brasil, atribuindo-lhe, durante todos os Como desdobramento deste ponto, seguia-se a utilização
"tempos", um papel de sujeito que realiza escolhas segundo o da categoria cooptaçã.o como .o reverso da representação, ou
horizonte de um campo de possibilidades. A abordagem se re- talvez, aindaque de ·-,;;~a imprecisa, como a atuação sobre
cusava a atribuir aos trabalhadores uma posição política passi- aquele que é manipulado/enganado. Ser cooptado excluía assim
va, não importando se mais ou menos completa. Aqui residia a .o
uma relação de troca, esvaziando sujeito da cooptação de
grande dificuldade, teórica e histórica, de utilização do concei- qualquer poder (inclusive o de ter suscitado a cooptação), e
to de populismo, que, como foi visto, remetia à idéia de mani- transformando-o em objeto que é, por definição, incapaz de
pulação política, ainda que se reconhecessem todas as suas am- negociação.
bigüidades. Por razões que se prendiam a seu próprio uso com- Por estas inúmeras razões, que se prendiam ao efeito
partilhado, tudo o que estivesse qualificado como populista obscurecedor que o sentido do conceito de populismo acarreta-
enfatizava a dimensão de controle/ação do Estado sobre as mas- ria, a opção do trabalho foi rejeitar seu uso, muito embora não
sas, pois inclusive uma das questões mais complexas desta for- haja nele uma argumentação explícita, como a que se fez agora,
mulação era a própria negação do estatuto de classe (por falta sobre esta decisão. Ela, sem dúvida, está implícita, em particu-
de organização e consciência) aos trabalhadores inclusos nestas lar quando se propõe assumir a designação de pacto trabalhista
massas, que, sem dúvida, os extrapolavam. para pensar as relações construídas entre Estado e classe traba-
Atribuir aos trabalhadores um papel ativo, vale dizer, uma lhadora, escolhendo como momento estratégico de sua monta-
presença constante na interlocução com o Estado, significava gem os anos do Estado Novo.
reconhecer um diálogo entre atores com recursos de poder di- A idéia de pacto procurava enfatizar a relação entre atores
ferenciados mas igualmente capazes não só de se apropriar das desiguais, mas onde não há um Estado todo-poderoso nem uma
propostas político-ideológicas um do outro, como de relê-las. classe passiva porque fraca numérica e politicamente. A lógica
Tal postura afastava a dicotomia, muito vigente, entre autono- deste pacto, cuja efetivação estava sendo datada, precisava ser
mia e heteronomia da classe, como forma de designar e explicar entendida numa perspectiva temporal muito mais ampla, que

46 47
O POPULISMO E AS ClêNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

conectava o período do pré- e do pós-30 e as experiências aí sindicalismo corporativo (o que chega a ser mencionado), e,
vivenciadas pela classe trabalhadora e pelo Estado. Neste aspec- nos anos 50/60, a complexa dinâmica de atuação política que
to particular, o trabalho procurava se contrapor a uma forte envolve sindicatos, partidos e Estado (o que não chega a ser
interpretação que explicava o sucesso populista como o resulta- tratado), e que tem na questão da experiência/vivência do
do de um cálculo utilitário em que ganhos materiais eram troca- corporativismo seu ponto forte. 26
dos por obediência política, claramente referida à dimensão da Como se pode facilmente depreender, A invenção do
manipulação. trabalhismo é apenas um dos exemplos de interlocução com o
A proposta realizada, já no marco de contribuições teóri- conceito de populismo, e certamente não é um dos que toma a
cas ligadas à dimensão cultural da política, assinala que o dis- fundo o aberto debate teórico. Contudo, nos limites deste tex-
curso trabalhista, articulado em inícios dos anos 40, apropria to, funciona ilustrando preocupações, objeções e propostas al-
e resignifica o discurso operário construído de forma lenta e ternativas que foram crescentemente sendo compartilhadas por
diversificada nos anos da Primeira República. Os benefícios outros autores. De qualquer modo, é preciso reconhecer que o
materiais "oferecidos" e implementados, como todas as análi- estabelecimento deste debate está longe de ter abalado o trânsi-
ses anteriores reconhecem com intensidades variadas, bem to do conceito de populismo.
como a própria forma com que vêm revestidos, serão "recebi-
dos" e interpretados pela classe trabalhadora, que os apreen-
derá e os manejará segundo os termos de suas possibilidades e UM GATO DE SETE VIDAS
vivências. O pacto trabalhista, pensado ao longo do tempo,
tem nele, de modo integrado mas não redutível, tanto a pala- Apenas como demonstração da afirmação de linhas atrás, vale a
vra e a ação do Estado (que sem dúvida teve o privilégio de pena trabalhar com uma publicação recente, organizada por
desencadeá-lo), quanto a palavra e a ação da classe trabalha- Evelina Dagnino e intitulada Anos 90: política e sociedade no
dora, ressaltando-se que nenhum dos dois atores é uma totali- Brasil, cuja primeira parte é dedicada ao tema do populismo. 27
dade harmônica, mantendo-se num processo de permanente
re-construção.
26Vários estudos foram produzidos a partir dos anos 80 discutindo as ques·
Se a referência teórica mais geral é esta, sua atualização em tões aqui apontadas. Gostaria de citar o nome de alguns autores, por vezes
cada caso de estudo histórico específico, longe de ser prescindí- com mais de um trabalho, apenas como registro: Elina Pessanha; Regina Morei;
vel, é absolutamente imperiosa. Este reconhecimento pode abrir José Ricardo Ramalho; José Sérgio Leite Lopes; Carla Anastásia; Angela Ara·
újo; Marcelo Badaró Mattos; Ana Lúcia Oliveira.
perspectivas para repensar, nos anos 30/40, as razões da partici- 2'Evelina Dagnino (org.), Anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo,

pação dos trabalhadores na implementação do modelo de Brasiliense, 1994.

48 49
O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Para 0 espaço restrito deste texto, um dos artigos é particular- lideranças conseguem manter com os setores populares a serem
mente interessante: ''A reemergência do populismo no Brasil e incorporados socialmente.
na América Latina", de Décio de Azevedo M. Saes. 28 Este modelo reteria do anterior o princípio básico de que é
O autor parte exatamente da interrogação sobre uma possí- o líder/governo que atua como sujeito da política, sendo os se-
vel reemergência do fenômeno populista, respondendo afirma- tores populares objeto de políticas públicas, donde seu conteú-
tivamente e procurando caracterizar as novas formas que ele do autoritário e seu apelo direto ao povo. Contudo, ele se dis-
estaria assumindo nos anos 90. Por esta via, traça-se uma espé- tinguiria radicalmente do "populismo clássico" ao construir um
cie de tipologia onde se procura distinguir entre um "populismo discurso político antiestatizante, rompendo com uma tradição
clássico", vigente entre as décadas de 1930-1960 e interrompi- sólida e lentamente construída no Brasil, que vincula estatismo
do pelo regime militar, e um "populismo neoliberal", que esta- ou estatização a signos de nacionalismo e desenvolvimento. Ou
ria atualizando aquela matriz política após a reativação do pro- seja, seria pelo desmonte do Estado, identificado inclusive com
cesso eleitoral e do pluripartidarismo, instalados nos anos 80. a experiência populista, que o governo asseguraria, através do
Haveria assim um "neopopulismo" não só brasileiro, mas lati- mercado, uma nova mecânica redistributiva.
no-americano, interferindo nas expectativas de consolidação da Daí a designação de populismo neoliberal e o cuidado em
democracia no continente. observar que tal proposta trabalha com dados coerentes da rea-
Trabalhando com a idéia de um processo crescente de lidade social ao evocar o fracasso do welfare state e os índices
"personalização da política", próprio às sociedades capitalistas de corrupção política mais visíveis pela disseminação das infor-
atuais que alimentam uma "autonomização" da personalidade mações.
individual e um "imperialismo da vida privada sobre a vida pú- Uma nova fase do desenvolvimento do capitalismo e uma
blica" como valores político-sociais, o autor procura explicar a nova experiência liberal-democrática estariam, nesta interpre-
reemergência do fenômeno de lideranças carismáticas, inclusi- tação, gerando um novo populismo. Esta abordagem fica ainda
ve no interior de organizações de esquerda. Este fato, segundo mais reforçada se a ela forem agregados alguns elementos pre-
ele, poderia conviver com um contexto de reativação eleitoral e sentes no artigo de Marilena Chauí, da mesma coletânea. 29 Para
partidária (portanto, o fortalecimento dos partidos não é um esta autora, o populismo no Brasil poderia ser pensado segundo
"horizonte natural" dos anos 90), e com a difusão da mídia uma matriz teológico-política e funcionaria como uma mitolo-
eletrônica, mas estaria igualmente associado aos vínculos que as gia fundadora tanto para as classes dominantes quanto para as

28Q artigo (pp. 41-8) sofrerá, obviamente, muitas simplificações nesta rápida 29
0 artigo é "Raízes teológicas do populismo no Brasil: teocracia dos domi-
síntese de seu argumento. nantes, messianismo dos dominados", op. cit., pp. 19-30.

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O POPULISMO E AS Cl~NCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

classes dominadas. Ela defende que a própria organização da com o sucesso ou insucesso da categoria - pela qual, como
sociedade brasileira é autoritária - verticalizada e hierar- ficou claro, não tenho apego -, do que com o que ela guarda
quizada - , havendo assim uma retroalimentação entre socie- de dramático e emblemático da política brasileira, condenada
dade e mitologia/política. 30 ao autoritarismo. Quem sabe, como uma criança, ~ntre a razão
Esta situação trágica explicaria tanto a impossibilidade da e a esperança, eu me negue a fazer escolhas e com ambas procu-
efetuação da idéia liberal-democrática de política no Brasil, ba- re conviver.
seada nas noções de cidadania e representação, quanto a impos-
sibilidade de sustentação do valor socialista da justiça social.
Pela mesma razão profunda, não superaríamos a matriz mística PÓS-ESCRITO
do populismo, que se renovaria, sistematicamente, como pers-
pectiva messiânica para os setores populares. Não importa qual seja a escolha realizada: escrever sobre o
É impossível, para quem trabalha com pensamento social populismo no Brasil será sempre um risco. Por incompletude
brasileiro, não sentir o eco de vozes que, muito antes dos anos ou por "má" compreensão, por adesão ou rejeição, o texto será
50, na verdade desde os inícios do século, diagnosticavam o alvo fácil para críticas de todas as espécies.
caráter insolidário de nossa sociedade e nele plantavam as raízes Mas, mesmo com este risco, tratar da questão do populismo
de um inevitável (embora, talvez, transitório) forte Estado au- no Brasil é um exercício estimulante para o historiador e o cien-
toritário. Se para alguns destes pensadores, este diagnóstico era tista social. Por esta razão, concordei com a republicação do
também um desejo a ser realizado, para outros era um tormen- artigo precedente, redigido em inícios de 1996 para ser apre-
to a ser evitado, não se sabia bem como. 31 sentado em um congresso internacional, sem quaisquer altera-
Hoje, às vésperas de um novo milênio, talvez se possa pen- ções, acrescido apenas deste pequeno pós-escrito.
sar a reemergência do populismo como uma atualização de nos- Um dos motivos da opção pela ausência de revisão é a pró-
sa tragédia. Confesso, para concluir, que me preocupo menos pria natureza do texto. Nele, eu escolhi uma abordagem his-
toriográfica para enfrentar o "tema" do populismo, donde o
seu subtítulo: notas sobre a trajetória de um conceito. Quer
30
''Ao dizer que a sociedade brasileira é autoritária, estou pensando em certos
traços gerais das relações sociais que se repetem em todas as esferas da vida
dizer, meu objetivo não era realizar a análise histórica de qual-
social (da família ao Estado, passando pelas relações de trabalho, pela escola, quer fenômeno da realidade social ao qual a categoria
pela cultura)." Na p. 27 do artigo citado, e, para o que se está destacando, os populismo estivesse vinculada, mas sim refletir sobre a traje-
trechos que se seguem.
31
Sobre o tema, ver Angela de Castro Gomes, "A dialética da tradição", Revis- tória da própria categoria, o que poderia iluminar a compre-
ta Brasileira de Ciências Sociais, nº 12, vol. 5, 1990, pp. 15-27. ensão de seus usos. Minha proposta, ainda pouco freqüentada

s2 s3
O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

no Brasil, era a de um trabalho com história de conceitos, por to intelectual que me levou a optar pelo abandono do uso da
considerá-los, eles mesmos, produções acadêmicas que podem categoria de populismo em meu livro A invenção do
ser datadas; que podem ser contextualizadas: onde e em que trabalhismo. O momento era o da primeira metade da déca-
condições conjunturais ocorreu a construção teórica de um fa de 1980, há quase vinte anos, quando a adesão ao concei-
certo conceito, e qual o seu sujeito? Assim, se a preocupação to era muito disseminada, na academia e fora dela, tendo ele
do artigo era esta, ele também deveria manter sua "data", de- um "sentido" amplamente reconhecido, compartilhado e
marcando o momento em que eu o escrevi e o motivo por que pouco criticado.
o escrevi. Era precisamente desse "sentido", que transforma uma "pa-
A meu juízo, este tipo de proposta tem alguns pressupostos lavra" em conceito, e não essencialmente da "palavra", que eu
implícitos. O primeiro deles é que conceitos, todos eles, são queria me afastar, na medida em que estava rejeitando seu con-
construções teóricas, elaboradas por intelectuais em determina- reúdo básico. De forma breve, para não ser repetitiva: as idéias
dos momentos, para compreender fenômenos da realidade so- de uma classe trabalhadora "passiva" e sem consciência, sendo
cial. Portanto, nesta abordagem, imaginar a possibilidade de um "manipulada" por políticos inescrupulosos que a "enganavam",
conceito que não seja um construto intelectual, "distanciando- e que não tinham, na verdade, representatividade política e so-
se" da realidade justamente para poder com ela operar de ma- cial. O que eu pretendia demarcar era justamente que não acei-
neira mais densa, é carta fora do baralho. As "palavras" não são tava esta concepção, nem de classe trabalhadora, nem de pacto
as "coisas", mas a elas se referem, podendo ganhar sentidos di- ,•olítico. O uso da "palavra" populismo, assim, me pareceu algo
ferenciados através dos tempos. Exatamente por isso, o enten- c-xtremamente danoso para enunciar o que eu desejava defen-
dimento dos contextos de produção das "palavras" esclarece der, e a "palavra" trabalhismo, cuja invenção eu acompanhava
sobre os "sentidos" das quais elas são investidas, sentidos que em minha análise histórica, surgia como muito mais adequada
têm história - sócio-cultural e não "natural"-, que podem e para a proposta da então tese. Quer dizer, trabalhismo seria
devem ser compreendidos. Ou seja, é tão inconcebível, para usado, por mim, como uma categoria, passando a se referir a
quem está trabalhando nessa perspectiva, supor que possa ha- 11m certo conjunto de idéias e práticas políticas, partidárias e
ver conceitos que não são "invenções" acadêmicas, quanto su- sindicais, o que poderia ser identificado para além de seu con-
por que conceitos possam ser produzidos sem estímulos e ,-cxto de origem histórica: o Estado Novo. Como todas as "pa-
vinculações com as questões que povoam a "realidade" dos que lavras", trabalhismo também não estava desprovida de signifi-
os elaboram. cados sociais, estando ligada a alguns partidos e lideranças, es-
A segunda razão para a manutenção do texto sem revi- pecialmente e não casualmente, do pós-45. Ainda assim, consi-
sões foi a intenção de usá-lo para acentuar o próprio contex- derei interessante sua proposição, chamando atenção para a

54 5 5
O POPULISMO E AS CltNCIAS SOCIAIS NO BRASIL O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

necessidade de sua atualização em outros estudos que se dedi- "tema" do populismo. 32 Conforme já destaquei no artigo an-
cassem a outros cortes temporais. terior, o trânsito que a categoria populismo possui na cultura
Na ocasião, também quero reforçar, a insatisfação com o política do país e os processos de seu "deslocamento" da lin-
conceito de populismo era até certo ponto discutida nos meios guagem acadêmica para o vocabulário da mídia e da popula-
acadêmicos, e a proposição da necessidade de se repensarem ção estão a nos desafiar e a merecer reflexões. Conforme tam-
postulados vinculados às práticas de lideranças políticas e sindi- bém já destaquei, preocupa-me menos o sucesso ou insucesso
cais do pós-30 e sobretudo do pós-45 também. Razoavelmente, da "palavra" do que a permanência do que ela guarda de dra-
é bom frisar, pois vejo hoje como o debate cresceu e se enrique- mático e emblemático da política brasileira, vista sempre como
ceu, beneficiando-se de um bom número de trabalhos que se à beira do autoritarismo e sendo alvo fácil de políticos tão
afastam da idéia de "manipulação" em polítiéa e retomam as hábeis quanto cínicos. Este pós-escrito não é, portanto, um
experiências partidárias e sindicais do período entre 1930 e exercício de zelo à polêmica, mas a continuação de uma refle-
1964. Textos que têm como seu objeto a propaganda política xão que quer compreender a sociedade e a política brasileiras,
ou que voltam sua atenção para o movimento operário e sindi- acreditando que elas possam se orientar, com solidez, por va-
cal, investindo os trabalhadores de voz e ressaltando suas com- lores democráticos.
plexas relações com o patronato e o Estado. No artigo anterior,
em nota de rodapé, chego a mencionar alguns autores, cujos
textos conhecia bem na época, mas verifico que eles aumenta-
ram muito em número, sobretudo na segunda metade da déca-
da de 1990.
Na verdade, este fato está nitidamente inserido na tendên-
cia de crescimento dos estudos de história operária no Brasil,
que tanto têm procurado revisitar as experiências da classe .!

trabalhadora em vários momentos e espaços, quanto têm bus-


cado enfrentar os desafios lançados pelas transformações ocor-
ridas no mundo do trabalho neste fim de século. Aliás, foi uma 32Refiro-me ao livro de Alexandre Fortes, Antonio Luigi Negro, Fernando

dessas recentes publicações que mais me estimulou a redigir Teixeira da Silva, Hélio Costa e Paulo Fontes, Na luta por direitos: estudos
este pós-escrito, já que em seus textos realiza um apanhado e recentes em História Social do Trabalho. Campinas, Ed. da UNICAMP, 1999.
Todos os autores têm trabalhos individuais sobre o assunto, e dois deles são
um debate sobre várias questões vinculadas à produção de uma autores dessa c:oletânea. No livro, ver particularmente a entrevista do último
história social do trabalho na América Latina, incluindo o c:apítulo.

56 57
O nome e a coisa: o populismo
na política brasileira
Jorge Ferreira
"Não há povo amorfo. Não há massa bruta e indiferente. A
massa é formada de homens e a natureza de todos os homens
é a mesma: dela é a paixão, a gratidão, a cólera, o instinto de
luta e o instinto de defesa."
Rachel de Queiroz

Herdeiro do "clientelismo" da Primeira República, o "popu-


lismo", após 1930, teria dado continuidade a uma relação desi-
gual entre Estado e sociedade e, em particular, entre Estado e
classe trabalhadora. Sobretudo com a ditadura de Getúlio Vargas,
os trabalhadores, com a violência policial, teriam perdido suas
lideranças mais combativas e, com a eficácia da máquina do
DIP, sido iludidos pela propaganda política estatal. Destituídos
de tradições de luta, organização e consciência, os trabalhado-
res, fossem os mais "antigos", fossem os mais "novos", aqueles
recém-chegados do mundo rural, sucumbiram aos agrados do
ditador. Satisfeitos com alguns benefícios materiais, a legislação
social em particular, eles, em troca, dedicaram a Vargas submis-
são e obediência política.

6 1
o NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLfTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Cooptados, manipulados, iludidos e amedrontados com as tado e sociedade. Como lembra José Murilo de Carvalho, a
perseguições da Polícia Especial, os assalariados, após 1945, não postura antiestatal, maniqueísta em sua definição, inviabiliza
teriam conseguido livrar-se das amarras ideológicas tecidas na qualquer noção de cidadania e, na prática, "acaba por revelar
época anterior: cerceados em suas lutas pela manutenção da uma atitude paternalista em relação ao povo, ao considerá-lo
legislação corporativista e a tutela estatal dos sindicatos, traídos vítima impotente diante das maquinações do poder do Estado
com a atuação dos pelegos sindicais e confundidos politicamen- ou de grupos dominantes. Acaba por bestializar o povo". 1
te com as lideranças populistas, as mais antigas como Vargas, as Culpabilizar o Estado e vitimizar a sociedade, eis alguns dos
mais recicladas como Goulart. Os comunistas, igualmente ilu- fundamentos da noção de populismo.
didos com o nacionalismo, reforçaram os laços, já apertados, Não são poucos, é verdade, os trabalhos que romperam
da teia populista. com esta espécie de relação patológica entre um Estado que
A história dos trabalhadores, como é contada, não é nova e, surge pleno de poderes e uma sociedade incapaz de reagir e se
independentemente de suas diversas versões, retoma uma longa manifestar. 2 No entanto, se o populismo, como categoria
tradição intelectual. Liberais e autoritários, de direita ou esquer- explicativa da política brasileira entre 1930 e 1964, e como
da, diagnosticaram que os males do país provêm de uma rela- uma maneira de enfocar o movimento operário e sindical, vem,
ção desigual, destituída de reciprocidade e interlocução: a uma desde a década de 70, sendo posto em dúvida em um ou outro
sociedade civil incapaz de auto-organização, "gelatinosa" em aspecto, em uma ou outra afirmação, o conjunto da teoria ain-
algumas leituras, e a uma classe trabalhadora "débil", impõe-se da continua a dar as cartas para explicar o passado recente do
um Estado que, armado de eficientes mecanismos repressivos e país.
persuasivos, seria capaz de manipular, cooptar e corromper. A Nas páginas que se seguem, procuro reconstituir a história
interpretação ainda foi reforçada por um certo tipo de marxis- do populismo. No entanto, é importante frisar, não compreen-
mo que defendia um modelo de classe trabalhadora, uma deter- do a expressão como um fenômeno que tenha regido as rela-
minada consciência que lhe corresponderia e um caminho, úni- ções entre Estado e sociedade durante o período de 1930 a 1964
co e portanto verdadeiro, a ser seguido. Nesse caso, ~~. ~ classe ou como uma característica peculiar da política brasileira na-
não surgiu como se imaginava, se a consciência não se desen- quela temporalidade, pois sequer creio que o período tenha sido
volveu como se previa e se os caminhos trilhados foram outros,
a explicação poderia ser encontrada no poder repressivo de 1
José Murilo de Carvalho. Os bestializados. O Rio de janeiro e a república que
Estado, nos mecanismos sutis de manipulação ideológica e, ain- não foi. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 10-11.
2Veja Angela de Castro Gomes. "Política: história, ciência, cultura etc.". ln
da, nas práticas demagógicas dos políticos populistas. A teoria Estudos Históricos, nº 17. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas,
do "desvio", assim, reforçou a interpretação que polarizava Es- 1996.

6 2 63
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLfTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA 1

"populista", mas, sim, como uma categoria que, ao longo do aliaram às camadas médias, setores ressentidos por não se tor-
tempo, foi imaginada, e portanto construída, para explicar essa narem classes dominantes. Assim, diante de um quadro em que
mesma política. as classes fundamentais não deram respostas adequadas exigidas
pelo "momento histórico" - as dominantes, por sua
inoperância, a operária, por sua inexpressividade-, surgiram
O POPULISMO DE PRIMEIRA GERAÇÃO líderes oriundos das classes médias prontos para manipularem
as "massas".
Nos anos 50/60, a teoria da modernização repercutiu nos mei- Desse modo, no contexto da transição de uma "economia
os acadêmicos do país com grande impacto, sobretudo para a tradicional'', de "participação política restrita", para uma
configuração da noção de populismo. Para Gino Germani,3 o "economia de mercado", de "participação ampliada", a teoria
mais conhecido desses teóricos, a inserção da América Latina da modernização elegeu um ator coletivo central para o
no mundo moderno não seguiu os padrões clássicos da demo- surgimento do populismo na América Latina: os camponeses.
cracia liberal européia. A passagem de uma sociedade tradicio- Mesmo que eles não sejam nomeados com todas as letras, o 1
·'!

nal para uma moderna ocorreu em um rápido processo de ur- eixo fundamental dos argumentos de Germani e di Tella gira
banização e industrialização, mobilizando, desta maneira, as em torno da questão do mundo rural, definido como tradicio-
"massas populares". Impacientes, elas exigiram participação nal. O populismo surgiu em um momento de transição dessa
política e social, atropelando, com suas pressões, os canais sociedade para a moderna, implicando o deslocamento de po-
institucionais clássicos. A resolução dos problemas ocorreu com pulações do campo para a cidade - o mundo agrário invadin-
golpes militares ou com "revoluções nacionais-populares", sen- do o urbano-industrial. Como a mescl~-de valores tradicionais e
do que as últimas, sobretudo seus resultados, foram nomeadas modernos, os líderes populistas se projetaram em sociedades
de populismo. Torcuato di Tella,4 por sua vez, foi além. A ex- que não consolidaram instituições e ideologias autônomas, mas
plosão demográfica e as aspirações participativas das "massas necessariamente seriam substituídos por outras lideranças por-
populares" forçaram alterações no sistema político. Em certo tadoras de idéias classistas quando o capitalismo alcançasse
ponto, de muita tensão, as "massas", com suas expectativas, se maturidade na região.
Os críticos de Germani e di Tella, de variadas maneiras, de-
nunciaram a suposta vinculação entre camponeses que vieram
3 Gino Germani. Política e sociedade em uma época de transição: da sociedade
para as cidades e líderes populistas. Octavio Ianni, por exem-
tradicional à sociedade de massas. São Paulo, Mestre Jou, 1973.
4Torcuato di Tella. Para uma polftica latino-americana. Rio de Janeiro, Paz e ~~'-~~nunciou a imagem, sugerida pelos teóricos da moderni-
Terra, 1969. zação, de docilidade das "massas às manipulações populistas,

64 6 5
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

demagógicas e carismáticas". 5 Por um aspecto, diz Ianni, há o gens de "atraso", "desvio" e "manipulação" perdurariam. As
surgimento de populações recém-chegadas do mundo rural que representações imaginárias, sabemos, são capazes de resistir a
"não dispõem ainda das condições psicossociais, ou horizonte críticas, mesmo aquelas formais, eruditas e com base na investi-
cultural", para um adequado comportamento urbano e demo- gação empírica. Assim, perdurou, ao longo do tempo, a idéia de
crático. Por outro, a sociedade carece de instituições políticas que, com o processo de urbanização, os indivíduos recém-che-
sólidas, a exemplo de um sistema partidário. "Daí o sucesso da gados do mundo rural teriam contaminado os antigos operários
arregimentação das massas marginais, ou classes populares, pelo com suas idéias tradicionais e individualistas. Sociedade atrasa-
populismo." Trata-se de um descompasso, retrocesso ou desvio da, camponeses que vieram para as cidades, igualmente um atra-
de curso no sentido que se queria ideal: o modelo europeu de so, e, logo, uma política novamente atrasada, eis o ambiente em
democracia representativa. "No mundo urbano-industrial", con- que teriam proliferado os líderes populistas.
tinua Ianni em sua crítica, "onde imperam as relações de merca- A teoria da modernização foi decisiva para as primeiras for-
do, sobrevivem ou predominam as massas e o líder, cujos víncu- mulações sobre o populismo no Brasil. Segundo Angela de Cas-
los são a demagogia e o carisma." tro Gomes,7 em meados da década de 50 um grupo de intelec-
Com o tempo, as inconsistências da teoria da modernização tuais, sob o patrocínio do Ministério da Agricultura, passou a se
foram percebidas e as críticas tornaram-se mais agudas. A dis- reunir periodicamente com o objetivo de debater os problemas
tinção entre países "atrasados" e "desenvolvidos", indicando, políticos do país. Como uma vanguarda esclarecida, o Grupo
segundo Maria Helena Capelato, uma relação de exterioridade de Itatiaia, como ficou conhecido, 8 esforçou-se para formular .,
1

entre eles, o mundo capitalista "moderno" como modelo a ser projetos políticos e estabelecer uma nova visão de mundo. Um
!ji!
seguido, a perspectiva etapista, progressista, que levaria à con- dos problemas identificados foi o surgimento do "populismo '.1
solidação do regime democrático nos países "atrasados" - con- na política brasileira". Embora se constate ausência de esforços
cepção desmentida pelas ditaduras militares nos anos 60 -, para conceituar o fenômeno nas condições do país, explicava-
entre outras questões, abalaram a credibilidade do enfoque. 6
No entanto, mesmo décadas depois, quando as críticas tor- 7
Angela de Castro Gomes. "O populismo e as ciências sociais no Brasil: notas
naram as idéias de Germani e di Tella desacreditadas, as ima- sobre a trajetória de um conceito". Nesta coletânea.
8
Segundo a autora, o grupo fundou, em 1953, o Instituto Brasileiro de Eco-
nomia, Sociologia e Política (IBESP) e começou a publicar os Cadernos de
50ctavio Ianni. O populismo na América Latina. Rio de Janeiro, Civilização nosso tempo. Participaram da revista intelectuais como Alberto Guerreiro
Brasileira, 1975, pp. 25-28. Ramos, Cândido Mendes de Almeida, Hermes Lima, Ignácio Rangel, João
6Maria Helena Rolim Capelato. "Estado Novo: novas histórias". ln Marcos Paulo de Almeida Magalhães e Hélio Jaguaribe. O núcleo básico do IBESP,
Cezar de Freitas. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Contex- mais adiante, organizaria o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).
to, 1998, p. 186. Idem.

6 6 6 7
1
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLfTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

se a expressão por variáveis histórico-sociológicas, influencian- Também em uma perspectiva histórico-sociológica, Ramos
do, mais tarde, as inúmeras formulações que se seguiram. defende que o estabelecimento do populismo no Brasil ocorreu
Para os intelectuais do Grupo, em primeiro lugar, o po- sobretudo a partir de 1945. Com o fim do Estado Novo, o país
pulismo era uma política de massas. 9 Trata-se de um fenômeno conheceu, no plano polfrico, um mínimo de probidade nas elei-
vinculado à modernização da sociedade, sobretudo no tocante ções e, no plano econômico, uma industrialização mais consis-
ao processo de proletarização de trabalhadores que não adqui- tente. Assim, em uma conjuntura de expansão industrial, urba-
riram consciência de classe. Interpelados como massa, eles so- nização e de participação político-eleitoral, é que se manifesta-
mente se libertariam dos líderes populistas quando alcançassem ram as primeiras gerações de assalariados das cidades. Para o
a verdadeira consciência de seus interesses. Não é difícil, por- autor, o populismo, como uma i_deologia pequeno-burguesa,
tanto, perceber as influências da teoria da modernização. Mas, procurou mobilizar politicamente "as massas obreiras nos perí- .....
em segundo lugar, o populismo igualmente estava associado a odos iniciais da industrialização". 1°Contudo, os assalariados não
.I
uma classe dirigente que perdera a sua representatividade, que apresentavam "aquela mentalidade classista que costuma carac- ~

carecia de exemplos e valores que orientassem toda a coletivi- terizar as gerações de trabalhadores providos de longas tradi-
:.i
dade. Em crise e sem condições de dirigir o Estado, as classes ções de lutas", uma vez que as classes sociais ainda não tinham
dominantes necessitariam conquistar o apoio político das mas- se configurado, despontando no cenário político do país de
sas emergentes. Por fim, diante da "inconsistência" das classes "maneira rudimentar", como um "agregado sincrético". Em uma
fundamentais da sociedade, o terceiro elemento completaria o palavra, a classe trabalhadora se apresentava como "povo em
fenômeno: o líder populista, homem carregado de carisma, com estado embrionário". Assim, novamente associando os campo-
capacidade incomum para mobilizar e empolgar as massas. neses ao populismo, os líderes de massa, diz Ramos, encontra-
Nessa linha de abordagem, em 1961, o sociólogo Alberto ram sustentação em "componentes recém-egressos dos campos
Guerreiro Ramos, integrante do Grupo de Itatiaia, publicou A [que] ainda não dominam o idioma ideológico". São trabalha-
crise do poder no Brasil. O livro estabeleceria, de maneira mais dores com escasso "treino partidário" e "tímida consciência de
sistematizada, a imagem do populismo na política brasileira e direitos", o que os "torna incapazes" de exercer influência so-
bre os políticos populistas. ,;I
influenciaria estudos acadêmicos que, naquela época, ainda es-
~!
tavam em curso. Recuperando as teorias em voga na época, sobretudo as de ~·
Gino Germani, Guerreiro Ramos, a seguir, formula críticas ao '1
:r
9 li
Na análise que se segue, Angela de Castro Gomes explora o ensaio Que é o
ademarismo?, publicado no primeiro semestre de 1954, sem autor identifica-
do. Idem. l 1°Guerreiro Ramos. A crise do poder no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar Edito·
res, 1961, p. 56.

68 6 9
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLiTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

trabalhismo brasileiro, classificando, não sem alguma ironia, as operária e do movimento sindical. Nomeada por Luiz Werneck
suas "doenças infantis". A primeira é o varguismo. Trata-se, em Vianna de a "interpretação sociológica'', o primeiro desses tra-
suas palavras, de um "resíduo emocional baseado em impres- balhos veio ao conhecimento do público em 1964, com Juarez
sões e crenças populares na bondade intrínseca de Vargas". A Brandão Lopes. 12 A partir do auxílio de algumas categorias
segunda é o janguismo, definido como uma forma de seguidismo web-erianas, Brandão procurou compreender as motivações de
que se fundamenta no "reconhecimento de amplas camadas operários de uma empresa de porte médio em um momento de
populares de que o Sr. João Goulart é o continuador da obra do trânsito de uma "economia tradicional" para uma "economia ... ~

Presidente Getúlio Vargas". A terceira, o peleguismo, na verda- de mercado". A conclusão, segundo Werneck Vianna, foi a de-
de um subproduto do varguismo e irmão siamês do janguismo. terminação estrutural entre a origem social e a consciência de
Para Ramos, o peleguismo impede a formação de um "movi- classe. Desse modo, os trabalhadores originários do campo e
mento obreiro na exata expressão da força política que têm já das pequenas comunidades do interior, quando instalados nas
os trabalhadores brasileiros". Por fim, o expertismo, ou seja, a cidades, não se identificariam completamente como operários
prática do partido em recorrer a um "doutor, encomendando- industriais, tendendo a se comportar de acordo com seus "inte-
lhe uma teoria sob medida". 11 Não é difícil perceber que as "do- resses pessoais". Não conseguiriam, dessa maneira, explicitar a
enças infantis do trabalhismo", formuladas por Guerreiro Ra- consciência de sua identidade coletiva devido à falta de experi-
mos, sobretudo as três primeiras, firmaram-se como imagens ências cooperativas, próprias do mundo urbano e industrial. Os
fortemente introjetadas na imaginação política das gerações que outros operários, qualificados e mais antigos nas cidades, por
o sucederam. Ironias que foram tomadas a sério. sua vez, demonstrariam satisfação com suas profissões, mas, por
Seja como for, os sociólogos do Grupo de Itatiaia, sobretu- sua situação vantajosa no mercado de trabalho e pela "falta de
do Hélio Jaguaribe e Guerreiro Ramos em particular, influenci- tradição industrial", tornaram-se pouco sensíveis para ações
ados pela teoria da modernização, foram aqueles que formula- coletivas através do sindicato. 13
ram as primeiras reflexões sobre o populismo na política brasi- Segundo Luiz Werneck Vianna, os estudos sobre o movi-
leira. mento operário e sindical no Brasil se iniciaram com os traba-

.~
Assim, dando continuidade a uma linha interpretativa que lhos de Juarez Brandão Lopes e Leôncio Martins Rodrigues,
se constituía desde meados dos anos 50, um outro grupo de
sociólogos, agora nas universidades, desenvolveu reflexões so- li
bre o papel dos camponeses no processo de formação da classe
12
Juarez Brandão Lopes. Sociedade industrial no Brasil. São Paulo, Difel, 1964. l
llLuiz Werneck Vianna. "Estudos sobre sindicalismo e movimento operário: I~
resenha de algumas tendências". Rio de Janeiro, Revista Dados, BIB, 1978, :I!
1 11 /dem, pp. 90-93. pp. 74-75.

7 o 7 1
o NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
,,·1
1
14
como também com os de Azis Simão e José Albertino Rodrigues. populismo nesse período é a compreensão dos movimentos so- :1
Embora com suas diferenças e especificidades, a "interpretação ciais como reflexos das variáveis sócio-econômicas. Assim, "ex- ~
sociológica" compartilha perspectivas semelhantes em suas aná- plica-se o comportamento político das classes a partir de ~

l
lises. Partindo dos "gloriosos anos 1O", com a atuação dos anar- determinantes estruturais (processo de industrialização, origem
quistas, a reflexão procura tornar evidente a transição, comple- rural da classe trabalhadora). A adesão ao populismo é entendi-
tada na década de 30, para um sindicalismo burocrático e aco- da então a partir da estrutura social, sem se levar em conta qual-
modado, permitindo o surgimento de uma classe operária que quer elemento de ordem política ou cultural" •16 O "novo prole-
,,
teria perdido sua autonomia, espontaneidade e ímpeto revolu- tariado" da década de 30, muito distante do velho e revolucio-
cionário. As matrizes teóricas da "interpretação sociológica", nário anarquismo dos anos 1O, teria surgido, no dizer de Werneck
diz Werneck Vianna, provêm da hegemonia do pensamento Vianna, com uma "concepção individualista que traz do mundo
cepalino nas universidades brasileiras, dos trabalhos de Gino do tradicionalismo agrário - se tornaria na massa de manobra
Germani e da leitura de textos de Weber e Marx. Tais concep- do populismo (... ) assinalando o toque de recolher para o mar-
ções foram entendidas como convergentes para explicar a reali- xismo no movimento operário substituído pelo nacionalismo" . 17
dade latino-americana. 15 Assim, o enfoque sobre o "comporta- No entrecruzamento da teoria da modernização com uma
mento operário", determinado pela origem da força de traba- certa interpretação do marxismo, eis que surgem os campone-
lho em um contexto de transição de uma "economia tradicio- ses no cenário político, representando o ator coletivo chave para
nal", de "participação política restrita", para uma "economia a formulação e disseminação da primeira versão do populismo.
de mercado", de "participação política ampliada", teria resulta- Seria na passagem da "sociedade tradicional" para a "moderna"
do em uma classe operária que, marcada pelo individualismo, que atuariam os camponeses, seres incapazes de ações coletivas
por suas origens rurais, tradicionais e patrimoniais, se tornou porque imbuídos de uma percepção individualista da sociedade
passiva e dependente do Estado. O resultado, portanto, foi o e, exatamente por isso, refratários às mudanças sociais - em
surgimento do populismo. particular as revolucionárias. ,.li
·~
As críticas, na verdade, tardaram a chegar. Para Maria Hele- Portanto, entre meados dos anos 50 e início dos anos 60, ;
..i1
na Capelato, um dos elementos constitutivos da noção de algumas imagens sobre os "desvios" da política brasileira e da
própria classe trabalhadora, determinados pelo papel dissolvente '"·""
,,.ji
HLeôncio Martins Rodrigues. Conflito industrial e sindicalismo no Brasil. exercido pelos camponeses que vieram para as cidades, come- ··!

São Paulo, Difel, 1966; Azis Simão. Sindicato e Estado. São Paulo, Ática,
1981; José Albertino Rodrigues. Sindicato e desenvolvimento no Brasil. São
Paulo, Difel, 1966.
1lLuiz Werneck Vianna. Op. cit., p. 71. l 1'Maria Helena Rolim Capelato. Op. cit., pp. 185-186.
1
7Luiz Werneck Vianna. Op. cit., p. 78. '1

72 7 3
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLiTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

çaram a circular em alguns círculos intelectuais no Brasil. Ten- sucesso da política varguista entre os trabalhadores porque o
do como matriz a teoria da modernização, tais idéias inicial- êxodo rural trouxe para as cidades uma mão-de-obra com tra-
mente foram apropriadas pelos sociólogos do Grupo de Itatiaia dições patrimoniais, individualistas e sem experiências de lutas
e, daí, começaram a ganhar espaços nas universidades. O golpe sindicais. Desencadearam-se, desse modo, a "revolução indivi-
militar, em 1964, no entanto, veio acelerar o processo, permi- dual" dos migrantes oriundos do campo que chegaram ao mun-
tindo que a noção de populismo surgisse como fator explicativo do urbano e a conseqüente pressão para o acesso ao consumo e
para a fraqueza do movimento operário e sindical diante da ao emprego. Portanto, "trata-se, sempre, de formas individuais
investida, verdadeiramente fulminante, da direita civil-militar. de pressão, as quais se apresentavam aos populistas como um
Foi nesse contexto político e intelectual que, em meados problema a resolver". 21 Ou seja, como já afirmara Guerreiro ..... ,
dos anos 60, veio a público uma série de artigos, reunidos, mais Ramos, existia a classe, mas faltava a sua consciência, mascara- ... ,,
~

tarde, sob o título de O populismo na política brasileira. A cole- da ou deformada no processo que transformou camponeses em
tânea resgatou o conjunto de idéias que, desde a década anteri- assalariados urbanos, permitindo a Weffort sugerir que a refle-
or, vinha afirmando a noção de populismo e, sintetizando-o de xão sobre o populismo deva basear-se a partir de "relações indi-
maneira original, abriu caminhos para pesquisas e reflexões viduais". 22 A teoria da modernização, portanto, é central nas
posteriores. 18 Embora apresente reflexões avançadas para a pri- análises de Weffort.
meira metade dos anos 60, o próprio contexto intelectual da- A segunda tradição intelectual presente na coletânea pro-
quela época impôs limitações teóricas aos textos. Assim, duas vém de uma época em que se acreditava que os atores sociais
tradições interpretativas percorrem as páginas do livro. A pri- tinham "vontade própria". Assim, diz o autor: "a burguesia e o
meira é a adoção da tipologia de Gino Germani, que alude à proletariado, em especial este último, tendem a organizar raci-
passagem de uma "democracia com participação limitada" para onalmente sua ação política e a colocar, de maneira clara, seus
uma "ampliada". 19 Trata-se de um processo de "massificação interesses de classe à luz do dia do debate político".23 Muitas
prematura" ou "antecipada" de massas rurais na vida urbana e vezes, noções oriundas da ortodoxia aparecem de maneira pe-
no processo político. 20 Weffort recupera a tese que afirma o remptória: "Na impotência histórica da pequena burguesia está
a raiz da demagogia populista(... ). Deste modo, por limitar-se
18 Frandsco
às formas pequeno-burguesas de ação, o populismo traz em si a
Weffort. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1980, p. 22. Minha análise limita-se aos três primeiros artigos da cole-
tânea: "Política de massas", escrito originalmente em 1963; "Estado e massas
21 /dem, p. 75.
no Brasil", de 1965; e "O populismo na política brasileira", de 1967.
1'/dem, p. 45. 22 /dem, p. 72.
2º/dem, p. 54. 23 /dem, p. 28. :1
'ili

74 7 s

i
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

inconsistência que conduz inevitavelmente à traição. " 24 Se o tradição política, o trabalhismo, surgem no mesmo patamar que
populismo foi traição, a grande pergunta, nunca respondida, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, políticos que o próprio
lembra com razão John French, é: por que os operários sucum- Weffort caracteriza como fenômenos de São Paulo. 28 Eles, por
biram aos agrados dos líderes populistas, aceitando a domina- sua vez, são igualados à ala direitista-golpista da UDN, como
ção, e, no mesmo movimento, se dispuseram a confiar em trai-
dores?25 Portanto, ler O populismo na política brasileira é co-
Carlos Lacerda, ao general Eurico Dutra e a Juscelino Kubitschek.
Todos, segundo indicações de Weffort, surgem na mesma di-
1
nhecer um autor afinado com o contexto intelectual de seu tem- mensão porque se dirigem ao povo, sem distinguir as contradi-
po, mas igualmente limitado por ele. ções de classe contidas nesta concepção.
Algumas vezes, personagens com tradições e práticas políti- Enfim, vários são os temas a serem explorados na coletâ-
cas distintas são tratados de maneira indiferenciada, perdendo- nea. No entanto, vale observar uma certa tensão ao longo dos ......,
se, assim, especificidades e a própria historicidade dos projetos: argumentos do autor. Em alguns momentos do livro, um grupo
"entre o populismo dos demagogos e o reformismo nacionalis- de afirmações revela uma interlocução, uma interação, nas rela-
ta de 1964 sempre existiram afinidades profundas de conteú- ções entre Estado e classe trabalhadora, vistas como um proces-
do".26 Em um Estado como esse, alega, "não há lugar de desta- so legítimo:
que para as ideologias. Os aspectos decisivos da luta política -
as formas de aquisição e preservação do poder - estão vincula- o populismo foi, sem dúvida, manipulação de massas, mas a
dos a uma luta entre personalidades".27 Ao mesmo tempo que manipulação nunca foi absoluta. Se o fosse, estaríamos obriga-
personaliza o passado histórico da sociedade brasileira, o autor dos a aceitar a visão liberal elitista, que, em última instância, vê
dilui e, conseqüentemente, perde a especificidade dos projetos no populismo uma espécie de aberração da história alimentada
políticos em que estes líderes políticos se manifestaram. Assim, pela emocionalidade das massas e pela falta de princípios dos
João Goulart, Leonel Brizola, Roberto da Silveira, Alberto líderes. Se o populismo foi manipulação, alega, "também foi
Pasqualini, Fernando Ferrari, Lúcio Bittencout, entre outros, um modo de expressão de suas insatisfações". 29 ·:1'
··~
todos filiados a um partido político, o PTB, bem como a uma 1

Outra indicação importante, que relativiza o poder de Esta-


24/dem,
do e resgata o papel e a atuação dos próprios trabalhadores nas
p. 28.
11john French. O ABC dos operários. Conflitos e Alianças de dasse em São relações políticas daquela época, igualmente é dada por Weffort:
Paulo, 1900-1950. São Caetano do Sul. Huciteo'Prefeitura de São Caetano
do Sul, 1995, p. 9
26/dem, p. 37. 28/dem, p. 28.
27/dem, p. 54. 1 29/dem, p. 62.

76 7 7
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

"Grupo burguês algum é capaz, por si próprio, de inventar um Assim, as análises das relações mantidas entre Estado e clas-
político de massas. As condições de existência das massas têm se trabalhadora são conduzidas sob certa tensão, sob certa am-
também seu papel nesta invenção."3º bigüidade: ora interlocução, ora manipulação. No entanto, esta
As afirmações, importantes, sugerem que o populismo não última maneira, de cima para baixo, foi a que se firmou nos
foi mera manipulação de massa, de cima para baixo, mas que estudos posteriores, ressaltando-se as passagens em que Weffort
houve interlocução entre Estado e classe trabalhadora. No en- analisa de maneira mais caricatural as relações entre as "mas-
tanto, muitas leituras não observaram com maior cautela uma sas" e os líderes "populistas": manipulação, emocionalidade,
linha de reflexão que se abria. Talvez pela própria ambigüidade relações individuais, traição etc.
das idéias contidas em seus textos, as atenções voltaram-se para Seja como for, com a teoria da modernização, as idéias do
outro conjunto de afirmações. Weffort critica a versão liberal Grupo de Itatiaia, a interpretação sociológica do movimento ...,,
do populismo, cuja explicação seria a manipulação e a demago- operário e os trabalhos de Weffort, o populismo, na segunda
gia dos líderes conjugadas à ignorância e ao atraso das massas. metade dos anos 60, começou a firmar-se nas Ciências Huma-
Contudo, em outros momentos, contrariando suas próprias crí- nas no Brasil. Era necessário, no entanto, situá-lo em um con-
ticas à concepção liberal, o texto permite leituras bem diferen- texto histórico internacional para estabelecer a noção com mai-
tes. Assim, para o autor, em 1930 aparece "o fantasma do povo or precisão metodológica. Assim, nos compêndios e manuais
na história política brasileira, que será manipulado soberana- sobre o populismo na América Latina e no Brasil, invariavel-
mente por Getúlio Vargas durante 15 anos". 31 Ou então as mas- mente a introdução ou o capítulo inicial tratavam dos "antece-
sas populares constituíram a raiz do poder dos líderes populistas, dentes" históricos: o leitor, desse modo, conhecia o populismo
"mas, nesta mesma condição, não passam de 'massa de mano- na Rússia tzarista e nos Estados Unidos no século XIX. Nova-
bra'. "32 Ao dar ao Estado um poder que ele, teoricamente, não mente, portanto, há a presença do mundo rural. Embora os
alcançou, mesmo nas ditaduras mais intolerantes, surgem afir- contextos econômico, político, social, agrário, cultural, ideoló-
mações bastante questionáveis: "nas formas espontâneas do gico e religioso do Brasil tenham sido diversos da Rússia tzarista,
populismo, a massa vê na pessoa do líder o projeto do Estado; e, ambos, distintos dos Estados Unidos, o que une histórias tão
abandona-se a ele, entrega-se à sua direção e, em grande medi- diferentes é o campesinato. E onde ele está, é de se prever, tam- ;11
t'
~~ 1
da, ao seu arbítrio". 33 bém aparecem os populistas.

30 /dem, p. 34. Estaria a primeira versão do populismo superada? Creio que


31/dem, p. 51.
32/dem, p. 58.
não. No primeiro semestre de 1998, em uma prestigiada escola
33 /dem, p. 41. católica na cidade de Niterói, uma aluna da segunda série do

7 8 7 9
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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA :

segundo grau recebeu de seu professor de história uma apostila populista: afinal, Vargas era o 'pai' dos trabalhadores brasi- 1
1,
resumindo a trajetória da política brasileira após 1945. Logo leiros... ,.
'
no início, a menina leu: "O período que se estende de 1945 a
1964 é tradicionalmente conhecido como o período do Mas, entre 1963 e 1964, as lutas sociais se acirraram, conti-
'Populismo'." Entre aspas e em negrito, para chamar a atenção nua a apostila. A conclusão resume-se a um jargão, comum na
dos jovens leitores, o conceito teria algumas "características literatura sobre o assunto: com o golpe militar de 1964, dizem
básicas": os autores do texto em tom peremptório, "era o colapso da
época populista no Brasil".
Como já se observou, o populismo na América Latina teve como Seria uma injustiça, grave a meu ver, desmerecer o trabalho '·"4

característica básica uma intensa manipulação das massas, num desses professores. Não é esse o meu objetivo. São profissionais
momento de transição entre a economia agro-exportadora e a mal pagos, trabalhando muitas vezes em condições difíceis, sem
economia mais moderna, que começa a se instalar após a crise chances de atualização ou recursos para comprar livros. Com
de 1929. Lideranças mais ou menos carismáticas disputaram o honestidade e seriedade, fazem o melhor que podem, mas isso é ·!·

poder junto a essa massa, ora fazendo concessões (as leis traba- o melhor que fazem.
lhistas de Vargas são um bom exemplo), ora utilizando o povo
Para os professores que formam os nossos filhos, a política
como elemento de ataque às antigas oligarquias.
brasileira e as relações entre Estado e classe trabalhadora du-
rante o período de 1930 a 1964 encerram um "senso comum"
Os trabalhadores, cuja consciência social estaria a meio-ter- '
no sentido gramsciano do termo, nomeado de populismo - e
mo entre os padrões rurais e os vigentes na indústria, deixaram-
em sua primeira versão, a dos anos 50 e 60. Mas seria correto
se envolver por líderes burgueses, que, habilmente, os usaram
afirmar que esse "senso comum" circula somente entre os pro-
como massa de manobra. Após aprender as dimensões teóricas
fessores de nível médio? Estariam eles tão desatualizados assim?
do conceito, a aluna, um tanto confusa, também aprendeu com
Com ressalvas, creio que não.
o professor o que se seguiu na política brasileira: a democrati-
Os resultados desta primeira versão do populismo são co-
zação de 1945, o surgimento dos partidos políticos nacionais e
nhecidos e aceitos até hoje, tanto nas apostilas de nível médio
o governo Outra. No entanto, em 1950, surpreendentemente,
quanto na bibliografia especializada. No primeiro governo de
o populismo teria ressurgido. Não sem alguma ironia, os auto-
Vargas, os trabalhadores tiveram acesso aos direitos sociais, mas
res da apostila escreveram:
não aos políticos, e, a partir de cálculos sobre suas perdas e
Nas eleições de 1950, Vargas voltou ao poder(... ). Sua vitória ganhos, trocaram os benefícios da legislação por submissão po-
traduzia claramente o poder de manipulação da política lítica. Assim, incapazes de pensar por si mesmos, fracos diante ii ..
,,

80 8 1
o NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLiTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

das investidas ideológicas das classes dominantes, recebendo peu. As liberdades democráticas foram suprimidas, e o movi-
passivamente e sem críticas a doutrinação política, os trabalha- mento operário duramente reprimido. Anarquistas, socialistas,
dores brasileiros oriundos do mundo rural, destituídos de tra- comunistas e liberais perderam os espaços de atuação política, e
dições de luta, organização e consciência, passaram a idolatrar muitos deles, a própria vida. A repressão policial, a censura aos
Vargas e, desde 1945, a eleger outros líderes populistas e avo- meios de comunicação, entre outros dispositivos arbitrários e
tar no PTB. discricionários, impediram qualquer movimento para as oposi-
ções. No entanto, diante de um contexto político tão sufocan-
te, os trabalhadores apoiaram a ditadura de Vargas. O apoio, .. ,
O POPULISMO DE SEGUNDA GERAÇÃO admitem diversas tendências historiográficas, não era apenas
formal, mas sincero, e o reconhecimento, a gratidão e as mani-
..
...,
·''
Na virada dos anos 70 para a década de 80, a primeira versão festações elogiosas dos assalariados ao ditador dificilmente são
do populismo começou a dar mostra de esgotamento em suas refutados pelos estudiosos. Esse, portanto, foi o problema que
hipóteses centrais. A teoria da modernização, o papel do Esta- o populismo de segunda geração herdou da primeira e procu-
do como elemento que organizaria as classes, o comportamen- rou novamente enfrentar, centrando os estudos nas relações entre
to político da classe trabalhadora determinado por estruturas Estado e sociedade/classe trabalhadora entre 1930 e 1945.
sócio-econômicas - como sua origem rural ou devido às pecu- Para enfrentar a questão, houve, inicialmente, a recusa, pelo
liaridades da industrialização brasileira-, entre outros fatores, menos formalmente, das hipóteses centrais da primeira versão
não mais satisfaziam os estudiosos. Os grandes ensaios sobre o do populismo. Contudo, a recusa não foi total, tanto assim que
"populismo na América Latina" tornaram-se cada vez mais ra- o texto-síntese daquela primeira versão, O populismo na políti-
ros. Sociólogos e cientistas políticos, pioneiros nos estudos, pas- ca brasileira, de Weffort, continuou a ser citado nos textos -
saram a debater com historiadores, os quais, com seus métodos algo que não é casual.
de pesquisa, enfrentaram a questão. Há uma premissa formulada por Weffort nos anos 60 que
Assim, os estudos voltaram-se principalmente para as rela- persistiu entre os historiadores da década de 80. Interrogando
ções entre Estado e sociedade na época do "primeiro governo" ao extremo a coletânea O populismo na política brasileira à pro-
de Vargas. De alguma maneira, o problema que preocupou a cura das razões que teriam levado os trabalhadores a apoiarem
primeira versão do populismo foi reiterado pelos novos estu- "líderes populistas", encontramos um argumento central: o
dos: em 1930, instituiu-se no Brasil um Estado de vertente au- populismo impôs-se pela conjugação da repressão estatal com a
toritária que se acentuou em 1935 e se impôs como uma dita- manipulação política, embora a chave de seu sucesso tenha sido
dura em 1937, influenciada pela experiência do fascismo euro- a satisfação de algumas demandas dos assalariados. Assim, mes-

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA !
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mo que a segunda versão tenha rejeitado as premissas anterio- programas de pós-graduação em História Social, a partir de fins n
res - teoria da modernização, determinações sócio-estruturais dos anos 70, discutissem, na parte teórica dos trabalhos, a ques- t.:
"
nas organizações da classe trabalhadora, a influência negativa tão da ideologia. Marx, Lenin, Lukács, Goldman, Althusser ou
dos camponeses no meio operário, entre outras questões - , a Gramsci, para citar os mais conhecidos, eram convocados em
..
~

premissa central, sugerida por Weffort, repressão, manipulação busca· de uma definição mais apropriada para o fenômeno. Afi-
e satisfação, continuou presente, embora não exatamente da nal, o conceito de ideologia, compreendido na maioria das ve-
mesma maneira. Ela continuou nas análises, mas enfatizando o zes como "falsa consciência", poderia desvendar as razões que
poder repressivo e manipulatório do governo e, no mesmo teriam levado os operários a não se revoltarem contra ordens "·
movimento, minimizando os espaços para a atuação e interven- sociais opressoras.
ção dos trabalhadores e sua interlocução com o Estado. A se- No campo do marxismo, um dos clássicos que marcaram ....,, .
gunda versão do fenômeno apropriou-se das idéias de Weffort, uma geração foi Antonio Gramsci. Como um dos mais refina-
ressaltando as variáveis repressão e manipulação, mas subesti- dos pensadores marxistas, em füis dos anos 70 suas idéias entra-
mando, e muitas vezes desconhecendo, o viés da satisfação. Sur- ram nas universidades brasileiras - período, também, em que
giu, assim, o populismo na sua interpretação mais repressiva e os historiadores começaram a estudar a política brasileira após
demagógica. 1930, em particular o "primeiro governo" de Vargas. Foi a P~<>.­
Neste aspecto, é importante citar uma poderosa tradição posta teórica de hegemonia em Gramsci que mais fascinou os
que influenciou, direta ou indiretamente, toda uma geração de estudiosos na época. Não quero discutir o conceito, sabemos
intelectuais: o marxismo. O marxismo apresentou uma questão que ele permitiu diversas interpretações. O que importa, aqui, é
importante ao estudioso: uma ordem social não é imutável, e a a sugestão de que a dominação de uma classe social sobre outra
sua própria reprodução propicia a sua transformação. Para um não se impõe apenas pela força, pelo poder repressivo de Esta-
historiador, marxista ou não, a assertiva foi muito bem recebi- do, como era comum pensar, mas que sua eficácia ocorre ao se
da. As divergências, porém, surgiram sobre a maneira e os cami- conjugar com as instâncias "persuasivas" da sociedade.
nhos que permitiriam a transformação, suscitando acalorados ~:
Com o pensador italiano, não foi difícil para muitos histori-
debates entre autores e militantes marxistas. Assim, a versão adores reavaliarem a teoria do primeiro populismo. Assim, en-
mais disseminada defendeu que a possibilidade da mudança pro- tre a tríade repressão, manipulação e satisfação em Weffort e a
vém da capacidade dos trabalhadores de alcançarem a "verda- dicotomia repressão e persuasão em Gramsci, a última tornou-
deira" consciência de classe, de "desvendarem" as contradições se mais atraente. Com a alteração no enfoque, pode-se dizer
sociais, de perceberem quais seriam os seus "reais" interesses. mesmo que houve uma regressão na maneira de se pensarem as
Não é casual, desse modo, que muitas pesquisas produzidas nos relações entre Estado e classe trabalhadora na época de Vargas.

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

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Na primeira versão, ainda havia a variável satisfação, aceitando Assim, derrotando os grupos organizados, o Estado, 1:"
que os assalariados se beneficiaram com as políticas públicas do concomitantemente, teria recorrido a uma segunda prática, vol- 1:
'•
Estado varguista, como a legislação social, por exemplo. Na se- tando as suas baterias para o "povo", ou seja, os assalariados t
gunda versão, no entanto, sequer isto foi considerado. Repres- que não conheciam as experiências do movimento sindical, os ..

são e persuasão, ou, como é comum dizer, repressão policial e pobres e as pessoas comuns - para utilizar a linguagem dos
propaganda política, tornaram-se os elementos centrais para se anos 60 e 70, os "novos" operários de origem rural. Para o
compreender os mistérios do sucesso de Vargas entre os traba- melhor sucesso de seus objetivos, o Estado utilizou os recursos
oferecidos pelas modernas técnicas de propaganda e de doutri-
...
lhadores.
Surgiram, assim, diversos trabalhos a partir do início dos nação políticas. Com extrema habilidade, o governo de Vargas
anos 80 sobre o Estado Novo, contribuindo, sem dúvida, para a teria "inculcado" nas mentes das pessoas idéias, crenças e valo-
compreensão daquela temporalidade. Muitos textos enfatizaram res baseados na mentira, na ilusão e na deformação ou inversão
a repressão policial, outros acentuaram a propaganda política da realidade. Com o auxílio de seus "intelectuais orgânicos", o ·~·
estatal, e alguns, de maior fôlego, ressaltaram os dois aspectos. Estado teria inundado a sociedade com imagens e símbolos de
Mas a maioria das interpretações concordavam que o populismo exaltação ao governo, utilizando como veículos rádios, cine-
floresceria com sucesso em um certo tipo de Estado, autoritá- mas, livros, jornais, biografias, cartilhas escolares, músicas, fes-
rio, que recorreria a duas práticas distintas, embora comple- tas, comemorações cívicas etc. Assim, eliminando os operários
mentares: a primeira, voltada para o movimento operário e sin- mais combativos, com a polícia, e manipulando o restante da
dical, utilizou a repressão policial mais truculenta, invadindo os população, a partir dos meios de comunicação, o Estado po-
sindicatos de trabalhadores, prendendo os seus líderes, espan- pulista teria alcançado amplo sucesso, sendo, dessa maneira,
cando os seus militantes, cerceando as suas práticas de luta e de aceito como legítimo pelos trabalhadores.
organização, enquadrando os sindicatos por meio de uma legis- Não há muitas dúvidas sobre a repressão policial que se abriu
lação controladora e restritiva e suprimindo, às vezes fisicamente, a partir de 1930, se acentuou em 1935 e tornou, a partir de
as esquerdas. O aparato repressivo, assim, ter-se-ia dedicado a 1937, inviável qualquer resistência ao regime. As pesquisas de-
eliminar os setores mais combativos da classe, aniquilando as monstram, às vezes de maneira irrefutável, o processo repressi-
veleidades autonomistas do movimento operário e solapando vo. Igualmente ficou comprovada a montagem de um comple- "
-~·

as bases do sindicalismo mais avançado. A polícia, a legislação xo sistema de propaganda política estatal coordenado, sistemá-
autoritária e os tribunais de exceção teriam impedido que os tico e, dentro dos recursos da época, sofisticado. O que se ques-
trabalhadores mais organizados seguissem os caminhos "natu- tiona é abordar as relações entre Estado e classe trabalhadora a
rais" que os conduziriam a uma autêntica identidade política. partir de paradigmas explicativos, ao mesmo tempo opostos e

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complementares, centrados na repressão e na manipulação, cadas de 60 e 70 em diversos aspectos, mas, igualmente, resga-
ambos surgindo como formas de violência estatal sobre os assa- taram muitos de seus elementos. A noção permaneceu, contudo
lariados, física em uma dimensão, ideológica na outra. Como ~:
recebeu um tratamento mais sofisticado, atualizando-se com as
diz Angela de Castro Gomes, "elas são reconhecidas como fun- tendências historiográficas do momento.
.·::.
damentais e como pano de fundo sem o qual uma reflexão mais No entanto, ainda na década de 80, houve tentativas de se
refinada sobre seus impactos seria impraticável. Trata-se, por- aband.o~ar a noção de populismo. Diversos autores, evitando
tanto, de considerá-las teórica e empiricamente insuficientes e utilizar a expressão, passaram a ressaltar as políticas públicas de
equivocadas para dar conta do fenômeno que está sendo exa- controle social implementadas pelo Estado varguista, sobretu-
minado, considerando-se sobretudo seus desdobramentos atra- do no tocante ao "controle operário". Diante do avanço da
vés do tempo". 34 mobilização dos trabalhadores desde a década de 1910, em par-
Como defendi em trabalho anterior, o "mito" Vargas não ticular do movimento anarquista, e do conseqüente perigo de
foi criado simplesmente na esteira da vasta propaganda políti- revoluções anticapitalistas, novas formas de dominação política
ca, ideológica e doutrinária veiculada pelo Estado. Não há pro- foram implementadas. O poder, interpretado em um sentido
paganda, por mais elaborada, sofisticada e massificante, que mais amplo, certamente sob a influência das leituras de Michel
sustente uma personalidade pública por tantas décadas sem re- Fo_ucault, não se limitou a agir pelas instâncias repressivas de
alizações que beneficiem, em termos materiais e simbólicos, o Estado e por seus "aparelhos ideológicos". Imiscuindo-se em
cotidiano da sociedade. O "mito" Vargas expressava um con- diversos campos do social, surgiram especialistas que formula-
junto de experiências que, longe de se basear em promessas ram discursos "racionais'', no sentido sugerido pela chamada
irrealizáveis, fundamentadas tão-somente em imagens e discur- Escola de Frankfurt, Habermas em particular, sobre saúde, edu-
sos vazios, alterou a vida dos trabalhadores. 35 cação, sexualidade, habitação, pedagogia, educação física, me-
As matrizes teóricas do segundo populismo, nos anos 80, dicina, direito, entre diversos outros. O objetivo dos especialis-
portanto, distanciaram-se dos pressupostos defendidos nas dé- tas era "conhecer" o operário. E, conhecendo-o, "controlá-lo".
Desqualificados em seu próprio saber, destituídos de legitimi-
dade para falarem por si mesmos e pela sociedade, os trabalha-
34Angela de Castro Gomes. "Apresentação". ln Jorge Ferreira. Trabalhadores
do Brasil. O imaginário popular. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, dores deixar-se-iam dominar por um saber racional, porque ci-
1997, p. 10. entífico, e, logo, apresentado como verdadeiro. A ordem social,
lSJorge Ferreira. Idem. Aliás, vale repetir uma citação do próprio Weffort,
assim, não ficaria mais sob os auspícios da política, pois um
que, décadas atrás, já observara que "grupo burguês algum é capaz, por si
próprio, de inventar um político de massas. As condições de existência das saber técnico e científico, portanto neutro, deveria tomar o seu
massas têm seu papel nesta invenção". Op. cit•• p. 34. lugar. Os discursos racionais e científicos, revestidos de toda

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111111. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

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uma eficácia técnica, teriam elaborado variadas formas de co- tores, poucos na verdade, as explicações que ressaltavam a pro- 1:
nhecimento especializado. Fundamentados na competência téc- paganda política, a repressão policial e o controle social não 1:
nica, eles começaram a tomar corpo e forma nos anos 20 para estariam necessariamente equivocadas, apenas não foram às úl-
invadirem todas as dimensões da sociedade nos anos 30. timas conseqüências. A repressão estatal e a propaganda políti- .·:: '

O enfoque do "controle operário" surgiu como alternativa ca no governo Vargas, portanto, sofreram uma leitura radical.
ao binômio repressão-propaganda, centrando a análise na efi- Assim, ainda nos anos 80, e mesmo no início da década se-
cácia do poder baseado no argumento da racionalidade e da guinte, as alternativas ao populismo não tardaram a chegar. Afi-
técnica. Contudo, a abordagem, sabemos hoje, não foi tão al- nados com os esquemas sociológicos dos teóricos do totalitaris-
ternativa como se pensava. Afinal, a repressão policial e a pro- mo, historiadores aproximaram o governo Vargas dos regimes
paganda política tinham por objetivo a adesão dos trabalhado- de Hitler e Stalin. Multiplicando em muitas vezes a capacidade
res e, portanto, o próprio controle. Sobretudo com a recepção da repressão policial, até elevá-la à categoria de terror generali-
da História Cultural no Brasil, percebeu-se que não há por que zado, e ampliando ao máximo a eficácia da propaganda políti- w'

acreditar em uma relação sem mediações entre as idéias erudi- ca, comparando-a às práticas nazistas e stalinistas, Vargas pas-
tas e populares, que há um lapso entre a intenção de controlar e sou a ser definido como um líder totalitário. A inovação é apa-
o efetivo controle, que o poder dos poderosos não é tão pode- rente e equivocada: novamente a repressão e a propaganda,
roso assim. Sem negar os recursos utilizados pelo Estado após como pressupostos centrais da análise, permanecem inalteradas. 36
1930, ou ainda nos anos 20, para controlar a classe trabalhado- É curioso observar, neste aspecto, como a teoria sociológica
ra e racionalizar a sua própria existência a partir de critérios do totalitarismo seduziu muitos historiadores brasileiros. Em-
técnicos e "científicos", tornou-se necessário relativizar o bora os especialistas da história do socialismo, no Brasil e no
enfoque a fim de se evitar uma abordagem totalizadora, suge- exterior, recusem a expressão, 37 os debates sobre o caráter tota-
rindo estruturas capazes de diluir a existência de sujeitos políti-
cos e sociais incapazes de superá-las. Os mecanismos de "con- 36
Jorge Ferreira. Op. cit., p. 15.
trole operário" foram implementados, mas sua atuação e eficá- 37Na coleção História do marxismo, organizada por Eric Hobsbawm, bem
cia eram limitadas pela própria cultura da classe trabalhadora. como na coletânea História do marxismo no Brasil, não há um único especi-
,,
alista que adote a teoria do totalitarismo. Na avaliação de Martin Malia, a "'
Seja como for, as insatisfações permaneceram. Os enfoques teoria do totalitarismo baseia-se em classificações estáticas, com forte ten-
baseados no binômio repressão-propaganda ou no controle, que dência a abstrações atemporais. La tragédie soviétique. Histoire du socialisme
en Russie. 1917-1991. Paris, Éditions du Seuil, 1995, p. 24. Ao dar excessivo
necessariamente não se opunham, pareciam insuficientes. Era
poder às técnicas de propaganda e ao terror político, a teoria do totalitarismo
preciso explicar, de maneira mais incisiva e contundente, o su- desvia a atenção do estudioso para a colaboração da própria sociedade ao
cesso de Getúlio Vargas entre os trabalhadores. Para alguns au- regime, da cumplicidade que se estabeleceu entre Estado e socied;ide.

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1:•11. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .111111111111111·1111. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA

litário ou não do Estado Novo, como lembra Maria Helena forma extremada do fascismo, surgiu em reação ao "totalitaris-
mo" soviético e, para se defender, foi obrigado a imitá-lo nos
Capelato, geraram algumas polêmicas. 38
genocídios. Contradição flagrante, diz Ferro. Na impossibilida-
Para Marc Ferro,39 é inquietante, na verdade, o processo de
banalização do nazismo com a vulgarização da teoria do totali-
de de negar a existência das câmaras de gás, embora tivessem a ..
.:;

ousadia, as interpretações "revisionistas" e "negacionistas" do


tarismo, particularmente se considerarmos a contribuição dos
nazismo responsabilizaram a URSS pelos grandes massacres e,
próprios estudiosos do assunto. Se antes da Segunda Guerra
por essa brecha, desculpabilizaram a política nazi, apresentan-
somente os regimes de Hitler e Mussolini se definiam dessa
do exemplos variados de genocídios: nas colônias européias, no
maneira, após 1945 o conceito se estendeu também para a União
faroeste norte-americano ou nas ditaduras dos países pobres,
°
Soviética.4 Com Carl Friedrich, Zbigniew Brzezinski e, sobre-
entre outros exemplos, os extermínios de populações inteiras
tudo, Erns Nolte,41 diz Ferro, a equiparação dos campos de ex-
também aconteceram. Chega-se, portanto, ao estágio avançado
termínio nazistas com os gulags soviéticos encobriu o racismo,
de normalização do nazismo - no Brasil, por exemplo, teria
um dos pontos básicos da política hitlerista. Em vários estudos, ".
sido o caso do Estado Novo, um regime supostamente "totalitá-
a conclusão, surpreendente, é a de que o nazismo, como uma
rio". Para o autor, definir o III Reich como "fascista" ou por
generalizações como "totalitário" é encobrir a característica
18 Veja Maria Helena Rolim Capelato. Op. cit., pp. 197 e seguintes.
central do regime: o ódio racial e o projeto de dizimação em
19 Marc Ferro. História da Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Ática, 1995.
40 No caso soviético na época de Stalin, diz Eric Hobsbawm, apesar de brutal, massa não somente de judeus, mas também de eslavos, ciganos,
burocrático e terrorista, o sistema soviético não foi totalitário. O romance deficientes físicos, cardíacos, entre outros. 42 Assim, insiste com
1984, de George Orwell, sugeriu a imagem de uma sociedade totalitária,
razão o autor, "identificar o terror hitlerista ao terror da URSS
vítima de lavagens cerebrais, onde ninguém escapava do olho vigilante do
poder. "Isso é sem dúvida o que Stalin teria querido alcançar", diz o autor. A corresponde a fazer tábula rasa da especificidade do racismo,
maioria dos soviéticos, continua o autor, não se importava com as declara- que constituiu um dos pontos básicos da política nazista de exter-
ções sobre política e ideologia marxista-leninista vindas do líder e do parti-
mínio". Tal equiparação, segundo Ferro, contribui para o proces-
do, desde que elas não atingissem seu cotidiano e sua vida comum. Somente
os intelectuais e, certamente, os militantes filiados ao PCUS levavam a sério a so de banalização do nazismo no mundo atual. 43 A excessiva vul- .: !
":
teoria "científica" do socialismo soviético. O sistema, afirma Hobsbawm, garização do termo, portanto, minimiza o nazismo e, no mesmo
"não exercia efetivo 'controle da mente', e muito menos conseguia 'conver-
são do pensamento' (... )",embora despolitizasse e aterrorizasse a sociedade.
movimento, dilui os horrores perpetrados pelo III Reich.44
Era dos extremos. O breve século XX. 1914-1991. São Paulo, Companhia das Trata-se, portanto, de uma falsa questão discutir se o gover-
Letras, 1995, pp. 383-384.
41 Carl Friedrich e Zbigniew Brzezinski. Totalitarian dictatorship and autocracy.
• 2Marc Ferro. Op. cit. "'
Cambridge, Harvard University Press, 1956; Ernst Noite. Nazionalismo e e 41
bolscevismo: la guerra civile europea 1917-1945. Florença, Sansoni Editora, Marc Ferro. Idem., p. 175.
44
Marc Ferro. Idem.
1988.

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLiTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

no Vargas foi, ou não, "totalitário". O que deve ser questiona- Arquivo Nacional ou nos arquivos do Dops. São delações de
do, como vem ocorrendo entre os especialistas da história do que o vizinho era integralista ou comunista; as famílias alemãs 1:

socialismo, é a própria teoria sociológica do totalitarismo. não falavam português; o comerciante da esquina estocava ali-
As vertentes do populismo de segunda geração - a aborda- mentos; o fulano era um conhecido agiota. Todas as denúncias
gem que privilegia o binômio repressão-propaganda, a teoria eram seguidas de nomes e endereços. Supor que as pessoas de-
do controle social e o enfoque totalitário - têm em comum latavam as outras por pressões "simbólicas" do Estado é ter como
uma maneira de abordar as relações entre Estado e sociedade/ premissa que a sociedade, em seu estado "normal", seria "boa",
classe trabalhadora. Como em uma via de mão única, de cima mas, ao ser corrompida moralmente pelos governantes do Esta-
para baixo, à luz do enfoque opressor e oprimido, o Estado, do Novo, ter-se-ia transformado em um bando de delatores. "i
todo-poderoso, pela violência física e ideológica, domina e sub- Mais difícil, repito, é compreender que a sociedade, em si mes- ·' i
";
juga a sociedade, os trabalhadores em particular, surgindo, des- ma, não era tão "boa" e isenta de culpas, e que nela circulavam
se modo, uma relação destituída de interação e interlocução preconceitos contra judeus; manifestavam-se rancores contra " '.
entre as partes. O Estado, com um poder désmedido, "total" alemães e japoneses, sobretudo durante a Segunda Guerra Mun-
em algumas versões, transforma a sociedade em elemento passi- dial; existiam pessoas com horror dos comunistas ou dos
vo, inerte e vitimizado. Assim, no Brasil, em 1930, 1935 ou integralistas; encontravam-se alguns que queriam punir o co-
certamente em 1937, os governantes, armados com variados merciante da esquina desmedido em seus lucros; havia outras
dispositivos "simbólicos" de dominação ideológica, em alguns que desejavam livrar-se das dívidas com o agiota - e, em alguns
casos psicológica, teriam tido a capacidade de manipular, por casos, mais raros, do próprio marido. Se havia uma ditadura
meio de imagens e representações, as emoções e a sensibilidade que se mostrava disposta a ajudá-las, o caminho ficava mais fá-
das pessoas, dominando, inclusive, as suas mentes. cil. Em outras palavras, as relações entre Estado e sociedade
As delações que ocorreram na época do Estado Novo, por não eram de mão única, de cima para baixo, mas, sim, de
exemplo, comprovariam a capacidade do poder estatal de pressi- interlocução, de cumplicidade.
.!
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onar os indivíduos, deixando-os tensos, apreensivos e inseguros. Sobre as vertentes que insistem em vitimizar a sociedade,
Muitos teriam escrito cartas a Vargas, ao Dops ou à polícia de- retomo, aqui, as idéias de José Murilo de Carvalho, que nos
nunciando os opositores do regime porque se encontravam ate- adverte sobre os perigos de se tratar uma relação de maneira I·

morizados, ou aterrorizados, com as supostas ameaças <los inimi- maniqueísta, "segundo a qual o Estado é apresentado como vi-
,J'
gos, reais ou fictícios, ao governo e, portanto, à ordem social. lão e a sociedade como vítima indefesa" e que, portanto, "a
Na época do "primeiro governo" Vargas, muitas foram as inexistência da cidadania é simplesmente atribuída ao Estado".
denúncias deste tipo, e, hoje, facilmente as encontramos no Insatisfatória, como todas as que trabalham com dicotomias para

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i
:....................................................................................................................................
li
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explicar fenômenos sociais, essa perspectiva, em termos teóri- A história da classe trabalhadora no Brasil, sobretudo com a
cos, separa partes de um mesmo todo. Mais ainda, diz o autor, ascensão de Vargas ao poder, reduz-se, assim, a uma espécie de
"o maniqueísmo inviabiliza mesmo qualquer noção de cidada- "conspiração" das classes dominantes, sempre criadoras de dis-
.~ :
nia, pois, ou se aceita o Estado como um mal necessário, à ma- positivos ideológicos, mecanismos eficientes de controle social,
neira agostiniana, ou se o nega totalmente, à moda anarquista. meios habilíssimos de propaganda política, instrumentos sutis
Na prática, ele acaba por revelar uma atitude paternalista em de doutrinação das mentes, entre outros meios para manipular,
relação ao povo, ao considerá-lo vítima impotente diante das dominar e desvirtuar os assalariados de seus "reais" e "verda-
maquinações do poder do Estado ou de grupos dominantes. deiros" interesses. Estranha classe operária, no Brasil e nos pa- '!
Acaba por bestializar o povo". Para o autor, "é mais fecundo ver íses de capitalismo avançado. Forte o suficiente para revolucio- '• i
as relações entre o cidadão e o Estado como uma via de mão nar o planeta, mas "enganada" por qualquer líder "populista", ·' i
. '•;
dupla, embora não necessariamente eqm'l'b
1 ra d a ,, .
45
"totalitário" ou "traidor" que apareça no seu caminho. Como
As abordagens que privilegiam o poder estatal nas relações diz Barrington Moore Jr., não importa de onde venham as in-
entre Estado e classe trabalhadora a partir de 1930 não se afas- terpretações, moderadas ou revolucionárias, a história da luta
taram, no fundamental, das mesmas preocupações políticas que dos trabalhadores por suas conquistas confunde-se com "a his-
intrigaram líderes, teóricos e militantes de esquerda desde o tória da domesticação do proletariado". 47
século XIX: se a classe operária tem um caminho a seguir e um
destino a cumprir, se sua vocação é elaborar uma identidade
política autônoma, como, então, ela se submete politicamente e DE GRAMSCI A GINZBURG, DE FOUCAULT A THOMPSON
segue líderes "populistas" ou "totalitários"? A resposta, garan-
tia o marxismo mais vulgarizado, não era difícil: por meio da Em meados dos anos 80, muitos historiadores brasileiros adota-
repressão aberta e dos efeitos mistificadores da ideologia, as ram, em ritmos e graus variados, a literatura de autores identifi-
classes dominantes garantiam e reproduziam o seu poder. AI~~: cados com a história cultural. Muito resumidamente, as análises '1

mas, mais tarde, levando ao extremo o conceito gramsciano d~


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negam que as classes dominantes tenham o monopólio exclusi-
·'
hegemonia, acreditaram mesmo que somente os intelectuais vo da produção de idéias. Os trabalhadores, os camponeses e as ' :.
marxistas teriam a capacidade de superar as ilusões fabricadas ·:'
pessoas comuns também produzem suas próprias crenças, valo-
"!
pela ideologia burguesa.46 res e códigos comportamentais, o que, no conjunto, convencio-

45José Murilo de Carvalho. Op. cit., PP· 10-11. 4


'Barrington Moore Jr. Iniustiça. As bases sociais da obediência e da revolta.
1 46Jorge Ferreira. Op. cit., p. 15. 1 São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 245.

96 97

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

nou-se chamar de cultura popular. Cario Ginzburg, por exem- ~~~-categoria até então restrita às análises antropológi-
plo, sugeriu o conceito de circularidade cultural e demonstrou, cas. Através de uma "narrativa densa", os pesquisadores pas-
em um estudo de caso, que as idéias não são produzidas apenas saram a reconstituir aspectos do passado colonial brasileiro, a
:~ .
pelas classes dominantes e impostas, sem mediações, de cima sociedade escravista e, na Primeira República, a vida social e
para baixo. 48 As pesquisas em história cultural concordam que os movimentos populares. Em suas pesquisas, eles avaliaram
[
as idéias, longe de serem instituídas por um grupo e dissemina- que estas "pessoas comuns", embora oprimidas por um poder
das por toda a sociedade, circulam e, como defende Roger que, muitas vezes, escapava à sua compreensão, necessaria-
Chartier, as camadas populares se apropriam das mensagens mente não se deixaram iludir ou manipular. Particularmente
dominantes, dando-lhes novos e diferentes significados.49 Peter na Primeira República, seja em Canudos, nas reformas de Pe-
"'
Burke, por sua vez, critica o que chama de "teoria do rebaixa- reira Passos, na Revolta da Vacina ou com os anarquistas, em- • 1

";
mento", qualificada por ele de tosca e mecânica. Para o autor, bora haja um Estado repressivo e excludente, ele não surge
as imagens e as histórias não são passivamente aceitas pelos como todo-poderoso a ponto de moldar as mentes e os com-
expectadores e ouvintes: "as mentes das pessoas comuns não portamentos de trabalhadores e populares. Estes, de maneira
são como uma folha de papel em branco, mas estão abastecidas diversa, são tratados como pessoas portadoras de idéias, cren- ' 1

de idéias e imagens; as novas idéias, se forem incompatíveis com ças e tradíÇões que atuaram e, muitas vezes, se revoltaram con- i~
as antigas, serão rejeitadas". 5 º A noção de resistência cultural, tra a ordem vigente. Assim, os pesquisadores que voltam suas
assim, tornou-se parte integrante de muitos estudos. Enfim, di- preocupações para períodos anteriores a 1930 não encontra-
versos outros autores, a exemplo de Robert Darnton, N_atalie ram tantas dificuldades para interpretar as práticas e repre-
Zemon Davis, Giovani Levi, para citar os conhecidos, afirmam sentações de trabalhadores e populares, bem como as suas re-
que a "ideologia dominante" de uma sociedade não é tão domi- lações com o poder estatal - o que não é casual. Afinal, nos
1
nante quanto se pensava. períodos colonial, imperial e na Primeira República, os pes- 1

No Brasil, muitos historiadores, sem abandonarem seus pró- quisadores não transformaram as classes dominadas em obje- i
prios métodos de trabalho, passaram a utilizar o conceito de tos de regulamentação e manipulação do Estado, e nem res-
ponsabilizaram escravos, brancos pobres, camponeses ou as-
",
.r

48Carlo Ginzburg. O queiio e os vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro


salariados urbanos por se "iludirem" com as ideologias domi-
"1;
perseguido pela Inquisição. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. nantes. ,,
49Roger Chartier. A história cultural; entre práticas e representações. Lisboa, :1
No entanto, ainda são poucos aqueles que incorporaram o .. !
Difel, 1990, pp. 136-137.
5ºPeter Burke. A cultura popular na Idade Moderna. Europa, 1500-1800. São enfoque cultural nas suas reflexões sobre a história política bra-
sileira após 1930, particularmente nas relações entre Estado e [/
Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 86.
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1. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . '•
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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA i' O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

1 ,,
classe trabalhadora. Parece-me que as indicações teóricas da mais de uma década vem influenciando a produção historio- 1;

História Cultural perdem a validade especialmente quando se 1:


gráfica brasileira: E.P. Thompson. Suas idéias e sugestões
i'
trata de estudar trabalhadores e populares após aquela data, metodológicas têm ;idÕ-âpropriadas no Brasil nos mais diversos ; J

particularmente durante o "primeiro governo" de Getúlio '


estudos, dos motins populares às festas, das organizações cultu- -
Vargas, e mesmo após 1945. Poucos são os historiadores que rais dos operários aos rituais, entre outras temáticas. No entan- [J
aplicam os conceitos de cultura, tradição, circularidade, apro- 1
to, a questão central de sua obra, o processo de formação da !
i
priação, resistência, entre diversos outros, para o tratamento classe trabalhadora, surge prioritariamente nos estudos sobre a
'
do tema. Primeira República, particularmente com os anarquistas - e,
i
As dificuldades existem, por mais que os historiadores como no caso da História Cultural, não para períodos posterio- " ~

. ~
etnográficos há bastante tempo nos ensinem que, se a cultura res. No Brasil, Thompson, ao lado dos historiadores da cultura,
" '
erudita tem o objetivo de subjugar os povos, não há por que em poucas ocasiões ultrapassa a data tabu: 1930. 52 Novamente :
acreditar, como afirma Roger Chartier, que "estes foram real, não estamos diante de uma casualidade. Lembremos que a con- d·;i
;

total e universalmente submetidos". Para o autor, "é preciso, ao cepção que o historiador inglês tem de classe social e de consci-
contrário, postular que existe um espaço entre a norma e o vivi- ência de classe é incompatível com a noção de populismo e de
' ·~
do, entre a injunção e a prática, entre o sentido visado e o sen- suas inevitáveis conseqüências, como manipulação das massas, :

tido produzido, um espaço onde podem insinuar-se refor- mistificação ideológica e consciências desviadas dos seus inte- :

mulações e deturpações". 51 Contudo, a impressão é que tais in- resses "reais".


dicações são levadas a sério para antes de 1930. Para depois, Refletindo junto a Thompson, pode-se mesmo dizer que
não. A história da classe trabalhadora a partir de 1930, assim, expressões como populismo, getulista, janguista ou trabalhista,
torna-se um grande ardil das classes dominantes, que, pela pro- não importa o complemento, surgem como uma tentativa de i
:
paganda política e a doutrinação das mentes, entre outros dis-
positivos ideológicos, desviam os trabalhadores de seus "verda- 52
As "ocasiões", na verdade, estão deixando de ser tão raras. Cito, como exem-
. ~
" ~

deiros" objetivos. ' pio, um grupo de historiadores que, a partir da leitura de Thompson, vêm ;

Se a História Cultural não foi suficiente para a superação


das dificuldades, também parece ser o caso de um autor que há
produzindo trabalhos inovadores sobre a história da classe trabalhadora bra-
sileira, entre eles Fernando Teixeira da Silva. A carga e a culpa. Os operdrios
"1

-: ' .
das docas de Santos: direitos e cultura de solidariedade. 1937-1968. Santos. "1

~'
Hucitec/Prefeitura Municipal de Santos, 1995; Hélio da Costa. Em busca da "
memória. Comissão de fdbrica, partido e sindicato no pós-guerra. São Paulo, :· !
'
1
s•Roger Chartier. "'Cultura popular': revisitando um conceito historiográfico". Scritta, 1995; Paulo Fontes. Trabalhadores e cidadãos. Nitro Química: a fd-
ln Estudos Históricos, nº 16. Rio de janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1995, brica e as lutas operdrias nos anos 50. São Paulo, Annablume/Sindicato Quí-
1
p. 182. micos e plásticos-SP, 1997. ·,

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
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fabricar explicações apresentadas como racionais para compor- tado exige. Como ele diz em seu estilo irônico, tais concepções
tamentos interpretados como não-racionais. A categoria de surgem como "um roteiro comovente", próprio de filmes infan-
"irracionalidade", inclusive, é uma das pilastras que sustenta a tis: (... ) "a malvada bruxa do Estado aparece! A varinha mágica
noção de populismo. Por exemplo, para Weffort, o populismo da ideologia é agitada! E, pronto". Surge, assim, o movimento
nunca teria sido, em suas próprias palavras, "bastante conse- sindical reformista. Embora o ato de "chamar" ocorra em qual- ~ ·~
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qüente em seu irracionalismo para colocar-se diretamente sob a quer sociedade, alega o autor, não há por que acreditar que os
tutela de um chefe", enquanto o nacionalismo, por sua vez, é trabalhadores necessariamente atendam, exceto se eles forem
definido como "irracionalismo sob a forma racional" (grifos transformados em seres passivos e sem iniciativa própria.
meus). 53 Assim, as experiências vividas pelos indivíduos, suas Houve, decerto, a intervenção estatal, insisto. Sobretudo a
tradições, crenças e valores, são definidos como uma partir de 1942, a formulação do projeto trabalhista pelo Estado
racionalidade deslocada, um desvio, uma ideologia, portanto.54 contribuiu, de -ma~i"eira decisiva, para configurar uma identida- '•.
As dificuldades para compreender o trabalhismo como um de coletiva da classe trabalhadora. Mas, em qualquer experiên-
"fenômeno histórico" surgem diante das intervenções, repressi- cia histórica, os assalariados sofrem influências dos contextos
".,
:1
vas e persuasivas, patrocinadas pelo Estado após 1930, as quais, sociais, políticos e ideológicos em que vivem. No caso brasilei-
·il;;
em várias análises, teriam alterado os caminhos "naturais" da ro, como em outros, tratou-se de uma relação, em que as partes, fl'. 1

classe na constituição de sua identidade política. No entanto, a Estado e classe trabalhadora, identificaram interesses comuns.
experiência do movimento operário e sindical entre 1930 e 1964 No trabalhismo, estavam presentes idéias, crenças, valores e
e as relações entre Estado e classe trabalhadora, ao serem defi- códigos comportamentais que circulavam entre os próprios tra-
nidas como "populistas", devido à atuação do poder estatal, balhadores muito antes de 1930. Compreendido como um con-
podem, e certamente devem, ser criticadas pelo que Thompson junto de experiências políticas, econômicas, sociais, ideológicas
chama de recurso da "interpelação" ou "chamamento". A coisa e culturais, o trabalhismo expressou uma consciência de classe,
ocorreria da seguinte maneira: o Estado, por meio de seus apare- legítima porque histórica.
lhos políticos, legais, ideológicos, entre outros, grita para os indi- Por este enfoque, os trabalhadores, "ao viverem sua própria ".
"H
1

víduos: "Ó, você aí!" Sem demora, eles são "recrutados" para as história", deixam de ser considerados simples objeto de regula-
relações "imaginárias" - no pior sentido do termo - que o Es- mentação estatal. O próprio projeto trabalhista, para ser com-
preendido e aceito, não pode ignorar o patrimônio simbólico
presente na cultura política popular. O sucesso do trabalhismo, .. ~
Francisco Weffort. Op. cit., pp. 42-32.
53

E.P. Thompson. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica


54 portanto, não foi arbitrário, e muito menos imposto pela pro-
ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981, p. 193. paganda política e pela máquina policial. Igualmente, não foi

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1

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O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA .i
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casual que o PTB, a institucionalização do projeto, tenha sido a O "COLAPSO" DO POPULISMO

organização mais popular durante a experiência democrática


pós-45, tornando-se, em 1964, a maior agremiação no espectro Como política de massas, estilo de governo e tendo por idéias
político do país. básicas o controle, a manipulação e a tutela do Estado, a noção
Por fim, uma advertência bastante contundente do histo- de populismo, no dizer de Angela de Castro Gomes, tornou-se,
riador inglês. Trata-se dos perigos de enfocar as relações en- em fins dos anos 70, quase uma imposição, "pelo compar- 1
1

tre Estado e classe trabalhadora a partir de cima, dando ao tilhamento já alcançado e pela falta de versões de maior trânsi- '
aparato estatal, ou às classes dominantes, um poder desme- to".56 No entanto, não eram incomuns, mesmo no início dessa
1

dido. Trata-se, para o autor, de uma maneira elitista de tratar década, insatisfações e inconformismos com a expressão. Em '• <i
uma relação: trabalho ainda muito atual, Celso Frederico, já em 1970, ques- ., '
tionava:
Mais uma vez os intelectuais - um grupo escolhido entre ,, .
eles - receberam a tarefa de iluminar o povo. Não há traço Seja nessas interpretações convencionais [teorias da moder-
mais característico dos marxismos ocidentais, nem mais nização], seja em ensaios mais refinados como os de F. C.
revelador de suas premissas profundamente antidemocráticas. Weffort, o populismo é sempre visto como um desvio, uma t' '

Seja a Escola de Frankfurt ou Althusser, estão marcados pela simples deformação ideológica, uma falsificação da consci-
sua acentuada ênfase no peso inelutável dos modos ideológi- ência de classe. 57
cos de dominação - dominação que destrói qualquer espaço
para a iniciativa ou criatividade da massa do povo - , uma Embora com as limitações impostas pelas teorias vigentes
dominação da qual só uma minoria esclarecida de intelectuais naquela época, o autor expressou suas dúvidas certamente por
pode se libertar. Sem dúvida, essa predisposição ideológica entrevistar operários de carne e osso, conhecendo-os de perto.
foi alimentada pelas experiências terríveis do fascismo, da
Fred~rico não encontrou, e demonstrou isso com muito talen-
doutrinação da massa pelos meios de comunicação e do pró-
to,- trabalhadores manipulados, iludidos e desviados dos seus ' "
prio stalinismo. É, porém, uma triste premissa para a teoria
"reais" interesses. "1
1
socialista (todos os homens e mulheres, exceto nós, são origi- ' ~

nalmente estúpidos) e destinada a levar a conclusões pessi- Somente em fins daquela década, surgiram as primeiras ver-
"1'

mistas ou autoritárias.ss
56
Angela de Castro Gomes. Op. cit., p. 50.
57
Celso Frederico. Consciência operária no Brasil. São Paulo, Ática, 1979, p.
55 /dem, p. 205.
121.

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sões alternativas, sobretudo análises que apontavam para as Comunidade. Questionando a indefinição conceituai de "po-
interações entre o projeto varguista e as demandas dos próprios pulismo de esquerda", o que implicaria um de "centro" e outro
trabalhadores antes de 1930. Recusando as concepções que su- de "direita", Brayner afirma que os autores gostariam de ver
geriam os "desvios ideológicos" da classe trabalhadora, catego-
ria que implicitamente apontava para um caminho "verdadei- um discurso que trouxesse um corte de classe preciso, um
ro", um grupo de cientistas políticos interpretou a consciência pertencimento de classe facilmente observável a olho nu. Pen-
de classe como algo que se define por uma complexa interação sam as classes, e suas ideologias, sob a forma da redução. Vêem '

com o Estado e os empresários. Maria Hermínia Tavares de a utilização da categoria POVO no discurso de Arraes como a
Almeida, Luiz Werneck Vianna e Wanderley Guilherme dos San- própria negação do conflito de classes. 61 ., ~

tos ofereceram, assim, importantes contribuições.58 '


'• .,-
Em compasso com o ambiente intelectual propício para ver- Miguel Bodea, por sua vez, com base em extensa pesquisa,
sões alternativas, outros pesquisadores, em diferentes regiões questionou em Weffort a tipologia da relação "líder populista-
·' ·•,
do país, e não apenas no eixo Rio-São Paulo, passaram a criticar massas populares" e a idéia de que o populismo teria sido um
o "populismo na política brasileira" - alguns deles sob a influ- pouco mais que uma "forma pequeno-burguesa de consagra- ,i
ência das interpretações gramscianas de Ernesto Laclau sobre o ção do Estado", 62 uma vez que desestimularia a organização ,~~ :
fenômeno na Argentina. 59 Flávio Henrique Albert Brayner,60 por partidária. Bodea, igualmente influenciado pelas reflexões de
:I
exemplo, criticou os que, tomando como texto-base o discurso Laclau, demonstrou como Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini, 1

de posse de Miguel Arraes no governo de Pernambuco, no iní- João Goulart e Leonel Brizola primeiro firmaram suas lide-
cio dos anos 60, classificaram sua proposta política como ranças em uma estrutura partidária regional e somente depois
"populismo de esquerda" - fenômeno que se caracterizaria pela se projetaram na política nacional. A ascensão ocorreu dentro
mistificação das relações de classe, pela presença da mística Povo- do partido político, e não, "como muitos parecem supor, a
partir de uma relação carismática direta entre o líder e as mas-
sas populares". Para o autor, "o carisma, quando houve, de-
58 Maria Hermínia Tavares de Almeida. Estado e classe trabalhadora no Brasil
(1930-1945). Tese de doutoramento. São Paulo, USP, 1978 (mimeo); Luiz senvolveu-se a posteriori". Assim, a liderança de Pasqualini é ::
Werneck Vianna. Liberalismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro, Paz e impensável fora do PTB gaúcho. Sem a organização partidá- ',,
Terra, 1978; Wanderley Guilherme dos Santos. Cidadania e ;ustiça: a política
ria, certamente ele seria um personagem desconhecido. Goulart
social na ordem brasileira. Rio de Janeiro, Campus, 1979.
59 Ernesto Laclau. Política e ideologia na teoria marxista. Rio de Janeiro, Paz e

Terra, 1979.
60Flávio Henrique A. Brayner. Partido Comunista em Pernambuco. Recife, 61 ldem, p. 114
Massangana, 1989. 62Francisco Weffort. Op. cit., p. 73.
1

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POL(TICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

e Brizola, por sua vez, não alcançariam a projeção nacional tilhada sem custos. Assim, foi preciso esperar que uma gera-
sem um PTB forte a nível regional. Mesmo Vargas, até chegar ção de historiadores, influenciados pelas abordagens cultu-
à categoria de mito político, lutou por quase três décadas para rais, pelas leituras antropológicas, pela recepção da assim l'

se impor no Partido Republicano Rio-Grandense. Com base chamada História Política renovada e, particularmente, pe-
em farta documentação, o autor rejeita as indicações sugeridas las idéias de Thompson, estivesse receptiva para compreen-
por Weffort de que "o líder será sempre alguém que já se en-
[
der a política brasileira entre 1930 e 1964 sob novos enfoques.
contra no controle de alguma função pública - um presiden- Dez anos após sua primeira edição, A invenção do trabalhismo
te, um governador, um deputado etc. " 63 Em sua pesquisa, con- passou a sofrer uma nova leitura, menos inquietante e mais
trapõe Bodea: reflexiva.
.'
Seja como for, em fins dos anos 90, aqueles que recusaram
Na avaliação de todas estas carreiras políticas (... ] torna-se pa- as abordagens que privilegiam a manipulação e a tutela estatal
.
tente que nenhum destes líderes teria desenvolvido seu prestí-
gio junto às massas - ao menos no âmbito regional - sem
dos trabalhadores após 1930 deixaram de ser vozes isoladas.
Diversos autores vêm contribuindo para desacreditar, uma a
,, .
passar pelo crivo do partido, com suas disputas internas e a
uma, as premissas do "populismo na política brasileira". As-
luta constante pelo voto dos delegados às convenções partidá-
sim, Lucília de Almeida Neves e Maria Celina D'Araújo, cada
rias. Evidentemente, depois de verem sacramentadas suas lide-
uma à sua maneira, demonstraram que o trabalhismo não se
ranças e candidaturas no nível partidário, todos estes líderes
reduziu à mera manipulação política, e que o PTB, igualmen-
criaram uma projeção própria de liderança de massa para fora
e até acima do partido. 64
te, não se resumiu a um "partido de pelegos". 65 Argelina
Cheibub Figueiredo, em trabalho inovador, comprovou a
É nesse contexto de insatisfações e de procura de alterna- insustentabilidade da tese clássica que explicaria o "colapso
tivas que vem a público, em 1988, A invenção do trabalhismo, do populismo" pelas mudanças nos padrões de acumulação
de Angela de Castro Gomes. Inicialmente, é importante res- capitalista -vale dizer, pelo determinismo econômico. 66 Ma- li

ria Helena Rolim Capelato, em sua pesquisa comparativa so- .,


saltar, o trabalho foi recebido com certa inquietação. Afinal,
não se rompe com todas as premissas da noção de populismo
5
e, portanto, com uma tradição longamente aceita e compar- ' Lucflia de Almeida Neves. PTB: do getulismo ao reformismo (1945-1964).
São Paulo, Marco Zero, 1989 -veja também artigo da mesma autora nesta
coletânea; Maria Celina D'Araújo. Sindicatos, carisma e poder. O PTB de
61/dem. 1945-65. Rio de Janeiro, Ed. da Fundação Getúlio Vargas, 1996.
64Miguel Bodea. Trabalhismo e populismo no Rio Grande do Sul. Porto Ale- "Argelina Cheibub Figueiredo. Democracia ou reformas? Alternativas demo-
gre, Editora da UFRGS, 1992, p. 197. cráticas à crise política: 1961-1964. São Paulo, Paz e Terra, 1993.

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O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

bre o Estado Novo e o peronismo, relativiza o poder da pro- A "INVENÇÃO" DO POPULISMO


paganda política de massas. Para a autora, "a eficácia das men-
j•
sagens depende dos códigos de afetividade, costumes e ele- As palavras "populismo" e "populista" não estavam disponíveis ; i
mentos histórico-culturais dos receptores". Sem a presença no vocabulário político e na linguagem cotidiana do país na ....
..
época do "primeiro governo" de Vargas. Não existiam, simples-
desses elementos, uma máquina propagandística, mesmo po-
mente. Então, afinal, quem "inventou" o populismo?
L
derosa e sofisticada, cai no vazio. Em teses e dissertações que
orientou, surgem contrariedades com as premissas "que insis- No Brasil, o primeiro.hÍstÕ~i~d~~ ~ d~f~~der que a propa- '

ganda política estatal se mostrou eficaz na manipulação dos tra-


tem na capacidade de manipulação estatal das consciências
pelos meios de comunicação". 67 No meu próprio livro, Traba- balhadores, e daí o apoio deles a Vargas, foi Karl Loewenstein,
em livro publicado ainda em 1942. A interpretação liberal da-
.. •
lhadores do Brasil. O imagindrio popular, procurei reconstituir, .. "
quele fenômeno percorre a sua análise.69
ainda que parcialmente, idéias, experiências e estratégias polí-
ticas de trabalhadores e populares, demonstrando que eles não No entanto, o ano de 1945 foi crucial para a formulação e ., .
estavam manipulados ou iludidos na época do "primeiro go- o estabelecimento da crença de que o prestígio do ditador en-
verno" de Vargas. 68 tre os assalariados urbanos constituiu obra da máquina propa-
Mais ainda, em programas de pós-graduação em História, gandística do DIP. Nesse ano, em pleno processo de demo-
grupos de pesquisadores, instituindo "escolas" historiográficas, cratização, o país conheceu uma grande mobilização em favor
atualmente formam jovens historiadores críticos da noção de da continuidade de Vargas no poder. O "queremismo", movi-
mento de proporções grandiosas, somente comparado à Ali-
populismo.
O populismo, portanto, parece entrar em colapso. Eviden- ança Nacional Libertadora e à campanha das Diretas Já, irri-
temente que não no sentido dado por Octavio Ianni, mas, sim, tou profundamente os grupos liberais de oposição ao Estado
Novo. Para as forças liberais e antigetulistas, havia uma gran-
em sua própria lógica explicativa. Embora, por uma questão de
de dificuldade para compreender e assimilar manifestações po-
cautela, não se deva subestimar a força das tradições.
pulares de defesa do ditador. Nos jornais, os violentos ataques
a Vargas tornavam-se, ao mesmo tempo, argumentos
'
1

69
67Maria Helena Rolim Capelato. Op. cit., pp. 203 e 205. Veja, da mesma Karl Loewenstein. Brazil under Vargas. Nova York, Macmillan Company,
autora. Multidões em cena. Propaganda política no varguismo e no peronismo. 1944 (1' edição de 1942). Agradeço a André Moysés Gaio, professor do De·
Campinas, Papirus, 1998. partamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, pela indica·
68Jorge Ferreira. Op. cit. ção do livro.

1 1 .O 111

J
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!:. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POL(TICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

' ~
,.,
explicativos. Em editorial, o Didrio da Noite, de São Paulo, vor de Vargas. Assim, entre a influência do nazismo e a atuação 1 i
concordou que Vargas, de fato, "desfruta de alguma populari- de idéias perniciosas, entre a mentalidade obscurantista e o com-
1·-
dade" entre certas categorias de trabalhadores. Mas o prestí- portamento próprio de arruaceiros, a oposição liberal esforça- ; l
gio do ditador explica-se fundamentalmente va-se para dar conta dos conflitos que surgiam. Portanto, a ex-
plicação liberal, em seu limite, denunciava a aplicação, nos anos
pela propaganda demagógica do Estado Novo. Hitler e
do Estado Novo, das técnicas de propaganda política de massa
Mussolini também, por força mística que souberam difun-
pelo DIP, importadas da Alemanha nazista, sobre uma popula-
dir, [... ]desfrutaram de popularidade[ ... ] de milhões de ho-
ção pobre, analfabeta e ignorante, ensejando que, no ocaso da
mens fanatizados, bestializados (... ), excitando sua imagina- 1

ção.10 ditadura, surgissem tais constrangimentos. Reprimir as mani- "o;'

festações a favor de Getúlio, desse modo, era a saída legítima i


·1
Em O Jornal, no Rio de Janeiro, um jornalista igualmen- para o problema. 1
1
'1. ,1

te tentou enfrentar a questão. 71 A participação de trabalha- Assim, na conjuntura da democratização, entre 1942 e
dores, qualificados por ele de "arruaceiros", que tentam im- 1945, houve a aproximação entre o historiador e o jornalista.
pedir manifestações pela democracia, tem origem, fundamen- Ambos, partindo dos horizontes oferecidos pelo liberalismo,
talmente, na presença, no Brasil, de uma "atitude mental passaram a explicar as relações entre Estado e classe trabalha-
obscurantista" oriunda da importação da ideologia nazista. dora a partir da manipulação, da propaganda estatal e do "atra- 1

Tais idéias, perniciosas, mas ainda vivas na sociedade brasi- so" da cultura política popular brasileira. As palavras
leira, perturbam a ordem e repelem a marcha para as liberda- "populismo" e "populista" ainda não se encontravam disponí-
des democráticas. Portanto, conclui o autor, é preciso elimi- veis no vocabulário da época, mas os fundamentos explicativos
nar estas "forças do mal que, esmagadas na Alemanha nazis- do fenômeno estavam lançados.
ta, ainda procuram defender posições que não podem defen- A partir de 1945 até 1964, as palavras foram surgindo mui-
der pelas armas". to lentamente através dos anos. No entanto, raramente eram "
Em 1945, as correntes liberais e antigetulistas demonstra- utilizadas, e quando surgiam nas páginas dos jornais, não ti-
ram incapacidade para assimilar manifestações populares a fa- nham o objetivo de desmerecer ou insultar o adversário. Mes- "
mo na linguagem virulenta do lacerdismo, esses termos estavam
ausentes. Getúlio Vargas, por exemplo, em um único texto da-
70 Citado em O jornal. Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1945, 2• seção, 1•
página.
tado de 1954, foi acusado de criminoso, materialista, imoral,
1 'Idem. Rio de Janeiro, 11 de maio de 1945, p. 2. desonesto, conivente com ladrões e comparado a uma grande

112
113

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1!111111. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .....
1
\

O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA 1 O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

peste. 72 João Goulart, por sua vez, era descrito pela imprensa disseminavam imagens extremamente negativas acerca dos dois
oposicionista como um homem primário nas letras, de limita- líderes trabalhistas. No entanto, as palavras "populismo" ou
dos horizontes intelectuais, demagogo, corrupto e manipulador "populista" não estavam no rol de acusações a Vargas e a Goulart.
dos sindicatos. 73 De criminosos a demagogos, de corruptos a Os termos "populista" e "populismo" existiam no vocabu-
golpistas, de ladrões a ignorantes, as oposições formulavam e lário político entre 1945 e 1964, mas muito raramente eram
utilizados. Contudo, quando eram pronunciados, tinham um
significado bastante diferente deste que conhecemos hoje. 74
72"( ... ) Sobretudo é preciso alijar Getúlio. Em primeiro lugar é preciso alijar Lendo os noticiários políticos de diversos jornais daquela épo-
Getúlio. Erradicá-lo, extirpá-lo da vida pública nacional, como se faz, pela
cirurgia, com as infecções e com os cancros. Ele pesteia, deteriora tudo em ca, é curioso perceber que, nas poucas situações, quando Getú-
. '
que toda. Ele é o fim (... ). Ele é um viciado do crime político. Só como lio Vargas e João Goulart eram chamados de "populistas", nada
criminoso sabe agir. Realista, materialista como os animais e como os primá-
havia de ofensivo. Ao contrário, a expressão surgia como elo-
rios, (... )tudo se acaba em torno dele. Caem as forças morais, decai o espírito
público, deturpa-se o patriotismo, transmudam-se os valores (... ). E tudo vai giosa. Por exemplo, João Duarte Filho, nas páginas da Tribuna ...
poluindo pelo exemplo. A imoralidade já recebe, no seio das famílias, epinícios da Imprensa, escreveu: "Desde que Getúlio mascarou Jango de
e elogios, pelo seu exemplo. A honestidade pessoal muda o seu conceito, já
não sendo roubo a apropriação dos dinheiros públicos pelo seu exemplo. O
líder populista começou uma época de agitação dos trabalhado-
seu exemplo é o pior dos exemplos que já teve o Brasil. Contemporizando res" (grifos meus). 75 O sentido, aqui, não é o da transferência da
com os ladrões públicos, deixando-os imunes à sua sombra, ele investe, pelo demagogia e da manipulação de um para o outro, mas, sim, que
exemplo, contra a moral brasileira, do homem brasileiro que sempre preferiu
passar fome a tocar no dinheiro alheio. O exemplo de Getúlio é contra este
Goulart teria herdado de Vargas a legitimidade política para
tradicional padrão de honestidade. Getúlio é o fim, como uma grande peste atuar entre os trabalhadores, respondendo, assim, às suas de-
(... ). Getúlio é o fim. Mas o Brasil não quer parar, não quer chegar ao fim. É mandas. Última Hora, por sua vez, jornal que apoiava Vargas,
preciso, portanto, erradicar Getúlio." João Duarte Filho. Tribuna da Impren-
sa, Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1954, p. 3. publicou um editorial (possivelmente escrito por Samuel Wainer,
73 Comentando sobre os perigos das próximas eleições legislativas, Carlos diz Maria Victória Benevides) defendendo, com veemência, o
Lacerda acusava: "E desde agora se preparam os jangos para as próximas
eleições. Ao Jango-mor está afeta a tarefa de conquistar, demagogicamente, a
74
massa trabalhista. Com seu primarismo de homem sem letras, com o seu Para a década de 1950, Francisco Weffort alega que "a paixão nacionalista
nublado horizonte espiritual, outra coisa não faz ele, desde que é ministro, pelos esquemas ideológicos generalizou-se a tal ponto, que a expressão
senão comprar(... ) eleitores para as próximas eleições (... ). E está comprando 'populismo' chegou praticamente a desaparecer do vocabulário político desta
com a honestidade de um bom pagador, comprando e pagando com o dinhei- fase, dando a impressão de haver também desaparecido o fato que pretendia
ro da previdência(... ). A República Sindicalista, a esdrúxula república jangueira, designar". A afirmação carece de comprovação empírica. Insisto que a ex-
terá ganho a contento, elegendo a sua gente para a maioria governamental pressão não "chegou praticamente a desaparecer do vocabulário político",
que fará do sr. Getúlio Vargas, amorfo e dócil homem de quase oitenta anos como defende Weffort, porque ela sequer existia antes de 1945. Op. cit., p.
mal vividos, um ditador que cochila, enquanto Jango age". Idem, Rio de 24.
75
Janeiro, 7 de outubro de 1953, p. 4. Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1953, p. 3.

1 1. 4 115

'
L
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

papel histórico do trabalhismo e do PTB. O partido, diz o tex- mularem uma identidade com base no trabalhismo e no nacio-
to, sendo "instrumento político do Sr. Getúlio Vargas, segue as nalismo, passaram a merecer aquele título desqualificador. Mes-
pegadas populistas do seu fundador. Para as massas obreiras, o mo que pesquisas mais recentes demonstrem que as coisas não
aval que Getúlio dá ao partido basta a lhe conferir um largo eram tão simples assim, a estampa de "partido dos pelegos"
crédito de confiança" (grifos meus). 76 Assim, tanto João Duarte marcou o PTB como uma "tatuagem de marcas profundas", no
Filho, que detestava Goulart, como Samuel Wainer, que defen- dizer de Lucília de Almeida Neves Delgado.77
Os "pelegos", sindicalistas dispostos a negociação com o
dia Vargas, usavam a palavra "populista" em um sentido elogioso.
Portanto, naquela época, ser um líder "populista", tanto para governo, sem dúvida, existiram. Mesmo antes de 1930, eles
]
os trabalhistas como para seus adversários, não descrevia um concorriam com anarquistas, comunistas e outras correntes. Mas ....
político que utilizava como recursos a manipulação, a demago- foi sobretudo após 1935, com a violenta repressão ao movi-
gia e a mentira. A palavra tinha um outro significado do atual mento operário e sindical, que o "pelego", dito clássico, adentrou
- talvez o oposto. A expressão, embora pouco utilizada, pode o cenário político brasileiro. A tal ponto o movimento sindical ,, . ;

ser traduzida, na linguagem de nossos dias, no que chamamos foi desmobilizado, que, em 1942, técnicos do Ministério do
de "líder popular", de alguém que representa, autenticamente, Trabalho se esforçaram para formar, por meio de cursos, lide- 1,1
os anseios políticos "populares" ou dos "movimentos popula- ranças autênticas, visando a criar uma base de apoio a Vargas '"
res". Se hoje, pelo menos na sensibilidade política das esquer- com a democratização que se vislumbrava.
das, ser um "líder popular" é algo elogioso, nos anos 50 e início Mas o que interessa aqui é perceber que o estigma de "pe-
dos 60, de maneira similar, surgia com meritório definir alguém lego" continuou após 1945. Mesmo que o movimento sindical
como "líder populista". tivesse se modificado, principalmente em meados dos anos 50,
Igualmente, é curioso investigar o significado da palavra com o surgimento de líderes que procuravam representar legiti-
"pelego". Na linguagem da militância de esquerda, sobretudo mamente sua categoria, realizando greves, formando in-
com as greves no ABC paulista em fins dos anos 70, tornou-se tersindicais, politizando suas lutas e assumindo um programa ..J~
comum qualificar o movimento sindical no período anterior a de reformas, como a agrária, e a nacionalização de empresas, a ··~
1964, e sobretudo suas ligações com o Estado e o PTB, como marca de "pelego" continuaria. Era sobretudo a oposição libe- .·:~
,...
~
"pelego". As lideranças dos trabalhadores, exatamente por se ral-conservadora, em particular a UDN, que denunciava o peri- ~
aproximarem de líderes políticos como Vargas e Goulart e for- go dos sindicalistas "pelegos" para as instituições democráticas. !i
~·~
76Citado in Maria Victória Benevides. O FYfB e o trabalhismo. Partido e sindi- '
77
1 cato em São Paulo (1945-1964). São Paulo, CEDECJBrasiliense, 1989, p. 55. Lucília de Almeida Neves. Op. cit., p. 291.

1 1·6 117

1
i
1
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLiTICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

de agitação e exacerbação do conflito de classes, que o Sr. Ge-


..
Na sensibilidade política dos grupos conservadores, qualquer '·I
líder sindical, autêntico ou fisiológico, trabalhista ou comunis- túlio Vargas diz condenar. "8º I'
::-i
1··
ta, autônomo ou subserviente ao Estado, era qualificado, indis- :. .l',
tintamente, de "pelego". Assim, já em 1945, diante do amplo As violentas críticas a Vargas e a Goulart, veiculadas pela ., l
·1

apoio dos trabalhadores e de líderes sindicais ao movimento


"queremista", o Didrio da Noite, de São Paulo, argumentou:
imprensa, escamoteavam os verdadeiros personagens que se
queriam atingir: os trabalhadores e o movimento sindical. Não
r;
foi casual, assim, que em episódios dramáticos na vida política
"Está provado que o Ministério do Trabalho, através de seus
agentes e por intermédio de alguns falsos líderes sindicais, ma- do país, como o suicídio de Vargas, em 1954, na assim conhe-
1
•t

nobra os cordéis dessa mistificação ignóbil de gordas verbas" cida Campanha da Legalidade, em 1961, ou nos primeiros dias ..
(grifos meus). 78 Em 1953, criticando a gestão de Goulart no de abril de 1964, a primeira medida tomada pelos governos
Ministério do Trabalho, Carlos Lacerda afirmou: estaduais conservadores tenha sido prender líderes e dirigen-
tes sindicais, sempre com o pretexto de resguardar a "ordem
pública". 81
' .
João Goulart tenta criar no Brasil uma nova CGT, do tipo
Peron. Ele prepara um golpe peronista, no estilo boliviano. Para as oposições, o perigo não era necessariamente o
Não se trata do fechamento do Congresso como foi feito em "pelego", mas o movimento sindical em processo de mobilização
1937, e, sim, da sua dominação pela massa de manobra de e politização crescentes. No projeto político conservador dos
um sindicalismo dirigido por "pelegos", visando reformar a liberais brasileiros, não haveria espaços para a cidadania plena
Constituição e estabelecer uma ditadura no país (grifos dos trabalhadores. No entanto, a palavra "pelego" pegou. Mes-
meus). 79 mo nos primeiros meses de 1964, quando o movimento dos
trabalhadores radicalizou, a imagem do sindicalista subservien-
Nessa época, os jornais, quase que diariamente, apresenta- te ao Estado e corrompido pelo imposto sindical, ilegítimo e
vam imagens bastante negativas do governo e da ameaçadora merecedor de punições, portanto, ainda surgia nas páginas da
situação política do país: imprensa conservadora.

"Desde que o Sr. João Goulart assumiu o Ministério do Traba-


80
lho", afirmou o Diário de Notícias, "se tem acentuado o clima Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1953, p. 4.
81
VejaJorge Ferreira. "O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agos-
to". ln Angela de Castro Gomes (org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de
7BCitado em O jornal. Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1945, ta página, 2' Janeiro, Relume-Dumará, 1994, e "A legalidade traída: os dias sombrios de agos-
seção. to e setembro de 1971 ". ln Tempo. Revista do Departamento de História da
7 9Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 8 de julho de 1953, 1' página. Universidade Federal Fluminense, nº 3. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997.

1 1·8 119
!
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POL(TICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Trata-se, como observou Fernando Lattman-Weltman com ador e o jornalista para a configuração do populismo, na déca- 1.

acuidade, de uma política de exclusão dos trabalhadores veicu- da de 50 ocorreu a segunda aproximação, agora a do sociólogo 1:
lada pela grande imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, com o mesmo jornalista. Com o anteparo da teoria da moderni-
particularmente no tocante à questão da cidadania. Os assalari- zação, o Grupo de Itatiaia, como vimos, formulou as primeiras
ados, que aprenderam a creditar os seus direitos sociais ao regi- indicações sobre o "populismo na política brasileira".
me de Vargas, em 1945 passaram igualmente a se beneficiar dos Mas foi nos anos 60, sobretudo a partir de 1963, que a
direitos políticos. A imprensa, que rejeitava o governo instaura- aliança se ampliou enormemente. Além da imprensa e de novos
do em 1930 por negar os primados básicos do liberalismo, como sociólogos, agora das universidades, agregaram-se os militares
o laissez-faire econômico, o individualismo e as liberdades polí- golpistas, a direita civil, a Igreja, os capitalistas, as classes médi-
ticas fundamentais, com a democratização passou a identificar as conservadoras e os crentes na ortodoxia marxista-leninista.
os direitos sociais dos trabalhadores, bem como os perigos de Todos, no dizer de Daniel Aarão Reis Filho, tinham contas a
sua extensão e ampliação, como uma ameaça à ordem liberal.
ajustar com o grande inimigo: o trabalhismo. E tão liquidado o ' '
Segundo Lattman-Welteman, "o exercício dos direitos políticos
queriam, que o defunto sequer teve o direito de levar seu pró-
- particularmente o voto - era, nesta versão tupiniquim do
prio nome ao túmulo: "batizado pela sociologia paulista, foi ','.' '
liberalismo, conspurcada pela outorga ilegítima dos direitos I"
como populismo que desceu os sete palmos de terra. E, assim,
sociais, mercadoria privilegiada do tráfico demagógico/
seria ensinado às novas gerações, nas escolas, nos quartéis e nas
populista dos falsos democratas (o ex-ditador e sua 'camarilha
organizações políticas". E, como diz o autor, "temos as contas
de golpistas, apaniguados e pelegos'). Toda uma tradição retó-
ajustadas". 83
rica se construiu através da manipulação de tais palavras -
verdadeiros anátemas da época: 'demagogo', 'caudilhismo',
'populismo', 'pelegos' etc." A política de exclusão, patrocina-
PALAVRAS FINAIS
da pelos liberais e veiculada pela imprensa, delineou a imagem
de uma "democracia impura",82 ou melhor, de uma "democra-
Após tantas trajetórias e interpretações, a noção de "populismo",
cia populista".
em fins dos anos 90, passou, para usar uma expressão de Angela
Assim, se nos anos 40 houve a aproximação entre o histori-
de Castro Gomes, "de pedra a vidraça", embora, de acordo com

s2Fernado Lattrnan-Weltrnan. Cidadania e razão na imprensa escrita: retórica


83
e prática excludente em períodos democráticos (Os anos 50 e 90). Belo Hori- Daniel Aarão Reis Filho. "Orelha" do meu livro Trabalhadores do Brasil. O
zonte, Anais do XIX Simpósio Nacional de História da ANPUH, 1997, PP· imaginário popular. Op. cit. Veja também artigo do mesmo autor nesta cole·
577-578. tãnea.

1.2 o 121
f
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POLITICA BRASILEIRA O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

a mesma autora, ainda seja "um gato de sete vidas". 84 Apesar Henrique Cardoso, disputando a reeleição, promoveu um co-
das críticas crescentes e carecendo de conteúdo teórico mais mício no Parque Royal, uma favela no Rio de Janeiro. Acompa- '·
1.
consistente, a expressão passou a fazer parte da linguagem cor- nhado do candidato a governador do estado pelo Partido da ; J
rente da população, sedimentando-se na cultura política brasi- Frente Liberal, o presidente, após lembrar que conhecia as difi-
leira, seja ela popular ou erudita. culdades dos favelados através de seus estudos sociológicos so-
Assim, entrevistado em 1997 por um repórter, Jacob bre a situação dos negros no sul do país, disse para aproximada-
Gorender ouviu uma pergunta que, igualmente, era uma expli- mente 1.500 pessoas que assistiam ao comício: "Não adianta
cação para o populismo, agora em sua terceira versão: prometer o que não vamos fazer. Não dá para transformar todo
mundo em rico, nem sei se vale a pena, porque a vida de rico
Alguns estudiosos sugerem que estamos vivendo um período em geral é muito chata. " 86
que poderia ser denominado "neopopulismo", onde o poder Ao final do comício, acompanhado de políticos conserva-
executivo toma para si a idéia e a prática de uma acentuada dores, foi almoçar no Iate Clube. Entre coquetel de camarão e
personalização e autonomia, além de tentar, tal como os mol- filé mignon, os cerca de 450 candidatos da coligação conserva-
des tradicionais do populismo, harmonizar as diferentes clas- dora que o apoiou ouviram do presidente referências negativas
ses sociais e capital e trabalho em torno de um compêndio co- a seus concorrentes, em particular a Luís Inácio Lula da Silva:
mum. Nação, por exemplo. "85
"Se por alguma catástrofe, que não vai ocorrer, se elegesse um
populista, nem ele seria capaz de fazer o que diz que vai fazer,
Personalização e autonomia do poder executivo, concilia-
porque o povo repudiaria imediatamente." Mais ainda, criticou
ção de classes e ideal da Nação, eis os ingredientes do populismo
os que pregam soluções "facilitárias, mirabolantes, de populismo
de terceira geração, agora rebatizado de "neopopulismo". Seja
barato". Para o presidente, "o Brasil amadureceu: não há mais
ele na época de Vargas ou de Fernando Henrique Cardoso, não
importa, trata-se de uma verdadeira maldição na política brasi-
86 0s moradores do Parque Royal não gostaram do que ouviram, sobretudo
leira, à qual, ao que parece, fomos condenados.
porque a renda média mensal na comunidade é de 335,90 reais. Entrevistado
Talvez a explicação para o "populismo na política brasilei- por um repórter, o jornaleiro Samuel Almeida afirmou: "Fernando Henrique
ra" seja bem mais simples. Em agosto de 1998, durante a cam- fala porque não está no nosso lugar, mas, com certeza, ele não ia querer ser
panha eleitoral para a presidência da República, Fernando pobre." O desempregado Márcio da Silva, por sua vez, alegou: "Será que ele
acha chato ser rico? Eu gostaria de ser atendido rapidinho no hospital, que
nem acontece com os ricos." A jovem Maria José Xavier, balconista em uma
lanchonete da favela, argumentou, com certa indignação: "Se fosse rica, não
84Angela de Castro Gomes. "O populismo ... " Op. cit., pp. 43 e 49. estaria trabalhando aqui, mas vendo um filme ou comendo em um restauran·
1 8Sfo/ha da História. Porto Alegre, novembro de 1997, nº 11, p. 8. te." Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1998, p. 3.

1 2l 123
O NOME E A COISA: O POPULISMO NA POL(TICA BRASILEIRA

!l
caminho do passado" (grifos meus). No dia seguinte, reavaliando 1
~
suas declarações na favela, Fernando Henrique declarou: "Eu ..,
1 :::

sou professor, sou pobre. " 87


Mas, afinal, quem são os populistas? Difícil saber, pois de-
pende do lugar político em que o personagem que acusa se en-
.; ....
!'J•':ti

f'"
.: t:
contra. Para os conservadores, populismo é o passado político
.J
brasileiro, são políticas públicas que garantam os direitos soci-
ais dos trabalhadores, são modelos de economia e de sociedade 1.,
que, na Europa Ocidental, ficaram conhecidos como Estado de Populismo latino-americano
Bem-Estar Social; outros, talvez, diriam que populista é aquele em discussão ,.,'•
que, diante dos pobres, diz que ser rico é chato. O populista, ··~
:
portanto, é o adversário, o concorrente, o desafeto. O populista Maria Helena Rolim Capelato ~
é o Outro. Trata-se de uma questão eminentemente política e,
muito possivelmente, político-partidária, que poderia ser enun-
..
ciada da seguinte maneira: o meu candidato, o meu partido, a r',1,' ··r
minha proposta política não são populistas, mas o teu candida-
to, o teu partido e a tua proposta política, estes, sim, são
populistas. Populista é sempre o Outro, nunca o Mesmo.

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81
Jdem, 1° de setembro de 1998, p. 9.
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A redemocratização ocorrida em vários países da América Lati-


na após a queda de regimes militares (final da década de 1970 e
..
início de 1980) colocou como problema para essas sociedades a ...
convivência e/ou confronto entre culturas políticas democráti- ...
cas e autoritárias. As dificuldades econômicas e sociais, a enor-
me desigualdade na distribuição de renda, os mecanismos de
exclusão social e política criavam obstáculos à consolidação da ..."
democracia. A conquista dos direitos sociais e da cidadania ple-
na implicava a destruição de um legado autoritário que fora
reforçado com a introdução de novas formas de controle social
a partir de 1930.
A crise do liberalismo e da democracia, após a Primeira
Guerra Mundial, abriu caminho para as correntes de pensa-
mento antiliberais que defendiam a necessidade da presença
de um Estado forte, intervencionista, capaz de promover o
progresso dentro da ordem. A Revolução Russa de 1917 pro-
duziu o fantasma do comunismo, que circulou pelo mundo
todo. Na América Latina, o temor de sublevação das cama-
das populares se fez presente desde o processo de Indepen-
dência e, no século XX, tornou-se mais agudo a partir da
experiência comunista: os setores dominantes aventavam a

12 7

.1
1

1
l
l O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO

possibilidade de que a "Revolução" encontrasse terreno fér- O varguismo, o cardenismo e o peronismo, analisados em 1 '

conjunto ou separadamente, foram considerados como expres-


til nestas plagas. A questão social passou a ser considerada
como grande problema a partir dos anos 1920-30, e as cor- sões mais típicas do populismo. O populismo latino-americano
rentes nacionalistas de direita, que se fortaleceram em países é o tema desta exposição, que pretende discutir duas questões
fundamentais: f..
como Argentina, Brasil e outros, acusavam o liberalismo e a .: ]
democracia como responsáveis pela desordem e atraso rei- 1) A caracterização dos regimes denominados populistas é
nantes nesta parte do Continente. As idéias liberais, impor- alvo de inúmeras polêmicas que persistem até os dias de hoje.
tadas dos Estados Unidos e Europa, eram vistas como inade- Indago em que medida essas experiências que apresentam como
quadas à realidade latino-americana. A extrema direita colo- traçc:> comum a introdução de uma cultura política baseada na
cou-se contra as "oligarquias liberais", tidas como aliadas do intervenção do Estado e novas formas de controle social podem
imperialismo e incapazes de realizar a independência econô- ser consideradas democráticas porque voltadas para os interes-
mica e controlar a ordem social. Nesse contexto, o antili- ses populares ou autoritárias porque introduziram instrumen-
beralismo ganhou terreno, e a integração política das massas tos mais eficazes de controle das classes trabalhadoras. Os estu-
foi indicada como solução capaz de evitar a revolução popu- dos mais recentes realizados no Brasil, México e Argentina so-
l~r. A extrema direita era favorável a um regime autoritário bre o período demonstram o interesse atual sobre o tema. A
comandado por um líder forte, capaz de evitar o avanço do maioria dos autores justificam essa escolha pela tentativa de
comunismo. compreensão mais apurada do legado populista.
Nos anos 1930, as teses favoráveis à construção de um Esta- 2) O recente debate em torno do populismo é muito rico,
do com capacidade para planejar/organizar/dirigir o desenvol- porque apresenta uma grande variedade de interpretações. Al-
vimento econômico e intervir nos conflitos sociais e políticos guns autores reafirmam a validade das análises mais tradicio-
ganharam terreno, e os regimes fascista italiano e nazista ale- nais sobre o tema, outros referem-se ao "neopopulismo"1, e
mão passaram a ser indicados como alternativas de sucesso aos ·
regimes liberais em descrédito. Mesmo governantes contrários 1
Alguns autores se referem à emergência do neopopulismo. Zermefio (1989),
ao nazi-fascismo procuraram introduzir em seus países um Es- analisando o caso mexicano, considera que o fenômeno da globalização favo-
tado forte, promotor da legislação social e mediador dos confli- receu .º regresso ao líder e à possibilidade de manipulação da população;
n.
Albertt (1995) considera que a fusão entre Estado, sistema político e socieda-
tos sociais, tendo à sua frente um líder carismático em contato
de civil numa tendência totalitária desnaturaliza os três, seja pela repressão
direto com as massas. Alguns regimes da América Latina do pós- do sistema político, seja pela desarticulação da sociedade civil. Isto provoca a
30 adotaram essa política, denominada populista por muitos progressiva expansão da arena política e a proliferação de rivais pelo poder.
Lazarte (1992), analisando o caso boliviano, afirma que o surgimento rápido
autores.
129
12 8

,.J
POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

outros, ainda, negam a operacionalidade do conceito. Preten- sando aspectos do "populismo" brasileiro. Cabe esclarecer, tam-
do, inicialmente, apresentar alguns aspectos desse debate para, bém, que pretendo restringir a discussão a um problema de gran-
a seguir, voltar à primeira questão referente à natureza demo- de relevância em torno do qual há muitas divergências que se
crática ou autoritária dos regimes denominados populistas. estendem até os dias de hoje: as relações do cardenismo e
Dada a amplitude e complexidade deste problema e os limi- peronismo com as classes trabalhadoras. Esta questão apresenta r~:
tes desta exposição optei por fixar-me nas experiências mexicana elementos importantes para a abordagem da problemática cen-
e argentina já que os demais artigos da coletânea estarão anali- tral do artigo, ou seja, a natureza democrática ou autoritária des-
ses regimes. É evidente que uma análise mais apurada deste tema
de novas lideranças com forte apoio social (sobretudo no setor informal) se
explica como uma resposta funcional a determinadas demandas sociais não
envolveria uma abordagem mais ampla e aprofundada das socie-
atendidas, dentre elas as que provêm das falhas no sistema de representação e dades em foco. Mas o objetivo do texto que apresento aos leito-
as de serviço e de bem-estar para uma população afetada profundamente por res é bem mais modesto e pretende apenas indicar a posição de
essa crise. Esses autores chamam a atenção para problemas relacionados com
alguns autores que têm participado do debate atual.
o debilitamento das ordens intermediárias, a lógica antiinstitucional e os pro-
blemas da função mediadora dos partidos. Kennet Roberts ("EI neoliberalismo A grande maioria das referências de autores aqui invocados
y la transformación dei populismo en America Latina. EI caso peruano". ln foi retirada de uma coletânea recentemente organizada por Ma-
Mackínnon, Maria Moira e Petrone, Mario Alberto. Populismo y neopopulismo
ria Moira Machinnon e Mario Alberto Petrone sobre Populismo
en America Latina. El problema de la cenicienta. Buenos Aires, Eudeba, 1998)
acrescenta que, apesar de muitas análises sustentarem a oposição entre e neopopulismo en América Latina. EI problema de la cinicienta. 2
populismo e neoliberalismo, porque o primeiro, contrariamente ao primeiro, Considero que os leitores brasileiros se beneficiarão do trabalho
se associa com políticas estatistas, redistributivistas e com o esbanjamento
realizado por esses autores argentinos, que prestaram valiosa con-
fiscal, neoliberalismo e populismo têm surpreendentes simetrias e afinidades.
Através da apresentação do caso peruano, ele afirma que a emergência de tribuição para a retomada da discussão sobre o tema.
novas formas de populismo pode complementar e reforçar o neoliberalismo
em certos contextos, ainda que adote uma forma diferente do populismo
clássico de Perón, Vargas e Haya de la Torre. Esta nova variante do populismo
(em oposição à forma estatista) está associada à desintegração das formas AS INTERPRETAÇÕES SOBRE O POPULISMO NA AMÉRICA LATINA: A
institucionalizadas de representação política, que ocorre com freqüência du- CONSTRUÇÃO DO CONCEITO
rante períodos de transtornos sociais e econômicos. Para este autor, o
populismo, que deve desvincular-se de qualquer fase do modelo de desenvol-
vimento sócio-econômico, é um traço recorrente da política na América Lati- O Dicionário de Política organizado por Norberto Bobbio,
na, atribuível à fragilidade da organização política autônoma entre os setores Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino apresenta um verbete
populares e à debilidade das instituições intermediárias que articulam e cana-
sobre Populismo. O texto indica que as definições de populismo
lizam as demandas sociais dentro da arena política. Roberts afirma que, em
última instância, os dois fenômenos - populismo e neoliberalismo - se
reforçam mutuamente. 20p.cit.

13 o 13 1
POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

são imprecisas, ambíguas, e que os modelos e tipologias são con- A ampla lista de líderes, movimentos e governos definidos
fusos e contraditórios. Além disso, o termo se presta à denomi- como populistas, ou a divisão do populismo por tempos dis-
nação de fenômenos históricos muito diversos, perdendo, em tintos, permite constatar como é problemática a aplicação desse
decorrência disso, sua força explicativa.
Os críticos do conceito salientam a imprecisão do vocábulo e a
(1952-56) e Hernán Siles Zuazo (1956-60) na Bolívia; José Maria Velasco
multiplicidade heterogênea de fenômenos que ele abarca. Consi- Ibarra (1934-35/1944-47/1952-56/1961 e 1968-72) no Equador; Arevalo
dero que os modelos e tipologias construídos por cientistas sociais (1944-50) e Arbenz (1950-54) na Guatemala; lbanez (1927-31) no Chile;
Rojas Pinilla (1953-57) na Colômbia; Belaúnde Terry (1962-68) no Peru; il.
1.
(sociólogos e cientistas políticos especialmente) para caracterizar o Bosch (1962-63) na República Dominicana. Também são considerados como
,!

populismo latino-americano trouxeram grande contribuição para populistas alguns movimentos políticos que não chegaram ao poder: aprismo
o estudo do problema, mas não levaram devidamente em conta as (APRA-Peru, liderado por Victor Raul Haya de la Torre) e gaitanismo (Co-
lômbia, liderado por Jorge E. Gaitán). Nos últimos anos esse elenco foi am- .,,
particularidades nacionais nem as especificidades conjunturais. O pliado com as propostas de caracterização do neopopulismo a partir de per-
enfoque genérico impossibilita a recuperação do evento na sua plena sonalidades políticas como Fujimori no Peru, Menen na Argentina, Fernando
Collor de Mello no Brasil e Cuauhtémoc Cárdenas (filho de Lázaro Cárdenas)
historicidade. Mesmo quando analisadas como casos isolados, as
no México. Paul D. Drake sugeriu a seguinte classificação do populismo:
grandes sínteses abarcam períodos muito extensos. "precoce", "clássico" e "tardio". Na categoria de populismo precoce ou libe-
Esta última observação é válida, sobretudo, para o caso do ral, situa governantes como Yrigiyen na Argentina e Alessandri no Chile, que '""
limitaram suas promessas reformistas à democratização legalista destinada às
Brasil: algumas análises caracterizam o populismo brasileiro como maiorias alfabetizadas. Os populistas clássicos, que, segundo o autor, apare-
um todo indiferenciado cujos marcos cronológicos situam-se en- ceram durante os anos 30 e 40, eram líderes como Haya de la Torre, Grove,
tre 1930-1964; outras se referem ao populismo varguista (1930- Cárdenas, Betancourt, Gaitán e Perón. Eles mobilizaram amplos setores das
massas urbanas através de programas animados por certos slogans e idéias
54); outras ainda consideram que apenas o segundo período socialistas, prometeram medidas de bem-estar e crescimento industrial prote-
Vargas (1951-54) pode ser definido como populista; há também gido. Nos anos 50/60 as perspectivas do populismo policlassista declinaram,
mas importantes populistas continuaram aparecendo em cena, como Paz
as que periodizam o populismo brasileiro entre 1945-54. A
Estensoro na Bolívia, Vargas, Quadros, Brizola e Goulart no Brasil, Ibánez no
periodização no caso do cardenismo e do peronismo é mais pre- Chile e Velasco lbarra no Equador. Eles enfrentaram graves crises econômi-
cisa: a primeira (1934-1940), corresponde ao período em que cas. Já os populistas tardios nos anos 70 incluem Echeverria no México e
Perón na Argentina. Foi muito difícil para eles revitalizar as alianças e progra-
Lázaro Cárdenas ocupou a presidência do México, e a segunda mas populistas das épocas anteriores, porque as elites perceberam que o pre- :11
(1946-1955) corresponde aos dois mandatos presidenciais de Juan ço da inclusão das massas (aumento de salários, inflação, transferências de ··•.
::t
Domingo Perón, o último interrompido com sua queda em 1955.3 recursos, além dos fantasmas de Cuba e Chile) agora parecia ser maior do que
os riscos de uma exclusão social forçada. Em conseqüência, até meados de
1970, sob severas pressões econômicas e sociais, as forças armadas proscre-
JMuitos autores apresentam, além dos casos "clássicos" já mencionados, uma veram o populismo na maioria dos países da América Latina. (Drake, Paul.
variedade de fenômenos caracterizados como populistas: Victor Paz Estensoro "Conclusion réquien for populism?" ln Michael Connif (org.). LatinAmerican

1 3_2 13 3
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

conceito para situações históricas bem diversas. Dos anos 20 enfrentados pelo conjunto dos países encontraram soluções
aos 70, a conjuntura latino-americana passou por transforma- similares, mas também específicas, que dificultam a aproxima-
ções significativas que não se reduzem às questões indicadas ção de certos casos. Agrupar os diferentes personagens e mo-
para classificar os três momentos. Além disso, os problemas vimentos e defini-los a partir de um mesmo conceito implica a
homogeneização de políticas muito distintas, como, por exem-
populism in comparative perspective. Albuquerque, New Mexico University
plo, a de Vargas no Brasil, Cárdenas no México e Perón na
Press,1982, apud Maçkinnon e Petrone. Op. cit., pp.21·3.) Com relação ao Argentina. '"
"populismo clássico", há um elenço muito grande de interpretações, que os Seria impossível apontar, nos limites deste texto, as diferen- i!
''t
autores ordenaram em quatro grupos: 1) a interpretação que tem çomo çhave
de explicação o proçesso de modernização, tributária do funcionalismo, que ças existentes entre os casos mencionados (alguns deles são tão ....· 1

pensa o populismo çomo fenômeno típico dos países "subdesenvolvidos" em díspares, que seria difícil encontrar aspectos comuns) para ques- ....
transição da sociedade tradicional para a moderna (Gino Germani, T. Di Tella, tionar a validade ou não do uso do conceito de populismo. Pre- ...)
1
S. Stein). 2) interpretação histórico-estrutural, que vinçula o populismo ao
estágio de desenvolvimento do çapitalismo latino-americano surgido çom a tendo apresentar essa discussão a partir de um outro caminho, .....
çrise do modelo agroexportador e do estado oligárquico. Os autores desta- ou seja, o posicionamento de autores que, no passado e no pre-
çam o rol interventor do estado. Com diferentes ênfase, agrupam-se nesse '
bJoço autores çomo Cardoso e Faletto (teoria da dependência), Murmis,
sente, alimentam a polêmica em torno do tema. !
Portantiero, Weffort e Torre (çrise de hegemonia), e Touraine (política desin- A publicação da coletânea referida linhas atrás demonstra ""
•q~

tegração nacional). 3) o grupo dos çonjunturalistas (Adelman, 1992, James, bem o interesse atual sobre a questão. O subtítulo, "el problema
Frençh, Doyon, Horowitz, Matsushita, Tamarin, Boris Fausto, Murilo de
Carvalho), também heterogêneo çomo o segundo, çaraçteriza-se pelos estu-
de la cenicienta", é significativo e está associado a uma expres-
dos monográficos. Questionam as expliçações que remetem as origens do são com a qual o Prof. I.saah Berli_n (em conferência pronuncia-
populismo ao passado pré-populista da América Latina, mas há distintas çor- da em Londres, em 1967) batizou o populismo: "o complexo
rentes nesse grupo, çomo, por exemplo, a de Daniel James, que destaça a
cultura social e política da dasse trabalhadora, a constituição dos sujeitos e de borralheira". Na apresentação da obra, os autores invertem
os sentidos que têm para os atores sociais as experiências vividas, e a de John as palavras, colocando a indagação: "Uma borralheira sem com-
D. French, que centra seu estudo na complexa rede de alianças relacionada plexo"? Pretendem mostrar que, diferentemente do conto po-
com processos sócio-econômicos que criaram distintas dinâmicas e possibili-
pular, a busca do príncipe não terminou ainda, e provavelmen- \!,
dades de alianças entre as classes. 4) compreende as análises que enfocam a
"
especificidade do populismo no plano do discurso ideológico (Laclau, e lpola, te muito tempo passará antes que isso ocorra. .li
Taguieff, Worsley). Enquanto Laclau sustenta que o que transforma um dis-
Mackinnon e Petrone apresentam, como introdução ao li-
curso ideológico 'em populista é a artiçu)ação das interpelações popular-de-
moçráticas çomo çonjunto sintético-antagônico em relação à ideologia domi- vro, um panorama da literatura geral sobre o tema e identifi-
nante, e que existe uma relação de çontinuidade entre populismo e socialis- cam alguns eixos de análise, colocando problemas epistemoló-
mo, De lpola e Portantiero argumentam, a partir de uma noção gramsciana
de çonstrução de uma vontade nacional e popular, que a relação entre socia-
gicos da construção do conceito para sua discussão e debate.
lismo e populismo significa, sobretudo, uma ruptura. Vários autores de diferentes nacionalidades apresentaram arti-

1: 13 4 13 s

i'
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

gos sobre o assunto. Meu interesse está voltado para aqueles onal para a moderna. Nesse sentido, o populismo foi visto
que abordaram problemáticas relacionadas ao cardenismo e ao como etapa necessária de passagem para uma sociedade de-
peronismo. senvolvida e democrática.
Antes, porém, de abordar a primeira questão proposta no Guita Grin Debert, em sua análise sobre o discurso populista
início, considero oportuno recuperar alguns elementos das in- no Brasil, questiona a teoria da modernização em seus pressu-
terpretações mais conhecidas e consagradas em torno do postos fundamentais. Segundo a autora, Germani concebe o sis-
populismo, para, a seguir, indicar as análises sobre as referidas tema social como algo que se apresenta em equilíbrio estável e
experiências numa perspectiva histórica. explica as transformações sociais como resultados dos efeitos
Além das críticas relacionadas à imprecisão do termo e à acumulados de suas disfunções. Nessa perspectiva, o conflito .
multiplicidade heterogênea de fenômenos que ele abarca, ques- ·"
de classes surge como resultado de disfunções do sistema e não
tionam-se as teorias que serviram de base à construção do con-
como chave para a compreensão dos processos de mudanças
ceito. sociais e políticas; ao explicar a participação das classes popula-
A teoria da modernização do sociólogo argentino Gino Ger-
res a partir de razões psicossociais provocadas pelo processo de
mani, que fundamenta a reflexão do autor sobre o populismo
mudança (transição do tradicional para o moderno), elas apare- ...
(peronista), teve enorme repercussão na América Latina, além "'
cem como conseqüência e não como agentes do processo histó-
de ter servido como referência às interpretações do italiano
rico.•
Renzo de Feiice sobre o fascismo.
As teses do Partido Comunista sobre o período não se
Na perspectiva da sociologia da modernização, o po-
identificavam com o modelo funcionalista de Germani, mas
pulismo foi caracterizado como um momento de transição
a perspectiva evolucionista e etapista que caracterizava o
de uma sociedade tradicional para a moderna (o que implica
marxismo da Internacional Comunista no período conduziu
um deslocamento do campo para a cidade, do agrário para o
à interpretação do populismo como um momento de transi-
industrial). No que se refere ao político, a teoria explica o
populismo como uma etapa do desenvolvimento de socieda- ção que possibilitaria a superação do atraso e afirmação do
des latino-americanas que não conseguiram consolidar uma capitalismo, considerado como fase necessária à passagem
organização e ideologia autônomas. A ideologia de classes para o socialismo.
deveria substituir a ideologia populista quando o desenvolvi- O capitalismo constitui referencial de análise nessas inter- :n

mento capitalista tivesse se completado na região. A política pretações, mas a distinção proposta entre países "atrasados" e
populista (mescla de valores tradicionais e modernos)
correspondia ao momento de transição da sociedade tradici- •Guita Grin Derbet. Ideologia e populismo. São Paulo, T.A. Queiroz, 1979.

136 137
(

POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

"países desenvolvidos" indica uma relação de exterioridade en- e o particular, buscando entender as conexões e contradições
tre esses dois mundos. Dessa forma, o sistema capitalista é visto ocorridas nesse percurso histórico. Constata-se, no entanto, que
de forma desintegrada pela dissociação das partes em relação a maioria das análises sobre o populismo, das tradicionais às
I;
ao todo. A sociedade capitalista "moderna", apresentada como atuais, divide-se em dois grupos: a dos generalistas e a dos
•~
modelo a ser seguido pelas sociedades "tradicionais", e a divi- particularistas. Dos dois lados, nota-se uma dificuldade de r..: J
são entre as duas partes indicam o lugar onde se localiza o mo- integração entre o geral e o particular.
delo ou caminho a ser seguido pela história na sua evolução por A propósito desta questão, Mackinnon e Petrone apresentam
etapas. Essa concepção progressista foi questionada nas revi- a seguinte questão: o assim chamado "populismo" é um fenôme-
sões sobre o período. no histórico singular que se manifesta num tempo e espaço deter-
Numa perspectiva diversa da anterior, que entende o capi- minados que representam uma etapa particular do desenvolvi-
talismo em termos de totalidade não dissociada, é possível pen- mento de uma sociedade? ou é uma categoria analítica que pode
sar o mundo capitalista se reproduzindo contraditoriamente no se aplicar a um fenômeno "populista" mais amplo que se mani-
tempo e no espaço. Considerando o "moderno" e o "tradicio- festa em diferentes sociedades e épocas? ou é um fenômeno his-
nal" como partes constitutivas de um mesmo todo onde elas se tórico e uma categoria analítica ao mesmo tempo?
integram de forma contraditória, o período pode ser entendido Citando A. J. Hexter, que identifica duas grandes tendências
como um momento específico da conjuntura histórica mundial nas análises dos historiadores em relação ao problema, os autores
(o período entre guerras) em que novas formas de controle so- referem-se a um grupo que tende a agregar os fenômenos e outro
cial foram engendradas com vistas à preservação da ordem que procura singularizá-los. Os primeiros buscam um elo comum
ameaçada por conflitos sociais. Num movimento simultâneo e entre fenômenos aparentemente diversos e ordenam os casos
internacional, as sociedades européias e americanas buscaram particulares dentro de categorias mais amplas, e os segundos ten-
soluções específicas, adequadas a suas realidades históricas. dem a detectar as diferenças, os contrastes, os atributos singula-
Partindo do princípio de que as diferentes realidades não se res entre fenômenos aparentemente similares. Um dos perigos
mantêm isoladas, havendo entre elas um movimento constante desta última tendência é atomizar os processos históricos, tor-
de circulação de mercadorias, experiências e idéias, cabe inda- nando-os fragmentados e contingentes, impedindo a captação de
gar de que forma as experiências externas foram interpretadas seu sentido e direção mais amplos; o perigo da primeira é a pos-
e reproduzidas em países da América Latina. sibilidade de distorcer a informação empírica para forçá-la a en-
Ao se colocar essa problemática da relação entre o todo e as caixar-se nas suas categorias de sua análise conceitual. 5
partes, podemos propor um outro caminho para a compreen-
são dos chamados regimes populistas que transite entre o geral 5
A. ]. Hexter. Apud Mckinnon e Petrone. Op. cit., p. 39.

11
13 ~ 139

li

li~. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .~. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11111111


r
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Em relação a esses dois tipos de historiadores, Mackinnon e Como se pode notar, a construção do conceito de populismo
Petrone afirmam que os agrupadores tendem a estar de acordo passou por inúmeras e divergentes formulações, além das dis-
com a necessidade de construção de tipos ideais e da busca de cussões em torno da sua operacionalidade ou não. Nos últimos
configuração de regularidades causais capazes de dar conta de tempos, o termo populismo deslizou do campo acadêmico para
certos processos históricos importantes para evitar os extremos o terreno político, apresentando, então, conotação dicotômica
da particularização versus universalização. Por outro lado, os e maniqueísta. Dessa forma, ganha sentido positivo ou pejorati-
singularizadores, que valorizam e realçam os contrastes, os atri- vo, dependendo do grupo que o mobiliza no debate público. ...,
butos singulares e defendem a idéia da desconstrução dos concei- Usado como arma de luta a favor do neoliberalismo, o ataque ·.,,
tos e aprofundamento das investigações empíricas para evitar o ao populismo contribuiu para a construção de imaginários polí-
perigo de simplificação da realidade e de reificação dos padrões e ticos que serviam aos interesses de novos grupos de poder. O
.,,
dicotomias, tendem a argumentar a favor do populismo como populismo tornou-se símbolo das forças responsáveis pelo atra-
fenômeno histórico, espacial e temporalmente delimitado. 6 so, contrastando com a modernização apregoada pelos defen- •t-Jft

sores de uma concepção de Estado de caráter neoliberal. Nessa


luta de imagens, os opositores do chamado neoliberalismo ten-
'Op. cit., p. 43. Essas diferenças de perspectiva epistemológica estão presen- ...,,,,
tes nos debates entre os autores que consideram o conceito de populismo dem a recuperar o populismo como experiência positiva, genui-
como tipo ideal impróprio para pensar certos fenômenos e processos históri- namente democrática e popular. As invocações do populismo e
cos da América Latina, e aqueles que consideram possível e recomendável
neoliberalismo produzidas no calor da hora e no interior da
conformar um modelo teórico geral e contrastá-lo com os casos concretos.
Ian Roxborough ("The analisys of labour movements in Latin America: luta política, como diz Francisco C. Falcoo a propósito do fas-
typologies and theories", ln Bulletin of Latina America Research, vol. 1, nº 1, cismo, são eficazes para a prática político-ideológica, mas de
outubro, 1981) manifesta-se contrário ao uso do conceito de populismo, por
considerá-lo inadequado para a realidade econômica, social e política que o
pequena ou nenhuma valia para o conhecimento intelectual.
conceito pretende ordenar e explicar. Manifesta-se, também, contra a cons- As análises que, nas últimas décadas, retomaram o estudo
trução de modelos e tipos ideais ante o perigo de simplificação da realidade e do chamado populismo estão trilhando um caminho inverso ao
de reificação dos padrões e dicotomias que, com freqüência, implicam. lj
Margaret Canovam (Populism. Nova York e Londres, Harcour Brace percorrido na elaboração das interpretações generalizantes: pri- "'
jovanovich, 1981) também afirma que não se podem reduzir todos os casos vilegiam as particularidades nacionais e os recortes mais especí-
de populismo a uma simples definição nem encontrar uma só essência por ficos, sem, contudo, perder de vista a totalidade na qual se inse-
trás de todos os usos do termo. Ele é usado para descrever tantas coisas, que
alguém pode perguntar se tem algum significado. No entanto, não sugere o rem. A reconstituição histórica em perspectiva comparada de
abandono do conceito, mas seu uso definido com maior precisão. De la Torre vários "populismos" pode contribuir para a compreensão dos
critica os que propõem a eliminação do uso do conceito e afirma que, para
aspectos comuns, bem como das especificidades. Esta aborda-
além do mau uso e abusos do termo, vale a pena preservá-lo e redefini-lo.
Mackinnon e Petrone. Op. cit., pp. 41·2. gem, a meu ver, não deve prescindir da interpretação teórica,

1·4 o 14 1
!
POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

pois não se trata da mera descrição das experiências pesquisadas, A discussão sobre o cardenismo e peronismo tem, portanto, 1 :

mas de sua compreensão num sentido mais verticalizado. o objetivo de indicar pontos problemáticos das análises
O autor argentino Alberto Ciria, referindo-se à conceituação generalizantes. Parto do princípio de que, embora tenha havido
do peronismo como populismo, afirma que o termo populismo questões comuns a serem resolvidas pelas sociedades mexicana
foi utilizado para definir distintas tendências políticas no espa- e argentina nos referidos períodos (1934-40 e 1946-55), essas
ço e no tempo. Faz um balanço das interpretações que se vale- experiências, quando analisadas a partir do conceito genérico
ram desse conceito para estudar as realidades latino-america- de populismo, deixam na sombra elementos que as diferenciam
nos e conclui que, antes de submeter o peronismo e outros po- profundamente.
pulismos em marcos teóricos demasiadamente abstratos, seria Um dos aspectos apontados pelos modelos e tipologias
necessário aprofundar a análise dos casos específicos.7 Para ele, construídos para caracterizar o populismo diz respeito aos mo-
as comparações entre as diferentes experiências indicam um vimentos sociais e políticos entendidos como reflexos mecâni-
caminho frutífero de análise. 8 Esta é a proposta a ser explorada, cos e imediatos de variáveis sócio-econômÍCas. Nessa perspecti-
ainda que de forma restrita, na segunda parte deste texto. va, explica-se o comportamento político das classes a partir de
determinantes estruturais (processo de industrialização, origem
rural da classe trabalhadora). A adesão das classes trabalhado-
O POPULISMO NO CONTEXTO HISTÓRICO: ras ao populismo é interpretada a partir da estrutura social.
CARDENISMO E PERONISMO Na década de 1980, passaram a ser questionadas as teses
que apontavam para a fragilidade e inconsciência das classes
O método explicativo mais amplo e genérico, como já foi trabalhadoras. Tomando como ponto central de análise a rela-
dito antes, não permite a colocação de questões específicas ção do cardenismo e peronismo com as classes trabalhadoras,
sobre o cardenismo e o peronismo; corre-se, então, o risco pretendo indicar a posição de alguns autores sobre esta ques-
de estabelecer, ainda que de forma implícita, comparações tão, que é fundamental para a compreensão desses regimes.
que não se sustentam a partir de uma análise mais detalhada Ian Roxborough questiona o conceito de populismo para
desses fenômenos. É o que pretendo apresentar como pro- explicar o cardenismo e peronismo nos seguintes termos: para
blema aos leitores. se demonstrar que esta definição (populismo) tem alguma utili-
dade, caberia levar em conta que estamos analisando situações
onde as classes e estratos subordinados são incorporados à coa-
1Alberto Ciria. Política y cultura popular. La Argentina peronista. 1946-1955.
Buenos Aires, Ed. de la Flor, 1983, p. 52.
lizão populista de forma heterônoma. Se este não é o caso, ar-
8Idem, p. 40. gumenta o autor, então o que existe são alianças de classe mais

142 14 3
POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

do que populismo. A evidência disponível sugere que tanto Perón dustrial cresceu na Argentina. Entre 1930-35 e 1945-49, essa
como Cárdenas foram apoiados por instituições autônomas da produção mais do que duplicou, e as importações de produtos
classe operária, ou seja, sindicatos relativamente independen- industrializados caíram de uma quarta parte do produto inter-
tes. Portanto, estes movimentos podem ser analisados em ter- no bruto, em 1925-30, para 6% entre 1940/44. O número de
mos de alianças mais ou menos explícitas e deliberadas entre a operários duplicou entre 1935 e 1946. Os sindicatos, em 1943,
classe trabalhadora e indivíduos que detêm o poder do Estado. representavam 20% dos trabalhadores urbanos; os comunistas
Para explicar estas realidades, ele afirma que não seria necessá- tinham algum êxito entre os setores de construção e alimenta-
ria nenhuma referência ao conceito de populismo, pois ele não ção. Em 1948, a taxa de sindicalização havia subido para 30,5%, ..
agregaria nada à análise. O autor argumenta que somente num e, em 1954, para 42%. Entre 1946 e 1951, o número de sindi- •il~

momento posterior os sindicatos perdem autonomia e a classe calizados passou de 520.000 para 2.334.000. Esses números ....
''I
trabalhadora se subordina ao Estado. Afirma que, a partir de são muito significativos para a compreensão da política peronista.
uma análise empírica, é possível demonstrar que nem o primei- Juan Domingo Perón, na Secretaria do Trabalho e Previdência, .....
ro peronismo nem o governo Cárdenas se adequam à definição entre 1943 e 1945, e depois na presidência da República, entre
clássica de populismo, na qual as noções de classe mobilizável e 1946-1955, estimulou a organização sindical: em outubro de 1945,
classe trabalhadora heterônoma são cruciais. 9 foi decretada a Lei das Associações Profissionais, que propunha a "
'•lt

Segundo o autor, seria possível compreender melhor os go- sindicalização em novos moldes, baseando-se na unidade de ativi-
vernos Cárdenas e Perón estudando as relações entre a classe dade econômica e não no ofício ou empresa particular. Cada setor
trabalhadora, o Estado e as classes dominantes. tinha apenas um sindicato de reconhecimento oficial, que lhe per-
mitia negociar com os patrões dessa atividade, e estes estavam obri-
a) classe trabalhadora e peronismo gados, por lei, a negociar com o sindicato reconhecido. Havia os
No que se refere à situação da classe trabalhadora argenti- ramos locais, as federações nacionais e a central única CGf. O
na, cabe esclarecer que, depois da crise de 29, a produção in- Estado articulava e supervisionava essa estrutura, e o Ministério
do Trabalho outorgava os reconhecimentos. Nessa estrutura cen-
tralizada e unificada, os funcionários sindicais tinham proteção do
9Vargas tampouco seria populista, segundo o autor, porque não apelava ao
povo e porque mantinha um regime conservador, autoritário e desmobilizador. Estado, direito à negociação, e os trabalhadores tinham a garantia
Somente depois de 1945, com o advento da política eleitoral, é que Vargas da aplicação das leis sociais e planos de bem-estar social oferecidos
apelou de forma mais sistemática ao povo. O autor indaga: "Quanta falta de pela Fundação Eva Perón e outros organismos.
nitidez com relação aos limites de um paradigma é suficiente para justificar "·
seu abandono?" Veja Ian Roxborough, apud Macckinnon e Petrone. Op. cit. A condição econômica do país era muito favorável no perío-
pp. 40-1. do, o que permitiu significativa melhoria no nível de vida dos seto-

144 145

i
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO
l O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

res populares. Entre 1946 e 1949, os salários reais dos trabalhado- res com o peronismo e diverge das análises anteriores, sobretu-
res industriais cresceram 53%. A contrapartida dessa mudança fo- do no que se refere à relação entre os líderes e as classes traba- 1
..,
.•••
.
ram a gradual subordinação dos sindicatos ao Estado e o impedi- lhadoras. Para ele, o desafio central desses estudos reside em 1 :t·
I;·
mento de todas as formas de oposição dentro ou fora do peronismo. explicar o poder de convocatória dos líderes para seus seguido-
Nesse contexto, é de se supor que a adesão dos trabalhado- res, sem reduzir o comportamento destes últimos seja, à mani-
res ao peronismo se explica a partir dos benefícios materiais. pulação ou à ação irracional ou anômica, seja a um racionalismo
No entanto, como indicam alguns autores, dentre eles Gareth utilitário que supostamente tudo explica. Ele valoriza, sobretu-
Stedman Jones, um movimento político não significa simples- do, o enfoque de Daniel James, que, embora reconheça o poder
mente manifestação de miséria e dor; sua existência se caracte- explicativo dos trabalhos que enfatizam a racionalidade instru-
riza por uma convicção, comum a muitos, que articula solução mental dos trabalhadores, questiona a validez da visão eco-
política da miséria e diagnóstico político de suas causas. Nesta nomicista da história comum a essas perspectivas. 11
perspectiva, é importante pensar no atrativo político e ideoló-
gico de Perón a partir da análise da natureza do seu discurso e 11
Carlos De la Torre. "The ambiguous meanings of Latin American populism".
compará-lo com o de outras lideranças que disputavam a ade- ln Social Research, vol. 59, nº 2, Summer, 1992, apud Mackinnon e Petrone.
Op. cit., p. 42. Retomando a teoria da modernização em relação à problemá·
são da classe trabalhadora. Referindo-se à credibilidade do dis- tica do apoio das classes trabalhadoras aos regimes populistas, constata-se
curso, o autor argumenta que um vocabulário político particu- que, segundo seus adeptos, a transição nos países de desenvolvimento tardio,
em comparação com o processo europeu, apresenta características particula·
lar deve propor uma alternativa geral capaz de inspirar uma res marcadas pela assincronia entre os processos de passagem de um tipo de
esperança em algo que seja possível de se realizar e propor, ao sociedade para outra. Enquanto na Europa a transição de uma democracia
mesmo tempo, os meios para realizar as promessas: o vocabulá- com participação limitada para uma democracia com participação ampliada
se fez sem grandes rupturas do ponto de vista político, ocorrendo uma
rio peronista era visionário e crível, porque continha propostas integração das massas através de canais políticos legalizados pelo sistema vi·
de alcance imediato. Os temas prosaicos do dia-a-dia, a lingua- gente (sindicatos, legislação social, partidos políticos, sufrágio, consumo de
massas) capazes de absorver os sucessivos grupos e proporcionar-lhes meios
gem simples e direta eram facilmente captados pelas "massas". de expressão adequados ao nível econômico, social e político, na América
Perón reconhecia a desigualdade social como algo natural, mas Latina a rápida industrialização, a urbanização e a massiva migração interna,
propunha melhoras. Esse realismo conseguia maior credibilidade que se acelerou depois de 1930, levaram à precoce intervenção das massas na
política, excedendo os canais institucionais existentes, onde os trabalhadores
do que as insígnias abstratas dos socialistas e comunistas. 10 puderam expressar suas demandas crescentes sem valorizar o sistema demo·
Carlos de la Torre também aborda a relação dos trabalhado- crático. A mobilização prematura das massas, gerando pressões sobre o apa·
relho político, não encontrou amadurecidos os canais de participação políti·
ca exigidos, como partidos operários ou liberais. Assim, a integração das massas

l 1ºGareth Stedman Jones. Languages of c/ass: studies in English working c/ass se deu pela coexistência de traços tradicionais e modernos em sua constitui·
history. Cambridge, Cambridge University Press, 1984. ção. Idem, p. 25.

146 14 7
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Vários autores questionaram as explicações de Germani O autor argentino Ricardo Sidicaro estudou a relação entre
sobre a adesão dos trabalhadores urbanos ao peronismo. Se- o peronismo e a classe trabalhadora entre 1943-55,14 abordan-
1 .....
···~

gundo o sociólogo, essa adesão se explica pela origem agrári~ 1 :!J


do três problemáticas centrais: as causas pelas quais a classe ope- .1::..,

dos operários que migraram do campo para a cidade a partir rária argentina apoiou, antes de 1946, os setores políticos res- ~i
da crise de 1929; tal fenômeno explicaria a incapacidade polí- ponsáveis pela criação do peronismo; os vínculos mais gerais ~
.r.::1
tica e falta de consciência de classe desse setor que apoiou que se estabeleceram entre o Estado e a classe operária entre i
....
Perón. Através de pesquisa empírica sobre a classe operária 1946-55, com ênfase na politização dos conflitos sociais, vista
argentina no período, Murmis e Portantiero 12 enfatizaram a .,,
como elemento explicativo da continuidade da adesão dessa
importância de se levarem em conta os interesses dos traba- classe ao governo peronista; as modalidades de relações entre o
lhadores, mostrando que as medidas tomadas por Perón na Estado e as organizações sindicais no período citado. A partir ·1..!
Secretaria do Trabalho e da Previdência, a partir de 1943, vi- de uma perspectiva teórica que assume o conceito de classe
nham ao encontro das reivindicações de grande parte do setor explicitado na obra de E. P. Thompson, The making of the English
operário, que via no sindicalismo a solução para os problemas working class, ele considera a classe social como um ator social
da classe. Diferentemente do que indicam as análises de integrado às relações sociais e políticas, nas quais realmente
Germani e outros sobre a incapacidade da classe trabalhadora participa. Contestando as análises que insistem na eficácia da
de perceber seus reais interesses e necessidades, os autores afir- manipulação do líder populista em relação aos trabalhadores e
mam que a classe operária argentina era organizada, politizada as que explicam a atuação da classe operária a partir de um tipo
e capaz de fazer escolhas: os setores que apoiaram Perón assim de necessidade histórica que transcende suas práticas efetivas,
o fizeram por reconhecer afinidade entre suas reivindicações e entende essa classe como ator histórico da sociedade de seu tem-
as realizações do Secretário. po, e não como suposto portador da sociedade futura. Em vez
Na década de 80 foram publicados outros trabalhos que ques- de interpretar seu comportamento a partir de dimensões
tionaram o enfoque "desenvolvimentista", próprio tanto da te- valorativas que julgam a ação social em termos de processos
oria da modernização como das correntes de viés marxista que supostamente desviados com respeito a um dever tido como
buscaram explicações nas estruturas econômicas e sociais para
analisar as origens do populismo. 13 14
0 trabalho foi apresentado, inicialmente (1980), como tese de doutorado :::~

na França sob orientação de Alain Touraine, com o título O Estado Peronista.


O artigo "Consideraciónes sociológicas sobre las relaciones entre e! peronismo .. -~

t2Miguel Murmis e Juan Carlos Portantiero. Estudios sobre los origines dei
y la dase obrera en la Argentina, 1943-1955", segundo o autor, reproduz,
peronismo. Buenos Aires, Siglo XXI, 1971. com algumas modificações, um dos capítulos da referida tese. ln Mackinnon
13 ldem, p. 30.
e Petrone. Op. cit., pp. 153-172.

149

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!

POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

"normal", apresenta outras razões do apoio da classe operária questionamento da incapacidade da classe trabalhadora de es-
ao peronismo e indica os limites da adesão. Argumenta que a colher se1:1 próprio .cam!nho.16
classe operária, "embora não militasse no interior do sindicato, Daniel James também retoma essa problemática do pe-
via nessa instituição um veículo orgânico através do qual podia ronismo, repensando o significado das opções dos trabalhado-
receber, eventualmente, as orientações. Foi por meio dos sindi- ras em face do regime. Que_st!on3:n~_o a teoria funcionalista, que
catos que a classe operária realizou suas mobilizações políticas considera o populismo como um fenômeno patológico e
nas distintas situações em que o governo convocava o seu apoio. disfuncional, resultante do desvio do caminho normal da mo-
Foram os sindicatos, e não o peronismo como partido político, dernização, analisa o "fenômeno" a partir de uma perspectiva
que impulsionaram as distintas iniciativas de apoio e defesa ati- que procura entender as condições subjetivas do movimento
va do governo". Na interpretação de Sidicaro, em meados do social, a constituição dos sujeitos, os sentidos que têm para os
período peronista, os líderes sindicais, ao mesmo tempo em que atores sociais as experiências vividas. Salienta a necessidade de
perderam sua independência frente ao governo, ganharam au- se estudar a classe operária argentina a partir da ótica dos ato-
' ·~·--.
tonomia com relação a suas bases. A consolidação interna dos res envolvidos num processo crucial de participação e atuação
Jparatos sindicais foi, em parte, o efeito de sua política de boas no sistema político, momento em que decidem construir suas i
relações com o governo, o que permitiu o desenvolvimento de próprias alternativas. 17
suas respectivas infra-estruturas. A consolidação e a legitimação Afirma que o movimento peronista redefiniu a noção de
das estruturas sindicais abriram possibilidades de que seus diri- cidadania dentro de um contexto mais amplo, essencialmente
gentes mantivessem suas posições frente a um eventual desloca- social. Denunciou a hipocrisia do sistema democrático formal
mento dos peronistas do controle do Estado, como ocorreu no vigente na Argentina nos anos 30 (denominada "década infa-
final do governo de Perón e sua queda. 15 me"), salientando o escasso conteúdo democrático real. O êxi-
É importante frisar que muitos dos estudos que reviram as to de Perón residiu na sua capacidade de refundir o problema
teses sobre o "populismo clássico" (tanto no Brasil, como na da cidadania em geral num novo molde de caráter social. A ên-
Argentina e no México) incorporaram a perspectiva dos histo- fase na necessidade de reformas sociais colocava em questão
riadores ingleses responsáveis pelas novas interpretações sobre
os movimentos sociais, sobretudo no que se refere ao 16
...
Angela Castro Gomes, em suas investigações sobre o trabalhismo no Brasil, .::u
partiu de premissas similares e, a partir de uma análise aprofundada do pro-
blema, propôs uma revisão historiográfica sobre o tema que teve enorme
1sRicardo Sidicaro. "Consideraciónes sociológicas sobre las relaciones entre repercussão entre os estudiosos do período. As teses sobre o populismo fo-
el peronismo y la clase obrera en Argentina". ln Mackinnon e Petrone. Op. ram postas em xeque pela autora.
17
cit., pp. 169-70. Daniel James. Apud Mackinnon e Petrone. Op. cit., 1989, pp. 32-3.

159 151

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POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

uma democracia que limitava o indivíduo ao usufruto de direi- das condições de vida, eles foram tratados como cidadãos e su-
tos políticos formais. O autor transcreve frases de Perón e de jeitos de sua própria história ao aparecerem de forma privilegi-
um líder operário para demonstrar essa idéia. Perón disse: "Se ada na configuração dessa política. Neste tipo de interpretação,
alguns pedem a liberdade, nós também a pedimos (... ) mas não as explicações para a adesão das classes trabalhadoras ao
a liberdade da fraude (... )Nem tampouco a liberdade de vender peronismo se distanciam bastante daquelas propostas pelos
o país nem de explorar o povo trabalhador." Mariano Tedesco, modelos de análise sobre o "populismo clássico", que indica-
líder têxtil, afirmou: "A gente de 45 já estava cansada. Durante vam a debilidade política e social dos trabalhadores como res- i:
anos e anos haviam enganado sua fome com canções sobre a ponsáveis pela possibilidade de sua manipulação por líderes
liberdade ... " 18 O autor considera que o peronismo institucio- populistas. O apoio dos trabalhadores a Perón é aqui entendido '< '~,
. ,,
nalizou e controlou o desafio representado pelos trabalhado- como uma opção da própria classe em função de seus interesses
res ao sistema, absorvendo essa atitude de contestação no seio materiais e subjetivos.
de uma ortodoxia patrocinada pelo Estado. Perón referia-se
ao perigo das massas desorganizadas. Os sindicatos deveriam b) classe trabalhadora e cardenismo
atuar como instrumentos do Estado, e a harmonização dos O cardenismo, também definido como uma experiência tí-
interesses entre capital e trabalho deveria ocorrer dentro da pica de "populismo clássico", apresenta alguns aspectos comuns
estrutura do Estado benévolo, em nome da nação e de seu em relação ao peronismo, mas outros que se diferenciam muito
desenvolvimento econômico. Nesse sentido, declarou: "Bus- da experiência argentina. Tomando novamente como referên-
camos suprimir a luta de classes suplantando-a por um acordo cia central a relação do cardenismo com os trabalhadores, pre-
entre trabalhadores e patrões ao amparo da justiça que emana tendo mostrar em que medida o conceito de populismo dá con-
do Estado." 19 Com essa política, o líder teve pleno êxito no ta de explicar a experiência mexicana.
controle das classes trabalhadores, tanto social como politica- Cabe lembrar, inicialmente, que o México viveu a experiên-
mente. cia de uma Revolução que se iniciou em 1910, prolongando-se,
A análise de Daniel James demonstra a convivência contra- enquanto luta armada, até 1917. A consolidação de uma nova
ditória de uma política autoritária, que introduziu uma nova política esbarrou em dificuldades distintas e só se concretizou,
,.
forma de controle social e ao mesmo tempo trouxe benefícios segundo alguns autores, com o cardenismo. Arnaldo Córdova, :::JJ
reais e ganhos subjetivos aos trabalhadores. Além da melhoria um dos principais estudiosos do cardenismo, considera que o
governo Cárdenas (1934-40) representou a consolidação dos
18Apud,
ideais da revolução, ou seja, a legislação trabalhista e a reforma
idem, p. 31.
1 19Apud, idem, p. 51. agrária. Na obra Política de masas dei cardenismo, o autor afir-

152 153

J;
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

.,
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ma que Cárdenas foi, ao mesmo tempo, consciência crítica da via" (inspirando-se em Otto Bauer, do Partido Socialista Austrí-
1 :~
revolução iniciada em 1910 e impulsionador das instituições aco, e no legado de Jean Jaurês, do Partido Socialista Francês) '1
1 •
que até hoje regem e definem a vida política do país. Os confli- de desenvolvimento social e político, e concluiu admitindo a .I;·

tos políticos dos anos 20 impediram a concretização das refor- corporativização das relações entre Estado e sociedade. Procu- •
.....li"
mas indicadas na Constituição de 1917. Çárd~p~~ no j~gde_r rou fixar uma posição autônoma do país frente às potências .t
procurou apaziguar os conflitos religiosos, políticos e sociais estrangeiras, mas acabou se curvando ao predomínio esta-
que criavam obstáculos à estabilidade política. se·~~d~ ~- ~~­ dunidense na economia nacional.
tor, que adota o conceito de populismo para explicar o Alguns de seus assessores haviam estudado diretamente com
cardenismo, o líder mexicano procurou, como Vargas e posteri- Keynes, outros ,na Escola de Economia de Harvard, e um com
ormente Perón, seguir um caminho nem capitalista nem comu- Shumpeter, na Austria. Mas, para além de todas essas influênci-
nista, realizando reformas que vi_~~yam atender às reivind_iç_~­ as da época, destacou-se de seus inspiradores e assessores pela
ções de diversos grupos sociais não atendidas pelos vencedores crítica à propriedade individual. Em seu programa de reformas,
pretendeu promover redes sociais e institucionais que permitis-
da Revolução. 20
Ilá~--~-e~o, em "El cardenismo revisitado: a tercera vía y
sem transformar o "capitalismo liberal" em um "capitalismo
otras utopias inciertas",21 apresenta uma visão bem diversa do social" baseado em princípios globais de regulação econômica,
que significa: conjugar o mundo da tradição com o da técnica,
cardenismo. Desenvolve a tese de que Cárdenas teve uma atua-
da planificação e do espírito profissional.
ção ambígua: promoveu liberdades políticas e direitos civis, mas
O programa de Cárdenas, segundo Ilán Semo, propunha a
criou as bases sociais e institucionais do autoritarismo presiden-
transformação da natureza social do Estado. Nas esferas econô-
cial no México. Distribuiu terras entre pueblos e "comunida-
mica e educacional, a reforma social do Estado inspirou-se na
des" de camponeses marginalizados e criou condições que pos-
doutrina da terceira via que previa a transformação do Estado
sibilitaram a concentração de riquezas e de seus produtos em
tradicional (liberal) em um Estado regulador da produção e dis-
poucas mãos. Ainda que tenha fomentado as organizações de
tribuição de riquezas. O líder mexicano defendeu formas não
assalariados e operários, não lhes garantiu autonomia política e
individuais de propriedade, gestionadas por seus membros com
orgânica. Impulsionou um programa para criar uma "terceira
ajuda de sistemas regulados de financiamento e distribuição;
introduziu uma nova cultura política, que inverteu a ordem li-
2°Arnaldo Córdova. La politica de masas dei cardenismo. México, Ediciones beral entre o público e o privado, entre o social e o civil, e uma
Era, 1974.
21Ilán Semo. "EI cardernismo revisitado: a tercera vfa y otras utopias inciertas".
transformação do sistema de representação de interesses no
ln Mackinnon e Petrone. Op. cit. Estado e no governo. Vista por este ângulo, a reforma agrária

1 s4 155

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1

POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO


O POPULISMO E SUA HISTÓRIA ,,
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! impulsionada entre 1935-39 ganha sentido mais global do que iniciativa rural: a expropriação. As empresas expropriadas fo- :,)
......
comumente se atribui a ela. 22 ram destinadas às administrações dos operários (no setor ferro- '
:i1
:1:)
1
O autor defende a idéia de que a meta fundamental da viário e petroleiro sobretudo). Tanto no setor rural como no 1
1;41i
1
urbano, as novas formas de propriedade foram concebidas como ~l
reforma agrária era a destruição sistemática, massiva e global w11
partes componentes de uma economia mista. Cárdenas prote- ·~
da grande propriedade rural; tal propósito estava relacionado e: 1
com a cultura política da expropriação desenvolvida no de- geu e fomentou as empresas privadas que não eram filiais de !
1

,,,
correr da luta armada de 1910-1917. As expropriações reali- ~()n~CS.~~io~:.~.~~~-n~eiros.
Os últimos meses de 1938 marcam o declínio dos impulsos .,
zadas por Emiliano Zapata, em Morelos, e Francisco Múgica,
em Tamaulipas, sob perseguição do exército federal, acaba- da reforma social. Por pressões internas e externas, Cárdenas .,, 1

ram forjando uma das práticas principais que distinguiria a passou do boicote aos interesses estrangeiros à conciliação. Ao '',
:
"'
estabilidade política e a fragilidade econômica do "sistema 1
final do governo, os descontentamentos eram múltiplos: cam-
1
1
político mexicano". O regime de propriedade se transformou poneses que não haviam recebido dotações, operários em desa- 11~1/
:
num espaço indefinido sujeito a relações e mudanças de for- cordo com a sindicalização compulsória promovida pela Cen-
:
ças. A política tomou o lugar da economia, e a gestão da pro- tral de Trabalhadores Mexicana (CTM), círculos confessionais
da classe média urbana. ..: '
priedade, e não a propriedade em si, colocou-se no centro da
No que se refere à reforma do Partido Nacional Revolucio- !
racionalidade econômica. 23 i

A política no campo teve seu correlato na cidade: a reforma nário, criado na década de 1920, cabe esclarecer que, entre 1935
!
industrial. Com a legitimação das redes sindicais e assistência 1 e 1938, foram constituídas as principais organizações sociais que !

social, a política industrial compartilhou da mesma lógica que a permitiriam ao poder executivo organizar e dirigir, a partir do
centro, a reforma agrária e a reforma industrial. Todas elas - a
2211án Semo mostra que a reforma agrária não foi realizada da mesma maneira CTM, os sindicatos nacionais, as ligas agrárias locais, os agrupa-
em toda parte. Tanto em Puebla como em Michoacán, a distribuição se reali· mentos cívico-militares etc. - se originaram e se consolidaram 'ji
zou sob intervenção da máquina estatal federal; nos dois casos, houve confli-
fora do PNR. Sua relação com o regime se dava através de redes '"
tos de pueb/os contra "peões", "peões" contra "peões" e pueb/os contra
pueblos, lutando pelas melhores terras. Em outros locais, como Sinaloa, as do nascente presidencialismo, e não como organizações filiadas ·"
repartições se efetuaram sem violência. Como as divisões sob a forma de ao partido oficial. Cárdenas reservava para si um enorme espaço ··~
. '. '.~.!
e;ídos familiares e minifúndios resultou em conflitos graves, a solução foi o
de manobra frente aos emergentes poderes sociais, espaço esse
"eiido coletivo". Yucatán, Baixa Califórnia, Michoacán e Coahuila foram pai·
co dessas experiências, que também apresentaram problemas. Em 1938, que aumentou com a separação das organizações operárias das "
Cárdenas distribuiu armas a componeses para que defendessem suas posições camponesas..A fundação do Partido Revolucionário Mexicano
frente às guardías biancas. Idem, pp. 231·255.
21ldem, p. 250.
em 1938 pretendeu institucionalizar uma nova forma de repre-
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POPULISMO LATINO-AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA :

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sentação no Estado, mas seus efeitos foram muito diferentes. Ser- não representa uma exceção. Suas políticas serviram para cooptar
viu para deter os impulsos das reformas sociais através de um os movimentos populares a fim de subordiná-los ao Estado e para
grande controle sobre os novos protagonistas sociais: as organi- desenvolver o mercado interno em benefício do capital e da bur-
zações sociais. O partido reformado por Cárdenas legitimou, após guesia nacional. A segunda variante das teses revisionistas, que
sua substituição no poder, uma nascente burocracia política que insistem na idéia de continuidade, está centrada no Estado (e pode
persiste até os dias atuais. Em 1946, foi criado o Partido Revolu- implicar ou não uma análise de classe). Arnaldo Córdova, situ-
cionário Institucional, que alterou as bases de sustentação do ando-se no campo marxista, enfatiza o surgimento do Estado;
antigo PRM: em lugar dos quatro setores (camponês, operário, para ele, o cardenismo representa a culminância da revolucio-
popular e militar), foi criado, tendo como base a Confederação nária política de massas, a subordinação das classes populares
de Organizações Populares, um setor que não existia no anterior ao poderoso Estado revolucionário. Enquanto a primeira pers-
ao PRI. Uma elite de políticos que se transformariam em empre- pectiva considera que o Estado atua como o protagonista do
sários através da gestão estatal dominou o Partido desde então. capital, as interpretações estatistas supõem que o Estado tem
Alan Knight, no artigo "Cardenismo: coloso o catramina",24 um grau considerável de autonomia frente às forças econômi-
coloca outras questões relacionadas às análises sobre o cardenismo. cas dominantes.
Apresenta, no início, a visão oficial do PRI, que situa Cárdenas Em oposição às idéias da continuidade, aparece uma opinião
dentro do contexto do progresso teleológico da Revolução Me- que sustenta o caráter distinto do cardenismo, seu conteúdo ra-
xicana e enfatiza a continuidade e as contribuições acumulativas dical, suas metas e conquistas transformadoras. Alguns autores
dos sucessivos governos; esta visão enfatiza o caráter democráti- (David Raby, Fernando Benitez, Nora Hamilton, Anatol
co e popular do cardenismo, e da Revolução na sua totalidade. Shulgovski, Tzvi Medin), para os quais o cardenismo é a negação
Segundo o autor, a imagem oposta da visão oficial é a que expres- do "callismo", enfatizam a descontinuidade, o radicalismo e a
sam numerosos acadêmicos denominados revisionistas. Também especificidade do cardenismo. Alan Knight afirma identificar-se
eles enfatizam a continuidade do cardenismo, mas a partir de um com a posição dos autores que acentuam o genuíno radicalismo
ponto de vista crítico. Há dois grupos de revisionistas: o primei- do projeto cardenista. Mas acredita que esse radicalismo deve ser
ro, inclinado ao marxismo, conceitualiza a revolução institucional analisado de forma comparativa ao que sucedeu antes e depois
como um motor do desenvolvimento capitalista e da acumulação no México e também em relação a outros regimes da época.
do capital, e nessa perspectiva entende que o regime Cárdenas O autor descarta o uso do conceito de populismo, alegando
que englobar Cárdenas com Vargas, Perón e outros pode apre-
sentar resultados mais problemáticos do que úteis. Salientando o
Z•Afan_ Knight. "Cardenismo: coloso o catramina". ln Mackinnon e Petrone.
1 Op. c1t., pp. 197-230. radicalismo da política de Cárdenas, refere-se à reforma agrária,

158 159
..

POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

"que foi extensa, rápida e, em certos aspectos, inovadora" (por No que se refere à política externa, Cárdenas apresentou
exemplo, o "ejido coletivo"). Refere-se também ao movimento resistência ao fascismo, à frente popular, à guerra civil austría-
operário e à indústria, argumentando que o cardenismo favore- ca, à invasão italiana na Abissínia, à agressão japonesa contra a
ceu a industrialização e o desenvolvimento econômico, mas tam- China, e sobretudo à Guerra Civil Espanhola, recebendo mui-
bém realizou uma intervenção estatal na economia num plano tos refugiados republicanos, festejados como heróis pela esquer-
muito maior do que os empresários estavam dispostos a aceitar. 25 da m.~~icaq_a.
Ao tratar da questão mais espinhosa no que se refere à cha-
mada política populista, Knight coloca a seguinte indagação: a
2so autor afirma que o poderoso grupo de Monterrey via Cárdenas como um
"arauto pró-comunista de um regime socialista" e fez oposição cerrada ao origem da política cardenista foi popular ou elitista? A seguir,
presidente. Esclarece: ainda que a oposição exagerasse nas ameaças represen- destaca quatro pontos sobre a mobilização popular da década
tadas pela política cardenista, é fato que o governo fazia uma distinção entre
de 30: 1) a mobilização popular poderia ter assumido uma for-
empresas progressistas e parasitárias e as que se negavam a colaborar com o
regime e recorriam a greves patronais; estas ficavam sujeitas à expropriação. ma conservadora e católica, dada a importância da oposição
No que se refere à política trabalhista, Cárdenas necessitava do apoio do católica naquele momento; 2) a mobilização popular, seja de
movimento operário para enfrentar o "callismo'', e nesse campo conseguiu
aliados muito fortes. Mas na prática havia problemas nessa aliança, porque as
direita ou esquerda, não teve precedentes em termos de magni-
diferenças entre o governo e a CTM eram importantes, sobretudo no que se tude; 3) o papel do Estado cresceu em importância. As organi-
referia à questão do recrutamento dos camponeses. Mesmo na sua fase mais zações populares se converteram num capital importante do
radical, o governo negou apoio total a grupos como os ferroviários; a partir
de 1938, com o início da fase mais moderada, Cárdenas começou a se chocar regime na construção de um Estado forte e ajudaram o governo
com os petroleiros, ferroviários e outros trabalhadores. Apesar disso, o autor a derrubar os caudilhos, a domesticar o Exército, a enfrentar os
considera que Cárdenas foi radical (até 1938) quando comparado com os interesses estrangeiros e a potencializar seu próprio poder. Mas
governos anteriores (Calles havia dizimado os ferroviários em 1929) e com o
que estava sucedendo em outros lugares durante a década de 30 (Itália, Ale· disso não se pode, segundo o autor, deduzir que essas organiza-
manha, Argentina). Os capitalistas falavam do "caos comunista", e um ban· ções foram dóceis títeres de um regime maquiavélico. Em rela-
queiro norte-americano expressou seu temor em relação às tendências "ultra·
ção às afirmações de que Cárdenas impôs uma política de cima
socialistas" que solapavam o México. Knight lembra que, ao assumir o gover-
no, Cárdenas enfrentou uma "explosão sindical": em um mês, só no Distrito para baixo, afirma que em alguns pontos isto ocorreu, mas não
Federal, ocorreram mais de sessenta greves, e durante a metade de 1935 hou- na maioria dos casos, porque as pressões populares foram deci-
ve 2.295 interrupções de surpresa. Ainda que nos últimos anos do governo
tenha havido diminuição da atividade grevista e da simpatia oficial em rela-
sivas em muitas situações. A reforma agrária ocorreu após mui-
ção aos sindicatos, isto não apaziguou os medos dos empresários. Este setor tos anos de protesto, de repressão, de luta. Se em alguns casos,
recusava as medidas antiinflacionárias, os contínuos esforços organizativos Cárdenas impulsionou a reforma de cima para baixo, destruin-
da CTM e a política de melhoramento das condições do proletariado, consi-
derando esta política como unilateral. O compromisso do governo com a do as comunidades rurais, isto foi exceção. Na maioria dos ca-
educação socialista também despertou muita polêmica e oposição. sos, a reforma foi precedida por uma importante luta agrária,
1
16o 161

1
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

.1ue o autor menciona em detalhes para confirmar sua afirma- amplitude dos conflitos sociais e políticos vividos na sociedade
ção. No final do texto, apresenta um certo balanço da política da época; da situação econômica do período; dos objetivos e
cardenista, concluindo que esse regime produziu mudanças con- possibilidades das reformas levadas a cabo pelos governos i~ '
sideráveis: a reforma agrária e a trabalhista (para as quais con- reformistas e dos obstáculos enfrentados para sua concretização;
tou com o decisivo apoio popular), a nacionalização da indús- das diferentes conjunturas internas e externas que se sucederam
tria petrolífera; a reorganização do partido governante. Mas o na vigência desses governos; das alianças realizadas pelos líderes
resultado final dessas política esteve longe de alcançar as metas em diferentes momentos; da natureza da relação que conseguem
1
mscadas pelos que a idealizaram. Na década de 40, as institui- estabelecer com os liderados.
;ões-chaves do cardenismo - o ejido e a escola socialista, a A maioria destas questões foram abordadas, implícita ou
CIN, a CNC e o PRM, o PEMEX (petróleo mexicano) e as ferro- explicitamente, pelos autores aqui mencionados, e, pelo expos-
vias estatais - apenas satisfizeram a grande esperança radical to, é possível concluir que o conceito de populismo nos termos
:la década de 30. O esqueleto institucional do cardenismo per- em que foi exposto neste texto não possibilita a compreensão
maneceu, mas sua dinâmica interna se perdeu. Novos conduto- da complexa relação das classes trabalhadoras com o cardenismo
res se apoderaram da catramina, voltaram a ligar o motor, car- e peronismo. A indicação de alguns elementos históricos que
regaram novos passageiros e logo a conduziram numa direção marcaram essas duas sociedades naquela época serve de pista
;1em diferente. " 26 para se pensar as especificidades. A meu ver, elas são de tal or-
dem, que comprometem o uso do mesmo conceito para a com-
\ extensa exposição de análises sobre o peronismo e cardenismo preensão dos dois fenô~enos. Com isso, não pretendo negar a
reve o intuito de mostrar os problemas complexos que envolvem existência de problemas similares enfrentados no México e Ar-
1 compreensão dessas políticas. O movimento dinâmico é gentina. Uma análise comparada dos dois regimes permitiria
contraditório que caracteriza a relação das classes trabalhadoras mostrar as respostas comuns e específicas que foram dadas a
com os referidos regimes pressupõe análise: dos antecedentes questões vividas nesses dois planos.
históricos de cada um dos regimes; das reivindicações anteriores No que se refere à primeira questão proposta no início, acre-
feitas pelos setores populares, de seus anseios e necessidades; dito que os novos estudos sobre os referidos governos denomi-
da identificação de correntes políticas diversas existentes entre nados populistas permitem afirmar que um traço comum os
os trabalhadores, bem como dos conflitos entre os diferentes caracteriza: a introdução de uma nova cultura política baseada
grupos, movimentos e lideranças que os representavam; da no papel interventor do Estado nas relações sociais, o que re-
presentou, ao mesmo tempo, atendimento de reivindicações de
1 Afan Knight. Op. cit., p. 230.
26 natureza social (melhoria salarial, legislação trabalhista, refor-

162 16 3
POPULISMO LATINO·AMERICANO EM DISCUSSÃO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

ma agrária - no caso mexicano), política (referência a uma se referem ao seu legado autoritário, mas às conquistas sociais
··-.
cidaáanli baseada no reconhecimento do trabalhador como obtidas pelas classes trabalhadoras naquele período. Em suas :i)
..l.;i
sujeito da história) e subjetiva (resposta aos anseios.de dígnida- agendas, a democracia se reduz a eleições e reeleições. I:;..
:~1
de do trabalhador, até então desprezado por governantes e .se- Cabe lembrar que as reivindicações trabalhistas, quando fo- ~11
·:;,
tores dominantes). Nã~ se pode n.egar a importância destas con- ram atendidas, já tinham uma história de muitas lutas nesses . IC::
quistas das classes populares nesses regimes. Alguns autores con- países: são as conquistas dos trabalhadores, e não a política
cluem, a partir desses fatos, que, enquanto os regimes liberais populista, o que os governantes atuais da América Latina estão
representaram a falsa democracia, os "populistas" representa- destruindo.
ram a democracia verdadeira, porque se voltaram para os pro- Preocupados com a" modernização", que significa possibi-
blemas sociais. Tal conclusão deixa na sombra o caráter autori- lidade de competição no jogo da economia globalizada, rele-
tário e controlador dessas políticas, que implicaram a perda de gam os problemas sociais a um plano secundário. A miséria, o
autonomia dos movimentos sociais e a impossibilidade de ma- desemprego, a exclusão social estão aí para desmentir os prog-
nifestações contrárias ao poder. nósticos dos que viram o "populismo" como momento de tran-
No caso do México, a liberdade política foi mais efetiva do sição para a "modernização". O otimismo dos progressistas das
que na Argentina, mas é preciso lembrar que Lázaro Cárdenas décadas de 1950-60 deu lugar a um profundo pessimismo ex-
construiu, com o intuito de proteger a classe trabalhadora, a presso pelos que se opõem aos "modernizadores" de hoje. Nes-
máquina partidária e o Estado autoritário que até hoje imperam te contexto, alguns opositores do "neoliberalismo" se tornam
no país, colocando obstáculos à consolidação da democracia. nostálgicos; incapazes de acreditar em novas formas de demo-
Não se trata de colocar em julgamento as intenções desse cracia e justiça social, lamentam o fim dos regimes "populistas".
governante, mas de analisar uma cultura política que, mesmo A estes, cabe indagar: não haverá melhor caminho para a demo-
voltada para os interesses das classes populares, introduziu uma cracia latino-americana do que a tentativa de preservar a "cida-
estrutura institucional de natureza autoritária, posteriormente dania controlada" introduzida nesses regimes"? A resposta tal-
utilizada como mecanismo de controle social e político. O filho vez esteja no desafio proposto por Claude Lefort: o projeto de
de Lázaro Cárdenas, Cualtemaco Cárdenas, atual prefeito da "invenção da democracia" pode constituir um exercício mais
Cidade do México, surgiu na cena política mexicana, nas últi- estimulante do que viver a reboque daquele passado, que, junto
mas décadas, como um dos principais opositores do sistema com a legislação social, nos legou uma cultura política eficiente
partidário ainda vigente no país. no que se refere a novas formas de controle social, mas ineficiente
Mas, afinal, de que democracia estamos falando? Os gover- em relação à construção de uma democracia plena e justa.
nantes de hoje, que prometem a destruição do populismo, não

1 6·4 165
.l

Trabalhismo, nacionalismo e
desenvolvimentismo: um
projeto para o Brasil
(1945-1964)
Lucília de Almeida Neves
·-.
··-.!
:..~.-l.;a.

TEMPO E HISTÓRIA: AS MARCAS DAS CONJUNTURAS

Besselaar afirma não ser possível conceber o tempo histórico


s~m m9vimento e sem intervenção de sujeitos que através de
sua ação construam esse próprio tempo. 1 De fato, a marca
principal de um tempo histórico específico, ou mesmo de
uma conjuntura, é definida pela ação de sujeitos históricos
individuais ou coletivos. São as ações humanas as responsáveis
pelo construção do tempo histórico e de suas características
peculiares nas diferentes inter-relações que o constituem e
definem.
A especificidade da História em relação à demais ciências
sociais e humanas situa-se no apego à singularidade das expe-
riências e processos. Experiências que são específicas em de-
corrência de suas características e de sua dimensão temporal.
Analisa-se um tempo ou um outro tempo. Uma conjuntura ou
....
uma outra conjuntura. Dessa forma, para o historiador, a defi-
nição de cortes cronológicos é tão fundamental quanto a esco-

'José Van Den Besselaar. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: Peda-
l gógica, 1973.

11
l'
169
11
11
p
I',1
:j
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

lha do próprio tema ou objeto a ser pesquisado. A dimensão profundo humanismo, outros por arrojada concepção
temporal, aliada à demarcação espacial, é também definidora socializante. São as marcas da singularidade temporal que fa-
do próprio tema ou do objeto a ser pesquisado. Portanto, o zem dos processos históricos experiências únicas e, portanto,
estudo do nacionalismo prussiano no século XIX é necessari- definitivas.
amente diferente do estudo do nacionalismo varguista no Bra- Á 11."istória brasileira a partir dos anos 40 e, mais especifi-
sil do século XX. camente, dos anos 50 tem, dentre outras, uma marca muito
Outra questão concernente à temporalidade histórica refe- especial, a da crença na transformação do presente com o
re-se ao fato de que esta privilegia a sucessão, o encadeamento, objetivo de construção de um futuro alternativo ao próprio
mesmo que não linear, de acontecimentos e processos. Compa- presente. ~esse sentido, as ações humanas projetavam-se,
rando-se o tempo como categoria da História com o tempo como deliberadamente, para a construção do amanhã. Havia um
categoria das Ciências Sociais, pode-se identificar profunda di- forte sentido de esperança, caracterizado por uma marcante
ferença entre ambos. Enquanto o tempo histórico privilegia a consciência da capacidade de intervenção humana sobre a
sucessão processual, incorporando a simultaneidade social, o dinâmica da História, buscando-se implementar um projeto
tempo das ciências sociais privilegia exclusivamente a simulta- de nação comprometido principalmente com o desenvolvi-
neidade inscrita em um tempo contemporâneo. Efi!_~ecorrên­ mento social.
cia, a abordagem sucessiva é o que distingue a História da Soci- Dessa forma, como afirma Jorge Ferreira:
ologia, e a consideração da simultaneidade é o que as aproxima.
Portanto, o tempo social da História é aquele que considera as Não seria exagero afirmar que, na década de 1950, surgiu na
inter-relações de tempos múltiplos e as ações humanas como sociedade brasileira uma geração de homens e mulheres que,
inscritas numa ordem social específica. 2 partilhando de idéias, crenças e representações, acreditou que
Cada tempo tem sua marca específica, definida pelas ações no nacionalismo, na defesa da soberania nacional, nas refor-
dos sujeitos históricos e pelos valores que o conformam. Tra- mas das estruturas sócio-econômicas do país, na ampliação dos
direitos sociais dos trabalhadores do campo e da cidade, entre
ta-se do que podemos definir como seu substrato. A busca do
outras demandas materiais e simbólicas, encontrariam os mei-
significado de um tempo é também a busca dos valores e pro-
os necessários para alcançar o real desenvolvimento do país e o
jetos que o conformaram. Alguns períodos da história da hu-
efetivo bem-estar da sociedade. 1
manidade foram marcados por forte religiosidade, outros por

2 Sobre o assunto, ver: José Carlos Reis. Tempo, história e evasão. Campinas, 3
Jorge Ferreira. O Ministro que conversava: João Goulart no Ministério do
1 Papirus, 1994. 1 Trabalho. Niterói, UFF, 1999 (mimeo).

17 º· 17 ,
l; ' 1.
\

TRABALHISMO, NACIONALISMO E OESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Esperança, reformismo, distributivismo e nacionalismo-~-~~ juntura conformada pelos anos 40, 50 e 60, apresentou um pro-
elementos integrantes da utopia desenvolvimentista que se cons- jeto específico para o Brasil: o trabalhismo brasileiro. Um proje-
tlt_ÜitJ.: _cotpo signo daquela época. Portanto, a conjunturá -deÜ: to nacional bastante preciso, bem definido e concatenado com
mitada pelos anos 40 e início dos anos 60 foi caracterizada pela a visão de futuro que alimentou as esperanças de parte da popu- . ~i 'li'
"li
':_). I
crença de expressivos segmentos da sociedade civil brasileira de lação brasileira em um tempo singular da história republicana
que a modernidade só seria alcançada se apoiada em um pro- brasileira.
. ·-
1.--

grama governamental sustentado pela industrialização, por po- O tr~b~lhi~~o adquiriu importância real naqueles anos, pois
líticas sociais distributivistas e por efetiva defesa do patrimônio s~as proposições programáticas encontraram ressonância não
econômico e cultural do país. só no Partido Trabalhista Brasileiro, como também em diferen- 1:

Tal projeto não era unívoco nem homogêneo na sua con- tes entidades do movimento social organizado. Em decorrên-
cepção. Era, na verdade, ~atizado por proposições ~specífi~_<l.~ cia, suas propostas, além de penetrarem em instituições políti-
de diferentes partidos políticos e organizações da sociedade ci- cas parlamentares, como Senado Federal, Câmara de Deputa-
Y1f.-J5êssá-fo~ni'a, por exemplo, havia um projeto reformista agre- dos, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores, tam-
gado a objetivos socialistas defendido pelo comunistas. Tam- bém ~ncontraram_ ec9_em programas governamentais executa-
bém era possível identificar a forte atuação dos católicos defini- dos pelo poder executivo. Mas o que contribuiu para torná-lo
dos como progressistas, que, principalmente, através de movi- mais forte e difundido foi sua decidida penetração junto a seg-
mentos leigos como o de Ação Católica, desenvolviam um alen- mentos da sociedade civil, que, especialmente nas décadas de
tado trabalho em torno de propostas voltadas para o reformismo 50 e princípios da de 60, se empenharam para que o Estado
e justiça sociais. Também organizações como a União Nacional brasileiro adotasse, de forma definitiva, um amplo programa de
dos Estudantes e os sindicatos se envolveram em lutas dessa natu- reformas sociais e econômicas.
reza, vinculando-se a projetos partidários específicos. Todavia, A proposta de modernização desenvolvimentista, dirigida
mesmo através da pluralidade de proposições que conformavam pelo Estado, -contagiou expressivo segmento da população bra- i
i'
o programa de reformas que se projetava para o país, sua ênfase sil~ira naql:leles anos. O clima efervescente da época repercutia t
. it
nacionalista e distributivista caracterizou-se como fator constitutivo em um parlamento atuante que se transformou em caixa de res-
.. l.
da identidade de uma conjuntura histórica peculiar. sonância de diferentes projetos partidários e de proposições
Dentre os diferentes partidos e segmentos que participaram transformadoras da sociedade civil. De fato, naquela conjuntu-
da construção de um projeto político e social orientado de for- ra, as manifestações coletivas da cidadania conformaram um
ma geral por tais objetivos, destaca-se o ?artido Trabalhista Bra-: tempo no qual a representação do reformismo nacionalista no
sileiro, que, identificado com tais proposições peculiares à con- imaginário social de parte substantiva da população impulsio-

173
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

nou manifestação, até então inédita na vida política nacional, sileiro - PTB, foi bastante marcada pela estreita vinculação do
do sujeito histórico coletivo. Foi um tempo em que parte im- referido partido com um projeto para o Brasil, que tinha como
portante da população constituiu-se como ator de um proces- suporte principal uma concepção distributivista de bens e bene-
so, que, apesar de contradit9ri9, pois marcado por resquícios fícios. Na verdade, o PTB, partido que pode ser identificado
do autori;;f;~op~te"~~~-Ústa intrínseco ao "populismo", pro- como expressão melhor acabada do trabalhismo brasileiro, des-
porcionou, simuit~~e~mente, a expansão de manifestações par- de a sua fundação apresentou um programa pautado por prin-
ticipativas, qualitativamente novas, posto que definidas por um cípios e objetivos que permitem inferir que as preocupações bá-
forte potencial de autonomia em relação ao Estado. sicas daquela agremiação partidária relacionavam-se aos seguin-
O presente texto buscará interpretar as propostas e a atua- tes temas:
ção do Partido Trabalhista Brasileiro e de organizações da soci- i
j
edade civil a ele vinculadas, que, inspirados pelo trabalhismo, • direitos trabalhistas;
somaram-se aos esforços reformistas da conjuntura em questão. • garantia de emprego;
A especificidade do trabalhismo brasileiro do pós-45, que tam- • J'.'Olíticas públicas destinadas à qualificação do trabalhador;
bém era pluralista, pois havia trabalhistas de diferentes matizes, • previdência social ampla;
o
será o eixo norteador das análise~ que orientam argumento: • políticas públicas/sociais voltadas para o lazer, a saúde, a
central aqui apresentado. Ou seja, de que o trabalhismo, apesar educação, a proteção à infância e à maternidade;
~m -~i-é~-p~ter~~lista getulista que era sua sement_e e que o • política de planificação econômica dirigida pelo Estado;
marcou como tatuagem desde seus primeiros tempos, não s<? • distribuição de renda e de "riquezas";
correspondeu a um programa de reformas sociais, nacionalis~as • extinção do latifúndio improdutivo e adoção de uma política
e desenvolvimentistas, ~orno também constituiu-se em uma dou- agrária voltada para a distribuição de terras e fixação do
trina caracterizada por apresentar um projeto de cidadania bas~ homem rural no campo;
tante específico, no qual se mesclaram elementos da social-de- • incentivo ao cooperativismo econômico e à "solidariedade
mocracia e do assistencialismo estatal. entre todos os cidadãos", visando à paz social. 4

Tais proposições programáticas, apresentadas no ano de


TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO fundação do PTB-1945 - , indicam que, na sua origem, o

A trajetória do movimento trabalhista no Brasil, especialmente


•Itens retirados do Programa do PTB-Arquivo Getúlio Vargas - GV 45000/
a partir de 1945, quando foi fundado o Partido Trabalhista Bra- 1 1- FGV- CPDOC- Rj.

174 17 5
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

petebismo, que bebeu nas águas de um projeto trabalhista uma melhor compreensão da diversidade que lhe era inerente.
que- )á' se insinuara antes dos anos 30, 5 tinha nas questões Mas possibilita, sobretudo, constatar que, apesar da existência
sociais e na organização tutelada e não conflitiva da partici- de concepções diversificadas, h~via um eixo, uma estrutura dorsal
pação política dos trabalhadores o eixo de suas preocupa- nacionalista, distributivista e desenvolvimentista, que fez com
ções. o
que.. trabalhismo se constituísse, inegavelmente, em um proje-
É inegável ter o programa do PTB traduzido um projeto to para o país. Um projeto integrado à dinâmica de um tempo,
para o país, que incluía desde questões de organização e pro- como já afirmado, que se caracterizou por uma euforia trans-
teção ao trabalho até proposições referentes à reforma da formadora. !
estrutura fundiária brasileira, passando por uma concepção .. Na verdade, desde a sua fundação, o Partido Trabalhista Bra- ,,:
estatizante da economia e por uma proposição de "organiza- sileiro registrou a existência de tendências ideológicas, políticas
ção" da cidadania. Misto de um forte dirigismo estatal e de e de facções que em alguns contextos se confrontaram, e em
.
uma forte conotação distributivista e participacionista, as pro- outros se articularam ao longo da história petebista. Algumas .. 1

postas do programa inicial do PTB desdobraram-se em novas delas se dissolveram com o tempo, outras não alcançaram mai-
proposições e renovaram-se ao longo da conjuntura em que or projeção e influência; todavia, duas (a getulista e a reformis- t
o partido atuou. Mas sua marca inicial, que pressupunha uma ta) foram marcantes ao longo da história do PTB, tendo inclusi- t
forte interlocução do partido com os trabalhadores, desdo- ve ressurgido, ainda que bastante descaracterizadas, na década
brou-se como característica permanente da atuação dos tra- de 80, cerca de vinte anos após a extinção do partido pelo regi-
balhistas. Tal fato influenciou, de forma substantiva, não só a me militar. Tais tendências, em 1980, foram reeditadas através
inserção do partido nas diferentes conjunturas do período, do PDT de Leonel Brizola e do novo PTB de lvete Vargas. A
como também sua relação com outras organizações partidá- fongevidade dessas tendências, que traduziram, antes de 1964,
rias. um projeto para o Brasil, fizeram história nos anos 50 e 60, e
O trabalhismo brasileiro, que teve no PTB sua mais relevan- cujos resquícios e fragmentos sobreviveram a vinte anos de
te forma de organização pós-45, não era, entretanto, homogê- autoritarismo, sugere que precisam ser melhor identificadas e
neo. Havia diferentes correntes no interior do partido. Uma analisadas.
análise consistente da doutrina que inspirou a organização do Dessa forma, cabe registrar que foram três as principais ten-
partido e da integração dessas correntes à agremiação possibilita dências do trabalhismo que se integraram ao PTB:

5 Sobreo assunto, ver: Angela de Castro Gomes. A invenção do trabalhismo.


,_ os getulistas pragmdticos, conformados por burocratas
1 Rio de Janeiro, IUPERJNértice, 1988. .-· vinculados à estrutura do Estado através do Ministério do

1 7 .6 177
TRABALHISMO, NACIONALISMO E OESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA .;~
:;..:.
'.......
i-::
.)
Trabalho e por sindicalistas ligados ao corporativismo tornar presidente do Comando Geral dos Trabalhadores '.)
...
)

sindical oficial. Sua hegemonia no partido data dos do Brasil. 6 ···-·


primeiros anos de atuação do PTB, se estendendo de 1945
até mais ou menos 1954. Sua principal referência foi o
próprio Getúlio Vargas. OS GETULISTAS PRAGMÁTICOS
/:::::.,os doutrinários trabalhistas, que eram os intelectuais
orgânicos do petebismo e se inscreviam em uma orientação O primeiro grupo traduzia um projeto de trabalhista que se con-
trabalhista socializante, que propugnava uma maior fun~ia c?_~ ~ p~rscmalismo ~-;~g~Í~ta. Suas principais propostas
desvinculação do partido em relação ao Estado. Sua poderiam ser sintetizadas em dois lemas principais: cultivar o
influência no partido começou em torno de 1948, com carisma de Getúlio Vargas como instrumento de mobilização
Alberto Pasqualini, e se estendeu até a década de 60, com política e social dos trabalhadores, através de uma ação prag-
Sérgio Magalhães e Santiago Dantas. mática, e lutar para a manutenção da legislação trabalhista im- . l

- os pragmáticos reformistas, que atuaram principalmente a plantada ao longo da década de 30 e início da de 40. 7 Inspira-
partir da segunda metade dos anos 50 e amalgamaram em dos por algumas peculiaridades do trabalhismo inglês, especial-
sua prática político-partidária características da tendência
getulista e da tendência doutrinária. Seu principal expoente
'Glaucio Soares também indicou a existência de três tendências no PTB. To-
foi João Goulart, que ganhou maior projeção no PTB após davia, com algum grau de diferença das apresentadas no presente texto. Para
sua passagem pelo Ministério do Trabalho, quando do o autor, eram as seguintes as alas internas do PTB: sindicalistas pelegos, dou-
segundo governo Vargas. Mas, além de Goulart, outros trinários e pragmáticos getulistas. Nosso entendimento é de a divisão apre-
sentada pelo autor não explica integralmente a dinâmica da atuação das ten-
petebistas também se destacaram como líderes desta dências do partido ao longo de sua trajetória, por não se referir aos petebistas
tendência. Na verdade, uma rede de trabalhistas reformistas que ganharam expressão após a década de 50 acoplando em seu perfil traços
se formou em diversos estados da federação. Lideranças do getulisrno pragmático e do reformismo doutrinário. Sobre a classificação ,,
de Soares, ver: Glaucio Dillon Ary Soares. A sociedade e a política no Brasil.
regionais do partido, que ganharam ou não projeção São Paulo, Difel, 1973.
"
nacional, alimentaram o fluxo das proposições nacionalistas Também em livro de minha autoria, apresentei urna divisão das tendências
do PTB, que à época considerei serem somente duas, a getulista e a doutriná-
que contagiaram a militância partidária e se tornaram ria. Creio, todavia, que a classificação apresentada no presente texto expres-
11
hegemônicas na agremiação por aqueles anos. Somente a sa com maior precisão a evolução do trabalhisrno/petebisrno. Ver: Lucília de
título de ilustração, cabe destacar Leonel Brizola, originário Almeida Neves. PTB: do getulismo ao reformismo (1945-1964). São Paulo, 1
Marco Zero, 1989. :r
do PTB do Rio Grande do Sul, e Clodsmidt Riani, 7Urna análise mais detalhada do assunto pode ser encontrada in Lucília de
sindicalista de Minas Gerais, que na década de 60 viria a se Almeida Neves. Op. cit., 1989.

17 8 17 9
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

mente a que defendia a idéia do trabalhismo corresponder a tivos f!lanter v.inculadas a ação sindical e a militância partidária
uma alternativa ao comunismo e ao socialismo, organizaram em __u111a inter-relação dinâmica com o Estado. Na verdade, o ··-.
um partido não dos trabalhadores, mas para os trabalhadores. que se projetava era uma forma de cidad~~ia participativa mas
- '
Um partido ancorado por um lado no Estado, através do Minis- n_ão autônoma. Isto é, participação e dirigismo estatal unidos
tério do Trabalho e dos Institutos de Previdêncía Social, e por simbioticamente.
outro no movimento sindical, através principalmente das con- Como referido no presente texto, os representantes dessa
federações e federações sindicais. tendência foram hegemônicos nos primeiros anos de atuação
Portanto, não chega a ser temerário afirmar que a atuação do PTB, anos nos quais o trabalhismo se confundiu e se fundiu
dos getulistas pragmáticos apoiou-se em dois suportes: ao petebismo. Podem, pelas razões apresentadas, ser identifica-
dos como legítimos representantes da sobrevivência do cor-
- um de natureza ideológica - a doutrina do trabalhismo inglês, porativismo na ordem política democrática instaurada no país
que coloriu com tons de eficácia social e de "neutralidade" o após a queda do Estado Novo, em 1945. 9 A perspectiva dos .. 1

fisiologismo e o corporativismo do PTB em seus primeiros petebistas/getulistas pragmáticos era de que o desenvolvimento
econômico e os projetos nacionalistas deveriam, a princípio,
anos;
- outro de natureza organizativa, que buscou no Ministério ser dirigidos pelo Estado, que contaria com apoio dos trabalha-
do Trabalho e em seus tentáculos sindicais e previdenciários dores, estes simultaneamente devendo se constituir como sujei-
tos legitimadores das políticas governamentais.
o suporte institucional para a estruturação partidária.
As melhores fontes para se analisar as perspectivas e objeti-
Quanto a este segundo aspecto, é interessante analisar a ex- vos do getulismo pragmático são sem dúvida os discursos e pro-
tração política, social e funcional dos fundadores do PTB, que nunciamentos de Getúlio Vargas, especialmente sobre os traba-
era basicamente sindical (sindicalistas e advogados sindicais) e lhadores e sobre o PTB, quando dos primeiros anos do partido.
Como já amplamente reconhecido, Vargas era um homem ave-
burocrática (funcionários do Ministério do Trabalho). 8 O que ·'"
sso a partidos políticos. Sua concepção era de que eles cor-
indica que o projeto inicial do trabalhismo, incorporado pelo
respondiam na vida política a formas de concorrência peculia-
PTB segundo os moldes getulistas, tinha como um de seus obje-
res ao mercado liberal, com forte potencial desestabilizador da
I'
ordem política e social. Adepto de um estatismo forte, pensava
81nteressante quadro sobre a vinculação sindical e funcional dos primeiros
petebistas é apresentado por Maria Celina D'Araújo às páginas 29 e 30 de seu
.." 1
;

livro Sindicato, Carisma e Poder- O ITB de 1945-65. Rio de Janeiro, Fun· 'Sobre a persistência do corporativismo após 1945, ver Luiz Werneck Vianna.
dação Getúlio Vargas, 1996. 1 Liberalismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976.

l'' 1 ao 18 1
1'
1'
1

l
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

serem as organizações da sociedade civil, especialmente as sin- mento essencial do suporte de sua legitimidade junto a eles,
1 dicais, as melhores alternativas para a participação política da marcou a legenda trabalhista desde a sua origem. Para Vargas e
1
população e, em especial, dos trabalhadores. correligionários, seria o PTB o partido encarregado de repre-
~ Todavia, pressionado pelos ventos democráticos que so- sentar os trabalhadores no Parlamento Nacional.
pravam no mundo e no Brasil a partir da eminente derrocada Quanto a esta questão, é interessante notar que fato raro na
dos países do eixo na Segunda Guerra Mundal, influenciou política nacional veio a acontecer com a fundação do PTB. Pen-
decididamente na natureza e nos rumos da transição entre o sou-se, de forma efetiva, em termos de representatividade do '

Estado Novo e a nova ordem institucional democrática ins- trabalhador junto ao Poder Legislativo. Tal proposição não caiu
taurada no Brasil em 1945. Dentre as estratégias desta "tran- no vazio, constituindo-se em uma dinâmica que de forma cres- '

sição planejada", incluiu-se a organização de partidos. O PTB, cente ampliou a representação do PTB na Câmara Federal e no '
fundado naquela conjuntura, correspondeu ao projeto tra- Senado Nacional entre os anos de 1945 e 1964. Efetivamente,
balhista de Vargas, que visava imiscuir a política eleitoral.!?-~ nas eleições parlamentares de 1962, o PTB, que ocupara em
política sindical, com o objetivo maior de dar suporte e con.- 1945 o terceiro lugar em número de representantes no poder
tinuidade ao projeto trabalhista e social do varguismo plan- legislativo, veio a alcançar o segundo lugar, com um número de
tado nas décadas de 30 e 40. representantes muito próximo ao do PSD. 11 E, o que é mais
O discurso de Vargas no período de organização e implan- importante, nesta conjuntura o peso personalista do varguismo
tação do PTB traduz, com especial clareza, suas expectativas e já não tinha o mesmo impacto dos anos 40 e 50 e o PTB deixara
as do grupo de getulistas que o cercavam em relação ao Partido de ser quase que exclusivamente um representante do getulismo
Trabalhista Brasileiro. Em discurso proferido na convenção do para se transformar em instrumento de defesa parlamentar de
PTB em 1946, Vargas afirmou: "O Partido trabalhista tem dois projetos nacionalistas e reformistas, inclusive os apresentados
grandes objetivos a realizar. Um é de manter intactas as con- por outras legendas partidárias.
quistas das leis trabalhistas outorgadas em meu gover- Mas a trajetória do partido, apesar de ter, de forma gradativa, ,,,r'
no( ... )batendo-se o Partido Trabalhista para que essa legislação
social vá cada vez mais se aperfeiçoando." 10 tf
11
A bancada do PTB, na Câmara Federal, nas eleições de 1962, aumentou de
Como se vê, o fim prioritário de manter a legislação traba-
66 para 104 deputados. Para o Senado Federal, o partido duplicou a repre- ,,
lhista, que era considerada por Vargas tanto um instrumento de sentação, alcançando o número de dez senadores, distribuídos pelos seguin-
distribuição de benefícios sociais ao trabalhador como um ele- tes estados: Acre, Amazonas, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Per- 1
nambuco e Rio de Janeiro. ln Israel Beloch e Alzira Abreu. Dicionário Histó- :f
rico Biográfico. Rio de Janeiro, Forense/FGV-CPDOC, FINEP, 1984, p. 2608,
'ºGetúlio Vargas. Discurso proferido na Convenção do PTB em 2/10/1946. vol. 3.

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1, 18~ 18 3
11

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1

TRABALHISMO, NACIONALISMO E OESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

alcançado uma dinâmica mais autônoma, jamais deixou de ser atuação do partido, confundia-se com o nacionalismo varguista,
influenciada pela ação dos getulistas pragmáticos, que aposta- e no segundo governo Vargas (1950-1954), com os projetos
vam na participação dos trabalhadores mas repudiavam o con- econômicos do governo federal. Dessa forma, o PTB e signifi-
flito social e, portanto, investiam em uma ação de caráter dirigista cativo segmento da população trabalhadora brasileira naqueles
por parte do Estado. Na verdade, o objetivo do trabalhismo anos se mobilizaram em torno da defesa de projetos governa-
petebista nos seus primeiros anos era tornar visível a força dos mentais, como os referentes à implantação de empresas esta-
trabalhadores junto à opinião pública e ao mesmo tempo con- tais, a saber: Companhia Vale do Rio Doce, Petrobras, Eletrobrás
trolar seus possíveis arroubos conflitivos. Dessa forma, em 1946 e Fábrica Nacional de Motores. Tal objetivo de_cl9tar o país de
Vargas afirmava: uma ampla rede de indústrias de base e de infra-estrutura con-
troladas pelo Estado fundia duas concepções: estatismo e naci- ;
A evolução política do Brasil se deve processar em ordem, onalismo. Na verdade, tais concepções de permanência do tra- ·•
com respeito e disciplina às autoridades. Os trabalhadores balhismo sobreviveram a Vargas, pois ao final dos anos 50 e no j.~

não precisam nem precisarão recorrer a greves, porque a início dos 60 a concepção de soberania nacional como funda-
bancada trabalhista, na Câmara e no Senado, defenderá in- ·f
mento do desenvolvimento econômico e social alcançou gran-
transigentemente as fórmulas mais práticas para solução de
de dimensão, animada por um discurso de forte capacidade de
seus problemas. 12
agregação social que denunciava, por exemplo, a remessa de
lucros para o exterior.
Mas, além da concepção relativa à melhor forma de repre-
sentação e participação dos trabalhadores, marcada por um for-
Nessa linha, ainda em 1951, Vargas já se referia com ênfase
ao que denominava "criminosa multiplicação do capital estran-
1
te tom paternalista, outras questões conformaram o getulismo
geiro, em detrimento do trabalho de milhões de brasileiros.... " 13
pragmático, dentre elas destacando-se as relativas ao naciona-
Nos anos que se sucederam a esta afirmativa modelar, o discur-
lismo, que simultaneamente traduzia um projeto econômico e
so nacionalista ganhou dimensão especial, ultrapassou as fron-
se constituía em fator de mobilização popular, e o desenvol-
teiras dos quadros do PTB e se fundiu a proposições nacionalis-
vimentismo que se projetava tanto como fator de moderniza-
tas defendidas por políticos e militantes filiados a outras
ção da economia quanto como um projeto de distribuição de agremiações partidárias e organizações da sociedade civil, cons-
riquezas e benefícios sociais. tituindo-se em uma verdadeira febre nacional. I'
O nacionalismo trabalhista/petebista, nos primeiros anos de

Getúlio Vargas. Discurso pronunciado em Porto Alegre em 11/11/1946.


'2 l llGetúlio Vargas. Discurso pronunciado em 31/12/1951. ln Schiling, P. Como
se coloca a direita no poder. São Paulo, Global, 1979.

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TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

:.
Os primeiros anos do trabalhismo petebista foram substan- OS DOUTRINÁRIOS TRABALHISTAS .)

tivos para a arrancada de um projeto trabalhista que se confun-


dia, àquela conjuntura, umbilicalmente, com o getulismo e com A tendência doutrinária reuniu em seus quadros intelectuais e pro-
o paternalismo e pragmatismo que lhe eram peculiares. Um pro- fissionais liberais, de formação universitária, que objetivavam cons-
truir um projeto trabalhista embasado nas seguintes proposições
jeto que, todavia, nos anos subseqüentes, rompeu em parte o
centrais: nacionalismo, proximidade à social-democracia,
cordão umbilical que o atava a Vargas, adquirindo possibilidade
contraposição ao comunismo, maior identidade com o socialismo
de vôo próprio, ainda que estruturalmente relacionado a seu
reformista, independência em relação ao aparelho burocrático do
criador. Ou seja, Getúlio Vargas, como acontece com os mitos
Estado e a projetos personalistas de quaisquer líderes políticos.
de origem, continuou sendo uma forte referência para o ,,
Seu principal articulador nos primeiros anos de atuação da "
trabalhismo, mas novas lideranças afloraram no PTB, algumas tendência doutrinária e seu maior inspirador foi o político gaú-
mais intelectualizadas, outras também acentadas em um cho Alberto Pasqualini, que se destacou como intelectual orgâ-
pragmatismo reformista. Mas ambas trouxeram contribuição nico d~ PTB e como opositor no partido ao excessivo getulismo
ímpar para um projeto de nação que tinha como mote central e da agremiação. Também dentre seus integrantes se destacaram,
fundamental proposições de desenvolvimentismo econômico a partir da década de 50, Fernando Ferrari, que liderou um :f
autônomo, acoplado a programas de desenvolvimento social movimento renovador no trabalhismo, Sérgio Magalhães, polí-
distributivista. tico bastante intelectualizado, originário do antigo estado da
O tempo histórico, em sua dinâmica processual sucessiva, Guanabara e de atuação marcadamente nacionalista, e Santiago
agregou o novo ao antigo, através de um movimento de simul- Dantas, de sólida formação jurídica, que ingressou no PTB em
taneidade e transformação, e o trabalhismo dos primeiros anos 1955, tento adotado, a partir de então, posições moderadas,
do PTB permaneceu inalterado em alguns de seus aspectos, es- mas também orientadas por objetivos social-reformistas. 14
pecialmente no que se referia às marcas de origem, transmu-
• 4 Fernando Ferrari foi um político menos intelectualizado, mas tanto Pasqualini
dando-se em outros. Rompeu-se com o domínio exclusivo do
como Magalhães e Dantas, além das atividades parlamentares e partidárias,
pragmatismo getulista, mas as concepções nacionalistas e desen- dedicaram-se a escrever textos, que no caso de Pasqualini apresentavam prin-
cipalmente sua concepção de trabalhismo, e, no caso de Magalhães, suas idéi-
volvimentistas se atualizaram, contribuindo para a conforma-
as nacionalistas. Dentre os livros de Pasqualini, cabe destacar a compilação
ção do substrato de uma nova conjuntura. de seus artigos e pronunciamentos reunidos sob o título de Bases e sugestões I'
para uma política social, que data de 1948. Quanto a Sérgio Magalhães, o
livro que melhor retrata sua concepção nacionalista é Prdtica da emancipa,ão
nacional, publicado pela Editora Tempo Brasileiro, em 1964. Quanto a Dantas,
suas proposições mais expressivas podem ser encontradas in Discursos parla-
mentares. Brasília, Câmara dos Deputados, 1983.

186 187
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Como a tendência doutrinária gradativamente ganhou mai- compreensão das inúmeras variáveis que conformaram o proje- ...:.
)

or expressão tanto no PTB como na divulgação do trabalhismo to trabalhista para o Brasil, como também para a aferição de sua
como um projeto para o Brasil, reveste-se de especial importân- influência na vida partidária nacional e na conjuntura do final
cia detalhar seus fundamentos básicos, que, de forma geral, fo- dos anos 50 e início dos 60. 15
ram: O pensamento de Pasqualini foi conformado por um
amálgama de proposições buscadas em diferentes correntes de
- trabalhismo como etapa para o reformismo social, inclusive pensamento, dentre as quais se destacam o socialismo reformis-
para adoção de uma reforma agrária profunda; ta que se contrapôs ao marxismo ortodoxo, o trabalhismo in-
- manutenção da propriedade privada e do capitalismo, glês de Harold Laski, alguns elementos da teoria econômica de .."
buscando-se um fundamento social para ambos; Keynes, em especial o que se refere à distribuição de renda e ao
- organização autônoma dos trabalhadores em torno de um consumo para incrementar as atividades do capitalismo, e final-
projeto de ampla reforma social; mente a Doutrina Social da Igreja. ,.,
- difusão dos princípios trabalhistas junto à população De acordo com Miriam Diehl Ruas, Pasqualini propunha
brasileira, através do Partido Trabalhista Brasileiro e de um alargamento das funções do Estado, como meio de dinami-
organizações da sociedade civil; zar o sistema capitalista e torná-lo mais justo. O Estado jamais
- adoção permanente de políticas nacionalistas independentes deveria se furtar a assumir funções empresariais, bancárias e de
de personalismos conjunturais e da orientação subjetiva dos implementador de projetos de utilidade pública. Deveria, in-
políticos que ocupem conjunturalmente cargos públicos. clusive, aplicar recursos públicos em programas que asseguras-
sem o pleno emprego e a prosperidade econômica. 16
A análise das proposições fundadoras do trabalhismo dou- Quanto à Doutrina Social da Igreja, seu principal aspecto,
trinário reporta especialmente ao pensamento de Alberto que em muito influenciou a concepção de Pasqualini, refere-se
Pasqualini, gaúcho de formação jurídica, que atuou por poucos à condenação do "capitalismo individualista" e à busca de mai-
anos na política nacional (1945-1955), pois teve morte preco- or justiça e igualdade sociais. Citando constantemente a doutri-
ce. Todavia, deixou uma marca inexorável no PTB, especial-
mente no que se refere à organização do trabalhismo, não ex- 15 Detalhamento analítico sobre as proposições de Pasqualini pode ser encon-
I'
clusivamente sob a forma partidária, mas primordialmente sob trado em Miguel Bodea. O trabalhismo e o populismo: o caso do Rio Grande
a forma de doutrina social. Dessa forma, a discriminação e a do Sul. Dissertação de mestrado em Ciências Sociais. São Paulo, USP, 1984,
(mimeo).
interpretação das principais proposições de Pasqualini reves- 16
Miriam Diehl Ruas. A doutrina trabalhista no Brasil (1945-1964). Porto
tem-se de significado especial, pois contribuem não só para a Alegre, Sérgio Antônio Fabris Editor, 1986, p. 29.

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TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

na cristã de justiça social, expressa pela Encíclica Rerum No- Previdência não deveriam ser aplicadas "em empreendimentos
varum do papa Leão XIII, reafirmava proposições de reforma que não tenham caráter social";
do capitalismo, não só para torná-lo menos individualista e mais - estabelecimento de um sistema de crédito popular
justo, mas também para que pudesse se constituir como antído- administrado pelo Estado, através de bancos estatais, com a
to eficaz ao comunismo. finalidade de organizar o crédito social, ao qual deveriam
Pode-se sintetizar as proposições de Pasqualini em relação ter acesso todos os trabalhadores que fossem investi-lo de
ao PTB e ao trabalhismo em questões da seguinte natureza: 17 forma produtiva;
- educação política do povo para "proporcionar-lhe condições
_; distribuição de riquezas, mas principalmente de rendas, para de raciocínio político e autodeterminação";
garantir a eficácia e a justiça do capitalismo. Nesse sentido, - educação da juventude "nos princípios e em sentimentos de
afirmou: solidariedade social, pois somente estes princípios poderão
assegurar uma organização social justa";
O capital não deve ser apenas um instrumento produtor de - combate ao capital estrangeiro somente "em seus efeitos
't
lucro, mas, principalmente, um meio de expansão econômica maléficos para a sociedade, pois, quando o capital é 1

e de bem-estar coletivo ....Trabalhismo e capitalismo solidarista explorador, tanto faz para o trabalhador que seja nacional
são expressões equivalentes, porque no seu primado se ressal- ou estrangeiro"; 18
ta o primado do trabalho na produção e distribuição da ri- - implantação de um regime político no qual seja possível
queza. conciliar a máxima liberdade política com o máximo de 11

distribuição de riquezas, promovendo-se portanto o


- realização de reforma agrária, com objetivo de redestribuição intervencionismo estatal na esfera econômica para se alcançar
da terra, para se alcançar maior rendimento social e
o Estado Social Democrático.
estabilidade social;
- defesa do salário justo, como princípio norteador do Além das proposições citadas em Diretrizes fundamentais
trabalhismo; do trabalhismo brasileiro, Pasqualini apresentou as seguintes idéi-
- estabelecimento de um programa de previdência social justo as, de teor mais distributivista e estatista do que nacionalista, !'
e eficaz, ou seja, as reservas de fundos dos Institutos de que segundo ele deveriam orientar a atuação do PTB:

17As idéias de Pasqualini apresentadas no presente texto foram selecionadas

1 de Pasqualini, Alberto. Op. cit., 1948. 18Diário de Notfcias de 10/12/1949, p. 38.

19 º· 19 1

1
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

- manutenção de alguns setores da economia nas mãos de mistas a partir da segunda metade dos anos 50, o PTB, através
iniciativa privada. Os outros setores, em especial os referentes de uma nova geração de políticos reunidos na tendência prag-
às riquezas do subsolo e às fontes de energia, deveriam se mdtica reformista, buscou implementar uma solução de consen-
manter sob direção do Estado; so que abrigasse contribuições tanto da tendênciagetulista prag-
mdtica, quanto da tendência doutrindria trabalhista. Dessa for- . :J.
- constituição de um fundo social ou de poder aquisitivo que
deverá ser utilizado para financiamento de cooperativas de ma, mantiveram a relação de culto ao mito de Getúlio Vargas e
bens, de serviços e de produção agrícola, moradia para o simultaneamente adotaram parte expressiva das propostas de
trabalhador, financiamento de obras e serviços de Pasqualini, adaptando-as ao clima da época, que estava contagi-
assistência social, financiamento de obras de interesse ado, de forma decidida, por um discurso e um imaginário de
...
"
social; forte teor nacionalista.
- manutenção e aperfeiçoamento da legislação trabalhista;
- incentivo ao cooperativismo;
- investimento público em educação, especialmente nas OS PRAGMÁTICOS REFORMISTAS
universidades e escolas oficiais, dentre outros. .f
Para se analisar o trabalhismo brasileiro da segunda metade do
O pensamento de Pasqualini influenciou uma ala expressiva século XX, impõe-se considerar alguns fatores inerentes à sua
do PTB, que enfatizava a necessidade de trabalhistas se empe- constituição e à sua trajetória. Ou seja, além de se traduzir em
nharem na proposição de soluções criativas para a questão soci- uma proposta para a nação brasileira, o trabalhismo foi tam-
al. Este mesmo grupo, que pode ser denominado de progra- bém, como afirma Jorge Ferreira, um projeto que contribuiu,
mático, criticava o excesso de personalismo da agremiação e os de forma decisiva, para a configuração de uma identidade cole-
constantes acordos "eleitoreiros" que os getulistas pragmáticos tiva da classe trabalhadora. 19 Dessa forma, inscreveu-se tanto
sempre articulavam. As diferentes concepções dos dois grupos no campo da representação social de um tempo peculiar no
funcionaram como alimento de constantes conflitos entre eles, qual os trabalhadores se identificavam como sujeitos da histó-
e, em 1950, o jornal A Noite noticiava o acirramento das diver- ria, como se constituiu em uma prática política, institucionalizada
gências entre "a tendência socialista, liderada por Alberto pela atuação do PTB.
I'
Pasqualini, e a de fundo puramente getulista.... " O trabalhismo como experiência histórica realizou-se atra-
O conflito entre os partidários das duas linhas perdurou,
até que, com os acontecimentos que levaram ao suicídio de Veja artigo de Jorge Ferreira, "O nome e a coisa: o populismo na política
19

Vargas e com a expansão de proposições nacionalistas e refor- l brasileira", nesta coletânea.


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TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

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vés de um entrecruzamento de idéias, concepções, proposições dos prim~ir<?s tempos, com uma renovação substantiva do pró- :.
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e práticas que se converteram em códigos e signos, fortemente prio trabalhismo, que passou a se confundir/fundir com nacio- 1 .,
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1
ancorados em um discurso que traduzia as expectativas e pro- nalismo, reformismo e projeto de maior autonômia política
posições dos próprios trabalhistas e de expressivo segmento da para os trabalhadores.
população brasileira. Mas efetivou-se, principalmente, por prá- Como o discurso e a trajetória de Jango podem ser conside-
ticas políticas e sociais que amalgamaram à realidade seus pro- rados paradigmáticos do que foi o projeto reformista do "novo
jetos apresentados sob a forma de discurso. Ou seja, o traba- trabalhismo", cuidaremos de analisar alguns de seus aspectos,
lhismo só alcançou a dimensão e a projeção que marcaram sua que contribuem para uma melhor compreensão de seu impac-
história nos anos 50 e 60, por não apresentar um discurso des- to, tanto no terreno da ação política como no da representação
colado da realidade, mas sim por ter incorporado à prática po- social.
lítica de seus adeptos as proposições que constituíam o suporte João Goulart, nascido no Rio Grande do Sul, era originário
de seu programa. de família de latifundiários e vinculou-se ao PTB a partir da
Portanto, da junção entre discurso e prática foi estabelecida convivência com seu conterrâneo Getúlio Vargas. Sua trajetória
uma dinâmica que fez com que, através do PTB, que represen- política, que ganhou dimensão nacional após uma fase de pre-
.1
tava a institucionalização organizativa do trabalhismo, o pro- paração municipal e estadual, sofreu duas influências decisivas:
grama social por ele apresentado ganhasse visibilidade e possi- de Getúlio Vargas, principal expoente da tendência getulista do
bilidade de implementação. Na verdade, as lideranças partidá- PTB, e de Alberto Pasqualini, cujas proposições ganharam mai-
rias regionais e nacionais do PTB, através de uma interlocução e or difusão exatamente na fase em que Jango ingressou na polí-
de uma inter-relação efetivas com as bases do partido, podem tica e se consolidou como liderança trabalhista.
ser identificados como os maiores responsáveis pela grande po- Goulart percorreu os caminhos do trabalhismo pelo braços
pularidade e crescimento da agremiação, que, às vésperas do do PTB. Foi ele quem organizou o diretório do partido em São
golpe de 64, já era identificada como o partido que mais crescia Borja, sua cidade natal. Em seguida, também como represen-
no país. tante do PTB, foi secretário de Interior e Justiça do governo
Em decorrência, a linha pragmática reformista que ganhou Ernesto Dornelles, no Rio Grande do Sul, presidente do
maior visibilidade, projeção e poder após a passagem de Jango Diretório Estadual do PTB, presidente nacional do partido,
I'
pelo Ministério do Trabalho merece um cuidado analítico es- ministro do Trabalho de Vargas, vice-presidente da República
i pecial, pois traduziu o casamento entre as proposições no governo Juscelino Kubitschek e presidente da República en-
discursivas do trabalhismo doutrinário e uma prática política tre os anos de 1961 e 1964. Na verdade, todo esse caminho
1
que mesclava traços herdados do getulismo e do trabalhismo consubstanciou-se em uma combinação de idéias e proposições
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O POPULISMO E SUA HISTÓRIA .J' '
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO

que podem ser consideradas como integrantes de um trabalhismo ternalismo, pois tratava-se de dar participação aos sindicatos...
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social-democrata, o qual se traduziu em uma prática conforma- Por outro, sua atuação ministerial incorporou elementos da 1 ··1
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da, podemos assim dizer, pelos principais ingredientes do doutrina trabalhista de Pasqualini, que enfatizava a questão da
trabalhismo brasileiro de então: reformismo, nacionalismo, justiça social e do distributivismo salarial. Dessa forma, pode-
estatismo, assistencialismo e distributivismo. se considerar que sua administração ministerial foi um mo-
A passagem de Jango pelo Ministério do Trabalho marca mento histórico na trajetória do PTB, pois não só significou
simbolicamente a entrada em ação da ala reformista pragmática uma renovação dos quadros dirigentes do partido (novos mili-
do PTB. Eusébio Rocha assim traduziu o significado da gestão tantes chegaram naqueles anos), como também representou a
de Jango no referido ministério: adoção preliminar de uma nova linha de ação para o
trabalhismo petebista.
A entrada de João Goulart para o Ministério do Trabalho tra- Efetivamente, a trajetória de Jango e dos demais reformistas
zia implícita a própria proposta do PTB, no sentido de inte- pragmáticos incorporou preocupações com justiça e solidarie-
grar as massas ao sistema de governo. Ou seja, fazer com que dade social, além da adoção de princípios nacionalistas, preo-
realmente os problemas da comunidade trabalhadora fossem cupações essas que se tornaram permanentes na atuação do par-
examinados e atendidos dentro de um critério de justiça soci- tido a partir de então.
al proposto pelo partido. Daí a tentativa de João Goulart de
Quanto às proposições de Jango quando ministro do Traba-
dar aos sindicatos maior liberdade, maior organicidade, mai-
lho, vice-presidente e presidente da República que podem ser
or participação. Por outro lado, havia também um outro ele-
apontadas como referências da nova concepção e prática traba-
mento da postulação trabalhista, que era a idéia de consumo,
e, conseqüentemente, bons salários compatibilizariam bons lhista, destacam-se, entre outras:
lucros. 20
- Crítica aos aspectos "desumanos" e apátridas do
A partir do depoimento de Eusébio Rocha, é possível afe- capitalismo. "O capitalismo desumano, de forma e essência
rir que duas ordens de questões podem ser consideradas quan- caracteristicamente antibrasileiras, gera trustes e cria
to ao que representou a gestão Jango no Ministério do Traba- privilégios, e, não tendo pátria, não hesita em explorar e
lho. De um lado, pode-se deduzir que a concepção que norteava tripudiar sobre a miséria do povo." 21
I'
sua atuação ainda era bastante marcada por um forte pa- - Preocupação com o bem-estar social da população e com a

20'frecho de depoimento de Eusébio Rocha. ln Valentina Rocha Lima. Getú- 21 Citado por Moniz Bandeira. A presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio
1 lio, uma história oral. Rio de Janeiro, Record, 1986. p. 184. r de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976, p. 350.

196 19 7
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TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

defesa dos direitos dos trabalhadores: "Defender os direitos - Busca da paz social, através de um desenvolvimento mais
das classes trabalhadoras e os seus anseios legítimos é norma humano: "Esta é a hora de pedir sacrifícios a quem pode
-
....
; 1
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da qual jamais nos afastaremos. O PTB não pode considerar suportá-los, em favor de um desenvolvimento mais humano.
subversivos nem ilegais movimentos pacíficos do povo contra A paz social será assegurada se houver melhor distribuição ! ~i
. )·
o alto custo de vida e em favor de seu melhor bem-estar dos frutos do desenvolvimento e dos encargos por ele
social. " 22 exigidos. " 25
- Preocupação com melhor distribuição de renda, preceito já - Implementação de uma reforma bancária, com criação de
enfatizado por Pasqualini. Dessa forma, no pronunciamento bancos estatais destinados a investir no desenvolvimento
retrocitado, afirmava ser necessário adotarem-se medidas social e a financiar os trabalhadores: "Indispensável a criação
"tendentes a impedir que uma pequena minoria, nadando do Banco Central e, notadamente, do Banco Rural, que virá
em luxo e na ostentação, continue afrontando a miséria de (... )complementar as medidas de política econômica e social
milhares de brasileiros". destinadas a erguer, em bases sólidas, o trabalho do homem
- Proposição de combinação de uma ordem política do campo. " 26
democrática com busca de justiça social. Assim, no seu - Defesa de realização da reforma agrária, que é "uma idéia-
discurso de posse no Ministério do Trabalho, afirmou que o força improtelável", pois" ... o papa João XXIII nos ensina
objetivo maior de sua gestão seria conquistar "uma ordem (.... ) que a dignidade da pessoa humana exige, como
social mais justa, sem a mínima quebra das tradições fundamento natural para a vida, o direito e o uso dos bens
democráticas". 23 da terra, ao que corresponde a obrigação fundamental de
- Busca de compatibilização entre o "capitalismo sadio" e a conceder uma propriedade para todos".27
melhoria do nível de vida dos trabalhadores.
- Defesa da atuação e intervenção do Estado nas questões Mas o discurso de João Goulart, aqui traduzido por cita-
sociais e de sua função como árbitro dos conflitos sociais. ções exemplares de suas palavras, não foi algo desprendido
" .... é indispensável o fortalecimento dos meios de intervenção da realidade de suas administrações à frente do Estado. Pelo
do Estado, que deve ser o árbitro entre as classes sociais. "24 contrário, traduziu-se em ações e medidas, de caráter

I'
22 Citado por Moniz Bandeira. Goulart e as lutas sociais no Brasil. 1961-1964.
25João Goulart. Mensagem ao Congresso Nacional. Brasília, 1962, p. VIII.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983, p. 37.
23 Discurso de posse de João Goulart no Ministério do Trabalho, citado por Z6Jdem, ibidem, p. VIII.
27João Goulart. Comício de 13/03/1964. Citado por Hélio Silva. 1964- Golpe
Jorge Ferreira. ln O ministro... Op cit., 1999 (mimeo), p. 8.
24 Carta de João Goulart a Benedito Valadares - 24/04/1959. ou contragolpe. Porto Alegre, LPM, 1978, p. 245.
1

li 198 199

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TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

distributivista, que incorporaram desde aumentos salariais Previdência Social aos trabalhadores rurais; obrigatoriedade .. :;
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para os trabalhadores - cujo caso exemplar foi o aumento de todas as empresas com mais de cem empregados de pro-
do salário mínimo em 100% quando ministro do Trabalho porcionarem ensino elementar aos seus empregados; envio
- até a criação de condições para implementação de uma ao Congresso Nacional de Mensagem que concedia ao funci-
profunda reforma previdenciária, também de caráter coopta- onalismo público o décimo terceiro salário; decreto determi-
tivo, encampada como bandeira pelo PTB no Congresso Na- nando a completa revisão de todas a concessões governamen-
cional e que, ao ser efetivada como lei, incluiu a real par- tais das jazidas minerais para grupos estrangeiros; criação da
ticipação dos trabalhadores na administração dos Institu- EÍetr~brás; tabelamento dos óleos lubrificantes vendidos pela
tos de Previdência Social do país. Esso e pela Shell, quebrando o domínio das duas distribuido-
Quando presidente, apesar de ter operado num período ras sobre o mercado brasileiro ...28
de crise institucional permanente e de ter enfrentado viru- -· E~s~ pequena relação de algumas das medidas adotadas por
lenta oposição dos setores conservadores, Jango tomou uma João Goulart quando presidente da República não incorporou
série de medidas que traduzem o modelo pragmático do todas a iniciativas do governante, mas é suficiente, em seu cará-
trabalhismo reformista. Dentre elas, destacam-se, por exem- ter exemplar, para referendar a conclusão de que o trabalhismo
plo, as seguintes: aprovação da Reforma Tributária, que trouxe pragmático reformista, ao qual Goulart se filiou, sustentava-se
benefícios para as empresas nacionais; fixação de uma políti-
ca de preços mínimos para a agricultura; criação do fundo
tanto no getulismo - especialmente no que toca ao nacionalis-
mo e ao aperfeiçoamento e ampliação das leis trabalhistas -
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1

Federal Agropecuário; criação da Superintendência de Polí- quanto no trabalhismo doutrinário, particularmente no tocante
tica Agrária; instituição do Conselho Nacional de Reforma ao distributivismo social.
Agrária; implantação da Superintendência Nacional de Abas- O impacto das referidas medidas, que traduziram uma
tecimento, com o objetivo de fazer escoar a produção agrí- concretização pragmática da representação simultânea de sobe-
cola e "de distribuir a preços justos os produtos agrícolas rania nacional, de estatismo, de dirigismo, de paternalismo e de
para a população brasileira"; adoção de uma política nacio- justiça social expressa e corroborada pelos pronunciamentos dos
nalista de exploração de minérios; elaboração de um Plano
Nacional de Educação, que objetivava ampliar o atendimen-
,.
to educacional da rede pública de ensino; aprovação da Polí- 2sAnálise rigorosa sobre o governo João Goulart, da qual parte das informa-
tica Nacional de Energia Nuclear; aprovação da Lei de Re- ções citadas foi retirada, pode ser encontrada ln Fádua Gustin. Parlamenta-
messa de Lucros para o exterior; extensão dos benefícios da rismo e superação de dissensos: A experiência do governo João Goulart. Belo
Horizonte, UFMG, 1996, dissertação de mestrado (mimeo).

1: 200 2 o1

1
TRABALHISMO, NACIONALISMO E DESENVOLVIMENTISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

inúmeros petebistas que se filiaram a tal tendência, alcança uma essência de um tempo hoje é injustamente apresentado ou ' :~

dimensão inequívoca de definição das marcas simbólicas e per- como um projeto exótico, ultrapassado já em sua própria ......
manentes peculiares a um tempo histórico específico: o tempo época, ou mesmo como um sonho irreal perdido nas brumas
no qual o trabalhismo correspondeu a um efetivo projeto naci- da História.
onal de desenvolvimento econômico e social.
O tempo do trabalhismo foi marcado por ambigüidades e
contradições. Significou paradoxalmente dirigismo,
paternalismo e potencial de autonomia para sujeitos históri-
cos, como o eram os trabalhadores brasileiros. Foi marcado
pelo personalismo de seus líderes, mas acalentou proposi-
ções cooperativistas e coletivistas. Significou busca de aper-
feiçoamento do capitalismo, buscando humanizá-lo para
reforçá-lo, mas também representou alguma possibilidade de
aproximação com o socialismo reformista. Traduziu repúdio !
à luta de classes, mas ao mesmo tempo acabou por incentivar
reivindicações de forte teor conflitivo por parte dos traba-
lhadores.
Mas, independentemente de tais paradoxos, não deixou
de se traduzir em um programa cujo principal ingrediente
era a crença na resolução dos problemas sociais do país, na
superação do subdesenvolvimento que assolava a economia
brasileira e na construção de uma nação mais soberana. Tudo
isto a ser alcançado por um processo pacifista, ou seja, pela
via legal do reformismo. Se tal proposição era utópica ou
mesmo contraditória, não deixou de ser marcada por uma
forte generosidade e solidariedade social, inimagináveis no
tempo presente, marcado por um outro signo: o do indivi-
dualismo compulsivo. Dessa forma, o que foi o substrato e a

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Trabalhadores urbanos e
populismo: um balanço dos
estudos recentes*
Fernando Teixeira da Silva
Hélio da Costa

•Este artigo não teria sido possível sem o longo convívio intelectual com
Alexandre Fortes, Antonio Luigi Negro e Paulo Fontes, que colaboraram com
agudos comentários e sugestões. Agradecemos também ao professor Michael
Hall pelo seu estímulo e orientação.
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O ESTADO DA QUESTÃO

Os estudos recentes sobre a história dos trabalhadores no Brasil


eritte--as-décadas d~ 30 e 60 têm se deparado com desafios de três
ordens: epistemológic~, metodológica e política. No terreno
conceituai, o termo "populismo" tem passado por um crescente
questionamento sobre sua validade como fenômeno histórico e/
ou categoria analítica. O problema metodológico está, por um
lado, na construção de generalizações com efeitos paradigmáticos
que não simplifiquem a complexidade histórica, subordinando-a
a modelos teóricos prefixados. Por outro, reside na reconstituição
empiricamente densa de realidades específicas que não pulveri-
zem o processo histórico em um mosaico de fragmentos. Quanto
ao terceiro desafio, trata-se de repensar a participação política
dos trabalhadores à margem das tradicionais noções normativas
de autonomia e heteronomia de classe, o que remete aos mode-
los construídos para compreendê-lo.
Além dos significados pejorativos que adquiriu, o termo
1
"populismo" tem sido reavaliado em razão do seu caráter genéri-
co e, portanto, vago para abarcar diferentes fenômenos de reali-
dades históricas distintas (classes, partidos e regimes políticos,
organização e mobilização de "massa", ideologias e discursos).

207
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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA 'j'

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De acordo com recente balanço de María, Mackinnon e Mario A mesma tensão entre o imperativo da síntese macroanalítica
Petrone, isso tem gerado três reações: há autores que rejeitam e a reconstituição de manifestações históricas particulares "•
t
radicalmente o emprego do côncefro; negando-lhe estatuto cien- :1
permeia os problemas de ordem metodológica. Segundo outro
tífico por considerá-lo inadequado para explicar determinadas balanço da literatura latino-americana recente,2 a desconstrução 'i
realidades, já que as reduz a categorias reificadas, tais como in- dos paradigmas elaborados entre os anos 50 e 70 não teria sido
corporação e manipulação de massa. Outros entendem que acompanhada por esforços significativos de sínteses explicativas
populismo "é um fenômeno histórico singular que se manifestou
alternativas. Temas clássicos - "desenvolvimento e mudança
em um tempo e espaço determinado, que representa uma etapa
de organizações operárias nacionais e as conexões entre a orga-
particular de uma sociedade". Segundo esta concepção, o alcan-
nização da produção, a formação da classe e a ação coletiva dos
ce do conceito é tão amplo, que não permitiria fazer um inventá-
trabalhadores" - , que formaram o "núcleo central" de uma
rio das diferenças entre realidades aparentemente similares. A
vasta produção acadêmica, teriam sido abandonados pela "nova
ênfase é colocada nos aspectos singulares de cada fenômeno his-
história social". Se os estudos monográficos podem revitalizar a
tórico por meio de investigações empíricas, espacial e cronologi-
historiografia com novas informações e alargar o campo
camente delimitadas, a partir de múltiplas variáveis.
Na direção oposta aos "singularizadores", há os que de- temático, por outro lado "não se aglutinaram em um estilo
fendem que populismo "é uma categoria analítica que pode paradigmático que embasasse um novo consenso disciplinar".
ser aplicada a um fenômeno 'populista' mais amplo que se ma- Buscando estar em todos os lugares, esse novo conjunto de tra-
nifesta em diferentes sociedades e épocas". Favoráveis à cons- balhos acabou por não estar em lugar algum, em razão da recu-
trução de tipos ideais, os "agrupadores" preocupam-se com sa em estabelecer novas sínteses. Satisfeitos com seus estudos de
regularidades, similitudes e traços comuns em fenômenos apa- caso, presos aos detalhes e fascinados com os encantos da flora
rentemente diversos. Com o objetivo de evitar um tratamento empírica, os historiadores tornam-se incapazes de ver e descre-
empiricista das diversas especificidades históricas, os historia- ver toda a floresta. Tal balanço, então, convida a historiografia
dores teriam maior êxito ao relacionar casos particulares com recente a participar desse debate e a "reconhecer a atração
categorias mais amplas, localizando elementos comuns exis- exercida pelas sínteses generalizantes e holísticas que prome-
tentes em experiências históricas específicas, o que possibilita- tem preencher o vácuo existente no centro da disciplina". 3
ria a construção de análises comparativas. 1

1María Moira Mackinnon e Mario Alberto Petrone. "Los complexos de la 2Daniel James. "O que há de novo, o que há de velho? Os parâmetros emer-
cenecienta". ln Populismo y neopopulismo en America Latina: el problema de gentes da história do trabalho latino-americana". ln Angela M. C. Araújo,
la cenecienta. Buenos Aires, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1988, Trabalho, cultura e cidadania. São Paulo, Scritta, 1997.
pp. 14, 39-44. 3ldem, pp. 118 e 123.

: 208 209

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

O terceiro problema - o da participação política dos traba- i Começaremos por abordar o estatuto monográfico desses ....
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lhadóres- remete igualmente a outras dualidades que permeiam 1
trabalhos e suas implicações quanto aos problemas da relação t
.:1
o debate sobre supostas peculiaridades da cidadania em nosso 1 entre síntese e especificidade, temas centrais e periféricos. No ... ,
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país. Trata-se de desafiar cristalizadas dicotomias, tais como 1 caso brasileiro, não nos parece que a proliferação de estudos
/ disfunção entre Estado (forte) e sociedade civil (frágil), des- 1 sobre conjunturas e "de caso" tenha levado a um afastamento
..
compasso entre estruturas histórico-culturais (força das tradi- 1 dos "objetos centrais". Embora com enfoques, temas e aborda-
ções) e modernização (incompleta), poder demiúrgico das insti- 1 gens inovadores, a produção acadêmica dos últimos anos, qua- 1

tuições públicas (manipulação) e debilidade de agenciamento se sem exceção, tem mantido em sua pauta de investigação os
por parte dos atores sociais (heteronomia). 1 itens que há cerca de quatro décadas vêm preenchendo a agen-
1
O objetivo deste texto é sistematizar as contribuições de um da da historiografia. Formação da classe trabalhadora, movi- i
1
conjunto de estudos relativamente recentes no campo da histó- 1 mento operário, sindicatos e correspondentes ideologias, ações
ria social do trabalho. Trata-se, em grande parte, de investiga- coletivas, subjetividade e racionalidade operando nas escolhas 1
1 1
ções monográficas sobre categorias específicas de trabalhado- 1 dos trabalhadores, relações com o Estado, ideologia estatal e
res, empresas, sindicatos e greves em conjunturas circunscritas. empresarial, formas de organização da produção e gestão da
Embora em sua totalidade não formalizem teórica e sistemati- !
1
força de trabalho, entre outros, não são temas marginais na re-
camente as questões esboçadas linhas atrás, vistas em seu con- cente literatura da história do trabalho. 5
junto enfrentam os mencionados desafios que estão no centro 1
1
Um corte arbitrário poderia dividir ao meio as quatro dé- i
das atuais reflexões. 4 cadas da produção acadêmica sobre a classe operária no Bra-
i1
sil, apresentando um divisor de águas no final dos anos 70,
•Apesar de contarmos com resenhas que têm feito um balanço da literatura 1 segundo um conjunto de atributos que caracterizariam os es-
sobre os trabalhadores no Brasil, não houve ainda nenhum esforço de apre- tudos realizados em cada um dos períodos de vinte anos.
sentar inúmeros estudos realizados a partir de meados dos anos 80, de modo
que esse artigo pretende cobrir parcialmente essa lacuna. Para algumas sínte· 1
1

ses anteriores, cf. Maria Célia Paoli, Eder Sader e Vera da Silva Telles. "Pen- 1
j
5
Estamos nos referindo a grande parte da produção acadêmica voltada para o
i
sando a classe operária: os trabalhadores sujeitos ao imaginário acadêmico''. 1
Revista Brasileira de História, nº 6, 1983; L. Werneck Vianna. "Estudos sobre período de 1930 a 1964, uma vez que, desde o final dos anos 70, uma vasta
sindicalismo e movimento operário: resenha de algumas tendências". ln BIB, i literatura ocupada em reconstituir outros períodos tem se dedicado a temas e 1
j

Rio de janeiro, nº 3, 1978; Idem, "Atualizando uma bibliografia: 'novo problemas pouco ou nada abordados por estudos destinados à análise de te-
1
sindicalismo', cidadania e fábrica". ln: BIB, Rio de janeiro, nº 17, 1984. Para mas clássicos, o que não significa que estes tenham sido completamente aban-
um balanço mais atual, cf. Claudio H. M. Batalha. "A historiografia da classe 1 clonados por essa produção. A história operária deixou de ser apenas a histó-
operária no Brasil: trajetórias e tendências". ln Marcos Cezar Freitas (org.). ria do movimento operário organizado, "dando lugar para a classe". Batalha,
Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, Contexto, 1998. op. cit., p. 153.

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O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
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Simplificadoras oposições binárias poderiam ser brevemente ensaística não foi abandonada, e as investigações monográficas
elencadas. Entre os anos 50 e o final da década de 70 (da "te- da recente história social do trabalho não têm se furtado a pro-
'•
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oria da modernização" ao "revisionismo" dos modelos de aná- ceder a generalizações.
lise anteriores), teríamos tido uma produção mais ensaística A questão parece residir no estatuto conferido aos ter-
que histórica, buscando estabelecer uma Teoria Geral sobre a mos "geral" e "particular". O que alguns estudos pioneiros
classe operária no Brasil. Ao essencialismo dos primeiros estu- fizeram foi, em grande medida, abstrair postulados e inter-
dos, contrapor-se-ia o nominalismo das últimas duas décadas, pretações de um conjunto de dados muito concretos com
caracterizado pela preocupação de reconstituir empiricamente suposta validade e perspectiva nacional sobre "o caráter" do
as manifestações particulares de determinadas realidades, fir- movimento operário brasileiro, imputando-lhe atributos quase
mar conclusões apenas com validade local, dar maior ênfase "genéticos" a partir da sobrevivência paquidérmica de uma
aos desafios metodológicos do que à necessidade de constru- longa herança colonial.7 A complexidade do caráter específi-
ção de modelos teóricos, investigar mais a ação do que as es- co de determinadas relações de classe acabou sendo
truturas históricas e culturais. simplificada em razão de "propriedades transferidas de situ-
Dividir tal produção em "era dos paradigmas" e "crise dos ações não estudadas" (paternalismo, tradicionalismo,
paradigmas" elimina a percepção de diferenças e similitudes en- patriarcalismo). 8 Ao analisar a construção de uma determi-
tre os dois momentos e mesmo no interior de cada um deles, nada forma de dominação do capital, 9 José Sérgio Leite Lopes
visto não formarem blocos homogêneos. Não há dúvida de que observou que caminhamos para
nas duas primeiras décadas noções abstratas foram produzidas
sem um correspondente rigor empírico. Porém, alguns estudos outras formas de generalização diferentes daquelas, transfor-
pioneiros deixaram sua marca, não só pelas formulações mando estudos de caso em teorias gerais, como no caso da dedu-
generalizantes que edificaram, mas também em razão da recons-
tituição do caráter específico das relações sociais em situações 7
Em resposta à análise de Daniel James, Angela de Castro Gomes manifestou
reservas quanto à existência de sínteses paradigmáticas nos estudos clássicos
concretas a partir de "estudos de comunidade" bem documen-
sobre a classe operária brasileira, tendo havido na verdade uma literatura que
tados, como foi o caso de Brandão Lopes. 6 Por outro lado, en- "foi lida como uma grande interpretação sobre o movimento operário em
tre o final dos anos 70 e o início da década de 80, a produção todo o Brasil". Cf. "Temas Clássicos, temas novos, perspectivas renovado-
ras". ln Angela M. Araújo, op. cit., p. 141.
8j. S. Leite Lopes. "Sobre os trabalhadores na grande indústria na pequena

cidade: crítica e resgate da Crise do Brasil Arcaico". ln j. Lopes Leite, (org.).


6juarez R. Brandão Lopes. Crise do Brasil arcaico. São Paulo, Difusão Euro- Cultura & identidade operária. São Paulo, Marco Zero, s/d., p. 154.
péia do Livro, 1967; Idem, Sociedade industrial no Brasil. São Paulo, Difusão 9
Cf. Idem. A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés. São
Européia do Livro, 1971. Paulo, Marco Zero, 1988.

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA :J
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ção de características específicas de uma classe nacional a par- Se investigações monográficas prestam-se ao diálogo com .•
......
tir de estudos localizados. Pela comparação com situações simi- "grandes temas", sendo um deles o do populismo, críticas t
.f
lares, mesmo de países e épocas diferentes, podemos controlar sistemáticas a esse termo, incluindo seu abandono, começam ..
a relevância da construção de características específicas de do- a ganhar terreno no Brasil, 12 embora sua utilização continue i

minação do capital sobre o proletariado industrial de grande presente na maioria dos trabalhos. Tem havido poucos esfor-
utilidade no estudo da classe trabalhadora. 10 ços recentes em defini-lo de maneira sistemática, sendo em-
pregado ou por inércia conceituai, na falta de outro termo
Portanto, tem pouco interesse para a investigação histórica mais adequado, ou por ser considerado, se não o fenômeno
a exemplaridade singular dos acontecimentos ou dos fenôme- capaz de nomear todo um período da sociedade, ao menos
nos. Não se trata também de operar com uma noção de tipicidade um aspecto fundamental da "mediação institucional das rela- '
!'
a partir da qual a "essência" das sociedades nacionais estaria 1 ções sociais". 13 Por outro lado, categorias derivadas desse
contida de maneira condensada em pequenas comunidades ou "conceito matriz" têm passado por um severo escrutínio, tais i
'
em recortadas conjunturas. Considerar que a escala reduzida de como manipulação, cooptação, mistificação e demagogia, as !

observação é um laboratório experimental privilegiado de aná- quais, combinadas com populismo, permitiram definir este
lise não faz sentido, a não ser que a especificidade do "caso" último como fenômeno de massa, ideologia pequeno-burgue-
seja inteligível, significativa e capaz de diálogo com outras ex- sa, modernização conservadora e instrumento da hegemonia
periências e questões históricas. Assim, estudos em diferentes burguesa.
1 i
lugares são passíveis de comparação, podendo levar a conclu- 1
Esse conjunto de categorias, permeado por implicações 1

sões semelhantes. 11 Como veremos, algumas pesquisas realiza- normativas, tem sido tratado com cautela por implicar "uma '

das em diferentes lugares e contextos chegaram a resultados descrição de relações sociais vistas de cima" e que se auto-regu- !

muito próximos quanto a diversos aspectos e questões que fa-


zem parte do "núcleo central" da história do trabalho no Brasil, 12Veja
ii;
Angela de Castro Gomes. "O populismo e as ciências sociais no Brasil:
permitindo uma revisão de conclusões consagradas da his- i1"
notas sobre a trajetória de um conceito", nesta coletânea; Reis Filho, Daniel I•

toriografia. 1
Aarão. "A maldição do populismo". ln Linha Direta, São Paulo, nº 330, dez. 1!
1997; Francisco Carlos Palomanes Martinho. "O populismo sindical: um con-
''
ceito em questão". ln Elisa Reis e outros (orgs.). Política e cultura: visões do 1

passado e perspectivas contemporâneas. São Paulo-ANPOCS/Hucitec, 1996.


1 'ºIdem, "Sobre os trabalhadores na grande indústria na pequena cidade", 13 Tomamos emprestada aqui a expressão de Thompson para definir o

op.cit., p. 151.
11 Cf. Olifford Geertz. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, Guanabara
l paternalismo na Inglaterra do século XVIII. Cf. E. P. Thompson. Costumes
em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo, Compa-
Koogan, 1989, pp. 32-9. nhia das Letras, 1998, pp. 28-30.

214 215

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Iam pela reciprocidade e ausência de conflitos. 14 Há uma mu- tórico mais amplo, a lógica da mudança e as relações de poder.
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dança de perspectiva: compreender os trabalhadores nos seus No que se refere ao populismo, o desafio está em se pensar a t
:1
próprios termos: como viam e viviam seu mundo social e como, ambigüidade histórica que lhe é inerente, o que foi expresso
em sua consciência, respondiam a esse mesmo mundo. Não por Daniel James ao se referir ao "paradoxo da consciência de
se trata, em nome da experiência vivida, de um voluntarismo classe":
culturalista avesso à teoria, às formas mais abstratas do dis-
curso e às estruturas, em favor da racionalidade e da ação. As a lealdade a um movimento cuja ideologia pregava a virtude
relações sociais não são objetivações de estruturas dadas a priori, da harmonia de classes, a necessidade de subordinar interes-
mas se constroem em situações concretas nas quais se movem ses dos trabalhadores aos da nação e a importância de obede-
cer com disciplina ao Estado paternalista não eliminaram a
personagens de carne e osso.
possibilidade de resistência da classe operária nem do
Parte da história social do trabalho tem procurado, portan-
surgimento de uma forte cultura de oposição entre os traba-
to, relacionar dialeticamente estrutura e ação. Trata-se de subli-
lhadores. 16
nhar as discrepâncias entre as restrições dos sistemas normativos,
ressalvando que os indivíduos têm "um conjunto diferente de
Ambigüidade nesse caso não implica nenhuma concepção
relacionamentos que determina suas reações à estrutura nor-
linear que vai da aquiescência ao confronto, mas envolve a
mativa e suas escolhas com respeito a ela". A ação social resulta
simultaneidade paradoxal das duas situações no tempo e no
de freqüentes escolhas, decisões e negociações dos indivíduos
espaço. Certas análises que operaram com o conceito de
frente ao poder constituído, pleno de contradições e
populismo como fenômeno de massas vislumbram a emergên-
porosidades. Cabe ao historiador "definir as ambigüidades do
cia do conflito e do comportamento de classe dos trabalhado-
mundo simbólico, a pluralidade das possíveis interpretações
res apenas em momentos de aguda crise e contradição econô-
desse mundo e a luta que ocorre em torno dos recursos simbó-
mica e política no interior do desigual "pacto populista". Se-
licos e também dos recursos materiais".15
gundo essa concepção, quando isso ocorre, "a visão do mun-
A reconstituição minuciosa dessa luta não implica a con-
do, incoerente com a situação operária, a posição real do tra-
templação isolada do fragmento, pois deve ser capaz de fazer as
balhador no processo produtivo, tende a esboroar-se" e per-
conexões entre os significados sócio-culturais e o contexto his-
mite uma maior congruência entre situação de classe e consci-

14
1dem.
16Daniel James. Resistencia e integración: e/ peronismo y la e/ase trabajadora
tsGiovani Levi. "Sobre a micro-história". ln Peter Burke (org.). A escrita da
história: novas perspectivas. São Paulo, Editora da Unesp, 1992, p. 139. 1 argentina, 1946-1976. Buenos Aires, Sudamericana, 1990, p. 346.

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

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1
ência de classe, transcendendo a subalternidade cultural em "fundamento do poder privado". 20 As condições da classe operá- ....
'•
direção à essência do antagonismo político. 17 No entanto, o ria no sentido de criar alternativas independentes das estratégi- 1
.1
desafio está justamente em reconstituir e interpretar os confli- as engendradas pelo Estado e outras classes sociais teriam sido ..
1 :
1
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1
tos sociais também em épocas de "aparente aquiescência soei- limitadas pela sobreposição entre, de um lado, a persistência de
:
1 ai", além de compreender que classe não pode ser definida tradições sócio-culturais patriarcais e patrimonialistas, e, de ou-
somente a partir de identidades políticas, mas também pela tro, a emergência de padrões modernos de racionalidade e bu-
fissura social e cultural que estabelece a percepção da diferen- rocracia impessoais.
ça entre "nós e eles" . 18 Neste sentido, os trabalhadores eram apresentados como
A questão da participação dos trabalhadores no espaço pú- vítimas de uma modernização incompleta. Um comportamento
blico parece ter sido um problema relativo não apenas às expe- "em dia" com a "consciência da classe operária européia" teria
1

1
1
riências históricas e aos esquemas teóricos de interpretação, mas 1 de aguardar o desenlace dos arranjos estruturais do país e o !
!
1
também aos modelos, às concepções e às apostas políticas dos "inapelável" fim do populismo, encerrado em 1964, e supera-
!
autores acadêmicos. 19 O projeto nacional-desenvolvimentista a do pelo "novo sindicalismo" de 1968 e 1978. Assim, nos pri-
partir de meados dos anos 50 e o correspondente processo de meiros modelos de análise sobre a classe operária brasileira, a
industrialização e migração interna do campo para a cidade cons- capacidade de intervenção dos trabalhadores na arena pública
tituíam temas que legitimavam as análises sobre esse processo foi apresentada como uma força potencial a ser decifrada e
de modernização, captado pelo conceito de transição do mun- 1
manifesta em um futuro incerto, de acordo com as variáveis
l
1
do rural ao urbano. Assim, emergia a questão das potencialidades externas que conformariam a classe operária, mas cujo arranjo
de determinados grupos sociais virem a transformar a socieda- independeria em grande medida das ações e escolhas dos pró-
de brasileira. Porém, o que muitos autores encontraram foi uma prios trabalhadores. A emergência e atualização da consciência
sociedade civil frágil, que se modernizava, diante da tradição de classe à "condição objetiva" de proletários estariam condici-
burocrática do Estado, que revelava, na expressão de Castro onadas à transformação do Brasil em uma sociedade plenamen-
1 i
Gomes, os "excessos do poder público", do qual emanaria o 1 te capitalista e industrializada. 21 ''
1 i
1

170ctavio lanni. "Populismo e classes subalternas". Debate & Crítica, nº 1, 1


1
2°Angela de Castro Gomes. "A política brasileira em busca da modernidade:
i julho-dez. de 1973, p. 16.
18Thompson, Costumes em comum, op. cit., p. 56. 1 na fronteira entre o público e o privado". ln Lilia Moritz Scwarcz (org.).
19Assim, os mencionados desafios epistemológicos, metodológicos e políticos História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea.
1
constituem três faces de uma mesma questão, que só podem ser separadas São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 541-2.
para melhor organizar a exposição da análise. 21 Cf. Maria Célia Paoli e outros. "Pensando a classe operária... ", op. cit.

: 2 18 2 19

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

1
Por outro lado, o início dos anos 60 foi embalado pelo re- operária como sujeito capaz de ação própria, auto-organização
1
.,
. ..
crudescimento do movimento sindical e alimentado pelas ex- e de fazer escolhas com certo grau de independência política. .1
1

pectativas de reformas estruturais pela via da democracia e do 1


Em 1972, ele afirmou que "o movimento operário não pode ser ...
1

nacionalismo. Porém, quando a sociedade civil parecia se forta- 1


visto apenas como dependente da história da sociedade, mas
:
lecer, o Golpe de 64 frustrou tais expectativas (ou "ilusões") e 1 como sujeito de sua própria história". 23 Essa afirmação se inspi-
aprofundou o dilema entre a fraqueza das classes sociais e a rava nas greves de Osasco e Contagem de 1968 para reler a
força do Estado. Impunha-se, então, a necessidade de interpre- 1 ação operária no pré-64. Porém, essa experiência era um convi-
tar essa "anomalia" e as razões da oscilação pendular da histó- 1 te para um ajuste de contas com o período anterior ao golpe
ria recente entre populismo e autoritarismo, procurando en- 1 militar. Com ênfase na ação política em diferentes conjunturas,
tender o caráter subordinado da classe operária aos políticos 1
conforme veremos adiante, Weffort localizaria os limites da classe
populistas. Foram construídas as teses sobre a natureza 1
operária na sua subordinação às orientações político-ideológi-
bonapartista do Estado brasileiro no pós-30: a crise de he- cas da esquerda. 24
gemonia das classes dominantes e a instabilidade política da 1 Apesar de suas severas críticas aos pressupostos até então
eclética aliança que pôs termo à Primeira República teriam sido elaborados pela produção acadêmica sobre a história dos tra-
1
responsáveis pela emergência de um "Estado de compromisso" 1 balhadores no Brasil, o "revisionismo" do final dos anos 70 e
que procurou incorporar as massas como clientela e sustenta- início da década de 80 não alteraria profundamente a com-
1
preensão do período de 1930 a 1964 como um longo
l
ção de um poder que buscava legitimidade com base no carisma 1
1

e na "doação" de benefícios sociais. A marca dessa interpreta- interregno de estratégias clientelistas de cooptação de classe e
ção pode ser traduzida nessa metáfora anarquista de 1913: relações antidemocráticas entre lideranças e bases operárias.
"em cada 'lei operária' há, sob a magra isca, um sólido anzol As expectativas em relação à emergência da "autonomia ope- 1
i
de aço". 22 Teve pleno curso, então, o cortejo de categorias rária" foram depositadas na capacidade de agenciamento dos 1

derivadas do conceito de populismo: mistificação, manipula- trabalhadores à margem das "tradicionais instituições" de re-
ção e demagogia. presentação coletiva, tais como partidos políticos e burocrati-
Se Francisco Weffort foi um dos teóricos que melhor elabo- 1 zados sindicatos.
rou essa interpretação, coube-lhe também apresentar a classe i :

1l 23
F. Weffort. "Participação e conflito industrial: Contagem e Osasco, 1968".
11 22A Voz do trabalhador (1/1/1913), apud Esmeralda Blanco Bolsonaro de Cadernos Cebrap, nº 5, 1972, p. 10.
Moura. "Um sólido anzol de aço: Estado e ação operária na República Ve- 24
F. Weffort. Sindicato e política. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1975
r lha". Revista Adusp, nº 10, junho de 1997, p. 50. (tese de livre-docência).

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1
220 221
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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA 1.

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Finalmente, noções idealizadas e normativas da experiência ria operária das primeiras décadas do século parecia compor a ...
dos trabalhadores encontravam um ponto de apoio nas greves imagem da perdida autonomia originária dos trabalhadores, .1
t

1
ocorridas no final dos anos 70 em São Paulo e no ABC paulista, guardando semelhanças com os movimentos grevistas do final
;

1
uma vez que pretendiam sepultar a estrutura sindical oficial, da década de 70 e, portanto, completamente avessa à imagem
1 eliminar a atuação de dirigentes sindicais afastados do cotidia- de subordinação que teria marcado o movimento operário no
no operário e destruir a crença em um Estado benefactor e pós-30. 26 À diversidade dos movimentos sociais da Primeira Re-
avalista dos direitos. Tais movimentos eram interpretados como pública e da década de 70, contrapunha-se a homogeneidade
o resultado da laboriosa construção de um "espaço político, da República populista, durante a qual Estado, partidos e sindi-
enquanto espaço público'', que não se dissolvia e nem era ah- catos teriam sido instituições "sintetizadoras'', impondo "regis-
sorvido pelo Estado. O impacto do golpe militar se reatualizava tros unificadores" que ordenavam e anulavam as diferentes ex-
1
na memória de dirigentes sindicais que liam a derrota de 1964 pressões dos movimentos sociais. 27 1
1
1
como o resultado da impotência de sindicatos dependentes do Autores e categorias analíticas que privilegiam a classe ope-
1
Estado e carentes de raízes no espaço fabril. 25 rária como sujeito capaz de impulsão própria ajustavam-se per-
Sob o signo do novo e sobre as cinzas de um "velho sindi- feitamente à história dos trabalhadores na Primeira República
calismo'', pareciam se impor um tempo de rupturas absolutas e e aos acontecimentos do final da década de 70. Era quase um
uma revalorização de outros períodos da história do país. Mais ritual acadêmico mencionar as formulações de Edward
mencionada do que pesquisada, a "era populista" se cristalizava Thompson sobre a classe operária entendida como fenômeno 'i
como encarnação da heteronomia operária que a autonomia de ! histórico, presente em seu fazer-se e analisada nos termos de
"novos personagens" trataria de sepultar. Assim, não foi casual sua cultura, consciência e experiência. Desenvolvia-se, assim,
um quase abandono das pesquisas dos historiadores sobre um uma leitura autonomista de A formação da classe operdria in-
período cujas possibilidades de investigação pareciam esgota- glesa, entremeada com referências a Foucault, Castoriadis e i
j
das. Diversos estudos voltaram-se para a Primeira República, Lefort. 1
tematizando o movimento operário de inspiração anarquista e Por outro lado, a obra de Thompson sobre paternalismo, fi.!'
1
suas estratégias de recusa em relação ao Estado, partidos políti- 1

cos, sindicatos burocratizados e formalismos jurídicos. A histó- 1 26Cf. Fernando Teixeira da Silva. "Direitos, política e trabalho no porto de
i Santos". ln Alexandre Fortes e outros. Na luta por direitos. Campinas, Edito·
ra da Unicamp, 1999.
1
2S Vera da Silva Telles. "Anos 70: experiências, práticas e espaços públicos". 27Cf. Eder Sader. Quando novos personagens entraram em cena: experiências

ln Lúcio Kowarivk (org). As lutas sociais e a cidade. Rio de Janeiro, Paz e e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo, 1970-1980. São Paulo, Paz e
Terra, 1988, pp. 250·4. Terra, 1988, p. 198.
i

222 223

; -
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO

cultura plebéia e estilo retórico e ritualístico da justiça na Ingla- manifestarem idéias e ações que não congruentes com os ter-
terra do século XVIII demorou a ser um convite para repro- mos dominantes. Pensar o populismo como uma relação de 1
.1

blematizar os "anos populistas". Certamente, são flagrantes as hegemonia significa, ao contrário, considerar as ambigüida-
diferenças entre as peculiaridades da sociedade inglesa dos sete- des que lhe eram constitutivas como "um campo de força
centos e as condições históricas do populismo brasileiro. 28 Po- comum" no interior do qual os diferentes atores sociais "es-
rém, alguns princípios gerais da noção de hegemonia utilizada tavam aprisionados". 31
De um lado, as mediações institucionais, a lei, o direito, a
por Thompson 29 permitem perceber como os trabalhadores re-
justiça, as encenações e a retórica públicas traçavam muitas
tiravam da ideologia formal do "modelo paternalista" os recur-
vezes os limites do que poderia ser politicamente possível
sos necessários às suas demandas e lutas, utilizando-o como
não apenas para os trabalhadores, mas também para as auto-
algo que pertencia ao seu patrimônio adquirido. Se tal modelo
ridades públicas e os patrões. De outro, a própria luta de
era mais generalizante, a apropriação que dele era feita pelos
classes impunha limites à exploração política e econômica.
"de baixo" tinha um caráter seletivo, aproveitando noções
O populismo visto pelos trabalhadores era não raras vezes
de justiça social e re-significando-as conforme suas experiên-
diferente da auto-imagem construída pelas autoridades so-
cias e expectativas.
bre seus próprios atos e discursos. Ao contrário da adesão cega
O conceito de hegemonia tem permeado a maioria das
e ativa, podia funcionar um pragmático realismo com elevado
análises sobre o populismo, mas trata-se, em geral, de uma
senso de cálculo em torno dos retornos e benefícios possíveis,
"concepção de imposição hegemônica de dominação de clas-
impondo ao Estado e aos patrões concessões e deveres por meio
se como imposição absoluta de categorias ou de estruturas
de uma linguagem extraída dos próprios recursos retóricos
de dominação", 30 impedindo os trabalhadores de criarem e
populistas. Portanto, o exercício da hegemonia não se define
de nenhuma maneira a priori, mas está sujeito a constantes
28 Uma das distinções está no fato de que o "paternalismo" da gentry e uma rearranjos, submetido a freqüentes negociações e concessões,
certa autonomia da "cultura plebéia" eram o resultado de um Estado fraco e não impondo uma visão de mundo com total abrangência e
parasitário, o que não pode ser projetado de modo algum para a experiência persuasão em todos os aspectos, lugares e experiências de
brasileira.
29 Note-se, entretanto, que Thompson jamais teorizou sistematicamente o con· vida dos trabalhadores.
ceito de hegemonia, apropriando-se a seu modo das análises de Gramsci. Cf. Assim como heteronomia, a noção de autonomia, portanto,
Idem, "As peculiaridades dos ingleses". ln Antonio L. Negro e Sérgio Silva parece pouco adequada como categoria capaz de apreender tais
(orgs). As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas, Unicamp·
IFCH, s/d, pp. 98-102.
30E. P. Thompson. "Modos de dominação e revoluções na Inglaterra". ln:
31 /dem, Costumes em comum, op. cit., p. 78.
Idem, p. 134.

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224

1
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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA .F

experiências, correspondendo a "um reflexo do papel d~~-~.~~!~~­ A participação política, a necessidade de negociação com
tuais, que responde milito mais às suas nece5sidaê{~s. p~~~~: os patrões e o Estado, a formulação de políticas envolvendo
1
emocionais, teóricas e ideológicas".32 Nesta perspectiva, ao con- amplas parcelas da população e a interlocução com um vasto .'
trário de identificar e destacar as supostas ausências ou os imputa- conjunto de instituições tornam o movimento sindical mais
dos desvios da história dos trabalhadores no período, impõe-se a complexo do que supunham as apostas autonomistas. Se o
necessidade de repensar em outros termos os temas da democra- peso excessivo do Estado tem ocupado as preocupações aca-
cia, da cidadania e da participação política dos trabalhadores. dêmicas e políticas, particularmente nos seus aspectos nega-
As questões colocadas pela experiência recente do movi- tivos, as atuais bandeiras de desregulamentação dos direitos
mento operário perpassam os problemas assumidos pela sociais e por um "Estado mínimo" a enfrentar o "custo Bra-
historiografia há alguns anos. Se no final dos anos 80 o sil" forçam os movimentos sociais a buscar alternativas em
sindicalismo hasteou a bandeira da ruptura com a estrutura sin- confrontos que não signifiquem a anulação do diálogo com o
dical, sua superação tem desafiado mesmo aqueles que defen- empresariado e com os poderes públicos. Assim, "com a mu-
dem a implantação de projetos alternativos, uma vez que, entre dança de contexto sócio-político e econômico, o discurso
outros pontos, parte do sindicalismo brasileiro teria que se con-
radicalizado abriu espaço ao discurso da negociação". 35 As
frontar com possíveis aspectos desagregadores originados tanto
relações estabelecidas com a "institucionalidade" jogam tam-
pela dificuldade de organização no local de trabalho quanto
bém um papel na releitura de um passado em que a garantia
pelo fim da unicidade e do imposto sindicais. 33 As mais bem
legal dos direitos e o seu reconhecimento público exigiam
acabadas resoluções por autonomia dos sindicatos frente ao
mais do que trabalhadores dóceis ou gratos em relação a um
Estado revelaram-se insuficientes para a ruptura com a estrutu-
projeto político estatal. Implicavam, ao contrário, a existên-
ra sindical, desafiando as formulações segundo as quais a ori-
gem do corporativismo era o resultado de trabalhadores debil- cia de trabalhadores com elevado senso de independência
mente organizados por lideranças sindicais cupulistas. 34 política e cidadãos que exerciam o domínio de importantes
fatias da esfera pública.
Sobre o populismo e a intervenção do Estado nas relações
noaniel James. "Pensar a América Latina: entrevista com Daniel James e
John French". ln Fortes, Alexandre e outros. Na luta por direitos, op. cit. de trahãihó-no pós-30, podemos identificar na produção recen-
JJCf. Michael M. Hall. Corporatism, Fascism, and the Origins of Brazilian te a rejeição a três explicações: a herança de um passado remo-
Labor Law. Paper apresentado na Brazilian Studies Association, King's College,
Cambridge, set. 1996; cf. também Armando Boito Junior. O sindicalismo de
Estado no Brasil. São Paulo, Hucitec, 1991.
35
J4Cf. Alexandre Fortes. "Revendo a legalização dos sindicatos. Metal11rgicos Marco Aurélio Santana. "O 'novo' e o 'velho' sindicalismo: análise de um
de Porto Alegre, 1931-1945". ln Fortes, op. cit. 1 debate". Revista de Sociologia e Política, nº 10111, 1998, p. 17.

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f
TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÔlllA 1 :

'

to na raiz do corporativismo e do estatismo, a noção de que na o todo sobre o indivíduo. 37 Essa abordagem, que certamente ...
prática o projeto corporativista teve plena implantação e a ên- não é nova, foi criticada como idealista e etnocêntrica, fazendo 1
. 1
fase nas rupturas fincadas.pelos ~e~dobramentos do pós-30. Os 1 recair o acento no caráter (ou destino) "patológico" da nossa
.estudos-apres~~tados a seguir buscam reconstituir a dinâmica e formação social, de modo que tradição e cultura, analisadas com
complexa política de alianças entre os vários atores sociais no base em formações discursivas, emergem como linhas de força
período, analisar a legislação social e trabalhista como uma via de um passado que "governa o presente como causa e efeito". 38
de mão dupla, pavimentada e apropriada de diferentes manei- A negação do populismo como manipulação acaba entrando
ras de acordo com os diversos interesses em jogo, recuperar a pela porta dos fundos, na medida em que a ênfase na interven-
dialética entre continuidades e descontinuidades históricas no ção estatal limita o campo de visão sobre a capacidade de luta e
processo de formação da classe operária e reavaliar a explica- auto-organização dos trabalhadores.
1
1
ção do período baseada na clivagem entre lideranças sindicais e Em seu estudo sobre os metalúrgicos do ABC entre 1900 e '
1
'
trabalhadores. 36 1950,39 John French não busca em um passado remoto a com-
1
preensão das alianças policlassistas entre diferentes grupos so-
ciais no pós-30. O autor considera também que "política
1
POPULISMO E POLÍTICA DE ALIANÇAS/LEIS, DIREITOS E populista" ou "ideologia populista" formam uma "unidade há-
JUSTIÇA sica de explicação", presente em inúmeros trabalhos, que defi-
1
1
ne o jogo político em seus aspectos formais, esvaziando a expe-
!
Tem havido formulações tendentes a substituir os conceitos de
populismo por estatismo e estadania, reeditando as análises que 37
Embora voltado para a análise do período imediatamente posterior à pro-
operam com as ausências que teriam pontilhado nossa história: clamação da República, José Murilo de Carvalho é um dos expoentes dessa
falta de um pensamento e de uma ação fundamentados nas pre- linhas de interpretação. Cf. "Repúblicas e Cidadanias". Dados. Revista de
missas do individualismo como valor presente na cultura políti- Ciências Sociais, vol. 28, nº 2, 1985; Os bestializados: o Rio de janeiro e a
República que não foi. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. A aplicação
1
ca da democracia liberal anglo-saxônia, enquanto a cultura ibé- dessa vertente ao sindicalismo no pós-30, entendido como estatismo, encon- j
1
1
rica estaria marcada pelos valores de integração orgânica dos tra-se em Francisco C. Martinho, op. cit., pp. 43-7. Segundo esse autor, o !
1
comportamento estatista foi "um dos pilares básicos do comportamento ope-
1
governados aos governantes, tutela e familismo, predominando
J 1
rário e mesmo de nossa origem".
38
' .:

'I John D. French. "Drowning in Laws but Starving (for Justice?): Brazilian
Labor Law and the Workers' Quest to Realize the Imaginary", Political Power
1
J6Por falta de espaço e por haver nesta publicação um artigo destinado ao and Social Theory, 1998, p. 192.
tema, não nos deteremos em profundidade nos relevantes estudos sobre o 39
/dem. O ABC dos operários. Conflitos e alianças de classe em São Paulo:
li
trabalhismo. 1900-1950. São Paulo, Hucitec, 1995, pp. 266-8.
l
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j!
1

l ~
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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

riência e os distintos interesses dos mais diversos atores sociais. objetivos desmobilizadores do projeto corporativista foram ple-
No lugar de pacto social ou coligação, French sugere que alian- namente efetivados na experiência concreta dos trabalhadores t
,1
ça é uma noção mais operacional para entendermos a complexa - , é limitado por estar preso aos aspectos jurídicos e
dinâmica do que ele chamou de "sistema político populista", institucionais da intervenção estatal, por não levar em conta a
que "influenciou o comportamento de todos os [seus] partici- prática organizacional dos trabalhadores e suas lutas contra os
pantes". Apesar dos desiguais recursos sócio-políticos das par- patrões e pressupor "que a lei equivale à realidade, que a inten-
tes envolvidas, tal diferenciação não excluiu a negociação no ção equivale ao resultado e que a retórica equivale à substân-
interior do sistema de alianças e disputas de acordo com os in- cia". 40 A versão de que a legislação sindical implicou invariavel-
teresses em jogo. mente restrição à organização e mobilização dos trabalhadores
French sugere a necessidade de uma análise "sócio-histórica deve passar pelo escrutínio da análise de conjunturas específi-
do estudo da política" capaz de abordar a experiência dos tra- cas que podiam limitar ou criar oportunidades para a ação ope-
balhadores de forma interativa com as demais classes sociais, o rária.
que "fornece a chave para estabelecer uma ligação entre reali- Há evidências a demonstrar que a legislação sindical e tra-
dades econômicas e fenômenos políticos tais como o populismo". balhista, logo nos primeiros anos de sua implantação, favore-
Este, porém, não deve ser abordado de forma unilateral ou pela ceu a mobilização e organização de parte significativa do mo-
exclusiva perspectiva da luta de classes. Trata-se de delinear, vimento operário, particularmente entre o proletariado das
então, um modelo interativo de classe social, uma vez que as grandes indústrias, de que, em razão de sua frágil posição no
mudanças ocorridas na composição interna da classe operária mercado de trabalho, sempre se defrontava com a forte resis-
não dão conta da explicação política, sobretudo no âmbito da tência patronal em reconhecer seus direitos e suas organiza-
participação e das regras eleitorais. Assim como os trabalhado- ções como interlocutores válidos. De acordo com as investiga-
;
res, outros segmentos sociais (como a classe média) também ções de John French sobre o ABC paulista na primeira metade
passaram por significativas transformações, criando novas pos- da década de 30, as dificuldades desde muito encontradas pe-
sibilidades de relacionamento entre eles e a classe operária. Em los trabalhadores industriais fez com que parcela importante
síntese, o conceito de alianças entre e intraclasses não implica da classe operária e seus militantes vissem na intervenção esta-
passividade e subordinação dos trabalhadores a carismáticos lí- tal um instrumento para mitigar o poder patronal sobre seus
deres populistas, pois cada parte jogava um papel ativo na defi-
nição dos termos dos acordos e da configuração do sistema po- 0
• Idem. "The Origin of Corporatist State Intervention in Brazilian Industrial
lítico. Relations, 1930-1934: a Critique of the Literature", Luso-Brazilian Review,
Quanto ao segundo ponto de rejeição - a noção de que os 28/2, inverno, 1991, p. 15.

230 23 1
',..


TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA !

empregados, o que de fato implicou o fortalecimento da orga- Segundo esse autor, havia um fosso permanente entre a lei
nização dos trabalhadores. 41 1
e o real, e a lei era tanto imaginária quanto real para os for- !
Essa constatação não pode ser amplamente generalizada, pois muladores da CLT e para os trabalhadores que buscavam utilizá- . '
ações patronais e do Estado contra greves tendiam a fundamen- la para atingir seus objetivos. Se a CLT é um documento
tar-se no argumento de que os sindicatos não eram reconheci- impactante pelo imenso volume de direitos e garantias, na prá-
dos pelo Ministério do Trabalho. 42 Contudo, análises sobre ou- 1 tica esse conjunto de leis revelava-se problemático: direitos 1

tras conjunturas e categorias de trabalhadores também revelam firmados legalmente eram em geral negados pelos emprega-
que a parafernália legislativa e o aparato jurídico eram aciona- dores, que viam na legislação trabalhista uma utopia sem co-
1
dos pelos trabalhadores por entenderem estes que o poder arbi- nexão com a realidade; a fiscalização era ineficaz, e as cortes
i
trário e privado do mundo da produção podia encontrar limi- trabalhistas muitas vezes não funcionavam em favor do traba-
tes no "domínio da lei", fazendo emergir no seu imaginário o 1 lhador. !
que Maria Célia Paoli chamou de "crença simbólica nos direi- Entretanto, opondo-se às versões da outorga, artificialidade f
tos".43 Por outro lado, paradoxalmente, as leis e a justiça tam- e fraude burguesa que caracterizam as análises sobre a legisla-
bém parecem ter sido criadas para não funcionar com eficácia, ção trabalhista, French considera que a CLT foi um poderoso
oferecendo grande margem de manobra para as burlas e o arbí- substrato dos conflitos a partir do qual demandas por justiça e a
trio patronal, com vistas a contornar os efeitos legais, inserindo existência de injustas condições de trabalho combinavam-se para
na ação e no discurso dos trabalhadores ambigüidades sobre o 1 criar uma poderosa "consciência legal", ou seja, como os traba- j 1

efetivo alcance da legislação trabalhista, entendida tanto como lhadores pensavam a lei e como suas idéias se transformavam ao '

mistificação quanto como um recurso para a efetivação dos di- interagirem com ela. Como observou Maria Célia Paoli, os re-
:/1
reitos. Os apontamentos de John French sobre a longevidade cursos legais destinados a proteger os direitos no trabalho tive- :l
:d
da CLT são sugestivos a esse respeito. 44 ram papel significativo na formação cultural e política da classe
1:
trabalhadora, de modo que a CLT foi um instrumento utilizado ,j;
~!
1:;

41
ldem.
pelos operários para estruturarem suas exigências de justiça.45 i!
•2Uma greve dos têxteis de São Paulo ocorrida em julho de 1931, por exem- Emergiu, assim, a noção de que as relações de trabalho podiam "!:
plo, foi reprimida com base nesse argumento. Cf. Joel Wolfe. Working Women,
Working Men. São Paulo and Rise of Brazil's Industrial Working Class, 1900-
1
ser reguladas por parâmetros publicamente definidos. 46 Proble- '
1
1955. Durham, Duke Universicy Press, 1993, pp. 55-6.
11

I,'I
43 Maria Célia Paoli. "Os trabalhadores urbanos na fala dos outros. Tempo,

espaço, e classe na história operária brasileira". ln José Sérgio Leite Lopes


(org.). Cultura e identidade operária, op. cit.
45
Maria Célia Paol!. Labor, Law and State in Brazil: 1930-1950. Birkbeck
College, University of London (tese de doutoramento), pp. 437-40.
46
1"
·1
Alexandre Fortes. "Como era gostoso meu pão francês: a greve dos padei- ti
1:
44]. French. "Drowning in Laws but Starving (for Justice?) ... ", op. cit.
ros de Porto Alegre (1933-1934)". ln Anos 90, nº 7, 1997. :,,,
1'
1 ;
i 232
1
233
,,,,
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mas cotidianamente vividos e injustiças difíceis de serem ex- "projeto getulista": os interesses dos trabalhadores não podi-
pressas em linguagem jurídica pelos trabalhadores encontra- am ser representados sem organização, mobilização e embates !
.1
vam na lei e nos "profissionais da lei" algo passível de ser le- - o que reatualizou a luta de classes - , de forma que se tor-
galmente nomeado. Portanto, ordenação jurídica da socieda- nava impossível "combinar a colaboração de classes com a re-
de e legislação do trabalho nem sempre foram meras amarras presentação efetiva apenas por meio do nacionalismo e de me-
diluidoras da ação operária, mas um elemento formador de canismos técnico-jurídicos de cunho corporativo''. 49 A repres-
sua cultura e experiência, que, em certas conjunturas, ameaça- são e os discursos de "harmonia social" e atuação do movi-
vam romper a lógica de reciprocidade entre governo e traba- mento operário "dentro da ordem" levavam ao esvaziamento
lhadores.47 Impostas "de cima", foram apropriadas pelos "de das entidades de representação de classe, fazendo com que a
baixo", tomando rumos eventualmente inesperados e diver- ação sindical condicionasse e combinasse a efetivação dos di-
gentes do planejado. reitos à organização e mobilização dos trabalhadores. Como
Esse ideal normativo não era uma expectativa passiva à es- assinalou Alexandre Fortes, a contradição da estrutura sindi-
pera de uma providencial intervenção das instituições oficiais, cal está, portanto, no fato de que esta se oferece como fonte
mas tinha poderes instituintes apenas no contexto da ação dos de legitimidade para o poder somente quando engendra "vita-
trabalhadores que buscavam transformar o Estado em um ins- lidade associativa", deixando de legitimá-la quando é incapaz
trumento contra as violações patronais, convertendo o discurso de tornar-se o "catalisador de conflitos" que o corporativismo ;

: ~
legal em arma apontada para os empregadores. Mas não foram pretendeu obstruir. 5º
poucos os trabalhadores e militantes que não acreditaram inge- Se as violações patronais e a parcialidade da Justiça do Tra-
nuamente nas intenções dos promotores das leis. Havia uma balho reforçavam o ceticismo em relação ao caráter protetor
ambígua oscilação entre rejeitar a lei e idealizá-la, consideran- das leis, por outro lado a idealização e a esperança de justiça
do-a como fraude e, ao mesmo tempo, como esperança. French alimentavam-se das possibilidades concretas abertas pelo apa-
concluiu que as leis tornaram-se reais nos locais de trabalho rato jurídico oficial. Mesmo em tempos políticos opressivos,
"apenas na medida em que os trabalhadores lutaram para como o do Estado Novo, quando algumas leis eram claramente
transformá-las de um ideário imaginário em uma futura realida- formuladas para beneficiar os patrões, punir os operários e des-
de prática".48 respeitar antigos direitos, há indícios de que os tribunais traba-
Neste sentido é que emergia uma grande contradição do
49Michael McDonald Hall. "Prefácio". ln Fortes, A. Na luta por direitos, op.
•7Silva, "Direitos, política e trabalho no porto de Santos", op. cit., p. 80. cit., p. 10.
56Alexandre Fortes. "Revendo a legalização dos sindicatos", op. cit., p. 41.
1 48 French, op. cit., p. 182.
1
1
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:L
TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

lhistas não funcionaram como simples árbitros nos conflitos a nem sempre mereceu a devida atenção nas análises que enfatizaram
serviço dos patrões ou formassem um campo de resolução sem- 1 a ideologia do populismo a partir da dinâmica das relações dire-
pre pronto a reforçar os ideais de consenso. Se em 1942 a Jus- 1 tas e pessoais entre as autoridades governamentais e "o povo".
tiça Regional do Trabalho de São Paulo, por exemplo, julgou a 1 Neste particular, o sem-número de cartas enviadas por "popula-
maioria dos casos em favor dos empresários,51 por outro lado 1 res" à Secretaria da Presidência da República, analisadas por Jor-
os tribunais transformaram-se em arena de disputas em que nem . 54 po d ena
ge Ferre1ra, . corro borar as eternas teses sobre a natureza
1
sempre os trabalhadores saíram derrotados e os patrões vitorio- 1 clientelista da política brasileira. Afinal, em sua quase totalidade,
sos. 52 Se a Justiça trabalhista representava uma estratégia para 1
a correspondência é muito semelhante na sua temática e
viabilizar no campo simbólico da representação do poder a ima- 1 estruturação: seus signatários apresentam dilemas, carências e
gem protetora do governo, não podia a todo o momento ser dramas de suas vidas pessoais; em seguida, fazem algum pedido,
1
arbitrária, negligenciar provas testemunhais convincentes e fa- utilizando argumentos decalcados dos discursos oficiais do go-
voráveis aos acusados de "insubordinação" ou aceitar quaisquer verno. Porém, é preciso atentar para quatro aspectos.
1
alegações dos patrões, sendo preciso respeitar certas formas le- 1 Primeiro, há no próprio ato de enviar as cartas um "elemen-
gais. A fim de legitimar o poder, a Justiça não podia prescindir to não-verbal". O fato de se comunicar com o poder por escrito
1
de determinados critérios lógicos de igualdade, criados pela "já transforma a natureza da relação clientelista. Introduz uma
própria legislação destinada, em sua retórica, a coibir os exces- ordem de abstração oposta ao fato de alguém dirigir-se ao pro-
sos do mando patronal. 53 1 prietário de terras local ou ao administrador da fábrica e fazer 1;

Assim, nada mais distante da noção de "dádiva" do que a um apelo pessoal. O simples fato de escrever já transforma a
dimensão impessoal pretendida pela lei e a justiça. A mediação natureza do que está sendo feito". 55 Segundo, ao contrário de
institucional no jogo de relações entre os atores sociais no pós-30 reproduzir fielmente os pressupostos doutrinários do Estado
Novo, é preciso entender as interpretações que os trabalhado-

Wolfe, op. cit., pp. 89-90.


51 Cf.

S?foi o caso de dezenas de ações na Justiça do Trabalho envolvendo a Compa·


54
nhia Docas de Santos e seus empregados, sendo que a empresa perdeu pouco Jorge Ferreira. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular, 1930-1945.
mais da metade dos processos por ela mesma impetrados. Silva, A carga e a Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1997. Cf. também Wolfe, op. cit.;
culpa, op. cit., pp. 99-103. Constatações semelhantes encontram-se em Jairo Idem, "'Pai dos Pobres' ou "Mãe dos Ricos'? Getúlio Vargas, industriários e
~
Queiroz Pacheco. Guerra na fábrica: o cotidiano operário fabril durante a construções de classe, sexo e populismo em São Paulo, 1930-1954". Revista
Segunda Guerra. O caso de Juiz de Fora-MG. São Paulo, Universidade de São
Paulo, 1996 (dissertação de mestrado), pp. 121-148.
Brasileira de História, vol. 14, nº 27, 1994; Cliff Welch. The seed was planted.
the São Paulo roots of Brazil's rural labor movement (1924-1964). Univers1ty ~·.,
53 Sobre tais questões, cf. E. P. Thompson. Senhores e caçadores. Rio de Janei· Park, Penn State University Press, 1999.
ro, Paz e Terra, 1987. 1 55
J. French. "Pensar a América Latina", op. cit., p. 187.
1

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res faziam dos discursos oficiais no interior da "cultura política do estreitamento de relações diretas com o governo, o que não
popular". Ao acionarem a fraseologia dos "de cima", eles a implicava necessariamente o esvaziamento da esfera pública. A
apropriavam para "tirar proveito" de alguma situação, confron- antropóloga Teresa Caldeira observou agudamente que
tavam as intenções do governo com sua própria retórica de jus-
tiça social, cobrando coerência do discurso oficial, e seleciona- é necessário considerar que o reconhecimento da dignidade
vam aquilo que poderia render algum benefício a partir do que humana não está relacionado apenas ao fato de haver uma re-
entendiam por justiça. Terceiro, o espaço institucionalmente lação pessoal. Ao ser dada "voz ao povo" pelos políticos
aberto para os pedidos dos trabalhadores não era uma farsa populistas, de fato reconheceu-se a dignidade de cidadãos que
baseada em promessas vagas. Transformada em processos, a cor- podiam dizer o que sentiam e o que pensavam. Há, em suma,
dois aspectos: de um lado, a relação pessoal em que se exerce o
respondência era encaminhada com agilidade para diversos ór-
direito; de outro, o contexto político em que foi criado o mes- ~
gãos governamentais para que tivesse pronta resolução, azeitando i
mo direito - em ambos a dignidade é reconhecida. Os dois i
as comunicações entre a sociedade e a máquina estatal, a fim de
lados convivem, e o fato de haver a relação pessoal não implica
o governo angariar legitimidade entre os trabalhadores. Quar-
anular a dimensão política e coletiva da questão. O reconheci-
to, o atendimento ou não dos pedidos tinham como filtro a mento do povo como ator político não apenas é importante do
legislação em vigor como mecanismo impessoal de justificação ponto de vista dos indivíduos, mas serve como divisor de águas
das decisões burocráticas. no reconhecimento de toda a categoria de trabalhadores. 56
Essa intermediação institucional e pública da lei não se di-
luía mesmo nos encontros pessoais, e portanto "sem intermedi- Assim, dirigentes sindicais e comissões de trabalhadores iam
ários", entre representantes dos trabalhadores e autoridades do ao palácio presidencial ou ao Ministério do Trabalho e podiam
governo quando aqueles solicitavam a intervenção destes a fim sair não apenas com a satisfação de terem sido tratados com
de que as leis fosse aplicadas e os direitos reconhecidos. Nesse dignidade, mas também com um acordo firmado e afiançado
caso, o direito parece constituir um privilégio desfrutado pela pela assinatura do ministro ou do presidente. 57 Não há dúvida ,,.,,
relação pessoal, esvaziar o sentido abstrato da cidadania, per-
verter os limites entre público e privado e anular a impes-
56
Teresa Caldeira. A política dos outros. São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 237.
soalidade universalizante que deveria reger a dimensão legal e 57
Antigos militantes trabalhistas e comunistas do porto de Santos tendem a
jurídica das relações entre cidadãos e Estado. Entretanto, vista comparar essa imagem de "porta aberta" dos espaços palacianos com o estilo
por outro ângulo, a conquista dos direitos estava associada a autoritário do pós-64, quando os canais de entendimento estavam irremedi-
avelmente fechados, de forma que um governo de exceção representava a
um determinado reconhecimento da dignidade dos trabalhado- perspectiva e o sentimento da perda e da exclusão políticas. Cf. Silva, A carga
res. Havia o "privilégio" de se conseguir um benefício por meio e a culpa, op. cit., pp. 210-1.

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

de que tais relações faziam parte de uma estratégia de amplia- rio da Primeira República ou como vetores passivos de sus-
ção das bases de sustentação do governo ao transformar pro- 1
tentação de uma nova estrutura destinada a cooptá-los. En- !
1
messas e expectativas em procedimentos legais, "desmistificando 1 tretanto, Angela Carneiro Araújo tratou o processo de im-
a figura da autoridade, aproximando-a do povo e colocando-a 1 plantação do novo padrão de relação entre Estado e classes
à altura de sua mão". 58 Mas a hegemonia de classe, fundada em 1 sociais como um movimento que poderia ser chamado de
uma lógica simbólica paternalista, alicerçada em atos jurídicos, 1 "consentimento ativo": a nova estrutura contou com a "ade-
não significou paralisia dos conflitos sociais ou uma política con- 1 são militante" de parcelas significativas do sindicalismo
sensual de "uma só classe", ou seja, os empresários amparados preexistente. Além disso, a literatura subestimou a forte
1
por um ritualismo indireta e cuidadosamente preparado em seu 1 mobilização e politização dos "sindicatos oficiais" entre 1933
benefício. 59 e 1935. Consentimento e sindicalismo oficial não deixaram
1
1
de estar vinculados a fortes interesses de classe e não repre-

CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES/LIDERANÇAS E BASES l


1
sentaram um destino inelutável segundo uma lógica impositiva
sobre uma amorfa "falsa consciência". Foram o resultado tam-
bém de escolhas e propostas conscientes de parte do movi-
Quanto à "terceira rejeição" - a ênfase nas rupturas implan- 1
mento operário "entre alternativas historicamente condicio-
tadas pela impositiva intervenção estatal no pós-30 - , a lite-
nadas" e em acirrada competição. 60 Adesão aqui é um con- 1
ratura desconsiderou em parte o papel ativo dos trabalhado- 1
1
ceito dinâmico envolvendo "um processo contraditório e
res na conformação do projeto corporativista. Os trabalha-
conflitivo que combina resistência, assimilação do projeto
dores foram vistos como vítimas de um novo modo de domi- 1
corporativista e apropriação da organização corporativa para
nação que eliminou a "autenticidade" do movimento operá-
a defesa de interesses dassistas". 61
1
Em primeiro lugar, Angela Araújo recupera a "dimensão
sscf. A. de Castro Gomes e Celina d' Araújo. Getulismo e trabalhismo. São positiva" do projeto corporativista, que, apesar de seus aspec-
Paulo. Ática, 1989, p. 63. Nenhuma autoridade pareceu tão eficaz quanto
João Goulart na utilização desse recurso, fazendo funcionar certos princípios
tos negativos e autoritários, não operou com a lógica da exdu-
da "invenção do trabalhismo": uma cidadania corporativista com base na ;

qual os trabalhadores deveriam reivindicar seus direitos, sentir-se participan-


tes das decisões políticas e retribuir com manifestações de gratidão. A. de 'ºAngela M. Carneiro Araújo. "As lideranças sindicais e a construção do
i1 Castro Gomes. A invenção do trabalhismo. São Paulo, Vértice, 1988. sindicalismo corporativo nos anos 30". ln Elisa Reis e outros (orgs.). Política
S9Sobre essa questão, cf. E. P. Thompson. "La sociedad inglesa dei siglo XVIII: e cultura, op. cit., p. 9.
lucha de dases sin dases?" ln: Tradición, revuelta y consciencia de clase, Bar- 61
ldem. A construção do consentimento: corporativismo e trabalhadores nos
celona, Crítica, 1979. anos trinta. São Paulo, Scritta, 1998, p. 15.

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são dos trabalhadores, pois a produção do consentimento exi- Outras correntes, como a comunista e a trotskista, embora
gia o atendimento efetivo de necessidades e interesses concre- programática e ideologicamente contrárias ao projeto sindical
tos da classe operária e de suas organizações, reconhecendo seus do- governo, por diferentes caminhos e orientações acabaram
direitos sociais e políticos. 62 Em segundo lugar, a autora por àderir a ele como medida tática, instrumentalizando-o "por
aprofunda a trilha de outros autores que identificaram corren- dentro" para tentar implodi-lo em nome da autonomia sindi-
tes sindicais reformistas na Primeira República dispostas a esta- cal. Sua atuação nos sindicatos "oficializados" contribuiu para a
belecer aliança com o Estado, defendendo a sindicalização ofi- legitimação dessas correntes entre os trabalhadores, transfor-
cial, revelando ter havido uma política de alianças entre "novos mou as entidades de classe em órgãos de luta e redundou na
e velhos sindicatos". 63 crescente politização do movimento operário que ameaçava eli-
Angela Araújo identifica convergências entre o projeto po- minar o nascente corporativismo. Mas ao fortalecer a
~,
lítico e sindical dos "amarelos", tal como se apresentou na dé- sindicalização e os sindicatos em detrimento das "entidades li-
cada de 20, e o "corporativismo oficial": reconhecimento da vres", a atuação dessas lideranças propiciou o fortalecimento
classe trabalhadora, de seus direitos e organização pelos patrões do projeto dominante e não do seu próprio.
e pelo Estado, atuação privilegiada nos canais institucionais, Se essa perspicaz análise contribui para relativizar o caráter
apelo à intervenção do Estado e ação pautada na ordem legal. unívoco do projeto corporativista, a cooptação nela aparece
Lideranças com experiência fincada no movimento operário nos
adiada: tornou-se uma realidade a partir de 35, quando o movi-
anos 20 foram responsáveis pela aproximação com o governo e
mento sindical se revelaria impotente para reverter uma situa-
a adesão de seus sindicatos à lei de sindicalização. Apesar de
ção para a qual, à revelia de seu projeto, parte dele contribuiu
divergências entre "velha guarda" e novos dirigentes sindicais
de maneira ativa. Essa conclusão não deixa dúvidas quanto ao
sobre o grau de independência e autonomia das organizações
corte na "autonomia" na Primeira República pelo controle no
de classe frente ao Estado, a adesão dos reformistas à nova es-
pós-30: "a cooptação das lideranças operárias pelas forças do-
trutura redundou na aceitação dos limites impostos à atividade
minantes correspondeu, assim, ao desenvolvimento de uma ini- ..."
sindical.
ciativa hegemônica de parte dessas forças, que conseguiram as-
sim 'decapitar' as classes subalternas e incorporá-las, sob seu
62A autora enfatiza particularmente o projeto corporativista dos tenentes, que 1
controle, por meio da estrutura corporativa". 64 Reconhecimen-
tentavam estabelecer uma relação com os trabalhadores com base mais no
apoio do que na repressão. Idem, pp. 74·82. to ministerial das entidades de classe, unicidade e imposto sin-
63 Cf. Eliana de Freitas Outra. Caminhos operários nas Minas Gerais. São Pau- 1
lo, Hucitec, 1988; Eduardo N. Stotz.A União dos Trabalhadores Metalúrgicos
1
na construção do sindicalismo corporativista: 1932-1945. Niterói, Universi- A. Araújo. "As lideranças sindicais e a construção do sindicalismo corporativo
64

dade Federal Fluminense, 1986 (dissertação de mestrado). 1 1 nos anos 30", op. cit., p. 26.

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clicais, ausência de necessidade de representação no local de construídas nos locais de trabalho a partir da abrangente
trabalho não deixam dúvida de que tal projeto saiu vitorioso e reconstituição histórica (1900-1955) da ação dos trabalhadores
fortalecido. Mas é preciso alargar as linhas de continuidade e das indústrias têxteis e metalúrgicas da cidade de São Paulo. 66
descontinuidade para avaliarmos melhor tal decapitação, incor- Com o objetivo de recuperar as "origens históricas do novo
poração e controle de classe. sindicalismo", seu livro tem o grande mérito de desfazer crista-
Por caminhos diferentes do trilhado por Angela Araújo, ou- lizadas visões segundo as quais o movimento operário no perío-
tros autores têm enfatizado o papel das gestões do movimento do por ele abarcado era o simples resultado da ação dos sindica-
operário na implantação do corporativismo, merecendo desta- tos, de "minorias militantes" revolucionárias, constituídas es- '
que os problemas relativos às relações entre base operária e dire- sencialmente por homens. Sua detalhada pesquisa em fontes 1.
ção sindical. As ácidas críticas ao "cupulismo" da esquerda, de- inéditas revela uma longa tradição organizativa baseada em efi-
senvolvidas nos anos 70, foram aprofundadas no início da déca- cazes comissões de fábrica, muitas delas constituídas exclusiva-
da de 80. Kazumi Munakata, por exemplo, encontra na proposta mente por operárias têxteis. Seu estudo desfaz a noção de que
de organização sindical dos comunistas um fator que teria aplai- tais comissões eram a "marca distintiva e original do 'novo
nado o terreno para a emergência do corporativismo. A caracte-
rística centralizadora, vertical, técnico-burocrática e autoritária
da estrutura sindical defendida pelos comunistas corresponderia
à perda de autonomia dos trabalhadores e de seu poder de deci-
sindicalismo"'67 e de que antes de 1978 tinham existência es-
pasmódica, estavam fadadas ao fracasso e resultavam da ação
inicialmente "espontânea" ("sem uma direção consciente") dos
trabalhadores. Sua detalhada narrativa revela a longevidade
1
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1
1
são. As organizações nos locais de trabalho serviriam apenas como dessas organizações, sobrevivendo muitas vezes à repressão e à
correia de transmissão das orientações emanadas das cúpulas sin- intervenção estatal por estarem fortemente enraizadas entre os !
dicais, e o controle das condições de trabalho seria possível pela trabalhadores e em razão de táticas de organização invisíveis
subordinação dos trabalhadores a uma organização que os con- aos olhos dos patrões e da vigilância policial. 68
trolava. Assim, os comunistas teriam contribuído para firmar as
bases sobre as quais se ergueria o corporativismo. 65 66
Joel Wolfe. Working Women, Working Men, op. cit.
Mais recentemente, a experiência do "novo sindicalismo" 67Antônio Luigi Negro. "A 'via willyana'. Industrialização e trabalhadores do
1
no final dos anos 70 levou Joel Wolfe a reavaliar os papéis de- setor automobilístico." Tempo. Revista do Departamento de História da Uni·
1 versidade Federal Fluminense, nº 7, 1999.
sempenhados pelos sindicatos e pelas organizações informais nA farta documentação policial do Deops/São Paulo evidencia o recorrente
1
esforço de organização no local de trabalho, sendo as comissões de trabalha·
1 dores um alvo constante da mira patronal e policial. Cf. A. Luigi Negro e
65Kazumi Munakata. A legislação trabalhista no Brasil. São Paulo, Brasiliense, Paulo Fontes. "Trabalhadores em São Paulo: ainda um caso de polícia." Carn·
1
1 1981, pp. 41-61. pinas, 1999 [texto datilografado].
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1
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Wolfe, no entanto, radicaliza a tese da fissura entre sindi- ção das comissões de fábrica em comissões sindicais, teria início
catos e comissões de fábrica. Ao contrário das organizações apenas em 1951, quando "pelegos moderados", "ativistas re- 1

de base, as entidades sindicais e seus dirigentes não teriam formistas" e jovens sindicalistas do PCB reconheceram seria-
:Ji
sido representantes dos interesses dos trabalhadores. mente a importância da presença de líderes das bases, particu- 1.
i!
Anticlericalismo, minorias militantes profissionalmente qua- larmente operárias, nas estruturas formais dos sindicatos. As- 'i
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1!·l
lificadas, plataforma revolucionária e hostilidade quanto à sim, a democracia interna das comissões de fábrica criaria um
democrático movimento sindical, fazendo da "greve dos 300
·ji
presença das mulheres nas fábricas seriam fatores suficientes
para afastar as lideranças anarquistas da grande massa de mil", de 1953, o ponto culminante de uma tradição da organi-
operários e, sobretudo, operárias. A intervenção do Estado zação operária de base desde 1917.
nas relações de trabalho no pós-30 daria continuidade àque- Em síntese, se os sindicatos permaneceram por longa data
la fissura, reforçaria a visão tradicional sobre o papel das um "clube masculino", e suas lideranças os instrumentalizavam
mulheres na sociedade e daria sustentação aos dirigentes dos para fins revolucionários, cooptativos ou privados, por outro lado
sindicatos oficiais ("pelegos"), dispensando qualquer neces- as comissões de fábrica, particularmente as que contaram com
sidade de vinculação com a esmagadora maioria dos traba- operárias, representavam os "verdadeiros interesses dos traba-
lhadores. Nas décadas de 20 e 30, a plataforma revolucioná- lhadores": defendiam melhores salários e condições de trabalho,
ria e antiimperialista dos comunistas também aprofundaria o lutavam contra a racionalização da produção, abalavam tradicio-
distanciamento entre líderes e bases. nais representações em torno da questão de gênero, demoliam a
O autor reconhece que, em determinadas conjunturas, tra- retórica de conciliação e colaboração de classe do Estado Novo,
balhadores e sindicalistas jogaram importante papel no desen- mantinham-se céticas em relação às promessas de Vargas e torna-
rolar de greves e outras manifestações contra os patrões e o ram o sindicalismo oficial impopular entre os trabalhadores. Em
Estado. Contudo, a inabilidade dos sindicatos, de ativistas de várias passagens, Wolfe afirma o papel pedagógico dessas comis-
esquerda e dos "pelegos moderados" para fazer mais do que sões: as lideranças tinham que aprender sua lição se quisessem ...,,
reagir às demandas das bases condenou o movimento operário trilhar o "verdadeiro" caminho da luta de classes.
de São Paulo a sucessivos fracassos. Sem a completa integração Mas as fissuras entre líderes e bases são muitas vezes mais
das atividades das comissões enraizadas nas fábricas à direção ~~~~zidas de pressupostos do autor que cabalmente demons-
dos sindicatos, lideranças de todos os matizes teriam marcado tradas pelas evidências. 69 Ainda que tenha investigado a experi- li
passo diante da capacidade organizativa dos trabalhadores à ~
"
margem das instituições oficiais criadas para representá-los. A 69Cf.Oliver Dinius. "Resenha de 'Working women, working men'." História
"institucionalização do poder das bases", ou seja, a transforma- 1
1 Social, Campinas, IFCH-Unicamp, nº 3, 1996, p. 222.
1
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ência do operariado de dois ramos industriais significativos no investigação do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre, en-
mais importante centro produtivo do país, Wolfe generaliza tidade sob hegemonia comunista na década de 30, Fortes assinala
indevidamente suas evidências e conclusões para o movimento que os instrumentos de controle dos sindicatos foram construídos
operário como um todo. Assim, "os trabalhadores" se transfor- gradativamente, relativizando a noção de um corte radical com
mam em uma categoria homogeneizadora, os sindicatos tornam- anteriores tradições de organização operária. Atas sindicais reve-
se organizações exteriores a eles e as instituições e os discursos lam a existência da continuidade de valores culturais organizativos
do pós-30 são minimizados, levando-o a concluir que as mu- cultivados pelos "anarquistas": luta pelo controle do mercado de
danças na burocracia sindical "tiveram pouco impacto em São trabalho, ampla sindicalização, organização no local de trabalho,
Paulo". 7 º Esse conjunto de premissas permite que as comissões não-profissionalização dos dirigentes, sustentação voluntária do
de fábrica sejam apresentadas em um linear movimento sindicato e permanente mobilização.
evolutivo, passando incólume por radicais transformações em Ao contrário das análises que enfatizam a dissociação da
diferentes conjunturas, até atingir seu ápice no "novo atuação dos comunistas em relação à organização operária no
sindicalismo". Portanto, se a produção historiográfica do início espaço fabril, fica evidente o enraizamento das lideranças do
dos anos 70 acentuava as rupturas e tratava os anos de 1930 a PCB nas suas bases, sobretudo a partir da presença dos delega- ~'
1964 como um longo período em que predominou o controle e dos sindicais nas fábricas, empenhados em lidar com problemas ,.
a manipulação estatal, Wolfe enfatiza as continuidades iden- referentes aos locais de trabalho. Apesar do corte instaurado
i ~
tificadas pelo "poder das bases" e minimiza ao extremo os efei- pela repressão do Estado Novo, as células comunistas deram
tos da intervenção do Estado nas relações de trabalho. Porém, alguma continuidade à organização nos locais de trabalho, per-
ambas as abordagens mantiveram a tese da clivagem entre lide- mitindo que a centralidade das questões atinentes ao cotidiano
ranças e trabalhadores. fabril fosse retomada a partir de 1945. O autor conclui que
Outras pesquisas têm questionado as formulações que atribu- coube à repressão e ao controle estatais, e não à atuação de
em aos comunistas parte de responsabilidade pela implantação e qualquer corrente política operária, criar condições para a cris-
persistência do corporativismo. Os estudos de Alexandre!'<?~!~~ talização de mecanismos que caracterizariam, em parte, a
sobre a "legalização dos sindicatos" em Porto Alegre nos anos 30 despolitização e a burocratização sindicais em conjunturas como
e 40 complexificam as linhas de continuidade/descontinuidade a do Estado Novo. Foi o conjunto de procedimentos "técnicos"
entre pré e pós-30, reexaminam as experiências entre operários e elaborados pelo Estado que visou afastar base e militantes, mas
comunistas e discutem as afirmações de Munakata. A partir da revelou-se incapaz de destruir a "experiência de apropriação
do sindicato oficial como espaço de luta", conforme voltou a
7 ºWolfe, Working women, working men, op. cit., p. 120. acontecer no pós-guerra.

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Essa questão foi desenvolvida por Hélio da Costa em sua pes- tura". 72 Esse duplo questionamento seria a via de acesso para
quisa sobre a atuação de comissões de fábrica, sindicatos e comu- explicar a suposta incapacidade do operariado de conduzir de
nistas no período compreendido entre o esforço de guerra e a "greve forma orgânica seus interesses de classe para o nível das lutas
dos 300 mil" de 1953.71 Assim como Wolfe, Em busca da memória políticas.
recupera a história de trabalhadores têxteis e metalúrgicos, além Partindo da distinção entre movimento espontâneo e orga-
dos ferroviários de São Paulo, mas os resultados da investigação nizado, Moisés assinala que, quando não organizadas, as classes
não permitem concluir que a ação das lideranças sindicais tenha se subalternas tendem a expressar sua consciência em termos es-
limitado a ir a reboque das comissões de fábrica. Se estas muitas pontâneos, ou seja, instintivos. Nesse sentido, o populismo
vezes entraram em conflito com os sindicatos quando seus dirigen- corresponderia a um certo grau de reações instintivas das clas-
tes não correspondiam às demandas formuladas pelas bases, a atu- ses populares, visando impedir o surgimento de uma autêntica
ação de diferentes segmentos da esquerda nos locais de trabalho consciência de classe. O papel jogado pelo PC naquelas
não era uma simples reação à "autoconstituição" do movimento circunstâncias teria sido o de manter os trabalhadores nos limi-
operário. Ao contrário, tal atuação era parte de sua prática políti- tes da "consciência instintiva". Em outros termos, a política de
ca, fazendo do aprendizado político no espaço fabril uma espécie criação de comissões de fábrica levada a efeito pelos comunistas
não se contraporia à estrutura sindical oficial. Ao contrário, tê-
de rito de passagem da militância comunista.
la-ia reforçado, estreitando os laços de subordinação da classe
Apesar dos diferentes resultados a que chegaram, Costa
operária à política populista. Mais uma vez, as lideranças falha-
aprofunda uma questão assinalada por Wolfe: ambos criticam
riam ao não traçar uma "correta" política de organização capaz
as análises que operam com o corte entre "espontaneísmo" e
de articular tendências espontâneas com enraizamento social
organização dos trabalhadores. Seguindo as pegadas de Weffort,
por meio de lutas que levassem à construção da autonomia sin-
o estudo de José Álvaro Moisés sobre a "greve dos 300 mil" foi
dical e à independência política de classe, rompendo assim com
um dos mais emblemáticos nesse sentido. Notabilizando-se pela
os limites da espontaneidade. 73
destacada atuação das comissões de fábrica e por seu "caráter
de massa", essa greve foi vista por Moisés como uma oportuni-
72
José Álvaro Moisés. Greve de massa e crise política. São Paulo, Polis, 1978,
dade incomum para avaliar o grau de "espontaneidade" ope- pp. 135-6.
rária nela presente e obter "a correta compreensão do papel 73
Conforme afirmou Michelle Perrot, a "espontaneidade" grevista é muitas
jogado pelas lideranças do movimento operário nessa conjun- vezes o resultado da ignorância dos pesquisadores, que só podem ter conhe-
cimento de certas greves no momento em que elas começam, surpreendendo
patrões e empregadores, enquanto os operários não só as aguardavam como
também as planejavam. Michelle Perrot. feunesse de la greve: France, 1871-
71 Hélio da Costa. Em busca da memória, op. cit. 1890. Paris, Seuil, 1984, p. 34.
1

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Vários estudos recentes sobre o período de 1945 a 1964 "aperto dos cintos" e a contenção de greves, a própria imprensa
têm reavaliado sistematicamente a "teoria do cupulismo" inau- do partido registrava a eclosão de vários movimentos grevistas
gurada por Weffort e desenvolvida por um número significati- com ampla participação de militantes comunistas. Estes viam-se
vo de seguidores, questionando os desdobramentos dessa in- na contingência de seguir seus companheiros para não perder
terpretação para explicar o papel do PCB no fortalecimento sua condição de liderança. Mas não se tratava apenas de uma
do populismo e nas desventuras do Golpe de 64. 74 Tais estu- ação a reboque das bases, pois sua inserção, prestígio e legitimi-
dos não se limitam à análise da retórica formal do partido, dade entre parcelas consideráveis do operariado no pós-guerra
seus enunciados e orientações político-ideológicas oficiais, deviam-se à sua capacidade de captar as demandas dos traba-
voltando-se sobretudo para a dinâmica dos militantes do PC lhadores em seu cotidiano, potencializando os conflitos com o
no movimento operário e sua atuação em fábricas, sindicatos Estado e os patrões.
e bairros. Mas há um outro aspecto relevante desconsiderado, entre
No final do Estado Novo, por exemplo, observa-se a exis- outros, por Weffort e Moisés: o da relação entre ativistas do
tência de "dois PCs". Enquanto a cúpula partidária defendia PCB e os sindicatos por eles liderados, o que transcende a su-
uma política de União Nacional e de aliança com Vargas, sob a bordinação às linhas gerais do partido. Muitos militantes acom-
bandeira da democracia, recomendando aos trabalhadores o panharam estreitamente a trajetória de seus sindicatos desde a
sua fundação e fizeram deles instrumentos de defesa dos traba-
lhadores desde o início dos anos 30, em uma sucessão de con-
74 Cf. H. Costa, op. cit.; F. Silva. A carga e a culpa, op. cit.; Negro, "A 'via
junturas que ora os alijavam dos sindicatos, ora favoreciam sua
willyana"', op. cit.; Paulo Fontes. Trabalhadores e cidadãos - Nitro Qufmi·
ca: a fábrica e as lutas operárias nos anos 50. São Paulo, AnnaBlume·Sindi· reconquista. Na conjuntura de 1948 a 1952, por exemplo,
cato dos Trabalhadores Químicos e Plásticos de São Paulo, 1997; A. Fortes muitos militantes recusaram-se a acatar as deliberações do par-
e outros. Na luta por direitos, op. cit.; Marco Aurélio Santana. Partido e tido que determinavam o abandono dos sindicatos oficiais e o
militância sindical. A atuação comunista no Sindicato dos Metalúrgicos do
&o de Janeiro (1947-1964). Rio de janeiro, UFRJ, 1992 (dissertação de aberto confronto com essas "arapucas do governo". Para mui-
mestrado); Idem, Política e história em disputa, op. cit; John Humphrey. tos militantes, tal abandono significava negar uma parte de suas
Controle capitalista e luta operária na indústria automobilística. Petrópolis,
vidas e dar as costas a trajetórias de luta. A partir do segundo
Vozes, 1982; Annez Troyano. Estado e sindicalismo. São Paulo, Símbolo,
1978; josé Ricardo Ramalho. Estado Patrão e luta operária: o caso FNM. governo Vargas, os comunistas não hesitaram em retomar anti-
1
Rio de janeiro, Paz e Terra, 1989; Elina G. Pessanha. "De operários navais gos sindicatos, sem qualquer perspectiva de construção de uma
1
a metalúrgicos". ln Alice Rangel Abreu e Elina G. Pessanha (orgs.). O tra·
estrutura sindical alternativa. Esta, porém, adquiriu uma dimen-
balhador carioca. Rio de janeiro, JC, 1994; Lucília Neves de A. Delgado. O 1
Comando Geral dos Trabalhadores no Brasil: 1961·1964. Petrópolis, Vozes, são política mais ampla do que a imaginada por seus
1
1986. idealizadores, para o que contribuiu a participação efetiva dos
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ativistas do PCB, que se notabilizaram por transformar os sindi- ção para a organização dos trabalhadores nas empresas, opção
catos em efetivo espaço de luta e participação política. 75 que seria o "único fundamento sólido de qualquer perspectiva
Por outro lado, a "teoria do cupulismo" considerou que de reorganização do conjunto do movimento operário em um
os comunistas instrumentalizaram os sindicatos com o obje- sentido democrático e independente". 76 Porém, longe de ter vol-
tivo de "politizar" o movimento operário. Para Weffort, a tado sua atenção para as bases, nas quais depositava suas apos-
prática dos militantes do partido teria se caracterizado como tas, a crítica ao cupulismo lançou suas luzes demasiadamente
uma ação no interior da estrutura sindical corporativista, re- para o alto. O papel correto a ser desempenhado pela classe
forçando-a na medida em que levaria o movimento operário operária viria dos "acertos" das lideranças, muitas das quais
a agir dentro dos marcos oficiais. As "reivindicações econô- passaram a considerar também que, no final das contas, os tra-
micas" e os problemas cotidianos nos locais de trabalho seri- balhadores manifestaram um rosto pálido e carente de uma boa
am subordinados a "objetivos políticos", como na campanha combinação de cores preparada no ateliê da esquerda. 77
pelas "reformas de base". Essa "politização" do movimento Mas a explicação do período, baseada na tese do abando-
sindical o atrelaria ao Estado populista em detrimento da no das bases pelo PCB, não está cabalmente demonstrada. Nos
sólida organização da sociedade civil, afastando as entidades setores da economia controlados pelo capital nacional, o dis-
de cúpula das bases operárias. Por fim, a plataforma naciona- curso aliancista em relação à burguesia doméstica não impe-
lista de aliança com a burguesia doméstica teria concentrado diu crescentes mobilizações e greves levadas a efeito pelos pró-
as forças do sindicalismo nos setores tradicionais da econo- prios trabalhadores. Nos setores "modernos", diversas evidên-
mia e não nas indústrias modernas e privadas. O resultado cias atestam a atuação reivindicatória e organizativa das suas
dessa prática e orientação seria a subordinação do movimen- lideranças nos sindicatos e em comissões eleitas nos locais de
to operário ao populismo, ao qual teria vinculado seu pró- trabalho. 78 Assim, diversas pesquisas contrariam a afirmação
prio destino, levando-os ao mesmo abismo em 1964. O "fra- de Prestes de que "nós não tínhamos capacidade de organizar
casso da esquerda" e, por derivação, da classe operária esta- o partido nas grandes empresas". 79 É uma generalização abusiva
va predeterminado nas características do jogo político urdi-
do pelo Estado e pelo PCB desde 1945.
76
Portanto, o desempenho dos trabalhadores dependia fun- Francisco Weffort. "Democracia e movimento operário: algumas questões
para a história do período (1945-1964)". Revista de Cultura Contemporâ-
damentalmente das avaliações e opções políticas de suas lide- 1
nea, CEDEC, nº 2, 1978, p. 3.
ranças. O sindicalismo "de cúpula" não teria carreado sua atua- 1 "Silva, A carga e a culpa, op. cit., pp. 215-6.
78
1
Cf. nota 77.
79
Citado em Dênis de Moraes. A esquerda e o golpe de 64. Rio de Janeiro,
1
SHélio da Costa. Em busca da memória, op. cit.
7
1
Espaço e Tempo, 1989, p. 37.
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também a afirmação de que nas chamadas empresas tradicio- enraizamento na experiência de classe, e a atuação de militantes
nais e de serviços públicos a mobilização dos trabalhadores intermediários entre bases e "cúpulas" foi fundamental para dar
era mais fácil porque contava com o suposto beneplácito do sustentação ao prestígio desfrutado pelo sindicalismo de inspi-
Estado por este ser, direta ou indiretamente, o patrão. 80 É igual- ração nacionalista. Assim, muitos trabalhadores seguiram ban-
mente questionável o argumento de que invariavelmente os deiras empunhadas por suas lideranças, não a partir de estímu-
sindicatos e as "entidades de cúpula" lideravam "greves políti- los formais; as solicitações dos dirigentes sindicais precisavam
cas" sem consulta às bases e à revelia das "reivindicações ime- de idéias-força, sendo uma delas a dos direitos, mais mobilizadora
diatas" dos trabalhadores. 81 que um vasto programa nacionalista.
Ao contrário das teses que enfatizam a ausência de demo-
cracia no interior do movimento sindical e a dinâmica
manipuladora das lideranças, a confiança de vários trabalhado- GREVES, MIGRANTES E PATERNALISMO INDUSTRIAl/NOVO E VELHO
res em dirigentes sindicais de esquerda provinha sobretudo da SINDICALISMOS
atividade destes junto aos problemas cotidianos de diversas ca-
tegorias profissionais e não da desova ideológico-doutrinária Por outro lado, a teoria do cupulismo abriu um campo de pos-
das orientações partidárias e suas manobras no apertado espaço sibilidades para a profusão de estudos dedicados a breves con-
das lutas palacianas, onde os comunistas pretendiam disputar junturas e greves específicas, 82 aproximando o olhar da realida-
um lugar ao sol com outras forças políticas. As lideranças em de operária de forma mais complexa e captando aspectos que
geral não formavam uma casta à parte, e os trabalhadores não escapavam aos enfoques mais generalizantes, calcados na análi-
eram uma massa manipulada pelos compromissos políticos dos se das determinações estruturais da sociedade brasileira. Por
dirigentes. Os êxitos dos comunistas dependiam de seu caminhos diversos, outros autores têm recentemente investiga-
do movimentos grevistas que serviram de base tanto à teoria do
8ºCf. Silva, A carga e a culpa, op. cit. cupulismo quanto à da modernização.
81Não resta dúvida de que, por exemplo, os portuários de Santos e o Fórum Na reconstituição da "greve dos 400 mil", ocorrida em
Sindical de Debates, que congregava horizontalmente todos os sindicatos da
outubro de 1957 em São Paulo, a análise de Paulo Fontes pro-
Baixada Santista, se envolveram em diversos movimentos com "objetivos po-
líticos", mas foi justamente na conjuntura entre o final dos anos 50 e início
da década de 60 que o movimento sindical da região registrou o maior núme-
ro de reivindicações, conquistas, greves, concorridas assembléias e comissões 82
Ricardo Maranhão. Sindicatos e redemocratização. São Paulo, Brasiliense,
para organizar e fiscalizar as condições de trabalho, contando com ampla 1979; Márcia de P. Leite e Sidney Sólis. "O último vendaval: a greve dos 700
participação das bases nos processos decisórios. Cf. Idem, "Direitos, política mil". Cara a Cara, nº 2. Campinas, 1978; Fábio Munhoz. "Sindicatos, de-
e trabalho no porto de Santos'', op. cit. mocracia populista e a greve de 57". Cadernos CEDEC, nº 2, 1978.

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voca fissuras em cristalizadas construções sobre as relações ordenou a prisão do chefe de segurança dessa empresa e princi-
entre organizações de base, comunistas e sindicatos nos pre- pal agente de repressão ao movimento, tenente Valério, o que
parativos e na condução do movimento. 83 Não obstante suas foi muito comemorado pelos trabalhadores. Tal comportamen-
palavras de ordem de cunho mais pragmático e doutrinário, to do governador não deixou de ter implicações em sua carreira
os militantes do PCB souberam canalizar as demandas operá- política 84
rias originadas nos locais de trabalho e no seio de parte consi- Se os representantes dos trabalhadores recebiam favora-
derável da população atingida pela carestia e pela corrosão velmente todas as ações que pudessem fortalecer a greve, isso
salarial. O Pacto de Unidade lntersindical (PUI), visto em ge- não implicou cooptação e adesão à "demagogia populista",
ral como a versão acabada do sindicalismo cupulista, aparece pois eles estavam cientes do papel que desempenhavam no
como um canal privilegiado de expressão das reivindicações cenário político e buscavam fazer valer seus interesses. O peso
operárias e de indignação contra a política econômica do go- jogado pelos trabalhadores nos embates eleitorais não foi ig-
verno. norado por eles na luta contra o despotismo empresarial e a
Essa greve é ainda um momento privilegiado para entender- repressão policial.
mos a relação entre líderes sindicais e políticos populistas em ~ ~i~â1:11ica história social da política foi muitas vezes
um cenário de lutas em que se expressavam diferentes interes- simplificada, na medida em que as análises enfatizam o hiato
ses de grupos que disputavam o governo do estado. Deflagrada entre a retórica favorável aos operários por parte dos líderes
em um período próximo às eleições estaduais, a "greve dos 400 populistas e sua prática efetiva. Como ocorreu na "greve dos
mil" apresentou uma acirrada competição entre diferentes par- 300 mil'', em 1953, os cálculos eleitorais dos políticos con-
tidos pela conquista do voto operário. Fontes ressalta as inicia- tribuíram para o sucesso do movimento. Para milhares de
tivas do governador Jânio Quadros para atrair a simpatia dos grevistas
grevistas. Com a atenção voltada para o seu futuro político,
Jânio buscou aproximar-se dos dirigentes sindicais a fim de cri- constituía um julgamento político razoável dar crédito aos po-
ar uma base sindical que rivalizasse com o trabalhismo de João líticos populistas por estarem, em certo sentido, a seu lado,
Goulart. Assim, recebeu os grevistas no Palácio do Governo,
forneceu-lhes alimentos e remédios, e, durante a paralisação da 84 Em sua análise sobre as eleições de 1962 para governador em São Paulo,

Nitro Química no subúrbio paulistano de São Miguel Paulista, Weffort assinala que, mesmo após o episódio de sua renúncia à presidência da
República, Jânio ainda manteve a maioria dos votos nos grandes centros ope-
rários, sendo derrotado por Adhemar nas cidades com menor concentração
llPaulo Fontes. "Centenas de estopins acesos ao mesmo tempo". ln A. Fortes. industrial. "Raízes sociais do populismo em São Paulo". Revista Civilização
Brasileira, nº 2, maio/65.
1 Na luta por direitos, op. cit.

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contribuindo para a vitória final da greve. Esse julgamento, dos O papel comumente atribuído aos piquetes em grandes mo-
mais toscos, não podia distinguir entre os amigos verdadeiros e bilizações operárias, como na greve de outubro de 1957, re-
os que simplesmente se declaravam amigos. Contudo, desde fins força a imagem de um sindicalismo fraco e ausente de organi-
da década de 40, os operários paulistas tinham sido bem-sucedi- zação de base. Apesar de sua reconhecida eficácia, eles seriam
dos na utilização de seus votos para punir os políticos, de qual-
um "indicativo do baixo nível de integração sindical da massa
quer partido, que deixassem de satisfazer um teste reconhecida-
operária", enquanto nos países mais industrializados a impor-
mente não-severo demais do tipo "de que lado você está". 85
tância dos piquetes tenderia a diminuir "na medida em que os
sindicatos abrangem a grande maioria da massa operária, se
Vimos também que as formas de organização dessas "greves
fortalecem e se organizam no interior da empresa. Quanto mais
de massa" têm jogado um peso decisivo na compreensão das
desenvolvido o sindicalismo, mais perfunctória é a ação dos
relações entre trabalhadores e populismo. Como observaram
piquetes". 88
Paulo Fontes e Antonio Luigi Negro,86 dois célebres estudos de
Leôncio Martins Rodrigues e Juarez Brandão Lopes analisam Porém, ao contrário desses retratos, Paulo Fontes recupera
ocorrências da greve de outubro de 1957 para demonstrar suas a forte relação de complementaridade entre piquetes e organi-
teses sobre as origens rurais dos trabalhadores no período. 87 Para zações de fábrica. Uma das tarefas dos delegados sindicais elei-
Lopes, a presença de um delegado sindical na Metal Leve em tos nas assembléias fabris era liderar os piquetes, o que exigia
fins dos anos 50 não fazia dele um representante dos operários uma série de requisitos que recaíam sobre os trabalhadores que
que se limitava ao papel de elo de informações entre sindicato e dispunham de experiência militante entre as bases. Os piquetes
trabalhadores envolvidos em uma "organização social rudimen- foram um importante instrumento de organização e comunica-
tar". A adesão à greve de 57 não poderia ser traduzida em soli- ção entre os grevistas contra os abusos patronais, pois neles "o
dariedade de classe, pois esta não se expressava em ações for- trabalhador isolado sentia-se mais forte, adquiria um senso de
malmente organizadas que envolvessem o conjunto dos traba- coletividade e identidade com seus companheiros". Os grandes
lhadores. piquetes, reunindo milhares de grevistas, levavam o conflito para
as ruas dos bairros, angariavam adesões entre a população, fun-
85].French. O ABC dos operdrios, op. cit., pp. 262.-3. cionavam como meio de defesa contra ataques policiais e repre-
86A. Negro e P. Fontes. "Trabalhadores em São Paulo: ainda um caso de polí- sálias dos patrões, reforçavam redes de solidariedade e de iden-
cia", op. cit. tidade de classe. Em síntese, ao contrário de refletir fragilidade,
87Leôncio Martins Rodrigues. Conflito industria/ e sindicalismo no Brasil.

São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1966; juarez Rubens Brandão Lopes.
"O ajustamento do trabalhador à indústria: mobilidade social e motivação".
ln Sociedade industria/ no Brasil, op. cit. 1 ºRodrigues, op. cit., p. 76.

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os piquetes foram uma demonstração de unidade e força dos dições de trabalho, possibilidades de promoção e aquisição
trabalhadores, revelando a presença de delegados sindicais, co- de uma profissão na indústria significavam "a realização de
mitês e células nas fábricas, bem como a existência de articula- ambições que animam o proletariado". A suposta falta de
ções entre local de moradia e de trabalho. 89 experiência de classe dos trabalhadores de origem rural e a
Uma minuciosa reconstituição da greve com base em novas maneira pela qual a empresa "equacionava" tais expectativas
e antigas fontes pode oferecer uma alternativa às afirmações de individuais faziam com que o sindicato aparecesse "como uma
Rodrigues, que, baseado em uma entrevista, concluiu que os instituição desnecessária", exceto em suas funções assisten-
operários da indústria automobilística Willys-Overland do Bra- ciais.91
sil não haviam aderido à greve de 57 de moto próprio e que "os Antonio Negro reconstituiu a trajetória dos trabalhadores
piquetes não desejavam obter sua adesão, mas ameaçar o pa- nessa mesma empresa (adquirida pela Ford em 1967) desde a
trimônio das firmas". 9º Os estudos de Antonio Negro reavaliam sua implantação até o fim dos anos 80. 92 O autor identifica
não apenas as generalizações do autor a partir da ocorrência uma peculiar política de recursos humanos que, de fato, bus-
dessa greve, mas também o próprio conjunto de suas afirma- cava inibir os conflitos e a mediação sindical nas relações de
ções, que formou um paradigmático arcabouço analítico sobre
o sindicalismo no período.
trabalho por meio de um conjunto de medidas e benefícios
~r
superiores à média aplicada no mercado de trabalho. Porém, i
Ao estudar os trabalhadores da Willys, Rodrigues genera- ao perseguir as origens de uma tradição de militância sindical
lizou sobre o processo de integração da "nova classe operá- no local de trabalho, Negro não endossa as análises que carac-
ria" à industrialização. Salários mais elevados, melhores con- terizam as primeiras gerações operárias como presa fácil da
dinâmica industrial e dos esquemas empresariais de domina-
89 Em outro estudo, Fontes analisa a importância dessa greve entre os traba- ção da força de trabalho. É certo que os ativistas do Sindicato
lhadores da Nitro Química, em São Miguel Paulista, representando uma forte
dos Metalúrgicos de São Bernardo, fundado em 1959, recla-
alteração nas relações de reciprocidade entre a empresa e seus empregados,
construídas a partir de uma política de benefícios e de recursos simbólicos mavam repetidamente da dificuldade de recrutamento de as-
que ofereciam a imagem de uma "empresa familiar" e nacional a serviço do sociados e lamentavam a baixa presença dos trabalhadores das
progresso do país. Se essa imagem já vinha sendo desgastada, a greve de 57 a
abalaria profundamente. Liderados por militantes comunistas, os trabalhado-
grandes empresas no sindicato. Por outro lado, é possível iden-
res da empresa entraram a seguir em um período de crescente organização e
luta por direitos, ao mesmo tempo que dinamizaram a atuação do Sindicato
91
dos Trabalhadores Químicos de São Paulo, situando-o como um dos mais Rodrigues, op. cit., pp. 117-8.
92
combativos sindicatos paulistas até o golpe de 1964. Fontes, Trabalhadores e A. L. Negro. A via "willyana", op. cit.; "Servos do tempo". ln Glauco Arbix,
cidadãos, op. cit. e Mauro Zilbovicius (orgs.). De JK a FHC: a reinvenção dos carros. São Pau-
9ºCf. A. Negro e P. Fontes, op. cit. lo, Scritta, 1997.

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tificar um persistente esforço dos ativistas no interior da fábri- sindicalismo, podendo ser vista como um elo entre o pré-e o
ca, buscando transformar a lógica de reciprocidade em instru- pós-64.
mento de mobilização. 93 Assim, antes mesmo de 1964, os trabalhadores criaram "for-
Ao comprar a Willys, a Ford obtinha não apenas uma linha mas de sociabilidade e identidade, demarcaram alianças, diferen-
de produtos testada no mercado, mas também o legado de uma ças, espaços e tempos próprios, forjando uma 'cultura fabril'
laboriosa luta pela organização dos trabalhadores na fábrica, o marcada por uma forte noção de dignidade operária, mote da
que se tornaria visível meses depois em uma greve que paralisou mobilização sindical dos anos 70 e 80". 94 Contrariando as
a sua nova fábrica em São Bernardo por três dias. Esse movi- lamentações sobre a passividade do operário de origem rural, a
mento permite ao autor fazer uma revisão das teses sobre um unidade fabril da Willys foi um dos nascedouros de uma forte ver-
sindicalismo ausente e uma classe operária dócil, que dificil- tente do sindicalismo nacional recente. A reconstrução dessa expe-
mente romperia com a perspectiva individualista da ascensão riência e suas linhas de continuidade foi possível em razão da aná-
social em favor dos interesses coletivos. Se as greves de 68 fo- lise do funcionamento do "sistema auto de dominação", elabora-
ram lidas por parte da historiografia como um marco inaugural do pela empresa, mas reelaborado pelos trabalhadores, que lhe
de um "novo sindicalismo'', reforçado dez anos depois pelas conferiram um significado próprio a partir de sua cultura fabril. 95
explosões grevistas dos trabalhadores metalúrgicos, Negro su- A crítica ao ocultamento de significativas experiências da
gere que a greve de 68 na Willys foi possível graças ao encontro história dos trabafhado~es no pré-64, portanto, tem se reforça-
em uma mesma fábrica de diferentes modos de se fazer do em estÜdos que questionam as bases sobre as quais foi
construída a oposição entre "novo" e "velho" sindicalismos. A
93 Ricardo Ramalho também mostrou que os trabalhadores da FNM, submeti-
iâéntidade e auto-afirmação do novo foram erigidas em oposi-
dos a um modelo industrial paternalista combinado com uma disciplina mili- ção e negação ao período anterior ao golpe militar, marcado
tar fabril, não deixaram de criar uma experiência de conflitos a partir da
própria lógica de reciprocidades. Regina Morei analisou a interiorização da
ideologia paternalista entre os operários da CSN, mas revelou também que a
incorporação dos valores professados pela empresa criou uma ética do traba-
94
A. Fortes e A. Negro. "Historiografía,trabajo y ciudadanía en Brasil". ln
lho que fundamentou uma "economia moral" de expectativas de direitos e Entrepasados, nº 15, Buenos Aires, 1998. Sobre o tema da dignidade, cf. Laís
reconhecimento da dignidade, permitindo a emergência de um senso de in- W. Abramo. "Greve metalúrgica em São Bernardo: sobre a dignidade do tra-
justiça capaz de romper com o pacto de reciprocidade. J. R. Ramalho, Es- balho". ln Lúcio Kowarick (org.). As lutas sociais e a cidade, op. cit.
95
tado-patrão e luta operária, op. cit.; Idem, "Empresas estatais de primeira 0 autor opera com o conceito de "cultura fabril" formulado por Leite Lopes.
geração: formas de gestão e ação sindical". ln: A. Abreu e E. Pessanha. O Essa cultura expressa "desde a reação e a resposta ao despotismo da hierar-
trabalhador carioca, op. cit.; Regina L. M. Morei. "História incorporada e quia da administração fabril até a reinterpretação e reambientação criativas
identidade coletiva entre trabalhadores aposentados da Companhia Siderúr· das duras condições de vida e de trabalho na fábrica". A tecelagem dos confli-
gica Nacional". ln Idem. tos, op. cit., pp. 83-4.

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pela imagem do cupulismo da esquerda e da subordinação dos ques que apenas se sucedem no tempo, sem relação entre si, a
trabalhadores ao populismo, atribuindo-lhe um perfil. que se não ser de negação absoluta". 98
tornou dominante no meio acadêmico e sindical. Muitos dos estudos aqui apresentados procuraram recom-
Ao analisar os. metalúrgic~~,- fe~~~~·fá"~iÔs-e bancários do por o período de 1930 a 1964 por meio da desconstrução de
Rio de Janeiro entre fins dos anos 50 e início da década de 60, certos mitos que têm enfocado o problema da participação po-
Marcelo Badaró revelou "greves participativas, organizadas a lítica dos trabalhadores e suas instituições no dilema do
partir do local de trabalho e com integração viável entre de- entrecruzamento de um Estado "perverso" e de uma sociedade
mandas políticas gerais e bem-sucedidos encaminhamentos de civil "vitimizada" pelos excessos do poder público que teria ca-
reivindicações econômicas". 96 Estendendo sua investigação até racterizado a "era Vargas". À procura da resposta para explicar
os anos 80, Badaró apresenta flagrantes linhas de continuida- o que estava errado com a sociedade brasileira e, por derivação,
de entre novo e velho sindicalismos, chamando a atenção para com a classe operária, muitos autores teriam encontrado a cha-
as implicações políticas de um outro olhar em direção ao pas- ve da nossa cambaleante cidadania em relações sociais estru-
sado.97 A esse respeito, Marco Aurélio Santana observou que, turadas por valores culturais que tenderiam a priorizar os as-
além das diferenças e novidades das práticas políticas e pectos integradores, comunitários e cooptativos em detrimento
organizativas dos trabalhadores, a identificação das continui- do conflito, da competição e da disputa de interesses. Na ver-
dades pode contribuir para que setores de esquerda compre- tente das interpretações que enfatizam os aspectos políticos e
endam melhor "a trajetória de conformação de sua própria ideológicos das relações de classe, a emergência dos conflitos
tradição, de forma um pouco mais desarmada e menos sectá- foi, em parte, desativada pela manipulação de lideranças
ria", superando as divisões de sua história "em blocos estan- populistas e da esquerda, ambas reforçando-se mutuamente por
acreditarem que as transformações sociais seriam o resultado
da intervenção do poder estatal. Muitos trabalhos procuraram
96Marcelo Badaró Mattos. Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro
interrogar, contudo, o que não ia bem com esses modelos de
(1955-1988). Rio de Janeiro, Vício de Leitura, 1999.
97Leite Lopes e Maria R. Alvim já haviam mostrado como as greves de 1980 análise. Mais do que a sociedade que pretendiam explicar, tais
tinham conexão com as "lutas do passado". "Metalúrgicos do Rio e Niterói: modelos é que pareciam ser responsáveis pelo ocultamento de
ligações entre os conflitos de 1980 e as lutas do passado". ln: Aconteceu.
Trabalhadores Urbanos no Brasil/1980, especial 7, pp. 20-3. Em seu estudo
uma dinâmica de lutas e diferenças capaz não apenas de suplan-
sobre operários navais e metalúrgicos cariocas, Elina Pessanha reconstituiu a tar a lógica da acomodação, da aquiescência e da reciprocidade,
trajetória de trabalhadores socializados profissional e politicamente no pré- mas também de utilizá-la material e simbolicamente contra os
64, formando uma "geração sociológica" que conduziu um processo de con-
tinuidade de lutas marcadas pela retomada de direitos perdidos após o golpe.
"De operários navais a metalúrgicos'', op. cit. 98
Santana, "O 'novo' e o 'velho' sindicalismo", op. cit., p. 24.

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princípios, as intenções e os atores que pretendiam castrar aquela valores da "cultura operária" com os apelos da ideologia for-
dinâmica. mal dos industriais e do Estado. Trata-se, assim, do desafio de
Por desencanto com as grandes sínteses analíticas, diversos encontrar sínteses alternativas que escapem aos impasses teó-
pesquisadores têm levado a teoria a ceder espaço para inúmeros ricos e políticos das generalizações empreendidas pelas pri-
estudos empíricos que ampliaram o espectro das fontes meiras gerações acadêmicas que investigaram a história da classe
pesquisadas (processos na Justiça do Trabalho, correspondên- operária.
cia diplomática, acervos policiais, entrevistas, documentos em- Novos desafios se impõem diante das lacunas deixadas pela
presariais, atas de sindicatos, memórias de militantes, cartas de falta de estudos comparativos com outros fenômenos dentro e
operários enviadas ao governo federal, material produzido por fora da América Latina, que permitiriam uma melhor compre-
arquivos de políticos) e reavaliaram a utilização de fontes tradi- ensão das peculiaridades e semelhanças da experiência brasilei-
cionalmente empregadas, tais como grande imprensa e jornais ra em relação a outras realidades históricas. 99 Pouco saberemos
operários. Por outro lado, o acúmulo de trabalhos recentes está sobre a história do período sem a investigação também acerca
longe de esgotar as possibilidades de investigação do período de outras cidades e regiões para além de localidades situadas no
de 1930 a 1964. Ao contrário, podemos enumerar algumas ca- Sul e Sudeste do país. Se contamos com diversos estudos sobre
rências. o "populismo getulista e janguista", muito resta saber, por exem-
Vista em seu conjunto, essa recente produção acadêmica plo, a respeito do janismo e do adhemarismo. 100 As críticas à
muda profundamente o panorama historiográfico e oferece tese da origem rural dos trabalhadores ainda carecem de uma
uma visão alternativa sobre a classe operária nos "anos
melhor reconstituição sobre a relação entre a "nova classe ope-
populistas". Entretanto, poucos têm sido os esforços nos tra-
rária" e os "antigos operários" urbanos. A partir de uma abor-
balhos individuais no sentido de apresentar uma análise que
dagem capaz de romper com o pressuposto de uma história au-
aglutine e articule os seguintes aspectos: reconstituição de longo
sente de conflitos no campo, trata-se de analisar como os
prazo sobre a relação entre poder local e nacional; efetiva
migrantes se organizavam nos bairros, criavam instituições ba-
interdisciplinaridade capaz de envolver diferentes métodos e
gêneros de abordagem; cruzamento entre as experiências no
"chão da fábrica", nos bairros, partidos e sindicatos; tensões e 99
Para urna comparação entre o corporativismo brasileiro e italiano, cf. Hall,
acomodações entre "cultura fabril" e esquemas empresariais Corporatism, Fascism, and the Origins of Brazilian Labor Law, op. cit.
100
de controle da força de trabalho dentro e fora das fábricas; Cf. Silvana Maria de M. Walmesley. Origens do ianismo. São Paulo, 1948-
1953. Campinas, IFCH/Unicamp, 1992 (dissertação de mestrado); Vera Chaia.
relação entre classe, cultura e gênero; conexões entre a vida A liderança política de Jânio Quadros (1947-1990). Ibitinga, Humanidades,
pública e privada de trabalhadores e militantes; interseção dos 1991.

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TRABALHADORES URBANOS E POPULISMO
O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

seadas em tradições regionais e incorporavam valores urbanos Apesar disso, procuramos mostrar aqui que, em diferentes
em sua cultura. 101 conjunturas, o populismo não deixou de ser um espaço de lutas
Por fim, apesar de bastante mencionadas, a repressão e a vigi- políticas e econômicas dos trabalhadores, tornando-se um cam-
lância policial e patronal parecem ter sido naturalizadas, dando- po, portanto, mais complexo e dinâmico do que pressupunham
nos a impressão de que mesmo sem elas bastaria a "ideologia as teses que reforçavam a imagem de uma classe operária passi-
populista" para exercer efeitos desagregadores entre a classe ope- va e manipulada pelo Estado. Os trabalhadores foram capazes
rária. Assim, precisamos conhecer melhor as irreconciliáveis per- de superar, em diferentes momentos, os obstáculos colocados
cepções e sensibilidades de trabalhadores e militantes quanto à sua pela legislação sindical e trabalhista - entendida aqui também
memória sobre os "anos populistas", uma vez que a experiência no como um terreno de disputas. Instituíram na prática ainda uma
cárcere e a "convivência cordial" com o poder podem sugerir dife- legítima representação de seus interesses, na medida em que o
rentes registros sobre a política no período. Como observou John populismo não era tido invariavelmente como um fechado e
French, o populismo era um "sistema sofisticado, criador simultâ- acabado sistema de dominação, mas como um aberto e
neo do corpo da lei (e de um espaço para o alcance, com lutas, de indeterminado jogo político que implicava barganhas políticas
seus interesses) e de agências policiais especializadas, controladas e e evidentes conquistas de direitos.
parcialmente financiadas pelos industriais para ter os 'seus'
fichados".tº2A questão está em estabelecermos as tensões e ambi-
güidades entre, de um lado, o "processo civilizatório" que os tra-
balhadores foram em parte capazes de impor aos patrões e ao po-
der público, e a "violência institucionalizada" de que os políticos
no poder jamais abriram mão. 103

101sobre a reconstituição da história das lutas no campo sob um novo enfoque,


d. Wekh, op. cit.; Anthony W. Pereira. The end of the peasantry: the rural
labor movement in Northeast Brazil, 1961-1988. Pittsburgh, University of
Pittsburgh Press, 1997; Leonilde S. Medeiros. História dos movimentos soci-
ais no campo. Rio de Janeiro, Fase, 1989; Regina C. R. Novaes. De corpo e
alma: catolicismo, classes sociais e conflitos no campo. São Paulo, FFLCH/
USP, 1987 (tese de doutorado).
t02french, "Pensar a América Latina", op. cit., p. 193.
I03Paulo Sérgio Pinheiro. Estratégias da ilusão. São Paulo, Companhia das
Letras, 1991.

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Classe trabalhadora e
populismo: reflexões a partir
de duas trajetórias sindicais no
Rio de Janeiro
Elina G. da Fonte Pessanha
Regina Lúcia M. Morei

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1

INTRODUÇÃO

As análises sobre o movimento sindical no período democráti-


co de 1945-1964, comparado em geral com o sindicalismo
combativo e mobilizador das duas primeiras décadas do século
XX, podem, grosso modo, ser agrupadas em dois grandes eixos:
de um lado, aquelas que privilegiam a modificação na composi-
ção étnica e profissional da classe operária brasileira, marcada
pela crescente participação de elementos nacionais, de origem
rural, semiqualificada e não-qualificada, habituados a um siste-
ma patriarcal de dominação que dificultaria a formação de uma
consciência operária e a integração na sociedade urbano-indus-
trial; de outro, aquelas que enfatizam o papel da estrutura sin-
dical corporativista no controle e desmobilização do movimen-
to operário, responsável pelo fenômeno do peleguismo, pela
burocratização dos sindicatos, convertidos em elementos de con-
ciliação de conflitos. Assim, o movimento sindical, articulando-
j.
se naquele momento principalmente em torno de reivindica-
ções econômicas, de cunho salarial, e incorporando, ao mesmo
tempo, na cúpula, funções políticas de base de sustentação do

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

regime, atuaria como elemento de reforço da estrutura ber os nexos analíticos entre essas esferas, a ação sindical e a
corporativista, dificultando o acesso dos trabalhadores à plena expressão desses interesses na arena político-institucional mais
cidadania. ampla.
Se tais análises - e o debate entre elas - contribuíram Neste contexto, estudos empíricos sobre o movimento ope-
decisivamente para a caracterização das várias dimensões do rário e sindical de categorias específicas de trabalhadores po-
sindicalismo do período, tenderam a apresentar uma caracte- dem enriquecer o debate à medida em que procurem articular
rização por demais generalizante e homogeneizadora de al- características da formação de um setor do operariado com a
guns aspectos, enfatizando, por exemplo, a influência exclusi- vivência de situações específicas de dominação na esfera fabril e
vamente negativa que as características culturais dos trabalha- de condições de reprodução com formas particulares de ação
dores, bem como a CLT, a vinculação com o Estado e com sindical e política. Certamente, reflexões que se preocupem tanto
partidos políticos teriam exercido sobre a mobilização da clas- com as formas concretas da dominação do capital sobre o tra-
se operária, sobre suas demandas e os mecanismos de sua cons- balho, a nível das unidades produtivas, quanto com as caracte-
trução. rísticas sociais e culturais de um grupo operário abrem um novo
Refletindo sobre a especificidade do "novo sindicalismo" e campo de análise: mais do que apontar os caminhos e
os movimentos sociais, a produção brasileira de ciências sociais descaminhos do sindicalismo a partir de visões muitas vezes
essencialistas da classe operária, busca-se compreender a atua-
a partir dos finais da década de 70 teve como contribuição prin-
ção concreta de sindicatos específicos em contextos históricos
cipal o fato de assinalar as múltiplas determinações dos interes-
determinados.
ses de classe. Além disso, colocando em novas bases a questão
Com esta preocupação, analisaremos neste texto as trajetó-
da heterogeneidade da classe operária e apontando para canais
rias da atuação sindical de duas categorias de trabalhadores do
diferenciados de expressão política, estes estudos incorporaram
Rio de Janeiro - os operários navais e os da indústria siderúr-
ao debate a análise das condições de vida e do mundo fabril. O
gica - que, a nosso ver, são bastante expressivas da experiência
problema é que, ao criticarem as visões anteriores que homo-
sindical no período considerado. Embora representem duas tra-
geneizavam a classe operária e privilegiavam o espaço sindical e
dições distintas do sindicalismo fluminense - os operários na-
partidário como canais exclusivos de manifestação política, es-
vais, o sindicalismo "pioneiro" da Primeira República; os traba-
tas análises mais recentes acabaram, às vezes, por "jogar fora a
lhadores da siderurgia, a fase posterior de um sindicalismo dire-
criança com a água do banho": enfatizaram-se a fragmentação
tamente atrelado ao Estado -, ambos foram considerados im-
das práticas políticas, os múltiplos espaços de resistência e for-
portante base de apoio de sucessivos governos e ilustres repre-
mação de identidade, negligenciando-se a tentativa de perce-
sentantes do sindicalismo corporativista.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Ao mesmo tempo, estas categorias de trabalhadores e os se- setor siderúrgico, contribuindo com cerca de 50% da produção
tores a que pertencem refletem as particularidades do processo nacional.
de industrialização regional que, contrariamente ao modelo O texto está dividido em quatro partes: na primeira, faze-
paulista de associação com o complexo exportador de café, teve mos um breve retrospecto do movimento operário e sindical
suas origens ligadas ao comércio importador e ao capital finan- no Rio de Janeiro, procurando discernir rupturas e continui-
ceiro. Em ambos os casos, a proximidade física com órgãos do dades entre o sindicalismo do início do século e aquele do
go~erno sediados na então capital do país só fez acentuar o pa- período posterior; a seguir, são discutidos os casos do
pel do Estado nesse processo. sindicalismo dos operários navais e dos da siderurgia, repre-
A indústria naval brasileira sempre se concentrou no Rio de sentados pelos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Naci-
Janeiro, onde surgiu ligada às atividades de construção e repar~ onal. Na última parte, tecemos algumas considerações finais,
das embarcações de companhias de comércio e de navegação de procurando demonstrar a complexidade da relação entre Es-
cabotagem, e cresceu sob influência direta das políticas estatais tado e classe trabalhadora no Brasil, bem como seus possíveis
aduaneiras e de transporte. Quando do impulso à construção desdobramentos futuros.
naval, no final da década de 50, foi também nestas região que se
concentrou a maioria dos projetos implementados, responsá-
veis por mais de 90% do volume total de embarcações entre- CLASSE TRABALHADORA DO RIO: PRIMÓRDIOS DA EXPERIÊNCIA
gues entre 1961 e 1974 no país. SINDICAL E POLÍTICA
Também no Rio de Janeiro localizaram-se na década de 40
as iniciativas precursoras da atuação do Estado enquanto pro- Há alguns aspectos a destacar sobre os primeiros tempos da
dutor direto. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), criada história política dos trabalhadores do Rio de Janeiro, como vá-
em 1941, na ditadura varguista do Estado Novo, representou rios autores já o fizeram. Em primeiro lugar, é bom lembrar que
um estímulo à produção industrial fluminense, então em declínio, formas embrionárias de mutualismo já estavam presentes du-
convertendo o Vale do Paraíba num importante pólo industrial. rante o século passado, refletindo movimentos de resistência,
Embora já existissem empresas siderúrgicas de pequeno e mé- fundamentalmente europeus, ao avanço - e aos danos sociais e
dio porte no país, a CSN será, até a implantação da Cosipa culturais - do capitalismo. Destacam-se igualmente as caracte-
(1964) e da Usiminas (1963), a única empresa produtora de rísticas de trabalhadores resistentes à ética industrial e de mer-
aços planos, contribuindo decisivamente para o incremento da cado, expostos às crescentes oportunidades de ocupação no se-
participação do Rio de Janeiro no setor. A partir de 1948 e por tor de serviços, e que participavam de movimentos políticos
mais de uma década, esse estado passa a liderar a produção do poli classistas.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Mais para o final do século XIX, a resistência operária ga- novo Partido Operário do Brasil, de expressão nacional pouco
nha novos contornos, e essas primeiras associações começam a duradoura. 2
ser progressivamente substituídas por "sociedades de resistên- O século XX inaugura, por sua vez, um período de mui-
cia", correspondendo em grande parte ao crescimento absoluto tas lutas e de ampliação do movimento operário num cená-
de operários no país, à sua concentração em unidades de pro- rio de disputas ideológicas em que, além dos anarquistas e
dução cada vez maiores e à influência de trabalhadores de ori- socialistas disputando-lhe a hegemonia, havia o chamado
gem estrangeira absorvidos pela indústria nacional. O próprio "sindicalismo amarelo", certamente a corrente mais repre-
movimento republicano tem apoio de uma frente operária, da sentativa do que Boris Fausto 3 chamou de "pragmatismo po-
qual faziam parte os trabalhadores do setor público, um dos lítico" da classe trabalhadora, por conseguir avançar pelos
ramos mais importantes do operariado do Rio de Janeiro, e que amplos espaços de negociação existentes no quadro da socie-
se interessava explicitamente pela oportunidade de ampliação dade do Rio de Janeiro."'
das liberdades civis. Vários jornais operários surgem então - Por volta de 1903, fundaram os trabalhadores do Rio de
como, por exemplo, no Rio, o Echo dos Artistas, a Revista Janeiro a Federação das Associações de Classe, que passou mais
Tipographica, o Proletario, além da Gazeta dos Operários (1875) tarde a se chamar Federação Operária Regional Brasileira.5 Em
e O Artista (1883). 1 1906, indicando o papel de vanguarda dos trabalhadores da
Essa é, na verdade, uma época de grande efervescência po- capital do país, realizava-se o, 1 Congresso Operário Brasileiro,
lítica e de difusão das idéias socialistas no país, marcando a ex- no Rio de Janeiro, com a participação de inúmeras organiza-
periência política dos trabalhadores locais. Paralelamente, há ções de trabalhadores. Nesse Congresso, consolidou-se a influ-
tentativas de criar organizações partidárias: após o esforço de ência anarco-sindicalista sobre o movimento operário e apro-
lançamento, em 1889, do Círculo Socialista, em Santos, e do vou-se, à revelia da posição socialista de formar um partido
Centro das Classes Operárias, no Rio de Janeiro, instala-se nes-
ta última cidade, em 1890, o primeiro Partido Operário brasi- 2
Francisco Foot e Victor Leonardi. História da industrialização e do trabalho
leiro (vinculado à II Internacional), cujo jornal, o Echo Popular, no Brasil. São Paulo, Global, 1982.
defendia, desde o primeiro número, a necessidade de luta dos 3
Boris Fausto. Trabalho urbano e conflito industrial (1890-1920). São Paulo,
próprios trabalhadores em defesa de seus interesses. Em 1892, Difel, 1976.
•Angela de Castro Gomes e Marieta Ferreira. "Industrialização e classe traba-
grupos socialistas de todo o país se reúnem no Rio e criam um lhadora no Rio de Janeiro". São Paulo, BIB, vol. 24. 1987; Cláudio H. M.
Batalha. Le syndicalisme "amarelo" à Rio de Janeiro (1906-1930). Tese de
doutoramento apresentada à Universidade de Paris 1, 1986, mimeo.

l 'José Murilo de Carvalho. "República e cidadanias". ln Dados, vol. 28, nº 2 5


Evaristo de Moraes Filho. O problema do sindicato único no Brasil - seus
e Os Bestializados. São Paulo, Companhia das Letras, 1987. fundamentos sociológicos. São Paulo, Ed. Alfa-Ómega, 1978 (1 ªedição de 1952).

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

político, a criação da Confederação Operária Brasileira, nos ria, por parte de um grupo, a negação das posições libertárias
moldes da CGT francesa. Foi também um momento de intensa anteriores e a adesão à III Internacional. Depois da Revolução
movimentação grevista. 6 Soviética de 17, surgiram as primeiras ligas comunistas no Rio
Do II Congresso Operário Brasileiro, em 1912, participa- Grande do Sul; criou-se um Partido Comunista Anarquista,
ram váriàs-Ieâerações e sindicatos, entre os quais a Federação aqui no Rio, em 1919. O Partido Comunista do Brasil foi afi-
Operária do Rio de Janeiro e o Círculo Operário Fluminense, nal fundado em março de 1922, e daí para a frente passou a
de Niterói.7 Predominavam, até então, associações de trabalha- exercer crescente influência sobre os trabalhadores e suas as-
dores por ofício (sindicatos profissionais), que foram os mais sociações.
comuns no período, e os sindicatos por localidade (reunindo Após a Revolução de 30, os critérios de articulação do siste-
trabalhadores de vários ofícios). 8 ma de "sindicato único" começaram progressivamente a se im-
De 1914 a 1917, a Primeira Guerra Mundial provocou um por em bases territoriais. 9 O período de 1934 a 1945 foi, sem
refluxo do movimento grevista e político da classe trabalha- dúvida, o da consolidação, por parte do Estado brasileiro, do
dora. A greve geral de 1917, mobilizando mais de 50 mil tra- controle sobre o operariado do país. Nesse processo, os princí-
balhadores, e a ação incansável dos militantes anarquistas sus- pios de autonomia e pluralidade sindicais da Constituição de 1
,I·

tentaram, entretanto, o movimento operário até 1920, quan- 34 não garantiram a livre atuação do movimento operário, e
do se realizou o III Congresso Operário Brasileiro, também no com o Estado Novo, em 1937, o Estado assumiu abertamente
Rio. Esse foi o período em que se registraram a perseguição e sua feição corporativa, disciplinando as atividades sociais em
deportação de inúmeros líderes operários estrangeiros, a re- geral. 10
pressão a trabalhadores e suas associações, e também a forte A massa trabalhadora reagiu inicialmente a esse controle
dissensão no seio do movimento anarquista, da qual resulta- com o afastamento dos sindicatos, mas o decreto-lei de 1940,
instituindo o imposto sindical, e uma grande campanha de
sindicalização tentaram responder a esse movimento de reflu-
6Paulo Sérgio Pinheiro e Michael Hall. A classe operária no Brasil. São Paulo, xo. Após os embates em torno da formulação da CLT e do
Ed. Alfa-Ómega, 2º volume, 1981. papel de controle do Ministério do Trabalho, reforçaram-se
100 Rio de janeiro participaram, dentre outros: o Centro dos Operários
Marmoristas, Sindicato dos Sapateiros, Sindicato dos Carpinteiros, Sindi- finalmente os fundamentos da nova regulação das relações de
cato dos Estucadores, Associação dos Empregados Barbeiros e Cabeleirei-
ros, União Geral dos Pintores etc. Evaristo de Moraes Filho. op. cit., p.
9
194. Evaristo de Moraes Filho. Op. cit.
1 BAzis Simão. Sindicato e Estado: suas relações na formação do proletariado 10
Luiz Werneck Vianna. Li~ralismo e sindicato no Brasil. Rio de Janeiro, Paz
de São Paulo. São Paulo, Dominus, 1966. e Terra, 1976.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

trabalho no país. "Inventava-se" o trabalhismo, 11 com suas TRAJETÓRIAS SINDICAIS E EXPERIÊNCIAS DE CLASSE NO PERÍODO
práticas, instituições, expressão partidária (o Partido Traba- 1945-1964

lhista Brasileiro). OS OPERÁRIOS NAVAIS, TRADIÇÃO COMBATIVA E POPULISMO


O fim do Estado Novo não alterou significativamente a
situação dos trabalhadores brasileiros. A repressão, inclusive Os operários navais do Rio de Janeiro, como analisado ante-
salarial, se estendeu pelo período Dutra e marcou também o riormente, 14 têm uma longa trajetória de atuação sindical e
início do segundo governo Vargas. Intervenções sindicais atin- participação política na história das lutas de trabalhadores
giram centenas de associações, em 1945 e 1947, afastando no- em nosso país, já que desde o início da colonização portu-
vamente a maioria dos trabalhadores de suas práticas guesa as companhias de navegação e os estaleiros emprega-
associativas. vam escravos e homens livres (brasileiros, portugueses e es-
No final de 1951, entretanto, durante seu segundo gover- panhóis) no reparo e construção de embarcações. A es-
no, Vargas concedeu um significativo aumento do salário míni- pecificidade do processo de trabalho dessa craft industry agre-
mo, congelado desde 1943. Daí para a frente, viveu-se também gava à relevância da qualificação e da criatividade da mão-
uma época de maior tolerância política com os trabalhadores e de-obra a dureza de condições de trabalho altamente insalu-
seus sindicatos, progressivamente mobilizados em torno da bres e perigosas, e os grupos de ofício sob tutela de seus "mes-
melhoria de suas condições salariais, de vida e de trabalho. As- tres" se consolidaram de forma relativamente autônoma, bem
sim, tanto a disposição de fazer valer os interesses operários estruturada e defensiva.
quanto a tradição de negociação entre a classe trabalhadora e as Já no século XVIII, quando se instalaram os primeiros arse-
autoridades públicas no Rio de Janeiro12 se atualizariam através nais de Marinha, tinha-se notícia de movimentos de resistência
da lógica de reciprocidade do trabalhismo getulista: a valoriza- dos trabalhadores ligados à navegação e aos portos brasileiros. ts
ção do trabalho e do trabalhador no interior do projeto do Es- Com a presença da corte portuguesa no Brasil e a abertura dos
tado, por um lado, as alianças políticas articuladas pelos suces-
sivos governos, por outro. 13
14
Ver Elina Pessanha. "De operários navais a metalúrgicos: experiência de
classe e identidade política entre trabalhadores da construção naval do Rio
de Janeiro." ln Elina Pessanha e Alice Abreu. O trabalhador carioca. Rio de
11Angela de Castro Gomes. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro, Vérti· Janeiro, J.C. Ed., 1995 e, da mesma autora "Niterói operário". ln Ismênia
Martins e Paulo Knauss. Cidade múltipla - temas da história de Niterói. Rio
ce/IUPERJ, 1988.
de Janeiro, Niterói Livros, 1997.
12José Murilo de Carvalho. Op. cit. 15 Francisco Foot e Victor Leonardi. Op. cit.
13Angela de Castro Gomes. Op. cit.

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portos no início do século XIX, a indústria naval ganhou novo - sob pressão de fortes interesses internacionais atuantes no
impulso, e a partir de 1845 instalaram-se no Rio os primeiros plano do comércio exterior - com a formulação de políticas
grandes estaleiros privados do país, como o de propriedade do para o setor. No plano sindical, o século inaugurou uma fase de
empreendedor Barão de Mauá, e o estaleiro Caneco (1866). muitas lutas dos operários navais, de ampliação e articulação de
Esse foi também o período em que se formaram as chamadas seu movimento, presentes como estiveram nos Congressos Ope-
associações mutualistas de trabalhadores, como a União Benefi- rários realizados no Rio, em 1906 (com a Liga dos Carpinteiros
cente dos Operários da Construção Naval, surgida em 1884. e Calafates Navais local), em 1913 (quando se registra a partici-
Manifestações da insatisfação operária foram registradas no Rio, pação do Sindicato Operário dos Caldeireiros de Ferro, tam-
como a dos escravos do estaleiro da Ponta D'Areia, em 1857, e bém do Rio) e em 1920. Como se vê, os operários navais havi-
a dos carpinteiros navais, em 1890.16 No final do século, a resis- am evoluído para a formação de sindicatos reunindo os grandes
tência desses operários já tinha na verdade novos contornos, grupos profissionais de um setor considerado "de ponta", tanto
com o crescimento das associações sindicais de resistência em do ponto de vista do governo (a comemoração oficial do 1° de
contrapartida às mutualistas, a difusão das idéias socialistas, o maio de 1929 foi na Vila - operária - Pereira Carneiro do
engajamento no movimento republicano, a criação de jornais Estaleiro Mauá, em Niterói), quanto do ponto de vista político
operários - entre os quais a Gazeta dos Operários (1875) e O mais amplo (o Partido Comunista recém-fundado já o reconhe-
Artista (1883), ligados aos operários dos arsenais. 17 cia como uma das mais importantes categorias do proletariado
No início do século XX (1905), já em plena República, a urbano à época).
Companhia de Comércio e Navegação - originária da fusão de Os estaleiros sobreviveram com dificuldades no período que
empresas ligadas principalmente à atividade salineira - insta- se seguiu à Revolução de 30, só retomando o desenvolvimento
lou, no mesmo local onde Mauá fizera funcionar o seu estalei- com o estímulo à indústria de bens de capital do país, no perío-
ro, a Companhia Nacional de Navegação Costeira, para apoio e do pós-guerra. Com o Estado Novo, em 1937, o regime assumi-
conservação de sua frota. Dois anos mais tarde, já existiam 11 ra abertamente sua feição corporativa, e no setor naval a déca-
estaleiros no país, sendo o maior deles o pertencente à família da de 40 foi marcada pela encampação de várias empresas de
Lage, que, como Mauá, foi incapaz de comprometer o Estado navegação, pela criação da empresa governamental de Serviços
de Navegação da Bacia do Prata e pela instalação (1941) da
Comissão de Marinha Mercante, autarquia federal ligada ao Mi-
16 Eulália Lobo. Rio de Janeiro operário. Rio de janeiro, Ed. Access, 1992. nistério dos Transportes, para disciplinar a navegação em geral.
11José Augusto Pádua. "A capital, a República e o sonho: a experiência dos
Também em 1941 morreu Henrique Lage, e o governo federal
partidos operários de 1890." ln Dados, vol. 28, nº 2, 1985; josé Murilo de
Carvalho. Op. cit. assumiu suas empresas.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Os operários não escaparam, obviamente, das imposições Do ponto de vista do espaço político aberto aos trabalha-
em curso: pouco a pouco se reuniram para constituir sindica- dores, teve início então o período do que já se convencionou
tos de indústria ou categoria econômica (profissionais articu- chamar de "velho sindicalismo", e que muitos autores caracte-
lados), como queria a legislação, e o núcleo do Sindicato dos rizaram como um sindicalismo marcadamente político, distan-
Operários Navais finalmente se institucionalizou em 1942. ciado das questões cotidianas da classe trabalhadora, mais pre-
Com sede em Niterói, ele congregava todos os trabalhadores ocupado com suas ligações e influências no Estado do que em
de estaleiros das baías de Guanabara e Jacuecanga, em Angra desempenhar suas funções específicas de representação de in-
dos Reis. A repressão ao movimento sindical, entretanto, se teresses.
manteve mesmo com o fim do Estado Novo, e durante o go- O caso dos operários navais contribui para repensar essas
verno Outra o Sindicato dos Operários Navais, como outras questões, e permite argumentar que se o sindicalismo que
centenas de associações, sofreu algumas intervenções, afastan- praticavam tinha uma atuação política importante, esta não
do novamente a maioria dos trabalhadores de suas práticas e·ra acrítica, linear, totalmente subordinada ao Estado, mas
associativas. resultava em grande parte de um trabalho efetivo junto às
Quando se iniciou o segundo governo Vargas, na década de bases, nos locais de trabalho e no próprio sindicato. É im-
50, a indústria naval passou a viver também uma nova fase. A portante frisar ainda, nesse contexto, as relações sindicato-
Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, reunida para análise das partidos e as freqüentes alianças, em torno de objetivos sin-
perspectivas de desenvolvimento 18 do país, concluiu que, em- dicais comuns, dos grupos influenciados pelo PCB com os do
bora a questão nacional dos transportes fosse crucial, o merca- PTB.
do não comportava a existência de vários estaleiros comerciais. Os trabalhadores demandavam, se organizavam, faziam
Tratou-se então de modernizar e ampliar o estaleiro da Ilha do greves inclusive contra o próprio "Estado-patrão" dos esta-
Viana, da "Costeira" - antiga propriedade de Henrique Lage, leiros públicos, como no exemplo da grande greve de 1953
já então estatal. Essa sugestão sustou, por cinco anos, quaisquer dos marítimos, que pleiteava a extensão dos direitos conce-
iniciativas de expansão da construção naval brasileira, num pe-
didos pelo Estatuto dos Funcionários Públicos, relativos à
ríodo em que o Estado ampliava significativamente sua inter-
carreira, à promoção, à estabilidade, às férias, às licenças etc.,
venção mais direta sobre a economia.
aos trabalhadores navais de autarquias. 19 Essa greve teve iní-
cio em junho, no dia seguinte à reforma ministerial do go-
1sredro Motta Veiga. Mudança técnica e processo de trabalho na construção
naval brasileira. Dissertação de mestrado apresentada à COPPE. Rio de Ja-
19
neiro, UFRJ, mimeo, 1984. Dennis Linhares Barsted. Medição de forças. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1982.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

vemo que levou João Goulart ao Ministério do Trabalho, e é atendidas pelo governo e pelos empresários privados, após ne-
expressiva não só da organicidade e da capacidade de gociações lideradas por Paulo Ferraz (CCN-Mauá) - do lado
politização do movimento, como da solidariedade horizon- dos empregadores - e pelo Ministério do Trabalho. Foram cri-
tal entre funcionários públicos e empregados privados. Num adas comissões para estudar a regulamentação de novos proce-
memorial de 25 itens, os grevistas registravam, ao lado de dimentos decorrentes das conquistas da greve, como a que tra-
reivindicações específicas dos segmentos envolvidos, desde a taria da questão da insalubridade e a que discutiria a regula-
defesa de uma Marinha Mercante genuinamente nacional mentação do trabalho a bordo e a extensão da semana inglesa a
(primeiro item da pauta) até melhor alimentação nas empre- todos os marítimos. Os esforços conseguiram também garantir,
sas, regulamentação do trabalho a bordo, adoção da semana através da Portaria 73 do governo federal, o cumprimento re-
inglesa de trabalho, pagamento de adicional de insalubrida- gular da lei que dispunha sobre o repouso semanal remunerado
de, passando também por posições firmes em relação à con- e sobre o pagamento de salário nos dias de feriados - direitos
cessão de um abono de emergência para os empregados das já anteriormente adquiridos mas freqüentemente desrespeita-
empresas privadas do setor. dos por todas as empresas.
Os operários navais participavam, sem dúvida, da vanguar- Durante a greve, os operários navais conquistaram também
da desse movimento, em cujo Comando Geral da Greve tive- o direito de dar posse à diretoria do sindicato já eleita, e o fize-
ram participação ativa sob a liderança de Irineu José de Souza ram em 29 de junho daquele mesmo ano, na presença do chefe
(presidente eleito, ainda não empossado, de seu sindicato em do Departamento Nacional do Trabalho e do ministro João
1953). Soldador elétrico do Lloyd, Irineu fora responsável, Goulart. Começava então uma fase da vida sindical e política da
juntamente com outros companheiros, pela criação de um Con- categoria de que todos os operários mais velhos ouvidos se or-
selho Sindical - organização independente de operários elei- gulham. Proliferavam os conselhos sindicais, os trabalhadores
se reuniam nas "praças da liberdade sindical'', espaços conquis-
tos por setor de trabalho - no interior da empresa, e logo a
tados no interior dos estaleiros ou próximos a eles para a per-
Costeira e a CCN-Mauá também já tinham os seus. Esses con-
manente discussão política - a Praça da Liberdade do Lloyd, a
selhos congregavam membros da facção renovadora do movi-
Praça Sindical da Tora na Ilha do Caju, a Praça da Pedra junto
mento operário do setor à época e, gradativamente, ganharam
ao estaleiro Toque-Toque, a Praça Emílio Bonfante Demaria, da
prestígio entre os trabalhadores, lançando as bases para a vitó-
Costeira, na Ilha do Viana. 2o
ria da chapa de Irineu e para mudanças de orientação da luta
sindical. 20
Emílio Bonfante Demaria foi líder importante dos marítimos e fundou o
As reivindicações da greve de 1953 foram parcialmente 1 jornal Orla Marítima, que circulava com milhares de exemplar:s.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

O trabalho combinado de conselhos e sindicato, se permitia Já as lutas pela reestruturação da carreira e pelo aumento
por um lado que as reivindicações específicas se expressassem da taxa de insalubridade - temas recorrentes em função das
mais livremente, por outro parece ter impedido uma excessiva características do seu trabalho - foram bons exemplos da pers-
fragmentação de interesses, em prejuízo da solidariedade de clas- pectiva abrangente e unificadora que esses operários tinham
se. Através dos conselhos, várias reivindicações setoriais foram de sua categoria. Em termos da carreira, eles defenderam a
encaminhadas e atendidas após pressão direta sobre os patrões correspondência salarial entre cargos iguais de profissões di-
(ou quando necessário, com a interferência do sindicato), res- ferentes, apesar da tentativa divisionista por parte das empre-
pondendo de forma imediata aos problemas do cotidiano fa- sas e do governo para hierarquizá-los por critérios técnicos,
bril. Assim: alegando a qualificação superior exigida para algumas profis-
sões.
Depois nós tivemos reivindicações setoriais (... ) nós conquis-
tamos, lá na Ilha, através do Conselho Sindical, do qual eu Os técnicos do governo não aceitaram que o mestre de pedrei-
era o presidente, o serviço de sanitários modernos, pra gente
ro ganhasse igual ao mestre de máquina, porque o mestre de
não precisar ir no mar, né? (... ) Conseguimos na Ilha, tam-
pedreiro nunca estudou, era uma profissão que o sujeito apren-
bém, criar nossa praça de reuniões, que não tinha. (... ) quan- de pela prática, ele vai jogando força até chegar a mestre, mas ...
do aterraram lá na Ilha da Conceição, que deixou de ser ilha
de fato, do ponto de vista técnico eles têm razão. Eu, por exem-
(... ), tinha saída só pra Niterói, aí o pessoal que morava no plo, pra ser um operário especializado, eu tive que estudar,
Rio tinha que dar uma volta( ... ) então nós conseguimos uma estudei inclusive trigonometria pra ser frisista (... ) senão não
lancha pra ir da Ilha pro Rio. Conseguimos· . ) Ah ,
o que mais. pega nem na máquina. Mas do ponto de vista da classe, pra nós
oficializamos o lanche às 3 horas, porque antigamente tinha não interessava, porque se começa a fazer divisão acontece aque-
que tomar escondido (... ) conseguimos 15 minutos. Conse- le problema antigo, que se joga um operário contra o outro,
guimos a água (... ) ela vinha de barcaça, mas quando a barca-
enquanto nós achávamos que devia ser mantida essa estrutura
ça quebrava( ... ) era um deus-nos-acuda, ninguém tomava ba- e todos os mestres ganharem igual, os contramestres ganharem
nho, não tinha comida ... E nós conseguimos ligação da Ponta igual, e daí pra baixo ... (... )22
d' Areia ... A pressão era direta dos operários sobre a direção
da empresa, não era do Sindicato, mas usava o nome do Sin-
Em relação à taxa de insalubridade, igualmente, os ope-
dicato ... 21
rários navais se recusaram a aceitar percentuais diferentes

21um ex-ajustador mecânico, entrevista realizada no Grêmio dos Aposenta- 22


Um ex-torneiro mecânico, entrevista realizada no Grêmio dos Aposentados
dos do Sindicato de Metalúrgicos de Niterói. do Sindicato de Metalúrgicos de Niterói.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

por local de trabalho ou tipo de função, e lutaram pela ado- 47% da folha de pagamento dos estaleiros; de 1960 a abril de
ção de uma taxa geral fixada em 20%, em nome de sua uni- 1962, subiu para 68%; e finalmente, de maio de 1962 a outu-
dade. bro desse mesmo ano, quando foi suspenso, representava 32%
da folha .
... mas o mais difícil foi o seguinte: que nós queríamos a insalu- Esse é, portanto, um período de muitas conquistas para os
bridade geral (... ) com um percentual igual pra todos, enquan- marítimos e os operários navais, colocando-os num patamar de
to a lei proíbe isso, a lei que existia( ... ) dava o grau de insalu- "direitos" que até hoje os operários brasileiros - mesmo entre
bridade de acordo com aonde trabalha, de acordo com a fun- seus setores politicamente mais combativos - dificilmente al-
ção, enfim (... ) essa lei não servia pra nós (... ) porque se fosse
cançaram. Esses anos são exatamente aqueles em que esses tra-
fazer( ... ) aonde no mesmo setor de atividades um ganhasse 10
balhadores, ao lado de outros empregados em empresas de ser-
e o outro ganhasse 5, ia haver (... ) um desentendimento de
viços coletivos geridas pelo Estado (como os ferroviários) e em
classe. Então nós optamos pra que fosse o seguinte: tinha setor
que só tinha 5% por lei, e tinha setor que tinha até 30, então grandes empresas produtivas estatais (de siderurgia ou refino
nós fizemos uma assembléia no Sindicato e resolvemos que ía- de petróleo), constituíram o núcleo do sindicalismo nacional. 24
mos apelar pro meio-termo, quer dizer, 20% geral. O governo Ligados a setores do Estado através da estrutura sindical cor-
aceitou, mas as companhias particulares não(... ) E também não porativa, e desempenhando um papel importante nas articula-
interessa ganhar só pro Lloyd quando o Sindicato era um só ções políticas da época, essa vanguarda dos "trabalhadores do
pra toda a categoria, inclusive os da CLT, ninguém aceitava, Brasil" ampliava pouco a pouco os limites de sua cidadania e a
teve que fazer outra vez ... até 64 todos ganhavam 20%, nós do proletariado em expansão.
conseguimos (... ). 23 O ano de 1958, por sua vez, trouxe novas mudanças para a
indústria naval, bem de acordo com os padrões de industrializa-
Fica patente também a preocupação de estender os ganhos ção pesada expressos no Plano de Metas do governo Juscelino
obtidos pelos trabalhadores estatais aos das empresas priva- Kubitschek. 25 Na realidade, desde 1956, um documento elabo-
das, o que acabou ocorrendo quase sempre, implicando um rado pelo então ministro da Viação e Obras Públicas, Lúcio
acordo Estado-empresa. É assim que, já em 1957, os operários Meira, apresentava um panorama da situação da Marinha
de estaleiros privados conseguem equiparação de salários com
os funcionários de autarquias. Isso exigiu do governo a con-
24
cessão de um subsídio às empresas, que cobriu, de 1957 a 1960, Maria Hermínia Tavares de Almeida. "O sindicalismo brasileiro entre a con-
servação e a mudança." ln Maria Hermínia Tavares de Almeida e Bernardo
Sorj. Sociedade e política no Brasil p6s-64. São Paulo, Brasiliense, 1983.
25
23 ldem. Cardoso de Mello. O capitalismo tardio. São Paulo, Brasiliense, 1982.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

Mercante e identificava os baixos índices (7,6%) de participa- ação desarticulada dos armadores, os altos custos da produção
ção das embarcações nacionais nos fretes do comércio exterior em virtude do esforço concomitante de expansão das empresas
e, conseqüentemente, os altíssimos encargos do Brasil com pa- combinam-se com o processo inflacionário em curso e os custos
gamento de fretes a outros países (em 1955: US$150 milhões salariais relativamente maiores que a média na indústria nacio-
nas importações e US$ 130 milhões nas exportações). Visando nal - em função da força do movimento sindical dos operários
alterar esse quadro, é proposta uma "reforma estrutural" das navais. 27
bases financeiras da indústria de transportes por água, fosse ela De fato, os trabalhadores da indústria naval vinham
estatal ou privada, com a criação da Taxa de Renovação da Ma- gradativamente ampliando direitos que, em junho de 1963,
rinha Mercante e o Fundo da Marinha Mercante. Os recursos o Contrato Coletivo de Trabalho estabelecido consolidaria
gerados seriam administrados pela Comissão de Marinha Mer- como válidos até que o movimento militar de 64 agisse vio-
cante. Em 1958, é finalmente aprovado projeto de lei nesse sen- lentamente sobre a categoria e suas organizações. As princi-
tido e criado o Grupo Executivo de Indústria da Construção pais conquistas dessa época foram: o quadro de carreiras -
Naval - GEICON,3 26 cujas iniciativas propiciaram, já a partir indicando as etapas da progressão profissional e o salário-
de 1959, a implementação de seis projetos: a ampliação dos base de cada nível; a elevação das taxas de insalubridade a
estaleiros Mauá (CCN), Emaq, Caneco e Só, e a construção níveis de 35% do salário-base; o pagamento de horas extras
dos estaleiros Ishikawagima e Verolme (ambos contando com a níveis de 100% do valor da hora normal de trabalho; a
reforço de capital por parte dos grupos estrangeiros a que eram abolição do trabalho normal aos sábados e a limitação da
ligados). jornada de trabalho semanal a 40 horas; a jornada de traba-
A partir daí se seguem as obras nos estaleiros, a importação lho diária extraordinária (nos fins de semana e feriados) li-
e a instalação de equipamentos, o recrutamento de engenheiros mitada a 8 horas; as férias de 30 dias. É importante destacar
e técnicos, o treinamento da mão-de-obra. ~~o_nt~atação e a que algumas dessas conquistas não foram recuperadas nem
produção de navios tem logo início, e, em 1960, as encomen- por esses trabalhadores nem por outros setores avançados
das são atendidas, com a entrega das primeiras embarcações. do proletariado até hoje.
Em 1961, entretanto, o nível de produção dos estaleiros não se Além disso, nessa "época dos operários navais" (como a tra-
sustenta. Fatores de ordens diversas são apontados como causas dição do setor a cunhou), os trabalhadores certamente viveram
desse declínio: a desorganização da administração portuária, a
27
josé Barrozo. "A indústria da construção naval: situação atual e perspecti-
26Brasil, Ministério da Viação e Obras Públicas, GEICON, 1958. vas." ln Conjuntura Econômica, vol. 30, 1976.

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

experiências de inserção social e política bem gratificantes. Os retirou quase tudo: a condição de operários navais e conseqüen-
mais velhos, e suas mulheres, recordam esse tempo com satisfa- temente de marítimos, o sindicato e, em inúmeros casos, a li-
ção e orgulho, em virtude da importância política de que a cate- berdade e o próprio trabalho - base de sua identidade social e
goria gozava, mas também por causa dos "privilégios" desfruta- política.
dos em termos de uma vida financeiramente mais folgada. Nes- A partir do golpe, sucederam-se várias medidas que visavam
ses anos, por exemplo, em Niterói, eles adquiriram ou construí- desartlcülâr inteiramente a organização dos trabalhadores, en-
ram casas próprias em bairros próximos aos estaleiros (como na tre os quais os operários navais e marítimos, e esvaziar-lhes de-
Ilha da Conceição) e levantaram a espaçosa sede do sindicato, finitivamente a força tantas vezes demonstrada. As punições, à
com seus próprios recursos, no bairro do Barreto. Apareciam época, afastaram provisória ou definitivamente inúmeros ope-
de tal forma como camada privilegiada dos trabalhadores ma- rários do exercício de seu trabalho: prisões, demissões e o expe-
nuais urbanos, que, nos bairros populares da cidade, a adjetivação diente de colocar em "disponibilidade" os trabalhadores que
como "de marítimo" era aplicada para indicar a melhor quali- gozavam de estabilidade atingiram indiscriminadamente aque-
dade dos produtos e serviços consumidos: falava-se de carne les que trabalhavam em empresas privadas ou estatais. Estas úl-
"de marítimo", por exemplo, quando se queria uma carne espe- timas foram logo desativadas. Em julho de 1964, o Ministério
cial... do Trabalho altera seu enquadramento sindical de "operários
Por outro lado, o sindicato promovia muitas atividades re- navais/marítimos" para "metalúrgicos", afastando-os de seu sin-
creativas e encontros.sociais na nova sede. Eram organizados dicato e da federação. O Contrato Coletivo de Trabalho de 1963
vários eventos políticos, também, como o que manifestou o apoio perdeu a validade, e, mesmo que algumas conquistas fossem
a Cuba, no final da década de 50. Os operários navais abriga- estrategicamente mantidas, isso só se deu daí por diante, atra-
vam igualmente em sua sede - e apoiavam - , trabalhadores vés de contratos individuais de trabalho impostos aos trabalha-
de outros setores descontentes com suas condições de trabalho, dores remanescentes. O trabalho de reconstrução da unidade
em processo de resistência ou perseguidos. Participavam direta- sindical e política tinha que ser refeito, e, lentamente o foi,
mente de acontecimentos políticos, como ocorreu na greve de mesmo durante o regime militar, lançando as pontes para o
15 dias "pela legalidade" - objetivando dar garantias à posse "novo sindicalismo". 28
de João Goulart na presidência da República, após a renúncia
de Jânio Quadros em 1961. A queda de Goulart e a tomada do
poder pelos militares em 1964 representou, por tudo isso, um
rude golpe sobre esses trabalhadores, na medida em que lhes UElina Pessanha. "De operários... " Op. cit.

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O POPULISMO E SUA HISTÓRIA
CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO

OS TRABALHADORES DA CSN, O POPULISMO E A LUTA POR DIREITOS ideologia nacionalista que, naquele momento, legitimava a in-
tervenção estatal, esse setor da classe operária é, muitas vezes,
Em textos anteriores, 29 salientamos as contribuições que, a nos- identificado como atrasado, massa de manobra do getulismo e
so ver, a análise do movimento sindical dos trabalhadores da do sindicalismo corporativista, presa fácil de demagogos e
Companhia Siderúrgica Nacional traz para o entendimento do pelegos. Nesta análise, não devemos subestimar os efeitos das
sindicalismo de base estatal nos anos 45-64. Nesse contexto, e características da formação desse grupo operário, marcado pela
sob a influência do nacional-desenvolvimentismo, o caráter es- heterogeneidade, tanto do ponto de vista profissional quanto
tatal da empresa tev~: semdtlvida; um
peso i~portante na de- cultural. Para muitos, a entrada na CSN representou o primeiro
terminação das escolhas vividas, no posicionamento das cor- emprego fabril e o contato com o mundo urbano, numa cidade
rentes em disputa em seu interior, na forma de encaminhamen- que numa década multiplicou sua população por dez. A mística
to das reivindicações e nas atitudes freqüentemente contraditó- de que se cercou a criação da companhia certamente teve um
rias assumidas perante a companhia. peso importante na construção da identidade da primeira gera-
Vindo de diferentes regiões do país para participar da cons- ção de trabalhadores, cuja formação profissional deu-se parale-
trução da primeira usina siderúrgica de grande porte do Brasil, lamente à trajetória dentro da empresa, contribuindo para re-
numa conjuntura muito particular - a Segunda Guerra e o Es- forçar os laços entre a história pessoal e a companhia. Mas a
tado Novo - empreendimento que seria a "menina dos olhos" argumentação central desenvolvida por nós é a de que, a des-
de Getúlio Vargas, símbolo do "progresso" e do novo impulso peito das ambigüidades da gestão paternalista e das limitações
que se pretendia dar à industrialização, tudo isso costurado pela da legislação corporativista, os desafios daquela conjuntura con-
tribuíram para a construção de uma tradição sindical entre es-
ses trabalhadores, na qual a noção de "direitos" constituía o
29 Elina Pessanha e Regina Lucia M. Morei. "Gerações operárias: rupturas núcleo principal.
e continuidades na experiência de metalúrgicos no Rio de Janeiro." ln Planejada segundo as modernas cidades industriais ame-
Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 17, ano 6, 1991; Regina Lucia
M. Morei. "Gestão paternalista, empresa estatal e luta por direitos: um ricanas, Volta Redonda pretendia ser o símbolo por excelên-
estudo de caso". ln Revista Crítica de Ciências Sociais, Centro de Estudos cia da integração da "família siderúrgica", expressão pela qual
Sociais. Universidade de Coimbra, 1992; Regina Lucia M. Morei e Wilma os documentos da diretoria da CSN designavam os laços que
Mangabeira. "'Velho' e 'novo' sindicalismo e uso da Justiça do Trabalho:
um estudo comparativo com trabalhadores da Companhia Siderúrgica deveriam ligar os trabalhadores à empresa. Adotando uma
Nacional." ln Revista Dados, vol. 37, nº t. Rio de Janeiro, IUPERJ, 1993; r política de gestão da força de trabalho com traços "pater-
Regina Lucia M. Morei. "História incorporada e identidade coletiva entre
nalistas", a companhia controlava também a cidade, admi-
trabalhadores aposentados da Companhia Siderúrgica Nacional". ln Elina
Pessanha e Alice Abreu (org.). Op. cit. nistrando uma série de serviços urbanos (transportes, coope-

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rativa de abastecimento, hospital, escolas), além de construir bém com o reconhecimento de sua cidadania e o direito à par-
moradias para seus empregados - qualitativamente diferen- ticipação. Este aceno e esta ambigüidade terão reflexos na de-
ciadas segundo os distintos níveis hierárquicos do coletivo terminação das linhas de atuação do sindicato no período ana-
de empregados. Os benefícios sociais - sempre apresenta- lisado. A CSN se vangloriava de oferecer "o mais alto padrão
dos como "dádiva" - se estendiam à família operária e fo- já realizado no Brasil, em prol dos operários de uma grande
ram um dos pontos sobre os quais a empresa procurou cons- indústria, permitindo-lhes uma vida condigna". Tal discurso
truir sua legitimidade. Tratando-se de uma empresa estatal, - que remetia, como vimos, à noção de dddiva - não era
esses mecanismos tinham uma conotação própria, pois, além passivamente "engolido" pelos operários, mas era por vezes
de constituírem uma estratégia de fixação da força de traba- apropriado por eles e convertido em base de reivindicações
lho, desempenhavam também um papel político importante: por melhores condições de vida e de trabalho, vistos como
reforçavam os laços corporativos entre os trabalhadores e a direitos.
companhia e, por extensão, o Estado. Pode-se dizer que, embora originariamente marcado pelo
No período analisado, Volta Redonda, considerada "cida- atrelamento direto ao Estado e à empresa, nesse período o Sin-
de-símbolo do trabalhismo", converteu-se em importante cen- dicato dos Metalúrgicos conquistou reconhecimento por parte
tro regional, tornando-se alvo de atenção de políticos e presi- dos operários como canal legítimo de encaminhamento de rei-
dentes da República em busca de votos e apoio político. O ex- vindicações, convertendo-se num interlocutor a ser levado em
traordinário crescimento da cidade, a grande concentração de conta pela companhia e pela prefeitura da cidade - fosse como
operários, sua emancipação de Barra Mansa e a importância cúmplice ou opositor - na definição de práticas tanto da esfera
econômica que adquirira para o estado do Rio de Janeiro tor- fabril quanto da urbana.
naram-na objeto de disputa acirrada entre partidos, sobretudo O surgimento do Sindicato de Metalúrgicos de Volta Re-
o PSD e o PTB. Todos tentariam se apropriar da imagem de donda está ligado à atuação do grupo de Socorro Vermelho,
Getúlio Vargas, devido ao seu apoio popular, proclamando-se como ficou conhecida a campanha de mobilização organizada
seus legítimos herdeiros. pelo Partido Comunista a nível nacional - seguindo as deter-
Vários autores já apontaram para as ambigüidades das prá- minações da Conferência da Mantiqueira de 1943 de luta con-
ticas políticas consideradas "populistas", enquanto significan- tra o fascismo. Daí surgiu uma comissão provisória para a cri-
do, simultaneamente, manipulação e expressão da insatisfa- ação da Associação Profissional dos Metalúrgicos de Barra Man-
ção das classes populares; o apelo à colaboração e à mobilização sa, que em 1945 recebeu a Carta Sindical. Surgiu então o Sin-
contido na interpelação política e nos laços com que se procu- dicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas, Mecâ-
rava vincular as massas urbanas aos líderes vinha acenar tam- nicas e de Material Elétrico de Barra Mansa, Volta Redonda,

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Resende e Barra do Piraí. Com apoio da diretoria da compa- O recurso à Justiça e a reivindicação pela aplicação das
nhia, o sindicato surgia com características de sindicato-em- leis teve no caso aqui analisado uma importância que não
presa e vinha, naquele momento, atender à fórmula corporativa deve ser negligenciada: era através dessa linguagem de "di-
de controle do movimento dos trabalhadores. Recebendo a reitos", que pressupõe um modelo de moralidade e de justi-
Carta Sindical em 1945, o sindicato seria dirigido até 1951 ça, que os trabalhadores da CSN procurariam romper o mo-
por uma Junta Interventora, já que o governo Outra suspen- delo autárquico de dominação, as regras arbitrárias da dire-
dera as eleições sindicais. Em 1951, foi eleita a primeira dire- ção da companhia e reivindicariam reconhecimento de cida-
toria, sendo presidente Alan Cruz, de estreita vinculação com dania. Ao regulamento e normas internos da empresa, ostra-
o PSD. balhadores contrapunham as "leis da nação", como no caso
Em abril de 1952, foi assinado o primeiro acordo com a de Paulista, analisado por Leite Lopes, 1988. Além disso, a
empresa, que, a despeito de uma diretoria acomodada, trou- esta cobrança pela justa aplicação da lei, acrescentavam-se
xe algumas conquistas, marcadas pela reivindicação de apli- tentativas do sindicato de influir nas regras de concessão de
cação da CLT, dentre as quais o direito ao repouso remune- certos benefícios, como moradia e assistência médica, bem
rado. como na determinação da proporção referente à participa-
O Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda foi o que ção nos lucros, designada como "girafa". Assim, os benefíci-
pela primeira vez no Brasil levantou a questão da incompatibili- os paternalistas nem sempre eram apenas passivamente rece-
dade entre o sistema de jornada contínua de 8 horas, em turnos bidos por um operariado submisso e agradecido, mas cria-
de revezamento, e os princípios estabelecidos na CLT, com re- vam expectativas de "direitos" e podiam constituir base para
ferência a descansos para refeição e repouso. Em 1952, cerca reivindicações futuras.
de 3.000 operários entraram com ação na Justiça do Trabalho, A despeito da posição oficial do Partido Comunista na-
acusando a companhia de não cumprimento do Artigo 71 da quele momento, de aceitação da estrutura sindical corpora-
li CLT. Pleitearam como indenização pelo intervalos de repouso tivista, e apesar da concepção "legalista" que lhe tem sido atri-
não concedidos pela empresa o pagamento correspondente à buída, a atuação de seus militantes no sindicato foi fator im-
importância do salário de uma hora, referente a cada turno efe- portante no enfrentamento das formas específicas de domina-
tivamente trabalhado, por cada reclamante, nos últimos dois ção exercidas pela CSN sobre seus empregados. Atuando como
anos. A questão foi ganha em segunda instância; a empresa, no oposição sindical, no início da década e no período 1957-63,
entanto, conseguiu que o sindicato retirasse a reclamação, mas, contrapondo-se a diretorias de tendências ministerialistas ou
a partir daquele ano, a cláusula passaria a vigorar em todos os compondo alianças táticas com grupos de outras tendências,
acordos. os militantes comunistas contribuíram significativamente no

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sentido de dinamizar diretorias mais acomodadas. Foi sobre-


l tificasse com a das diretorias empresariais. Sem dúvida, o
tudo em torno da exigência do cumprimento dos direitos es- caráter estatal da CSN foi um dos fatores determinantes das
tabelecidos pela Constituição de 1946 e pela CLT que os mili- contradições e ambigüidades que encontramos na atuação do
tantes comunistas procuraram articular a mobilização dos tra- Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda; mesmo as di-
balhadores. retorias e militantes mais combativos tinham um forte ele-
As reivindicações do sindicalismo desse período têm sido mento de identificação com a empresa. Porém, o caráter con-
freqüentemente caracterizadas quer como exclusivamente sa- traditório desse processo fez com que o apelo à participação
lariais, quer como tendo uma conotação claramente política e e à mobilização como forma de mobilização das massas urba-
se apresentarem, portanto, distantes do espaço fabril. No en- nas tivesse, às vezes, reflexos inesperados. Volta Redonda era
tanto, as pautas de reivindicações do Sindicato dos Metalúr- vista como símbolo da "emancipação nacional", mas era tam-
gicos de Volta Redonda não incluíam apenas questões salari- bém apontada como símbolo da conquista de direitos e valo-
ais, apresentando também questões específicas à organização rização do trabalhador. Assim, se em situações de crise, quan-
e condições de trabalho. Reclamações referentes à re- do a CSN parecia ameaçada por interesses estrangeiros, lide-
estruturação dos quadros de alguns departamentos, exigência ranças sindicais não relutavam em apoiar a diretoria da em- ;
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de pagamento de adicional a servidores expostos a áreas de presa, isso não impedia que lutas por melhores condições de
periculosidade, retribuição justa no caso de substituição de trabalho fossem encaminhadas. No momento em que o go-
função - fonte de conflitos no espaço da usina - constaram, verno parecia mais permeável às demandas dos trabalhado-
por exemplo, da pauta apresentada à companhia em 1957. Na res, estes também procurariam reverter a seu favor a mística
impossibilidade de acordo, houve o dissídio. Nesta ocasião, que cercava a empresa; em momentos de confronto com as
entre outras coisas, os trabalhadores conquistaram, finalmen- diretorias da empresa, não hesitavam em recorrer a outras
te, o direito ao intervalo para refeições pelo qual vinham lu- instâncias do Estado em busca de apoio na defesa de seus
tando desde 1952. interesses.
Alguns estudos sobre o sindicalismo desse período afir- Por exemplo, memorial enviado a 27 de janeiro de 1961 ao
mam que a orientação reformista, presente sobretudo nos presidente recém-empossado Jânio Quadros enumerava os prin-
setores tradicionais e no setor público, acabaria por reforçar cipais problemas e reivindicações da categoria: participação dos
a estrutura sindical corporativista, na medida em que aproxi- empregados nos lucros; assistência médico-hospitalar; assistên-
maria os sindicatos do Estado. No caso das empresas públi- cia habitacional e transporte para o pessoal. É interessante ob-
cas, a defesa do nacionalismo e do empreendimento estatal servar o recurso ao presidente da República, comum durante o
faria com que, muitas vezes, a posição dos sindicatos se iden- regime "populista" nos momentos de confronto com a direto-

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CLASSE TRABALHADORA E POPULISMO O POPULISMO E SUA HISTÓRIA

ria; sendo a CSN do governo, o presidente era visto muitas ve- política nacionalista do governo. 31 A esse respeito, Andrade, em
zes como o verdadeiro "dono" da empresa. O memorial era 1974, observou que, a partir de 1959 e até 1964, 55% das gre-
claro a esse respeito: ves noticiadas ocorreram no setor público, cujo operariado cons-
tituiu a base das principais greves políticas do período; ele pon-
"E eis que, agora, ao empossar-se na Presidência da República derou, entretanto, que o apoio desse operariado ao governo
(... ), V.Excia., por força dos Estatutos da Companhia Siderúrgi- não era simples resultado de uma "manipulação" ou do "atra-
ca Nacional, sociedade de economia mista onde o Governo so" das massas, decorrendo de uma série de fatores, inclusive
Federal dispõe de mais de 80% de ações, é, de fato e de direito, de concessão de importantes vantagens materiais. Havia, de fato,
o dirigente máximo da empresa. Os diretores da companhia
um certo grau de reconhecimento e participação, acesso a pre-
são delegados de confiança do presidente da República, e dessa
sidentes da República e um poder maior no processo de negoci-
forma, mesmo antes de sabermos quais serão os futuros diri-
ações com instâncias do governo e com a administração da em-
gentes, vimos apresentar a Vossa Excelência nossas principais
presa.
reivindicações. " 3º
Além disso, é verdade que houve momentos em que a dire-
As análises sobre o movimento sindical dos primeiros anos toria do sindicato "segurou" possibilidades de greves, alegando
da década de 60 têm apontado para um deslocamento de seu que "a classe não estava preparada", ainda que tivessem ocorri-
centro de gravidade a nível nacional: o foco principal passava do movimentos grevistas em outras empresas - como a da Si-
naquele momento a ser constituído pelos trabalhadores do se- derúrgica Barbará, mesmo à sua revelia.
tor público, em torno dos quais se criaram o Pacto de Unidade Na determinação dos objetivos e estratégias legítimos de luta,
e Ação (PUA), em 1959, congregando ferroviários, marítimos e além das chamadas "condições objetivas'', intervêm, como ob-
portuários, e o Comando Geral dos Trabalhadores, em 1962. servou Pierre Bourdieu, 32 fatores de várias ordens, dentre os
Esse deslocamento corresponderia a uma "politização" da luta quais a existência ou não de uma tradição de lutas, e de uma
sindical - da qual as greves políticas e a mobilização em torno
das "reformas de base" seriam um exemplo - , contribuindo
31 Por exemplo Francisco Weffort. "Os sindicatos na política (Brasil: 1955-1964)."
para que as diretorias sindicais se afastassem das bases, constitu-
ln Ensaios de Opinião 2 + 5. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978, e Régis de
indo os sindicatos desses setores o principal ponto de apoio da Castro Andrade. Movimento trabalhista e sindicatos sob o nacional-populismo
no Brasil. Texto apresentado no seminário organizado pelo lnternational Institute
for Labour Studies, OIT. São Paulo, CEBRAP, mimeo, 1974.
30
0 memorial está transcrito em Edgar Carone. A Quarta República (1945 32Pierre Bourdieu. "A greve e a a~ão política". ln Questões de sociologia. Rio
1 1964). São Paulo, Difel, 1980, pp. 457-461. de Janeiro, Marco Zero, 1983.

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cultura operária, que, atuando como um aparelho simbólico de e aos conflitos no espaço fabril. Ainda que atas de assembléias
produção de instrumentos de percepção, defina o que é dos primeiros anos da década de 60 registrassem, por exem-
"pensável" e "impensável" em relação ao mundo social e às lu- plo, votos de louvor e reconhecimento destinados ao presi-
tas do trabalho. Assim, por exemplo, para explicar a disparidade dente da companhia pelo "pronto atendimento das reivindi-
entre a ausência de greves na CSN - empresa mais antiga - e cações" ou que, durante assembléias sindicais, diretores da
o fato de na COSIPA terem ocorrido nove greves gerais entre companhia - como o diretor-secretário ou o diretor social -
1962 e 1964, é necessário levar em conta a longa tradição fossem convidados a sentar na mesa junto com o Presidente
combativa do movimento operário santista, que remonta aos do Sindicato, encontramos também reivindicações que se re-
finais do século passado. A cultura operária em Volta Redonda, feriam estritamente à organização do trabalho na Usina. Por
no entanto, foi se forjando junto com a CSN. Portanto, analisa- exemplo:
da isoladamente, a ausência de greves não indica passividade
dos trabalhadores nem ausência de conquistas, como explica - determinação das áreas de periculosidade e insalubridade;
um ex-líder sindical: - participação de representante do sindicato nos estudos de
reestruturação dos quadros de carreira;
Quer dizer, então a gente tinha um movimento sindicalista, aqui - qualidade da alimentação fornecida pela empresa, no caso
em Volta Redonda, lutando e defendendo. E não havia greve. de prorrogação do horário de trabalho por mais de três horas:
Esse é que era o negócio. Não havia greve. "Vamos fazer gre- criação do sistema de alimentação-padrão, a ser estabelecido
ve." Não, para quê? Não é preciso. Tinha unidade no movi- por uma comissão constituída por um nutrólogo, um médico
mento. Vamos fazer greve por quê? Contra a Siderúrgica, que é da empresa e um representante do sindicato;
patrimônio nosso? É preciso saber que aqueles que dirigem a
- exame das normas de substituição de função;
companhia, eles estão lá por mandato. 33
- implantação do exame de capacitação profissional para os
casos de reclassificação e promoção, de maneira que esta
Neste momento, apesar da política de "alianças" e mesmo
não se baseasse apenas no exame de escolaridade;
cumplicidade da diretoria do sindicato com a cúpula da CSN
- pagamento de uma indenização relativa aos desgastes nas
e com o governo, continuavam presentes nos acordos com a
ferramentas de propriedade dos operários;
empresa inúmeras questões relativas às condições de trabalho
- pagamento dos prêmios de incentivo à produção extensivo
a todos aqueles que trabalhassem na área beneficiada.
33 Entrevista de Silvestre Pereira Rosa, ex-Diretor Sindical, A Gazeta do Afo,

1 12 a 19 de julho de 1981.

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Em dezembro de 1963, os trabalhadores reunidos em as· se trabalhadora no Rio de Janeiro, durante o período conside-
sembléia do sindicato reivindicaram, entre outras coisas, 50% rado. Elas refletem a constituição de atores coletivos com dife-
de aumento de salários; a companhia propôs 35%. Tal fato deu rentes tradições fabris e sindicais, que, entretanto, tiveram pa-
origem a intensa mobilização, declarando-se os trabalhadores pel central na montagem do acordo corporativista de viés in-
em assembléia permanente. No mês, seguinte, o presidente do clusivo,34 que viabilizou em nosso país, no pós-30, o projeto
sindicato e a Comissão de Salários foram a Petrópolis conversar modernizador, industrializante, com forte apelo ideológico de
com João Goulart, que, inicialmente, propôs 45% mas acabou cunho nacionalista.
concordando com a demanda de 50%. Sem negar as contradições apontadas e o papel da ideo-
Em assembléia realizada a 14 de janeiro de 1964, com apre- logia nacionalista na neutralização de conflitos e no dire-
sença de parlamentares, a direção do sindicato comemorou o êxito cionamento político assumido pelo movimento sindical à
dos entendimentos aos associados. A comemoração era prematu- época, é importante lembrar que o nacionalismo que "cimen-
ra. A 1° de abril, caíam todos: o presidente da República, a dire· tava" o pacto social não tinha em si mesmo uma conotação
toria do sindicato, e, pouco depois, grande parte da diretoria da claramente classista, mas assumia significados e traduções di-
CSN. Afinal, estavam todos no mesmo barco. Jesus Soares Perei- ferentes, podendo assim ser integrado ao discurso político
ra, diretor de vendas, teve seus direitos políticos cassados pelo de classes antagônicas que dele fariam leituras e apropria-
AI-1; o almirante Lúcio Meira, presidente da companhia, demi- ções distintas.
tiu-se e retirou-se para a reserva. Volta Redonda foi cercada pelo Assim, no caso dos trabalhadores da CSN, o discurso naci-
1° Batalhão de Infantaria Blindada de Barra Mansa (lºBIB), o onalista não era passivamente assimilado no sentido de uma
sindicato, invadido e o presidente do sindicato preso dentro da "politização" do movimento, imposta de cima para baixo. Ao
usina. No próprio mês de abril, a CSN instituía uma Comissão de contrário, era apropriado por eles, constituindo parte inte-
Inquérito, a fim de apurar atividades subversivas realizadas no grante de sua "linguagem política", que, de uma certa manei-
âmbito da empresa; o sindicato ficaria sob intervenção até 1968, ra, os unificava enquanto um grupo com uma identidade co-
ressurgindo nos anos 80, já como símbolo do "novo sindicalismo". mum e por meio da qual se reconheciam e se valorizavam. Era
através dessa linguagem que expressavam o orgulho de terem
participado da construção do grande empreendimento side-
CONCLUSÃO rúrgico; mas era também através dela que reivindicavam prin-

As trajetórias dos dois grupos operários aqui analisados são bas- HAffred Stepan. Estado, corporativismo e autoritarismo. Rio de Janeiro, Paz
tante representativas da multiplicidade de experiências da elas- 1 e Terra, 1980.

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cípios de igualdade e de reconhecimento enquanto atores po- A relação dos dois setores com o Estado é, evidentemente,
líticos. diversa. A ~SN veio representar a redefinição do papel do
Os operários navais se pensavam também como "parcei- Estado brasileiro no pós-30; além de aço, pretendia produzir
ros" do Estado e de setores da burguesia local na defesa dos um novo tipo de trabalhador, bem ao estilo do Estado Novo.
interesses nacionais mais amplos, entre os quais se incluía, por Nos anos 50 e 60, a cidade de Volta Redonda foi palco privi-
sua vez, a expansão do próprio setor naval. Isso levou-os a legiado da "teatralização" do pacto político vigente, cenário
eventuais iniciativas de colaborações e negociações com go- para discursos inflamados no Primeiro de Maio, em que polí-
vernos e patronato, mas não inibiu o processo que, decorrente ticos e presidentes da República foram festivamente recebidos
de um profundo sentimento de "direitos", produziu conquis- pelas "massas".
tas progressivas, pautas de reivindicações cada vez mais agres- Os estaleiros navais civis, embora extremamente dependen-
sivas, enfrentamentos sucessivos, dentro e fora da fábrica. A tes de políticas do Estado para seu financiamento, eram no pe-
tradição acumulada pelos operários navais acentuou o caráter ríodo públicos e privados, e na prática extremamente suscetí-
de sua inserção profissional e política, já que a dimensão veis às relações de complementaridade e/ou competitividade que
artesanal da produção lhes atribuía uma certa autonomia em enfre eles se estabelecia, em todos os sentidos.
relação ao processo de trabalho, com reflexos no plano da O caráter ambíguo e contraditório da estrutura corporativa
atuação sindical. de intermediação de interesses no Brasil tem sido destacado por
Ambos os grupos são exemplares de um certo estilo de vida diversos autores: se de um lado vinha controlar o sindicalismo,
operária e de relações de trabalho. Este se caracterizou,35 entre atribuindo ao Estado o papel de cerne de negociação dos gru-
outros aspectos, por situações de emprego quase vitalício, ple- pos organizados, o corporativismo significou também a abertu-
no emprego, níveis salariais acompanhando inflação, e uma "cul- ra de canais de incorporação dos atores emergentes,36 contribu-
tura de direitos" de responsabilidade coletiva do Estado, das indo para a formação de identidades coletivas, com reflexos
indústrias e dos sindicatos. Tais arranjos tinham uma força: ga- que se prolongam até os dias de hoje. Assim, à dimensão de
rantiam a preservação e reprodução de um modo de vida no exclusão e controle, trouxe também o reconhecimento público
contexto de relações desiguais de poder e também a possibilida-
de de os trabalhadores imprimirem sua marca na sociedade e no
Estado. 36
Ainda que o sistema tenha consagrado uma desigualdade estrurural nas for-
mas de inserção do empresariado e do operariado, como afirmam Renato
Boschi e Eli Diniz ("O corporativismo na construção do espaço público." ln
35 Huw Beynon. "A destruição da classe operária inglesa." ln Revista Brasileira Renato Boschi (org.). Corporativismo e desigualdade-a construção do espa-
1 de Ciências Sociais, nº 27, 1995. ço público no Brasil. Rio de Janeiro, Rio Fundo Editora, 1991).

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e um espaço de participação para os trabalhadores urbanos or- recorrência de um padrão consolidado dessas relações, cul-
ganizados. turalmente enraizado e resistente à mudança. Esse padrão
Já assinalamos em outro texto 37 que a experiência sindical gerou atitudes de grande dependência do Estado, e não só
e política de ambos as categorias naquele período ajudou a por parte dos trabalhadores, difíceis de serem abolidas de
construir uma cultura política comum e se constitui num ver- uma hora para outra. 39
dadeiro divisor de águas, um marco que distingue "velhos" e Assim, a redefinição do papel do Estado, a ausência de no-
novos" operários. Para os "velhos" operários navais, como para vos espaços de negociação e a indefinição sobre quais serão os
os trabalhadores da siderurgia, essa cultura política é marcada atores estratégicos deste novo contexto, bem como os interlo-
por uma forte relação com o Estado e pela noção de direitos, cutores do movimento sindical, vêm desorganizando todo um
bases importantes para a articulação de reivindicações e a de- sistema de intermediação de interesses, com sérios riscos para
finição de conquistas trabalhistas. Assim, o pós-64 foi nossa democracia.
vivenciado pelos operários mais antigos dos dois