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O nome próprio e sua invenção1

Mario Fleig2

“A psicose, é diante desta que um analista jamais deve


recuar” (J. Lacan, 1977).

RESUMO: Este artigo parte do recorte clínico de um caso de psicose, examinando as


incidências da teoria infantil não-sexual na problemática do nome próprio e no delírio de
auto-engendramento, assim como a especificidade da direção do tratamento, com especial
atenção ao recorte da letra como suporte do traço unário e seus efeitos no delírio e
alucinações do analisante.

PALAVRAS-CHAVES: Nome-próprio; direção do tratamento; psicose; letra.

O trabalho cotidiano confronta o psicanalista com a insuficiência de seu saber


e ao mesmo tempo com a exigência de dar conta do que se passa em cada tratamento
que dirige. Em função disso, não há caso clínico mais fácil do que outro, assim como
não se pode dizer que o tratamento do sofrimento neurótico oferece menores
dificuldades do que o da psicose. Contudo, no trabalho clínico com pacientes
situados no discurso psicótico observa-se que estes oferecem menor resistência à
transferência do que os situados na neurose, acarretando uma dificuldade especial.
Essa dificuldade é acrescida pelo efeito visível de que toda análise desencadeia a
patologia que visa tratar: é a clássica descrição da “neurose de transferência”. No
caso da psicose não é diferente. Como pode o analista estar à altura do quadro
psicótico que seu ato desencadeia, no qual está necessariamente incluído e que lhe
demanda uma resposta e uma rearticulação? Trata-se de um quadro inevitavelmente
totalitário, como se apresenta exemplarmente de modo puro na paranóia. Como não
responder de modo totalitário, em espelho, apelando para os recursos que apagam

1
Publicado em Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n. 25, 2003, p. 54-66.
2
Psicanalista, analista membro da Associação Lacaniana Internacional, membro da Escola de Estudos
Psicanalíticos. E-mail: mfleig@terra.com.br
nossa divisão, como a camisa de força medicamentosa e a internação compulsória?
Lacan nos alerta que como psicanalistas não podemos recuar diante da psicose.
Contudo, não basta dizer que temos sujeitos psicóticos em análise para estarmos de
acordo com este alerta. Além daquilo que estes analisantes certamente ensinam ao
analista, cabe também ao analista dizer algo sobre o seu fazer, visando explicitar
aspectos da especificidade do ato psicanalítico. É isso que propomos neste artigo,
partindo de um recorte clínico e da problemática do nome próprio, discutir aspectos
da direção do tratamento na psicose à luz das formulações de Lacan.
Recebi João – vou chamá-lo assim – em meu consultório, e veio acompanhado
de sua esposa. Disse-me de saída que tinha vindo me ver porque sabia de meu
profundo conhecimento sobre religião e teologia. Passou então a me relatar sua
existência errática, marcada por hospitalizações repetidas, com uma incidência mais
ou menos anual. Já tinha perdido a conta de quanto tempo passara dentro de
hospitais psiquiátricos e nada conseguia interromper essa reincidência. Estava
próximo dos 50 anos de idade, e as crises com internações aconteciam desde o
primeiro episódio, que tinha ocorrido antes dos seus 30 anos. Passou a vir
regularmente, e às vezes também aparecia em horários não combinados, e, na
medida do possível, eu sempre o recebia. Ao longo de seu relato, no qual seguia o
fio de sua memória, resgatou os acontecimentos e lembranças marcantes.
Ele me disse que a primeira crise dele ocorrera dois anos após o casamento,
quando foi transferido para uma cidade distante, determinada pela empresa em que
trabalhava, e que também coincidiu com o nascimento do seu primeiro filho. Nesta
empresa, sendo um funcionário muito competente e honesto, descobrira uma fraude
praticada por seu superior, que determina sua transferência.
Nessa primeira crise, relatou-me que dizia ser Jesus Cristo e sendo assim tinha
“o corpo fechado”, nada poderia lhe acontecer, e tinha uma missão muito
importante, que era a salvação de todos. Além disso, achava-se capaz de “olhar para
o sol diretamente”, afrontá-lo, sem que nada pudesse lhe acontecer, pois “eu posso
tudo”. Quando começou a desafiar as pessoas à sua volta, tentando entregar-lhes
seu revólver e dizendo que podiam disparar contra seu corpo, na aposta de que nada
poderia lhe acontecer, pois tinha o corpo fechado, foi compulsoriamente internado.
Afirmava que nenhuma bala poderia entrar em seu corpo, nada poderia atingi-lo e
ao mesmo tempo ele podia tudo. Disse-me que se sentia todo poderoso. Relatou-me
também seus problemas com as ameaças vindas dos vizinhos, das vozes que ouvia
e especialmente de algo que lhe acontecia, produzindo um riso que não conseguia
conter. Este riso se estendeu por muito tempo ao longo do tratamento. Também
explorava um problema que o atormentava desde sempre: ele não sabia se era filho
adotado ou não, ou se era filho natural, e, neste caso, devido ao fato de seus pais
nunca terem sido casados.
Quando ele me relatou sobre sua entrada na escola, apareceu um problema
com seu nome, que trazia como ainda não resolvido: por ocasião de seu nascimento,
diz que fora sua mãe quem o registrara, com o nome João Luís da Silva, e esse era o
nome que ele supunha que fosse seu. Ao ter que apresentar a certidão de
nascimento, como normalmente ocorre, ele descobre que tem outro registro e com
outro nome. O seu pai também o tinha registrado, depois da mãe, com o nome de
João Silva Souza. Então, aí ele teve seu primeiro problema, mas isso ficou assim.
Somente mais tarde, quando começou a trabalhar, teve que resolver o problema. Ou
seja, precisou escolher quem ele era. Ele escolheu o segundo nome, João Silva Souza,
nome pelo qual seu pai o inscrevera no registro civil, renunciando o segundo pré-
nome, “Luís”, e a partícula “da”.
Somente depois de sete anos de tratamento, ele me disse outra coisa
surpreendente: que tinha um terceiro nome, pois fora batizado com o nome de João
Fischer. Mas ele não sabia de onde tinha vindo este nome, talvez dos padrinhos. Ele
pensava que seus problemas se originavam no fato de seus pais não serem casados
e naquele tempo isso era algo muito importante. O seu pai tivera muitos problemas,
como uma meningite na infância, com seqüelas físicas. Mas apesar disto, ele havia
ingressado no exército, como soldado, e mais tarde dera baixa, passando a exercer a
profissão de padeiro. Esta profissão determinava que ficasse fora de casa em seus
horários de trabalho específicos ou quando trabalhava em outras cidades,
ausentando-se por longos períodos. Em contrapartida, situava como a pessoa mais
importante em sua vida a avó materna, de quem sua mãe era “filha de criação”. O
nome da avó era Joana Páscoa. Essa avó, Dona Páscoa, com quem moravam, tivera
uma casa espírita, sendo uma pessoa de muita importância na comunidade. Desde
criança João acompanhava tudo aquilo que acontecia nesta casa espírita. Contudo,
sua escolha religiosa se dera pelo lado da religião católica, ainda que sempre tenha
se visto dividido entre o espiritismo e o catolicismo. Esta escolha fora em parte
determinada pela atenção especial que recebera dos catequistas jesuítas, que
desenvolviam um trabalho muito intenso no bairro em que morava.
Nos primeiros meses do tratamento, eu ficava me perguntando sobre o que
fazia com que João continuasse vindo e por que a expectativa de uma crise e
conseqüente necessidade de internação, formulada por sua esposa ao me telefonar
em momentos mais preocupantes, não acontecia e de fato nunca mais voltou a
acontecer. Eu sempre tinha bem presente o que me dissera de saída, a respeito de
sua suposição de eu ter um profundo conhecimento sobre religião e teologia.
Suponho que tal êxito fora devido à chance que tive em introduzir algo de uma não-
certeza em seus enunciados e em sua teoria delirante. Consegui formular isso depois
que ele me explicou sua teoria sobre o tratamento, que foi tendo muitas variantes,
mas cujo ponto central apareceu no enunciado: “Eu venho aqui me tratar com a
Psicanálise”. E a partir disso, passava a me ensinar sobre o que vinha fazer ali e sobre
o que era a psicanálise. Ele começou a formular essa teoria quando me disse, num
momento de muita angústia, que ele não sabia como sair do poço: “Eu estou no
fundo do poço e não sei como sair”. Esse poço o remetia a sua infância e seu temor
de um dia cair de fato dentro do poço que existia no pátio de sua casa. Para ele, isso
já havia acontecido, ou seja, não sabia qual era seu nome, quando não estava referido
pelo nome delirante Jesus Cristo. Aconteceu de um dia, depois de tantas vezes falar-
me deste poço, ouvi no que me disse um acento um pouco diferente e lhe devolvi o
que tinha ouvido: “póço”, ou seja, introduzi um acento agudo e isso produziu um
efeito inesperado, colocando em pauta o “posso”, de seu enunciado “eu posso tudo”.
Então ele retornou com uma nova formulação: “É fácil de resolver: é só esperar o
poço encher e aí a gente sai do poço". A partir deste dia suas certezas começaram a
desabar, e os pequenos detalhes do cotidiano e de suas lembranças foram criando
delineamentos diferentes. A nova sintaxe e um novo léxico passou a cobrir suas
impressões, e os elementos externos. Onde antes se produziam idéias persecutórias
ou alucinações auditivas, agora se organizam situações e objetos, sensações e idéias,
marcadas por vacilações e não-certezas. Em seu vocabulário surgiram termos como
“pode ser”, “talvez”, “tenho a impressão”, “isso eu não sei”, “tal coisa vou ter que
ver”, etc.
Uma de minhas hipóteses era de que o problema de sua identificação com
nome próprio tinha a ver com a injunção que o lançava na produção delirante. Ele
mesmo tinha a esperança de sanar seu problema quando tivesse resolvido a questão
do seu nome, mas descobrira que mesmo resolvendo legalmente o problema do seu
nome, continuava no mesmo sofrimento. O desencadeamento de sua psicose fora
pontual com o nascimento do primeiro de seus cinco filhos, ou seja, quando teve que
apelar para o significante do Nome-do-Pai no grande Outro para autentificar seu
lugar de enunciação como pai e assim poder nomear seu filho, e nada respondeu à
sua invocação.
O problema de seu nome retornou em suas sessões durante muito tempo,
tendo se desdobrado em duas direções: as dúvidas sobre sua origem, se era adotado
ou não, o que o levou inclusive a uma intensa pesquisa junto à sua idosa mãe, que
continuava sempre afirmando ele era seu filho; e as lembranças sobre sua avó, a
Páscoa. O que ele fazia era me apresentar as teorias que tinha sobre estas questões e
minha linha de trabalho consistia tanto em questionar suas formulações absolutas
quanto seguir o fio do material que trazia, até pode introduzir uma fala que situasse
o ponto específico ao qual aquilo se ligava, a um resto diurno, uma lembrança, um
conversa que tivera, uma imagem na televisão, etc. O que aconteceu é que tanto suas
alucinações, especialmente as auditivas em relações aos vizinhos e suas certezas
delirantes sobre sua origem e seus nomes foram se desfazendo, com conseqüência
benéficas para sua qualidade de vida e de sua família. Um dia, depois de me mais
uma vez falar de lembranças antigas em relação à sua avó materna, me disse que
achava que já tinha falado tudo o que gostaria de falar, me dispensando. Foi um
momento sereno e triste. Também para mim. Nossos encontros já duravam mais de
quinze anos. Menos de um ano depois, seus familiares me comunicaram seu
falecimento, decorrente de problemas de saúde que o acompanhavam desde muito
tempo.
O que este recorte clínico pode nos ensinar? Eu mesmo penso que ainda tenho
muito para aprender a partir do que João me ensinou ao longo destes anos, tanto no
modo de acolher um analisante quando nas hipóteses sobre como se organiza uma
subjetividade na psicose. Durante um certo tempo tentei olhar o trabalho com João
na perspectiva do tratamento da psicose a partir da hipótese de elaboração de um
delírio constituído e viável com base na metáfora delirante. Essa formulação foi
proposta por Calligaris (1989), em seus seminários realizados em Porto Alegre.
Partindo do pressuposto de que aquilo que retorna no Real para o sujeito situado no
discurso psicótico é a função paterna, afirma ele que seria então nesse retorno que
se daria o trabalho analítico, visando facilitar a constituição de um delírio viável.
Deste modo, conclui Calligaris (1989, p. 57): “Portanto, se é possível produzir
modificações na constelação paterna do sujeito psicótico, similares às obtidas com
um paciente neurótico, é possível auxiliar o paciente psicótico em análise a constituir
um delírio viável, isto é, uma pseudometáfora paterna”.
Ora, a proposta do tratamento da psicose a partir da hipótese de elaboração
de um delírio constituído e viável com base na metáfora delirante3 encontra
fundamento na formulação de Lacan (1966, p. 577):

3
Segundo nossas pesquisas, encontramos apenas uma vez o uso do conceito “metáfora delirante” em Lacan.
Por outro lado, esse conceito nos remete à formulação freudiana acerca do trabalho do delírio, na medida em
que o paranóico o reconstruiria de tal modo que pudesse voltar a vive dentro dele. Assim, afirma Freud que
“o que consideramos a produção patológica, a formação do delírio, é, na realidade, a tentativa de
restabelecimento, a reconstrução”. (Freud, 1911c, p. 193).
É a falta do Nome-do-Pai nesse lugar que, pelo buraco que abre no
significado, inicia a cascada dos remanejamentos do significante de
onde provém o desastre crescente do imaginário, até que se alcance
o nível em que significante e significado se estabilizem na metáfora
delirante.

Três pontos a destacar nesse enunciado: a psicose se desencadeia pela


forclusão do Nome-do-Pai; a metáfora delirante se produz com uma prótese à falta
do significante Nome-do-Pai; e seria possível se alcançar um nível em que o
significante e o significado se estabilizem, graças à metáfora delirante. Esta proposta
de Lacan (1966) para um tratamento possível de psicose é viável? Como operar com
vistas à construção de um delírio constituído sem que isso mantenha o analisante à
mercê de injunções? Seria possível esta estabilização que sugere Lacan? Sabemos
que muitos analistas já colocaram esta perspectiva em questão, inclusive Lacan
(1991), especialmente quando introduz a topologia dos nós e a noção de sinthoma,
no seminário O sinthoma4. Não vamos tomar esta direção em relação ao presente
caso. Não porque não se trate de uma psicose joyceana, senão que julgamos mais
pertinente a abordagem a partir do problema do nome próprio e a sua teoria
subjacente. João era um católico formado pelos jesuítas, mas não era de boa cepa,
dada sua vacilação face à religião da avó materna. Talvez por isso mesmo pôde se
entregar a uma análise.5 João encontrou seu sinthoma na psicanálise, e um dia pode
dispensá-la, sem sucumbir na melancolia ou erigir-se na paranóia.
Um significante não pode se significar a si mesmo. Disso resulta que o
princípio de identidade é abandonado no âmbito do sujeito e conseqüentemente o
sujeito do inconsciente situa-se fora do campo do predicável. É a diferença que Lacan

4
Diante da pergunta sobre a existência de outras forclusões além da que resulta da forclusão do Nome-do-Pai,
Lacan (1991, p. 131) responde afirmativamente, rompendo com a concepção de situar a forclusão como a
operação exclusiva do campo da psicose. Harari (2002) é elucidativo a respeito da diversidade das forclusões,
assim como R. Chemama em sua conferência sobre a “Forclusão do falo” proferida em P. Alegre em 2002.
5
Quanto a Joyce, Lacan (1991) nos afirma que era um católico inanalisável, bastando-lhe o seu saber lidar
com a literatura como sinthoma, de tal ordem “que não haja nada para fazer para analisá-lo” (p. 136). Não
estaria Joyce de tal modo arraigado na certeza e no amor narcísico de seu sinthoma que não lhe restava outra
alternativa senão a reiterada pregação deste amor? Não surge aqui uma das mais atuais resistências à
psicanálise, ao lado do ideal de racionalidade das ciências positivistas?
introduz entre a mediação por via da imagem e a mediação pelo significante: a
possível identidade imaginária como permanência do objeto no campo perceptivo e
a impossível identidade simbólica que se resolve pela identificação com o
significante que produz o sujeito dividido, como efeito da cisão entre ser e
significante. É nesse âmbito que se resume, então, as três identificações assinaladas
por Freud [(1921c) 1982].
A primeira identificação, a narcísica, por incorporação do pai da pré-história,
é anterior a qualquer investimento objetal, e com isso não sendo conseqüência de
uma perda de objeto. É desta primeira identificação que se origina o Nome-do-Pai.
A segunda identificação é formadora do ideal do eu e resulta da perda dos
objetos libidinais relativo à história edípica do sujeito. Ela não toma forma total do
objeto copiado, mas apenas um dos seus traços, o traço unário.
A terceira identificação, dita histérica, é aquela em que o objeto copiado se
apresenta não como desejável, mas como desejante.
A primeira identificação instaura o campo da metáfora que possibilita o
desejo e as outras duas situam as condições de seu exercício. Ou seja, de onde desejar
e o que desejar.
O sujeito dividido nasce pelo contável do traço, identifica-se com a
possibilidade da conta, confundindo-se e sendo a mesma coisa que a operação “mais
um” da produção do sucessor. Contudo, fica a pergunta de como se dá a
singularização, pois os traços, na conta, não se diferenciam senão pela posição na
série. Assim como o patronímico, ele desmancha, apaga o que existe de singular pelo
fato de referir a pertença a uma linhagem comum. E neste movimento de
apagamento da singularidade, nos singulariza. Como se dá isso? Parece que isso
ocorre por ocasião da formação do ideal do eu, momento em que o traço unário é
extraído da série do contável para representar, para o sujeito que aí se constitui, a
perda do objeto edipiano. Daí em diante esse traço unário ganha valor significante,
na medida em que é a partir dele (de onde desejar?) e identificando-se com ele é que
o sujeito passará a interrogar todos os outros significantes da cadeia em busca do
reencontro do objeto (o que desejar?). O ideal do eu não demarca o sujeito, mas o
lugar de onde o sujeito surge como movimento de representação.
É dentro deste quadro das três identificações que Lacan vai colocar a questão
do nome próprio, defrontando-se com as formulações clássicas desta questão.
Sabemos que o problema do nome próprio (Wolf, 1985) é enfrentado tanto pelos
lógicos, no campo da função referencial, ligado à denotação com ou sem conotação
quanto pelos lingüistas (por exemplo, Benveniste e Jakobson). J.S.Mill nos apresenta
sua já clássica concepção do nome próprio como sendo um termo individual não
conotativo, isto é, sem atribuição, como uma marca. Já para Frege, o nome próprio
sempre é referido a um objeto. Para Russell, o nome próprio é uma word for particular,
um isto e como tal se define pelo seu caráter descritivo. Ou seja, é a substituição de
uma descrição. Assim, Sócrates, o que não deixa de ser paradoxal, já não pode mais
ser considerado um nome próprio, dado que quando pronunciamos, já não
comporta nenhuma descrição de um alguém.
Lacan se confronta com a insuficiência das formulações sobre o nome próprio.
Encontramos o desenvolvimento teórico da especificidade do nome próprio no
seminário A identificação (Lacan, 1995, p. 71-103; cf. Lacan, 1966, p. 819). Sua posição
indica que o sujeito não se identifica com o nome próprio mas com o traço
significante que lhe permite ser dito um. O nome próprio é que veicula a operação
de instauração do sujeito nomeando seu lugar e especificando sua pertença. O
sujeito é o efeito de um discurso no movimento do qual seu lugar já está inscrito
desde seu nascimento, sob a forma de seu nome próprio. É porque o traço unário é
o suporte da identificação que o sujeito pode se contar ou descontar e que pode ser
representado no discurso por substituição a este traço.
A especificidade da teoria de Lacan (1995) sobre o nome próprio se situa no
privilégio que mantém o nome próprio com a letra, no sentido em que ela se
pronuncia tal qual em todas as línguas, não se traduz, mas se transfere
eventualmente de alfabeto a alfabeto por transliteração. É este vínculo com a
escritura, com a letra que remete ao traço unário. A letra é um operador da estrutura,
fazendo suporte do traço unário, do significante da diferença pura. O nome próprio
funciona como um lugar vazio que tem por função designar o indivíduo, não
simplesmente como indivíduo, mas como indivíduo suscetível de falhar. Pode-se
entender o nome próprio do mesmo modo que se entende o zero, a partir do
momento em que este zero conta por um.
Esta operação de identificação como pura subtração é assim enunciada por
Lacan (1966, p. 819):
A bateria de significantes, na medida em que ela é, sendo por isso
mesmo completa, esse significante só pode ser um traço que se traça
de seu círculo sem poder aí ser contado. Simbolizável pela inerência
de um (-1) ao conjunto de significantes. Ele é como tal
impronunciável, mas não sua operação, pois ela é o que se produz
cada vez que um nome próprio é pronunciado. Seu enunciado se
iguala a sua significação.

Para que o sujeito possa ser representado, possa ser contado, deve poder se
descontar, constituindo o lugar vazio que constitui o patronímico, como o que dá
peso e engaja a palavra do sujeito, dando-lhe um sentido e uma orientação.
O que acontece, então, quando nós mesmos pronunciamos o nosso nome
próprio ou ele nos é invocado de um outro lugar? O que aí se aponta é este
impronunciável, este impensável que só pode comparecer como zero. Seria esta
passagem entre o zero e o um. O traço como um que se inscreve somente é possível
porque lhe antecede um zero, isto é, um furo que nada pode preencher. Lacan
aproxima a questão deste furo que não se completa com o significante da falta no
grande Outro. O que resulta é que quando um nome próprio é pronunciado ele não
encontra no grande Outro nenhuma garantia, nenhum pai que lá esteja garantindo
este nome, nada que o valide. E aqui dá para pensar também a diferença da posição
de Lacan em relação a todo desenvolvimento dos filósofos, lingüistas e lógicos, que
estão em busca de resolver o problema da referência, Bedeutung na linguagem de
Frege. Ou seja, ali onde se suporia uma garantia, o que encontramos é o sem
garantia. O efeito disso para cada um de nós é que ali onde fomos nomeados ou
chamados, só nos resta nos autorizarmos a partir disto mesmo de onde não há
garantia. Contudo, ao invocar o Outro, lá há um significante que autentifica o ato do
sujeito e este significante se chama Nome-do-Pai. Como cada falante lida com este
significante no Outro, se ele se encontra ou não no Outro, na busca de fundar um
ato, resulta nos impasses de todo aquele que pretende pronunciar algo em nome
próprio, que é o autorizar-se que diz respeito a todo falante. Como resolver este
impasse? Como o falante se põe relativamente a este sem garantia, sem referente? A
partir deste ponto podemos construir uma nosografia. Isto é, que tipo de patologia
podemos pensar a partir do nome próprio. Não é meu propósito desenvolver isto
aqui, mas apenas apontar como poderíamos pensar as três estruturas fundamentais:
neurose, psicose e perversão.
Podemos encontrar a patologia do nome próprio na neurose, cujo significante
com o qual o sujeito se identifica, como nome próprio, sofre um trabalho de
dissolução e apagamento. O neurótico sofreu a castração, mas a recalca, tentando
transformar os significantes que o determinam em meros signos e assim podendo
supor que passará sem pagar sua dívida simbólica utilizando-se do recurso do
anonimato. Podemos nos lembrar na clássica negação da marca significante de
pertença na tríplice negação de S. Pedro, que diante da invocação de um traço
singular, responde pelo anonimato: “Juro que eu não conheço este homem”. O eu
do neurótico é tão forte que seu nome próprio o importuna. Por isso, afirma Lacan
(1966, p. 826) que “o neurótico é no fundo um Sem-Nome.”
Na psicose, o sujeito se faz um nome próprio como sendo o Nome, exclui todo
gozo fálico, não conhecendo senão o gozo do Outro. Já para o perverso não ocorre o
esquecimento do nome, mas ele dispensa seu nome para se servir do nome do Outro.
Este é o enunciado que poderia caracterizar tal posição subjetiva: “Eu não sou em
meu nome, mas estou em nome do Outro, sou o instrumento do nome do Outro.”
Se na neurose o sujeito ex-siste ao seu nome, dado que o nome próprio é um corte,
um traço a partir do qual podemos nos contar e descontar, na psicose o nome ex-
siste ao sujeito, pois na falta do Nome-do-Pai, só resta ao sujeito o nome como pedra
angular de sustentação de seu edifício real (Czermark, 1992). Por isto o nome em que
se torna apresenta comumente este caráter de absoluto e completo. Neste caso, o
nome como tal não é um referente, mas aquilo a partir do qual pode haver referência,
o que determina que tenha este caráter de absoluto.
Lacan afirma que um nome próprio, ao ser pronunciado, significa para o
sujeito o que lhe é impensável, o que lhe falta para se pensar completo no seu cogito.
E isto porque ele se confronta sem mediação com o furo no simbólico, com o
significante da falta no grande Outro, ou seja, o nome próprio, ao ser pronunciado,
não encontra no Outro nenhum Pai que o garanta, que o valide. A conseqüência é
que quem se nomeia ou é chamado, deve, ou antes deveria, se autorizar por si
mesmo. E é isto que as identificações abrem como possibilidade para um sujeito:
falar em nome próprio, sem nunca alcançar resolver o impasse que o enigma que
cada um porta seja resolvido, enigma tanto do lado do sujeito quanto daquilo que
incessantemente persegue. A temporalidade é a própria estrutura do sujeito como
corte que se faz pura presença, em ato.
Eu ainda gostaria de retornar à questão da letra, porque é uma questão
extremamente complexa. Encontrei em Aristóteles algo que pode nos ajudar. Como
sabemos, Aristóteles define o homem como um animal de linguagem. No De
Interpretacione (Aristóteles, 1950, 16a) afirma que a significação se dá a partir de
quatro elementos: a voz (phoné), os patemas da alma (os afetos da alma, os
sofrimentos da alma) e das coisas exteriores e o quarto hermeneuta que é a letra
(gramma). Em Política (1523a 10-18) diz o seguinte:
O homem é o único vivente dotado de linguagem. A voz, com efeito,
é signo de dor e prazer, é porque ela pertence também aos outros
viventes (pois sua natureza vai até lhe fazer experimentar a sensação
de dor ou de prazer que eles podem se significar uns aos outros); a
linguagem, ao contrário, serve para manifestar o que convém e o que
não convém, igual o que é justo e injusto; o próprio dos homens em
relação aos outros seres vivos é que eles têm a sensação de bem e de
mal, do justo e do injusto e outras coisas do mesmo gênero; e a
comunidade (koinomia) destas coisas faz a habitação (oikia) e a cidade
(pólis).
Este texto de Aristóteles nos faz pensar que toda a discussão a respeito do
sujeito, do nome próprio, do desejo, e da identificação quer resolver o problema de
como nós fazemos para tornar viável o habitar na pólis. Podemos pensar que a letra
(gramma) é o que ocupa este intervalo abismoso que existe entre a voz (phoné) e a
linguagem (logos). Aristóteles parte da oposição entre ato e potência que aparece na
cisão entre voz e linguagem. Este intervalo abre o espaço da ética (relativo ao caráter
contingente da práxis) e da vida em comum na pólis, na medida em que não há
articulação perfeita entre phoné e logos. A voz não está jamais completamente inscrita
na linguagem e o gramma é a própria forma da pressuposição de si e da potência. O
espaço entre voz e logos é um espaço vazio, um limite, um abismo. E o homem se
define pela experiência de alíngua, que joga no risco do vazio. A definição de Lacan
do significante como sendo aquilo que representa um sujeito para outro significante,
é esta passagem de um nada para um outro, isto é, do zero para um. Este intervalo
é um buraco, é um abismo e nos sustentamos nesse intervalo somente, e apenas
somente, nos agarrando em um traço. Isto constitui a identificação com um traço.
Esse intervalo pode ser pensado no âmbito do mito freudiano do assassinato do pai
da horda primitiva, onde neste assassinato, de um lado cai o cadáver, que constitui
este resto perdido, como objeto "a", e do outro lado nos resta um traço ao qual nós
nos agarramos, nos identificamos e aí nos constituímos. E estarmos agarrado a este
traço é que nos permite cruzar de um lado para outro deste abismo sem aí afundar.
A identificação com este cadáver determinaria um outro destino para o sujeito, pois
este cadáver está no Real. A partir daí poderíamos pensar o que é a problemática da
psicose, uma identificação com o falo imaginário materno, i(a)<>I, que impede a
formação de i, imagem que se interpõe entre a mãe e o falo imaginário e que
permitiria uma ancoragem para os significantes.
Partindo da clássica concepção freudiana de defesa, Bergès e Balbo (2003)
propõem uma nova leitura da tese lacaniano da psicose como efeito da forclusão do
Nome-do-Pai: a psicose é que produziria a forclusão como mecanismo de defesa,
atingindo não apenas o Nome-do-Pai do pai, mas também o Nome-do-Pai da mãe.
Isso significa que a geração dos genitores é que fica forcluída. Para situar isso melhor
requer-se introduzir a questão da teoria sexual da criança em relação às três gerações
necessárias para a estruturação do sujeito. Para que surja uma psicose, também são
necessárias no mínimo três gerações, mas com a condição de que a geração do meio
seja pulada, isto é, a geração dos pais não conta para o sujeito. Disso resultam dois
efeitos: a produção de uma teoria de auto-engendramento e de uma teoria não-
sexual, como resposta às duas clássicas questões das crianças: de onde vêem os bebês
e sobre a diferença sexual. A não inscrição do sexual determina a não entrada no
infantil, isto é, no brincar.
Deste modo, o psicótico evacua completamente a dimensão do ato sexual de
seus pais que lhe deu origem, correspondendo à dupla forclusão do Nome-do-Pai
de sua mãe e de seu pai. A partir disso só lhe resta a saída através de uma teoria de
auto-engendramento e a invenção de um nome que tivesse caráter absoluto e
completo, como “Jesus Cristo”, visto que os três nomes que já recebera não lhe eram
suficientes. O pai de Jesus Cristo, todos sabemos, é Deus, Deus Pai, que aparece
verdadeiramente no Sol. Na formulação do Faraó Akenaton, inventor do
monoteísmo, o Sol ocupava o lugar da divindade única e também para o Presidente
Schreber. Era invocando o Deus Pai, o Sol, que nosso analisante buscava encontrar
o significante que pudesse autentificar sua existência, na certeza absoluta de sua
imortalidade, ao formar um circuito pulsional no fazer-se ser visto grande Outro.
Não apenas se tratava de olhar para o sol diretamente, mas que o sol o olhasse
diretamente, na busca de ser autentificado pelo olhar do Pai Absoluto. Era essa sua
teoria, que jamais tinha sido colocada em questão. Aquela inusitada vacilação entre
“posso” e “póço” introduziu uma cunha, produzindo uma divisão subjetiva onde
corríamos o risco de ver emergir uma injunção enlouquecedora. Penso que foi neste
acento agudo, pequena letra que permitiu colocar em funcionamento a função da
diferença ao fazer suporte do traço unário, do significante da diferença pura, que
uma direção do tratamento começou. A seguir, foi um lento trabalho de corte e
costura, com os alinhavos prévios a cada passo a ser dado. O momento do fim de
sua análise girou em torno do luto da avó Páscoa, significante diretamente ligado a
Jesus Cristo e Deus Pai: a Páscoa do sacrifício perfeito. Parece que depois disso ele
olhou para mim e me dispensou. Já não estava mais se tratando com a psicanálise.

Referências

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