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Metodologia Científica

Autora: Profa. Ani Sobral Torres


Colaboradores: Prof. Roberto Macias
Profa. Elisângela Mônaco de Moraes
Profa. Renata Viana de Barros Thomé
Professora conteudista: Ani Sobral Torres

Ani Sobral Torres é doutora pelo Ipen – Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São
Paulo na área de Sensoriamento Remoto da Atmosfera. Realizou pesquisas durante o doutorado sanduíche no Goddard
Space Fight Center – Nasa e na Howard University dentro da mesma área, publicando alguns artigos científicos como
resultado dessa pesquisa. Também é mestra pela Escola Politécnica da USP e graduada em Microeletrônica pela
Faculdade de Tecnologia de São Paulo. Publicou diversos artigos na área de sensoriamento remoto e monitoração de
poluentes na atmosfera e leciona diversas disciplinas nas instituições de Ensino Superior, UNIP – Universidade Paulista,
desde então. A Metodologia Científica sempre esteve presente ao longo de sua carreira acadêmica.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

T693m Torres, Ani Sobral

Metodologia científica / Ani Sobral Torres. – São Paulo, 2012.


124 p. il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-044/12, ISSN 1517-9230

1. Metodologia científica. 2. Pesquisa científica. 3. Projeto de


pesquisa I. Título.

CDU 001.8

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
permissão escrita da Universidade Paulista.
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Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Ana Luiza Fazzio
Sumário
Metodologia Científica

Apresentação.......................................................................................................................................................9
Introdução............................................................................................................................................................9

Unidade I
1 CIÊNCIA.................................................................................................................................................................11
1.1 O que é ciência?......................................................................................................................................11
2 MÉTODO............................................................................................................................................................... 18
2.1 O que é método?................................................................................................................................... 18
2.1.1 Método indutivo...................................................................................................................................... 18
2.1.2 Método dedutivo..................................................................................................................................... 18
2.2 O papel do cientista............................................................................................................................. 19
2.3 O que é metodologia científica?..................................................................................................... 19
2.4 Histórico do método científico........................................................................................................ 20
2.5 O que é um paradigma?..................................................................................................................... 20
2.6 Um pouco mais da história da ciência......................................................................................... 20
2.7 Movimentos metodológicos............................................................................................................. 22

Unidade II
3 PRINCÍPIOS DE METODOLOGIA CIENTÍFICA........................................................................................... 30
3.1 Tipos de pesquisa................................................................................................................................... 30
3.1.1 A pesquisa acadêmica............................................................................................................................ 30
3.1.2 A pesquisa “de ponta”............................................................................................................................ 31
3.1.3 Caracterização das pesquisas............................................................................................................. 31
3.2 Leitura crítica.......................................................................................................................................... 35
3.3 Identificação do texto......................................................................................................................... 38
3.4 Leitura proveitosa.................................................................................................................................. 38
4 ANÁLISE DE TEXTOS........................................................................................................................................ 40
4.1 Análise textual........................................................................................................................................ 40
4.2 Análise temática.................................................................................................................................... 40
4.3 Análise interpretativa.......................................................................................................................... 40
4.4 Problematização.................................................................................................................................... 41
4.5 Síntese....................................................................................................................................................... 41
4.6 Pesquisa bibliográfica.......................................................................................................................... 41
4.7 Fontes de pesquisa................................................................................................................................ 42
4.7.1 Biblioteca.................................................................................................................................................... 42
4.8 Outras fontes utilizadas...................................................................................................................... 44
4.8.1 Arquivos oficiais do estado ou município..................................................................................... 44
4.8.2 Internet........................................................................................................................................................ 44
4.9 Resumo...................................................................................................................................................... 44

Unidade III
5 TIPOS DE TEXTO................................................................................................................................................. 48
5.1 Resenha crítica....................................................................................................................................... 48
5.2 Fichamento.............................................................................................................................................. 48
5.3 O processo da escrita........................................................................................................................... 49
5.4 Estrutura interna do texto acadêmico......................................................................................... 50
5.4.1 Dicas importantes para a construção do texto acadêmico.................................................... 54
5.5 Redação..................................................................................................................................................... 55
6 Projeto de pesquisa.................................................................................................................................. 57
6.1 Método indutivo.................................................................................................................................... 66
6.2 Método dedutivo................................................................................................................................... 67
6.3 Método hipotético dedutivo............................................................................................................. 68
6.4 Método dialético................................................................................................................................... 69

Unidade IV
7 ABNT – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS – RELATÓRIOS DE PESQUISA – TRABALHOS
CIENTÍFICOS............................................................................................................................................................ 75
7.1 Monografia científica.......................................................................................................................... 75
7.2 ABNT........................................................................................................................................................... 77
7.3 Apresentação do trabalho................................................................................................................. 77
7.4 Estrutura do trabalho.......................................................................................................................... 78
7.4.1 Elementos pré‑textuais......................................................................................................................... 78
7.4.2 Elementos textuais.................................................................................................................................. 88
7.4.3 Elementos pós‑textuais......................................................................................................................... 89
8 CITAÇÕES............................................................................................................................................................. 96
8.1 Regras gerais de apresentação........................................................................................................ 96
8.2 Citação direta.......................................................................................................................................... 96
8.3 Citação direta de até 3 linhas.......................................................................................................... 97
8.4 Citação direta com mais de 3 linhas............................................................................................. 97
8.5 Citação indireta...................................................................................................................................... 97
8.6 Informações verbais............................................................................................................................. 98
8.7 Correspondências, cartas e telegramas........................................................................................ 98
8.8 Notas de rodapé..................................................................................................................................... 98
8.8.1 Ibid................................................................................................................................................................. 98
8.8.2 Idem.............................................................................................................................................................. 99
8.9 Relatório de pesquisa........................................................................................................................100
8.10 Projeto de pesquisa..........................................................................................................................100
8.11 Estrutura do projeto.........................................................................................................................101
8.12 Relatório de pesquisa......................................................................................................................103
8.13 Estrutura do relatório de pesquisa............................................................................................104
8.14 Tópicos da estrutura do relatório...............................................................................................106
8.15 Publicações e trabalhos científicos............................................................................................109
8.16 Trabalhos de congressos................................................................................................................109
8.17 Artigos científicos.............................................................................................................................109
8.18 Informe científico............................................................................................................................. 110
8.18.1 Ensaio científico................................................................................................................................... 110
8.19 Resenha crítica...................................................................................................................................111
8.20 Conferência..........................................................................................................................................111
Apresentação

Hoje em dia, o estudante universitário precisa redigir um trabalho de conclusão de curso, uma
monografia, uma dissertação ou uma tese, e a carência de um método científico pode comprometer a
qualidade do trabalho. A Metodologia Científica é usada em diversas áreas de pesquisa. Para o aluno de
Tecnologia da Informação, por exemplo, saber redigir uma monografia é um dos requisitos fundamentais
para concluir um trabalho de qualidade ao final do curso, bem como guiar o estudante nas etapas de
pesquisa científica. Imagine que um novo site como o Google ou outra ferramenta de informática foi
criado, mas não foi apresentado da forma apropriada; qual o resultado disso?

Da mesma forma, ao final de um curso universitário, de Pós‑graduação ou não, o estudante tem que
apresentar um trabalho escrito que siga os padrões da instituição de ensino, bem como as normas da
Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

Esta disciplina se caracteriza pelo estudo das principais ferramentas e especificações necessárias
para se desenvolver uma metodologia científica. Tem como objetivo geral que o aluno possa adquirir
conhecimento para o desenvolvimento de uma pesquisa científica pelo estudo da Metodologia Científica,
bem como desenvolver conhecimento para a redação de um trabalho, seguindo as normas estabelecidas.

Este livro‑texto é dividido em quatro unidades. Como objetivos específicos dessa disciplina, espera‑se
que você adquira conhecimentos.

Na unidade I, a história da ciência e seus conceitos, assim como uma introdução a Metodologia
Científica é apresentada.

Na unidade II, espera‑se que o aluno entenda os princípios da Metodologia Cientifica, os tipos de
pesquisa e como fazer uma análise textual.

Na unidade III, são estudados os tipos de texto acadêmico e quais são as diferenças entre monografia,
dissertação, tese e trabalho de conclusão de curso.

Ao final da unidade IV, espera‑se que o estudante seja capaz de definir um tema e uma metodologia
de trabalho para redigi‑lo e saber redigir um trabalho de pesquisa, respeitando as normas da Associação
Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

Introdução

A universidade evolui a grandes passos hoje. Voltada anteriormente à transmissão do saber adquirido
ou à conservação do patrimônio cultural do passado orienta‑se, em nossos dias, sob a pressão das
mudanças constantes que o desenvolvimento impõe à formação de profissionais de nível universitário.

Em razão dessa nova filosofia, o Ensino Superior tem por objetivo o desenvolvimento das ciências,
letras e artes por meio da pesquisa.

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Assim como foi estruturada e elaborada, a Metodologia Científica vem constituir para essa
tarefa um subsídio, cujo valor não pode ser negado: fornece os pressupostos do trabalho científico.
Estes compreendem certas normas consagradas pelo uso, entre cientistas, referentes à estrutura e à
apresentação do trabalho científico, além das técnicas e métodos reativos à pesquisa e à elaboração do
mesmo. Também são pressupostos do trabalho científico os mecanismos mentais que se desencadeiam
mediante o processo reflexivo.

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Metodologia Científica

Unidade I
O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário
(Albert Einstein).

1 CIÊNCIA

Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima (Louis Pasteur).

1.1 O que é ciência?

Existem inúmeras definições para “ciência”. Devido à dificuldade de encontrarmos uma única
explicação para o termo, começaremos falando sobre a origem etimológica da palavra.

No grego, a palavra ciência – scire – significa conhecer, portanto, a ciência para os gregos era
todo o saber criticamente fundamentado, ou seja, todo o resultado da indagação racional fazia parte
integrante de um único saber. Nessa fase, ela não se distinguia da filosofia.

Em latim – scientia – significa “um conhecimento que inclui, em qualquer modo ou medida, uma
garantia da própria validez”.

Deduzimos que a ciência é filha da filosofia (“amor à sabedoria”). Observamos que a vontade
humana de conhecer e buscar explicações para os fenômenos naturais fez com que os homens, desde
a Antiguidade, buscassem explicações fora dos conceitos metafísicos ou religiosos. Portanto, para
entendermos o que é ciência, precisamos entender quais os tipos de conhecimentos que permeiam a
nossa vida e diferenciá‑los.

Lembrete

Filosofia (do grego: philos = que ama + sophia = sabedoria), ou seja,


aquele que ama a sabedoria.

Metafísica (do grego: meta = além, depois + phisis = física, natureza).

Utilizaremos um texto escrito por Lakatos e Marconi para exemplificar a diferença entre o senso
comum e o conhecimento científico:

Desde a Antiguidade até aos nossos dias, um camponês, mesmo sendo letrado e/
ou desprovido de outros conhecimentos, sabe o momento certo da semeadura,
11
Unidade I

a época da colheita, a necessidade da utilização de adubos, as providências a


serem tomadas para a defesa das plantações de ervas daninhas e pragas e o tipo
de solo adequado para as diferentes culturas. Tem também conhecimento de
que o cultivo do mesmo tipo, todos os anos, no mesmo local, exaure o solo. Já no
período feudal, o sistema de cultivo era em faixas: duas cultivadas e uma terceira
em “repouso”, alternando‑as de ano para ano, nunca cultivando a mesma planta
dois anos seguidos numa única faixa. O início da Revolução Agrícola não se
prende ao aparecimento, no século XVII, de melhores arados, enxadas ou outros
tipos de maquinária, mas à introdução, na segunda metade do século XVII, da
cultura do nabo e do trevo, pois seu plantio evitava o desperdício de deixar a
terra em pousio: seu cultivo “revitalizava” o solo, permitindo o uso constante.
Hoje, a agricultura se utiliza de sementes selecionadas, de adubos químicos
de defensivos contra as pragas e tenta‑se até o controle biológico dos insetos
daninhos (LAKATOS; MARCONI, 2008, p. 70).

Ao prestarmos atenção ao texto, percebemos que existem dois tipos de conhecimentos diferentes
que se misturam: empiria e teoria. Ou seja, um conhecimento que é adquirido por meio de experiência
e observação dos fatos e outro que é adquirido pela sistematização dessa observação.

O conhecimento empírico pode ser comparado ao conhecimento do camponês, que é transmitido de


geração para geração, por meio da educação informal e baseado na experiência pessoal e na imitação.
Já o conhecimento teórico é fundamentado na sistematização da observação dos fenômenos da
natureza, ou seja, no pensamento racional, e é transmitido por intermédio de treinamento apropriado e
procedimentos científicos. Ele não só observa os fenômenos mas tenta explicar “por que” e “como” eles
acontecem, relacionando os fatos numa visão mais ampliada.

Concluímos que o que diferencia esses dois conhecimentos “é a forma, o modo ou método e os
instrumentos do ‘conhecer’” (LAKATOS; MARCONI).

O filósofo grego Platão (428 – 348 a.C.) já afirmava que a garantia e a validade da ciência eram
constituídas pelo fato de ela se diferenciar das opiniões. Opiniões, segundo Platão, “[...] saem da alma
humana e não têm muita utilidade até que alguém consiga ligá‑las em um raciocínio causal”. Percebemos
que há muito tempo já se falavam nas diferenças existentes nas formas de conhecer o mundo.

O homem não age diretamente sobre as coisas. Sempre há um intermediário, um instrumento entre
ele e seus atos. Isso também acontece quando faz ciência, quando investiga cientificamente. Ora, não é
possível fazer um trabalho científico sem conhecer os instrumentos. E estes se constituem de uma série de
termos e conceitos que devem ser claramente distinguidos, de conhecimentos a respeito das atividades
cognoscitivas que nem sempre entram na constituição da ciência e de processos metodológicos que
devem ser seguidos, a fim de chegar a resultados de cunho científico e, finalmente, é preciso imbuir‑se
de espírito científico (CERVO; BERVIAN, 1976).

Nossas possibilidades de conhecimento são muitas e até tragicamente


pequenas. Sabemos pouquíssimo e aquilo que sabemo‑lo, muitas vezes
12
Metodologia Científica

superficialmente, sem grande certeza. A maior parte de nosso conhecimento


somente é provável. Existem certezas absolutas, incondicionais, mas estas
são raras (BOCHENSKI, 1961, p. 42).

O que é conhecer? É uma relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido.
No processo do conhecimento, o sujeito cognoscente se apropria, de certo modo, do objeto conhecido.

Se a apropriação é física, sensível, por exemplo, a representação de uma onda luminosa, de um


som ou o que acarreta uma modificação de um órgão corpora do sujeito cognoscente, tem‑se um
conhecimento sensível. Tal tipo de conhecimento é encontrado tanto nos animais quanto no homem
(CERVO; BERVIAN, 1976).

Se a representação não é sensível, isso ocorre com realidades, tais como conceitos, verdades,
princípios e leis, tem‑se então um conhecimento intelectual.

O conhecimento sempre implica numa dualidade de realidades: de um lado, o sujeito cognoscente


e, de outro, o objeto conhecido que está possuído, de certa maneira, pelo cognoscente. O objeto
conhecido pode, às vezes, fazer parte do sujeito que conhece. Pode‑se conhecer a si mesmo, pode‑se
conhecer e pensar os seus pensamentos. Mas nem todo o conhecimento é pensamento. O pensamento
é conhecimento intelectual.

Segundo Cervo e Bervian, têm‑se quatro espécies de considerações sobre a mesma realidade; o
homem e consequentemente o pesquisador estão se movendo dentro de quatro níveis diferentes de
conhecimento: conhecimento empírico, conhecimento científico, conhecimento filosófico e
conhecimento teológico.

Existem quatro formas ou tipos de conhecimentos, segundo Trujillo (2008), que diz que o
conhecimento se divide em:

Tipos de
conhecimentos

Conhecimento Conhecimento Conhecimento Conhecimento


científico popular religioso filosófico

Real (factual) Valorativo Valorativo


Contingente Valorativo
Reflexivo Inspiracional Racional
Sistemático Assistemático Sistemático
Verificável Sistemático
Verificável Não verificável
Falível Não verificável
Falível Infalível
Aproximadamente Infalível
Inexato Exato
exato Exato

Figura 1 – Tipos de conhecimento

13
Unidade I

• Conhecimento popular

É passado de geração para geração, chamado também de senso comum. É o conhecimento empírico
comum baseado nas experiências do ser humano com a própria natureza e com a sociedade.

Segundo Babini (1957), “[...] é o saber que preenche nossa vida diária e que se possui sem procurá‑lo
ou estudá‑lo, sem a aplicação de um método e sem se haver refletido sobre algo”.

Podemos dizer que esse conhecimento é valorativo, ou seja, depende dos estados de ânimo
e emoções do sujeito que irá colocar as suas opiniões a respeito dos objetos estudados sem ter um
distanciamento crítico do mesmo. Baseia‑se na organização particular das próprias experiências e não
de uma sistematização das ideias. Apesar de verificável, é falível e inexato.

Conforme Cervo e Brevian, o conhecimento empírico, também chamado vulgar, é o conhecimento


do povo, obtido ao acaso, após inúmeras tentativas. É ametódico e assistemático.

O homem comum, sem formação, tem conhecimento do mundo matéria exterior onde se acha
inserido e de certo número de homens, seus semelhantes, com os quais convive. Vê‑los no momento
presente e lembrar‑se deles prevê o que poderão fazer e ser no futuro. Tem consciência de si mesmo, de
suas ideias, tendências e sentimentos. Cada qual se aproveita da experiência alheia.

Pela linguagem, os conhecimentos se transmitem de uma pessoa a outra, de uma geração a outra.
Pelo conhecimento empírico, o homem simples conhece o fato e sua ordem aparente, tem explicações
concernentes às razões de ser das coisas e dos homens e tudo isso obtido pelas experiências feitas ao
acaso, sem método e por investigações pessoais feitas ao sabor das circunstâncias da vida, ou então
haurido no saber dos outros e nas tradições da coletividade, ou ainda tirado da doutrina de uma religião
positiva.

• Conhecimento filosófico

Sua principal característica, segundo Trujillo (2004), é que as hipóteses filosóficas são baseadas na
experiência e na observação e não na experimentação. Ou seja, suas hipóteses não podem ser refutadas
nem confirmadas, apesar de serem sistematizadas e racionalizadas.

Portanto, o conhecimento filosófico é caracterizado pelo esforço da razão pura para questionar
os problemas humanos e poder discernir entre o certo e o errado, unicamente recorrendo às luzes da
própria razão humana (LAKATOS; MARCONI, 2008).

A razão, vista sobre esse ponto de vista, tende a substituir e reunir as experiências numa única
vertente irrefutável.

De acordo Cervo e Bervian, o conhecimento filosófico se distingue do científico pelo objeto de


investigação e pelo método. O objeto das ciências são os dados próximos, imediatos, perceptíveis pelos
sentidos ou por instrumentos, pois, sendo de ordem material ou física, são por isso suscetíveis de
14
Metodologia Científica

experimentação (método científico = experimental). O objeto da filosofia é constituído de realidades


mediatas, não perceptíveis pelos sentidos e, por serem de ordens suprassensíveis, ultrapassam a
experiência (método racional).

A ordem natural do procedimento é, sem dúvida, partir dos dados materiais e sensíveis (ciência) para
se elevar aos dados de ordem metaempírica, não sensíveis, razão última da existência dos entes em geral
(filosofia).

Na acepção clássica, a filosofia era considerada como a ciência das coisas por suas causas supremas.
Modernamente, prefere‑se falar em filosofar. O filosofar é um interrogar, é um contínuo questionar a
si e a realidade. A filosofia não é algo feito, acabado. A filosofia é uma busca constante de sentido, de
justificação, de possibilidades, de interpretação a respeito de tudo aquilo que envolve o homem e sobre
o próprio homem em sua existência concreta (CERVO; BREVIAN, 1976).

Filosofar é interrogar. A interrogação parte da curiosidade. Esta é inata. Ela é constantemente


renovada, pois surge quando um fenômeno nos revela alguma coisa dum objeto e ao mesmo
tempo nos sugere o oculto, o mistério. Este impulsiona o homem a buscar o desvelamento do
mistério. Vê‑se, assim, que a interrogação somente nasce do mistério, que é o oculto enquanto
sugerido.

A filosofia procura compreender a realidade em seu contexto mais universal. Não há soluções
definitivas para grande número de questões. Habilita, porém, o homem a fazer uso de suas faculdades
para ver melhorar o sentido da vida concreta.

• Conhecimento religioso

Tem como principal característica a utilização de doutrinas que contêm proposições sagradas e
reveladas pelo sobrenatural, ou seja, pela inspiração. Portanto, não pode ser contestado.

Sua origem é a criação divina e suas evidências não podem ser verificadas. O conhecimento
teológico ou religioso depende de um ato de fé, por ser considerado “revelação” de uma divindade
sobrenatural.

— Conhecimento teológico

Cervo e Brevian mencionam conhecimento teológico. O conhecimento teológico ou teologia


dogmática é aquele conjunto de verdades a que os homens chegaram, não com o auxílio da inteligência,
mas mediante a aceitação dos dados da revelação divina, da fé. Vale‑se, de modo especial, do argumento
de autoridade. São os conhecimentos adquiridos nos livros sagrados e aceitos racionalmente pelos
homens, depois de ter passado pela crítica histórica mais exigente. O conteúdo da revelação, feita a crítica
dos fatos aí narrados e comprovados pelos sinais que a acompanham, reveste‑se de autenticidade e de
verdade. Passam tais verdades a ser consideradas como fidedignas e por isso são aceitas. Isso é baseado
na lei suprema da inteligência: aceitar a verdade venha de onde vier, contanto que seja legitimamente
adquirida.
15
Unidade I

• Conhecimento científico

É baseado em fatos (factual), lida com acontecimentos e é real. Sistematiza as observações em teorias,
criando hipóteses que podem ou não ser refutadas. Portanto, é falível, mas aproximadamente exato. Exige
verificação racional mediada pela observação e pela teorização das experiências e fatos. Forma um sistema
de ideias que possuem relações e conexões, organizando, assim, a experiência e a experimentação.

Hoje em dia, sabemos que todas essas formas de conhecimento, apesar de estarem metodologicamente
separadas, coexistem no ser humano e é a partir dessa interação entre valores, culturas, pontos de vista
e experiência que podemos refletir e observar a realidade, apreendendo‑a de formas diferentes.

Observação

O processo de apreensão do mundo se dá na relação entre teoria e


empiria, ou seja, entre a prática e a teoria.

Para Cervo e Brevian, o conhecimento científico vai além do empírico: por meio dele, além do
fenômeno, conhecem‑se suas causas e leis que o regem. É metódico.

Aristóteles diria que conhecemos uma coisa de maneira absoluta, quando sabemos qual é a causa
que a produz e o motivo porque não pode ser de outro modo; isso é saber por demonstração; por isso a
ciência se reduz à demonstração (apud CERVO; BREVIAN).

Daí as características do conhecimento científico:

• É certo, porque sabe explicar os motivos de sua certeza, o que não ocorre com o empírico.

• É geral, isto é, conhece no real o que há de mais universal, válido para todos os casos da mesma
espécie. A ciência, partindo do indivíduo, procura o que nele há de comum com os demais da
mesma espécie.

• É metódico, sistemático. O sábio não ignora que os seres e os fatos estão ligados entre si por
certas relações. O seu objetivo é encontrar e reproduzir este encadeamento. Alcançá‑lo por meio
do conhecimento das leis e princípios. Por isso, toda a ciência constitui um sistema.

Antes de voltarmos ao conceito de ciência, estabeleceremos a relação entre teoria e empiria.

Características da teoria

Restringe à amplitude dos fatos a serem estudados; define os aspectos da investigação e os fatos
a serem observados oferecem um sistema de conceitos, classificando e estruturando fatos; resume o
conhecimento; possibilita inter‑relações entre fatos e teorias já conhecidas e explica os fenômenos de
forma mais ampla.
16
Metodologia Científica

Podemos dizer então que entendemos, por teoria, o conhecimento sistemático, fundamentado
em observações empíricas e/ou postulados racionais, voltado para a formulação de leis e categorias
gerais que permitam a ordenação, a classificação minuciosa e também a transformação dos fatos e das
realidades da natureza (HOUAISS, 2009).

Concluímos que é nessa interação que se constitui o que chamamos de ciência.

Temos, assim, um processo de autoalimentação entre teoria e empiria, ou entre teoria e prática.
Teoria: Empiria:
Conceitos e conjuntos de Dados coletados,
ideias explicativas da área observações ou experiência
de conhecimento prática

Nova teoria:
Relação da teoria e empiria.
Autoalimentação do processo
pode fortificar ou gerar uma
nova teoria.

Figura 2 – Relação entre teoria e empiria

Com base nesses dados, concluímos que a ciência é o processo racional usado pelo homem para se
relacionar com a natureza e, assim, obter resultados que lhe sejam úteis. É o corpo de conhecimentos
sistematizados que adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas
categorias de fenômenos e fatos são formulados metódica e racionalmente.

Segundo Ferrari (apud Lakatos; Marconi, 2008), a ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades
racionais dirigidas ao sistemático conhecimento com objetivo limitado, capaz de ser submetido à
verificação.
Lógica
Formais
Matemática Física
Química
Naturais
Biologia e outros

Ciências Factuais Antropologia


Direito
Sociais Economia
Política
Psicologia S.
Sociologia

Figura 3 – Classificação e divisão da ciência

17
Unidade I

2 MÉTODO

2.1 O que é método?

Palavra de origem grega – metá (reflexão, raciocínio, verdade) + hódos (caminho, direção). Portanto:

Méthodes refere‑se ao caminho que permite chegar a um fim.

Para Lakatos e Marconi, “[...] método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais
que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e
verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do
cientista.”

Lembrete

Pesquisa é um procedimento racional, sistemático, que tem por objetivo


buscar respostas aos problemas que são propostos.

Método científico é um conjunto de etapas e processos a serem vencidos,


ordenadamente, na investigação dos fatos ou na procura de uma verdade.

Existem inúmeros métodos que podem ser usados para elaborar uma dissertação científica; cabe
ao aluno escolher aquele que se aproxima mais de seus interesses e objeto de estudo. Os principais
métodos são:

2.1.1 Método indutivo

Raciocínio que parte de dados particulares (fatos, experiências, enunciados empíricos) e por meio de
uma sequência de operações cognitivas, chega a leis ou conceitos mais gerais, indo dos efeitos à causa,
das consequências ao princípio, da experiência à teoria.

2.1.2 Método dedutivo

Inferência lógica de um raciocínio; conclusão, ilação. Processo de raciocínio por meio do qual é
possível, partindo de uma ou mais premissas aceitas como verdadeiras (por exemplo, A é igual a B e B é
igual a C) a obtenção de uma conclusão necessária e evidente (no exemplo anterior, A é igual a C).

Interessante notarmos que o método está intimamente ligado às ideias que o cientista tem sobre
o objeto ou o fenômeno que irá estudar, ou seja, o método ou a metodologia se baseia na “visão
de mundo” do cientista. Isso não significa que o cientista influencie diretamente no resultado da
pesquisa.

Realmente, não há ciência totalmente neutra ou isenta de ideologia.


18
Metodologia Científica

E o que é ideologia?

[...] sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes,


sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais
refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos
institucionais. Sejam eles morais, religiosos, políticos ou econômicos [...]
(HOUAISS, 2009, p. 1043).

2.2 O papel do cientista

O cientista não está isento, enquanto pessoa, de “preconceitos”. Mas ele busca, numa atitude racional,
abster‑se o máximo possível. Porém, podemos afirmar que por meio de um método racional pretende‑se
conhecer senão a verdade total dos fenômenos, suas particularidades dentro de determinadas condições.
Não afirmando verdades absolutas, a ciência pode, em uma constante autocorreção, buscar novos fatos
e relações para os fenômenos. E assim, continuamente, alimentar teorias.

2.3 O que é metodologia científica?

Refere‑se à forma como funciona o conhecimento científico.

Ao longo do tempo, essa forma de pensar e fazer a ciência se modificou. Veremos a seguir alguns
dos autores e as principais mudanças que ocorreram até os dias de hoje.

A metodologia científica tem sua origem no pensamento de Descartes, que foi posteriormente
desenvolvida empiricamente pelo físico inglês Isaac Newton.

Descartes propôs chegar à verdade mediante a dúvida sistemática e a decomposição do problema


em pequenas partes, características que definiram a base da pesquisa científica. O Círculo de Viena
acrescentou a esses princípios a necessidade de verificação e o método indutivo (positivismo lógico).

Lembrete

Método indutivo é aquele que parte de questões particulares até chegar


a conclusões generalizadas.

Karl Popper (1975) demonstrou que nem a verificação nem a indução serviam ao método científico,
pois o cientista devia trabalhar com o falseamento, ou seja, devia fazer uma hipótese e testá‑la,
procurando não provas de que ela estava certa, mas provas de que ela estava errada. Se a hipótese não
resistisse ao teste, dizia‑se que ela foi falseada. Popper provou também que a ciência é um conhecimento
provisório, que funciona por intermédio de sucessivos falseamentos.

Thomas Kuhn (2006) percebeu que os paradigmas eram elementos essenciais do método científico,
sendo os momentos de mudança de paradigmas chamados de revoluções científicas.
19
Unidade I

Mais recentemente, a metodologia científica tem sido abalada pela crítica ao pensamento cartesiano
e elaborada pelo filósofo francês Edgar Morin (1991). Ele propõe, no lugar da divisão do objeto de pesquisa
em partes, uma visão sistêmica, do todo. Esse novo paradigma é chamado de teoria da complexidade.

Saiba mais

Mais informações sobre metodologia científica podem ser encontradas em:

SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. São Paulo:


Cortez, 2005.

2.4 Histórico do método científico

As ciências, no estado em que se encontram atualmente, são o resultado de tentativas inicialmente


ocasionais e de pesquisas cada vez mais metódicas e científicas nas etapas posteriores.

A ciência é uma das poucas realidades que podem ser legadas às gerações seguintes.

2.5 O que é um paradigma?

Paradigma: do grego parádeigma = literalmente, modelo; é a representação de um padrão a ser


seguido.

É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria. Métodos e valores que são concebidos como
modelos ou mesmo uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.

Na filosofia grega, paradigma era considerado a fluência (fluxo) de um pensamento, pois, mediante
os vários pensamentos sobre o mesmo assunto é que se concluía a ideia, seja ela intelectual ou material.
Após a realização dessa ideia, surgiam outras ideias, até que se chegasse a uma conclusão final – seja da
intuição à representação sensível ou à representação intelectual.

Em linguística, Saussure define como paradigma (paradigmáticas) o conjunto de elementos similares


que se associam na memória, formando conjuntos relacionados ao significado (semântico).

2.6 Um pouco mais da história da ciência

A partir do Renascimento (século XIV e XVI), surge o conflito entre o teocentrismo e antropocentrismo,
gerado pela necessidade do homem de se tornar o centro do universo.

As novas descobertas exaltam a valorização do ser humano por meio da razão e da capacidade
de transformar a natureza mediante a técnica. Há uma “briga” entre a fé e a razão, que culmina no
Iluminismo.

20
Metodologia Científica

A palavra de ordem do teocentrismo e da época medieval era a Bíblia. Para entendermos melhor o que
aconteceu no Renascimento, é preciso lembrar o desenvolvimento de novas técnicas que acompanhavam
as descobertas científicas sobre os fenômenos naturais. Exemplos: os estudos matemáticos auxiliaram
na melhoria das técnicas de construção.

O avanço no conhecimento da astronomia possibilitou as viagens marítimas que levaram ao


“descobrimento” da América, no século XVI.

Cada estudo novo e conquista do homem reforçava a crença na racionalidade e na ciência.

A partir do Iluminismo (século XVII – XVIII) e da supervalorização de uma “verdade absoluta e


objetiva”, a bíblia do homem moderno passou a ser o jornal, ou seja, a capacidade crítica de analisar
as informações de maneira racional, baseada em fatos e acontecimentos. Portanto, o Renascimento e
o Iluminismo foram processos marcantes para a consolidação do processo e do paradigma científico
moderno, tendo como base do conhecimento o homem e a razão.

Durante o século XVIII – XIX surge a Era Industrial ou Industrialização.

Caracterizada por crescente aumento de informações e experimentações, a ciência e suas


técnicas auxiliaram o ser humano, cada vez mais, a dominar a natureza e transformar a sociedade,
em todos os âmbitos. Esse período foi marcante para o surgimento do chamado progresso científico.
A ciência não é, no entanto, isenta de influência das ideias que prevalecem em cada época. As
relações sociais, políticas, econômicas e culturais que prevalecem em cada período da história
provocam impacto na ciência.

A partir dessa retrospectiva histórica, analisaremos como a ciência se transformou desde a


Antiguidade até os dias atuais.

Ciência clássica

Pretende, por meio do raciocínio de causas e efeitos, garantir a sua validade para a explicação dos
fenômenos naturais e do homem. Busca se diferenciar das opiniões de senso comum, pois elas não
possuem explicações autossuficientes.

A partir desse primeiro conceito, diferentes concepções de ciência foram criadas conforme a “garantia
de validade” que lhe é reconhecida.

Ciência moderna

As transformações geradas após a Revolução Industrial abriram caminho para novas tecnologias. O
fluxo da informação passou a não depender exclusivamente do tempo e do espaço, nascendo, assim, a
percepção de que não existe uma única verdade e de que a ciência pode ser construída por intermédio
de diferentes pontos de vista e estruturas.

21
Unidade I

Hoje em dia, a ciência não tem a pretensão de ser absoluta. A teoria da complexidade, desenvolvida por
Edgar Morin, afirma que a ciência não precisa ser necessariamente construída de forma linear ou apenas por
meio da razão. O conhecimento atual é construído por redes, sejam elas sociais, culturais ou informativas.

É um sistema complexo e mutável, autorregulamentado pela empiria e teoria.

2.7 Movimentos metodológicos

Deteremo‑nos um pouco mais nos movimentos metodológicos e na história do conhecimento, com


o objetivo de explicar a teoria vigente nos dias atuais.

Ao longo do tempo, o papel da ciência se transformou, assim como a sua utilidade na sociedade.
A velocidade das informações cada vez maior e as novas descobertas tecnológicas influenciaram a
maneira de pensar e agir do ser humano como ser social e produtor de significação e sentido.

Observação

É importante conhecermos os movimentos metodológicos, para que


tenhamos ferramentas para situar nosso trabalho acadêmico no contexto
histórico.

Faremos uma retrospectiva, a partir das principais correntes científicas para entendermos o processo:

Racionalismo

Corrente filosófica que afirma ser o raciocínio (“razão pura”, sem influência dos sentidos empíricos)
uma operação mental, discursiva e lógica utilizada para uma ou mais proposições. Com ela, é possível
extrair conclusões se uma ou outra proposição é verdadeira, falsa ou provável. A razão seria, assim, a
maior (ou única) fonte de conhecimento.

Empirismo

Corrente filosófica que considera a experiência (uso dos sentidos) como critério ou norma da verdade.
Caracteriza‑se por:

• negar o absolutismo da verdade ou, pelo menos, da verdade acessível ao ser humano;

• reconhecer que toda verdade pode e deve ser posta à prova e, para tanto, ocasionalmente
modificada, corrigida ou abandonada.

Inicialmente, ressaltamos que a separação entre racionalismo e empirismo não é recomendada


nos dias atuais. Ambas as correntes – racionalista e empirista – devem dialogar para que haja um
conhecimento científico efetivo na atualidade.
22
Metodologia Científica

Há outros movimentos metodológicos relevantes para a discussão científica e é importante observar


a existência de elementos racionalistas e empiristas nos mesmos. São eles:

Positivismo e Neopositivismo

Criado por Auguste Comte (1798 – 1857), o Positivismo prega a “neutralidade nas ciências”. O cientista
não deve se deixar levar por pressupostos metafísicos ou teológicos. Ele deve utilizar operações de
“mensuração”, ou seja, medição, análise sistemática e experimentação para os estudos dos fenômenos.

Do final do século XIX até meados do século XX, surgiram novos estudos com base fundamentada
no positivismo.

Vários pesquisadores, entre eles o matemático Wittgenstein, combinaram as ideias empiristas com a
lógica moderna. Para os neopositivistas, a verificabilidade seria o critério de significação de um enunciado.
Ou seja, a validade de proposição científica só era atribuída após sua verificação empírica. Assim, o uso da
lógica e da matemática alicerçava o conhecimento do real e separava o que é científico do não científico.

Pragmatismo

Fundado pelo filósofo, matemático e cientista Charles Sanders Peirce (1839 –1914), o Pragmatismo
recebeu contribuições de uma série de pesquisadores. Sua origem filosófica teve ramificações em outras
áreas de conhecimento, como na política, na educação e na literatura. Também como método científico o
Pragmatismo compreende que “[...] a clareza de nossas ideias implica concebermos seus efeitos práticos”.
Sua estrutura metodológica se divide em:

• Identificação de um problema – problematização.


• Criação de uma hipótese explanatória – possível solução – para ser testada.
• Aferição: testar sua explicação hipotética de “maneira cuidadosa e repetidamente” (observar e
anotar os resultados buscando os erros). As hipóteses erradas são eliminadas do conjunto das
explicações; aquelas que sobreviverem, serão consideradas “para investigações futuras”.

Marxismo e dialética

Aqui se utiliza o marxismo como método científico, sem considerar as discussões em torno do seu
programa social. O filósofo e economista alemão Karl Marx (1818 –1884) desenvolveu seu método de
análise da realidade por intermédio do viés da dialética – tese/antítese/síntese. Esse processo consiste em
fazer uma proposição afirmativa (tese), em seguida a confrontação dela com o seu contrário (antítese)
e, finalmente, com o embate entre afirmação e negação, chegar a uma síntese. Esse movimento se daria
continuamente.

A análise marxista é muito importante, por considerar os aspectos econômicos, jurídico‑políticos e


ideológicos presentes no processo de “construção do conhecimento científico” nas ciências humanas.
Para as ciências empíricas, tem‑se o estudo da verdade científica em sua exterioridade, ou seja, não apenas
23
Unidade I

por meio do desenvolvimento interno das ciências, métodos e lógicas, mas levando em consideração os
efeitos socioeconômicos que influenciam todas as esferas da sociedade.

Assim, podemos identificar em Marx uma distinção entre duas esferas:

• Infraestrutura: economia, organização da vida produtiva e do trabalho.


• Superestrutura: elementos ideológicos e culturais influenciados pela base econômica: religião,
arte, ciência, educação, meios de comunicação etc.

Tal distinção metodológica e a consideração das influências socioeconômicas recebeu o nome de


Materialismo Histórico. A mudança histórica é percebida em uma relação de contradição (via dialética)
da luta entre as classes sociais, divididas entre os detentores dos meios de produção e aqueles que
vendem sua força de trabalho.

Estruturalismo

Desenvolveu‑se na França, entre as décadas de 1950 e 1960. Envolveu os campos da psicanálise,


psicologia, filosofia, antropologia, linguística, ciências sociais, crítica literária, semiótica, matemática,
lógica, física e biologia.

Destacam‑se: Claude Lévi‑Strauss (antropólogo); Michel Foucault (filósofo); Jacques Lacan


(psicólogo), entre outros, os quais defendem que a realidade é composta de estruturas. Assim, podem‑se
encontrar estruturas em todos os campos, desde o corpo humano até nas línguas. O método para as
ciências humanas e sociais se baseia na identificação de tais estruturas e explicação da composição e
organização de suas partes para formar uma totalidade conclusiva. A estrutura não é percebida como
algo estático, mas como uma totalidade que se transforma e se autorregula.

Discussões contemporâneas

Thomas Kuhn escreveu A estrutura das revoluções científicas. Nela, desenvolveu os conceitos de
paradigma e de ciência normal. Por paradigma, Kuhn entende “[...] um mapa ou roteiro de uma ciência,
fornecendo critérios para a escolha de seus problemas e das propostas para as soluções desses problemas”
(KUHN, 2006). Seria, de maneira simplificada, um parâmetro geral, base para o desenvolvimento de teorias.

Paradigma, em latim, significava “fazer‑se aparecer” ou “representar‑se de maneira exemplar”. Na


filosofia grega, paradigma era considerado a fluência de um pensamento, pois mediante os vários
pensamentos sobre o mesmo assunto é que se concluía a ideia – fosse ela intelectual ou material. Após
realizada uma ideia, surgiam outras, até chegar a uma conclusão final; pensar sobre a ideia inicial e o
que de fato ocorre, abrangendo todos os diversos fluxos de pensamento.

Paradigma é a representação do padrão de modelos a serem seguidos. É um pressuposto


filosófico‑matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico;
uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência
inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.
24
Metodologia Científica

A ciência clássica procuraria solucionar os problemas científicos com os pressupostos conceituais,


metodológicos e instrumentais que são compartilhados pela comunidade científica e que constituem o
paradigma. Ela amplia e aprofunda o “aparato conceitual” do paradigma, sem alterá‑lo.

Quando, entretanto, o progresso e o desenvolvimento do conhecimento requerem explicações que


o paradigma vigente não pode fornecer, a ciência passa por uma crise, que pode dar origem a uma
revolução científica. Assim, para Kuhn, os enunciados científicos são provisórios, e a ciência não opera
com verdades irrefutáveis.

Exemplos:

O sistema astronômico de Cláudio Ptolomeu (100 – 170 d.C.) – imobilidade da Terra e posição no
centro do Universo – dominou o pensamento científico até o século XVI. No entanto, foi substituído por
outro sistema, o de Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que demonstrou ser o Sol o centro do universo,
com a Terra realizando o movimento de rotação em torno dele.

Saiba mais

Mais informações podem ser encontradas em vários sites de internet


sobre a história da ciência. Disponíveis em:

<http://educacao.uol.com.br/ciencias/ult1686u48.jhtm>. Acesso em:


20 ago. 2011.

<http://www.recantodasletras.com.br/artigos/296112>. Acesso em: 20


ago. 2011.

Teoria da complexidade

[...] é evidente que o conhecimento científico determinou progressos


técnicos inéditos, tais como a domesticação da energia nuclear e os
princípios da engenharia genética. A ciência é, portanto, elucidativa
(resolve enigmas, dissipa mistérios), enriquecedora (permite satisfazer
necessidades sociais e, assim, desabrochar a civilização); é de fato, e
justamente, conquistadora, triunfante. E, no entanto, [...] apresentamos,
cada vez mais, problemas graves que se referem ao conhecimento que
a produz, a ação que determina e a sociedade que transforma. [...]
Para conceber e compreender esse problema há que acabar com a tola
alternativa da ciência “boa”, que só traz benefícios, ou da ciência “má”,
que só traz prejuízos. Pelo contrário, há que, desde partida, dispor de
pensamento capaz de compreender a ambivalência, isto é, a complexidade
intrínseca que se encontra no cerne da ciência (MORIN, 2001).

25
Unidade I

Morin determinou que o estudo da ciência não pode ser destinado apenas ao estudo da lógica e da
técnica determinada pela produção; defendeu também a análise do ponto de vista qualitativo e não
apenas quantitativo, e a vulnerabilidade da própria ciência moderna, tentando não defini‑la com valores
maniqueístas (certo e errado) e sim a partir de redes complexas que dão significados à vida social e à
própria tecnologia. Quando o autor fala em complexidade, ele se refere à interdisciplinaridade existente
no processo científico. Ou seja, nos dias atuais, é muito difícil estudar separadamente cada área do
conhecimento, principalmente dentro das ciências humanas, pois estas são constituídas não só por
todo o aparato tecnológico, econômico e político mas também pelo imaginário cultural existente em
cada região. A significação acontece nas relações e interações existentes na sociedade, portanto, não
são estáticas.

São complexas, constituídas por inúmeros tecidos associados que não seguem um padrão evolutivo
formal e positivista, como pensamos séculos atrás.

O texto de Morin, transcrito a seguir, versa sobre a complexidade:

À primeira vista, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em


conjunto de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca
o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade
é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações,
determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal.
Mas então a complexidade apresenta‑se com os traços inquietantes da
confusão, do inextricável, da desordem, da ambiguidade, da incerteza[...]
Daí a necessidade, para o conhecimento, de pôr ordem nos fenômenos ao
rejeitar a desordem, de afastar o incerto, isto é, de selecionar os elementos
de ordem e de certeza, de retirar a ambiguidade, de clarificar, de distinguir,
de hierarquizar [...] Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm
o risco de se tornar cega se eliminarem os outros caracteres do complexus; e
efetivamente, como o indiquei, elas tornam‑nos cegos (MORIN, 2001, p. 20).

Ele observa que não é possível retirar o problema ou a pesquisa do meio em que ela está inserida e
tratá‑la como uma parte isolada do mundo; apesar de haver a necessidade de “recortar” e definir pontos
de vista, não é possível saber o significado de alguma coisa deixando de lado suas relações com outras
categorias e fenômenos.

Atualmente, o ser humano não está mais tão “encantado” com o progresso, pois descobriu que esses
avanços trazem inúmeros problemas ecológicos e sociais. Morin ressalta a importância da consciência,
ou seja, a necessidade de avaliar as consequências e transformações trazidas pela modernidade de
forma ética e sustentável, buscando não somente a categorização do progresso mas também a sua
estrutura e prática.

O mesmo objeto deve ser observado por ângulos diferentes, evitando que uma nova descoberta
traga consigo mais problemas em relação ao ambiente e à sociedade, pois seria um “falso progresso”. O
avanço só é válido quando é percebido por meio dos diversos pontos de vista existentes dentro do tecido
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Metodologia Científica

complexo em que se encontra o ser humano, seja na sua parte física e natural ou na sua produção ou
na criação do imaginário humano, que é constituído também por seres vivos. Mesmo que as ideias, por
exemplo, não sejam palpáveis, esses seres são reais.

Resumo

Ao final dessa unidade, o aluno deve ser capaz de compreender os


principais conceitos de metodologia científica, bem como entender o
que é ciência, quais são os tipos de conhecimento, o que é metodologia e
exemplificar diferentes métodos (indutivo, hipotético etc.).

Foi estudado também, um panorama histórico sobre linhas de


pensamento que induzem a pesquisa, conceitos de paradigmas e finalmente
a teoria da complexidade é apresentada.

Exercícios

Questão 1: Francis Bacon, também referido como Bacon de Verulâmio (Londres, 22 de janeiro
de 1561 – Londres, 9 de abril, de 1626) foi um político, filósofo e ensaísta inglês, barão de Verulam (ou
Verulamo ou ainda Verulâmio), visconde de Saint Alban. É considerado como o fundador da ciência
moderna. Em suas investigações, ocupou‑se especialmente da metodologia científica.

Atualmente, graças a esses estudos anteriores, podemos inferir que conhecimento científico:

I – É um produto resultante da investigação científica.

II – Surge da necessidade de se encontrar soluções para os problemas de ordem prática da vida.

III – Surge da necessidade de se oferecer explicações sistemáticas que possam ser testadas e criticadas
através de provas empíricas.

IV – Surge da necessidade de uma discussão intersubjetiva.

Assinale a alternativa correta:

A)As afirmativas I e II estão corretas.

B)As afirmativas I, II e III estão corretas.

C)As afirmativas I, II e IV estão corretas.

D)As afirmativas II, III e IV estão corretas.


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Unidade I

E)Todas as afirmativas estão corretas.

Resposta correta: alternativa E

Análise das alternativas:

A) Alternativa incorreta.

Justificativa: o conhecimento científico, além de ser um produto resultante da investigação


científica e surgir da necessidade de se encontrar soluções para os problemas de ordem prática, também
surge da necessidade de se oferecer explicações sistemáticas que possam ser testadas e criticadas por
meio de provas empíricas. Além disso, surge da necessidade de uma discussão intersubjetiva, ou seja,
o conhecimento científico também é resultado da subjetividade de cientistas e pensadores que, ao
exporem seus resultados, disponibilizam suas ideias ao debate.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não contempla o fato do conhecimento científico também ser resultado
da intersubjetividade dos cientistas.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não contempla um aspecto importante do conhecimento científico: a


possibilidade de oferecer explicações sistemáticas sobre os fenômenos, proporcionando inclusive a
possibilidade de essas explicações serem testadas por meio de provas empíricas.

D) Alternativa incorreta.

Justificativa: a alternativa não contempla o fato de o conhecimento científico ser resultante da


investigação científica.

E) Alternativa correta.

Justificativa: todas as quatro afirmações descrevem as características do conhecimento científico.

Questão 2: A charge de Maurício de Souza retrata um conceito do filósofo Francis Bacon, discutido
por Marilena Chauí em seu texto O ideal científico e a razão instrumental:

28
Metodologia Científica

Figura 4

O conceito seria o de:

A)“Natureza atormentada”, proposto por Bacon, no século XVII, que denota o tormento sofrido pela
natureza, fazendo‑a reagir a condições artificiais, criadas pelo homem em nome do desenvolvimento.

B)“Ideologia cientificista”, proposto por Bacon, no século XVII, que denota o tormento sofrido pela
natureza fazendo‑a reagir a condições artificiais, criadas pelo homem em nome do desenvolvimento.

C)“Confusão entre ciência e técnica”, proposto por Bacon, no século XVII, que denota o tormento
sofrido pela natureza, fazendo‑a reagir a condições artificiais, criadas pelo homem em nome do
desenvolvimento.

D)“Corporificação de conhecimentos científicos”, proposto por Bacon, no século XVII, que denota o
tormento sofrido pela natureza fazendo‑a reagir a condições artificiais, criadas pelo homem em nome
do desenvolvimento.

E)“Ideologia do progresso”, proposto por Bacon, no século XVII, que denota o tormento sofrido pela
natureza fazendo‑a reagir a condições artificiais, criadas pelo homem em nome do desenvolvimento.

Resolução desta questão na Plataforma.

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