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ATOS DE OBEDIÊNCIA, SUBMISSÃO E VERDADE COMO

ARTES DE GOVERNO DO MAGISTÉRIO FEMININO


José G. Gondra1

O processo de racionalização crescente da vida, com suas multiplicidades,


violências e sutilezas, pode ser associado ao que Foucault designou de “governo dos
vivos”2. Para ele, as artes de governar devem ser pensadas em suas múltiplas formas e
pelos diversos mecanismos de dominação que podem se exercer no interior da
sociedade e do aparato institucional. Deste modo, não podem ser tomadas como fato
maciço, posto que se efetivam por meio de relações recíprocas, assimétricas,
reversíveis; que marcam as múltiplas sujeições processadas e que funcionam no interior
do corpo social3, seja nas famílias, escolas, polícias, hospícios, quartéis, bordéis, mídias
e instituições religiosas. Trata-se, pois, de uma institucionalização generalizada, que
implica introduzir e atualizar atos de obediência, atos de submissão e atos de verdade.
Institucionalização que recorreu à princípios e espaços específicos, a uma arquitetura
preparada para determinados fins, isto é, emparedamentos e muros, quadrículas, com
uma disposição espacial calculada, associada à mobiliário e objetos especiais,
constituição de corpo de especialistas e auxiliares preparados para a aplicação de
exercícios progressivos, regulares e repetidos nos espaços sob seu governo. Estas
postulações servem para pensar o aparecimento e legitimação crescente da escola, mas
também da prisão, do hospital, do asilo e da fábrica; dentre tantos outros. No entanto,
ao considerar essas guias gerais, cabe igualmente se deter em cada um dos
acontecimentos, em cada uma das experiências ordinárias vividas por homens,
mulheres e crianças em situações bem determinadas de modo a exibir a (in)eficácia dos
projetos de modelação e das (r)existências correlatas.

1
Professor titular na UERJ. Pesquisador do CNPq e da FAPERJ.
2
FOUCAULT, Michel. Do governo dos vivos: Curso no Collège de France, 1979-1980: aulas de 09 e 30 de
janeiro de 1980. Tradução, transcrição e notas Nildo Avelino. São Paulo: Centro de Cultura Social, 2009.
Disponível em https://ayrtonbecalle.files.wordpress.com/2015/07/foucault-m-do-governo-do-vivos.pdf
Acesso em 20 de abril de 2018.
Para excertos do curso, ver: FOUCAULT, M. Do governo dos vivos. Transcrição, tradução e notas de Nildo
Avelino. Verve, São Paulo, Nu-Sol, n. 12, outubro/2007, p. 270-298.
3
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. Curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins
Fontes, 1999.
É este o deslocamento e a importante contribuição do livro “Formar almas,
plasmar corações, dirigir vontades: o projeto educacional das filhas da caridade de São
Vicente de Paulo (1898-1905)”, de Maria Aparecida Arruda, no qual a autora analisa as
condições de possibilidades para a criação do Colégio Nossa Senhora das Dores (CNSD)
na cidade de São João del-Rei, Minas Gerais, bem como aspectos do dispositivo em
funcionamento.

Fundado em 1898 por irmãs vicentinas, o CNSD iniciou suas atividades com o
ensino voltado para um público exclusivamente feminino. O prédio foi construído para
abrigar cem alunas internas e tantas outras externas para a formação primária,
"ginasial", secundária e o Curso Normal, em regime de internato, semi-internato e
externato. Ao considerar os diferentes estratos de formação para os quais a escola se
voltou, a autora deu centralidade ao exame no nível da formação docente, buscando
compreender as relações entre sociedade e educação escolar religiosa e suas
articulações com os modelos educacionais difundidos à época. Para tanto, analisou os
dispositivos disciplinares destinados a institucionalizar um programa de formação
docente, tendo como princípio a difusão da doutrina cristã associada à
profissionalização do magistério praticada no Colégio no início do seu funcionamento.

No projeto de construção é possível observar a preocupação dos idealizadores


em reafirmar um modelo escolar de formação do magistério em meio ao debate em
torno das estratégias para melhor qualificar as professoras primárias, considerando a
existência de diferentes modelos de formação. Em função do entrelaçamento dos
ambientes urbanos e escolares produzidos no final do século XIX e início do XX, as
remodelações de cidade fizeram emergir, em São João del-Rei, um edifício exemplar,
representado na configuração do ecletismo mineiro. Ao lado disto, a constituição de um
corpo de saberes e definição de tempos escolares bem marcados se tornaram
imprescindíveis para a criação e funcionamento da instituição estudada. Da mesma
forma, o exame do Colégio foi associado ao que fabricou, visto que os lugares e as
práticas que os instituíram não podem ser dissociadas daquilo que produzem.

O estudo enfocou o período entre a criação da instituição (1898) até o ano em


que o Curso Normal do CNSD foi equiparado aos cursos das escolas normais oficiais do
Estado de Minas Gerais (1905). Para tanto, a autora reuniu e realizou estudo meticuloso
dos marcos legais, periódicos, relatórios de presidentes de província/estado, normas e
estatutos da congregação e de uma documentação variada localizada no acervo do
CNSD. Ao entrecruzar essas fontes, Maria Aparecida Arruda buscou problematizar as
dimensões de governo contidas nos planos da Igreja Católica, em termos gerais, e da
Congregação da Missão de São Vicente de Paulo e das Filhas da Caridade, em específico.
Pode-se dizer que o CNSD, por meio das Filhas da Caridade da Sociedade São Vicente de
Paulo, funcionou como uma escola católica, reforçando a larga tradição de fazer da
escola um instrumento de afirmação da fé, de disciplina por meio da ritualização de atos
de obediência, atos de submissão e atos de verdade. Para dar cabo da missão, muito
contribuiu o novo estatuto jurídico adquirido em 1905, ampliando a legitimidade
conquistada pelo CNSD, constituindo um sinal de forças das "irmãs" na cidade, assim
como na eficiência de estratégias e de efetividade da ação educativa protagonizada
pelas vicentinas em São João del-Rei. Nessa perspectiva, é possível afirmar que o projeto
expansionista do catolicismo romanizado buscou alargar seu raio de ação em diversos
locais, seja no interior de uma cidade mineira, seja no Brasil ou em outros países.

Por fim, um aspecto adicional merece ser ressaltado; a dimensão doutrinária e a


eficácia da estratégia das irmãs vicentinas. Trata-se, no caso, de pensar a incômoda
semelhança entre noviciado e professorado, especialmente nos colégios religiosos.

Ao comentar o curso “Governo dos Vivos”, de Foucault, Avelino4 chama atenção


para a liturgia da formação religiosa. Para ele, pode-se observar três fases no processo
de formação religiosa: dez dias na porta do monastério, um ano na entrada do mesmo
e, por fim, o período de tempo indeterminado durante o qual o postulante passa a fazer
parte de um grupo de dez noviços. Nessas três fases de preparação existe uma
convergência de objetivo. Na porta do monastério, ao seu pedido de ingresso, lhe é
oposto a bufaria, a humilhação, a recusa, a rejeição, práticas próximas da penitência,
cuja função é a de constituir provas da vontade. O noviço deve mostrar capacidade de
suportar e vontade de entrar na instituição. Na segunda fase, deve provar sua paciência
para receber injúrias e capacidade de aceitar tudo que lhe for imposto. É a prova de sua
submissão. Enfim, durante o período indefinido sob a direção de um mestre, sua

4
AVELINO, Nildo. Do governo dos vivos: uma genealogia da obediência. Anais do XIX Encontro Regional
de História: Poder, Violência e Exclusão. ANPUH/SP – USP. 08 a 12 de setembro de 2008. Cd-Rom.
formação recai sobre dois pontos: o noviço deverá aprender a vencer sua vontade e para
isso seu mestre deverá lhe dar ordens, muitas ordens, e ordens que serão tanto quanto
possíveis contrárias às inclinações pessoais. O mestre deverá ir na contracorrente das
inclinações do noviço para que ele obedeça e para que, nessa obediência, sua vontade
seja vencida. Deve-se, portanto, ensinar-lhe obediência. Trata-se de uma obediência
exaustiva e perfeita, que seja capaz de fazer o noviço percorrer pelo discurso todos os
segredos de sua alma, de fazer com que os segredos da sua alma venham à luz e que,
nesse emergir, a obediência ao outro seja total, exaustiva e perfeita. Obedecer tudo e
nada esconder. Tudo dizer de si, nada esconder; nada querer por si, obedecer em tudo.
É a junção desses dois princípios que se localiza no coração da instituição monástica e
de toda uma série de dispositivos que informam o que constituiu a subjetividade
ocidental.

Ainda de acordo com Avelino (2008), a obediência nos termos postulados por
Foucault se encontra vinculada à regimes de verdade, o que, por sua vez, supõe a
existência regular de atos de verdade. Estes são tomados a partir da análise do conceito
de exomologese do cristianismo primitivo, que designa um ato destinado a manifestar
uma verdade e a adesão do sujeito a essa verdade. Fazer a exomologese de sua crença
não é simplesmente afirmar o que se crê, mas afirmar o fato dessa crença; é fazer do
ato de afirmação um objeto de afirmação e, portanto, autenticá-lo seja em si mesmo,
seja diante dos outros. A exomologese é uma afirmação enfática cuja ênfase se aplica
antes de tudo sobre o fato de que o próprio sujeito deve se ligar a essa verdade,
aceitando suas consequências.

Como assinalado, a liturgia da formação do noviço guarda uma semelhança


incômoda com a formação das professoras, sobretudo nos colégios governados por
irmãs católicas. Como demonstra Maria Aparecida Arruda, no caso por ela estudado,
não é possível desconectar racionalização, religião e profissionalização do magistério.
Do mesmo modo, demonstra de modo irrefutável que o exílio necessário das aspirantes
à docência se constitui em pista preciosa para se pensar modos de governo das
professoras e das populações implantados em redes transnacionais, comprometidas
com uma escolarização extensa, exaustiva, perfeita, sutil, prolongada e cada vez mais
produtiva de atos de obediência, de submissão e de verdade.
Rio de Janeiro, 20 de abril de 2018