Anda di halaman 1dari 86

Contracapa: A vida de Plínio está bem enrolada: seus pais vivem

reclamando que ele só se mete em encrenca, e André, aquele grandalhão da


escola, não se cansa de provocá-lo, e, o que é pior, de dar em cima de
Camilla, justamente sua grande paixão! Não é à toa que o baixinho Plínio às
vezes se sente “deste tamanhinho”. Opa! Parece que ele ficou mesmo “deste
tamanhinho”. Como será que ele se meteu nessa? É o que você vai saber
lendo as divertidas aventuras de um garoto que se descobre como pessoa
no meio deste mundo maluco em que vivemos.
TEXTO
Editor
Fernando Paixão
Assessora editorial
Carmen Lucia Campos
Suplemento de trabalho
Januária Cristina Alves
ARTE
Editor
Ary A. Normanha
Ilustrações de miolo e Capa
Flavio Colin
Quadro da capa:
Mondaufgang St Germain, Paul Klee (Tunis, 1915).

ISBN 85 08 052 23 5
Editoração eletrônica
Antonio U. Domiencio
1995
Este e-book em PDF:
Digitalização:

AdriAnA,
Ocerização, Revisão, formatação:

The flash
A GRANDE DESCOBERTA DE UM PEQUENO MUNDO
Plínio tem fama de não esquentar muito seu "courudo cabelouro",
uma expressão que ele mesmo criou. Mas quando ele nos conta, com muito
bom humor, sua verdadeira história, percebemos que não é bem assim.
Afinal, ele vai fazer 13 anos e tem sérios problemas para resolver.
Para começar, é baixinho e meio tímido com as garotas, o que o
impede de enfrentar o grandalhão André ou se aproximar de Camilla, que
ele acha a menina mais bonita da escola. Já seu irmão mais velho, Dênis,
vive fazendo com que ele se sinta minúsculo como uma caspa...
Divirta-se com as trapalhadas de Plínio e desembarque com ele na
terra dos Nyfs. Quem sabe você consiga ajudá-lo a desvendar um enigma
que pode mudar para sempre sua vida.
Leonilde Galasso nasceu e vive até hoje na cidade de São Paulo,
cenário deste seu primeiro texto para o público jovem. Lô, como é mais
conhecida, recorda-se que passou a infância e a adolescência acompanhada
de livros, os quais não tinha vontade de largar nunca, nem mesmo na hora
das refeições. Formada em Ciências Sociais, trocou o rigor de uma tese
acadêmica pela aventura de descrever a experiência vivida com o
nascimento de suas duas filhas. Surgiu assim um livro muito bem-
humorado: Ser mãe é sorrir em parafuso.
Além de escrever, Lô tem outras formas de registrar sua emoção
diante da vida: fazer esculturas e pintar.
SUMÁRIO
1.O IMPERADOR DO UNIVERSO
2. ANTES DE CASAR SARA
3. AGORA OU NUNCA
4. NO MELHOR CAMAROTE
5. "MANNF!"
6. CHEIRO DE ANIMAL ASSUSTADO
7. MICO-LEÃO-DOURADO
8. O TELEPERSON
9. OITOCENTAS GAROTAS
10. O TIRO SAIU PELA CULATRA
11. PELADO NA RUA
12. BELEZA DE COMPARAÇÃO
13. OLHOS COR DE TERRA CLARINHA
14. UM GELINHO POR DENTRO
15. UM SORRISO ESPECIAL
16. DUAS CESTAS DE TRÊS PONTOS
17. UM PERFUME INESQUECÍVEL
18. UM CONVIDADO PENETRA
19. TUDO POR UM BOLO
20. ROUBARAM MEU SHOW
21. NEM UMA DROGA DE UM ASSUNTOZINHO
22. DESIDRATAÇÃO AFETIVA
23. JAPONÊS TEM CADA UMA
24. IMAGEM INCOMPREENSÍVEL
25. MINIATURA DA MINIATURA
26. EM QUEDA LIVRE
27. A CAVERNA
28. RONCO GIRATÓRIO
29. ÓPERA LÍQUIDA
30. NEVE CAINDO AO CONTRÁRIO
31. OS NYFS
32. O SEGUNDO TESTE
33. NÃO SOU UM INSETO
34. RISO LÍQUIDO
35. TROCA DE PELE
36. AGENTE NYF
37. COISA COM COISA
38. OUTRAS PRIORIDADES
39. A PESSOA MAIS INTERESSANTE DO PLANETA
40. SOB O CÉU DA VARANDA
41. PAPA-MOSCAS NÃO É MAIS AQUELE
42. UMA PIZZA QUENTINHA
43. O PROBLEMA DOS TREZE
44. CONVERSA ENTRE IRMÃOS
45. LIVE AND LET LIVE
“O mundo começa, para o homem, por uma revolução da alma que
muitas vezes remonta a uma infância."
Gaston Bachelard
1 O IMPERADOR DO UNIVERSO
Não tenho a ilusão de que os meus problemas dos doze vão ser
resolvidos do dia para a noite, só porque vou fazer treze anos.
Que problemas?
Bem, você sabe... Conviver com um irmão mais velho chamado Dênis
já é um grande problema. Ele tem dezesseis anos e tudo dele é melhor, a
mesada dele é maior e ele pensa que é o Imperador do Universo e o dono
do telefone.
Para você ter uma ideia, ninguém pode entrar no quarto do Dênis e
eu muito menos, ele acha que eu vou escarafunchar as coisas sa-gra-das
que ele tem lá.
A única pessoa que ousa desrespeitar os decretos do Imperador do
Universo é minha mãe. Ela entra no quarto dele quando bem entende e
ainda por cima manda a faxineira limpar e arrumar tudo. E toda vez é a
mesma coisa: quando o Dênis chega da escola e vê aquela arrumação toda
(o quarto dele fica parecendo consultório de dentista, de tão limpo e
arrumado), começa a gritar feito louco: — Eu não quero mais essa faxineira
bagunçando a minha organização pessoal! Agora eu nunca mais vou achar
as minhas coisas! (O que ele chama de “organização pessoal” é meio
parecido com os destroços da Segunda Guerra.)
No ano passado, logo depois de uma dessas infrações cometidas pela
faxineira (com a cumplicidade, ou melhor, cumprindo ordens da minha
mãe), o Dênis pintou uma faixa, num pedaço de lençol velho, e pendurou-a
no corredor. Nela estava escrito:

Minha mãe deixou a faixa ficar lá por uns dois ou três dias, acho que
por respeito à liberdade de expressão. Depois arrancou-a e guardou-a no
armário, dizendo que se o Dênis quisesse poderia usá-la novamente, mas
teria que ser na Praça da Sé.
Ele não se deu por vencido: no dia seguinte, colou na porta do quarto
um baita cartaz, onde está escrito, com letras vermelhas:

Na parte de baixo do cartaz, tem uma janelinha onde ele encaixa


avisos diferentes, que mudam conforme o humor dele em cada dia. Um
deles é:

Nesses dias, o melhor é nem passar em frente à porta do quarto do


Dênis: a orelha da gente pode ser atingida por um toco de giz ou por uma
bolinha de gude, e dói pra caramba.
Quando o aviso da janelinha diz:

é sinal de que ele está mais bem humorado e vai circular pela casa
sem reclamar de nada e, principalmente, sem me provocar. Fico mais
sossegado nesses dias: é como se ele tivesse assinado um tratado de paz
com o mundo.
Mas o aviso de que eu mais gosto é:

Nas poucas vezes em que apareceu esse aviso, aconteceu um


milagre: ele me chamou para entrar no quarto dele, batemos um grande
papo feito dois irmãos e até jogamos umas partidas de truco. Foram os
melhores dias da minha vida.
Mas desde que fez quinze anos, Dênis anda mais pra “cão raivoso”
do que para outra coisa e eu vivo tendo a impressão de que se dependesse
da vontade dele eu nem existiria. Ele está sempre dando um jeito de me
fazer “não existir”: não me deixa ir com ele em nenhum lugar, não me deixa
participar dos papos com seus amigos, e vive arrumando motivos para me
bater ou me prensar contra o chão e me matar de cócegas.
Mas o que me deixa mais furioso é quando, do alto de sua magreza
de um metro e setenta e oito, o Imperador me olha com o maior desprezo e
me xinga de nomes humilhantes.
Teve uma época em que meu nariz virou uma enorme plantação de
cravos e ele me chamava o tempo todo de “florzinha”.
Ultimamente, ele deu para me chamar de “Caspa”. Eu tento não dar
bola, mas não consigo. Fico me sentindo amarelado e insignificante como
um daqueles farelos inanimados...
E o pior é que eu estou mesmo com caspa. Parece que um casal de
farelos apaixonados resolveu dar cria bem no meu courudo cabelouro:
todos os dias encontro uns cinquenta farelinhos, todos com a mesma cara,
dormindo no ombro da minha jaqueta. Então aproveito para soltar a minha
raiva: dou uns belos safanões neles e eles voam para tudo quanto é lado.
No dia seguinte, tem mais cinquenta farelinhos lá, todos com a mesma
cara, xit.
2 ANTES DE CASAR SARA

Minha mãe já me levou ao médico por causa das caspas e ele


perguntou se eu andava preocupado, nervoso, esse tipo de coisa. Ela teve a
coragem de dizer que não, pelo contrário, que eu era até cuca-fresca
demais.
Aqui entre nós, sou mesmo meio cuca-fresca de vez em quando, mas
não é minha culpa. O que eu posso fazer se meus neurônios às vezes
resolvem se separar e ir cada um para um lado, em vez de se concentrarem
nas coisas deste planeta?
A noite a coisa piora. Antes de adormecer fico rolando na cama feito
frango de vitrine e pensando em coisas malucas. Às vezes me imagino
fazendo alguma coisa legal, curando a pata ferida de um gato e sendo
aplaudido por uma multidão de gatos e donos de gatos reunida em volta de
mim. Outras vezes fecho os olhos e finjo que estou voando de asa delta e
cantando tão alto lá em cima que até assusto os passarinhos que chegam
perto. Nem tenho certeza se passarinho alcança asa delta, o importante não
é assustar passarinho, mas se imaginar voando de verdade, com uma
tremenda sensação de liberdade e vendo o mundo todo bem pequenininho
lá embaixo.
Tem vezes que adormeço rápido e acordo de madrugada por causa
de uns pesadelos, é tudo tão real que não é fácil me livrar deles. Mesmo
acordado meus neurônios ficam fabricando a continuação das coisas
malucas que sonhei e que tenho medo que aconteçam de verdade, como
meu pai perder o emprego e eu ter que vender mentex nos faróis para
ganhar dinheiro, esse tipo de coisa. Toda vez que isso acontece, acendo o
abajur e fico lendo até tarde, mesmo assim preciso ler três vezes cada
parágrafo. E no dia seguinte ainda levo bronca: “Olha o tamanho dessas
olheiras, amanhã você vai apagar a luz às dez em ponto, corujão!”.
Eu adoro a minha mãe e tal, mas ela seria muito mais legal se não
ficasse correndo pela casa e falando as horas o tempo todo e me mandando
fazer trinta coisas ao mesmo tempo. Se depender dela, eu faço lição estudo
inglês arrumo o armário engraxo o sapato recolho os bagulhos penteio o
cabelo amarro o tênis escovo os dentes atendo o telefone coloco o rolo de
papel higiênico com a ponta saindo por cima levo o lixo lá fora e enxugo a
louça, tudo ao mesmo tempo.
Mas quando me vê estudando com o som ligado, ela vem e desliga o
som e faz o maior discurso: “Você tem que aprender a se concentrar e lazer
uma coisa de cada vez!” Minha mãe é mesmo um ser paradoxal.
(Uau!)
Bem, mas voltando ao que o médico perguntou, minha mãe
respondeu aquilo sobre eu ser “cuca-fresca” e tal, porque não tem a menor
ideia do que se passa debaixo do meu courudo cabelouro. As poucas vezes
em que tive coragem de me queixar com ela sobre alguma coisa que me
preocupava, ouvi aquela frase insuportável: “Antes de casar sara”. Detesto
quando ficam minimizando os meus problemas e minha mãe fica sempre
minimizando os meus problemas e ainda por cima vem e me chama de
cuca-fresca na frente do médico.
Sempre achei meu pai mais legal porque ele nunca falou “antes de
casar sara”, só acho chato quando ele fica com a cabeça cheia de números e
ultimamente ele está sempre com a cabeça cheia de números.
Até as respostas dele sempre têm um número, é só eu pedir para ele
ir comigo em algum lugar, já vou ouvindo “Hoje é dia 4, tenho que fazer
minhas contas”, “Hoje é dia 30, preciso fazer meu relatório”, “Hoje é dia
20, estou sem dinheiro”. E depois de responder essas coisas, ele enfia a
cabeça numa montanha de papel e fica horas fazendo contas e ticando
números. (Ele não fala nada, mas eu acho que ele detesta o trabalho dele.
Antes de trabalhar nesse lugar, ele era mais alegre e não vivia com a cabeça
cheia de números.)
O Cabrum é o único que sabe tudo o que se passa debaixo do meu
courudo cabelouro. Você, que é um crânio, já percebeu que o Cabrum é o
meu melhor amigo. Acertou na mosca. Ele mora perto da minha casa e nós
nos conhecemos desde que mijávamos nas fraldas (ele nas dele e eu nas
minhas, é claro).
Eu e o Cabrum estamos sempre juntos e um sabe quase tudo do
outro. Digo “quase” porque acho que conheço ele melhor do que ele me
conhece, conheço a insegurança dele com garotas há séculos, e ele só foi
descobrir a minha há pouco tempo.
O Cabrum não é muito gordo mas se acha gordo, e quando percebe
que alguma garota está olhando para ele, logo pensa que ela está pensando
que ele é gordo demais. E para fugir logo do campo de visão da garota, ele
diz que está morrendo de fome e me convida para ir até a casa dele comer
um sanduíche novo que ele inventou.
Até uns tempos atrás, a gente não ligava a mínima para garotas. As
únicas com quem brincávamos de vez em quando eram a Tuca, a Mauren e
a Lu, que viviam insistindo para jogar futebol com a gente na rua, e depois
ficavam o tempo todo correndo todas juntas atrás da bola, só pensando em
chutar para gol.
3 AGORA OU NUNCA

Uma estava pintando a unha do pé, a outra acho que estava passando
uns cremes na perna e a outra ficava andando para lá e para cá e todas
estavam só de calcinha e sutiã... — o Cabrum me falou um dia, com a cara
vermelha e os olhos esbugalhados por causa da descoberta sensacional.
Ele tinha visto umas vizinhas dele trocando de roupa com a janela
aberta. O quarto delas dava para a rua, e por uma dessas coincidências
maravilhosas, o nosso laboratório de experiências também.
Nós vivíamos fazendo experiências no laboratório, que ficava no
terraço do quarto dos pais de Cabrum, no andar de cima da casa. A gente
analisava água, suco de grama, xixi de gato, espuma de sabão, esquentava
pedregulhos para ver se derretiam, olhava insetos e pedaços de melancia
no microscópio, construía miniaturas de carrocinhas puxadas por moscas,
fazia esculturas com sucata, desmontava objetos, inventava e gravava
letras de música, todo esse tipo de coisa.
As nossas experiências quase sempre deram certo.
— Quero ver — eu disse.
— Não vai dar, eu só vi uma vez, acho que só acontece à noite. E a
mãe delas é amiga da minha, se ela descobrir estou frito o Cabrum estava
se fazendo de difícil.
É lógico que fiquei super curioso com a coisa, quem não ficaria super
curioso para ver três garotas sem roupa? Então continuei insistindo pra
caramba que também queria ver e ele ficou ensebando um tempão, até que
uma noite ele me ligou e disse: “É agora ou nunca”. Era a senha. Os pais
dele tinham saído e as três irmãs estavam em cena. Era agora ou nunca.
4 NO MELHOR CAMAROTE
Larguei o gibi que estava lendo, avisei meu pai que voltaria logo e saí
voando para a casa do Cabrum. Finalmente eu ia poder ver as famosas três
irmãs, já tinha até sonhado com elas de tão curioso que estava.
Enquanto corria, parecia que eu tinha três corações, o do peito e um
de cada lado do pescoço, todos batendo como um tambor. Eu nunca tinha
Ficado tão nervoso como naquele dia. Meus neurônios se encarregavam de
projetar as cenas com antecedência, enquanto corria imaginava as três
irmãs completamente nuas, fazendo poses em frente à janela do quarto.
Até que enfim vou ver as três irmãs! — era só o que eu conseguia pensar,
até chegar ao local do crime.
Brinquei com o Cabrum que pela primeira vez o nosso laboratório ia
se transformar num observatório, mas ele não estava a fim de brincadeira.
Estava pior do que eu, toda hora dava umas tossidinhas falsas, de puro
nervoso.
— Vamos ter que entrar no escuro. E ajoelhados. — Ele mandava, a
casa era dele. Se déssemos bandeira era ele quem ia entrar bem. Topei.
Quem não toparia qualquer coisa para poder ver as três irmãs sem roupa?
Meus joelhos doíam pra caramba, as frestinhas dos ladrilhos
cavavam sulcos na minha pele e ainda por cima tinha um monte de
pedrinhas minúsculas naquele piso. Me senti uma velhinha pagando
promessa.
— Como deve ser duro ser uma velhinha e andar quilômetros de
joelhos só para chegar perto de um santo e beijar os pés dele... — brinquei,
fazendo as maiores caretas de dor. Mas ele não queria nem saber de
brincadeira.
Fiquei uma fera quando cheguei perto da mureta do terraço, todo
aquele sofrimento só para dar de cara com aquela parede toda cinza de
chuva.
Reclamei com o Cabrum que não estava enxergando nada e comecei a
levantar um pouco para ver melhor.
— Você está louco?! Está querendo que elas te vejam? Ajoelha aí que
eu vou te contando! — ordenou o sacana, que é mais alto que eu e estava
enxergando tudo.
Pedi para ele pegar uns travesseiros ou umas listas telefônicas para
eu ajoelhar em cima.
— Não dá, os travesseiros vão sujar, as listas telefônicas estão na
cozinha, a empregada vai desconfiar, blá, blá, blá.
Fingi que tinha desistido e fiquei pensando em algum jeito de
resolver aquele problema de visibilidade. Ele foi me contando:
— Por enquanto só está dando para ver duas, a mais alta está
secando o cabelo, a outra está dançando na frente do espelho, ela é a mais
bonita de todas. Puxa, como ela dança, cara!... Mas hoje não está um bom
dia para ver. — Ele me olhou com ar de superioridade. Fiquei furioso e
disse que ia ao banheiro.
— Fazer o que no banheiro? — ele me gozou.
— Mijar.
— Ah.
— Você vai registrando tudo na memória para depois me contar.
— Tá — ele disse, compenetrado.
Fui para o quarto do Cabrum, tomando o maior cuidado para não
trombrar com os móveis naquela escuridão. Parecia que eu tinha ajoelhado
no milho, de tanto que os meus joelhos doíam.
Abri a janela lateral sem fazer barulho e, como eu imaginava, vi que
dali dava para alcançar o telhadinho que cobria o carro. É por aqui que eu
vou — e fui.
Pulei da janela para o telhadinho e fui pisando com cuidado. Quando
acabou o telhado, subi no muro lateral e me equilibrei até chegar perto da
árvore que tinha na frente da casa. Alcancei um galho forte, me agarrei ao
tronco e fui subindo devagar, procurando o melhor ângulo de visão.
Pronto. Lá estava eu no melhor camarote, bem de frente para o palco
envidraçado... onde deveriam estar as três irmãs.
Não acreditei nos meus olhos: não tinha mais irmã nenhuma naquele
quarto. Elas vão voltar, senão não teriam deixado a luz acesa... — apostei, e
ouvi um barulho estranho lá embaixo.
5 "MANNF!"

— Ô pirralho, dá o fora que esse lugar é meu. — Não era a voz do


Cabrum.
— ...
— Vamos, fedelho, cai fora!
— Quem está aí?
— O dono do lugar.
Algum filho da mãe estava subindo na árvore e vinha na minha
direção. Eu já imaginava a cena, um grandalhão com a maior cara de
bandido me puxando pelo pé e eu me estatelando no chão com as pernas e
as costelas quebradas. Apavorado, afastei um galho da árvore para poder
ver o sujeito, mas estava muito escuro.
E se ele estiver armado? — gelei.
— O-olha, dei-xa eu des-cer primeiro, depois vo-cê so-be. — Tentei
parecer calmo, mas as palavras se quebravam na minha garganta e saíam
pela boca feito caquinhos de vidro.
— ...
Achei super estranho o silêncio depois da minha proposta. Por que o
cara não respondia? Surdo ele não era. Talvez estivesse pegando um
estilete para me matar... Se ele fizesse isso, ninguém escutaria, e o guarda-
noturno encontraria o meu corpo debaixo da árvore no meio da noite e
chamaria a polícia e a multidão em volta do meu cadáver ficaria discutindo
quem pode ser quem pode não ser. Quem sabe o Cabrum tenha sentido a
minha falta, descoberto que não fui ao banheiro coisa nenhuma. Tomara
que ele me procure na rua... Mesmo assim não vai adiantar porque se eu
gritar que estou aqui em cima o grandalhão me mata na mesma hora. Entre
morrer em cima da árvore e morrer debaixo da árvore, não escolhi nenhum
dos dois, comecei a berrar feito louco:
— SOCOOO... — e o cara me tapou a boca.
— Cala a boca, sua anta! — ele esbravejou, com aquela mãozona
apertando a minha boca e com a cara quase colada na minha.
— Mannf! — foi o que consegui dizer contra a pressão dos dedos
dele, e o que eu queria dizer com isso é que eu era um cara de paz, não
estava a fim de roubar o camarote de ninguém, se eu soubesse que o lugar
era dele nem tinha me atrevido a subir e coisa e tal, mas o cara não tirava
aquela mão nojenta da minha boca e eu continuava só conseguindo dizer
“Mannf”.
Se você gritar de novo te arrebento a cara e te jogo lá embaixo! Pisca
o olho para dizer se entendeu. — Pisquei os dois olhos feito persiana de
janela em dia de noroeste e ainda por cima balancei a cabeça para cima e
para baixo, tentando explicar muito bem explicado que tinha entendido e
não ia gritar de novo. Então ele tirou a mão.
— Nem um pio.
— Ok — murmurei com a boca quase fechada, para ele não pensar
que eu estava abrindo a boca para gritar. Fiquei olhando para ele, tentando
descobrir que tipo de sujeito ele era. Não parecia ser um bandido, só um
grandalhão metido como outros que eu conhecia.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim desprender minha pipa. — Foi a única desculpa que me
ocorreu na hora.
— De noite? Tá achando que eu vou acreditar?
— É verdade. Pensei que estivesse aqui.
— Mentira, você veio aqui ver as garotas — ele apontou com a cabeça
a janela das três irmãs.
— Que garotas?
— Larga a mão de ser besta, baixinho. Tô sabendo muito bem o que
você está fazendo aqui. Todo mundo sobe aqui pelo mesmo motivo.
6 CHEIRO DE ANIMAL ASSUSTADO

Já que “todo mundo” subia ali para ver as garotas, resolvi assumir
que fazia parte de “todo mundo” e olhei para a janela mágica, onde
finalmente pude ver as três irmãs... cheias de roupa.
A única coisa que o sacana do Cabrum não tinha me dito enquanto eu
ainda estava ajoelhado no terraço era que as três irmãs estavam
completamente vestidas!
Fiquei meio decepcionado, comparando as cenas que tinham girado
na minha imaginação um pouco antes, com a que eu via agora, trepado no
camarote ao lado do grandalhão. Mas de qualquer jeito era uma cena digna
de ser vista.
A mais nova devia ter uns catorze e a mais velha uns dezessete anos.
Todas eram lindas — pelo menos de onde eu estava —, e andavam para lá e
para cá dentro do quarto, escovando os cabelos, levantando os cabelos,
mudando de lado os cabelos, chacoalhando os cabelos. Era cabelo que não
acabava mais.
Espionar aquelas garotas lindas com seus cabelos flutuantes fazia
um calorzinho gostoso entrar por todas as veias do meu corpo.
Agora cai fora! — o grandalhão me cutucou.
— Juro que é a primeira vez...
— E a última. Desaparece! — mas qualquer coisa mudou na cara dele
de repente, ficou com um ar de cachorro perdigueiro perseguindo caça. —
Shhhh! Cala a boca que eu ouvi barulho aí embaixo — ele me tapou a boca
de novo. — Tem mais alguém com você?
— Mannf!
— Quem está aí? — o grandalhão perguntou com voz ameaçadora.
— Eu não sabia que você tinha que subir em árvore para mijar! —
disse o Cabrum parado no meio do tronco, resfolegando como uma anta na
linha de chegada dos duzentos metros rasos.
— Cfvum! — consegui dizer entre os dedos do grandalhão.
— Se subir apanha! — ameaçou o meu companheiro de galho falando
para o Cabrum.
Com a voz mais apavorada do mundo, o Cabrum soprou: — Plínio,
sujou! Tem mais gente aí embaixo.
— Que saco! — esbravejou o grandalhão. — Que que tá acontecendo
aqui? Todos os fedelhos do bairro resolveram trepar nessa árvore hoje!
— Ei, vocês aí em cima! — uma voz grossa, de adulto, fez a gente
tremer na base.
— Tô avisando, Plininho, sujou! O pai delas está aí embaixo! — disse
o Cabrum com um fiapo de voz esganiçada.
Assim que eu ouvi a palavra “pai”, não sei por que lembrei do cheiro
do meu pai quando ele sai do banheiro de manhã. Adoro o cheiro do meu
pai logo de manhã, quando ele sai do banheiro. É um cheiro de floresta, de
mato verde, de coragem, sei lá, e quando pensei isso lá em cima da árvore
percebi que o meu cheiro naquela hora era um cheiro amarelo, de animal
assustado. Eu fedia a rios de suor ácido e mal cheiroso. Ou então era o
grandalhão que fedia. Ou mais provavelmente nós dois.
Se não descerem daí já, vou chamar a polícia! — berrou de novo o
vozeirão lá embaixo.
— Mannftf!!... — eu disse. Aparentemente aquele grandalhão nunca
mais ia tirar a mão da minha boca, podia até imaginar a gente envelhecendo
juntos em cima daquela árvore, ele cada vez mais nervoso e eu dizendo
“mannf” já sem dentes na boca.
7 MICO-LEÃO-D0URAD0

— Ele vai subir pela escada — cacarejou o Cabrum.


— Que escada?! — perguntou o meu tapador de boca.
— A escada que eu coloquei para poder subir! Como você acha que
eu ia conseguir subir se não pusesse a escada? — ele tentou disfarçar, mas
sabia que tinha pisado no tomateiro todo.
— É DEMAIS PRA MINHA CABEÇA! —o grandão estava furibundo. Eu
estava mais furibundo ainda. Logo o Cabrum, que não queria dar bandeira
de nenhum jeito, que tinha me obrigado a ajoelhar naquelas malditas
pedrinhas!...
— Se vocês não saírem daí vou chamar a polícia! — o cara lá embaixo
estava perdendo a paciência.
Olhei de novo para a janela das três irmãs. Naquela hora eu preferia
estar morto, enterrado, sendo comido pelos bichos, ou amarrado num pau
com uma fogueira acesa embaixo, ou sendo engolido por uma planta
carnívora gigante. Preferia qualquer dessas coisas do que ter virado inseto
em lâmina de microscópio: as três irmãs estavam debruçadas na janela
morrendo de rir da nossa cara, o binóculo passando de mão em mão.
Ficamos mais um tempo lá em cima, sem dar um pio. Eu rezava para
que acontecesse um blackout na cidade e nós três pudéssemos fugir dali
sem ninguém nos ver. Em vez de um blackout veio uma sirene. E um
holofote. Que iluminou toda a copa daquela árvore. Me senti um mico-leão-
dourado sendo filmado diretamente do seu habitat para um daqueles
programas ecológicos da TV.
— O velho chamou a polícia! — espumou o grandalhão.
Eu tremia inteiro. Já não bastava a vergonha que estávamos
passando, ainda íamos ter que encarar uma noite na delegacia... Era demais
para a minha cabeça.
Acabou que nós três tivemos que descer da árvore sob os olhos
curiosos dos bombeiros e de uma multidão que tinha se juntado para
descobrir o que estava acontecendo. E sob os olhos trituradores do pai das
três irmãs, que exigiu mil e trezentas explicações.
Nós três ficamos gaguejando coisas sem sentido por um tempo, até
que o grandalhão partiu para a ignorância e disse que só estava passando
por ali e resolveu subir quando viu a escada.
Tive vontade de grudar no pescoço dele e desmascará-lo na frente de
todo mundo. Mas eu estava metido naquilo tanto quanto ele... Quer dizer,
eu estava metido naquilo mais do que ele. Apesar de ter sido a minha
primeira vez e sei lá qual a vez dele, eu tinha sido o último a descer da
árvore, por isso o pai das garotas só olhava para mim, como se dissesse:
“Você começou a coisa!”.
— Desculpe, a gente não vai mais subir aí — foi o que passou pela
trava de vergonha que eu tinha na garganta.
Então o velho faiscou que nunca mais queria ver nenhum de nós por
perto, muito menos trepado naquela árvore, etcétera e tal. E cada um foi
pro seu canto, enfrentar o resto das consequências.
E foi uma dessas consequências a que mais me doeu. Não levei, mas
senti na cara os socos furiosos que meu pai deu na mesa, trovejando que
eu só sabia me meter em encrencas e gritando: “É para isso que eu me mato
de trabalhar todo santo dia?!”.
— Eu não estou sempre me metendo em encrencas! — retruquei,
quase chorando.
Fiquei me sentindo uma droga. E magoado pra caramba. Preferia que
ele tivesse me xingado de qualquer coisa, menos gritar que eu era o
culpado por ele ter que se matar de trabalhar todo santo dia e coisa e tal.
Por sorte, o pai das três irmãs não chegou a vir à minha casa para
tirar satisfações, mas foi à casa do Cabrum. E deu a maior confusão pro
lado dele. Ficou sem mesada, sem sobremesa e sem televisão por dois
meses.
Eu fiquei um mês só podendo sair de casa para ir à escola. E durante
aquele mês, eu e o Cabrum só conversamos uma vez, por telefone. E
brigamos feio: eu disse que se não fosse aquela ideia ridícula dele, de
colocar a escada debaixo da árvore, nada daquilo teria acontecido. Ele disse
que a culpa era toda minha, por ter tido a ideia de subir na árvore.
Mesmo depois de terminado o meu castigo, fiquei um tempão sem ir
à casa do Cabrum. Não queria passar nem perto da casa das três irmãs,
tinha medo que elas me reconhecessem e rissem da minha cara de novo.
8 O TELEPERSON
O primeiro papo sério que eu e o Cabrum tivemos sobre garotas foi
no dia em que fizemos as pazes, no fim da minha “prisão domiciliar”.
O Cabrum chegou na minha casa mais magro por causa da falta de
sobremesa e falando para dentro, cheio de dedos. Perguntou se eu não me
importava de ele ver um filme no meu vídeo, ele ainda estava proibido de
ver televisão e tal. Falei que tudo bem, mandei-o entrar e voltei para o meu
quarto, para acabar os meus exercícios de matemática. Mas fiquei curioso
para ver o filme também e acabei descendo e sentando na sala. Era sobre
uma garota e um garoto que se conhecem numas férias e se apaixonam e se
curtem e depois cada um tem que ir para um país diferente e fica aquela
choradeira e tal, e no fim não fica claro, mas a gente acha que eles vão
continuar namorando pelo correio.
Quando o filme acabou, o Cabrum ficou virando a aba do boné para a
frente e para trás sem dizer nada, e depois perguntou, sem olhar para mim:
— O que você acha delas?
— Olha, Cabrum, eu não estou a fim de conversar. — Eu ainda estava
meio bravo com ele.
— Ah, sem essa, Plínio, vamos acabar com essa situação idiota... Você
não vai querer acabar com a nossa amizade só por causa daquilo.
Aconteceu, aconteceu, pronto, acabou!
— Tá legal. Aconteceu, aconteceu, pronto, acabou.
— Então responde o que eu te perguntei.
— Não lembro mais.
— Perguntei o que você acha das garotas.
— Você está brincando?!! Você chega aqui falando “vamos esquecer a
situação” e começa a tocar nesse assunto de novo!
— Não estou falando das três irmãs. Estou falando de garotas em
geral. O que você acha delas?
— Não sei se estou a fim de falar sobre isso.
— Para com isso, Plínio... Fala, vai, o que você acha?
— Sei lá o que eu acho. Acho que estão em toda a parte. E sempre em
maioria.
— Você está fugindo da pergunta.
— Não estou fugindo.
O telefone me salvou do interrogatório. Como tinha planejado antes
de o Cabrum chegar, ia aproveitar aquele telefonema para inaugurar o
Teleperson.
— Lavanderia de Fraldas Descartáveis, às suas ordens — atendi, com
jeito de funcionário.
— De onde? — para variar, era uma garota.
— Lavanderia de Fraldas Descartáveis — repeti.
— Não é da casa do Dênis?
— Minha senhora, aqui é uma Lavanderia de Fraldas Descartáveis,
não lavamos tênis.
— Estou perguntando se aí não é a casa do Dênis!
— Não senhora, já disse que não lavamos tênis.
— ...
— Ela desligou.
— Que papo é esse? — o Cabrum estava super curioso.
— Acabo de inaugurar o Teleperson.
— Continuo na mesma.
— Atendimento Telefônico Personalizado. Para cada telefonema uma
frase especial.
— Você é doido... Quais são as outras frases?
— “Academia Cão Raivoso”.
O Cabrum ria pra caramba, começava a entender o espírito da coisa.
Então o telefone tocou de novo.
— Lubrificadora de Aparelhos Ortodônticos, às suas ordens.
— O quê? — era outra garota.
— Lubrificadora de Aparelhos Ortodônticos.
— Alô!
— O... Dênis está?
— Por favor, isto é uma pesquisa... A senhorita usa aparelho?
— Uso, por quê?
— Fixo ou móvel?
— Fixo.
— Eu sabia. Ligou para o lugar certo. Lavamos e lubrificamos
aparelhos fixos a domicílio. Fazemos o serviço em dez minutos, levamos
todo o equipamento necessário, balde, escovas, mangueira, essas coisas. O
serviço é garantido.
— Você está me gozando...
— De jeito nenhum! Somos o único lava-rápido de aparelhos em toda
a América Latina. A senhorita vai ter um encontro importante? E só
telefonar e chegamos na sua casa em menos de quinze minutos. A
senhorita vai para o seu encontro com hálito importado...
— Para de me gozar e chama o Dênis, vai.
— A senhorita me desculpe, mas não temos nenhum funcionário com
esse nome.
— ...
— Ela desligou.
— Você é... completamente doido... — o Cabrum se chacoalhava todo
de tanto rir. Pela reação dele achei que o Teleperson ia ser um sucesso.
9 OITOCENTAS GAROTAS

— Doido vai ficar o Imperador quando descobrir. Daqui a uns dias


não vai ter mais nenhuma garota telefonando para ele. Aí eu vou poder
descansar de atender oitocentos telefonemas por dia.
— E por que ele mesmo não atende?
— Porque sou sempre eu que estou perto do telefone, ora.
— Sei. Vai ser telefonista quando crescer.
— Vou fingir que não ouvi essa... Mas é sério. Sempre que atendo o
telefone, é uma garota querendo falar com o Dênis. Até uns tempos atrás,
eu me divertia tentando imaginar, pela voz, como era a garota. Quando a
garota tinha voz fininha, eu ficava imaginando o Dênis, com toda a pose
dele, indo ao cinema com uma garotinha de uns sete anos, morrendo de
vergonha porque ela carregava uma boneca na mão esquerda. Quando a
garota tinha voz de mais velha, eu o imaginava namorando com a dona da
farmácia, ela dando broncas com o dedo esticado no nariz dele e ele se
borrando de medo dela. Agora me enchi da brincadeira e inventei o
Teleperson.
— Você está com a maior inveja do teu irmão, não está?
— E você não estaria? Oitocentas garotas telefonando para um
mesmo cara todo dia? Quem mais você conhece que consegue isso, hein?
— Ora... Pode não ser o que você está pensando. Podem ser colegas
da escola querendo perguntar sobre prova, sobre lição de casa...
— Haja lição de casa...
— Cada vez é uma garota diferente?
— E isso que me deixa mais surpreso: cada vez é uma voz diferente.
— Vai ver que ele namora com uma ventríloca. Ou então ele entende
mesmo das coisas.
— Fico com a primeira hipótese.
10 O TIRO SAIU PELA CULATRA

Quando o Cabrum quer saber alguma coisa, não desiste nem que o
mundo acabe. Uns dias depois da inauguração do Teleperson, ele voltou à
carga:
— Você já se interessou por alguma garota?
Naquela hora, tive a certeza de que o meu melhor amigo não tinha
mesmo percebido que eu era tão inseguro com garotas quanto ele. Meio
contrariado, resolvi abrir o jogo:
— Detesto ter de confessar, mas o único que entende disso aqui em
casa é o Imperador.
— Você já beijou alguma garota?
Dei risada da pergunta e não respondi logo. Eu realmente não estava
a fim de falar sobre essas coisas. Mas o Cabrum é jogo duro.
Responde! Você já beijou alguma garota?
— Beijei uma. Quando eu tinha uns cinco anos e estava no jardim da
infância.
Nós dois caímos na risada. Mas era verdade, a única menina que eu
tinha beijado era a Carol, que estudou comigo no Jardim. Ela dizia que eu
era o namorado dela e isso significava que de vez em quando a gente tinha
que ficar de mãos dadas na hora do recreio. E uma vez ela me deu um beijo
na boca e eu fiquei rindo que nem bobo, me lembro até hoje.
— Estou preocupado com esse negócio — o Cabrum confessou,
pensativo. — Tem caras da nossa idade que já têm a maior experiência no
assunto. E eu nem sei se algum dia vou ter coragem de chegar numa garota
e dizer que estou a fim dela.
A droga do telefone tocou outra vez.
— Associação Protetora de Garotas Carentes — atendi irritado.
— De onde? — era uma garota. Que começou a rir.
— Não temos nenhum funcionário chamado Dênis — adiantei, para
encurtar o assunto. Durante um tempinho, só ouvi risadas do outro lado da
linha. Depois ela disse:
— Ahh... acho que foi engano.
— Essa nem encompridou o assunto — comentei com o Cabrum.
Acho que estou ficando mais convincente...
Continuamos um tempão falando de garotas, até que o telefone tocou
outra vez.
— Academia Cão Raivoso, às suas ordens.
— Oi! — outra garota...
— Oi! — fiquei esperando ela perguntar pelo Dênis. Como ela não
disse mais nada, continuei: — Você mora em apartamento e não tem
paciência para levar seu cachorro passear? Nós vamos até a sua casa e
fazemos isso por você. — Ouvi um monte de risadas do outro lado da linha.
Depois um silêncio. Então a garota começou a falar:
— Eu não tenho cachorro. Estou ligando da Associação de Proteção
aos Baixinhos. Gostaria de saber se você quer ficar sócio.
Fiquei desconcertado, não conseguia pensar em nada inteligente para
responder. A única coisa que girava na minha cabeça era que o Teleperson
tinha furado em algum lugar e logo descobri em que lugar: nos meus
planos, eu não tinha imaginado a possibilidade de levar um troco.
Depois de um tempo que me pareceu dois anos e meio, gaguejei uma
resposta:
— Não sou baixinho.
— Respeitamos a sua opinião, mas somos muito bem informadas.
— A resposta me atravessou o peito feito um punhal.
— Tenho um metro e sessenta e quatro. — Era quase verdade, eu só
tinha acrescentado uns doze centímetros à minha estatura verdadeira.
Enquanto respondia, ouvia uns cochichos do outro lado da linha e uma
porção de risadinhas, do tipo hi-hi-hi.
— Tem umas garotas me dando o troco — cochichei para o Cabrum,
tapando o fone com a mão. — O que eu faço?
— Te vira, malandro... A ideia foi tua.
— Elas estão morrendo de rir da minha cara, me dá alguma ideia! —
implorei.
— Fala que o teu telefone está grampeado, que é proibido passar
trote — sugeriu o Cabrum.
— Escuta aqui, meu telefone está grampeado, a tua voz está sendo
gravada, você pode ser presa por ficar fazendo hi-hi-hi no telefone.
Achei que me saí bem: a garota não conseguia mais parar de rir e
acabou desligando.
Mas o Teleperson tinha perdido a graça. O tiro tinha saído pela
culatra. Em vez de acabar com a tietagem daquele monte de garotas em
cima do Imperador, eu tinha arrumado era uma baita dor-de-cabeça: de
cada dez telefonemas que eu atendia uns seis eram para mim... E do outro
lado da linha, aquelas garotas fazendo hi-hi-hi em cima do meu complexo
de baixismo.
— Está duro encarar esse troco desabafei um dia com o Cabrum. —
Essas garotas estão sempre ligando. E devem chegar e contar tudo para o
Dênis depois...
— Quem mandou não patentear o Teleperson? — ele me deixou com
o pepino todo para descascar.
11 PELADO NA RUA
Comecei a me sentir acuado. Quando estava sozinho em casa,
deixava o telefone tocar umas vinte vezes e no fim só atendia porque ficava
preocupado, achando que era algum recado importante para os meus pais e
coisa e tal.
Cheguei a pensar em pedir para a companhia telefônica mudar o
nosso número, mas eles não vão mudando o número do telefone da gente
assim só porque um garoto telefona e pede para mudar o número, meu pai
precisaria ir lá ou escrever uma carta ou coisa parecida, e para isso eu teria
que contar para ele o que estava acontecendo e como tinha começado,
etcétera, e eu não ia ser louco de contar pro meu pai que tinha me metido
em mais uma encrenca.
Num daqueles dias, o Cabrum passou na minha casa e perguntou se
eu queria ir com ele até o supermercado.
Enquanto ele comprava as coisas dele, fui até a seção de papelaria,
estava com saudade de fazer umas pipas. Então umas garotas chegaram
perto de mim e perguntaram se eu estudava no Dante. No começo, achei
que elas estavam mesmo me confundindo com algum garoto que estudava
no Dante, mas o jeito delas era estranho, não paravam de cochichar e de
olhar umas para as outras e para mim, dando um monte de risadinhas.
Respondi com um “não” telegráfico e enfiei a cara na prateleira das
colas, torcendo para elas irem embora logo. Mas elas ficaram por ali,
olhando papéis de carta ou sei lá o que e cochichando o tempo todo.
As colas eram todas do mesmo tamanho e da mesma marca mas eu
fingi que não eram, só para ficar ali tentando ouvir o que elas diziam.
Cheguei a ensaiar um jeito de puxar papo, a mais baixinha era uma gatinha.
bem que eu poderia pedir o telefone dela e combinar um encontro e coisa e
tal. Fui ficando tão nervoso enquanto pensava em tudo isso que acabei
derrubando um monte de tubos de cola no chão.
Cheguei a abaixar para catar as colas, mas não aguentei as garotas
rindo da minha cara, me mandei dali o mais rápido que pude.
Por sorte o Cabrum já estava na fila do caixa.
— Umas garotas chegaram e me perguntaram se eu estudava no
Dante.
— E daí?
— Ficaram cochichando e rindo umas para as outras.
— Sei.
— Me senti ridículo, derrubei um monte de colas no chão.
— Sei.
— Me senti super ridículo.
— Sei.
— Para de falar “sei”! — estourei.
— Tá.
— Toda a vez está acontecendo isso...
— Ahn.
— Outro dia eu estava voltando para casa, tinha ido na quitanda do
seu Berto comprar umas coisas que a minha mãe pediu.
— Ahn.
— Então passaram duas meninas de bici e uma delas me olhou
comprido e tal. Continuei andando, e de vez em quando me virava, para ver
se ela olhava para mim de novo.
— Ahn.
— Eu estava com um saco de compras cheio até a boca — a minha
boca. E numa das vezes em que me virei para olhar a garota, meu pé ficou
numa droga de cerquinha de árvore, e eu e a sacola fomos. Me estatelei no
chão. Foi o maior vexame, voou hortifrutigranjovo para todo lado... Me
senti ridículo quando vi que elas tinham parado a bici e estavam rindo da
minha cara. E eu lá, agachado feito um idiota, catando as coisas que
rolaram pelo chão.
— Ahn.
— Pára de falar “ahn”! — estourei de novo.
— Para de me mandar parar de falar “ahn”! — ele estourou desta vez.
E depois tentou me animar.
— Seria igual se fossem dois caras, eles teriam rido do mesmo jeito...
— Sei, sei, já pensei nisso! Se fossem dois caras teriam rido do
mesmo jeito... E eu ficaria furioso do mesmo jeito. Eu detesto passar
ridículo. E quando faço alguma coisa ridícula perto de garotas, me sinto...
Me sinto como num sonho que tenho de vez em quando, que estou
voltando da escola a pé e todo mundo fica olhando estranho para mim e aí
descubro que estou completamente pelado...
— Já aconteceu comigo — disse o Cabrum.
— No sonho?
— Na realidade.
— Você saiu pelado na rua? — duvidei.
— Não, sua besta! Me senti pelado.
— Por causa de uma coisa assim?
— É, por causa de uma coisa assim, você fazer uma besteira qualquer
quando tem garotas por perto. Só que eu nunca tinha parado para pensar
nisso... — disse o Cabrum, com ar pensativo.
Inchei o peito e empinei o nariz: — Ainda bem que o mundo começa
a entender que eu sou um gênio. Cabrum, você vai ficar famoso como o
melhor amigo do Gênio do Século XXI... Até rimou.
Meu nariz caiu de lá de cima e meu peito desinchou num segundo: as
garotas estavam logo atrás de nós na fila do caixa.
— São elas!... — cochichei para o Cabrum. — Devem ter ouvido todo o
nosso papo! — eu estava roxo de vergonha.
— Eu já tinha visto, elas estão aí atrás faz um tempão, chegaram logo
depois de você.
— Por que você não me avisou, sua anta?
— Ora, como é que eu ia saber que eram elas?
— Vamos sumir daqui, esperteza ambulante, ainda bem que chegou a
nossa vez — despejei, louco da vida com o Cabrum.
Enquanto ele empacotava as compras, uma das garotas perguntou de
novo:
— Ei, tem certeza que não estuda no Dante? — fingi que não escutei e
ajudei o Cabrum a empacotar a coisarada que ele tinha comprado, queria
sumir logo dali.
12 BELEZA DE COMPARAÇÃO

Uns três quarteirões depois do supermercado, a risada das garotas


ainda martelava os meus ouvidos.
— Mesmo sendo um gênio, acho que nunca vou ter coragem de
chegar numa garota e puxar um papo e pedir o telefone dela e coisa e tal.
— Se consola comigo... — o Cabrum riu. — Eu sou como uma aranha
papa-moscas: as garotas vão chegando perto e eu vou pulando para longe
— ele tentou me animar de novo.
— Beleza de comparação — eu ri, já mais descontraído.
Tentei pensar rápido em alguma comparação que servisse para mim.
— Bom... Eu adoro cabelos — fui falando. — Uma das coisas que eu
mais gosto de ver numa garota são os cabelos. — Então comecei a lembrar
da atração que eu sentia pelos cabelos da Camilla. Ela sentava bem na
minha frente na classe e eu estava sempre dando um jeito de tocar nos
cabelos dela. Debruçava na carteira e ficava escrevendo com o corpo
inclinado, só para sentir o cheiro do cabelo dela, era um cheiro bom
demais, de pêssego, de chocolate, sei lá, só sei que era um cheiro
maravilhoso.
— Acho que sou como... uma caspa — soltei, rindo.
O Cabrum me olhou espantado. — Você sempre detestou esse
apelido!
— Continuo detestando. Mas tenho que admitir que me sinto deste
tamanhinho quando faço alguma trapalhada perto de garotas. Me sinto um
farelo.... Tenho vontade de sumir, de me esconder no primeiro buraquinho
que encontrar.
— Nós dois estamos fritos. — O Cabrum estava sério. — O que você
acha de a gente esperar até aparecer um “Tá limpo” na porta do Imperador
e pedir uma ajuda para ele?
— A coisa mais difícil do mundo é aparecer um “Tá limpo” na porta
do Dênis... Além disso, acho que a gente não deve falar sobre isso com mais
ninguém. Eu só falei para você porque sabia que não ia me gozar. Mas a
gente não pode falar disso para mais ninguém, Cabrum. Promete que não
fala.
— I promise! — ele disse solenemente.
13 OLHOS COR DE TERRA CLARINHA
Camilla tem olhos cor de terra clarinha. Quando cheguei na classe,
no segundo dia de aula, ela estava sentada no meu lugar. Ela era nova na
escola e tinha faltado no primeiro dia.
Fiquei meio parado, pensando se devia chegar para ela e dizer: “Ei,
dá licença que esse lugar é meu”.
Logo percebi que isso seria a maior mancada. Então, vi umas
carteiras vazias no fundo da classe e pensei em ir sentar lá e deixá-la em
paz na minha carteira.
Eu estava perto da porta, conversando com uns amigos, enquanto
pensava em tudo isso. Aí olhei de novo para ela. Puxa, como ela é bonita...
E sem pensar em mais nada, fui e sentei na carteira atrás dela.
Fiquei olhando para aqueles cabelos compridos e tão bonitos. Que
sorte a minha, sentar perto dessa garota... — então vi o André caminhando
na minha direção.
Sujou! — eu não tinha certeza, mas achava que ele era o dono da
carteira onde eu tinha sentado. Fiquei pensando o que fazer. Meu primeiro
impulso foi devolver o lugar dele: além de grandão, ele era o cara mais
briguento da escola, era capaz de fazer a maior confusão por causa do
lugar.
Mas eu não queria sair dali. E, afinal, aquele era só o segundo dia de
aula, não dava para ninguém fazer muita onda sobre ser dono de um lugar
e tal.
Como eu previra, o André parou bem do meu lado e foi logo botando
a boca no trombone:
— Ô meu, vai se mandando que aí é o meu lugar! — enquanto ele
falava, alguns perdigotos sobrevoaram a minha carteira e pousaram no meu
caderno de Matemática.
— Cadê a plaquinha de reserva? — tentei ser irônico, mas falei o mais
baixo que podia.
— Comi ela no café da manhã — ele rosnou, despejando no ar mais
uns trinta perdigotos.
— Vê se fecha a boca para falar! — retruquei, com raiva de servir de
campo de pouso para as gotículas de saliva daquele grandalhão nojento.
Então a Camilla percebeu que aquela discussão devia ter algo a ver
com ela e se virou para o André e perguntou:
— Este lugar era seu? — e eu vi que ela tinha uns olhos castanhos
bem clarinhos, uma voz meio rouca e uma boca superbonita.
Eu e o André ficamos meio parados por alguns segundos, sem saber
o que dizer.
— Eu sentei no lugar de algum de vocês? — ela olhou para mim.
Antes que eu respondesse, o André relinchou:
— Não, gatinha! O baixinho é que usurpou o meu lugar. E se ele não
sair já daí, vou fraturar ele em pedacinhos. — Injuriado, acompanhei o
looping espetacular que os últimos perdigotos tinham feito, antes de
pousarem no suéter da Camilla. Não aguentei:
— Não seja criança, André! Você não está vendo que a garota é nova
na classe e só veio hoje? Você chegou por último! Vai procurar outro lugar,
pô!... E vê se fecha a boca para falar!
Apesar de ter dado umas gaguejadas, achei que tinha conseguido me
impor. Além de ter a maior raiva daquele grandalhão, eu queria me ver livre
da maldita chuva de saliva o mais rápido possível.
14 UM GELINHO POR DENTRO

Naquela altura do campeonato, a Camilla já tinha começado a juntar


as coisas dela, disposta a sair dali. Eu tentava arranjar um argumento
qualquer para fazê-la ficar, quando entrou a D. Elvira, nossa professora de
História, e disse “Sentem-se.”
Passados dois segundos, só o André continuava de pé. Então, a D.
Elvira olhou duro para ele e perguntou:
— Você se perdeu, rapaz?
Com cara de quem tinha feito xixi nas calças, o André respondeu,
sem muita convicção:
— O Plínio pegou o meu lugar, p’ssora. Era eu que estava sentado ai
ontem. — Felizmente, desta vez os malditos perdigotos voaram para
estibordo.
— Você não vai querer chamar sua mãe para resolver esse problema,
vai? — perguntou a D. Elvira, sorrindo daquele jeito sarcástico dela.
Todo mundo riu da pergunta e o André ficou azul de vergonha.
— Professora, a culpa é minha. — A Camilla já estava de pé. — Eu não
vim ontem e, sem saber, sentei no lugar do... dele — e apontou para mim.
— Mas eu já estava saindo daqui.
Aí eu ouvi a frase mais maravilhosa que a D. Elvira já pronunciou em
toda a vida dela:
— Não é preciso, menina. O André é um cavalheiro... Pode sentar.
Certamente não por cavalheirismo, mas para não continuar fazendo
papel de bobo no meio da classe, o André desistiu da carteira. Mas não
perdeu a chance de me brindar com mais alguns espécimes das suas
gotículas voadoras. Antes de se afastar, cuspiu ainda um travessão, três
palavras e um ponto de exclamação bem na minha cara: — Você me paga!
Eu ainda estava enxugando a herança que ele tinha deixado, quando
a Camilla virou para trás, e com um sorriso naqueles olhos cor de terra
clarinha, cochichou:
— Ainda bem que você ficou aí, senão eu ia ter que vir para a aula de
guarda-chuva.
Só não dei uma gargalhada sonora porque era aula da D. Elvira. Mas
adorei a piada. Não porque fosse estupidamente engraçada, mas porque
percebi que por trás dela tinha uma espécie de código, uma mensagem
secreta: aquela garota maravilhosa estava a fim de mim. E senti um gelinho
por dentro.
15 UM SORRISO ESPECIAL

Fiquei eufórico, no dia seguinte, quando minha mãe disse que não ia
poder me buscar. Ela tinha dentista ou coisa parecida. Aliás, eu vivia
falando para ela que eu podia ir e voltar de metrô, mas todo ano ela dizia:
“Só mais este ano, esta cidade está um perigo”.
Meu plano era perguntar para a Camilla se ela também ia pegar o
metrô, seria a minha chance de fazer amizade com ela, pedir o telefone
dela, essas coisas.
Mas o filho-da-mãe do André atrapalhou tudo. Ficou me alugando na
hora do intervalo, dizendo que aquilo não ia ficar assim, que queria a
carteira dele de volta e coisa e tal. E logo que terminou a última aula, ele
voltou à carga: o professor ainda nem tinha saído da classe e o André já
estava ao meu lado com o fura-bolos esticado no meu nariz.
— Se amanhã eu chegar aqui e encontrar você indevidamente
depositado na minha carteira, vou ter o maior prazer de te triturar na
saída... — quando acabou de cuspir o resto de seu estoque matinal de
perdigotos em cima de mim, o sacana se mandou com os outros
grandalhões amigos dele.
Fiquei engasgado. Minhas pernas tremiam, meus neurônios
borbulhavam de raiva. Nem vi quando a Camilla saiu da classe.
Coloquei a mochila nas costas e saí voando pelo corredor, disposto a
alcançar aquele grandalhão metido. Minhas mãos eram dois socos raivosos,
eu ia arrebentar todos os dentes dele.
Enquanto eu corria, aquele caroço de raiva que eu tinha na garganta
foi ficando cada vez maior. E acabou explodindo num choro incontrolável.
Parei, sentei na mureta do corredor e deixei o caroço se dissolver. Não
podia enfrentar uma briga chorando daquele jeito...
Naquela noite quase não dormi. Mesmo assim, levantei mais cedo
que de costume, minha mãe até estranhou quando entrou no quarto e viu
que eu já estava me vestindo. Minha cabeça estava cheia de planos
malucos, com algum deles eu ia acertar contas com o André antes, durante
ou depois das aulas.
— Mãe, não vem me buscar hoje de novo, tá bom? — pedi, quando ela
parou o carro em frente à escola.
— Por quê?
— Tenho um trabalho para fazer depois da aula.
— A que horas você vai voltar? — minha mãe está sempre
preocupada com “a que horas”.
— Depois volto de metrô, não vou demorar. — Eu não queria mentir
para ela, mas não tinha outro jeito, ela ficaria apavorada se eu chegasse e
dissesse que ia brigar com um grandalhão na saída e coisa e tal.
Quando cheguei ao corredor do segundo andar, decidi que ia resolver
tudo naquela hora mesmo, antes de começar a primeira aula. Parei na porta
da classe, com a respiração ofegante e um soco armado em cada mão. O
André ainda não tinha chegado.
Fiquei parado por uns segundos, pensando se devia entrar ou esperar
por ele ali mesmo, no corredor. E vi que a Camilla me olhava séria. Talvez
ela tivesse visto o André me ameaçar no dia anterior, talvez só estivesse
achando estranho eu parado lá na porta, nervoso pra burro.
Então ela sorriu de um jeito que eu achei diferente, carinhoso, sei
lá... E começou a apontar para a carteira atrás dela, me convidando para
sentar lá outra vez.
Um sangue prateado percorreu o meu corpo. Aquele sorriso era o
presente mais especial que eu já tinha recebido na vida. Era como se dentro
dele estivessem todas as coisas bonitas que existiam no mundo inteiro.
Fui entrando na classe, meus olhos bicando a quina de uma carteira,
a ponta de um sapato, um toco de giz jogado no chão. Os músculos do meu
rosto se relaxavam, os dois blocos de gelo que eu tinha nas mãos derretiam
sob os olhos dela, que eu sentia mesmo sem ver. Segurei minhas mãos,
para não irem direto acariciar o rosto dela. E disse um “oi" que saiu
engasgado.
A professora já tinha entrado quando consegui cochichar um
travessão, três palavras e três pontinhos perto do ouvido dela: — 'brigado
pelo sorriso...
16 DUAS CESTAS DE TRES PONTOS

Entrei na cozinha assobiando.


— Mãe, hoje eu estou... — dei um beijo barulhento na bochecha dela
—... FELIZ!
Depois de receber aquele sorriso especial e de saber que o André
tinha faltado, eu ainda conseguira o mais importante: tinha voltado junto
com a Camilla de metrô.
Só teve uma coisa que não deu certo: não consegui pedir o telefone
dela. Até poderia ter pedido, mas não quis fazer isso com a Pat por perto, e
a Pat não desgrudou da Camilla, nem no metrô. Ou foi a Camilla que não
desgrudou da Pat, sei lá.
As duas eram alunas novas e tinham vindo da mesma escola, era
normal que ficassem juntas o tempo todo. E o pior é que eu não fui com a
cara da Pat, ela não deixava ninguém falar e ficava fazendo trinta perguntas
por segundo, só faltou ela me perguntar se eu dormia de pijama.
— Que entusiasmo!... — minha mãe comentou, curiosa. — O que
aconteceu, que te deixou tão feliz?
— Já sei! — interrompeu o Imperador, que pegou o bonde andando.
— O Caspa foi escolhido para a seleção de futebol de botão.
— Dênis, será possível! — Minha mãe sempre dizia “será possível"
quando o Imperador me provocava na frente dela.
— Ah, mãe, eu estou só brincando com o meu brotherzinho... — o
Dênis foi chegando perto de mim, como se fosse me dar um abraço.
— Me deixa em paz! — respondi mal-humorado, e saí fora do abraço
dele.
— Tá bom, tá bom... Eu não sabia que você estava num dia de cão
raivoso.
— Ele não está em dia de cão raivoso coisa nenhuma — minha mãe
retrucou. — Antes de você chegar, ele ia me contar por que está tão feliz.
Vamos, Plínio, me conta o que aconteceu...
— Fiz duas cestas... — inventei. Com o Dênis por perto, o que eu
tinha para contar parecia a maior besteira.
— Oh, céus! — ele recomeçou. — Você fez duas cestas!... Tudo isso?!
— De três pontos — arrematei.
— Não acredito nos meus ouvidos!... O meu brother, o famoso Caspa,
fez duas cestas... de três pontos! — ele falou aquilo tudo de um jeito
teatral, fazendo uma porção de gestos com os braços, como se fosse uma
bailarina destrambelhada. Depois de uma pausa, ele virou para a minha
mãe e sentenciou: — O Caspa está mentindo.
De uma certa forma, ele estava certo. Só uma vez eu tinha
conseguido fazer uma cesta de três pontos, e já fazia tempo. Mas eu não
tinha mentido: receber aquele sorriso da Camilla valia uma cesta de três
pontos; eu ter voltado de metrô junto com ela tinha sido uma cesta de três
pontos. Total: duas cestas de três pontos.
17 UM PERFUME INESQUECÍVEL

O Dênis me deu uma loção contra caspa de presente de aniversário.


Com um bilhete: “Para o Caspa, do Brother”. Na hora fiquei superchateado,
esperava uma coisa melhorzinha, um presente de verdade. Mas pensei que
já devia estar acostumado, o Imperador adorava me espezinhar o tempo
todo.
Dos meus pais, ganhei um blêiser. E uma lupa: uma superlupa que
meu pai tinha acabado de ganhar do chefe dele, e resolveu me dar.
Só na hora da festa fiquei sabendo qual era o verdadeiro presente do
Imperador: a sala da nossa casa parecia uma danceteria, com som, jogo de
luzes e até um globo de espelho. Ele conseguiu tudo aquilo emprestado
para me fazer uma surpresa.
Eu não tinha visto nada, meu pai saiu comigo a tarde inteira, dizendo
que ia me comprar umas roupas. Bem que estava achando aquilo tudo
esquisito, meu pai nunca teve paciência para fazer compras, e naquele dia
era eu quem dizia “Pai, vamos embora, eu estou cansado, já está bom esse
blêiser”. E ele falava “Não, vamos aproveitar para passear mais um pouco”.
Fiquei emocionado com o presente do Imperador, dos meus pais. Mas
também fiquei meio preocupado. Nunca tinha feito bailinho em aniversário
meu, nem sabia dançar e mesmo que soubesse, que graça ia ter dançar só
com as minhas primas?
Antes de ver aquela parafernália de som e luzes coloridas, eu achava
que aquele aniversário ia ser como os outros, eu ia jogar bola no quintal
com os meu primos, depois iriamos jogar videogame no meu quarto, comer
um monte de brigadeiro, tomar litros de refrigerante e no fim cortar o bolo
debaixo daquela zoeira infernal de todo mundo cantando parabéns
desencontrado, de trás para a frente, etcétera e tal.
Mas aí tocou a campainha e vi que eram uns amigos meus da escola,
minha mãe os tinha convidado sem eu saber. O pessoal foi entrando e
abrindo a boca de espanto, “Que som, meu, foi teu irmão quem montou?
Puxa, teu irmão é fera...”.
Quase caí de costas quando vi a Camilla no portão, mais bonita ainda
do que quando estava de uniforme. E quando ela me beijou para dar os
parabéns, senti o cheiro do perfume dela e pensei que nunca mais ia
esquecer aquele cheiro. Se um dia eu estiver num hotel na África e passar
uma mulher usando esse perfume, vou lembrar que era o perfume que você
usava. — Pensei em dizer isso para ela, mas não tive coragem na hora,
reservei para dizer mais tarde. Durante a festa eu poderia bater uns papos
e dançar... quer dizer, tentar dançar com ela, aí até comecei a achar boa
ideia aquela festa surpresa tipo danceteria.
18 UM CONVIDADO PENETRA

Meu entusiasmo evaporou quando vi quem estava chegando: o André


Perdigoto.
Fui até o portão. O Perdigoto me deu um tapinha nas costas e cuspiu
umas gotículas em forma de parabéns na minha jaqueta velha. (Você está
pensando por que eu não estava com meu blêiser novo... É que eu adorava
minha jaqueta velha e tinha resolvido me despedir dela naquele dia.)
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, seco.
— Tua mãe me convidou para a festa.
— Eu não quero você na minha festa.
— Tua mãe me convidou.
— Se te conhecesse, ela não teria convidado.
— Não interessa. Ela me convidou, eu estou aqui, e agora vamos
entrando senão a sopa esfria. — Ele foi falando e me empurrando para
dentro, como se fosse o dono da casa.
Não o deixei passar. Não queria aquele grandalhão metido a besta
cuspindo nos meus convidados.
Vendo que eu não arredava pé, ele mudou de tática:
— Você não está sendo justo com este seu amigo. Este seu amigo que
já quebrou tantas para você. Aquele dia que eu disse que ia te pegar na
saída... Eu te peguei? Não te peguei. Resolvi deixar barato.
— Você nem foi à escola nos outros dias...
— Isso é outra história. Não fui porque fiquei doente. Mas mesmo se
tivesse ido, não iria te pegar. Não iria bater num baixinho como você.
— Para de me chamar de baixinho!
— Tá legal. Em troca, você me deixa entrar.
— O aniversário é meu, eu não gosto de você, não quero você
cuspindo nos meus convidados. Vai embora, André, senão...
Então ele amansou a voz e começou a dizer que sabia que ninguém
gostava dele, que ninguém o convidava para nenhuma festa, e que agora
que tinha sido convidado, eu não queria deixá-lo entrar.
Eu conhecia bem o André, sabia que ele era capaz de fazer qualquer
coisa para conseguir o que queria. Até chantagem. Era o que ele estava
tentando fazer e depois acabou conseguindo.
— Se você não me deixar entrar, vou recuperar a memória e espalhar
na escola toda o que você fez com a chave do laboratório.
Engoli grosso. Ele era o único que sabia do lance da chave.
19 TUDO POR UM BOLO

Fazia mais de um ano que aquilo tinha acontecido. A professora de


Ciências me pediu para ir pegar a chave do laboratório na secretaria. Fui lá
e peguei a chave, que estava pendurada num prego, do lado de dentro do
batente da porta. Não tinha ninguém por lá.
Tive que fazer uma parada de emergência antes de voltar para a
classe, resolver uns problemas privados inadiáveis.
Entrei no banheiro, segurei a chave na boca e fiz o meu depósito.
Quando ia puxar a descarga, uma tremenda dor na testa me fez dar um
grito. Fiquei sem saber do que eu devia ficar com mais raiva: se da pedra
que arrebentou a minha testa depois de quicar na parede, ou da chave do
laboratório, que caiu dentro da privada quando berrei por causa da dor.
— A p’ssora mandou perguntar cadê a chave do laboratório. — Era a
voz do André.
— Seu filho da mãe! Você me arrebentou a testa!
— Sorry, my friend. Às vezes esqueço que tenho uma pontaria tão
boa... Cadê a chave?
— Está dentro da privada. Por tua causa!
O André caiu na maior gargalhada. E relinchou:
— Pena que eu nem te encontrei, baixinho... Senão eu até te
emprestaria alguma das minhas ideias brilhantes. — E se mandou, o sacana,
me deixando lá sozinho.
Me deu o maior desespero pensar que ele poderia chegar na classe e
contar para todo mundo o que tinha acontecido. Sem ter certeza se ele
ainda podia me ouvir, gritei: “Não conta para ninguém!!”
Minha testa doía pra caramba e estava sangrando. Fiquei andando
para cá e para lá dentro do banheiro. Se pelo menos ali tivesse um saco
plástico... Mas eu é que não ia enfiar a mão naquela latrina imunda, mesmo
com a mão dentro de um saco plástico.
A única coisa que tinha por ali era um rodo. E se eu grudasse o
chiclete na ponta do cabo do rodo e tentasse pescar a maldita chave? Não
vai dar certo — pensei, com o maior nojo.
Depois de uns minutos que me pareceram dois anos, fechei os olhos
e puxei a descarga. Quando olhei lá dentro, vi que os deuses não tinham me
ajudado. A água não levou só o que não servia: a chave tinha ido junto.
Quando cheguei na classe, a professora estava uma fera:
— Pode-se saber por que o senhor demorou tanto? — Não sei por que
sempre me chamam de senhor quando alguma coisa sai errada. E toda vez
que alguém me chama de senhor, tenho vontade de jogar uma bengala na
cabeça de quem chamou.
Olhei rápido para o André. Ele fez um sinal de que não tinha contado
nada. Respirei aliviado e justifiquei:
— Estava procurando a chave.
— E pode-se saber onde está essa bendita chave?! — perguntou a
professora.
— Não achei.
— Como, não achou?!
— Ela não estava no prego na secretaria... e não tinha ninguém lá
para eu perguntar onde ela poderia estar... Então fui andando pelos
corredores... para ver se achava alguém... que pudesse me dizer onde a
chave... — eu nunca tinha enrolado tanto na minha vida. Dei uma olhada
rápida para o André e ele estava roxo de vontade de rir. Desviei logo o
olhar, para não me trair.
— Vá sentar. Depois vamos descobrir o mistério da chave do
laboratório... E o que é isso na sua testa?
— Bati no prego quando fui olhar se a chave estava lá. — A classe
toda estourou na maior gargalhada. Acho que todo mundo percebeu que
aquela história estava esquisita e aquela do prego tinha sido demais. Até a
professora não aguentou e riu.
Quando a aula terminou, fui atrás dela e contei uma versão mais
limpa sobre o que tinha acontecido com a chave: disse que ela tinha caído
no ralo do banheiro e que, se fosse preciso, eu pagaria da minha mesada
para mandar fazer outra. A professora agradeceu por eu ter ido contar a
verdade e disse que me avisaria se fosse preciso mandar fazer outra chave.
Naquela época, fiquei um tempão obedecendo às ordens do André,
com medo que ele abrisse a boca na escola. Se não fizesse isso, eu ia virar o
maior palhaço de todos os tempos, até o pessoal do colegial ia passar o
resto da vida me gozando. E ele voltou a desenterrar aquela história, no dia
do meu aniversário.
— Tá bom, você me convenceu... — acabei dizendo lá no portão. Meu
moral estava a zero quando o preveni: — Vê se não vai cuspir nos meus
convidados.
— Prometo que não vou cuspir. E quando ele falou “cuspir”, mais uns
quinze perdigotos foram libertados da prisão e voaram alegres ao meu
encontro.
Esse é o André... — pensei, enquanto o via entrar. É capaz de fazer
uma chantagem suja dessas só para não perder um bolo de aniversário.
20 ROUBARAM MEU SHOW

Dei um giro pela sala, injuriado com a chantagem que tinha engolido.
Fui até a cozinha ligar para a casa do Cabrum. Que tremendo cano,
hein, amigão? — voltei para a sala, tentando imaginar o que teria
acontecido com o meu amigo. Ele era o único que ainda não tinha chegado.
Apesar do tremendo som que o Imperador tinha montado, a festa
estava meio besta, só algumas meninas estavam dançando. Bem que eu
achava que esse negócio de danceteria no meu aniversário não ia dar certo:
eu e os meus amigos íamos ficar o tempo todo com as mãos no bolso, um
pé criando raiz no chão e o outro encostado na parede.
Naquele dia, o Dênis tinha prometido que não iria me incomodar na
frente dos meus convidados, só que eu esqueci de negociar com ele o que
significava “não me incomodar na frente dos meus convidados”, e por
causa dessa falha que havia no contrato, ele estava me incomodando:
estava dando uma de gostosão para cima das minhas amigas.
Não aguentei aquilo e fui chiar para a minha mãe:
— O Dênis está se exibindo todo lá na sala... Na minha festa.
Recebi uma resposta gelada como o ar que saía da geladeira, na qual
minha mãe colocava refrigerantes: — Larga de ser chorão, Plininho! Ele só
está ajudando a receber os seus convidados. Você deveria agradecer, em
vez de ficar com esses ciúmes bobos.
Já disse que adoro minha mãe e tal, mas detesto quando ela nem
considera a hipótese de eu estar certo. Detesto quando vou me queixar de
alguma coisa com ela e ela acaba me deixando sair do mesmo jeito que
entrei, com o pepino inteiro para descascar. E fiquei mais chateado ainda
porque ela não estava com cara de aniversário. Nem meu pai. Eles pareciam
preocupados.
— Aconteceu alguma coisa?
— Vá curtir a sua festa, está tudo bem. — O sorriso da minha mãe
não me convenceu.
Voltei para a sala. De um lado, um bando de garotas jogava o maior
charme para cima do Imperador; do outro lado, o André chovia suas
babaquices sobre a cabeça de uns cinco garotos mais baixos do que ele. A
Camilla e a Pat tinham parado de dançar e estavam sentando, ia sobrar uma
cadeira vazia perto delas.
É a minha chance! — respirei fundo duas vezes e fui até onde elas
estavam.
21 NEM UMA DROGA DE UM ASSUNTOZINHO

— Tem alguém sentado aqui? — perguntei, apontando a cadeira


vazia.
— Se tiver é um espírito — a Pat me deixou com cara de idiota.
Sentei em cima do espírito e... não consegui achar nada para dizer.
Elas deram uma risadinha mas não facilitaram a minha vida: também
não disseram nada.
Comecei a suar e a pensar em como tinham sido inúteis todos os
planos que eu já tinha feito para encarar situações daquele tipo... Quantas
vezes, na calma do meu quarto, eu imaginara papos inteiros com a Camilla,
ela prestando uma superatenção ao que eu dizia e eu prestando uma
superatenção ao que ela dizia, cada um achando o outro a pessoa mais
interessante do planeta.
Mas na hora agá, na hora em que o “papo planejado” tinha que virar
papo real, meu cérebro se transformava num deserto cheio de poeira, os
assuntos interessantes simplesmente não apareciam, aliás não aparecia
nem uma droga de um assuntozinho.
Parecia que fazia um século que eu estava ali, sentado ao lado da
única garota que me interessava no mundo, sem achar nada para dizer.
Desesperado com aquele silêncio, virei para a Camilla e soltei a primeira
frase que me veio à cabeça:
— Você me acha baixinho?
Nem acabei de pronunciar o ponto de interrogação e já estava
completamente arrependido. Que coisa mais ridícula chegar assim para
uma garota e ir perguntando uma asneira dessas... Do jeito que eu tinha
começado, feito um babaca, ela não ia me achar nem o cara mais
interessante da sala, quanto mais do planeta.
— Eu... — a Camilla estava rindo e ia dizer alguma coisa, quando foi
atropelada pela voz de gralha da Pat.
— Quantos anos o seu irmão tem? — os olhos que a Pat apontava
para o Imperador eram duas tochas de balão acesas.
Antes de responder, percebi que a Camilla também estava olhando
para o Dênis. E parecia muito interessada. Fiquei desesperado.
— Vinte e dois — menti. — E é casado. — A mentira me veio rápida,
uma corda que eu mesmo me atirava para tentar escapar do fundo do poço.
Se eu não tentasse impedir que os olhos da Camilla viajassem para o
território do Dênis, talvez eles nunca mais voltassem para mim.
— E mesmo?! — disse a Pat, e não dava para saber se ela estava mais
surpresa ou mais decepcionada com a notícia.
Pensei em completar, dizendo que o Dênis tinha raptado a garota e
fugido para casar, que aquilo era confidencial e coisa e tal. Mas não falei
mais nada, alguém tinha se aproximado de nós.
— Esta interessante pessoa gostaria de balançar o corpo junto com
você. — Minúsculas gotículas voadoras anunciaram a presença do André. E
o rumo que elas tomavam indicava que ele estava falando com a Camilla.
Fiquei uma fera. Aquele penetra-chantagista-safado não tinha forçado
para entrar na minha festa só para pegar uma boca-livre... Ele estava
querendo ficar com a minha garota!
Me transformo numa caspa se a Camilla for dançar com a anta
salivante! — apostei comigo mesmo, lembrando da piadinha que ela tinha
feito na classe, sobre ir para a escola de guarda-chuva e coisa e tal.
Então ela olhou para mim, olhou pro André, olhou para mim de novo
e perguntou se eu não me importava de a gente continuar a conversa
depois. Primeiro pensei “que conversa?”, depois fiquei verde de ciúmes e
respondi um “não” tão fraco que quase nem eu ouvi direito. E, com a maior
cara-de-pau, ela se levantou e foi dançar com a girafa cuspidora de saliva.
22 DESIDRATAÇÃO AFETIVA

Era muito para a minha cabeça. Fiquei ali sentado feito um idiota,
pensando em lançar um movimento de protesto contra os grandalhões. Se
chamaria “Baixinhos Unidos contra Grandalhões Metidos”. Eu poria um
anúncio no mural da escola anunciando o movimento, e tinha certeza de
que em pouco tempo uma legião de baixinhos estaria ao meu lado, disposta
a lutar contra as humilhações que alguns grandalhões nos faziam passar. E
se dependesse do meu voto, o André seria eleito o nosso inimigo número
um.
A Pat interrompeu meu raciocínio, metralhando perguntas sobre o
casamento do Dênis. Percebi que não ia aguentar aquele papo e disparei: —
É tudo mentira. Quem tem vinte e dois anos sou eu, ele tem só doze, nós
dois temos um problema grave de hormônios... Ele vai continuar crescendo
até ficar velho e eu vou diminuir até virar um... homúnculo e saí, deixando
a Pat de boca aberta.
Fui até o quintal refrescar a cabeça. Definitivamente, eu não estava
nos meus melhores dias. O Imperador estava roubando o meu show; o
Cabrum não chegava para me dar uma força; meus planos para
impressionar a Camilla tinham furado logo no começo e, ainda por cima, o
André estava interessado nela.
Imaginei uma forma de me vingar. Podia pegar a cadeira da cozinha e
quebrá-la na cabeça dele e depois arrastá-lo até o formigueiro que havia na
calçada. Provavelmente seria aplaudido por todos os meus amigos. Mas
também podia ser vaiado. Afinal, tinha gente ali que parecia gostar daquele
imbecil. A Camilla... por exemplo.
Fiquei olhando meus primos pequenos jogando bola e nem respondi
quando eles insistiram para eu entrar no “time”. Minha língua estava seca
dentro da boca, minha saliva tinha acabado. O gosto daquela noite estava
insuportável.
Passei a mão num copo que estava no parapeito da janela da cozinha
e despejei o líquido todo goela abaixo. Aquilo tinha um gosto de poeira ou
coisa parecida. O dono deste copo que me desculpe, estou com
desidratação afetiva.
Ia voltando para a sala, disposto a tomar alguma atitude (ainda não
sabia qual), quando vi o André e a Camilla indo para a varanda, de mãos
dadas. Uma espécie de sangue amargo começou a me tingir por dentro.
Aquele chantagista safado! E aquela... fingida... iam ficar juntos até o fim da
festa, iam namorar na escola, trocar beijinhos na saída. Eu tinha dançado.
23 JAPONÊS TEM CADA UMA...

Uma revolução ameaçava estourar no meu estômago, resolvi sumir.


Me tranquei no banheiro e fiquei ali, suando frio e respirando fundo.
Quando achei que meu estômago tinha desistido de explodir nos azulejos,
fui até o quarto dos meus pais e disquei o número do Cabrum. O ten-ten-
ten interminável me deixou furioso. Onde tinha se enfiado aquele cara?!
Fui para o meu quarto e passei a chave na porta. Fiquei ali, chateado
pra caramba, decepcionado com a Camilla, com o mundo e comigo mesmo,
pensando que meus pais não deviam ter feito merda de festa nenhuma.
Fazer treze anos não era assim tão bárbaro quanto eu pensava: já não
tinha graça chutar bola no quintal com os pirralhos dos meus primos e ao
mesmo tempo eu não tinha a menor competência para conquistar uma
garota.
Resolvi tirar a roupa, estava suando em bicas. Então peguei a
superlupa que meu pai tinha me dado. Era a lupa mais estranha do mundo.
A lente era do tamanho do espelhão que minha mãe usa para tirar os pelos
da sobrancelha. O cabo era cheio de botões, parecia um controle remoto de
TV.
Fiquei olhando para aqueles botões, tentando imaginar para que
serviriam, mas não consegui ter nenhuma ideia brilhante. Aliás, eu estava
me sentindo tão mal que não conseguia ter ideia nenhuma.
Dentro da caixa da lupa vi um manual de instruções, todo escrito em
japonês. Consciente da minha ignorância japonesística, joguei o manual
longe e comecei a procurar alguma coisa bem pequena que valesse a pena
observar. Então bati o olho nas cinquenta caspas que se esparramavam
gostosamente pelo ombro da minha jaqueta.
— Suas safadas! Vocês estão aí de novo! Vamos lá, todo mundo
mostrando o passaporte! — brinquei, tentando me descontrair. E aproximei
a lupa daquele bando de turistas clandestinas que vivia ocupando a praia
da minha jaqueta sem pedir autorização.
Levei o maior susto quando as caspas cresceram por trás da lente:
elas pareciam se mexer e tinham uns olhos redondinhos...
— CASPAS COM OLHOS?! — falei por gozação, mas não achei graça
nenhuma.
Para disfarçar o medo que começou a me dominar, decidi apertar os
botões que havia no cabo da lupa e ver para que serviam.
Apertei o primeiro e levei outro susto: a lente se fechou e se abriu,
fazendo um ruído metálico. Japonês tem cada uma...
24 IMAGEM INCOMPREENSÍVEL

A imagem que apareceu na lente era completamente


incompreensível. Parecia um chapéu desabado ou cogumelo gigante, com a
aba superior rebaixada cm ambos os lados. Mas também podia ser uma
espécie de animal... e então a parte superior, um pouco arredondada, seria
o topo da cabeça. E aqueles dois buracos escuros seriam os olhos. Mas que
raio de animal teria tufos de cabelos nos olhos?
Talvez eu ficasse um tempão consumindo meus neurônios para
tentar descobrir o que era aquilo, se o acaso não viesse em meu socorro:
dei um espirro. E no instante em que espirrei, descobri, divertido, que a
imagem “incompreensível” que ocupava toda a extensão da lente era a
ponta do meu próprio nariz, tremendamente ampliada.
Dei a maior risada e por uns instantes me senti confortável, me
vendo grande daquele jeito. Cheguei a pensar em correr até a sala e peitar o
chantagista do André e botá-lo para fora da minha casa. Então eu
convidaria a Camilla para ir até a varanda. E se eu sentisse que ela merecia
minha sinceridade, falaria aquilo tudo sobre o perfume dela e diria que
estava apaixonado por ela e coisa e tal. E se ela dissesse que também
gostava de mim, eu ficaria louco de alegria e daria um beijo supercarinhoso
nela. E nós dois ficaríamos conversando e rindo prateados debaixo de uma
baita lua cheia, até o meu pai sair de manhã cedo para comprar pão.
25 MINIATURA DA MINIATURA

Pena que eu não sou grande desse jeito... — murchei, quando meus
pensamentos voltaram da lua cheia. Então a lente se fechou e se abriu
novamente, dissolvendo a imagem do meu poderoso nariz.
— Devo ter apertado um dos botões sem perceber — murmurei,
observando um pontinho claro que se movimentava por trás da lente.
Apertei bem os olhos para ver o que era aquilo. (Sei que você está
pensando o que adianta ter uma superlupa se a gente precisa apertar bem
os olhos para poder enxergar o que está do outro lado da lente. Também
pensei isso na hora, e fiquei tão irritado que tive vontade de estraçalhar
aquela droga de lupa contra a parede. Mas não fiz nada disso, aquele
pontinho móvel estava me matando de curiosidade.)
— Parece uma miniatura de miniatura de carrinho... — e os olhos da
memória me levaram de volta para o carrinho que ganhei de Natal quando
era pequeno. Eu podia entrar dentro dele, me sentia o máximo pilotando
um carro “de verdade”. Eu pedalava feito um doido por todo o quintal, o
motor era na minha garganta.
Por muito tempo não deixei minha mãe dar aquele carrinho para
ninguém. E uma das maiores tristezas da minha vida foi quando minhas
pernas não couberam mais dentro dele. Mesmo assim, eu tinha o maior
gosto de lavá-lo com a mangueira e depois enxugá-lo com um pano até ele
ficar brilhando, como meu pai fazia com o carro dele. Só deixei minha mãe
dar o carrinho quando já tinha uns dez anos, e mesmo assim senti pra
caramba.
Os olhos da minha memória se apagaram quando vi que o carrinho
que eu olhava através da lente disparou pelos trilhos do tecido da minha
jaqueta. Comecei a apertar os botões da lupa, como se estivesse com um
controle remoto de autorama na mão.
Foi me dando um desespero... Por mais que eu tentasse, não
conseguia brecar ou desviar o carrinho, não tinha uma droga de um desvio
no meio daquele monte de trilhos. Abri a mão em concha, pensando em
ampará-lo quando ele despencasse do ombro da minha jaqueta.
Mas uma espécie de voz esganiçada desviou a minha atenção:
“Fungo... inseto... asas... pelos...” — vindas não sei de onde, aquelas
palavras estranhas entravam pelos meus ouvidos, quando de repente tudo
escureceu.
26 EM QUEDA LIVRE

Comecei a gritar quando senti que estava em queda livre, meu corpo
se batendo contra as paredes de um lugar pequeno demais para o meu
tamanho.
Como um relâmpago, revi as cenas de um sonho que eu tinha com
frequência, eu caindo de um lugar altíssimo, gelado de medo, antecipando
o momento em que me arrebentaria sem defesa contra o chão. Naqueles
sonhos eu sempre tinha uma sorte danada, ou acordava durante a queda,
ou alguma força salvadora me fazia reaparecer de pé num lugar estável.
Como naqueles sonhos, desta vez também tive sorte: depois de um
baque surdo contra uma superfície macia, tudo ficou parado e quieto,
principalmente eu.
Olhei à minha volta. Pelo pouco que podia enxergar naquele lugar
escuro, vi que eu tinha capotado com um carrinho de corrida que nem
sabia de quem era, e agora estava sentado sobre o que restara dele.
Senti o maior alívio quando apalpei meu corpo. Apesar daquele
acidente maluco, nada me doía, eu podia me mexer livremente. Mas meu
entusiasmo só durou até eu notar que estava pelado.
27 A CAVERNA

— Que raio de lugar é este?! — meus neurônios perguntavam uns


para os outros, enquanto eu olhava assustado para aquele deserto escuro e
cheio de morros ondulados. Não tinha uma árvore por ali. Nem lua. Nem
um grilo cantando. Era um silêncio em estado sólido.
Procurei minhas roupas. Nunca tinha ouvido falar de uma vítima de
acidente encontrada sem roupa, como era possível que as minhas tivessem
sumido?
Mesmo sem achar roupa nenhuma, resolvi sair andando. Por sorte ali
era bem escuro e não tinha ninguém por perto.
Quando estava no alto de um daqueles morros, tive vontade de dar
um grito para ver se ali fazia eco. Uma vez escalei uma montanha junto
com a turma do acampamento e quando cheguei lá em cima fiquei um
tempão gritando “ô-ô” e depois de uns segundos o eco devolvia meu ô-ô
igualzinho, era minha voz sem tirar nem pôr. Vai que eu grito "ô-ô " e
aparece um desgraçado querendo me assaltar neste lugar escuro, talvez até
queira me matar quando descobrir que não tenho nada para ser roubado,
nem roupa.
Continuei andando sem dar um pio. Aquele chão era todo macio, o
único problema eram uns buracos nos quais meu pé se enroscava de vez
em quando.
Estava começando a cansar e achar que tinha escolhido o lado errado
para ir, quando avistei uma espécie de caverna, iluminada por uma
pequena claridade.
Apressei o passo. Quem sabe se dentro dessa caverna tem alguém
que possa me dizer onde estou...
Conforme fui chegando mais perto, vi que a borda daquela fenda era
toda costurada com uma corda azul-marinho.
— Costurada! — gritei, tentando um insight fulminante que me fez
tremer da cabeça aos pés. Costurada... azul-marinho... morros ondulados...
Corri até a porta da caverna e ajoelhei para ver bem de perto a
superfície onde estava. Como eu pensava, o chão daquele lugar tinha um
padrão geométrico bem definido, era feito de cordas paralelas que se
cruzavam com outras cordas paralelas. Nos espaços entre as cordas havia
sempre um buraco quadrado. Então matei a charada: por alguma razão
misteriosa, eu tinha sido engolido por aquela lupa maldita; tinha sido
“pilotado” por uma miniatura de carro de corrida e agora estava pelado em
algum ponto da minha própria jaqueta!
Então tudo ficou claro: aqueles morros ondulados eram as dobras do
pano, aquela caverna enorme que eu tinha diante dos olhos só podia ser
uma casa de botão.
Fiquei eufórico com a descoberta: Plinio, você é demais!... E daí? —
rebateu o meu lado prático. Como é que você vai sair dessa enrascada?
28 RONCO GIRATORIO

Olhei desanimado para aquela casa de botão, que era umas vinte
vezes maior do que eu. O que eu faço agora? — me aninhei numa dobra do
pano, exausto.
Foi só eu fechar os olhos e um ronco giratório começou a cavar
aquele silêncio de pedra. Eu conhecia bem aquele som e sabia que só uma
coisa acabaria com ele: comida. Mas como iria achar alguma coisa
comestível em cima de uma jaqueta?
Levantei, cruzei as mãos atrás da cintura e comecei a andar em
círculos, como lembrava que o Tio Patinhas fazia quando precisava tomar
uma decisão importante.
Em vez de produzirem uma solução para a minha fome, meus
neurônios ficaram fabricando imagens coloridas e super-reais de tortas de
frango fumegantes, bolos de chocolate com cobertura reluzente, fatias de
carne assada cheias de molhinho por cima... iguais àquela que comi no
escuro, na casa da tia Maria.
Era aniversário de alguém. No meio do jantar, a luz acabou e eu
tentei espetar com meu garfo a última fatia de carne assada que tinha
sobrado no prato, e que ninguém tinha tido coragem de pegar. Acabei
espetando a mão do meu primo, que tinha tido a mesma ideia que eu. Ele
gritou “ai” e recolheu a mão e não respondeu nada quando todo mundo
quis saber por que ele tinha gritado “ai”.
Quando meus tios acenderam as velas, aquela fatia de carne cheia de
molhinho já estava bem guardada na minha barriga. Meu primo me fuzilou
com os olhos e me deu um chute por baixo da mesa, quando viu que a
carne tinha sumido.
Lembrar daquelas cenas me fez pensar na minha família.
Com certeza nenhum deles poderia imaginar que eu tinha virado um
homúnculo e estava sozinho no deserto da minha jaqueta... Naquela altura,
talvez já tivessem entrado no meu quarto e estavam pensando que pulei a
janela, que fugi de casa...
Eu via o rosto dos três bem na minha frente: a cara do Dênis era meio
indecifrável, eu não sabia se ele estava triste por causa do meu
desaparecimento ou contente por saber que agora seria filho único; minha
mãe parecia ter envelhecido uns dez anos e dava entrevista para uma
repórter que falava em sequestro e resgate e tal e coisa, e não conseguia
falar quase nada, só chorava feito uma criancinha; meu pai também
chorava e não conseguia falar nada, só balançava a cabeça para os lados.
Devia estar inconformado por eu ter me metido em mais uma encrenca.
As imagens eram tão nítidas que me apertaram o peito. Será que vou
conseguir sair dessa encrenca? — uma dor quente foi se afundando para
dentro de mim, até virar um choro quieto e doído: eu não queria meu choro
ecoando naquele silêncio, ia me sentir mais infeliz ainda.
Pensei na minha mãe desmanchando meus cabelos no travesseiro
todas as noites, eu sempre sabendo o que ela ia dizer em seguida: “Chega
por hoje, corujão...” Pensei nas histórias que meu pai contava, quando ele
era criança. Da raiva que ele tinha de ser obrigado a comer sopa de verdura
toda noite: meu avô plantava a verdura e o dinheiro não dava para outros
tipos de comida. Vai ver que ele se mata de trabalhar para não ter que
obrigar a gente a comer sopa de verdura toda noite...
Lembrei dos papos com o Dênis nos dias de “Tá limpo”. E a imagem
dele dentro da pele das minhas lágrimas fez brotar, de algum lugar no
fundo de mim mesmo, uma certeza inesperada de que ele também gostava
de mim como eu gostava dele. Se não fosse assim, não teriam existido
aqueles papos de igual para igual, não teriam existido as partidas de truco
nos dias de “Tá limpo”.
Então fiquei pensando que eu nunca tinha tentado furar a bolha
transparente onde ele se guardava, nunca tinha chegado direto nele e
falado “mano, eu adoro você, acho você o máximo... Era só você me
respeitar e parar de me chamar de Caspa...”.
Se eu conseguisse voltar ao meu tamanho normal, ia me sentir
dinossáurico. E ia consertar umas coisas na minha vida.
E daí que eu sou baixinho?! — gritei, dando um chute no ar, querendo
que o meu velho complexo se estilhaçasse contra as paredes daquele
silêncio.
Se a Camilla não gostasse um pouco de mim, não teria insistido para
eu sentar atrás dela. Não teria sorrido daquele jeito, não teria me olhado
macio como pó de terra clarinha... Ou teria?
Isso veremos — enxuguei as lágrimas no dorso da mão e parei com
aquela coisa idiota de andar em círculos.
— EU QUERO COMEEERU... — gritei, com todo o meu estoque de voz.
29 ÓPERA LÍQUIDA

O eco do meu grito ainda sobrevoava o silêncio, quando um


tremendo susto me fez dar um pulo para trás: uma espécie de cortina
gigante por pouco não despencara em cima de mim.
Olhei para o alto e a única coisa que descobri foi que as tiras daquela
cortina se engrossavam à medida que subiam em direção a algum ponto
acima de onde eu estava. E tinham uma consistência esquisita: iam se
grudando umas nas outras conforme balançavam no ar, espalhando um
cheiro poderoso que me enchia a boca de saliva. Um cheiro maravilhoso
de... mussarela derretida.
Quando eu ia agarrar um pedaço daquele presente dos deuses, fui
soterrado por uma avalanche morna que se precipitara de uma daquelas
tiras, sem que eu tivesse tido tempo de pular fora. Desesperado, comecei a
nadar em direção à tona daquele mar grosso, que por sinal tinha um gosto
delicioso.
Quando coloquei a cabeça para fora, vi que a minha única saída era
escalar um enorme paredão vermelho que estava próximo de mim, e que
era mais liso do que sabonete molhado: a cada passo que subia,
escorregava três de volta.
Só quando cheguei ao topo do paredão pude ter uma visão calma
daquele mar vermelho: não era à toa que eu tinha achado uma delícia
engolir aquela “água”... Eu tinha nadado em molho de pizza!
E aquele maldito paredão escorregadio, que eu levei um tempão para
escalar... era um gigantesco pedaço de tomate, que eu tive o azar de escalar
pelo lado da casca.
Estourei na maior gargalhada. Eu só me meto em encrencas... — e
junto com aquela risada foram chegando outras mil risadas que eu não
tinha rido e que me perdoavam de todas as trapalhadas que eu já tinha
feito na vida.
De bem comigo mesmo, me concentrei para pular lá de cima. Dei ao
meu corpo o máximo de impulso que podia, para não correr o risco de
mergulhar de novo no Mar Vermelho. Terminei o salto com uma
cambalhota, carimbando num ponto seco da minha jaqueta o resto de
molho que ainda me lambuzava o corpo.
Sem esperar nem um segundo, agarrei uma daquelas tiras de
mussarela e fui comendo tudo a que tinha direito. E enquanto aquele queijo
maravilhoso se desmanchava na minha boca, meu estômago cantava uma
ópera líquida, de satisfação.
— Acho que vou dormir um... — não deu tempo de terminar a frase,
uma rajada de vento gelado me estilingou feito um bólido para a
estratosfera. Quando me dei conta, estava improvisando asas, agitando
pernas e braços para não cair como um chumbinho de pesca no chão. Por
sorte, meu corpo bateu contra um paredão inclinado do tecido, me fazendo
rolar de volta para a superfície.
Outras rajadas fortes se seguiram, mas não me fizeram voar: eu já
estava prevenido. Morrendo de frio, abracei meu corpo e saí andando
contra aquele vento, que me empurrava para trás.
30 NEVE CAINDO AO CONTRÁRIO

Não tinha andado dez passos, quando meus cabelos pararam de voar
e tudo ficou quieto novamente. Aquele vento misterioso e gelado
desaparecera.
Então uma música imponente, de orquestra, inundou aquele silêncio,
me deixando todo arrepiado.
Atravessei correndo a pequena distância que me separava da casa de
botão: era de lá que vinha... Assim falou Zaratustra, do Strauss! — lembrei.
Era a primeira faixa do Time Warp, um CD que eu adorava.
Quando apoiei o corpo na borda lateral da fenda, minha mão tocou
em algo que parecia a ponta de uma corda. Dei uns puxões fortes nela, era
firme o suficiente para aguentar o peso do meu corpo.
Fui subindo pela corda com a maior facilidade. A vida inteira tinha
subido em lugares altos, às vezes só pelo prazer de subir e olhar as coisas
de um jeito diferente, outras vezes para pegar balão, desenroscar pipa.
resgatar bolas em cima do telhado, essas coisas. E aquela vez, para ver as
três irmãs.
Queria ver um grandalhão subir aqui com a mesma rapidez que
subi... — cheguei no alto da corda me sentindo o má-xi-mo.
Quase caí duro quando enfiei a cabeça para dentro da fenda: uma
formiga enorme agitava as patas no ar. Estava deitada de costas, o corpo
preso contra o tecido da minha jaqueta por uma corda clara e brilhante.
Em volta dela estavam umas cinquenta bolotas pardas, todas com a
mesma cara. Pareciam muito concentradas, falando pelos cotovelos e
cuspindo uns farelusquinhos pardos que iam subindo no ar uns ao lado dos
outros, como se fossem neve caindo ao contrário.
Não é à toa que minha jaqueta vive forrada de farelos... — pensei. E
estremeci: tinha acabado de descobrir de onde conhecia aquelas caras
todas iguais, aqueles olhos redondinhos: — São as caspas que eu vi com a
minha lupa!
31 OS NYFS

— Suas desgraçadas! — ruminei, vendo que a corda clara e brilhante


que prendia a formiga contra o chão era um fio do meu cabelo.
— Atenção todos os Nyfs! — uma voz de mosquito se destacou no
meio daquele burburinho. — Chegou a hora de fazermos o primeiro teste
com a nova Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro! Com a palavra, o
nosso Inventor-Chefe, senhor Nyftox.
Fiquei boquiaberto. O que eu estava vendo e ouvindo significava que
aquilo que todo mundo chamava de “caspas”, na verdade eram minúsculos
seres vivos, tinham nome e falavam difícil...
— Senhores Nyfs — zumbiu o tal do inventor-chefe. — Desde o Big-
Bang temos nos submetido ao desprezo e aos maus-tratos dos humanos.
Muitos trilhões de Nyfs como nós simplesmente desapareceram por causa
dos cruéis safanões com que sempre fomos tratados... Mas graças à Nova
Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro, tudo isso vai acabar!
— Senhor inventor-chefe... — interrompeu uma das bolotas da
plateia. — O senhor me desculpe, não entendi nada do que o senhor falou.
— Ah... Tinha-me esquecido de que temos treiNyfs nesta reunião... É
tudo muito simples, jovem treiNyf: desde o Big-Bang, os humanos sempre
nos trataram com o maior desprezo, expulsando-nos com seus safanões
idiotas e fazendo com que muitos trilhões de nós se desintegrassem e
desaparecessem deste planeta. Para que nossa espécie não se extinguisse,
tivemos que aumentar a nossa capacidade de reprodução e passamos a nos
reproduzir pela boca. Veja, jovem treiNyf, como os filhotes do meu
discurso se lançam no ar e se acumulam organizadamente sobre o corpo
desse Hexápode tríptico...
Que nome estranho para uma formiga. E que espécie mais estranha...
— pensei, meus olhos acompanhando a trajetória daqueles filhotinhos
pardos que não respeitavam a força da gravidade.
— Com esse método de reprodução... — continuou o inventor-chefe
— conseguimos uma das mais altas taxas de reprodução do planeta. Mas
continuamos indignados com o desprezo com que ainda somos tratados.
Por essa razão, decidimos não mais lutar contra os humanos, e sim,
ACABAR COM ELES!...
— E como isso pode ser feito? — o treiNyf quis saber.
— Com a ajuda dos Agentes Nyf que espalhamos pela Terra, e com a
Nova Fórmula Miniaturizante Nyf um-ponto-quatro, vamos transformar os
humanos em Nyfs como nós, descoloridos e todos com a mesma cara.
Vamos repovoar este planeta com a nossa interessante espécie! — exclamou
o inventor-chefe, cheio de orgulho.
— O que são Agentes Nyf?
— São humanos que estão do nosso lado, que se encarregam de
miniaturizar outros humanos, preparando assim o caminho para a
aplicação da nossa Fórmula — o inventor-chefe sorriu satisfeito.
32 O SEGUNDO TESTE

— Chega de conversa mole e vamos ao primeiro teste, sr. Nyftox —


interrompeu a bolota-chefe.
— Agora vamos ao segundo teste, sr. Nyfbox — corrigiu o inventor-
chefe, com um brilho nos olhos redondinhos. — Acabo de voltar de
Nyfópolis, duzentos nyfômetros daqui, onde já fiz o primeiro teste, sr.
Nyfbox... E os resultados foram excelentes!
— Nyf! Nyf! Hurra! — gritaram as bolotas da plateia.
— Silêncio, Nyfs! — esbravejou o inventor-chefe. — Com todo esse
barulho, podemos espantar o humano que miniaturizei e que a esta altura
já deve estar por perto...
Eu me recusava a acreditar naquelas idiotices mas, por via das
dúvidas, decidi que iria embora dali o mais rápido possível. Vou ficar mais
um pouquinho, só até saber o que é essa tal de "Fórmula Miniaturizante Nyf
um-ponto-quatro ”...
— Enquanto aguardamos a chegada do humano, vamos ao segundo
teste, usando para isto o Hexápode tríptico que capturamos para esse fim.
— O inventor-chefe estendeu uma espécie de tentáculo comprido até tocar
na cabeça da formiga. E começou a recitar, com voz solene.
— Fungo ou inseto, humano ou camelo, quer tenhas asas, quer tenhas
pelos... qualquer que seja teu nome ou teu tamanho, eu te ordeno que te
reduzas e te curves e te entregues mansamente aos meus Poderes
Miniaturizantes! Que o sinal de menos que agora inscrevo no teu semblante
dilua para sempre o teu amor próprio e as tuas belas cores internas! Em
nome da Grande Missão Nyf Universal, te conjuro a tornar-se um Nyf!
Meus neurônios começaram a fervilhar e a soltar fumacinha:
conforme ele repetia aquela fórmula macabra, a formiga chorava e ia
ficando cada vez menor. Ao mesmo tempo, aquela nuvem de farelinhos
pardos começou a se desmanchar e a cair sobre o corpo dela.
— Ninguém vai me transformar em Nyf! — gritei dentro de mim
mesmo, tremendo inteiro. Foi então que um pensamento sensacional
começou a piscar no meu cérebro, me deixando animado: ISSO TUDO SÓ
PODE SER UM PESADELO!...
Sem largar da corda, fechei os olhos e comecei a sacudir
violentamente o corpo de um lado para o outro. Eu já podia me ver
acordando ofegante, o pijama empapado de suor, meus olhos focalizando
aos poucos os objetos tranquilizadores que fazem parte do meu quarto —
como tantas vezes já tinha me acontecido.
33 NÃO SOU UM INSETO

— Sem penas, sem escamas... pousado lá no alto... — gelei, quando


ouvi aquela voz de mosquito, que vinha bem debaixo de onde eu estava.
— Está passando mal, inseto?... — Fiquei desesperado. Ouvir aquela
voz de mosquito significava que eu não estava tendo um pesadelo. E que
aqueles Nyfs idiotas tinham me descoberto. Também odiei a pergunta. Só
me faltava ter criado dois pares de asinhas transparentes e sair voando por
ali feito uma libélula...
Dei uma conferida rápida no que restava de mim. Felizmente estava
tudo lá, a única diferença era que os farelinhos que a bolota cuspia para
cima grudavam na minha pele, por causa do suor nervoso que me brotava
pelo corpo.
Lancei sobre o Nyf um olhar de 4.000 megawatts e berrei: — NÃO
SOU UM INSETO! E VÁ PRO INFERNO!
— Se você não é um inseto, então só poder ser... o humano
miniaturizado!
Antes que eu pudesse consertar a besteira que tinha feito, o Nyf
enroscou um dos seus tentáculos no meu pescoço e, com um tranco, me
arrancou de cima da corda, fazendo com que eu me estatelasse no chão,
aos pés dele.
— O inventor-chefe vai ficar muito contente com a sua chegada! — o
desgraçado sorria, satisfeito.
Uma raiva primitiva, incontrolável, ferveu o meu sangue. Eu queria
ter barras de ferro no lugar dos braços e das pernas, para socar e chutar
aquele bolão cretino até que ele virasse uma poeirinha junto com seus
filhotes nojentos.
Agora vamos entrando, senão a sopa esfria... — ele disse, me
empurrando com a barriga.
Então pus em prática o meu plano de emergência: olhei rápido para
um ponto acima e atrás dele, arregalei os olhos de susto e gritei:
“NÃÃÃOU”.
Enquanto ele se virava para olhar o que era, concentrei toda a minha
raiva no pé direito e dei-lhe um chutaço de baixo para cima.
Não acreditei no que vi: aquele corpo que antes parecia tão compacto
se esfacelou feito uma batata frita sob o impacto do meu chute. E enquanto
os pedaços navegavam no ar, corri feito um louco para longe dali, e só
parei quando minhas pernas pediram água. O coração aos pulos, sentei no
chão e comecei a pensar naquela pobre formiga.
Preciso voltar lá e ver se consigo ajudá-la — decidi, quando meu
coração parou de pular. Eu já sabia a força que tinha, pelo menos no pé
direito.
34 RISO LÍQUIDO

Corri de volta para a casa de botão. Em vez de subir pela corda,


decidi entrar direto. Me sentia cheio de coragem, capaz de enfrentar
qualquer risco.
Levei um choque quando percebi que o cenário estava todo mudado.
Não vi mais a formiga, nem o inventor-chefe, nem os cinquenta Nyfs todos
com a mesma cara.
Umas nuvens de guache balançavam na penumbra, presas por fios
transparentes. Abaixo delas, sentado num balanço de parque parado, um
garoto com o boné virado ao contrário gritava: “Quem me empurra?”.
Meu coração começou a bater forte e rápido.
— Cabrum!! — gritei várias vezes, louco de alegria ao ver o meu
melhor amigo, meu amigão do peito, ali tão perto. Mas ele não deu o menor
sinal de ter me ouvido, nem mexeu a cabeça, nem nada.
Pensei em correr até onde ele estava e lhe dar o maior abraço do
mundo. Mas percebi que entre o lugar onde eu estava e o lugar onde ele
estava havia um enorme abismo de ar.
Não tive outra alternativa a não ser ficar olhando para ele de longe,
com um sorriso carregado da maior amizade que pode existir entre duas
pessoas. E gritei: “Força, Cabrum!”.
Não sei se ele escutou meu último grito, ou se simplesmente desistiu
de esperar que alguém fosse empurrá-lo. Logo em seguida, ele começou a
encolher e esticar as pernas com força, tentando impulsionar o balanço.
Não deu dois segundos e o balanço começou a ir para frente e para
trás, cada vez mais rápido, até atingir uma altura impressionante.
Meu sorriso começou a se fechar de preocupação, parecia que ele ia
tentar um giro de 360 graus. Mas ele não fez isso, só começou a rir feito
doido lá em cima e depois relaxou as pernas, deixando que o balanço
parasse aos poucos.
E quando ele gritou “UAUU”, de pé sobre o retângulo de madeira, vi
que aquele não era mais o Cabrum, era eu, um pouco mais velho, com um
boné virado ao contrário.
Me ver daquele jeito fez com que meus olhos se enchessem de riso
líquido. Então centenas de vaga-lumes foram se aproximando das nuvens
de guache e cavando pequenos buracos que começaram a piscar verde na
penumbra.
35 TROCA DE PELE

Ainda estava rindo quando comecei a me sentir esquisito, uma


zonzeira branca esfumaçando as minhas ideias, meu corpo oscilando de
leve, como se eu estivesse num elevador supersônico.
Cacos de palavras quicaram no meu cérebro sem fazer sentido,
“ninho”, “assa”, “horta”.
Pensei ainda estar dentro da casa de botão quando meus olhos
começaram a refazer as formas, as cores e a lua cheia do pôster do Klee
que tenho no meu quarto.
Então ouvi claramente as palavras: “Plininho, abra essa porta!”, o
vozeirão do Dênis sacudiu os meus neurônios.
Olhei à minha volta: estava deitado no chão do meu quarto, de volta
ao tamanho normal.
— Já vou! — gritei, entre espirros, meu nariz abrigando o baile dos
ácaros que pululavam no carpete.
Achei engraçado ver as minhas roupas ali deitadas, a camiseta para
cima das calças, as pernas vazias pendendo para fora da cama. Como uma
pele de cobra sem a cobra dentro.
Enquanto me vestia, gritei para o Dênis ir embora, prometendo que
voltaria para a sala em dois segundos.
Meus pés entraram apertados nos sapatos. Devem estar inchados,
nunca andei tanto como esta noite... — pensei, penteando os cabelos com
as mãos.
Recolhi do chão a superlupa, recoloquei-a na embalagem e guardei-a
na estante. Então abri a porta.
— Plínio, meu filho!! O que aconteceu com você?! — Por que se
trancou no quarto? — Você está bem? — Íamos arrombar a porta!... — Você
está bem mesmo?? — Todo mundo está preocupado com você lá na sala!...
— meus pais e o Dênis falavam ao mesmo tempo, me olhando com olhos
graves.
— Estou ótimo — garanti, emocionado. E dei um abraço forte em cada
um deles. — Está tudo bem, eu só me senti mal e acabei adormecendo... —
afirmei, sem ter certeza de que era isso mesmo o que tinha me acontecido.
Prometi que explicaria tudo com calma depois, primeiro precisava acertar
umas contas, com urgência.
— Vista a sua jaqueta, Plínio, está frio — adorei ouvir a velha
recomendação.
— Acho que não me serve mais — expliquei, e corri para a sala.
tremendamente aliviado por estar de volta à vida normal.
36 AGENTE NYF

Meus amigos estavam amontoados num canto da sala, com cara de


enterro.
— Cadê o André? — perguntei, depois de repetir trinta vezes que
estava tudo bem.
— Acabou de sair — explicou a Camilla, com mãos nervosas.
— Pra que lado ele mora? — perguntei, impaciente.
— Pro lado da estação do metrô... — informou o Lucas.
— Ele te fez alguma coisa? Quer que a gente vá junto? — meus
amigos perguntaram, me estranhando.
— Não, vocês todos ficam aqui. Por favor, ninguém vai embora. A
festa ainda nem começou, eu volto num minuto! — gritei, e sai voando em
direção à rua.
Corri duas quadras até encontrar o André.
— Preciso falar com você — gritei. Ele se virou, surpreso.
— Já sei... O baixinho veio choramingar que eu estraguei a festinha
babaquinha dele.
— Não vim aqui choramingar nada! Vim aqui para te dar isto — e
explodi minha mão fechada contra o estômago dele.
Desprevenido, o André perdeu o equilíbrio e caiu sentado no chão,
de onde me olhou, desacreditando.
— Em troca das tuas chantagens, seu Agente Nyf filho-da-puta! —
berrei.
— Não acredito... O baixinho está pensando que é gente... — ele
estava se levantando.
Me imaginei todo destroçado, com as pernas e os braços engessados
e pendurados por carretilhas, numa cama de hospital... E meu pai me
olhando e balançando a cabeça e dizendo “você só se mete em encrencas...”
Mas encarei a briga: levei uma dúzia de socos em tudo quanto foi
lugar... Mas também dei uma dúzia de socos no Perdigoto. E quando tomei
o décimo terceiro, caí feito um saco de batatas no meio da rua.
Estranhei o André não ter pulado de novo em cima de mim. Então vi
que o Dênis se encarregava de retribuir o décimo terceiro soco que eu tinha
levado. Quando o André caiu feito um saco de batatas no chão, o Dênis me
carregou dali.
37 COISA COM COISA

— Por que você foi atrás de mim? — perguntei para o Dênis, quando
estávamos voltando.
— Porque achei estranho você ter passado mal daquele jeito e depois
sair correndo feito um doido atrás do grandão...
— Eu precisava acertar umas contas com ele.
— E por que você não me chamou?
Achei gozada a pergunta. Do jeito que ele falou, parecia que nós
éramos dois irmãos inseparáveis, que ele estava sempre me ajudando e me
salvando de confusões e coisa e tal.
— Era assunto meu — resumi.
— Você foi um louco, aquele grandão podia ter acabado com você! —
ele parecia preocupado de verdade.
— O Perdigoto já estava acabando comigo — expliquei. — Vivia me
humilhando, me chantageando...
— Por que você não disse antes?
— Ora, Dênis! Você nunca me deu a mínima!... Fora aqueles dias de
“Tá limpo”, você sempre me ignorou!
— Eu fui lá te ajudar com o grandão... não fui? — ele engoliu grosso.
— É, você foi lá... Foi muito legal você ter ido lá e coisa e tal. Mas
você passou a vida inteira me espezinhando, me proibindo de entrar no teu
quarto, atirando tocos de giz na minha orelha...
— Era tudo brincadeira — ele tentou se safar —, pensei que você
achasse engraçado...
— Ninguém acha engraçado ser espezinhado o tempo todo pelo
próprio irmão... — o caroço na minha garganta estava querendo crescer.
— Eu não sabia que você levava a sério...
— Você não sabe nada de mim, porque nunca se interessou em saber.
Só se interessou em ficar o tempo todo me diminuindo. Como se fosse um
Agente Nyf! — o caroço explodiu.
— Plininho, você não está legal...
— Não foi nada fácil ficar lá, minúsculo, pelado, correndo o risco de
virar um Nyf...
— Lá, onde?
— No ombro da minha jaqueta, ora!
— Plininho, você bebeu?!
Quando ele falou aquilo, lembrei do copo que estava no parapeito da
janela da cozinha, do líquido com gosto de água de chuva que virei goela
abaixo, antes de tudo acontecer.
— Só bebi um troço que estava num copo, na janela da cozinha. Não
sei o que era aquilo...
Precisamos descobrir, urgente. Você não está falando coisa com
coisa.
— Estou falando coisa com coisa, sim! — garanti, olhando firme nos
olhos dele. — Só que é tudo muito complicado para eu te explicar agora. Já
disse que depois te conto tudo com calma.
— Acho bom. Eu fiquei apavorado com aquela coisa de você se
trancar no quarto, no meio da tua festa de aniversário. Achei que tinha te
acontecido alguma coisa grave. Eu ia arrombar a porta, quando você
respondeu.
Lembrei daquilo que eu tinha pensado durante a minha viagem
maluca. Daquela certeza que me deu de repente, de que o Dênis gostava de
mim como eu gostava dele. Daquele jeitão dele, mas gostava.
— Mano, eu... — dei um abraço forte nele. — Eu adoro você, sempre
te achei o máximo... Obrigado por ter ido me dar uma força.
— Foi de irmão para irmão... — ele também estava emocionado.
Quando começamos a andar novamente, me passou pela cabeça que
aquela noite, que tinha começado pelo avesso, estava ficando perfeita. Eu
tinha conseguido me livrar dos Nyfs. Meu amor-próprio estava novinho em
folha depois da briga com o Agente Andryf. O gesto de solidariedade do
Dênis, o papo que acabávamos de ter. pareciam abrir caminho para muitos
dias de “Tá limpo”, ou talvez, para um “Tá limpo” definitivo. E aquela
viagem maluca até que tinha sido divertida...
— Hoje é meu aniversário e a vida é maravilhosa! — gritei, e só não
saí correndo e saltando os sacos de lixo que estavam na calçada porque a
perna me doía.
38 OUTRAS PRIORIDADES

— Por que você brigou com o André? — a Camilla quis saber, quando
a convidei para dançar. Eu já estava me sentindo melhor, tinha tomado um
banho quente e trocado de roupa.
— Eu precisava acertar umas contas com ele.
Por minha causa? — ela disfarçou uma ponta de vaidade por trás do
olhar de preocupação.
Por minha causa. Por auto-respeito — afirmei.
Como assim? — ela me olhou surpresa.
— Porque ele se achava o bonzão, estava sempre me humilhando e
me chantageando. E cuspindo Nyfs em cima de mim... Hoje mesmo, ele me
chantageou para poder participar da festa. Ameaçou contar para todo
mundo uma coisa chata que me aconteceu e que só ele sabia. Engoli a
chantagem, com medo que você... que o pessoal da escola fosse rir de mim.
Agora não tenho mais medo disso. Já sei rir das minhas próprias
trapalhadas.
— E por que você sumiu no começo da festa?
— Eu me senti mal e acabei adormecendo — resumi. Em outra
situação, até contaria para ela tudo o que me aconteceu. Mas naquela hora
eu tinha outras prioridades: me concentrar para não pisar nos pés dela,
descobrir o que ela sentia por mim de verdade. E sentir minhas mãos
tocando o corpo dela pela primeira vez.
— Plínio, aquela pergunta que você me fez antes de eu ir dançar com
o André... Você descobriu sobre os telefonemas, não descobriu?
— Sobre os telefonemas? — repeti, tentando pensar rápido.
— Sobre a Associação de Proteção aos Baixinhos... — ela começou a
rir.
— Era você?!...
— Era... quer dizer, não... Deixa eu te explicar... Eu liguei uma vez,
sem saber de nada, liguei só para bater papo. A Pat estava comigo,
estávamos estudando juntas. Então falamos sobre você, eu falei sobre
você... — ela ficou vermelha. — Ela disse que tinha o seu telefone, que
vocês já tinham feito grupo juntos... Então ela me convenceu a ligar para
você, falou que você era supertímido. Eu também sou supertímida, por
telefone seria mais fácil ... Então você atendeu daquele jeito engraçado e eu
comecei a rir e passei o telefone para ela.
Eu estava adorando ouvir tudo aquilo. Foi aquela vez em que
estranhei por que não perguntaram pelo Dênis... — Estou lembrando.
Depois vocês ligaram de novo, falando que era da Associação de Proteção
aos Baixinhos.
— É. Foi ideia da Pat, ela é mais corajosa. Foi ela quem ligou nas
outras vezes. Eu ficava ouvindo pela extensão, morrendo de rir das coisas
que vocês falavam.
Eu vibrava por dentro. Estava começando a ter algumas respostas
para as minhas dúvidas.
39 A PESSOA MAIS INTERESSANTE DO PLANETA

— E o que você queria conversar comigo quando ligou a primeira


vez? — perguntei.
— Ah, eu só queria bater papo... — a Camilla ficou vermelha de novo.
— Eu achava você superlegal, na escola a gente quase não conversava...
— Eu tentei conversar hoje, quando sentei perto de você.
— Eu sei. Mas você ficou quieto um tempão, e eu também não achava
nada para dizer... Começou a me dar um nervoso... Então resolvi ir dançar
com André, estava me sentindo a maior babaca ali perto de você sem
conseguir falar nada.
Caí na risada. A mesma coisa que tinha acontecido comigo tinha
acontecido com ela. — Então você não estava a fim do Perdigoto?
— Não. Até acho o André um cara legal, apesar de ser encrenqueiro...
Acho que ele é assim porque levou muitas pancadas na vida...
— Mas ele não pode chegar e querer me destruir só porque a vida
ficou dando safanões nele... — desabafei. E fui atrás da resposta que eu
queria: — Quando você foi dançar com ele, eu pensei...
— Fui dançar porque estava me sentindo uma idiota perto de você,
sem ter o que dizer. Ela ficou vermelha de novo. — A gente nem precisa
falar com o André, ele fala o tempo todo...
Eu mal podia acreditar no que ouvia. Estava começando a me sentir o
cara mais interessante do planeta. E estava ficando cada vez mais
apaixonado.
Continua, que eu estou adorando... — falei.
E quando todo mundo começou a falar que você tinha sumido... Eu
fiquei com a maior raiva de mim mesma, achei que tinha te magoado, te
deixando lá sentado e indo dançar com o André.
— Eu morri de ciúmes. E fiquei chateado. Mas já estava chateado
antes, com uma porção de coisas. Acho que estava deixando os Nyfs
tomarem conta da minha cabeça...
— Deixando quem tomar conta da tua cabeça? — ela franziu o nariz
de estranheza.
— Nada, não. Já passou. Agora estou feliz pra caramba, aqui,
conversando e danç... tentando dançar com você. E o gozado é que estamos
conversando há um tempão. Acho que nunca mais vamos ter falta de
assunto.
— Acho que não — ela riu.
— E se isso acontecer, prometo que leio para você todos os volumes
da Enciclopédia Britânica, um de cada vez. Só para você não ter que ir
procurar alguém que fale sozinho.
A emoção fazia um looping no meu peito, eu estava diante da pessoa
mais interessante do planeta.
— Vamos até a varanda? — gaguejei.
40 SOB O CÉU DA VARANDA

— Pena que não é noite de lua cheia — eu disse.


— Por quê? Você tinha planos de virar lobisomem?
— Eu tinha vários planos... — comecei, tentando controlar a emoção.
— O primeiro, era que uma baita lua cheia nos deixasse prateados aqui na
varanda.
— Eu não sabia que você era tão romântico... — ela sorriu. Toquei de
leve no rosto dela e respondi que nem eu sabia. E que se ela topasse, a
partir daquele momento a gente poderia descobrir juntos uma porção de
coisas que ainda não sabíamos um do outro e sobre a gente mesmo.
— Meu outro plano... era te dizer que nunca vou me esquecer desta
nossa conversa. Nem do perfume que você está usando... — e a minha voz
começou a sumir.
— Eu também tenho um plano... — ela murmurou. E a mesma gota de
fogo e ternura que havia nos meus olhos brilhou nos olhos dela. E então
aqueles lábios que eu adorava tocaram os meus, e nós dois ficamos
incandescentes sob o céu da varanda.
41 PAPA-MOSCAS NÃO É MAIS AQUELE

Quando voltamos para a sala, minha mãe me avisou que os pais da


Camilla estavam esperando no carro. Já era supertarde. Nos despedimos
com pena, combinando de nos telefonar no dia seguinte.
— O, cara, onde você se meteu?! — o Cabrum chegou em seguida.
— Eu é que pergunto, seu canista! Por que você só chegou agora?
— Estou vindo aqui pela segunda vez, o Imperador não te falou?
— Não vamos mais chamá-lo de Imperador, tá? Depois eu te explico
melhor.
— Tá legal. Mas ele não te falou que eu estive aqui?
— Não deu tempo. Aconteceram muitas coisas hoje...
— Comigo também, Plínio, foi uma noite sensacional.
— Me conta tudo.
— Meus pais foram a um casamento, eu não quis ir por causa do teu
aniversário.
— E onde você se meteu, então? — estranhei.
— Meu pai me pediu para levar um pacote na casa do seu Berto antes
de vir para cá. Quando cheguei lá, o seu Berto não estava, só a filha dele, a
Lina. Você conhece a Lina?
— Conheço. Às vezes ela fica ajudando o seu Berto na quitanda.
— Ela é uma gatinha — os olhos dele sorriam.
— Ela é superlegal. E você ficou entregando o pacote até agora? —
provoquei.
— Ela estava assustada, pegou o pacote pela janelinha sem abrir a
porta e me contou que tinha entrado um ladrão numa casa ali perto e tinha
fugido. Ela estava sozinha, morrendo de medo. E perguntou se eu não podia
ficar um pouco lá, fazendo companhia, até os pais dela chegarem. Eu disse
que tudo bem e ela me pediu para entrar e nós ficamos conversando e
assistindo TV.
— Quer dizer que desta vez a garota chegou perto e você não pulou
para longe?
— É. Papa-moscas não é mais aquele... — ele riu. — Eu estava super
sem graça no começo, não sabia o que conversar, eu nem a conhecia.
— Sei como é.
— Pensei em vir te chamar, para você ir me dar uma força. Mas era
teu aniversário, você não ia sair da tua festa para me dar uma força.
— Você que pensa.
— O quê?
— Nada. E daí?
— E daí que aos poucos o papo foi rolando, e quando os pais dela
chegaram, ela insistiu para eu ficar mais um pouco. Então falei que viria até
aqui te explicar e depois voltaria para a casa dela. Por falar nisso, onde
você estava?
— Depois eu te conto. Primeiro acaba de me contar o que te
aconteceu. Nos mínimos detalhes — pedi.
— Eu vim aqui e você não estava na sala. O Dênis me falou que você
devia estar jogando bola com os teus primos.
— E depois?
— Fui até o quintal, o Pipo e o Dinho disseram que você só tinha
passado por lá e tinha esnobado eles.
— E daí?
— Daí que eu fui até o teu quarto. A porta estava trancada, te chamei
e você não respondeu. Onde você se escondeu, afinal?
Depois eu conto. Continua.
Eu estava interessadíssimo naquela história. Por um lado, eu achava
que aquela viagem maluca sobre a minha jaqueta tinha sido real. Mas
também não poderia jurar que não tivesse sido um pesadelo super-real...
Talvez o Cabrum me desse alguma pista sobre o que tinha me acontecido
de verdade.
42 UMA PIZZA QUENTINHA

— Então fui até a cozinha — ele continuou. — Se você não estava na


sala, nem no quintal, nem no teu quarto, só podia estar na cozinha.
— Vai, continua! — implorei
— Não tinha ninguém na cozinha. Só uma pizza quentinha em cima
da mesa. Então peguei um pedaço e pensei que você poderia estar no
banheiro. A porta estava fechada, mas ninguém respondeu quando eu
perguntei quem estava lá.
— E depois?
— Depois eu pedi para o Dênis te avisar que eu voltaria mais tarde.
— E aí você foi embora? — desanimei.
— Resolvi dar uma espiada na janela do teu quarto. Estava só
encostada, o abajur estava aceso.
— Você é demais! — a esperança de ter uma pista me reacendeu. — E
depois?
— Olhei para dentro e vi umas roupas em cima da cama.
— E o que mais?
— Tinha uma lupona jogada no chão.
— E...? — a ansiedade estava me matando.
— Achei tudo aquilo esquisito. A porta do quarto trancada... Então
pulei lá para dentro.
— E eu estava lá? — me traí.
— Que pergunta mais besta!
— Cabrum, eu quero que você conte tudo, porque aconteceu uma
coisa esquisita. Preciso que você me conte tudinho.
— Essa é boa... Se você estivesse lá, você saberia que estava lá!
— Eu sei que parece esquisito. Depois te conto tudo. Continua. O que
mais você viu no meu quarto?
— Mais nada, ora.
— E o quê você fez depois?
— Liguei o teu som um pouco, enquanto acabava de comer a minha
pizza.
— Você ligou o som! — vibrei. — Que música estava tocando?
— Aquela que a gente ouvia sempre quando você comprou o disco.
Aquela de orquestra, que te deixava arrepiado. Não lembro o nome.
— Assim falou Zaratustra.
— Essa.
E por acaso você chegou perto da minha jaqueta com a tua pizza? —
eu tremia de curiosidade.
— Ah... Eu ia te contar. Encostei sem querer a pizza na tua jaqueta.
Dei umas assopradas, mas não saiu. Depois eu levo ela no tintureiro para
você.
— Não precisa. Foi maravilhoso você ter encostado a pizza na minha
jaqueta... Só não gostei quando você assoprou. Me fez voar feito um bólido.
— O quê??
— Nada — cortei, rindo. — Só queria te dizer uma coisa, Cabrum: nós
somos muito mais amigos do que qualquer um de nós poderia imaginar...
Eu adoro você, amigão!
— Plínio, como você está esquisito!
— E na lupa, você mexeu?
— Dei só uma olhada. E apertei um daqueles botões. Pra que servem
aqueles botões?
— O que aconteceu quando você apertou o botão?
Eu não estava olhando nada em especial. Mas logo que apertei o
botão, vi uma coisa se mexendo no ombro da tua jaqueta.
— Quem era?
— Como assim “quem era”?! Era só uma formigona.
Ele disse "uma formigona’’... Então ela também conseguiu escapar!
Você fez o que com ela?
— Não fiz nada com ela, ora... Achei que ela estava subindo na tua
jaqueta por causa da meleca que eu tinha feito com a pizza.
— E ela estava bem?
— Você tem certeza de que você está bem?!...
— Me fala! Ela estava bem? Não tinha mais ninguém perto dela? Mais
nada?
— Ela estava ótima... — o Cabrum riu, me olhando enviezado. — E
não tinha mais ninguém com ela.
— E o que mais aconteceu com você esta noite? — perguntei,
lembrando do balanço parado, o Cabrum perguntando “Quem me
empurra?”.
— Já te contei o que aconteceu comigo. Só ainda não te contei do
beijo...
— Uauu...
— Quando os pais da Lina chegaram, eu fiquei em dúvida se queria
vir mesmo à tua festa. Não é por nada não, Plínio, você sempre vai ser o
meu amigo do peito... — ele estava cheio de dedos. — É que naquela hora
me deu uma vontade de ficar ali conversando com a Lina, o papo estava
rolando, ela...
— Tinha virado a pessoa mais importante do planeta — sugeri.
— E... Pela primeira vez me senti à vontade conversando com uma
garota. O papo estava rolando fácil. Então começou a me dar uma vontade
de dar um beijo nela, mas eu tinha medo que ela não topasse, que ela
descobrisse que eu não tinha prática nessas coisas, sei lá... Aí uma voz
dentro de mim começou a repetir: “Força, Cabrum!”. Então tive uma ideia,
cheguei bem perto do rosto dela e cochichei o número do meu telefone. E
aproveitei que estava bem perto e dei o beijo.
— E ela?
— Também me beijou, ora! — ele estava com o peito inchado.
— Puxa, amigão, estou superfeliz por você!
43 PROBLEMA DOS TREZE

Eu e meu pai tomamos café da manhã juntos no dia seguinte.


— Pai, eu queria te perguntar uma coisa: você não se importa se eu
não ficar com a lupa que você ganhou do seu chefe?
— Você não gostou dela?
— No começo gostei... Mas, se você não ficar chateado, prefiro não
ficar com ela.
— Na verdade, até agora não entendi por que meu chefe me deu esse
presente... Deu o presente e me despediu em seguida...
— Te despediu?! — gelei.
— Eu me meti numa encrenca, filho... — nunca uma frase soou tão
estranha na boca do meu pai.
Fiquei mudo. A coisa era séria. Por isso ele e minha mãe não estavam
com cara de aniversário durante a festa!
— Por que eles fizeram isso com você, pai?!
— Tive uma briga com o meu chefe...
— Só por causa de uma briga?! Você sempre se matou de trabalhar
para eles, até em casa!
— Foi uma briga feia, filho. Já fazia muito tempo que eu estava
insatisfeito nesse emprego. Dessa vez perdi as estribeiras, falei tudo o que
pensava. Meu chefe estava querendo fazer uns cortes no quadro de pessoal,
por causa da crise. Aproveitou a briga e me despediu.
— E qual foi o motivo da briga?
— O motivo da briga foi a falta de respeito, filho. Meu chefe, ou
melhor, meu ex-chefe, pensa que autoridade se consegue na marra, com
berros e ameaças. Que para se impor, precisa ficar gritando e humilhando
todo mundo...
— Ele é um Agente Nyf.
— O quê?
— É... um jeito de dizer, pai: um cara que não tem respeito pelos
outros, que fica querendo que as pessoas se curvem e se transformem em
um monte de Nyfs todos com a mesma cara...
Eu preferia não ter feito isso... Mas não aguentava mais...
— Sei como é, pai. — Tentei ser solidário, mas ele estava virado para
dentro, não parecia prestar atenção ao que eu dizia.
— Acho que vai ser bom para você — tentei de novo.
— Obrigado pela força, filho. Mas eu não sei... Os tempos estão
difíceis, não sei se vai ser fácil arranjar outro emprego.
— Pai, você vai sair dessa, você vai ver. Eu tenho a maior experiência
em me meter em encrencas. Você vai ficar chateado um tempo, depois você
dá uma baita gargalhada, vira uma cambalhota e começa de novo...
Sem falar nada, ele me deu um beijo na testa e saiu da cozinha.
Fiquei superfrustrado. E comecei a achar que aquele ia ser um dos meus
problemas dos treze... Você sabe, as pessoas acharem que você já é grande
para arrastar móvel, carregar bujâo de gás e coisa e tal, mas pequeno
demais para ter alguma ideia “adulta”...
44 CONVERSA ENTRE IRMÃOS

— Dênis, eu preciso ter um papo com você — pedi, depois da


conversa com o meu pai.
— Vai falando.
— Queria continuar aquela conversa que nós tivemos depois da briga
com o Perdigoto.
— Vai falando.
— Antes do meu aniversário, eu andava com a cabeça superconfusa,
me sentindo uma droga. Eu estava gostando da Camilla, não sabia por onde
começar... você sempre fez o maior sucesso com as garotas.
— Quem disse?
— Ora, e aquelas oitocentas namoradas que te telefonam todo dia?
— Não são oitocentas. E eu não tenho namorada. — Ele estava sério.
— Não?! — caí das nuvens. Comecei a pensar que eu também não
sabia nada sobre ele...
— Eu saio com algumas garotas... Mas a garota que eu quero namorar
até agora não quis nada comigo. — Além do mais, se contar as garotas que
conheço não dá cinquenta, quanto mais oitocentas. E as que me telefonam
não chegam a dez.
Eu tinha perdido o rebolado. O Dênis gostava de uma garota que não
queria nada com ele... Se ele mesmo não tivesse me dito, eu não ia acreditar
nisso nunca.
— Oitocentas é modo de falar... — me afinei. — Mas eu estou te
falando tudo isso porque queria te pedir desculpas. Eu...
— É, eu sei que você também não é nenhum santo. Você inventou
aquele negócio das frases no telefone para me sacanear.
Engoli grosso. — Eu... eu estava... com inveja de você. Sempre te
achei o máximo. Mas... — fiquei pisando em ovos. Depois criei coragem e
confessei: — Quero te pedir desculpas também por outra coisa que eu fiz,
que você nem sabe. Falei para uma garota que estava na festa que você era
casado.
— Você falou o quê?! — graças a Deus, ele caiu na maior gargalhada.
— Também não vou mais te chamar de “Imperador”. E quero te pedir
para não me chamar mais de “Caspa”. Acho que foi por causa desse
apelido, e também por causa das coisas que o Perdigoto me fazia, que eu
quase virei um Nyf...
— O quê?
Então contei para o meu irmão tudo o que tinha me acontecido
durante a viagem pelo ombro da minha jaqueta.
45 LIVE AND LET LIVE

Já faz seis meses que minha agenda tem estado lotada. Todos os dias
eu chego da escola, almoço e vou levar meus clientes para passear. Não
cobro caro, eu adoro cachorros.
Tive essa ideia logo depois que o meu pai ficou desempregado. Fiz
uns folhetos de propaganda e distribuí no bairro, me oferecendo para levar
cachorros para passear.
Uma velhinha ligou, me contratando. Ela mora sozinha e tem três
cachorros. Logo outras pessoas do bairro ficaram sabendo da coisa e me
contrataram também.
A procura foi tão grande, que o Cabrum e os garotos que vendiam
mentex no farol também entraram no negócio.
Meu pai e minha mãe agora estão bem. Eles ficaram deprimidos por
um tempo, os dois mandando currículos para tudo quanto era lado sem
conseguir resposta. Eu e o Dênis estávamos superpreocupados.
Uma tarde, entramos na sala e flagramos nossos pais virando uma
cambalhota no tapete da sala. Primeiro ficamos assustados, achando que
eles tinham pirado. Depois vimos que estavam animados, rindo e fazendo
planos. Tinham decidido vender o carro e um terreno, juntar com o
dinheiro do fundo de garantia e abrir uma lavanderia. Mas não de fraldas
descartáveis.
Quanto ao meu relacionamento com o Dênis, não vou dizer que ficou
perfeito. Nos últimos meses a placa que mais tem aparecido no cartaz é
“Live and Let Live”. Intercalada de muitos “Tá limpo”. Acho que está bom
demais. O importante é que a gente agora se respeita. Depois que contei
para ele sobre a viagem que fiz pelo ombro da minha jaqueta, ele só me
chama de mentiroso de vez em quando.
FIM