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Século XVII 1884 1890 1905

A mente é uma Definindo a inteligência Sir A necessidade de estudar a Quociente de


substância O francês René Francis Galton abre seu consciência Em The Principies inteligência Alfred Binet e
Descartes defende a filosofia do Laboratório Antropométrico, of Psychology, William James Théodore Simon criam o
dualismo, segundo a qual a onde as pessoas podem medir a argumenta que qualquer relato primeiro teste de inteligência.
mente e o cérebro existem como sensibilidade de seus sistemas completo da mente precisa Posteriormente, eles criam o
duas entidades separadas. sensoriais, que seriam, segundo considerar os diferentes estados conceito de quociente de
ele, a base da inteligência. de consciência comumente inteligência, ou QI.
experienciados pelos humanos.
1931 1947 1956 1972 1973
A solução de problemas As decisões são As decisões são menos do Os problemas têm um Representação mental Por
envolve insight Wolfgang racionais John von Neumann que ótimas O prêmio Nobel "espaço" Allen Newell e meio de estudos de como as
Kõhler relata que, depois de um e Oskar Morgenstern publicam o Herbert Simon introduz a noção Herbert Simon, ambos da pessoas fazem rotações menta is
longo período de contemplação, livro seminal Theory of Games de satisficing, que sugere que as Carnegie-Mellon University, de objetos, Reger Shepard
um macaco juntou duas varetas and Economic Behavior, tomadas de decisão humanas publicam Human Problem demonstra que as pessoas
para alcançar uma banana, apresentando as principais idéias baseiam-se em encontrar Solving, que estabelece a idéia formam imagens mentais, ou
sugerindo que a solução de dos primeiros modelos utilitários aproximações com as soluções de que os problemas têm um representações, de objetos.
problemas envolve mais do que da tomada decisão racional. estatisticamente ótimas. espaço de solução definível.
tentativa e erro aleatórios.
250 GAZZANIGA e HEATHERTON

E
m seu livro An Anthropologist on Mars ( 1995), o neurologista Oliver Sacks
conta a história de um de seus pacientes mais notáveis, um homem com
mais de 50 anos chamado Virgil. Quando Virgil tinha 5 anos de idade, foi
acometido por uma grave catarata que o deixou cego . Virgil logo se adaptou à vida
sem visão e, à medida que os anos passavam, suas memórias infantis de como
tinha sido enxergar desapareceram da consciência .
Quando Virgil estava com mais de 50 anos, apaixonou-se e se casou. Como
presente de casamento, a noiva de Virgil se ofereceu para pagar uma cirurgia de
transplante de córnea para ele recuperar a visão. Apreensivo, mas esperançoso,
Virgil concordou com a operação.
Uma das cataratas foi removida e um novo cristalino foi transplantado. Um dia
depois, as bandagens foram removidas e, pela primeira vez em mais de 45 anos, a
luz penetrou na retina de Virgil. O que ele enxergou? Como ele reagiu? Sacks
conta a história muito bem:

Virgil me contou, mais tarde, que no primeiro momento não tinha idéia de que
estava enxergando. Havia luz, havia movimento, havia cor, tudo misturado, tudo
sem sentido, um borrão. Então, do borrão veio uma voz que disse: "Bem, e daí?"
Então, e só então, disse ele, finalmente percebeu que esse caos de luz e sombra
era um rosto - e, de fato, o rosto de seu cirurgião. (p. 114)

Virgil viu um caleidoscópio de cor e luz que não tinha nenhuma conexão com
o mundo conforme ele o conhecera . O súbito acréscimo de "visão" pareceu
confuso e desajeitado, e a alegria que ele e a esposa tinham esperado não
aconteceu. Com o passar do tempo, Virgil foi ficando cada vez mais frustrado com
As representações mentais
1 sua incapacidade de se adaptar a esse novo aspecto de sua consciência. Só co m o
'1 existem em diferentes formas?
retorno da cegueira, devido a outras causas, foi que Virgil encontrou a paz que
..l
Como nós resolvemos
·1 tivera antes da cirurgia.
problemas?
O que deu errado 7 Por que Virgil não ficou feliz por ser capaz de enxergar? As
Em que extensão a tomada de
decisão humana é racional? pessoas que têm visão passam a vida aprendendo a usar e compreender as
informações visuais. Nós sabemos que os objetos que vão aumentando estão se
Como as nossas decisões se
desviam de escolhas aproximando de nós e que os objetos que vão encolhendo estão se afastando, e
estatisticamente ótimas? que o humor das pessoas pode ser percebido em seu rosto. As pessoas com visão
têm tanta prática em usá-la, que enxergar parece algo absolutamente fácil e
Em que aspectos da mente
baseia-se a inteligência? automático.
Em que grau a inteligência é Se as dificuldades de Virgil decorriam de falta de conhecimento, o que significa ter
influenciada por nossos genes? esse conhecimento? Como nós o representamos em nossa mente - e em nosso
Quais são as propriedades cérebro? Além disso, como seria se, subitamente, uma experiência sensorial
elementares da consciência? inteiramente nova entrasse em nossa consciência? Este capítulo examina essas
Como o cérebro dá origem à questões, começando por considerar a natureza das representações mentais. Partindo
consciência fenomenal? desses fundamentos, formulamos uma série de perguntas: Como nós representamos e
organizamos o conhecimento, e como o utilizamos em nosso pensamento? A

1979 1982 1983 Década de 1990 2000


As decisões são Tentamos evitar Inteligência Tomada de decisão O lugar da inteligência
relativas Daniel Kahneman e arrependimentos David Bell, multipla Howard Gardner evoluída Gerd Gigerenzer geral Utilizando imagens
Amos Tversky propõem a teoria Graham Loomes e Robert expande a tradicional definição argumenta que a melhor cerebrais, pesquisadores
da perspectiva, que determina a Sugden, independentemente, de inteligência, de modo a maneira de compreender a liderados por John Duncan
tendência das pessoas ao demonstram que tomamos reconhecer que as pessoas tomada de decisão é considerar relatam que a "inteligência
tomarem decisões: (1) utilizar decisões sobre certos eventos podem ser talentosas, ou como os humanos solucionaram geral" pode estar ligada ao
pontos de referência e (2) dar com base na antecipação de demonstrar inteligência, de problemas no decorrer da funcionamento do córtex
mais peso a perdas potenciais do possíveis arrependimentos em diferentes maneiras. evolução. frontal.
que a ganhos potenciais. relação às diferentes
possibilidades.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 251

inteligência só se origina do raciocínio baseado em conhecimentos ou inclui uma


seleção mais ampla de capacidades mentais? Finalmente, o que é consciência? Como o
cérebro dá origem à consciência do mundo que associamos a estar consciente?

COMO A MENTE REPRESENTA A INFORMAÇÃO?


Apsicologia cognitiva baseava-se, originalmente, na noção de que o cérebro representa a infor-
mação e que o ato de pensar - isto é, a cognição - está diretamente associado à manipulação dessas
representações. Embora essas idéias tenham sido centrais para o surgimento da onda behaviorista
que dominou a psicologia nos Estados Unidos na primeira metade do século XX, elas imediatamente
deram origem a uma importante pergunta: Qual é a natureza dessas representações? Na seguinte
seção, examinaremos as diferentes maneiras de caracterizar as representações mentais. Arevolução
biológica levou ao desenvolvimento de novas abordagens, que atualmente nos permitem estudar
empiricamente essas representações.
Ao longo das últimas décadas, um dos debates mais acalorados na psicologia cognitiva foi sobre
a natureza das representações mentais: Elas são como imagens ou estão baseadas em descrições
mais do tipo verbal? O tópico é importante porque as representações do conhecimento no cérebro
constituem a base da cognição, da inteligência e, por fim, da consciência. Como freqüentemente
acontece, as visões opostas nesse debate não são mutuamente exclusivas.

As representações podem assumir diferentes formas


Apopular visão de que as representações mentais são análogas a imagens ou fotografias possui
um grande apelo intuitivo, pois na nossa imaginação geralmente parecemos ver imagens visuais. Por
exemplo, é difícil pensar sobre um "limão" sem que nos venha à mente uma imagem parecida com
um limão de verdade, com sua casca verde ou amarela e brilhante.
Não surpreendentemente, várias linhas de evidência sugerem que as representações podem, de
fato, assumir essa qualidade de imagem. Em primeiro lugar, em uma famosa série de estudos de
Roger Shepard e colegas na década de 1970, os participantes eram solicitados a olhar letras e núme-
ros e determinar se dado objeto estava em sua orientação normal ou era uma imagem espelhada. Os
objetos eram apresentados em várias rotações diferentes: às vezes ele estava em pé, às vezes de
cabeça para baixo ou em rotações intermediárias (Figura 8.1). O que Shepard e um de seus colegas
descobriram (Coopere Shepard, 1973) foi que o tempo que os participantes levavam para determi-
nar se um objeto era uma imagem normal ou espelhada dependia do seu grau de rotação - quanto
mais o objeto estava rotado em relação à posição em pé, mais tempo levava a discriminação, com o
cempo de reação mais longo ocorrendo quando o objeto estava inteiramente de cabeça para baixo. A
partir dessas evidências, os pesquisadores concluíram que, a fim de realizar a tarefa, os participantes
rotavam mentalmente representações ou imagens dos objetos, para "enxergá-los" na posição em pé.
Presumivelmente, quanto mais distante da posição normal estava o objeto, mais tempo levava a
carefa, por ser necessária uma maior "rotação" da representação.
Uma série de experimentos relacionados foi realizada por Stephen Kosslyn e colegas na década
de 1970 (Kosslyn, Bali e Reiser, 1978). Nesse caso, os participantes eram solicitados a esquadrinhar
imagens mentais de mapas que tinham memorizado. Os mapas (de ilhas fictícias) incluíam alguns
marcos diferentes, como cidades, lagos e montanhas. Os participantes tinham de visualizar um mar-
co na ilha e, depois de um breve intervalo, imaginar um ponto movendo-se desse marco até um
segundo marco localizado em outro local do mapa (Figura 8.2). Os resultados indicaram que o
cempo necessário para imaginar o ponto se movendo entre os marcos aumentava proporcionalmente
a distância real entre os marcos, conforme indicada no próprio mapa. Consistentemente com os
achados anteriores relatados pelo grupo de Shepard, esses dados sugeriam que as pessoas represen-
cam informações num formato de imagem ou fotografia.

Representação proposicional Embora os estudos de Shepard e Kosslyn tenham sido toma- As representações menta is
dos como evidência de imagens mentais, outros pesquisadores argumentaram que as representações existem em diferentes formas?
são de natureza proposicional. Em outras palavras, nós estamos sendo enganados pelo olho da nossa
252 GAZZANIGA e HEATHERTON

mente. Embora possa parecer que evocamos a imagem de um limão em


Normal Imagem espelhada nossa mente, a representação em si não é realmente uma imagem. Ela
se baseia no conhecimento proposicional de que os limões (1) são ver-

®8 Oº 300' O' 300'


des ou amarelos e (2) têm casca brilhante. Dessa perspectiva, as repre-
sentações baseiam-se em conhecimentos factuais sobre o mundo e, em
contraste com os argumentos de Shepard e Kosslyn, elas não têm nada
a ver com representações pictóricas reais do mundo em si (Figura 8.3).

0 0 00
O conceito de representações proposicionais está estreitamente li-
gado à noção de memória semântica, que é a nossa memória para o
conhecimento factual (veja o Capítulo 7). Como tal, não há muitos ar-
60' 240 ' 60 ' 240' gumentos contra a idéia de que as representações podem ser proposicio-
nais. Ao invés disso, o debate centra-se em torno da questão de se todas
as representações são proposicionais. Zenon Pylyshyn argumentou que

G0 120' 180' 120' 180'


as evidências que confirmam as representações tipo imagem podem ser
igualmente explicadas por teorias proposicionais. Em particular, Pylyshyn
afirmou que os resultados dos experimentos de imagens esquadrinha-
das de Shepard e Kosslyn são ambíguos e inconclusivos.
Em uma série de experimentos para investigar essas questões,
1.100
Pylyshyn (1984) descobriu que, se os participantes fossem solicitados a
imaginar seu olhar mudando o mais rapidamente possível entre dois pon-
1000
tos de um mapa imaginário em vez de imaginar um ponto se movendo de
Ôi
ClJ um lugar para o próximo (como Kosslyn pedia), o efeito da distância rela-
_§, 900
V\

tado por Kosslyn era eliminado. Em outras palavras, independentemente


o
de os dois pontos estarem relativamente próximos ou relativamente sepa-
""Li' 800
l1J
rados, o tempo que os participantes levavam no estudo de Pylyshyn para
~
~
ClJ
"mudar o olhar" permanecia constante. Quando mudamos nosso olhar no
'
~ oo._ 700 mundo real, embora os movimentos sejam rápidos, para quanto mais lon-
1
1 E
'I
~ 600
ge olharmos, mais tempo levaremos. Oque Pylyshyn afirmava era que os
·~
dados de Kosslyn não davam certeza de que os participantes estavam real-
mente utilizando mapas pictóricos na sua imaginação.
500
Uma solução para esse debate é as representações poderem ser
como imagens ou proposicionais. Desenvolvendo esse ponto de vista,
Phillip Johnson-Laird sugeriu que o conhecimento se baseia em repre-
o 60 120 180 240 300 360 sentações existentes em vários níveis hierárquicos. Por exemplo, consi-
Graus de rotação em relação à posição em pé dere as diferenças entre a linguagem de "máquina" e a linguagem de
(no sentido dos ponteiros do relógio ) programação nos computadores. Alinguagem de programação é plane-
jada para ser uma interface de nível superior, facilmente compreendida,
entre o programador e o computador, enquanto a linguagem de máqui-
FIGURA 8.1 O tempo necessário para determinar se o "R" é uma na - o código utilizado pelo hardware do computador - é uma plata-
imagem normal ou espelhada aumenta com a quantidade de rotação em
forma de nível bem mais baixo (e incompreensível) . O principal argu-
relação à letra em pé.
mento de Johnson-Laird pode ser entendido dizendo-se que as
representações baseadas em imagens visuais são mais semelhantes à
linguagem de programação de nível superior, enquanto as representações baseadas em conhecimen-
tos proposicionais são mais semelhantes à linguagem de máquina de nível inferior. Nesse sentido,
podemos ter representações que compartilham muitas propriedades com as nossas experiências per-
ceptuais, mas são derivadas de conhecimentos proposicionais dos nossos sistemas de memória (Fi-
gura 8.4). "Estudando a mente: A imaginação e o córtex visual" apresenta uma abordagem mais
recente a essa questão, uma abordagem da neurociência cognitiva, que traz sólidas evidências de
que as representações podem, de fato, assumir qualidades de imagem.

As representações distribuídas focalizam a


implementação neural
Até agora, a nossa discussão das representações mentais focalizou sua forma - em imagens ou
proposicional. Entretanto, outra pergunta importante é como as representações são implementadas
no cérebro. Isto é, como o cérebro codifica uma representação?
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 253

A idéia básica é que a representação se manifestará na atividade


de uma rede distribuída de neurônios. Embora o número real de neurô-
nios abrigando uma representação no cérebro provavelmente fique na
ordem dos milhares de milhões, podemos compreender uma representa-
ção distribuída considerando o comportamento de apenas alguns. Por
exemplo, suponha que as nossas representações mentais de diferentes
frutas dependem da atividade de três neurônios e, além disso, que cada
um desses três neurônios tem três diferentes níveis possíveis de ativida-
de (ou índices de descarga): lento, médio e rápido. Dado esse contexto,
diferentes padrões de atividade entre esses três neurônios podem ser
usados para representar diferentes frutas - um limão pode ser repre-
sentado quando todos os três neurônios estão descarregando rapida-
mente; um pêssego, quando todos os três neurônios estão descarregan-
do lentamente; e uma pêra, quando o primeiro neurônio está
descarregando lentamente e o segundo e o terceiro estão descarregan-
do rapidamente. Nesse sentido, a representação mental é o padrão rela-
tivo de ativação através de uma rede de neurônios; padrões diferentes
de ativação sinalizam representações diferentes (Figura 8.5).
Há claras vantagens no se pensar sobre as representações da pers-
;iectiva distribuída. Em primeiro lugar, a idéia básica está estreitamente
ligada a como a informação provavelmente é representada dentro do
cérebro, onde nenhum neurônio isolado é responsável pela representa-
ção. Se neurônios isolados codificassem a informação, estaríamos em
~
I
sérios apuros sempre que um desses neurônios fosse destruído por al- FIGURA 8.2 Um exemplo do mapa utilizado no estudo de Kosslyn .'
gum fator, como envelhecimento e bebida. Entretanto, as representa- de imagens visuais. Ele descobriu que o tempo que os sujeitos levavam t.
ções distribuídas permitem a perda de neurônios ao mesmo tempo em para imaginar ir com o olhar de um ponto para outro no mapa aumentava f:
que retêm a capacidade de representar a informação. Em segundo lu- de acordo com a distância real entre os pontos.
gar, as representações distribuídas podem explicar de que maneira um
número grande, mas finito, de neurônios pode representar um número
de itens potencialmente infinito. Finalmente, as representações distribuídas proporcionam uma es-
rrutura para compreendermos como a aprendizagem pode ocorrer no nível neural, conforme discu-
tido no Capítulo 6. Em particular, os modelos de rede neural são planejados com os diferentes neu-
rônios "conectados" entre si, de modo que quando um neurônio começa a descarregar, ele afeta o
mdice de descarga dos neurônios aos quais está conectado. Aaprendizagem é implementada dentro
dessas redes conexionistas ao variar a "for-
ça" das conexões entre os neurônios, de
modo que padrões de ativação comuns Conhecimento Impressão subjetiva do
ou mais freqüentes - isto é, represen- proposicional conhecimento
tações distribuídas comuns ou mais fre-
qüentes - provavelmente surgirão mais
rapidamente ou mais freqüentemente do
que padrões menos comuns. Um pato tem:
Mais importante, esses modelos de
rede neural não fazem nenhuma suposi- - penas
ção implícita sobre a forma que a repre-
sentação assume - isto é, se ela é seme- - bico chato
lhante a uma imagem ou proposicional.
~a verdade, os modelos de rede não re-
- pés com membrana interdigital
querem, necessariamente, especificação
de conhecimento em um nível tão alto. O - anel em torno do pescoço
principal interesse é como os neurônios
são capazes de codificar ou distinguir di-
ferentes informações. Obenefício é que a
representação no cérebro pode ser estu-
dada de uma maneira semelhante a como FIGURA 8.3 Uma teoria das imagens mentais visuais é que elas refletem um conhecimento
o cérebro funciona no nível de neurônio proposicional sobre a aparência de um determinado objeto, em vez de assumirem realmente a forma de
individual, e sem ter de explicar a ques- uma imagem.
254 GAZZANIGA e HEATHERTON

tão complexa dos aspectos fenomenológicos da representação. Adesvantagen:


é que os aspectos de nível superior da cognição permanecem fora do escopo d05
+-- Representação de modelos - pelo menos por enquanto.
nível superior

Os modelos baseados em conceitos têm a ver


o com classificar as coisas
o
o Nós agora nos voltamos para outra questão referente à representação do
o
conhecimento: como ele é organizado? Aabordagem clássica ao entendimen-
to da organização do conhecimento baseava-se no estudo de como nós classi-
"Um pato tem penas, pés ficamos ou agrupamos objetos em categorias. Por exemplo, a maioria de nós
Representação de --+ com membrana interdigital,
nível inferior
bico chato e um anel provavelmente consideraria as bolas de beisebol e de futebol como incluídas
em torno do pescoço .. " no conceito "bolas", e as guitarras e os violinos como incluídos no conceito
"instrumentos musicais". Acredita-se que fazemos isso para promover uma
economia cognitiva, no sentido de que agrupar objetos com base em pro-
priedades compartilhadas reduz a quantidade de conhecimentos que temos
de manter na memória. Por exemplo, se compreendemos a categoria de "ins-
trumentos musicais" - algo que é tocado e faz música - essa definição am-
pla pode ser automaticamente aplicada a todos os membros do grupo. Em
resultado, nós não precisamos armazenar essa mesma porção de conheci-
mento, repetidas vezes, para cada instrumento musical que encontramos (Fi-
gura 8.6). Entretanto, um certo conhecimento único também precisa ser ar-
mazenado para cada membro do grupo, como "tem seis cordas", para uma
FIGURA 8.4 Johnson-Laird propôs que as representações
podem ter uma organização hierárquica, o que explica, ao mesmo
guitarra, e "tem quatro cordas", para um violino.
,,1 tempo, os modelos proposicionais e pictóricos de representação
1 mental. Classificação baseada em atributos O trabalho inicial de tentar
t
·~
.~
compreender como nós classificamos coisas em grupos foi feito no século
XIX por Gottlob Frege, que propôs o que atualmente é conhecido como o

Outputs•

Outputs
Inputs••

Outputs

Inputs
economia cognitiva Uma
tendência a agrupar objetos com
*Outputs (o que é produzido em
base em propriedades
termos de energia, de atividade)
compartilhadas, o que reduz a **Inputs (o que entra em termos
quantidade de conhecimentos Inputs de estimulo)
sobre objetos que precisamos ter na
memória.
FIGURA 8.5 Modelos de rede neural tentam imitar a maneira pela qual os neurônios reais interagem.
A IMAGINAÇÃO E O CÓRTEX VISUAL
O antigo debate sobre a imaginação (entendida como criação de como essa lesão poderia ter afetado a capacidade do paciente de
imagens) visual estar baseada em representações pictóricas ou visualizar objetos e as relações espaciais entre eles. As tarefas do
proposicionais deu uma virada interessante com o advento da paciente incluíam lembrar imagens de animais, objetos comuns e a
'1eurociência cognitiva. Stephen Kosslyn, Martha Farah e outros forma de vários estados dos Estados Unidos, a fim de avaliar a sua
argum entaram que a imaginação visual provavelmente está capacidade de imaginar os objetos. As tarefas de imaginação
associada à atividade nas áreas do córtex visual relacionadas à espacial incluíam imaginar rotações de objetos e comparar as
percepção. Em particular, as áreas do processamento inicial do localizações relativas dos objetos imaginados. O que Farah e seus
córtex visual estão organizadas de uma maneira topográfica, de colegas relataram foi que, em comparação com participantes
modo que grupos adjacentes de neurônios possuem campos normais, o paciente era deficiente nas tarefas de imaginação
rece ptivos em localizações adjacentes no espaço visual (veja o relacionadas a objetos, mas igual a eles nas tarefas espaciais.
Capítulo 4). Se for assim, segue a argumentação, então essas áreas Como no estudo de Kosslyn, áreas de processamento visual
provavelmente seriam responsáveis por fornecer os aspectos estavam implicadas na imaginação, um achado consistente com
espaciais da imaginação visual com base pictórica. qualidades pictóricas nas representações visuais.
Para testar essa predição, os pesquisadores se valeram de Dado o abundante apoio empírico para a imaginação visual
métodos de neuroimagens funcionais, que revelam quais áreas do pictórica, o foco do debate na literatura sobre a imaginação
cérebro estão ativas durante tarefas perceptuais, cognitivas ou afastou-se agora da arena pictorial-proposicional, aproximando-se
motoras. Em um estudo, Kosslyn e seus colegas (1995) pediram a de uma pergunta mais tratável em termos empíricos: exatamente
participantes que recordassem imagens de fotos que tinham quais áreas visuais são ativadas quando estamos com uma imagem
acabado de memorizar, enquanto manipulavam o tamanho da na mente? O problema é que alguns grupos de pesquisa - como
imagem visual que estava sendo lembrada. Especificamente, antes o de Kosslyn - relataram ativação da Vl durante a imaginação e
de cada bloco de tentativas, era mostrado aos participantes um outros grupos não. A questão continua sendo de grande
quadrado de papelão pequeno, médio ou grande. A tarefa exigia interesse para os cientistas, porque se podemos mostrar que a
que os participantes não só lembrassem uma fotografia específica imaginação ativa essa região cortical, isso indicaria que mesmo o
que tinha sido memorizada, como que a lembrassem em um primeiríssimo estágio de processamento visual no córtex está
tamanho que se ajustasse exatamente ao quadrado de papelão.
Nesse estudo, a predição era a seguinte: se a imaginação visual
depende do córtex visual topograficamente mapeado, então o
sujeito à ativação por memórias de base visual. A implicação mais
profunda seria que áreas do cérebro tradicionalmente vistas
como servindo apenas para a percepção de base sensorial podem
~:
lócus de atividade nessas áreas deve variar em função do tamanho também estar aliadas a funções cognitivas de nível superior. Para
da imagem lembrada. Consistentemente com essa predição, tratar dessa nova versão do " debate sobre a imaginação",
Koss lyn e colegas descobriram que a extensão espacial da ativação Kosslyn e Thompson (2000) sugeriram que a ativação da área V1
no córtex visual primário, ou área V1, realmente aumentava de durante a imaginação depende das propriedades da própria
acordo com o tamanho da imagem na imaginação. Esses dados imagem - quanto mais detalhes finos a imagem contém, mais
combinam muito bem com a idéia de que a imaginação mental provável a ativação da área V1.
visual está associada a representações de base pictórica. Independentemente de a V1 estar envolvida na imaginação
Evidências convergentes da existência de imaginação pictórica visual, os resultados desses estudos apóiam claramente a posição
são encontradas em estudos de pacientes com lesão cerebral. Em de que as representações mentais podem assumir qualidades
especial, Farah e colegas (1988) examinaram um paciente com pictóricas. De um ponto de vista cognitivo, isso significa que
lesão na região temporal inferior do córtex, uma área do cérebro quando decidimos recuperar informações que armazenamos na
associada ao processamento da aparência de objetos visuais. memória, tal como lembrar uma foto que vimos recentemente em
Embora essa lesão prejudicasse a capacidade do paciente de um jornal, a representação dessa foto na nossa imaginação será
recon hecer e descrever objetos visuais, sua capacidade de localizar muito semelhante à representação que estava no nosso cérebro
objetos permanecia intacta. O objetivo do estudo era examinar quando observamos a foto na sua fonte original.

modelo do atributo definidor da categorização de objetos (veja a Tabela 8.1). Segundo o mo-
delo, cada conceito é definido por uma lista dos atributos ou características que um objeto necessari-
amente deve ter para poder ser categorizado naquele conceito. Para ser colocado em uma categoria
específica, um objeto precisa ter todos os atributos associados à categoria em questão. Além disso, os
conceitos estão organizados hierarquicamente, de modo que podem ser superordenados ou subordi-
nados uns aos outros. Por exemplo, um gerbo e um gorila seriam ambos classificados no conceito de
mamíferos (animais de sangue quente, com pele e glândulas mamárias), mas seriam colocados em
categorias separadas subordinadas a "mamíferos", com o gerbo incluído no conceito de "roedor" e o
gorila, no conceito de "primata" (Figura 8.7).
Embora o modelo de Frege tenha grande apelo intuitivo, ele não consegue apreender muitos modelo do atributo
aspectos importantes de como organizamos as coisas na nossa cabeça. Em primeiro lugar, o modelo definidor Um modelo que define
conceitos pelas características que
sugere que a participação numa categoria é uma coisa tudo-ou-nada, mas o fato é que muitas vezes
um objeto precisa ter para ser
fazemos exceções em nossas categorizações, deixando alguns membros entrarem no grupo mesmo categorizado em um determinado
que nem todos os atributos estejam presentes. Por exemplo, a maioria de nós consideraria "tem conceito.
pernas" com um atributo da categoria superordenada "mamíferos'', mas a maioria de nós também
256 GAZZANIGA e HEATHERTON

Conhecimento Instrumentos Conhecimento


compartilhado musicais específico para o objeto

"É tocado"
--- - - - - - -- "Tem seis cordas"

--- - - - - "Tem quatro cordas"

"Faz música" ~ , ' \


FIGURA 8.6 A economia cognitiva
baseia-se na noção de compartilhar --- - - - - "Sopra-se nele"
conceitos comuns para diferentes objetos
sempre que possível.

TABELA 8.1 Categori za ção da memória

Modelo Descrição

Atributo definidor Os objetos são categorizados com base em compartilharem ou não atributos
comuns. Baseado na idéia da economia cognitiva, o modelo supõe que todos
os membros de um grupo são iguais.
Protótipo Como no modelo do atributo definidor, os objetos são categorizados com base
em compartilharem ou não atributos comuns. Entretanto, alguns membros da
categoria - exemplares - são considerados mais representativos da categoria
do que outros.
Teoria do roteiro O conhecimento é armazenado em relação a como nos comportamos ou
operamos dentro de diferentes ambientes do mundo real. Isto é, nós temos
esquemas ou roteiros para decidir o que é apropriado em cada situação.

tenderia a considerar "baleias" e "golfinhos" como membros da categoria "mamíferos". O modelo do


atributo definidor propõe que não devemos considerar os golfinhos e as baleias como mamíferos, ou
que ter pernas não deveria ser um atributo associado aos mamíferos. Em segundo lugar, o modelo
diz que todos os atributos de uma categoria são igualmente salientes em termos de definir a dada
categoria. Entretanto, as pesquisas sugerem que alguns atributos não só são mais importantes do
que outros para definir a condição de membro do grupo, como também que as fronteiras entre as
categorias são muito mais imprecisas e indistintas do que sugere o modelo do atributo definidor.

As categorias têm exemplares Para tratar das deficiências do modelo do atributo defini-
dor, foi desenvolvida uma abordagem mais flexível - e natural - à categorização dos objetos: os
modelos de protótipo. A premissa básica desse modelo é que, dentro de cada categoria, alguns
membros de uma determinada categoria são mais representativos ou prototípicos daquela categoria
do que outros (Figura 8.8). Por exemplo, um cachorro ou um gato seriam um exemplo mais prototí-
pico de um mamífero do que, digamos, um peixe-boi ou um ornitorrinco. O benefício de reconhecer
a nossa tendência a ver as categorias como tendo exemplares prototípicos é que isso é muito pareci-
do com a tendência que temos a organizar o nosso conhecimento dos objetos. O modelo prototípico
modelo de protótipo Um reconhece que nem todos os membros de uma categoria terão os mesmos atributos, o que significa
modelo cuja premissa é que, dentro que as baleias e os golfinhos podem permanecer na categoria "mamíferos" mesmo que não tenham
de cada categoria, alguns membros
são mais representativos do que
pernas. Além disso, os modelos prototípicos permitem que as fronteiras entre as categorias sejam
outros daquela categoria . indistintas. Se um objeto contém uma conjunção crítica de atributos, ele pode ser considerado como
membro de uma certa categoria, mesmo que seus outros atributos sugiram que talvez ele não se
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 257

respira
Animal ~ come
---.... tem pele

/
éum éum

tem asas
pode voar
tem penas

éum éum éum

/ é rosa
Canário 1.--- pode cantar Avestruz __.- é alto _ ~ é comestível
Sa 1mao
----.. é amarelo não nada contra a
pode corrente para FIGURA 8. 7 Um diagrama
voar pôr ovos esquemático do modelo do atributo
definidor.

~t..''
ajuste perfeitamente. Por exemplo, os tomates muitas vezes são classificados como um vegetal (p. f:
ex., usados em saladas), mesmo que seus atributos também sejam consistentes com a categoria de
fruta (p. ex., têm sementes, são doces).
Os modelos de protótipo são úteis, mas ainda nos resta um problema: a categorização dos
objetos é apenas uma pequena porção da nossa base de conhecimentos. De que maneira são organi-
zadas outras formas de conhecimento?

Os modelos contextuais têm a ver com interpretar cenas


Anossa discussão sobre o conhecimento e sua organização centrou-se, até o momento, unicamen-
te no nosso entendimento de como lidamos com conceitos e objetos simples. Entretanto, o nosso conhe-
cimento do mundo se estende muito além de uma simples lista de fatos sobre os itens específicos que
encontramos no dia-a-dia. Na verdade, uma classe bem diferente de conhecimentos nos permite intera-

Categoria:
instrumentos

Guitarra Oboé Cítara

Violino Trompa Melofone

Trompete Viola Saltério


FIGURA 8.8 O modelo do protótipo
Não- sugere que alguns itens dentro de um
Prototípico prototípico grupo ou classe são mais representativos
(ou prototípicos) daquele grupo do que
outros membros da categoria.
258 GAZZANIGA e HEATHERTON

gir com o nosso ambiente. Sempre que nos encontramos em diferentes ambientes do
mundo real, nos valemos do conhecimento de quais comportamentos se aplicam a deter-
minado ambiente, para podermos nos comportar apropriadamente. Por exemplo, na mesa
de jogo de um cassino é apropriado se insinuar entre as pessoas que já estão sentando.
Mas se um estranho tentasse se inserir no meio de um grupo de pessoas que estão jantan-
do em um restaurante, a reação do grupo provavelmente seria muito negativa. Obvia-
mente, esse tipo de conhecimento referente a situações e contextos sociais é muito dife-
rente do conhecimento associado à classificação dos objetos.
A visão básica dos pesquisadores em relação ao conhecimento contextual é que,
com o passar do tempo, desenvolvemos esquemas ou roteiros sobre os diferentes tipos
de situações de vida real que encontramos. Uma das teorias mais proeminentes nesse
domínio é a teoria do roteiro de Abelson e Schank, que propõe que desenvolvemos
inferências sobre as seqüências de eventos que surgem em diferentes situações, conhe-
cimento que nos permite não só compreender os comportamentos que observamos,
como também saber como agir apropriadamente na situação. Por exemplo, "ir ao cine-
ma" é um roteiro que muitas pessoas têm em comum. Primeiro, esperamos ter de pagar
um valor para entrar no cinema, com o custo dependendo da idade e, possivelmente,
da hora do dia. A seguir, podemos optar por comprar pipoca, balas ou refrigerante
antes de escolher um assento na sala de projeção. Embora falar baixinho seja apropria-
do antes de o filme começar, a maioria de nós esperaria que as conversas cessassem
depois que ele começasse (Figura 8.9).
Os elementos essenciais da teoria do roteiro são que (1) situações comuns podem
ser divididas em uma série de eventos ligados e (2) as pessoas têm papéis específicos
dentro do contexto situacional. Dessa maneira, os eventos no futuro imediato podem
ser antecipados, e os comportamentos das pessoas que encontramos em uma situação
podem ser preditos, com base no papel específico que cada uma está desempenhando
no cenário. Esse conhecimento contextual não só define o que cada um de nós conside-
ra "normal" para uma situação - o que, por sua vez, nos permite reconhecer e evitar
situações incomuns ou perigosas - como também faz com que não precisemos prestar
tanta atenção quando estamos em ambientes familiares.

Como a ment e representa a informação?


A psicologia cognitiva baseia -se na posição de que a mente
abriga representações mentais das informações. Alguns
pesquisadores acreditam que as representações assumem a
forma de imagens pictóricas e compartilham algumas
propriedades com a percepção visual. Entretanto, outros
argumentam que as representações são estritamente
proposicionais, no sentido de que estão baseadas em
conhecimentos fatuais do mundo. A solução para esse
debate pode ser as representações existirem em múltiplos
níveis, o que sugere que as representações baseadas em
imagens e as representações baseadas em proposições
podem coexistir. Em termos da implementação neural na
cognição, os pesquisadores descreveram redes de
A teoria do roteiro sugere que neurónios interconectados que sinalizam representações
tendemos a seguir roteiros gerais de como se comportar via diferentes padrões de atividade através da rede. Por sua
em ambientes específicos. vez, a organização do conhecimento está criticamente
ligada tanto à memória de procedimento quanto à
memória declarativa. O nosso conhecimento dos objetos
baseia-se em categorizar itens por seus atributos, o que
teoria do roteiro As pessoas reduz a quantidade de informações que precisamos
fazem inferê ncias sobre a seqüênci a armazenar no longo prazo (veja a Tabela 8.1 ). Da mesma
de eventos que se desenrola em forma, o nosso conhecimento das situações baseia-se no
cada diferente situa ção, o que lhes entendimento de como os eventos costumam desenrolar-se
permite reagir apropriadamente às em determinados cenários e dos papéis específ icos que as
situa ções. pessoas desempenham neles.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 259

COMO RESOLVEMOS PROBLEMAS E insight A súbita compreensão da


OMAMOS DECISÕES? solução de um problema.

Nós discutimos como o conhecimento do mundo é representado e organizado na mente. Agora,


examinaremos como o conhecimento é utilizado para orientar a nossa solução de problemas e toma-
da de decisões. Mais uma vez, os modelos aqui discutidos englobam alguns, mas não todos, dos
elementos críticos do comportamento de solucionar problemas e tomar decisões (veja a Tabela 8.2
?ara uma breve lista dos vários modelos discutidos). Embora seja necessário desenvolver modelos
:nais complexos, explorar o trabalho feito até agora proporciona uma excelente janela para enten-
:lermos alguns dos aspectos mais complexos - e caprichosos - da cognição humana e os compor-
tamentos por ela gerados.

O modelo da Gestalt enfatiza o insight e a estrutura


Embora a escola de psicologia da Gestalt costume ser associada a questões de percepção visual,
ela também teve um impacto importante no nosso entendimento da solução de problemas. O traba-
lho nesse domínio remonta aos experimentos seminais de Wolfgang Kõhler, na primeira metade do
século XX, sobre a solução de problemas nos macacos (brevemente discutidos no Capítulo 1). Kõhler
colocava uma banana fora do alcance da jaula do macaco, dando a ele uma série de varetas que, se Como resolvemos problemas?
apropriadamente utilizadas, poderiam mover a banana e trazê-la até uma distância em que poderia
ser agarrada. O clássico achado relatado por Kõhler, em 1925, foi que um dos macacos estudados
juntou duas varetas para aproximar a banana da sua jaula. Além disso, o macaco aparentemente só
apresentou esse comportamento depois de muita contemplação. Embora esse achado tenha-se mos-
trado difícil de replicar, o exemplo introduz dois aspectos-chave da solução de problemas humana -
insight e estrutura do problema.

O flash do insight O insight é a estereotípica lampadazinha mental acendendo na nossa


cabeça, uma metáfora utilizada para capturar o fenômeno de se perceber subitamente a solução de
um problema. No caso do macaco, Kõhler argumentou que, depois de ponderar sobre o problema
colocado pela banana distante, o macaco acabou tendo o insight de juntar duas varetas para fazer
uma suficientemente longa para alcançar a banana. Partindo da perspectiva do insight, Maier (1931)
criou um experimento em que os participantes, um de cada vez, entravam numa sala onde havia dois
cordões pendendo do teto e uma mesa no canto. Sobre a mesa estavam objetos diversos, incluindo
um alicate. Atarefa de cada participante era amarrar os cordões um ao outro. Entretanto, era impos-
sível segurar ambos os cordões ao mesmo tempo - se um cordão estivesse sendo segurado, o outro

TABELA 8.2 Solução de problemas e tomada de decisões

Gestalt A solução de problemas requer o insight da natureza e estrutura do problema.


Processamento da Informação A solução de problemas pode ser dividida numa seqüência de passos. Nesse sentido, todo problema tem um
"espaço de solução", e o objetivo é avançar seqüencialmente através desse espaço a fim de solucionar o
problema.
Heurística A solução de problemas pode ter atalhos que minimizam o número de passos ou a quantidade de informação
que precisa ser examinada para chegarmos a uma solução.
Teoria da utilidade esperada Um modelo normativo em que a tomada de decisão se baseia em calcular qual resultado vai maximizar a
utilidade pessoal.
Teoria da perspectiva Um modelo descritivo em que a tomada de decisão tem um peso, com as perdas percebidas contando mais que
os ganhos percebidos. Isso é, a nossa aversão à perda é maior que o nosso desejo de ganhos.

Teoria do arrependimento Um modelo descritivo em que a tomada de decisão se baseia em antecipar o arrependimento ou a alegria que
sentiremos se tomarmos uma determinada decisão.
260 GAZZANIGA e HEATHERTON

estava longe demais para ser agarrado também. A solução para o problema era amarrar o alicate a
estrutura do problema Como as
pessoas vêem ou conceitualizam o
um dos cordões, de modo que o cordão pudesse ser usado como um pêndulo: a pessoa poderia então
problema em questão. segurar o outro cordão e depois agarrar o cordão do pêndulo quando o movimento deste o aproxi-
espaço de solução Os muitos
masse o suficiente da pessoa. Embora alguns participantes acabassem chegando a essa solução sem
caminhos diferentes a serem ajuda, a manipulação-chave realizada por Maier era caminhar contra o cordão e esbarrar nele depois
considerados na solução de um de cada participante ter ponderado o problema por um tempo. Maier relatou que, depois de ver o
problema, tomados co letivamente, cordão sacudindo de um lado para outro, os participantes resolviam o problema quase imediatamen-
definem o espaço em que as
solu ções são ma is prováveis.
te, como se tivessem tido um novo insight.

A estrutura dos problemas Estreitamente relacionada ao conceito de insight está a noção de


estrutura do problema, referente a como a pessoa vê ou conceitualiza o problema. Por exemplo, o
experimento de "pêndulo" de Maier baseia-se na expectativa de que a maioria das pessoas não conse-
guirá ver o alicate como um peso de pêndulo; isto é, os sujeitos inicialmente estruturam o problema de
um modo que exclui uma solução baseada em criar um pêndulo. O insight relacionado a um problema
surge quando, subitamente, o reestruturamos de uma nova maneira, encontrando uma solução que não
estava disponível na antiga estrutura do problema. Em um estudo agora famoso, Scheerer (1963) deu
a participantes uma folha de papel com um quadrado de nove pontos desenhado nela (Figura 8.10). A
tarefa era conectar todos os pontos utilizando apenas quatro linhas retas, sem erguer o lápis do papel.
Como mostra a Figura 8.10, a solução é relativamente fácil - se estruturarmos o problema de modo
que seja permitido desenhar as linhas além da caixa formada pelos pontos. Adificuldade que a maioria
das pessoas sente quando lhes é proposta essa tarefa é que o problema está estruturado de um modo
que só considera soluções que mantenham todas as linhas dentro do quadrado.
A escola da Gestalt diz que as pessoas tendem a ver os problemas
de uma perspectiva estreita. Se a nossa percepção inicial do problema
permite uma solução viável, então não há necessidade de insight ou
1

• reestruturação. Entretanto, os princípios aqui discutidos passam a ser


'
::
(a) • • importantes sempre que nos deparamos com um problema que não tem
:;
·i:
~..:= uma solução imediata. Se a nossa visão atual do problema não está
funcionando, será que existem outras maneiras, menos óbvias, de estru-
• • • turá-lo? Embora termos como "pensar fora da caixa" e "pensar diferen-
temente" tenham-se tornado clichês na nossa cultura, as idéias que eles
corporificam existem há muito tempo e continuam tendo grande valor.

• • •
O modelo do processamento da
informação baseia-se em um espaço de
solução
Enquanto a abordagem da Gestalt à solução de problemas está
centrada no entendimento da estrutura global do problema - e nos
(b) benefícios que podem resultar de se ver o problema de novas perspecti-
vas - , uma visão alternativa tem focado o estudo das etapas seqüen-
ciais seguidas pelas pessoas quando buscam a solução de um problema.
A idéia é que a maioria dos problemas tem alguns caminhos diferentes
que podemos tomar para achar a solução apropriada, que, quando con-
siderados coletivamente, definem o espaço de solução do problema.
Por sua vez, cada caminho pode ser dividido em uma série de estágios
ou etapas. Os pesquisadores tentam entender como as pessoas vão de
uma etapa para a próxima, os erros típicos que as pessoas fazem quan-
do precisam negociar etapas complicadas ou não-intuitivas e como as
pessoas convergem para caminhos de solução mais eficientes - ou, em
alguns casos, menos eficientes - com as experiências de solução de
problemas.
Por exemplo, no clássico problema da "Torre de Hanói", os partici-
FIGURA 8.10 O problema de nove pontos de Scheerer (1963) (a) é pantes recebem um tabuleiro com uma fileira de três pinos de madeira,
resolvido quando se compreende que as linhas podem ir além da fronteira sendo que no pino de uma das extremidades foram encaixados três dis-
formada pelos pontos (b). cos em ordem decrescente de tamanho, de modo que o disco maior está
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 261

embaixo dos outros dois (Figura 8.11). A tarefa é mover a pilha ordenada de discos para o pino da
limites de capacidade A
outra extremidade, com as seguintes limitações: só podemos mover um disco de cada vez, e um quantidade máxima de informações
disco maior nunca pode ser colocado em cima de um disco menor. Arazão do interesse pelo estudo e operações que um sistema pode
desse problema (que pode ser tornado mais complexo acrescentando-se mais discos e pinos) é que conter e realizar.
ele tem estados de conhecimento e operadores bem-definidos, que descrevem respectivamente as dife-
rentes etapas e os movimentos "legais" que podem ser feitos de etapa para etapa no espaço de
solução. Por sua vez, isso torna relativamente fácil examinar como as pessoas abordam a tarefa e
como navegam através do espaço de solução.
De muitas maneiras, a abordagem do processamento da informação à solução de problemas
apresenta grandes analogias com os programas de computador, que transformam um input em um
output através de uma série de operações explícitas. Mas está claro que a solução humana de
problemas não é o equivalente biológico de um eficiente programa de computador. Em primeiro
lugar, os humanos têm limites de capacidade - a quantidade máxima de informações e ope-
rações que um sistema pode suportar - bem menores. Há um limite para o que o ser humano é
capaz de fazer ao mesmo tempo. Se estivermos dirigindo e o trânsito ficar pesado demais, é
possível que baixemos o volume da música porque precisamos dedicar uma proporção maior da
nossa "mente" à tarefa em questão.

Estado
~ --- inicial Estado 1
Leva a mais
estados Estado 12
' --~-- ~·''
(

Para '
estado !~
Estado 2 1 Estado 14 ;:
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Para Para-'
estado estado
1 Estado 3 Estado 4 12 Estado 15 Estado 16

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estado estado estado
2 Estado 5 Estado 6 13 16

~__jLJ~
~ra Para'- Para
ado estado estado
3 Estado 7 6 15 Estado 19

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Para ~

------------- ~
estado
5 Estado 20 9

Para Para Para


estado estado estado
7 Estado 1O 9 7 Estado 11

l- J.~
Estado
' meta

FIGURA 8.11 A solução do problema da Torre de Hanói pode ser dividida em estados básicos e nas operações que permitem transições entre os estados.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 261

embaixo dos outros dois (Figura 8.11). Atarefa é mover a pilha ordenada de discos para o pino da ...----------------··
limites de capacidade A
outra extremidade, com as seguintes limitações: só podemos mover um disco de cada vez, e um quantidade máxima de informações
disco maior nunca pode ser colocado em cima de um disco menor. A razão do interesse pelo estudo e operações que um sistema pode
desse problema (que pode ser tomado mais complexo acrescentando-se mais discos e pinos) é que conter e realizar.
ele tem estados de conhecimento e operadores bem-definidos, que descrevem respectivamente as dife-
rentes etapas e os movimentos "legais" que podem ser feitos de etapa para etapa no espaço de
solução. Por sua vez, isso toma relativamente fácil examinar como as pessoas abordam a tarefa e
como navegam através do espaço de solução.
De muitas maneiras, a abordagem do processamento da informação à solução de problemas
apresenta grandes analogias com os programas de computador, que transformam um input em um
output através de uma série de operações explícitas. Mas está claro que a solução humana de
problemas não é o equivalente biológico de um eficiente programa de computador. Em primeiro
lugar, os humanos têm limites de capacidade - a quantidade máxima de informações e ope-
rações que um sistema pode suportar - bem menores. Há um limite para o que o ser humano é
capaz de fazer ao mesmo tempo. Se estivermos dirigindo e o trânsito ficar pesado demais, é
possível que baixemos o volume da música porque precisamos dedicar uma proporção maior da
nossa "mente" à tarefa em questão.

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FIGURA 8.11 A solução do problema da Torre de Hanói pode ser dividida em estados básicos e nas operações que permitem transições entre os estados.
262 GAZZANIGA e HEATHERTON

Uma maneira de lidar com esses limites de capacidade é usar heurísticas na nossa solução de
problemas, que seriam, essencialmente, atalhos que minimizam a quantidade de pensamento neces-
sária para se avançar de uma etapa para outra em um espaço de solução. Utilizando um exemplo
popularizado por Gerd Gigerenzer: como os jogadores de beisebol sabem para onde correr a fim de
pegar uma bola rebatida para o ar? Uma abordagem de computador a esse problema provavelmente
envolveria um exame da velocidade do arremesso e do bastão, da velocidade do vento, da massa da
bola e assim por diante, informações que seriam de pouca utilidade para o jogador que tem apenas
alguns segundos para pegar a bola. Se, como argumentou Gigerenzer, o jogador simplesmente olhar
para a bola e mantiver a direção do olhar em um ângulo constante entre a bola e o chão enquanto
estiver correndo - aumentando ou diminuindo a velocidade para manter o ângulo constante - isso
deve dirigir o jogador para a localização aproximada em que a bola chegará. Dessa maneira, o
jogador pode literalmente chegar à solução do problema enquanto corre, sem depender de cálculos
de física complexos e demorados.

As teorias normativas focalizam o comportamento racional


Até o momento, estivemos discutindo diferentes abordagens à questão de como os humanos
resolvem problemas. Agora passaremos para o tópico relacionado da tomada de decisão, em que
existe uma distinção entre as teorias normativas e descritivas. Historicamente falando, os modelos
normativos de tomada de decisão consideram os humanos ótimos tomadores de decisão, enquan-
Em que extensão a tomada de to os modelos descritivos mais recentes tentam explicar melhor as tendências dos humanos de
decisão humana é racional ?
interpretar e representar mal as probabilidades subjacentes a muitos cenários de tomada de decisão.
O objetivo das teorias normativas é descrever as decisões que as pessoas tomariam se seguis-
sem as regras da tomada de decisão racional, baseada em probabilidades. Se as probabilidades
associadas a uma dada situação forem calculadas adequadamente, então as decisões irão basear-se
na opção com a maior probabilidade de produzir o resultado preferido. Por exemplo, se a sua avó for
uma jogadora e uma tomadora de decisões racional no sentido normativo, ela sempre escolherá
jogar dados em vez de roleta quando for ao cassino, pois as chances de ganhar nos dados são maiores
do que as chances de ganhar na roleta. Embora as limitações dos modelos normativos estejam claras
- por exemplo, a vovó talvez escolha jogar roleta mais freqüentemente do que dados porque consi-
dera a roleta um jogo mais divertido ou porque ela simplesmente é uma tomadora de decisões
irracional - eles forneceram os fundamentos essenciais para o desenvolvimento do estudo contem-
porâneo da tomada de decisão humana.

A teoria da utilidade esperada descreve o tomador de decisões ótimo Em


1947, John von Neumann e Oskar Morgenstern apresentaram um modelo de como os humanos
tomariam decisões se seguissem a pura razão - um modelo conhecido como teoria da utilidade
esperada. A teoria divide a tomada de decisão em um cálculo da utilidade de cada possível resul-
heurística Na solução de
tado em um cenário de tomada de decisão, o que pode ser resumido em um conjunto de cinco
problemas, atalhos que são
utilizados para minimizar a princípios básicos. Primeiro, as decisões podem ser condensadas em uma consideração de alternati-
quantidade de pensamento vas possíveis que, por sua vez, podem ser classificadas em termos de preferências. Conhecida como
necessária para avançarmos de a ordenação de alternativas, cada alternativa é mais desejável, menos desejável ou igualmente dese-
etapa para etapa num espaço de
jável se comparada às outras alternativas concorrentes. Segundo, de acordo com o princípio da
solução.
dominação, o tomador de decisões racional sempre escolherá a alternativa mais desejável - ou
modelo normativo Um modelo
dominante - mesmo que as diferenças entre as alternativas sejam pequenas. Terceiro, com base no
de tomada de decisão que vê as
pessoas como racionais e ótimas princípio do cancelamento, as decisões entre as alternativas baseiam-se nas diferenças entre elas;
tomadoras de decisão. fatores comuns a duas alternativas são ignorados, ou "cancelados'', no processo de decisão. Quarto,
modelo descritivo Um modelo a noção de transitividade dita que se a decisão Bé preferível à decisão A, e a decisão Aé preferível à
de tomada de decisão que explica decisão C, então a decisão Bserá preferível à decisão C (Figura 8.12). Finalmente, se os resultados
tendências de interpretar e de duas alternativas diferentes são equivalentes, então o princípio da invariância indica que a deci-
representar mal as probabil idades
subjacentes a muitas decisões.
são será invariante em relação aos meios pelos quais os resultados são atingidos.
O valor da teoria da utilidade esperada é que ela foi capaz de gerar idéias testáveis referen-
teoria da utilidade
esperada Um modelo de como os
tes a como os humanos tomam decisões. Com base em experimentos iniciais, logo foram feitas
humanos tomariam decisões se várias adaptações importantes à teoria. Primeiro, foi proposto que as preferências de decisões, ou
seguissem a pura razão ao tomá-las. o ordenamento de alternativas, estão sujeitas à variabilidade no decorrer do tempo. Por exemplo,
em uma noite, a pessoa pode preferir assistir ao The Simpsons e não ao The Brady Bunch, e, na
CIÊNCIA PSI COLÓG ICA 263

GURA 8. 12 A teoria da utilidade esperada baseia-se na noção de que a transitividade se aplica a todas as nossas tomadas de decisão. Nesse caso, se
: pessoa prefere a pizza ao hambúrguer e prefere o hambúrguer à galinha, a pizza será preferida à galinha.

noite seguinte, sua preferência pode se inverter. Essa variabilidade ainda está dentro dos limites
ja racionalidade, no sentido de que se espera que os tomadores de decisão racionais mudem suas
;ireferências com a experiência e o passar do tempo. Segundo, foi sugerido que as decisões racio-
:iais são tomadas com base não apenas em probabilidades objetivas, ou nas probabilidades
estatísticas que podem ser calculadas para uma dada alternativa, mas também em probabilida-
des subjetivas. Em outras palavras, as decisões muitas vezes se baseiam na impressão subjetiva
que a pessoa tem das probabilidades, que pode ou não coincidir com as probabilidades objetivas
··erdadeiras. Todavia, a decisão continua sendo racional, mesmo que as probabilidades subjetivas
subjacentes à decisão estejam incorretas.

O teorema de Bayes nos diz como atualizar as freqüências basais Conforme suge-
~e a teoria da utilidade esperada, a tomada de decisão racional no sentido normativo requer que calcu-
lemos a probabilidade de diferentes resultados de uma decisão baseados na freqüência com que os
resultados ocorreram no passado. Por exemplo, se um aluno está morando em um dormitório estudan-
til e um amigo vem visitá-lo, deve dizer ao amigo que deixe o carro, ilegalmente, no estacionamento do
dormitório? A resposta depende da freqüência com que estacionar ilegalmente resulta em ter o carro
guinchado ou multado. Afreqüência prevista de ocorrência de um evento é conhecida como freqüên-
cia basal e, nesse exemplo, a decisão de dizer para o amigo estacionar ilegalmente depende da
rreqüência basal percebida de um resultado negativo; quanto mais baixa a freqüência basal prevista de probabilidades objetivas Na
tomada de decisão, as
uma multa ou guincho, mais provável que a decisão seja a de estacionar o carro ilegalmente.
probabilidades estatísticas que
Como tomadores de decisão, os humanos fazem cálculos razoavelmente exatos das freqüências podem ser calculadas para uma
basais de vários eventos (embora nós freqüentemente ignoremos as informações sobre as freqüên- dada alternativa.
cias basais, como veremos adiante). Mas somos menos proficientes em modificar a nossa percepção probabilidades subjetivas Na
das freqüências basais quando chegam novas informações. O teorema de Bayes é uma fórmula tomada de decisão, a impressão
utilizada para atualizar a probabilidade de um evento, dadas novas informações que suplementam a pessoal das probabilidades, que
pode ou não coincidir com as
freqüência basal preexistente. No exemplo do estacionamento, como deve mudar a freqüência basal probabilidades objetivas reais.
se um carro ilegalmente estacionado for guinchado? A importância do teorema de Bayes é que ele
freqüência basal A freqüência
revela que os humanos tendem a subestimar o impacto de novas informações ao atualizar as freqüên- prevista de ocorrência de um
cias basais. Isso é, se um carro for guinchado, nós tendemos a manter uma freqüência basal mais evento.
baixa para a ocorrência futura desse evento do que prediz a estatística. As idéias aqui apresentadas teorema de Bayes Uma fórmula
têm muito a ver com facetas de preconceito contra grupos sociais e étnicos, pois é muito mais fácil utilizada para atualizar a
enxergarmos evidências que confirmam as nossas crenças do que as evidências inconsistentes com probabilidade de um determinado
elas, um tópico que examinaremos em um próximo capítulo. evento, dadas novas informações
que suplementam a freqüência
Para explicar melhor os vieses na nossa tomada de decisão e estimativa de probabilidades, os basal preexistente associado ao
pesquisadores começaram a se afastar dos modelos baseados na probabilidade pura, desenvolvendo evento em questão.
modelos que descrevem com maior exatidão as reais idiossincrasias da tomada de decisão humana.
264 GAZZANIGA e HEATHERTON

As teorias descritivas desenvolvem a psicologia


da tomada de decisões
Enquanto as teorias normativas da tomada de decisão tentam compreender como são tomadas
Como as nossas decisões se as decisões racionais, as teorias descritivas da tomada de decisão tentam compreender como os hu-
desviam de escolhas
estatisticamente ótimas? manos realmente tomam decisões na prática cotidiana - decisões que freqüentemente não condi-
zem com um comportamento "racional". Em "Utilizando a ciência psicológica: Uma visão evolutiva
da tomada de decisão", examinamos duas das teorias alternativas propostas para explicar as práticas
comuns de tomada de decisão.

As perdas pesam mais do que os ganhos Na década de 1970, Daniel Kahneman e


Amos Tversky publicaram um artigo dizendo que a tomada de decisão pode ser vista como um
cálculo de custos e benefícios, um modelo conhecido como teoria da perspectiva. Aimportância
de nos afastarmos da noção da utilidade da decisão é que a teoria da perspectiva implica que as
decisões têm um ponto de referência a partir do qual podemos calcular custos e benefícios. Ateoria
teoria da perspectiva A idéia de da perspectiva sugere que tendemos a estimar as perspectivas de custos e benefícios diferentemente,
que a t omada de decisão pode ser de modo que a preocupação com os custos tem um impacto maior sobre as decisões do que a espe-
vist a como um cálcu lo de custos e
benefícios. rança de potenciais benefícios. Esse pesar desigual de custos e benefícios é conhecido como aver-
são à perda. Uma ilustração esquemática desse conceito é apresentada na Figura 8.13.
aversão à perda Um pesar
desigual de custos e benefícios, de Essa tendência a ver custos e benefícios de uma perspectiva diferencial é explorada pelas com-
modo que os custos potenciais panhias que oferecem às pessoas a oportunidade de testar produtos antes de comprá-los. Essas com-
pesam mais do que os benefícios panhias estão apostando na probabilidade de que, depois de o produto ser usado, o "custo" de desis-
pot e nciais. tir dele no final do período de experiência parecerá maior do que o custo de realmente comprá-lo.
raciocínio contrafactual Na Dessa maneira, a companhia consegue mudar o ponto de referência a partir do qual a decisão de
tomada de decisão, uma comprar o produto é tomada - um custo que originalmente poderia ser visto apenas em termos de
consideração de diferentes
resultados hipotéticos de eventos dólares se sobrepôs a um custo visto em termos de perder o acesso ao produto. Se o último for
ou decisões. percebido como o custo maior, as pessoas acabarão fazendo uma compra que não fariam se só fosse
considerado o custo em dólares.

As decisões envolvem imaginar eventos hipotéticos Outra


faceta da tomada de decisão é que nós freqüentemente imaginamos
os diferentes resultados de uma decisão, uma tendência conhecida
Valor como raciocínio contrafactual. Por exemplo, suponha que um alu-
no tem a oportunidade de assistir a uma banda iniciante e muito pro-
missora tocar em um bar local, mas os $10 do ingresso são todo o
dinheiro que ele tem para passar o restante da semana. Ao decidir se
vai ou não à apresentação, ele provavelmente considerará os diferen-
-$500
tes resultados possíveis. Por um lado, se o aluno for à apresentação,

Perdas
!
----~------1~--~---- Ganhos
ele não só terá se divertido como, se a banda fizer sucesso, poderá se
vangloriar de tê-la visto tocar em um pequeno clube. Embora esses

f
+$500
sejam resultados positivos, o aluno também não terá dinheiro para
sair com os amigos naquela semana.
Oraciocínio contrafactual nos permite antecipar como nos sentiría-
mos depois de tomar uma decisão, um conceito que constitui o núcleo
da teoria do arrependimento. De acordo com a teoria do arrependimen-
to, o nosso desejo de sentir alegria e evitar o arrependimento desempe-
nha um papel crítico na nossa tomada de decisão. As pessoas utilizam o
raciocínio contrafactual para avaliar a decisão a tomar, baseando a de-
cisão real no resultado imaginado que produziria a maior alegria e o
menor arrependimento. Por exemplo, quando os participantes de um
programa de televisão têm de decidir se param e ficam com o prêmio
FIGURA 8.13 · O aspecto crítico dessa figura é que, com o "valor"
da decisão plotado no eixo vertical, as perdas potenciais têm um impacto
que já ganharam ou se arriscam a perder tudo na esperança de ganhar
maior sobre o valor percebido (fazendo-o cair mais lentamente). Isso é, a um prêmio ainda maior, muitos escolherão "desistir enquanto estão ga-
perda potencial de $500 tem um efeito maior sobre a nossa tomada de nhando", por medo de sentir o inevitável arrependimento que resultaria
decisão do que um ganho potencial de $500. se deixassem de ganhar o prêmio maior e acabassem sem nada.
UMA VISÃO EVOLUTIVA DA TOMADA DE DECISÃO
Será que compreenderíamos melhor a tomada de decisão humana como ter um time de futebol, um metrô, etc. O modelo satisficing
se considerássemos a ecologia em que evoluímos? Gerd Gigerenzer baseava-se na tomada de decisão a partir de uma razão só em que
e Daniel Goldstein (1996) acreditam que sim. A clássica visão da as decisões se baseiam na consideração de um único fator. Dessa
tomada de decisão humana parte da noção de que as decisões se maneira, a decisão pode ser tomada com apenas uma pequena
baseiam em múltiplos dados e decorrem de cálculos intensivos quantidade de informações, o que requer menos tempo e uma
referentes a probabilidades objetivas e utilidades subjetivas. capacidade de cálculo relativamente pequena em comparação
Entretanto, Gigerenzer e Goldstein argumentam que essa visão com os modelos normativos que considerariam todos os dados
clássica é incapaz de capturar a realidade ecológica da maioria das disponíveis. A tomada de decisão a partir de uma razão foi
decisões humanas. implementada por Gigerenzer e Goldstein em diversas variáveis
A premissa mais importante de seu argumento origina-se do diferentes. Por exemplo, um algoritmo "tome a melhor"
trabalho anterior de Herbert Simon, que propôs que, em vez de classificava as diferentes variáveis sobre cada cidade em ordem de
buscar o ótimo na nossa tomada de decisão, nós na verdade quão bem a variável única poderia refletir a população real, com a
buscamos "satisfice" ("satisfazer o suficiente") - uma palavra decisão sobre a população sendo então baseada unicamente na
que combina "satisfy" (satisfazer) com "suffice" (ser suficiente) variável classificada em primeiro lugar, ou "a melhor". Em
para transmitir a idéia de que nós costumamos escolher a comparação, os diferentes algoritmos usados para modelar a visão
primeira alternativa que satisfaça suficientemente as nossas "clássica" da tomada de decisão podiam considerar todas as
necessidades. Por exemplo, ao escolher a universidade em que informações disponíveis e dispunham de um tempo
faremos vestibular, certamente não precisamos examinar significativamente maior para fazer cálculos baseados nessas
detalhadamente todas as universidades do país. De fato, depois informações.
de identificar um número suficiente de universidades, a busca lnteressantemente, o algoritmo "tome a melhor" equiparava-
pode parar e podemos nos inscrever em algumas delas. Segundo se a ou superava todos os algoritmos normativos, tanto na
Gigerenzer e Goldstein, nós nos satisfazemos com o suficiente precisão como na velocidade das decisões tomadas. Além do mais,
porque dispomos de limitados conhecimentos, tempo e diversas outras variáveis da tomada de decisão a partir de uma
habilidade mental para tomar a maioria das nossas decisões - se razão que dependiam de ainda menos informações apresentaram
não todas. apenas uma pequena queda na exatidão. Gigerenzer e Goldstein
Nesse sentido, a tomada de decisão é diretamente limitada salientaram que esses resultados indicam que decisões acuradas
pelas realidades ecológicas de que (1) raramente, se alguma vez, são possíveis em condições ecologicamente válidas, e que
temos total conhecimento factual referente às nossas decisões; (2) consideráveis evidências comportamentais sugerem que os
geralmente estamos pressionados pelo tempo quando tomamos humanos freqüentemente tomam decisões com base em razões
decisões; e (3) embora o cérebro humano possua sistemas notáveis isoladas. De interesse ainda maior aqui é que poderemos
de processamento da informação, o nosso poder de cálculo ao compreender cada vez melhor a cognição humana ao considerar
considerar informações disponíveis está muito aquém do que como os ambientes em que evoluímos moldaram a nossa maneira
sugeria a visão clássica da tomada de decisões - isto é, a nossa de pensar e raciocinar.
capacidade tem limites. Entretanto, isso não significa que os modelos baseados em
Para testar suas idéias, Gigerenzer e Goldstein utilizaram um satisfação suficiente serão superiores aos modelos normativos em
modelo de computador para comparar algoritmos de tomada de todas as situações. A tomada de decisão é um processo
decisão consistentes com modelos normativos ou "satisficing" extremamente variável, e devemos esperar que os humanos
("que satisfazem o suficiente"). Ambos os tipos de algoritmos tenham inúmeras estratégias diferentes. Qual delas será a melhor
tinham de decidir quais de duas cidades alemãs tinham uma vai depender da natureza ou do contexto da situação específica -
população maior, dada uma série de variáveis sobre cada cidade, na verdade, a melhor será uma estratégia cognitiva adaptativa.

Como resolvemos problemas e t omamos decisões?


A solução de problemas pode ser considerada de diversas abordagens (veja a Tabela 8.2). De uma perspectiva da
Gestalt, os problemas têm estrutura, e podemos obter insight ao reestruturar o entendimento do problema. De
uma perspectiva do processamento da informação, os problemas podem ser discutidos em relação a um espaço de
solução que descreve os diferentes caminhos que podem ser tomados na busca de uma solução. As teorias
normativas da tomada de decisão sugerem que devemos agir de modo "ótimo", com base nos resultados mais
prováveis das diferentes decisões. Entretanto, muitas vezes cometemos erros quando estimamos as probabilidades,
dificuldades que são tratadas pelas teorias descritivas. Conforme as teorias da tomada de decisão se afastam das
abordagens normativas, tem havido maior consideração pelos sentimentos - como o de arrependimento - que
antecipamos que uma decisão possa gerar.
266 GAZZANIGA e HEATHERTON

inteligência Um atributo
O QUE A INTELIGÊNCIA REFLETE?
utilizado para descrever uma
pessoa, baseado nas suposições de Até o momento, consideramos a maneira pela qual o conhecimento é representado na mente e
que (1) toda pessoa tem uma gama como utilizamos esse conhecimento para resolver problemas e tomar decisões. Um dos tópicos mais
de diferentes capacidades e (2) a inflamadamente debatidos na ciência psicológica tem a ver com como o conhecimento e sua aplicação
inteligência pode ser igualada a
na vida cotidiana se traduzem em inteligência individual e com o grau relativo em que a "inteligência"
como uma pessoa é avaliada em
uma escala de capacidades é determinada por nossos genes e nosso ambiente. Como veremos, inteligência é um conceito difícil
específica, conforme valorizado de definir, pois pode assumir diferentes formas, mas a maioria das definições concorda que (1) os
pela cultura. humanos têm uma gama de diferentes capacidades e (2) a inteligência pode ser igualada a como uma
idade mental Uma predição de pessoa é avaliada em uma escala de capacidade específica. Nesta seção, primeiro discutiremos a pers-
quão avançada ou atrasada está a pectiva histórica subjacente à idéia contemporânea de que a inteligência humana depende do contexto
criança em relação aos seus iguais
- e da cultura. Depois, trataremos de diversas teorias que tentam explicar como a inteligência pode ser
de mesma idade, conforme
determinado por uma comparação descrita de uma maneira independente do contexto. E, finalmente, concluímos com uma avaliação do
do escore de teste da criança com o debate "natureza versus ambiente" sobre a inteligência e seus determinantes.
escore médio das crianças de cada
faixa cronológica.
quociente de inteligência Definições e medidas dependem do contexto
O número que obtemos quando
dividimos a idade mental estimada
da criança pela sua idade O tema central que atravessa toda a história da pesquisa científica sobre a inteligência é a busca
cronológica e depois multiplicamos de uma definição para ela. As primeiras tentativas de estudar a inteligência foram coordenadas por
esse resultado por 100. Sir Francis Galton no final do século XIX e baseavam-se em definições operacionais que vinculavam
a inteligência à velocidade das respostas neurais e à sensibilidade ou acuidade dos sistemas senso-
rial/perceptivo - quanto mais rápidas as nossas respostas e mais agudas as nossas percepções, mais
espertos seríamos, na opinião de Galton. Embora, como veremos, esses fatores possam estar subja-
centes a aspectos do que poderíamos chamar de "inteligência'', Alfred Binet (Figura 8.14) logo de-
senvolveu na França uma medida mais prática da inteligência, com base em uma definição inteira-
mente diferente da de Galton.
Segundo Binet, é melhor compreender a inteligência como uma coleção de processos mentais
de nível superior - nos termos de hoje, coisas como capacidades "verbais", "matemáticas" e "analí-
ticas". Binet tinha sido encarregado pelo Ministro da Educação francês de identificar as crianças, no
sistema escolar francês, que precisavam de atenção e instrução extras, de modo que ele criou um
teste para medir o vocabulário, a memória, a habilidade com números, e assim por diante, das
crianças - a Escala de Inteligência Binet-Simon.

A visão clássica da inteligência O legado da escala de Binet é duplo. Em


primeiro lugar, ela introduziu o conceito de idade mental, que é uma predição de
quão avançada - ou atrasada - está a criança em relação aos seus iguais da mesma
idade. A idade mental é determinada comparando-se o escore de teste da criança com
o escore médio das crianças de cada faixa cronológica. Por exemplo, uma criança de 8
anos que lê Shakespeare e realiza cálculos avançados poderia ter o mesmo escore que
um adolescente médio de 16 anos - o que daria à criança de 8 anos uma idade mental
de 16. O infame quociente de inteligência ou QI é calculado dividindo-se a idade
mental estimada da criança pela sua idade cronológica e depois multiplicando-se esse
número por 100:

Idade mental
X 100 = QI
Cronológica

Para a nossa criança prodígio, isso significaria um QI de 200!


O segundo legado da Escala de Inteligência Binet-Simon, juntamente com sua
posterior revisão, conhecida como a Escala Stanford-Binet, é que ela estabeleceu a dura-
doura suposição na sociedade ocidental de que a inteligência é definida pelo desempe-
nho da pessoa nesse tipo de teste. Mais especificamente, testes como a Escala Stanford-
Binet focalizam habilidades verbais e de raciocínio, propondo problemas não muito
FIGURA 8.14 Alfred Binet, o avô do QI - e de diferentes dos discutidos anteriormente neste capítulo, tais como o da Torre de Hanói e
todos os seus problemas. do problema dos nove pontos. O benefício de se definir a inteligência dessa maneira é
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 267

que os testes baseados em capacidades verbais e de raciocínio predizem bem a realização acadêmica
de crianças e jovens adultos. Na verdade, os escores de testes padronizados como o SAT e o GRE savants Pessoas que têm
capacidades intelectuais mínimas na
continuam sendo usados para decisões de admissão na maioria das universidades dos Estados Uni- maioria dos domínios, mas
dos. Não surpreendentemente, então, o viés popular na cultura ocidental tem sido que as pessoas demonstram uma capacidade
que se saem bem nesses testes são "inteligentes" e as que não se saem tão bem estão condenadas à excepcional em algum processo
"inteligente", como matemática,
categoria das "menos inteligentes''.
música ou arte.

Os limites da visão clássica A dificuldade em se definir a inteligência em relação ao QI é


que os testes usados para estimar o QI são extremamente dependentes do contexto. O que queremos
dizer com isso? Suponha que uma pergunta em um teste de inteligência se refere a dois trens -
quão rápido cada um está andando e em qual direção. Independentemente de ser "inteligente" ou
não, o aluno que já está familiarizado com esse tipo de pergunta na escola provavelmente se sairá
muito melhor do que o aluno que nunca lidou com essas perguntas. Se for assim, será que o último
aluno realmente é menos inteligente do que o primeiro, ou suas diferenças de desempenho simples-
mente refletem experiências diferentes?
Essas perguntas se tornam mais complexas quando consideramos as diferenças inerentes entre
as culturas, não só em termos da escolarização que os alunos recebem, mas no tipo de habilidades
mentais consideradas para se definir "inteligência". Em resumo, embora o QI possa continuar predi-
zendo bem como alguém vai se desempenhar em uma escola estadunidense, a possibilidade de o QI
ser uma medida justa para compararmos dois indivíduos depende de quão comparáveis são seus
backgrounds - em termos de coisas como cultura, educação e classe socioeconômica. O problema,
então, não é que os testes de QI têm deficiências de planejamento e aplicação - acreditar que os
restes de QI medem a gama completa de capacidades intelectuais humanas é que é uma visão defi-
ciente e estreita.

A inteligência tem uma estrutura modular


Se o QI representa uma medida tendenciosa da inteligência, que alternativas temos para avali-
ar e comparar as capacidades intelectuais entre as pessoas? Talvez a alternativa mais proveitosa seja
acreditar que as propriedades mentais têm uma natureza inerentemente modular e podem ser sepa-
radas em diferentes sistemas. As raízes da visão modular são encontradas na neuropsicologia, em
que se sabe há muito tempo que as pessoas têm capacidades mentais especializadas muito específi-
cas. Por exemplo, os savants são pessoas que apresentam capacidades intelectuais mínimas na
maioria dos domínios, mas manifestam desde cedo uma capacidade excepcional em algum tipo de
processo "inteligente", como matemática, música ou arte. Os talentos dos savants podem ser surpre-
endentes. Oliver Saks (1995) conta a história de um
savant artístico chamado Stephen, que era capaz de
desenhar prédios e lugares com precisão extrema, anos
depois de ter apenas olhado brevemente para eles (Fi-
gura 8.15). Além disso, seus desenhos eram tão notá-
veis que, ainda um jovem adolescente, teve publicado
um livro com seus trabalhos artísticos. Entretanto, Ste-
phen era autista (veja o Capítulo 16) e foi só com um
imenso esforço que conseguiu adquirir linguagem sufi-
ciente para a mais simples das comunicações verbais.
O fato de que é possível as pessoas serem extre-
mamente proficientes em alguns domínios e terrivel-
mente inadequadas em outros apóia fortemente a vi-
são de que a inteligência precisa ser considerada em
relação a uma série de capacidades diferentes - não
apenas aquelas utilizadas para avaliar o QI. Além do
mais, para minimizar vieses inerentes, uma medida da
inteligência precisa focar aspectos do intelecto que se-
jam independentes do background cultural e da esco-
larização. A seguir, examinaremos dois modelos dife-
rentes de inteligência destinados a tratar dessas FIGURA 8.15 O savant artístico Stephen Wiltshire.
1
268 GAZZANIGA e HEATHERTON

J_ __ _ ,
questões - e ambos baseiam-se na noção de que a inteligência pode ser vista em relação a qualida-
inteligência fluida A capacidade
de compreender relações entre
des mentais dissociáveis.
itens na ausência de experiência ou
prática manifesta com os itens em Inteligência como dois fatores Raymond Cattell (1971) propôs que a inteligência pode
questão. ser dividida em dois fatores, que chamou de inteligência fluida e inteligência cristalizada. Ainteli-
inteligência gência fluida está associada à capacidade de compreender relações espaciais entre as coisas, na
cristalizada Conhecimento ausência de experiência ou prática manifesta com elas. Por exemplo, considere a seguinte questão de
adquirido por meio da experiência,
com a suposição de que as pessoas
analogia verbal:
que aprendem com suas
experiências estão demonstrando CORDA está para GUITARRA como PALHETA está para: (a) TROMPETE, (b) OBOÉ, (c) VIOLI-
uma capacidade mental que está NO ou (d) TROMBONE?
ausente nas que não conseguem
aprender com a experiência.
Sem um conhecimento específico desses diferentes instrumentos, e em especial do oboé (que
teoria das inteligências
múltiplas Uma teoria que
seria a resposta correta), ninguém seria capaz de dizer qual é a resposta certa. Cattell argumentou
apresenta definições práticas de que a inteligência fluida é mais bem medida utilizando-se itens que ou (1) ninguém ou (2) todo o
inteligência, incluindo a musical, mundo experienciou antes. Aesse respeito, uma questão melhor de analogia verbal seria a seguinte
verbal, lógico-matemática, espacial, (de Horn, 1985):
cinestésica (ou controle corporal),
intrapessoal (ou auto-
entendimento) e interpessoal (ou LOGO está para NUNCA como PERTO está para: (a) NÃO LONGE, (b) RARAMENTE, (c) LU-
entendimento social). GAR NENHUM ou (d) AMPLAMENTE?

Nesse caso, a suposição é que todos os adultos compreenderiam o significado dessas palavras
(se traduzidas na língua apropriada). Em resultado, o desempenho nessa questão pode ser atribuído
à capacidade de compreender as relações entre as palavras. (A resposta certa é "c".)
Em contraste, a inteligência cristalizada se refere ao conhecimento adquirido por meio da
experiência, com a suposição de que as pessoas que aprendem com suas experiências estão demons-
trando uma capacidade mental que está ausente naqueles que não conseguem aprender com a expe-
riência. Por exemplo, embora algumas pessoas possam parar de dirigir em alta velocidade depois de
receber uma multa, outras continuarão correndo e ganhando multas. Mais importante, todavia, é
que a inteligência cristalizada não faz nenhuma distinção referente ao tipo de coisa que se aprende
e, a esse respeito, o modelo de Cattell da inteligência pode ser usado para avaliar capacidades men-
tais independentemente do contexto ou da cultura.
Embora estudos tenham confirmado a distinção feita por Cattell entre inteligência fluida e
cristalizada, também foram encontradas evidências consistentes de uma correlação positiva entre as
duas. Isto é, as pessoas com altos escores em um dos fatores também recebem altos escores no outro.
Não surpreendentemente, essas evidências sugerem que uma grande inteligência cristalizada prova-
velmente é apoiada por uma grande inteligência fluida (Figura 8.16).

Inteligência como múltiplos fatores Embora o modelo de Cattell da inteligência propor-


cione uma maneira de explicar diferenças culturais e contextuais entre as pessoas, ele mantém uma
ênfase nas questões-padrão de solução
de problemas, semelhantes às dos tradi-
cionais testes de QI. Em uma tentativa
Inteligência Inteligência de ampliar o escopo do debate, Howard
fluida cristalizada Gardner (1983) propôs a teoria das in-
teligências múltiplas, que inclui de-
finições práticas do que constitui "inteli-
gência". Em especial, Gardner identificou
sete inteligências: musical, verbal, lógico-
matemática, espacial, cinestésica (ou
controle corporal), intra pessoal (ou auto-
entendimento) e interpessoal (ou enten-
Teste 1 Teste 3 Teste 5 Teste 2 Teste 4 dimento social) (Figura 8.17). Ao pro-
por essa grande variedade de fatores, o
modelo de Gardner claramente amplia
o tradicional modelo de QI de maneira
FIGURA 8.16 Cattell hipotetizou que temos ambas as inteligências, a cristalizada e a fluida. importante.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 269

FIGURA 8.17 Gardner sugeriu que a inteligência pode assumir muitas formas diferentes. Aqui,
quatro tipos diferentes de inteligência são representados (a) pela atleta Mia Hamm, (b) pelo músico
Yo Yo Ma, (c) pela cientista Shirley Jackson e (d) pelo artista Diego Rivera.

Primeiro, a teoria das inteligências múltiplas reconhece que as pessoas podem ser deficientes
em alguns aspectos da inteligência e notáveis em outros. Por exemplo, uma pessoa pode ter escores
muito baixos em medidas de capacidades verbais e matemáticas, mas ter um alto grau de habilida-
des sociais e musicais e ser capaz de um desempenho competente em atividades profissionais que
enfatizem mais essas capacidades. Em segundo lugar, a teoria é consistente com as evidências da
neuropsicologia - tais como os estudos dos savants - o que sugere que diferentes capacidades
mentais dependem de diferentes sistemas neurais subjacentes. Em terceiro lugar, a teoria apóia a
visão de que a inteligência precisa ser definida em relação a muitas capacidades mentais diferentes
e, ao fazer isso, ela proporciona uma estrutura suficientemente flexível para explicar a miríade de
diferenças entre as culturas e as classes socioeconômicas no que é valorizado "intelectualmente".

Tanto os genes como o meio ambiente influenciam a


inteligência
Concluímos esta seção tratando do que talvez tenha sido o debate mais inflamado nas ciências
psicológicas nas últimas décadas: a inteligência é determinada pelos genes ou pelo ambiente? A
questão tem sido polêmica porque as implicações potenciais são dramáticas. Se os genes são o fator
primário, será que isso significa que algumas pessoas são "biologicamente mais inteligentes" do que
outras e que não adianta muito educar as pessoas "menos inteligentes"? Se o ambiente é o fator
principal, por que não estamos fazendo mais para garantir que pessoas de todas as culturas e classes
socioeconômicas tenham igual acesso à educação de qualidade?
Apesquisa sobre esse debate natureza versus ambiente produziu dados fascinantes comparando
a inteligência de pessoas com a mesma configuração genética - isto é, gêmeos idênticos - que
foram criadas na mesma família ou em famílias diferentes. Aidéia desses estudos sobre hereditarie-
270 GAZZANIGA e HEATHERTON

dade é que se gêmeos idênticos, separados no nascimento e criados em famílias diferentes, apresen-
tarem alta correlação na inteligência, isso seria uma forte evidência de que, de maneira geral, os
genes são os determinantes primários da inteligência (Figura 8.18). Uma abordagem relacionada é
comparar pessoas sem parentesco que não compartilham nenhum gene, mas foram criadas no mes-
mo ambiente familiar por terem sido adotadas. Em estudos desse tipo, uma alta correlação entre as
inteligências dos indivíduos não-aparentados sugeriria que, de maneira geral, o ambiente agiu como
o determinante primário da inteligência. Entretanto, em ambos os tipos de estudo, o problema é que
diferentes pesquisadores encontraram diferentes resultados. Na verdade, existem evidências apoiando
proponentes de ambos os lados do debate.
Tomada como um todo, a pesquisa sobre o debate natureza versus ambiente mostra que os dois
fatores desempenham um papel crítico nos resultados das pessoas em medidas de inteligência como
testes de QI. Essa conclusão "mista" não surpreende - os genes não podem se expressar sem um
ambiente no qual existir e, da mesma forma, independentemente do ambiente específico, as pessoas
não existiriam sem seus genes.
No entanto, podemos tirar duas conclusões importantes a partir dessas evidências. Por um
lado, se um pesquisador está comparando a inteligência de indivíduos que foram criados na mesma
cultura e classe socioeconômica, então os genes provavelmente estão desempenhando o papel maior
em qualquer diferença encontrada. Por outro lado, se o pesquisador está comparando pessoas de
diferentes culturas e classes socioeconômicas, então o ambiente provavelmente está desempenhan-
do o papel maior nas diferenças de inteligência observadas. Tanto quanto na decisão de como medir
a inteligência, é imperativo considerar onde e como a pessoa cresceu antes de decidir como interpre-
tar e/ou explicar as suas capacidades intelectuais. Examinamos recentes evidências neurofisiológi-
cas relativas a essa questão em '~travessando os níveis de análise: As bases neurais da inteligência''.

..
,1
Grau de Número
·=
~ Relacionamento Criação parentesco Correlação de pares
~

Mesmo indivíduo 1,0 0,87 456

Gêmeos monozigóticos Juntos 1,0 0,86 1.417

Gêmeos dizigóticos Juntos 0,50 0,62 1.329

Irmãos Juntos 0,50 0,41 5.350

Irmãos Separados 0,50 0,24 203

Pais-filhos Juntos 0,50 0,35 3.973

Pais-filhos Separados 0,50 0,31 345

Pais-filho adotivo Juntos o 0,16 1.594

Crianças não-aparentadas Juntas o 0,25 601

Cônjuges Separados o 0,29 5.318

Gêmeos idênticos
apresentam escores tão
semelhantes quanto a
O ambiente parece ter um
mesma pessoa fazendo
impacto substancial, pois os
o teste em duas
gêmeos dizigóticos e os irmãos
ocasiões.
têm o mesmo grau de parentesco,
mas diferentes correlações de QI.

FIGURA 8.18 Os estudos sobre a hereditariedade comparam o grau de parentesco entre duas
pessoas, independentemente de elas terem sido criadas juntas, e o grau em que elas se correlacionam em
alguma medida, como a inteligência.
AS BASES NEURAIS DA INTELIGÊNCIA
Um dos mais persistentes enigmas na pesquisa da inteligência é o parte do cérebro? Se for assim, o que isso nos diria sobre as
achado relatado no início do século XX de que os indivíduos implicações sociais do debate sobre genes versus ambiente na
tendem a apresentar um nível consistente de desempenho em determinação da nossa inteligência? Se g reflete um processo
uma variedade de tarefas cognitivas diferentes. unitário, ensinar estratégias para bebês e crianças poderia
O achado levou à idéia de uma "inteligência geral", conhecida requerer uma abordagem diferente da que utilizaríamos se g
como o g de Spearman. O enigma envolvendo o g é se ele reflete refletisse uma variedade de processos.
um processo cognitivo único que contribui para uma série de Como um fascinante primeiro passo para tratar de algumas
diferentes tarefas cognitivas, ou se ele reflete a eficiência média dessas questões, Claire Rampon, da Universidade de Princeton, e
de uma coleção de processos cognitivos distintos. O debate é colaboradores (2000) começaram a investigar como a expressão de
interessante porque tem a ver diretamente com a maneira pela genes que regulam aspectos celulares e subcelulares do córtex é
qual o funcionamento cognitivo se traduz em um desempenho afetada pelo ambiente de um animal. Ratos geneticamente
"inteligente" nos testes. As pessoas são boas em tarefas mentais idênticos foram divididos em grupos expostos a diferentes níveis
porque têm um processo geral que funciona bem ou porque, sem de ambiente "enriquecido" - uma jaula com brinquedos, túneis,
exceção, seu conjunto de processos cognitivos específicos para os caixas, e assim por diante. Rampon e seus colegas descobriram que
domínios é excepcional? Além disso, se a inteligência pode ser os ratos mais "enriquecidos" apresentavam evidências de terem
isolada em um único processo no cérebro, isso seria evidência do desenvolvido níveis mais elevados de estrutura neuronal,
papel maior dos genes na determinação da nossa inteligência? sinalização sináptica e plasticidade. Além disso, as evidências
Para responder a essa pergunta, John Duncan e colaboradores sugeriam que os ratos mais enriquecidos também tinham
· 2000) utilizaram recentemente a tomografia por emissão de desenvolvido uma maior capacidade de aprender e de lembrar.
pósitrons (PET) para criar imagens da atividade no cérebro das Esses resultados são uma afirmação espantosa de que o nosso
pessoas enquanto elas realizavam três tarefas cognitivas diversas, ambiente pode afetar as propriedades associadas à inteligência,
uma associada ao raciocínio espacial, uma associada à capacidade ao influenciar - pelo menos em parte - a expressão de nossos
verbal e uma associada à capacidade perceptivo-motora . Cada genes. Como diz a popular analogia, nós realmente somos
uma dessas tarefas tinha duas formas ou níveis com base na sementes que podem crescer de muitas maneiras diferentes, todas
pesquisa anterior: uma alta correlação com g e uma baixa dependendo da natureza do solo, da luz e da água que
correlação com g. A idéia era comparar a atividade no cérebro recebemos.
entre as versões de g-alto e g-baixo de cada tarefa . Se g está
baseado em um único processo cognitivo geral, então essa
comparação dentro de cada tipo de tarefa deveria mostrar a
mesma região do cérebro mais ativa na versão g-alto do que na g- A . Espacial
baixo. Reciprocamente, se o g está baseado na eficiência média de
processos cognitivos específicos para os domínios, então a
comparação de g-alto versus baixo dentro de cada tipo de tarefa
deveria revelar diferentes áreas de ativação aumentada em cada
tarefa .
O que Duncan e seus colaboradores descobriram foi que,
apesar da diversidade de processos cognitivos enfatizados nas três
tarefas diferentes, a versão g-alto de cada tarefa produziu maior
ativação no córtex frontal lateral do que a versão g-baixo (Figura
8.19). Correspondentemente, esses resultados indicam que a
"inteligência geral" pode estar localizada em uma área cerebral B. Verba l
específica, recrutada por muitas tarefas cognitivas diferentes.
Embora esse estudo seja um excelente exemplo de como os
métodos modernos de neuroimagem podem ser usados para
lançar luz sobre antigas questões da função cognitiva, os
pesquisadores foram rápidos em apontar as limitações de seus
resultados. Em especial, embora o córtex frontal lateral tenha
mostrado maior ativação durante a versão g-alto de cada tarefa
cognitiva, isso não significa, necessariamente, que o mesmo
processo cognitivo geral estava sendo recrutado nas condições g-
alto. Talvez, se pudéssemos examinar a atividade nessa reg ião do
cérebro com um nível mais refinado de resolução, víssemos que C. Percept ivo-Motora
diferentes sub-regiões do córtex frontal lateral são ativadas em
cada uma das condições relatadas por Duncan e seus
colaboradores. Nesse caso, essas evidências apoiariam a posição de
que g não está associado a um único processo geral, mas reflete
uma variedade de operações cognitivas diferentes. Futuras
pesquisas sobre processos cognitivos superiores certamente darão
grande atenção ao funcionamento do córtex frontal - a região
do cérebro que muitos acreditam abrigar os componentes mais
complexos da função cognitiva.
A tarefa agora é investigar o córtex frontal com um olho no
que diferentes redes neurais estão fazendo nessa região . Será que FIGURA 8.19 Dados de neuroimagem sugerem que a "inteligência
encontraremos evidências de divisões entre os processos nessa geral" pode ter uma localização específica no cérebro.
272 GAZZANIGA e HEATHERTON

o
O que a inteligência reflete?
As visões tradiciona is da intel igência a definem em relação a capacidades verbais, matemáticas e analíticas.
Entretanto, essas medidas, historicamente, tinham vieses inerentes que favoreciam os indivíduos criados em
culturas que promoviam essas habi lidades. Em resposta a tais deficiências, definições alternativas de inteligência
têm apresentado visões mais amplas, e modelos como o das inteligências fluida e cristalizada de Cattell e a teoria
das inteligências múltiplas de Gardner começaram a contestar as defin ições mais limitadas baseadas no QI. Embora
tenha sido dada muita atenção ao debate sobre qual desempenha um papel maior na determinação da
inteligência, os genes ou o ambiente, a principal conclusão das pesquisas é que ambos os fatores são centrais para a
inteligência e que o background cultura l precisa ser considerado quando comparamos os indivíduos com base em
seus escores em medidas de inteligência .

É POSSÍVEL ESTUDAR A CONSCIÊNCIA?


Apesar da nossa experiência subjetiva de sermos humanos autoconscientes, a consciência sem-
pre foi um fenômeno difícil de estudar de uma perspectiva científica. Por um lado, ela é o mecanismo
pelo qual experienciamos e nos empenhamos no funcionamento cognitivo tal como a solução de
problemas e a tomada de decisão. Nesse sentido, a consciência é algo muito tangível, pois existe uma
clara delineação para a maioria de nós entre estar "consciente" e estar "inconsciente". Por outro lado.
talvez a maior pergunta não respondida nas ciências biológicas hoje seja como a atividade neural do
cérebro dá origem à consciência fenomenal do mundo que associamos ao estado de consciência.
't Já percebemos as dificuldades trazidas pelo estudo científico da consciência, pois ela pode ser
( associada à cognição e à percepção. Mas a complexidade não termina aí, pois a consciência há muito
t tempo também é um tópico de debate entre os filósofos. Embora este capítulo seja sobre cognição.
!' uma discussão completa da consciência necessariamente requer uma consideração desses três tópi-
;; cos: filosofia, percepção e cognição.
~
::

Os filósofos debatem a natureza das relações


mente-cérebro
O debate filosófico sobre a natureza da consciência remonta a René Descartes e sua afirmação de
que a mente é uma "substância" ou "coisa" fisicamente distinta do cérebro. Essa visão da consciência,
que postula uma clara separação entre mente e cérebro, chama-se dualismo (veja o Capítulo 1) e reflete
a crença de que a consciência está ligada a duas entidades diferentes. Aalternativa lógica ao dualismo,
conhecida como fisicalismo ou materialismo, é que a mente e o cérebro são um sistema inseparável,
unitário. Várias linhas dessas crenças concorrentes foram propostas nos últimos anos, apresentando
algumas tomadas interessantes do que nos espera quando estudarmos a consciência.

O dualismo vê com ceticismo a investigação empírica Essencialmente, o dualismo


defende uma separação entre o que chamamos de mente e o local onde essa mente parece residir no
mundo corpóreo: o cérebro. Osubproduto dessa crença é que, se decidimos estudar a consciência de
uma perspectiva empírica, só o cérebro e sua atividade podem ser medidos e examinados; a mente
permanece fora do escopo da análise objetiva, científica. Entretanto, revelando a incerteza sobre
exatamente como a mente está separada do cérebro, foram propostas diferentes variações sobre o
dualismo. Mas todas convergem para a suposição de que a consciência - a mente, a base de nossas
capacidades cognitivas - representa um tópico intratável para a pesquisa empírica.

O materialismo vê um tópico mais tratável Como uma alternativa ao dualismo, o


materialismo se fundamenta na crença de que o cérebro capacita a mente diretamente e, portanto,
qualia As propriedad es da nossa podemos estudar a mente ao estudar o cérebro. Para aqueles interessados em compreender a base
consciência subjetiva,
fe nomenol ógica .
biológica da consciência, o materialismo é a filosofia de escolha, porque nos dá acesso a um compo-
nente objetivo e mensurável da mente. Avisão diz que é a atividade dos neurônios no cérebro que
inconsciente Os processos que
estã o fora da esfera do
produz os conteúdos da consciência, tal como a cognição e a percepção. Quando bebemos demais, a
conheci mento co nsciente. nossa tomada de decisão se torna impulsiva e confusa, porque o álcool está afetando as transmissões
sinápticas entre os neurônios. Quando sofremos um acidente vascular cerebral ou uma lesão cere-
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 273

bral traumática, podemos perder a nossa capacidade de resolver até os problemas mais simples,
porque o tecido cerebral foi danificado. Embora o dualismo tenha dificuldade para explicar esses
efeitos do cérebro sobre a mente, o materialismo também tem diferentes variedades, o que revela a
nossa incerteza sobre exatamente como o cérebro dá origem à cognição e à percepção.
Independentemente de qual dessas diferentes visões acabe se mostrando correta, só poderemos Quais são as propriedades
elementares da consciência?
chegar a uma resposta definitiva examinando a consciência em um nível empírico, que necessaria-
mente requer que comecemos a definir "consciência".

As definições da consciência permitem o seu


estudo empírico
Conforme discutido no Capítulo 2, os métodos da ciência psicológica di-
ram que, para estudar um fenômeno, precisamos definir operacionalmente, com
exatidão, o que estamos estudando. A esse respeito, a consciência tem-se mos-
rrado difícil de definir em termos práticos, cientificamente. Nos últimos anos, a
solução que os pesquisadores encontraram foi dividir a consciência em elemen-
ros mais tratáveis. Entre os filósofos e cientistas trabalhando nessa frente desta-
camos Steven Pinker, Thomas Nagel e John Searle. A seguir, examinaremos "Laranja"
vários "elementos" da consciência diretamente relacionados ao seu trabalho: o o
Subjetividade ou senciência: Esses termos se referem à perspectiva única que o o
cada um de nós tem da própria experiência consciente. Aquilo que vemos, ouvi- o o
mos, sentimos e pensamos pode ser discutido com outras pessoas, mas a expe- o o
riência real dessas coisas jamais pode ser partilhada de uma maneira semelhante
à consciência interna que temos delas. Como podemos explicar aos outros como
a cor laranja é vista por nós? Esses aspectos da consciência - as propriedades da
nossa consciência subjetiva, fenomenológica - são referidos como qualia, e
talvez o aspecto mais difícil de um estudo científico da consciência seja com-
preender como a qualia surge da atividade neural (Figura 8.20).
Acesso à informação: Aexperiência mental pressupõe que temos conhe-
cimento dos conteúdos da consciência, pelo menos quando estamos em um
estado mental normal, não-alterado. Entretanto, o conteúdo é o subproduto
das ações de diferentes processos subjacentes, de cujo funcionamento não
temos nenhum conhecimento direto. Vemos os produtos do sistema visual, ou
não os cálculos sobre os quais eles se baseiam. Relatamos o que está em

®
nossa memória de trabalho, não a ação dos neurônios que mantém a infor-
mação no lugar. O que isso significa? O processamento da informação no
cérebro pode ser dividido em duas classes: processos que são acessíveis à "Laranja"
consciência e processos que não são. Os processos dos quais não estamos
conscientes são chamados de inconscientes, ou fora da nossa consciência
o o
o o
senciente, mental. o
Uma experiência unitária: A consciência junta os frutos dos nossos siste- o
o
mas sensoriais em uma experiência fenomenal unificada que permanece cons-
ciente ao longo do tempo. Anossa consciência do mundo baseia-se na mistura
dessas sensações em um evento único, multimídia.
Autoconhecimento: Embora a subjetividade e a senciência impliquem um
conhecimento direto, de primeira pessoa, da consciência, nós também pode-
mos ser observadores imparciais, de terceira pessoa, das nossas próprias expe-
riências mentais. Conforme diz Pinker, "Eu não só sinto dor e enxergo verme-
lho como penso comigo mesmo: 'Ei, Steve Pinker, sentindo dor e enxergando
vermelho!".
Intencionalidade: A consciência pressupõe que pensamos sobre, ou in-
terpretamos, as nossas experiências. Como tal, as nossas percepções atri-
buem significados, vão além do choque passivo da estimulação física sobre FIGURA 8.20 Uma das questões difíceis envolvendo a
os nossos sistemas sensoriais. Por exemplo, uma sala parecerá muito diferen- consciência é como explicar a "qualia", ou os perceptos
te na centésima vez que você entrar nela em relação à primeira vez, mesmo fenomenológicos do mundo. Por exemplo, será que a cor laranja
que a sala em si não tenha mudado muito, se é que mudou. Arazão é que a parece igual para todas as pessoas com visão normal para cores'
274 GAZZANIGA e HEATHERTON

experiência com a sala - ou com qualquer ambiente, por falar no assunto - acaba influenciando
percepção subliminar Estímulos
que são processados pelos sistemas
como ela é percebida.
sensoriais, mas que, por sua curta O objetivo ao fazer essas distinções entre diferentes aspectos da consciência é facilitar o estudo
duração ou forma sutil, não empírico. Por exemplo, agora que definimos qualia, poderemos planejar estudos que comecem a
atingem o limiar de entrada na investigar quais partes do cérebro estão ativas e quais estão inativas quando experienciamos uma
co nsciência.
qualia específica. Nós agora veremos diversas definições de consciência e as diferentes abordagens
empíricas originadas por elas.

O processamento inconsciente influencia a consciência


Uma das propriedades da consciência discutidas acima é o "acesso à informação'', ou a idéia de
que temos consciência de alguns processos mentais e não de outros. Ao longo das últimas décadas,
uma das áreas mais proveitosas da pesquisa sobre a consciência explorou as diferentes maneiras
pelas quais a percepção inconsciente ou subliminar influencia a cognição. Apercepção sublimi-
nar se refere a estímulos aos quais os nossos sistemas sensoriais respondem, mas que, por sua curta
duração ou forma sutil, nunca atingem o limiar de entrada na consciência (Figura 8.21).

Os argumentos da percepção subliminar Não há dúvida de que os estímulos influen-


ciam os nossos pensamentos e as nossas ações, mesmo que permaneçam fora da esfera da consciên-
cia. Uma ilustração freqüentemente utilizada desse ponto envolve testar participantes apresentan-
do-lhes antes do teste, muito brevemente, a imagem de um menino que parece ou maldoso ou
bondoso. Os participantes não percebem que lhes foi mostrada a imagem inicial. Para o teste princi-
pal, é mostrada a imagem de um menino com uma expressão neutra no rosto, e os participantes
devem dizer se o menino parece ter "bom" ou "mau" caráter. Os participantes aos quais foi previa-
mente apresentada a imagem do menino bondoso avaliam o seu caráter muito mais positivamente
do que os que viram a imagem maldosa (Figura 8.22).
Outro exemplo vem do trabalho de Tony Marcel, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra,
que queria descobrir quais sistemas cognitivos são influenciados por estímulos subliminais. Marcel
apresentou aos participantes uma série de linhas de x em uma tela, seguida por uma palavra ou por
uma não-palavra (uma série de letras sem sentido) (Figura 8.23). Atarefa dos participantes era decidir
se estava presente uma palavra ou uma não-palavra. A manipulação crítica nesse estudo, todavia, era
ter sido apresentada ou não uma palavra inicial logo antes das linhas de x - a metade dos experimen-
tos continha essa palavra inicial e a outra metade não. Abreve apresentação da
palavra inicial (quando presente), combinada com as linhas de x posteriores,
fazia com que os participantes não tivessem consciência de ter visto a palavra.
Marcel descobriu que quando a palavra subliminar estava semanticamente rela-
cionada à palavra do teste, os participantes eram significativamente mais rápi-
dos em reconhecer que a palavra do teste era realmente uma palavra (em vez de
uma série de letras). Esses dados sugerem que as palavras subliminares ativa-
ram processos cognitivos associados ao significado das palavras, mesmo que não
houvesse nenhum conhecimento consciente desse efeito.

Associação livre e "atos falhas" Embora os experimentos de per-


cepção subliminar tenham proporcionado insights sobre as diferentes manei-
ras pelas quais os processos inconscientes influenciam a cognição, também
foram observados outros tipos de efeitos. Em um clássico experimento de Ri-
chard Nisbett e Timothy Wilson (1977), os participantes deviam examinar
pares de palavras como "oceano-lua" com uma associação semântica óbvia
entre elas. Depois eles tinham de associar livremente com outras palavras iso-
ladas, como "detergente". isbett e Wilson estavam interessados em descobrir
em que grau, se é que algum, os pares de palavras influenciariam seus pensa-
mentos. O que eles descobriram foi que, quando recebiam a palavra "deter-
gente" depois do par "oceano-lua", a associação livre típica dos participantes
FIGURA 8.21 Este desenho contém uma mensagem era a palavra "Tide" (o nome de uma marca de detergente que significa "Maré").
subliminar extraordinariamente óbvia quando a descobrimos. Você O interessante é que eles normalmente davam razões como "Minha mãe usava
é capaz de encontrá-la? Tide quando eu era criança", sem ter a menor consciência de terem sido influ-
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 275

enciados pelos pares de palavras. O que isso revela é que nós freqüentemente não estamos conscien-
consc1encia A noção de que ser
'es da miríade de diferentes coisas que podem afetar as nossas decisões sobre o que dizemos e con hecedor da informação é ser
fazemos. Efeitos semelhantes estão por trás do clássico "ato falho freudiano", em que pensamentos capaz de relatar que a informação
;nconscientes são subitamente expressos em momentos inadequados, muitas vezes para pessoas está sendo ou foi percebida .
:nadequadas. visão cega Uma condição em que
pessoas que são cegas apresentam
algumas capacidades visuais
preservadas na ausência de
A consciência* perceptiva tem muitos centros no cérebro qualquer consci ência visual.

Como afirmamos, talvez o maior desafio nas ciências psicológicas hoje seja compreender como
a atividade neural dá origem ao conhecimento consciente que associamos à cognição e à percepção.
Entretanto, para abordar essa questão, precisamos perguntar: O que, exatamente, é consciência?
~bora existam muitas definições, todas convergem para a noção de que ter consciência da informa-
cão é ser capaz de relatar que a informação está sendo - ou foi - percebida. Com base nessa
definição geral, houve muita pesquisa nas últimas décadas para identificar as áreas cerebrais envol-
·idas na consciência. Ao estudar a consciência em indivíduos com lesão em regiões específicas do
cérebro, os pesquisadores esperam relacionar perdas seletivas de consciência - isto é, a consciência
de formas específicas de informação - às áreas cerebrais lesadas. Como o cérebro dá origem à
Umas das áreas de estudo mais fascinantes na neurociência cognitiva tem a ver com as bases consciência fenomenal?
;i.eurais da consciência visual. Em particular, os pesquisadores focalizaram o fenômeno da visão
cega, uma condição em que as pessoas sofrem de cegueira devido à lesão
em seu córtex visual primário, mas retêm certas capacidades visuais na
l
ausência de qualquer consciência visual. Embora os pacientes com visão
cega sejam excepcionalmente raros, eles costumam apresentar perda de A1 i
!
'
!

·isão apenas em uma porção circunscrita de seu campo visual. Os pesqui- •


sadores descobriram que, se for apresentado a esses pacientes um estí- i 1

mulo em seu campo cego, eles podem perceber inconscientemente aspec-


ros salientes do estímulo. Por exemplo, apresenta-se aos pacientes um
;x>nto em movimento em sua mancha cega e eles devem indicar em que
direção o ponto está se movendo. O cenário típico é de pacientes decla-
~ando que não viram nada e, portanto, nada têm a relatar. Entretanto,
quando pressionados para adivinhar a direção do movimento, os pacien-
:es quase sempre adivinham corretamente (Figura 8.24).
Assim, as pessoas com visão cega parecem ter algum conhecimento
do que foi apresentado em seu campo visual, mas não têm consciência da
estimulação. Mais especificamente, a visão cega demonstra como o uso
funcional da informação visual não depende, necessariamente, da
consciência fenomenal dessa informação. Uma das explicações mais po-
pulares para a visão cega é que, embora a via visual primária da retina B
para o córtex não esteja funcionando nesses pacientes, uma via secundá-
ria - que vai do colículo superior no tronco cerebral para o córtex de
associação - permanece intacta, proporcionando a capacidade funcional
da visão cega. Entretanto, o fato de a consciência dessa informação per-
manecer ausente sugere que o córtex visual primário pode ser a área-
chave no fornecimento da consciência visual. O objetivo agora é compre-
ender as propriedades funcionais únicas do córtex visual primário que lhe
dão a propriedade da "consciência". O que os neurônios estão fazendo
nessa região do cérebro que os neurônios em áreas cerebrais de não-cons-
ciência não estão fazendo?
Aimportância das pesquisas sobre a visão cega é que ela demonstra
como a consciência da informação sobre o nosso ambiente depende do
acesso a uma variedade de diferentes áreas corticais. Isto é, parece não
FIGURA 8.22 Se solicitadas a julgar o caráter do menino no
painel B, a percepção subliminar anterior do painel A1 fará com que as
N. de T. "Consciência" foi a tradução escolhida para "awareness", que o dicionário pessoas tendam a dar uma avaliação negativa. Alternativamente, a
Houaiss traduz como "conhecimento, consciência, percepção" - é a condição de sa- percepção subliminar anterior do painel A2 levará as pessoas a darem
ber de, dar-se conta de, estar ciente de. uma avaliação positiva.
276 GAZZANIGA e HEATHERTON

(a) (b) (c)

( pão )
ou
( XX XXX )
( caminhão )

FIGURA 8.23 A percepção subliminar de uma palavra relacionada pode acelerar a decisão
subseqüente de que uma palavra supraliminar é de fato uma palavra.

(a)

" Eu tenho a
E D ver co m
movimento."

(b)

o
o
o

----º
" Eu ouço coisas."
" Eu vejo coi sas."

E D

FIGURA 8.24 A visão cega é a capacidade de responder a estímulos visuais em uma FIGURA 8.25 O tema central que emerge da
porção "cega" do campo visual, mesmo que não exista nenhum conhecimento consciente neurociência cognitiva é que a consciência de diferentes
dos estímulos. Estes são mapas de campo visual de um paciente de Lawrence Weiskrantz, aspectos do mundo está associada ao funcionamento em
D.B., que sofreu uma lesão em parte de seu córtex visual. (a) A área laranja mostra a região diferentes partes do cérebro.
em que D.B. não conseguia enxergar (no campo visual esquerdo). Entretanto, quando eram
mostrados objetos nas áreas hachuradas, ele conseguia adivinhar algumas de suas
propriedades, como em que direção uma linha estava orientada, mesmo que não tivesse,
conscientemente, visto o objeto. D.B., posteriormente, recuperou a visão em parte do
campo visual esquerdo (b). lnteressantemente, essas são as áreas em que a visão cega foi
anteriormente demonstrada.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 277

haver uma única área do cérebro responsável pela "consciência" geral. Oque acontece é que diferen-
tes áreas do cérebro lidam com diferentes tipos de informação, e cada um desses sistemas, por sua
vez, é responsável pela consciência daquele tipo de informação (Figura 8.25). Dessa perspectiva, a
consciência pode ser vista como o mecanismo que está "ciente" da informação e tem o importante papel
de priorizar as informações de que precisamos ou com quais queremos lidar naquele momento.

É possível estudar a consciência?


Os filósofos há muito tempo debatem se a mente e o cérebro são entidades separadas, um debate entre crenças
dua listas e materialistas. Entretanto, um estudo científico da consciência é consistente com a visão materialista, e os
pesquisadores deram início à tarefa crítica de defin ir os diferentes elementos da consciência, a fim de facilitar as
investigações empíricas de sua natureza . Uma das principais áreas que tem sido explorada se refere ao grau em que
os processos conscientes influenciam os conteúdos da consciência . Em uma linha mais neurocientífica, os
pesquisadores também exploraram como a consciência da informação muda com lesões no cérebro, tal como a
visão cega. Os resultados desse domínio de estudo convergem para a teoria de que diferentes partes do cérebro são
responsáveis pela consciência de diferentes tipos de informação, achados que desafiam a idéia mais tradicional de
que a consciência tem um centro único no cérebro.

CONCLUSÃO
Neste capítulo, foram considerados quatro aspectos diferentes da função cognitiva superior,
que, tomados sucessivamente, proporcionam importantes insights da complexidade da mente huma-
na. Em primeiro lugar, a informação não só pode ser representada na mente como essas representa-
ções podem assumir diferentes formas, como qualidades de imagem ou simples proposições. Em
segundo lugar, usamos essa informação representacional para resolver problemas e tomar decisões,
assim como para formar nossas percepções do ambiente que nos rodeia. Entretanto, parece que a
tradicional visão do que é "racional'', em termos do nosso pensamento baseado em conhecimentos,
deixa de apreciar as bases ecológicas em que o pensamento humano evoluiu. Em terceiro lugar, as
idéias contemporâneas sobre a inteligência apóiam a posição de que o pensamento lógico e o verbal
são apenas um subconjunto de um espectro mais amplo de capacidades associadas à inteligência.
Além disso, o debate sobre se a inteligência está baseada na nossa herança genética ou no ambiente
em que somos criados não tem muito fundamento, pois ambos os fatores desempenham um papel
crítico. Finalmente, embora alguns filósofos acreditem que a consciência não pode ser estudada
empiricamente, os pesquisadores não só estabeleceram diferentes maneiras pelas quais os processos
inconscientes afetam a consciência, como estão rapidamente descobrindo os sistemas cerebrais que
estão por trás da consciência fenomenal.

LEITURAS ADICIONAIS
Ballard, D. H. (1997). An introduction to natural computation. Cambridge, MA: MIT Press.
Block, N.; Flanagan, O.; Gtizeldere, G. (Eds.). (1997). The nature of consciousness. Cambridge, MA: MIT Press.
Eysenck, M. W. ; Keane, M. T. (1990). Cognitive psychology: A student's handbook. Hillsdale, NJ: Erlbaum.
Hameroff, S. R.; Kaszniak, A. W.; Scott, A. C. (Eds.). (1996). Towards a science of consciousness: The first Tucson
discussions and debates. Cambridge, MA: MIT Press.
Kosslyn, S. M. (1994). Image and brain. Cambridge, MA: MIT Press.
Neisser, U. (1976). Cognition and reality: Principies and implications of cognitive psychology. New York: W. H. Free-
man.
Pinker, S. (1997) . How the mind works. New York: W. W. Nonon.
Plous, S. (1993). The psychology, of judgment and decision making. ew York: McGraw-Hill.
G291c Gazzaniga, Michael S.
Ciência psicológica : mente, cérebro e comportamento I
Michael S. Gazzaniga e Todd F. Heatherton; trad. Maria
Adriana Veríssimo Veronese. - 2. imp. rev. - Porto Alegre:
Artmed, 2005.

ISBN 978-85-363-0432-8

1. Psicologia - Ciência . 1. Heatherton, Todd F. li. Título

CDU 159.9.01/.98

catalogação na publicação: Mónica Ballejo Canto - CRB 10/1023