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Naôr Rocha Guimarães

TEXTO E LEITURA

Sumário

PREFÁCIO ......................................................................................................................... 2
INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 3
O que é texto?........................................................................................................... 4
A leitura e a interpretação........................................................................ 6
Ideologia e discurso ........................................................................................... 7
Leitura de textos .................................................................................................... 9
BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................... 11
PREFÁCIO
O ato de ler não é uma operação tão simplista, como se supõe. Leituras comuns,
corriqueiras são feitas a todo momento e por todo mundo. Lê-se muito, hoje em dia,
mas será que conteúdos são extraídos de tantos e tantos textos escritos e orais? Será que
o leitor, em conformidade com sua cultura, com sua atenção e, principalmente, com sua
visão de mundo, consegue, somente com a leitura superficial do texto, entender o seu
sentido? Leitor e produtor de texto precisam ter um elo de união para que a mensagem
(tudo aquilo que é escrito ou tudo aquilo que é falado), realmente, aflore em forma de
conteúdo condizente com a realidade do ser humano, ou seja, coerente?

Estas perguntas terão suas respostas, ao longo de todo o desenvolvimento deste


opúsculo, de uma maneira ora explícita, ora subjacente ao delineamento de todo o
conteúdo. Esboçam-se, também, conceitos sobre texto, leitor, ideologia, discurso,
enfoques lingüísticos, referências a respeito de contexto sócio-histórico-cultural, ato de
fala, enunciação, visão de mundo, teoria do mundo e outros tantos pontos importantes
que contextualizam a produção e a leitura de um texto.

Ver-se-á, ainda, que leitura e interpretação são a mesma coisa e que mensagem e
conteúdo não são mesma coisa. No final, à guisa de exemplos sobre leituras, serão
apresentados dois poemas (de minha autoria - diz-se que “a verdadeira modéstia é
apresentar ou dizer a verdade”) cujos comentários versam sobre leituras unívoca,
biunívoca e mesmo pluriunívoca.

4
INTRODUÇÃO
“ A única coisa que justifica a Universidade é a experiência de professores que pensam
na frente dos alunos, que pensam com eles, em diálogos com eles. E que procuram ser
capazes de produzir o contágio do pensamento”. (*)

Não obstante ser o meio mais importante à comunicação verbal, o texto aparece, ainda,
na Universidade, como um corpo estranho, fechado, porém grandemente exigido,
solicitado, indicado. Os calouros que o digam. Muitos, mesmo veteranos, detestam-no.
Isso se procede em virtude da amorfa e acéfala aprendizagem levada a efeito nas
escolas, no ensino básico.

Fala-se muito em texto, exige-se muita leitura. Não se ensina, porém, nem o que é texto
nem o que é leitura. Daí o pavor a que chega grande parte dos alunos, principalmente, se
se trata de escrever textos.É um verdadeiro deus-nos-acuda. É a falta do domínio da
linguagem. Texto é linguagem. Texto é fala. Texto é escrita. Onde há linguagem, há
texto. Linguagem é o emprego convencional da língua, dentro de normas sócio-
histórico-culturais. O texto é o seu reflexo. Ensinamentos, informações, novidades,
diversões, enfim, tudo o que se refere à vivência humana é transmitido via textos.

Pretende-se, aqui,levar esclarecimentos e ajuda a quem do texto faz uso e dele tem
pavor, ou que a ele tem amor. A abordagem é tão somente sobre o que é texto e leitura,
com citações e comentários. A linguagem é repetitiva, fática, redundante mesmo, pois é
proposital, dado o grande valor que se tem pelo assunto.

____________

(*) Julián Marias. “Universidade”. In “Cultura”, Suplemento de “O Estado de São


Paulo”, n. 56 (5 de julho de l981), p.4., apud Silveira & Olívia.
O que é texto?
A palavra texto leva a muitos significados. Todos, porém, remetem a um fim único:
suporte físico-formal de um pensamento, de uma idéia, de um ensinamento, em suma, é
uma mensagem. Assim, vêem-se explicações as mais (in) satisfatórias possíveis:

a – as próprias palavras de um autor, livro ou escritor;

b – toda e qualquer ocorrência lingüística;

c – palavras bíblicas ditas em sermão;

d – uma ou mais palavras que conduzem a um significado;

e – mensagem falada ou escrita.

Para a Lingüística, o texto é o “corpus”, o conjunto de enunciados passível de análise,


ou um enunciado qualquer (longo ou curto, falado ou escrito).

Já, etimologicamente,texto vem do latim:

1. textus, us (m) – tecido, enlaçamento, encadeamento, contextura;


2. texta, ae (f) – tijolo, telha, vaso de barro, bilha, pedaço de cerâmica.

O texto, falado ou escrito, em qualquer acepção, é um tecido, uma trama.Tecem-se


idéias, ensinamentos, diversões, com as palavras. Compõem estas a urdidura, no tear
lingüístico, e são entremeadas pelo discurso, que é matizado pela ideologia e pelo
histórico-social. Quem orienta, analisa e incentiva é a linguagem, com todos os recursos
lingüísticos. Dele extraem-se conteúdo ou significado. A telha ou o tijolo constituem a
estrutura gráfica ou sônica – a linearidade – do texto. Verossímel, também, a uma bilha,
o texto é um reservatório, um recipiente cujo conteúdo líquido é o discurso, o
significado.É papel desta bilha de cerâmica conservar, em estado de temperatura amena,
o líquido que, dependendo da fonte de origem, terá sempre o mesmo gosto e apreciação
para quem dele se sacia, em qualquer época e situação.

“Texto é um conjunto coerente de Sls, Rs/Vs”. (Silveira & Olívia). Para as autoras, o
texto é um enunciado composto por sintagmas lingüísticos, que se relacionam e se
valorizam. Por sintagma entende-se a soma de duas unidades da linguagem, em
extensão maior ou menor, cujo resultado depende do valor de cada uma, culminado
sempre nos sintagmas nominais e verbais, com todas as suas particularidades. Ao se
relacionarem, valorizam-se estes Sls, produzindo um significado global, amparado
sempre pela coerência. Não há, aqui, uma delimitação do texto: uma palavra, uma frase,
uma página, vários capítulos.

Costa Val concebe texto como uma ocorrência da linguagem, com um propósito
qualquer, estruturado em:

1. uma unidade sócio-comunicativa: o código comum;

2. uma unidade formal – a mensagem, o físico, o concreto;


3. uma unidade semântica: o conteúdo, o significado.

Esta tricotomia estrutural tem que ter o respaldo da:

4. coerência – tudo o que se refere à vivência humana;

5. coesão: espelhamento da gramática do texto e dos elementos pragmáticos;

6. intencionalidade – intenção do produtor em manter o texto sempre coerente;

7. situacionalidade – o texto tem que se achar dentro da realidade espaço-tempo-


gramatical;

8. informatividade – o conteúdo ou é uma novidade, ou um reforço do que já se


aprendeu;

9. aceitabilidade – o interlocutor pode ou não aceitar o conteúdo textual;

10. intertextualidade: o produtor evoca textos de outros para comprovar ou exemplificar


o seu. O conjunto de elementos que fazem com que um texto seja realmente um texto,
chama-se textualidade. Todo texto tem que ter textualidade.

Eco diz que “o texto é um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do
próprio mecanismo gerativo”. Um produto que, ao ser concebido, recebeu de seu
gerador – um verdadeiro estrategista – um modelo de leitor, de intérprete. Logo o texto
é produzido para leitores determinados. O autor cria, simultaneamente, o texto e o leitor.
É o leitor-modelo. Só ele é capaz de dar conteúdo à sua mensagem. Só ele tem o
conhecimento prévio capaz de transformar a mensagem escrita em uma mensagem oral.
É o leitor ideal. Interage com o autor. Sem ele não haveria texto.

“Texto é uma unidade complexa de significação cuja análise implica as condições de


sua produção (contexto histórico-social, situação, interlocutores)”. (Brandão). Se não
houver interação dos interlocutores – produtor e leitor – não se chegará à sua
significação. O produtor antes imagina, situa o leitor, enquadra-o em seu contexto
histórico-social, prepara-o e, depois, cria-lhe o texto.

O texto é “uma seqüência de signos verbais sistematicamente ordenados”. (Fávero &


Koch). Os sinais convencionados da linguagem da palavra são ordenados dentro dos
critérios lingüísticos, produzindo o texto. O sistema é a língua, comum aos
interlocutores, regida por regras individuais e coletivas, refletidas no texto.
A leitura e a interpretação
Comumente, diz-se ler um texto e depois fazer-lhe a interpretação. É uma redundância.
A leitura já é uma interpretação, já é obter significado, já é inferir. Compreende três
instâncias :

1. decodificação gráfica ou sônica – entendimento da estrutura de superfície do


texto em si, é a leitura visual;
2. decodificação discursiva – entendimento da estrutura profunda, acentuadamente
o pragmático, o ideológico-social, o contexto-situacional (leitura da realidade da
vivência humana);
3. transposição do texto para a fala do quotidiano: é a leitura final; o leitor
transforma em linguagem oral própria aquilo que leu.

As três leituras compõem a interpretação: entender e aprender o que se retrata nas


instâncias superficial e profunda e convertê-lo na linguagem comum, ainda que com
uma nova visão. Assim não basta dominar o texto (a estrutura de superfície ou a
manifestação linear), é necessário ter uma visão de mundo para chegar às inferências, às
deduções e aos argumentos (estrutura profunda, o discurso). Não se concebe que se faça
leitura a partir de uma só destas instâncias. Uma depende da outra.

Interpretar é preencher espaços, interstícios brancos, deixados, de propósito, pelo autor,


por duas razões. Antes de mais nada, o texto é um mecanismo preguiçoso (ou
econômico), que depende da valorização de sentido que o leitor ali introduzir. O texto
não deve ser redundante, a não ser num exagerado formalismo ou numa preocupação
didática especial. Saída a didática, a estética deve dominar o texto, e cabe ao leitor a
iniciativa da interpretação, ainda que em alguns casos não haja como fugir da
univocidade entre os interlocutores (autor-leitor), segundo Eco. Portanto, o texto a par
de sua economia (“preguiça”) e liberdade (“abertura”) oportuniza ao destinatário a
interferência na comunicação, máxime na potencialidade significativa. Interpretar é,
pois, espichar o texto, fazendo uso da liberdade oferecida e, margeando a voz do autor,
dar-lhe o significado sugerido. O leitor não é só pressuposto, mas também instituído
pelo autor. É o leitor-modelo. Não é suficiente pensar ou “esperar” que exista um leitor
assim, mas construí-lo através da armação do próprio texto. Para o leitor, neste caso, o
autor é, também, um modelo, um produtor que vai de encontro às suas iniciativas e às
suas criações, em afinidades e comunhão recíprocas.

Por ser mais usado, adota-se, de ora em diante, o termo “leitura”. “A leitura é
reconhecimento de sentidos e não de produção de sentidos”. (Geraldi). Reconhecem-se
sentidos, quando eles se fizerem notar. O texto é uma exposição de sentidos. O leitor
predispõe de mecanismos adquiridos que, em contato com as unidades discursivas e
lingüísticas do texto, revelam-lhe o conteúdo. Estes mecanismos são tais quais produtos
químicos que, de uma superfície aparentemente escura ou opaca, fazem surgir figuras.
O ato de ler, de fazer leitura, é , então, uma atividade laboratorial. O texto é a matéria, o
negativo; a leitura, a revelação fotográfica; o leitor, o revelador, o fotógrafo.

Leitura é interlocução. Autor e leitor interagem. Aquele produz de acordo com este;
este, dependendo de si e do trabalho daquele, completa a produção. O autor é a origem
una do “negativo” e o leitor, ipso facto, a origem una de sua “revelação”. Aquele produz
os sentidos, este faz-lhe a leitura, reconhece-lhe os sentidos.
Ainda, segundo Geraldi, há nos textos (literários ou não) dois trabalhos: um do autor, no
espaço de construir sua obra, outro do leitor, no afã de construir a “sabedoria”. Não há
leitura sem a obra do autor e a produção de saber do leitor. Por outra, “sentimos muito
que nossa sabedoria começa onde a do leitor termina, e gostaríamos que nos desse
respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos”. (Proust, 1905: 30-31,
apud Geraldi).

Para Smith só há leitura se se levarem em consideração os fatores perceptivos,


cognitivos, lingüísticos e sociais. O ato de ler já não é mais uma análise simplista.
Convergem-se, aí, o tempo, o espaço, o envolvimento em idéias ou acontecimentos, a
seqüência de escolha. É, no entanto, uma atividade a que não se exige talento especial.É
tal qual a compreensão da fala. Ler é mais dar significado às letras impressas do que
extrair-lhes o som. Ler é construir e criar. Isso é possível através de uma atividade
objetiva, seletiva, antecipatória e compreensiva. Só fluirá a compreensão se a leitura for
feita em cima das intenções do próprio leitor, cujos objetivos já antecipam rumos ou
acontecimentos, evitando surpresas, dosando as expectativas.

O leitor tem na teoria do mundo a fonte de todo o aprendizado: a compreensão, a


esperança e o medo, os motivos e expectativas e os tem conforme a visão de mundo
adquirida. Tudo no mundo só é reconhecido se as evidências são reconhecidas; a auto-
mostragem das coisas e objetos não é suficiente, é necessário que sobre ela se aplique
um conhecimento, um saber. Assim, se a alguma coisa o leitor não possa relacionar sua
teoria de mundo, ela não lhe fará sentido, ao contrário, deixa-lo-á perplexo e confuso.
Ler, aqui, é extrair da estrutura aparente – o texto em si: o formal, as letras e as palavras,
as implicações lingüísticas (enfim, tudo o que for acessível ao cérebro via ouvidos e
olhos) -, o significado, a parte da linguagem que não pode ser nem diretamente
observada nem medida. O significado ou conteúdo chama-se estrutura profunda. Ele
não está na superfície da linguagem, mas na mente de quem escreve ou fala e, ainda, na
mente do leitor ou ouvinte.

Ideologia e discurso
O significado depende da ideologia. “A ideologia representa a relação imaginária de
indivíduos com suas reais condições de existência”. (Althusser, apud Brandão). Para
Fiorin, “ideologia é um conjunto de idéias e representações que servem para justificar a
ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com outros
homens”. Continua Fiorin: “ É uma visão de mundo, ou seja, o ponto de vista de uma
classe social a respeito da realidade, a maneira como uma classe ordena, justifica e
explica a ordem social”. A visão de mundo, então, depende da classe social a que o
leitor se insere. Esta visão de mundo manifesta-se num discurso próprio.

Discurso é o “ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos


lingüísticos”. (Brandão). É a concretização dos fenômenos ideológicos através da
linguagem. Nela, no seu interior, o discurso representa os efeitos da visão de mundo.
Ninguém faz uso à toa da linguagem. A toda e qualquer ocorrência lingüística (texto)
subjaz a vontade aparente de uma idéia, de um pensamento, de um desejo, enfim, de
uma manifestação social do falante ou do escritor, que se serve da enunciação, o ato de
fala. Aqui, discurso é “qualquer ocorrência de qualquer seqüência lingüística”.
(Possenti).
O ato de fala, a enunciação, é o processo de produção lingüística. O resultado, o produto
é o enunciado. Este, às vezes, é gramaticalmente ambíguo, e o que o afasta de uma
dupla interpretação é o discurso, dando-lhe univocidade. Há, pois, uma simultaneidade
do contexto com a ocorrência lingüística. Para Possenti, nesta situação, “a língua: a) não
fornece, eventualmente, todos os ingredientes para sua interpretação (o contexto
completa); b) é de natureza tal que pode ocorrer que fatores contextuais alterem o
sentido do que se diz (o contexto modifica); c) não inclui em sua gramática os fatores
que condicionam a ocorrência de uma ou outra estrutura, isto é, por que se diz isso e não
aquilo, ou desse e não de outro modo, adota-se uma ou outra perspectiva (o contexto
justifica)”.

Ler é, conseqüentemente, aprender, de um enunciado, um conteúdo, uma informação


enrustida nos fenômenos lingüísticos e no discurso. O leitor, com sua sabedoria, tem
que se servir tanto dos conhecimentos lingüísticos, por vezes traiçoeiros, quanto de sua
visão de mundo, origem do discurso. Eis por que Eco emprega o termo “leitor-modelo”,
já que a manifestação lingüística representa uma cadeia de artifícios de expressão, cuja
atualização o leitor deve ter. Uma expressão em si não passa de um sopro de voz –
flatus vocis. Ao leitor cabe atribuir-lhe um conteúdo convencionado, por meio de uma
competência gramatical e discursiva, visto que os termos são incompletos e
entremeados do “não-dito”, (Ducrot, l972, apud Eco), o que não aparece na estrutura de
superfície, a nível de expressão, mas que deve ser atualizado a nível de renovação de
conteúdo. Ademais, “o sentido de uma palavra, expressão, proposição não existe em si
mesmo (isto é em sua relação transparente com a literalidade do significante), mas é
determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico
em que palavras, expressões, proposições são produzidas (isto é, reproduzidas)”.
(Pêcheux, l975:l44, apud Brandão).Isso requer do leitor movimentos de uma
participação e cooperação ativas e conscientes, o que o torna capacitado e o faz leitor-
modelo.

De acordo com Batista, o ato de ler é uma prática discursiva. O texto possui um
“sentido oculto e ao mesmo tempo manifesto de algum modo que é preciso, através do
comentário, fazer emergir, fazer dizer”. É, assim, uma atividade exegética, com
comentários a que surja o verdadeiro sentido, aquele que o texto esconde. Já a leitura
pedagógica, em sala de aula, é teleológica. Tem uma finalidade específica: explicita ao
leitor o processo de comentário, manifestação de sentido e, sobretudo, como fazê-lo. O
ato de ler é imbricado por esta identificação. Isso só é possível via exercícios de repetir,
levando a hábitos e automatismos. Condena-se, porém, como está sendo feita a leitura
na escola. Consiste esta numa prática de respostas únicas a perguntas prévias, sem
oportunizar ao aluno a manifestação de sua visão de mundo, de dar o seu significado
àquilo que nem sempre é unívoco.

Magda Soares diz que o texto não é nada sem a leitura (“não preexiste”). Não se deve
admitir leitura como um ato passivo. É uma construção ativa. É produção de inteiração.
É constituição do texto. “Cada leitura é nova escrita de um texto”. (Bella Josef, 1986,
apud Becker). O ato de criação não estaria, deste modo, na escrita, mas na leitura; o
verdadeiro produtor não seria o autor e, sim, o leitor.

Ora, qualquer texto, de modo especial o poético, não se manifesta, não se revela sem a
leitura. O leitor é co-autor. Essa co-autoria envolve todo o texto, mesmo no seu
substrato. Sendo um “gigante adormecido”, a leitura é o seu despertar. A cada leitura ele
desperta de maneira diferente. A cada leitura há um novo texto. Multiplica-se, portanto,
o texto em tantos textos quantas forem as leituras, com suas determinações múltiplas. O
autor é glorificado pelo leitor, já que por si só não se manifesta. Mérito a mérito
(Caesari Caesaris – a César o que é de César), ao autor, a arquitetura da “texta” (bilha)
ou do ”textus” (tecido, trama); ao leitor, o líquido fresco ou a coloração. Àquele, o
formal, o superficial, o concreto; a este, o subjacente, o profundo, o vital.

Leitura de textos
Oma Lisarb (leia-se Naôr Rocha Guimarães) escreveu os poemas abaixo, que serão
objetos de leitura.

O tempo

Às vezes, de tempo em tempo,

A gente reclama que não tem tempo

Para algo fazer que necessite de tempo,

Sendo que reclamar já é dispor de tempo.

Então a gente faz um apelo ao tempo

Que nos dê um pouco mais de tempo,

Para que, com o correr do tempo,

A todos os afazeres tenhamos tempo.

Mas, eis a resposta do tempo:

“Não fiquem aí a me implorar tempo,

Porque perdem tempo, esperando o tempo”.

E, constatando a veracidade do tempo,

A gente verifica a grande perda de tempo

Que se gastou a falar do tempo.

O texto

O texto é um gerador de energia,

Cuja potencialidade é ativada

Pela ação do leitor-modelo,na tomada


Do seu reator de competência, sem magia.

Assim o texto é um “continuum de esfumaturas”,

De incompletude, com expressões “flati vocis”,

De complexidade do não-dito, de “apertis verbis”,

Clareadas pelo leitor-modelo, sem queimaduras.

Também o texto tem que ter um autor-modelo,

Cujo poder fantasmagórico e empírico

O leitor-modelo não terá por espelho.

Conseqüentemente, há texto fechado e aberto,

Dependendo do “target” ineficiente ou enciclopédico

Feito pelo autor-modelo, de longe ou de perto

Do primeiro texto, leituras diferentes são feitas, dependendo do leitor. É um texto aberto
e, ainda que em linguagem subjetiva, não cerceia a co-autoria do leitor. As palavras são
sopros de voz (flati vocis), que aguardam a direção indicada pelo leitor para se
constituírem em conteúdo. A um determinado leitor dirão: “o tempo é ouro”; a outro:
“somos nós que fazemos o tempo”; àquele, “quando se quer, tem-se o tempo”; àquele
outro: “por mais que estejamos atarefados, sempre conseguiremos fazer mais alguma
coisa”; a este, “não reclame do tempo que julga não ter, mas do desperdiçado”.Assim,
mais e mais conteúdos advirão de outras leituras desse texto.

É bom ressaltar que a linguagem, em qualquer texto, põe à disposição tanto do autor
quanto do leitor os recursos de suas funções: são as ênfases dadas aos elementos da
comunicação (emissor = emotiva; receptor = conativa ou apelativa; código =
metalingüística; contato = fática; mensagem = poética; referente = referencial). Há uma
simultaneidade dessas funções, porém uma sempre se destaca. No texto em questão, é a
poética. O que mais importa é a forma, a mensagem do texto, já que é um poema.
Vêem-se, ainda, a emotiva, a apelativa, a fática e a metalingüística. De posse dessas
funções, o leitor direciona a sua ação construtora rumo ao plano conteudístico do texto.
Daí a multiplicidade, por escolha ou determinações de leituras de textos, advindos de
uma única estrutura de superfície. Quanto maior a visão de mundo do leitor, maior o seu
plano de conteúdo. Tornar-se-á um leitor-modelo por essência e partícipe do substrato
textual.

Quando escrito, “O tempo” não foi dirigido a um leitor-modelo, ( já que o próprio autor
não se considerava como ainda não se considera um escritor-modelo,)

mas a todo e qualquer leitor. Contudo, somente leitores-modelos conseguirão fazer


leituras diferentes deste texto.
Por sua vez, o segundo texto foi produzido, exclusivamente, para o leitor-modelo, de
preferência àquele que já leu Humberto Eco em “Lector in Fabula”. Aqui, a função
poética é quase obscurecida pela referencial e pela metalingüística. O subjetivismo e o
emocional são suplantados pelo objetivismo e ensinamento evidentes. Eivada de “flati
poetici” (sopros poéticos), a linguagem é apropriada, técnica.

Eis por que se faz necessária a leitura pelo leitor determinado e é a seguinte: “O texto é
um gerador de energia, que só terá força e poder pela competência única do leitor. O
texto é uma seqüência de desenhos em sombra, de coisas incompletas, com sopros de
voz e palavras apertadas, associadas àquilo que não foi dito, mas que está sempre
presente. Para este tipo de leitor há, também, o autor-modelo, um verdadeiro fantasma, à
espera da ação construtora da leitura.Conforme o desempenho e competência do autor, o
texto será aberto ou fechado, uno ou biunívoco. Às vezes, a univocidade é imperiosa.
Mesmo um não se espelhando no outro, a interdependência de autor e leitor é inevitável.
Só assim haverá texto”.

Por tudo o que se disse e se comentou, conclui-se que o texto é o instrumento


indispensável à comunicação e, como tal, só terá valor se a produção criativa do autor
ecoar junto à não-menos-criativa ação do leitor. Se é difícil produzir um texto, nada
fácil é fazer-lhe a leitura. Se o autor é um artista, artista maior é o leitor. Um, porém,
depende do outro. Logo, desfaz-se a dicotomia escrever/ler. e falar/ouvir. Irmanam-se
os seus elementos e formam o texto.

BIBLIOGRAFIA
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SOARES, Magda Becker. As condições sociais da Leitura: uma reflexão em


contraponto. Belo Horizonte. UFMG. 1988.

Naôr Rocha Guimarães, nascido em Campo Grande (MS), graduou-se em Letras nas
Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT), com Pós Graduação em
Didática e Metodologia do Ensino Superior (FUCMT), e em Lingüística Aplicada ao
Ensino do Português (PUC-Belo Horizonte). Lecionou Português, Latim, Lingüística e
Filologia Românica na FUCMT (l988 a l992) e na Universidade Católica Dom Bosco
(UCDB) (l993 a 1996). No período de 1997 a 2003 dedicou-se ao Ensino Médio,
ministrando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Atualmente está voltado mais
para a pesquisa e palestras sobre Relações Humanas, nas escolas e outras instituições,
um trabalho totalmente voluntário.