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NOÇÕES DE DIREITO PENAL

NOÇÕES DE DIREITO PENAL


O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, assentou “algumas
Prof. Adriano Augusto Placidino Gonçalves circunstâncias que devem orientar a aferição do relevo material
da tipicidade penal”, tais como: a) a mínima ofensividade da con-
Graduado pela Faculdade de Direito da Alta Paulista – FADAP.
duta do agente; b) a nenhuma periculosidade social da ação; c) o
Advogado regularmente inscrito na OAB/SP
reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e d) a
inexpressividade da lesão jurídica provocada.

1. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS Princípio da Alterabilidade ou transcendentalidade: proí-


DO DIREITO PENAL. be a incriminação de atitude meramente interna, subjetiva e que,
por essa razão, revela-se incapaz de lesionar o bem jurídico. O fato
típico pressupõe um comportamento que transcenda a esfera indi-
vidual do autor e seja capaz de atingir o interesse do outro. Por essa
razão, a autolesão não é crime, falta lesividade que possa legitimar
A criação do tipo e adequação concreta da conduta ao tipo de- a intervenção penal.
vem operar-se em consonância com os princípios constitucionais do
Direito Penal, os quais derivam da dignidade da pessoa humana que, Princípio da Confiança: funda-se na premissa de que todos
por sua vez, encontra fundamento no Estado Democrático de Direito. devem esperar por parte das outras pessoas que estas sejam res-
Dos princípios orientadores e limitadores do Direito Penal que ponsáveis e ajam de acordo com as normas da sociedade, visando a
decorrem da dignidade, merecem destaque: evitar danos a terceiros. Por exemplo, se um motorista trafegando
pela preferencial passar por um cruzamento, na confiança de que o
Princípio da Legalidade: O princípio da reserva legal deli- veículo da via secundária aguardará sua passagem. No caso de um
mita o poder punitivo do Estado e dá ao Direito Penal uma função acidente, não terá agido com culpa. Por conseguinte, não realiza
garantista, pois define o delito e a pena, ficando os cidadãos cientes conduta típica aquele que, agindo de acordo com o direito, acaba
de que só pelos fatos anteriormente delineados como crimes po- por envolver-se em situação em que um terceiro descumpriu seu
derão ser responsabilizados criminalmente e apenas naquelas san- dever de lealdade e cuidado.
ções previamente fixadas podem ser processados e condenados. O
referido princípio se desdobra em quatro princípios: Princípio da Adequação Social: todo comportamento que, a
a) nullum crimen, nulla poena sine lege praevia (proibição despeito de ser considerado criminoso pela lei, não afronta o senti-
da edição de leis retroativas que fundamentam ou agravem a pu- mento social de justiça (aquilo que a sociedade tem por justo) não
nibilidade) pode ser considerado criminoso. As condutas aceitas socialmente
b)  nullum crimen, nulla poena sine lege scripta (proibição e consideradas normais não podem sofrer este tipo de valoração
da fundamentação ou do agravamento da punibilidade pelo direito negativa, sob pena de a lei incriminadora padecer do vício da in-
consuetudinário); constitucionalidade.
c) nullum crimen, nulla poena sine lege stricta (proibição
da fundamentação ou do agravamento da punibilidade pela ana- Princípio da Intervenção Mínima: A aplicação abusiva da
logia); previsão legislativa penal faz com que ela perca parte de seu mé-
d) nullum crimen, nulla poena sine lege certa (a proibição de rito e, assim, sua força intimidadora.   O princípio da intervenção
leis penais indeterminadas). mínima está diretamente ligado aos critérios do processo legislati-
vo de elaboração de leis penais, servindo, num primeiro momento,
Princípio do “in dubio pro reo”: Se houver qualquer dúvida, como regra de determinação qualitativa abstrata para o processo
após a utilização de todas as formas de interpretação, a questão de tipificação das condutas, e, num segundo momento, juntamente
deverá ser resolvida da maneira mais favorável ao réu. com o princípio da proporcionalidade dos delitos e das penas, co-
minar a sanção pertinente.  Destarte, surge como tendência, a ideia
Princípio da vedação do “bis in idem”: Significa que nin- de que só se deve criminalizar condutas de efetiva gravidade e que
guém pode ser condenado duas vezes pelo mesmo fato. Além dis- atinjam bens fundamentais, valores básicos de convívio social. 
so, por esse princípio, determinada circunstância não pode ser em-
pregada duas vezes em relação ao mesmo crime, quer para agravar, Princípio da Proporcionalidade: Toda vez que o legislador
quer para reduzir a pena. Assim, quando alguém comete um homi- cria novo delito, impõe um ônus à sociedade, decorrente da amea-
cídio por motivo fútil, incide a qualificadora do art. 121, § 2º, II, ça de punição que passa a pairar sobre todos os cidadãos. Uma
do Código Penal, mas não pode ser aplicada, concomitantemente, sociedade incriminadora é uma sociedade invasiva, que limita e
a agravante genérica do motivo fútil, prevista no art. 61, II, a. Essa demasia a liberdade das pessoas. Por outro lado, esse ônus é com-
agravante, portanto, será aplicada a outros crimes em que a futili- pensado pela vantagem de proteção do interesse tutelado pelo in-
dade da motivação não esteja prevista como qualificadora. criminador. A sociedade vê limitados certos comportamentos, ante
a cominação da pena, mas também desfruta de uma tutela a certos
Princípio da Insignificância ou bagatela: no Direito Penal bens, os quais ficarão sob guarda do Direito Penal. Assim, diante
não se deve preocupar-se com bagatelas, do mesmo modo que não do princípio da proporcionalidade, quando o custo for maior do
podem ser admitidos tipos incriminadores que descrevam condu- que a vantagem, o tipo penal será inconstitucional.
tas incapazes de lesar o bem jurídico. A tipicidade pena exige um
mínimo de lesividade ao bem jurídico protegido, pois é inconce- Princípio da Humanidade: A Declaração dos Direitos do
bível que o legislador tenha imaginado inserir em um tipo penal Homem disciplina em seu artigo 5º, que: «ninguém será submetido
condutas totalmente inofensivas ou incapazes de lesar o interesse a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradan-
protegido. te”. No mesmo sentido, a Convenção Internacional sobre Direitos

Didatismo e Conhecimento 1
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Políticos e Civis, de 1966, dispõe em seu artigo 10, inciso I, que: “o Princípio da responsabilidade subjetiva: Nenhum resultado
preso deve ser tratado humanamente, e com o respeito que lhe cor- objetivamente típico pode ser atribuído a quem não o tenha pro-
responde por sua dignidade humana”.  A Constituição Federal de duzido por dolo ou culpa, afastando-se a responsabilidade objeti-
1988 trouxe diversos dispositivos onde se constata a consagração va. Do mesmo modo, ninguém pode ser responsabilizado sem que
do princípio da humanidade. Exemplo: artigo 5, inciso XLIX, da reúna todos os requisitos da culpabilidade.
Lei Maior, que: “é assegurado aos presos o respeito à integridade
física e moral”. O próximo inciso do mesmo artigo assevera que: Princípio da Taxatividade: As leis penais devem ser claras,
“às presidiárias são asseguradas as condições para que possam per- precisas e bem elaboradas de forma que seus destinatários pos-
manecer com seus filhos durante o período da amamentação”. Ain- sam compreendê-las, não podem aqueles que devem cumprir a Lei
terem dúvidas pelo modo como foram elaboradas. Não se admite
da mais enfatizante é o inciso XLVII, do citado artigo, que dispõe:
a criação de tipos que contenham conceitos vagos ou imprecisos.
“não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, Impõe-se ao Poder Legislativo, na elaboração das leis, que redija
nos termos do artigo 84, XIX; b) de caráter perpétuo; c) de traba- tipos penais com a máxima precisão de seus elementos. É niti-
lhos forçados; d) de banimento; e) cruéis”. São estas imposições damente decorrente da legalidade, logo, Constitucional Implícito.
ao legislador e ao interprete de mecanismos de controle de tipos
legais. Disso resulta ser inconstitucional a criação de um tipo ou a Princípio da Individualização da Pena:  A legislação cons-
cominação de alguma pena que atente desnecessariamente contra a titucional pátria consagrou o princípio no artigo 5, inciso XLVI,
incolumidade física ou moral de alguém (atentar necessariamente dispondo que: “a lei regulará a individualização da pena”. A indi-
significa restringir alguns direitos nos termos da Constituição e vidualização da pena passa por três fases distintas: A legislativa, a
quando exigido para a proteção do bem jurídico). judicial e a executória ou administrativa.
No primeiro momento, a lei delimita as penas para cada tipo
Princípio da Necessidade e idoneidade: A incriminação de de delito, guardando proporcionalidade com a importância do bem
alguém só pode ocorrer quando a tipificação revelar-se necessária, jurídico defendido e com o grau de lesividade da conduta. Nesta
fase, ainda, se estabelece as espécies de penas que podem ser apli-
idônea e adequada ao fim a que se destina, ou seja, à concreta e real
cadas, de forma cumulativa, alternativa ou exclusiva.
proteção do bem jurídico. Na segunda fase, ocorre a individualização realizada pelos
        magistrados. Diante das diretrizes fixadas pela legislação, o juiz
Princípio da Ofensividade, princípio do fato e da exclusiva vai decidir qual das penas deve ser aplicada e qual a sua quantida-
proteção do bem jurídico: Não há crime quando a conduta não de, dentro dos limites trazidos no preceito penal secundário, deter-
tiver oferecido ao menos um perigo concreto, real, efetivo e com- minando, inclusive, o meio de sua execução. As regras básicas da
provado de lesão ao bem jurídico. O princípio do fato não permite individualização da pena, em nosso Código Penal, estão previstas
que o direito penal se ocupe das intenções e pensamentos das pes- no artigo 59 e não podem deixar de ser observadas pelo juiz.
soas, do modo de viver ou de pensar, das atitudes internas. O prin- A terceira e última etapa da individualização da pena ocorre
cípio da ofensividade considera inconstitucionais todos chamados com sua execução e é denominada de individualização administra-
“delitos de perigo abstrato”, pois, segundo ele não há crime sem tiva ou individualização executória.   A Constituição Federal traz
comprovada lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico. Não se alguns preceitos que devem ser respeitados na etapa executória. No
artigo 5ª, inciso XLIX, diz ser “assegurado aos presos o respeito a
confunde com o princípio da exclusiva proteção do bem jurídico,
integridade física e moral”. Já no inciso XLVIII, do mesmo artigo, 
segundo o qual o direito não pode defender valores meramente se impõe que o cumprimento da pena se dará em estabelecimentos
morais, éticos ou religiosos, mas tão somente os bens fundamen- que atendam “a natureza do delito, a idade e o sexo do apenado”.
tais para a convivência e o desenvolvimento social.
Princípio da Consunção: É o princípio segundo o qual um
Princípio da autorresponsabilidade: os resultados danosos fato mais amplo e mais grave consome, isto é, absorve outros fatos
que decorrem da ação livre e inteiramente responsável de alguém menos amplos e graves, que funcionam como fase normal de pre-
só podem ser imputados a este e não àquele que o tenha anterior- paração ou execução ou mero exaurimento.
mente motivado. Exemplo: sujeito é aconselhado por outro a pra-
ticar esportes mais radicais, este resolve pular de bungee jumping.
Acaba sofrendo um acidente, vindo a falecer. O resultado morte 2. A LEI PENAL NO TEMPO.
não pode ser imputado a ninguém mais além da vítima, pois foi a 3. A LEI PENAL NO ESPAÇO.
sua vontade livre, responsável e consciente que a impeliu a correr
os riscos.

Princípio da Pessoalidade: Aduz que a pena não pode passar ANTERIORIDADE DA LEI
da pessoa que praticou o delito. A Carta Magna em vigor disciplina
no artigo 5º, inciso XLV que: “nenhuma pena passará da pessoa do Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há
condenado (...)”. pena sem prévia cominação legal.
A pena não se pode estender a pessoas que não participaram
Princípio da Legalidade
do delito, ainda que haja laços de parentesco, afinidade ou amiza-
de com o condenado.  Não se pode olvidar, contudo, que a pena Esse princípio, consagrado no art. 1º do Código Penal, encon-
pode gerar danos e sofrimentos a terceiros, em especial a família. tra-se atualmente descrito também no art. 5º XXXIX, da Consti-
Assim, determinadas legislações vêm disciplinando a criação de tuição Federal. Segundo ele, “não há crime sem lei anterior que
institutos que auxiliam tanto a família do sentenciado, como a ví- o defina. Não há pena sem prévia cominação legal”. A doutrina
tima do delito. subdivide o princípio da legalidade em:

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NOÇÕES DE DIREITO PENAL
a) Princípio da anterioridade, segundo o qual uma pessoa só da nossa República federativa (Art. 1º, III e parágrafo único da
poder ser punida se, à época do fato por ela praticado, já estava em CF/88), porque trata-se de uma barreira à discricionariedade es-
vigor a lei que descrevia o delito. Assim, consagra-se a irretroati- tatal no que se refere à punição. Ele reflete o objetivo claro de
vidade da norma penal (salvo a exceção do art. 2º, parágrafo único, controle dos bens jurídicos da sociedade. O que seria de uma na-
do Código Penal que será discutida abaixo). ção se qualquer pessoa com poder pudesse escolher as condutas
b) Princípio da reserva legal, apenas a lei em sentido for- que devem ser punidas e assim fazê-lo do modo que lhe der mais
mal pode descrever condutas criminosas. É vedado ao legislador satisfação?
utilizar-se de decretos, medidas provisórias ou outras formas legis- b) O artigo 2º, por sua vez, em seu parágrafo único, faz exa-
lativas para incriminar condutas. tamente o mesmo do artigo 1º. A retroatividade que valida é res-
tringida aos efeitos benéficos do dispositivo penal em questão, o
As normas penais em branco (aquelas que exigem comple- que é relacionado com os objetivos da punição estatal e igualmente
mentação por outras normas, de igual nível [leis] ou de nível diver- ao princípio da dignidade humana, porque evitar que as mudan-
so [decretos, regulamentos etc.]). Não ferem o princípio da reserva ças sociais se estendam àqueles que, por exemplo, têm o direito
legal. constitucional de ir e vir cerceado por uma conduta que não é mais
considerada lesiva, é negar a igualdade de tratamento do Estado a
LEI PENAL NO TEMPO toda a sociedade, sobretudo quanto à defesa da dignidade e quanto
à justiça, ambos também explicitamente acobertas constitucional-
mente.
Art. 2º - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior
Neste contexto, a lei posterior continua a considerar o fato
deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e como criminoso, mas traz alguma benesse ao acusado: pena me-
os efeitos penais da sentença condenatória. nor, maior facilidade para obtenção de livramento condicional etc.
Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favo- Desta forma, pela combinação dos arts. 1º e 2º do Código Pe-
recer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos nal, podemos chegar a duas conclusões:
por sentença condenatória transitada em julgado. a) a norma penal, em regra, não pode atingir fatos passados.
Não pode, portanto, retroagir;
A lei que revoga um tipo incriminador extingue o direito de b) a norma penal mais benéfica, entretanto, retroage para atin-
punir (abolitio criminis). A consequência do abolitio criminis é gir fatos pretéritos.
a extinção da punibilidade do agente. Por beneficiar o agente, o
abolitio criminis alcança fatos anteriores e será aplicado pelo Juiz Hipóteses de lei posterior:
do processo, podendo ser aplicado antes do final do processo, le-
vando ao afastamento de quaisquer efeitos da sentença, ou após a a) “Abolitio criminis”: lei posterior deixa de considerar
condenação transitada em julgado. No caso de já existir condena- um fato como criminoso. Trata-se de lei posterior que revoga o
ção transitada em julgado, o abolitio criminis causa os seguintes tipo penal incriminador, passado o fato a ser considerado atípico.
efeitos: a extinção imediata da pena principal e de sua execução, Como o comportamento deixou de constituir infração penal, o Es-
a libertação imediata do condenado preso e extinção dos efeitos tado perde a pretensão de impor ao agente qualquer pena, razão
penais da sentença condenatória (Exemplo: reincidência, inscrição pela qual se opera a extinção da punibilidade, nos termos do art.
no rol dos culpados, pagamento das custas etc.). 107, III, do Código Penal.
Vale lembrar que os efeitos extrapenais, contudo, subsistem, b) “Novatio legis in mellius”: é a lei posterior que, de qual-
como a perda de cargo público, perda de pátrio poder, perda da ha- quer modo, traz um benefício para o agente no caso concreto. A lex
bilitação, confisco dos instrumentos do crime etc. A competência mitior (lei melhor) é a lei mais benéfica, seja anterior ou posterior
para a aplicação do abolitio criminis após o trânsito em julgado é ao fato. A norma penal retroage e aplica-se imediatamente aos pro-
do juízo da execução: cessos em julgamento, aos crimes cuja perseguição ainda não se
iniciou e, também, aos casos já encerrados por decisão transitada
em julgado.
Súmula nº 611 do STF: “Transitada em julgado a sentença
c) “Novatio legis in pejus”: é a lei posterior que, de qualquer
condenatória, compete ao juízo das execuções a aplicação da lei modo, venha a agravar a situação do agente no caso concreto. Nes-
mais benigna. se caso a lex mitior é a lei anterior. A lei menos benéfica, seja ante-
rior, seja posterior, recebe o nome de lex gravior (lei mais grave).
O parágrafo único do artigo 2º trata do fenômeno da extrativi- d) “Novatio legis” incriminadora: é a lei posterior que
dade da lei penal, ou seja; a lei pode retroagir SOMENTE quando cria um tipo incriminador, tornando típica conduta considerada
para beneficiar o agente. irrelevante penal pela lei anterior.
Extratividade: É o fenômeno pelo qual a lei produz efeitos
fora de seu período de vigência. Divide-se em duas modalidades: LEI EXCEPCIONAL OU TEMPORÁRIA
retroatividade e ultratividade.
Na retroatividade, a lei retroage aos fatos anteriores à sua en- Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora decorrido
trada em vigor, se houver benefício para o agente; enquanto na o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a
ultratividade, a lei produz efeitos mesmo após o término de sua determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência.
vigência.
Não há que se falar em conflito de leis entre o artigo primeiro As leis acima citadas são autorrevogáveis, ou seja, são exce-
(legalidade) e o parágrafo único do artigo 2º (extratividade). Ve- ções à regra de que uma lei se revoga por outra lei. Subdividem-se
jamos: em duas espécies:
a) No artigo 1º, decretando a irretroatividade da lei, o Código - leis temporárias: Aquelas que já trazem no seu próprio texto
Penal (CP) procurou defender a dignidade humana e a estrutura a data de cessação de sua vigência, ou seja, a data do término de
democrática brasileiras, ambos fundamentos cruciais à existência vigência já se encontra explícito no texto da lei.

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- leis excepcionais: Aquelas feitas para um período excepcio- c) Princípio da territorialidade temperada: a lei nacional
nal de anormalidade. São leis criadas para regular um período de se aplica aos fatos praticados em seu território, mas, excepcio-
instabilidade. Neste caso, a data do término de vigência depende nalmente, permite-se a aplicação da lei estrangeira, quando assim
do término do fato para o qual ela foi elaborada. estabelecer algum tratado ou convenção internacional. Foi este o
Estas duas espécies são ultrativas, ainda que prejudiquem o princípio adotado pelo art. 5º do Código Penal.
agente (Exemplo: Num surto de febre amarela é criado um crime Abrange todo o espaço em que o Estado exerce sua soberania:
de omissão de notificação de febre amarela; caso alguém cometa o solo, rios, lagos, mares interiores, baías, faixa do mar exterior ao
crime e logo em seguida o surto seja controlado, cessando a vigên- longo da costa (12 milhas) e espaço aéreo. Bem como consideram-
cia da lei, o agente responderá pelo crime). Se não fosse assim, a -se extensão do território nacional as embarcações e aeronaves
lei perderia sua força coercitiva, visto que o agente, sabendo qual mencionadas nos §§ 1º e 2º do art. 5º do Código Penal.
seria o término da vigência da lei, poderia retardar o processo para O alto-mar não está sujeito à soberania de qualquer Estado.
que não fosse apenado pelo crime. Regem-se, porém, os navios que lá navegam pelas leis nacionais
do pavilhão que os cobre; no tocante aos atos civis e criminais
TEMPO DO CRIME a bordo praticados. No tocante ao espaço aéreo, sobre a camada
atmosférica da imensidão do alto-mar e dos territórios terrestres
Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação não sujeitos a qualquer soberania, também não existe o império
ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado. da ordem jurídica de Estado algum, salvo a do pavilhão da aero-
nave, para os atos nela verificados, quando cruzam esse espaço tão
Trata-se da fixação do tempo em que crime reputa-se pratica- amplo. Assim, cometido um crime a bordo de um navio pátrio em
do. Existem três teorias sobre o tempo do crime: alto-mar, ou de uma aeronave brasileira no espaço livre, vigoram
- Teoria da atividade: O tempo do crime é o tempo da prática as regras sobre a territorialidade: os delitos assim cometidos se
da conduta, ou seja, é o tempo que se realiza a ação ou a omissão consideram como praticados em território nacional.
que vai configurar o crime, ainda que outro seja o momento do Cabe ressaltar ainda o princípio da passagem inocente, onde
resultado; se um fato cometido a bordo de navio ou avião estrangeiro de pro-
- Teoria do resultado: O tempo do crime é o tempo que se priedade privada, que esteja apenas de passagem pelo território
produz o resultado, sendo irrelevante o tempo da ação; brasileiro, não será aplicada a nossa lei, se o crime não afetar em
- Teoria mista ou da ubiquidade: O tempo do crime será tanto nada nossos interesses.
o tempo da ação quanto o tempo do resultado.
A teoria utilizada pelo Código Penal (CP) é a teoria da ATI-
LUGAR DO CRIME
VIDADE. Na teoria da atividade o agente, em caso de lei nova,
responderá sempre de acordo com a última lei vigente, seja ela
Art. 6º - Considera-se praticado o crime no lugar em que
mais benéfica ou não. Por exemplo, suponha-se que a pessoa com
idade de 17 anos, 11 meses e 29 dias efetue disparo contra alguém, ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde
que morre apenas uma semana depois. Ora, o homicídio só se con- se produziu ou deveria produzir-se o resultado.
sumou com a morte (quando o agente já estava com 18 anos), mas
o agente não poderá ser punido criminalmente, pois, nos termos do Para os crimes de espaço máximo ou a distancia (crimes exe-
art. 4º, considera-se praticado o delito no momento da ação (quan- cutados em um país e consumados em outro) foi adotada a teoria
do o agente ainda era menor de idade). da ubiquidade, ou seja, a competência para o julgamento do fato
será de ambos os países.
TERRITORIALIDADE Para os chamados “delitos plurilocais” (ação se dá em um lu-
gar e o resultado em outro dentro de um mesmo país), foi adotada a
Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de conven- teoria do resultado (art. 70 do Código de Processo Penal), ou seja,
ções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido o foro competente é o foro do local do resultado. Nas infrações
no território nacional. de competência dos Juizados Especiais Criminais, a Lei 9.099/95
§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão seguiu a teoria da atividade, ou seja, o foro competente é o da ação.
do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de
natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer EXTRATERRITORIALIDADE
que se encontrem, bem como as aeronaves e as embarcações
brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se achem, Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no
respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar. estrangeiro:
§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes pra- I - os crimes:
ticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República;
propriedade privada, achando-se aquelas em pouso no território b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito
nacional ou em voo no espaço aéreo correspondente, e estas em Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa públi-
porto ou mar territorial do Brasil. ca, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituí-
da pelo Poder Público;
Existem várias teorias para fixar o âmbito de aplicação da nor- c) contra a administração pública, por quem está a seu ser-
ma penal a fatos cometidos no Brasil: viço;
a) Princípio da territorialidade: a lei penal só tem aplicação d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domicilia-
no território do Estado que a editou, pouco importando a naciona- do no Brasil;
lidade do sujeito ativo ou passivo. II - os crimes:
b) Princípio da territorialidade absoluta: só a lei nacional a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a re-
é aplicável a fatos cometidos em seu território. primir;

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b) praticados por brasileiro;  Não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por
c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mer- outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais
cantes ou de propriedade privada, quando em território estrangei- favorável.
ro e aí não sejam julgados.
§ 1º - Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei O art. 7º, § 3º, prevê uma última hipótese da aplicação da lei
brasileira, ainda que absolvido ou condenado no estrangeiro. brasileira: A do crime cometido por estrangeiro contra brasileiro
§ 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira fora do Brasil. É ainda um dispositivo calcado na teoria de prote-
depende do concurso das seguintes condições: ção, além dos casos de extraterritorialidade incondicionada. Exige
a) entrar o agente no território nacional; o dispositivo em estudo, porém, além das condições já menciona-
b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; das, outras duas:
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasi-  Que não tenha sido pedida ou tenha sido negada a extra-
leira autoriza a extradição; dição (pode ter sido requerida, mas não concedida);
d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter  Que haja requisição do Ministro da Justiça.
aí cumprido a pena;
e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por ou- Alguns princípios que devem ser observados para a aplicação
tro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais da extraterritorialidade:
favorável. - Nacionalidade ou personalidade ativa: aplica-se a lei bra-
§ 3º - A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido sileira ao crime cometido por brasileiro fora do Brasil. Neste caso
por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as o único critério observado é a nacionalidade do sujeito ativo (art.
condições previstas no parágrafo anterior: 7º, II, b, do CP).
a) não foi pedida ou foi negada a extradição; - Nacionalidade ou personalidade passiva: aplica-se a lei
b) houve requisição do Ministro da Justiça. brasileira ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora
do Brasil. O que importa é a nacionalidade da vítima, mesmo que
A extraterritorialidade é a possibilidade de aplicação da lei o crime tenha sido praticado no exterior (art. 7º, §3º).
penal brasileira a fatos criminosos ocorridos no exterior. - Real, da defesa ou proteção: aplica-se a lei brasileira ao
crime cometido fora do Brasil, que afeta interesse nacional (art. 7º,
EXTRATERRITORIALIDADE INCONDICIONADA: O I, a, b e c, do CP).
art. 7º do CP prevê a aplicação da lei brasileira a crimes cometidos
- Justiça Universal ou princípio da universalidade: todo
no estrangeiro. São os casos de extraterritorialidade da lei penal.
Estado tem o direito de punir qualquer crime, seja qual for a nacio-
 O inciso I refere-se aos casos de extraterritorialidade in-
nalidade do delinquente e da vítima ou o local de sua prática, desde
condicionada, uma vez que é obrigatória a aplicação da lei brasi-
que o criminoso esteja dentro de seu território. É como se o planeta
leira ao crime cometido fora do território brasileiro.
 As hipóteses contidas no inciso I, com exceção da última se constituísse em um só território para efeitos repressão criminal
(d), são fundadas no princípio de proteção, onde o que impera é a (art. 7, I, d e II, a, do CP).
defesa do interesse nacional. Se o interesse nacional foi afetado de - Princípio da representação: a lei penal brasileira também
algum modo, justifica-se a incidência da legislação pátria. é aplicável aos delitos cometidos em aeronaves e embarcações
privadas quando realizados no estrangeiro e aí não venham a ser
EXTRATERRITORIALIDADE CONDICIONADA: O in- julgados.
ciso II, do art. 7º, prevê três hipóteses de aplicação da lei brasileira - Princípio da preferência da competência nacional: ha-
a autores de crimes cometidos no estrangeiro. São os casos de ex- vendo conflito entre a justiça brasileira e a estrangeira, prevalecerá
traterritorialidade condicionada, pois dependem dessas condições: a competência nacional.
a) Crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou - Princípio da limitação em razão da pena: não será
a reprimir. Utilizou-se o princípio da justiça ou competência uni- concedida a extradição para países onde a pena de morte e a prisão
versal; perpétua são previstas, a menos que deem garantias de que não
b) Crimes praticados por brasileiro. Tendo o país o dever de irão aplica-las.
obrigar o seu nacional a cumprir as leis, permite-se a aplicação - Jurisdição subsidiária: verifica-se a subsidiariedade da ju-
da lei brasileira ao crime por ele cometido no estrangeiro. Trata- risdição nacional nas hipóteses do inciso II e do § 3º do art. 7º do
-se do dispositivo da aplicação do princípio da nacionalidade ou Código Penal. Se o autor de um crime praticado no estrangeiro for
personalidade ativa; processado perante esse juízo, sua sentença preponderará sobre a
c) Crimes praticados em aeronaves ou embarcações brasilei- do juiz brasileiro. Caso o réu seja absolvido pelo juiz territorial,
ras, mercantes ou de propriedade privada, quando em território aplicar-se-á a regra do non bis in idem (não permissão da dupla
estrangeiro e aí não sejam julgados. Inclui-se no Código Penal o condenação pelo mesmo fato) para impedir o persecutio criminis
princípio da representação. (art. 7º, § 2º, d, do CP). No entanto no caso de condenação, se o
A aplicação da lei brasileira, nessas três hipóteses, fica subor- condenado se subtrair à execução da pena, será julgado pelos ór-
dinada a todas as condições estabelecidas pelo § 2º do art. 7º. De- gãos judiciários nacionais e, se for o caso, condenado de novo, so-
pende, portanto, das condições a seguir relacionadas: lução, inclusive, consagrada no art. 7º, §2º, d e e, do Código Penal.
 A Entrada do agente no território nacional;
 Ser o fato punível também no país em que foi praticado. PENA CUMPRIDA NO ESTRANGEIRO
Na hipótese de o crime ter sido praticado em local onde nenhum
país tem jurisdição (alto-mar, certas regiões polares), é possível a Art. 8º - A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena im-
aplicação da lei brasileira. posta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é
 Estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei bra- computada, quando idênticas.
sileira autoriza a extradição

Didatismo e Conhecimento 5
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Considerando que, sendo possível a aplicação da lei brasileira O prazo penal distingue-se do prazo processual, pois, neste,
a crimes cometidos em território de outro país, ocorrerá também a exclui-se o 1º dia da contagem, conforme estabelece o art. 798,
incidência da lei estrangeira, dispõe o código como se deve proce- § 1º, do Código de Processo Penal. Assim, se o réu é intimado da
der para se evitar a dupla posição. sentença no dia 10 de abril, o prazo para recorrer começa a fluir
Cumprida a pena pelo sujeito ativo do crime no estrangeiro, apenas no dia 11 (se for dia útil).
será ela descontada na execução pela lei brasileira, quando forem Os prazos penais são improrrogáveis. Desta forma, se o prazo
idênticas, respondendo efetivamente o sentenciado pelo saldo a termina em um sábado, domingo ou feriado, estará ele encerrado.
cumprir se a pena imposta no Brasil for mais severa. Se a pena Ao contrário dos prazos processuais que se prorrogam até o 1º dia
cumprida no estrangeiro for superior à imposta no país, é evidente útil subsequente.
que esta não será executada.
No caso de penas diversas, aquela cumprida no estrangeiro FRAÇÕES NÃO COMPUTÁVEIS DA PENA
atenuará a aplicada no Brasil, de acordo com a decisão do juiz no
Art. 11 - Desprezam-se, nas penas privativas de liberdade e
caso concreto, já que não há regras legais a respeito dos critérios
nas restritivas de direitos, as frações de dia, e, na pena de multa,
de atenuação que devem ser obedecidos.
as frações de cruzeiro.
EFICÁCIA DE SENTENÇA ESTRANGEIRA Também se tem entendido que, por analogia com o art. 11,
deve ser desprezada a fração de dia multa, como se faz para o
Art. 9º - A sentença estrangeira, quando a aplicação da lei dia de pena privativa de liberdade. Extintos o cruzeiro antigo e
brasileira produz na espécie as mesmas consequências, pode ser o cruzado, o novo cruzeiro e o cruzeiro real, o real é a unidade
homologada no Brasil para: monetária nacional, devendo ser desprezados os centavos, fração
I - obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e da nova moeda brasileira. Ex. pessoa condenada a pagar R$ 55,14
a outros efeitos civis; pagará apenas R$ 55,00.
II - sujeitá-lo a medida de segurança.
Parágrafo único - A homologação depende: LEGISLAÇÃO ESPECIAL
a) para os efeitos previstos no inciso I, de pedido da parte
interessada; Art. 12 - As regras gerais deste Código aplicam-se aos fatos
b) para os outros efeitos, da existência de tratado de extradi- incriminados por lei especial, se esta não dispuser de modo di-
ção com o país de cuja autoridade judiciária emanou a sentença, verso.
ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça.
Esse dispositivo consagra a aplicação subsidiária das normas
Quanto à eficácia de sentença estrangeira, o Código Penal, em gerais do direito penal à legislação especial, desde que esta não
seu art. 9°, em consonância com o art. 105, I, alínea i, da Constitui- trate o tema de forma diferente. Ex.: o art. 14, II, do Código Penal,
ção Federal, prescreve que a sentença estrangeira, quando a aplica- que trata do instituto da tentativa, aplica-se aos crimes previstos
em lei especial, mas é vedado nas contravenções penais, uma vez
ção da lei brasileira produz na espécie as mesmas consequências,
que o art. 4º da Lei de Contravenções Penais declara que não é
pode ser homologada no Brasil para: I – obrigar o condenado à re-
punível a tentativa de contravenção.
paração do dano, a restituições e a outros efeitos civis; II – sujeitá-
-lo a medida de segurança.
Essa homologação compete ao Superior Tribunal de Justiça.
O fundamento da homologação da sentença estrangeira está 4. INTERPRETAÇÃO DA LEI PENAL.
no entendimento de que nenhuma sentença de caráter criminal que
emane de autoridade jurisdicional estrangeira terá eficácia em de-
terminado Estado sem o seu consentimento, pois o direito penal é
fundamentalmente territorial. A lei preserva, em seu texto, sentidos que variam de acordo
com o contexto social, adequando seus princípios às necessidades
CONTAGEM DE PRAZO atuais daquela sociedade. Explicar um texto de lei, ou ainda aclarar
seu entendimento é interpretar a lei. Ao realizar a interpretação da
Art. 10 - O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. lei, chega-se a um resultado pretendido ou querido pelo legislador.
Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum. Quando a lei foi criada, houve uma construção de paradig-
mas, entendimentos, princípios, posições de doutrina e tudo o mais
A contagem do prazo penal tem relevância especial nos casos que, em torno de um artigo de lei, se faça necessário para que haja
de duração de pena, do livramento condicional, do sursis, da deca- uma valoração de um bem juridicamente protegido. É natural que
dência, da prescrição, etc., institutos de direito penal. a sociedade evolua e o entendimento de um dispositivo de lei se
Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário co- modifique, ainda que as palavras nele impressas não mudem. O
mum. Há no caso imprecisão tecnológica; pouco importando se o que se altera é a avaliação sobre aquele artigo de lei e a adequação
daquele dispositivo às necessidades sociais.
mês tenha 30 ou 31 dias, ou se o ano é ou não bissexto. O calendá-
Caso não houvesse a interpretação da lei, o seu alcance seria
rio comum a que se refere o legislador tem o nome de “gregoria- muito restrito ou por demais abrangente, inadequado à conjuntura
no”, em contraposição ao juliano, judeu, árabe, etc. social, que por si só é dinâmica. Em outras palavras: a sociedade
O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Assim, se evolui e a lei também deve evoluir e quando ela mesma não é al-
uma pena começa a ser cumprida às 23h30min, os 30 minutos res- terada, deve-se alterar sua interpretação, para que a sociedade não
tantes serão contados como sendo o 1º dia. reste desprotegida.

Didatismo e Conhecimento 6
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Existem algumas formas de interpretação adotadas pela dou- ma a ser aplicada ao caso concreto, portanto a integração da norma
trina nacional, conforme se depreende a seguir: é realizada, visualizando-se o que o legislador estipulou para outro
caso similar.
1. QUANTO AO SUJEITO (ORIGEM): Embora haja uma minoria doutrinária em defesa da proibição
- Interpretação Autêntica ou Legislativa: a interpretação é da analogia de maneira abrangente, a maioria entende que a analo-
realizada pelo próprio texto de lei. Não vincula o sujeito, porque gia é possível no direito penal sim, desde que não incriminadora e
não esgota matéria. É realizada pelo mesmo órgão da qual emana a a favor do réu. É a chamada Analogia “in bonam partem”.
lei, ou seja, o legislador edita uma nova lei cm o objetivo de aclarar
o sentido e o alcance de uma disposição já existente.
- Interpretação Doutrinária: é o tipo de interpretação que
os estudiosos da ciência do Direito dão para determinados temas 5. INFRAÇÃO PENAL: ESPÉCIES.
jurídicos. São posições intelectuais acerca de assuntos debatidos
em textos de livros, artigos de revista, posicionamentos científicos.
- Interpretação Jurisprudencial ou judicial: realizada atra-
vés da análise de decisões reiteradas sobre determinado tema. A Crime, em sentido amplo, é a ação ou omissão, imputável
interpretação jurisprudencial vincula o sujeito, porquanto haja, em a pessoa, lesiva ou perigosa a interesse penalmente protegido,
súmula vinculante, a necessidade de se ater ao seu conteúdo de constituída de determinados elementos e eventualmente
maneira fidedigna. integrada por certas condições ou acompanhada de determinadas
circunstâncias previstas em lei. É a violação de um bem penalmente
2. QUANTO AO MODO protegido.
- Literal ou gramatical: considera como parâmetro interpre- Para que haja crime, é preciso uma conduta humana positiva
tativo o sentido literal das palavras. Pela literalidade da lei é pos- ou negativa. Nem todo comportamento do homem, porém, cons-
sível extrair-se um entendimento do que se exija na dicção da lei. titui delito, em face do princípio da reserva legal. Logo, somente
- Teleológica: através da interpretação teleológica, o aplicador aqueles previstos na lei penal é que podem configurar o delito.
indaga a intenção do legislador, a vontade da lei propriamente dita. Pode-se dizer, portanto, que o primeiro requisito do crime é
- Histórica: é fruto de uma construção e de um posicionamen- o fato típico (previsto em lei). Contudo, não basta que o fato seja
to em dado momento histórico. típico, é preciso que seja contrário ao direito: antijurídico. Isto por-
- Sistemática: interpreta-se em conjunto com toda a legisla- que, embora o fato seja típico, algumas vezes é considerado lícito
ção em vigor, ou com os princípios gerais de Direito, ou ainda com (Exemplo: Legítima defesa). Logo, excluída a antijuridicidade,
toda a doutrina existente no caso. É sistemática, porquanto reúne não há crime.
diversificadas fontes para a completude de seu sentido. Quando utilizamos a expressão infração penal esta engloba
tanto o crime (ou delito), como a contravenção penal. Assim, o cri-
- Progressiva: interpreta-se considerando o progresso da me e a contravenção penal são espécies do gênero infração penal.
ciência (medicina, informática). - Crime: pena sempre de reclusão ou detenção, cumulada ou
não com multa. Tem caráter repressivo, situando o Direito somente
3. QUANTO AO RESULTADO: após a ocorrência do dano a alguém. Ex.: alguém, conduzindo im-
- Declarativa: a letra da lei corresponde exatamente à inten-
prudentemente um veículo, atropela outrem e lhe causa ferimentos.
ção do legislador no momento da sua criação.
- Contravenção (Lei nº 3.688/41): prisão simples e multa ou
- Restritiva: deve-se reduzir o alcance da palavra da lei, para
só multa. Caráter preventivo, visando a Lei das Contravenções Pe-
que a intenção do legislador seja alcançada pelo aplicador.
nais a coibir condutas conscientes que possam trazer prejuízo a al-
- Extensiva: amplia-se o alcance da palavra da lei para corres-
ponder à intenção do legislador. Nesse caso, o alcance da palavra é guém. Ex.: omissão de cautela na guarda ou condução de animais.
ampliado, para que o tipo penal não fique sem aplicação.
- Analógica: na interpretação analógica, o significado que se ESTRUTURA DO CRIME
busca é extraído do próprio dispositivo, porque existe uma norma
para ser aplicada ao caso concreto, no entanto são levadas em con- A estrutura do crime, bem como de seus requisitos, sofre pro-
sideração expressões genéricas e abertas utilizadas pelo legislador. funda diferenciação de acordo com a teoria que se adote em relação
à conduta, que é o primeiro elemento componente do fato típico.
INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA x INTERPRETAÇÃO Assim, uma vez adotada a teoria clássica (causal ou naturalista),
ANALÓGICA a teoria finalista da ação, ou a teoria constitucionalista do delito,
haverá grandes divergências acerca do significado dos temas que
A interpretação extensiva não se confunde com a interpretação envolvem a conduta, dolo, culpa e culpabilidade.
analógica; na interpretação analógica, o significado que se busca é
extraído do próprio dispositivo, pois existe norma a ser aplicada ao TEORIA TRIPARTITE – Corrente Majoritária:
caso concreto, levando em conta as expressões genéricas e abertas →Fato típico
consideradas pelo legislador. Em ambos os tipos de interpretação →Antijurídico
já existem normas para o caso concreto, mas na extensiva amplia- →Culpável
-se o alcance da expressão, já na analógica o legislador exemplifica
e, ao final, fecha a expressão de forma genérica, permitindo ao A conduta é tratada como simples exteriorização de movimen-
julgador encontrar outros exemplos. tos ou abstenção de comportamento, desprovida de qualquer finali-
As hipóteses de interpretação acima expostas não se confun- dade. Corresponde a teoria clássica (causal ou naturalista), que
dem com a ANALOGIA, que é regra de INTEGRAÇÃO, não in- teve sua origem no tratado de Fraz von Liszt.
terpretação. Na analogia, o recurso é diferente: não existe uma nor-

Didatismo e Conhecimento 7
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Para essa teoria o crime tem a seguinte estrutura: Importante: O inimputável é absolvido nas duas correntes,
1) Fato típico, que tem o seguintes elementos: aplicando não pena, mas, Medida de Segurança.
a) conduta (na qual não interessa a finalidade do agente);
b) resultado; Classificação dos Crimes
c) nexo causal; Classificar os crimes significa reuni-los em grupos que con-
d) tipicidade. tam com determinada característica idêntica. Por exemplo, a cate-
goria dos crimes instantâneos reúne todas as infrações penais que
2) Antijuridicidade. Cometido um fato típico presume-se ser se consumam em um momento determinado. Como cada crime
ele antijurídico, salvo se ocorrer uma das causas excludentes de conta com diversos aspectos, também poderá ser incluído simulta-
ilicitude previstas na lei. neamente em diversas classificações. Dessa maneira, o homicídio
é crime comum no tocante à qualificação do sujeito ativo e crime
3) Culpabilidade, composta pelos seguintes elementos: material quanto ao resultado naturalístico. A seguir, serão expostas
a) Imputabilidade; as principais classificações.
b) Exigibilidade de conduta diversa;
c) Dolo e culpa. - Quanto ao momento da consumação:
Crimes instantâneos são aqueles em que a consumação
O dolo é normativo, possuindo os seguintes requisitos: acontece em um momento determinado, único; não importando a
- Consciência da conduta e do resultado; quantidade de atos cometidos. Ex: a lesão corporal (art. 129) se
- Consciência do nexo de causalidade; consuma no momento em que a integridade física ou a saúde da
- Consciência da antijuridicidade; vítima é atingida.
- Vontade de realizar a conduta e produzir o resultado. Crimes permanentes ou contínuos são aqueles em que a
consumação se prolonga no tempo de acordo com a vontade do
Observações: agente. Ex: extorsão mediante sequestro (art. 159), que ocorre en-
*A culpabilidade é limite e fundamento de aplicação da pena. quanto a vítima estiver sob o poder do sequestrador. De acordo
*O  inimputável  não  comete  crime,  mas  pode  receber  Medi- com Guilherme de Souza Nucci, existem dois critérios para a iden-
da de Segurança. tificação do crime permanente:
a) o bem jurídico afetado é imaterial (Ex: saúde pública, liber-
dade individual, etc);
TEORIA BIPARTITE – Corrente Minoritária:
b) normalmente é realizado em duas fases, a primeira, comis-
→Fato típico
siva, e a segunda, omissiva (sequestra-se uma pessoa através de
→Antijurídico
uma ação, mantendo-a no cativeiro por omissão).
Nos crimes instantâneos de efeitos permanentes a consuma-
A conduta é o comportamento humano, voluntário e cons- ção ocorre em um momento determinado, mas seus efeitos per-
ciente (doloso ou culposo) dirigido a uma finalidade. Corresponde manecem no tempo. Ex: o homicídio (art. 121) se consuma no
à teoria finalista que teve origem com Hans Weltel. momento da morte da vítima, mas sua consequência é irreversível.
O crime, para essa teoria, é um fato típico e antijurídico e, em
suma, tem a seguinte estrutura: - Quanto à conduta
As condutas proibidas pela lei penal podem ser positivas ou
1) Fato típico, que possui os seguintes elementos: negativas, ou seja, constituem uma ação ou uma omissão.
a) conduta dolosa ou culposa. O dolo é natural, pois deixa de Via de regra, a lei exige para a configuração do crime um
integra a culpabilidade, passando a integrar o fato típico, tendo comportamento ativo do agente: matar, no homicídio (art. 121);
apenas os seguintes elementos: subtrair, no furto (art. 155); lesionar, na lesão corporal (art. 129).
- Consciência da conduta e do resultado; Esses crimes são chamados de comissivos.
- Consciência do nexo causal; Porém, em algumas ocasiões a lei proíbe condutas negativas,
- Vontade de realizar a conduta e provocar o resultado. ou seja, para a ocorrência do crime é necessária à omissão de um
comportamento que o agente poderia e deveria fazer.
b) resultado Se esse dever de agir de referir à generalidade das pessoas,
c) nexo causal teremos o crime omissivo próprio, puro ou simples. Nesse caso,
d) tipicidade temos um crime de mera conduta: basta à ausência de ação para a
consumação do crime, que ocorre no primeiro momento em que o
2) Antijuridicidade. Não houve modificações em relação à agente poderia agir e não agiu. O crime omissivo próprio também
teoria clássica. é crime de perigo, por isso, sua existência independe da ocorrência
de dano. Ex: a omissão de socorro (art. 135) se consuma no primei-
A culpabilidade, que não é requisito do crime, é composta dos ro momento em que o agente poderia socorrer a pessoa em perigo
seguintes elementos: e não o faz. O crime estará consumado mesmo que ele mude de
a) imputabilidade ideia e volte posteriormente para socorrer a vítima e mesmo que a
b) exigibilidade de conduta diversa; vítima não sofra nenhuma lesão.
c) potencial consciência da ilicitude. Existem situações em que o agente tem o dever de evitar o
resultado lesivo ao bem jurídico protegido, assumindo o papel de
Observações: garantidor da não ocorrência da lesão. Nesses casos, temos os cri-
*A culpabilidade é pressuposto de aplicação da pena. mes omissivos impróprios, qualificados, comissivos por omissão
*O inimputável comete crime, mas não tem culpabilidade, ou comissivo-omissivos. A posição de garantidor pode ocorrer nas
não tendo pena e sim Medida de Segurança. seguintes situações previstas no art. 13, § 2º:

Didatismo e Conhecimento 8
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
a) o agente tem a obrigação legal de cuidado, proteção e vigi- àqueles que lesam esses bens. Assim, quem pratica homicídio (art.
lância (ex: pais com relação aos filhos menores); 121) lesa o bem jurídico “vida” e deve receber uma pena que varia
b) quem assumiu a responsabilidade de evitar o resultado (ex: entre 6 e 30 anos. Os crimes de dano constituem a generalidade
salva-vidas com relação aos banhistas em uma piscina); dos casos e só se consumam com a efetiva lesão ao bem protegido.
c) quem criou o risco de ocorrência do resultado (ex: causador Porém, em determinadas situações, a lei penal antecipa a pro-
de um incêndio com relação às vítimas deste). Os crimes omissivos teção aos bens jurídicos incriminando as condutas que simples-
impróprios não estão previstos expressamente na lei, utilizando-se mente colocam em risco esses bens. Para a configuração do crime,
da definição típica dos crimes comissivos. São crimes materiais, a lei requer apenas a probabilidade de dano e não a sua ocorrência
pois sempre requerem a existência de um resultado naturalístico. efetiva. Trata-se dos crimes de perigo, que se dividem em:
Parte da doutrina considera que existem também os crimes a) Crimes de perigo concreto: só se caracterizam se houver,
omissivos por comissão: existe uma ordem legal de atuar, mas o no caso, a comprovação do risco ao bem protegido. O tipo penal
agente impede que outrem execute essa ordem. Ex: marido impede requer a exposição a perigo da vida ou da saúde de outrem. Ex:
a intervenção médica que salvaria a vida da mulher. Tal como nos crime de maus-tratos (art. 136).
crimes comissivos, existe nexo causal entre a conduta e o resultado b) Crimes de perigo abstrato ou presumido: o risco ao bem
e é possível a tentativa. jurídico protegido é presumido de modo absoluto (presunção juris
Por fim, denominam-se crimes de conduta mista aqueles que et de jure) pela norma, não havendo necessidade de sua comprova-
têm uma fase inicial positiva e uma posterior omissão. Ex: apro- ção no caso concreto. Ex: omissão de socorro (art. 135). Parte da
priação indébita de coisa achada (art. 169, parágrafo único): o doutrina considera que os crimes de perigo abstrato são inconstitu-
agente primeiramente se apodera da coisa achada (conduta comis- cionais, por violarem os princípios da lesividade e da intervenção
siva) e posteriormente deixa de devolvê-la no prazo de quinze dias mínima.
(conduta omissiva). c) Crimes de perigo individual: são aqueles que colocam em
risco bens jurídicos de pessoas determinadas. Estão previstos nos
- Quanto ao resultado naturalístico artigos 130 a 137 do CP.
Todos os crimes lesionam ou põem em risco bens jurídicos. d) Crimes de perigo comum ou coletivo: colocam em risco
Esse é o resultado jurídico ou normativo, indispensável na consu- número indeterminado de pessoas. Estão previstos nos arts. 250 a
mação de todos os crimes. 259 do CP.
Alguns crimes têm como consequência outra espécie de e) Crimes de perigo atual e de perigo iminente: o Código
resultado, denominado naturalístico: é a modificação da realidade Penal utiliza tais expressões nos arts. 24 (estado de necessidade
física. Tais crimes só se consumam se ocorrer essa alteração - perigo atual) e 132 (perigo para a vida ou a saúde de outrem - pe-
material, por isso são conhecidos como crimes materiais ou de re- rigo iminente). Porém, tal distinção é equivocada, pois o perigo é
sultado. Assim, o homicídio se consuma dom a morte da vítima e sempre atual, iminente só pode ser o dano. Não é possível precisar
o furto com a retirada do bem da posse da vítima. Só se pode falar a situação imediatamente anterior ao risco. Nesse sentido o magis-
em nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (CP, art. 13) tério de Guilherme de Souza Nucci:
nos crimes materiais. “O perigo iminente é uma situação quase impalpável e im-
Os crimes formais se consumam com a simples prática da perceptível (poderíamos dizer, penalmente irrelevante), pois falar
conduta prevista em lei. O resultado, apesar de também ser previs- em perigo já é cuidar de uma situação de risco, que é imaterial,
to em lei, é dispensável para a consumação do crime e configura fluida, sem estar claramente definida. Se o perigo atual é um risco
mero exaurimento dele. Por isso, são chamados também de cri- de dano, perigo iminente é a possibilidade de colocar uma pessoa
mes de consumação antecipada. Assim, a concussão (art. 316) se em estágio imediatamente anterior àquele que irá gerar o risco de
consuma com a exigência, pelo funcionário público, de vantagem dano, ou seja, sem a concretude e a garantia exigidas pelo Direito
indevida. O efetivo recebimento da vantagem é mero exaurimento Penal.”
do crime que apenas influi na fixação da pena. A distinção entre - Quanto ao sujeito ativo
consumação e exaurimento é essencial quando se trata de prisão Crimes comuns são aqueles que podem ser cometidos
em flagrante, que só é possível no momento da consumação. No por qualquer pessoa, não havendo necessidade de qualificação
exemplo acima, o funcionário público só pode ser preso em fla- especial. Exs: homicídio, lesão corporal e furto.
grante no momento da exigência, nunca no recebimento do valor Crime Político é aquele que lesa, ou pode lesar, a soberania, a
indevido. integridade, a estrutura constitucional ou o regime político do Bra-
Os crimes de mera conduta ou de simples atividade também sil. É a infração que atinge a organização do Estado como um todo,
se consumam com a simples prática do ato. Ao contrário dos cri- minando os fundamentos dos poderes constituídos. Ex.:O crime
mes formais, não chega a haver previsão legal de qualquer resul- contra a segurança externa do Estado constitui crime político.
tado naturalístico. Desse modo, a calúnia (art. 138) afeta a honra Os crimes próprios ou especiais só podem ser cometidos por
objetiva da vítima (bem jurídico), mas não modifica a realidade pessoas que contem com determinada qualificação. De acordo com
física. Todos os crimes omissivos próprios (tratados no próximo Damásio Evangelista de Jesus, essa qualificação pode ser «jurídica
item) são delitos de mera conduta. Os crimes de mera conduta são (acionista, funcionário público); profissional (comerciante,
uma subdivisão dos crimes formais e por isso também são chama- empregador, empregado, médico, advogado); de parentesco (pai,
dos de crimes puramente formais. A jurisprudência costuma utili- mãe, filho); ou natural (gestante, homem)”. Assim, o auto- aborto
zar indistintamente os dois termos. (CP, art. 124) só pode ser cometido pela gestante e o infanticídio
(art. 123) é praticado pela mãe.
- Quanto ao momento da proteção ao bem jurídico Os crimes funcionais são uma espécie de crimes próprios,
A função primordial do Direito Penal é proteger os bens jurídi- pois só podem ser cometidos por funcionários públicos, tal como
cos considerados essenciais para a sociedade e os indivíduos (vida, definidos no art. 327 do Código Penal. Crimes funcionais próprios
liberdade, patrimônio, honra etc). Para isso, são cominadas penas são aqueles cuja ausência da qualidade de funcionário público tor-

Didatismo e Conhecimento 9
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
na o fato atípico (ex: prevaricação - art. 319). Já nos crimes funcio- Comum, já que sua pena máxima é superior a dois anos. Exs: furto
nais impróprios ou mistos, a ausência dessa qualidade faz com que simples (art. 155, caput) e injúria qualificada pelo preconceito (art.
o fato seja enquadrado em outro tipo penal (ex: concussão - art. 140, 3º).
316; se o sujeito ativo não for funcionário público, o crime é de Crimes de alto potencial ofensivo são aqueles cuja pena
extorsão - art. 158). mínima é superior a um ano, não sendo cabível a suspensão
Os crimes de mão própria ou de atuação especial só podem condicional do processo. Aplica-se na totalidade os institutos do
ser cometidos pessoalmente pelo sujeito ativo, sem a possibilidade Código Penal.
de que terceiro aja em seu lugar. Existe a possibilidade de Crimes hediondos são aqueles considerados de altíssimo
participação, mas não de coautoria. Assim, somente a testemunha potencial ofensivo e por isso o réu e o condenado sofrem diversas
em pessoa pode ser autora do crime de falso testemunho (art. restrições no curso do processo e do cumprimento da pena. De
342), não podendo pedir que terceiro o faça em seu lugar, mas o acordo com a Lei nº 8.072 de 25 de julho de 1990, são considera-
terceiro pode influenciá-la a mentir, respondendo pelo crime como dos hediondos os seguintes crimes: homicídio, quando praticado
partícipe. Diferenciam-se dos crimes próprios, em que o sujeito em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido
ativo específico pode utilizar-se de outra pessoa em sua execução. por um só agente, e homicídio qualificado; latrocínio; extorsão
Ex: o funcionário público pode determinar a um particular que co- qualificada pela morte; extorsão mediante sequestro; estupro;
meta o crime de peculato (art. 312). atentado violento ao pudor; epidemia com resultado morte; falsi-
ficação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado
- Quanto ao bem jurídico tutelado a fins terapêuticos ou medicinais e genocídio. Os crimes equipara-
a) Crime simples: protegem um único bem jurídico. Ex.: no dos a hediondos têm o mesmo tratamento legal e são os seguintes:
furto, protege o patrimônio. prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins
b) Crime complexo: surgem quando há fusão de dois ou mais e o terrorismo.
tipos penais, ou quando o tipo penal funciona como qualificadora
de outro. A norma penal tutela dois ou mais bens jurídicos. Ex.: - Quanto ao elemento subjetivo (moral):
no latrocínio (art. 157, §3) é um roubo qualificado pela morte e, a) doloso: quando o agente quis o resultado ou assumiu o ris-
assim, atinge também dois bens jurídicos, o patrimônio e a vida. co de produzi-lo (art. 18, I). Pode ser, dolo eventual, genérico ou
específico.
- Quanto à espécie de pena: b) culposo: quando o agente deu causa ao resultado por im-
A Constituição prevê em seu art. 5º, XLVI, um rol de penas a
prudência, negligência ou imperícia (art 18, II). A culpa é a viola-
serem impostas àqueles que cometem infrações penais: privação
ção do dever de cuidado, que é o dever que todas as pessoas devem
ou restrição de liberdade, perda de bens, multa, prestação social
ter. É o dever imposto às pessoas de razoável diligência.
alternativa e suspensão ou interdição de direitos. Considerando
c) preterdoloso: dolo no antecedente, culpa no resultado. O
que esse rol é exemplificativo, ao legislador cabe cominar as penas
que considerar mais convenientes, devendo somente se ater às ve- agente alcança um resultado mais grave do que queria. Por exem-
dações constantes do 5º, XLVII: pena de morte (salvo em caso de plo, art. 129 § 3º - lesão corporal seguido de morte.
guerra declarada), de caráter perpétuo, de trabalhos forçados, de d) qualificado pelo resultado: ocorrem quando o legisla-
banimento e cruéis. dor, após descrever uma figura típica fundamental, acrescenta um
Considerando as penas aplicáveis, o art. 1º da Lei de Introdu- resultado que tem por finalidade aumentar a pena. Dolo + dolo.
ção ao Código Penal (Decreto-Lei 2.848 /1940) definiu a divisão Exemplo: art. 121 § 2º.
básica das infrações penais: crimes (ou delitos) e contravenções
(ou crimes-anões). Aos crimes são cominadas as penas de reclusão - Quanto à completa realização
e detenção, cumuladas ou não com multa, enquanto que a pena das a) consumado (art. 14, I): quando alcança o resultado, ou
contravenções poderia ser de prisão simples ou de multa, aplicadas seja, quando o sujeito realiza a descrição da conduta física. Pelo
isolada ou cumulativamente. princípio da alternatividade, se realizou um verbo ou outro da con-
duta já é suficiente para configurar a tipicidade.
- Quanto ao potencial ofensivo b) tentado (art. 14, II): quando, por circunstâncias alheias à
Crimes de bagatela são aquelas condutas que atingem o vontade do agente, o crime não ocorre.
bem jurídico protegido de modo tão desprezível que a lesão é c) Desistência voluntária: quando o autor da conduta, por
considerada insignificante (exs: subtração de uma maçã em uma fato inerente à sua vontade, não comete a conduta ou desiste dela.
rede de supermercados ou um arranhão que cicatriza em poucos O autor responde pelos atos praticados. Dica: é o arrependimento
minutos). Nesses casos, torna-se desproporcional qualquer atua- do que está fazendo (art. 15).
ção repressiva, considerando-se o fato cometido como um indife- d) Arrependimento eficaz: é o arrependimento do que já fez.
rente penal. Por exemplo: atira em uma pessoa e se arrepende, levando a vítima
As infrações penais de menor potencial ofensivo são para ser socorrida a tempo de sobreviver.
definidas na Lei de Juizados Especiais (art. 61 , com a redação e) Arrependimento posterior: só é possível nos casos de
dada pela Lei 11.313 , de 28 de junho de 2006) como sendo todas crime sem violência ou grave ameaça e até o recebimento da
as contravenções e os crimes cujo pena máxima não ultrapasse denúncia ou queixa, por parte do Ministério Público; reparar o
dois anos. Para esses crimes se aplicam na íntegra os institutos dano ou restituir a coisa.
despenalizantes da lei, como a composição dos danos civis (arts. f) Crime impossível: quando, por absoluta ineficácia do meio
72 a 75), transação penal (art. 76) e suspensão condicional do pro- empregado ou absoluta impropriedade do objeto, é impossível
cesso (art. 89). consumar o crime.
As infrações penais de médio potencial ofensivo são aquelas
que admitem suspensão condicional do processo, pois têm pena Obs.: há crimes que não possuem o tipo tentado, por exemplo,
mínima igual ou inferior a um ano, mas são julgados pela Justiça os crimes culposos e os unissubsistentes;

Didatismo e Conhecimento 10
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
- Quanto ao fracionamento da conduta: A pedra angular da Teoria do Delito, analisa Bitencourt (p.
Crimes Unissubsistente - não tem como fragmentar essa 286), é a conduta (ação ou omissão), algo exclusivo do ser huma-
conduta; ela ocorre em um único momento. Por exemplo: injúria no: “A capacidade da ação, de culpabilidade, exige a presença de
(art 140). uma vontade, entendida como faculdade psíquica da pessoa indi-
Crimes Plurissubsistente - comportamento fragmentado; vidual, que somente o ser humano pode ter.”
percebe-se claramente as fases do iter criminis. O sujeito ativo é a pessoa definida na norma como possível
autora do ilícito penal e que é, via de regra, pessoa física. “Sujeito
- Outras definições de crime: ativo, autor, ou agente, é todo aquele que realiza a ação ou omis-
Crimes unissubjetivos (ou monossubjetivos, ou de concurso são típica, nos delitos dolosos ou culposos. Ou seja, é aquele cuja
eventual): são aqueles que podem ser praticados por apenas um atividade é subsumível ao tipo legal incriminador”, define Luiz
sujeito, entretanto, admite-se a coautoria e a participação. Régis Prado, em Curso de Direito Penal Brasileiro – Volume 1
Crimes plurissubjetivos  (ou de concurso necessário): são Parte Geral (p. 258).
aqueles que exigem dois ou mais agentes para a prática do delito “O conceito abrange não só aquele que pratica o núcleo da
em virtude de sua conceituação típica. Eles subdividem-se em três figura típica (quem mata, subtrai etc.), como também o partícipe,
espécies de acordo com o “modus operandi”: crimes de condutas que colabora de alguma forma na conduta típica, sem, contudo,
paralelas (quando há colaboração nas ações dos sujeitos); crimes executar atos de conotação típica, mas que de alguma forma, sub-
de condutas convergentes (onde as condutas encontram-se so- jetiva ou objetivamente, contribui para a ação criminosa”, comple-
mente após o início da execução do delito, pois partem de pontos menta Fernando Capez, em Curso de Direito Penal – parte geral
opostos) e crimes de condutas contrapostas (onde as condutas Volume 1 (p. 167).
desenvolvem-se umas contra as outras). Conforme a posição no processo, ensina Capez (p. 168), o
Crimes de dupla subjetividade passiva: quando dois sujeitos sujeito ativo pode ser chamado de agente (art. 14, II, do Código
são afetados com o mesmo ato; possui pluralidade de vítimas. Ex.: Penal), indiciado (art. 5º, § 1º, b, do Código de Processo Penal),
violação de correspondência, previsto no artigo 151 do Código acusado (art. 185, CPP), denunciado, querelado (art. 51, CPP), réu
Penal, apresenta duas vítimas, quais sejam, o destinatário e o re- (art. 34, CP; art. 188, CPP), sentenciado, condenado (art. 34, CP),
metente. recluso, ou detento. Quando estudado pelas ciências criminais, é
Crimes progressivos: ocorrem quando o sujeito, para alcan- criminoso ou delinquente.
çar um resultado mais grave, comete um crime menos grave. Ex.: Complementam Paulo José da Costa Júnior e Fernando José
para causar a morte da vítima, o agente necessariamente tem de da Costa, em Curso de Direito Penal (p. 115): “Por vezes, o sujei-
lesioná-la. to-agente deverá ser qualificado, ocupando determinada posição
Crime simples: como ele é definido no código penal. social, ou dotado de certo status, como por exemplo ser funcioná-
Crime privilegiado: crime com atenuantes, o legislador esta- rio público no peculato, cônjuge na bigamia, ou desfrutar de deter-
belece circunstâncias que tem o condão de reduzir a pena. minada situação fática, como a mulher grávida no aborto. Nessas
Crime qualificado: crime com agravantes que alteram a pena hipóteses apresenta-se a figura do crime-próprio, que se contra-
para patamar mais elevado. põe àquela do crime comum, que pode ser praticado por qualquer
Crime de ação múltipla: o que tem mais de um verbo/núcleo, pessoa, qualificada ou não. Costuma-se distinguir o crime próprio
por exemplo: tráfico (portar, guardar, vender...). exclusivo, em que a execução importa na intervenção pessoal do
Crime principais: são aqueles que não dependem de qualquer agente designado pela lei, do crime próprio não exclusivo, que ad-
outra infração penal para que se configurem. Ex.: homicídio, furto etc. mite a figura do extraneus (estranho, terceiro), que age em concur-
Crime acessórios: são aqueles que pressupõe a ocorrência de so com o sujeito qualificado.”
um delito anterior. Ex.: receptação (art. 180), que só se configura Cabe fazer alguns adendos, ainda no tocante ao assunto sujeito
quando alguém adquire, recebe, oculta, conduz ou transporta coisa ativo, em termos de Direito Penal. É autor quem realiza ou executa
que sabe ser produto de (outro) crime. o núcleo do tipo penal. O coautor realiza conjuntamente a conduta
Delito Putativo: dá-se quando o agente imagina que a condu- criminosa com o autor. O partícipe colabora com o crime sem rea-
ta por ele praticada constitui crime, mas, em verdade, é um fato lizar ou executar o núcleo do tipo. O partícipe moral faz nascer a
atípico. ideia (induz) ou reforça a ideia para realizar o ato criminoso.

Sujeito passivo
6. SUJEITO ATIVO E SUJEITO PASSIVO DA
INFRAÇÃO PENAL. O sujeito passivo do crime – o ofendido, ou vítima – é “titular
do bem jurídico tutelado pela norma penal, que vem a ser ofendido
pelo crime”, ensinam Paulo José da Costa Júnior e Fernando José
da Costa (p. 115). O Estado é o sujeito passivo constante de todo
o crime pelo fato de a Lei Penal situar-se no ramo predominan-
Sujeito ativo temente público, enquanto a pessoa que teve o bem diretamente
atingido pelo crime é o sujeito passivo variável.
No Direito Penal, sujeito ativo é quem pratica a conduta (ação Também não se pode confundir sujeito passivo do crime com
ou omissão) criminosa. Há de ser o crime uma ação humana, afir- sujeito passivo da ação, alertam Paulo José da Costa Júnior e Fer-
ma Cezar Roberto Bitencourt – em Tratado de Direito Penal – Vo- nando José da Costa, visto que sujeito passivo da ação é aquele
lume 1 Parte Geral (p. 286), que tenha como sujeito ativo o ser sobre o qual recai materialmente a ação ou omissão criminosa.
vivo nascido de mulher, “embora em tempos remotos tenham sido “Também não se confunde o sujeito passivo com aquele que su-
condenados, como autores de crimes, animais, cadáveres e até es- porta o dano. No homicídio, sujeito passivo é o morto; sofrem o
tátuas”. dano os familiares. Assume relevo o sujeito passivo sob diversas

Didatismo e Conhecimento 11
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
angulações, inclusive qualificando o interesse jurídico tutelado, b) Omissão (comportamento negativo): abstenção, um não
como no crime de desacato, que constitui hipótese particular de fazer. A omissão por sua vez, pode dar origem a duas espécies de
injúria caracterizada pelo fato de que o ofendido é um funcionário crimes:
público (art. 331 do CP).” (p. 115) b1) Omissivos próprios ou puros: nos quais inexiste um de-
Em resumo: Sujeito passivo constante (geral, genérico, for- ver jurídico de agir, ou seja, não há uma norma impondo um dever
mal, mediato, ou indireto) é o Estado, titular do “jus puniendi”. de fazer. Assim, só existirá essa espécie de delito omissivo quando
Sujeito passivo variável (particular, material, acidental, eventual o próprio tipo penal descrever uma conduta omissiva. Ex.: crime
ou direto) é a pessoa física (crimes contra a pessoa, por exem- de omissão de socorro (art. 135).
plo) ou jurídica (crimes contra o patrimônio, por exemplo) vítima b2) Omissivos impróprios ou comissivos por omissão: são
da lesão ou ameaça de lesão. O sujeito passivo também pode ser aqueles para os quais a lei impõe um dever de agir e, assim, o
indeterminado (coletividade – crimes contra a saúde pública - e não agir constitui crime, na medida em que leva à produção de um
família, por exemplo). resultado que o agir teria evitado. Ex.: a mãe deixa de alimentar
Podem ser sujeitos passivos o nascituro, o incapaz e o Estado seu filho causando-lhe a morte, responde por homicídio.
(crimes contra a administração pública, por exemplo). Não podem
ser sujeitos passivos, no âmbito criminal, o animal, a planta e o
DO RESULTADO: o resultado é a modificação do mundo
ser inanimado. Explica melhor Luiz Régis Prado (p. 258-259):
exterior provocada pela conduta do agente.
“Podem figurar como sujeitos passivos – vítimas, ofendidos -, a
pessoa física ou o indivíduo, mesmo incapaz, o conjunto de indiví- -Teoria sobre o resultado:
duos, a pessoa jurídica, a coletividade, o Estado ou a comunidade a) Naturalística: é a modificação que o crime provoca no
internacional, de acordo com a natureza do delito. Tem crescido mundo exterior. Pode consistir em morte, como em crime de ho-
de importância, no campo político-criminal, o papel da vítima na micídio (art. 121). Para essa teoria, é possível que haja crime sem
realização do delito. Nesse particular aspecto, encaminha-se para resultado, como nos crimes de mera conduta.
uma constante busca do ponto de equilíbrio entre liberdade indivi- b) Jurídica ou normativa: é o efeito que o crime produz na
dual e defesa social.” órbita jurídica, ou seja, a lesão ou o perigo de lesão de um interesse
Importante não confundir sujeito passivo com objeto material protegido pela lei. Por essa teoria não há crime sem resultado, pois,
do crime ou objeto material da conduta, alerta Prado (p. 259), que sem lesão (ou perigo de lesão) ao interesse tutelado, o fato seria
é “parte do mundo exterior (pessoa ou coisa) sobre a qual recai a um irrelevante penal.
ação ou omissão típica e ilícita”.
NEXO CAUSAL: é a relação natural de causa e efeito exis-
tente entre a conduta do agente e o resultado dela decorrente.
7. TIPICIDADE, ILICITUDE, Nos crimes materiais somente existe a configuração do delito
CULPABILIDADE, PUNIBILIDADE. quando fica evidenciado que a conduta do agente provocou o re-
8. EXCLUDENTES DE ILICITUDE E sultado, ou seja, quando fica demonstrado o nexo causal.
DE CULPABILIDADE. Nos crimes formais e nos crimes de mera conduta não se exige
o nexo causal, uma vez que esses crimes dispensam a ocorrência
de qualquer resultado naturalístico e, assim, não há que se pensar
em nexo de causalidade entre a conduta e resultado.
O fato típico é o primeiro requisito do crime. Consiste no fato
que se amolda no conjunto de elementos descritivos contidos na RELAÇÃO DE CAUSALIDADE
lei penal.
Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime,
ELEMENTOS DO FATO TÍPICO somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a
ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido.
O fato típico é composto dos seguintes elementos:
- conduta dolosa ou culposa; No campo penal, a doutrina aponta três teorias a respeito da
- resultado (nos crimes materiais); relação de causalidade:
- nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (nos cri- a) Da equivalência das condições ou equivalência dos an-
mes materiais); tecedentes ou conditio sine que non: Segundo a qual quaisquer
- tipicidade (enquadramento do fato material a uma norma das condutas que compõem a totalidade dos antecedentes é causa
penal). do resultado, como, por exemplo, a venda lícita da arma pelo co-
merciante que não tinha ideia do propósito homicida do crimino-
CONDUTAS E ATOS: conduta é a materialização da von- so comprador. Contudo, recebe críticas por permitir o regresso ao
tade humana, que pode ser executada por um único ou por vários infinito já que, em última análise, até mesmo o inventor da arma
atos. O ato, portanto, é apenas uma parte da conduta. Ex.: é possí- seria causador do evento, visto que, se arma não existisse, tiros
vel matar a vítima (conduta) por meio de um único ato (um disparo não haveria;
mortal) ou de vários atos (vários golpes no corpo da vítima). b) Da causalidade adequada: Considera causa do evento
apenas a ação ou omissão do agente apta e idônea a gerar o resul-
-Formas de conduta: tado. Segundo o que dispõe essa corrente, a venda lícita da arma
a) Ação (comportamento positivo): fazer, realiza algo. Nes- pelo comerciante não é considerada causa do resultado morte que
sa hipótese, a lei determina um não fazer, e o agente comete o
o comprador produzir, pois vender licitamente a arma, por si só,
delito justamente por fazer o que a lei proíbe.
não é conduta suficiente a gerar a morte.

Didatismo e Conhecimento 12
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
c) Da imputação objetiva: Pela qual, para que uma condu- b) que a causa superveniente seja relativamente independen-
ta seja considerada causa do resultado é preciso que: 1) o agente te da conduta do agente, isto é, mantenha relação com a conduta
tenha, com sua ação ou omissão, criado, realmente, um risco não inaugurada pelo autor;
tolerado nem permitido ao bem jurídico; ou 2) que o resultado não c) que a causa superveniente independente produza o resulta-
fosse ocorrer de qualquer forma, ou; 3) que a vítima não tenha con- do por si só, isto é, seja causa bastante para a produção do resul-
tribuído com sua atitude irresponsável ou dado seu consentimento tado.
para a ocorrência do resultado.
Exemplo: Telma ministra veneno mortal a Clarice, que, socor-
A teoria adotada pelo Código Penal: “O resultado, de que rida por uma equipe de médicos e enfermeiros, vem a morrer, pou-
depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe cos minutos após a ingestão da substância, em função de acidente
deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o sofrido pela ambulância a caminho do hospital.
resultado não teria ocorrido”. Encontram-se aqui todas as características elencadas acima:
Ao dispor que causa é a ação ou omissão sem a qual o re- a) o acidente com a ambulância que transportava Clarice ocor-
sultado não teria ocorrido, nota-se que Código adotou a teoria da reu após a ingestão do veneno ministrado por Telma (superveniên-
equivalência das condições ou conditio sine qua non. cia);
Para se aferir se determinada conduta é causa ou não de um b) o acidente não teria acontecido se Clarice não tivesse sido
resultado, deve-se fazer o juízo hipotético de eliminação, que con- envenenada por Telma (independência relativa);
siste na supressão mental de determinada ação ou omissão dentro c) as lesões causadas pelo acidente foram determinantes para
de toda a cadeia de condutas presentes no contexto do crime. Se, a morte de Clarice (“por si só”).
eliminada, o resultado desaparecer, pode-se afirmar que aquela Dessa forma: Telma responderá pelos fatos que praticou, qual
conduta é causa. Caso contrário, ou seja, se a despeito de suprimi- seja, tentativa de homicídio.
da, o resultado ainda assim existir, não será considerada conduta. Não obstante, caso somente aplicássemos o caput do art. 13 ao
Atente-se para o fato de que ser causa do resultado não é bas- caso em tela, Telma seria responsável pela morte de Clarice uma
vez que, eliminando-se o envenenamento, o acidente da ambulân-
tante para ensejar a responsabilização penal. É preciso, ainda, ve-
cia, que provocou a morte de Clarice, não teria ocorrido; logo é
rificar se a conduta do agente considerada causa do resultado foi
causa.
praticada mediante dolo ou culpa, pois nosso Direito Penal não
Contudo, vejamos outros exemplos:
se coaduna com a responsabilidade objetiva, isto é, aquela que se
a) Telma, mesmo sabendo ser Clarice é cardiopata, tendo cer-
contenta com a demonstração do nexo de causalidade, sem levar
teza de que sua conduta não virá a provocar sua morte, aplica, em
em conta o elemento subjetivo da conduta. Clarice, um terrível susto, vindo esta a falecer vítima de um infarto
Portanto, dizer que alguém causou o resultado não basta para fulminante;
ensejar a responsabilidade penal. É mister ainda que esteja pre- b) Telma, não sabendo ser Clarice cardiopata, ministra-lhe re-
sente o elemento subjetivo (dolo ou culpa) nessa conduta que foi médio para lhe descongestionar as vias respiratórias, porém acaba
causa do evento. por lhe acelerar o batimento cardíaco e Clarice vem a sofrer um
O art. 13 caput aplica-se, exclusivamente, aos crimes mate- infarto fulminante;
riais porque, ao dizer “o resultado, de que depende a existência c) Telma, sabendo ser Clarice cardiopata e desejando o resul-
do crime”, refere-se ao resultado naturalístico da infração penal tado morte, a expõe, deliberadamente, a situação de alta tensão
(aquele que é perceptível aos sentidos do homem e não apenas ao emocional (criada por ela mesma, Telma), vindo Clarice a sofrer
mundo jurídico), e a única modalidade de crime que depende da um infarto fulminante.
ocorrência do resultado naturalístico para se consumar (existir) é Para cada uma dessas situações, teríamos uma situação jurídi-
o material, como por exemplo; o homicídio (121 CP), em que a co-penal distinta para Telma. No primeiro exemplo, a conduta de
morte da vítima é o resultado naturalístico. Telma poderia ser tipificada como homicídio culposo; no segundo
Aos crimes formais (exemplo; concussão - 316 CP) e os de caso, não haverá crime; na terceira hipótese, haveria homicídio
mera conduta (exemplo; violação de domicílio - 150 CP), o art. doloso.
13 caput não tem incidência, pois prescindem da ocorrência do Note-se que em todas as soluções apresentadas, o simples es-
resultado naturalístico para existirem. tabelecimento do nexo de causalidade entre a conduta de Telma e o
resultado “morte de Clarice” não são suficientes para resolvermos
SUPERVENIÊNCIA DE CAUSA INDEPENDENTE o problema. Há de se analisar, como estabelece a doutrina, os de-
mais elementos do fato típico (além do nexo de causalidade e do
§ 1º - A superveniência de causa relativamente independente resultado morte).
exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os Cabe ainda analisarmos se a conduta humana é dolosa ou cul-
fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. posa e, também, a subsunção do fato à norma penal incriminadora
- tipicidade.
O parágrafo primeiro do art. 13 nos diz que: “a superveniên- Voltemos aos nossos exemplos: no primeiro caso, Telma agiu
cia de causa independente exclui a imputação quando, por si só, com culpa consciente (o agente esperava levianamente que o re-
produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se sultado não ocorresse); no segundo não houve dolo nem culpa na
a quem os praticou”. Admite, o referido mandamento legal, a in- conduta de Telma, sendo, portanto, o fato atípico; na terceira hou-
terrupção do nexo causal entre a conduta do agente e o resultado. ve dolo, com consciência e voluntariedade no preparo da situação
Nessas hipóteses, pode-se dizer que existe uma concausa, ou seja, que causou o resultado morte.
a conduta do agente e outra causa qualquer, quais sejam: Não restam dúvidas que soluções apoiadas exclusivamente no
a) a causa que produza o resultado seja superveniente à con- estabelecimento de um nexo de causalidade objetivo entre condu-
duta do agente, isto é, ocorra depois de sua ação; ta e resultado e na simples existência do próprio resultado, que são

Didatismo e Conhecimento 13
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
características necessárias, mas não suficientes, para se construir o A adequação típica pode dar-se de duas maneiras:
fato típico, cometem grave erro no que diz respeito a sua formação a) imediata ou direta: quando houver uma correspondência
completa. Dada a superação da Teoria Causal da conduta humana total da conduta ao tipo.
e da Responsabilidade Penal Objetiva, não poderíamos aceitar, em b) mediata ou indireta: quando a materialização da tipicida-
nenhuma das três hipóteses acima colocadas, o mesmo desfecho de exige a utilização de uma norma de extensão, sem a qual seria
jurídico-penal para Telma. Outrossim, além do fato típico, também absolutamente impossível enquadrar a conduta no tipo. É o que
a antijuridicidade e a culpabilidade são requisitos para a existên- ocorre nos casos de participação (art. 29) e tentativa (art. 14, II).
cia do crime, estendendo-se, então, a análise para conceitos como
a ilicitude do fato e sua reprovabilidade social. Os tipos penais são modelos criados pela lei, por meio dos
quais as condutas consideradas indesejáveis pelo senso comum
RELEVÂNCIA DA OMISSÃO
(de acordo com o entendimento do legislador) são descritas taxa-
§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente tivamente como crimes, com a finalidade de dar aos indivíduos a
devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incum- garantia maior do princípio da reserva legal.
be a quem: O tipo é o modelo descritivo da conduta contido na lei. O tipo
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; legal é composto de elementares e circunstâncias.
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o Elementar: Vem de elemento, que é todo componente essen-
resultado; cial do tipo sem o qual este desaparece ou se transforma em outra
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrên- figura típica.
cia do resultado. Justamente por serem essenciais, os elementos estão sempre
no caput (cabeça) do tipo incriminador (texto da lei penal), por
Da mesma forma que ação, em Direito Penal, não significa isso o caput é chamado de tipo fundamental. (Exemplo: art. 121,
“fazer algo”, mas fazer o que o ordenamento jurídico proíbe, a matar alguém. Matar é elementar do tipo).
omissão não é um “não fazer”, mas não fazer o que o ordenamento Circunstância: É aquilo que não integra a essência, ou seja,
jurídico obriga. se for retirado, o tipo não deixa de existir. As circunstâncias estão
Omissão relevante para o Direito Penal é o não cumprimento dispostas em parágrafos (ex.: qualificadoras, privilégios etc.), não
de um dever jurídico de agir em circunstâncias tais que o omiten- servindo para compor a essência do crime, mas sim para influir na
te tinha a possibilidade física ou material de realizar a atividade pena.
devida.
O crime será mais ou menos grave em decorrência da circuns-
Consequentemente, a omissão passa a ter existência jurídica
desde que preencha os seguintes pressupostos: tância, entretanto será sempre o mesmo crime (Exemplo: furto du-
 Dever jurídico que impõe uma obrigação de agir ou uma rante o sono noturno; o sono é circunstância, tendo em vista que,
obrigação de evitar um resultado proibido; se não houver, ainda assim existirá o furto).
 Possibilidade física, ou material, de agir.
O primeiro pressuposto (dever jurídico de agir ou de evitar Espécies de Elemento
um resultado lesivo) exige o conhecimento dos meios pelos quais 1) Elementos objetivos ou descritivos: são aqueles cujo sig-
o ordenamento jurídico pode impor às pessoas a obrigação de não nificado depende de mera observação. Para saber o que quer dizer
se omitir, em determinadas circunstâncias. um elemento objetivo, o sujeito não precisa fazer interpretação.
Em segundo lugar, o dever jurídico pode ser imposto ao ga- Todos os verbos do tipo constituem elementos objetivos (ex.: ma-
rantidor, ou seja, há pessoas que, pela sua peculiar posição diante tar, falsificar etc.). São aqueles que independem de juízo de valor,
do bem jurídico, recebem ou assumem a obrigação de assegurar existem concretamente no mundo (ex.: mulher, coisa móvel, filho
sua conservação. A posição de garantidor requer essencialmente etc.). Se um tipo penal possui somente elementos objetivos, ele
que o sujeito esteja encarregado da proteção ou custódia do bem oferece segurança máxima ao cidadão, visto que, qualquer que seja
jurídico que aparece lesionado ou ameaçado de agressão. o aplicador da lei, a interpretação será a mesma. São chamados
O essencial para compreender a posição de garantidor é o re- de tipo normal, pois é normal o tipo penal que ofereça segurança
conhecimento de que determinadas pessoas estabelecem um vín- máxima;
culo, uma relação especial com o bem jurídico, criando no orde-
2) Elementos subjetivos: compõem-se da finalidade espe-
namento a expectativa de que o protegerá de eventuais danos. O
Direito, então, espera a sua ação de garantia. Se não cumprir esse cial do agente exigida pelo tipo penal. Determinados tipos não se
dever, será imputado por omissão imprópria. satisfazem com a mera vontade de realizar o verbo. Existirá ele-
No Código Penal, esta regra está no artigo 13,§ 2º: a posição mento de ordem subjetiva sempre que houver no tipo as expres-
de garantidor pode emanar de: sões “com a finalidade de”, “para o fim de” etc. (ex.: rapto com fim
a) dever legal, imposto pela lei; libidinoso etc.). O elemento subjetivo será sempre essa finalidade
b) aceitação voluntária, ou seja, quando o sujeito livremente especial que a lei exige. Não confundir o elemento subjetivo do
a assume, tal como acontece, por exemplo, nos casos de contrato; tipo com o elemento subjetivo do injusto, que é a consciência do
c) ingerência, quando o sujeito, por sua conduta precedente, caráter inadequado do fato, a consciência da ilicitude;
cria a situação de perigo para o bem jurídico. 3) Elementos normativos: é exatamente o oposto do ele-
mento objetivo. É aquele que depende de interpretação para se
TIPICIDADE: É o nome que se dá ao enquadramento da extrair o significado, ou seja, é necessário um juízo de valor sobre
conduta concretizada pelo agente na norma penal descrita em o elemento. São elementos que trazem possibilidade de interpreta-
abstrato. Em suma, para que haja crime é necessário que o sujeito ções equívocas, divergentes, oferecendo um certo grau de insegu-
realize, no caso concreto, todos os elementos componentes da rança. São chamados de tipos anormais porque possuem grau de
descrição típica (definição legal do delito). incerteza, insegurança.

Didatismo e Conhecimento 14
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Existem duas espécies de elementos normativos: 1. Aplicação da Pena
- elemento normativo jurídico: é aquele que depende de inter- A tentativa é punida com a mesma pena do crime consumado,
pretação jurídica (ex.: funcionário público, documento etc. Todos reduzida de 1/3 a 2/3. O critério para essa redução é a proximidade
esses vêm definidos na lei); do momento consumativo, ou seja, quanto mais próximo chegar da
- elemento normativo extrajurídico ou moral: é aquele que consumação, menor será a redução.
depende de interpretação não jurídica (ex.: mulher “honesta”).
2. Espécies de Tentativa
CONSUMAÇÃO E TENTATIVA. Tentativa imperfeita ou inacabada: Ocorre quando a execu-
ção do crime é interrompida, ou seja, o agente, por circunstâncias
Crime consumado é aquele em que foram realizados todos alheias à sua vontade, não chega a praticar todos os atos de exe-
os elementos da definição legal. Crime exaurido é aquele em que o cução do crime.
agente já consumou o crime, mas continua atingindo o bem jurídi- Tentativa perfeita ou acabada: Também conhecida como
co. O exaurimento influi na primeira fase da fixação da pena (art. “crime falho”. Ocorre quando o agente pratica todos os atos de
59, caput, do Código Penal). execução do crime, mas o resultado não se produz por circunstân-
cias alheias à sua vontade.
Inter criminis: são as fases que o agente percorre até chegar à Tentativa branca ou incruenta: Classificação para os crimes
consumação do delito. A doutrina aponta quatro etapas diferentes contra a pessoa; ocorre quando a vítima não é atingida.
no caminho do crime: Tentativa cruenta: Classificação para os crimes contra a pes-
- Cogitação: nesta fase, o agente somente está pensando, idea- soa; ocorre quando a vítima é atingida, mas o resultado desejado
lizando, planejando a prática do crime. Nessa fase o crime é im- não acontece por circunstância alheia à vontade do agente.
punível. Tentativa idonêa: É aquela em que o sujeito pode alcançar a
- Preparação: é a prática dos atos necessários ao início da consumação, mas não consegue fazê-lo por circunstâncias alheias
execução. Não existe fato típico ainda, salvo se o ato preparatório à sua vontade. É a tentativa propriamente dita, definida no art. 14,
constituir crime autônomo. II, do Código Penal.
 - Execução: começa a agressão ao bem jurídico. Nessa fase, Tentativa inidonêa: Sinônimo de crime impossível (art. 17)
o agente inicia a realização do núcleo do tipo e o crime já se torna ocorre quando o agente inicia a execução, mas a consumação do
punível. A execução começa com a prática do primeiro ato idôneo delito era impossível por absoluta ineficácia do meio empregado
e inequívoco à consumação do crime. Ato idôneo é o capaz de ou por absoluta impropriedade do objeto material. Nesse caso, não
produzir o resultado e ato inequívoco é o que, fora de qualquer se pune a tentativa, pois a lei considera o fato atípico.
dúvida, induz ao resultado. Assim, a execução está ligada ao verbo
de cada tipo. Quando o agente começa a praticar o verbo do tipo, 3. Infrações que Não Admitem Tentativa
inicia-se a execução. Crimes culposos: Parte da doutrina admite no caso de culpa
imprópria.
- Consumação: quando todos os elementos do fato típico são Crimes preterdolosos: No caso dos crimes preterdolosos ou
realizados. preterintencionais, o evento de maior gravidade não querido pelo
A consumação nas várias espécies de crimes: agente, é punido a título de culpa. No caso de latrocínio tentado, o
a) materiais: com a produção do resultado naturalístico; resultado morte era querido pelo agente; assim, embora qualifica-
b) culposos: com a produção do resultado naturalístico; do pelo resultado, o latrocínio só poderá ser preterdoloso quando
c) de mera conduta: com a ação ou omissão delituosa; consumado.
d) formais: com a simples atividade, independente do resul- Crimes omissivos próprios: São crimes de mera conduta
tado; (exemplo: crime de omissão de socorro, artigo 135 do Código Pe-
e) permanentes: o momento consumativo se protrai no tempo; nal).
f) omissivos próprios: com a abstenção do comportamento Contravenção penal: A tentativa não é punida (artigo 4.º do
devido; Decreto-lei n. 3.688/41).
g) omissivos impróprios: com a produção do resultado natu- Delitos de atentado: São crimes em que a lei pune a tentativa
ralístico; como se fosse consumado o delito (exemplo: crime de evasão me-
h) qualificados pelo resultado: com a produção do resultado diante violência contra a pessoa, artigo 352 do Código Penal).
agravador; Crimes habituais: Tais crimes exigem, para consumação, a
i) complexos: quando os crimes componentes estejam inte- reiteração de atos que, isolados, não configuram fato típico. Inviá-
gralmente realizados; vel a verificação da tentativa, posto que uma segunda conduta já
j) habituais: com a reiteração de atos, pois cada um deles, caracteriza o delito.
isoladamente, é indiferente à lei penal. O momento consumativo Crimes unissubsistentes: Que se consumam com um único
é incerto, pois não se sabe quando a conduta se tornou um hábito, ato. Ex.: injúria verbal.
por essa razão, não cabe prisão em flagrante nesses crimes. Crimes que a lei só pune se ocorrer o resultado: Trata-se, por
exemplo, do crime de induzimento, instigação ou auxílio a suicídio
TENTATIVA (ART.14, II) (artigo 122 do Código Penal). Nesse delito, se a pessoa empresta
um revolver para outra se matar e esta não se mata, o fato é atípico,
Tentativa é a não consumação de um crime, cuja execução foi mas se ela comete o suicídio, o crime está consumado.
iniciada, por circunstâncias alheias à vontade do agente. De acordo
com o que dispõe o artigo 14, II do Código Penal. Observações: Parte da doutrina entende que os crimes for-
mais e de mera conduta não admitem tentativa. Não concordamos
com esse entendimento. O crime de ameaça, por exemplo, trata-se

Didatismo e Conhecimento 15
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
de crime formal, mas admite a tentativa no caso de ameaça por Critérios para Aplicação da Redução da Pena
escrito, em que a carta é interceptada por terceiro. Alguns crimes São dois os critérios para se aplicar a redução da pena: espon-
de mera conduta também admitem tentativa, como a violação de taneidade e celeridade. O arrependimento posterior não precisa ser
domicílio (o agente pode, sem sucesso, tentar invadir domicílio de espontâneo, mas se for a pena sofrerá maior diminuição. Também,
outrem). O crime unissubsistente comporta tentativa em alguns ca- quanto mais rápido reparar o dano, maior será a diminuição.
sos, por exemplo, quando o agente efetua um único disparo contra
a vítima e erra o alvo. Relevância da Reparação do Dano
- Cheque sem fundos: o pagamento até o recebimento da de-
TENTATIVA ABANDONADA OU QUALIFICADA núncia ou queixa extingue a punibilidade (Súmula 554 do Supre-
mo Tribunal Federal).
Ocorre quando, iniciada a execução, o resultado não se produz - Crimes contra a ordem tributária: o pagamento do tributo
por força da vontade do próprio agente. É chamada pela doutrina até o recebimento da denúncia ou queixa também extingue a pu-
de “ponte de ouro”. nibilidade.
Comporta duas espécies: desistência voluntária e arrependi- - Peculato culposo (artigo 312, § 3.º): se a reparação do dano
mento eficaz. precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é
posterior reduz de metade a pena imposta.
Desistência voluntária (art. 15, 1ª parte): O agente interrom-
- Crimes de ação penal privada ou pública condicionada à
pe voluntariamente a execução do crime, impedindo, desse modo,
a sua consumação. Ocorre antes de o agente esgotar os atos de representação (artigo74, parágrafo único, da Lei n. 9.099/95): ha-
execução, sendo possível somente na tentativa imperfeita ou ina- vendo composição civil do dano em audiência preliminar, extin-
cabada. Não há que se falar em desistência voluntária em crime gue-se o direito de queixa ou representação.
unissubsistente, visto que este é composto de um único ato.
Delação eficaz ou premiada
Arrependimento eficaz (art. 15, 2ª parte): O agente executa o Instituto distinto do arrependimento posterior é o da delação
crime até o último ato, esgotando-os, e logo após se arrepende, im- premiada, no qual se estimula a delação feita por um coator ou
pedindo o resultado. Só é possível no caso da tentativa perfeita ou participe em relação aos demais, mediante o benefício da redução
acabada. Ocorre somente nos crimes materiais que se consumam obrigatória da pena.
com a verificação do resultado naturalístico.
A desistência ou o arrependimento não precisa ser espontâneo, CRIME IMPOSSÍVEL (ART. 17)
mas deve ser voluntário. Mesmo se a desistência ou a resipiscên-
cia for sugerida por terceiros subsistirão seus efeitos. A tentativa O crime impossível também chamado de tentativa inidônea,
abandonada, em suas duas modalidades, exclui a aplicação da pena tentativa inadequada ou quase-crime. É aquele que, pela ineficá-
por tentativa, ou seja, o agente responderá somente pelos atos até cia total do meio empregado ou pela impropriedade absoluta do
então praticados. objeto material, é impossível de se consumar. Não se trata de cau-
sa de isenção de pena, como parece sugerir a redação do art. 17
ARREPENDIMENTO POSTERIOR (ART. 16) do Código Penal, mas de causa geradora de atipicidade, pois não
se concebe queira o tipo incriminador descrever como crime uma
Nos termos do artigo 16 do Código Penal, “Nos crimes come- ação impossível de se realizar.
tidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano
ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, Ineficácia absoluta do meio: O meio empregado jamais po-
por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois deria levar à consumação do crime. A ineficácia do meio deve ser
terços”. A expressão utilizada pelo legislador é redundante, pois absoluta (exemplo: um palito para matar um adulto, uma arma de
todo arrependimento é posterior. Na verdade o arrependimento é
brinquedo). Deve-se lembrar, que um determinado meio pode ser
posterior à consumação do crime. Trata-se de causa obrigatória de
redução de pena. É causa objetiva de diminuição de pena, portanto, ineficaz para um crime, mas eficaz para outro. Exemplo: num cri-
estende-se aos coautores e partícipes condenados pelo mesmo fato. me de roubo, uma arma totalmente inapta a produzir disparos pode
ser utilizada para intimidar a vítima.
Requisitos  
Só cabe em crime cometido sem violência ou grave amea- Impropriedade Absoluta do Objeto: A pessoa ou a coisa so-
ça contra a pessoa. Visa o legislador a dar oportunidade ao agen- bre a qual recai a conduta jamais poderia ser alvo do crime. Assim,
te, que pratica crime contra o patrimônio sem violência ou grave haverá crime impossível quando o objeto sobre o qual o agente faz
ameaça, de reparar o dano ou restituir a coisa. Na jurisprudência, recair sua conduta não é protegido pela norma penal incriminadora
prevalece o entendimento de que a lei só se refere à violência dolo- ou quando ele (objeto) sequer existe. Exemplo: atirar em alguém
sa, podendo a diminuição ser aplicada aos crimes culposos em que que já está morto.
haja violência, como o homicídio culposo. Assim, a intenção do O crime impossível pela absoluta impropriedade do objeto é
legislador foi criar um instituto para os crimes patrimoniais, mas a também chamado delito putativo por erro de tipo, pois se trata de
jurisprudência estendeu ao homicídio culposo. um crime imaginário; o agente quer cometer um crime, mas devi-
- Reparação do dano ou restituição da coisa (deve ser in- do ao desconhecimento da situação de fato, comete um irrelevante
tegral). penal (exemplo: mulher pensa que está grávida e ingere substância
- Por ato voluntário do agente. Não há necessidade de ser abortiva). Não se confunde com o erro de tipo, pois neste o agente
ato espontâneo, podendo haver influência de terceira pessoa. não sabe, devido a um erro de apreciação da realidade, que está co-
- O arrependimento posterior só pode ocorrer até o recebimen- metendo um crime (exemplo: compra cocaína pensando ser talco).
to da denúncia ou queixa. Após, a reparação do dano será somente
causa atenuante genérica (artigo 65, inciso III, alínea “b”).

Didatismo e Conhecimento 16
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Crime de ensaio ou experiência: Também chamado “delito de exclusão de antijuricidade, previstas no artigo 23 do Código
putativo por obra do agente provocador” ou “crime de flagrante Penal: estado de necessidade; legítima defesa; estrito cumprimento
preparado”, ocorre quando a polícia ou terceiro (agente provoca- de dever legal; exercício regular de direito.
dor) prepara uma situação, que induz o agente a cometer o delito Assim, apesar de todo crime, em um primeiro momento, ser
(exemplo: detetive simula querer comprar maconha e prende o tra- considerado um ato ilícito, haverá situações em que mesmo co-
ficante). O agente é protagonista de uma farsa. A jurisprudência metendo um crime, isto é, praticando uma conduta expressamente
considera a encenação do flagrante preparado uma terceira espécie proibida pela lei, a conduta do agente não será considerada ilícita.
de crime impossível, entendendo não haver crime ante a atipicida- As causas de exclusão da ilicitude (também chamadas exclu-
de do fato (Súmula n. 145 do Supremo Tribunal Federal). são da antijuridicidade, causas justificantes ou descriminantes)
podem ser:
O Código Penal brasileiro adotou a teoria objetiva tempera- - causas legais: são as quatro previstas em lei (estado de
da pela qual só há crime impossível se a ineficácia do meio e a necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal e
impropriedade do objeto forem absolutas. Por isso, se forem rela- o exercício regular de direito);
- causas supralegais: são aquelas não previstas em lei,
tivas, haverá crime tentado. Ex.: tentar matar alguém com revól-
que podem ser admitidas sem que haja colisão com o princípio
ver e projéteis verdadeiros que, entretanto, não detonam por estar
da reserva legal, pois aqui se cuida de norma não incriminadora
velhos. Aqui a ineficácia do meio é acidental e existe tentativa de (exemplo: colocação de piercing; não se trata de crime de lesão
homicídio. corporal, pois há o consentimento do ofendido).
Existem também causas excludentes específicas, previstas na
Art. 14 - Diz-se o crime:  própria Parte Especial do Código Penal, e que somente são aplicá-
veis a determinados delitos:
CRIME CONSUMADO  a) no aborto para salvar a vida da gestante ou quando a gravi-
I - consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de dez resulta de estupro (art. 128, I e II);
sua definição legal;  b) nos crimes de injúria e difamação, quando a ofensa é irro-
gada em juízo na discussão da causa, na opinião desfavorável da
TENTATIVA  crítica artística, literária ou científica e no conceito emitido por
II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por funcionário público em informação prestada no desempenho de
circunstâncias alheias à vontade do agente. suas funções;
c) na violação do domicílio, quando um crime está ali sendo
PENA DE TENTATIVA cometido (art. 150, § 3º, II).
Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a
tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, dimi- EXCLUSÃO DE ILICITUDE
nuída de um a dois terços.
Art. 23 - Não há crime quando o agente pratica o fato:
DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO I - em estado de necessidade;
EFICAZ II - em legítima defesa;
Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício
na execução ou impede que o resultado se produza, só responde regular de direito.
pelos atos já praticados.
EXCESSO PUNÍVEL
ARREPENDIMENTO POSTERIOR
Parágrafo único - O agente, em qualquer das hipóteses deste
Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave amea- artigo, responderá pelo excesso doloso ou culposo.
ça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebi-
mento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a ESTRITO CUMPRIMENTO DO DEVER LEGAL
pena será reduzida de um a dois terços. 
Estrito Cumprimento do Dever Legal: É o dever emanado
CRIME IMPOSSÍVEL  da lei ou de respectivo regulamento. O agente atua em cumprimento
Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia abso- de um dever emanado de um poder genérico, abstrato e impessoal.
luta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossí- Se houver abuso, não há a excludente, ou seja, o cumprimento
vel consumar-se o crime. deve ser estrito. Exemplo: um soldado mata assaltante que faz
jovem de refém, por ordem de seu superior hierárquico.
CAUSAS DE EXCLUSÃO DE ILICITUDE E CULPABI- Como a excludente exige o estrito cumprimento do dever,
LIDADE deve-se ressaltar que haverá crime quando o agente extrapolar os
limites deste.
Antijuricidade ou ilicitude, como já mencionado acima, é a
contradição do fato, eventualmente adequado ao modelo legal, EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO
com a ordem jurídica, constituindo lesão de um interesse prote-
gido. Exercício Regular do Direito: consiste na atuação do agente
A antijuricidade pode ser afastada por determinadas causas, dentro dos limites conferidos pelo ordenamento legal. O sujeito
as determinadas causas de exclusão de antijuricidade; quando isso não comete crime por estar exercitando uma prerrogativa a ele
ocorre, o fato permanece típico, mas não há crime, excluindo-se conferida pela lei. Assim, o exercício de um direito não configura
a ilicitude, e sendo ela requisito do crime, fica excluído o próprio fato ilícito. Exceto se a pretexto de exercer um direito, houver in-
delito; em consequência, o sujeito deve ser absolvido; são causas tuito de prejudicar terceiro. Exemplos:

Didatismo e Conhecimento 17
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
a) Ofendículos e defesa mecânica predisposta: os ofendícu- - Perigo deve ameaçar um direito próprio ou um direito
los são aparatos visíveis destinados à defesa da propriedade ou de alheio. Abrange qualquer bem protegido pelo ordenamento jurí-
qualquer outro bem jurídico. O que os caracteriza é a visibilidade, dico. Se o bem não for tutelado pelo ordenamento, não se admite
devendo ser perceptíveis por qualquer pessoa (exemplos: lança no estado de necessidade.
portão da casa, caco de vidro no muro etc.). Defesa mecânica pre- - Perigo não pode ter sido criado voluntariamente. Quem dá
disposta é aparato oculto destinado à defesa da propriedade ou de causa a uma situação de perigo não pode invocar o estado de ne-
qualquer outro bem jurídico. Podem configurar delitos culposos, cessidade para afastá-la. Aquele que provocou o perigo com dolo
pois alguns aparatos instalados imprudentemente podem trazer trá- não age com estado de necessidade porque tem o dever jurídico de
gicas consequências. impedir o resultado.
Observação: Para o Prof. Damásio de Jesus, nos dois casos, - Quem possui o dever legal de enfrentar o perigo não pode
salvo condutas manifestamente imprudentes, é mais correta a apli- invocar o estado de necessidade. A pessoa que possui o dever legal
cação da justificativa da legítima defesa. A predisposição do apare- de enfrentar o perigo deve afastar a situação de perigo sem lesar
lho constitui exercício regular de direito, mas, no momento em que qualquer outro bem jurídico.
este atua, o caso é de legítima defesa preordenada (aquela posta - Inevitabilidade do comportamento lesivo, ou seja, somente
anteriormente a agressão). deverá ser sacrificado outro bem se não houver outra maneira de
afastar a situação de perigo.
b) Lesões esportivas: Pela doutrina tradicional, a violência - É necessário existir proporcionalidade entre a gravidade do
desportiva é exercício regular do direito, desde que a violência seja perigo que ameaça o bem jurídico do agente ou alheio e a gravida-
praticada nos limites do esporte. Assim, mesmo a violência que de da lesão causada pelo fato necessitado.
acarreta alguma lesão, se previsível para a prática do esporte, será
exercício regular do direito (exemplo: numa luta de boxe poderá ESTADO DE NECESSIDADE
haver, inclusive, a morte de um dos lutadores).
Art. 24 - Considera-se em estado de necessidade quem pratica
c) Intervenções cirúrgicas: Amputações, extração de órgão o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua von-
etc. constituem exercício regular da profissão do médico. Se a in- tade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio,
tervenção for realizada em caso de emergência por alguém que não cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.
é médico, será caso de estado de necessidade. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o
dever legal de enfrentar o perigo.
d) Consentimento do ofendido: O consentimento do ofendido
§ 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito
exclui a tipicidade quando a discordância da vítima for elemento
ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços.
do tipo. Exemplo: não há invasão de domicílio se a “vítima” auto-
rizou a entrada em sua casa.
LEGÍTIMA DEFESA
Requisitos para exclusão da tipicidade:
- ser o bem jurídico disponível; Trata-se de causa de exclusão da ilicitude consistente em repe-
- capacidade da vítima em poder dispor do bem; lir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio,
- ser o consentimento dado antes ou durante o fato; usando moderadamente dos meios necessários.
- a consciência do agente de que houve consentimento.
Quando a discordância não for elemento do tipo, ocorre causa Requisitos da Legítima Defesa
supralegal de exclusão da ilicitude. O que pode ocorrer no crime de - Agressão: é todo ataque praticado por pessoa humana. Não
dano, por exemplo, artigo 163 do Código Penal. E os requisitos são: pode ser confundida com uma simples provocação. Segundo
disponibilidade do bem; capacidade da vítima em poder dele dispor. NUCCI, a possibilidade de legítima defesa contra provocação é
O exercício abusivo do direito faz desaparecer a excludente. inadmissível, pois a provocação (insulto, ofensa ou desafio) não é
o suficiente para gerar o requisito legal, que é a agressão. No en-
ESTADO DE NECESSIDADE tanto o autor faz uma ressalva: quando a provocação for insistente,
torna-se agressão, justificando, assim, a reação, que deve, contudo,
Estado de necessidade é uma situação de perigo atual de in- respeitar o requisito da moderação. Se o ataque é comandado por
teresses protegidos pelo direito, em que o agente, para salvar um animais irracionais, não é legítima defesa e sim estado de neces-
bem próprio ou de terceiro, não tem outro meio senão o de lesar o sidade.
interesse de outrem; perigo atual é o presente, que está acontecen- - Atual ou iminente: atual é a agressão que está acontecendo e
do; iminente é o prestes a desencadear-se. iminente é a que está prestes a acontecer. Não cabe legítima defesa
O estado de necessidade é uma causa de exclusão de ilicitude, contra agressão passada ou futura e também quando há promessa
encontra-se tipificado no art. 24 do CP. Consiste em uma conduta de agressão.
lesiva praticada para afastar uma situação de perigo. Não é qual- - A direito próprio ou de terceiro: é legítima defesa própria
quer situação de perigo que admite a conduta lesiva e não é qual- quando o sujeito está se defendendo e legítima defesa alheia
quer conduta lesiva que pode ser praticada na situação de perigo. quando o sujeito defende terceiro. Pode-se alegar legítima defesa
Existindo uma situação de perigo que ameace dois bens jurídicos, alheia mesmo agredindo o próprio terceiro (ex.: em caso de
um deles terá que ser lesado para salvar o outro de maior valor. suicídio, pode-se agredir o terceiro para salvá-lo).
- Meio necessário: é o meio menos lesivo colocado à
Requisitos para a existência do estado de necessidade: disposição do agente no momento da agressão.
- Perigo deve ser atual ou iminente, ou seja, deve estar aconte- - Moderação: é o emprego do meio necessário dentro dos
cendo naquele momento ou prestes a acontecer. Quando, portanto, limites para conter a agressão.
o perigo for remoto ou futuro, não há o estado de necessidade.

Didatismo e Conhecimento 18
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Espécies de legítima defesa b) culposo (ou excesso inconsciente, ou não intencional):
- Legítima defesa putativa: é a legítima defesa imaginária. É a é o excesso que deriva de culpa em relação à moderação, e, para
errônea suposição da existência da legítima defesa por erro de tipo alguns doutrinadores, também quanto à escolha dos meios neces-
ou erro de proibição. Os agentes imaginam haver agressão injusta sários. Nesse caso, o agente responde por crime culposo. Trata-se
quando na realidade esta inexiste. também de hipótese de culpa imprópria.
- Legítima defesa subjetiva: é o excesso cometido por um erro O excesso doloso ou culposo é também aplicável nas demais
plenamente justificável, o agente, por erro supõe ainda existir a excludentes de ilicitude (estado de necessidade, estrito cumpri-
agressão e, por isso, excede-se. Nesse caso, excluem-se o dolo e a mento do dever legal, exercício regular de direito etc.).
culpa (art. 20, § 1º, 1ª parte).
- Legítima defesa sucessiva: é a repulsa do agressor inicial LEGÍTIMA DEFESA
contra o excesso. Assim, a pessoa que estava inicialmente se
defendendo, no momento do excesso, passa a ser considerada Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando mode-
agressora, de forma a permitir legítima defesa por parte do radamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual
primeiro agressor. ou iminente, a direito seu ou de outrem.
Atenção, enquanto a legitima defesa real é causa de exclusão
da ilicitude do fato. A legítima defesa putativa excluirá o dolo e CULPABILIDADE
consequentemente o fato típico. Isto porque a denominada legiti-
ma defesa putativa na verdade caracteriza erro de tipo, ou seja, o CULPABILIDADE: é a possibilidade de se considerar
agente tem uma falsa percepção da realidade que faz com que o alguém culpado pela prática de uma infração penal. Por essa razão,
mesmo pense que está agindo em uma situação de legitima defesa, costuma ser definida como juízo de censurabilidade e reprovação
quando, de fato, não está sofrendo agressão alguma. exercido sobre alguém que praticou um fato típico e ilícito. Não
se trata de elemento do crime, mas pressuposto para imposição de
Hipóteses de cabimento da legítima defesa: pena, porque, sendo um juízo de valor sobre o autor de uma infra-
- Cabe legítima defesa real de legítima defesa putativa. Exem- ção penal, não se concebe possa, ao mesmo tempo, estar dentro
plo: uma pessoa atira em um parente que está entrando em sua do crime, como seu elemento, e fora, como juízo externo de valor
casa, supondo tratar-se de um assalto. O parente, que também está do agente. Para censurar quem cometeu um crime, a culpabilidade
armado, reage e mata o primeiro agressor. deve estar necessariamente fora dele.
- Cabe legítima defesa putativa de legítima defesa real. Exem- Com isso, podemos considerar a existência de etapas sucessi-
plo: A vai agredir B. A joga B no chão. B, em legítima defesa real, vas de raciocínio, de maneira que, ao se chegar à culpabilidade, já
imobiliza A. Nesse instante, chega C e, desconhecendo que B está se constatou ter ocorrido um crime. Verifica-se, em primeiro lugar,
em legítima defesa real, o ataca agindo em legítima defesa putativa se o fato é típico ou não; em seguida, em caso afirmativo, a sua
de A (legítima defesa de terceiro). ilicitude; só a partir de então, constatada a prática de um delito
- Cabe legítima defesa putativa de legítima defesa putativa. (fato típico e ilícito), é que se passa ao exame da possibilidade de
Ex.: dois desafetos se encontram e, equivocadamente, acham que responsabilização do autor.
serão agredidos um pelo outro. Na culpabilidade afere-se apenas se o agente deve ou não res-
- Cabe legítima defesa real contra agressão culposa. Isso por- ponder pelo crime cometido. E nenhuma hipótese será possível a
que ainda que a agressão seja culposa, sendo ela também ilícita, exclusão do dolo e da culpa ou da ilicitude nessa fase, uma vez que
contra ela cabe a excludente. tais elementos já foram analisados nas precedentes.
- Cabe legítima defesa real contra agressão de inimputável. Teoria adotada pelo Código Penal brasileiro: teoria limitada
Os inimputáveis podem agir voluntária e ilicitamente, embora não da culpabilidade. Nessa teoria, o erro recai sobre uma situação de
sejam culpáveis. Para agir contra agressão de inimputável, exige- fato (descriminante putativa fática) é erro de tipo, enquanto o que
-se, no entanto, cautela redobrada, porque nesse caso a pessoa que incide sobre a existência ou limites de uma causa de justificação
ataca não tem consciência da ilicitude de seu ato. é o erro de proibição. As descriminantes putativas fáticas são tra-
Pergunta: Cabe legítima defesa real contra legítima defesa tadas como erro de tipo (art. 20, §1º), enquanto as descriminantes
subjetiva? putativas por erro de proibição, ou erro de proibição indireto, são
Resposta: Em tese caberia, pois a partir da continuidade da consideradas erro de proibição (art. 21).
agressão a vítima se torna agressora. Para a jurisprudência, en- Elementos da culpabilidade segundo a teoria do Código Pe-
tretanto, não é aceita quando o excesso for repelido pelo próprio nal, são três:
agressor, porque não pode invocar a legítima defesa quem iniciou a) imputabilidade;
a agressão, mas o excesso pode ser repelido por terceiro. b) potencial consciência da ilicitude;
c) exigibilidade de conduta diversa.
Excesso
É a intensificação de uma conduta incialmente justificada. Causas dirimentes: são aquelas que excluem a culpabilidade.
Em um primeiro momento o agente está agindo coberto por uma São estas: erro de proibição; coação moral irresistível; obediência
excludente, mas, em seguida, a extrapola. hierárquica; d) inimputabilidade por doença mental ou desenvolvi-
O excesso pode ser: mento mental incompleto ou retardado; inimputabilidade por me-
a) doloso: descaracteriza a legítima defesa a partir do momen- noridade penal; inimputabilidade por embriaguez completa, pro-
to em que é empregado o excesso, e o agente responde dolosamen- veniente de caso fortuito ou força maior. Diferem das excludentes,
te pelo resultado que produzir. Ex.: uma pessoa inicialmente estava que excluem a ilicitude e podem ser legais e supralegais.
em legítima defesa consegue desarmar o agressor e, na sequência,
o mata. Responde por homicídio doloso.

Didatismo e Conhecimento 19
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Adotou-se, quanto aos doentes mentais, o critério biopsico-
9. IMPUTABILIDADE PENAL. lógico.

SEMI-IMPUTABILIDADE OU RESPONSABILIDADE
DIMINUÍDA
Difere da inimputabilidade apenas no requisito consequen-
Imputabilidade penal é o conjunto de condições pessoas cial. Enquanto na inimputabilidade a perda da capacidade de
que dão ao agente capacidade para lhe ser juridicamente imputada entender ou querer é total, na semi-imputabilidade, é parcial. A
a prática de um fato punível. O conceito de sujeito imputável é semi-imputabilidade não exclui a culpabilidade, e após análise do
encontrado no artigo 26, caput, do Código Penal, que trata dos caso concreto, a lei confere ao juiz a opção de aplicar medida de
inimputáveis. Imputável é o sujeito mentalmente são e desenvolvi- segurança ou pena diminuída (redução de1/3 a 2/3).
do, capaz de entender o caráter ilícito do fato e determinar-se de
acordo com esse entendimento. MENORIDADE (ART. 27)
Em princípio, todos são imputáveis, exceto aqueles abrangi- Nos termos do art. 27 do Código Penal, os menores de 18
dos pelas hipóteses de inimputabilidade enumeradas na lei, que anos são inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na
são as seguintes: legislação especial. Adotou-se, portanto, o critério biológico, que
a) doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou presume, de forma absoluta, ser o menor de 18 anos inteiramente
retardado; incapaz de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de
b) menoridade; acordo com esse entendimento.
c) embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força A menoridade cessa no primeiro instante do dia que o agente
maior; completa os 18 anos, ou seja, se o crime é praticado na data do 18º
d) dependência de substância entorpecente. aniversário, o agente já é imputável e responde pelo crime.
A legislação especial que regulamenta as sanções aplicáveis
Pode ser a inimputabilidade absoluta ou relativa. Se for ab- aos menores inimputáveis é o Estatuto da Criança e do Adolescen-
soluta, isso significa que não importam as circunstâncias, o in- te (Lei nº 8.069/90), que prevê a aplicação de medidas socioedu-
divíduo definido como “inimputável” não poderá ser penalmente cativas aos adolescentes (pessoas com 12 anos ou mais e menores
responsabilizado por seus atos. de 18 anos), consistentes em advertência, obrigação de reparar
Se a inimputabilidade for relativa, isso indica que o indivíduo o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida,
pertencente a certas categorias definidas em lei poderá ou não ser semiliberdade ou internação, e a aplicação de medidas de prote-
penalmente responsabilizado por seus atos, dependendo da análise ção às crianças (menores de 12 anos) que venham a praticar fatos
individual de cada caso na Justiça, segundo a avaliação da capa- definidos como infração penal.
cidade do acusado, as circunstâncias atenuantes ou agravantes, as
peculiaridades do caso e as provas existentes. EMOÇÃO E PAIXÃO (art. 28, I)
A imputabilidade possui dois elementos: A emoção é um sentimento súbito, repentino, de breve dura-
- intelectivo (capacidade de entender); ção, passageiro e intenso (ira momentânea, o medo, a vergonha).
- volitivo (capacidade de querer). A paixão é duradoura, perene (o amor, a ambição, o ódio). Nem a
Faltando um desses elementos, o agente não será imputável. emoção nem a paixão excluem a imputabilidade penal. Somente a
emoção pode funcionar como redutor de pena. A emoção pode ser
Critérios para a definição da inimputabilidade: causa de diminuição de pena em alguns crimes, dependendo das
- Biológico: leva em conta apenas o desenvolvimento mental circunstâncias (artigos 121, §1.º, e 129, § 4.º, do Código Penal), ou
do acusado (quer em face de problemas mentais ou da idade do pode constituir atenuante genérica (artigo 65, inciso III, alínea “c”,
agente). do Código Penal). Ex: O marido chega em casa e encontra a esposa
- Psicológico: considera apenas se o agente, ao tempo da ação com outro, comete um homicídio. Foi movido por forte emoção.
ou omissão, tinha a capacidade de entendimento e autodeterminação.
- Biopsicológico: considera inimputável aquele que, em razão EMBRIAGUEZ (art. 28, II)
de sua condição mental (causa), era, ao tempo da ação ou omis- Embriaguez é a intoxicação aguda e transitória causada pelo
são, totalmente incapaz de entender o caráter ilícito do fato e de álcool ou substancia de efeitos análogos (cocaína, ópio etc), cujas
determinar-se de acordo com tal entendimento (consequência). consequências variam desde uma ligeira excitação até o estado de
paralisia e coma.
DISTÚRBIOS MENTAIS
Doença mental: É a perturbação mental de qualquer ordem A embriaguez divide-se em:
(exemplos: psicose, esquizofrenia, paranoia, epilepsia etc.). A de- a) Embriaguez não acidental: A embriaguez não acidental
pendência patológica de substância psicotrópica configura doença pode ser voluntária ou culposa.
mental. Voluntária: Ocorre quando o individuo ingere substância tó-
Desenvolvimento mental incompleto: É o desenvolvimento xica, com o intuito de embriagar-se.
que ainda não se concluiu. É o caso do menor de 18 anos e do Culposa: Ocorre quando o indivíduo, que não queria se em-
silvícola inadaptado à sociedade. briagar, ingere, por imprudência, álcool ou outra substância de
Desenvolvimento mental retardado: É o caso dos efeitos análogos em excesso, ficando embriagado. Não está acos-
oligofrênicos, que se classificam em débeis mentais, imbecis e tumado, começa a beber e fica bêbado: Será considerado impu-
idiotas, dotados de reduzidíssima capacidade mental, e dos surdos- tável, pois no momento da decisão de beber, optou pela bebida.
mudos que, em consequência da anomalia, não têm qualquer Poderia ter evitado. Exceção: O bêbado que bebe há muito tempo
capacidade de entendimento e de autodeterminação. (alcoolismo) doença mental.

Didatismo e Conhecimento 20
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
A embriaguez voluntária ou culposa não exclui a imputabili- Menores de dezoito anos
dade, ainda que no momento do crime o embriagado esteja privado Art. 27 - Os menores de 18 (dezoito) anos são penalmente
inteiramente de sua capacidade de entender ou de querer. inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legis-
  lação especial.
b) Embriaguez acidental: A embriaguez acidental somente        
exclui a culpabilidade se for completa e decorrente de caso fortuito Emoção e paixão
ou força maior. Art. 28 - Não excluem a imputabilidade penal:
Exemplo de Força maior. Alguém obrigar outra pessoa a inge- I - a emoção ou a paixão;
rir bebida alcoólica.       
Exemplo de caso fortuito: quando sujeito está tomando deter- Embriaguez
minado remédio e, inadvertidamente, ingere bebida alcoólica, cujo II - a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou subs-
efeito é potencializado em face dos remédios, fazendo com que tância de efeitos análogos.
uma pequena quantia de bebida o faça ficar em completo estado de § 1º - É isento de pena o agente que, por embriaguez comple-
embriaguez. Embriaguez involuntária. ta, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da
  ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter
c) Embriaguez patológica: Embriaguez patológica é a decor- ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendi-
rente de enfermidade congênita existente, por exemplo, nos filhos mento.
de alcoólatras que se ingerirem quantidade irrisória de álcool ficam § 2º - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o
em estado de fúria incontrolável. Se for o agente, ao tempo da ação agente, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força
ou omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena ca-
fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento, estará pacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se
excluída sua imputabilidade (aplica-se a regra do art. 26, caput). Se de acordo com esse entendimento.
houver mera redução dessa capacidade, o agente responderá pelo
crime, mas a pena será reduzida (art. 26, parágrafo único).
 
d) Embriaguez preordenada: Embriaguez preordenada 10. CONCURSO DE PESSOAS.
ocorre quando o indivíduo, voluntariamente, se embriaga para
criar coragem para cometer um crime. Não há exclusão de impu-
tabilidade. O agente responde pelo crime, incidindo sobre a pena
uma circunstância agravante prevista no artigo 61, inciso II, alínea
“a” CP.
O concurso de pessoas, também denominado de concurso de
DEPENDÊNCIA DE SUBSTÂNCIA ENTORPECENTE  agentes, concurso de delinquentes (concursus delinquentium) ou
Segundo o art. 45, caput, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Tó- codelinquência, implica na concorrência de duas ou mais pessoas
xicos), é isento de pena (inimputável) o agente que, em razão da para o cometimento de um ilícito penal.
dependência, ou sob o efeito de substância entorpecente ou que Não há que se confundir o concursus delinquentium (concurso
determine dependência física ou psíquica proveniente de caso for- de pessoas) com o concursus delictorum (concurso de crimes) nem
tuito ou força maior, era ao tempo da ação ou omissão, qualquer tampouco com o concursus normarum (concurso de normas pe-
quer tenha sido o resultado da infração praticada (do Código Pe- nais). São três institutos penais totalmente distintos, muito embora
nal, da Lei de Tóxicos ou qualquer outra lei), inteiramente incapaz possam vir a se relacionar.
de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo O Código Penal Brasileiro não traz exatamente uma definição
com esse entendimento. Se a redução dessa capacidade for apenas de concurso de pessoas, afirmando apenas no caput do art. 29 que
parcial, o agente é considerado imputável, mas sua pena será redu- “quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas
zida de 1/3 a 2/3 (parágrafo único). a este cominadas, na medida de sua culpabilidade”. Dispõe, ain-
da, que “se a participação for de menor importância, a pena pode
TÍTULO III ser diminuída de um sexto a um terço” (art. 29, § 1º), bem como
DA IMPUTABILIDADE PENAL que “se algum dos concorrentes quis participar de crime menos
        graves, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumenta-
Inimputáveis da até metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado mais
Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença men- grave” (art. 29, § 2º).
tal ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao Em nível doutrinário, tem-se definido o concurso de agentes
tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender como a reunião de duas ou mais pessoas, de forma consciente e
o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse voluntária, concorrendo ou colaborando para o cometimento de
entendimento. certa infração penal. Vejamos os elementos básicos do conceito de
concurso de pessoas, caso inexista qualquer desses requisitos não
Redução de pena há que se falar em concurso de pessoas:
Parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a dois
terços, se o agente, em virtude de perturbação de saúde mental A) PLURALIDADE DE AGENTES E DE CONDUTAS: A
ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado não era própria ideia de concurso é de pluralidade, portanto impossível fa-
inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de de- lar em concurso de pessoas sem que exista coletividade (dois ou
terminar-se de acordo com esse entendimento. mais) de agentes e, consequentemente, de condutas.

Didatismo e Conhecimento 21
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
B) RELEVÂNCIA CAUSAL DE CADA CONDUTA: Não Teoria do Domínio do Fato: autores de um crime são todos
basta a multiplicidade de agentes e condutas para que se tenha con- os agentes que, mesmo sem praticar o verbo, concorrem para a
figurado o concurso de pessoas; necessário se faz que em meio a produção final do resultado, tendo o domínio completo de todas
todas essas condutas seja possível vislumbrar nexo de causalidade as ações até o momento consumativo. O que importa não é se o
entre elas e o resultado ocorrido. Diz-se, nesse sentido, que a con- agente pratica ou não o verbo, mas se detém o controle dos fatos,
duta de cada autor ou partícipe deve concorrer objetivamente (ou podendo decidir sobre sua prática, interrupção e circunstâncias, do
seja, sob o ponto de vista causal) para a produção do resultado. Ou início da execução até a produção do resultado. Adota um critério
ainda, que cada ação ou omissão humana (conduta) deve gozar de objetivo-subjetivo. Essa teoria complementa a teoria restritiva e é
importância (relevância), à luz do encadeamento causal de even- adotada por Damásio de Jesus.
tos, para a verificação daquele crime, contribuindo objetivamente
para tanto. Desse modo, condutas irrelevantes ou insignificantes Natureza Jurídica do Concurso de Agentes
para a existência do crime são desprezadas, não constituindo se-
quer participação criminosa; deve-se concluir, nesses casos, pela Teoria unitária ou monista: Todos os coautores e partícipes
não concorrência do sujeito para a prática delitiva. Isso, porque, a respondem por um único crime. É a teoria que foi adotada como
participação exige mínimo de eficácia causal à realização da con- regra pelo Código Penal (artigo 29, caput).
duta típica criminosa.
Teoria dualista: Os coautores respondem por um crime e os
C) LIAME SUBJETIVO OU NORMATIVO ENTRE AS partícipes por outro. Não foi adotada pelo sistema jurídico brasi-
PESSOAS: Necessário, também, que exista vínculo psicológico leiro.
ou normativo entre os diversos “atores criminosos”, de maneira a
fornecer uma ideia de todo, isto é, de unidade na empreitada deli- Teoria pluralística: Cada um dos participantes responde por
tiva. Exige-se, por conseguinte, que o sujeito manifeste, com a sua delito próprio, ou seja, cada partícipe será punido por um crime
conduta, consciência e vontade de atuar em obra delitiva comum. diferente. Essa teoria foi adotada como exceção pelo Código Pe-
Deve haver unidade de desígnios. É pressuposto básico do concur- nal, pois se algum dos concorrentes quis participar de crime menos
so de agentes que haja uma cooperação desejada e recíproca entre grave deve ser aplicada a pena deste (artigo 29, § 2.º). Se o resul-
eles. É necessária a homogeneidade de elemento subjetivo (não se tado mais grave for previsível a pena será aumentada até a metade.
admite participação dolosa em crime culposo e vice-versa).
Outras exceções pluralísticas:
Observação: não se exige prévio acordo de vontades, mas
- o provocador do aborto responde pela figura do artigo 126,
apenas que uma vontade adira à outra. Assim, por exemplo, a do-
ao passo que a gestante que consentiu responde pela figura do arti-
méstica pode deixar a porta aberta para prejudicar a patroa e um
go 124 do Código Penal;
ladrão pode entrar na casa sem que saiba estar sendo ajudado.
- na hipótese de casamento entre pessoa já casada e outra sol-
D) IDENTIDADE DE INFRAÇÃO PENAL: Trata-se de teira, respondem os agentes, respectivamente, pelas figuras tipifi-
identidade de infração para todos os participantes, não propria- cadas no artigo 235, caput, e § 1º, do Código Penal.
mente de um requisito, mas sim de verdadeira consequência jurí- - crimes de corrupção ativa e passiva (artigos 333 e 317 do
dica diante das outras condições. Havendo liame subjetivo, todos Código Penal).
os envolvidos devem responder pelo mesmo crime, salvo exceções - Falso testemunho e corrupção de testemunha (artigos 342 e
pluralísticas. 343 do Código Penal).

Alguns crimes, chamados monossubjetivos ou de concurso Natureza Jurídica da Participação


eventual, podem ser cometidos por um ou mais agentes, como o
homicídio, por exemplo; outros, no entanto, denominados pluris- De acordo com a teoria da acessoriedade, a participação é uma
subjetivos ou de concurso necessário, só podem ser praticados por conduta acessória à do autor, tida por principal. Considerando que
uma pluralidade de agentes, como o crime de quadrilha ou bando. o tipo penal somente contém o núcleo e os elementos da conduta
Os crimes plurissubjetivos podem ser de condutas paralelas (artigo principal, os atos do partícipe acabam não encontrando qualquer
288), de condutas convergentes (artigo 240) ou de condutas con- enquadramento. Há quatros classes de acessoriedade:
trapostas (artigo 137). O conceito de autor é algo polêmico para a - mínima: basta ao partícipe concorrer para um fato típico;
doutrina. Há três teorias sobre a autoria: - limitada: deve concorrer para um fato típico e ilícito;
- extrema: o fato deve ser típico, ilícito e culpável;
Teoria Restritiva: autor é somente aquele que realiza o nú- - hiperacessoriedade: o fato deve ser típico, ilícito e culpável
cleo da figura típica, ou seja, é aquele que pratica o verbo do tipo. e o partícipe responderá ainda pelas agravantes e atenuantes de
Autor é quem mata, subtrai, sequestra etc. Adota critério formal- caráter pessoal relativas ao autor principal. Nossa legislação adota
-objetivo, pois se atém à descrição típica. Haverá coautoria quando a teoria da acessoriedade limitada. Tratando-se de comportamen-
dois ou mais agentes, em conjunto, realizarem o verbo do tipo. to acessório e não havendo correspondência entre a conduta do
Partícipe é aquele que, sem realizar o núcleo da ação típica, con- partícipe e as elementares do tipo, faz-se necessária uma norma
corre de qualquer forma para a consecução do crime. É a que en- de extensão que leve a participação até o tipo incriminador (ade-
tendemos correta e adotada pelo Código Penal. quação típica mediata ou indireta). Essa norma é o artigo 29 do
Código Penal.
Teoria Extensiva: não existe distinção entre coautor e
partícipe; todos são chamados de coautores, realizem o verbo ou Formas de Participação Participação moral
concorram para a consecução do crime. Segue o critério material- - induzimento: fazer nascer a ideia no autor;
-objetivo. Essa teoria era adotada pela antiga Parte Geral do Códi- - instigação: reforçar a ideia já existente na mente do autor.
go Penal, entretanto, com a reforma de 1984, não é mais adotada.

Didatismo e Conhecimento 22
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Participação material Participação Impunível
É aquela que ocorre por meio de atos materiais. É o auxílio, Quando o fato principal não ingressar na fase executória, a
como por exemplo, emprestar a arma do crime. participação restará impune (artigo 31 do Código Penal).
Cúmplice é o partícipe que concorre para o crime por meio
de auxílio. Comunicabilidade e Incomunicabilidade de Elementares e
Circunstâncias.
Autoria Mediata
Ocorre quando o autor se serve de uma pessoa sem condições Circunstâncias incomunicáveis: Circunstâncias são dados,
de avaliar o que está fazendo para, em seu lugar, praticar o crime. fatos, elementos ou peculiaridades que apenas circundam o fato
A pessoa desprovida de discernimento (por exemplo: um louco ou sem integrar a figura típica, contribuindo, entretanto, para aumen-
uma criança) é um simples instrumento da atuação do autor media- tar ou diminuir a sua gravidade. Ex.: agravantes e atenuantes ge-
to. A autoria mediata pode resultar de: néricas, causas de aumento e diminuição de pena, etc. Podem ser
- ausência de capacidade penal; objetivas e subjetivas. Objetivas são as que dizem respeito ao fato,
- provocação de erro de tipo escusável; a qualidade e condições da vítima ao tempo, lugar, modo e meio
- coação moral irresistível; de execução do crime. Subjetivas as que se referem aos agentes, as
- obediência hierárquica. suas qualidades, estado, parentesco, motivo do crime etc.
Elementares são dados, fatos, elementos e condições
Não há concurso de agentes entre o autor mediato e o executor, que integram determinadas figuras típicas, cuja supressão faz
pois somente o autor mediato responderá, porque praticou o crime desaparecer ou modificar o crime, transformando-o em outra
utilizando terceiro como mero instrumento. figura típica. Ex.: no crime de homicídio, as elementares são “ma-
tar alguém”.
Autoria Colateral Tais circunstâncias e condições, quando não constituem ele-
Ocorre quando duas ou mais pessoas realizam simultanea- mentares do crime, pertencem exclusivamente ao agente que as
mente uma conduta sem que exista entre elas liame subjetivo. tem como atribuo logo, não se comunicam. Cada um responde
Cada um dos autores responde por seu resultado, visto não haver, pelo crime de acordo com sua circunstancias e condições pessoais.
nesse caso, coautoria. Nos casos de constituírem circunstâncias elementares do cri-
me principal, as condições e circunstâncias de caráter pessoal,
Autoria Incerta
comunicam-se dos autores aos partícipes, mas não dos partícipes
Ocorre quando, na autoria colateral, não se sabe quem produ-
aos autores por ser a participação acessória da autoria.
ziu o resultado. A consequência é a responsabilização de todos os
Podemos, assim, extrair três regras:
autores por tentativa, visto que não se sabe qual deles provocou o
1.ª) as circunstâncias subjetivas, também chamadas de cir-
resultado (princípio in dubio pro reo).
cunstâncias de caráter pessoal, jamais se comunicam;
Autoria Ignorada ou Desconhecida 2.ª) as circunstâncias objetivas, de caráter não-pessoal, podem
Ocorre quando não se sabe quem foi o realizador da conduta. comunicar-se, desde que o coautor ou partícipe delas tenha conhe-
A consequência é o arquivamento do inquérito policial por ausên- cimento;
cia de indícios. 3.ª) as elementares, pouco importando se subjetivas (de cará-
ter pessoal) ou objetivas, sempre se comunicam.
Participação por Omissão
Ocorre quando o sujeito que tem o dever jurídico de impedir TÍTULO IV
o resultado se omite (artigo 13, § 2.º, do Código Penal). A omissão DO CONCURSO DE PESSOAS
torna-se uma forma de praticar o crime. A vontade do sujeito, que
tem o dever jurídico de impedir o resultado, adere à vontade dos Regras comuns às penas privativas de liberdade
agentes do crime. Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime in-
cide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade.
Conivência ou Participação Negativa (crimen silenti) § 1º - Se a participação for de menor importância, a pena
Ocorre quando o sujeito, que não tem o dever jurídico de im- pode ser diminuída de um sexto a um terço.
pedir o resultado, se omite. Não responderá pelo crime, exceto se § 2º - Se algum dos concorrentes quis participar de crime
a omissão constituir crime autônomo Exemplo: se o sujeito fica menos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será au-
sabendo de um furto e não comunica à autoridade policial, não mentada até metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado
responde pelo crime; também, se um exímio nadador presencia mais grave.
uma mãe lançando seu filho de tenra idade em uma piscina, não
responde pelo homicídio (poderá responder por omissão de socor- Circunstâncias incomunicáveis
ro), exceto se tiver o dever jurídico de evitar o resultado (se for o Art. 30 - Não se comunicam as circunstâncias e as condições
professor de natação da criança, por exemplo). de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime.

Participação de Participação Casos de impunibilidade


É o auxílio do auxílio, o induzimento ao instigador etc. Art. 31 - O ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio,
salvo disposição expressa em contrário, não são puníveis, se o
Participação Sucessiva crime não chega, pelo menos, a ser tentado.
Ocorre quando o mesmo partícipe concorre para a conduta
principal de mais de uma forma. Exemplo: o partícipe induz o au-
tor a praticar um crime e depois o auxilia no cometimento.

Didatismo e Conhecimento 23
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Pena - detenção, de três meses a um ano.
11 CRIMES CONTRA A PESSOA
(HOMICÍDIO, DAS LESÕES CORPORAIS, Lesão corporal de natureza grave
DA RIXA). § 1º Se resulta:
I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de
trinta dias;
II - perigo de vida;
III - debilidade permanente de membro, sentido ou função;
TÍTULO I IV - aceleração de parto:
DOS CRIMES CONTRA A PESSOA Pena - reclusão, de um a cinco anos.
§ 2° Se resulta:
CAPÍTULO I I - Incapacidade permanente para o trabalho;
DOS CRIMES CONTRA A VIDA II - enfermidade incurável;
        III perda ou inutilização do membro, sentido ou função;
Homicídio simples IV - deformidade permanente;
Art 121. Matar alguém: V - aborto:
Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Pena - reclusão, de dois a oito anos.
Caso de diminuição de pena
Lesão corporal seguida de morte
§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de
relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta § 3° Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o
emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, ou juiz agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo:
pode reduzir a pena de um sexto a um terço. Pena - reclusão, de quatro a doze anos.

Homicídio qualificado Diminuição de pena


§ 2° Se o homicídio é cometido: § 4° Se o agente comete o crime impelido por motivo de
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta
motivo torpe; emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz
II - por motivo fútil; pode reduzir a pena de um sexto a um terço.
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura
ou outro meio Substituição da pena
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou ou- § 5° O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a
tro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido; pena de detenção pela de multa, de duzentos mil réis a dois contos
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou de réis:
vantagem de outro crime: I - se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior;
Pena - reclusão, de doze a trinta anos. II - se as lesões são recíprocas.
Homicídio culposo Lesão corporal culposa
Pena - detenção, de um a três anos. § 6° Se a lesão é culposa:
Aumento de pena Pena - detenção, de dois meses a um ano.
§ 4o No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 (um ter- Aumento de pena
ço), se o crime resulta de inobservância de regra técnica de profis- § 7o  Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se ocorrer qualquer
são, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro das hipóteses dos §§ 4o  e 6o  do art. 121 deste Código.  (Redação
à vítima, não procura diminuir as consequências do seu ato, ou foge
dada pela Lei nº 12.720, de 2012)
para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio, a pena é
§ 8º - Aplica-se à lesão culposa o disposto no § 5º do art. 121.
aumentada de 1/3 (um terço) se o crime é praticado contra pessoa
menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos. 
§ 5º - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar  Violência Doméstica 
de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o § 9o  Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente,
próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha
desnecessária.  convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações
§ 6o  A pena é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: (Redação dada
crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação pela Lei nº 11.340, de 2006)
de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio.       (Incluído Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos. (Redação
pela Lei nº 12.720, de 2012) dada pela Lei nº 11.340, de 2006)
    § 10. Nos casos previstos nos §§ 1o  a 3o  deste artigo, se as
(...) circunstâncias são as indicadas no § 9o deste artigo, aumenta-se a
pena em 1/3 (um terço). 
CAPÍTULO II § 11.  Na hipótese do § 9o deste artigo, a pena será aumentada
DAS LESÕES CORPORAIS de um terço se o crime for cometido contra pessoa portadora de
        deficiência. 
Lesão corporal
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de ou- (...)
trem:

Didatismo e Conhecimento 24
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
CAPÍTULO IV Sujeito passivo:
DA RIXA Qualquer ser humano após seu nascimento e desde que esteja
        vivo.
Rixa        Crime impossível: tem a finalidade de afastar a tentativa por
Art. 137 - Participar de rixa, salvo para separar os conten- absoluta ineficácia do meio ou absoluta impropriedade do objeto.
dores: Há crime impossível por absoluta impropriedade do objeto na con-
Pena - detenção, de quinze dias a dois meses, ou multa. duta de quem tenta tirar a vida de pessoa já morta e, neste caso, não
Parágrafo único - Se ocorre morte ou lesão corporal de natu- há tentativa de homicídio, ainda que o agente não soubesse que a
reza grave, aplica-se, pelo fato da participação na rixa, a pena de vítima estava morta. Haverá também crime impossível, mas por
detenção, de seis meses a dois anos. absoluta ineficácia do meio, quando o agente usa, por exemplo,
arma de brinquedo ou bala de festim.
HOMICÍDIO
Consumação:
São três os tipos (espécies): Dá-se no momento da morte (crime material). A morte ocorre
- homicídio simples; quando cessa a atividade encefálica (Lei n. 9.434/97, artigo 3.º). A
- homicídio privilegiado; prova da materialidade se faz por meio do laudo de exame necros-
- homicídio qualificado. cópico assinado por dois legistas, que devem atestar a ocorrência
da morte e se possível as suas causas.
Homicídio Simples:
Conceito de homicídio: eliminação da vida humana extraute- Tentativa:
rina, provocada por outra pessoa. Tentativa branca de homicídio: ocorre quando o agente prati-
Tipo penal: matar alguém. ca o ato de execução, mas não atinge o corpo da vítima que, por-
Pena: reclusão de 6 (seis) a 20 (vinte) anos. tanto, não sofre qualquer dano em sua integridade corporal.
Tentativa cruenta de homicídio: ocorre quando a vítima é atin-
Objeto jurídico: gida, sendo apenas lesionada.
Objetividade jurídica trata-se do bem jurídico tutelado pela Tentativa de homicídio diferencia-se de lesão corporal consu-
norma penal. No caso do homicídio o bem jurídico tutelado é a mada: o que distingue é o dolo (intenção do agente).
vida humana extrauterina. O homicídio é um crime simples, pois Progressão criminosa: o agente inicia a execução querendo
tem apenas um bem jurídico tutelado (vida). Crimes complexos apenas lesionar e depois altera o seu dolo e resolve matar. Con-
são aqueles em que a lei protege mais de um bem jurídico (exem- sequência: o agente só responde pelo homicídio que absorve as
plo: latrocínio). lesões corporais.
Lesão corporal seguida de morte: trata-se de crime preterdo-
Sujeito ativo: loso (dolo na lesão e culpa na morte). Não se confunde com a
Qualquer pessoa. O homicídio é um crime comum, pois pode progressão criminosa.
ser praticado por qualquer pessoa, ao contrário dos crimes pró- Desistência Voluntária: o agente só responde pelos atos já
prios, que só podem ser praticados por determinadas pessoas. praticados. Ocorre quando, por exemplo, ele efetua um disparo
O homicídio admite coautoria e participação. Lembre-se que contra a vítima e percebe que não a atingiu de forma mortal, sendo
o Código Penal adotou a teoria restritiva, logo: que, na sequência, voluntariamente deixa de efetuar novos dispa-
Autor: é a pessoa que pratica a conduta descrita no tipo, o ver- ros, apesar de ser possível fazê-lo. O agente responde só por lesões
bo do tipo (é quem subtrai, quem constrange, quem mata). corporais. Não há tentativa, por não existir circunstância alheia à
Partícipe: é a pessoa que não comete a conduta descrita no vontade do agente que tenha impedido a consumação (artigo 15 do
tipo, mas de alguma forma contribui para o crime. Exemplo: aque- Código Penal).
le que empresta a arma, incentiva.
Elemento subjetivo:
Para que exista coautoria e participação, é necessário que - dolo direto: quando a pessoa quer o resultado;
exista liame subjetivo, ou seja, a ciência por parte dos envolvidos - dolo eventual: o agente assume o risco de produzir o resulta-
de que estão colaborando para um fim comum. do (prevê a morte e age).
No caso de homicídio decorrente de racha de automóveis (ar-
Pergunta: Que vem a ser autoria colateral? tigo 308 do Código de Trânsito Brasileiro), os Tribunais têm en-
Resposta: Ocorre quando duas ou mais pessoas querem come- tendido que se trata de homicídio com dolo eventual.
ter o mesmo crime e agem ao mesmo tempo, sem que uma saiba da
intenção da outra, e o resultado morte decorre da conduta de um só HOMICÍDIO PRIVILEGIADO - ARTIGO 121, § 1.º, DO
agente, que é identificado no caso concreto. O que for identificado CÓDIGO PENAL
responderá por homicídio consumado e o outro por tentativa. Natureza Jurídica:
Causa de diminuição de pena (redução de 1/6 a 1/3, em todas
Pergunta: Que se entende por autoria incerta? as hipóteses).
Resposta: Ocorre quando, na autoria colateral, não se conse- Apesar de o parágrafo trazer a expressão “pode”, trata-se de
gue identificar o causador da morte, respondendo todos por tenta- uma obrigatoriedade, para não ferir a soberania dos veredictos. O
tiva de homicídio. privilégio é votado pelos jurados e, se reconhecido o privilégio,
a redução da pena é obrigatória, pois do contrário estaria sendo
Classificação: ferido o princípio da soberania dos veredictos. Trata-se, portanto,
É um crime simples, comum, instantâneo, material e de dano. de um direito subjetivo do réu.

Didatismo e Conhecimento 25
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
As hipóteses são de natureza subjetiva porque estão ligadas Emprego de veneno:
aos motivos do crime: Trata-se do venefício, que é o homicídio praticado com o em-
- Motivo de relevante valor moral (nobre): diz respeito a senti- prego de veneno.
mentos do agente que demonstre que houve uma motivação ligada É necessário que seja inoculado de forma que a vítima não
a uma compaixão ou algum outro sentimento nobre. É o caso da perceba. Se o veneno for introduzido com violência ou grave
eutanásia. ameaça, será aplicada a qualificadora do meio cruel. Certas
- Motivo de relevante valor social: diz respeito ao sentimento substâncias que são inofensivas para as pessoas em geral poderão
da coletividade. Exemplo: matar o traidor da Pátria. ser consideradas veneno em razão de condições de saúde peculiares
- Sob domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta da vítima, como no caso do açúcar para o diabético.
provocação da vítima.
Requisitos: Emprego de fogo:
a - existência de uma injusta provocação (não é injusta agres- Se além de causar a morte da vítima o fogo ou explosivo da-
são, senão seria legítima defesa). Exemplo: adultério, xingamento, nificarem bem alheio, o agente só responderá pelo homicídio qua-
traição. Não é necessário que a vítima tenha tido a intenção especí- lificado (artigo 163, parágrafo único, inciso II, do Código Penal).
fica de provocar, bastando que o agente se sinta provocado.
b - que, em razão da provocação, o agente fique tomado por Emprego de explosivo:
uma emoção extremamente forte. Emoção é um estado súbito e Exemplo de bombas caseiras em torcidas de futebol. Eventual
passageiro de instabilidade psíquica. dano ao patrimônio alheio ficará absorvido pelo homicídio qualifi-
c - reação imediata (logo em seguida...): não pode ficar evi- cado pelo fogo ou explosivo.
denciada uma patente interrupção entre a provocação e a morte.
Leva-se em conta o momento em que o sujeito ficou sabendo da Emprego de asfixia:
provocação. Causa o impedimento da função respiratória. Formas de as-
fixia:
HOMICÍDIO QUALIFICADO - ARTIGO 121, § 2.º, DO - Asfixia mecânica
CÓDIGO PENAL - Esganadura: o agente, com seu próprio corpo, comprime o
Pena: reclusão de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. pescoço da vítima.
- Estrangulamento: passar fio, arame etc. no pescoço da ví-
Classificação:
tima, causando-lhe a morte. É a própria força do agente atuando,
- Quanto aos motivos: incisos I e II.
mas não com as mãos.
- Quanto ao meio empregado: inciso III.
- Enforcamento: é a força da gravidade que faz com que o
- Quanto ao modo de execução: inciso IV. peso da vítima cause sua morte (por exemplo: o pescoço da vítima
- Por conexão: inciso V. é envolto com uma corda).
- Sufocação: é a utilização de algum objeto que impeça a en-
Inciso I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por trada de ar nos pulmões da vítima (exemplo: introduzir algodão na
outro motivo torpe garganta da vítima, colocar travesseiro no seu rosto).
Na paga ou promessa de recompensa, há a figura do mandante - Afogamento: imersão em meio líquido.
e do executor. Neste caso, o homicídio é também chamado homi- - Soterramento: imersão em meio sólido (exemplo: enterrar
cídio mercenário. alguém vivo fora de um caixão).
A paga é prévia em relação à execução. Na promessa de re- - Imprensamento ou sufocação indireta: impedir o movimen-
compensa, o pagamento é posterior à execução. Mesmo se o man- to respiratório colocando, por exemplo, um peso sobre o tórax da
dante não a cumprir, existirá a qualificadora. vítima.
Motivo torpe: é o motivo moralmente reprovável, vil, repug- - Asfixia tóxica: uso de gás asfixiante: monóxido de carbono,
nante. Exemplo: matar o pai para ficar com herança; matar a es- por exemplo.
posa porque ela não quis manter relação sexual. O ciúme não é - Confinamento: trancar alguém em lugar fechado de forma
considerado motivo torpe. A vingança será considerada, ou não, a impedir a troca de ar (exemplo: enterrar alguém vivo dentro de
motivo torpe dependendo do que a tenha originado. caixão).
Inciso II - motivo fútil Emprego de tortura ou qualquer meio insidioso ou cruel:
Matar por motivo de pequena importância, motivo insignifi- Tortura: Deve ser a causa direta da morte. Trata-se de meios
cante. Exemplo: matar por causa de uma “fechada” no trânsito. que causam na vítima intenso sofrimento físico ou mental. A reite-
A ausência de prova, referente aos motivos do crime, não per- ração de golpes, dependendo da forma como ela é utilizada, pode
mite o reconhecimento dessa qualificadora. ou não caracterizar a qualificadora de meio cruel (exemplos: ape-
Ciúme não caracteriza motivo fútil. drejamento, paulada, espancamento etc.).
A existência de uma discussão “forte”, precedente ao crime, Eventual mutilação praticada após a morte caracteriza crime
afasta o motivo fútil, ainda que a discussão tenha se iniciado por autônomo de destruição de cadáver (artigo 211 do Código Penal).
motivo de pequena importância, pois se entende que a causa do O crime de tortura com resultado morte (artigo 1.º, § 3.º, da
homicídio foi a discussão e não o motivo anterior que a havia ori- Lei n. 9.455/97), que prevê pena de reclusão de 8 a 16 anos, não
ginado. se confunde com o homicídio qualificado pela tortura. A diferença
A vingança será considerada, ou não, motivo fútil, dependen- está no elemento subjetivo. No homicídio qualificado, o agente
do do que a tenha originado. quer a morte da vítima e utiliza meio que causa intenso sofrimen-
to físico ou mental. No crime de tortura com resultado morte, no
Inciso III - emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tor- entanto, o agente tem a intenção de torturar a vítima, mas acaba
tura ou outro meio insidioso ou cruel, ou que possa representar provocando sua morte culposamente (trata-se de crime preterdolo-
perigo comum. so - dolo no antecedente e culpa no consequente).

Didatismo e Conhecimento 26
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Meio insidioso: é o meio ardiloso que consiste no uso de frau- HOMICÍDIO CULPOSO - ARTIGO 121, § 3.º, DO CÓ-
de, armadilha, parecendo não ter havido infração penal, e sim um DIGO PENAL
acidente, como no caso de sabotagem nos freios do automóvel. Pena: detenção de 1 (um) a 3 (três) anos.
A morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia.
Emprego de qualquer meio do qual possa resultar perigo - Imprudência: consiste numa ação, conduta perigosa.
comum: - Negligência: é uma omissão; ocorre quando se deveria ter
Gera perigo a um número indeterminado de pessoas. Não é tomado certo cuidado.
necessário que o caso concreto demonstre o perigo comum, basta - Imperícia: ocorre quando uma pessoa não possui aptidão
que se comprove que o meio usado poderia causar dano a várias técnica para a realização de certa conduta e mesmo assim a realiza,
pessoas, ainda que não haja uma situação de risco específico. dando causa à morte.

Inciso IV – à traição, de emboscada ou mediante dissimula- LESÃO CORPORAL


ção ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa
do ofendido Conceito: ofensa à integridade corporal consiste no dano ana-
Refere-se ao modo que o sujeito usou para aproximar-se da tômico prejudicial ao corpo humano. Exemplo: corte, queimadura,
vítima. mutilações etc.
Traição: aproveitar-se da prévia confiança que a vítima de- Sujeito Ativo: qualquer pessoa, exceto o próprio ofendido.
posita no agente para alvejá-la (exemplo: matar a esposa que está Saliente-se que a lei não pune a autolesão. A autolesão pode, entre-
dormindo). tanto, constituir crime de outra natureza, tais como autolesão para
- Emboscada ou tocaia: aguardar escondido a passagem da receber seguro (artigo 171, § 2.º, inciso V, do Código Penal), ou
vítima por um determinado local para matá-la. criação de incapacidade para frustar a incorporação militar (artigo
- Dissimulação: uso de artifício para se aproximar da vítima. 184 do Código Penal Militar).
Pode ser: Sujeito Passivo: qualquer pessoa, salvo nas hipóteses em que
Material: dá-se com o uso de disfarce, fantasia ou métodos a vítima só poderá ser mulher grávida.
análogos para se aproximar. Consumação: no momento da ofensa à integridade física ou
- Moral: a pessoa usa a palavra. Sujeito dá falsas provas de à saúde.
amizade ou de apreço para poder se aproximar. Tentativa: É possível. A tentativa de lesão corporal difere da
contravenção de vias de fato (artigo 21 da Lei de Contravenções
Qualquer outro recurso que dificulte ou torne impossível a Penais), pois, na contravenção o agente não tem intenção de lesio-
defesa da vítima nar a vítima (exemplo: empurrão). Se o agente emprega violência
Exemplos: surpresa, disparo pelas costas, enquanto a vítima ultrajante, com intenção de humilhar a vítima, estamos diante do
dorme etc. crime de injúria real (artigo 140, § 2.º, do Código Penal).
Quando uma pessoa armada mata outra desarmada, a jurispru- Se o agente agride sem a intenção de lesionar, mas lesiona,
dência não configura a qualificadora por razão de política criminal. ocorre a lesão corporal culposa, que afasta as vias de fato.

Inciso V – para assegurar a execução, a ocultação, a impu- Lesão Leve:


nidade ou vantagem de outro crime Por exclusão, é toda lesão que não for grave nem gravíssima.
O inciso refere-se às qualificadoras por conexão, que podem Pena: detenção de 3 (três) meses a 1 (um) ano. A lesão corporal
ser: leve é infração de menor potencial ofensivo.
- Teleológica: Quando a morte visa assegurar a execução de
outro crime (exemplo: matar o segurança para sequestrar o empre- Concurso de crimes:
sário). Haverá concurso material entre o homicídio qualificado e Em muitos crimes, como no roubo, por exemplo, a violência é
o outro delito, salvo se houver crime específico no Código Penal utilizada como meio de execução. O que ocorrerá se da violência
para esta situação (exemplo: no latrocínio, o agente mata para rou- decorrer lesão leve?
bar). No silêncio da lei a respeito do resultado violência, conclui-se
que a lesão leve fica absorvida (exemplo: roubo, extorsão, estupro,
- Consequencial: Ocorre quando a morte visa garantir: atentado violento ao pudor, crime de tortura etc.). Se, no entanto, a
- ocultação de outro crime: o agente quer evitar que alguém lei expressamente ressalvar a aplicação autônoma do resultado da
descubra que o crime foi praticado; violência, o agente responderá pelos dois crimes, sendo somadas
- impunidade: evitar que alguém conheça o autor de um crime as penas (exemplo: injúria real, constrangimento ilegal, dano qua-
(exemplo: matar testemunha); lificado, rapto, exercício arbitrário das próprias razões, resistência
- vantagem (exemplo: ladrões de banco – um mata o outro). etc.).

Na conexão teleológica, primeiro o agente mata e depois co- Ação penal:


mete o outro crime. Na consequencial, primeiro comete o outro O artigo 88 da Lei n. 9.099/95 transformou a lesão corporal
crime, depois mata. dolosa leve em crime de ação penal pública condicionada à repre-
Se o agente visa a garantia da execução, a ocultação, a impu- sentação do ofendido. A jurisprudência e a doutrina estenderam a
nidade ou vantagem de uma contravenção, será aplicada a quali- exigência da representação para as vias de fato.
ficadora do motivo torpe, conforme o caso. Não incide o inciso V, Outra regra trazida pela Lei n. 9.099/95: para o oferecimento
pois, esse se refere expressamente a outro crime. da denúncia não é necessário um exame de corpo de delito, basta
um boletim de ocorrência ou ficha médica.

Didatismo e Conhecimento 27
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Lesão decorrente de esporte: prudência. A lei não utiliza essa expressão, que tem a finalidade
Não há crime, desde que tenha havido respeito às regras do de diferenciar as lesões do § 2.º que tem pena mais severa do que
jogo, pois se trata de exercício regular de direito. o § 1.º.
Se uma lesão se enquadra em grave e gravíssima, o réu res-
Intervenção cirúrgica: ponderá pela gravíssima.
Se a cirurgia não é de emergência, o médico deve obter o con-
sentimento do paciente ou do seu representante legal. Trata-se, Inciso I – se resulta incapacidade permanente para o tra-
quando há consentimento, de exercício regular de direito. balho:
Se a cirurgia for de urgência, o agente estará acobertado pelo É mais específico que o § 1.º, inciso I. A incapacidade deve ser
estado de necessidade em favor de terceiro. permanente (a lei não diz perpétua) e deve abranger qualquer tipo
de trabalho (posição majoritária). Para uma corrente minoritária,
Lesão Grave – Artigo 129, § 1.º, do Código Penal a incapacidade da vítima deve impossibilitar o trabalho que ela
Pena: de 1 (um) a 5 (cinco) anos de reclusão. exercia anteriormente.
Inciso I – se resulta incapacidade para as ocupações habi- O sujeito passivo não poderá ser criança ou pessoa idosa apo-
tuais por mais de 30 dias sentada.
É necessário o exame complementar, realizado no primeiro Inciso II – se resulta enfermidade incurável:
dia após o período de 30 dias, para comprovar a materialidade da Da lesão decorre doença para a qual não existe cura.
lesão grave (artigo 168, § 2.º, do Código de Processo Penal). O Para uma corrente, a transmissão intencional de AIDS tipifica
prazo de 30 dias é contado nos termos do artigo 10 do Código a tentativa de homicídio. Para outra, caracteriza lesão gravíssima,
Penal. pela transmissão de moléstia incurável.
Ocupação habitual é qualquer atividade rotineira na vida da
vítima, tal como estudar, andar, praticar esportes etc., exceto a Inciso III – se resulta perda ou inutilização de membro, sen-
considerada ilícita. No caso de atividade lícita, mas imoral, have- tido ou função:
rá lesão grave (exemplo: incapacitar prostituta de manter relações A perda pode se dar:
sexuais). - por mutilação: ocorre pela própria ação lesiva; é o corte de
Se a vítima deixar de praticar atividades rotineiras, por sentir uma parte do corpo da vítima (extirpação do braço, da perna, da
vergonha, não há se falar em incapacidade. mão etc.);
Trata-se de um exemplo de crime a prazo. - por amputação: é a extirpação feita pelo médico, posterior-
O resultado agravador pode ser culposo ou doloso. mente à ação, para salvar a vida da vítima.
Inciso II – se resulta perigo de vida Na inutilização, o membro permanece ligado ao corpo da
É uma hipótese preterdolosa, pois o sujeito não quer a morte. vítima, ainda que parcialmente, mas totalmente inapto para a
Se o agente queria o resultado morte, responderá por tentativa de realização de sua atividade própria.
homicídio. Observações:
O perito deve dizer claramente em que consistiu o perigo de Com relação aos membros: o decepamento de um dedo ou a
vida (exemplo: houve perigo de vida porque a vítima perdeu muito perda parcial dos movimentos do braço constitui lesão grave, ou
sangue etc.), e o Promotor de Justiça deve transcrever na denúncia. seja, mera debilidade. Havendo paralisia total, ainda que seja de
Inciso III – se resulta debilidade permanente de membro, um só braço, ou se houver mutilação da mão, a lesão é gravíssima
sentido ou função. pela inutilização de membro.
Membros são os apêndices do corpo (braços e pernas). Exem- Com relação aos sentidos: há alguns sentidos captados por
plo: cortar o tendão do braço, causando perda parcial do membro. órgãos duplos (visão e audição). A provocação de cegueira, ainda
Os sentidos são o tato, o olfato, a visão, o paladar e a audição. que completa, em um só olho, constitui apenas debilidade perma-
Exemplo: diminuição da capacidade de enxergar, ouvir etc. nente. O mesmo ocorre com a audição.
A função consiste no funcionamento de órgãos ou aparelhos Com relação à função: a perda ou inutilidade de função só
do corpo humano (exemplo: função respiratória, função reprodu- será possível em função não vital, como por exemplo, a perda da
tora). função reprodutora, causada pela extirpação do pênis.
A debilidade é o enfraquecimento, a diminuição, a redução Inciso IV – se resulta deformidade permanente
da capacidade funcional. A debilidade deve ser permanente, ou Está ligado ao dano estético, causado pelas cicatrizes. Exem-
seja, de recuperação incerta e improvável e cuja cessação eventual plo: queimadura por fogo, por ácido (vitriolagem), etc. Requisitos:
ocorrerá em data incalculável (permanente não é a mesma coisa Que o dano estético seja razoável, ou seja, de uma certa mon-
que perpétua). ta. Deve ser permanente, isto é, não se reverte com o passar do
A debilidade não se confunde com a perda ou inutilização do tempo. Se a vítima se submeter a uma cirurgia plástica e houver
membro, sentido ou função, hipóteses de lesão corporal gravíssi- a correção, desclassifica-se o delito. Se a cirurgia plástica for pos-
ma, disciplinadas no § 2.º. sível, mas a vítima não a fizer, persiste o crime, pois a vítima não
está obrigada a fazer a cirurgia. Se a deformidade surgiu de um
Inciso IV - aceleração do parto erro médico, há dois crimes (lesão dolosa em relação ao primeiro
Caracteriza-se pela antecipação da data do nascimento. Pres- e lesão culposa em relação ao médico).
supõe o nascimento com vida. Para evitar a responsabilidade ob- Que a deformidade seja visível.
jetiva, é necessário que o agente saiba que a mulher está grávida. Que seja capaz de provocar impressão vexatória. A deformi-
dade estética deve ser algo que reduza a beleza física da vítima.
Lesão Gravíssima – Artigo 129, § 2.º, do Código Penal Inciso V – se resulta aborto
Pena: reclusão de 2 (dois) a 8 (oito) anos. Aborto é a interrupção da gravidez, com a consequente morte
A denominação lesão gravíssima é dada pela doutrina e juris- do produto da concepção.

Didatismo e Conhecimento 28
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Trata-se de qualificadora preterdolosa. Há dolo na lesão e cul- Violência Doméstica
pa em relação ao aborto. Se houver dolo também em relação ao §§ 9º, 10º e 11º: Esses dispositivos, criados pela Lei n.
aborto, o agente responde por lesão corporal em concurso formal 10.886/2004, não constituem tipos penais autônomos, já que não
imperfeito com aborto (artigo 70, caput, parte final). Há, por fim, possuem núcleo, isto é, não têm nenhum verbo descrevendo uma
hipótese do agente que quer provocar o aborto e, culposamente, conduta típica própria. Para criar um tipo penal autônomo não bas-
causa lesão grave na mãe (artigo 127 do Código Penal). ta lhe dar um nome — “violência doméstica”, por exemplo. Pela
É necessário que o agente saiba que a mulher está grávida. redação dos §§ 9º e 10, resta claro que, pelo texto legal aprovado,
Isso para evitar a chamada responsabilidade objetiva (artigo 19 do o legislador quis acrescentar algumas circunstâncias com o intuito
Código Penal). de agravar o crime de lesão corporal.
Tanto é assim que, como já mencionado, não descreveu uma
Lesão Corporal Seguida de Morte – Artigo 129, § 3.º, do conduta típica própria, mas sim fez remissão ao crime de lesão
Código Penal: corporal, iniciando o § 9º com a expressão “se a lesão...”, dei-
Pena: reclusão de 4 (quatro) a 12 (doze) anos. xando evidente que, ao acrescentar circunstâncias (crime contra
É também um crime preterdoloso no qual há dolo na lesão ascendente, descendente, irmão, cônjuge etc.) e prever novos li-
e culpa no resultado morte. O agente não prevê a morte, que era mites de pena, acabou criando, no § 9º, o crime de lesão corporal
previsível. Por ser preterdoloso, não admite tentativa. dolosa leve qualificada pela violência doméstica. A pena que, ori-
Se não houver dolo na agressão (lesão), trata-se de homicídio ginariamente, era de seis meses a um ano, foi alterada pela Lei n.
culposo. 11.340/2006, passando a ser de três meses a três anos de detenção,
Caracterizará progressão criminosa se houver dolo inicial de pena esta que deverá sofrer acréscimo de um terço se a vítima da
lesão e, durante a execução, o agente resolver matar a vítima. Nes- violência doméstica for portadora de deficiência, nos termos do
se caso, responderá pelo homicídio doloso (crime mais grave). art. 129, § 11, do Código Penal (criado pela Lei n. 11.340/2006).

Lesão Corporal Privilegiada – Artigo 129, § 4.º, do Código DA RIXA


Penal
As hipóteses de privilégio das lesões corporais são as mesmas Conceito: Rixa é uma luta desordenada, um tumulto, envol-
do homicídio privilegiado. O privilégio só se aplica nas lesões do- vendo troca de agressões entre três ou mais pessoas, em que os
losas. É uma causa de redução de pena de 1/6 a 1/3. lutadores visam todos os outros indistintamente. Como nesses tu-
multos é impossível estabelecer qual golpe foi desferido por deter-
Substituição da Pena - Artigo 129, § 5.o, do Código Penal minado agressor contra outro, todos devem ser punidos por rixa,
“O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a ou seja, pela participação no tumulto. Dessa forma, não há rixa
pena de detenção pela de multa”, nas seguintes hipóteses: quando existem dois grupos contrários, perfeitamente definidos,
- quando estiver presente uma das causas de privilégio (tra- lutando entre si, porque, nessa hipótese, os integrantes de cada
tando-se de lesão corporal leve privilegiada, o juiz poderá reduzir grupo serão responsabilizados pelas lesões corporais causadas nos
a pena restritiva de liberdade ou substituí-la por multa); integrantes do grupo contrário. A jurisprudência, entretanto, vem
- quando as lesões forem recíprocas (sem que um dos agentes reconhecendo o crime de rixa quando se inicia uma troca de agres-
tenha agido em legítima defesa). sões entre dois grupos distintos, mas, em razão do grande número
de envolvidos, surge tamanha confusão, que, durante seu desenro-
Lesão Corporal Culposa – Artigo 129, § 6.º, do Código Pe- lar, torna-se impossível identificar tais grupos.
nal Objetividade jurídica. A vida e a saúde das pessoas envol-
Aplicam-se todos os institutos do homicídio culposo, inclusi- vidas.
ve os que se referem às causas de aumento de pena e também às Sujeito ativo e passivo. Trata-se de crime de concurso ne-
regras referentes ao perdão judicial (§§ 7.º e 8.º do artigo 129 do cessário cuja configuração exige uma participação de, no mínimo,
Código Penal). três pessoas (ainda que alguns sejam menores de idade) na troca
A pena para lesão culposa é de 2 (dois) meses a 1 (um) ano de agressões. É também definido como crime de condutas contra-
de detenção. postas, já que os rixosos agem uns contra os outros e, assim, são, a
No Código de Trânsito Brasileiro (artigo 303), porém, a lesão um só tempo, sujeito ativo e passivo do delito.
corporal culposa, com o agente na direção de veículo automotor, Elemento subjetivo. O dolo. É irrelevante o motivo que le-
recebe pena de detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos e sus- vou ao surgimento da rixa. Trata-se de crime de perigo em que
pensão da habilitação. se pune a simples troca de agressões, sem a Necessidade de que
A composição quanto aos danos civis extingue a punibilida- qualquer dos envolvidos sofra lesão. Caso isso ocorra e o autor das
de, tanto da lesão culposa do Código Penal quanto do Código de lesões seja identificado, ele responderá pela rixa e pelas lesões le-
Trânsito Brasileiro. Exige-se representação, porque a ação penal é ves. Se, entretanto, as lesões forem graves ou houver morte, haverá
pública condicionada. Na lesão culposa, não há figura autônoma rixa qualificada, que será estudada mais adiante. A contravenção
decorrente da gravidade da lesão cujo grau (leve, grave ou gravís- de vias de fato, porém, fica absorvida pela rixa.
simo) é irrelevante para caracterizar lesão corporal culposa, afe- Veja-se, ainda, que o crime é de perigo abstrato, pois a lei pre-
tando apenas a tipificação da pena em concreto. sume que, com a troca de agressões, há situação de risco.
Não há crime na conduta daquele que ingressa na luta apenas
CAUSA DE AUMENTO DE PENA: para separar os lutadores, já que inexiste dolo nessa hipótese.
O art. 129, § 7º, combinado com o art. 121, § 4º, do Código Elemento objetivo. Participar: significa tomar parte nas
Penal, estabelece que a pena da lesão corporal dolosa, de qualquer agressões através de chutes, socos, pauladas etc. A participação,
espécie, sofrerá acréscimo de um terço se a vítima é menor de 14 entretanto, pode ser:
anos ou maior de 60.

Didatismo e Conhecimento 29
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
- material — por parte daqueles que realmente tomam parte na
luta através dos chutes, socos etc.; 12. CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
- moral — por parte daqueles que incentivam os demais atra- (FURTO, ROUBO, EXTORSÃO, EXTORSÃO
vés de induzimento, instigação ou qualquer outra forma de estí- MEDIANTES SEQUESTRO).
mulo. O partícipe moral, todavia, deve ser, no mínimo, a quarta
pessoa, já que a rixa exige pelo menos três na efetiva troca de
agressões.
Na primeira hipótese, o agente é chamado de partícipe da rixa
e, na segunda, de partícipe do crime de rixa. TÍTULO II
Consumação. Com a efetiva troca de agressões. DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
Tentativa. Em regra não é possível, pois, ou ocorre a rixa e
o crime está consumado, ou ela não se inicia, e, nesse caso, não CAPÍTULO I
há crime. Damásio E. de Jesus, por sua vez, entende ser possível DO FURTO
a tentativa na chamada rixa ex proposito, em que três lutadores        
combinam uma briga entre si, na qual cada um lutará com qualquer  Furto
deles, sendo que a polícia intervém no exato momento em que Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia mó-
iriam iniciar-se as violências recíprocas. vel:
Qualificação doutrinária. Crime de concurso necessário Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
(plurissubjetivo), doloso, instantâneo, simples, de ação livre, co- § 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado
missivo, comum e de perigo abstrato. durante o repouso noturno.
Legítima defesa. Não é possível se alegar legítima defesa § 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa
na rixa, pois quem dela participa comete ato antijurídico. Assim, furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção,
se, durante a rixa, uma pessoa empunha um revólver para atingir diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.
outro rixoso e este se defende, matando o primeiro, responde pela § 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer
rixa porque este crime já se havia consumado anteriormente. Há outra que tenha valor econômico.
legítima defesa apenas em relação ao homicídio.
A rixa qualificada é, na realidade, um dos últimos resquícios Furto qualificado
de responsabilidade objetiva que estão em vigor em nossa lei pe- § 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o
nal, uma vez que a sua redação, bem como a própria explicação crime é cometido:
extraída da exposição de motivos, deixa claro que todos os en- I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração
volvidos na rixa sofrerão maior punição, independentemente de da coisa;
serem eles ou não os responsáveis pela lesão grave ou morte. Até II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou
mesmo a vítima das lesões graves responderá pela pena agravada. destreza;
Por outro lado, se for descoberto o autor do resultado agravador, III - com emprego de chave falsa;
ele responderá pela rixa qualificada em concurso material com o IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
crime de lesões corporais graves ou homicídio (doloso ou culpo- § 5º - A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração
so, dependendo do caso), enquanto todos os demais continuarão for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro
respondendo pela rixa qualificada. Há, entretanto, entendimento Estado ou para o exterior. 
no sentido de que a pessoa identificada como responsável pelo        
resultado agravador responderá pelas lesões graves ou morte em Furto de coisa comum
concurso com rixa simples, pois puni-la pela rixa qualificada cons- Art. 156 - Subtrair o condômino, coerdeiro ou sócio, para si
tituiria bis in idem (dupla punição pelo mesmo fato). ou para outrem, a quem legitimamente a detém, a coisa comum:
É indiferente que o resultado tenha ocorrido em um dos Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
integrantes da rixa ou em terceira pessoa. § 1º - Somente se procede mediante representação.
Se ocorrerem várias mortes, haverá crime único de rixa quali- § 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível,
ficada, devendo a circunstância ser levada em conta na fixação da cujo valor não excede a quota a que tem direito o agente.
pena- base (art. 59 do CP).
Se o agente tomou parte na rixa e saiu antes da morte da víti- CAPÍTULO II
ma, responde pela forma qualificada, pois se entende que, com seu DO ROUBO E DA EXTORSÃO
comportamento anterior, colaborou com a criação de condições        
para o desenrolar da luta, que culminou em resultado mais lesivo. Roubo
Ao contrário, se o agente entra na rixa após a morte, responde por Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem,
rixa simples. mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-
Diz a lei que a rixa é qualificada se efetivamente ocorre morte -la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
ou lesão grave. Assim, se durante a luta ocorre uma tentativa de Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
homicídio da qual não sobrevém morte nem lesão grave, a rixa é § 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída
simples e o autor da tentativa, se identificado, também responderá a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim
por esse crime. de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si
A pena da figura qualificada é a mesma, quer resulte morte ou ou para terceiro.
lesão grave. § 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:
I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma;
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;

Didatismo e Conhecimento 30
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o Essa modalidade difere da apropriação indébita porque nesta
agente conhece tal circunstância. a posse é desvigiada. Ex.: A Caixa de Supermercado tem a posse
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser vigiada, se pegar dinheiro praticará furto.
transportado para outro Estado ou para o exterior; 
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo b) Ânimo de assenhoramento definitivo do bem, para si ou
sua liberdade.  para outrem (animus rem sibi habendi)
§ 3º Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de Trata-se do elemento subjetivo específico do tipo. Não basta
reclusão, de sete a quinze anos, além da multa; se resulta morte, a apenas a vontade de subtrair (dolo geral): a norma exige a intenção
reclusão é de vinte a trinta anos, sem prejuízo da multa. específica de ter a coisa, para si ou para outrem, de forma definitiva.
        É esse elemento que distingue o crime de furto e o furto de uso
Extorsão (fato atípico). Para a sua caracterização é necessário que o agente
Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ou grave tenha intenção de uso momentâneo e que restitua a coisa imediata
ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida e integralmente à vítima.
vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer
alguma coisa: c) Coisa alheia móvel (objeto material do tipo)
Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. Coisa móvel: aquela que pode ser transportada de um local
§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou para outro. O Código Civil considera como imóvel alguns bens
com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade. móveis, como aviões, embarcações, o que para fins penais é irre-
§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o levante.
disposto no § 3º do artigo anterior. Os semoventes também podem ser objeto de furto, como, por
§ 3o  Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da exemplo, o abigeato, ou seja, o furto de gado.
vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem Areia, terra (retirados sem autorização) e árvores (quando ar-
econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além rancadas do solo) podem ser objeto de furto, desde que não confi-
da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as gure crime contra o meio ambiente.
penas previstas no art. 159, §§ 2o e 3o, respectivamente. (Incluído A coisa deve ser alheia (elemento normativo do furto).
pela Lei nº 11.923, de 2009) O furto é um tipo anormal porque contém elemento normativo
que exige juízo de valor. Coisa alheia é aquela que tem dono; dessa
Extorsão mediante sequestro
forma, não constituem objeto de furto a resnullius (coisa de nin-
Art. 159 - Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou
guém, que nunca teve dono) e a res derelicta (coisa abandonada).
para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do res-
Nessas hipóteses, o fato será atípico porque a coisa não é alheia.
gate: 
A coisa perdida (res desperdicta) tem dono, mas não pode ser
Pena - reclusão, de oito a quinze anos.
Sequestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessen- objeto de furto porque falta o requisito da subtração; quem a en-
ta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha.          contra e não a devolve não está subtraindo - responderá por apro-
Pena - reclusão, de doze a vinte anos.  priação de coisa achada, tipificada no art. 169, par. ún., inc. II, do
§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:  Código Penal.
Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos.  A coisa só é considerada perdida quando está em local público
§ 3º - Se resulta a morte:  ou aberto ao público. Coisa perdida, por exemplo, dentro de casa,
 Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos.  dentro do carro, se achada e não restituída ao proprietário, carac-
 § 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que terizará crime de furto.
o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, Coisa de uso comum: (água dos mares, ar atmosférico etc.)
terá sua pena reduzida de um a dois terços.  não pode ser objeto de furto, exceto se estiver destacada de seu
        meio natural e for explorada por alguém. Ex.: água da Sabesp.
Extorsão indireta Não confundir com furto de coisa comum, art. 156 do Có-
Art. 160 - Exigir ou receber, como garantia de dívida, abu- digo Penal, que ocorre quando o objeto pertence a duas ou mais
sando da situação de alguém, documento que pode dar causa a pessoas nas hipóteses de sociedade, condomínio de coisa móvel e
procedimento criminal contra a vítima ou contra terceiro: co-herança. É crime de ação penal pública condicionada à repre-
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa. sentação.
O art. 155, § 3.o, do Código Penal trata do furto de energia.
FURTO Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica, bem como qualquer
outra forma de energia com valor econômico. Esse dispositivo é
Furto Simples uma norma penal explicativa ou complementar (esclarece outras
Subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel. normas; na hipótese, define como objeto material do furto, a ener-
gia).
Elementos A subtração de cadáver ou parte dele tipifica o delito específi-
a)Subtrair: tirar algo de alguém, desapossar co do art. 211 do Código Penal (destruição, subtração ou ocultação
Pode ocorrer em dois casos: de cadáver). O cadáver só pode ser objeto de furto quando pertence
- tirar algo de alguém; a uma instituição e está sendo utilizado para uma finalidade especí-
- receber uma posse vigiada e sem autorização levar o bem, fica. Ex.: faculdade de medicina, institutos de pesquisa.
retirando-o da esfera de vigilância da vítima. A subtração de órgão de pessoa viva ou de cadáver, para fins
Conclui-se que a expressão engloba tanto a hipótese em que de transplante, caracteriza crime da Lei n. 9.434/97. Cortar o ca-
o bem é tirado da vítima quanto aquela em que a coisa é entregue belo de alguém para vender, não configura furto, mas sim, lesão
voluntariamente ao agente e este a leva consigo. corporal.

Didatismo e Conhecimento 31
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Sujeito ativo Furto Noturno: Art. 155, § 1.o, do Código Penal
Pode ser qualquer pessoa, exceto o dono, porque o tipo exige “A pena aumenta-se de 1/3, se o crime é praticado durante o
que a coisa seja alheia. repouso noturno.”
Subtrair coisa própria, que se encontra em poder de terceiro, Trata-se de causa de aumento de pena que tem por finalidade
em razão de contrato (mútuo pignoratício) ou de ordem judicial garantir a proteção em relação ao patrimônio durante o repouso
(objeto penhorado), acarreta o crime do art. 346 do Código Penal do proprietário, uma vez que neste período há menor vigilância de
(tirar, suprimir, destruir ou danificar coisa própria, que se acha em seus pertences.
poder de terceiro por determinação judicial ou convenção). Este O furto noturno não se aplica ao furto qualificado. Só vale
crime não tem nome; é um subtipo do exercício arbitrário das pró- para o furto simples:
prias razões. - pela posição do parágrafo (o § 1.º só vale para o que vem
O credor que subtrair bem do devedor, para se auto-ressarcir antes);
de dívida já vencida e não paga, pratica o crime de exercício arbi- - no furto qualificado já há previsão de pena maior.
trário das próprias razões (art. 345 do CP). Não responde por furto A jurisprudência dominante traça algumas considerações:
porque não agiu com intenção de causar prejuízo. - só se aplica quando o fato ocorre em residência (definida
Se alguém, por erro, pegar um objeto alheio pensando que lhe pelo art. 150, § 4.o, do Código Penal como sendo qualquer com-
pertence, não responderá por furto em razão da incidência do erro partimento habitado, ou o aposento de habitação coletiva, ou com-
de tipo. partimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou
atividade) ou em qualquer de seus compartimentos, desde que haja
Sujeito passivo morador dormindo;
É sempre o dono e, eventualmente, o possuidor ou detentor - o aumento não se aplica se a casa estiver desabitada ou se
que sofre algum prejuízo. seus moradores estiverem viajando;
O agente que furta um bem que já fora anteriormente furtado - não se aplica o aumento no caso de furto praticado na rua ou
responde pelo delito, que terá como vítima não o primeiro furtador, em comércio.
mas o dono da coisa. Para o Prof. Damásio o aumento é cabível estando a casa ha-
Pessoas jurídicas podem ser vítimas de furto, porque o seu bitada ou não, bastando que o agente se aproveite da menor vi-
patrimônio é autônomo do patrimônio dos sócios. gilância que decorre do “período do sossego noturno”, conforme
orientação da Exposição de Motivos do Código Penal, n. 56.
Consumação
O furto consuma-se mediante dois requisitos: Furto Privilegiado - Art. 155, § 2.o, do Código Penal
- retirada do bem da esfera de vigilância da vítima; Requisitos
- posse tranquila do bem, ainda que por pouco tempo. Que o agente seja primário (todo aquele que não é reinciden-
Se, na fuga, o agente se desfaz ou perde o objeto, que não te). Se o réu for primário e tiver maus antecedentes, fará jus ao
venha a ser recuperado pela vítima, consuma-se o delito, pois a ví- privilégio, porque a lei não exige bons antecedentes.
tima sofreu efetivo prejuízo. É exceção à exigência de que o agente Que a coisa subtraída seja de pequeno valor. A jurisprudência
tenha posse tranquila do bem. adotou o critério objetivo para conceituar pequeno valor, conside-
Quando há concurso de agentes, se o crime está consumado rando aquilo que não excede a um salário mínimo. Na tentativa
para um, está também consumado para todos – adoção da teoria leva-se em conta o valor do bem que se pretendia subtrair.
unitária. Ex.: dois ladrões furtam uma carteira, um foge com o bem Deve ser examinado o valor do bem no momento da subtração
e o outro é preso no local: o crime está consumado para ambos. e não o prejuízo suportado pela vítima. Ex.: no furto de um carro,
que é recuperado depois, o prejuízo pode ter sido pequeno, mas
Tentativa será levado em conta o valor do objeto furtado.
É possível, até mesmo na forma qualificada, com exceção do Não confundir privilégio com furto de bagatela; pelo princípio
§ 5.o do art. 155 do Código Penal. da insignificância, o crime de furto de bagatela é atípico porque a
O fato de ter havido prisão em flagrante não implica, neces- lesão ao bem jurídico tutelado é ínfima, irrisória.
sariamente, que o furto seja tentado, como, por exemplo, o caso No furto privilegiado, ao contrário, o fato é considerado cri-
do flagrante ficto (art. 302, IV, do CPP), que permite a prisão do me, mas haverá um benefício.
agente encontrado, algum tempo depois da prática do crime com
papéis, instrumentos, armas ou objetos (PIAO) que façam presu- Furto Qualificado- Art. 155, §§ 4.º e 5.º, do Código Penal
mir ser ele o autor do crime. Quando o juiz reconhecer mais de uma qualificadora, utilizará
a segunda como circunstância judicial na primeira fase da fixação
Concurso de delitos da pena.
A violação de domicílio fica absorvida pelo furto praticado em O furto qualificado tentado admite a suspensão condicional
residência por ser crime meio (princípio da consunção). do processo, pois a pena mínima passa a ser de 8 meses – para
Se o agente, após a subtração, danifica o bem subtraído, res- se chegar a esse resultado diminui-se a pena mínima em abstrato,
ponde apenas pelo furto, sendo o dano um post factum impunível, prevista para o delito, do redutor máximo previsto na tentativa (2
pois a segunda conduta delituosa não traz novo prejuízo à vítima. – 2/3 = 8 meses).
Se a pessoa furta um bem, e depois o aliena a um terceiro de
boa-fé, deve responder por furto e por disposição de coisa alheia Art. 155, § 4.º, do Código Penal
como própria. A jurisprudência, entretanto, diz que é um post fac- A pena é de reclusão de 2 a 8 anos, e multa, se o crime é co-
tum impunível. metido:

Didatismo e Conhecimento 32
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
a) Com rompimento ou destruição de obstáculo Se a vítima percebe a conduta do agente, não se aplica a qua-
Pressupõe uma agressão que danifique o objeto, destruindo-o lificadora.
(destruição total) ou rompendo-o (destruição parcial). O art. 171 Se a vítima não perceber a conduta do agente, mas for vista
do Código de Processo Penal exige perícia. por terceiro, subsiste a qualificadora.
O obstáculo pode ser passivo (porta, janela, corrente, cadeado c) Com emprego de chave falsa
etc.) ou ativo (alarme, armadilha). Considera-se chave falsa:
A simples remoção do obstáculo não caracteriza a qualificado- - cópia feita sem autorização;
ra, que exige o rompimento ou destruição. - qualquer objeto capaz de abrir uma fechadura. Ex.: grampo,
Desligar o alarme não danifica o objeto, não fazendo incidir chave mixa, gazua etc.
a qualificadora. A chave falsa deve ser submetida à perícia para constatação
O cão não é considerado obstáculo. de sua eficácia.
O crime de dano fica absorvido pelo furto qualificado quando A utilização da chave verdadeira encontrada ou subtraída pelo
é meio para a subtração, por ser uma qualificadora específica. agente não configura a qualificadora; o furto será simples. Se sub-
A qualificadora só é aplicada quando o obstáculo atingido não traída mediante fraude, haverá furto qualificado mediante fraude.
é parte integrante do bem a ser subtraído. Ex.: arrombar o portão d) Mediante o concurso de duas ou mais pessoas
para furtar o carro – aplica-se a qualificadora; quebrar o vidro do A aplicação da qualificadora dispensa a identificação de todos
os indivíduos e é cabível ainda que um dos envolvidos seja menor.
carro para subtrair o automóvel – furto simples; quebrar o vidro do
carro para subtrair uma bolsa que está dentro – furto qualificado. ROUBO
A divergência surge quanto ao furto de toca-fitas. Para uns, incide
a qualificadora; para outros, o furto é simples porque o toca-fitas é Enquanto o furto é a subtração pura e simples de coisa alheia
parte integrante do carro. móvel, para si ou para outrem (artigo 155 do Código Penal), o
roubo é a subtração de coisa móvel alheia, para si ou para outrem,
b) Com abuso de confiança, mediante fraude, escalada ou mediante violência, grave ameaça ou qualquer outro recurso que
destreza reduza a possibilidade de resistência da vítima.
Com abuso de confiança – requisitos: O caput do artigo 157 trata do roubo próprio, e o seu § 1.º des-
Que a vítima, por algum motivo, deposite uma especial con- creve o que a doutrina chama roubo impróprio. A diferença reside
fiança em alguém: amizade, namoro, relação de emprego etc. no preciso instante em que a violência ou a grave ameaça contra
Saliente-se que a relação de emprego deve ser analisada no caso a pessoa são empregadas. Quando o agente pratica a violência ou
concreto, pois, em determinados empregos, patrão e empregado grave ameaça, antes ou durante a subtração, responde por roubo
não possuem qualquer contato, inclusive para os empregados do- próprio; quando pratica esses recursos depois de apanhada a coisa,
mésticos a jurisprudência exige a demonstração da confiança. para assegurar a impunidade do crime ou a detenção do objeto
Que a subtração tenha sido praticada pelo agente, aproveitan- material, responde por roubo impróprio.
do-se de alguma facilidade decorrente da relação de confiança. A pena para ambos é de reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez)
Emprego de fraude: significa usar de artifícios para enganar anos, e multa.
alguém, possibilitando a execução do furto.
O furto mediante fraude distingue-se do estelionato porque Elementos do Tipo
neste a fraude é utilizada para convencer a vítima a entregar o bem - Subtrair e coisa alheia móvel: já foram objeto de análise no
ao agente e naquele, a fraude serve para distrair a vítima para que módulo relativo ao crime de furto.
o bem seja subtraído. - Violência: trata-se da violência física.
No furto, a fraude é qualificadora; no estelionato é elementar - Grave ameaça: é a promessa de um mal grave e iminente
do tipo. (exemplos: anúncio de morte, lesão, sequestro).
- Qualquer outro meio: é a chamada violência imprópria, que
A jurisprudência entende que a entrega do veículo a alguém
pode ser revelada, por exemplo, pelo uso de sonífero, de hipnose
que pede para testá-lo, demonstrando interesse na sua compra, ca- etc. A simulação de arma configura a grave ameaça.
racteriza o crime de furto qualificado pela fraude (para possibilitar A “trombada” será considerada violência se for meio utilizado
a indenização por parte do seguro, que cobre apenas furto e não pelo agente para reduzir a vítima à impossibilidade de resistên-
estelionato, crime que realmente ocorreu porque houve entrega). cia, caracterizando o roubo e não o furto (um forte empurrão, por
Escalada: é o acesso por via anormal ao local da subtração. exemplo). Se, no entanto, a “trombada” consistir num mero esbar-
Ex.: entrada pelo telhado, pela tubulação do ar-condicionado, pela rão, incapaz de machucar a vítima, empregado com o intuito de
janela, escavação de um túnel e outros. distraí-la, haverá crime de furto.
Para configuração da escalada tem-se exigido que o agente O mesmo acontece com o arrebatamento de objeto preso ao
dispense um esforço razoável para ter acesso ao local: entrar por corpo da vítima.
uma janela que se encontra no andar térreo, saltar um muro baixo,
por exemplo, não qualificam o furto. Sujeito Ativo: pode ser qualquer pessoa.
O art. 171 do Código de Processo Penal exige a perícia do
local. Sujeito Passivo: pode ser qualquer pessoa que sofra dimi-
Destreza: habilidade do agente que permite a prática do furto nuição (perda) patrimonial (proprietário ou possuidor) ou que seja
sem que a vítima perceba. atingida pela violência ou grave ameaça.
A vítima deve estar ao lado ou com o objeto para que a destre-
za tenha relevância (uma bolsa, um colar etc.). Objetividade Jurídica
Se a vítima está dormindo ou em avançado estado de embria- Em virtude de o crime em estudo ser considerado complexo,
guez não se aplica a qualificadora, pois não há necessidade de ha- tutela-se, além da posse e propriedade, a integridade física e a li-
bilidade para tal subtração. berdade individual.

Didatismo e Conhecimento 33
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Concurso de Crimes Requisitos do roubo impróprio
O número de vítimas não guarda equivalência com o número São os seguintes os requisitos do roubo impróprio:
de delitos. Este último será relacionado com base no número de Que o agente tenha se apoderado do bem que pretendia furtar.
resultados (lesão patrimonial), que o agente sabia estar realizando Se o agente ainda não tinha a posse do bem, não se pode cogitar de
no caso concreto. roubo impróprio, nem de tentativa. Exemplo: o agente está tentan-
É possível que um só roubo tenha duas vítimas? do arrombar a porta de uma casa, quando alguém chega ao local
Sim, pois a vítima do roubo é tanto quem sofre a lesão patri- e é agredido pelo agente, que visa garantir sua impunidade e fugir
monial, como quem sofre a violência ou grave ameaça. Exemplo: sem nada levar. Haverá tentativa de furto qualificado em concurso
se A empresta seu carro a B, sendo este último assaltado, ambos material com o crime de lesões corporais.
serão vítimas. Que a violência ou grave ameaça tenham sido empregadas
Da mesma forma, havendo grave ameaça contra duas pessoas, logo depois o apoderamento do objeto material. O “logo depois”
mas lesado o patrimônio de apenas uma, haverá crime único, po- está presente enquanto o agente não tiver consumado o furto no
rém, com duas vítimas. caso concreto. Após a consumação do furto, o emprego de vio-
Empregada grave ameaça contra cinco pessoas e lesado o pa- lência ou de grave ameaça não pode caracterizar o roubo impró-
trimônio de três, por exemplo, há três crimes de roubo em concur- prio. Poderá haver, por exemplo, furto consumado em concurso
so formal. material com lesão corporal. A violência ou grave ameaça pode
E se o agente emprega grave ameaça contra uma pessoa para ser contra o próprio dono do bem ou contra um terceiro qualquer,
subtrair bens de duas? até mesmo um policial. Para a jurisprudência, se a violência contra
Nesse caso, se o agente não sabe que está lesando dois patri- policial serviu para transformar o furto em roubo impróprio, não
mônios, há crime único, evitando-se a responsabilidade penal ob- se pode aplicar em concurso o crime de resistência, porque confi-
jetiva; se o agente sabe que está lesando dois patrimônios (subtrai guraria bis in idem.
o relógio do cobrador e o dinheiro do caixa, por exemplo), há dois Que a violência ou grave ameaça tenham por finalidade garan-
crimes de roubo em concurso formal. tir a detenção do bem ou assegurar a impunidade do agente.
É possível a existência de crime continuado, se preenchidos
os requisitos do artigo 71 do Código Penal. Exemplo: indivíduo Consumação
rouba uma pessoa em um ônibus, sai dele, entra em outro e rouba O roubo impróprio consuma-se no exato momento em que é
outra pessoa. empregada a violência ou grave ameaça, ainda que o agente não
atinja sua finalidade (garantir a impunidade ou evitar a detenção).
Tentativa O golpe desferido que não atinge a vítima é considerado vio-
A tentativa é possível e será verificada quando, iniciada a lência empregada; portanto, roubo impróprio consumado.
execução, mediante violência ou grave ameaça, o agente não con-
segue efetivar a subtração; não se exige o início da execução do Tentativa
núcleo “subtrair”, e sim da prática da violência, conforme entende A tentativa não é admissível, pois ou o agente emprega a vio-
o Prof. Damásio de Jesus. lência ou a grave ameaça e o crime de roubo impróprio está con-
Quando o agente é preso em flagrante com o objeto do roubo, sumado, ou não as emprega e o crime praticado é o de furto. Esse
após perseguição, responde por crime tentado (para aqueles que é o entendimento predominante na doutrina e na jurisprudência.
exigem a posse tranquila da coisa para consumação) e por crime Alguns autores (minoria) admitem a tentativa quando o agente
consumado (Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Jus- quer empregar a violência, mas é impedido.
tiça, que dispensam o requisito da posse tranquila da coisa para
consumação do roubo). Causas de Aumento da Pena – Artigo 157, § 2.º, do Código
Penal (Roubo Circunstanciado)
Roubo Impróprio – Artigo 157, § 1.º, do Código Penal “§ 2.º A pena aumenta-se de um terço até metade:
“Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a I – se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma;
coisa, emprega violência contra a pessoa ou grave ameaça, a fim II – se há o concurso de duas ou mais pessoas;
de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si III – se a vítima está em serviço de transporte de valores e o
ou para terceiro.” agente conhece tal circunstância;
IV – se a subtração for de veículo automotor que venha a ser
Diferenças entre roubo próprio e roubo impróprio transportado para outro Estado ou para o exterior;
No roubo próprio a violência ou grave ameaça ocorre antes ou V – se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo
durante a subtração; no roubo impróprio, ocorre depois. sua liberdade.”
No roubo próprio, a violência ou grave ameaça constituem Se o juiz reconhecer a existência de duas ou mais causas de
meio para a subtração, enquanto no roubo impróprio, o agente, ini- aumento da pena poderá aplicar somente uma, de acordo com o
cialmente, quer apenas furtar e, depois de já se haver apoderado de parágrafo único do artigo 68 do Código Penal.
bens da vítima, emprega violência ou grave ameaça para garantir a As causas de aumento da pena incidem apenas sobre o roubo
sua impunidade ou a detenção do bem. simples (próprio ou impróprio). Não se aplicam ao roubo qualifi-
No roubo próprio, a lei menciona três meios de execução, cado pelo resultado lesão grave ou morte (§ 3.º).
que são a violência, a grave ameaça ou qualquer outro recurso que Note-se que as agravantes previstas no § 2.º do artigo 157 são
dificulte a defesa da vítima. No roubo impróprio, a lei menciona erroneamente denominadas qualificadoras. Não é correto o empre-
apenas dois, que são a grave ameaça e a violência, incabível o em- go desse termo, pois, tecnicamente, trata-se de causa especial de
prego de sonífero ou hipnose (violência imprópria). aumento de pena, a incidir na terceira fase de aplicação da pena.

Didatismo e Conhecimento 34
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Emprego de arma Se o ladrão assaltar o motorista do carro-forte, levando so-
É chamado roubo qualificado pelo emprego de arma. Repita- mente o seu relógio, não há qualificadora.
se que apesar desse nome, não se trata de qualificadora, mas sim Exige-se que o agente conheça a circunstância do transporte
de causa de aumento de pena. de valor (dolo direto), não se admitindo dolo eventual.
Arma é qualquer instrumento que tenha poder vulnerante. A Observação: não existe qualificadora semelhante no crime de
arma pode ser própria ou imprópria. Arma própria é a criada espe- furto.
cificamente para ataque e defesa, tal como o revólver, por exem-
plo. Arma imprópria é qualquer objeto que possa matar ou ferir, Veículo automotor que venha a ser transportado para outro
mas que não possui esta finalidade específica, como, por exemplo, estado ou país
faca, tesoura, espeto etc. Ver anotações sobre furto.
Para o aumento da pena, é necessário que a arma seja apon-
tada para a vítima; não basta que o agente esteja armado e que a Se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo
vítima tome conhecimento disto. sua liberdade:
Para nós, o fundamento dessa causa de aumento é o poder
Aplica-se às hipóteses em que a vítima é mantida pelos assal-
intimidador que a arma exerce sobre a vítima. Assim, não importa
o poder vulnerante da arma, desde que ela seja apta a incutir medo tantes por pouco tempo, ou tempo suficiente para a consumação do
na vítima, facilitando o roubo. Assim, a arma de fogo descarregada roubo. Se o período for longo, haverá concurso material de roubo
ou defeituosa ou o simulacro de arma configuram a majorante em simples e sequestro (artigo 157 combinado com artigo 148, ambos
tela. do Código Penal).
Prevalece, no entanto, o entendimento de que essa causa de Observe-se que essa majorante não se aplica nos casos em que
aumento tem por fundamento o perigo real que representa à in- ocorre o chamado sequestro-relâmpago, embora tenha sido esta a
columidade física da vítima o emprego de arma. À vista disso, intenção da lei. Com efeito, o sequestro-relâmpago não se trata de
a arma deve ter idoneidade ofensiva, capacidade de colocar em roubo, mas sim de extorsão, pois o comportamento da vítima, no
risco a integridade física da vítima. Tal não ocorre com o emprego sentido de fornecer a senha do cartão magnético, é imprescindível
de arma desmuniciada, defeituosa, arma de brinquedo ou simples para o sucesso da empreitada criminosa. Como se vê, no caso do
simulação. sequestro-relâmpago, não se trata de subtração e por isso não se
Em razão desse entendimento, a Terceira Seção do Supe- pode falar em roubo. Assim, em que pese a boa intenção do legis-
rior Tribunal de Justiça, no REsp n. 213.054, de São Paulo, em lador, essa circunstância incidirá em outras situações, nas quais
24.10.2001, relator o Ministro José Arnaldo da Fonseca, decidiu a privação de liberdade da vítima for utilizada com meio para a
cancelar a Súmula n. 174, considerando que o emprego de arma realização de um roubo ou, após a sua consumação, como forma
de brinquedo, embora não descaracterize o crime, não agrava o de fugir à ação policial.
roubo, uma vez que não apresenta real potencial ofensivo. Ficou
assentado que a incidência da referida circunstância de exaspera- Roubo Qualificado – Artigo 157, § 3.º, do Código Penal
ção da pena: Há duas formas de roubo qualificado, aplicáveis tanto ao rou-
- fere o princípio constitucional da reserva legal (princípio da bo próprio quanto ao impróprio.
tipicidade); De acordo com a primeira parte do dispositivo: “se da violên-
- configura bis in idem; cia resulta lesão corporal de natureza grave, a pena é de reclusão,
- deve ser apreciada na sentença final como critério diretivo de 7 (sete) a 15 (quinze) anos, além de multa”.
de dosagem da pena (circunstância judicial do artigo 59 do Código Houve alteração da pena mínima, para tornar pacífico o en-
Penal);
tendimento de que as causas de aumento da pena do § 2.º não se
- lesa o princípio da proporcionalidade.
aplicam às qualificadoras do § 3.º. Se a lesão é leve, esta fica ab-
De notar-se que a decisão apenas cancelou a referida Súmu- sorvida.
la, não havendo impedimento a que juízes e tribunais ainda conti- A parte final dispõe que “se resulta morte, a reclusão é de 20
nuem adotando a primeira orientação, que determina o agravamen- (vinte) a 30 (trinta) anos, sem prejuízo da multa”. É o denomina-
to da pena. Além disso, há o risco de que, cancelada a mencionada do latrocínio, considerado crime hediondo nos termos da Lei n.
Súmula, venham a reconhecer concurso entre o roubo simples e 8.072/90.
a utilização de arma de brinquedo no cometimento do crime, nos O roubo será qualificado se a morte ou a lesão corporal grave
termos do artigo 10, § 1.º, inciso II, da Lei n. 9.437/97. resultarem da “violência”; o tipo não menciona a grave ameaça.
Nossa posição: arma de brinquedo equipara-se a arma de ver- Assim, se a vítima morre em razão da grave ameaça tem-se con-
dade, para fins específicos do tipo que define o roubo, razão pela curso formal de roubo simples e homicídio culposo (exemplo: a
qual o autor responderá apenas como incurso no artigo 157, § 2.º, vítima, ao ver a arma, sofre ataque cardíaco e morre).
inciso I, do Código Penal. Via de regra, o crime qualificado pelo resultado é preterdoloso
(há dolo no antecedente e culpa no consequente). No caso do § 3.º
Concurso de duas ou mais pessoas em estudo o resultado agravador pode decorrer de culpa ou dolo.
As anotações feitas a respeito do concurso de pessoas no furto O agente pode, além de desejar a subtração, querer provocar lesão
(artigo 155 do Código Penal) aplicam-se ao roubo; a distinção é grave ou a morte da vítima. É evidente que a tentativa só é admi-
quanto à natureza jurídica: naquele é qualificadora; neste é causa tida quando o resultado agravador for desejado pelo agente, pois
de aumento. não se pode tentar algo produzido por acidente.
Destarte, não confundir tentativa de latrocínio com roubo qua-
Serviço de transporte de valores lificado pela lesão grave. No latrocínio tentado, o agente tem inten-
Aplicável apenas se a vítima está trabalhando (“em serviço”) ção de matar a vítima, o que não ocorre por circunstâncias alheias
com o transporte de valores (exemplo: assalto de office-boy, de à sua vontade. No roubo qualificado pela lesão grave, o agente tem
carro-forte etc.). intenção de lesionar a vítima.

Didatismo e Conhecimento 35
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Oportuno salientar que a morte ou a lesão deve decorrer do Diferença entre Extorsão e Estelionato
emprego de violência pelo agente com o fim de se apoderar da res Para se saber se o crime é o de extorsão, deve-se verificar se a
ou assegurar a sua posse ou garantir a impunidade do crime. Se a entrega do objeto material foi espontânea (voluntária) ou não. No
morte, por exemplo, advier de vingança, haverá crime de roubo em estelionato, a entrega é espontânea porque a vítima está sendo en-
concurso com o crime de homicídio. ganada; na extorsão, a vítima entrega a coisa contra a sua vontade
Assim, caracteriza-se a violência quando empregada em ra- para evitar um mal maior. No estelionato, a vítima não sabe que
zão do roubo (nexo causal) e durante o cometimento do delito (no está havendo um crime.
mesmo contexto fático). Quando o agente emprega fraude e violência ou grave ameaça
O nexo causal estará presente quando a violência constituir para obter a coisa, o delito é de extorsão, pois a entrega ocorre não
meio para a subtração (roubo próprio) ou quando for empregada em razão da fraude, mas sim da violência ou grave ameaça. Ob-
para garantir a detenção do bem ou a impunidade do agente (roubo serve o exemplo citado por Nelson Hungria: “Uma pessoa simula
impróprio). ser policial e, sob ameaça de morte, obriga a vítima a entregar-lhe
Faltando um desses requisitos, haverá roubo em concurso ma- certa quantia em dinheiro”.
terial com homicídio doloso ou delito de lesão corporal dolosa.
Extorsão e Constrangimento Ilegal
EXTORSÃO Tanto na extorsão quanto no constrangimento ilegal, o agente
emprega violência ou grave ameaça contra a vítima, no sentido de
A definição do crime de extorsão consta do artigo 158 do Có-
digo Penal: “Constranger alguém, mediante violência ou grave que faça ou deixe de fazer alguma coisa.
ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida A diferença entre extorsão e constrangimento ilegal está na fi-
vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer nalidade: no constrangimento ilegal, o sujeito ativo deseja que a ví-
alguma coisa”. tima se comporte de determinada maneira, para obter qualquer tipo
A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos, e multa (é de vantagem. Na extorsão, o constrangimento é realizado com o
a mesma pena do roubo). objetivo expresso no tipo de obter “indevida vantagem econômica”.
Objetividade Jurídica
A principal é a inviolabilidade do patrimônio. A secundária é Consumação e Tentativa
a proteção à vida, integridade física, liberdade pessoal e tranquili- Súmula n. 96 do Superior Tribunal de Justiça: “O crime de ex-
dade do espírito. torsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem
Diferença entre Extorsão e Exercício Arbitrário das Pró- indevida”. É, portanto, um crime formal.
prias Razões De acordo com entendimento do Professor Damásio de Jesus,
Na extorsão o agente visa a uma vantagem patrimonial inde- o crime se consuma quando a vítima faz, deixa de fazer ou tolera
vida, enquanto no exercício arbitrário das próprias razões a vanta- que se faça alguma coisa. A tentativa é possível, pois a extorsão é
gem é devida (artigo 345 do Código Penal). crime formal e plurissubsistente. Pode ocorrer a tentativa quando
o constrangido não realiza a conduta desejada pelo agente.
Roubo e Extorsão
Há três correntes doutrinárias que buscam os pontos diferen- Causas de Aumento da Pena
ciais desses dois crimes: O § 1.º do artigo 158 do Código Penal dispõe que a pena é
1.ª) Para Nelson Hungria, no roubo o bem é tirado da vítima, aumentada de um terço a metade (1/3 a 1/2) se o crime é cometido
e na extorsão a vítima entrega o bem. por duas ou mais pessoas ou com o emprego de arma.
2.ª) Enquanto no roubo a ação e o resultado são concomitan- Note-se que aqui a lei fala em cometimento, não em concurso,
tes, na extorsão o mal prometido e a vantagem são futuros. sendo indispensável, pois, que os coagentes pratiquem atos exe-
3.ª) Para o Prof. Damásio de Jesus, “na extorsão é imprescin- cutórios do crime. Exige-se, portanto, a coautoria e não a mera
dível o comportamento da vítima, enquanto no roubo é prescindí-
participação. Não se deve confundir essa majorante com a prevista
vel. No exemplo do assalto, é irrelevante que a coisa venha a ser
entregue pela vítima ao agente ou que este a subtraia. Trata-se de no crime de roubo e furto, que preveem o concurso de pessoas, o
roubo. Constrangido o sujeito passivo, a entrega do bem não pode qual abrange a coautoria e a participação.
ser considerada ato livre voluntário, tornando tal conduta de ne-
nhuma importância no plano jurídico. A entrega pode ser dispen- Extorsão Qualificada
sada pelo autor do fato. Já na extorsão o apoderamento do objeto Segundo o § 2.º do artigo 158 deve-se aplicar à extorsão as
material depende da conduta da vítima”. A jurisprudência tem-se regras e penas do roubo qualificado pela lesão grave ou morte. A
manifestado nesse sentido. extorsão qualificada pela morte é crime hediondo (artigo 1.º, inciso
Questão polêmica é a que diz respeito ao constrangimento da III, da Lei n. 8.072/90).
vítima para sacar dinheiro em caixa eletrônico (sequestro-relâm-
pago). Para a jurisprudência, o delito é de extorsão (artigo 158 EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO – ARTIGO 159
do Código Penal) e não de roubo (artigo 157, § 2.º, inciso V, do DO CÓDIGO PENAL
Código Penal), com fundamento na tese da dispensabilidade ou Trata-se de crime hediondo em todas as modalidades (forma
indispensabilidade da conduta da vítima. Correta essa posição. simples ou qualificada).
Questão: Como ficará a repressão do crime de sequestro, já As penas foram alteradas pela Lei n. 8.072/90, que aumentou
que o artigo 158 não o prevê como causa de aumento de pena? a pena privativa de liberdade de 6 (seis) a 12 (doze) anos para 8
Resposta: Se o sequestro for praticado como meio executório (oito)a 15 (quinze) anos, eliminando a multa.
do crime de extorsão ou como escudo para a fuga, restará absor- O caput do artigo 159 do Código Penal trata da forma simples
vido por este delito. Se praticado depois da extorsão, sem que a da extorsão mediante sequestro: “sequestrar pessoa com o fim de
restrição da liberdade da vítima seja necessária para a consumação obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição
do crime, haverá concurso material de delitos. ou preço do resgate”.

Didatismo e Conhecimento 36
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Objetividade Jurídica Pena - reclusão, de dois a doze anos, e multa.
A principal é a inviolabilidade do patrimônio. A secundária é § 1º - Aplica-se a mesma pena, se o funcionário público,
a tutela da liberdade de locomoção. Trata-se de crime complexo. embora não tendo a posse do dinheiro, valor ou bem, o subtrai, ou
concorre para que seja subtraído, em proveito próprio ou alheio,
Sujeito Ativo valendo-se de facilidade que lhe proporciona a qualidade de
Sujeito ativo é qualquer pessoa. funcionário.
Peculato culposo
Sujeito Passivo § 2º - Se o funcionário concorre culposamente para o crime
Sujeito Passivo é qualquer pessoa. Admite-se a pluralidade de outrem:
de sujeitos passivos. É sujeito passivo o sequestrado e a pessoa a Pena - detenção, de três meses a um ano.
quem se dirige a finalidade do agente de obter a vantagem. § 3º - No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se
precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é
Consumação posterior, reduz de metade a pena imposta.
O crime se consuma no momento do sequestro, com a priva-
ção da liberdade de locomoção da vítima. Trata-se, portanto, de Peculato mediante erro de outrem
crime formal, já que não exige o pagamento do resgate, considera- Art. 313 - Apropriar-se de dinheiro ou qualquer utilidade que,
do simples exaurimento. Tratando-se de delito permanente, poderá no exercício do cargo, recebeu por erro de outrem:
ocorrer prisão em flagrante enquanto a vítima estiver sob o poder Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
dos sequestradores (artigo 303 do Código de Processo Penal).        
Competência Peculato: visa proteger a probidade administrativa (patrimô-
A competência para julgamento desse delito é do local onde nio público). Esses crimes são chamados crimes de improbidade
se deu a consumação. Se o crime consumar-se em território de administrativa. O sujeito ativo é o funcionário público e o sujeito
duas comarcas, ambas serão competentes, fixando-se uma delas passivo é o Estado, visto como Administração Pública. Pode exis-
por prevenção (artigo 71 do Código de Processo Penal). tir um sujeito passivo secundário (particular).
Podemos dividir o peculato em dois grandes grupos; doloso
Tentativa e culposo:
A tentativa é possível quando, iniciado o ato de “sequestrar”, a) Peculato Doloso:
os agentes não tiverem êxito na captura da vítima.
 Peculato-apropriação: art. 312, caput, primeira parte.
 Peculato-desvio: art. 312, caput, segunda parte.
Extorsão Mediante Sequestro e Rapto
 Peculato-furto: art. 312, § 1.º.
No crime do artigo 159 do Código Penal (extorsão mediante
 Peculato mediante erro de outrem: art. 313.
sequestro) ocorre privação da liberdade com o intuito de se obter
vantagem patrimonial.
No rapto (artigo 219), a privação da liberdade de mulher ho- b) Peculato Culposo:
nesta (sujeito passivo do delito) tem fins libidinosos.  O peculato culposo está descrito no art. 312, § 2.º, do
Código Penal.
Extorsão Mediante Sequestro e Sequestro e Cárcere Pri-
vado PECULATO APROPRIAÇÃO:
O sequestro do artigo 148 do Código Penal é crime subsidiá- a) apropriar-se;
rio. É a privação da liberdade de alguém mediante violência ou b) funcionário público;
grave ameaça, desde que o fato não constitua crime mais grave. c) dinheiro, valor, bem móvel, público ou privado;
d) posse em razão do cargo;
e) proveito próprio ou alheio.

13. CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO Elementos objetivos do tipo: O núcleo é apropriar-se, ou seja,
PÚBLICA (PECULATO E SUAS FORMAS, fazer sua a coisa alheia. A pessoa tem a posse e passa a agir com
CONCUSSÃO, CORRUPÇÃO ATIVA E se fosse dona. O agente muda a sua intenção em relação à coisa. O
PASSIVA, PREVARICAÇÃO). fundamento é a posse lícita anterior.
No caso da posse em razão do cargo, temos que a posse está
com a Administração. O bem tem de estar sob custódia da Admi-
nistração. Exemplo: Um automóvel apreendido na rua vai para o
pátio da Delegacia; o policial militar subtrai o toca-fitas - Ele prati-
TÍTULO XI cou peculato-furto, pois não tinha a posse do bem. Se o funcionário
DOS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA fosse o responsável pelo bem, seria caso de peculato-apropriação.
Se o carro estivesse na rua, seria furto.
PECULATO E SUAS FORMAS No peculato-apropriação e no peculato mediante erro de ou-
trem há apropriação, ou seja, a posse é anterior; a diferença está
Peculato no erro de outrem.
Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, va-
lor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que Objeto material: Dinheiro, valor ou bem móvel. Tudo que for
tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio imóvel não é admitido no peculato. O crime que admite imóvel é
ou alheio: o estelionato.

Didatismo e Conhecimento 37
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Consumação: A consumação do peculato-apropriação se dá PECULATO MEDIANTE ERRO DE OUTREM: Não é
no momento em que ocorreu a apropriação: quando o agente inver- um estelionato, pois o erro da vítima não é provocado pelo agente.
teu o animus, quando passou a agir como se fosse dono. O núcleo do tipo é apropriar-se (para tanto, é preciso posse lícita
anterior). Na verdade, é um peculato-apropriação. O núcleo do
PECULATO-DESVIO: Artigo 312, Segunda Parte, do Códi- estelionato é obter.
go Penal. No peculato-desvio o que muda é apenas a conduta, que O erro de outrem tem de ser espontâneo, e o recebimento, por
passa a ser desviar. Desviar é alterar a finalidade, o destino. Exem- parte do funcionário de boa-fé. Não há fraude.
plo: existe um contrato que prevê o pagamento de certo valor por Exemplo: Pessoa deve dinheiro para a Prefeitura, erra a conta
uma obra. O funcionário paga esse valor, sem a obra ser realizada. e paga a mais. O funcionário recebe o dinheiro sem perceber o
Nesse caso, há peculato-desvio. Liberação de dinheiro para obra erro. Depois, ao perceber o erro, apropria-se do excedente – trata-
superfaturada também é caso de peculato-desvio. -se de peculato mediante erro.
O elemento subjetivo é o dolo de se apropriar. O crime consu-
Elemento subjetivo do tipo: O elemento subjetivo do tipo é a ma-se no momento da apropriação, ou seja, no momento em que o
intenção do desvio para proveito próprio ou alheio. O funcionário agente passa a agir como se fosse dono.
tem de ter a posse lícita da coisa. Se alguém desviar em proveito
da própria Administração, haverá outro crime, qual seja, uso ou CONCUSSÃO
emprego irregular de verbas públicas (art. 315 do CP).
Concussão
Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indireta-
PECULATO-FURTO: Artigo 312, § 1.º, do Código Penal.
mente, ainda que fora da função, ou antes, de assumi-la, mas em
Funcionário público que, embora não tendo a posse do dinhei- razão dela, vantagem indevida:
ro, valor ou bem, o subtrai ou concorre para que seja subtraído, Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa.
em proveito próprio ou alheio, valendo-se de facilidade que lhe
proporciona a qualidade de funcionário. Nesse caso é aplicada a O crime de concussão guarda certa semelhança com o delito
mesma pena. de corrupção passiva, principalmente no que se refere à primeira
A conduta é subtrair, ou seja, tirar da esfera de proteção da modalidade desta última infração (solicitar vantagem indevida).
vítima, de sua disponibilidade. Outra conduta possível é a de con- Na concussão, porém, o funcionário público constrange, exige a
correr dolosamente. vantagem indevida. A vítima, temendo alguma represália, cede à
Não basta ser funcionário público; ele precisa se valer da faci- exigência. Na corrupção passiva (em sua primeira figura) há mero
lidade que essa qualidade lhe proporciona (a execução do crime é pedido, mera solicitação. A concussão, portanto, descreve fato
mais fácil para ele). Por facilidade, entende-se crachá, segredo de mais grave e, por isso, deveria possuir pena mais elevada. Ocorre
cofre etc. Um funcionário público pode praticar furto ou peculato- que, após o advento da Lei n. 10.763/2003, a pena de corrupção
-furto, dependendo se houve, ou não, a facilidade. passiva passou, por incrível que pareça, a ser maior que a de con-
cussão.
Consumação e tentativa: O crime consuma-se com a efetiva Nesse crime, o funcionário público faz exigência de uma van-
retirada da coisa da esfera de vigilância da vítima. A tentativa é tagem. Essa exigência carrega, necessariamente, uma ameaça à
possível. vítima, pois do contrário haveria mero pedido, que caracterizaria
a corrupção passiva.
PECULATO CULPOSO: Artigo 312, § 2.º, do Código Pe- Tal ameaça pode ser:
nal. São requisitos do crime de peculato culposo: a conduta culpo- - explícita: exigir dinheiro para não fechar uma empresa, para
sa do funcionário público e que terceiro pratique um crime doloso, não instaurar inquérito, para permitir o funcionamento de obras
aproveitando-se da facilidade provocada por aquela conduta. etc.;
- implícita: não há promessa de um mal determinado, mas a
vítima fica amedrontada pelo simples temor que o exercício do
Consumação e tentativa: Peculato culposo é crime indepen-
cargo público inspira.
dente do crime de outrem, mas estará consumado quando se con-
A exigência pode ser ainda:
sumar o crime de outrem. Não há tentativa de peculato culposo,
- direta: quando o funcionário público a formula na presença
pois não existe tentativa de crime culposo. Se o crime de outrem é da vítima, sem deixar qualquer margem de dúvida de que está que-
tentado, este responderá por tentativa, porém o fato é atípico para rendo uma vantagem indevida;
o funcionário público. - indireta: o funcionário se vale de uma terceira pessoa para
que a exigência chegue ao conhecimento da vítima ou a faz de
Reparação de danos no peculato culposo – Artigo 312, § 3.º, forma velada, capciosa, ou seja, o funcionário público não fala que
do Código Penal: É a devolução do objeto ou o ressarcimento do quer a vantagem, mas deixa isso implícito.
dano. É preciso ficar atento para as seguintes regras: A concussão é uma forma especial de extorsão praticada por
• Se a reparação do dano for anterior à sentença irrecorrí- funcionário público com abuso de autoridade. Deve, assim, haver
vel (antes do trânsito em julgado – primeira ou segunda instância), um nexo entre a represália prometida, a exigência feita e a função
extingue a punibilidade. exercida pelo funcionário público.
• Se a reparação do dano for posterior à sentença irrecorrí- Por isso, se o funcionário público empregar violência ou grave
vel (depois do trânsito em julgado), ocorre a diminuição da pena, ameaça referente a mal estranho à função pública, haverá crime
pela metade. de extorsão ou roubo. Ex.: um policial aponta um revólver para a
Atenção: No peculato doloso não se aplicam essas regras. vítima e, mediante ameaça de morte, pede que ela lhe entregue o
carro.

Didatismo e Conhecimento 38
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Na concussão não é necessário que o funcionário público es- CORRUPÇÃO ATIVA E PASSIVA
teja trabalhando no momento da exigência. O próprio tipo diz que     
ele pode estar fora da função (horário de descanso, férias, licença) Corrupção passiva
ou, até mesmo, nem tê-la assumido (quando já passou no concurso Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta
mas ainda não tomou posse). O que é necessário é que a exigência ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la,
diga respeito à função pública e as represálias a ela se refiram. mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de
Se o crime for cometido por policial militar estará configura- tal vantagem:
do o crime do art. 305 do Código Penal Militar, que é igualmente Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. 
chamado de concussão. 1º - A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da
Se alguém finge ser policial e exige dinheiro para não pren- vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar
der a vítima, não há concussão, porque o agente não é funcionário qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.
público. Responderá, nesse caso, por crime de extorsão (art. 158). § 2º - Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato
Concluindo, a concussão é um crime em que a vítima é cons- de ofício, com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou
trangida a conceder uma vantagem indevida a funcionário público influência de outrem:
em razão do temor de uma represália imediata ou futura decorrente Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.
de exigência feita por este e relacionada necessariamente com sua
função. (...)
A vantagem exigida tem de ser indevida. Se for devida, haverá
crime de abuso de autoridade do art. 4º, h, da Lei n. 4.898/65, em Corrupção ativa
razão da ameaça feita.  Art. 333 - Oferecer ou prometer vantagem indevida a funcio-
A lei se refere a vantagem indevida: nário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato
- Damásio E. de Jesus, Nélson Hungria e M. Noronha enten- de ofício:
dem que deve ser vantagem patrimonial.  Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.
- Júlio F. Mirabete e Fernando Capez, por outro lado, dizem Parágrafo único - A pena é aumentada de um terço, se, em
que pode ser qualquer espécie de vantagem, uma vez que a lei não razão da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou omite
faz distinção. Ex.: proveitos patrimoniais, sentimentais, de vaida- ato de ofício, ou o pratica infringindo dever funcional.
de, sexuais etc.
O agente deve visar proveito para ele próprio ou para terceira Corrupção Passiva
pessoa.
Como na concussão o funcionário público faz uma ameaça Na corrupção passiva não há ameaça, nem constrangimento.
explícita ou implícita, se a vítima vier a entregar o dinheiro exi- Se o funcionário pede e a pessoa coloca a mão dentro do bolso e
gido, não cometerá corrupção ativa, uma vez que somente o terá entrega, não é caso de corrupção ativa, pois não existe tipificação
feito por se ter sentido constrangida. para entregar, só para prometer, oferecer. Só há corrupção passiva
Consumação. O crime de concussão consuma-se no momen- nesse caso.
to em que a exigência chega ao conhecimento da vítima, indepen- Na modalidade solicitar, onde a iniciativa é do funcionário pú-
dentemente da efetiva obtenção da vantagem visada. Trata-se de blico, não há crime de corrupção ativa, e sim de corrupção passiva.
crime formal. Já, nas modalidades de receber e aceitar promessa, ocorre cor-
A obtenção da vantagem é mero exaurimento. rupção ativa na outra ponta, pois a iniciativa foi de terceiro.
Não desnatura o crime, portanto, a devolução posterior da Vantagem indevida na corrupção passiva é para que o funcio-
vantagem (mero arrependimento posterior — art. 16 do CP) ou a nário faça alguma coisa, deixe de fazer, ou então retarde.
ausência de prejuízo. A consumação ocorre quando houver a solicitação, o recebi-
Um policial exige hoje a entrega de certa quantia em dinhei- mento ou a aceitação da vantagem. A consumação não depende
ro. A vítima concorda e se compromete a entregar a quantia em um da prática ou da omissão de ato por parte do funcionário. O rece-
lugar determinado, três dias depois. Ela, entretanto, chama outros bimento da vantagem só é importante para a modalidade receber.
policiais, que prendem o sujeito na hora da entrega. Há flagrante
provocado? Elementos Objetivos do Tipo:
No flagrante provocado o sujeito é induzido a praticar um cri- • Solicitar, pedir. Quem pede não constrange, não ameaça,
me, mas se tomam providências que inviabilizam totalmente a sua simplesmente pede. A atitude de solicitar é iniciativa do funcioná-
consumação. Nesse caso, não há crime, pois se trata de hipótese de rio público.
crime impossível (Súmula 145 do STF). • Receber, entrar na posse. É preciso ao menos o indício de
Assim, na questão em análise, verifica-se não ter ocorrido o que a pessoa entrou na posse.
flagrante provocado, pois não houve qualquer provocação, ou seja, • Aceitar promessa, concordar com a proposta. Pode ser
ninguém induziu o policial a fazer a exigência. Temos, na hipótese, por silêncio, gesto, palavra. A iniciativa é de terceiro que faz a
um crime de concussão consumado, já que a infração se aperfei- proposta. Alguém propõe e o funcionário aceita.
çoou com a simples exigência que ocorrera três dias antes da data
combinada para a entrega do dinheiro. Corrupção Passiva Privilegiada – § 2.º: A corrupção passiva
Tentativa. É possível a tentativa. Exs.: a) peço para terceiro privilegiada ocorre com pedido ou influência de outrem. Corrup-
fazer a exigência à vítima, mas ele morre antes de encontrá-la; b) ção privilegiada é um crime material – praticar, deixar de praticar.
uma carta contendo a exigência se extravia.
Sujeitos passivos. O Estado e a pessoa contra quem é dirigida
a exigência.

Didatismo e Conhecimento 39
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Corrupção ativa Se, entretanto, o funcionário público a aceitar e, em razão da
vantagem, retardar, omitir ou praticar ato infringindo dever fun-
De acordo com a teoria monista ou unitária, todos os que con- cional, a pena da corrupção ativa será aumentada de um terço, nos
tribuírem para um crime responderão por esse mesmo crime. Às termos do art. 333, parágrafo único, do Código Penal. Sempre que
vezes, entretanto, a lei cria exceções a essa teoria, como ocorre ocorrer essa hipótese, o funcionário público será responsabilizado
com a corrupção passiva e a corrupção ativa. Assim, o funcioná- pela forma exasperada descrita no art. 317, § 1º, do Código Penal.
rio público que solicita, recebe ou aceita promessa de vantagem Tentativa. A tentativa é possível apenas na forma escrita.
indevida comete a corrupção passiva, enquanto o particular que Para que exista a corrupção ativa, o sujeito, com a oferta ou
oferece ou promete essa vantagem pratica corrupção ativa. Existe, promessa de vantagem, deve visar fazer com que o funcionário:
portanto, uma correlação entre as figuras típicas dos delitos: a) Retarde ato de ofício. Ex.: para que um delegado de polícia
Na modalidade “solicitar” da corrupção passiva, não existe, demore a concluir um inquérito policial, visando a prescrição.
entretanto, figura correlata na corrupção ativa. Com efeito, na soli- b) Omita ato de ofício. Ex.: para que o policial não o multe.
citação a iniciativa é do funcionário público, que se adianta e pede c) Pratique ato de ofício. Ex.: para delegado de polícia emitir
alguma vantagem ao particular. Em razão disso, se o particular dá, Carteira de Habilitação para quem não passou no exame (nesse
entrega o dinheiro, só existe a corrupção passiva. O fato é atípico caso, há também crime de falsidade ideológica).
quanto ao particular, pois ele não ofereceu nem mesmo prometeu, Distinção. Se houver corrupção ativa em transação comercial
mas tão somente entregou, o que lhe foi solicitado. Como tal con- internacional, estará configurado o crime do art. 337-B do Código
duta não está prevista em lei, o fato é atípico. Penal. A corrupção para obter voto em eleição constitui crime do
Existe corrupção passiva sem corrupção ativa? art. 299 do Código Eleitoral (Lei n. 4.737/65). Por fim, a corrup-
Sim, em duas hipóteses. Primeiro, no caso já mencionado aci- ção ativa de testemunhas, peritos, tradutores ou intérpretes, não
ma. oficiais, constitui o crime do art. 343 do Código Penal.
Segundo, quando o funcionário público solicita e o particular        
se recusa a entregar o que foi pedido. PREVARICAÇÃO
Por outro lado, nas condutas de oferecer e prometer, que são
as únicas descritas na corrupção ativa, a iniciativa é do particular. Prevaricação
A corrupção ativa, portanto, consuma-se no momento em que Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato
a oferta ou a promessa chegam ao funcionário público. Assim, se de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para
o funcionário recebe ou aceita a promessa, responde por corrupção satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
passiva e o particular por corrupção ativa. Porém, se o funcionário Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
público as recusa, só o particular responde por corrupção ativa.        
Existe corrupção ativa sem corrupção passiva? Art. 319-A.  Deixar o Diretor de Penitenciária e/ou agente
Sim, quando o funcionário público não recebe e não aceita a público, de cumprir seu dever de vedar ao preso o acesso a aparelho
oferta ou promessa de vantagem ilícita. telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com
É necessário que o agente ofereça ou faça uma promessa de outros presos ou com o ambiente externo:
vantagem indevida para que o funcionário público pratique, omita Pena: detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.
ou retarde ato de ofício. Sem isso não há corrupção ativa.        
E se o agente se limita a pedir para o funcionário “dar um Consumação. O crime se consuma com a omissão, retarda-
jeitinho”? mento ou realização do ato.
Não há corrupção ativa, pois o agente não ofereceu nem pro- Tentativa. Não é possível nas formas omissivas (omitir ou
meteu qualquer vantagem indevida. retardar), pois ou o crime está consumado ou o fato é atípico. Na
Nesse caso, se o funcionário público “dá o jeitinho” e não pra- forma comissiva, a tentativa é possível.
tica o ato que deveria, responde por corrupção passiva privilegiada Figura equiparada. A Lei n. 11.466, de 28 de março de 2007,
(art. 317, § 2º) e o particular figura como partícipe. Se o funcioná- criou nova figura ilícita no art. 319-A do Código Penal, estabele-
rio público não dá o jeitinho, o fato é atípico. cendo que a mesma pena prevista para o crime de prevaricação
O tipo exige que a vantagem seja endereçada ao funcionário será aplicada ao diretor de penitenciária e/ou agente público que
público. deixar de cumprir seu dever de vedar ao preso o acesso a aparelho
A que tipo de vantagem se refere a lei? telefônico, de rádio ou similar, que permita a comunicação com
a) Deve ser indevida; se for devida, não há crime. outros presos ou com o ambiente externo. O legislador entendeu
b) Nélson Hungria acha que a vantagem deve ser patrimonial. necessária a criação desse tipo penal em face da constatação de
Damásio que presos têm tido fácil acesso a telefones celulares ou apare-
E. de Jesus, M. Noronha, Heleno C. Fragoso e Júlio F. Mi- lhos similares, e que os agentes penitenciários não vêm dando o
rabete entendem que a vantagem pode ser de qualquer natureza, combate adequado a esse tipo de comportamento. Assim, a Lei
inclusive sexual. n. 11.466/2007, além de criar essa figura capaz de punir o agente
Se o particular oferece a vantagem para evitar que o funcio- penitenciário que se omita em face da conduta do preso, estipulou
nário público pratique contra ele algum ato ilegal, não há crime. também que este, ao fazer uso do aparelho, incorre em falta grave
E se um menor de idade oferece dinheiro a um policial que o — que tem sérias consequências na execução criminal (art. 50,
pegou dirigindo sem habilitação e este aceita? VII, da Lei de Execuções Penais, com a redação dada pela Lei n.
O policial pratica crime de corrupção passiva. 11.466/2007). Com essas providências pretende o legislador evitar
Conforme já mencionado, a corrupção ativa consuma-se que presos comandem suas quadrilhas do interior de penitenciárias
quando a oferta ou a promessa chegam ao funcionário público e e que deixem de cometer crimes com tais aparelhos, pois é notório
independe da aceitação deste. que enorme número de delitos de extorsão vêm sendo cometidos
por pessoas presas, por meio de telefonemas.

Didatismo e Conhecimento 40
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
Observações: (C) formais e omissivos impróprios.
1) Na corrupção passiva, o funcionário público negocia seus (D) materiais e omissivos próprios.
atos, visando uma vantagem indevida. Na prevaricação isso não (E) materiais e de mera conduta.
ocorre.
Aqui, o funcionário público viola sua função para atender a 4. (FCC - 2012 - TRE-PR - Analista Judiciário - Área Ad-
objetivos pessoais. ministrativa) Os crimes que encerram dois ou mais tipos em uma
2) O agente deve atuar para satisfazer: única descrição legal denominam-se crimes
a) interesse patrimonial (desde que não haja recebimento de (A) de mão própria.
vantagem indevida, hipótese em que haveria corrupção passiva) (B) complexos.
ou moral; (C) plurissubjetivos.
b) sentimento pessoal, que diz respeito à afetividade do agente (D) qualificados.
em relação a pessoas ou fatos. Ex.: Permitir que amigos pesquem (E) de ação múltipla
em local público proibido. Demorar para expedir documento so-
licitado por um inimigo. O sentimento, aqui, é do agente, mas o 5. (Procurador – TCE /AP – FCC- 2010) Nos crimes pre-
benefício pode ser de terceiro. terdolosos,
O atraso no serviço por desleixo ou preguiça não constitui a) o agente prevê o resultado, mas espera que este não acon-
crime. Se fica caracterizado, todavia, que o agente, por preguiça, teça
rotineiramente deixa de praticar ato de ofício, responde pelo cri- b) o dolo do agente é subsequente ao resultado culposo.
me. Ex.: delegado que nunca instaura inquérito policial para apurar c) há maior intensidade de dolo por parte do agente.
crime de furto, por considerá-lo pouco grave. d) o agente é punido a título de dolo e também de culpa.
3) A prevaricação não se confunde com a corrupção passiva e) o agente aceita, conscientemente, o risco de produzir o re-
privilegiada. Nesta, o agente atende a pedido ou influência de ou- sultado.
trem.
Na prevaricação não há tal pedido ou influência. O agente visa 6. (Procurador – BACEN – FCC – 2006). O resultado é
satisfazer interesse ou sentimento pessoal. prescindível para a consumação nos crimes
Se um fiscal flagra um desconhecido cometendo irregulari- a) materiais e de mera conduta.
dade e deixa de multá-lo em razão de insistentes pedidos deste, b) formais e materiais.
há corrupção passiva privilegiada; mas se o fiscal deixa de multar c) formais e materiais.
a pessoa porque percebe que se trata de um antigo amigo, comete d) omissivos próprios e materiais
prevaricação. e) de mera conduta e formais
4) O tipo exige que a conduta do funcionário público seja in-
devida apenas nas duas primeiras modalidades (retardar e deixar 7. (CESPE - 2008 - OAB-SP - Exame de Ordem - 2 - Pri-
de praticar, indevidamente, ato de ofício). Na última hipótese pre- meira Fase) Assinale a opção correta acerca da classificação dos
vista no tipo (praticar ato de ofício), a conduta deve ser “contra ex- crimes.
pressa previsão legal”. Temos, neste último caso, uma norma penal A) O crime é qualificado quando, ao tipo básico, ou funda-
em branco, pois sua aplicação depende da existência de outra lei. mental, o legislador agrega circunstâncias que elevam ou majoram
a pena, tal como ocorre com o homicídio.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO B) O delito de ameaça pode ser classificado como crime ma-
terial.
1. (Técnico do Ministério Público – MPE/SE – FCC – 2009) C) Os crimes de quadrilha e rixa são unissubjetivos.
O art. 5º, LVII, da Constituição Federal dispõe que “ninguém será D) O delito de infanticídio pode ser classificado como crime
considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal comum.
condenatória”. Nesse dispositivo constitucional está consagrado o
princípio 8. (VUNESP - 2008 - MPE-SP - Promotor de Justiça) Assi-
a) da anterioridade da lei penal. nale a alternativa correta.
b) da presunção de inocência. (A) Os crimes instantâneos não admitem tentativa.
c) da legalidade. (B) Nos crimes de ação múltipla, a pluralidade de agentes in-
d) do contraditório tegra o tipo.
e) do juiz natural (C) É possível a tentativa em crimes comissivos por omissão.
(D) O crime de exercício arbitrário das próprias razões é crime
2. (Defensoria Pública – DPE/SP – FCC – 2010) A absorção de mão própria.
do crime-meio pelo crime-fim configura aplicação do princípio da (E) Os crimes unissubjetivos não admitem coautoria.
a) sucessividade
b) alternatividade 9. (Analista Judiciário – TJ – SE – FCC – 2009) Quanto ao
c) consunção elemento moral, os crimes podem ser:
d) especialidade a) comissivos e omissivos.
e) subsidiariedade b) simples e complexos.
c) individuais e coletivos.
3. (FCC - 2012 - TRT - 4ª REGIÃO (RS) - Juiz do Trabalho d) dolosos e culposos.
- Prova TIPO 4) Consumam-se com o resultado os crimes  e) políticos e mistos.
(A) formais e omissivos próprios.
(B) omissivos impróprios e materiais.

Didatismo e Conhecimento 41
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
10. (Procurador – TCE /AP – FCC – 2010) São crimes que 14. (DELEGADO DE POLÍCIA/AP – FGV – 2010) Relati-
se consumam no momento em que o resultado é produzido: vamente ao tema da territorialidade e extraterritorialidade, analise
a) omissivos impróprios e materiais. as afirmativas a seguir.
b) materiais e omissivos próprios. I. Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estran-
c) culposos e formais geiro os crimes contra a administração pública, por quem está a
d) de mera conduta e omissivos impróprios. seu serviço.
e) permanentes e formais. II. Ficam sujeitos à lei brasileira, os crimes praticados em ae-
ronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade
11. (Secretário de Diligências – MPE/RS – FCC – 2008) privada, quando em território estrangeiro ainda que julgados no
Tendo em conta o Princípio da Reserva Legal, é correto afirmar estrangeiro.
que III. Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no es-
a) é lícita a aplicação de pena não prevista em lei se o fato trangeiro os crimes contra o patrimônio da União, do Distrito Fe-
praticado pelo agente for definido como crime no tipo penal. deral, de Estado, de Território ou de Município quando não sejam
b) o juiz pode fixar a pena a ser aplicada ao autor do delito julgados no estrangeiro.
acima do máximo previsto em lei, aplicando os costumes vigentes Assinale:
na localidade em que ocorreu. (A) se somente a afirmativa I estiver correta.
c) é vedado o uso da analogia para punir o autor de um fato (B) se somente a afirmativa II estiver correta.
não previsto em lei como crime, mesmo sendo semelhante a outro (C) se somente a afirmativa III estiver correta.
por ela definido. (D) se somente as afirmativas II e III estiverem corretas.
d) fica ao arbítrio do juiz determinar a abrangência do preceito (E) se todas as afirmativas estiverem corretas.
primário da norma incriminadora se a descrição do fato delituoso
na norma penal for vaga e indeterminada. 15. (DELEGADO DE POLÍCIA/AP – FGV – 2010) Assi-
e) o juiz tem o poder de impor sanção penal ao autor de um nale a alternativa que apresente local que não é considerado como
fato não descrito como crime na lei penal, se esse fato for imoral, extensão do território nacional para os efeitos penais.
antissocial ou danoso à sociedade. (A) aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de
propriedade privada, quando em território estrangeiro, desde que o
12. (Analista Judiciário – TRT 8ª Região – FCC – 2010) crime figure entre aqueles que, por tratado ou convenção, o Brasil
João cometeu um crime para o qual a lei vigente na época do fato se obrigou a reprimir.
previa pena de reclusão. Posteriormente, lei nova estabeleceu so- (B) as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou
mente a sanção pecuniária para o delito cometido por João. Nesse de propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço
caso, aéreo correspondente ou em alto-mar.
a) a aplicação da lei nova depende da expressa concordância (C) as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza públi-
do Ministério Público. ca, onde quer que se encontrem.
b) aplica-se a lei nova somente se a sentença condenatória ain- (D) aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade
da não tiver transitado em julgado. privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou
c) não se aplica a lei nova, em razão do princípio da irretroa- em voo no espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar
tividade das leis penais. territorial do Brasil.
d) aplica-se a lei nova, mesmo que a sentença condenatória já (E) as embarcações e aeronaves brasileiras, a serviço do go-
tiver transitado em julgado. verno brasileiro, onde quer que se encontrem.
e) a aplicação da lei nova, se tiver havido condenação, de-
pende do reconhecimento do bom comportamento carcerário do 16. (Analista de Promotoria – MP/SP – VUNESP – 2010)
condenado. Considere que um indivíduo, de nacionalidade chilena, em territó-
rio argentino, contamine a água potável que será utilizada para dis-
13. (Analista Judiciário – TER /AP – FCC – 2006) Conside- tribuição no Brasil e Paraguai. Considere, ainda, que neste último
rando os princípios que regulam a aplicação da lei penal no tempo, país, em razão da contaminação, ocorre a morte de um cidadão pa-
pode-se afirmar que raguaio, sendo que no Brasil é vitimado, apenas, um equatoriano.
a) não se aplica a lei nova, mesmo que favoreça o agente de De acordo com a regra do art. 6.º, do nosso Código Penal (“lu-
outra forma, caso se esteja procedendo à execução da sentença, em gar do crime”), considera-se o crime praticado
razão da imutabilidade da coisa julgada. a) na Argentina, apenas.
b) pela abolitio criminis se fazem desaparecer o delito e todos b) no Brasil e no Paraguai, apenas.
os seus reflexos penais, permanecendo apenas os civis. c) no Chile e na Argentina, apenas.
c) em regra, nas chamadas leis penais em branco com caráter d) na Argentina, no Brasil e no Paraguai, apenas.
excepcional ou temporário, revogada ou alterada a norma comple- e) no Chile, na Argentina, no Paraguai, no Brasil e no Equador.
mentar, desaparecerá o crime.
d) a lei excepcional ou temporária embora decorrido o período 17. (MPE/RS – Secretário de Diligências – FCC – 2010)
de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, Em tema de aplicação da lei penal, é INCORRETO afirmar:
não se aplica ao fato praticado durante a sua vigência. a) Na contagem do prazo pelo Código Penal, não se inclui
e) permanecendo na lei nova a definição do crime, mas au- no seu cômputo, o dia do começo, nem se desprezam na pena de
mentadas suas consequências penais, esta norma será aplicada ao multa, as frações de Real.
autor do fato. b) Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a
ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu
ou deveria produzir-se o resultado.

Didatismo e Conhecimento 42
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
c) O princípio da legalidade compreende os princípios da re- 22. (Prova: FCC - 2006 - DPE-SP - Defensor Público) No
serva legal e da anterioridade. caso de crime impossível é correto afirmar:
d) A regra da irretroatividade da lei penal somente se aplica à a) Se os meios empregados são ineficazes para alcançar o re-
lei penal mais gravosa. sultado, mesmo que o agente acredite que são eficazes e aja para
e) As leis temporárias ou excepcionais são autorrevogáveis e evitar o resultado, haverá crime impossível e não arrependimento
ultrativas. eficaz.
b) Se houver absoluta ineficácia do meio a tentativa é atípica,
18. (FCC - TRT 8ª REGIÃO - 2010) Tendo em conta o tipo mas punível.
penal do crime de homicídio (art. 121 do Código Penal: “Matar al- c) A ausência da menção da inidoneidade no art. 17 do Código
guém”), a mãe que intencionalmente deixa de amamentar a crian- Penal, que só trata da ineficácia do meio e da impropriedade do
ça, causando-lhe a morte por inanição, pratica um objeto, não pode ser resolvida com a analogia in bonam partem.
(A) crime culposo. d) Nos casos de flagrante preparado, porque o bem está in-
(B) crime omissivo. teiramente protegido, não se pode dizer que há crime impossível.
(C) crime sem resultado. e) Para sua configuração é necessário tanto que o meio seja
(D) crime comissivo por omissão. absolutamente ineficaz, quanto que o objeto seja absolutamente
(E) fato penalmente atípico. impróprio.

19. (Defensoria Pública – DPE/MT – FCC – 2009) O art. 23. (Procuradoria do Estado – PGE/CE – CESPE – 2008)
14, § único, do Código Penal dispõe que “salvo disposição em Há crime quando o sujeito ativo pratica fato típico em função de
contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime a) estado de necessidade.
consumado, diminuída de um a dois terços”. O percentual de dimi- b) coação moral irresistível.
nuição de pena a ser considerado levará em conta c) legítima defesa.
a) a intensidade do dolo d) estrito cumprimento do dever legal.
b) o iter criminis percorrido pelo agente e) exercício regular do direito.
c) a periculosidade do agente
d) a reincidência 24. (CESPE-UNB, Juiz Substituto – PI, 2012) Assinale a
opção correta a respeito da ilicitude e das suas causas de exclusão:
e) os antecedentes do agente
A) Considere que Antônio seja agredido por Lucas, de for-
ma injustificável, embora lhe fosse igualmente possível fugir ou
20. Assinale a alternativa CORRETA a respeito de tentativa e
permanecer e defender-se. Nessa situação, como o direito é ins-
consumação do crime: trumento de salvaguarda da paz social, caso Antônio enfrentasse
a) Pune-se a tentativa com a pena correspondente ao consu- e ferisse gravemente Lucas, ele deveria ser acusado de agir com
mado, diminuída de um a dois terços, portanto a pena do crime excesso doloso.
tentado é sempre menor que a do crime consumado. B) Se a excludente do estrito cumprimento do dever legal for
b) Os crimes culposos não admitem tentativa, inclusive na reconhecida em relação a um agente, necessariamente será reco-
omissão imprópria, assim como nos crimes unissubsistentes, que nhecida em relação aos demais coautores, ou partícipes do fato,
são aqueles que se realizam em um único ato. que tenham conhecimento da situação justificadora.
c) Pode haver tentativa no crime preterdoloso ou preterinten- C) Considere que, para proteger sua propriedade, Abel tenha
cional, porque nesta espécie de crime há dolo no antecedente e instalado uma cerca elétrica oculta no muro de sua residência e que
culpa no consequente. duas crianças tenham sido eletrocutadas ao tentar pulá-la. Nesse
d) A adequação típica de um crime tentado é de subordina- caso, caracteriza-se exercício regular do direito de forma excessi-
ção mediata, ampliada ou por extensão, já que a conduta humana va, devendo Abel responder por homicídio culposo.
nessa espécie de crime não se enquadra prontamente na lei penal D) Em relação ao estado de necessidade, adota-se no CP a teo-
incriminadora. ria diferenciadora, segundo a qual a excludente de ilicitude poderá
ser reconhecida como justificativa para a prática do fato típico,
21. (CESPE - 2009 - OAB - Exame de Ordem Unificado - 1 quando o bem jurídico sacrificado for de valor menor ou igual ao
- Primeira Fase - Mai/2009) Acerca dos institutos da desistência do bem ameaçado.
voluntária, do arrependimento eficaz e do arrependimento poste- E) No que se refere ao terceiro que sofre a ofensa, o estado de
rior, assinale a opção correta. necessidade classifica-se em agressivo, quando a ação é dirigida
A) O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na contra o provocador dos fatos, e defensivo, quando o agente des-
execução ou impede que o resultado se produza responderá pelo trói bem de terceiro inocente.
crime consumado com causa de redução de pena de um a dois
terços. 25. (TJ-PR - 2011 - TJ-PR - Juiz) No que tange às causas
B) A desistência voluntária e o arrependimento eficaz, espé- excludentes de ilicitude, após apontar quais são as assertivas ver-
cies de tentativa abandonada ou qualificada, passam por três fases: dadeiras (V) e falsas (F), assinale a única sequência CORRETA:
o início da execução, a não consumação e a interferência da von- (_) Não há crime quando o agente pratica o fato em estado de
tade do próprio agente. necessidade, em legítima defesa, em estrito cumprimento de dever
C) Crimes de mera conduta e formais comportam arrependi- legal ou no exercício regular de direito.
mento eficaz, uma vez que, encerrada a execução, o resultado na- (_) O agente, quando praticar os atos em legítima defesa, não
turalístico pode ser evitado. responderá pelo excesso punível na modalidade dolosa ou culposa.
D) A natureza jurídica do arrependimento posterior é a de (_) Considera-se em estado de necessidade quem pratica o
causa geradora de atipicidade absoluta da conduta, que provoca a fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vonta-
adequação típica indireta, de forma que o autor não responde pela de, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo
tentativa, mas pelos atos até então praticados. sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se.

Didatismo e Conhecimento 43
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
(_) O agente, em qualquer das hipóteses do artigo 23 do Có- 29. (UFPR, Juiz Substituto-PR, 2012) A embriaguez, volun-
digo Penal (legítima defesa, estado de necessidade, estrito cum- tária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeito análogo:
primento do dever legal e exercício regular de direito), responderá a) isenta o réu de pena, mas pode ser recepcionada como cri-
pelo excesso doloso ou culposo. me independente punido com pena de detenção.
(_) Entende-se em legítima defesa quem, usando moderada- b) é sempre considerada atenuante na prática de qualquer de-
mente dos meios necessários, repele injusta agressão, pretérita, lito.
atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. c) não exclui a imputabilidade penal.
d) só tem relevância penal quando a embriaguez atinge per-
A) V, F, V, V, F centual perceptível por exame de bafômetro.
B) F, V, V, F, V
C) F, F, V, V, F 30. (DELEGADO DE POLÍCIA/AP – FGV – 2010) Assina-
D) V, F, V, F, V le a alternativa que não qualifica o crime de homicídio.
(A) Emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou
26. (NUCEPE - 2012 - PM-PI - Agente de Polícia – Sargen- outro meio insidioso ou cruel.
to) Sobre as excludentes de ilicitude podemos afirmar, EXCETO. (B) Para assegurar a ocultação de outro crime.
a) Mesmo amparado pelas excludentes de ilicitude, o agente (C) Motivo fútil.
responderá pelo excesso doloso ou culposo de sua ação.  (D) Abuso de poder ou violação de dever inerente a cargo,
b) Considera-se em legítima defesa quem pratica o fato para ofício, ministério ou profissão.
salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem po- (E) Mediante dissimulação.
dia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício,
nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. 31. (FCC - TRT 8ª REGIÃO - 2010) No crime de homicídio,
c) O estado de necessidade tem como um de seus requisitos a (A) não há incompatibilidade na coexistência de circunstân-
preservação de direito próprio ou de outrem.  cias objetivas que qualificam o crime e as que o tornam privile-
d) A legítima defesa tem como um de seus requisitos a reação giado.
a agressão injusta, atual ou iminente.  (B) há incompatibilidade na coexistência de quaisquer cir-
e) Para que esteja amparado pela excludente do estrito cum- cunstâncias que qualificam o crime e as que o tornam privilegiado.
primento do dever legal (art. 23, III, 1ª Parte, do Código Penal), é (C) não há incompatibilidade na coexistência de circunstân-
necessário que o agente obedeça rigorosamente os limites do de- cias subjetivas que qualificam o crime e as que o tornam privile-
ver, sendo que, se ultrapassá-los, responderá pelo abuso de direito giado.
ou excesso de dever.  (D) há incompatibilidade na coexistência de duas ou mais
qualificadoras, ainda que objetivas.
27. (MPE-PR - 2012 - MPE-PR - Promotor de Justiça) So- (E) não há incompatibilidade na coexistência de duas qualifi-
bre legítima defesa, assinale a alternativa incorreta: cadoras de natureza subjetiva.
a) Não é possível falar em legítima defesa real contra legítima
defesa real, mas é admissível legítima defesa real contra legítima 32. (Defensoria Pública – DPE/MT – FCC – 2010) João ma-
defesa putativa e legítima defesa real contra excesso de legítima tou seu desafeto com vinte golpes de faca. Nesse caso,
defesa, real ou putativa; a) responderá por crime de homicídio tentado e consumado
b) A proteção contra lesões corporais produzidas em situação em concurso material.
de ataque epiléptico não pode ser justificada pela legítima defesa, b) ocorreu concurso formal de infrações.
mas pode ser justificada pelo estado de necessidade; c) responderá por vinte crimes de homicídio em concurso ma-
c) A legítima defesa putativa constitui exemplo de erro sobre terial.
os pressupostos fáticos de uma causa de justificação e, se evitável, d) deve ser reconhecido o crime continuado.
reduz a culpabilidade, conforme a teoria limitada da culpabilidade; e) responderá por um crime de homicídio.
d) As limitações ético-sociais para o exercício da legítima de-
fesa contra agressões injustas, atuais ou iminentes, a bem jurídico, 33. (FCC - 2013 - TJ-PE - Juiz) Em relação aos crimes con-
produzidas por crianças, impõem ao agredido procedimentos al- tra a vida, correto afirmar que
ternativos prévios, cuja observância condiciona a permissibilidade (A) o homicídio simples, em determinada situação, pode ser
da defesa; classificado como crime hediondo.
e) A legítima defesa pode ser utilizada para repelir agressão (B) a pena pode ser aumentada de um terço no homicídio cul-
injusta, atual ou iminente, a bem jurídico, realizada por alguém em poso, se o crime é praticado contra pessoa menor de quatorze anos
situação de coação moral irresistível ou de obediência hierárquica, ou maior de sessenta anos.
excludentes da culpabilidade. (C) compatível o homicídio privilegiado com a qualificadora
do motivo fútil.
28. (FCC - 2010 - MPE-SE - Analista – Direito) Desenvol- (D) cabível a suspensão condicional do processo no homicídio
vimento mental incompleto ou retardado, embriaguez decorrente culposo, se o crime resulta de inobservância de regra técnica de
de caso fortuito e menoridade constituem, dentre outras, exclu- profissão, arte ou ofício.
dentes de (E) incompatível o homicídio privilegiado com a qualificado-
(A) tipicidade. ra do emprego de asfixia.
(B) ilicitude.
(C) punibilidade.
(D) antijuridicidade.
(E) culpabilidade

Didatismo e Conhecimento 44
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
34. (FUNCAB - 2012 - PC-RO - Médico Legista) São crimes b) roubo, furto, estelionato e usurpação de águas.
contra a vida, assim previstos pelo Código Penal: c) roubo, furto, estelionato e peculato.
A) latrocínio, homicídio, extorsão mediante sequestro seguido d) roubo, furto, estelionato e moeda falsa.
de morte e infanticídio. e) roubo, furto, estelionato e injúria
B) homicídio, aborto, infanticídio e induzimento ao suicídio.
C) homicídio, aborto, latrocínio e lesão corporal seguida de 39. (Analista Judiciário – TRT 3ª Região – FCC – 2009)
morte. José ingressou no escritório da empresa Alpha, sendo que o segu-
D) extorsão mediante sequestro seguido de morte, rixa segui- rança não lhe obstou o acesso porque estava vestido de faxineiro e
da de morte, latrocínio, infanticídio e aborto. portando materiais de limpeza. No interior do escritório, arrombou
E) latrocínio, lesão corporal seguida de morte, difamação e a gaveta e subtraiu R$ 3.000,00 do seu interior. Quando estava
periclitação da vida. saindo do local, o segurança, alertado pelo barulho, tentou detê-
-lo. José, no entanto, o agrediu e o deixou desacordado e ferido no
35. (FCC - TRT 8ª REGIÃO - 2010) Jeremias aproximou-se solo, fugindo, em seguida, do local de posse do dinheiro subtraído.
de um veículo parado no semáforo e, embora não portasse qual- Nesse caso, José responderá por
quer arma, mas fazendo gestos de que estaria armado, subtraiu a a) furto qualificado pela fraude e pelo arrombamento.
carteira do motorista, contendo dinheiro e documentos. Jeremias b) furto qualificado pela fraude.
responderá por crime de c) roubo impróprio.
(A) roubo qualificado pelo emprego de arma. d) furto simples.
(B) furto simples. e) estelionato.
(C) furto qualificado.
(D) roubo simples. 40. (FUNCAB - 2013 - PC-ES - Perito em Telecomunica-
(E) apropriação indébita. ção) O funcionário público que apropriar-se de dinheiro, valor ou
qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a
36. (Delegado de Polícia – FGV – 2010) Relativamente aos posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou
crimes contra o patrimônio, analise as afirmativas a seguir: alheio, comete o crime de:
I. No crime de furto, se o criminoso é primário, e a coisa fur- A) peculato.
tada é de pequeno valor, o juiz pode substituir a pena de reclusão B) concussão.
pela de detenção. C) corrupção passiva.
II. Considera-se qualificado o dano praticado com violência à D) prevaricação.
pessoa ou grave ameaça, com emprego de substância inflamável E) condescendência criminosa.
ou explosiva (se o fato não constitui crime mais grave), contra o
patrimônio da União, Estado, Município, empresa concessionária 41. (Analista Processual – MPU – FCC – 2007) Considera-
de serviços públicos ou sociedade de economia mista ou ainda por -se funcionário público, para os efeitos penais, dentre outros, o
motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima. a) tutor dativo.
III. É isento de pena quem comete qualquer dos crimes contra b) perito judicial.
o patrimônio em prejuízo do cônjuge, na constância da sociedade c) curador dativo.
conjugal, desde que não haja emprego de grave ameaça ou vio- d) inventariante judicial.
lência à pessoa ou que a vítima não seja idosa nos termos da Lei e) síndico falimentar.
10.741/2003.
Assinale: 42. (Agente de Fiscalização Judiciária – TJ – SP – VU-
a) se somente a afirmativa I estiver correta. NESP – 2010) A conduta de apropriar-se de dinheiro ou qualquer
b) se somente a afirmativa II estiver correta. utilidade que, no exercício do cargo, recebeu por erro de outrem
c) se somente a afirmativa III estiver correta. configura o crime de
d) se somente as afirmativas II e III estiverem corretas. a) corrupção ativa.
e) se todas as afirmativas estiverem corretas. b) peculato culposo.
c) corrupção passiva.
37. (Defensoria Pública – DPE/MT – FCC – 2009) Quanto d) excesso de exação
aos crimes contra o patrimônio, é correto afirmar que e) peculato mediante erro de outrem.
a) o estelionato não admite a figura privilegiada do delito.
b) a pena, na extorsão, pode ser aumentada até dois terços se 43. (VUNESP - 2012 - DPE-MS - Defensor Público) Assina-
praticada por duas ou mais pessoas. le a alternativa correta.
c) o chamado “furto de uso”, se aceito, não constituiria crime (A) Ocorrerá crime de concussão mesmo se a exigência, para
por falta de tipicidade. si ou para outrem, versar sobre vantagem devida.
d) há latrocínio tentado no caso de homicídio consumado e (B) A corrupção passiva é crime material, exigindo-se para
subtração tentada, segundo entendimento sumulado do Supremo sua configuração que o funcionário receba a vantagem indevida.
Tribunal Federal. (C) Não há possibilidade de ocorrer corrupção ativa sem a
e) o emprego de arma de brinquedo qualifica o roubo, de acor- correspondente corrupção passiva.
do com Súmula do Superior Tribunal de Justiça. (D) Mesmo aquele que não é funcionário público poderá res-
ponder por crime de peculato.
38. (Magistratura – TJ – MS – FGV – 2008) São crimes
contra o patrimônio:
a) roubo, furto, estelionato e lesão corporal.

Didatismo e Conhecimento 45
NOÇÕES DE DIREITO PENAL
GABARITO:
ANOTAÇÕES
1 B
2 C
3 B
4 B —————————————————————————
5 D —————————————————————————
6 E
—————————————————————————
7 A
8 C —————————————————————————
9 D —————————————————————————
10 A
—————————————————————————
11 C
—————————————————————————
12 D
13 B —————————————————————————
14 A —————————————————————————
15 A
—————————————————————————
16 D
17 A —————————————————————————
18 D —————————————————————————
19 B —————————————————————————
20 D
—————————————————————————
21 B
22 A —————————————————————————
23 B —————————————————————————
24 B
—————————————————————————
25 A
26 B —————————————————————————
27 C —————————————————————————
28 E —————————————————————————
29 C
—————————————————————————
30 D
31 A —————————————————————————
32 E —————————————————————————
33 A
—————————————————————————
34 B
35 D —————————————————————————
36 E —————————————————————————
37 C —————————————————————————
38 B
—————————————————————————
39 C
40 A —————————————————————————
41 B —————————————————————————
42 E
—————————————————————————
43 D

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