Anda di halaman 1dari 25

A Propósito das Canonizações Atuais

Apresentação de D. Lourenço Fleichman OSB


O texto que segue foi publicado no nosso antigo site Capela. Como o tema volta
à atualidade com o anúncio da canonização de João XXIII e de João Paulo II,
aproveitamos para republicá-lo. A introdução antiga segue abaixo:
Que algumas canonizações atuais deixam perplexos os católicos, tanto no ambiente tradicional
como mesmo entre muitos oficialistas, todos já sabem. De um modo geral, o que se ouve nas
conversas e discussões sobre este assunto são afirmações de opiniões, ou petições de princípio. O
Papa é infalível nas canonizações, logo, não haveria com o que se preocupar. Se João XXIII ou
Escrivá de Balaguer não parecem santos em suas vidas, seria unicamente por erro de avaliação de
alguns católicos sectários e exagerados.
Ora, num assunto desta ordem não convém que se mantenha a discussão apenas no nível das
opiniões e do senso comum. Como já é nosso costume, procuramos analisar as coisas da vida da
Igreja, principalmente quando se trata de defender nossa fé católica, com a profundidade que pede
a gravidade da hora.
Que me perdoem se eu cito aqui os padres de Campos. Mas não poderia deixar de assinalar o
espanto com que os vimos correr para venerar publicamente um liberal ecumênico, modelo
exemplar do que foi o Concílio Vaticano II. Fico chocado de ve-los de joelhos diante de um homem
que sempre foi visto por esses mesmos padres como pertencendo a essa nova igreja ecumênica. E os
argumentos que usam visam apenas a mover a consciência dos fiéis mais humildes e sem formação.
Interessa para eles não aprofundar teologicamente a questão, pois a evidência aparece a qualquer
um que estude com serenidade e com critérios católicos o que seja uma canonização e o que são as
canonizações no mundo do Vaticano II.
Lex orandi, lex credendi - à doutrina de Vaticano II não poderia deixar de corresponder a piedade
de Vaticano II, as orações ecumênicas e os santos ecumênicos de Vaticano II. Assim como sua
doutrina é contrária à doutrina ensinada pela Igreja ao longo de dois mil anos, assim também seus
santos não são santos católicos. Em suma: bastaria apagar da vida católica este concílio e seu
espírito anti-católico para que todas as coisas voltassem aos seus eixos, na vida da Igreja.
O texto abaixo, de responsabilidade da Fraternidade São Pio X, mostra com clareza onde e como
um católico deve entender esta delicada questão. Porque são inválidas as canonizações de homens
que não foram santos; porque são também inválidas as canonizações de homens que, tendo sido
comprovadamente de alta santidade, como foi o Pe. Pio, receberam dos papas de Vaticano II uma
processo de canonização que já não é mais católico. (fonte: www.dici.org).
A PROPÓSITO DAS CANONIZAÇÕES ATUAIS
Ao abordar este assunto, estamos conscientes de levantar um problema
extremamente delicado que, por desejo natural da paz e da concórdia,
preferiríamos não ter que abordar. Se há um domínio em que gostaríamos de
seguir o papa, é a luta contra a tendência neoprotestante da
dessacralização. Leia o artigo todo
Entretanto, somos forçados a constatar no correr dos anos não somente uma
multiplicação espantosa das beatificações e canonizações – voltaremos a esse
assunto depois – mas igualmente uma escolha dos processos que provoca uma
igualdade entre personagens às vezes doutrinariamente opostos. A beatificação
dos papas Pio IX e João XXIII em 1999 foi um exemplo dos mais flagrantes. As
canonizações, em alguns meses de distância, do Padre Pio e de José Escrivá de
Balaguer serve igualmente para perturbar o espírito de quem faz uso ainda do
princípio de não-contradição.
O presente trabalho não tem a pretensão de fechar a questão, isto não nos
compete. Sem dúvida o magistério da Igreja, num futuro mais ou menos
longínquo, nos dará mais luzes que a Roma atual e trará precisões quanto a
alguns casos de beatificações ou canonizações1duvidosos.
Que o leitor não se escandalize com essa afirmação que implicaria um
relativismo do magistério da Igreja. Não é o magistério em si mesmo que é
relativo, mas a compreensão que têm dele os que o exercem hoje. De fato, a
compreensão do conceito de Tradição comporta uma tal flexibilidade que o que
é entendido num sentido hoje, poderá ser num sentido completamente oposto
amanhã. Nesse contexto, pensamos que é possível abordar a questão da
infalibilidade das canonizações atuais mantendo, por nossa parte, nossa adesão
à doutrina comum. A fim de evitar todo mal entendido, esclarecemos ainda que
não se trata aqui de fazer um trabalho de discernimento das canonizações,
procurando as que poderiam ser válidas, e as que não seriam. Ainda uma vez,
não pertence a nós essa tarefa. Nossa reflexão é de outra ordem, ela se
concentra sobre o espírito e a intenção com que essas canonizações são
realizadas pela autoridade, hoje. Que não se impressionem se levantamos
questões que abrangem também canonizações de pessoas cuja santidade já é
provada publicamente por milagres e feitos extraordinários conhecidos, como é
o caso de um Padre Pio, e nos quais a intervenção do magistério é, de certo
modo, a sanção davox populi.
A fim de progredir de modo claro na argumentação começaremos por definir as
noções, o que nos levará a considerar num primeiro momento a doutrina
tradicional quanto à canonização. Num segundo momento, nos voltaremos para
as canonizações depois do concílio Vaticano II, para chegarmos enfim nas
conclusões, as quais serão pistas de reflexão e não julgamentos definitivos.
Parte I: A doutrina tradicional2
A - Histórico
Lancemos um olhar sobre a história, o que nos permitirá discernir melhor a
realidade da canonização. Na origem, encontramos o exercício espontâneo de
um culto público dado a um fiel falecido, exprimindo a santidade deste e dando
em exemplo suas virtudes. O primeiro culto foi dado aos santos mártires, o
povo recolhia relíquias dessas vítimas da perseguição, edificava altares sobre
seus túmulos e os padres ali celebravam a missa. Os primeiros exemplos
remontam ao século II e a prática é universal no século III. Este culto devia ser
autenticado pelo bispo: a disciplina distingue de fato os mártires reconhecidos e
aqueles que não o são.
Foi somente no século IV que a canonização se estendeu àqueles que, mesmo
não tendo tido a ocasião de derramar seu sangue pela fé, ilustrou-se de
virtudes eminentes. A disciplina não varia: é aos bispos que incumbe
reconhecer a santidade; mas, sobretudo no fim do século XI, os papas
reclamam, para maior segurança, que o exame das virtudes e dos milagres se
faça num quadro de um concílio, de preferência um concílio geral. Qual é o
estatuto jurídico desse reconhecimento oficial: trata-se de uma beatificação ou
de uma canonização? Os testunhos que nos deixou a história não nos permite
saber com toda a certeza. Mas, se levamos em conta uma razão teológica
necessária, parece muito provável que se tratava de simples beatificações, o
poder de um bispo não ultrapassando os limites de sua diocese3. “O culto só se
elevava à dignidade de uma canonização se passasse de diocese em diocese e
se estendesse à Igreja universal, com o assentimento expresso ou tácito do
Soberano Pontífice”4. Ou seja, se é admitido explicitamente que somente o
bispo pode proceder a uma beatificação, no que concerne a canonização a
disciplina em uso implica que somente o papa seja provido da competência
necessária.
Acha-se enfim uma Constituição do papa Alexandre III, datada de 1170,
inserida no Corpus júris canonici5 que mostra explicitamente a regra disciplinar: a
faculdade de decretar as beatificações na sua diocese é retirada dos bispos e
reservada ao Soberano Pontífice; e então, a fortiori, a canonização propriamente
dita continua prerrogativa do Soberano Pontífice. Esta prática, sabemos, não se
fez de imediato e em todos os lugares conforme a esse princípio, e os bispos
sempre consideraram a Constituição de Alexandre III como letra morta.
A controvérsia foi definitivamente encerrada pelos decretos do papa Urbano
VIII de 13 de março e de 2 de outubro de 1625, de início promulgadas em
Roma e depois publicadas com uma confirmação especial no breve Coelestis
Jerusalém cives de 5 de julho de 1634. A partir desse momento, está fora de
contestação, de fato como de direito, que somente o Soberano Pontífice pode
proceder às beatificações e as canonizações.
Notemos que quando ele opera essa promulgação o papa pode recorrer a
instrumentos que vão interferir anteriormente na canonização propriamente
dita, fazendo o papel de conselhos destinados a esclarecer a prudência do
legislador:
- há o processo regularmente instruído: ele desemboca sobre a canonização
formal. Esta pode se definir como a sentença que termina um processo
regularmente aberto e segue com todo o rigor do procedimento para constatar
juridicamente a heroicidade das virtudes praticadas pelo servidor de Deus e a
verdade dos milagres pelos quais Deus manifestou essa heroicidade. Essa
sentença é ordinariamente dada pelo Soberano Pontífice durante uma
solenidade particular;
- há também, no curso da história, o culto espontâneo da piedade popular:
quando o papa se contenta de autenticar, trata-se de uma canonização
equipolente. Esta se define, então, como a sentença que não termina um
processo de canonização, mas que o Soberano Pontífice emite para ratificar o
culto que, desde um tempo imemorável é publicamente dado a um servidor de
Deus. É necessário que as virtudes heróicas e os milagres desse servidor de
Deus, mesmo não tendo sido juridicamente constatadas, tenham sido trazidas
por narrativas dignas de fé e façam o objeto da crença geral do povo cristão.
Essa sentença é considerada como dada quando a Santa Sé impõe de precepto à
Igreja universal a celebração da missa e a recitação do ofício em honra desse
santo6. É nessa espécie de canonização que se arrumam a maior parte das que
foram cumpridas antes de 1170 e é também nessa categoria que figuram os
casos duvidosos.7
B - O que é canonização?
l. Definição
A canonização é o ato solene pelo qual o Soberano Pontífice, julgando em
última instância e, emitindo uma sentença definitiva, inscreve no catálogo dos
santos um servidor de Deus, anteriormente beatificado. Por esse ato, o papa
declara que aquele que ele acaba de elevar sobre os altares reina
verdadeiramente na glória eterna, e ele ordena à Igreja universal lhe prestar,
em todo lugar, o culto devido aos santos8.
O autor da canonização é o chefe de toda a Igreja. Porque se trata da salvação
eterna e, logo, do bem comum de toda a sociedade, somente a autoridade
legítima tem o poder de promulgar a lei nesse domínio. A canonização equivale,
então a um triplo julgamento soberano e definitivo pelo qual a Igreja afirma
com autoridade:
a) Que tal pessoa está na glória eterna e , durante sua vida, praticou as
virtudes sobrenaturais num grau heróico;
b) Que essa prática constitui para todos os fiéis da Igreja uma norma tão
segura que nela se conformando, estão assegurados de participar da salvação
eterna;
c) Que todo fiel deve dar sua adesão a esses dois julgamentos a) e b) e
professar sua adesão tomando parte ao culto público que a Igreja vai, de hoje
em diante, render ao santo canonizado para reconhecer oficialmente a
heroicidade de sua virtude.
O santo é dado como exemplo por suas virtudes. Pelo culto que lhe é dado é a
graça eminente que nós veneramos – através de sua pessoa – participação
íntima na natureza de Deus.
2. Canonização e beatificação
a) Semelhanças: nos dois casos, o fim, o objeto e o autor são idênticos; e do
ponto de vista da essência da lei, nos dois casos estamos diante de um
julgamento que anuncia as virtudes heróicas de um santo ou de um bem-
aventurado.
b) Diferenças: a beatificação não é um julgamento definitivo, mas sim um ato
reformável que prepara a sentença de canonização, enquanto que esta última é
uma sentença irreformável.
A beatificação não é um preceito, mas uma permissão, enquanto que a
canonização é um preceito e constitui, então, uma obrigação.
A beatificação não é uma lei que obrigue a Igreja universal, mas um privilégio
concedido a uma parte da Igreja universal (província eclesiástica, diocese,
cidade, família religiosa), enquanto que a canonização é uma lei cuja
observação é prescrita à Igreja universal.
3. Infalibilidade
a) A beatificação não é um ato infalível
Em se tratando das beatificações realizadas pelos bispos antes de 1170, está
fora de dúvida que elas não poderiam se beneficiar da infalibilidade, pois, de
direito, são atos que emanam de um sujeito que não pode jamais ser infalível a
título pessoal. De fato, a história mostra que erros foram cometidos9.
Em se tratando das beatificações que, depois de 1170, ficaram como privilégio
exclusivo da Sé apostólica, é verossímil que não são também atos infalíveis:
esses atos, com efeito, não são definitivos, nem preceptivos; ora a infalibilidade
só pode estar relacionada a um ato definitivo e preceptivo10. Um privilégio se
aplica, por definição, a uma matéria não necessária. Poderia-se distinguir entre
as beatificações equipolentes e as beatificações formais, dizendo que as
segundas oferecem mais garantias que as primeiras e que, por conseqüência, a
recusa de lhe conceder o assentimento que lhe é devido constituiria uma falta
mais grave,11 sem para tanto atribuir a infalibilidade à beatificação. É preciso
igualmente considerar o argumento da universalidade: a beatificação não
introduz o culto ao bem-aventurado na Igreja universal. Ora, os atos infalíveis
do magistério devem se estender à Igreja universal.
b) A canonização
O conjunto – quase unânime – dos teólogos até o concílio Vaticano I ensina que
o papa, quando canoniza um santo, exerce a prerrogativa da infalibilidade.
Citemos sobretudo: São Tomás12 , Melchior Canon13 e Bento XIV14.
Há, de início, um argumento de direito: não é possível que o papa se engane
canonizando um homem que seria reprovável, porque isso significaria ensinar
algo contrário à fé e a moral, pois o papa ensinaria assim que poderíamos nos
salvar imitando o exemplo de quem foi conduzido por suas más ações à
danação.
Há também um argumento de fato que sublinha Bento XIV: nunca se achou um
erro nas canonizações as quais os papas puderam proceder15.
c) Valor dessa infalibilidade
É a opinião comum dos teólogos e a expressão de uma certa tradição na Igreja;
mas não é ainda um dogma de fé solenemente definido. Aquele que negasse
essa infalibilidade não poderia ser considerado como herético.
d) O caso do martirológio
A inscrição de um personagem no martirológio não significa a canonização
infalível deste. O martirológio é a lista que abrange não somente todos os
santos canonizados, mas ainda os servidores de Deus que puderam ser
beatificados, seja pelo Soberano Pontífice, seja pelos bispos antes de 117016. E
essas beatificações não são infalíveis17. Os títulos de “sanctus” ou de “beatus” não
têm, no martirológio, a significação precisa que permitiria fazer a separação
entre santo canonizado e bem-aventurado.
4. O objeto da canonização
É de início e antes de tudo é a santidade da pessoa e as virtudes heróicas que
fazem par com a santidade. Os fatos miraculosos são secundários e ocasionais
para atestar a heroicidade sobrenatural de suas virtudes. O sobrenatural dos
milagres e dos fatos extraordinários não é evocado por si mesmo, mas somente
para atestar a origem divina das virtudes e manifestar a eminente graça
santificante.
Precisemos ainda: de que santidade se trata? Em que ela consiste
precisamente
Ela consiste na graça santificante possuída a um grau extraordinário, um tal
grau de caridade divina que é acompanhada de virtudes infusas e adquiridas
praticadas até o heroísmo. Esse heroísmo das virtudes é como o termômetro da
santidade: lá onde tem santidade verdadeira, tem também virtude heróica, e lá
onde as virtudes são praticadas num grau heróico e onde nenhuma virtude faz
falta, há santidade. Não sendo a graça apreendida pelos sentidos, o julgamento
sobre a santidade se fará a partir da heroicidade das virtudes.
As virtudes infusas sendo conexas entre si – contrariamente aos defeitos – o
organismo espiritual do santo comportará então o conjunto das virtudes morais
a um grau eminente; a menor falha nas virtudes morais infusas será o sinal de
que não há, na pessoa em questão, um grau consumido de graça santificante.
Entretanto, a graça da caridade excede ao infinito a condição natural comum a
todos os homens: ela é um dom gratuito que a natureza não saberia reivindicar
como o que lhe é próprio. São Tomás adverte, a propósito da obtenção da
salvação sobrenatural, que “o bem proporcionado à condição comum da natureza se realiza
quase sempre, e só faz falta raramente. Enquanto que o bem que excede o estado comum das coisas
se acha realizado somente por um pequeno número, e a ausência desse bem é freqüente”18.
Podemos então tirar, a propósito da santidade e da virtude heróica que ela
implica, a mesma conclusão que São Tomás estabelece falando da salvação
eterna: “Porque a santidade, que consiste na caridade perfeita, excede o nível comum da
natureza, e, além disso, a partir do momento em que essa natureza foi privada da graça pela
corrupção do pecado original, existem poucos homens santos. E mesmo nisso aparece
soberanamente a misericórdia de Deus, que eleva alguns seres a uma santidade que falta ao maior
número, segundo o curso e a inclinação comum da natureza”19.
Há então dois motivos que explicam porque a santidade – e, logo, a
canonização que a dá como exemplo – é coisa rara: há, de uma parte a
transcendência absoluta da graça em relação à natureza, e há, por outro lado,
a corrupção do pecado original. Acrescentamos um terceiro motivo. A santidade
que é reconhecida pela canonização toma o valor de um exemplo; ora o que é
dado como exemplo deve atrair a atenção e para isso apresentar alguma coisa
de singular, de extraordinário no sentido etimológico. A linguagem corrente
consagrou, aliás, essa verdade assimilando os dois vocábulos exemplar e único.
Por isso a multiplicação dos santos leva a diminuir sua exemplaridade: mesmo
se os santos fossem numerosos, um pequeno número dentre eles e não a
maior parte deve fazer o objeto de uma canonização.
Conclusão: a santidade, fundamento de toda canonização, é um estado
extraordinário de vida sobrenatural extraordinária, nesse sentido que está bem
além da via comum.
Parte II: As Canonizações depois do Vaticano II
A essência da canonização nos leva a levantar as seguintes questões:
A - Concepção da santidade ontem e hoje.
B - Que santidade para os fiéis de hoje?
C - As consequências
A - A noção de santidade depois do Vaticano II
l. Mudanças de ordem quantitativa
Partamos do fato constatado por numerosos observadores: depois do Vaticano
II, o número das beatificações e das canonizações toma proporções
quantitativas inauditas. A lista seguinte dá uma idéia precisa:
- Século XVI: uma só canonização
- Século XVII: 10 canonizações com 24 santos
- Século XVIII: 9 canonizações com 29 santos
- Século XIX: 8 canonizações com 80 santos; sob Leão XIII (1878-1903): 4
canonizações com 18 santos
- Século XX: São Pio X (1903-1914): 2 canonizações com 4 santos
- Bento XV (1914-1922): 2 canonizações com 3 santos
- Pio XI (1922-1939): 17 canonizações com 34 santos
- Pio XII (1939-1958): 21 canonizações com 33 santos
- João XXIII (1958-1963):7 canonizações com 10 santos
- Paulo VI (1963-1978): 20 canonizações com 81 santos
- João Paulo II (1978 a 2002): Escrivá de Balaguer é a 468º pessoa canonizada
por esse papa.
Até Paulo VI as canonizações eram atos solenes do Pontífice Romano
excepcionais. Depois do Vaticano II isso mudou: João Paulo II efetuou mais
canonizações que cada um de seus predecessores do século XX e mais também
que todos seus predecessores desde a criação da Congregação dos Ritos por
Sixto V em 1588. O próprio João Paulo II explicou esse crescimento do número
de canonizações num discurso aos cardeais no consistório em 13 de junho de
1984: “Dizem que hoje há muitas beatificações. Mas além do fato de que isso reflete a realidade
de que a graça de Deus é o que ela é, isto corresponde também aos desejos do Concílio. O
Evangelho está de tal maneira difundido no mundo e sua mensagem está enraizada tão
profundamente que é precisamente o grande número de beatificações que reflete de modo vivo a
ação do Espírito Santo e a vitalidade que jorra no domínio mais essencial para a Igreja, o da
santidade. É, de fato, o Concílio que iluminou de modo particular o apelo universal a santidade”.
Então essa mudança de ordem quantitativa tem por causa uma mudança de
ordem qualitativa. Se as canonizações são agora mais numerosas, é porque a
santidade que testemunha a canonização possui uma significação diferente: a
santidade não é mais coisa rara, extraordinária, mas algo de comum.
“João Paulo II fez mais canonizações que fizeram todos os papas desse século. Mas dessa maneira,
não se mantém a dignidade da canonização. Se as canonizações são numerosas, elas não podem
ser, não diremos válidas, mas tomadas em consideração, nem ser objeto de veneração por parte da
Igreja universal. (...) Se as canonizações se multiplicam, seu valor diminui”20.
2. Mudanças de ordem qualitativa
Vamos tentar explicar porque, segundo a lógica do Vaticano II, a santidade não
é mais algo de extraordinário. A nova teologia nos ajudará a compreender.
a) Os fundamentos da nova concepção da santidade
Vaticano II introduziu uma nova religião ligada a uma nova teologia, e segundo
essa nova teologia (tal como explicita o ensinamento pontifício ordinário de
João Paulo II) a Redenção é concebida como um simples testemunho
existencial permitindo aos homens tomar consciência interiormente da sua
dignidade enquanto pessoa humana:
“O Cristo, Redentor do mundo, é aquele que penetrou, de uma maneira única e absolutamente
singular, no mistério do homem. É então a justo título que o Concílio Vaticano II ensina isto: “Na
realidade, Cristo, na própria revelação do mistério do Pai e de seu amor, manifesta plenamente o
homem a si mesmo e lhe descobre a sublimidade de sua vocação21”
Tal é, se podemos dizer assim, a dimensão humana do mistério da Redenção.
Nessa dimensão, o homem encontra a grandeza, a dignidade e o valor próprio
de sua humanidade. Se ele deixa esse processo se realizar profundamente em
si, ele produz frutos não somente de adoração para com Deus, mas também de
profundo agrado por si mesmo. Que valor deve ter o homem aos olhos do
Criador se ele “mereceu ter um tal e um tão grande Redentor22”, se “Deus deu seu Filho” a
fim de que, o homem,
“não se perdesse, mas que ele tivesse a vida eterna23”! 24
Como a missão da Igreja consiste em aplicar os frutos da Redenção, a Igreja teria por fim essencial
promover essa dignidade da pessoa humana e de fazer todos os homens tomarem essa consciência.
Essa profunda admiração diante do valor e da dignidade do homem se exprime na palavra
Evangelho, que quer dizer Boa Nova. Ela é ligada também ao cristianismo. Essa admiração justifica
a missão da Igreja no mundo”25.
“O Concílio Vaticano II, em diversas passagens desses documentos, exprimiu essa solicitude
fundamental da Igreja, afim de que a vida nesse mundo seja “mais conforme a eminente dignidade
do homem”26 em todos os pontos de vista, para torna-la “sempre mais humana”27. Em nome dessa
solicitude, como lemos na constituição pastoral do Concílio, “a Igreja é por sua vez o sinal e a
salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana”28” 29.
Ora, a dignidade da pessoa humana se funda na liberdade de consciência: é
então esta última que a Igreja vai se esforçar de manifestar e de defender.
“Por isso, a Igreja de nosso tempo concede uma grande importância em tudo o que o Concílio
Vaticano II expôs na declaração sobre a liberdade religiosa. A declaração sobre a liberdade
religiosa nos manifesta de maneira convincente que, anunciando a verdade que não provém dos
homens, mas sim de Deus, Cristo, e em seguida seus Apóstolos, conservam uma profunda estima
pelo homem, por sua inteligência, sua vontade, sua consciência e sua liberdade. Desse modo, a
dignidade da pessoa humana vem fazer parte ela própria desse anúncio, mesmo sem recorrer às
palavras, pelo simples comportamento diante dele. Quer dizer que a Igreja, em virtude de sua
missão divina, se torna cada vez mais guardiã dessa liberdade, que é condição e fundamento da
verdadeira dignidade da pessoa humana”30.
Viver dos frutos dessa Redenção será então fazer com que “a dignidade da pessoa
humana seja o objeto de uma consciência sempre mais viva e que sempre mais numerosos sejam
aqueles que reivindiquem para o homem a possibilidade de agir em virtude de suas próprias opções
e com toda a livre responsabilidade”31. Viverá então santamente aquele que terá uma
consciência aguda dessa dignidade da pessoa humana e que a respeitará
celebrando a liberdade do homem, sobretudo em matéria religiosa.
São Tomás diz que a santidade se exprime ao mais alto ponto no exercício do
culto pelo qual o homem dá a Deus o que lhe é devido32. A nova santidade
corresponde assim, logicamente, a um novo culto: o culto do homem, do qual
falou Paulo VI33, culto pelo qual a Igreja dá ao homem a dignidade que lhe é
devida favorecendo sua liberdade. O homem santo, no sentido novo do termo,
é então, o homem tolerante. A tolerância se substitui assim à caridade teologal
e se torna a virtude primordial que serve de fundamento à nova santidade,
segundo o Vaticano II e Dignitatis humanae.
Acrescentamos que o novo santo não é somente o homem tolerante, mas é
também o homem que propaga as virtudes naturais. A santidade “nova” perde
de vista sua relação com o sobrenatural, ela se reduz freqüentemente a
perseguições de causas humanas, o que é uma conseqüência lógica da
concepção naturalista da nova religião. Na canonização de Zdislava da Boêmia,
em 21 de maio de 1995, essa nova concepção aparece bem nítida. “A santidade
consiste na capacidade de se dar aos outros e na acolhida da vida. Seu exemplo (de Zdislava)
aparece eminentemente atual, sobretudo em relação ao valor da família que, como ela nos ensina,
deve ser aberta a Deus, ao dom da vida e as necessidades dos pobres. Nosso santo é uma admirável
testemunha do “Evangelho da família”e do “Evangelho da vida” que a Igreja mais que nunca, se
esforça por difundir nessa passagem do segundo para o terceiro milênio cristão. Famílias da
Boêmia, famílias da Moravia, tesouro inestimável dessa nação, sejam o que são no plano de Deus,
seguindo o exemplo de seus santos! E você, Zdislava de Lemberk, guie as famílias da pátria e do
mundo inteiro para o conhecimento sempre mais profundo de sua missão, torne-as abertas ao dom,
você, mãe doce e forte, caridosa e piedosa!”34
b) Essa nova concepção explica porque a santidade é um fato comum,
ordinário.
Ser santo, de agora em diante, é aceder a essa revelação segundo a qual o
Cristo redentor manifesta o homem a si mesmo. A santidade consiste numa
tomada de consciência, e basta ao homem, para se tornar santo, descobrir o
que ele já é em Cristo. Só há então uma simples passagem do implícito ao
explícito, o que reduz a nada toda a transcendência: a santidade não é mais um
ideal que excede a condição comum da humanidade; ao contrário, ela se situa
no prolongamento lógico dessa condição porque ela não é outra coisa além da
tomada de consciência dessa condição no que funda sua dignidade. Se
retomarmos o princípio enunciado acima por São Tomás aplicando a essa nova
situação, devemos dizer que a santidade sendo o bem proporcionado à
condição comum da natureza, se realiza quase sempre, e só falta raramente.35
Segue-se que a santidade, quando torna-se o objeto de uma canonização, não
é mais dada como exemplo a imitar, mas como um sinal. Há nisso uma
diferença:
- O exemplo a imitar se dirige à inteligência prática e à vontade; ele indica o
que não é ainda e que deve se realizar. Na concepção tradicional, a
canonização é assim definida como uma lei que indica quais são as virtudes
heróicas a adquirir seguindo o exemplo de um santo;
- O sinal se dirige à inteligência pura, e indica o que já é, mas que não é
percebido perfeitamente: o sinal manifesta-o mais perfeitamente.
Com a nova concepção herdada do Vaticano II, a santidade se torna um sinal:
aqueles que já tomaram consciência da dignidade de sua natureza humana e
que a defendem, são indicados aos outros, a fim de que estes acedam por sua
vez a essa tomada de consciência.
“O santo é o testemunho mais brilhante da dignidade conferida ao discípulo de Cristo”36.
“Sobre a vocação universal a santidade, o Concílio Vaticano II se exprimiu com termos
luminosos.37
A vocação à santidade deve ser percebida e vivida pelos fiéis leigos, menos sob um aspecto de
obrigação exigente e incontornável, do que como um sinal luminoso de amor infinito do Pai que
lhes regenerou a sua vida de santidade”38.
Ora, nessa perspectiva, ter-se-ia o interesse em multiplicar os sinais, porque
essa multiplicidade adquire ela própria um valor significante: o peso do número
de todos aqueles que são conscientes de sua dignidade confere uma eficácia
maior a essa revelação onde Cristo manifesta o homem a si mesmo. Mais as
canonizações se multiplicam, mais os santos são numerosos, melhor é
significada a dignidade do homem.39
B - Que santidade para os fiéis de hoje?
Mesmo se o exemplo das virtudes heroicas não é excluído, o exemplo dado nas
canonizações corresponde a novas virtudes, bem relacionadas com a visão do
concílio: a santidade se torna um dos elementos que concorrem à unidade
ecumênica. Mais ainda, alguns santos com a virtude reconhecida são utilizados
para difundir a mensagem do concílio: é o que chamamos de a
instrumentalização das canonizações, isto é, o uso de um objeto (em ocorrência
a verdadeira santidade) para fins estranhos.
1. O exemplo do ecumenismo
O ecumenismo é um crivo pelo qual devem passar as causas da canonização,
um pouco como oSecretariado pela unidade dos cristãos foi durante o concílio, o filtro
pelo qual deviam passar todos os textos conciliares.
Assim, não somente algumas causas são promulgadas ou vidas de santos são
explicadas num contexto novo, mas outras causas são paradas, o ecumenismo
obriga. Um exemplo espantoso, mas que fez pouco barulho em razão da
discrição da Congregação pela causa dos santos foi a parada da causa de Isabel
a Católica, em 1992. Os bispos de Valencia, Sevilha e Ávila tinham engajado a
dita congregação a fazer avançar a causa para chegar a uma beatificação em
1992, no quadro do Quinto centenário da descoberta das Américas. A fim de
não chocar a comunidade judia, a causa foi parada pelos “artesãos católicos do
diálogo judeo-cristão. Tiveram que intervir também, muito oficiosamente, o Conselho pontifício pela
unidade dos cristãos (relações com o judaísmo), a Secretaria de Estado e, certamente, o próprio
João Paulo II”40.
O espírito ecumênico transparece particularmente quando a pessoa a ser
canonizada está inserida numa região de maioria não católica. A canonização é
então empregada como meio de lançar pontes para outras religiões. Melhor
ainda, pudemos assistir a releituras ecumênicas de vidas de santos já
canonizados. Assim, santa Brígida da Suécia se torna um centro de unidade
para os luteranos e católicos:
“É para mim uma grande alegria saber que na Suécia ela é amada e venerada tanto pelos luteranos
quanto pelos católicos. Sua vida e sua obra constituem então uma herança que nos une. Santa
Brígida é como um centro de unidade. “Senhor, mostre-me o caminho e disponha-me a segui-lo!”.
São as palavras de uma das orações, que se recita ainda hoje na Suécia. (...) “Senhor, mostre-me o
caminho e disponha-me a segui-lo”. Essa invocação pode constituir o programa do movimento
ecumênico. O ecumenismo é uma viagem que se efetua junto mas que não é possível fixar o percurso
nem a duração. Não sabemos se o caminho será fácil ou difícil. Sabemos somente que é nosso dever
seguir junto essa viagem. (...) Santa Brígida consagrou toda sua existência a esse ardente desejo
divino de reconciliação e de comunhão entre todos os membros do povo cristão. (...)”41
Depois das festividades do Sexto centenário da canonização de Santa Brígida,
João Paulo II se dirigiu aos cardeais nesses termos: “A recente Assembleia (Sínodo
dos bispos da Europa) foi caracterizada pela presença de delegações de diversas Confissões cristãs
que, sobre um pé de igualdade, tomaram parte nos trabalhos. Os encontros, os colóquios e as
orações comuns – eu queria lembrar em particular a liturgia ecumênica que se desenrolou na
basílica vaticana de sete de dezembro – pôs em relevo a necessidade de prosseguir o diálogo
ecumênico, na procura da unidade e da comunhão. (...) Será este ecumenismo da verdade e da
caridade que fará dos cristãos os profetas críveis de esperança e de solidariedade aos olhos do
mundo. Sobre esse caminho difícil, que nos ajudem os santos patronos da Europa: São Bento, São
Cirilo e São Metódio. Que interceda por nós, particularmente, Santa Brígida, que celebramos
recentemente o sexto centenário da canonização. Esse aniversário tomou um valor significativo,
constituindo um passo importante no diálogo ecumênico. O exemplo dessa santa e a lembrança da
missão que ela cumpriu ao serviço da unidade da Igreja representam um motivo de encorajamento
por todos aqueles que estão engajados na nova evangelização da Europa.”42
Numa homilia pronunciada em 1995, em Kosice (Eslováquia), quando da
canonização dos três mártires, João Paulo II evoca: “Os mártires das outras
Confissões religiosas”.
Caros irmãos e irmãs! A liturgia desse dia nos convida a refletir sobre os fatos trágicos do início do
século XVII, iluminando, de uma parte, o absurdo da violência que se enfurece contra as vítimas
inocentes e de outro o esplêndido exemplo de tantos discípulos de Cristo que souberam afrontar
sofrimentos de todo gênero para não renegar o que lhe ditava sua consciência. Ao lado dos três
mártires de Kosice, de fato, muitas pessoas, pertencendo também de outras Confissões cristãs,
foram submetidas a torturas e sofreram pesadas condenações: algumas até foram mortas. Como
não reconhecer, por exemplo, a grandeza espiritual dos vinte e quatro fiéis pertencentes às Igrejas
evangélicas, mortas em Presov? A estes e a todos aqueles que aceitaram os sofrimentos e a morte
para ficar com a consciência coerente com suas próprias convicções, a Igreja dá o louvor que eles
merecem e exprime sua admiração.(...)”
O emprego do termo “mártir” é equívoco e traz confusão. O martírio é a morte
sofrida como testemunho da verdadeira fé, o que supõe um grau eminente de
caridade. Não se pode falar em mártir numa falsa religião, em razão da
interdependência verdade/caridade; aquele que dá testemunho de uma falsa
religião não pode ser, objetivamente, um mártir. Isto não tira nada dos méritos
pessoais de pessoas que sofrem na sua carne para defender sua fé, mesmo que
seja objetivamente falsa. Além disso, é possível que elas sejam realmente
mártires, se eles morrem para defender um ponto de fé católica; entretanto
mesmo nesse caso a Igreja não pode lhes declarar mártires, pois ela não pode
julgar desse ponto, totalmente interior. Bento XIV explica que essas pessoas
são mártires diante de Deus, e receberão uma recompensa de mártir, mas elas
não são mártires diante da Igreja que não pode declará-las como tal. É bem
evidente que um tal caso só pode se produzir se essa pessoa está na ignorância
invencível diante da verdadeira fé.
Este ponto de teologia capital parece estar completamente esquecido como
confirma uma passagem da mesma homilia: “Eu faço alusão também a esse
martiriológio na minha Carta apostólica Tertio millennio adveniente43, pedindo para se por em dia,
depois de atrozes experiências de nosso século, lhe completando com os nomes dos mártires que nos
abriram caminho para o terceiro milênio (cf. n.37). O mártir nos une a todos os que crêem em
Cristo, no Oriente como no Ocidente, com os quais esperamos ainda participar da plena comunhão
eclesial (cf. n.34)”.
O papa evoca ainda: “O respeito dos direitos das minorias. Quero então dizer minha alegria
de poder acrescentar hoje esses novos nomes ao martiriológio da Igreja que está em Eslováquia, e
espero que isto constitua um encorajamento para todas as Igrejas irmãs, especialmente para as da
Europa central e oriental. Os três novos santos pertenciam a três nações diferentes, mas dividiam a
mesma fé e, sustentados por ela, souberam afrontar unidos a própria morte. Que seu exemplo
reaviva nos compatriotas o engajamento a compreensão recíproca e reforce, sobretudo entre os
Eslováquios e a minoria húngara os laços de amizade e de colaboração. Somente sobre a base do
respeito mútuo dos direitos e dos deveres das maiorias e das minorias que um Estado pluralista e
democrático pode viver e prosperar. (...)”
Algumas outras citações podem ilustrar a onipresença do tema ecumênico
misturado à santidade:
“O testemunho dado a Cristo até o sangue se tornou um patrimônio comum aos católicos, aos
ortodoxos, aos anglicanos e aos protestantes, como já notava Paulo VI na sua homilia da
canonização dos mártires ugandenses”.(Tertio millenio adveniente, nº 37).
“Era ao mesmo tempo uma peregrinação ecumênica: primeiro ao santuário dos mártires da Igreja
anglicana, depois ao templo construído em honra de são Charles Lwanga e seus 21 companheiros
católicos”. (Audiência geral de 18 de fevereiro de 1993).
“No memorando já citado, sobre o tema da preparação do grande Jubileu, sublinhei a oportunidade
de constituir um martiriológio contemporâneo que leve em conta todas as Igreja locais, também
numa dimensão e uma perspectiva ecumênica. Há tantos mártires nas Igrejas não católicas: dos
ortodoxos do oriente, mas também dos Protestantes.” (Alocução ao Consistório
extraordinário de 13 de junho de 1994).
O fundamento desse ecumenismo dos santos é uma conseqüência da nova
concepção da santidade. Assim, segundo esta nova concepção, Cristo Redentor
opera a salvação e a santidade revelando aos homens a dignidade de sua
condição, a qual acha seu fundamento na liberdade de consciência: o principal
fundamento não é a verdade, à qual o homem adere livremente, não é mais o
objeto ao qual a consciência individual se submete; é a liberdade da
consciência humana, é o sujeito. Ora, essa consciência individual do homem é o
que faz com que um homem creia que Deus seja o que Ele não é para um outro
homem. O homem professa uma religião qualquer e, nessa profissão, ele é de
qualquer modo respeitável, porque ele celebra sua interioridade transcendente.
Por conseqüência, todas as religiões se tornam meios de salvação, porque elas
são todas possibilidades de expressões da dignidade adquirida ao homem por
Cristo:
“Cristo, Verbo Encarnado é a realização da aspiração de todas as religiões do mundo e por isso
mesmo ele é completamente único e definitivo”.44
Eis o que passa a ser um santo: o homem que professa livremente sua religião,
e que tem consciência da dignidade que essa profissão livre lhe confere. E todo
homem pode ser santo dessa santidade, em qualquer religião: em plenitude, na
religião católica; de modo parcial, mas também real, nas outras:
“O Concílio diz que “a Igreja de Cristo está presente” na Igreja Católica, e reconhece ao mesmo
tempo que, “fora do conjunto orgânico que ela forma, acha-se muitos elementos de santificação e
de verdade, que, enquanto dons próprios da Igreja de Cristo, levam à unidade católica”.45 “Por
conseqüência, essas Igrejas e suas comunidades, elas próprias separadas, mesmo se achamos que
elas sofrem deficiência, não são nulamente desprovidas de significação e de valor no mistério da
salvação. De fato, o Espírito de Cristo não recusa de se servir delas como meios de salvação, da
qual a virtude deriva da plenitude mesma da graça e da verdade que foi confiada a Igreja
Católica”. Na medida em que esses elementos de santificação e de verdade se acham nas outras
comunidades cristãs, há uma presença ativa da única Igreja de Cristo nelas. Por isso o Concílio
Vaticano II fala de uma comunhão real, mesmo se ela é imperfeita”. 46
Há então uma comunhão de santidade que transcende as diferentes religiões, e
essa transcendência manifesta a ação redentora de Cristo e a efusão de seu
Espírito sobre toda a humanidade, preparando assim a via para a unidade
ecumênica perfeita:
“O ecumenismo dos santos é talvez o que convence mais. A via da communio sanctorum é mais forte
que a dos fatores de divisão”.47
“Graças ao brilho do “patrimônio dos santos” pertencendo a todas as Comunidades, o “diálogo da
conversão” a unidade plena e visível aparece então sob a luz da esperança. A presença universal
dos santos dá, de fato, a prova da transcendência do poder do Espírito. Ela é sinal e prova da
vitória de Deus sobre as forças do mal que dividem a humanidade.” 48
“Mesmo de maneira invisível, a comunhão ainda imperfeita de nossas comunidades é na verdade
solidamente soldada pela plena comunhão dos santos, quer dizer daqueles que, ao termo de uma
existência fiel à graça, estão na comunhão de Cristo glorioso. Esses santos provêem de todas as
Igrejas e Comunidades eclesiais que lhes abriram a entrada na comunhão da salvação. Quando se
fala de um patrimônio comum, deve-se aí incluir não somente as instituições, os ritos, os meios de
salvação, as tradições que todas as Comunidades conservaram e pelas quais foram formadas, mas
em primeiro lugar e antes de tudo essa realidade da santidade”.49
O que resta então da canonização? Ela seria somente o meio ao qual recorre a
Igreja Católica para significar ao mundo essa dignidade da condição humana,
tal qual ela se manifesta em plenitude no seu seio. A canonização corresponde
a um exemplar primordial, ao qual podem participar mais ou menos as
diferentes confissões religiosas.
2. Santos que veicularam e realizaram a mensagem da religião do
concílio
Em algumas beatificações/canonizações, o fim real não pode ser o destaque
das virtudes heróicas das pessoas concernidas – porque é manifesto que elas
não chegaram à heroicidade – mas a consagração definitiva do Concílio
Vaticano II como o “novo Pentecostes da Igreja”, ou ainda uma de suas idéias
mestras. Assim é a beatificação de João XXIII, a introdução da causa de Paulo
VI e da canonização de Josémaria Escrivá de Balaguer.
A beatificação de João XXIII
A causa de João XXIII é inseparavelmente apresentada com a do concílio e sua
nova mensagem.
“Este pontífice promulgou o ecumenismo, se preocupou em entreter as relações de fraternidade com
os ortodoxos do Oriente que ele tinha conhecido na Bulgária e em Istambul, manteve relações mais
intensas com os Anglicanos e com o mundo diferenciado das Igrejas protestantes. Ele pôs tudo em
obras para levantar as bases de uma nova atitude da Igreja Católica para com o mundo judeu,
fazendo uma abertura decisiva ao diálogo e a colaboração. Em 4 de junho de 1960, ele criou o
Secretariado para a unidade dos cristãos. Ele promulgou duas encíclicas significativas. ‘Mater et
Magistra’ (20 de maio de 196l) sobre a evolução social a luz da doutrina cristã e ‘Pacem in terris’
(ll de abril de 1963) sobre a paz entre todas as nações. Ele visitou hospitais e prisões e se mostrou
sempre próximo, pela caridade, das pessoas sofridas e dos pobres da Igreja e do mundo”.50
Tirando a dedicação às obras de misericórdia corporal, todas as virtudes de
João XXIII são “virtudes ecumênicas”.
No seu sermão de Pentecostes de 2001, o papa João Paulo II homenageia João
XXIII, por ocasião do 38º aniversário de sua morte. 51. “O Concílio ecumênico
Vaticano II, anunciado, convocado e aberto pelo papa João XXIII, foi consciente dessa vocação da
Igreja. Pode-se bem dizer que o Espírito Santo foi o protagonista do concílio, desde o instante em
que o papa o convocou, declarando que ele tinha acolhido como vindo do alto uma voz interior que
se impôs ao seu espírito. Essa “brisa leve” tornou-se um “violento vendaval” e o acontecimento
conciliar tomou a forma de uma nova Pentecostes. “É de fato na doutrina e no espírito de
Pentecostes – afirma o papa João – que o grande acontecimento que é o concílio
ecumênico tira sua substância e sua vida”. (Discorsi, p.398)52.
Na homilia da missa de beatificação, o parágrafo principal sobre João XXIII
evoca igualmente o profeta do concílio: “A onda de novidades que ele trouxe não
concernia certamente a doutrina, mas sim a maneira de expô-la: nova era sua maneira de falar e
agir, novo era o impulso de simpatia com o qual ele ia entre as pessoas comuns como entre os
poderosos da terra. Foi nesse espírito que ele convocou o concílio ecumênico Vaticano II, graças ao
qual abriu uma página nova na história da Igreja: os cristãos se sentiram chamados a anunciar o
evangelho com uma coragem renovada e uma maior atenção aos “sinais dos tempos”. O concílio
foi verdadeiramente uma intuição profética desse pontífice idoso que inaugurou, no meio de
diversas dificuldades, uma era de esperança para os cristãos e para a humanidade.”53 Essa “nova
maneira de falar e de agir” é bem relatada por Yves Marsaudon, maçon notório, que,
na sua obra O ecumenismo visto por um franco-maçon de tradição relata seus contatos
freqüentes e amigáveis com Mons.Roncalli, núncio apostólico em Paris. Essa
“nova maneira de falar e de agir”não releva do temperamento, do estilo pessoal de
João XXIII, mas é uma maneira de abordar o mundo (no sentido evangélico),
inimigo de Jesus Cristo, e aqueles que são do mundo. Marsaudon confidencia
como Mons. Roncalli tinha emitido reservas no momento da promulgação do
dogma da Assunção, e isso por “prudência” ecumênica: “Ele pensava perpetuamente
“nos outros” e com o efeito que poderia produzir sobre os cristãos separados tal ou qual
inovação.“54
A introdução da causa de Paulo VI
Para João XXIII, os promotores da causa se esforçaram em por em evidência
sua bondade legendária; melhor se diria, seja de bonomia natural,55 seja de
falta de prudência, nós voltaremos a falar disso depois. Para Paulo VI, não há
nada disso. Paulo VI não foi nem apreciado, nem admirado; nem por seus
amigos, menos ainda por seus inimigos. E, portanto, sua causa foi introduzida
em ll de maio de 1993, seguindo o pedido da conferência episcopal italiana: é
uma nova prova da instrumentalização. Quando foi anunciada a introdução do
processo, o cardeal Ruini, vigário do papa para a diocese de Roma fez uma
evocação da personalidade de Paulo VI, evocação que não deixa dúvidas
quanto às intenções de levá-lo aos altares; trata-se, de fato, de exaltar sua
obra, a reforma resultante do concílio: “A cidade de Roma, essa cidade-diocese, única no
mundo por sua história e sua missão, por sua universalidade e seus problemas específicos, que o
teve por bispo e sucessor de Pedro durante 15 anos, sabe o que deve a Paulo VI. Os frutos de seu
ministério difícil e universal se voltaram antes de tudo sobre ela. Depois de ter recolhido a herança
de João XXIII, Paulo VI, guiando as últimas sessões do Concílio Vaticano II e lhe conduzindo
felizmente ao seu término, tomou sobre si o encargo de inscreve-lo nas estruturas, de difundir e
aplicar as decisões conciliares. Roma enriqueceu-se de novos dicastérios pontificais, respondendo
as exigências pastorais indicadas pelo Concílio e aos anseios de um mundo em evolução rápida e
em marcha para uma grande unidade. A Igreja fez a aprendizagem de uma nova maneira de rezar
em coro ao curso da santa liturgia, de um novo espírito no julgamento dado sobre o mundo,
relações novas com os fiéis das outras igrejas e confissões cristãs, com nossos irmãos mais velhos
judeus, com os não cristãos, com os não crentes. A Igreja aprofundou sua nova relação com os
Livros santos, pelo esforço missionário, a devoção marial, a cultura, a arte, a ciência. Paulo VI foi
o iniciador das grandes viagens missionárias que o levaram, ele e seu sucessor João Paulo II, perto
das comunidades do mundo inteiro e até nas assembléias das mais altas instâncias da sociedade, a
fim de testemunhar o amor de Pedro pelo homem e pela paz universal.”56
A vontade de canonizar o papa Paulo VI procede de causas superiores, a
“causa” por excelência, a do concílio Vaticano II e para promove-la, as
canonizações de João XXIII e de Paulo VI são meios excelentes.
A canonização de Josémaria de Balaguer
A canonização de Mons. Escrivá De Balaguer está estreitamente relacionado
com o concílio na medida em que, ideologicamente, Balaguer foi um precursor
do concílio. Numa curta biografia publicada sobre o site da internet do Vaticano,
pode-se ler: “Desde que João XXIII anuncia que convoca um concílio ecumênico, o bem-
aventurado Josémaria se põe a rezar e a fazer rezar pela feliz realização dessa grande iniciativa
que é o concílio ecumênico Vaticano II, como ele escreve numa carta em 1962. O magistério solene
da Igreja vai então confirmar aspectos fundamentais do espírito da Opus Dei, o chamado universal
à santidade, o trabalho profissional enquanto meio de santidade e de apostolado, o valor e os
limites legítimos da liberdade do cristão nos assuntos temporais, a santa missa como centro e raiz
da vida interior, etc. O bem-aventurado Josémaria encontra numerosos padres conciliares e muitos
peritos que vêem nele um autêntico precursor de muitas linhas mestras do Vaticano II.
Profundamente identificado a doutrina conciliar, ele promove sua colocação em prática, com
diligência, através das atividades de formação da Opus Dei em toda parte no mundo.”
C. Conseqüências dessa nova concepção da santidade:
1. A falta de preocupação de ortodoxia doutrinal
A ortodoxia doutrinal sendo um critério determinante no antigo processo, a tal
ponto que a menor suspeita interromperia imediatamente uma causa, mesmo
se o personagem parecesse ter vivido heroicamente todas as virtudes. O que
dizer então de João XXIII que se calava quando se falava da infalibilidade
pontifical,57 ou da beatificação do cardeal Ferrari, arcebispo de Milão, que não
teve força contra o modernismo na sua diocese a ponto de São Pio X ter que
reagir e recuperá-la? É conhecido que o cardeal Ferrari, melindrado no seu
amor próprio, nunca quis admitir que o modernismo estava em sua diocese e
até em seu seminário. Ele defendia publicamente jornais tingidos de
modernismo e chegou até a contestar um pouco o papa São Pio X diante dos
seminaristas.58
Sobre a ortodoxia doutrinal de Josémaria Escrivá de Balaguer, precursor em
alguns domínios da doutrina errada do Vaticano II, nós voltaremos ao artigo
que lhe é consagrado.
Estes processos levantam um problema real quanto a retidão dos processos
sobre a questão doutrinal.
2. As deficiências de procedimento
As deficiências do procedimento de canonização podem ser deduzidas por dois
caminhos..
Uma maneira essencial, pelas modificações do próprio processo. O leitor achará
nas colunas dessa mesma revista uma comparação dos processos de
canonizações antes e depois do Concílio.
Uma maneira mais acidental, porém reveladora, pelas irregularidades
constatadas.
l. O milagre atribuído a Madre Teresa59 suscita uma polêmica na Índia entre os
médicos, os quais afirmam que o tumor canceroso de Monika Besra foi tratado
no hospital. De fato, se a doença foi cuidada, não se pode declarar miraculosa a
cura, mesmo súbita, sem contradizer as regras de procedimento que não
considera o caso de um doente tratado com medicamentos. Além disso, não é
evidente demonstrar – caso houvesse um verdadeiro milagre – que se possa
atribui-lo à intercessão de Madre Teresa, pois pouco antes da cura a medalha
milagrosa tinha sido imposta à doente.60
2. O que dizer das supostas virtudes heróicas de João XXIII? Muitas vozes se
levantaram, tanto do lado progressista quanto do lado tradicional, para pedir
para não confundir uma caridade heróica com uma “bondade” que se aparenta
a bonacheirice ou talvez a fraqueza. Nós damos referência dos diferentes
estudos que apareceram sobre esse assunto e que convergem todos para a
mesma conclusão: parece impossível falar de heroicidade das virtudes.61
Conclusão
l. O que é a santidade para a Igreja do Vaticano II? Eis a questão que está no
coração do problema das novas canonizações. Os elementos que examinamos
nos revelam uma nova concepção da santidade. Essa concepção influi sobre a
Igreja e seus membros, a tal ponto que a noção do que é realmente a
santidade se apaga pouco a pouco no povo católico, e também – sobretudo –
no clero e nas comunidades religiosas. A onda de abandono do sacerdócio e da
vida religiosa que seguiu depois do Vaticano II é uma marca reveladora.
2. A intenção do papa é determinante quanto à infalibilidade de seus atos. Em
que medida o papa João Paulo II quer executar verdadeiras canonizações que
tenham a marca da infalibilidade? Os diferentes indícios recolhidos em seus
discursos e suas homilias tendem a mostrar que sua intenção não se identifica
mais com aquela que animou seus predecessores.
3. No ambiente de confusão atual do magistério, não podemos nos basear
sobre feitos pontuais para termos noção da intenção do papa. Mas se
consideramos o conjunto de sua obra, somos forçados a constatar que ele
sempre repugnou colocar um ato infalível. (Como por exemplo, no caso do
documento sobre a recusa da ordenação das mulheres). Como o papa quererá
obrigar o conjunto dos fiéis a aceitar colocar sobre os altares simultaneamente
o Padre Pio e Mons. Balaguer? O segundo encorajou e, em certos domínios,
antecipou-se às reformas do concílio, destruidoras da Igreja; o primeiro as
amaldiçoou.62 João XXIII introduziu – convocando o concílio – com grande
pompa, o liberalismo e o modernismo na Igreja, Pio IX os condenou.
4. Não duvidamos da heroicidade das virtudes de algumas pessoas canonizadas
por João Paulo II. Mas é preciso reconhecer que elas se santificaram e que
atingiram um grau extraordinário de graça e de virtude pelos meios
tradicionais. A espiritualidade na qual se santificou um Padre Pio é a antítese
mais radical da nova missa de Paulo VI.63 O fato de que um Padre Pio seja
canonizado no ambiente da nova missa envolve uma confusão de espíritos. A
utilização de causas sãs e santas em proveito da pregação da nova religião é
um dos golpes de mestre de Satanás.64
NOTAS:

1. 1.Somente as canonizações sendo consideradas pelos teólogos como infalíveis, nosso estudo nos leva
diretamente a estas. Entretanto, dado que o mesmo espírito anima tanto as canonizações quanto as
beatificações, faremos às vezes uso de alguns exemplos de beatificações.
2. 2.Bento XIV: de Servorum Dei beatificatione et de Beatorum canonizatione, livro l, capítulo 39.
3. 3.Tal é a opinião dada por Bento XIV no seu Servorum Dei beatificatione et Beatorum canonizatione, livro,
capítulo 10, §6: “É certo que nenhum bispo nunca pode proceder a verdadeiras canonizações; de fato, o
poder de prescrever que um fiel seja honrado como santo na Igreja universal por um culto público, não pode
e nunca pode se voltar para aquele que possui uma jurisdição restrita a uma diocese ou a uma província, mas
deve pertencer somente àquele que tem o poder sobre a Igreja universal.”
4. 4.Ortolan, artigo “Canonisation”, Dictionaire de Théologie Catholique (DTC), tomo 4, col.1632.
5. 5.Livro 3 dos Décrétales, título 45, capítulo l.
6. 6.Por exemplo, canonizações de são Venceslau, duque de Boêmia e mártir, morto em 929 e cujo ofício foi
imposto a Igreja universal por Bento XIII em 14 de março de 1729; ou a de santa Margarida rainha da
Escócia, morta em 1093 e cujo ofício foi imposto por Inocêncio XII em 15 de setembro de 1691.
7. 7.O mais famoso é o de Carlos Magno. O antipapa Pascal III, que se levantou contra o papa legítimo
Alexandre III, sob as instâncias do imperador Frederico Barbaroxa, tinha inscrito Carlos Magno no catálogo
dos santos, em 29 de dezembro de 1165. Ora, nenhum culto público tinha sido até então rendido a esse
príncipe. Essa canonização, obra de um antipapa, nunca foi nem oficialmente aprovada nem oficialmente
reprovada pela Santa Sé. Os autores se dividem sobre esse assunto. Bento XIV pensa que nenhuma condição
necessária falta para que se possa tratar esse caso não como de uma canonização, mas de uma beatificação
eqüipolente (de Servorum Dei, livro l, capítulo 9, § 4).
8. 8.Cf. Belarmino e Bento XIV.
9. 9.Bento XIV , op. cit., livro l, capítulo 42, §6-7.
10. 10.Prova dessa menor: a causa final da infalibilidade é de assegurar a unidade da fé; ora a unidade de fé, que é
o bem comum de toda sociedade eclesiástica, deve ser assegurada por um ato definitivo e preceptivo.
11. 11.Bento XIV, op. Cit. , livro l, capítulo 42, § 9-10. Lembramos que “não infalível”não significa “desprovido
de todo valor”. A certeza admite graus, e o título de bem-aventurado pede o nosso respeito.
12. 12.Quodlibet IX, q 8, art.16. São Tomás lembra a causa final da infalibilidade: “Ensinar toda verdade que
traga sobre as matérias necessárias a salvação”. As canonizações são um caso em que a lei trata sobre as
matérias necessárias à salvação: “A honra que rendemos a um santo equivale a uma certa profissão de fé,
onde afirmamos a glória do santo”. O papa que canoniza um santo exprime indiretamente o direito divino e,
com esse título, seu ato será infalível.
13. 13.De locis theologicis, livro 5, capítulo 5, q 5, art 3, conclusão 3.
14. 14.Bento XIV, op, cit. , livro l, capítulo 43.
15. 15.Ibidem, livro l, capítulo 44. São Tomás diz também na ad 2m do Quodlibet citado: “A divina Providência
preserva a Igreja para que nessas matérias, ela não se engane pelos testemunhos falíveis dos homens”.
16. 16.Bento XIV, op. Cit., livro l, capítulo 43, §14. Histórico do Martiriológio: Cf. Tractatio de martyrologio
romano, de Baronius, encabeçando a edição de Bento XIV, nos capítulos 4-9. O primeiro autor é Eusébio de
Cesaréia que escreveu em grego e que foi traduzido em latim por São Jerônimo. A partir dessa primeira lista
sobrevieram numerosas amplificações.
17. 17.ibidem
18. 18.Ia , q 23, art.7, ad3m. São Tomás apóia esses dizeres com o exemplo seguinte: “Assim se vê que a maior
parte dos homens são dotados de um saber suficiente para a conduta de sua vida, e que aqueles que são
chamados de idiotas ou insensatos, porque lhes falta esse conhecimento, são muito pouco numerosos. De
mesmo são muito raros, entre os humanos, aqueles que alcançam uma ciência profunda das coisas
inteligíveis”.
19. 19.Ibidem. São Tomás é então partidário da tese do pequeno número de eleitos. Ainda devemos precisar que
esse pequeno número é pequeno relativamente: os eleitos e os santos são menos numerosos que os danados e
pecadores, mas por serem menos numerosos se comparamos com esse últimos, os eleitos e os santos podem
ser em grande número se os consideramos no absoluto. No Apocalipse São João contempla a multidão dos
eleitos e diz que essa multidão é inumerável: “turbam magnam quam dinumerare nemo poterat” (Apoc., 7,9).
Cf. o Comentário sobre a Epístola de São Paulo aos Romanos, capítulo 12, lição 2 (sobre o versículo 5):
“Quamvis enim sint pauci per comparationem ad infructuosam multitudinem damnatorum, secundum illud
Matth, 7,14: arcta est via quae ducit ad vitam, et pauci inveniunt eam, tamen absolute loquendo sunt multi.
Apoc, 7,9: post haec vidi turbam magnam, quam dinumerare nemo poterat”.
20. 20.Romano Amerio: Stat veritas – Continuação de Iota unum. Coment. 39 sobre o § 37 da Carta apostólica
Tertio millenio adveniente, página 117.
21. 21.Gaudium et spes, §22.
22. 22.Exsutet da Vigília pascal
23. 23.João, 3, 16
24. 24.Redemptor hominis, §9 e 10. Essa idéia de João Paulo II só faz difundir o pensamento original que se
exprime na constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II. “É certo que se revelando desse modo a nós,
nesse apelo que ele nos dirige, Deus nos revela a nós mesmo: é respondendo a esse apelo que o homem
emergindo na luz de Deus descobre maravilhosamente a grandeza de seu ser. A revelação suprema de Deus a
qual a Nova Aliança é essencialmente ligada é também a revelação total da natureza humana” (Henri de
Lubac: Comentaire sur le Proemium de la constituição, in “Vatican II – Textes et commentaires des décrets
conciliaires”, Unam sanctam 70 a, página 164).
25. 25.Redemptor hominis, § 10. “A tarefa específica da Igreja, a que funda sua necessidade absoluta, é o
devotamento de uma realidade já presente no coração do mundo e sobretudo no coração do homem, o reino
de Deus, para que o homem conheça explicitamente este dom de Deus” (Jean-Guy Pagé: O que é a Igreja? ,
tomo l: O Mistério e o sacramento da salvação, página 215).
26. 26.Gaudium et spes, §91
27. 27.Gaudium et spes, §38
28. 28.Gaudium et spes,§76
29. 29.Redemptor hominis, §13
30. 30.Redemptor hominis, §12
31. 31.Dignitatis humanae, §1
32. 32.II-IIae, q 81, art 8. “Chamamos santidade essa aplicação que o homem faz de sua alma espiritual e de seus
atos a Deus. Ela não difere então da religião na sua essência, mas somente por uma distinção de razão. Pois
fala-se de religião segundo o que se rende a Deus o serviço que lhe é devido no que concerne especialmente o
culto divino: sacrifícios, oblações, etc. Enquanto que se fala de santidade quando o homem, além desses atos,
relaciona ainda a Deus os atos das outras virtudes, ou então se dispõe ao culto divino por algumas boas
obras”.
33. 33.“Toda essa riqueza doutrinal só visa a uma coisa: servir o homem. Trata-se, é claro, de todo homem,
qualquer que seja sua condição, sua miséria e suas necessidades. A Igreja é, por assim dizer, proclamada a
serva da humanidade até o momento em que seu magistério eclesiástico e seu governo pastoral revestiram,
em razão da solenidade do Concílio, um maior esplendor e uma maior força” Paulo VI: Discurso de clausura
da la 4ª Sessão do Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965
34. 34.Extrato do sermão pronunciado na missa da canonização. Documentação católica 2119 de 2 de julho de
1995.
35. 35.De onde também a idéia mestra de Lumen Gentium: a vocação universal à santidade (capítulo 5). Vocação
universal, isto é, que concerne de fato, como em princípio, o Povo de Deus todo inteiro, sem que seja feita
distinção entre uma santidade comum e uma santidade heróica na qual consistiria a perfeição propriamente
dita.
36. 36.Christifideles laici, §16.
37. 37.Lumen gentium, 5, §39-42.
38. 38.Christifideles laici, §16-17
39. 39.Eis a reflexão de Dom Ghislain Lafont no seu livro Imaginer l’Eglise catholique, Cerf, 2001, nota 1 da
página 232: “Nos alegramos de constatar que os autores da Nova enciclopédia católica teológica
consagraram à santidade o capítulo inicial do volume (“Des chercheurs de Dieu par milliers...”) e desde o
começo eles procedem, sem dizer, a uma espécie de beatificação espontânea: ‘Hoje, quem não conhece
Madre Teresa, Martin Luther King, Helder Câmara, abbé Pierre, Oscar Romero, etc., e já um pouco mais
longe Edmond Michelet, Tom Dooley, Madeleine Delbrel, Teilhard de Chardin? Esses homens, essas
mulheres são como pontos de encontro para a humanidade inteira’. Mais além, eles acrescentam outros
nomes os quais alguns foram depois beatificados pelo papa.”
40. 40.Artigo de Michel Kubler e de Claude Dial publicado em La Croix-L’Evénement de 28 de março de 1991,
retomado na Documentation catholique 2026 de 21 de abril de 1991.
41. 41.A continuação do discurso é interessante: “Hoje como naquela época, o Senhor continua a suscitar os
homens e as mulheres generosas que fazem progredir o mesmo desejo de unidade entre os cristãos na Europa
e no mundo. Como afirmei em 9 de junho de 1989, durante a cerimônia ecumênica em Uppsala: “Nós não
podemos fazer tudo de uma só vez, mas devemos fazer hoje o que nos é possível, na esperança do que
poderemos fazer amanhã”. A Comissão mista de diálogo entre católicos e luteranos trabalha igualmente
nesse sentido, na esperança de contribuir para suprimir os obstáculos que se opõem ainda na unidade dos
cristãos”. Extratos da homilia pronunciada durante a celebração ecumênica em São Pedro de Roma, em 5 de
outubro de 1991, na ocasião do VIº centenário da canonização de santa Brígida. Nessa ocasião um
acontecimento ecumênico excepcional se desenrolou na basílica de São Pedro em Roma, reunindo pastores
luteranos e a hierarquia católica. Cf. Documentation catholique 2038 de 17 de novembro de 1991.
42. 42.João Paulo II: Discurso aos cardeais e a Cúria romana de 23 de dezembro de 199l, Documentation
catholique 2043 de 3 de fevereiro de 1992.
43. 43.Tertio millenio adveniente, §6.
44. 44.Lumen gentium, §ll.
45. 45.Unitatis redintegratio, §3
46. 46.Ut unum sint, §10-ll.
47. 47.Tertio millenio adveniente, §37.
48. 48.Ut unum sint, §84
49. 49.Ut unum sint, §84
50. 50.Discurso em homenagem a João Paulo II pelo prefeito da Congregação das causas dos santos,
L’Osservatore Romano, 20-21. 12. 1999.
51. 51.É nessa ocasião que os restos do defunto papa foi exposto na praça de São Pedro e, no fechamento da
cerimônia, foram reconduzidos em procissão diante do altar da Confissão da basílica vaticana, para ali ficar
expostos alguns dias para veneração dos fiéis
52. 52.Documentation catholique 2251 de lº de julho de 2001
53. 53.Documentation catholique 2233 de lº de outubro de 2000.
54. 54.Obra citada, p.46. Notamos que o quinto capítulo do livro de Marsaudon se intitula A morte de um santo.
Trata-se de João XXIII...
55. 55.“As atitudes inconvenientes, a propósito das quais poderíamos multiplicar as anedotas, confirmam o
julgamento de Jean Guitton sobre um núncio apostólico “familiar”e “vulgar””, narra Yves Chiron no seu
artigo sobre João XXIII (in Certitudes nº3 nova série), citando fatos efetivamente pouco edificantes.
56. 56.Falando de seu trabalho na cúria romana, como pro-secretário do papa Pio XII, o cardeal Ruini diz: “Foram
35 anos de apostolado infatigável, cujos traços estão profundamente inscritos na nossa Cidade como na
história da Igreja. Seu devotamento ao serviço dos Papas o viu engajado na diplomacia, que ele exerceu
como um autêntico serviço de caridade, com um cuidado escrupuloso”. O cardeal evita bem de falar do
cuidado escrupuloso com o qual João Batista Montini escondeu as relações que ele nutria com Moscou, apesar
da proibição formal do papa. Esse único fato de desobediência grave ao papa deveria ser suficiente para
interromper o processo de beatificação.
57. 57.O ecumenismo visto por um franco-maçon, Yves Marsudon, edições Vitiano, p. 45.
58. 58.Recuso de vários seminaristas de prestar o juramento anti-modernista. Leremos com interesse o detalhe
dessa vasta polêmica que fez grande agitação na época em toda a Itália. in: Disquisitio: Conduta de São Pio X
na luta contra o modernismo, Publicações do Courrier de Rome, p. 157-218.
59. 59.Ele foi reconhecido pela Congregação pela causa dos santos de 2 de outubro de 2002.
60. 60.O testemunho da jovem mulher indiana foi recolhido por Saverio Gaeta para o hebdomadário católico
italiano Famiglia cristiana de 10 de outubro.
61. 61.O estudo mais detalhado apareceu sob a forma de artigos na revista Tradizione catholica (Revista do distrito
da Itália da Fraternidade São Pio X). A tradução francesa pode ser lida sobre o site www.dici.org (parte
Artigos de fundo). Um outro estudo mostrando que a bondade de João XXIII é na realidade uma falta de
virtude de prudência apareceu na revista italiana Rassegna di Ascética e Mistica “S.Caterina da Siena”de
julho-setembro de 1975. O autor, o padre Colosio é um dominicano italiano do convento de S. Miniato, perto
de Pisa. Este artigo foi reproduzido em francês na revista Le Sel da la terre nº 42. Enfim, assinalamos também
um bom artigo que saiu na revista Certitudes nº 3, nova série intitulado João XXIII: a beatificação infeliz.
62. 62.Em 1967, o Padre geral dos capuchinhos pergunta ao Padre Pio: “Reze por nosso capítulo geral capuchinho
que vai se abrir para redigir novas constituições”. A essas palavras, o Padre teve um gesto de raiva,
exclamando: “É só tagarelice e ruínas!” Algumas semanas mais tarde, quando o papa iria receber o capítulo
dos capuchinhos em audiência, Padre Pio escreveu a Paulo VI: “Eu rogo ao Senhor que ela (a ordem dos
capuchinhos) (...) continue na sua tradição de seriedade e austeridade religiosa, de pobreza evangélica, de
observância da regra e das constituições.” Quando novas constituições foram anunciadas, Padre Pio teve a
mesma reação muito viva: “Mas o que você está fazendo em Roma? O que o senhor está combinando? O
senhor quer mudar até mesmo a regra de são Francisco!” Fonte: P.Jean, OFM cap.,Cartas aos amigos de São
Francisco, Pére Jean, n.17, 2 de fevereiro de 1999.
63. 63.Cf. O problema da reforma litúrgica, ed.Permanência, Rio de Janeiro, 2001
64. 64. Citamos a mensagem publicada pela Conferência dos bispos do México explicando o sentido profundo da
canonização de Juan Diego pelo papa João Paulo II: “Essa canonização torna igualmente palpável o amor
providencial da Igreja e do Papa pelos indígenas e reitera sua firme oposição as injustiças, violências e
abusos dos quais esse povo foi vítima durante séculos. A Igreja observa e convida a observar com amor e
esperança os valores indígenas autênticos... Para essa canonização, o Papa encoraja os povos autóctones do
México e de toda a América a conservar essa sã firmeza na cultura de seus ancestrais e sustenta as
aspirações legítimas e as justas reivindicações de todos os indígenas. A vida de Juan Diego deve retomar o
élan na construção da nação mexicana: uma nação de início pronta a se reconciliar com suas origens, sua
história, seus valores e suas tradições; uma nação, em seguida, cujo desenvolvimento seria fundado sobre o
valor da pessoa humana, respeitado na sua integridade; uma nação onde o encontro da diversidade e da
comunhão se fará na criatividade; uma nação onde as leis poderiam não somente proteger as regras da vida
em sociedade, mas igualmente assegurar a justiça e solidariedade; uma nação, enfim, onde a dignidade dos
mais vulneráveis seria defendida e onde os mais favorisados poderiam deixar livre-curso a sua fraternidade.
Nós perguntamos a doce Mãe da Nação mexicana, padroeira da América e das Filipinas, para nos ajudar a
fazer nossa sua pedagogia a fim de chegar a uma evangelização inculturada em todas as regiões, todos os
lugares e todos os setores do México e do continente americano.” A documentação católica nº 2276 de
15/09/2002.