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gftpítulo I

I FACE ©ãÉTÍÊA DQ£BR

Não sei o que me oprime o coração — se é minha

em meu coração para entrar.


. .. Rabindranath Tagore, 1991, poema 168

■ C ^ o n h e c i Ricardo1quando ele tinha 15 anos


de psicoterapia p o r 9 anos. Sua analista
^ té d ú rà ^ S B flS â e ^ to continuidade ao trabalho terapêutico e o

* Recebi-o p a ra nosso p rim e iro en co n tro n a p o rta do con-


sultório. Ele p arecía fiS ra lo e ansioso. i&llk&U ab ru p -
tam ente, d irig in d o -se p a ra {& vários côm odos,
|6 rittd b |S A W ^ á fflÉ S § B @ 6 ^ ||rv r5 #l$, tu d o o que encontrava,
f g g q u a n ^ se fo rm a e ste re o tip a d a
a W n j|a & a q u e p r o d u z i a c o m a b o c a . Eu
todas as salas p ro c u ra n d o conhecê-lo.
ao abrir um a gaveta, en co n tro u u m p acote de bolachas, que

sentir por vir ao encontro de u m desconhecido, principalm ente,

a trabalhar.
único olho. C om entei, então, que o olho chSrlSS^ pela a u ^ ^ ^ H
da terapeuta a quem ele não

1. Os nomes utilizados, ao longo deste trabalho, são fictícios.


A íacc e s t c t ic íH ) self
.M l

As sessões piíB B g uiram. Ao longo do tem po, ele f ic a ^ m a iá


tranquilo i?a slíftsfle análise comigo. Eu procurava ficar atento às
H í n ^ H n U f i ^ H i ç c S de suas angústias. Frente ao aparecim ento
ele entrava em pânico e gritava desespe-
radamente. & s&frimento parecia im enso e faltavam -lhe recursos
psíquicos para cJBr qualqfflr tipo de co n to rn o ou representação a
suas vivências. Não conseguia se com unicar, n e m com palavras,
nem cctfn brinquedo&jiabia algum as palavras que pareciam ser im­
por l^ M s mais poH uajjS onoridades do que p o r seus significade^ I
Eram firequeq g fS a ecolalia, o b alanceio do c o rp o e os ri$©^s£í$'|
pS ftexto. Parecia resolver qualquer situação q u e se lhe ap reserp$fe'l
através da ingé&tão voraz de alim en to s e de gritos.
K ÍÍ$&ção que estabelecia com a situação analítica se fazia por*
meio do$ljtóõ|itos que encontrava no consultório. As diferentes®
ten tatlv^ de interpretação frente ao que ocorria nas":$gss6ês 1
Eram infrutíferas.
B p é r ta vez, decidi ter um biscoito comigo para dar-lhe a fim de
que ele não tivesse de apanhá-lo no armário. Era uma tentativa I
quer-êi&ealizava na esperança de ter acesso a ele. Minha ideia era
que talvez fosse possível associar o biscoito a mim. Sua reação foi
^irpreendente, pois assim que lhe ofereci o biscoito, ele o apanhou
e o engoliu de uma só vez. Olhou fixamente para meu peito e
vomitou sobre m im para, em seguida, devorar o próprio vômito.
Esta situação repetiu-se inúm eras vezes, sempre que eu tentava
lhe dar o biscoito. Para m im era evidente que lhe era impossível
suportar que eu existisse em alteridade, sem que ele tivesse tido
a oportunidade de criar-m e com o u m objeto subjetivo. Meu
gesto era vivido com o intrusão, e com seus vômitos ele tornava
o alim ento um objeto desu m an izado. N a sala de trabalho havia
uma sacola, que era usada apenas por ele, com diversos objetos.
A face estética do ser ■

barbante, lápis,
jogos e q u e b ra - c s H H Só lhe interessavam
desenhos coloridos de personagens de histórias infantis, recortados
em pü^ãápequenas, que pa ra que as cenas
desenhadas aparecessem.
Ricãfidòí pegava um qiB B H e f iB la, logo a f R a ingestão do
H f t i t o , e flp|sava um lofflo p e ríc ® m ontando-o. De tempos
em tempos, ele parava sua atividade para em itir alguns sons, que
repetia inúm eras v e z e m então, ria da sontiwdade produzida.
K ^ fc fP p d a d e parecia-m e, inicialmente, circular e autoerótica.
O tem po passava, e eu procurava basear minhas intervenções
'SÔbrè as fluftSw R Ejim ocR iais c{R pareciam acontecer ao lo n ­
go da sessão e do processo Algumas vezes, elas
toareciam produzir algum m j B B B B sig n a ^ K iv o na sessão,
na m aior parte das v£94fc contudo, minha Fala entrava na circu-
laridade da ecolalia.
O enquadre que utÜjfettâ com ele e r a j ^ ^ ^ ^ Q f l j ^ & a s pri-
meiras sessões, Ricardo, em sua agitação, espalhava-se por toda a
casa onde eu tinha o consultório. Percebí fljrfgSRM Bw l e. a cada
n S ã o , levá-lo diretamente para a sala que
chegasse para porta d f l a ls B a trancada
final da hora. procedimentos I r o S ^ R o n f l efeito auxiliá-
-lo a se organizar melhor p i c a r a m o aparecimento d H iten sas
angústias de aniquilação.
Os anos se passaram e, algumas \ ^ 9 frente à ecolalia e à
gefjétição dasaüvidades, s R ia - m e desanimado e perguntava-me
se chegaríamos a araHB lugar. Havia progressos b B u dia a dia,
mas me pareciam bastante limitados»
Em um a sessão em que o desânimo nK acom panfl^H disse-
-lhe alguma coisa tentando nHts uma fazer uma intervenção.
36 I A face £^í|fi<^do self

Ele a r e p f f l S m o sem piM m a s algo, p e la p rim e ira y K chamou-


-m e a atenção: n ã o se a m elodia da
^ H a s e q ue ele d iz ia e ra d a m e lo d ia d e m in h a fala. Ejrai
u m a m e lo d ia q u e eu re c o n h e c ia tê - lo o u v id o H sa S in ú m e ra s
v e z e s ^ H u e i p e rp le x o c o m o q u e e u e sta v a o b se rv a n d o ! P è h ^ g
aí está e l e S g i a m elo d ia!
^ ^ S n t a r o l e i a m e lo d ia q u e ele tin h a u s a d o , se m u tiliz a r as
p a l a ^ H m a frase. Ele m e o lh o u , p e la p r im e ir a vez, fixamente
n o s o lh ^ H s o r r iu , b a te u p a lm a s e e m itiu u m a o u tr a m elodia
p a ra q u e eu a rep etisse. D e v o lv i-lh e a m e lo d ia e, e m resposta,
ele p u lo u a le g re m e B e p e la & íc jÉ c rio u u m a o u tr a m e lo d ia , e o
jo g c ^ H r e p e tiu .g s tá v a m o s n o s c o m u n ic a n d o ! E sta b e le c ia -se o
o b jeto su b jetiv o .2
^ B ^ f f i jr a v ^ ^ ^ ^ f f iq u a n to b rin cáv am o s d a q u e le m o d o , d o filme
C ^ W to m m e d ia to s de prim eiro grau, de Spielberg, n o q u a l um a
c o m u rH ação é estabelecida en tre os h u m a n o s e os alien íg en as, pelo
uso B sons. D e f a tR ^ ^ H > s co m o d ois seres d e m u n d o s d istin to s
q u ^ ^ ^ ^ ^ H n tr a v a m n a m úsica. A té aq u ele m o m e n to , q u a n d o
tr a b a lh ^ ^ B B I /u n ^ H s e g f a e ouvi suas re p e tiç õ e s d e m in h a fala
c o m o ^ B la lia ; n ã o havia perceb id o que, n a m elo d ia, ap rese n ta v a -se
o q u e p t ^ R i a l m e n t e p o d ería co n stitu í-lo n a relação tran sferen ciai.
A n tes desse e p is ó d io H B b u e n te m e n te e u tin h a m e p e rg u n ta d o
o n d e e ffiria a criatividade p rim á ria desse garoto, já q u e d o p o n to de
vista das co n cep çõ es d e W in n ic o tt a c ria tiv id a d e ja m a is é d e stru íd a.
P ara ele ( 1 9 7 ® n a o rig e m d o s e l f está a te n d ê n c ia d o in d iv íd u o ,

2. O objeto é primeiro objeto subjetivo para depois ser objetivamente percebi­


do. O objeto subjetivo nasce da experiência da ilusão, dando início à existência
de um sentido de si mesmo. O objeto subjetivo acontece em um campo de
experiência o n ip otenSonde não há diferenciação entre o eu e o não eu.
A face estética*.40!^ | 137

geneticam entedfetoõiH fia, de perm anecer v B e de se relacionar


com objetos que aparecem no quando djggaJo m om entíH
de alcançá-l^^fts condições adversas, o indivíduo retém algum a
coisa1gjtSjftiiql, m esm o que em segredo, nem que s eja o respirar.
A criatividade é com preendida f e r ele com o a habilidade de
criar o m undo. A criançg B l a pro n ta p ara enco n trar o m u ndo de
objetos e de idéias, e a m ãe a p re s e iB o m u n d o ao Por sua
grande adaptação, a m ãe p<B ibilita que o bebê experiineíde a
onipotência, para que ele realm ente enàM tíf^D que cci&u. Cada
bebê começa com u m a nova criação do m undo. O que criam os
já estava lá.
Toda a questão da constituição do selfe da subjejm dade centra-se
no uso da imagem, da form a sensorial, q i* p r e s e n ta o estilo Sér
do indivíduo, em gesto criador do o u r a ® do nrando. «^innicoU J
BÍ96S)»eiB B p a passagem que Jfonsidero m u itd K o n filA o s diz:

o seio, mas não poderia tê-lo


naquele
momen^fc, A comunicação para o bebê é: “( J tif le ao mundo
cria é que
^^^Hil.tâõprUi$dj£ para você”. A seguir,,vem: mundo €St&1
sob seu controle”, fef f i rgjjjiâessa experiência de onipotência
a frustração,
ao outro extremo da finífKlXâ^ra
ou seja, à sensação de ser um mero pontinho numPunwsfG1, o
qual já existia antes c ^ f l » e r concebido, e concebido por dois
estavam tendo prazer um com o outro. Não é a
partir de serem Deus que os seres humanos chegam à humildade
apropriada à individualidade humana? (p. 49).

Ricardo em itia sua m elodia p a ra o espaço sem fim. N ão havia,


até então, presença h u m an a que p udesse devolvê-la a ele, para
38 I A face estética do self

re c o n h f lp ta com o ser e com o p S e i S i singular no mundo, con-


diçites necessárias para o posterior surgim ento do fenômeno da
comumcaffljji A sonoridade era a m aneira peculiar desse garoto
de criar o o ® to subjetivo.
É interessante assinalar que a música tinha um lugar especial em
sua vida. Era com um ele passar longos períodos de tempo cantarolan­
do um a melodia. Ele tam bém parecia gostar mais de alguns cantores
do que de outros* Era na sonoridade que ele tinha possibilidade de
se constituir. Estamos diante de fenômenos que iniciam o sufâto na
experiência de ser, para en tlo poder existir como ser humano. Re­
petir o perfil sonoro que d e emitia era ecoar a singularidade de sua
existência. O tepjível é emitir um som sem que ele jamais seja ecoado
por outro ser hum ano, o que significa perder-se em espaços infinitos,
aniquiladores de qualquer registro de vida psíquica.
E coar sua sonoridade era possibilitar que o paciente encon­
trasse ou reencontrasse Sua criatividade prim ária, era o estabe­
lecim ento do objeto subjetivo que daria ao paciente a condição
de en contrar o gesto criador, o suporte para surgim ento de uma
vida pulsional pessoal.
Langer (1941) afirma:

Se agora seus atos audíveis suscitam ecos no ambiente — isto é se


seus pais lhe respondem —há um aumento de experiência; pois o
bebê parece reconhecer, gradualmente, que o som que lá ocorre,
e lhe chega, é ü mesmo de sua lalação. Trata-se de abstração
rudimentar: por esta mesmice, toma^se cônscio do tom, o produto
de sua atividade, que lhe absorve d ÍHtèresse. Repete o referido
som de preferência a outro. Seu étivido efetuou seu primeiro jul­
gamento. Um som (tal como da-da, ou ma-ma, provavelmente)
foi concebido e sua difusa consciência de vocalização cede lugar
à consciência aparentemente agradável de um vocábulo (p. 131M
A face estética do se i I 39

O b eb |M ^ e m ergu lh ad o em IgW stesias, so n s, te m p e r a tS a s ,


cores e cheiros. T en h o ob serv a d o q u e cada
seu s ê ffiè sua m aneira d ^ ^ M g o r m eio de d eterm in ad aM j
sensorial que ganhou pS o f i m in ân cia nÇ&nundo d o fflb ê que ele
/ o i 3 Para alguns a visão é o sen tid o fundam ental; para o u t s j m )
tato, ou o uso da m usculatura, a sonoridade, o ritm o e assim por
diante. É pela form a ^ H p r ia l privilegiada para u m d eterm in ad o
indivíduo que se abre à constitu ição do oB ftto sffiS c iv o e seu
de M ais tarde, em etapas de m aior m aturidade, terem os
Q próprio eu d o in d ivíd u o ancorado naquele grupo de form as
g ln sd ria is q u e foram o s e lem e n to s c o n stitu tiv o s d e se u s e l f .4
O indivíduo p od e sofrer um a dispersão do eu, com o aparecim ento
d e v i | m ã â y |e pânico e de loucura, quando esses e lem en to s que
funcionam co m o âncora sensorial do eu são atingidos e p o sto s em
pane por situações do cotidiano.5

f 3. Este fenômeno parece estar relacionado com a constituição do bebê e das


£ características dê seu meiejdBBBHte. Assim, como afirma Winnicott (1966), faz
realmente diferença se o bebê nasce de uma beduína num local onde a areia é
quente, de uma prisioneira pâS ra^^m gB pP u da esposa de Sm comerciante de
uma região úmida da Inglaterra. Há umaBBnjunção dos aspéctos constitucionais
e das características físico-culturais do meio ambiente da criança. Um bebê nasce
de todas as várias maneiras, wwBM fp g ^|potencial herdado. JH BjH fflftúne
experiências de acordo com o ponto no tempojBo espaço em que
4. Diferencio o self do “eu”. Compreendo o self como uma gfcaiaração
dinâmica que pessoa e ser
Trata-se de uma organiza^m ue acontece dentro do processo rnatgp%Bwa5l
com a facilitação de um meio ambiente humano. A cada etapa d e s s e m B g
há uma integração cada vez mais ampla decorrente das novas experiências de
vida. O áa^.lçlla, para mim, um campo repre^B W SB B que possibilita ao
indivíduo uma identidade nas diiriçnsôes do espaço e do tempo. É importante
ressaltar que nem p s||Se nem o “eu” confundem -s«3nJSego, que é uma
das instâncias intrapsíquicas de caráter funcional, articulador das demandas
do id, do superego e da realidade.
40 I A face estética do self

A e x p e riê n c ia v iv id a c o m Ritfitírdo p e r m it iu q u e ele se orga-


n i ™ S ao re d o r d a m & d R d g jo n o r id a d e . N o s m o m e n to s em
q u ^ H s e n t i a a n g u s tia d o , ® B :u ra v a a lg u é m c o m q u e m pudesse
estabel<^H o jogo d a ^ ^ t t i ç ã o d a m e lo d ia p a ra q u e pudesse voltar
a se o r g a n i z a r ^ ^ ^ S u d aq u ela situ ação d e fu n c io n a m e n to autísti-
co p ara o ^ ^ ^ ^ ^ ^ S e tin h a a co n sc iê n c ia d e si J d e seu profundo
s o ^ ^ r e n to . E H sa ía d a orgarfflação defen siv a, q u e o colocava em
H a n ^ ^ ^ ^ H l e invulnerabilidad e, p a ra p o d e r re c u p e ra r a memória
das a n s i e ^ ^ l s im pensáveis (W in n iffitt, 1965). O tra b a lh o poste­
rio r foi a^B B á-lo, e tam b ém a fam ília, a e n fre n ta r e a lid a r com o
terrcM que ele vivia frente a sua situação p síq u ica.
G o sta ria ffl re ssaltaH a re a ç ã o de R ic a rd o q u a n d o m e foi
H B s s ív e l re c o n h e c ê -lo em su a m e lo d ia . ■SEfettjS o lh o s ganharam
v id a, la c ^ ^ B ja ra m , e ele se m o s tra v a a leg re, p u la n d o , batendo
p alm afflsu a satisfação era g ra n d e . O re c o n h e c im e n to d o outro
p o ssib ilita sua p iH p ria ex istên cia e n q u a n tflB B '. E sse é u m dos
p o n R m ais relevantefcáia c o n d u ç ã o d o p iij^ jg s o p s3 > te rá -
p ico , algo q u e H tá re la c io n a d o à f u n R o d o e s p e lR ) exercida
in ic ia lm e n te p e la m ãe. W in n ic o tt c h a m a v a a te n ç ã o p a r a esse
a s p e ® q u a n d o d iz ia q u e p r a tic a r p s ic a n á lis e n ã o e ra fazer
in te rp re ta ç õ e s e sp e rta s, m a s p K d e v o lv e r a o paciente o que
ele tra z d e si m e s m o .
T enho observado q ue esse a c o n te c im e n to é v iv id o p elo paciente
com o u m a experiência de satisfação e d e c a rá te r estético. O paciente
d e m o n s tra seu ag ra d o c o m viv ên cias d e en c a n fq j d e alegria ou5

5. Uma pessoa para quem a mRçulatura era o elemento sensorial da


organização do eH j(|fflsituações de pânico e sentia-se louca quando por
alguma razão era imobilizada.
A face estética do ser 141

de beleza. Trata-se de um a ocorrência que independe do quadro


psicopatológifÇ apresentado pelo analisando. O reflexo especular
(Winnicott,l 96® fornecido pelo outro abi£ a possibilidade de
0 paciente encontrar a si mesmo e, ao mesmo $ 3 ^ 0 * ao outtdS j
Esse fé&pmeno frequentem ente vem acom panhado da vivência
de encanto, experienciada pelo paciente e tam ™ ?| pelo analista.
Helen Keller, em sua autobiografia, ao relatar o momenjp£em
que associa pela primeiraâiSfca palavra água B>m a experiência
de tocar a água, diante de sua profeSlpra, afirma: “jSSube então
que á-g-u-a significava algo m aravilhB o e frio que escorria sobre
fenktha mão. Aquela palavra viva despertou-me a alma, deu-lhe lusja
esperança, alegria, libertou-a” (apud Langer, p. 725 L ^ S n tim eatM |
descritos por Keller são muito próximos aos de Renée, apósjTÇS
milagre das maçãs” relatados noj^ffi|tulo anterior (p. l S . A m b â j
Ipescrevem o surgiüfento do maravilhoso. As coisas banham -se
em s e ^ ^ B í S a ^ ^ í a d o s outorgados por um a relação de criação
pessoal do mundo.
A experiência de encanto anuncia o em olduram ento de as­
pectos fundam eljj^fepo do paciente, que aguardavam a pos­
sibilidade de v i r ^ J ^ p i ^ B p o r esta razão, um rico sinalizador
para 0 analista do ffejgar em qfig o self central6 vive em estado de
crisálida. O aparecimento ;j ^ Í B ^ exÍBSS |c ia s pode ocorrer poil
meio da sonoridade, como no caso relatado, outras vezes, pela
1 imagem, pelo texto, pela palavra p oteajijgrnente poética, por
elementos que apresentam o estilo de ser, pela formulação dos

D enom ina-s^j//central o p o te H a l herdado que é experienciado como


u m a llf m i id a d e de ser, adquire emuffiu próprio m odo e em sua
própria^pK^ySfâje um a realidade p U ju ica e áfêfuema corporal pessoais
fc^W innícott, 1960).
421 A face estética do self

enigmas da existência do paciente e pelas funções ou aspectos do


self do analisando.
O encontro com qualidades estéticas abre inúmeras pos­
sibilidades de desenvolvimento para a criança. É aqui que se
iniciará, também, o surgimento de formas que apresentarão o
estilo c^R * 7do indivíduo, elementos que estamos denominando
símbolffi de self.
^ H B t i B a l h o anterior (Safra, 1995), assinalei esse fenômeno
relacionando-o com a teffijogia do ícone russo. O ícone, na teo­
logia c ^H ortodoxa, é compreendidojgpmo um tipo de símbolo
m ü in H ^ ^ ^ H e m que a imagem é presença de ser. Não é uma
representação, mas é presença. O Çi&ne é interface entre o finito e
o infinito, entre o transcendente e a temporalidade. Trata-se de um
campo simbólico de granfflsofisticação, que articula ser e imagem.
No e n B R rõ humancram que a experiência estética inaugu­
ra a possibilidade dàtéS&ffiaRno ser frente a um outro, temos
a entrada do indivíduo ejK ratfB p a c id a d e de articulação de
símbolos de síffique constituem e apresentam as vivências de seu
e x if lB m seunjoE singular de São imagens que adquirem
presenças de ser.
fiy |H B M Q a o longo do desenvolw iento do indivíduo, um
p r O « S S j B n u o de criação desses símbolos de self Eles sofrem
metamorfoses nas quais são veiculadas experiências existenciais cada

" g M a n je s tilo de ser compõe-se das características da manifestação na forma


expressiva uíSUHia peloíndívíduo, O estilo apresenta a singularidade da pessoa.
Elejé estabelecido pela campo sensorial mais importante na constituição do self
biografia e dos enigmas de vida característicos de seu grupo
H B B Q j B i s enigmas são transmitidos-de uma geração soçctrâ dentro de uma
história familiar, de maneira tal que os diferentes membros de um grupo familiar
procuram dar sedução àquela queftãoj por meio dç^feu percurso de vida pessoal.
A face estética H ser 143

P p aíÉ is amplas e mais sofisticadas. É um processo que se inicia com


a mãe sendo o do ser8 alcançando, grada-
tivamente, ao longo d |^ m jn ^ :j[n a tu ra c io n a l, símbolos de self no
camgà cultural. Self e criatividade e ^ ^ l í i a i ^ ^ ^ d m e n ^ ^ ^ ^ ^ B
Criar é existir, não só como como ser a c c ^ ^ H d o
em gesto e símbolos que articulem, d ^ b ^ ^ ^ n g u l a r ^ ^ ^ ^ H K 1
existenciais daquele si|& 8& Ílãe e pai fornecem à criança, com suas
campo si m ^ ^ ^ p ú ^ ^ á f ô tíò é im b ó lic o B a o
mesmo tempo, possibilitam e p e r m i^ f i^ t ó ^ ^ ^ Q ^ a im prim a sua
$iíigularidade nesse campo. Abre-se a ^ÍÊtÊJlaí a possibilidade de
entre oj g j ^ toejgj^ ^ M j entre a vida subjetiva
e a realidade compartilhada, entre
um m ovim entíB im bolizante, q u ro e rm a n e c e rá ao
ÍOngo da vida, o qual BI
caracteriza jjlllí
to rn a r fam iliar o n ão
familiar. É algo p r B E f f ld o < ® s S b s e r v a em e x p e r i§ |M ^ d e
etologia, em q u ® cachorrinho, p o r exemplo, u rin a em j p i o s
pontos do t e r r i^ H ) p ara to r n g lo p r ó ^ ^ ^ ^ ^ m eio de seu
chei^^R ipregnado nos e s p |g ||B B ® S Í 3 p a n t e de u m
.S oS m bolizadorB uja função prim o rd ial é a re p r^ ftfô ç á < ^ :
do objeto ausflSS, m as a articulação de f o r @ g |p l j M i J que

8. W innicott assinala, em 1951, em seu artigo


que em algum ponto Sgrapo do d e s e n v o lv im e n ^ B ^ ^ ^ ^ ^ l todo H h u m a­
no o bebê, em unj ^ p ^ B@6fll>rovido pela m ^ ^ H ^ ^ t l l e conceber a ideia de
alguma {jãSBiaue poderia ir ao encontro da crescente que surge
daiéjSBK) instintivffi Acho bastanteg g i f i j ^ ^ | e falar em um a
época em que não poderiamos fazer referência à existência de um a do
ponto de vista winnicottiano. Estaríamos, erjjtâb, assinalando um a capacidade
P P bebê humano de ( g f r imagens que d ^ ^ ^ ^ B i | u a possibilidade
de ser. Dessa formggi m edida que a mãe saSjffiBHla. segundo as características
de seu bebê, perm ite crie, o que significa que o corpo e o m undo da
mãe não só apresentam o estilo do bebê, mas são corpo do bebê.
44 1 A face estética do self

possibilitam que o indivíduo e ^ ^ n ã m ú n d o . O bebê, por meio


dqj$e p ro cessí^ to rn a a m ãe e|s_ m u n d o ex ten sõ es de si mesmo
fyide Milner, 1 9 & 1® ?).
Ao ser psJ&tfltelío ^B fjte^im ento do processo descrito em uma
relação intersubjetiva, H&o aparecim ento d a experiência estética
Nesse encontro esptftib, inicia-se tambqUíi a possibilidade de co-
n h áígt o m undo e o outny-jfeforma pessoal, de m aneira que seja
significativa para o jogo d erô p e ^ iíw id a d e , a partir do
momento em qa£o indivíduo é reconhecido pelo oq[t^p> o mundo
pode ser criado e pode vir a ser conhecido com s a tis Ê ^ £ £ s s e é um
ponto extremamentC|BB^XJ(^tóte em alguns dos assiift chamados
^problemas de aprendizagem”. Se a criança não criou, o mundo,
ele lhe parece sem sentido e excessivamente outro. N ão aprender
é a úniCâÉ maneira de preservar uma m aneira pessoal e autêntica
dg%r. Aprender nessas condições não se discrim ina de viver uma
experiência de submissão e intrusão.
?*5moe»de idade foi trazido à análise p o r di­
ficuldades de relacionamento com colegas e por problem a! de
aprendíz^^LPãttiCtãj[H yte& tudo o que se passava a l u redor.
Em muito distraído. Inicialm enH í na
Jfiíuação analítica, comportava-se da mesnrtítforma. Com o passar
do tempo, foi se revelando qttK pJlinha um a vida paralela em sua
devaneios viviá^ M B f e f it r o B M m ibmari-
nas, e a realidade ^ L é u t^^ f^ â S c a te x iza d a . Aos pdm Ss, foi
sentindi^ Confiança em trazer p a r a ^ S g ' Ü B M p ^ ^ j cial seu
mundo griB^áõ/Na sala f e u ^ ^ f e a d á v a m o s ”, “mergulhávamos*,*
“encontravamos espécies de vida subm arina m u ® | interessantes”,
‘SüÉ% am o^)m tu p a j^ ^ e bal ei as”. a n t e s eram
só parte de sua vida’:líhaginativa e que do mundo,
transformavam-se em campo de experiênCnHgjftm o outro.
A face estética do ser 145

aventuras iam ganhando ^ ^ ^ H a ç a Ò pelas relações estabelecidas


|l |s sessões entre sua história de vida e seu
com chegajr* u m dia, ^ H ^ u m m enino entre outros,
no mundo da realidade c o m s e r
mais um peixe fora d ’água. Os peixes pareciam-lhe ^ B s de um
mundo im enso e m a r a v ilh õ s d ^ ^ j^ â íd jé serem B R ntrados.
I d e n ^ a g tv a -R c o m h eró is m arin h o y Jt^ ^ ^ f c e S u b m a rin o ,
^Netuno), que corajosamente podiam superar &úVmêdqsv<Rnpliar
o horizonte de sá is vidas. Por inteni^m ó:do}’m ntido submarino,
ptlava de um a d a s f c |^ l l p que o im pediam de õcqpgií um
lugar i ^ ^ mndo ^ m M fe^u tro s.
No mom ento dâ& q ^ ^ ^ ^ g |e m a s foram utüizados por seus
fpóSM aPi d ame n té ^ ^ iih llà rfo s co­
nhecimentos que a t|R n ^jjjp |B ^ ra Bn ser p or dem ais d if íc e il
O a partir daquele porR-ffio
campo da ilusão e de suas experiências estéticas. Temos aqui j||§ j
da capacidade
é só do refflrao do cognS lR jiOiBag^W lfeé da
que 3 P ^ p |p 9 R h a m o u de intuição.
A esse respeito,

De um é parte do impulso criativo,


pensar
tagem sobre o pensar. Por exemplo, o pensam ento lógico tom a um
longo t e m R e p ode n unca chegar lá, mas
chega lá im ediatam ente. A Ciência necessita das duas
frente. Aqui nós procuram os p o r palavras,
pensamentos
ciente que nos espectro
mesmo tempo, necessitam oa^ j apazes de conseguir
criar im aginativamente e em linguagem p ^ ^ ^ ^ ^ B e ^ ^ p ^ ^ e r
capazes de pensar alucinatoriam ente (1965a, á ^ R n o s s a ^ O T ^ ^ f f l
461 A face estética do self

Langer (1941, p. 1ig M ta & e ^ g a S o à ^le E. M- Itard com um


menino selvagem chamado ^ ^ ^ | q u e é referido como “O selvagem
de Aveyron£BcfflBttrè5o no sul d l fra n ç a , em 1799. Itard relata:

consegui o maior de
d istin ta m e n te, de um modo,
palavra “lait”, q u e repetiu quase
so m articulado escapava
O ^ ^ n b i o s e, ao ouvi-lo, é claro, senti a m ais viva satisfação. Efetuei
mais tarde um a observação, que d im in u ía m u ito d a vantagem que
êxito. N ão foi antes do
SMjjtMÍBw fiãfc€WfcjÉ W B ^SW Í^fe u m resultado $&liz, de fato vertí
a palavra “lait”lhe escapou
>a novamente, com evidentes dem onstrações de alegria; e i ^ 8 | antes
que eu despejasse u i^ ^ ^ H é f r V e z , à guisa de recom pensa, que ele
repetiu a expressão. Desde então, ficou evidente que o resultado da
e x p e r i ê n c i ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ B p g a r m in h as intenções; a palavra pro-
nunciada, em vez de ser o signo de M ia necessidade, parecia, desde
constituí* tn e ra exclamação de
^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ■ f â p r o n u n c i a d a antes que a por
estaria
o verdadeiro sentido da fala: um
pbtltô Estabelecido en tre ele e eu e o mais
necessariam ente seguir-se. Em vez disso
obtivera a p e n a M t^ ^ ^ ^ ^ ^ w £ > prazer que ele sentia, insignificante
no q u e l t t t f i ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ f l p a r a nós dois. Em geral era apenas
d u ra n te o desfru te da coisa que a p a la v ra “la it” era pronunciada.
À s vefib, p ó r acaso, ele a pronunciava antes, êifi outras ocasiões, um
pouco depois, m s sem pre sem qualquer vista ao seu uso. Não mais
£ atribuo qualquer sua re p p içào espontânea da
palavra, quando p o r acKA ele acorda no m eio da noite (tradução
daEçfjfj^S) brasileira).

Itard tinha a intenção de ensinafVictor a utilizar a linguagem como


meio de comunicação, preocupava-se que a palavra fosse o signo de uma
A face estética do s e i 147

necessidade. Essa perspectiva o H a â desprezar


mais próxima
Vlctor utiliza a palavra “la if no momento em que o leite surge em seu
ra o fenômeno
da criado pes­
quisador tinha a expectativa de que
que uma diferenciação ei^^^Bajvquando o menino se
encontrava f f i em do mais
Efflãg i^ jr o e parecia estar nos primórdios da constituição do self.
D e^iialquer forma, podemos notar a potencialidade d o ^ H H
meno estético na construção de si, do n p itiu^e do conhecimentcB
Poderiamos afirmar ffie só conhecemofcde maneira significativa a
porção do n m g W ^ S o n se g u im o s cria^SV experiência estética não
ocorre por m eicH H acaH ^K s JSeito/objeto e, poi%$sa razão, dá
m m m m o a possibilidade d g H | um únic^gêS§5gbnstituir-se e
também |mS> amar p e c ^ j^ ^ l ) mundo.
^ ^ B á 3 B W 8 |M g d g y n ^ B ^ p ^ f i a constituição da su b j^ H
vidade hum ana é bastante ^ ^ ^ B e na filosofia russa. Considero
as formulações de bastante relevantes para os
fenômenos que S B B p estudar Para ele, a estética
não igsepara da ontologia estético
IgM se separa do conhecer e do ser. Q|r e n ^ p ^ g ^ ^ ^ ^ ^ ^ B n t r a -
da à pessoa para a possibilidade de ser iflmlSgK). O gesto criador
pode, segundo esse autor, s ^ ^ ^ H por : pela
perspectiva ipi estética como beleza, p e l^ ^ ^ H ^ d o conhecimento

padre
semiótica, da arte e da estética.

onde faleceu.
481 A face estética do self

como verdade e pelo ângulo da r4S|Ro com o amor. É por esse pris­
m a que vejo o estabelecimento do objeto subjetivo. Só adicionaria a
esses três aspectos, f f i g S g È S p o r Florensky, u m quarto elemen­
to: do ponto de ^ ftH d c fc r no m undo, esse fenôm eno podería ser
visto como encarnação. C o m ^ H estou querendo assinalar que o
objeto t a m b S entrada ao processo denominado por
Winnicott de que o psiquismo, pela elaboração
im a g in a tlv R ^ ^ ^ S ^ ^ ^ H p o ra is, passa a residir no corpo.
O encontro estético possibilita que as form as sensoriais, que se
o K n n m ^ ^ r a r a p r i y i l e g i a d a n a relação mãe-bebê, constitu­
am K o S ^ ^ n o desenvolvimento da vida imaginativa. Nele, a
experiência da beleza, do conhecimento, do am or e da encarnação
^ ^ B r r e m ao mesmo interm édio desse fenômeno, há o
estabelecimento de uma ética do ser. o indivíduo passa a
conhecer o queH boH paraB u vir-a-ser e para seu alojamento no
acha-o belo e o ama. T r a te n d a experiência de conhecer
^^^ffi)ensar a respeito de si e dos objetos do m undo, que lhe abrem
de seu devir e do própH ) mundo.
configurações do corpo da
criança mãe. Este se organiza segundo o
que a mãereliffl^Mm seu bebê. Esse processo permite que a criança
habite um presença afetiva do outro.
Dessa forma, tocar u fflB ar^ ffij^ R o rp o é reencontrar a experiência
afetivo-existencial v iv id a ^ ^ H ^ H o u seu substituto, é ter acesso a
um repertório imaginatif l ^ ^ B I do qual o psíquico vive no corpo.
Simone Weil (1989, p. ‘imagens’ s |^ os ves­
tígios das c« B a sobre o corpo, vestígios qu fflia realidade, são os
das reações do corpo em relação^BDisas”.
E ssflu m fenôrgjggg bastante im portante do ponto de vista cfl
nico. Algumas vezes, encontramos pacientê%ftõs quais áreas de seu
A face estética do ser 45|

corpo não foram significadas um


a ser regiões em que o paciente do nada.
A pessoa tem um a e x p e ri^ K a de tipo p s l g g ^ p eca■■'■qitgb^êy é
aniquilado. Alguns pacientes buscam um a S b tü fe j^ n ediante um a
^excessiva erotização daquela região, outros surgem com m anifes­
ta ç õ e s psicossom áticas, que se com unicam em queixas, na busca e
esperança do encontro com um o u tro que lhes dê a possibilidade
de existir naquelas áreas corporais.
A sgjcperiências B a re tic a sfim o p resentes desde o im rap da
|yida* Elas d ã o as S n d iç õ e s p ara que o m im em se co n stitu a no
b n u n d o . Ê um a c o n tá p r que se abre no co rp o e n c o n tra d o e
transfigurado pela presença de u m o u tro significativo em estado
de devoção.
Q uando a m ãe se aproxim a de seu bebê, ela o faz p o r m S ) de
seu corpo, q iS |é corpo transfigurado. N ão é sim plesm ente um
organismo biológico, é u m b a n h a d o p o r inúm eros encon-
||fÓ$, desencontros, signos socioculturais, pela vida dos ancestrais.
O corpo m aterno traz a presença de um a história e l e faz doação
para ser criado pelo bebê. O corpo m aterno, nessa etapa, é o pró-
epffo corpo do bebê, em que ele pode, paradoxalm ente, criar todo
o mundo hum ano já ali presente.
A corporeidade m aterna traz m aneiras de se colocar no tem ­
po, no espaço, no m undo, p ara que sejam descobertas pelo b e b «
trata-se de organizações étnico-culturais que p erm item qigHa mãe
possa cuidar de um bebê hum ano.
Faz realmente diferença se nasci de um a beduína num local onde
a areia é quente, de um a prisioneira política na Sibéria ou da esposa
de um comerciante na úmida, mas bela, região ocidental da Inglaterra.
Como Valdar, o que nasceu m uitas vezes, um bebê n §^8j de
todas as várias m aneiras, com o m esm o potencial herdado, mas,
501 A face €$i£|j|p|| self

a p a rtir da palavra Vá! experim enta e reúne experiências de acor­


do com o ponto no tem po e que ele ou eÜ surgiu
(W innicott, 1968, p. 3 /J ,
O e n c o n t i S ^ ^ f l í l í i t r e rxiãe e bebê dá início ao processo de
elaboração ii|jj$ râ jiv a do corpo, em q àp cad a função é presença
de o u S hüm ano.-Çi^aiform a, a p artir desse fenômeno, o corpo
da críançaK S yap da
Nessa perspectiva, a capacidade empática da mãe frente a seu
bebêX|»_p que se denoH flB u de identificação prim ária, pode
decorrente da configuração estética do
corpo maternopMgfiglo as características e necessidades do bebê,
fenôm eno^te a ír g ® o estado de devoção da mãe para com sua
criança. O corpo materno organiza-se segundo os ritm os erf to-
nicidade do corpo do bebê.
H B b s e rv a -H fc r exemplo, que o ritmo das vocaUzaçõça&a mãe
p a l ^ Q c â ^ R l l h f f l s e m e l h a n t e ao da movimentaçãSí
do bebê. Se a mãe muda o fifmo de sua voeâíoaçio de maneira
^ ^ ^ ^ H - l a distinta do ritmo do b eb H a criança imediatamente
seu jbgo e se surpreende.
A chamada linguagem pré-verbal é um
Nele, lemos 0 corpo do outro c o m ^ ^ H p ià p rio corpo. Mesmo
B á reíaÇãô t ò m ^ natureza, u tilf^fí^ _ S em recurso:
ao olhar uma árvore, SÓ a percebemos cdf&o vlw%e.emprestamos
nosso córpo para H o fazemo-nos imaginativamente árvores.
Um corpo não transfigurado pela presença de outros é corpo-
-coisa e não encontra meios de perceber subjetivamente a vida
no m undo.10
Winnicott assinalava a importância da presença psicossomática
do analista para uma condução satisfatória da análise. Quando
^ sta m q g diante de alguém, estamos e n g ^ S l S á â maneira como
A face estética do ser 151

^ R p e s s o a organiza o espaço, o tem po, a relação com c u B roa


Os soiffl os c h e ^ ^ ^ ^ ^ ^ f f l u d o contribui para que p o ^ B io s
“intuir” o jeito do o u t r c B e i ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ ^ S s o f r i m e n t o s , pois
todas essas organizações p l ^ ^ ^ E n c ^ ^ ^ ^ ^ ^ R i o s ^ S b r p o .
Frequentem ente, encontram os re­
ferências à capacidade de o ^ ^ ^ ^ S i n t u i r os estados emocionais
do paciente. > ^ ^ R t e x to R llIIS S 5 B S fflB ^ B a c f5 e de
do inefável, de a p r e e n s ã o ^ ^ ^ ^ ^ ^ K ^ ^ ^ ^ ^ ^ B a de fazer um a
Inversão dessas ® o c a ç õ e ^ S inefável” acontece no corpo! O que
é chamado de intuição e de apreensão não sensorial é, de m eu
ponto de vista, um a leitura estética d a ^ ^ ^ H ^ ^ S ) a pessoa se
aloja no corpo.
Se compreendermos que o se/organiza-Bssteticam ente, percebe­
remos que, ao estarmos B H o paciente, estamos sendo afetados pelo
m o d o como ele organiza o tempo, o espaço da sessão pela maneira
«pomo ele m o v im e n ta ® corpo no setting. Q uer tenhamos ou não
ptmsçiência dessa questão, lemos esteticamente as situações criadas
por ele a partir de nosso corpo. Para mim, os fenômenos chamados
de intuição, empatia, identificação projetiva acontecem na dimensão
estética. Da mesma forma, quando falamos de ilusão como constitutiva
do selfy estamos falando não de um fenômeno mental, mas estético.
Quando áreas da experiência h u m an a não se constituíram na
situação de ilusão com o parte dos aspectos do selfy tem os b u ^ H s
no se//que am eaçam o indfvgBuo com a dispersão de si e com
as ansiedades im pensáveis. O in d iv íd u o , ao dep arar-se com
formas sensoriais que reapresentam essas áreas de agonia, vive
um outro tipo de experiência estética: o horror! São áreas de 10

10. Chamemos de imaginação essa o objeto do que ocorre


no corpo do indivíduo (Weil, 1989, p. 31).
521 A face estética do self

não-ser e de ffliquilam ento de si. N elas, a p esso a não encontra


a presença de outros que a auxiliem a d a r sen tid o humano e
contorno a H B g H i^ n c ia s .
D entro das experiências estéticas constitutivas, estamos diante
c fi^ ffi^ ^ H d o indivíduo que têm m ais qualidade ontológica do
q u e p ^ ^ ^ H L O encanto, o horror, o amor, o m edo, o conhecer,
fenômenos, são experiências ôntico-ontológicas,
referem ^H o que denominei de ética do ser: ao conhecer o bom
para seu vír-a-ser, acha-o belo e o ama.
É frequente crianças que presenciaram situações aviltantes à
dignidade hum ana terem um senso de que “aquilo” é “ruim ”, “feio”
e que invade o sentido de si mesmas, mesmo que a situação tenha
ocorrido quando elas ainda estavam em idade m uito precoce.
Em minha prática clínica, encontrei inúm eras situações em
que pacientes viveram experiências antagônicas à ética do ser e
reagiraril a elas com a organização de uma forma de loucura, para
■ B defenderem de ansiedades impensáveis. Por outro lado, quando
encontram oportunidade de estabelecer o self, respondem com
sentimentos que têm qualidade ontológica, como os assinalados
. acima. Essa dim ensão tem grande im portância clínica, pois é
fundamental que o analista possa discrim inar entre amor, ódio ou
quaíquS outro sentimento que tem função psicológica de outros
quetêm Valor ontológico.
Alguns autores, em psicanálise, têm abordado a questão da expe­
riência estética na organização psíquica. Meltzer e Williams (1988)
abordaram a apreensão da beleza da mãe pelo bebê a partir de um
vértice que enfatiza a experiência do conflito estético. Para eles, esse
conflito é frutO-;do impacto estético vivido pelo bebê frente à bela
máe éxtèma, apreendida pelos sentidos, e o interior enigmático dela,
que precisara ser construído pela imaginação criativa.
A face estética do ser

De meu ponto de vista, essa experiência é isenta de conflito,12


[desde (JSfPaja
bebê, que é a condição necessária para o surgimento
constitutiva do self. Acredito que o conflito estético ocorra nas

bebê, o que a « H i a invadir o B S ^ ^ Q g j ^ d a l do

impedindo que o bebê


A saída ffls^ ^ ^ ffiB G a lte m e n te por
p s £ a g d a s funções mentais
w É r a j^ ^ B ^ ^ ^ ^ ^ ^^paralisado ra da mãe. A auiM m l vamos
èn co n tat o Sffi^pm m a S do conflito estético em qEe o bebê, ca­
g a d o pela beleza da mãe, precisa pesquisar o im B $)r dela a fim
de seb calizarp m te às intenções maternas. A mãe um
objeto ambíguo que atrai por sua beld®, mas aterroriza porque
íèmba o b eb lfle seu ser.
:%Um paciente de 3 4 | H | tinha experimentado o fascínio parali-
sador de sua « f e D es<M HfaaBrias sessões de análise, falava sobre
a beleza de sua mãe. Trazia em sua carteira uma fotografia dela e,

de que elas também c o n te n ^ ^ ^ S f e u ^ j ^ ^ j H


| | É | e vivia em unS ^ p ^ P ^ ^ ^ estético. ViajSra frequente*
mente, sempre acompanhado de t |j |a câmera r a filmar
máquina de fotografia. S u a s |m g H B ^ B ^ H [ transformavam
em ag o niasiflp buscava realizar belas imagens para
^ f e ddos; entretanto, desesperava-se porque não

|Í ||£ v A o assinalar que a experiência esí^P n en tre mãe e bebê é isenta de conflito,
quero dizer que n ão tm falha excessiva. No entanto, nesse i n te r jo g o ^ ^ ^ ^ H
ocorrem dissonâncias que não ultrapassam a possibilidade do bebê d&Hp3 ^ £ .
54 1 A face estética do self

tin h a realm ente viajado, já que estava sem p re atrás de um a lente e


tam bém suas im agens n u n ca era m perfeitas o suficiente.
Esse m e l o processo ele vivia e m relação à im agem que tinha
para Igdem ais. Buscava desesperadam ente p ro d u z ir um a imagem
que ffH H tão bela quanto a de sua m ãe, sem jam ais conseguir seu
intento.
^ ^ S R S m s e q u ê n c ia desse tipo de situação, vivia em um mundo
bidim ensional sem que conseguisse sua en trad a no m undo. Preci­
sava criar setfflSjreencontrar sua criatividade prim ária, que estava
petrificada pelo rosto fascinante de u m a m ãe m edusa. Aqui, de
fato, estávamos diante de u m conflito estético.
Também Bollas (1987) aborda o fenôm eno estético como ele­
mento im portante nflHnnkituição do self criança. Ele enfatiza a
estética da mãe nesse processo:

A d o r d a fo m e , u m m o m e n to d e v a z io , é transform ada pelo


leite d a m ãe em u m a ex p eriên cia de p le n itu d e . Essa é u m a trans­
form ação p rim ária: vazio, agonia e raiv a to rn a m -s e plenitude e
con ten tam en to . A estética dessa e x p eriên cia é a fo rm a particular
pela qual a m ãe satisfaz as n ecessidades d o in fa n te e transforma
suas realidades in tern as e externas. Lado a lad o c o m a experiência
subjetiva do infante de ser tran sfo rm ad o , está a realid ad e, que é ele
estar sendo tran sfo rm ad o de aco rd o co m a estética d a m ãe (p. 51)^

Não concordo com Bollas em alguns p o n to s. N ão m e parece


que possamos falar de experiência de tran sfo rm ação nessa etapa
da vida; para m im estam os lid an d o com aberturas de possibi­
lidades de ser. Tam bém não acred ito que seja adequado falar
em realidade in tern a e realidade e x tern a q u a n d o o que está se
dando é a c o n R tu iç ã o do self p ara que, em u m outro momento
do processo maturacional, o estabelecim ento da realidade interna
A face estética do áe# 155

possa ocorrer.13 Por último, penso que a estética desBg momento


está mais em função da criatividade do bebê do que da mãe. É ver­
dade que a mãe apresenta uma estética própria, mas que necessita
estar, pela devoção, subordinada ao ser da criança.
Penso ser im portante m anter dii& im inada a experiência
estética como fundante da ilusão, do impacto estético, fruto do
fracasso da ilusão.

13. W innicott assinala que o m undo interno ra E ra S |f fie da fantasia sobre


o interior do ctíjrpo, fenôm eno que pode a partir do estabe-
lecimento da discrim inação entre eu &jgPggMgB