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para a presente edição


Copyright© 2003 by Giunti Editore S.p.A., Florence - Milan UBALDO NICOLA
Organização: Esníder Pizzo
Tradução: Maria Margherita De Luca
Edição e revisão de texto: Sebastião Aguiar

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada
ou reproduzida - por qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico,
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Nicola, Uba!do
Parece mas não é : 60 experiências filosóficas
para aprender a duvidar I Ubaldo Nicola ;
PRRECE MRS NRO E
{tradtição Maria Margherita De Luca), -- São Paulo :
Globo. 2007. 60 experiências filosóficas
Título original: Sembra ma non ê : 60
esperienze filosofichc per imparara a dubltare para aprender a duvidar
ISBN 978-85-250-4331-3

L Crença e dúvida 2. Filosofia 3. Solução de


problemas I. Título.

07·3969 CDD-121.63

Índices para catálogo sistemático:


!. Dúvidas e soluções: Filosofia 12L63
Introdução
INTRODUÇÃO

• d

Wittgenstein disse uma vez que se


poderia escrever um bom e sério
texto de filosofia composto inteira-
mente por jogos (para valer!).
Nonnan Malcolm

Mas este é um livro de filosofia?

fü É sim, caro leitor, se bem que - admito - um estranho livro de filosofia. Os ternas não obedecem
a qualquer cronologia, nenhum nome de filósofo é citado e também não se usam palavras difíceis.
Fala-se de coisas muito pouco filosóficas, ou mesmo fúteis, segundo o entendimento comum, dos
buracos do queijo ao modo corno alguém cruza os dedos. Quem estiver buscando "verdades'', ou seja,
soluções, teorias ou sistemas de pensamento, ficará desapontado. Falta até, embora só aparentemente,
um desenrolar coerente: os ternas parecem mudar a cada página, pulando, corno se diz, de pato para
ganso. Tudo sornado, é bem provável que algum filósofo acadêmico considere este livro inconvenien-
te ou pueril.

[;J. De fato, este livro não se destina a filósofos acadêmicos, mas a ingênuos, ou seja, a todo ser humano,
de qualquer idade, sem estudos especializados, já que não se pode viver sem filosofar, isto é, buscar
respostas para certos problemas. Palavras corno eu, você, os outros, realidade, percepção, inteligên-
cia, mente, espírito, corpo etc. - seja como for - devem adquirir um significado, caso se queira
viver. Por isso todos somos filósofos, ainda que esse fato não invalide a diferença que há entre urna
suposição ingênua e uma convicção meditada.

L! A didática escolar tradicional nos mostra que raramente as convicções filosóficas ingênuas são, não
digo modificadas, mas sequer estudadas nos cursos tradicionais de história da filosofia. Esta verdade
pode ser comprovada: as respostas a perguntas do tipo "Você acha que a percepção visual oferece
uma imagem objetiva da realidade, como um espelho ou máquina fotográfica?" quase nunca sofrem
modificações profundas desde os testes de admissão aos exames de conclusão dos cursos. Parece que
raramente se estabelece uma ligação entre as doutrinas filosóficas que os alunos vão assimilando, a
vida e as convicções pessoais.

i:D Com certeza, as causas desse distanciamento não se devem à má qualidade dos professores. O pro-
blema é que as convicções espontâneas não são menos profundas só por serem ingênuas. Ao contrá-
rio: são bem articuladas no plano lógico e compõem verdadeiros modelos complexos, que reprodu-
zem certas passagens da tradição filosófica. Porém, se certamente não são verdadeiras, se mostram
muito verossímeis no plano psicológico, capazes de fornecer urna grande quantidade de provas de
sustentação. Essas convicções estão ligadas principalmente à vida e integram a visão de mundo das
pessoas. Demoli-las significa, portanto, colocá-las em discussão e submeter as bases da própria per-
sonalidade a urna revisão crítica, o que é algo obviamente difícil para qualquer um, independente-
mente do bom senso das opiniões falsificadas.

5
i'

INTRODUÇÃO INT!<-ODUÇÃO

f~ Nunca é fácil mudar de opinião: é algo que se faz aos poucos. Não basta que alguém simplesmente !:'.::.: Daí resulta um livro de muitas maneiras interativo, inclusive do ponto de vista das diversas possibi-
se exponha a uma teoria mais avançada para assumi-la como sua; é preciso chegar a ela, consideran- lidades de leitura. Que o leitor decida se quer lê-lo do modo tradicional, da primeira página até a
do-a como a conclusão de um percurso pessoal seu. Este, já dizia Aristóteles, é o princípio basilar de última, acompanhando a seqüência de ternas que estruturam os seis capítulos, ou então explorá-lo.
toda arte retórica: para que uma argumentação (não apenas filosófica) seja v~rdadeiramente convin- De fato, cada ficha dispensa a leitura das anteriores e pode ser o ponto de partida para um percurso
cente, ela deve partir não da convicção do orador, mas da do interlocutor. Ou melhor, antes ainda, personalizado de leitura. Meu conselho é que se folheie o livro, deixando-se levar livremente pela
deve ajudar o interlocutor a explicitar as próprias convicções, expressar e tornar consciente aquilo curiosidade em relação a alguma imagem ou questão, e começar daí.
que até então era dado como óbvio. É isso que este livro tenta fazer no início de cada capítulo: um
·diálogo imaginário entre Sócrates e Joãozinho. Li:~ Em resumo, este livro não vê o leitor como um vaso vazio a ser preenchido por alguma doutrina, mas
como um recipiente já cheio de idéias filosóficas, passíveis de serem melhoradas. O foco não está na
lli1 Este livro não oferece soluções, limita-se a indicar a existência de problemas. O que não é pouco: no verdade, mas na opinião comum, na crença, no erro. A abordagem é sistematicamente demolidora,
campo filosófico, aliás, é quase tudo. De fato, a conseqüência das convicções ingênuas não está tanto escassamente construtiva e propositiva. As perguntas são muitas, mas pouquíssimas as respostas.
em oferecer soluções erradas mas em negar a própria existência dos problemas. O que é a realidade? Cabe ao leitor a responsabilidade de dar suas respostas, seja mantendo as convicções anteriores, seja
É o conjunto das coisas! Mas o que é uma coisa? É aquilo que eu vejo quando olho! E como se con- iniciando um percurso de reflexão. Guardadas as devidas proporções com o grande filósofo, o autor
segue identificá-la? Lembrando-me de tê-la visto outras vezes! Mas o que é a memória? É o arquivo gostaria que este fosse um livro sem dúvida socrático.
da mente, com muitas belas fotografias, mais ou menos desbotadas, das coisas que já vi no passado.
O efeito tranqüilizador dessas construções mentais ilógicas é evidente: o problema, simplesmente,
não existe. Eu me daria por satisfeito se ao final da leitura o comentário do leitor fosse um descon-
solado 11 mas aqui reina uma grande confusão! 11 Nesse caso, na verdade tudo estaria excelente: a
filosofia, aquela séria, difícil e tradicional, poderia então se apresentar, finalmente percebida por
ouvidos predispostos à dúvida.

['fJ As convicções ingênuas são muitas vezes ilógicas, embora esse pequeno defeito não seja suficiente
para mudá-las. Quem examinar todos os ângulos da realidade descrita acima (a realidade é o conjunto
das coisas e estas são parte da realidade), pouco ligará para a inconcludência ou mesmo irracionalida-
de de seu pensamento. Convivemos todos com absurdos bem mais perturbadores. E, na verdade, só
um racionalista dogmático (um tipo de filósofo há muito extinto) poderia cultivar a esperança de que
as pessoas mudem de idéia apenas por reconhecerem sua ilogicidade. Os dois últimos capítulos
demonstram que muitas vezes não usamos a lógica nem mesmo para resolver problemas lógicos (e esta
talvez seja a única verdade que este livro pretende defender).

tzl Justamente por nascerem da experiência e servirem para justificá-la, as convicções ingênuas não
podem ser desmentidas por argumentos teóricos, mas apenas por outras experiências. Por isso as
fichas que compõem cada capítulo apresentam uma série de exercícios práticos: só o choque provo-
cado pela constatação dos próprios erros consegue ser, se não convincente, ao menos envolvente. A
natureza dessas experiências é bastante peculiar: vai da observação de ilusões óticas a considerações
sobre alguns filmes de grande sucesso, da análise de ditos espirituosos ao comentário de artigos de
jornais, das clássicas questões de quebra-cabeças à reflexão sobre experimentos de psicologia.

~l Sem dúvida, a relação entre prática e filosofia não é nada fácil, principalmente nessa perspectiva
invertida na qual a realidade não comparece a título de exemplo ou de confirmação de urna teoria Nota para o leitor:
preestabelecida, mas serve de ponto de partida para a problematização do mundo. O fato é que cada As experiências apresentam uma série de exercícios práticos, problemas lógicos, testes e questões de
experiência contém em potencial uma infinidade de reflexões filosóficas, visto que a complexidade natureza diversa. Tente resolver as questões com cuidado, mas não as considere importantes em si, pois
do real pode suscitar abordagens e considerações muito diferentes umas das outras. Por isso o texto servem apenas como motivo para uma reflexão filosófica. Por outro lado, você com razão ficará curio-
que comenta cada ficha deve ser considerado apenas um começo, a indicação de algumas idéias so em conhecer as soluções corretas. Os problemas identificados simplesmente pelo título em azul são
problemáticas entre tantas, que caberá ao leitor escolher e aprofündar, contando ainda com a ajuda da comentados e resolvidos na página ao lado; quando, antes do título, houver um S é porque a resposta
referência bibliográfica que há na conclusão de cada ficha. correspondente estará no final do livro, nas Soluções.

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• ÍNDICE

ÍNDICE LINEAR Coisas e realidade


ÍNDICE


As idéias ingênuas
28. O que é uma coisa? · O conceito como definição
Introdução 29. O protótipo de Trund Conceito como protótipo
30. A galinha? É uma ave pouco típica Protótipos e tipicidade
Percepção 31. O contexto muda o conteúdo Informação e diferença
32. É o contraste que faz as coisas Figura e fundo
As idéias ingênuas
33. A arte de esconder Ruído e mensagem
1. Feche os olhos e veja estrelas A realidade do escuro 34. O homem é semelhante a uma ave A idéia de semelhança
2. Não vejo que não vejo! Fisiologia e percepção 35. Somos do mesmo signo! A idéia de causa
3. O olho explorador Movimentos oculares e percepção 36. Como Deus, você dá ordem ao caos A idéia de acaso
4. O olho somos nós De onde se vê? A hipótese do Homúnculo 37. Passado, presente, futuro A idéia de tempo
5. O que nos diz o queijo Emmenthal O todo, as partes, os buracos 38. O triângulo fantasma A idéia de realidade
6. Como se formam as formas Leis da percepção 39. Em que mundo vive um morcego? Realidade e sistemas perceptivos
7. O rosto é uma ótima forma Reconhecimento de rostos 40. O ponto de vista Objetivo, subjetivo, universal
8. O verde é uma vaca gorda Sinestesias Reflexões
9. E se fossem instlumentos científicos? Ilusões de óptica
Reflexões
lógica e ilusões cognitivas
As idéias ingénuas

Memória 41. De cima para baixo Dedução


42. De baixo para cima Indução
As idéias ingênuas
43. Corvos pretos e rãs vermelhas Indução perfeita
10. Os óvnis sempre chegam à meia-noite Memória e testemunhos oculares 44. Se minha avó tivesse rodas, então ... Implicação
11. O mito da memória fotográfica A memória eidética 45. Ah! Estão aqui! Ilusões cognitivas
12. A memória é um diretor de cinema A memória construtiva 46. A "dobradinha" de Bari: 17-56 A ilusão do jogador
13. Memória, história e histórias Reprodução mnemônica 47. O problema do táxi azul A indiferença da amostragem
14. Na ponta da língua O princípio de associação 48. Verificar ou falsificar Falsificação e tendência à confirmação
15. Por que as piadas fazem rir? Memória e esquemas mentais 49. Nunca chove, sempre está caindo um dilúvio... A ilusão das probabilidades de base
16. As idéias? São hábitos do espírito Memória e pré-compreensão 50. Quem é Linda? A ilusão de tipicidade
Reflexões 51. A experiência engana Mundo físico e modelos de movimentos
Reflexões

Mente e corpo l11teligê11cia


As idéias ingênuas As idéias ingênuas
17. Quem, eu? Identidade pessoal 52. Você tem uma inteligência espacial? Inteligência ou forma mentis?
18. É possível influenciar os sonhos? Sonho e vigília 53. A Lua? É refeita todos os meses II.usões e idade evolutiva
19. Ver fantasmas Alucinações 54. Os erros dos especialistas A universalidade das ilusões cognitivas
20. O cérebro numa cuba O problema do cérebro sem corpo 55. Como contestar a mãe usando a lógica Bom senso e lógica
21. Patologias e criatividade Saúde e doença 56. Aprender a aprender A arte da transferência de esquemas
22. Uma bela dor de cabeça A condição psicofísica 57. Escolher a estratégia Estratégias visuais ou matemáticas
23. Imagine um quilógono Os limites da imaginação 58. A razão errada Paradoxo
24. O que uma mancha pode dizer a seu respeito? A projeção 59. Onde nascem as idéias certas? A intuição criativa
25. Identificar-se com um quadrado A empatia 60. A estratégia divergente Criatividade
26. Por que os apaixonados se olham nos olhos Emoções e biologia Reflexões
27. Um gesto também pode ser abstrato Comunicação não verbal
Reflexões
SOll.JÇÕIES
8 9
m COISAS E REALIDADE
•"===·~~~-~-====-=··~·····=····=-===~··=···-=-~=·======
COISAS E REALIDADE

28. O que é uma coisa? O conceito como definição


Você diz que o mundo é feito de coisas e que cada
Cadeiras, cadeiras, cadeiras uma tem o seu nome específico, mas vamos tomar
uma delas como exemplo: uma cadeira. O que é
uma cadeira? Parece simples, mas como poderíamos
explicar o significado dessa palavra a um alienígena
de passagem por aqui?
A definição do dicionário é ao mesmo tempo
muito vasta e muito específica. Diz que uma
cadeira pertence à classe dos móveis, mas isso só
faz transferir o problema para um nível conceituai
mais elevado, sem resolvê-lo. É duvidoso que
um alienígena, sem nunca na vida ter visto uma
cadeira, conheça o significado de móvel (segundo
o mesmo dicionário Garzanti : "objeto de decora-
ção comumente grande, que, mesmo podendo ser
deslocado, geralmente tem uma disposição estável
numa casa"). Seguindo esse caminho, para enten-
der o que é "cadeira" o marciano teria que dominar
o vocabulário humano quase que integralmente.
E nem mesmo a segunda parte da definição, mais
descritiva, parece funcionar: basta observar os 215
modelos de cadeiras na página ao lado (e faltam específicos, como, por exe1nplo, o matemático,
todos os modelos de uma interessante variação do lógico, geométrico: conceitos como triângulo ou
objeto, e que presumo despertaria o interesse do ângulo reto são cabalmente definíveis, mas é evi-
alienígena: a cadeira elétrica). Não é absolutamente dente que se tomássemos em consideração algo
verdade que urna cadeira, para ser isso, deva ter um um pouco mais complicado do que uma cadeira
plano horizontal, ou um espaldar, ou quatro pernas. (por exemplo, as noções de amor, amizade e jus-
Restringindo-se desse modo a definição, o aliení· tiça), os problemas que surgiriam para encontrar
gena descartaria muitos casos válidos e, por outro uma definição para elas seriam intransponíveis.
lado, suprimindo-se por completo a tentativa de E, no entanto, usamos essas palavras com sucesso
definição descritiva, restaria somente o móvel sobre na vida cotidiana: somos perfeitamente capazes de
o qual se senta, o que legitimaria, portanto, que o reconhecer a amizade e a justiça, mesmo sem saber
extraterrestre se sentasse também nas mesas. a sua definição explícita, exaustiva e conclusiva,
A conclusão desse raciocínio não é a de que rrtas somos incapazes de especificar suas caracte-
o dicionário esteja errado. Mas que definições rísticas ao mesmo tempo necessárias e suficientes.
precisas são possíveis somente em campos muito A essência da coisa parece sempre escapar.

Definição de !lefi11ição
Imagem extraída do livro de Bruno Munari A arte como of(cío, Bari, Laterza, 1997 Definição. A Identificação entre dois objetos ou conceitos tem o objetivo de caracterizar o primeiro nos
termos do segundo. [ ... ] O objetivo da definição é o de reduzir ao mínimo o recurso à intuição na com-
Que definição do termo cadeira deveria ser inserida no programa de um robô, de modo a permitir preensão das palavras, explicando seu significado por meio de outros termos cujo entendimento esteja
previamente garantido. Como esse processo de explicação de significados tem seus limites, cada passo
à sua inteligência artificial reconhecer os objetos desta página?
da definição deve pressupor a existência de termos não-categóricos cuja facilidade de compreensão é
Você poderia usar a seguinte definição de cadeira do Dicionário Garzanti: Móvel sobre o qual se
presumida por princípio.
senta, constituído por um plano horizontal af;o.iado sobre quatro pernas e por um espaldar? Enciclopédia Garzanti da Filosofia, Milão, 1981

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__,______ COISAS E REALIDADE
-----
""""'======================================

29. O protótipo de Trund


COISAS E REALIDADE

Conceito como protótipo
s q>
D <F
Vimos na ficha anterior como é difícil for-
CUIDADO CUIDADO
Tnmd e não-Tnmd

.W ~""
mular definições de conceitos (não-mate-
Cinco Trund Trund e não-Tnmd e &,,. máticos), ou seja, como é difícil explicar
de modo unívoco e cabal o significado de
~COMO

~ ·Mb COq
uma palavra. E, no entanto, sabemos usar as
palavras, entender o seu significado e comu-
nicá-lo (mas não a um alienígena).

~
Então, como se formam os conceitos?
Uma explicação alternativa propõe que o
significado das palavras possa ser explicado
oferecendo-se um modelo significativo, um
Esta experiência simples ilustra como se formam os conceitos. Suponha que você esteja num planeta protótipo ou exemplo melhor, que contenha
desconhecido e que, portanto, ignora o idioma falado lá. O único modo de os extraterrestres explica- as características mais comuns da classe em
rem o que entendem por Trund é mostrando alguns exemplos. Você entendeu o que é um Trund? questão. O conceito de cadeira, por exemplo,
poderia ser resolvido mostrando-se a ima-
gem que está nesta página, uma tentativa de
s representar a imagem mental nzédia comum
Categorias de conceitos desse objeto. Se, para se decidir se algo é uma
cadeira, basta que se verifique sua semelhança bilidade, pois evita a produção de uma definição

TT T
com o protótipo, até um alienígena deveria enten- rígida segundo a qual uma coisa é ou não é, valen-
der, sem contar que o método pode ser melhorado do-se de critérios de semelhança e tipicidade.
mostrando-se contra-exemplos, isto é, objetos que, Apresenta, porém, duas desvantagens. A priineíra
embora semelhantes àquele que queremos indicar, diz respeito aos erros relacionados ao uso do
no entanto não o são. E, separando-se progressiva- critério de tipicidade, a ser discutida na próxima
PARAFUSO PREGO COLA MARTELO CORDA GARFO
mente aquilo que uma coisa é daquilo com que sim- ficha. A segunda leva à conclusão de que a mente
O método de mostrar exemplos positivos e negativos de um conceito (aquilo que é e aquilo que.
plesmente se parece, seria possível explicitar todas humana deveria conter imagens prototípicas (ou
mesmo sendo semelhante, não é) nem sempre funciona facilmente. Cinco destes seis objetos podem
as nuances de significado das palavras. Poderíamos, canônicas) não somente de cada uma das classes
integrar uma mesma classe (ou categoria conceituai). Qual deles deve ser excluído?
por exemplo, esclarecer a diferença entre cadeira e de objetos que constituem o mundo mas também
mobília em geral, ordenando os conceitos em ver- de todas as suas possíveis e infinitas combinações:
dadeiras categorias capazes de exprimir significados não apenas um gato típico, mas também um gato
cada vez mais abstratos. persa ou listrado ou siamês etc, bem como um
O protótipo de mãe (e a mãe verdadeira) Esse método apresenta a vantagem da flexi- gato malvado, um gato de botas, etc.
Dois retratos da mãe feitos por uma menina de 7
anos, a pedido daquela. A menina traçou inicialmente
a representação esquemática de um rosto feminino, Imagens mentais e histórias em quadrinhos
desprovido de qualquer característica que lembrasse Imagens como as das caricaturas e das histórias em'quadrinhos
sua mãe. Depois, quando esta lhe pediu que a dese- conseguem captar, com poucos traços, sem ambigüidades e com
nhasse como a via, a menina fez um retrato detalha- eficácia expressiva, a essência do indivíduo representado. Esse
do. [... ]As crianças começam muito cedo a construir tipo de imagem se parece com a que se forma na nossa mente e
categorias, às vezes diferentemente de como gosta- que a nossa memória conserva como representação dos objetos
riarn os educadores, posto que, ao se referirem a un1 que nos são usuais. A forma canônica de um objeto é aquela que
cachorro, a um gato e a uma vaca, chamando-os 11 au- corresponde ao modo como nós o codificamos com o olho da
au11, nós os corrigimos. [... ]Essa tendência esquemá- mente, isto é, por uma elaboração cognitiva. [ ... ] O desenho em
quadrinhos é o tipo de representação que melhor interpreta a
tica predomina nos desenhos infantis.
forma canônica dos objetos conhecidos por todos nós.
I. Eibl-Eibesfeldt: Etologia humana, Bollati Boringhieri, Torino, 1993 A. Argenton: Arte e cognição, Cortina Editore, Milão, 1996

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COISAS E REALIDADE

30. A galinha? IÉ uma ave pouco típica Protótipos e tipicidade


COISAS E REALIDADE

O que é uma coisa como a amizade, por
exemplo?
O protótipo de namorada Três exemplos de amizade Poderíamos evitar a dificuldade de pro-
duzir definições (-+28) apresentando alguns
exemplos típicos, como as três fotos da
página ao lado. Parece, de início, um bom
método, pois é fácil captar as semelhanças
que aproximam os três pqres e, desse modo,
intuir o que é típico numa amizade.
Basta um mínimo de ret1exão, porém,
para se perceber que o sistema não é - Sorte sua, que tem uma mulher que trabalha!
muito confiável. Ao contrário, ele se limi-
ta a dar uma idéia geral do fenômeno,
sugerindo algumas atitudes que, embora grau de incerteza no tratamento de coisas pouco
típicas de uma relação de amizade, nem por isso típicas. Uma galinha, por exemplo, é um ave? E
estão necessariamente presentes. Afinal de contas, o pingüim? Um tomate é uma hortaliça ou uma
mesmo que muitos pares de amigos o façam com fruta? São perguntas quase absurdas, sem sentido
freqüência, nem todos eles, e nem sempre, passam no campo científico, mas válidas do ponto de vista
seu tempo conversando num banco de jardim. psicológico. Realmente, ninguém que tenha sido
Uma reflexão mais recente, no entanto, feita por convocado a imaginar um ave qualquer escolheria
psicólogos e filósofos contemporâneos, sugere que a imagem de um pingüim, O que é efetivamente
a mente humana trabalha as palavras e os conceitos uma ave? Uma criatura pequena, dotada de asas,
exatamente desse modo. De fato, o que fazemos que canta, põe ovos num ninho e, principalmente,
quando atribuímos significado a uma palavra como voa. Um canário ou uma águia são ótimos pro-
amizade? Pensamos numa série de atitudes, lista- tótipos (-> 29), enquanto que a infelicidade do
mos os traços típicos desse conceito, sem a preten- pingüim é ser, como a galinha, pouco típico.
são de, com isso, chegar a uma definição cabal. Na Em resumo: o nosso modo de pensar, ou seja,
vida real, nos contentamos quando somos capazes de dar significado às palavras, está fundamen-
de distinguir um amigo de um inimigo, ou um talmente baseado em estereótipos. Para a mente,
amigo verdadeiro de um falso. A intuição de uma um objeto pertence, de um lado, a uma classe se
série de semelhanças encontradas nos exemplos for, grosso modo, semelhante à imagem mental
que nos damos de amizade parece suficiente para do protótipo; de outro, todo objeto de uma classe
nos garantir o entendimento do que ela é. deve se parecer grosso modo com o estereótipo
Mais do que conhecer com exatidão o sig- mental. Logo, um animal é tanto mais pássaro
Qual é o seu ideal de beleza?
nificado das palavras, importa saber usá-las de quanto mais semelhante for a um canário. Logo,
É provável que o seu protótipo de beleza
modo maleável, mesmo à custa de certo grau de uma mulher que trabalha deve de algum modo
seja um tanto vago. O que é a amizade? aproximação. Para a mente importa o que é típi- deixar a casa em desordem. Como veremos, o cri-
Existe, porém, um método capaz de tratar Respondemos a perguntas como esta trazen-
co, ou seja, o que está freqüentemente mas não tério de tipicidade influi até mesmo na capacidade
a questão cientificamente, com um mínimo do à mente uma série multiforme de imagens, de juízo em operações lógicas (-> 50).
sempre presente, mesmo às custas de um forte
de esforço. Depois de decidir quais são, em recordações, eventos ligados à palavra e cons-
sua opinião, as vinte moças mais bonitas, truindo assim uma descrição típica do objeto.
fotografe-as cm formato 5 x 7: o único detalhe De um lado, portanto, consideramos ami- O seu azul é igual ao meu?
impo1tante é que, em todas, os olhos estejam gos aqueles que se encaixam na nossa imagem O filósofo inglês John Locke (1632-1704), em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, formulou esta per-
na mesma altura. Feito isso, peça a um fotó- mental de amizade. Do outro, esperamos que gunta: "Como posso saber se vejo o que você vê (quanto à cor), quando ambos olhamos para um límpido
grafo para imprimir todos os negativos numa cada anligo nosso seja suficientemente seme- céu azul? Ambos aprendemos a palavra azul de quem nos mostrou coisas como o céu límpido. Logo, o uso
única foto. Você obterá seu tipo ideal. lhante ao nosso estereótipo. que fazemos do termo que indica aquela cor é o mesmo, ainda que o que vemos possa ser diferente!"

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=6""'===~C=O=!S=A=S=E=RE~AL=_=I_=D_A~D=E==----=========~=-=--=-=-=--======== T COISAS E REALIDADE

31. O contexto mudo o conteúdo ;nformação e diferença


Dentre todas as ilusões de óptica, a da Lua talvez seja a mais
A ilusão da lua simples, poderosa e conhecida. Aristóteles já discutia a respeito
Observe a Lua cheia, tendo na Antiguidade, atribuindo sua causa a um efeito de contraste:
como fundo um horizonte no horizonte, a Lua pareceria maior porque é comparada auto-
qualquer: ela lhe parece- maticamente pelo olho a objetos reais visíveis no fundo (casas,
rá grande_ Mas observe-a árvores etc).
através de um furo feito É uma experiência muito simples (sobre a qual, em termos
numa cartolina ou, mais científicos, não sabemos muito mais do que Aristóteles), que
simplesmente, fechando podemos tomar como exemplo de regra geral: as propriedades
um olho e colocando dian- dos eventos locais são sempre influenciadas pelas condições do
o
te do outro as mãos fechadas, formando uma luneta. Ela parecerá sensivelmente menor. Por que? contexto em que se inserem. •
Em outras palavras, o resultado das percepções visuais não
s ___________________________, ,_ s é a visão de coisas, mas de âmbitos, relações, ou seja, espaços
- Não dá para acreditar!
- Eles o estão comendo ...
1 complexos em que ocorrem contínuas interações entre as par-
Cor e contexto As linhas inexistentes tes_ Cada pincelada de um quadro (como cada peça do mosaico da página ao lado) adquire uma cor
1 particular em relação às que lhe são contíguas, assim como uma mesma forma parece maior ou menor
em relação às que a circundam. Mas uma nota musical também assume o seu valor harmônico somente
em relação às que a antecedem e a sucedem. E se você erguer primeiro uma mala muito pesada e depois,
com a mesma mão, erguer outra mais leve, esta última parecerá muito mais leve do que lhe pareceria se
1
você a tivesse erguido antes da mais pesada.
De fato, não existe área da experiência humana em que essa dinâmica entre texto e contexto não se
mostre decisiva. Um médico julga um sintoma à luz do contexto porque, por exemplo, se a perda de
Observe as linhas de separação entre estes retlln- peso em um homem de meia-idade é indício de tumor, em uma mulher jovem é indício de anorexia. As
gulos. Uma linha mais escura aparece no ponto em palavras também só podem ser realmente entendidas à luz das expectativas em que se inserem; ao passo
que cada retângulo encontra outro mais claro. Ao que, se estiverem fora do contexto de uma situação real (tal como aparecem num dicionário), deixarão de
contrário, uma linha mais clara parece surgir onde ter um valor unívoco. Isso vale também para frases inteiras: Não dd para acreditar! Eles o estão comen-
cada retllngulo se põe ao lado do seu vizinho mais do, dizem os cozinheiros da charge, mas o sentido da expressão mudaria se os dois fossem canibais ou
escuro. Cada retllngulo, mesmo formado por uma estivessem contemplando uma pessoa sendo dilacerada por leões. Até mesmo o silêncio adquire um sig-
Além do branco, quantas cores há neste cor uniforme, aparece como uma linha que tende nificado próprio, dependendo do contexto: pode ser sinal de admiração, embaraço, desconforto, reflexão,
mosaico? dos tons escuros aos claros. Como é possível? dor, respeito, rebeldia e muito mais. Em resumo: não vemos coisas, mas os efeitos de uma relação; não
dizemos simplesmente "palavras", mas as empregamos para exprimir significados, ou seja, relações.
s
Formas e contexto
Não_ !Já coisas, somente diferenças

•••
Para _se produzir uma notícia, ou seja, uma informação, são necessárias ao menos duas entidades (reais
ou imaginárias), de forma que a diferença entre elas expresse sua relação recíproca; e o todo deve ser

....
tal que a notícia da sua diferença seja assim percebida por alguma entidade elaboradora de informações

11 como, por exemplo, um cérebro ou um computador. Existe úm problema profundo e insolúvel a respeito
da natureza daquelas "ao menos duas" coisas que entre si produzem a diferença que se torna informa-
ção, criando uma diferença. É claro que cada uma delas, sozinha, é uma não-entidade, um não-ser para a
mente e a percepção. Não é diferente do ser e não é diferente do não-ser: é algo incognoscível, como o
som do aplauso de uma única mão. A matér1a-pr1ma da sensação, portanto, é um par de valores de uma
variável qualquer, apresentados num certo arco de tempo a um órgão dos sentidos cuja resposta depende
Os dois círculos centrais têm a mesma Os dois segmentos no interior da figura têm da relação entre os dois elementos do par.
dimensão? o mesmo comprimento? G. Bateson: Mente e natureza. Uma unidade necessárfa, Adelphi, Milão, 1984

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• COISAS E REALIDADE COISAS E REALIDADE

32. É o contraste que faz as coisas figura e fundo


s -----~-
Heráclito, um dos
Cor e fundo primeiros filósofos,
disse que "o contraste
Cores iguais, mas diferentes Ziguezagues insustentáveis é o pai e a origem
de todas as coisas".
Talvez nem suspeitas-
se que a sua máxima /'-.
pudesse se aplicar até A dinâmica figura.fundo, ou seja, a tendência a se distinguir a coisa observada do
a um ato tão simples ambiente que a circunda ê com toda probabilidade uma habilidade inata, ao menos
como olhar um cír- no campo visual. Por isso, é provável que você tenha visto somente a palavra "figu.re"
Tente manter o olhar sobre estas cores. culo colorido. E, no nesta inscrição, sem perceber a outra que está ao fundo (a palavra "ground", ou seja,
entanto, observe os "fundo", em inglês, escrita em caracteres pontilhados).
Os três círculos são da mesma cor, ainda que o da direita Em poucos segundos, a visão fica insus-
pareça um rosa mais pálido e o da esquerda, como um tentável; as linhas coloridas em zigue- círculos de cor rosa
amarelo escuro. Mas, então, qual é a verdadeira cor? zague começam a dançar. Por quê? da primeira experiência da página ao lado_ São o olhar para outro lugar, verá a cena movendo-se
absolutamente idênticos em cor e luminosidade, lentamente para o alto_ Geralmente, depois de ter
s no entanto, parecem bem diferentes: o da esquer-
da mais escuro e amarelado, e o da direita, mais
fitado longamente um objeto em movimento, as
percepções seguintes parecem se encaminhar na
Tonalidade e fundo O circulo anômalo claro e rosado, Como é possível que a partir de direção contrária, exatamente como un1 alimento
À primeira vista, a figura abaixo parece des- estímulos idênticos resultem evidências percep- salgado lhe parecerá ainda mais salgado se você
mentir as outras experiências apresentadas tivas tão diferentes? E aqui não se trata de uma o comer logo depois de um doce_ E, ainda mais
nesta página. De fato, o anel parece ter uma ilusão ótica, de um estranho caso de laboratório geral: um dia normal lhe parecerá felicíssimo se vier
cor única, apesar de as duas partes estarem experimental, mas de um pequeno e normalís- depois de uma tetTível dor de cabeça_ Até mesmo
sobrepostas a cores bem diferentes, branca e simo círculo rosa, Ou amarelado? A pergunta uma palavra, isoladamente, é um pouco como o
preta. Experimente, porém, cobrir com um procede porque, se a cor muda dependendo do círculo rosa-amarelo: sem dúvida refere-se mais ou
lápis a linha vertical que marca a separação fundo sobre o qual se encontra, como poderemos menos a um significado, mas sua nuance precisa,
entre as duas partes do aneL A unidade da 1 depois denominá-la, ou seja, defini-la pelo que é? seu verdadeiro significado, só pode ser entendida no
figura se romperá e, então, você verá o anel 1
Deveríamos sempre especificar o fundo dizendo interior do discurso, com base na sua relação com as
formado por duas cores, uma mais escura à que "'é amarelo se o fundo for cinza claro, mas palavras que vêm antes ou depois. São experiências
direita e outra mais clara à esquerda. Movendo rosa se o fundo for escuro". simples, mas de grande importância: complicam a
lentamente o lápis para a esquerda ou para a Note que o efeito do contraste se manifesta idéia de que o mundo é feito de coisas "simples'',
Como você vê as duas áreas assinaladas pelas direita, você poderá estender o efeito do con- também na sucessão de imagens. Se você observar isoladas entre si, cada uma delas cognoscível pelo
flechas? Estendem-se com o mesmo grau de traste numa parte e noutra do círculo. por alguns minutos uma cascata e depois desviar que é, independentemente das outras.
luminosidade? Ou seja, são da mesma tona- 1
•1
lidade de cinza?
As coisas são relações
Habitualmente, a linguagem enfatiza apenas um aspecto de uma interação qualquer. Costumamos nos
1
exprimir como se uma "coisa" separadamente pudesse "ter" uma característica qualquer. Dizemos que
uma pedra é "dura'', "pequena", "pesada", "amarela", "densa", "frágil'', "quente'', "em movimento'',
"parada", "comestível" ... A linguagem garante continuamente que as "coisas" são de um determinado
1
modo e têm qualidades e atributos. Uma maneira mais precisa de falar ressaltaria que as "coisas" são
1 produzidas, são vistas separadamente das outras "coisas" e são representações "reais" das suas rela·
ções internas e do seu comportamento em relação às outras coisas e a quem fala.
É preciso esclarecer bem esta verdade universal: as "coisas", quaisquer que sejam elas no seu mundo
concreto, podem entrar no mundo da comunicação e do significado somente por obra de seus nomes,
1 Os dois retângulos azuis desta figura têm a qualidades e atributos, ou seja, devido à exposição das suas relações e interações internas e externas.
1 mesma tonalidade? 1 G. Bateson: Mente e natureza. Uma unidade necessária, Adelphi, Milão, 1984
L,~---·----- ..-·---..-------

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_l_
• COISAS E REALIDADE

33. A arte de esconder Ruido e mensagem


COISAS E REALIDADE

Imagine que você está numa festa e presta atenção VAMOS PARA A ESCOLA A NÃO, IREMOS COM UM "MÓDULO
Um triângulo morto pelo rnillo às palavras do seu interlocutor: o burburinho dos PÉ TAMBÉM ESTE ANO? qE FREQÜÊNCIA MÓVEL" ...

outros convidados lhe parecerá como um fastidio- E ASSIM QUE SE CHAMA O


Nesta série você ÔNIBUS DA ESCOLA.
so barulho de fundo; você poderá sim captar uma
pode acompanhar a
morte (aparente) de L
L _L~
z 3: -"::;, palavra aqui e ali, mas não consegue acompanhar
um triângulo, que, 1
z ::!:
'\
falas inteiras. Imagine, porém, entreouvir nesse
de bem visível em _L ~
vozerio confuso uma palavra que lhe diz respeito.
A, toma-se inexis- z 3: Alguém fala de você e você procura escutar o que
tente em C, subju-
\L
\. '7 a pessoa está dizendo. De repente, seu interlocu-
tor deixa de ser uma fonte de informação para se
gado pelo ruído.
A B
' /
tomar um ruído. Certamente, daqui a pouco ele
perguntará se você o está ouvindo porque, como culannente acostumadas ao uso de efeitos de ruído.
todos sabem, não se consegue acompanhar dois Podemos nos perguntar se é possível urna lin-
---""~-----·~~~--1 discursos ao mesmo tempo. guagem absolutamente desprovida de redundân-
Figuras esc:onllillas Existe algo análogo no campo visual? Vejamos: cia, ou seja, desse excesso de informação que, na
a imagem na parte inferior desta página é um níti- tentativa às vezes de favorecer a compreensão ou
do exemplo disto. A mensagem parece estranha, impedi-la, acaba de qualquer maneira por compli-
1 mas é clara: um perfil com uma mulher no lugar car a mensagem, tornando-a pouca clara.
da orelha; e, no entanto, estão escondidas ali mui- A resposta é que certamente é possível reduzir
tas imagens (note que não é fácil identificá-las, ao mínimo os efeitos de ruídos (como, por exem-
mesmo agora que você sabe da sua existência; plo, na linguagem típica dos telegramas), mas
imagine então se eu nada dissesse!). A arte da não existe uma linguagem que esteja totalmente
1
camuflagem é bem conhecida por todos que pre- imune a eles, nem mesmo no campo científico.
1 Aplique a idéia de ruído a esta figura. Você é Você é capaz de reconstituir a imagem de um 1
cisam mimetizar-se, corno soldados em zonas de
, capaz de identificar a estrela na figura ao lado? tijolo em perspectiva na figura ao lado? i
I_ -"--- ______"____e____ J guerra e animais perseguidos por predadores.
A distinção entre informação e ruído pode ser
s
s estendida à linguagem e às palavras? Certamente,
uma vez que estas podem ser usadas tanto para dizer
!Uma lingua llesc:onliec:illa
quanto para não dizer, para mostrar ou esconder.

08~Ci:i~8 OKJ ~8kJB8 ~10< Kl08<>8


Imagine que você é um arqueólogo e precisa decifrar esta estranha epígrafe.
O melhor, nesses casos, é dispersar a informação
problemática no interior de uma massa de outras
informações, ou então transformar palavras muito
A imagem é clara, mas confusa devido ao ruído. carregadas de emoção em frases mais longas e
menos impressionantes e sugestivas do ponto de
s -··~··-·-----------~
vista emotivo. Tem-se neste caso um eufemismo,
um clássico exemplo de uso consciente do ruído.
Camuflagem e signific:allo É um eufemismo, por exemplo, dizer módulo de
Observe esta imagem e procure identificar urna figura no emaranhado freqüência móvel em lugar de microônibus escolar,
de manchas. Antes de olhar a resposta, procure solucionar a questão. ou então fogo amigo em lugar de trágico erro da
Realmente, depois de solucionada a ambigüidade, a imagem nunca mais nossa artilharia, ou ainda falar de encarregado
lhe aparecerá como agora. Aquilo que no momento parecem ser man- escolar do andar em lugar do mais simples, mas
chas terá adquirido um significado do qual você não conseguirá mais menos apreciado bedel. Seguindo a mesma lógica,
prescindir, nem mesmo com muito esforço. É um fato notável: a imagem o diabo poderia se tornar um encarregado infernal,
retínica (aquilo que estimula seus olhos) permanece inalterada, mas a deixando assim de provocar medo em quem quer !
atribuição de um significado mudará para sempre a sua percepção. que seja. Como se pode ver por esses exemplos, as 1 r

linguagens política, militar e burocrática estão parti- L___ ldenfifique nove image_~~--------~
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• COISAS E REALIDADE
---·---·~ .. -------

34. O homem é semelhante a uma ave A idéia de semelhança


COISAS E REALIDADE

••
O esqueleto do homem e o de um pássaro
O pensamento --s
comum não vê
'fl As duas figuras são semelhantes? qualquer pro-
.-==j~~j;· '1·::::::·· Mesmo diferentes, têm algo de semelhante? Seguindo blema na idéia
,_ a hipótese de que duas coisas são semelhantes quando de semelhança:
os elementos de semelhança são mais numerosos que os "Duas coisas são
de diversidade, como se deve julgar essas duas imagens iguais quanto têm
A B
dos esqueletos de um homem e de urna ave? À parte tudo em comum;
o formato da bacia e da parte anterior do crânio, as diferentes quan-
semelhanças são impressionantes, particularmente dos do não têm nada Qual daS~co figuras mais se assemelha ao desenho situado à esquerda?
membros, ainda que chamemos de braços e pernas para 1 a partilhar e
.. o homem e asas e patas para o pássaro. É correto afirmar 1 semelhantes quando os elementos comuns prevale- e teórico que somente acontece quando dois objetos
que um homem é semelhante a um pássaro? 1
cem sobre as diferenças. Uma zebra é objetivamente coincidem num único: se simplesmente ocupassem
·----------·-~J mais semelhante a um cavalo do que a uma mosca, dois lugares distintos no espaço, já se teria urna
que, por sua vez, é mais semelhante a urna abelha 11 • importante diversidade (dois diferentes pontos de
As semelhanças sem dúvida existem, mas o vista,-> 40). A propósito, é célebre a história daquele
Os grafos A problema é: inventamos ou descobrimos as seme- rei oriental que pediu a seus topógrafos que elabo-
A
lhanças? São um dado objetivo da realidade que nos rassem um mapa exato do seu reino, o que acabou
Estas duas figuras são iguais, seme-
limitamos a registrar ou um critério mental com que por destruí-lo, urna vez que a versão final do mapa
lhantes ou diferentes? Se você con-
fazemos classificações arbitrárias? A hipótese realis- cobriu o território inteiro. Em segundo lugar, você
siderar somente a forma, como quer
ta do senso comum possui três pontos de força: 1) o deve notar que o critério pelo qual se instaura ou se
a geometria tradicional, são dife-
campo perceptivo, no qual as relações de semelhan- rejeita a semelhança é sempre dado pelo indivíduo,
rentes; mas, se considerar os nexos
ça parecem se impor com indiscutível evidência; 2) ainda que não seja explicitado. Urna zebra é seme-
de relação entre os pontos, como
o campo científico (geometria, zoologia, botânica), lhante a um cavalo e um homem é diferente de um
propõe o capítulo da geometria
F E G em que o juízo de semelhança é fortemente usado pássaro apenas quando você tacitamente adota a sua
, dedicado aos grafos, são iguais.
L_______~·-·~····
segundo a regra do 11 há ou não há 11 ; 3) a linguagem forma perceptiva como critério de semelhança. Mas,
cotidiana: dizemos que urna comparação é feita ou com outros critérios, você pode descobrir mais e
estabelecida, uma semelhança é captada ou encon~ diversas semelhanças (se assim se pode dizer): com
§emellla11ças de familia trada. Existem, porém, duas objeções fundamentais. base na estrutura do esqueleto, por exemplo, existem
A primeira é que, do ponto de vista lógico, a seme- notáveis e insuspeitas semelhanças entre um homem
lhança total, ou seja, a identidade, é um caso limite e um pássaro.

Critica da semelhança
Em geometria, a semelhança é definida como a propriedade de duas figuras em tudo iguais, exceto no
formato. Como a diferença de formato está longe de ser irrelevante (a diferença entre um crocodilo e uma
lagartixa não é de pouca monta para a vida cotidiana), a decisão de negligenciar o formato não parece algo
absolutamente natural e tem todo o ar de se assentar sobre uma convenção cultural, com base na qual
certos elementos de uma figura são julgados pertinentes e outros são totalmente descartados.
Esse tipo de decisão requer algum adestramento: se peço a um menino de 3 anos para comparar um
modelo escolar de pirâmide à pirâmide de Keops, perguntando se são semelhantes, a resposta mais
Analise as fotografias: as duas mostram o filósofo Bertrand Russel aos 4 e aos 90 anos de idade. A ter-
provável é não. Só depois de ter recebido uma série de instruções, meu ingênuo interlocutor será capaz
ceira é urna foto antiga de um célebre personagem da TV, Fiorello. Considerando em termos objetivos de entender que eu estava procurando determinar uma semelhança geométrica. O único elemento de
a relação de semelhança, o que se pode afinnar sobre as três imagens? Em relação a qualquer parâmetro indiscutível semelhança é dado pelos fenômenos de congruência, em que duas figuras de igual formato
(peso, forma, cor dos cabelos e da pele) quais os semelhantes e quais os que não são? E, no entanto, coincidem em todos os seus pontos.
entre o jovem e o velho Russell existe um parentesco formal, uma fonna de semelhança de família. u. Eco, Tratado de semiótica geral, Bomplani, Milão, 1975

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• COISAS E REALIDADE

35. Somos do mesmo signo! A idéia de causa


COISAS E REALIDADE

- - - - - - - - - · ····--··-- ·------·-·~--~~·-·······

1 Coincidências s~rpreendentes
s Somos do mesmo signo! s As datas de Pés e leitura '1
Já lhe terá acontecido diversas vezes nascimento Em uma amostragem de 1
de fazer amigos com o mesmo signo Em uma classe de 23 alunos, crianças com idades entre 3
astrológico. Toda vez parece ser uma constatou-se que dois estu- e 5 anos, constatou-se uma Ú·
feliz coincidência. Será mesmo? Em dantes nasceram no mesmo relação diretamente propor-
um grupo de 4 pessoas, quantas são dia, mês e ano. Que feliz cional entre a capacidade
as probabilidades de que duas sejam coincidência! Mas existem de ler e o comprimento dos
pés. Isto demonstra que o Raciocínio 1. Por que quase todos os ricos do tão forte que parece quase instintiva. A sugestão
do mesmo signo? maiores probabilidades de mundo têm nomes que começam com letras que
tamanho dos pés influencia provocada por coincidências aparentemente sur-
que isso se veriíique ou de vão de A a K? Deve haver uma razão! preendentes é um impulso psicológico capaz de
que não se verifique? a habilidade de leitura?
Raciocínio 2. Hoje é o dia do exame. Preciso superar qualquer critério racional, uma vez que
lembrar de não pisar nas linhas entre os blocos da tendemos a ver uma causa específica por trás de
calçada, caso contrário me sairei mal no exame. cada caso que se afaste um pouco da norma. E não
Estou certo disso, aliás, tenho até prova: a última só isso: falsas crenças, estereótipos, superstições
s "''"'"""" e estatística
Poluição e doenças respiratórias
s Velocidade e acidentes vez que fiz isso me saí bem; no exame anterior eu também se auto-alirnentam. De fato, tendemos a
me esquecera do t1uque, e foi um fracasso. não dar atenção a comportamentos em desacordo
60 Os dois raciocínios têm em comum o uso (desi- com a crença supersticiosa, julgando-os pouco
30+-------- nibido e incorreto em ambos os casos) da idéia de importantes ou causados por particularidades. Mas,
25+------- 50
20
15
-1-------
.&------
40
causa, ou seja, a crença numa relação de conexão
entre duas causas ou dois eventos, de forma que,
toda atitude que confirme a crença será tomada
como prova. Se você conhece um napolitano
30 ocon·endo o primeiro, dele decorre obrigatoriamen- expansivo, entenderá essa característica como mais
10
20 te o segundo. Existem provavelmente razões evolu- uma confirmação da exuberância desse povo. Já
5
o 10 tivas que programaram o ser humano a ver causas um napolitano introvertido lhe parecerá um caso à
~\ 1'-S GO precisas por trás de cada coincidência estranha, a pa1te - a clássica exceção que confirma a regra.
~\\>- ~<ç,G rY,.\c,'r' o explicar qualquer fenômeno recorrendo a causas Mas as causas, verdadeiras ou falsas, existem
v-" V
o 40 80 120 160 200
mais simples e mais ao alcance das mãos. Durante de fato na realidade ou são sempre uma interpre-
Entre as cidades americanas, São Francisco ocupa o O ministro dos transportes propôs aumentar os milhões de anos em que fomos passando do tação nossa dos acontecimentos? A questão é tão
primeiro lugar em mortes por doenças respiratórias. os limites de velocidade em auto-estradas. estado animal ao humano, o simples farfalhar de importante que durante séculos acreditou-se que
O gráfico mostra um verdadeiro pico, que pede uma De fato, segundo a estatística mostrada no uma folha poderia ser o efeito da presença de um somente uma resposta realista a essa pergunta
explicação adequada. gr{úlco, 80% dos acidentes ocorrem com inimigo e apresentava um dilema a ser respondido pudesse justificar o pensamento científico. Em
carros que andam em baixa velocidade. imediatamente: atacar ou fugir. O fato é que a ten- um célebre experimento filosófico, David Hume
dência, de encontrar a causa para cada fenômeno é colocou a questão nos termos abaixo.
O que pode produzir tal hecatombe? Mas é evidente: o quê, se não a poluição?

Adão conseguiria jogar billmw?


Bdiji!jêt.lmfoiti6 OS SOBREN01'_'..IES DE SUCESSO E Suponhamos que eu veja uma bola que se move em linha reta em direção a uma outra; imediatamente,
SORTE QUE TEM INICIAIS DE A.A K concluo que a segunda se porá em movimento. Este é o raciocínio da causa ao efeito; e são dessa
natureza todos os raciocínios que fazemos no desenrolar da vida; nele se funda toda a nossa crença na
Roma - As probabilidades de sucesso são maiores para pessoas cujo sobrenome começa
história e dele deriva toda a filosofia.
por letras que vão de A a K, sustenta a revista "The Economist". A sorte dos que se incluem Ora, se um homem fosse criado, como Adão, no pleno vigor da sua inteligência, seria capaz de prever o
na primeira parte do alfabeto foi apontada por exemplos da história, da economia, política movimento da segunda bola sem nunca ter vivido essa experiência? Respondo: não. Não existe na causa
(6 dos 7 premiês do G-8) e dos "Tio Patinhas" Gates, Buffet, Allen Eleison e Albrecht. nada que a razão veja e que nos faça concluir qual será o efeito.
"Corriere della Sera'', 15. 4. O. Hume (1711·1776): Tratado da natureza humana

86 87
llilJI
-~~-·-
COISAS E REALIDADE

36. Como Deus, você dá ordem ao caos


-~~-~-
T
A idéia de acaso
COISAS E REALIDADE

Faça uma experiência: selecione ao acaso os


Deus deu ordem ao caos números que deseja jogar na Mega-Sena, buscan-
do uma série numérica que não possa ser descrita
• 1 • • • • • • . . . . ••• • ~ : • :· por alguma regra matemática. Ou então, ao con-
,1 : •••• : • • • • • •• • ••
trário, procure uma regra matemática para produ-
. :.:·. ·:_: . :. ~·>--~-.:<.·.:::;:. .~...·.: zir uma série de números totalmente casual.
Se você não gosta de matemática, experimente
desenhar nove formas diferentes entre si, ou seja,

+.••••.• ·'./?·?i?
. .·· . . ..... .
+
sem que se possa encontrar qualquer semelhança
entre elas.
Parece tarefa fácil, mas, na verdade, é impossí-

. . .. .. ........
·• ·,·:. :··..... ·. ·•..... ~
. ...
vel. Para qualquer série numérica que a sua fantasia
possa imaginar, existirá sempre uma regra matemá-
. . : .. - ·.· .. :.·. . .
~· tica, talvez muito complexa, capaz de descrever a
Deus deu ordem ao caos. Você também pode fazer o mesmo, procedendo deste modo: numa folha lei que estabelece a série e como ela se desenvolve.
qualquer, faça com lápis um grande número de pontos de modo absolutamente caótico e desenhe E você não conseguirá nunca inventar um conjunto ~h
Desenhe numa folha de papel uma grade com 10
duas cruzes pequenas, uma à direita e outra à esquerda. Depois, faça uma fotocópia dessa folha totalmente desordenado, com nove formas comple-
quadrados em cada lado. Pinte cada quadrado de
numa transparência. Sobreponha as duas folhas de modo a fazê-las coincidir perfeitamente, usando tamente diferentes umas das outras. amarelo ou verde, escolhendo a cor no lance de
como referência as duas cruzinhas. Por fim, gire a transparência: aparecerá uma ordem, um anda- Logo, a desordem não existe? Quando sua mãe uma moeda. O mosaico resultará totalmente casual,
mento concêntrico, como um vórtice cósmico. o repreende por deixar o quarto desarrumado, mas o estranho é que não parecerá tanto assim. As
você pode responder que ele não está absoluta- associações casuais nunca aparecem como tais.
mente em desordem, mas apenas numa ordem

Acompanhe-:::: diálogo entre Ald:~;runo. Um ~~~tenta a


l todo existência do a:~::::ou;:o vê e~l
muito, muito complexa? na pesquisa obsessiva e inútil dos números que há
É provável que o argumento não tenha muito algum tempo não saem nos sorteios da Mega-Sena.
lance de dados o resultado de uma regra. Quem tem razão? 1 sucesso porque, se é verdade que a ordem não é um Pense em como reescrevemos a nossa vida des-
dado objetivo da realidade, mas apenas um critério tacando fatos que confirmam a nobre imagem que
Aldo. Suponha que você jogue uma moeda Aldo. Vejamos: 1010? mental (como as idéias de semelhança-> 34, ou de gostamos de fazer de nós mesmos e esquecendo
quatro vezes seguidas. Digamos que O é cara e Bruno. De novo. Existe uma alternância perfei- causa -+ 35), é igualmente verdade que em nossa aqueles que não nos enaltecem.
1 coroa. Poderia sair Il Il, ou seja, cara-cara- ta de uns e zero (como de resto em 0101). mente o mecanismo que busca regras, normas e Pense na idéia de que a história se repete
cara-cara. Aldo. O que eu poderia lhe sugerir? 1000, por constantes está por assim dizer sempre ligado. - uma das idéias mais repetidas da história. Em
Bruno. Mas seria estranho. É um resultado exemplo. Conseguimos encontrar ordem e coerência todos esses casos damos uma ordem aos fatos,
muito regular. Improvável. Bruno. Estamos perdendo tempo. Como os seus mesmo onde é mais difícil descobri-las. Pense em porém temos fortes razões para desconfiar do pre-
Aldo. Não vejo a diferença em relação a 0000, primos 0111, 1110 e 0001, é uma configuração como dão certo as profecias de Nostradarnus. Pense domínio do acaso.
coroa-coroa-coroa-coroa. muito simples e ordenada, não acha? A regra é
Bruno. É verdade. São seqüências igualmente num-algarismo-junto-a-três-repetições-do outro 11 •
improváveis. Aldo. Você diria algo semelhante também quan- Ordinãri() e exha()rdinãri()
Aldo. Tome então 0011. to à família 1011, Ilül, 0100, 0010? O que parece extraordinário só o é em relação a alguma ordem particular estabelecida pelas criaturas,
Bruno. Esta tan1bém é uma seqüência muito Bruno. Certamente: no-único-algarismo-dife- pois, quanto à ordem universal, tudo é absolutamente harmônico. Isso é tão verdadeiro que nada no
ordenada (e Ilüü também). Todos os zeros rente-se-encontra-distante-das-extremidades 11 • mundo acontece absolutamente fora de regra, e não se saberia sequer imaginar algo que fosse assim.
foram para um lado, todos os uns para o outro. Mais ordem do que isso ... Suponhamos que você faça, de um modo qualquer, uma série de pontos num pape!: eu afirmo que é
Aldo. E o que você me diz de OI !O? Aldo. Mas eu apresentei a você todas as seqü- possível encontrar uma linha cuja concepção siga uma certa regra e, como tal, passe por todos esses
Bruno. Também aqui há muita ordem (e tam- ências, ou seja, somente as 16 possíveis com 4 pontos. E, se você traçar uma linha contínua, ora reta ora curva ora de outra natureza, é possível encon~
em 1001, seu gêmeo). Há uma simetria lances sucessivos de uma moeda. Não existem trar uma noção ou regra ou equação comum a todos os pontos dessa linha, en1 virtude da qual as suas
modificações se desdobrem. No entanto, quando uma regra é muito complexa, aquilo que lhe é pertinente
pe1rfeitta entre os uns e os zeros. outras ...
passa por irregular.
W. Leibniz: Discurso de metafísica, 1686
A. Varzi: Dos dados ao loto. Diálogo imaginário sobre as regras do acaso, II Sole 24 Ore, 1999

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• - - - · - COISAS E REALIDADE~ COISAS E REALIDADE

31. Passado, presente, futuro A idéia de tempo


"O que é o tempo? Quem poderá explicá-lo de NÃO sou A!Nl>A UM JOVEM

Desenhe a experiência pessoal de tempo e compare-a com maneira rápida e fácil? Quem será capaz de captar a
D€ QVARENTA ANOS€ JÁ
T€NHO ALGUMAS COISAS
DE UM VELHO DE TRINTA
estes exemples noção com o pensamento, a ponto de poder oferecer E NOVE.
a definição exata dela?'' Assim se questionava Santo
Agostinho cerca de quinze séculos atrás, e ainda
hoje a sua resposta talvez continue sendo a única
possível: "Se ninguém me perguntar, eu sei. Se eu
Futuro quiser explicar a quem me pergunta, não sei".
Passado Presente Convém, entretanto, acompanhar estas refle-
1 xões, um dos trechos mais famosos das suas
A representação mais comum do tempo vale-se As três dimensões do tempo são representadas Confissões e de toda a filosofia: "E, no entanto,
da analogia com o espaço. O passado é muito por estruturas diferentes. O passado é um qua- em nossas conversas, que palavra é mais recorren-
regular e parece quase vazio; o presente é feito drado negro, compacto e completo, que projeta te que tempo? Quando falamos dele, compreende- - , isso vale somente para o tempo subjetivo, priva-
de formas amplas e articuladas, que se tornam raios de energia sobre o presente e sobre o mos bem a palavra, assim como quando ouvimos do e individual, não certamente para o tempo verda-
pequenas e vagas no futuro. A vida no seu con- futuro. Por sua vez, o presente é complexo: não o que outros dizem dele. Então, o que é o tempo? deiro, aquele objetivo que passa independentemente
junto é representada como um fluxo contínuo, é um simples resultado do passado: tem forma Afirmo seguramente saber que, se nada se pas- de mim e de todos, e que é medido pelos relógios.
quase uma vibração do tempo. Prevalece a con- e liberdade próprias. O futuro é ainda menos sasse, não haveria o passado; se nada acontecesse, A coisa não é tão simples, porém. Tanto que sobre
tinuidade: o presente não é qualitativamente determinado. não haveria o futuro; se nada fosse, não haveria a existência e eventual natureza desse ten1po objetivo
diferente do passado. o presente. Mas como podem existir esses dois discute-se há centenas de anos. Antes de mais nada,
tempos, o passado e o futuro, se o passado já não considere a possibilidade de medir o tempo objetivo.
é e o futuro não é ainda? É verdade: um ano corresponde a um movimento
Um fato é claro: nem o passado nem o futuro inteiro da 1'erra em tomo do Sol, assim como o dia
existem. É inexato dizer que os tempos são três: à dupla rotação dos ponteiros de um relógio. Mas
passado, presente e futuro. Talvez fosse mais surge então uma questão: é o tempo que mede o
exato dizer que os tempos são: o presente dopas- movimento do Sol ou é o movimento do Sol que
sado, o presente do presente, o presente do futuro. mede o tempo? Parece um jogo de palavras, mas
PASSADO PRESENTE FUTURO
Essas três espécies de tempo, de algum modo, a questão é séria, uma vez que todas as definições
O presente tem uma dimensão puntiforme, acha- Aqui, somente o presente e o futuro estão existem no espírito, e não vejo onde mais". e medições do tempo, científica e objetivamente,
tada; é quase inteiramente absorvido pelo que não representados. O futuro é conseqüência do Parece que realmente podemos nos perder nessas limitam-se sempre a ser medições do movimento de
é mais e pelo que ainda não é. É uma efêmera presente, e a vida em seu conjunto é fortemente circunvoluções, a ponto de justificar o paradoxo objetos. Mas quem nos garante que o movimento
sobreposição de duas parábolas: a fechada, do orientada para uma meta. Existe um ponto de inicial: "o tempo é aquela coisa que todos conhecem dos objetos com os quais medimos o tempo aconteça
passado, e a aberta e expansível, do futuro. chegada do tempo: o futuro também terá fim. mas ninguém sabe explicar''. Mas - você objetará em períodos de tempo regulares?

O que é um segundo
Desde 1967 se convencionou que o segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos de radiação do
átomo de césio ... Um número altíssimo, que permite medir com extraordinárias precisão e constância o
curso do tempo. Damos como certo que todos os períodos tenham idêntica duração. Se assim não fosse
- e se a irregularidade dos períodos fosse casual, imprevisível-, a garantia de uniformidade da men-
suração seria impossível. Porém, quem nos garante que essa desejada uniformidade exista? Uma outra
Uma metáfora musical. A escolha do símbolo Uma metáfora biológica. A vida é concebida radiação qualquer, tomada como referência de uma referência? Ou então acreditamos nisso porque con-
gráfico que imita o movimento das ondas faz como crescimento contínuo, bruscamente inter- fiamos na regularidade e simetria dos fenômenos naturais? E, no entanto, não consideramos descabida
rompido por uma queda, que corresponde à a manifestação de ritmos irregulares na natureza.
referência a uma concepção harmônica da
Logo, o tempo da medição, dos relógios, baseia-se em algo de qualitativo, não-mensurável, na crença
experiência pessoal, vivida como uma realida- morte. Nessa visão dramática não existe velhice,
profunda da consciência de que todos os períodos tenham idêntica duração?
de não descontínua, mas fluente. · ou seja, um tempo de preparação para a morte. Dicionário de Filosofia, organizado por P. Rossi, Nuova lta!ia, Florença, 1996

90 91
• COISAS E REALIDADE

38. O triângulo fantasma A idéia de realidade


COISAS E REALIDADE

Submetendo-se a testes de percepção, as pessoas


Vertical e horizontal habitualmente explicam os próprios erros pela
esquisitice das imagens apresentadas. Isso é muito
tranqüilizador, pois no fundo se trata apenas de
estranhas situações que nada têm a ver com o
cotidiano. Considere então este quesito relativo
é. às linhas ve1ticais e horizontais: aqui não se trata
de urna ilusão ótica e a situação, longe de ser
estranha, é a mais comum possível, uma simples
Em qual das quatro figuras a linha vertical verde tem exatamente o mesmo comprimento da linha
linha horizontal, cortada ao meio por uma vertical.
horizontal vermelha?
A resposta exata é D, mas não é absolutamente a
mais freqüente. Você pode medir as bases e as altu-
ras com uma régua, para se dar conta. Verá que na
centímetros "diferentes" resposta B, a mais freqüente, há uma diferença de
cerca de meio centímetro entre a altura (2,5 cm) e
~
a base (3 cm). O efeito não depende da disposição A altura da árvore é maior ou menor que o comprimento da
horizontal e vertical das linhas, uma vez que a base? Confirme sua própria avaliação com a régua.
impressão se mantém, mesmo virando-se a ima-
gem em todas as posições possíveis. do e avaliando o que vê. A esta altura você não
Erro nada desprezível, principalmente por ser pode mais confiar cegamente em sua capacidade de
Os dois segmentos horizontais contíguos medem três centímetros cada um, mas parecerão para todo característico dessa situação: móveis, casas e avaliação e deveria medir sistematicamente o que
mundo sempre diferentes, mais comptido o primeiro e mais curto o segundo. A ilusão não poderia ser objetos são em boa parte construídos segundo vê para confrontar o resultado com suas impressões
mais evidente: é como se entre 3 e 6 pudesse haver mais espaço do que entre 6 e 9 centímetrtos. esquemas geométricos, o que permite a você ver visuais. O que, obviamente, não é possível.
de qualquer lugar essas retas incidentes. Em nosso Por motivos óbvios, somos obrigados a confiar
exemplo, é fácil comprovar com uma régua corno na vista; mesmo que, por outro lado, tenhamos de
são as coisas na realidade. Porém, corno você terá desconfiar do sentido de objetividade do mundo
O triângulo fantasma certeza de que muitas ou todas as suas percepções que ela sugere. A realidade não é algo já dado,
não sejam ilusões desse tipo? externo e estranho ao sujeito, mas algo que ao
Você deve admitir que vivemos todos num menos em parte é construído. A imagem que faze-
/\ mundo em que as linhas incidentes parecem sem-
pre mais compridas do que na realidade são.
mos dela somente em parte se baseia nas informa-
ções vindas do ambiente; em parte é também fruto
Neste ponto, a própria idéia de realidade se vê de uma reelaboração mental; é uma reconstrução,
em dificuldades. De fato, considere que, se eu não uma representação da mente: o mundo visto é um
L tivesse chamado sua atenção para esse estranho
fenômeno, você nunca o teria percebido sozinho.
Portanto, quem lhe assegura que não existam
cenário útil, que está dentro de nós. A adequação
à realidade dessa atividade imaginativa não é
fruto da suposta capacidade de sobreposição da
outros? Você não pode sabê-lo simplesmente olhan- fotografia mental à realidade externa.
A e
Uma chiuada filosófica: o i11icio do tempo
Observando a figura A você poderá 11 vern um triângulo branco e compacto sobreposto às linhas pre~
tas de um outro triângulo. Da mesma forma, na figura B você verá um triângulo preto sobreposto a Suponha que o mundo tenha sido criado há cinco minutos, e que as recordações e vestígios dos eventos
anteriores foram criados por Deus, cinco minutos atrás. Você pode demonstrar que isso não é verdade?
três círculos brancos. Esses triângulos que você vê não existem em termos físicos, e mesmo assim
têm uma realidade própria, que pode até ser demonstrada experimentalmente. De fato, se sobrepu- Uma charada füosõfica: as dimensões do m1mdo
sermos ao triângulo fantasma duas linhas, como na figura C, ativar-se-á a ilusão ótica examinada Suponha que na noite passada, enquanto todos dormiam, Deus tenha dobrado as dimensões do univer-
na ficha 31 (a linha superior parece menor que a inferior). so. Você é capaz de demonstrar que isso não é verdade?

92 93
• COISAS E REALIDADE
---------·· 1
1
COISAS E REALIDADE

39. Em que mundo vive um morcego? Realidade e sistemas perceptivos


QUEM SAB€ NO QUE ESTÂ
PENSANl)O UM CACHORRO NÃO POSSO IMAGINAR .. É ALGO QUE NIJNCA Às VEZES TENHO SAUDADES DO VELHO CANIL
Como é sentir-se um coelho, um gato, um macaco? QUANOO ESTÂ ASSIM
SENTADO, OLHANDO O
SABEREMOS.•.

vAzro?

Macaco Coelho Gato O que pode significar ser, ou melhor, sentir·se da espécie humana, como a dimensão ética ou a
como um animal? Esta não é uma mera pergunta associação entre pornografia e sexualidade.
Talvez a única maneira de alguém sentir-se na pele de um animal seja considerando o mapa cerebral filosófica, mas um problema verdadeiro, já que Na realidade, não só o estado de consciência que
mantemos com muitos animais relações que ultra- o card.cteriza como animal será para nós eternamente
deste, isto é, a quantidade de neurônios que naquele detenninado ser controlam uma habilidade especí·
passam a simples convivência. estranho como tampouco poderemos experimentar
fica. Os neurologistas elaboraram mapas desse tipo, tanto para o homem quanto para alguns animais. A
Quando o seu cachorro olha para você com o de alguma fonna seu modo próprio de perceber o
figura à esquerda mostra como seria um homem se as várias partes de seu corpo tivessem se desenvolvi-
olhar murcho, depois de ter feito mais uma das mundo. Cada espécie vive uma realidade própria,
do proporcionalmente à superfície das áreas do córtex cerebral que controlam os seus respectivos movi-
suas, ele está se sentindo culpado? Se você batesse condicionada pela estrutura particular dos seus sen·
mentos. Observe, em relação aos animais, a enonne importância, no homem, da língua e do polegar.
nele, seus ganidos seriam expressão de verdadeira tidos. Essa realidade é em boa parte incomunicável;
dor? Alguns filósofos do passado (por exemplo, um cachorro, por exemplo, ouve ultra-sons, vê as
Descartes, no século XVII) se sentiam seguros ao cores em ultravioleta, percebe odores um milhão de
responder negativamente: um cachorro não pensa, vezes melhor do que o homem. Mas o exemplo clás-
SACERDOTE DESENCADEIA logo não experimenta dor nem remorsos. síco é o dos morcegos, que percebem a sua realidade
A i~venção de um casal inglês, criada na I·Ioje, não estamos tão propensos a pensar nos mediante um sonar, ou seja, percebem os reflexos
DEBATE NOS EUA Universidade de Bristol animais como simples máquinas biologicamente de ultra·sons devolvidos pelos objetos situados num
"Os cachorros também vão para coinplexas, mesmo que os recortes de jornais da detenninado raio. É uma forma de vida que se pode-
o céu" Lagostas "atordoadas" na panela página ao lado demonstrem que talvez seja mais ria mesmo dizer alienígena. Viver a experiência de
Nova York _ o Lulu também vai para o Um aparelho de ondas sonoras impede
fácil cair no erro oposto, humanizando os animais ser um morcego seria como que se transformar num
até projetar neles traços seguramente específicos alienígena, viver num planeta diferente.
céu? Só se tiver se comportado bem com seu que sofram na cozinha
dono. Diante de Deus, ele deve demonstrar O etólogo Mainardi: não temos mais
ter sido o melhor amigo do homem. Quem desculpa para ignorar sua dor. Ê bom Como é sentir-se um morcego, um cego, 1.1m marciano?
sustenta isto é Brian McSweeney, vice·chan· que se procure impedir que os animais É a nossa experiência que fornece matéria-prima para a imaginação, tornando esta, portanto, limitada.
celer da Arquidiocese de Nova York, em um sofram, mesmo aqueles que comemos. De nada adianta nos imaginarmos com braços com enormes membranas, que nos permitam voar daqui
debate na revista Do Fancy. para fá, do amanhecer ao entardecer, e capturar insetos com a boca; ter uma vista muito fraca e perceber
"Corrier~ delia Sera", 24. 3. 1999
"Corriere della Sera", 1. 9. 1999 o mundo ao redor por um sistema de sinais sonoros de alta freqüência refletidos pelas coisas; e passar
o dia pendurado pelos pés, de cabeça para baixo, num sótão. Mesmo conseguindo imaginar tudo isso, o
único resultado seria saber o que eu experimentaria comportando-me como um morcego.
Porém, o problema não é este: eu quero saber o que experimenta um morcego sendo um morcego.
Porém, ao procurar imaginá-lo, sinto-me enjaulado nos recursos da minha mente, e esses recursos não
estão à altura da tarefa [ ... ]
1m1;111l!;ivíDEO HARDCORE PARA INCENTIVAR os PANDAS AO SEXO O problema não se limita aos casos extremos: ele existe também entre uma pessoa e outra. O caráter
subjetivo da experiência de uma pessoa surda e cega de nascença, por exemplo, não me é acessível,
Pequim- Para despertar a libido do famoso urso branco e preto, d(jcidiu-se estimulá-lo com assim como presumivelmente não é acessível a ela o caráter objetivo da minha experiência[ ... ]
vídeos pornográficos. Filmes pornôs com cenas de amor entre pandas deverão ter êxito onde Ao observar os morcegos, nos encontramos numa posição quase Idêntica àquela em que se encontra-
fracassaram a medicina tradicional chinesa e o Viagra. riam um morcego inteligente ou um marciano que tentassem imaginar o que sentiriam se fossem nós.
"Corriere dena Sera", 24. 3. 1999 T. Nagel: Como é sentir-se um Morcego? ln O eu da mente, Adefphl, Milão, 1985

94 95
COISAS E REALIDADE COISAS E REALIDADE

40. O ponto de vista Objetivo, subjetivo, universal


Como mostra a charge aqui ao lado - e
como as fichas anteriores deveriam ter
demonstrado - , toda experiência hun1a-
na é sempre subjetiva. É conseqüência do
fato de que é o nosso cérebro que constrói
as imagens que acreditamos perceber,
dando a elas um sentido. Mas então você
dirá: não existe nada que seja objetivo?
Não é possível descrever coisa alguma de
modo verdadeiro, imparcial, desapaixo-
nado ou simplesmente independente de um ponto de vista?
A resposta é exatamente isso, ainda que este fato não justifique
absolutamente conclusões pessimistas ou "subjetivistas". De fato,
entre objetividade e subjetividade existe a universalidade, uma terceira
via quase nunca levada em consideração pelo senso comum. Significa
O artista italiano Guida Moretti é o autor destas esculturas de arte moderna. Qual das três você pre- que os conhecimentos humanos, mesmo não sendo objetivos no sen-
fere? Esta pergunta é uma "pegadinha" porque, por mais inacreditável que pareça, as três imagens tido estrito, podem, no entanto, ser considerados universais, ou seja,
representam a mesma escultllra, vista de três diferentes pontos de vista. comuns a todos os homens de todos os países, de todos os tempos.
Por um lado, é verdade que os estímulos produzidos pelo ambiente
só ganham importância depois de passarem por uma série de filtros
perceptivos e esquemas mentais. Por outro, porém, também parece
Outros pontos de vista razoável o fato de todos os homens possuírem os mesmos tipos de
filtros, ou seja, mentes estruturadas mais ou menos da mesma manei-
ra. O que vemos da realidade não é a realidade em si, mas sempre a
realidade-assim-como-parece-aos-homens.
Nosso conhecimento do mundo não pode ser verdadeiro em
termos absolutos, mas apenas válido, isto é, pode ser compartilhado
entre os representantes da espécie a que pertencemos. Da mesma
forma, nenhuma descrição da nossa realidade, mesmo se produzi-
da em linguagem científica, poderá se dizer objetiva. Será apenas
comum a todos os homens.
Um bom exemplo foi oferecido pela Mensagem de Arecibo, trans-
mitida em 1974 pelo maior telescópio do mundo. Foi a tentativa mais
ambiciosa de se enviar ao espaço uma rnensagem compreensível,
mesmo· a eventuais inteligências extraterrestres. Nela os cientistas
buscaran1 de todas as maneiras fornecer uma descrição breve da nossa
realidade, na linguagem mais objetiva possível.
A mensagem deve ser lida de cima para baixo, da esquerda para a
Tente imaginar como aparecerá esse rosto direita. Começa com os números de 1 a 10 (na cor branca), seguidos
visto de outro ponto de vista. Pense, por pelos números atômicos dos elementos químicos mais difundidos na Terra (na cor vermelha), até chegar
exemplo, como o veria seu interlocutor, se a Observe estes desenhos movendo a cabeça, embaixo à imagem física de um homem, à seqüência dos planetas do sistema solar (na cor amarela, com a
foto estivesse sobre uma mesa, entre vocês mesmo que levemente, para a esquerda e para a Terra em evidência) e uma representação do telescópio de Arecibo (na cor rosa).
dois. Agora, virando o livro, assuma real- direita. Os sinais gráficos obviamente continuam Existe alguma possibilidade de que um extraterrestre a entenda? Poucas. Quem pode garantir que ele viva,
mente o ponto de vista dele: você terá uma sendo os mesmos, mas o seu significado mudará como nós, em um mundo prevalentemente visual? Afinal, a maior parte das espécies existentes na terra vive
surpresa. totalmente, dependendo do ponto de vista adotado. nurn mundo predominantemente olfativo, e certamente a realidade conhecida através dos odores não é muito
semelhante à mesma realidade vista com os olhos.

96 97
COISAS E REALIDADE ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~=L=Ó=G=I=C=A=E=I=L=U=SO=-E=S~C=O=G=N=IT=l=VA=S~~Jll

REFLEXÕES LÓGICA E ~LUSÕES COGNITIVAS


As idéias ingê1111Q,;Jas
Toda descrição é 11ma interpretação
· Que exista uma correspondência direta entre o mundo, tal A mente é lõgõca porq11e o homem te, não dirigido por fatores in1próprios (preguiça,
como é, e o mundo tal como é pensado por você ou ou por é 11m animai racional desatenção, emoções que distraem) e dispondo de
qualquer outra mente hun1ana, é uma idéia muito simples e SÓCRATES - Você saberia me dizer o que signi- tempo suficiente à sua disposição, não erra. Ao
extremamente atraente. É algo que tem caráter resolutivo, ou fica raciocinar? menos potencialmente, os princípios lógicos estão
seja, possui a capacidade de solucionar qualquer tipo de pro- JOÃOZINHO · Raciocinar significa usar os prin- presentes em todas as mentes.
blema negando-o de saída. Mas demonstrar que isso é verda- cípios da lógica. SÓCRATES - Se entendi, você diz que a verdade é
deiro não é tão fácil assim. Quem seria a testemunha? Requer SÓCRATES - Mas o que é a lógica? uma, enquanto que os erros podem ser infinitos.
o consenso universal dos homens ou basta o dos presentes? JOÃOZINHO · A lógica consiste numa série de JOÃOZINHO - Correto. Não existe um erro igual
Em termos filosóficos, querer que as coisas sejam simples- princípios absolutamente verdadeiros que a huma- a outro. Cada um erra à sua maneira. O erro é
mente as coisas parece hoje uma forma de realismo ingênuo, nidade pouco a pouco descobdu e aprendeu a usar. sempre subjetivo. Não pode existir como que un1a
uma convicção contra a qual a filosofia empreendeu uma SÓCRATES - E onde foram descobertos esses lógica dos erros. Os erros não são nem lógicos
extenuante batalha. A crítica e a negação desse preconceito é princípios? nem racionais. Senão não seriam erros.
um eixo fundamental, comum a todas as mais importantes JOÃOZINHO - É difícil dizer. Podem ter sido SÓCRATES - Quando raciocinamos, estamos
escolas do pensamento contemporâneo. Hoje ninguém nega descobertos no mundo, dado que, como se diz, sempre cônscios do que estamos fazendo?
que toda forma de conhecimento não é um simples espelha· existe uma lógica nas coisas. JOÃOZINHO - Pode-se raciocinar somente cons-
mento do mundo, mas uma construção própria, mais ou SÓCRATES - No mundo, porém, eu só vejo coi- cientemente, sabendo o que se está fazendo. Os
menos consciente e subjetiva, realizada pelo indivíduo. sas, não regras lógicas. Mesmo olhando quatro raciocínios são coisas que se fazem, e não que
Toda descrição tem relação com quem descreve, é uma ree- maçãs, não vejo que duas maçãs mais duas maçãs acontecern, coino as emoções. E não se pode
laboração. A realidade é conhecida quando seus detalhes se são quatro maçãs. fazer algo sem que se decida fazê-lo. Raciocinar é
organizam de acordo com uma hierarquia de formas signifi- JOÃOZINHO - Talvez o que vejamos no mundo uma questão de vontade e esforço. O inconsciente
cativas para o indivíduo, isto é, quando são construídos de acordo com seu uso e sua exeqüibilidade. seja somente a lógica em ação, por assim dizer, existe apenas para os sentimentos.
Uma coisa só existe quando adquire um significado, quando é separada do fundo(-> 32), do contex- enquanto que as regras e os princípios são produ-
to(-> 31) e do ruído(-> 33) em que necessariamente se coloca. tos da mente humana.
As palavras não são sin1ples espelhamento mental das coisas que designam. A natureza mental do SÓCRATES - Logo, a mente humana é lógica?
conceito, ou seja, a especificação dos processos utilizados pela mente para produzir o pensamento e JOÃOZINHO - Se a lógica é produto da mente
a linguagem continua sendo um problema em aberto. Nesse caso, vale também a consideração feita humana, a mente deve ser lógica em si mesma. Se
a propósito da percepção: somos conscientes dos resultados obtidos por nossa mente, não dos proces- não o fosse, a própria lógica não poderia sequer
sos empreendidos por esta para chegar a eles. Sabemos falar e usar conceitos, mas como essas ope- existir. Aliás, em minha opinião, pode-se dizer
rações são executadas pela mente é algo em parte ainda misterioso. que a lógica descreve o funcionamento correto da
Nessa perspectiva, as idéias se semelhança(-> 34), ordem, acaso, causa(-> 35), tempo(-> 37), espa- nlente, quando não comete erros. Mas onde está a
ço etc, assumem um aspecto problemático. Não se limitam a indicar aspectos abstratos da realidade, novidade? Não são os filósofos que dizem sempre
como pretenderia a convicção ingênua, mas mostram-se como esquemas mentais (-> l 5)através dos que o homem é um animal racional? A lógica é o
quais a mente humana pensa e constrói o n1undo. instinto especial da espécie humana.
Em termos mais gerais, a percepção do indivíduo do que seja a realidade em que vive depende da sua
configuração biológica, dos sistemas perceptivos que regulam a sua relação com o mundo, de estrutu- {)) errn é sempre esbipido
ras mentais em parte herdadas geneticamente. A reflexão - obviamente apenas teórica - sobre o que SÓCRATES · Mas o que é um eno?
possa significar ser um animal (-> 39) é um instrumento válido contra a fé cega e ingênua na existên- JOÃOZINHO - É o contrário de uma coisa lógica.
cia de um mundo objetivo e na sua co1Tespondência imediata com os atos da mente que o pensa. Um raciocínio ou é lógico ou não é, não há meios
É típico do realismo ingênuo apresentar uma falsa e dramática alternativa: se o conhecimento não é termos. Não poden1 existir coisas um. pouco lógi-
objetivo, então deve ser subjetivo, no sentido de pessoal, e logo absolutamente não confiável. Nesse cas e um. pouco erradas, assim como não se pode
contexto, um realismo crítico se funda na idéia da universalidade do conhecimento (-> 40). Se for estar um pouco vivo ou um pouco morto.
verdade que não conhecemos a realidade tal como ela é (ou seja, aquilo que os filósofos denominam SÓCRATES - Mas, então, por que se erra tão
númeno), ainda assim aquilo que a realidade parece ser (que os filósofos denominamjenômeno) é freqüentemente?
comum a toda espécie humana, sendo logo, para nós homens, universal. JOÃOZINHO- Um homem inteligente e experien·

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• LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

41. De cima para baixo Dedução


LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

O raciocínio dedutivo é aquele que chega à conclusão com base em algumas premissas. Para que o Por que o raciocínio do professor Lo Presti parece
método funcione, é importante que as relações entre as premissas estejam,.bem demarcadas. Para esse tão lógico e irrepreensível, quando na verdade não O aborto como trauma Diante
fim, podem ser usados círculos de inclusão. o é absolutamente? A estrutura do seu raciocínio
é a seguinte: dado que alguns A são B e dado que dos recentes casos de suicídio

rº·@r·º iei)@IÜÕ ffi@


alguns B são C, concluo que ao menos alguns A O especialista
devem ser C. Exemplificando: dado que alguns Milão · O Prof. Lo Presti resumiu assim
italianos são tolos e dado que alguns tolos são os três dias do Congresso: "Segundo traba-
holandeses, concluo que ao menos alguns italia- lhos científicos apresentados pelos psicó-
nos devem ser holandeses. logos, parece evidente que entre algumas
A= estudantes A = estudantes A= estudantes A = estudantes Absurdo, não é? Mas insisto: então, por que o mulheres que abortaram desenvolvem fortes
B = repetentes B =fumantes B = bedéis B = não-fumantes pensamento de Lo Presti parece tão convincente? sentimentos de culpa. Por outro lado, mais de
Todos os estudantes Alguns ou todos os Nenhum estudante é bedel Alguns ou todos os Í A resposta é que mesmo quando um argumento é um psiquiatra destacou como o desenvolvi-
são repetentes estudantes são fumantes apresentado como uma dedução lógica resultante
----~es_tt_id_a_nt_e_s_sã_o não-fumantes .~J mento desses sentimentos produz em alguns
s Escolha a representação adequada de determinadas premissas, raramente prestamos
atenção no único elemento digno de nota, ou seja, na
casos distúrbios psíquicos e até verdadeiros
traumas. Com base nessas premissas, pode-
coerência interna do discurso, julgando sua validade mos, portanto, concluir que está demonstrado

.~ ,o ,ooo 2 ,cm
simplesmente com base na plausibilidade das con· agora ser o aborto, em alguns casos, um fator
clusões. Se estas parecem verdadeiras em relação de perturbação, capaz de produzir sérios trau-
à realidade, nós as aceitamos e tendemos a consi- mas psíquicos."
derar válido o raciocínio que as produziu. É o que
"Gazzetta del Piacentino", 28. 3. 2000
ocorre no nosso exemplo: que algumas mulheres
desenvolvam um trauma de aborto parece uma idéia 1rll ""' Af"""··~"''",df''
verossímil, e logo é justo que um cientista a assuma
l) CIGARROS· CÂNCER· PULMÕES A B c D E como hipótese a ser comprovada; errado, porém, é pessoas segue aqueles princípios.
2) FUMANTES • DOENTES • JOVENS A B c D E o método científico usado pelo Prof. Lo Presti, que Os erros de raciocínio, como as ilusões de óptica
tenta demonstrar essa idéia afirmando-a como uma no campo perceptivo, não pareciam argumentos
3) MULHERES • FUMANTES . CÂNCER A B c D E
dedução lógica a partir de determinadas premissas. merecedores de atenção. Se, por outro lado, a mente
4) CIRURGIÕES ·DOENTES ·ENFERMEIROS A B c D E Surge, porém, um problema. De um lado, humana fosse dotada de capacidades verdadeira-
···----··--·-- ······~--··-~~- parece óbvio que a mente possui os princípios mente lógicas, então estas deveriam funcionar sem-
s Estranhas deduções lógicos fundamentais, se não por outro motivo
porque a lógica em si é um produto do espírito
pre, independentemente do conteúdo específico das
questões tratadas e do fato de as conclusões serem
humano. Por isso a filosofia sempre procurou verdadeiras, verossúneis ou falsas, desde que cor-
Em uma dedução é preciso distinguir, de um lado, a correção do procedimento e, de outro, a ver- explicar a mente como uma máquina lógica, retas. O que, como vimos e veremos nas próximas
dade dos resultados. Uma conclusão pode estar correta quanto às premissas mas falsa em relação partindo da tese de que a psicologia efetiva das fichas, não o são.
à realidade. Avalie se as conclusões destes silogismos dedutivos são: l) corretas e verdadeiras; 2)
incorretas e falsas; 3) corretas mas falsas; 4) incorretas mas verdadeiras:
A dedução mais difü:il
Os pele-vermelhas estão desapare- Napoleão era arnericano; Alguns italianos são psiquiatras; Premissas: a) Todos os professores são bonitos; b) Nenhum estudante é professor. Qual destas duas

l
cendo; John é um pele-vermelha. todos os americanos são louros. nenhum covarde é psiquiatra. conclusões lhe parece mais admissível? 1) Nenhum estudante é bonito; 2) Nenhum bonito é estudante;
John estií desaparecendo. Napoleão era !ouro Algum italiano não é covarde. 3) Alguns bonitos não são estudantes; 4) Nenhuma conclusão é possível.
i É extraordinário como muitos escolhem a resposta 4, errada, e poucos a 3, que é a correta. O erro nasce

l
<1
Alguns boxeadores são botânicos;
todos os botânicos são barbudos. i
Alguns "single" não são infelizes;
todos os viúvos são infelizes.
Alguns boxeadores são barbudos_tjl~utn "s1ngle" não é viúvo
4 é um número par;
1 e 3 são partes de 4
1 e 3 são pares.
provavelmente da dificuldade da mente humana em fazer comparações não entre dois elementos (como
quase sempre acontece), mas entre três. Neste caso, descobrir as combinações possíveis entre três
listas mentais separadas: professores e estudantes, professores e bonitos, estudantes e bonitos. Esse
Se dois e dois são cmco, Se todos os A são B, Se todos os A são B,
nível de relativa complexidade já se mostra superior à capacidade média da mente.
então os burros voam então todos os B são A P. Johnson-Laird: Modelos mentais, li Mulino, Bolonha, 1988
então um não-B é um não-A
L - - - -~ -- - - -- - - ~ --~ --- - - - -

100 101
• LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS
T Lo, GICA E ILUSO-ES COGNITIVAS GZ=-·.I
Jff~).

\!
42. De baixo para cima 1
~ndução

s ~"~-----------·---------

Enquanto o raciocínio dedutivo se desenvolve de cima para


O jogo de Elêusis baixo (das premissas às conclusões), o indutivo faz o percur-
I' 10, ~. 5 4 3 so contrário, partindo da análise do maior número possível
~~ ~4 ?~ ;;:1
No jogo de Elêusis, a banca é 'P * *' <!> ~~ i~ ~ de casos concretos e se elevando até uma conclusão geral.
como a Natureza ou Deus: decide
' í ~ í ~
~~~ De que cor são os corvos? Exan1ino um, dois, três, mil, e
constatando que são todos pretos, chego a uma conclusão: 11 a
(e escreve num papel) a Lei.
Distribuídas as cartas, cada ' ;,» ;,» cor do corvo é preta 11 • Como se pode ver pela simplicidade
jogador abre uma delas sobre a E
~
E 1
~ ;,» T"6 do exen1plo, usamos muito a indução na vida cotidiana para
mesa: se corresponder à regra, a
banca diz ltcertau, e a carta fica
j '
' forrnar boa parte dos nossos conhecimentos sobre o mundo,
para formular generalizações a partir de exemplos, para pre-
na n1esa; se contradiz a regra, a ver a possibilidade de que un1 evento se realize.
banca diz !lerrada 11 , e o jogador
deve pegá-la de volta.
~· ?• :.~, ~· ~~ ~· !• ~· A indução é rápida e eficaz, mas tem um único defeito:
não oferecer garantias, só probabilidades. De fato, excluindo
Cada jogador joga urna carta • • • • ;,» • o caso particular em que se examinam todos os exemplos
possíveis (-1> 43), a conclusão indutiva nunca é totalmen-
em cada mão; ganha aquele que
te segura. Só depois de ter examinado todos os corvos do
primeiro ficar sem cartas, por ter
descoberto a regra.
••••• y ••• mundo eu poderia excluir a possibilidade de encontrar um - Vamos, Joâof Umajordnfw mais e voei} estará salva!
inteiramente branco.
s ---~- --------- s - ------ Em outras palavras, quando afirmamos uma verdade base-

º número que falta Os nomes escondidos


ada na indução (e, portanto, sobre urna necessidade lógica),
seria preciso acrescentar sempre 11 salvo eventuais desmentidos fornecidos por experiências ulteriores".
Mas este é um modo de dizer que uma parte muito consistente do que denominamos ciência é válido
a b e d e f g apenas temporariamente, salvo desmentidos.
92 94 96 ? 100
1 R o D s E A A questão é bem exemplificada pelo jogo de Elêusis. As primeiras cartas aceitas (1 O de copas, 9 de
96 98 100 ? 106 2 1 L u T A T s espadas, 8 de copas, 7 de espadas, 6 de copas) sugeren1 uma lei clara e simples: 11 alternar copas e espadas
3 e o A E T A R com valores decrescentes, de um em um 11 • Mas não é a lei correta, como demonstra a continuação do
994 997 1000 ? 1008 4 E L L L D o e jogo. Naturalmente, não se concede a um cientista, como no jogo de Elêusis, conhecer no final a regra
5 L R A D s M R escrita pela banca (algo semelhante à Lei da Natureza ou à Vontade de Deus). Na ciência e na vida real,
Que número é preciso inserir nos 6 A e o T u o A não existe qualquer confirmação final e deveríamos todos nos acostumar a considerar nossas certezas
espaços vazios para que exista uma indutivas como simples hipóteses, talvez prováveis, mas sempre passíveis de serern desmentidas por
7 u A N p A L
experiências ulteriores (exceto acabar como o pobre João da charge ou como o peru indutivista de
relação lógica com os outros?
Depois de descobrir a lei que Nesta confusão de letras estão escondidos três nomes. Bertrand Russel). Digo deveríamos porque naturalmente não o fazemos de fato, e veremos as conseqü-
rege a primeira série, no alto, Começando por urna letra qualquer, a seguinte se encontra ências disto nas próximas fichas.
encontre a lei estabelecida para a numa casa vizinha em qualquer direção: horizontal, vertical ou
segunda e depois para a terceira. diagonal. Por exen1plo: começando por f3 e continuando com
E se eu lhe dissesse que uma g3, f2, fl, teremos a palavra ARTE. Os problemas que lhe apre- íJ pern i11d11tivista
única lei produziu todas as três sento são dois: 1) descobrir o maior número dessas palavras; 2) A inferência indutiva não tem fundamento lógico, como demonstra a história do peru indutivista. Desde
séries? definir o momento em que você pôde encontrar todas. o primeiro dia, esse peru observou que na granja para a qual fora levado ofereciam-lhe alimento às nove
horas da manhã. Como bom indutivista, não se precipitou em tirar conclusões das suas observações, rea-
s -------- ------ lizando outras numa vasta escala de circunstâncias: às quartas e quintas-feiras, nos dias quentes e nos
dias frios, chovendo ou fazendo sol. Assim, a cada dia enriquecia a sua lista com uma proposição obser-
A forma não lógica vativa nas condições mais díspares. Até que a sua consciência indutivista viu-se satisfeita e ele elaborou
uma inferência indutiva como esta: "Dão-me sempre alimento às nove horas da manhã". Infelizmente,
Segundo um critério
porém, essa conclusão se revelou incontestavelmente falsa na véspera do Natal, quando, em vez de ser
lógico, que figura deve
alimentado, foi degolado.
ser eliminada?
B. Russel, in G. Reale: O pensamento ocidental das origens aos nossos dias, La Scuola, Brescia, 1983

102 103
1
• LÓGICA E ILUSÕES COGNITIV~~- ...

43. Corvos pretos e rãs vermelhas


• __
1
====================L=O=,G=I=C=A=E=IL=U=S=Õ=E=S=C=O=G=N=IT=l=V=A=S=~Jj§j

Indução perfeita
Vimos na ficha anterior que a indução, ou seja, o raciocínio de baixo para cima, não produz certezas,
apenas probabilidades. Existe uma única exceção a es~a regra: quando o campo a ~er analisado é limi-
tado a um determinado número de casos, talvez até muito numerosos, mas 'finitos. E evidente que nessa
A indução perfeita ocorre quando somos capazes
de examinar todas as possíveis variantes sob as
quais um problema se apresenta. É óbvio que uma
Jtt r' r' Jtt Jtt
situação, denominada 11 indução perfeita 11 , a possibilidade de examinar todos os casos possíveis não
conduz a conclusões probabilísticas, mas certas. Muitos jogos de raciocínio, como os três apresentados
nesta página, baseiam-se nesse procedimento.
análise tão detalhada leva a conclusões inequívo-
cas e também a um notável paradoxo (aqui apre-
sentado na versão didática elaborada por Martin
r' Jtt Jtt r' Jtt
Gardner). A frase nTodos os corvos são pretos"
pode ser transformada por meio de um proce-
Jtt r' Jtt Jtt Jtt
A e D E F G H 1 L
dimento que os lógicos denominam inferência
imediata, no enunciado logicamente equivalente: Jtt Jtt r' Jtt r'

Os tiros disparados ifi!li ifi!li
~-lttlt
1 11
'fodos os objetos não-pretos são não-corvos 11 • O

r' Jtt Jtt Jtt


podem ser descri- 2 D1, F3, A4, IES,
3 ifi!li H7, 18, .... segundo enunciado é idêntico ao original quanto
tos em linguagem 3 '--'--"""-
lógica da seguinte
4 ifi!li ifi!li 4.__,=_,_ ao significado; é simplesmente uma diferente
5 ifi!li formulação verbal deste. Obviamente, a desco-
maneira: Se antes
11
6 berta de qualquer objeto que confirme o segundo são casadas. Um modo óbvio é o de perguntar a
C 2 foi atingido; Se 7 ifi!li enunciado deve também confirmar o primeiro.
antes c 1 não foi 8 cada datilógrafa de cabelos vermelhos se ela tem
Vamos supor que um cientista procure todos os marido. Mas existe um outro modo, que poderia
atingido 11 •
objetos não-pretos para validar a hipótese de que ser ainda mais eficiente: obter junto ao departa-
todos os objetos do gênero são não-corvos. E mento de recursos humanos uma lista de todas
ele depare com um objeto vermelho. Um exame
s formada?
Quantas vezes a 'palavra pode ser A comparação cuidadoso revela que não se trata de um corvo,
as datilógrafas não-casadas e depois procurá-las
para verifica a cor dos seus cabelos. Se nenhuma
mas de uma rã. A rã vermelha é claramente uma tiver cabelos vermelhos, a nossa hipótese estará
confirmação de que "todos os objetos não-pretos completamente confirmada. Ninguém discutiria
E E E E E E são não~corvos • Portanto, deve contribuir para
11

o fato de que cada digitadora não-casada, e que


L L L reforçar a provável veracidade da hipótese logica- não tenha cabelos vermelhos, é uma confirmação
mente equivalente: 11 Todos os corvos são pretos 11 • da teoria de que as digitadoras da empresa com
E o o o o O E
Naturalmente, o mesmo raciocínio vale para um cabelos vermelhos são todas casadas.
L T T T T L elefante branco ou para um arenque vermelho. Como M. Gardner nos faz notar, em dias chu-
E Consideremos um exemplo mais simples. Uma vosos um ornitólogo que estuda a cor dos corvos
empresa emprega um grande número de digitado- poderia dar andamento às suas pesquisas sem ter
e L ras, dentre as quais sabemos que algumas têm os que molhar os pés. Bastaria olhar ao redor do seu
E cabelos vermelhos. Queremos verificar a hipótese quarto e registrar os exemplos de objetos não-pre-
e T L
de que todas essas moças de cabelos vermelhos tos que fossem não-corvos!
A O E
T T L Quando tentamos determinar se todos os corvos são pretos, deparamos com uma enorme desproporção
entre o número de corvos sobre a Terra e o número de objetos não~pretos. Todos estão de acordo em que
o a verificação de objetos não-pretos é um modo extremamente ineficiente de fazer a pesquisa.
L L L O problema dos corvos pretos e das rãs vermelhas é mais sutil: indaga se tem sentido dizer que uma rã
vermelha é, de um certo modo, uma confirmação de que todos os corvos são pretos. Adicionaria, ao menos no
E E E
caso dos conjuntos finitos, uma probabilidade, ainda que pequena, favorável à hipótese originária?
1 Comece pelo "S" central e prossiga em qualquer dire- Alguns lógicos acham que sim. Outros não se mostram tão certos disto. Estes destacam, por exemplo,
que se pode demonstrar, exatamente com o mesmo raciocínio, que uma rã vermelha também pode ser
i ção, unindo uma letra a outra qualquer das quatro cir-j'
uma confirmação de que "todos os corvos são brancos". Mas, como a descoberta de um mesmo objeto
cundantes. Quantas vezes a palavra "SCATOLE", que As Cas charges têm em comum sete
poderia aumentar a probabilidade de verdade de duas hipóteses contraditórias?
L em italiano significa 11 caixas 11 , pode ser formada?
·------ ____ , -
detalhes. Encontre-os.
M. Gardner: Enigmas e jogos matemáticos, Rlzzo!i, Milão 1998

104 105
LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

44. Se minha avó tivesse rodas, então ••• ~mpHcação


-- -------------- ----- ---------- - -- -
use eu ganhasse na loteria, então ... ", "Que um raio
Os quatro modos de implicação me fulmine se não for verdade". Certamente não
se pode dizer que na vida cotidiana não façamos SE VOCÊ NÃO TEM
Formas logicamente válidas Formas logicamente não-válidas
tiiíiío Afirmando; ------ ------------ Negando, AfirmaÇão do Negação do
amplo uso da implicação, ou seja, do pensamen- O QUE FAZER, NÃO
to condicional em que a realidade do segundo O FAÇA AQUI!
se afirma se nega conseqüente antecedente
termo (conseqüente) resulta de ou é condicionada
Pfemissa Se p, então q p, então q Se p, então q Se p, então q pela primeira_ O problema é que se de um lado
p Não-q q Não-p entendemos perfeitamente o significado dessas
nada se coriclúi nada se ·coOcluí frases, de outro, quando nos pedem para empre-
gar a implicação em termos abstratos e formais,
os erros sistemáticos se tornam impressionantes.
Examinemos de perto os quatro casos logicamen-
Se você for aprova- Se você for aprova- Se você for aprova- Se você for aprova- te possíveis de implicação, usando como exemplo antecedente 11 • Da implicação 11 se for aprovado
do, dará uma festa do, dará uma festa do, dará uma festa do, dará uma festa a frase use for aprovado, você dará uma festan.
Não foi aprovado_ você dará uma festa", muitas pessoas acreditam
Foi aprovado Não dá uma festa Dá uma festa
Somente o primeiro desses casos, denominado poder concluir que 11 você não foi aprovado, logo
Logo: Logo: Logo: Logo: afirmando se ajlrma, não apresenta problemas: não dará uma festa". Mas isso não é correto, não
a) dá uma festa a) foi aprovado a) foi aprovado a) dá uma festa quando o antecedente se realiza (fui aprovado) existem motivos lógicos na frase pelos quais você
b) não dá uma festa b) não foi aprovado b) não foi aprovado b) não dá uma festa é óbvio que daí decorre o conseqüente (então não possa de qualquer forma comemorar (talvez o
e) nada se conclui e) nada se conclui e) nada se conclui e) nada se conclui dou uma festa)_ Já no segundo caso, denominado seu aniversário). Também nesse caso, apesar das
·---·-------------·-·-- "-------·-·--.. -~-"-
!!negando se nega 11 , as respostas tendem freqüen- aparências, 11 nada se conclui 11 •
Qual das três conclusões resulta das premissas? temente ao erro. Pelo fato de eu não estar dando Certamente existem dificuldades intrínsecas
s --------------------:- ---- - 'l! uma festa, muitos não acreditam que podem
deduzir que então não posso ter sido aprovado,
a esses tipos de raciocínios: ter que proceder
Circulo, quadrado ou pcmto de mterrngaçao. em sentido inverso, das conseqüências para as
co1no deveriam. premissas, ter que tratar de frases com dupla
Complete, colocando nos espaços vazios um quadrado, um círculo .ºu então um ponto de interr?~a­
Os erros, porém, tornam-se sistemáticos ao negação. Isso explicaria a grande freqüência de
cão, se lhe parecer que nada pode ser concluído com base nas premissas, de modo que resulte valida
se identificar a falsidade dos outros dois modos
~ seguinte implicação: "Se houver um círculo à esquerda, então há um quadrado à direita". erros, rnas não explica um outro fenômeno: que
possíveis. Assume-se facilmente que, 11 como estou tais erros dependem da abstração dos conteú-

,s _o___[1'--------'I lol[6[
dando urna festa!!, isto significa que 11 fui aprova- dos. Formulando as questões de modo abstrato, ou
do11. O que não é exato porque existem mil moti- seja, usando a linguagem da lógica, as dificuldades
1 vos pelos quais você pode ter decidido dar uma
festa, sem que por isso tenha sido aprovado_ Na
aumentan1 enormemente, ao passo que, estruturan-
do o mesmo problen1a com conteúdos realistas, as
verdade, esse é um erro (denominado nafinnação dificuldades diminuem_ "Se p, então q. Não-q, logo
do conseqüente 11 ) porque, em termos lógicos, a não-p!l é difícil. nsc minha avó tivesse rodas, então
~mplücaçiíes allshatas e cotüdimias resposta correta é nnada se conclui 11 • Igualmente seria um carrinho. Minha avó não é um carrinho,
A capacidade mental de usar as implicações depende muito do grau de abstração da questão. freqüente é o erro denominado 11 negação do logo não tem rodas 11 , é fácil.
Respondendo a estas perguntas você notará que as fôrmuladas em termos abstratos são mais difícei~.
Se p, então q_ Dado que q existe, concluo dai a existência de P- SIM N~O
Se for um metal, então se pode fundir_ Este objeto se funde, logo é um metaL SIM N~O
Se for 3, então é um número ímpar_ É ímpar, logo é um 3_ SIM N~O O efeito dos cm1teC!dos realistas
Se p, então q_ Então, da negação de q deriva a negação de p. SIM N~O Deve-se às pesquisas sobre o efeito dos conteúdos realistas o mérito de ter demonstrado que o raciocínio
Se você compra 3, paga 2- Não pago 2, logo não comprei 3_ SIM N~O das pessoas não especializadas em lógica depende muito dos seus conhecimentos do mundo real. E esse
Se você sabia, devia ter-me avisado. Você não me avisou, logo não sabia. SIM N~O é um problema que a hipótese da lógica mental não consegue resolver de modo convincente. Por que
sujeitos adultos, a quem a tradição logicista atribuía habilidades de pensamento formal, diante de uma
Se p, então q_ Então, da negação de p deriva a negação de q_ SIM N~O
mesma prova dão respostas diferentes em função do conteúdo das premissas? Por definição, as regras
Se você é bonito, eu sou o imperador do Peru. Você é feio, logo não sou o imperador. SIM N~O
formais não levam em conta os conteúdos. Como explicar, então, esses efeitos?
Se bem me lembro, você dizia o contrário: Não me lembro bem, logo você não diz.ia. SIM NAO
V. Glrotto: O raciocínio, I! Mulino, Bolonha, 1994

l_·.
_ -•• 1
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1
LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

45. Ah! Estão aqui! Ilusões cognitivas


Como explicar que as estimativas de cálculo rápi-
do são sempre muito mais baixas que o resultado SE VOCÊ PENSAR ALGO ÀS TRÊS DA MANHÃ
correto? Por que a mente humana se mostra parti- E NOVAMENTE NO DIA SEGUINTE AO MEIO-

Por mais que você observe atentamente, esta tigura não deixará cularmente ineficaz em enfrentar tarefas de cálculo DIA, CHEGARÁ A CONCLUSÕES DIFERENTES ...

de lhe parecer o que não é: uma série de espirais concêntricas. estatístico? Por que resolvemos de modo distinto
Encontra-se ai uma forte semelhança entre ilusões de óptica um mesmo problema quando é apresentado em ter-
(..-. 9) e cognitivas. Em ambos os casos há algo que não é ver- mos de possíveis perdas ou possíveis ganhos?
dadeiro, mas que parece ser; a mente é instintivamente levada r As respostas instintivas aos quesitos apresentados
nas fichas deste capítulo estão quase sempre erradas,
a uma solução não correta, mesmo que plausível. ~~.:··f~;:, .-.' . 1--;
Nos dois casos, o resultado final, apesar de incorreto, não ·-. I<;.< ,,:
e não derivam de simples equívocos. De fato, um
erro pode depender de fatores como desatenção, dis-
~~
é um simples erro, ou seja, um lapso, um mal-entendido, um i. !,: ":·.:·"'· \;; ·~
tração ou falta de interesse; ao perceber que cometeu
disparate motivado por desatenção. Encontram-se aí forças .• . · ..'.t um, você rapidamente se corrige. quase com senti-
~uicas claras que tendem para a direção errada. ···~~--•~:._ mento de vergonha. Mas as típicas respostas equivo- mente o que está fazendo, a ponto de muitas vezes
cadas a esses quesitos não são causadas por lapsos,
s Estimativas de cãh::ulo rápido imprecisões ou burrice. Urna das mais importantes e
existir uma espécie de rejeição à solução certa.
Em resumo, urna ilusão cognitiva é uma resposta
recentes descobertas no campo da filosofia da mente instintiva, mas incorreta, algo comparável às ilu-
Experimente você mesmo e faça com seus amigos este teste de cálculo rápido. Você tem somente é que entre verdade e erro existe uma terceira dimen- sões de óptica no campo perceptivo.
cinco segundos para encontrar o produto. Dado o tempo absolutamente insuficiente, não espero um são psicológica baseada na ilusão cognitiva. As ilusões tornam-se mais evidentes em proble-
resultado exato, mas uma estimativa a mais correta possível. A ilusão cognitiva é um atalho econômico, mas que exigem urna solução rápida, ou então, em
2x3x4x5x6x7x8 rápido e bastante eficaz, mas não sistemático. condições de incerteza, quando somos obrigados a
Feito? Agora tente fazer a operação inversa. Freqüentemente conduz à resposta correta, mas tomar decisões intuitivas com base em estimativas
8x7x6x5x4x3x2 sua aplicação não garante um resultado sempre aproximativas. Certamente podemos nos pergun-
Compare os resultados obtidos e reflita sobre eles (a resposta média à primeira pergunta é 512; válido. Utilizada em outros casos produz erros, tar quantas vezes, na realidade cotidiana, fazemos
à segunda, 2250). ou seja, respostas que se distanciam às vezes con- o inverso, ou seja, chegamos a uma decisão bem
sideravelmente das que podem ser obtidas pela ponderada e com base em avaliações completas e

LJJ
aplicação de um rigoroso método matemático. exaustivas. Uma resposta realista a essa pergunta
Estimativas estatisfü:as É substancialmente uma estratégia espontânea, não conduz necessariamente a um pessimismo
inconsciente, poderosa e em boa parte insuprimí- sombrio. Dizer efetivamente que a mente tende a
vel, desenvolvida tanto por uma reflexão cons- cometer erros sistemáticos não significa que nos-
hnagine ter que lançar ciente quanto pela experiência. A diferença entre sas respostas estejam sempre equivocadas. Muitas
um dado com cinco faces ..· • ela e o erro é evidente pela atitude psicológica que
amarelas e uma verde. vezes, de fato, conseguin1os manter sob controle
a acompanha: a sensação é a de se saber exata- o nosso inconsciente cognitivo.
Em qual dessas três
séries você apostaria?
....--··-----·--··· ... L ............... _,,,___________._,,.........,.,____, . ,,_..,,, ..__,
O i11ccmscie11te oog11itivo
s As pesquisas recentes sobre ilusões cognitivas indicam a descoberta científica de um inconsciente. Não
!Risco e ga111'm aquele já explorado pela psicanálise, que envolve a esfera emocional, mas de um inconsciente que envol-
Oferecem-lhe um prêmio de R$ 300,00 Oferecem-lhe um prêmio de R$ 500,00. ve sempre à nossa revelia a esfera cognitiva, isto é, o universo dos raciocínios, dos juízos, das escolhas
Após o que lhe apresentam duas possibilidades: Após o que lhe apresentam duas possibilidades: entre diversas oportunidades, das diferenças aparentemente bem ponderadas do que é considerado
1) Receber com certeza mais R$ 100,00; 1) Perder com certeza outros R$ 100,00; provável e improvável.[ ... ] Enquanto o material do inconsciente psicanalítico manifesta-se nos sonhos
[ ... ],o material desse inconsciente deve ser buscado nos textos de economia, nas bolsas de valores,
2) Jogar cara ou coroa com uma moeda. 2) Jogar cara ou cora com uma moeda.
nas casas de jogo, nos contratos de seguro, nos conselhos de administração, nas consultas clínicas,
Se ganhar, você recebe mais R$ 200,00; Se você perder, pagará R$ 200,00;
nos mecanismos de manipulação das opiniões, nas flutuações eleitorais e em todos os lugares onde se
se perder, não recebe mais nada. se ganhar, não perde nada. tomam decisões em situação de incerteza.
Qual das duas possibilidades você escolheria? Qual das duas possibilidades você escolhe1ia? M. Piattel!i Palmarini: A ilusão de saber, Mondadori, Milão, 1993

108 109
LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS
~1111~,-~·==~L~O~,G~I~C~A~E~l~L~U~S~Õ~E~S~C~O=G=N=IT=I=V=A=S====================================~-

A ilusão do jogador

A "dobrndinlla" de Bari
---- --1 Se às vezes você também,
depois de uma série infe-
Três das vítimas estavam na casa dos trinta anos
De uma urna liz de resultados negativos O chefe de polícia adverte: A cidade esmaga os mais
contendo 12 (j
®
o ~- num jogo qualquer basea- fracos"
MILÃO. SÍNDROME DA VOLTA DAS
bolas, dentre
as quais 4 (j @@ o do no acaso (cartas, dados,
loterias etc.), tiver pensado
FÉRIAS: QUATRO SUICÍDIOS
vermelhas,
®•
<t o 11
agora chega! Não pode
EM POUCAS HORAS
retire ao acaso
(@ @ o O jogo de Lotto, muito popular na Itália, tem
sua coleção de "números relutantes" ou retarda-
continuar assim. A próxi-
l 01MUM%6M@
5 bolinhas e
deixe-asde lado.
® @}
o tários, raramente ou nunca sorteados, em milha-
res de extrações. Em Bari, a dobradinha 17-56
ma mão DEVE ser a meu
favor! 11 , isto significa que
Cazzullo: "Sim, o ritmo das metrópoles pode desencade-
Faça isso de você também, como todo
olhos fechados, para não ver a cor das bolinhas é a mais célebre dessas combinações: nunca mundo, caiu na ilusão do ar graves crises depressivas."
foi sorteada. Não é incrível? Outra dobradinha "Con·iere deila Sera", 28.8.2000
extraídas. Se agora você colocar a mão na urna jogador.
fechada para tirar mais uma bolinha, quantas são relutante, como o 35-78, na loteria de Cagliari, 1
Que é no mínirno estra-
as probabilidades de que ela seja vermelha? saiu 3.342 vezes. i
nha. Se tivéssemos de eliminar dos jornais artigos como este, reduziríamos suas
___ J De fato, por um lado páginas pela metade e privaríamos a nossa mente do prazer (perverso, do ponto de
s ---··--· s -- - -----·· . ---·-·- -1 todos nós sabemos perfei-
tamente que se os eventos
vista lógico) de entrever causas específicas !á onde talvez só existam flutuações
estatísticas.
20 fü:llas para 5 me11i11os Homem também o sexto? 1
Se em 28 de agosto (2000) houve em Milão quatro suicídios, isso não poderia ser só
de uma série são totalmen-
Imagine distribuir ao acaso 20 fichas entre 5 amigos. Pai de cinco filhos homens, o Sr. ! uma casualidade, sendo imediatamente tratado como "síndrome da volta das férias".
te independentes entre si
Qual das duas seguintes distribuições você considera Souza raciocina da seguinte manei- í
(como os lances de dado),
mais provável? ra: "Tive cinco filhos homens, o
então não é possível existir qualquer relação cau- na página ao lado. Parecem muito sensatos, mas
Paulo 4 Pedro 4 Carlos 5 André 4 Lucas 3 sexto só pode ser uma menina. 1
1 sal entre eles. O fato de se obter 7 no primeiro são totalmente ilógicos.
Quem o garante é a lógica das pro-
lance não pode de modo algum influir no lance A carnificina anunciada na primeira noite de
Pedro 4 Carlos 4 André 4 Lucas 4 l babilidades; seria muito estranho
Paulo 4 seguinte. Mas se isso é tão evidente, por que em sábado sem vigilância nas estradas pode ser
que o sexto também. fosse homem." tantas ocasiões não raciocinamos absolutamente simplesmente uma flutuação estatística. De fato,
·L'

O Sr. Souza tem razão?


J desse modo? Porque, por exemplo, se você já teve se no ano passado os mortos eram em média 20,
UMA CARNIFICINA -~-~-~- .
5 filhos homens, como diz o Sr. Souza, é humano isso significa que podem ter ocon-ido picos de 50
ANUNCIADA: 52 MORTOS (ainda que não seja lógico) pensar que o próximo mortes, compensados por outros fins de semana
NA NOITE DE SÁBADO deve ser uma menina. menos cruentos. Não se pode confrontar uma
Roma - O que aconteceu ontem nas Técnico contra psicólogos Tendemos a ver relações de causa e efeito média anual com um único evento.
auto-estradas da Itália soa como uma
terrível confirmação do que os especia-
Revolta na seleção italiana n1esmo onde elas não podem existir, de modo que a O técnico, por sua vez, deveria raciocinar
Roma - Grande agitação na equipe italiana de mer- probabilidade de que um acontecimento produzido urn pouco mais, pois se um mergulhador realiza
listas já haviam previsto. EfCtiva~ente, por acaso nos pareça de alguma maneira influen- um salto petfeito, isso se deve também. a fatores
ontem, primeiro dia da suspensao ~~s gulho devido a urn embate, ao que parece insolúvel,
controles noturnos por parte da policia entre psicólogos esportivos e o técnico. Este, de fato, ciada pela proximidade de outros também casuais. casuais que poderão não se apresentar na segunda
nas noites de sábado, o núm~ro de se nega a participar do !!Programa de apoiou proposto Você pode medir a força dessa propensão mental prova, tenha sido o atleta elogiado ou não.
acidentes fatais chegou a 52. E uma pelos psicólogos e que consiste em elogiar sistemática avaliando o impacto de fenômenos como o jogo de Pela mesma razão, quem tiver iniciado a série
verdadeira carnificina quando se pensa e publicamente os resultados ppsitivàs obtidos pelos azar, a proliferação de loterias e de uma série de com um salto péssimo, inferior à sua capacidade
que a média do ano passado fico~ em ~tle~as. Segundo o treinador, ba:Staram poucas experi- publicações dedicadas ao sistema vencedor. habitual, terá boas possibilidades de melhorar
torno do número Qá terrível em s1) de É como se houvesse algo de inurnano nas frias numa segunda prova.
20 mortos para cada noite de sábado.
encias para que os efeitos prejildiciais aparecessem:
11 11
depois de apoiar com elogios os primeiros e exce- leis da estatística: como é possível que a dobradi- Em outras palavras: em todas as provas nas
/"'~r"J--,,~./'~-'-"-'-v, (-}'·
~"~·"'' lentes desempenhos, os seguihtes invariavelmente nha nunca tenha saído na loteria de Bari? quais existe um componente casual, os desempe-
despen:avam em qualidade. num_ atleta não precisa Mas existem outros casos e1n que a dificuldade nhos tenderão a uma regressão para a média. É
você avalia esses artigos
de elogios, só de motivação e estímulo ao sacrifício 11 , de empregar raciocínios estatísticos produz efei- natural e lógico que muitos entre aqueles que esta-
extraídos do dia-a-dia?
resume o técnico. tos deletérios. va1n na faixa superior nas primeiras provas passem
Os argumentos apresentados lhe
Tome como exemplo os dois artigos de jornal para a inferior nas provas seguintes, e vice-versa.
parecem sensatos e lógicos?
110 111
• LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

4 7. O problema do táxi azul A Indiferença pela amostragem


Os problemas apresentados nesta página, estruturalmente semelhantes entfe si, não são fáceis e sua Freqüentemente, quem se sub-
solução requer o uso de um procedimento matemático (a lei de Bayes-> Soluções). Por outro lado, não mete a testes de psicologia do
raciocínio afirma que a abstração 15%
são poucos os casos em que mesmo nós, não especializados em estatística, temos que enfrentar questões
semelhantes. Obviamente, realizamos essas provas com estimativas aproximadas, que é exatamente o dos problemas apresentados por
que está sendo solicitado. Além disso, procure ordenar seu raciocínio usando esquemas gráficos. si só já é fonte de erro. Vejamos
agora o que acontece na sala de
S Prn~lem~~~ tãxi azui . .- ;
um tribunal em que se discute o
proeesso do táxi azul, suspeito de
85%
Um táxi, que, segundo uma testemunha ocular, seria azul, envolveu-se num acidente noturno com omissão de socorro.
omissão de socorro. Na cidade há somente duas companhias de táxi: a azul possui 15% dos carros, A primeira coisa a se notar é
a verde 85o/o. Como JUIZ do tribunal, você verificou a credibilidade da testemunha em circunstâncias 1 a grande segurança com que a
semelhantes àquelas da noite em que ocorreu o acidente, concluindo que ela foi capaz de identificar 1 maioria das pessoas acredita poder
/
os táxis em 80o/o dos casos. Errou nos outros 20%. ' resolver, nem que seja grosseira- O pfoblema do táxi azul representado num diagrama.
A testemunha, para você, é suficientemente confiável? Você condenaria o motorista do táxi azul? mente, o problema. Está certo, À esquerda, os táxis da cidade: 85% verdes e 15% azuis
Em outras palavras: qual é a probabilidade de que o táxi envolvido no acidente tenha sido efetivamen- dizem. Para urna avaliação exata, À direita, as identificações da testemunha. O azul escuro indica a
te azul? Para simplificar, basta que você decida se essa possibilidade é ou não superior à metade. seria preciso fazer algumas contas, porcentagem de táxis azuis efetivamente reconhecidos como tais; o
~~--_.-.-..1·
mas o fato de e:X:istir uma testemu- azul claro, a porcentagem de táxis azuis confundidos com verdes.
nha ocular confiável não pode dei- Na realidade, este quesito só é fácil aparentemente. Para ser
Prnl!lema !lo suiciilio xar de ser considerado conclusivo, corretamente resolvido, requer a aplicação de regras de cálculo
e decidem pela culpabilidade. estatístico (segundo a lei de Bayes-> Soluções).
Um estudo realizado sobre as causas de sui-
cídio entre indivíduos jovens (entre 25 e 35 E, no entanto, trata-se de uma
anos) concluiu que a porcentagem desse tipo resposta errada. O en·o reside em não levar abso- torna provável. Ou, de qualquer modo, querendo
de morte é três vezes maior entre os indivíduos lutamente em conta as probabilidades básicas da calcular a sua ocorrência efetiva, não se pode
não casados do que entre os casados. Nessa realização de um evento, destacando, ao contrá- levar em conta somente a qualidade da testemu-
faixa de idade, 80% é formada por pessoas rio, apenas uma informação específica, no caso a nha, deixando de lado a natureza rara do evento.
casadas e 20% por não casadas. Os suicidas de 25-35 anos Afaixa de idade 25-35 confiabilidade da testemunha. Em outras palavras: Quantas vezes un1 caso semelhante ao do táxi
Ora, de 100 casos de suicídio entre indivídu- Amarelo= não casados Verde= casados deixamos-nos hipnotizar pela consideração de que azul terá sido apresentado nas salas dos tribunais?
os com idade entre 25 e 35 anos, quantos vocês Laranja= casados Azul = não casados ela erra somente em 20% dos casos, esquecendo Quantas vezes o pobre taxista terá sido condenado?
avalia que sejam os de não-casados? totalmente de que os táxis azuis são muito raros, Muitas, dado que a maior parte das pessoas responde
somente 15% do total, o que aumenta en1 muito à questão fornecendo uma estimativa de culpabilida-
as possibilidades de a testemunha ter se enganado, de de 80%, quando na verdade as probabilidades de
Ois sonhos !lo casai Souza apesar da sua confiabilidade. Se uma boa testemu- que naquela noite o táxi fosse efetiv~unente azul são
nha observa um evento raro, nem por isso este se de apenas 41 %.
As pesquisas científicas sobre o sonho demonstraram que 80% das pessoas de ambos os sexos
dizem sonhar, mesmo que só ocasionalmente, enquanto que 20% afirmam não se lembrar de ter
sonhado alguma vez. Com base nesses dados, os pesquisadores classificaram os indivíduos como As ilusões cognitivas têm uma o~igem evolutiva?
sonhadores ou não-sonhadores.
Agora, os fatos a serem explicados são dois: por que levamos tão pouco em consideração as probabi-
Em 70% dos que formam casais, marido e mulher compartilham a mesma classificação, isto é, ou
lidades básicas, ou seja, a realidade efetiva do mundo, dando, entretanto, importância exclusiva a uma
são ambos sonhadores ou ambos não-sonhadores. Em 30% dos casos, entretanto, trata-se de casais testemunha por si só dúbia? E por que somos tão rápidos, seguros, quase instintivos nesse erro?
compostos por um sonhador e por um não-sonhador. Ora, sabendo que o Sr. Souza é um não-sonhador, Uma resposta poderia ser esta: imagine estar num acampamento na savana, ou melhor, ser um primitivo
quais você acha que são as probabilidades de que também a sua mulher seja uma não-sonhadora? antepassado antropológico. Ao ouvir um rugido não muito distante, você poderá se perguntar se escutou
bem, pois poderia não ser um leão, mas um inofensivo macaco cantador. No entanto, você não ficará ava-
liando o fato de que os leões representam uma porcentagem muito baixa da fauna africana, tornando assim
mais provável um erro de sua parte. Primeiro você salva a sua pele e, depois, se for o caso, calculará o
População geral: Amarelo = sonhadores Casais: Laranja = casais que compartilham risco. Se a mente humana foi "programada" pela evolução, isso se deu mais com o objetivo de fornecer
Violeta == não sonhadores Verde = casais que não compartilham respostas rápidas do que certas, voltadas mais para a salvação biológica do que para a exatidão lógica.

112 113
Ili LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

48. Verificar ou falsificar Fa~sificação e tendência à confirmação


O problema das 4 cartas, inventado pelo psicólo- Imagine que você é um guarda !ile trânsito
As quatro cartas go inglês Peter Wilson, em 1966, é um dos mais
célebres e estudados pela psicologia do raciocínio.

r Apesar da aparente simplicidade formal, obtém


respostas erradas de 90% das pessoas, inclusive
estudantes do final de um curso de lógica. Não
Alfredo,
que está
Luís, que
tem 23
se preocupe, portanto, se você também respondeu
de moto anos
incorretamente, escolhendo, além da carta A (até
Aqui estão quatro cartas, cada uma tendo de um lado uma letra e do outro um número. Duas cartas aqui todos conseguem), também a que mostra o 2,
totalmente inútil, deixando de escolher a do 5, a João, que Paulo,
estão viradas do lado da letra: numa se vê a letra A, na outra a B. As outras duas cartas estão viradas
do lado do número, uma mostra o número 2, a outra, o número 5. única verdadeiramente relevante. está de que tem
A altíssima freqüência desse erro pode ser 15 anos
Você deve indicar quais são as duas cartas que precisam ser viradas para se descobrir se a regra a
explicada pelas dificuldades mentais típicas dos
bicicleta
seguir é verdadeira ou falsa: "Se num dos lados da carta está a letra A, então no outro está o número
2" (ou seja, Se p, então q", segundo a terminologia do raciocínio implicativo --> 44). humanos em fazer uso da implicação(--> 44). De
Se o problema lhe parecer muito difícil, tente resolver primeiro o da página ao lado, "Imagine fato, o que está sendo solicitado é a confirmação Quais desses jovens você abordaria para comprovar o
ser um guarda de trânsito" e, em seguida, este logo abaixo, "Os quatro envelopes". de uma implicação: "Se p, então q", "Se A, então cumprimento da lei segundo a qual ~para dirigir uma moto
número 2". Logo, optando pela carta A, você fez é preciso ter mais de 18 anos~?
uma escolha correta: se no verso não estivesse o
Os quatro envelopes número 2, você poderia afirmar com segurança que dos quais nada dizem quanto à regra: virar a carta 2
a regra é falsa. Mas ao escolher a carta que mostra o e encontrar um A; virar a carta 2 e encontrar um B;
2, você optou por uma escolha pouco informativa. virar a carta 5 e encontrar um B. Somente quando
Você simplesmente caiu na ilusão da afirmação do se vira a carta 5 e se encontra um A obtém-se uma
R$ 0,50 R$ 0,40 conseqüente. Em termos abstratos: dada a hipótese informação útil à regra, ou seja, descobre-se que ao
"se p, então q", da existência de q não deriva a menos neste caso ela não foi observada.
existência de p, mas Hnada se conclui". Em termos O mais interessante, porém, é que a tendência
pragmáticos: "se é um metal, então funde". Funde, ao erro se reduz muitíssimo quando não se traba-
Aqui estão quatro envelopes. Dois mostrfun o lado do remetente, sendo que um está aberto e outro mas isso não implica que seja necessariamente um lha com números, letras ou símbolos abstratos,
fechado; e dois mostram o lado do destinatário, sendo que um traz um selo de 50 centavos e outro metal''. Entretanto, virando a carta que mostra o mas com coisas reais e comportamentos. Tendo
um selo de 40 centavos. Você é funcionário dos Correios e deve indicar quais são os dois envelopes cinco, você teria aplícado a regra logicamente cor- que comprovar a regra de que "para dirigir uma
que devem ser virados para que se confirme o cumprimento da seguinte regra: 11 Querendo enviar reta do negando se nega. "Se p, então q"; logo, de moto é preciso ser maior de idade", mostra-se
um envelope lacrado, é preciso que se pague uma sobretaxa de 10 centavos, com um selo de 50 em um não-q deriva um não-p. Se o nosso objeto mis- evidente a inutilidade de questionar uma pessoa
lugar dos habituais 40 centavos 11 • terioso não funde, então pode-se excluir com certe- de 27 anos, a qual, conduzindo ou não uma moto,
s As duas trincas numéricas do perga-
za que se trate de um metal. No nosso exemplo: se
no verso de 5 houvesse um A, então você poderia
não pode desmentir nem confirmar a regra (afir-
mação do conseqüente), ao passo que descobrir
!Escolha a trinca certa 13 16 19 minho seguem uma regra bem precisa, dizer com segurança que a regra é falsa. um jovem de 15 anos numa moto seria muito mais
que cabe a você descobrir utilizan- Resumindo, os casos possíveis são quatro, três informativo (negando se nega).
81 82 83 do todas as possibilidades oferecidas
\- 12 14 161\ 18 20 22
pelas séries de números à direita. A
pergunta é: qual dentre essas possibi-
Cl impulso !ile cm~fümaw
A situação é realmente paradoxal: aplicamos as regras da lógica na vida cotidiana sem prestar atenção,
lidades você ·considera mais interes-
1 32 34 36 mas deixamos de segui-las nos casos em que se esperaria o contrário - nos problemas abstratos, lógi-
27 29 \
'
sante? Você é um cientista e não deve
se contentar Com uma regra genérica;
cos, científicos. É como se na mente humana exístisse um impulso quase irresistível de confirmação das
o:il 90 97 98 regras abstratas, mesmo à custa do uso de procedimentos não-lógícos, e uma recusa de toda tentativa
você deve descobrir a verdade, a regra de falsificá-las, mesmo quando existem à disposição instrumentos eficazes.
mais simples. Tendo direito a duas
17 18 19 É verdadeira uma lei científica como essa? A abordagem comum para este problema é quase sempre o
tentativas, que séries você escolheria? acúmulo de provas, como se uma ulterior confirmação fosse mais útil do que um eventual desmentido.

114 115
~ll~~~~====L~Ó=G=!=C=A=E~!L==U=S=Õ=E=S=C=O=G=Nl=T=I=V=A=S==================================~-=· ~ =- LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

49. Nunca chove, sempre cam um dilúvio ••• A ilusão da disponibilidade mental
1
São muitos os casos na vida cotidiana em que
O problema da freqüência das palavras somos chamados a avaliar a freqüência da mani- Depois dos dois assaltos de quarta-feira,
1) Em sua opinião, quantas são as palavras do português que têm a letra "n" na antepenúltima posição? festação de um evento: um vizinho de casa morre outras famflias são alvo da criminalidade
Escolha entre as seguintes possibilidades: 100, 500, 1.000, 10.000, 20.000 por overdose de heroína aos 70 anos de idade; "Protejam-nos, temos medo"
2) Em sua opinião, quantas são as palavras do português que te~inam em "ndo"? Escolha entre outro é vítima de infarto ao 15 anos. Mesmo sem
consultar o órgão oficial de estatística, de imediato
Continuam os assaltos a mansões da
as seguintes possibilidades: 100, 500, 1.000, 10.000, 20.000
julgamos excepcionais ambos os casos, baseando- Lombardia - clamam os habitantes.
Sugestão: Utilize este diagrama de inclusão para representar o problema "Corriere della Sera", 17. 7. 2000
nos na nossa capacidade de reevocar mnemonica-
Palavras ......... N... .. ....... NDO
n1ente a freqüência com que no passado tivemos
exemplos AMANDA DORMINDO
notícia de situações análogas. Pelo modo como
VIDENTE REDONDO
raciocinamos, a normalidade ou excepcionalidade
s Quem é Jack A personalidade de Jack
de um acontecimento depende da sua disponibi-
lidade mental, ou seja, do número de exemplos
Ataque inédito na Virgínia
Tubarões matam um menino
. •
semelhantes e relevantes presentes em nossas lem-
A breve descrição da personalidade de Jack foi extraída Tem 45 anos, é casado e tem quatro
branças pessoais. O risco de uma avaliação parcial Medo na América
de uma pesquisa psicológica sobre uma amostragem filhos. É conservador, muito sagaz "Corriere della Sera" 14. 8. 2000
e ambicioso. Não.tem interesse por ou subjetiva é óbvio, tanto que seria prudente nos
de 100 indivíduos, dos quais 70 eram professores de limitarmos a usar esse delicado recurso apenas nos
assuntos políticos e sociais e usa a maior
filosofia e 30, advogados.Quais são as probabilidades casos de incerteza, ou quando for impossível ter
parte do tempo livre em atividades como
de que Jack seja advogado? bricolagem, velejar e jogos matemáticos. acesso a dados certos. Mas não é assim. a férvida imaginação, acaba-se por confirmar
Utilizamos a imaginabilidade de um evento até
s Do---
que devemos ter medo?
como critério de avaliação de problemas altamente
os piores estereótipos. Em nossas lembranças,
costuma-se dizer: nunca chove, sempre cai urn
específicos, inclusive para resolver questões lógicas, dilúvio. E é verdade: a disponibilidade mnemô-
Quais destas causas de morte você considera mais prováveis (as estatísticas dizem respeito aos EUA). como as que são apresentadas na página ao lado. nica, efetivamente, é condicionada por múltiplos
Tome, por exemplo, o problema da estimativa de fatores: emoções, reticências, hábitos (-> 16).
Acidente aéreo ou raio? Incêndio da casa ou envenenan1ento? freqüência de palavras. Nesse caso, há uma forte Principalmente a memória é condicionada pelos
Gravidez e aborto ou apendicite? Fogos de artifício ou sarampo? tendência a considerar mais elevada a freqüência de instrumentos de informação, que pela sua própria
Homicídio ou suicídio? Diabetes ou suicídio? palavras que terminam em 11 ndo 11 , mesmo que sejam natureza tendem a privilegiar os aspectos mais
Travessia de pedestres ou afogamento? Acidente de carro ou envenenamento? somente um subconjunto de todas que têm 11 n 11 na insólitos de uma situação. Se houve urn futto,
Incêndio da casa ou acidente em bicicleta? Tumor no seio ou diabetes? antepenúltima posição, devendo, portanto, pela lógi- você deve lutar contra a natural tendência da
Tiro de revolver ou uma queda? Raios ou ataque de tubarões? !
ca, ser menos numerosas. O erro nasce da melhor mente a formar juízos baseados na recordação
Ataque de tubarões ou montanhas russas? ---~:nfarto ou acidente em geral, de qual~~='~~:t1Jr:'ª~J disponibilidade imaginativa da situação errada: de - no caso, notícias do tipo "albanês furta bolsa
fato, é muito fácil lembrar de palavras que terminam de pobre aposentada 11 • Nenhum jornal brasileiro,
s em 11 ndo 11 , mas o mesmo não ocorre com as outras. de fato, publicaria uma notícia menos informativa
O problema dos dois hospitais Tudo isso é também muito perigoso porque, ao mas, justamente por isso, mais relevante: 11 brasi-
se usar sistematicamente, em lugar da fria lógica, leiro furta bolsa de aposentada".

tt;,t;t~t~t:,t:t~,,~,~~·~·~·~·~·
f{:'.- {'.'J:__ '.~/

Homens e mulheres em Milão


_-;f!:_ ô:: 1A- -:r-
'
;-;\
.
c}:-- f>f;tGt:;~·~··
-;t- :::'.' :_};
:':>

Homens e mulheres em Piacenza


,
Probabiiidades e ce11ãrios mentais
Alguns eventos são percebidos como casos tão singulares, que a história passada não parece ligar para
No hospital de Milão nascem em média l5 bebês por dia, no de Piacenza, somente 6. Como é sabi- a avaliação da sua probabilidade. Ao pensar em tais acontecimentos, muitas vezes construímos cenários,
do, cerca de 50% dos recém-nascidos é do sexo masculino, mas a porcentagem exata de meninos isto é, histórias que levam da situação presente ao evento considerado, e a plausibilidade dos cenários que
vêm à mente, ou a dificuldade em produzi-los, servem como indício da probabilidade de que aconteça.
varia dia a dia; às vezes é ligeiramente superior a 50%, às vezes, inferior. No ano passado, ambos
Se nenhum cenário razoável vem à mente, o evento é julgado impossível ou altamente improvável. Mas,
os hospitais fizeram os registros diários de maneira absolutamente fora da norma, motivo pelo qual
se vêm à mente muitos cenários ou se a única cena que vemos é particularmente convincente, o evento
60% dos recém-nascidos eram de sexo ma~culino.Qual hospital você acha que registrou o número em questão parece provável.
alto durante esses dias? Tversky e Kahneman: Julgamento na incerteza, in "Science", nº 185

116 117
• LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

50. Quem é linda? A Husão de tipicidade


s O cirurgião da charada ao lado não é o pai de
Quem é linda? Luís. Quem é então? A resposta é simples (é a Quem é o cirurgião?
Linda tem 31 anos, solteira, e é uma pessoa franca e muito desen- mãe), mas a questão é: por que tanta dificuldade Luís sofreu um grave acidente de carro e foi
volta. É formada em filosofia. Quando era estudante, militava no A em encontrar a resposta? Talvez porque exista levado para o hospital. Apresenta grave trauma
movimento pacifista e participou de muitas manifestações contra na mente humana uma espécie de conservado- craniano e deve ser operado imediatamente. O
a discriminação racial e contra o uso da energia nuclear. rismo, ou seja, uma tendência à formulação de cirurgião, porém, ao ver o paciente, exclama:
A pergunta é: quantas probabilidades existem de que uma hipótese de solução que não leva em con- "Não posso operar esse rapaz. É meu filho".
Linda, hoje: sideração dados que poderiam mudar a resposta. Mas o cirurgião não é o pai de Luís. Como você
1) trabalhe como caixa de banco? Assim, pensando no fato de que Marcos colocou explica essa contradição?
2) seja líder de movimentos feministas? os primeiros dentes, você logo o imagina como Quem é Marcos?
B
3) seja caixa de banco e também tenha continuado como um garoto de 7 anos e fica preso a essa sugestão,
"Quando colocou os primeiros dentes, Marcos
líder de um movimento feminista? mesmo que a charada mostre que isto é impossí- tomou uma grande bebedeira". Como é possível?
Considere também estas duas argumentações: vel (Marcos é um dentista).
1) é mais provável que Linda seja uma caixa de banco femi- Por isso, se um acontecimento lhe diz respeito
nista do que somente caixa de banco, pois se parece com uma diretamente e atinge sua vida pessoal, sua capa- sucesso de um seguro não depende de quantos ris-
ativista feminista muito mais do que com uma caixa de banco. Sugestão: Antes de responder, cidade de juízo racional será fortemente influen- cos ele cobre, mas do tipo de descrição do perigo:
2) é mais provável que Linda seja uma caixa de banco do tente reproduzir a situação com ciada. Se, por exemplo, na sua pacata cidadezi- as pessoas estão mais dispostas a assinar um con-
que uma caixa de banco feminista, pois toda caixa de banco este diagrama de inclusão. nha ocorre um furto de bolsa, o comentário de trato com menor cobertura de riscos, se estes forem
feminista é caixa de banco, mas algumas caixas não são femi- A= caixas tipo lógico seria observar que um único caso descritos de modo realista e impressionante, do que
nistas, e Linda poderia ser uma delas. B = caixas feministas em muitos anos demonstra que a criminalidade outro mais favorável, mas também mais genérico.
não é um problema premente. Mas, ao contrá- Absorver alguns dos dados que nos são suge-

s º---··----------
fut11m de Tom A personalidade de Tom
rio, os comentários serão muito provavelmente
de ordem catastrófica, do tipo "isto não pode
ridos, esquecendo-nos de outros, deixar-nos
impressionar por detalhes estimulantes mas não
continuar assim". E, se quem sofreu o furto foi decisivos - tudo isso nos leva a resolver os pro-
À luz dos dados contidos na ficha É notavelmente inteligente, mas não se destaca absoluta- algum familiar seu ou você mesmo, o efeito será blemas simplesmente pela constrnção de histórias
1 ao lado, qual é, na sua opinião, a mente pela criatividade. Revela uma necessidade de ordem e centuplicado, atingindo de modo muito mais capazes de amarrar de algum modo os dados do
1 probabilidade de que Tom: clareza; prefere os sistemas bem organizados e claros em que direto a sua imaginação. No entanto, nem por problema, não importa se contra a lógica. Isso é
1 a) decida freqüentar uma escola de cada detalhe esteja no seu lugar. Escreve de modo bastante isso aumentaram as probabilidades de que se demonstrado no tópico "Quem é Linda?".
1
jornalismo, mas monótono e mecânico, reavivando ocasionalmente os seus verifique um segundo furto. A tendência a construir histórias, tramas mais
b) se arrependa quase imediatamente da escritos com jogos de palavras e lampejos de viva imaginação.
Em outras palavras: o perigo depende do risco cativantes e representáveis na imaginação, leva a
sua escolha e Tem forte propensão a manifestar sua competência no que faz.
calculado objetivamente, com base na freqüência concluir ser mais provável que Linda seja hoje, ao
c) se transfira para a faculdade de Parece demonstrar pouco interesse e simpatia pelas pessoas
com que ocorrem certos eventos. Já o medo está mesmo tempo, caixa de banco e líder feminista.
engenharia? e não gosta multo de interagir com os outros.
ligado a um cenário específico. E a imaginação é Mas a probabilidade de que haja essa simulta-

s Ofertas de trabalho a ponte entre o perigo e o medo. Uma pesquisa


psicológica estudou o comportamento de pessoas
neidade deve ser inferior à de que uma.atividade
ocorra isoladamente da outra. Consideramos mais
CONT!i!ATO A que foram convidadas a fazer um seguro contra provável um evento apenas porque se torna mais
Você recebeu estas duas atraentes propostas de tra- 1) O salário anual inicial é de 30.000 reais; atos terroristas durante viagens aéreas. Pois bem, o fácil imaginá-lo.
balho. Qual dos dois contratos você escolheria? 2) o pagamento do salário será feito a cada seis
Sugestão: procure evitar a sugestão provo- meses;
cada por alguns dados, talvez só aparentemente 3) Haverá um aumento semestral de 900 reais.
decisivos (como, por exemplo, um ganho ime-
OI caso de U11da e previsões poiiticas
diato maior). Trate a questão em termos exclusi- C!»NTllATO 13 Testes semelhantes ao de Linda foram apresentados a alguns líderes políticos a propósito da invasão da
vamente matemáticos e lembre-se de considerar 1) O salário anual inicial é de 30.000 reais; Polônia pelos russos. O quão provável vocês avaliam que seja a invasão da Polônia? Segue uma estlmati~
2) O pagamento do salário será feito de uma única va. Segunda pergunta: Como vocês avaliam a possibilidade de tensão nas relações EUA-URSS e a invasão
todos os dados, calculando por exemplo o que
vez, no final do ano; da Polônia? Segue uma estimativa superior. É o paradoxo de Linda, revelando o mesmo erro.
pode acontecer com o passar do tempo. ·
3) Haverá um aumento anual de 3.000 reais. M. Piattelli Palmarini: Ciência como cultura, Mondadori, Milão, 1987
· - - - - - - - - - - - - - - - - _______ ____J

118 119
LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS

51. A experiência engana Mundo fisico e modelos de movimento


·1··------- ----·------------·---·-- ----· --·
PROBLEMA E PENSAMENTO NATURAL
--··--~·---:-·
VERDADE CIENTIFICA
-·--,i Certo, um quilo de chumbo pesa tanto
quanto um quilo de plumas, mas qual
·--·-~~-·~~-.--J você preferiria receber na cabeça, caindo

1 ~~!'~~~: ~:i:e::r rne:e ~d:~:º;!ª :~~ta~;ac~~: do segundo andar? A experiência ensina,


diz o provérbio. Pode ser verdade, mas
2 cm: seu volume é 8 cm3. Se dobrar- · cujo lado é o dobro de existen1 casos em que o contrário é verda-
1
mos o lado, qual será o seu volume? outro, na verdade tem um deiro: 1nesmo que possa parecer parado-


'
A resposta imediata é 16 crn3 , com
[ base no princípio natural de que coi-
j sas duplas têm medidas duplas.

A direção da bolinha
volume quádruplo.

-------------~
Seguirá uma trajetória reti-
xal, às vezes tendemos a errar exatamente
por estarmos muito presos à experiência
concreta do mundo em que vivemos.
Esses típicos erros são particular-
mente freqüentes nas tarefas que exigem
Imagine urna bolinha forçada a correr no línea. juízos e previsões sobre o movimento
interior de um tubo construído em espiral. Só objetos que são sub- dos corpos. As leis descobertas por
Que direção tornará a bolinha ao sair do metidos a uma força em Newton não fazem parte da bagagem
tubo? A resposta imediata é: uma direção ! sentido lateral se movem de intuições e esquemas à disposição da
curva, com base na idéia de que habitual- segundo uma trajetória mente de um não-especialista. Este, no
curva. Imagine que uma bomba seja lançada de um avião em
mente um objeto continua a se mover no entanto, não tem cabeça oca mas outras
movimento. Qual será sua trajetória do ponto de vista de um
mesmo sentido. explicações baseadas na percepção efe-
-_. . . -~-----!' _______, ________ ,_ tiva dos fenômenos visuais. Quando
observador em terra?

Qual cai primeiro? As duas cápsulas cairão ao um objeto pára? A resposta imediata - 11 quando acaba a força que o impulsiona" - não é correta porque,
Imagine que a cápsula de um projétil caia i solo exatamente no mesmo segundo a física, 11 um objeto continua a se movimentar até que uma força o detenhau. Mas é certamente mais
de sua mão, de uma altura de 1 m. E imagi- instante, ainda que aquela apropriada ao modo pelo qual os eventos parecem acontecer no mundo reitl.
ne a queda da cápsula de um projétil dispa- do projétil disparado caia Por esses motivos, as respostas à questão posta pela experiência da 11 co1Teta trajetória!! tendem a
rado de urna pistola em sentido horizontal. muito mais longe. A força se basear na recordação de experiências vividas e, portanto, freqüentemente erradas. Quantas vezes,
Qual das duas cápsulas tocará primeiro o da gravidade que empurra enquanto você andava em velocidade moderada, aconteceu de lhe cair das mãos um objeto que segura-
chão? A resposta imediata é: a cápsula do a bala para baixo é inde- va, dando-lhe a impressão subjetiva de que ele tenha tocado o solo às suas costas, enquanto você seguia
projétil que se deixou cair, porque percorre pendente da sua velocida- adiante? É urna ilusão, mas urna ilusão poderosa, que faz parte do nosso modelo mental de objetos cm
distância muito mais curta. de em sentido horizontal. movimento. (A resposta exata é o caso A: a bola seguirá uma trajetória em parábola, exatamente como
a bomba desprendida do avião).
Resta-nos perguntar por que os nossos modelos intuitivos de movimento são tão incorretos e por que moti-
vo, por outro lado, isso não nos impede de nos movimentarmos com sucesso pelo ambiente? Talvez a mente
trajetória correta
tenha sido projetada não para entender a física, mas para atuar no mundo, mesmo que tenha de desenvolver
que, enquanto distorções sistemáticas das leis do movimento.
corre, você deixe cair uma
bola sem imprimir-lhe
uma direção determinada.
Qual será sua trajetória Porque é dil'foil entender a física
entre as três mostradas no ,. / ~ .- Todos nós temos uma vasta experiência com objetos em movimento.[ ... ] Partindo da observação desses
desenho? W diferentes tipos de coisas móveis, desenvolvemos modelos mentais de como as coisas se movem e, ao
lado destes, uma teoria ingênua de porque o fazem.[ ... ] Todavia, a despeito de toda nossa experiência e

(Jf--·'ºA apesar da instrução recebida, tendemos a ter concepções notavelmente distorcidas em relação ao movi-
mento dos objetos.[ ... ] A incompatibilidade entre as !eis da física clássica e os modelos mentais das
pessoas quanto ao movimento dos objetos é talvez uma das razões pelas quais o ensino da física é difícil

•e
' A
e muitas vezes destinado ao insucesso.
J.E.L. Darley: Psicologia, li Mulino, Bologna, 1993

120 121
••
r._ LÓGICA E ILUSÕES COGNITIVAS
INTELIGÍlNCIA

REFLEXÕES 1NTELIGÊNCl.A As idéias ingêrn11.1as

A mente não é instintivamente lógica O mito do Quociente de mos no campo científico, para além da razão existe
U Por muito tempo, a filosofia sustentou que a mente humana é um aparato fundado nas leis fundamen- Inteligência somente o absurdo. Tudo deriva do seu uso correto.
tais da lógica. Desta perspectiva, a lógica é uma descrição dos princípios abstratos, a psicologia é uma JOÃOZINHO - Agora, vamos inverter os papéis. SÓCRATES - Você quer dizer que a inteligência
descrição dos processos pelos quais a mente pode aplicá-los, o erro é o efeito da interferência exter- Eu faço as perguntas. Em seus pode resolver todos os problemas?
na, a ponto de perturbar de modo imprevisível a execução desses processos lógico-mentais. discursos, você usou a palavra inteligência. O que JOÃOZINHO - Não existe nada que, em princí-
Essa convicção - que por simetria com os outros capítulos poderíamos denominar logicismo ou ela significa? pio, não possa ser explicado pela razão. Poderá
racionalismo ingênuo - foi invalidada, algumas décadas atrás, por urna verdadeira revolução, a SÓCRATES - Não sei. Esta é mesmo uma daque- acontecer antes ou depois, com o aumento dos
descoberta das ilusões cognitivas e- 54), ou seja, das tendências instintivas e inconscientes da mente las palavras que são usadas sem que se saiba dar a nossos conhecimentos, mas nada é por definição
para estratégias não-lógicas e, em suma, erradas do ponto de vista da correção formal do raciocínio. elas uma definição, como já vimos e- 28). inexplicável.
JOÃOZINHO - Mas existem testes de quociente SÓCRATES - Então, de onde vêm as idéias
A lógica formal não é um modelo realista da nossa efetiva capacidade de juízo. Os princípios gerais
de inteligência. Se não se soubesse o que é, como geniais ou simplesmente certas?
da lógica estão para o pensamento efetivo como as leis da óptica estão para a percepção: indicam que
se poderia medi-la? E, além do mais, os cientistas JOÃOZINHO - Do uso correto da lógica, é óbvio!
deveríamos pensar e ver, não o que efetivamente pensamos e vemos. Elaborando raciocínios deduti-
construíram "máquinas· inteligentes"; li que um Invenções e descobertas são fruto de longas
vos, fazemos sistematicamente confusão entre conclusão verdadeira e conclusão válida (~ 41).
computador derrota no jogo de xadrez o campeão cadeias de raciocínios. O que mais, senão isso?
Abusamos da generalização indutiva (_,. 42) e formulamos juízos fundados no que é mais típico
do mundo. Evidentemente, quem as construiu não SÓCRATES - Mas, entre uma pessoa inteligente
(_,. 30 e 50), e não mais provável(.,.. 49); deixamos que as nossas crenças sobre o mundo interfiram
e um estúpido não existem meios termos?
nos procedimentos formais e- 51e29), tendemos a confirmar mais do que a duvidar (falsificar) das
só era muito inteligente mas também sabia o que
isso quer dizer. JOÃOZINHO - Existe a pessoa de bom senso.
nossas hipóteses (.,.. 48). Somos particularmente incapazes de usar corretamente os princípios da
SÓCRATES Então, tente me dizer o que é a SÓCRATES - O que é o bom senso?
implicação(.,.. 44) e o cálculo probabilístico (_,. 46).
inteligência. JOÃOZINHO - É uma aproximação da razão. É
Quase ce1tamente, as ilusões cognitivas são um legado da evolução biológica da espécie. Talvez, em JOÃOZINHO - Em minha opinião, é a capaci- uma lógica diluída, mais simples e menos coerente,
outras épocas, tenham sido de grande utilidade. Não se pode dizer que se trate de um aspecto total- dade de usar os princípios lógicos para resolver facilmente manipulável e de qualquer forma total-
mente negativo porque, do ponto de vista prático, ou seja, da vida, é quase sempre mais importante, problemas concretos. Em outras palavras: saber mente inútil no campo científico. É por isso que os
não tanto porque suas conclusões sejam corretas, mas porque correspondem a como andam de fato usar a estratégia adequada à questão em exame. cientistas estão construindo máquinas inteligentes, e
as coisas no mundo. SÓCRATES - Então, a inteligência coincide com não máquinas dotadas de bom senso.
a lógica?
Q animai quase-racionai JOÃOZINHO - Certamente. Não se pode ser
"': A velha máxima que apresenta o homem como um animal racional parece hoje menos sensata do que inteligente sem ser um bom raciocinador, e não se
no passado. Do ponto de vista psicológico, a racionalidade parece eventualmente uma meta, um alvo pode ser um bom raciocinador sem usar a lógica,
a ser atingido contra as nossas tendências naturais. assim como não se pode falar ou escrever sem
conhecer bem a gramática.
Do ponto de vista filosófico, recoloca-se a questão da natureza da racionalidade. É uma ret1exão que SÓCRATES - Mas as crianças nada sabem de
poderia bem continuar tentando responder à seguinte questão, extremamente provocadora, formulada lógica. Por conseguinte, isso quer dizer que são
por Richard Nisbett, um dos mais conhecidos estudiosos no campo da filosofia do raciocínio: "Como pouco inteligentes?
é possível determinar que os sujeitos dos experimentos de psicologia do raciocínio fazem realmente JOÃOZINHO - Certamente que não. Quer dizer
inferências incorretas? Ou seja, ao se excluir a possibilidade de que os sujeitos não tenham compre- que o são somente potencialmente. Toda idade
endido bem as recomendações, ou tenham se distraído, ou tenham memorizado mal uma ou mais tem as suas fases de desenvolvimento, mesmo no
premissas, em suma, ao se excluir os possíveis efeitos secundários do seu desempenho, ou da falta campo intelectivo. É por isso que os erros em que
de características ecológicas na situação experimental, com base em que se decide que as inferências caem as crianças são tão diferentes daqueles em
feitas pelos sujeitos são errôneas e, ao contrário, são corretas aquelas que, segundo o experimentador, que caem as pessoas adultas.
deveriam fazer?".
A inteligência é raciocinar
SÓCRATES - Pode existir uma outra inteligência,
para além da razão?
JOÃOZINHO - Não creio. Além da razão, pode
existir a atividade dos artistas. Mas, se permanecer-

122 123
=,,,.,
========================l=N==T=E=·L=IG=Ê=N=C=IA======-"'lli l~!

52. Você tem uma inteligência espaciaf! Inteligência ou forma mentis?


Você teve dificuldade em resolver as questões da página ao
A inteligência espacial, ou seja, a capacidade de se orientar no espaço, de imaginar a tri~L~ensiona~ida­
de de um objeto a partir de uma imagem bidimensional (por exemplo, saber ver um edif1c10 a partu- da
lado? Você tem uma inteligência espacial? Você se sente
sua planta) é um importante, e freqüentemente negligenciado, componente da inteligência global. mais como Sultão ou como Rana? Você vai dizer: são apenas
jogos, até um pouco bobos. No máximo, medem uma habi-
s ···-·-·-···..· · · · ·-· · -· · lidade específica, como movimentar com sucesso os objetos
no espaço. O que têm a ver com a inteligência?
Quantos cubos? Forme um quadrado
O problema, naturalmente, é estar de acordo acerca do
significado de inteligência, tarefa quase impossível porque
existem tantas definições do termo quantos são os estudiosos
que tiveram a coragem de abordá-lo. A opinião prevalente,
de qualquer forma, é que não se deve mais falar de inteligên-
cia, mas inteligências no plural, destacando a diferença qua-
litativa entre capacidades diversas e não comparáveis entre
si. Em um célebre texto com o significativo título Formae h

mentis (As formas da mente), H. Gardner identificou cinco Sultão era um chimpanzé inteligente,
tipos de inteligência: musical, lingüística, corpórea, espa- capaz de resolver o problema da banana.
Você consegue imaginar como estas formas cial, lógico-matemática. Existem pessoas que desenvolvem Pendurava-se uma banana do teto, a uma
Quantos cubos, visíveis e não-visíveis, com- deveriam ser combinadas entre si para formar altura que não pudesse ser alcançada
a inteligência como inclinação, ou seja, saem-se extraor-
põem a figura? um quadrado? por um chimpanzé, mesmo pulando. A
dinariamente bem num âmbito em detrimento de outros,
poucos metros se encontrava, no entanto,
s ~-·--
ao passo que outros indivíduos possuem flexibilidade, ou
seja, uma inteligência versátil em âmbitos diversos. Não só
uma caixa de consideráveis dimensões.
Nessa situação, Sultão jamais hesitou:
Páginas e !>escubra a chave tende-se hoje a estudar cada forma de inteligência como o ele arrastava a caixa até que ficasse logo
buracos , resultado de uma série de habilidades ainda mais específi- embaixo da banana, subia na tampa e de
,' cas, algumas adquiridas com a experiência, outras herdadas lá dava um salto para alcançar a fruta sem
o ' o geneticamente. Nessa perspectiva, mais que definir ou medir qualquer dificuldade.
Dobre uma folha de
papel no sentido dia- o a inteligência torna-se necessário entender a forma mentis de
cada indivíduo, ou seja, de outro ponto de vista, colocar-se
gonal, como mostra
o desenho no alto, à a pergunta: "Quais são os problemas ou ações que esse indivíduo conseguiria resolver coin habilidade
acima da média? Qual é a sua inteligência específica?".

j
esquerda. Depois de
Como você pode ver, a idéia de inteligência parece fragmentar-se em seus componentes. Para quem
fazer nele um furo, o
procura uma definição global e definitiva acontece o mesmo que ao turista que, ao visitar uma cidade,
abra a folha nova- O
nunca ficava satisfeito, apesar de ter percorrido todos os monumentos e bairros: "Fizeram-me visitar a
mente. Em qual O o Catedral, os museus, o bairro chinês, tudo ... Mas, e a cidade? Eu queria ver a cidade!".
posição se encontra- Qual dessas sete chaves está voltada no senti-
rão os furos? _ _ _':_-.--.J.~-- _·- .... __ do oposto ao das demais?

s Deslocar as partes Experimentos com os macacos


Rana era uma chimpanzé pouco inteligente. Mesmo depois de muito observar Sultão, não era capaz de
A pirâmide formada pelas seis imitar o que ele acabara de fazer com a caixa. Certamente, percebia que a caixa era um objeto importante
moedas à esquerda (A) deve porque dava pulos sobre a tampa, mas sem antes deslocá-la para a posição correta. Uma vez, ergueu-se
ser transformada num círculo, sobre a caixa em posição de quem se prepara para uma ação decidida e, depois, saltou rapidamente
como em B. Você pode mover para o chão, correu para se colocar embaixo da banana e dali começou a pular o mais alto possível,
as moedas uma de cada vez, naturalmente em vão. [ ... J Numa outra ocasião, aproximou-se novamente da caixa, moveu-a numa direção
sem desarranjar as demais e e depois em outra, com grande energia, mas não na direção certa, até que desistiu e, sentando sobre a
caixa, se pôs a olhar tristemente a banana distante.
mantendo-se sempre na base
W. Kõler: Evolução e funções da psicologia da forma, Armando, Roma, 1971
de

124 125
INTELIGJ3NCJA

53. A Lua? É refeita todos os meses Husões e idade evolutiva


É provável que uma criança, por volta dos cinco
PAPAI. A Lua é sempre redonda?
anos de idade, resolva o problema do suco de
A experiência da laranjada laranja afirmando que há mais líquido no copo
HUB. (seis anos e meio) Não.
PAPAI. Como ela está?
Diante de uma criança de cerca de mais estreito. No problema dos botões, julgará HUB. Em forma de meia-lua. Está muito estra-
cinco anos, encha dois recipien- menos numerosa a fileira mais curta e, na terceira gada.
tes iguais com a mesma quanti- experiência, verá mais colheres do que talheres. PAPAI. Por que?
dade de laranjada. Ela entenderá Estas são experiências celebrizadas pelo psicó- HUB. Porque iluminou.
perfeitamente que os dois copos logo suíço Jean Piaget (1896-1980), que da obser- PAPAI. Como volta a ficar redonda?
contêm a mesma quantidade. vação sistemática das suas duas filhas extraiu HUB. Por que fazem ela de novo.
nada menos que uma teoria do desenvolvimento PAPAI. Como?
da inteligência. Segundo Piaget, a criança, desde HUB. Com o céu
Deixe que a criança observe o dia do nascimento até chegar à maturidade, J. Piaget: A representação do mundo na criança,
enquanto você despeja o líquido passa por urna série de fases de desenvolvimento. Giunti, Florença 1962
de um dos recipientes para um cada uma das quais deve ser vencida como em
copo mais fino e mais longo. uma corrida de obstáculos. Não se nasce inteli- crianças deveriam ser de um tipo qualitativamente
Pergunte-lhe depois se nos dois gente, fica-se inteligente, pouco a pouco, superan- diferente daqueles dos adultos. Segundo Piaget, por
recipientes há a mesma quanti- do provas específicas, diferentes segundo a idade. exemplo, o erro infantil de considerar que possam
dade de larnnjada. Não existe um início em absoluto da inteligência: existir "mais colheres do que talheres" seria decor-
a capacidade de realizar operações abstratas é pre- rente do fato de que a criança, ainda num estágio
cedida por formas mais orgânicas, de tipo motor: semi-lógico, não desenvolveu ainda o conceito de
o primeiro ato realizado pela criança, sugar o leite conjunto (talheres) e subconjunto (colheres), cain-
O experimento dos botões matemo, já é um ato de inteligência motora. do assim no absurdo de considerar um subconjunto
Disponha ordenadamente na As teorias de Piaget tiveram grande desenvolvi- mais numeroso do ·que o conjunto a que pertence.
frente de uma criança duas filei- mento. A elas hoje se reporta a psicologia do desen- Mas, quando os adultos, frente ao problema de
ras de botões, de igual compri- volvimento. Todavia, existem duas implicações Linda (-> 50), consideram mais provável que
mento. Pergunte se ela acha que dessa filosofia da inteligência que atualmente são Linda seja ao mesmo tempo caixa de banco e líder
as duas fileiras contêm o mesmo postas em discussão por serem dificilmente compa- feminista do que caixa de banco ou líder feminista
número de botões. Responderá tíveis com a descoberta das ilusões cognitivas. separadamente, não estão caindo no mesmo erro?
afirmativamente. A primeira é que, segundo a teoria evolutiva de Segundo uma explicação alternativa, pode ser que
Então, desarrume sob os seus Piaget, uma vez completado o desenvolvimento tanto a criança como o adulto, diante de problemas
olhos uma das fileiras e peça-lhe intelectivo, cada adulto deveria dispor dos princí- de complexidade compatível com a sua idade,
para avaliar, com um golpe de pios lógicos fundamentais e ser capaz de aplicá- caiam na mesma ilusão cognitiva da representa-
vista, se as duas fileiras contêm .los. O que, como vimos no capítulo anterior, não tividade (-> 50). A criança, efetivamente, julga
o mesmo número de botões. acontece. A mente humana, mesmo no adulto, não mais numeroso aquilo que é mais típico .e melhor
é instintivamente lógica. representável, e é mais fácil para ela construir urna
A segunda é que os erros cometidos pelas imagem mental de uma colher do que de talheres.

O experimento dos talheres faquefü1e e o pato (ii1teligência motora)


Nessa imagem há mais colheres ou mais talhe- Jaqueline (uma criança de sete meses) tenta agarrar um pato de plástico em cima do seu edredom. Quase
res? Obviamente é uma pergunta a ser feita a conseguiu apanhá-lo, mas mexeu-se e o pato escorregou para junto dela. Acabou caindo muito perto da
uma criança pequena, entre os quatro e seis anos sua mão, porém atrás de uma dobra do lençol. Jaqueline acompanhou o movimento com os olhos e tam-
de idade. bém com a mão para tentar pegá-lo. Mas, quando o pato desapareceu ... mais nada! Ela absolutamente
Para um outro exemplo do mesmo problema, não pensa em procurar atrás da dobra do lençol, o que, no entanto, seria muito fácil (amassa o lençol
formulado de modo apropriado a um adulto, ver maquinalmente e sem qualquer busca).
a experiência "Quem é Linda?"(-> 50). J. Piaget: A construção do real na criança, La nuova ltalia, Florença, 1973

126 127
INTELIGÊNCIA INTELIGÊNCIA

54. Os erros dos especialistas A universalidade das ilusões cognitivas


s
R:aciocinio diagnóstico
Um amigo seu, queixando-se de estranhos distúrbios e temend~ ter contraído Aids, submeteu-se ª,~m
exame médico, A primeira consulta foi tranqüilizadora: o médico, de fato, se mostrou confiante" As
probabilidade de que se trate de Aids são reduzidas, uma vez que os estudos ep1derruológ1cos dizem
que na sua faixa essa doença atinge somente l % dos indivíduos", disse, "De qualquer forma, por
segurança, vou lhe prescrever um teste específico'', acrescentou. "Devo dizer, po~ém, ,q~e mesi_:i~ ~ue
esse teste resulte positivo, será preciso continuar investigando até termos um diagnostico det1n1ttvo.
Efetivamente, o teste não é totalmente confiável: diagnostica todos os casos em que o indivíduo está
Se, na experiência do !!Raciocínio diagnóstico 11 , E, num certo sentido, também é uma declara-
realmente doente (resultados "verdadeiros positivos"), mas, em 5% dos casos, diagnostica a doença em
você errou a resposta, não se deprima porque está ção de derrota por parte da mente humana o auto-
sujeitos sãos (tem, portanto, uma taxa de "falsos positivos" de 5%). Sabendo que, depois, o teste resul-
em boa companhia: a grande maioria dos médicos reconhecimento de que a lógica, mesmo podendo
tou positivo, a pergunta é: quantas são as probabilidades de que seu amigo esteja realmente doente?
aos quais foi submetida a questão deu respostas ser aprendida e aplicada con·etamente, não é abso-

s desordenadas, avaliando como muito altas as


possibilidades de uma patologia. Um número
lutamente uma tendência espontânea da psique.
São concessões importantes e novas também
Programas de prevenção ainda maior não percebeu que os dois progra- para a filosofia, que, desde os seus primórdios
Quantos se salvarão? Quantos morrerão? mas de prevenção médica !!Quantos se salvarãou até poucas décadas atrás, sempre se fundou no
Está chegando uma insólita doença asiática Está chegando uma insólita doença asiática e nQuantos morrerão 11 conduzem a resultados preconceito tácito de que as regras da lógica
que, avalia-se, matará 600 pessoas. Foram que, avalia-se, matará 600 pessoas, Foram idênticos. Do mesmo modo, um grande número fossem não apenas normativas (ou seja, aplica-
apresentados dois programas alternativos para apresentados dois programas alternativos para de juízes submetidos ao "Problema do táxiº (-+ das para a obtenção de resultados corretos), mas
combater a doença. As estimativas científicas combater a doença. As estimativas científlcas 47) deu respostas erradas, condenando o réu, e também descritivas do funcionamento efetivo da
das conseqüências são as seguintes: das conseqüências são as seguintes: um grande número de políticos caiu em erro ao mente humana comum. O que evidentemente não
Programa A: 200 pessoas se salvarão. Programa A: 200 pessoas morrerão. avaliar o 11 Problema de Linda". são, porque a tendência prevalente e espontânea
Programa B: existe um terço de probabilida- Programa B: existe um terço de probabili- Infelizmente, as análises estatísticas feitas por da psique tende a privilegiar não as soluções
de de que 600 pessoas se salvem e dois terços de dade de que ninguém morrerá e uma probabi- psicólogos oferecem muitas evidências de que mais corretas, mas aquelas mais facilmente
probabilidade de que ninguém se salve. lidade de dois terços de que 600 morrerão. nem a-inteligência nem a experiência profissional representáveis (-> 49),
Que programa você escolhe? Que programa você escolhe? constituem uma proteção contlável contra erros Por sua vez, estas considerações levantam outras
de juízo, cometidos também por pessoas com edu- questões: se a lógica não representa a estrutura
cação superior. É um perigo, tanto que em alguns natural da mente, constituída ao contrário pela pro-
S Os filósofos também enam países vem se tomando obrigatório o uso do com- pensão a uma série de erros típicos e sistemáticos,
Platão. Almas sábias e más putador em todas as situações que envolvem a como se explicam, para que servem e de onde vêm
Pascal. O valor dos milagres
Sócrates. Uma alma bem ordenada é sábia? avaliação de uma probabilidade estatística, esses erros? Qual a sua razão lógica?
A propósito das profecias, dos milagres, das
adivinhações, dos sortilégios etc. Se em todas Cálicles. É absolutamente necessário que seja
essas coisas nunca tivesse havido algo de assim. Até Platão, o grande filósofo, às vezes ...
verdadeiro, nenhuma teria merecido crédito. Sócrates. A alma sábia é boa. Eu não posso
Acontece às vezes de Platão chegar a conclusões não corretas. Certamente, é um pouco exagerado dizer,
Logo, em vez de concluir que não há milagres dizer outra coisa, caro Cálicles.
como faz o historiador da lógica J, Bochenski, que "a leitura dos diálogos de Platão é quase insuportável
verdadeiros - porque existem os que são fal- Cálicles. Continue, bom homern.
para um lógico, tantos são os erros elementares neles contidos". Diante de um desses erros, podemos
sos -, é preciso, ao contrário, afirmar que há Sócrates. Eu digo que, se a alma sábia é boa,
perguntar até que ponto ele deve ser atribuído ao próprio Platão e não ao personagem a quem dá voz.
certamente verdadeiros milagres, já que exis- aquela que se encontra num estado contrário Resta o fato de que a sua argumentação nem sempre é de uma lógica irrepreensível. Por exemplo, num
tem os que são falsos, e, se existem os f'alsos, é à sabedoria é má: é estúpida e desregrada, trecho de Górgias tencontramos esta inferência: "se uma alma sábia é uma alma boa, então aquela que
porque existe1r1 os que são verdadeiros. Cálicles. Certarnente. se encontra na posição contrária a essa alma sábia é uma alma má". Igualmente bem, ou antes, igual-
Platão (427-347 a. C.): Górgias (507º) mente mal, concluiríamos: se uma alma sábia está viva, aquela não-sábia está morta. Aqui, Platão admite
B. Pasc<tl (1623-1662): Pensamentos, Einaudi, Turiin, 1962
implicitamente que se cada A é B, pode-se concluir de não-A para não·B, quando a solução legítima, pela
lei da contraposição, procede em sentido inverso, de não-8 para não-A.
Esses trechos, extraídos das obras de dois grandes filósofos, contêm importantes erros lógicos. Você R. Blanché: A lógica e a sua história, Ubaldini Editore, Roma, 1973
sabe identificá-los?

128 129
~~~··~·==·======~IN=T~E=L=IG=Ê=N=C=!A========================================·--- INTELIGÊNCIA

SS. Como contestar a mãe usando a ~ógica Bom senso e lógica Papai, você acha
que eu sou
No diálogo de surdos da página ao lado, quem tem Não, filha. Não
est úpid:'.:a::..?c..--7
MÃE. As pessoas espertas são as l'U.HO. Esse raciocínio é uma asser- ) acho absolutamen·
razão? Sem dúvida, no plano ético a mãe diz coisas
que estudam muito. E quem são ção pressuposta, um grave erro lógi- te que você seja
certas, mas o problema aqui é outro, ou seja: ela as
as pessoas espertas? Aquelas que co. Consiste em tirar, dentre as pre· Mas estúpida.
sustenta com argumentações válidas? O filho usa então eu sou
empregam bem o seu tempo. E o que missas (explícitas ou implícitas), a a lógica, enquanto a mãe recorre à esfera prática
quer dizer empregar bem o próprio mesmo estúpida
conclusão. que se quer demonstrar. da existência, à experiência de vida, apresentando
tempo? Mas é claro! Quer dizer estu- por pensar que você
Daí resulta um processo circular de considerações convincentes e de bom senso, mas Certamente,
pensa que eu sou
dar muito retorno ao início 11
erradas 11 , isto é, contra as regras da lógica. eu acho, ou melhor,
estúpida.
)~ Mas o que é bom senso? Você vai dizer que se
trata de algo certamente útil, ou melhor, essencial
Você não acha? não acho!
Em suma: você não deveria
E depois, se eu fizer uma exceção Grave erro. Para demonstrar que uma para se sair bem em milhares de casos da vida pensar que é estúpida e
para você, devo fazê-la para todos os coisa é inaceitável, você apresenta con- cotidiana, mas que não pode ser levado inteira- nem que eu pense isso.
seus irmãos. seqüências desfavoráveis. Não é logica- mente a sério. Típico das pessoas simples que não
-J>__,,- mente correto. saberiam fazer melhor, seria um subproduto, uma
versão diluída, simplificada e deficitária da única Mas então é verdade, sou
Em m.inha opinião, a verdade ,é sim· -------·-·-----:----,-~
maneira de se usar racionalmente a mente, ou mesmo estúpida se penso o
Esse é um paradoxo comportamental:
pies. Você, simplesmente, deve gos- seja, raciocinar logicamente. O que representa um que não deveria pensar.
não se pode gostar de uma coisa por
tar de estudar. paradoxo porque a lógica, que poucos usam em

'l
obrigação.
--··--·- ··---- raras ocasiões, goza de ótima reputação, ao passo
que o bom senso, que todos usamos diariamente
Basta! Você não deve me desafiar! , (e sem o qual não conseguiríamos sobreviver), de urna máquina o comportamento simplesmente
Ou está comigo ou contra mim! Ou ' . São todos falsos dilem. " '"''
lógico impede que eu não estude e não parece digno de igual respeitabilidade. sensato, ou seja, de alguma maneira semelhante
você se decide a estudar ou se deci· Mas o bom senso é tão simples assim? Pense no ao efetivo modo de funcionar da psique humana.
não ganhe a vida.
de a ganhar a vida.
).---/ ·------ -'--...(
fato de que conseguimos construir máquinas lógicas
muito eficientes, computadores eletrônicos superio-
Quando um computador for capaz de adaptar as
normas lógicas às situações concretas, de maneira

íf'Quando você
L o idiota?
v~i parar de bancar J'. -A==f-ra_s_e_é_i_n_a_d_m_i-ss-ív--e-1-d-o.-ponto de vis:Ja.
lógico. Também é uma asserção pressu·
res a nós em qualquer tarefa puramente racional (do
jogo de xadrez ao cálculo matemático), mas nenhum
a realizar um encontro entre teoria e prática, tendo
em vista resultados não-verdadeiros mas realizáveis,
,,, :J> ____,. -·· · - - - - - - - - - programador foi capaz até agora de simular através então teremos constn1ído uma mente artificial.
posta. ·

Eu conheço uma única regra: se


alguém estuda, é aprovado! E dela
decorre que, se você não estudar,
não será aprovado. J
~
~
] Você continua....
- - - r( -
......................................... "

As respostas certas estão nas '


l S
! Pe11same11to lógico
É teoria difundida, mas errônea, que grande parte do raciocínio humano se desenvolve em conformidade
com regras precisas que conduzem a conclusões inquestionáveis. Empregamos o raciocínio lógico apenas
~ Soluções. __,!)
) ..---/ em formas especiais de raciocínio adulto, geralmente usadas para sintetizar o que já foi descoberto. A
.. '--.._( maior parte da nossa atividade mental habitual, isto é,. segundo o bom senso, baseia-se mais no pensa-
mento analógico, ou seja, na aplicação às circunstânci.as atuais das representações que guardamos de
Siga ao menos a sua consciência. Lembre- ~ experiências passadas aparentemente semelhantes .
•.! se que Deus e ajustiça existem porque, do \•I'
contrário, esta vida não teria sentido. ). Bllm se11so
·--------~,!/ As habilidades mentais comuns à maioria das pessoas. O pensamento associado ao bom senso é efetiva-
mente mais complexo do que muitas operações intelectuais que atraem maior atenção e respeito, pois as
habilidades mentais que denominamos perícia comportam freqüentemente grande quantidade de conheci-
'Você raciocina de modo sutil, mas não },
ll'i consegue demonstrar que estou erra· ~ mentos, mas empregam habitualmente apenas poucos tipos de representações. O bom senso, ao contrá-
fi···J·'.

h rio, comporta muitos tipos de representações e, logo, requer uma gama mais vasta de habilidades.
da._ Logo, deveria admitir que tenho · ti
M. Minsky: A sociedade da mente, Ade!phi, Milão, 1989
~ao. ..t
)~
130 131
INTELIGflNCIA
INTELIGflNCIA

56. Aprender a aprender A arte de transferência de esquemas


s Segundo uma definição comum, a inteligência
Dois jogos: Escarnvelho e Jogo !la velha pode ser definida como a capacidade de aprender Quem é a irmã lle F!obertoí'
a aprender. Quem possui esse dom não só é capaz JOANA
de resolver problemas mas também de tomar-se Eu sou a irmã de quem Roberto perdeu o rastro
consciente das estratégias utilizadas, e forma com há muito tempo.
No Escaravelho, nove cartas de baralho, do ás ao nove, são colocadas sobre a mesa. Os dois con- elas uma espécie de coleção mental, que pode ROBERTO
tendores devem pegar, por turno, uma carta, até um máximo de três. O objetivo é que a soma das usar escolhendo a cada vez aquela mais indicada Só sei que tive uma irmã, e uma somente.
três cartas dê exatamente o número 15, Ganha, por exemplo, quem tiver o 7, o 5 e o 3. Se nenhum ao conteúdo específico do problema. A definição LUÍSA
dos jogadores somar 15 pontos com as cartas em seu poder, o jogo é considerado empatado. As é sugestiva e parece explicar algo complexo como Joana está mentindo porque sou eu a irmã
perguntas são: Se você fosse começar o jogo, que carta escolheria? Se o primeiro contendor tivesse a inteligência, de modo muito simples. Talvez até perdida,
escolhido o 5, qual carta você escolheria? Não é tão fácil responder a essas perguntas, mas pode demais, pois o risco é fazer que sintamos tudo um BÁRBARA
Não, sou eu a irmã. Aqui, pelo menos duas de
tornar-se se você conseguir entender que o jogo do Escaravelho pode ser representado de forma a tanto insuficiente. Realn1ente, por uma série de
nós dizem sempre mentiras.
tomá-lo semelhante ao Jogo da Velha, que consiste na tentativa de preencher uma linha vertical, motivos, não é fácil agir desta maneira.
horizontal ou diagonal de uma grade com nove espaços. Como você sabe, se os dois jogadores Antes de mais nada, ser racional não significa
seguirem determinadas regras, o jogo da velha termina sempre empatado. O Escaravelho também. absolutamente dispor de uma teoria da raciona- Em terceiro lugar, transferir as estratégias de
lidade, Pode-se muito bem usar a inteligência, solução elaboradas em um contexto específico
s mesmo sem saber no que isto consiste: de fato,
ela se manifesta na vida comum como uma habi-
para outros contextos, que se caracterizam por uma
O camelo tem !luas O espião estrutura semelhante. No entanto, uma formulação
Em italiano, 11 cammellou tem duas, o Um espião tenta entrar numa fortaleza sem conhecer a lidade, ou seja, uma capacidade adquirida com diferente é um programa de difícil realização.
11
deomedario 11 só uma, o 11 armadillo" senha, (N, do T: a senha tem palavras em italiano) a experiência. Todos, uns mais, outros menos, Ninguém, até o momento, sabe explicar o que sig-
[tatu-galinha], uma também, e uma O guarda diz 11 sei 11 e o espião responde 3. usamos estratégias racionais, mas nenhum de nifica ter uma mente dúctil, ainda que todos reco-
certa espécie de rr1acaco das Filipinas O guarda diz 11 dieci 11 e o espião responde 5. nós, depois, é capaz de atribuir-lhes uma defini- nheçamos imediatamente os seus produtos.
tem duas. O 11 mammut 11 chegava a ter O guarda diz 11 ottou e o espião responde 4. ção adequada. Da mesma fortUa como é possível Ponha-se à prova com o problema da irmã de
três, ao passo que a maior pa1te das O guarda diz 11 ventiquattro 11 e o espião responde 12. dirigir um carro sem ter qualquer conhecimento Roberto, Adianto que requer somente o uso do sim-
espécies animais não tem nenhuma, O guarda diz 11 quattordici 11 e o espião responde 7; mas do motor, ou ainda, falar corretamente sem ter ples e bem conhecido princípio da não-contradição,
nem o n1eone 11 , nem o 11 cava1lou e é preso. estudado a gramática e a sintaxe. segundo o qual nenhuma frase pode ser verdadeira
nem a 11 gazzellaª. O que é? Por que a última resposta está errada? Em segundo lugar, existe um instintivo conser- ou falsa ao mesmo tempo, É um princípio fácil, até
vadorismo da mente. Como mostraram as fichas mesmo óbvio, que todos nós usamos na vida cotidia-
As duas charadas, muito diferentes formalmente, podem ser resolvidas com estratégias semelhantes. dedicadas às ilusões cognitivas('"" 45-51), não nos na, Mas por que, então, toma-se tão difícil aplicá-lo
basta absolutamente a consciência de que tendemos corretamente num contexto só um pouco diferente
s --~---·------··---~------------· a cometer urn ce1to tipo de en·o, em certos tipos de do habitual? Resolver problemas transferindo esque-
problemas, para nos tomarmos imunes a eles diante mas de solução de um campo para outro continua
Três problemas com palitos !le fósforns
de problemas superficialmente diferentes, sendo até hoje uma arte, mais do que uma ciência.

Aprender a aprenclew
Algumas crianças aprendem a representar os conhecimentos de maneira versátil, outras acabam por acu-
mular procedimentos rígidos, indicados para uma única finalid,ade, ou generalidades quase inúteis ... Por
Tire três palitos, de modo Tire quatro palitos destes seis Mexendo apenas dois palitos, que algumas crianças são mais competentes que outras na transferência da aprendizagem de um âmbito
para outro? Dizer que os primeiros são mais espertos ou mais capazes ou mais inte/ígentes não explica
que restem somente três tri- quadrados, de modo que restem aproxime estes três quadrados de
nada. Habilidades tão vagas variam muito, mesmo de um lado para outro da mesma mente ... Todas as
ângulos, apenas quatro quadrados. modo a' formar somente dois.
crianças, de tanto em tanto, aprendem vários modos melhores de aprender, mas ninguém entende como
Estes três problemas são-õbViã'mente muito semeihãntes entre si. Solucione-oSem··s,eqüência, um por.
vez:·~i o fazem. O problema é que não se pode observar as estratégias que uma criança adota para "aprender
procurando entender as suas estratégias típicas de resolução, de modo que a solução de um torne pouco 1 a aprender", porque essas estratégias nos são duplamente escondidas.
a pouco mais fácil a so!ução <l,?_s..~~!E:~is. . ,.-~·-·-·--------,-------- -..----- __J M. Minsky; A sociedade da mente, Adelphi, Milão, 1989

132
133
INTELIGÊNCIA

S 7. Escolher a estratégia Estratégias visuais ou matemáticas


11

Estes problemas têm duas características particulares: 1) as questões contêm muitos dados específicos e Não me parece que as palavras ou a linguagem,
escrita ou falada, exerçam algum papel no mecanis- (a+ b)2 = a2 + b2 + 2ab
são formuladas segundo uma abordagem matemática; 2) a solução é facilitada por uma correta visuali-
zação da situação. Logo, preste atenção nos desenhos que lhe sugerem a adequada imagem mental. mo do meu pensamento. As entidades psíquicas que a b
s -- -------- s parecem servir como elementos do pensamento são
antes alguns sinais e imagens mais ou menos claros
Quem está mais perto? O peso do tijolo que podem ser reproduzidos e combinados volunta- a ab
GINA
riamente. Esses elementos são, no meu caso, de tipo
visual e às vezes muscularn. Não é a opinião de um
,_ _.3113.:~._ _, ! bailarino, apesar da referência à muscularidade do
pensamento, mas de Albert Einstein. Logo, o pensa-
MILÃO MÁRIO PAVIA
Mário sai de Pavia às 8 horas da manhã, para ir a
mento visual é a melhor estratégia para a resolução
de problemas ou, na verdade, é o segredo da inteli-
b ab
Milão, e viaja a uma velocidade constante de 80 gência? Há quem sustente isso.
km/h. Quinze minutos depois, Gina sai de Milão Quando utilizamos palavras ou números, somos
obrigados a elaborar o pensamento de forma A demonstração algébrica pode se mostrar difí"
em direção a Pavia, à velocidade de 60 km/h. Ao Um tijolo pesa 1 kg mais meio tijolo.
seqüencial, colocando os termos do problema de cil, ao passo que uma representação visual do
se cruzarem, quem estará mais perto de Pavia? Quanto pesa o tijolo? problema é evidente.
modo linear, um após o outro, como em cadeia.
s Isso garante a coerência do resultado final, mas se
no início não tomarmos o caminho correto, a con-
A traça bibliófila O viajante e os sanduiches seqüencialidade tornar-se-á uma prisão sem saída. você perguntará quando se deve escolher um
1 ~1~1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1•1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 E, até que o problema seja resolvido, não é pos-
sível saber se o caminho correto foi efetivamente
ou outro. Não existem regras fixas, obviamente,
porque, para ser eficaz, uma estratégia deve ser
tomado. Óbvio, não? Isso, porém, equivale a dizer adequada ao conteúdo específico dos problemas
T"'IC\l('O')q-
.....i
....l _J .....i que a lógica freqüentemente não é muito útil na que pretende resolver. E os problemas podem ter
~ ~ §? g busca da solução de um problema, embora o seja naturezas diversas e nem sempre evidentes, como
Imagine que você está fazendo um passeio e leva com sempre quando se deve demonstrar a sua solução. demonstram as experiências desta ficha. Em todo
Uma traça rói estes livros, cada você cinco sanduíches, enquanto um amigo seu leva três; A força de uma imagem reside na capacidade caso, como vimos no capítulo anterior, o desem-
um dos quais tem 400 páginas, da vocês encontram um viajante que não tem sanduíches, que esta tem de representar todos juntos os aspec- penho em operações indutivas melhora considera-
primeira página do primeiro até a mas oito moedas. Depois de comerem os três a mesma tos de uma questão, de modo não seqüencial, o que velmente quando se adquire o hábito de formular
última do último. Quantas páginas quantidade de pão, o viajante lhes dá de presente todo o permite captar de modo mais imediato relações os problemas segundo uma correta representação
a traça roeu? seu dinheiro. Quantas moedas você deve receber e quantas e influências recíprocas. Além disso, as imagens formal, usando as categorias abstratas de amos-
o seu amigo? concretas favorecem o desenvolvimento de outras tragem, porcentagem, freqüência, média etc. Ao
--"·"-•·-~-----"-"----~-"~·---·--·-··"---~
idéias abstratas, permitindo captar nexos associati- contrário, os processos dedutivos são mais bem
s s vos, formular analogias, fazer associações etc. controlados quando se transforma o problema em
A lesma escorregadia A soma dos primeiros 10 m:ímeros Como ambos os sisten1as parecem válidos, situações próximas da prática concreta.
Uma lesma escala um monte Raciocinando sobre a figura, encon-
de 30 m de altura. A cada 30 m tre o modo mais simples para
dia sobe 5 m, mas durante calcular a soma dos primeiros Pensar sem vocábulos

/
8
a noite ela escorrega, l.Onúmeros: 1 +2+3+4~ Um dos expedientes usados para evitar o efeito restritivo das denominações é o de pensar por imagens
retrocedendo 3 m. +5+6 +7+8+9+ ~ visuais, sem usar absolutamente os vocábulos. É inteiramente possível formular coerentemente conceitos
Quanto tempo leva- 10. s:J desse modo, as dificuldades aparecem somente quando é necessário exprimir aquilo que se pensou.
rá para alcançar / / 4 Infelizmente, são poucos os que sabem pensar por imagens visuais e nem tudo pode ser examinado con-
o topo? ~ 3 ceitualmente por esse sistema. De qualquer forma, é um método que seria bastante útil aprender porque
as imagens visuais têm uma fluidez e uma plasticidade que as palavras jamais poderão ter.
E. de Sono: O pensamento lateral, Rizzoli, Milão, 1981

134 135
li INTELIGÊNCIA INTELIGÊNCIA

58. A razão equivocada Paradoxo

;ar~~oxos vis11a;~--- Exatamente por não se contentar em aplicar a razão aos problemas
concretos, mas exigir uma teoria dela, a filosofia sempre manifes-
É estranho que as ima- tou grande interesse pelos discursos em que a razão parece não
gens tenham a capacida- funcionar: o paradoxo, o dilema, o quebra-cabeças, o enigma e a
r de de representar eficaz-
mente a impossibilidade
charada. Afinal de contas, quem quisesse entender como funciona
um automóvel teria grande interesse não só pela condução normal
lógica, como nos dois do veículo mas também pelos defeitos e avarias do motor.
objetos impossíveis aqui Ton1ernos como exemplo o paradoxo do mentiroso, o mais
ao lado. antigo e digno de nota. Ele consiste nesta simples afirmação: 11 Eu,
As três colunas do alto nascido em Milão, afirmo que todos os milaneses são mentirosos 11 •
se tomam duas embaixo. Pois bem, se digo a verdade, então sou mentiroso, corno todos os
A porta está aberta tanto milaneses; se, ao contrário, minto, então poderia ser verdadeiro,
para dentro con10 para uma vez que nesse caso nem todos os milaneses seriarn mentiro-
fora. sos. Não há como sair dessa de modo simples e elegante: estamos
diante de urna razão equivocada, um verdadeiro curto-circuito em
que literalmente não se sabe que decisão tomar.
Paradoxos comportamentais Você poderia contestar que se trata de um estranho jogo de
O conteúdo desses cartazes é constituí- Não acreditem no palavras, mas não é assim. De fato, o paradoxo do mentiroso pode ser reformulado de diversas manei-
do por ordens impossíveis. Pode-se obe- que eu digo. ras, dando origem a frases aparentemente inocentes, que todos nós podemos ter usado alguma vez sem
decer somente desobedecendo; pode-se perceber o seu absurdo implícito. Por exemplo: 11 Você não deve acreditar no que digo!n (acreditando em
desobedecer somente obedecendo. Você deve ser espontâneo você, não acredito; não acreditando, acredito). E, de resto, ainda que a reflexão mais que milenar sobre
essa pequena frase não tenha resolvido a sua ambigüidade, setores inteiros da matemática e da lógica
----·~··- -·----- ----. moderna extraíram dela úteis ensinamentos. Os paradoxos são impossíveis, mas não inúteis.
Os paradoxos estão confinados ao âmbito do discurso lógico? Certamente que não. Eles existem de
Paradoxos e ironia IRMÃOS€ !RMÀS N\INCA
t>liVéRIAM FAlER MRTE DA todos os tipos e em todos os campos, até mesmo no comportamental. Tome como exemplo a injunção:
MESMA FAMÍ~lA! 1
O paradoxo é como um curto- "Você deve ser espontâneo". Pois bem, se procuro obedecer à sua ordem, vejo-me numa situação insus-
circuito, um choque no pensa- tentável porque só espontaneamente, e não por injunção, se pode ser espontâneo. Em um célebre texto,
1
mento racional. Logo, é natural Pragmática da comunicação humana (não por acaso um estudo sobre a esquizofrenia), P. Watzlawick
que muitas vezes seja utilizado sugere as seguintes reformulações do mesmo paradoxo: "Você deveria me amar"; "quero que você me
como fonte de tiradas de espí- domine"; "Você deveria se divertir brincando, como todas as outras crianças";
1
rito. Na realidade, situações "Não seja tão obediente"; "Não se preocupe se eu começar a chorar". Como bem se vê, às vezes o
paradoxais são relativamente paradoxo se esconde em proposições simples e aparentemente inocentes, típicas da vida cotidiana.
1
1 freqüentes na vida cotidiana,

aind:.q. u···e···-m··como
11 reconh~idas uitas tais.
vezes não 1
1 _______J
O co11l1ecime11to total é um paradoxo
Ver um problema equivale a ver algo escondido. Equivale a ter um vislumbre da conexão recíproca de
Paradoxos lógicos detalhes ainda não compreendidos. O problema é valido se essa espécie de intuição for autêntica; é
Um dia o filósofo Protágoras e seu discípulo Euatlo fizeram um pacto: "Euatlo pagará os hono· original na eventualidade de que ninguém mais seja capaz de captar as possibilidades de compreensão
por nós antecipadas [ .,.]
rários ao mestre somente depois de vencer a primeira causa no tribunal". Após o que, Protágoras
Tudo isso é pacífico; podemos dá-lo como comprovado sem necessidade de ressaltar a estridente contra·
intimou o discípulo a comparecer em juízo. Considerava que o aluno devia pagá-lo de qualquer
dição implícita. Platão já havia detalhado essa contradição no Mênon. Platão afirmava que buscar a solu-
maneira, vencendo, com base no pacto inicial, ou perdendo, como execução da sentença. Mas
ção de um problema é um absurdo; de fato, ou se conhece o que se procura, e então não existe qualquer
respondeu: "Não lhe pagarei em nenhum caso: se eu perder, com base no pacto; se eu ganhar, problema; ou não se conhece o que se procura, e então não é lícito esperar encontrar coisa alguma.
base na sentença". Quem tem razão? Ainbos e, portanto, ninguém. É um dilema sem solução. M. Polanyi: O conhecimento tácito, Armando, Roma, 1979

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INTELIGÊNCIA INTELIGÊNCIA

59. Onde nascem as idéias certas?

É provável que, ao observar este vaso, você não tenha observa-


do nada de estranho. Tente, porém, semicerrando os olhos, tro-
A intuição criativa
Conta-se que Arquimedes, depois de tentar por
longo tempo resolver um difícil problema de física
1!
Como oão ' ' " " '
nisto antes?
--~--- s

aplicada (verificar se a coroa do tirano era efetiva-


car a figura pelo fundo. De repente, aparecerá algo inteiramen- mente de ouro maciço, e não apenas banhada, sem
te diferente: dois perfis de rostos humanos que se defrontam. podê-la arranhar), ao encontrar improvisadamente
Essas experiências perceptivas, em que o significado da a solução enquanto tomava banho, teria saído
imagem muda bruscamente quando o olho consegue alternar a dançando pela rua, nu, gritando Eureca! Eureca!
figura e o fundo(-+ 32), são consideradas exemplos típicos do Encontrei! Encontrei! Ele tinha vivenciado a ale-
fenômeno denominado reestruturação do campo. gria de um insight, termo inglês traduzível aproxi-
Às vezes, o pensamento racional também alcança o seu obje-
tivo por reestruturações análogas dos dados de um problema.
madamente como intuição ou iluminação.
O insight é a alternativa existente ao método -
---::::
Nesses casos, a solução chega inopinadamente, por meio de baseado em "tentativas e erros" para solução ::::-
uma espécie de iluminação da mente. de problemas. Sabemos que chega de repente
e de modo ,totalmente independente de práticas
anteriores. E imprevisível; nunca se pode dizer
quando e se terá lugar. Acontece quando, prescin-
s dindo dos exemplos experimentados no passado e
enveredando por uma via original, você chega a
/'
O qúe representa esta imagem? Não existe um
Problemas com palitos [!e sistema racional para dar sentido a uma figura
fósforo resultados antes não imaginados. Ou quando você ambígua. A única maneira é escarafunchar na sua
consegue determinar quais informações merecem imaginação, procurando imagens análogas. Se
o o o ser elaboradas mais a fundo, ou quando descobre
um novo modo de combiná-las, chegando assim
você encontrar a certa, de repente a verdade !he
aparecerá clara e evidente.
a uma solução inesperada e considerada fácil
Ligue todos os 9 pontos,
traçando apenas 4 linhas,
sem levantar o lápis do
o o o ílu ílü depois de descoberta. Exatamente como quando,
depois de ter observado longamente o vaso na
página ao lado, você descobre na imagem dois
ou simplesmente não são.
Mas, como alcançar uma iluminação? Sabemos
apenas que surge quando menos se espera. Quanto
papel e sem voltar sobre as perfis contrapostos. Em resumo, o insight consiste mais se é otimista em relação às próprias capaci-
Forme quatro triângulos eqüiláteros
linhas já traçadas. o o o com estes seis palitos de füsforo.
numa reestruturação do campo, útil, imediata, não
resultante dos habituais procedimentos lógicos.
dades, menos provável é a iluminação. Ao contrá-
-------· rio, quanto menor a confiança no próprio método,
Certos problemas ou são resolvidos de improviso mais disposto se está a mudar de direção.
Esses dois problemas requerem um estalo da mente, uma intuição criativa. Podem ser resolvidos somen-
te se você não se deixar dominar diante dos dados e por sua específica formulação. Antes de resolvê-los,
reflita sobre o seguinte conto, que descreve uma situação estruturalmente muito semelhante:
Iluminação e passividade mental
Uma prova convincente de que a transformação essencial tende a se realizar fora do campo mental e que
Provas de amizade somente o resultado aparece no cenário da mente é fornecida pelas repetidas observações de homens
que resolveram problemas verdadeiramente importantes no campo da ciência. Todos eles estão de acordo
Três jovens foram até um velho e lhe disseram: Nosso pai morreu. Ele nos deixou 17 camelos, deter- num ponto. Depois de períodos de tempo durante os quais se tentou por todos os meios resolver um
minando no testamento que o mais velho receberia a metade, o segundo um terço e o mais jovem problema, sem o conseguir, a repentina reorganização correta.da situação, e com ela a solução, tende a
um nono. Mas não conseguimos nos colocar de acordo quanto à divisão; decida você! sobrevir em momentos de extrema passividade mental. [ ... ]
Depois de refletir, o velho disse: vejo que para poder dividir bem, falta-lhes um camelo. Eu Tais conquistas freqüentemente se tornaram possíveis por uma espécie de revolução cujo resultado
disponho de apenas um e o coloco à sua disposição. Peguem-no, dividam e tragam-me o que restar. aparece subitamente no cenário mental, como que predisposto. De onde vem? Onde tem lugar a revolução
Agradeceram-lhe, pegaram o camelo e dividiram 18 camelos: o mais velho recebeu a metade, ou assim chamada? Pode ter lugar somente naquele sistema estranhíssimo, o cérebro, que parece, mais do
seja, 9, o segundo um terço, isto é 6, e o mais jovem um nono, ou seja, 2. Para sua surpresa, quando que o eu ativo, capaz de realizar coisas semelhantes, mas somente depois que o material problemático foi
terminaram a divisão dos seus camelos, havia sobrado um. cuidadosamente examinado. Por que será que certas revoluções conseguem ser as revoluções certas?
W. Kõler: Evolução e tarefas da psicologia da forma, Armando, Roma, 1971

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• INTELIGÊNCIA INTELIGÊNCIA

60. A estratégia divergente Criatividade


O que se pode fazer com um tijolo? Segundo critérios de lógica e
O que se pode fazer com um tijolo? utilidade, construir casas seria uma boa resposta. Mas certamente
não a única; poder-se-ia dizer: Para rachar a cabeça de quem faz .

perguntas desse tipo, ou então, para Colocá-lo na cabeça e ver ,


'·- .J>..
quando cai, ou ainda, para Pintá-lo com bolinhas cor-de-rosa e
fazer brincos para elefantes, ou mesmo, para Amarrá-lo no pescoço ~~
para suicidar-se. Consideramos originais essas respostas porque,
prescindindo dos hábitos (-> 16) e dos esquemas usuais (-> 15),
instauram novas conexões entre pensamentos e objetos.
--~~~ji

Ser original não é fácil, mas mais difícil é ser criativo. Para tanto,
Os testes de criatividade fazem habitualmente esta pergunta: "Independentemente de qualquer con-
é preciso fornecer respostas não só atípicas e insólitas como também
sideração lógica ou utilitária, o que se pode fazer com um objeto comum como, por exemplo, um \\.®
tijolo, uma bicicleta, uma chaleira?" A Bicicleta para enamorados e a Chaleira para masoquistas,
magistrais, ou seja, capazes de encontrar consensos, imitadores, apli- . ·""~.
.-~ G~co

-
cações. A originalidade, que sozinha beira a arbitrariedade, toma-se 00..
propostas pelo desenhista francês J. Carelman (Catalogue d'objects introuvables), são bons exem-
verdadeiramente criativa quando oferece soluções não somente impre-
1

plos de transformações originais.


_______ _j visíveis mas também válidas e pertinentes, reconhecidas como tais
s inclusive pelos outros, de alguma maneira legalizadas pelo consenso.
A genialidade criativa permanece como a zona mais misteriosa da mente, obviamente. As diversas
l11ve11te 11ovas formas teorias relativas ao tema não ultrapassam o nível da simples descrição do fenômeno, sem sequer tentar
uma explicação das causas e das modalidades operativas. Assim, dizemos que no pensamento lateral

(~)3)cj ~ (também chamado divergente, produtivo, temerário) observa-se uma prevalência de processos mentais
de tipo associativo e livremente combinatório, ao lógico. Existe nele maior fluidez, flexibilidade e
sensibilidade estética, ao lado da capacidade de reestruturar os dados de um problema de modo novo.
Em outras palavras: a natureza da criatividade humana permanece ainda hoje como um problema mais
Invente o maior número de objetos combinando entre si estas figuras sólidas. Você encontrará filosófico do que científico, a ponto de ser possível colocar em discussão até mesmo sua própria exis-
alguns exemplos nas Soluções. tência. Podemos nos perguntar, com efeito, se existe verdadeiramente uma genialidade, ou seja, uma
modalidade funcional da mente diferente e superior em relação à inteligência normal. Quando dizemos
s -~~-----~ que o gênio é superdotado, pretendemos dizer que a sua mente trabalha mais rápido do que o normal,
ou então, que possui uma qualidade particular e inexistente no homem comum?
Criatividade e ironia j MATERNIDADE E, para terminar, u1na pergunta do filósofo M. Minsky, que ele considera terrível: "Poderia sobreviver uma
cultura na qual cada um descobrisse novos modos de pensar? Se a resposta for não, devemos concluir com
tristeza que talvez o gênio, longe de ser alimentado pelos seus genes, é por eles geralmente eliminado".

Você tem uma perso11alidade criativa?


Se é impossível fornecer uma definição do que seja a criatividade, é bastante fácil verificar por via indutiva
as características das personalidades criativas.
Segundo o psiquiatra S. Arleti, autor de um importante texto sobre a matéria (A criatividade e a sua
potencialização), esta é a tabela das qualidades da personalidade criativa.
-- "Não me diga agora que estava suja ... " - "Vê como você é desconjuntado!?··
Indivíduo dotado de criatividade
1) fica muito tempo sozinho;
Não me diga agora que estava suja .. ., diz o marido à mulher que caiu com o farro dentro do canal. 2) fica muito tempo inativo, sem fazer nada;
Vê como você é desconjuntado!?, diz a mulher ao marido muito pequeno para o seu suéter. 3} reflete muito sobre os próprios conflitos interiores, chegando a recusar tratamentos terapêuticos;
São dois exemplos daquela forma de criatividade, típica da vida cotidiana, que consiste em mudar 4} é ingênuo, já que, como uma criança, tende a admitir a existência de nexos escondidos entre as

m==~
coisas;
Encontre uma resposta criativa para a terceira charge.
L. .,.~----~·" ·-"·~·-·---,.~·~-~,.·~~·-----------·----
. _._li 5} é capaz de estruturar o trabalho segundo regras precisas e manter um alto nível de disciplina.

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