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RITOS

HO lKTE~IOR
FONEBRES
~~~EN5E

~971
RITOS FÚNEBRES
NO INTER!OR CEARENSE
CANDID.A GALENO

.. :-,;.

RITOS FÚNEBRES
NO INTERIOR CEARENSE

EDITORA HENRIQUETA GALENO


FORTALEZA-CE -1977
FICHA CAT ALOGRAFICA

Galeno, Cândida
G 153r Ritos fúnebres no interior cearense. Forta-
leza, Henriqueta Galeno, 1977.

p.72.

1 - Ceará - Usos e costumes.


2 morte e funerais. 1. Título.
CDV: 393. 1
SUMARIO

Nota preliminar - Ftoríval Seraine/1


In trodução/ 9
Enterro em Canto Grande/Lã
Tratamento do corpo/Lã
Vestuário do derunto/Lê
A guarda do morto/ãl
As "inselências"/31
A despedida/Sê
Acom panhamen to do enterro/éü
"Chega, irmão das almas!"/48
O sagrado e o profano nas "sentinelas"/56
No domínio da lenda/70

5
NOTA PRELIMINAR

o estudo dos socíoíatos, isto é, daqueles


"fenômenos culturais que consistem na proje-
ção diferenciada da natureza social do ho-
mem" - conforme as expressões de Guizzet-
ti - ocupa lugar relevante no âmbito folcló-
rico.
Entre eles incluem-se, na generalidade
das classificações' especializadas, Os costumes
relativos a certos momentos da vida, como o
nascimento, o matrimônio e a morte. Os ritos
íúnebres e mortuários peculiares às comuni-
dades folk acham-se, pois, integrados nesse
plano da investigação cultural.
Apesar de 'haver merecido a atenção de
reputados folcloristas como Pitré, Gubernatís,
J. Amades e Hoyos Sainz, o tema, em nosso
país, não vem atraindo o mesmo ínteresse que
outros aspectos da vida popular, devendo ape-
nas salientar-se, a propósito, os artigos de
Alceu Maynard Araújo, José Nascimento de
Almeida Prado, Gonçalves Fernandes e alguns.
mais.
7
Destarté, a-produção de Cândida Galeno -
Ritos Fúnebres no Interior Cearense - avulta
,ern .nossa bibliografia folclórica, e não .foí sem
'c~l'níi'~azao__ queos membros da Comissão Jul-
·gàdQ~ado Concurso Mário de Andrade.etetua-
d~·' e~~'B..Pa~lo',
. -..," .~.
lhe outorgaram "menção hon-
",

rosa",
-: ~. .
.;
não' - .
.
obstante ha.ver sido esse o primeiro
trabalho da Autora, na especialidade.
, .,' Trata-se, em verdade, do resultado de pes-
:quXsª'.~x~rcidain loco, em que a matéria é dis-
'tribuida.
r : . . -: ....
sob acertada técnica .~e se acham des-
:,"

.critos os aspectos culturais mais significativos


'do fenômeno social.
Reeditando a excelente monografia, Cân-
'{r'da Galen'Q torna o seu conhecimento mais
acessíve,l aos interessados, que dela poderão uti-
lizar-se proveitosamente nos estudos compara-
tivos.
Tomamos apenas a liberdade de .recomen-
-
.
dar à escritora cearense que prossiga nesse gê-
.... ,

nero de pesquisa~, completandoa sua obra com


monografias, concernentes a outros momentos
daexistência humana,em.especial o riascímen-
'to e o matrimônio. F1.oRIVAL SERAINE
~
INTRODUÇÃO·.

Nasceu-me a idéia de escrever este traba-


lho depois que estive em julho de 1956 a pas-
sar férias no interior do Ceará, com a poetisa
Abigail Sampaio, no sítio S. Lourenço, muni-
cípio de S. Gonçalo do Amarante, onde se en-
sejou oportunidade de assistir a um enterro. e
anotar-lhe todas as ocorrências. Enterro na
roça, com todo o prímítlvismo que a era do
avião a jato, da bomba de hidrogênio e do ci-
nemascópio ainda não. logrou- apagar de todo
nas regiões longínquas deste país imenso.
De volta à capital, li minhas anotações
para o. ilustre folclorista conterrãneo Dr -.Flo-
rival Seraine, que gostou da, maneira como.
observei o. fato em campo e incentivou-me' a
prosseguir no trabalhe.
Comecei, então, a rebuscar na memória
lembranças de outros enterros assistidos na
infância, a compiJar dados sobre o assunto, li-
dos em diversos autores, a fazer pesquisa com
pessoas de diversos pontos do Estado, para ve-
rificar as variantes observadas nas diversas re-
giões, e deste material colhido surgiu este des-
pretensioso estudo,

Do meio das minhas remotas lembranças


surge-me a cena do primeiro enterro a que as-
sisti, criança, na cidade de Jardim, situada ao
sul do Estado, na zona limítrofe com Pernam-
buco. Era um enterro de l.a classe: morrera a
nora do chefe político da localidade. A casa da
morta, como a nossa, ficava situada na praça
da Matriz, e pude, assim, observar todo o mo-
vimento.

o
enterro verificou-se à noite. O pessoal
que o acompanhava, homens, trajava roupa
escura e conduzia às mãos velas acesas, de sor-
te que a praça ficou repleta de gente e pontea-
da de luzes. A banda de música do lugar seguia
o cortejo, tocando um "funeral" que arrancava
lágrimas às pessoas mais empedernidas. O cai-

-.10

" ,.
xão da morta, todo preto.eraconduzído à mão
por diversos homens.
Nunca mais me esqueci desta cena, presen-
ciada em 1925. -
Depois, fui mudando de cidade, à medida
que a instabilidade da vida de magistrado de
meu Pai exigia, e assisti a enterros sem conto,
de adultos e de crianças, em caixão e em rede,
em cidade do interior e na capital.
O material dessas observações foi-se sedí-
mentando no meu cérebro, até que, agora, o
comparecimento a um enterro na roça, reali-
zado em rede e ainda com o ritual da "sentine-
la" e o canto das "ínselências", avivou em
mim o desejo de escrever sobre os ritos fúne-
bres no interior do C'eará.
Dividirei o meu trabalho nos seguintes
ítens:

1. Enterro em Canto Grande


2. Tratamento do corpo
3. Vestuário do defunto
4. Guarda do morto
5. As "ínselêncías"
6. A despedida
7. Acompanhamento do enterro
8. "Chega, irmão das almas!"
9. O sagrado e o profano nas "sentinelas,"
10. No domínio da lenda.

12
1. ENTERRO EM CANTO GRANDE

Morrera, a 25 de julho de 1956, João Maxi-


miniano, agricultor, irmão de Josefa e Rai-
munda Maximiniano, as mais afamadas ren-
deiras do lugarejo Canto Grande, município
de S. Gonçalo do Amarante, que dista uma lé-
gua de areia frouxa de Síupé, em cujo cemité-
rio se deu o enterro.
Logo que acabou de expirar, ajudado pela
invocação de "Jesus, Maria, José, a minh'alma
vossa é" e pelas orações do Santo Sudário e do
Anjo da Guarda, o morto foi trazido da camari-
nha para a sala. Houve o cuidado de se efetuar
tal transporte com Os pés do defunto para o
lado da porta da rua, o que é feito para evitar
que morra outra pessoa da casa.
- E'ntra-se no mundo pelos pés, são, eles
que mandam nosso corpo, por eles devemos sair.

13
No dia em que sai enterro, não se deve var-
rer a casa. Não se deixa caixão ou rede em que
vaí defunto bater no portal, pois morre outra
pessoa.
Depois de colocado na sala, o corpo vai ser
vestido,° que se faz cantando a Ave-Maria.
Quando se está vestindo o defunto, chama-se
por ele, assim: - João, acorda para vestir a tua
derradeira camisa. - Esta constbu de uma
mortalha de morim branco, vestida por cima
das calças e da camisa, com o cordão de São
Francisco amarrado à cintura do morto.
Quando o defunto é rico, vai ensapatado,
engravatado e vestido com a melhor roupa.
Quando é pobre, vai de mortalha, que. pode ser
branca ou de cor. Na cintura põe-se sempre o
cordão de S. Francisco.
Não havendo na casa de taipa e palha onde
estávamos, uma mesa grande, o defunto foi co-
locado numa esteira, no centro da sala com
piso de areia socada, sendo acesas quatro velas,
colocadas em tijolos, à falta de castiçais, em
forma de cruz - uma aos pés, outra à cabecei-
T~, uma à direita e outra à esquerda.

:14
2. TRATAMENTO DO CORPO

Não há entre nós notícia de lavação do


corpo, de que trata em seu estudo (1) o escritor
José Nascimento de Almeida Prado.
Em São Paulo, onde reside o autor e a
cujo interior se refere o trabalho em apreço,
"depois que o corpo esfria bem, mas antes que
comece a enrigecer, mais ou menos 1 hora após
a verificação da morte, procede-se à "lavaçâo,
lavagem ou banho do corpo", para cujo serviço
há também pessoas procuradas e como espe-
cíalízadas, em regra estranhos e pessoas. de res-
ponsabilidade, "que tem coragem" e geralmen-
te gostam mesmo de se prestar para isso" .

1- "Trabalhos Fúnebres na Roça" - José Nascimento de


Almeida Prado - Separata da Revista do Arquivo, n.o
CXV - Departamento de Cultura - S. Paulo, 1947.

10
Este uso de se banhar o morto no sul do
País talvez se deva à acentuada influência es-
trangeira ali existente, visto serem oriundos da
Europa e da América do Norte estes hábitos.
Em Portugal, informa-me o médico Dr. João
Saraiva Leão, ao morrer um cidadão, a primeira
coisa que se lhe faz é barbear. Não se compre-
.endecomo se possa sepultar um cristão barba-
do. O banho vem depois. Na América não só se
banha, como se faz a "maquilagem" completa
do defunto.

•. '
Enquanto assim se procede noutros países,I •

, e no sul do nosso próprio, aqui no Nordeste não


se banha, não se faz barba ou qualquer "ma-
, quilagem" em quem morre, antes de o sepult~r.
Apenas, quando se trata de "anjo" (criança),
pinta-se-lhe com papel de seda encarnada O'U
carmím as faces lívidas.

Perguntando à professora do sítio S. Lou-


renço (município de São Gonçalo do Amaran-
te) e também poetisa, Abigail Sampaio, se era
'costume por lá dar banho nos defuntos, res-
'Pohdeu:"me
, ,
ela com muito espírito: "Não, o de-
funto vai com a sujeira que guardou na mo-
léstia" .
Já em Limoeiro do Norte e em Tauá, cida-
des do interior cearense, segundo depoimento
das educadoras Carmus'na Arraes Fre.re e Lili
Feitosa, depois de morto, fecham-se os olhos di)
defunto, amarram-se-lhe O'S pés, cruzam-se-lhe
as mãos sobre o peito, penteiam-se-lhe Os ca-
belos e faz-se uma limpeza nas partes do corpo
que ficam expostas, descobertas, para dar ao
morto boa aparência.
3. VESTUARlO DO DEFUNTO

Ao acabar de morrer, a pessoa que ajuda o


moribundo neste último transe diz-lhe: - F'u-
lano, fecha os olhos.
Quando a boca do defunto fica aberta,
atam-Se-lhe Os queixos, e o mesmo se faz aos.
pés e às mãos, que só são soltos ao descer para
a. sepultura .
.Ao vestirem a mortalha, dizem ao morto:
- Fulano, acorda para vestir tua última ca-
misa.
As mulheres entre nós usam sempre mor-
talhas, geralmente traje do santo de maior de-
voção na localidade ou na família: traje de
Nossa Senhora do Carmo e hábito franciscano,
indistintamente, para homens e mulheres, ope-
rários e mulheres mais. pobres, por serem mais
acessíveis à bolsa de todos. As moças vão tra-

·18_
[adas de branco, ora com vestes de Nossa Se-
nhora de Lourdes, Imaculada Conceição, Nossa
Senhora de Fátima, ora de Santa Terezinha.
Não é costume entre nós a mulher vestir
para enterrar-se nenlhuma roupa. que tenha
usado em vida, como ocorreu ~~ América com
Carmen Miranda, que veio a sepultar-se com
vestido vermelho. Aqui a mulher usa sempre
mortalha, enquanto os homens tanto podem ir
com traje de santo como com _roupa já usada
em vida: uniforme, a roupa qH;e serviu no ato
I
do casamento (Limoeiro do Norte),
Quando homem, íníorma-me Lili Feitosa,
professora em Tauá, O' morto VA.i com sua rou-
pa mais nova, de gravata ê ~apatos; quando
mulher, vai em traje de Nossa Senhora do Car-
mo, de Fátima ou de outra devoção da morta.
Noutras regiões, como por exemplo Canto
Grande, Siupé, São Gonçalo (município de S.
Gonçalo do Amarante) o defunto tem que levar
toda a roupa nova: se é mulher a mortalha de
morim e o cordão de São Francisco na cintura,
se é homem leva a mortalha por cima da ca-
misa e das calças e o cordão de S. Francisco à

19
cintura. Não usam paletó. Isso para os pobres.
Os que se 'consideram ricos não usam marta-
lha, vão em traje de qualquer santo, íníorma-
me Abigail Sampaio .
. i! D. Raimunda Maximiniano da Silva, que
mora nessa zona, disse-me a razão de não pu-
;derem os defuntas vestir roupa usada, e ter
que vestir tudo novo: é porque os anjos, ao vi-
Eem buscar a alma do que morreu, seguram-se
ria
.. fazenda, que se for usada rasga-se, caindo
;.}...

a alma novamente na terra .


. ..•... :~ .

4. AGUARDA DO ,MORTO

o "velório" do defunto varia muito.de de-


nominação. Há lugares em que se chama "sen-
tinela" (Itapipoca, Tauá, Juazeiro do-Norte);
noutros, "quarto" (São Gonçalo do' Amarante,
São Bernardo das Russas e também Juazcir~,
do Narte); já em Limoeiro do Nor'te:'chama-se-
"guarda" .

"Quarto", "sentinela" ou "guarda", como


quer que o chamemos, é o ato de ficar com r
defunto durante as últimas horas que eleper-
manece neste mundo.

Quando o passamento severíf'ca à 'tarde,


a "sentinela" se estende portodaa noite" quan-
do ocorre pela manhã, faz-se o "quarto'tduran-
te o dia e o enterro se efetua à tarde, Muito
embora tenha 'eu assistido, em 1925, '~'Jrn:·.en-
• '!·l

'21
terro à. noite, não é mais usado este horário de
sepultamento entre nós.
A hora do entêrro é determinada pela hora
da morte. Costuma-se esperar que decorram 24
horas do passamento ao entêrro, devido ao re-
ceio de que, enterrando-se antes, talvez a pes-
ma esteja viva e possa tornar. Há até uma his-
tória passada no interior do Ceará (Quixera-
mobím), nos fins do século passado, que me foi
relatada pelo Dr. Saraiva Leão e ilustra bem a
causa deste medo. Vejamo-Ia.

o defunto vinha carregado em rede, quan-


do, à certa altura do caminho, cansados os seus
carregadores, 'ao defrontarem-se com enorme
lagedo que fica na fazenda Salva Vida, puse-
ram a rede à margem da estrada, sentaram-se
na pedreira e começaram a comer rapadura
com farinha, comida típica dessa nossa região.
Nessa parada forçada, a morta ressuscitara -
a defunta que ia na rede fora vítima de ataque
cataléptíco e,.ao voltar a si, em plena estrada,
olhou em tomo, viu aqueles homens a comer e
conversar e disse-Ines então: - Quero um pe-
dacinho de rapadura. O SUE.to que-eles tiveram,
ouvindo falar a defunta que conduziam, foi tal
que abalaram em louca oorrida,deixando na
. estrada a suposta morta. O lagedo, a partir
deste dia, ficou sendo conhecido o Lagedo da
Rapadura, e ainda lá está desafiando o tempo.
A "sentinela" é constituída de grande
ajuntamento de pessoas. Parenteaamigos e co-
nhecidos do morto ou da sua família vão pres-
tar-lhe a última homenagem.

O defunto é colocado na sala de visitas, ru,


caixão, com o crucifixo sobre o peito, com os
pés para a rua e nessa posição será levado à
igreja para a encomendação e dali para o ce-
mitério.
Outra imagem, de São José, algumas ve-
zes, por ser o Patrono da boa morte, é colocada
numa mesa, e quatro castiçais em redor do
caixão, que é posto em cima de quatro cadei-
ras, tamboretes ou caixotes.
Quando o defunto é pobre e não há na CREio].
cama nem caixão, ele é colocado no chão, em
cima de um táboa, porta ou esteira, donde é re-
tirado para a rede, na hora do entêrro.
As velas ardem durante todo tempo da

23
"'sentinela'" seja noite ou dia, e as rezas mais
usadas durante a mesma são: têrço, tirado pela
pessoa mais letrada do lugar, ou mais amiga
da família: a professora, a estudante; Ofíc o
das Almas (Limoeiro do Norte); têrço e Ofício
. de Nossa Senhora (Tauá, Juazeiro do Nort c:,
. São Gonçalo do Amarante, rtapipoca); terço e
ladainha (S. Bernardo das Russas).

Nas "guardas" ou "sentinelas", enquanto


uns rezam contrítos, outros conversam anima-
dos; muitos a elas comparecem só para ter oca-
siâo de conversas as mais variadas, até de na-
mo.os, enquanto vão sendo distribuídos com os
presentes café e cachaça, quando se trata de
enterro mais pobre, como o que assisti no mu-
nicípio de São Gonçalo. Quando a família do
defunto tem posses (Tauá e Juazeiro do Nor-
te), distribuem, além do café e bebida, também
o caldo de carne. O comum, entretanto, é a
distribuição permanente do café para todos e
de cachaça entre os homens. Se a família do
morto tem recursos e mora em sítio ou fazen-
da, oferece aos transportadores do defun to,

'24
quando regressam do enterro, almoço ou jan-
tar, conforme a hora.
Para elaborar este trabalho, colhi infor-
mações de muita gente de diversos pontos do
Estado. Assim é que o Sr. J. David Aragão, re-
sidente em Aires de Sousa, município de So-
bral, mandou-me a narrativa das peripécias de
uma "sentinela" a que assistira em 1932, no
local onde se construia o açude General Sam-
paio. Dado o ajuntamento de famintos que
afluiam, assediados pela seca, de todos, os re-
cantos do Estado, grassavam diversas doenças:
sarampo, gripe, disenteria, varíola, morrendo
miseravelmente número considerável de pes-
soas, especialmente crianças r, Eis como nos fala
o Sr. J. David Aragão sobre o que presenciou:

- Assisti à morte de um velhinho, filho da


terra. Solteiro e na flor dos anos, encontrei ali
uma assistência fazendo "sentinela", composta
de moças e rapazes em namoro, sentados. em
bancos de forquilhas, espalhados pelo terreiro,
o que não deixou de chamar-me atenção, espe-
cialmente quando uma moça se fez logo meu
par. Uma fogueira ardia, ali perto, clareando,

25
em lugar de luz elétrica. Um cafezinho saia
sempre, correndo todos os bancos. Lá na sala•.
sobre mesa tôsca, em caixão pobre, o defunto,
com os queixos amarrados com uma faixa
branca. E dos lados, em cada canto da mesa
uma lamparina de querosene clareava. Via-se
também uma imagem do Senhor, nas mãos
postas sobre o peito do cadáver. E na parede a
imagem de São José, o advogado dos moribun-
dos. Nunca havia eu assístido àquilo, e se me
tornou bem curioso, quando vi, na sala, um
grupo de mulheres que rodeavam o defunto
cantar, em côro, div:ersos benditos, Salve-
Rainha e outros cân tãcos.."

Em Granja, também no norte do Estado,


segundo testem unho de um filho da terra, Sr.
Eduardo Carvalho, havia, há trinta anos, idên-
tico intuito nas "sentinelas" que por lá se fa-
ziam: namoros, narração de anedotas e histó-
rias diversas e até apostas para ver quem tinha
coragem de ir, dentro da noite, ao cemitério,
buscar galhos de cipreste. Em Granja também
se cantavam as "inselências" e a banda de mú-
sica acompanhava os enterros, tocando "fune-
26
ral", ISto há. 4Ó anos. Em zona diversa, porque
no sul do Estado, na cidade de Juazeiro do Nor-
te, 20 anos decorridos,quando morria uma pes-
soa, o canto das "inselências" fazia parte indis-
pensável da "sentinela".

Maria Gonçalves da Rocha Leal, que me


forneceu dados a este respeito, disse-me haver
crescido ao som das."inselências" que enchiam
o silêncio das noites sertanejas de lúgubres,
melopéias, chegando a aterrorizar as crianças.
Não obstante, continuaram a ser cantadas até
15 anos atrás, quando a polícia, por medida de
ordem e segurança, proibiu-as, para evitar as
desavenças que sempre surgiam no "sereno"
que as "inselências" atraiam para o terreiro do
defunto.
Havia geralmente uma "cantadeira" para
tirar rezas, benditos e "inselências".
A oração "Repouso eterno, daí-lhes Se-
nhor", era tirada por um homem, enquanto o
côro respondia: "A luz perpétua, o res-
plendor" .
Em Juazeiro do Norte, a cujos hábitos fú-
nebres estou-me reportando, eram muito can-
· tadas as seguintes "ínselêncías" das Virgens e
de Nossa Senhora das Dores, cuj as letras e m ú-
sicas me foram fornecidas pela educadora aci-
ma mencionada. Vejamos a "inselência" das
Virgens:

Uma inselença das virgens


Quem mandou foi a Mãe de Deus,
Adeus, irmã dos anjos,
Irmã dos anjos, adeus.

Duas "inselenças" das virgens, depois três,


quatro, até completar dez "inselenças". A "in-
selença" de Nossa Senhora das Dores, reza
assim:

Uma inselença de Nossa Senhora das Dores


Quem foi que mereceu
Esta capela de flores?
Os anjos lá no céu tão cantando mil louvores.

Esta, como a anterior, é cantada até oom-


pletar dez vezes.
Pelo texto, as duas "inselências'' acima de-
viam ser cantadas de preferência na "sentine-
la" de moça, isto é, pessoa que morre virgem.
Este "adeus, irmã dos anjos" só pode referir-se.
a pessoa que nunca teve contato carnal. Na se-
gunda "inselência" também vemos o seguinte:
"Quem foi que mereceu esta capela de flo-
res?" - capela de flores alusiva, não resta a
menor dúvida; à virgindade da morta, pois,
como sabemos, o uso da grinalda de flores de
laranjeira entre nós é privilégio das virgens.

En tre o povo do Nordeste o tabu em torno


da virgindade, mormente no interior, é coisa.
seríssíma, mantém-se inalterável. Moça que
perde a virgindade, sem ser pelo casamento,
corresponde a morrer em vida para a família e
a sociedade, que a relegam ao ostracismo.
Quando morrem solteiros, rapazes ou mo-
ças, têm enterro diferente, o caixão é azul e as
coroas ou flores que acompanham são brancas,
símbolo da virgindade, Em Juazeiro do Norte,
quando morria uma moça, o enterro só podia
ser acompanhado por moças e crianças, em
respeito à pureza da morta.
A "sentinela" dura toda a noite, ao som

2Q
das "ínselêncías", da reza do Ofício de Nossa
Senhora, do terço e da ladainha. Quando vem
"rompendo a barra", isto é, amanhecendo, can-
tam então o seguinte bendito:

Lá vem a barra do dia,


Lá vem a Virge Maria.
Lá vem três anjinho do céu
Para sua companhia.

As rezas, os benditos, as palestras, os na-


moros, a distribuição de café e cachaça prosse-
guem até que chegue a hora da despedida.

30
5. AS "INSELÊNCIAS"

Começou-se em seguida a rezar, eram 13


horas, aproximadamente, "Maria Valei-me", o
Santo Ofício e outros benditos, Cantou-se a
"inselência" das Almas" que é repetida doze
vezes, mudando-se apenas o primeiro verso:

Uma inselência das almas


Quem nos deu foi a Mãe de Deus,
Adeus, irmão das almas,
Ó irmão das almas, adeus.

Na 2.a vez canta-se alterando o 1.0 verso


da seguinte forma:

Duas, inselências das almas

Na 3.a vez: - Três inselências das almas,

31
- e assim por diante, até cantar doze vezes,
com o restante da quadra igual à primeira.

As "inselêncías" têm diversas letras e mú-


sicas, e diversas delas foram cantadas no
"quarto" feito a João Maximiniano.

Raimunda Maximiniano da Silva, prima


do morto, que foi o grande amor de sua vida, é
exímia "cantadeíra" (nome que se dá, no inte-
rior do Ceará, às carpideíras) , acostumada a
cantar nas "sentinelas" dos defuntos da região.
Neste enterro, porém, a sua dor impediu-a de
cantar e as "inselêncías" foram tiradas pelas
jovens Maria Silva, Francisca e Antônia Maxi-
miniano, sobrinhas do morto, Sentadas no
chão, do lado dos pés do cadáver, tinha cada
uma delas um lenço na mão, que, de vez em
quando levavam aos olhos como se isso fizesse
parte do ritual, pois não estão chorando. Vão
cantando seguidamente as "inselências", pri-
meiro a das Almas, depois a dos Anjos, mesmo
sendo enterro de adulto:

32
Lá vai um anjinho pro céu
Todo cercado de luz,
Nossa Senihora da Guia
Abra as portas, meu Jesus r ,

Deus te salve,casa santa,


Onde Deus fez a morada,
Onde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada.

Os versos prosseguem neste diapasâo, até


completarem doze anjinhos ,
O número de vezes que f(~ repetem os ver"
sos varia: há "inselências" que devem ser can-
tadas 7, 10, 11 nu 12 vezes e delas r:IOS fala a
poetisa paraibana radicada €m S. Paulo, Mari-
lita Pozzoli:

"Vão cantar a noite inteira


até o dia raiar.
Vão cantar as "inselença"
que é pro João se salvar.
Uma "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem
Icunfíssão,

r 3::3:
Duas "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem
lcunfissào,
Três "inselença" da Virge da Conceição,
Deus, num primitas que eu morra sem
lcunfíssão,
Quatro "inselença"
- São doze "ínselença"
E não pode parar
Porque senão dá azar ... "
Quando se aproxima a hora do enterro,
canta-se então o Santo Ofício, (Ofício de Nossa
Senhora), o que foi feito por um tio do morto,
Raímundo Maxíminíano da Silva, homem de
idade avançada, acompanhado por Josefa, irmã
do morto e outras pessoas presentes.
No trecho do Ofício em que há o verso -
"Desce Deus do Céu para às criaturas" - os
rezadores se inclinam até encostar a testa no
chão. O Ofício é reza muito em uso em toda a
região e é cantado, tanto como o terço e a la-
dainha são rezados. dê joelhos. Depois dele vem
então a "ínselêncía" da Despedida, também
cantada doze vezes, da seguinte forma:
Bendito, louvada seja
Meu Jesus da Piedade.
VaE10Srezar aos doze após talos
E a San tíssíma Trindade.

É um irmâo apóstolo
Que ganhou o Paraíso,
Adeus, irmão, adeus,
Até dia de juiza.

QuandO' eu falo em Deus, me alegra


No meio da cristandade,
Me alembro das três pessoas, irmão,
Da Santíssima Trindade.

E-sta "inselência" é das mais longas, pois


estes versas vão repetidas doze vezes, com esta
simples mudança:

É um irmão apóstolo, na I." vez,


Somos dois irmãos apóstolos, na 2.a,
Somas três irmãos apóstolos, na 3.a e assim
por diante, acrescentando:
Que ganhemas O' paraíso, a partir da 2';a vez.
Depois de rezada a "inselência da despedi-
da", a rede é trazida para a sala, depois de colo-
cada numa grade feita de quatro paus fortes. Às
testas da grade são amarradas os punhos da
rede onde o defunto é colocado sem que cressea
cantoria. Ao colocar o morto verificaram que a
grade estava muito estreita, não dando passa-
gem ao corpo enlarguecido pela posição dos
braços cruzados e das mãos trançadas sobre o
peito. Apesar de experimentarem a entrada do
cadáver em todas as posições, de quina, virado
para um e outro lado, não conseguiram fazê-to
entrar ..Colocam novamente o defunto na estei-
ra no centro da sala e voltam com a rede para
o terreiro a fim de alargar a grade.

Enquanto o enterro não sai, fica-se rezan-


do ou cantando terços, benditos, "inselências",
pois é corrente que quando não se reza, o de-
mônio vem para perto do morto, em forma de
raposa ou de cachorro.

Sem que cesse a reza, ouve-se por fim a


cantoria da "despedida" propriamente dita,
nestes termos:
Lá se vai quem cá tornou
Que Jesus nos concedeu,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Se o tempo for durante


Eu cá tornarei avir,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Ajudai-me meu povo,


Ajudar-me a despedir,
Até dia de juizo
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Adeus casa, adeus saudade,


Onde as aves entristeceram,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Nesta "ínselência" o termo durante (se o


tempo for durante) quer dizer duradouro, e o
verso "eu cá tornarei a vir", evidencia clara-
mente a idéia cristã da sobrevivência do espí-
rito, ou a idéia espírita da reencarnação.

37
6. .A' DESPEDIDA

Chegada a hora de sair o enterro, vem a


despedida da família, ponto culminante da
cena mortuária. A despedida é feita em geral
com grandes choros, beijos, abraços no morto,
lágrimas abundantes e exclamações que como-
vam 08. presentes. Há ainda a tragédia dos des-
maios, dos ataques nervosos, remediados pelo
socorro dos amigos, dos chás calmantes, da
esfregação dos pulsos com álcool e, moderna-
mente, com a aplicação de injeções sedativas,
etc ..

Terminados os últimos adeuses, fecha-se o


caixão e acha ve é guardada pela família do
morto. Em Juazeiro do Norte, usava-se anti-
gamente fechar o caixão do defunto com ca-
deado. Hoje se usa apenas fechadura simples,
" ·,38
e dela temos notícia através desta quadra do
nosso poeta Soares Bulcão:

A chave de fita escura


Com que fechei teu caixão,
Ê a mesma da fechadura
Que trancou meu coração.

.39
7. ACOMPANHAMENTO DO ENTEHHO

Colocado por fim o defunto na rede, trazi-


da pela segunda vez para o centro da sala, re-
pousa este de braços cruzados sobre O' peito. ""-
rede é carregada por quatro homens, cada um
dos quais segura uma das pontas dos quatro
paus que formam a grade.
Na zona de S. Gonçalo do Amarante o en-
terra [,8 faz geralmente entre quatorze e quin-
ze horas, debaixo de um sol de fogo, tendo os
acompanhantes que romper uma légua de
areia, subindo morro, com a rede aos ombros.
Para terem ânimo nesta escalada, tomam ca-
chaça, quando vêm para a casa do defunto, e
nesta a garrafa de cachaça anda entre os que
vão acompanhar o enterro, para que cada um
tome seu "trago". No caminho ainda vão pa-
rando nas vendas para tomar outras "doses".
\ 40
No trajeto de casa para o cemitério os
acompanhadores do enterro marcham em com-
-. passo de trote e vão gritando, numa espécie de
aboio:
- Chega, "irmão das almas" -. para que
venham outras pessoas ajudar a carregar o de-
funto. Este, ao ser levado para o cemitério, não
· deve parar diante de nenhuma residência, o
· que é sinal de mau agouro - está chamando
· outro.
No entêrro verificado no cemitério de Siu-
pé, não houve toque de sinal, (dobre de sino),
nem encomendação do corpo na igreja, em vir-
tude da ausência de padre na região. A rede foi
conduzida diretamente para o cemitério, onde
foi depositada no chão, enquanto abriam a
· cova, após o que o corpo foi enterrado apenas
com a mortalha. Rede e lençol voltaram para a
família e, depois de bem lavados, terão a ser-
ventia anterior.

.
-;41
\;
A hora da saída do enterro varia entre 8,
10, 16 e 17 horas, de acordo com a da morte; à
noite, só em casos excepcionais. A professora
Carmusina Arraes Freíre, disse-me ter assisti-
do excepcionalmente, nestes últimos anos, em
Limoeiro do Noite, a um enterro à noite e com
velas acesas. Em Juazeiro do Norte, mesmo du-
rante o dia, usavam Os acompanhantes velas
acesas, distribuídas pela família do morto. Com
o encarecimento do custo de vida perdeu-se
esse costume. Nesta cidade também era uso das
famílias ricas fazerem acompanhar os enterros
do toque do "funeral", Já em Tauá e Limoeiro
do Norte não se usa acompanhamento de en-
terro com música, mas com a reza do terço, ti-
rado pelo Padre, que abre o oortejo, e pelo
"sinal" que vai tocando o sino, de acordo com
à vontade e posses da família; quem quer mais
sinal paga mais, uma, duas horas, contanto
que a um defunto cristão não deve faltar o
"[Ir.Ct~", que tanto pode ser simples como do-
brado, isto é, tocado em um só sino ou em mais
de um. Para enterro de crianças usa-se o repi-
. que, combinação de sons festivos de sinos.
João Brígido, no seu livro "O Ceará (lado
cômico)" traz esta página sobre o "sinal":
"Um Peixoto, do Riacho-da-Sangue, con-
tava assim o enterro de sua mãe:
- Quando a velha minha mãe morreu, tio
José disse ao são cristão: Toca vintem! toca
, "
v.ntem: . té m !'
I'... e o smo começou: Vln ..... VIn-
tém!
l/tas ti Mané arrojou pra riba e disse ao são
cristão: toca tostão, toca tostão e o sino come-
çou: tostão... tostão ...
Depois veio o Padre, botaram ela no girau
da igreja e sairam cantando.

Vintém era o sinal em sino pequeno, de


som estridente; tostão no sino maior, de som
cavernoso. Girau da igreja era a tumba, que os
convidados carregavam à mão.
Um nosso tio-avô, sempre convidado para
fazer tais honras, desapontou um dia:
- Quanto defunto morre nesta vila eu hei
de carregar! ...
Quando eu morrer, não há de haver quatro
diabos que me carreguem!"
O enterro é acompanhado pelo vigário, por
homens, mulheres e crianças. Quando o morto
é bem relacionado ou pertence a alguma asso-
ciação religiosa, é seguido por todas as outras
irmandades, que vão formando alas de um lado
e outro do caixão, transportado pelos amigos
do defunto. Em algumas cidades do interior,
como por exemplo em Juazeiro do Norte, usava-
se cantar no acompanhamento dos enterros de
moças e de crianças o bendito - "Com minha
Mãe estarei".
o préstitoentra obrigatoriamente na igre-
ja, a não ser em caso de suicídio, quando nem
passa pela igreja e nem se enterra no "sagra-
do". o Padre faz a encomendação do corpo e
segue à frente do cortejo até o cemitério. A fa-
mília e os amigos mandam fazer coroas com
inscrições, que são colocadas sobre o caíxâo,

44
Quando o defunto é pessoa bem relacionada ou
importante, é político ou autoridade, há dis-
cursos no cemitério e, ao descer o caixão à cova,
(isso se faz de preferência nos enterros pobres),
os amigos colocam sobre ele uma pá de terra.
Em Limoeiro do Norte, cada acompanhante do
entêrro põe sobre o defunto uma mão cheia de
terra e raramente usa a pá, o que é uma supers-
tâção: colocando a terra com a mão, a pessoa
não terá medo da alma do morto.
Quando o enterro é feito no interior, a fa-
mília do morto, querendo e podendo, manda
buscar caixão envernizado na capital; quando
há falta de transporte, manda fazer, na própria
cidade, caixão de cedro coberto de fazenda pre-
ta e com galões dourados, quando o morto é
casado ou viúvo. Anjo, moça e rapaz têm caixão
coberto de fazenda azul e enfeitado com galões
prateados.
Mas, esses enterros de que estamos falando
são enterros de cidade do interior, feitos em
caixão. Vejamos agora quando o enterro é feito
em rede e vem de sítios ou fazendas distantes,
onde não há cemitérios.
45
A rede usada para enterro é a comum, com
varandas de croché ou de malha, de preferên ~
cia branca. O morto vem envolto em lençol. Na
ocasião do enterro, tanto a rede corno o lençol
são retirados e voltam para a família que, de-
pois de lavá-los, passa a usá-los como dantes. O
cadáver é lançado à cova apenas C:Jn1 a mor-
talha.

Corno já relatei no m.lClO deste trabalho,


para facilitar o transporte a rede em que o de-
funto é conduzido vai colocada em. uma s:a~L
feita de quatro paus fortes" em cujas testas os
punhos são atados. Em outras ocasiões e cn
maior número de localidades usam apenas urr
pau furte e longo, em cujas extremidades sâc
presos os punhos da rede. Dois carregadores, :::,';
a rede pende de pau, e quatro se vai em grade
levam o defunto numa marcha em compass,
de trote.

Esta observação muito oportuna da mar


eha em compasso de trote em que é levado (
defunto, foi-me feita por Maria Gonçalves, de

46
Rocha Leal e Martins d'Alvarez se refere a esta
cadência própria da marcha de carregar defun-
to denominando-a de marche-marche.
Geralmente vem o defunto acompanhado
de grande número de pessoas, algumas a cava-
lo, outras a pé, e que se vão revezando no car-
regamento, Em zonas de várzeas extensas e
planas, como as do vale do Jaguaribe, o acom-
panhamento também é feito em bicicletas,
transporte característico da zona.
8. "CHEGA, IRMÃO DAS ALMAS!"

Durante a jornada, não se dispensa bebi-


da, de preferência cachaça. Assim, vão os
acompanhantes "matando o bicho" em todas
as vendas por onde passam. Vão conversando
pelo caminho, contam anedotas, riem. Há re-
giões, como a de S. Gonçalo do Amarante, por
mim visitada e onde assisti ao enterro inicial-
mente descrito, em que, quando o cortejo se
aproxima de uma casa onde há homem, gritam
O'S acompanhantes - "Chega, írmâo das al-
mas!", para que venha alguém auxiliá-los, en-
quanto noutras, como Limoeiro do Norte, não
se faz convite na estrada a pessoas que encon-
tram, estas seguem espontaneamente o en-
terro.
Vejamos, pela descrição que nos faz o poe-
ta Martíns d'Alvarez, a maneira. como eram
feitos, há quarenta 'anos, os enterros-de roça-da
sua terra natal - Barbalha (2r::
"Trata-se do funeral que se costuma fazer
na roça. Antes, porém, é bom advertir aos que
não conhecem o interior nordestino, que o ser-
tanejo de lá tem duas paixões na vida: o cavalo
e a rede. 'o cavalo para a luta e-a rede para o
descanso. Assim, quando o sertanejo morre ou
"descansa", como também se diz entre eles,
ainda é na rede que vaí levado ao.cemitério; Se
morre no sitio ou na fazenda, a rede é atada
pelos punhos a uma longa estaca de madeira.
Dentro dela põem o defunto e cobrem-no com
um lençol. Quase todos os sertanejos são cató-
licos fervorosos; daí só admitirem o sepulta-
mento de seus mortos no cemitério do povoado
ou cidade mais próxima, ao qual chamam sim-
plesmente "o sagrado". Como sempre precisam
de auxílio para carregamento do defunto atra-
vés de longos percursos, instituiram uma asso-
ciação denominada "Irmandade das Almas".

2 - "O Nordeste que o Sul não conhece" - Martlns


d'Alvarez - Publicação do Rotary Olub de aio Pau-
lo - 1955.
_,Qg.~~o .têm, portanto, um.deíunto a enterrar,
os irmãos das .Almas da vizinhança se reúnem,
'~J~ois<ie,les. suspendem aos ombrosas .extremida-
<. d,e1?da -estaca.ida _qual pende a rede com·o de-
fu,uto, e s~ vão estrada em fora, mudando de
.carregadores .aqui -e ali. Durante o percurso os
;;.homensmarcham aceleradamentee umdeles,
'. de vez. em quandogrita bem alto conclamando
.D,8 conírades que moram perto para aux.liá-loc

,;.9c;>_p::1O .todos são ocupados durante o dia, estes


,..funerais tem sempre lugar à noite, o Que torna
-t ~" ,_ •. , "" . . - .

i:;ai.nd_~ mais triste e lúgubre o cortejo.


Este quadro, a que assisti .muitas vezes na
,,-minha meninice, ficou-me gravado de tal modo
no espírito, que pude reproduzí-lo, há bem
,.pouco. tempo,
.).... .
neste poema:
.

Dentro da noite,
num marche-marche
cortando a fita
da estrada clara,
os homens seguem,
num marche-marche,
levando a rede
pro cemitério.
Dentro da rede
se embalançando,
bambo e curvado
como um presunto,
. ,.
como um presento
dentro de um. saco,
se embalançando
vai o defunto.'

E a voz dos homens,


de quando. em quando
fere a dormêncía .
das horas calmas,
num. vago apêlo .
cheio de angústia:
- Vínde ajudar-nos,
Irmãos das Almas!

Punhos atados
à longa estaca,
que os homens levam
suspensa aos ombros,
a rede segue
para a cidade, '.

·····51
leva o defunto ,,", ,.',
para o "sagrado".
, ..

'.... I"

Grilos ~\~ila;p",: ",.; :-


dentro q~.mato. ';'}
Sapos r(!~pQn~aÍn" ,_ ,
na escuridão.:';) ",' -' , ~"
.. ; ..• - '.:, ,.'
E o vento 're,~~;_) .."
nas folhas secas,
singelos Atos,
de COlúiíç'ã;o: j; ,

E a voz doshomens
sobe na nôite'·, ." ':,<,1;
como o louco anséío .••. i

de mãos, espalmas,
mãos .que aflítivas
pedem sOcorro:" .',. ;
- Vinde ajudar-nos,
Irmãos das Almas!

A rede ..passa
suspensa: em ..ombros" , ;

se embalançando, ;"
se embalanç~49:~ .. ,;. :'.'
Come)' se o" morto
fosse a ninar ,
E aves noturnas
tecendo ágoíros,

,;

sobre o cortejo,
cheias de espanto,
rasgam mortalhas
negras pelo ar.

E 00 triste apêln
que os homens lançam,
de vez em quando,
nas horas calmas,
apenas o eco,
bruxoleante,
responde ao longe:
... Irmãos das Almas!"

Há uns bons quarenta anos, Martins d'Al-


varez assistiu, na zona sul do ,E~t~<l:o,no Carírí,
a um enterro assim descrito. Hoje, volvidos
todos estes anos, assisto noutra zona" no norte

53
00 mesmo Estado, a enterro semelhante. Hou-
ve apenas duas variantes: a hora em que o en-
terro é realizado e a maneira de conduzir a
rede. No assistido outrora, o enterro se fazia à
noite, por estarem durante o dia todos ocupa-
dos. A rede era atada pelos punhos a uma lon-
ga estaca de madeira ..O enterro a que tive de
assistir, realizou-se às 14 horas. A rede estava
colocada numa grade feita de quatro estacas
fortes. Razão tinha, pois, José Nascimento de
Almeida Prado quando disse que no nordeste,
pelo espírito conservador e índole do povo, de-
vem perdurarpor mais tempo esses costumes
dos nossos maiores ..' .

É costume que, ao aproximar-se do cemi-


tério, os mesmos homens que saíram com a
rede de casa também entrem com ela no cam-
po santo.

Quando, no lugarejo para onde se dirige o


enterro há igreja, o corpo fica no adro, espe-
rando que cavem a sepultura. Onde não há
igreja, o cadáver fica no cemitério, enquanto
abrem a cova.
54
o acompanhamento do Padre e o toque do
"sinal" são pagos pela família do morto. Se ela
é pobre e o enterro é feito com auxilio dos co-
nhecidos, o defunto, irá para o céu mesmo sem
sinal e sem Padre.
g. o SAGRADO E O PROF'ANO
NAS "SENTINELAS"

Artur Ramos, referindo-se ao guardamen-


to do defunto, itambi ou funeral (3), diz que o
mesmo "constitui para uns pretexto para co-
mer, motivo de festas para outros e para alguns
causa de choros e de lamúrias: é uma cerímô-
nia em que o profano corre de mistura com o
sagrado. Chora-se, dão-se tiros em sinal de
tristeza, mas simultânamente dançam, jogam,
brincam, comem e embrigam-se. "
Efetivamente o guardamento do defunto,
que entre nós toma o nome de "sentinela"
"guarda" ou "quarto", é ocasião de mágoa,
choro, Iamentações para a família do morto,

3 - "O Negro Brasileiro" - Artur Ramos, BibliQteca de


Divulgação Cientiflça,R1o, 19a4.
más para o ajuntamento de pessoas que sem-
pre se forma no chamado "sereno", é lugar
para encontro de namorados, de amigos que se
distraem contando anedotas, e outras vezes
lugar para desavenças entre pessoas que, exce-
dendo-se na bebida que comumente distribuem
nessas ocasiões, perdem o controle. Namoros,
conversas e arruaças fazem com que o ambien-
te da "sentinela" perca aquele clima de proíun-
da tristeza, de pesado luto que espantaria fa-
talmente os que ali vão, não para rezar ou pres-
tar a última homenagem ao morto, mas para
folgar. Daí a razão de se terem acabado, em
algumas zonas, como no Juazeiro do Norte, as
"sentinelas" com o canto das "inselêncías'v.o
que ainda atraia mais gente.
Corroborando o que acima expressa Artur
Ramos, vamos encontrar em escritores do sé-
culo passado, como Rodolfo Teófilo e Juvenal
Galeno, primos e contemporâneos, o relato fiel,
no primeiro, em prosa, no segundo, em verso,
da maneira como era recebida e comemorada
pelos pais a morte de uma criança. Esse fato,
em vez-de proporcionar tristeza, era motivo de
grande satisfação, pois é corrente ainda -hoje
que quem manda um "anjinho pro céu tem
quem interceda noite e dia por si junto :ie
nem"."
A Igreja nos fornece na pa.rte relativa à li-
turgia dos mortos esclarecimento para expli-
carmos a razão de ter degenerado a "sentinela"
feita às crianças em festa, em dança, em lou-
vação.
Diz a liturgia dos mortos, no que se refere
à sepultura das crianças: "Quando uma crian-
ça morre antes de ter o uso da razão, vai logo
para 0' céu louvar a Deus com Os anjos. Assim,
nos salmos não se diz RE'QUIEM AETERNAM
MAS SIM GLORIA PATRI; a missa é a dos
Anjos, com paramentos brancos e GLORIA IN
EXCELSIS. Cantam-se Vésperasdos Anjos" (4)
A caminho da Igreja, no. enterro, cantam-
se os Salmos 118, 148, 149, 150. NO'Salmo 149
encontramos 0' seguinte: "Cantai ao Senhor um
cântíco novo. Louve-O a assembléia dos fiéis -

4 - "Missal Quotidiano e Vesperal" - Dom Gaspar Le-


. febure - Bruges, Bélgica.

58-
Louvem em côro o seu nome: cantem-lhe ao
som do tambor e do saltérío'' .
No Salmo 150 há esta parte: "Louvar-O ao
som da trombeta: Louvaí-O com o saltérío e a
cíta:ra. Louvai-O com tímbales e em côro: Lou-
vai-O com instrumentos de corda e cem órgão."
Creio estar aí a explicação para a maneira
altamente profana como foi em algum tempo
comemorada a morte das crianças. O "cântico
novo" do salmo, com que a assembléia dos fiéis
devia louvar o Senhor, o louvor ao som do tam-
bor e do saltério, com tímbales e em côro, com
instrumentos de corda e com órgão, veio sendo
corrompido através dos tempos, deturpado
pelas sucessivas gerações até ser reduzido à
"função" e ao "samba" de que nos falam os
escritores acima citados.
Vejamos como nos descreve Rodolfo Teó-
filo (5) a cena a que intitulou de "morrer
criança" e que lhe causou grande estranheza:
"Atraído pelos acordes de uma viola, cno-

i - "O CUnduru" - Rodolfo Teófilo - COntos _ L" edi-


ção - Tip, Minerva, Oeará, Fortaleza, 1910.

59"
romíngandoum baíão, cheguei auma casinha
de palha à sombra, de umfrondoso cajueiro:
Um samba em dia nãosaritificado, era-caso
estranho.
Aproximei-me e vi reunida no terreiro-dá
casa muita gente em traje domingueiro.
Um tocador, um caboclo novo e franzíno,
arrancava do instrumento tão.doces melodias
que não parecia um leigo na arte da música.
Como vibravam aquelas cordas com tanta har-
. I'
moma.

A viola; a lendária viola, o instrumento


querido do baile popular, vai pouco a pouco
cedendo o lugar à harmônica do paroara, de
uma melopéia áspera e pouco melodiosa.
Ao lado do tocador sentavam-se dois mestí-,
ços, Os cantadores, os bardos da plebe, que vi-
nham louvar - a bela sociedade - no dizer,
deles.

As caboclas formavam roda. Quase todas


vestiam o casaco de cassa florida e tinham os
cabelos amarrados em cocó, cercado de cravôs.
de defunto.
. ;.: ;,Os homens, . de. camisa e calça" cercavam
-por .sua vez o grupo de 'mulhere~,.
Aproximei -me.quanto pude .. Q1,leria.·sabe)
o motivo do samba em dia útil.
Um dos cantadores 'cantou esta, quadra:

. Vivaseu Chico .das Neves,


Viva Rosa de .Jesus,
Viva o anjo filho deles
......
Que foi de Deus ver a luz.

<,,' A quadra deu-me o 'motivo da festa: era a


t,

morte de uma criança. Que selvagens, pensei.


Aberei-me da pequena janela que se abria para
o terreiro. A salinha da entrada estava deserta,
'apenas o anjo, deitado no seu taboleiro, guar-
'dado por um caboclo velho, o avô dele, que ca-
beceava, não de sono, mas de aguardente.
01 anjo,
o cadáver de uma criança de pou-
co mais de um ano, estava amortalhado de
.branco, tinha as mãos cruzadas sobre o peito,
. sustentando uma pequena cruz de papelão
_dourado. Da cinta para baixo matizavam o alvo
sudário inúmeros laços de fita estreita, de va-
riadas cores. A cabeça emergia de um ramalhe-
te de cravos amarelos. As faces, rubras de car .•
mim, fingindo vida, destoavam dos olhos, mui-
to abertos, mas rem brilho, apagados. O cabo-
clinho estava teso como um prego.
Lá fora fervia o samba. Os cantadores não
cessavam de louvar a dita daquele menino que
morrera sem ter pecado.
As tijelas de aluá passavam de mão em
mão e, de quando em vez, alguns copos de
aguardente eram distribuídos aos convivas
mais graduados.

Aquela alegria, aquela folgança me faziam


mal. Que usança bárbara! Eu desconhecia essa
página do viver do povo. Seria possível que até
a mãe do anjo se regozijasse com a morte do
filho, dançasse em roda do seu cadáver? Não,
a mãe é sempre mãe. Ela devia estar na cama-
rinha, afogando a sua dor no mais copioso
pranto. Até as mães dos brutos choram, quan-
do lhes morrem Os filhos. Pensava assim, quan-
do a voz tremida de um dos cantadores mos-
trou-me como sofria a mãe do anjo:
62 .
, :;' .
Viva Rosa de Jesus,
" Que dança agora na roda
Com seu Bento das Marrecas
Rapaz galante, da moda,
Viva a mãe do nosso anjo
Que dança agora na roda.

Fitei a cabocla e tive o desgosto de ver que


ela não estava ali somente por comprazer. Dan-
çava toda requebrada, saracoteando, tendo o
rosto radiante de satisfação. Que bárbaros!
Olham a morte de modo diferente. Não tê:m
nervos para sentir as delicadas filigranas da
saudade. Eu não compreendia a psicologia do
povo. Eu os cria fracos, quando talvez fossem
fortes até o estoicismo.
O que via, não era fortaleza, era dureza de
coração, era insensibilidade.
Demorei -me para assistir o fim daquela
cena selvagem. Não esperei muito tempo Era
a hora de mandar o cadáver para o cemitério.
O velho que o guardava teve ordem de con-
duzí-lo. Deram-lhe uma lanterna de papel
branco, com uma vela acesa, que segurouna

'63
mão direita, enquanto o pai 'do morto, com
grande desamor,sem um olhar de despedida,
sem um beijo, o beijo da pragmática dos civili-
zados, punha o taboleiro na cabeça do velho e
o mandava embora.
A mâevíu sair o filho, para nunca mais
voltar e não o procurou para dar-lhe o último
beijo!
Eu julgava cruel aquele proceder porque
. ignorava o modo de sentir do povo. Este desco-
nhece o beijo que, entre a gente educada, faz
muito mal e nenhum bem. A morte para eles f:-
um beneficio, a cessação dos. sofrimentos, como
párias que são da humanidade.
Quando o enterro passou, os sambistas for-
maram ala e romperam nos mais estrondosos
vivas ao anjinho, ao pai e mãe dele e à sua ma-
drinha, a Virgem da Conceição. Enquanto a
gente assim berrava, foguetes estouravam no
ar.
Sumido que foi o esquife, continuou o sam-
ba na mais viva animação. Saciado de tanta
barbaria retirei-me, intrigado com semelhante
usança" .
Esse uso de que há memória apenas nas
páginas de, escritores antigos, como Rodolfo
Teófilo,e Juvenal Galeno, hoje está completa-
mente abolido. Das pessoas com quem falei ne..
nhuma me deu notícia desse costume antiga
de celebrar com dança e cantaria a morte een-
terro de um anjo.
Eis como Juvenal Galeno (6) descreve a
função, explicando-a antes com a seguinte
nota:
"É comum entre o povo festejar a morte
da criança. Logo depois do enterro, faz-se uma
função, e nesta, ao som da viola, entoa-se a
desafio louvores ao anjinho e aos pais deste,
enquanto dança-se a bom dançar e perto estou-
ra a roqueira ou bacamarte. Dizem - que feliz
é quem morre em tenra idade, porque livra-se
do futuro sofrimento e talvez da perdição eter-
na, e que o anjo vai ao céu advogar a causa de
seus pais. "
Agora nos descreve cena idêntica à narra-

6 - "Lendas e Canções Populares", 2.& edição _ Gualter


R. Silva, Editor...:,;.. Fortaleza, 'Ceata, UI92,.' '
da por Rodolfo Teófilo, apenas com uma va-
ríante: fala-nos da "função" realizada antes
do enterro dovanjo", estando este ainda na
sala, enquanto Juvenal descreve a animação,
mas já depois de realizado o enterro. Não 01....s-
tante, de uma ou de outra forma, esse era cos-
tume primitivo, chegando mesmo às raias da
selvageria.
o ANJINHO
Cantiga a Desafio

- Nós que somos cantadores


Da função junto à viola,
Enquanto dançam, cantemos
Ao soar de castanhola:
Louvemos da casa o dono,
Can temos nosso louvor,
A quem mandou um anjinho
Para os pés do Redentor.

-- Para 02, pés do Redentor


Por seu pai e mãe pedir;
Como são eles ditosos,
E mais serão no porvir;

00- I
Por isso agora se ínãama,
Nesta função o meu estro;
Haja aluá e aguardente,
Ai, senão, senão não presto!

- Ai, senão, senão não presto,


Não é zombaria, não,
A roqueira não estoura,
Sem carrego e sem tíção;
Por isso sou atendido,
Já sou outro, a voz se afina;
Vivam os pais do belo anjinho,
Enfeitado de bonina.

- Enfeitado de bonina,
O anjo pra o céu subiu,
Um adeus dizendo ao mundo,
Quando a morrer se sorriu!
Por isso agora o louvemos
Nesta tão bela função,
Enquanto na igreja o sino,
Toca o bom do sacristão.
- Toca obom do sacristão,
Ê o sinal da alegria,
De Jesus foi para o seio,
O anjinho neste dia.
Por isso o louvo contente,
Contigo,' meu companheiro,
Ê'nquanto lá toca o sino,
Dança o povo no terreiro.

- Dança o povo no terreiro,


Onde corre a viração,
°
Pois riso e felicidade
Têm aqui habitação;
Por isso agora louvemos,
Ao som da corda dourada,
Do anjo o pai venturoso,
Do anjo a mãe estimada.

- Do anjo a mãe estimada,


Ouça atenta o meu dizer:
Como a Tola vi seu filho
Voar ao' céu com prazer;
Por isso cantando eu louvo
O anjinho que fugiu
Deste vale só de prantos,
Onde a dor talvez sentiu.

-' "Onde a dor talvez sentiu,


Sentã-la não pode mais,
, Na terra passou ligeiro,
Qpal brisa nos laranjais;
Por isso louvando, eu digo
Da viola ao camarada:
Brademos três vezes - vivam
Os donos desta morada!

- Os donos desta morada,


Pai e mãe do belo anjinho,
Que por entre frescas flores,
Voou como um passarinho;
Por isso meu camarada
Brademos na ocasião:
Salve o anjo, os donos vivam
Desta casa e da função! ...

-"69;
10. NO DOMíNIO DA LENDA

Interessante é verificar como certos fatos


verídicos, pelo caráter extraordinário de que
muitas. vezes se revestem, assumem, com o cor-
rer do tempo, foros de lenda, e como histórias
fantásticas correm de boca em boca, como se
realmente não tivessem acontecido.
A respeito da invasão motorizada do ser-
tão, pelo caminhão, trem e até avião, ainda é
possível encontrar recantos onde os habitas
primitivos continuam os mesmos e um exem-
plo frisante desta assertiva é termos encontra-
do hoje, decorridos quarenta anos da época fo-
calizada por Martins d'Alvarez, no enterro de
roça a que se reporta e em zona diversa, os
mesmos costumes por ele descritos.
O avanço da civilização, com.o seu cortejo
obrigatório de utilitarismo e de deslocação para
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segundo plano das coisas do espírito, quase que
não permite mais em nossos dias a manuten-
ção de clima favorável para a sobrevivência do
que assume caráter lendário. Não obst'ante, é
dos nossos dias a história que me contou a pro-
fessora Carmusina Arraes Freire, residente na
cidade, sede de Bispado, de Limoeiro do Norte.
Eis o que ela nos conta, com a recomendação
de merecer fé, por ter sido ouvido de pessoas
verídicas:
- Um homem acompanhava todos os en-
terros que passavam à sua porta, Morava ele
numa fazenda do município de Iracema, Ceará.
Não se sabe porque o referido homem, ao acom-
panhar os enterros, só ia até determinado lugar.
Ultimamente morre esse homem. Levam-
no para 0' cemitério mais próximo. Não conse-
guiram, porém, ultrapassar o lugar de onde ele
sempre voltava dos enterros. E lá se ficou o cor-
po dele no sopé da ladeira. No local uma cruz
foi erigida para que a tradição sertaneja trans-
mi ta essa história às gerações vindouras, di-
zendo da força invisível que deteve o cortejo
ali, impedindo que fosse adiante o cadáver do
7t
-sertanejo avaro de maior generosidade para
acompanhar os. mortos à sua últímamorada.

•• •• *

São estes alguns dos RITOS FÚNEBRES


]),9 INTERIOR DO CEARÁ, vários já inteira-

mente desaparecidos, como o da louvação do


,:'~anjínho", de que só temos notícia através de
escritores de outro século, outros ainda em ple-
no vigor, como o do enterro em rede, encontra-
'do em extensaregião do Ceará, ou o da "senti-
nela" comas "ínselêncías", atualmente já
mui to raras.

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