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XII Semana de História Política

Conflitos e resistências: entre práticas, expectativas e rupturas


IX SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA POLÍTICA, CULTURA E SOCIEDADE
02 a 06 de Outubro de 2017

ISSN: 2175-831X

ANAIS 2017
A Semana de História Política é um evento organizado pelos discentes do Programa de
Pós-graduação em História da UERJ.
#UERJRESISTE
ISSN 2175-831X

XII SEMANA DE HISTÓRIA POLÍTICA

XI SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA: POLÍTICA, CULTURA E SOCIEDADE

Conflitos e resistências: entre práticas, expectativas e rupturas

ANAIS

Rio de Janeiro, 2017


Semana de História Política / Seminário Nacional de História:
Política, Cultura e Sociedade (XII: 2017: Rio de Janeiro)

ANAIS/XII Semana de História Política: Conflitos e resistên-


cias: entre práticas, expectativas e rupturas / IX Seminário
Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade. Organiza-
ção: Bruna Schulte Moura, João Paulo Lopes, Juliana Timbó
Martins, Mariana Nunes de Carvalho, Michelle Samuel da Sil-
va, Thais dos Santos Portella e Thiago Sobreira Vailati Silva.
Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Programa de Pós-Graduação em História, 2017.

2535p.
Texto em português
ISSN 2175-831X
XII SEMANA DE HISTÓRIA POLÍTICA

Conflitos e resistências: entre práticas, expectativas e rupturas

IX SEMINÁRIO NACIONAL DE HISTÓRIA:


POLÍTICA, CULTURA E SOCIEDADE

Comissão Organizadora
Bruna Schulte Moura
João Paulo Lopes
Juliana Timbó Martins
Mariana Nunes de Carvalho
Michelle Samuel da Silva
Thais dos Santos Portella
Thiago Sobreira Vailati Silva

Monitores
Anelise Martins de Barros
Bianca Ferreira da Cruz
Camille Cristina Batista da Silva
Carolina Carneiro de Almeida Moraes
Frederico Vieira Zgur
Gabriel Tirre Moreira
Giselle Leite Nascimento
José Roberto Silvestre Saiol
Maria Izabel Siciliano de Souza
Mariana Bahia Barboza Sousa
Patrícia Guimarães de Sá Mendes
Priscila Benevenuto Andrade
Rafaela Vasconcelos da Silva
Raissa Barreto dos Santos
Thaís Sanguineto de Carvalho
Thaísa Antunes da Costa Souza
Realização

Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Apoio

Academia Brasileira de Letras (ABL)

Acesso Livre – Revista da Associação dos Servidores do Arquivo Nacional

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ)

Arquivo Nacional

Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR)

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ (IFCH)

Instituto de Letras da UERJ

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)

Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades Sociais (LEDDES)

Laboratório de Estudos de Imigração (LABIMI)

Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA)

Núcleo de Estudos das Américas (NUCLEAS)

Núcleo de Estudos sobre Biografia, História, Ensino e Subjetividade (NUBHES)

Núcleo de Identidade Brasileira e Historiografia Contemporânea (NIBRAHAC)

Projeto República − UFMG

Redes de Poder e Relações Culturais (REDES)

Revista de História da Biblioteca Nacional Faculdade de Comunicação Social (RHBN)

Sub-Reitoria de Extensão e Cultura da UERJ (SR-3)

Sub-Reitoria de Pós-Graduação da UERJ (SR-2)


Anais 2017 - XII Semana de História Política
Conflitos e resistências: entre práticas, expectativas e rupturas

APRESENTAÇÃO

É com felicidade que chegamos a décima segunda edição da Semana de História


Política, evento organizado pelos alunos do Programa de Pós-Graduação de História da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nesta edição, mesmo diante das dificuldades
pelas quais passam nossa universidade e comunidade acadêmica, pretendemos dar con-
tinuidade às questões que foram abordadas nos encontros anteriores, promovendo a pes-
quisa histórica e o diálogo entre pesquisadores, alunos e professores de História, com o
intuito aproximar todos os níveis acadêmicos dos pressupostos teórico-metodológicos que
compõem o âmbito da História Política, sem deixar de lado também suas conexões com a
História Cultural e Social.

Desse modo, entre os dias 02 e 06 de outubro de 2017, a XII Semana de História Po-
lítica de História foi realizada tendo como tema “Conflitos e resistências: entre práticas,
expectativas e rupturas”. A partir de tal temática, buscamos discutir diferentes aspectos
políticos e sociais de nosso país, bem como de nossa própria universidade, através de con-
ferências e mesas-redondas que contaram com a presença ilustre de historiadores como
Lilia Moritz Schwarcz, Ricardo Salles, Ângela de Castro Gomes, Tarcísio Motta, Fernando
Penna, Lúcia Bastos, Orlando de Barros, dentre outros.

Esse projeto visou fomentar debates entre graduandos, pós-graduandos e pós-gra-


duados, prezando por divulgar a produção historiográfica dos interessados e promover o
intercâmbio de ideias entre os profissionais (discentes e docentes) das mais variadas linhas
e instituições. Desse modo, pretendemos contribuir para a solidificação dos Programas de
Pós-Graduação e suas universidades, além de investir na produção editorial através da
publicação dos anais do evento.

Dentro de seu espírito de incentivo aos novos pesquisadores, a Semana de História


manteve o espaço destinado à apresentação de trabalhos de pesquisa realizados por alu-
nos e alunas da graduação, inaugurado na edição de 2013. Assim, o Seminário Nacional
de História: Política, Cultura e Sociedade, já em sua nona edição, se configurou como um
espaço no qual graduandos, participantes de programas de Iniciação Científica ou em fase
de conclusão de curso, puderam contribuir de maneira mais incisiva, apresentando e deba-
tendo oralmente suas pesquisas.

A iniciativa para a abertura deste espaço de diálogo destinado à graduação e sua


consecutiva manutenção durante esses nove anos de realização, parte da ideia de preen-
cher os espaços entre graduação e pós-graduação e da valorização da produção dos tra-
balhos iniciais, os quais todos os anos participam com dinamismo e qualidade no evento.
Salientamos ainda que, como nas edições anteriores, os resumos dos que se enquadraram
Anais 2017 - XII Semana de História Política
Conflitos e resistências: entre práticas, expectativas e rupturas

na categoria de graduação foram publicados em nosso Caderno de Resumos, bem como


seus trabalhos completos são também agora publicados nesses Anais.

Contudo, especialmente neste ano, a Semana de História Política, de forma inédita e


como incentiva à ocupação de nossa universidade no contexto atual do projeto de desmon-
te da UERJ, abriu-se para receber comunicação de graduandos e graduados também em
Simpósios Temáticos, anteriormente destinados apenas a pós-graduandos e pós-gradua-
dos. Esta iniciativa nasceu da crença de que apenas nos unindo enquanto pesquisadores
e professores iguais, ocupando e defendo nosso espaço de produção de conhecimento por
direito, conseguiremos resistir na luta pela universidade pública, gratuita e de qualidade.

O Evento realizou-se nas dependências da Universidade do Estado do Rio de Janei-


ro, campus Maracanã, atraindo em grande escala pesquisadores de todo Brasil. Tivemos
também algumas propostas de comunicação internacionais, o que sustenta a dimensão
e peso que tem tal congresso. Assim, a XII Semana de História Política e o IX Seminário
Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade impulsionaram alunos de diversos Pro-
gramas Pós-Graduação e Departamentos de História do estado e do país a produzirem e
movimentarem seus conhecimentos, permitindo-os ganhar visibilidade, ampliar a temática
e trocar experiências.

Foi de grande valia o esforço dos discentes, junto à Coordenadoria do Programa


de Pós-Graduação em História da UERJ, em administrar a Semana de História, de forma
que contribuísse para a construção de mais um espaço de discussão e de apropriação do
universo científico acadêmico, corroborando com a práxis de pesquisa e de docência dos
cursos de História do Brasil.

Portanto, a Comissão Organizadora gostaria de agradecer aos laboratórios vincu-


lados ao Programa de Pós-Graduação em História da UERJ, à Sub-Reitoria de Pós-Gra-
duação, à Sub-Reitoria de Extensão e Cultura, ao Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro e os demais colaboradores pelo apoio ao evento, sem os quais este não
seria possível.

Sobretudo, a Comissão Organizadora saúda os coordenadores de Simpósios Te-


máticos, proponentes de Minicursos, conferencistas, monitores, comunicadores e ouvintes
vindos de universidades de todas as regiões do país que nos ajudaram e ajudam a compor
este evento que é organizado durante todo o ano com muito carinho e dedicação para todos
e todas.

Comissão Organizadora
XII Semana de História Política

IX Seminário Nacional de História: Política, Cultura e Sociedade

www.semanahistoriauerj.net
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A política externa do Império brasileiro no Primeiro Reinado:
expectativas, projetos e práticas (1822 – 1831)

Abner Neemias da Cruz1

Resumo: Em meio aos movimentos políticos que eclodiram na América Lusitana, no início
da década de 1820, surgiu como instituição política, por volta de 1822, o Império brasileiro.
Neste trabalho, temos por objetivo desdobrar algumas considerações sobre a política externa
elaborada pelo governo imperial brasileiro durante o Primeiro Reinado. Setores da
historiografia que escreveram sobre o tema afirmaram que durante o governo de D. Pedro I a
política externa brasileira esteve centrada, num primeiro momento, na obtenção do
reconhecimento da soberania brasileira por parte de outros Estados. Posteriormente, o foco
deslocou-se para a conquista de acordos, alianças e tratados com outros países. Para além dos
marcos cronológicos supracitados, pretende-se refletir nos matizes políticos contidos nos
projetos, expectativas e práticas que perpassaram a política externa brasileira entre 1822 a
1831.

Palavras-chave: Primeiro Reinado; Política Externa; Brasil Império.

Abstract: During the political movements that has broken out in the Lusitanian America in
the early 1820s, the Brazilian Empire emerged as a political institution around 1822. In this
study, we aim to unfold some considerations about the foreign policy elaborated by Brazilian
imperial government during the First Reign. Sectors of the historiography that wrote on the
subject affirmed that during the government of D. Pedro I the Brazilian foreign policy was
centred, in the first moment, in obtaining the recognition of the Brazilian sovereignty by other
States. Subsequently, the focus shifted towards the achievement of agreements, alliances and
treaties with other countries. In addition, this study also intended to reflect on the political
nuances contained in the projects, expectations and practices occurred in Brazilian foreign
policy between 1822 and 1831.

Key words: First Reign; Foreign policy; Brazilian Empire.

Segundo Reinhart Koselleck, entre as novidades contidas nos descolamentos de visões


que ocorreram no entrecruzar, ou justaposição, da Idade Moderna, com o início dos tempos
tidos por Contemporâneos, encontravam-se as expectativas em relação ao futuro elaboradas,
em alguma medida, nas sociedades ocidentais (KOSELLECK, 1979). Assim, esta noção nos
serve como ponto de partida para a elaboração desta comunicação na qual propomos pensar a

1 Doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista, bolsista CAPES, sob a orientação da
prof. Dra. Marisa Saenz Leme. E-mail: abner.neemias@gmail.com

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política externa do Primeiro Reinado, suas práticas e projetos articulados à expectativa de se
“cristalizar” o Império brasileiro no período independentista e, para além. Para tanto,
dividimos o texto que se segue abaixo em alguns eixos: 1. No bojo da Independência
brasileira: a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. 2. A política externa brasileira e
a nova diplomacia: projetos e ações. 3. Os Negócios Externos e o Império brasileiro: a
expectativa como eixo articulador de práticas.

1. No bojo da Independência brasileira: a Secretaria de Estado dos Negócios


Estrangeiros
O novo governo, que haveria de ser constituído em inícios da década de 1820
inaugurara o que a historiografia brasileira atual entende por período imperial. Surgiu em
meio a um denso panorama político-econômico e marcou a ruptura política com a antiga
metrópole – Portugal. O retorno de D. João VI a Portugal, as pressões das Cortes lisboetas, as
elites brasileiras, as diversas visões políticas na América lusitana, as novas ideias versus as
antigas, a ilustração, os interesses econômicos entre outros foram alguns dos elementos que
formavam o “caldo” social, político e cultural que resultou na organização gradual de um
novo Império, de extensão continental, entre os trópicos.
Nesse ínterim, vale ressaltar o cenário que antecedeu aos movimentos
independentistas brasileiros da década de 1820. A vinda da corte portuguesa, em 1808, trouxe
mudanças significativas para a então colônia Brasil, entre outras, a abertura dos portos,
criação da imprensa régia e a transformação do Rio de Janeiro em nova capital do Império
lusitano – que acolheu a estrutura administrativa do Império português. Em 1815, o Brasil foi
oficialmente elevado ao patamar de reino unido quando surgiu o Reino Unido de Portugal,
Brasil e Algarves. Sobre a vinda da Corte portuguesa ao Brasil, os historiadores Andréa
Slemian e João Paulo G. Pimenta em O “nascimento político” do Brasil: as origens do
Estado e da nação (1808 – 1825) argumentaram:

Em suma, a experiência portuguesa, inédita na história dos Impérios


ultramarinos da Idade Moderna, de transformação de um território colonial
em sede de Império acabava por criar uma situação contraditória”. De um
lado, reforçava a ordem dinástica, monárquica e legitimista até então
vigente; de outro, aprofundava a crise da mesma ordem, complexificando-a e
antepondo-lhe novos obstáculos e alternativas que acelerariam a sua própria
dissolução (PIMENTA, SLEMIAN, 2003).

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Conjuntamente ao que já foi abordado, acrescenta-se o fato de setores das elites
brasileiras terem se beneficiado economicamente da interiorização da metrópole portuguesa;
além das novidades políticas e econômicas que reverberavam no mundo dito ocidental onde
destacam-se as novas práticas econômicas de cunho capitalista, os pensamentos e visões
ligados à ilustração, os movimentos de independência na América Hispânica e,
indubitavelmente, a Revolução Americana e Francesa.
Em 1821, o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do Reino Unido de Portugal, Brasil
e Algarves. Dom João VI retornou a Portugal em meio às pressões feitas pelas Cortes
Lisboetas. Segundo o pesquisador Valentim Alexandre, se num primeiro momento houve certa
receptividade de setores brasileiros às proposições das Cortes lusitanas, posteriormente, dado
o enrijecimento das propostas políticas defendidas pelas Cortes, a adesão brasileira foi
pulverizada (ALEXANDRE, 1993). Assim, de forma gradual, a independência política
brasileira foi ganhando força em diversos setores sociais na América Lusitana. Moderados,
concurdas, constitucionais, liberais, exaltados entre outras figuras compuseram o complexo
cenário político em terras brasileiras na década de 1820. Múltiplas vozes, projetos
dissonantes, conflitos e contradições marcaram este período; todavia, pelos idos de 1822, o
projeto político vencedor alçou D. Pedro I ao posto de imperador da nova monarquia que
surgia .
Simultaneamente ao processo de emancipação política, passou-se a organizar uma
monarquia constitucional. A sede do novo império, permaneceria sendo o Rio de Janeiro,
assim como nos tempos de D. João VI. Forças Armadas foram aglutinadas. Uma Assembleia
Constituinte foi instituída. Entre outros, também criaram secretarias, sendo que uma delas
tinha entre suas funções cuidar dos negócios exteriores: a Secretaria de Estado dos Negócios
do Império e Estrangeiros. Esta foi desmembrada em 1823 e deu origem à Secretaria de
Estado dos Negócios Estrangeiros (CASTRO, 1983). A supramencionada secretaria passou a
mediar as relações entre o novo governo brasileiro e os demais países.
Nesse ínterim, vale ressaltar que os negócios externos ocuparam um papel relevante na
consolidação da independência política, afinal, a cristalização de um novo Estado precisava
ser respaldada pelos demais países. Coube à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros
articular esses diálogos. No princípio, missões diplomáticas pontuais foram organizadas com
o intuito de forjar laços. Ao longo dos anos subsequentes, a pasta dos negócios externos foi
crescendo a partir da criação de legações brasileiras em diversos lugares e ampliação do corpo
diplomático. Além do mais, durante esses primeiros anos, foram criadas rotinas

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administrativas, mecanismos de preservação documental, sistemas de comunicação entre a
respectiva secretaria e as legações estrangeiras.
Consta nos acervos diplomáticos, que no final do Primeiro Reinado, diversas missões
diplomáticas brasileiras haviam sido realizadas em diversas cidades dos continentes europeu,
americano e africano, onde se incluem Assunção, Berlim, Bogotá, Buenos Aires, cidade do
Vaticano, Estocolmo, Londres, Washington, Paris entre outras. Os membros dessa secretaria
formavam um grupo variegado de homens, membros de uma elite letrada, nos quais se
destacam Mello Mattos, Schaeffer, Silvestre Rebello, Correa da Camara, Duarte da Ponte
Ribeiro, Carneiro de Campo além do barão de Itabaiana, o marquês de Barbacena, marquês de
Santo Amaro, marquês de Inhambupe, marquês de Queluz, marquês de Aracati e o marquês
de Abrantes. Eram estes homens membros da primeira geração diplomática brasileira e
responsáveis por executar as primeiras ações do Império brasileiro em prol da política
externa.

2. A política externa brasileira e a nova diplomacia: projetos e ações


No que diz respeito à política externa brasileira, entende-se que, a priori, as diretrizes
que a norteariam estavam concatenadas à necessidade de oficializar o novo governo. Assim,
de 1822 a 1825, a pauta principal da política externa brasileira era o reconhecimento de sua
emancipação. A partir dos idos de 1826, após uma série de reconhecimentos estrangeiros,
sobretudo o inglês e português, a política externa do governo de D. Pedro I esteve voltada à
criação de tratados e acordos econômicos e políticos. Notam-se então dois períodos na
política externa do Primeiro Reinado: 1. o reconhecimento político como pauta central das
missões diplomáticas (1822 – 1825); 2. a cristalização de laços com os demais estados, a
partir de acordos e tratados (1826 -1831).
Vale ressaltar que apesar de estes serem os norteamentos principais, não foram estas as
únicas pautas das relações externas do Brasil no período. Durante o Primeiro Reinado, a
questão do tráfico de escravos esteve presente substancialmente nas relações com os demais
Estados (GUIZELIN, 2011). Também existiram conflitos e divergências dos quais se
destacam: o caso da incorporação de Chiquitos ao território brasileiro, que causou certo mal-
estar entre Brasil e Bolívia; as disputas entre Brasil e Argentina, que culminaram na Guerra da
Cisplatina; os constantes conflitos envolvendo estadunidenses em território brasileiro; os
diálogos e conflitos envolvendo o governo inglês; a contratação de tropas mercenárias em

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outros países etc.
Para que as negociações entre o Brasil e os demais Estados acontecessem, uma nova
diplomacia foi sendo gestada ao longo do Primeiro Reinado. Nova, pois a herança diplomática
portuguesa era limitada. Assim, a primeira geração diplomática foi responsável, por vezes
através do ensaio e erro, pela gestão de uma maneira brasileira de se conduzir a pasta dos
negócios externos. Nesse contexto, destacamos ações pontuais ou fragmentadas, que foram ao
longo dos anos contribuindo para a especificidade diplomática de então. Destacam-se aqui a
reorganização da pasta que ocorreu em 1828; a criação de uniformes diplomáticos do Império
brasileiro; a organização de sistemas de circulação de informações; bem como ações pontuais,
por vezes experimentais, de seus diplomatas, como a criação de rotinas administrativas ao
fundar as novas legações – vide o caso de Silvestre Rebello (CRUZ, 2015); as ações do
Marquês de Barbacena frente aos conflitos envolvendo a política externa de Metternich, ou
negociando o segundo casamento de D. Pedro I ou até mesmo as práticas “administrativas” do
barão de Itabaiana, no que diz respeito ao fundo monetário brasileiro na praça de Londres.
Entende-se aqui que o encadeamento dessa série de fragmentos, dados, e fatos forma
um conjunto de práticas políticas especificas, próprias dessa geração. Do mesmo modo, nota-
se pautas da política externa próprias do período tanto nos projetos quanto nas ações
articuladas. Nesse sentido, entre os projetos e ações – alguns alcançados e outros apenas
idealizados – encontram-se as buscas por alianças bélicas com outros Estados, os acordos de
comércio, bem como a consolidação do Império brasileiro a partir do reconhecimento dos
pares. Vale ressaltar as ações pontuais que ocorreram ao longo do tempo: a ruptura
diplomática com a Argentina durante a Guerra da Cisplatina; as negociações com Portugal,
ligadas à independência brasileira e os diálogos com a Inglaterra, sobretudo no tocante as
questões escravagistas.
Destarte, é possível conceber através dos projetos e ações ligados à política externa e
à diplomacia brasileira que apesar da herança portuguesa, houve novidades oriundas da
experiência política vivida na América Lusitana na década de 1820, assim sendo, trabalhamos
por hora, nessa fase inicial de pesquisa, com a noção de “invenção” ligada às práticas políticas
executadas no plano dos negócios externos brasileiros – sem desconsiderar as heranças
portuguesas, como também as influências externas. Nesse sentido, também lançamos mão da
concepção de expectativa como força motriz dessas vivências políticas, conforme veremos no
próximo tópico.

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3. Os Negócios Externos e o Império brasileiro: a expectativa como eixo articulador de
práticas
A renovação historiográfica que ocorreu nas últimas décadas trouxe à baila novas
abordagens aos temas políticos, inclusive no que diz respeito às relações internacionais. Sobre
esse fenômeno historiográfico, o historiador José Carlos Reis escreveu: “O evento tende a
retornar[…]. Junto com ele, os objetos tradicionais da história: a política, o indivíduo, as
relações diplomáticas, a guerra. Com ela retorna também uma outra concepção do tempo
histórico que envolve a consciência, o sujeito e a busca da liberdade” (REIS, 1994). Dentro
dessa perspectiva, esta comunicação lançou mão das novas concepções relacionadas aos
temas políticos e procurou articular a trajetória política da primeira geração diplomática com a
criação da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e, consecutivamente, com a
política externa do Primeiro Reinado.
A partir da fusão desses temas, entende-se que a análise dos negócios externos no
período independentista e, durante o governo de D. Pedro I apresenta nuances e pontos
relevantes que contribuem para a compreensão do Primeiro Reinado. O exame da composição
da primeira geração diplomática da Secretaria de Estado dos Negócios Exteriores, bem como
os norteamentos da política externa apontam um conjunto de práticas de cunho político
ligadas à construção do Estado brasileiro que podem ser melhor compreendidas quando se
observa as instituições de poder, os agentes e, consequentemente, as ideias e visões de mundo
integradas. Por fim, ao analisar as práticas políticas nessas diversas esferas, no recorte
temporal e espacial oitocentista, chegamos a um outro elemento citado no começo desse
texto: a expectativa como força motriz de ações. Segundo o historiador alemão Reinhart
Koselleck:
“[...] a experiência e expectativa são duas categorias adequadas para nos
ocuparmos com o tempo histórico, pois elas entrelaçam passado e futuro,
São adequadas também para se tentar descobrir o tempo histórico, pois,
enriquecidas em seu conteúdo, elas dirigem as ações concretas no
movimento social e político. […] A experiência é o passado atual no qual
acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados […]. Algo
semelhante pode se dizer da expectativa: também ela é ao mesmo tempo
ligada à pessoa e ao interpessoal, também a expectativa se realiza no hoje, é
futuro presente […]. Esperança e medo, desejo e vontade, a inquietude, mas,
também a análise racional, a visão receptiva ou a curiosidade fazem parte da
expectativa.” (KOSELLECK, 1979)

Por hora, parece-nos plausível que a noção de expectativa pairava, em alguma medida,
nos homens que vivenciaram a construção do Império brasileiro. As expectativas de

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conquistar o reconhecimento e, posteriormente, cristalizar o novo governo aparecem como
eixo articulador de ações, concomitantemente ligado à experiência construída ao longo de
1822 a 1831.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Valentim. Os Sentidos do Império. Questão nacional e questão colonial na


crise do Antigo Regime português. Porto: Edições Afrontamento, 1993.

ARMITAGE, John. História do Brasil: desde o período da chegada da família de Bragança,


em 1808, até a abdicação de D. Pedro I, em 1831, compilada à vista dos documentos. Belo
Horizonte/São Paulo: (1ª ed. 1831), Ed. Itatiaia/EDUSP, 1981.

BUENO, Clodoaldo; CERVO, Amado. História da Política Exterior do Brasil. São Paulo:
Ática, 1992.

CALÓGERAS, João Pandiá. A Política Exterior do Império. Vol. II Brasília: Senado Federal,
1998.

CASTRO, Flávio Mendes de Oliveira. Dois Séculos de História da Organização do Itamaraty


(1808 -2008). Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009.

CRUZ, Abner Neemias da. As práticas políticas se Silvestre Rebello: um diplomata brasileiro
nos Estados Unidos da América (1824-1829). Dissertação (mestrado em História). Franca:
Universidade Estadual Paulista - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, 2015.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos.


Rio de Janeiro: Contraponto-Ed. PUC-Rio, 2006.

REMOND, René. “Uma história Presente”. In: Por uma história política. 2ªEdição. Rio de
Janeiro, Ed. FGV, 2003.

REIS, José Carlos. O Retorno do Evento Estruturado. In: Nouvelle Historie e Tempo
Histórico: a contribuição de Febvre, Bloch e Braudel. São Paulo: Ática, 1994.

GUIZELIN, Gilberto da Silva. Comércio de Almas e Política Externa: a diretriz Atlântico-


Africana da Diplomacia Imperial Brasileira, 1822-1856. Dissertação de Mestrado. Londrina:
Universidade Estadual de Londrina (UEL), 2011.

38
SLEMIAN, Andréa. PIMENTA, João Paulo Garrido. O “nascimento político” do Brasil: as
origens do Estado e da Nação (1808-1825). Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

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Os 30 anos da Constituinte: memória em ação

Aimée Schneider Duarte1

Resumo: O presente texto pretende apresentar resultados preliminares da pesquisa doutoral


em andamento, que tem como um dos focos pensar o modus operandi da redemocratização
brasileira e a atuação da sociedade em torno do projeto de democracia. Em um período em
que são discutidas, em nível nacional, questões relativas a reversões e permanências,
considera-se que seria importante transcender as camadas que vão além da mera data redonda,
de um teor quase que automaticamente comemorativo dos 30 anos da Constituição Federal,
em 2018. Nos últimos anos, tem-se visto o surgimento, com intensidade crescente, de uma
série de debates e reivindicações, muitas delas baseadas em apelos expressamente contrários
aos trabalhos e expectativas da Constituinte de 1987-88.

Palavras-chave: Democracia; Memória; Assembleia Nacional Constituinte Brasileira de


1987-88.

Abstract: This text intends to present preliminary results of the doctoral research in progress,
which has, as one of its main focuses, the modus operandi of the Brazilian redemocratization
and the society's action around the democracy project. In a period in which national issues of
reversals and permanence are discussed, it is considered that it would be more than desirable
to transcend layers that go beyond the full, three-decade anniversary of the Federal
Constitution in 2018 and its nearly mandatory celebration. In recent years, and with increasing
intensity, disparate debates and claims have emerged, many of them based on expressly
antagonistic appeals, contrary to the Constitutional works of 1987-88.

Keywords: Democracy; Memory; Brazilian Constituent Assembly of 1987-88.

Considerações iniciais
A passagem dos anos 1980 foi um marco na história brasileira, servindo de palco para
a retomada, pela sociedade, de uma série de movimentos sociais e culturais. As campanhas
em torno de uma Anistia Ampla, Geral e Irrestrita e pelas Diretas Já! são exemplos evidentes
desse estado de mobilização transformadora.
Apesar de não ter ocorrido eleição direta para Presidente da República, a campanha
em prol dessa demanda acabou por se revelar um exercício de aprendizagem que impulsionou
o movimento pela instauração da Constituinte. Veio, assim, a se conformar como uma etapa

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal


Fluminense; e-mail: schneider_aimee@hotmail.com

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em um projeto político mais amplo de resistência democrática e de superação da ditadura.
Episódios como esse serviram para que os movimentos sociais vislumbrassem o potencial de
mobilização em torno dos seus anseios, apresentando os primeiros indícios acerca de como a
presença da população na política viria a ser fundamental para os rumos do país.
No âmbito da redemocratização da vida política brasileira, as mobilizações foram
fundamentais para a construção dos alicerces dos debates constitucionais, servindo de palco
para a retomada de uma série de movimentos sociais e culturais. Os 584 dias que se seguiram
à instalação dos trabalhos da Constituinte foram marcados por disputas e acordos, bem como
por uma relação, sem precedentes, entre atores parlamentares e extraparlamentares. Segundo
o cientista político Antônio Sérgio Rocha, estima-se que nove milhões de pessoas tenham
passado pelo Congresso Nacional naqueles dois anos (ROCHA, 2013, p. 74). As mobilizações
não ocorreram apenas durante a ANC; começaram antes – dentro e fora do Congresso –, por
meio de caravanas, envio pelos cidadãos de cartas, telegramas e sugestões, entre outras
manifestações.2
Uma série de atores desconhecidos se comprometeu com a Constituinte, ampliando a
rede de atores até então direcionada quase que apenas aos líderes políticos. Além dos partidos
políticos, inúmeras organizações da sociedade, como sindicatos e associações, dialogaram
com a população acerca da Constituinte. O debate político incluía palavras de ordem e uma
luta por espaço visual para que se pusesse colocar em evidência as mais diversas
reivindicações. Neste contexto, foi criado o slogan “Constituinte sem povo não cria nada de
novo” (BRANDÃO, 2011, p. 217).
Contesta-se, assim, a ideia de que a transição esteja relacionada exclusivamente à
operação do sistema político, que enfatiza as instituições e a negociação entre os
parlamentares, deixando de analisar o papel dos movimentos sociais e sua relação com o
Estado. Dessa maneira, é preciso abandonar o enfoque exclusivo da faceta da democratização
relacionada às instituições políticas para abarcar, também, as ações sociais. Tal concepção
“tem a vantagem de estabelecer uma continuidade entre o processo de negociação para a

2 Do mesmo modo, as músicas populares merecem um sinal de destaque: através de letras de


protestos, sempre estiveram presentes na sociedade brasileira, inclusive nos anos da censura instalada pela
ditadura. O período de transição política não foi diferente e diversas músicas contribuíram para a
redemocratização do país: vale a pena sublinhar que a banda Legião Urbana denominava o governo como
“Geração Coca-Cola" e dizia "Somos os filhos da revolução / Somos burgueses sem religião / Somos o futuro
da nação”. Outra música revolucionária bastante conhecida é “Brasil” que faz parte do disco “Ideologia”, de
Cazuza, sendo uma aclamação por mudanças com o intuito de incentivar a presença da população: “Brasil!
/ Mostra tua cara”. Bandas que também se destacaram nesta época foram Barão Vermelho, Paralamas do
Sucesso, Capital Inicial, Blitz, Ultraje a Rigor, entre outras. Foge aos limites e propósitos deste texto
apresentar uma revisão acerca da produção musical do período de transição. Nesse sentido, ver: ROCHEDO,
2014.

41
retirada de atores autoritários do sistema político e o processo de democratização das relações
Estado-sociedade” (AVRITZER, 1995, p. 10).
A importância da investigação proposta emana da necessidade de se conhecer os
efeitos do modelo político democrático, incorporado ao ordenamento jurídico pátrio de modo
a refletir a mentalidade coletiva. Os códigos simbólicos interagem com o âmbito institucional
de tal modo que o consenso normativo se estabelece sobre normas, regras e valores
compartilhados pelos diferentes grupos que formam a sociedade.

Estado-sociedade

Na esteira das abordagens do entrelace entre regimes políticos e poder, o sociólogo


Boaventura de Souza Santos (2002) e o cientista político Leonardo Avritzer (2002), ao
afirmarem que a democracia assumiu um lugar central no campo político durante o século
XX, propõem um itinerário não-hegemônico para o debate democrático. Santos (2007)
entende que, por haver uma crise de paradigmas na atual conjuntura, os novos
questionamentos não podem ser respondidos com base em antigos critérios. O objetivo
principal dos autores é contribuir para a renovação das Ciências Sociais e, por conseguinte,
formular um estímulo à emancipação social. A renovação científica, portanto, ajudaria a
reinventar este processo emancipatório.
No caso da redemocratização brasileira, a inserção de novos atores na cena política
acarretou uma disputa pelo significado da democracia e pela constituição de uma nova
gramática social. O poder constituinte originário foi desenvolvido como um poder exercido
pelo povo de forma mediada, através dos seus representantes. A ideia desse poder está
vinculada, historicamente, à representação em assembleia constituinte; entretanto, esta ligação
não é apenas normativa, mas também cultural, social e histórica. Ao mesclar o procedimento e
a participação da sociedade, criou-se um experimentalismo na própria esfera do Estado. No
estudo de Santos (2007), a democracia participativa reinventa a emancipação social – e é
nesse ponto que se insere o debate entre democracias representativa e participativa.
A ANC de 1987-88 configurou, portanto, uma nova ordem constitucional que
pretendia atender aos anseios populares, sendo um elo importante para a conexão entre
Constituição e Democracia, contribuindo tanto para a superação do modelo antigo quanto para

42
a construção de um novo sistema democrático. A experiência social vai além do que a
tradição científica ocidental considera importante: “a realidade não pode ser reduzida ao que
existe” (SANTOS, 2002, p. 253). Neste teor, o trabalho de tradução, descrito pelo sociólogo, é
“uma constelação de movimentos e organizações locais, ancorados em diferentes culturas”
(SANTOS, 2002, p. 266), surgindo a partir da correlação entre práticas sociais e seus agentes
e incidindo sobre os saberes transformados em práticas e materialidades; desse modo,
permite-se a ampliação das ideias rumo à transformação social.
O exercício de tradução tem por objetivo criar condições, a partir da imaginação
democrática, para uma justiça social global, bem como para emancipações sociais concretas
“num presente cuja injustiça é legitimada com base num maciço desperdício de experiência”
(SANTOS, 2002, p. 274). Não apresenta soluções, mas faz uso desta tônica imaginativa para
construir concepções plurais de emancipação social; parte, desse modo, da compreensão de
que é preciso ampliar a inteligibilidade das práticas e mobilizações sociais para dar
visibilidade e credibilidade às alternativas que estão emergindo no mundo.
A cada nível da política pública há um entendimento diferente acerca dos problemas e
suas respectivas soluções, uma configuração institucional específica e pessoas e interesses
distintos. Para os fins deste artigo, entende-se que os elementos básicos da análise da
Constituinte de 1987-88 são as instituições e as pessoas, ambas possuindo competências e
comportamentos variados. Deste modo, os atores parlamentares e extraparlamentares não
possuíam interesses estáticos, mas dinâmicos, de acordo com os papéis que interpretavam.
As demonstrações, manifestações e comícios públicos forjaram um marco da presença
popular enquanto elemento significativo do processo de redemocratização. A partir dessas
expressões, projetaram-se novos protagonistas vindos de diversos segmentos – tais como
associações de bairro, categorias profissionais e organizações religiosas – e, com isso, uma
agenda reivindicatória de direitos se inscreveu no horizonte das mudanças políticas. A
sociedade exprimiu a sua força, adquirindo visibilidade ao articular a defesa e a ampliação de
direitos com o fim do autoritarismo: mudanças econômicas, sociais e políticas eram
reivindicadas. O processo democrático seria uma forma de exercício coletivo do poder
político cuja base estaria pautada em um meio livre para discussão e deliberação.
O contexto social é, portanto, influenciado pelas estruturas sociais em constante
mudança. Segundo o sociólogo Charles Wright Mills (1959), não há como dissociar a vida
pessoal e o curso da história mundial. Espaços que sirvam a uma questão de representação,
como a Assembleia Constituinte, acabam por se tornar espaços reservados para autores da

43
história. A promessa está na "imaginação sociológica", por meio da qual a pessoa pode pensar
a sua existência de forma ampla, observando a interligação entre a sua biografia e a história
dentro da sociedade. A “consciência imaginativa” advém da “capacidade de passar de uma
perspectiva a outra” (MILLS, 1959, p. 13). Há, portanto, uma visão ampla da realidade
pessoal em sua conexão com a realidade social, capaz de ampliar as perspectivas das diversas
sensibilidades culturais e da própria razão humana, com o intuito de apontar caminhos rumo a
uma solução.
Assim é que a Constituição Federal de 1988 foi capaz de incorporar elementos
surgidos na institucionalidade emergente, abrindo espaço para a prática da democracia
participativa. Dois exemplos são os seus artigos 14 e 29, que, respectivamente, garantem a
iniciativa popular como iniciadora de processos legislativos e demandam a participação de
representantes de associações populares no processo de organização das cidades.
Sob esse aspecto, as determinações sociais dependem dos atores nela envolvidos, não
se podendo entender um arranjo político-social sem considerar a sua conjuntura no tempo e
no espaço. Neste teor, e situado no campo da Teoria Social Crítica, o historiador Edward P.
Thompson acredita que este processo seja um campo de conflitos historicamente determinado:

A história é a disciplina do contexto e do processo, logo todo significado é


um significado-no-contexto, e, quando as estruturas mudam, as formas
antigas podem expressar funções novas e as funções antigas podem
encontrar sua expressão em formas novas. (THOMPSON, 2001, p. 238).

A compreensão de um fenômeno cultural só pode ser entendida em prisma histórico


com a reconstrução do ambiente social e político onde ocorreu o debate. Este período de
transformações no cenário político foi marcado pela junção de duas forças: centrífuga, de
dentro para fora, notadamente por meio da transição política conservadora, lenta e gradual,
firmada através de acordos; e centrípeta, de fora para dentro, principalmente no que diz
respeito à feitura da vindoura Carta Magna de 1988, baseada na participação popular. Em
termos simbólicos, o processo de redemocratização visava ao equilíbrio da conjuntura, mas
não às custas da herança institucional do passado. Contudo, em termos práticos, a mobilização
popular foi o “x” da questão, equacionando a seguinte fórmula final: uma nova Constituição,
elaborada por uma ANC que fora, por sua vez, pressionada pelas campanhas do próprio
destinatário do documento final: o povo. Este, por seu turno, contribuiu fortemente para a
confecção do diploma constitucional de 1988, impedindo, por meio da reivindicação de seus
direitos, que o texto definitivo revelasse carga ainda mais conservadora. Sem uma

44
participação desta intensidade, certamente os escritos constitucionais não teriam o mesmo
teor.

Memória

A escritora Clarice Lispector (1983) analisa a relação entre o ser humano e a realidade
que ele constrói, afirmando que o narrador-personagem olha para um ovo e tem a ilusão de
vê-lo e dominá-lo; no entanto, conclui que o ovo não tem uma existência individual em si
mesmo. Por meio da metáfora, é possível verificar que a observação do ovo – aqui,
representando a observação da própria sociedade – não é um ato objetivo, dependendo de uma
realidade social ontológica. A objetividade seria uma ilusão do sujeito, não passando de um
artifício para diminuir a responsabilidade do observador: “Olho o ovo com um só olhar.
Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo” (LISPECTOR, 1983, p. 49).
Poder-se-ia pensar no discurso como um apontamento da memória – e não necessariamente a
memória em si.
Somente com a aparente estabilidade da democracia e com o transcurso dos anos é que
foi possível distanciar-se o suficiente do período autoritário para poder refletir sobre o
passado recente do país. A contínua reconstrução da memória vai corresponder à reconstrução
do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletivo. O historiador Pierre Nora já
dizia que questionamentos em torno de um evento/uma data são, eles próprios, lugares de
memória, voltando-se para sua valorização e legitimação.
É neste campo de ideia que o historiador Pierre Laborie (2009) afirma ser através da
rememoração de fragmentos do ocorrido que cada recordação social transmite ao presente
uma das múltiplas representações deste passado que ela deseja testemunhar – ou seja, há uma
multiplicidade de memórias fragmentadas que se constroem sob a influência dos códigos e
das preocupações atuais. Nesta esfera, o sociólogo Maurice Halbwachs (1999) desenvolve a
tese de que a memória é coletiva – o que não significa dizer que a individual não exista – e se
articula com o passado através do presente existindo, portanto, um ponto de articulação entre
os tempos. As representações simbolizam a sociedade e resultam da combinação das
consciências individuais, exprimindo, a um só tempo, a vida exterior e interior. 3

3 Acerca do arranjo complexo de sociedade e indivíduo, o sociólogo Norbert Elias (1994)

45
Sob essa ótica, o antropólogo Fredrik Barth (2000) defende que a pessoa está
posicionada em virtude de um padrão singular, formado pela reunião, nesse indivíduo, de
partes de diversas correntes culturais, bem como em função de suas experiências particulares.
Por conseguinte, o que é lembrado ou esquecido está relacionado às identidades formadas no
presente, e essa percepção varia conforme as relações sociais que se mantém com o meio,
tanto intergrupos como intragrupos. A mentalidade de um indivíduo histórico é o que ele tem
de comum com outros homens de seu tempo e, nas palavras da historiadora Angela de Castro
Gomes (2007), a identidade de qualquer grupo social não se faz sem recorrer ao passado desse
grupo, em um processo dinâmico.
Ainda entre tais questões, o sociólogo Michael Pollak (1992) aponta que entre
lembranças e esquecimentos, “a memória é um fenômeno construído” (POLLAK, 1992, p.
204), pois falar do passado geralmente leva quem o relata a organizar e selecionar os fatos.
Quando se fala em memória dividida4, na verdade, se lida com sua multiplicidade na qual os
acontecimentos correspondem às operações de escolha. Neste prisma, o historiador Daniel
Aarão (2004) afirma que a memória é repleta de “artimanhas” e, por ser imersa no presente,
mas preocupada com o futuro, é sempre seletiva; quando provocada, revela, mas também
silencia. E, se a legitimidade é, conforme a filósofa política Hannah Arendt (1994, p. 41), um
apelo ao passado, é necessário lembrar que ele não é algo inerte, pronto e acabado.
Sendo assim, as leituras do passado devem lidar sempre com as suas narrativas e
versões. Não se trata de afirmar que há memórias autênticas ou mentirosas, mas enfoques e
olhares distintos. Elas não se apresentam em um vazio absoluto da presença social, não
existindo na forma pura, muito menos única: seu caráter plural traz disputas pelo sentido do
passado.
Cabe destacar que a própria escolha, neste trabalho, de quais imagens utilizar e como
organizá-las já revela uma maneira de contar a história. Demonstra uma representação,

destaca: “A rede de funções interdependentes pela qual as pessoas estão interligadas entre si tem peso e leis
próprios. (...) E é a essa rede de funções que as pessoas desempenham umas em relação a outras, a ela e nada
mais, que chamamos ‘sociedade’ (pp. 22-23). No caso do ser humano, a continuidade da sequência
processual como elemento da identidade-eu está entrelaçada, em maior grau do que em qualquer outra
criatura viva, com outro elemento da identidade-eu: a continuidade da memória” (p. 154).
4 Abrangendo tais questões em um parecer próprio, o escritor Alessandro Portelli (2001) faz
uma interessante análise em relação à história de Civitella in Val di Chiana – cidade italiana da região da
Toscana que foi massacrada em 1944. Para ele, os acontecimentos geraram uma “memória dividida”: por um
lado, a “oficial” e, por outro lado, a criada e preservada pelos sobreviventes. Para o autor, a memória é um
processo moldado no tempo histórico; como exemplo, ele cita os depoimentos que se modificaram com o tempo
e relata que a omissão no depoimento também deve ser considerada como uma representação. Não é uma série
cronológica do pretérito que reproduz antigos acontecimentos, mas as preocupações atuais, a partir da relação
com as ideias e percepções de hoje. Logo, não é o passado, mas sim este conjunto de correspondências que
desencadeia o processo de lembrar.

46
revelando um modo de ver o mundo e a escolha de um enfoque. A título de exemplo, dentro
da conjuntura internacional, Jimmy Carter assumia a Presidência dos Estados Unidos (1977-
1981), defendendo uma firme ação em favor dos direitos humanos e, por conseguinte, o fim
dos regimes ditatoriais, ainda que “de cima para baixo” (SILVA, 2007). Entretanto, neste
estudo, o enfoque recaiu sobre o âmbito nacional, revelando uma preferência de pesquisa. Isso
não significa que apenas um contexto seja válido –, pelo contrário, apenas se deu preferência
a um dos pontos de vista.

Considerações Finais

Esta etapa do presente texto, baseada em ponderações sobre o retorno à democracia,


contou com a intensa participação dos movimentos populares, selando em definitivo o poder
do povo para influenciar os novos rumos do país. Esta jornada, por óbvio, não se encontra
encerrada, mas é preciso calibrar novamente o olhar e projetar a análise para o tempo atual:
compreende-se o presente investigando-se o passado, de modo a promover uma síntese da
dinâmica entre estes tempos, que se comunicam em uma via de mão dupla:

(...) essa solidariedade das épocas tem tanta força que entre elas os vínculos
de inteligibilidade são verdadeiramente de sentido duplo. A incompreensão
do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez não seja
menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe do
presente. (BLOCH, 2001, p. 65)

“O meu passado não é mais meu companheiro. Eu desconfio do meu passado”


(ANDRADE, 1978, p. 254). Se, em seu tempo, o poeta Mário de Andrade encontrou razões
para estranhar o passado, que dizer do tempo atual, neste século XXI? Além do passado, o
presente também é analisado de forma desconfiada. A recente expansão de ideologias
antidemocráticas – tais como o clamor pela volta dos militares ao poder – deixa em evidência
o quanto “é preciso estar atento e forte”, como já diziam Caetano Veloso e Gilberto Gil, na
música Divino, Maravilhoso.
Tal afirmação se faz em função do advento, nos últimos anos de crise política, de
novas medidas normativas voltadas para alterações no panorama da Carta Magna de 1988.
Quase trinta anos após a entrada em vigor da CRFB/88 e seguindo os critérios da

47
conveniência e oportunidade, o Estado brasileiro pretendeu eliminar os recursos destinados à
cultura. Melhor explicando, a perspectiva cultural é vista como gasto em vez de investimento
– e o cenário recente confirma essa falta de prioridade destinada ao setor. O atual Presidente
da República, Michel Temer, visando reduzir os gastos ministeriais, chegou a se desfazer do
Ministério da Cultura, aglutinando-o à pasta da Educação.5 Após manifestações e polêmicas,
contudo, reverteu sua decisão por meio da Lei nº 13.345/16.
Não é a primeira vez que um governo fecha as portas para cultura: em 1964, o então
Presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, no exercício interino da Presidência
da República e sob o manto do governo civil-militar, extinguiu o Instituto Superior de Estudos
Brasileiros (ISEB), órgão que agregava ideias desenvolvimentistas e concebia a cultura como
elemento impulsionador de transformações sociais e construção da identidade nacional; em
1990, o então Presidente da República Fernando Collor de Mello também extinguiu o
Ministério da Cultura, juntamente com diversos de seus órgãos, havendo o seu retorno apenas
em 1992, no governo de Itamar Franco.
É manifesto que o rumo de supressão de direitos e garantias individuais e coletivas por
interesses políticos conservadores, importa na transgressão ao espírito garantista da ANC de
1987-88 e à letra da norma petrificada nos títulos da CRFB/88, intitulados “Dos Direitos e
Das Garantias Fundamentais” e “Da Ordem Social”. 6 Dentre as mudanças mais recentes que
acenam para a retirada de direitos, destaca-se a reforma trabalhista, engendrada na
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Em contraste com o direcionamento adotado rumo à ANC de 1987-88, por meio do
qual se buscava consolidar uma nova e relativamente ampla gama de direitos no seio
constitucional, a tônica que hoje se assume revela um cunho predominantemente autoritário.
Apelos, por exemplo, pela volta do regime militar sob a égide de nova Constituição sugerem
palpável risco de cerceamento dos mesmos direitos promovidos três décadas antes. Mesmo
com os limites próprios da transição política, produto das relações de força entre elites
conservadoras e os focos de mobilização social7, a ANC de 1987-88 institucionalizou

5 Medida Provisória nº 726/16: Art. 1º. Ficam extintos: IV – o Ministério da Cultura. Art. 2º.
Ficam transformados: III – o Ministério da Educação em Ministério da Educação e Cultura. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/Mpv/mpv726.htm>. Vide, ainda, a extinção do
Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos.
6 Títulos II e VIII da Carta Magna, respectivamente.
7 É preciso enfatizar que, para além da inclinação democrática, as batalhas pela nova
Constituição também foram travadas por fileiras de verve autoritária. Existia, à época, um projeto de
democracia em andamento, e não uma democracia propriamente dita; dessa maneira, no contexto da
redemocratização, disputas se davam entre atores políticos democráticos e tradicionais, acarretando um
conflito entre renovação e continuidade no interior do sistema político.

48
importantes garantias. Falar, hoje, na Constituinte de mais de trintas anos atrás, ganhou um
tom inesperadamente atual.

Dentro deste entrelace do ontem com o hoje, a importância das imagens nas
manifestações políticas se torna cada vez mais nítida. Os acontecimentos do passado
constituinte atravessaram os anos e se perpetuam nos dias atuais. Por que, afinal, apesar de
registrarem aspectos específicos de cada momento, seus embates e expectativas persistem?

Compreender o processo constituinte é uma empreitada importante para o


entendimento dos movimentos sociais no Brasil contemporâneo: muitas das políticas públicas
atuais possuem fundamento nas reivindicações daquele período. A redução da distância entre
o processo constitucional e as práticas cotidianas fomentou o amadurecimento das
experiências e de novas iniciativas rumo ao fortalecimento da identidade do povo brasileiro.
O novo diploma legal incorporou ideias comprometidas com os direitos sociais e individuais,
corroborando a noção de que o processo constituinte democrático estabelece novas bases de
fortalecimento popular, processando o passado com o intuito de ascender a um novo patamar
na emancipação social.
Considerando os 30 anos da inauguração da ANC, em fevereiro de 2017, e da própria
promulgação da Constituição, em outubro de 2018, o tema assume dimensões de destaque,
invocado que é por estas datas comemorativas. Não se trata, contudo, de entusiasmo em torno
da efeméride da comemoração, mas de reconhecimento da atualidade do grande diploma vivo
do país.

49
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51
ENTRE O REI FILÓSOFO E O MONARCA DOS TRÓPICOS: UM DEBATE
HISTORIOGRÁFICO EM TORNO DAS BIOGRAFIAS DE D. PEDRO II

Alessandra Bettencourt Figueiredo Fraguas 1

Resumo: Este trabalho visa mostrar como o conhecimento histórico a respeito de d. Pedro II
(1825-1891), cristalizou a sua representação, reiterada pelos trabalhos acadêmicos, inclusive
os mais recentes. O objetivo é pontuar como a historiografia apropriou-se das múltiplas
narrativas produzidas não só pelas escritas autobiográficas de d. Pedro II, mas também pelos
seus primeiros biógrafos, assim como das narrativas memoriais e do discurso veiculado em
periódicos contemporâneos ao imperador, sublinhando a dualidade entre o monarca e o
cidadão e a sua caracterização enquanto erudito e mecenas, por um lado, ou reforçando as
teses do conservadorismo e da construção simbólica do monarca nos trópicos, por outro lado.
A nossa proposta é refletir em que medida esta apropriação do conhecimento histórico pela
historiografia impede que se perceba a complexidade da trajetória de d. Pedro II.

Palavras-chave: D. Pedro II; Biografias; Historiografia

Abstract: This work aims to show how the historical knowledge about d. Pedro II (1825-
1891) crystallized his representation, reiterated by the academic works, including the most
recent ones. The aim is to point out how historiography appropriated the multiple narratives
produced not only by the autobiographical writings of d. Pedro II, but also by his early
biographers, as well as of the memory narratives and the discourses in contemporary
periodicals to the emperor, reiterating the duality between the monarch and the citizen and his
representation as erudite and patron, on the one hand, or reinforcing the Theses of the
conservative thinking and of the symbolic construction of the monarch in the tropics, on the
other hand. Our proposal is to reflect to what extent this appropriation of historical knowledge
by historiography prevents knowledge about the complexity of his trajectory.

Keywords: D. Pedro II; Biographies; Historiography

1 Mestranda em História (PPGH-UERJ) sob a orientação da Professora Drª Lucia Maria Paschoal Guimarães.
Bolsista CAPES. E-mail: alesfraguas@hotmail.com

52
INTRODUÇÃO
Em artigo intitulado Os fantasmas do Imperador, José Murilo de Carvalho questiona
“se já não há suficientes biografias de Pedro II e se já não se conhece satisfatoriamente a sua
personalidade.” Mais adiante, completa “(...) Como transpor a muralha, como chegar ao ser
humano por trás do Imperador? (...)” (CARVALHO, 1977:418-419). A indagação dimensiona
o tamanho do “desafio biográfico”, parafraseando François Dosse, que representa escrever
sobre o segundo imperador do Brasil, seja buscando algum aspecto inédito da sua trajetória,
seja encarando e debatendo algumas teses consolidadas pela historiografia, tentando romper
com o discurso reiterado ao longo de décadas.
Uma pesquisa no catálogo online da Biblioteca do Museu Imperial, por exemplo,
mostra a referência a d. Pedro II em 1.911 publicações. A consulta em bancos de teses e
dissertações, igualmente, recupera diversos trabalhos cuja temática está relacionada ao ex-
imperador. Paralelamente, instituições como o próprio Museu Imperial, ou o Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB, têm promovido debates, exposições e publicações
cujas temáticas perpassam reiteradamente a sua biografia. Neste sentido, como encontrar uma
brecha que mobilizasse a investigação sobre um ponto ainda não devidamente estudado na
trajetória de d. Pedro II?
Os primeiros indícios de que haveria uma incoerência entre o que a nossa pesquisa
apontava, obviamente a partir das perguntas que fazíamos à documentação, e o que sobressai
nos trabalhos, acadêmicos ou não, sobre d. Pedro II, foram possíveis porque empreendemos
uma leitura extensa do seu arquivo pessoal. No entanto, sabemos que outros pesquisadores, os
biógrafos clássicos, como Pedro Calmon e Heitor Lyra, por exemplo, também tiveram acesso
a estes documentos, o que nos leva a inferir que as nossas proposições, em parte, somente
foram possíveis, porque o momento historiográfico, a partir da renovação da História Política,
assim o permitiu, como nos diz René Rémond (2003:13):
A História, cujo objeto precípuo é observar as mudanças que afetam a
sociedade, e que tem por missão propor explicações para elas, não
escapa ela à própria mudança. Existe portanto uma história da história
que carrega o rastro das transformações da sociedade e reflete as
grandes oscilações do movimento das idéias (...).

Neste sentido, nosso trabalho pretende refletir sobre fontes exaustivamente


examinadas, como também sobre o conhecimento histórico produzido a partir destas fontes,
sobretudo do arquivo pessoal de d. Pedro II. Partindo dos novos domínios e abordagens

53
historiográficos, das novas perspectivas teóricas e metodológicas, em contraposição às
narrativas hagiográficas e laudatórias, ou aos trabalhos que pretenderam dar coerência -
ressaltando a linearidade - à trajetória do imperador, pensamos ser possível apontar aspectos
inéditos ou apenas tangenciados por aqueles que se dedicaram a compreender dom Pedro
d’Alcantara.
Para tal, ainda que escritores e historiadores consagrados já tenham se dedicado à
tarefa de escrever sobre Pedro II, visamos recuperar algumas escritas canônicas, incluindo os
relatos autobiográficos, com o intuito de averiguar em que medida a narrativa construída no
século XIX, ainda no período de vida do imperador, acabou por influenciar e reverberar nos
trabalhos produzidos a posteriori, apagando ou minimizando o que no nosso entendimento é
um traço fundamental na biografia do imperador: a complexidade da sua trajetória de vida.

ESCRITAS DE SI: DIÁRIOS, CORRESPONDÊNCIA E OUTROS MANUSCRITOS

O que sempre mais estudei foi a mim próprio


Pedro d’Alcantara2

Sem dúvida, os diários de d. Pedro II, cerca de 5.500 páginas manuscritas, têm sido a
fonte por excelência dos pesquisadores, sobretudo após a publicação dos mesmos pelo Museu
Imperial, em 1999 3. Entre eles, há que se separar os diários íntimos daqueles que são relatos
das viagens do imperador no Brasil e no exterior, escritos em cadernetas ou, simplesmente,
em folhas de papel avulsas, com características de rascunho, denotando o intento de uma
posterior sistematização.
Entre os diários íntimos, dois chamam a atenção por terem sido escritos,
deliberadamente, com a intenção de serem relatos autobiográficos para a posteridade. São eles
o volume 1, composto de poucas páginas, anotadas com intervalos entre 1840 e 1842, e o
volume 9, escrito entre 31/12/1861 e 05/01/1863, um caderno de 384 páginas escritas a tinta
que, recentemente, foram objeto de um estudo sobre a escrita de si como questão discursiva,
envolvendo estudos de linguagem e estudos historiográficos. 4

2 Trecho transcrito de Correspondência entre d. Pedro II e o barão do Rio Branco (de 1889 a 1891). São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957. Carta datada de Cannes, 6 de fevereiro de 1891.
3 Ver BEDIAGA, Begonha (Org.). Diário do Imperador D. Pedro II: 1840-1891. Petrópolis: Museu
Imperial, 1999.
4 Ver LIMA, Madalena Quaresma. As duas faces da mesma moeda: cara e coroa no discurso do Diário do
Imperador D. Pedro II. Tese (Doutorado). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras,
Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada. Rio de Janeiro, 2016, 182f. A

54
Apesar de ter um objetivo diferente do estudo mencionado anteriormente, José Murilo
de Carvalho (2007), autor de uma das mais recentes biografias de d. Pedro II, baseando-se,
sobretudo, nos diários, apresenta como subtítulo de seu livro a pergunta shakespeariana, ser
ou não ser. O intento é igualmente apontar a dicotomia que permeou toda a trajetória do
segundo imperador do Brasil, sempre dividido entre o monarca e o cidadão, entre os assuntos
de Estado e os seus estudos e projetos pessoais, enfim, entre Pedro II e Pedro d’Alcantara.
A contradição e a tensão entre o projeto pensado pela elite imperial, quer dizer, a
unidade básica da elite política imperial efetivada por fatores de socialização e treinamento
via processos educacionais, e o afastamento do imperador em relação ao pensamento político
hegemônico, a partir de sua aproximação com novos espaços de produção de conhecimento e
do estabelecimento de novas redes de sociabilidade, sobretudo a partir da sua primeira viagem
ao exterior, em 1871, também podem ser notadas na leitura da correspondência,
particularmente a trocada com a condessa de Barral5 e com o conde de Gobineau 6,
interlocutores privilegiados por Pedro II. Igualmente, a correspondência com intelectuais e
cientistas das mais diversas áreas do conhecimento, assim como as cartas trocadas com jovens
da chamada geração de 1870, como o barão do Rio Branco, também revelam indícios que
remetem a um sujeito complexo e múltiplo.
Os argumentos expostos por Leonor Arfuch, em Espaço biográfico: dilemas da
subjetividade contemporânea (2010), de que o narrado é o pensado sobre o vivido, a
dimensão do experimentado, mas não o vivido, já que este não é mais tangível, podem nos
auxiliar a responder a estas perguntas, assim como a pensar melhor os paradoxos de Pedro II,
tantas vezes reiterados nas charges de Ângelo Agostini, ou n’As Farpas de Eça de Queiroz e
Ramalho Ortigão7.

originalidade desta pesquisa encontra-se na forma como o discurso do autor do diário foi analisado, trazendo à
tona as ideias de Pedro de Alcântara como estadista e indivíduo.

5 Luísa Margarida de Barros Portugal, condessa de Barral e marquesa de Montferrat (1816-1891), foi
preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, filhas de d. Pedro II, tornando-se uma das principais
interlocutoras do imperador.
6 Joseph Arthur de Gobineau, conde de Gobineau (1816-1882). Diplomata, jornalista, filósofo e escritor
francês. Autor de Essai sur l’inégalité des races humaines, publicado em 1853, considerado um marco das
teorias racialistas. Gobineau viveu no Brasil entre 1869 e 1870, quando se tornou próximo de d. Pedro II,
cultivando uma amizade que duraria até a sua morte, em 1882, como atesta a correspondência ativa e passiva
de ambos.
7 Mensário publicado, em Portugal, entre 1871 e 1883 por Ramalho Ortigão (1836-1915) e Eça de Queiroz
(1845-1900), que acabou se desligando do periódico em 1873. Em fevereiro de 1872, publicaram uma
edição com mais de 90 páginas sobre a primeira viagem de d. Pedro II à Europa, entre 1871 e 1872, onde
satirizaram o périplo imperial e criticaram a dubiedade de Pedro II dividido entre o monarca e o cidadão. Ver
BRITO, Rômulo de Jesus Farias. O cetro e a mala: as narrativas de Raphael Bordallo Pinheiro, Eça de
Queiroz e Ramalho Ortigão sobre a primeira viagem de D. Pedro II à Europa. Dissertação (Mestrado).

55
Arfuch aponta para um trabalho de memória na autobiografia, em que estão implícitas
tanto questões políticas como também éticas, cujo referencial é o presente, ou seja, o passado
é ressignificado à luz do presente. Estas configurações da temporalidade perpassam, por
exemplo, os diários íntimos escritos com a intenção de uma narrativa que deveria ser legada
para o futuro, mas que buscasse os nexos e os fundamentos em um passado que informa as
ações do presente.8
Se a primeira tentativa de escrita autobiográfica, iniciada no dia em que o imperador
completou quinze anos, pode ser considerada apenas um esboço de compilação de memórias
pelo jovem monarca, ao contrário, o diário escrito entre 1861 e 1863 evidencia claramente a
sistematização de uma escrita de si que visava à publicização. Em um texto introdutório, o
imperador distingue o monarca, pessoa jurídica, e o indivíduo, pessoa física, revelando o que
julga ser e, sobretudo, o que gostaria de deixar como imagem para o futuro.
Assim, não só em relação aos diários, mas também quanto à correspondência e outros
manuscritos, outra proposição de Arfuch pode ser mobilizada: a ideia de disjunção entre o
sujeito e o objeto da narrativa. Ainda que a tendência atual seja a de pôr em xeque a
possibilidade de separação entre o sujeito o objeto da narrativa, os escritos do imperador
evidenciam claros esforços empreendidos pelo próprio d. Pedro II em separar o narrador e o
narrado; o imperador e o cidadão.
Esta disjunção fica evidenciada em uma minuta de carta escrita por d. Pedro II a
Alexandre Herculano sobre a recusa deste em aceitar uma condecoração dada pelo Governo
Imperial, na qual distingue os múltiplos ‘eus’ que, por um lado, revela os paradoxos de sua
condição sempre dúbia, e, por outro lado, mostra o descolamento entre o sujeito e o objeto da
narrativa das autobiografias, ou escritas de si, clássicas:

Sr. Herculano,
Logo que recebi sua carta de verdadeiro amigo mostrei-a ao
imperador. A afeição que ele e eu lhe votamos não podia de nenhuma
sorte ressentir-se de sua determinação; (...) Começo pela defesa do
imperador que lhe é muito afeiçoado; mas sempre procurou evitar a
influência de sentimentos pessoais nas ações do governo de sua nação.
(...) Agora torna-se a resposta difícil, por causa da minha posição para
com o monarca do Brasil. (...) o imperador também viola bastante a
sua opinião quando cede a satisfazer a vaidade humana (...). Seu
afeiçoado D. Pedro9

Faculdade de História. PUCRS. Porto Alegre, 2013, 167f.


8 Ver volumes 1 e 9 dos Diários de d. Pedro II. In: BEDIAGA, Begonha (Org.). Diário do Imperador D.
Pedro II: 1840-1891. Petrópolis: Museu Imperial, 1999.
9 Trecho de minuta de carta de d. Pedro II a Alexandre Herculano (1810-1877), escritor e historiador

56
Na correspondência que integra o arquivo pessoal de Pedro II, destacamos ainda a
carta escrita pelo imperador ao ministro plenipotenciário do Brasil em Lisboa, Miguel Maria
Lisboa, barão de Japurá, solicitando que fossem dispensadas as honras com que pretendiam
recebê-lo, por ocasião da sua primeira viagem à Europa, em 1871, cujo excerto copiamos:

Snr. Lisboa,
Minha viagem é em caráter inteiramente particular, e chamo-me como
designo-me. (...) Vou para hotel e hei de alugar trem. (...) Tendo
provavelmente de haver quarentena, irei para o lazareto e muito me
afligirei se qualquer exceção a meu respeito contrariar o intuito da
legislação portuguesa. (...) Seu affeiçoado patrício, D. Pedro
d’Alcantara10

Exemplos como estes são muitos na extensa documentação que forma o arquivo
pessoal de Pedro II, composto por cerca de 40 mil documentos. Os recortes de escrita de si
que expusemos acima tiveram como intuito exemplificar a problemática fundamental do
nosso projeto: a complexidade da trajetória de d. Pedro II em sua passagem do ethos
aristocrático ao ethos burguês. Em outras palavras, as escritas de si de Pedro II nos ajudam a
refletir sobre o deslocamento do imperador que, paulatinamente, descola-se da imagem
aristocrática e cunha, ele mesmo, a imagem do cidadão que serve com devoção ao seu país (o
que remete ao ascetismo laico, no sentido weberiano) 11.
Neste sentido, é consenso entre os pesquisadores que havia por parte de d. Pedro II,
em boa medida, uma intenção deliberada para que seus relatos fossem deixados para a história
(enquanto campo de conhecimento e como campo de acontecimentos). Há documentos onde
esta vontade é claramente explicitada, como na carta enviada do exílio ao seu procurador José
da Silva Costa, na qual delineia o destino que deveria ser dado aos seus pertences que haviam
ficado no Brasil, devido à saída repentina da família do país, em novembro de 1889.
No entanto, diferentemente do que fez, por exemplo, Lilia Schwarcz (2010), no nosso
entender, esta representação não pressupõe apenas um intento racionalmente arquitetado para
que fosse usado como importante capital simbólico para a fundamentação do poder político.

português. c.1875. POB - Maço 163 - Doc. 7546. Acervo Arquivo Histórico/Museu Imperial/Ibram/MinC.
10 Trecho de carta escrita por d. Pedro II a Miguel Maria Lisboa, barão de Japurá (1809-1881), enviado
extraordinário e ministro plenipotenciário em Lisboa, Portugal. Lisboa, 12/06/1871. Maço 206 – Doc. 9380-
Arquivo da Casa Imperial do Brasil (POB). Museu Imperial/Ibram/MinC.
11 Ver WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 7. ed., São Paulo: Livraria Pioneira
Editora, 1992; WEBER, Max. Os três tipos puros de dominação legítima. In: COHN, Gabriel (Org.). Weber:
Sociologia. São Paulo: Editora Ática, 1991, p. 128-141.

57
Ao contrário, defendemos a tese de que este esforço está atrelado ao seu deslocamento em
relação ao projeto político da elite imperial e, consequentemente, ao seu afastamento do
conservadorismo. Assim, ao se aproximar do ethos burguês, d. Pedro II encarnaria um tipo de
conduta calvinista, vinculada ao ascetismo laico e ao cumprimento dos deveres de cidadão e
governante exemplar, independentemente de suas vontades mais íntimas.
Por isso, partimos do princípio de que as viagens do imperador seriam viagens de
conhecimento e reconhecimento, claramente ligadas à construção de si mesmo que, embora
estudadas sob outros aspectos, carecem de um enfoque mais aprofundado, que permita
desconstruir a tese do imobilismo - segundo a qual, Pedro II teria sido praticamente o mesmo
por toda a sua vida - e mostre a importância destas excursões para a construção de um novo
ethos, pautado no desencantamento do mundo, no rompimento com construções míticas e na
racionalização de todos os domínios da vida em sociedade, inclusive na premissa da
separação entre as esferas pública e privada.
De fato, a partir da década de 1860, percebemos na documentação sinais de que o
ethos burguês começava a se sobressair ao ethos aristocrático. Em outras palavras, notamos
um agente social que, em meio às tensões e aos conflitos que perpassam a estrutura social,
entre projetos coletivos e projetos individuais, acabou por se redefinir, enquanto sujeito
múltiplo. Por outro lado, esta reelaboração - do ethos aristocrático ao ethos burguês - só foi
possível porque a estrutura social sofria profundas transformações em sua passagem à
modernidade a partir da segunda metade do século XIX. É, portanto, nesta dialética entre
estrutura social e sujeito social que se fundamenta a nossa argumentação.
Acreditamos que, sobretudo as viagens que realizou ao exterior (1871, 1876, 1887) e
exílio, (entre 1889 e 1891) tiveram um papel preponderante na construção de uma nova rede
de sociabilidade que contribuiu de forma decisiva para o seu descolamento em relação ao
projeto político da elite imperial. 12
Reiteramos que o caráter ascético e burguês (no sentido weberiano a que nos
referimos), que buscava separar os interesses privados dos públicos, aos quais deveria servir,
ainda que em detrimento de suas aptidões pessoais, pode ser notado em muitas passagens e se
evidencia quando a documentação é tomada como um todo, a partir da leitura extensa, mas
também verticalizada, das fontes.

12 Ver GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal. D. Pedro II em Portugal (1871-1872): memória e história. In:
R.IHGB, ano 176, n. 469, 2015, p. 103-117. A autora observa como Pedro II dominava os códigos da cultura
dos viajantes do Oitocentos, que primava por atrelar os estudos às viagens, ressaltando o valor pedagógico
destas excursões.

58
Por fim, inferimos que as escritas autobiográficas de Pedro II apontam indícios de que
a narrativa criada por ele, que reforçava a imagem do cidadão nos diários e na
correspondência, mas também nos poemas, nos conselhos à regente ou na fé de ofício, foi em
boa medida apropriada por aqueles que, posteriormente, se dedicariam a produzir o
conhecimento histórico a respeito do ex-imperador, ainda que tenham realçado a dualidade
entre o monarca e o cidadão sem levar em consideração a sua complexidade.

HISTORIOGRAFIA: AS BIOGRAFIAS DE D. PEDRO II E OS MÚLTIPLOS


OLHARES SOBRE A SUA TRAJETÓRIA

Ele [d. Pedro II] não é nem Minerva [a sabedoria], como lhe dizem
muitos, sem pensarem, nem Juno [o orgulho], como o fez o artista
[Decio Villares], sem querer. É esquisito que ninguém o tenha ainda
visto bem, quando tantos o olham. (grifo nosso)
Julio Dast13

A preocupação com a preservação da memória, para além das diversas formas de


escrita de si, encontrava-se já bastante clara, ainda no período de vida de Pedro II, como
demonstram, por exemplo, excertos de jornais, entre os quais destacamos 316 recortes de
periódicos europeus14, sobretudo franceses, guardados pela família imperial do Brasil entre 16
de novembro e 17 de dezembro de 1889, onde sobressaem as notícias sobre os eventos que
levaram à deposição do imperador, a viagem para o exílio e a sua chegada a Lisboa, além de
relatos sobre sua vida.
Somam-se a isto, os esforços do ex-imperador para que sua biblioteca, coleção de
fotografias e outras coleções e objetos que formavam o seu museu particular fossem deixados
para instituições nacionais que, como podemos perceber na carta escrita ao seu procurador
José da Silva Costa15 (a que já nos referimos anteriormente), sinalizam o papel de Pedro II na
formação de importantes acervos que, sob a denominação D. Thereza Christina Maria e
Imperatriz Leopoldina, deveriam perpetuar tanto a sua memória e a da família imperial, como
a memória do Segundo Reinado: a memória individual e a memória coletiva. 16

13 DAST, Julio [Pseudônimo de José Ribeiro Dantas Jr.]. Chronicas Fluminenses. In: Revista Illustrada, n. 336,
p. 2. Rio de Janeiro, 24 de março de 1883. Acervo Biblioteca/Museu Imperial/Ibram/MinC
14 Documentos do Arquivo da Casa Imperial do Brasil. II_POB-Maço 52 – Doc. 1143 – Acervo Arquivo
Histórico/Museu Imperial/Ibram/MinC.
15 Carta de d. Pedro II a José da Silva Costa, assinada e datada de Versailles, 08/06/1891. Coleção Silva Costa.
I-DAS-08/06/1891- PII.B.c - Acervo Arquivo Histórico/Museu Imperial/Ibram/MinC.
16 Ver ARGON, Maria de Fátima Moraes. Reflexões Sobre O Arquivo da Família Imperial e o papel de d.
Pedro II na sua formação, publicado pelo Instituto Histórico de Petrópolis. Disponível em: www.ihp.org.br

59
Neste sentido, visamos pensar a partir das proposições de Fernando Catroga (2001)
sobre a relação que a história estabelece com a memória, problematizando em que medida a
historiografia, ao selecionar o que merecia ser lembrado e o que precisava ser esquecido,
apropriou-se das escritas auto-referenciais, enquanto projetos deliberados de construção da
memória pessoal, ou das narrativas memoriais (biografias, crônicas, textos e imagens
veiculados em periódicos, entre outros) relacionadas a Pedro II.
Assim, apropriamo-nos das considerações de Catroga que, embora reconhecendo que
as relações entre a memória e a historiografia não são lineares, pontua que o conhecimento
historiográfico também surge como um “meio de combate contra o esquecimento”. Por isso,
indaga: “será a historiografia inteiramente estranha à função que as liturgias de recordação (e
particularmente o culto aos mortos) desempenham?” (CATROGA, 2001:39-41)
Se há um limite tênue entre o presente e o passado, que se entrecruzam, como as
figuras em um quadro de Miró, para usarmos a expressão de Michel de Certeau (2002:48)
sobre “a operação historiográfica”, nos indagamos o quanto o passado informa o presente,
neste caso, o quanto as narrativas memoriais acabaram por influenciar e permear a narrativa
historiográfica.
Por outro lado, podemos perceber que sempre haverá a possibilidade de relativizar a
apreensão sobre o passado possibilitada pela historiografia. Ou seja, será sempre possível
pensar o impensável e redimensionar o passado, desde que, em algum momento, esta
operação seja possibilitada pelas questões do presente, inclusive pelas questões teórico-
metodológicas apresentadas pela renovação historiográfica. É nesta linha que pretendemos
mostrar que as nossas proposições podem, a despeito de tudo o que já foi escrito sobre Pedro
II, esmiuçar um ponto ainda não devidamente estudado da sua trajetória.
Por isso, voltamos nosso mapeamento para as biografias escritas ainda durante a vida
de Pedro II, destacando aquela atribuída a Benjamin Mossé 17 e, na verdade, de autoria do
barão do Rio Branco 18, publicada em Paris, em 1889. Nosso objetivo é pontuar como neste
texto, a começar pela folha de rosto, aparecem elementos que serão reproduzidos nas escritas,
memoriais e historiográficas, posteriormente. As citações de figuras de relevo como Victor
Hugo e Charles Darwin a respeito de Pedro II dão a tônica do que os autores pretendiam

Acesso em: 29 Set. 2016.


17 Benjamim Mossé (1832-1892), escritor e editor francês, rabino de Avignon. Ver MOSSÉ, Benjamin.
Dom Pedro II, Imperador do Brasil: o Imperador visto pelo barão do Rio Branco /Benjamin Mossé. – Brasília:
FUNAG, 2015.; MOSSÉ, Benjamim. Dom Pedro II, Empereur du Brésil. Paris: Librairie de Firmin-Didot et Cie,
1889.
18 José Maria da Silva Paranhos Júnior, barão do Rio Branco (1845-1912), diplomata e historiador. Era filho de
José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, Presidente do Conselho de Ministros (1871-1875).

60
realçar na biografia do imperador: os epítetos de príncipe filósofo, sábio, amante e
encorajador das letras, das artes e das ciências.
A erudição do imperador que demonstrava conhecimentos nos mais diversos ramos
das ciências, sobretudo a astronomia e a botânica, ou que era capaz de falar, ou ler e traduzir
em diversos idiomas, como o hebraico que, segundo Mossé, ele conhecia melhor do que
muitos judeus; o despojamento que o permitia fazer generosas doações e custear os estudos de
jovens promissores, ou ainda recusar os faustos da vida aristocrática em troca de uma ascética
simplicidade de vida, todos estes pontos enfatizados por Mossé e Rio Branco podem ser
recuperados nas demais biografias de Pedro II, inclusive nas mais recentes, talvez com uma
entonação menos afetada, mas, ainda assim, com os mesmos enfoques.
Em um segundo momento, além das escritas autobiográficas e biográficas, pensamos
sobre a contribuição dos periódicos para a construção do conhecimento histórico a respeito de
Pedro II. Trabalhos recentes, como os do historiador Cláudio Antônio Santos Monteiro
(2007), que analisa as representações de Pedro II em jornais franceses, de diversos matizes
ideológicos, a partir da década de 1870, justamente a que é considerada como o início da
decadência do Império, mas também, contraditoriamente, a da sua ascensão no campo
intelectual europeu, sobretudo francês, têm se debruçado sobre a problemática da memória
construída a respeito de Pedro II com muito êxito.
No exterior, as matérias sobre a deposição de Pedro II em uníssono reforçaram que o
imperador do Brasil era reconhecido na Europa, particularmente, devido ao seu interesse em
assuntos científicos, atrelando textualmente o nome do “soberano brasileiro” à “história das
ciências modernas”, destacando o paradoxo entre a sua queda e a sua nomeação, no mesmo
dia, a Oficial da Instrução Pública, pelas proposições dos Ministros da Instrução Pública e dos
Negócios Estrangeiros da França da Terceira República. 19
Paralelamente, nos indagamos quanto à medida da influência dos periódicos
brasileiros, em especial a Revista Illustrada20 que, como fonte, tem subsidiado inúmeros
trabalhos sobre Pedro II. Nos 635 números publicados entre 1876, ano da criação do jornal, e
1891, ano da morte do ex-imperador, é possível localizar inúmeras referências a Pedro II, a
maioria delas com críticas ácidas não só ao seu governo, como à sua pessoa, considerado
fraco, dúbio, reticente, inseguro, taciturno, enfim, “um incansável assistidor”. Ainda que os

19 Sobre as matérias a respeito de d. Pedro II nos jornais estrangeiros ver Arquivo da Casa Imperial do Brasil.
POB-Maço 52-Doc 1143-Cat. B-Acervo Arquivo Histórico/Museu Imperial/Ibram/MinC
20 Periódico semanal, editado e publicado por Angelo Agostini (1843-1910) e, posteriormente, por Luís de
Andrade, no Rio de Janeiro, entre 1876 e 1898, veiculando textos e imagens (desenhos, charges, caricaturas e
retratos), importantes registros do último quartel do século XIX no Brasil.

61
articulistas da Revista não deixem de pontuar o que chamam de “amor pela ciência”,
percebem esta relação como nefasta por afastar o imperador do cumprimento do seu dever,
exatamente o oposto do que Pedro II pretendia realçar nas suas escritas auto-referenciais e na
construção da memória de si e do seu governo.
O trabalho de indexação da coleção completa da Revista Illustrada21 nos permitiu
perceber, no conjunto, o que a narrativa do periódico fixou como conhecimento histórico
sobre o imperador e o Segundo Reinado divergindo do Pedro II que se revelou a nós através
da leitura extensa, não só dos seus diários, mas do seu arquivo privado como um todo.
Portanto, o monarca, vítima do poder pessoal, que sofria com o acúmulo de
prerrogativas e a concentração de poderes, ou o Pedro II que vivia “no mundo da lua”, imerso
em seus afazeres particulares, que emerge, sobretudo, nas charges publicadas próximas ao fim
do Império, contrapõem-se não só à visão subjetiva e à construção de si mesmo empreendida
pelo imperador e à visão dos memorialistas, seus primeiros biógrafos, mas também àquilo que
nos pareceu revelar um ponto ainda não tangenciado na trajetória do imperador: o seu
deslocamento do ethos aristocrático e a adesão ao ethos burguês, que é o objeto da nossa
pesquisa.
Seguindo os rastros dos múltiplos olhares sobre Pedro II, voltamo-nos para o início
dos anos 1960, quando a monumental obra dirigida por Sérgio Buarque de Holanda, História
Geral da Civilização Brasileira, vem a público. No tomo referente ao Brasil Monárquico e,
especificamente, nos volumes sobre o Segundo Reinado, emerge um Pedro II conservador,
cuja concentração de poderes o colocaria em oposição aos liberais que, embora pudessem
ainda ser monarquistas, aderiam a teorias mais radicais (HOLANDA, 2012:304).
Quanto às biografias22, no período posterior, destacam-se a História de D. Pedro II,
escrita em 5 volumes por Pedro Calmon, e Exílio e morte do Imperador, de Lidia Besouchet,
ambas publicadas em 1975. Guardadas as devidas proporções das obras, notamos que ambos
os biógrafos, autores também de outras biografias de titulares do Império, acabam por seguir
os cânones de escrita das biografias clássicas, intercalando os acontecimentos pessoais aos
públicos, em uma linguagem muito próxima da narrativa literária.

21 Trabalho desenvolvido, entre 2013 e 2015, como técnica em acervo, responsável pela indexação de livros e
periódicos raros que compõem o acervo da Biblioteca do Museu Imperial/Ibram/MinC, no âmbito do Projeto
de Digitalização do Acervo do Museu Imperial (DAMI).
22 Importante salientar a existência de dezenas de biografias de d. Pedro II, entre as quais, destacamos as
escritas ainda no século XIX pelo Monsenhor Pinto de Campos (1871) e por Benjamin Mossé, juntamente
com o barão do Rio Branco (1889), assim como as biografias canônicas escritas na década de 1930 por Pedro
Calmon (1938) e Heitor Lyra (1938-1940).

62
No caso de Pedro II, reiteradamente a sua vida é descrita, a despeito da riqueza e da
quantidade de fontes utilizadas, como se, de antemão, tivesse um fim último, uma teleologia
cumprida com afinco pelo biografado. Sobre o imperador nos diz Pedro Calmon: “Nascera
nos degraus do trono; a monarquia era ele. Se desaparecesse, se falhasse, também ela
acabaria.” (1975:23) Já Besouchet (1993:37), ao descrever o exílio e morte de Pedro II, assim
narra os últimos momentos do ex-imperador:
Sem se deter em detalhes, saltando pontos obscuros, fatos que lhe
pareceram importantes algum dia, o Imperador na imobilidade de seu
modesto leito de um quarto de hotel parisiense, fechou ainda mais os
olhos às grandezas do mundo, cerrou ainda mais os ouvidos aos ruídos
que subiam da multidão aglomerada lá fora e, enquanto a neve
escorria lentamente pelos vidros das janelas, recordou. Reconstituiu
aquilo que constituía a história de sua vida como um pedaço da
história do Brasil. (grifo nosso)

No nosso entender, esta teleologia denuncia a simplificação da análise tão bem


criticada no texto clássico de Pierre Bourdieu (1986) sobre a “ilusão biográfica”, que esconde
os múltiplos ‘eus’ e a complexidade da trajetória de vida, ou seja, sincrônica e
diacronicamente, os deslocamentos e recolocações do agente no espaço social, justamente, o
que pretendemos mostrar no nosso trabalho.
Na historiografia atual, o Imperador Cidadão, de Roderick Barman, juntamente com
D. Pedro II: Ser ou Não Ser, de José Murilo de Carvalho, seriam as biografias recentes de
maior relevância. No entanto, esses textos ainda se aproximam das biografias escritas na
década de 1930, não pela multiplicidade de adjetivos empregados em certos trechos quase
literários, mas, pelo menos, em relação a uma escrita que prima pelo encadeamento de
eventos pessoais e políticos e por uma narrativa linear sobre a vida do imperador.
Diante do exposto, ainda que tenhamos empreendido uma leitura extensa, intensa e
integrada das fontes e, sobretudo, do arquivo pessoal de d. Pedro II, trazer um novo feixe de
luz sobre a trajetória do imperador não deixa de ser, por isso, menos desafiador. Pelo
contrário, o desafio é gigantesco, e este desafio biográfico deve-se a dois pontos
fundamentais: primeiro, como dito, porque muitos pesquisadores reconhecidos pela academia
já se dedicaram a esta tarefa e, portanto, problematizar em relação a algumas teses já
consolidadas requer certo esforço; segundo, como nos alerta Sérgio Buarque de Holanda
(2010:141), “por maior que possa ser a tentação de querer reduzir o papel que um homem só
possa exercer no curso da história, força é confessar que os poderes que enfeixava o
imperador, (...), não deixam silenciá-lo ou subestimá-lo.”

63
Assim, ao contrário das assertivas que reiteram o imobilismo na trajetória de Pedro II,
como a afirmação de Barman, segundo a qual “em meados de 1848, então com 23 anos e
meio, o imperador havia desenvolvido plenamente as qualidades que o caracterizariam dali
em diante” (2012:183), pretendemos mostrar d. Pedro II como um indivíduo paradoxal e
complexo, do qual, nem as biografias laudatórias e hagiográficas, nem as biografias que
pretendem dar um sentido linear à sua vida, conseguem dar conta.
Propomo-nos a pensar, então, quais eram os interlocutores privilegiados por d. Pedro
II a partir de 1871. Além dos seus amigos, como os já mencionados conde de Gobineau e
condessa de Barral, este mapeamento passa necessariamente por verificar a rede de
sociabilidade que conformou no campo intelectual e científico, seja na Europa, seja nos
Estados Unidos e no Oriente Médio. O inventário da documentação privada de Pedro II
mostra claramente que, a partir da década de 1870, avultam os documentos, sobretudo a
correspondência, sobre temas científicos, paralelamente ao declínio dos documentos
referentes aos assuntos da administração pública ou do governo.
Quanto à relação de d. Pedro II com o campo científico, notamos que as diversas teses
sobre o tema confirmam o pensamento a respeito do interesse do imperador pelo
desenvolvimento das ciências: sempre apresentado como distração diletante, curiosidade ou
mecenato. Desde o lançamento de As Barbas do Imperador, de Lilia Schwarcz23, que se
tornou uma obra de referência sobre d. Pedro II, a problemática teórica abordada por
Schwarcz – os fundamentos simbólicos da estrutura social – e a sua tese sobre a construção
simbólica da imagem de d. Pedro II, de órfão da Nação a cidadão cosmopolita e intelectual,
têm sido seguidas, em maior ou menor grau,24 nos demais trabalhos sobre o segundo
imperador do Brasil, destoando desta perspectiva apenas algumas pesquisas mais recentes,
como as que tratam dos estudos tradutórios de Pedro II, 25 por exemplo.
Contudo, partindo do princípio de que teses são passíveis de desconstrução,
pretendemos discutir aquela consagrada por Lilia Schwarcz, e mostrar que há muitos
momentos na documentação onde, para parafrasearmos a metáfora empregada em As Barbas
do Imperador, o rei se deixa ver nu (SCHWARCZ, 2010:25-33). Ou seja, há narrativas que

23 Além desta obra, destacamos a publicação, pelo Museu Imperial, do Diário do Imperador D. Pedro II: 1840-
1891, sob a organização de Begonha Bediaga, em 1999.
24 Citamos, por exemplo, a pesquisa de Regina Dantas, do Museu Nacional/UFRJ. Ver DANTAS, Regina
Maria Macedo Costa. A Casa do Imperador: Do Paço de São Cristóvão ao Museu Nacional. Dissertação
(Mestrado) Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2007. 276
p.
25 Destacamos as pesquisas do grupo coordenado por Sergio Romanelli, na Universidade Federal de Santa
Catarina. Ver: SOARES, Noêmia; SOUZA, Rosane de; ROMANELLI, Sergio (Org.). Dom Pedro II: um
Tradutor Imperial. Tubarão: Ed. Copiart; Florianópolis: PGET/UFSC, 2013.

64
deixam evidente que o projeto intencionado pelas elites nacionais para a construção da
imagem do imperador e, por conseguinte, do próprio Estado Nacional, começou a destoar do
ethos reelaborado por d. Pedro II, gerando uma contradição que, ao fim e ao cabo, levaria ao
esgotamento da forma de governo. A análise simbólica em si mesma, desprendida da estrutura
social, não captaria um importante aspecto da trajetória de d. Pedro II, que é a relação que ele
estabelece dialeticamente com os novos valores, modos de pensar, sentir e agir, no processo
histórico marcado pela passagem à modernidade, na segunda metade do século XIX.
Finalmente, a pista que seguimos para verificar as nossas hipóteses parte justamente
dos clássicos Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda que, embora não tenham
aprofundado seus argumentos, apontaram para um imperador que cada vez mais se
desconectava com o projeto político pensado pela elite imperial no período pós-
independência. Gilberto Freyre, ainda em 1925, nos dá os indícios deste descolamento, e
assim define o imperador: “Deixou de ser o pai e o aliado dos pais-senhores de engenho, dos
pais-barões, dos pais-fazendeiros para ser cúmplice dos filhos - os bacharéis revoltados contra
toda espécie de tradição (...).” (FREYRE, 2011:44). Já Holanda, inclusive citando Freyre, não
deixa de notar, em Raízes do Brasil (1993:122)

Pedro II é bem de seu tempo e de seu país. A ponto de ter sido ele,
paradoxalmente, um dos pioneiros dessa transformação, segundo a
qual a velha nobreza colonial, nobreza de senhores agrários – os
nossos homens de solar – tende a ceder seu posto a esta outra,
sobretudo citadina, que é a do talento e a das letras.

Assim, seguir as pistas deixadas por Freyre e Holanda, que identificam um imperador
paradoxalmente “entre o patriarca e o bacharel” e, a partir das novas abordagens
historiográficas que permitem uma leitura diferenciada do arquivo pessoal de Pedro II e de
outras fontes a ele relacionadas, revelar uma perspectiva inédita sobre a trajetória do
imperador é o desafio a que nos propomos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho nos propusemos a traçar um panorama sobre as escritas (auto)
biográficas de Pedro II, tendo consciência de que, ainda assim, é um recorte, uma
exemplificação, entre o imenso volume de documentos referentes ao ex-imperador. A vasta
documentação sobre d. Pedro II, incluindo seu arquivo pessoal, mas também as fontes
secundárias, nos apresenta o desafio de pontuar um aspecto ainda não devidamente tratado, ou
apenas tangenciado, da sua biografia. No entanto, a ampla leitura que fizemos das fontes,

65
especialmente da documentação privada do imperador que, em conjunto, nos permitiu
perceber não o que está mais evidente – a dicotomia entre o monarca e o cidadão -, mas o que
está nas entrelinhas, nos não ditos, nas hesitações, nas insatisfações manifestas aqui e acolá,
sobretudo aos seus interlocutores privilegiados.
Em outros termos, a pesquisa qualitativa e o paradigma indiciário que escolhemos
como método nos possibilitaram verificar, para além da dicotomia, a complexidade da
trajetória de Pedro II. A nossa pretensão, assim, limita-se a analisar em um recorte da sua
biografia, particularmente o período entre 1871 e 1891, o seu deslocamento em relação ao
projeto político pensado pela elite imperial e a sua adesão a um novo ethos. O fio condutor
para repensarmos esta trajetória, entre outros possíveis, seria a sua participação efetiva nos
campos intelectual e científico do último quartel do Oitocentos, não apenas como mecenas ou
erudito, príncipe ilustrado, amante das ciências e das letras, epítetos construídos desde o
século XIX e reforçados ainda nos dias de hoje.
Em segundo lugar, esperamos poder debater com afinco a tese da teatralização do
poder, seja porque ela ressoa em quase todos os trabalhos recentes que pretendem estudar a
relação de Pedro II com as ciências, seja porque, no nosso entendimento, ao prender-se à
questão da importância do capital simbólico para a fundamentação do poder político, fecha-se
aos sentidos que a experiência pode produzir na vivência, por um lado, e não dá conta de
perceber as mudanças que estão ocorrendo na estrutura social, em sua passagem à
modernidade, por outro lado.
Ainda que, como mostramos, a separação entre o monarca e o cidadão tenha sido
cunhada pelo próprio imperador nas escritas de si, e que se reconheça algum grau de
intencionalidade e sistematização nos relatos deixados para a posteridade, como os diários, a
pesquisa ampla, extensa e intensa da documentação mostrou-nos que há muito mais aspectos
a serem aprofundados do que uma leitura segmentada das fontes poderia indicar.
A revisão historiográfica, neste sentido, nos permitiu aprofundar a problemática da
pesquisa e explorar aspectos que haviam sido apenas tangenciados por outros historiadores.
Por outro lado, contribuiu para as reflexões sobre a renovação do campo da História Política
na historiografia brasileira, visando perceber em que medida o nosso projeto se encaixa nesta
tendência e de que maneira podemos revelar algo inédito, não rompendo, mas aprofundando,
indo além da narrativa que reconhece em d. Pedro II a dicotomia entre o monarca e o cidadão,
o rei filósofo, ou ainda o erudito monarca dos trópicos.

66
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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de Paloma Vidal. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
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Moraes (Coord.). Usos e Abusos da história oral. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p.
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sesquicentenário de seu nascimento. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1975, 316p.
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HOLANDA, Sérgio Buarque de. Capítulos de História do Império. São Paulo: Companhia
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______. O Brasil monárquico. v. 7: do Império à República.10 ed. Rio de Janeiro: Bertrand


Brasil, 2012, 500p.

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MONTEIRO, Cláudio Antônio Santos. “Alguns elementos do debate francês sobre o


reconhecimento da república no Brasil (1889-1890)”. In: R. IHGB, Rio de Janeiro, a.
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RÉMOND, René. Por uma história política. 2. ed. Tradução de Dora Rocha. 2. ed. Rio de
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67
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: Dom Pedro II, um monarca nos
trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, 623p.

68
A nova Câmara de 1881 e os representantes da nação

Alexandra do Nascimento Aguiar1

Resumo: A representação política foi tema essencial dos debates sobre a organização dos
Estados a partir do último quartel do século XVIII, e se tornou questão fulcral nas discussões
de projetos de Nação, ao longo de todo o oitocentos, tanto na Europa como na América. O
objetivo desse trabalho é situar o Brasil monárquico nesse debate, através das principais
reformas de seu sistema representativo até a Lei Saraiva, em 1881. Dentro desse recorte, esta
apresentação tem como proposta enfocar a primeira Câmara dos Deputados eleita por voto
direto no país, sua composição e seleção de discussões em Plenário, tendo em vista refletir
sobre o sentido da representação política no Brasil, no cenário político criado pela reforma
eleitoral de 1881.
Palavras-chave: representação política, Lei Saraiva, Segundo Império.

Abstrat: The Political Representation was a specific point inside the debates about state
organization during the last quarter of eighteenth century and the discussion on National
Projects of State became the central question in Europe and in America. This article aims to
situate the Brazilian debate about State in monarchy period in this international debate focuses
on mainly reforms of representative system that culminated in the Saraiva`s Law, in 1881. For
that, we will analyze the first Chamber of Deputies elected by direct vote in Brazil, its
composition and a selection of discussions in Plenary, in order to reflect on the meanings of
political representation, in the political scenario created by the electoral reform of 1881.

Key-words: political representation, Lei Saraiva, Second Empire.

Apresentação
A implantação da eleição direta no Brasil, através da reforma eleitoral de 1881, pode
ser interpretada como oportunidade de análise das expectativas políticas do país e dos debates
sobre a representação política no cenário do último quartel do século XIX. Para além da
exclusão da maioria da população pelo censo literário, a reforma promovida pelo Partido
Liberal oferece a possibilidade de reflexão sobre o significado da representação política no
contexto da Lei Saraiva, a partir do perfil da Câmara dos Deputados eleita naquela legislatura
(1881-1884)2.

1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


E-mail: alexaaguiar13@gmail.com
2 AGUIAR, Alexandra do Nascimento. “Têm todos os mesmos ares de família”: ideias conservadoras na
Assembleia Geral de 1881. Tese (doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, 2016.

69
Até a Lei Saraiva, durante o Império, houve três reformas eleitorais significativas que
perseguiram objetivos interligados e essenciais à confiabilidade no sistema representativo de
um país: a lisura no processo eleitoral e a pluralização da Câmara. Em todo o período
monárquico foi recorrente o predomínio de um único partido político nas Câmaras eleitas, e
trazer o partido da oposição para dentro do Parlamento conferia autenticidade à representação
política. A outra questão se referia às fraudes e à coerção física e moral, também presentes nas
eleições imperiais, práticas ilegais cometidas por conservadores e por liberais. Os frequentes
atos ilícitos e de violência durante as eleições eram mobilizados pelas elites locais em sintonia
com as elites provinciais e com as autoridades governamentais. O protagonismo das camadas
populares nesses dias de eleição, seja como votantes ou como capangas e capoeiras, os
“agentes eleitorais” nas áreas rurais e urbanas, foi o argumento nos discursos que defendiam a
eliminação do primeiro grau do sistema eleitoral e com ele a participação política da maioria
pobre. Esta responsabilizada por macular as eleições ao trocar seu voto por benefícios
pessoais ou por obedecer aos mandantes locais contra seus adversários eleitorais.
No entanto, mais do que o aperfeiçoamento do sistema representativo, tais reformas
eleitorais realizadas em 1846, 1855 e 1875 apontavam para um viés conservador, pois traziam
discursos mais ou menos explícitos a concepção sobre a participação e a representação
políticas como expressão de grupos portadores de privilégios, a propriedade e a educação
formal.
Até a primeira reforma eleitoral as eleições eram orientadas pelas Instruções de 1824,
a Lei de Reforma de 1846 criou uma legislação específica para o processo eleitoral. A revisão
do sistema eleitoral se impôs após a conturbada eleição de 1842, apelidada de “eleições do
cacete” devido às estratégias escusas de intimidação de adversários políticos pelos dois
partidos, entretanto mais associadas ao Partido Liberal3. A reforma tinha como finalidade
promover eleições livres de interferência do governo, o que significava tentar impedir o
falseamento da representatividade e da permanência de um único partido no poder 4. No
entanto, também elevou a renda mínima para os votantes, determinando seu cálculo em prata
sob a justificativa de desvalorização da moeda, uma forma de impedir a expansão do
eleitorado.
A seguinte, Lei de Círculos de 1855, aprovada no contexto da Política de Conciliação,

3 SABA, Roberto N. P. F. As “eleições do cacete” e o problema da manipulação eleitoral no Brasil


monárquico. Almanack. Guarulhos, n.02, p.126-145, 2º semestre de 2011.
4 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política. Teatro de sombras: a política
imperial. 4º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 394.

70
instituiu os distritos com o propósito de aproximar os eleitores aos candidatos, envolvendo-os
mais nas eleições, esperava-se reduzir o espaço de influência do governo 5. Opiniões
desfavoráveis ao voto distrital criticavam a inserção das lideranças locais no Parlamento, os
“tamanduás”, como inaptos para debates políticos mais abrangentes sobre o país. Tais chefes
locais levariam o Brasil real para dentro do Parlamento, até então espaço dominado por
políticos de expressão provincial6. Estes se percebiam como os únicos capazes de representar
a nação e educar o povo, exemplificado pela percepção de Bernardo Pereira de Vasconcelos,
“para quem o sistema representativo não era a vontade popular, mas o governo dos melhores,
dos mais esclarecidos, dos mais virtuosos”7.
A Lei do Terço de 1875 foi debatida no quadro de reivindicação pelo voto direto que
se tornara reforma suprapartidária, pois conservadores e liberais faziam propaganda pela
revisão do sistema eleitoral. A Lei do Terço priorizou a representação da minoria partidária, a
eleição em número significativo de deputados do partido da oposição, visando impedir, assim,
a formação das Câmaras unânimes8. Além do propósito de garantir 1/3 dos votos para a
oposição, a lei estabeleceu a qualificação permanente dos votantes com a introdução do título
eleitoral e reorganizou as eleições por Províncias 9 novamente, com o intuito de obstaculizar a
eleição dos “chefes de aldeia”, viabilizada pela reforma anterior. Contudo, esta reforma não
obteve os resultados desejados, pois a Câmara eleita se compôs com ampla maioria
conservadora sob ministério conservador, e a eleição seguinte, sob ministério liberal, formou
uma Câmara inteiramente liberal10. Além disso, foram constatados casos de violência e
distribuição de empregos públicos como “compra de votos”11.
O crescimento da adesão à campanha pela eleição direta estava relacionado à
libertação dos nascituros, obstaculizada pela composição parlamentar majoritária de
escravocratas naquela legislatura. A decisão favorável à Lei do Ventre Livre (1871)
desagradou à bancada escravista do Partido Liberal e do Partido Conservador, unindo-os pela
eleição direta, reivindicação do Partido Liberal desde 1869, em defesa da ideia como meio de

5 FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Editora Globo, 2001, p. 371.
6 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit., p. 399.
7 FAORO, Raimundo. Op. cit., p. 371
8 Esta era uma reivindicação dos dois partidos e dos dois partidos e, buscando atender essa demanda, o
ministro João Alfredo Correia de Oliveira elaborou o projeto no qual se basearia a Lei do Terço PAIM,
Antônio, BARRETO, Vicente. Evolução do pensamento político brasileiro. Belo Horizonte: Itatiaia; São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1989, p. 88.
9 HOLANDA, Sergio Buarque. História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil monárquico. Tomo II,
v. 7. Do Império à República. 8ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, p. 213.
10 CARVALHO, José Murilo de. Op. cit., p. 407.
11 HOLANDA, Sergio Buarque. Op. cit., p. 214.

71
restringir a influência do governo no processo eleitoral. Ambos argumentavam que tal vitória
se dera devido ao número de funcionários públicos e de políticos das regiões rurais do Norte
de economia decadente, os dois casos dependentes dos favores do governo, eleitos como
deputados sob a interferência do governo e, por isso, votavam com o governo 12. Logo, a
reforma eleitoral que se realizaria em 1881 teve como propósito reduzir o eleitorado no
campo, a partir da exigência de alfabetização, e limitar as candidaturas do funcionalismo com
a inclusão de incompatibilidades eleitorais.
Os debates sobre a reforma eleitoral iniciaram com o Gabinete Sinimbu (1878-1880),
no entanto, a ausência de consenso entre os liberais quanto a determinados pontos no projeto e
problemas ocorridos durante esse governo levaram a sua substituição por outro Gabinete, este
chefiado por José Antônio Saraiva (1880-1882). O político baiano conseguiu passar a reforma
como decreto e com a controversa exigência de saber ler e escrever para ser eleitor. No
discurso final, a eleição direta foi declarada como vontade nacional e necessária como parte
do progresso e da civilização pretendidos para o Brasil.
No entanto, a Lei Saraiva não se traduziu em expectativas de renovação política, ainda
que tenha sido enunciada no periódico Gazeta de Notícias como “inaugurada uma nova época
parlamentar, oriunda de um novo sistema eleitoral”. Uma parcela dos eleitores via com
reticências a “nova eleição” e a possibilidade de renovação da política e alertava contra a
entrada de novos nomes que poderiam “perturbar o sossego”:
Ás urnas
É essencial ao bom êxito da presente eleição que nela tome parte como
eleitor todo homem honesto e independente. É preciso que os candidatos
anônimos e sem título capaz de recomendá-los à benevolência dos eleitores
sejam fulminados para exemplo dos futuros, que em idênticas condições
tiverem a coragem de vir perturbar o nosso sossego. Escolhamos pessoas
conhecidas pela sua inteligência e moralidade, e que das suas aptidões
tenham dado provas já no Parlamento, já na imprensa, pois que os tempos
difíceis, a que atravessa o país não permitem experiências.
Um grupo de 20 eleitores 13.

Os representantes da nação
No dia 17 de Janeiro de 1882, Pedro II abriu oficialmente as atividades na 18ª
Assembleia Geral, que já se encontrava em sessão preparatória desde dezembro do ano
anterior. A reforma eleitoral de 1881 havia atingido seu principal objetivo: a composição da

12 LYNCH, Christian Edward Cyril. O Momento monarquiano. O poder


moderador e o pensamento político imperial. Tese de doutorado. IUPERJ, 2007, p. 332
13 Gazeta de Notícias, 31 de outubro de 1881.

72
Câmara pelos dois partidos, situação e oposição se enfrentariam em equilíbrio, ao contrário
dos quadros parlamentares anteriores. O Partido Liberal ocupou 75 cadeiras, contra o Partido
Conservador representado por 47 deputados.
Um dos méritos da Lei Saraiva foi a distribuição de representantes do Partido Liberal e
do Partido Conservador províncias do território imperial. Pode-se dizer que como partido
derrotado, os conservadores foram bem sucedidos, pois, exceto por seis províncias, a oposição
conseguiu ao menos um deputado ou até metade das cadeiras nas demais. Os eleitores do Rio
de Janeiro optaram pelos conservadores, elegendo dez deputados contra dois do Partido
Liberal nos doze distritos fluminenses. Em Pernambuco ocuparam mais da metade das
cadeiras e no Pará elegeram o total de representantes. Na Paraíba, os conservadores também
obtiveram votação expressiva, assim como em Minas Gerais onde alcançaram um terço de
representantes.
A Câmara eleita em 1881 foi fruto de uma reforma que se insere na concepção sobre a
representação política como exercida pelos indivíduos julgados capazes, os “princípios da
distinção” que permitiam a alguém se inserir ou iniciar redes políticas. Segundo Bernard
Manin, os governos representativos formados na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França,
os dois últimos a partir do último quartel do século XVIII e ao longo da primeira metade do
século seguinte, preocuparam-se de que os representantes políticos fossem “socialmente
superiores” aos eleitores em “riqueza, talento e virtude”, adotando a propriedade e a
educação formal como critérios para ocupação de cargos públicos14.
Na legislatura de 1881, os deputados se identificaram pela formação profissional, não
significando que a exercessem de fato. Elegeram-se 84 bacharéis em Direito, 22 médicos, 04
magistrados, 04 bacharéis em Matemática, 02 lavradores, 02 engenheiros, 02 negociantes, 01
lente de Direito e 01 militar 15. Destacando-se a profissão e a formação superior como
definidores da identidade social do grupo. O reduzido número de lavradores, ou seja, aqueles
que administravam diretamente suas propriedades rurais, atividade que boa parte do grupo
considerava inconciliável com a política 16. Entretanto, a categoria sempre esteve representada
no parlamento brasileiro pelo expressivo número de deputados oriundos da lavoura, seja por
família, negócios ou ambos.

14 MANIN, Bernard. O princípio da distinção. Revista Brasileira de Ciência Política, nº 4. Brasília, julho-
dezembro de 2010, 187-226.
15 BARÃO DE JAVARY. Organizações e programas ministeriais desde 1822 a 1889. Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1889, p. 338-343.
16 Verbete Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil
Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 296.

73
Os bacharéis em Direito contavam com a formação acadêmica voltada para a atuação
institucional e, ao longo do regime monárquico, conferiu-se à categoria a preferência ou quase
monopólio das funções da burocracia e de mando nas instituições políticas. Esse caráter
específico da formação jurídica no Brasil estava associado à origem de parte significativa dos
advogados, provenientes de famílias ou integrantes de redes constituídas por proprietários
rurais e negociantes influentes na economia e na política 17. Weber observou o crescimento da
atuação dos juristas na política partidária como o “controle dos grupos de interesse”. Segundo
ele, os juristas se destacaram na esfera política ao transpor o uso da palavra com o sentido de
causar efeito, prática de sua profissão, para os debates parlamentares e partidários. Diferente
dos funcionários públicos que não possuíam o treinamento para a argumentação e nem a
independência dos advogados, pois a função técnica tem como essência executar ordens18.
Os jovens deputados iniciantes possuíam em comum com os deputados experientes o
pertencimento às famílias com trajetória política consolidada ou o patrocínio de autoridades
de sua região e a atuação em jornais do partido político vinculado aos familiares. Era quase
um padrão para adentrar no Parlamento, lembrado por Afonso Celso de Assis Figueiredo
Junior, eleito como representante de Minas Gerais pelo Partido Liberal, assim como seu tio,
Carlos Affonso de Assis Figueiredo, nesta mesma legislatura, e que atribuía ao pai, o
Visconde de Ouro Preto, homônimo, sua inserção na carreira política:
Por si só, independente de qualquer patrocínio e auxílio, ninguém jamais, em parte
alguma, começou a vida pública. Que é uma candidatura séria? É aquela que foi
sugerida ou adotada por uma ou muitas influências locais ou gerais. Consiste nisso
mesmo os chamados elementos de um candidato, na estima e confiança que inspira a
correligionários e amigos, os quais tomam a iniciativa, ou resolvem sufragar o nome
dele.19

As regras eleitorais de 1881 beneficiaram os profissionais liberais, médicos,


professores, advogados, pois não estavam, pelo menos oficialmente, ligados ao governo e
dispunham dos quesitos estabelecidos pela reforma, a alfabetização e a comprovação de renda
ou de propriedade. Para profissão liberal adoto a definição utilizada por Coelho, “atividade
especializada que requer preparo através de treinamento formal ou nível superior, que encerra
prestígio social ou intelectual ou ambos, que é praticada de forma autônoma e cuja base de
conhecimentos é de natureza predominantemente técnica ou intelectual”. Segundo o autor, o

17 ADORNO, Sérgio. Aprendizes do Poder. O Bacharelismo Liberal na Política Brasileira. Rio de Janeiro:
Editora Paz e Terra, 1988, p. 159-160.
18 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora LTC, 1982,p. 115-116.

19 AFONSO, Celso. Afonso Celso de Assis Figueiredo. Oito anos de parlamento. Brasília: Senado
Federal, 1998, p. 19.

74
termo “profissionais liberais” já era empregado no século XIX, porém, não estava associado à
ideia de erudição, profissões “cultas”20.
Outro aspecto liberal da reforma era tornar o Legislativo mais independente do
Executivo, aumentando o rigor das incompatibilidades eleitorais sobre o funcionalismo
público, visando impedir o uso da máquina do Estado para coibir a liberdade do eleitorado.
Assim, a reforma se propôs a atacar as fraudes de cima para baixo, reduzindo as
possibilidades de candidatura de servidores estatais, especialmente magistrados, que exerciam
poder local. Segundo os grupos favoráveis, os empregados do Estado tendiam a votar com o
governo nos debates parlamentares; enquanto a plebe das cidades e dos campos elegia o
candidato indicado pelo chefe local, votando por ignorância ou por subordinação. Formava-se
um círculo vicioso englobando a influência dos Gabinetes sobre as autoridades provinciais,
que transferiam essa pressão para os chefes políticos locais, atuando, por fim, sobre os
votantes. Por sua vez, estes votavam nos eleitores indicados pelas influências locais, que
elegiam os candidatos a deputados apontados pelas autoridades provinciais, compondo uma
Câmara em números absolutos, ou quase, pelos deputados do partido que já ocupava o
Gabinete.
Considerando as ocupações ou profissões dos parlamentares, a composição da
Assembleia de 1881 sofreu redução considerável do número de funcionários públicos e a
eliminação de religiosos do quadro de deputados. A ampliação das incompatibilidades pela
reforma21 visava tornar o Parlamento menos suscetível à Coroa e aos ministros, pois menos
deputados derivados do funcionalismo significaria menor inclinação da Câmara em votar a
favor de projetos do governo contrários aos interesses de outros grupos de parlamentares.
Esperava-se que as restrições à candidatura do funcionalismo enfraquecessem o
potencial de influência sobre o eleitorado, exercido por cargos públicos de mando, como a
magistratura. Rui Barbosa havia ressaltado a importância das incompatibilidades em relação

20 COELHO, Edmundo Campos. As profissões imperiais. Medicina, Engenharia e Advocacia no RJ. 1822-
1930. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 22-24.

21 Das Incompatibilidades. Art. 11 - Ficavam proibidos de ser votados para Senador ou Deputado
Provincial e Geral, em todo o Império, diretores de secretarias de Estado, os cargos de autoridade ou com
atribuições de Presidente de Província, Bispos, Juízes, Chefes de Polícia, Vigários. Art. 12 - “O funcionário
público de qualquer classe que perceber pelos cofres gerais, provinciais ou municipais, vencimentos ou
porcentagens ou tiver direito a custas por atos de ofícios de justiça, se aceitar o lugar de Deputado a
Assembleia Geral ou de membro de Assembleia Legislativa Provincial, não poderá, durante todo o período
da legislatura, exercer o emprego ou cargo publico remunerado que tiver, nem perceber vencimentos ou
outras vantagens, que dele provenham, nem contar antiguidade para aposentação ou jubilação, nem obter
remoção ou acesso em sua carreira, salvo o que lhe competir por antiguidade”. Decreto n. 3029 - de 9 de
Janeiro de 1881 - Reforma a legislação eleitoral. http://www2.camara.leg.br/

75
aos magistrados, ao defender o projeto da Reforma de 1881, “à magistratura, especialmente,
urge estender resolutamente esta medida. [...] Se o que temos em mente é acabar, entre o
poder judiciário e a administração, todos os liames que até hoje, praticamente, submetem o
magistrado ao ministro22”.
A movimentação dos parlamentares era delimitada pela hierarquia social
fundamentada na tradição, o Estado como entidade de preservação daquela ordem social e
econômica e no reconhecimento harmônico de identidades privilegiadas. Liberais e
conservadores se uniam no interesse comum da preservação das fronteiras sociais e da
verticalidade nas relações em transformação. Em especial concernente à escravidão, em que
cada reforma que lhe agregava direitos repercutia como questionamento da autoridade
tradicional e como enfraquecimento da submissão dos escravos e dos coadjuvantes desse
universo senhorial. Os deputados que apresentavam propostas no sentido de dar continuidade
a emancipação dos escravos, paralisada desde 1871, sofriam censuras por desconsiderarem o
trabalho e a propriedade como interesses de grupo. A reforma liberal da eleição direta teve
como finalidade resguardar para o futuro as distinções sociais presentes, restringindo a
participação política, garantia o recuo de direitos.

Dinâmica da Legislatura de 1881


A harmonia entre os dois partidos foi o ponto central nesta legislatura, em que o
Partido Conservador foi vitorioso dentro Parlamento, ao passo que o Partido Liberal o foi nas
urnas, como era esperado por se tratar de eleição sob Gabinete do Partido Liberal. O
eleitorado selecionado e a correção das distorções de resultados do pleito produziram uma
Câmara conservadora sob dois aspectos: o partidário, porque os conservadores foram eleitos
em número suficiente para obstaculizar o governo, o que fizeram em toda a legislatura. E
ideológico, porque as coalizões de conservadores e liberais demonstraram identificação de
ideias entre os dois partidos, cujos membros da dissidência liberal se uniam à minoria contra
as propostas do governo que afetavam seus interesses comuns. Deputados liberais
contribuíram para derrubar Gabinetes do próprio partido e se mostraram divididos sobre o
próprio programa partidário: alguns defendiam sua realização integral, outros divergiam
quanto à atualidade de algumas de suas reivindicações e o aprofundamento de outras,
especialmente sobre a reforma do trabalho servil.
Essa dinâmica, ou seja, as aproximações e os conflitos entre os partidos, pode ser

22 Anais da Câmara dos Deputados, 21 de junho de 1880.

76
demonstrada nas relações entre a Presidência da Câmara e o governo, este na figura da
Presidência do Conselho. Exemplificada pela renúncia de dois Presidentes da Câmara, Martim
Francisco Ribeiro de Andrada durante o Gabinete de Martinho Álvares da Silva Campos
porque este era antirreformista; e Antônio Moreira de Barros no Gabinete de Manuel Pinto de
Souza Dantas23, porque este trouxe de volta para a Câmara o debate sobre emancipação. As
divergências internas e ao mesmo tempo pluralidade de ideias abrigadas pelo Partido Liberal
também são evidenciadas nos diferentes perfis políticos dos Gabinetes organizados entre 1881
e 1884, Martinho Campos, Paranaguá, Lafayette Pereira e Manuel Dantas. Nessa relação
entre a Assembleia Geral e o governo, ressalta-se o desencontro de objetivos observados nos
quatro Gabinetes. Iniciando pela inclinação conservadora de Martinho Campos e sua postura
antirreformista; seguido pela determinação do Visconde de Paranaguá em implementar o
programa do Partido Liberal acima das resistências; substituído por Lafayette Pereira,
signatário republicano e sem apoio dentro seu próprio partido; e encerrado pelo “radicalismo”
de Manuel Dantas ao propor dar continuidade à emancipação dos escravos.
Destaca-se nesta legislatura a atuação da ala fluminense do Partido Conservador, o
núcleo duro do conservadorismo. A coesão do discurso desse grupo em especifico é
reconhecida pelo líder governista Martinho Campos que, sendo membro do Partido Liberal, se
identifica ao Partido Conservador, e exalta o apego do partido adversário às instituições
políticas da Monarquia e às relações sociais arraigadas pela tradição, visão de mundo que os
distinguem dos simples chefes locais:
Na província do Rio de Janeiro, felizmente para nós, essas entidades efêmeras nunca
puderam subsistir, nem durar. A influência é daqueles a quem a população lh’a dá, e
que pelos seus serviços, posição, fortuna e relações de família, são os chefes naturais
e legítimos das suas localidades, porque são as individualidades mais importantes
delas24.

Para ressaltar o aspecto conservador da reforma eleitoral de 1881, considero pertinente


analisar a origem social dos deputados, profissão, ligações pessoais e políticas e as influências
na sua trajetória partidária. Assim como a dinâmica dessa legislatura através das relações
entre Presidência do Conselho, presidentes da Câmara e parlamentares, e que destaca as
correlações de força sob a influência dos argumentos do Partido Conservador e como
afetavam o desempenho do governo do Partido Liberal. Com essa finalidade, selecionei
alguns temas que repercutiram junto à opinião pública, como o republicanismo, a
emancipação e a participação do Brasil na Comissão internacional para observação da

23 Deputados do Partido Liberal, eleitos pela província de São Paulo.


24 Anais da Câmara dos Deputados, 10 de março de 1882.

77
passagem de Vênus.
Os republicanos estavam cada vez mais presentes na Câmara dos Deputados,
elegendo-se através dos partidos imperiais, recurso conhecido pelos estudiosos do período, os
parlamentares se candidatavam como liberal ou conservador e após eleitos se declaravam
republicanos no Parlamento. Em contraste com o regime monarquista associado à inércia, a
República era difundida como progresso, entretanto, seus ideais expostos no parlamento se
revestiam de coloração conservadora. Tal concepção foi demonstrada pelo discurso de Afonso
Celso Jr., deputado do Partido Liberal, que se declarou “republicano conservador”, e
repudiava o voto universal e defendia o modelo de governo republicano acima das questões
sociais e privilegiando as camadas médias urbanas. Segundo ele, a emancipação deveria ser
solucionada com moderação e observando que não trouxesse prejuízos à economia e
preservasse a segurança dos “homens brancos”.
A preocupação do jovem deputado Afonso Celso Jr. em não afetar a tranquilidade dos
“homens brancos” resume as falas dos deputados sobre a emancipação, questão que
reapareceu através dos Gabinetes, seja pela recusa em inclui-la como programa de governo,
seja como tentativa frustrada de incluí-la. A política de emancipação foi retomada por Dantas
e as debates parlamentares sobre o projeto dos sexagenários evidenciaram a percepção sobre
propriedade escrava além do sentido de bem de capital. A propriedade escrava possuía
também o sentido simbólico que lhe conferia o conservadorismo, a posse do escravo
reafirmava o lugar social do proprietário. Esta se traduzia na visão dos senhores sobre o
escravo dócil como parte da intimidade da casa senhorial, uma representação da ordem social
considerada perfeita, criada a partir do espaço privado e que deveria se reproduzir no espaço
público.
Criticavam-se as interferências do Estado na relação privada senhor e escravo, ação
perturbadora do “laço” entre a família senhorial e o escravo. Pois, as medidas emancipadoras
incentivavam o escravo a perceber, fora da casa em que ele vivia, perspectivas de nivelamento
social em que o senhor não seria mais reconhecido como tal. Por isso, a libertação
exclusivamente pelas mãos do senhor garantiria a obediência inquestionável ao proprietário,
pois da mesma forma que a tradição assegurou a autoridade do senhor sobre o escravo, a
mesma tradição asseguraria, futuramente, a autoridade do patrão sobre os libertos.
Entre os temas debatidos nesta legislatura, vale a pena chamar atenção para os debates
sobre o pedido de crédito para que o Brasil tomasse parte na Comissão internacional para
observação do trânsito de Vênus, em 1882. O projeto foi levado à Câmara por Rodolfo

78
Epifânio Dantas, então Ministro do Império, que ressaltou a importância da participação do
país no evento, significando o reconhecimento internacional das pesquisas realizadas pelo
Imperial Observatório do Rio de Janeiro. A recepção negativa pelo Partido Conservador
sobre o pedido evidenciou a visão, pelos parlamentares, de descrença na atividade científica
no Brasil25. A pesquisa científica como investigação para expandir o conhecimento e não
utilitária era interpretada como desperdício de recurso financeiro. Os discursos contrários à
concessão de crédito ressaltaram sobre o Brasil que “não passamos de um país de plantadores
de café...”26, na fala de Domingos de Andrade Figueira, deputado conservador fluminense,
logo não deveríamos perder tempo com questões que não se voltassem para as atividades
agrícolas e problemas relacionados à infraestrutura, considerados concretos e úteis para a
realidade do país.

Considerações finais
A Lei Saraiva é ressaltada por seus aspectos liberais como a percepção sobre a
cidadania política como concessão do Estado aos indivíduos avaliados como socialmente
competentes, capacidade mensurada pela instrução e pela propriedade. No entanto,
perseguimos a hipótese de que tais ideias podem ser interpretadas como conservadoras
quando são discursos para a defesa da preservação de papéis e de posições sociais que
garantem as decisões políticas restritas à determinados grupos. Nesse sentido, a tradição
aparece como uma espécie de cimento das relações sociais, pois é ela que tende a definir os
lugares que serão ocupados pelas pessoas. Esta dinâmica ocorre através de indicações às
funções públicas administrativas e de apoios mútuos aos cargos eletivos na dinâmica interna
das relações privadas e entre as famílias, transformando as instituições políticas do Estado em
expressão das demandas de grupos. Conclui-se que as alianças e os conflitos no Parlamento
eram orientados pelas relações familiares, que se manifestavam nas indicações para o
ministério, nas decisões político-partidárias e nas manobras de apoio ou de rejeição aos
projetos do governo.

25 Este debate foi analisado na tese: Aguiar, Alexandra do Nascimento, “Têm todos os mesmos ares de
família...p. 221 e, posteriormente, a análise foi desenvolvida no artigo AGUIAR, Alexandra do Nascimento.
O “trânsito de Vênus”: a ciência entre a política e a vocação. Temporalidades, v. 9, n. 2, p. 88-106, 2017.
26 Anais da Câmara dos Deputados, 27 de março de 1882.

79
Fontes:

Anais da Câmara dos Deputados, 21 de junho de 1880.


Decreto n. 3029 – de 09 de Janeiro de 1881 - Reforma a legislação eleitoral
Gazeta de Notícias, 31 de outubro de 1881.
Anais da Câmara dos Deputados, 10 de março de 1882.
Anais da Câmara dos Deputados, 27 de março de 1882.

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_________. O “trânsito de Vênus”: a ciência entre a política e a vocação. Temporalidades, v.


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80
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81
Um periódico nos sertões:
as transformações no Brasil Central registradas pela revista brasília (1957-1960)

Alexandre Pinto de Souza e Silva 1

Resumo: O presente trabalho vem de um desdobramento da minha pesquisa de iniciação


científica iniciada na COC/Fiocruz, que foi encaminhada à monografia no curso de História, a
qual busca analisar a atuação do periódico brasília (1957-1960)2 durante o governo de
Juscelino Kubitschek (1956-1961). Logo no início de seu mandato, Kubitschek anunciou a
construção da nova capital no interior do país, tornando-a a meta-síntese do seu Plano de
Metas. Porém, o empreendimento estava longe de ser unanimidade, levando alguns de seus
opositores (como Gustavo Corção e Carlos Lacerda) a se manifestarem através da imprensa.
Com isso, surgia o periódico brasília, cujo objetivo era de mostrar as transformações que
modificavam e reorganizavam o espaço urbano nos sertões do Brasil e construir o simbolismo
de um “novo” Brasil que estava surgindo com a nova capital.

Palavras-chave: Brasília, desenvolvimento, periódico.

Abstract: The presente work comes from of my reasearch in scientific initiation that has
begun in COC/ Fiocruz and was sent to my undergraduate thesis in History course, which
seeks to analyze the role of the periodical brasília (1957-1960)3 during the government
Juscelino Kubitschek (1957-1960). Early in his term, Kubitschek anounced the construction
of the new capital in the interior of the country, making it the meta-synthesis of his Plano os
Goals. However, the venture was far from unanimous, leadins some of it opponents (such as
Gustavo Corção and Carlos Lacerda) to express themsleves through the press. This led to the
publication came the brasília magazine, whose goal was to show the transformations that
modified and reorganized urban space in Brazilian backlands and to construct the symbolism
of a “new” Brazil that was emerging with the new capital.

Key-words: Brasília; development; periodic.

1 Graduando do 9º período de bacharelado e licenciatura do curso de História pela Universidade


do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com monografia orientada pelo professor Carlos Eduardo Pinto de
Pinto. Bolsista do Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz (Depes/COC/Fiocruz) financiado
pela Faperj, sob orientação da pesquisadora e presidente da Fundação Oswaldo Cruz Nísia Trindade Lima e
co-orientado pelas professoras Tamara Rangel Vieira e Alejandra Josiowicz pelo período aproximado de dois
anos (março de 2015- ). Especialista nas áreas de História da Saúde, História Contemporânea e História do
Brasil, com ênfase em Brasil República. E-mail: alexandrepisosi@gmail.com.
2 Está sob a guarda da Biblioteca Nacional e disponível no site do Senado Federal.
3 It is under the custody of the Biblioteca Nacional and available on the website of the Federal
Senate.

82
Introdução

O final dos anos 1950 foi marcado por fortes mudanças que iam de acordo com a
perspectiva progressista do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961),
que de acordo com Vânia Maria Losada Moreira4 tinham o intuito de tornar o Brasil, “um
gigante adormecido”, em uma nação próspera. Desde que era prefeito de Belo Horizonte
(1940-1945), Kubitschek já configurava seu perfil político, mas foi em sua campanha à
presidência da República que se consolidava no chamado nacional-desenvolvimentismo 5 que
imbricava num projeto social e político para o Brasil, cujos traços essenciais eram o
compromisso com a democracia e com a intensificação do desenvolvimento industrial. Daí
surge seu slogan “cinquenta anos em cinco”, que sintetizava sua política de desenvolvimento
nacional.

Para acompanhar seu slogan, JK projetou um Plano de Metas6 que visou aprofundar o
processo de industrialização a partir de investimentos privados do capital nacional e
estrangeiro, bem como os investimentos estatais. Segundo Moreira, o presidente cumpriu suas
obrigações e seus resultados na economia foram notáveis, tais como: mais empregos, mais
trabalhadores urbanos, mais produtos de consumo, construção de hidrelétricas e estradas e a
instalação da indústria automobilística no país. Dentre estas metas estava a construção de
Brasília, incorporada após assumir a presidência, que era considerada a meta-síntese de seu
governo. O objetivo do empreendimento era de integrar as diversas regiões do país, se
situando no Brasil Central, assim como desenvolver essa região através do progresso. Nesse
período, o interior brasileiro, ou sertões7, se encontrava num forte contraste com o litoral.
Segundo Nísia Trindade Lima 8, a cidade (ou litoral) esteve associada à liberdade, enquanto
que o campo (ou sertão) esteve associado ao atraso e ao conservadorismo.

Na tentativa de transferir o poder central para o interior, Kubitschek buscava inserir as

4 MOREIRA, Vania Maria Losada. “Os anos de JK: industrialização e modelo oligárquico de
desenvolvimento rural”. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil
Republicano – O Tempo da experiência da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. p. 158.
5 Ibidem, 2003. p. 170.
6 Constitui num programa de 30 metas, distribuídas nos setores de energia, transporte,
alimentação, indústria de base e educação Cf. MOREIRA, Vania Maria Losada. op. cit. p. 159.
7 Pois não havia um único local que pudesse ser reconhecido como “sertão”. Naquela época,
regiões como a Amazônia, o Cerrado goiano, o interior do Nordeste e até os subúrbios cariocas eram
conhecidas como “sertões” pela falta de infraestrutura e de poder público.
8 LIMA, Nísia Trindade. Campo e cidade: veredas do Brasil moderno, In: Botelho,
André e Schwarcz, Lilia (Orgs.). Agenda Brasileira: Temas de uma sociedade em mudança. São Paulo. Cia das
Letras, 2011.

83
populações sertanejas no projeto de nação ao levar aspectos “civilizatórios” para estas regiões.
De acordo com Nísia Trindade, é pertinente pensar a urbanização do sertão como um
instrumento para a criação de um projeto de nacionalidade, como ela mesma enfatiza:
“projetos de transferência da capital para o interior, ou sertão, constituem-se, ao mesmo
tempo, em projetos de nação e trazem um sonho feliz de país e de cidade”9. Aqueles que
acreditavam no movimento mudancista achavam possível pensar na modernização de regiões
distantes e negligenciadas pelo poder público, o qual passaria a estar próximo das mazelas
presentes nos sertões após a concretização da transferência. Assim, a diátese social presente
na sociedade poderia ser resolvida eliminando os traços do subdesenvolvimento no Brasil,
visto que maior parte da população naquele período ainda se configurava no meio rural.
Segundo Tamara Rangel Vieira, “julgava-se ser possível reformar o homem sertanejo através
do saneamento das áreas rurais, assoladas por inúmeras doenças e vítimas do descaso e
abandono por parte do poder público”10. Além disso, de acordo com Paulo Fagundes
Vizentini, isso era uma forma do país ser incluído no ramo dos países desenvolvidos por meio
de uma política externa que “não era mais essencialmente a busca de uma aproximação
privilegiada com os Estados Unidos”11, como na era Vargas, mas de uma autossuficiência para
produzir as próprias riquezas.

No entanto, apesar das transformações serem fundamentais para a formação da


nacionalidade, o projeto de construção da então futura capital ainda estava longe de ser
unanimidade. O movimento conhecido como “anti-mudancista” era composto pela grande
mídia, com personalidades como Gustavo Corção (1896-1978)12 e Assis Chateubriand (1892-
1968)13, e ainda contava com o apoio do maior partido da oposição na época: a União
Democrática Nacional (UDN). Segundo Moreira, a “legenda combatia ostensivamente a
herança política e ideológica de Getúlio Vargas” e via a política de Kubitschek como herdeira
do chamado “getulismo”14. Maria Victoria Benevides15 destaca que antes mesmo de assumir,

9 Idem, 2010. p. 18.


10 VIEIRA, Tamara Rangel. Brasília: uma clareira aberta nos sertões do Brasil – o papel dos
médicos e higienistas na construção da nova capital (1956-1960). Londrina, ANPUH – XXIII Simpósio
Nacional De História, 2005. p. 2.
11 VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. “Do nacional-desenvolvimentismo à Política
Externa Independente (1945-1964)”. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (Orgs.). O
Brasil republicano – O Tempo da experiência democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de
Janeiro, Ed: Civilização Brasileira, 2003. p. 197.
12 O maior intelectual da direita católica brasileira Cf. LOPES, Cristiano Aguiar. op. cit. p. 2.
13 Dono do maior conglomerado de comunicações já visto do “lado de cá do Equador”, que
incluía a revista Cruzeiro e a TV Tupi Cf. LOPES, Cristiano Aguiar. op. cit. p. 2.
14 Cf. MOREIRA, Vania Maria Losada. op. cit. pp. 155-194.

84
Kubitschek já era alvo da “virulenta oposição udenista” e, por isso, os udenistas tentaram
impedir a posse do presidente e de seu vice, João Goulart. Dentre os principais nomes da
legenda estava Carlos Lacerda, que tinha um jornal próprio para se manifestar contra o
governo de Juscelino, chamado Tribuna da Imprensa (1956-1960). Lacerda foi o mais
ferrenho crítico à construção de Brasília e já em 1955, antes mesmo de JK assumir, publicava
artigos, reportagens, charges e editoriais contrários à mudança.

Como Maria Beatriz Capello 16 nos afirma, através de uma documentação fotográfica
(urbanismo, arquitetura, estradas etc), relatos e depoimentos de intelectuais e políticos a
revista brasília mostra como a construção da nova capital foi acompanhada passo a passo,
divulgando a criação dos primeiros lotes, a criação das primeiras casas populares e
estabelecimentos comerciais, bem como as Atas do conselho da empresa que administrava as
obras e suas reuniões. Mas para além disso, segundo Tânia Regina de Luca 17, os periódicos
não podem ser tratados como “meros ‘veículos de informações’, transmissor imparcial e
neutro dos acontecimentos, nível isolado da realidade político-social na qual se insere”. No
que diz respeito ao objeto de pesquisa, essa metodologia enfatiza a necessidade de um olhar
crítico visto que brasília servia também, segundo Luisa Videsott, para “afrontar e
contrabalançar as informações divulgadas pela oposição ao governo de Juscelino
Kubitscheck”18.

A revista brasília e a nova capital


Para a construção da meta-síntese de seu governo, Juscelino Kubitschek criou a Lei de
número 2.874. Segundo o Dr. Ernesto Silva (1914-2010)19, esta lei determinou a formação de

15 BENEVIDES, Maria Victoria. “O governo Kubitschek: a esperança como fator de


desenvolvimento”. In: GOMES, Angela de Castro (org.). O Brasil de JK. Editora FGV, Rio de Janeiro, 2ª edição,
2002. p. 24.
16 CAPELLO, Maria Beatriz Camargo. “A revista Brasília na construção da Nova
Capital: Brasília (1957-1962)”. In: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, Programa de
Pós-Graduação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (EESC-usp), 2010.
17 LUCA, Tânia Regina de. “Histórias dos, nos e por meio dos periódicos”. In: PINSKY,
Carla Bassanezi (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 118.
18 VIDESOTT, Luisa. “Informações, representações e discursos acerca das arquitetura-
ícones de Brasília: o caso da revista ‘Brasília’”. São Carlos, Programa de pós-graduação do departamento de
arquitetura e urbanismo/ EESC-USP, 2010. p. 2.
19 Médico especializado em pediatria, antes de assumir o departamento de saúde e educação da
Novacap (1956) foi um dos pioneiros da transferência da capital ocupando o posto de secretário da Comissão
de Localização da Nova Capital do Brasil (1953/1955), chefiada pelo Marechal José Pessoa, e presidente
Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal (1956). Em 1956 foi o
responsável por assinar o edital do Plano Piloto de Brasília. Disponível em:

85
uma sociedade responsável pela transferência da capital, denominada Companhia
Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), em 19 de setembro de 1956, no Rio de
Janeiro, que autorizou o Poder Executivo a tomar inúmeras providências com o intuito de
acelerar a construção da cidade no Planalto Central20. Ainda segundo Silva, a Novacap seria
uma tentativa de o governo construir a capital dentro dos cinco anos de mandato de JK,
evitando a questão burocrática que poderia atrasar o andamento da obra 21. Presidida por Israel
Pinheiro (1955-1960)22, a companhia serviu, inicialmente, para abrir caminho à expansão de
meios de comunicação e transportes para o interior, depois veio a ser encarregada de gerenciar
as obras de construção da capital.
No mesmo ano, como consequência do art. 19 da mesma Lei de número 2.874,
sancionada pelo presidente, foi estatuída a obrigatoriedade da companhia de divulgar por
meio de um boletim mensal os Atos Administrativos da Diretoria da Companhia e os
contratos por ela celebrados. Aproveitando o bojo de criar um veículo de divulgação, os
diretores da Novacap viram uma oportunidade de mostrar a concretização da transferência da
capital por meio de uma revista ilustrada. A partir dos anos 1940, as revistas ilustradas eram
novas formas de se divulgar a informação, pois “dispuseram de um novo poder de persuasão
decorrente do uso maciço da comunicação visual” 23. Nesse ramo, de acordo com Ivete Batista
da Silva Almeida24, a revista O cruzeiro (1928-1975) despontava por ter iniciado este gênero
pioneiro no Brasil, no qual “a revista passa a utilizar a fotografia como suporte visual para o
jornalismo e reportagens de toda sorte. Iniciava-se a era do fotojornalismo”25.

Sendo assim, no ano seguinte cria-se a revista ilustrada brasília (1957-1960) que passa
a ser publicada pela Novacap através de uma parceria com a Bloch Editores, a mesma que
naquele período fazia a revista Manchete (1952-2000)26. O periódico era sediado no Rio de
Janeiro e também tinha Paulo Rehfeld como seu editor-chefe nos quatro primeiros números,

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Ernesto_Silva> Acesso em: 8 de nov. 2017.


20 SILVA, Ernesto. Ernesto Silva: o militante da esperança e a História de Brasília.
Brasília, Editora de Brasília, 2004, p. 68.
21 SILVA, Ernesto. op. cit. p. 68.
22 Anteriormente foi o primeiro presidente da companhia Vale do Rio Doce (1942-1945), foi
deputado federal por Minas Gerais (1946-1961), logo após a inauguração da nova capital se torna o primeiro
prefeito do Distrito Federal (1961-1962) e depois torna-se governador de Minas (1966-1971), durante o
período militar. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Israel_Pinheiro> Acesso em: 8 de nov. 2017.
23 Cf. VIDESOTT, Luisa. op. cit. p. 30.
24 ALMEIDA, Ivete Batista da Silva. Uma nova forma de ver o mundo: as revistas
ilustradas semanais. Uberlândia, Fatos&Versões, v. 3, n. 6. p. 38-56, 2011. p. 48.
25 Ibidem, p. 48.
26 Revista de informação de massa, com oposições em defesa da capital. Cf. VIDESOTT, Luisa.
op. cit. p. 33.

86
mas que depois foi substituído por Raimundo Nonato Silva (1918-2014) que ocupou a função
até 1961. Nonato foi convidado a participar do processo de divulgação da revista pela sua
experiência como jornalista e também pela forte proximidade com Ernesto Silva. Com
exceção dos quatro primeiros números, cuja distribuição ocorria gratuitamente, o periódico
era vendido a um preço de dez cruzeiros, o mesmo que o da revista O cruzeiro (1928-1975),
mas um fato interessante é que até 1960 brasília manteve o mesmo preço, enquanto que a O
cruzeiro era vendida por 20 cruzeiros.

O primeiro número passou a circular a partir do dia 18 de fevereiro de 1957, que de


acordo com Beatriz de Feijó Medeiros27, a edição contou com uma tiragem de 10.000
exemplares28. Mas, segundo Cristiano Lopes Aguiar29 o número de exemplares de outros
periódicos da época era superior ao de brasília, como Diário de Notícias (90.000 exemplares)
e o O Globo (100.000 exemplares) 30. Já José Estevam Gava nos traz outro periódico daquele
período, a revista O cruzeiro, que por sua vez contava com uma tiragem de 550.000
exemplares31. O período foi mapeado entre janeiro de 1957 até dezembro de 1960, mas as
suas publicações persistiram até 196432 com meses compilados em um único número. Depois
ainda ocorreram mais algumas publicações, entre 1965 e 1967 com um número especial por
ano (números 65, 66 e 67) e, depois de um intervalo, ela é retomada em 1988 com outras duas
edições (números 82 e 83). De acordo com Medeiros, a revista inicialmente não tinha um
número fixo de páginas, alguns meses mais tarde passou a ter algo em torno de 24 páginas por
edição a partir do número oito (agosto de 1957) e os seus assinantes eram em grande parte
escolas, bibliotecas, universidades e embaixadas 33.

Graficamente, a revista também contava com um grande acervo iconográfico que


acompanhava o passo a passo, desde os primeiros momentos quando não havia prédios até o
acabamento de monumentos e prédios do governo. O número 5, maio de 1957, não contou

27 MEDEIROS, Beatriz Feijó de. A revista ‘brasília’ e a mitificação da nova capital – como a
revista ajudou na construção da imagem de ‘a capital da esperança’. Brasília: UnB, Monografia apresentada
para conclusão do curso de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário de Brasília, 2012, p. 27.
28 Dado que se manteve assim até a edição de número 25, quando passou a publicar 20.000
exemplares. Cf. MEDEIROS, Beatriz Feijó de. op. cit. p. 27.
29 LOPES, Cristiano Aguiar. A loucura de Brasília: o antimudancismo nas páginas do
jornal Tribuna da Imprensa (1956-1960). Fortaleza, VII Encontro de História da Mídia, 2009. p. 5.
30 RIBEIRO, 2007 apud LOPES, 2009, p. 5.
31 GAVA, José Estevam. O momento Bossa Nova: arte, cultura e representação sob os
olhares da revista ‘O cruzeiro’. São Paulo, UNESP/ Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de
Ciências e Letras, 2003. p. 50.
32 Quando teve o Golpe militar que cancelou a revista.
33 Cf. MEDEIROS, Beatriz Feijó de. op. cit. p. 26.

87
apenas com o ingresso de um novo editor-chefe, mas também com um novo responsável pela
parte gráfica de layout: o arquiteto brasileiro Artur Lício Pontual34. Com nova diagramação e
projeto gráfico, o objetivo seria atrair mais leitores pois, segundo Nonato, “os atos escritos em
linguagem oficial não chamavam atenção”35. Várias feições da revista ganharam um novo
aspecto, as fotos passaram a ter um destaque ainda maior nas publicações e as fontes do nome
“brasília” de garamond cursivo, típico dos anos 1940, passou a ser um arial black, mais
redondo e mais “moderno”36.

A revista também tinha propagandas no final de cada edição, com imagens do Plano
Piloto e usando palavras como “bandeirantes” e “pioneiros” para convencer as pessoas de
comprarem os lotes na então futura capital. Além disso, podemos usar as capas dos três
primeiros números (janeiro, fevereiro e março) para exemplificar a evolução de um novo
olhar sobre a região onde seria a nova capital. De acordo com Capello, a primeira capa, de
janeiro de 1957, mostra uma imagem panorâmica do quadrilátero Cruls 37, com uma estrela
apontando o local específico onde será feita a nova capital. A segunda capa, de fevereiro de
1957, inclui uma representação estilizada de Niemeyer da área de Brasília, com o grande lago
que iria se formar pelo represamento do rio Paranoá. O desenho se repete na capa do número
3, de março de 1957, com um adicional: o projeto do Plano Piloto de Lúcio Costa38.

O número 5, foi um número especial, abordando o tema da primeira missa celebrada


em Brasília pelo Cardeal-arcebispo de São Paulo D. Carmelo de Vasconcelos Mota no dia 3
de maio de 1957. Nesta edição, a revista coletou algumas repercussões do evento em outros
jornais. No jornal A Gazeta (1906-1979)39 foi publicada uma matéria, chamada “Auspiciosa
evocação” 40, que fazia uma associação entre a primeira Missa na Terra de Vera Cruz com a
primeira missa em Brasília, visto que a partir da fé cristã Portugal tomou posse desse território
que viria a ser o Brasil. Nesse sentido, a missa seria um retrato de união de um povo, bem

34 Ele já foi do conselho diretor da revista Módulo (editada por Oscar Niemeyer e fundada em
1955 permanecendo até 1965, após o Golpe militar, e em seguida retomada se mantendo de 1975 até 1989) e
também já foi correspondente da L’Architecture d’Aujourd’hui. Cf. CAPELLO, Maria Beatriz. op. cit. p. 46.
35 MONTENEGRO, Erica. “Arquivo Público relança Brasília”. Metro. Brasília, 11 set.
2012, p. 6.
36 Cf. VIDESOTT, Luisa. op. cit. p. 34.
37 Demarcado pela Comissão Cruls (1892-1896), numa área de 14400 quilômetros quadrados
prevista para o Distrito Federal, era considerado propício para transferir a capital. Cf. CAPELLO, Maria
Beatriz. op. cit. p. 44.
38 Imagens disponíveis no Anexo deste documento.
39 Jornal vespertino fundado por Adolfo Araújo Campos (1873-1915), em São Paulo, com
posicionamento político e tratava de assuntos como economia, literatura e cultura. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Gazeta_(S%C3%A3o_Paulo)> Acesso em: 8 de nov. 2017.
40 GAZETA, A. “Auspiciosa evocação”. brasília, Rio de Janeiro, n. 5, vol.1, 1957, p.16.

88
como da tomada do território, que no caso do Brasil Central havia sido pouco penetrado pelo
poder público. Isto nós podemos ver no seguinte trecho destacado:

Revestiu-se de particular significado a celebração da Primeira Missa


em Brasília, a nova Capital do país. No mesmo dia em que, há 457
anos, Frei Henrique de Coimbra selou, com a elevação da Cruz e a
Primeira Missa, a posse da Terra de Santa Cruz para a coroa de
Portugal e para as conquistas da civilização cristã. Brasília, a nova
Capital, não podia ter outra cerimônia a integrá-la na comunhão
nacional como a primeira de suas unidades municipais 41
Algumas colunas frequentes também utilizavam a parte gráfica, como é o caso da
coluna “Arquitetura e Urbanismo da Nova Capital”42, gerenciada por Oscar Niemeyer, que
mostrava todo o projeto de modernidade da capital e seus traços marcantes através de
maquetes e esboços. Logo na sua primeira edição, em março de 1957, mostra a premiação do
projeto de Lúcio Costa para ser o Plano Piloto e as premiações dadas aos demais projetos que
estiveram entre os melhores. Conforme as obras iam sendo concretizadas, a coluna foi
desaparecendo com publicações irregulares e na edição de número 35, de 1959, passa a ser
retirada da revista.

Além de “Arquitetura e Urbanismo da Nova Capital”, a revista também contava com


outras colunas frequentes, como “noticiário”43, responsável pelas notícias recorrentes na
capital (como visitas de chefes de Estado, andamento das obras, eventos realizados pela
Novacap, opiniões sobre a transferência e entre outras novidades), o “Boletim”44, criado para a
divulgação das Atas e reuniões, a coluna “Brasília na literatura”45, com poemas ou obras
literárias que enalteciam o processo de mudança, e “Marcha da construção de Brasília”46, que
mostrava o andamento das obras, como estradas, prédios e visitas de políticos na região onde
a nova capital estava sendo construída. A coluna “Brasília no exterior”47 era responsável por
mostrar as opiniões de pessoas, chefes-estado e órgão de governo que opinavam sobre a
capital.

Sem um título fixo, diversos profissionais (médicos, cientistas sociais, engenheiros,


arquitetos, políticos etc) engajados com a construção publicavam seus artigos, depoimentos e

41 Ibidem.
42 Esta coluna aparece em 18 edições (1957-1959).
43 Apareceu em 38 edições (1957-1960).
44 Apareceu em 39 edições (1957-1960).
45 Apareceu em 13 edições (1957-1960).
46 Apareceu em 26 edições (1957-1959).
47 Apareceu em 12 edições (1957-1959).

89
discursos defendendo o movimento mudancista. Logo na primeira página da edição de janeiro
de 1957 o presidente Juscelino Kubitschek 48 deixa registrado o seu discurso, sob o título “A
mudança da capital”, direcionado aos críticos do movimento, mostrando que seu governo fora
capaz de cumprir a transferência de acordo com o que a Constituição de 1891 já prescrevia.
Podemos ter esse pensamento a partir do seguinte trecho destacado:

Quero abordar aos meus patrícios o problema da mudança da capital


para Brasília. Conheço as críticas aos trabalhos que vêm sendo feitos
pelo meu govêrno para transformar em realidade a determinação da
Constituição de transferir a Capital para o Interior do país. Não sou o
inventor de Brasília, mas no meu espírito se arraigou a convicção .de
que chegou a hora, obedecendo ao que manda a nossa Lei Magna, de
praticarmos um ato renovador, um ato político criador, um ato que,
impulsionado pelo crescimento nacional a que acabo de me referir,
vira promover a fundação de uma nova era para a nossa pátria 49.
Além dele, Israel Pinheiro 50 também deixa seu olhar registrado na revista. O periódico
teve um número comemorativo pela transferência na edição de número 40, em abril de 1960,
quando teve a inauguração da capital. Segundo o presidente da Novacap, em seu texto
“apresentação”, a nova capital era a meta-síntese de um desafio de homens públicos, cujo
governo optava por uma renovação nacional e representaria “a marcha para o domínio e a
civilização de uma imensa região que o Brasil litorâneo insistia em ignorar”51. Outro que
também registrou sua experiência na capital foi Oscar Niemeyer 52, elogiando o trabalho do
presidente Kubitschek bem como a inovação arquitetônica da nova capital. Em seu texto
“Minha experiência sobre Brasília”, na edição de julho de 1960, o arquiteto diz que os prédios
de Brasília proporcionam aos visitantes uma sensação de surpresa e emoção, bem como são
capazes de sintetizar “uma beleza plástica que atua e domina com uma mensagem permanente
de graça e poesia”53. Ainda sobre a transferência, o cientista social Gilberto Freyre 54 também
registra sua opinião, em seu texto na coluna “noticiário”, na edição de novembro de 1959,
indicando que:

48 KUBITSCHEK, Juscelino. A mudança da capital. brasília, Rio de Janeiro, n.1, vol.1, 1957. p.
1.
49 Ibidem.
50 PINHEIRO, Israel. apresentação. In: brasília. Rio de Janeiro, Bloch Editores, número 40, vol.
4, 1960. p. 2.
51 Ibidem.
52 NIEMEYER, Oscar. “Minha experiência sobre Brasília”. brasília. Rio de Janeiro, Bloch
Editores, número 43, vol. 4, 1960. p. 3.
53 Ibidem.
54 FREYRE, Gilberto. “noticiário”. brasília. Rio de Janeiro, Bloch Editores, número 35, vol. 3,
1959, p.17.

90
Brasília é de certo um esfôrço (sic) que honra a capacidade de
realização dos homens públicos, dos administradores, dos arquitetos,
dos urbanistas, dos educadores, dos técnicos e dos operários neles
empenhados com um fervor que, em alguns, chega a ser um favor
místico ou religioso 55.

As críticas contra a mudança

Na revista brasília, como foi dito anteriormente, tinha todas as suas críticas contra os
anti-mudancistas, ou seja, com posições favoráveis à mudança. Mas, como foi dito no início,
Brasília não foi uma unanimidade e para encontrar essas divergências são recorridos outros
jornais e revistas que seguiam ideologias opostas as do presidente. O maior de seus opositores
era Carlos Lacerda (1914-1977), udenista que defendia a permanência da capital no Rio
através de seu jornal Tribuna da Imprensa (1949-2008)56. Segundo Cristiano Aguiar Lopes, o
jornal se utilizava de artigos, reportagens, charges e editoriais que não poupavam críticas à
construção de Brasília desde 1955 (antes do projeto começar de fato) e vai perdurar até 1960,
quando serão transformadas em matérias diárias 57. Até nas vésperas da inauguração, o jornal
mostrava uma série de reportagens expondo as condições precárias da construção de Brasília.
Ainda de acordo com Lopes, o jornal gozava de um hiato, entre o fim do Estado Novo e o
Golpe militar, que correspondia a um período de grande liberdade de expressão.

A Tribuna tinha uma tiragem de 40.000 exemplares58 no seu ápice, em 1955, e ao


longo dos anos os números seguintes estiveram voltados a atacar o governo de Juscelino
Kubitschek, chegando ao ponto de ser desrespeitoso, “afinal, não é todo dia que vemos um
presidente da República retratado como um rato em uma charge”59. Lacerda dizia que JK
“sequer era um presidente democraticamente eleito”60, afirmando em seu jornal, na coluna
“Otimismo: o Nosso e da Camorra”61, que “o Sr. Kubitschek faz datar a confiança no Brasil
da sua ascensão, pelas armas e pela fraude, à presidência da República”62. Com o acúmulo de

55 Ibidem.
56 No Correio da Manhã, Lacerda tinha uma coluna chamada “Tribuna da Imprensa” criada por
ele em 1946. Ao ser demitido em 1949, Lacerda funda seu próprio jornal, também no Rio de Janeiro, mas
com o mesmo nome da coluna.
57 Cf. LOPES, Cristiano Aguiar. op. cit. p. 3.
58 Ibidem, p. 5.
59 Ibidem, p. 4.
60 Ibidem, p. 4.
61 Ibidem, p. 4.
62 LACERDA, Carlos. “Otimismo: o Nosso e o da Camorra”. Tribuna da Imprensa, Rio de
Janeiro, 29 dez. 1958, p. 4.

91
dívidas, a partir de 1961 o jornal entra em derrocada, que ainda se manteve mesmo com a
morte de seu fundador, em 1977, mas não resistiu e fechou as portas em 2008.

Outro representante do conservadorismo antimudancista foi Gustavo Corção (1896-


1978), membro da UDN e pensador católico brasileiro. De acordo com Cristiane Jalles de
Paula63, Corção criticava a “perspectiva reducionista que associava progresso à mudança da
capital”, que em sua concepção “a escolha da localização de uma capital era produto da
história de determinada sociedade”, caso contrário estaria fadada ao fracasso sendo uma
cidade sem história. Para ele, o Rio ocupava o status de capital desde a época colonial, o que
justificava sua posição. O outro ponto apontado por Corção foi o argumento para a
transferência para o Planalto Central, que não se justificava por esta ser um preceito
constitucional. Para ele, a política de JK era comparada a “mentalidade desvirtuada” de
Getúlio Vargas, reflexo de uma elite “ignorante da tradição, corrupta, corruptora, adepta de
planos caprichosos voltada apenas a interesses próprios”64.

Corção ainda tinha um capital simbólico devido a sua formação como engenheiro de
telecomunicações, inclusive foi um dos fundadores do curso na Universidade do Brasil, o que
dava a ele autoridade para opinar sobre a construção das obras gerenciadas pela Novacap. Os
enormes gastos, a viabilidade técnica e o pouco controle dos recursos despertava o ceticismo
nas pessoas sobre a conclusão das obras. Num de seus pronunciamentos, Corção diz: “Sei que
não se fará em abril de 1960 a mudança da capital da República, se por mudança de capital
entendemos a instalação das casas do Congresso e das famílias dos congressistas”65. Sobre a
rede de telefonia, especialidade do crítico, ele aponta dois equívocos da rede telefônica de
Brasília:

O primeiro é o do equívoco lançado sobre a opinião pública. Centenas


de pessoas saudosas passaram o dia e a noite pedindo ligações para
Brasília. A Companhia Telefônica Brasileira viu-se forçada a publicar
um anúncio (no jornal O Globo) dizendo que ainda não existe o
circuito em serviço normal. O segundo é mais grave. Em certa altura
da conversação, o sr. Israel Pinheiro disse que a partir de 25 do
corrente é só discar 01, pedir Brasília, teremos comunicações com a
mesma facilidade com que temos para Petrópolis ou Ilha do
Governador66.

63 PAULA, Christiane Jalles de. Contra Brasília: a campanha de Gustavo Corção à construção da
nova capital. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. p. 1.
64 Ibidem, p. 2.
65 Ibidem, p. 3.
66 Ibidem, p.4.

92
Outro jornal na linha contra o mudancismo é o Correio da manhã (1956-1969),
sediado no Rio de Janeiro, mostrando as CPIs em torno da construção. Segundo Marcos
Magalhães67, na edição de maio de 1959, o jornal noticiou o requerimento de Carlos Lacerda
para apurar os negócios da Novacap. O processo envolvia analisar os recursos materiais e
financeiros utilizados para a construção da cidade, bem como os contratos de construções de
prédios públicos e privados. Por conta de informações “desencontradas” o processo não foi
assinado por não conseguir reunir a quantidade de assinaturas necessárias68.

Conclusões parciais

A criação de uma nova imagem para o país partia do governo, na perspectiva de


romper com a noção de subdesenvolvimento carregada pelos sertões, que naquele período era
predominante no território nacional. A transferência da capital para regiões “esquecidas” pelo
poder público estaria vinculada com a crença no Brasil como “país do futuro”, bem como a
consolidação da “identidade nacional” e o possível equilíbrio entre “os dois brasis”69. Desse
modo, as populações sertanejas deixariam sua condição de esquecimento e partiriam rumo a
um “novo Brasil” inserido no projeto de nacionalismo por meio do progresso. O
desenvolvimento estaria atrelado à modernidade representada na capital do país, podendo ser
notada nas linhas arquitetônicas dos prédios, e na localidade geográfica, o que integraria todas
as regiões do país.

No bojo de querer mudar o país também foi recorrido ao uso de veículos capazes de
exercer influência na opinião pública naquele momento, uma ferramenta aderida por todos os
lados do conflito ideológico entre mudancistas e antimudancistas. O uso das revistas
ilustradas era recorrente na transmissão de seus ideais, o que se encaixa na lógica de
Bronislaw Baczko70, defendendo que “situações conflituais (sic) entre poderes concorrentes
estimulavam a invenção de novas técnicas de combate no domínio do imaginário”. Ainda
segundo o autor, a criação de simbolismos seria uma estratégia de conseguir adesões por meio
da “constituição de uma imagem desvalorizada do adversário, procurando em especial

67 MAGALHÃES, Marcos. A mudança da capital no Legislativo brasileiro, 1956-1960. brasília,


a.47, n.187, jul./set. 2010. p. 189.
68 Ibidem.
69 Cf. BENEVIDES, Maria Victoria. op. cit. p. 22.
70 BACZKO, Bronislaw. “A Imaginação Social”. In: LEACH. Edmund et alii. Anthropos-
Homem. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. p. 300.

93
invalidar a sua legitimidade”71. Portanto, a concorrência pelo domínio parte da coletividade,
que através de imagens busca impregnar “valores e fortalecer sua legitimidade”72.

Nesse sentido, o contexto de construção da capital favoreceu um campo de opiniões


onde se destacaram personalidades com interesses em trazer símbolos coesos com seus
interesses. Kubitschek e os demais colaboradores da revista brasília estiveram empenhados
em divulgar uma imagem moderna da nova cidade e trazê-la para a realidade do que seria o
país futuramente. No entanto, setores mais conservadores da mesma sociedade acreditavam
que a mudança não seria vantajosa, que já estava consolidada no litoral do país. Assim, vemos
que o olhar tendencioso de transmissores de informação tem que ser visto de forma crítica,
cujo olhar unilateral sobre um determinado fato pode acarretar em equívocos durante a
pesquisa.

71 Ibidem.
72 Ibidem, p. 302.

94
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semanais. Fatos&Versões, Uberlândia: v. 3, n. 6. p. 38-56, 2011.

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95
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96
Anexos
Imagem 1

(Referência: BRASÍLIA, Volume 1, Número 1, janeiro de 1957)


Imagem 2

(Referência: BRASÍLIA, Volume 1, Número 2, fevereiro de 1957)

97
Imagem 3

(Referência: BRASÍLIA, Volume 1, Número 3, março de 1957)

98
O Anticomunismo Católico entre os séculos XIX e XX

Allan Felipe Santana Fernandes1

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo analisar o discurso anticomunista proposto pelo
Magistério da Igreja Católica entre os séculos XIX e XX. Esta pesquisa se dedica a discutir o conceito
de anticomunismo à luz da doutrina católica e exemplificar esta discussão por meio de encíclicas
importantes para a Doutrina Social da Igreja, tais como a encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa
Leão XIII, e a Divini Redemptoris (1937), do Sumo Pontífice Pio XI.

Palavras-chave: Anticomunismo católico; Magistério da Igreja; Doutrina Social da Igreja.

Abstract: The present work aims to analyze the anticommunist discourse proposed by the
Magisterium of the Catholic Church between the nineteenth and twentieth centuries. This research
is dedicated to discussing the concept of anticommunism in the light of Catholic doctrine and to
exemplify this discussion through important encyclicals for the Social Doctrine of the Church, such
as Pope Leo XIII's Encyclical Rerum Novarum (1891) and Divini Redemptoris (1937) of the
Supreme Pontiff Pius XI.

Keywords: Catholic anti-communism; Magisterium of the Church; Social Doctrine of the Church.

O Anticomunismo Católico

Este pontual artigo tem como objetivo analisar o discurso anticomunista através de
documentos papais que demonstram o conservadorismo histórico da Igreja Católica. Para iniciar a
discussão sobre o anticomunismo católico é necessário definir, primeiramente, o conceito de
Comunismo. Segundo um dos mais importantes teóricos do século XIX, Karl Marx (1818-1883), o
Comunismo seria
(...) a abolição positiva da propriedade privada, da alienação humana e, portanto, a
verdadeira apropriação da natureza humana através do e para o homem. O
comunismo é, portanto, o retorno do próprio homem como um ser social, isto é,
realmente humano; um retorno completo e consciente que assimila toda a riqueza
do desenvolvimento prévio.2

1 Pós-graduando em História Social e Cultural do Brasil nas Faculdades Integradas Campo-grandense –


FIC/FEUC-RJ. E-mail: allan.fernandes.clio@gmail.com
2 MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos . Livro terceiro.. São Paulo: Boitempo, 2004.
p.105.

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Segundo o pensamento marxista, as disparidades seriam suprimidas no momento em que as classes
subordinadas tomassem o controle do Estado. Controlando esta instituição, teriam a missão histórica
de promover mudanças objetivando o fim das desigualdades sociais e econômicas. O governo guiado
pelo interesse dos trabalhadores reforçaria práticas e costumes em favor do comunismo.
De acordo com o pensamento socialista, a real instituição do comunismo aconteceria no
momento em que o Estado fosse extinto em favor de uma sociedade na qual as riquezas fossem
igualmente divididas a todos aqueles que contribuíssem com sua força de trabalho. Podemos dizer,
portanto, que os princípios comunistas seriam Democracia, Igualdade e Coletivismo. Estes
fundamentos se contrapõem às características essenciais da Igreja Católica, como veremos
posteriormente.
Quanto ao conceito de Anticomunismo, Luciano Bonet 3 o define como oposição à ideologia e aos
objetivos comunistas, e que se tornou força decisiva nos embates políticos do mundo contemporâneo,
sobretudo a partir do período entre guerras do século XX (1919-1938). Segundo o autor, os
comunistas definiram o anticomunismo como ideologia negativa; ideologia da burguesia em crise,
isto é, como fórmula política de saída, quando as fórmulas tradicionais se revelaram ineficazes no
controle das tensões sociais. Todavia, Bonet assevera que o anticomunismo se caracteriza por ser um
fenômeno complexo, ideológico e político ao mesmo tempo, explicável, além disso, à luz do
momento histórico, das condições de cada um dos países, e das diversas origens ideais e políticas
em que se inspira.
O autor ainda subdivide o conceito de anticomunismo em alguns tipos, segundo o método de atuação,
tais como o Fascista, o Nazista-Hitleriano, o Americano, o Social, o Democrático e o Clerical. 4 Este
último, é caro no presente trabalho, pois é sobre o anticomunismo clerical em que nos debruçamos
nesse pontual artigo, mais precisamente sobre o discurso proposto pelos líderes católicos em
oposição aos comunistas entre os séculos XIX e XX.
Portanto, os princípios comunistas de Democracia, Igualdade e Coletivismo se deparam com
características primordiais da Igreja Católica. Contrapondo o princípio democrático, a forma de
governo da Igreja Católica é a Monarquia Teocrática eletiva, pois o dirigente eleito por um conclave5,
o papa, é considerado o representante de Deus na Terra. Sendo a Igreja uma instituição extremamente

3 BONET, Luciano. Anticomunismo. In: BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola; PASQUINO,


Gianfranco (orgs.). Dicionário de Política. Tradução de Carmem C. Varriale [el al.], 5.ed. Brasília: Editora Universidade
de Brasília, 1993. pp.34-35.
4 Idem.
5 Assembleia de cardeais reunida na Capela Sistina (no Vaticano) especificamente destinada à eleição
do novo papa. Os cardeais eleitores são isolados e trancados na Capela. A votação é processada mediante quatro
escrutínios (apurações), e o resultado comunicado para o exterior com sinais de fumaça (resultado da queima dos votos
em papel): se um novo papa for eleito, a fumaça é branca; se não, a fumaça é negra (cf. AZEVEDO, Antonio Carlos do
Amaral. “Conclave”. In:____. Dicionário histórico de religiões. 2.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2012. p. 70).

100
hierarquizada (papa, cardeais, bispos, padres, diáconos, seminaristas, religiosos e leigos), o princípio
da igualdade não se legitima.
Já o Coletivismo cristão é limitado, pois a “caridade evangélica” é essencial entre os fiéis,
mas a salvação é individual6. Além disso, como assevera Carla Simone Rodeghero (2002), a Igreja
Católica se opõe à visão de mundo materialista dos comunistas, pois, segundo o catolicismo,
destituiria os seres humanos de suas características espirituais, afastando-os, portanto, do próprio
Deus. Para a Igreja, o comunismo “trataria direitos considerados naturais – a propriedade, o pátrio
poder, o casamento – como contratos que poderiam ser facilmente desfeitos”7. Desse modo, podemos
afirmar que a filosofia comunista opunha-se aos pressupostos básicos do catolicismo.

Apresentadas as diferenciações, partimos para a discussão dos documentos oficiais da Igreja a


respeito da ideologia comunista. Esta documentação compreende o Magistério da Igreja, ou seja, a
autoridade que a Igreja possui para ensinar. 8 Segundo Rodrigo Patto Sá Motta (2002), em sua obra
Em guarda contra o “perigo vermelho”, o catolicismo consolidou-se como uma das principais fontes
matriciais a fornecerem argumentos para elaboração das representações acerca do “perigo
vermelho”.9
O primeiro documento do Magistério da Igreja que faz referência formal ao comunismo foi a
encíclica 10 Qui pluribus (1846), onde o papa Pio IX (1846-1878) alertava os fiéis a respeito da
doutrina comunista, tida como a maior oposição à lei natural: “(...) [O comunismo é] sumamente
contrário ao próprio direito natural, a qual, uma vez admitido, levaria à subversão radical dos direitos,
das coisas, das propriedades de todos e da própria sociedade humana". 11
O sucessor de Pio IX, Leão XIII (1878-1903), foi outro papa a tecer comentários extremamente
negativos à doutrina comunista. Segundo o papa leonino “(...) [o comunismo é uma] peste mortífera,
que invade a medula da sociedade humana e a conduz a um perigo extremo.” 12 Este mesmo papa é
o autor da encíclica mais importante contra o comunismo, a Rerum Novarum (1891). Leão III, nesta
encíclica sobre a condição dos operários, aproveita para reprovar o marxismo:

6 “Assim, cada um de nós prestará contas a Deus de si próprio”. (Romanos 14, 12. Cf. Bíblia de
Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002. p.1988).
7 RODEGHERO, Carla Simone. Memórias e Avaliações: norte-americanos, católicos e a recepção do
anticomunismo brasileiro entre 1945 e 1964. Porto Alegre: UFRGS, 2002. Tese de Doutorado em História. pp. 393-394.
8 PEDRO, Aquilino de. “Magistério”. In:____. Dicionário de termos religiosos e afins. 6.ed. Aparecida,
SP: Editora Santuário, 2007. p.182.
9 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “perigo vermelho”: o anticomunismo no Brasil
(1917-1964). São Paulo: Perspectiva, 2002. p.15.
10 Documento do papa em forma de carta dirigida aos bispos e a todos os fiéis, ou inclusive a todos os
homens dispostos a escutá-lo, sobre um determinado tema, geralmente de caráter doutrinal (cf. PEDRO, Aquilino de.
“Encíclica”. In:____. Dicionário de termos religiosos e afins. 6.ed. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2007. p.95).
11 Pio IX, Qui Pluribus (1846), vol. I.
12 Leão XIII, Quod Apostolici Muneris (1878), Acta Leonis XIII, vol. I.

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A teoria marxista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como
prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais
dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a
tranquilidade pública.13

Ainda analisando a Rerum Novarum, percebemos o esforço do pontífice em internalizar na mente


dos fiéis que os mesmos deveriam aceitar sua condição social, pois a luta de classes proposta pelo
marxismo seria contrária aos desígnios divinos. O papa ainda justificou a desigualdade como algo
natural e necessário para o bom funcionamento do organismo social.
O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência
a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo
nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos
os esforços são vãos. Foi [a natureza], realmente, que estabeleceu entre os homens
diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de
habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce
espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado,
reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida
social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva
precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença
das suas respectivas condições. 14

Quarenta anos após a publicação da Rerum Novarum (1891), o papa Pio XI (1922-1939) escreve a
encíclica Quadragesimo Anno (1931), onde o discurso oficial do Magistério permanece contrário às
teses defendidas pelos marxistas. O pontífice “separa o joio do trigo”, para usar uma expressão
bíblica, quando diferencia o catolicismo e o socialismo. Essa estratégia de bipolarização foi
amplamente utilizada pelos líderes católicos.
O socialismo quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como
‘ação’, se é verdadeiro socialismo, [...] não pode conciliar-se com a doutrina
católica; pois concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade cristã.
[...] E se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade, o que os Sumos
Pontífices nunca negaram, funda-se contudo numa própria concepção da sociedade
humana, diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. Socialismo
religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao
mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.15

O mesmo papa publica em 1937 uma encíclica intitulada Divini Redemptoris, onde discutiu o
comunismo ateu. Esta encíclica é um dos documentos anticomunistas mais importantes do século
XX e que ajudou a difundir no mundo todo, através da publicação da mesma em periódicos católicos,
a posição da Igreja frente ao movimento comunista. Segundo Pio XI,
[os marxistas pregam que o comunismo seja o] novo ‘evangelho’ e mensagem
salvadora de redenção! Sistema cheio de erros e sofismas, igualmente oposto à
revelação divina e à razão humana; sistema que, por destruir os fundamentos da
sociedade, subverte a ordem social, que não reconhece a verdadeira origem,

13 Leão XIII, Rerum Novarum (1891), n. 7.


14 Idem, n. 11.
15 Pio XI, Quadragesimo Anno (1931), n. 117-120 (capítulo III, secção 2).

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natureza e fim do Estado; que rejeita enfim e nega os direitos, a dignidade e a
liberdade da pessoa humana.16

No Brasil o anticomunismo católico se manifestou principalmente através da imprensa de orientação


católica. Partes da tradução da Divini Redemptoris, por exemplo, foram publicadas através do
periódico católico O Santuário, em 19 de junho de 1937, sob o título de “Encyclica sobre o
communismo: doutrinas e fructos do communismo” e em 25 de setembro de 1937, como “O
Communismo Atheu: Carta Pastoral e mandamento do Episcopado Brasileiro”. Isso nos comprova
que os católicos brasileiros não ficaram de fora da batalha contra o “inimigo da fé”.
Outro papa a atacar o comunismo foi João XXIII (1958-1963). Em sua carta encíclica Mater et
Magistra (1961), o Sumo Pontífice escreveu sobre a evolução da questão social à luz da doutrina
cristã, imbuído, é claro, do anticomunismo característico do Magistério. Retomando a estratégia de
Pio XI, de evidenciar a divergência entre o cristianismo e o comunismo, João XXIII afirmou que,
(...) entre comunismo e cristianismo, (...) a oposição é radical, e [o Magistério]
acrescenta não se poder admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao
socialismo moderado: quer porque ele foi construído sobre uma concepção da vida
fechada no temporal, com o bem-estar como objetivo supremo da sociedade; quer
porque fomenta uma organização social da vida comum tendo a produção como fim
único, não sem grave prejuízo da liberdade humana; quer ainda porque lhe falta todo
o princípio de verdadeira autoridade social. 17

Após um século de sua publicação, a encíclica Rerum Novarum (1891) ainda ecoava no mundo
cristão. O papa João Paulo II (1978-2005) escreveu em 1991 a encíclica Centesimus Anno, em
homenagem a carta encíclica de Leão XIII. O Romano Pontífice esclareceu, dentro de uma
perspectiva cristã, os “erros” estruturais do socialismo/comunismo e afirmou ser o ateísmo o maior
defeito da concepção comunista.
O erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico (...). O homem é
reduzido a uma série de relações sociais, e desaparece o conceito de pessoa como
sujeito autónomo de decisão moral, que constrói, através dessa decisão, o
ordenamento social. Desta errada concepção da pessoa, deriva a distorção do direito,
que define o âmbito do exercício da liberdade, bem como a oposição à propriedade
privada. (...) Se se questiona ulteriormente onde nasce aquela errada concepção da
natureza da pessoa e da subjetividade da sociedade, é necessário responder que a
sua causa primeira é o ateísmo. (...) O referido ateísmo está, aliás, estritamente
conexo com o racionalismo iluminístico, que concebe a realidade humana e social
do homem, de maneira mecanicista. 18

16 Pio XI, Divini Redemptoris (1937), n. 14.


17 João XXIII, Mater et Magistra (1961), n. 34.
18 João Paulo II, Centesimus Anno (1991), n. 13.

103
Após termos analisado a documentação do Magistério percebemos que uma das formas encontradas
pela Igreja Católica para obstaculizar o avanço do ideário comunista foi a produção de um discurso
voltado para a caracterização do comunismo enquanto uma doutrina enganosa. Concluímos que era
com o comunismo que a Igreja Católica disputava o espaço ideológico, daí a farta produção de obras
anticomunistas empreendidas pela Igreja. Havia um “inimigo de Deus” a ser combatido. Um
“antagonista” que ameaçava a família tradicional, a propriedade privada, a ordem, a disciplina, a
unidade, a moralidade e o respeito à autoridade, que são valores defendidos pela Igreja.
Atualmente a Doutrina Social da Igreja ainda defende o anticomunismo, em que pese no parágrafo
2.425 do Catecismo da Igreja Católica (CIC) estar escrito que “a Igreja tem rejeitado as ideologias
totalitárias e ateias associadas, nos tempos modernos, ao 'comunismo' ou ao 'socialismo’” 19 .
Evidenciando, portanto, que a “guerra ideológica” entre a mais influente instituição religiosa do
mundo e o comunismo ainda não acabou.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. “Conclave”. In:____. Dicionário histórico de religiões.


2.ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2012. p. 70.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco (orgs.). Dicionário de Política.


Tradução de Carmem C. Varriale [el al.] 5.ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993.

CNBB. Catecismo da Igreja Católica. 9. ed. São Paulo: Loyola, 2000.

JOÃO XXIII. Carta encíclica Mater et Magistra. 13.ed. São Paulo: Paulinas, 2010.

JOÃO PAULO II. ____ . “Carta encíclica Centesimus Annus”. In: COSTA, Lourenço (org.).
Encíclicas de João Paulo II. São Paulo: Paulinas, 1997. p. 653-651.

LEÃO XIII. Carta encíclica Quod Apostolici Muneris. Disponível em <


http://www.veritatis.com.br/quod-apostolici-muneris-leao-xiii-28-12-1878/>. Acesso em 10 de
outubro de 2017.

LEÃO XIII. Carta encíclica Rerum Novarum. 18.ed. São Paulo: Paulinas, 2009.

MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. Livro Terceiro. São Paulo: Boitempo, 2004.

19 Catecismo da Igreja Católica (1992), n. 2425.

104
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “perigo vermelho”: o anticomunismo no Brasil
(1917-1964). São Paulo: Perspectiva, 2002.

PEDRO, Aquilino de. Dicionário de termos religiosos e afins. 6.ed. Aparecida, SP: Editora
Santuário, 2007.

PIO IX. Carta encíclica Qui Pluribus. Disponível em < https://w2.vatican.va/content/pius-


ix/it/documents/enciclica-qui-pluribus-9-novembre-1846.html>. Acesso em 10 de outubro de 2017.

PIO XI. Carta encíclica Divini Redemptoris. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

PIO XI. Carta encíclica Quadragesimo Anno. Disponível em < https://w2.vatican.va/ content/pius-
xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19310515_quadragesimo-anno.html>. Acesso em 10 de
outubro de 2017.

RODEGHERO, Carla Simone. Memórias e Avaliações: norte-americanos, católicos e a recepção


do anticomunismo brasileiro entre 1945 e 1964. Porto Alegre: UFRGS, 2002. Tese de Doutorado
em História.

105
Guerra, Família E Liberdade Em “Copperhead” (2013)

Amanda Amazonas Mesquita1

Resumo: O diretor Ronald F. Maxwell (n. 1949) apresenta em seu terceiro filme sobre a Guerra de
Secessão (1861 – 1865) uma representação distante dos fronts de batalha que a partir de personagens
democratas residentes do norte do estado de Nova York em 1862. Conhecidos como “copperheads”,
são contrários à guerra e consequentemente entram em conflitos com conterrâneos que a defendem,
apresentando em seus discursos uma perspectiva pouco comum ao cinema que inúmeras vezes
buscou narrar esse conflito. Neste trabalho, dedicamo-nos ao universo recriado por Maxwell no filme
de 2013, “Copperhead”, em busca de interpretar suas percepções sobre como uma guerra em seu
front doméstico apresenta choques ideológicos sobre o conflito em si, sobre um ideal de liberdade,
e como os dois afetaram a estrutura familiar de norte-americanos.

Palavras-chave: Hollywood. Guerra Civil Americana. Representação.

Abstract: The director Ronald F. Maxwell (b. 1949) offers on his third movie about the American
Civil War (1861 – 1865) a representation located far from the battle fronts, one that comes from
Democrat characters from upstate New York in 1862. Known as “copperheads”, they are against the
war and thereafter get into quarrels with their fellow neighbors (those who defend the conflict)
presenting in their speeches a rare perspective to what was previously exhibited by the American
cinema dedicated to narrating this war. Through this paper, we dedicate ourselves to the universe
created by Maxwell for the movie “Copperhead” from 2013, in the efforts of interpreting his
perceptions on how the war (in its domestic front) presents ideological disputes about the conflict in
itself, about an ideal of freedom, and how both affected the small-town American families’ structure.

Keywords: Hollywood. American Civil War. Representation.

Ronald F. Maxwell nasceu em 1949 na cidade de Clifton, em Nova Jersey. Fruto do


casamento entre um veterano da Segunda Guerra Mundial e uma francesa, Maxwell se tornaria um
produtor, diretor e roteirista conhecido especialmente por seu trabalho dedicado à representação da
Guerra de Secessão. Graduado pelo Institute of Film da Universidade de Nova York (NYU),
considera a História e, especialmente, os elementos que compõem a identidade americana, os focos
principais de sua carreira.
Seu trabalho mais reconhecido enquanto diretor foi lançado aos cinemas americanos em
1993, intitulado Gettysburg (trazido para o Brasil para “Anjos Assassinos”). Uma representação da
batalha mais sangrenta da Guerra Civil Americana, o primeiro de filme de Maxwell sobre o conflito
ganhou grande interesse de aficionados pela Guerra de Secessão, um grupo de tamanho considerável
e de resiliência notável nos Estados Unidos.

1 Mestranda do Programa de Pós-graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de


Janeiro (UFRJ). Agências de fomento: CNPq e FAPERJ. E-mail: amanda.mesquita@ufrj.br

106
A grande atração pela história desta guerra é tema de pesquisa de diversos historiadores,
intrigados com a persistência e profundidade de sua memória, seguindo tão viva no imaginário social
norte-americano. Uma querela constantemente evocada para debates sobre identidade, racismo,
federalismo, inúmeras disparidades sociais, patriotismo, símbolos nacionais, e, ao que parece, quase
tudo que diz respeito às tais grandes questões desta sociedade: “A Guerra Civil nunca recuou a um
passado remoto na vida americana. O mais momentoso conflito na história americana teve um
impacto social e político revolucionário que continua a ser sentido hoje” 2.
Não à toa, o historiador David Blight identificaria esta guerra como algo inato aos ossos de
um cidadão dos Estados Unidos da América 3. Poucos momentos da história parecem se fazer tão
presentes, disputados, questionados. Sem dúvida, a arte dedicada a representar este momento
turbulento do século XIX norte-americano se apresenta como também um elemento de disputa.
Gettysburg (1993), de Maxwell, não escapa a este debate. O filme, baseado no romance de Michal
Shaara, “The Killer Angels (1974)4, fora por vezes celebrado por sua longa e “quase-documental”
narrativa da batalha ocorrida em julho de 1863 na Pensilvânia. Ao mesmo tempo, sofrera críticas
como a vinda do professor literatura e cinema norte-americanos da Saint Michael’s College, Robert
Niemi que definiu o filme como uma “experiência impressionante para fanáticos pela Guerra Civil
– uma demografia esmagadoramente branca, masculina e Sulista”5.
Em Gettysburg, no ano de 1863, forças da União e da Confederação se enfrentam na cidade
homônima ao filme em um embate de três dias que é decisivo para a Guerra Civil Americana. O foco
no primeiro dia de conflito é em John Buford (Sam Elliott), General da Cavalaria da União dos
Estados Unidos, responsável por selecionar o campo de batalha. O foco no segundo dia é dado ao
Coronel da União Joshua Lawrence Chamberlain (Jeff Daniels), responsável pela defesa em Little
Round Top6. Na noite seguinte, somos apresentados à preparação e à execução de Pickett’s Charge7,
destacando a atuação do General das forças confederadas, James Longstreet (Tom Berenger).

2 (Tradução minha) FAHS, Alice; WAUGH, John (orgs). The Memory of the Civil War in American Culture.
Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2004, p. 2.
3 BLIGHT, David W. Race and Reunion: the Civil War in American memory. Cambridge: Harvard University
Press, 2001, p. 1.
4 SHAARA, Michael. The Killer Angels. New York: The Modern Library, 1974.
5 (Tradução minha) NIEMI, Robert. History in the media: film and television. Santa Barbara: ABC-Clio, 2006, p. 30.
6 Little Round Top é a menor de duas colinas rochosas localizadas ao sul de Gettysburg, na Pensilvânia. Foi o
local de uma tentativa falha de ataque por parte de tropas Confederadas, em 2 de Julho de 1863, segundo dia da batalha
de Gettysburg.
7 Carga de infantaria Confederada ordenada e liderada pelo General Robert E. Lee, em 3 de Julho de 1863, último
dia da batalha de Gettysburg.

107
A especialista em Cinema, Jenny Barrett, descreveria esta obra como um filme de combate
por excelência 8 : está centrado na ação dos campos de batalha – um ambiente essencialmente
masculino e branco –, nas trocas de tiros, nas estratégias militares dos dois exércitos de um país então
dividido entre União e Confederação. O épico de 271 minutos de duração dedica-se intensa e
exclusivamente à ação militar direta entre os dois lados desta guerra.
O segundo filme do diretor parece seguir uma esquematização relativamente diferente. Gods
and Generals (“Deuses e Generais”, 2003) retoma a glória e a tragédia da Guerra de Secessão já
abordadas pelo trabalho anterior do diretor. Como um prólogo ao filme lançado dez anos antes,
acompanhamos um exame sobre os primeiros momentos do conflito entre Norte e Sul, e a
experiência de três homens sobre o mesmo: o coronel Joshua Lawrence Chamberlain (Jeff Daniels),
que deixa para trás uma carreira como professor universitário no Maine em prol da carreira militar
do lado da União; o general Thomas "Stonewall" Jackson (Stephen Lang), um homem que
constantemente declara os valores de uma vida pia e religiosa, permeada pela fé, que torna-se um
dos mais temidos a servir pela defesa da Confederação; e o general Robert E. Lee (Robert Duvall),
que lidera o exército Confederado e ao ser forçado a decidir entre sua lealdade pelos Estados Unidos
da América e seu amor pelo Sul, decide-se pela segunda causa – a perdida.
Seguimos Chamberlain, Jackson, e Lee através da declaração de guerra e das batalhas no
Manassas, Antietam, Frederickburg, e Chancellorsville (sendo assim, por um lado, um filme de
combate conforme elaborado por Barrett), enquanto conhecemos muitas figuras que fizeram parte
dessa história de proporções épicas, como as mulheres deixadas no front doméstico por esses
marcantes oficiais, dentre elas Fanny Chamberlain (Mira Sorvino) e Anna Jackson (Kali Rocha).
Através delas e de seus relacionamentos com seus maridos, compreendemos mais sobre as
motivações e crenças que os levam e os mantêm em conflito, inseridos na guerra reconhecida como
aquela que definiu os contornos de todo o país.
Em sua segunda obra cinematográfica, portanto, Maxwell apresenta traços de interesse
também em uma esfera antes deixada de lado em Gettysburg: a forma como a guerra afeta famílias
americanas, e sua vivência enquanto grupo inserido em um contexto mais amplo, diante do conflito.
Copperhead, de 2013, mergulharia ainda mais a fundo nesta temática. Para compreendermos o
terceiro filme do diretor sobre a Guerra Civil Americana, devemos atentar para seu título – um que
não poderia ser diretamente traduzido para o português – e, assim, melhor compreender sua
mensagem principal.

8 BARRETT, Jenny. Shooting the Civil War: Cinema, History and American National Identity. London: I. B.
Tauris, 2009, p. 97.

108
Copperheads

Agkistrodon contortrix ou copperhead é uma espécie de cobra venenosa encontrada em uma


larga porção do Leste dos Estados Unidos que abriga desde estados como o Arkansas até Nova York.
No século XIX foi, contudo, utilizada como termo derrogatório de referência aos Peace Democrats,
ou Democratas contrários à guerra. A expressão, aplicada pelos grandes defensores da União, era
destinada especialmente aos homens que se opunham de maneira distinta e vigorosa às medidas de
guerra adotadas por Abraham Lincoln e pelo Congresso 9. A maioria destas figuras chamavam a si
mesmos de conservadores – e a historiadora Jennifer L. Weber os reconhece como tal, visto que o
grupo estabelecia um forte compromisso com a mais minuciosa interpretação e aplicação da
constituição10.
A identificação do primeiro momento em que a expressão é empregada com regularidade é
feita diferentemente por múltiplos historiadores. Contudo, mais de um deles (como Weber e Ronald
C. White) apontam para a publicação feita no periódico Cincinnati Commercial durante o verão de
1861 por um autor anônimo como essencial parra o surgimento e dispersão do termo: seu artigo
discorria sobre os Democratas contrários à guerra como figuras essencialmente comparáveis à
serpente em Gênesis – o texto incluía o provérbio 3:14, desse mesmo livro: “Então o Senhor Deus
disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os
animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida 11”.
Contudo, não demoraria muito para que os acusados de traidores assumissem copperhead
como uma designação a ser usada – e vestida – com orgulho. Copperhead era também o temo
contemporâneo para o penny ou moeda de um centavo de dólar produzida em cobre, e a imagem do
mesmo pareceu casar-se perfeitamente à causa dos homens em questão: “(...) the penny at the time
had Lady Liberty – the perfect symbol for people deeply concerned about incursions on their rights
– on one side of it. Some Peace Democrats adopted the term as their own and sported Lady Liberty
pins made from pennies to signify their loyalties” 12 .
Copperheads estavam unidos, portanto, pela defesa de deus direitos mais essenciais – aqueles
garantidos pelas palavras da Constituição. Para estes conservadores, o documento não poderia adotar

9 RHODES, James Ford. History of the Civil War, 1861 – 1865. Nova York: Ungar Pub, 1961, p. 127.
10 WEBER, Jennifer L. Copperheads: the rise and the fall of Lincoln’s opponents in the North. Nova York:
Oxford University Press, 2006, p. 2.
11 BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Padre Antônio Pereira de Figueredo. Rio de
Janeiro: Encyclopaedia Britannica, 1980. Edição Ecumênica.
12 WEBER, Jennifer L. Copperheads: the rise and the fall of Lincoln’s opponents in the North. Nova York:
Oxford University Press, 2006, p. 2.

109
nenhum tipo de interpretação minimamente aberta. Suas determinações deveriam ser levadas ao pé
da letra, garantidas com veemência aos cidadãos americanos, mesmo que isso significasse a
manutenção da instituição peculiar da escravidão no Sul do país. O maior temor desta facção era o
da possibilidade de abusos e despotismos por parte do presidente, constituindo um big government13,
uma ideologia enraizada nos valores mais arraigados desta sociedade, presente desde os debates para
a construção do aparato do governo no país independente.
Os sentimentos gerais associados ao grupo eram: o de que a guerra era o resultado de uma
agitação abolicionista no Norte do país, de que o Sul não poderia ser conquistado através da força
das armas, e de que os dois lados deveriam imediatamente cessar a disputa e negociar uma
resolução14 (uma que não ferisse, certamente, princípios constitucionais). A guerra avançava e o
mesmo se dava em relação aos gastos por ela causados. Ao mesmo tempo, o governo da União
fortalecia seus esforços na perseguição de desertores, tido como os grandes traidores da nação. Os
Peace Democrats fortaleciamcada vez mais , então, sua retórica de denúncia sobre as maldições
trazidas pelo conflito, pela administração por eles tida como histérica de Lincoln, e pela noção de
abolicionismo.
Uma conspiração anticonstitucional parecia pairar sobre os Estados Unidos, formulada pelos
piores republicanos em busca da destruição da nação. Copperheads se reconheciam como patriotas
dispostos a lutar, através de seus eloquentes discursos, contra toda a ação tirânica do governo central.
No entanto, suas ações lhes trouxeram acusações de traição por parte daqueles que apoiavam a
guerra. Aos poucos, a comunidade do Norte do país parecia encaminhar-se para uma polarização
total de opiniões, pró ou anti-guerra, uma segunda divisão (além daquela entre Norte e Sul) que
separou famílias, vizinhos e colegas – uma divisão representada constantemente no filme de Ronald
F. Maxwell de 2013.

13 Big government é um termo usado para descrever um governo em hipertrofia, envolvido de maneira
considerada inconstitucional em determinadas áreas de políticas públicas, ou mesmo do setor privado. Também pode
ser empregado em relação a políticas governamentais que buscam regular aspectos considerados pessoais aos cidadãos.
Aqui, refere-se essencialmente a um governo federal dominante que busca controlar a autoridade de instituições mais
locais, como a dos estados.
14 ROBINSON, Marsha R. Lesser Civil Wars: civilians defining war and the memory of war. Newcastle:
Cambridge Scholars Publishing, 2012, p. 40.

110
Figura 1 - Cartum sobre copperheads, publicado na Harper's Weekly em
fevereiro de 1863.

"O partido Copperhead - a favor da perseguição vigorosa contra a paz!

Disponível em: < https://www.britannica.com/topic/Copperhead-American-


political-faction>

“Copperhead” (2013)

Em uma comunidade rural ao norte do estado de Nova York em 1862, o fazendeiro Abner
Beech (Billy Campbell) é um Democrata contrário à Guerra de Secessão. Enquanto seus vizinhos
assumem e defendem a causa da União durante o conflito, Beech acredita que a coerção em resistir à
separação dos estados do Sul é inconstitucional e, gradualmente, é cada vez mais assediado por seu
posicionamento. Seu filho primogênito, Thomas Jefferson Beech (Casey Thomas Brown), alista-se
no exército da União. O fazendeiro também desperta a ira de um militante abolicionista radical, Jee
Hagadorn (Angus Macfayden) cuja filha, Esther (Lucy Boynton) é apaixonada por Thomas Jefferson.
Esta é a sinopse mais geral de Copperhead, o terceiro filme dedicado ao conflito da Secessão
americana dirigido por Ronald F. Maxwell.
Em Copperhead estamos distantes dos campos de batalha, e inseridos no front doméstico. O
espectador é apresentado à forma como as famílias de uma área rural de Nova York vivem e percebem

111
o conflito que divide o país, mas também suas expectativas e opiniões mais ferrenhas. O Norte é
representado por sua própria secessão: uma divisão interna política, que torna a convivência entre
vizinhos aparentemente impossível.

Figura 2 - Pôster original do filme Copperhead (2013)

Disponível em:
<http://www.imdb.com/title/tt2404555/mediavi
ewer/rm2408358144>

O personagem do fazendeiro tranquilo, distante dos sons de tiros e do sangue que compunha as
imagens mais violentas da guerra, ganha vida pela figura de Beech, um homem incapaz de aceitar a
violência da guerra, que para ele se traduz na violência de Abraham Lincoln contra a Constituição
de seu país. Apesar da paisagem bucólica que lhe envolve, o conflito chega até sua casa quando seu
filho mais velho resolve alistar-se no exército da União, traindo todos os preceitos políticos e morais
de seu pai.
Aqui, a guerra representada por Maxwell apresenta sua característica lembrada por tantos autores de
romances e diretores de cinema: um conflito que coloca em disputa brother against brother, ou irmão
contra irmão. A expressão é geralmente empregada para demonstrar a oposição que foi colocada
entre compatriotas que defendiam um o Norte, outro o Sul. No filme de Maxwell ela ganha outros
contornos – a disputa se faz entre os pró e anti guerra.

112
A causa para essa guerra, durante toda a narrativa de 120 minutos, parece ser simplesmente o
despotismo do governo federal em ações que o caracterizariam como o temido big government,
intrometendo-se em questões políticas próprias da autoridade dos estados. A escravidão, certamente,
é reconhecida por Beech como moralmente condenável em uma breve passagem no roteiro – no
entanto, mais condenável para ele é o comportamento de tirania de seu presidente, que parece
disposto a ferir a Constituição para enfrentar seus inimigos políticos.
O fazendeiro de pequena propriedade perde seu filho para o conflito, mas não deixa de lutar pelos
seus ideais para que a mesma acabe, e para que Lincoln seja punido em meios políticos. Nessa
empreitada, sofre com as retaliações de seus vizinhos, a maioria grandes admiradores do presidente
e de seus esforços de guerra. Os personagens republicanos abolicionistas são, nesta trajetória
cinematográfica, os grandes antagonistas: presunçosos, ignorantes, irredutíveis, histéricos. A
violência da guerra parece tomar conta do tom de seus discursos e ações contra o tranquilo
fazendeiro. Distantes da imagem do escravo pela localidade em que são retratados, a defesa da
abolição parece deslocada, sem sentido ou completamente fora de contexto – levando em
consideração as imagens que o filme nos oferece como fonte.
O bucolismo desta área rural do nordeste americano passa muito longe da plantation e de sua
instituição peculiar. A defesa ou não da manutenção da escravidão parece, na mesma proporção,
extremamente distante da discussão trazida à tona: a de validade ou não do conflito que separou os
Estados Unidos. A mensagem deixada é a centralidade e a necessidade da existência de uma oposição
que expõe abertamente suas convicções, em especial dentro de um país de imprensa e discurso livres,
que possa manter um sistema de checks and balances15 em pleno funcionamento, evitando que o
governo federal estenda seus tentáculos em hipertrofia sobre questões que não lhe cabem
politicamente, e que possam ferir a liberdade política dos estados (e consequentemente dos grandes
senhores de escravos sulistas).
A liberdade central defendida pelo filme é, assim, a liberdade de pensamento, discurso, e sobretudo,
política. A liberdade do escravo afro-americano esmaece neste cenário. O diretor afirma, após dois
filmes que debatem o motivo de homens honrosos irem à guerra (em Gettysburg e Gods and
Generals) a necessidade de discutir o porquê de homens igualmente honrosos não irem à guerra.
Para tal, destaca a centralidade do núcleo familiar e dos impactos por ele sofridos durante o conflito,
mesmo que longe de ações diretas de violência.

15 Um sistema de checks and balances (ou freios e contrapesos), comumente evocado no direito constitucional
norte-americano, refere-se à ideia de constante vigilância sobre a harmonia e independência entre os poderes.

113
Figura 3 - Abner Beech (Billy Campbell) abraça seus dois filhos, após o primogênito retornar dos campos
de batalha.

Disponível em: <https://pmcvariety.files.wordpress.com/2013/07/copperhead.jpg?w=700&h=393&crop=1>

Considerações Finais

A Guerra de Secessão é um dos eventos históricos mais recobrados pela cultura norte-
americana, seja por meio da televisão, do cinema, ou da literatura. Inúmeros homens e mulheres
mantêm a tradição de reencenar batalhas próprias deste conflito, em roupas, uniformes e armamentos
extremamente fidedignos àqueles do século XIX. Dizer que esta guerra tem um papel importante na
memória do norte-americano seria uma afirmação extremamente simplista.
O escritor Shelby Foote define o conflito como aquele que definiu o país, inclusive as
idiossincrasias de seu presente16. Conforme destaca o escritor e crítico literário Robert Penn Warren:
“A Guerra Civil Americana é nossa história sentida – história vivida na imaginação nacional. Isso
não quer dizer que a Guerra é sempre, e por todos os homens, sentida da mesma maneira” 17.

16 FOOTE, Shelby. The Civil War, A Narrative: Fort Sumter to Perryville. Nova York: Vintage, 1986.
17 “The Civil War is our only “felt” history – history lived in the national imagination. This is not to say that the
War is always, and by all men, felt in the same way.” (Tradução minha) WARREN, Robert Penn. The Legacy of The
Civil War. Nova York: Random House, 1961, p. 4.

114
A forma como filmes apresentam uma visão específica sobre o significado da guerra, suas
motivações e justificativas tem muito a dizer sobre o cinema hollywoodiano e o papel da Guerra de
Secessão na identidade dos norte-americanos. O filme de Maxwell apresenta-se como parte da
representação cinematográfica mais contemporânea da Guerra Civil Americana, e reivindica um
papel importante na manutenção de uma memória sobre o conflito. Refletir criticamente sobre sua
obra significa investigar uma visão sobre a guerra e seu legado, e como estes elementos podem ser
apresentados a partir de uma visão unívoca e idealizada sobre a liberdade política desta sociedade
que reconhece o valor da defesa de uma causa perdida. Essa visão não deixa de ser apreciada,
contudo, por aqueles que dela compartilham.
Certamente o olhar crítico sobre filmes históricos seguirá criando pequenas secessões sobre
a produção cinematográfica como um todo. Não cabe aos historiadores do cinema realizar simples
julgamentos sobre a veracidade das cenas levadas ao cinema, mas sim pesar como cada uma delas
pôde ser pensada naquela forma, naquele momento, por aqueles agentes históricos. Neste trabalho,
buscamos nos dedicar a essas questões, ainda que brevemente.
Aqui, nos esforçamos em compreender a persistência de uma interpretação específica sobre
o conflito como um todo: aquela que deixa de lado uma temática central, como a escravidão, para
delinear a invalidade da guerra como um todo, frente ao documento da Constituição, que delimita de
maneira justa e inequívoca os principais preceitos de um país. Destacamos, ainda, a importância do
lar e dos laços familiares frente a um conflito injustificável – lar esse que sofre as piores máculas
trazidas por uma guerra sem sentido, trazida por abolicionistas irredutíveis e um presidente
preenchido pela fome incessante de poder.

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118
A Coexistência Entre Literatura E História.
A Escrita Balzaquiana Como Projeto De Uma História Dos Costumes

Ana Beatriz Morais de Souza1

Resumo: Esta apresentação tem como objetivo analisar a noção de “história dos costumes” presente
na escrita do autor francês Honoré de Balzac (1799-1850). Através das suas obras Ilusões Perdidas
(1837-1843) e o Tratado da Vida Elegante: Ensaios sobre a moda e a mesa (1830- 1833) podemos
observar a presença de uma noção singular do que poderia ser a escrita historiográfica. Com
influência dos postulados da filosofia natural e o princípio de “unidade de composição orgânica”
movido nas teorias de Geoffroy Saint-Hilaire e outros biólogos e filósofos, Honoré de Balzac
empreende uma análise da sociedade francesa através de uma descrição detalhada das fisionomias
das personagens e do meio ao qual eles pertenciam, dando a entender que essas questões interferiam
na construção dos costumes e do surgimento de tipos humanos.

Palavras-chaves: História dos costumes- escrita literária- escrita jornalística

Abstract: This presentation aims to analyze the notion of “history of customs” present in the work
of the french writer Honoré de Balzac (1799-1850). Through his works Ilusões Perdidas (1835-1843)
and the Tratado da Vida Elegante: Ensaios sobre a moda e a mesa (1830-1833) we can observe the
presence a singular notion of what could be a historiographical writing. With influence of the
postulates of natural philosophy and the principle of "unity of organic composition" moved in the
theories of Geoffroy Saint-Hilaire and other biologists and philosophers, Honoré de Balzac
undertakes an analysis of French society through a detailed description of the physiognomy of the
characters and the milieu to which they belonged, implying that these questions interfered with the
construction of customs and the emergence of human types.

Keywords: History of customs - literary writing - journalistic writing

Percurso invertido: de literato a historiador dos costumes.

“O escritor, encarregado de espalhar as luzes que brilham nos santuários,


deve dar à sua obra um corpo literário e fazer com sejam lidas, com
interesse, as doutrinas mais árduas, e além disso deve enfeitar a ciência.
Portanto, acha-se permanentemente dominado pela forma, pela poesia e
pelos acessórios da arte ”.
Honoré de Balzac

Podemos admitir que a produção intelectual balzaquiana que hoje temos acesso, basicamente
se estende a duas formas de escrita – a escrita literária e a escrita jornalística. Atuando durante quase
todo o momento da sua vida nesses dois ramos do mundo da imprensa, Honoré de Balzac (1799-
1850) divulgou algumas ideias fundamentais que alimentaram a sua produção e que até
influenciaram o seu modo de vida e de observação sobre o mundo. Entre essas inúmeras ideias,

1 Graduanda de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/FFP, sob a orientação do prof. Dr. Carlos Mauro
de Oliveira Junior. Email: biamorais15@gmail.com

119
elegemos uma. A ideia chave que queremos problematizar neste trabalho está relacionada com a
forma de entendimento do autor sobre o que poderia vir a ser a “história dos costumes”.
Vivendo a efervescência do movimento romântico e sua propensão a uma abordagem mais próxima
dos acontecimentos históricos, Balzac tinha elucidado nas suas produções que a mudança provocada
com a Revolução Francesa havia totalmente desestruturado o que antes eram considerados os
parâmetros fundamentais da sociedade francesa, inclusive no âmbito privado. Como pensador do seu
tempo, da maneira de um “escritor monárquico”2, como ele gostava de se denominar, observamos
nos seus esforços intelectuais uma tentativa de fazer da sua produção algo mais “útil” para
compreender a contemporaneidade como as mudanças vindas da modernidade e a ascensão de novos
padrões de vida, leiam-se padrões burgueses.
[...]. Chegamos a uma época em que, diminuindo as fortunas por igualização, tudo
se empobrecerá: havemos de querer roupas e livros baratos, como se começa a
procurar quadros pequenos por falta de espaço onde colocar os grandes. As camisas
e os livros pouco hão de durar, essa é a verdade. A solidez dos produtos começa a
desaparecer por toda a parte. Assim o problema a ser resolvido é de mais alta
importância para a literatura, para a ciência e para a política. (BALZAC, 1981, p.67)

Por fim, os franceses tornaram-se todos iguais, em seus direitos e também em suas
roupas, e a diferença no tecido ou no corte dos trajes deixou de diferençar as
condições. Como, então, reconhecer-se no meio da uniformidade? (BALZAC, 2016,
p.83)

Para esclarecer melhor essa questão, gostaríamos de dar destaque ao trecho marcante que se encontra
no Avant-propos de A Comédia Humana (1842). Neste, podemos observar a presença de uma certa
pretensão balzaquiana em tornar a sua grande criação literária um modelo possível de registro
histórico.

[...] O acaso é o maior romancista do mundo; para ser fecundo, basta estudá-lo. A
sociedade francesa ia ser o historiador, eu nada mais seria do que seu secretário. Ao
fazer o inventário dos vícios e das virtudes, ao reunir os principais fatos das paixões,
ao pintar os caracteres, ao escolher os acontecimentos mais relevantes da sociedade,
ao compor os tipos pela reunião dos traços de múltiplos caracteres homogêneos,
poderia talvez, alcançar escrever a história esquecida por tantos historiadores, a dos
costumes. Com muita paciência e coragem, eu realizaria para a França do século
XIX esse livro que todos lamentamos não terem deixado Roma, Atenas, Tiro,

2 A denominação “escritor monárquico” pode ser encontrada na apresentação realizada pelo


literato no seu Prefácio à Comédia Humana publicado em 1842. Neste trecho Balzac afirmar que “ A lei do escritor, o
que faz que ele o seja, o que, não temo dizê-lo, o torna igual e talvez superior ao homem de Estado, é uma decisão
qualquer sobre as coisas humanas, uma dedicação absoluta a princípios. Maquiavel, Hobbes, Bossuet, Leibniz, Kant,
Montesquieu são a ciência que os homens de Estado aplicam. ‘Um escritor deve ter em moral e política opiniões
definidas, deve considerar-se como um preceptor de homens; porquanto os homens não necessitam de mestres para
duvidar’, disse Bonald. Cedo adotei como regra essas grandes palavras, que são a lei do escritor monárquico, tanto quanto
a do escritor democrático”. BALZAC, Honoré de. “Prefácio à Comédia Humana”. In: A Comédia Humana: estudos de
costumes: cenas da vida privada. Orientação, introdução e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveiras; 3°
edição. São Paulo: Globo, 2012, p.109.

120
Mênfis, a Pérsia, a Índia sobre sua civilização e que, a exemplo do padre
Barthélemy, o corajoso e paciente Monteil tentara para a Idade Média, mas sob
forma pouco atraente. (BALZAC, 2012, p.108)

A noção de “história” que encontramos presente nesta descrição está limitada à exposição do
presente contemporâneo do autor. Mesmo tendo intenções totalizantes beirando a construção de uma
história nacional, Balzac observa a histoire du coeur humain não como prática científica consagrada
com seus métodos e fontes, mas como uma investigação livre. Segundo Auerbach “não se trata de
history, mas de fiction, não se trata de forma alguma, do passado, mas do presente contemporâneo,
que se estende quanto muito, por alguns anos ou décadas no passado” (AUERBACH, 2013, p. 429).
Vale destacar que, o conceito de história neste momento vinha sofrendo uma mudança nas
suas formulações devido à influência de outros modelos científicos (RIBEIRO, 2013, p.17). Como
elucidou Georges Lefebvre (1981), o século XIX foi marcado pela noção de desenvolvimento
histórico. A história passou a ser encarada como um saber vivo em continua transformação, sua
matéria que não era fatos mortos e amorfos, não obstante, viviam em relação direta com a vida e a
realidade que ela buscava refletir. Como um ser vivo que precisa ser estudado, a história “evolui com
a civilização dos homens e com os acontecimentos que lhes definem a existência e por vezes os
ensinam” (LEFEBVRE, 1981, p.11).
De acordo com as preposições de Erich Auerbach (2013), é comum entre as produções
literárias de determinados períodos existir certa intenção em representar a realidade a partir da sua
forma de compreensão do mundo. Neste caso, considerando algumas produções literárias que
tiveram uma acentuada atuação durante o século XIX, como a de Stendhal, Flaubert e a do próprio
Balzac, Auerbach demonstra que o surgimento de uma geração romântica que ganhou destaque com
o movimento de reinvindicação pela mistura do sublime e do grotesco, fez uma aproximação
inovadora no que condiz à relação da literatura com o mundo real. O romantismo, tendência que teve
origem na “Alemanha” e na Inglaterra e que se desenvolveu intensamente na França a partir de 1820,
rompeu as barreiras estilísticas entre os aspectos realista e trágico promovendo uma mudança de
perspectiva que desencadeou novos polos estilísticos preocupados com a contemporaneidade e não
com a fuga do real como tinha ocorrido no pré-romantismo. (AUERBACH, 2013)
Para James Guinsburg (2013), o movimento historicista promovido pelas ideias românticas,
trouxe para as produções literárias do século XIX a relevância de se ter uma consciência histórica.
Essa consciência não era aquela semelhante ao modelo racionalista do século XVIII ou a história
natural das instituições com as descrições das “vidas ilustres”, no entanto, era a construção de uma
consciência atenta às inúmeras formas de organização da sociedade (comunidades, raças, nações)
“que têm antes cultura do que civilizações, que secretam uma individualidade peculiar, uma

121
identidade, não de cada indivíduo, mas do grupo específico, diferenciado de quaisquer outros”
(GUINSBURG, 2013, p. 15).
Revestidas de cor local, as realidades que os românticos buscavam atingir tinham o objetivo
de traçar a trajetória de cada povo, de um país ou de uma nação, chamando atenção para as
particularidades e os “coloridos nacionais”. Não perdendo essa “paramentação romântica”
(GUINSBURG, 2013 p. 18), romancistas como Balzac e Stendhal desdobram uma forma de escrita
mais colada aos acontecimentos, com objetivos de desvendar fatos, impulsos no contexto do
imprevisível de alta complexidade, no mundo da sensibilidade, da imaginação, aspectos que vinham
sendo entendidos como parte integrante da realidade social.
Com o surgimento do realismo moderno essa mudança foi efetiva. A tendência que trouxe
para o mundo literário um tratamento narrativo mais sério para o quotidiano, mostrando que as
camadas humanas consideradas socialmente inferiores deveriam ser objetos de representação.
Segundo Auerbach, na França esse movimento foi de grande importância, pois trouxe para o corpo
da literatura uma visão moderna da realidade modificada com as novas transformações.
(AUERBACH, 2013, p. 440)
A isto junta-se uma concepção da mistura de estilos que surge da mesma visão
místico realista; não haveria objetos elevados e baixos; o universo seria uma obra
de arte criada sem parcialidade, o artista realista deveria imitar os processos da
criação, e cada objeto conteria, na sua peculiaridade, perante os olhos de Deus, tanto
a seriedade quanto a comicidade, tanto a dignidade quanto a baixeza (AUERBACH,
2013, p. 436).

Essa exigência de maior veracidade na ficção fez com que a narrativa observasse a natureza
humana como fruto das transformações históricas, diferenciada pelas construções do tempo e do
espaço. A partir desse paralelismo entre romantismo e realismo, observamos que o gênero do
romance começa a ganhar novos traços. A própria concepção que Balzac tinha sobre esse modelo é
exemplo disso. Como afirmou Auerbach, Balzac acreditava que o romance, inclusive o de costumes,
poderia ser encarado como um modelo de história e de filosofia que atenta ao mundo real poderia
estar além das estruturas literárias. (AUERBACH, 2013)

Gênero aberto à perspectiva do autor: o romance como espelho da sociedade

Criador do romance de costumes, Balzac encarregou à sua escrita um verdadeiro “laboratório


experimental” fortalecido pela experiência, não muito positiva, como auxiliar de tabeliães em um

122
cartório na Capital e como impressor e tipógrafo provinciano. Operando nestas duas profissões
ganhou conhecimento sobre os detalhes das formalidades e regulamentos da jurisprudência francesa
além de captar a enorme influência que as editoras tinham na coordenação de múltiplas atividades
industriais no ramo literário. Isso o auxiliou na formação de uma visão mais apurada sobre o
romance, fazendo com que o mesmo rompesse com os impasses e as imperfeições do gênero.
(RÓNAI, 2012)
Não podemos esquecer que a maior influência sobre a escrita balzaquiana no que consistem
as formulações do romance veio das produções do romancista escocês Sir Walter Scott 3 que criou o
romance histórico pautado na investigação de documentos e a descrição de cenários memoráveis.
Suas obras serviram de modelo para Balzac, principalmente no que consiste na estratégia do escocês
em adicionar a vida dos seus personagens um ambiente de verossimilhança. Para Balzac, Walter
Scott elevou o valor histórico e filosófico no romance, abrindo espaço para a oportunidade do
surgimento de uma narrativa que pudesse pintar a vida social. Introduziu na obra a junção do
maravilhoso com o verdadeiro, fazendo com que a poesia tivesse uma roupagem mais real,
aproximando-a das linguagens mais humildes. (“Prefácio à Comédia Humana”, 2012, págs.106-107)
Conforme assegurou Erich Auerbach (2013), Balzac considerava a construção do romance
histórico como uma forma de apresentar a história. Para Maria Inês C. Arigoni (2015), a estrutura
dos romances balzaquianos trazia em seu cerne a ideia de que a história era uma moldura
fundamental para a construção do personagem e para expressar as estruturas do mundo. O romance,
tendo essa liberdade de diálogos com diferentes discursos científicos deveria ser melhor que a
história, mesmo não tendo a pretensão em representar o que verdadeiramente ocorreu.
Todavia, o gênero não deixa de ser verdadeiro nos pormenores. Prosseguindo por uma
denúncia contra os postulados da historiografia marcante da sua época “com secas e enfadonhas
nomenclaturas dos fatos denominados históricos” (“Prefácio à Comédia Humana”, 2012, p. 105), o
literato francês sente-se animado pelo esforço do escritor escocês que coloca na sua obra o espírito
dos tempos antigos. Assim, Balzac demostra a importância das formulações de Walter Scott ao seu
próprio modelo de interpretação que condizia em dar vida às paixões humanas, que não eram tão
bem exploradas por Sir Walter Scott como afirmava o literato. Apesar disso, seu objetivo literário se
tornou ousado, em certa medida, pois procurava ultrapassar a construção iniciada por Walter Scott.
Mas, tendo antes achado seu feitio ou no ardor do trabalho, ou pela lógica desse
trabalho, do que propriamente imaginado um sistema, não pensou em ligar suas
composições umas às outras com o fim de coordenar uma história completa, da qual
cada capítulo formasse um romance e cada romance uma época. Ao perceber essa

3 Sir Walter Scott (1771-1832) nasceu na capital da Escócia em Edimburgo, foi o verdadeiro
criador do romance histórico. Entre algumas das suas obras Ivanhoe (1819) pode ser considerada a mais famosa.

123
falha de ligação, que, aliás, não diminui a grandeza do escocês, vi ao mesmo tempo
o sistema favorável à execução de minha obra e a possibilidade de executá-la”
(“PREFÁCIO À COMÉDIA HUMANA”, 2012, págs. 107-108).

Neste interim, observamos que o romance durante o século XIX foi um gênero susceptível
às rápidas mudanças que modificavam o mundo. O aumento populacional, o surgimento da economia
monetária, a ascensão da classe burguesa gerou questionamentos em relação à natureza humana e
aos contornos da modernidade. A consequência das atitudes objetivas “reivindicadas” pela economia
monetária fez com que os lugares sociais se tornassem campos férteis para a competição e os
conflitos de interesses. As conformações políticas, sociais e econômicas contribuíram para que essas
questões fossem canalizadas pelo enredo dos romances.
Como muitos em sua época, que estavam influenciados pelas novas tendências românticas
que realçaram as produções dos romances históricos e realistas, Balzac via na ação da escrita literária
um espaço de atividade social, disposto a questionar a essência da vida e suas vicissitudes.
Reconfigurando o real, o romance poderia desvendar a totalidade da vida e o seu desespero e
embriaguez (AUERBACH,2013). A partir de uma caracterização individualizada, a narrativa
forneceria uma representação dos traços fundamentais dos destinos e da formação da psicologia do
personagem. Em um trecho de Ilusões Perdidas, Balzac expressa essa seguinte preposição:
Procurando provar que a imagem é toda poesia, lamentarás ser tão pouca a poesia
que a nossa língua comporta. [...] Combate tua argumentação precedente, fazendo
ver que evoluímos do século XVIII para cá. Inventa o Progresso! (Uma admirável
mistificação destinada aos burgueses). Nossa jovem literatura procede por quadros
em que se concentram todos os gêneros: - a comédia e o drama, descrições,
caracteres, diálogos, ligados pelos laços brilhantes de um enredo interessante. O
romance, que requer sentimento, estilo e imagens, é a maior das criações modernas.
(BALZAC, 1981, p.207)

A “Unidade de composição orgânica” e a relação de Balzac com as ciências naturais

“Tudo em nós corresponde a uma causa interna.”


Lavater

Pensando em formular um projeto literário com tamanha magnitude como mais tarde ficou
confirmada com o surgimento de A Comédia Humana4, já era evidente que Balzac tinha influência
de outras tendências que estavam à parte do mundo literário. Impregnado pelas teorias da história

4 A Comédia Humana pode ser considerada como o maior monumento literário construído
durante o século XIX. Compilada por Honoré de Balzac para ser um longo trabalho de interpretação da história e a crítica
da sociedade francesa do XIX, a Comédia traz a lume a trajetória fictícia de mais de 2.500 figuras literárias que foram
construídas a partir de vários cenários históricos da época. Esses cenários estão divididos entre as Cenas da Vida Privada,
Cenas da Vida Provinciana, Cenas da Vida Parisiense, Política, Militar e Rural. Nestes seis grupos classificados se
encontram os Estudos de Costumes, os Estudos Filosóficos e os Estudos Analíticos.

124
natural e pelos estudos de pensadores místicos5, o escritor era adepto do que entre os naturalistas era
conhecido como a “unidade de composição orgânica”. As descrições literária e jornalística de Balzac
estiveram influenciadas por esta noção divulgada pelo biólogo francês Étienne Geoffroy Saint-
Hilaire6, que o auxiliou a interpretar as vicissitudes da natureza humana e sua relação com o meio
social.
Fundador da anatomia comparada e da paleontologia, Saint Hilaire sustentava a importância
dos postulados da filosofia natural especulativa. Afirmava que existiria entre as plantas e os animais
um tipo de organização comum que influenciaria no seu plano geral de existência na natureza.
Transportado por Balzac dos planos das ciências naturais para os estudos de costumes da sociedade
humana, essa noção é apresentada como uma forma de apresentar os estados das coisas, de maneira
sugestiva, por meio de unidades orgânicas que estariam estruturadas através de uma relação
harmônica entre os indivíduos e o meio ao qual viviam. (AUERBACH, 2013, p. 424).
Balzac ficou tão impressionado com esse modelo de análise das ciências naturais, que na sua
lista de preferidos tinha espaço para Cuvier, Leibniz, Charles Bonnet, Spallanzani, Müller, Gall e
Lavater 7 . Para se ter ideia da tamanha influência que as formulações naturalistas tinham na
concepção de mundo do autor, Balzac transformou o seu conjunto de textos literários em algo
parecido com o conjunto sobre zoologia que foi produzido pelo conde de Buffon 8 publicado entre
1749 e 1789, composto por mais de 36 volumes sobre História Natural. Balzac, acreditava que era
possível realizar uma composição semelhante ao naturalista, que abarcasse detalhes sobre os
costumes, a vida individual, material e a atmosfera moral presente na sociedade. “Não transforma a
sociedade o homem, segundo os meios em que se desenvolve sua ação, em outros tantos indivíduos
diferentes, à semelhança das variedades em zoologia?” (“Prefácio à Comédia Humana”, 2012, p.
103).

5 Emmanuel Swedenborg (1688-1772) naturalista e mineralogista sueco adepto da teosofia e


do misticismo. Segundo Paulo Rónai, a mãe de Balzac foi leitora assídua da obra de Swedenborg. Saint-Martin (1743-
1803) adepto do misticismo de Emmanuel Swedenborg, percorreu vários países para propagar esta doutrina mística em
combate ao sensualismo e ao materialismo.
6 Étienne Geoffroy Saint- Hilaire (1772-1844), foi naturalista e zoólogo francês. Durante a sua
atuação se envolveu numa polêmica científica com Georges Cuvier (1769-1832) que combate fortemente as suas teorias.
Esta polêmica envolveu considerável interesse de outros literatos da época como Goethe e o próprio Balzac.
7 George Cuvier (1769-1832) naturalista francês; Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716)
cientista e matemático alemão; Charles Bonnet (1720-1793) adepto da filosofia especulativa depois de ter abandonado
o misticismo; Lazzaro Spallanzani (1729-1799) fisiologista e estudioso das ciências naturais; Hans Peter Müller (1801-
1858), médico e fisiologista; Franz Josef Gall (1758-1828) fisiologista e filósofo alemão, fundador da ciência da
frenologia e Johann Kaspar Lavater (1741-1801) inventor da fisiognomia, ciência de julgar o caráter das pessoas pelas
expressões faciais.
8 Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista, matemático e
escritor francês. As suas teorias influenciaram duas gerações de naturalistas, entre os quais se encontram Jean-Baptiste
de Lamarck e Charles Darwin.

125
Para o literato, o criador tinha servido de apenas um único padrão para a organização de todos
os seres. E tratando inicialmente das questões que eram associadas ao mundo da zoologia, Balzac
tinha o animal como exemplo de ser vivo transformado pelo meio, limitado por assim dizer, pela sua
natureza já que mantinha o ritmo de vida semelhante em todos os tempos.

O animal tem pouca mobília, não tem arte nem ciência ao passo que o homem por
uma lei que ainda não foi desvendada, tende a reproduzir seus costumes, seus
pensamentos e sua vida em tudo que apropria às necessidades. (“PREFÁCIO À
COMÉDIA HUMANA”, 2012, p. 104-105)

Neste aspecto, de acordo com as estratégias de organização, a sociedade e a natureza se


assemelhavam. Através das analogias biológicas, Balzac construiu suas formulações acerca da
sociedade humana, apontando que as diferenças entre os tipos sociais, os destinos, as relações, as
mudanças comportamentais, o vestuário, as atitudes estariam ligadas como unidades orgânicas ao
meio estruturante da vida em sociedade. Como uma descrição sugestiva o estado das coisas sociais
passou a ser encarado como apreensíveis de interpretação, onde havia a atuação de dispositivos
organizacionais que davam continuidade as relações e a permanência da sociedade. Segundo
Auerbach:

O motivo da unidade do meio apossou-se do próprio Balzac com tanto ímpeto que
os objetos e as pessoas que constituem um meio ganham para ele, frequentemente,
uma espécie de segunda significação [...] (AUERBACH, 2013, p. 42).

Em um trecho do Tratado da Vida elegante: ensaios sobre moda e mesa (1830-1833),


notamos a descrição de um literato profundamente ligado a esse mundo de teorias naturais. Esses
artigos, que foram publicados na época em que o autor atuava assiduamente como jornalista, nos
mostra como antes mesmo de Balzac pensar em construir A Comédia Humana e de publicar alguns
dos seus principais romances, essas ideias já lhes eram familiares.
A vida exterior é uma espécie de sistema organizado que representa um homem tão
exatamente como as cores do caracol se reproduzem em sua concha. Assim, na vida
elegante tudo se encadeia e se comunica entre si. Quando o sr. Cuvier apercebe-se
do osso frontal, maxilar ou crural de algum bicho, daí não induz toda uma criatura,
seja ela antediluviana, e não reconstitui logo um indivíduo classificado, seja entre
os sauros ou os marsupiais, seja entre os carnívoros ou os herbívoros?... Nunca esse
homem se enganou: seu gênio lhe revelou as leis unitárias da vida animal
(BALZAC, 2016 p. 58).
Lavater, Gall e outros fisiologistas descobriram o segredo de adivinhar as afecções
morais, físicas e intelectuais dos homens pela inspeção meditada de suas
fisionomias, de seu modo de andar, de seu crânio. Essa ciência, tão profunda, tão
útil, tão agradável, embora tendo alcançado um alto grau de perfeição ainda não
chegou, porém, ao nível das necessidades atuais e das de nossa civilização francesa;

126
hoje, ela só se dirige a certas classes privilegiadas, a certos indivíduos com chapéu
de doutor (BALZAC, 2016, p. 225).

Essa obra jornalística composta por doze tipos de exposições interpretativas traz para o debate
questões sobre a conformação do espírito, das classes sociais, do movimento, da utilidade dos
apetrechos e suas funções na cidade urbanizada. A primeira parte foi publicada com o título o
Tratado da vida elegante: ensaios sobre a moda e a mesa³ na revista La Mode, nos dias 2,9,16, 23
de outubro e 6 de novembro de 1830.
Segundo Rosa Freire D´Aguiar (2016), esses trabalhos jornalísticos de Balzac nos
apresentam um conjunto de questões que definem muito bem a sua escrita. Percorrendo os espaços
sociais como a rua, os arrabaldes, os salões da alta sociedade, a vida boêmia, as casas dos operários
e dos burgueses, esta investigação jornalística balzaquiana pretende estabelecer a conformação da
origem, da institucionalização e das principais características da “vida elegante”. Além disso, tem
como objetivo desvendar as razões do movimento profundo da sociedade moderna. “Pois os
princípios segundo os quais se conduzem e vivem as pessoas que têm talento, poder ou dinheiro,
jamais se assemelharão aos da vida vulgar. E ninguém quer ser vulgar!... A vida elegante é, pois,
essencialmente a ciência das maneiras” (BALZAC, 2016, p. 37). Vamos observar esse detalhe no
seguinte trecho:
Então, em nossa sociedade as diferenças desapareceram: só restam nuances. Assim,
o savoir-vivre, a elegância das maneiras, o não sei quê, fruto de uma educação,
completam e formam a única barreira que separa o ocioso do homem ocupado. Se
existe um privilégio, ele deriva da superioridade moral. Daí o alto valor atribuído
pela grande maioria à instrução, à pureza da linguagem, à graça do porte, à maneira
mais ou menos natural com que se usa a toalete, ao requinte dos aposentos, em suma,
à perfeição de tudo o que procede do indivíduo (BLAZAC, 2016, p. 42).

Os aspectos gerais, frívolos, secundários são os verdadeiros agentes da sociedade se for


considerar a maneira de análise empreendida por Balzac. Preocupado com as disposições que o
mundo moderno imprimiu na vida da sociedade francesa e a importância que foi dada às coisas da
aparência, suas fisionomias, à análise dos detalhes feita pelo literato pretende interpretar as
disposições morais através da forma como os indivíduos se expressam e se comportam durante as
relações sociais. Os detalhes da personalidade, das perspectivas, intenções e até mesmo da profissão
estão marcadas secundariamente nas formas de se vestir, de falar, de comer, de pensar, de realizar a
toalete e de agir dos agentes humanos com o lugar que ocupam na sociedade.

Coloque aí um cabideiro e pendure roupas! ...Bem. A menos que tenha passeado


como um bobo que não sabe ver nada, você adivinhará o burocrata pelo amarrotado
das mangas, pela larga risca horizontalmente impressa nas costas por conta da
cadeira em que ele se encosta tão frequentemente, enrolando sua pitada de rapé ou
repousando dos cansaços da vadiagem. Você admirará o homem de negócios pelo

127
recheado bolso das cadernetas,; o flâneur, pelos bolsos deformados, onde costuma
manter as mãos; o comerciante, pela abertura extraordinária dos bolsos que vivem
desbeiçados, como para se queixar de estarem privados dos pacotes habituais. Por
fim, um colarinho mais ou menos limpo, empoeirado, gordurento, surrado, botoeiras
mais ou menos gastas, uma aba caindo, a firmeza de uma nova entretela são os
diagnósticos infalíveis das profissões, dos costumes e dos hábitos” (BALZAC,
2016, p. 76).
Preocupado com essas expressões comportamentais dos indivíduos, Balzac acredita que a
sociedade molda os costumes, interfere na forma dos homens de se relacionarem e cria novos tipos
comportamentais. Assim sendo, o autor estabelece na primeira parte do seu tratado denominado
“Generalidades”, que a Revolução foi muito além de uma mudança política e redirecionou a
sociedade francesa em todos os seus aspectos. Inclusive criando novas disposições para a vida social
que separam a atuação do trabalho, das questões do pensamento e da vida do talento, a almejada
“vida elegante”.
A vida elegante repousa, ao contrário, nas deduções mais severas da constituição
social. Não é ela o hábito e os costumes das pessoas superiores que sabem usufruir
da fortuna e obter do povo o perdão de sua elevação graças aos benefícios
espalhados por suas luzes? Não é ela a expressão dos progressos feitos por um país,
já que representa todos os seus gêneros de luxo? Por fim, se ela é o indício de uma
natureza aperfeiçoada, todo homem não deve desejar estuda-la e flagrar seus
segredos? ” (BALZAC, 2016, p.44).
Portanto, hoje, para diferenciar nossa vida pela elegância já não basta ser nobre ou
ganhar um bilhete premiado numa das loterias, ainda é preciso ter sido dotado dessa
indefinível faculdade (o espírito de nossos sentidos, talvez!) que sempre nos leva a
escolher as coisas verdadeiramente belas e boas, as coisas cujo conjunto combina
com nossa fisionomia, com nosso destino. É um tato sofisticado, cujo exercício
constante é a única maneira capaz de fazer descobrir de súbito as relações, prever
as consequências, adivinhar o lugar ou o alcance dos objetos, das palavras, das
ideias e das pessoas; pois, para resumir, o princípio da vida elegante é um
pensamento elevado de ordem e de harmonia destinado a dotar as coisas de poesia
(BALZAC, 206, p.43).

Fisionomias. Ideias. Princípios. Ordem. Harmonia. A sociedade constrói todas essas


possibilidades. Com uma pretensão à descrição naturalista, o formato do tratado composto por
aforismas, máximas, “fisiologias”, apresenta uma preocupação com a educação dos indivíduos
modernos e burgueses que precisaram se acomodar às novas reinvindicações da vida em sociedade.
Com isso, a obra balzaquiana pode apresentar aspectos parecidos com os códigos de boas maneiras,
elucidando condutas positivas ou negativas de acordo com a moda e com a elegância (d´AGUIAR,
2016).

Então, já não é indiferente desprezar ou adotar as fugazes prescrições da MODA;


pois Homens molem agitat: adivinha-se o espírito de um homem pela maneira como
ele porta sua bengala. As distinções se aviltam, ou morrem ao se tornar comuns;
mas existe uma força encarregada de estipular novas, trata-se da opinião aplicada à
roupa. Sendo a roupa o símbolo mais enérgico de todos, a Revolução foi também
uma questão de moda, um debate entre a seda e a lã. Mas hoje A MODA não está

128
mais restrita ao luxo da pessoa. O material da vida, tendo sido objeto do progresso
geral, conheceu um imenso desenvolvimento. Não há uma só de nossas
necessidades que não tenha produzido uma enciclopédia, e nossa vida animal se liga
à universalidade dos conhecimentos humanos. Assim, ao ditar as leis da elegância,
a moda abarca todas as artes. É o princípio das obras e dos labores. Não é ela o
sinete com que um consentimento unânime sela uma descoberta ou marcas
invenções que enriquecem o bem-estar do homem?” (BALZAC, 2016, p.44).

Desnaturalizando a vida comum, o cotidiano, o literato sugeriu que a descrição material


encontraria certo tipo de ligação com a atmosfera moral. Segundo Carlo Ginzburg (2007), os traços
românticos de Balzac estiveram próximos ao que historiador denominou de uma “atitude
historicista”, mostrando que as múltiplas formas culturais de um momento estariam unidas por uma
coerência subterrânea, que deveriam ser desvendadas pelo estudo científico. Paralelo a isso, temos a
seguinte afirmação de Erich Auerbach:
[...] todo espaço vital torna-se para ele uma atmosfera moral e física, cuja paisagem,
habitação, móveis, acessórios, vestuários, corpo, caráter, trato, ideologia, atividade
e destino permeiam o ser humano, ao mesmo tempo em que a situação histórica
geral aparece, novamente, como atmosfera que abrange todos os espaços vitais
individuais” (AUERBACH, 2013 p. 423).

O projeto que foi praticado com a construção de A Comédia Humana deixou clara essa
predisposição balzaquiana. Pretendendo realizar uma investigação sobre as razões sociais que
garantiam a manutenção e continuação da sociedade, Balzac empreendeu a busca pelo sentido que
estava oculto na imensa reunião de tipos, paixões e acontecimentos sociais. Como um “arqueólogo
do mobiliário social” (“PREFÁCIO À COMÉDIA HUMANA”, 2012, p.108), o literato francês
manteve seu interesse pelas conformações da variedade da natureza humana, na tentativa de
desvendar os vícios e as virtudes que lhes são peculiares.
A composição de uma história dos costumes, esquecidas pelos historiadores na visão do
literato, esteve associada a esse plano, de resgatar os caracteres múltiplos e homogêneos que dão
vida aos fatos e às paixões no interior das experiências conformadas pela sociedade francesa.
Influenciado pelo desejo em realizar uma análise comparativa entre “a humanidade e a animalidade”
(“PREFÁCIO À COMÉDIA HUMANA”, 2012, p.101), Balzac amplia as estruturas da obra literária,
sobretudo o romance. E esse tipo de descrição é uma estratégia narrativa muito frequente no romance
Ilusões Perdidas. Abaixo, nas seguintes descrições temos esse exemplo. A primeira é a apresentação
da figura de um típico operário provinciano, e na segunda é a descrição de determinados detalhes
físicos que diferenciam Lucien de Rubempré e David Séchard, Balzac descreve suas caraterísticas
da seguinte forma:
Jerônimo Nicolau Séchard havia trinta anos usava o famoso tricórnio municipal,
que, nalgumas províncias, ainda se encontra à cabeça do tamboreiro da cidade. O
colete e as calças eram de veludo verdoso; vestia um velho redingote castanho,

129
meias variegadas de algodão e sapatos com fivela de prata. Tais vestes burguesas
mal disfarçavam o operário e condiziam tão bem com elas; não se poderia imaginá-
lo sem elas tal como não se concede uma cebola sem casca” (BALZAC, 1981, p.17).

A polidez mundana quando não é um dom do alto nascimento, uma ciência bebida
com o leite ou transmitida pelo sangue, constitui uma educação que o acaso deve
secundar com uma certa elegância de formas, com uma distinção de traços, com um
timbre de voz. Todas essas grandes pequenas coisas faltavam a David, enquanto que
delas a natureza havia dotado seu amigo. Nobre por parte de sua mãe, Lucien
possuía até mesmo o pé alto e arqueado do franco, enquanto David Séchard tinha
os pés chatos do camponês e o cachaço vulgar do pai, o impressor” (BALZAC,
1981, p.44).

Considerada uma das obras primas do literato, Ilusões Perdidas pode ser analisada como um
típico romance de costumes, que foi pulicado na França entre os anos de 1837 a 1843. Balzac
trabalhou por assim dizer quase toda a sua vida e pelo menos a maior parte da sua carreira nessa
obra. Para alguns, Lucien Chardon de Rubempré, protagonista do romance, pode ser considerado
como uma das criações mais completas do literato. Esse romance faz parte da galeria de A Comédia
Humana que Balzac denominou como os “estudos de costumes”.
Trazendo em sua centralidade a trajetória de vida do jovem provinciano Lucien Chardon de
Rubempré, Ilusões Perdidas resgata através da justaposição de ambientes bastante complexos da
sociedade francesa: a província – protagonizada por Angoulême – e a capital parisiense, uma
representação da realidade cotidiana e dos costumes franceses que circulavam durante a Restauração
monárquica. Para isso, o seu personagem principal, Lucien, percorre caminhos simbólicos por meio
da narrativa do romance que o fazem representar um tipo social francês encantado com as
oportunidades do mundo moderno. Da província à capital, Lucien encontra desde aventuras até
ilusões, entrou em contato com diversos “mundos” sociais desde operários, aristocratas, jornalistas,
tipógrafos, poetas e entre outros.
Apresentado como filho de um farmacêutico e de uma parteira da província de Angoulême,
Lucien Chardon de Rubempré vive desencantado com a sua realidade interiorana e busca romper
definitivamente com as limitações que o cercam. Incentivado por familiares e pelo melhor amigo
David Sechárd que acreditam no talento do jovem, Lucien provido da sua inteligência, dirige-se a
capital parisiense para conquistar riqueza e prestígio no meio literário. Com o apoio da Senhora de
Bargeton, uma aristocrata da província com quem mantém relações afetuosas, passa a frequentar
outra parte da esfera social considerada um lugar daqueles que possuem belas maneiras. Lucien que
vê essa relação como uma grande oportunidade, acaba entrando em contato com a pequena nobreza
provinciana que, diferente dos costumes parisienses, representa “uma prataria de velho estilo,
enegrecida, mas pesada” (BALZAC, 1981, p.37). Esse contato o leva a desenvolver pretensões

130
maiores. Não podemos esquecer que o momento ao qual Balzac reflete a trajetória de Lucien, entre
os anos de 1821 a 1830, a França vivia um cenário caótico, onde os adeptos da Restauração tentavam
a todo momento sobreviver às transformações modernas.
Delineando a posição da nobreza na França e dando-lhe esperanças que não se
poderiam realizar sem um transtorno geral, a Restauração aumentou a distância
moral que separava, mais fortemente que a distância local, Angoulême do
Houmeau. A sociedade nobre, unida então ao governo, tornou-se ali mais
exclusivista que em qualquer outro lugar na França. O habitante do Houmeau
parecia-se muito a um pária. Daí procederam aqueles ódios surdos e profundos que
deram espantosa unanimidade à insurreição de 1830 e destruíram em França os
elementos de um estado social durável. A arrogância da nobreza da corte
desafeiçoou do trono a nobreza da província, tanto quanto esta dele afastava a
burguesia ferindo-lhe todas as vaidades” (BALZAC, 1981, p.30).

Considerações Finais

Assim, tendo em vista esta análise apresentada, podemos afirmar que Literatura e História são formas
diferente de apreensão do mundo real. Hoje, devido as grandes transformações que os postulados
normativos da história enfrentaram, sabemos que existe uma possibilidade de ligação entre a prática
e escrita histórica com a narrativa literária e consequentemente a aceitação no campo científico de
que a ficção pode conter, em alguma medida, fragmentos da realidade. Historiadores até então
preocupados com as formulações narrativas destes dois discursos recuperaram um debate que pode
ser encontrado no século XIX. Portanto, nestes dois textos balzaquianos podemos observar um
possível projeto de escrita historiográfica. Para o autor, a história era uma descrição das
singularidades de um povo e de uma época através do esforço em delimitar as especificidades de um
contexto social. E na sua concepção, os estilos de escrita literária, jornalística e historiográfica
estariam em constante relação.

Bibliografia

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roxo e outras terras- Revista de Estudos literários. Londrina: Programa de Pós-graduação em
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literatura ocidental. 6º Ed. São Paulo: Perspectiva. 2013, pp. 405-441.

131
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introdutória de Paulo Rónai. São Paulo: Abril Cultura, 1981.
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costumes: cenas da vida privada. Orientação, introdução e notas de Paulo Rónai. Tradução de Vidal
de Oliveira; 3º ed. São Paulo: Globo, 2012, pp. 100-119.
__________________. Tratado da vida Elegante. Ensaios sobre a moda e a mesa. Organização,
apresentação, tradução e notas de Rosa Freire D´Aguiar. 1º ed. São Paulo: Peguin Classics
Companhia das Letras, 2016.
GINZBURG, Carlo. “ A áspera verdade – Um desafio de Stendhal aos historiadores”. In: O fio e os
rastros: verdadeiro, falso, fictício. Tradução de Rosa Freire d´Aguiar e Eduardo Brandão. São Paulo:
Companhia das letras, 2007, pp. 170-188.
GUINSBURG, James. “Romantismo, Historicismo e História”. In: O Romantismo. São Paulo:
Perspectiva, 2013, pp.13-22.

LEFEBVRE, George. “ Definições e problemas de base”; “O romance histórico”. In: O nascimento


da moderna historiografia. Tradução de José Pecegueiro. 1º ed. Lisboa: Sá da Costa editora, 1981,
pp. 11-34/ 174

RIBEIRO, Rosária Cristina Costa. “ Alguns fundamentos do romance histórico”. In: A espacialidade
no romance histórico francês no século XIX: Balzac, Hugo e Elémir. Tese (Doutorado em Estudos
Literários) USP- Faculdade de Ciências e Letras, 2013, pp. 16-33.

RÓNAI, Paulo. “ A vida de Balzac, por Paulo Rónai”. In: A Comédia Humana: estudos de costumes:
cenas da vida privada. Orientação, introdução e notas de Paulo Rónai. Tradução de Vidal de
Oliveira; vol.1, 3º Ed. São Paulo: Globo, 2012, pp. 10-99.

132
Letrados e dedicatórias impressas no Brasil oitocentista

Ana Carolina Galante Delmas1

Resumo: Com a trasladação da Família Real Portuguesa, cruzaram também o Atlântico práticas e
sociabilidades características do Antigo Regime, dentre elas a do oferecimento de dedicatórias
impressas como elemento de trocas simbólicas. As dedicatórias, representativas das relações de
mecenato, são símbolos das relações políticas apoiadas na hierarquia vigente, e das trocas efetuadas
na busca por poder e influência. Muitas das obras publicadas a partir de 1808 foram dedicadas a
figuras sociais ou políticas importantes, e um número expressivo ao soberano D. João. No Brasil,
apesar de guardar muitas semelhanças com seu contexto original, a prática adquiriu características
próprias de sua manifestação tropical. As obras dividiram-se entre obras políticas, literárias,
científicas e um elevado número de orações e sermões, característica de uma sociedade marcada pelo
fervor religioso. Constatada a existência da prática no Brasil das primeiras décadas do oitocentos,
busca-se analisá-la ao longo do século XIX e compreender por que alguns letrados alcançavam
franco sucesso utilizando tais homenagens, recebendo benesses e publicando mais obras com
dedicatórias, ao passo que outros não tinham seus elogios bem recebidos. Procura-se também
demonstrar como esses letrados constituíram-se ou não em intelectuais. Sendo o projeto proposto
inovador, muito está sendo descoberto ao longo da realização das pesquisas, abrindo espaço para
outras questões e enriquecendo o trabalho e os estudos da história do livro e da política no Brasil
oitocentista.

Palavras-chave: Mecenato - Família Real – Trocas simbólicas

Abstract: With the transfer of the Portuguese Royal Family, the practices and sociabilities
characteristic of the Old Regime also crossed the Atlantic, and amongst them the offering of printed
dedications as an element of symbolic exchanges. These dedications, representative of patronage
relations, are symbols of the political relations supported in the current hierarchy, and the exchanges
made in the search for power and influence. Many of the works published since 1808 were dedicated
to important figures, social or political, and an expressive number aimed the sovereign D. João. In
Brazil, despite having many similarities with its original context the practice acquired characteristics
of its tropical manifestation. The works were divided between political, literary, scientific works and
a high number of prayers and sermons, characteristic of a society marked by a religious fervor.
Having established the practice in Brazil of the first decades of the nineteenth century, it is sought
to analyze it throughout the nineteenth century and to understand why some literates achieved
success using such honors, receiving blessings and publishing more works with dedications, while
others praises were not well received. It is also sought to demonstrate how these literates became or
not intellectuals. As the proposed project is innovative, much is being discovered throughout the
research, opening up space for other issues and enriching the work and studies of the history of the
book and politics in nineteenth-century Brazil.

Keywords: Patronage - Royal Family - Symbolic exchanges

1 Doutora em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio


de Janeiro. Bolsista de pós-doutoramento pela FAPERJ na UERJ. E-mail: anacdelmas@globo.com

132
O Antigo Regime teve suas estruturas abaladas pela Revolução Francesa, porém deixou
permanências no ambiente da Europa e também do Brasil do século XIX. Mesmo perspectivas
divergentes em relação à ruptura total e ao desmoronamento de determinados aspectos concordam
que o referido sistema deixou marcas por várias décadas subsequentes. Uma dessas permanências
foi a prática das dedicatórias, reflexo da continuação das relações de mecenato, e demonstração de
que a hierarquia social não foi tão profundamente modificada.
As relações entre soberanos e letrados fazem parte de práticas ligadas ao Antigo Regime e a seu
complexo sistema de mercês e concessões, presentes de forma latente nos costumes e hábitos da
corte. Nessa sociedade, estavam presentes, nos mais diversos aspectos, os privilégios e as estruturas
de manutenção do poder, por parte do rei e dos indivíduos; o valor era determinado pela importância
social, adquirido pelo reconhecimento dos demais. i A independência do soberano em relação aos
demais é por sua vez algo apenas aparente; este também se apoia no sistema de trocas e privilégios
para manter sua valorização: torna todos seus dependentes para que continuem reunidos à sua volta. ii
A dedicatória impressa era personificação da troca de benefícios por prestígio e afirmação de poder;
manifestação textual dessa relação de interdependência, da troca de poder simbólico por privilégios
com rendimentos materiais. O grupo de letrados da elite era dotado ou procurava dotar-se de
instrumentos materiais e culturais que lhe permitisse assegurar o monopólio da cena política, do
privilégio e da concentração do poder; em geral, tempo livre e capital cultural. Soma-se a essas
características a capacidade de produzir um bem cultural digno de ser oferecido, e que também
pudesse ser reconhecido pelos demais como símbolo de afirmação e enaltecimento do poder do rei -
um bem cultural que fizesse uma declaração pública do poder real expressiva a ponto de ser
recompensado por isso.
Nos livros manuscritos, observaram-se as primeiras expressões das dedicatórias: a presença
de uma expressão iconográfica do tributo, em que se podia ver a figura de um letrado-súdito
ajoelhado, totalmente submisso, oferecendo sua obra aos pés de um soberano, solenemente, sentado
ao trono. A atmosfera de sacralidade e importância simbólica da dedicatória pode ainda ser percebida
ao se observar os termos dedicar (dédier) e dedicatória (dedicace), que designam tanto a
consagração de uma igreja quanto o oferecimento de um livro; ambos elogios públicos utilizados na
busca por proteção.iii Quando do aparecimento dos livros impressos e de um esboço do papel do
autor, houve, então, uma afirmação da identidade do criador da obra, que se colocava em uma
posição mais próxima do soberano sem que fosse abandonada a relação de vassalagem e de
mecenato. A figura do autor se impunha, bem como sua identidade e função; porém, a distinção
hierárquica das posições sociais, das funções e das relações permanecia, assim como a posição de
cada uma das partes na relação de patronato.

133
A obra Elementos de desenho, e pintura. E regras geraes de perspectiva. Dedicadas ao Senhor Rey
D. João VI, de Roberto Ferreira da Silva, publicada pela Impressão Régia em 1817, nos dá indícios
da prática no Brasil é Além de ser exemplo da existência da prática das homenagens impressas na
América Portuguesa, deixa transparecer que essa importante expressão sócio-político-cultural
seguia, no Brasil, princípios semelhantes àqueles de seu contexto original.
SENHOR,
Três são os motivos, que obrigam os Escritores a dedicar suas obras aos Grandes
Príncipes: procurar que possam correr por todas as partes livres da censura, á que se
expõem todas as obras públicas; esperar do conhecimento de tão altos Senhores uma
pia correção; e finalmente ganhar por este meio suas Régias considerações: e como
todas estas circunstâncias me assistem para com VOSSA MAJESTADE, não
poderia, sem que fosse taxado de ingrato, dedicar este meu primeiro trabalho senão
a VOSSA MAJESTADE, que me pondo a coberto de qualquer censura, ao mesmo
tempo me assegura do acolhimento que devo esperar de todos, que a exemplo de
VOSSA MAJESTADE, se dedicam ao conhecimento das Artes Ciências. 2

Mesmo com várias modificações ao longo de sua história, livros e impressos nunca perderam
suas características de sinais e instrumentos de poder, ligados às elites políticas, culturais e
econômicas, ou seja, àqueles que acumulavam não apenas privilégios culturais (do saber e da
escrita), mas da capacidade econômica de estar cercado de livros. Vistos como ameaçadores do
sistema vigente, eram, muitas vezes, considerados perigosos, incluídos em órgãos de censura como
a Real Mesa Censória, em Portugal. A proibição de um livro, no entanto, raramente cumpriu sua
função, uma vez que aguçava ainda mais a curiosidade dos leitores, chegando mesmo a aumentar
sua circulação.iv De fato, foram disseminadores de ideias e cultura, formadores de opinião e símbolo
do chamado processo civilizador.v
Ao longo da história do livro, novos papéis foram se constituindo: um dos primeiros que se
destacou foi o livreiro-editore. Preocupados com o lucro e com os rumos da lógica editorial, os
livreiros-editores foram responsável por grandes inovações materiais, comerciais e culturais vi que
contribuíram, invariavelmente, como guias das práticas de leitura e do próprio processo civilizador.
O papel do autor, por sua vez, foi uma questão que percorreu todo o Antigo Regime, até alcançar uma
conceituação mais precisa, caracterizando-se mesmo certa indefinição sobre seu próprio conceito. O
direito de declarar a autoria de uma obra é algo que começa a ser delineado, mas que permanece sem
uma caracterização sólida, até meados do Século XIX.vii O direito autoral não tinha, então, cunho de

2 Elementos de desenho, e pintura. E regras geraes de perspectiva. Dedicadas ao Senhor Rey D. João VI.
Por Roberto Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 3.

134
propriedade intelectual, e considerado um privilégio, poderia ser revogado ou mesmo ignorado,
resultando na perda dos direitos e na impressão não autorizada de livros. viii
A instabilidade acerca da propriedade intelectual personificava o principal motivo da inconstância
da vida do homem de letras. Não era possível viver da própria pena, fazendo com que o autor
procurasse outros trabalhos, especialmente os cargos públicos. Buscavam também o apoio de um
mecenas, alguém que fosse capaz de lhes oferecer tanto um suporte financeiro quanto a estabilidade
de que necessitavam para se dedicarem às suas obras. Os cargos públicos eram conseguidos por meio
do mesmo prestígio, das mesmas trocas com que se acordavam as práticas do mecenato. E eram
variadas as considerações que determinavam o patrocínio do Estado, recompensando-se em certos
casos, letrados cujos escritos constituíssem propaganda favorável ao regime vigente.
No processo para a aquisição de tais privilégios, para os letrados de qualquer origem, encontram-se
as dedicatórias impressas. Esse era um procedimento carregado de simbologia, que abria as portas e
garantia o futuro de muitos letrados. Além disso, o mecenato privado era menos almejado que o
apoio de um soberano; aqueles que não podiam contar com suas propriedades, cargos ou rendas,
aparentemente eram agradecidos por depender de gratificações da realeza. O amparo de um soberano
ia além das ambições de um mecenas opressor: com a proteção de um soberano, apesar de algumas
concessões serem necessárias, como as obras encomendadas, o letrado sofria menos censura e podia
obter maior liberdade para seu pensamento e seu espírito filosófico. ix
Como o poder de um mecenas da realeza era superior ao de qualquer outro, não surpreende, portanto,
o número de dedicatórias direcionadas aos soberanos. A dedicatória personificava, no universo dos
livros, a relação de patronato e proteção já existente nas relações sociais. No contexto do Antigo
Regime, o oferecimento de um livro ao soberano, com o objetivo de elogiá-lo e homenageá-lo,
constituiu um dos gestos mais tradicionais de submissão do autor. Estabelecia-se uma relação entre
autor e soberano, ao se publicar uma dedicatória, e essa relação iniciava-se, nas primeiras páginas de
um livro, saído de um prelo.
O ato de homenagear o soberano, por meio da dedicatória, em geral, esperava por uma recompensa,
nem sempre recebida, sem que isso significasse um abalo para a prática. Em uma sociedade de trocas,
a dedicatória favorecia aquele que oferecia a homenagem e, também, ao soberano que, elogiado e
reconhecido, muitas vezes, como fonte de inspiração, colecionava em sua biblioteca símbolos de seu
poder absoluto. A homenagem atendia, assim, aos interesses de ambos, estabelecendo-se como
recurso bastante valioso e necessário na Europa. As dedicatórias são capazes de estabelecer uma
primeira rede ao redor daquele que oferece a homenagem, possibilitando uma aliança entre
soberanos, grandes e escritores ou eruditos, ligada a uma Europa das Luzes. x A utilização da

135
dedicatória, por conseguinte, uniu homens de letras que visitavam idéias filosóficas iluministas, a
uma valorização das formas clássicas de mecenato.
Ainda no século XVIII, a dedicatória apresentava-se como uma das melhores formas de atrair
as boas graças de um rei.xi Especialmente no ambiente do Antigo Regime, em que o aspecto físico
das obras era altamente considerado, e o material com que se fabricava a página tão importante
quanto a mensagem nela impressa. xii O oferecimento de uma obra estava ainda sujeito a outra
ocorrência, a da apropriação de uma publicação. A valorização do ato de se dedicar uma obra, e dos
privilégios que poderiam ser adquiridos, levou livreiros e tradutores a se apropriarem de uma obra
para dedicá-la. Doavam obras que não haviam escrito, utilizando-se do texto das dedicatórias para
buscar para si a proteção real, o que ocasionava rivalidade, especialmente entre o autor da obra e
aquele que havia produzido a edição.
Os elogios impressos funcionaram em sociedades nas quais circulavam poder, dinheiro e
vontade dos poderosos – nem sempre estáveis –, e, portanto, sujeitas às possibilidades de mudanças.
Quando bem sucedido o tributo, o que homenageava garantia um mecenas, um protetor; ao ser
elogiado, o soberano sentia-se louvado e demonstrava seu poder sobre os demais. Com a compilação
de várias obras dedicadas, várias joias na coleção, a biblioteca passava a ser mais do que uma coleção
de riquezas ou de obras úteis, mas “um espelho onde se reflete o poder absoluto do príncipe”. xiii
Independentemente de serem organizadas em uma coleção, as dedicatórias destacaram-se
como objeto personificador da troca de poder simbólico, como representação do reconhecimento
público de submissão ao poder do soberano. Essas relações de mecenato, características do Antigo
Regime, também se manifestaram no Antigo Regime dos trópicos.xiv Mesmo na América Portuguesa,
já se manifestavam características político-sociais, acolhedoras para esse tipo de trocas simbólicas.
Antes mesmo das primeiras publicações da Impressão Régia contarem com páginas destinadas às
dedicatórias, reproduzia-se no Brasil um débil ambiente europeu: sua política, burocracia e suas
relações de sociabilidade foram trazidas pelos portugueses, características que seriam
compartilhadas de forma mais profunda após 1808.
O sistema de mercês era prática antiga na sociedade lusa, forma de acumulação presente em todo o
âmbito do Antigo Regime português, uma vez que produzia súditos para a Coroa, gerando laços de
lealdade e interdependência. A chamada “economia do bem comum” apoiava-se na concessão de
privilégios, pelo Rei ou por suas autoridades, em troca de serviços prestados, como garantia de
monopólios e apoio político. Essa rede de alianças, baseada em uma rede de reciprocidades, por meio
de dons e contradons, era arquitetada em nome da manutenção do “interesse do bem comum” e do
“bem-estar dos vassalos”; leia-se do bom funcionamento do governo e dos interesses da coroa,
admitidos como o bem comum. Tal sistema permitia não somente o monopólio de bens e serviços

136
indispensáveis ao público, como a estruturação de um mercado regulado pela política e uma
hierarquização social excludente, típica do Antigo Regime. xv
Para organização e afirmação do governo de D. João no Brasil, fez-se necessária a distribuição de
títulos, comendas, honras, mercês, cargos públicos e privilégios. Essas benesses, porém, foram
menos generosas com os naturais da terra, que, além de representarem um número menor de
indivíduos que receberam títulos, também foram agraciados com titulações mais baixas na hierarquia
nobiliárquica, perdendo espaço para os recém-chegados portugueses. xvi Ainda assim, as elites da
América Portuguesa não deixaram de buscar pelo aumento de sua distinção social.
O ato régio de concessão de honras e privilégios, aos súditos de origem portuguesa ou aos nascidos
no Brasil, foi elemento que instituiu a chamada “economia do dom”, em que os beneficiados
passaram a estar ligados ao monarca por uma rede assimétrica de relações de trocas de favores e
serviços. O favorecimento pelo rei era procurado por ter o poder de aumentar o status de nobreza e
grandeza, o que contribuía para a formação de uma sociedade altamente hierarquizada e excludente.
Além disso, essas concessões eram demonstração do esforço do rei em controlar a representação dos
xvii
indivíduos na sociedade, regulando da mesma forma as delimitações hierárquicas. A
exclusividade sobre a distribuição dos privilégios concedia ao monarca domínio sobre as estruturas
sociais e institucionais, tanto na corte quanto em suas periferias.
A vinda da Família Real e a abertura da Impressão Régia permitiram que essas relações de troca
fossem traduzidas em sua forma impressa, concedendo novas oportunidades, especialmente à elite
de letrados. O indivíduo que requeria uma mercê ou oferecia uma homenagem, em troca das boas
graças reais, reafirmava sua obediência como súdito. A legitimidade dessa troca de favores não
garantia, no entanto, no caso das dedicatórias impressas, a obrigatoriedade da retribuição. Os
acontecimentos do ano de 1808 permitiram, por conseguinte, uma nova dinâmica das relações de
uma “economia política de privilégios”, que relacionava, em termos políticos, o discurso da
conquista e a lógica das graças inscrita na economia de favores estabelecida por meio da
comunicação pelo dom. Esta já ocorria desde meados do Século XVII, uma vez que o Brasil era área
privilegiada na hierarquia espacial do Império Português, mas diante da nova situação política,
assumiu novas feições em uma sociedade dominada pelo ethos aristocrático, abrindo mais espaço
para os súditos nascidos na antiga colônia.
No início do século XIX a antiga colônia apenas começava a se estruturar em sede da
monarquia: os letrados estavam sujeitos a um fraco mercado literário, o que os tornava
fundamentalmente dependentes do poder da Coroa, fato que se perpetuou ao longo de quase todo o
oitocentos. Assim, para sobreviverem, necessitavam das benesses reais para manter uma carreira
estável e alcançar cargos na burocracia administrativa. No ambiente luso-brasileiro – carente de um

137
público consumidor mais amplo, que pudesse proporcionar aos produtores dos bens simbólicos
determinada autonomia –, era a Coroa quem assumia a função não somente de mercado para os bens
simbólicos que surgiam, mas de instância de reprodução, difusão e, especialmente, de consagração
para eles. Não havia espaço, assim, para a ruptura de vínculos com uma economia de mecenato; o
sistema de produção e circulação de bens simbólicos estava sujeito a determinados critérios de
avaliação dos produtos por parte da Coroa – que ainda era principal responsável pelo reconhecimento
do valor desses bens, concedendo-lhes tanto remuneração material quanto simbólica.
O contexto do Brasil que recebeu D. João e sua corte assemelha-se ao contexto de Portugal
do início do oitocentos: um alto número de iletrados, uma cultura fortemente marcada pela oralidade
e uma cultura escrita reservada apenas a alguns homens notáveis. xviii Em um Rio de Janeiro colonial,
a recriação do aparelho central do Estado português e a demanda pela modernização de acordo com
o modelo europeu alteraram drasticamente o estilo de vida. Os desejos de D. João de permanecer no
Rio de Janeiro aproximaram a cidade de forma efetiva ao status de capital do império luso-brasileiro.
Embora visto como um monarca cujos traços de caráter se sobrepunham às habilidades políticas, D.
João demonstrou-se responsável pelo impulso de emancipação intelectual e, logo, pela formação de
intrincadas redes de práticas culturais no Brasil. A Impressão Régia, além de documentos oficiais,
cuidou da publicação de jornais, de obras de cunho científico e literário, e de folhetos políticos. O
ritmo crescente de publicações estimulou o estabelecimento de livreiros e livrarias, mas ainda assim,
para a restrita elite letrada, vivendo em uma cidade com um fraco mercado literário, o uso das
dedicatórias atingiu grande importância.
Pode-se observar que as primeiras publicações da Impressão Régia já contavam com páginas
destinadas às dedicatórias. A produção de livros no Rio de Janeiro dependia quase exclusivamente
única tipografia oficial, e a leitura de livros continuava sendo um privilégio de poucos. Foram
publicadas, entre 1808 e 1822, 1428 obras. Destas, 229 foram oferecidas em homenagem, dividindo-
se da seguinte forma:

138
Ano Obras Publicadas Obras oferecidas
1808 37 09
1809 69 21
1810 94 15
1811 73 25
1812 72 22
1813 37 09
1814 35 09
1815 56 07
1816 52 14
1817 66 19
1818 50 17
1819 43 09
1820 46 07
1821 270 24
1822 428 22
Total 1428 229
Fonte: Ana Maria de Almeida Camargo & Rubens Borba de Moraes. Bibliografia da Impressão Régia do
Rio de Janeiro. São Paulo: Edusp/Kosmos, 1993. V. 1.

Infelizmente, não foi possível localizar exemplares de todas as 229 obras, mas através de
obras de referência como o referido inventário da Bibliografia da Impressão Régia Ana Maria de
Almeida Camargo & Rubens Borba de Moraes pôde-se estabelecer o número de obras oferecidas à
diversos indivíduos, como por exemplo aos membros da Família Real:

D. João: 96 D. Pedro & D. Leopoldina: 1


D. João & D. Carlota: 1 D. Leopoldina: 1
D. João e Príncipes Reais: 1 D. Maria Teresa: 4
D. Carlota Joaquina: 1 D. Maria Teresa e D. Pedro Carlos: 1
D. Maria I: 8 D. Pedro Carlos: 4
D. Pedro: 17 D. Maria Anna: 1

As homenagens escritas pelos componentes da elite intelectual do Brasil tinham na retórica


a tônica de seus discursos, fundamentando argumentações específicas para o público (ou indivíduo)
a que se dirigia, capazes de seduzir o leitor, envolvendo-o para se atingir o objetivo desejado.xix O
tom laudatório visava convencer o soberano da lealdade e do merecimento de favores e mercês. Os
textos eram marcados pelas citações de clássicos latinos ou de autores europeus em voga, utilizadas
para fundamentar a argumentação, e conceder credibilidade ao escrito. As frases bem escritas e a
retórica do convencimento e do elogia assumiam grande importância nessa sociedade em que a
educação era vista como ornamento. A utilização da retórica oferecia diversas possibilidades no

139
engendramento de elogios, levando o leitor a tomar como verdade o que lia, e envolvendo-o para
atingir o objetivo desejado. Além dos elementos citados, encontram-se citações bíblicas e de fatos
históricos, afirmações de submissão e lealdade; elogios a toda a ascendência do homenageado;
enaltecimento às características de temperamento e de caráter; além dos desejos de um futuro
próspero. A grande maioria das dedicatórias termina em uma espécie de “expressão-padrão” - “o
mais fiel e humilde vassalo” -, antecedendo a assinatura daquele que oferece a obra.
As dedicatórias no Brasil joanino não foram impressas apenas em obras literárias ou científicas com
suas primeiras páginas reservadas ao espaço da homenagem. Grande parte das obras elogiosas
constitui-se de orações, sermões, odes, poesias e cantigas em louvor. As primeiras se destacam em
número, oferecidas em ação de graças ou em louvor fúnebre, confirmando a importância do fervor
religioso da corte portuguesa. Era comum quando da publicação de uma oração, que essa fosse
oferecida a outro que não fosse o objeto de seu pronunciamento, mas outra figura expressiva que
guardasse relação com o elogio original. Também é possível observar que, independente de quem
fosse o alvo das dedicatórias, estavam presentes os elogios ao soberano D. João.
No período delimitado para pesquisa, existiu ainda uma imprensa particular, entre os anos de 1811
e 1819: a Tipografia de Antônio Manuel Silva Serva, em Salvador, Bahia. xx Essa casa impressora
publicou 127 obras, das quais 37 foram dedicadas. Destas, 11 destinaram-se a D. João VI, 8 a D.
Marcos de Noronha e Brito (Conde dos Arcos), sendo as demais dirigidas a membros da Família
Real e das elites. Assim como no caso da Impressão Régia, a distribuição dessas obras também
acompanhou a dinâmica política da Corte, reagindo a acontecimentos como a elevação do Brasil a
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves; aos clamores de Portugal pela volta de seu soberano
após a derrota de Napoleão; a aclamação do rei D. João VI e afirmação do Rio de Janeiro como
capital do império português; as Revoluções de Pernambuco e do Porto; e à volta do soberano D.
João em 1821 (que tornou D. Pedro o objeto expressivo das dedicatórias.
Somando-se as obras elogiosas publicadas pela Impressão Régia e pela A Tipografia de Silva Serva,
tem-se um total de 265 publicações. O grupo de autores contabiliza mais de 130 letrados. Ao se
considerar as possibilidades de acesso ao letramento, esse número torna-se expressivo. Ainda assim,
observam-se possibilidades variadas para o uso das homenagens impressas. Os textos das
dedicatórias seguiram de maneira muito próxima a expressão da prática em sua forma original.
Em geral seguiam o propósito da homenagem, procurando chamar atenção para a requisição de seus
autores. Assumiam também a forma de agradecimento por algo já recebido. Procuravam ratificar a
posição de súdito fiel, e comprovar o merecimento de mais benesses. O espaço da dedicatória podia
abrigar explicações sobre os motivos que levaram à publicação, e de que forma esta poderia ser útil
às aspirações do homenageado e para o Brasil.

140
Ocorriam requerimentos de privilégios como a exclusividade dos direitos de impressão e a
obrigatoriedade do pagamento por esses direitos. Alguns autores valiam-se do espaço aberto pela
homenagem para comprovar suas habilidades intelectuais e sua importância, tentando
demonstrarem-se indispensáveis. Nesse ensejo, ainda que de forma incomum, observam-se
sugestões para elaboração de novas e igualmente úteis e imprescindíveis publicações.
Quaisquer que fossem os objetivos, estavam presentes as humildes afirmações de súditos e
vassalos, prontos para utilizarem seus préstimos a fim do engrandecer e glorificar o soberano e o
Brasil. É importante destacar a presença de afinidade de ideias entre os autores e o monarca, e o fato
de que as homenagens extrapolavam o espaço das dedicatórias e se faziam presentes ao longo do
texto dos livros e também de outros impressos capazes de manifestar apoio - como periódicos e
folhetos.
A dedicatória assumiu o papel de impulso a uma trajetória mais proveitosa e engajada com as elites,
e ao estreitamento dos laços com o círculo social da família real. Para alguns letrados, suas relações
com o soberano perpetuaram-se ao longo de suas vidas. Nem todos conquistaram o sucesso, porém,
pode-se observar que uma parte expressiva dos autores que tiveram seus livros publicados entre 1808
e 1822 e até além, dedicaram ao menos uma de suas obras. E, frequentemente, mantiveram a prática
dos elogios em seus escritos subsequentes. Ainda que de forma lenta e gradual e por seleto grupo, a
prática das homenagens impressas, através das obras dedicadas, foi capaz de se enraizar de tal forma
que sua permanência pode ser percebida ao longo de quase todo século XIX.
É interessante notar que, muitas vezes, essas homenagens assumiam outros
significados, como o agradecimento por algo que já havia sido recebido, procurando comprovar o
merecimento de mais benesses. Outro uso para as dedicatórias era a justificativa para a escolha do
conteúdo do texto, buscando exaltar o valor da obra para os leitores, e comprovar as habilidades
intelectuais do autor e sua importância para a sociedade. Quem oferecia a obra nunca se esquecia de
se colocar de forma modesta, oferecendo destrezas naturalmente inspiradas pelo soberano. Se
possível, aproveitava-se do espaço para sugerir encomendas. Quaisquer que fossem os objetivos para
se oferecer uma obra ao soberano, encontravam-se presentes as humildes afirmações de súditos e
vassalos, prontos para utilizarem seus préstimos a fim do engrandecer e glorificar o soberano e o
Brasil.
A maior parte daqueles que se dispunha a publicar uma obra com dedicatória já possuía algum
envolvimento com as elites vigentes; não poderia ser diferente em um ambiente onde a ilustração era
privilégio de alguns poucos. A dedicatória assumia, então, o papel de impulso a uma trajetória mais
próxima da vida política, a uma carreira mais proveitosa e engajada com tais elites e ao estreitamento
dos laços com o círculo social da família real. Pode-se concluir que, além de se assemelhar à prática

141
das dedicatórias nascida no ambiente do Antigo Regime, o uso dessas homenagens conseguiu trilhar
um caminho próprio em sua manifestação tropical.
Ainda que a pesquisa ainda se encontre em andamento, dois exemplos nos permitem perceber que a
prática da utilização de dedicatória se estendeu ao longo do século XIX no Brasil, ainda com suas
características de elogio público. A primeira se encontra na História Geral do Brasil, de Francisco
Adolfo de Varnhagen, em que o autor não apenas agradece à generosidade do monarca com relação
ao IHGB, mas também o acolhimento da obra:

A SUA MAGESTADE IMPERIAL,

O SENHOR D. PEDRO II.

SENHOR,

O Brasil todo sabe que ao generoso amparo de Vossa Majestade Imperial deve
o seu Instituto Histórico a existência, e que dele Imediato Protetor de fato, Vossa
Majestade Imperial o Fez instalar no próprio Paço, e Assiste ás suas sessões literárias
no intuito de fomentar o estudo da Pátria História, tão importante ao esplendor da
Nação, á instrução comum e até ao bom governo do país. O autor do presente ensaio
de uma compendiosa HISTORIA GERAL DO BRAZIL, votada áquela associação,
de que faz parte, e a cujas publicações e impulso
tanto deve, beija pois reverentemente com o mais espontâneo fervor a Mão do Sábio
Imperante, que Protegeu também esta obra, não só Protegendo o mesmo Instituto,
senão Favorecendo e Estimulando o autor delia com Regia Munificência.

SENHOR! Ao alistar-me em último lugar entre os cronistas da Terra de Santa


Cruz, afanei-me por estremar patrioticamente os fatos mais importantes, e por os
referir com a maior imparcialidade; e a tal respeito a voz da consciência não me
acusa o mínimo escrúpulo. E Dignando-se Vossa Majestade Imperial acolher
benignamente este trabalho, que, apesar das suas irregularidades e rudeza que a lima
do tempo irá afeiçoando, ousei dedicar a Vossa Majestade Imperial, desvaneço-me
a publicar que ao Seu Glorioso Reinado, eminentemente
organizador como a seu tempo dirá friamente a Historia, deve todos os elementos
para ele.

Como os demais súditos de Vossa Majestade Imperial, segue implorando ao


Altíssimo que por dilatados anos perpetue o mesmo Augusto Reinado, para
felicidade e gloria da Monarquia Brasileira,

SENHOR,
De Vossa Majestade Imperial,
o mais humilde e leal súdito,
Francisco Adolfo de Varnhagen

Outro exemplo data de 1883, com o Diccionario Bibliographico Brasileiro de Sacramento


Blake. O referido dicionário, ao mesmo tempo criticado e indispensável aos estudos do século XIX,
foi apresentado a D. Pedro II ainda incompleto. O imperador apoiou Blake para que a obra para que
fosse concluída, o que culminou na sucinta dedicatória:

142
A SUA MAGESTADE IMPERIAL

O SENHOR DOM PEDRO II

Quem com mais direito á oferta deste livro, do que Aquele que
ao titulo de Chefe Supremo da Nação reúne o do mais desvelado Protetor das letras?

É pois a Vossa Majestade Imperial que dedico este trabalho,


convicto de que, na altura em que se acha colocado, não recusá-lo-á,
assim como o Oceano, que

"na grã carreira, ás ondas grato


Tributo de caudais rios aceita,
Soberbo não rejeita
Pobre feudo de incógnito regato."

Augusto Victorino Alves Sacramento Blake

Percebe-se então que a prática, mesmo que com menos intensidade, ainda existia nos últimos
anos do Império. No entanto, como já afirmado, as pesquisas ainda estão em andamento, sendo
objetivo principal estudar a prática na totalidade do século XIX, a princípio privilegiando o Rio de
Janeiro. Continuarão os levantamentos de obras e tipografias, bem como a utilização de periódicos
de época e as repercussões das obras dedicadas em suas páginas, buscando descobrir se a prática se
intensificou ou desvaneceu durante os reinados de D. Pedro I, D. Pedro II e o que ocorreu no período
regencial. Surge ainda a questão do uso da prática pela figura dos letrados, a mudança de paradigmas
que trouxeram à tona o conceito de intelectual e suas ilações com as dedicatórias impressas e o
mecenato real.
Ao acompanhar com mais longevidade a trajetória daqueles que dedicavam suas obras, é
objetivo compreender que outros fatores alinhados ao ato de dedicar uma obra ao soberano tornavam
possível a um letrado cair nas boas graças de seu homenageado; e por que alguns letrados alcançavam
franco sucesso utilizando a dedicatória, ao passo que outros não tinham seus elogios bem recebidos.
No mundo luso-brasileiro, com poucas exceções, os homens de letras continuavam majoritariamente
a cortejar o poder, enquanto, depois da Independência de 1822, os escritores precisaram ser “os
guardiães nacionais pagos pela pátria” 3. Desse ângulo, cabe prestar atenção ao papel exercido pelo
Rio de Janeiro, sede da corte, em relação ao restante do país.
Sendo assim, muito ainda está sendo descoberto ao longo da realização das pesquisas, deixando
espaço para que outras questões relativas ao governo vigente, à centralização do poder, às culturas
políticas e às linguagens políticas somem-se às questões propostas e suscitem novas hipóteses,
enriquecendo o trabalho e os estudos do oitocentos e da história do livro no Brasil.

3 Diogo Ramada Curto et al. As gentes do livro. Lisboa, século XVIII. Lisboa: Biblioteca Nacional, 2007,
p. 21

143
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BURKE, Peter (org.). A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio
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145
Notas:

i BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 119.
ii ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. Investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia
de corte. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001, p.151.
iii CHARTIER, Roger. “O Príncipe, a Biblioteca e a Dedicatória”, p. 186.
iv DIDEROT, Denis. Carta sobre o comércio do livro. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2002, p. 10.
v ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. Investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia
de corte. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001.
vi OLIVERO, Isabelle. L’Invention de la Collection. De la diffusion de la littérature et des savoirs à la
formation du citoyen au XIX siècle. Paris : Editions de L’IMEC, 1999. p. 58.
vii NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. “Do privilégio à propriedade literária: a questão da autoria
no Brasil Imperial (1808-1861)”. In: Anais eletrônicos do I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial. Rio
de Janeiro. http://www.livroehistoriaeditorial.pro.br. 2004.
viii DIDEROT, Denis. Carta sobre o comércio do livro. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2002. p. 48-49.
ix CHARTIER, Roger. “O Homem de Letras”. In: Michel Vouvelle (dir.) O Homem do Iluminismo.
Lisboa, Presença, 1997, p. 121-122.
x DUPRONT, Alphonse. L. A. Muratori et la société européenne des pré-lumières. Firenze: Leo S.
Olschki, 1976.
xi CHARTIER, Roger. “O Príncipe, a Biblioteca e a Dedicatória”. In: M. Baratin e Christian Jacob. O
Poder das Bibliotecas – a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2000, p. 190.
xii DARNTON, Robert. O iluminismo como negócio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 401-
402.
xiii CHARTIER, Roger. “O Príncipe, a Biblioteca e a Dedicatória”. In: M. Baratin e Christian Jacob. O
Poder das Bibliotecas – a memória dos livros no Ocidente. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 2000, p. 199.
xiv FRAGOSO et al, João. O Antigo regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-
XVIII). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.
xv FRAGOSO et al, João. O Antigo regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-
XVIII). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, p. 29-50.
xvi LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. 3ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
xvii FRAGOSO et al, João. O Antigo regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-
XVIII). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, p. 206.
xviii NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das & MACHADO, Humberto Fernandes. O Império do Brasil.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 665-697.
xix CARVALHO, José Murilo de. “História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura”. In:
Topoi, nº1, Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 2000.
xx CASTRO, Renato Berbet de. A primeira Imprensa da Bahia e suas publicações.Tipografia de Manuel
Antonio da Silva Serva, 1811-1819. Bahia: Secretaria da Educação e da Cultura, 1968.

146
Entre o ideal e o natural de mulher:
as tensões da representação feminina na obra A Carne, de Júlio Ribeiro

Ana Carolina Teixeira Crispin

Resumo: Busca-se, neste texto, analisar as relações entre pornografia-erotismo e a crítica literária da
época a cerca da recepção da obra A Carne de Júlio Ribeiro - romance naturalista escrito em 1888.
Escandaloso entre os críticos, mas que foi sucesso de público, o romance traz uma personagem
histérica como era comum nos romances naturalistas, mas que pertencia às classes mais abastadas,
assim como um discurso cientificista, determinista e positivista que marcou fins do século XIX e as
primeiras décadas do XX. Por meio da análise das críticas literárias da época sobre a obra, esse
trabalho se valeu de uma epistemologia feminista, isto é, a partir de uma perspectiva relacional
compreender como os tabus a cerca da sexualidade feminina foram cruciais para que a obra fosse por
muito tempo classificada como pornográfica e de baixa qualidade entre os cânones.

Palavras chave: Naturalismo, representação feminina e histeria.

Abstract: This article analyzes the relationship between pornography-eroticism and the literary
criticism of the time around the reception of the work Carne de Júlio Ribeiro - naturalistic novel
written in 1888. Scandalous among the critics, but was a success of the public, the novel brings a
hysterical character as was common in naturalistic novels, but belonged to the wealthier classes, as
well as a scientist, determinist and positivist discourse that marked the end of the nineteenth century
and the first decades of the twentieth. Through the analysis of the literary critiques of the time about
the work, this work used a feminist epistemology, that is, from a relational perspective to understand
how the taboos about female sexuality were crucial for the work to be for a long time classified as
pornographic and of poor quality among the canons.

Keywords: Naturalism, female representation and hysteria.

A literatura é um tipo de obra ficcional em que o autor representa em forma de devaneio ou


racionalidade as suas impressões sobre o cotidiano. Legítimo vestígio histórico, que nos faz perceber
as representações do imaginário social acerca das concepções morais e filosóficas de sua
determinada época.
No século XIX, o estilo realista-naturalista nascia com o papel de reformador da sociedade e
das mentalidades de sua era, e teve a ciência como sua arma. Para tal feito, os escritores realistas-
naturalistas abordavam a fundo temas tabus e essa abordagem tinha uma intenção sanitarista. 1
Contudo, embora a origem do naturalismo esteja intimamente relacionada à origem do realismo,
essas duas estéticas são bastante diferentes. Ambas são materialistas, faziam frente à estética
romântica – que era idealista –, acreditavam na necessidade de relatar os dramas de um cotidiano
massacrante, a miséria e o egoísmo humanos. Porém, enquanto a estética realista se pautava por uma

1 BULHÕES, Marcelo. Leituras do desejo: o erotismo no romance naturalista brasileiro. São


Paulo: Editora EDUSP, 2003. p.195-196.

147
lógica racionalista e calculista, a estética naturalista surgia a partir da experimentação, do que era
orgânico, do que era fisiológico.
O estilo naturalista surgiu na França, a partir da segunda metade do século XIX, através das
obras do republicano Émille Zola em um contexto social marcado por contradições provenientes do
processo de industrialização. Com ele surge a crença de que “a literatura inevitavelmente encontraria
o caminho da ciência e, ao assumir os métodos desta, suplantaria qualquer atitude ilusória e idealista”
2
. Esta era a metodologia literária de Zola em seu Romance Experimental, onde ele defendia que o
método científico era o caminho para se alcançar a justiça e a liberdade. Para o naturalista Zola,
“todos os esforços do escritor, tendem a ocultar o imaginário sob o real” 3 e, deste modo defendia a
superação da imaginação na criação literária em benefício do que ele denominou de “senso real”.
Conforme destacou Marcelo Bulhões, a poética de Zola divulgava a crença evolucionista do
progresso humano, de matriz positivista, que pretendia romper com a imaginação, que ele acreditava
estar em declínio, e prender-se ao real tomando emprestado da ciência o método experimental. Ou
seja, o escritor não deveria jamais transcender, mas apenas reproduzir os fatos e contextos que
fossem historicamente comprováveis 4. Ítalo Carone, no entanto,destacou que foi justamente, este
empréstimo dos métodos científicos que faziam do romance naturalista uma operação puramente
imaginária5.
A dimensão natural se estabelecia através de um enfoque negativo da condição humana, no
qual o homem era influenciado pelo meio a que pertencia, assim como por sua hereditariedade
(genética). O humano era representado como um animal adoecido devido às ações exteriores ou por
seu estigma hereditário em uma condição de degeneração, mas que poderia ser regenerada através
do progresso científico. Portanto, essa estética foi profundamente influenciada pelos pensamentos
de sua época, tais como o darwinismo social e o evolucionismo, o cientificismo e o positivismo. 6
No Brasil, a recepção do estilo de Zola se dividiu em dois polos distintos: enquanto uns
admiravam a sua escrita, outros criticavam profundamente o seu caráter moral. 7 A literatura de Zola
era escrita de modo visceral, com objetivo de provocar sensações físicas. Alguns escritores
brasileiros a partir da década de 1880, profundamente influenciados por Zola e Eça de Queiroz,

2 Idem. p.105.
3 ZOLA, Émile. Do Romance. São Paulo: Editora EDUSP, 1995, p.24. Apud.: BULHÕES,
Marcelo. Leituras do desejo: o erotismo no romance naturalista brasileiro. São Paulo: Editora EDUSP, 2003. p. 106.
4 BULHÕES, 2003. Op.cit. p.105-107.
5 CARONI, Ítalo. A utopia naturalista. Introdução. In: ZOLA, Émile. Do Romance. Tradução
de Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Edusp, 1995. p.12. Apud.: BULHÕES, Marcelo. Leituras do desejo: o erotismo
no romance naturalista brasileiro. São Paulo: Editora EDUSP, 2003. p.107.
6 CARVALHO, Rodrigo J. Émile Zola e o naturalismo literário. Maringá: Revista Urutágua-
UEM, n.24, 2011.
7 Idem. p. 116.

148
desenvolveram uma estética literária profundamente marcada por escritos masculinos, que tratavam
principalmente de construir diversas imagens do feminino. Aqui, a estética naturalista consagrou-se
por ser carregado de erotismo onde muitos autores valorizaram a temática sexual relacionando-a com
a materialidade, dissociando-se do idealismo romântico oitocentista. Os autores brasileiros que
seguiram essa estética do mesmo modo exploraram temas relacionados à sexualidade humana, o que
fez com que muitos críticos da época julgassem algumas das obras como pornográficas.
Para evitar tais rótulos, muitos autores naturalistas associaram seus escritos a uma linguagem
científica para assegurar a credibilidade e a veracidade de suas teses. Os escritores naturalistas do
Brasil foram mais fortemente influenciados pelo Thérèse Raquim, de Zola, relacionando os escritos
literários naturalistas a uma necessidade de medicalização da sociedade brasileira. 8 Portanto por seus
“estudos de temperamento”, caracterizando-se por “uma crescente e obsessiva medicalização da
linguagem e dos personagens romanescos.” 9 Esse tipo de linguagem, caminhava junto com um
processo político de normatização do saber médico que teria a finalidade de solucionar os mais
diversos problemas da cidade, com objetivos higienistas sobre a sociedade.
O Cortiço (1890), O Mulato (1881) – ambas de Aluízio Azevedo – O Bom-crioulo (1895),
de Adolfo Caminha, que retrataram a degradação humana nas baixas classes sociais tiveram boa
recepção da crítica da época e, permanecem até os dias de hoje como grandes clássicos da estética
naturalista brasileira. Aos olhos das elites, que liam e compravam livros, os corpos degradados das
camadas subalternas eram corpos de outros e, portanto não havia identificação. Entretanto, em O
Homem (1885), de Aluízio de Azevedo e em A Carne (1888) de Júlio Ribeiro por tratarem dos corpos
das elites, ou seja, retratarem desvios de comportamento sexuais nas moças brancas da elite foram
muito mal recebidos pela crítica sendo acusados de inverossimilhança, 10 pois fugia do projeto
modernizador e sanitarista da sociedade brasileira, cuja figura feminina burguesa 11 deveria ser
representada como esposa e mãe, isto é, uma mulher de virtudes que deveria preservar a sua honra.

8 ENGEL, Magali G. Imagens femininas nos romances naturalistas brasileiros (1881-1903). São
Paulo: Revista Brasileira de História, v.9, n.11, ago/set.1989, p.238.
9 SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Uma ideologia estética e sua história: o
naturalismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. p. 120.
10 MENDES, Leonardo. Júlio Ribeiro, o naturalismo e a dessacralização da literatura. São
Gonçalo: Pensares em Revista, n.4, jan/jun. 2014. p.32.
11 HAHNER, June E. Honra e distinção das famílias. IN.: PINSKY, Carla; PEDRO,
Joana.(org). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2016. pp.43-64.

149
1. A Carne: um romance naturalista e a recepção da crítica

O romance naturalista A Carne, de Júlio Ribeiro publicado em 1888, em resumo, conta a


história de Helena Matoso, apelidada por Lenita, moça órfã, extremamente culta e bela que perdeu
sua mãe no parto e aos 22 anos, após a morte do pai, foi morar numa fazenda do interior de São
Paulo, na residência do coronel Barbosa que tinha sido tutor de seu pai. E foi neste lugar que ela
despertou para os “desejos e prazeres da carne”. Rica, independente, muito bem instruída, recebera
uma educação para além das moças de sua época. A moça fora educada pelo pai, recebendo instrução
elevada: aprendeu gramática, aritmética, álgebra, geometria, geografia, história, francês, espanhol, e
tantas outras ciências. Era uma mulher ilustrada, mas que sempre se recusava a casar. Sobre a recusa
do casamento, o pai de Lenita ainda no primeiro capítulo do livro ressalva:
Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educação: dei-
te conhecimento acima da bitola comum e o resultado é ver-te isolada nas alturas a
que te levantei. O homem fez-se para a mulher e a mulher para o homem. O
casamento é uma necessidade já não digo social, mas fisiológica. Não achas, de
certo, homem algum digno de ti? 12

Após a morte do pai, no entanto, Lenita muda-se para a fazenda do tutor de seu pai, o coronel
Barbosa. A mocinha já instalada na fazenda perde a “sede de ciência” que antes a instigava, passando
a entreter-se com a leitura de obras mais sentimentais. Esse é o momento da feminilização de Lenita,
mas que já não tinha o pai para casá-la. Com isso, a mocinha passou a ser acometida por sucessivas
crises histéricas. Essas crises são descritas como um mal que a deixava de cama, abatida, mole. 13
Porém, também se manifestava em cenas de erotismos, sadismo, voyerismos.
A primeira manifestação de desejo de Lenita ocorre em sonho erótico com um gladiador de
bronze, pouco depois de sua chegada à fazenda. Sucessivas crises de ardente desejo e perversão
acometem a personagem, que passava a “beliscar as crioulinhas, picava com agulhas, feria com
canivete os animais que lhe passavam ao alcance.”14 Em outro momento, o narrador demonstra o
prazer sádico da personagem feminina observando às escondidas a dor de um escravo ao ser açoitado
pelo bacalhau. 15 Passava então, a observar do coito entre animais e escravos. Tais cenas descrevem
um comportamento sexual voyerista e sádico, mas que no romance não é tratado como patológico,
mas como fisiológico: “era a voz da carne a exigir dela o seu tributo de amor, a reclamar o seu

12 RIBEIRO, Júlio. A Carne. São Paulo: Editora Três, 1972. p.24-25.


13 Idem. p.31.
14 Idem. p. 48.
15 Idem. p. 52.

150
contingente de fecundidade para a grande obra da perpetuação da espécie.” 16 Assim, Lenita passou
a cogitar a possibilidade de ter amantes:
Teria amantes, por que não? Que lhe importava a ela as murmurações, os diz-que-
diz-ques da sociedade hipócrita, maldizente. Era moça sensual, rica – gozava.
Escandalizavam-se, pois que se escandalizassem.
Depois, quando ficasse velha, quando quisesse aburguesar, viver como toda a gente,
casar-se-ia. Era tão fácil, tinha dinheiro, não lhe haviam de faltar titulares, homens
formados que se submetessem ao jogo uxório que lhe aprouvesse a ela impor-lhes.
Era pedir por boca, era só escolher.17

A citação acima já nos revela o que iria ocorrer até o desfecho do livro. Para as ideias da
época, que concebiam a virgindade no casamento como um capital mais precioso, as palavras de
Lenita eram escandalosas para a época. Aquelas que não valorizavam a virgindade eram
consideradas como amantes, sedutoras, prostitutas, mulheres de má fama.
O romance foi construído sobre uma perspectiva naturalista e também antirromântica. Isto
fica evidente em alguns momentos do texto, como quando o narrador esboça o que seria o amor,
afirmando que “amor e cio vêm de uma coisa só”. 18 Em outro momento, quando Barbosa envia uma
carta de Santos para Lenita, preocupando-se apenas em descrever o local que visitava e, sem tão
pouco expressar sentimentos mais profundos e complexos por Lenita, além da saudade da
convivência de ambos. 19 A mocinha do romance entrega-se a Barbosa, um homem de meia idade,
que já havia sido casado, mas estava divorciado da esposa. Porém, no Brasil, o divórcio não era
válido. Ao cogitar a hipótese de ter Lenita como sua amante afirmava que “a sociedade estigmatizava
o amor livre, o amor fora do casamento; força era aceitar o decreto antinatural da sociedade”. 20

Contudo, a abordagem de temas tão eróticos, somados às ideias de amor livre e do divórcio, parecem
ter mais assustado a crítica, que pouco o compreendeu como um escrito naturalista e, sobretudo
positivista. Como já destacamos no início do texto, o positivismo também era uma das marcas da
estética naturalista. Essa afirmativa se comprova quando Lenita resolve deixar Barbosa afirmando
que:
A sociedade tem razão: ela se assenta sobre a família, e a família sobre o casamento.
Amor que não tenda a santificar-se pela constituição da família, pelo casamento
legal, aceito, reconhecido, honrado, não é amor, é bruteza animal, é desregramento
de sentidos. Não, ela não amara Barbosa, aquilo não tinha sido amor. Procurara-o,
entregara-se a ele por um desarranjo orgânico, por um desequilíbrio de funções, por
uma nevrose. 21

16 Idem. p. 54.
17 Idem. p. 60.
18 Idem. p. 137.
19 Idem. p. 102.
20 Idem. p. 73.
21 Idem. p. 160.

151
Portanto, o momento da entrega dos amantes foi resultado da histeria que acometera a
mocinha, por falta de casamento em idade adequada para o que se acreditava na época. Lenita
dispensava os candidatos ao matrimônio, perdera o pai que já não a podia mais casar, fora para uma
fazenda, um ambiente não civilizado ficando exposta a degeneração de uma sociedade escravista,
degenerando-se também. O momento da regeneração, porém, ocorre quando ela se vê mãe. Para o
republicano e naturalista Zola, as mulheres nasceram para a maternidade e dizia “a mãe deveria ser
nossa religião”. 22
Por muito tempo os cânones literários consideraram o romance A carne
inadequado a estética naturalista, tendo Júlio Ribeiro falhado na sua execução desta estética.
Contudo, novos críticos tem se debruçado sobre o tema do naturalismo e revertendo esta visão,
fazendo surgir uma nova historiografia da literatura naturalista.
Segundo Leonardo Mendes, José Veríssimo e Machado de Assis se opunham a estética
23
naturalista. E o papel de críticos literários na época era o que fazia com que o livro fosse
consagrado esteticamente ou condenado como de segunda categoria, a livro barato. O tom da crítica
não se limitava a tecer críticas apenas aos textos, mas tinham um tom julgador de caráter moral.
Embora não fosse um jovem escritor, já tendo outros livros lançados, Júlio Ribeiro foi bastante
condenado pela crítica logo após o lançamento de A Carne, ficando quase desconhecido na história
da literatura, por ter sido qualificado como um autor menor. 24 José Veríssimo em 1889 caracterizou
a obra como um “o parto monstruoso de um cérebro artisticamente enfermo” 25
Para Veríssimo, Júlio
Ribeiro
“escreveu A carne nos mais apertados moldes do zolismo, e cujo título só por si
indica a feição voluntária e escandalosamente obscena do romance. Salva-o,
entretanto, de completo malogro o vigor de certas descrições. Mas A carne vinha ao
cabo confirmar a incapacidade do distinto gramático para obras de imaginação já
provada em Padre Belchior de Pontes. É, como dela escrevi em 1889, ainda vivo o
autor, o parto monstruoso de um cérebro artisticamente enfermo.138 Mas ainda
assim no nosso mofino naturalismo sectário, um livro que merece lembrado e que,
com todos os seus defeitos, seguramente revela talento.”26

Os romances naturalistas brasileiros representavam os problemas femininos relacionados a


histeria. Segundo Veríssimo, este não foi o caminho seguido por Júlio Ribeiro sendo, portanto,

22 PERROT, p.68.
23 MENDES, 2014. Op. cit. p.27.
24 SILVEIRA, Célia. p.197. Fama e infâmia: leituras do romance A Carne, de Júlio Ribeiro.
Uberlândia: ArtCultura, v. 12, n. 21, jul.-dez. 2010. p.197.
25 VERÍSSIMO, José. O romance naturalista no Brasil. EstudosBrasileiros, 2ª Série (1889-
1893). Rio de Janeiro: Laemmert &Cia, 1894. Apud.: SILVEIRA. Op.cit. p.196.
26 VERÍSSIMO, José. História da literatura brasileira. (PDF). Fundação Biblioteca Nacional.
p.143. Acessado em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/histlitbras.pdf

152
inadequado para a estética naturalista. Araripe Júnior também nega a tese do histerismo apresentada
no romance:
O autor apaixonou-se por essa tese difícil de uma mulher que, de súbito acordando
da inocência, entregou-se às fúrias da carne. Passou-lhe por diante dos olhos a
imagem da Fedra moderna; e o seu pincel, lançando-se de um lado para outro da
tela fulgurante, fê-la surgir em toda a sua beleza e consciente hediondez. Não foi,
porém, como a muitos outros tem parecido, a Fedra histérica, mas a Fedra literária.27

Até mesmo o abolicionista e republicano, como também era o autor de A Carne, Rocha
Pombo ficou escandalizado com o romance e a pessoa de Júlio Ribeiro. Segundo ele:
Não, felizmente é extravagantíssima a psicologia do crítico, desnaturado o
naturalismo do romancista, falsa, falsissima a observação do philosopho. Ainda
temos, teremos sempre donzellas immaculadas e castas, esposas purissimas, — se
submetem á natureza como todos os animais, mas que são vencidas por um
sentimento muito elevado, muito superior a necessidade phisiologica do coito — o
sentimento nobilissimo do amor: e que não se prestam, como Lenita, a “saciar-se
torpemente de gozos” com o primeiro que apareça. 28

Ao comentar os livros naturalistas lançados em 1888, Sílvio Romero chama atenção para a
personagem feminina de A Carne, que segundo ele não passava de “uma pedantesca moça,” a quem
os estudos não puderam conter os impulsos sexuais, “e que se prostituiu sofregamente com o
primeiro que lhe apareceu.” 29
Do mesmo modo, que estes críticos do século XIX, também se
escandalizou com a obra o padre português Sena Freitas, que lançou uma crítica intitulada de A
Carniça no “Diário Mercantil”, respondida por Júlio Ribeiro numa série intitulada O Urubu Sena
Freitas, pois este “farejava carniça”, publicada no periódico “Província de São Paulo”. Este embate
teve a compilação dos textos feita por Victor Caruso e publicada em 1934 sob o título Uma Polêmica
Célebre30 e está integralmente anexada na publicação de 1972 de A Carne pela Editora Três. Para
Freitas:
através daquelas feições animalizadas pela lascívia infrene, o espectador
reconhecerá sempre o símbolo repelente do epicurismo delirante, atascando-se
suinamente, insasciavelmente nas lavaduras do prazer e gotejando sempre dos
beiços novos refinamentos de luxúria. [...] O público desta província [de São Paulo]
do Brasil não está assaz civilizado e, se me permite o neologismo, assaz parisificado
para que não seja por hora uma calúnia e um grave desrespeito dar-lhe a comer a

27 JUNIOR, Araripe. Obra crítica. Rio de Janeiro: MEC/Casa de Rui Barbosa. Vol II, 1960, p.
123. Acessado em: http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=BibObPub&PagFis=7949
28 ROCHA POMBO. A carne: romance de Júlio Ribeiro. A Galleria Illustrada. Curitiba, 10 dez.
1888, v. 1, n. 3, p. 28. Apud.: SILVEIRA, 2010. Op. cit. p. 198.
29 ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira, Vol V, 5 ª ed. Rio de Janeiro: 1954, p.
1768.
30 OLIVEIRA, Lucélia Rodrigues de. Nos domínios da carne: Júlio Ribeiro, Sena Freitas e a
polêmica no século XIX. In: Seminário de Pesquisa em Ciências Humanas - VIII SEPECH, 2010, Londrina. VIII Seminário de
Pesquisa em Ciências Humanas, 2010. p.1343-1344. Para analisar as querelas entre os dois personagens, utilizamos a edição
de 1972. Ver: RIBEIRO, Júlio; FREITAS, Padre Senna. A polêmica. Apêndice de: Júlio Ribeiro. A Carne. São Paulo:
Editora Três, 1972. p.181-235.

153
Carne como tigelada de sua predileção, que ele manda comprar à pastelaria do
Teixeira pelo preço dos acepides de alta gastronomia. 31

Acreditou ser a obra “tão pouco complicada, que nem propriamente se lhe pode chamar
romance.” Considerando a obra apenas indecente e nada naturalista. 32 Sendo assim, o livro para ele
foi mal feito e não tinha valor estético e nem de venda:
A carne é um romance de 278 páginas, elegantemente impresso em Portugal e
editado em S. Paulo pelo livreiro Teixeira, emérito comprador em grosso de
charqueada. Meus parabéns calorosos...
O livro custa 3$000, como já disse. É provável que a 2ª edição, se aparecer, e
aparecer expurgada, custe o dobro. Não será caro. Eu não comprei a 1ª edição e dava
6$ por aquele incontestável primor de estilo, com a placenta de menos. Mas neste
caso o romance reduzido às meras descrições aberrantes do âmago do enredo, à
dedicatória e à capa.33

Em dezembro de 1888, na Gazeta de Notícias, o jornalista Eduardo Salamonde, destacava


que “o publico comprou dous mil exemplares do livro e declarou-se profundamente indignado,
atribuindo a Julio Ribeiro a intenção de ter symbolisado no seu personagem feminino a honrada, a
sisuda, a pundonorosa mulher paulista. Os leitores percebem a levianidade da accusação.”34
Segundo Jeová Santana, a crítica ao longo do século XX pouco se modificou em relação aos
críticos contemporâneos de Ribeiro. Nelson Werneck Sodré afirmava que “A Carne terá longa vida,
apesar de todas as suas deficiências.”, porém, “marginal nas letras, não resiste à menor análise, seja
de forma, seja de conteúdo”.35 Lúcia Miguel Pereira é ainda mais precisa em sua crítica. Ela não
ameniza os defeitos do livro e encontra nele qualidades mínimas. Lenita, em sua opinião, é a causa
maior para o desarranjo estrutural da trama elaborada por Júlio Ribeiro:
O caso de Júlio Ribeiro é típico. Filólogo e polemista de valor, autor de um romance
histórico do mais desmarcado romantismo, com cenas à Eurico, deixou-se empolgar
pelos famosos ‘estudos de temperamento’. E malgrado seu poder descritivo, só
conseguiu compor um livro ridículo. 36

Mais solidária em sua crítica, no entanto, foi Flora Süssekind ao rebater as opiniões de José
Veríssimo e Lúcia Miguel Pereira, defendendo a importância dos estudos de temperamento para a
compreensão literária e histórica da sociedade brasileira.

31 FREITAS, Sena. A Carniça. In.: Uma Polêmica Célebre. Apêndice de: Júlio Ribeiro. A
Carne. São Paulo: Editora Três, 1972. p.189-190.
32 Idem. p. 187-188.
33 Idem, p.186
34 Gazeta de Notícias: Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 1888.
35 SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. São Paulo: José Olympio, 1960.
p.364. Ver também: SANTANA, Jeová. Mal da leitura em A Carne de Júlio Ribeiro. Campinas: Instituto de Estudos da
Linguagem, 1998. Acessado em: http://www.unicamp.br/iel/memoria/projetos/ensaios/ensaio39.html
36 PEREIRA, Lúcia Miguel. História da literatura brasileira, Vol. II. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1950. p. 127-29. Apud.: SANTANA, Jeová. Mal da leitura em A Carne de Júlio Ribeiro. Campinas: Instituto
de Estudos da Linguagem, 1998. Acessado em: http://www.unicamp.br/iel/memoria/projetos/ensaios/ensaio39.html

154
Seriam, no entanto, tais estudos de temperamento tão fora de propósito, tão
afastados da sociedade brasileira? Por que fizeram escola? Por que a preferência
pelas ‘nevropatas’ em detrimento de personagens coletivos ou romances cujo
cenário fosse mais amplo do que uma típica casa de família? Seria possível, ainda,
considerarmos gratuita tal referência quando associamos à voga cientificista e ao
desenvolvimento de uma medicina do comportamento no final do século? 37

Cenas de sadismo, ninfomania, perversões, nudez, encontros da heroína com um homem mais
velho, casado, entrega dos amantes ao sexo eram para época um grande escândalo sexual, que
provocaram em alguns um grande mal-estar na recepção da obra e, ao mesmo tempo em que, foram
ingredientes para o sucesso de público, tornando-se um dos romances mais lidos no ano de sua
publicação, justamente por ter recebido da crítica a feição “obsena”. 38
Um dos poucos elogios à obra veio de Manuel Bandeira, que acreditou ter sido Júlio Ribeiro,
um escritor combativo, mas que fora injustiçado pela crítica. “Ao escritor vibrátil e inovador, que
tinha até o ridículo a paixão das ideias, não lhe reconheceram os contemporâneos senão a glória de
gramático.” Para ele, a sobrevivência do livro A Carne, que em 1938 já estava na sua décima edição
pouco tinha a ver com os episódios escabrosos do livro. 39 Júlio Ribeiro, definia-se como tal e ainda
como um homem racionalista e materialista. Foi um republicano, liberal e abolicionista não de ordem
sentimental, mas pela razão. Assim, era favorável que das classes livres se libertassem dos escravos.
Foi um homem fiel ao seu materialismo e a sua razão, homem combativo ao que lhe parecia
preconceitos religiosos, sociais e literários. Morreu dois anos depois da publicação de seu romance
naturalista, em 1890, sem aceitar se reconciliar com Sena Freitas e nem a se converter.40 Foi mal
compreendido por sua época, devido A Carne trazer à tona uma imagem feminina que não pode
esconder e nem controlar os desejos de sua sexualidade. Os desejos de Lenita foram condenados
pelos críticos, pois este que era considerado um desvio para o comportamento feminino, não era
admitido nas páginas naturalistas paras as mulheres das altas classes. Esse era um comportamento
padrão para mulheres pobres, como a mulata Rita Baiana em O Cortiço de Aluísio Azevedo, que
quanto ao casamento dizia “pra que arrumar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo
que a gente é escrava!”. Afirmativa que corrobora com a tese de Rachel Soihet, 41 de que o controle
da sexualidade feminina estava vinculado ao capital e a propriedade privada, isto é, para as moças

37 SUSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Rio de janeiro: Achiamé, 1984. p.208.
38 BULHÕES, 2003. p.34.
39 BANDEIRA, Manuel. Discursos Acadêmicos. Academia Brasileira de Letras. Tomo III
(1936-1950). Rio de Janeiro, 2007. p. 604-607.
40 Idem. p. 616.
41 SOIHET, Rachel. Mulheres pobre e violência no Brasil urbano. In.: DEL PRIORE, Mary
(org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2017. p. 368.

155
pobres, sem dote, não haveria o casamento, que tinha um custo alto, fazendo com que as camadas
mais pobres vivessem em concubinato.
A historiografia mais atual, porém, vem classificando Júlio Ribeiro como um escritores
naturalistas brasileiro afinado com os ideais do republicano Zola. Ribeiro “pregava abertamente a
causa republicana em seu jornal de Sorocaba no interior de São Paulo, não permitindo nele anúncios
de escravos fugidos, 42 pois compartilhava de ideias abolicionistas. Segundo Mendes, o erotismo
exagerado em romances naturalistas como A Carne, eram escritos dentro dos discursos de estudos
43
de histeria tinham a finalidade de expor aos jovens os perigos e mistérios da sexualidade.
Entretanto, acredita-se que não havia a intenção de incentivar as liberdades sexuais, mas pelo
contrário, condenar os seus excessos que eram tão cotidianos no estilo de vida monárquico, mas
contrários aos ideias burgueses.

2. Lenita: entre o ideal e o natural de mulher.

O que representava ser mulher no século XIX? O que a sociedade esperava das mulheres burguesas
da época? A história das mulheres é marcada pela metáfora religiosa (no judaísmo, cristianismo e
islamismo) sobre a criação do mundo em que Eva conduz Adão a provar do fruto proibido, pois
queria saber e, por isso sucumbiu às tentações do diabo. Por séculos, a imagem de feminilidade fora
construída contrária ao saber. Neste sentido, as Reformas Protestantes amenizaram essa visão, posto
que todos, homens e mulheres, tinham enquanto indivíduos a obrigação da leitura da Bíblia, fato que
contribuiu bastante para que as meninas passassem a ter acesso menos restrito ao mundo das letras.
Contudo, a educação das mulheres não deveria ser como a dos homens, mas relativas a eles. Às
mulheres não se deveria ensinar mais do que serem boas esposas e mães.
Ao longo do século XIX, muitos intelectuais, como o conservador Joseph de Maistre, o
anarquista Proudhon e o republicano Zola partilham da ideia de que a mulher tinha o defeito de
querer ser homem, isto é, de querer ser culta. A instrução das mulheres, portanto, deveria ser apenas
para dar-lhes o necessário para serem agradáveis e úteis como mulheres casadas e mães de família.
44
Era isso o que se esperava das mulheres burguesas. Esperava-se que as mulheres fossem educadas,

42 MENDES, Leonardo. O retrato do imperador: negociação, sexualidade e romance


naturalista no Brasil. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. p.204
43 Idem. p.23.
44 PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Editora Contexto, 2017. p. 92-
93.

156
mas não além do nível primário e boas conhecedoras das prendas domésticas, para que apenas
pudessem ser boas mães e esposas. Norma Telles, destacou que como as mulheres que participavam
do movimento de mulheres, isto é, as causas femininas e feministas no século XIX eram perseguidas
pelos positivistas, que justificavam às mulheres cabiam o papel de exercer a maternidade 45.
Esse foi o século que se apoiou nas descobertas na medicina e na biologia, que através de um
discurso naturalista insistia na existência de duas “espécies” como forma de naturalizar os papéis de
gênero instituídos pela sociedade. Os homens do século XIX foram representados como “o cérebro
(muito mais importante que o falo), a inteligência, a razão lúcida, a capacidade de decisão. Às
mulheres, o coração, a sensibilidade, os sentimentos.” 46 Contudo, este mesmo período deu origem
a Nova Mulher na Europa e nos Estados Unidos, que pretendia a sua emancipação, estando engajadas
no movimento de mulheres, ou na causa das mulheres47 que levantavam a bandeira de direitos iguais
para a educação, pois viam no acesso a uma educação de qualidade a forma de conquistarem a sua
emancipação profissional e financeira.
Do mesmo modo, pensaram algumas mulheres no Brasil, que buscaram se emancipar através
do movimento de mulheres. Eram rebeldes, escritoras e abolicionistas responsáveis até pela gestação
de uma literatura feminina. 48 Mulheres da segunda metade do século XIX criaram jornais femininos,
cuja uma das principais finalidades era para incentivar a escrita feminina e a comunicação entre
mulheres.
Dentro deste contexto, o cenário que se desenhou a partir da segunda metade do século XIX
estendendo-se até o século XX era o da submissão dos corpos para uma nova ética do trabalho e
sobre novos padrões morais de comportamentos sexuais, afetivos e sociais. Paradoxalmente com a
República, estes padrões se tornaram mais rígidos para a legitimação dos novos parâmetros de vida
burgueses que se sobrepuseram aos valores antigos, aristocráticos. Aliada a modernização
republicana estava a psiquiatria, que se comprometia com a construção de uma nova feminilidade e
com as políticas de controle social.
Segundo Engel, no Brasil, a construção da loucura como doença mental está atrelada a
estratégias de normatização dos parâmetros burgueses. 49 Sendo assim, apenas a maternidade, tida na

45 TELLES, Norma. Escritoras, escritas, escrituras. IN.: DEL PRIORE, Mary (org). História das
mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2017. p.382.
46 PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres, prisioneiros. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 2017, p.186.
47 PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Editora Contexto, 2017. p.153-
162.
48 TELLES, Norma. Rebeldes, escritoras, abolicionistas. Revista de História, São Paulo, 120,
p.73-83, jan/jul. 1989.
49 ENGEL, Magali. Psiquiatria e feminilidade. IN: DEL PRIORE, Mary (org). História das
mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2017. p.323.

157
época como a verdadeira essência da mulher, pois estava inscrita em sua natureza poderia salvar as
mulheres da loucura. E aquelas que não quisessem ou pudessem ter filhos, cedo ou tarde
enlouqueceriam. 50 A esta loucura, a literatura médica da época denominou de histeria, que só poderia
ser prevenida através do casamento, evitando entre os jovens, principalmente as mulheres, excessos
ou perversões na realização do desejo e do prazer 51. Em termos ideais, a mentalidade da época
concebia o casamento como a único meio aceitável para as mulheres exercerem a sua sexualidade
feminina e, portanto, tornarem-se mães. No discurso médico da época, a instituição do casamento
aparece instituição higiênica bem mais que religiosa. Talvez por isso se deva o apoio ao divórcio na
obra de Júlio Ribeiro, mas, sobretudo, ao desfecho da obra que é a desistência da relação entre os
amantes para que Lenita exercesse a maternidade plenamente dentro do casamento, mesmo que com
outro homem que não o pai de seu filho.
Júlio Ribeiro, como os demais escritores naturalistas brasileiros não se furtaram ao discurso
médico da histeria como componente essencial de seu romance. A representação da imagem
feminina no século XIX no discurso médico formulava como saudável aquela mulher que exercia a
maternidade, muito embora, mesmo que na prática muitas mulheres diagnosticadas como histéricas
fossem mães e esposas. A imagem da mulher histérica era representada pelo discurso médico e
literário como aquela que se furtava ao casamento e a maternidade. Magali Engel examinando alguns
textos médicos do século XIX e princípios do XX constatou que:
A perspectiva predominante no discurso médico do período tende, pois a associar a
histeria à natureza feminina, e ainda a distorções no que se refere a abstinências,
excessos e, ou ausência da finalidade reprodutora.52

O imaginário social da época concebia a imagem de uma mulher irascível quando passada da
idade do casamento. Desde a Antiguidade, a essência das representações masculinas sempre estivera
relacionada à razão, enquanto às femininas estão diretamente ligadas ao instinto. Segundo
Aristóteles, as mulheres estão na fronteira entre o humano e o animal, são defeituosas, são um homem
inacabado. Assim, enquanto o homem é o criador, a mulher é apenas um vaso. Durante grande parte
da história do pensamento filosófico, a mulher foi pensada como um ser inferior ao homem. Esse
modo de pensar ainda no século XIX penetrava no imaginário masculino a respeito das mulheres.
Segundo Auguste Comte, criador do pensamento positivista que muito inspirou os republicanos da
Belle Époque de França e do Brasil, a mulher era como mera reprodutora, pois tinha menos
inteligência e com menor razão que os homens. Diversos pensadores criaram, portanto, a imagem de

50 Idem. p. 338.
51 Idem. p. 342.
52 ENGEL, Magali G. Imagens femininas nos romances naturalistas brasileiros (1881-1903).
São Paulo: Revista Brasileira de História, v.9, n.11, ago/set.1989, p.247.

158
que naturalmente, a mulher era inferior aos homens e que, portanto, deveria ser submissa a eles. E
isso, como se pode perceber se construiu antes mesmo antes da estética naturalista. A ruptura com
essa visão natural da sujeição feminina foi acontecer bem mais tarde, em 1949, quando Simone de
Beauvoir, em O Segundo Sexo, analisou a feminilidade não como produto da natureza, mas da
cultura e da história. 53
A histeria surge na protagonista, Lenita, mesmo antes de se entregar de vez aos “desejos da
carne.” O desejo sexual da personagem feminina, em nenhum momento é negado na narrativa, mas
afirmado como “incomum” para uma imagem da mulher, pois era carregado de um erotismo que
denotava um prazer sádico e cruel. A representação de mulheres sedutora, cheias de iniciativas, até
mesmo agressivas e insanas tecida nos romances naturalistas, relacionava-se ao imaginário social
dos oitocentos de que a procriação em conjunto com o casamento eram essenciais para a realização
feminina. Assim, o desejo feminino ligava-se ao casamento e à maternidade para as moças de boa
conduta moral e, nunca a mera satisfação prazer sexual. A satisfação sexual feminina, não era
concebida, pelo contrário era mal vista e tida como desvio próprio das moças pobres, que só podiam
contentar-se com o destino do concubinato como meio de satisfação afetiva e sexual, devido à
ausência de bens e capitais.
Toda a erotização nas representações naturalistas era, portanto, modo de demonstrar a
degeneração humana, que se aproximava dos instintos ao afastar-se dos ideais concebidos como
civilizados e, portanto a uma condição de animalização. O erótico ao estilo naturalista aparecia
sempre próximo ao grotesco, repulsivo, perverso e animalesco, sempre resultante de um meio e de
seres degenerados.
Deste modo, Lenita foi construída sobre a imagem da mulher histérica e, não de uma mulher
livre para exercer a sua sexualidade. Ela é representada como alguém que ficara com o cérebro fraco,
escravizado pela carne, dominado pelo útero, sendo dominada pelo instinto. 54 Tanto Lenita, quanto
Barbosa tem um comportamento desviante marcado por uma batalha entre mente e corpo, entre
encontros e desencontros, prazer e violência totalmente contrários aos ideais socialmente aceitos
para a época. Mais escandaloso ainda a personagem feminina ir de encontro ao amante, tomando a
iniciativa ao invadir o quarto de Manduca para se entregar a ele. E o amante ceifando a própria vida
ao tomar conhecimento do abandono de sua amante.
Sendo assim, Lenita também é representada além de histérica como também viril e, portanto
perigosa por querer saber demais, perdendo-se, portanto do único propósito considerado ideal e
natural para as mulheres o de ser mãe e, voltando a si quando a maternidade lhe é confirmada e

53 PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. p. 23, 96 e 100.


54 ENGEL, 2017. Op.cit. p.346.

159
buscando a “segurança”, a proteção do homem provedor através do casamento. Segundo, Michelle
Perrot, os intelectuais do XIX acreditavam que a feminilidade e o saber se excluíam e que, portanto,
a educação das mulheres não deveria ser como a dos homens, mas apenas para torná-las agradáveis
e úteis:
um saber social , em suma. Formá-las para seus papéis futuros de mulher, de dona
de casa, de esposa e mãe. Inculcar-lhes bons hábitos de economia e de higiene, os
valores morais de pudor, obediência, polidez e renúncia, sacrifício... que tecem a
coroa das virtudes femininas.55

Entretanto, as mulheres da elite, reivindicaram desde cedo o direito à educação, entendendo


ser este o caminho para a sua emancipação. Alguns destes escritos já circulavam no Brasil desde a
primeira metade do século XIX, muitas mulheres escreviam literatura e em jornais, criando até
mesmo jornais fenininos, como o jornal A Família de Josephina Álvares de Azevedo, que começa a
ser publicado em São Paulo em 1888.56 Acreditamos, que sobre o alarde do movimento de mulheres
é que Júlio Ribeiro constrói a sua personagem estabelecendo uma crítica ao movimento feminista da
época.

Considerações finais.

O romance de Júlio Ribeiro, A Carne, discutiu temas controversos como divórcio, família,
sexualidade. A histeria em Lenita era persistente antes de a mesma realizar a atividade sexual.
Entretanto, a personagem se vê curada da loucura histérica quando se percebe a espera de seu filho,
a partir daí a personagem deixa de manifestar outras crises histéricas, estando curada pela
maternuidade. Logo, na trama, os problemas que se seguiram depois que Lenita satisfez os desejos
da carne, são de ordem moral e social e, não mais histérica. Para solucioná-los, a mesma resolve
adequar-se a lógica social, buscando amparo no casamento para recuperar a sua honra.
Júlio Ribeiro era um mineiro, mas que vivia com sua família em São Paulo. Por sua obra
literária e jornalística, fica claro que o mesmo era um positivista, 57 A sua obra revelava uma
das maiores hipocrisias sociais do século XIX. Enquanto este se constituiu como século do erotismo,
este era um campo restrito aos homens. Ao dedicar o livro ao público de São Paulo, sem distinção,

55 PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. p. 95.


56 CARULA, Karoline. A imprensa feminista no Rio de Janeiro nas décadas finais do século
XIX. IN.: Estudos Feministas, Florianópolis, 24(1): 406, jan./abril 2016. p. 269.
57 SILVEIRA, Célia R. Erudição e ciência: As procelas de Júlio Ribeiro no Brasil oitocentista.
Tese de doutorado. UNESP, Assis, 2005.

160
logo o romance foi rotulado como obra marginal e pornográfica por um conservadorismo
antirreformista, que pouco compreendeu que as intenções de Júlio Ribeiro eram de fazer provocar
uma reflexão sobre a naturalização dos papéis de gênero da sociedade burguesa, que eram muito
mais fruto de uma construção social, do que da natureza humana, atentando para a necessidade da
reforma de certas instituições sociais para a garantia da ordem. Por isso, escandalizou-se o padre
Sena Freitas que comparou a personagem a um vírus como o da febre amarela que fazia muitas
vítimas no período. Via ele, além do caráter erótico, a abordagem do amor livre e do divórcio feita
por Júlio Ribeiro como uma leitura que não era segura para moças honestas, por ser luxurioso e
obseno.
De outro modo, fora deste meio, a mulher se afastava do feminino, tornava-se masculina ou
viril, luxuriosa e perigosa. O mesmo considerou Alfredo Pujol, que dizia que “A Carne não chegaria
à posteridade. Antes disso, cairia de podre...”, porém até os dias de hoje a obra é tema de diversos
estudos nas áreas de literatura, história e psicologia. Segundo Elsie Lessa, o romance “trazia em si o
sex-appeal, que lhe valeria, ainda em 1934, do outro lado do oceano, em Portugal, o reclame de ser
lançado no índex, óleo canforado que ainda o fará viver por muitos anos...” 58
Proibido pelo Índex, rotulado como romance pornográfico e obsceno, em A Carne, de Júlio
Ribeiro, Lenita é representada como uma fêmea, que por instinto da preservação da espécie não
consegue controlar os desejos da carne e sucumbe ao entrega, supondo o desejo sexual, portanto, aos
instintos. Com isso, ela cumpriu o que a natureza lhe cobrava. Entretanto, somente se poderia
realizar-se na como mãe e, também esposa, em defesa da família, atingindo o auge de sua
feminilidade, ao cumprir o que dela e, de todas as mulheres burguesas da época, a sociedade
esperava.

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Acessado em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/histlitbras.pdf

163
O "lastro do real" reinterpretado pelo cinema documentário: um estudo sobre o filme "Os
imaginários" (1970)

Ana Caroline Matias Alencar1

Resumo: Proponho neste artigo a análise de como as reflexões sobre literatura brasileira elaboradas
por José Aderaldo Castello contribuíram para a realização dos filmes de Geraldo Sarno, cineasta
baiano que de 1966 a 1969 realizou, em conjunto com outros cineastas e em parceria com o Instituto
de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), instituto do qual Castello era
então diretor, documentários sobre cultura popular nordestina. Examinarei, por meio do conceito de
“lastro do real”, como o registro e a descrição de aspectos ao mesmo tempo regionais e nacionais
foram expressos em “Os imaginários” (1970), um dos curtas-metragens dirigidos por Geraldo Sarno
no período em questão.

Palavras-chave: Cinema Novo Brasileiro; Caravana Farkas; Intérpretes do Brasil.

Abstract: In this article it`s proposed the analysis of how José Aderaldo Castello`s writings about
Brazilian Literature contributed to the realization of Geraldo Sarno`s documentary films. Sarno is a
brazilian director, who was born in Bahia, that between 1966 and 1969 has realized documentary
films about northeast`s popular culture, gathered with another moviemakers and with the support of
the Institute of Brazilian Studies, institute that is part of the University of São Paulo and of which
Castello was then the director. I´ll examine, by the concept of “real trail”, how the registration and
the description of aspects at the same time regional and national were expressed in “The imaginaries”
(1970), one of the short films directed by Sarno in these years.

Keywords: New Brazilian Cinema; Farkas Caravan; Brazilian interpreters.

Durante meados da década de 1960, Geraldo Sarno, cineasta baiano recém-chegado de um


estágio de duração de um ano em Cuba, no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica
(ICAIC), por conta da perseguição sofrida em Salvador, quando da instauração do regime ditatorial
no Brasil, buscou acolhida na cidade de São Paulo, onde tinha conhecidos que poderiam ajudá-lo.
Na Universidade de São Paulo (USP) encontrou um espaço propício ao desenvolvimento de seus
próprios projetos, que até então não estavam indissociavelmente relacionados ao cinema. Apesar da
aproximação com a cinematografia quando da sua presença no ICAIC, até aquele momento, a
realização de filmes não havia se confundido com seu projeto de vida.
Ao desenvolver no interior do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP um projeto sobre
cultura popular no Nordeste, em 1966, Geraldo Sarno contou com o auxílio do então diretor do
instituto, José Aderaldo Castello, em especial quando decidiu realizar, como etapa deste projeto do
qual fazia parte, a filmagem de dez documentários enfocando aspectos prioritariamente culturais,

1 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
(PPGH-UNIRIO) e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Endereço
eletrônico: anacaroline_94@hotmail.com.

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mas também econômicos de regiões interioranas do Nordeste brasileiro. Castello funcionou neste
momento como o principal estimulador da proposta de realização destes documentários, ao oferecer
o apoio do IEB à empreitada, ao buscar o financiamento pela USP e ao propor a coprodução destes
filmes ao Instituto Nacional de Cinema (INC).
Para além deste apoio do diretor do IEB, buscarei demonstrar a maneira pela qual o contato
com José Aderaldo Castello teria contribuído para a formulação, por Geraldo Sarno, de seu próprio
modelo de cinema documentário e para o delineamento da sua “estética cinematográfica” 2 No
decorrer deste artigo, analisarei de que modo a releitura feita pelo cineasta baiano da obra de Castello
teria fornecido ao cineasta argumentos, interpretações e um conjunto de temas que, reelaborados por
Sarno, poderiam, então, ser expressos nos seus filmes. Disso agora me ocuparei.

Aderaldo Castello esteve à frente de inúmeros cargos na USP, sendo um dos mais importantes
o de diretor do Instituto de Estudos Brasileiros. Exerceu esta função de 1966 a 1981, período no qual
participou da criação da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (RIEB), do acolhimento ao
documentário cinematográfico e do incentivo a jovens pesquisadores. Em 2002, foi-lhe outorgado o
título de professor emérito.
A partir das pesquisas histórico-literárias realizadas por Castello foram escritas obras como
O movimento academicista no Brasil – 1641-1820/22, constituída em seus dezessete volumes pela
reunião de documentos de época referentes ao tema, Manifestações literárias da era colonial, A
literatura brasileira: origens e unidade (1600-1960) e Aspectos do romance brasileiro. A sua
parceria com Antonio Candido, também docente e pesquisador do IEB, foi profícua para a produção
acadêmica de Castello. Exemplos desta colaboração são os três volumes da Presença da literatura
brasileira: I. Das origens ao Romantismo; II. Do Romantismo ao Simbolismo, III. Modernismo.
Recorrente nos escritos de Aderaldo Castello é o tema da autonomia. Não apenas identificada
como uma situação necessária para o desenvolvimento das Letras no Brasil, a consolidação da
autonomia artística constitui nas suas reflexões a direção para a qual rumaria a formação da literatura
brasileira. O exame a seguir de algumas das obras do pesquisador, feito a partir da exposição do
método empregado por Castello em seus estudos e da análise da maneira como tal metodologia foi
mobilizada pelo professor na observação dos casos particulares em torno dos quais giram os seus
estudos literários, será realizado de modo a explicitar o relevo assumido pela questão da autonomia

2 Este recurso teórico proposto por Ismail Xavier expressa o estabelecimento de uma relação entre as normas
particulares de que se valeriam os cineastas e as teorias gerais sobre as possibilidades e a natureza do cinema. Por ser um
conceito abrangente, me permite elucidar questões referentes às interferências mútuas entre as opções de montagem, a
escolha do documentário ao invés da ficção, o tempo de duração dos filmes, a trilha sonora, a escolha dos temas, o
argumento transmitido pela voz over. XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. 2 ed.
rev. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 10.

165
artística em seus escritos. Com isso, pretendo esmiuçar aspectos fundamentais das reflexões
elaboradas por Aderaldo Castello como forma de refinar o conceito de autonomia artística, uma vez
que tal ideia se impõe como tema forte na produção cinematográfica realizada por Geraldo Sarno.
A proposta de José Aderaldo Castello, em Aspectos do Romance brasileiro, é a elaboração
de um quadro geral da evolução do romance no Brasil. Para tanto, estipula como etapas da sua
investigação o mapeamento da evolução histórica da literatura brasileira em suas três épocas
(romântica, realista e modernista) e a observação e indicação das tendências do nosso romance nas
tradições que já possuiríamos. A recusa de que as origens do romance brasileiro remontariam aos
tempos coloniais, defendida por críticos como Sílvio Romero, é acompanhada pela defesa de que
elas datariam da nossa autonomia literária, identificável, segundo ele, a partir do início do
romantismo no país.
Daí os elogios recorrentes em seu livro ao “plano excepcionalmente grandioso” idealizado e
executado por José de Alencar, cuja obra poderia ser compreendida como a primeira e mais feliz
realização do romance cíclico brasileiro. Por meio deste tipo de romance, o escritor cearense teria
procurado interpretar “os principais aspectos de nossa formação histórica e ressaltar-lhe o caráter
próprio” 3 . O professor relembra o “civismo”, o “ardor patriótico”, a “dedicação ao Brasil”
característicos da família de Alencar como modo de explicar as origens de seu sentimento
antilusitano4. Ademais, realça o valor literário e o significado nacionalista do indianismo romântico
concentrado em José de Alencar, que teria apreendido, por meio da aproximação das duas raças, a
do colonizador e a do indígena, “os fundamentos da nossa formação e das nossas tradições”5. Estes
elogios são interessantes na medida em que indicam quais as características literárias valorizadas por
Aderaldo Castello.
Ao regionalismo, o autor dedica especial atenção. Aspecto do romance social brasileiro, o romance
regionalista seria uma das principais características da literatura do país e uma das principais
tendências da nossa ficção 6. As pesquisas que tal romance exigiria conduziriam a um admirável
esforço, contínuo e renovado, de documentação da paisagem física e social do Brasil. Seria este um
dos aspectos que o Modernismo reaproveitaria do Romantismo. Entretanto, no regionalismo
modernista, o traço universalizante assumiria um vigor não perceptível nas manifestações
anteriores7.

3 CASTELLO, José Aderaldo. Aspectos do romance brasileiro. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura,
Serviço de Documetação, 1960, p. 45-46.
4 Ibidem, p. 37.
5 Ibidem, p. 64.
6 Ibidem, p. 49.
7 Ibidem, p. 140.

166
Por meio dos elogios de Aderaldo Castello a José de Alencar, seria possível identificar os
atributos que o pesquisador preza nos nossos artistas, pelo menos nos do Oitocentos: a contribuição
para a autonomização da nossa literatura, para a elaboração de uma genuína expressão literária
brasileira, preocupada com a unidade nacional e com o seu dever de tonalidades patrióticas. Para
tanto, o registro das nossas tradições e expressões regionais seria fundamental, em especial o das
advindas do Norte, mais “puras” por estarem mais distantes da interferência estrangeira. Por meio
desta pesquisa voltada para a nossa realidade, um dos fundamentos do regionalismo, é que o Brasil
poderia ser interpretado por essa literatura.
Castello explica a necessidade do estudo das fases da literatura no Brasil pelo anúncio, na
etapa anterior, das características da próxima etapa. São, portanto, fundamentais para ele
instrumentos conceituais como “obra de transição”, continuidade, tradição, tendência, influência,
cujos empregos são exemplificados, em seus escritos, por meio da constante procura pelos inícios,
seja da literatura no Brasil, ou de um movimento literário específico, bem como pelo esforço de
identificação de traços perpetuados ao longo do tempo e expressos em diferentes períodos da
literatura. Neste sentido, a análise do romance romântico brasileiro é proposta de modo a servir ao
delineamento de um quadro da evolução do nosso romance em geral. No romance romântico, como
já foi indicado, estaria contido, por exemplo, o viés regionalista retomado pelo modernismo.
A aproximação com as teses formuladas por Antonio Candido na sua obra clássica, A
formação da literatura brasileira, escrita ao longo de toda a década de 1950 e publicada pela
primeira vez em 1959, é apreensível neste quadro do romance brasileiro traçado por Aderaldo
Castello. Os dois especialistas em nossa literatura valem-se de recursos interpretativos semelhantes,
como os de período, fase, escola, todos conduzindo à percepção das continuidades presentes nas
obras e nas gerações sucessivas de artistas. Sendo assim, não somente conceitos e instrumentais
teóricos seriam compartilhados por estes dois estudiosos, como também a afinidade com uma
metodologia de viés dialético. Procuram explicar sistematicamente o longo processo formativo da
literatura do país pela elaboração seja de um quadro do romance brasileiro, seja do sistema literário
nacional, e o fazem por meio da análise das permanências entre as nossas fases e escolas literárias,
bem como dos elementos precursores trazidos por cada uma.
O eixo do romance oitocentista, segundo Candido, foi o respeito inicial pela realidade,
manifesto principalmente na verossimilhança que procurava imprimir à narrativa. Haveria nele,
portanto, uma “proporção áurea” obtida pelo ajustamento ideal entre a forma literária e o problema
humano exprimido por ela. No Brasil, o romance romântico elaborou a realidade graças à posição
intelectual e afetiva do nacionalismo literário, orientadora do nosso Romantismo. Neste ponto, a
noção de “lastro do real” ganha contornos mais bem definidos. Nacionalismo, aí, significava escrever

167
sobre aspectos locais, e a consequência imediata disso consistiu na pesquisa das relações humanas e
na descrição de lugares, cenas, fatos, costumes do Brasil.
Esta descrição foi realizada menos por um impulso espontâneo de fazê-la, do que por uma
intenção programática e patriótica. Ela fez do Romantismo uma forma de pesquisa e descoberta do
país por ter constituído um projeto nacional, para além de ter sido um recurso estético. Assim, o
ideal do romantismo-nacionalista de criar a expressão nova de um país novo teria encontrado no
romance a linguagem mais eficiente8. O regionalismo, tal como definido por Aderaldo Castello,
aproxima-se, portanto, do lastro do real examinado por Candido, sendo ambos os traços literários
grandes impulsionadores da descrição da realidade como um dever, mais do que como um recuso
estilístico, na literatura brasileira.
No primeiro volume da obra escrita em conjunto por Candido e Castello, Presença da
literatura brasileira: I. Das origens ao Romantismo, elementos constituintes das propostas dos dois
de escrita de uma história da literatura no Brasil explicitam-se sutilmente já mesmo no recorte
temporal que decidiram analisar, na denominação que adotaram das escolas literárias e nas escolhas
dos representantes de cada período.
A larga introdução ao Romantismo 9 que compõe a obra de Antonio Candido e José Aderaldo
Castello demonstra o relevo sem par deste movimento literário para os dois professores. Segundo
eles, ao retomar e ampliar a tendência barroca de realce das “contradições da realidade interior do
homem”, o Romantismo teria chegado, por meio deste testemunho pessoal, ao nacional e ao
universal. O “reflexo excepcional” adquirido por este movimento na literatura brasileira poderia ser
relacionado, de acordo com os dois especialistas, ao fato de haver coincidido com um “momento
decisivo da definição da nacionalidade”, realizada por meio do propósito de reconhecer e valorizar
o passado histórico do país, o nosso folclore e as origens americanas do Brasil. Ademais, teria
contribuído valorosamente, o Romantismo, para a o reconhecimento de uma tradição literária no
Brasil, que há tempos viria sendo esboçada no seu longo processo de diferenciação frente à literatura
portuguesa, e para que evoluíssemos “da vibração nacionalista” para a criativa elaboração literária
de sentido e conteúdo “universalizante”10.
Dos escritos e do contato com José Aderaldo Castello, sustento haver Geraldo Sarno
reinterpretado o método empregado pelo professor da USP nas suas análises sobre a evolução da
literatura brasileira. A partir da aproximação com as reflexões sobre a literatura do país elaboradas

8 CASTELLO, José Aderaldo. Aspectos do romance brasileiro. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura,
Serviço de Documetação, 1960, p. 98-100.
9 CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira: I. Das origens ao
Romantismo. Op. cit., p. 203-215.
10 Ibidem, p. 214-215.

168
pelo diretor do IEB, Sarno pôde responder mais precisamente à questão do que deveria procurar de
significativo na expressão artística nacional. A descrição da realidade compreendida como um dever
ao cumprimento do qual se propuseram gerações sucessivas de artistas e como uma das principais
constantes desenvolvidas ao longo do desenvolvimento da nossa expressão literária, a documentação
da paisagem e das pessoas definida como uma tarefa que carregaria em si uma dimensão nacionalista,
todas essas são ideias que podem ser apreendidas das obras de Aderaldo Castello e Antonio Candido.
Por meio do desenvolvimento dessa tendência de registro do real é que, aos poucos, a literatura
brasileira foi capaz de iniciar o seu processo de autonomização.
Nos filmes realizados por Geraldo Sarno, entre os anos de 1966 e 1969, como integrante do
movimento cinematográfico posteriormente denominado “Caravana Farkas”, a procura pela
autonomia artística constituiu-se como impulso para o projeto de filmagem de documentários sobre
cultura popular nordestina. Por sua vez, tal autonomia somente poderia ser atingida por meio do
registro da realidade nacional, o que poderia ser expresso pela noção de “lastro do real”. Semelhante
ao enfoque oferecido por Castello, em suas análises sobre a formação da literatura brasileira, ao
modo como constantes foram sendo ao longo do tempo reelaboradas pelas escolas e movimentos
literários, o exame das modificações ocorridas nos ofícios executados pelos artistas populares é
guiado, nos filmes dirigidos por Geraldo Sarno, pela identificação de quais dos temas e técnicas
pertencentes à tradição alimentadora da arte popular ainda permaneceriam vivos na realização dos
produtos artísticos fabricados na época da filmagem dos documentários.
Em Os imaginários a questão ganha espessura uma vez que níveis diferentes de reflexão
sobre a autonomia artística são desenvolvidos: o nível em que o cineasta por meio do registro da
realidade procura desenvolver uma linguagem cinematográfica autônoma e o nível representado
pelos limites impostos por parte dos processos de modernização da região à autonomia dos artistas
populares. Sobre a maneira como cada um desses níveis se manifesta no curta-metragem me ocuparei
a partir de agora.

Na primeira sequência do filme são exibidos artesãos fabricando suas peças. Diferentes
artistas executando funções distintas, como as de serrar, lixar e esculpir a madeira de que será
composta a escultura, são enfocados, ao passo que o narrador em voz over diz sobre a origem na
região de Juazeiro do Norte, Ceará, da arte dos imaginários de modelar peças em madeira e explica
alguns aspectos da concepção de arte que fundamenta esse fazer artístico específico. Desde o seu
início, com as romarias ao Juazeiro do padre Cícero, caberia ao imaginário, de acordo com o
narrador, “dar forma a personagens místicos ou violentos, cuja vida e comportamento eram tidos por

169
todos como exemplares11”. A concepção do modelo não seria realizada pelo artesão. A ele caberia
somente a materialização na madeira de figuras admiradas pelos sertanejos. Os imaginários,
portanto, aceitavam os modelos elaborados coletivamente e esculpiam suas peças a partir deles.
A submissão do artesão à vontade do povo é identificada pelo narrador não apenas na escolha
do tema, mas também na adequação da técnica empregada na fabricação das figuras ao gosto estético
prevalecente no novo mercado, aberto pela comunidade de romeiros. O tema da obediência da arte
aos desejos manifestos pelo povo é freqüente nos filmes de Geraldo Sarno realizados durante a
participação do cineasta na Caravana Farkas, e serve à definição de arte popular proposta nos seus
documentários.
Outro grande tema abordado pelos filmes dirigidos por Sarno no período em questão é o do
estado das manifestações culturais e artísticas nordestinas no momento da filmagem dos curtas-
metragens, não fugindo também deste mote Os imaginários. Ainda na primeira sequência do filme,
o narrador atenta para o novo mercado a que estavam tendo que atender os imaginários. Ao mesmo
tempo que perderam o seu antigo mercado formado pela população local e pelos romeiros, uma vez
que estes preferem as imagens feitas em gesso, não as em madeira, os artesão estavam subordinando
o seu fazer artístico às demandas crescentes do turismo.
O que se pode inferir do diagnóstico da situação do imaginário oferecido pelo narrador em
voz over do documentário é que não mais está sendo cumprida a tradicional função da arte popular.
Ao invés de corresponder às vontades do povo, o artesão submete-se ao gosto do turista. Isolado do
público que oferece o sentido mais genuíno à sua obra, o artesão enfrentava uma situação altamente
contraditória que neste ponto do filme começava a se esboçar. A partir do fim da primeira sequência,
em que é anunciada a transformação sofrida pela arte popular, o restante do documentário funcionará
de modo a exemplificar a modificação ocorrida nas manifestações artísticas tradicionais, por conta
do rompimento do isolamento do Nordeste ocasionado pelo princípio de um processo de
modernização da região. São dois os casos escolhidos de modo a funcionar como exemplos da
mudança sinalizada pelo narrador: o de mestre Noza e o de Walderêdo Gonçalves.
Ao tratar do primeiro dos casos, a câmara passeia pelo cômodo que funciona como oficina
do mestre Noza. Exibe mulheres trabalhando sobre um pedaço mais bruto de madeira e intercala
imagens em plano fechado das mãos de mestre esculpindo uma peça com imagens de seu rosto.
Enquanto isso, a voz over do narrador afirma ser possível identificar nesse tão conhecido imaginário

11 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 0`40``.

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a “pronta submissão ao mercado”. A técnica empregada pelo artista na confecção de suas obras
correspondia ao gosto dos turistas que, em busca do que julgavam ser mais rústico, desejavam peças
que não tivessem recebido nenhum tipo de tratamento. As imagens tingidas e lixadas agradavam aos
romeiros, não a esse novo público consumidor, desejoso de peças que apenas fossem talhadas a
canivete.
Daí a perceptível transformação na natureza do trabalho do imaginário: a realização do seu
ofício tornou-se a execução de uma tarefa mecânica. E se antes, como já tinha sido sublinhado pelo
narrador, a função da arte na sociedade interiorana do Nordeste era a de materializar os mitos
povoadores da consciência de todos, agora, submissa não mais ao gosto estético do povo, mas ao dos
turistas, os modelos tradicionais continuavam a ser tematizados pelo artesão, porém isso ocorria por
uma exigência do mercado, não de modo a fazer do artesão um intérprete de sua sociedade. A
contradição expressa pelo trabalho do artesão que não mais acredita nos mitos tradicionais da sua
própria sociedade é anunciada na seguinte fala do narrador:
Dedicados a uma tarefa quase mecânica e atendendo ao seu novo mercado, os
imaginários de hoje ainda trabalham com modelos e formas obsessivos do Nordeste
tradicional. Porém, hoje, muito mais que antes, sua tranqüilidade esconde uma
profunda contradição: sua concepção individual do mundo nem sempre está de
acordo com o significado real de sua própria ação: a imagem12.
A sequência termina com mestre Noza sentado em uma cadeira na sua oficina, talhando uma
peça a canivete, enquanto o narrador atenta para que os artesãos desconheceriam a situação
preocupante em que se encontraria o seu próprio ofício artístico. Alheio em seu trabalho, os planos
em que mestre Noza é exibido correspondem ao que diz a voz over do narrador. Servem estes planos,
portanto, à exemplificação ou à reiteração do discurso fundamentado nas ciências sociais de seu
tempo proferido pela voz do narrador. Essa é a única voz no filme capaz de oferecer um diagnóstico.
Na medida em que a ela é concedido um estatuto diferenciado por ser ela embasada cientificamente,
a voz do narrador é a voz da descrição da realidade e da explicação das modificações ocorridas. As
análises comunicadas por ela são as únicas confiáveis.
Deste modo, o papel desempenhado pela voz over do narrador na estrutura de composição
do filme é de fundamental importância para o desenrolar do curta-metragem. Dela podem ser
extraídos os argumentos sustentados pelas demais vozes e pela organização das imagens. A
sequência em que o mestre Noza é exibido talhando serenamente a madeira, de modo a fabricar mais
uma de suas imagens, exemplifica o alheamento em relação às modificações ocorridas nas
tradicionais manifestações culturais nordestinas, assinalado pelo narrador.

12 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 2`40``.

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Tal exemplificação do argumento do narrador por meio das imagens do artesão executando
seu ofício denuncia, ademais, o esforço descritivo imperante ao longo de todo o filme. Desde a
primeira sequência do curta-metragem, ao espectador são exibidas imagens de artesãos ou ajudantes
das oficinas que desempenham diferentes funções na fabricação das peças. Detalhadamente a câmera
os acompanha em seu trabalho e o plano fechado insiste em predominar por várias vezes. O que
preferencialmente é enfocado nessas duas sequências, mas não somente nelas, são as mãos dos
artesãos dando forma às peças. Nada do que é exibido destoa do que diz o narrador, havendo
inclusive momentos em que o que vemos nas imagens do filme corresponde ao que está sendo dito
naquele mesmo instante por ele. Por exemplo, quando em voz over é dito que por exigência do turista
a única elaboração realizada sobre a peça vem sendo o talho a canivete, nesse momento preciso
assistimos a mestre Noza talhando a canivete sua peça. Afora as imagens cuidadosamente escolhidas
durante a montagem do filme de modo por serem extremamente compatíveis com que é dito pelo
narrador, como quando ele diz esconder uma profunda contradição a tranqüilidade do artista e o
mesmo mestre Noza é exibido sentando em uma cadeira no interior da sua oficina trabalhando sobre
uma de suas imagens.
Como já foi sublinhado, a voz over do narrador conta sobre os inícios do ofício de imaginário
em Juazeiro do Norte, apresenta uma definição de quais foram os princípios norteadores deste fazer
artístico durante um longo período, para então tratar do estado do ofício dos artesãos no momento
de filmagem do filme. A partir de então, o esforço de comprovação do diagnóstico oferecido
dominará a estrutura de composição do filme, como quando somos apresentados à figura do santeiro
mestre Noza.
Os próximos dois terços do filme são dedicados à particularíssima figura do xilógrafo
Walderêdo Gonçalves. De modo distinto de mestre Noza, a quem somente conhecemos pelo que
disse o narrador e pelas imagens a que assistimos, Walderêdo tem voz no documentário. Não que na
economia do filme o que diz o artista não nos chegue previamente moldado pela estrutura narrativa
do documentário. Entretanto, apesar de a voz do narrador continuar sendo a mais importante para a
composição do filme, a voz de Walderêdo contando sobre sua concepção de arte faz-se ouvir e, ainda
que não com o mesmo destaque da voz do narrador, contribui para a organização narrativa do curta-
metragem. Inclusive o tempo total de fala do artesão tem duração três vezes maior que o do narrador.
Isso ainda somado aos dois terços do filme nos quais Walderêdo incontestavelmente assume o
protagonismo no filme.
Entretanto, vale ressaltar que esse protagonismo assumido somente foi possível pela força
dominadora que tem a voz do narrador na estruturação do filme. Ela se cala durante toda a sequência
em que a figura de Walderêdo é destacada. Depois que alerta para a contradição que guarda a

172
tranqüilidade do mestre Noza, a voz do narrador fica silenciada até o final do filme. Mas isso não
ocorre porque Walderêdo, então, passa a conduzir a estrutura narrativa do documentário. Pelo
contrário, o artesão pôde desempenhar o papel de protagonista no curta-metragem justamente pelo
estatuto de fato cientificamente examinado que adquire tudo o que o narrador já havia dito. O
diagnóstico apresentado pelo narrador, ao qual chegou pela comparação do estado das manifestações
culturais nordestinas no passado e no seu presente, é capaz de guiar o filme até o seu fim. E essa
capacidade é devida ao poder assertivo que adquire a indicação da mudança irreversível no estado
das manifestações da cultura nordestina, uma vez que tal conclusão se fundamenta nas ciências.
Previamente guiada, a voz de Walderêdo, assim como as imagens dele executando seu trabalho,
funcionam como uma demonstração das análises apresentadas pelo narrador em um momento
anterior, não apresentando, deste modo, nenhum risco para a boa condução da estrutura narrativa do
filme segundo o padrão dominante desde o início do curta-metragem. Ou seja, apesar de ser um
momento excepcional por ser dominado por um aparente protagonismo de Walderêdo, não do
narrador, o domínio da voz over continua a ser sentido na condução do que o espectador vê e ouve.
Sendo assim, o xilógrafo Walderêdo Golçalves é apresentado como mais um caso exemplar
das modificações que vinham ocorrendo no Nordeste. Nele a contradição profunda identificada pelo
narrador ganha nítida expressão: a concepção de mundo do artista não mais é compatível com os
modelos elaborados por ele em seu ofício. A primeira fala de Walderêdo trata do modo pelo qual ele
seleciona os temas das suas xilogravuras. A partir da interpretação de acontecimentos bíblicos, que
realiza por meio do estudo do livro, é que o artista desenha a figura correspondente à sua leitura.
A contradição começa a ser percebida a partir da segunda fala de Walderêdo, na qual o artesão
revela a sua própria cosmogonia particular. Diz não acreditar “na existência da alma, nesse negócio
de ter o céu, o inferno e o purgatório, não13”. Defende ser a religião, assim como o futebol e a política,
uma questão de opinião e um analgésico. E sustenta acreditar somente na matéria e na natureza.
Além disso, aproxima a ideia que faz da natureza da sua ideia de deus: o deus único é a natureza que
tudo faz e desfaz, que tudo modifica. Os corpos, formados pelo átomo, por meio dessa natureza
assemelhada a deus, são transformados em inúmeros outros corpos, segundo o artista.
Walderêdo tematiza, ademais, a contradição que o narrador diz não perceberem os artistas
populares. Fala abertamente sobre fazer seus quadros de acordo com o desejo dos seus compradores.
Se algum cliente quiser um quadro sobre o apocalipse, apesar de o artista haver dito anteriormente
não acreditar em uma concepção tripartida do mundo espiritual, dividido entre céu, inferno e

13 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 4`40``.

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purgatório, afirma que realizará o quadro a partir do tema escolhido e de acordo com a vontade de
quem o for comprar, do povo. Se antes, de acordo com a análise apresentada pelo narrador no começo
do filme, o trabalho do artista popular com “os modelos e as formas obsessivas do Nordeste
tradicional” estaria em conformidade com as crenças individuais do artesão e faria dele um intérprete
da sua sociedade, as transformações ocorridas na região estariam rompendo essa relação próxima
entre artista popular e povo, de importância extrema para a realização das manifestações artísticas
típicas do Nordeste. E tal rompimento Walderêdo reconhece ao dizer:
Por mim, a intenção é fazer o quadro, entregar e receber o dinheiro. Somente esta.
Por interesse do povo, o povo me procura. Eu que vivo disso tenho que fazer isso
como um bem de comércio. Só para, entende?, a sobrevivência. Não é com a
finalidade de propagar cada vez mais a religião, não14.
O processo de modernização verificado na região Nordeste, não mais anunciado pela voz do
narrador que se mantém em silêncio, continua a ser apontado no plano sonoro do filme como a causa
das modificações sucedidas na situação da arte popular. A fala de Walderêdo transcrita acima, na
qual ele demonstra ter consciência das mudanças ocorridas na função de seu ofício, situa-se entre os
trechos de duas canções: uma no estilo iê-iê-iê e outra, que é um baião chamado “Nordeste pra
frente”, cantado por Luiz Gonzaga, que trata da modernização do Nordeste. No trecho do baião
reproduzido no filme, Gonzaga canta:
Senhor repórter, já que está me entrevistando
Vá anotando, pra botar no seu jornal
Que meu Nordeste está mudado
Publique isso pra ficar documentado
[...]
Caruaru tem sua universidade
Campina Grande tem até televisão
Jaboatão fabrica Jipe à vontade
Lá de Natal já está subindo foguetão15

Ambas as músicas oferecem ao que foi dito pelo artesão o estatuto de exemplo do modo como
as manifestações artísticas vinham se transformando, ao passo que a região se modernizava. Sendo
assim, apesar de estar silenciado o seu principal articulador, a estrutura narrativa do filme, por meio
de artifícios como a montagem das imagens e a seleção da trilha sonora, mantém-se em
funcionamento mesmo sem o auxílio da voz over do narrador. Pela potência já mencionada dessa
voz para o desenrolar do documentário, os argumentos defendidos por ela no início do filme
continuam a ressoar nas sequências que se seguem, sem que seja necessária para isso nenhuma
investida a mais da voz do narrador. O estatuto de análise guiada pelo rigor dos métodos das ciências

14 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 5`50``.
15 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 6`15``.

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sociais adquirido por tudo o que diz essa voz tornou o que foi sustentado por ela no princípio do
curta-metragem orientador do desenvolvimento do filme até o seu final. Como se tudo o que fosse
exibido ao espectador durante o documentário funcionasse como reforço do argumento sustentado
pela estrutura de composição do filme, sintetizado e bem expresso pela sua principal condutora: a
voz over do narrador.
Walderêdo Gonçalves também conta receber encomendas das universidades federais da
Bahia e do Ceará, e que nessas instituições lhe disseram ter ele direito sobre a autoria das gravuras.
Entretanto, alega nunca ter se interessado em procurar saber sobre esses direitos. Após dizer isso,
trata de um tema de importância fundamental para a produção cinematográfica realizada por Geraldo
Sarno no período em questão: o das diversas funções assumidas pelos artesãos populares
paralelamente ao seu ofício como artistas. Para a elaboração desse tema, Geraldo Sarno recorre às
produções textuais de outro estudioso da literatura brasileira, Manoel Cavalcanti Proença, a quem
conheceu por intermédio de José Aderaldo Castello. Mas da relação estabelecida por Sarno entre
seus filmes e os escritos deste outro intelectual não me ocuparei agora, uma vez que foge do tema
principal deste artigo. Retomando a fala do artista, sobre as diversas ocupações por ele
desempenhadas Walderêdo relata:
A questão é que eu me viro de toda forma, né? Só não vivo exclusivamente da
xilogravura, não: pego um serviço de pintura de prédio, um caiamento, uma
fundição... Mas se fosse viver só de xilogravura [risos], minha família já teria
morrido de fome. O negócio é: se acontecesse de eu viver por aí afora, das
exposições aqui, ali, acolá, e vendendo cópias e mais cópias, então, poderia ser que
desse algum resultado financeiro. Mas isso eu nunca tentei... Tenho medo do
fracasso, né?16

Apesar de ser inusitada essa figura do artista popular que fala abertamente sobre os objetivos
econômicos do seu fazer artístico e que reconhece a discordância existente entre e as suas concepções
pessoais de mundo e de arte, por um lado, e as obras feitas por ele de acordo com os desejos do seu
público de consumidores, por outro, o documentário não foge ao modelo que domina sua estrutura
de composição até o final do filme. Tal modelo é fundamentado na defesa dos argumentos expostos
pela voz over do narrador. A essa defesa se submetem o som e a imagem do filme durante quase
todo o tempo de duração do curta-metragem. Mesmo quando a voz do narrador se cala, a força das
suas asserções embasadas nas ciências sociais é capaz de manter o modelo em funcionamento,
mesmo que por meio de outros dispositivos, como a organização das sequências, a montagem das
imagens e a escolha da trilha sonora.

16 OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda. Brasil:
Videofilmes, 2009, 1 dvd, 7`10``.

175
Até mesmo a voz de Walderêdo concorre para a tese proposta no início do filme: a de que,
em contraste com a maneira como a arte popular era realizada no passado, a concepção individual
de mundo do artista não mais estaria de acordo com o significado real da sua ação artística, e que tal
descompasso existente entre o artista e sua obra realizada seria devido à modernização que vinha
ocorrendo do Nordeste. Para a demonstração dessa tese, como já foi explicitado, o filme é organizado
de modo a fornecer dois exemplos da mudança identificada: o de mestre Noza e o de Walderêdo
Gonçalves. Portanto, apesar de contradizer a voz do narrador, que havia alegado o desconhecimento
do artista popular frente às transformações ocorridas, mesmo a figura de Walderêdo auxilia na
comprovação do argumento central do filme, mantendo em funcionamento o modelo dominante da
estrutura narrativa característica do documentário. E desse modo o relato de Walderêdo funciona,
uma vez que reitera o que já havia sido dito pelo narrador no início de Os imaginários. Ou seja, a
voz do artista não opera de maneira autônoma na estrutura do documentário.
A única sequência que funciona de modo autônomo no filme, a única que foge ao propósito
de comprovar o argumento central já mencionado, é a última. Nela ouvimos Walderêdo lendo um
longo trecho do livro bíblico “Apocalipse”, ao passo que visualizamos detalhes de várias
xilogravuras feitas pelo artista sobre o tema do juízo final. Além disso, durante o minuto de duração
da cena também ouvimos sobrepostos o baião cantado por Luiz Gonzaga, reproduzido em um
momento anterior do filme, e um canto gregoriano. Entretanto, nem mesmo essa sequência é
completamente autônoma, uma vez que o canto gregoriano, juntamente com a voz de Walderêdo
lendo um trecho bíblico expressam a tradição que vem sendo modificada pela infiltração das
mudanças cantadas por Luiz Gonzaga. Porém, nessa última cena, outro dispositivo fundamental para
o bom funcionamento da estrutura de composição dominante no filme, posto em funcionamento
desde o início do curta-metragem, oferece uma trégua: pela primeira vez repousa o recurso da
descrição do ofício do artesão. Esse é o único momento ao longo do filme em que a imagem exibida
ao espectador não é a de nenhuma das etapas de produção das imagens ou das gravuras. Sendo assim,
a procura pelo lastro deixado pelo real é interrompida. E apesar de as xilogravuras compostas a partir
da temática do apocalipse poderem ser interpretadas como a última etapa da produção, e, assim
sendo, o esforço de descrever a realidade estaria mantido mesmo na última cena do filme, o modo
ligeiro e entrecortado como essas gravuras são exibidas, passando de detalhes de uma delas para os
de outra, somado ao som sobreposto da voz do artista, do canto gregoriano e do baião de Luiz
Gonzaga, tornam questionável que tal sequência funcione apenas para a comprovação do argumento
central do filme e que ela seja dominada pelo princípio da descrição. Pelo contrário, ela adquire uma
autonomia relativa na economia do documentário.

176
Essa independência relativa, por mais que não se realize em mais nenhuma outra sequência,
já era anunciada no plano sonoro do documentário. No total, no curta-metragem de nove minutos de
duração, trechos de cinco canções compõem sua trilha sonora: uma música para rabeca; um canto
gregoriano; um “Sanctus” cantado pelo conjunto folclórico argentino Los Fronterizos; uma no ritmo
do iê-iê-iê; um baião de Luiz Gonzaga. Apesar de tais canções não fugirem aos objetivos do filme,
a variedade da trilha sonora e a forma como cada uma delas é reproduzida no filme acabam por tornar
destoantes as canções, quando sobrepostas às imagens pelas quais o curta-metragem é composto.
As imagens curvam-se inequivocamente ao princípio do lastro do real. Em todas as
sequências o espectador assiste a artesãos trabalhando em suas peças, sejam eles os imaginários José
Ferreira, José Duarte, Manuel Lopes e mestre Noza ou o gravador Walderêdo Gonçalves. Assistimos
a eles talhando a madeira, modelando-a, esculpindo olhos, testas, bocas, chapéus, fabricando
oratórios, desenhando cenas bíblicas, preparando matrizes, a partir desses desenhos de cunho
religioso, para fazer as xilogravuras, passando tinta nas matrizes para estampar em papel a gravura,
vemos filas de imagens já finalizadas pelos imaginários, nos é exibido o interior das oficinas desses
artistas. O plano fechado é para o qual tendem todas as sequências. Enquanto trabalham, geralmente
vemos as mãos desses artistas, seu rosto, detalhes das obras que preparam, e a tudo isso assistimos
bem de perto.
A câmera em todas as sequências, com exceção da cena final, fareja o rastro deixado pelo
real, e a partir do propósito de registrar esse lastro, Geraldo Sarno, reinterpretando de maneira
particular os escritos de José Aderaldo Castello, ofereceu contornos mais precisos à estética
cinematográfica que vinha elaborando. Como se esse registro pudesse capturar aspectos das
manifestações artísticas nordestinas e livrá-los do inevitável desaparecimento anunciado em seus
filmes.

Fontes
Fonte audiovisual:
OS IMAGINÁRIOS. Direção: Geraldo Sarno, Produção: Thomaz Farkas e Saruê Filmes Ltda.
Brasil: Videofilmes, 2009, 1 dvd, 10 min.

Fonte textual:
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177
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CASTELLO, José Aderaldo. Cerimônia de outorga do título de Professor Emérito: Prof. Dr. José
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<http://comunicacao.fflch.usp.br/sites/comunicacao.fflch.usp.br/files/Jos%C3%A9AderaldoCastell
o.pdf> Último acesso em 3 de maio de 2017.

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179
D. Maria I: Aclamação Da Primeira Reinante De Portugal

Ana Lucia de S. Abenassiff1

Resumo: Este trabalho apresenta um breve panorama da cerimônia de aclamação de D. Maria I


(1734-1816), a primeira rainha reinante de Portugal entre 1777 e 1792. Para tratar da cerimônia de
Coroação de D. Maria I partimos das informações contidas no Auto do Levantamento, e Juramento
que os Grandes, Títulos Seculares, Eclesiásticos, e mais Pessoas, que se acharão presentes, fizerão
á Muito Alta, Muito Poderosa Rainha... Essa fonte descreve detalhadamente toda a preparação e
execução do prestigioso evento: desde a estrutura montada, os ritos com seus discursos, as pessoas
que compareceram e até detalhes das vestimentas da monarca e da Família Real. Fazemos isso com
o objetivo de conhecer melhor a trama de interesses de sentidos e significados cerimoniais,
característico do Antigo Regime que cercaram a referida ocasião. Para tanto, a analise toma como
referencia a obra A sociedade de corte, de Norbert Elias, a fim de mostrar essa formação social
extremamente rígida e coerente.

Palavras-chave: D. Maria I; Aclamação; Portugal.

Abstract: This work presents a brief overview of the acclamation ceremony of Mary 1st (1734-
1816), the first reigning queen of Portugal between 1777 and 1792. In order to deal with the
coronation ceremony of Mary 1st we start from the information contained in Auto do And the Oath
that the Great, Secular Titles, Ecclesiastics, and more Persons, who will be present, will make the
Very High, Very Mighty Queen ... This source describes in detail all the preparation and execution
of the prestigious event: from the assembled structure , the rites with their speeches, the people who
attended and even the details of the monarch's and Royal Family's costumes. We do this with the
purpose of knowing better the plot of interests of meanings and ceremonial meanings, characteristic
of the Old Regime that surrounded the mentioned occasion. To that end, the analysis takes as
reference Norbert Elias' The Cutting Society, in order to show this extremely rigid and coherent
social formation.

Keywords: Mary 1st, Acclaim, Portugal.

UM POUCO SOBRE D. MARIA

Escassos são os trabalhos que apresentam a trajetória de D. Maria I (1734-1816), rainha de


Portugal entre 1777 e 1792, ou até mesmo, os que abordam o período de sua regência. Apesar de ter
recebido o título de Princesa do Brasil, ela é entre nós pouco conhecida de fato, exceto pelas imagens
satíricas veiculadas pelo cinema e televisão nas últimas décadas. 2 Infelizmente, a carência de

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFES sob a orientação da professora Dra.


Patrícia Merlo. Email: al.abenassiff@gmail.com
2 CARLOTA Joaquina: princesa do Brazil. Direção: Carla Camurati. Produção: Carla Camurati, Bianca
De Felippes. Rio de Janeiro: Warner Bros. Pictures, c1995. 1 DVD. Trata-se de uma comédia que tem como mote a
vinda da família real para o Brasil, sendo D. Maria I retratada como louca, assombrada por visões. Destacamos também
a minissérie brasileira que, em tom pastelão, apresenta os bastidores da Independência do Brasil (1822) e a fundação do

180
pesquisas e publicações relativas à primeira regente portuguesa e seu governo contribui para que o
desconhecimento permaneça.
No dia 17 de dezembro de 1734, nasceu no Paço da Ribeira, em Lisboa, 3 a primeira filha do
casal de Príncipes do Brasil e futuros reis de Portugal, D. José (1714-1777) e D. Mariana Vitória de
Bourbon (1718-1781).
Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança, como foi chamada
a neta primogênita de D. João V, foi prontamente agraciada por seu avô com o título de Princesa da
Beira. 4 Nessa época, seu avó já reinava há 27 anos e seus pais eram muito novos, sua mãe tinha
apenas 16 anos e seu pai 20 anos.5
Quanto à linhagem a princesa recém-nascida descendia, por parte de pai, da dinastia dos
Bragança. Por sua avó paterna, D. Maria Ana de Áustria, a infanta era neta do Imperador do Sacro
Império, Leopoldo I. Era ainda uma Bourbon, por parte do avô, Filipe V de Espanha, 6 com ligações
com a Casa da Baviera e outras casas da Europa, já pela parte de sua avó materna, Isabel Farnésio 7
(1692 -1766), havia uma ligação com a Casa ducal de Parma. 8
O nascimento da pequena Maria Francisca foi comemorado com três dias de festas e queima
de fogos.9 Acerca dos festejos, descreve Caetano Beirão:

Como era de uso em tais ocasiões, houve luminárias por toda a cidade, repique de
sinos, e descargas de artilharia, durante três dias. D. João V despachou logo um
postilhão a participar a novidade aos Reis católicos. Depois, deu audiência ao
Embaixador da Espanha, Marquês de Capecelatro, e a toda corte. No dia seguinte,
missa cantada, sermão e Te Deum na Patriarcal.10

Império do Brasil, O QUINTO dos Infernos. Direção; Wolf Maia. Produção: Rede Globo. Rio de Janeiro: Globo Vídeo,
c2002. 4 DVDs.
3 RAMOS, Luís de Oliveira. D. Maria I. Lisboa: Temas e Debates, 2010, p. 35.
4 Princesa da Beira foi um título, especialmente, criado por seu avô para Maria, que também era a 13ª
duquesa de Bragança, “quando seu pai subiu ao trono em 1750, D. Maria Francisca, como primogênita, passou a ser
designada também por Princesa do Brasil, título que os primogênitos dos reis de Portugal só deixavam de usar quando
acendiam à governação”, pois o título era passado imediatamente ao próximo herdeiro da Coroa, de acordo com a
historiadora Luísa Boléo. BOLÉO, Luísa V. Paiva. D. Maria I: a rainha louca. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009, p.
32-33.
5 RAMOS, 2010, p. 35.
6 Filipe era neto de Luís XIV e havia herdado a Coroa espanhola, sua esposa era Isabel de Farnésio que
era a herdeira do trono ducal de Parma. RAMOS, 2010, p. 37.
7 Isabel Farnésio era filha de “Doroteia Sofia de Neuburgo, irmã de D. Maria Sofia, esposa de D. Pedro
II de Portugal e outrossim irmã da imperatriz D. Leonor, mãe de D. Mariana de Áustria”, avó paterna de D. Maria.
RAMOS, 2010, p. 37
8 RAMOS, 2010, p. 37
9 BENEVIDES, Francisco da Fonseca. Rainhas de Portugal - Estudo histórico. Lisboa: Typographia
Castro irmão, 1878, p. 485.
10 BEIRÃO, Caetano, D. Maria I, 1777-1792: subsídios para a revisão da história do seu reinado, 3.
ed. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1944, p. 29.

181
Por essa descrição podemos perceber além das celebrações de nascimento da futura reinante,
parte dos costumes da corte portuguesa daquela época. Não menos suntuoso também foi seu
batizado, em nove de janeiro de 1735, como menciona a fonte de 1741, Historia genealogica da
Casa Real Portugueza, do primeiro biógrafo de D. Maria, D. António Caetano de Sousa:

Foy bautizada a 9 de janeiro do anno seguinte pelo Patriarca, assistido do seu


Collegio, e das mais Ordens da Santa Igreja de Lisboa, se executou com grande
pompa. [...] Acompanharaõ todas as Damas da rainha, e Princesa, Senhoras de
Honror. Era grande o concurso do povo por toda parte do Paço. 11

Para um evento de tamanha importância os padrinhos escolhidos foram seu avô paterno, Rei
de Portugal e a avó materna Rainha da Espanha, D. Isabel de Farnese 12, representada na ocasião pela
infanta D. Francisca.13 Conforme a historiadora lusa Luísa Boléo, as celebrações mais luxuosas nos
reinados de D. João V, D. José I e D. Maria I, “eram sem dúvida os nascimentos, baptizados,
casamentos, exéquias e aniversários de membros da família real, bem como a evocações em honra
de diversos santos e santas [...]”.14 Os primeiros 16 anos de vida da princesa transcorreram sob a
regência de seu avô que teve um reinado “dos mais longos e profícuos da História de Portugal”. 15
As informações a respeito do período que vai da infância de D. Maria à vida adulta são
escassas, posto que a parca historiografia parte, quase sempre, já do início de seu reinado. De maneira
geral, encontramos alguma informação sobre seu nascimento, suas irmãs e, às vezes, menção ao seu
casamento, em 1760, com seu tio paterno, D. Pedro, 17 anos mais velho. 16 É como se a vida da
personagem só ganhasse destaque após sua aclamação em 13 de maio de 1777.

11 SOUSA, António Caetano de. Historia genealogica da Casa Real Portugueza: desde a sua origem
até o presente, com as Familias illustres, que procedem dos Reys, e dos Serenissimos Duques de Bragança: justificada
com instrumentos, e escritores de inviolavel fé : e offerecida a El Rey D. João V... / por Antonio Caetano de Sousa,
Clerigo Regular... ; tomo VII. - Lisboa Occidental : na Officina de Joseph Antonio da Sylva, impressor da Academia
Real, 1735-1749. - 12 tomos em 13 vol. 1741, p. 355.
12 Veremos que o sobre nome da avó materna de D. Maria, dependendo da escolha do autor será escrito
Farnésio em português ou Farnese em italiano. No caso de Luísa Boléo, esta optou pelo uso do italiano na grafia.
13 BOLÉO, 2009, p. 33.
14 BOLÉO, 2009, p. 55 e 56.
15 BOLÉO, 2009, p. 37.
16 PEREIRA, 2011, p 118.

182
A CERIMÔNIA DA COROAÇÃO

Para tratar da cerimônia de Coroação de D. Maria I partimos das informações contidas no Auto do
Levantamento, e Juramento que os Grandes, Títulos Seculares, Eclesiásticos, e mais Pessoas, que
se acharão presentes, fizerão á Muito Alta, Muito Poderosa Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria
I, Nossa Senhora na Coroa destes Reinos, e Senhorios de Portugal, sendo Exaltada, e Coroada sobre
o Régio Throno juntamente com o Senhor Rei D. Pedro III, na tarde do dia Treze de Maio. Anno de
1777. Essa fonte descreve detalhadamente toda a preparação e execução de todo o prestigioso evento:
desde a estrutura montada, os ritos com seus discursos, as pessoas que compareceram e até detalhes
das vestimentas da monarca e da Família Real.
Segundo consta no próprio Auto, sua finalidade era a de fazer uma exata narração do evento, pois
desse modo, a memória da incomparável glória da soberana seria eternizada para a lembrança da
nação portuguesa.17 Assim se inicia o referido documento:

Em nome de Deos. Amem. Saibão quanto este Auto, e Instrumento feito por
mandado da Rainha Nossa Senhora virem, que no Anno do Nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo de mil setecentos setenta e sete, sempre memorável para esta
Monarquia, presidindo como supremo Pastor da Igreja o Santissimo Padre Pio VI.
Em terça feira treze do mez de Maio, dia, em que a Nobreza, e o Povo desta Corte
de Lisboa rendem a Nossa Senhora dos Martyres o antigo, e religioso culto de maior
devoção, em memória de lhe ser dedicada a primeira Freguezia da Capital deste
Reino; vindo particularmente do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda, da sua Regia
habitação, para a galeria Occidental da Real Praça do Commercio, onde se lhe tinha
preparado huma decente, e magnífica accomodação da parte do rio Téjo; a Muito
Alta, e Muito Poderosa Senhora a Rainha Fidelicissima Dona Maria a Primeira de
Portugal Nossa Senhora, Filha Primogenita, Herdeira, e Successora de ElRei o
Senhor D. José o Primeiro, que santa gloria haja, e da Rainha a senhora Dona
Marianna Victoria, acompanhada de ElRei Fidelissimo o Senhor D. Pedro Terceiro
Nosso Senhor, e de todas as Pessoas Reaes, se fez o Levantamento, e Juramento de
Sua Magestade Fidelissima na Coroa destes Reinos, e Senhorios de Portugal, em
que succedeo a seu Augusto Pai, sendo exaltada, e coroada sobre o régio Thono
juntamente com o Senhor rei D. Pedro seu Esposo e Tio, Filho do Senhor Rei Dom
João V., e da Rainha a Senhora Dona Marianna de Austria, que santa gloria hajão;
pelos Grandes Titulos Seculares, Ecclesiasticos, e mais Pessoas da Nobreza, que se
acharão presentes, na fórma que ao diante se dirá.18

17 AUTO, 1780, p. 5.
18 AUTO do Levantamento, e Juramento que os Grandes, Títulos Seculares, Eclesiásticos, e mais
Pessoas, que se acharão presentes, fizerão á Muito Alta, Muito Poderosa Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria I,
Nossa Senhora na Coroa destes Reinos, e Senhorios de Portugal, sendo Exaltada, e Coroada sobre o Régio Throno
juntamente com o Senhor Rei D. Pedro III. na tarde do dia Treze de Maio. Anno de 1777, Lisboa, Na Regia Officina
Typografica, Anno de M.DCC.LXXX [1780], p. 3-4.

183
É importante também frisar que o Auto do Levantamento era um documento oficial, produzido a
mando da Coroa, tendo sido redigido por António Pedro Vergollino, escrivão da Câmara de sua
Majestade, fidalgo e tabelião público.19 Trata-se de um registro detalhado que explica os ritos da
solenidade, o local escolhido, a estrutura construída para a celebração, além dos nomes dos
responsáveis por cada função dos preparativos da aclamação:

Para se celebrar este magnífico, e espectável Auto se destinou o sítio dos antigos
Paços da Ribeira na dita Real Praça, onde se mandou construir de novo huma
magestosa Varanda, cuja planta, e risco delineou o Sargento Mór Mattheus Vicente
de Oliveira, commettendo-se a inspecção della ao Conde da Ponte José António de
Sousa Saldanha de Menezes e Castro, Mórdomo mor de ElRei Nosso Senhor, seu
Gentil-Homem da camara, Brigadeiro de Infantaria, e Coronel Comandante do
Regimento de Peniche, de gênio, e talento o mais hábil, e prompto em dar as
providencias necessárias para a sua inteira execução; tendo, além da vastidão da sua
idéa, e grandeza de espírito, recebido de Sua Magestade amplíssimas, e illimitadas
ordens para a perfeição, e riqueza desta soberba obra.20

O Auto de Levantamento ainda descreve em minúcias a riqueza da ornamentação rebuscada e o zelo


das tapeçarias, dos tecidos de alto padrão, dos bordados, dos brocados e fios de ouro, além das talhas
e móveis utilizados. A respeito do interior da varanda observa-se que

Ornava a parte interior da Varanda hum riquíssimo apparato de veludo, e seda


carmesim; e toda a cimalha Real entre as colunmnas se via guarnecida com fastões
de seda, ornados de franjas e borlas de ouro: entre os capitéis das columnas
medeavão pendentes vinte e tres medalhões, ficando quatro entre as columnas, que
adornavão os corpos lateraes: entre as mesmas columnas pendião também varios
genios, sustentando nas mãos as Reaes insígnias de Coroa, Sceptro, e Palmas; e nos
ditos medalões estavão pintados os Imperadores, e Reis, que a Fama decanta mais
gloriosos em acções heroicas.21

O texto todo ainda faz menção à “[...] cadeiras na grandeza majestosa, e ambas similhantes no
adorno, e feitio; a organização era de talha sobredourada [...], véu de nobreza carmesim, bordado, e
guarnecido com estrelas, e renda de ouro”.22 Além da disposição da Família Real e do séquito da
Rainha, também foi pensada uma estrutura de apoio com tribuna, camarins e antessalas. Segundo o
documento, as impecáveis peças de prataria foram encomendadas na França:

Estas três mesas estavam guarnecidas de riquíssima, e copiosas baixelas de prata,


feita modernamente na Corte de París pelo célebre artífice Germain por especial
ordem de El-Rey o Senhor D. José I, sendo a primeira vez que sérvio, e appareceo

19 AUTO, 1780, p. 4.
20 AUTO, 1780, p. 5-6.
21 AUTO, 1780, p. 8.
22 AUTO, 1780, p. 10.

184
em público com a maior admiração, e applauso de todos os Nacionaes, e
estrangeiros, que tiverão a honra de gozar deste novo, agradável, e brilhante
espetáculo nunca visto em similhantes funções. 23

E não somente a prataria como também as 14 alcatifas, “[...] todas ricas na qualidade e formosas no
desenho [...]”.24 Percebemos que a cerimônia foi cuidadosamente preparada incluindo a vestimenta
da soberana, uma vez que D. Maria I estava

[...] riquíssimamente vestida com o precioso manto de tafetá tecido com fio de prata,
e recamado com lantijolas, canutilhos, e palhetas; o assento que parecia totalmente
coberto de ouro; o peitilho, e corpo interior era todo guarnecido com flores de
brilhantes de excessivo preço, e admirável artifício; vendo-se pendente da fitta cor
de fogo a Cruz da Ordem de Christo, composta de diamantes brilhantes de huma
extraordinária e pasmosa grandeza: igualmente se admirava no mais adorno ricos
adereços, e joias, d’onde pendião diversos, e preciosos fios de brilhantes de
inexplicável preço. O toucado fingia huma Coroa Imperial. 25

O Rei Consorte estava igualmente esplêndido, assim como toda a Família real e a Primeira
Nobreza.26
De fato, desde 24 de fevereiro D. Maria já governava o reino. Contudo, sua aclamação só ocorreu
no dia 13 de maio de 1777. Segundo Caetano Beirão:

O dia estava esplêndido – notam os contemporâneos – e logo de manhâ cedo, o Tejo


se apresentou coalhado das mais variadas embarcações, cheias de curiosos que
assim pretendiam assistir às festas, os telhados próximos se pejaram de
espectadores, e o Terreiro do Paço se juncou de compacta multidão ansiosa por
presenciar as cerimónias da aclamação da soberana. Estas iam ter lugar numa
enorme varanda construída, para esse fim, no sítio em que antes se erguiam os paços
da Ribeira. A fachada dessa galeria era formada por vinte e oito arcos sustentados
em colunas coríntias, imitando mármore oriental, como se vê no desenho de
Carneiro e Silva, que está no Museu do Coches. A ornamentação, quer exterior quer
interior, do improvisado edifício, era esplendorosa: escudos, troféus, figuras
alegóricas, ricos tapetes e brocados. No centro da praça, formaram quatro
regimentos de infantaria, ostentando os seus uniformes novos; junto à varanda, a
guarda real; e no Rossio e Pelourinho, piquetes de três regimentos de cavalaria que
estavam, então, em Lisboa.27

Ainda sobre a suntuosidade do trabalho de Carneiro e Silva, o pesquisador Miguel Figueira de Faria
pontua que

23 AUTO, 1780, p. 15.


24 AUTO, 1780, p. 9.
25 AUTO, 1780, p. 23-24.
26 AUTO, 1780, p. 24.
27 BEIRÃO, 1944, p. 119.

185
A varanda construída para a aclamação de D. Maria I que revela uma regularidade
de alçado tardo barroco classicizante, com alguns detalhes de rococó, anda atribuída
a Carneiro da Silva (1727-1818). O apontamento que dela fez e que se encontra no
Museu do Coches atesta que estamos perante uma esmerada composição de
arquitetura efêmera aparatosa que deslumbrou a todos proporcionando
funcionalidades de ritual e de simbolismo político. 28

De acordo com Caetano Beirão, as festividades tiveram início com uma missa de pontifical, em uma
capela de madeira especialmente erigida ao lado da varanda onde se posicionaria a Soberana. 29 “A
missa ‘foi dirigida ao Divino Espírito Santo para a ilustração dos novos Monarchas em o acerto do
bom regimen do seu Reino’”. 30 Se tratou de um acontecimento épico, visto que as cortes não se
reuniam em Portugal já fazia mais de cem anos. 31
Após quase todos os ritos e protocolos da solenidade como o recebimento do Real Cetro e do
posicionamento do Rei Consorte, incluindo a oração feita pelo desembargador do Paço Dr. José
Ricalde Pereira e Castro. D. Maria se ajoelhou na almofada, segurando o cetro agora com a mão
esquerda e com a direita espalmada na Cruz da Ordem de Cristo que trazia ao peito, repetiu o
juramento que os presentes de pé que ouviram:

Juro, e prometto com a graça de Deos vos reger, e governar bem, e direitamente, e
vos administrar direitamente justiça, quanto a humana fraqueza permite; e de vos
guardar vossos bons costumes, privilégios, graças, mercês, liberdades, e franquezas,
que pelos Reis Meus Predecessores vos forão dados, outorgados e confirmados. 32

Assim a Rainha voltou a sentar para desse modo receber as homenagens e os juramentos daqueles
que o deveriam prestar.33 Ainda ocorreram os demais protocolos até que a soberana se dirigiu a
varanda e lá,

O innumeravel Povo, que ocupava a Praça do Commercio, e que esperava já com


impaciência este feliz annúncio, rompeo em altos vivas, e outras muito significates
expressões de alvoroço, amor, e alegria, fazendo bem visível a fidelidade de seus
leaes coração no extremoso affecto, com que acclamavão a Sua Magestade por sua
Rainha, e Senhora destes Reinos, e seus Dominios; ouvindo-se ao mesmo tempo ao
final dos foguetes repicar os sinos das Sés, [...] e navios mercantes com igual

28 FARIA, Miguel Figueira de. Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio. Lisboa: Leya, 2012, p. 233.
29 BEIRÃO, 1944, p. 120.
30 MILHEIRO, Maria Manuela. Festa, Pompa e ritual: a Aclamação de D. Maria I. Porto: Faculdade de
Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património. Barroco: Actas do II Congresso
Internacional, 2003, p. 573. Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7527.pdf Acesso em: 11 de jun. de
2017.
31 BEIRÃO, 1944, p. 122.
32 AUTO, 1780, p. 76.
33 AUTO, 1780, p. 77.

186
estrondo, sem por isso cessar o eco dos vivas, que seria com tal força os ares, que
bem se deixava perceber entre a plausivel confusão das salvas, e dos repiques. 34

De acordo com Beirão, “parece que realmente não havia memória dum monarca ser aclamado com
tanto entusiasmo”. 35 O documento ainda faz menção às acomodações que se destinavam ao séquito
da rainha D. Maria. Nesse caso, a corte de sua majestade também deveria partilhar do cuidado e
riqueza de detalhes em suas acomodações, pois:

Da mesma parte esquerda do Throno Real se fabricou por longo huma tea, que tinha
no comprimento cento e cinco palmos, e cinco de largo e tres e meio de alto no
parapeito, coberta de veludo encarnado guarnecido com fino galão de ouro, a qual
sérvio de vistosa, e decente accomodação á Marqueza de Vila Flor, Camareira mór,
e mais Damas, que cortejarão a Rainha Nossa Senhora neste acto. 36

Para além de um ato político e social, a cerimônia de aclamação também se refere à figuração de
corte, uma vez que esse tipo de ritual seguiam regras bem precisas e tinham uma meticulosa
organização. Ademais, “era nessas ocasiões que o rei [neste caso, a rainha] aproveitava para marcar
as diferenças de nível, distribuindo suas distinções, provas de favorecimento ou de desagrado”. 37
Conforme o sociólogo alemão Norbert Elias, observa-se que nesse caso a “etiqueta tinha uma função
simbólica de grande importância na estrutura dessa sociedade e dessa forma de governo”. 38 Por isso,
o espaço reservado ao lado do trono para o séquito de sua majestade.
Pontuações importantes sobre esse documento são apresentadas pela pesquisadora galega Raquel
Bello Vázquez. É ela quem nos chama atenção para a importância dada ao Rei Consorte já no título
do documento, pois ao Auto de Levamento

[...] se atribui um papel destacado ao seu consorte já no próprio título. A importáncia


deste texto para a compreensom do reinado de D. Maria radica em que nom é de um
dos muitos elogios publicados com motivo da coroacom da nova Rainha, se nom
que constitui umha espécie de acta oficial do acontecimento, o que nos esta a indicar
que desde a própria Corte se queria dar um destaque especial a figura de D. Pedro,
fazendo-a equivaler à da sua esposa.39

34 AUTO, 1780, p. 84-85.


35 BEIRÃO, 1944, p. 124.
36 AUTO, 1780, p. 11.
37 ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 102.
38 ELIAS, 2001, p.102.
39 BELLO VÁZQUEZ, Raquel. Uma certa ambiçaõ de gloria. Trajectória, redes e estratégias de Teresa
de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798). Tese. Santiago de Compostela:
Universidade de Santiago de Compostela, 2005, p. 308.

187
Raquel Bello Vázquez ainda traz outras considerações relevantes, como a questão do casamento da
Rainha com D. Pedro, que segundo a autora, nas palavras do Doutor Ricalde Pereira de Castro o
enlace “tranquilizou os ânimos dos seus Vassallos”. 40 Ainda nessas ressalvas feitas por Pereira e
Castro, haveria alusão à legitimação do direito ao trono por D. Maria e as comparações feitas com
outros reinos europeus.41
Do mesmo modo, o discurso da oração do desembargador do Paço, Dr. José Ricalde Pereira e Castro,
inicia-se, como de praxe42, prestando homenagens a D. José I e destacando seus feitos e virtudes,
depois faz menção aos desejos, do monarca falecido, deixados escritos para sua herdeira:

Temos visto (naquelle tempo, em que a pálida morte avançava para ele com
descarnada mão) as seis recomendações que dirigio a V. Majestade, como Herdeira,
e Successora dos seus Reinos, tão cheias de Unção, de Justiça, de Piedade, e de
religião, que correndo impressas, e fazendo o bom caracter de hum Rei justo, nos
fazem acreditar, que sería preciosa aos olhos de Deos a morte, que terminou huma
vida a mais gloriosa aos olhos dos homens. 43

Outro ponto a ser considerado, seria a imagem de Piedosa, alcunha que D. Maria I carregou durante
todo o seu reinado. Essa mesma palavra é utilizada no começo da oração, como observamos no
trecho acima e também no trecho que remete a liberação dos presos: “Os generosos effeitos da Regia
piedade de huma tal Rainha apparecem por toda a parte; mas muito particularmente na soltura de
tantos prezos de hum, e outro foro, que gemião nas tenebrosas prizões, e nos tristes degredos”. 44
Observamos a construção da imagem de Piedosa da Rainha, em sua gênese, atrelada às primeiras
providências, como no caso, a soltura dos presos.
Portanto, “na sociedade de corte a realidade social residia justamente na posição e na reputação
atribuídas a alguém por sua própria sociedade”. 45 Havia a necessidade da confirmação diante dos
seus pares, posto que o pertencimento a “boa sociedade” fundamentava-se tanto na identidade
pessoal, no título de nobreza, quanto na existência social e na aceitação da corte.
Destarte, cabe fazer alusão ao historiador alemão Ernst Kantorowicz que em sua obra Os Dois
Corpos do Rei, salienta que:

40 BELLO VÁZQUEZ, 2005, p. 308.


41 BELLO VÁZQUEZ, 2005, p. 308-309.
42 Segundo Joaquim Serrão, nesse tipo de discurso sempre era invocado os feitos dos reis anteriores,
C.f. SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, vol. V, 2.ª ed, Lisboa: Editorial Verbo, 1992.
43 AUTO, 1780, p. 61.
44 AUTO, 1780, p. 67.
45 ELIAS, 2001, p.111.

188
O misticismo, quando transposto do cálido crepúsculo do mito e da ficção para o frio foco
de luz da razão e do fato, geralmente deixa pouca coisa que o recomende. Sua linguagem,
a menos que ressoe no interior de seu próprio círculo mágico ou místico, parecerá muitas
vezes pobre e até ligeiramente tola, e suas metáforas mais intrigantes e imagens mais
extravagantes, quando privadas de suas asas iridescentes, podem facilmente lembrar a
visão patética e lamentável do Albatroz de Baudelaire. O misticismo político, em
particular, corre o risco de perder o encanto ou tornar-se bastante insignificante quando
46
retirado de seu ambiente nativo, seu tempo, seu espaço.

Sendo assim, ao observar a sociedade de corte portuguesa desse período ou qualquer outro tipo de
corte europeia do Antigo Regime, devemos ter o cuidado de perceber que estamos lidando com outro
tipo de realidade social, diferente da burguesa do século XVIII e de nossa própria figuração social.
Complexa e envolta em suas estruturas de etiqueta e na autorrepresentação da nobreza, essa estrutura
pode parecer-nos frívola, mas fazia todo sentido para os homens e mulheres de sua época, por isso,
a importância dada à cerimônia de aclamação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A sociedade de corte do Antigo Regime apresenta uma estrutura extremamente complexa e envolta
em sua autorrepresentação. A etiqueta era uma forma de distinção da nobreza, que parte de uma
racionalidade totalmente diferente da burguesa, o implicava no meticuloso no cálculo dos atos, na
cerimônia e organização geral da etiqueta, no autocontrole.
No entanto, essa estrutura não se formou da noite para o dia, posto que se forjou por meio de um
processo gradual. Processo esse, longo, que levou os cavaleiros e descendentes dos cortesãos da
cavalaria a transformar-se, de algum modo, em cortesãos no sentido próprio da expressão. Isto é, em
indivíduos cuja existência social estava sujeito ao seu nome, de seu prestígio na corte e no seio dessa
sociedade de corte.
Nesse contexto, segundo Norbert Elias identifica o palácio do rei como o centro da corte e dessa
sociedade de corte. Seria esse centro, o lugar em que os cortesãos inspiravam a si e a toda Europa,
como era o caso de Versalhes.

46 KANTOROWICKS, Ernst H. Os Dois Corpos do Rei: Um estudo sobre teologia política medieval.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.17.

189
Com Portugal não foi diferente, sua corte, mesmo católica e dita conservadora, se rendeu aos
encantos do modelo exportado pelo Palácio de Versalhes, que era o epicentro de um complexo capaz
de abrigar a alta nobreza, local que se assemelhava a uma gaiola de ouro devido a sua suntuosidade.
Por esse motivo, a preocupação e riqueza em cada detalhe da cerimônia de coroação.

Referências:

AUTO do Levantamento, e Juramento que os Grandes, Títulos Seculares, Eclesiásticos, e mais


Pessoas, que se acharão presentes, fizerão á Muito Alta, Muito Poderosa Rainha Fidelíssima a
Senhora D. Maria I, Nossa Senhora na Coroa destes Reinos, e Senhorios de Portugal, sendo
Exaltada, e Coroada sobre o Régio Throno juntamente com o Senhor Rei D. Pedro III. na tarde do
dia Treze de Maio. Anno de 1777, Lisboa, Na Regia Officina Typografica, Anno de M.DCC.LXXX
[1780].

BEIRÃO, Caetano, D. Maria I, 1777-1792: subsídios para a revisão da história do seu reinado, 3.
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Teresa de Mello Breyner nos campos intelectual e do poder em Portugal (1770-1798). Tese.
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CARLOTA Joaquina: princesa do Brazil. Direção: Carla Camurati. Produção: Carla Camurati,
Bianca De Felippes. Rio de Janeiro: Warner Bros. Pictures, c1995. 1 DVD.

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190
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Vídeo, c2002. 4 DVDs.

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II – O Dia a Dia na Corte. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2011.

RAMOS, Luís de Oliveira. D. Maria I. Lisboa: Temas e Debates, 2010.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal, vol. V, 2.ª ed, Lisboa: Editorial Verbo, 1992.

SOUSA, António Caetano de. Historia genealogica da Casa Real Portugueza: desde a sua origem
até o presente, com as Familias illustres, que procedem dos Reys, e dos Serenissimos Duques de
Bragança: justificada com instrumentos, e escritores de inviolavel fé : e offerecida a El Rey D.
João V... / por Antonio Caetano de Sousa, Clerigo Regular... ; tomo VII. - Lisboa Occidental : na
Officina de Joseph Antonio da Sylva, impressor da Academia Real, 1735-1749. - 12 tomos em 13
vol. 1741.

191
Rompendo mordaças e muros: a obra de Lima Barreto nas aulas de História

Ana Lúcia Ferreira de Mattos1

Resumo: A pesquisa que está sendo desenvolvida no âmbito do PROFHISTÓRIA/UERJ será a


reflexão acerca das possibilidades de uso pedagógico nas aulas de História do Ensino Fundamental
de trechos selecionados das obras do escritor carioca Lima Barreto, que viveu na cidade do Rio de
Janeiro, entre os anos de 1881 e 1922. As obras, são os romances Recordações do escrivão Isaías
Caminha, Clara dos Anjos e o livro de memórias do autor, Diário íntimo. Serão privilegiadas
questões relacionadas às relações étnico-raciais e que contribuam de alguma forma para a denúncia
contra o racismo, a exclusão social e sua permanência na nossa sociedade. Paralelamente ao
desenvolvimento da pesquisa, será produzido um material pedagógico que possa ajudar o trabalho
dos docentes de História em sala de aula.

Palavras-chave: História; ensino de História; Literatura.

Abstract: The research that is being carried out within PROFHISTÓRIA /UERJ will be the reflection
on the possibilities of pedagogical use in the classes of History of Elementary School selected
excerpts from the works of Carioca writer Lima Barreto, who lived in the city of Rio de Janeiro,
among the years of 1881 and 1922. The works are the novels Recordações do escrivão Isaías
Caminha, Clara dos Anjos and the author's memoir, Diário íntimo. Issues related to ethnic-racial
relations will be favored and contribute in some way to the denunciation against racism, social
exclusion and their permanence in our society. Parallel to the development of the research, a
pedagogical material will be produced that can help the work of History teachers in the classroom.

Keywords: History; History teaching; Literature.

Nos anos de experiência que tenho como professora de história do Ensino Fundamental
nas escolas do município do Rio de Janeiro, e nas escolas estaduais em que lecionei para turmas do
Ensino Médio, presenciei entre os alunos situações de constrangimento diante de diferentes formas
de desqualificação infligidas pelos próprios colegas. Apelidos depreciativos, brincadeiras, piadas
de mau gosto sugerindo incapacidade, ridicularizando traços físicos, como a textura de cabelos e a
cor da pele, fazendo pouco das religiões de matriz africana às quais muitos colegas pertenciam,
eram utilizados pelos alunos, incluindo também alunos afrodescendentes. Palavras como "macaco",
"cabelo ruim", além de "macumbeiro", eram usadas por alguns alunos de forma pejorativa. Esses
alunos, ao serem indagados sobre os motivos das "brincadeiras", achavam normais essas atitudes,
porque já haviam sofrido situações semelhantes ou porque não se reconheciam como negros.

1 Mestranda do PROFHISTÓRIA – FFP/UERJ, sob a orientação do professor Dr. Daniel Silva Pinha. E-
mail: analuciaferreirademattos@gmail.com

192
Identifiquei também durante as aulas as dificuldades dos alunos em compreender as razões da
origem do preconceito e da discriminação racial em nossa sociedade.
De acordo com o Atlas da Violência 2017, lançado em 5 de junho pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os "homens, jovens,
negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. A população
negra2 corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas
de homicídios". (IPEA, 2017, p. 30-31). O triste resultado desse estudo divulgado pelo Ipea, é
constatado por mim e pelos meus colegas de magistério no nosso cotidiano de trabalho, quando
observamos a evasão de alunos das turmas por vários motivos, como a necessidade de ajudar
financeiramente os pais (ou cuidar dos irmãos mais novos para os pais trabalharem), a violência
doméstica, a falta de perspectiva de um futuro melhor, o uso de drogas, a criminalidade e
dificuldades de aprendizagem que acabam levando a um desinteresse pela escola e,
consequentemente, ao seu abandono.
Segundo o mesmo Atlas da Violência 2017 a

[...] mortalidade de mulheres não negras teve uma redução de 7,4% entre
2005 e 2015, atingindo 3,1 mortes para cada 100 mil mulheres não negras – ou seja,
abaixo da média nacional -, a mortalidade de mulheres negras observou um aumento
de 22% no mesmo período, chegando à taxa de 5,2 mortes para cada 100 mil
mulheres negras, acima da média nacional.

[...]além da taxa de mortalidade de mulheres negras ter aumentado, cresceu


também a proporção de mulheres negras entre o total de mulheres vítimas de mortes
por agressão, passando de 54,8% em 2005 para 65,3% em 2015. Trocando em
miúdos, 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil no último ano eram negras, na
evidência de que a combinação entre desigualdade de gênero e racismo é
extremamente perversa e configura variável fundamental para compreendermos a
violência letal contra a mulher no país. (IPEA, 2017, p.37)

Diante de todas essas dificuldades, muitas dúvidas e perguntas surgiram. Como contribuir
para tentar diminuir essa triste realidade? Como contribuir para ajudar os docentes em sala de aula,
que, como eu, procuram meios para, através das aulas de história, tentar mudar essa situação? O
interesse em trabalhar com as obras do escritor Lima Barreto revelou-se um caminho possível para

2
No Atlas da Violência 2017 o Ipea adota a classificação do IBGE para raça/cor, que considera negros
os indivíduos de cor preta ou parda; e indivíduos não negros, os brancos, indígenas ou amarelos.

193
tentar responder a essas perguntas, principalmente através de dois de seus romances Clara dos Anjos,
Recordações do escrivão Isaías Caminha e de seu livro de memórias, Diário íntimo.
Durante as minhas aulas de história no Ensino Fundamental e a elaboração de meu projeto
de pesquisa, as seguintes perguntas foram se tornando persistentes: Quais os motivos que fazem com
que muitos alunos usem palavras, expressões e brincadeiras ofensivas em relação à cor, à aparência,
à religião (especialmente as religiões de matriz africana), e também ao gênero? Por que esses mesmos
alunos e alunas acham "normais" essas atitudes? Qual é a visão de mundo (opiniões e perspectivas
de futuro) desses alunos, rapazes e moças?
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental:

[...] o compromisso que deve existir entre o ensino escolar e a História, em


particular, para a construção de uma sociedade democrática, pressupõe abordar
temas que promovam positivamente, grupos, que por muito tempo ficaram ausentes
do ensino da disciplina, ou então eram tratados de forma estereotipada e
preconceituosa, dando-lhes visibilidade. (BRASIL, 2013, p. 136)

Para muitos colegas de profissão, abordar temas considerados polêmicos em sala de aula,
principalmente no contexto atual em que lecionamos (em que estão incluídas dificuldades como
diminuição da autonomia dos professores e sua crescente desvalorização, precariedade das
instituições de ensino, principalmente as públicas, intolerância e desrespeito às opiniões e culturas
diferentes), está cada vez mais difícil. De acordo com Verena Alberti "[o] problema dos temas
sensíveis é que eles não são fáceis de tratar em sala de aula - aliás, em lugar nenhum." (ALBERTI,
2014, p. 2)
Quais são as dificuldades dos professores de história para conseguirem trabalhar temas
considerados polêmicos com os alunos? As dificuldades são muitas. Elas incluem o desinteresse dos
alunos por questões ocorridas em um passado recente ou não, a resistência de alguns responsáveis
que acreditam que o estudo de temas sensíveis não merecem ser trabalhados, porque podem
atrapalhar o cumprimento do programa ou influenciá-los ideologicamente. Como afirma Verena
Alberti "[escolher] trabalhar com esses temas implica, [...], correr riscos. Esses riscos precisam ser
compensados e o professor deve acreditar que vale a pena corrê-los." (ALBERTI, 2014, p. 2)
O respaldo da direção da escola também é muito importante para o trabalho dos professores:

[...] sobre o ensino de questões sensíveis ou controversas é a necessidade de


um ambiente seguro, onde alunos e professores se sintam confortáveis para discutir
o assunto, bem como o fato de os professores e a escola estarem dispostos a correr
riscos. (ALBERTI, 2014, p. 2)

194
É necessário também ouvir os docentes, para que suas experiências e opiniões ajudem no
desenvolvimento da pesquisa e na possível elaboração de um material pedagógico, voltado para
tentar ajudar os professores a trabalhar esses temas em sala de aula, e, assim, dar visibilidade e
importância ao debate racial. E para uma melhor identificação das dificuldades dos professores em
trabalhar temas polêmicos com seus alunos e para o desenvolvimento de um material pedagógico
que os auxiliem nessa tarefa, "[...] está o uso de fontes efetivas, atraentes e estimulantes, que possam
tornar possível o engajamento pessoal. Essas fontes, quando bem escolhidas, têm a função de mudar
a atitude do aluno [...] em relação ao assunto." (ALBERTI, 2014, p. 2)
As fontes escolhidas para a pesquisa são algumas obras do escritor Lima Barreto, em que
serão selecionados trechos para o desenvolvimento de um material pedagógico para uso em sala de
aula. Essas obras são os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha, Clara dos Anjos e o
livro Diário íntimo, uma obra de memórias do autor.
Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1881, Afonso Henriques de Lima Barreto era filho
de um culto tipógrafo e de uma professora, que morreu quando o escritor tinha sete anos de idade.
Em 1902, foi obrigado a abandonar a Escola Politécnica para trabalhar como amanuense no
Ministério da Guerra e ajudar a sustentar a família, pois o pai enlouqueceu. Entre os anos de 1914
até o fim da vida, Lima Barreto alternou períodos de intensa produtividade e colaboração na imprensa
com interrupções para tratamento em hospícios, devido a depressão e ao alcoolismo. Faleceu em 1922
aos 41 anos, vítima de colapso cardíaco, deixando uma obra da qual fazem parte, contos, sátiras,
novelas, romances, crônicas, artigos em jornais e diários que é de grande importância para a literatura
brasileira 3 . Diversos textos de Lima Barreto abordam questões polêmicas, como o racismo, que
permanece até hoje em nossa sociedade.
Os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha e Clara dos Anjos, abordam temas
como a discriminação, racismo, e a desigualdade social nos primeiros anos do regime republicano no
Brasil, um regime que foi anunciado por muitos políticos e intelectuais do período como sinônimo de
modernidade e portanto, democrático.
O romance autobiográfico Recordações do escrivão Isaías Caminha, narra a história do jovem
mulato Isaías que se muda de uma cidade do interior para a cidade do Rio de Janeiro, então capital
da República, e consegue emprego na redação de um jornal, sofrendo com o preconceito e
testemunhando ao mesmo tempo, toda a mediocridade e corrupção da imprensa na época. No romance
Clara dos Anjos, uma jovem mulata e ingênua, Clara, moradora de um subúrbio da cidade do Rio,
filha do carteiro Joaquim dos Anjos é seduzida pelo malandro Cassi Jones, rapaz branco, conhecido

3 BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto (1881-1922). Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.

195
por ter desonrado muitas donzelas. Apaixonada, Clara acaba engravidando e sendo vítima do
preconceito racial no momento em que procura a família de Jones para pedir ajuda.
O Diário íntimo, livro de memórias do autor, com anotações que se estendem de julho de 1900
até dezembro de 1921, um ano antes de sua morte, estão registradas situações vividas e/ou observadas
por Lima Barreto. Em muitas dessas situações, o próprio Lima Barreto foi vítima de discriminação
por ser mulato, o que o levou a denunciar essa triste realidade em várias de suas obras.
Os principais objetivos da pesquisa serão a produção de um material pedagógico que ajude os
professores a trabalharem nas aulas de história temas como o racismo e a desconstrução de
estereótipos relacionados a cor e religião e que estimule a participação e a reflexão dos alunos sobre
esses temas, dando visibilidade e importância ao debate racial em nossa sociedade. Desse modo, a
pesquisa estará ajudando na implementação da Lei 10.639/03, "que tornou obrigatório o ensino de
história e cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas de Educação Básica
brasileiras"(SANTOS, 2013, p.57), contribuindo para o reconhecimento e valorização da história e
cultura da África e dos descendentes de africanos na formação da sociedade brasileira.
De acordo com Lorene dos Santos
As últimas décadas, em nosso país, têm sido marcadas pela emergência de
movimentos sociais e pela intensificação de debates, propostas e políticas visando o
combate a desigualdades historicamente perpetuadas. Neste processo, tem-se
apostado na valorização da diversidade sociocultural que caracteriza a sociedade
brasileira, enquanto um dos caminhos para o reconhecimento e maior visibilidade da
história e cultura de grupos socialmente marginalizados. Valorização da diversidade
e combate às desigualdades passam a ser reconhecidos, assim, como elementos
indissociáveis no processo de construção de uma sociedade mais equânime e capaz
de promover a justiça social. (SANTOS, 2013, p. 57).

Para o desenvolvimento da pesquisa, serão essenciais as leituras dos historiadores que


trabalham a questão racial no Brasil pós-abolição e na Primeira República, Sidney Chalhoub e Lilia
Moritz Schwarcz; textos de Luiz Costa Lima, que discute as fronteiras entre a história, a ficção e a
literatura; Hebe Mattos que discute no texto usado para esse projeto, questões sobre raça, escravidão
e cidadania nos anos finais da monarquia e primeiros anos da república no Brasil.
Espera-se também, através dessa pesquisa, estimular o interesse dos alunos pelos textos
literários, contribuindo para o alargamento de seus horizontes de leitura e de vida, instigando-lhes a
capacidade de reflexão.

196
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BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.l.:].

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proferida no IV Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades, realizado no Centro de
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Caicó (RN), de 17 a 21 de novembro de 2014. Disponível em: < http://hdl.handle.net/10438/17189>.
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198
Memórias do trabalho na Fábrica Opalma na década de 1960: um caminho para apreender
experiências da população negra no Vale do Iguape, no pós-abolição

Ana Paula Batista da Silva Cruz 1

Resumo: O presente artigo, busca refletir acerca do pós-abolição como um campo de estudo
importante para análise das experiências das populações negras e mestiças no Recôncavo da Bahia,
tendo as memórias de trabalhadores da Fábrica Opalma, como principal fonte para acessar a trajetória
desses sujeitos. Buscarei demonstrar quais os espaços de trabalho reservados para a população negra
do Iguape, no ambiente fabril, na tentativa de compreender as tensões de uma sociedade do pós-
abolição.

Palavras-chave: Memória, Trabalho, Pós-abolição.

Abstract: This article seeks to reflect on post-abolition as an important field of study for the analysis
of the experiences of the black and mestizo populations in the Recôncavo of Bahia, with the
memories of black workers from the Opalma Factory as the main source for accessing the trajectory
of these subjects. I will try to demonstrate the work spaces reserved for the black population of
Iguape, in the factory environment, in an attempt to understand the tensions of a society marked by
slavery.

Keywords: Memory, Work, Post-abolition.

A região, conhecida como Vale do Iguape2, é formada por 18 comunidades: Engenho da


Ponte, Engenho da Praia, Engenho da Ponta, Engenho da Cruz, Engenho Vitória, Engenho Novo,
Calolé, Caimbongo, Opalma, Campinas, Caonge, Calembá, Cabonha, Dendê, Embiara, São
Francisco do Paraguaçu, Santiago do Iguape e Tombo. Essas comunidades se formaram nos
territórios da antiga freguesia de São Thiago do Iguape, pertencente ao termo da comarca de
Cachoeira.
A Freguesia de São Thiago do Iguape, durante o período escravocrata, estava entre as regiões
com maior concentração de engenhos de açúcar, como salientou Barickman, na localidade, em 1835
os fogos e as unidades domésticas dos senhores de engenhos e dos lavradores de cana abastados,
funcionavam na região 21 engenhos “moentes e correntes”. Refletiu, ainda, que a estrutura fundiária
da região era altamente concentrada nas mãos dos grandes senhores de engenhos:
Quando se fez o censo de 1835, funcionavam no Iguape 21 engenhos “moentes e
correntes”, cada um dos quais consta do censo como um fogo, com uma força de

1 Mestre em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Doutoranda em História Social
pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, sob a orientação do professor Dr. Álvaro Pereira do Nascimento. E-
mail: apbscunica@yahoo.com.br
2 Em alguns momentos utilizo o termo Bacia do Iguape, que se refere à região do Vale do Iguape.

199
trabalho média de cerca de 123 escravos, esses engenhos estavam entre os maiores da
Bahia e do Brasil3.

Fraga Filho em investigação sobre os egressos da escravidão, seus itinerários e os


significados de liberdade4 que construíram no Recôncavo baiano, destaca ser preciso ter um olhar
atento para a variedade de experiências que as populações de ex-cativos construíram para trazer à
tona suas múltiplas formas de acesso à terra. Na sua pesquisa destacou os diferentes meios pelos
quais os ex-escravizados dos engenhos da Cruz, Mataripe e Pitinga permaneceram em seus territórios
de origem, preservando e renovando costumes 5 para se adaptarem a uma sociedade nacional que,
muitas vezes, não os reconhecia como autênticos sujeitos históricos.
A possibilidade de acesso a um lote de terra assegurava maiores alternativas de
subsistência, embora os roceiros fossem obrigados a prestar serviços nas terras dos ex-
senhores. Para estes, era possível ter acesso às feiras locais e diversificar o cultivo de
gêneros de subsistência. Vimos que o direito a parcelas de terras talvez tenha sido o
grande fator de permanência nos engenhos 6.

A partir das premissas lançadas por Fraga Filho considero importante investigar as
comunidades que se formaram no território da antiga Freguesia de São Thiago do Iguape, enquanto
espaço historicamente ocupados por populações negras descendentes do cativeiro, que de diferentes
modos, acumularam experiências históricas.
O presente artigo, tem como objetivo contribuir para a construção do conhecimento histórico
sobre os modos de trabalho em Santiago do Iguape, a partir das narrativas orais 7, trazendo à tona
processos sociais e lutas pela sobrevivência e por melhores condições de vida e de trabalho na
comunidade.

3 BARICKMAN, B. J. E se a casa-grande não fosse tão grande? Uma freguesia açucareira do Recôncavo
Baiano em 1835. In: Revista Afro-Ásia, Salvador, Vol. 29-30: 79-132, 2003.
4 O historiador Eric Foner em suas pesquisas sobre os Estados Unidos foi pioneiro nas discussões sobre
os sentidos da liberdade experimentados pelos ex-cativos, antecipou também que a permanência nos antigos engenhos
representava táticas de manutenção dos “direitos” adquiridos ao longo do cativeiro. Ver: FONER, Eric. Nada Além da
Liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 1983.
5 Costumes na perspectiva de Edward Thompson, onde as relações sociais cotidianas são por excelência,
palcos de conflitos e disputas, que aparecem como uma forma de legitimar o espaço de sociabilidade entre os seus, práticas
ligadas às realidades materiais e socais da vida e do trabalho. Ver: THOMPSON, E. P. Costumes em Comum Estudos
Sobre a Cultura Popular Tradicional. São Paulo: Companhia das Letras,1998.
6 FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia
(1870-1910). São Paulo: Editora da UNICAMP, 2006.
7 Fontes orais utilizadas na pesquisa: BRITO, Pedro. (78 anos) Entrevista concedida a Ana Paula
Batista da Silva Cruz em 30/01/13, na casa de Seu Jorge. Gravada em áudio tipo som wave (6.194 KB)Tiago. (58 anos)
Entrevista concedida a Ana Paula Batista da Silva Cruz em 25/03/14, na minha casa na comunidade quilombola Santiago
do Iguape. Gravada em áudio tipo som wave (7.482 KB), JESUS, Salvador Pereira. (70 anos) Entrevista concedida a
Ana Paula Batista da Silva Cruz em 15/02/2012, na minha casa na comunidade quilombola Santiago do Iguape. Gravada
em áudio tipo som wave (12.110 KB), SILVA, Guilherme Gomes. (53 anos) Entrevista concedida a Ana Paula Batista
da Silva Cruz em 15/07/2013, na casa de seu Guilherme. Gravada em áudio tipo som wave (9.658 KB), VIEIRA,
Francisco. (53 anos).

200
Blume 8 , em pesquisa referente às memórias de trabalho e vivências de marisqueiras em
Ilhéus, inspirado em E. P. Thompson, entende a memória como luta e trabalho, por operar no sentido
de trazer as querelas em torno do cotidiano, da cultura e da experiência. Compartilho desta visão, e
defendo que recuperar as memórias dos trabalhadores de Santiago do Iguape é uma forma de dar
visibilidade às lutas histórico-sociais ante as transformações das relações de trabalho na região.
Nesse sentido, utilizar fontes orais me permitiu perceber faces de linguagem como os gestos,
resmungos, olhares e entonações dos sujeitos, vivências expressas e marcadas no corpo. Portelli
ressalta as possibilidades das entrevistas fazerem emergir aspectos e experiências sobre as quais os
entrevistados nunca pensaram ter importância, pois,

A linguagem também é composta por outro conjunto de traços que não podem ser
contidos dentro de um único segmento, mas também são portadores do significado. A
fileira de tom e volume e o ritmo do discurso popular carregam implícitos significados
e conotações sociais irreproduzíveis na escrita. 9

O mesmo autor argumenta ainda que “as fontes orais dão-nos informações sobre o povo
iletrado e grupos sociais cuja história escrita é ou falha ou distorcida” 10, e que cabe aos pesquisadores
o respeito pessoal por aqueles com quem trabalham, bem como O respeito intelectual pelo material
coletado.
Através do uso das fontes orais, portanto, foi possível recuperar histórias não conhecidas, e
também capacitar as pessoas a fazerem suas próprias histórias, narrando o seu cotidiano. Dessa
forma, o presente estudo buscou apreender memórias dos moradores de Santiago do Iguape, bem
como, contribuir na efetivação desses enquanto sujeitos da sua própria história, ao valorizar as várias
camadas de ligação de memórias individuais e coletivas na pluralidade das versões sobre o passado
enunciadas por diferentes narradores.
Quanto a essa categoria norteadora de pesquisa, Le Goff considera que a memória é o
“trabalho de atribuir sentido ao passado no presente, a reescrita, recriação do passado no presente
orientado por motivações de quem lembra e de quem produz memória” 11. Pollak reflete sobre a
existência de pontos de referência que estruturam a memória individual e se inserem na memória da
coletividade a que se pertence:

8 BLUME, Luiz Henrique dos Santos. “Viver de tudo que tem na maré”: tradições, memórias de
trabalho e vivências de marisqueiras em Ilhéus, BA, 1960-2008. Tese (Doutorado em História) - Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
9 PORTELLI, Alessandro. O que faz a história oral diferente. Revista Projeto História, São Paulo, Vol.
14, 1997, P. 27-28.
10 Ibid., p. 27.
11 LE GOFF, Jaques. História e Memória. Campinas: UNICAMP, 1996.

201
Em sua análise da memória coletiva, Maurice Halbwachs enfatiza a força dos diferentes
pontos de referência que estruturam nossa memória e que a inserem na memória da
coletividade a que pertencemos. Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos,
esses lugares de memória analisados por Pierre Nora, o patrimônio arquitetônico e seu
estilo, que nos acompanham por toda a nossa vida, as paisagens, as datas e personagens
históricas de cuja importância somos incessantemente relembrados, as tradições e
costumes, certas regras de interação, o folclore e a música, e, por que não, as tradições
culinárias.12

Uma outra categoria de análise muito cara a esse estudo é o pós-abolição, reconheço o pós-
abolição como um campo de estudo importante para apreender as várias experiências de populações
negras e mestiças, egressas do cativeiro no Recôncavo da Bahia, bem como, suas experiências
históricas com os sujeitos com quem mantiveram relações sociais: antigos senhores e demais setores
da população livre.
No enfrentamento a problemática sobre as estratégias construídas pelos ex-escravizados na
sociedade de pós-abolição, na luta por cidadania, Cunha e Gomes 13, propuseram uma análise de
experiências vivenciadas em áreas urbanas e rurais no Brasil entre o século XIX e primeira metade
do século XX, evidenciando que as noções de igualdade e cidadania foram contestadas em práticas
cotidianas.
Dessa forma, considero que lançar olhar para as experiências de trabalhadores e
trabalhadoras negras em Santiago do Iguape, na década de 1960, sem reconhecer que essa
comunidade é, sobretudo, uma sociedade de pós-abolição, marcada diretamente pelas tensões de
lidar com o fim da escravidão, no ambiente fundamentalmente rural, é abrir mão de ampliar os
horizontes de analises, e de perceber que as práticas cotidianas desses sujeitos revelam como eles
seguem, ao longo do tempo, contestando as noções de igualdade e cidadania, e buscando ampliação
e estabilização de direitos.

Memórias do Trabalho na Fábrica Opalma:

A fábrica em questão foi fundada em 1962 no município de Taperoá, situada na Região do


Baixo Sul do estado da Bahia. Foi montada no mesmo período uma filial na região do Iguape, no

12 POLLAK, Michel . Memória, Esquecimento, Silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro,
Vol. 2, 1989. P. 8.
13 CUNHA, Olívia Maria Gomes e GOMES, Flávio dos Santos. Introdução- que cidadão? Retóricas da
igualdade e cotidiano da diferença in: CUNHA, Olívia Maria Gomes e GOMES, Flávio dos Santos. Quase-cidadão:
histórias e antropologias da pós-emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

202
povoado da Acutinga14, que se localiza a 10 quilômetros da comunidade de Santiago do Iguape, foco
dessa análise. O Vale do Iguape foi um local estratégico no Recôncavo da Bahia para sua instalação,
devido à vasta extensão de terras caracterizadas como “massapé”, um solo propício para a plantação
de cana-de-açúcar e que se adequou satisfatoriamente ao plantio extensivo de dendê. A Fábrica
Opalma produzia diversos produtos derivados desse fruto, sendo o principal deles o azeite.
Santiago do Iguape, é uma comunidade pesqueira, sua principal atividade produtiva é a pesca
e a coleta de marisco. O trabalho na Fábrica Opalma, apresentou diferentes notações de tempo para
os sujeitos dessa comunidade, acostumados à execução de atividades diversas que exigiam horários
flexíveis.
A pesquisa evidenciou que nas memórias do cotidiano e do trabalho em Santiago do Iguape
a noção de tempo se relaciona com as atividades desenvolvidas, semelhante à direcionada pelas
tarefas, analisadas por Thompson15. E que essa noção estava ligada às diversas situações cotidianas
de trabalho, que obedeciam aos ritmos da natureza. Eram marcadores de tempo os períodos da
pescaria, da plantação de roças, da colheita de quiabo – orientadas pelo desenvolvimento de tarefas
que, segundo Thompson, pressupõe pouca separação entre o trabalho e as demais relações sociais
cotidianas.
O trabalho se prolonga ou se contrai de acordo com a tarefa, ainda hoje é comum os
pescadores serem encontrados durante o dia no bar conversando sobre as pescarias, contando
“causos”, ou sentados às suas portas, remendando redes de pescas nos períodos de intervalo das
tarefas diariamente produtivas. Escutam som, batem papo e às vezes passam o dia tomando uma
pinga, jogando dominó na praça. Contudo, no “cair” da noite, os pescadores saem para a “labuta no
mar”, pois é o período da maré boa para pesca.
A fábrica empregou vários indivíduos da comunidade de Santiago do Iguape e adjacências.
Seu Guilherme relatou que a maioria dos trabalhadores eram oriundos do Vale do Iguape:

Trabalha muita gente ali, da área, bem poucas pessoas eram de fora, porque os de fora
eram mais técnicos, funcionários, mas especializados de nível elevado, por exemplo,
pessoal da área de escritório, morava aqui em Cachoeira, um ou outro, os técnicos de
Cruz das Almas, mas 95% eram de funcionário dali mesmo.

Seu Guilherme mora atualmente na cidade de Cachoeira e exerceu duas funções na Opalma:
foi auxiliar administrativo e trabalhou como “feitor”. O uso do termo feitor emerge nas memórias

14 Devido à instalação da Fábrica Opalma na região, o povoado de Acutinga passou a ser chamado de
Opalma.
15 Ver: THOMPSON, E. P. Costumes em Comum Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional. São
Paulo: Companhia das Letras,1998.

203
dos trabalhadores da fábrica e é utilizado em deslocamento do período do cativeiro, mas imbricado
nos seus significados, uma vez que o feitor representava a figura que chefiava os campos de
plantações de dendês, controlando a realização das tarefas neste local.
O entrevistado considerava que 95% dos trabalhadores da Opalma eram da região do Iguape,
principalmente por fazer uma comparação das funções desempenhadas pelos “nativos” com as
desempenhadas por pessoas provenientes de outras localidades. Na sua fala, ele destaca a presença
dos “trabalhadores de fora”, estes em funções mais especializadas, como: técnicos e auxiliares
administrativos. Essas funções agregavam um contingente menor de trabalhadores, em detrimento
do trabalho do campo, na plantação de dendê. Os trabalhadores do Vale do Iguape, em especial da
comunidade de Santiago do Iguape estudados por essa pesquisa, revelaram que trabalhavam no
campo, desempenhando diversas funções, como marcador de plantação, cortador, apanhador,
trabalho com a bomba de produtos químicos e trabalho com animal. Como afirmou seu Guilherme,
os funcionários da região não costumavam trabalhar no interior da fábrica.
Seu Tico revelou que trabalhou durante muitos anos na Fábrica Opalma e que desempenhou
várias funções, no entanto, sua expressão no momento da entrevista mudou quando ele falou do seu
trabalho na bomba, ficou mais sério, devido aos problemas de saúde que desenvolveu a partir da
injeção de inseticida nos dendezeiros.

Eu trabalhava na bomba, cortando dendê, trabalhava juntando tala. Eu


trabalhava na bomba, era um aparelho que a gente colocava nas costas, dava
pressão pra colocar lá nos cortes do dendê. Eu trabalhei 7 anos na bomba, aí
eu gumitei um pedaço de sangue e parei, aí saí da bomba. Aí fui trabalhar na
roça, panhar dendê, o trabalho lá era botar dendê pra fora.

Este entrevistado trabalhou durante sete anos manuseando a bomba, esta ejetava um líquido
nos cortes feitos nas palmeiras quando retirava-se o “cacho do dendê”, evitando a penetração de um
besouro prejudicial à plantação. “Bomba é um aparelho, porque quando se corta o dendê, aí tem uns
bisourinhos, quando corta a tala se não colocar o produto, tem um bisouro que penetra e mata o pé
do dendê”.
Segundo seu Tico, trabalhar na bomba exigia demasiada responsabilidade. Para cada cacho
de dendê cortado era preciso injetar o inseticida. Ele tinha que fazer hora extra para não deixar
nenhum pé de dendê cortado sem o líquido: “Às vezes ele vinha embora (Pedro que estava presente
no momento da entrevista) e eu ficava pra passar a bomba no pé de dendê, que não podia ficar em
branco. Passava do meu horário, mas ele (Patrão) dava hora extra. ”

204
Depois de sete anos manuseando a bomba, ele precisou se afastar dessa função por problemas
de saúde, passando a trabalhar carregando dendê dos planteis para colocar na estrada.
Seu Pedro, por sua vez, além de rememorar a sua função, apresenta dados sobre a divisão do
trabalho nos campos da Opalma, explicando quais eram as atividades desenvolvidas pelo “cortador”
de dendê, “ajuntador” e “carregador”. A fala dele ajuda também a compreender o retorno da cultura
da cana-de-açúcar na região do Iguape:

Trabalhava no campo, não era dentro da fábrica, tinha a parte do campo, era plantio de
dendê, aquela área daquela terra que hoje é tudo cana, era tudo dendê, de um lado ao
outro da estrada, até lá no portal. Minha função era, tinha o cortador do dendê, tinha o
ajuntador, que era quando o cortador cortava o cacho do dendê, ficava as talas né, e
jogava no chão, minha função era, pegar aquelas talas, cortar em quatro e arrumar tudo
certinho, tinha o carregador.

O depoente juntava as talas de dendê. Em sua fala enfatizou que não trabalhava dentro da
fábrica. Importante nessas memórias é a divisão entre o espaço das instalações internas da fábrica e
o campo. Seu Salvador também evidenciou essa divisão ao dizer que “dentro da fábrica eu mesmo
nunca trabalhei”. Ele também participou de várias funções durante o tempo de trabalho na Fábrica
Opalma, dentre elas, plantar, colher e adubar dendê:

Eu fazia tanta coisa lá, eu trabalhei na área do campo e não sei dizer o trabalho que
eu fazia, o que tivesse tinha que fazer. Olhe eu trabalhei marcando pra plantar dendê,
trabalhei plantando dendê, cortando não, mas culhendo os cachos que o cortador
cortava, em animal também nunca trabalhei não, não gostava não, adubá era dois
balde de 20 quilos, um de um lado, outro de outro. Dentro da fábrica eu mesmo
nunca trabalhei.

No depoimento de seu Joãozito, emerge uma função diferente das já apresentadas, o trabalho
de carregador de dendê, realizado no “lombo” dos animais: “Eu trabalhava no animal, no campo,
pegando dendê com os colegas, pegava dendê, botava cá fora para descarregar.”
Seu Jorge, outro trabalhador, ressaltou que desempenhou duas funções no campo da Opalma,
cortando talas e carregando dendê:

Trabalhei também na Opalma, eu trabalhava na Opalma cortando tala no campo, e


trabalhava também botando dendê nas caçambas, pra trazer pra fábrica, trabalhei
umas duas ou três vezes assim, uma de ano, uma de ano e tanto, eu trabalhei fichado
também, pela parte rural, era no campo, limpando dendê não, era cortando tala no
mato e conduzindo dendê na mão pra botar na caçamba.

Além disso, explicitou as questões trabalhistas como as dispensas e a readmissão dos


trabalhadores. Essas dispensas aparecem na maioria das entrevistas realizadas e podem ter sido

205
cruciais para que muitos desses sujeitos tenham desenvolvido atividades diferenciadas nas suas
experiências de trabalho na Opalma.
A partir das memórias dos trabalhadores dessa fábrica, pode-se perceber que um mesmo
indivíduo desenvolvia várias funções, no entanto todas elas diretamente ligadas ao trabalho no
campo. Segundo Le Goff, a memória tende a recriar o passado no presente. Dessa forma, o passado
é revivido, sempre recriado orientado por motivações, selecionadas por quem lembra. O passado
assim deve ser visto como um território sempre aberto, guiado pela seleção e atribuição das
experiências rememoradas.
Sobre a questão das relações trabalhistas formais, seu Salvador foi mais explícito. A
entrevista com ele foi realizada em sua casa, na comunidade do Caonge. Quando cheguei, ele já
estava me aguardando com uma caixa cheia de documentos referentes aos seus 33 anos de trabalho
legalizado na Fábrica Opalma. Disse-me ele: “Eu trabalhava de carteira assinada, fora os tempos que
eu trabalhei avulso, os seis anos que eu trabalhei avulso, eu tenho 33 anos de carteira assinada.”
Esta ênfase indica uma reflexão: a importância da “carteira assinada”. Na fala, seu Salvador
enfatiza o trabalho com carteira assinada, que deve ter representado para os trabalhadores da Fábrica
Opalma, moradores dos povoados do Vale do Iguape, em sua maioria pescadores e roceiros, a
segurança financeira, “o dinheiro certo”. Os recursos financeiros conquistados através da roça
tradicional e da atividade pesqueira variavam bastante, uma vez que dependiam de fatores naturais.
Dessa forma, os sujeitos dessa pesquisa fizeram questão de destacar que eram trabalhadores de
carteira assinada.

206
Fonte: Acervo particular de Salvador Pereira

Seu Salvador mostrou o seu contrato de trabalho com uma expressão bastante orgulhosa. Esse
documento pode ter representado o “dinheiro certo”, mencionado anteriormente, tanto para ele,
quanto para a maioria dos trabalhadores entrevistados por esse estudo. Mas também, pode ter
representado direito à cidadania para a população negra no pós-abolição.
Nascimento, no seu texto, “Qual a condição social dos negros no Brasil depois do fim da
escravidão? O pós-abolição no ensino de história 16 ”, refletiu, a partir de respostas dadas a uma
questão específica no vestibular Nacional da Unicamp, questão essa que deu origem ao título do
referido artigo, que a produção do conhecimento a partir das abordagens dos livros didáticos
continuavam reproduzindo conceitos, como anomia do escravo, democracia racial, imobilidade e
não integração da população negra na sociedade de pós-abolição, muito influenciado, pelos estudos
de Gilberto Freyre na década de 1930 e da escola sociológica paulista da década nos anos de 1960.
O autor considerou que não se deve pensar a passagem do trabalho escravo para o livre de
forma linear e enrijecida, é preciso pensar a história enquanto processual e compreender que os
escravizados participaram desse processo histórico ativamente, buscando ampliação e estabilização
de direitos. Dessa forma, a trajetória de vida de seu Salvador, trabalhador de carteira assinada da

16 NASCIMENTO. Álvaro Pereira do. Qual a condição social dos negros no Brasil depois do fim da
escravidão? O pós-abolição no ensino de História. In: SALGUEIRO, Maria Aparecida Andrade (org). A República e a
Questão do Negro no Brasil. Rio de Janeiro: Museu da República, 2005.

207
fábrica Opalma, deve ser rememorada e trazida à tona, no intuído de reafirmar que homens negros
alcançaram diversos níveis de cidadania, na contramão de um racismo que insistia em dificultar sua
“ integração” a essa sociedade.
As atividades laborais na Opalma, de certa forma, implantou um outro tempo, do horário
mensurado pelo relógio, pelos turnos de trabalho. Assim, neste estudo foi fundamental apreender
quais as táticas dos iguapenses quanto à articulação dos trabalhos realizados na localidade, como a
pesca e a produção de roças, com as atividades na Fábrica Opalma, após sua instalação no Vale do
Iguape. O presente artigo, buscou apresentar como ela gerou oportunidades de empregos diretos e
indiretos e como isso interferiu na relação de família/trabalho/tempo, da população negra e mestiça,
no Recôncavo da Bahia.

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THOMPSON, E. P. Costumes em Comum Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional. São Paulo:
Companhia das Letras,1998.

208
Fontes:
*BRITO, Pedro. (78 anos) Entrevista concedida a Ana Paula Batista da Silva Cruz em 30/01/13, na
casa de Seu Jorge. Gravada em áudio tipo som wave (6.194 KB)Tiago. (58 anos) Entrevista
concedida a Ana Paula Batista da Silva Cruz em 25/03/14, na minha casa na comunidade quilombola
Santiago do Iguape. Gravada em áudio tipo som wave (7.482 KB), JESUS, Salvador Pereira. (70
anos) Entrevista concedida a Ana Paula Batista da Silva Cruz em 15/02/2012, na minha casa na
comunidade quilombola Santiago do Iguape. Gravada em áudio tipo som wave (12.110 KB), SILVA,
Guilherme Gomes. (53 anos) Entrevista concedida a Ana Paula Batista da Silva Cruz em 15/07/2013,
na casa de seu Guilherme. Gravada em áudio tipo som wave (9.658 KB), VIEIRA, Francisco. (53
anos).

*Fotografia, acervo particular de Seu Salvador Pereira.

209
As onze lições de Robert McNamara e o Realismo das Relações Internacionais

Ana Paula Marino de Sant’Anna Reis1

Resumo: Robert Strange McNamara foi o Secretário de Defesa dos Estados Unidos da América de
1961 até 1968 trabalhando nos governos de John Fitzgerald Kennedy e Lyndon Baines Johnson. Ele
participou ativamente de decisões importantes para o mundo bipolar da Guerra Fria, e por isso estava
inserido em situações complexas e de conflitos, como foi o caso da Crise dos Mísseis em Cuba e da
Guerra no Vietnã. No ano de 2003 foi feito um documentário sobre sua experiência nesse cargo,
chamado The Fog of War – Sob a névoa da Guerra. Neste documentário ele apresenta onze lições
importantes para que um país saiba lidar com situações complexas com o inimigo. Esse trabalho
propõe apresentar a visão de McNamara e em paralelo discutir sobre a teoria realista de Relações
Internacionais, que no campo teórico e científico entendemos que pode explicar boa parte da visão
da prática de McNamara.

Palavras-Chave: McNamara, Realismo, Relações Internacionais.

Abstract: Robert Strange McNamara was Secretary of Defense of the United States of America from
1961 to 1968 working in the governments of John Fitzgerald Kennedy and Lyndon Baines Johnson.
He actively participated in important decisions for the bipolar world of the Cold War, and was
therefore involved in complex situations and conflicts, such as the Cuban Missile Crisis and the
Vietnam War. In the year 2003 a documentary about his experience in this position was release and
it’s called The Fog of War. In this documentary, he presents eleven important lessons for a country
to deal with complex situations with the enemy. This paper proposes to present the vision of
McNamara and in parallel discuss about the Realism theory of International Relations, which in the
theoretical and scientific field we understand that can explain much of the vision of the practice of
McNamara.

Key-words: McNamara, Realism, International Relations.

Introdução

As Relações Internacionais (RI) são um campo de estudo complexo e abrangente. Pensar a


política internacional não é simples, pois envolve compreender os atores que estão inseridos nas
situações, os fenômenos que incidem sobre a situação e os processos de mudança. Estudar as
Relações Internacionais implica, portanto, em buscar obter um arcabouço teórico amplo das Ciências
Socais. (PECEQUILO, 2009, p.17). De acordo com Braillard (1990, p.86 apud PECEQUILO, 2009,
p.17) as Relações Internacionais podem ser definidas “como as relações sociais que atravessam as
fronteiras e que se estabelecem entre as diversas sociedades”.

1 Bacharel em Relações Internacionais pela ESPM-RJ. Graduanda em História pela UERJ. Email:
paula.reis@msn.com

210
Para se estudar as Relações Internacionais faz-se necessário ter um conhecimento prévio sobre
alguns conceitos. Segue abaixo a Tabela 1 desenvolvida por Thales de Castro com alguns conceitos-
chave das Relações Internacionais e que serão úteis para o desenvolvimento deste artigo. Deve-se
mencionar que foi selecionado do quadro original somente os conceitos pertinentes nesse texto,
contudo vale a leitura de todo o quadro para quem tem interesse em desenvolver estudos na área de
Relações Internacionais.

Principais Ferramentas conceituais


Estado Entidade político-jurídica que representa a engrenagem central das RI
dotada de população permanente, de território reconhecido, de
governo aceito e de exercício de soberania estatal no plano interno e
externo, perfazendo, assim, seu jus dominium. Em decorrência disso,
possui capacidade de autogoverno, poder de polícia e organização
institucional.
Soberania estatal Conceito derivado do latim summa potestas, a soberania é
prerrogativa exclusiva do exercício da capacidade de mando do
Estado nacional reconhecido. Em sua vertente interna, diz respeito ao
exercício de autogoverno, de poder de polícia e capacidade de
organização político-administrativa, enquanto que em sua esfera
externa diz respeito à sua presença reconhecida, à prerrogativa
jurídica e à articulação internacional com base nos jus in bellum
(direito de decretar guerra e celebrar a paz com outros Estados), jus
tractum (direito de negociar, assinar, retificar e denunciar tratados) e
jus legationis (direito de legação em sua dimensão ativa e passiva;
sendo a dimensão ativa a capacidade de receber enquanto que na
passiva diz respeito ao recebimento de agentes consulares e
diplomáticos), jus petitionis (direito de solicitar a prestação
jurisdicional em tribunais internacionais quanto aceitar a juris dire de
várias Cortes, podendo, para tanto, ser parte ativa ou passiva em
processos judiciais) e jus representationis (direito de representar e
fazer-se representar em organismos internacionais, agências
multilaterais e programas cim direito à voz, voto e determinação de
agenda).
Hegemonia Exercício de hiperpoder multidimensional por um ou mais Estados em
escala global. O exercício hegemônico pressupõe reconhecimento de
tal capacidade por parte dos demais Estados. É escalonada na forma
de consolidação, primeiramente da liderança, posteriormente, da
supremacia em determinadas áreas. Dessa forma, hegemonia
representa a materialização plena e internacionalmente reconhecida
de supremacia em todas as variáveis do quociente de poder
internacional [conceito criado por Castro] que será explicitado no
próximo termo (poder). Hegemonia é atingida pela concentração
cratológica do(s) Estado(s).

211
Poder Capacidade de alterar o comportamento de outros atores
internacionais por meio de exercício de dominação e controle com
finalidades determinadas. Integra os Capitais de força-poder-
interesse. Em nossa visão, o poder internacional de um Estado
(quociente de poder internacional) é expresso pelo somatório de
poderes político-diplomático, econômico-financeiro, cultural, militar
e geodemográfico.
Polaridade Quantidade de polos ou de centro hegemônicos (hiperpoderio ou
hiperpolo) no cenário internacional, limitados, geograficamente, pelo
conceito de sistema (macro, meso ou microssistemia). Representa
acumulação expressiva de Capitais de força-poder-interesse em um
ator internacional. A polaridade refere-se também à morfologia de
distribuição desigual e de relacionamento entre os atores
internacionais, gerando a estratificação cratológica na forma de
pirâmide dos Estados.
Balança de Poder Regra geral de pesos e contrapesos ao exercício dos Capitais de
força-poder-interesse em conjunto com os Padrões de dissuasão-
normas-valores no âmbito das relações dos Estados, dotando-os de
capacidade de manter um certo (e frágil) equilíbrio sistêmico. Balança
de poder tem proximidade com dois outros conceitos importantes:
teoria do poder gravitacional e esferas de influência.
Ordem Mundial Recorte temporal de longa duração com determinação da governança
entre os Estados por meio da junção do exercício de poder (cratologia)
hegemônico em parceria com seus valores, princípios e ideias
exportados e aceitos pela grande maioria dos demais Estados
(principiologia/axiologia). Ordem mundial é posta, de forma
impositiva, sob a égide dos status quo aos demais pelo(s) país(es)
hegemônico(s). Só pode haver governança com o estabelecimento
anterior de ordem. Portanto, OM é um sinônimo de governança
mundial (GM). Em síntese, portanto, temos OM = GM.
Tabela 1: Principais Ferramentas conceituais. Adaptada de CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: FUNAG,
2012. p.76-78.2

O Sistema Internacional (SI) é o espaço dessas relações sociais entre os atores (outros autores
podem chamar o SI de cenário ou ambiente). O SI é um espaço essencialmente anárquico, pois é
composto por atores que não possuem um sistema regulatório acima deles, diferente do que acontece
dentro do âmbito dos Estados, onde existe um governo e leis, como apresentado na Tabela 1. Quem
participa desse SI são os atores internacionais, que podem ser os Estados, as Organizações
Internacionais Governamentais ou Intergovernamentais (OIGs) e as Forças Transnacionais (FTs).
Mesmo sendo anárquico, o SI possui uma estrutura que o faz ter coerência e tende a estabelecer um
equilíbrio de forças, que é o que chamados de Equilíbrio de Poder (EP). (PECEQUILO, 2009, p.18-
20). De acordo com Pecequilo (2009, p.19):

2 Fez-se necessário incluir algumas palavras no decorrer do texto da Tabela 1 levando em consideração
que no original elas se encontram abreviadas. Essas palavras estão explicitadas em negrito. Todo o texto é de autoria de
Thales Castro.

212
(...) o EP é um dos principais pilares da teoria realista clássica das Relações
Internacionais do século XX. (...) A ordem internacional emerge a partir da
dinâmica de competição e choque mútuo entre os Estados que se anulam
mutuamente ao perseguir seus interesses nacionais (a razão de Estado orienta o seu
comportamento). A “prioridade primeira” é a manutenção da soberania e da
segurança de cada unidade política individual. Este processo de contenção e
dissuasão mútuas entre os diferentes pólos produz uma condição de estabilidade que
se não satisfaz plenamente a todas as nações, evita a eclosão constante de guerras e
o extremo dos jogos de soma zero. Nesse contexto, tais relações ocorrem sob a
“sombra da guerra” e visam a estabilidade de não a paz, percebida como um objetivo
utópico. (PECEQUILO, 2009, P.19)

Já apresentado na Tabela 1, o poder é um objeto de estudo muito importante para as RI. Para
além da definição de Castro apresentada acima, o poder pode ser analisado pensando especificamente
os recursos de poder que estão à disposição dos Estados, ou seja, “o poder potencial de um Estado,
aquele que existe em sua condição bruta, e o seu poder real, definido por sua capacidade de
conversão”. Além disso o poder pode ser visto quanto a tipologia dos recursos, sendo dividido em
poder duro (hard power) e poder brando (soft power). Esse tipo de classificação advém do
Neoliberalismo das Relações Internacionais e foi cunhado pelo pesquisador Joseph S. Nye Jr.
(PECEQUILO, 2009, p. 21)

Teoria Realista de Relações Internacionais

De acordo com Castro (2012, p. 309) a Teoria Realista “é a mais antiga e mais amplamente
conhecida das escolas de pensamento em Relações Internacionais”. Para apresentar a Teoria Realista
de RI faz-se necessário ter em mente que, por mais que ela se desenvolva como campo teórico no
século XX, suas bases encontram-se em autores anteriores a esse momento. De acordo com
Pecequilo (2009) e Jackson e Sorensen (2013) os autores clássicos são Tucídides, Nicolau Maquiavel
e Thomas Hobbes. Castro (2012) entende que na verdade os fundadores do realismo clássico são
seis, esses três citados anteriormente e também Sun Tzu, Tito Lívio e Richelieu. Pecequilo e Jackson
e Sorensen não desconsideram Richelieu, comentam sobre esse autor pela sua relevância de adicionar
o conceito de razão de estado (raison d’état) contudo não o consideram como um autor basilar.
De acordo com Jackson e Sorensen (2013, p.99-100) a abordagem desses realistas clássicos é
“basicamente normativa e se concentra em valores políticos centrais de segurança nacional e de
sobrevivência estatal”.

213
O realismo clássico inicia seus argumentos sobre a tese da sobrevivência e autoajuda
em sentido amplo por meio da manutenção do Estado, conservação do seu poder e
a preservação da ordem pela subserviência de sua população, tendo a segurança
comum como seus principais pressupostos. A segurança é bem público imaterial de
relevante valor. Mais: é um patrimônio necessário à humanidade que remonta a
antigos anseios das coletividades pré-estatais (pré-westphalianas). (CASTRO,
2012, p. 316)

Para Pecequilo (2009, p.28-29) Tucídides analisa o conflito entre Atenas e Esparta
compreendendo o funcionamento do equilíbrio de poder entre essas duas cidades; Maquiavel por
outro lado se preocupa com a questão da “dinâmica da conquista, manutenção e expansão do poder”
e a eficiência das ações do governante perante seus objetivos; Hobbes demonstra a existência da
anarquia no Sistema Internacional, por meio do seu conceito de estado de natureza e da necessidade
dentro do Estado de se obter leis e controle dos cidadãos, o que não existe no Sistema Internacional.
De acordo com Jackson e Sorensen (2013, p. 106) é possível pensar os valores básicos dos três
realistas clássicos por meio de um esquema simples com conceitos-chave. Segue abaixo a Tabela 2
organizada pelos autores.

Valores básicos de três realistas clássicos


Tucídides Maquiavel Hobbes
Destino político Agilidade política Disposição política
Necessidade e segurança Oportunidade e segurança Dilema de segurança
Sobrevivência política Sobrevivência política Sobrevivência política
Segurança Virtude cívica Paz e felicidade
Tabela 2: Adaptada de: JACKSON, Robert e SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais: teorias e abordagens. Rio
de Janeiro: Zahar, 2013. P.106.

A teoria realista se modifica no pós-Segunda Guerra Mundial com a organização da Teoria


Neoclássica de Hans Morgenthau no livro Política Entre as Nações de 1948. Para esse autor é
importante o conceito de animus domandi, que explica que o homem é por natureza um animal e tem
um desejo por poder. A partir dessa ideia, ele desenvolve outras reflexões, mostrando que esse desejo
por poder gera uma busca por vantagem perante o outro e por isso deve-se estabelecer um espaço de
segurança para que possa existir liberdade e o Estado ser independente, em questões internas, mas a
segurança para além do espaço do Estado é impossível, já que o autor permanece com a premissa de
que o SI é anárquico. Além disso, outro conceito importante é o de auto interesse, que predomina
nas relações entre as pessoas graças ao animus domandi. (JACKSON E SORENSEN, 2013, p.107-

214
111) O autor sintetiza sua visão realista por meio de “seis princípios do realismo político” que foram
bem organizados por Jackson e Sorensen (2013, p. 111-112) e que seguem abaixo:

[1] A política se baseia em uma natureza humana permanente e imutável


caracterizada pelo egoísmo, autoapreço [sic] e autointeresse [sic]. [2] A política é
“uma esfera autônoma de ação” e não pode, portanto, ser reduzida à economia (...)
ou à moral (...). Os líderes estatais deveriam agir de acordo com as ordens do
conhecimento político. [3] O autointeresse [sic] é um fato básico da condição
humana: todas as pessoas têm um interesse mínimo em sua própria segurança e
sobrevivência A política é o palco para a expressão desses interesses, que estão
propensos a entrar em conflito em algum momento. A política internacional é uma
arena de interesses estatais conflitantes. Mas tais desejos não são estáveis: o mundo
é dinâmico e os interesses mudam com o tempo e com o espaço. O realismo é uma
doutrina que reage à realidade política em transformação. [4] A ética das relações
internacionais é uma ética política ou circunstancial, a qual é muito diferente da
moralidade privada (...). Sendo assim, o líder estatal responsável não deveria se
esforçar para fazer o melhor, mas obter o melhor desempenho dentro das
circunstâncias reais. Essa situação limitada de escolha política é a essência
normativa da ética realista. [5] Os realistas se opõem, portanto, à ideia de que nações
particulares (...) possam impor suas ideologias sobre outros países e empregar seus
poderes em estratégias com tal objetivo. Os realistas se opõem porque veem isso
como uma atividade perigosa que ameaça a paz e a segurança internacional. (...) [6]
A política é uma atividade séria e sem inspiração que envolve uma conscientização
profunda das limitações e das imperfeições humanas. Esse conhecimento pessimista
dos seres humanos sobre como são e não como gostaríamos que fossem é um difícil
fato no núcleo da política internacional. (JACKSON E SORENSEN, 2013, p. 111-
112)

Nos anos seguintes a publicação de Morgenthau se desenvolveu no campo metodológico das


RI uma influência muito forte das ideias de que este campo de estudo deveria ser visto como de
interesse nacional e que por isso deveria ser analisado de forma “mais científica” e “mais rigorosa”.
Essa ideia de rigor estava relacionada a uma transposição da metodologia de ciências sociais
aplicadas e matemáticas para as questões da diplomacia, e esse movimento foi chamado de
behaviorismo. (JACKSON E SORENSEN, 2013, p.73).

A principal tarefa [dos behavioristas] é reunir informação empírica sobre o campo,


de preferência uma grande quantidade de dados, que possam ser então usados para
medir, classificar, generalizar e, em última análise, validar a hipótese, isto é,
explicar cientificamente os padrões de comportamento. (JACKSON E
SORENSEN, 2013, p.74).

Essa discussão foi bastante importante na época e ainda hoje está dentro das reflexões acerca
de como pensar o SI. Com a metodologia behaviorista houve um distanciamento das análises que
preconizavam as questões morais e passou-se a pensar que era possível a “formulação de leis
científicas sobre as Relações Internacionais”, assim como são feitas na Física e na Química. Não
devemos pensar que o uso dessa metodologia exclui completamente a importância da filosofia

215
política, do pensamento sobre a moralidade e a ética. Na verdade, o que ocorreu após esse momento
foi a incorporação dessa metodologia, mas muitas vezes conciliando com abordagens tradicionais.
(JACKSON E SORENSEN, 2013, p. 75)
A Teoria Realista se desenvolve depois desse período caminhando para o Neorrealismo (ou
Realismo Estrutural) de Kenneth Waltz na obra Theory of International Politics (1979) que
compreende que “o sistema internacional é a estrutura dentro da qual se processam as Relações
Internacionais, delimitando a atuação dos agentes, isto é, os Estados, segundo parâmetros da
socialização e da competição”. A teoria de Waltz faz com que a Teoria Realista passe a pensar a
interação do ambiente interno (as políticas internas do Estado) como ambiente externo (SI), e que
essa interação produz as políticas externas dos atores do SI. Um aspecto muito importante de sua
visão realista é a compreensão de que o foco é a estrutura do sistema e os atores constituem unidades
interativas que pertencem a essa estrutura. Além de Waltz, temos também outros autores célebres
dessa vertente Realista: John Mearsheimer, Christopher Layne, Schweller, Grieco, John Gaddis,
entre outros. (PECEQUILO, 2009, p. 31 e JACKSON E SORENSEN, 2013, p. 117-119)
Jackson e Sorensen (2013, p.98) resumem a Teoria Realista como um todo em quatro
premissas básicas, que são de grande importância para termos uma visão panorâmica sobre essa
maneira de analisar o SI. Seguem abaixo as premissas:

(1) uma visão pessimista da natureza humana; (2) uma convicção de que as relações
internacionais são necessariamente conflituosas e os conflitos internacionais são,
em última análise, resolvidos por meio da guerra; (3) apreciação pelos valores da
segurança nacional e da sobrevivência estatal; e (4) um ceticismo básico com
relação à existência de um progresso comparável ao da vida política nacional (...)
no contexto internacional. (JACKSON e SORENSEN, 2013, p.98)

O realismo é, portanto, a percepção e detecção “da realidade como é e como se apresenta de


facto”. As temáticas abordadas giram em torno “da segurança, da sobrevivência e da lógica de poder
para tais fins na esfera interativa humana”. (CASTRO, 2012, p. 312-315)

As onze lições de Robert McNamara

No documentário The Fog of War – Sob a névoa da Guerra, com direção de Errol Morris,
Robert Strange McNamara apresenta onze lições sobre como lidar em situações complexas com o
inimigo. Este documentário ganhou o Oscar em 2004 como Melhor Documentário de Longa-
metragem. O documentário conta com trechos de programas de televisão e fotos de McNamara, com

216
gravações de ligações e de reuniões enquanto ele estava no cargo de Secretário de Defesa, além de
imagens diversas que ilustram sua fala. Logo no início do documentário ele afirma que seu lema tem
sido: “Tente aprender, tente entender o que aconteceu. Tire as lições e passe-as adiante”3. Com essa
ideia, McNamara fala sobre sua vida profissional e pessoal, sobre suas experiências, suas atitudes e
aprendizados. (THE FOG..., 2003)
Robert Strange McNamara foi Secretário de Defesa dos Estados Unidos da América entre
1961 e 1968, trabalhando nos governos de John Fitzgerald Kennedy e Lyndon Baines Johnson. Neste
período pode participar ativamente de diversas situações complexas externamente como a Crise dos
Mísseis em Cuba e a Guerra do Vietnã. Antes de trabalhar no governo ele estudou em Harvard e
trabalhou na Ford Motor Company, sendo o primeiro a se estabelecer no cargo de Presidente da
empresa que não era pertencente à família Ford. Participou da Segunda Guerra Mundial trabalhando
pelo exército estadunidense; e depois de trabalhar como Secretário de Defesa foi presidente do Banco
Mundial por treze anos, até 1981. (THE FOG..., 2003)
Abaixo segue a Tabela 3 com as onze lições de McNamara descritas no documentário The
Fog of War – Sob a névoa da Guerra com tradução livre e com a versão original em inglês.

As onze lições de Robert Strange McNamara


Lição 1 Cause empatia no inimigo. Empathize with your enemy.
Lição 2 A racionalidade não nos salvará. Rationality will not save us.
Lição 3 Existe algo além de si próprio. There’s something beyond one’s self.
Lição 4 Maximizar eficiência. Maximize efficiency.
Lição 5 A proporcionalidade deve ser uma diretriz na guerra. Proportionality should be
a guideline in war.
Lição 6 Obtenha dados. Get the data.
Lição 7 A crença e a visão costumam estar erradas. Belief and seeing are both often
wrong.
Lição 8 Esteja preparado para rever seu raciocínio. Be prepared to reexamine your
reasoning.
Lição 9 Para fazer o bem talvez seja preciso fazer o mal. In order to do good, you may
have to engage in evil.
Lição 10 Nunca diga nunca. Never say never.
Lição 11 Não se pode mudar a natureza humana. You can’t change human nature.
Tabela 3: As 11 Lições de Robert Strange McNamara em tradução livre e original em inglês de acordo como Documentário "The Fog
f War" (Estados Unidos: Sony Pictures, 2003. Cor. 95 min, DVD)

De início, com a primeira lição (Cause empatia no inimigo), McNamara explica que é
importante pensar como o inimigo está agindo e o que ele pretende com suas falas e atitudes. De

3 Tradução Livre.

217
acordo com McNamara, quando você conhece o outro consegue se adiantar perante as suas ações.
Ele afirma que “devemos nos colocar na pele deles e olhar para nós com os olhos deles para entender
o pensamento por trás das decisões e dos atos4”. Para exemplificar essa lição ele recorre a suas
memórias sobre a Crise dos Mísseis em Cuba e os telegramas que o presidente Kennedy recebeu de
Moscou no auge das tensões. (THE FOG..., 2003)
A segunda lição (A racionalidade não nos salvará) de McNamara é explicada por ele também
usando o contexto da Crise dos Mísseis. McNamara compreendeu que “Foi a sorte que evitou a
guerra nuclear”, porque naquele momento ele estava vendo grandes personalidades políticas
racionais (Kennedy, Nikita Kruschev e Fidel Castro) que estavam em um momento de alta tensão e
que por pouco não destruíram seus próprios países e toda o SI. Dentro dessa lição ele ainda afirma
que a falibilidade humana combinada com a posse de armas nucleares irá destruir os Estados. (THE
FOG..., 2003)
O contexto de exemplificação da terceira lição (Existe algo além de si próprio) não é mais a
Crise dos Mísseis, e sim sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial. Ele afirma que houve
um momento que obtiveram estatísticas que mostraram que muitos pilotos estavam desistindo de se
direcionar ao destino estipulado no Japão por medo de morrer e que foi necessário que o General
LeMay, que comandava o grupo, se posicionasse como o líder e desse o exemplo para que os demais
compreendessem a importância da participação, além de criarem uma compreensão de grupo, de
unidade, de cumplicidade. (THE FOG..., 2003)
A lição seguinte (Maximizar eficiência) permanece no contexto da guerra e é apresentada
como um ponto basilar e que deve ser visto distanciado de questões morais e éticas. De acordo com
McNamara é necessário manter um foco e procurar atingi-lo da forma mais eficiente possível, mais
eficiente no sentido de enfraquecer o adversário. Contudo, a quinta lição (A proporcionalidade deve
ser uma diretriz na guerra) é uma espécie de freio da anterior, compreendendo que há uma
necessidade de se estabelecer um limite, uma regra em relação a beligerância. (THE FOG..., 2003)
McNamara afirma que:

O que se pode criticar é que a raça humana antes daquela época e atualmente ainda
não captou o que chamo de regra de guerra. Havia uma regra dizendo que não se
podia bombardear ou queimar 100 mil civis numa noite? (...) Por que seria imoral
fazer o que fizemos se tivéssemos perdido mas não foi imoral porque vencemos?
(THE FOG..., 2003)5

4 Tradução Livre.
5 Tradução Livre.

218
A sexta lição (Obtenha dados) foi exemplificada por sua experiência trabalhando na Ford
Motor Company. Naquela época McNamara pesquisou quem comprava os carros da concorrência
da Ford para montar carros para esse grupo de pessoas que não via na Ford a opção de produto que
queria. Ele também pesquisou como eram os acidentes para desenvolver carros que fossem mais
seguros. Nesse momento ele dá ênfase na quantidade alta de pesquisas, cálculos e análises vistas
como científicas para que seja possível analisar um problema e resolvê-lo, e transpõe essa ideia de
metodologia para suas lições que levam em consideração conflitos com inimigos. A sétima lição (A
crença e a visão costumam estar erradas) complementa a visão anterior pois desqualifica a percepção
das pessoas perante a situação, o que de certa forma favorece os dados que seriam mais concretos,
como números e estatísticas, isto porque para ele “nós costumamos ver o que queremos acreditar e
ver”6. Para explicar essa lição ele recorre a suas memórias em relação à Guerra no Vietnã, pois de
acordo com McNamara os estadunidenses erraram ao declarar guerra ao Vietnã por causa de um
segundo ataque a bases estadunidenses na Ásia, porque na verdade esse segundo ataque nunca
ocorreu. Além disso, outro erro que ele aponta em relação ao Vietnã é que os EUA perceberam os
interesses vietnamitas de forma incorreta, os inserindo em um contexto de Guerra Fria quando na
verdade sua motivação era mais direcionada a uma questão de Guerra de Independência perante a
França, a China e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). (THE FOG..., 2003)
A oitava lição (Esteja preparado para rever seu raciocínio) leva em consideração a
importância de não ser tão inflexível perante suas opiniões e ações em relação ao inimigo,
compreendendo a importância de agir somente após reflexão e com apoio. (THE FOG..., 2003) De
acordo com McNamara:

Somos a nação mais forte do mundo atual. Jamais devemos usar esse poder
econômico, político ou militar unilateralmente. Se tivéssemos observado essa regra
não teríamos ido ao Vietnã. (...) Se não dá para convencer [nossos aliados] com
valores comparáveis do mérito da nossa causa é melhor rever o raciocínio. (THE
FOG..., 2003)7

A lição de número nove (Para fazer o bem talvez seja preciso fazer o mal) não é com o intuito
de simplesmente afirmar uma beligerância permanente ou afirmar que uma ação sem ética e moral é
justificável em quaisquer circunstâncias perante o inimigo. É, na verdade, uma justificativa para os
atos de guerra comentados por McNamara, levando em consideração que mesmo tendo ideais e
responsabilidades às vezes é necessário agir perante o inimigo de forma cruel, contudo minimizando
esse mal que foi feito. (THE FOG..., 2003)

6 Tradução Livre.
7 Tradução Livre

219
A lição seguinte (Nunca diga nunca) não é muito explorada por McNamara, que a aponta de
forma sucinta e a repete diversas vezes, como se fosse um mantra que deve ser internalizado e não
esquecido. A última lição (Não se pode mudar a natureza humana), que é uma negação e, portanto,
não deveria ser feita dessa forma já que não se deve afirmar, de acordo como próprio McNamara,
que algo nunca pode ocorrer, fecha o documentário justificando a necessidade de se obter tantas
lições para lidar com um inimigo. De acordo com McNamara “Não sou tão ingênuo a ponto de crer
que podemos eliminar a guerra. Não mudaremos a natureza humana tão cedo. Não é que não sejamos
racionais, nós somos racionais. Mas a razão tem limites” 8. (THE FOG..., 2003)

Análise da Fonte

É possível constatar que todas as lições se baseiam em valores políticos centrais de segurança
nacional e de sobrevivência estatal, ou seja, todas elas estão dentro da lógica realista. Além disso, é
possível identificar que muitas delas têm como base pensamentos de autores específicos das RI já
citados acima, e para melhor compreender a situação segue abaixo uma análise comparativa.
No caso da relação entre as análises de Tucídides e de McNamara, se em todo momento
McNamara está pensando na relação com o outro, com o inimigo, e como se tornar mais eficiente,
mais objetivo e saber lidar com as questões referentes as relações com o outro, ele está pensando
sobre o EP entre os atores, assim como pensou Tucídides sobre as relações de EP entre Atenas e
Esparta. A influência do pensamento de Maquiavel é clara nas lições 1, 4, 9, na medida em que são
lições que falaram sobre a dinâmica da conquista e o esforço pela manutenção e expansão de poder.
Para McNamara quem tem a responsabilidade de manter seu poder perante o inimigo tem que
trabalhar com a maior eficiência possível, saber lidar com o inimigo, o que o faz reconhecer que há
um inimigo e ser combatido, ou seja, há um espaço de conquista perante o outro, e que para atingir
seus objetivos os meios devem ser quaisquer, dependendo somente da sua eficiência. As ideias de
outro pensador clássico também são de fácil identificação nas lições de McNamara: Thomas Hobbes.
Além da clara ideia de sobrevivência política explicitada na lição 9, a lição 11 de McNamara é uma
maneira de interpretar o conceito de estado de natureza hobbesiano.
Morgenthau e seus 6 princípios do realismo neoclássico também estão presentes nas lições
do ex-Secretário de Defesa, assim como seu conceito principal, o animus domandi, tem profunda

8 Tradução Livre.

220
relação com o estado de natureza hobbesiano, e com isso, grande relação com a lição 11. Podemos,
então, compreender que as ideias de Morgenthau estão na base do pensamento de McNamara,
contudo não podemos afirmar que ele é um autor específico que o influenciou, já que no
documentário O ex-Secretário de Defesa induz a quem está assistindo a entender que essas lições
advêm exclusivamente de sua experiência prática nas profissões que desempenhou durante sua vida.
Para melhor visualização das relações entre as ideias de Morgenthau e de McNamara, segue abaixo
Tabela 4.

Relação Morgenthau X McNamara


6 Princípios de Morgenthau Lições de McNamara equivalentes
Princípio 1: Natureza humana é imutável, [7] A crença e a visão costumam estar
egoísta e só considera o auto apreço e auto erradas.
interesse [11] Não se pode mudar a natureza humana.
Princípio 2: A política não pode ser reduzida [9] Para fazer o bem talvez seja preciso fazer
à economia ou à moral. “Os líderes estatais o mal.
deveriam agir de acordo com as ordens do
conhecimento político”.
Princípio 3: Na política internacional há [8] Esteja preparado para rever seu
interesses estatais em constante conflito, que raciocínio.
são mutáveis porque o mundo é dinâmico. [10] Nunca diga nunca.
Princípio 4: A ética das relações [4] Maximizar eficiência.
internacionais é uma ética política, ou seja, [9] Para fazer o bem talvez seja preciso fazer
leva em consideração as circunstâncias e o mal.
interesses. O líder tem que obter o melhor
resultado dentro das circunstâncias reais.
Princípio 5: Uma nação não pode impor sua [5] A proporcionalidade deve ser uma
ideologia sobre outra a força ameaçando a diretriz na guerra.
segurança internacional.
Princípio 6: A política é uma atividade séria [2] A racionalidade não nos salvará.
que interpreta os seres humanos de forma [7] A crença e a visão costumam estar
pessimista como eles realmente são e não erradas.
como queríamos que fossem. [8] Esteja preparado para rever seu
raciocínio.
[10] Nunca diga nunca
Tabela 4: Relação Morgenthau X McNamara. Princípios de Morgenthau baseados em JACKSON E SORENSEN
(2013, p. 111-112) e Lições de McNamara retiradas de THE FOG... (2003).

Outra influência importante que deve ser mencionada é a da metodologia behaviorista no


pensamento de McNamara sobre as questões internacionais. Claramente o debate metodológico
causou influência em suas ideias já que, de início ele pretende formular leis gerais para o
entendimento dos conflitos com o outro, mas também está claro em duas lições específicas, a lição

221
de número 4 (Maximizar eficiência) na qual durante o documentário ele fala sobre a importância da
pesquisa e obtenção de informações para que seja possível fazer algo e a lição de número 6 (Obtenha
dados) que por si só já é a representação dessa busca por números, estatísticas e “cientificidade” nas
RI. Outra lição, a de número 3 (Existe algo além de si próprio), foi ilustrada por McNamara com
informações relacionadas a dados e pesquisas, já que fala que muitos pilotos estavam desistindo de
seguir para seu alvo na 2ª Guerra Mundial e foi possível ter essas informações por meio de dados e
pesquisas.
Essa lição de número 3 (Existe algo além de si próprio) merece uma atenção maior porque
em um primeiro momento, olhando somente a frase, pode-se pensar que ela é uma lição contrária a
outras, como a lição 9 (Para fazer o bem talvez seja preciso fazer o mal.). Contudo não podemos
analisa-la fora de seu contexto de discurso no documentário. Como foi apontado acima, essa lição
foi feita pensando a relação estabelecida entre aqueles que estão lutando de um mesmo lado contra
um inimigo comum, ou seja, tem por objetivo a integração e a percepção da importância de dar
exemplo ao outro que está junto na mesma “batalha”, e não uma preocupação com o inimigo. Em
relação ao inimigo deve-se ter em mente, de acordo com McNamara, a lição de número 1 (Cause
empatia no inimigo) que não é o mesmo que ter simpatia pelo inimigo, e sim reconhecer que o outro
está na mesma situação de conflito que você e quanto mais você o conhecer, compreender seu
raciocínio, mais fácil será para você lidar com ele, se adiantando perante suas ações.

Considerações Finais

Como foi possível observar McNamara possui pensamentos e ideias dentro do arcabouço
teórico do Realismo das RI. Não podemos, contudo, afirmar que suas formulações são
necessariamente organizadas baseadas em leituras prévias dos teóricos clássicos, neoclássico,
realistas e neorrealistas. Mas de qualquer forma, não há como negar que estando dentro de um espaço
como o Departamento de Defesa de um Estado, ficando dentro de momentos importantes de decisões
do Sistema Internacional, o vocabulário será próximo do vocabulário usado nos textos dos teóricos.
Certamente, conceitos como soberania estatal, Estado, hegemonia, poder e outros eram frequentes
em suas discussões dentro do Departamento de Defesa.
A importância de seu cargo se intensifica quando percebemos que ele era o Secretário de
Defesa de um dos países que exerciam hegemonia no mundo em um cenário de ordem mundial com
uma bipolaridade entre EUA e URSS. Todas as suas decisões tinham reflexos em todo o mundo, e

222
não podiam ser feitas ao acaso e sim baseadas em pesquisas, análises e estudos, estes que devem
terem sidos feitos baseados em grandes nomes, grandes autores de teoria política da época.
McNamara não pode ser visto como um teórico das RI, mas claramente ele desenvolveu reflexões
acerca das questões do Realismo, e pensou em modo de interpretá-las de acordo com os
conhecimentos que ele tinha adquirido com o tempo.
É interessante analisar o pensamento de McNamara para compreender como as RI não
podem ser vistas como algo denso e teórico, pertinente somente à academia. As discussões e
conhecimentos acerca das RI ultrapassam as barreiras dos livros porque seu objeto de estudo, como
dito anteriormente, são as relações sociais que atravessam fronteiras e seus atores não são
necessariamente teóricos, mas pessoas com diversas formações, diversas histórias de vida, que atuam
no SI e constroem a nossa História.

Referências

CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão,
2012.

JACKSON, Robert e SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais: teorias e


abordagens. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

PECEQUILO, Cristina Soreanu. Manual do Candidato: política internacional. Brasília: FUNAG,


2009.

THE FOG of War – Sob a névoa da Guerra. Direção: Errol Morris. Produção: Errol Morris, Michael
Williams e Julie Ahlberg. Estados Unidos: Sony Pictures, 2003. Cor. 95 min, DVD.

223
Segurança Nacional e a defesa da “moral e bons costumes”:
uma análise de escritos da Escola Superior de Guerra sobre os meios de comunicação de
massa (1964-1985)

Ana Rita Fonteles Duarte1

Resumo: Este artigo pretende discutir, a partir de textos escritos por alunos da Escola Superior de
Guerra, principal centro formador de lideranças para o regime ditatorial, estabelecido no Brasil, pós-
1964, em seus cursos destinados a civis e militares, aspectos referentes à gestação de uma censura
adequada ao Brasil, num momento em que os meios de comunicação de massa se expandem,
atingindo novos públicos e faixas etárias. Analisa-se a forma pela qual essa censura é pensada, tendo
em vista a preocupação com a moral e defesa do que seriam os “bons costumes”, dentro de um
projeto marcado pela ideia de segurança nacional.

Palavras-chave: meios de comunicação; censura; moral; ditadura civil-militar

Abstract: This article intends to discuss, from texts written by students of the Escola Suprior de
Guerra, the main training center for the dictatorial regime, established in Brazil, post-1964, in its
courses for civilians and military, aspects related to the gestation of a appropriate censorship to
Brazil, at a time when the mass media are expanding, reaching new audiences and age groups. It
analyzes the way in which this censorship is thought, in view of the concern with the moral and
defense of what would be the "good habits", within a project marked by the idea of national security.

Keywords: media; censorship; moral; Civil-military dictatorship

A ditadura civil-militar, implantada no Brasil em 1964, tem características de guerra. Baseado


na Doutrina de Segurança Nacional, o regime combate o inimigo interno, identificado com setores
da oposição, passíveis de infiltração pela ação comunista, direta ou indiretamente. Incluíam-se, na
lista, estudantes, sindicalistas, intelectuais, movimentos sociais e os que pudessem provocar
antagonismos e pressões de desestabilização da ordem.
A segurança interna tinha-se como missão comparável à defesa do País, diante de ameaça de
invasão de exército estrangeiro, e caberia ao Estado de Segurança Nacional determinar, em última
instância, quem era o inimigo e que atividades constituíam ameaças. A Escola Superior de Guerra
(ESG), criada em 1949, no âmbito da Guerra Fria e ligada ao Ministério da Defesa, tornou-se durante
a ditadura pós-1964, o principal centro de elaboração e disseminação de um pensamento acerca da
segurança nacional e das formas de combater ameaças ao projeto implementado numa parceria entre
militares e civis.

1 Professora Dra. do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará. E-mail:


anaritafonteles@uol.com.br. A pesquisa recebeu apoio do CNPq.

224
Seus criadores tiveram como objetivo, desde o início, o reforço de sua posição no aparelho
de Estado, por meio da realização de estudos sigilosos e circunscritos a grupos pequenos, além de
almejar a mobilização política das elites. Não se preocupava, no entanto, apenas com a formação de
altos oficiais, incluindo civis em seu quadro permanente como professores ou convidados, alunos,
conferencistas. Entre 1950 e 1967, 50% de seus alunos eram civis, vários ocuparam postos
importantes no regime em instituições políticas e econômicas brasileiras. O primeiro presidente do
regime, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, foi um dos grandes expoentes da Escola.
A Doutrina de Segurança Nacional (DSN), elaborada pela ESG, pode ser analisada a partir
de um pensamento sistematizado em textos cujo principal é o Manual da Escola Superior de Guerra,
publicado em 1975 e reeditado com reformulações, periodicamente, até 2009, além de artigos
publicados na revista A Defesa Nacional e do pensamento sistematizado de alguns dos seus
principais ideólogos como os generais Golbery do Couto e Silva e Moacir Araújo Lopes, integrantes
da rede civil-militar que institucionalizou e disseminou a DSN através da realização de conferências,
seminários, debates e cursos por todo o país.
Os manuais da ESG e suas publicações complementares, destinadas a alunos de seus cursos
são lugares de referência para a apreensão da DSN e fornecem elementos para pensar o lugar a
comunicação social e/ou de massa tem na elaboração e reelaboração do projeto de Segurança
Nacional durante o regime civil-militar e de como estas preocupações foram sendo transformadas
com o tempo, a partir de novas demandas e mudanças sociais.
De acordo com o Manual Básico da Escola Superior de Guerra, seria necessário conhecer
traços e padrões culturais, a fim de que através da comunicação social se conseguisse de maneira
eficaz desencadear mensagens que conscientizassem sobre a importância das necessidades da nação.
A comunicação social é vista como responsável, em grande medida, por processos como interação
social, formação da opinião pública, do Moral Nacional e pela valorização do ócio e do lazer, Mas,
essa temática, tampouco, era motivo de interesse apenas para o regime ditatorial.
Os media passam a fazer parte das preocupações de várias instituições como a Igreja
Católica, por exemplo, valorizada em sua tarefa de recuperar valores numa sociedade em crise. O
papado publicizou suas posições e diretrizes sobre o bom uso da cinematografia, rádio e televisão,
instruindo, em meados dos anos 1960, espectadores, produtores, autores, pais, pastores e autoridades
a defenderem as leis morais na produção artística e de informação via meios de comunicação a fim
de se proteger públicos considerados vulneráveis como jovens e mulheres.
Finalmente, este poder público que legitimamente trabalha para o bem dos
cidadãos, tem o dever de procurar justa e zelosamente, mediante a oportuna
promulgação e diligente execução das leis, que não se cause dano aos costumes e
ao progresso da sociedade através do mau uso dêstes meios de comunicação. Essa
cuidadosa vigilância, de modo algum restringe a liberdade individual e social,

225
sobretudo se faltam as devidas precauções por parte daqueles que por motivo de seu
ofício manejam tais instrumentos.
Tenham-se um especial cuidado na defesa dos jovens contra a imprensa e os
espetáculos que possam ser nocivos à sua idade. 2

Os estudos acadêmicos também não se furtaram ao debate3. A partir dos anos 1960, uma série
de estudos no âmbito da Sociologia, Psicologia Social e propaganda política foram publicizados e
tinham como objetivo a investigação empírica acerca dos efeitos dos media. Esses estudos, iniciados
ainda nos anos 1930, estavam primeiramente preocupados com a influência do cinema nas crianças
e nos jovens. Utilizar o cinema e outros meios para a persuasão ou informações planificadas estava
entre os objetivos das pesquisas. Não tardou para que preocupações semelhantes se estendessem à
tevê, considerada um novo meio com mais poder de atração que os seus antecessores e com grandes
implicações para a vida social.
Estudavam-se as correlações entre o grau de exposição aos estímulos dos media e mediam-
se variações em mudanças de comportamento, atitudes, opiniões, avaliando numerosas variáveis. Os
estudiosos, muitos deles motivados pelas avaliações de campanhas eleitorais, interessavam-se por
aferir não só as decorrências diretas da tevê, algo que caracterizará o primeiro momento dos estudos
sobre efeitos dos mass media, mas, agora, também as mudanças de longa duração, os fenômenos
coletivos como climas de opinião, estrutura de crenças, ideologias, padrões culturais e as formas
institucionais de produção midiática.
Entrecruzavam-se essas informações como dados sobre o contexto, disposição e motivação
do público. Interessavam-se também pela forma como as organizações midiáticas processavam os
conteúdos antes de distribuí-las às audiências. O surgimento e popularização de pensamento político
de esquerda, nos anos 1960, reunidos no movimento conhecido por Nova Esquerda, também
incrementou o debate sobre os media como instrumentos poderosos de legitimação e controle por
parte dos Estados capitalistas ou burocráticos.
Nesse contexto, a relação com os meios de comunicação, tampouco, dá-se de forma simples.
Há uma preocupação e entendimento da importância assumida pelos meios de comunicação social.
Entre 1964 e 1975, o governo ditatorial investe em condições de infraestrutura e telecomunicações
que permitiriam a disseminação de uma indústria cultural, através de avanços tecnológicos sem
precedentes. Foi criada a Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel), em 1965, responsável

2 INTER MIRIFICA. São Paulo, 1965, Editora Vozes, p.11-12. No encerramento da segunda sessão
do Concílio Vaticano II, em 04 de dezembro de 1963, a Igreja Católica através do Papa Paulo VI apro-
vou Decreto Inter Mirifica sobre os Meios de Comunicação Social: imprensa, Cinema, Rádio, televisão e
demais. Já em 1957, o Papa Pio XII havia lançado a Carta Encíclica Miranda Prorsus, sobre cinemato-
grafia, rádio e televisão.
3 Sobre essas teorias e correntes teórico-metodológicas de estudos dos media, ver DeFLEUR, Melvin
L.;BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

226
pelo Sistema Nacional de Telecomunicações, que permitiu maior agilidade e segurança na troca de
dados. Também em 1965, o Brasil passou a fazer parte da International Telecommunications Satellite
Consortium (Intelsat), consórcio internacional para uso de sistema comercial de telecomunicações,
por satélite, permitindo as primeiras comunicações, nesse formato, a partir da década de 1960. A
partir de 1975, ocorre grande crescimento da infraestrutura de radiodifusão, especialmente da tevê.
É especialmente nos anos de 1970 que a televisão passa a se estruturar de forma mais
evidente, como meio de comunicação, com captação de mais verba publicitária, em relação aos
meios anteriores, como o rádio, e maior presença no cotidiano das pessoas. Enquanto em 1960, havia
somente 4,46% das residências brasileiras que possuíam televisão, esse número cresce para 24,11%
,em 1970, e para 56,1% em 1980. O potencial de audiência, no entanto, segundo Vieira (2016) deve
ser repensado, uma vez que a prática de assistir televisão era constituída de forma comunitária, pelos
chamados televizinhos e pela presença de aparelhos de tevê nas praças por todo o país. A televisão
tornou-se o meio por excelência de divulgação de bens de consumo voltados para a classe média,
incluindo os próprios aparelhos de tevê.
Para o regime em consolidação, as características possibilitadas por este meio de
comunicação possibilitavam experiências úteis como mascarar o isolamento das pessoas, com o
sentimento de construção de outro tipo de proximidade, ajudando a produzir noção de consenso
numa sociedade que vivia de maneira dispersa e atomizada, espalhada por um território imenso e
sem integração completa. A tevê passou a representar, ainda, a modernidade para o Brasil, símbolo
de entusiasmo e euforia em relação ao futuro mobilizado dentro do projeto de “milagre econômico”,
série de medidas políticas, sociais e econômicas adotadas pelo regime civil-militar, com o objetivo
de transformar o país em uma potência regional com grande desenvolvimento agrícola e industrial.
Os marcos de avanços e expansão tecnológica da tevê passaram a ser comemorados e narrados como
avanços do próprio regime, dentro de seu projeto de modernização conservadora 4 .
Mas o Estado, que incentivava e promovia as condições estruturais para expansão e
consolidação da televisão em todo o território nacional, também exercia o controle sobre os
conteúdos e formas de expressão por meio de constituição de um importante aparato de censura,
ligado ao Ministério da Justiça, intensificado com a promulgação da Constituição de 1967, que
expandiu a competência da União para censurar, além de filmes e peças teatrais, também programas
de rádio e tevê, imprensa periódica e letras de música. À Divisão de Censura de Diversões Públicas,

4 MOTTA (2014:49) alerta para as contradições a paradoxos presentes no projeto de poder da ditadura
civil-militar. Por um lado havia o desejo modernizador que impulsionava o desenvolvimento econômico e tecnológico,
proporcionando contatos com o exterior e a mobilidade das pessoas, a expansão industrial e a mecanização agrícola. Por
outro lado, o impulso conservador ligava-se à vontade de preservar a ordem social e valores tradicionais, o que se
configurava no combate às ideias revolucionárias e a todo comportamento considerado desviante.

227
do Ministério da Justiça, coube o papel de estabelecer as condições de apreciação, liberação e veto
de obras artísticas, tarefa exercida durante os 21 anos de ditadura, embora esta ação tenha superado
o ano de 1985.
O controle sobre os meios de comunicação coaduna com os preceitos da Doutrina de
Segurança Nacional, condensada no Manual Básico da Escola Superior de Guerra (ESG), sendo
instrumento importante para a legitimidade do regime. Segundo Rezende,

A pretensão de legitimidade do regime militar somente pode ser compreendida


tendo em vista a atuação do seu grupo de poder para instaurar um processo social
no qual se visava criar condições para potencializar os valores tidos pela ditadura
como essenciais e mantenedores da sociedade brasileira. O regime em vigor
pretendia, assim, a partir e através desses valores, atuar no sentido de construção de
uma ordem social na qual aqueles valores deveriam ganhar proeminência absoluta
.5

Os estudos sobre censura, no entanto, mostram que esse processo não se deu de forma
homogênea, uma vez que a própria ditadura teria sido fruto de um acordo momentâneo de grupos
heterogêneos, na forma de coalizão ampla de forças políticas e econômicas, que pressionaram de
forma também múltipla a malha institucional, incluindo as ações censórias. Os receios relacionados
à tevê, como novo aparato tecnológico e como possibilidade de experiência diante do mundo,
fundaram a preocupação censória, mas tinham amplo alcance e se expressavam de forma diversa e
contraditória, sofrendo a censura pressões variadas e antagônicas, expressos na formatação de leis,
nas relações estabelecidas com produtores, artistas, empresários da comunicação, movimentos de
oposição e nas formas diversificadas de analisar e liberar ou vetar obras produzidas para a veiculação
televisiva.

Os escritos da ESG

A Escola Superior de Guerra ampliou, ao longo dos anos do regime militar, sua missão de
planejar a Segurança Nacional para formular e planejar a política de segurança e desenvolvimento.
De acordo com Arruda (1980), ex-professor da ESG e autor da história oficial da Escola, a Doutrina
da ESG baseava-se em ensinamentos consagrados das Ciências Sociais, corporificando-se através de
“livre debate” e aproveitamento das experiências dos alunos. Prefeririam, assim, trabalhar mais com

5 REZENDE (2001:40).

228
conceitos que com definições, evitando assim os “dogmas”. Essa concepção registrada na
construção da memória da Escola está para além do jogo de palavras, se nos debruçamos sobre as
formas pelas quais temas e problemas abordados por professores e alunos da ESG vão se
transformando, ao longo do tempo, e podem variar de acordo com necessidades e novas
compreensões do presente. A análise de conjuntura fazia parte da elaboração das discussões e textos
dos estagiários.
Para compreender as transformações no conjunto de escritos preservados e analisados no
acervo documental da ESG, nos dias de hoje, é importante conhecer um pouco o método de estudos
e elaboração de trabalho que resultava na formação dos egressos. De acordo com Arruda, o Método
de Trabalho da ESG baseia-se na tentativa não de resolver os problemas nacionais, mas de “ensaiar
método para o equacionamento desses problemas através da análise e da interpretação dos fatores de
toda ordem que os condicionam”, por meio da Didática de nível superior e da Lógica Formal, com
estudos sócio-individualizados.
Dessa forma, os estudos da ESG seguem um método composto pela realização de
conferências e palestras. No primeiro caso, trata-se de exposição formal sobre um tema que fornecerá
dados que poderão ser utilizados em outras atividades durante o período letivo. Geralmente, era
proferida por especialista no assunto a convite da ESG. No segundo caso, a exposição era menos
formal e proferida, geralmente, por membros do corpo permanente da Escola, em equipe.
Após as conferências e palestras, eram realizados debates para complementar as informações
dadas durante a exposição com fins de realização do trabalho pela equipe de alunos. O debate que,
inicialmente, era feito de forma livre pelos alunos ao expositor, passou a seguir regras como inscrição
realizada para elaborar perguntas e obter respostas, sendo que a cada aluno só era permitido realizar
uma pergunta, exceto se houvesse permissão do convidado e por um tempo máximo de cinco
minutos. Era vedado ao debatedor “apontar falhas na exposição ou fazer referências desairosas a
quem quer que seja” sob pena de ter a palavra cassada por um “controlador de debates”.
Após os debates e conferências, os alunos eram divididos em grupos e, sob a coordenação de
um dirigente, designado pelo Departamento de Estudos da ESG, e com assistência de um elemento
do corpo permanente, os alunos desenvolviam trabalhos em equipe, utilizando-se para isso dos textos
básicos da Escola, mas também recorrendo à bibliografia indicada em ficha de orientação. Este
elemento é interessante para a análise dos escritos examinados aqui, uma vez que é possível conhecer
as interações com diversas áreas do conhecimento e autores referências indicados pela Escola,
especialmente através de sua biblioteca.
É possível, ainda, perceber que os alunos não tinham grande margem de liberdade para a
elaboração de seus textos, uma vez que a argumentação partia de textos base a partir da DSN, de

229
debates controlados pelo corpo docente e a partir do acompanhamento permanente de tutores desses
estagiários. Tratava-se, afinal, de aprender uma Doutrina, o que não excluiu a realização de leituras
a partir de bibliografia atualizada para aquele momento, como podemos constatar examinando vários
trabalhos individuais ou em grupo.
Entre os trabalhos de equipe havia a discussão dirigida, precedida de palestra de orientação
com duração de 15 a 30 minutos, e com tópicos motivacionais descritos em Folha de Orientação.
Não se exigia que os alunos da mesma equipe tivessem de chegar a um consenso, pois o objetivo
seria “levantar ideias para melhor entendimento do tema proposto”. Os alunos elaboravam, ainda,
simpósios e trabalho de grupo. O primeiro tinha como objetivo aprofundar aspectos da Doutrina de
Segurança Nacional e do método da ESG e, o segundo, a solução de um problema ou a formação de
um juízo de valor sobre determinado assunto.
Para a constituição destas duas últimas modalidades de trabalho, a equipe deveria passar por
fase preliminar ou preparatória, pesquisas, discussão, elaboração e apresentação de um relatório.
Esse tipo de escrito também é interessante, para o que nos interessa, tendo em vista que os alunos
são preparados para não só debater e aprofundar um tema, mas apontar possíveis caminhos para sua
resolução, com sugestões de encaminhamentos junto a órgãos competentes, elaboração de políticas
públicas, sendo possível dimensionar como alunos militares e civis elaboravam desafios para várias
áreas da vida social e do desenvolvimento do país.
Outra modalidade para o desenvolvimento e discussão de um tema com fins de elaboração
de propostas e soluções para um problema dado era o Trabalho Especial (TE). Este, inicialmente,
era elaborado de forma individual no estilo monográfico, a partir de temas distribuídos pelo
Departamento de Estudos, a cada estagiário. Os textos elaborados serviriam de subsídio para o
planejamento6 . A partir de 1973, de acordo com Arruda, o TE passou a ser elaborado por três
estagiários para cada tema. Cada aluno elaborava sua monografia e os três elaboravam um relatório
resumido sobre o tema distribuído. Em 1978, os trabalhos voltaram a ser individuais.
Essa contextualização é sobremaneira importante para esta análise, levando-se em conta que
a maior parte dos documentos analisados para esse artigo sobre a temática dos meios de comunicação
e censura é formada por TEs arquivados e disponibilizados pela Biblioteca General Cordeiro de
Farias, da Escola Superior de Guerra, ainda hoje localizada na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. O
local continua atendendo os matriculados nos cursos da ESG, atualmente, e funciona como ponto de
referência para a pesquisa sobre a Escola em tempos passados. Os títulos dos trabalhos

6 Os textos elaborados pelos estagiários da ESG visavam o planejamento como atividade permanente e
continuada que se desenvolve de modo ordenado e racional, tornando sistemático um processo de tomada de decisões na
solução de um problema dado. Os textos tinham de dar subsídios para responder às seguintes questões: que fazer, como
fazer, quando fazer, onde fazer, com que meios fazer, para que fazer. Ver ARRUDA (1980:111).

230
disponibilizados ao público podem ser acessados pela Rede de Bibliotecas Integradas do Exército
(Rede Bie) na internet.

Censura e meios de comunicação

Foi justamente a partir do acervo da Biblioteca na Rede Bie que a pesquisa sobre escritos
produzidos na ESG sobre censura aos meios de comunicação se deu. Os registros encontrados
estendem-se a partir do ano de 1968 até 1985, ano final de nosso recorte. Importante salientar a
possibilidade de que nem todos os trabalhos tenham sido disponibilizados na Rede, tendo em vista o
caráter de sigilo de alguns estudos produzidos a partir do signo da segurança nacional. Além de
trabalhos individuais de alunos, podemos encontrar os TEs, realizados em grupo, apostilas de cursos
sobre a temática assinados por professores da ESG e ainda palestras transcritas de convidados pela
Escola para tratar do tema.
A data de início para o aparecimento do tema como tópico explorado pela ESG, nos cursos
de formação de seus estagiários, coincide com o período de centralização e racionalização da censura
por parte do regime ditatorial. Em 16 de novembro de 1964, foi publicada a Lei 4.483 que
reorganizou o Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP). Esta preconizava que seria de
competência da DFSP, por meio do Serviço de Censura a Diversões Públicas (SCDP), a censura a
filmes cinematográficos que transpusessem o âmbito de um Estado.
A partir de 1965, a SCDP passou a coordenar em todo o território nacional, sob aspectos
doutrinários e normativos, as atividades da Censura Federal, por meio do decreto 56.510, de 28 de
junho. Com a Constituição de 1967, foi garantida a competência da União para realizar a censura às
diversões públicas. De acordo com Vieira, a Constituição, aliada à Lei de Segurança Nacional, de
13 de março de 1967, que definia os crimes contra a segurança nacional foram “pedras angulares na
institucionalização da DSN na estrutura estatal. Isso se deu porque ambas transformaram a
preocupação da Segurança Nacional como concebida pela ESG em uma das preocupações centrais
do Estado e da formulação de suas políticas” 7.
O primeiro trabalho encontrado na pesquisa da Rede Bie é a monografia do estagiário Felipe
Augusto de Miranda Rosa, aluno do Curso Superior de Guerra e sobre o qual não são fornecidas

7 In VIEIRA (2016:70).

231
informações no corpo do trabalho 8 . Intitula-se Análise do Fundamento Jurídico do Direito de
Censura no Brasil: com apreciação dos problemas conjunturais relativos à sua aplicação e
caracterizadas suas vinculações com a segurança nacional. Finalizado em 23 de agosto de 1968 e
encaminhado para a leitura e parecer em setembro do mesmo ano, de acordo com anotações na capa
e ao final do trabalho, o texto demonstra uma preocupação em fundamentar o que seriam diretrizes
jurídicas que fundamentassem a prática de censura, algo relevante num momento em que o conceito
de Segurança Nacional, estabelecido pela recém-aprovada Constituição, é alargado para a ameaça
de fronteiras ideológicas e não somente territoriais.
O texto é organizado em quatro capítulos que se dispõe a discutir a o direito de opinião e
liberdade de pensamento, assim como os abusos dessa liberdade e as prerrogativas do Estado para
coibi-lo. A argumentação desenvolvida apega-se ao pressuposto de que a liberdade de opinião e
expressão é algo inerente à vida humana e à formação da personalidade, mas que não pode existir
em caráter absoluto, uma vez que pode chegar ao âmbito social através de variados meios. O Estado,
desta forma, estaria autorizado a agir por meio de seu poder de polícia, de maneira preventiva ou
repressiva quando se fizesse necessário.
A monografia faz apanhados sobre as constituições brasileiras em comparação com cartas de
outros países, a censura às liberdades de opinião é considerada um caminho natural, diante de
sociedades que se tornaram mais complexas. Há também uma tentativa de diferenciar formas de
expressão que poderiam ser garantidas e eram, pelas constituições, e outras passíveis de censura de
forma generalizada. A imprensa, por exemplo, em variadas cartas magnas, seria liberada e não
deveria sofrer censuras em princípio, o mesmo não acontecendo para espetáculos públicos, no
entanto, capazes de mobilizar outros tipos de sentimentos. O teatro, na Grécia antiga, e as limitações
opostas por alguns governantes, quanto a temas possíveis de serem explorados, foi utilizado como
forma de reafirmar a naturalidade da ideia.

Essa enorme força do teatro, como capaz de influir na vida social e de servir de
instrumento poderosíssimo, fora sentido pelos gregos clássicos. A tal ponto que,
ironicamente, Platão falou de uma “teatrocracia”, referindo-se à influência que os
comediantes de seu tempo exerciam, pela representação teatral, sobre as pessoas
que governavam Atenas. Por êsso mesmo, depois de larga fase em que isso foi
observado sem intervenções, Menandro afastou o teatro ateniense dos temas
políticos. É a primeira manifestação conhecida de exercício de censura teatral na
História do Ocidente9.

8 Em alguns trabalhos os estagiários têm suas funções civis ou militares expressas. No primeiro caso,
com o detalhamento da profissão exercida.
9 BRASIL, Escola Superior de Guerra. Análise do Fundamento Jurídico do Direito de Censura no
Brasil: com apreciação dos problemas conjunturais relativos à sua aplicação e caracterizadas suas vinculações com a
segurança nacional, 1968,p.09.

232
Fiel ao preconizado pela Doutrina de Segurança Nacional, elaborada e atualizada pela ESG,
o estudo preocupa-se em perceber a construção de discussões e ações sobre determinado tema a partir
das mudanças de conjuntura. É bastante comum encontrar modificações naquilo que é sugerido como
forma de atuação do Estado nos escritos da ESG ao longo do tempo.
O acirramento entre as disputas entre os blocos socialista e capitalista, característicos da
Guerra Fria, e as transformações na forma de acessar notícias e diversão via meios de comunicação
audiovisuais deveriam trazer novas preocupações e formas de agir por parte dos comandos de
Estados dos países “subdesenvolvidos”, como era o caso do Brasil, sob pena de alterações nos modos
de comportamento e atitudes da sociedade.
A partilha de leituras e argumentos comuns a outros setores como a Sociologia e a
comunicação social são evidentes, embora as apropriações sejam balizadas pelos interesses em
garantir a segurança nacional ameaçada, agora, não apenas pelos inimigos físicos, mas “ideológicos”.
Os meios de comunicação, em sua capacidade de transmitir informações por imagens e sons, via
satélite, reconfiguravam as preocupações geopolíticas.

É mister não perder de vista o que McLuhan quis dizer, ao afirmar que o mundo está
se tornando uma grande aldeia. De fato, as coisas não ocorrem mais como antes, os
lugares longínquos, ou que sentimos como longínquos, diante dos modernos meios
de comunicação, da celeridade com que circulam as notícias e informações, do
acesso quase instantâneo às notícias vindas de todas as partes do planeta, do
crescente grau de participação de todos, nos acontecimentos de todos os tipos e em
todas as regiões numa escala planetária, o grau de consciência individual de tais
fatos, é agora muito elevado. E, com isso, a influência recíproca das realidades
nacionais diversas, dos costumes, atitudes, dos problemas constatados ou
declarados, é sempre crescente. A “circunstância” do homem, na expressão de
Ortega y Gasset ampliou-se; não é mais o seu pequeno mundo local, mas sim todo
o planeta. (... As questões referentes aos costumes, sobretudo, vão perdendo
irremediavelmente seu caráter local. Existe uma tendência clara para uma certa
uniformização dos estilos de vida, sob o influxo do prestígio das formas adotadas
pelos países tidos como líderes; e os problemas ou as modas ou as ... (trecho ilegível
) de opinião e de comportamento que neles se manifestam, logo refletem nas demais
sociedades, sob sua influência.10

Há um aspecto que chama a atenção, uma vez que não coaduna com as práticas censórias
praticadas no período pelo regime, já que que sabemos da existência, já naquele período, da censura
prévia à imprensa, inclusive com a presença de censores cotidianamente em muitos jornais e revistas,
além do “empastelamento” ou recolhimento de várias publicações para que não chegassem às bancas.
O texto do estagiário, no entanto, pondera acerca da importância de evitar uma censura
sistemática à imprensa e a partir do que seriam divergências, apenas políticas, consideradas naturais

10 Ibidem, p. 17-18.

233
e esperadas em qualquer regime. O governo ou dirigentes que a praticassem, nessa modalidade,
correriam o risco de irritar o público e provocar ainda mais resistência e desejo de expressão acerca
do tema vetado. Ou o que seria pior, poderia alimentar um clima de desconfiança acerca do governo
e sua transparência na forma de agir. A censura proibitiva, de caráter geral, poderia ser, dessa forma
“ ineficiente e danosa ao interesse público11”.
O texto apoia, no entanto, uma medida em estudo no período especialmente com relação às
diversões públicas e que diz respeito aos espetáculos e diversões públicas onde estariam enquadradas
obras cinematográficas, teatrais e, depreende-se, televisivas, embora esse aspecto não fique
totalmente claro. Trata-se da classificação etária. Nesse aspecto, o texto monográfico reflete a
preocupação presente no momento com alguns públicos considerados vulneráveis pela Doutrina de
Segurança Nacional, manifestada nas preocupações em torno dos elementos psicossociais da DSN.
A juventude brasileira, por exemplo, que já carregaria características esperadas dessa faixa
etária, como o “inconformismo” e a “rebeldia” teria um catalisador a mais para essas ações: a
informação. Há uma clara preocupação, nesse sentido, com as notícias sobre movimentos juvenis
em outros países, mas especialmente com os modelos importados de obras artísticas que fossem
capazes de promover mudanças nos hábitos e costumes morais, concretamente ameaçados pelos
conteúdos veiculados via rádio e televisão, poderosos meios de comunicação num país ainda tão
pouco letrado.

A censura do rádio e da televisão, porém, tem um outro aspecto de grande


importância educacional e social. É no que toca à polícia de costumes, pois a
penetração dos programas radiofônicos e televisionados nas residências, faz com
que seja de evidente interesse público evitar que, em tais programas, se inclua
apresentações danosas aos chamados bons costumes, que representam a moralidade
mínima da grande maioria da população. Sob esse aspecto, os mecanismos de
censura radiofônica e televisiva tem ( trecho ilegível) importante. E poderão fazê-
lo ainda mais, se mais inteligentes e racionais forem os métodos de fiscalização
estatal à sua atividade12.

A classificação etária protegeria os jovens, pelo menos os menores de 18 anos, e deveria ser
feita, de acordo com o texto, com o auxílio de sociólogos e psicólogos que teriam de dominar a
formulação prática das normas. No entanto, a medida careceria de um complemento no que toca aos
públicos de faixas etárias mais avançadas, sob pena de poderem ser agredidos em sua moral, mesmo
estando teoricamente liberados para a exposição pelo aparato censório, o que coadunaria também
com o aspecto das liberdades individuais.

11 Ibidem, p. 24.
12 Ibidem, p. 23.

234
O que falta no critério meramente classificatório, entretanto, é um elemento que nos
parece fundamental numa sociedade democrática, em defesa de liberdade
individual, já agora, não do exibidor, do ator, do autor, do encenador, do diretor de
espetáculo, mas sim, do espectador. Este deve ter assegurado o seu direito a que não
o iludam, nem o obriguem a assistir a espetáculos que, se êle estivesse corretamente
informado, não gostaria de assistir. Assim, a uma pessoa de profundas convicções
religiosas, é chocante, por vêzes assistir a uma representação teatral em que se
ridiculariza instituições e ritos de sua religião; a essa mesma pessoa, geralmente,
desagradável será assistir a um espetáculo em que se (trecho ilegível) palavras de
baixo calão, ou cenas de erotismo cru; e assim por diante. O espectador tem o direito
de saber, previamente, que espécie de espetáculo lhe será oferecido. E essa
informação não pode, por motivos óbvios ser deixada por conta dos promotores do
espetáculo.
Logo cabe ao poder público prestá-la, no interesse público. Às autoridades do
Estado compete examinar o espetáculo que será encenado, ou exibido, censurando-
o para o fim de, mediante certos recursos de ordem prática, orientar o público
espectador sobre qual a natureza e as características marcantes do espetáculo, aquilo
que possa envolver os inconvenientes apontados. Só assim estará a liberdade do
espectador assegurada pelo Estado. E só assim estará este cumprindo sua missão de
zelar pela ordem, pela paz, pela harmonia e pela liberdade, sem invasão descabida
das áreas protegidas pelo direito de opinião e de livre manifestação do
pensamento”. 13

O autor segue a proposta dos Trabalhos de Turma da ESG de propor ações ou soluções para
o problema estudado, detalhando as formas pelas quais a garantia de informação dos espectadores
poderia ser feita, a fim de garantir sua liberdade de escolha diante dos espetáculos em exibição e
evitando o que seriam abusos na ação censória:

A inclusão obrigatória, nos anúncios do espetáculo, em cartazes ao lado da bilheteria


e da entrada do público, das indicações necessárias poderia realizar esse objetivo,
sem que se possa ver nisso uma intervenção indevida do Estado na liberdade de
consciência e na criação artística. E dará o tom frio, tranquilo (trecho ilegível), ao
exercício do poder de polícia do Estado nesse setor. (...) Bastará, por exemplo,
afirmar: “Este espetáculo contém situações em que são feitas alusões desfavoráveis
à Igreja; 18 palavras comumente consideradas de baixo-calão; e uma cena em que
é representada a prática sexual”. O candidato a espectador entrará, se quiser, no
teatro.

Os direitos do espectador são novamente abordados em Trabalho de Turma, produzido de


forma coletiva pelos alunos da turma M, do Curso Superior de Guerra, em 1973. Instigados a pensar
sobre A Censura como Instrumento de Preservação do Poder Nacional, os estagiários enfatizam, de
forma mais clara a necessidade da censura diante da complexidade dos novos meios de comunicação,
em processo de massificação no país, em especial a televisão. A necessidade de intervenção do
Estado coloca-se como esperada diante da impossibilidade do homem comum em controlar os
conteúdos que entram de “assalto” em sua casa pela imprensa, rádio e televisão e que podem

13 Ibidem, p.26-27.

235
violenta-lo e às normas domésticas e diretrizes traçadas para sua família e para a criação dos seus
filhos.
A ênfase na defesa moral da juventude é, mais uma vez, o argumento utilizado para a
justificativa à censura naquele momento histórico como uma forma de “higiene social”. As ameaças
a este estrato social são tipificadas e coadunam com as justificativas para vetos em processos de
censura a programas televisivos examinados por outros trabalhos sobre a censura no Brasil 14.

A censura, esse conjunto de normas disciplinadoras, tem por objetivo imediato a


defesa da saúde física e mental dos jovens e adolescentes e se propõe a eliminar das
comunicações sociais que lhe são dirigidas às incitações à delinquência, à
sexualidade, enfim, aos temas anti-culturais, devido à influência deletéria que
exercem sobre os espíritos em formação da juventude. A censura incide,
principalmente, sobre a faixa etária que vai até os 18 anos de idade. É a censura que
poderíamos chamar de preventiva, a fim de preservar os valores autênticos da
família cristã e da sociedade democrática. É, nesse sentido, um instrumento do
poder público para a proteção do menor e se transforma, por isso, num dos deveres
de Estado para com a sociedade.15

A argumentação do texto inicial, escrito por Hélio Scarabotôlo, defende a censura, mas não
feita de qualquer forma. Aliás, ressalta, em sociedades consideradas “mais adiantadas”, não há
necessidade de censura, ou de que ela seja feita de forma sistemática, porque as instituições e os
veículos de comunicação já exercem a autocensura em nome da um consenso mais ou menos
estabelecido em torno de conceitos considerados “correto”, “incorreto, “justo”, “injusto, “moral”,
“imoral”. Em outros trechos do trabalho coletivo essa ideia é desenvolvida e fala-se em “educar os
jornalistas” e em promover a “cultura geral”. Esse não era o caso do Brasil, segundo o texto, que
além de ser uma nação em desenvolvimento, estava sofrendo a “invasão” de “livros, filmes, peças
de teatro e sex-shops de cunho nitidamente pornográfico e obsceno”16.
A censura, no entendimento de um dos autores, Hélio Scarabotôlo, poderia contribuir com o
Poder Nacional 17 , uma vez que sua função não seria apenas a proibição, mas “neutralizar os
antagonismos”, estimulando os meios de comunicação na produção e promoção de conteúdos com
conotações “dignificantes, exemplares e positivas”. O trabalho estabelece, assim, listas de temas a

14 Ver VIEIRA. Op. Cit e SILVA, Thiago de Sales. “Espetáculo inconveniente para qualquer horário”: a
censura e a recepção das telenovelas na ditadura militar brasileira (1970-1980). Dissertação. Programa de Pós-
Graduação em História, UFC, 2016.
15 BRASIL, Escola Superior de Guerra. A Censura como Instrumento de Preservação do Poder
Nacional, 1973, p. 2.
16 Ibidem, p.2.
17 O conceito de Poder Nacional utilizado na Doutrina de Segurança Nacional, no período considerado,
foi o formulado pelo general Juarez Távora, em 1953, e dizia respeito à “expressão integrada dos meios de toda a ordem
de que a nação efetivamente dispõe, no momento considerado, para promover, no campo internacional e no âmbito
interno, a consecução e salvaguarda dos objetivos nacionais, a despeito de antagonismos existentes”. In ARRUDA,
Antônio. Op.Cit, p.31-32.

236
serem incentivados na produção dos meios de comunicação de massa, nos quais estão incluídos a
imprensa, o rádio, o cinema, a TV e o teatro. São eles: “incentivo ao estudo, integração familiar,
disciplina pessoal, respeito aos mais velhos, obediência às leis e às autoridades, solidariedade
humana, amor à pátria, dedicação ao trabalho, cultivo da verdade, humildade diante da vitória,
compreensão diante das decepções” 18
Haveria, portanto, no entendimento dos autores, a partir dos debates realizados na Escola
Superior de Guerra, uma censura adequada ao Brasil. Essa escolha, ou melhor dizendo, essa
construção, teria balizas geopolíticas, uma vez que se aproximaria do adotado pelas chamadas
“democracias modernas” alinhadas ao bloco liderado pelos Estados Unidos na Guerra Fria.
Há uma nítida tentativa de afastar-se do que seria uma censura total como a que seria
promovida pelo bloco comunista, em relação às liberdades de opinião e expressão, consideradas
exageradas e abusivas, coisas de “ditadura”, mas tampouco acreditava-se que instrumentos
considerados mais simples como a classificação etária resolveriam nosso problema, uma vez que não
estaríamos preparados para proceder enquanto sociedade, com discernimento, estando longe de
grandes consensos ou pactos. Faltava para isso educação ao povo e de seus produtores culturais.
Fala-se de valores compartilhados por grande parte da população, mas seria necessário estabelecer
normas mais nítidas, decidir formas de censura para cada meio de comunicação em particular. A
influência dos meios é pressuposta, mas ainda pouco explorada em suas especificidades nos textos
nesse momento. Havia uma certeza, no entanto que poderá ser encontrada ao longo de toda a década
de 1970 e 1980 (período de estruturação efetiva do aparato censório no Brasil) nos textos produzidos
sobre o tema na ESG. A censura seria feita num contínuo jogo de tolher e estimular assuntos e
abordagens.

O Estado terá de proibir propaganda de guerra, de subversão da ordem pública ou


de preconceitos de raça ou de classe. Do mesmo modo, não poderá tolerar, até
mesmo pela imprensa, pornografia, obscenidade, incitamento aos vícios, aos
tóxicos, às perversões sexuais. Com isto, estará defendendo a população daquelas
agressões ostensivas, que fogem à ética e afetam os bons costumes e a integridade
física e mental dos cidadãos. 19

Vê-se que na lista negra das proibições, os ataques à “moral e aos bons costumes” seriam
partes constituintes da temida “ameaça subversiva” ou “guerra ideológica” ao lado de conflitos que
pudessem romper com um discurso propagado de nação harmônica e ordeira.

18 BRASIL, Escola Superior de Guerra. A Censura como Instrumento de Preservação do Poder


Nacional, 1973, p 4.
19 Ibidem, p.6.

237
Os escritos da ESG, principal centro formador de lideranças, para a ditadura estabelecida em
1964, sejam eles civis ou militares, cruzam-se com uma série de outros discursos que marcam não
apenas a elaboração de normas, mas a execução de ações efetivas no campo das políticas públicas e
da produção cultural, durante o regime civil-militar, o que desconstrói, ou deveria desconstruir, para
os historiadores e outros estudiosos do período, a ideia de que é possível falar de maneira tão segura
e definitiva de uma censura política e de outra censura de caráter moral.

Referências Bibliográficas:

DUARTE, Ana Rita Fonteles e LUCAS, Meize Regina de Lucena (orgs). As mobilizações do gênero
pela ditadura militar brasileira. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2014.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A modernização autoritário-conservadora nas universidades e a


influência da cultura política. In: REIS, Daniel Aarão et al. A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos
do golpe de 1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

REZENDE, Maria José de. A ditadura militar no Brasil: repressão e pretensão de legitimidade.
Londrina: Editora Uel, 2001.

VIEIRA, Rafael de Farias. Quando a babá eletrônica encontrou a integração nacional ou uma história
da censura televisiva durante a ditadura militar (1964-1988). Programa de Pós-Graduação em
História, UFC. Dissertação de Mestrado, Fortaleza, 2016.

238
As Crônicas do Jornal dos Sports nos anos 1950: o Denuncismo como Prática

André Alexandre Guimarães Couto1

Resumo: O Jornal dos Sports (JS) ao longo de sua trajetória no século XX tornou-se um dos
principais periódicos esportivos em todo o país. Com um discurso em prol das práticas esportivas e
da saúde procurava dar conta de um campo esportivo a partir do início da década de 1930. Já nos
anos 1950, com o modelo jornal/empresa consolidado nas principais cidades brasileiras, as crônicas
tornaram-se um dos espaços mais significativos do JS, por conta de sua natureza inter(subjetiva),
criativa e imaginativa. Capaz de debater a realidade esportiva sob um prisma autoral, os cronistas
publicavam suas opiniões no caminho inverso do processo de modernização das técnicas de
produção do texto jornalístico, que exigiam nas redações uma postura mais objetiva, neutra e
imparcial de seus respectivos profissionais. Neste texto, destacamos uma das características mais
marcantes do jornal: o denuncismo.

O denuncismo, assim como o clubismo, tornaram-se chaves significativas de interpretação


da capacidade do jornal e de seus cronistas de interferirem no campo esportivo e comunicacional,
dialogando e debatendo a partir de criação de representações sociais e culturais em torno das
identidades nacional, regional, local, clubística, sem falar nas campanhas em torno da
regulamentação do esporte de forma mais organizativa e disciplinada possível. Para tanto, os grandes
eventos como as Copas do Mundo, Jogos Olímpicos e Copa Rio eram momentos oportunos para a
exploração de suas intenções e “missões” deste modelo de imprensa especializada. As crônicas, por
seu caráter híbrido, (inter)subjetivo e dialógico, dentre outros, tornaram-se mais do que ferramentas
para as intencionalidades do jornal. Passaram a ser a caixa de ressonância diversa, mista e
heterogênea de narrativas que procuravam interpretar o limite entre a realidade e a ficção em torno
dos esportes, em especial do futebol e criaram ao longo da década de 1950, representações culturais
e sociais que podiam dizer tanto dos seus objetos de análise, quanto mais dos seus narradores.
Neste texto, apresentamos alguns exemplos de como o denuncismo se tornou uma prática dos
cronistas do JS ao longo da década de 1950. Porém, como já anunciamos, outras possibilidades de
análise devem ser consideradas como a prática do clubismo, a qual não privilegiaremos neste
momento.2 Se a defesa de uma representação em torno da união do torcedor carioca não era consenso

1 Professor e Pesquisador do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca


(CEFET/RJ), Doutor em História (UFPR), integra como pesquisador, o SPORT – Laboratório de História do Esporte e
do Lazer da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o NEFS – Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade da
Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o NEPESS – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade da
Universidade Federal Fluminense (UFF).
2 Por clubismo, entendemos não apenas a valorização (por vezes aumentada ao extremo) dos sentimentos
clubísticos dos grandes clubes de futebol, mas também a defesa da organização do esporte por meio dos clubes,
agremiações e associações, sejam elas as grandes instituições desportivas, sejam as menores, de bairro, mas que tinham
o propósito de ordenar socialmente o esporte e o lazer, oportunizando a regulação destas práticas. Para mais informações,

239
entre os cronistas do jornal, assim como as opções e estilos narrativos destes autores, sendo em
alguns casos mais formais e eruditos em contraposição ao discurso mais popular e debochado em
outros, podemos apontar alguns valores presentes neste periódico muito comum em vários deles: o
caráter denuncista e vigilante das práticas desportivas como podemos verificar em alguns poucos
exemplos a seguir:

Só pode merecer elogios o Prefeito João Carlos Vital se levar à frente a construção
da raia Olímpica e a doação dos terrenos aos tradicionais clubes de Santa Luzia –
Natação, Internacional, Boqueirão do Passeio e Vasco da Gama.
O remo, esporte imprescindível à mocidade brasileira, que terá de formar a reserva
naval de um país que tem uma costa imensa a defender, não tem merecido grandes
atenções dos poderes públicos.
Os nossos homens públicos confundem arte com esporte. O football profissional,
cujos artistas são os melhor remunerados do mundo, ainda merecem, entre nós, o
título de desportistas e como tais são tratados. Os esportes amadoristas, aqueles que
não produzem rendas e são praticados por diletantismo, estão abandonados. O
remo, por exemplo, tão necessário à formação de uma reserva naval, está na última
lona, às vésperas da falência.
O Boqueirão do Passeio, Natação, Internacional e Vasco da Gama, quatro grandes
expressões do remo nacional, estão quase impossibilitados de praticar o esporte
que define a sua existência. 3

Como dissemos anteriormente, apesar de considerarmos uma característica comum nos


cronistas do JS, podemos afirmar que um dos autores que mais faziam uso deste tema era Álvaro do
Nascimento (“Zé de São Januário”). Um dos fatores que justificam isso era a possibilidade de uso
de um pseudônimo para as suas colunas mais significativas, com textos mais líricos e criativos, o
que colaborava com uma identidade quase anônima diante dos leitores. Portanto, o deboche e acidez
poderiam ser melhor destilados por este cronista que não obstante também militava pela
organização/disciplinarização do esporte.
Neste texto, o autor fazia um apelo ao prefeito do Rio de Janeiro, João Carlos Vital, para que o
mesmo pudesse garantir novas instalações para as práticas dos clubes de remo, cuja atividade estaria
em um patamar inferior em relação ao futebol, por exemplo. 4 Inclusive, o remo, de acordo com o

ler: COUTO, André Alexandre Guimarães. Cronistas Esportivos em Campo: Letras, Imprensa e Cultura no Jornal dos
Sports (1950-1958). Curitiba: UFPR, 2016. Tese de Doutorado em História.
3 NASCIMENTO, Álvaro do (Zé de São Januário). In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 7.035, 3 de
agosto de 1952. P. 10. Coluna Uma pedrinha na Shooteira.
4 O prefeito João Carlos Vital (1900-1984) era engenheiro civil de formação e foi indicado pelo então
presidente Getúlio Vargas para a Prefeitura do Rio de Janeiro. De acordo com os arquivos do CPDOC, “(....) Em abril de
1951 foi nomeado (...) prefeito do Distrito Federal, em substituição ao general Ângelo Mendes de Morais (1947-1951).
À frente da prefeitura elaborou o Primeiro Plano de Obras, iniciando em sua administração a construção da primeira
adutora do rio Guandu, que visava reforçar o abastecimento de água da cidade, e a elaboração do anteprojeto do
Metropolitano do Rio de Janeiro. Nesse período foram duplicados vários trechos da avenida Brasil, foram construídas as
estradas Grajaú-Jacarepaguá, Itararé-Itaóca e Areia Branca, e outras estradas cariocas foram pavimentadas. Foi feito ainda
o estudo preliminar para o estabelecimento do Código de Fundações e Escavações do Distrito Federal, aprovado em maio
de 1955 pelo prefeito Alim Pedro (1954-1955), e apresentado ao Legislativo um projeto de lei tributária que desencadeou

240
cronista seria o responsável pela formação de nossa força naval, uma necessidade para um país com
litoral continental como o nosso. Mas, o que chama bastante a nossa atenção é a antítese criada por
Nascimento acerca dos valores esportivos diante de duas modalidades distintas e que marcaram,
inclusive, a identidade esportiva do carioca: o remo e o futebol. A atenção total dada ao futebol
destoaria da real proporção que este esporte mereceria:

Criaram-se ídolos de barro no football profissional. Há mais crentes no football que


nos terreiros de macumba. E a crença é tão grande, que se confunde football com
os sentimentos mais puros do patriotismo.
Remo, atletismo, tennis, natação e todos os esportes amadoristas, praticados com
fins eugênicos e não com intuito de lucros, andam por aí ao Deus dará sem
provocarem as explosões do sentimento patriótico.
Os “patriotas” do esporte são os jogadores de football profissional, os seus técnicos,
médicos, massagistas e até diretores especializados...
As “tournées” artísticas do nosso football profissional são mais aclamadas do que
Radamés após o seu triunfo sobre os etíopes.
O football profissional, fez crentes e fanáticos que às vezes se degladiam como se
estivessem nas lutas das Santas Cruzadas.
Há centenas de clubes pelo Brasil afora que praticam, apenas, o football profissional
e se inculcam batalhadores em prol da eugenia da raça!
Uma coisa maravilhosa!...
Se o Prefeito João Carlos Vital construir a raia Olímpica e ceder os terrenos aos
clubes náuticos de Santa Luzia, terá prestado um grande serviço ao esporte da
Metrópole.
Até agora, o que se tem feito, apenas beneficiou os artistas do football profissional.
Se o Prefeito João Carlos Vital, levar à frente os seus propósitos, poderemos dizer:
O remo já tem espaço Vital...5

A idolatria em torno dos atletas de futebol seria compreendida como negativa tendo em vista
que estes personagens eram, no limite, forjados por “barro” e que a crença era cega a ponto de
confundir os sentimentos pela seleção brasileira como ato patriótico. 6 Um ponto importante de
inflexão em relação ao espírito discursivo presente ao longo da história do jornal, inclusive na década
de 1950, contrariando, inclusive (e mais uma vez) a linha editorial do mesmo. Na defesa dos esportes
amadores como o remo, a natação e o atletismo e até mesmo o elitista tênis, Nascimento explicitava
que o caráter eugênico destes esportes não deveria estar descolado da cultura e educação da saúde
dos brasileiros pelas quais o país deveria investir. Esta posição em plena década de 1950 denotava
ainda a ideia de um eugenismo moderno, que interpretava a melhoria da “raça” brasileira por meio

intensa polêmica na imprensa e incompatibilizou o prefeito com a Câmara, resultando, em dezembro de 1952, na sua
demissão da prefeitura. Foi substituído pelo general Dulcídio do Espírito Santo Cardoso (1952-1954). Ver em: VITAL,
João Carlos. Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/vital-joao-carlos>. Acesso
em: 07/06/2016.
5 Ibidem.
6 Note-se o uso da palavra “macumba” em mais esta crônica do JS, tendo em vista que a proposta era
uma aproximação com o universo popular dos leitores.

241
das práticas esportivas, dentre outras ações saudáveis. O discurso do patriotismo (ou do verdadeiro
e “legítimo” patriotismo) passaria necessariamente pela valorização dos esportes capazes deste feito.
Outro ponto bem importante na pauta das discussões em torno das crônicas esportivas do período
era o processo de desenvolvimento dos esportes por meio da valorização dos clubes, instituições
estas que não necessariamente eram os chamados “grandes clubes” do futebol carioca. Ou seja, mais
uma vez confirmamos nossa tese de que as crônicas deste jornal apontavam temas conjuntos, que
dialogavam entre si e que não necessariamente eram hierarquizados dentro do texto. No exemplo
acima, temos o debate de caráter denuncista sobre as melhorias das instalações para a prática do
remo, ao mesmo tempo em que defendia as organizações nucleares da prática de esporte, no caso os
clubes de remo, como o Boqueirão do Passeio, Vasco da Gama, Internacional e Natação. Desta
forma, percebemos que apesar de escolhermos alguns temas para aprofundar a nossa pesquisa como
a cobertura de eventos como a Copa do Mundo e a Copa Rio ou a prática do denuncismo, como neste
item, é importante salientar que o tratamento dado pelos cronistas tendia a abordar dois ou três
debates em um único texto, procurando resumir ao máximo as discussões escolhidas pelos mesmos.
Em resumo, logo acima temos a união entre o denuncismo e o clubismo, presentes em vários
momentos na linha editorial do jornal no período estudado.
A denúncia em torno do aprimoramento das instalações do remo, passava ainda pelo
argumento de que havia muita atenção, recursos, idolatria e importância direcionada ao futebol,
sobrando pouco para os demais esportes. A ironia e o sarcasmo presentes no texto do cronista
refutavam a ideia de identificar os profissionais do futebol como os verdadeiros “patriotas” do Brasil,
assim como reclamava da visibilidade dada pela imprensa sobre as excursões dos times brasileiros e
a violência empreendida pelas discussões verbais e brigas entre os torcedores e aficionados por um
determinado clube. O uso de nomes e expressões como “Radamés” ou as “Santas Cruzadas” também
denotava uma necessidade de apresentar um discurso sarcástico e popular com doses de erudição,
tendo em vista que se supunha que os leitores do jornal atravessavam classes sociais distintas. 7
Nascimento desabafava com a ironia que lhe era peculiar: “(...) Uma coisa maravilhosa!...”,
resumindo sua crítica ao excesso de atenção dado a um esporte que trazia poucos benefícios para a
sociedade em relação a outros como o remo. Portanto, os recursos financeiros do município poderiam

7 O uso da palavra “Radamés” faz menção à ópera Aída, de Giuseppe Verdi, que conta a aventura do
general egípcio Radamés em sua excursão bélica à Etiópia e tendo se apaixonado pela escrava etíope Aída. A comparação
entre esporte e arte, ou melhor, entre futebol e arte, era um deboche do cronista acerca do sentido artístico que uma prática
esportiva alcançava, podendo superar até mesmo o valor de uma peça clássica de ópera. Já as “Santas Cruzadas” faziam
referência às guerras travadas entre cristãos e muçulmanos, entre os séculos XI e XIII, a partir das expedições dos
primeiros sobre o território considerado “santo” para os mesmos e que estavam sob o domínio de outros povos. É uma
forma de exemplificar o grau de rivalidade entre os torcedores de determinados times que tornavam-se inimigos mortais
e destilavam ódio entre eles por conta das paixões clubísticas.

242
ser melhor utilizados e investidos como a raia olímpica na região de Santa Luzia, no centro da cidade
carioca, local de atuação de vários clubes de remo. Mesmo porque, segundo ele, muito dinheiro teria
sido gasto pela prefeitura do Rio de Janeiro, principalmente com a construção do estádio do
Maracanã (também chamado de Municipal) e preparativos para a Copa do Mundo de 1950, além de
outros recursos (em escala menor) para Copa Rio (1951 e 1952).8
Finalmente, o autor revelava que em caso de aprovação da obra para o desenvolvimento do
remo, a obra seria chamada doravante de “espaço Vital”, em dupla homenagem: à vida que seria
valorizada pelas práticas eugênicas e saudáveis e, obviamente, ao prefeito cujo sobrenome era
exatamente este: Vital. Nascimento com o seu “Zé de São Januário”, se apresentaria como um crítico
ferrenho e denuncista das ações governamentais e organizacionais que porventura não se coadunasse
com o espírito esportivo do carioca, mesmo que este fosse uma construção simbólica do cronista.
Em outra oportunidade, por exemplo, o cronista reclamava da atuação dos cambistas chamados por
ele de “profiteurs”, que na língua francesa significa “explorador”, “especulador” ou “aproveitador”,
dependendo do contexto em que é utilizado.9 Tal feito seria uma vergonha ainda maior para o Brasil
por se tratar de jogos da Copa do Mundo de 1950 como ele aponta: “(...) Os que vão ao Estadio
Municipal, levados pelo sentimentalismo patriótico, não podem ficar sujeitos aos aventureiros e
negocistas que, como chacais, se aproveitam dos restos e da miséria alheia.” 10 Desta forma, seu
caráter denuncista contra a venda de ingressos mais caros para a torcida brasileira, realizado pelos
cambistas, é outro exemplo da força de uma crônica em que apontava os problemas de organização
do evento internacional que o Brasil sediara. A denúncia aponta os problemas de ambos os lados,
dos exploradores e dos explorados: “(...) aqueles que concordaram com os cambistas, nada podem
reclamar. Os que se deixara explorar, não têm o direito a queixas. O único direito que lhe assiste é o
de se queixarem ao bispo...”.11
Outro autor que se apresenta como um interlocutor de Álvaro do Nascimento e dos demais
que se pronunciavam em prol dos esportes com um discurso denuncista e organizativo do campo
esportivo, era João Machado que propunha uma reinvenção da cidade a partir do sucesso que os
esportes alcançaram no Rio de Janeiro nas últimas décadas. Era necessário, para o autor, que
houvesse uma mudança correspondente na infraestrutura da cidade, como podemos perceber no texto
abaixo:

8 Dentre os gastos com a Copa Rio, temos o patrocínio para a compra dos troféus, por exemplo.
9 NASCIMENTO, Álvaro do (Zé de São Januário). In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.410, 16
de julho de 1950. P. 9. Coluna Uma pedrinha na Shooteira.
10 Ibidem.
11 Ibidem.

243
Novas praças de desportos
O Rio de Janeiro é uma cidade grande em superfície.
Digo, justamente, cidade grande quando seria mais agradável aos cariocas dizer:
grande cidade.
A nossa capital, porem, ainda não pode ser considerada uma grande cidade, pois são
numerosos os motivos que concorrem para torná-la atrasada em comparação com
outras capitais.
É grande, porem, porque cresceu desordenadamente, principalmente no sentido
horizontal. Os terrenos da zona urbana, em sua divisão primitiva, foram reduzidos
a proporções insignificantes e em cada um foi edificado um prédio acanhado de um
ou dois pavimentos; assim ainda se conserva a maior parte da zona comercial
urbana.
Ao lado desta, e, mesmo constituindo manchas deploráveis nos bairros residenciais,
estão as favelas desafiando com os seus trezentos mil habitantes a capacidade
administrativa do Governo local.
A lamentável incapacidade de nossos antepassados, seguida de perto por muitos dos
atuais administradores, permitia que a cidade se estendesse pelos subúrbios, tão
desordenadamente quanto já se instalara no Centro. 12

A visão elitista do autor propunha uma leitura sobre a cidade do Rio de Janeiro a partir do
seu (des)ordenamento urbano e geográfico. Apesar deste tom, próprio de um lugar de fala de quem
vivia os rumos de uma posição social privilegiada, o discurso denuncista estava presente não só do
ponto de vista da crítica de uma estética própria, da qual as favelas destoariam do resto da cidade,
como também da necessidade da criação de espaços esportivos mais condizentes com o crescimento
da população. Este, por sua vez, pressionaria o poder público a investir no lazer e na prática
desportiva como “válvulas de escape” da tensão social e urbana. As favelas (as chamadas “manchas
deploráveis nos bairros residenciais”), assim como o surgimento desordenado dos subúrbios seriam
resultados da falta de iniciativa do poder público em tornar a cidade carioca mais racional e ordenada.
Mas, de qual ponto de vista? Como já adiantamos, tratava-se de um discurso sanitário que ignorava
a ideia de que as populações mais pobres da sociedade carioca usufruíam de redes de solidariedade
e uma ocupação espacial distinta do imaginado pelas autoridades no assunto, como se autodeclarava
o referido autor:

Vemos, por isso, bairros que têm menos de cincoenta anos, atravessados pelas ruas
estreitas e tortas, insuficientes para o sistema circulante existente.
Nem grandes avenidas, nem praças que existiriam se, em tempo, fossem reservadas
as áreas necessárias.
É razoável admitir que a mentalidade dos nossos antepassados não comportasse a
idéia do rápido desenvolvimento verificado, nesse período, em nossa cidade.
Não se justificará, porem, o que vem sendo observado em relação ao loteamento
de grandes áreas localizadas nas zonas suburbanas e rural, porque os atuais
administradores não podem alegar desconhecimento dos erros cometidos pelos
seus antecessores.

12 MACHADO, João. Novas praças de desportos.


In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.698, 28 de junho de 1951. P. 5. Coluna Às quintas-feiras.

244
O fato, porem, é que o crescimento da área habitada no Rio de Janeiro continua a
ser feito desordenada e criminosamente.
Em qualquer parte das zonas suburbana ou rural, continuam a ser feitos loteamentos
de grandes extensões, permitindo-se a abertura de ruas estreitas ao lado do
incompreensível desaparecimento da zona rural, hoje, transformada em grande
parte, em residências para “weekend” ou mesmo domicílios de famílias modestas.
(...)
É chegado o momento, portanto, de impedir que a cidade continue a crescer
desordenadamente em superfície, ou, pelo menos, que se proíba a abertura de ruas
de menos de vinte metros de largura, exigindo-se, a existência de praças
ajardinadas no centro de cada área, loteada e, o que é muito mais importante para
os desportistas, reservando-se sempre o espaço necessário para a instalação de
campos de desportos que compensariam o desaparecimento de mais de trinta
pequenos clubes amadoristas, de cujas praças de desportos foram criminosamente
arrancados, perdendo anos de trabalho e sacrifício, sem qualquer espécie de
indenização, ante a incompreensível indiferença dos poderes públicos. (...)13

A proposta era impedir que a ocupação da cidade do Rio de Janeiro seguisse um rumo de
desordem, indisciplina e atraso do ponto de vista social. Aliás, as questões sociais das quais os
moradores suburbanos e das áreas rurais dependiam em seu dia a dia são completamente ignoradas
pelo autor, que tem seu foco apenas na ocupação crescente destas regiões menos centrais da cidade. 14
Como impedir, de acordo com o cronista, este processo? O que tem o esporte a ver com estas
propostas? Valendo-se da legitimidade da revisão da lei municipal que tratava das obras públicas no
período, Machado informava que os esportes de clubes pequenos e amadores seriam os grandes
perdedores deste processo urbano. Ou seja, ao (re)fazer o ordenamento urbano dos subúrbios e áreas
rurais, cerca de trinta clubes amadores poderiam ser recompensados pela perda de suas atividades
devido à falta de espaços específicos que garantiriam a permanência de sua prática. 15 Desta forma,
o esporte enquanto ação civilizadora reconstituiria uma ordem urbana e social, desequilibrada pela
ocupação desregrada e sem limites. As praças públicas e voltadas para os esportes poderiam resgatar
o papel social e regulatório do poder público, trazendo saúde e lazer para os clubes amadores locais
e seus respectivos participantes.
Por um discurso elitista, como nós já apontamos, a denúncia aqui também seguia vinculada
ao interesse dos clubes, amadores, mas ainda assim associações que promoviam os esportes (no caso,
como desconfiamos, o futebol). Portanto, em mais um exemplo do cronismo esportivo do JS, mesmo
com um tom social diferente, temos a união das intenções de valorização do denuncismo e do
clubismo, sob uma visão de urbanização específica. Há também uma evidente pressão diante do

13 Ibidem.
14 As áreas suburbanas acompanhavam as linhas de trem da Central do Brasil e da Leopoldina, enquanto
as áreas rurais se concentravam mais em direção à Zona Oeste, como em Campo Grande e Santa Cruz, por exemplos.
15 O autor, todavia, não informava a origem destes dados, muito menos citava quais clubes e locais
específicos teriam sido prejudicados pela ocupação destas áreas. Acreditamos, entretanto, que se tratavam de clubes
amadores de futebol, por conta da dificuldade na composição local do ordenamento espacial.

245
poder público, com a frase final do cronista que propunha que suas sugestões fossem atendidas pelas
autoridades municipais, relevando o papel de influência da imprensa assim como demonstrando uma
relação de proximidade com o círculo do poder.
Cabe pensar também que esta defesa em torno dos clubes amadores pequenos não estava
descolada de uma lógica desenvolvimentista de sociedade que proporcionava uma busca pelo
movimento de participação comunitária que não ousasse romper com as estruturas de classe, nem
com o sistema de produção e de trabalho, muito menos com as formas de institucionalização da
dominação social. De acordo com Souza: “(...) Nas décadas de 1950 e 1960, a participação
comunitária foi utilizada como dispositivo de controle do Estado em relação aos aglomerados
urbanos, como mecanismo de controle social.” 16
Se neste caso temos uma visão elitista sobre uma situação popular, ou seja, o crescimento de
ruas e bairros mais pobres em determinadas regiões da cidade, o JS por meio de seus cronistas
militava também na área esportiva mais rica da sociedade carioca e, por vezes, em outras cidades
também. O denuncismo no campo esportivo neste caso, então, era direcionado para o entendimento
e apoio de camadas mais altas da sociedade e não exatamente uma estratégia de ganhar a atenção
dos leitores de classes mais pobres, tornando-se, por exemplo, um jornal esportivo de causas
populares. Como exemplo deste nosso raciocínio, temos algumas crônicas da socialite Inah de
Moraes, que além de possuir um haras, escrevia em uma coluna para o JS: “Rondó dos Cavalões”.
Em geral, este espaço no jornal era dedicado ao turfe, porém em uma análise sobre o mesmo,
podemos afirmar que mais do noticiar as notícias sobre este esporte ou mesmo sobre os cavalos, sua
coluna era dedicada às denúncias e ataques à administração dos jockeys clubs no Rio de Janeiro e
São Paulo, como podemos aferir no texto abaixo:

Idéia do Tomazinho...
A obrigação das Diretorias de Jockey Clube é exatamente essa: cuidar, zelar,
providenciar tudo o que for necessário ao bom andamento do turf. Se por inépcia
ou incompetência não fizeram, não é justo que os proprietários, e principalmente
os pequenos proprietários, paguem por isso. (...)
Se um proprietário resolver recorrer à Justiça, será barbada. Ganhará de ponta a
ponta, trocando orelhas. Logo, essa arbitrariedade só ficará de pé, e vigorando, se,
como os proprietários do Rio, os de São Paulo também foram desunidos e
carneiros, sujeitando-se a tudo o que a Diretoria quer, e resolve. Do contrario a
luminosa idéia do Thomazinho, logo convertida em resolução pela C.C., não terá
tempo de começar a produzir os seus efeitos, pois se verá imediatamente caída por
terra. Basta, para isso, que os protestos dos proprietários não sejam só de boca, e
se convertam em ação. (...)

16 SOUZA, Rodriane de Oliveira. Participação e controle social. In: SALES, Mione Apolinário; MATOS,
Maurílio Castro; LEAL, Maria Cristina (Org.). Política social, família e juventude: uma questão de direitos. São Paulo:
Cortez, 2004. P. 167-187.

246
Está dando margem aos mais veementes protestos a resolução tomada pela C. C.
Paulista na qual, alegando: 1) “que há falta de cocheiras para alojamento dos potros
a chegar”; 2) “que o turfe de São Paulo está requerendo, e o público turfista
exigindo a melhoria da classe dos animais que figuram em seus programas, o que
quer dizer maior número de animais novos e sãos;” 3) “que apesar da existência de
hipódromos subsidiários vizinhos a Capital onde, definitivamente, deviam estar
correndo esses animais, seus responsáveis insistem em mantê-los nesta Capital” a
dita C.C. resolveu: “não permitir, por tempo indeterminado, o ingresso, na Vila
Hípica, de animais de 6 anos a mais, que não tenham ganho pelo menos Cr$
100.000,00, em prêmios de primeiro lugar”.
Eis aí a decisão arbitraria e ilegal a Comissão de Corridas do Jockey Club
Paulistano.
E sabem, vocês, de que bestundo saiu semelhante estalo? Do bestundo do
Handicapeur Thomazinho Assunção! É ele o pai de tão aberrante idéia,
imediatamente aprovada pelos oito novos comissários que, com isso, iniciam
brilhantemente a sua gestão.
Consideremos a medida. Ela é, sem a menor dúvida, arbitraria e ilegal. Uma C. C.
ou uma diretoria inteira do Jockey Club não pode prejudicar os proprietários
proibindo-os de fazer correr os seus animais sob o pretexto de que o Jockey Clube
não tem onde alojá-los, ou de que “o turfe está requerendo e o público exigindo a
melhoria da classe dos animais” em atividade, uma vez que estes estejam dentro
do limite de idade previsto pela lei de nacionalização do Turfe.
Não há cocheiras? Pois fizessem, cocheiras, ora bolas!17

A denúncia aqui referida tratava-se de novas regras estabelecidas no Jockey Club de São
Paulo pela Comissão de Corridas (CC) desta associação/clube que, segundo a cronista, traria uma
série de problemas para os proprietários dos cavalos. Para tanto, informava às autoridades
desportivas daquele Jockey Club que os mesmos poderiam fazer uso da justiça, pois assim
conseguiram manter os seus animais em plena atividade. Interessante é que a forma escolhida para
trabalhar a narrativa textual era a que utilizava expressões e jargões do mundo do turfe como, por
exemplo, “barbada” ou “(...) Ganhará de ponta a ponta, trocando orelhas.” Apesar de o seu texto
apresentar um debate denuncista com linguagem clara e direta para os seus interlocutores (tanto os
leitores quanto a quem se dirigia a crônica/denúncia) fez uso destas expressões, reforçando seu lugar
de origem, ou seja, uma colunista que se dedicava em sua vida particular e familiar à prática do
esporte equestre e à criação destes animais. Mais do que uma visão do esporte sobre os maus feitos
dos seus devidos organizadores ou autoridades esportivas e associativas, Inah defende seus interesses
próprios por meio da imprensa especializada da qual fazia parte, como cronista e membro de uma
família de jornalista.18
De acordo com Inah, a decisão do Jockey Club paulistano iniciara um processo de
modernização das atividades de forma arbitrária e desastrosa, pois indicaria um padrão de

17 MORAES, Inah de. Idéia do Tomazinho... In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.697, 27 de junho
de 1951. P. 9. Coluna Rondó dos Cavalões.
18 Como já apontamos, Inah de Moraes tornou-se esposa de Pedro Dantas de Moraes Neto, jornalista,
cronista, jurista, poeta e professor, tendo atuado em diversos jornais do Rio de Janeiro.

247
participação dos animais a partir de critérios de mérito, ou seja, a partir de sua juventude e
desempenho nas corridas (neste último caso, medido pela quantidade de prêmios recebidos). Tal
mudança na administração poderia criar uma insatisfação generalizada além de excluir tradicionais
participantes das corridas daquela praça desportiva (como, inclusive, ela mesma). Em sua crônica,
que tornava-se mais um manifesto em causa própria, apesar do caráter anti(regulatório) do campo
esportivo, não aliviava as ofensas contra os idealizadores das medidas supracitadas: as ofensas e
ironias marcavam a participação nesta campanha. A palavra “bestundo”, que significa a pessoa com
a capacidade mental limitada ou de inteligência curta, foi a escolha para designar o idealizador de
tal fato.
A autora, todavia, de fato e no limite não teria uma visão conservadora e tradicional ou mesmo
antimoderna da visão administrativa do esporte, mesmo porque no texto deixara claro de que as obras
para construção de novas cocheiras deveriam ser a solução para os tais problemas e não exatamente
a limitação de atividades de determinados animais e seus respectivos proprietários, razão de existir
do próprio clube. Temos, no limite, vários projetos de modernização do campo esportivo, tendo em
vista os diversos interesses envolvidos.
Em resumo, seja em defesa própria ou de um lugar de ocupação profissional que lhe
conferisse autoridade para apontar as falhas dos poderes públicos e privados em torno da organização
do esporte, o JS se notabilizou na década de 1950 por uma característica de denunciar o que
considerava “curvas fora do padrão” no desenvolvimento do esporte. Todavia, este padrão tinha um
alto tom de disciplina e particularismo como podemos observar nos exemplos estudados. Apesar do
argumento sobre o bem comum ser uma das premissas dos textos com este tom discursivo, nem
sempre o era de fato, tendo em vista interesses pessoais ou de grupos específicos (proprietários de
cavalos e não exatamente o público da assistência ou, ainda, os clubes amadores em contraposição
às camadas mais pobres da cidade que, inclusive, usufruíam das práticas esportivas mais populares,
como o futebol, por exemplo). Cabe lembrar que a conjuntura histórica brasileira, do pós-1945, criou
uma onda reprimida de movimentos judicialistas em torno do acesso aos direitos, sejam eles mais
amplos, inclusive englobando processos de solidariedade entre determinadas comunidades, ou mais
restritos como a própria força que a imprensa passou a ter em uma democracia liberal, reformista ou
desenvolvimentista. Se antes o controle social vinha em um movimento crescente da força do Estado
autoritário sob as instituições sociais e a população como um todo, a década de 1950 atingiria o ápice
de um momento histórico de pós-ditadura com um Estado reformista (ainda conservador e
parcialmente autoritário) com o desenvolvimento de novas formas de controle social, sendo agora,
uma mão dupla de atuação por conta dos movimentos sociais e da própria imprensa. Todavia, estas
manifestações não lograram êxito em sua representatividade política diante de um panorama de

248
crises econômicas e sociais frequentes. Mesmo diante do momento crítico com o final do Governo
Vargas, a imprensa em geral particularizava os seus próprios interesses como os da sociedade como
um todo.19
Desta forma, e fazendo bastante sentido, a imprensa esportiva de então (no caso, nos
referimos ao JS), fazia mais este papel de vigilante das ações das autoridades públicas e
governamentais, porta voz das ações em torno do desenvolvimento dos esportes, sejam eles voltados
para os interesses dos clubes privados, dos torcedores abastados ou proprietários de animais de porte.
Esta postura denuncista extrapolava o caráter de reivindicação das ações do Estado, criando uma
cultura voltada para ampliação da atuação pública da imprensa. A crônica esportiva, por cunhar um
padrão subjetivo, emotivo e opinativo em sua base de formação, contribuía bastante para o
fortalecimento desta estratégia dos meios de comunicação, em particular os jornais impressos.
A subjetividade presente nas escolhas dos temas e das críticas específicas em torno de um
determinado tema criava uma identidade específica em torno do perfil de cada cronista, seja mais
ácido e debochado em alguns casos, mais austero e cortês em outros, ou mais complacente em alguns.
De acordo com Mansano, levando em conta o conceito de subjetividade de Deleuze:

Pode-se notar que essa consideração de Deleuze também rompe com a noção de
uma unidade evidente atribuída ao sujeito, ou seja, com a noção de um ser prévio
que permanece. Para ele, o sujeito não está dado, mas se constitui nos dados da
experiência, no contato com os acontecimentos. Questionamos: como isso
acontece? Nos diferentes encontros vividos com o outro, exercitamos nossa
potência para diferenciar- nos de nós mesmos e daqueles que nos cercam. Existem
diferentes maneiras de viver tais encontros. Alguns deles podem passar
praticamente despercebidos. Já outros são fortes, marcantes e até mesmo violentos.
Dependendo dos efeitos produzidos pelos encontros, o sujeito é praticamente
“forçado” a questionar e a produzir sentidos àquela experiência que emergiu ao
acaso e que, sem consulta, desorganizou um modo de viver até então conhecido.
Obviamente, o contato com esse tipo de dado e de acontecimento gera uma série
de estranhamentos, incômodos e angústias. A vida se desenrola nesse campo
complexo do qual fluem ininterruptamente os dados e os acontecimentos. Os
enfrentamentos aí emergentes não conhecem parada.20

De qualquer forma, o conjunto destes autores moldou uma forma de contribuir as visões
diversas sobre o esporte carioca, a ponto de entendê-lo como nacional. Ou seja, reforçava-se a ideia
de que para o JS era possível disseminar uma leitura de identidades específicas do Brasil, por meio

19 Nos referimos ao momento da crise do segundo governo Vargas, com o consequente suicídio do
presidente, resultado da pressão múltipla que sofria por parte de vários setores da sociedade, como parte significativa da
imprensa por exemplo.
20 MANSANO, Sonia Regina Vargas. Sujeito, subjetividade e modos de subjetivação na
contemporaneidade. In: Revista de Psicologia da UNESP, 8(2). 2009. Disponível em:
http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/revista/article/viewFile/139/172. Acesso em: 05/01/2015. P. 115.

249
do esporte e por meio de uma forma de noticiar as mesmas, reforçando seu peso criativo, imaginativo
e ficcional, sem perder a objetividade, através das crônicas. Um elemento a parte de um jornal, mas
que mantinha um diálogo com a necessidade comercial da empresa, assim como ampliava um
espectro cultural de textos que militavam no limite da literatura e do jornalismo.

Referências Bibliográficas:

COUTO, André Alexandre Guimarães. Cronistas Esportivos em Campo: Letras, Imprensa e Cultura
no Jornal dos Sports (1950-1958). Curitiba: UFPR, 2016. Tese de Doutorado em História.

MACHADO, João. Novas praças de desportos. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.698, 28
de junho de 1951. P. 5. Coluna Às quintas-feiras.

MANSANO, Sonia Regina Vargas. Sujeito, subjetividade e modos de subjetivação na


contemporaneidade. In: Revista de Psicologia da UNESP, 8(2). 2009. Disponível em:
http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/revista/article/viewFile/139/172. Acesso em:
05/01/2015.

MORAES, Inah de. Idéia do Tomazinho... In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.697, 27 de
junho de 1951. P. 9. Coluna Rondó dos Cavalões.

NASCIMENTO, Álvaro do (Zé de São Januário). In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 6.410, 16
de julho de 1950. P. 9. Coluna Uma pedrinha na Shooteira.

_____________. In: Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, n.º 7.035, 3 de agosto de 1952. P. 10. Coluna
Uma pedrinha na Shooteira.

SOUZA, Rodriane de Oliveira. Participação e controle social. In: SALES, Mione Apolinário;
MATOS, Maurílio Castro; LEAL, Maria Cristina (Org.). Política social, família e juventude: uma
questão de direitos. São Paulo: Cortez, 2004. P. 167-187.

VITAL, João Carlos. Disponível em: <http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-


biografico/vital-joao-carlos>. Acesso em: 07/06/2016.

250
A Exposição Nacional do Estado Novo, de 1938, e a
divulgação do anticomunismo para as crianças

André Barbosa Fraga1

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar alguns aspectos do projeto anticomunista criado
pelo governo Vargas logo após a eclosão da chamada Intentona Comunista, movimento armado de
militares, deflagrado com a sublevação de quartéis em Natal, em Recife e no Rio de Janeiro,
respectivamente, nos dias 23, 24 e 27 de novembro, o qual tinha por intenção tomar o poder de
Getúlio Vargas e instalar um governo popular-revolucionário que prepararia a implantação de um
regime socialista no Brasil. Todos esses levantes foram promovidos em nome de uma revolução
popular e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento político sob a liderança do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) e de seu principal integrante: Luís Carlos Prestes. O governo,
utilizando-se da Lei de Segurança Nacional, havia fechado a ANL em 11 de julho de 1935. Sufocado
pelas forças legalistas, o movimento fracassou e o que se seguiu foi uma violenta repressão do
governo central a todos os opositores do regime. O intuito desta pesquisa será o de mostrar a política
de repressão e de anticomunismo voltada para os jovens brasileiros. Para isso, analisaremos a
primeira grande exposição organizada pela ditadura varguista, ocorrida no Rio de Janeiro, em
dezembro de 1938, como parte das comemorações do primeiro aniversário do Estado Novo e dos
oito anos da chegada de Getúlio ao poder. A mostra buscava revelar ao público as realizações do
regime em suas mais diversas áreas de atuação, contando, para isso, com a participação de todos os
ministérios. O combate ao comunismo, grande preocupação do governo, ganhou um pavilhão
próprio: a Exposição Anticomunista. O governo esperava que as crianças visitassem a exposição, de
maneira a tomarem conhecimento do mal atribuído ao comunismo. Para isso, o Departamento
Nacional de Propaganda (DNP) publicou, em 1939, um livro voltado a elas: Um passeio de quatro
meninos espertos na Exposição do Estado Novo.

Palavras-chave: Anticomunismo; Exposição Nacional do Estado Novo, Departamento de Imprensa


e Propaganda (DIP)

A proposta deste trabalho foi a de analisar um tema que tem sido pouco abordado entre os
estudos que procuraram analisar o combate ao comunismo ocorrido no primeiro governo Vargas
(1930-1945): o anticomunismo voltado para crianças. As práticas anticomunistas no governo Vargas
tiveram início como consequência da chamada Intentona Comunista, movimento armado de
militares, deflagrado com a sublevação de quartéis em Natal, em Recife e no Rio de Janeiro, em
novembro de 1935, o qual tinha por intenção tomar o poder de Getúlio Vargas e instalar um governo
popular-revolucionário que prepararia a implantação de um regime socialista no Brasil. Todos esses
levantes foram promovidos em nome de uma revolução popular e da Aliança Nacional Libertadora

1 Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFF. Email: andrebfraga@yahoo.com.br

251
(ANL), movimento político sob a liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de seu principal
integrante: Luís Carlos Prestes. O governo, utilizando-se da Lei de Segurança Nacional, havia
fechado a ANL em 11 de julho de 1935. Sufocado pelas forças legalistas, o movimento fracassou e
o que se seguiu foi uma violenta repressão do governo central a todos os opositores do regime.
O movimento “desencadeou um processo de institucionalização da ideologia anticomunista
no interior das Forças Armadas” 2 e contribuiu para o fortalecimento de empreendimentos para
engrandecer a figura de Vargas, e aprofundar uma propaganda nacionalista e cívica. O “perigo
comunista”, que há pouco tempo parecia distante, mostrou-se o mais próximo possível. O episódio
da chamada Intentona Comunista deixou claro que havia comunistas no Brasil dispostos a chegar ao
poder por meios revolucionários. Porém, para o governo, o que se mostrou ainda mais perigoso foi
a descoberta da atuação de estrangeiros ligados ao Komintern, a Internacional Comunista, no
movimento, o que fazia dos brasileiros participantes elementos “a serviço de Moscou” e, portanto,
traidores da pátria3.
Havia duas formas de combater o comunismo e de restringir a atuação de seus seguidores. A
primeira, imediata e fundamental, era o uso da força física, com repressão, o que ficou a cargo da
polícia 4 . A segunda, de caráter preventivo e de longo prazo, que vários ministérios procuraram
empregar, era acionar políticas culturais que valorizassem a cultura e a história do Brasil, buscando
incentivar o amor à pátria e, assim, afastar as ideias socialistas advindas da União Soviética,
eliminando sua influência na sociedade.
A primeira forma descrita de combate ao comunismo tem sido objeto de bastante atenção dos
historiadores. Ultimamente, muitos trabalhos procuraram compreender essa repressão com o uso da
força física, estudando a repressão e a perseguição aos brasileiros considerados comunistas. Essas
pesquisas abordaram, por exemplo, a atuação da polícia no fechamento de sindicatos e na prisão e
na tortura dos integrantes deles, bem como o cotidiano de violência nos presídios para os quais os
presos políticos foram enviados. A segunda forma utilizada pelo governo para combater o
comunismo, mais simbólica, também tem sido estudada, mais não tanto. E, quando estudada, foca
mais nas práticas anticomunistas voltadas para os adultos. Este trabalho tem por objetivo demostrar
como os jovens também foram incluídos nesse projeto do governo de propagação do anticomunismo.

2 CASTRO, Celso. A invenção do Exército brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. P. 49.
3 Idem. P. 50 e 51.
4 Ver: FERREIRA, Jorge. “Estado e repressão política no primeiro governo Vargas”. In: Trabalhadores
do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 1997. Pp. 91-122.

252
A EXPOSIÇÃO NACIONAL DO ESTADO NOVO, DE 1938

Um lugar privilegiado para se pensar nessa política anticomunista voltada para as crianças é
a Exposição Nacional do Estado Novo. Essa primeira grande exposição elaborada pela ditadura
varguista ocorreu no Rio de Janeiro, em dezembro de 1938, como parte das comemorações do
primeiro aniversário do Estado Novo e dos oito anos da chegada de Getúlio ao poder. Portanto, a
mostra buscava revelar ao público as realizações do regime em suas mais diversas áreas de atuação,
contando, para isso, com a participação de todos os ministérios. Tendo a Pasta da Justiça, sob a
direção de Francisco Campos, como principal organizadora, o evento apresentou comparativamente
uma síntese dos avanços alcançados pela nova administração iniciada em 1930 e “aperfeiçoada” em
1937, ao demonstrar a evolução obtida entre o passado e o presente e as expectativas otimistas em
relação ao futuro. Nesse sentido, havia o esforço de apresentar ao país o que ele fora, o que ele era e
o que ele seria.
Para a execução do empreendimento, aproveitou-se a estrutura já montada na realização da
XI Feira Internacional de Amostras do Rio de Janeiro 5, localizada no centro da cidade, na Ponta do
Calabouço, região aterrada e reurbanizada na década de 1920 para acolher a Exposição Internacional
Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. A responsabilidade direta pela efetivação
do projeto coube ao chefe de gabinete do ministro da Justiça, Negrão de Lima 6.
Primeiramente, é preciso esclarecer o tipo de público esperado no evento. Com o intuito de
divulgar o máximo possível as transformações pelas quais o país vinha passando nos últimos oito
anos, os organizadores almejavam alcançar a população em geral, habitante das cidades ou dos
campos. Justamente por esse motivo, todo um esforço foi empregado de modo a facilitar o
deslocamento dos interessados em prestigiar o evento, tornando mais acessível a vinda à capital.
Nesse sentido, foram obtidas reduções de 30 a 50% nos preços das passagens de trem e do transporte
marítimo. Ainda, também contribuindo nesse esforço de atrair os brasileiros, o Sindicato dos

5 Iniciada em 12 de outubro e concluída no dia 20 do mesmo mês, a XI Feira Internacional de Amostras


do Rio de Janeiro apresentou em mostruários os produtos das principais indústrias brasileiras e estrangeiras. Cada país da
América e da Europa presente, além dos estados brasileiros, montou um pavilhão para expor seus itens. Ver: “Inaugura-
se hoje a XI Feira Internacional de Amostras”. Jornal Diário de Notícias, Rio de Janeiro, quarta-feira, 12 de outubro de
1938. P. 3; e “O encerramento da Feira de Amostras”. Jornal O Radical, Rio de Janeiro, domingo, 20 de novembro de
1938. P. 7.
6 Francisco Negrão de Lima (1901-1981), nascido em Minas Gerais, foi advogado, formado pela
Faculdade de Direito de Belo Horizonte, e jornalista. Na política, atuou como deputado federal por Minas Gerais, de 1933
a 1937. Com o golpe de 1937 e a implementação do Estado Novo, foi nomeado chefe de gabinete do ministério presidido
por Francisco Campos. Ver: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – DHBB, CPDOC-FGV, verbete LIMA, Negrão
de.

253
Proprietários de Hotéis e Pensões fez uma redução na tabela de cobrança das diárias 7. Todos os
descontos seriam mantidos durante o funcionamento da exposição.
Além disso, devido ao público-alvo, os curadores tiveram o cuidado de montar os stands com
informações dispostas de maneira simples, autoexplicativas, e com uma linguagem acessível a
qualquer pessoa, de modo a se fazer inteligível mesmo aos visitantes com pouca educação formal.
Para alcançar tal objetivo, foram utilizados numerosos mapas, gráficos, estatísticas, fotografias,
maquetes, trabalhos em alto-relevo e quadros demonstrativos, elementos dispostos “de forma a
proporcionar aos visitantes toda a facilidade na observação e compreensão da evolução e progresso
do país”8. Essa dupla estratégia de atração do público, baseada em facilitação do deslocamento–fácil
entendimento, parece ter alcançado o resultado esperado, já que mais de 40.000 pessoas visitaram a
exposição apenas nos dois primeiros dias 9.
Apesar do número expressivo, o governo nutria a intenção de que o conteúdo da exposição
chegasse à maior quantidade possível de cidadãos e, para isso, contou com o alcance proporcionado
por uma poderosa ferramenta: o rádio. O programa Hora do Brasil fez “uma rápida interpretação da
Exposição Nacional do Estado Novo para a nova geração, demonstrando o sentido criador do Estado,
como resultante da juventude das suas forças” 10.
A Exposição Nacional do Estado Novo foi inaugurada pelo presidente em 10 de dezembro,
às 16h. Recebido por todos os ministros de Estado e por altas autoridades civis e militares à porta do
recinto da Feira de Amostras, a primeira ação inaugural de Vargas foi a de acender, sob salva de
palmas, uma bola luminosa de grande efeito ornamental, colocada na avenida principal do recinto.
Construída pelo Ministério da Marinha, exprimia a renovação advinda de um novo regime, símbolo
de orientação, de guia e de vigilância. Em outras palavras, a iluminação de tal farol representava os
novos rumos alcançados pelo Brasil com a chegada de Getúlio ao poder, transformações que tão bem
seriam demonstradas no interior da mostra11.
Nenhuma área de atuação do governo ficou de fora, de maneira que todos os ministérios
possuíam seus próprios Pavilhões (da Viação e Obras Públicas, da Guerra, da Marinha, da Educação
e Saúde, do Exterior, da Justiça, do Trabalho, da Fazenda e da Agricultura), assim como outros

7 Ver: “A Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, quinta-feira, 8 de
dezembro de 1938. P. 2.
8 Ver: “A Exposição do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, sexta-feira, 25 de novembro de
1938. P. 6.
9 Ver: “Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, terça-feira, 13 de
dezembro de 1938. P. 3.
10 Ver: “Uma visita à Exposição do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, sexta-feira, 16 de
dezembro de 1938. P. 6.
11 Ver: “A Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, quinta-feira, 8 de
dezembro de 1938. P. 2; e “O que é o Brasil Novo construído pelo Presidente Vargas”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro,
domingo, 11 de dezembro de 1938. P. 1.

254
órgãos da administração possuíam seus próprios stands (Departamento Nacional de Propaganda,
Prefeitura, Instituto do Álcool e Açúcar e Comissariado do Brasil na Feira de Nova York e do
Departamento Nacional do Café). Além desses, um assunto de grande preocupação do governo
ganhou um pavilhão próprio, recebendo materiais ilustrativos fornecidos por quase todos os
ministérios: a Exposição Anticomunista 12. A revista Exposição Nacional do Estado Novo13 dedicou
um espaço significativo para detalhar todas as informações que o integravam, apresentando através
de farta ilustração com fotografias e quadros comparativos dados pormenorizados da evolução do
comunismo no mundo e no Brasil, descrevendo esses movimentos em tom depreciativo e alertando
para o perigo dos subversivos integrantes deles, inimigos da pátria brasileira 14.
A Exposição Nacional do Estado Novo logo alcançou destaque, tornando-se sucesso de
crítica e de público. Por essa razão, a data de encerramento, marcada para 31 de dezembro, foi
prorrogada. O Ministério da Justiça, devido ao êxito evidente do evento, organizou um novo
programa de atividades que teve início em 1° de janeiro de 1939 e foi finalizado no dia 22 do mesmo
mês15. Sem dúvida, muito do interesse do público pela mostra se deveu às diversas atrações paralelas
à exibição dos feitos do governo Vargas, como queima diária de fogos de artifício, lutas de boxe e
grandes concertos musicais 16 . Além disso, vários concursos movimentaram o público, atraindo
publicidade e mais pessoas ao evento, como o de bandas de música militares, “Qual o melhor cantor
e qual a melhor cantora de rádio?” e “Qual a música popular brasileira, samba e marcha, de maior
sucesso no momento?”.

12 Para uma análise geral da exposição e detalhada do Pavilhão Anticomunista, ver: NEGRÃO, João
Henrique Botteri. Selvagens e incendiários: o discurso anticomunista do governo Vargas e as imagens da guerra civil
espanhola. São Paulo: Associação Editorial Humanitas/Fapesp, 2005.
13 Exposição Nacional do Estado Novo. Rio de Janeiro: DNP, 1939.
14 Para o espaço reservado à Exposição Anticomunista, ver: Exposição Nacional do Estado Novo. Rio de
Janeiro: DNP, 1939. Pp. 67-96.
15 Ver: “Será prorrogada a Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro,
domingo, 25 de dezembro de 1938. P. 8.
16 Ver: “A Exposição do Estado Novo está obtendo o maior êxito”. Jornal O Imparcial, Rio de Janeiro,
domingo, 18 de dezembro de 1938. P. 3 e 16. Claramente, atrações especiais contribuíam para um aumento considerável,
no dia de sua exibição, da venda de entradas para a exposição. Por exemplo, o jornal A Batalha chegou a essa constatação
ao indicar um aumento significativo, comparado aos dias anteriores, na compra de ingressos para 6 de janeiro de 1939,
justamente por nessa ocasião ter sido realizado um espetáculo pugilístico ao ar livre, no qual, em um ringue montado,
ocorreu uma luta preliminar entre amadores e, em seguida, três entre profissionais. Ver: “Exposição Nacional do Estado
Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, sexta-feira, 6 de janeiro de 1939. P. 6.

255
O ANTICOMUNISMO NO LIVRO UM PASSEIO DE QUATRO MENINOS ESPERTOS NA
EXPOSIÇÃO DO ESTADO NOVO

Além dos adultos, a Exposição Nacional do Estado Novo tinha nos jovens o público-alvo.
Daí o interesse de que as famílias levassem os filhos pequenos para prestigiar a mostra. Estimulando
isso, foi armada uma tela nas dependências do evento, formando um cinema ao ar livre 17, bem como
houve a organização de uma corrida de carros entre as crianças presentes com sorteio de um
automóvel a gasolina18. Além disso, negociou-se para que o Parque Shanghai, uma das principais
atrações da XI Feira Internacional de Amostras do Rio de Janeiro, mantivesse-se montado também
durante o evento a respeito das realizações do Estado Novo. No desejo de colaborar para o sucesso
do evento e para o aumento do público infantil, a empresa de diversões resolveu estabelecer preços
populares, reduzindo o valor cobrado para a entrada em seus principais aparelhos, como montanha
russa, polvo e Palácio das Gargalhadas 19.
Ainda no interior dessas ações da Pasta da Justiça, de divulgação para as crianças das
realizações do governo, o Departamento Nacional de Propaganda, órgão submetido àquele
ministério, publicou Um passeio de quatro meninos espertos na Exposição do Estado Novo. O livro
conta a estória de uma professora, Maria de Lourdes, que, diante de uma pergunta curiosa de seu
aluno João (“– Dona Maria, esse Brasil Novo de que estão falando é algum outro Brasil mais moço
que descobriram agora?”20), resolve levá-lo, juntamente com os demais colegas de turma, Antônio,
Gustavo e André, no dia seguinte, a uma atividade extraclasse: “– Para responder bem direitinho à
pergunta de Joãozinho, não teremos aula amanhã, porque vamos fazer um bonito passeio. Vamos
ver o Brasil Novo, na Exposição Nacional do Estado Novo, na Feira de Amostras” 21. E assim, ao
longo da publicação, o leitor acompanha minuciosamente o percurso do grupo por quase todos os
pavilhões do evento, com a explicação em detalhes de dados sobre a natureza do material exposto.
Dessa forma, o livro, conforme indicado pelo jornal Gazeta de Notícias, ao ser distribuído
entre as escolas brasileiras, destinava-se “a ilustrar amplamente os nossos jovens patrícios sobre tudo

17 Ver: “A Exposição do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, sexta-feira, 25 de novembro de
1938. P. 6.
18 Ver: “Na Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro, terça-feira, 27 de
dezembro de 1938. P. 3.
19 Ver: “O Parque Shanghai e a Exposição Nacional do Estado Novo”. Jornal A Batalha, Rio de Janeiro,
domingo, 11 de dezembro de 1938. P. 3.
20 Um passeio de quatro meninos espertos na Exposição do Estado Novo. Rio de Janeiro: DNP, 1939. P.
3.
21 Idem. P. 4.

256
que foi exposto ao público durante a realização daquela grande mostra do trabalho nacional” 22 .
Enfim, a publicação em questão, voltada às crianças e utilizando uma linguagem apropriada ao
público-alvo, almejou cumprir a mesma função atribuída ao catálogo Exposição Nacional do Estado
Novo para os adultos. Tal obra apresentou a visita do grupo a vários pavilhões da exposição.
A visita ao pavilhão anticomunista revela a tentativa do autor de transmitir às crianças a
necessidade de se combater o comunismo. Logo que chegam a ele, a professora explica aos alunos
que esse pavilhão foi instalado “para mostrar aos visitantes os piores inimigos do Brasil e de todos
os países que querem viver em ordem e em paz – os comunistas”23. Ela pede que os alunos vejam
um grande livro aberto na exposição. De um lado dele mostra o que o comunismo queria e do outro
o que o Estado Novo queria. Comparando as duas páginas, segundo a professora, daria para ver a
grande diferença entre o que o Estado Novo tem de bom e o que o comunismo tem de mau. Em
seguida, dois dos alunos de Maria de Lourdes leem as páginas: Em uma está escrito “O comunismo
quer submeter o Brasil a um governo internacional, dependente de Moscou!” e na outra “O Estado
Novo quer dar ao Brasil um governo nacional dependente apenas da vontade do seu povo!” 24.
A inserção dessa passagem, escrita em páginas do livro em exposição, serve de pretexto para
o autor da obra, publicada pelo DNP, fazer comparações entre o comunismo e o Estado Novo, de
modo que os jovens leitores desenvolvessem ojeriza àquele e apreço a este. Ao explicar de maneira
mais simplificada o que os alunos haviam acabado de ler, a professora explica que:
Enquanto o comunismo quer que o Brasil seja governado por estrangeiros e
submetido aos caprichos tirânicos dos comunistas de Moscou, que mandam nos
comunistas de todo o mundo, o Estado Novo quer que o Brasil tenha no governo
um brasileiro, como o Presidente Getúlio Vargas, que não dependa do governo de
nenhum país e represente verdadeiramente a vontade do seu bom e pacífico povo25.

Em seguida, ela pede que outro aluno, Joãozinho, leia mais um trecho: “– O comunismo quer
a luta de classes como regime social permanente!” 26. Novamente, a docente explica para as crianças
o que isso significaria:
Quer dizer que, ao invés de promover a harmonia entre os operários e os patrões,
criando um ambiente de ordem e de paz, onde todos trabalhem com alegria e
esperanças, o comunismo quer que os operários vivam brigando com os patrões,
vivam em greve, as fábricas paradas, não trabalhando e não deixando os outros

22 Ver: “Um passeio de quatro meninos espertos na Exposição do Estado Novo”. Jornal Gazeta de
Notícias, Rio de Janeiro, domingo, 2 de julho de 1939. P. 8.
23 Um passeio de quatro meninos espertos na Exposição do Estado Novo. Rio de Janeiro: DNP, 1939. P.
47.
24 Idem. P. 48.
25 Idem. P. 48 e 49.
26 Idem. P. 49.

257
trabalhar, fazendo desordens e matando. Mas isso felizmente ele não consegue no
Brasil27.

O livro segue, então, explicando a suposta “harmonia entre as classes” desenvolvida por
Vargas ao criar as leis trabalhistas e regulamentar o mercado de trabalho no Brasil. Segundo a
publicação, os operários, graças as leis do presidente Vargas, viviam muito bem com os patrões,
trabalhando todos juntos pela prosperidade do país: “O Presidente Getúlio Vargas deu-lhe tudo o que
era de justiça dar. Deu-lhes horas de trabalho, lei de férias, pensões nas enfermidades, aposentadoria
na velhice, garantia no emprego, casa própria e ainda vai dar-lhes salário mínimo” 28 . Segue a
publicação explicando aos leitores mirins a grande diferença entre o comunismo e o Estado Novo:
antes de o presidente Vargas chegar ao poder, os operários viviam em greve, reclamando direitos,
queixando-se de misérias e abandonando as fábricas. Muitos deles ainda eram “enganados” pelos
comunistas, com a falsa promessa de que a vitória do comunismo no Brasil levaria a um mundo de
coisas maravilhosas. Segundo o livro, tal promessa era inteiramente impossível e falsa:
– Ao contrário disso e apesar das suas promessas, o comunismo não tem dado nada
aos operários. Na Rússia, o único pais cujo governo infelizmente está nas mãos dos
comunistas, o que se vê é operário escravizado e morrendo de fome e frio porque
não encontram trabalho, enquanto seus filhos, como aquele menino que Joaozinho
viu chorando naquela fotografia, ficam abandonados nas ruas, ficam uns vadios,
acabam furtando, criminosos dos piores crimes.
– Que pena!
– Pois é, Joãozinho. Que pena! Como eu dizia, neste grande livro está o que o
comunismo quer tão diferente do que o Estado Novo está dando aos brasileiros, sem
precisar prender nem matar ninguém29.

Por fim, após descrever a contribuição do governo Vargas para o mundo do trabalho, o espaço
final do livro Um passeio de quatro meninos espertos da exposição do Estado Novo dedicado ao
pavilhão anticomunista é encerrado com explicações sobre questões morais envolvendo a
“preservação das famílias”, algo com o qual, segundo a publicação, o comunismo queria acabar:
– Vejam aqui, nestes dizeres do livro grande: os comunistas querem acabar com a
família. Querem que você, Zézinho, seja afastado do seu papai e da sua mamãe, que
não queira mais bem aos seus irmãos e não goste dos seus parentes. Não querem
que exista religião nem Deus e querem acabar com a nossa bandeira, tão bela, a
mais bela do mundo e tão amada por todos os brasileiros. Em lugar da nossa
bandeira, eles querem uma bandeira vermelha, vermelha como fogo e sangue, os
seus grandes aliados! Agora, Tonico, pergunto-lhe: você, que é um menino bom e
inteligente, você poderá estar de acordo com isso? – Deus me livre, Dona Maria!
Quero que a nossa bandeira continue a existir, verde e amarela como sempre foi, a
mais bonita e a mais querida de todas as bandeiras do mundo! 30.

27 Idem.
28 Idem. P. 51.
29 Idem. P. 52 e 53.
30 Idem. P. 53.

258
Para convencer os leitores mirins brasileiros do perigo que representaria o comunismo, o livro chega
ao ponto de utilizar algo que sensibilizaria significativamente as crianças: o Natal e a possibilidade
de não existir mais a visita anual do Papai Noel:
– Venham aqui agora. Estas fotografias que vocês estão vendo foram tiradas nas
ruas de Moscou. São fotografias de homens, de mulheres e de crianças andando a
toa pelas ruas, sem casa e sem destino, famintos e tiritando de frio. Não têm casa,
nem onde comer. Morrem pelas ruas e pelas ruas ficam os seus cadáveres, sem que
ninguém se incomode.
Quando os comunistas tomaram conta do governo da Rússia, o povo começou logo
a sofrer toda sorte de privações. Quem fizesse a menor reclamação era condenado à
morte. Muitas coisas boas e bonitas da vida dos meninos foram proibidas.
– O Papai Noel, por exemplo. Todo menino gosta da Festa de Natal, uma festa boa,
na qual todo mundo, mesmo as pessoas grandes, recebem presentes. Seu pai não dá
um presente à sua mãe, Gustavinho?
– Dá, Dona Maria! E o Papai Noel é quem me dá!
– E sua mãe dá também um presente a seu pai. Para dar presentes aos meninos tem
Papai Noel, velhinho, de barbas brancas, com o saco cheio de brinquedos e
chegando devagarinho, pisando de mansinho, para não acordar os meninos. Quanta
alegria quando a gente olha de manhã para os sapatos e eles estão cheios de
brinquedos!
Pois os comunistas acabaram com o Papai Noel e com a linda e gostosa festa do
Natal.
Os meninos da Rússia hoje não têm mais Papai Noel. Estão proibidos de receber
presentes de Papai Noel. Em todos os países, há Papai Noel, menos nos países dos
comunistas. E agora, “seu” Joãozinho, você gostaria de morar num país assim?
– Nem me pagando, Dona Maria!”31.

31 Idem. P. 55 e 56.

259
O Conceito De Memória Em Arendt

André Luis de Souza Alvarenga 1

Resumo: A pesquisa proposta tem como objetivo apresentar o campo discursivo da memória social
fundamentado na teoria política da filósofa Hannah Arendt, especificada em três momentos de seu
pensamento: a tradição; o absoluto; e o início. Arendt nasceu na Alemanha e viveu o processo que
ela denominou de totalitarismo, relatado em sua principal obra, Origens do Totalitarismo, de 1951.
Desta maneira, através da análise imanente da obra da autora, a proposta é investigar o caminhar da
norma sustentada pelo fio perdido da tradição, seu exercício concreto alcançado no totalitarismo e
uma possibilidade de escape deste movimento a partir da premissa agostiniana, do propósito do
Homem, recordada incessantemente por Arendt em suas obras.

Palavras-chave: Arendt. Memória. Política.

Abstract: This research aims to present the discursive field of social memory based on the political
theory of the philosopher Hannah Arendt, specified in three moments of his thought: the tradition;
the absolute; and the beginning. Arendt was born in Germany and lived the process she called
totalitarianism, reported in her main work, Origins of Totalitarianism, from 1951. By the immanent
analysis of the author's work, this research investigates the path of the norm sustained by the wire
lost in tradition, its concrete exercise achieved in totalitarianism and a possibility of escape from this
movement from the Augustinian premise, the purpose of Man, often remembered in his works by
Arendt.

Keywords: Arendt. Memory. Politics.

DESENVOLVIMENTO

De início, parece-nos importante a interpretação do conceito de tradição nas obras de Arendt.


Para a filósofa, o surgimento do que a autora determinou como totalitarismo foi causado pela perda
do fio que conduzia a tradição. Logo, a primeira indagação que nos surge é: de que modo a autora
induz à armação filosófica de que o esquecimento do fio que conduzia a tradição pôde ter
possibilitado o surgimento daquilo que ela denominou de totalitarismo? Em seguida, torna-se
importante o conceito de “absoluto”. O conceito de “absoluto”, na visão da autora, passa a existir na
medida em que a política se torna um meio para um fim específico, teleologicamente guiado para
que se atinja determinada necessidade histórica ou da natureza, ignorando a experiência concreta dos
homens. Neste sentido, de acordo com a filósofa, o conceito de “absoluto” recebeu um caráter

1 Especialista em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Membro
Pesquisador do Instituto de Pesquisa Histórica e Ambiental Regional – IPHAR. E-mail: prof.andre1305@gmail.com.

260
definitivo e pleno no totalitarismo. Desta maneira, como compreender o “absoluto”, que coloca de
lado a experiência concreta da realidade em nome da realização de uma necessidade histórica ou da
natureza? Por fim, seguindo as perguntas já feitas, devemos investigar o conceito de “início”. Sabe-
se que o conceito de “início” tornou-se caro à autora, em suas célebres lembranças da frase
agostiniana, em A Cidade de Deus, de que “o propósito de criação do Homem era de tornar possível
um começo”. Partindo da premissa agostiniana, de que modo o “início” de Arendt pode proporcionar
uma suposta superação dos valores totalitários?
Com a pesquisa alicerçada nestes três conceitos elaborados pela filósofa no decorrer de suas
obras, o questionamento principal da pesquisa proposta é: o que Hannah Arendt pode colaborar ao
fecundo campo da memória social? Para tanto, partindo da análise imanente da obra da própria
autora, deixaremos que a pesquisa nos mostre os resultados. É importante ressaltar, antes de tudo,
que a memória social pode ser entendida como a construção do processo dinâmico da vida social,
um campo conflituoso onde se situam inúmeros processos de articulação de lembranças e
esquecimentos, bem como processos traumáticos, dos distintos atores sociais, semelhante ao campo
da política, pensado pela filósofa. A importância do uso da memória social manifesta-se na medida
em que as

[...] práticas mnemônicas sempre existiram ao longo de todo o processo da


humanidade. Ao mesmo tempo, a memória social é um construto em voga na
contemporaneidade, marcada por relações efêmeras nas quais há um constante jogo
de visibilidade/invisibilidade, na tensão entre a lembrança e o esquecimento, na sua
relação com o passado, o presente e o futuro, passado concebido ora de forma
retrospectiva e/ou melancólica, ora prospectiva, aberto à imprevisibilidade. [...] com
seu poderoso filtro de lembrar e esquecer, [a memória] reconstrói tais experiências
de modo que o Homem produza alternativas de, a partir do passado, vislumbrar o
horizonte futuro. (FARIAS, 2012, p. 8)

Porém, antes de investigarmos a relação da memória social com a teoria política de Hannah
Arendt, que gira em torno da temática do totalitarismo, devemos entender brevemente o caminhar
pessoal e intelectual da autora. Por este motivo, é possível perceber que o ano de 1943 foi decisivo
no caminhar pessoal e intelectual de Hannah Arendt. O choque que viveu ao tomar conhecimento
dos campos de extermínio nazistas naquele ano constituiu o ponto de partida e a motivação de toda
a sua obra. Origens do Totalitarismo, escrito nos anos subsequentes de sua perturbadora descoberta,
em 1951, representou, naquele instante, de acordo com a própria autora, a única saída viável para
lidar com essa experiência. Em um relato em A Dignidade da Política, no capítulo Compreensão e
Política, rebatendo as críticas que recebeu naquele momento, afirmou que compreender o
totalitarismo não significava perdoá-lo. Disse que a compreensão, que é um esforço intelectual que
nunca cessa, felizmente, não era uma condição para uma urgente luta contra os regimes totalitários.

261
Apesar disso, afirmou, também, que a ausência da compreensão dos crimes praticados pelo
totalitarismo impossibilitaria a reconciliação com o mundo como uma morada habitável para a
humanidade. Para a filósofa, a vida seria mais insuportável se o pensamento não pudesse atribuir um
peso e um significado a esses acontecimentos, até então inéditos, de acordo com suas análises.
Para Arendt, a reconciliação com o mundo possui um sentido de inovação, de um novo
começo, termo que lhe custou caro. A busca pela reconciliação de Arendt com o mundo, em Origens
do Totalitarismo, de 1951, chamou a atenção do público e a sua repercussão foi imediata. Críticos
apontavam uma conotação emocional na obra. No entanto, essas críticas não impediram de ser
reconhecida a firmeza argumentativa do livro. Respondendo às críticas, Hannah Arendt afirmava
que toda atividade intelectual tem o seu início no contato com os acontecimentos reais. Tratava-se,
antes de tudo, de embates do pensamento com os incidentes da experiência concreta, dos quais não
poderíamos extrair uma verdade definitiva e, menos ainda, alguma teoria para a vida prática. É válido
ressaltar que, durante uma palestra a respeito da sua vida acadêmica, Arendt afirmou que nunca
esteve realmente interessada em agir, mas que devia seu respeito àqueles que estavam interessados
em fazer alguma coisa. Voltava a afirmar que a brutalidade dos regimes totalitários desafiava os
padrões tradicionais, por conta de sua inovadora “política da morte” e, por isso, deveriam ser
compreendidos acima de tudo.
A compreensão da filósofa a respeito da ascensão dos regimes totalitários na Europa não constituiu,
como se costumava dizer na época, em um excesso de autoridade política, mas sim, em seu
contraponto, na sua ausência. Para ela, a identificação do totalitarismo como uma forma de
autoritarismo estava associada com uma visão distorcida da política, visão muito corrente no período
do pós-guerra. A população, principalmente a europeia, que mantinha viva a lembranças dos horrores
praticados durante a guerra, reconhecia na expansão do aparato estatal um aumento da autoridade,
localizando o Estado como sendo a sede da política. Partindo desta perspectiva, é natural que a
oposição ao totalitarismo estivesse acompanhada de alguma forma de repúdio à política. Hannah
Arendt acusa que a crescente figura de um Estado apolítico, nas décadas seguintes, acompanhada
pela expansão das sociedades de consumo, foi responsável pela alteração e mudança em relação aos
assuntos políticos. A interpretação da filósofa a respeito do totalitarismo era diferente, para não dizer
distante. Para ela, os movimentos totalitários obtiveram sucesso, juntamente com as ideologias do
racismo, movidas pelo imperialismo, e o antissemitismo, o ódio contra judeus, no caso alemão, pois
souberam tirar proveito do vazio de poder deixado pela falência da autoridade política tradicional
que, na prática, vinha sendo garantida desde a fundação de Roma.
De acordo com Hannah Arendt, para existirem enquanto tais, os regimes totalitários necessitam
buscar a massificação da população, liquidando todas as formas tradicionais de associação humana,

262
como os grupos de interesses, classes, etc. Para ela, o surgimento das massas no cenário político do
século XX, século do surgimento das ideologias totalitárias, possui íntima relação com o processo
de alienação do mundo que atravessou toda a Era Moderna desde o seu início, sobretudo, após a
queda da autoridade religiosa, como fator que oferecia certa durabilidade e estabilidade às coisas do
mundo. O processo de alienação na Era Moderna pode ser entendido através da gradual inserção da
esfera privada na esfera pública, principalmente, da esfera econômica na esfera política. Em vista
disso, é importante demarcar, de acordo com Arendt, os passos que levaram ao processo de alienação
e, consequentemente, de massificação, dos homens, na Era Moderna, possibilitando a chegada ao
poder das ideologias totalitárias na Europa. Segunda a autora, em A Condição Humana, de 1958,
três eventos (a Reforma, a descoberta do Novo Mundo e a invenção do telescópio) marcaram o início
da Era Moderna e sua consequente, e inicial, alienação do mundo, que viria se intensificar nos séculos
seguintes. A Reforma, encabeçada por Lutero, na atual Alemanha, alcançou consequências
impensáveis em sua época, ultrapassando as questões teológicas e políticas que a moveram naquele
instante. Acabou contribuindo, para a alienação do mundo, de acordo com Arendt, com a
expropriação dos bens monásticos da Igreja. Essa expropriação levou ao empobrecimento uma
enorme massa de camponeses, que foram deixados à míngua, em uma situação que, destituídos de
um lugar próprio no mundo, foram expostos, às necessidades da vida, isto é, à questão social. Essa
exposição às imperatividades da vida forçou essa massa de camponeses a vender a sua força de
trabalho para garantir sua sobrevivência. Essa massa, em seguida, veio a servir de mão-de-obra para
estimular a Revolução Industrial em meados do século XIX, primeiro na Inglaterra e, posteriormente,
no restante da Europa e do mundo. Além disso, essa massa fora abrigada, posteriormente, no final
dos oitocentos e início dos novecentos, de forma precária, em nacionalidades europeias, servida
como peça nos projetos nacionalistas.
Foi essa população, segundo Hannah Arendt, de homens solitários, sem um espaço que poderiam
chamar de “seu”, sem um vínculo com alguma comunidade que lhe garantisse seus direitos básicos,
comprimidos uns contra os outros, isto é, desprovidos de proteção privada, como os apátridas, que
constituiu alvo principal das doutrinas empregadas pelos movimentos totalitários nos anos
subsequentes. O totalitarismo apareceu para esses homens e mulheres como uma oportunidade de
fuga da realidade, que foi, de acordo com Arendt, uma fuga suicida. Desse modo, as ideologias
totalitárias foram capazes de motivar emocional e intelectualmente uma mobilização política. Para
André Duarte, comentador de Arendt, este período “[...] produziu o ‘espaço vazio’ em que surgiu
uma vasta camada de homens desprovidos de laços e ‘interesses comuns’, os quais se tornaram o
centro nevrálgico do totalitarismo.” (DUARTE, 2000, p. 44)

263
É, neste momento, em que a filósofa faz a distinção entre os conceitos de “isolamento” e de
“solidão”. Segundo Hannah Arendt, a vida dos homens no isolamento é caracterizada pela vivência
em regimes tirânicos e/ou ditatoriais, onde os homens se escondem do tirano e/ou do ditador em seus
lares. Já na solidão, a filósofa afirma ser sentida, semelhantemente, na velhice e na proximidade com
a morte, representada na impotência política e pela retirada, ou seja, o desaparecimento, do mundo
das aparências onde todos podem ser vistos e ouvidos. Neste sentido, o conceito de solidão é chave
fundamental para entendermos os regimes totalitários, que adentram até mesmo o espaço privado
dos homens, controlando-os de todas as maneiras possíveis com suas técnicas, impossibilitando
qualquer espécie de julgamento e, por isso, de diálogo, atividades necessárias para a ação política.
Resumidamente, as tiranias e/ou as ditaduras provocam medo nas populações – que buscam se
resguardar em seus espaços privados, mesmo não participando da vida política. Diferentemente das
tiranias ou das ditaduras, o totalitarismo é mais difuso e eficaz do que, como afirma Arendt, uma
arma apontada contra alguém. Afinal, o totalitarismo rompe, de acordo com a pensadora, com a
instrumentalidade da violência, conceito trabalhado em Sobre a Violência, de 1970. O totalitarismo
produz aquilo que Arendt chamou de “terror”. Para a pensadora

o terror não é o mesmo que a violência; ele é, antes, a forma de governo que advém
quando a violência, tendo destruído todo o poder, em vez de abdicar, permanece
como controle total. Tem sido observado que a eficiência do terror depende quase
totalmente do grau de atomização social. Toda forma de oposição organizada deve
desaparecer antes que possa ser liberada a plena força do terror. Essa atomização
[...] é sustentada e intensificada por meio da ubiqüidade do informante, que pode se
tornar literalmente onipresente porque já não é mais um mero agente profissional a
soldo da polícia, mas, potencialmente, qualquer pessoa com quem se tenha contato.
(ARENDT, 2016, p. 72-73)

No totalitarismo, também, a tradicional visão a respeito das leis, como uma forma de
estabilidade em um mundo incerto das ações humanas, de acordo com a filósofa, é transposta por
uma Lei Superior, que reflete uma suposta necessidade histórica ou da natureza. Neste sentido, a
afirmação da superioridade de um grupo humano sobre outro não foi apenas possível, como era
inevitável. Para Arendt, o aspecto doutrinador de uma ideologia, que se caracteriza pelo desprezo da
experiência concreta, parte de uma única ideia que deve ser, como relatado em Origens do
Totalitarismo, obra de 1951, “suficientemente forte para atrair e persuadir um grupo de pessoas e
bastante ampla para orientá-las nas experiências e situações da vida moderna”. O movimento
realizado pela brutalidade das ideologias deve, segundo Arendt, fornecer mecanismos para a
realização de uma Lei da História, eliminando todos os seus entraves no caminho de sua realização,
como ocorreu com os judeus na Alemanha nazista. Na perspectiva de André Duarte, para Arendt, “o
grande risco dessa concepção da história [...] é a de que ela pode implicar a subordinação do homem

264
[...] a forças e tendências inexoráveis e incontroláveis” (DUARTE, 2000, p. 40). Desta forma, o
regime totalitário é capaz de promover, através do movimento da Lei da História, que é, por sua vez,
proclamado pela sua brutalidade, o que a autora chamou de “domínio total”. A eliminação dos
indesejados nos campos de extermínio totalitários, principalmente nazistas, acontecia, de acordo com
a filósofa, em três etapas.
Em um primeiro momento, ocorria a morte jurídica do Homem. Neste instante é importante
pensarmos, como um exemplo, inclusive, vivido e proposto por Hannah Arendt: a figura do apátrida.
Semelhantemente, a anulação jurídica do Homem nos regimes totalitários pôde ser percebida na
efígie do “criminoso que não cometeu crime” algum, muito menos um crime político. Sem nenhuma
acusação formal, no totalitarismo, as pessoas indesejadas eram enviadas aos campos de concentração
e, até mesmo, de extermínio, para que a ideologia totalitária fosse garantida. A anulação da figura
jurídica do Homem favoreceu a invisibilidade que se passava no interior dos campos de extermínio.
Ao ingressarem em uma dessas “fábricas da morte”, apagavam-se os últimos laços que os indivíduos
possuíam com o mundo, sua presença estava apagada. O passo seguinte da implantação do “domínio
total”, de acordo com Arendt, foi a destruição da moral dos indivíduos. A própria organização e
logística dos campos incentivavam e, muitas das vezes, levavam à colaboração, à delação e, até
mesmo, obrigavam os próprios prisioneiros a participarem das execuções de seus respectivos
companheiros. Neste sentido, o senso de comunidade, a consciência moral, fora desafiada
intensamente, e fazer o bem, se tornou quase impossível. O terceiro e último passo do “domínio
total” apontado pela filósofa, que visava à transformação de indivíduos em “mortos-vivos”, foi a
destruição da própria individualidade e, consequentemente, da espontaneidade humana, requisito
fundamental para a liberdade política. Não é por menos que Hannah Arendt ficou impressionada
com as cenas de, como ela afirma, em Origens do Totalitarismo, obra de 1951, “procissões de seres
humanos que vão para a morte como fantoches”. A destruição de toda a capacidade de reação e,
consequentemente, a inevitável promoção do automatismo, começava no transporte dos prisioneiros
nos trens de carga, passando pela uniformização do tratamento nos campos, recebendo seu desfecho
no assassinato em massa nas câmaras de gás. Os condenados à morte se multiplicavam idênticos,
sem que se pudesse discernir entre eles qualquer traço de individualidade ou espontaneidade. De
acordo com a filósofa, com a arbitrariedade produzida no totalitarismo,
[...] vemos a tentativa quase deliberada de construir, em campos de concentração e
câmaras de tortura, uma espécie de Inferno terreno, cuja diferença principal em
relação às imagens medievais do Inferno reside em melhorias técnicas e na
administração burocrática – mas também em sua falta de eternidade. (ARENDT,
1993, p. 70)

265
Assim, do ponto de vista prático, a chegada das ideologias totalitárias no poder foi possível
por conta da adoção de critérios instrumentais nas atividades humanas durante toda a Era Moderna,
culminando nas elaboradas técnicas dos campos de extermínio. Na perspectiva de Arendt, do ponto
de vista do pensamento político, a subida do totalitarismo ao poder deu-se por conta da crise da
tradição e, consequentemente, de sua autoridade política, categoria do pensamento político mais
antiga do Ocidente, nascida, em sua concretude, durante a fundação de Roma, e que possibilitava,
desde então, uma referência ao Homem, no que diz respeito às tomadas de decisões na sociedade.
Hannah Arendt também buscou esclarecer, mas não conservando ou invalidando, os aspectos a
respeito da tradição, mencionada em suas obras: sua crise, do ponto de vista do pensamento político,
e seu desdobramento na direção mencionada dos regimes totalitários, do ponto de vista prático. Neste
sentido, para a filósofa,

já não podemos nos dar ao luxo de extrair aquilo que foi bom no passado e
simplesmente chamá-lo de nossa herança, deixar de lado o mau e simplesmente
considerá-lo um peso morto, que o tempo, por si mesmo, relegará ao esquecimento.
A corrente subterrânea da história ocidental veio à luz e usurpou a dignidade de nossa
tradição. Essa é a realidade em que vivemos. E é por isso que todos os esforços de
escapar do horror do presente, refugiando-se na nostalgia por um passado ainda
eventualmente intacto ou no antecipado oblívio de um futuro melhor, são vãos.
(ARENDT, 1989, p. 13)

De acordo com a filósofa, rastrear quando a política foi concebida como um estatuto, isto é,
como uma referência, dotada de um fim pré-estabelecido, significaria rastrear o aparecimento da
noção da autoridade, de uma regra, e o desaparecimento da dignidade na tradição do pensamento
político ocidental. No ensaio O Que é Autoridade, na obra Entre o Passado e o Futuro, de 1961, a
filósofa aborda o aparecimento e a genealogia da autoridade na tradição do pensamento político
ocidental, que culminou, em sua ruptura, na subida ao poder das ideologias totalitárias. Em sua
análise, Hannah Arendt encontrou as primeiras formas centradas na experiência de uma referência
e, por isso, de um absoluto, em A República, do filósofo grego Platão, mais especificamente, no mito
da caverna que, posteriormente, foram colocadas em prática após a fundação de Roma e, em seguida,
repensada com a Igreja Católica, sendo legadas pela filosofia de Nicolau Maquiavel e restauradas
com as experiências dos movimentos revolucionários durante a Era Moderna, como fora mostrado
em Sobre a Revolução, de 1963, principalmente na França, sobretudo após o emblemático ano de
1848, e, posteriormente, nos Estados Unidos. Segundo a pensadora,
[...] existem muitas maneiras de interpretar a configuração histórica em que teve
aparecimento o incômodo problema de um absoluto. Quanto ao Velho Mundo,
mencionamos a continuidade de uma tradição que parece nos conduzir diretamente
aos últimos séculos do Império Romano e aos primeiros séculos do cristianismo,
quando, depois que o “o Verbo se tornou carne”, a encarnação de um absoluto
divino na Terra foi representada inicialmente pelos vigários do próprio Cristo, pelo

266
bispo e pelo papa, aos quais se sucederam os reis que invocavam direitos divinos
para a realeza, até que por fim à monarquia absoluta se sucedeu a soberania não
menos absoluta da nação. (ARENDT, 2011, p. 251)

Finalmente, de acordo com Hannah Arendt, a autoridade política tradicional, que caminhara,
em sua concretude, desde a fundação de Roma, veio à falência no pensamento do mundo
contemporâneo. O esgotamento da autoridade no pensamento político fora, na visão da filósofa,
apenas uma parte de uma ampla crise que atravessou toda a Era Moderna. Em A Condição Humana,
obra de 1958, no capítulo A Vita Ativa e a Era Moderna, a filósofa afirma que o advento da Era
Moderna resultou no aparecimento de um homem alienado de seu mundo, que antes lhe era comum.
Segundo ela, essa alienação pode ser descrita de duas formas: uma prática; e outra teórica. De um
lado, na prática, o avanço das ciências deslocou o ponto de referência da compreensão de toda a
realidade da Terra para um Universo infinito – a invenção do telescópio por Galileu, já citada, teria
sido responsável por isso. Além disso, a descoberta dos novos continentes, um dos momentos
inaugurais da Era Moderna, segundo a filósofa, conduziu o Homem para o avanço da técnica e da
instrumentalidade, encurtando distâncias e possibilitando a realização de façanhas nunca antes
imaginadas. De outro lado, teoricamente, o pensamento político moderno, por conta do ganho de
notoriedade da dúvida, voltou a sua mentalidade e atenção do mundo exterior para o interior do
homem, acentuando o individualismo e o subjetivismo nas tomadas de decisões na sociedade. Os
acontecimentos descritos acima, juntamente com a Reforma, também já citada e explicitada, e outros,
que não ganharam menção nas obras de Arendt, possibilitaram a perda de confiança da capacidade
receptiva dos sentidos humanos e, consequentemente, da recepção de uma verdade que os conduzisse
no mundo, resultando no surgimento da dúvida como um ponto de partida para as tomadas de
decisões no mundo. Esse momento histórico ficou marcado, segundo a autora, pela frase do filósofo
René Descartes, onde o Homem moderno teria “caído em águas muito profundas da dúvida, sem
poder nadar nem firmar os pés no fundo”. Desde então, a dúvida assombrou toda a história da Era
Moderna. Essa preocupação, de acordo com Hannah Arendt, não cessaria nos séculos seguintes e a
incerteza de garantias, de que aquilo que se tomava como verdade não fosse uma mera ilusão, tomou
conta do Homem. Tal sentimento de instabilidade possibilitou com que o Homem buscasse a
tradicional referência cognitiva que, desde a filosofia platônica, estava alicerçada na contemplação
de um mundo transcendente e/ou de um tempo adâmico, com aquilo que, em sua época, estava ao
seu alcance – a técnica e a instrumentalidade. Por este motivo, Hannah Arendt ressalta que
o fim de uma tradição não significa necessariamente que os conceitos tradicionais
tenham perdido seu poder sobre as mentes dos homens. Pelo contrário, às vezes
parece que esse poder das noções e categorias cediças e puídas torna-se mais tirânico
à medida que a tradição perde sua força viva e se distancia a memória de seu início;
ela pode mesmo revelar toda sua força coerciva somente depois de vindo seu fim,
quando os homens nem mesmo se rebelam mais contra ela. (ARENDT, 2013, p. 53)

267
A busca por estabilidade em um mundo de constantes transformações, de
mudanças/reacionarismos, como fora a Era Moderna, ocorreu, de acordo com Hannah Arendt, por
meio dos aparatos técnicos, possibilitando o surgimento daquilo que a autora chamou de Homo
Faber, isto é, um homem voltado, especificamente, para a atividade do trabalho. O Homo Faber,
para ela, duvidoso a respeito da apreensão da realidade, estaria seguro apenas ao conhecer aquilo
que ele mesmo fabrica, compreendendo o acesso a verdade como um ato de intervenção na realidade,
através dos aparatos técnicos. Neste período que, de acordo com a filósofa, a posição de autoridade
na Terra, que antes era legada aos deuses e/ou ao inalcançável, foi transmitida ao ser humano e à
técnica. Não é por menos que, o trabalho, juntamente com seu produto prático, a fabricação,
destacou-se como a mais admirável atividade do Homem. Apesar disso, a figura do Homo Faber foi,
para Hannah Arendt, rapidamente substituída por outra com a chegada dos movimentos totalitários
na contemporaneidade: o Animal Laborans. Para a filósofa, se o Homo Faber é um homem voltado
à atividade do trabalho que, do ponto de vista politicista, não é espontâneo, mas sujeito
teleologicamente para atingir metas previamente determinadas de um produto ou uma obra, o Animal
Laborans, por sua vez, estaria sujeito à manutenção e reprodução da vida, em seu termo estrito e,
desta forma, representando uma parte da cadeia evolutiva das espécies animais, que é presa ao ciclo
vital da sobrevivência e propensa à imortalidade. Neste instante, de acordo com Hannah Arendt, com
a chegada das ideologias totalitárias ao poder, como o nazismo na Alemanha, a atividade do labor
fora elevada à posição da atividade mais valiosa da vita ativa do Homem. Por fim, a autora, em suas
obras, chega à conclusão de que, ao mesmo tempo em que a Era Moderna definiu a atividade do
trabalho como uma referência para a orientação dos homens, em seguida, acabou por arruiná-lo, com
a chegada dos mecanismos e das ideologias totalitárias, cedendo espaço à atividade do labor. Em
meio a essa entropia na política, a solução deste impasse, desta busca por uma estabilidade, isto é,
de um absoluto, foram as monstruosidades cometidas pelos regimes totalitários.
Para a pensadora judia, contrária a toda determinação imposta pela ideologia totalitária,
manifestada, principalmente, na Alemanha, no início do século XX na Europa, estava a
espontaneidade e, consequentemente, a liberdade política, faculdades exclusivas do Homem. Esta
última, só pode ocorrer quando os homens estão reunidos, em pé de igualdade, em um espaço
público, praticando a atividade da ação, a matéria da vida política, diferente das atividades do
trabalho e do labor, possíveis no isolamento. A atividade da ação, para Arendt, só pode se efetivar
e, consequentemente, amparar a política, na medida em que o Homem aprimora a sua capacidade de
conscientização, isto é, seu pensamento e julgamento, do mundo, atividades da vita contemplativa,
trabalhadas em A Vida do Espírito, obra publicada post-mortem, encontrando-se com outros homens
também livres em um espaço público, ou seja, na pólis. Posto que, é na pólis que encontramos o

268
agonismo de duas forças de pensamento que resultam em um juízo, que caminha ao futuro
indeterminado:

[...] As duas forças antagônicas são, ambas, ilimitadas no sentido de suas origens,
vindo uma de um passado infinito, e outra de um futuro infinito; no entanto, embora
não tenham início conhecido, possuem um término, o ponto no qual colidem. A
força diagonal, ao contrário, seria ilimitada no sentido de sua origem, seu o seu
ponto de partida o entrechoque das forças antagônicas, seria, porém, infinita quanto
a seu término, visto resultar de duas forças cuja origem é o infinito. Essa força
diagonal, cuja origem é conhecida, cuja duração é determinada pelo passado e pelo
futuro, mas cujo eventual término jaz no infinito, é a metáfora perfeita para a
atividade do pensamento. (ARENDT, 2013, p. 38)

Além disso, Hannah Arendt, é importante lembrar, participou de debates que mexeram com
o mundo político da sua época, envolvendo-se no, até hoje, polêmico caso do julgamento de Adolf
Eichmann, em Jerusalém, no ano de 1960. Envolvimento que possibilitou a elaboração de uma de
suas obras que, basicamente, pode ser explicada com o seu subtítulo – Um Relato Sobre a Banalidade
do Mal, publicada em 1963. A banalidade, segundo a filósofa, seria a ausência de pensamento e de
julgamento, pressupostos para a ação que, por sua vez, é matéria da vida política. De acordo com a
filósofa, a banalidade estaria acompanhada de um burocratismo, ou seja, de uma vida sem
questionamentos, amnésica, seguindo ordens pré-estabelecidas. Por isso, de acordo com Eduardo
Jardim, na proposta política arendtiana, a “vida do espírito”, isto é, a vita contemplativa, “[...] retira-
se do mundo pelo pensamento e, em seguida, retorna a ele pelo juízo” (JARDIM, 2011, p. 105),
categorias inexistentes em Eichmann, atestadas pela pensadora em Jerusalém.
Neste sentido, devemos pensar a atividade política, que é sustentada pela ação, de acordo
com a filosofia de Hannah Arendt. Poderíamos optar por vários caminhos, de certo. No entanto, em
sua obra O que é Política, publicada dezoito anos após a sua morte, no ano de 1993, é um dos
caminhos possíveis. A filósofa escreveu a obra com o intuito de desconstruir os preconceitos em
relação à política. A situação política de sua época, em meados dos anos 1950, favorecia uma
avaliação negativa da política, por conta da desilusão a respeito do progresso. Afinal, vivia-se o
ressentimento da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial e o medo do fim do mundo com
a disputa pela hegemonia global, durante a Guerra Fria, entre Estados Unidos e União Soviética.
Segunda a autora, na época, acreditava-se que os males causados por esses momentos históricos
eram resultado de uma hiperinflação do âmbito político que, por sua vez, causara uma supressão de
todos os outros âmbitos da vida dos homens, sobretudo, a liberdade. Portanto, de acordo com Hannah
Arendt, a situação a respeito da política deveria ser debatida e colocada em exame. Em seu exame,
para o pensamento corrente da época, as liberdades individuais deveriam ser resguardadas e
protegidas do aparato estatal. Ademais, acreditava-se que a política possuía um caráter moralista,

269
baseado na crença de que liberdade seria sinônimo do livre-arbítrio, concepção oriunda do credo
cristão, e de que a sociedade deveria ser movida pelo sentimento do amor, o mais íntimo e menos
mundano sentimento, ao invés da amizade, sentimento assegurador dos pactos políticos, de modo
que os líderes políticos evitariam o fim do mundo por uma questão de caráter e não por um debate
de natureza propriamente política. De acordo com a autora, alguns acreditavam que a política estava
associada à violência: tanto por parte dos que temiam o desastre de uma guerra nuclear como
daqueles que enxergavam na violência uma forma de libertação. Tais movimentos foram, de acordo
com a filósofa judia, reacionários, na medida em que localizavam a política em meio à violência. A
filósofa afirma que estes movimentos estavam presos aos velhos códigos tradicionais do pensamento
político. Vejamos em suas palavras: “quanto mais forte é o apego dos homens ao antigo código, mais
ansiosos estarão para assimilar o novo; a facilidade com que tais inversões podem se dar em certas
circunstâncias sugere de fato que todos estão adormecidos quando elas ocorrem.” (ARENDT, 1993,
p. 92)
Diante deste cenário, Arendt afirma que a pergunta que se levantava na época era se a
humanidade não se voltaria para a razão e se livraria de vez da política, para não ser, de uma vez por
todas, destruída por ela. A resposta que Hannah Arendt gostaria de responder em seu livro O que é
Política, como vimos, já tinha uma conotação negativa em seus possíveis e futuros leitores. E, nesse
sentido, os preconceitos enraizados sobre a política impediam qualquer espécie de julgamento a
respeito do tema. Nestes casos, na visão de Arendt, as ideias de política e de liberdade entram em
conflito. Em suma, por um lado, havia aqueles que acreditavam que a liberdade só poderia ocorrer
longe do Estado e, por isso, da política. De outro, existiam aqueles que acreditavam que a liberdade
deveria suceder da política que, por sua vez, era um instrumento violento na direção de um fim
previsto, sua plena libertação.
No entanto, para Hannah Arendt, que possuía uma grande influência dos gregos, estava convicta de
que a liberdade é o produto do intra-espaço humano, onde os homens colocam-se em posição de
igualdade, em um espaço público, distintamente, do espaço pré-político, onde os homens visam à
satisfação das suas vontades, como em seus espaços privados. O ingresso para a vida política
dependia da satisfação das necessidades básicas do Homem, suas carências em relação à manutenção
da vida. Sua convicção em relação à inovadora política ateniense rendeu-lhe inúmeras críticas de
estudiosos materialistas, que a classificam como uma pensadora idealista, colocando-a em uma
matriz atenocêntrica. Em sua obra Entre o Passado e o Futuro, de 1961, a autora recorda que, para
o pensamento político grego,

[...] a liberdade era entendida como o estado do homem livre, que o capacitava a se
mover, a se afastar de casa, a sair para o mundo e a se encontrar com outras pessoas

270
em palavras e ações. Essa liberdade, é claro, era precedida da liberação: para ser
livre, o homem deve ter-se libertado das necessidades da vida. O estado de liberdade,
porém, não se seguia automaticamente ao ato de liberação. A liberdade necessitava,
além da mera liberação, da companhia de outros homens que estivessem no mesmo
estado, e também de um espaço público comum para encontrá-los – um mundo
politicamente organizado, em outras palavras, no qual cada homem livre poderia
inserir-se por palavras e feitos. (ARENDT, 2013, p. 194)

Por esta razão, para a filósofa, a postulação de um fim determinado na política torna-se um
obstáculo para sua própria realização, que é espontânea, assemelhando-se ao fim previsto da uma
obra e/ou do ciclo vital das espécies animais. Durante a história do pensamento político ocidental,
afirma Hannah Arendt, no decorrer de seus livros, que, lamentavelmente, a visão utilitarista da
política se expandiu e passou a prevalecer no mundo contemporâneo. Ademais, de acordo com a
filósofa, o que define a promessa da liberdade é a distinção entre organismos políticos, alicerçados
na pluralidade humana, e apolíticos, aprisionados em um estado natural e mítico das coisas, como as
sociedades primitivas dependentes de fenômenos naturais considerados deuses que puniam ou
abençoavam os seres humanos.
Não é por menos que, no capítulo O Que é Liberdade, em seu livro Entre o Passado e o
Futuro, de 1961, a autora afirma que, a ação, que é matéria da vida política, “deve ser livre, por um
lado, de motivos, e, por outro, de um fim intencionado com um efeito previsível”. Isso não
significava que motivos deveriam estar ausentes na ação, mas antes que a ação se torna livre na
medida em que é capaz de transcendê-los. É importante lembrar que a defesa da política feita pela
filósofa não pressupõe que as distintas perspectivas não possam ser corrigidas e/ou que não haja um
critério político para serem julgadas. Não é por menos que a lógica do espaço dialogal grego permitiu
a mediação das forças políticas em função da pólis. Por isso, o diálogo político, por oposição ao
poder absoluto, exige que umas e outras forças sejam igualmente submetidas à prestação de contas
no espaço público em que se constitui a pólis. Porém, quando falamos em pólis, em nada estamos
tentando submeter nossas análises às cidades-Estado gregas e em seu espaço físico propriamente
dito, mas à formação do intra-espaço humano no qual a liberdade pode vir a operar.
Como já dito, Hannah Arendt lamentou e, por este motivo, buscou compreender, o rumo que
tomou a política no Ocidente, desde quando Platão, desapontado pela morte de Sócrates, pensou A
República, valendo-se da analogia dos ofícios na vida prática. Neste sentido, as “formas” pré-
visualizadas das obras são reproduzidas por meio de um esforço mimético do artista, de um
demiurgo. Com isso, as “formas” tornam-se um padrão constante, isto é, um absoluto, para o sucesso
ou fracasso humano. Enfim, a analogia platônica reproduz “[...] o comportamento moral e político
no mesmo sentido em que a ‘ideia’ de uma cama em geral é o padrão para fabricar qualquer cama
particular e julgar a sua qualidade” (DUARTE, 2000, p. 194). Para a filósofa, o mito do rei-filósofo

271
inaugurou um caráter instrumental nos assuntos políticos, sendo perpetuado e retomado durante toda
a tradição, mesmo depois de seu esgotamento. Com isso, podemos destacar dois perigos causados
pela instrumentalidade da política apontados pela filósofa: o primeiro seria o impedimento no
reconhecimento cognitivo da dimensão da pluralidade humana no mundo; e, o segundo, seria a
impossibilidade das estruturas sociais darem conta da espontaneidade e imprevisibilidade e, portanto,
da ação humana.
O exame da filósofa a respeito das três atividades humanas da vita ativa está descrito em sua obra A
Condição Humana, lançada em 1958. As três atividades são: o trabalho, o labor e a ação. Para tanto,
Hannah Arendt destaca a obra do autor, como sendo o Homo Faber, que produz ou fabrica seu
produto no isolamento, tendo um fim imaginado. Do ponto de vista político, o autor, que fabrica seu
produto no isolamento, é o tirano, que conduz, de forma isolada, a sociedade de acordo com suas
próprias necessidades. Da forma semelhante, segue a atividade do labor, que é sentida e produz a
manutenção da vida no isolamento. Em contraste com as atividades produtivas e laborais, está a
atividade da ação, que não possui um fim previsto e que sempre precisa da presença de outros homens
para se realizar. Desta maneira, a atividade da ação, que só ocorre entre os homens, produz uma teia
de relações políticas; mesmo que se reconheça que a atividade da ação precisa ser despontada por
uma pessoa específica. Enquanto todo o processo produtivo e laboral se esconde para o aparecimento
da obra e/ou para a manutenção da espécie, isto é, do produto final e/ou da sobrevivência, o Homem
que pratica a ação só aparece na medida em que está no intra-espaço humano, isto é, no espaço
público, onde todos os homens demonstram como, de fato, são. Por isso, segundo Hannah Arendt, a
ação é a única atividade capaz de sublinhar a identidade do indivíduo, dotando-o de dignidade.
Acrescenta ainda que, a ação, diferente do trabalho e do labor, possui um caráter inconversível. Os
processos que a ação produz podem ser sentidos muito depois do indivíduo que a causou ter deixado
o mundo, ou seja, a pólis.
Hannah Arendt afirma também que, para lidar com essa imprevisibilidade da ação, é necessário o
uso do recurso da promessa. A promessa é a base sob a qual pactos e tratados são estabelecidos,
representando uma aposta no valor do discurso humano e uma garantia de estabilidade, mesmo que
por um tempo previsível, nos assuntos humanos. Para ela, o valor do conceito da promessa foi,
teórica e inicialmente, reconhecido na poesia épica do Gênesis, na Bíblia, quando Abraão firmou seu
pacto com deus e, que mais tarde, ganhou forma jurídica, e prática, nas leis romanas. Enquanto a
promessa era uma segurança contra a imprevisibilidade da ação, o recurso do perdão, de acordo com
ela, teria a ver com o seu caráter inconversível, assegurado pela faculdade de iniciar algo novo dos
homens. Por esta razão, o perdão, por proporcionar a liberdade tanto de quem perdoa como de quem
é perdoado, é diferente da vingança, que aprisiona ambos em um passado. A filósofa ainda afirma

272
que, por conta do conceito de perdão ter tido origem religiosa, com os ensinamentos de Jesus, seu
reconhecimento na política foi dificultado durante toda a História.
É possível notar, em seus escritos, que Hannah Arendt repudiava a política como uma forma de
associação com a técnica, que reduz a primeira em mera governança e/ou administração, como
ocorreu no mundo contemporâneo. A filósofa também negava a subordinação da política à moral,
forma associativa de origem cristã, pelo fato de ter restringido a liberdade ao âmbito pessoal do livre-
arbítrio. No entanto, foi com Agostinho de Hipona, um dos pais fundadores da Igreja, que sua
inspiração para a formulação do conceito de “início”, de um novo começo, em suas obras, aconteceu.
De acordo com Hannah Arendt, o conceito de “início”, fundamentado exclusivamente na ação,
matéria da vida política, está intimamente ligado com a noção de milagre. A noção de milagre, apesar
de ter origem religiosa, consiste em uma intervenção abrupta que altera o curso dos acontecimentos
e faz nascer algo de novo, como quando os homens nascem e passam a existir e desafiar um mundo
já posto a eles. Além disso, a filósofa demonstrou que o milagre aconteceu, também, no plano dos
processos naturais da vida no Universo. As súbitas alterações que trouxeram o surgimento da Terra,
da vida orgânica e, consequentemente, do próprio Homem, devem, de acordo com Arendt, serem
vistos como verdadeiros milagres. Pois, trata-se de ocorrências inesperadas em ambientes que os
processos naturais são plenamente previsíveis e condicionados. Na mesma direção, portanto, no
âmbito humano, o milagre recebeu um aspecto próprio, com a obtenção de seu instaurador, daquele
que faz os milagres, isto é, o próprio Homem. Afinal, de acordo com Hannah Arendt, as chances são
esmagadoras do hoje ser igual ao amanhã:

A história, em contraposição com a natureza, é repleta de eventos; aqui, o milagre


do acidente e da infinita improbabilidade ocorre com tanta freqüência que parece
estranho até mesmo falar de milagres. Mas o motivo dessa freqüência está
simplesmente no fato de que os processos históricos são criados e constantemente
interrompidos pela iniciativa humana [...]. (ARENDT, 2013, p. 219)

O Homem, como um agente de iniciativas, suprime a continuidade histórica e traz consigo a


novidade, destruindo a monotonia e implacabilidade da natureza. Para Arendt, essas iniciativas
humanas são o fruto da liberdade, que permanecerá sendo o exclusivo dom humano, enquanto a
condição humana não for alterada. A obra da Hannah Arendt, tendo como base a criação e a
possibilidade de um novo mundo, aparece-nos como um raio de luz que parece iluminar o que ela
chamou, e que foi tema de um de seus livros, publicado no ano de 1968, de “tempos sombrios”.

273
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275
Paraíso Cativo: uma representação literária da lepra e da resistência ao exílio nas ilhas
havaianas

André Luiz de S. Oliveira 1

Resumo: O presente trabalho pretende analisar o potencial político de uma representação literária
da lepra e da resistência ao exílio forçado no Havaí. No conto Koolau, o leproso, o escritor naturalista
norte-americano Jack London elabora a sua própria versão da chamada Batalha de Kalalau (também
chamada de Leper War) ocorrida em 1893 nas ilhas havaianas, então sob influência dos EUA. Nesta
narrativa, apesar da nítida crítica feita ao avanço imperialista dos “homens brancos” sobre as ilhas,
London parece realçar uma inerente inferioridade racial e incapacidade dos havaianos em
governarem a si próprios. Somado a isto, as representações de loucura e animalidade associadas às
personagens portadores da lepra acaba por perpetuar um estigma milenar acerca da doença.

Palavras-chave: Havaí – Jack London - Imperialismo

Abstract: This article aims to analyze the political potential of a literary representation of leprosy
and resistance to forced exile in Hawaii. In the short-story Koolau the leper, the American naturalist
Jack London elaborates his own version of the so-called Battle of Kalalau (also called Leper War)
which occurred in 1893 on the Hawaiian Islands, then under US influence. In this respect, London
seems to emphasize an inherent racial inferiority and inability of the Hawaiians to govern
themselves. Added to this, as a representation of madness and animality associated with characters
carrying the leprosy, for perpetuating a millennial stigma about the disease.

Keywords: Hawaii – Jack London – Imperialism

O Havaí como paraíso perdido: de monarquia a estado americano

O arquipélago que hoje compõe o estado americano do Havaí2 é composto por mais de 130 ilhas
sendo suas oito principais ilhas: Hawai’i, Maui, O’ahu, Kaua’i, Molokai, Lãna’i, Ni’ihau e
Kaho’olawe. Essas são atualmente as únicas ilhas habitadas. Localizado no hemisfério norte do
Oceano Pacífico, esse arquipélago é coberto por extensos rochedos, montanhas e vulcões que há
milhares de anos deram origem às ilhas. Com uma fauna e flora exuberante, as ilhas seriam palco de
sucessivas representações paradisíacas.

1 Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Email:


andreoliveira1304@hotmail.com
2 Em relação às grafias apresentadas nesse trabalho, utilizarei em português o termo Havaí para indicar
todo o arquipélogo que hoje compõe o estado americano. Para me referir a maior ilha do arquipélogo, Hawai’i, manterei
a grafia em língua havaiana com a permanência das oclusões glotais (‘). Tal procedimento nos auxiliará a diferenciar o
arquipélago e a ilha, bem como nos aproxima do vocabulário havaiano, seus usos e sentidos peculiares. Outros termos
serão empregados em havaiano e grafados em itálico.

276
A teoria migratória mais aceita para o início do povoamento das ilhas havaianas é a migração de
povos polinésios vindos do Pacífico Sul, entre eles do Taiti, que trouxeram consigo suas genealogias,
memorizadas em formas de cantos, costumes e crenças. Eles seriam os primeiros a representar o
Havaí como um mundo paradisíaco. Esse imaginário edênico seria retomado pelos exploradores
ocidentais.
A existência das ilhas havaianas se tornou conhecida pelos europeus somente na segunda metade
do século XVIII, no fim da era de exploração do Pacífico. De acordo com Gavan Daws (2015), o
primeiro ocidental a entrar no Pacífico foi Fernão de Magalhães, navegador português considerado
pioneiro em viagem de circum-navegação que logo seria seguido por espanhóis, alemães, franceses
e ingleses. No entanto, foi o capitão inglês James Cook que, após duas grandes viagens ao Pacifico
Sul chegou às ilhas havaianas. Até então, o Pacífico Norte era dominado pelos espanhóis, que
controlavam as Filipinas e outras centenas de pequenas ilhas no Pacífico ocidental que se tornaram
conhecidas coletivamente como Micronésia. Assim como em suas duas primeiras viagens ao
Pacífico Sul, Cook encontrou ilhas já povoadas. Na terceira viagem em que ele encontra o Havaí não
foi diferente. Em 18 de janeiro de 1778, ele alcança parte da cadeia de ilhas que compõem o Havaí 3:
primeiramente O’ahu, seguido de Kaua’i e Ni’ihau. O arquipélago, no entanto, não estava
desabitado. Uma complexa rede de poderes estava em pleno desenvolvimento.
Dentre um dos mais poderosos chefes guerreiros nativos das ilhas havaianas destacou-se aquele que
unificaria, após diversas batalhas, o reino do Havaí (1810), Kamehameha I. A guerra representava
um caminho comum que levava um líder nativo ao poder. Foram necessários anos de batalhas (1782
– 1810) para alcançar a unificação do reino, derrotando outros líderes locais que se opuseram ao seu
domínio. Kamehameha I teve seu governo (1810-1819) marcado pelo tempo de paz e por sua hábil
capacidade de lidar com os haole (estrangeiros). Com sua morte, em 1819, seu filho de apenas 22
anos, Liholiho (Kamehameha II), assumiria o governo sob pressão dos haole para a formalização da
herança de terras. Em 1825, uma nova lei abriria caminho para os interesses dos residentes
estrangeiros. Kamehameha II, ainda jovem e guiado pelo Conselho dos Chefes, fortemente
influenciado pelo britânico Lord Byron, adotou uma política formal permitindo os ali’i (chefes locais)
a transferir terras retidas a seus herdeiros. Esse era um direito ideologicamente já assumido, mas não
legalmente formalizado. Por extensão, estrangeiros da Inglaterra, França, Rússia e Estados Unidos
acreditaram que também tinham o direito individual de posse e propriedade das terras que eles
ocupavam. Assim, à revelia da lei havaiana, haole negociavam títulos de terra.

3 As oito principais ilhas que compões o atual estado americano do Havaí são: Hawai’i, Maui, O’ahu,
Kaua’i, Molokai, Lana’i, Ni’ihau e Kaho’olawe.

277
Sob o reinado de Kamehameha II, iniciaria-se o declínio do sistema religioso havaiano. Sua mãe,
Ka’ahumanu, esposa do primeiro rei do Havaí, exerceria sobre ele grande influência para a difusão
do cristianismo e deposição do sistema kapu (um conjunto elaborado de proibições e regulamentações
que permeava o cotidiano dos nativos havaianos que perpassava a política, a adoração religiosa, sexo,
“posse” de terra, cultivo, alimentação e até mesmo jogos). Violar o kapu, mesmo que acidentalmente,
poderia significar o fim da própria vida. Durante seu reinado, Liholiho (Kamehameha II) enviaria
missionários para todos os distritos do Havaí ordenando a dessacralização dos heiau (templos) e a
deposição de todas as imagens dos deuses havaianos.
Nas décadas de 1830 e 1840, havia três fortes influências sobre o Pacífico: a Grã-Bretanha, a
França e os Estados Unidos. Um intelectual havaiano afirmaria em 1837: “Se uma grande onda vem,
grandes e desconhecidos peixes virão do grande oceano negro e quando virem os pequenos peixes
do litoral irão devorá-los” (GAVAN, p. 146, tradução nossa). O governo de Kamehameha III
possibilitou uma ascensão do cabinete de homens brancos no governo. Seus privilégios de residência,
seu direito a completa naturalização, liberdade econômica e religiosa, acesso às cortes entre outros
forçava cada vez mais a “ocidentalização” do governo e permitia que estrangeiros agissem com
imunidade e à revelia das decisões monárquicas. Seus sucessores não conseguiriam frear o avanço
dos interesses externos nas ilhas, especialmente dos empresários norte-americanos.
Em 1887, um grupo que se auto intitulava “Liga Havaiana” formada por empresários e
descendentes de missionários impuseram o que ficou conhecida como a Bayonet Constitution ao rei
Kalakaua. Este documento removia efetivamente o poder da monarquia havaiana colocando-o nas
mãos dos interesses ocidentais – destacadamente americanos – protegendo seus negócios e
propriedades. A privatização da terra já era uma realidade para o estrangeiro e a produção de açúcar
se tornou alvo de interesse americano – ainda sob controle do reino. Este parecia ser o último
obstáculo a ser superado para o controle dos haole, que se tornavam cada vez mais numerosos e se
fortaleciam com o número decrescente de havaianos (muitos deles mortos com as sucessivas
epidemias que atingiram a população nativa) e o discurso fatalístico de que não seriam mais capazes
de se autogovernar e estavam fadados ao desaparecimento. Muitos escritores que viajaram pelo
Havaí na segunda metade do século XIX caracterizavam-nos como uma “dying race” (“raça
moribunda”). Esse discurso fortaleceria ainda mais a oligarquia branca que se mobilizaria para a
deposição da rainha Lili’uokalani (irmã do rei Kalakaua) em 1983, dando fim ao regime monárquico
na ilha e iniciando um governo provisório – composto majoritariamente por “homens brancos”
empresários - que teria desfecho com a anexação do Havaí aos Estados Unidos (1898),
transformando esse território em estado americano.

278
Molokai: “A cova do inferno, o lugar mais amaldiçoado da Terra”

Ao longo do século XIX o Havaí foi palco de um forte declínio populacional de nativos afetados
por doenças venéreas (introduzidas pelos primeiros exploradores), epidemias de caxumba, varíola,
sarampo, gripe e disenteria que varreram as ilhas havaianas. Acredita-se que a hanseníase (“lepra”)
tenha sido introduzida nas ilhas havaianas por imigrantes chineses nas décadas de 1830 e 1840. A
lepra foi diagnosticada pela primeira vez no Havaí em 1848 (Amundson e Ruddle-Miyamoto, 2010).
No entanto, foi na década de 1860 que a doença recebeu atenção pública (Herman, 2010). A reação
do governo diante do avanço da doença refletiu a repulsa e a discriminação disseminada pelos
estrangeiros residentes no país. Poucos meses após o golpe contra a rainha Lili’uokalani em janeiro
de 1893, o Conselho de Saúde iniciou uma campanha para reunir e isolar todos os havaianos
portadores de hanseníase. Desde 1865, quando o rei Kamehameha V assinou o Act to Prevent the
Spread of Leprosy, a lepra havia sido criminalizada. Essa lei previa a prisão e a detenção da pessoa
diagnosticada com a doença ou com suspeita de tê-la contraído. Os portadores da doença eram
forçosamente exilados em um assentamento para leprosos. Essa lei deu ao presidente do Conselho
de Saúde a autoridade de

“reservar e isolar qualquer território ou porção de terra...assegurar o isolamento e o


afastamento de tais indivíduos leprosos que, de acordo com a opinião do Conselho
de Saúde ou seus agentes, poderiam, estando livres, causar a propagação da lepra”
(HILLEBRAND, 1863 apud INGLIS, 2009, p. 104-105, tradução nossa).

Makanalua4 seria o local escolhido para este assentamento. Localizado na Península de Kalaupapa,
na ilha de Molokai, a quinta maior ilha do Havaí, o leprosário só era acessível pelo mar e por árduas
trilhas por entre penhascos – uma prisão natural. A península era cercada em três lados pelo oceano
e do outro lado pelos íngremes penhascos que contribuíam para o isolamento efetivo dos habitantes.
O primeiro assentamento criado para receber os enfermos afligidos pela lepra foi estabelecido em
1866 em Kalawao, na costa leste da península. O primeiro grupo chegou em 6 de janeiro de 1866 e
era composto por três mulheres e nove homens. 5 Somente na década de 1890, as instalações e os
internos do assentamento de Kalawao seriam transferidos para a região de Kalaupapa, na costa oeste

4 Makanalua é um nome tradicional para o território que compreende os distritos de Kalawao, Makanalua
e Kalaupapa, que são abrangidos pelo que hoje chamamos de Península de Kalaupapa (Inglis, 2009).
5 Essas e outras informações podem ser obtidas no portal oficial do Kalaupapa National Historical Park:
https://www.nps.gov/kala/faqs.htm (acessado em 03 de junho de 2017)

279
da península homônima. Todo um sistema foi elaborado a partir da promulgação da lei de 1865.
Nesse mesmo ano, o Kalihi Hospital and Detention Station em O’ahu abriu suas portas para receber
pacientes portadores da lepra. Esse hospital atendia as pessoas com casos mais suaves da doença e
servia como prisão temporária para aqueles que estivessem em estágio mais avançado da doença.
Esse centro hospitalar e prisional funcionou até 1875 e só seria reaberto em 1889. Outros hospitais
seriam instalados para receber e encaminhar os enfermos para o leprosário em Molokai.
Entre os mais ilustres viajantes estrangeiros que visitaram o assentamento para leprosos no Havaí
estão o escritor escocês Robert Louis Stevenson e o autor naturalista norte-americano Jack London.
Em junho de 1888, Stevenson iniciou uma viagem de São Francisco rumo ao Pacífico, que duraria
aproximadamente três anos. Entre suas paradas estavam as ilhas havaianas, as Ilhas Gilbert, o Taiti,
Nova Zelândia e as Ilhas Samoa. Em sua visita ao Havaí, ele se tornaria amigo do rei Kalakaua, bem
como da sobrinha do rei, princesa Victoria Kaiulani. Seria com Kalakaua que Stevenson aprenderia
mais sobre a história e as lendas das ilhas do sul (Overton, 2005).
Jack London também deixou registradas suas impressões sobre o assentamento em Molokai.
Partindo de São Francisco em 1907, London e sua esposa, Charmian London, acompanhados de uma
pequena tripulação viajaram pelo Pacífico a bordo do navio Snark. Eles, passaram pelo Havaí, Ilhas
Marquesas, Taiti, Bora Bora, Ilhas Fiji, Ilhas Samoa e, por fim, Austrália.
Após 27 dias de viagem, vindo de São Francisco, o Snark aportou na ilha de Oahu, onde London
e sua tripulação foram recepcionados pela elite local (London, s.d.). Jack London viajaria ao Havaí
em dois momentos distintos: primeiro, em 1907 e em uma segunda viagem entre os anos de 1915 e
1916, quando já estava com sua saúde muito debilitada e seria o ano que viria a falecer. No entanto,
foi nessa primeira viagem que Jack e sua esposa, Charmian London, visitariam o assentamento de
Molokai. O casal ficou bastante impressionado com a dura realidade dos habitantes daquele
assentamento que, na época, tinha cerca de 80 pessoas (Kershaw, 2013). Fascinados por Molokai,
Jack e Charmian decidiram acompanhar um grupo de ilhéus que tinha sido diagnosticado com lepra.
Em suas anotações de viagem, Charmian observaria:

“O movimento final de corações e mãos, o auge supremo de compaixão, veio


quando, separados pela grande abertura entre o navio e a doca, os perdidos e
desertados olharam um para o outro pela última vez, e as últimas ofertas de lamento
em formas de grinaldas de flores caíram sobre a água. Nenhum malihini6 normal
poderia permanecer intocado; era completamente e desesperadamente triste - um

6 Como se designa “estrangeiro”, em havaiano.

280
funeral em que os próprios mortos andam” (LONDON, 2008, p. 172, tradução
nossa)

A caminho do assentamento, London expressaria suas primeiras impressões sobre Molokai: “A


cova do inferno, o lugar mais amaldiçoado da Terra” (LONDON, s.d., p. 97). Contraditório tanto na
ficção, quanto nos escritos não-fictícios, Jack logo mudaria de idéia. Ao conhecer o leprosário e o
cotidiano de seus pacientes, ele afirmaria se tratar de uma “colônia feliz” (Idem). Ele se mostraria
interessado em desmistificar as “falsas” representações sobre o assentamento de Molokai e seus
habitantes.

“[...] os horrores que se pintaram sobre Molokai, no passado, não existem. A


instituição foi descrita repetidamente por sensacionalistas que, na maioria das vezes,
nunca tinham posto os olhos nela. Claro, um leprosário é um leprosário e não deixa
de ser uma coisa terrível; mas o que foi escrito a respeito de Molokai era sempre tão
sinistro que nem os leprosos, nem os que devotam suas vidas a cuidar deles tiveram
um reconhecimento justo” (IDEM, p. 100).

London parece disposto a atender um pedido feito pelo major Lee, um norte-americano, residente
no assentamento:
“- Dê uma boa olhada no jeito como vivemos aqui e, pelo amor de Deus, escreva
com sinceridade a respeito. Ponha abaixo a câmara dos horrores e tudo o mais. Não
queremos ser vistos do modo errado. Também temos sentimento. Apenas conte ao
mundo como realmente vivemos aqui” (IDEM, p. 105).

No entanto, mais uma vez, London se mostraria contraditório. Além de expressar-se favorável à
segregação dos leprosos em seu livro de não-ficção The Cruise of Snark, originalmente publicado
em 1911, no ano seguinte, publicaria uma coletânea de contos intitulada The House of Pride, onde
não poupou descrições bizarras que acentuavam os efeitos físicos e mentais causados pela lepra. Ao
publicar Koolau, o leproso dentro desta coletânea, Jack London foi severamente criticado por sua
indelicadeza e distorção dos fatos. Seria chamado pelo editor de The Honolulu Advertiser de “um
covarde de marca maior”, “indigno de confiança e um caipira ingrato e mentiroso” (KERSHAW,
2013, p. 244).

Entre a história e a ficção: a Batalha de Kalalau e sua representação literária

O conto Koolau, o leproso do autor naturalista norte-americano Jack London apresenta-nos uma
história de resistência ao avanço imperialista e ao exílio forçado de nativos havaianos afetados pela

281
hanseníase. Esta obra fictícia toma como base uma história real de resistência no Havaí denominada
Batalha de Kalalau (ou ainda, Leper War), que teve como protagonista um nativo chamado
Kaluiako’olau (popularmente chamado Koolau).
A chamada Batalha de Kalalau iniciou-se em junho de 1893, quando o xerife local Louis Stolz
tentou remover um grupo de havaianos do remoto Vale de Kalalau, onde alguns nativos se
refugiaram em negação ao cumprimento da lei e para encorajar outros à resistência. Stolz e seus
assistentes planejaram uma emboscada para capturar Koolau, que eles presumiram ser o líder do
grupo. No entanto, a armadilha falhou e Koolau atirou e matou o xerife, evitando assim a captura
junto a sua esposa e filho. O incidente levou Sanford Dole, líder do governo provisório, a enviar
tropas para Kalalau para prender Koolau e transferir cerca de vinte havaianos com lepra para
Molokai. Após duas semanas de cerco, alguns suspeitos de lepra foram detidos, mas não
conseguiram prender Koolau e sua família. Várias histórias começaram a ser contadas sobre esse
caso de resistência. Todos esses relatos desestabilizavam a visão de autoridade colonial e os
mecanismos de controle empregados pela oligarquia branca que havia chegado ao poder. Oficiais de
saúde e jornais de lingua inglesa retratavam Koolau como um assassino cuja luta era uma ameaça a
todos. Essa história seria mais uma justificativa para a intervenção de europeus e americanos na vida
dos havaianos. Após a morte de Koolau, Pi’ilani, sua esposa, retirou-se do vale e contou sua versão
sobre o conflito de Kalalau destacando Koolau como uma marido e pai devotado e disposto a
enfrentar as restrições coloniais impostas à sua família e e sua comunidade.
O referido conto de Jack London, ao retratar a Batalha de Kalalau, destaca a bravura de Koolau e
o quanto o protagonista estava disposto a resistir ao domínio imperialista dos “homens brancos”. Na
introdução da narrativa, ele questiona:

“- Por sermos doentes tiram de nós a liberdade. Nós obedecemos à lei. Nada fizemos
de errado. Mesmo assim, eles nos prenderam. Molokai é uma prisão, você conhece.
Niuli, que ali está, teve a irmã mandada para Molokai há sete anos. Não a vê desde
então. E nunca mais a verá. Ela tem de ficar presa até morrer. Não por vontade
própria nem de Niuli, mas por vontade dos homens brancos que governam a terra. E
quem são esses homens brancos? Nós sabemos. Aprendemos de nossos pais e dos
pais deles. Vieram como cordeiros, com fala mansa. Bem, eles tinham de falar assim,
éramos muitos e fortes, e todas as ilhas eram nossas. [...] Uns pediam nossa gentil
permissão para pregar a palavra de Deus; outros, nossa gentil permissão para
comerciar conosco. Esse foi o começo. Hoje todas as ilhas são deles, toda a terra,
todo o gado... tudo é deles” (LONDON, 2013, p. 07).

Após esse discurso que dá início a narrativa, o protagonista relembra ainda um passado idílico
havaiano e como aqueles que dominam as plantações passaram então a comandar a ilha e os
havaianos, fadados a servi-los. Após o discurso, uma celebração com dança hula, onde o narrador
explora a sensualidade das personagens misturados a descrições monstruosas. “Era a dança dos

282
mortos-vivos que, apesar dos corpos desfeitos, ainda amavam e desejavam” (LONDON, 2013, p.
13). Essa cena é seguida pela chegada de soldados em busca de Koolau. É nesse primeiro contato
que Koolau, após negar rendição, mata o xerife encarregado de detê-lo. Logo em seguida chegariam
as tropas governamentais que bombardeariam o vale. Alguns de seus companheiros se renderiam e
outros morreriam no confronto. Somente Koolau sobreviveria ao cerco. Mesmo diante de sua feição
monstruosa – em acentuado contraste com o “jovem [capitão] com rosto barbeado, olhos azuis, uns
vinte e cinco anos, esbelto e elegante em seu uniforme” (LONDON, 2013, p. 30-32) -, a cena final
de Koolau é descrita com certa beleza melancólica em que ele morre na solidão abraçado com seu
fuzil e mergulhado no seu derradeiro delírio de liberdade.
Apesar da descrição do sofrimento e extermínio da população que resistia ao exílio - que parece
visar a comoção e a empatia por tais personagens (fictícias, mas por extensão também verdadeiras)
-, a caracterização das personagens é feita com diversas referências à loucura, animalidade e
deformidades decorrentes da doença que reforçam o estigma milenar da lepra, além de reafirmar
concepções racistas já existente no Havaí, especialmente entre os não-nativos residentes no país. Em
Koolau, o leproso, assim o narrador descreveria o grupo de havaianos afligidos pela lepra que se
refugiava no vale de Kalaupapa:
“A luz do luar banhava a cena em prata. Era uma noite de paz, embora os que ouviam
sentados ao redor parecessem sobreviventes de guerra. Suas faces eram como a de
animais ferozes. Aqui, um buraco no lugar do nariz; lá, um toco de braço onde antes
a mão apodrecera. Eram homens e mulheres, trinta no total, que haviam sido
excluídos por terem recebido a marca da besta” (LONDON, 2013, p. 08).

Na narrativa de London, a presença da família de Koolau é deixada de fora e ele é apresentado


tendo como companhia um pequeno grupo de leprosos, entre eles Kiloliana “intrépido alpinista”,
conhecedor das trilhas; Kapahei, antigo juiz e “homem honrado”, agora acovardado diante da
invasão dos “homens brancos”; e Pahau, um menino que também contraiu a doença. Há grande
destaque para as características deformantes da lepra, inclusive em Koolau que, de acordo com os
registros históricos, tinha sintomas internos da doença (EPERJESI, 2005), sendo assim muito
diferente da representação feita por London que destacava suas deformidades visivelmente
grotescas. Várias passagens do conto apresentam descrições animalescas dos havaianos afetados pela
doença, sendo comparados a animais – como o leão, macaco e cachorro – e outras criaturas
animalescas – como o fauno e a harpia. Sobre o grupo que se reunia ao redor de Koolau, o narrador
nos descreve:

“Eles sentaram, engrinaldados na noite luminosa e perfumada, e seus lábios emitiam


um estranho silvo, e suas gargantas pigarreavam aprovando o discurso de Koolau.
Eram criaturas que, tendo sido homens e mulheres, haviam deixado de sê-lo. Agora

283
eram monstros grotescos de forma e de rosto, caricaturas do humano. [...] Alguns
chafurtavam de dor, e seus peitos gemiam. Dois eram retardados, como enormes
macacos com defeito de fabricação: perto deles mesmo um macaco parecia
angelical” (LONDON, 2013, p. 08).

De acordo com Tim Ingold (1994), na cultura ocidental os animais têm ocupado uma posição
central na construção do próprio conceito de “homem” e a concepção de animalidade é geralmente
associada a “uma deficiência de tudo que apenas nós, os humanos, supostamente temos, inclusive a
linguagem, a razão, o intelecto e a consciência moral”. Assim, a noção de animal implica uma certa
“deficiência” ou ausência de uma característica culturalmente valorizada. As ações humanas, por
exemplo, são entendidas como “intencionais” e, em contrapartida, as ações dos animais se dão de
forma “automática”, não racional. (INGOLD, 1994).
Uma outra característica recorrente entre as personagens, assim como já se observa na citação
acima, é uma inclinação à insanidade de seus protagonistas afetados pela doença.

“Mas uma daquelas criaturas bizarras e semiescas soltou um grito selvagem de


loucura. Koolau aguardou até que a estridente gargalhada reverberasse entre as
paredes de pedra e que seu eco se perdesse na distância pela noite inerte” (LONDON,
2013, p. 10).

Luangphinith (2004), argumenta que a literatura colonial sobre o Pacífico apresenta abundantes
menções à “loucura”, que garantiu suporte aos poderes coloniais ocidentais e à diferenciação entre
quem tinha poder e quem não tinha. Alguns escritores criaram narrativas sobre personagens “loucos”
que desafiavam as convenções sociais ou a ordem estabelecida. Sem dúvida, a narrativa sobre Koolau
é um desses exemplos. Apesar da loucura não estar encarnada no protagonista, ela está presente entre
seus companheiros de resistência, que não coincidentemente sucumbem – se não se rendendo às
tropas governamentais, então mortos por elas. A derrota é inevitável e Koolau, o único a resistir,
morreria na solidão. Sobre o efeito de tal discurso, podemos observar que

“a loucura e as identidades coloniais ambas são delimitadas, frequentemente


fundidas, dentro das produções discursivas dos Estados imperiais; assim, qualquer
discussão sobre insanidade dentro do cenário colonial deve reconhecer a criação de
posições sociais (...)” (LUANGPHINITH, 2004, p. 61, tradução nossa).

O caráter contraditório da visão imperialista de Jack London consiste em por um lado estar
claramente simpatizado com o povo havaiano e denunciar através de seus contos o dominío
imperialista norte-americano sobre o Havaí; e por outro apresentar-nos descrições insanas,
animalescas e monstruosas dos havaianos infectados pela lepra. A questão está para além da doença,
pois Koolau apesar de ser “um símbolo de resistência” é também a representação da “(...) derrota
inevitável, sugerindo assim uma flexibilidade ideológica do imaginário imperialista que proporciona

284
orgulho ao memorar a força e o espírito independente das populações nativas enquanto elas estão
dando seu último suspiro” (EPERJESI, John R, 2005, p. 120). A versão de London sobre a resistência
havaiana reforçava o discurso de missionários e estrangeiros (viajantes e residentes) de que a
população nativa era parte de uma “dying race” e que a submissão por uma “raça superior” era
inevitável. A caracterização das personagens em Koolau, o leproso como loucos, animalescos e
leprosos convergem com essa visão racial que reforça a imagem de inevitável submissão dos
havaianos. Esse discurso racista ajudou e continuaria ajudando a legitimar o domínio imperialista
americano, justamente aquele que London se propôs a denunciar em seus textos ficcionais.

Considerações finais

Poderes coloniais e seus aliados criminalizaram doenças na Índia, nas Filipinas, assim como no
caso do Havaí. A peculiaridade do caso havaiano está, entre outras coisas, por se tratar da fase inicial
do imperialismo norte-americano (final do século XIX) onde se dispôs de complexos mecanismos
que asseguravam a imagem de dependência do Havaí em relação aos Estados Unidos. A ideologia
da supremacia da raça branca anglo-saxã difundida entre europeus e americanos (residentes ou não
nas ilhas havaianas) foi determinante para legitimar a colonização do território e dos corpos dos
colonizados. Jack London apresenta-se, na literatura, um caso peculiar que, ao procurar denunciar a
opressão causada pelo avanço imperialista norte-americano, ao mesmo tempo e em direção oposta
ao que parece se propôr na ficção, produziu uma obra que se aliava ao discurso imperialista. A
imagem deturpada sobre a lepra e seus portadores, possibilitaria a intervenção americana no Havaí
através de um discurso altruísta. De acordo com Merry (2009), nos séculos XIX e XX uma certa
ideia de humanitarismo frequentemente legitimava e justificava o controle imperial. As missões
cristãs, que prometiam trazer “civilização” e “esclarecimento” para os povos colonizados, associados
à literatura de viagem e de ficção, tornaram-se forças legitimadoras do domínio estrangeiro no Havaí.
Jack London, um dos poucos visitantes autorizados a entrar no assentamento de Molokai e um dos
convidados do Conselho de Saúde para defender a colônia de leprosos contra a representação
sensacionalista que a doença tinha na mídia (AHUJA, 2007), foi justamente aquele que abriu mão
de qualquer sutileza para descrever os efeitos da lepra sobre os havaianos em sua obra de ficção.
Através da caracterização da loucura, animalidade e da lepra de formas associadas, London ajudava
a legitimar o discurso da inevitável submissão da “dying race”. O potencial político de Koolau, o
leproso consiste justamente em ser uma representação literária que acaba por naturalizar a

285
dependência colonial exercida sobre o Havaí. Tal efeito toma uma magnitude ainda maior se
levarmos em conta que Jack London era um dos escritores americanos mais populares e mais lidos
nos EUA no início do século XX.

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2009.

287
A Legenda aurea e as relações de poder no medievo: um olhar sobre os usos políticos do
legendário de Jacopo de Varazze

André Rocha de Oliveira1

Resumo: No presente texto, voltaremos nossas atenções para a Legenda Áurea, um dos legendários
mais famosos produzidos no período medieval. Ele foi produzido na segunda metade do século XIII,
no seio da Ordem dos Irmãos Pregadores – uma das ordens mendicantes que surgiram no início do
mesmo século –, e teve sua autoria atribuída ao frade Jacopo de Varazze. Com base na bibliografia
específica desenvolvida a partir da obra, colocaremos em relevo os atributos mais recorrentemente
abordados, o que nos permitirá compreender o processo de produção, circulação e transmissão da
obra, a saber: a datação; a função; a recepção, e os objetivos.

Palavras-chave: Legenda Áurea; hagiografia; historiografia.

Abstract: In the present paper, we turn our attention to the Golden Legend, one of the most famous
legendaries produced in the medieval period. It was conceived in the second half of the thirteenth
century, within the Order of the Preacher Brothers – one of the mendicant orders that arose at the
beginning of the century –, and had its authorship attributed to friar Jacopo de Varazze. Based on a
specific bibliography developed from this work, it will be focused the most recurrently discussed
attributes, allowing us to comprehend the production process, circulation and the transmission of the
work, namely: the dating; the function; the reception, and the goals.

Key Words: Golden Legend; Hagiography; Historiography.

Introdução

No período da Idade Média Central (séculos XI ao XIII), como em qualquer outro período histórico,
a esfera religiosa esteve presente exercendo influência sobre homens e mulheres. A instituição
tradicionalmente responsável por esta questão, a Igreja Romana, adotou uma série de medidas que
visavam – além de corresponder às necessidades espirituais dos fieis – garantir a difusão de seu
projeto político de vida religiosa e de sociedade. 2 Assim, podemos identificar como algumas de suas
ações: a normalização do casamento leigo; a imposição do celibato para os clérigos; o incentivo à
educação clerical; etc.3 Por outro lado, manifestações espontâneas de religiosidade – isto é, sem o
rígido controle da Igreja – ainda eram frequentes na Europa cristã. Neste sentido, verificamos um
fenômeno que, apesar de fugir ao domínio da instituição eclesiástica em diversos casos, perpetuava

1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ. Bolsista Capes.


Email: andrero1898@gmail.com
2 SILVA, Andréia Cristina Lopes Frazão da. Introdução. In: ______ (Org.). Hagiografia e
História. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2008. p. 8
3 Ibid., p. 8.

288
um dos principais mecanismos utilizados pelo clero para pôr em prática o seu projeto: o culto àqueles
considerados veneráveis em determinada localidade.
O culto aos santos era realizado com base na crença de que estes – mesmo após a morte –
teriam a capacidade de interceder junto a Deus por aqueles que os fossem devotos. Acreditava-se
que as ossadas, as partes do corpo, as vestes e todos os objetos que estiveram em contato com o santo
em vida – as chamadas relíquias – seriam dotados dos mesmos poderes que o santo recebera de
Deus.4 Neste sentido, tornou-se comum que cristãos visitassem os túmulos onde se encontravam os
restos mortais dos santos com o objetivo de que, em meio a orações e súplicas, o mesmo intercedesse
contra os males que os afligiam. Como consequência deste movimento, verifica-se a construção de
santuários nas localidades onde os veneráveis foram sepultados. Se somarmos a esta devoção o
fascínio da sociedade medieval pelo sobrenatural, podemos compreender como tal atividade
difundiu-se por toda a cristandade.
Uma ferramenta bastante utilizada para popularizar os diversos cultos aos santos foram as
hagiografias, que já existiam desde a Antiguidade. Estas estão divididas em várias modalidades,
como Paixões; Vidas de Santo; Tratados de Milagres, Relatos de Trasladações; Calendários; etc.
Elaboradas inicialmente para registrar e divulgar o martírio dos cristãos que não renegaram a sua fé
mesmo sendo perseguidos – tornando-se, com isso, os primeiros veneráveis –, as atas dos mártires,
como são conhecidos os relatos acerca de suas mortes (Paixões), se difundiram entre os séculos II e
IV. 5 Com o fim da perseguição, a quantidade de personagens que entregaram suas vidas foi
drasticamente reduzida.
Este fenômeno provocou transformações significativas tanto na concepção de santidade –
com a passagem dos mártires para os confessores –, quanto no conteúdo do material, que
anteriormente se dedicava a exaltar os últimos momentos e a morte daqueles que se recusaram a
renegar a sua fé. Com a escassez de executados em consequência do fim das perseguições
perpetradas pelos agentes da autoridade secular, os hagiógrafos – autores das hagiografias –
passaram a enfatizar as características biográficas dos protagonistas. Destarte, verificamos o
aparecimento das Vidas de Santo, que passaram a ressaltar os veneráveis que não tiveram suas vidas
ceifadas, mas adotaram um comportamento ascético – uma espécie de sacrifício lento e gradual.
Além dos relatos sobre a vida destas personagens, eram destacados também a postura exemplar e os
feitos incríveis realizados – os milagres – tanto em vida, quanto após a morte.

4 VINCENT, Catherine. Culto dos santos, reliquias e peregrinações. In: CORBIN, Alain (Dir.)
História do Cristianismo: para compreender melhor nosso tempo. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 228-233.

5 BAÑOS VALLEJO, Fernando. Las vidas de santos en la literatura medieval española.


Madrid: Laberinto, 2003.

289
Em decorrência da notável produção hagiográfica, observamos o surgimento das primeiras
compilações. Inicialmente, foram os passionários – reunião das Paixões –, e, posteriormente, os
legendários – coletâneas de Vidas de Santo – que apareceram no cenário medieval. Porém, durante
boa parte deste período, as compilações foram escassas. Foi apenas a partir do século IX que estas
obras tornaram-se mais populares, sendo o período que compreende os séculos IX ao XIII
considerado o de plenitude. 6 Com o nascimento das ordens mendicantes, principalmente a
dominicana e a franciscana, no século XIII, verificamos a manutenção da produção de legendários.
A Legenda Áurea (LA), produzida pelo frade dominicano Jacopo de Varazze na segunda metade do
século XIII, foi um desses casos de compilação dessa modalidade hagiográfica.
A LA é uma das obras hagiográficas mais conhecidas da Idade Média, sendo constituída por relatos
sobre Vidas de Santo e festas litúrgicas. Ela foi sucessivamente copiada e traduzida para as línguas
vernáculas – um sinal do sucesso atingido pelo legendário. Chegou à Inglaterra, França, Áustria,
Germânia, regiões do leste europeu, além da própria península itálica, onde o êxito foi imediato.
Desta forma, a LA chegou aos mais diferentes públicos, seja por meio da leitura – silenciosa ou em
voz alta –, seja por meio das pregações, para as quais o legendário foi utilizado como fonte pelos
frades e integrantes do clero em geral. Portanto, podemos afirmar que os diferentes conteúdos
trabalhados na LA percorreram os principais centros econômicos, religiosos, políticos, culturais, etc.
do período, levando as palavras do frade dominicano a uma quantidade significativa de pessoas.
A LA, contudo, não estava alijada das relações de poder que perpassavam a sociedade
medieval. Neste sentido, podemos inferir que o legendário se encontrava em meio às relações de
poder entre as autoridades eclesiástica e secular, cujas tensões giravam em torno da imposição de
um regime de verdade. 7 O presente texto tem por objetivo colocar em relevo os aspectos mais
recorrentemente abordados pela historiografia específica produzida a respeito da LA, situando sua
inserção no contexto político do período de sua produção. Neste sentido, nos próximos itens nos
ocuparemos em discorrer sobre a datação; a função; a recepção, e os objetivos políticos da LA.

6 Ibid., p. 30.
7 No período medieval, a autoridade eclesiástica era a principal interessada em impor um regime
de verdade, e, com isso, usufruir de todos os efeitos de poder daí decorrentes. Neste sentido, ela selecionou e sistematizou
discursos, atuando sempre com o intuito de fazê-los funcionar como verdadeiros. Suas ações, porém, não terminaram por
aí. Se por um lado ela se esforçou em fazer com que seus discursos assumissem um status de “verdade”, por outro, ela se
dedicou a desacreditar os discursos de seus adversários, transmitindo a ideia de que seriam “falsos”. Do mesmo modo,
ela agiu no sentido de determinar o estatuto daqueles que poderiam dizer o que funciona como verdadeiro, ou seja, quais
de seus integrantes estariam autorizados a atuarem como seu porta-voz, e até que ponto eles poderiam ir – afinal, qualquer
um não pode falar de qualquer coisa.

290
Datação

Um dos principais debates historiográficos em torno da LA é a respeito da data em que ela foi
produzida. Apesar das controvérsias entre os estudiosos com relação à datação exata da redação, há
um consenso de que a obra foi escrita – pelo menos a sua primeira versão – na década de 1260.
Alguns autores, dentre os quais podemos destacar Jacques Le Goff e Néri de Barros Almeida,
defendem que a LA possui mais de uma redação: a obra teria sido reescrita e modificada algumas
vezes pelo próprio Jacopo de Varazze. Com isso, a tarefa de precisar a data de sua produção torna-
se ainda mais difícil, afinal de contas, qual foi a data exata de composição? Ou melhor, existe uma
data certa a ser apontada pela historiografia?
Um olhar panorâmico sobre o conflito de datas propostas para a LA pode ser encontrado na
dissertação “Os Atributos Masculinos das Santas na Legenda Aurea: Os casos de Maria e
Madalena”, 8 de Carolina Coelho Fortes, na qual esta historiadora aborda a intensa discussão
existente assinalando as variadas posições de diversos autores.
Para Wyzema, a LA foi escrita em 1255. Fortes discorda desta tese com base nas fontes
utilizadas por Jacopo no capítulo sobre São Domingos, que teriam sido produzidas entre 1256 e
1260, tornando, portanto, a data de 1255 inviável. Outro nome mencionado, Richardson, estabelece
que a obra foi confeccionada entre 1250 e 1265, sugerindo que a data mais provável se encontraria
a partir de 1258. Esta posição sustenta-se no capítulo sobre Pedro Mártir, “pois fica implícito que,
da morte de Pedro Mártir até o fim da redação, Milão permanecera livre de heresias, enquanto que
em 1258 Milão passava por uma onda heterodoxa tão forte que o inquisidor fora expulso não só do
convento dominicano como da cidade.”. 9 Reames, por sua vez, define como data limite 1273, uma
vez que esta “coincide com a última afirmação sobre a história da Lombardia constitutiva da maior
parte do capítulo sobre Pelágio”, 10 enquanto que Monleone defende que a LA tenha sido escrita antes
de 1267. Há ainda as posições de Ferrua, datando a produção em 1263, e a de Bertini, que a situa
entre 1260 e 1263.
Conforme mencionamos antes, alguns autores defendem que a obra possuiu mais de uma
versão. Neste sentido, podemos destacar as posições dos já citados Néri de Barros Almeida e Jacques
Le Goff.

8 FORTES, Carolina Coelho. Os Atributos Masculinos das Santas na Legenda Áurea: Os


casos de Maria e Madalena. 2003. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em História Social,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
9 RICHARDSON apud FORTES, op. cit., p. 97-98.
10 FORTES, op. cit., p. 98.

291
Para Almeida, a primeira versão da LA foi escrita na década de 1260, mais especificamente entre
1260 e 1267. Depois disso, o frade dominicano teria, então, reescrito mais duas vezes a LA, “entre
1272-1276 em Bolonha quando prior da Lombardia (função que ocupou entre 1267 e 1277 e entre
1281 e 1286) e entre 1292 e 1298 em Gênova quando arcebispo da cidade.”.11 Seguindo esta mesma
linha, temos Le Goff. No entanto, este autor não estabelece com exatidão quando Jacopo de Varazze
teria modificado a obra, como fez Almeida. Para Le Goff, a LA é fruto de um trabalho iniciado em
1260 e apenas concluído já no fim da vida do frade. Em suas palavras: “Entre 1260, data provável
do início da redação, e sua morte em 1297 [1298], o autor, o dominicano Tiago [Jacopo] de Varazze,
não poucas vezes enriqueceu ou modificou sua obra.”.12
Observamos então, apesar das controvérsias a respeito da data exata da produção da LA – e do caso
de Wyzema, exposto por Fortes –, que há um consenso entre os pesquisadores em torno da década
de 1260. Até mesmo os autores que defendem a existência de mais de uma versão para o legendário,
datam aquela como a da redação da primeira versão do texto. Portanto, baseados na historiografia
disponível sobre o tema, podemos considerar esta década como a mais provável para a elaboração
da LA.

Função

Para que serve a LA? Qual a sua utilidade? Para responder estas perguntas podemos recorrer às
posições de Priscila Gonsalez Falci 13 e da já citada Carolina Coelho Fortes. Por um lado, Falci
defende que a obra possuía três funções principais para com seus públicos: “destinava-se às leituras
litúrgicas nos conventos dominicanos, às leituras particulares como obra de edificação e como ‘fonte’
de consulta para o preparo dos irmãos pregadores.”.14 Por outro lado, temos a posição de Fortes, que
exalta a diferença da LA para as hagiografias tradicionais. Enquanto estas últimas forneciam aos
laicos exemplos que poderiam ser imitados, a LA “dizia quase literalmente que poderiam só

11 ALMEIDA, Néri de Barros. Hagiografia, propaganda e memória histórica. O monasticismo


na Legenda Aurea de Jacopo de Varazze. Revista Territórios e Fronteiras. Cuiabá, v. 7, n. 2, p. 95-111, jul./dez. 2014a.
p. 100.
12 LE GOFF, Jacques. Em busca do tempo sagrado: Tiago de Varazze e a Lenda dourada. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. p. 14-15.
13 FALCI, Priscila Gonsalez. Os martírios na construção de santidades genderificadas: uma
análise comparativa dos relatos da Legenda Áurea. 2008. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em
História Comparada, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
14 Ibid., 50.

292
reverenciar e obedecer aos santos.”.15 Desta forma, ainda de acordo com Fortes, os santos seriam
personagens didáticos capazes de transmitir os principais méritos cristãos àqueles que lessem ou
ouvissem as leituras da LA. 16
É possível perceber, a partir da posição das duas historiadoras, que a LA cumpre um duplo
papel: assume um caráter didático, pedagógico ao transmitir os principais valores cristãos para
aqueles que a utilizam, e serve, simultaneamente, como um mecanismo para a difusão e
fortalecimento da obediência às autoridades eclesiásticas por parte do laicado. De maneira
complementar ao que acabamos de discorrer, Almeida afirma que é “por meio desses dois tipos de
evento [martírio e milagre] que é feita a exposição didática dos valores elevados que se pretende
destacar na obra: renúncia, obediência e pobreza.”.17 Destarte, podemos afirmar que a difusão – de
maneira didática – de valores como a renúncia e a pobreza, mas principalmente a obediência, é
estimulada pela LA de Jacopo de Varazze, se caracterizando para nós como a principal função do
legendário.

Recepção

Ao colocarmos em relevo as condições de recepção da LA, faz-se necessário identificarmos aqui


qual era o público ou os públicos consumidores do legendário e por quais mecanismos se efetivava
este consumo. Hilário Franco Júnior18 atribui o sucesso da obra ao fato desta ter conseguido alcançar
e agradar tanto aos integrantes das elites (cultura erudita, clérigos) quanto aos populares (cultura
popular, laicos). Deste modo, cabe aqui retornarmos ao conceito de cultura intermediária proposto
por este historiador.
A cultura intermediária seria a intercessão entre a cultura clerical e a cultura vulgar. Entende-se como
cultura clerical, de acordo com Franco Júnior, aquela que era produzida no meio eclesiástico, letrada
– com a utilização do latim – e transmitida por meios formais – universidades, escolas monásticas.19
Já a c