Anda di halaman 1dari 114

Nota

dos coordenadores

Ao tomar a iniciativa de coordenar e sistematizar os pensamentos de Millôr


Fernandes neste Livro Vermelho reagimos apenas às solicitações que nos
chegaram de todos os setores da vida brasileira, solicitações essas que
constituem uma demonstração inequívoca da influência das palavras e das idéias
do Autor sobre as mentes e os corações de, no mínimo, duas gerações de leitores
nacionais e estrangeiros.
O trabalho chegou a propor-se impossível dada a grande variedade de
fontes de consulta nem sempre de fácil acesso, tendo-se até de recorrer, por
vezes, a métodos de escuta reconhecidamente reprováveis, mas aqui plenamente
justificados diante da importância da missão a cumprir.
O documento aí está, agora, pronto para ser considerado livro de cabeceira
de políticos, tecnocratas, burocratas, primatas e astronautas, estudantes, livres-
pensadores e sectários de todas as correntes. Tal é a importância deste
documento que – disso estamos certos – muitos irão compará-lo a Common
Sense de Tom Paine, Uncle’s Tom Cabin de Harriet, Beecher Stowe, Manifesto
do Partido Comunista de Marx e Engels, Mein Kampft de Adolf Hitler e
Citações do presidente Mao Tsé-tung do próprio, obras cujo traço comum é o de
terem servido para inspirar, persuadir, excitar e conduzir grandes massas da
humanidade.
Para Millôr, entretanto, não há sabedoria, conceito (ou preconceito),
definição ou verdade, por mais popular, estabelecida e definitiva que seja, que
não admita reexame e uma nova interpretação. É por esse prisma que Millôr
consegue descobrir novas perspectivas para verdades consumadas (– Diz-me
com quem andas e dir-te-ei quem és – Mas Cristo andou com Judas!).
Assim, este documento que revoluciona todo o pensamento ocidental (e
oriental), é de uma atualidade permanente e extraordinária, é uma fonte na qual
todos deverão embeber-se, é uma leitura recomendada para pessoas inteligentes,
conscienciosas, ponderadas e descomplexadas, é um verdadeiro orgasmo
filosófico que fará estremecer o mundo nas suas bases.
Objetivos

O consenso, na maior parte das atividades públicas, é fundamental à base de


estrutura política. Sem qualidade de liderança não há objetivo, mas sem
número de adeptos ponderável não há o que objetivar. A fragmentação excessiva
de uma filosofia básica faz com que muitos movimentos revolucionários acabem
tendo mais profetas do que seguidores.
OBRAS COMPLETAS, V. II, P. 33

N o trançado da história, o que interessa, afinal,é o resultado. O fim acaba


sempre justificando os meios desde que não esteja demasiado longe – em
sacrifícios e tempo – do início. O futuro não vai saber se faltou massa; o
importante é que o padeiro inventou a rosca.
CONVERSA COM JORGE AMADO, ROMANCISTA. 1967

O s que advogam a nudez total de todo mundo em nome de impurezas


representadas pelo hábito de vestir, devem se recordar de que no princípio
dos princípios todo mundo andava nu e alguém começou a advogar o vestuário
como salvação da humanidade.
DIÁLOGO COM BADEN POWELL, VIOLONISTA. 1967

S obreviver não é apenas um direito, é uma obrigação. Dentro dos mais estritos
limites, sob todas as pressões, até mesmo em face das mais humilhantes
concessões, é fundamental sobreviver. Amanhã é um dia novo, ninguém sabe o
que a história nos reserva, a felicidade pode estar na esquina, a solução a um
passo e, quando você pensa que não pode mais, ainda pode muito. E é melhor ter
mau hálito do que não ter hálito nenhum.
CONVERSA COM WALTER GONÇALVES, ODONTOLOGISTA. 1970

A o ser “descoberta”, uma região é examinada e estudada pelos mais fortes,


que aferem suas possibilidades econômicas e estratégicas. Se as
possibilidades são boas tomam posse da terra, queiram ou não os nativos, e os
mantêm no nível mais baixo possível a fim de que forneçam trabalho e matérias-
primas bem baratos pelos séculos a fora. E até difícil de acreditar mas, quando
foi descoberto, o Brasil era um país brasileiro.
INFORMAÇÃO A ADRIANO E MAGUI, ENGENHEIRO/A ELETRÔNICOS. 1997
U ma atitude de contestação não tem, necessariamente, que ser perigosa e
pode até ser rendosa, pois, não hostilizando os poderosos, mantém viva,
para os oprimidos, a imagem de nossa rebeldia. Como orientação basta ler,
diariamente, editoriais dos grandes jornais brasileiros, editoriais geralmente
magníficos. Não dizem absolutamente nada. Mas são contra.
CONTATO COM ANTÔNIO CALADO, JORNALISTA, TEATRÓLOGO, ROMANCISTA. 1971

N o jogo financeiro, onde está, afinal, mais do que no jogo econômico, a


grande fonte de lucro dos capitalistas, o conhecimento de detalhes técnicos
minuciosos e de uma rapidez e segurança de informação, são fatores definitivos
de sucesso. Mas uma inescrupulosidade hábil e bem orientada é mais eficiente
para auferir lucros do que quaisquer outros fatores, pois, inclusive, prevê, orienta
e participa desses fatores.
CONVERSA COM MAURÍCIO CIBULARES, EX-ASSESSOR DO GEN. JUAREZ TÁVORA, ÀS VÉSPERAS DO CRACK DE 1971

O menino que, no meio da suntuosa festa palaciana, apontou o rei gritando


que ele estava nu, não prestou qualquer benefício à coletividade, pois sua
ação, politicamente sem continuidade, só serviu para irritar e agitar um meio que
passaria melhor sem essa provocação tola, porque sem cobertura. Na ação social
contra o poder constituído os planos têm que ter amplitude e continuidade
visando à cura total dos males do sistema. O pior cego é o que quer ver.
CONVERSA COM OTTO LARA REZENDE, JORNALISTA, ESCRITOR, CAUSEUR. 1967

D iz-se que o macarrão era apenas um canudinho de massa que os chineses


usavam para tomar bebidas. Marco Polo não entendeu o uso, ensinou seus
compatriotas a cozinhar e comer o macarrão e transformou-o em sucesso
culinário definitivo. O importante não é a coisa: é o uso que se faz dela.
PAPO COM MARILIA KRANZ, PINTORA.

O homem atingirá a sabedoria total no dia em que for completamente


marxista – 40% de Groucho, 30% de Chico, 20% de Harpo e 10% de Karl.
CONVERSA COM IVAN LESSA, JORNALISTA, ESCRITOR. 1971

O s problemas devem ser aprofundados e levados sempre um passo adiante


do ponto em que o deixou a geração anterior. Na fábula da raposa e das
uvas você não deve aceitar o final de Esopo, admitindo a frustração da raposa. É
fundamental verificar se as uvas realmente não estavam verdes.
CONVERSA COM PAULA FERNANDES, FILHA. 1972

a contestação cívica como em qualquer desobediência civil não há caminhos pré-


fabricados nem orientação definitiva. A ação é ocasional, o risco total. E só a
N análise constante dos acontecimentos e um aprimoramento dialético podem
fazer triunfar nossas idéias. A linha reta só é o caminho mais curto entre dois
pontos – uma iluminação social e sua concretização – quando o poder está
distraído.
CONVERSA COM MAX NUNES, MÉDICO, HUMORISTA. 1959

T emos que ser realistas e humanos com relação à situação presidiária do país.
Realistas para declarar que possuímos um dos piores sistemas penitenciários
do mundo. Humanos para tentar melhorá-lo A reforma do nosso sistema
carcerário teria efeitos revolucionários. Acredito mesmo que o péssimo estado
de muitas de nossas prisões é o que as impede de serem ocupadas por algumas
pessoas de nossa melhor sociedade.
CONVERSA COM DIDU DE SOUZA CAMPOS (HOMEM DO SOCIETY QUE, COM TEREZA DE SOUZA CAMPOS, FORMOU O
CASAL 20). 1959

A questão de não deixar para amanhã é fundamental. Se você escrever uma


página por dia terminará seu livro em um ano. Se escrever uma linha por
dia talvez termine seu livro em trinta anos. Se você não escrever nem uma
palavra por dia seu trabalho jamais será concluído. Examine bem seus objetivos.
Você já passa da metade da existência e ainda está em Pirapora.
CARTA A UM ESCRITOR. 1956

E preciso lutarmos até por leis menores, como, por exemplo, uma que permita
às pessoas mudarem seus nomes aos 18 ou aos 21 anos. Às vezes as pessoas
têm que carregar, a vida inteira, um nome idiota dado por um pai idiota, apenas
porque a lei idiota não lhe permite o direito de escolha. Outras vezes a pessoa,
por ser idiota, acha seu nome admiravelmente brasileiro (João, por exemplo)
ridículo e prefere um nome brasileiramente ridículo (Washington, por exemplo).
Tem de tudo. Eu, que sempre me antecipei às leis, mudei meu nome de Milton
para Millôr aos 18 anos. E estou pensando em mudá-lo novamente para Bulbo
Raquidiano.
CONVERSA COM ESTERÔNIO VALVULAR DE ANDRADE, CHEFE DOS CONTÍNUOS DA CPI. 1965

N ão respeito nenhum movimento feminino brasileiro que não cuide, em


primeiro lugar, das desgraçadas empregadas domésticas, ainda hoje tratadas
como caso de polícia. Mas acho natural que dêem a elas um quarto sem
banheiro. Pois, como sabe qualquer sociólogo brasileiro, no Brasil só as
granfinas têm xoxota.
CONVERSA COM HERBERTO SALLES, ROMANCISTA. IMORTAL. 1960
A lém das conhecidas ordens jônica, dórica e coríntia, as outras maravilhas da
arquitetura grega também só foram possíveis devido a Ordens Superiores,
oriundas de Quem de Direito, no Século de Ouro, tempo em que havia, na
Grécia, um governo sabiamente forte. Essas ordens motivaram a construção
imediata de monumentos eternos para atraírem turistas dentro de, no máximo,
2.000 anos. Houve alguns protestos quanto à deformação da paisagem e,
também, quanto à má distribuição do PNG (produto nacional grego) assim
desviado para ampliação da Glória Pátria, enquanto o povo era obrigado a uma
poupança obrigatória nas suas 2.840 dracmas mensais.
DOCUMENTO SECRETO, ARQUITETURA. 1973

S ou apenas um jornalista que trabalha para ganhar a vida. Sou melhor do que
a maioria, o que não é difícil, e inferior a muitos, muitos mesmo. Não há
dentro de mim nenhum sentimento de superioridade quanto aos primeiros, nem
de competição quanto aos outros. Minha vida não passa pela competição. Sou
um dos inventores do frescobol – o único esporte com espírito esportivo. Até
hoje ninguém inventou nesse jogo aposta ou ganhadores. Em volta de mim,
amados amigos, também ninguém ganha ou perde. Vive.
DECLARAÇÃO A CHICO-FIM-DE-NOITE, COMPOSITOR DA BOSSA NOVA. NUM FIM DE NOITE EM COPACABANA. 1989
Educacao e deseducacao

A mais importante de todas as educações, aquela em que o Estado deve


investir toda a sua economia e toda a competência disponível, se chama
cuidados pré-natais. Se, como se sabe hoje, a formação da personalidade é
gradativa (e geometricamente menos importante) à proporção que a idade
avança, e que, psiquicamente, quase tudo se forma até os três anos de idade,
então os nove meses pré-natais passam a ser definitivos na vida humana. Em
verdade, uma pessoa não só nasce inteligente mas também nasce culta.
Dependendo da emulsão com que for trazida ao mundo, com quaisquer dados
que lhe sejam oferecidos depois, a criatura fará um produto final extraordinário.
Por isso mesmo é que a filosofia do Women’s Lib, segundo a qual tudo é
condicionamento, e o ser humano um corpo vazio, que o Estado (ou o meio
social, o que vem a dar no mesmo) pode encher com o que bem entender, me
parece a idéia mais perfeitamente totalitária (“fascista”) de que tenho notícia.
Falei e disse.
DISCUSSÃO NO BERÇÁRIO ACALANTO. 1973

A Academia Brasileira de Letras, com aqueles velhinhos metidos em mil


gramatiquices, é um lugar em que se acredita que as pessoas têm gênero,
mas não têm sexo.
CONVERSA COM AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE, ESCRITOR. IMORTAL. 1973

A s crianças, saudavelmente rebeldes, são também bém saudavelmente


egoístas e sádicas. As pessoas que vivem falando da inocência das crianças,
ou têm muito má memória ou, mais provável, já nasceram adultas.
REFLEXÃO COM PAULO CARVALHO, ODONTOLOGISTA. 1992

O s mapas das Geografias, por medidas também econômicas, não devem ter
cores, pois ninguém ignora, hoje, que as cores dos mapas são artificiosas e
inúteis. Quando uma criança cresce pode ter a decepção que tive a primeira vez
que cheguei a Buenos Aires e descobri que a Argentina não era cor-de-laranja.
JANTANDO COM JOSÉ CANOSA MIGUEZ, ARQUITETO. 1998
C omo é que se pode confiar na cultura ocidental se, autoritária na sua
imposição de dogmas místicos e, paradoxalmente, também racionalistas,
com nossas escolas teimando em aferir cultura e conhecimento por meio de
pontos, ainda assim continuamos a chamar o 9º, o 10º, o 11º e o 12º meses do
ano de SETembro, OUTubro, NOVembro e DEZembro?
DIÁLOGO COM JOÃO BETHENCOURT, ESCRITOR, DRAMATURGO. 1967

P ara que só sejam editados livros úteis e os editores não sofram pressões
indevidas, de vaidades menores, os direitos autorais serão pagos pelo autor
ao editor, na proporção das vendas ou não-vendas. O dinheiro assim apurado
deverá ser entregue a uma instituição de deseducação, encarregada de tirar da
cabeça de pessoas, formadas em várias especialidades, as noções erradas de tudo
que aprenderam.
ACERTO COM ZUENIR VENTURA, JORNALISTA, AGITADOR SOCIAL. 1979

O lhar sempre de vários ângulos para a percepção mais exata possível do


acontecimento, na certeza de que tudo é relativo, o que, é óbvio, elimina,
inclusive, a relatividade absoluta. Um sábio chinês, só escrevendo com
caracteres chineses, será sempre analfabeto.
RELATIVIDADE E EINSTEIN. CONVERSA COM O DR. SILVA MELO, MÉDICO. IMORTAL. 1972

A creditar num determinado tipo de cultura como único e definitivo e,


sobretudo, impô-lo a outros grupos humanos, é a pretensão que leva às
piores tiranias. Considerar outros agrupamentos sociais inferiores apenas porque
não usam nossos dados culturais tem permitido os piores crimes, até genocídios.
Nossa civilização, fundada na transmissão da experiência através de símbolos
escritos, não é superior a inúmeras outras cuja cultura se transmite apenas de
maneira oral. Convém não esquecer que quem inventou o alfabeto foi um
analfabeto.
MODOS DE EXPRESSÃO. CONVERSA COM ANTÔNIO HOUAISS. 1972

J ornalistas, médicos, sociólogos, educadores e, sobretudo, políticos, falando


noite e dia no amparo ao homem comum. Enquanto isso a nação perde um
potencial inestimável, pelo qual ninguém parece se interessar – o homem
extraordinário.
MATERIAL HUMANO E MÃO-DE-OBRA. CONVERSA COM ENRICO BIANCO, PINTOR. 1956

O Estado só deveria dar ao indivíduo, como educação, o aprendizado da


leitura. Daí em diante o cidadão seria, do ponto de vista oficial,
completamente deseducado, o Estado criando apenas vastíssimas bibliotecas e
centros de informações, onde o cidadão pudesse encontrar todas (mas todas
mesmo) tendências culturais existentes. Ao chegar à puberdade (14, 15, 16, 17
anos ou quando ele próprio decidisse) o cidadão freqüentaria centros de
aprendizado técnico, onde lidaria com máquinas e instrumentos necessários a
uma educação técnica, não-abstrata. Os cidadãos interessados apenas em
atividades abstratas – escrever, pintar, psicanalizar ou politicar – freqüentariam,
se quisessem, locais de discussão – ágoras modernas – mas continuariam, no
sentido atual, totalmente autodidatas. O sistema educacional vigente é apenas
uma maneira de levar a ignorância às suas extremas conseqüências.
CONVERSA COM JOÃO UCHOA CAVALCANTI NETTO, JUIZ, PROFESSOR, ARTISTA PLÁSTICO. 1970

S e não se (des)educa de base, as sociedades não mudam e as relações


humanas ficam estagnadas. Uma sociedade realmente revolucionária tem
que criar um homem novo, pois o ser humano atualmente gerado e educado é um
animal inviável.
GENÉTICA CONTROLADA? CONVERSA COM JOSÉ LEWGOY. 1958

C ada um tem sua função e todos precisam cumpri-la. Mas a inaptidão


ocasional não tira os direitos do cidadão como também não lhe dá mais
direitos em relação a seu semelhante o fato de ter capacidade extraordinária. Se a
natureza é aristocrática, a busca social deve ser a igualdade. Citando Lincoln (e
muitos outros): “A cada um de acordo com a sua necessidade, de cada um de
acordo com a sua capacidade”. Que cada um exija o que lhe cabe, se exerça no
seu melhor e que ninguém acredite que ficar imaginando que trabalha é um
trabalho de imaginação.
CONTRASTE ENTRE DIREITOS E DEVERES. MONOGRAFIA DISCUTIDA COM PAULO FRANCIS, JORNALISTA, ESCRITOR.
1959

P ensar é a todo momento e a todo custo. Pensar dói, cansa e só traz


aborrecimentos. Melhor é não pensar. Mas pensar não é facultativo. Se o
cérebro, a mínima parte dele que seja, deixa de estar alerta por um momento,
penetram lá, como parasitas difíceis de erradicar, “idéias” vindas da imprensa, do
rádio, da televisão, da propaganda geral, dos produtos em série, do consumo
degenerado, dos doutores em lei, arte, literatura, ciência, política, sociologia.
Essa massa de desinformação, não só inútil como nociva, nos é, aliás, imposta de
maneira criminosa nos primeiros anos de nossa vida. E se, algum dia, chegamos
a pensar no verdadeiro sentido do termo, todo o restante esforço da existência é
para nos livrarmos de uma lamentável herança cultural. Pois, infelizmente, o
cérebro humano é um dos poucos órgãos do corpo que não têm uma válvula
excretora. E as fezes culturais ficam lá, nos envenenando pelo resto da vida,
transformando o mais complexo e mais nobre órgão do corpo numa imensa
fossa, imunda e fedorenta. Um lamentável erro da Criação.
CONVERSA COM OTÁVIO MORAIS, ARQUITETO E CRAQUE DO BOTAFOGO. 1967

Q uando um grupo de pessoas pernósticas e incompetentes, chamadas


professores, ensina a um indivíduo sem gosto e vocação, uma série de
noções tolas ou, no máximo, discutíveis, consegue formar, no fim de uma dezena
de anos, essa coisa ao mesmo tempo ridícula e monstruosa que se chama um
homem culto.
CONVERSA COM ARMANDO NOGUEIRA, JORNALISTA. 1968

T entar “formar” o caráter de uma criança é a única violência que não tem
perdão e merece a pena de morte.
CONVERSA COM SEIXAS DÓRIA, POLÍTICO SERGIPANO. 1970

O erudito é um mal social dos mais lamentáveis e só um idiota como ele se


confundiria com cultura. Já está sendo substituído, nos países
desenvolvidos, por centrais cibernéticas de dados. Você necessita uma
informação, liga um botão, recebe a informação em dez segundos. Isso libera o
cérebro para sua única função digna – pensar –, não se necessitando
sobrecarregá-lo com uma cloaca de erudição.
DIÁLOGO COM RENATA DESCHAMPS, UMA BELA MULHER. 1971

U m idiota lê um livro pelo seu título e pelos seus autores, nunca pelas suas
idéias. Olha os quadros pelo seu valor econômico e não pela possível beleza
e importância social que eles contêm. Estima a ciência pelo que ela tem de
reacionário e prepotente. Daí a ser considerado um homem de grande cultura é
um passo.
CONVERSA COM NOEL NUTELS, MÉDICO, INDIANISTA. 1970

A frase mens sana in corpore sano é uma redundância e, como tal, inútil. Não
há corpo são sem mente sã, e vice-versa.
DIÁLOGO COM LEO GILSON RIBEIRO, ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO. 1972

E studando a Ilíada, concluímos que a famosa guerra contra o imperialismo


dos “gregos” decadentes teria tido um resultado bem diferente se Enéias
fosse mais duro com os subversivos de então. Sabe-se que, a essa altura, Tróia
estava já dividida em Tróia do Norte e Tróia do Sul (esta recebendo forte auxílio
dos persas em forma de arcabuzes, bestas, arcos de setas múltiplas e aríetes de
longo alcance, sem falar de infantes adestrados). Enquanto isso, a Tróia do Norte
era completamente dominada pelos Tróia-Congs, que desciam e atacavam pela
trilha de A-Gha-Menon. Foram os Tróia-Congs que permitiram e facilitaram a
entrada, em Tróia, do famoso elefante (está provado que um cavalo, mesmo
agigantado, daria apenas para meia divisão e o número de homens que penetrou
na cidade compunha uma divisão inteira) que liquidou com a cidadela de
Príamo. Recomendamos o intenso estudo crítico dessa história.
CONVERSA COM TÔNIA CARRERO, ATRIZ. 1957

A s louças e objetos domésticos da antiga Grécia são peças maravilhosas


provando que o convívio social naquela época era intensíssimo: o
Banquete, de Platão, não necessita mais ser descrito. Embora a propaganda
inimiga, sobretudo romana, tenha tentado denegrir a imagem grega, insinuando
que nos banquetes compareciam até mulheres, parece que realmente ali só era
permitida a entrada de renomados sábios e belos efebos. E mesmo se admitindo
que nesses banquetes se comia de tudo e de todos, o fato é que isso resultou,
historicamente, no brilho maior de potes e poterias – todas as louças ainda hoje
existentes são gravadas com motivos familiares. Isto é, familiares aos que
freqüentavam as bacanais.
BACANAIS E SATURNAIS. ALMOÇANDO COM JAIME LERNER, ARQUITETO, POLÍTICO. 1967

O s homens são sábios, não pelo que lhes ensinam, mas por sua capacidade de
negar o que lhes ensinam.
CONVERSA COM BAPTISTA-BASTOS, JORNALISTA E ROMANCISTA PORTUGUÊS. 1973

O alfabeto foi inventado única, exclusiva e solidariamente, pelo Gênio Grego,


há mais de 2.000 anos, seguindo uma recomendação do Corpo Especial de
Pressão Psicológica daquela época gloriosa. O objetivo da invenção era
fundamentalmente político: a unificação, através da escrita, das ilhas da Hélade.
Como antes as representações gráficas eram todas ideogramáticas ou simbólicas,
com figuras ou cuneiformes (representativas do objeto descrito; não se procurava
ainda representar o som) isso trazia sérias complicações, equívocos e atritos
hierárquicos e até mesmo a corrupção dos que melhor sabiam se exprimir com a
complicada semântica. Mas o objetivo da nova escrita ultrapassava os limites da
unificação pura e simples. Compreende-se a impossibilidade de alguém se
ofender seriamente sendo chamado de a-ideogramático ou de seu cuneiforme. O
novo sistema de símbolos permitiu que, pela primeira vez na história, se pudesse
gritar para o inimigo esta suprema ofensa: “An-al-fa-be-to!”
DOCUMENTO SECRETO: A GRÉCIA. 1972
S empre que surgem novidades tecnológicas, o nível cultural baixa, há
repetição de coisas passadas como se fossem invenções extraordinárias, lixo
cultural como se fosse criações supremas da inteligência. A Internet é a mais
nova e mais universal demonstração desse paradoxo. Noventa por cento lixo.
E-MAIL ENVIADO A ANTÔNIO SKÁRMETA, AUTOR D’O CARTEIRO E O POETA. 1999
Religiao e misticismo

D eus protege os fracos e desamparados, mas um bom sindicato ajuda.


DIÁLOGO COM DOM MARCOS BARBOSA. S.O.B. 1966

D e repente a Igreja Católica, depois do II Con-


gresso Ecumênico, começou a se aggiornar, traduzindo a liturgia do latim
para as línguas nacionais, permitindo às freiras novas indumentárias, a todos os
prelados uma participação mais aberta na vida social e mundana de suas
comunidades. E acabou por admitir o fim do celibato dos padres, num gesto de
grande sabedoria. Afinal de contas, foi por não se reproduzirem que os santos
desapareceram.
LIÇÃO TRANSMITIDA A DOM HÉLDER CÂMARA. 1952

A vida é breve e da morte ninguém sabe nada.


Mas basta ler um pouco de história para verificar que tem muita gente
importante que já estava morta há mais de 10.000 anos. Então, uma coisa é certa:
a morte pode não ser definitiva, mas é por muito tempo.
CONVERSA COM JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA, POLÍTICO MINEIRO. 1969

D o que li, meditei e aprendi em Gensaku, muita


coisa foi transformada com o passar do tempo de minha própria vida, e os
ventos terrais de minha existência ocidental. Assim, do que Gensaku me ensinou
e do que experimentei, posso transmitir estes itens que continuam ratificados
pela sabedoria dos séculos:
1. Jamais lavar os cabelos depois do meio-dia.
2. Nunca apontar para um arco-íris.
3. Nunca tomar banho com o estômago vazio.
4. Não molhar os pés quando os dois ponteiros do relógio estiverem juntos.
5. Não dormir nu, banhado pela luz da lua.
6. Não contar seu dinheiro no Sábado de Aleluia.
7. No inverno, não falar sem que nos dirijam a palavra.
8. Não se deitar de costas quando houver chuva com raios ou trovões.
9. Jamais falar quando estiver andando. Quando tiver alguma coisa importante a
dizer, parar, e só então dizer.
10. Tomar um banho bem no início do dia 9 de abril, todos os anos. Um banho
no dia 7 de agosto torna a pele áspera e seca.
11. Não comer nada em dia de eclipse lunar ou solar, total ou parcial.
12. No verão, dormir com a cabeça voltada para o Leste. No outono e no inverno
virar a cabeça para o Oeste. Jamais, em nenhuma circunstância, dormir com a
cabeça voltada para o Norte.
13. Só tirar os fios brancos do cabelo ou da barba em dias determinados. Esses
cabelos devem ser guardados para serem queimados sigilosamente no Dia do
Tigre (de doze em doze anos).
14. Jamais cantar na cama, por melhor que seja a mulher.
PAPO COM TÉCIO LINS E SILVA, CAUSÍDICO. 1970

A s idealizações das orações sacras, feitas de


palavras vazias, servem, contudo, para aplacar a grita dos descontentes e
manter a horda de olho apenas num futuro mítico. De menino sempre achei
muito curiosa a insistência com que sempre se pede, ao Todo-Poderoso, o pão
nosso de cada dia. Em algum momento da história sagrada se diz que o Todo-
Poderoso era padeiro? O meu eu quero em dinheiro.
CONVERSA COM PAULO VIEIRA RÔNAI, PAULINHO. 1991

A maior vantagem da comida macrobiótica é


que, por mais que você coma, por mais que você encha o estômago, está
sempre perfeitamente subalimentado.
HIGIENE. CONVERSA COM O DR. RODOLFO FERREIRA, CLÍNICO “GERAL”, COMO SE CHAMAVAM ANTIGAMENTE OS
MÉDICOS HUMANISTAS. 1973

S e tudo isso que está aí é realmente obra de


um Deus Todo-Poderoso, que patife!
CONVERSA COM MINO CARTA, JORNALISTA, PINTOR. 1969

E necessário rever toda a história e tentar uma


reavaliação dos seus heróis, mesmo os mais santos e místicos. Uma coisa
para mim é certa: Cristo só expulsou os vendilhões do templo porque eles não
tinham licença e estavam prejudicando o comércio estabelecido. Eram camelôs.
CONVERSA COM DOM JEREMIAS BARBOSA. 1967

O ração e oral têm a mesma origem semântica.


Daí nasceu a expressão sacro libidinosa “Ajoelhou, tem que rezar”.
LETRA, ACOMPANHAMENTO DE CANTO PARA O TENOR EDUARDO ALVAREZ. 1985

preciso não esquecer que o mandamento que


proíbe: “não cobiçarás a mulher do próximo”, está, automaticamente,
E
autorizando a cobiça de todas as outras.
CONVERSA EM PARIS COM CARLOS FREIRE, FOTÓGRAFO. 1994
Comunicacao e meios

A pesar do quadro negro de uma cúpula política e intelectual desvairada e


grossa e de um povo abandonado a seu próprio destino, ainda havia ali, no
país, naquele espantoso verão de 1955, uma considerável energia vital, uma
exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro
indivíduo, ainda mais possuído do gozo pleno de um extraordinário senso lúdico
tropical. Estávamos, poderíamos nos considerar como estando, num dos últimos
redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, não, como todos pensavam,
com um estrondo, mas com um soluço. A densa nuvem desceria, não, como
tantos pensavam, feita de moléculas radioativas, mas da grosseria de todos os
dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se
amesquinharia, vítima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos
atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor
desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo
começou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado
por enlatadores de banha, fabricantes de chouriço e vendedores de desodorante,
de modo que toda a pretensa graça da vida se dirigia apenas à barriga dos
gordos, à tripa dos porcos, ou, no máximo de finura e elegância, às axilas das
damas.
PREFÁCIO PARA UM ELEFANTE NO CAOS, PEÇA DO AUTOR. 1962

T odo tempo de opressão é tempo de grandes sutilezas. Hoje você pode dizer
sem medo que “Nero tocava violino enquanto Roma pegava fogo.” Mas, na
época do fato, se noticiava apenas que: “Personalidade romana colocada na mais
alta cúpula, já famosa por ter, anteriormente, encurtado os dias de sua
progenitora, foi vista praticando uma sonata ao violino enquanto a capital do seu
país ardia numa conflagração sem igual”. Há muito que aprender com a história
em matéria de calar a boca.
CONVERSA COM TARIK DE SOUZA, POETA, CRÍTICO MUSICAL. 1971

A ssim que os tipos móveis se provaram como uma revolução na arte de


imprimir, imediatamente os meios de produção se apoderaram deles e os
colocaram a seu serviço. Isto é, a imprensa, logo ao nascer, não foi um meio de
ampliação da cultura mas apenas um modo de filtrar para maior número de
indivíduos o tipo de informação que interessava à classe dominante. Passou não
apenas a ser uma forma de divulgar mentiras como, também, de ocultar toda
verdade que não interessasse aos poderosos. Gutemberg, em verdade, não
inventou a imprensa. Inventou a imprensa marrom.
O PAPEL DA DIVULGAÇÃO A SERVIÇO DO POVO. 1954

O último refúgio do oprimido é a ironia e nenhum tirano, por mais violento


que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia. Não pode
impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.
CONVERSA COM BORJALO, DESENHISTA, HOMEM DE TELEVISÃO. 1973

P raticamente todas as teorizações filosófico-políticas já tinham sido feitas há


dois mil anos, na Grécia. Os grandes meios de comunicação foram
inventados quando ninguém tinha mais nada a dizer.
CONVERSA COM ÊNIO SILVEIRA, JORNALISTA, EDITOR. 1973

S ó depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, todos


os meios de comunicação a longa distância, foi que se descobriu que o
problema de comunicação mais sério era o de perto.
CONVERSA COM ADOLPHO BLOCH, EDITOR, O HOMEM QUE LEVOU A LACUNA COM ELE. 1958

H á, segundo divulgações da mídia, uma absoluta falta de comunicação entre


os homens e mulheres. Dizem isso enquanto dão notícias, também
assustadoras, a respeito da explosão demográfica em todo o mundo.
ENCONTRO COM O DR. PAULO ALBUQUERQUE, ENDOCRINOLOGISTA. 1970

A ntigamente, o único sistema de Comunicação Central era o de aquecimento


ou refrigeração. O desenvolvimento tecnológico tornou possível a estupidez
central e a incompetência central.
CONVERSA COM MOACIR WERNECK DE CASTRO, JORNALISTA, ESCRITOR, TRADUTOR. 1972

S e a pressa é inimiga da perfeição, então quanto mais devagar se faz um


trabalho mais perfeito ele é. Dai se concluiria que um semanário deve ser
melhor do que um diário e um mensário melhor do que um semanário, sem falar
de anuários. O que talvez explique a atração popular pelos slogans que
apregoam: “O crime do ano”, “O julgamento do século”, “O maior filme de
todos os tempos”.
CONVERSA COM JOÃO BATISTA CASTEJON BRANCO, JORNALISTA. 1971

ma inverdade, apanhada na hora, é uma mentira deslavada. Um ano depois,


porém, pode ser apenas uma outra faceta da verdade. Se resistir, dentro de
U dez anos será um dos raptos de imaginação da pessoa que a pronunciou.
Um século depois já ninguém se lembrará quem a disse e ela será parte e
fundamento do folclore. Com o passar dos tempos, mais e mais anos
sedimentarão a mentira e ela será transformada em fantasia, em canto, em
criação geral, em história cíclica, em ode, em épico, em conceito geral de
eternidade filosófica.
DISCURSO SÓ PARA CRISTINA DE LUCCA, JORNALISTA, TELEVISIONISTA. 1972

O s sujeitos que escrevem cartas anônimas não se preocupam com a redação


das cartas pelo fato mesmo de pretenderem que elas permaneçam no
anonimato. O resultado é que, descobertos, não são considerados somente
canalhas mas também ignorantes.
A PRÁTICA. OBRAS COMPLETAS. 1970

P or algum mistério indecifrável o fato de “ter voltado” parece renovar a


pessoa, lhe dá um prestígio fresco. E lhe traz a agradável sensação de ser
especialmente bem recebido nos lugares a que chega, isto é, a que volta. Por isso
quase todo mundo sente necessidade de mentir a respeito da data em que
“voltou”, respondendo sempre que acaba de chegar, quando, na verdade, já
voltou há mais de um mês.
CONVERSA COM IVAN FERNANDES, ARTISTA PLÁSTICO, EMPRESÁRIO GRÁFICO, FILHO DO AUTOR. 1961

S e fôssemos franceses e alguém nos perguntasse quem escreveu a música de


Sabiá, poderíamos responder com muito espírito: “C’est le ton que fait la
chanson”. E, entusiasmados, poderíamos continuar: “Loin des yeux, loin du
couer”, “Loups ne se mangent pas entre eux”, “Mieux vaut tard que jamais”, o
que nos faria passar por absolutos idiotas.
CONVERSA COM FREDERICO CHATEAUBRIAND, EXTRAORDINÁRIO JORNALISTA. 1973

O que levou todo mundo a confundir Genaro Hermano com Gênero Humano
complicou-se ainda mais com os meios de comunicação. A mídia, em mãos
impróprias, colocou o cidadão comum na angústia definitiva de não conseguir
decidir se um açougueiro branco que vende carne verde a um freguês preto é
pior ou melhor do que um russo branco que vende caviar vermelho no mercado
negro.
A POLUIÇÃO SEMÂNTICA, CONVERSA COM RICARDO CRAVO ALBIN, JORNALISTA, MUSICÓLOGO, AGITADOR SOCIAL.
1968

ertas coisas públicas não se podem tornar particulares.


TESE E PRÁTICA DE INFILTRAÇÃO. 1966

CA campanha do “Sorria Sempre” revela um conformismo total e é


indigna do humorista. Quem sorri sempre ou é um idiota total ou tem a
dentadura mal ajustada.
CONVERSA COM JORGE ARTHUR GRAÇA SIRIKA, ODONTOLOGISTA E UM DOS INVENTORES DO FRESCOBOL. 1973

H iroshima e Nagasaki. Dois holocaustos, exatamente idênticos, no mesmo


país, na mesma época, praticados nas mesmas odiosas circunstâncias. No
entanto, Nagasaki não tem metade do charme publicitário de Hiroshima, que é a
primeira palavra de revolta que nos vem quando nos lembramos da tragédia
atômica. A sonoridade de um nome, possibilitando ser cantado em verso e filme
por escritores e poetas, deu a Hiroshima o status de um símbolo. É uma questão
para os assim ditos técnicos em comunicação: se Cristo fosse enforcado, a forca
teria a mesma força simbólica da cruz?
O ABSOLUTO E O RELATIVO. OBRAS INCOMPLETAS. 1970

O terror do século é a apropriação dos termos por uma mídia que não sabe,
ela própria, o que está dizendo. Uma semântica desvairada aterroriza o
homem comum que, ao ler o jornal diariamente, encontra ali palavras que não
existiam ontem e vão se tornar moda, ou serão esquecidas, amanhã. Essas
palavras, se tomadas em seu significado exato e preciso, não têm sentido no uso
diário. Se tomadas no significado que adquiriram quando popularizadas, passam
a ser aterrorizantes, acenando para o homem comum com um mundo que ele não
compreende e muito menos quer. Daí o pânico geral. Daí vivermos no mundo
ideal para os psicanalistas.
CONVERSA COM LUÍS ALBERTO BAHIA, JORNALISTA. 1971

U nico meio de comunicação do ser humano (a matemática é especializada, a


música é emocional, a imagem é incompleta, a expressão corporal é apenas
auxiliar), a palavra se torna, ao fim e ao cabo, um elemento reacionário. Se nova,
serve apenas de comunicação elitista e, quando muito usada, se desgasta e
confunde.
CONVERSA COM AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA, ETIMOLOGISTA, ESCRITOR. 1960

N unca conheci ninguém que falasse duas línguas. Cada palavra, nuança ou
ritmia que se aprende numa língua, se perde na outra. Além disso “falar
bem uma língua estrangeira é demonstração de absoluta falta de caráter”, no
mais amplo sentido da palavra. Como dizia Shaw: “Nenhum homem realmente
capaz em sua própria língua se interessa em dominar outra”.
CONVERSA COM MAURÍCIO ROBERTO, ARQUITETO. 1973

U ma folha de papel, acrescida de algumas notas de discurso a ser proferido,


ganha em magnitude mas não em peso.
CONVERSA COM MARCO NANINI, ATOR. 1978

A alienação, que se refere, indiferentemente, à mulher tomada como objeto de


exploração, aos meios de comunicação sem sentido ou objetivo, à “idiotice
da vida do campo”, à cultura como elemento de exploração classista, virou
palavra de ataque, perdeu o sentido e alienou-se.
CONVERSA COM BADEN POWELL, VIOLONISTA. 1965

S e cada país tem que ter a sua imagem nacional, a efígie brasileira deveria ser
a do jogador de porrinha, posto em todas as praças vestindo a camisa do
Flamengo, o braço estendido, a mão fechada. Uma figura mais estranha do que a
Esfinge porque, feita de mármore do Paraná, jamais abriria a mão. Ninguém
jamais saberia quantos pauzinhos teria o herói nacional.
SUGESTÃO PARA JOÃO UBALDO RIBEIRO, JORNALISTA, ROMANCISTA. 1962

Q uando o clima vitoriano se instala num país e a censura vê crimes e


insolências em todas as manifestações, até a palavra pudibunda passa a ser
meio pornográfica.
CONVERSA COM PAULO PONTES, TEATRÓLOGO. 1973

A língua (o povo) tem suas próprias razões, que ninguém jamais poderá
pesquisar. Quase todas as palavras em Português terminadas em eca tendem
ao ridículo: beca, breca, burreca, camoeca, careca, caneca, cueca, jaleca,
marreca, meleca, muleca, munheca, panqueca, peteca, rebeca, sapeca. Vá lá
alguém explicar. E tem gente que explica.
PAPO COM B. PIROPO, JORNALISTA, ENGENHEIRO, TÉCNICO E TEÓRICO DE INFORMÁTICA. 1956

F undamental: sem o alfabeto teria sido impossível a alfabetização. Existiria,


no máximo, a ideogramatização e cuneiformização. Uma coisa óbvia, mas
que escapa a todo mundo é que Capadócio, inventor do alfabeto aos 45 anos de
idade, era, claro, um analfabeto. Entre todos os gregos era o único que não podia
ocultar isso.
CONVERSA COM INÊS OZELA, ARGENTINA, PROPRIETÁRIA DA LOJA MUJER, NO CENTRO DA PIAZZA DELA SIGNORIA,
FLORENÇA. 1973

A palavra foi sempre usada como mágica. Começou no começo, com o Fiat
Lux!. Passou pelos mandamentos do Sinai, fez o poder dos sacerdotes do
Egito, atravessou os séculos na semântica de todas as religiões, igrejas,
maçonarias, mãos negras. Como código secreto controlou parte substancial da
política da segunda guerra mundial, foi, e é, alicerce e mistério do poder
judiciário. E domina o mundo de nossos dias com a informática, cada vez mais
desnecessariamente complexa, erigindo e exaltando novos pajés, que enganam
os trouxas e obriga-os a consumir tudo quanto é amuleto – up-grade – vendido
nas catedrais da Sancta Theknológias.
ADVERTÊNCIA A ROSENTAL CALMON ALVES, JORNALISTA, REPÓRTER POLÍTICO, PROFESSOR & KNIGHT CHAIR IN
JOURNALISM , UNIVERSIDADE DO TEXAS. 1987
Metodos de ação. Trabalho

M enos do que um meio de vida, uma atividade de interesse público, a


prática política é um alucinógeno.
CONVERSA COM CARLOS CASTELO BRANCO, COMENTARISTA POLÍTICO. 1972

A atenção nos métodos, o cuidado com as ações, a cura dos detalhes, a


delicadeza com os amigos, o efeito das palavras. O mal das encrencas é que
elas começam muito direitinho.
CONVERSA COM FERNANDO GASPARIAN, EDITOR, DEPUTADO. 1972

O radicalismo é quase sempre inútil e são sempre louváveis as virtudes da


contenção, a ciência do meio. Mas não há excessos no sexo, pois ele é
auto-regulável. E o álcool, tomado com moderação, não oferece nenhum perigo,
mesmo em grandes quantidades.
CONVERSA COM ROBERTO CAVANA, QUÍMICO, FOTÓGRAFO E PENSADOR ITALIANO. 1991

O Poder corrompe. E o Poder Absoluto corrompe muito melhor.


ALGUMAS NOTAS SOBRE LIDERANÇA POPULAR. 1967

P ela primeira vez vejo um país, o Chile, experimentando na prática uma velha
proposta minha, que considero a melhor possibilidade de solução dos
problemas sociais: um capitalismo dirigido por socialistas. Ou vice-versa.
MÉTODOS. 1967

E menos uma atitude otimista do que realista.


Em qualquer situação é fundamental não esquecer o riso. O pranto só serve
para chorar.
CONVERSA COM DI CAVALCANTI, PINTOR. 1951

N ão há nenhuma característica ou atitude pragmática que indique as


intenções do adversário. A crença de que um canalha tem cara de canalha é
absolutamente pueril. Mas, como ela existe, quando você tiver que mentir faça-o
olhando o interlocutor bem dentro dos olhos, com absoluta firmeza.
DIÁLOGO COM WESLEY DUKE LEE, PINTOR, JORNALISTA E COLECIONADOR. 1967

s vezes você busca soluções complexas e técnicas para problemas que podem ser
resolvidos de maneira bem simples. Por exemplo: se você aperta a barriga à
A altura do fígado e sente dor, em vez de procurar médicos e se submeter a
tratamentos complicadíssimos, o mais sábio é, simplesmente, deixar de apertar.
SOLUCIONÁTICAS. CONVERSA COM MÔNICA SILVEIRA. EMPRESÁRIA, ARTICULADORA SOCIAL, BELA MULHER
CARIOCA . 1969

C andidate-se. Por mais idiota que você seja sempre haverá um número
suficiente de idiotas maiores do que você para acreditar que você não o é.
CONSELHO A UM CANDIDATO. 1958

P ela estrada da indecisão se vai bater direitinho na casa da pusilanimidade.


CONVERSA COM ERICO VERISSIMO, ESCRITOR. 1970

O rwel previu para 1984 o domínio definitivo, no mundo inteiro, do Big


Brother. Mas da maneira por que marcha o mundo o Grande Irmão já
chegou, já viu e vai vencer bem antes de 1984. Portanto, se você tem que fazer,
faz logo: amanhã pode ser ilegal.
HOMEM LOBO DO HOMEM. 1967

A medida de cada um não é a mesma e isso deve ser levado sempre em conta
na ação humana, onde, mais do que em qualquer outra ciência, quem pode
o mais pode o menos mas a recíproca não é verdadeira. Todo sábio, de vez em
quando, banca o idiota. Mas quando o idiota quer bancar o sábio só consegue
ficar mais idiota.
EXPLICAÇÃO PARA NELMA, SECRETÁRIA E NUME TUTELAR DO PASQUIM, JORNAL CARIOCA DOS ANOS 70. NO
AEROPORTO SANTOS DUMONT. 1972

P ara o trabalho coletivo é preciso ter sempre em mente as fraquezas


individuais e o excesso de confiança trazido pela proximidade. O
colaborador íntimo nos trai menos por traiçoeiro do que por íntimo. Na luta
social a intimidade já traz em si o germe da traição.
DISCURSO NA ÁREA LIBERADA PARA O TRÁFEGO DO TÚNEL DO PASMADO. 1963

N a política só é possível um acordo sincero naquilo com que se concorda.


CONVERSA COM A CONDESSA PEREIRA CARNEIRO, PRESIDENTE E PROPRIETÁRIA DO JORNAL DO BRASIL,
DURANTE UMA VIAGEM AO NILO . 1961

N os processos de luta ou negociação podemos impor uma realidade nossa ao


adversário mais fraco mas temos que tratar dialeticamente com as armas e
os recursos do adversário mais forte. Quando a burrice manda, a suprema burrice
é ser sábio. Quando um técnico vai tratar com imbecis tem que levar um imbecil
como técnico.
CONSELHOS TÉCNICOS A SÉRGIO JAGUARIBE, DITO JAGUAR. 1967

S e o adversário pede trégua, dê-lhe trégua, mas sempre fingindo a necessária


relutância a fim de que ele jamais perceba o quanto você esteve perto de dar
o que pedia.
CONVERSA COM GAMAL NASSER, NO CAIRO. 1961

A s vezes a argumentação do adversário equivale a um ato de violência. Mas,


se você não pode com a dialética dele, tem sempre o recurso de lhe atirar
com uma pedra na cabeça.
CONCLUSÃO MORAL E DIALÉTICA ENUNCIADA NA REDAÇÃO DE
O CRUZEIRO, DEPOIS DE REIVINDICAÇÕES SALARIAIS. 1961

O u se golpeia, ou não. Não se pode atacar a meio termo, a meia altura, a


meia força. O inimigo não destroçado volta com mais violência ou
prestígio. Se não se pode destruí-lo é melhor ignorá-lo. Companheiros de
profissão, cuidado com a Sátira: ela pode glorificar.
DO EXATO EMPREGO DESTA ATIVIDADE. LOCUÇÃO A SÉRGIO AUGUSTO, JORNALISTA, ENSAÍSTA CINEMATOGRÁFICO.
1969

C onscientizar é uma forma de levar o cidadão a encaminhar seus passos no


sentido de uma constante melhoria social e política. O conscientizado,
acreditando numa revolução permanente, seja dito, diária, prega uma contestação
tão constante que, no fim, se torna inconsciente. É a negação do subversivo, que
luta suicidamente para desencarrilhar a história. Com ele dentro.
NOTAS À MARGEM DO RIO. 1970

D e modo geral a cada eleitor cabe um voto. Esse voto pode ser contra, a favor
ou muito pelo contrário. Um eleitor dando mais de um voto a um candidato
se chama voto qualitativo. Também se pode chamar fraude. Um candidato
aceitando mais de um voto de cada eleitor é um eleito.
TÉCNICAS DE PODER. CONVERSA COM FERNANDO PEDREIRA, JORNALISTA, EMBAIXADOR. 1967

C inqüenta séculos de civilização baseados no mito do herói, no primado da


macheza, culminaram na cunhagem da frase: “Dou um boi para não entrar
numa briga; dou uma boiada para não sair”. É a glória da jactância, o blasonar
desvairado do pavão doido, a mais autêntica expressão de assobio no escuro.
Pois na verdade o homem já não é mais tão másculo assim. Criado a puericultura
e a estrôncio 90, cheio de sopas Knorr nas veias e banhado com Coca-Cola, o
homem já não topa paradas com o mesmo prazer com que o fazia em Ur ou
Neandertal. Na verdade, com exceção dos profissionais (e esses não vale contar
pois se realizam exatamente na briga) o homem atual prefere mesmo – se não
houver terríveis imposições “morais” à volta – levar seus desaforos para casa,
escovar os dentes três vezes por dia e visitar o psicanalista duas vezes por ano.
Instado, instigado, empurrado para uma briga, ainda assim ele cumpre a primeira
parte do provérbio e oferece seu boi para não participar do entrevero, tentando se
evadir ao apelo marcial. Porém, se já está apanhando, sua mais sagrada vontade,
entre um soco e outro, é entregar a boiada toda ao primeiro que se interessar por
ela e ir para casa logo, deitar-se, e gemer nos mais efeminados coxins que
encontrar. Hagia Sophia!
CONVERSA COM O CONDE DE KAROL NOWINA, ELEGANTÍSSIMO PROFESSOR DE LUTA LIVRE E GINÁSTICA, MESTRE
DO AUTOR . 1968

P ois, para ser livre, é preciso sacudir os grilhões, desprender as algemas,


cavar túneis por baixo das donzelas, desbridar os corcéis da aventura
amarrados à burocracia e gritar: “Laços fora!” Imitar D. Pedro I na medida do
possível, isto é: usar fósforos Ipiranga e ser marginal.
CONVERSA COM REDI, EXTRAORDINÁRIO CARICATURISTA. 1975
Metodos de pensamento. Dialetica

Q uem quer a liberdade? A liberdade exige decisões pessoais para todos os


dilemas diários: saio, não saio, vou, fico, o que é que eles estão querendo
dizer com isso?, como é que eu devo agir em função disso? A cada ato, cada
desastre, cada notícia, corresponde uma atitude definida e um esforço para o qual
o ser normal não foi adequado. Só um tarado (liberal) aprecia a liberdade total. O
homem médio prefere se entregar a prepostos, ama despachantes, obedece a
mestres, serve a diretores, mitifica líderes. A própria constituição humana está
talhada para a limitação. É evidente que Deus fez o homem com a cabeça maior
do que o corpo para ele não poder passar por entre as grades.
IMPOR A LIBERDADE MESMO ATRAVÉS DA COAÇÃO. OBRAS COMPLETAS. 1970

A s novas realidades nem sempre ultrapassam a velha sabedoria. Uma coisa é


conceito, ou- tra experiência existencial. Teu avô pode não ter curso
secundário. Mas tem 67 anos.
CONFLITOS. 1963

E necessário não apenas contestar. É mais importante contestar também pelo


direito inalienável de contestação. Isso não exclui, é claro, antes inclui,
como coisa definitiva, o direito de contestar a contestação dos outros.
DISCURSO DE ENCERRAMENTO (FALÊNCIA) DA FACULDADE DE ENGENHO NOVO. 1949

A originalidade é a marca do gênio. Mas, para quem não pode almejar tanto, o
cultivo do lugar comum bem aplicado, do provérbio usado em boa hora,
também ajuda muito e, às vezes, até substitui o talento real. E, convém lembrar,
o domínio do óbvio está ao alcance de qualquer um.
LIÇÕES DE COISAS. 1959

D iscussões exaustivas de métodos, informações exaustivas de processos,


troca de opiniões sobre tudo, eis a única forma possível de esclarecer
teorias e melhorar o nível de prática. A discussão, mesmo quando não traz a luz,
liquida com muita idéia imbecil.
DISCUSSÃO COM CHICO BRITTO, ARQUITETO CARIOCA QUE POUCO ARQUITETOU, MAS TODOS OS DIAS DE
MADRUGADA NADAVA ALGUNS QUILÔMETROS MAR A DENTRO , NA PRAIA DE COPACABANA . AOS 84 ANOS NÃO

VOLTOU . 1971
E preciso muita fé no ser humano para não acreditar na sua absoluta
incapacidade de se autogovernar. Pelo número de ditaduras que existiram e
existem no mundo, conclui-se que a suprema aspiração popular é a liberdade de
não ter que decidir coisa nenhuma.
MÉTODOS DE TRABALHO. 1955

O homem brilhante, capaz de raciocinar a todo momento, dinâmico no seu


pensamento, varia e muda com o tempo e não é mais hoje o que era dez
anos atrás. Mas o imbecil, que só tem uma idéia, incapaz de raciocinar, é,
forçosamente, um homem de grande convicção.
DISCUSSÃO COM PAULO FRANCIS, JORNALISTA, ESCRITOR. NOVA YORK. 1973

N ão há que se horrorizar com o palavrão. Tudo é palavrão e nada é palavrão.


Palavras e expressões tais como “Tira. Bota. Mais. Mexe. Aí não! É muito
grande! Que coisa enorme, etc....” não são palavrões e, pelos critérios de
censura, posso publicá-las livremente. Se alguém achar essas palavras ou
expressões indecentes é porque as colocou num contexto de sua própria criação.
Ao contrário, a expressão “filho da puta” pode ser usada como expressão de
grande admiração e até carinho, como no caso famoso do cavalo inglês, glorioso
na história do hipismo. É evidente que o dono não lhe pôs esse nome como
ofensa.
PALAVRÕES E PALAVRINHAS. PREFÁCIO PARA A TRADUÇÃO DE HOMECOMING, DE HAROLD PINTER. 1970

S ó há uma coisa que a vida ensina: a vida nada ensina. Alguém precisa
aprender mais do que isso no ato de viver?
CONVERSA COM MARCO AURÉLIO DE MOURA MATOS, JORNALISTA E ESCRITOR MINEIRO. 1969

A precisão vocabular é fundamental em qualquer contato político já que as


palavras são, por si mesmas, evasivas e, por isso, perigosas. A palavra de
uma região tem nuanças estranhas em outra, senão significado diametralmente
oposto. Isso, que todos sabem, em geral é ignorado com respeito a classes
sociais ou níveis de educação em que se usam as mesmas palavras com nuanças
absolutamente surpreendentes. Um bom político é inequívoco quando tem que
ser inequívoco e equívoco sempre que o deseja, jamais cometendo o erro
grosseiro do deputado mineiro que, convidado a jantar pela mulher do
governador, respondeu pressuroso: “Realmente, madame, essa idéia não me
repugna”.
DIÁLOGO COM LUCIANO CARNEIRO, JORNALISTA-REPÓRTER-FOTÓGRAFO, MORTO EM DESASTRE DE AVIAÇÃO. 1957

ma força irresistível não pode encontrar um obstáculo intransponível. A


contradição dialética aparente se desfaz se você ou elimina o termo
U irresistível, ou o termo intransponível. Na prática histórica, porém, a
verificação do que é irresistível e do que é intransponível tem custado muito
sangue.
O PAPEL DOS QUE NÃO TÊM PAPEL. PALESTRA NA FACULDADE DE ALÉM-PARAÍBA, DIRIGIDA POR FUAD SAYONE, UM
SANTO . 1973

A s paralelas quase sempre se encontram. A uma certa distância, é claro, mas


que se encontram, se encontram. Pois, se ficam muito distanciadas, perdem
até mesmo a condição de paralelas.
CONVERSA COM FLÁVIO RANGEL, JORNALISTA, TEATRÓLOGO. 1970

A s interferências de determinadas idéias e relações não podem ser tiradas


sem análise de campo do problema levantado. Por saber que o branco é a
reunião de todas as cores você não pode inferir daí que todos os sons do dia
reunidos fazem o grande silêncio das horas tardas.
CONVERSANDO COM GUILHERMINA, DOMÉSTICA QUE SABIA TUDO. 1968

O mundo tem muitos canalhas mas, felizmente, estão todos nas outras mesas.
CONVERSA NO BAR VELOSO, COM TOM JOBIM, MÚSICO. 1962

P erdemos a batalha mas jamais poderemos perder a consciência das palavras


que tornam isso menos desastroso. Perdemos a batalha mas “salvamos a
honra e o prestígio de nossa gloriosa corporação”.
HIERARQUIA. CONVERSA COM O DR. SOBRAL PINTO. 1963

V ocês devem estar bem lembrados de que, no meio do ano, quando quase
toda a população se queixava do frio violento, previmos a vinda de
dezembro assim que acabasse novembro, a entrada daquele mês trazendo
consigo, fatalmente, o verão. Avançamos mais ainda e previmos que em
dezembro deveria findar o ano de 1969, coisa que ninguém pode negar agora que
já estamos em janeiro de 1970.
RIDÍCULO DOS ORADORES RETÓRICOS. TESE PARA ANTÔNIO HOUAISS. 1970

O ser humano consegue sobreviver com uma parte de si mesmo


espantosamente sofisticada e outra parte ainda mergulhada no lamaçal de
sua primitividade. Quando os filósofos gregos descobriram que a raiz quadrada
de 2 não é um número racional (?) celebraram a descoberta com uma Hecatombe
– a morte de cem bois.
SOBRE A IRRACIONALIDADE DA FUTUROLOGIA E DA PASSADOLOGIA. PAPO COM MÁRCIO MOREIRA ALVES, MARCITO,
JORNALISTA , DEPUTADO . 1970
logans de longa durabilidade, alguns com séculos de existência, como “o
S dinheiro não traz felicidade” ou “o dinheiro não é tudo”, devem a sua
extraordinária permanência a uma grande carga de sabedoria. Mas, sendo apenas
parcialmente verdadeiros, devem ser combatidos. Não se tentando anulá-los, o
que seria impossível, mas se tentando ultrapassá-los, completando-os com uma
verdade maior. Assim, o slogan “o dinheiro não é tudo” deve ser completado
com a frase “tudo é a falta de dinheiro”. E quando disserem que “o crime não
compensa”, você tem de lembrar que isso é por que, quando compensa, muda de
nome.
DIÁLOGO COM EVARISTO DE MORAIS, FILHO, ADVOGADO. 1973

S anto Agostinho disse que todos os pecados que ele cometeu foram
imediatamente punidos por Deus, na medida em que “toda perturbação da
alma é sua própria punição”. Mas Agostinho também disse, e com mais
sabedoria prática: “É preciso um mínimo de bens materiais para exercer as
virtudes do espírito”. Socialismo? Parece. Isso antes, muito antes de Proudhon
dizer que “toda propriedade é um roubo” e Shaw acrescentar que “todo lucro é
um roubo”, gritando ainda “Horace Halger morreu chorando pelo pobre. Eu
morrerei denunciando a pobreza”.
PAPO COM CHICO CARUSO, JORNALISTA, DESENHISTA, SHOW -MAN. 1990

R ever posições. Quando todos procuram a chave do sucesso esquecem que


importante mesmo é o sucesso da chave.
CONVERSA COM JORGE DE ANDRADE, TEATRÓLOGO. 1967

O voto não resolve nada. A ausência do voto destrói tudo. O direito divino é
uma hipocrisia. O poder pela força é uma violência. O problema político
continua em aberto.
CONVERSA COM EDSON SILVA, ATOR. 1960

A verdade é que todo o progresso da humanidade não depende, como querem


religiosos de um lado e fascistas de outro, de crenças profundas, de
princípios arraigados, de religiões místicas ou econômicas. Todo o progresso da
humanidade se deve unicamente à descrença, ao ceticismo. Desconfiar é
progredir.
CONVERSA COM JOSÉ MEDEIROS, FOTÓGRAFO DO PERÍODO ÁUREO DA REVISTA O CRUZEIRO. 1960

O s reformadores sociais afastados da realidade sempre me lembram o


conselho de segurança para pregar um prego sem perigo de se machucar:
basta pegar o martelo com as duas mãos.
CONVERSA COM OLAVO RAMOS, COMERCIANTE. 1968
Etica e disciplina

E claro que você deve ter a coragem das suas convicções e enfrentar as coisas
cara a cara e – desde que, naturalmente, não vá contra seus próprios e
inerradicáveis interesses, desde que, é óbvio, respeite fundamentalmente a
família (a sua e também a dos outros, é evidente, sem deixar de respeitar a
institucional, naturalmente), desde que observe que a verdade não pode estar
toda do seu lado e que o outro lado também tem sua parcela, desde que suas
idéias sejam sempre sadias e patrióticas e que você observe à risca os estatutos
vigentes, os decálogos em curso, as apostilas recomendadas, as orientações
gerais sobre aquilo em que é permitido opinar, as bases do que é respeitável
moral e civicamente, os exemplos de cima, até onde se pode chegar dentro do
sistema, até onde vão suas responsabilidades na sociedade em que se vive, não
fugindo também, o que é compreensível, das normativas propostas e
estabelecidas, evitando cair em erros ideológicos fundamentais, respeitando os
inúmeros estatutos parciais ou locais e jamais desrespeitando as bases em que
estão assentados os nossos princípios de povo e de nação assim como nossos
usos e costumes –, pode exteriorizar toda sua convicção e dizer tudo o que
pensa, contar tudo o que sabe, com coragem e destemor, doa a quem doer. Você
deve apenas tomar o cuidado, que acreditamos perfeitamente válido, de declarar,
antes de mais nada, a fim de não ferir susceptibilidades, que qualquer
semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência e que tudo, é
evidente, se passa em outra época e num país imaginário.
ORAÇÃO AOS JOVENS. CONVERSA COM O FOTÓGRAFO FRANCÊS JEAN MANZON, MUITO JOVEM ENTÃO. 1969

T odas as estórias (sobretudo a História) precisam ser contadas de novo agora


que, afinal, começamos a ser sinceros.
CONVERSA COM MARCOS VASCONCELOS, ARQUITETO E ESCRITOR. 1972

E ntre a burrice e a canalhice não passa o fio de uma navalha.


ARENGA NO ROTARY CLUBE. 1963

T razemos do berço um conteúdo de felicidade ou infelicidade que é preciso


aprender a usar O mais das vezes o sofrimento está em nós mesmos, não no
que nos acontece. Abrindo os braços cada um de nós é sua própria cruz.
COMO ENFRENTAR O FATO DE SER. 1971

S e os seus princípios são rígidos e inabaláveis, você, pessoalmente, já não


precisa ser tanto.
CONVERSA COM JARDS MACALÉ, MÚSICO, COMPOSITOR, CANTOR, HERDEIRO DE MOREIRA DA SILVA. 1959

O fundamental é aproveitar o tempo, não no sentido utilitário e materialista,


mas no sentido do gozo existencial, do dia-a-dia, da hora-a-hora. Quem
perde tempo, se perde no tempo.
O ÚTIL E O DESFRUTÁVEL. 1957

N ão se fie na crença de que são os ratos os primeiros a abandonar o navio.


Qualquer homem sábio ao ver o navio afundando deve tentar bater os ratos
na corrida para a salvação.
TERTÚLIA COM ALI KAMEL, JORNALISTA. 1992

E preciso levar um objetivo avante e às suas supremas conseqüências, não se


parando diante de argumentos e palavras por mais que estes pareçam sábios
e sensatos. Concordo com tudo que dizeis mas lutarei até a morte para impedir-
vos de dizê-lo.
PARÓDIA DE MORAL. 1961
Profissoes: limitacoes e deveres

N ão podemos, como profissionais, oferecer ao público que nos freqüenta uma


criação que ele também se julgue capaz de realizar. Seria o mesmo que um
artesão fabricante de cadeiras nos oferecer uma cadeira feita com três ripas mal
pregadas, mal alinhadas e mal envernizadas e nos cobrar por isso um preço
profissional. No campo viril do artesanato, isso é impossível, pelo menos a esse
ponto absurdo e pelo menos em larga escala. Uma cadeira comprada será sempre
melhor do que as que conseguimos fazer em casa com nossas parcas habilidades
e ferramentas inadequadas. E, no entanto, sem sombra de dignidade profissional,
artistas, jornalistas e, sobretudo, produtores de televisão, não têm vergonha de
apresentar ao público espetáculos degradantes como caráter, humilhantes como
representação geral do nível artístico do país, e perigosíssimos no sentido de que
uma massa de estupidez muito grande acaba embotando mesmo o potencial de
inteligência mais privilegiado.
PREFÁCIO PARA A PEÇA POR QUE ME UFANO DO MEU PAÍS. 1955

M al baseada num juramento (hipocrático) que na verdade é apenas uma lei


de proteção ao clã médico, a medicina é pretensiosa e se arroga uma
infalibilidade papal, que lhe dá margens de escapar com uma porcentagem de
erros assustadora. Morre mais gente de medicina do que de doença. É um ato de
extrema insensatez procurar o médico à menor dor de cabeça. A medicina não
perdoa nem se arrepende.
DECLARAÇÃO DEPOIS DE PROTESTAR CONTRA O MAU ATENDIMENTO NUM HOSPITAL DO INPS. 1969

U ma teorização desvairada sem apoio na realidade é inútil e até mesmo


perniciosa. Não se conhece um simples poeta, desde a antigüidade até
nossos dias, que não tenha escrito amplamente sobre o amor. Mas os poetas são,
via de regra, maus amantes.
DIÁLOGO COM SANTOS FERNANDO, EXCELENTE HUMORISTA PORTUGUÊS. 1971

O marginal adivinha brechas na sociedade e se antecipa à pragmatização de


suas necessidades. Sem ter o que fazer, onde aplicar seu tempo e como
ganhar sua vida, o “picareta de ouro”, por exemplo, percebeu que havia
prestadores de serviços (intelectuais, artistas, fotógrafos, cinegrafistas)
interessados em prestar serviços, enquanto os homens interessados em lhes dar
serviço (industriais e empresas de modo geral) não sabiam como arregimentá-los
e entrar em contato com eles. O “picareta”, dada sua disponibilidade, tinha
contatos com uns e outros, e passou a se beneficiar desse conhecimento
arranjando encontros entre os prestadores de serviços e os usuários desses
serviços. Os encontros se realizavam quase sempre em almoços longos e fartos,
única compensação do marginal que os promovia. Daí a institucionalização
dessa atividade com o nome de Relações Públicas”, foi só uma questão de
tempo. Toda atividade social nova tem um ar de impostura.
FALA COM MONIQUE DUVERNOIS, DECORADORA. 1985

A medicina, tendo feito alguns progressos, não conseguiu, contudo,


acompanhar o ritmo evolutivo dos males do mundo. Seu know-how, por
exemplo, em relação a doenças psíquicas, é ridículo, e ela se sente tão impotente
em relação a isso que entregou essa parte substancial da patologia do ser humano
a charlatães perigosos chamados psicanalistas. E enquanto progredia
brilhantemente em algumas, poucas, intervenções cirúrgicas, e em aplicações de
descobertas substanciais de laboratórios (exames, pílulas preventivas e
variedades químicas) esquecia a parte mais séria, definitiva da terapia: o exame
do cliente, individualmente (fora dos meros check-ups tecnológicos), analisado
como ser humano por outro ser humano, aliás, um dos mais respeitáveis seres
humanos em todos os tempos: o clínico geral, quando competente. Por isso a
maior causa da mortalidade no mundo inteiro continua sendo esse mal terrível
chamado diagnóstico.
CONVERSA COM O DR. CARLOS GIESTA, ORTOPEDISTA. 1970

O tipo de atividade fechada em si mesma, sem nenhuma outra utilidade que


não seja o seu próprio exercício, não tem porque ser incrementada pois só
serve a afirmações individualísticas e/ou nacionalistas no pior sentido. O xadrez
tem tido sua prática incrementada apenas por motivos competitivos lamentáveis.
Pois é um jogo que não melhora o ser humano para nenhuma outra prática, não o
leva a melhor relacionamento humano, não o torna melhor cidadão no sentido de
uma lição de vida ou ação social, nem mesmo à melhoria da linguagem
rotineiramente falada. O xadrez desenvolve apenas o tipo de inteligência que
leva o indivíduo a jogar melhor xadrez.
RECADO A MEQUINHO, CAMPEÃO BRASILEIRO DE XADREZ. 1972

O extremo cuidado na observação científica e um tempo de espera para


confirmações e recheques são fundamentais a qualquer tese. O risco é
exemplificado pelos cientistas soviéticos que, depois de, apressadamente,
anunciarem ao mundo a certeza de que na Lua havia borracha e latão,
verificaram que tinham recolhido na Lua apenas uma tampa de lata de cerveja e
um salto de bota deixados pelos astronautas americanos.
DIÁLOGO COM CÉSAR LATTES, CIENTISTA. 1970

A maior parte da humanidade tem absoluta necessidade de se punir com o


trabalho. E nisso acaba adorando o ato de trabalhar e viciada nele. A
totalidade dos trabalhadores é absolutamente irrecuperável.
RECADO PARA BEATRIZ RÓNAI HOFMEYER (BIA). 1996

1 O ministro deve, a todo momento, ser encorajado na sua crença de que dirige
o Ministério. 2) A infalibilidade do ministro deve ser reafirmada em todas as
ocasiões. 3) Jamais se deve dar ao ministro mais informações do que necessita
para tomar a decisão certa, i.e., a decisão que os burocratas já decidiram. Um
bom ministro é aquele que segue cegamente a decisão de seus companheiros
burocráticos. 4) Um mau ministro é aquele que desenvolve idéias próprias
(erradas) a partir de informações dadas pelos burocratas. 5) Um ministro
perigoso é aquele que tem idéias novas e decisões próprias e exige dos
burocratas mais informações do que lhe foram dadas. 6) O ministro é um
amador. O burocrata é um profissional.
MINISTROS. COMO TRATÁ-LOS. 1953

A s frases em língua estrangeira não devem ser grifadas nem aspeadas,


economizando mudança tipográfica e espaço gráfico.
ECONOMIA LITERÁRIA. ENCONTRO COM FRANCISCO BRENNAND, ESCULTOR. 1960

E conomia definitiva para a indústria do livro e conseqüente valorização do


poeta verdadeiro é publicar tudo quanto é verso em linhas corridas, a poesia
só surgindo quando for mesmo verdadeira e não forçada através de truques
gráficos. Alguns poetas, para valorização definitiva poderiam ser publicados
clandestina e disfarçadamente, como tratados de economia.
CONVERSA COM ELIANA CARUSO. 1984

O s diálogos não devem ter traços. Só um leitor muito idiota precisa desse
aviso para saber que um personagem está falando. Basta apurar o ouvido.
RECOMENDAÇÃO A CARMEM ÁLVARES, BAILARINA, ESPECIALISTA EM ENCADERNAÇÃO. 1988

F icam abolidas dedicatórias, folhas em branco separando capítulos, espaços


em branco em fins de capítulos, margens muito grandes, promoção pessoal
dos autores com títulos honoríficos e de obras, citações de crítica, etcetera.
PAPO COM HELOÍSA MAGALHÃES, DESENHISTA, PINTORA. 1997

E ducados em palavras, enredados em palavras, vivendo de palavras, negando


as palavras, intoxicados de palavras, os psicanalistas são um mal
desnecessário, e a semântica, o seu ópio.
O SÉCULO DO MEDO. 1971

E u não sou um grande humorista. Sou apenas o sujeito mais engraçado da


família mais engraçada da cidade mais engraçada do país mais engraçado do
mundo.
TRINTA ANOS DE MIM MESMO. 1972

R eunida a junta de médicos e decidida a tua operação, pouco importa se você


vai morrer com uma votação de 5 x 4 ou por absoluta unanimidade.
DAS PROFISSÕES PERIGOSAS. CONVERSA COM O DR. CÉSAR LIMA SANTOS, MÉDICO. 1963

O crime não compensa, mas enquanto um trabalhador comum tem que


exercer a sua atividade nos momentos e nos lugares a que o obrigam, da
maneira como os patrões exigem, o criminoso pelo menos pode escolher a hora,
o local e o método de trabalho.
CONVERSA COM O ATOR ARMANDO COUTO DURANTE OS ENSAIOS DE DO TAMANHO DO DEFUNTO. 1955

U ma sabedoria que já chegou facilmente às disputas esportivas, onde partidas


entre dois países são julgadas por um juiz neutro, ainda não atingiu setores
mais complexos ou mais importantes do ponto de vista social. E continuamos a
ver julgamentos feitos por pessoas inidôneas, um censor impondo uma censura
sem a qual ele próprio não pode sobreviver, médicos julgando crimes médicos
cuja condenação recairia sobre suas próprias cabeças, e economistas decidindo
questões financeiras que, ocasionalmente, os enriquecem. O sistema só estará
depurado no dia em que se firmar, definitivamente, que um rato não pode ser juiz
na partilha de um queijo.
CONVERSA COM O JUIZ TEÓDULO MIRANDA. 1972

A medicina pode ser melhorada com medidas simples: o nome do médico ser
sempre publicado junto aos avisos fúnebres do paciente falecido, o cliente
só pagar depois de curado e a morte do cliente obrigar o médico, logo depois, à
devolução de tudo que cobrou.
POR UMA MEDICINA REALMENTE SOCIAL. 1965

M ais da metade das atividades humanas está baseada, parcial ou totalmente,


na desconfiança: o advogado, o militar, o chaveiro, o contador, o detetive,
o fiscal e o tabelião devem boa parte de sua fortuna a essa senhora ao mesmo
tempo evasiva e sempre presente.
REFLETINDO NO TERRAÇO AGRÁRIO DE RUBEM BRAGA, ESCRITOR. 1968

U ma profissão como outra qualquer, exercida por homens falíveis e sujeitos


às pressões do meio político e econômico, a medicina ou é mitologizada ou
excomungada. E o médico, enterrando seus erros, se justifica apenas: “Bem, um
dia tinha que morrer”.
DIVERSIDADES PROFISSIONAIS. DISCURSO NO JARDIM DO MEYER. 1952

F icarão abolidas quaisquer passagens descritivas que tenham mais que 10


linhas (para descrição de uma cidade) ou três para descrição de uma sala.
Será usada a técnica cinematográfica, amplamente vitoriosa, de limitar a
determinado tempo (no caso da literatura, número de folhas) para contar uma
história ou tratar de um problema. Para filmes de uma hora e 40 corresponderão
livros de 30 páginas e, correspondendo, digamos, ao “...E o vento levou”
teremos romances fleuve de 50 páginas. Dessa forma os autores não perderão
tempo descrevendo seus personagens discando telefones (já “cortam” para o
meio do diálogo) nem atravessando a rua (já abrem a porta para sair e aparecem,
do outro lado, entrando no palácio do arquiduque). Descrições maiores só em
livros de geografia.
ECONOMIA LITERÁRIA. 1960

A medicina preventiva não é um bem em si mesmo. Os exames periódicos,


sem necessidade aparente, não são um bem em si mesmos. Ninguém até
hoje provou se se morre mais por falta de assistência médica ou por excesso.
CONVERSA COM O DR. IVO PITANGUY, CIRURGIÃO PLÁSTICO. 1961

O humorista é o último dos homens, um ser à parte, tipo que não é chamado
para congressos salvadores do mundo, não é eleito para academias, não
está alistado entre cidadãos úteis da república, semeia ventos e colhe
tempestades. É um tipo que muitos acham engraçado e há até os que o louvam e
endeusam. Mas um dos defeitos que não pode ser tolerado pelo humorista é a
própria vaidade. A vaidade vai bem ao comediante, por natureza extrovertido. O
humorista, por natureza introvertido, sabe que bastará facilitar um pouco que o
transformarão em estátua e mito. Mas aceitar isso será perder a substância
fundamental do humorista.
DECÁLOGO DO HUMORISTA. 1955

uando o ar de seu próprio tempo lhe é insuficiente, o homem respira a utopia do


futuro. Mas os grandes utópicos não foram residentes de um país
Q impossível senão deste mesmo, melhor. E Leonardo, sonhando com um
futuro tecnológico para o qual deixou contribuições ainda hoje consultáveis, não
teve o pesadelo de suas conseqüências: o aproveitamento do gênio humano para
o pior da ação humana – o massacre de tudo e todos, em nome de um poder
doentio e de uma fé suspeita.
CONVERSA COM PEDRO DUTRA, ADVOGADO. 1988

N em a guilhotina, nem o machado, nem o cepo, nem o gás, nem a corda


foram suficientes para intimidar o instinto criminoso do ser humano. Quer
dizer, por mais bárbaro que seja o processo de assassinato oficial, sempre há um
carrasco para executá-lo.
CONVERSA COM O ATOR E DIRETOR DE TEATRO CARLOS KROEBER, O CARLÃO. 1972
Como lidar com as contradicoes

E sabido que o fato novo assusta os indivíduos, que preferem o mal velho,
testado e vivido, à experiência nova, sempre ameaçadora Se você disser ao
cidadão desprevenido que o leite, por ser essencial, deve sair das mãos dos
particulares para cooperativas ou entidades estatais, se você disser que os
bancos, vivendo exclusivamente das poupanças populares, não têm nenhuma
razão de estar em mãos privadas, o cidadão o olhará com os olhos perplexos de
quem vê alguém propondo algo muito perigoso. Mas, se, ao contrário, você
advogar a tese de que a água deveria ser explorada por particulares, todos se
voltarão contra você pois – com toda razão – jamais poderiam admitir essa
hipótese, tão acostumados estão com essa que é uma das mais antigas
realizações comunitárias (comunistas?) do homem: a água é direito e serventia
de todos. Por isso o cidadão deve ficar alerta, sobretudo para com os malucos,
excepcionais e marginais, pois estes, quase sempre, são os que trazem as mais
espantosas propostas de renovação contra tudo que foi estabelecido.
DE OLHOS ABERTOS. VOANDO NUM AVIÃO COM UM MOTOR PARADO ENTRE LONDRES E HONG KONG. 1965

A necessária materialização de certos estímulos orgânicos leva à frustração, à


decepção e à depressão. O sexo seria uma coisa ainda mais maravilhosa se
não houvesse contato físico.
CONVERSA COM ISABEL PANE, PSICANALISTA. 1967

A história do Brasil não é a mesma no Paraguai.


CONVERSA COM YLLEN KERR, JORNALISTA, FOTÓGRAFO E ATLETA. EM ASSUNÇÃO. 1971

E bom considerar sempre que, no Decálogo, no mandamento dizendo para não


fazermos aos outros aquilo que não queremos que nos façam, há um
desconhecimento total da natureza humana, sua diversidade e amplitude de
interesses. Para cada masoquista há um sádico e, portanto, nosso comportamento
social não deve estar condicionado a uma repetição monótona e pouco prática. O
bom líder deve ter sempre presente que os homens não fervem todos à mesma
temperatura.
DIÁLOGO COM CÉSAR LATTES, CIENTISTA. LOS ANGELES. 1948
ual a diferença entre uma pessoa física e uma pessoa jurídica? A pessoa física, se
você aperta, dói. A pessoa jurídica é insensível. E imortal.
Q PAPO COM CARMEM MIRANDA, CANTORA, ATRIZ DE CINEMA. LOS ANGELES. 1948

N ão conheço ninguém que, como eu, tenha tanta noção de ser um homem
medíocre. O que, desde logo, me torna um homem extraordinário.
CONVERSA COM JAIME LERNER, ARQUITETO, POLÍTICO. 1978

T oda regra tem exceção. E se toda regra tem exceção, então, esta regra
também tem exceção e deve haver, perdida por aí, uma regra absolutamente
sem exceção.
RECADO AO XARÁ MILLÔR (DUVAL), DE BELÉM DO PARÁ. 1995

E m todos os momentos da história ficou provado que um país que precisa de


um salvador não merece ser salvo.
CONVERSA COM MILTON CAMPOS, GOVERNADOR DE MINAS GERAIS E CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.
1955

A os desesperados, que pensam nada ser possível, aos que acreditam que o
mundo não tem correção, convém lembrar que com suas guerras múltiplas,
seus problemas inacreditáveis, seus acontecimentos aterrorizantes, o nosso
século pode ser considerado o mais interessante da história. E há apenas sessenta
e sete anos nem existia.
ENTRETENIMENTO COM IVAN MOURA CAMPOS, FILÓSOFO, ESPECIALISTA EM INTERNET. 1996

S e você não consegue mudar de atitude, procure ao menos mudar de


apartamento. Isso, no fundo, talvez seja uma mudança mais radical.
CONVERSA COM CAULOS, JORNALISTA, DESENHISTA E PINTOR. 1972

E m dúvida, não duvide.


CONSELHO A WAGNER TISO, COMPOSITOR, MAESTRO. 1984

E m dúvida, tente o contrário.


TELEFONEMA PARA JOSÉ RUBEM FONSECA, ROMANCISTA. 1979

E m dúvida, não se meta.


CONVERSA COM O POODLE IGOR, UM SER HUMANO COMO OUTRO QUALQUER. 1998

E ntre o real e o imaginário, entre o aferível e o não dimensionável, o material


e o intemporal, a escolha é quase sempre impossível e nem mesmo
fundamental. Qual é o melhor: aquela noite inesquecível ou aquela noite na qual
você nem mesmo se lembra o que aconteceu?
CONVERSA COM LEON ELIACHAR, HUMORISTA. 1956

U ma das contradições do homem educado num sistema possessivo e


restritivo, tendo a mulher como dependente total, é que ele pode não ter
relações sexuais com ela durante seis meses mas quer matar qualquer pessoa que
o faça.
PERMISSIVIDADE. CONVERSA COM RAUL SOLNADO, ATOR, COMEDIANTE. LISBOA. 1973

S e em vez de Português a gente falasse Inglês chamaríamos o smoking de


tuxedo. E footing a gente chamaria de walking.
CONVERSA COM SENA CHAVES, EDITOR PORTUGUÊS. 1970

Q ualquer homem, andando uma média de doze horas por dia, levaria apenas
duzentos e oitenta e cinco dias para ir do Rio de Janeiro a Paris. Isso,
naturalmente, se não houvesse o Oceano Atlântico no meio.
IDEM

B asta você substituir o vódica por uísque e o suco de tomate por limão e
açúcar para transformar um Bloody Mary num uísque sauer.
CONVERSA COM LUÍSA CHAVES FERREIRA, EMPRESÁRIA. LISBOA. 1973

T oda verdade revolucionária é combatida e só lentamente vai se implantado


até se impor à massa. Quando se impôs é porque já não serve à verdade
nova que se desenvolveu junto com ela. Donde nada ser mais falso do que uma
verdade estabelecida.
CONVERSA COM SCARLET MOON, JORNALISTA. 1973

A s aparências trazem equívocos e os mais inflamados teóricos nem sempre


são os que mais se esforçam pela causa comum. O suor do gozo é
exatamente igual ao suor do trabalho.
VER PARA NÃO CRER. MESA-REDONDA NA TV TUPI. 1954

A s pessoas acreditam mais no rótulo do que no conteúdo da garrafa. Você,


preservando o conteúdo da garrafa, que é a sua ação cotidiana, não deve,
contudo, esquecer o rótulo, que é o logotipo de sua vida, a imagem com que as
pessoas o encaram. A verdade é que se você conseguiu fama de que levanta
cedo, pode dormir o dia inteiro.
FALANDO COM SÉRGIO CABRAL, JORNALISTA, HISTORIADOR DE MÚSICA POPULAR. 1969

N unca vi um canalha que, nas reuniões íntimas, não invectivasse, com toda
sinceridade, os canalhas do mundo. Nem um ladrão que não fosse contra o
roubo. Mulheres e homens de comportamento desregrado são, em geral, os mais
ferrenhos moralistas. E a primeira coisa que um governo despótico faz é
inaugurar uma praça com o nome de Praça da Liberdade.
EM NOME DE DEUS. OBRAS COMPLETAS. 1970

S e a televisão fosse sem imagem se chamaria rádio e não teríamos que assistir
certos programas.
CONVERSA COM RAUL BRUNINI, RADIALISTA. 1960

S e você chegar a um país e quiser saber da liberdade política que têm seus
cidadãos, basta ler os jornais desse país. Se dizem que o governo é
admirável, seus mentores maravilhosos, dignos e capazes, é porque os
governantes são déspotas que liquidaram com a liberdade de expressão. Agora,
se os jornais dizem que os governantes são incapazes, hipócritas e estão levando
o país à ruína, o país está, pelo menos politicamente, muito bem.
CONFERÊNCIA NO INSTITUTO DE SURDOS-MUDOS, EM PRAGA. REALIZADA PELO MÉTODO BRAILE. 1956

O Amazonas seria bem menor do que Mato Grosso se não fosse maior do que
Sergipe.
CONVERSA COM FLÁVIO MIGLIACIO, DESENHISTA, COMEDIANTE. 1962

S e você está profundamente consciente de que o seu objetivo é o ser humano,


não se importe com os argumentos contrários. Às vezes você se sentirá
dialeticamente perdido, quando o adversário o confrontar com o ridículo ou a
derrisão. Mas quando sentir que não pode vencer a discussão bata com a colher
no prato. É revolucionário.
DURANTE UM JANTAR DE CERIMÔNIA NA EMBAIXADA INGLESA. 1957

J oe Louis jamais teria chegado a campeão de boxe se não vencesse os seus


adversários.
ADVERTÊNCIA A JOÃO MÁXIMO, JORNALISTA, HISTORIADOR DE MÚSICA POPULAR E FUTEBOL. 1983

U m cego apura profundamente seu senso de audição. Essa afirmativa


desvairada de otimistas que estão sempre buscando uma compensação
impossível para os desastres naturais e os espantosos erros da natureza, só pode
ser ratificada e apoiada por um exemplo ainda mais visível da lei das
compensações: um indivíduo com uma perna mais curta do que a outra tem
sempre, infalivelmente, a outra perna mais comprida.
MANIFESTO CONTRA A NATUREZA. 1956

N ão é possível acreditar em reformadores pragmáticos, o tempo todo seguros


a seus racionalismos, tentando conduzir a história pelo cabresto curto da
dignidade de comportamento, do acordo sereno, do compromisso tático de não
quebrar a louça nem ferir direitos. A revalorização constante do ser humano
dentro da sociedade presume excessos, iras, tremendas injustiças. A Revolta não
pode dar a festa sem convidar a Indignação.
A TEORIA NA PRÁTICA. OBRAS COMPLETAS. 1970

O que é Dialética, vocês me perguntam? Bem, quando os radicais afirmam


que “não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos” eu lhes
respondo que “depende de quantos ovos”. Quando os conservadores de uma
sabedoria perempta me afirmam que “o hábito não faz o monge” eu lhes
respondo “mas fá-lo parecer de longe”. Quando os embromadores de sempre
envolvem alguém à minha frente com a pergunta clássica “o que é que pesa
mais, um quilo de plumas ou um quilo de chumbo?” já com a resposta óbvia e
embaraçosa de que um quilo de plumas e um quilo de chumbo só podem pesar
um quilo, eu lhes respondo dialeticamente: “Na verdade um quilo de plumas só
pesa um quilo na relatividade da balança. Mas, do ponto de vista absoluto, como
o volume de um quilo de plumas é imensamente maior do que o de um quilo de
chumbo, o quilo de plumas sofre uma resistência enorme do ar e para marcar um
quilo na balança tem que ter mais do que um quilo de chumbo”. Fiquem
tranqüilos, irmãos: sempre se pode provar o contrário.
OS DOIS LADOS DA QUESTÃO. MONOGRAFIA. 1971

O que é estranho, nessas reiteradas afirmativas das autoridades colocando-se


sempre a favor da apuração de riquezas ilícitas, é elas suporem que haja
riquezas lícitas.
CONVERSA COM IVAN PINHEIRO MACHADO, PINTOR, EDITOR. 1983

A lei deve ser posta em prática com prudência e as penas distribuídas


parcimoniosamente, como um remédio ruim. Toda autoridade sábia exerce
apenas metade dos seus direitos, uma forma de se livrar de metade de suas
obrigações tediosas ou cruéis. Os criminosos, fora das práticas que lhes dão essa
designação, também são seres humanos, às vezes até mais amáveis ou
fascinantes do que os cidadãos prestantes. De qualquer forma, convém não
esquecer que um facínora, preso muitas vezes, acaba íntimo do delegado.
INTRODUÇÃO PARA AS OBRAS COMPLETAS. 1970

T odo cuidado é pouco com os contestatários tipo galináceo que cacarejam o


tempo todo na esquerda mas põem seus ovos cuidadosamente na direita.
CONVERSA COM O JORNALISTA LUÍS EDGAR DE ANDRADE. 1972
epito e repito sempre: é preciso rever constantemente nossas posições. Com

R relação aos gregos lembro que Sófocles escreveu um maravilhoso poema


dramático sobre a mãe (de Édipo) grega. Esse monumento literário foi
posteriormente deturpado por um grupo de judeus austríacos comandados por
Sigmund Freud.
CONVERSA COM RAUL BELÉM, POLÍTICO MINEIRO. 1970

O revisionista é aquele famoso bombeiro que na juventude foi incendiário.


Prefere acreditar que o mundo evolui por si mesmo para não ter que se dar
ao trabalho de lutar por sua evolução. Chama “de ferro” uma cortina de idéias e
jamais pensa em encher um regador para molhar os tigres de papel. Segundo
Jean-Jacques Marie, reduziu as propostas dialéticas a um socialismo num só país
para acabar aceitando o de uma rua só.
CONTATO COM JEAN-LOUIS LACERDA, FAZENDEIRO SHAKESPEAREANO INTERNACIONAL. 1977

O genocídio começa na discriminação contra os velhos. Devido a cuidados


especiais, diminuiu muito, no país, a mortalidade infantil. Já os velhos
continuam morrendo aos montes.
CONVERSA COM BORORÓ, COMPOSITOR. 1973

O governo teima em atrair turistas para o Rio, cantando, em prosa e verso, as


inexcedíveis belezas da cidade (do país). Acho que o Rio, justamente,
deveria ser interditado ao turista, como vergonha nacional.
TURISMO É PROSTITUIÇÃO. 1973

A falta de autocrítica científica trouxe como resultado apenas multidões de


consumidores ávidos e telespectadores passivos.
CONVERSA COM FERNANDO SABINO, JORNALISTA, ROMANCISTA. 1968

A s limitações intelectuais do homem diante do mistério do universo e de seu


próprio mistério metafísico são totais e simples de explicar, comparando-se-
as com a limitação dos outros animais, que o homem aceita e compreende
(porque seu orgulho não está em jogo). Um cão, um gato, até mesmo uma
formiga ou uma pulga podem apreender determinados fenômenos, coordená-los,
imitá-los e repeti-los. Mas você não ensina uma pulga a nadar, assim como você
jamais fará com que um cão leia um jornal, embora possa facilmente ensinar o
cão a ir buscar o jornal na porta. Da mesma forma o homem, capaz de entender
inúmeros problemas (isto é, de ir buscar o seu jornal metafísico), jamais
conseguirá saber de onde veio, para onde vai e o que faz aqui. E, se você mandar
que imagine o infinito, ele não consegue porque sempre acaba imaginando uma
abóboda imensa (a do céu) que, naturalmente, tem um outro lado. Mas se, ao
contrário, você quiser que ele imagine o finito, ele também não consegue porque
acaba limitando toda sua imaginação com uma abóboda, aliás a mesma. E
porque tem o cérebro limitado como o de qualquer outro animal, o homem se
apavora diante da morte, sem saber que esta é apenas uma promoção intelectual
saudada com uma gargalhada. Ao morrer, o homem, subitamente untado com
uma inteligência superior (matéria pura), bate na testa (inexistente), percebe que
o pesadelo era aqui e não lá, que, na verdade, agora é que ele está vivo, e
exclama às gargalhadas: “Mas, era isso?”
CONVERSA COM ALÇADA BAPTISTA, ROMANCISTA PORTUGUÊS. 1968
Economia. Sistemas

D a ascendência hitita, o Rico é o segundo ou terceiro filho de Noé (os


eruditos divergem) e, provavelmente, o que mais zombou do pai ao vê-lo no
pileque histórico em regozijo por ter salvo o Homem. Daí, seus descendentes
ligarem-se aos poderosos do tempo, a Ceres (a da cornucópia), a Fortuna (deusa
italiana cujo nome lhe indica os poderes), a Fortunato (habitante de Famagusta
que recebeu, dessa mesma deusa, Fortuna, uma bolsa que não se esvaziava
nunca) e a Midas. Real, e com toques do divino em sua natureza, Midas
estabeleceu para a posteridade os fundamentos do viver do rico. Primeiro –
embriagou Sileno, pai adotivo do poderoso Baco. Segundo – durante anos não
largou Sileno em farras que atroaram aos céus. Terceiro – conseguiu de Baco,
por ser tão amigo de Sileno, o poder de transformar tudo em ouro. Quarto –
apesar desse seu extraordinário poder e, como conseqüência dele, não podia
comer. Quinto – tinha orelhas de burro, que ninguém via. Ou fingia não ver.
GENEALOGIA E BIOGRAFIA DOS RICOS. 1960

E sabido que, no trato do dinheiro, um golpe de audácia pode fazer uma


fortuna. Mas, na média, os muito ricos fizeram sua riqueza desprezando
tentações, querendo garantias, empregando certo, exigindo mais no momento em
que o cliente tem menos e menos quando o cliente é poderoso e pode negociar. O
gênio dos grandes banqueiros é evitar mais os riscos do que aproveitar as
oportunidades.
APARTE NA ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO BANCO DO BRASIL. 1971

N um sistema de autoproteção que procura se reforçar e ampliar, os impostos


sociais – sobretudo o de renda – são fictícios para os ricos e reais e
esmagadores para os pobres. Pode-se falsificar e glosar de mil maneiras
diferentes a escrituração de uma empresa. Até hoje ainda não apareceu o gênio
capaz de falsificar um salário.
COMENTÁRIO AO IMPOSTO DE RENDA PROGRESSIVO, COM PAULO MERCADANTE. 1967

M orrer rico é sinal de extrema incompetência.


Significa que você não usufruiu, ou pelo menos não usufruiu todo, o seu
dinheiro. Além disso, um rico que gasta tudo que tem antes de morrer, livra seus
herdeiros do odioso imposto de transmissão.
MÁXIMAS MILIONÁRIAS, CONVERSA COM UM MILIONÁRIO ARRUINADO. 1972

O dinheiro, na mão de pessoas não adestradas para usá-lo, é a fonte de todo o


mal do mundo. Por isso o dinheiro deve ser conservado cada vez mais na
mão de um número bem pequeno de pessoas especializadas, aquelas que, por
tradição familiar ou vocação de berço, têm o tino e a sabedoria de como usá-lo.
Os pobres geralmente são muito incompetentes quando investidos no papel de
milionários. Deve-se evitar para eles a maldição implícita no excesso de pecúnia.
CONVERSA COM JÂNIO DE FREITAS, JORNALISTA. 1978

A s grandes fortunas, as extraordinárias massas de dinheiro, não trazem,


necessariamente, uma felicidade proporcional. Um multimilionário como
Onassis, gastando às vezes mais de dois milhões de dólares por mês, não
consegue ser mais feliz do que o Baby Pignatari, que gasta apenas um milhão.
ENCONTRO COM DANUSA LEÃO, JORNALISTA, INTERNACIONALISTA. 1979

S empre se pode concordar, parcialmente, com a idéia demagógica de que “o


dinheiro não é tudo”. Importante e fundamental, o dinheiro, porém, tem que
ser olhado com extrema relatividade. Pois, se a falta de dinheiro traz certa e
fatalmente a infelicidade, sua posse, todos sabem, não é nenhum passaporte para
a euforia existencial.
COMO ACEITAR AS CONTRADIÇÕES PRÁTICAS E TEÓRICAS. DISCURSO NO LICEU LITERÁRIO PORTUGUÊS. 1967

U m falsário não tem muita dificuldade em fazer dinheiro. Sua dificuldade é


gastá-lo.
TELEFONEMA PARA JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA, POLÍTICO MINEIRO. 1985

N um mundo em que a subsistência individual é problema de cada um, o


dinheiro é um deus que compra o canil, o cão e o abanar do rabo.
BILHETE PARA GLAUCO MATOSO, ESCRITOR, ERUDITO, POETA. 1987

O s sistemas matemáticos têm sua própria lógica e conseqüência. Só no


sistema decimal 2 e 2 são quatro, não acontecendo o mesmo no sistema
exagesimal, nem nas denominações binárias nem nas canções populares. É
importante saber isso para você não se desesperar com as oscilações da bolsa
onde tem a possibilidade de ganhar espantosamente, mas nunca perde mais de
100%. Porém, cuidado com a matemática das sociedades anônimas: quem de
100 tira 51 perde o controle da empresa.
DIÁLOGO COM SÉRGIO LACERDA. 1970
O s comunistas são contra o lucro. Devemos ser apenas contra os prejuízos.
TÁTICA DE PRODUÇÃO. 1954

O s milionários gostam de fazer mistério sobre sua fortuna, acrescentando ao


gozo material do que possuem a superioridade intelectual sobre os que os
freqüentam. Mas é muito fácil ficar milionário. Basta para isso dormir e acordar
só pensando em dinheiro. Não abrir mão de qualquer possibilidade de ganhar
dinheiro, mesmo que o contrário lhe dê imenso prazer. Ser frio e racional na hora
de dar ou emprestar a seu melhor amigo, parente e até irmão, cobrando os juros e
as taxas exatas, embora seu coração lhe diga que desta vez você devia ser
generoso. Não ter qualquer escrúpulo, em qualquer ocasião. Pensar sempre no
melhor partido que você pode tirar de uma situação desastrosa em que se
encontram seus companheiros de negócio. Não temer o castigo de Deus, a
opinião pública, a perseguição legal. Pensar que um lucro grande é melhor do
que um pequeno mas que um lucro pequeno, repetido muitas vezes, pode vir a
ser melhor do que um lucro grande. Se você, em suma, usar da subserviência
exata no momento em que esta for necessária, a audácia e a grosseria precisas
nos momentos em que a canalhice e a violência forem os melhores caminhos, se
não tiver nenhum problema de consciência, nenhuma dúvida moral, nenhuma
ambição de cultura, nenhuma preocupação quanto aos outros o acharem
indecente, pérfido ou criminoso, o caminho da fortuna está facilmente aberto
para você, como para qualquer um.
O PRIMEIRO MILHÃO. OBRAS COMPLETAS. 1970

D entro de um sistema econômico os valores todos giram em torno dele. No


sistema capitalista o único valor é o do dinheiro acumulado por todos os
meios e imantado de todas as virtudes. “Meu amigo é milionário: que admirável,
que honrado, que inteligente, que capaz é o meu amigo!”
MEDITAÇÃO NA FURNA DA TIJUCA. 1967

A economia capitalista, com sua concentração egoísta e mesquinha de


riquezas, tem como resultado natural a imoralidade e a degradação humana
e em vão tenta nos convencer de que essa corrupção desenfreada é um
planejamento perfeitamente racional.
AFERINDO PREÇOS PARA CONTRIBUIR EM FAVOR DA CAMPANHA DIGA NÃO À INFLAÇÃO. 1973

O s teóricos do laissez-faire continuam ativos na esperança de que a lei da


oferta e da procura (a oferta sempre controlada pelos poderosos – a procura
sendo apenas uma conseqüência desse interesse) continue a engordá-los, ou a
pagar o regime de emagrecimento de suas belas mulheres. Mas é fácil calar os
que afirmam que a economia é um assunto particular entre produtores e
consumidores perguntando-lhes se o assassinato também é um affair particular
entre assassino e assassinado.
DIÁLOGO COM IVAN LESSA DIANTE DE UM PROGRAMA DE TELEVISÃO EM CORES, NO CANAL 4. 1972

J á concordei: “O dinheiro não é tudo”. Já discordei: “Tudo é a falta de


dinheiro”. E duvido: é fundamental mesmo muito dinheiro? São
fundamentais essas quantias imensas que, em vez de servirem a nossa vida, nos
obrigam a trabalhar por elas? Quais são os bens materiais mínimos que Santo
Agostinho apregoava como fundamentais para exercer as virtudes do espírito? O
miserável, é evidente, não pode colocar um calção de banho, como eu faço, e
caminhar na praia diariamente, feliz como uma criança. Mas o milionário
igualmente não pode. No balanço da felicidade humana quanto vale uma
amizade? Uma fé? Uma reputação? Aqui entre nós, Judas, 30 dinheiros foi
mesmo um bom preço?
DISCURSO PARA AS CRIANCINHAS DO BERÇÁRIO ACALANTO. 1973

E ntre Freud e Marx, um afirmando o pan-sexualismo, outro o pan-


economismo, estou mais com o último. Em inúmeras ocasiões da vida o
sexo não está presente. Nem direta, nem indiretamente. Nem materialmente, nem
por inferência. Nem na superfície, nem nas profundidades do psíquico. Já o
sentido econômico da vida é total e universal. Sem seu sentido econômico a vida
não existe. Sem economia (representada por qualquer esforço humano, horas-
trabalho) não se nasce nem se morre. E nas horas de confronto entre sexo e
necessidade econômica Freud perde para Marx de goleada. Coloquem diante de
um jovem que passou tempo indeterminado abandonado no deserto, uma linda
mulher e um magnífico prato de comida e ele só será atraído pela mulher depois
de encher o estômago. Pode-se dar uma colher de chá a Freud apenas afirmando
que quando um homem tem fome não há nada mais sensual do que a nudez de
um franguinho no espeto.
OBRAS COMPLETAS, P. 6.1970

O s crimes são apenas os juros que, de tempos em tempos, temos de pagar por
viver no pequeno lado bom de uma sociedade gigantescamente imoral.
LEGISLAÇÃO, PRINCÍPIOS. 1966

A Beleza é o subproduto de uma linhagem de ancestrais economicamente bem


situados.
CONVERSA COM CARLOS LACERDA, POLÍTICO CARIOCA. 1963
S er pobre é um pecado venial. Se conformar com isso é um pecado mortal.
CONVERSA COM JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA, POLÍTICO MINEIRO. 1971

C omo cada coisa tem seu preço, o homem já nasce devendo à mãe nove
meses de pensão. Não existe nada que não tenha um preço.
CONVERSA COM NORMA BENGUEL, ATRIZ. 1965

A Loteria Esportiva é o Imposto de Renda imposto aos miseráveis. Como o


Estado fica com 65% da renda bruta, o jogador paupérrimo, que arrisca dois
cruzeiros por semana, ao fim de um ano pagou Cr$ 67,60 de contribuição aos
cofres públicos.
RECADO A DELFIM NETTO. 1973

S eja o que for que venha a se estabelecer como ordem econômica, o


capitalismo está nas últimas, com disenteria e paralisia crônica, mas
resistindo como um velho rico e inútil, até o fim. Por isso, seus meios e métodos
de ação são cada vez mais desesperados. Cuidado com os estertores do
capitalismo. Ainda pode durar mil anos.
CONVERSA COM O ARQUITETO ZANINI. 1970

A verdadeira Pedra Filosofal é como matar a fome.


CONVERSA COM O ARQUITETO SÉRGIO RODRIGUES. 1972

P apai Noel, filho da exploração comercial, da ignorância infantil e da


incapacidade de reação paternal, é um velho meio idiota, meio malandro,
extremamente desonesto, que se presta a servir de intermediário para o
enriquecimento da sociedade de consumo, em todo o mundo. Um canalha.
CONVERSA COM JOSÉ CARVALHO, INDUSTRIAL, DONO DA DUCAL. 1958
Subdesenvolvimento

E muito difícil aceitar as condições subdesenvolvidas do país. Há uma


injustiça social permanente, a distribuição de renda é quase criminosa, as
condições higiênicas e educacionais de uma precariedade lamentável, a
exploração econômica é visível, a desumanização urbana flagrante. Por isso o
amor à Pátria tem que ser ensinado desde o berço ou o garoto, assim que cresce
um pouquinho, vai morar noutro país.
CONVERSA COM MARIA EUDÓXIA, BONITA. 1972

S er pobre não é crime mas ajuda muito a chegar lá.


CONVERSA COM RAUL SOLNADO, ATOR E COMEDIANTE PORTUGUÊS. 1973

O grau de (in)civilização de um povo se mede andando por essas praças do


interior, às vezes descarnadas e quase sempre inconfortáveis,
estranhamente desarborizadas ou salpicadas de árvores mesquinhas, mas
mostrando sempre um dinheiro (mal) gasto em estátuas de figuras locais em
granito e ferro ou nacionais em mármore e bronze. Com o dinheiro gasto em
cada uma dessas estátuas inúteis e feias se poderia plantar e manter dez árvores
frondosas, belas, fortes, amigas e acolhedoras. A coisa mais civilizada do mundo
é uma bela árvore.
CONVERSA COM ROSINHA FERNANDES. PIRASSUNUNGA. 1964

N um país em que o salário mínimo não atinge ¼ da população, criar


conceituações morais, falar em drogas, vícios, excessos sexuais ou morais é
inútil e ridículo. É aconselhar as pessoas a fugirem de tentações que jamais se
darão ao trabalho de tentá-las.
CONVERSA COM CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, JORNALISTA, POETA. 1973

A pobreza não é, necessariamente, vergonhosa.


Há muito pobre sem vergonha.
A TEORIA NA PRÁTICA. 1967

N o Brasil, atualmente, só há um extremismo perigoso: o dos indivíduos


extremamente conservadores.
CONVERSA COM FERNANDO SABINO, JORNALISTA, ROMANCISTA. 1973
um país como o Brasil, onde os preconceitos existem, por mais que sejam

N negados, onde o acesso é extremamente limitado, nascer branco e de classe


média já é estar numa diminuta faixa privilegiada da população. Daí a
validade da frase: “O menino nasceu preto apesar de todo o esforço dos
médicos”.
CONVERSA COM O ATOR MILTON GONÇALVES. 1967

E verdade que o voto não enche barriga. Mas chega aquele momento em que o
povo já comeu o suficiente.
RECADO A FILINTO MÜLLER, CHEFE DE POLÍCIA DA DITADURA VARGAS. 1951

T emos que começar por baixo. Como os Estados Unidos, por exemplo:
começaram com um país só.
LIBERDADE, LIBERDADE, PEÇA DE TEATRO. 1966

S ó existe uma urbanização respeitável: aquela que conseguir abrigar uma


família proletária de 16 pessoas no espaço urbanístico onde “só” cabe um
casal burguês.
CONVERSA COM MARCOS VASCONCELOS, ARQUITETO. 1964

A condição social de 70% dos brasileiros é inferior à de uma batata podre.


CONVERSA COM SEIXAS DÓRIA, POLÍTICO SERGIPANO. 1958

O sonho do rapaz subdesenvolvido não é entrar para a faculdade, pois isto é


impossível. É seqüestrar um avião, ir para os Estados Unidos lavar pratos,
ganhar muito dinheiro e voltar para abrir uma indústria em seu próprio país.
QUE FAZER?, OBRAS COMPLETAS. 1970

O triste de ser subdesenvolvido é que basta os Estados Unidos descobrirem e


anunciarem a terrível poluição de suas grandes cidades para que o
governador do Piauí, por uma questão de prestígio político, prometa aos seus
contribuintes que vai fazer tudo para acabar com a poluição em Teresina.
CONVERSA COM CARLOS CASTELO BRANCO, JORNALISTA. 1968

D adas as lamentáveis condições de produtividade, a distribuição de renda


precária e acesso impossível, o cidadão que neste país chega ao fim de seus
dias tendo conseguido tomar banho com regularidade e se alimentar duas vezes
por dia pode se considerar um homem vitorioso.
CONVERSA COM ZUENIR VENTURA, JORNALISTA. 1969

N as escolas e universidades de um país subdesenvolvido o aluno paga


adiantadamente por um péssimo produto que só vai receber daí a anos. Sua
tendência natural é, pois, vender ainda mais caro o que comprou tão caro e não
deixar que se mudem de maneira alguma as regras da cultura vigente a fim de
não perder tão precioso patrimônio.
DIÁLOGO COM CELSO CUNHA, FILÓLOGO. 1958

P egaram um homem em Caxias, amarraram-no num poste e o lincharam até a


morte numa atrocidade inconcebível. Inconcebível por quê? Não há leis
demais? As moradias não são pequenas demais e insuficientes? As diversões não
são caras demais? Os exemplos não são oficiais? As violências não são globais?
As repressões não são sexuais? Em alguém a contenção forçada vai explodir, o
exemplo do alto germinar. A alguém o círculo de ferro vai atingir. Não há fuga.
CONVERSA COM RODRIGO ARGOLO, DECORADOR E ARTISTA PLÁSTICO. 1972
Tecnologia: Utilidades e perigos

H ouve uma época em que viajavam apenas pessoas altamente habilitadas, só


elas, de Marco Polo e Humboldt. Iam com amor, viajavam com
conhecimento, levavam informações, traziam riquezas. Tinham uma consciência
de que estavam em missão, o seu perambular lhes dava um status, arriscavam
um tempo infinito entre ir e vir, tornavam-se, muitas vezes, estranhos para os
seus próprios conterrâneos, tanto tempo ficavam longe. Partir, realmente, era
morrer um pouco. A tecnologia trouxe a viagem em massa, o viajante odioso e
predatório, a classe média ignorante e ansiosa. Os navios estão cheios, os trens
estão cheios, os aviões, sobretudo, estão cheíssimos. Cada dia se viaja mais. Mas
já ninguém parte a sério.
CONVERSA COM MÁRIO GIBSON, EMBAIXADOR. 1972

O homem é o câncer da natureza. Estraga a terra, corrompe as matas, fura os


túneis, empesta o ar, suja as águas, apodrece tudo onde pisa, sem sentido
nem objetivo. A explosão nuclear, ao contrário do que todos pensam, não será
uma tragédia senão para nós. Para o universo é apenas uma medida saneadora,
uma forma drástica de se livrar do ser humano.
CONVERSA COM CHAVES FERREIRA, EDITOR PORTUGUÊS. 1973

O automóvel é a maior contradição tecnológica pois só poderia ter sido criado


por um gênio – Henry Ford. Mas só um imbecil não perceberia estar
criando o maior dos paradoxos – uma invenção que já nascia obsoleta.
CONVERSA COM MINO CASTELO BRANCO, HUMORISTA. FORTALEZA. 1967

O extraordinário desenvolvimento da “civilização” só trouxe como


conseqüência o idiota alcançar um raio de ação jamais imaginado. O
mundo tem hoje, pela primeira vez, o idiota global.
ILUSÕES. 1957

D o culto da economia e finanças ao culto do computador, da estatística e do


número em si mesmo, acabamos num sistema religioso, cibernético e
litúrgico, eletrônico e mitológico. E já não me espanto de saber que as mulheres
do Norte do país são 52% mais desdentadas do que as do Sul, que as mulheres
casadas de São Paulo são mais tendentes ao queixo-duplo (double menton) do
que as mulheres cariocas da mesma idade e os garis (limpeza pública) têm
narizes maiores em Belo Horizonte do que em qualquer outra cidade do Brasil.
Não me espanto, mas acho lícito reagir com uma pesquisa própria, na qual
descobri que os técnicos que fazem esse tipo de pesquisa são mandados à &’ = +
! +?/!**! 72% vezes mais do que a média das pessoas.
CIBERNÉTICA, HERE I AM! 1965

O s paradoxos entre a técnica e a realidade são flagrantes e indestrutíveis:


continuamos novos nas fotos antigas e velhos nas fotos novas.
ILUSÕES. 1967

N ão tenho o menor complexo nem o menor temor diante do que o futuro me


reserva com suas cibernéticas estupendas e seus computadores
extraordinários. A meu cérebro só falta a eletrônica.
CONVERSA COM ENRICO BIANCO. 1967

D ada a imaturidade política do ser humano em relação a seu desenvolvimento


no campo tecnológico só uma coisa pode resultar como conseqüência do
homem desintegrar o átomo: o átomo desintegrar o homem.
CONVERSA COM PAULO GARCEZ NO BAR FLAG. 1970

A s conquistas técnicas foram tornando cada vez mais fácil outra conquista, a
das massas, passivas e alienadas. Já ninguém mais precisa se esforçar
longamente, viajar muito, perder anos até alcançar a discutível popularidade.
Hoje uma celebridade é todo débil mental que aparecer meia dúzia de vezes na
televisão.
PROPOSTA PARA USO DA MÍDIA. 1970

F abricar-se-ão livros didáticos comestíveis, aproveitando o avanço da


tecnologia e a superprodução da soja. Os livros poderão ser fabricados com
sabores variados: sabor matemática, sabor geografia, sabor logaritmos, etc....
Uma forma real de acabar com a fome de saber. No Nordeste, esses livros,
distribuídos aos milhões, acabariam ao mesmo tempo com o analfabetismo e a
subnutrição.
IDEM

P ouco a pouco a máquina vai substituindo o homem em todas as suas


atividades. Como, porém, necessita-se de recursos financeiros cada vez
maiores para fabricar máquinas, é seguro afirmar que elas nunca conseguirão
substituir o homem no seu mais importante papel social – o de contribuinte.
RECADO AO DEPUTADO JOSÉ SARNEY. 1971
A quase totalidade das descobertas tecnológicas tem o lado negativo maior do
que positivo. O automóvel virou instrumento de ameaça coletiva, a
televisão impôs um condicionamento cultural insuportável, o telefone trouxe
uma verdadeira neurose de anticomunicação e os computadores
institucionalizaram a fraude financeira. Nesse campo, apenas duas são as
contribuições realmente válidas e saudáveis do talento humano: a água
encanada, um milagre diário em que ninguém repara, e, mais importante e quase
sempre discreta: a luz elétrica.
PROGRESSO CIENTÍFICO. ATÉ ONDE? 1971

O fato é que toda essa andação pelas crateras da Lua trouxe muito pouca
coisa útil e serviu apenas para apunhalar nossa alma romântica (que
esperava da Lua pelo menos uma reação com monstrinhos de olhos verdes,
roedores satânicos ou uma exalação mefítica) e nos roubou, em troca de nada,
uma herança poética de milênios. E aí, como defesa a posteriori, foi que
começamos a perguntar: “Para que serve essa viagem?” “Com essa despesa toda
não se poderia encontrar a cura para a democracia?” “Não se poderia inventar
uma nova espécie de sexo sabor-virtude?”
CONVERSA COM NELMA QUADROS, FIGURA TUTELAR DO PASQUIM. 1970

B asta você parar diante de uma vitrina e olhar garrafas, latas, invólucros,
vidros, metais e plásticos para ficar maravilhado com a infinita capacidade
da tecnologia inventar, todos os dias, mais e mais objetos absolutamente
dispensáveis.
PROGRESSO CONTIDO. 1967

A tecnologia desvairada voltou-se contra o homem, a quem afirma,


hipocritamente, querer proteger e melhorar. O ambiente se deteriora, as
relações humanas apodrecem, o próprio ser humano deteriora, enquanto, em
nome da auto-afirmação de uma elite de cientistas, a tecnologia floresce e
progride atirando foguetes à Lua e mísseis no Vietnã. Que adianta o vidro do
pára-brisas ser inquebrável se a nossa cabeça não é?
NA ASSOCIAÇÃO PARA O CONTROLE DO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E INDUSTRIAL DO PIAUÍ. 1971

D estroços de mundos utópicos, de religiões que não se renovaram, de


metrópoles que acreditaram na mão única. Aqui isso não acontece? Bem, os
romanos também disseram isso.
RESPOSTA A GUSTAVO CORÇÃO, ESCRITOR. 1970

Todo-Poderoso reuniu apenas os materiais.


O resto está aí para ser feito por nós. Levamos milhares de anos para o
O levantamento das possibilidades, uns dez mil anos de civilização para
aprender processos. Mas o mundo, propriamente dito, começou a ser feito
apenas há dez anos.
RESPOSTA A HENFIL. 1973

A o acender volitivamente o primeiro fogo (pauzinho contra pauzinho, pedra


contra pedra) o ser humano ficou emocionado mas inconsciente do seu
próprio poder de criatividade. Se tivesse tido a noção de que acabava de
descobrir a tecnologia, na certa teria voltado à caverna e nunca mais saído lá de
dentro.
SOBRE A IRRACIONALIDADE DA FUTUROLOGIA. 1970

O ridículo do século XIX foi a fúria com que rejeitou todas as inovações,
desde reformas trabalhistas essenciais até o último direito feminino, usar a
saia mais curta, passando pela máquina a vapor, propostas artísticas e avanços
morais. O ridículo do século XX é a pressa com que aceita qualquer estupidez
social, qualquer reivindicação absurda, qualquer invenção consumística, sem
reflexão nem demora, por medo da pecha de reacionarismo. A maior
transformação do século XX foi a facilidade com que se passou a aceitar
qualquer transformação.
MENSAGEM DE FELICITAÇÕES NO 96º ANIVERSÁRIO DE PABLO CASALS. 1972

H á os que acreditam sinceramente que o progresso é uma máquina


trabalhando feito louca, no meio de operários miseráveis, para fazer
bugigangas para crianças ricas.
OBRAS COMPLETAS. 1970

A televisão foi um meio inventado pelo homem medíocre para ser utilizado
pela mediocridade para a mediocridade. Deveria se chamar mediovisão.
MÍDIA. 1971

O inventor da poltrona foi o maior reacionário da história: criou o supremo


comodismo, a imagem definitiva da alienação. E o gênio tecnológico
burguês que colocou em frente da poltrona uma televisão em cores, fechou o
ciclo da impossibilidade de reação da classe média.
CONVERSA COM JOSÉ CARLOS CABRAL DE ALMEIDA, GENETICISTA. 1973
Liberdade. Limitacoes

E fundamental aprender a conviver com o medo, perder o mais cedo possível


a esperança de nos livrarmos dele. Guimarães Rosa disse com sabedoria: “A
cada dia, a cada hora, o homem aprende uma espécie nova de medo”. Vivemos
com medo físico, com medo econômico, com o medo metafísico diante da
própria ameaça existencial que faz de nossos dias uma caminhada irreversível
para a doença, para a velhice e para a morte: para o desastre. O medo é a mais
fiel de nossas qualidades, nosso definitivo companheiro. Mesmo no silêncio e no
escuro – ou sobretudo aí – não nos deixa. Quando o lugar é terrível, a situação
desesperadora, as forças nos abandonam, a coragem nos deixa, o medo fica e
cresce. Segue-nos como uma sombra e, inúmeras vezes, se confunde com ela.
Nasce conosco e, se nos mata, morre conosco.
O SER HUMANO SEM IDEALIZAÇÕES. CONVERSA COM MARCO AURÉLIO DE MOURA MATOS, ESCRITOR MINEIRO.
1958

E xiste uma média de vida mas que não serve como garantia para a vida
individual. Ninguém é tão velho que não possa viver mais um ano, ninguém
é tão moço que não possa morrer já. Aqui e agora, aproveita a vida, irmão.
Talvez já tenha passado mais tempo do que você pensa.
CONSELHOS AOS JOVENS TURCOS. OBRAS COMPLETAS. 1970

P ode-se conviver com regimes fascistas e totalitários, sobreviver no clima


sempre terrível da Lei e da Ordem. Não se pode é conviver com o caos. Por
isso um golpe de Estado ainda é melhor do que um estado de golpes.
ENTREVISTA A TRÊS AGENTES-DUPLOS DA POLÍCIA PARAGUAIA. 1963

Q uem fala em amor livre? Com o amor livre, ai dos feios, dos
demasiadamente desinteressantes. Amor livre, sim, de alguns tabus que se
incrustaram doentiamente nas relações entre homem e mulher. Mas só. Quem
fala em amor livre nunca ouviu falar em impotência masculina.
UTOPIAS. OBRAS COMPLETAS. 1970

A os pobres que acham, com razão, que é muito difícil ficar rico, deve-se
advertir que para os ricos é ainda mais difícil ficar pobre. Qualquer
movimento que façam nesse sentido é imediatamente censurado – senão punido
– por sanções familiares, dos amigos, dos sócios e de críticos ocasionais que
nem têm nada com isso. E, o que é pior, quando um rico resiste à riqueza, abre
mão dos seus bens, investe em obras de caridade, doa para organizações
culturais e artísticas, mesmo isso, inúmeras vezes, resulta em lucros
absolutamente inesperados.
IDEM

S e você passa a vida dizendo exatamente o que pensa depois não venha se
queixar.
DIÁLOGO COM MÁRIO PRATA. 1971

O que amealha exageradamente, o que rouba de forma consentida ou não, o


que tolhe o ato de criação alheia, todos, na corrida longa criam condições
sociais impossíveis para si próprios. A escravidão de cada um começa onde
termina a liberdade alheia.
CONVERSA PERIPATÉTICA COM HÉLIO PELEGRINO, NA PRAIA DE IPANEMA. 1972

E scorraçada de toda parte, vivendo esfomeada, tendo que subsistir sem


morada certa, apunhalada aqui, estrangulada ali, não desejada em verdade a
não ser por uns poucos e loucos humanistas e revolucionários através da
História, é ridículo se representar a Liberdade como uma mulher bela, um facho
eternamente aceso na mão, os traços finos, a fisionomia tranqüila e altiva. A
Liberdade é um cachorro vira-lata.
RELATÓRIO NA SEGUNDA SESSÃO PLENÁRIA DA CONFERÊNCIA SOBRE DIREITOS HUMANOS EM BUCARESTE. 1958

O s poucos que, em verdade, desejam a liberdade são os grandes responsáveis


pelos tumultos que avassalam o mundo, hoje e sempre. Só não há paz entre
os que mandam e os que obedecem devido a uns neuróticos que se metem no
meio.
FALA NA CELEBRAÇÃO DO 50º ANIVERSÁRIO DO FRACASSO DA PRIMEIRA INTENTONA CONTRA HAILÉ SELASSIÉ.
ADIS ABEBA. 1964

D oentes, miseráveis, velhos, jogados no último cárcere do estado da mais


extrema miséria, só aí atingimos um definitivo grau de liberdade – nada
temos a perder e nada de pior nos pode acontecer.
MONÓLOGO NO MORRO DOS URUBUS. PILARES, RIO. 1987

O conceito de Estado nasceu com o conceito da contenção da atividade


individual. Quando a primeira dona de casa cromagnon se queixou da
fumaça da fogueira da gruta vizinha, tinha criado o princípio de que o direito de
cada um termina onde começa o direito alheio e reivindicado a necessidade da
Lei e da Ordem. Daí às restrições em favor do próprio exercício do poder foi
apenas um passo. Apareceram os líderes, os guias providenciais, os salvadores,
os pais da pátria, os libertadores. E a liberdade propriamente dita passou a ser
considerada apenas uma lamentável negligência das autoridades.
MONÓLOGO NO MEIO DE UMA MULTIDÃO. ARPOADOR. 1967

T odo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do


Flamengo.
ENCONTRO COM EVARISTO DE MORAIS FILHO, ADVOGADO. 1970

A liberdade é um esforço individual, coletivo, nacional. Dizem que o preço


dela é a eterna vigilância, ou a organização, ou a cultura. Qualquer que seja
o preço, o nosso credor se chama Estados Unidos da América do Norte e cobra
muito caro.
ARENGA AO STAFF EDITORIAL DA LUTA DEMOCRÁTICA. 1965

N ão pense. Se pensar, não fale. Se, por acaso, for obrigado a falar seu
pensamento, evite escrevê-lo. Se escrever seu pensamento, não deixe que o
publiquem. Se o publicarem, recuse assiná-lo. Se o seu pensamento aparecer
assinado em qualquer lugar, corra para casa imediatamente e escreva um
desmentido.
COMO SOBREVIVER EM REGIME DITATORIAL. 1969

S egunda metade do século XX: independência e liberdade totais,


permissividade absoluta, as experiências mais válidas, mais loucas e mais
grupais e comunitárias que já foram feitas quanto a sexo e orgasmo Mas filho
continua sendo só de duas pessoas.
OBRAS COMPLETAS. 1970

R ealmente, se você não atravessar a rua dificilmente será atropelado, se não


entrar num avião é quase impossível que morra num desastre de aviação, se
evitar correntes de ar terá menos resfriados, se não prevaricar manterá mais
firmemente a harmonia do lar, se não beber cometerá menos desatinos, se gastar
menos do que ganha terá sempre uma reserva para os dias difíceis, uma vida
muito mais segura do que a do estróina e pródigo. O preço da segurança é a
eterna chateação.
DOS RISCOS DE EXISTIR. CONVERSA COM RUBEM BRAGA. 1971

N um ponto a Bíblia tem toda razão e é contestadora e antiburguesa: deve-se


matar um vitelo gordo na volta do filho pródigo. Pois ir é muito mais
difícil. Largar tudo, ir embora, desvariar pelo mundo, mesmo apenas para
constatar que, ao fim e ao cabo, o mundo não vale o seu lar, é extremamente
difícil. Pode ser que o outro filho seja mais confiável, pois ficou no arado, na
monotonia, garantindo o sustento dos seus. Ótimo. Mas o pródigo foi lá, viu
como é que era e voltou para contar. Tem o direito de engrandecer tudo o que
viu, e de mentir sem contestação porque, se traz no alforje o macarrão, o papel e
a pólvora, tudo o mais lhe é permitido.
CONVERSA COM NOELZA GUIMARÃES, FELIZ. 1970

L iberdade existe. Não só existe como é feita de concreto e aço e tem cem
metros de altura. Foi doada pelos franceses aos americanos em 1886 porque
os franceses naquela época tinham excesso dela e os americanos, pouca.
Recebendo-a dos franceses, os americanos colocaram-na na ilha de Bedloe, na
entrada do porto de Nova York. Nunca entrou completamente nos Estados
Unidos.
LIBERDADE. LIBERDADE. 1965

S erá a Liberdade apenas uma nostalgia? Uma colagem malfeita de fatos só


imaginados? A política da esperança já desesperada? A simples omissão dos
poderosos? O Fla x Flu do Possível contra a Aventura? O condicionamento total
é a liberdade?
CONVERSA COM AUSTREGÉSILO DE ATHAYDE, PRESIDENTE DA ABL. 1959

T odo homem nasce livre. Naturalmente dependendo do pai, da mãe, da classe


social em que nasceu, sem falar dos acasos genéticos e da falta de cuidados
pré-natais que o podem fazer raquítico para sempre. Nascido, decora logo a
tabela de direitos e deveres de cidadão do seu país, faz as contas e, se leva
vantagem, cai de pau em cima dos outros. Assim é o homem, e sua liberdade,
condicionada a um sistema de classes.
CONVERSA COM HAROLDO COSTA, ATOR. 1970

O preso não é mais culpado do que o carcereiro que mantém e acredita no


sistema que prende. E de prisão é fundamental não se falar muito, já que os
presos nada têm a dizer e os homens livres não sabem do que estão falando. A
solidão, as promiscuidades repetidas e enervantes, os 150 cm de espaço vital, o
dia e a noite indistinguíveis das solitárias, tudo que é feito para reduzir o preso
político à impotência, mostra mais a impotência do Poder Ocasional, buscando
inutilmente persuadir através do constrangimento físico. Sempre haverá
criminosos.
LIBERDADE. LIBERDADE. 1965
verdade é que, na luta milenar e desvairada pela liberdade utópica, todos saem

A perdendo: não há palpite triplo e as “zebras” estão na cadeia. Prometeu


acabou lá, no rochedo. E o abutre? Bem, o abutre detestava fígado.
CONVERSA COM IVO PITANGUY. 1972

Q uem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca


pensou em nada.
CONVERSA COM RENATO BITHENCOURT, JORNALISTA QUE FOI EMBORA PRO ESTRANGEIRO E NUNCA MAIS VOLTOU.
1969

N osso lema é o mesmo dos antigos desvairados de Ouro Preto: Libertas quae
sera tamen. Tamen ou também? Nunca se soube. Repare bem, a mesma
estrutura sintática do Podes crer, amizade.
CONVERSA COM PAULO GRACINDO, ATOR. 1973

O ato de ser preso é, para o homem médio, uma humilhação irreparável. Para
o verdadeiro marginal, que vive permanentemente em regime de
humilhação social, pouco importa. Donde a absoluta inutilidade das prisões.
CONVERSA COM FERNANDA MONTENEGRO. 1967

P ara efeito e medida da punição existe uma responsabilidade pessoal que age
acima da responsabilidade coletiva. Quero dizer, no caso arquetípico do
cidadão que rouba o pão porque a sociedade não lhe deu as menores condições
de ganhar o pão, quem é o culpado? Mas a própria sociedade que cria as
condições fundamentais para o roubo do pão é que vai julgar o ladrão do pão.
Que faria você como juiz? Ponha-se nessa posição e decida-se pelo grau de pena,
que são muitos e muito imaginosas as suas formas em todas as sociedades: forca,
exílio, ergástulo, castigo corporal, simples reprimenda, seis ave-marias e dezoito
salve-rainhas. Ou você acha que basta o remorso? Dizem que Judas se enforcou
numa figueira. Eu não vi, não sei.
CONVERSA COM EVARISTO DE MORAIS FILHO, ADVOGADO. 1973
Relacoes naturais e artificiais

O clã das embaixadas é eterno e seus compoponentes imutáveis, aqui e no


Oriente, no passado e no futuro. Vemo-los iguais, como se fossem frutos de
uma árvore genealógica especial, em Ancara, em Washington, em Paris, em
Livorno. Nunca envelhecem, nunca são excessivamente másculos, nunca estão
cansados, são sempre bem informados e altamente preparados, têm sempre um
ar decadente de uma nobreza que já não manda mais e se contenta em servir,
com uma certa satisfação em mostrar boas maneiras de outros tempos aos donos
grosseiros dos tempos atuais.
CONVERSA COM ARAÚJO CASTRO. EMBAIXADOR. EM ATENAS. 1965

A crença de que os homens são iguais é absolutamente indefensável e deriva-


se apenas do fato de serem feitos da mesma maneira.
CONVERSA COM CLARICE LISPECTOR. 1967

U m incorruptível não tem o menor valor para um corruptor.


IDEM

O s que falam em desaparecimento do homem da face da Terra são, eles


próprios, homens, falando do alto de sua presunção homocêntrica. Na
verdade, o Cosmos não toma o menor conhecimento dessas lamúrias. O
desaparecimento do ser humano – que corrompe a natureza, fura túneis, empesta
o ar, emporcalha as águas, apodrece tudo onde pisa – se tiver alguma
importância, será positiva, e apenas para a vida desta diminuta faixa geográfica
chamada Terra. Não fará a menor diferença à economia do Cosmos.
DIÁLOGO COM JOÃO CONDÉ, JORNALISTA, COLECIONADOR. 1964

U m problema pode ser transplantado e estudado em teoria. Mas isso até um


certo ponto. É altamente recomendável que o estudo da botânica, da fauna e
da geologia seja feito ao ar livre.
A TEORIA NA PRÁTICA. 1967

C omo sexo as mulheres são insuportáveis, mas na hora do sexo, não tem
nada melhor.
ENTREVISTA COM BETTY FRIEDAN, QUE CHUTOU A MESA. 1970
s que aspiram a uma permissividade total, inclusive e sobretudo nos hábitos de
O vestir (despir) podem perder as esperanças. A nudez total jamais vai
triunfar enquanto houver fábricas de produtos têxteis.
CONVERSA COM MAURÍCIO BEBIANO, INTELECTUAL E PLAYBOY. 1963

N ada é tudo e tudo não prova nada. Slogans sobre a família que rezando
unida, ou trabalhando unida, ou se divertindo unida, permanecerá unida,
não têm nada a ver com a realidade. E, mesmo permanecendo unida, que é que
isso quer dizer? Que permanece feliz? É duvidoso. Apenas porque reza, apenas
porque trabalha, apenas porque come unida? Para mim a família que permanece
unida permanece unida. E só.
REFORMA DE CONSCIÊNCIAS. 1967

P ara distinguir entre a realidade e a moda basta verificar se o fato pode ser
alterado fundamentalmente com a nossa intervenção, no momento ou
mesmo num período mais longo. Não temos como alterar a queda do corpo do
alto do edifício, o fluxo das marés, o nascer e o morrer do Sol. Podemos intervir
(e modificar rapidamente) na preferência por cores, maneiras de vestir, gosto
musical. Moda é tudo que passa de moda.
MODISMOS. 1967

A cultura é um acervo muito relativo e, individualmente, para você parecer


culto, basta apenas ficar bem atento ao que o interlocutor ignora.
CONVERSA COM ZÉLIO ALVES PINTO. 1971

Q uando me lembro de Lincoln – “Pode-se enganar algumas pessoas todo o


tempo, todas as pessoas algum tempo, mas não se pode enganar todas as
pessoas todo o tempo” – sinto que minha colocação (estou mais em) é muito
mais entre algumas pessoas do que entre todas as pessoas.
ENTRE ALTOS E BAIXOS. OBRAS COMPLETAS. 1971

N ão se pode deixar de ter saudades dos tempos mais tranqüilos, tempos em


que a humanidade era mais pura e inocente, como em Sodoma e Gomorra.
CONVERSA COM CARLOS FREIRE, FOTÓGRAFO, PESQUISADOR. 1966

M ãe, mulher, filhos, maridos, parentes, não é que sofram mais,


necessariamente, mas a ligação deles entre si faz com que sejam
obrigados a sofrer mais, obrigatoriamente, diante de qualquer tragédia que atinja
um deles. A pragmática da ação humana é tão importante quanto a própria ação.
O relógio acaba mais importante do que as horas. E quem tem um lenço se
despede mais.
CONVERSA COM JÂNIO DE FREITAS. 1959

O ato dinâmico de viver e sua avaliação constante, o balanço de uma


existência, não podem ser feitos leviana e prematuramente. O maior
canalha se redime, o mais puro varão de Plutarco se corrompe. É preciso esperar
a hora final. O homem só está fora de perigo quando morre.
AOS QUE VÃO RESSUSCITAR. 1966

A segurança psicológica não é atingida de dentro para fora mas pela


observação da insegurança alheia. Todo homem tem seu grau de
incompetência e seu nível de insegurança. Fique certo: seu complexo de
inferioridade não é inferior ao de ninguém.
CONVERSA COM FERNANDO PESSOA, JORNALISTA. 1952

A intimidade acaba com o mistério e reduz o ídolo a suas verdadeiras


proporções, quase sempre mesquinhas. Mesmo os padres, de tanto dizerem
missa, acabam desconfiando de Deus.
CONVERSA COM OTTO LARA RESENDE, JORNALISTA, ESCRITOR, CONVERSADOR. 1964

A provocação é uma técnica que deve ser conhecida e utilizada. Primeiro:


porque é irresistível. Segundo: pra resistir a ela. Experimente na prática: a
mais calma das pessoas fica furiosa se você, no meio da mais tranqüila
discussão, lhe diz que não pode discutir com ela porque ela é facilmente
irritável.
NAS DUNAS DE ABAETÉ COM DORIVAL CAYMMI. 1951

A proporção que o sistema vai fechando seus tentáculos kafkianos sobre o


indivíduo, até o filhinho deixa de ser olhado como um ser amado e passa a
ser encarado apenas como mais uma isenção do imposto de renda.
CONVERSA COM LUÍS HIDALGO, ADVOGADO. 1973

D esconfie de linhagens, de famílias tradicionais, de qualidades e posses


passadas de pai para filho há gerações e gerações. Os que se orgulham
muito de sua ascendência, em geral só estão mostrando é o quanto já decaíram.
O PAPEL DA TRADIÇÃO E DA INOVAÇÃO. OBRAS COMPLETAS. 1970

A s mulheres, desistindo, parece, definitivamente, da maternidade (e apoiadas


pelos organizadores que acreditam no controle da natalidade) querem,
agora, que o controle seja feito basicamente por e através dos homens. O ataque
é frontal, abaixo da cintura, atingindo os homens naquilo que mais os
caracteriza. Chama-se, creio, a isso, cortar o mal pela raiz.
LUTA DE CLASSES E DE SEXOS. 1970

A estrutura da família convencional, um grupo de indivíduos vivendo de


maneira insustentável e em constante atrito provocado pelas terríveis
pressões de uma sociedade que já não a compreende, compõe-se de um homem
que não ganha o suficiente, de uma mulher absolutamente irrealizada e de três
filhos que crescem para ser, respectivamente, transviado, hippie e subversivo.
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO. PALESTRA NO CAMPO DO VASCO, TENDO COMO OUVINTES ZAGALO E PAULO CÉSAR.
1972

C om esse homem, feito apenas para a emulação do poder, da ambição e do


ciúme, a única coisa que se tem conseguido – precariamente – através dos
tempos, é uma revolução econômica. E toda revolução econômica faz apenas
uma mudança de capitalistas e do nome com que são chamados.
DISCURSO DE ABERTURA DAS AULAS DA UNIVERSIDADE DO MEYER. 1951

E ntre os muitos erros da Natureza está o do envelhecimento, que começa


muito cedo, aí por volta dos trinta anos, se acentua dramaticamente aos
quarenta, quando o indivíduo ainda está na metade de sua vida. Uma das grandes
sabedorias da Natureza é, porém, a morte, que pode chegar a qualquer momento
e pode ainda demorar muito, por mais jovem ou por mais velho que se seja. Os
que acham a morte uma coisa injusta deveriam pensar na injustiça que seria, aí
sim!, haver no mundo pessoas mortais e pessoas imortais.
CONVERSA COM LÚCIO RANGEL, JORNALISTA, MUSICÓLOGO. 1968

A mais prezada das relações humanas (pelo menos no lado de cá do mundo, o


que conheço, o ocidental) é a relação homem-mulher, sentimental,
intelectual e sexual, dita amor. Feito de mil razões sutis, palavras e tons de
palavras, gesto e pressão de gestos, defeitos de visão (psicológica e até mesmo
física) buscando o tempo todo, mas quase sempre chegando sem ser pressentido,
o amor, contudo, não tem a mesma discrição ao ir embora. Parte sempre fazendo
aquele quebra-quebra.
LAZERES ÍNTIMOS DO POVO. DISCURSO NO MACKENZIE, SÃO PAULO. 1963

A natureza fez o pescoço com uma mobilidade que possibilita uma visão de
360 graus. Portanto devemos olhar a coisa de todos os ângulos.
CONVERSA COM GERALDO QUEIROZ, DIRETOR DE TEATRO. 1960

D entro de um sistema precário de relações humanas, com a mulher ainda


colocada numa condição social inferior, é extremamente difícil a felicidade
conjugal. Que só existe, em verdade, no dia em que morre um dos cônjuges.
POSSIBILIDADES DO MATRIMÔNIO.
SERMÃO SUBSTITUINDO O PÁROCO DA SÉ DE URUBURETAMA. 1972

O casamento é, basicamente, uma necessidade de continuação da Família. E a


Família serve como estímulo ao casamento. O resultado é conhecido.
CONVERSA COM JOSÉ ÁLVARO, JORNALISTA, EDITOR. 1971

A final de contas, ser branco não é, em si mesmo, uma coisa tão maravilhosa
assim. Se vocês vissem os tipos de branco que, em Joanesburgo, pátria do
apartheid, passam os dias sentados nos bancos em que está escrito “só para
europeus”, certamente cairiam numa razoável depressão a respeito de nossa
decantada superioridade racial. Mesmo fisicamente.
RACISMO E LIBERALISMO. 1959

O melhor caminho para uma futura violência de relações com os filhos é os


pais se sacrificarem inicialmente por esses filhos. Infalivelmente, cobrarão
com juros esse patrimônio de sacrifícios.
CONVERSA COM SÁBATO MAGALDI, JORNALISTA, CRÍTICO TEATRAL. 1956

O pai de família mais exemplar e conformado e a mãe de família mais casta e


monogâmica, se falarem 10% do que estão pensando, poderão ser presos
como devassos, iconoclastas e extremistas.
CONVERSA COM FERNANDO TORRES, ATOR, DIRETOR DE TEATRO. 1967

C omo tudo é relativo, se você se mantiver apenas curvado diante dos


poderosos quando todos os outros estão agachados, será considerado um
homem de grande altivez.
CONVERSA COM ÊNIO SILVEIRA, JORNALISTA, EDITOR. 1957

M ais cedo ou mais tarde as pessoas justas e honestas receberão o devido


castigo.
PIF. ZIG. PAF. PONG, ESPETÁCULO TEATRAL. 1962

D e vez em quando alguém repete aquela expressão de quem não tem o que
dizer: ser carioca é um estado de espírito. Mas, qual será,
fundamentalmente, esse estado de espírito? Para mim, embora pareça estranho
num povo extrovertido, a qualidade fundamental do carioca é a discrição. Porque
se seu estado de espírito, em massa, é o da ostentação lúdica do futebol e do
carnaval, individualmente o carioca é discretíssimo e sempre meio envergonhado
diante do elogio: “Pera lá, quem sou eu?”.
DEFESA CONTRA OS GRUPOS PREDATÓRIOS. CONVERSA DE PRAIA. 1972
Relacoes de poderes

O homem é um produto do meio. O meio é um produto do homem. O produto


é um homem do meio.
REFLEXÕES ABSTRATAS. OBRAS COMPLETAS. 1970

S er burocrata é padecer na anedota. Déspotas natos, tiranos da mediocridade


kafkiana, os burocratas concedem porém que todas as ironias que lhes fazem
têm sua razão e servem ainda como válvula de escape sem a qual a saída para
“as exigências da lei e as insolências da burocracia” seria o crime puro e
simples: o assassinato.
IDEM

O nazismo alemão, o fascismo italiano, o monarquismo abissínio, a ditadura


do proletariado estalinista encontraram o meio fácil e eficiente de acabar
com a pobreza: acabaram com os pobres.
A TEORIA NA PRÁTICA. 1971

C om taxas e mais taxas, arbitrárias e crescentes, aplicadas com impiedade e


violência sobre todos os contribuintes, ninguém sabe mais separar o que é
imposto do que é confisco de bens.
NAS NEGOCIAÇÕES DE 13 DE AGOSTO. 1970

O plutocrata ambicioso mas sensível e progressista, nem por isso deve andar
desprotegido contra a inveja e a incompreensão ocasionais da massa.
Aconselha-se pois que vista sempre, por baixo do seu casaco de casimira inglesa,
um colete de malha de aço com pelo menos três polegadas de espessura. Que,
aliás, já existe de fabricação nacional.
IDEM

N a indústria e no comércio, cada vez mais, o importante é vencer, se possível


sem competir.
DISCURSO NA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL. 1958

I nseguro e incapaz, o indivíduo só pode melhorar numa comunidade mais


desenvolvida e estimulada. A sociedade, tal qual existe, incita à rivalidade
mais mesquinha e todos os cidadãos, entre si, vivem num atrito odioso, não por
um lugar ao Sol, mas pela mínima réstia de luz. Por isso, no mundo em que
vivemos, só o morto merece todas as loas e só o morto é benquisto. Um cadáver
não disputa, não exige, não erra, não atrapalha.
SOBRE A QUESTÃO DA COOPERAÇÃO AGRÍCOLA. 1953

O poder tem suas limitações e suas hipocrisias.


Quando um Estado não pode proibir as explosões nucleares, proíbe fogos
de São João.
DITADO. 1967

N ão façamos utopia da Grécia antiga comparando-a com a moderna. A luta


tem que ser constante pois a opressão, a corrupção e a incompetência
também são constantes. O que se pode dizer de pior contra a Junta Militar é que,
até agora, ela nem sequer ameaçou produzir uma Ilíada, uma Antígona, não fez
nenhuma ágora. Sua literatura é ruim, sua arquitetura barata, seu urbanismo
serve apenas, mal, para o escoamento do tráfego. Pior que tudo – como são feios,
os coronéis.
CONVERSA COM MARIA KOUTSIKOS, ROMA. 1973

E é necessária uma sólida coerência nas reivindicações. Se todos querem


afirmar seus direitos, nada mais justo do que o Poder Público também ter o
direito de ser contra toda e qualquer oposição.
CONTATO COM O DEPUTADO MARCOS TITO. 1971

A democracia é o último refúgio da impossibilidade de governo.


DIÁLOGO COM PAULO MENDES CAMPOS, ESCRITOR, POETA. 1968

U ma frase que cada dia adquire mais significado: a união faz a força Não só.
Só a União tem a força.
CONVERSA COM BRITO VELHO, O MOÇO. 1963

H á duas forças que se contrapõem em todas as atividades. A ostensiva e a


dos bastidores. Há os que preferem a coisa pública, aberta, o aplauso
múltiplo e popular. Há os que convivem bem com o poder profissional, sem
ressonância, mas intenso e concentrado, tipo eminência parda. As duas forças
vivem em tensão permanente.
OBRAS COMPLETAS. 1970

N o jogo político não há hipótese de uma perfídia ficar escondida muito


tempo. Os próprios beneficiadores fazem questão de divulgar os benefícios
feitos, a fim de comprometer os beneficiados. Quem se curva aos opressores
acaba sempre mostrando o rabo aos oprimidos.
DIÁLOGO COM JOÃO CABRAL DE MELO NETO. SEVILHA. 1958

O adversário tem que ser tratado com realismo, sem concessões e sem
provocações. Só o apaziguador nato, tíbio compulsivo, teima em alimentar
um tigre na esperança de que ele dê leite de vaca.
CONVERSA COM HUGO BIDET, JORNALISTA. 1970

N ão é verdade que quando um não quer dois não brigam. Toda concessão,
como tem provado a história, traz apenas novas reivindicações por parte de
quem foi contentado na primeira investida. Ou você coloca o adversário na sua
posição, de saída, dando-lhe apenas aquilo a que tem direito, ou não há paz
possível. Quando um quer dois brigam.
CONVERSA COM O COMERCIANTE E ATLETA RAUL MATA DE LEI, FORA DA ARREBENTAÇÃO NA PRAIA DE IPANEMA.
1971

O controle dos meios de Comunicação modernos deu aos poderes


constituídos uma força esmagadora e quase imbatível. Os poderosos podem
não aumentar a própria estatura mas lhes é muito fácil rebaixar o teto.
PAPO COM ADRIANO, ENGENHEIRO ELETRÔNICO. 1992

S tálin, Hitler, Salazar, tiranos, donos de países e ideologias completamente


diferentes e opostas. Mas o tipo de Inquisição que criaram é absolutamente
igual.
COMO LIDAR COM A HIERARQUIA. OBRAS COMPLETAS. 1970

O s americanos, como é sabido, pagam por palavra a seus intelectuais. Aos


intelectuais estrangeiros pagam o dobro para que não as escrevam.
CONVERSA COM MAURO SANTAYANA, JORNALISTA. 1973

C ertas coisas são proporcionais, tudo é possível, quase tudo relativo. Em


quem dói muito, por exemplo, o fato de às vezes doer um pouco menos faz
parecer que dói ainda menos do que naqueles em quem não dói nunca e agora
está doendo um pouco. Swift, o louco, sabia disso quando recomendava que uma
pulga deve ser sempre desenhada maior do que o natural e um elefante, menor.
DO ABSOLUTO SOCIAL. OBRAS COMPLETAS. 1970

A alienação social absoluta (Maria Antonieta, os Romanoff, Faruk) leva,


repentinamente, um susto diante da realidade miserável e, como tal,
miserável demais. Nunca foi possível o Nirvana total dos poderosos, nunca foi
perfeito o sibaritismo do sultão de Alderaabad: tem sempre alguém que grita por
socorro no melhor da festa.
DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA NOVA SEDE DO PASQUIM. 1972

E m que consiste a punição? A que ou a quem serve? Quais são seus


princípios e razões? Qual é a autoridade punidora ou punitiva, de Deus ao
pai, e em que ocasião e em que medida, e com que fito e exemplo, deve a
autoridade ser exercida? Existe, no punido, o desejo da punição? Que formas e
proporções devem ter as punições relativamente aos crimes cometidos? A
punição pode ser atenuada pela intenção da falta, determinação da falta,
inocência da falta, competência ou incompetência do faltoso? Kant afirma: “É o
princípio da Igualdade que deve fazer com que a balança da Justiça não se
incline mais para um lado do que para o outro. É como se o mal que uma pessoa
faz à outra se voltasse, exatamente igual, contra ela, culpada”. Se chama a isso
Direito de Retaliação. Pena de Talião (ius talionis), quantos crimes não se
cometeram em teu nome!
DIREITOS E DEVERES. 1969

O Poder não se explica. O Poder não garante nada. O Poder, enfim, não tem
compensação a não ser o próprio Poder. Não há nenhum motivo para se
tentar a escalada suicida. Sobe-se porque a montanha está lá.
CONVERSA COM SEBASTIÃO LACERDA, EDITOR. 1974

F ala-se nas penas da lei como se esta fosse uma galinha prodigiosa. As penas
da lei são as penas dos homens, sempre classistas, preservadores dos direitos
dos que dominam o jogo social.
LEGISLAÇÃO. 1956

N a ocasião dos acontecimentos de maio de 1968, em Paris, La voix des


Polices, órgão oficial da polícia francesa (um pobre homem, o policial, e
uma lamentável organização, a polícia, espremida, nos países livres, entre o
cidadão irritado e o governo acuado e, portanto, implacável) publicou:
“Lembramos que, em todas as circunstâncias, os funcionários da polícia devem
agir com discernimento e espírito humanitário. Desaprovamos certos métodos
empregados contra os estudantes e deploramos os confrontos estudantes-
policiais, os quais complicam os problemas verdadeiros, que devem ser
discutidos nas universidades”. Que quer dizer isso? Autopunição verbal
motivada por uma punição corporal nos estudantes, inevitável na dinâmica do
processo? Um ato espantoso de compreensão partindo de uma organização tida
mundialmente como obtusa? A conclusão de que a prisão, afinal, depois de
séculos de desgaste, já não prende ninguém? Como diz Berto Fahri: “Graças à
sutil degradação da disciplina concentracionária, miasmas acumulados por
séculos de Ordem e Justiça, hoje a punição está para a lei como o camping está
para o eremitismo”. Na prisão de Barrages, no Egito, seção A, célula II, num
friso da Era Vitoriana, em 1935, dez anos antes de Sartre, um condenado de
Direito Comum escreveu, em língua árabe: “O homem é um condenado à
Liberdade”. Ao que outro ajuntou: “A Injustiça é o fundamento da Liberdade”.*
A desordem também. E a corrupção. Todos os iniciados sabem que as prisões
mais sujas são as mais livres. E a punição violenta é um ato de desespero.
CARTA A PAULO FRANCIS, ESCRITOR, POLEMISTA. 1963

O Poder, se me permitem, é, mais do que tudo, a ausência do Poder. Sem


poder todos nós morremos de dor, ansiamos por ele, lutamos
assassinamente por ele. Poder é o que os outros têm.
CONVERSA COM JÔ SOARES. 1969

A Desobediência Civil, teorizada por Tolstói, é a mais nobre e a mais salutar


das virtudes sociais e a primeira a ser enquadrada na lei pelos poderosos.
CONVERSA COM RAUL SOLNADO. 1962

S er livre, é bom notar, não é ser libertado. “Eu te dou toda liberdade”, é a
restrição suprema.
CONVERSA COM RAPHAEL DE ALMEIDA MAGALHÃES. 1963

O estranho é que, num país com mais de 60% de analfabetos, a grande


preocupação do Poder Público seja o que dizem meia dúzia de escritores.
CONVERSA COM CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. 1971

T odo Estado é administrado por um grupo de criminosos que, ao tomar o


Poder, estabelece uma legislação pondo todos os outros cidadãos mais ou
menos fora da lei.
LEGISLAÇÃO. PRINCÍPIOS. 1966

N um regime ditatorial ou se motiva a massa ou se organiza a indiferença.


AQUI E AGORA. 1957
Hipocrisia social e politica

E difícil fazer um jovem acreditar que todas as verdades estabelecidas são, em


verdade, mentiras deslavadas, estabelecidas mentiras. Que lhe dizer da
estrutura social que não é estrutura nem social, dos homens de bem, apelido de
todos os canalhas defensores do sistema de manutenção de privilégios, da
liberdade (para cidadãos que trabalham dez horas por dia, gastam pelo menos
quatro para ir e vir do trabalho e, nos momentos raros de lazer, não têm com que
pagar o ingresso do campo de futebol, onde está a liberdade?), da Justiça (feita
para manter um código de leis imutáveis) e da impostura internacional para
domínio de mercado? Por isso ao falar aos jovens é fundamental mentir para não
passar por mentiroso.
TÉCNICA DE MEIOS. OBRAS COMPLETAS. 1970

A lei escrita é sempre muitos anos atrasada em relação ao direito real, aquele
que está no ar e pertence ao nosso tempo de vida. A Justiça não só é cega
mas sua balança desregulada e sua espada sem fio. É fundamental impor um
direito mais amplo do que o que está escrito, obrigar o juiz a funcionar acima da
mediocridade do regime em que vive.
DIÁLOGO COM EMMANUEL VIVEIROS DE CASTRO, MANINHO, ADVOGADO. 1967

O capitalismo não perde por esperar. No Brasil ganha 6% ao mês.


REFORMA BANCÁRIA. OBRAS COMPLETAS. 1970

A divisão de lucros é, segundo o muito que tenho lido a respeito, a salvação


da humanidade e a porta para o milênio de felicidade humana. De modo
que, se você possui uma fábrica onde trabalham 22.000 homens e essa fábrica
(depois de deduzidas, naturalmente, todas as despesas, inclusive as pessoais,
viagens, jantares, custeio de um segundo lar, eventuais e atualização do ativo) dá
44.000 cruzeiros de lucro por mês, é justo que você divida esse lucro totalmente
pelos trabalhadores, entregando a cada um deles os dois cruzeiros que merecem
por seu esforço, dedicação e competência. Teremos, aí, então, o socialismo. Ou
melhor, jamais ouviremos falar, de novo, no socialismo.
IDEM
D e modo geral a cada eleitor cabe um voto. Esse voto pode ser contra, a favor
ou inutilizado. O eleitor que consegue dar mais de um voto a um candidato
está atribuindo a si mesmo o direito de usar o chamado voto qualitativo.
CONSTITUIÇÕES. 1946

O julgamento feito a partir de uma faixa etária em que um adulto, apenas por
ter mais de dezoito anos, é sempre culpado em relação a uma menor de
dezoito anos, não tem nenhuma base real, não encerra qualquer justiça. A
verdade é que as menores seduzidas são, em geral, extraordinariamente
sedutoras.
IDEM

O s que se eximem da culpa afirmando que “foi só uma vez” devem se


lembrar que também só se morre (ou se mata) uma vez. Para sempre.
OBRAS COMPLETAS. 1970

N uma ditadura todo ônus da prova pertence ao acusado e todo cidadão é


culpado até prova em contrário.
CIRCULAR SOBRE A SITUAÇÃO. 1965

A confiança é um ato de ida e volta em que a nossa ação tem uma


correspondente direta e proporcional no apoio dos que orientamos. Só nas
grandes corporações capitalistas existe a fórmula hipócrita do voto de confiança,
uma coisa que só se pede quando já começaram a desconfiar.
CONVERSA COM HAROLDO BARBOSA, COMPOSITOR, HUMORISTA. 1957

A libertação de hábitos mentais há muito tempo adquiridos é quase impossível


e eles se tornam inerradicáveis, a não ser que você faça um esforço sobre-
humano. Os loucos, antigamente tratados como criminosos, ainda são tratados
como doentes por mero preconceito dos que detêm o poder dentro da medicina.
Basta um indivíduo ter mania de andar nu para que isso seja considerado uma
loucura. Porém, se algum tempo depois, a prática se generaliza porque posta em
moda por elementos bem-sucedidos no sistema econômico e divulgada pela
mídia interessada em tirar partido do fenômeno, aí andar nu passa, no máximo, a
ser uma extravagância erótica. A única diferença entre a loucura e a saúde
mental é que a primeira é muito mais comum.
CONVERSA COM JOSÉ AMÁDIO, JORNALISTA. 1948

A análise de lendas a respeito de grandes homens traz conclusões


desalentadoras. George Washington, famoso porque não mentiu ao pai que
lhe perguntou quem tinha derrubado sua cerejeira de estimação, só torna
evidente que a norma, para os outros chefes de Estado, é a mentira constante,
cínica e deslavada.
A REALIDADE E O MITO. 1965

A hipocrisia é o elemento básico na filosofia das grandes nações. Seria tão


fácil elas terminarem com as explosões atômicas. Mas gastam tempo,
energia e dinheiro tentando controlar a explosão demográfica.
IDEM, P. 1.389

A defesa do status quo chega a seu extremo na “boa educação” quando são
impostos, inclusive, ridículos hábitos de “como sentar à mesa”, “como falar
aos mais velhos”, “como se vestir para sair” com orientação precisa, inclusive,
quanto a gestos e palavras que devem ou não ser ditas em determinados lugares e
ocasiões. Quaisquer dessas regras quebradas significa perda de status para o
indivíduo, a família e o clã ao qual o indivíduo pertence. Com esse processo se
busca defender todo um sistema no qual, afinal, sobrevivem poucos e lucram
pouquíssimos. A respeitabilidade é o leão-de-chácara da burguesia.
CONVERSA NA PRAIA COM RAUL RIFF, JORNALISTA. 1971

I nstalados no maior conforto burguês, em apartamentos suntuosos com três


vagas na garagem, possuindo enormes contas em bancos nacionais e
estrangeiros, investimentos em todas as formas de economia repressiva,
espoliativa e inútil, ganhando dinheiro apenas porque fazem parte integrante do
sistema, alguns milionários ainda posam de revolucionários, pregando reformas
sociais da boca pra fora mas numa veemência às vezes muito parecida com a
sinceridade. Em verdade querem reformas drásticas que deixem tudo exatamente
como está.
MANEIRA CORRETA DE LIDAR COM AS CONTRADIÇÕES DOS PODEROSOS. 1971

A conceituação tem mais força do que a realidade. Se, repetidamente, fazemos


críticas muito desonestas a respeito de uma pessoa, nunca mais
conseguiremos acreditar nessa pessoa.
QUEM SÃO NOSSOS AMIGOS? 1957

M e dêem mil atos de absoluta moralidade e eu construirei um bordel.


CONVERSA COM FLÁVIO CAVALCANTI, APRESENTADOR DE TELEVISÃO. 1957

A conhecida lei do PSD é a mesma eterna lei da tergiversação e do


compromisso. Para os que adotam essa política e essa filosofia, ensinar um
cachorro é dizer: “Malhado, levanta ou não levanta e vem cá, se quiser”.
Consideram uma afirmativa audaciosa dizer que estão onde sempre estiveram. E
que não são contra nem a favor, muito pelo contrário. Levam seu acordo político
ao extremo de prever que o tempo será bom ou ruim, se não for estável; que está
muito quente em caso de calor e que os ventos soprarão de um lado ou do outro,
conforme o sudoeste que soprar. Essa técnica, adaptada à coletividade política,
passa até a ser considerada estadismo.
ALGUNS TÓPICOS SOBRE LIDERANÇA. CONVERSA COM JOEL SILVEIRA JUNTO AO MURO DAS LAMENTAÇÕES. 1952

E fundamental verificar sempre a afirmação de sinceridade de nossos


companheiros que fazem suas pregações sociais entre um artigo para a
Manchete e um programa para a TV Globo, assim como quem faz o regime de
emagrecimento entre uma refeição e outra. Na verdade, esses companheiros
desgarrados não são contra o roubo. São apenas contra serem roubados.
MANEIRA CORRETA DE LIDAR COM OS COLABORADORES. CONVERSA COM ZIRALDO. 1971

U m bom caixa de banco, para contar dinheiro, sempre deve molhar a ponta
dos dedos numa esponja a fim de evitar que duas notas passem por uma.
Esse cuidado é desnecessário nas operações de depósito.
ENTRE O RICO E O POBRE. TESE DEFENDIDA NO CAFÉ LAMAS. 1963

A os que violentam e não o sabem, aos que roubam e nem suspeitam de que o
que fazem é um roubo e aos que prevaricam sem consciência, aconselho
mais reflexão. Também tenho uma tia, que passou por prostíbulos, tem seis
filhos e se diz, e se considera, sinceramente, virgem e inocente.
IDEM

U m governo sábio realiza primeiro e, posteriormente, vendo o que foi


realizado, faz os planos e os projetos. É a única forma possível de fazer os
planos coincidirem com os resultados.
RELATÓRIO COMO CONSELHEIRO DO PLANEJAMENTO DE UGANDA. 1971

Q uando as informações sobre a destruição do meio ambiente pela ganância


dos sistemas econômicos vigentes chegou ao conhecimento do homem
médio, o homem médio, como sói acontecer, adotou a técnica do avestruz:
comprou mais um apartamento e enfiou a cabeça na areia. E passamos a xingar a
tecnologia, que não sendo má em si mesma é também, ela, uma vítima do
sistema, que exige uma produção caótica, um afã de superação, uma ânsia
doentia de status e o pensamento dirigido só e unicamente para a rentabilidade.
Tudo isso colocando o homem nesses escaninhos sinistros chamados classes
(média, alta, baixa), vivendo à espera da morte ou, se preferirem, morrendo à
espera da vida.
CONVERSA COM JACÓ DO BANDOLIM. 1967

S
ver.
éculos de egoísmo, exploração do homem pelo homem, escravatura,
inconsciência e ambição desmedida. O resultado está aí para quem quiser

CONVERSA COM NOEL MARINHO, ARQUITETO. 1966

O rico, que come mais do que o pobre, inventou a boa educação para que seus
iguais não vivam arrotando à mesa.
CONVERSA COM CARLOS LEMOS. 1970

O Poder é uma sensação vertiginosa e maravilhosa, cultivada pelos


impotentes.
CONVERSA COM ALFREDO MACHADO, EDITOR. 1971

N o mais extremo exagero, a Censura Federal proibiu o rebolado na televisão.


O rebolado do samba. Assim, temos o samba sem rebolado, que é como ter
o sal sem o salgado. Isso na televisão, que, essa sim, é imoral, porque comercial,
subintelectual, contrária a qualquer tipo de educação. Tem razão o escritor
Abgard Renault “Que se pode esperar de um país que tem uma Comissão
Executiva da Mandioca?”.
CONTATO COM ALBERTO DINES. 1972

A Justiça, de qualquer forma, aí está, com sua cabeça erguida, seu olho rútilo,
mesmo coberto pela venda que, teoricamente, a impede de ver errado. Para
o dicionário, é uma virtude. Para o jurista, um direito organizado, pragmatizado
e institucionalizado. Para o teólogo, arma de amparar o respeito do homem pelo
homem, feito à imagem e semelhança de Deus. Para o cidadão comum, um
recurso supremo, quer dizer, uma derradeira e vaga esperança. Para os homens
da lei, quase sempre apenas um ganha-pão monótono. Para o Poder, um
instrumento político. Só a impostura das sociedades modernas faz crer ao
cidadão comum que a justiça é com maiúscula e pode funcionar
independentemente do Poder Político, acima dele, pairando soberba e solene, lá
bem alto, como um Concorde subsônico. Essa justiça existe e se chama Justiça
Criminal, mas julga apenas elementos da baixa classe média em processos que,
socialmente, não têm a menor importância.
CONVERSA COM GRANDE OTELO, ATOR. 1956

esconfio por princípio daqueles que lucram com seu ideal.


CONVERSA COM O DR. NOVA MONTEIRO, ORTOPEDISTA. 1971
os países ditatoriais de esquerda ou direita, a miséria social se torna tão
DN grande que, de tempos em tempos, se distribui ao povo uma esmola
política na forma de um voto.
CONVERSA COM JORGE AMADO. 1956

C uidado com os administradores públicos que lançam todo o peso de sua


ação para um futuro remoto. Nem eles, nem os críticos, estarão lá para
verificar o acerto das medidas tomadas no presente. Geralmente o lucro do
futuro parte de um presente bem administrado.
CONVERSA COM NEGRÃO DE LIMA, POLÍTICO. 1972

T enho a nítida impressão de que todos os meus amigos são puros, todos os
lugares que freqüento impolutos, todas as mulheres que conheço
sacrossantas. Ladrões são os outros, sujos são os locais a que os outros vão,
prostitutas apenas as mulheres dos vizinhos. Há trinta anos que em vão tento me
corromper. Só me oferecem cargos de sacrifício, postos em que se necessita um
salvador ocasional, campanhas “em prol de”, sem que eu possa me beneficiar de
nada. Ilibados amigos meus – eu quero dinheiro, glória, cargos, opulência, sexo
farto e fácil.
CONVERSA NO PASQUIM, COM A PATOTA. 1972

N azistas por nazistas, por que perseguir uns e homenagear outros, se os


crimes variaram apenas de estilo? Por que, enquanto Borman é odiado e
procurado por cães farejadores em quatro continentes, von Braun é
extremamente bem pago, tem a seu dispor, para suas experiências, todos os bens
da Terra e é bajulado pelos que desejam seus serviços? Por que é um cientista?
Então a medida é essa? A ciência, por si mesma, exime o cientista de qualquer
responsabilidade? Ou é apenas porque a V2, de von Braun, estudada, financiada
e patrocinada pelos nazistas, não caiu na cabeça dos judeus mas dos ingleses?
CONVERSA COM CÉSAR LATTES. 1960

O que espanta, no caso do detetive Nelson Duarte, é a busca, cansativa e


deviacionista, de provas que não interessam e só fazem o 007 sinistro
ganhar tempo. Bastava olhá-lo na televisão, ouvi-lo falar, escutar o que ele dizia,
sentir como dizia, observar a maneira dele se vestir e se comportar para concluir
que ali estava um cidadão acima de qualquer suspeita. Sou a favor da criação de
uma justiça psicológica, talvez tão injusta quanto as outras mas, pelo menos,
infinitamente mais rápida.
CONVERSA COM BORJALO. 1973
e você acredita no sistema em que vive, luta pela preservação dos bons costumes

S e da moral, pensa no futuro como uma continuidade deste sórdido presente,


então basta conseguir um pouco de dinheiro para poder ser considerado um
perfeito canalha.
DE TODOS OS HOMENS DO MUNDO. 1953

E m antigos sistemas políticos, os nobres parlamentares, disputando com seus


pares-em-poder, não podiam prometer sem sofrerem pressão – dos seus
rivais no dia-a-dia político – por realizações. De tempos em tempos leiloava-se o
Parlamento, os lances sendo feitos, como hoje, com promessas, estas, porém,
com um mínimo de garantias. Depois de um século ou dois o processo ficou tão
difícil que os Senhores acharam menos cansativo e perigoso dar ao povo, em vez
de reformas, o direito ao voto. O engodo é perfeito. A Opinião Pública que,
atingindo nobres e ricos, acabava restringindo esses velhos líderes “naturais”,
desapareceu sintetizada num escrotínio (sic) periódico. Os novos líderes,
“revolucionários”, conseguiram, sem má consciência, e com perfeita
impunidade, dizer hoje uma coisa e amanhã outra, sem serem cobrados depois.
Pois estão ratificados, senão santificados, pela Urna e pelo Voto.
ADVERTÊNCIA A LUIZ ANTÔNIO GRAVATÁ, GEÓLOGO, COLECIONADOR, INFORMATA. 1979
Responsabilidades

H á os que cedem diante da violência, os que temem qualquer ameaça, os que


nem suportam a idéia de perderem um emprego. O poder opressor usa
todos os meios, alguns até instintivos, para dominar o cidadão rebelde e a ovelha
negra. Pela convicção, pelo cansaço, pelo suborno, pela ridicularização de sua fé
e, afinal, pela extrema coação física, o Filho Pródigo é persuadido a voltar e a
partilhar do vitelo gordo. Por isso é fundamental uma resistência constante às
pressões e às tentações do poder. O preceito fundamental do algemado é não
pensar em comichão.
PALESTRA NA UNIVERSIDADE DO MEYER. 1950

Q uando os legisladores legislam, na pura teoria, sem pressões maiores do


julgamento real, conseguem obter uma certa sabedoria da lei escrita. Na
prática, porém, as interpretações dadas pelos juízes sob impulsos e interesses do
momento, tornam as leis injustas e odiosas. Mas toda lei é boa se usada
legalmente.
RECADO A MARCEL DUVAL, IRMÃO DO XARÁ MILLÔR. 1995

T emos que lutar com nossos próprios recursos, mantendo a fé, no meio do
ódio e da necessidade. Pois é bem possível que isto seja apenas uma
astronave tentando escapar de mundos ainda piores.
DISCURSO NA PRAÇA. 1968

D epois de alguns milhares de séculos de lutas, o mal está cada vez mais bem
plantado, o crime não só compensa como está institucionalizado, o
masoquismo não só não é combatido como é até estimulado. Temos que
reconhecer que Deus envelheceu e o Demônio evoluiu.
CONVERSA COM GLAUCO RODRIGUES, PINTOR. 1973

O conhecimento distante de um mal social não é suficiente para aferir suas


causas e encontrar maneiras de solucioná-lo. É necessário um
conhecimento íntimo do problema e esse conhecimento acaba sempre in loco, no
dia a dia em que se apresenta e desenvolve. É preciso experimentar, viver um
mal, para a exata consciência de sua extensão e profundidade. Conhecer a
diferença essencial entre o latido e a mordida de um cão. Esta é mais pessoal.
A TEORIA NA PRÁTICA. 1968

N em todos têm a capacidade e os meios de construir na medida do que


gostariam. Mas todos, sem exceção, podem evitar os males sociais dos
realizadores sem escrúpulos, dos empreiteiros ambiciosos, dos que destroem
tudo por onde passam no afã do lucro, numa política de cupidez e terra arrasada.
Você pode não realizar seus sonhos mas deve fazer tudo para que outros não
realizem os seus pesadelos.
CONVERSA COM CARLOS HENRIQUE PORTO, ARQUITETO. 1965

T radição é meia solução. É fundamental você examinar bem o meio em que


vive, as condições sociais existentes, e tentar equacionar com o máximo
cuidado todos os efeitos de uma mudança. O perigo dos movimentos sociais
orientados por aprendizes de feiticeiro é tentar destruir o status quo e acabar
destruindo apenas o status sem mexer no quo.
CONVERSA COM GISELLE GOLDONI, EMPRESÁRIA. 1988

A classe média, sem aspirações nem grandeza, é uma entidade que não sobe
nem desce, não quer nem deixa, e está em toda parte ao mesmo tempo.
CONVERSA COM VILMAR, DESENHISTA. 1972

F az parte fundamental da luta social uma infinita paciência no lidar com as


pessoas, problemas, tudo, todos e todos os seres. Isso, evidentemente, não
inclui cachorros, crianças, grã-finos, classe média em geral, proletários e
militares.
CASTAS. 1965

E preciso que as armas que você tem para lutar – culturais ou não – sejam
adequadas ao tipo de processo e ação em que você está integrado. Não
adianta nada você ter as melhores mãos de pôquer quando está jogando canastra.
CONVERSA COM PEDRO ALVERGA. 1972

N ão importa o que se faça com eles, aplicando-os em utilidade prática, bem


comum ou gozo individual. Mas é fundamental cuidar dos minutos. As
horas passam.
CONVERSA COM CLAUDIUS, ARQUITETO, DESENHISTA, DIANTE DA RELOJOARIA SUÍÇA JET D’OR. 1973

V ocê, salvo prova em contrário, é um membro da espécie humana. Isto é, um


assassino nato, usufruidor da miséria geral (se você come, alguém está
deixando de comer, pois o mundo não tem alimento para todos os seus
habitantes), sequaz de assassinos, parceiro de ladrões, cúmplice de espoliadores.
Se você vive, você é um homem. E um homem, nas circunstâncias em que
vivemos, é exatamente o oposto do homem do If, de Kipling.
CONVERSA COM DANIEL TOLIPÃ, EMPRESÁRIO. 1967

E preciso que a autocrítica não seja superficial e deviacionista, feita apenas


para, ao fim, ocultar erros graves, ampliando os sem importância. Nossa
ação só poderá melhorar quando deixarmos de nos queixar de nossa falta de
memória e começarmos a nos queixar de nossa falta de caráter.
ORIENTAÇÕES. 1965

O s direitos de cada um terminam onde as autoridades se sentem impunes.


ENCONTRO COM GUGA FRÓES, PROMOTER. 1985

A gora que os homens já foram à Lua meia dúzia de vezes, fizeram lá um


show ao vivo e sem censura, mostraram que o telefone de lá funciona
melhor do que o daqui, roubaram umas pedras do solo lunar (o homem é
visceralmente ladrão) e deixaram por lá, como presente da Terra, um aparelho de
laser, algumas antenas radiotransmissoras, um pouco de xixi e de cocô humanos
(devidamente esterilizados, diga-se-a bem da verdade) e duas bandeiras de
plástico, uma russa e uma americana (esta com um gadget que a faz vibrar
permanentemente) se defrontando de modo hostil, o romantismo lunar
desapareceu para sempre. Isso eles conseguiram, os astronautas: tiraram a magia
da velha dindinha Lua.
PAPO DISTRAÍDO COM RENATA CUNHA, EMPRESÁRIA. 1991

N ão reclame o pouco que lhe coube. A mais íntima das formas de vida é a
ameba. Daí surgiram os grandes homens.
TEORIA E PRÁTICA. 1967

N ão existe liberdade consentida. A liberdade é de baixo para cima, imposta


pelas reivindicações e pela consciência do indivíduo. As tiranias, por
vontade própria, jamais dão liberdade. Apenas, à proporção em que se sentem
seguras, vão pondo mais elos na corrente que prende todos os cidadãos.
DIÁLOGO COM SÉRGIO LACERDA, EDITOR. 1963

O problema não é apenas caminhar na estrada certa. Temos que arriscar


também a contramão.
TRÁFEGO SOCIAL. 1967

C ada um de nós tem que escolher com precisão seu campo de batalha,
conhecendo as próprias limitações e possibilidades. Dentro disso há uma
escolha: ou passar para a escala superior com meios próprios ou ficar na própria
média alcançada. De um limite a outro há uma imensidão de possibilidades.
Dependendo de sua própria escolha você pode ser o último dos rápidos ou o
vencedor dos lentos.
RECEBENDO UMA EQUIPE DE FUTEBOL AMADOR DE CONCEIÇÃO DE MATO DENTRO. 1971

C ada um tem sua função e todos precisam cumpri-la. Citando Lincoln: “Se
Deus quisesse que uns homens só comessem e não trabalhassem e outros só
trabalhassem e não comessem, teria metade dos homens só com bocas e sem
mãos e a outra metade só com mãos e sem boca”. Mas é mesmo, Lincoln?
IDEM

A mística da obediência cega e irrefletida seria ridícula se não fosse sinistra.


O cara que jogou a bomba em Hiroshima também dizia que estava
cumprindo ordens.
CONVERSA COM O LÍDER AGRÁRIO NIGERIANO TOMUKO SEILÁS. 1948

D e vez em quando esqueça. Ou melhor, se lembre de que, ao fim e ao cabo,


todo homem tem direito a meia hora de absoluta alienação e que o mundo
não é feito apenas de Vietnãs, cânceres no duodeno e credores à porta.
CONVERSA COM JOSÉ ÁLVARO, EDITOR. 1972

O s que acham que não têm força, os que pensam que não têm meios, devem
lembrar-se de que Cristo começou com uma cruz só.
BILHETE PARA A JORNALISTA SUSAN SONTAG. 1968

E , quando a situação se apresenta catastrófica, a lei eterna da estratégia deve


ser respeitada: mulheres e crianças primeiro. Isto é, é, deve-se espalhar o
pânico no inimigo bombardeando mulheres e crianças primeiro.
LIÇÃO A UM GENERAL APOSENTADO. 1971

Q uando os homens do futuro pararem diante de nossas cidades, bastará olhá-


las para murmurarem cheios de espanto: “Mas, eram todos canalhas?”
URBANISMO. 1973
Idealizacoes

N ossa tarefa, a missão essencial do ser humano, é apenas livrar o mundo dos
políticos corruptos, da crescente violência, da possibilidade de fabricação
de bombas nucleares domésticas, da emigração indesejável, das “fronteiras
móveis” entre países mais fortes e mais fracos, do turismo desenfreado, dos
conglomerados internacionais que ameaçam os países subdesenvolvidos, da
Conspiração Amarela para dominar a Raça Branca, da poluição dos plásticos
(sem falar em todas as outras já catalogadas: a da água, ar, luz, sexo, moral,
roupas), das marandubas africanas organizadas em exércitos, do neonazismo, do
neofascismo, do gás néon, dos bumerangues a baixa altitude, dos raios manta e
dos raios laser mal aplicados, da bomba de cobalto usada criminosamente na
eutanásia, da reimplantação internacional do sistema de castas, da elefantíase,
dos ateus, dos hereges, dos antipapistas e outros fanáticos anti-religiosos, de
vulcões não extintos, da conspiração internacional dos porcos chauvinistas, da
luta da Mão Negra contra a Máfia, dos pintores primitivos, dos alto-falantes nas
praças, das tempestades de areia, das pistas de tráfego com três e quatro andares,
da ameaça do degelo no Polo Ártico, da conspiração internacional homossexual,
dos sedutores de menores, do boom da impotência, dos Panteras Negras, do
Setembro Negro, do Capitalismo Negro, da Lei e da Ordem, da especulação na
bolsa de valores, da especulação com os trabalhos artísticos, da sodomia, da
legalização das drogas, da superpopulação, dos sinistros movimentos geológicos,
das explosões solares, dos delatores de modo geral, dos torturadores sem pátria,
dos mosquitos gigantescos da África do Sul, dos jigabôs e telêmacos, dos
maníacos depressivos, do trabalho forçado, dos materialistas sem Deus e sem
moral, da volta da febre amarela, do voodoo, da magia negra, da macumba e da
maçonaria, do monossódio e hexacloreto de coentro, da censura aos meios de
comunicação sem censura, do underground, do establishment, dos colonialistas
negros e dos missionários santimoniosos, das virgens profissionais, da
prostituição de menores, das nuvens de barata vindas da Grécia, da conspiração
internacional das agências de publicidade, da epidemia de tiques nervosos, dos
mulatos liberais, da conspiração internacional dos psicanalistas, da
arteriosclerose, dos caçadores de cabeças mercenários, dos vôos charters sem
itinerário, dos ciganos em desespero, do aumento espantoso de monstros
nazistas, dos cursilhos, dos autos-de-fé, dos menores delinqüentes, das guardas
pessoais, dos alcoólatras, dos exploradores do câncer, das comunas hippies e dos
campings da classe média, das bombas atômicas extraviadas, das touradas e
outras selvagerias para a idolização dos toureiros e outros selvagens, da
conspiração internacional das companhias de seguros, dos solitários maníacos
sexuais, dos ditadores analfabetos, da organização militar das atividades
religiosas, da organização mística das atividades militares, do rompimento de
gigantescos interceptores de esgotos, de desastres com petroleiros de um milhão
de toneladas, dos terremotos, dos maremotos, das donas de casa incompetentes,
dos ricos totalmente ociosos, das estradas mal sinalizadas, dos contrabandistas,
dos navios navegando com bandeiras piratas, dos bloqueios navais, dos
antropólogos pretensiosos, dos peixes contaminados, dos psicologismos e
economismos, das construções inseguras, do vitiligo, das pelagras e outras
doenças de subnutrição, da violação de correspondência, de incêndios, de
enchentes, de aquecedores a gás defeituosos e da terapia grupal. Aí teremos feito
da Terra um paraíso. Teremos conquistado o Milênio.
SOBRE TAREFAS SOCIAIS. CONVERSA COM PAULO AUTRAN, ATOR. 1965

E m política não há utopias e o maior utópico é o que acredita num socialismo


em que ele ficará muito bem com o pouco que tem e o pouco que lhe vai
caber. E, além disso, espera, naturalmente, uma socialização de bens tão perfeita
que o Estado consiga distribuir, com absoluta eqüidade, chuva, sol,
aborrecimentos familiares e acomodações nos transportes coletivos.
CONVERSA COM JUAREZ MACHADO, PINTOR. 1969

E preciso ser muito primário para achar que sexo é um ato físico.
CONVERSA COM JAGUAR, JORNALISTA, DESENHISTA. 1969

O sexo puro e simples só tem interesse animalesco (lato senso) e, portanto,


reprodutivo. Foi preciso a imaginação humana para mitificá-lo e
transformá-lo na ação esplêndida em que se tornou, cheio de mistério e variação.
Da mitificação, criada pelos inventores, aos tabus, criados pelos que não podiam
inventar nada, a distância é imensa. Tentando-se reduzir o sexo de novo à sua
forma “livre” – isto é, um ato tão natural quanto almoçar num restaurante – é
perder a, talvez, mais importante idealização humana. Sem idealização os seios
das mulheres voltarão a ser apenas duas funcionais glândulas mamárias, na
quase totalidade dos casos feias, moles, pensas, manchadas, sem a menor atração
erótica. De todos os animais o homem é o único que tem (porque inventou)
admiração pelas mamas da sua fêmea.
MITO E TABU. OBRAS COMPLETAS. 1970

O “diz-me com quem andas que eu te direi quem és” não quer dizer nada.
Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas.
CONVERSA DO LADO DE FORA DA PUC. 1970

T rês coisas sem fim e sem compensação mas que são ambicionadas por
qualquer ser humano: a busca da verdade, a luta pela liberdade, a prática da
fraternidade.
TRÍADES. 1973

N os momentos de crise ou perigo é fundamental manter a presença de


espírito, embora o ideal fosse conseguir a ausência de corpo.
PROBLEMAS DE ESTRATÉGIA. 1956

N o EnJU Satsuyoo, o mais precioso livro sobre a vida humana jamais escrito,
aprendi, com fervor e devoção, muito do que hoje sei sobre andar na terra e
olhar os mares. Gensaku, o sacerdote, que o escreveu em 1578, viveu 98 anos,
experimentando quase tudo na prática, sem falar do que viu e anotou. Descobriu
que o Homem e o Universo são exatamente iguais ou, pelo menos, têm muitas
semelhanças. A cabeça do Homem é redonda, seus pés são quadrados: o céu é
redondo, a Terra é quadrada. O Sol e a Lua são como os olhos do mundo. Os rios
são o sangue e a saliva do ser humano. Os ventos são a respiração. E as árvores,
os cabelos da cabeça.
MINHA PROVERBIAL SABEDORIA CHINESA. 1967

H omens que “vieram de baixo”, que lutaram durante dez anos até atingir a
posição de mando, poder e riqueza de que atualmente desfrutam, tendem a
declarar nas entrevistas à imprensa que as horas mais puras que viveram, as mais
felizes e alegres, foram as dos antigos dias da mocidade, quando não sabiam se
teriam ou não a próxima refeição. É tudo mentira. Ou falta de memória.
ENCONTRO COM JOSÉ CANOSA MIGUEZ, ARQUITETO, ILUMINADOR DO RIO DE JANEIRO. 1998

U ma criatura bela traz na beleza a sua forma de talento, assim como uma
criatura de talento traz no talento a sua forma de beleza. Os burros e feios
trazem na burrice e feiura a sua forma de feiúra e burrice.
CONVERSA COM A PANTERA SÍLVIA AMÉLIA. 1968

A constituição familiar, a prática política, as tradições da Igreja, os hábitos de


alimentação, o sistema de economia, as relações sociais e de classe, o
respeito entre as gerações, a orientação educacional, o comportamento da mulher
– um a um estão sendo destruídos, sistematicamente, todos os nossos valores
tradicionais: não há mal que sempre dure.
CONVERSA COM ASCENSO FERREIRA, POETA, NUM LUPANAR DA RUA ALICE. 1955

Q uando Carlyle afirmou que “o homem é o único animal que ri” não fazia
com isso uma mera constatação biológica. Biologicamente a hiena também
ri. Fazia uma constatação psicológica e social. Seu erro era apenas admitir o riso
como uma qualidade humana, quando é um defeito. O homem, da maneira por
que vive, não tem do que rir. Por isso, à frase de Carlyle deve-se acrescentar: “E
é rindo que ele mostra o animal que é”.
NOTA SOBRE OS DEZ DOCUMENTOS BEM ESCRITOS DOS COMPANHEIROS DE CALABAR. 1971

P ode ser até que haja vida inteligente em outro planeta. Neste, até agora, não
se viu a menor demonstração.
CONVERSA COM PEDRO PORFÍRIO, HOMEM DE TEATRO, POLÍTICO. 1972

E nganados de todos os lados pela Informática, já não conseguimos acreditar


em nada, mas ainda não conseguimos aceitar a dinâmica da descrença total.
Ainda ansiamos pelo “ver para crer” sem saber que isso é uma forma de
ceticismo descoberta pelos cegos.
CONVERSA COM MIGUEL PAIVA, DESENHISTA. 1969

E nquanto se combate o uso de drogas, apenas pelo fato de que elas são
chamadas com esse nome e, portanto, atemorizam (a semântica é capaz de
todos os crimes e todas as pressões), o futebol, praticado sem nenhum controle,
continua sendo permitido e até mesmo divulgado em todas as camadas sociais,
sobretudo as mais inferiores, que não têm, em relação a ele, qualquer defesa. E,
no entanto, se essa lamentável prática fosse diversificada e o tempo e a energia
úteis dos cidadãos se derivassem para outras atividades, tais como tênis, natação,
remo, peteca, voleibol, etecetera, o mal seria muito menor. Enquanto a repressão
combate a maconha e afins, a hipertrofia do futebol cria dependência,
ajuntamentos perigosos de multidões, motiva violência, causa engarrafamentos
sinistros nas grandes cidades e leva inúmeras pessoas a crimes tais como
mentiras, subornos e agressões. Sem falar em desentendimentos internacionais.
Deve-se combater de maneira enérgica a implantação do vício a partir dos
pequenos campos do Interior (como se faz com os campos de maconha) onde
experts traficam com a inocência infantil que começa bem cedo a ser envolvida
pela prática posteriormente incurável.
O ESPORTE BRETÃO. CONFERÊNCIA NA CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE TÊNIS. 1966
A brindo uma enciclopédia qualquer, britânica, gálica, latina, saxônica,
qualquer uma, refletindo no que está dito a respeito das figuras ali
imortalizadas, concluímos facilmente que toda aquela grandeza, dignidade e
nobreza é pura e simples invenção. Fora os compromissos (Los interesses
creados, de Benavente) que fizeram aqueles homens serem registrados como
soberbos, eles são, sem exceção, usurpadores, exploradores da comunidade,
santos de fancaria, tubarões econômicos, guerreiros impiedosos, cientistas
egocêntricos, artistas cuja arte principal foi uma desvairada autopromoção. Uma
cambada.
DIÁLOGO COM JUDITH FERNANDES, IRMÃ. 1964

E chega o momento em que é difícil acreditar que já houve um dia em que


pensamos 35 anos ser o máximo da velhice. Mas, compensação, lembro a
frase de Mark Twain, como eu, agora, terminando um almoço: “Qualquer que
seja a idade de um homem, ele pode ficar facilmente dez anos mais moço. Basta
botar um cravo vermelho na lapela”. Penso isso não por acaso pois, ao terminar
o almoço, me vejo, subitamente, com um cravo vermelho na mão. Mas, onde,
Deus do Céu, anda a lapela?
OBRAS COMPLETAS. 1970

A parentemente não há nada parecido com a vida humana num raio de alguns
milhões de quilômetros. O que torna evidente também que a vida – da
maneira como a conhecemos – é algo sem sentido, inteiramente par hasard. Por
que um Deus Todopoderoso ou um mecanismo cibernético extremamente
aperfeiçoado colocaria a vida exatamente nas condições em que a temos? A
Terra é um saco de gatos, sem qualquer programação. Come-se mal, as
condições são lamentáveis e, o que é pior: chove dentro.
CIRCULAR SOBRE A SITUAÇÃO GERAL. 1959

N ossos olhos acreditam, naturalmente, no que vêem. E nossos ouvidos


acreditam, naturalmente, no que as outras pessoas viram. Mas o “ver para
crer” está desmoralizado, com milhares de imagens falsas que nos são
impingidas diariamente depois de fabricadas pela mídia. Da mesma forma não se
pode acreditar em tudo que não se ouve. Entre o fabricado e o omitido só pode
sobreviver o absoluto desconfiado.
CONVERSA COM EVANDRO CARLOS DE ANDRADE, JORNALISTA. 1973

A s violências sanguinolentas de Salomão, as contradições morais de Júlio


César, as taras e ambições sociais de Napoleão, não os impediram de se
transformarem em gloriosos ancestrais de nós todos.
DURANTE UMA RODADA DE PÔQUER COM LEON ELIACHAR E ANTÔNIO MARIA, JORNALISTAS, HUMORISTAS. 1959

I ncapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio


egoísmo, tolo, tonto, sofrido, inseguro e criminoso, o homem lança suas
derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a
que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é
colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a
morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a
estupidez de sua natureza.
COMPUTA, COMPUTADOR, COMPUTA. PEÇA DE TEATRO. 1972

U m reacionário só é levado a enfrentar uma verdade social da mesma


maneira que um criminoso é levado a enfrentar a justiça: pela gola.
OBRAS COMPLETAS. 1970

N ão é que você não tenha o mesmo impulso. Apenas lhe falta coragem. Pois
algumas pessoas matam. Outras se satisfazem lendo notícias sobre o
assassinato.
CONVERSA COM RUTH FERNANDES, IRMÃ. 1960

A justiça é igual para todos. Aí já começa a injustiça.


CONVERSA COM PEDRO FIORITO, NOTÁRIO. 1970

O ato existencial, a felicidade e o destino humanos não estão na razão de


propostas morais. Igualmente felizes ou infelizes estão os que dão a vida
por um ideal ou os que, diante do mesmo ideal, apenas bocejam.
NOSSOS AMIGOS, NOSSOS INIMIGOS. 1965

D iante da tentativa constante de nos mitificarem, dando-nos qualidades que


não possuímos, coragens que não sentimos, capacidades intelectuais que
nunca demonstramos, é preciso conservarmos a autocrítica a todo custo. A
tentação de acreditar é grande, a vontade de ser Deus ou, para os mais
medíocres, estátua, permanente. Façamos como aquela mulher, cheia de senso de
humor que, sempre que se via nua na intimidade do banheiro, morria de rir de
seus admiradores.
AUTODISCIPLINA. DISCURSO. FACULDADE DE RECUPERAÇÃO DA ABBR. 1959

O Mundo: construído com material de segunda por um arquiteto inexperiente,


acabou produzindo o ser humano.
CONTATO COM CAMILA AMADO, ATRIZ. 1962
C uidado com o homem cujos deuses estão nos bancos.
CONVERSA COM LUÍS SÉRGIO PERSON, CINEASTA. 1971

O s deuses modernos, mesmo os mais prepotentes, exigem do povo o


sacrifício do voto.
CONVERSA COM LUDY VELOSO, ATRIZ. 1965

P ode ser apenas uma necessidade pictórica o uso compulsivo do vermelho e


do laranja, mas os pessimistas diante dos horrores do mundo devem olhar
com mais cuidado os desenhos infantis: há sempre um Sol brilhando mesmo que
o dia seja tempestuoso.
COMO MANTER O ÂNIMO DE TRABALHO. OBRAS COMPLETAS. 1970

S ou um crente, pois creio firmemente na descrença. E se não creio em Deus


tenho a certeza de que Ele crê em mim. Creio que a Terra é chata. Procuro
em vão não sê-lo. Creio que as paralelas se encontram nos paralelepípedos.
Acredito também numa lógica de ferro como base para um pensamento mais
amplo que é ilógico, alógico, subjetivo e animal. Como os checos, eu posso
dizer: “Svoboda suverenita”. Ou melhor: “Za svobodu dubceka cernika”. O que
ambas as frases, literalmente, significam, não tenho a menor idéia. Mas estou
disposto a morrer por elas, como tanta gente morre por outras frases que também
não têm o menor sentido.
DISCURSO DEPOIS DE NADAR OITO QUILÔMETROS CONTRA A CORRENTE NO RIO SÃO FRANCISCO POR OCASIÃO DO
SEU 40º ANIVERSÁRIO .

O s dirigentes, quanto mais ignorantes e vulgares, mais duram no poder. Não


é que isso satisfaça o povo como resultado político e social. Mas lhe dá
uma rara oportunidade de satisfação humana se sentir superior a um poderoso.
CONVERSA COM NEWTON CARLOS, JORNALISTA. 1972

O s ídolos dos selvagens, de pedra ou de madeira só exigem aquilo que os


pajés, através do consenso, exigem que eles exijam. Os ídolos civilizados
têm idéias próprias e não param nunca em suas exigências.
MONÓLOGO DIRIGIDO A PADRE CÍCERO, LÍDER RELIGIOSO. 1973

S ó à distância os objetos podem manter uma perspectiva ideal. Checov,


quando se aproximou das bailarinas, no intervalo de um balé maravilhoso,
ficou decepcionado porque “elas cheiravam como cavalos”.
CONVERSA COM LENNIE DALE, BAILARINO AMERICANO. 1971

uando eu vejo Senhor Puntilla, de Brecht, acho o personagem que dá nome à


peça extraordinariamente falso. É um rico desagradável e ridículo, o rico
Q rural, ultrapassado e pouco ofensivo. O odioso, na maior parte dos ricos
que conheci, é que, além de tudo, a vida lhes dá oportunidade de serem bem
educados no sentido do trato social, simpáticos e mesmo generosos.
CONVERSA COM FLÁVIO RANGEL, JORNALISTA, TEATRÓLOGO. 1967

T oda a literatura grega, trabalho gigantesco de continuidade de pensamento e


estilística durante vários séculos, se baseia na sabedoria existencial e
metafísica de que o homem deve pagar por seus delitos. E qualquer erro humano
(seduzir a mãe, matar o pai, trair o Poder) tem de ser punido por forças secretas
que subjugam os réus na rede de seus próprios delitos e os submetem a
interrogatórios lapidares que, geralmente, duram duas a quatro horas de
espetáculo.
AÇÃO REPRESSIVA, HISTÓRICO. 1973

A Odisséia é um monumento de licenciosidade e subversão.


CONVERSA COM JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA, GOVERNADOR DO DISTRITO FEDERAL. 1987

N ão tenha dúvida: a função fundamental da crítica cinematográfica sempre


foi nos fazer de bobos.
CONVERSA COM SÉRGIO AUGUSTO, JORNALISTA, ESCRITOR. 1972

O que assassina um líder, como o que o idolatra, ambos crêem profundamente


que ele é um Deus, responsável por tudo.
CONVERSA COM CARLOS LEONAM, JORNALISTA, ESCRITOR. 1967
Artificios da arte

A arte pela arte é, também, uma criação da indústria da arte a fim de valorizar
comercialmente certos artistas. E, num terreno não aferível como é o do
valor artístico, temos que nos curvar, afinal, aos preços e valores do próprio
mercado. Depois de criado o monstro Picasso (independentemente de seu exato
valor), os interesses investidos nele passaram a ser irreversíveis. Nenhum grande
diário, semanário ou crítico pode destruir o mito, já que, direta ou indiretamente
– dada a extraordinária produção de Picasso – todos têm algum capital
empenhado nele. O capitalismo não tem condições de desvalorizar Picasso.
OS MITOS INTELECTUAIS CRIADOS PELA ECONOMIA. 1970

A utilidade da música é conhecida. Serve para animar soldados nas marchas e


nas batalhas, para fundo de filmes cinematográficos, animação de festas
sociais, ambientação de bares e restaurantes e alienação do paciente enquanto o
dentista lhe trata dos dentes.
HIPERTROFIAS ARTÍSTICAS. 1967

C om uma mídia controlada pelo comércio, a promoção de pessoas


incompetentes – sobretudo nas atividades subjetivas – a expoentes de sua
atividade, atingiu uma proporção assustadora. Inúmeros artistas contemporâneos
não são artistas e, examinando melhor, nem são contemporâneos.
DECADÊNCIA DAS ARTES PLÁSTICAS. 1961

S e todos os seres humanos tivessem o ouvido realmente apurado, nenhum


idiota teria a coragem de inventar o acordeão.
CONVERSA COM SÉRGIO RICARDO, MÚSICO. 1970

M uitas pinturas consideradas obras-primas muitas vezes são apenas obras


medíocres que durante séculos foram colocadas de cabeça para baixo.
JULGAMENTO CRÍTICO. DISCUSSÃO COM WALMIR AYALA, POETA. 1965

A poluição semântica trouxe seu apoio maligno a todas as atividades não


objetivas, facilitando a exploração dos incautos com uma enxurrada de
palavras pomposas e esotéricas. Por isso os pintores, ao invés de pintarem para
serem entendidos pelo que pintavam, passaram a pertencer a escolas com
denominações esdrúxulas e intimidadoras, saindo do abstracionismo daltônico
para a pura ininteligibilidade cromática. Isso significa que, quando o leigo (e
comprador) pede explicações, podem responder que a coloração neo-realista e a
configuração pragmática perderam terreno definitivamente para as
revolucionárias concepções ótico-acústicas, embora estas tenham voltado a se
basear num realismo sincrético. Na prática isso serve para elevar artificialmente
o preço de alguns artistas. E aumentou o risco, já enorme, de um desprevenido
colocar seus quadros de cabeça para baixo.
POR UMA ARTE DE MASSAS. 1955

A moldura que serve para um quadro vagabundo pode ser usada também
numa obra-prima, desde que o tamanho das duas obras seja igual.
CONVERSA COM O MARCHAND FRANCO TERRANOVA. 1961

E tão visível a decadência das artes plásticas que, nas exposições, as poucas
pessoas que olham os quadros com atenção estão apenas querendo que todo
mundo veja que elas estão olhando os quadros com atenção.
DIÁLOGO COM O COLECIONADOR GILBERTO CHATEAUBRIAND, COLECIONADOR DE ARTE. 1967
Formas de lideranca

U m revés é um infortúnio mas, para evitar que nos cause traumas


individualmente desnecessários e coletivamente desastrosos, devemos
sempre procurar remediá-lo com censuras e punições nos subordinados.
HIERARQUIA. 1963

C om alguma habilidade e senso de organização pode-se transformar uma


rendição numa dificuldade tão grande para os vencedores que, breve, eles
terão se arrependido da vitória.
LIÇÕES TÁTICAS. 1958

A queda de um chefe não deve ser encarada como uma desgraça para nós,
mas como uma promoção.
INTERPRETAÇÕES. 1978

S hakespeare afirmava que o mundo é um palco.


Faltou dizer: de fantoches.
ILUSÕES. 1957

N a mais feroz ditadura, na mais violenta e contrastante sociedade, as


lideranças funcionam em pirâmide, acabando num líder, num führer, num
condottieri – num homem só. Negativo ou positivo, eleito ou imposto, sua
personalidade condiciona um estilo tribal, nacional ou mundial. A falta de
liderança é a inação ou o caos. Se Moisés acreditasse em plebiscito os judeus até
hoje ainda estariam no Egito.
CONVERSA COM SÉRGIO FIGUEIREDO, JORNALISTA. 1962

Q ue haja seres humanos melhores do que outros, física, psíquica e


intelectualmente, e que sirvam de exemplo para esses outros. Mas que essa
supremacia seja medida por pontos, médias e notas, é uma mistificação que leva
fatalmente aos concursos de misses, onde a beleza é medida com réguas e
esquadros, ou às piscinas de natação, onde um atleta, por ter chegado à frente do
outro uma fração de tempo que tem que ser medida em relógios eletrônicos, vira
um super-herói, milionário, cercado de pompas e circunstâncias, enquanto
milhares de outros pelo mundo afora, nadando exatamente a mesma coisa (minus
a fração eletrônica), passam sem atenção, sem consideração, no total anonimato.
RECADO A FEOLA, TÉCNICO DE FUTEBOL. 1971

A liderança é sempre indispensável e, mesmo quando ditatorial, pelo menos


orienta, influi e impõe. O quorum, necessário para equilíbrio de qualquer
grupo, é, geralmente, a incapacidade individual multiplicada pelo número
regulamentar.
DISCUSSÃO DE BALANÇO DA CODECRI (COMITÊ DE DEFESA DO CRIOLÉU, EDITORA DO PASQUIM) LTDA. 1972

N uma biografia moderna destinada ao sucesso junto às massas, é necessário


você colocar fatos que indiquem uma vida sacrificada, dificuldades de
estudo, impossibilidade de alimentação, solidão e abandono. Jamais caia na
bazófia e, mesmo que você seja forte, saudável, e tenha sido cercado de carinho
a vida inteira, não o deixe transparecer. Qualquer liderança lhe fugiria se
descobrissem que você é um homem extraordinário. Um líder tem que ser
extraordinariamente comum.
CONVERSA COM PAULINHO GARCEZ, FOTÓGRAFO. 1967

O esforço social, praticado por homens de elite, exige destes uma extrema
generosidade pois, não tendo a ganhar senão a realização pessoal, têm,
materialmente, tudo a perder dentro do sistema em que foram gerados e
educados. Uma das contradições da cultura burguesa é que ela não só não
resolve nossos problemas como faz com que possamos ser presos por causa dos
problemas no Extremo Oriente.
OBRAS COMPLETAS. 1970

E m qualquer caso, circunstância, por pior que seja, por mais estranha,
esdrúxula, visivelmente errada ou visceralmente destinada ao fracasso, a
conduta dos superiores é sempre impecável e digna dos maiores encômios.
CONVERSA COM GLAUCO OLIVEIRA, JORNALISTA. 1973

J usta ou injustamente, não sei por quê, me vem sempre à cabeça a imagem do
desaparecido Cienfuegos, herói cubano. Mas toda revolução vitoriosa paga
seu preço de injustiças e até mesmo crimes contra os que ajudaram a criá-la.
Diante do herói incômodo só resta um recurso – fuzilá-lo e erguer-lhe uma
estátua.
COMO LIDAR COM AS CONTRADIÇÕES SOCIAIS. CONVERSA COM ORIANA FALACI, ROMA. 1965

C ontinuo acreditando na força do indivíduo diante das circunstâncias e na das


circunstâncias diante do indivíduo. Ou seja, em nada. Ou melhor, em tudo.
Se Calabar tivesse vencido estaríamos agora numa comunidade muito mais
ampla – a espanhola (já que ninguém aqui no Brasil jamais iria aprender a falar
holandês). E tem mais: na comunidade espanhola eu comeria paella todo dia –
comida que adoro. Calabar perdeu, que é que sobrou? Bacalhau à Gomes de Sá.
Por falar nisso: quem foi Gomes de Sá?
CONVERSA COM SÉRGIO RODRIGUES, ARQUITETO, NO AO TIMPANAS. 1971

O difícil é você se livrar dos idiotas que pretendem lutar ao seu lado
interpretando a sua negação da cultura dominante como uma afirmação de
louvor à ignorância.
CONVERSA COM CÉSAR THEDIN, ARQUITETO. 1963

S ó existe uma regra definitiva: não há regras definitivas.


CONVERSA COM RENATO CONSORTE, ATOR. 1963

T oda revolução fracassa por se esquecer, afinal, de que o homem tem uma
suprema ambição social e política: voltar pra casa.
CONVERSA COM ODUVALDO VIANA FILHO, ATOR, DRAMATURGO. 1965
Formas de opressao

P rimeiro o troglodita ordenou à mulher que não saísse mais da gruta porque
cá fora era muito perigoso, e dividiu o mundo em duas metades: metade
dominadores e metade dominados. Depois, quando lhe nasceram os filhos, ele
ordenou à mulher que cuidasse deles e a eles que obedecessem ao sistema de
vida que sua geração tinha criado. E o mundo ficou dividido em um terço de
dominadores (homens) e dois terços de dominados (mulheres e crianças). Aí o
troglodita encontrou homens como ele mas, como tinham a cor da pele diferente,
gritou que eram inferiores e aprisionou-os. E aí o mundo ficou dividido em um
sexto de dominadores, dois terços de dominados (mulheres e crianças) e um
sexto de dominados pelos dominadores e dominados. Para facilitar foram
chamados de escravos. Mas aí, metade do um sexto (um doze avos) dominador
quis dominar a outra metade e inventou Deus. A luta, tremenda, terminou em
empate. E a Terra foi dividida em Poder Temporal e Poder Espiritual. E ambos
concordaram em que tinham que inventar um slogan básico para manter todos os
outros cinco sextos da humanidade na posição em que estavam. E criaram o
maior e mais belo slogan de todos os tempos: “O dinheiro não é tudo”. E como,
por mais rico que o homem seja, não está garantido contra o desastre e o
infortúnio, contra a doença e contra a morte, foi fácil convencer a maior parte da
humanidade (gastando-se nisso, é verdade, rios de dinheiro) de que “é mais fácil
um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos
céus”; de que “no Juízo Final, os humildes herdarão a Terra”, de que “a riqueza
não traz felicidade”, etecétera. Até o dia em que o Millôr chegou, olhou a
miséria em volta, trazendo como conseqüência o analfabetismo, a sujeira, o ódio
e a opressão, e concordou tranqüilamente: “Sim, o dinheiro não é tudo. Tudo é a
falta de dinheiro”.
ANÁLISE DAS ESTRATIFICAÇÕES SOCIAIS. TESE DEFENDIDA NA FACULDADE DE PESQUISAS SOCIAIS DE TORONTO.
TÓQUIO. 1961

C om mais de 70% da humanidade vivendo em condições subumanas e,


muitas vezes, subanimais, pode-se dizer que todo cidadão, ao nascer,
adquiriu o direito inalienável a 60 anos de prisão.
CONVERSA COM O JORNALISTA PEDRO GOMES. 1971
o sistema em que vivemos, numa organização injusta e desequilibrada, todo
N homem tem direito apenas à busca da infelicidade.
CONSTITUIÇÕES. 1950

N uma democracia todos são (presumivelmente) iguais perante a lei. Numa


ditadura todos são iguais ante a polícia.
CONVERSA COM GEORGE TAVARES, ADVOGADO. 1971

O ditador Selassié, o rei dos reis, o mais antigo rei do mundo, de uma dinastia
que vem do início dos tempos; Mao, o comunitário absolutista, cuja
dinastia começa em si mesmo; Nixon, eleito pelo povo, e todos os outros, Tito,
Fidel, Chiang-Kai-Chek, Papadopoulos, Marcelo Caetano, acreditam e provam
que o homem é o lobo do homem, tem que ser governado com mão de ferro
porque é perigoso e irredimível. Portanto, em dúvida, não saia de casa.
CONVERSA COM LAN, DESENHISTA. 1970

A burocracia, que poucos se recordam vir da palavra bureau, mesa ou


secretária, acaba se resumindo nisso mesmo: um móvel atrás do qual se
senta uma pessoa que detesta fazer aquilo que faz mas fará tudo para fazê-lo da
maneira mais demorada e complicada, a fim de se dar uma importância que
jamais teria se realizasse a tarefa com a simplicidade e a rapidez que ela requer.
MINISTROS E SUAS FUNÇÕES. 1963

A burocracia – “um mecanismo gigantesco controlado por pigmeus” – é um


exército imenso e sempre crescente de funcionários públicos e particulares,
diplomatas, contadores, contínuos, escrivães, coletores de impostos, multadores
profissionais e atravancadores de profissão que, sentados atrás de um buro,
impõem a todos a sua execrável cracia.
DISCUTINDO COM PAULA, FILHA. 1982

D entro da faixa de possibilidades sociais que lhe são dadas, o homem não
tem fuga. Em média, se não for atropelado ficará no desemprego, se não
ficar desempregado vai pegar um enfisema, será humilhado, abandonado pela
mulher, arrebentado sentimentalmente pelos filhos, mordido de cobra, ficará
impotente e, mesmo escapando de tudo, ficará velho, senil, babando num asilo.
O mundo não tem lugar senão para um terço da humanidade.
DISCURSO NUM JANTAR NO PORTO, PORTUGAL. 1973

E m determinados países como o nosso, neste momento da história, assaltado


ou violentado, é melhor não gritar por socorro – corre-se o risco de atrair a
polícia.
CONTATO COM CÍCERO SANDRONI, JORNALISTA, ESCRITOR. 1962

E m vez de deblaterarem contra o serviço doméstico – que alguém, afinal, tem


que executar e não é mais indigno do que inúmeros outros afazeres
masculinos – as mulheres deviam lutar pela dignificação do trabalho doméstico
através da sindicalização e obtenção de seguros sociais para as empregadas, e
uma participação efetiva (para uso próprio) da dona de casa no salário do
marido. Com 20% do salário bruto do marido como seu salário de
administradora doméstica (um trabalho menos árduo do que muitos outros
exercidos pelo homem mas que requer uma competência extraordinária) a
imagem da mulher passaria de mantida (como se o homem fizesse um
permanente favor em sustentá-la) para a de uma trabalhadora especializada, em
pé de igualdade com o marido que, ao fim e ao cabo, não deve ficar com muito
mais (se fica) de 20% do salário para suas despesas pessoais. As mulheres de
regiões pobres seriam as mais beneficiadas em sua dignidade pois, embora a
princípio fosse difícil ou impossível controlar o seu pagamento, com o passar do
tempo isso se tornaria uso e costume, ato de elevação social e igualização com os
homens.
ENTREVISTA COM BETTY FRIEDAN, LÍDER FEMINISTA. PASQUIM. 1970

D entro dos critérios da classe média brasileira há vários estilos de serviço à


mesa, os principais sendo o serviço estilo português ou italiano, em que os
pratos são todos postos na mesa e cada um se serve ou a dona da casa serve a
todos; o serviço americano, em que os pratos são todos colocados numa
aparadeira e cada convidado se serve, sentando posteriormente onde bem
entender ou em mesas determinadas, e o serviço à francesa, em que um servidor
traz as bandejas de comida uma em cada mão, os convidados retirando a comida
que querem pela esquerda. Esse tipo de serviço, odiosamente snob, humilha os
criados modernos (pois torna visível a sua incompetência) e deixa inconfortáveis
os convidados, que acabam se servindo menos do que pretendem, com o medo,
sempre presente, de jogar tudo no chão. Servir à francesa em país
subdesenvolvido, com empregados sem qualquer especialização e ganhando
salários miseráveis, é uma ostentação ridícula.
ADMINISTRAÇÃO DOMÉSTICA. 1967

E por que não se admitir que o filho de um milionário continue milionário, se


se admite que milhões de filhos de trabalhadores mantenham uma posição
de hierarquia tradicionalista e continuem a ser trabalhadores?
CONVERSA COM DALVA GASPARIAN, FILÓSOFA PAULISTA. 1973
A pressão da sociedade de consumo foi levada a tais extremos que os
presentes de Natal já não os damos por generosidade mas por medo.
DIÁLOGO COM VERA HIME, PROMOTER. 1972

S ó quando chegarmos ao dia da meritocracia, as pessoas serão avaliadas


independentemente de suas características, idade ou sexo. Porque isso
(ainda?) não é possível, a lei tem que determinar um dia exato na vida individual
em que a sua irresponsabilidade quase total passa para uma responsabilidade
absoluta. Um homem pode “seduzir” uma moça em 18 anos mais um dia sem
que a lei o persiga e não pode fazer o mesmo a uma moça com 18 anos menos
um dia. Um homem estúpido pode ser presidente da Nação porque tem mais de
trinta e cinco anos, mas um homem de 34 e 364 dias não pode ocupar esse posto
por mais genialmente bem dotado que seja. As leis rígidas já trazem dentro de si
o germe da insurreição.
DIÁLOGO COM GERALDO DE FREITAS, JORNALISTA. 1968

C omo acreditar que todos os homens são iguais perante a lei se uns são
condenados a morrer de indigestão e outros a morrer de fome?
NOTA INTRODUTÓRIA AO PEDIDO DE CASAMENTO DE UMA TIA. 1947

S e os resíduos psíquicos fossem materiais, nas grandes cidades não haveria


esgoto que bastasse.
CONVERSA COM OSCAR CASTRO NEVES, MÚSICO. 1965

O mal da censura é que ela não tem função crítica, atingindo a todos nociva e
indiscriminadamente. Para proibir uma pessoa de fumar é preciso, antes de
tudo, saber se ela fuma.
CONVERSA COM ZIRALDO, HUMORISTA, NA ARQUIBANCADA DO MARACANÃ. MAIO. 1968

N ão convém desesperar se os tempos são difíceis, se a época cresce em


restrições e puritanismo. Com todas as limitações que imponha, nenhum
Estado jamais vai conseguir fazer com que os meninos não nasçam com o
pirulito de fora.
CONVERSA COM JAIME BERNARDES DA SILVA, EDITOR. 1972

O anarquista se revolta contra ser governado.


Não ser governado por este ou aquele sistema, mas contra o fato mesmo de
ser governado Pois ser governado é ser “guardado à vista, inspecionado o tempo
todo, espionado, legislado absurdamente, regulamentado, condicionado,
doutrinado, estampilhado, censurado, comandado por elementos que não têm
títulos para isso, nem capacidade, nem ciência, nem virtude”. Ser governado é, a
cada operação, a cada transição, a cada gesto, “ser registrado, tarifado, timbrado,
recenseado, cotizado, patenteado, licenciado, apostilhado, admoestado, intimado,
intimidado e corrigido”. É, em nome da utilidade pública e do interesse geral, ser
obrigado a contribuir. É ser explorado, monopolizado, pressionado, mistificado,
roubado. E, à primeira palavra de protesto, ao primeiro gesto de resistência, ser
reprimido, vilipendiado, envergonhado, difamado, desarmado, aprisionado,
fuzilado, metralhado, guilhotinado, julgado, condenado, deportado, sacrificado,
vendido, traído. Só um idealista enlouquecido consegue sobreviver a essa visão
do mundo.
COMO SOBREVIVER. 1956

A punição funciona não só em relação ao crime mas também ao pecado, ao


vício, ao erro e ao descuido e omissão. De acordo com o tipo de desvio, a
autoridade punitiva passa a ser a Família, o Pai, a Sociedade, a Polícia, ou
simplesmente o Mais Forte, ou Deus (um pouco afastado, hoje).
DIREITOS E DEVERES. 1956

A censura começa por textos escritos e acaba proibindo os próprios escritores


de circularem.
LIBERDADE, LIBERDADE. 1965

N a Tragédia Grega os inimigos do povo sempre sofrem tremendas crises de


remorso e acabam apanhados por alguma indiscrição, pois sentem-se
obrigados, voluntariamente, a denunciar, numa ação de catarse (método
precursor da lavagem cerebral, inventado por Aristóteles), a ação indigna que
cometeram contra a moral, o sistema de governo ou os costumes vigentes.
FLORINDA BOLKAN, ATRIZ. 1972

O pior da censura é que ela não só cala as poucas vozes dissidentes mas
desperta nas outras um extraordinário desejo de subserviência.
CONVERSA COM WILSON AGUIAR, JORNALISTA. 1968

S e os ignorantes forem suficientemente fortes acabam impondo tudo o que


querem. Como os colonizadores eram sempre ignorantes e poderosos,
acabavam impondo sua língua aos nativos.
CONVERSA COM RODOLFO NEDER, PUBLICITÁRIO. 1987
Individualismo. Positivo e negativo

A lém de oito, dez, doze horas de trabalhos diários, você ainda se preocupa
com as possibilidades (impossibilidades) de seu próprio futuro. Se é
extremamente moço encara, com uma certa angústia, os velhos que passam. Se é
velho pensa, dia a dia, no dia imediato, você mais velho e mais marginalizado do
processo existencial. O dinheiro falta ou, se não falta, pode vir a faltar. A mulher
possuída pode desaparecer amanhã levada pelo ímpeto de uma outra paixão. Se
não lhe aconteceu até agora nenhum desastre físico, nenhuma mutilação
importante, você, estatisticamente, está mais sujeito a ela a cada hora que passa.
E desfilam, à sua frente, um cego, um idiota, um traído, um monótono, um
nojentamente gordo, um tisicamente magro. Mas para que se preocupar tanto? O
cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima.
SOBRE “MANEIRA CORRETA DE ENFRENTAR AS CONTRADIÇÕES EXISTENCIAIS”. DISCURSO NA UNIVERSIDADE DO
MEYER. 1945

N ão tenho, não tenha ilusões. Se Cristo ou Marx ressuscitassem iriam abjurar


tudo que se faz em seus nomes. Aliás, nem Cristo era cristão nem Marx
marxista. Seria uma megalomania insuportável.
OBRAS COMPLETAS. 1970

P ela fórmula geral de comportamento, pelo modismo levado ao extremo,


repetição de hábitos e gestos e uma linguagem reduzida a monossílabos, a
impressão é que a liberdade que todos almejavam era apenas a de se copiarem
uns aos outros.
CONVERSA COM GERALDO CARNEIRO, JORNALISTA, HOMEM DE TELEVISÃO, POETA. 1980

O homem que, enquanto é pobre, pensa mais nos outros do que em si próprio,
jamais, obviamente, chegará a ser rico. Nos estágios iniciais da vida
econômica é fundamental preservar ao máximo nossas reservas naturais de
egoísmo e cupidez, combatendo violentamente qualquer sentimento de
generosidade ou espírito humanitário que teime em nos aparecer. Esse tipo de
procedimento tem um alto conteúdo social pois, uma vez milionário, você
poderá praticar a generosidade e a filantropia em escala muito mais ampla e,
além disso, deduzi-las do Imposto de Renda.
CONVERSA COM PAULO MERCADANTE, ECONOMISTA. 1969

A idade traz compensações que devem ser aproveitadas. Nadador medíocre,


não nadar bem não me humilha mais. Quando saio do mar ou da piscina já
tenho idade suficiente para adotar um ar de ex-nadador entediado.
CONVERSA COM YLLEN KERR, JORNALISTA, FOTÓGRAFO, ATLETA. 1973

A fuga à civilização não é uma solução civilizada.


O fundamental é não confundir isso que temos com civilização, mas criar
uma de verdade, em que se possa viver no confronto do outro ser humano,
gozando o lado positivo da ciência e da tecnologia. O homem é gregário, embora
não tão gregário quanto o obrigam a ser. A civilização atual é desagradável e
imprópria, as aglomerações são excessivamente aglomeradas, a superpopulação
enche os locais mais bonitos do mundo. Mas basta você tentar ir a locais vazios e
distantes, calmos e solitários para descobrir logo que os únicos lugares
freqüentáveis são os lugares muito freqüentados.
DIVAGAÇÕES COM CORA RÓNAI, JORNALISTA. 1988

T odo homem é seu valor dividido pela sua auto-estimativa.


DESTINO INDIVIDUAL. 1965

S empre ouvi falar do grande mudo, aquele homem lacônico ou totalmente


silencioso, imagem de prudência e sabedoria inabalável, contraposta à do
boquirroto e parlapatão, por definição um leviano total. Mas, na prática, embora
o homem calado constitua, numa reunião ou ação, figura mais ameaçadora do
que o que fala muito e acaba, via de regra, se revelando mesmo é um saudável
idiota. Quem tem algo a dizer não consegue se conter durante muito tempo. Mas,
cuidado: as pessoas que falam muito são inclinadas a contar coisas que ainda não
aconteceram.
IDEM, P. 1.089

A lei e a ordem. Isso significa que você deve sempre diminuir um pouco a
marcha e verificar se não há nenhum guarda por perto, antes de avançar o
sinal. Só.
DIÁLOGO COM HÉLIO FERNANDES, JORNALISTA. 1964

A necessidade de respeitar a massa não exclui o esforço de sair dela se


afirmando como indivíduo. O medíocre, no seu lato senso, é evitável e deve
ser evitado. O homem se afirma quando se cura da normalidade.
DIÁLOGO COM PAULO FRANCIS, JORNALISTA, POLEMISTA. NOVA YORK. 1973
onceito para o aderente universal: você pode ser a favor de todas as pessoas

C algum tempo. Você pode ser a favor de algumas pessoas todo o tempo. Mas
você não pode ser a favor de todas as pessoas todo o tempo.
PARA AS ALUNAS DO COLÉGIO STELA MARIS. 1958

N ão espere melhorar seu trabalho ou sua personalidade através de uma crítica


exterior. Seus melhores amigos jamais lhe dirão tudo que pensam de você
ou só o farão em momentos de exaltação pró ou contra, tornando a crítica não
confiável. Ninguém jamais lhe dirá as coisas amargamente terríveis que você
mesmo inúmeras vezes se diz, às três horas da manhã, no escuro do próprio
quarto, a cabeça mergulhada no travesseiro. Só existe uma crítica: a autocrítica.
CONVERSA COM PAULO GRACINDO, ATOR. 1973

C uidado, porém, com a inação provocada por uma autocrítica exagerada,


levada a extremos masoquistas. A autocrítica tem que ser pró com a mesma
profundidade com que é contra. Você tem que parar no balanço geral e dizer para
si próprio: “Não, isto eu fiz bem”. “É. Aqui eu estava certo’. “Sim, por aqui eu
vou que o caminho é só meu”.
DIÁLOGO COM CLÁUDIO CORRÊA E CASTRO, ATOR. 1970

V ida política: um ato permanente de dedicação para o bem e para o mal, 24


horas por dia, trabalho, sangue, suor, privação, lágrimas verdadeiras e
sorrisos falsos. Pelo bem do povo? Tem muitos que nem sabem o que é isso.
Para enriquecer? Muitos não se importam com o dinheiro ou já são ricos. Para
aparecer o tempo todo? Há detentores do poder que têm como sua maior vaidade
a modéstia e realmente detestam aparecer. Por quê?
PODER É QUERER. 1973

O cara que não reage é extremamente desagradável e dá a você a


responsabilidade de uma posterior auto-análise cansativa e cheia de
remorso.
CONVERSA COM GONÇALO IVO, PINTOR. 1991

N a autocrítica, análise de si mesmo por si próprio, quem é o superior – o


julgador ou o julgado? Aquele que foi e agora dá vez e direito ao outro de
julgá-lo ou o outro por se achar mais avançado no tempo em relação ao julgado?
CONVERSA COM BERNARDO SILVEIRA, HOMEM DE SOCIEDADE. 1972

O único democrata autêntico que conheci em minha vida foi o Papa Doc, do
Haiti. Fuzilava inimigos, amigos e até parentes com absoluta
imparcialidade.
CONVERSA COM PAULO GARCEZ, FOTÓGRAFO. 1971

D epois de tantos anos de vida, por consciência, temperamento ou até mesmo


por cansaço, descubro que sou e continuo sendo um democrata. Alguém
tinha que ser.
CONVERSA COM FLÁVIO DAMM, FOTÓGRAFO. 1973

E m toda parte onde ando, neste pequeno mundo, Grécia, Espanha, Portugal
ou Suíça, vejo bandos de japoneses e só japoneses em bando. Estou
convencido de que não existe o japonês individual.
CONVERSA COM MARIA KOUTSIKOS, EMPRESÁRIA DE MODA. FLORENÇA. 1968

N ão há homens puros. Mas todo homem tem seu núcleo de pureza quase
nunca descoberto e pouco suspeitado.
CONVERSA COM LUCIANA VILLASBOAS, JORNALISTA, EDITORA. 1987

E isso: aprendemos que a vida é feita de coisas essenciais. E achamos razoável


uma certa irritação e uma certa perplexidade diante das mil frescuras
(muletas) que se inventaram ou cresceram nos últimos anos: a psicanálise, as
“ondas” sócio-metafísicas, as curtições religiosas de toda espécie.
CONVERSA COM OSWALDO ROCHA, DIVULGADOR CINEMATOGRÁFICO. 1970
Vicios e abstinencias

S e não fossem os grandes bêbedos – para não falar dos grandes homossexuais
– o Império Britânico jamais teria conquistado a sua majestade histórica, o
seu imenso lugar no mapa (dos outros). A tradição heróica e a vastidão
geográfica da Inglaterra não foram feitas com contenções puritanas, abstenções
etílicas e rigores antialcoólicos. Em cada leme de bergantim, em cada proa de
brigue, em cada ponte de fragata, o que a nossa memória nos lembra não é a
figura do almirante uniformizado e solene, digno, áspero e reto, mas, ao
contrário, a de um pirata de galé, barbudo e sujo, roufenho e rude, uma garrafa
de brandy vagabundo na mão, um papagaio no ombro, uma mulata (às vezes um
mulatinho) do Caribe a tiracolo, berrando a seus homens, criminosos e párias,
quase todos também devidamente aquecidos pela bebida, para que contenham os
cabos e recolham as velas que vamos atravessar o cabo Horn e essas ondas de
trinta metros que vêm aí não são de nada.
COMO SE FAZ UMA COLETIVIDADE. ARENGA NA PRAIA DO CAJU. 1972

O escritor americano Gore Vidal afirma que se vamos medir pelo número de
vezes, quantitativamente, então o único ato sexual realmente normal é a
masturbação. Eu, por mim, que sou a favor de alguma mitificação sexual (sem
isso o sexo vira um ato puramente animal) e contra todos os tabus, tenho que, de
todas as taras sexuais, a mais estranha é, sem dúvida alguma, a abstinência.
ENCONTRO COM CARLOS IMPERIAL, MÚSICO, E JECE VALADÃO, ATOR. 1969

E preciso uma certa tranqüilidade na apreciação dos vícios condenados pela


sociedade de consumo. Algumas drogas, longamente combatidas, como o
fumo, foram assimiladas no momento em que a indústria capitalista viu nelas
fonte de lucro. As acusações ao alcoolismo partem de fontes suspeitas e,
inúmeras vezes, voltadas para a violência, nacional e internacional. Uma coisa é
definitiva a favor dos bêbados: nunca ninguém viu cem mil bêbados de um país
querendo invadir outro país para estraçalhar cem mil bêbados inimigos.
NA MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS PELO 15º ANIVERSÁRIO DOS ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DE PATI DO ALFERES. 1967

S e você beber duas doses de uísque durante 29.200 dias, terá bebido
exatamente 3.000 garrafas de uísque. E, o que é melhor, estará completando
oitenta anos.
COMO MODERAR OS EXAGEROS. 1970

O homem é um animal como outro qualquer, só que naturalmente muito mais


desenvolvido, isto é, muito pior. Para sobreviver e manter o próprio ciclo
vital, pouco se importa de deteriorar ou destruir o que lhe está em volta. Come
carne (oriunda da morte de outros animais), ou ovos (o que impede o nascimento
de outros animais), ou sementes (o que destrói inúmeras futuras vidas vegetais).
O único produto da natureza que é puramente alimento, o leite, o homem
abandona assim que começa a engatinhar no mundo.
O PIOR ANIMAL. 1965

S em ter aplicação para sua energia vital, o grã-fino (burguês finamente


educado para a absoluta inutilidade) aplica todo o seu tempo, artificialmente,
em encontros sem profundidade ou objetivo. Dessem a qualquer um de nós,
trabalhadores braçais, que nos divertimos imensamente com a variação e escopo
de nossas atividades, a obrigação de comparecer, seis meses seguidos,
diariamente, a essas festas e reuniões a que os grã-finos comparecem, tendo que
ouvir conversas sem interesse e conversar frivolidades com mulheres
dessexuadas na sua busca frenética de sexo, e morreríamos de tédio ou urticária.
Além disso, a vida de “sociedade” afasta as pessoas em vez de juntá-las,
desidrata as relações pessoais, artificializa os contatos entre parentes, irmãos,
pais e filhos. O preço da badalação é a eterna solidão.
DECLARAÇÃO AOS EMPREGADOS DA COZINHA DE TEREZA DE SOUZA CAMPOS, MULHER DE SOCIEDADE. 1961

P or mais hábil que seja, o jogador acaba sempre perdendo, na corrida longa.
O jogo está sempre acima do jogador.
CONVERSA COM LEON ELIACHAR, JORNALISTA, HUMORISTA. 1954

E fundamental resistir às tentações. O sábio é sermos nós os tentadores.


CONVERSA COM TUCA MAGALHÃES, ADMINISTRADORA. 1971
Guerra e paz

S empre houve no mundo libertações, mas a palavra-chave Libertação só


começou a ter curso corrente por volta de 1940, quando povos começaram a
ser arrancados do domínio de alguns países para serem colocados sob o domínio
de Hitler e depois (1945), depois foram arrancados de Hitler para serem
colocados sob o jugo de outras variadas nações. Daí em diante o uso da palavra
Libertação ficou tão popularizado que, sempre, ambas as partes em luta (sem
contar os próprios libertados, divididos em grupos, cada um procurando uma
libertação diferente) apregoam estar libertando determinada região ou povo das
garras do outro libertador. Na prática, um país se diz libertado no exato momento
em que está sendo conquistado. E se afirma que é livre quando menos liberdade
existe para se dizer que ele não é. Há uma grande disputa para se saber qual é o
país mais libertado do mundo: se a Hungria, a Polônia ou a Tcheco-Eslováquia.
ENCONTRO COM LUÍS LOPES COELHO, ADVOGADO, PRECURSOR DO ROMANCE POLICIAL BRASILEIRO. 1958

A confusão em torno da paz e do que é paz criou expressões estranhas como a


“paz para terminar todas as pazes”, cinismo realista paralelo à utopia
desvairada que se chama a “guerra para terminar todas as guerras”. A primeira,
permanente desde que a “humanidade” se chamou, erradamente, assim, é, na
realidade, um acordo cheio de injustiças e impossibilidades práticas, onde cada
parágrafo torna-se motivo de novas disputas assim que os combatentes estão
refeitos. A “guerra para terminar todas as guerras” é, porém, a hostilidade e as
lutas destinadas a estabelecer relações definitivas entre grupos, regiões e países,
“evitando qualquer guerra futura”. Como se pode facilmente concluir, uma
guerra justa.
DA HIPOCRISIA INTERNACIONAL. 1961

Q uanto à possibilidade de catástrofe final, o fim da humanidade através de


explosões nucleares, explosões demográficas ou epidemias, isso só existe
para os observadores a curto prazo, esquecidos de que, através do homem ou
mesmo sem ele, a natureza tem sempre, prontos a servi-la, seus mecanismos
auto-reguladores. As explosões demográficas são meras compensações para as
explosões nucleares. E vice-versa.
CONVERSA COM JOEL SILVEIRA, JORNALISTA, REPÓRTER. 1973
N ão há nação boazinha, nem mesmo nação “amiga”. Mais do que na relação
individual, a relação entre nações é ditada pelo interesse e esse interesse é
reconhecido como válido e legítimo. Esse tipo de emulação, inevitável até o dia
do internacionalismo final, da ausência total de fronteiras (que vai chegar mais
por influência da tecnologia do que de uma melhora da humanidade), é a causa
de todos os conflitos e de todas as guerras. E faz com que um país só tenha
autoridade para entrar numa conferência de paz se estiver muitíssimo bem
armado.
GOVERNOS DE COALIZÃO. 1965

A s guerras deveriam ser evitadas, senão por outro motivo, pelo motivo
mesmo do desperdício econômico que representam. Enquanto milhares de
homens se aniquilam nas frentes de batalha, uns poucos na retaguarda
enriquecem mais do que nunca. Tome-se a guerra do Vietnã. Nunca, no campo
dos conflitos humanos, tantos deram tanto dinheiro a ganhar a tão poucos.
RETIFICANDO O ESTILO DA VIDA COMUNAL. 1965

A Bomba Atômica, explodida a todo momento por mais uma nação neurótica
e odienta que não quer ficar em inferioridade na corrida do Apocalipse, traz
porém consigo uma esperança. A de eliminar de uma vez por todas a causa
fundamental de todas as guerras: o ser humano.
DIÁLOGO COM JOMICO AZULAY, CINEASTA. 1965

T oda a história dos brancos (leia-se os que detêm o poder nos últimos
séculos) trata com infinito desprezo e imensa superioridade os sacrifícios
feitos às divindades pelos povos primitivos. E, no entanto, os brancos não fazem
nenhuma transmissão de poder, nenhuma disputa de mercados, nenhum domínio
territorial, sem imensos sacrifícios a seus deuses econômicos que, sanguinários e
insaciáveis, só aceitam as vidas mais jovens dos países que os protegem.
CONVERSA COM JORGE ZAHAR, EDITOR. 1969

P or necessidade ou não, enquanto as guerras se tornaram mais e mais


violentas, com mutilações civis cada vez em maior número e mais
horrendas, dirigi-las é cada vez mais confortável e se faz de locais cada vez mais
distantes da conflagração. Na próxima guerra, sem dúvida alguma, o único lugar
seguro – se houver algum – será o centro de decisões militares. Os estrategistas
deverão, obrigatoriamente, colocá-lo fora do alcance das bombas atômicas. Isso
nenhum estrategista jamais conseguirá fazer com as cidades, onde vivem os
civis.
PALESTRA NA TV DE PIRAPORA. 1970

U ma superpotência não tem condições de fazer uma paz rápida, devendo se


preparar para ela mais lentamente do que se preparou para a guerra. Pior do
que a perda de vidas jovens e a concentração maciça de bens econômicos num
conflito é a volta repentina, para um país, de centenas de milhares de
combatentes. Nenhum país resiste a uma súbita inflação de civis.
CONVERSA COM CARLOS LEONAM, JORNALISTA. 1972

A violência no mundo inteiro só tem um fator positivo – tornou mais


apaixonante o estudo da geografia.
CONVERSA COM CLARICE LISPECTOR, ESCRITORA. 1973

O cavalo de Tróia foi um presente de paz.


Os gregos só não fizeram uma pomba porque nas proporções de uma
pomba não cabe uma divisão de infantes. Mas o exemplo de paz como
camuflagem já era velho. A palavra paz sempre camuflou propósitos violentos.
Tínhamos a pedra da paz, sobre a qual se faziam sacrifícios humanos. A Paz do
Rei, armistícios de um dia, para não perturbar os festejos, Natal, casamento e
nascimento de poderosos. Depois veio a “paz a qualquer preço”, de Luís Filipe,
símbolo da suprema covardia, compromisso pusilânime, cujo exemplo maior é a
Paz de Munique (hei, Chamberlain velho de paz!), concessão nefasta, baseada na
crença de que se você alimenta muito bem um tigre com carne de vaca ele acaba
mugindo e dando leite. Sem falar na milenar Paz de Judas, falso beijo fraternal
indicando aos verdugos quem era quem entre os apóstolos.
CONVERSA COM CRISTINA ZAHAR, EDITORA. 1983

A paz no Vietnã é uma pomba estranha, desconfiada e nada confiável.


Improvável, triste, manca, depenada, no bico um ramo seco e desfolhado.
Está para a verdadeira Pomba da Paz assim como um vôo charter está para a
grande aventura.
QUE PAX? CONVERSA COM FORTUNA, DESENHISTA, HUMORISTA. 1973

A té hoje um mundo irracional só conhece a paz da redução latina: “si vis


pacem para bellum”, a nenhuma credibilidade da paz, aquela que aconselha
estar sempre armado e preparado, a paz do respeito, que é o bom, do temor, que
é fundamental impor ao adversário. Stálin sabia disso melhor do que ninguém,
quando, já bastante irritado com os protestos “morais” de Pio XII, exclamava
numa reunião do Soviet Supremo: “Afinal de contas, quantas divisões tem esse
papa?”
IDEM. 1973

A s ruínas dos templos gregos não são devidas a construção de má qualidade,


mas sim à infiltração dos ingleses, como eram chamados os americanos do
século XIX, que levaram a maior parte da Grécia para os museus de Londres.
MENSAGEM A ARNOLD TOYNBEE, HISTORIADOR. 1972

E fique dito que não pretendemos provar nada com tudo o que fizemos ou não
fizemos, escrevemos ou deixamos de escrever. A não ser que o ser humano
está acima (e abaixo também) de todas as teorias e previsões e que há, soltas no
mundo, palavras demais, não querendo dizer absolutamente nada.
CONVERSA COM WALTER SALLES, CINEASTA. 1992

O Homem é um animal inviável.


DISCURSO DE POSSE NA DIREÇÃO DE O PASQUIM. 1972
Publicado pela primeira vez nos tempos “heróicos” do Pasquim.
(MF)
Capa: Marco Cena sobre ilustração de Ziraldo
Revisão: Eva Motchi e Luciana Balbueno

F363L

Fernandes, Milôr, 1924-


O livro vermelho dos pensamentos de Milôr Fernandes / Milôr Fernandes. --
Porto Alegre: L&PM, 2011.

ISBN: 978.85.254.0784-9

1.Literatura brasileira – Pensamentos. I.Título. II.Série.


CDU 821.134.3(82)-84

Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329.


© Millôr Fernandes, 2005

Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores


Rua Comendador Coruja 314, loja 9 – Floresta – 90220-180
Porto Alegre – RS – Brasil / Fone: 51.3225.5777 – Fax: 51.3221-5380
Pedidos & Depto. Comercial: vendas@lpm.com.br
Fale conosco: info@lpm.com.br
www.lpm.com.br
Table of Contents
Nota dos coordenadores
Objetivos
Educacao e deseducacao
Religiao e misticismo
Comunicacao e meios
Metodos de ação. Trabalho
Metodos de pensamento. Dialetica
Etica e disciplina
Profissoes: limitacoes e deveres
Como lidar com as contradicoes
Economia. Sistemas
Subdesenvolvimento
Tecnologia: Utilidades e perigos
Liberdade. Limitacoes
Relacoes naturais e artificiais
Relacoes de poderes
Hipocrisia social e politica
Responsabilidades
Idealizacoes
Artificios da arte
Formas de lideranca
Formas de opressao
Individualismo. Positivo e negativo
Vicios e abstinencias
Guerra e paz