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Athos Gusmão Carneiro

Ministro do Superior Tribunal de Justiça, aposentado; ex-desembargador do TJRS;


professor jubilado de Direito Processual Civil da Faculdade de Direito da
UFRGS; membro titular da Academia Brasileira de Letras Jurídicas, do
Instituto Ibero-Americano de Direito Processual, do Instituto Brasileiro de
Direito Processual — IBDP, do Instituto dos Advogados-RS e da Associação Interna­
cional de Direito Processual; membro da Comissão de
Reforma do CPC, mantida pelo IBDP; advogado.

JURISDIÇÃO E
A

COMPETENCIA
Exposição didática
/
Area do direito processual civil

1 7 â E d iç ã o

2010

Editora
Saraiwa
f l f i Editora
P üsa Saraiva
ISBN 9 7 8 -8 5 -0 2 -0 8 5 8 9 -3

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De 2S o 6£, dos 8 :3 0 òs 19 :3 0 Jurisdição e competência : exposição didático : área do

soroiyoiur@ editorGsaroiva.com .br direito processual civil / Athos Gusmão Carneiro. - 1 7 . ed.

Acesse: w w w .sofoivQjur.com .br São Paulo : Saraiva, 2 0 1 0 .

1 . Competência (Direito judiciário) 2 . Competência


FILIAIS
. (D ireito) • Brosil 3 . Jurisdição 4 . Jurisdição - Brasil i. Título.
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À memória dos meus pais, Manoel Alire
Borges Carneiro e Ione Gusmão Carneiro, em
pensamento sempre comigo.

À Glória, minha esposa, companheira de


todos os momentos, com amor.

A memória do fraterno amigo, meu cunhado


Anthero do Amaral Simões.
ilí A

Apresentação da 17a edição


Como mencionado na apresentação da l~ edição, ao escrever esta
monografia tive em mente proporcionar aos alunos dos cursos jurídi­
cos, e igualmente aos advogados militantes, uma exposição concisa, redi­
gida de forma didática, a respeito dos institutos fundamentais da jurisdição
e da competência, abordados sob o ângulo do direito processual civil.
Em face da boa acolhida que a obra mereceu, em edições poste­
riores tivemos oportunidade de ampliá-la, de reformular e apresentar
conceitos com remissões ao magistério de juristas de nomeada e, por fim,
de adaptá-la em virtude da Constituição de 1988 e das sucessivas leis de
reforma do Código de Processo Civil.
Apresento agora, sempre pela Editora Saraiva, a 17â edição de Ju­
risdição e competência, sob a experiência adquirida como integrante do
Superior Tribunal de Justiça, com a introdução de novos verbetes e notas
de rodapé, e remissão a numerosos arestos desse tribunal a respeito da
aplicação das normas do Código de Processo Civil sobre competência.
Na 9â edição os verbetes foram em parte reagrupados, surgindo mais
dois capítulos. A partir da 12â edição, as remissões ao Código Civil já
dizem respeito à Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Na 14â edição,
as notas de rodapé foram renumeradas por Capítulos, e a obra revisada,
inclusive tendo em vista a Emenda Constitucional n. 45/2004.
Nesta 17â edição, a atualização abrangeu naturalmente as últimas leis
de reforma do Código de Processo Civil e a nova lei sobre o mandado de
segurança.
Tudo, como sempre, sob a censura dos doutos e confiante na bene­
volência dos leitores.
Porto Alegre, setembro de 2009.
Athos Gusmão Carneiro

VII
Abreviaturas e siglas
ac. — Acórdão
AC — Apelação Cível
ADC — Ação Declaratória de Constitucionalidade
ADIN — Ação Direta de Inconstitucionalidade
Ag. — Agravo
Ag. Inst. — Agravo de Instrumento
Ag. Reg. — Agravo Regimental
AJURIS — Revista AJU RIS, da Associação dos Juizes do Rio
Grande do Sul
AP — Ação Penal
Ap. — Apelação
AR. — Ação Rescisória
art.(s) — artigo(s)
CA — Conflito de atribuições
CADE — Conselho Administrativo de Defesa Econômica
Câm. — Câmara
Cap. — Capítulo
CC — Código Civil
cc — Conflito de Competência
c/c _ combinado com
CDC — Código de Defesa do Consumidor
CF — Constituição Federal
cit — citado
CJ — Conflito de Jurisdição .
CLT — Consolidação das Leis do Trabalho
COJE — Código da Organização Judiciária do Estado
Col. — Coleção ou Coletânea
CP — Código Penal
CP C — Código de Processo Civil
CPI — Código da Propriedade Industrial
CPM — Código Penal Militar
CPP — Código de Processo Penal
CPPM — Código de Processo Penal Militar

IX
dec. — decisão
Dec. — Decreto
Dec.-lei — Decreto-lei
Des. — Desembargador
desig. — designado
Dialética — Revista Dialética de Direito Processual
DJe — Diário da Justiça eletrônico
DJU — Diário da Justiça da União
DO — Diário Oficial
EC „— Emenda Constitucional
ed. — edição
Em. — Ementário
Emb. Decl. — Embargos de Declaração
Emb. Div. — Embargos de Divergência
EREsp — Embargos de Divergência no Recurso Especial
EMC — Estatuto da Mulher Casada
ERE — Embargos em Recurso Extraordinário
FGTS — Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
HC — Habeas Corpus
i. e. — isto é
Inf. STJ — Informativo do STJ
INSS — Instituto Nacional do Seguro Social
j- — julgado
JTARS — Julgados do Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul
LC — Lei Complementar
LOMAN — Lei Orgânica da Magistratura Nacional
MC — Medida Cautelar
Magister — Revista Magister de Direito Civil e Processual Civil
Med. Prov. — Medida Provisória
Min. — Ministro
MS — Mandado de Segurança
n. — número(s)
OMC — Organização Mundial do Comércio
orig. — original
P- — página
PEC — Proposta de Emenda Constitucional
Pet. — Petição
PGR — Procuradoria Geral da República
p. m. v. — por maioria de votos

X
RDA — Revista de Direito Administrativo
RE — Recurso Extraordinário
Rec.(s) — Recurso(s)
Recl. — Reclamação
Ref. Adm. — Reforma Administrativa
Reg. — Regimento
rei. — relator
Repr. — Representação
RePro — Revista de Processo (ed. Revista dos Tribunais)
REsp — Recurso Especial
retif. — retificação
rev. — revista
RF — Revista Forense
RHC _ Recurso de Habeas Corpus
RJTJRS — Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça do
Rio Grande do Sul
RMS — Recurso em Mandado de Segurança
RR — Recurso de Revista
RSTJ — Revista do Superior Tribunal de Justiça
RT _ Revista dos Tribunais
RTJ — Revista Trimestral de Jurisprudência (STF)
s. — seguinte(s)
SE — Sentença Estrangeira
Síntese — Revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil
STF — Supremo Tribunal Federal
STJ — Superior Tribunal de Justiça
T. — Turma
TACSP — Tribunal de Alçada Civil de São Paulo (extinto)
TARS — Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul (extinto)
TFR _ Tribunal Federal de Recursos (extinto)
TJRJ — Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
TJRS — Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
TJSP — Tribunal de Justiça de São Paulo
TRF — Tribunal Regional Federal
v. — volume
v. _ vide
verb. — verbete
v. g- — verbi gratia (por exemplo)
V . u . — voto unânime

XI
s
índice geral
Apresentação da 17~ edição.............................................................. VII
Abreviaturas e siglas......................................................................... IX

PARTE I
DA JURISDIÇÃO

Capítulo I
NOÇÕES GERAIS E CONCEITO DE JURISDIÇÃO
1. Noções gerais sobre a jurisdição.............................................. 3
2. Conceitos de jurisdição............................................................. 5
3. Jurisdição e composição da lide............................................... 6

Capítulo II
CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DA
ATIVIDADE JURIS DICIONAL
4. A jurisdição como “atividade provocada” e “atividadepública” 10
5. A jurisdição como “atividade substitutiva” ............................ 13
6. A jurisdição como “atividade indeclinável”, a serexercida
pelo “juiz natural”...................................................................... 14
7. A coisa julgada como atributo específico da jurisdição.......... 17
8. Jurisdições anômalas................................................................ 18
8.1. Processo de impeachment................... .............................. 18
8.2. Tribunal de Contas........................................ ................... 19
8.3. Tribunal M arítimo............................................................. 22

Capítulo III
DISTINÇÃO ENTRE O ATO JURISDICIONAL
E O ATO LEGISLATIVO
9. Legislação e jurisdição............................................................. 23

XIII
10. Exercício de atividade “legislativa” pelo Poder Judiciário.
Ações diretas de inconstitucionalidade e de constitucionalidade 24
11. Normas regimentais......................................................... ........ 26

Capítulo IV
DISTINÇÃO ENTRE O ATO JURISDICIONAL
E O ATO ADMINISTRATIVO
12. Administração e jurisdição.............................................. 27
13. Esquema das distinções entre o ato jurisdicional e o ato admi­
nistrativo 28
14. A terzietà do juiz ............................................................. 29

Capítulo V
CLASSIFICAÇÕES DA JURISDIÇÃO
15. Unidade da jurisdição...................................................... 31
16. Jurisdição penal e jurisdição civil............................................ 31
17. Jurisdição comum e jurisdições especiais............................... 32
18. Jurisdição federal...................................................................... 32
19. Jurisdição trabalhista e jurisdição eleitoral.............................. 33
20. Jurisdição m ilitar....................................................................... 33
21. Jurisdição comum ou ordinária................................................ 34
22. Jurisdições de primeira e segunda instâncias.................. 34
23. Supremo Tribunal Federal e Tribunais superiores......... 34
24. Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle interno do
Poder Judiciário................................................................. 37
25. Organograma geral do Poder Judiciário......................... 39
26. Organograma do Poder Judiciário da União................... 40
27. Organograma do Poder Judiciário dos Estados-Membros..... 41
28. Organograma do Superior Tribunal de Justiça....................... 42

Capítulo VI
CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO
29. Unidade e dualidade de jurisdição.................................. 43
30. O Conselho de Estado, no Brasil Império............................... 44
31. O contencioso administrativo, no Brasil República................ 44
32. Decisões do CADE — Conselho Administrativo de Defesa
Econômica......................................................................... 45

XIV
32-A. O art. 205 da Constituição Federal de 1969.......................... 45

Capítulo VII
JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA
33. Jurisdição voluntária. Noções gerais........................................ 47
34. A administração de interesses privados por órgãos do poder
público........................................................................................ 48
35. Modalidades de intervenção estatal na administração dos inte­
resses privados............................................................................ 48
36. Razões da intervenção por intermédio do Poder Judiciário... 50
37. Distinções entre jurisdição contenciosa e voluntária.............. 50
38. Classificação dos procedimentos de jurisdição voluntária.... 51

Capítulo VIII
LIMITES DA JURISDIÇÃO CIVIL
39. Limites espaciais da jurisdição brasileira .............................. 53
40. Limites subjetivos da jurisdição brasileira............................. 54

Capítulo IX
DA ARBITRAGEM E DA SENTENÇA ESTRANGEIRA
41. Os “equivalentes jurisdicionais” .............................................. 55
42. A arbitragem, natureza jurídica............................................... 55
43. A arbitragem. Noções gerais................................................... 58
44. A sentença de tribunal estrangeiro e sua homologação.......... 64
44-A. Convenções relativas à eficácia extraterritorial das Sentenças
e Laudos Arbitrais Estrangeiros.............................................. 68

PARTE II
DA COMPETÊNCIA

Capítulo X
NOÇÕES INICIAIS
45. Conceito de competência.......................................................... 73
46. Fontes das normas sobre competência....................................,.. 75

XV
Capítulo XI
DA COMPETÊNCIA INTERNACIONAL
47. Princípio da efetividade............................................................ 78
48. Competência internacional concorrente.......................... ....... 80
48-A. Lugar de assinatura do contrato e lei aplicável...................... 84
49. Competência exclusiva da Justiça brasileira........................... 86
50. Limitações à imunidade de jurisdição dos Estados estrangeiros 89
51. A representação em juízo do Estado estrangeiro.................... 95
52. Das cartas rogatórias e seu exequatur...................................... 96
52-A. Cartas rogatórias no âmbito do Mercosul............................... 97

Capítulo XII
DA “COMPETÊNCIA DE JURISDIÇÃO” E DA COMPETÊNCIA
TERRITORIAL OU DE FORO
53. Busca da “justiça” competente................................................ 100
54. Busca do foro competente....................................................... 101

Capítulo XIII
DA COMPETÊNCIA DE JUÍZO
55. Do juízo competente................................................................. 102
56. Competência interna nos órgãos colegiados........................... 104
56-A. Deslocamento da competência interna nos órgãos colegiados 105

Capítulo XIV
PRINCÍPIO DA PERPETUATIO JURISDICTIONIS
57. Regra da perpetuação da competência.................................... 107
58. Casos de desmembramento de comarcas................................ 109

Capítulo XV
COMPETÊNCIA ABSOLUTA E COMPETÊNCIA RELATIVA
59. Da competência absoluta e da competência relativa.............. 111
60. Primeiro esquema didático....................................................... 111
61. Segundo esquema didático....................................................... 113
62. Terceiro esquema didático........................................................ 114

XVI
Capítulo XVI
MODIFICAÇÃO DA COMPETÊNCIA POR
CONEXÃO, PREVENÇÃO E PRORROGAÇÃO.
FORO DE ELEIÇÃO
63. Competência pela conexão, pela prevenção e pela prorrogação 115
63.1. Competência pela conexão e pela continência............. 115
63.2. Competência pela prevenção......................................... 117
63.3. Competência pela prorrogação..... ................................ 119
64. Foro de eleição e contratos de adesão...................................... 120
65. Contrato de adesão e possibilidade de o juiz declinar de ofí­
cio de sua com petência............................................................. 125
65-A. Nova redação dos arts. 112, 114 e 305 do CPC..................... 129

Capítulo XVII
OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DA COMPETÊNCIA
66. Competência plena.................................................................... 131
67. Competência privativa.............................................................. 131
68. Competência comum. Competência exclusiva e competência
concorrente................................................................................. 132
69. Competência originária e competência recursal..................... 133
70. Classificação de Chiovenda...................................................... 133

Capítulo XVIII
REGRAS DE COMPETÊNCIA
71. Foro do domicílio do ré u .......................................................... 135
72. Competência nos casos de Foros Regionais........................... 136
73. Foro da situação da coisa (CPC, art. 9 5 )................. 138
74. Foro da situação da coisa e indisponíbilidade......... 139
75. Foro da situação da coisa e disponibilidade............ 139
76. Ações decorrentes de promessas de compra e venda de imóveis 140
77. Imóvel situado em território de mais de uma comarca.......... 141
78. Causas em que for parte a União ou o Estado, e o forum rei
sitae.............................................................................................. 141
79. Inventário. Ações relativas à herança....................................... 142
79-A. Inventário e partilha por escritura pública............................. 143

XVII
80. Ações de separação judicial, de conversão em divórcio, de
divórcio direto, de anulação de casamento (CPC, art. 100,1) e
de dissolução das uniões de fato.............................................. 144
80-A. Separação consensual e divórcio consensual por escritura pú­
blica ................................................................................... ..... 147
81. Ação de alimentos (CPC, art. 100, II).................................... 148
82. Forum obligationis (CPC, art. 100, IV, d ) ............................. 150
83. Forum commissi delicti (CPC, art. 100, V, a, e parágrafo único) 153
84. Ainda a competência de foro.................................................. 155
84.1. Ação contra pessoa jurídica (CPC, art. 100, IV, a e b) . 155
84.2. Ação contra o administrador ou gestor de negócios
alheios............................................................................ 156
84.3. Ação contra pessoa declarada judicialmente ausente (CC, i
art. 22; CPC, arts. 1.159 e s.)....................................... 156
84.4. Ação contra incapaz..................................................... 157
85. Mercosul. Acidentes de trânsito. Protocolo de São Luiz...... 157
86. Causas em que o Estado for parte, ou autarquia estadual..... 158
87. Ação de anulação de títulos extraviados ou destruídos. Ações
acessórias. Reconvenção. Ação declaratória incidental......... 160
87-A. Insolvência civil....................................................................... 160
88. Ações cautelares — art. 800 do C P C ..................................... 162
89. Ação cautelar ajuizada pendente recurso............................... 163
90. Cumprimento da sentença...................................................... 165
90-A. Ação de execução de título extrajudicial................................ 168
91. Justificações judiciais.............................................................. 169
91-A. Pedidos de alvará. FGTS, PIS-PASEP.................................... 171

Capítulo XIX
REGRAS DE COMPETÊNCIA PREVISTAS
EM LEIS ESPECIAIS
92. Ação de acidente do trabalho.................................................. 174
93. Ação revisional de benefício previdenciário decorrente de aci­
dente do trabalho...................................................................... 177
94. Ações relativas à movimentação do Fundo de Garantia....... 178
95. Ação de desapropriação........................................................... 180
96. Ação de cobrança de duplicata............................................... 181
96-A. Ações previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.... 181
97. Ações de falência e recuperação judicial............................... 182
98. Ação de execução fiscal........................................................... 184
98-A. Execução fiscal e falência............................................ ........... 187

XVIII
99. Competência para dirimir “questões agrárias” ...... ................. 188
100. Competência para as questões relativas à propriedade indus­
trial............................................................................................... 189
100-A. Ações relativas à representação comercial, à concessão de
venda de veículos e à corretagem de imóveis.......................... 189
100-B. Ações de responsabilidade civil propostas por consumidor 192
100-C. Ações cíveis contra estabelecimentos de ensino.................. 193
101. Ação de usucapião especial e ação de usucapião.................... 198
102. Procedimentos de jurisdição voluntária................................... 199

Capítulo XX
COMPETÊNCIA NO MANDADO DE SEGURANÇA,
AÇÃO CIVIL PÚBLICA, AÇÃO POR IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA E AÇÃO POPULAR
103. Ação de mandado de segurança................................................ 202
104. Mandado de segurança coletivo................................................ 208
105. Mandado de segurança contra ato judicial. Ação rescisória.
Tribunal competente para julgá-los.......................................... 209
105-A. Mandado de segurança e Juizados Especiais....................... 211
106. Ação civil pública...................................................................... 215
106-A. Ação civil pública. Projeto de lei de modificação................ 221
106-B. Ação por improbidade administrativa................................... 224
107. Ação popular............................................................................... 226

Capítulo XXI
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL
108. Causas em que a União for parte.............................................. 229
109. Observações sobre a competência da Justiça Federal.............. 230
110. Competência recursal. Súmula 55 do STJ.......................... ..... 232
111. Competência da Justiça Federal de primeira instância...... . 235
111.1. Competência ratione personae e ratione materiae .... 235
111.2. Competência quando for parte instituição estatal de
previdência social — INSS .......................................... 237
111.3. “Outras causas” sob competência delegada da Justiça
estadual — CF, art. 109, § 3-, infine. Direitos de mine­
ração. SFH. BNDES..................................................... 239
111.4. Ordem dos Advogados do Brasil — OAB................... 241
111.5. Competência nas causas relativas a interesses de ser­
vidores federais........................................... .................. 243

XIX
111 -A. Afastamento do ente federal da relação processual............. 244
112. Causas em que é parte autarquia federal ou empresa pública
federal. Intervenção em concurso de credores........... ............. 245
112-A. Causas em que é parte Conselho de fiscalização profissional 248

Capítulo XXII
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO
113. Ampliação da competência da Justiça do Trabalho — limites.. 252
113.1. Ações decorrentes de convenções ou acordos coleti­
vos de trabalho............................................................... 258
113.2. Servidores públicos celetistas....................................... 260
113.3. Lides envolvendo questões de direito civil. Ações por 1
danos morais.................................................................. 262
113.4. Contribuições sociais e execução de oficio................. 266
113.5. Justiça do Trabalho e meio ambiente laborai............ 268
113.6. Justiça do Trabalho e trabalhadores portuários......... 269
113.7. Justiça do Trabalho e falência da empresa reclamada. 270
113.8. Mandado de segurança na Justiça do Trabalho........... 273
113.9. Justiça do Trabalho — EC n. 45/2004 — Regime de
transição......................................................................... 275
114. Cumulação de pedidos sob diversidade de jurisdição............. 275

Capítulo XXIII
COMPETÊNCIA EM RAZÃO DA MATÉRIA, DA PESSOA,
DO VALOR E DA COMPLEXIDADE DA CAUSA
115. Competência em razão da matéria............................................ 277
116. Competência em razão da pessoa............................................. 278
117. Competência em razão do valor............................................... 280
118. Competência dos Juizados Especiais........................................ 281
118.1. Juizados Especiais Cíveis Estaduais............................ 281
118.2. Juizados Especiais Cíveis Federais............................. 283

Capítulo XXIV
COMPETÊNCIA FUNCIONAL
119. Competência em razão da função, no “plano horizontal” e no
“plano vertical” ......................................................................... 285

XX
120. Competência para conhecimento dos embargos do devedor e
de terceiro, na execução por carta............................................. 287
121. Limitações do juízo deprecado, em tema de exceção de
incompetência de foro, e em questão de m érito...................... 290
122. A competência na via jurisdicional prevalece sobre a com­
petência em nível administrativo.............................................. 291

Capítulo XXV
COMPETÊNCIA FUNCIONAL, PELA VINCULAÇÃO
DO JUIZ AO PROCESSO
123. Princípio da identidade física do juiz no CPC de 1939.......... 293
124. Orientação pragmática do Código vigente.............................. 294
125. Da competência, para proferir a sentença, do juiz transferido
após concluir a instrução em audiência.................................... 295
126. Posição, a respeito, do Supremo Tribunal Federal.................. 295
127. Controvérsia no campo doutrinário...................... ................... 296
128. Hipótese de remoção de vara dentro da mesma comarca..... 296
129. Tendência sobre a exegese do art. 132 do Código de Pro­
cesso Civil................................................................................... 297
130. Nova sistemática da Lei n. 8.637/93......................................... 298
131. Nulidade da sentença dada por juiz “auxiliar”, não vinculado 301
132. Casos de não ocorrência de vinculação................................... 301

Capítulo XXVI
; CONTROLE DA COMPETÊNCIA
133. Instrumentos processuais para o controle da competência__ 303
134. Exceção de incompetência......................................................... 304
135. Conflito de competência............................................................ 305
136. Do não cabimento de conflito entre tribunais de hierarquia
diversa.......................................................................................... 307
137. Incompetência do tribunal para apreciar decisão de juiz vin­
culado a outro tribunal............................................................... 307
138. Conflito de competência nos casos de processos conexos...... 309
139. Conflito de competência suscitado por juiz não vinculado ao
tribunal que julgou questão de incompetência..... ................... 310
140. Tribunal competente para o julgamento dos conflitos. Proce­
dimento ....................................................................................... 311

XXI
141. Conflito do qual participe Juizado Especial............................. 312
142. Conflito interessando a Justiça do Trabalho............................. 315
143. Alcance do art. 117 do Código de Processo Civil................... 317
144. Conflito de atribuições............................................................... 318

ANEXO I
A Cidadania da parte como elemento de fixação da competência
(Estudo histórico).................................................................... 321

ANEXO II
Competência internacional concorrente. Artigo 88 do CPC e o foro
de eleição.................................................................................. 337

ANEXO III
Súmulas do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de
Justiça sobre competência....................................................... 355

ANEXOIV
Acórdãos do Superior Tribunal de Justiça sobre competência
(Ementas)................................................................................. 371

Bibliografia ........................................................................................ 383

índice alfabético-remissivo ............................................................... 391

XXII
Parte I
DA JURISDIÇÃO
Capítulo I
NOÇÕES GERAIS E
CONCEITO DE JURISDIÇÃO

1. Noções gerais sobre a jurisdição


Ao direito subjetivo de “ação”, pelo qual alguém pede ao Estado que
lhe faça justiça, corresponde a atividade estatal da “jurisdição”, pela qual
o Estado cumpre o dever de, mediante um devido processo legal, adminis­
trar justiça aos que a solicitaram. A jurisdição é, com a administração e a
legislação, forma de exercício da soberania estatal.
Na lição de Seabra Fagundes, “o Estado, uma vez constituído, reali­
za os seus fins através de três funções em que se reparte a sua atividade:
legislação, administração e jurisdição... O exercício dessas funções é dis­
tribuído pelos órgãos denominados Poder Legislativo, Poder Executivo e
Poder Judiciário. É de notar, porém, que cada um desses órgãos não exerce,
de modo exclusivo, a função que nominalmente lhe corresponde, e sim tem
nela a sua competência principal ou predominante” (O controle dos atos
administrativos pelo Poder Judiciário, 2. ed., Konfino, 1950, p. 13-5).
Pode-se dizer que, sob certo aspecto, o juiz é a longa manus do le­
gislador, pois transforma, pela jurisdição, em comando concreto entre as
partes as normas gerais e abstratas da lei.
A jurisdição é função estatal — e assim bem ensina Moacyr Amaral
Santos — desde o momento em que, proibida a defesa privada por com­
prometer a paz do grupo social, “se reconheceu que nenhum outro poder
se encontra em melhores condições de dirimir os litígios do que o Estado,
não só pela força de que dispõe, como por nele presumir-se interesse em
assegurar a ordem jurídica estabelecida” (Primeiras linhas de direito pro­
cessual civil, São Paulo, Saraiva, v. 1, n. 44)1.

1. Escreve Sergio Bermudes que “a etimologia do substantivo jurisdição — ju-


rísdictio, em latim — já lhe revela o conteúdo. A palavra é formada pela aglutinação
de duas outras: juris, genitivo singular da 3â declinação, significando do direito, e

3
Galeno Lacerda, dizendo não endossar o erro de Binder — de que a
actio seria um prius em relação ao jus, prossegue com a afirmação de que “a
descoberta do direito nasce com o processo. Com efeito, só a análise da ri­
queza e complexidade dos casos individuais permitem à razão abstrair o
valor e a normatividade jurídica que lhes correspondem e, desse modo, atin­
gir a formulação dos juízos universais de conduta, expressos nos textos de
lei. Eis por que a obra do juiz precede historicamente à do legislador, e eis a
razão pela qual o direito nasce da jurisprudência, como fonte viva do primei­
ro contacto da razão com as espécies jurídicas. A história o comprova” (Pro­
cesso e cultura, Tribuna da Magistratura, caderno de doutrina, abr. 1999).
A jurisdição, “como tantas outras instituições jurídicas, é produto da
experiência da humanidade, forjada através dos tempos” (Sergio Bermudes,
Introdução ao processo civil, Forense, 4. ed., 2006, p. 29).
Como função estatal, foi exercida pelos antigos reis de direito absolu­
to, por si ou por intermédio de delegados. Entre certos povos primitivos,
cabia à assembleia da tribo ou do clã, conforme “prática entre os germanos,
ao que nos informam as narrações de Tácito, e entre os gregos dos tempos
homéricos, ao que se diz na Odisséia” (Mário Guimarães, O juiz e a função
jurisdicional, Forense, 1958, n. 1). O pretor romano, concedendo as fó r­
mulas, criou o jus honorarium e lançou as bases do direito codificado. Na
Idade Média, a fragmentação do poder público entre os senhores feudais
implicou a multiplicação das jurisdições baroniais e eclesiásticas, que se
foram extinguindo na medida em que os reis logravam consolidar seu
poderio e unificavam seus povos, criando os Estados.
Nos Estados nacionais modernos, a jurisdição é uma das expressões
da soberania do Estado, e é exercida em nome do povo (CF, art. l e, pará­
grafo único).
Conforme Cândido Dinamarco, “modernamente sabe-se que a juris­
dição não é um poder, no quadro de uma suposta pluralidade de poderes
exercidos pelo Estado; é somente uma expressão do poder estatal, que por
sua vez é uno e indivisível, definindo-se como capacidade de decidir
imperativamente e impor decisões” (Litisconsórcio, 5. ed., Malheiros Ed.,
1997, p. 41, nota n. 3).

dictio, nominativo singular da mesma declinação, isto é, dicção, ou dição, ato de dizer;
de dicere, dizer. Nisso consiste a jurisdição na sua essência: dizer o direito, no sentido
de identificar a norma de direito objetivo preexistente (ou de elaborá-la, se inexistente)
e de fazê-la atuar numa determinada situação” (Introdução ao processo civil, Forense,
1995, p. 19).

4
Como concisamente expôs Mário Guimarães: “O poder de julgar
pertence à Nação, que o exerce por meio de seus juizes. Chama-se a esse
poder — jurisdição” (O juiz, cit., n. 23, p. 53).

2. Conceitos de jurisdição
Para Chiovenda, a jurisdição “consiste na atuação da lei mediante a
substituição da atividade alheia pela atividade de órgãos públicos, afirman­
do a existência de uma vontade da lei e colocando-a, posteriormente, em
prática” (.Derecho procesal civil, México, Cardenas, 1989, v. 1,1.1, p. 369).
Ou, ainda, é a “função do Estado que tem por escopo a atuação da vontade
concreta da lei por meio da substituição, pela atividade de órgãos públicos,
da atividade de particulares ou de outros órgãos públicos, já no afirmar a
existência da vontade da lei, já no tomá-la, praticamente, efetiva” (.Institui­
ções de direito processual civil, ed. port., Saraiva, 1943, v. II, n. 137).
Segundo Camelutti, o processo é um meio de que o Estado se vale
para a justa composição da lide, ou seja, a atividade jurisdicional visa à
composição, nos termos da lei, do conflito de interesses submetido à sua
apreciação. Já o conflito de interesses surge “entre dos intereses cuando la
situación favorable a la satisfacción de una necesidad excluye la situación
favorable a la satisfacción de una necesidad distinta” (Sistema de derecho
procesal civil, ed. esp., UTEHA, v. I, p. 16-17), configurando-se a lide
quando ocorre o confronto “entre intereses de dos personas distintas”. E,
adiante, explicita: “llamo litigio al conflicto de intereses calificado por la
pretensión de uno de los interesados y por la resistencia dei otro” (ob. cit.,
p. 44).
Todavia, no magistério de Galeno Lacerda, o conceito “camelutiano”
de lide (conflito de interesses privados) necessita ser ampliado. Carnelut-
ti terá esquecido “que há interesses relevantes pertencentes a outras esferas
da ordem jurídica e que, assim, a lide nem sempre se manifesta em con­
flitos apenas entre particulares. Considerando os valores antinômicos tu­
telados pelo direito, podem perfeitamente ocorrer, num processo, conflitos,
quiçá mais relevantes, entre interesses públicos ou de ordem pública, com
inexistência de conflito privado, sem que a atividade do juiz deixe de ser
jurisdicional. ... (omissis)... Modificando o conceito de Camelutti impõe-
-se afirmar, portanto, que existe lide sempre que houver, também, conflito
de interesses públicos ou particulares, a serem compostos pelo processo”
(Teoria geral do processo, Forense, 2006, p. 67-8).
O conceito de lide aparece, hodiernamente, como “ideia inseparável
da jurisdição” (Araken de Assis, Ações cumuladas, 4. ed., Revista dos

5
Tribunais, 2002, n. 7.2, n. 7.4). Não terá sido diverso o pensamento de
Frederico Marques: “A jurisdição pode ser definida como a função estatal
de aplicar as normas da ordem jurídica em relação a uma pretensão. Nisto
reside a essência e substância do poder jurisdicional” (Jurisdição volun­
tária, 2. ed., Saraiva, 1959, p. 53).
Como enfatizou Galeno Lacerda, quanto à importância do conflito de
interesses como causa do processo, “a Jurisdição, como atividade específi­
ca do Poder Judiciário, existe por causa do conflito e para solucioná-lo.
Esta a finalidade indiscutível do Judiciário como poder autônomo do Esta­
do” (Comentários ao CPC, 7. ed., Forense, 1998, v. VIII, t. 1, n. 6, p. 15).

3. Jurisdição e composição da lide


Assim, podemos conceituar a jurisdição como a atividade pela qual
o Estado, com eficácia vinculativa plena, elimina a lide, declarando e/ou
realizando o direito em concreto.
Galeno Lacerda considera atividade jurisdicional apenas a decisão
das questões (i. e., dos pontos controvertidos, de direito ou de fato) ao
longo do processo. Ousando em parte divergir do eminente processualista,
creio jurisdicionais todos os atos do juiz praticados em processo de juris­
dição contenciosa, pois praticados com a finalidade de lograr, ao final, a
eliminação da lide pela aplicação do direito em concreto.
No dizer de José Frederico Marques, “embora a declaração da voluntas
legis seja o núcleo da jurisdição, ou o ato jurisdicional por excelênciaJu ris­
dicionais são, também, os demais atos que no processo o magistrado pratica
em preparação à sentença” (Instituições de direito processual civil, 2. ed.,
Forense, 1962, v. 1, n. 133). E reporta-se o mestre paulista aos ensinamentos
de Davi Lascano (Jurisdicción y compeiencia, 1941) e de Manzini (Trattato
di diritto processuale penale, v. 2, p. 19-20), para quem são jurisdicionais
não só os atos de decisão, como também os atos imprescindíveis ao exercí­
cio da jurisdição, tais como os de direção, coação e documentação.
A atividade jurisdicional revela-se por decisão dotada de eficácia
vinculativa plena, porquanto a sentença de mérito faz “coisa julgada”
entre as partes, i. e., a eficácia da sentença, ao conceder ou denegar à par­
te o bem da vida objeto do litígio, reveste-se do caráter de definitividade,
vinculando as partes (e seus sucessores) para sempre2.

2. A coisa julgada goza, inclusive, da tutela constitucional, e só pode ser des­


feita por ação específica para tal fim, a “ação rescisória” (CF, art. 5fi, XXXVI; CPC,
art. 485).

6
A jurisdição dirige-se, essencialmente, à eliminação (ou composição)
do conflito de interesses existente (ou virtual) entre as partes3. A lide é
eliminada mediante a declaração e aplicação do direito incidente ao caso
concreto (processo de conhecimento), ou mediante a realização do direito
(processo de execução).
Não se questiona na atualidade, diga-se, a jurisdicionalidade da exe­
cução forçada, quer mediante processo de execução, quer através de atos
de efetivação realizados no próprio processo de cognição (José Miguel
Garcia Medina, Execução civil, Revista dos Tribunais, 2002, n. 2.1 et
passim).
O verdadeiro ato jurisdicional, ou processo jurisdicional, distingue-se
dos atos dos demais órgãos do Estado, como veremos, pela finalidade de
eliminação de uma lide, conceituada a lide em sentido amplo, abrangente
de conflitos de interesses tanto de ordem privada como de ordem pública,
eliminação revestida de caráter definitivo (pelo menos definitivo no plano
jurídico, embora nem sempre no plano dos fatos...)', além disso, qualifica-
-se a jurisdicionalidade pela atuação de um terceiro imparcial, dotado de
investidura para tal ofício e responsável pela condução dos atos tendentes
à composição do conflito e pela definição da vontade do Estado, para
tanto aplicando a lei incidente (Araken de Assis, Cumulação de ações, 4.
ed., Revista dos Tribunais, 2002, n. 7.5, p. 52-3).
Possível é, também, conceituar a jurisdição como o poder (e o dever)
de declarar a lei que incidiu e aplicá-la, coativa e contenciosamente, aos
casos concretos4.
Busquemos escandir tal definição.
A mera declaração da lei, em si, não constitui atividade jurisdicional.
Diante de um determinado caso, o jurisconsulto oferece parecer, com suas
conclusões sobre qual a lei incidente, mas tal parecer, por mais douto que
seja, encerra apenas um juízo lógico; é mera opinião despida de impe-
ratividade.

3. Segundo José Frederico Marques, a jurisdição pressupõe, sempre, “uma situ­


ação contenciosa anterior” e é exercida “pela aplicação do direito objetivo em relação
a uma pretensão” (.Instituições, cit., v. 1, n. 120).
4. A expressão “jurisdição” é vezes muitas empregada impropriamente. Assim
é que se fala em “jurisdição da l â Delegacia de Polícia”; em “estrada sob a jurisdição
do DNER”; em escola “sob jurisdição da 1- Delegacia de Ensino”, e assim por diante.
Não se cuida nestes casos, em absoluto, de “jurisdição”, mas sim de “atribuições” ou
de “âmbito de responsabilidade” do órgão administrativo.

7
Também a aplicação da lei, por si, não é atividade jurisdicional. A
lei é aplicada diutuma e normalmente pelos indivíduos a ela sujeitos: a
“realização espontânea” do direito é a regra; a realização forçada, pelas
vias judiciárias, é a exceção. As autoridades são adstritas a pautar sua
conduta pelas normas de direito, devendo agir cumprindo a lei. Mas a
aplicação da lei, tanto pelas autoridades como pelos interessados, não
assume caráter definitivo', àquele que alegar errônea aplicação da lei em
seu prejuízo assiste o direito, constitucionalmente assegurado (CF, art. 52,
XXXV), de obter o pronunciamento do Poder Judiciário sobre a matéria.
A cocitividade, em si, também não é específica ou privativa da juris­
dição. A atividade administrativa do Estado, máxime no exercício do poder
de polícia, goza frequentemente do privilégio de execução de ofício (pri-
vilège du préalable) e impõe-se de forma cogente.
A contenciosidade na declaração e aplicação da lei também pode
ocorrer na atividade administrativa. O Estado, v. g., ao punir seus servido­
res (mormente quando lhes aplica penas disciplinares graves), ou ao impor
sanções fiscais aos contribuintes em mora, organiza processos (rectius,
“procedimentos”) e assegura amplo direito de defesa, mas nem por isso a
imposição de penas disciplinares, ou das sanções fiscais, adquire caráter
jurisdicional.
A jurisdição é, referem Cintra, Grinover e Dinamarco, poder, função
e atividade: como poder, manifesta o poder estatal, como capacidade de
decidir imperativamente e impor decisões; como função, expressa o en­
cargo de promover a pacificação de conflitos interindividuais, mediante a
realização do direito justo, através do processo; como atividade, é o com­
plexo de atos do juiz no processo, exercendo o poder e cumprindo a função
cometida pela lei (Teoria geral do processo, 13. ed., Malheiros Ed., 1997,
n. 60)s.
Ou, conforme Galeno Lacerda, “Jurisdição é o poder de declarar o
direito, e de o aplicar em caso concreto, resolvendo de uma forma defini­
tiva a lide ou qualquer questão de direito. É também poder de coerção com

5. A respeito do controle jurisdicional dos atos administrativos, interessantíssimo


estudo de Eckart Hein, Presidente do Tribunal Federal Administrativo alemão (Leipzig
— República Federal da Alemanha), onde refere que a moderna teoria alemã da dis-
cricionariedade diferencia a discricionariedade em sentido estrito da chamada “liber­
dade de apreciação” (Revista CEJ, do Conselho da Justiça Federal — STJ, v. 27, dez.
2004).
a finalidade de executar uma sentença, depois de transitada em julgado. É
poder, além disso, de o juiz investigar a matéria de fato, poder de docu­
mentação. Todos estes poderes estão ínsitos na jurisdição”6.
Por fim, vale mencionar a indelegabilidade como característica da
jurisdição,44exercida pelos juizes, em todo o território nacional, conforme
as disposições que este Código estabelece” (CPC, art. Ia).
Luiz Guilherme Marinoni, ao discorrer quanto à concepção con­
temporânea da jurisdição, parte da premissa de que a jurisdição “tem
o dever de prestar ao cidadão a tutela que decorre da sua posição jurí­
dica”, aplicando a lei “na dimensão dos direitos fundamentais, fazendo
sempre o resgate dos valores substanciais neles contidos”, visão esta
que, a seu ver, contém “um nítido plus em relação à teoria chiovendia-
na”, que via na jurisdição apenas “uma função voltada à tutela dos di­
reitos subjetivos privados violados” (Teoria geral do processo, RT, 2006,
n. 7.26, p. 136-8).
A exata definição do ato jurisdicional impõe, portanto, cotejar a
atividade judiciária com a atividade legislativa e com a atividade adminis­
trativa, e examinar as características básicas da atividade jurisdicional.

6. Esta definição dada por Galeno Lacerda está em notas de aulas ministradas
na Faculdade de Direito da Universidade do Rio Grande do Sul, em 1947/1948, e que
afortunadamente tenho em meu poder.
Capítulo II
CARACTERÍSTICAS
BÁSICAS DA ATIVIDADE
JURISDICIONAL

4. A jurisdição como “atividade provocada” e “atividade pública”


A atividade jurisdicional é uma “atividade provocada”. Não há juris­
dição sem ação.
Essa inércia inicial do Judiciário está no art. 2- do Código de Pro­
cesso Civil: “Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a
parte ou o interessado a requerer, nos casos e forma l e g a i s E é reiterada
no art. 262: “0 processo civil começa por iniciativa da parte, mas se de­
senvolve por impulso oficiar.
Os juizes não saem em busca das lides para resolvê-las, mas aguardam
que os interessados, frustradas eventuais tratativas amigáveis, busquem
espontaneamente a intervenção estatal, propondo a demanda.
Dois brocardos expressam a necessidade de um pedido, de uma de­
manda, para que o Estado preste tutela jurisdicional, e isso tanto em juris­
dição contenciosa como na chamada jurisdição voluntária:
Nemo judex sine actore — “ninguém é juiz sem autor”.
Ne procedat judex ex officio — “não proceda o juiz de ofício”.
Para Calmon de Passos, o princípio da inércia do julgador é um
princípio democrático fundamental: “Se o fundamental nas democracias
é que ao individuo tudo é permitido (princípio da liberdade) salvo o que a
lei proíbe ou impõe, a ele se deve deferir a decisão sobre seu interesse ou
necessidade de valer-se do aparato judicial para solucionar os conflitos em
que se envolver”. E esse princípio é tão fundamental que, para atender aos
interesses qualificados como indisponíveis, “foi instituído um órgão inde­
pendente e estranho ao Judiciário — o Ministério Público, ao qual se de­
feriu o poder de provocar a prestação da atividade jurisdicional” (estudo

10
na coletânea Os poderes do juiz e o controle das decisões judiciais, Revis­
ta dos Tribunais, 2008, p. 220).
O princípio da inércia inicial do Judiciário impõe-se no direito bra­
sileiro com raríssimas exceções1, e assim também nos demais países
“ocidentais”2e3.
A atividade jurisdicional é, outrossim, “atividade pública”, consti­
tuindo no sistema jurídico brasileiro monopólio do Poder Judiciário, sal-
vante os restritíssimos casos de jurisdições anômalas.
Requisito formal da jurisdição é, pois, a existência e atuação de um
órgão integrante do Poder Judiciário e dotado de garantias que assegurem
sua imparcialidade465.

1. Exceções ao princípio da inércia inicial temos, no plano cível, o caso da de­


claração judicial de falência, embora o devedor haja pedido recuperação judicial (Lei
falencial, arts. 61, § Ia, e 73), bem como a previsão de que o juiz inicie de ofício o
inventário, no caso de omissão das pessoas legitimadas a requerê-lo (CPC, art. 989).
Cumpre acrescentar nova exceção, com base constitucional: compete à Justiça
do Trabalho executar, de ofício, as contribuições sociais previstas no art. 195,1, a, e II,
decorrentes das sentenças que proferir — EC n. 20/98 e EC n. 45/2004 — CF, art. 114,
VIII. V., nesta obra, o verbete n. 113.4.
Lembremos, outrossim, a possibilidade de o juiz decretai- de ofício medidas
cautelares — CPC, art. 797.
Não será demasia lembrai- igualmente os casos em que o juiz, no curso de proces­
so contencioso, pode, de ofício, impor multa à parte a fim de assegurar o cumprimento
de decisão que haja proferido. A respeito, Arruda Alvim, Manual de direito processual
civil, 10. ed., Revista dos Tribunais, v. 1, n. 52 e notas de rodapé n. 19 e 21.
2. Assim no Código de Processo Civil de Portugal, art. 3-: “O tribunal não pode
resolver o conflito de interesses que a ação pressupõe sem que a resolução lhe seja
pedida por uma das partes e a outra seja devidamente citada para deduzir oposição”.
Também no Código de Processo Civil da Itália, art. 99: "Chi vuolefar valere un
diritto in giudizio deveproporre domanda al giudice competente”.
Igualmente no novo Código de Processo Civil francês, art. I2: “Seules lesparties
introduisent Vinstance, hors les cas ou la loi en dispose autrement”.
3. Nos países do Leste europeu (antigamente de orientação marxista), igualmen­
te vigorava o princípio da necessidade da demanda, ajuizada tanto pela parte interes­
sada como, frequentemente, pelo agente do Ministério Público ou por substituto pro­
cessual, admitidas algumas exceções em matéria de execução de sentença (Fundamen­
tos dei derecho soviético, trad. esp., Academia de Ciências da URSS (Moscou), 1962,
p. 594; Paolo Pecori, O novo Código de Processo Civil da República Socialista Fede­
rativa Soviética da Rússia, Rivista di Diritto Processuale, v. 22, ano 67). O princípio
de demanda foi mantido no novo CPC russo, editado em 2002 e em vigor a partir de
fevereiro de 2003 (RePro, 121/159).
4. Na Idade Média o regime feudal propiciava as “jurisdições senhoriais”, à
margem dos Tribunais dos reis; e, mesmo em tempos mais recentes, em vários países

11
Criado ao longo do tempo todo um aparelhamento estatal especia­
lizado na composição dos litígios, e posto amplamente à disposição das
partes (CF, art. 52, XXXV: “A lei não excluirá da apreciação do Poder
Judiciário lesão ou ameaça a direito”), é defeso hoje ao cidadão exercer a
autotutela, i. e., a defesa privada de seus interesses, sob pena inclusive de
incorrer no delito do “exercício arbitrário das próprias razões”6. A jurisdi­
ção, monopólio do Poder Judiciário, é exercida por juizes independentes,
imparciais e desinteressados (v. o verbete n. 14).
A existência de órgãos da justiça administrativa ou contencioso
administrativo (Conselhos de Contribuintes, Tribunais de Recursos Fiscais)
não implica ofensa ao monopólio exercido pelo Poder Judiciário. As de­
cisões proferidas pelos colegiados administrativos não se revestem de
caráter jurisdicional; portanto, não transitam materialmente em julgado,
ficando sujeita a matéria ao rèexame dos Tribunais, a instância de quem
demonstre jurídico interesse7.

“ocidentais”, certas matérias eram submetidas à “justiça eclesiástica”, principalmente


em assuntos de família. Em países de religião muçulmana mantém-se, em maior ou
menor grau, a influência do Clero na administração da Justiça. Nos países antes sob
regime socialista (de orientação marxista), determinadas lides não eram submetidas
aos Tribunais ordinários, e sim a órgãos administrativos de arbitramento.
5. Lembramos, como reminiscência de forma consuetudinária de julgamento de
contendas, o Tribunal de Águas de Valência (Espanha), surgido ainda nos tempos da
dominação moura (em 1960 comemorou seu milenãrio). Composto por oito síndicos
escolhidos pelas comunidades rurais (reunidos os “juizes” à frente da porta principal
da Catedral de Valência), decide sob absoluta oralidade (salvo breve anotação escrita
da decisão) as lides entre lavradores, surgidas a respeito do uso das águas do rio Turia,
água que “não é de uns nem de outros; é de todos”, como teria dito Jaime I, de Aragão,
o primeiro rei cristão de Valência. A sentença é irrecorrível, e a pena de multa fixada
sob a eficaz cominação de privação do acesso à água a quem não a pague. Surgido de
costume rústico, que atravessou os séculos, não constitui, segundo Othon Sidou, um
órgão judiciário nem um “tribunal” administrativo, e igualmente não se apresenta como
corte arbitrai, mantendo caráter absolutamente singular (O milenário Tribunal das
Águas de Valência, Forense Universitária, 2001, p. 25 etpctssim).
6. Art. 345 do Código Penal: “Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer
pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite: Pena — detenção...”.
A lei permite, em alguns raros casos, a autotutela, como na hipótese do desfor-
ço incontinenti para recuperação da posse (CC, art. 1.210, § Ia).
7. A revisão dos atos administrativos pelo Poder Judiciário compreende os as­
pectos relativos à legalidade do ato, não, salvo casos excepcionais, os relativos à
simples conveniência ou oportunidade (ou “mérito”) da medida tomada pela adminis­
tração.

12
5. A jurisdição como “atividade substitutiva”
A atividade jurisdicional, segundo Chio venda8 (em magistério que
prossegue referendado por abalizada doutrina), seria de natureza substitu­
tiva. Assim, se os que deveriam afirmar ou realizar determinada “vontade
concreta da lei” negam-se a fazê-lo ou permanecem omissos, a atividade
jurisdicional (desde que, é evidente, seja ajuizada a correspondente de­
manda) fará realizar, em caráter substitutivo, o mandamento legal. O de­
vedor deveria pagar suavdívida, e não o fez; o juiz, em execução, determi­
nará a penhora de seus bens, a alienação de tais bens em hasta pública, e
com o preço será satisfeita a dívida. O contratante deveria cumprir deter­
minada prestação em favor do outro contratante, mas permaneceu inadim­
plente; o juiz, substitutivamente, condenará o faltoso e assegurará ao de­
mandante o recebimento da prestação devida.
O Judiciário, pois, estaria agindo em lugar do devedor, “em substi­
tuição ou sub-rogação da atividade de outros sujeitos” (Antonio Segni,
Giurisdizione civile, in Nuovo Digesto Italiano).
No magistério de Cândido Dinamarco, “a jurisdição é a atividade
pública e exclusiva com a qual o Estado substitui a atividade das pessoas
interessadas e propicia a pacificação de pessoas ou grupos em conflito,
mediante a atuação da vontade do direito em casos concretos. Ele o faz
revelando essa vontade concreta mediante uma declaração (processo de
conhecimento), ou provendo com meios práticos os resultados por ela
apontados (execução forçada). A jurisdição é, pois, manifestação do poder
estatal” (Fundamentos do processo civil moderno, 3. ed., Malheiros Ed.,
2000, v. 1, n. 39, p. 115).
Conforme Arruda Alvim, “afigura-se-nos que a função jurisdicional
é de índole substitutiva” (.Manual, cit., 10. ed., 2006, n. 51, p. 172).
Chiovenda mesmo, no entanto, salienta que por vezes o processo, e
portanto a atividade jurisdicional, é “fonte autônoma de bens ” 9, os quais
não se podem conseguir a não ser no processo. Assim, v. g., a certeza
jurídica resultante da sentença é insubstituível: “nenhuma declaração extra­
judicial, por mais formal e solene, da parte do devedor” poderá eqüivaler,
em seus efeitos, à certeza jurídica decorrente da sentença.

8. Chiovenda, Instituições de direito processual civil, trad. port, São Paulo,


Saraiva, 1942, v. 2, n. 140.
9. Chiovenda, Instituições, cit., v. 1, n. 13.

13
O caráter de substituição também inexiste nas ações “constitutivas
necessárias”, tendentes à obtenção de efeitos que só se podem produzir no
processo, como a nulidade de casamento, separação pessoal dos cônjuges,
nulidade de testamento10, e, ainda, nas ações de natureza estritamente
cautelar (v. Chiovenda, Instituições, cit., v. 1, n. 13).
Galeno Lacerda rejeita enfaticamente a proposição de que a essência
da atividade jurisdicional consistiria em seu efeito substitutivo e secundá­
rio: essa tese absolutamente insatisfatória não só não explica a nature­
za jurisdicional dos processos mais relevantes, que tiverem por objeto
conflitos sobre valores indisponíveis, cuja solução não se pode alcançar
pela atividade direta das partes (processo penal, processo civil inquisi-
tório — p. ex.: nulidade de casamento) senão que deixa in albis o porquê
da natureza jurisdicional das decisões sobre questão de processo, especial­
mente daquelas que dizem respeito à própria atividade do juiz, como as
relativas à competência e suspeição, onde jamais se poderá vislumbrar
qualquer traço de ‘substitutividade’ a uma atuação originária, direta e
própria das partes” (Comentários, cit., 7. ed., v. 8, t. 1, p. 17, n. 6).
O parâmetro da substitutividade é também insuficiente frente ã sen­
tença de procedência da ação referida nos arts. 461 e 461-A do CPC.
Alude Humberto Theodoro Júnior a que não se deverá insistir numa
“secundariedade” da atividade jurisdicional, mesmo porque as modernas
tendências do processo se inclinam em afirmar relevantes escopos à Juris­
dição, “na ordem política e social, a par da mera atuação da vontade con­
creta da lei”.
As finalidades do Judiciário, inclusive as que emanam das garantias
fundamentais constantes da Constituição, não se coadunam com o asserto
de ser a Jurisdição uma função “secundária” diante da norma geral e abs­
trata da lei (Revista de Direito Bancário, do Mercado de Capitais e da
Arbitragem, Revista dos Tribunais, v. 14, p. 367).

6. A jurisdição como “atividade indeclinável”, a ser exercida pelo


“juiz natural”
A atividade jurisdicional ê “indeclinável", e somente pode ser exer­
cida, caso a caso,pelo “juiz natural”.

10. Galeno Lacerda, Comentários ao Código de Processo Civil17. ed., Forense,


1998, v. 8, t. 1, n. 6, p. 14 e s.

14
De conformidade com o princípio do juiz natural, a demanda deverá
ser sempre formulada “perante um julgador cuja competência foi abstra­
tamente fixada, em geral por regra legal prévia” (Aluisio Gonçalves de
Castro Mendes, Competência cível da justiça federal, São Paulo, Saraiva,
1998, n. 2.3, p. 20).
O princípio do juiz natural, segundo Nelson Nery Junior (com remis­
são a Karl Schwab, Gomes Canotilho, Vital Moreira e Celso Bastos) con­
siste na exigência de determinabilidade, que é a prévia individualização dos
juizes por meio de leis gerais; na garantia de justiça material, decorrente da
independência e imparcialidade dos juizes; no estabelecimento de critérios
objetivos para a.fixação da competência dos juizes e na exata observância
das determinações referentes à divisão funcional interna. Resta vetada,
destarte, a designação, substituição ou convocação de juizes por parte do
Poder Executivo ou do Poder Legislativo, tarefa reservada com exclusivida­
de ao próprio Poder Judiciário, em seu autogovemo (RePro, 101:101).
Taxativamente proibidos que são, pela Lei Maior (art. 5-, XXXVII),
os “juízos” e ‘Tribunais de exceção”, a jurisdição somente pode ser exer­
cida por pessoa legalmente investida no poder de julgar, como integrante
de algum dos órgãos do Poder Judiciário, previstos no art. 92 da Cons­
tituição Federal: Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça,
Tribunais Regionais Federais e Juizes Federais, Tribunais e Juizes do
Trabalho, Tribunais e Juizes Eleitorais, Tribunais e Juizes Militares, Tri­
bunais e Juizes dos Estados e do Distrito Federal e Territórios.
Consideram-se tribunais de exceção aqueles criados ex post facto,
instituídos ad hoc, fora dos quadros do Poder Judiciário e como que de
encomenda, para favorecer ou para prejudicar a determinadas pessoas ou
interesses, para atuar em determinados casos, tudo acertado previamente,
a cujos juizes faltaria a presunção de independência e de imparcialidade;
já o juiz natural é aquele previsto abstratamente, sob previsão constitucional
(Nelson Nery Junior, O juiz natural no direito processual civil comunitário
europeu, RePro, 707:103 e s.). A proibição dos tribunais de exceção à
evidência não permite confundir “tribunal de exceção” com a “prerroga­
tiva de foro” decoirente da natureza da causa ou em razão da função, como
v. g. a prerrogativa constitucional do Senado para julgar o Presidente da
República era crime de responsabilidade (RePro, 707:104).
Os juizes exercem jurisdição na medida de sua competência e me­

15
diante um contraditório regular, obedecidos os ritos, formas e garantias
previstos na lei processual11612.
A lei assegura, outrossim, a imparcialidade no exercício da jurisdição,
quer atribuindo garantias aos magistrados (vitaliciedade, inamovibilidade,
irredutibilidade de vencimentos), quer estipulando as hipóteses em que o
juiz, caso a caso, não deve julgar porque impedido ou suspeito (CPC, arts.
134 a 137)13.
Sendo indeclinável a jurisdição, não poderá o juiz delegar suas atri­
buições ou eximir-se de julgar, salvante, como dito, os casos de incompe­
tência, impedimento e suspeição. É a esse respeito expresso o art. 126 do
Código de Processo Civil: “O juiz nao se exime de sentenciar ou despachar
alegando lacuna ou obscuridade da lei. No julgamento da lide caber-lhe-á
aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costu­
mes e aos princípios gerais de direito”.
Não assiste, pois, ao juiz ou ao órgão colegiado judicante “o direito
de duvidar”: ou aprecia o mérito, atingindo assim o processo sua finalida­
de precípua, ou extingue o processo sem julgamento de mérito, nos casos
de invalidade do próprio processo ou de carência de ação\ mas, de qualquer
forma, é obrigado a pronunciar-se.
Refere Frederico Marques que o judicium é atividade absolutamente
obrigatória, “pois o não julgamento é a manifestação mais característica
da denegação de justiça. A obrigação de julgar é inerente à função judi­
ciária” (.Instituições, cit-, v. 1, n. 134).

11. A sentença proferida por quem não for juiz (v. g., por juiz temporário cujo
prazo de nomeação já se tenha esgotado, ou por juiz jã aposentado ou posto em dispo­
nibilidade) ou estiver suspenso do exercício da judicatura, é inexistente como ato ju­
rídico processual.
12. A lei estadual pode criar, mediante proposta do Tribunal de Justiça, a Justiça
Militar estadual, constituída em primeiro grau pelos Juizes de Direito e Conselhos de
Justiça, e em segundo grau pelo próprio Tribunal de Justiça, ou por Tribunal de Justiça
Militar naqueles Estados em que o efetivo da polícia militar seja superior a vinte mil
integrantes (CF, art. 125, § 32).
A Constituição igualmente prevê (art. 126) a designação, pelo Tribunal de Jus­
tiça de cada Estado, de juizes para dirimir conflitos fundiários, em varas especializadas
“com competência exclusiva para questões agrárias”. V. o verbete n. 99.
13. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovada em Assembleia
Geral das Nações Unidas em 1948, art. 10, prescreve: “Toda pessoa tem direito, em
condições de plena igualdade, de ser ouvida publicamente e com justiça por um tribu­
nal independente e imparcial, para a determinação de seus direitos e obrigações, ou
para o exame de qualquer acusação contra ela em matéria penal”.

16
Em contrapartida, o órgão jurisdicional de mais elevada hierarquia
não pode instruir o de menor hierarquia em como deverá uma causa ser
julgada, nem pode avocar a demanda14.
Os Tribunais, respeitada a “independência jurídica” dos juizes de
primeira instância, podem todavia confirmar, modificar ou anular as sen­
tenças, desde que procedam por via de recursos regularmente interpostos
(regra do duplo grau de jurisdição).
A jurisdição abrange hodiernamente, quando menos nos países de
estrutura jurídica consolidada, a totalidade dos feitos, afastadas as juris­
dições baroniais (próprias aos regimes feudais), as jurisdições eclesiásti­
cas, e bem assim afastada a interferência de jurisdições estrangeiras com
relação aos respectivos nacionais (como existiram em países sob o antigo
regime de protetorado, ou semelhantes).
O princípio da inafastabilidade da tutela jurisdicional não comporta
exceções, e nem mesmo admite a exigência de prévio esgotamento do
contencioso nas vias administrativas; neste ponto, contudo, a vigente Lei
Magna abre uma (única) exceção — legítima porque prevista no próprio
texto constitucional — no relativo à Justiça Desportiva. Assim, as ações
concernentes à disciplina e às competições esportivas só podem ser levadas
ao Judiciário após se esgotarem, no prazo máximo de sessenta dias, as
instâncias da Justiça Desportiva (CF, art. 217, §§ 1Qe 22).

1. A coisa julgada como atributo específico da jurisdição


A autoridade de “coisa julgada material ” é atributo específico da
jurisdição. Toda sentença, findo o prazo para recurso, ou esgotados os

14. Quando se cuida de atividade administrativa, geralmente o superior hierár­


quico pode determinar a atividade e a conduta funcional do subordinado, e pode
avocar à sua decisão pessoal os expedientes que se encontrem com o subordinado.
Lembra Ruy Cime Lima, em sua obra clássica, que na estrutura hierárquica da
administração “encontram lugar os órgãos de manifestação da vontade estatal, multi­
plicados ao influxo da desconcentração administrativa. Nesta hipótese, a subordinação
hierárquica, as mais das vezes, antes se estabelece entre os atos, do que entre os indi­
víduos: — o inferior delibera validamente; o superior, porém, poderá cassar-lhe a
deliberação. (...) A devolução ao superior hierárquico do conhecimento do ato admi­
nistrativo, praticado pelo subalterno, opera-se por intermédio do recurso hierárquico,
ou da avocação. Ao inverso do recurso hierárquico, que é iniciativa da parte ou do
funcionário subalterno, a avocação é iniciativa do superior” (Princípios cie direito
administrativo brasileiro, 2. ed., Ed. Livraria do Globo, 1939, § 17, p. 147 e 150).

17
recursos interponíveis, faz coisa julgada “form al”, i. e., torna-se imodifi-
cável, inimpugnável dentro do processo.
As sentenças de mérito (com algumas exceções) adquirem, além
disso, também a autoridade de “coisa julgada m a t e r i a l sua eficácia
projeta-se fora do processo em que tal sentença foi proferida, tornando-se
imutáveis os efeitos da sentença (segundo Liebman), ou imutável a decla­
ração contida na sentença (Hellwig). Transitada uma sentença material­
mente em julgado, não poderão mais as partes (ou seus sucessores) discu­
tir ou reclamar, em processo posterior, quanto ao bem da vida que a sen­
tença atribuiu, ou denegou, a qualquer delas. Esta é a “eficácia vinculati­
va plena ” característica da atividade jurisdicional, e que só a atividade
jurisdicional produz.
As decisões administrativas, mesmo as pronunciadas por autoridade
da mais alta hierarquia, não adquirem a imutabilidade decorrente da coisa
julgada, pois a matéria, nos limites em que se alegue lesão a direito indi­
vidual ou coletivo, pode ser objeto de reexame pelo Poder Judiciário, ao
qual toca a última palavra15.
Todavia, se é verdade que só a atividade jurisdicional é capaz de
produzir a eficácia vinculativa plena, tal princípio não nega caráter jurisdi­
cional a atividades do juiz, como no processo de execução propriamente
dito, ou no processo cautelar, que não conduzem a tal eficácia; aliás, a
própria sentença que põe fim ao processo sem julgamento de mérito tam­
bém produz coisa julgada apenas formal.

8. Jurisdições anômalas
A Constituição admite dois casos de lijurisdição anômala”, exercida
por órgãos alheios ao Poder Judiciário.

8.1. Processo de impeachment


O primeiro diz respeito aos processos de “impeachment”, pelo jul­
gamento do Presidente da República e do Vice-Presidente e de ministros
de Estado nos crimes de responsabilidade, julgamento de competência
privativa do Senado Federal, após haver a Câmara dos Deputados decla­

15. A respeito, a clássica monografia de Seabra Fagundes, O controle dos atos


administrativos pelo Poder Judiciário, 2. ed., Konfino, 1950.

18
rado a “admissibilidade” da acusação formulada contra tais autoridades.
Igualmente cabe ao Senado “processar e julgar” os ministros do Supremo
Tribunal Federal, o Procurador-Geral da República e o Advogado-Geral
da União nos crimes de responsabilidade (CF, arts. 5 1 ,1, e 5 2 ,1 e II)16.
A pena imponível, no entanto, limitar-se~ã à “perda do cargo” e ina-
bilitação por oito anos para o exercício de função pública (cuida-se, pois,
de processo com caráter dominantemente político), mas “sem prejuízo das
demais sanções judiciais cabíveis” (CF, art. 52, parágrafo único).
Ensina Paulo Brossard de Souza Pinto que “ao processo político pode
suceder, ou não, o processo criminal. Sucedendo, à condenação no juízo
parlamentar não se segue, necessariamente, a condenação no juízo ordi­
nário. No juízo político os fatos podem parecer bastantes para justificar o
afastamento da autoridade a ele submetida. No juízo criminal, sob o im­
pério de critérios que não são em tudo iguais aos que vigoram no juízo
parlamentar, os mesmos fatos podem ser insuficientes para a condenação
e a ação penal ser julgada improcedente” (O “impeachment”, Globo, 1965,
n. 51).

8.2. Tribunal de Contas


Em segundo lugar, o Tribunal de Contas, órgão colegiado, “preposto
do Poder Legislativo, encarregado da fiscalização do orçamento” (José
Cretella Júnior, Dicionário de direito administrativo, 3. ed., Forense, p.
522), integrado, na esfera federal, por ministros que gozam das garantias
e prerrogativas dos ministros do Superior Tribunal de Justiça (CF, art. 73,
§ 3e).
O Tribunal de Contas, no magistério de Hely Lopes Meirelles, “tem
uma posição singular na Administração brasileira, pois está instituído
constitucionalmente como órgão auxiliar do Poder Legislativo (art. 71),
mas desempenha atribuições jurisdicionais administrativas, relacionadas
com a fiscalização da execução orçamentária, com a aplicação dos dinhei-

16. Se no entanto a acusação for por crime comum, o Presidente ou o Vice-Pre­


sidente da República e os ministros de Estado, após a manifestação da Câmara dos
Deputados, serão processados e julgados pelo Supremo Tribunal Federal; também
serão processados e julgados pelo Alto Pretório os ministros do próprio Supremo
Tribunal, bem como os membros do Congresso Nacional e o Procurador-Geral da
República (CF, art. 102,1, b), e ainda os membros dos Tribunais Superiores e do Tri­
bunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente
(CF, art. 102,1, c).

19
ros públicos, com a legalidade dos contratos, aposentadorias e pensões”
(Direito administrativo brasileiro, 22. ed., Malheiros Ed.,. 22. ed., 1990,
p. 663).
Cumpre melhor explicitar: as atribuições do Tribunal de Contas são
de natureza administrativa. Entretanto, quando “julga” as contas “dos
administradores e demais responsáveis por dinheiros, bens e valores pú­
blicos”, tal julgamento impõe-se ao Poder Judiciário17no que concerne ao
aspecto contábil, sobre a regularidade da própria conta; o julgado do Tri­
bunal de Contas constitui prejudicial no juízo penal, como apuração, da
qual o juiz não se pode afastar, de elemento de fato necessário à tipicidade
do crime (José Cretella Júnior, Tribunal de Contas, Dicionário, cit.; Seabra
Fagundes, O controle, cit., n. 62).
Da mesma forma, tal julgado impõe-se na ação de ressarcimento
promovida contra o responsável pelo alcance18.
O Superior Tribunal de Justiça, por sua l â Turma, julgou que o Poder
Judiciário não detém competência para rever as decisões do Tribunal de
Contas dos Municípios (Estado de Goiás), no concernente a exame de
contas, não competindo ao STJ analisar a motivação da imputação do
débito e a ilegitimidade da Resolução de Câmara de Vereadores, que au­
torizou pagamentos a maior realizados pelo Presidente da Câmara aos edis
(RMS 12.487-GO, rei. Min. Francisco Falcão, ac. de 22-5-2001, RSTJ,
759:116).
Em ação civil por ato de improbidade, a 2~ Turma do STJ considerou,
todavia, possível ao Poder Judiciário o reexame, sob a ótica da legalidade,
das contas do Poder Público embora já aprovadas pelo Tribunal de Contas:
“As contas do poder público e os contratos administrativos são exa­
minados pelos Tribunais de Contas sob a ótica do acerto ou desacerto ad­
ministrativo, por ser a Corte de Contas órgão integrante do Poder Legisla­
tivo, auxiliando-o no controle externo. O controle externo não exime o
Poder Judiciário de examinar as contas e os contratos sob a ótica da lega­
lidade” (REsp 593.522,2*Turma, rei. Min. Eliana Calmon, j. 27-11-2007).

17. Segundo Pontes de Miranda, “não havemos de interpretar que o Tribunal de


Contas julgue e outro juiz as rejulgue depois” (Comentários à Constituição de 1946,
v. 2, p. 95).
18. Alcance — diferença para menos que, em tomada de contas, é apurada con­
tra o funcionário responsável por dinheiros e valores públicos (v. José Jappur, O con­
ceito de alcance, RDA, 114:518).

20
Rodolfo de Camargo Mancuso, admitindo a inafastabilidade do
controle jurisdicional sobre as decisões dos Tribunais de Contas, todavia,
afirma que a revisão judicial “não poderá implicar uma singela substituição
dos critérios adotados pelo Juiz de contas por aqueles que acodem ao Juiz
togado”. Sustenta que, a se entender de outro modo, “ter-se-ia o Tribunal
de Contas como instância inferior, ou de primeiro grau, em face do Poder
Judiciário, o que, com certeza, não está na letra nem no espírito do texto
constitucional... (omissis)... a nosso ver, não imbricam, não se confundem
nem se sobrepõem às funções do Poder Judiciário e dos Tribunais de Con­
tas”. E traz à balha decisões do Supremo Tribunal Federal no sentido de
que, no julgamento das contas de responsáveis por haveres públicos, a
competência é exclusiva dos Tribunais de Contas, “salvo nulidade por
irregularidade formal grave ou manifesta ilegalidade aparente” (RTJ,
43:151). Assim também o Superior Tribunal de Justiça (RSTJ, 30:379).
As observações do ilustre jurista estão em RT, 743:14-6 e também
em Gênesis, 7:65, artigo de doutrina sob o título “Sobre a execução das
decisões proferidas pelos Tribunais de Contas, especialmente a legiti­
mação”.
De outra parte, decidiu a Corte Suprema, com remissão ao MS 23.665-
DF (.DJU, 20 set. 2002), que o Tribunal de Contas não pode desconhecer
a autoridade da coisa julgada: “se a decisão judicial se baseou em pre­
missas errôneas, deve ser ela desconstituída por meio de ação rescisória,
e não mediante deliberação do TCU” (STF, MS 23.758, rei. Min. Moreira
Alves, j. 27-3-2003, Informativo do STF, n. 302, mar. 2003); foi, assim,
deferido mandado de segurança contra ato do TCU que determinara a
suspensão do pagamento de vantagem pessoal de servidores públicos,
concedida por decisão judicial transitada em julgado.
Quanto à capacidade judiciária dos Tribunais de Contas, eles a
possuem para estar em juízo na defesa de suas prerrogativas, bem como
podem figurar no polo passivo de ação de mandado de segurança. Toda­
via, não são pessoas jurídicas e, portanto, não são titulares de direitos;
integram a estrutura da União e dos Estados e, excepcionalmente, de
Municípios.
Assim, o Tribunal de Contas é parte ilegítima para figurar como réu
em ação que vise desconstituir ato de sua competência. Como foi dito em
sede jurisprudencial, “não é jurídico, nem legal, cometer-se aos conselhos
de contas a legitimidade para defender, em juízo, ativa ou passivamente,
as suas decisões, mas as suas prerrogativas. (...) Órgãos da natureza dos

21
Tribunais de Contas só podem residir em juízo (e consequentemente re­
correr) nas lides internas, em confronto com outros órgãos ou com Pode­
res do Estado e no momento em que algum destes lhes retire prerrogativas
ou lhes afronte direitos que lhes são próprios, porque indesjungíveis de
seus fins constitucionais” (STJ, lâ Turma, REsp 121.053, rei. Min. Demó-
crito Reinaldo, j . 18-9-1997).
A matéria relativa à legitimidade ad causam dos Tribunais de Contas
encontra-se largamente exposta no REsp 504.920 ( STJ, Ia Turma, rei. Min.
José Delgado, ac. 4-9-2003, RSTJ, 775:204), ao qual nos reportamos.

8.3. Tribunal Marítimo


O Tribunal Marítimo, conceituado como “órgão auxiliar do Poder
Judiciário” e vinculado ao Ministério da Marinha, não interfere no mono­
pólio jurisdicional do Poder Judiciário. Suas decisões, relativas a respon­
sabilidades técnicas por acidentes de navegação, constituem em juízo
apenas elemento de prova, com presunção de certeza (Lei n. 2.180, de 5-
2-1954, modificada pela Lei n. 5.056, de 29-6-1966; Dec. n. 72.169, de
4-5-1973).
As decisões do Tribunal Marítimo, julgou a 3- Turma do Superior
Tribunal de Justiça, “podem ser revistas pelo Poder Judiciário; quando
fundadas em perícia técnica, todavia, elas só não subsistirão se esta for
cabalmente contrariada pela prova judicial” (REsp 38.082, ac. 20-5-1999,
rei. Min. Ari Pargendler).
O Tribunal Marítimo tem a atribuição de registro da propriedade
marítima, de direitos reais e de outros ônus que gravem embarcações
brasileiras, sendo todavia isentas de registro as embarcações com arquea-
dura bruta inferior a cem toneladas (REsp 864.409, 4a Turma, rei. Min.
Luis Felipe Salomão, j. 23-6-2009).

22
Capítulo III
DISTINÇÃO ENTRE O ATO
JURISDICIONAL E O ATO
LEGISLATIVO

9. Legislação e jurisdição
A lei1, editando regras de conduta gerais e abstratas, busca a tutela
dos interesses coletivos; a sentença, pela composição de determinada lide
mediante a aplicação da lei, realiza uma tutela concreta e individualizada
(salvo no caso das ações coletivas, nas quais a sentença, via de regra, fará
coisa julgada erga omnes).
É possível dizer que, atualmente e falando de maneira geral, a legis­
lação é um “prius” em relação à jurisdição. José Frederico Marques
afirma, aliás, haver maior precisão em mencionar-se não a lei, mas o di­
reito objetivo como sendo o prius da atividade jurisdicional2.
Nem sempre assim foi. Eduardo Couture, o grande processualista
uruguaio (Fundamentos do direito processual civil, Saraiva, 1946, n. 19),
escreveu que “o Poder Judiciário é historicamente anterior ao Legislativo”.
E traz à colação a lição de De Page, de que, “em suas origens, o direito
não era senão processo. Este o dominava e o absorvia. Todos os autores
ingleses reconhecem que foi do processo que surgiu a common law, a
substantive law” (Fundamentos, cit., nota 51). Em Roma, ao conceder a
actio, o pretor frequentemente criava a lei para o caso concreto; o direito
romano era mais um “sistema de ações” do que de direitos subjetivos.

1. Tratamos, aqui, das leis que o são não só em sentido formal como também em
sentido material, e não das leis apenas formais; estas regem situações individuais e se
constituem, portanto, na realidade, em atos administrativos.
2. Direito objetivo é o conjunto de normas de um ordenamento, vigente ou não,
positivo ou natural, incluindo-se aqui normas legais, consuetudinárias, individuais e
gerais (v. Tércio Sampaio Ferraz Júnior, Direito objetivo, in Enciclopédia Saraiva do
Direito, v. 27).

23
Mesmo hodiernamente, não é sem sentido sustentar a importância e
o relevo da jurisprudência (reiteração de sentenças num mesmo sentido)
como fonte do direito3.
Enquanto a legislação é atividade constitutiva, no sentido da criação
de normas de conduta, a jurisdição assume uma posição preponderante­
mente de aplicação do direito preexistente, mesmo naqueles casos em que,
por omissa a lei, cabe ao juiz encontrar e “revelar” as normas de conduta
“latentes” na ordem jurídica, o que faz por intermédio da invocação aos
costumes, à analogia, aos princípios gerais de direito ou à equidade.
No magistério de Humberto Theodoro Júnior, “o certo é que a função
legislativa, criando a lei, estabelece normas para o futuro, não se fundando
sobre um juízo do ser, mas do dever ser. Já o órgão jurisdicional se ocupa
do que é, ou seja, do fato e de sua subsunção à lei” (.Revista de Direito
Bancário, cit., v. 14, p. 359).

10. Exercício de atividade “legislativa” pelo Poder Judiciário.


Ações diretas de inconstitucionalidade e de constitucionali-
dade
Em duas hipóteses, todavia, a Constituição Federal atribui ao Poder
Judiciário, mais especificamente ao Supremo Tribunal Federal e aos Tri­
bunais de Justiça, o exercício, embora sob vestes jurisdicionais, de uma
atividade de índole legislativa, porque não vinculada à aplicação do direi­
to a um caso concreto.
Referimo-nos, em primeiro lugar, à ação direta de inconstitucio­
nalidade. Mediante essa ação, instaurada por representação das altas au­
toridades e das entidades referidas no art. 103 da Constituição Federal, o
Supremo Tribunal Federal pode declarar, em tese, a inconstitucionalidade

3. “Mesmo nos dias que correm, é um fato que o direito substantivo germina e
se modifica nos interstícios do processo. As aparatosas — e tantas vezes pouco subs­
tanciais — reformas legislativas não conseguem obscurecer, a olhos mais atentos, a
lenta e silenciosa reconstrução do direito estabelecido, com o propósito de ajustá-lo às
novas necessidades. Na maioria dos casos, impõe-se reconhecê-lo, a obra legislativa
apenas se limita a recolher e a sistematizar esse direito segregado caso a caso, revelan­
do-se com isto o poder publico um simples confiscador dos meios de direção social
cuja utilidade se patenteou na prática forense” (José Puig Brutau, A jurisprudência
como fonte do direito, trad. port. Lenine Nequete — Col. AJURIS, 5).
Consultar, ainda, Miguel Reale, Lições preliminares de direito, 4. ed., São Pau­
lo, Saraiva, p. 167-72.

24
de lei ou de ato normativo federal ou estadual que julgar infringentes aos
princípios da Constituição Federal (CF, art. 102» I, a), bastando tal decla­
ração para, por si só, excluir a eficácia da lei ou ato normativo4.
A ação direta de inconstitucionalidade, relativamente a leis ou atos
normativos estaduais ou municipais apontados como contrários a princípios
da Constituição Estadual, depende de representação da pessoa ou órgão
legitimado de acordo com a lei local, e será julgada pelo Tribunal de Jus­
tiça do respectivo Estado (CF, art. 125, § 2S)S.
Em segundo lugar, a Emenda Constitucional n. 3, de 17 de março de
1993, criou a ação declaratória de constitucionalidade de lei ou ato nor­
mativo federal, para cujo ajuizamento são legitimadas as pessoas e enti­
dades referidas no art. 103 da CF, e de competência do Supremo Tribunal
Federal. As decisões nessas ações produzirão “eficácia contra todos e
efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e
à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e
municipal” (art. 102, § 2~).
A Lei n. 9.868, de 10-11-1999, que “dispõe sobre o processo e julga­
mento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de
constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal”, estabelece em
seu art. 28, parágrafo único, que “a declaração de constitucionalidade ou
de inconstitucionalidade, inclusive a interpretação conforme a Constituição
e a declaração parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, têm
eficácia contra todos e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder
Judiciário e à Administração Pública federal, estadual e municipal”.

4. Em conseqüência, ainda ao tempo de vigência da Constituição Federal de


1969, havia resolvido o Supremo Tribunal Federal não ser necessária a comunicação
ao Senado Federal, prevista no art. 42, VI, da Constituição revogada (v. DJU, 16 maio
1977, p. 3123), nos casos de declaração de inconstitucionalidade de lei em tese. Essa
comunicação, para “suspensão da execução” da lei declarada inconstitucional, seria
necessária apenas nas declarações de inconstitucionalidade in casu, i. e., as proferidas
como “prejudiciais” no julgamento de demanda chegada ao conhecimento do Supremo
Tribunal Federal. Tal orientação do Supremo Tribunal Federal foi mantida diante da
atual Constituição da República.
5. OTJ pode exercer controle, mediante ação direta, quanto à (in)constituciona-
lidade de lei estadual (ou municipal), arguida sob o fundamento de violação de normas
da Constituição do Estado, ainda que tais normas sejam mera repetição de dispositivos
da Constituição da República de obrigatória observância pelos Estados (RTJ, 155/974;
RE 177.865; RTJ 163/836; Recl. 3.436, rei. Min. Celso de Mello, DJU, l 9 ago. 2005),
admitindo-se em tais casos a subsequente interposição de recurso extraordinário ao
STF (RTJ, 177/1084, 183/936).

25
Essa disposição de lei ordinária amplia o efeito erga omnes que a
Constituição já atribui às decisões definitivas de mérito do STF em ações
declaratórias de constitucionalidade (art. 102, § 2S) e, de certa forma,
restabelece, se interpretada com largueza, a ação para interpretação de lei
federal pela Corte Suprema6.
Como referiu o Min. Celso de Mello, a ação direta de inconstituciona­
lidade não pode, outrossim, ser utilizada com o objetivo de transformar o
Supremo Tribunal Federal, indevidamente, em legislador positivo, com o
poder de inovar o sistema normativo; assim, não é lícito pretender, em sede
de controle normativo abstrato, que o STF possa, a partir da supressão
seletiva de fragmentos da lei, proceder à virtual criação de outra norma
legal, substancialmente divorciada do conteúdo material que lhe deu o
próprio legislador (ADI 1.063, Informativo do STF, n. 225, abril 2001).

11. Normas regimentais


Pode-se ainda lembrar que as Constituições, por vezes, têm atribuído
ao Judiciário, excepcionalmente, atividade legislativa através de normas
regimentais. Assim, ao tempo da Constituição Federal de 1969, o Supremo
Tribunal Federal podia estabelecer normas processuais em seu Regimento
Interno (art. 119, § 3S, c).
E antes da edição da Emenda Constitucional n. 7, de 13 de abril de
1977, cabia aos Tribunais de Justiça editar, mediante Resoluções, os Có­
digos de Organização Judiciária.
De qualquer forma, atualmente as normas regimentais, dispondo
sobre a estrutura, a competência e o funcionamento dos tribunais, de seus
órgãos diretores e dos colegiados judicantes que os integram (CF, art. 96,
a), não apenas sistematizam a inserção e aplicação de regras constitucionais
e legais como, igualmente, integram tais regras e suprem lacunas norma­
tivas.

6. A Constituição Federal de 1988 não mais prevê a ação direta, por represen­
tação do Procurador-Geral da República, para interpretação, em tese, “de lei ou ato
normativo federal”. A previsão a esse respeito foi cancelada quando da última revisão
do projeto constitucional. Na sistemática anterior, a decisão do Supremo Tribunal
Federal eqüivalia, em verdade, a uma “lei interpretativa”.
Denominam-se leis interpretativas as que têm por objeto determinar, em caso
de dúvida, o sentido das leis existentes, sem introduzir disposições novas (Eduardo
Espínola, Tratado de direito civil brasileiro, Freitas Bastos, 1939, v. 2, n. 62).

26
Capítulo IV
DISTINÇÃO ENTRE O ATO
JURISDICIONAL E O ATO
ADMINISTRATIVO

12. Administração e jurisdição


Se, em geral, é bastante precisa a distinção entre o ato jurisdicional
e o ato legislativo, apresenta-se tarefa complexa a de buscar teoricamente,
em linhas nítidas, os elementos que permitam discernir entre o ato juris­
dicional e o ato administrativo. Em muitos países, inclusive, a doutrina
dominante, negando ao Judiciário a qualificação de “Poder”1, é no sentido
de considerar a jurisdição apenas como modalidade, embora bastante di­
ferenciada, da administração, inexistente, assim, uma distinção essencial
entre o ato administrativo e o ato jurisdicional.
No direito brasileiro, o Judiciário é um dos Poderes da União, “in­
dependentes e harmônicos” entre si (CF, art. 22).
A distinção não será certamente encontrada pelo critério subjetivo
ou orgânico (de quem praticou o ato), pois os juizes também praticam atos
administrativos, quer sob forma processual, no exercício da chamada
“jurisdição voluntária”, “graciosa” ou “administrativa”, quer praticando
os atos de autogoverno da magistratura e de administração dos serviços
judiciários2.

1. A respeito do Judiciário como Poder autônomo, v. Mário Guimarães, O juiz


e a função jurisdicional, Forense, 1958, Cap. III.
2. Assim, o presidente do Tribunal (ou o Conselho da Magistratura ou o Tribunal)
atualmente pratica a totalidade dos atos administrativos referentes aos juizes e servi­
dores do foro judicial (CF, art. 9 6 ,1 e II); o Conselho da Magistratura exerce atividade
censória; o Judiciário dispõe sobre a aplicação de suas verbas etc.
O Conselho Nacional de Justiça, instituído pela EC n. 45/2004, exerce o
controle interno do Poder Judiciário, em nível administrativo — V., nesta obra, o
verbete n. 24.

27
A distinção deve, pois, ser buscada na conjugação de diversos crité­
rios de ordem objetiva.

13. Esquema das distinções entre o ato jurisdicional e o ato ad­


ministrativo
Apresentamos, assim, o seguinte esquema:

Ato Jurisdicional Ato Administrativo


A atividade jurisdicional depende A atividade administrativa pode
de “iniciativa da parte interessa­ dispensar requerimento do interes­
da ”, mediante o ajuizamento da sado, agindo, portanto, “de ofício ”.
“ação” (ubi non est actio ibi non
est jurisdictio).

A “aplicação da lei ” a uma preten­ A administração, conquanto deva


são é o “objetivo”, em si mesmo, agir em conformidade com a lei,
da atividade jurisdicional; é a razão aplicando a lei, tem por “objetivo ”
de ser da jurisdição3. a promoção do “bem comum”.

A atividade jurisdicional pressupõe A atividade administrativa visa sa­


como causa um litígio, uma “lide ” tisfazer necessidades individuais e
(ainda que virtual), para cuja elimi­ coletivas, não tendo por pressupos­
nação é aplicada a lei. to a existência de uma lide entre
partes.

A atividade jurisdicional reveste-se A atividade administrativa é “ativi-


(segundo Chiovenda) normalmente dade primária” ou originária,
do caráter de atividade de “substi­
tuição

3. Considera José Frederico Marques que a jurisdição “pode ser definida como
a função estatal de aplicar as normas da ordem jurídica em relação a uma pretensão”
{Jurisdição voluntária, 2. ed., Saraiva, 1959, p. 53).

28
A jurisdição atua sempre “proces­ A administração geralmente age
sualmente ”, sob as regras da duali­ informalmente, embora deva com
dade de partes e do contraditório, frequência organizar procedimen­
para apreciar conflitos “alheios” (o tos, com ritos previstos em lei, para
juiz julga in re aliena). prover acerca de certos assuntos em
que a própria administração é parte
interessada (prover in re sua).

O ato jurisdicional de composição As decisões administrativas podem


da lide (sentença de mérito) adqui­ apenas precluir no âmbito da admi­
re a “autoridade de coisa julgada”, nistração (não admitem recurso
ou seja» seus efeitos tornam-se imu­ administrativo), mas estão sujeitas,
táveis. sem exceção, quanto à sua legali­
dade, ao reexame pelo Judiciário.

Como já dissemos, a Jurisdição é Poder, é Função e é Atividade (v.


o verbete n. 3).
Como função, distingue-se da Administração — como bem acentuou
Rodolfo de Camargo Mancuso, principalmente porque, embora o admi­
nistrador também aplique a norma de regência aos casos que lhe são
atribuídos, suas decisões não se revestem de definitividade “seja porque
pode a própria Administração rever de ofício os seus atos e condutas (Sú­
mula 473 do STF: o privilège de préalable ou autotutela), como também
porque esses procedimentos podem vir a ser contrastados judicialmente”
(assim, em juízo é cassada a aposentadoria irregularmente concedida; é
anulada a contratação direta, sem licitação) (Jurisdição coletiva e coisa
julgada, Revista dos Tribunais, 2007, p. 203).

14. A terzietà do juiz


Sustentou com razão Mauro Cappelletti4que a característica mais nítida
do ato jurisdicional é a “terzietà” do juiz, seu desinteresse pessoal na relação
jurídica sobre a qual a sentença irá operar. O juiz é sempre um terceiro no
sentido de ser alheio ao litígio, de ser imparcial, e o comando da sentença é um
imperativo ao qual as partes ficam sujeitas, é um comando superpartes.

4. V. O controle de constitucionalidade das leis no sistema das funções estatais,


Revista de Direito Processual Civil, São Paulo, Saraiva, 1962, v. 3, p. 37.

29
Anota Cappelletti que o legislador também atua super partes; porém
o traço distintivo, aqui, estará em que o legislador age de ofício, enquanto
o juiz age condicionado pelo pedido da parte (nemo judex sine actore), e
dentro dos limites do pedido da parte ine judexjudicet ultrapetitapartium);
a sentença resulta de uma atividade de colaboração entre o juiz, sujeito
imparcial, e as partes, sujeitos parciais do processo.
Quando portanto é afirmado que o Estado-Juiz “exerce a jurisdição
como um terceiro perante a relação jurídica litigiosa”, não se trata apenas
de ressaltar o caráter de imparcialidade do magistrado, mas sim que é “o
próprio órgão judiciário que se apresenta na posição de ‘terceiro’, com­
pletamente estranho à relação deduzida em juízo”, o que ocorre inclusive
nos casos em que o Estado, como pessoa jurídica, esteja envolvido no li­
tígio (Humberto Theodoro Júnior, Revista de Direito Bancário, cit., p.
365). Como refere Gian Franco Ricci, “la terzietà è qualcosa di piü, perchè
è agire al di sopra di ogni interesse sia privato che pubblico (dei singolo o
dello Stato), dedotto in giudizio” (Principi di diritto processuale generale,
Turim, 1985, n. 2, p. 7).
Também Arruda Al vim aponta como característica marcante da ati­
vidade jurisdicional a “terzietà” do juiz, “que tem de ser desinteressado do
litígio, conceito este universalmente aceito e tradicional, e há de ser ocu­
pante de órgão constitutivo do Poder Judiciário; daí, como conseqüência,
afastar-se do processo o juiz impedido ou suspeito (art. 134 e ss-X pois o
seu desinteresse (= imparcialidade) está comprometido” (Manual de di­
reito processual civil, Revista dos Tribunais, 10. ed., n. 51, p. 172).
Assim, o ato jurisdicional retrata um imperium super partes, condicio­
nado ao pedido da parte (pela “ação”), e tendo por pressuposto uma lide
(lide de direito privado, de direito administrativo, de direito tributário, de
direito constitucional etc.).
No magistério de Alfredo Rocco, a jurisdição apresenta as seguintes
formas externas:
“a) um órgão adequado (o juiz), distinto dos órgãos que exercem as
funções de legislar e administrar, e colocado em posição de bastante inde­
pendência para exercer seu ofício serena e imparcialmente;
b) um contraditório regular, que permita às partes propugnar por
seus interesses, fazendo valer suas razões, a fim de que a autoridade judi­
ciária tudo decida conforme o direito;
c) um procedimento preestabelecido, com formas predeterminadas
para assegurar uma resolução justa do conflito” (La sentenza civile, 1906,
apud José Frederico Marques, Instituições, cit., v. 1, p. 301).

30
Capítulo V
CLASSIFICAÇÕES DA
JURISDIÇÃO
1
i
iI
t
15. Unidade da jurisdição
Como função inerente à soberania do Estado, a jurisdição, poder-
-dever de administrar justiça, é una e homogênea, “qualquer que seja a
natureza jurídica do conflito que deva resolver” (José Frederico Marques,
Instituições, cit., v. 1, n. 136) (v., nesta obra, o verbete n. 29).
Como bem refere Cândido Dinamarco, “sendo una como expressão
do poder estatal, que é também uno e não comporta divisões, a rigor a
jurisdição não seria suscetível de classificação em espécies”. Todavia,
acentua que as conhecidas classificações da jurisdição em espécies justi-
ficam-se “pela utilidade didática de que são portadoras e por serem ele­
mentos úteis para o entendimento de uma série de problemas processuais,
como competência, graus de jurisdição, poderes decisórios mais amplos
do juiz em certos casos, etc.” (Instituições de direito processual civil,
Malheiros Ed., v. 1, 2001, n. 122).

16. Jurisdição penal e jurisdição civil


A diversidade das pretensões postas em juízo e a heterogeneidade
das lides ocorrentes na vida social conduzem à “classificação” da jurisdi­
ção em:
Jurisdição penal — quando o titular da ação (Ministério Público ou
o querelante) pretende a aplicação ao demandado de sanções
de natureza penal (finalidade “aflitiva”).
Jurisdição civil — é exercida em face de pretensões não penais, com
finalidade reparatória (lato sensu) ou de resguardo do direito
violado ou ameaçado. Abrange todos os ramos não penais, in­
cluindo as matérias de direito administrativo, comercial, tribu­
tário, agrário etc.

31
17. Jurisdição comum e jurisdições especiais
A multiplicidade e a diversidade dos conflitos sociais conduzem à '
conveniência de especialização de funções, criando-se, pois, ao lado da
“jurisdição ordinária”, as “jurisdições especiais”. Em face do sistema vi­
gente no Brasil, podemos assim esquematizar as várias “jurisdições”:

Comum ou ordinária
jurisdição federal
Jurisdição — Jurisdições jurisdição trabalhista
especiais jurisdição eleitoral
jurisdição militar

A competência das jurisdições especiais é definida expressa e taxa­


tivamente na Constituição Federal
A lei ordinária não poderá restringir, nem ampliar, tal competência.
Os juizes que exercem as jurisdições especiais pertencem ao Poder Judi­
ciário da União (excetuados os integrantes da Justiça Militar dos Estados),
sendo, portanto, em sentido lato, “juizes federais”.
Cumpre reafirmar a antiga e autorizada lição de João Mendes (Direi­
to judiciário, p. 40) de que o Poder Judiciário, “delegado da soberania
nacional”, não é nem federal nem estadual: “É eminentemente nacional,
quer se manifestando na jurisdição federal, quer se manifestando nas ju­
risdições estaduais, quer se aplicando ao cível, quer se aplicando ao crime,
quer decidindo em inferior, quer em superior instância”.
Aliás, a vigente Constituição Federal, mantendo esse posicionamen­
to, no elenco dos órgãos do Poder Judiciário incluiu os “Tribunais e Juizes
dos Estados” (art. 92, VII).

18. Jurisdição federal


A jurisdição federal é exercida pelos juizes federais (stricto sensu),
tendo como órgãos de segunda instância os Tribunais Regionais Federais.
Sua competência define-se, em quaisquer causas, pela presença da União
Federal, de suas autarquias ou empresas públicas (e também das “funda­
ções” federais), como autoras, rés ou intervenientes (CF, art. 109, I), e
ainda, em alguns casos, pela natureza da lide.
Esta jurisdição abrange causas penais e cíveis, e pode excepcional­
mente ser exercida, em primeira instância, por juizes estaduais, nas hipó­
teses previstas na Constituição Federal (art. 109, §§ 3- e 42).

32
19. Jurisdição trabalhista e jurisdição eleitoral
A jurisdição trabalhista cabe processar e julgar as ações oriundas da
relação de trabalho, ainda que nela seja parte ente da administração pú­
blica direta e indireta da União, Estados e Municípios, bem como todas
as demais causas elencadas no art. 114 da CF, e ainda “outras controvér­
sias decorrentes da relação de trabalho, na forma da lei” (redação da EC
n. 45, de 8-12-2004)1. Evidentemente, o maior volume de demandas
compreende os dissídios individuais e coletivos entre empregados e em­
pregadores.
Esta jurisdição poderá ser, em caráter de exceção, exercida por juizes
de direito, nas comarcas onde não houver Vara do Trabalho (CF, art. 112,
com a redação dada pela EC n. 45, de 8-12-2004 (v. o verbete n. 113).
À jurisdição eleitoral cabem atribuições administrativas relativamen­
te à organização e realização dos pleitos eleitorais, bem como o julgamen­
to, em sede contenciosa, de lides cíveis e criminais previstas em lei com­
plementar (CF, art. 121).

20. Jurisdição militar


A competência da Justiça Militar federal permaneceu a mesma, li­
mitada ao julgamento dos “crimes militares definidos em lei”, visto que
não alterado o texto do art. 124 da CF.
Todavia, no alusivo à Justiça Militar dos Estados, a EC n. 45/2004,
modificando a redação do art. 125, § 4e, explicitou a competência do Tri­
bunal do Júri quando for civil a vítima do homicídio praticado por militar,
e ainda (contrariando sistemática sempre observada) atribuiu à Justiça
Militar estadual competência para o julgamento de causas de caráter não
penal (!), pois aditou a expressão “e as ações judiciais contra atos disci­
plinares militares”. Assim, v. g., o mandado de segurança, ou a ação
anulatória visando anular, ou declarar a nulidade de ato punitivo discipli­
nar imposto ao militar estadual, passará a ser apreciado pelo órgão judici­
ário castrense designado na lei local.

1. As ações de acidentes do trabalho permanecem na competência da Justiça


comum estadual — v., nesta obra, o verbete n. 92. Igualmente permanecem na com­
petência da Justiça comum as causas vinculadas à relação estatutária entre o Poder
Público e seus servidores estatutários ou ocupantes de cargo de confiança.

33
21. Jurisdição comum ou ordinária
Por exclusão, as demais causas são processadas e julgadas pela Jus­
tiça comum ou Justiça ordinária, integrada não só pelos juizes componen­
tes do Poder Judiciário dos Estados, como ainda pelos juizes “locais”
(vinculados embora à União) do Distrito Federal.

22. Jurisdições de primeira e segunda instâncias


É ainda cabível falarmos em jurisdição de primeira instância e de se­
gunda instância. A primeira é exercida pelos juizes vitalícios e pelos juizes
dos “juizados especiais”, tanto togados como leigos (CF, art. 9 8 ,1). Perante
os juizes de primeira instância é ajuizada a quase totalidade das demandas.
A jurisdição de segunda instância é exercida na Justiça comum pelos
Tribunais de Justiça, com a faculdade de derrogação, mediante a interposição
de recursos, das decisões e sentenças proferidas nos juízos inferiores; algumas
causas, pela sua relevância, são de “competência originária” dos Tribunais.
Nas jurisdições especializadas, os recursos ordinários são apreciados
pelos Tribunais Regionais Federais, pelos Tribunais Regionais do Trabalho,
pelos Tribunais Regionais Eleitorais e pelo Superior Tribunal Militar.
O Tribunal Superior do Trabalho e o Tribunal Superior Eleitoral superpõem-
-se aos respectivos Tribunais Regionais e lhes uniformizam a jurisprudência.

23. Supremo Tribunal Federal e Tribunais superiores


O Supremo Tribunal Federal, sobranceiro a todos os demais órgãos
judiciários, exerce precipuamente a guarda da Constituição, tendo para
tanto como vias processuais:
a) de controle concentrado, a ação direta de inconstitucionalidade
de lei ou ato normativo federal ou estadual (CF, art. 102,1, a)2, com “efi­
cácia contra todos e efeito vinculante” (art. 102, § 2a);

2. No julgamento da ADI 1.063-DF (Informativo do STF, n. 225, abr. 2001), de


que foi relator o Min. Celso de Mello, consta da ementa interessante asserto, no sen­
tido de que “a ação direta de inconstitucionalidade nâo pode ser utilizada com o ob­
jetivo de transformar o Supremo Tribunal Federal, indevidamente, em legislador po­
sitivo, eis que o poder de inovar o sistema normativo, em caráter inaugural, constitui
função típica da instituição parlamentar. Não se revela lícito pretender, em sede de
controle normativo abstrato, que o Supremo Tribunal Federal, a partir da supressão
seletiva de fragmentos do discurso normativo, inscrito no ato estatal impugnado, pro­
ceda à virtual criação de outra regra legal, substancialmente divorciada do conteúdo
material que lhe deu o próprio legislador”.

34
b) de controle concentrado, a ação declaratória de constitucionali­
dade de lei ou ato normativo federal (CF, art. 102, I, a), com “eficácia
contra todos e efeito vinculante”3.
c) de controle difuso, o recurso extraordinário (CF, art. 102, III),
cabível sempre que a decisão recorrida (mesmo as proferidas pelo cole-
giado recursal dos Juizados Especiais) haja:
1) contrariado dispositivo da Constituição;
2) declarado a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal;
3) julgado válida lei ou ato de governo local contestado em face da
Constituição;
4) julgado válida lei local contestada em face de lei federal;
d) da arguição de descumprimento de preceito fundamental decor­
rente da Constituição, nos termos da lei (CF, art. 102, § l 2; Lei n. 9.882,
de 3-12-1999);
e) do mandado de injunção, na ausência de elaboração de norma
regulamentadora de determinada situação jurídica (CF, art. 102,1, q).
A Lei n. 9.868, de 10-11-1999, que “dispõe sobre o processo e
julgamento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declarató­
ria de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal”, tornou
explícito que a declaração de constitucionalidade ou de inconstituciona­
lidade, e “inclusive a interpretação conforme a Constituição e a declara­
ção parcial de inconstitucionalidade sem redução de texto, têm eficácia
contra todos e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder Judici­
ário e à Administração Pública federal, estadual e municipal” (art. 28,
parágrafo único).
O Supremo Tribunal Federal, em competência originária, julga os
conflitos entre a União e os Estados, ou entre uns e outros, inclusive as
respectivas entidades da administração indireta — CF, art. 102,1,/.

3. O Supremo Tribunal Federal tem sustentado que, em não sendo função da


Corte o decidir consultas, toma-se indispensável pressuposto ao ajuizamento da ação
declaratória de constitucionalidade a comprovação liminar da ocorrência, em proporções
relevantes, de dissídio jurisprudencial, cuja existência implique verdadeiro estado de
insegurança jurídica, gerador de perplexidade social e de grave incerteza quanto à
validade constitucional de determinada lei ou ato normativo federal, sob pena de in­
viabilizar-se a própria instauração do controle normativo abstrato (ADC 8, dec. 4-8-1999
do Min. Celso de Mello, DJU, 12 ago. 1999, p. 49-50, com amplas remissões de juris­
prudência e doutrina).

35
Todavia, em causa cível originária tendo como autor o Banco de
Brasília e réu o Estado de Santa Catarina, foi decidido que a jurisprudên­
cia do STF, a esse respeito, firmou-se no sentido de reconhecer que não é
qualquer causa que legitima a invocação dessa regra de competência, mas
exclusivamente aquelas controvérsias que possam provocar situações
caracterizadoras de conflito federativo, criando situação capaz de intro­
duzir “instabilidade no equilíbrio federativo ou que possa ocasionar a
ruptura da harmonia que deve prevalecer nas relações institucionais entre
as pessoas estatais que integram o Estado Federal”; e como a demanda não
se revelava apta a “comprometer os valores político-institucionais subja­
centes ao pacto da Federação”, o relator, em decisão liminar, não conheceu
da ação (ACO 597, rei. Min. Celso de Mello, dec. em 10-10-2000, DJU,
17 out. 2000, p. 3).
A respeito, elucidativo estudo do Prof. Arruda Alvim, com análise da
mais recente jurisprudência do STF, publicado em Estudos de direito
constitucional em homenagem à Prof Maria Garcia (2. ed., IOB, 2008,
p- 44).
No plano da jurisdição civil, o STF julga, em recurso ordinário, o
mandado de segurança e o mandado de injunção, quando denegatória a
decisão proferida, em única instância, por Tribunal Superior (CF, art. 102,
II).
O Superior Tribunal de Justiça, criado pela Constituição de 1988,
além de sua competência originária e em recurso ordinário, julga em “re­
curso especial” as causas decididas, em única ou última instância, pelos
Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais dos Estados e do Distrito
Federal, quando a decisão recorrida (CF, art. 105, III):
a) contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência;
b) julgar válido ato de govemo local contestado em face de lei federal;
c) der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído
outro Tribunal.
Trata-se, portanto, de colégio judicante nacional, instituído com a
finalidade precípua de aliviar a pletora de feitos que competiam, pelas
Constituições anteriores, ao Supremo Tribunal Federal.
Todavia, do ponto de vista administrativo e censório, o Superior
Tribunal de Justiça é órgão federal, pois através do Conselho da Justiça
Federal exerce a supervisão correicional, administrativa e orçamentária
da Justiça Federal de primeiro e segundo graus (CF, art. 105, parágrafo
único, II), com eficácia vinculante. A Lei n. 11.798/2008 veio a regula­

36
mentar os poderes correicionais do Conselho da Justiça Federal, com­
posto por cinco Ministros do STJ e pelos Presidentes dos cinco Tribunais
Regionais Federais.
A competência do Tribunal Superior do Trabalho é a fixada em lei,
conforme prevê a CF, art. 111-A, § l2, como instância última, no plano infra-
constitucional, de resolução dos dissídios relativos a relações cie trabalho.
Quanto ao Tribunal Superior Eleitoral, sua competência, bem como
a dos Tribunais Regionais Eleitorais, dos juizes de direito com jurisdição
eleitoral e das Juntas Eleitorais, será estabelecida em lei complementar
(CF, art. 121, caput).
O Superior Tribunal Militar exerce função de segunda instância
relativamente às auditorias do Exército, Marinha e Aeronáutica, cabendo
à Justiça Militar “processar e julgar os crimes militares definidos em lei”
(CF, art. 124 e parágrafo único). Excepcionalmente, no plano cível, julga
mandados de segurança contra atos administrativos da própria Corte e de
seu Presidente, como é mencionado no verbete n. 103.

24. Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle interno do


Poder Judiciário
Após longo debate, o Congresso Nacional incluiu no texto da Emen­
da Constitucional n. 45, de 8-12-2004 (art. 52), a instituição do Conselho
Nacional de Justiça, como órgão de controle interno do Poder Judiciário.
A criação de um órgão de controle externo seria inconstitucional, como
alertaram magistrados e juristas. Todavia, inserido no rol dos órgãos do
Poder Judiciário (CF, art 92, inciso I~A), o Conselho apresenta-se como
órgão integrante do próprio Judiciário, a fim de exercer controle interno
correicional, administrativo e financeiro. A circunstância de dele participa­
rem minoritariamente pessoas alheias à magistratura não lhe retira o caráter
de autocontrole do Judiciário. Aliás, lembremos do “quinto, constitucional”
nos tribunais de segundo grau, da participação dos jurados leigos perante
os tribunais do júri, dos juizes “leigos” nos Juizados Especiais.
É composto por quinze Conselheiros, sendo nove magistrados (indi­
cados pelo próprio Judiciário), dois membros do Ministério Público (in­
dicados pelo Procurador-Geral da República), dois advogados (indicados
pela Ordem dos Advogados do Brasil) e “dois cidadãos, de notável saber
jurídico e reputação ilibada, indicados um pela Câmara dos Deputados e
outro pelo Senado Federal”, sendo todos os Conselheiros nomeados pelo

37
Presidente da República após aprovação das escolhas pela maioria abso­
luta do Senado Federal. Junto ao Conselho oficiarão o Procurador-Geral
da República e o Presidente do Conselho Federal da OAB.
Dispõe o CNJ de amplos poderes de controle da atuação administra­
tiva e financeira do Poder Judiciário e do cumprimento pelos juizes de seus
deveres funcionais, cabendo-lhe inclusive apreciar a legalidade dos atos
administrativos praticados por membros ou órgãos do Poder Judiciário,
“podendo desconstituí-los, revê-los ou fixar prazo para que se adotem as
providências necessárias ao exato cumprimento da lei”; conhecer de re­
clamações contra membros ou órgãos do Poder Judiciário e serviços au~
xiliares, inclusive órgãos de registro e tabeliães, “sem prejuízo da compe­
tência disciplinar e correicional dos tribunais”, podendo avocar processos
disciplinares em curso e aplicar sanções administrativas (remoção, dispo­
nibilidade, aposentadoria com subsídios ou proventos proporcionais),
“assegurada ampla defesa”; rever processos disciplinares de juizes e mem­
bros de tribunais (CF, art. 103-B, § 4a).
Ficam, pois, excluídos do controle pelo CNJ os atos jurisdicionais
praticados pelos membros e órgãos do Poder Judiciário, assim mantida a
independência jurídica dos magistrados, como garantia inerente ao exer­
cício livre e imparcial da Jurisdição.
Embora as muitas críticas partidas de entidades de classe temerosas
de quebra do princípio da independência do Poder Judiciário, a criação do
CNJ realmente apresenta-se como imposição do superior interesse públi­
co, em face da necessidade de um órgão nacional (imune a eventuais
perniciosas influências locais) de uniformização e controle das atividades
administrativas dos vários segmentos do Judiciário, em país com dimensões
continentais e diversidades culturais e de estrutura econômica e social
como o Brasil.

S
i

38
25, Organograma geral do Poder Judiciário
26. Organograma do Poder Judiciário da União
27. Organograma do Poder Judiciário dos Estados-Membros

CF, art, 125,


§§ 3S, 4- e 59

CF, art. 98,1 -

Obs.: 1. O numero de Desembargadores dos Tribunais de Justiça varia conforme a


legislação local.
2. Existem Tribunais de Justiça Militar estaduais em São Paulo, Rio Grande do
Sul e Minas Gerais.
3. O “órgão especial”, com o mínimo de onze (11) e o máximo de vinte e cinco
(25) membros, poderá ser criado somente nos Tribunais que contem mais de vinte e
cinco (25) julgadores (CF, art. 93, XI).
4. Os antigos Tribunais de alçada foram extintos pela EC n. 45/2004, art. 4fi.
28. Organograma do Superior Tribunal de Justiça

Obs.: A competência da Corte Especial, das Seções e das Turmas, raüone materiae, é definida no Regimento Interno do Superior Tribu­
nal de Justiça. O Tribunal Pleno só exerce funções administrativas. O Conselho da Justiça Federai exerce a supervisão administrativa e
orçamentária da Justiça Federal de l2 e 2Õgraus, possuindo ainda “poderes correicionais”, com eficácia vinculante — CF, art. 105, pará­
grafo íínico, II.
Capítulo VI
CONTENCIOSO
ADMINISTRATIVO

29. Unidade e dualidade de jurisdição


Nos países que seguem o sistema da unidade da jurisdição (sistema
“inglês”, igualmente adotado em linhas gerais nos EUA, nos países latino-
-americanos e em países sob influência cultural britânica) impõe-se ple­
namente a regra do monopólio da jurisdição pelo Poder Judiciário.
No sistema da dualidade da jurisdição (sistema “francês”), aqueles
litígios (geralmente os referentes a atividades de serviço público) em que
for parte a administração (ou suas autarquias) são apreciados não por órgãos
do Poder Judiciário, mas por “tribunais” integrados na estrutura do próprio
Poder Executivo. E esses “tribunais” decidem com eficácia vinculativa
plena, i. e., suas decisões transitam materialmente em julgado, não poden­
do a questão ser reexaminada pelo Poder Judiciário. Tais “tribunais admi­
nistrativos”, pois, “exercem jurisdição É o contencioso administrativo
propriamente dito*.
Na França, o “contencioso administrativo” tem como órgão de cúpu­
la o Conselho de Estado; e, como órgãos de base, as cortes administrativas
de apelação, criadas pela Lei de 31 de dezembro de 1987, e os “tribunais
administrativos”. Seus “juizes”, mercê do prestígio granjeado pelo alto
nível das decisões proferidas, adquiriram virtual independência e consti­
tuem, realmente, um “segundo” Poder Judiciário, embora entrosado orga-

1. Conforme Athos G. Tsoutsos, na França os tribunais administrativos foram


criados ante o temor de intervenção-do Judiciário na obra da Administração, “à cause
d ’une mauvaise expérience du passé, spécialement de Factivité abusive des Parlements
à Pancien régime, cette crainte a conduit à une séparation rigide des pouvoirs et à la
protection du fonctionnement de 1’administration par la défense aux tribunaux ordi-
naires de juger les affaires concemant Fadministration” (Les notions d'administration
et de la juridiction, Paris, 1968, p. 54, apud Carlos Alberto Álvaro de Oliveira, Do
formalismo no processo civil, São Paulo, Saraiva, 1997, n. 112.2, p. 91, nota 85).

43
nicamente no Poder Executivo; aliás, na França é geralmente negada ao
Judiciário a qualificação de “Poder”. Para resolução dos dissídios sobre
competência entre os tribunais jurisdicionais e os administrativos existe
em França o “Tribunal dos Conflitos” (Bernard Pacteau, Contentieiix ad-
m inistratif3. ed., Paris, 1994).
Nos países do Leste europeu (antes de orientação marxista), ao lado
do Poder Judiciário, existiam órgãos de arbitramento para dirimir as lides
entre as empresas estatais, ou entre estas e os particulares.
No Brasil, vigorando o princípio da “unidade da jurisdição”, não
existe o “contencioso administrativo” propriamente dito, a “jurisdição
administrativa”. Conforme Eduardo Talamini, “essa é uma diferença sig­
nificativa do direito brasileiro em relação a outros ordenamentos”; assim,
a expressão “processo administrativo” no Brasil assume significação dife­
rente da atribuída à mesma expressão nos países que adotam como regra
a dualidade de jurisdição {RePro, 152/41-42).

30. O Conselho de Estado, no Brasil Império


No Brasil, ao tempo do Império, um Conselho de Estado (criado em
1823, suprimido em 1834, restabelecido em 1841) prestava alto assesso­
ra mento ao imperador e decidia no relativo a certas lides de direito adminis­
trativo; refere, no entanto, o mestre Agrícola Barbi que “a fixação dos limi­
tes entre a jurisdição dos tribunais judiciais e dos tribunais administrativos
era, porém, motivo de acirrada controvérsia, influindo, de um lado, a tradição
lusitana de unidade de jurisdição, e, de outro, as ídeias hauridas nos livros
franceses, que consignavam a dualidade de jurisdição existente em seu di­
reito positivo” {Do mandado de segurança, 6. ed., Forense, n. 40).

31. O contencioso administrativo, no Brasil República


Com a República, foi abolido em nosso país o contencioso adminis­
trativo, firmando-se a regra da unidade de jurisdição, reiterada no art. 5-,
XXXV, da vigente Constituição, ao preceituar que “a lei não excluirá da
apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”.
No Brasil, portanto, inexiste o verdadeiro “contencioso administra­
tivo”, com função jurisdicional. É, entretanto, usada tal denominação com
relação aos “Tribunais”, Conselhos, ou outros órgãos administrativos que
exercem funções decisórias no âmbito da administração e sem eficácia de
coisa julgada material.

44
A Constituição de 1969 previa a criação de contenciosos administra­
tivos para a decisão de questões trabalhistas de interesse da União e enti­
dades públicas federais (arts. 110 e 111), e de questões fiscais e previden-
ciárias nos âmbitos federal e estadual (art. 203), mas contenciosos “sem
poder jurisdicional”, ressalvando-se expressamente a incidência da regra
basilar da unidade de jurisdição. A vigente Constituição não contém dis­
positivos semelhantes.

32. Decisões do CADE — Conselho Administrativo de Defesa


Econômica
As decisões do CADE (órgão vinculado ao Ministério da Justiça),
que cominam multas ou impõem obrigações de fazer ou não fazer, cons­
tituem título executivo extrajudicial — art. 60 da Lei n. 8.884/94. Sua
execução, conforme o art. 64 da mesma Lei, “será promovida na Justiça
Federal do Distrito Federal ou da sede ou domicílio do executado, à esco­
lha do CADE”.
Foi todavia arguida, na ADI 1.094, proposta em 1994, ofensa ao art.
109, § 1~, da CF — as causas em que a União fo r autora serão aforadas
na seção judiciária onde tiver domicílio a outra parte —, alegando-se ser
este preceito extensivo às autarquias. Embora o voto do relator Min. Car­
los Velloso, prevaleceu, em julgamento relativo à medida liminar, o enten­
dimento de que a aludida norma constitucional aplica-se apenas à União,
não atingindo as suas autarquias e empresas, sendo dito que a aplicação
extensiva da norma deve ser acompanhada da análise das peculiaridades
de cada uma delas (STF, Plenário, j. 21-9-1995). A ADI encontra-se con­
clusa, com parecer da PGR, pelo acolhimento parcial da arguição (julho
de 2009).

32-A. O a rt 205 da Constituição Federal de 1969


A Constituição pretérita, em dispositivo que não chegou a merecer
regulamentação por lei complementar ou ordinária, previa que as lides
entre as entidades maiores de direito público e as respectivas autarquias,
empresas públicas ou sociedades de economia mista seriam decididas (com
eficácia vinculativa plena) pela autoridade administrativa, ressalvado ao
acionista da sociedade de economia mista o apelo ao Judiciário mediante
ação anulatória da decisão (CF de 1969, art. 205).
Assim, a causa entre a União e autarquia federal ou sociedade de
economia mista criada por lei federal, ou entre a autarquia e a sociedade,

45
seria resolvida pela autoridade federal que a lei indicasse; a causa entre
duas autarquias estaduais, pela autoridade estadual. Mas a causa entre o
Estado e autarquia federal, ou entre sociedade de economia mista federal
e o município ou autarquia municipal, seria dirimida pelo Poder Judiciário
(RTJ, 95:428).
Em suma, a resolução pela via do contencioso administrativo limitar-
se-ia às demandas interna corporis, se assim podemos dizer, ou seja, às
demandas entre entidades situadas no mesmo plano de governo; e a inci­
dência da norma constitucional, conforme decidiu o Pretório Excelso por
unanimidade de votos, aguardou lei regulamentadora que fixasse qual a
autoridade administrativa com atribuições decisórias (RE 90.102, STF,
Pleno, RTJ, 92:363; AJURIS, 75:79-80).
A vigente Constituição Federal omitiu dispositivo análogo, o que não
impede a solução administrativa, pela autoridade maior, das lides entre
entidade de direito público e uma de suas autarquias; a decisão tomada,
entretanto, não se revestirá da autoridade de coisa julgada, permanecendo
eficaz apenas no plano administrativo.

46
Capítulo VII
JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA

33. Jurisdição voluntária. Noções gerais


A doutrina dominante e o Código de Processo Civil do Brasil (art.
l s) distinguem a jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária1.
A primeira, como jã exposto, visa à aplicação da lei com o objetivo
de eliminar um litígio, um conflito de interesses; em face do litígio, o juiz
outorga a um ou a outro dos litigantes o bem da vida disputado, e os efei­
tos da sentença adquirem definitividade, imutabilidade em frente às partes
e seus sucessores (autoridade de coisa julgada material). A coisa julgada
material, já foi dito, é o “atributo específico da jurisdição”.
Quanto à exata natureza da jurisdição voluntária, afirmou-se que do
entrechoque de opiniões ter-se-ia, ao final, chegado à conclusão de que
não é uma coisa nem outra, i. e., não é jurisdição nem é voluntária2, cui­
dando-se, ao invés, de atividade de índole administrativa, confiada aos
órgãos do Poder Judiciário por razões de tradição3 ou de conveniência.
Manifestam autores de nomeada que na jurisdição voluntária não temos
processo, mas simples procedimento; não há partes, como na jurisdição con­
tenciosa, mas simples interessados; e a decisão definitiva desses procedimentos
não alcança a força de coisa julgada inaterial, que apenas ocorre nas sentenças
de mérito proferidas em causas de jurisdição contenciosa. De outra parte, na
jurisdição voluntária “predomina o princípio inquisitório, enquanto na jurisdi­
ção contenciosa prevalece o princípio dispositivo” (Agrícola Barbi, Comentá­
rios ao Código de Processo Civil, 10. ed., Forense, 1998, v. 1, n. 9).
A matéria é sobremodo polêmica, e muitos autores de nomeada
sustentam que a “jurisdição voluntária” (ou “graciosa”, ou administrativa)

1. Sobre o tema, é indicada a obra fundamental de José Frederico Marques,


Ensaio sobre a jurisdição voluntária, 2. ed., Saraiva, 1959.
2. Alcalá-Zamora y Castillo, Premisas para determinar la índole de la llamada
jurisdicción voluntaria, in Studi in onore di Enrico Redenti, 1951, v. 1.
3. Segundo Buzaid, “por larga tradição, em casos tais sempre coube ao juiz a função
de administrar os interesses privados” (Exposição de Motivos do CPC de 1973).

47
enquadra-se no âmbito, que consideram amplo, da atividade propriamen­
te jurisdicional4.

34. A administração de interesses privados por órgãos do poder


público
Fiquemos, no entanto, com o conceito de jurisdição até agora expos­
to, consoante a linha de orientação da maioria dos processualistas, brasi­
leiros e estrangeiros.
Geralmente, a ordem jurídica deixa a critério dos particulares regu­
larem, uns em face dos outros, suas relações, livremente criando, modifi­
cando ou extinguindo direitos e obrigações recíprocos. Assim, A e B podem
livremente pactuar o arrendamento de um campo, a novação de uma dívi­
da, o empréstimo de um veículo, a compra de uma máquina.
Em outros casos, no entanto — e a intervenção do Estado na ativi­
dade privada acentua-se sempre mais — , o poder público, de formas várias,
intervém, facultativa ou necessariamente, em situações jurídicas individu­
ais ou no relacionamento jurídico entre particulares. Ocorre, pois, a admi­
nistração de interesses privados por órgãos do poder público.
Cuida-se, então, de manifesta restrição aos princípios “de autonomia
e de liberdade que caracterizam a vida jurídico-privada dos indivíduos
— limitação justificada pelo interesse social nesses atos da vida privada”
(Cintra, Pellegrini e Dinamarco, Teoria geral do processo, Malheiros Ed.,
13. ed., n. 78).

35. Modalidades de intervenção estatal na administração dos


interesses privados
Tal intervenção estatal na administração dos interesses privados pode
ser realizada:

4. Como Salvatore Satta, Rafael de Pina, Micheli e Amílcar de Castro, citados


por Marcos Afonso Borges, professor da Faculdade de Direito da Universidade Fede­
ral de Goiás, em artigo sob o título “Jurisdição voluntária” (AJURIS, 18:76), sendo
este processualista também partidário de uma conceituação muito ampla da jurisdição.
Segundo Marcos Afonso Borges, “justiça não somente existe quando há litígio, direi­
tos em conflito. Toda a vez que o Poder Judiciário se manifesta, acerca do que lhe é
levado à apreciação, está fazendo justiça àqueles que lhe submeteram o problema, quer
seja litigioso ou não. Entendemos que na jurisdição voluntária há jurisdição, ação e
processo” (Jurisdição, cit., AJURIS, 18:90). No mesmo sentido Ronaldo Cunha Cam­
pos (Comentários ao CPC, Forense, 1979, v. 1, n. 91, p. 257).

48
A) Por órgãos estatais alheios ao Poder Judiciário.
Assim, as sociedades mercantis adquirem personalidade jurídica
mediante o arquivamento de seus atos constitutivos na Junta Comercial (Lei
n. 8.934, de 18-11-1994, arts. 8S, I, e 32; CC, arts. 985 e 1.150); o Instituto
Nacional da Propriedade Industrial efetua o registro das patentes de inven­
ção e dos modelos de utilidade, bem como o registro de desenhos industriais
e das marcas de produto e de serviço (ÇPI, Lei n. 9.279, de 14-5-1996, que
na quase totalidade de seus artigos entrou em vigor em 15-5-1997, art. 243).
B) Por órgãos sob o controle e fiscalização do Poder Judiciário.
São os órgãos do chamado/oro extrajudicial. Assim os tabelíonatos,
lavrando escrituras públicas, quer facultativamente, quer porque impres­
cindíveis à formalização de atos jurídicos; os ofícios do Registro de Imóveis,
operando os registros indispensáveis à alienação e constituição de direitos
reais sobre bens de raiz (CC, arts. 1.245 e 1.492); os ofícios do Registro
de Títulos e Documentos; os ofícios do Registro Civil das Pessoas Naturais
e das Pessoas Jurídicas; os ofícios de Protestos Cambiais.
Pela Constituição Federal de 1988, art. 236, “os serviços notariais e
de registro são exercidos em caráter privado, por delegação do Poder
Público”, mantida a fiscalização pelo Poder Judiciário nos termos da Lei
n. 8.935, de 18-11-1994.
C) Diretamente por órgãos do Poder Judiciário, pelos próprios
magistrados. Temos, agora, a jurisdição voluntária, também denominada
graciosa ou administrativa.
Os atos praticados no exercício da jurisdição voluntária são atos
judiciais, porque praticados por juizes; mas não são atos jurisdicionais,
pois ao praticá-los o juiz não está aplicando o direito com vista a eliminar
um conflito de interesses, mas sim com o propósito de influir em um ne­
gócio privado ou em uma situação jurídica. O juiz, no exercício da juris­
dição voluntária, pratica atos subjetivamente judiciais, mas substancial­
mente administrativos.
Na definição de José Frederico Marques, os atos de jurisdição volun­
tária são atos de direito público, no exercício de atividade administrativa,
“que o Poder Judiciário realiza para reconhecer, verificar, autorizar, apro­
var, constituir ou modificar situações jurídicas” (.Manual de direito pro­
cessual civil, São Paulo, Saraiva, v. 1, n. 61 e 62). No fundo, disse Arruda
Alvim, “a jurisdição voluntária importa uma limitação à autonomia priva­
da” (.Manual, cit., 10. ed., v. I, n. 57, p. 222).

49
36. Razões da intervenção por intermédio do Poder Judiciário
Qual o motivo que levou o legislador a confiar, em hipóteses cada vez
mais numerosas, a administração de interesses privados ao Poder Judiciário?
Por que não os confiou, como seria teoricamente mais adequado, a órgãos
do próprio Poder Executivo? As razões são muitas. De uma parte, a tradição
histórica, dos tempos em que se não reconhecia a separação dos Poderes,
e as atividades jurisdicionais e administrativas não eram devidamente dis­
criminadas; de outra parte, a conveniência em confiar certos atos, de inter­
venção nos negócios e situações dos particulares, a pessoas dotadas de
garantias de imparcialidade, e experientes na aplicação do direito.
A intervenção do Judiciário, aliás, é também fator valioso para refor­
çar a “prevenção” de eventuais futuras lides, que poderiam com mais faci­
lidade surgir se a intervenção fosse realizada por agentes de outro Poder5.
Vejamos um exemplo de jurisdição voluntária: o pai, representante
legal e administrador dos bens de filho menor, não pode alienar (ou onerar)
imóvel do filho sem prévia autorização judicial (CC, art. 1.691). O Estado,
na pessoa do juiz, irá verificar se a alienação consulta ao interesse do
menor. Como vemos, não há lide, não há interesses contrapostos ou em
litígio. Pode surgir, é certo, oposição do Ministério Público, ou quiçá da
mãe do menor, entendendo ser prejudicial o negócio pretendido. Será uma
controvérsia, um dissenso de opiniões. Mas o interesse tutelável é sempre
apenas um, o interesse do menor; o dissenso de opiniões diz respeito à
melhor forma de proteger e acautelar esse único interesse em jogo.

37. Distinções entre jurisdição contenciosa e voluntária


Podemos apresentar o seguinte esquema comparativo:

Jurisdição Contenciosa Jurisdição Voluntária


(CPC, arts. 1.103 es.)
Atividade: Jurisdicional Administrativa

Causa: um conflito de interesses, JJm negócio, ato ou providência


uma “lide>’ jurídica

5. “La prevenzione delia lite è il fine specifico dei processo volontario” (Carne-
lutti, lstituzioni dei nuovo processo civile italiano, 1951, v. 1, p. 19).

50
Aspectos subjetivos: partes contra­ “Interessados ” (art. 1.104) na tute­
postas (inter nolentes) la de um mesmo interesse (inter
volentes)

Iniciativa: por meio de “ação ”, em Por meio de simples “requerimen­


que se formula o pedido do autor to ”, em que se indica a “providência
contra o réu judicial” postulada. Essa providên­
cia não é “contra” ninguém, mas
apenas em favor do requerente

Maneira de proceder: mediante um Embora a citação do Ministério Pú­


"processo ”, sob o princípio do blico e de eventuais interessados, há
“contraditório” um simples “procedimento adminis­
trativo”, facultada eventual “contro­
vérsia” quanto à melhor maneira de
administrar o “negócio” em jogo

Sentença: produz “coisa julgada Não produz a “coisa julgada mate­


material ” rial”, podendo ser modificada em
face de circunstâncias supervenien­
tes (art 1.111)

Critério de julgamento: o da legali- Não é obrigatória a “legalidade


dade, com a aplicação do direito estrita”, podendo o juiz ater-se a
objetivo para a eliminação do con- critérios de conveniência e oportu-
flito. nidade (art. 1.109).

38. Classificação dos procedimentos de jurisdição voluntária


Adotando em linhas gerais a orientação de Chiovenda (.Instituições,
cit., v. 2, n. 142), podemos assim classificar os casos de administração
pública dos interesses privados, mediante a jurisdição voluntária:
A) Intervenção estatal na formação de sujeitos jurídicos.
No Brasil, geralmente a intervenção estatal para a formação (e extin­
ção) de sujeitos jurídicos é realizada por intermédio de órgãos não inte­
grantes do Poder Judiciário: assim, v. g., a formação das empresas mer­
cantis pelo registro de seus contratos na Junta Comercial, nos termos do
art. 32, II, da Lei n. 8.934, de 18-11-1994; a formação de sociedades civis
pelo registro de seus estatutos no Ofício do Registro Civil das Pessoas

51
Jurídicas (CC, art 45; Lei n. 6.015, de 31-12-1973, art. 114); a intervenção
do Ministério Público na organização, fiscalização e extinção das fundações
(CPC, arts. 1.200 a 1.204).
No direito eleitoral, os partidos políticos adquirem personalidade
jurídica na forma da lei civil e, posteriormente, registram seus Estatutos
perante o Tribunal Superior Eleitoral (CF, art. 17, § 2~).
B) Intervenção do Judiciário na integração da capacidade jurídica
das pessoas e no status jurídico das pessoas.
Apontemos, aqui, a nomeação, remoção e dispensa, pelo juiz, de tutores
e curadores (CC, arts. 1.732, 1.734 e 1.767; CPC, arts. 1.187 e s.); a opção
de nacionalidade (Lei n. 818, de 18-9-1949, arts. 3e e 4° e Lei n. 6.015/73).
Assim também os procedimentos de jurisdição voluntária para a
separação judicial por mútuo assentimento (CPC, arts. 1.120 a 1.124; Lei
n. 6.515/77, art. 34); para o divórcio direto consensual (Lei n. 6.515/77,
art. 40, § 2~); para as alterações, declarações de dúvida, retificações nos
registros públicos (Lei n. 6.015/73, arts. 109 e s.; arts. 198 e s.; arts. 212
e 213); de habilitação para casamento (Lei n. 6.015/73, arts. 67 e s.); de
colocação de menor em família substituta, mediante guarda, tutela ou
adoção (Lei n. 8.069/90, arts. 28 a 52); de interdição (CPC, arts. 1.177 e
s.)6; de declaração de ausência (CC, arts. 22 e 23; CPC, art. 1.159) etc.
C) Intervenção do Judiciário em negócios jurídicos .
Sob esta classificação encontram-se os casos mais freqüentes de jurisdição
voluntária. Assim, a alienação ou oneração de bens de menores e incapazes
depende de autorização judicial (CC, arts. 1.691,1.747, V, 1.748, IV, e 1.774);
a sub-rogação de bens clausulados por inalienabilidade (CPC, art. 1.112, II);
casos de alienação, locação e administração de coisa comum (CC, arts. 1.322 e
1.325, § 2~; CPC, arts. 1.112, IV, 1.117, U, e 1.118); casos de alienação de quinhão
em coisa comum (CC, art. 504; CPC, art. 1.112, V); casos de extinção de usu­
fruto e fideicomisso (CPC, ait. 1.112, VI); abertura, registro e confirmação de
testamentos (CPC, arts. 1.125 e s.); arrecadação de bens de herançajacente (CPC,
arts. 1.142 e s.); arrecadação de bens de ausentes e arrecadação de coisas vagas
(CPC, arts. 1.160 e s. e 1.170 e s.); especialização de hipotecas legais (CPC, arts.
1.205 e s.) e muitíssimos outros casos previstos em leis especiais.

6. No plano doutrinário, é muito discutido o enquadramento da interdição. Au­


tores de nomeada entendem existir aqui uma ação, sob jurisdição contenciosa. De
outra parte, o enquadramento dos inventários entre os processos de jurisdição conten­
ciosa, como fez o vigente Código de Processo Civil, tem merecido crítica (nesta obra,
vide o verbete 79-A).

52
Capítulo VIII
LIMITES DA JURISDIÇÃO
CIVIL

39. Limites espadais da jurisdição brasileira


Constituindo uma das manifestações da soberania estatal, a jurisdição
é exercida nos limites territoriais do respectivo país, para a decisão de li­
tígios de alguma forma vinculados ao seu território.
No Brasil, exerce~se a jurisdição civil de nossos Tribunais desde que
o réu aqui esteja domiciliado; ou no Brasil deva ser cumprida a obrigação;
ou a demanda se originar de fato ocorrido ou ato praticado no Brasil; ou
quando aqui estiver situado o imóvel objeto da lide; ou estiverem situados
os bens arrolados em inventário (CPC, arts. 88 e 89).
Em alguns casos, a lei brasileira admite a concorrência de jurisdições;
assim, se não houver sido acionada a jurisdição brasileira, poderá merecer
homologação, para produzir efeitos no Brasil, sentença proferida no juízo
estrangeiro. Em outros casos (CPC, art. 89), a jurisdição brasileira afirma-
-se com exclusividade.
Embora no plano teórico a jurisdição de um Estado pudesse ser es-
pacialmente ilimitada, na prática aceitam os Estados, de maneira geral, as
limitações decorrentes dos princípios da efetividade e da submissão.
Amílcar de Castro, reportando-se à doutrina inglesa, anota que o
primeiro princípio significa “que o juiz é incompetente para proferir sen­
tença que não tenha possibilidade de executar”, por estarem fora de seu
alcance as coisas objeto da demanda, ou o sujeito passivo. Pelo princípio
da submissão, “uma pessoa pode voluntariamente submeter-se à jurisdição
de tribunal a que não esteja sujeita, pois, se começa por aceitar essa juris­
dição, não pode depois pretender livrar-se dela” (Direito internacional
privado, 3. ed., Forense, n. 293).
Lembra Lopes da Costa (Direito processual civil brasileiro, v. 1, n.
40) que os navios de guerra estrangeiros são considerados território estran-

53
geiro, ainda que dentro de nossas águas territoriais, e também o são, em
termos, os prédios das legações diplomáticas.

40. Limites subjetivos da jurisdição brasileira


Subjetivamente, a jurisdição brasileira impõe-se a todas as pessoas
que se encontrem em território nacional, brasileiros ou estrangeiros.
No âmbito civil, gozam, todavia, de imunidades jurisdicionais os
chefes de Estado estrangeiros e os agentes diplomáticos, de acordo com
princípios de direito internacional público, e ainda funcionários de algumas
instituições de caráter internacional. Tais imunidades comportam restrições
(Lopes da Costa, Direito, cit., n. 41)1.
Os próprios Estados estrangeiros e organizações internacionais, re­
nunciando à imunidade, podem ser parte perante as justiças brasileiras,
sendo então competentes para o julgamento das causas o Supremo Tribu­
nal Federal (CF, art. 102, I, e), ou os juizes federais (CF, art. 109, II)2,
neste último caso cabendo da sentença recurso ordinário para o Superior
Tribunal de Justiça (CF, art. 105, II, c).
No alusivo à renúncia à imunidade, o Supremo Tribunal Federal,
reconhecendo a imunidade de jurisdição de Estado estrangeiro em litígio
decorrente de execução fiscal promovida pela União Federal contra o
Consulado da República Federal da Alemanha, entendeu que o silêncio do
Estado estrangeiro, quanto à sua submissão à jurisdição brasileira, não
importa em renúncia à imunidade de jurisdição (AC (Ag. Reg.) 522-AP,
j. 16-9-1998, rei. Min. Ilmar Galvão). Precedentes citados: AC 9.687 (RTJ,
111:949), AC 9.694 e AC 9.684 (RTJ, 104:990) (Informativo do STF, n.
124, set. 1998). Mas essa orientação sofreu profunda revisão, pois atual­
mente a imunidade do Estado estrangeiro é limitada aos atos praticados
jure imperii.
Vide, sobre a imunidade de jurisdição de Estado estrangeiro, os acór­
dãos do STJ na AC 02 e no Ag. Inst. 757, na íntegra no Anexo IV deste
livro. Vide, outrossim, nesta obra, o verbete n. 50.

1. Quanto aos cônsules, em caso de habeas corpus (ação penal por pedofüia), o
STJ negou a ordem sob o entendimento de que os funcionários diplomáticos não estão
isentos de toda a jurisdição civil e criminal do Estado receptor, porquanto a imunidade
diplomática se restringe apenas aos atos de estrito exercício das funções, de conformi­
dade com a Convenção de Viena, assinada pelo Brasil em 1963 (HC 14.703, rei. Min.
Fontes de Alencar, j. 19-6-2001, Informativo do STJ, n. 101, jun. 2001).
2. V a respeito, Amílcar de Castro, Direito, cit., n. 295.

54
Capítulo IX
DA ARBITRAGEM E DA
SENTENÇA ESTRANGEIRA

41. Os “equivalentes jurisdicionais”


Determinados atos, embora não provindos de autoridade judiciária
brasileira, conduzem, sob certas condições, ao mesmo resultado, ou seja,
à composição definitiva da lide, que seria obtido mediante o uso das vias
jurisdicionais.
São os substitutivos da jurisdição (Lopes da Costa, Direito, cit., n.
44), ou os “equivalentes jurisdicionais”, na expressão de Camelutti (Sis­
tema de derecho procesal civil, trad. esp., v. 1, n. 49), adotada por José
Frederico Marques (.Instituições, cit., v. 5, n. 1.329).
Os meios “alternativos” de solução de controvérsias podem ser en­
quadrados como de autocomposição ou da heterocomposição. Na auto-
composição, os próprios interessados, com a eventual colaboração de um
terceiro, obtêm a solução de seu conflito. Na heterocomposição, quando
não realizada pelas vias jurisdicionais estatais, um terceiro, escolhido
pelos interessados, “substitui o juiz” na missão de efetuar o julgamento.
A conciliação e a mediação, disse Ada Pellegrini Grinover, “integram
o gênero autocomposição, enquanto a arbitragem é um meio de hetero­
composição. Desse modo, as técnicas mencionadas distinguem-se de
acordo com a atuação do terceiro na resolução do litígio: o mediador e o
conciliador simplesmente auxiliam as partes na busca de um acordo, que
elas mesmas celebram; o árbitro é um terceiro imparcial, diverso do Esta-
do-juiz, que julga a controvérsia, sendo que as partes se vinculam à decisão
proferida”.

42. A arbitragem, natureza jurídica


De início, observemos que muito se tem discutido se a arbitragem
apresenta caráter jurisdicional ou meramente contratual. Joel Dias Figuei­
ra Jr. sustenta que não existe impedimento algum a que o Estado atribua a

55
juizes privados o poder de dirimir conflitos em caráter definitivo, salvo nos
casos previstos em lei (Manual cia arbitragem, Revista dos Tribunais, 1997,
p. 96-7). Eduardo Arruda Alvim vê na arbitragem “um regime substitutivo
da jurisdição que, apesar de não ser exercida pelo Estado, visa a obtenção
do mesmo fim: a pacificação social”, configurando-se a arbitragem como
uma “jurisdição privada” (Curso de direito processual civil, Revista dos
Tribunais, 1999, v. 1, p. 56-7)1.
Alexandre Câmara nega ao arbitramento caráter jurisdicional, entenden­
do que o árbitro, embora exerça função pública, não exerce atividade jurisdi­
cional; a arbitragem é um processo, “não porém um processo jurisdicional,
pois a jurisdição é monopólio do Estado, não podendo ser exercida pelo árbi­
tro, o qual é um ente privado” (Arbitragem, Lumen Juris, 1997, p. 11).
Cândido Dinamarco considera a arbitragem como um “meio alterna­
tivo” para a solução de conflitos, processando-se “fora do âmbito do
exercício do poder estatal pelo juiz” (:Instituições de direito processual
civil, Malheiros Ed., 2001, v. III, n. 844).
Teori Zavascki nega peremptoriamente à arbitragem o caráter juris­
dicional: “Nem se poderia, mediante lei ordinária, igualar ato privado com
ato de jurisdição, já que isso importaria rompimento do monopólio da
função jurisdicional, que pertence ao Estado por força da Constituição (art.
5e, XXXV)”. E, destarte, considera “inapropriada a inclusão da sentença
arbitrai entre os títulos executivos judiciais” (Comentários ao CPC, 2. ed.,
Revista dos Tribunais, v. 8, p. 165-85).
Para Marinoni, “não há qualquer motivo para equiparar a jurisdição
com a atividade do árbitro. Na verdade, tal equiparação somente é forçada
para permitir a conclusão de que a lei da arbitragem é constitucional” (Luiz
Guilherme Marinoni, estudo na rev. Jurídica, 373:24-5). E remete ao as~

1. Ada Pellegrini Grinover, em parecer solicitado pela OAB/SP, frisou que a Lei
n. 9.307/96 não utiliza a expressão juiz arbitrai9mesmo porque o árbitro não é juiz: “o
árbitro decide, mediante sentença arbitrai, mas não é juiz. A expressão do art. 18 da
Lei não afirma ser o árbitro um juiz. O árbitro é juiz de fato e de direito, proclama o
dispositivo, indicando apenas que o árbitro decide sobre o fato e o direito. Pode pare­
cer uma filigrana, mas não é: a lei não diz que o árbitro é ‘o'juiz de fato e de direito,
mas que é ‘juiz de fato e de direito’; juiz, no sentido de apreciar e decidir, mas não co
juiz’ que exerce função jurisdicional. Tanto assim é, que a decisão arbitrai não tem
força coercitiva, pois a coerção é própria do Estado: a sentença arbitrai só pode ser
executada pelo Poder Judiciário”.
Conclui a mestra no sentido de que.os árbitros não se podem autodenominar de
“juizes”, porque não o são.

56
serto de Owen Fissi (The forms o f justice, Harvard Law Review, p. 30-1)
no sentido de que a arbitragem assemelha-se à jurisdição pelo fato de
também procurar um julgamento correto; mas é diverso o órgão decisor:
um privado, incumbido basicamente de resolver uma disputa sobre direitos
patrimoniais disponíveis, e o outro um agente público, o qual busca dar
sentido aos nossos valores públicosx*A.
Outros autores opinam no sentido de que a atividade dos árbitros é
verdadeira atividade jurisdicional, e não apenas uma atividade de caráter
marcadamente contratual. Assim Carlos Alberto Carmona, que critica como
“ideia tacanha” a de que não possa haver jurisdição fora do âmbito da
tutela estatal estrita, afirmando que “o conceito de jurisdição, em crise já
há muitos anos, deve receber novo enfoque, para adequar-se a técnica à
realidade” (Arbitragem e processo, Malheiros Ed., 1998, p. 38-9).
Segundo Nelson Nery Junior, a sentença arbitrai é “verdadeiro jul­
gamento”, acobertado pela coisa julgada e que não necessita de homolo­
gação judicial para adquirir o atributo da executividade: “o árbitro exerce
verdadeira jurisdição estatal, razão por que o processo arbitrai não perten­
ce ao direito privado, mas ao processual e, pois, ao direito público” (RePro,
v. 101/117 e s.).
Humberto Theodoro Júnior escreve que após a Lei n. 9.307/1996 não
mais se pode duvidar que resultou vitoriosa a corrente jurisdicional, ou
publicísüca:
o novo procedimento arbitrai, uma vez instaurado, em tudo se
equipara à jurisdição oficial, já que nem mesmo o compromisso depende
necessariamente de intervenção oficial, nem tampouco a sentença arbitrai
tem sua eficácia subordinada a qualquer crivo de aprovação em juízo”, e
tal natureza revela-se também na inovação introduzida no art. 475-N, IV,
do CPC, que passou a qualificar como título executivo judicial ‘a sentença
arbitrai’, independentemente de homologação em juízo” (Curso de direito

1-A. Para Marinoni, a arbitragem foi idealizada para atender aos interesses de
uma classe bastante restrita da população, capaz de suportar seus altos custos, com o
propósito de solução de controvérsias privadas relativas a grandes negócios, marcados
por peculiaridades próprias, conflitos que dependem, para sua solução, do manejo de
conhecimentos técnicos específicos; “não é preciso dizer que a solução de conflitos
desse porte, preocupada especialmente com a afirmação de regras técnicas relativas a
atividades empresariais, está muito longe de poder ser comparada com a substância do
que dá forma à jurisdição no Estado constitucional” (Jurídica, 373:24).

57
processual civil, 36. ed., Forense, 2006, v. III, n. 1.472-f; v. II, 39. ed.,
2006, n. 668).
Aliás, a respeito da denominação “sentença arbitrai” observou José
Carlos Barbosa Moreira que “la scelta terminologica ha inteso certamente
mettere in risalto Tequiparazione tra gli effetti dei due atti, prendendo in
considerazione soprattutto rattribuzione immediata alia decisione arbitra-
le di un’efficacia paragonabile a quella delia pronuncia dei gíudice, indi-
pendentemente dalfomologazione” (La nuova legge brasiliana sul arbi-
trato, in Temas de direito processual, Sexta Série, Saraiva, 1997, p. 283).
Podemos portanto concluir que o atual sistema de arbitragem brasi­
leiro, “por natureza e por definição, tem indiscutível caráter jurisdicional,
não cabendo mais, depois da Lei n. 9.307/96, falar-se em contratualidade,
salvo no que concerne à sua origem, por resultar da vontade das partes”
(J. E. Carreira Alvim, Direito arbitrai, 2. ed., Forense, 2004, p. 46).
Convirá anotar que Ada Pellegrini Grinover, com larga fundamenta­
ção, sustenta que “não deve pairar qualquer dúvida sobre a admissibilida­
de da arbitragem envolvendo a Administração e, com maior certeza, órgãos
da Administração indireta” (artigo na rev. Direito Civil e Processual Civil,
ed. Síntese, n. 26, p. 64 e s.).
O STJ, por sua 2- T., julgou que as sociedades de economia mista,
que desempenham atividade econômica de produção de bens ou prestação
de serviços, podem validamente avençar cláusula compromissória de ca­
ráter cogente. Assim, é a cláusula motivo de extinção do processo sem
julgamento de mérito — CPC, art. 267,VII. Precedentes: STF, AgReg. na
SE 5.209; STJ, REsp 612.439 (REsp 606.345, rei. Min. Otávio de Noronha,
j. 17-5-2007).

43. A arbitragem. Noções gerais


Em anteriores edições anotamos que o antigo “juízo arbitrai” foi
pouquíssimo usado no Brasil, salvante quiçá no âmbito dos antigos Juizados
de Pequenas Causas, hoje substituídos pelos Juizados Especiais Cíveis.
Já o Código Comercial de 1850 instituíra o juízo arbitrai obrigatório
nas lides oriundas de locação mercantil (art. 245) e nas alusivas à liquida­
ção de sociedade comercial (art. 294). O arbitramento necessário foi, no
entanto, revogado pela Lei n. 1.350, de 14 de setembro de 1866, tendo
sido, logo após, pelo Decreto n. 3.900, de 26 de junho de 1867, regula­
mentado o juízo arbitrai facultativo nas causas comerciais.

58
No regime dos Códigos Processuais de 1939 e de 1973, a cláusula
compromissória, o pactum de compromittendo, apenas continha promessa
de submeter eventuais conflitos à decisão de árbitros; mas tal promessa,
simples obrigação de fazer, não obrigava as partes a firmar o efetivo com­
promisso quando surgida real controvérsia entre os contratantes, gerando
apenas um dificilmente realizável dever de indenizar.
Consoante a moderna tendência de buscar meios alternativos de solu­
ção dos litígios, a Lei n. 9.307, de 23-9-1996, prioriza “a autonomia da
vontade das partes em sede de direitos disponíveis, meios e instrumentos
processuais adequados a permitir sua utilização sem os entraves constantes
da legislação que até então regulava a matéria (arts. 101 e 1.072 a 1.102
do CPC)’*
Pela nova lei, a “convenção de arbitragem” compreende a “cláusula
compromissória” e o “compromisso arbitrai”3.
Pela cláusula compromissória, comprometem-se os contratantes “a
submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a
tal contrato” (art. 4S).
Já o art. 9S dispõe sobre o compromisso arbitrai, que pressupõe uma
controvérsia presente; tal compromisso pode ser judicial, celebrado por
termo nos autos onde tem curso a demanda já instaurada, ou extrajudicial.
A Lei n. 9.307/96, ante a perspectiva de um dos contratantes, não
obstante a cláusula compromissória, recusar-se a firmar o compromisso
arbitrai, foi obrigada a criar uma nova ação judicial, a fim de emprestar
real obrigatoriedade a tal cláusula. O art. 7S dispõe detidamente sobre os
trâmites de tal ação, que culminará com sentença que “valerá como com­
promisso arbitrai”.
Alonga-se a lei a respeito do conteúdo do compromisso arbitrai
(que poderá inclusive conter a autorização para o julgamento por equi­
dade), das regras para a escolha do(s) árbitro(s), qualificado(s) como
“juiz de fato e de direito”, e do procedimento a ser observado no curso
do processo de arbitragem. Finalmente, será proferida a sentença arbitrai,

2. Paulo Cesar Pinheiro Carneiro, Arbitragem — a nova lei brasileira e a praxe


internacional (coletânea), LTr, 1996, p. 131.
3. Surgiu nesse passo tema de funda controvérsia, já objeto de exame pela Su­
prema Corte: será constitucional, ante o art. 5-, XXXV, da Lei Maior, essa prévia re­
núncia à Jurisdição estatal? A decisão do Supremo Tribunal Federal foi no sentido
afirmativo, ou seja, pela constitucionalidade.

59
que entre as partes produzirá “os mesmos efeitos da sentença proferida
pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título
executivo” (art. 31).
Muito embora o manifesto propósito de conferir à arbitragem um
máximo de efetividade como jurisdição substitutiva, a lei não pôde
evitar a previsão de uma “demanda para decretação da nulidade da
sentença arbitrai”, sob o procedimento comum previsto no Código de
Processo Civil e com o prazo de noventa dias a contar da notificação
da sentença arbitrai4. Vale ainda sublinhar que, consoante o art. 18, a
sentença arbitrai “não fica sujeita a recurso ou a homologação pelo
Poder Judiciário”5.
No tocante às sociedades de economia mista, a 2a Turma do STJ
julgou serem “válidos e eficazes os contratos firmados pelas sociedades de
economia mista exploradoras de atividade econômica de produção ou co­
mercialização de bens ou prestação de serviços (CF, art. 173, § P) que
estipulem cláusula compromissória submetendo à arbitragem eventuais
litígios decorrentes do ajuste” (REsp 606. 345, rei. Min. João Otávio de
Noronha, j. 17-5-2007).
Quanto às lides decorrentes de contratos de consumo revela-se nula,
de regra, a cláusula compromissória constante de contratos-padrão ou de
adesão; nestes, a cláusula compromissória só terá eficácia, excepcional­
mente, se o próprio aderente tomar a iniciativa de instituir a arbitragem ou
concordar expressamente com sua instituição, preponderando em princípio
as regras específicas do CDC (Joel Dias Figueira Jr., informativo INCIJUR,
n. 26, set. 2001).
Notemos, no entanto, que o juízo arbitrai não detém os poderes ine­
rentes ao imperium, ou seja, a efetuar modificações no plano dos fatos, e
assim o diz, com alguma impropriedade textual, o art. 22, § 4S, da Lei da

4. Somente a experiência dirá se, nos contratos internos, a nova lei terá efetiva
aplicação e uso. Quanto aos contratos internacionais, queremos crer na receptividade
e eficiência da nova instituição.
5. No âmbito intemo, anota-se que a Lei n. 10.303, de 31 de outubro de 2001,
que parcialmente modificou a Lei das Sociedades por Ações (Lei n. 6.404/76, art. 109,
inserção do § 3S), contém a previsão de que “as divergências entre os acionistas e a
companhia, ou entre os acionistas controladores e os acionistas minoritários, poderão
ser solucionadas mediante arbitragem, nos termos em que especificar”, cláusula esta
obrigatória também àqueles que vierem a adquirir ações da empresa, ou seja, aos novos
acionistas.

60
Arbitragem. Seus poderes limitam-se à cognição, ou seja, à formulação da
norma jurídica que deve disciplinar o conflito de interesses. No magistério
de Joel Dias Figueira Jr., “nesse particular, seus poderes são limitados e
não se comparam aos dos juizes togados. Tanto é que as medidas coerci­
tivas ou cautelares que se fizerem necessárias serão solicitadas pelo órgão
julgador privado ao Poder Judiciário que seria, originariamente, compe­
tente para julgar a causa (art. 22, §§ 2a e 4Q), assim como a execução for­
çada da sentença arbitrai constitui título executivo judicial (art. 41, que
confere nova redação ao art. 584, III, do CPC)” (Arbitragem, jurisdição e
execução, 2. ed., Revista dos Tribunais, 1999, n. 14, p. 156)6.
A maior prestância da Lei n. 9.307/96 estará em sua aplicação no
nível internacional, pela previsão de que a sentença arbitrai estrangeira
será reconhecida ou executada no Brasil de conformidade com os tratados
internacionais com eficácia no ordenamento brasileiro interno, sujeita
unicamente à homologação pelo Superior Tribunal de Justiça, nos termos
dos arts. 483 e 484 do Código de Processo Civil.
Anotou Lauro da Gama e Souza que, no mesmo ano de 1996, “entrou
em vigor na ordem interna a Convenção Interamericana sobre Arbitragem
Comercial, firmada na cidade do Panamá em 1975”, ratificada pelo Decre­
to Legislativo n. 90, de 1995, e promulgada por meio do Decreto Executivo
n. 1,902, de 9 de maio de 1996 (DOU, 10 maio 1996, p. 8012) (Arbitragem
— a nova lei brasileira e a praxe internacional, cit., p. 313)7eS.
As contendas surgidas no âmbito do Mercosul eram dirimidas con­
forme o Protocolo de Brasília, firmado em 17 de dezembro de 1991 e in­

6. O Superior Tribunal de Justiça, em decisão realmente relevante e invocando


precedente do TST no RR 491.080, lembrou que sentença arbitrai é meio hábil para
pôrjim à relação de trabalho, e assim igualmente poderá dispor sobre o levantamen­
to dos saldos de conta vinculada ao FGTS (2- Turma, rei. Min. Eliana Calmon, ac.
28-9-2004, Inf. STJ, n. 223, out. 2004).
7. Em agosto de 1996 figuravam, como Estados-partes nessa Convenção, Argen­
tina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Estados Unidos da
América, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Vene­
zuela.
8. A instituição privada de arbitragem de caráter mais global é a Corte de Arbi­
tragem da Câmara Internacional de Comércio de Paris — CIC, instalada em 1923 e
que, atualmente, recebe mais de 500 pedidos de arbitragem por ano, provindos de todos
os cantos do mundo. Outras prestigiadas Cortes de Arbitragem são a de Londres, a
London Court o f International Arbitration; a American Arbitration Associatioir, o
Instituto de Arbitragem da Câmara de Comércio de Estocolmo; no Egito, o Centro
Regional de Arbitragem Comercial Internacional do Cairo, criado em 1979; e o Centro
de Arbitragem Internacional de Hong Kong, de 1985.

61
corporado ao nosso direito pelo Decreto Legislativo n. 88, de 12 de dezem­
bro de 1992.
Atualmente, vigora o Protocolo de Olivos, datado de 18 de fevereiro
de 2002, com a criação (art. 18 do Protocolo) de um Tribunal Permanente
de Revisão (integrado por 5 árbitros), a fim de possibilitar o reèxame de
laudo proferido por “Tribunal Arbitrai ad hoc”. O Protocolo inclusive
permite que os interessados se dirijam de imediato ao Tribunal, caso frus­
tradas as negociações diretas entre os Estados-Partes, bem como prefiram
optar por outro sistema de solução das controvérsias (como a OMC). O
laudo do Tribunal Permanente é definitivo, não sujeito a reexame e, com
relação às partes, tem força de coisa julgada (art. 23); são igualmente
previstos “procedimentos especiais para atender casos excepcionais de
urgência que possam ocasionar danos irreparáveis às Partes” (art 24). O
Protocolo de Olivos foi aprovado pelo Congresso Nacional, em 14 de
outubro de 2003, e promulgado, para eficácia no território brasileiro, pelo
Decreto n. 4.982, de 9 de fevereiro de 2004.
Um importante instrumento para o fortalecimento do Mercosul é o
acordo de Arbitragem Comercial Internacional, concluído em Buenos
Aires, em 1998, e promulgado no Brasil pelo Decreto n. 4.719, de 4 de
junho de 2003, destinado a facilitar a solução, mediante arbitragem, de
conflitos surgidos entre empresas comerciais sediadas nos países integran­
tes da comunidade. A única ressalva brasileira refere-se ao direito aplicá­
vel à solução da controvérsia, pois o acordo alude ao direito internacional
privado e seus princípios, mas o art. I2 do decreto brasileiro dispõe que
fica permitida a livre escolha das regras incidentes, dês que respeitada a
ordem pública internacional.
As normas da Lei de Arbitragem que permitem às partes excluir, pela
cláusula compromissória, o futuro e eventual acesso ao Poder Judiciário,
foram apreciadas incidentemente pelo Supremo Tribunal Federal no jul­
gamento da SE n. 5.206 e, após demorado debate, julgadas constitucionais,
julgamento plenário encerrado em sessão de 12 de dezembro de 2001,
restando vencidos os Mins. Sepúlveda Pertence, Sydney Sanches, Néri da
Silveira e Moreira Alves. A querela resultou resolvida, pois, pela afirmação
da plena eficácia de tais dispositivos, a saber, o parágrafo único do art. 6a,
o art. 7° e seus parágrafos, arts. 41 e 429.

9. A respeito da nova Lei da Arbitragem a doutrina vem sendo enriquecida por


obras como Arbitragem, jurisdição e execução, de Joel Dias Figueira Jr., 2. ed., Revis­
ta dos Tribunais, 1999; Arbitragem, legislação nacional e estrangeira e monopólio
jurisdicional, LTr, 1999, do mesmo autor; Arbitragem e processo, Carlos Alberto

62
No alusivo às sentenças arbitrais estrangeiras, o STF deferiu a ho­
mologação de sentença arbitrai oriunda da Inglaterra, que condenou em­
presa brasileira por descumprimento de contrato de compra e venda
mercantil firmado com empresa estrangeira sediada na República da Ir­
landa. O Tribunal deferiu o pedido por entender presentes os requisitos
dos arts. 38 e 39 da Lei de Arbitragem, salientando ser possível a homo­
logação, pelo STF, de laudo arbitrai estrangeiro, independentemente de
prévia chancela do Poder Judiciário do país de origem, nos termos da Lei
de Arbitragem — Lei n. 9.307/96, art. 31: “A sentença arbitrai produz,
entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença proferida
pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título
executivo”; e art. 35: “Para ser reconhecida ou executada no Brasil, a
sentença arbitrai estrangeira está sujeita, unicamente, à homologação do
Supremo Tribunal Federal”.
O louvor à possibilidade de escolha dos juizes pelos demandantes
remonta à alta Antiguidade: “Regardons donc comme le tribunal le plus
compétent celui que les parties se seront données à elles-mêmes, en choi-
sissant d’un commun accord leurs juges” (Platão, Les lois, L. VI, p. 130,
§ 767~b, ed. francesa da coleção Guillaume Budé).
A importante convenção internacional sobre reconhecimento e exe­
cução de sentenças arbitrais estrangeiras, firmada em Nova York em 1958
e já ratificada por mais de 120 países, igualmente dispõe sobre o reconhe­
cimento e cumprimento das sentenças arbitrais estrangeiras, tendo sido
incorporada ao ordenamento brasileiro pelo Decreto n. 4.311, de 23-7-2002.
Vide, a respeito, detalhado estudo de José Carlos de Magalhães, na Revis­
ta de Direito Bancário, do Mercado de Capitais e da Arbitragem, Revista
dos Tribunais, v. 18, p. 309-1810.

Carmona, Atlas, 2. ed., 2004; A arbitragem na era da globalização, coletânea, Foren­


se, 1997; Arbitragem, a nova lei brasileira e a praxe internacional, coletânea, LTr,
1997; Arbitragem, Alexandre Freitas Câmara, Lumen Juris, 1997; Curso de Arbitragem,
José Cretella Neto, Forense, 2004, e numerosos artigos de doutrina, dentre os quais La
nuova legge brasiliana suirarbitrato, José Carlos Barbosa Moreira, Rivista delVArbitrato,
fase. 1, 1997, Milano; O juízo arbitrai em face do princípio da inafastabilidade do
controle jurisdicional, Fábio Henrique Podestá, Tribuna da Magistratura n. 113, ca­
derno de doutrina; A arbitragem no sistema jurídico brasileiro, Sálvio de Figueiredo
Teixeira, Revista Forense, 355; 181; Arbitragem internacional, José Maria Rossani
Garcez, Revista Renovar, 7:61.
10. No que diz respeito às formas de impugnação do laudo de arbitragem, em
direito comparado (Alemanha, Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos), completa

63
44. A sentença de tribunal estrangeiro e sua homologação
Camelutti inclui entre os “equivalentes jurisdicionais” a atribuição
de efeitos jurídicos a sentença emanada de tribunal estrangeiro.
Embora a sentença estrangeira seja um ato jurisdicional no país de
origem, e igualmente o seja se nos fixamos em seu resultado, todavia não
o é se considerarmos ser a jurisdição função soberana do Estado, não
sendo o juiz estrangeiro dotado de jurisdição no Estado em que a eficácia
da sentença irá ser reconhecida (v. Camelutti, Sistema, cit., v. 1, n. 50).
Quanto à nacionalidade da sentença arbitrai, a lei brasileira adota o
sistema da legislação espanhola, e assim considera como estrangeira a
sentença proferida fora do território brasileiro (art. 34, parágrafo único);
por exclusão, será brasileira a sentença proferida no Brasil, tendo as partes
a faculdade de indicar onde a sentença deverá ser proferida (art. 10, IV).
Tratando-se de sentença arbitrai estrangeira, sua execução no Brasil
dependerá do prévio exeauatur no STF, por seu Presidente. Caso proferida
no âmbito do Mercosul, incidem as regras do Tratado de Las Lenas, sendo
a homologação realizada por procedimento mais simples, similar ao das
cartãsrogatórias (Res. n. 09/2005-STJ)Tsobreo assuntoTrecomenda-seo
minudente estudo de Luiz Fernando Guerreiro, RePro, 159/9-31)*
Dentre as sentenças estrangeiras cumpre incluir, já agora, as profe-
ridas. poxtribunais de natureza supranacional ou comunitária, reconhecidos
internaçiojialmente.,.tais como~a~Corte da Europa_c o a sede emJLiixeirb,
biirgo^Ó£gão d(3 Poder Judjriárioda União Européia, e ainda o Tribunal
Comunitário Europe_u..4e.JPrimeira Instância.(criado em 1988).
JPorjnteTrné.dio do processo de homologação, a sentença estrangeira
adquire eficácia e executoriedade no Brasil; torna-se uma “sentença bra­

notícia nos é trazida pelos Cuademos Procesales, editados pelo Colégio de Profesores
de la Universidad Autônoma de México, n. 16, jun. 2002 (informações sobre essa publi­
cação vide <cíprigol@avantel.net>, endereço eletrônico do prof. Cipriano Gómez Lara).
11. A atitude de diversos países, quanto à eficácia das sentenças estrangeiras,
não se apresenta uniforme. Alguns países simplesmente negam eficácia às sentenças
estrangeiras. A Alemanha e a Espanha, apenas para dar exemplos, exigem a reciproci­
dade. Na Inglaterra e nos Estados Unidos a sentença estrangeira é admitida como
prova do direito por ela declarado, “mas o interessado terá que obter novo julgamento
pelos tribunais locais” (Humberto Theodoro Júnior, Curso, cit., 44. ed., v. 1, n. 586).
Ampla e minudente exposição sobre os diversos sistemas de reconhecimento de
sentenças estrangeiras em direito comparado encontra-se em recentíssima obra de
Adriana Beltrame, cuja leitura se recomenda (Reconhecimento de sentenças estran­
geiras, GZ Ed., 2009, n. 3.2, p. 48 e s.).

64
sileira” com o conteúdo dado pelo iuiz estrangeiro (CPC, art. 483). O le­
gislador brasileiro adotou, na matéria, o sistema do “juízo de defíbaçtõ”f
contenta-se com um exame formal da sentença, não lhe discutindo o mé-
rltoTnaõ^nHagando dã"justiga da sentença, a hão ser tãò sõmenlgl5ãrã~
negar homologação às sentenças que atentem contra a soberania nacional,
a ordem publica ou os bons costumes (Reg. Interno do STF, art. 211).
. Q STJ. em Corte Especial, teve por inviável a homologação de sen­
tença estrangeira quando não comprovada a citação válida da parte reque­
rida, quer no território do país onde proiatada a decisão a ser homologada.
quer citação no Brasil mediante carta rogatória, sendo outrossim necessá­
rio que a sentença estrangeira tenha transitado em julgado (SEC n. 980,
rei. Min. João Õtávio de Noronha, j. 6-9-2006).
O Pretório Excelso entendeu, com remissão a precedentes, que não
atenta contra a soberania nacional, e assim não impede sua homologação,
a circunstânciajie a_sentenca estrangeira de divórcio haver ratificado acor-
do -....................
das partes sobre a partilha
I. jiL— - de
li.l-íbens
1
1HIiji..1Jimóveis
... iTlni ll«i.■■situados no Brasil
... KM. !■___ I It1 _(SE 7.146-
EUA, rei. Min. Ilmar Galvão, j. 12-6-2002). No mesmo sentido o STJ, por
sua Corte Especial, em caso de divórcio consensual celebrado nãÀrgentma:
*‘O fato de a sentença estrangeira ratificar acordo das partes acerca de
imóvel localizado no território brasileiro não obsta sua homologação”,
sendo no azo considerado inviável no processo homologatório a discussão
acerca de eventual induzimento a erro de um dos interessados (SEC 1.043,
rei. Min. Arnaldo Esteves, j. 28-5-2009). V., nesta obra, o verbete n. 49.
Todavia, considerou ofensiva à soberania nacional e à ordem pú-

jT ç m trffi
gação de sentença estrangeira que concedera ao pai a guarda do filho
menor, pois a mãe já possuía, em seu favor, decisão proferida pela jus­
tiça brasileira dando-lhe, a guarda provisória da criança. Precedente ci­
tado: SEC (ED) 6.729-Espanha (SEC 6.971-EUA, rei. Min. Maurício
Corrêa, j. 28-11-2002).
Após a edição da EC n. 45, de 8 de dezembro de 2004. oJS.uperior
Tribunal de Justiça, por seu Presidente, passou a ser o órgão judiciário
competente para a homologação de sentenças estrangeiras (e. ainda... para
a concessão de^exexiMOlULÀs.XQgatórias passivas),.conforme o^art 105,1,
/, da Constituição refo m ^ % A v^esoluçag^n^â»JÍ^..de^jnaio^Je^JO^jdo
STJ, em moldes similares aos anteriormente vigorantes no. RISTF, deter-
mina a citação do interessado residente no país, com o prazo de quinze
dias para a contestação. Sendo contestada a homologação, o processo será

65
distribuído a um dos Ministros e julgado pela Corte Especial do STJ, ca^
bendo ao relator os atos concernentes.ao andamenXo e .insirução.,.do. feito
(Res?n. 09/2005-STJ, art. 92, § l g). A sentença estrangeira condenatória é
considerada, uma vez homologadaj>elo Superior Tribunal de Justiça, títu­
lo executivo judicial, nos termos do art. 475-N, VI (acrescentado ao CPC
pela Lei n. 11.232/2005).
Oj>rocesso de homologação não é de jurisdição graciosa, travando-
-se o ,ç p £ ^ d e,eficáçia.l^^ten çae^
p arte contrária, que pode negá-la (Humberto Theodoro Júnior, Curso de
direito processual civil, Forense, v. I, 44. ed., 2006, n. 589)12.
J^ã&.será homologada a sentença estrangeira se não estiver revestida
das formalidades previstas.na.legislação do.Estado de^pjjgem^exigindo-se
haja sido proferida por juiz competente (competência internacional) sob-

contrar-se,..autmticaáa,.p.dox.Qns.uLj3ra.slle,iro..e..devidamente traduzida.A
sentença que defere a homologação é de natureza constitutiva, atribuindo^
1 sm tenC iL ^fkifii^^ ; denegando-a, será meramente d e c F
ratória negativa13.
No alusivo ao art. 15, parágrafo único, da Lei de Introdução ao Có­
digo Civil, verbis: “Não dependem de homologação as sentenças mera­
mente declaratórias do estado das pessoas”, tal preceito é de consider a r a .
derrogado pelo Código de Processo Civil, art. 483, que alude generica-
mente'.alQd,QS..QS.atos..smtenciais.ej3aanad.Qs.d,e auloridade estrangeira, sem _
cláusula de exclusão14e15.

12. A respeito da homologação de sentença estrangeira meramente declaratória


do estado das pessoas, recomenda-se artigo de Carlos Augusto de Assis e Aurea Cristi­
na Tanaka, publicado em Gênesis — Revista de Direito Processual Civil, 27: 52-70.
13. A respeito, vide Humberto Theodoro Júnior, estudo Homologação de senten­
ça estrangeira: ofensa à ordem pública, na Revista Magister, n. 15, p. 5, nov.-dez. 2006).
14. Assim decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Min. Celso de Mello,
datada de 1^-10-1997 e proferida na Petição Avulsa n. 11, sob a ementa seguinte:
“Sentença estrangeira de divórcio. Pedido de averbaçao desse ato sentenciai
dirigido a magistrado estadual. Alegada desnecessidade de prévia homologação, em
face do art. 15, parágrafo único da 3LICC. Norma legal derrogada pelo CPC (art. 483).
Magistério da doutrina. Impossibilidade processual da instauração de delibação inci­
dente. Ação de homologação de sentença estrangeira. Sistema de contenciosidade li­
mitada. Evolução do instituto no direito brasileiro. Indispensábilidacle da homologação
prévia de qualquer sentença estrangeira, quaisquer que sejam os efeitos postulados
pela parte interessada. Precedente do S T F’.
15. Em tema de homologação de sentença estrangeira, o STF tem adotado exe­
gese aditiva, “vislumbrando-se, na referência a sentenças estrangeiras, documentos

66
EsL-SiJUOiaLJi^^ disse Carmen Tibúrcio (em estudo
publicado na RePro, 132), conforme o entendimento da doutrina e jurispru­
dência dominantes, "a homologação constitui pressuposto tanto para o re­
conhecimento quanto para a execução de uma sentença estrangeira. Enquan-
toTKomõlogacãocabeao.STJ (art. 105.1. i. d a C F /8 8 I o ^ c ^ j^ e n to d a
execução compete, em jm meiru. grau, aos iuízes federais (art. 109, X, da
CF/88)” (rev. cit., p. 137), com observância do art. 484 do CPC (extração de
carta de sentença do processo de homologação). Sobre o tema apontamos
igualmente o magistério de José Carlos Barbosa Moreira (Notas sobre o
reconhecimento e execução de sentenças estrangeiras, RePro, 124:19).
A execução, melhor dito o “cumprimento” da sentença estrangeira
processar-se-á conforme a sistemática consagrada pela Lei n. 11.232/2005,
impondo-se nova citação do réu, jLos„,ier^ do art.
475-N (é.,um.,das..cas.as,excepcionais em que
*” ~ \
o cumprimento
.
. . ..
da sentença
......... ................. i | , mi l-, .. .

far-se-á em processo autônomo).


Quanto ao exequatur de carta rogatória, v. o verbete n. 52.
Por evidente, a homologaçãoda sentença estrangeira pressupõe que
a citação do réu, no Brasil domiciliado, haia sido efetuada regularmente,
mediant^c^tâxogaíóxia (v. verbete n. 48, parte final).
As sentenças proferidas em jurisdição trabalhista não encontram
obstáculo à sua homologação, como decidido pelo STJ na SE 821. relati­
va a_conciliação prévia homologada por juiz trabalhista na Colômbia,
sendo no azo anotado o descabimento do reexame do mérito da sentença
estrangeira (Corte Especial, SE 821, rei. Min. Menezes Direito, ac. 18-5-
2005, DJU, 15 ago. 2005, p. 208). Também a sentença arbitrai estrangei­
ra, para ser executada no Brasil, deve ser previamente homologada pelo
Superior Tribunal .de Justiça, nos termos-do^m-ts. 483 e 484 do CPC. con-
forme dispõe o art. 36 da Lei da Arbitragem — Lei n. 9.307/9616.

que, segundo a legislação de origem, tenham tal envergadura” (SE 7.039, Min. Marco
Aurélio, dec. em 20-3-2002). Assim, no Japão, o divórcio não é feito na via jurisdicio­
nal, mas por ato administrativo, atuando o administrador do distrito, ou Prefeito Mu­
nicipal (SE 1.312, rei. Min. Mário Guimarães). Na Dinamarca, ato do próprio Rei
mereceu a homologação do STF (SE 1.943, rei. Min. Adaucto Cardoso). Boa notícia
a respeito na SE 7.202, do Japão, dec. de P-2-2002, rei. Min. Marco Aurélio.
16. Ficou, portanto, certo que a expressão “sentença estrangeira” (CF, art. 105,1, i)
deve ser interpretada como abrangente de decisões de quaisquer órgãos com funções ju­
diciais, inclusive de outro Poder, desde que funcionem na condição de verdadeiros tribu­
nais, como no exemplo da decisão do Tribunal Administrativo dinamarquês sobre o di­

67
Por fim, breve referência aos sistemas de reconhecimento automático
e de reconhecimento difuso da sentença estrangeira. Reconhecer automati­
camente, como refere Adriana Beltrame, significa dar eficácia à sentença
estrangeira sem necessidade de um procedimento judicial para tanto. Já o
reconhecimento difuso “significa atribuir aojuiz de primeiro graujíde acor-
do com as regras do direito interno),-a competência para o reconhecimento"
de sentenças estrangeiras, para efeito dé coisa julgada ou, ainda^gara ,a sua
execução” (Reconhecimento de sentenças estrangeiras, cit., n. 63, p. 169-
170). A União Européia adota um sistema combinado: as sentenças prove-
nientes de países da comunidade não necessitam de reconhecimento, pois
automático o efeito de coisa julgada; todavia, se as partes não concordarem'
com tal eficácia e resolverem contestá-la, a competência..para-Q-reconhed.-
mento será do juízo de jpnmeiro grau (Regulamento CR n. 44/2001). A ci­
tada autora considera perfeitamente possível a adoção pelo Brasil do sistema
de reconhecimento difuso, cabendo ao juiz de primeiro grau a verificação
dos requisitos de adequação à ordem pública brasileira, o que entretanto
exigirá alterações constitucionais e da lei processual.

44-A. Convenções relativas à eficácia extraterritorial das Sen­


tenças e Laudos Arbitrais Estrangeiros
Pelo Decreto n. 2.411, de 2-12-1997 (DOU, 3 dez. 1997, Seção I, p.
28436), foi promulgada a “Convenção Interamericana sobre Eficácia Ex­
traterritorial das Sentenças e Laudos Arbitrais Estrangeiros”, concluída em
Montevidéu aos 8-5-1979, convenção esta cujo art. 2S apresenta o seguin­
te teor:
“Artigo 2
As sentenças, os laudos arbitrais e as decisões jurisdicionais estran­
geiras a que se refere o artigo 1 terão eficácia extraterritorial nos Estados-
-Partes, se reunirem as seguintes condições:
a) se vierem revestidos das formalidades externas necessárias para
que sejam considerados autênticos no Estado de onde provenham;
b) se a sentença, o laudo e a decisão jurisdicional, e os documentos
anexos que forem necessários de acordo com esta Convenção, estiverem

vórcio amigável, devidamente homologada pelo STF (atualmente competente é o STJ)


(José Russo, estudo “Sentença estrangeira de divórcio. Homologabilidade”, publicado
na coletânea Curso de direito internacional contemporâneo, Forense, 2003, p. 415 e s.).

68
devidamente traduzidos para o idioma oficial do Estado onde devam sur­
tir efeitos;
c) se forem apresentados devidamente legalizados de acordo com a
lei do Estado onde devam surtir efeito;
d) se o juiz ou tribunal sentenciador tiver competência na esfera
internacional para conhecer do assunto e julgá-lo de acordo com a lei do
Estado onde devam surtir efeito;
e) se o demandado tiver sido notificado ou citado na devida forma
legal de maneira substancialmente equivalente àquela admitida pela lei
do Estado onde a sentença, laudo e decisão jurisdicional devam surtir
efeito;
f) se tiver assegurado a defesa das partes;
g) se tiverem o caráter de executáveis ou, conforme o caso, se tiverem
passado em julgado no Estado em que houverem sido proferidas;
h) se não contrariarem manifestamente os princípios e as leis de
ordem pública no Estado em que se pedir o reconhecimento ou o cumpri­
mento
“Artigo 6
Os procedimentos, inclusive a competência dos respectivos órgãos
judiciários, para assegurar a eficácia das sentenças, laudos arbitrais e
decisões jurisdicionais estrangeiros, serão regulados pela lei do Estado
em que for solicitado o seu cumprimento”.
Posteriormente, pelo Decreto n. 4.31 i, de 23 de junho de 2002, foi
finalmente promulgada no Brasil (com atraso de mais de 40 anos...) a
“Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de Sentenças Arbitrais
Estrangeiras”, assinada em Nova York em 10 de junho de 195817.
Ponto interessante é o de que a aludida convenção não deve ser in­
terpretada como dispensando a decisão arbitrai estrangeira da exigência
de homologação a que são sujeitas as sentenças estrangeiras de qualquer
natureza (agora constitucionalmente reservada ao STJ) para que possam
ser cumpridas em nosso país (v. n. 42-A). A respeito, no plano infracons-

17. Sobre o tema e as diversas posições doutrinárias a respeito, v. o estudo de


Juliana Kalichsztein, A homologação de laudos arbitrais estrangeiros no Brasil, publi­
cado na coletânea Curso de direito internacional contemporâneo, acima mencionada,
p. 425 e s.

69
titucional, são expressos os arts. 35 e s. da Lei da Arbitragem (Lei n.
9.307/96).
De outra parte, mediante a promulgação do Decreto Legislativo n.
163, de 3-8-2000, foi aprovado o Acordo de Cooperação Judiciária em
Matéria Civil, celebrado entre o Governo da República Federativa do
Brasil e o Governo da República Francesa, em Paris, em 28-5-1996 (DOU,
4 ago. 2000, Seção I).

70
Parte II
DA COMPETÊNCIA
Capítulo X
NOÇÕES INICIAIS

45. Conceito de competência


Ante a multiplicidade e a variedade das demandas possíveis em juízo,
tornou-se necessário encontrar critérios a fim de que as causas sejam
adequadamente distribuídas aos juizes, de conformidade não só com o
superior interesse de uma melhor aplicação da Justiça, como, também,
buscando na medida do razoável atender ao interesse particular, à como­
didade das partes litigantes.
Todos os juizes exercem jurisdição, mas a exercem numa certa me­
dida, obedientes a limites preestabelecidos. São, pois, “competentes”
somente para processar e iulgar determinadas causas. A “competência7' "
assim, “é a medida da jurisdição”, ou. ainda, é a jurisdição na medida em
que pode e deve ser exercida pelo juiz.
“La competenza è la giurisdizione che da astratta si fa concreta; vale
a dire, la giurisdizione avvisata in rapporto a ciascuna causa” (Aristides
Manassero, Introduzione alio stuclio sistemático delia competenza funzio-
nale in matéria penale, 1939, p. 43, apud José Frederico Marques, Insti­
tuições, cit., v. 1, p. 344, nota 11).
Sergio Bermudes elucida que “o âmbito dentro do qual o Judiciário
de cada país e, dentro dele, cada um dos órgãos que o compõem exercem
a jurisdição denomina-se competência (de competentia: proporção, sime­
tria; de competere: concorrer com outro; buscar ao mesmo tempo; dar no
mesmo ponto): Quando se afirma corresponder a competência à medida
da jurisdição, quer-se dizer que a competência é uma porção, um segmen­
to dela” (Introdução ao processo civil, 4. ed., Forense, 2006, p. 62).
Disse Mário Guimarães: “A jurisdição é um todo. A competência-.
uma fração. Pode um juiz ter jurisdição sem competência. Não poderá ter
competência sem jurisdição” (O juiz, cit., n. 27, p. 56).
No magistério de Liebman, “a competência é a quantidade de juris­
dição cujo exercício é atribuído a cada órgão, ou seja, a ‘medida da juris­
dição’. Em outras palavras, ela determina em que casos e com relação a

73
que controvérsias tem cada órgão em particular o poder de emitir provi­
mentos, ao mesmo tempo em que delimita, em abstrato, o grupo de con­
trovérsias que lhe são atribuídas” (Enrico Tullio Liebman, Manual de di­
reito processual civil, trad. port., Forense, 1984, v. 1, n. 24, p. 55).
Humberto Theodoro Júnior escreve que “a competência é justamen­
te o critério de distribuir entre os vários órgãos judiciários as atribuições
relativas ao desempenho da jurisdição” (Curso de direito processual civil,
35. ed., Forense, 2000, v. 1, p. 137). Em essência, segundo Eduardo Arru­
da Alvim, “a competência significa ideia da legitimidade do exercício de
um determinado poder, num determinado momento e sob determinadas
circunstâncias” (Curso de direito processual civil, Revista dos Tribunais,
1999, v. l,p . 90).
A lei processual civil atribui competência aos juizes valendo-se de
diferentes “dados”, relacionados principalmente com a própria lide ou
com as pessoas dos litigantes. Assim, v. g., o local de domicílio do réu é
o “dado” mais comum para a determinação da competência; mas também
o valor atribuído à causa, a matéria sobre que versa a demanda, o lugar
em que se encontra o imóvel objeto da lide, ou a vinculação de uma de­
manda com outra que já se encontra em andamento e muitos outros dados
são aproveitados pela lei para, isolada ou cumulativamente, dispor que uma
determinada causa deva ser conhecida e julgada pelo juiz A, e não pelo
juiz B ou por qualquer outro juiz.
Moacyr Amaral Santos menciona que a distribuição das competências
não se faz de modo arbitrário, mas sim segue determinados critérios. Se­
guindo a trilha clássica de Chiovenda, ensinou Celso Agrícola Barbi que
“a doutrina moderna mais aceita considera que a competência interna é
fixada_£g.gmido três critérios: o objetivo, o funcional e o territorial. O
objetivo é extraído da natureza da causa — competência enTrazao^a”
matéria, ou de seu valor, ou da qualidade das pessoas; o funcional é extra-
'ídolfalTâtureza especial e das exigências especiais das funções que o juiz
é chamado a exercer num processo; e o territorial relaciona-se com a
circunstância territorial designadaAatividade de cada órgão iurisdicional”
(Comentários ao Código de Processo Civil, 10. ed., Forense, v. 1, n. 501,
p. 301-2).
Como salientou Aluisio Gonçalves de Castro Mendes, com remissão
a Barbosa Moreira (Ações coletivas, Revista dos Tribunais, 2002, p. 223),
o enquadramento da competência como pressuposto de “validade” do
processo rião encontra respaldo na sistemática de nosso direito processual,

74
porquanto mesmo a incompetência absoluta não anula o processo, mas
apenas os atos decisórios (CPC, art. 113, § 2~). Nos casos de incompetên­
cia relativa, ou se opera a prorrogação caso não suscitada a exceção de
incompetência, ou simplesmente o processo é remetido ao juízo tido como
competente (arts. 313 e 114).

46. Fontes das normas sobre competência


As normas de determinação de competência encontram-se na Cons­
tituição Federal, em Constituições estaduais, no Código de Processo Civil
(bem como no Código de Processo Penal), em íeis federais não codificadas,
nos Códigos de Organização Judiciária estaduais e nos Regimentos Inter­
nos dos Tribunais. Só por esta enumeração já é possível constatai* a com­
plexidade do tema e a variedade de elementos e de fontes a serem suces­
sivamente ponderados na determinação da competência.
Sucessivas Constituições brasileiras detidamente dispõem sobre a
competência dos Tribunais, e das Justiças especiais, elevando assim à
hierarquia máxima, como normas constitucionais, tais regras de compe­
tência. É natural o enquadramento na Lei Maior de normas fundamentais
sobre o assunto, pois em última análise tais normas delimitam e definem
o exercício da soberania nacional pelos órgãos do Poder Judiciário.
A Constituição Federal de 1988 prevê a competência do Supremo
Tribunal Federal, tanto a competência originária como a competência em
grau de recurso (art. 102). Assim também quanto ao Superior Tribunal de
Justiça (art. 105).
Também está na Lei Maior a competência da Justiça Federal (arts.
108, 109 e 110), da Justiça Militar (art. 124), da Justiça Eleitoral (art. 121)
e da Justiça do Trabalho (art. 114).
Todas as demais causas, não expressamente referidas na Constituição
Federal, são de competência dos Tribunais e juizes estaduais (denominados
justiça comum, ou ordinária), que assim exercem, pode-se dizer, uma
competência residual.
A competência fixada na Constituição apresenta-se exaustiva e taxa­
tiva: dispositivo algum de lei, ordinária ou complementar (salvante, evi-
dentemente, emenda à própria Constituição), poderá reduzir ou amj.

O Código de Processo Civil (arts. 86 a 124) contém a maior parte das


normas de competência, máxime as pertinentes à competência territorial,

75
ou competência de foro. Assim também inúmeras leis federais ordinárias,
ao regularem determinadas espécies de ações (v. g., Lei de Falências e
Recuperação de Empresas, Lei das Desapropriações, Lei das Duplicatas
etc.).
Conforme previsão do próprio Código de Processo Civil (art. 91), a
competência em razão da matéria e a competência em razão do valor da
causa (ressalvados casos expressos na Constituição, no próprio Código ou
em lei federal) regem-se pelas leis de organização judiciária. Cada Estado
edita seu respectivo Código de Organização Judiciária e leis federais dis­
põem sobre a organização judiciária das Justiças especializadas e da Jus­
tiça comum do Distrito Federal e dos Territórios.
Pela Constituição de 1988, art. 9 8 ,1, e § l s, cabe tanto à União como
aos Estados a criação de “Juizados Especiais” para o julgamento de causas
cíveis de menor complexidade (e, no plano penal, de delitos de menor
potencial ofensivo)1. Pela Lei Maior, tanto a União como os Estados podem
legislar sobre o processo dos juizados de pequenas causas (rectius, dos
Juizados Especiais), e sobre “procedimentos em matéria processual” (CF,
art. 24, X e XI).
Também à legislação estadual, nas comarcas providas de duas ou
mais varas, cabe dispor sobre a criação de juízos privativos, incumbidos
de conhecer determinadas causas conforme critérios ligados à matéria, ao
valor da causa ou à pessoa do litigante. A lei estadual, destarte, pode criar
juízos privativos das ações relativas a direitos de família, ou a falências
etc.; pode criar juízos privativos de causas de pequeno valor, pode criar
juízos privativos das causas em que nm dos 1ifi p;an d o nnn o
Município da capital, ou entidades de direito público.,estaduai . . m u n i r ,
s q il

cipais (varas da Fazenda Pública).


Finalmente, os Regimentos Internos dos Tribunais geralmente dis­
põem sobre a competência do Pleno e dos órgãos fracionários do Tribunal
(‘Turmas”, nos Tribunais Superiores Federais e nos Tribunais Regionais
Federais; Câmaras Reunidas, SecçÕes, Turmas, Grupos de Câmaras, Câ­
maras Separadas, nos Tribunais de Justiça), quer ditando regras, quer
simplesmente repetindo ou explicitando regras já contidas na Lei Maior

1. A Lei n. 9.099, de 26-9-1995, veio a dispor sobre o processo, julgamento e


execução, nos Juizados Especiais, das causas cíveis de menor complexidade. E a Lei
n. 10.259, de 12-7-2001, dispõe sobre a instituição dos Juizados Especiais Cíveis e
Criminais no âmbito da Justiça Federal. V. o verbete n. 118.

76
ou em leis ordinárias federais ou estaduais. Definem, assim, a competência
interna do Colegiado, inclusive a competência jurisdicional e administra­
tiva do Presidente, do Conselho da Magistratura, da Corregedoria da
Justiça, do relator, do revisor (CF, art. 9 6 ,1, a).
Capítulo XI
DA COMPETÊNCIA
INTERNACIONAL

47. Princípio da efetividade


Partindo do pressuposto de que a lide não deva ser processada e
julgada perante um juízo arbitrai, mas sim submetida à jurisdição estatal,
verifica-se quefa busca do juiz competente deverá ser feita por sucessivas
>asj
*------- \
Em primeiro lugar, impende\verificar\se é competente a Justiça bra­
sileira. Cuida-se, neste primeiro passo, da “competência internacional^
Verificada a competência da Justiça brasileira, seguir-se~á a indagação de
qual a “Justiça” competente, se a Justiça comum (e neste passo ainda vale
distinguir entre as Justiças estaduais e a Justiça federal comum), se alguma
das “Justiças ” especializadas (Justiça trabalhista, Justiça militar, Justiça
eleitoral), valendo ^m da^erquirir se a demanda, pelo, valor ou pela .maté­
ria» não se inclui na competênciados Juizados Especiais (antigos Juizados
de Pequenas Causas).
Segue-se a busca do “foro” competente, ou seja, da circunscricão
territorial em que a demanda deve ser processada. Mas como nessa cir-
cunscricão territorial (“comarca”, no âmbito das JusticaSde^adiiaijslmd&rrL
existir duas ou mais unidades jurisdicionais, a causa ainda deverá.ser atri-
buída a jim ^.etenrm e esta atribuição .dependeiá^fr.e-
quentemente, da.matéria objeto dojpedido(v^s^sp.e^ja]i^adas,,jexistêQt^
tantQ.nas..Justiças, do.a,.E.st.ada§,tçQrnQ_.na Justíçafederal}^
Vale observar que, no plano teórico, a jurisdição não encontraria
obstáculos territoriais; no dizer de Camelutti, de um ponto de vista lógico
a jurisdição não teria limites (todavia, “altra è la questione quanto al pote-
re esecutivo, inteso come la seconda sottospecie dei potere processuale”
— Limiti delia giurisdizione dei giudice italiano, Rivista di Diritto Proces­
suale Civile, 1931, v. VIII, II, p. 213-9). Teoricamente, uma ação com pe­
dido indenizatório, ajuizada por cidadão espanhol contra outro cidadão
espanhol, ambos domiciliados na Espanha, por fato ilícito ocorrido no

78
mesmo país, poderia ser ajuizada no Brasil (ou em Portugal, ou na Argen­
tina). Todavia, qual motivo iria legitimar a ingerência da jurisdição brasi­
leira (como elemento integrante da soberania estatal) na composição de um
conflito absolutamente alheio ao Brasil e aos interesses brasileiros, ou seja,
que não interfere na “paz social” ou na “ordem pública” no Brasil?
Sendo o Estado, referiu o saudoso Agrícola Barbi, “uma organização
com finalidade prática, não seria do seu interesse ocupar seus juizes com
questões que não se liguem ao seu ordenamento jurídico por qualquer
circunstância” (Comentários ao CPC, 10. ed., Forense, v. I, n. 476). Além
disso, a Justiça do país realmente “interessado” iria fazer executar a sen­
tença proferida pelo juiz de outro país, ou afirmaria a sua própria compe­
tência?
Assim, é princípio geralmente assente em direito internacional o de
que o exercício da jurisdição por um determinado país encontra limites no
princípio da efetividade: o juiz brasileiro, portanto, somente atuará relati­
vamente às demandas de alguma forma vinculadas a algum outro país se
houver possibilidade de tornar efetiva, de realmente fazer cumprir sua
sentença (vale dizer, de que as cartas rogatórias de execução sejam bem
aceitas pela justiça do outro país). No magistério de Cândido Dinamarco,
“a conveniência do exercício da jurisdição e a viabilidade da efetivação de
seus resultados são os fundamentais critérios norteadores das normas de
direito interno sobre competência internacional (Gaetano Morelli)” (Ins­
tituições de direito processual civil, Malheiros Ed., v. I, n. 133).
A boa política legislativa recomenda que somente se dê competência
a um dado Estado para o julgamento de causas cuja satisfação do direito
(declarado no processo de conhecimento) possa ser, por esse Estado, efe­
tivamente assegurada, isto é, realizada: “De nada adianta proferir-se uma
sentença, cuja execução (realização prática do decidido) seja impossível”
(Arruda Alvim, Direito processual civil — Teoria Geral do Processo de
Conhecimento, Revista dos Tribunais, 1973, v. n , p. 408-9).
Adita Arruda Alvim que normalmente o legislador estabelece regras
coincidentes com as fronteiras do país, onde a soberania se exerce de
fato e de direito; mas muitos fatores podem influir, como o que recomen­
da a vivência harmônica entre os Estados e o princípio de que, quanto
maiores as relações comerciais entre dois países, tanto mais ampla deve
ser a receptividade das sentenças proferidas em um Estado em relação
ao outro (Manual de direito processual civil, RT, v. 1, 10. ed., 2006, n.
70, p. 253).

79
48. Competência internacional concorrente
Casos existem nos quais a Justiça brasileira se considera competen­
te para julgar uma demanda, mas não exclui a possibilidade de a dita
causa ser julgada por Justiça estrangeira.
Nesses casos, se a demanda vier a ser proposta e julgada fora do
Brasil, a sentença do juiz estrangeiro poderá ser cumprida no Brasil, evi­
dentemente depois de homologada pelo Superior Tribunal de Justiça.
__Esses casos. d é f^ iíp ^ ^ H ^ ^ fir^ a H ^ a F ^ c o ^ c o rrg ^ /^ ^ jestão no
\ art- 88 do Código deP rocesso Civil. \ "
Passemos, assim, a analisar os casos considerados como de compe­
tência da Justiça brasileira.
A — Em primeiro lugar, nos termos do art. 88, I, é competente a
autoridade judiciária brasileira nos casos em que o réu, mesmo se estran­
geiro, mantiver domicílio em território nacional (não bastará, pois, esteja
o réu “de passagem” pelo território brasileiro, ou nele mantenha simples
residência sem o animus manendiyM^s^ço^^t&MÚ%Á,ÇMUÇJ?IWltê!i
Ocorrendo em Montevidéu um acidente de trânsito, sendo envolvidos
como agente e como vítima cidadãos uruguaios, a ação demdemzaçao
poderá ser pela vítima ajuizada perante a Justiça brasileira, caso seja o reu
domiciliado em território brasileiro. Mas a demanda poderá, igualmente~
ser ajuizada perante juiz do vizinho país, e nesta hipótese õ réu será citado
JocTlBrasil por rogatória, e a sentença que o condene poderá receber, em
tese, o exequatur brasileiro.
Notemos, outrossim, que a só circunstância de o réu, qualquer que
seja sua nacionalidade, ser domiciliado em território brasileirctpoHe~nag;:)
ser suficiente para determinar a competência da Jurisdição brasileira,
quando a lei do país onde a sentença deva ser cumprida opuser-se à inter­
ferência de juiz alienígenãTCaso, v. g., de lide envolvendo imóvel situado
em território estrangeiro, se a lei do país da situação do imóvel afirmar sua^
competência “exclusiva”, a símile da norma do inciso I do art. 89 de nos-
..so.CMigO-PXomssiiall^.^,,
B — Competente será a Justiça brasileira — art. 88, II — quando a
obrigação assumida deva ser cumprida no território nacional, ou seja,
quando aqui esteia o forum destinatae solutionis: não importará, então, a
eventual circunstância de que o autor e o réu sejam pessoas (físicas ou
jurídicas) domiciliadas no exterior. Se tal ocorrer^ o juizjDrasileiro fará
expedir carta rogatória para a citação do demandado no foro onde resida""

80
f

Para Donaldo Armelin, trata-se de “uma nova^iipótese de fixação da


competência internacional independente da anterior, de tal sorte quefmes^
mo não domiciliadas no Brasil as partes litigantes, desde que a execução
da obrigação que as vincula tenha de se efetuar neste país, estará a deman­
da sob jurisdicãQ_nacionaiy (artigo in RePro, v. 2, p. 131-157). Diga-se
que, embora o texto legal mencione apenas as ações destinadas ao “cum­
primento” da obrigação, os motivos inspiradores da regra da competência
.. aplicam-se igualmente às demandas erh que se pretenda indenização como
sucedâneo da prestação*
De qualquer forma, caso a demanda venha a ser proposta no estran-
geiro, a respectiva sentença poderá receber o exequatur brasileiro, salvo
se o caso for'enquadrado" como de competência exclusiva da Justiça bra-
sileira (CPC, art7B"9).
^ | |t ....... I-T I1" '' S w T-. - ^ |||-|

A vetusta Lei de Introdução ao Código Civil — Decreto-lei n. 4.707,


de 17-9-1942, em norma aliás superada pelo vigente CPC, já dispunha:
“Art. 12. É competente a autoridade judiciária brasileira quando for
o réu domiciliado no Brasil ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação”.
Como frisou Oscar Tenório (Lei de Introdução ao Código Civil, 2. ed.,
Borsoi, 1955, n. 724), a lei de 1942 afastou-se do disposto no art. 15 da
anterior Lei de Introdução (CC de 1916) e abandonou o critério ligado ao
lugar onde a obrigação se houvesse constituído, porquanto, lembrando Sa-
vigny, “a conclusão do contrato é um elemento acidental e transitório, que
não tem qualquer relação com a substância da obrigação” (ob. cit., n. 725).
C — A competência “concorrente” da Justiça brasileira também
ocorre quando a pretensão do demandante tiver por base ato (ato jurídico
ou negócio jurídico) praticado no BrasilTou fato (Tato jurídico stricto
sensu) ocorrido em nosso país — art. 88, III.
Q acidente de trânsito ocorrido no Brasil, réu e vítima cidadãos ve~
nezuelanos e na Venezuela domiciliados, poderá autorizar a propositura
da ação indenizatória perante a Justiça brasileira (até pela maior facilidade
na produção de provas); no entanto, se a ação for proposta perante a Jus­
tiça da VenezuelauaãQ^se-negará..a.Justiça brasileira ao cumprimento de '
carta rogatória para a tomada da prova, ou à homologação da sentença es-"'
trangeiracondenatória1.

1. A Resolução n. 9/2005 do Superior Tribunal de Justiça confere a seu presi­


dente competência para conceder o exequatur a cartas rogatórias e para homologar
sentenças estrangeiras.

( 81
_Nesses casos de competência internacional'concorrente, pode, toda­
via, a ação ser proposta no Brasil mesmo que já esteia em andamento igual
demanda perante Tribunal de outro país (CPC, art. 90). A litispendência,
normalmente impeditiva a que alguém renove a mesma causa que já está
em juízo (v. CPC, art. 301, V, e § 3~), neste caso, excepcionalmente, não
opera como exceção processual2. Mas, se a ação proposta no estrangeiro
já foi definitivamente julgada, sua homologação perante nosso Superior
jH b ünãr de Justiça impediráT^desde^ entãoaiei^vacãc) dademanda em
Tribunal brasileiro3,465.

De outra parte, a sentença estrangeira não terá efíráHa no .Brasil sem a prévia
homologação pelo presidente do STJ. cabendo da .decisão do presidente, concessiva
ou denegatória de homologação, agravo para o Plenário do Tribunal. Sendo contestada
a ação de homologação, a competência para o julgamento será da Corte Especial (Res.
n. 9/2005, art. 9e, § l 2).
2. O STJ julgou interessante caso de contratos “coligados”, ambos com não
coincidente eleição de foro, um de conversão de navio petroleiro em plataforma flutu­
ante, o outro de seguro de desempenho {Performance bond) firmado com seguradoras
norte-americanas. A 4&Turma, sendo rei. o Min. Barros Monteiro, considerou o con­
trato de seguro como acessório do contrato de prestação de serviços, e julgou que as
seguradoras se sujeitavam ao foro brasileiro e não ao de Nova Iorque, a teor do art. 88,
II, do CPC, “pois no Brasil é que deveria ser cumprida a obrigação principal”; assim,
ocorrendo competência internacional concorrente, a competência da autoridade judi­
ciária brasileira “não é suscetível de ser arredada pela vontade das partes”. Além disso,
“à Justiça brasileira é indiferente que se tenha ajuizado ação em país estrangeiro, que
seja idêntica à outra que aqui tramite”, pela incidência do art. 90 do CPC (REsp 251.438,
ac. 8-8-2000; na íntegra em RSTJ, 146:368). V Anexo II.
3. Conforme decisão do Min. Celso de Mello, mostra-se relevante a norma
inscrita no art. 90 do CPC, “que consagra a prevalência da competência internacional
da autoridade judiciária brasileira sobre processos em curso no exterior ou sobre deci­
sões já proferidas por tribunais estrangeiros, ainda que com trânsito em julgado, pois,
enquanto não sobrevier a homologação, pelo Supremo Tribunal Federal, do ato sen­
tenciai alienígena, inexistirá qualquer obstáculo a que a Justiça do Brasil conheça da
mesma causa e de todas aquelas que, com ela, guardem relação de conexidade” (SE
5.778-EUA, rei. Min. Celso de Mello, dec. de 12-5-2000, Informativo do STF, n. 189,
maio 2000).
4. Os temas da litispendência e da coisa julgada no direito processual civil in­
ternacional, suposta assim a competência internacional concorrente de dois Estados,
são estudados com minudência por Arruda Alvim, em sua obra Direito processual
civil; teoria geral do processo de conhecimento, Revista dos Tribunais, 1972, v. 2,
Parte 9, p. 407-35.
A RePro, 7:8, publicou, a respeito, dois exaustivos trabalhos, de autoria do
mesmo Prof. Arruda Alvim, sob o título “Competência internacional”, e do Prof. Des.
José Carlos Barbosa Moreira, sob o título “Relações entre processos instaurados, sobre
a mesma lide civil, no Brasil e em país estrangeiro”.

82
Nos casos de competência inte-tnanionfll concorrente., a cláusula
contratual de eleição de foro estrangeiro é inoperante. não elidindo o
aiuizamento da acão emigrobrasileiro. Assim, no REsp 804.306, o STJ
decidiu caso de contrato de distribuição no Brasil de produtos fabricados
no Reino Unido, sendo este o “foro de eleição”; como a execução contra­
tual ocorrera essencialmente em território brasileiro, a alegação de que o
pagamento sempre fora efetuado no exterior não afastou a competência da
Justiça brasileira (3- Turma, rei. Min. Nancy Àndrighi, j. 19-8-2008).
É aliás o magistério do Prof. José Ignãcio Botelho de Mesquita: “As
normas que definem a extensão da jurisdição de um Estado são normas
diretamente fundadas na soberania nacional e, por isso, não se acham sub-"
Inètidãsa vontade das partes interessadas” ... (...) ... “Os limites da juris­
dição nacional não podem, por isto, ser ampliados, nem restringidos, por
vontade das partes. As partes podem modificar a competência territorial,
mas não podem modificar a extensão da jurisdição nacional” ... f...) ... “a
competência internacional é sempre absoluta, ainda quando a lei admita a
competência concorrente de outro Estado” (RePro, 50:52-3) (grifamos).
De outra parte, se o fato ocorreu no território estrangeiro, sem reper­
cussão em nosso país, a Justiça brasileira será incompetente: nesse sentido,
decidiu o STJ aue o retomo forcado ao Brasil de passageiro de empresa
aérea, ao descer em aeroporto espanhol, não enseia indenização por danos
morais perante a Justiça brasileira, pois a soberania nacional não se esten-
de aos fatos ocorridosTÕ7ã HolSmtonÕdbBrasil. salvo nas hipóteses do
ãr t 88, fe ll, do CPC: irrelevante. pois.,a4 im¥alênciad.Qs.dii:eiLQS-humanos
ou a existência de convênio de cooperação jurídica^ Precedente citado: AC
13-RS (RO 19-BA, rei. Min. Cesar Rocha, j. 21-8-2003)6.

5. No julgamento do REsp 2.170 (3â Turma, rei. Min. Eduardo Ribeiro, j. 7-8-
1990), considerou o Superior Tribunal de Justiça que a competência da autoridade
judiciária brasileira firma-se quando verificada alguma das hipóteses previstas nos arts.
88 e 89 do Código de Processo Civil, não se admitindo a conexão como critério para
ampliar a competência da Justiça brasileira para conhecer de causas ou de pedidos de
competência de Justiça estrangeira (RSTJ, 72:361).
6. A 3â Turma do STJ afirmou a competência da Justiça nacional em caso em
que um helicóptero, sob arrendamento mercantil por empresa brasileira, veio a cair no
litoral das Bahamas. A seguradora, tendo pago a indenização, promoveu ação regres­
siva contra a arrendadora, empresa com sede no estrangeiro e com agente no Brasil.
Considerou o colegiado que as obrigações deveriam ser cumpridas em território bra­
sileiro (art. 88, II, CPC), tais como o pagamento dos aluguéis, exercício da posse,
manutenção da aeronave e seu registro em órgão aeronáutico brasileiro.^ competência,

83
Também assim no concernente ao trabalho de cidadão brasileiro,
executado (alegadamente em condições altamente danosas) em país es­
trangeiro (no caso, na República da Irlanda), sob a legislação alienígena,
o Superior Tribunal de Justiça afirmou a incompetência da Justiça brasi-
ieira: “Tendo o fato danoso ocorrido fora do territóriofbrasileiro, não tem
_a_justiça brasileira competência para processar e julgar ação indenizató-
ria’\ exceto nos casos de incidenciã^o~ãrt 8 8 ,1 e II, do CPC (RO n. 37,
lâ Turma, rei. Min. José Delgado, j. 19-4-2005).
Vale acrescentar que, instaurado o processo perante a Justiça estran­
geira, o réu domiciliado no Brasil deverá ser citado por carta rogatória,
sujeita ao exequatur da Presidência do Superior Tribunal de Justiça (CF,
art. 105,1, z, na redação da EC n. 45/2004). O sistema.pmc.essuaLbrasilei-
ro não aceita as citações por via postal — comuns aos países da common
law. ou por funcionário; c ^ ^ ia ^ u ^ m e d ia nte (citacão feita em
caráter privado). A falta de citação regular considera-se, todavia, suprida
caso o réu haja comparecido espontaneamente ao processo estrangeiro e
nele apresentado defesa; neste caso, a ausência da carta rogatória citatória
não impedirá a homologação da sentença estrangeira (STF, SE 4.248, j.
20-11-1991, RTJ, 138/471).

48-A. Lugar de assinatura do contrato e lei aplicável


Vale anotar que o lugar de assinatura r]a..cammto é “dado” eventual,
por si só absolutamente irrelevante para o fim de determinação da compe­
tência internacional concorre n te Poderia o contrato ter sido assinado em
Londres, e nem por isso a composição da lide seria de competência dos
magistrados do Reino Unido; ou em Madri, e nem por isso o julgamento
da lide será de competência da Justiça espanhola.
A respeito, dispõe a Lei de Introdução ao Código Civil (Dec.-lei n.
4.657, de 4-9-1942):
“Art. 9a Para qualificar e reger as obrigações aplicar-se-á a lei do
país em que se constituírem.

embora concorrente, não é afastada pela circunstância de o contrato haver sido cele­
brado
11 -|'I> H| | |
em solo estrangeiro,
^—. -T, n in III TH»* I i
oú* M|»Iporlá
L»l»n n
serdbmlciíiada a arrendadÕfà:7RessàItoürmaís,
— ^
ser vedado à parte dispor sobre essa competência mediante clausula contratual (REsp
498.835, rei. Min. Nancy Andrighi, ac. 12-4-2005, precedente citado— REsp 251.438).

84
§ 2- A obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no
lugar em que residir o proponente
Claro, a escolha da lei aplicável encontra limitações; y& própria lei
brasileira é expressa em declarar que não prevalecerão as disposições de
lei estrangeira quando contrariarem a ordem pública brasileira, os bons
costumes e a soberania nacional ,
E isso evitará, inclusive, a alternativa de as partes irem ao estrangei
ro apenas para assinar o contrato, ou assinarem o pacto no consulado do
país estrangeiro, assim buscando assegurar a aplicação da lei de tal país
(Antônio Felix de Araújo Cintra, Lei aplicável: uma questão de escolha,
boletim INCIJUR, n. 56, março de 2004). O autor acima citado menciona,
outrossim, com muita razão, que as manifestações legais mais recentes dão
suporte a esta linha de raciocínio, valendo mencionar-a ^norma do art. 2a,
§ 1~, da Lei da Arbitragem}(Lei 9.307, de 23-9-1996) ao estabelecer que
tas partes poderão escolher a lei aplicável, desde que não ocorra violação
à ordem pública e aos bons costumes i e essa norma foi reiterada no acor­
do sobre arbitragem comercial do Mercosül, promulgado no Brasil pelo
Decreto n. 4.719, de 4-6-2003.
Não conhecendo a lei estrangeira, o juiz exigirá de quem a invoca
prova do texto e da vigência (Lei de Introdução, art. 14; CPC, art. 337).
Em sua obra maior, Cândido Dinamarco refere que a jurisdição é
exercida segundo as normas nacionais de direito processual; já o direi­
to material vai além-fronteiras em muitos casos, segundo normas de
superdireito representadas pelo direito internacional privado. E pros­
segue:
“Especialmente em contratos entre particulares, que são regidos pela
disponibilidade própria do direito privado (comercial, civil), permite-se
até que as partes indiquem a norma de regência, optando legitimamente
pela lei do país que escolherem.

É perfeitamente admissível, portanto, que, não obstante a competên­


cia internacional pertença à autoridade judiciária de dado Estado soberano,
esse juiz internacionalmente competente venha a julgar segundo normas
jurídico-substanciais de outro país e até mesmo a dar-lhe efetividade me­
diante aos atos do processo de execução forçada” (.Instituições de direito
processual civil, Malheiros Ed., 2001, v. I, n. 148, p. 347).

85
49. Competência exclusiva da Justiça brasileira
A lei processual brasileira prevê casosj(art. 89) de competência
brasileiraj Nestes casos, se proposta acão perante
Tribunal estrangeiro, a sentença não poderá merecer homologação para
ser executada em nosso país, e também rogatórias não receberão o exe-

Assim, quaisquer açoes relativas a imóveis situados no Brasil —-


tanto fundadas em direito real. v. g.. acão reivindicatória. como fundadas

de imóvel sito no Brasil8


brasileiro,,e o juiz brasile;
dição estrangeira9.

7. Pela^ eso lu ção lir?) de 4-5-2005, da Presidência\do STB não será homolo-
gada sentença estranpp.ira nu .r.cmc&àiàQ_exemtatur a carta rogatória, que ofendam a
soberania nacional ou a ordem pública Cart. 6~). Note-se que. séTòFo caso de comve-
thirin^xrluxivn da Justiça brasileira. a homologação ofenderia a soberania nacional;
além disso, a sentença estrangeira não estaria sendo prolatada por “juiz competente”,
pois este seria o juiz brasileiro. A sentença estrangeira homologada será cumprida no
Juízo Federal competente (art. 12).
8. No magistério de Agrícola Barbi, “o texto é amplo, não se restringindo a ações
reais, isto é, fundadas em direito real; a lei abrange qualquer ação relativa a bem imó­
vel, vale dizer, também as fundadas em direito obrigacional, como, v. g., a locação,
apromessa de venda e casos semelhantes” (Comentários ao Código de Processo Civil,
Forense, v. 1, 10. ed., 1998, n. 490).
No mesmo sentido, Pontes de Miranda: o art. 89,1, falou em ‘ações relativas
a imóveis situados no Brasil’, e não só de ações reais relativas a imóveis situados no
Brasil” (Comentários ao Código de Processo Civil, Forense, 1974, t. 2, p. 195).
A recíproca nem sempre é verdadeira. O Supremo Tribunal Federal (2a Turma,
RTJ, 90:121) admitiu a competência do foro de Foz do Iguaçu para julgar ação em que,
com base em promessa de compra e venda celebrada no Brasil (entre brasileiros no
Brasil residentes), era pedida a outorga da escritura definitiva de imóvel situado no
Paraguai. Importa notar que a Justiça do país de situação do imóvel se dera por incom­
petente, em 1- e 2S graus.
9. A norma do art. 89, II, do Código de Processo CivjüLpela oual compete
exclusivamente à autoridade judiciária brasileira “proceder a inventário e partilha de
bens, situados no Brasil”, tem caráter absoluto e é aplicável não_só-ao„inventárÍQ e
partilha mortis causa, como também ao inventário e à partilha
^aràçõo ju c tíc i^ ^ Assim, não pode ser homologada no Brasil sentença
estrangeira que, em ação de divórcio julgada em Portugal, haja procedido a partilha
envolvendo bens móveis e imóveis situados no Brasil (STF, Presidência, 27-6-1980,
RTJ, 96:569).
No julgamento da SE 7.101 (em nível de Ag. Reg.) foi decidido pelo STF que a
sentença da Justiça do Paraguai, que declarou a nulidade de procuração e da transfe­

86
Igualmente, somente o juiz brasileiro poderá proceder ao inventário
ejmrtilha de bens, imóveis ou móveis, situados no Brasil10, e isto mesmo
que o de cujus tenha sido estrangeiro e haja residido e falecido no estran­
geiro. Destarte, se um cidadão uruguaio deixou bens no Tlrngiiai. e no
Brasil,
-- — --1.apesar
. r7..... do,fj, princípio
in ,r mr-da
,m m , ,
“universalidade
.......... „uwiynim........
*
da herança”,
ini «haverá
fc»■■■■.... um
juízo sucessório no Uruguai e outro no Brasil, inclusive porque também o
JJm guai adotaregra semelhante11.
O STF, todavia, entendeu que não atenta contra.a_soheimáa_nacianal

estrangeira de divórcio em que é ratificado acordo das partes sobre a par-,


tiifia cíe~bens imóveis situados no Brasil. V. o verbete n. 44.

rência de imóvel situado no Brasil, somente merecia ser homologada na parte alusiva
à outorga do mandato; portanto, a homologação não abrangeu os atos alusivos à alte­
ração subjetiva na Matrícula do imóvel (Tribunal Pleno, rei. Min. Maurício Corrêa
(Presidente), ac. de 15-10-2003, Informativo do STF, n. 326).
10. O STF, em sessão plenária, apreciando pedido de homologação da partilha
de bens decorrente de separação de cônjuges, deu eficácia à sentença proferida por
tribunal do cantão de Zurich — Confederação Suíça, que adjudicara a um e a outro dos
ex-cônjuges bens móveis e imóveis situados no Brasil, fazendo aplicação da lei bra­
sileira, partilha por meação. Ao final de seu voto, disse o relator Min. Paulo Brossard:
“Entendo que em casos como este, onde foi aplicada a lei brasileira, não há óbice para
que esta Corte homologue a sentença estrangeira que decide sobre a partilha de bens
situados no Brasil, por não ver ofensa ao inciso II do art. 89 do CPC” (SE 4.512-6
— Confederação Helvética, j. 21-10-1994).
Com essa diretriz, a Suprema Corte voltou atrás no decidido nos acórdãos na SE
2.446 {RTJ, 92:522) e na SE 2.544 (RTJ, 93:36), que aplicaram o art. 89, II, tanto às
partilhas decorrentes de sucessão causa mortis como às concernentes a ato inter vivos.
Já agora voltou a vigorar a exegese de que o inciso II do art. 89, que fixa a competên­
cia absoluta do juiz brasileiro, “não se refere expressamente à partilha de bens decor­
rente da dissolução da sociedade conjugal”, dês que, por certo, cumprida a regra de
aplicação da lei mais favorável ao cônjuge brasileiro (acórdão publicado na revista
Gênesis, Curitiba, i:213-8).
11. O tema relativo à unidade ou pluralidade de juízos sucessórios, inclusive em
seu desdobramento histórico no Brasil, e com apreciações do direito comparado, foi
amplamente abordado em acórdão da lâ Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Esta­
do do Rio Grande do Sul, na Ap. 29.716, de que fomos relator, publicado na Revista
de Jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, 91:245.
Este acórdão foi em parte reformado pela egrégia l â Turma do colendo Supremo Tri­
bunal Federal — RE 99.230, decisão de 22 de maio de 1984 (RTJ, 110:750). O inteiro
teor dos arestos constou das anteriores edições deste livro, até a 4- edição inclusive,
como Anexo III.

87
Transferida para o STJ a competência constitucional para a homo­
logação de sentença estrangeira (v. o verbete n. 44), a orientação man- .
teve-se inalterada; assim, a Corte Especial do STJ deferiu o pedido de
homologação de sentença estrangeira de divórcio ao entendimento de
que o fato de determinado imóvel estar situado no Brasil não impede a
homologação da sentença de partilha efetivada perante tribunal de Por­
tugal, que incluiu o mesmo bem, não ofendido o art. 89, II, do CPC,
inclusive porque a partilha obedeceu ao sistema da lei brasileira na divi­
são dos bens, metade para cada cônjuge (SE 878, rei. Min. Menezes
Direito, j. 18-5-2005, v.u.).
Last but not least, vale sublinhar quedas normas de competência in­
ternacional são normas de ordem pública.
Por isso mesmo, conforme afirmou o professor Botelho de Mesquita
{RePro, 50/53), não se aplica à competência internacional a conhecida
classificacão da competência interna aue a classifica em competência
ar.ur-Lww^-'..Tw.-™.»Ir — I .............. 1 ■■■ » ■ 1" “ p i i h m ,M n u « : ....... P', ^ v r r h > imi t n u

absoluta” e competência, “relatraa”.


E se reporta o mestre paulista à lição de Liebman, para quem “o fato
de certa causa ser estranha à jurisdição do Estado, não é a rigor caso de
incom~pêtenciá (significa'no Itodo, nêgãçao dã^açadj^e; Talvez,"so^oT
analogia se lhe.possa aplicar a regra de incompetência ratione materiae
(Liebman, Estudos sobre o processo civil brasileiro, Saraiva, 1947, p. 24-5).
Portanto, na aplicação das normas sobre competência, deverá o juiz pri-
meiramente verificar se a causa se inclui dentro dos ílmites queTiTanTa ~
Tlmsdição brasileTra7 para somente depois apreciar os dados relativos a

Assim, a ausência de Jurisdição nacional (não ocorrência de nenhum


dos casos~3e competência internacional concorrente) a rigor poderá e d e-
_vera co^fitm ^qi^tãoj^efada]^ ser suscitada na contestação (aplicação,
por compreensão, do art. 301,jncisos í F e i r p ^ ^
Com efeito, a “exceção de incompetência” é instrumento para o
controle da competência relativa, prorrogando-se a competência do juiz se
a questão não fbFiuscitada em tempo hábil; mas a ausência de jurisdição'
não^om^ortà^ evidentemente, a prorrogação de uma competência a prio-
ri inexistente.

12. Em sentido contrário, pela competência relativa nos casos do art. 88 do CPC,
e portanto pela sua arguição via exceção de incompetência, manifestou-se o TJRJ no
Ag. Inst. 598/95 (rei. Des. Miguel Pachá, j. 30-5-1995).
50. Limitações à imunidade de jurisdição dos Estados
estrangeiros13
A modema doutrina do direito internacional público não mais admi­
te como absoluta a regra da imunidade jurisdicional de Estado estrangeiro
(STJ, AC 05, rei. Min. Cláudio Santos).
Em voto no Pretório Excelso, o Min. Francisco Rezek salientou serem
inaplicáveis as Convenções de Viena, as quais dizem respeito à imunidade
pessoal e não dos Estados estrangeiros; esta resultaria somente dos costumes
internacionais. Mas tais costumes não mais abrigam a imunidade absoluta
dos Estados uns perante os outros, afastada por Convenção europeia (Con­
venção de Basiléia) e pelo direito interno britânico e americano.
Não restam dúvidas, pois, que as pessoas físicas permanecem tute­
ladas pelos privilégios e imunidades diplomáticas concedidas pelas Con-
venções de Viena, de 1961 (relativa ao servidor diplomático) e de 1963
(concernente ao serviço consular), incorporadas ao direito positivo interno
pelos Decretos n. 56.435/65 e 61.078/67; assim, existindo imunidade à
jurisdição civil e penal, somente em caso de expressa renúncia estarao tais
agentes sujeitos à jurisdição nacional (v., nesta obra, o verbete n. 40).
Já quanto ao Estado estrangeiro, a Convenção europeia de Basiléia,
de 1972, sobre as imunidades dos Estados, e leis dos Estados Unidos (Fo-
reign Sovereign Immunities Act, de 1976), do Reino Unido (State Immu-
nityAct, de 1978) e de outros países14 introduziram limitações à teoria da
imunidade absoluta, passando a aceitar o controle jurisdicional nacional
sobre os atos de pura gestão praticados pelo Estado estrangeiro, mas não
sobre os atos caracterizados como jure imperii (STF, AC 9.696, Pleno,
reclamação trabalhista contra a antiga República Democrática Alemã, ac.
de 31-5-1989, rei. Min. Sydney Sanches, RTJ, 133:159 e s., com elucida­
tivo voto do Min. Francisco Rezek).
Cumpre anotar, no entanto, que não é possível, salvo expressa anuên­
cia do Estado estrangeiro, a execução forcada de eventual sentença que o
tenha condenado, pois seus bens, móveis ou imóveis, vinculados à ativida­

13. A respeito do tema, excelente artigo de doutrina do Dr. Júlio Marino de


Carvalho, ex-Procurador Regional da República, sob o título “Jurisdição e renúncia no
direito internacional”, publicado na RF, 318:61-87, cuja leitura se recomenda.
14. Assim, igualmente, v. g., em Cingapura, em 1979; na África do Sul e no
Paquistão, em 1981; no Canadá, em 1982; e na Austrália, em 1985.

89
de.diplomática e consular, não podem sofrer penhoras ou outras medidas
de constricão. como está expresso na Convenção de Viena, art. 22, § 22. No
magistério de José Francisco Rezek, “a execução forçada da eventual sen­
tença condenatória, entretanto, só é possível na medida em que o Estado
estrangeiro tenha, no âmbito espacial de nossa jurisdição, bens estranhos à
sua própria representação diplomática ou consular — visto que estes se
encontram protegidos contra a penhora ou medida congênere pela inviolabili­
dade que leis asseguram às Convenções de Viena de 1961 e 1963, estas
seguramente não derrogadas por qualquer norma ulterior...” (.Direito inter­
nacional público, 7. ed., Saraiva, 1998, p. 176-7, item 97).
Mesmo assim, asseveram Marçal de Assis Brasil Neto e Luiz Paulo
Romano, “vale o registro de que a experiência mostra que o simples fato
de o Estado estrangeiro vir-se condenado a determinada prestação tem sido
suficiente para permitir um acordo amigável ou efetivo adimplemento da
obrigação” (artigo de doutrina, Informativo Pinheiro Neto). Conforme
Guido Fernando Silva Soares, “deve-se precaver contra a falsa ideia de que
um julgamento não seguido de execução é desprovido de eficácia e valor.
Segundo se pode ^enficiE ^ na jurisprudência brasileira (caso
Governo Imperial do Irã), a execução pode dar-se *bonafide\ extraju-
dicialmente, pela força moral do direito declarado êxigível pelo Judiciário”
(Das imunidades de jurisdição e de execução, Forense, 1984, p. 199).
Luiz de Pinho Pedreira da Silva afirma, todavia, que a regra da imu­
nidade absoluta de execução não mais faz parte do costume internacional:
“Desde que por essa razão o Supremo Tribunal Federal passou a adotar a
tese da imunidade de jurisdição restrita, deve-se acolhê-la também no que
se refere à imunidade de execução do Estado estrangeiro para considerá-la
igualmente limitada, pois a identidade de motivo exige identidade de tra­
tamento para as duas imunidades” (O caráter restritivo da imunidade de
execução do estado estrangeiro, Trabalho & Doutrina, n. 8, Saraiva, mar­
ço 1996, p. 19)14'A.
A prof. Iara Cordeiro Pacheco refere que o tratamento da matéria
sofreu profundas alterações nos últimos tempos: assim, o Tribunal Cons­

14-A. No concernente ao cumprimento de sentença condenatória de Estado


estrangeiro, o Tribunal Superior do Trabalho rejeitou a penhora de residência oficial
do cônsul, “a fim de que se encontrem outros bens a serem penhorados, desde que
sejam eles desafetos ao Consulado” (ROMS 62.268/2002, DJU, 27 fev. 2004). Igual­
mente ilegal a penhora de conta bancária de Missão Diplomática, salvo quando cabal­
mente demonstrada sua utilização para fins estritamente mercantis.

90
titucional da Alemanha, “em sentença de 1983, repeliu a imunidade de
execução quando se trate de bens não destinados ao exercício da soberania”;
igualmente a jurisprudência francesa, bem como o Tribunal Federal Suíço,
têm decidido que o princípio da imunidade de execução “deve ceder quan­
do os bens objeto de constrição sejam usados para a atividade econômica
ou comercial de natureza jurídico-privada em que a demanda se baseia”
(artigo dout, Tribuna do Direito, ed. de janeiro de 2001, p. 10)15e 1<s.
No (Supremo Trihnnal FederaÒ disse JsMin. Celso de Mello ^ ue “a
imunidade de jurisdição do Estado estrangeiro, quando se tratar de litígios
trabalhistas, revestir-se-á de caráter meramente relativo e, em consequên-
cia, não impedirá que os juízes e‘TfT15unãisT^
controvérsias e sobre elas exerçam o poder jurisdicional que lhes_ é ineren-*
Ml Turma, Agravo Interno no Ag. Inst 139.671; RTJ, 161:643).
Desse aresto vale transcrever o seguinte excerto:
“Não se revela viável impor aos súditos brasileiros, ou a pessoas
com domicílio no território nacional, o ônus de litigarem, em tomo
de questões meramente laborais, mercantis, empresariais ou civis,
perante tribunais alienígenas, desde que o fato gerador da controvér­
sia judicial — necessariamente estranho ao específico domínio dos

15. Para tornar operante a execução, Marcelo Sampaio Costa (artigo publ., RF,
357:389-94) preconiza, ao final de interessante estudo, que, se o ente de direito públi­
co externo não se propuser a cumprir espontaneamente o julgado exarado pela jurisdi­
ção laborai brasileira, deverá a execução “prosseguir por intermédio de ofício expedi­
do pelo Presidente do TRT endereçado ao Ministério das Relações Exteriores, enca­
minhado através do Ministério da Justiça, solicitando ao ente alienígena que faça
cumprir tal julgado”. Tal providência, por certo, não excluirá, caso infrutífera, a pe­
nhora sobre bens de propriedade do Estado estrangeiro, desde que não vinculados às
atividades diplomáticas ou consulares.
16. No magistério de Júlio Marino de Carvalho, nas demandas ajuizadas no
Brasil contra Estado estrangeiro, por atos de gestão, “já que inexiste imunidade de
jurisdição, o Judiciário está capacitado a proceder à execução do. julgado, sem mais
formalidades que as do CPC. Descabe no caso a chamada 4segunda renúncia', para o
fim especial de execução de sentença e que é exigida quando a parte sucumbida é
agente diplomático. A cobrança de uma postulaçao vitoriosa pode recair, v. g., sobre
bens pertencentes ao Estado, como créditos comerciais, navios mercantes, imóveis
destinados a atividades comerciais etc. Nesse particular o princípio da efetividade está
atuante, favorecendo a concreção do decisório. A execução compulsória, entretanto,
não pode incidir sobre imóveis e meios de transporte diplomáticos, porquanto esses
bens estão resguardados pela Convenção de Viena de 1961, art. 22” (Jurisdição e re­
núncia em direito internacional, RF, 318:84).

91
acta jure imperii — tenha decorrido da estrita atuação more privato-
rum do Estado estrangeiro.
Os Estados Unidos da América — parte ora agravante — já
repudiaram a teoria clássica da imunidade absoluta naquelas questões
em que o Estado estrangeiro intervém em domínio essencialmente
privado. Os Estados Unidos da América — abandonando a posição
dogmática que se refletia na doutrina consagrada por sua Corte Su­
prema em Schooner Exchange v. McFaddon (1812) — fizeram pre­
valecer, Ja no início da década de 1950, era típica declaração unila­
teral de caráter diplomático, e com fundamento nas premissas expos­
tas na Tate Letter, a conclusão de que ‘tal imunidade, em certos tipos
de caso, não deverá continuar sendo concedida\ O Congresso ame­
ricano, em tempos mais recentes, institucionalizou essa orientação
que consagra a tese da imunidade relativa de jurisdição, fazendo-a
prevalecer, no que concerne a questões de índole meramente privada,
no Foreign Sovereign Immunities Act (1976)”.
Como reiterou o Min. Celso de Mello, rei. no STF da Açao Civil
Originária n. 575 (pretensão indenizatória ajuizada pelo Distrito Federal
contra a República dos Camarões, por acidente de trânsito), em função
desta nova orientação “a jurisprudência firmada pelo Supremo Tribunal

privada, notadamente em conflitos de naturezaJrabalhista, consolidou-se


no sentido de atribuir caráter meramente relativo à imunidade de jurisdição
tal como reconhecida pelo direito internacional público e consagrada na
prática internacional” (dec. de P -8-2000)17.
O Min. Eduardo Ribeiro (STJ, 3âTurma, AC 07, j. 3-4-1990) sublinha
que se passou a distinguir conforme a natureza do ato praticado pelo Es­
tado estrangeiro, excluindo-se da incidência da imunidade os atos que
digam respeito apenas a “relações rotineiras, travadas entre o Estado es­

17. Mui recentemente, em longa decisão no RE 222.368, relativo a demanda


trabalhista ajuizada contra o Consulado-Geral do Japão, o Min. Celso de Mello mais
uma vez afirmou a competência, em tais casos, da Justiça brasileira: “O fato irrecusá­
vel é um só: privilégios diplomáticos não podem ser invocados, em-Processos .traba­
lhistas. rnnnpcdrar n enriquecimento sem causa de Estados estrangeiros, em injus-
to detrimento de trabalhadores residentes em território brasileiro, sob pena de essa
prática consagrar in aceitável"desvio ético-jurídico, incompatível com o princípio da
boa-fé ê~com os grandes postulados do direito intemacíonar’ (dec. monocrática).

92
trangeiro. representada. p.0r_.£sus_.ageiite.s'-e os súditos do pais em que
atuam”. Assim, v. g., em litígios trabalhistas, em lides oriundas de relações
de locação, de fornecimento de materiais18.
O Supremo Tribuna] Federal todavia -rp.mnhp.nftit ao Estado estran­
geiro imunidade de jurisdição relativamente a matéria tributária. Assim,
o Tribunal manteve decisão do relator que, em sede de ação cível originá­
ria, negara seguimento a execução fiscal promovida pela União em face
do Consulado da República da Polônia — que expressamente invocou a
imunidade — , visando a cobrança de multa aduaneira (ACO, Ag. Reg.
524, rei. Min. Carlos Velloso, j. 26-3-2003, informativo do STF, n. 302,
mar. 2003). É afirmado como pacífico no^STjjque os Estados estrangeiros
gozam de imunidade jurisdicional em matéria tributária, afastada a imu­
nidade apenas quando em discussão, matérias de ordem estritamente pri­

18. Anoto alguns dos julgados do Superior Tribunal de Justiça:


1. Na AC 02, j. 7-8-1990 pela 4a Turma do Superior Tribunal de Justiça, leading
case de que foi relator o Min. Barros Monteiro, o colegiado adotou o entendimento,
expresso na ementa, de que, “sofrendo o princípio da imunidade absoluta de jurisdição
certos temperamentos em face da evolução do direito consuetudinário internacional,
não é ele aplicável a determinados litígios decorrentes de relações rotineiras entre o
Estado estrangeiro e os súditos do país em que o mesmo atua, de que é exemplo a ju ­
risdição trabalhista” (ac. na íntegra no Anexo IV).
2. Na AC 05 (j. 19-6-1990), a egrégia 3âTurma do Superior Tribunal de Justiça,
seguindo o voto condutor do rei. Min. Cláudio Santos, igualmente afirmou a tese de
não ser absoluta a regra da imunidade jurisdicional do Estado estrangeiro, sendo ex­
cepcionados inclusive os feitos de natureza trabalhista. A tese mereceu adoção também
na AC 07 (j. 3-4-1990, rei. Min. Eduardo Ribeiro), com remissão à AC 04, em recla-
matória trabalhista contra “o consulado português”. A competência da Justiça brasi­
leira foi igualmente afirmada no Ag. Inst. 757 (STJ, 4a Turma, j. 21-8-1990, rei. Min.
Sálvio de Figueiredo), em ação de cobrança contra a antiga Tchecoslováquia por em­
presa fornecedora de material de construção (ac. na íntegra no Anexo IV).
3. No Rec. Ord. 6, relativo a “impostos e taxas cobrados em decorrência de
serviços específicos prestados ao Estado estrangeiro”, no caso o Japão, a Ia Turma do
STJ, sendo rei. o Min. Garcia Vieira, reiterou que “a imunidade absoluta de jurisdição
do Estado estrangeiro só foi admitida até o século passado. Modernamente se tem
reconhecido a imunidade ao Estado estrangeiro nos atos de império, submetendo-se à
jurisdição estrangeira quando pratica atos de gestão. O Estado pratica ato ‘jure gestio-
nis’ quando adquire bens imóveis ou móveis.... (omissis)... Não se pode alegar imu­
nidade absoluta de soberania para não pagar impostos e taxas cobrados em decorrência
de serviços específicos prestados ao Estado estrangeiro” (ac. de 23-3-1999).
4. Em ação de cobrança de honorários de advogado., por serviços prestados a
Estado estrangeiro (Consulado Geral), a 3â T. do STJ considerou competente a juris­
dição brasileira (RO n. 42, rei. Min. Menezes Direito, j. 7-12-2006).

93
vada, como as questões trabalhistas ou de responsabilidade civii (RO 55,
2- Turma, rei. Min. Carlos Mathias — juiz convocado, j. 18^-3-2008).
A imunidade de jurisdição não representa uma regra que automati­
camente deva ser apliçada a qiiaiÃqtier procesmsj-udiciais mmddos contra
Estado estrangeiro: trata-se de um direilo_que_p-Qde.>_Q.u não, ser invocado
e exercido por esse Estado.
Assim, em ação indenizatória ajuizada por brasileiro naturalizado,
de etnia judaica, contra a República Federal da Alemanha, por danos ma­
teriais e morais sofridos quando da ocupação do território francês por
tropas nazistas durante a 2- Guerra Mundial, o STJ, ao reformar a senten­
ça que extinguira o processo por incompetência da Justiça brasileira, de­
terminou a citação da demandada a fim de que viesse a alegar, querendo,
seu interesse em não se submeter à Justiça nacional (princípio da submis­
são), demonstrando cuidar-se de ato de império (RO n. 6 4 ,3~ T„ rei. Min.
Nancy Andrighi, j. 13-5-2008). Todavia, embora os doutos fundamentos
doutrinários do acórdão, temos a impressão de que, nesse caso, a natureza
de “ato de império” (embora manifestamente criminoso) revelava-se na
própria narrativa da inicial, sendo assim correta a sentença.
Com efeito, tratando-se de acta iure imperii, a imunidade é conside­
rada absoluta, sem exceções. Assim, a Justiça brasileira considerou-se
incompetente para julgar ação de indenização contra a República Federal
da Alemanha, pelo afundamento de barco brasileiro em águas litorâneas
por submarino nazista, em 1943, durante a 2- Guerra Mundial (STJ, RO
n. 66,4âT., rei. Min. Fernando Gonçalves, j. 15-4-2008).
Em outro caso, ação por danos morais e materiais ajuizada contra
Estado estrangeiro por pessoa que, ao desembarcar, foi detida e obrigada
a retornar ao Brasil, foi entendido que, para que se classifiquem os atos
em de império ou de gestão, necessário que se oportunize a manifestação
formal do Estado, e daí a necessidade de sua citação (STJ, 3â T., RO n. 70,
rei. Min. Nancy Andrighi, j. 27-5-2008)19.

19. Decisão semelhante foi tomada no RO n. 57, em que por maioria de votos
foi determinada a citação dos Estados Unidos da América, por seu embaixador no
Brasil, a fim de que manifeste aceitação, ou não, da jurisdição brasileira em ação in­
denizatória promovida pela família de João Goulart, que acusa os EUA de haver
contribuído para a deposição do ex-presidente. A relatora, Min. Nancy Andrighi, bem
como o Min. Gomes de Barros, ficaram vencidos, por considerarem que teria ocorrido
“ato de g e s t ã o também vencido o Min. Sidnei Beneti, pela extinção do processo,

94
O STJ reconheceu a imunidade de jurisdição da República Federa­
tiva da Alemanha, contra a qual vítima do regime nazista ajuizou, peran­
te a Justiça brasileira, ação revisional de alimentos; o fundamento do
acórdão foi o de que a concessão de pensão resultou de ato de império do
Estado estrangeiro (REsp 436.711, 3- Turma, rei. Min. Gomes de Barros,
j. 25-4-2006).
Na Ação Cível Originária n. 633 (STF, Pleno, j. 11-4-2007, rei. Min.
Ellen Gracie), concernente a execução fiscal (multa referente ao Imposto
de Importação) contra o Consulado-Geral da R,epública da Coreia, é re­
ferido que a imunidade de jurisdição modernamente passou a ser afasta­
da nos conflitos de ordem privada, notadamente lides de natureza traba­
lhista (conforme Circular que o Itamaraty dirigiu às Missões Diplomáticas
em 14-2-1991). Com cinco votos vencidos, o Supremo Tribunal Federal
manteve orientação no sentido da imunidade absoluta do Estado estran­
geiro a imposições fiscais brasileiras, com invocação às Convenções de
Viena de 1961 e 1963; os votos minoritários, seguindo orientação susten­
tada pelo Min. Celso de Mello, entendiam relativa a imunidade, pelo
entendimento de ser possível a constrição judicial naqueles bens não
vinculados aos serviços regalares da Missão Diplomática ou consular do
Estado executado. Este acórdão, pela riqueza de fundamentação, merece
detida análise.

51. A representação em juízo do Estado estrangeiro


É atribuição do Embaixador, não do cônsul. Assim decidiu a 4~ Tur­
ma do Superior Tribunal de Justiça (Ag. Inst. 11.771,20-4-1993, rei. desig.
Min. Athos Carneiro, RSTJ, 48:11'), sob a ementa seguinte:
“Estado estrangeiro. Representação em juízo. Atribuições dos
cônsules. Convenções de Viena. Caso do art. 105, II, c, da Const.
Federal.
Nos termos da Convenção de Viena de 1961, sobre relações
diplomáticas, cabe ao Embaixador representar o Estado acreditante

entendendo cuidar-se de ato de império; prevaleceu então o voto médio, do Min. Aldir
Passarinho e do Min. Ari Pargendler (3a Turma, j. 21-8-2008). Parece-nos, a respeito,
tratar-se de ato tipicamente de império, o de (suposta) ingerência de um país soberano
em movimento insurrecional em outro país soberano.

95
perante o Estado acreditado; não ao cônsul, cujas atribuições limi­
tam-se, de regra, aos planos administrativo, comercial e notarial.
Não pode o cônsul, pois, outorgar mandato judicial em repre­
sentação do Estado estrangeiro, visando ajuizar demanda perante a
Justiça brasileira.
Falta de legitimação para o processo. Aplicação do art. 13
CPC. Agravo provido”.
Tal orientação foi mantida pela 3- Turma: somente os chefes de mis-
são diplomática possuem legitimidade para as causas em que os interesses
do país que representam estejam em discussão perante o Estado em que
servem, limitando-se os representantes consulares a atividades de cunho
eminentemente comercial e administrativo (RO 24, rei. Min. Nancy An­
drighi, ac. de 1- 4 ~ 2 ^ R S T j7 l7 6 : T ^ 9 f^

52. Das cartas rogatórias e seu exequatur


A cooperação internacional, em matéria jurisdicional, realiza-se in­
clusive mediante o envio de cartas rogatórias:
“De duas espécies são as cartas rogatória^: quando enviadas do Bra-
sil para outro país, elas se denominam rogatórias ativas; quando remetidas
_ . ..JZ— | ....... m . JT 7 ______________ ir
.... nr

de país estrangeiro para serem entre nós cumpridas, elas se chamam roga-
tórias passivas” (Frederico Marques, Instituições de direito processual
civil, 4. ed., Forense, 1971, v. 2, item 504).
A carta rogatória ativa obedecerá, “quanto à sua admissibilidade e
modo de seu cumprimento, ao disposto na convenção internacional; à
falta desta, será remetida à autoridade judiciária estrangeira, por via diplo-
mátLca.denoisjdeJxaduzidanara.aJínaLua_do país em que há de praticar-se
j?J*to” — CPC, art. 210.
Como se vê, em se tratando de carta rogatória ativa, poderá ela ser
remetida diretamenteãcTMInistério das Relações Exteriores, que a enca-

20. Nesse mesmo sentido continua decidindo a 3aTurma, como no RO n. 24, rei.
Min. Nancy Andrighi: “apenas os Chefes de Missão Diplomática possuem legitimida­
de para as causas em que os interesses do Pafs a que pertencem e representam estejam
em discussão perante a Justiça do Estado onde servem, limitando-se os representantes
consulares a atividades de cunho eminentemente comercial e administrativo” (ac. 7-4-
2003). E novamente no RO n. 40, de relatoria do Ministro Castro Filho, com remissão
à Convenção de Viena, art. 3e, a t e (ac. de 28-9-2004, Informativo do STJ, n. 223, out.
2004).

96
minhará à missão diplomática brasileira no país de destino. Prática consue-
tudinária, no entanto, recomenda o encaminhamento inicial por intermédio"
do Ministério da Justiça. ’ ^ '-------*----
Já as cartas rogatórias passivas, a fim de serem cumpridas no Brasil,
submetem-se ao exequatur pelo Superior Tribunal de Justiça — Constitui­
ção Federal, art. 105,1, i.
Quanto à homologação de sentença estrangeira, vide verbete 44.
Em regra, são admissíveis cartas rogatórias passivas para a prática.de
atos de informação ou de comunicação processual (intimações, notificações,
citações) ou tomada de provas (depoimentos pessoais, testemunhos).
Todavia, como regra, a rogatória passiva não pode ter eficácia exe-
cutória. Assim a jurisprudência remansosa da Suprema Corte:
“Vê-se, portanto, que constitui postulado fundamental do siste­
ma normativo brasileiro a pré-exclusão de qualquer atividade execu-
tória em tema de cartas rogatórias passivas, pois, em tal hipótese,
impor-se-á a necessária e prévia homologação da resvectiva decisão
estrangeira. a efetivar-se em procedimento específico a ser instaura­
do no âmbito djesla_Cflrí^JKi$,..termos do CPC, arts. .4&3. e.-4M e do
RISTF, arts. 215 a 224” (Carta Rogat. n. 8.425, rei. Min. Celso de
Mello, dec. de 4-9-1998, negando executoriedade a rogatória prove­
niente da Justiça de Portugal solicitando desconto em folha de paga­
mento).
E que Convenção Interamericana sobre Cartas Rogatórias^ celebra­
da no Panamá e formalmente incorporada ao direito interno brasileiro em
1996 (Decreto n. 1.899, de 9-5-1996), ao definir a natureza das atividades
processuais passíveis de cumprimento em sede de carta rogatória, excluiu,
de maneira expressa, do art. 3Q. os atos “aue impliquem execução coativa”.
Tais atos devem ser submetidos à necessária e prévia homologação da
respectiva decisão estrangeira, a ser instaurada
— I-I--I -|-| -te- r —— --- " 11 no_ âmbito do Superior
------ fffr-rnri r r i r r ir ' ' “■ ■*l> ’ *"* ** "r. ............. t| ||t „ ,, y,

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52-A. Cartas rogatórias no âmbito do Mercosul


Esta regra, a de que nas cartas rogatórias não se pode pleitear medi-
da executória de sentença estrangeira que não haja sido homologada pela
Justiça do Brasil (KU , /2T659-67; RTJ, 95:157), encontra agora exceção
para os casos de rogatórias oriundas dos países do Mercosul, tendo em

97
vista o Protocolo de Las Lenas, tratado este formalmente incorporado ao
direito positivo nacional pelo Decreto Legislativo n. 55/95 e pelo Decreto
Executivo n. 2.067, de 12-11-1996.
As sentenças estrangeiras, desde que proferidas por autoridade judi-
^ciária dos demais Estados componentes do Mercosul, poderão, para efeito
de sua execução em território nacional, “submeter-se a~"reconhecimento e
homologação mediante procedimento ritual simplificado, fundado na
tramitação de simples carta rogatória dirigida à Justiça brasileira” (Carta
Rogat. n. 7.618 — Rep. Argentina, rei. Min. Sepúlveda Pertence; Carta
Rogat. n. 7.899 — Rep. Argentina, rei. Min. Celso de Mello, DJU, l e ago.
1997, p. 33528). (V. Revista Gênesis, 7:208)21.
As cartas rogatórias alusivas a medidas cautelares encontram-se
atualmente submetidas aos dispositivos do Protocolo de Medidas Caute­
lares, concluído em Ouro Preto em 16-12-1994 (como parte integrante do
Tratado de Assunção) e integrado ao direito positivo brasileiro pelo De­
creto Legislativo n. 192, de 15-12-1995, e pelo Decreto n. 2.626, de 15-6-
1998, sendo Estados Partes, além do Brasil, ainda o Paraguai, a Argentina
e o Uruguai22. Nele é inclusive prevista a não aplicação, no cumprimento
das medidas cautelares, do procedimento homologatório das sentenças
estrangeiras; além disso, “os Juizes ou Tribunais das zonas fronteiriças dos
Estados Partes poderão transmitir, de forma direta, os ‘exhortos’ ou cartas

21. O STF negou exequatur a carta rogatória expedida pela Justiça da Bolívia,
pela qual se pretendia, com fundamento no Protocolo de Las Lenas, a penhora de bens
de pessoas residentes no Brasil. Reconheceu-se, no azo, a impossibilidade de tal cum­
primento, pois a Bolívia não está integrada ao Mercosul, bem como ainda não foi
aprovado, pelo Congresso Nacional, o Acordo de Cooperação e Assistência Jurisdicio­
nal em Matéria Civil, Comercial, Trabalhista e Administrativa entre os Estados Partes
do Mercosul e as Repúblicas da Bolívia e do Chile; assim, prevaleceu a regra de que
a execução de sentença estrangeira, no Brasil, não prescinde de homologação (CR
10.479, rei. Min. Marco Aurélio, 23-4-2003, Informativo do STF, n. 305, abr. 2003).
22. Minudente e criterioso estudo a respeito das cartas rogatórias executórias e
cautelares e da repercussão dos Protocolos de Las Lenas e de Ouro Preto sobre a ju­
risprudência do Supremo Tribunal Federal, de autoria de Carmen Tiburcio (Doutora
em direito internacional, Prof3 na UERJ), encontra-se publicado na Revista Forense
sob o título “As cartas rogatórias executórias no direito brasileiro no âmbito do Mer-
cosul” (v. 348, p. 77-88).
Igualmente muito interessante a leitura do excelente estudo Medidas de coope­
ração interjurisdicional no Mercosul, de autoria de Nadia de Araújo et al. (RePro,
123/77 e s.).

98
rogatórias previstos neste Protocolo sem necessidade de legalizaçao” (art.
19, infiné).
As cartas rogatórias alusivas am e d id a s c a u t e la r e s s e r ã o e n c a m in h a ­

das: d) pela via diplomática ou consular, não se exigindo então o requisito


da legalizacão-L-QU-.M diretamente por intermédio da parte interessada, e
nesse caso deverá ser previamente legalizada perante o agente diplomático
ou consular do Estado requerido, salvo se os Estados requerente e reque-
rido houverem dispensado
iiniwwrnmital formalidade
------ :..... (art. 19).
Inteiro teor do Protocolo encontra-se em Nelson Nery Junior et al.,
Código de Processo Civil comentado, 9. ed., Revista dos Tribunais, glosa
ao art. 796, p. 939-41.

99
Capítulo XII
DA “COMPETÊNCIA DE
IURISDIÇÃO” E DA
COMPETÊNCIA
TERRITORIAL OU DE FORO

53. Busca da “justiça” competente


Verificada a competência da Justiça brasileira, cumpre passar a uma
segunda etapa na busca do/juiz competente,Verquirindo-se(qual a “Justiça”
^cõraÊêtMte^
Vale aqui assinalar que a expressão “competência de jurisdição” é, a
rigor, incorreta, porquanto a competência é, como disse Enrico Liebman,
a “medida da jurisdição”. Todavia, esta expressão vem utilizada, como
preconizam Araújo Cintra, Ada Pellegrini e Cândido Dinamarco, “à falta
de outra melhor (e segundo o uso da doutrina) para significar o conjunto
de atividades jurisdicionais cujo exercício é atribuído a cada organismo
judiciário, ou sistema integrado e autônomo de órgãos (Justiças)” (Teoria
geral do processo, 21. ed., Malheiros Ed., n. 143, p. 244).
Trata-se, já agora, de saber se o conhecimento da ação caberá à Jus­
tiça comum,mou_a algum dos ramos das Justiças especializadas na área
cíveí . Ã Constitmção j)revê a competência da Justiça do Trabalho (CF, art.
114) e da Justiça Militar (CF, art. 124), bem como, exaustivamente, as
causas que tocam à JustiçalFederal (CFrãHT.TiT8 e 109). Assim, v. g., uma
ação reclamatória do empregado contra o empregador será de competência
da Justiça laboral; uma ação em que for parte a União^oiLauíarquia fede­
ral, ou empresa pública federal, ou a causa fundada em contrato da União
com Estado estrangeiro, caberá à Justiça Federai.
Todas as causas não previstas expressamente na.jCfínsíiíjydglQÜBederal
como de competência
------- “-J. ------das Justiças especializadas cabem à Justiça comum,
exercjda^pe]o§„Xribjanais^e iiiízes estaduais, e ainda pela Justiça local do
Distrito Federal.

100
54. Busca do foro competente
, Numa terceira etapa, buscamos o “foro competente”, i. e., a circuns-
crição territorial judiciária em que a causa deve ser processada............
Na Justiça comum, buscamos a comarca. Na Justiça eleitoral, a zona
eleitoral. Na Justiça Federal, a seção judiciária e a subseção1.
A comarca dispõe de pelo menos uma vara, titulada por juiz de di­
reito, podendo abranger a área de um ou mais Municípios. O Município
que não for sede de comarca, mas tiver serviços judiciários instalados, é
denominado termo.
De outra parte, em comarcas de grande população e intensíssimo
movimento forense, como São Paulo e Rio de Janeiro, leis estaduais dis­
põem sobre uma divisão territorial interna, pela criação áe foros regionais
em áreas suburbanas, fixando-lhes a competência. Em Porto Alegre, por
exemplo, os “foros regionais” do Sarandi, do 4S Distrito, da Restinga, da
Tristeza, do Alto Petrópolis e do Partenon.
O principal dado de determinação do foro competente, ou seja, da
“competência territorial” é o domicílio do réu, o "Toro geral”. Se o réu
tiver mais de um domicílio, poderá ser demandado em qualquer-deles;
ignorado o domicílio do réu, será demandado onde estiver residindo, ou
no foro do autor; finalmente, residindo o réu no estrangeiro fe sendo o
„processo de competência dã~TÍist.ica hrasiletral o foro competente será o
do domicflio do autor ou. se este também residir fora do Brasil, poderá a
demanda ser proposta em qualquer foro (art. 94, § 3g) ou, melhor dito,, no
foro que tiver alguma vinculação com a causa.^
Se dois ou_mais-0,s réus, comjdifej^iite^

O tema da competência territorial (CPC, arts. 94 a 101) será adiante


melhor explicitado.

1. Constituição Federal, art. 110: “Cada Estado, bem como o Distrito Federal,
constituirá uma Seção Judiciária que terá por sede a respectiva Capital, e varas locali­
zadas segundo o estabelecido em lei”. A denominação “subseção” foi adotada para a
base territorial dos juizados federais.

101
Capítulo XIII
DA COMPETÊNCIA
DE JUÍZO

Do juízo competente
Suponhamos que, do ponto de vista territorial, já encontramos, como
foro competente, o de determinada comarca (na Justiça Estadual), ou cir~
cunscrição ou subseção (na Justiça Federal). Mas nessa comarca, ou cir-
cunscrição, podem estar sediadas Varas Cíveis comuns, e varas especializa-
das por competência em razão da matéria’. Varas de Família e Sucessões,
Varas dos Registros Públicos, Varas de Acidentes do Trabalho, Varas de
Falências, Varas Federais Previdenciárias, Varas Empresariais, Varas de
Execuções Fiscais (além das Varas Criminais, alheias ao nosso estudo) etc.
Se pretendemos propor, v. g., ação de indenização por acidente de
trânsitõT^send^TéiTui^particular, será competente, em razão da matéria,
uma das Varas ÇjveísTJaa ação de inventário, ou de anulação de testamen-
tò, irá para uma das Varas de Família e Sucessões. E assim por diante.
A competência de juízo em razão da matéria e, pois, a competência
das varas especializadas é de caráter absoluto, atraindo o julgamento das
causas conexas com as a elas distribuídas. Assim, v. g., a competência
ratione materiae de uma Vara dos Registros Públicos, determinada pela
lei de organização judiciánaTpI^^lece sobre a competência de uma vanT~
cível comum, e as ações anülatória docontrato e anulatórmdo respectivo^
registro, propostas separadamente mas com iáê^icãl5ãüs7rpl;tencíírs&r^(í^
reunidas, pela conexão, na vara especializada (STJ, REsp 127.082, 4-
Turma, rei. Min.™Sáívio de Figueiredo, j . 13-4-1999, RSTJ, 117:431).
.Porém, se uma ação indenizatória tiver como ré a Fazenda Pública
Estadual ou Municipal, competente será, em razão da pessoa do réu,
“ratione personae,\ uma das varas da Fazenda Pública estadual.
Além disso, em Porto Alegre, digamos, estão sediadas no Foro Cen­
tral da Justiça comum dezoito Varas Cíveis, oito Varas de Família e Suces-
sões etc. Se a causa deve tocar, por hipótese, a uma Vara Cível, será ela
^distribuída .(ÇPC^jartJ 251) a uma dessas varas, que se tornará competente
por üW isxiçãcu^.
A vrevencão é o fenômeno processual mediante o qual, havendo
vários juizes em tese competentes para conhecer determinada causa (ou
seja, todos competentes do ponto de vista territorial, competentes em razão
da matéria etc.), apenas um dentre eles, aquele a quem o processo hãJasiHo~
distribuído, adquire a competência no caso concreto, tornando-se ôsj5e£_
mais, daí em avante, incompetentes relativamente àquela causa.
De regra, é{ a citação válida que toma prevento o juízo /CPC, art.
219); mas, se causas conexas correrem perante juizes com a mesma com­
petência territorial, “considera-se prevento aauele aue despachou em
primeiro lugar” (CPC, art. 106).
Assim, se uma demanda é ajuizada perante a 2a.Vara Cível de São
Paulo, quaisquer outras demandasxpiiexas.pQSteElQrmente_aimzadas nes­
ta comarca deverão ser também distribuídas a essa vara.lornadaprexenta.
“Mas se demanda conexa estiver tramitando em Vara Cível de Santos, e
como a conexão impõe a reunião das causas (CPC. art. 105). será neces­
sário perquirir, para encontrar o juízo prevento, em qual dos processos

Encontramos assim, finalmente, aplicando os vários critérios de


determinação da competência, o “juízo competente”, onde a causa irá ser
processada e julgada1. É mister, aliás, distinguir entre juízo e juiz. O juízo,
a “vara”, é a célula básica da organização judiciária, é a unidade de pres­
tação jurisdicional, pressupondo uma estrutura composta, quando menos,
de um juiz, do escrivão e do oficial de justiça, com as disponibilidades de
pessoal e material indispensáveis ao funcionamento do serviço judiciário.
mudança da pessoa física dos juizes que o integram não altera a com-
petência ãojuizo. !
Por vezes, o encontro do “juízo competente” não esgota a tarefa de
fixação de competência. Existem varas dotadas de mais de um juiz (em
Porto Alegre, v. g., nas dezoito Varas Cíveis do Foro Central e na Vara de
Falências estão dois juizes), e a causa será então distribuída a um deles.

1. Pode, no entanto, um juiz, apesar de não mais pertencer a determinado juízo,


continuar “vinculado” a certas causas que nesse juízo tramitam (CPC, art. 132): assim,
v. g., o juiz que é removido (ou classificado) para outra vara na mesma comarca con­
tinua competente para processar e julgar os feitos cíveis cuja instrução concluiu em
audiência (CPC, art. 132). V. os verbetes n. 123 a 132.

103
56. Competência interna nos órgãos colegiados
Nos órgãos colegiados, surge o problema da competência interna.
Os Tribunais de Justiça são fracionados em “Câmaras”; os Tribunais Re­
gionais Federais, em “Turmas"; uma apelação, um agravo serão distribu­
ídos a uma dessas Câmaras ou Turmas, que se tomará competente para
apreciar o recurso2,
_Na Câmara ou Turma, um de seus Desembargadores será sorteado
como relator, e exercerá as atribuições que, em razão da função, cabem ao
relator.
Nos Tribunais de Estados menos populosos (v. g., Tribunal de Justi­
ça do Amapá), não há divisão em Câmaras. Já no Tribunal do Rio Grande
do Sul, por exemplo, as 22 Câmaras Cíveis agrupam-se duas a duas, em
11 Grupos de Câmaras Cíveis, com competência fixada no Código de
Organização Judiciária do Estado, para determinados recursos e para de-
tenrünadas çau sas, de_£ojnpM§.^
...Finalmente,_algung„pp^ (v. g., mandado de seguran­
ça contra ato_jjpJjrov,ernador do Estado) cabem em “competência originá­
ria” ao Tribunal Pleno.
Esta partilha “interna” de competência, para julgamento dos recursos
e das ações de competência originária dos Tribunais, também sucede nos
Tribunais Sjijperiores nacionais (Supremo Tribunal Federal, Superior Tri­
bunal de Justiça, Tribunal Superior do Tra^
Turmas, ora tm Tribunal,Pleno^
Nos Tribunais compostos de mais de vinte e cinco julgadores, pode ser
constituído “órgão especial”, com o mínimo de onze e o máximo de vinte e
cinco membros, para o exercício das atribuições administrativas e jurisdi-
clÕnãisdelegadas da competência do Tribunal Pleno (CF, art. 93, XI).
A Constituição Federal é explícita no sentido de que compete priva-
tivamente aos tribunais dispor sobre “a competência e o tuncionameTttcr~
dosrespectivos órgãos jurisdicionais^ administrativos”_(CF, art. 9 6 7 0 ^ "
Nesse tema, portanto, não cabe a interferência do legislador.
No concernente à estrutura interna dos órgãos fracionários, e tendo
em vista a possibilidade regimental de os tribunais convocarem juizes de

2. E ficará essa Câmara com a competência preventa para conhecer de novos


recursos relativos àquele processo.

104
primeiro grau para substituição de Desembargadores ou para os auxiliarem
nos casos de extremo acúmulo de demandas, surgiram ultimamente con­
trovérsias não quanto à possibilidade de tal convocação, mas quanto à
validade de decisões tomadas por Câmaras ou Turmas formadas, em sua
maioria ou totalidade, por magistrados convocados. No Supremo Tribunal
Federal, a arguição de nulidade, após longo debate, foi rejeitada (HC
84.414, j. 11-6-2004). O tema foi detidamente examinado também no
Superior Tribunal de Justiça, na via de hdbeas corpus, ao final concedida
a ordem sob o fundamento de que haveria ofensa ao princípio do juiz na­
tural no julgamento do réu por colegiado composto majoritariamente por
magistrados de primeiro grau (HC 72.941, 6a T., rei. Min. Maria Thereza
de Assis Moura, j. 11-9-2007). Existe um precedente no STJ: o HC 9.405,
p.m.v., rei. desig. Min. William Patterson (6â X, DJU, 18-6-2001).
Vale questionar, outrossim, se essa linha de raciocínio aplicar-se-á
aos julgamentos cíveis.

56-A. Deslocamento da competência interna nos órgãos colegiados


O CPC, mediante aditamento de parágrafo ao art. 555, trazido pela
Lei n. 10.352/2001, instituiu interessante caso de “deslocamento” da com­
petência recursal, a saber:
“A rt 555. No julgamento de apelação ou de agravo, a decisão
será tomada, na câmara ou turma pelo voto de 3 (três) juizes.
■ ,-f , y . | ir - tr it t —'- :n' " —nr. nMfiri ' 11 i ' 1 ~* •• • r— iir n ,li i f ~-r-.....

§ 1° Ocorrendo relevante questão de direito, que faça conve-


niente_m‘eyemrmi^cmmar^cliiLexgência£Jitze_câmaras ou turmas do _
tribunal, poderá o relator provor seja o recurso julgado pelo órgão
colegiado que o regimento indicar; reconhecendo o interesse púSW~~
co na assunção de competência, esse órgão colegiado julgará o re-
curso.

Este dispositivo foi inspirado no Regimento Interno doSTJi cujo art.


^14. II. dispõe que a Turma poderá
11 remeter feito1 de sua competência para
.................. ................ *rr ii ....................... ............. ■■ u | , n | mi i iimriiiii........ i ‘ ni i
-

a Seção, em razão da relevância dfl_.que£íão_e. para prevenir divergência


jsn tre as Turmas da mesma Seção; em tais casos, competirá à Seção o
julgamento da causa ÍRISTJ. art. 12, parágrafo único, II) e não apenas a
apreciação do ponto onde apontada a divergência JEsfô^dispjp^itiyo^êm
sendo aplicado pelo STJ com real proveito.
Em moldes similares, o Regimento Interno .d(^STR2a.rt. prevê a
remessa do feito ao plenário do Supremo Tribunal Federal, entre outros

105
motivos, “quando houver matéria em que diviriam as Turmas entre si ou
alguma delas em relação ao Plenário” e, ainda, em razão da relevância da
questão jurídica e da necessidade de prevenir divergência entre as Tur-
mas.__ _

Cxüdãise não de um novo rgcur5.a^maajaim.ile^mais um instrumento


processual voltado a assegurar, na medidajjqjíQssíveJLa.estahilidade na
interpretação do direito. A respeito, sublinhou Luiz Guilherme Marinoni
que, diferentemente do que ocorre com o incidente de uniformização de
jurisprudência (demorado e complexo, e quiçá por isso mesmo raramente
utilizado pelos tribunais), o presente instituto não se limita á submeter ao
colegiado maior a apreciação da questão de direito relevante e controver­
tida; mais ainda, atribui o julgamento da totalidade da demanda ao cole-
giado maior, que virá a proferir o acórdão de julgamento do recurso
(.Manual do processo de conhecimento, Marinoni ét ah, 2. ed., Revista dos
Tribunais, 2003, n. 3.12.4, p. 626 e s.). Barbosa Moreira observa, mui
justamente, que, embora a norma esteja inserida em dispositivo concer­
nente ao julgamento de apelações e agravos, iguais motivos militam em
favor de sua utilização no julgamento de outros recursos, nosauais possa
- r - nnii.Tr-iirn.miin. WÉinrtTf?.!! w.mi' —t r-r-r-ir-,— r-^iii- irr-nnf n-i.-—11 .. .......

relevante e a cujo respeito seja conveniente pre-


j^gnir ou compor divergência entre órgãos fracionários do tribunal (Comen-
«
—--------1 I nfln ||T
>’T,‘,~*,‘I) II ....................II faii r i~~'i~
T— r Ia n _
___
___
___
___
___ ..
.

tários ao CPC, 14. ed., Forense, 2008, v. V, n. 360, p. 673).


Embora a decisão do colegiado maior não resulte necessariamente
na formulação de súmula, e não se revista de eficácia imperativa, cmer para
os órgãos do tribunal, quer para os magistrados.,d.eJnslâxi.ciainferi.or. certo
é, todavia, que, na prática, a orientação passará a ser considerada como
autorizada expressão d a ^ ^ T p j^ e^ fa B o lm n ah te ^dò tribunal” (art. 557),
contribuindo para a desejável uniformidade na aplicação da lei.
Capítulo XIV
PRINCÍPIO DA“PERPETUATIO
JURISDICTIONIS

.":V C'
^§7/Regra da perpetuação da competência
^ O princípio da “perpetuação da jurisdição” ou, melhor dito, da perpe-
tuação da competência, está no art. 87 do Código de Frocesso CiviIT A
competência, determinada no momento em aue foi proposta a demanda, não
mais se altera,.ainda que se modifiquém os “dados”, de fato ou de direito,
' èm função dos quais se operou tal determinação^Assim, se a ação é ajuiza-
* da em Curitiba, porque o réu lá era domiciliado, é irrelevante a circunstância
'''-de, posteriormente, trajosl^nrTrréuTÍÕmicíIio para São Pauloi ^
Conforme leciona Arruda Alvim, Ço instituto da perpetuatio juris-
dictionis se prende à necessidade de, uma vez determinada e fixada a
competência, conferir-se. sob este aspecto — ligação da caüsaTwggg ^ "
minado^foro e juízo — a indispensável estabilidade ao processo” (A “per-~
petuatio jurisdictionis” no Código de Processo Civil brasileiro, RePro,
4:13); Manual de direito processual civil, 10. ed., Revista dos Tribunais,
2006, v. 1, n. 109).
Por exceção ^não se aplica a “perpetuatio iurisdirtin-nis” sp n Aronr,
ju diciário fo r suprimido, ou guando alterada sua competência em razão
da matéria ou da hierarquia4 Suprimida uma Vara Cível, obviamente os
feitos que nela tramitavam passam aos cuidados de outra vara. Se a lei nova
dispuser que as acões âe. dissolução.rie sociedade passam a ser de com­
petência das Varas de Ealênd^e_nãajiiaisAs^VaimjCjüZ£Ís.-taI norma
aplica-se aos processos em andamento, salvo se a própria lei exceptuar

Tribunal de Justiça ou de criação de novos Tribunais1.

1. A 2- Seção do STJ fixou entendimento sobre interessante questão ao decidir


que a regra da perpetuatio jurisdictionis diz respeito apenas ao foro, “nada impedindo
que, fixado este em sede de conflito, se defina, em outro incidente, o juízo competen­
te” (Emb. Decl. no CC 29683, rei. Min. Ari Pargendler, ac. de 14-2-2001).

107
Se em determinada comarca (ou subseção da Justiça Federal) vem a
ser criada uma nova vara, cumpre distinguir: a) se a nova vara tiver com­
petência especializada, em razão da matéria, a eia deverão ser redistribu-
ídos os feitos concernentes àquela matéria e em tramitação nas varas cíveis
, —ii i — — ................ .....' ------ " ---—- - ^...... ................ " ■* n r... nn ■in i . ,||IIIIMTT.-IIJ_______l ■! I ‘ — “ “ ~ ........... '■

existentes: se. no entanto, a nova vara tiverjcnmpetência concorrente com


a das varas preexistentes, os feitos não deverão ser redistribuídos, sob pena
de violação à regra do juiz natural (a desejável equiparação no número de
processos poderá ser obtida com a distribuição dos novos feitos, preferen­
cialmente, à unidade jurisdicional recém-criada) (Fernando da Fonseca
Gajardoni, estudo na coletânea Os poderes do juiz e o controle das decisões
judiciais, Revista dos Tribunais, 2008, p. 263).
No caso de posterior instalação de uma vara federal em comarca onde
há varas estaduais, não se aplica a perpetuatio jurisdictionis. porque a
15õmpetêHüiir^ pela vara federal (CC 38.713.12Seção,
maioria, rei. orig. Luiz Fux, rei. desig. Teori Zavascki, ac. de 14-4-2004,
Informativo do STJ, n. 205, abril 2004).
No alusivo às ações fundadas em direito real sobre imóvel, é abso­
luta a competência àoforw nrêi sitae quando o litígio recair sobre direito
de propriedade, vizinhança, servidão. posse^.-dmsão^e„d£mar£agão de
^ggãrgnunciacão de obr.ajio.vaíCPC. art. 95). Pergunta-se: se a área onde
se situa o imóvel for transferida para a jurisdição de outra comarca (ele-
vação de um município à categoria de comarca, ou passagem de um mu­
nicípio da área territorial de uma comarca para outra), aplica-se a perpe­
tuatio jurisdictionis?
Existem (mãmTeitações discrepante^, mas deve prevalecer, até por
estar conforme com os motivos de existência da norma (v. verbetes n. 73
e 74), a orientação adotada pelo STJ, 4a Turma, no sentido de que “insta­
lação denova comarca, em cujo território se situa o imóvel objeto da ação
reivindicatória, determina a modificação da competência” (REsp 156.898,
rei. Min. Ruy Rosado de Aguiar, j. 30-4-1998).
Uma nova exceção ao princípio da perpetuatio surgiu com o art.
475-P, parágrafo único, do CPC (Lei n. 11.232/2005), pelo qual o exequen-
te pode requerer o deslocamento da execução do iuízo onde proferida a
sentença condenatória (portanto com competência..funcÍ£mal para os atos
executórios) para o iuízo do local onde se_situ&m.Q5J3.ens_objeto de penho-
ra ou o atual domicílio do execiitadq.Jjicidejite-essa^nava.iiQEm^o
), que passa a ter competência integral

108
para processar a causa e seus incidentes nesta etapa de cumprimentada
"sentençalv. o verBeíenT

Casos de desmembramento de comarcas


Problema de grande importância de ordem prática é o alusivo à inci­
dência da perpetuatio jurisdictionisjnos casos de criação de novas cornar^
cas, com o conseqüente desmemhmm^t.a.da,cornarca preexistente. Deve­
rão ser remetidos à nova * >rSe,pj;É4jor.
domiciliado na área da nova circunscrição, ou se nesta fora domiciliado o
autôr da herança^assim^pQr^diant&^-~>
Doutrina majoritária responde negativamente, em face da regra do
art, 87 do Código de Processo Civil e consid^and^ tr a t ^ a hipótese de
modificação do “estado de direito”, ou melhor, das regras jurídicas ^de
determinação da competência, sendo portanto irrelevante a modificação
de tais regras relativamente às causas iá anteriormentejumtostas^Mas-a
orientação da doutrina nem sempre vem sendo acolhida» no plano admi­
nistrativo. pelos Tribunais.
Arruda Alvim (no artigo antes citado) aborda detidamente a questão
do desdobramento de comarcas, e conclui que» nos termos da lei proces­
sual vigente, “em sendo criada nova comarca, esta só receberá novos
processos”, Mas deplora, sob esse aspecto, o dispositivo legal, como in­
conveniente às necessidades da administração da Justiça. Também Agrí­
cola Barbi é pela manutenção da perpetuatio nos casos de criação de nova
comarca, sustentando que, uma vez fixada a competência, ela não será
alterada por posteriores modificações no estado de fato e de direito, e que
“modificação no estado de direito existe quando, v.g., o território do imó­
vel em litígio vier a fazer parte de outra comarca, em conseqüência da lei
nova” (Comentários ao CPC, 10. ed., Forense, 1998, n. 474, p. 292).
Igualmente é o pensamento de Moacyr Amaral Santos, Primeiras linhas,
cit., v. 1, n. 217.
Mas a regra da perpetuatio, como já dissemos, não incide quando se
trata de competência absoluta. Assim, Edson Ribas Malachini sustenta que
nos casos de competência absoluta devem os processos ser remetidos de
imediato à nova comarca, máxime nos casos em que incide o forum rei
sitae, a competência em razão da “situação do imóvel” (Repro, 47/273).
Nesse sentido, tratando-se de ação reivindicatória de imóvel situado na
nova comarcardêcidiu o STJ pela.não incidência da perpetuatio iurisdic-
tionis (REsp 150.902, rei. Min. Barros Monteiro, ac. 21-5-1998; REsp

109
156.898, rei. Min. Ruy Rosado, ac. 30-4-1998). Consta da ementa do REsp
156.898: “A instalação de nova comarca, em cujo território se situa o
imóvel objeto da ação reivindicatória, determina a modificação da com-
petência”.
As as necessidades da administração da Justiça têm muitas vezes
pesado, acima das manifestações doutrinárias, na orientação dos órgãos
aâmimstmtivos dos Tribunais, com a determinação de remessa, às novas
comarcas, de todos os processos em andamento nas comarcas originárias
e vinculados, de qualquer forma, ao território da comarca nova.
Inclusive não é descabido ponderar que, se a supressão de uma co-
marca afasta a regra da perpetuatio, da mesma forma a criação de nova
comarca^õderaTafastá^liü — ~
Capítulo XV
COMPETÊNCIA ABSOLUTA
E COMPETÊNCIA RELATIVA

(59|Da competência absoluta e da competência relativa


■Em certos casos as regras de competência visam atender primacial-
mente ao interesse das partes, quer facilitando ao autor o acesso ao Judi­
ciário, quer propiciando ao réu melhores oportunidades de defesa. Temos,
então, casos de competência relativa.
As regras de competência relativa podem ser afastadas pelos liti-
gantes, ou mediante prévio acordo inserido em cláusula de contrato
~— cláusula de eleição de foro, ou deixando o réu de opor a “exceção
declinatória de foro” . Há. pois.^uma disponibilidade quanto ao foro
competente,.,.
Em outros casos,,as regras de competência?sãoonotivadas por consi-
derações ligadas principalmente ao interesse público.âs.-Uma.jneihor ad-
ministração da Justiça. Cuida-se, aqui, de é
indisponível às partes, e se impõe com força cogente ao juiz.
No magistério de Cândido Dinamarco, importante conseqüência
sistemática e prática da distinção entre oscasos de competênciaã£s®tlT
^ .......... Vs. * * * ' s • * —----- -------------------- -- ■»<
e de competencia relativa e que, quanto aos primeiros, o juiz tem o poder-
dever de fazerj3or si proprio o controle de sua competência, afírmando-se
incompetente se for o caso, quer as partes hajam alegado essa questão,
fluer não o tenham feito (art. 113); quanto aos casos de competência rela­
tiva, ela não é fiscalizada de ofício, sendo atribuída exclusivamente à
parte a faculdade de provocar tal fiscalização, prorrogando-se a competên­
cia (art. 114) se ela não o fizer (Instituições de direito processual civil,
Malheiros Ed., 2001, v. 1, n. 212).

60. Primeiro esquema didático


Podemos apresentar, para efeitos didáticos, o seguinte esquema:

111
Competência Absoluta Competência Relativa
1. Prevalência do interesse público 1. Prevalência do interesse particular ^ '
— inclisponibilidade. dos litigantes — disponibilidade. -^
^ Ct-fi £X!Ucx>- iX? o
2 . 0 juiz deve declarar-se incompe­ 2 . O juiz nao pode, em hipótese'
tente, de ofício, sempre que lhe for nenhuma, declarar~se de ofício in­
remetido processo para o qual for competente; só poderá fazê-lo se o
absolutamente incompetente (CPC, réu suscitar a exceção de incompe­
art. 113). tência (CPC, arts. 112, 304, 305 e
307) (v. a Súmula 33 do STJ).

| 3. Autor, réu ou qualquer interve- 3. Somente o réu pode suscitar a


j niente podem, a qualquer tempo, exceção, e no prazo de 15 dias (CPC,
j invocar a incompetência absoluta, arts. 112 e 305); se o réu não suscitar
/ matéria que é inclusive uma das em tempo hábil a exceção, a compe­
, preliminares alegáveis na contesta- tência do juiz considera-se automa­
N ção (CPC, arts. 113 e 301, II). ticamente prorrogada— i. e., o juiz,
em tese incompetente, toma-se com­
petente para conhecer e julgar aque­
la causa (CPC, art. 114).

4. Em face da indisponibilidade, é 4. Em face da disponibilidade, líci­


incabível “eleição de foro ” quando ta a cláusula contratual de eleição
infringente a qualquer regra de deforo (art. 111 ), com ressalvas nos
competência absoluta (art. 1 11 ). casos de contratos de adesão (v. os
verbetes n. 64,65 e 65-A).

5. A incompetência absoluta do juiz 5. As regras sobre competência re­


torna nulos quaisquer atos decisó- lativa não provocam nulidades. Se
rios por ele proferidos (art. 113, § a exceção declinatoria fori é susci­
\ 2-); e a sentença proferida pelo juiz tada com êxito, o processo será re­
\absolutamente incompetente pode- metido ao juiz competente (art.
r-íã ser rescindida (art. 485, II). 311); caso contrário, ocorre então a
prorrogação de competência.

112
61. Segundo esquema didático
Também sob propósito didático, segue um segundo esquema:

Competência territorial ou competência de foro. É o caso


típico de competência relativa, e o mais comum.
Competência em razão do valor da causa. É relativa “do
mais para o menos”, pois a competência do juiz de maior
Competência
“alçada” 1 pode ser prorrogada para abranger causa de
Relativa
menor valor. A competência ratione valore é geralmente
fixada nas leis de organização judiciária (CPC, art. 91).
Competência em razão da situação do imóvel, naqueles
casos nos quais o art. 95 do Código de Processo Civil
permite a opção do autor por um foro diferente.

Competência em razão da matéria ou “competência ob­


jetiva Pela natureza da causa, a competência pode tocar
a uma justiça especializada (v. g., as causas referentes à
nacionalidade são da Justiça Federal — CF, art. 109, X);
no âmbito da Justiça comum, as leis de organização
judiciária podem atribuir competência a um juízo priva­
tivo (v. g., as ações de investigação de paternidade per­
Competência tencem, em Porto Alegre e em outras capitais, às varas
Absoluta privativas de Família e Sucessões).
Competência em razão da pessoa, vinculada a atributo
pessoal do litigante. Assim„ as causas em que for parte a
União ou autarquia federal ou empresa pública federal
cabem à Justiça Federal (CF, art. 109,1); as causas em
que for parte o Estado, ou autarquia estadual, cabem, na
Comarca da capital) às varas privativas da Fazenda Pú-
blica. ^ e - , OU '

1. A “alçada”, a rigor, é a limitação da competência de um juízo ou Tribunal em


razão do valor da causa; em sentido lato, é a simples delimitação da competência.
Sobre as diversas acepções da palavra “alçada”, v. Pontes de Miranda, Comen­
tários ao Código de Processo Civil, Forense, 1974, t. 2, p. 199-200.
Competência em razão da situação do imóvel, nas ações
fundadas em direito real sobre imóveis. A teor do art. 95
do Código de Processo Civil, esta competência de foro
é absoluta nos casos em que esiá em jogo direito de
propriedade, ou vizinhança, ou servidão, ou posse, nas
acões de divisão e demarcação de terras e nas ações de
0 ühciaça^;de obra nova. Nos demais casos permite-se
opçao do autor, sendo, pois, relativa a competência.
( Competência^ Competência funcional, em razão da função, das atribui­
Absoluta / ções que o juiz desempenha. Podemos distinguir a com­
petência funcional no “plano horizontal'’, i. e., no mesmo
grau de jurisdição, e a competência funcional no “plano
vertical”, ou seja, a competência recursal (qual o Tribu­
nal, ou o órgão de um Tribunal, a quê é atribuída a função
de julgar a causa em grau de recurso).
Competência em razão do valor da causa. Esta compe­
tência é absoluta quando “do menos para o mais”, i. e.,
a competência do juiz de menor “alçada” não pode ser
prorrogada para abranger causa de maior valor.

62. Terceiro esquema didático


Resumindo os esquemas anteriores, teremos:

Competência territorial ou de foro;


Competência
Relativa Competência em razão cio valor, do “mais para o menos”;
Competência pela situação do imóvel>em alguns casos.

Competência em razão da matéria;


Competência em razão da pessoa;
Competência^ Competência em razão do valor, do “menos para o mais”;
Absoluta Competência pela situação do imóvel, na maioria dos casos;
no “plano horizontal”;
no “plano vertical” ou
Competência funcional
recursal.

114
Capítulo XVI
MODIFICAÇÃO
DA COMPETÊNCIA POR
CONEXÃO, PREVENÇÃO
E PRORROGAÇÃO.
FORO DE ELEIÇÃO

Competência pela conexão, pela prevenção e pela prorrogação


Determinadas circunstâncias modificam, em casos concretos, a apli­
cação das regras gerais de competência em razão do valor e do território,
fazendo com que a competência para conhecer de determinada causa venha
a ser do juiz A, embora em tese o juiz competente devesse ser (ou conti­
nuar a ser) o juiz B (CPC, art. 102).
O CPC determina sejam distribuídas por dependência as causas, de
qualquèFnaturezi, quando se relacionarem, por conexão ou continência.
~com õTãrãJa ajuizada "(art. 253,1) e igualmente quando, após haver desis­
tido da ação, resolve a parte reiterar a demanda, mesmo que em litiscon-
sórcio com outros autores (art. 253, II). A norma busca inclusive evitar
possíveis futuros incidentes processuais, como conflitos positivos de com-
petência e requisições de processos pelo juízo já prevento.
. /’£.j2 jGM. , i''),r'
r> <P ^ í>c''
Competência pela conexão e pela continência ^
;;■.> ’ U^A
Vejamos as normas processuais: V ; ""
Ü
“Art. 103. Reputam-se conexas duas ou mais ações, quando
lhes for comum o objeto ou a causa de pedir
Art. 104. Dá-se a continência entre duas ou mais ações sempre^
que há identidade quanto às partes e à causa de pedir, mas o obj.eía.
de uma, por ser mais amplo} abrange o das outras ”.

115
Supõe-se, pois, na conexão, que estejam tramitando, perante diferen­
tes juízõsTA e B ,duas ou mais ações conexas, istoé, duas ações vincula­
das:" .. ....... ~
_a) pela identidade do bem da vida postulado, ou sei a, quando o pe-
dido mediato for o mesmo; ou ~'JS>S^ '°
b) pela identidade quanto à causa de pedir, quer a causa de pedir
remota, (reíativa'a.>uma..mesma relação jurídica), quer a causa de pedir
próxima (relativa aum am esm acondutaalegadamente^v|Q][&dQrà.^'3lrB~>"
to invocado).
Agrícola Barbi considera insuficiente o conceito do art. 103 do CPC,
apontando qnpAtambém existirá conexão^qiianrfo entre as partes ocorra
relação de acessório a principal; nos casos de denunciação da lide, serão...
conexas a causa “principal” e a causa onde manifestada a pretensão “re­
gressiva”; nos casos de reconvenção (CPC. art. 315) etc. (Comentários ao
CPC, 10. ed., Forense, n.’607, p. 347).
As causas podem ser reunidas, por economia processual, e até devem
sê-lo quandõTíecessário para evitar decisões eventualmente contraditórias
(art l 05 jTReünidasT^assim7 ãs' cãusã^no j mzo^Â^este passou a ser com-
petente para proFèisa^ãr^jTãlgá^as-ainbasT^e^ortatríõ^o juízo B foi reti­
rada a competência para j'ülgar'a'causa-remetida"aiD“jtíízo*X
Adverte Theodoro Júnior que, quando a causa de pedir envolve o
mesmo ponto controvertido, é irrecusável a possibilidade de os juízes’cfffêr "
rentes chegarem a conclusões diferentes e, em casos tais, “a conexão toma
obrigatório o julgamento comum e o juiz não terá a faculdade de reunir, ou
não, as causas conexas; terá o dever legal de ^ssTnTa.gri^ãH^mesmo de
ofício, como prevê o art. 105 do CPC” (estudo na revista Síntese, 37/25).
Todavia, como assentado na jurisprudência do Superior Tribunal de
Justiça, “não se impõe a reunião dos feitos quando um já estiver julgado,
ainda que pendente recurso” (3â Turma, REsp 134.864, ac. de 2-6-1998,
rei. Min. MenézèsDireito, DJU, 3 ago. 1998, p. 224).
Esta orientação veio ajserfkmada pela Corte Especial, em sessão de
l s-2-2000, através da Súmula 235)— “A conexãonão. determina a reunião
dos processos, se um deles já foi julgado"1.

1. A 2- Seção do STJ aditou que “a prolação de sentença por um dos juizes em


conflito~afástã a possibilidade de reunião dos feitos por conexão, pouco importando
èncontrar-se pendente no tribunal (^julgamento de agravo de instrumento em que se
discute a nulidade da citação” (CC 40.652, rei. Min. Castro Filho, j. 25-8-2004).

116
A conexão, escreveu José Frederico Marques, não é “um título espe­
cial de competência, como pretendem alguns, e sim uma das causas de
prorrogação, no processo civil. Como disse Hauss, a conexão provoca “la
jonction des procédures et une prorogation de juridiction’ {Instituições,
cit., v. I, n. 221 ).
A continência é uma forma especial de conexão, havendo entre as
demandas identidade no relativo às partes e à causa de pedir, porém o
objeto de uma das causas, mais amplo, inclui o da outra ou outras causas.
Como escreve Cândido Dinamarco, “relação de continência é relação de
continente a conteúdo, ou seja, implica parcial litispendência', porém,
pragmaticamente, a lei trata a continência no mesmo plano da conexidade,
furtando-se a impedir o prosseguimento simultâneo das duas causas àpèsãr
do parcial. t o in idem (litispendência parcial) e ãssociandoTeIa~Ôs mesmos ~
efeitos processuais que a conexidade ocasiona” (Instituições de direito
~'processual civil, Malheiros, 2001, v. II, n. 464).
As normas sobre conexão e continência pressupõem casos de com­
petência relativa; assim._£upando^e-qiie o iuízo A seja competente por
força de norma de competência absoluta, a circunstância de tramitar uma
causa conexa no juízo B, ainda que haja sido proposta anteriormente, não
irá prorrogar a competência Bo^juizo B, embora possa ocorrer que o juízo
~A, este sim, se~torne competente para ambas as demandasT
Nesta linha de pensamento situa-se Theodoro Júnior, ao afirmar que
“esse fenômeno de atração da causa conexa pelo juízo de competência
absoluta foi analisado por Andrioli, para quem, se^ju iz da primeira cau-
sa for absolutamente incompetente para a segunda, a prorrogação deverá
Perfeita para o juiz desta e não daquela..Haverá, então, uma inversãõTio
critério cronológico de determinação da compgtencia comum” (artigo na
revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil, 37/25-26).

(^ C o m p e tê n c ia pela prevenção
A prevenção não é propriamente um critério de “determinação” da
competência, e sim de “fixação” da competência. Devemos supor dois ou
mais juízos que, pelas regras gerais, seriam, em tese, igualmente compe­
tentes. Pela prevenção, apenas em um deles a competência é “fixada”,
tomando-se os demais incompetentes (v. o verbete n. 55).
Conforme Moacyr Amaral Santos, “o juiz que conhecer da causa, em
primeiro lugar, térá sua jurisdição preventaf...) A prevenção, portanto, firma,
assegura a competência de um juiz, já competente. Não é, pois, critério
determinativo da competência, visto que aquele juiz, conforme os critérios

117
determinaüyos da competência, ao conhecer da causa já era competente”
(.Direito processual civil, 2. ed., Max Limonad, 1965, v. 1, n.198).
O latim praevenire significa chegar antes: o juiz (rectius, o juízo) que
chegou primeiro, recebendo a causa ou o recurso, considera-se prevento.
Pela prevenção, concentra-se em um órgão jurisdicional a competência que
abstratamente pertenceria a dois ou mais, inclusive ci ele (Cândido Dinamar-
co, Instituições, cit., v. 1, n. 211). Mas, evidentemente, não haverá prevenção
se o juiz for absolutamente incompetente para julgar a causa, pois em tal
caso deverá, de ofício, ãfixmar sua incompetència~(CPC, art. ÍO )1' ^
O principal critério de prevenção é a citação válida (CPC, art. 219);
o juízo onde ocorreu a primeira citação válida toma-se o competente_gara_
julgar aquela causa, e também as demais causas eventualmente conexas..
~TSTXZr Seção, CC 155 J . 27-9-1989, rei. Min. Nilson Naves)".
Mas se as causas conexas correm em juízos diferentes, mas na mesmn
comarca, considera-se prevento aquele juiz que despachou em primeiro lugar
(art. 106). Trata-se de uma regra e de uma exceçlolTregfãTSTJ72^ Seção,
CCT60T5Zlte28-6-1990TíSrM ií^álvio de Figueiredo, RSTJ, 3:125).
Em todos os casos de reunião, os processos reunidos não perderão
sua identidade própria, “servindo a jünçãóüpenas para a tgcílrtaçgolia^
mstru<píõ"TT^ Outrossim, os processos são reunidos, más
como'não^cõrrêTnpoté?e^de questão prejudicial (art. 265, IV, do CPC),
nénHüm deles será~^üspensõ ao aguardõ^dã^êci^ao 13e^õuüxT(Luiz Gui-
IHerme Marinoni e outros, Manual cío procésso^ãê~conhecimento, 2. ed.,
Revista dos Tribunais, 2003, p. 55).
Nos tribunais, o desembargador ao qual orecurso foi distribuído fica
prevento pelo lançamento do relatório, e o revisõF^uãndõ"ã^e~ o'Téj^
- “visto*5"T6^wc€ssõ~(CrCrãxt552, § 3S). NolKEspTT:035:~3ècidlu o STJ-
pela nulidade do julgamêntõ~dò recurso que exige revisão, quando o .de­
sembargador, embora nele lançado seu “visto”, não participa da sessão (4a
Turma,TêrMínTÃthos Carneiro,
As demais regras de prevenção interna dos órgãos colegiados encon.-—
tram-se em seus regimentos: v. g., no STJ os arts. 71 e seguintes dispõem

1-A. As medidas cautelares meramente conservativas de direito, como a notifi­


cação, a interpelação, o protesto, a produção antecipada de provas, por não possuírem
natureza contenciosa, não previnem a competência para a ação principal. Com invo­
cação a precedente (REsp 59.238), decidiu a 2- Seção do STJ que “o procedimento
judicial meramente conservativo de direito não previne a jurisdição” (Emb. Decl. no
CC 40.451, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., j. 10-11-2004).

118
sobre as normas de prevenção da competência do relator ou do órgão
julgador. A norma mais importante determina a competência do ministro,
que haja sido relator em qualquer recurso ou mandado de segurança, para
todos os recursos posteriores oriundos do mesmo processo, tanto na ação
como na execução; caso o relator resulte vencido, a prevenção transfere-se
ao Ministro designado para lavrar o acórdão.

Competência pela prorrogação


Pela prorrogação, a competência de um juízo é ampliada, para_ahranr
ger determinada, caus.a-que,..pelasjcegras-gerais..nela não estaria incluída.
Essa ampliação pode ter origem em cláusula contratual e prévia: em
um contrato, os contratantes desde logo convencionam que quaisquer ações
dele oriundas serão propostas em um determinado foro, o “foro de eleição
mesmo que peias regras gerais õ fòTcTdevesse^eg-mitmJlCPC. art. 111 ;
CC, art. 42; Súmula 335 do STF)2.
Também pode ocorrer a projiQgaçãíipor acordo tácito, após propos­
ta a demanda, se o réu, podendo opor exceção de incompetência de, foro,
deixa de fazê-lo, assim aceitando o foro escolhido pelo autor (v. g., réu
domiciliado e n íReclféTceitTsêrdêm andado n^forõ de^Fõrtaleza).
jSfote-se que a.c.Qmpe.tência,(reiativa) “aceita” tacitamente pelo réu
na ação cautelar prenamtória, pelanão apresentação de exceção declina-
tória, toma o juízo prevento para a subseque.nte._ação principaL_onde a
exceção não mais poderá ser^admitida^REsp 489.485, 3â Turma, rei. Min.
Menezes Direito, ac. 26-8-2003). Todavia, jamais se tem como prevento
o juiz absolutamente incompetente. (Dinamarca. Instituições de direito
processual civil, Malheiros Ed., v. I, n. 331).
A prorrogação só pode alterar a competência relativa. não as regras
deCcompetência absolutcQpois estas, como já foi dito,^^Indisponíveis 7
A conexão também imvlic^amrm.gacão da competência do iuízo pre-
vento~ao qual sera remetida a causa conexa, que corria perante outro juízo.
Mas a regra da prevenção pode ser afastada pelaprevalência de algum.,
critério de competência absoluta. Por exemplo: corre uma causa de menor
valor perante o pretor e, posteriormente, vem a ser ajuizada causa conexa,

2. A questão da validade da cláusula de eleição de foro nas ações que visam


indenização pelo descumprimento de contrato, ou em que se discute a validade de
cláusulas contratuais ou a nulidade ou anulabilidade do próprio contrato , é examina­
da nos verbetes n. 64 e 82, aos quais remetemos o leitor.

119
de maior valor, perante juiz de direito. O juízo prevento seria o ütulado pelo,
pretor. Mas como a competência é absoluta do menos para o mais, e, pois,
não pode o juiz temporário julgar causa de maior valor, é afastada a pre­
venção, e ao juiz de^direito cabe o julgamento das causas conexas....
Vale notar, outrossim, que a competência aceita na ação cautelar
preparatória conduz à fixação de competência na s^seguente ^ãçãb prin-
cipaL_Assim decidiu~a 3a Turma doJSXJ^Se o réu não opuser a exceção
declinatória na cautelar de protesto, fica a competência prorrogada para a
a^cTprincipál Tndêmzatória, sendo intempestiva a exceção quando da
contestação desta última^ÇREsp 489.485, rei. Min. Menezes Direito, 3ã
Turma, ac. 26-8-2003).
No magistério de Cândido Dinamarco, uma vez prevenjxxojmzQ-ao-quai
a_demanda (preparatória) acessória houver sido distribuída, “essa prevenção
expande-se a todo ó~cbnjunto de causas interligadas, incluindo a principal”
(.Instituições de direito processual civil, Malheiros Ed., vri7nT331)7
Essa prevenção expansiva é, ensinou o processualista, “reflexo da
coordenação funcional entre dois ou mais processos, que constitui razão
suficiente pàra exigir que o mesmo juiz se encarregue do processo e julga-
mento das demandas interligadas (processo de conhecimento e processo
executivo; processo principal e processo cautelar etc.)” (ob. cit., n. 330).

;i§4^ Foro de eleição e contratos de adesão


Consoante dispõe o art. 1,1.1 do CPC. em se tratando de-competência
em razão do território e do valor (casos de competência relatiy^), podem,
as partes modificar as regras gerais de competência e eleger (= escolher)
"’o “fõrÓÔnãê serão propostas as ações oriundas de direitos e obrigações
o~ãcõrd^eve constarde contrato escrito e aludir expessãmente a detei:-
mina^ ^ ^ õ H o Iiijn d ic o (§ l s), sendo obrigatório para os herdeiros e su­
cessores das partes (§2^). ' ...
A validade da..cláu$iúajde^eleicão„deJorQ_s.uuõe.que ela não implique
privilégio injustificado em favor de uma das partes (dificultando.itoutra o
acesso^ à Justiçá)_ e,_não,Yenh^de^encontro anormas de ordem pública. O
pãcto de eleição de foro é geralmente instituído atendendo ao interesse de .
üm^dõsoDnlrãtantes. com O lvreanuênciadooutro. Por vezesAa benefício
3é ambos, cada um deles na previsão de que o outro possa mudar de do­
micílio e assim adquirir o direito de ser demandado no novo local dé resi­
dência, talvez em comarcaJ.ongínqua.
Se o réu, no entanto, for demandado nãojio foro de. eleição, mas no
foro de seu domicílio, em princípio não terá interesse em suscitar a exce-

120
ção de incompetência (v. o verbete n. 114) em defesa da fiel observância
da ^udídã^cla^ula. Mas esse racTõciníõ nèm sempre será aplicável^ por- „
quanto pode ocorrer que na comarca de eleição o réu disponha de melho­
res meios parJTde^ndH^i?._
E nos contrato de adesão, será legítima a cláusula de eleição de foro?
Mister inicialmente conceituar o que se entende como contrato de adesão.
Na definição de Orlando Gomes, em clássica monografia, o contrato
de adesão “é o negócio jurídico no qual a participação de um dos sujeitos
sucede pela aceitação em bloco de uma série de cláusulas formuladas
antecipadamente, de um modo geral e abstrato, pela outra parte, para
constituiro_coniejúdQjioimatÍ¥0-e-cd2rigadmaLdeJEutLirasj:elações concre-
'lãs”'(Contrato de adesão, Revista dos Tribunais, 1972, n. 1, p. 3). Note-se
bem: cláusulas formuladas “de um modo geral e abstrato”, ou seja, não
para um certo contrato com outro determinado contratante, mas para uma
seqüência ilimitada de relações jurídicas de natureza negociai, a serem
concluídas uniformemente com pessoas indeterminadas.
Ainda no magistério do insigne civilista, “o intento do predisponen-
te é obter, de número indeterminado de aderentes, a aceitaçãojpa^iva^dâs.
mesmas condições, de so rteque seja invariável o conteúdo de todas as
relações contratuais. A uniformidade é uma ex ig ên ciF ^ racioriãlizacão
da. atividade, econômica que ele se propõe a desenvolver. Tornar-se-ia
impraticável se, para exercê-la, houvesse de estipular os contratos pelo
método clássico” (Contrato, cit., p. 9).
No mesmo sentido menciona Caio Mário da Silva Pereira que, “quan­
do o homem do povo entra em relações com a empresa, não discute con­
dições nem debate cláusulas. A sua participação no ato limita-se a dar sua
adesão ao paradigma contratual já estabelecido, presumindo-se sua acei­
tação pela conduta que adota” (Instituições de direito civil, 5. ed., Forense,
v. III, n. 197).
Em última anális&^“o.quex.aracteriza o contrato de adesão é a ausên-
cia de liberdade contratual” (Amoldo Wald, Rev. jurídica, 95:109).

3. Se o demandante abdica do foro de eleição e propõe a ação no foro que pen­


sa ser o do domicílio do réu, este adquire legitimidade para opor exceção de incompe­
tência, indicando seu verdadeiro domicílio. A vedação contratual de optar o réu pelo
foro de seu domicílio torna-se irrita no momento em que o autor claramente mostra a
intenção de ajuizar a ação no domicilio do réu (1- Câm. Cív. do TJRS, RJTJRS,
S9:286).

121
Nos casos de contratos de adesão, a cogência da cláusula de eleição^
de foro poderá ser afastada. Cõmo está érfTvoto dõ"Mm. Nilson Naves
IS T JT ^ rS êç ã ó rc c 1.339, j. 14-11-1990): “A Súmula 335-STF, que repu-
ta ‘válidaM-jd/rnsula de eleição cio foro pãra~os"prõcessos oriitnãos do
contrato', tem aplicação, ao que cuido, naquelês~cãsõs de contrato onde._
predominacf^cíuiTibnb^as partes contratantes, oqu/nlo^foem rocãsç)do
cMmà"cio~^$ntratxTde ades j gi^3^.
O Des. Araken de Assis, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do
Sul, cita a observação de Croze-Morel sobre o perigo das cláusulas sobre
competência impostas em contratos de adesão, em que a liberdade de uma
das partes limita~se a aderir ou não a um regramento preestabelecido: *7/
est fréquent en pratique que, dans un contraí, soit insérée une clause qui
cleroge aux règles légales de compétence. Ces clauses sont d ’autant plus
dangereuses qu’elles sont insérées dans les contrats d ’adhésion, et fré~
quemment imposées à des consommateurs” (Procédure civile, Paris, PUF,
1988, n. 59).
Sob tais temperamentos, nos contratos de adesão o Superior Tribunal
de Justiça tem admitido, em várias situações^ aj)revalência do foro do~~
domicílio do réu, quando for este a parte presumivelmente mais “necessi­
tada”, sobre o foro resultante da cláusula contratual derrogadora das regras
gerais de competência. ”
Assim no CC 1.339, já citado (rei. Min. Nilson Naves), relativo ao
afastamento do foro de eleição nos contratos de seguro, podendo o segu-
fãdõvaler-se dasjegras gerais de competência. Também no CC 1.502 (rei.
Min. Hélio Mosimann), no sentido de que o foro de eleição não afasta o
foro do domicílio nos contrátõ?"dFlnteresse dos mutuários do Sistema
Financeiro de Habitação (Sálvio de Figueiredo Teixeira, Codigõãe Pro-'
cesso Civil anotado, 5.1xi., Saraiva, 1993, notas ao art. 111 do CPC).
Especificamente sobre o tema da aplicabilidade da cláusula de eleição
de foro quando se discute a própria validade do contrato (alegação de dolo
e coação), tal questão foi detidamente examinada na 4â Turma, no julga­
mento do REsp 305.950, inclinando-se três votos (Min. Barros Monteiro,
Cesar Rocha e Aldir Passarinho Jr.) no sentido da observância da cláusula,
ainda que a demanda se dirija à pretensão de declarar a invalidade do

3-A. A cláusula de eleição de foro é válida quando — ajustada entre pessoas


jurídicas — não resultar de uma relação de consumo (REsp 972.879, 3- Turma, rei.
Min. Ari Pargendler, j. 18-12-2007).

122
1
pactuado; os votos vencidos (Min. Sáivio de Figueiredo e Ruy Rosado)
eram fundados no argumento de que se cuidava de vícios anteriores à
formação do contrato (ac. de 25-2-2003, rei. orig. Min. Sãlvio; rei para o
acórdão Min. Barros Monteiro).
Em tema de arrendamento mercantil — leasing —, a 4~ Turma do
Superior Tribunal de Justiça, no REsp 27.122 (rei. Min. Athos Carneiro,
j. 17-11-1992), decidiu com a seguinte ementa:
“Competência. Arrendamento mercantil Contrato de adesão.
Cláusula de eleição de foro. Limitações à .sua aplicação. Em se
tratando de contratos de adesão, relativos a negócios pactuados nos
mais diversos pontos do território nacional por grande empresa que
se dedica ao arrendamento mercantil (‘leasing’), sobre a cláusula
impressa e praticamente imposta ao pretendente ao arrendamento,
devem prevalecer as regras de competência alusivas ao local do ne­
gócio e do pagamento das prestações”4.
A tese foi firmada pela 2â Turma no CC 21.433 (rei. Min. Sálvio de
Figueiredo, ac. de 27-9-2000), nos seguintes termos:
“Tratando-se de contrato de adesão, a declaração de nulidade
da cláusula eletiva de foro, ao fundamento de que estaria ela a difi­
cultar o acesso do réu ao Judiciário, com prejuízo para a sua ampla
defesa, toma absoluta a competência do foro do domicílio do réu,
afastando a incidência do enunciado n. 33 da súmula do STJ”.
Nestes termos, o magistrado escolhido no contrato de adesão pode
declarar de ofício ^ nulidade da cláusula e declinar da competência para o
Juízc^dõ^ro^Õ ^om O H odo réu, com p re v ^ i^ ja^
públicaque defineoçon^m M QrjIQj^ e garante sua_ade-
quada defesa em juízo (CC 19.301, rei. Min. Ruy Rosado, apud CC 30.283,
rei. Min. Nancy Andrighi, dec. de 31-9-2000). Assim, em contrato de
alienação fidnciária de automóvel, o foro de eleição nele previsto foi des-
considerado por importar especial dificuldade de acesso ao Judiciário pela
parte aderente, tendo a 21 Seção do STJ declarado comp^énte^Tnirzõ dõ~~
domicílio dõ corisümidõrTonde a financeira aliás possuía filial/CC 29.088",
reOImTWaldemãFZveiter, ac. de"27-9-200Õ)”
A 4- Turma do STJ, relator o Min. Sálvio de Figueiredo, decidiu sob
a ementa seguinte:

4. O acórdão no REsp 27.122 está transcrito, por sua ementa, no Anexo IV.

123
“I — A cláusula de eleição de foro inserida em contrato de
adesão é, em princípio, válida e eficaz, salvo:
a) se, no momento da celebração, a parte aderente não dispunha
de intelecção suficiente para compreender o sentido e as conseqüên­
cias da estipulação contratual;
b) se da prevalência de tal estipulação resultar inviabilidade ou
especial dificuldade de acesso ao Judiciário;
c) se se tratar de contrato de obrigatória adesão, assim entendi­
do o que tenha por objeto produto ou serviço fornecido com exclu­
sividade por determinada empresa.
II — A 2- Seção deste Tribunal houve por bem definir a com­
petência, em se tratando de contratos de adesão, sob a disciplina do
Código do Consumidor, como absoluta, a autorizar, consequente­
mente, o pronunciamento de ofício do juiz perante o qual ajuizada a
causa em primeiro grau, ao argumento da prevalência da norma de
ordem pública que protege o consumidor e garante sua defesa.
III — No caso, no entanto, de o próprio réu-devedor postular
pela validade da cláusula de eleição de foro, alegando que não terá
dificuldades em sua defesa, deve a mesma prevalecer” (REsp 225.866,
ac. de 9-11-1999).
Mais recentemente, em contrato de arrendamento mercantil, decidiu a
2ã Seção do STJ igualmente no sentido da nulidade da cláusula de eleição
de foro “inserida em gontfft o . a 4 esão _quando gerar maior__ônus para a
parte hipossufíciente defender-se em ação de reintegração de posse que en­
volva relação de consumo, em locai distante daquele em que reside” (CC
30.712, rei. Min. Nancy Andrighi, ac. de 26-6-2002, na íntegra em RSTJ,
162:221).
Cumpre assinalar que “não há contrato de adesão quando as partes
contratantes, sendo economicamente iguais, livre e conscientemente assi­
nam contrato concordando com a eleição de foro” (1âTurma, REsp 161.548,
ac. de 11 -5-1998, rei. Min. Garcia Vieira)5. Todavia, o simples fato de uma

5. Em ação de rescisão de contrato de arrendamento de tanque para armazena­


mento de leite, a 2a Seção desconsiderou cláusula de eleição de foro imposta em
contrato de adesão pela autora, grande empresa de laticínios, ante a nítida desigualda­
de entre as partes e a invencível dificuldade de acesso ao Judiciário pelo réu, pequeno
produtor rural, residente em comarca de outro Estado (CC 31.227, rei. Min. Ruy Ro­
sado, ac. de 25-4-2001, RSTJ, 151/223-224).

124 *
empresa de menor porte litigar com uma de grande porte não caracteriza
à hipossuficiência necessária à declaração de nulidade do foro de eleição;
no caso, ambas~^~empresâs~Tem capacidade financeira de demandar em
foro diverso de seus domicílios (REsp 471.921, 3âTurma, rel. K^KnSTáncy
Andrighi,]. 3-6-2003)6e7.

65. Contrato de adesão e possibilidade de o juiz declinar de ofício


de sua competência
Como foi dito, p foro de eleição é admissível nos casos de compe­
tência relativa e, pois, em linha de princípio seria defeso ao juiz suscitar
de ofício sua incompetência.
Está no ennncifldd^3Trl^ 5\nrinnÍZriZsT^
\ “3~3. A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício”.j
A regra era, de início, rigorosamente aplicada no Superior Tribunal
de Justiça. Assim, v. g., no REsp 162.200 (3âTurma, ac. de 12-5-1998, rei.
Min. Waldemar Zveiter), constando da ementa:

6. Em contrato á<zfranquia, sendo uma das partes a McDonald’s, foi considera­


da válida a cláusula de eleição de foro por se cuidarem, franqueada e franqueadora, de
empresas de grande porte (REsp 545.575, 4a Turma, rei. Min. Cesar Rocha, ac. 5-9-
2003). Também em contrato para venda de equipamento médico de grande valor,
firmado entre pessoa jurídica e empresa estrangeira, prevalecerá o foro livremente
pactuado pelas partes, no caso vara cível do Foro Central de São Paulo (CC 35.774,2a
Seção, rei. Min. Pádua Ribeiro, ac. 24-3-2004).
7. A 3a Turma do STF considerou inválida cláusula de eleição de foro inserida
em contrato de mútuo avençado por microempresa, com emissão de cédula de crédito
comercial, garantido por alienação fiducíária, aplicando-se assim o art. 6e, VIII, do
CDC (REsp 468.148, rei. Min. Menezes Direito, ac. 2-9-2003, Boletim STJ, 3-3-2004).
Mas devem ser processadas no foro de eleições as ações vinculadas a contrato de
prestação de serviços de acesso à Internet, pois a natureza da obrigação afasta a hipos­
suficiência dos firmatários (CC 40.220, 2- Seção, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., ac.
11-2-2004).
Todavia, não constitui abuso a eleição de foro pactuada por hospital, para aqui­
sição de sofisticados equipamentos de diagnóstico, tendo o comprador condições para
exercer sua defesa no foro eleito (CC 39.794,2a Seção, rei. Min. Gomes de Barros, ac.
25-8-2004). Ainda nesse sentido, de validade do foro de eleição, as ações decorrentes
de arrendamento mercantil de aparelho de diagnóstico médico de elevado valor, por
inaplicável à espécie o argumento da hipossuficiência dos devedores (CC 35.101, rei.
Min. Aldir Passarinho; CC 32.270, rei. Min. Ari Pargendler; Ag. Inst. 505.758, 3ã
Turma, rei. Min. Menezes Direito).

125
“A possibilidade de o juiz, de ofício, declarar-se incompetente,
ou suscitar conflito negativo de competência, limita-se aos casos de
incompetência absoluta. Incidência da Súmula 33/STJ”.
Todavia, desde aigum tempo ponderáveis reservas vinham sendo
opostas por vários Ministros, que entendiam a Súmula 33 inaplicável
quando “a competência do foro de eleição decorre de cláusula nula de
pleno direito, verificável liminarmente” (ac. da 4- Turma, REsp 61.457,
rei. Min. Fontes de Alencar, citado no voto do Min. Ruy Rosado, no jul­
gamento do REsp 120.673, ac. de 26-8-1997, RSTJ, 104:344). Sublinhou
o Min. Ruy Rosado, no aresto acima mencionado, que neste imenso país
torna-se praticamente impossível a um reu. domiciliado_em longínqua
comarcacTo interior, constituir advogado para apresentar a exceção decli-
natória de foro em São Paulo ou no Rio de Janeiro: assim, “a exigência
formal da prévia manifestação do interessado com a provocação do juízo
para a declinatória de foro,dg.ve.,ce4.gr. .Rasso..à-neae^sidade de garantia da
norma prevalente”.
Assim^a proibição da cláusula, em contratos de adesão, passou a
ser considerada regra deMidejn^úbUca^cuia-infrinqência conduz à nuli­
dade absoluta. decretável de ofício.
Tais argumentos por fim encontraram explícita adesão pelo STJ
quando do CC 21.540, julgado pela 2- Seção em 27-5-1998, rei. Min. Ruy
Rosado, figurando da ementa a afirmativa de que
“O juiz do foro escolhido em contrato de adesão pode declarar
de ofício a nulidade da cláusula e declinar de sua competência para
o juízo do foro do domicílio do réu.
Prevalência da norma de ordem pública que define o consumi­
dor hip ossuficiente e garante sua d e fe s a e n T ] ü íz o (acórdao no
Anexo IV).
A nova e louvável orientação foi reiterada no CC 22.252, ac. de 12-
8-1998, quando a 2â Seção afirmou que
“E p ossível ao juiz>considerando abusiva a cláusula de eleição
de foro quando resultar manifesta dificuldade para a defesa do réu,
notadamente nas avenças regidas pelo Código de Defesa do Consu­
midor, reconhecer não só a nulidade da referida cláusula eletiva de
foro, como também, de ofício, declinar de sua competência ” (DJU,
5 out. 1998, rei. Min. Barros Monteiro).

126
Em ação de alienação fiduciária, e com a nota de que a eleição de
foro diverso daquele em que domiciliado o devedor a este acarreta dificul­
dade notável para exercer sua defesa, mesmo porque a demanda se inicia
com a apreensão do bem e é exíguo o prazo para impugnação, os integran­
tes da 2- Seção, no CC 21.331, p. m. v., deram pela competência do juízo
do domicílio do réu, ante a “nulidade da cláusula de eleição e reconheci­
mento de que, tendo em vista o disposto no Código de Defesa do Consu­
midor (arts. I 2 e 69, VIII), possível o reconhecimento, de ofício, da incom­
petência. Inaplicabilidade da Súmula 33” (ac. de 11-11-1998, rei. desig.
Min. Eduardo Ribeiro).
JRvidente. todavia, que quando se cuide de pessoas jurídicas de maior
porte e pujança econômica, cujos dirigentes dispõem de experiência no"
trato dos negócios e de bom assessoramento advoçatício, com agências e
estrutura de pessoal capaz de atender demanda fora de sua sêdeTpõHe^eT
em principio, admitir a eficácia da cláusula de eleição de foro (TJSC, Ag.
Inst. 8.658, rei. Des. João José Schaeffer, ac. de 17-4-1995, Gênesis— Re­
vista de Direito Processual Civil, 72:385).
A 3~ Turma do STJ, em disputa entre concessionária de.veículos
sediada noTnterior do^RN ellmaniiultinacíonal automobilística, p. m. v.,
julgou válida cláusula contratual elegendo o foro de São Caetano-SP, por
^considerar a concessionária como empresa de mèdio porte, não quaíííica-
da como “consumidor final” e com capacidade financeira para sustênfár '
causas em comarca longínqua (REsp 280.224, rei. orig. Min. Castro Filho,
rei. desig. Min. ÂrTPargendler, ac. de 7-3-2002). Confessamos dúvida
quanto ao acerto desta decisão, porquanto, embora a não incidência do
CDC, a evidente desigualdade entre os contratantes toma leonina a cláu­
sula, não “eleita” mas sim “imposta” pelo mais forte.
Vide, outrossim, com amplo debate, o elucidativo aresto da 2- Seção
no CC 17.735, j. 13-5-1998, de quefoi relator designado o Min. Costa
Leite, publicado em RJ STJ, 114:175, bem como o aresto da 4a Turma, no
REsp 201.195, caso de contrato de alienação fiduciária, em cujo voto
condutor consta que cabe ao juiz, afastando a cláusula de eleição de foro.
“declinar de ofício de sua competência, em favor do foro de domicílio do
réü^ po^ú^mH3e7êgrã^dê ordem pública de proteção, prevalecente tanto
sobre a cláusula contratual como sobre a norma que exige a provocação
da parte em"cãsos"dé"competência relativa” (ac. de 7-12-2000, rei. Min.
Ruy Rosado, na íntegra em RSTJ, 153:351).
Tratando-se dé^rvíço^W süpW tFem ãnufehcaõ^e sóftwãrepenten-
deu a 3- Turma do STJ que, para a determinação do foro competente para_

127
julgar lide entre pessoas jurídicas, deve ser afastada a cláusula contratual
que prevê foro outro qu^Mòl^dÕdomicílio do autor da demanda, operan­
do-se apllcaçao^tenslvadoconceito dexonsumidor (arts. 29 e 101 , 1, do
CDC); no caso, a recorrente era “consumidora” porque “destinatária finai”
dos serviços utilizados para controle interno de sua produção de alimentos,
e, pois, os serviços não eram repassados a seus clientes (REsp 488.274, 3~
Turma, rei. Min. Nancy Andrighi, j. 22-5-2003)8e9.
A 3- Turma igualmente considerou aplicáveis as regras sobre com-
petência absoluta aos contratos de adesão submetidos às rtormas do Siste­
ma Financeiro da Habitação e firmados por Associação de Poupança e
Empréstimo (Ag. Reg. no Ag71mC~4633'6Tr^^M^TM'Qnc'zes~fyifeif:õT].
6 ^2 0 0 3 ). ~
Em contrato de franquia, elaborado uniiateralmente pela franquea-
dora. a 2- Seção do STJ reconheceu a abusividade da cláusula de eleição
de foro na comarca de São José dos Campos-SP, considerado o alto poder
economico da franqueadora e as condições do franqueado, domiciliado em
-RS, “afirmada nos autosajmpossibilidade do franqueado, efetuar,
regular defesa no Juízo contratualmente eleito, face sua difícil situação
econômica” (CC 32.877, rei. Min. Menezes Direito, ac. de 26-2-2003).
Esse posicionamento do Superior Tribunal de Justiça consoa. como
evidente, com o princípio fundamental da plenitude do acesso à Justiça e

8. A 4- Turma, apreciando o REsp 196.035, rei. o Min. Sálvio de Figueiredo,


novamente refere que nos contratos de adesão, regidos pelo CDC, é absoluta a com­
petência do foro do domicílio do réu, autorizando o pronunciamento de oficio do juiz,
“ao argumento da prevalência da norma de ordem pública que protege o consumidor
e garante sua defesa em juízo”, esclarecendo além disso que o tema poderá ser realça­
do sob o aspecto constitucional, de garantia do pleno acesso ao juízo (ac. de 28-4-1999,
DJU, 7 maio 1999, p. 208). Assim também a mesma 4- Turma, no REsp 190.878, rei.
o Min. Cesar Rocha: “A nulidade da cláusula eletiva de foro em contrato de adesão,
que coloque o consumidor em desvantagem exagerada, causando prejuízo para sua
defesa, por tratar-se de questão de ordem pública, toma absoluta a competência, don­
de a possibilidade de declinação de ofício” (ac. de l 2- 12-1998, RSTJ, 119:499).
9. A Observa Alexandre Atheniense que, em negócios realizados por meio de
contrato eletrônico de adesão, a cláusula de eleição de foro “deve ser qualificada como
abusiva se dificultar sensivelmente o acesso à justiça ou o direito de defesa”; assim será
ilícita a cláusula de eleição de foro estrangeiro, diverso daquele de residência do con­
sumidor, não obstante o comércio através da rede seja dirigido ao mercado brasileiro,
com textos em português “e que no entanto, por estar hospedado em servidor estrangei­
ro, estabelece cláusula contratual dispondo que o foro competente para dirimir a lide
não seria o brasileiro, mas outro qualquer” (artigo na rev. Magister, v. 2, p. 94-5).

128
rio confraditóricL-garantindo a eficiência do processo e a defesa do direito
do contratante economicamente mais frágil10611. :“

(^5-Á^ Nova redação dos arts. 112,114 e 305 do CPC


Assim, na trilha da jurisprudência dominante, e conforme a Lei n.
11.280, de 16-2-2006, os arts. 112 e 305 do CPC vieram a incorporar
parágrafos, e o art. 114 foi alterado, com a redação seguinte (as “novidades”
estão em itálico):
“Art. 112. Argúi-se, por meio de exceção, a incompetência
relativa.
Parágrafo único. À nulidade da cláusula de eleição de foro, em
contrato de adesão, pode ser declarada de ofício pelo juiz, que de­
clinará de competência para o juízo de domicílio do réu”.
‘Art. 114. Prorrogar-se-á a competência se dela o. juiz não
declinar na forma do parágrafo único do art. 112 desta Lei ou se o
réu não'opuser exceção declinatória nos casos e prazos legais.”
“Art. 305. Este direito pode ser exercido em qualquer tempo,
ou grau de jurisdição, cabendo à parte oferecer exceção, no prazo de
15 (quinze) dias, contado do fato que ocasionou a incompetência, o
impedimento ou a suspeição.

10. Conforme reiterou a 4a Turma, “é permitido ao juiz declinar, de ofício, de


sua competência em ação intentada contra o consumidor, quando a aplicação da cláu­
sula eletiva de foro vier a dificultar gravemente a defesa do réu. Precedentes” (REsp
299.402, rei. Min. Barros Monteiro, ac. de 26-6-2001). Também assim a 3aTurma, com
o asserto de que a nulidade da cláusula que coloque o consumidor em desvantagem
exagerada há de ser reconhecida, não só no plano do direito material, mas também no
processual, pois ineficaz será a proteção deferida, com o reconhecimento de seus di­
reitos, se a defesa em juízo pode ser sensivelmente prejudicada. Destarte, cabível a
declaração, de ofício, da nulidade da cláusula em que se preestabeleceu foro, bem
como poderá o juiz declinar da competência, mesmo sem prévia provocação (CC 20.969,
rei. Min. Eduardo Ribeiro).
11. Tendo grande empresa de laticínios proposto, no foro de eleição, ação de
rescisão de um contrato de adesão para locação de tanques de armazenamento de leite,
entendeu a 2a Seção do STJ que a relação entre a indústria e seus fornecedores de
leite é nitidamente de subordinação, visto que a empresa estabelece as bases do negó­
cio, o preço, qualidade e quantidade etc.; assim, não há como o estípulante inserir no
contrato a cláusula de eleição do foro da capital, com nítida desigualdade entre as
partes e invencível dificuldade de acesso à Justiça do pequeno produtor rural, residen­
te no interior de outro Estado (CC 3 1.227-MG, rei. Min. Ruy Rosado).

129
Parágrafo único. Na exceção de incompetência (art. 112 desta
Lei), a petição pode ser protocolizada no juízo de domicílio do réu,
com requerimento de sua imediata remessa ao juízo que determinou
a citação
Cabem, no azo, breves observações.
A “nulidade da cláusula de eleição de foro”, guando avencada em
contrato tipicamente de adesão (pojtanto^dáusula-!!iin.posta”, e não cláu­
sula “eleita”), e destarte ofensiva ao princípio do contraditório, não apenas
p o d e ^ a l ^ i ^ è ^ dècIãmdã^dFWícTõ^^Õjuíz; e como esta declaração ,
denülidàde impíicã~ã^fínn ^ ã o da incompetênciadõlnSfflstrado “eleito”,
.a este incumbe determinar a remejs a d c ^ ^ o com-
petente de conformidade com as regras gerais.
Não o fazendo — art. 114 —, presume-se que não encontrou nulida-
de na aludida cláusula, e portTntcTa competência permanece como está.

“prorrogação”12.
Vale observar que, se o demandado oferece normalmente sua contes­
tação, e não susciTa à~quêstãa impende presumir que^Tòro eleito não
prejudicou a defesa ,e,. portanto, a cláusula de eleiçãojiãoestá eivada de
nulidadei(pas de nullité sans grief).
Pelo aditamento ao art. 305, o réu, citado por precatória à comarca
onde reside, por vezes longínqua, não mais necessita constituir advogado (o
que fãlvezThe seja impossível, ou muito difícil pela sua situação.de hipog^
suficiência) para oferecer a exceção de incompetência no foro onde propos-
tà a demanda. Pode agora protocolizar sua petição nos autos da precatória
citatória, ou, se já devolvida, entregar a petição e protocolizá-la diretamente
0 2 ÍFÍ5° deprecado; e ao juízojl.emec.adQjiuinnrirá_providenciar najmedia-
ta. remessa do expediente ao juízo deprecante. Como refere Luiz Guilherme
Bondiõíi7utrata-se de salutar iniciativa, que permiteaojm T^fêndèrseus
^interesses num primeiro momento sem se deslocar de seu domicílio”-! ^
novo CPC — a terceira etapa da reforma, Saraiva, 2ÕÕ6, p. 209).

12. Como disseram Luiz Rodrigues Wambier et al., “o juiz somente deverá de­
clarar, ex officio e antes da resposta do réu, a nulidade da cláusula de eleição de foro,
quando as circunstâncias fãticas determinantes desta nulidade estiverem evidentes, e
puderem ser extraídas da própria petição inicial. Havendo dúvida, deverá o juiz aguar­
dar a apresentação de exceção pelo réu” (Breves comentários à nova sistemática
processual civil — 2, Revista dos Tribunais, 2006, p. 21). A respeito, vide Arruda Alvim,
revista Magister v. 20, p. 15 e s.

130
Capítulo XVII
OUTRAS CLASSIFICAÇÕES
DA COMPETENCIA

Podemos, ainda, classificar a competência em:

66. Competência plena


Em uma comarca provida de apenas uma vara, ao respectivo juiz
titular é atribuída competência para processar e julgar, em pnmeirãlnsfarF
cia, todas as causas propostas naquele foro; tem assim competência plena,
ou cumulativa. ~ ’ ------------------
Assim também em comarcas providas de duas ou mais varas, quando
todas as causas forem distribuídas indistintamente a todas as varas~ '

67. Competência privativa


Ocorre quando a lei atribui ào órgão julgador o conhecimento apenas
de déíêrrmnããàs causas, quer em razão da matéria, quer em razão do valor. "
Nas capitais dos Estados existem geralmente varas privativas dos
feitos concernentes à Família e Sucessões; dos feitos concernentes a Re­
gistros Públicos, à Fazenda Pública etc.
De outra "parte, a competência dos Juizados Especiais estaduais,
embora opcional para o autor, é privativa em razão da matéria e do valor:
somente lhes cabe conhecer determinadas causas, e as causas d ê valor não "
excedente a quarenta vezes o salário mínimo — Lei n. 9.099, de 26-9-1995,
art. 3e. Nos Juizados Especiais Federais a alçada é de sessenta vezes o
salário mínimorsob competência absoluta (Lein. 10.259, de 12-^^20tTÍ7
art. 3e, caput, e § 3e).
Em segundo grau de jurisdição, e também no Superior Tribunaljle
Justiça, as Câmaras ou Turmas podem ser especializadas em razão da
matéria, e com frequência assim ocorre. Dou\exêmpio| no STJ, os feitos
relativos a tributos de um modo geral, à responsabilidade civil do Estado,

131
à desapropriação incluem-se entre os de competência da Ia Seção (forma­
da pelas l- e 2a Turmas); os feitos relativos à famüia e sucessões, ou a
falências e recuperácao de empresas inciuem-se entre os de competência
da 2a Seção (3a e 4- Turmas); os feitos relativos a servidores públicos civis
e militares e à locacão predial urbana incluem-se entre os de competência
.da 3â Seção (5a e 6- Turmas).
O Código de Processo Civil é, ainda, expresso (art. 92) em que so­
mente juizes de dírêtfopoã&m processar e jujgar o_'‘processo de insolvência”
f.execncaTTliroTi^ ^ devedor insolvente, CPC. arts. 748
e s .) 1 e as ações concernentes ao estado e à capacidade da pessoa (v. g.,
ação cte investigação de paternidade, ação de interdição).

68. Competência comum. Competência exclusiva e competência


concorrente
Em contraposição ã_competência privativa, aos demais iuízos toca a
competência comum, residual. As Varas Cíveis comuns, v. g., recebem todos
_os processos cíveis não expressamente atribuídos às varas privativas.
Podemos outrossim distinguir: "
1. A competência exclusiva. em que o autor deve propor a demanda
.em determinado foro: a ação reivindicatória do imóvel deve ser proposta
no foro da situação do imóvel (art. 95); na ação de cumprimento, o foro
será o do local onde a obrigação deve ser satisfeita (art. 100, IV, d).
2 . A competência concorrente por eleição do autor: v. g.. na indeni~_
zação por acidente de trânsito a ação pode ser proposta no foro do domi-
dlio do autor, no foro do local do fato (art. 100, IV, parágrafo único), ou,
ainda,no foro de domicílio do réu.
3. A competência concorrente sucessivamente, em que o segundo
foro é subsjdiáriòTv. g7f õ”fõro gerãL nas ações pessoais e nas reaiTmofiP"'''
liárias, é o j c n ^ desconhecido o paradeiro do réu, será
demandado no dônMcflróliõW£or(ãfr"94Tseu § 2~).

1. Segundo Pontes de Miranda, “a referência a processo de insolvência abrange


as ações declaratória, condenatória, constitutiva e executiva, quer concernentes à con­
cordata, ao concurso civil ou comerciai de credores, quer a qualquer outra medida,
como a de liquidação” (Comentários ao Código de Processo Civil, cit, t. 2, p. 203).
Contra, no sentido de que a referência do art. 92,1, só abrange o processo de insolvên­
cia previsto no Código de Processo Civil, foi o saudoso Agrícola Barbi (Comentários, \
cit., v. 1, n. 510).

132
69. Competência originária e competência recursal
A maioria das demandas sobe ao conhecimento dos Tribunais em
grau de recurso, quer recurso interposto contra sentença (apelação), quer
recurso interposto contra decisão interlocutória (agravo).
_ As causas, normalmente, têm .origem.. sãojpmp.ostas perante órgão
judiciário de primeira instância ( 1~ grau de jurisdição), assim assegurando
o “duplo grau de jurisdição”. Excepcionalmente, pela relevância de certãs
demandas, em razão da matéria ou em razão da qualidade das partes, a
causa é desde logo proposta perante o juízo colegiado, perante o TriBunair
causas de competência originária dos Tribunais. "
Assim, é de competência originária do Supremo Tribunal Federal
julgar o mandado de segurança contra ato do Presidente da República (CF,
“art. ÍIT2~ 1, ^jjliecom petêriciaorigmáriaci^Superior Tribunal deJusriçã
julgar mandado de segurança contra ato de Ministro de Estado (CF, art
105,1, by, de competência originária de Tribunal RegiõnâlT^êHerallülgar
os mandados cie segurança e os habeas data contra ato do próprio Tribu­
nal ou de Juiz federal (CF, art, 108,1, c); de competência originária dê
qualquer Tribunal o julgamento das ações rescisórias contra seus próprios
acórdãos.

70. Classificação de Chiovenda


Giuseppe Chiovenda, após definir como competência de um Tribunal
“o conjunto das causas nas quais pode ele exercer, segundo a lei, sua ju­
risdição”, assim enquadra os critérios de determinação da competência:
Critério objetivo — extraído ou da natureza da causa ou do
valoràa causa; “ ~ ' --------—
Critério funcional — v. g., juizes de 1- e 2a graus de juris­
dição;
Critério terrjtoriaL^jfoxum domicilii, forum rei sitae, forum
contrqctus, forum hereditatis, forum destinatae soLutiÕ-
ms etc.
Segundo o grande mestre, extrai-se o critério objetivo ou do valorjia
causa (competência por valor), ou da natureza da causaj^competência por
matéria).
O critério funcional extrai-se das exigências_especiais e da natu-
reza especial “das funções que se chama o magistrado a exercer n u m '
processo”.

133
O critério territorial “relaciona-se com a circunscrigão territorial
designada à atividade de cada órgão jurisdicional. Às várias causas da
mesma natureza são designadas a juizes do mesmo tipo, com sede, entre­
tanto, em lugares diversos, e a designação depende de circunstâncias várias,
ou do fato de residir o réu em determinado lugar (forum domicilii), ou de
haver-se“contraído a obrigação em dado lugar (foram contractus), ouH3r
achar-se em dado lugar o objeto da lide {forum reisitaé)”2.

2. Instituições, cit., v. 2, n. 173, p. 213-5.

134
Capítulo XVIII
REGRAS DE COMPETÊNCIA

71. Foro do domicílio do réu


Já vimos que, como regra básica, a competência territorial é deter­
minada pelo domicílio do demandado?— actor sequitur forum rei, nos
termos do (art. 94 do Código de Processo Civili)
“A ação fundada em direito pessoal e a ação fundada em direito
real sobre bens móveis 'serão propostas, em regra, no foro do domicílio
do réu ‘
\ É o foro^eraÒ centrado no local jonde o réu for domiciliado\confor-
me o art. 70 do Código Civil) “O domicílio da pessoa natural é o lusar
onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo”. Mas se a
^gmanda^versar relações de ordem protissionaf também seráconsiderado
domicílio o lugar onde exercida a profissão (CC, art. 72).
Assim, uma ação anulatória de um contrato por vício de consenti­
mento (CC, art. 171, II), ou uma ação de reivindicacão-de ■umj/.eículo.
deverá o autor propô-las na comarca onde for o réu domiciliado. Essa
competência é relativa: sé a demãndá for proposta em outro foro, e o réu
jnão opuser exceção declinatória (CPC, art. 114), considerar-se-á prorro-
gada a competência do juízo onde a demanda foi ajuizada.
O art. 94, em seus parágrafos, dispõe quanto aos/casos em que o réu
tiver mais de um domicílio, ou for incerto seu domicílio, ou tiver domicí-
lio no estrangeiro*..,lAjpluralidade de domicíIíos_do..réu permite ao autor a
opção por qualquer deles. Incerto o domicílio do réu, será demandado onde
for encontrado (local de mera residência) ou no foro do domicílio do autor;
trata-se de foro concorrente, a critério do demandante.

1 HnminiHaHn e residente o réu no estrangeiro, e em sendo competente a


autoridade judiciária brasileira (CPC, arts. 88 e 89), a açao será proposta no tõrodo
'dõmjciíio dcTàütor; se o autorfor domiciliado e também residente tora do íjraslt7ã~SÇ'ãTr~'
“será proposta em qualquer foro” (art. 94, § 3S, infine), notando-se. entretanto, niie.em
tais casos comumente incidira o Toro previsto nó art. 100, IV, d, ou 100, V, a, e pará­
grafo único. " "

135
Se o demandante desconhecer o domicílio do réu, irá demandá-lo no
domicílio dele, autor (com citação edital — art. 231, II),. naturalmente
facultado ãó réu opor a ^exceção decíinãtoriã^intoro. '
A pluralidade de réus, com domicílios em diferentes comarcas, per­
mitirá ao autor escolher o foro de domicílio de qualquer urn dos deman­
dados (art,M ^ A 5)2. ■ '

72. Competência nos casos de Foros Regionais


Em algumas metrópoles de intenso movimento forense, buscou-se
uma descentralização mediante a criação de “varas distritais”, atualmente
“Foros Regionais”. Assim em São Paulo, em Porto Alegre, em Brasília, no
Rio de Janeiro. De logo surgiram dúvidas sobre se a competência desses
“foros” era absoluta ou relativa, tendo em vista réus domiciliados na mes­
ma comarca mas com residência na área de outro foro regional ou do foro
centralizado, ou bens situados na mesma comarca mas em outra área que
não a do foro regional onde a demanda fora ajuizada.
A inclinação prevalecente é a de que, na hipótese, não se cuida pro­
priamente de uma competência de foro, mas de uma competência de juízo,
afirmando-se seu caráter absoluto3.
Nesse sentido o magistério de Arruda Alvim: “A competência dos
foros regionais, no que diz respeito à matéria (curialmente) e ao valor
(igualmente) é absoluta, no sentido de não admitir a preferência pelo foro
central, em detrimento de um dado foro regional...(omissis)... A existência
das varas e dos foros distritais e, hoje, dos foros regionais, sempre é, clara­
mente, decorrente de razões de ordem pública, no sentido de: a) distribuir
melhor a Justiça em si mesma, numa cidade de dimensões gigantescas, e

2. A teor do art. 94, § 39, a ação será proposta no foro do domicílio do autor, caso
o réu não tenha domicílio nem residência no Brasil. Todavia, nos casos de litisconsór-
cio passivo, caso algum(uns) dos réus mantenha(m) domicílio no exterior, mas os
demais no território nacional, a ação deverá ser ajuizada no Brasil, no foro de domicí­
lio do réu, ou de algum dos réus aqui moradores. Como referido na ementa do aresto
proferido no CC 29.684, 2- Seção, reL Min. Barros Monteiro, j. 11-10-2000, a dispo­
sição do art. 94, § 3e, apenas se aplica se todos os réus tiverem domicílio no exterior.
3. Nesse sentido aresto da 4- Turma do Superior Tribunal de Justiça, no REsp
20.122, rei. Min. Athos Carneiro, sob a ementa: "Foros Regionais. Competência ab­
soluta. Ação de despejo por falta de pagamento. Anulação apenas da sentença profe­
rida no juízo incompetente. Recurso especial não conhecido”. Também REsp 127.082,
4- Turma, j. 13-4-1999, rei. Min. Sálvio de Figueiredo; REsp 478.802, 3- Turma, rei.
Min. Menezes Direito, j. 6-6-2003.

136
sem que essa estrutura fosse passível de fácil alteração; b) a finalidade
dessa distribuição, além de dizer com a própria organização do Poder Ju­
diciário, em si mesmo, colima proporcionar um acesso mais cômodo à
Justiça, com vantagens para todos os jurisdicionados” (.Manual de direito
processual civil, 10. ed., 2006, Revista dos Tribunais, 1. 1, n. 96, p. 319-20).
Cândido Dinamarco, lembrando que a lei federal relativa ao proces­
so prevalece sobre as leis estaduais de organização judiciária, apresenta
ponderáveis distinções, e encerra com o asserto de que a competência das
varas dos foros regionais é territorial, e portanto sempre relativa e prorro­
gável; mas, mesmo assim, “os tribunais vêm decidindo, em sentido dife­
rente, porque tolhidos pelo empenho em descentralizar” (.Instituições, cit.,
v. 1, n. 335-7)4.
A orientação dominante é realmente a de não admitir a “eleição de
foro” no alusivo à competência dos foros regionais. Assim, no entendimen­
to de Cássio Scarpinella Bueno, a competência dos foros regionais, tendo
sido instituída com vistas a uma melhor distribuição dos processos em dada
comarca, assume natureza absoluta, portanto as partes não podem dispor a
respeito: “O que é possível é a escolha do foro no sentido de ‘comarca’. A
repartição de competência na comarca, seja no que diz respeito ao território
(foros regionais) e no que diz respeito aos juízos, é matéria de ordem pú­
blica e, portanto, indisponível às partes e ao próprio magistrado” (Curso
sistematizado de direito processual civil, Saraiva, v. 2, t. 1, 2007, p. 47).
Interessante observar que, em muitas metrópoles, uma vez fixada a
competência do foro regional, neste estão sediados juízos privativos. Em
Porto Alegre, v. g., nos Foros Regionais, encontram-se varas privativas
Cíveis, Criminais e de Família e Sucessões; já as varas privativas dos Fei­
tos da Fazenda Pública, de Falências, dos Registros Públicos são compe­
tentes em todo o território da comarca.
Notemos ainda, com vistas à questão da competência da Justiça
Federal, que a 3~ Seção do STJ firmou entendimento, em maio de 2005,

4. Como noticiado na MC 1.756, da qual foi relator o Min. Waldemar Zveiter, a


10a Câmara do antigo 2fi TACSP julgou que “a competência dos Foros Regionais é
absoluta, dentro da comarca da Capital, não se podendo sobrepor a ela a escolha feita
do foro central de São Paulo, por se tratar de matéria prevista nas leis de organização
judiciária do Estado, insuscetíveis de alteração pela vontade das partes”. No REsp
31.518, do qual foi relator o Min. Adhemar Maciel, DJU, 28 jun. 1993, o STJ julgou,
aliás, que o foro de eleição se refere à comarca e não ao juízo ou divisões internas (foro
central e foros regionais), mormente não comprovado prejuízo.

137
no sentido de que a competência da vara federal existente na comarca
abrange igualmente a área dos foros distritais ou regionais vinculados à
mesma comarca: “não estamos diante da delegação de competência do §
3a do art. 109 da CF, não se aplicando a Súmula 3 desta Corte de Justiça”
(CC 43.033, rei. Min. Arnaldo da Fonseca, j. 11-5-2005). Sucederam-se
decisões análogas.

73. Foro da situação da coisa (CPC, art. 95)


Quando o conflito interRssea.-tra7.ido a juízo. versar sobre coisa
móvel,'&demanda será proposta no foro do domicílio do réu (CPC, art 94,
caput). E caso de competência relativa, como ja exposto*.
.. f -r .—_
__- -r -— ...... rr■
■i* ■
“r ~ .... i ........... ...... ...................f
_

Quando o bem da vida, objeto da lide ■for um imóvel, é mister verifí-


car se a ação, ou melhor, se a pretensão de direito material busca~funHã^
mento em direito pessoal ou em direito real Realmente, “a mesma coisa
po^êleTobjeto de um d ireitoj^F oude um direito pessoal, v. g., a casa,
que pode ser objeto de locação — direito pessoal, obrmacionaP^ ojü .dê"
domínio — direito real” (Agrícola Barbi, Comentários, cit, v. 1, n. 537)6.
O foro da situação da coisa^ “larum rei sitae”, nos termos do art. 95
d° Código de Processo CiviL aplica-se apenas às demandas em que o
fundamento
............................................................ jurídico
..............................
do Xpedido
I....... .u (CPC, art. 282, III) tiver por base direito
- " - ..........................................................................................................

reaV. O motivo desse foro especial, aproximando o juízo da coisa litigio-

5. A ação de busca e apreensão fundada em propriedade fiduciária sobre coisas


móveis (Lei n. 10.931/2004) é ação real mobiliária, caso dè competência territorial
(relativa) com incidência do art. 94 do CPC, podendo as partes ajustar foro de eleição;
todavia, caso se venha a caracterizar contrato de consumo, a eleição de foro será con­
siderada inválida se prejudicar a defesa do consumidor — v., nesta obra, o verbete n.
64 (Joel Dias Figueira Jr., Ação de busca e apreensão em propriedade fiduciária,
Revista dos Tribunais, 2005, p. 95).
6. Decidiu o Supremo Tribunal Federal, por sua lâ Turma, que em ação fundada
em direito real sobre imóvel (nulidade de atos jurídicos, reivindicação e perdas e danos)
prevalece o foro da situação do imóvel, mesmo em sendo réu o Estado, que normal­
mente responde perante vara especializada da Capital (23-9-1980, RTJ, 95:347).
7. O Superior Tribunal de Justiça decidiu que se enquadra na previsão do art. 95
a ação em que é pedida a declaração de nulidade de procuração, por falsidade, cumu­
lada com pedido de nulidade do próprio registro da escritura de compra e venda efeti­
vada por meio daquela procuração, sendo assim competente o foro da situação do
imóvel. Precedentes citados, do STF: RE 84.698, DJU, 8 set. 1976; RE 99.395, DJU,
ls jul. 1983 (CC 26.293, 2- Seção, rei. Min. Nancy Andrighi, ac. de 18-2-2002, Infor­
mativo do STJ, n. 123, fev. 2002).

138
sa, é facilitar a prova, especialmente prova pericial e inspeções judiciais,
tão freqüentes em tais demandas, e tomar mais expedita a~èxecuçIo~dê~
sentença condenatória.

74. Foro da situação da coisa e indisponibilidade


A lei faz uma distinção. Se o litígio versar sobre direito de proprie-
dade, vizinhança, servidão, posse (assim apontada a posse, pelo menos
para eteito de determinação de competência, como direito realV divisão e
demarcação de terras e mmciação de obra nova, a competência — embo­
ra territorial — é absolutaXArruda Alvim, Manual de dTreítcTprocessuaT
civil, 107”e3TT~Revista <3os Tribunais, 2006, v. 1, n. 85; Agrícola Barbi,
Comentários, cit., v. 1, n. 544), não sendo, pois, admitida a prorrogação
de competência ou a eleição contratual de foro (jR77, 65:817).
<3 Destarte, se uma ação reivindicatoda-de,imóvel, ou acão negaló m
(v. Pontes de Miranda, Tratado de direito privado, 2. ed., t. 14, §§ 1.583
e s.), ou ação confessória de servidão, ou acão de reintegração de posse,
ou acão de usucapião de terras, ou acão demarcatóría etc. forem propostas
em foro outro que não o da localização do imóvel Iitigioso, necessaria­
mente se dará o juiz por incompetente e determinará a remessa dos autos
ao juízo competente (CPC, art7113)7™ — ""
Quanto à imissão na posse, cumpre uma distinção. Às mais das vezes,
ajimissão na posse constitui simples ato executório de sentença condena­
tória à entrega de coisa &v.g., art. 461-A, § 2-). Temos, no entanto, a ação
de imissão na posse. em que são partejsJ£gítimas._CQmo. autor aquele_que
adquiriu a propriedade (ou o promitente-compradorL mas nãrirece.hen a
respectiva posse, e como réu o alienante (ou promitente-vendedor) que
manteve a posse.
„Não se trata de ação possessória, jâ que o demandante nunca teve
posse, mas sim de ação baseada em direito real (ao proprietário o direito
de reaver a coisa do~po3eFge quenTquer que injustamente a possua ou
jietenha — CC/20Õ2, art. 1.228), o que inclusive atrai a incidência do art.
do CPC (Gildo dos Santos, artigo na coletânea Posse e propriedade,
Saraiva, 1987, p. 452 e s.). Contra, afírmando-Cuidai^se...de..ação fundada
em direito pessoal, José Roberto dos Santos Bedaque (artigo na Revista
do~Advogado, Ã ASP, v. 84, p. 108).

75. Foro da situação da coisa e disponibilidade


Todavia, se a pretensão for fundada em direito real outro que não os
já mencionados, o art. 95lío Código de Processo Civil estabelece critério

139
de disponibilidade para o demandante: tanto poderá propor a ação no foro
da situação do imóvel como optar pelo foro do domicílio do réu, ou esta­
belecer prévia e contratualmente ioxojde eleição.
Temos, destarte, já agora ^competência relativa^,se a demanda, v. g.,
é proposta em foro que o réu considera não ser^He seu domicílio, mas não
opõe exceção declinatória, operar-se-à a prorrogação de competência. Assim,
v. g., a ação de execução hipotecária, a ação confessória de usufruto (Pon-
tesde~Miranda, Tratado, cit., t. 19, § 2.349); as ações fundadas em direitos
reais sobre coisa alheia imóvel outros que não os de servidão.
- - - r^juTi-ir-un— n .. i* ■ í-.~-| .................................. ^ .................................

76. Ações decorrentes de promessas de compra e venda de imóveis


De notáveljrnportância prática a análise das demandas decorrentes
de con tratosj j p rõ m ^ a de compra e venda de imóveis) máxime as ações
d_eCadjudicação compulsória^juizadas pelo pretendente à compra contra
o promitente vendedor.
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao tempo que a mais
alta Corte cuidava de matéria infraconstitucional, admitiu a adjudicatóriâ
com base em avença por instrumento particular, mas sempre exigindo
estivesse registrada no ofício imobiliário (RE 71.167, RTJ, 57:652; RE
68.705, RTJ, 53:696).
O Superior Tribunal de Justiça, todavia, em leading case no REsp 30
(rei. Min. Eduardo Ribeiro), afastou a exigência do registro imobiliário
(RSTJ, 5:1043). Ambas as Turmas da 2~ Seção seguiram tal orientação,
como está, v. g., no REsp 9.945 (rei. Min. Athos Carneiro, RSTJ, 25:465),
explicitando que “o registro imobiliário somente é necessário para a pro­
dução de efeitos relativamente a terceiros”.
Foro competente, em princípio, é o da situação do imóvel, embora o
direito aquisitivo decorrente de contrato não registrado não se enquadre,
parece-nos, em nenhuma das situações previstas no
Código de Processo Civil8.
^No pertinente às ações de rescisão de compromisso de compra e
vendà, com pedido cumulado de reintegração do promitente vendedor na

8. O Supremo Tribunal Federal já considerou que na ação de adjudicação com­


pulsória o foro da situação da coisa prevalece sobre o foro de eleição (CJ 6.020, Pleno,
v. u., j. 26-5-1976). Nos casos de “venda de imóvel”, considerou o Superior Tribunal
de Justiça que o foro da situação prevalece sobre o do inventário (2- Seção, CC 799, j.
13-12-1989, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, RSTJ, 77:66).

140
posse direta do imóvel, a jurisprudência tem divergido. O Supremo Tribu-
nal Federal considerou, em alguns casos, prevalecente o foro rei sitae (RTJ,
S9:1041; 97:184); mas, em sentido contrario, pela primazia do foro de
eleição quando a possessória é mera conseqüência da acão de rescisão* os
arestos in RTJ, 97:442; 777:868.
No Superior Tribunal de Justiça, julgou a 2~ Seção (CC 1.557, rei.
Min. Barros Monteiro) que em não sendo a reintegração mera conseqüência
da rescisão, mas sim operando~se a cumulação sucessiva de ações, a com­
petência será do foro da situação do imóvel; e ainda a 4- Turma, no REsp
13.125 (j. 22-9-1992, rei. Min. Athos Carneiro), adotou o entendimento
de que, havendo a cumulação de pedidos, se o pedido possessório se apre­
senta “como mera decorrência do pedido principal fundado em inadimple-
mento contratual, não incide a norma de competência do art. 95 do CPC”
(este acórdão consta do Anexo IV).
Da ementa no REsp 19.992, j. 13-3-1995, rei. o Min. Sálvio de Fi­
gueiredo, consta que “a regra da competência absoluta insculpida no art.
95 do CPC, não tem incidência quando o pedido de reintegração na posse
é deduzido como mero efeito ou extensão do pedido principal de resolução
“do compromisso de c o m p r a "
. Em se tratando de demanda relativa dÇ^telIrbanQ)(por loteamento
ou por desm em br^^ b1Turtmha)7 o^oro competente “será sempre
o da^om S^da~situacão]^ Í o S _?_,fLei n. 6.766, de 19-12-1979, art. 48).

77. Imóvel situado em território de mais de uma comarca


Cumpre observar que, se o imóvel litigioso se encontrar situado em
mais de um Estado ou de uma Comarca, a competênçxajéJtxada,p.ela,/2^ :
venção, e o juiz prevento terá sua competência territorialmente ampliada
paraabranger a totalidade do imóvel (CPC, art. 107). Assim também nos
casos de fun3ada dúvida sobre a exata localização das linhas di^sóriasT'

78. Causas em que for parte a União ou o Estado, e oforum rei sitae
O forum rei sitm.jmainçide.sobre as causas em que for parte a União
Federal, que goza de foro privilegiado., ut art. l0 9 , §§ Ia e 2- da Leijfvlaior,

9. De forma análoga julgou a mesma 4a Turma no REsp 10.687, j. 11-12-1995,


re!. o Min. Barros Monteiro: ‘Tratando-se de ação fundada em direito pessoal, sendo
a nulidade da escritura e a cassação dos respectivos registros providências de caráter
meramente consequencial, a regra do art. 95 do CPC não tem incidência”.

141
correndo a demanda perante a Justiça Federal — Constituição, art. 109, 1
(v. orverBetes n. 108 e s.)10.
Já o Estado, nas ações reais imobiliárias, está sujeito ao forum rei
sitae\ a demanda, todavia, será distribuída ao “iuízo privativo” dos feitos
fazendários, onde houver (v., outrossim, o verbete n. 86).

79. Inventário. Ações relativas à herança


Devem ser propostas no último domicílio do autor da herança (i. e.,
do de cujus) as~ações~cle inventáno e partilhados bens, as ações relativas
ao testamento e ainda quaisquer ações movidas contra a herança (a heran-
ça ou espólio são presentados em iuízo pelo mventanante — CPC, ãrtTl27~
V — salvo quando dativo — CPC, art. 12, § ls).
O art. 96, parágrafo único, prevê qual o foro competente quando o
de cujus não^põssuía domicfllro ~certo,observai^o-se,^ii^,oIocaIdFsT7"
tuação dos bens ou o lugar S n T q u F ô c o ^ lT o o K ^ ^ ^ ^
Assim, em princípio, o loaaT^o^liirfw^ãÕmícílio do “de cujus”
prevalece sobre o local onde ocorreu o oDito, óiTsõbre o local onde são
sTtuaHos os bens, mesmo se bens imóveis. Todavia, se o de cujus era do­
miciliado no estrangeiro, e faleceu no estrangeiro, o inventáno relativo aos"
'bens situados no Brasil (competência exclusiva da Justiça brasileira, art.
outrossim, o
verbete n. 49 e a nota 1 do Cap. XI).
A competência para o processamento do inventário é relativa, não
podenrln,Qjuiz^de starte .liuscllia^rdeTffici^
rei. Min. Cesar Rocha, dec. de 17-9-2001, DJU, 2 out. 2001, p. 189).
Tratando-se de competência territorial, de natureza relativa, “não cabe ao
juiz de direito da comarca onde foi instaurado o inventário, suscitar de
o fe io T s u a ln c o m p ^ ê n c iã T ^ ^ X ^ g ^ ^ ^ ^ ^ ü F o ^ ^ ^ c ^ u ^ H v O T ^ ^ n
último domicílio em outra comarca” (CC 11.629, re i Min. Ruy Rosado,
5 7 t7 r2 ^ e v T 1 ^ 5 7 id ê m C C ll.050, rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. de 13-
8-2001, DJU, 23 ago. 2001, p. 321). Portanto, o ajuizamento do inventário,
ou de outras ações referidas no art. 96, com infração às regras nesta norma.

10. Incide o forum rei sitae nas ações de usucapião especial, ainda que interve-
niente a União Federal (v. o verbete n. 101 e a Súmula 11 do STJ).
11. Contra, Pontes de Miranda: “Se a ação é relativa à herança, a competência
é segundo o art. 96, ainda que já tenha havido sentença de partilha, trânsita em julgado”
(Comentários ao Código de Processo Civil, cit., t. 2, n. 226).

142
previstas, implica incompetência apenas relativa, considerando-se, portan-
to, prorrogada a competência do foro caso não oposta, em tempo hábil,
excecão d eçlim tom iCPC, art. 114).
De outra parte, a competência do foro da herança permanece até o
momento em que a herança mantém-se como universitas j urís, indivisa,
portanto. Depois da partilha, j á fracionados os bens entre herdeiros, estes
deverão ser acionados individualmente segundo^sregras gerais (Arruda "
Alvim, Manual de direito processual civil, Revista dosTribunaísi v. 1,10.
ed., 2006, n. 86, p. 287). No mesmo sentido, Agrícola Barbi: “Com a
passagem em julgado da sentença homologatória, desaparece a figura^io*”
espólio, porque cada herdeiro IJajsITT&^Hono^
^lhe coube” (Comentários, cit., v. 1, n. 552).
Nos processos de inventário, a circunstância de sua abertura haver
sido requerida.por,entidade de direito público federal, na qualidade de
«■ ii in " *‘1'" '* ‘* 'f ‘ ii ii i ■■ ■ijiuiir-r-irrr-nifriT w iiw j.iiiiii TLf-j —» ■m m ,, i w ihbh r S jm n i i " f * M w w m t u .^ 1.

credora do de cujus, não desloca o foro para a Justiça Federal. Assim,


v. g., decidiu a 2- Seção do STJ, sob a ementa: “Compete à Justiça estãdu^
jdjjroçessaH ainda quefígure como requerente, na qualidadellê"
credor do autor da herança, a Caixa Econômica Federal” (CC 34.641, rei.
Min. Nancy Andrighi, ac. de 26-6-2002, RSTJ, 160:239).
Vale observar que o foro do último domicílio do inventariado não pre-^
valece, em princípio, perante regras relativas a competência absoluta. Assim,
ação relativa a direito real sobre imóvel deve ser proposta no local da siaíaçãcT'
da coisa, ainda que o polo passivo seja ocupado por um espólio.

79-A. Inventário e partilha por escritura pública


Ao ser promulgado, o vigente CPC permitia fosse o inventário efe­
tivado por acordo extrajudicial, desde que todos os herdeiros fossem ca­
pazes; logo, no entanto, a Lei n. 5.925, de ls-10-1973, veio a revogar os
§§ 1- a 5S do ^rt. 982) mantido assim apenas o\capút?jpelo qual proceder-
-se-á a inventário judicial, “ainda que todas as partes sejam capazes
Destarte^mesmo a possibilidade de efetuar a partilha amigável,
quando capazes e de acordo os interessadÕsTCC, arf72~X)T5; CPCTart-
1.031), não afastava a necessidade~dé~prevlimente requerer em juízo o
inventário ,j
Vários motivos, dentre os quais sobressaem as demoras decorrentes do
extremo acúmulo de processos em tramitação judicial, levaram o legislador
(por proposta de integrantes do Instituto Brasileiro de Direito Processual) a

143
novamente permitir, nos termos da recente Lei n. 11.441, de 4 de janeiro de
2007, o inventario e a partilha mediante escritura pública, quando todos os
interessados forem maiores e capazes e estiverem de acordo (CPC, art. 982,
nova redação). Por “interessados'” devem entender-se os herdeiros, e não
eventuais legatários, pois, em havendo testamento, proceder-sé-á sempre a
inventário judicial. Os herdeiros comparecerão^aò ato notarial pessoalmen-
te7 ou rej^esentacíos por procurador com poderes especiais.
A fim de diminuir a possibilidade de algum herdeiro posteriormente
arguir que forãTIudido ao concordar com a descrição é/ou a divisão dos
bens, a lei exige (art. único) que advogado comum, ou
advogados de cada herdeiro, sejam presentes ao ato da escrftüm^devendo
constar sua_qualificacão e assinatura.
Os herdeiros são livres para escolher o tabelião que lavrará a escri­
tura, não estando, portanto, vinculados à comarca em que faleceu o cie
cuius. A escritura consfitmrO'tuToTmHl~pÍ^^regisrfo ím obiIiário.'^s^
sim ligado às matrículas dos imóveis inventariados.
Eventuais sobrepartilhas podem fazer-se pela escritura pública, ain-
jda que o inventário haja.sidoiudlcial.
Munido da escritura, pode outrossim cada herdeiro receber, conforme
houverem convencionado, as quantias relativãsao FÜTSTaoTlS -PÁS ÉP
(ejjndajü£SXituiçjõ&s--de-ti:ibutQs^le^ntãmento de pequenos saldõs~Ban~"~'
cários) não percebidos em vid.a pelo inventariado, e issjj.mdep.endentemen-
te de qualquer alvaráJudicial A escritura, com a especificação. _d_o.s._bens
que, de comum acordo, tocaram a cada herdeiro, supre o “alvará judicial”
refendo i ^ l ^r~P~HiXei n7^7858/1980. Note-se: a lei nova veio para des-
complicar, para tomar desnecessário o uso do aparato judicial, reservando-
-se ajurisdição voluntária apenas àqueles casos em que realmente indis­
pensável jT adn^^ nesta obra, o
verbete n. 35).
A dispensa das vias judiciais é uma faculdade dos mtej^s.s.ado.s,,CasQ._
consiHereni^onveniente requerej„eni.i.uíz.o..oiny.entário.e..a.paj:tjjha,,podem
fazê-lo, com observância, então, das .normas de competência expostas.no
verbete n. 79.

80. Ações de separação judicial, de conversão em divórcio, de


divórcio direto, de anulação de casamento (CPC, art. 100,1)
e de dissolução das uniões de fato
Nos termos do art. 100,1, é competente o foro:

144
“I — da residência da mulher, para a ação de separação dos
cônjuges e a conversão desta em divórcio, e para a anulação de ca­
samento”.
Nestes casos, o legislador ordinário havia considerado necessário
favorecer processualmente a defesa dos interesses da mulher, partindo do
pressuposto (ainda verdadeiro na maioria das vezes) de ser a parte mais
fraca, merecedora portanto de especial tutela jurídica.
Assim, o foro da residência da mulher está posto no Código de
Processo Civil como o competente (competência relativa — 2~ Seção,
CC 245, j. 28-6-1989, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, RSTJ, 5:741) para
as ações de separação judicial e de conversão desta em divórcio (CPC,
art. 100, I, com a redação dada pela Lei n. 6.515/77, art. 52) e para as
ações de anulação (e de nulidade) do casamento, bem como, analogica-
mente, para as ações de “divórcio direto” promovidas pelo cônjuge
mulher.
Todavia, impende atualmente ponderar quanto à controvertida vi­
gência do referido art. 100,1, do Código de Processo Civil, em face da
regra da Constituição de 1988 (art. 226, § 5a), de imediata cogência,
verbis: “Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exer­
cidos igualmente pelo homem e pela mulher”, em explicitação, diga-se,
da norma constitucional de igualdade dos sexos: “homens e mulheres são
iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” — CF,
art. 5a, I.
Em última análise, desigualdades serão admitidas somente quan­
do expressamente estipuladas em norma constitucional (v. g., CF, art.
40, III).
Cumpre ressaltar que, em face do novo Código Civil — Lei n.
10.406, de 10-1-2002 —, a direção da sociedade conjugal “será exercida,
em colaboração, pelo marido e pela mulher, sempre no interesse do casal
e dos filhos” ; nos casos de divergência, “qualquer dos cônjuges poderá
recorrer ao iuiz, que decidirá tendo em consideração aqueles interesses”
(art. 1.567).
No alusivo ao domicílio familiar, que pelo antigo Código Civil era
fixado pelo marido, passou a ser, na nova sistemática, “escolhido por
ambos os cônjuges”, sem prejuízo da possibilidade de qualquer deles
ausentar-se para atender encargos públicos, profissionais ou “interesses
particulares relevantes” (art. 1.569). Nos casos de ausência, interdição

145
ou impedimento de qualquer dos cônjuges, outro exercerá com ex­
clusividade a direção da família, cabendo-lhe a administração dos bens”
(art. 1.570)12.
O prof. Yussef Said Cahali sustenta que não mais vigora o foro pri­
vilegiado a benefício da mulher casada, caindo as demandas acima aludi­
das no foro comum do domicílio do réu (CPC, art. 94); a respeito, tece
longa argumentação, referindo que o princípio da igualdade dos cônjuges
não incide apenas nas normas de direito material, “mas se estende às me­
didas processuais tendentes ao exercício daqueles direitos tendo por obje­
to relações de Direito Matrimonial” {Divórcio e separação, 9. ed., Revis­
ta dos Tribunais, 2000, n. 57, p. 528)13.
Mas José Roberto dos Santos Bedaque entende que a norma consti­
tucional em nada realmente inovou, pois a CF anterior já consagrava a
regra da isonomia (art. 153, § Ia) e “por outro lado, o foro especial da
mulher atende a um objetivo legítimo, qual seja, o de atenuar possíveis e
prováveis desigualdades em relação ao homem” (artigo na Revista do
Advogado, AASP, n. 84, p. 113-114).

12. Nos termos do antigo Código Civil de 1916, ao mando competia fixar o
domicílio da família, apenas ressalvado à mulher o direito de recorrer ao juiz no caso
de deliberação que a prejudicasse (CC, art. 233, III). Igualmente, o domicílio da mulher
era o do marido, “chefe da sociedade conjugal” (CC, art. 233), salvo se estivesse a
mulher judicialmente separada ou lhe competisse a administração dos bens do casal
(CC, arts. 26, parágrafo único, e 251).
13. Em sentido contrário, pela permanência do foro privilegiado da mulher,
Sérgio Gischkow Pereira, “Algumas questões de direito de família na nova Constitui­
ção”, RT, 639:249.
No sentido do texto, e com exposição da controvérsia, aresto do Superior Tribu­
nal de Justiça (4a Turma, REsp 17.999, j. 31-8-1992, rei. Min. Sálvio de Figueiredo).
Igualmente o CC 3.344, aresto da 2- Seção do Superior Tribunal de Justiça (j. 28-10-
1992), de que fui relator, sob a ementa:
“Ação de divórcio. Competência de foro. Mesmo se considerado não revogado
pelas normas constitucionais — CF, arts. 5S, I, e 226, § 5fi — o privilégio de foro em
favor da mulher — CPC, art. 100, I —, ainda assim competente o foro do local de
residência da ré, na demanda promovida pelo marido”.
Todavia, por acórdão de 9-2-1994, rei. Min. Dias Trindade, a 2- Seção do STJ
veio a decidir que “prevalece o foro da residência da mulher para a ação de separação
do casal e de busca e apreensão de filhos menores, por não afetar a lei que assim dispõe
a igualdade entre os cônjuges estabelecida na Constituição” (CC 6.325, DJU, 28 mar.
1994, p. 6287). E também prevalece tal foro, consoante aresto no REsp 7.420, em ação
de modificação de cláusula de separação consensual (STJ, 3â Turma, rei. Min. Nilson
Naves, DJU, 21 fev. 1994).

146
A questão, todavia, mantém-se polêmica, inclusive no alusivo ao
foro competente para as demandas decorrentes do término das uniões de
fato. Aliás, nos termos do art. 9- da Lei n. 9.278, de 10-5-1996: “Toda a
matéria relativa à união estável é de competência do juízo da Vara de
Família, assegurado o segredo de justiça” (v. o verbete n. 91, parte
final)14.
Outrossim, alguns autores sustentam que, após a edição do novo CC,
o privilégio de foro da mulher só se justificará se ela comprovar hipossu­
ficiência econômica, como na hipótese de pedido cumulado de alimentos,
não sendo mais cabível a prerrogativa de foro somente por causa do sexo
(a respeito, Marcelo Truzzi, RePro, 775:58-61). Todavia, é de ponderar
que, em si mesma, a hipossuficiência econômica não implica concessão
de foro privilegiado à pessoa carente. O pedido de alimentos, aí sim, au­
toriza o ajuizamento da demanda no foro do domicílio ou residência do
alimentando (CPC, art. 100, II).

80-A 0 Separação consensual e divórcio consensual por escritura


pública
A Lei n. 11.441/2007 (já referida no verbete 79-A), sempre no pro­
pósito de restringir os casos de jurisdição voluntária àqueles em que real­
mente indispensável a intervenção do Estado na administração dos inte­
resses privados, aditou ao CPC o art. 1.124-A, permitindo que a separação
consensual e o divórcio consensual, não havendo filhos menores ou inca­
pazes do casal e observados os requisitos legais quanto aos prazos, podem
ser realizados por escritura pública, da qual também deverão constar as
disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns e à pensão
alimentícia e, ainda, eventual acordo quanto à retomada pelo cônjuge (pela
mulher, mais comumente) de seu nome de solteiro ou à manutenção do
nome adotado no casamento.
A lei é explícita em que a escritura independe de homologação judi­
cial, constituindo título hábil para o registro civil e o registro de imóveis
(§ Ia). Exige-se que os contratantes estejam assistidos por advogado comum

14. A 4â Turma do STJ, p. m. v., decidiu que na ação de dissolução de união


estável, cumulada com partilha de bens, é inaplicável o art. 100,1, do CPC, diante do
princípio da igualdade entre os cônjuges, proclamado no art. 226, § 5a, da CF/88.
Assim, incide à espécie o art. 94 do Código (REsp 327.086, rei. Min. Sálvio de Figuei­
redo, ac. 8-10-2002).

147
ou advogados de cada um deles, cuja qualificação e assinatura constarão
do ato notarial (§ 22).
Algumas questões têm sido suscitadas. Os contratantes podem com­
parecer pessoalmente ao ato notarial (como se afigura o mais convenien­
te), mas igualmente podem ser representados, um ou outro, ou um e outro,
por procuradores com poderes especiais (outorgados por escritura públi­
ca), não devendo ser admitido um mesmo procurador para ambos os
cônjuges. Ao advogado cumpre preservar sua posição de “conselheiro”
e, assim, não deve, a nosso ver, simultaneamente servir como procurador
do cônjuge representando-o na escritura. A lei não prevê a intervenção do
Ministério Público, e assegura a gratuidade da escritura e demais atos
notariais (neste passo referindo-se aos registros) àqueles que se declararem
pobres sob as penas da lei.
O tabelião exigirá comprovantes dos prazos mínimos nos casos de
conversão da separação judicial em divórcio (CC, art. 1.580, um ano) e de
divórcio após separação de fato (CC, art. 1.580, § 2~, dois anos). Apresen­
tadas testemunhas, estas serão qualificadas e deporão perante o notário a
respeito do prazo de separação.
Também aqui o uso da escritura pública é uma faculdade dos cônju­
ges. Caso entendam que, apesar do consenso, o ingresso em juízo e a
intervenção do magistrado e do Ministério Público lhes proporcionará
maior segurança, podem livremente ajuizar a competente ação, nos termos
expostos no verbete n. 80.

81. Ação de alimentos (CPC, art. 100, II)


O alimentando, na ação em que postula a concessão ou o reajusta-
mento de pensão alimentícia, ou sua execução, poderá propô-la no foro de
seu próprio domicílio ou residência15e16; mas, como se cuida de regra de
competência relativa, nada obsta a que o alimentando ajuíze a demanda
no foro do domicílio do alimentante (rectius, do réu). Também a mulher,

15. Quando incapazes, têm por domicílio o dos seus representantes (CC, art. 36).
Valem, quanto ao conceito de residência, as observações da nota 13.
16. Conforme refere Emane Fidélis dos Santos, “embora se tenha tratado tal
espécie como competência funcional, absoluta portanto, a jurisprudência tem-se incli­
nado a dar prevalência ao foro privilegiado do alimentando (art. 100, II), para execução
de sentença condenatória de alimentos, ainda que fundada em título jurisdicional e
não em simples acordo” (Manual de direito processual civil, Saraiva, v. 2, p. 33).

148
pela mesma razão, poderá aceitar ser ré, nas causas relativas ao matrimô­
nio, em comarca diversa da de seu domicílio; bastará não suscitar exceção
de incompetência de foro (CPC, art. 112).
A orientação do Superior Tribunal de Justiça é no sentido da compe­
tência do foro do atual domicílio do alimentando também nas ações de
execução de alimentos17, ainda que a sentença haja sido proferida em ação
de alimentos com trâmite em outro foro. Assim foi decidido pela 2~ Seção
no CC 2.933 (rei. Min. Waldemar Zveiter, j. 28-10-1992 — acórdão na
íntegra no Anexo IV), bem como nó REsp 9.941 (mesmo relator). Da
mesma forma em demanda de revisão de alimentos fixados em ação de
separação judicial, quando “não incide o disposto no artigo 108 do CPC,
fixando-se a competência em função da residência ou domicílio do ali­
mentando” (2ã Seção, CC 164, rei. Min. Eduardo Ribeiro, RSTJ, 2:306).
A ação revisional de alimentos, proposta contra o alimentando, deve
ser ajuizada no foro do domicílio deste (STJ, CC 2.903, rei. Min. Nilson
Naves, 24-6-1992, 2- S., v. u., RSTJ, 42:48), mesmo que não corresponda
ao foro da anterior ação de alimentos.
O mesmo princípio deve ser observado em se cuidando de ações de
alimentos e de busca e apreensão de filho menor, ligadas por conexão, caso
em que, “tudo conspirando para que os processos sejam reunidos e julga­
dos conjuntamente”, prevalecerá “o foro do domicílio do alimentando e
de sua mãe para as ações acima indicadas” (CC 18.961, ac. de 9-9-1998,
re i Min. Cesar Rocha, RSTJ, 119:269).
Nos casos de ação de investigação de paternidade cumulada com ação
de alimentos, entendeu o Superior Tribunal de Justiça, por sua 2~ Seção, ser
competente o foro do domicílio ou residência do demandante (CC 214, rei.
Min. Athos Carneiro; CC 683, rei. Min. Sálvio de Figueiredo).
Assim a Súmula 01 deste Tribunal:
uO foro do domicílio ou da residência do alimentando é o
competente para a ação de investigação de paternidade, quando
cumulada com a de alimentos”.
Tem sido decidido, outrossim, que sendo a competência determinada
“no momento em que a ação é proposta, irrelevante afigura-se o fato de

17. A execução da sentença condenatória a alimentos (salvo nos casos de par­


celas antigas, com mais de três meses de atraso) anticontinua a ser processada nos
termos dos arts. 732 e s. do CPC, não se aplicando as normas decorrentes da Lei n.
11.232/2005.

149
haverem os alimentandos, após a citação do réu, se mudado para outro
município. Precedentes da Segunda Seção”. A ementa consigna que, “tra­
tando-se de menores impúberes hipossuficientes, cujos direitos em litígio
são indisponíveis, inexigível era a apresentação de ‘declinatoria fori’ na
ação de oferta de alimentos contra eles proposta em outra comarca”, além
do que os alimentandos anunciaram interesse em que a causa fosse apre­
ciada no foro de sua anterior residência (CC 19.782, ac. de 9-12-1998, rei.
Min. Barros Monteiro, RSTJ, 779:274).
Vale considerar, ainda, que a 2â Seção do Superior Tribunal de Jus­
tiça deu pela competência da Justiça Comum do Estado para processar
ação de alimentos com base no Decreto n. 56.826/65, que promulgou a
Convenção sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro, sendo o devedor
residente no exterior e o credor, no Brasil (CC 20.175, rei. Min. Menezes
Direito).

82. Forum obligationis (CPC, art. 100, IV, â)


As ações em que se exige do réu o cumprimento de obrigação con­
tratual, bem como as ações em que se pede indenização pelo descum-
primento de obrigação assumida contratualmente, têm como foro compe­
tente o do lugar avençado para adimplemento da mesma obrigação: forum
obligationis, ou forum destincitae solutionis.
As obrigações via de regra são “quesíveis”, conforme o art. 327 do
CC: “Efetuar-se-á o pagamento no domicílio do devedor, salvo se as partes
convencionarem diversamente, ou se o contrário resultar da lei, da nature­
za da obrigação ou das circunstâncias”. Sabemos, no entanto, que em
termos práticos a maioria das obrigações apresenta-se “portável”, ou seja,
deve ser satisfeita no domicílio do credor e, assim, neste domicílio será
proposta a ação de adimplemento contratual.
O saudoso Celso Agrícola Barbi adotava exegese restrita: “A lei só
se refere à ação para exigir o cumprimento da obrigação. Assim, não
abrange outras ações que podem decorrer do contrato, como a que for
proposta para o anular, ou para declarar a sua validade, ou para interpre­
tação de qualquer de suas cláusulas. Estas devem ser ajuizadas no foro do
domicílio do réu, segundo a regra geral do art. 94, porque este prevalece
onde não houver disposição em contrário” (Comentários ao CPC, 10. ed.,
Forense, 1998, v. 1, n. 592).
Todavia, de legeferenda preconizou a adoção do foro de cumprimen­
to da obrigação para todas as ações dela decorrentes, a exemplo do § 29 da

150
ZPO alemã; mais ainda, aceitava o mencionado foro como já incidente às
ações de indenização pelo não cumprimento do contrato, porque equivalentes
à demanda para exigir o adimplemento (Comentários, cit., v. 1, n. 592).
Doutrina e jurisprudência, no entanto, vêm desde logo interpretando
com certa amplitude a norma legal, no sentido de que, embora o Código
de Processo Civil refira textualmente apenas a ações de cumprimento da
obrigação avençada, os motivos inspiradores da regra de competência
aplicar-se-ão igualmente às demandas em que se postule indenização em
pecúnia, como sucedâneo da obrigação inadimplida18 (Ag. Inst. 473.883,
rei. Min. Barros Monteiro, dec. de 5-5-2003).
Em sentido ainda de maior abrangência a 3- Turma do STJ, no REsp
21.741, rei. o Min. Eduardo Ribeiro, ac. de 29-6-1992, constando da
ementa:
“A norma do art. 100, IV, cd \ deve entender-se como abrangen­
do também as ações em que se litigue sobre a validade de cláusulas
contratuais. Possibilidade de optar-se pelo domicílio do réu” (RSTJ,
37:5 53).
O relator fez constar, em seu voto, que para termos um sistema
coerente era mister atribuir à norma de competência maior compreensão,
“justamente para evitar os inconvenientes apontados pelo ilustre proces-

18. Assim o Código de Processo Civil de Portugal: “Art. 74 — I. A ação desti­


nada a exigir o cumprimento de obrigações ou a indenização pelo não cumprimento
será proposta no tribunal do lugar em que, por lei ou convenção escrita, a respectiva
obrigação devia ser cumprida. 2. Se a ação se destinar a efetivar a responsabilidade
civil baseada em fato ilícito ou fundada no risco, o tribunal competente é o correspon­
dente ao lugar onde o fato ocorreu”.
O Código de Processo Civil da Itália: “Art. 20 (foro facoltativo per le cause re-
lative a diritti di obbligazione). Per le cause relative a diritti di obbligazione è anche
competente il giudice dei luogo in cui è sorta o deve eseguirsi Tobbligazione dedotta
in giudizio”.
Código de Processo Civil da França (Dec. n. 75-1123, de 5-12-1975):
“Art. 46. Le demandeur peut saisir à son choix, outre la juridiction du lieu oü
demeure le défendeur:
— en matière contractuelle, la juridiction du lieu de la livraison effective de la
chose ou du lieu de Fexécution de la prestation de service;
— en matière délictuelle, la juridiction du lieu du fait dommageable ou celle
dans le ressort de laquelle le dommage est subi...”.
Verifique-se, outrossim, o magistério de Agrícola Barbi (Comentários, cit., v. 1,
n. 592); contra, Tornaghi, Comentários ao Código de Processo Civil, Revista dos
Tribunais, 1974, v. 1, p. 337-8.

151
sualista mineiro e que chegam a tangenciar o absurdo. Com efeito, não
há como razoavelmente aceitar que, se o autor formular pleito condena-
tório, o foro será diverso daquele que seria competente caso, simples­
mente, demandasse a declaração da existência da mesma relação jurídi­
ca”, ou estivesse a questionar “a validade de determinada cláusula do
contrato”.
A mesma 3â Turma, no REsp 84.642, ac. de 13-5-1996, de relatoria
do Min. Waldemar Zveiter, fez constar que, “tratando-se de demanda re­
lativa à reparação de dano, o foro competente é o do lugar onde se dará o
cumprimento das obrigações pactuadas. Inteligência da regra do art. 100,
IV, b ecldo CPC”.
Impende anotar, no entanto, que ocorrerá a prorrogação de compe­
tência caso a ação venha a ser proposta noutro foro, como o do domicílio
do demandado, e este não opuser a exceção declinatória de foro.
A 2- Seção do STJ decidiu que “a competência para apreciar ação
de nulidade de cláusula contratual, representada por cédula de crédito
rural, é do foro do lugar onde se acha a agência com a qual se contraiu a
obrigação” (Emb. Div. no REsp 52.716, rei. Min. Pádua Ribeiro, ac. de
25-6-2003, DJU, 4 ago. 2003, p. 216).
Devo assim, em parte retificando o afirmado em edições anteriores,
opinar no sentido de que também nas ações de anulação, bem como nas
que envolvam a rescisão ou resilição contratual, e outrossim nas ações
declaratórias da existência, inexistência ou modo de existir da relação
contratual ou de cláusulas contratuais, em princípio será competente o
forum clestinatae solutionis, com a opção, para o autor, de escolha do foro
geral.
Pode ser proposta a demanda no foro do domicílio do réu? Em prin­
cípio, a resposta será afirmativa, neste caso como nos do inc. V do art. 100
do Código de Processo Civil, pois estará o autor optando pelo foro geral,
com vantagem para o demandado.
Mas é possível que, nas circunstâncias do caso concreto, seja conve­
niente ao réu corra a demanda no forum obligationis (ou no local do ato
ou fato causador do dano), por entender mais fácil nesse foro a instrução
da causa ou da demanda reconvencional que pretenda propor19.

19. A ressalva não foi esquecida por Humberto Theodoro Júnior: “A norma
institui, todavia, apenas um privilégio para o credor, que, salvo termos especiais da

152
83. Forum commissi delicti (CPC, art. 100, V, a, e parágrafo único)
As ações de “reparação de dano”, aquelas em que se pede o ressarci­
mento por perdas e danos decorrentes de ato ilícito, ou de fato ilícito, ou
fundadas no risco, serão propostas no lugar em que ocorreu o ato ou ofato20.
Observemos que a palavra delito refere-se ao ilícito penal com conse­
qüências no plano do direito civil, não sendo necessário que o autor do ilí­
cito já haja sido condenado no juízo criminal. E não se refere apenas ao
ilícito penal, mas igualmente ao ilícito dê natureza civil, como afirmado pela
3- Turma do STJ, no julgamento do REsp 493.906 (relator o Min. Menezes
Direito, j. 19-8-2003, RSTJ, 192:340) com remissão a precedente da mesma
Turma no REsp 56.867 (rei. Min. Costa Leite, DJU, 13 mar. 1995)21.
O objetivo, esclarece Arruda Alvim, “é o de proporcionar a economia
de movimentos para eventuais exames, perícias ou vistorias, e porque quem
se abalança a vir a juízo possivelmente (na maioria das vezes) terá razão.
De mais a mais, se somente pudesse ser movida a ação no domicílio do
réu, conforme as circunstâncias, a viabilidade prática de propositura dessa
ação de reparação dos danos seria muito difícil” (Manual, cit., 10 . ed.,
n. 90, p. 296).
Nos casos de danos decorrentes de delito (crime ou contravenção),
ou de acidente de veículos, a lei processual busca sobremodo facilitar a
reparação dos danos patrimoniais sofridos pela vítima, pois a ação indeni-
zatória poderá ser proposta quer na comarca onde ocorreu o fato ilícito,
quer no foro do domicílio do próprio autor (CPC, art. 100, V, parágrafo
único)22. Portanto, foros concorrentes.

convenção, pode preferir ajuizar a ação no foro comum do réu, i. e., no de seu domi­
cílio. Se não houver prejuízo para este, o que em regra não se dá, não poderá o deman­
dado impugnar a escolha do juízo feita pelo autor” (Curso de direito processual civil,
44. ed., Forense, v. I, n. 167).
20. Na ação de indenização, se o dano é causado em diversos lugares, pode o
autor, a sua escolha, propor a ação em qualquer dos foros correspondentes (REsp
209.242, rei. Min. Barros Monteiro, 4â Turma, ac. 2-9-2003, Boletim STJ, n. 19, dez.
de 2003).
21. Hélio Tornaghi (Comentários, cit, v. 1, p. 339) lembra que, além dos danos
provenientes de ato ilícito, pode haver a reparação de danos causados por atos lícitos,'
como, v. g., a destruição de coisa alheia para evitar perigo iminente (CC, arts. 160, II,
e 1.519), sendo em tais casos igualmente aplicável a regra de competência do art. 100,
V, do Código de Processo Civil.
22. Não é defeso ao demandante optar pelo foro geral, de domicílio do réu. Vale,
também neste caso, a ressalva de Theodoro Júnior, mencionado na nota 19, retro.

153
Acórdão do Superior Tribunal de Justiça, no REsp 14.731, rei. Min.
Eduardo Ribeiro, j . 9-12-1991,3- Turma, explicita que a norma do art. 100,
parágrafo único, do Código de Processo Civil, “ao referir-se a delitos, não
se restringe aos que se verifiquem com a utilização de automóveis”. De
outra parte, consta do aresto que o autor pode “ajuizar a ação no domicílio
do réu e não no foro do local do fato. Este só poderá recusá-lo demons­
trando que lhe interessa o outro, p. ex., em virtude de maior facilidade para
a produção de provas. Em regra, não se justifica a recusa do foro do próprio
domicílio, se isso em nada o beneficia e apenas prejudica o autor”.
Segundo julgou a 3~ Turma do STJ, no caso de demanda indenizató-
ria por danos morais causados pela veiculação de matéria jornalística em
revista de circulação nacional, “considera-se ‘lugar do ato ou fato’, para
efeito de aplicação da regra especial, e, portanto, preponderante, do art.
100, V, letra ‘a’, do CPC, a localidade em que residem e trabalham as
pessoas prejudicadas, pois é na comunidade onde vivem que o evento
negativo terá maior repercussão para si e suas famílias” (Ag. Reg. no Ag.
Inst. 458.129, rei. Min. Menezes Direito, ac. de 11-11-2002. No mesmo
sentido, REsp 191.169, 4- T., rei. Min. Aldir Passarinho; Ag.Reg. no Ag,
Just. 592.004, 3âT., rei. Min. Castro Filho, j. 13-12-2005).
Em ação indenizatória por danos morais e materiais foi reiterado o
princípio da preponderância da regra específica do art. 100, V, a, do CPC
sobre as normas genéricas dos arts. 94 e 100, IV, a\ destarte, a demanda
pode ser promovida no foro do local onde ocorreu o ato ou fato, ainda que
a ré seja pessoa jurídica, com sede em outro lugar (4ãTurma, REsp 533.556,
rei. Min. Jorge Scartezzini, j. 2-12-2004). O princípio incide ainda que seja
ré autarquia federal, no caso o Banco Central do Brasil (2â Turma, REsp
591.268, rei. Min. Eliana Calmon, j. 16-11-2004).
Esse foro excepcional, assegurado à vítima de delito ou de acidente
de veículo, em homenagem a sua situação pessoal, “constitui prerrogativa
processual que não se transmite ao que se sub-roga no direito de receber
indenização” (STJ, 3â Turma, REsp 17.794, p. m. v., rei. desig. Min. Edu­
ardo Ribeiro). Assim, a seguradora sub-rogada nos direitos da vítima, sua
segurada, em termos de direito material, coloca-se na posição do antigo
credor da indenização, mas não em termos de direito processual; permitir
destarte que a demanda seja ajuizada na sede da empresa seguradora é
conseqüência que não estará na mens legis23.

23. A ementa do aresto no REsp 17.794 encontra-se no Anexo IV.

154
Muito bem. expôs a Min. Nancy Andrighi que a norma especial conti­
da no art. 100, parágrafo único, do CPC, foi editada tendo em vista a “situ­
ação personalíssima da vítima, que sofre acidente automobilístico, no claro
intuito de minimizar-lhe as despesas e aborrecimentos que os danos dele
decorrentes ocasionam. A prerrogativa processual do foro excepcional não
se transmite às seguradoras, que tão somente suportam os ônus financeiros
e, regressivamente, sub-rogam-se materialmente nos direitos do credor” (CC
21.829, lâ Seção, ac. de 7-4-2000, DJU, 15 maio 2000, p. 114).
De outra parte, havendo empresa locadora de veículos proposto ação
indenizatória por acidente de trânsito no foro de seu domicílio, consoante
disposto no art. 100, parágrafo único, a 4- Turma considerou possível a
declinatória de competência para o foro do local do fato, tendo em vista
que a demandante era empresa atuante em muitas localidades no território
nacional, e a conveniência em observar os princípios da celeridade proces­
sual tendentes a uma pronta pacificação dos conflitos (REsp 261.181, rei.
Min. Aldir Passarinho Jr., ac. de 6-2-2001).

84. Ainda a competência de foro

84.1. Ação contra pessoa jurídica (CPC, art. 100, IV, a e b )


Em princípio, é seguida a regra geral, de competência vinculada ao
domicílio da ré, ao local onde tem sua sede. Nas obrigações contraídas por
intermédio de agência ou sucursal (inclusive em se tratando de empresa
com sede no estrangeiro), a ação será proposta no local da agência24.
A respeito a Súmula 363 do Supremo Tribunal Federal:
“A pessoa jurídica de direito privado pode ser demandada no
domicílio da agência ou estabelecimento em que se praticou o ato
Como ensina Arruda Alvim {Manual de direito processual civil, 10.
ed., Revista dos Tribunais, v. 1, p. 294, nota 134), o conceito de agência
ou sucursal “implica ausência de autonomia absoluta, pois são genetica­
mente ligadas ao estabelecimento; não há sucursal, agência ou filial com

24. Segundo a 4â Turma do Superior Tribunal de Justiça, em aresto proferido no


REsp 80.762 (ac. de 21-5-1998, rei. Min. Sálvio de Figueiredo), “a ação de nulidade
de cláusula inserta em cédula de crédito rural deve ser proposta no lugar onde se acha
a agência bancária com a qual foi contraída a obrigação, que consta do contrato como
praça do pagamento do título, e onde pode ser exigido o seu cumprimento, nos termos
do art. 100, IV, b, do CPC”.

155
autonomia absoluta (cf. Pontes de Miranda, Tratado de direito privado,
1 1, 2- ed., § 112.4)”.
As empresas de economia mista têm seu foro na Justiça estadual,
ainda que na ação a controvérsia gire “em tomo de reajuste de tarifa de
energia elétrica fixado com base na observância, pela concessionária de
serviço público, de portarias baixadas pelo DNAEE, que não participa da
lide” (CC 23.761, ac. de 9-12-1998, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., RSTJ,
779:54).
Ainda de anotar que, em se tratando de pessoa jurídica estrangeira, >
o gerente da filial ou agência presume-se autorizado “a receber citação ?
inicial para o processo de conhecimento, de execução, cautelar e especial”
(CPC, art. 12, § 3e). É que se reputa domiciliada no Brasil “a pessoa jurí­
dica estrangeira que aqui tiver agência, filial ou sucursal” (CPC, art. 88 ,
parágrafo único).
Quando for ré uma sociedade ou comunidade de pessoas, sem per­
sonalidade jurídica (CPC, art. 100, IV, c), a ação será movida no local onde
atua a demandada, onde exerce sua principal atividade, devendo ser citada
na pessoa que de fato estiver dirigindo a entidade (CPC, art. 12, VII).
A competência para processar ação contra entidade de previdência
privada é a da respectiva sede (art. 100, IV, a, do CPC), excetuando-se os
casos em que possuidor hipossuficiente venha a optar pela propositura da
demanda em seu domicílio, a fim de facilitar-lhe o acesso à Justiça — STJ,
Súmula 321 (4â Turma, REsp 825.316, rei. Min. Jorge Scartezzini, j. 4-5-
2006).

84.2. Ação contra o administrador ou gestor de negócios alheios


Deve ser proposta no foro do lugar do ato ou fato invocado na inicial
como fundamento da pretensão (CPC, art. 100, V, b), se o autor não pre­
ferir propô-la no domicílio do réu. É o chamado forum rei gestae. Abran­
ge as ações contra tutores e curadores, como ensina Agrícola Barbi (Co­
mentários, cit., v. 1, n. 596).

84.3. Ação contra pessoa declarada judicialmente ausente (CC,


art. 22; CPC, arts. 1.159 e s.)
A demanda irá correr no foro do último domicílio que mantinha
antes do desaparecimento, citado o ausente na pessoa do curador (CPC,
art. 97).

156
Entretanto, se simplesmente for ignorado o domicílio e o paradeiro
do réu, a ação será proposta no foro do domicílio do autor (CPC, art. 94,
§ 2S), sendo o demandado citado por editais. Não acudindo à citação, ser-
-lhe-á nomeado um curador à lide (CPC, art. 9-, II).
A norma do art. 97 visa apenas complementar a regra geral relativa
ao domicílio do réu, não excluindo a incidência de foros especiais, como
por exemplo o foro do domicílio do autor caso a demanda verse indeniza­
ção por acidente de trânsito (art. 100, V, parágrafo único), ou o foro onde
a obrigação deveria ter sido satisfeita (art. 100, IV, d).

84.4. Ação contra incapaz


A ação em que um incapaz for réu será proposta no foro de seu re­
presentante ou assistente (menores absoluta ou relativamente incapazes;
pessoas sob interdição total ou parcial — CC, art. 76; CPC, arts. 98 e
1.185).

85. Mercosul. Acidentes de trânsito. Protocolo de São Luiz


Os países integrantes do Mercosul, “convencidos da importância de
se adotarem regras comuns sobre jurisdição internacional e direito aplicá­
vel no âmbito da responsabilidade civil emergente de acidentes de trânsi­
to”, firmaram em 25 de junho de 1996 o Protocolo de São Luiz (Rep.
Argentina), promulgado no Brasil pelo Decreto n. 3.856, de 3 de julho de
2001 (íntegra RF, 356:473).
Por esse Protocolo, “a responsabilidade civil por acidentes de trân­
sito será regida pelo direito interno do Estado Parte em cujo território
ocorreu o acidente”; todavia, segundo o art. 32, se do acidente “participarem
ou resultarem atingidas unicamente pessoas domiciliadas em outro Estado
Parte”, terá aplicação o direito interno deste último. Já a responsabilidade
civil “por danos sofridos nas coisas alheias aos veículos acidentados será
regida pelo direito interno do Estado Parte no qual se produziu o fato”.
Consoante o art. 7S, para conhecer das ações compreendidas neste
Protocolo serão competentes, por opção do autor, “os tribunais do Estado
Parte: a) onde ocorreu o acidente; b) do domicílio do demandado; e c) do
domicílio do demandante”.
Assim, se veículo registrado no Brasil capotar em estrada argentina,
ficando feridos apenas cidadãos domiciliados no Brasil (ou apenas cida­
dãos domiciliados no Uruguai), a responsabilidade civil será determina­
da na conformidade da lei material brasileira (ou uruguaia), podendo a

157
ação indenizatória ser proposta perante juízo da República Federativa do
Brasil (ou da República Oriental do Uruguai) ou perante a Justiça da
República Argentina. Mas em caso de colisão com outro veículo, resul­
tando também atingido cidadão domiciliado na Argentina, ou no Paraguai,
a responsabilidade civil reger-se-á pela lei argentina, sendo competente
para conhecer da demanda o juízo escolhido pelo autor, conforme dispõe
o art. 7e.
É de lamentar que o Protocolo não haja simplificado o procedimen­
to para as cartas rogatórias citatórias ou destinadas à instrução da causa ou ,
cumprimento das sentenças — como aliás previsto, para as medidas cau- <
telares, no Protocolo de Ouro Preto (v. o verbete n. 52, in fine).

í
86. Causas em que o Estado for parte, ou autarquia estadual
Os Estados federados, bem como suas autarquias ou empresas pú­
blicas, não gozam da vantagem de foro privativo', mas os Códigos de
Organização Judiciária estaduais podem, obedecidas as normas de com­
petência territorial, criar “juízos privativos” para os feitos da Fazenda,.
Pública25e26.
A autarquia estadual tanto pode ser demandada no local em que se
encontra localizada a respectiva sede quanto no foro do local onde contraiu
as obrigações (STJ, 5â Turma, Ag. Reg. no Ag. Inst. 42.513, 25-5-1994,
RSTJ, 74:11).
Assim decidiu o STJ, por sua lâ Turma: “O Estado membro não tem
foro privilegiado, mas juízo privativo (vara especializada), nas causas que

25. O antigo Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul, por sua 2a Câmara Cível,
relator Adroaldo Furtado Fabrício, decidiu o CC 29.025 sob a seguinte ementa: “Com­
petência.. Empresa Pública. Combinação dos Critérios Territoriais e Objetivo. Ação
movida à Comp. Est. de Energia Elétrica no foro do domicílio do autor, que é também
o do local do fato, com base no art. 100, § único, do CPC. Declinação !ex-officio’ da
competência para uma das varas da Fazenda Pública da Capital, e conseqüente recusa
da competência pelo titular desta, com suscitação de conflito. Impossibilidade de
criação pela lei estadual de privilégio de foro que a legislação federal não contemplou
(CPC, art. 91). Limitação do alcance da regra do art. 84, V, do COJE do RS aos feitos
que, segundo a lei processual federal, devam tramitar na comarca da capital. Procedên­
cia do conflito. Competência do Juiz suscitado” (JTARS, 45:187).
26. Na Comarca de Porto Alegre existem oito Varas da Fazenda Pública, com
competência nas causas em as quais, devendo correr no foro da Capital, for parte o
Estado do Rio Grande do Sul ou o Município de Porto Alegre, bem como suas autarquias,
empresas públicas, fundações de direito público e sociedades de economia mista.

158
devam correr na comarca da Capital, quando a Fazenda for autora, ré ou
interveniente. Nas causas pertencentes à competência territorial de qualquer
outra comarca não pode a Lei de Organização Judiciária atrair essas causas
para o foro da Capital (arts. 94, 99 e 100, IV, a, do CPC). Precedentes da
jurisprudência. Recurso improvido” (REsp 34.816, rei. Min. Milton Perei­
ra, ac. de 8-2-1995).
A mesma Ia Turma, no REsp 80.482, ac. de 22-2-1986, relator o Min.
José de Jesus, afirmou que, “conforme a jurisprudência desta Corte, o
Estado-membro não tem foro privilegiado, mas apenas Varas especializadas,
por isso que, tratando-se de procedimento contra a Fazenda Estadual, a
competência se fixa pelo local do fato, ex-vi do art. 100, IV, ‘d’, do CPC.
Precedentes”.
No Agi (Ag. Reg.) 164.394, ac. de 19-2-1998, sendo rei. o Min.
Garcia Vieira, ainda a 1- Turma firmou que “O Estado-membro não tem
foro privilegiado, mas sim juízo privativo (vara especializada) quando a
ação é ajuizada na Capital. Mas, quando é distribuída no interior, não pode
a lei de organização judiciária atrair a causa para a Capital. Agravo impro­
vido”.
Assim também no REsp 67.345, ac. de 13-6-1996, rei. Min. Demó-
crito Reinaldo: “A Fazenda do Estado (e a do Município), em face do
sistema jurídico-constitucional vigente, não tem foro privativo, mas, tão
só, Varas Especializadas. A competência das Varas Especializadas só se
toma absoluta quando a causa em que intervenha a Fazenda Estadual tenha
a Capital do Estado como o foro respectivo. É defeso à Lei de Organização
Judiciária, em se sobrepondo à legislação federal, instituir um foro especial
para a Fazenda Estadual, ou estabelecer a competência de foro de forma
diversa da previsão na Lei de Processo Civil”.
A 2â Turma, apreciando o REsp 167.308, fez constar da ementa que:
“Os Estados-membros não gozam de foro privilegiado, mas apenas de foro
privativo (vara especializada), podendo ser demandados no foro onde
ocorreram os fatos que deram origem à lide, mesmo que esse não seja o
da comarca da Capital” (rei. Min. Peçanha Martins, ac. de 16-6-2000).
O Superior Tribunal de Justiça, por sua Corte Especial, editou em
1--4-1998 o enunciado n. 206 de sua Súmula:
“A existência de vara privativa, instituída por lei estadual, não
altera a competência territorial resultante das leis de processo

159
87. Ação de anulação de títulos extraviados ou destruídos. Ações
acessórias. Reconvenção. Ação declaratória incidental
O Código de Processo Civil prevê que a ação de anulação de títulos
extraviados ou destruídos corra no foro do domicílio do devedor (CPC,
arts. 100, III, 907 e s.).
Dispõe ainda o Código de Processo Civil (art. 108) que a “ação
acessória ”27será proposta perante o juiz competente para conhecer da ação
“principal”.
Igualmente dispõe (art. 109) que a reconvenção e a ação declaratória :
incidental serão propostas perante o juiz da causa principal (e diferente ?
não poderia ser, pois são ações propostas no mesmo processo em que
corre a “ação principal”), e também perante o juiz da causa principal serão*
propostas “as ações de garantia e outras que respeitam ao terceiro interve-
niente”28.

87-A. Insolvencia civil


A insolvência civil pode ser requerida por credor munido de título
executivo judicial ou extrajudicial (art. 754) ou pelo próprio devedor ou
seu espólio (art. 759), devendo a execução ser proposta no foro da comar­
ca em que o devedor mantém domicílio (art. 760), e perante juiz de direi­
to (art. 9 2 ,1).
Nesse processo opera, em termos, a regra da universalidade do juízo,
conforme está no Ag. Reg. no Ag. 194.861, pois “o juízo universal da insol­
vência civil atrai para si todas as execuções propostas em face do devedor

27. Por exemplo, a ação de modificação de guarda de filho menor foi pelo Su­
premo Tribunal Federal considerada acessória com relação à ação de separação judicial
(antigo desquite) anteriormente proposta (RE 86.549).
Mas Galeno Lacerda entende que as modificações na situação alimentar e na
guarda de filhos, ou em cláusula alusiva ao direito de visita, constituem ações novas,
resultantes de novos fatos, e que por isso devem ser ajuizadas consoante as regras de
competência ligadas à nova situação (Comentários, cit., v. 8 ,1.1, n. 44).
O STJ, por sua 3âTurma (REsp 7.420, rei. Min. Nilson Naves, ac. de 14-12-1993),
adotou esta orientação, constando da ementa que a ação de modificação é autônoma,
não se aplicando o disposto no art. 108 do CPC, sendo competente o foro da residência
da mulher, “a teor do art. 100,1, do mesmo Código” (RSTJ, 59:158).
28. “As ações de garantia e outras que respeitam ao terceiro interveniente”: v.
g-, a oposição (arts. 57 e 60); a ação de embargos de terceiro (art. 1.049); a ação da
denunciação da lide, que é ação regressiva “no mesmo processo” (arts. 70 e s.) etc.

160
insolvente, excetuando-se as fiscais (CTN, art. 187)” (STJ, 3- Turma, rei.
Min. Nilson Naves, ac. 24-6-1999, DJU, 4 out. 1999, p. 56). O juízo da in-
solvência, todavia, não abrange senão as execuções, pois as ações de conhe­
cimento continuarão a tramitar normalmente nos juízos onde propostas, e
novas ações serão normalmente distribuídas, citando-se a massa na pessoa
de seu administrador. Trata-se, assim, de uma “universalidade” restrita.
A jurisprudência tem mantido a Súmula 244 do antigo Tribunal Fe­
deral de Recursos, verbis:
“A intervenção da União, suas autarquias e empresas públicas
em concurso de credores ou de preferência não desloca a competên­
cia para a Justiça Federal”,
Nos processos de insolvência civil, ainda que autarquia federal seja
credora, a competência é da Justiça estadual (STF, CJ 6.602-PR, rei. Min.
Aldir Passarinho, DJU, 5 set 1986, p. 15831).
Como refere Humberto Theodoro Júnior, “ainda que haja interesse
de pessoa sujeita à jurisdição especial, como a Federal ou a Trabalhista, o
processo de insolvência é da competência da Justiça comum (Código de
Processo Civil, art. 99, parágrafo único, I)” (A insolvência civil, 4. ed.,
Forense, n. 102, p. 114).
Pode ocorrer, outrossim, que a insolvência civil seja requerida pelo
credor que propôs ação de execução contra devedor que se supunha sol­
vente, e não encontrou bens suficientes a penhorar; nesses casos, algumas
decisões existem no sentido de que a ação de insolvência tenha curso no
mesmo juízo. Cuida-se, todavia, de questão polêmica, notando-se que o
autor antes citado sustenta que, mesmo quando “formulado o pedido de
insolvência pelo mesmo credor que antes ajuizara a execução singular, o
caso não é de prevenção, posto que ‘eljuicio de concurso es completamen­
te distinto y independiente dei juicio ejecutivo, así por sus fmes como por
los trâmites dei procedimiento a seguir’” (A insolvência civil, cit., n. 105,
p. 116). A determinação legal, sustenta Theodoro Júnior com remissão a
Sérgio Fadei e a Paulo Restiffe Neto, “não é prejudicada nem pelo foro
contratual, nem pela convenção de local diverso para o pagamento de dí­
vidas” (A insolvência civil, cit., n. 102, p. 114).
Considerou a 2â Seção do STJ que “o pedido de insolvência não é
continuação de processo de execução. E processo autônomo, independen­
te, que não tem por que acompanhar a competência para execução (cf.
REsp 292.383)” (CC 46.683, rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. 13-4-
2005).

161
88. Ações cautelares — art. 800 do CPC
À teor do art. 800 do Código de Processo Civil, “as medidas caute­
lares serão requeridas ao juiz da causa; e, quando preparatórias, ao juiz
competente para conhecer da causa principaV\
O emprego da expressão “preparatórias” é passível de justa crítica:
cuida-se, isso sim, de providências de caráter “preventivo”, propostas com
antecedência à ação principal. Essas providências, como adverte Galeno
Lacerda (Comentários, cit., v. 8, t. 1, n. 6 e 42), distinguem-se conforme
a natureza da tutela cautelar. >
Temos, assim, as ações jurisdicionais, tais como os arrestos, seques- ?
tros, cauções, buscas e apreensões, exibição, alimentos provisionais,
atentados, sustações de protestos de títulos; temos também os pedidos sob f
jurisdição voluntária, neles enquadradas as antecipações de provas (vis­
torias, perícias ou depoimentos ad perpetuam), as comunicações de von­
tade (protestos, notificações, interpelações) e os atos de administração de
interesses privados (homologações de penhor legal, posse em nome de
nascituro).
As ações jurisdicionais preventivas devem em princípio ser reque­
ridas no foro competente para conhecer da causa principal a ser propos­
ta. Todavia, cumpre lembrar que em casos de manifesta urgência tem-se
por exceção admitido que juiz territorialmente incompetente possa co­
nhecer da medida cautelar, de conformidade com o antigo preceito:
Quando est periculum in mora incompetentia non attenditur (por todos,
a respeito, Galeno Lacerda, Comentários, cit., n. 44), sem prejuízo da
propositura da ação principal no foro competente, de acordo com as
regras gerais.
Salientou Ovídio Baptista da Silva que no direito luso-brasileiro “é
tradicional a regra que confere competência para as ações cautelares aos
juízos originariamente incompetentes, sempre que a iminência do perigo
seja de tal magnitude que impeça o ajuizamento da demanda de segurança
perante o juiz que teria competência para da mesma conhecer”, e isso
tendo em vista que, “contendo todas as ações o selo da urgência, não seria
prudente amarrá-las sempre ao foro da demanda satisfativa, que será de­
terminado segundo regras e interesses de outra natureza” (Do processo
cautelar, Forense, 1996, p. 142). Igualmente Humberto Theodoro Júnior
refere a freqüente necessidade de a medida cautelar ser requerida ao juiz
do local onde se encontram os bens em risco de lesão (Curso de direito
processual civil, 39. ed., Forense, 2006, v. 2, n. 998).

162
No alusivo às cautelas voluntárias antecedentes, sustenta Galeno
Lacerda que podem ser propostas consoante critérios de conveniência,
cabendo de regra “aos juízos do local do fato ou do domicílio dos interes­
sados, salvo preceito de competência absoluta a ser obedecido”. Mas o
juízo da providência cautelar “não fica prevento para a demanda principal,
cujo aforamento deverá obedecer às regras próprias da competência” (Co­
mentários, c it, n. 43). Assim, v. g., embora vistoria ad perpetuam haja
tramitado no foro de Curitiba, onde ocorreu o acidente de trânsito, a ação
de indenização poderá ser ajuizada em Florianópolis, local de domicílio
do réu. V a nota de rodapé n. 1, verbete n. 63.1 e o REsp 59.238, STJ, 6â
Turma, rei. Min. Vicente Leal, j. 9-4-1997.

89. Ação cautelar ajuizada pendente recurso


A redação do parágrafo único do art. 800 do CPC sofreu notável
alteração, decorrente da Lei h. 8.952/94.
O texto anterior dispunha que, estando a causa no tribunal, a com­
petência seria do relator para os casos urgentes. Ora, além da circunstância
de que a urgência é, via de regra, inerente à fundamentação das pretensões
à cautela, a norma pretérita induzia o interessado a impetrar mandados de
segurança a fim de conseguir, pela via mandamental, a imediata tutela a
direitos não resguardados pela só interposição do recurso (Nelson Nery
Junior, Atualidades sobre o processo civil, Revista dos Tribunais, 1995, p.
122). Além disso, subsistia dúvida sobre se, durante a etapa de processa­
mento do recurso perante o juízo de primeiro grau, poderia o juiz conhecer
de ação cautelar, uma vez que teria cumprido e acabado o ofício jurisdi­
cional, art. 463, podendo assim tão somente mandar processar os eventuais
recursos.
Pelo novo texto legal, “Interposto o recurso, a medida cautelar será
requerida diretamente ao tribunal".
O Supremo Tribunal Federal, no entanto, em exegese francamente
restritiva, tem reiteradamente julgado (mantendo, aliás, orientação anterior
à Lei n. 8.952/94) que só lhe cabe conhecer de medidas cautelares após o
recurso extraordinário haver merecido juízo positivo de admissibilidade
na triagem inicial perante a Presidência do tribunal a quo, prevalecendo
tal orientação mesmo quando do juízo negativo houver sido interposto
agravo de instrumento (STF, Pet. 1.315, j. 18-7-1997, rei. Min. Celso de
Mello; Pet. 914, rei. Min. Néri da Silveira; Pet. 150, ac. de 18-9-1985, RTJ,

163
116:42%, rei. Min. Francisco Rezek; Pet. 1.812, j. 6-10-1999, Min. Celso
de Mello).
Já o Superior Tribunal de Justiça com frequência afasta tal restrição
— que aliás vem de encontro à própria literalidade da norma legal e aos
propósitos que a inspiraram — como, ainda, em casos excepcionais, em
sendo evidente a séria possibilidade de dano irreparável, tem inclusive
admitido o ajuizamento de cautelar visando atribuir o efeito suspensivo a
recurso especial ainda não interposto — melhor dito, visando impedir o
cumprimento do acórdão enquanto pendente a possibilidade de dele recor- ;
rer —, e isso pelo argumento de que, com a formação do acórdão, ainda >
que não publicado, a competência do tribunal de origem se teria exaurido,
e a entender em contrário não haveria tribunal competente para tutelar o
direito supostamente ameaçado (MC 835, 3â Turma, rei. Min. Waldemar
Zveiter, j. 5-8-1997; MC 424, Ia Turma, rei. Min. Gomes de Barros; MC
I.154, 3â Turma, rei. Min. Eduardo Ribeiro, j. 15-12-1998).
Mui recentemente, no entanto, foi no STJ afirmado que “este tribunal
compartilha da orientação pacificada pelo Pretório Excelso, exigindo o
exame da admissibilidade recursal pela Corte Estadual para conhecer de
medida cautelar objetivando a concessão de efeito suspensivo a recurso
especial interposto. A competência para análise de tal pedido cautelar no
período entre a interposição do recurso e a prolação do juízo de admis­
sibilidade é do Presidente do Tribunal a quo e não das Cortes Superiores.
Incidência das Súmulas 634 e 635 do STF” (4~ Turma, Ag. Reg. na MC
II.753, rei. Min. Jorge Scartezzini, j. 17-8-2006).
Impende, todavia, ponderarmos que na etapa entre a prolação da
sentença ou do acórdão recorrível, e a interposição do recurso (nos tribunais,
a própria redação do acórdão apresenta-se com frequência bastante demo­
rada), a medida cautelar deverá ser requerida ainda no juízo de origem, ou
seja, perante o juiz de primeiro grau prolator da sentença apelável, ou
perante o magistrado (Presidente ou Vice-Presidente do tribunal) a quem,
no segundo grau, irá caber a apreciação do futuro (e eventual) recurso
extraordinário ou recurso especial.
Somente após protocolada a petição recursal é que, em nosso enten­
dimento, a competência se transfere para o tribunal ad quem, onde a ação
“cautelar” (com pedido de cautelar stricto sensu, ou com pedido de ante­
cipação dos efeitos da tutela recursal) será apresentada e processada con­
soante as respectivas normas regimentais, cumprindo sublinhar que, uma
vez distribuída a inicial da demanda cautelar, tomar-se-áprevento o relator,

164
bem como sua Câmara ou Turma, para conhecer do recurso ainda em
tramitação na instância de origem29.
Essa disciplina aplica~se aos recursos interpostos ao Supremo Tribu­
nal Federal e ao Superior Tribunal de Justiça: “até que interposto o recur­
so extraordinário ou especial, a competência originária para as medidas
cautelares prosseguirá com o tribunal de origem, transferindo-se àqueles
no momento da efetiva interposição” (Cândido Dinamarco, A reforma cio
Código de Processo Civil, 4. ed., Malheiros Ed., 1997, n. 233).
Cumpre aqui anotar que o Supremo Tribunal Federal, em sessão de
24-9-2003, aprovou o Adendo n. 7 à Súmula de sua jurisprudência predo­
minante, nele incluindo dois enunciados a respeito do tema, a saber:
“634. Não compete ao Supremo Tribunal Federal conceder medida
cautelar para dar efeito suspensivo a recurso extraordinário que ainda
não foi objeto de juízo de admissibilidade na origem.
635. Cabe ao Presidente do Tribunal de origem decidir o pedido de
medida cautelar em recurso extraordinário ainda pendente do seu juízo
de admissibilidade”.
O assunto é por nós examinado detidamente na obra Recurso especial,
agravos e agravo interno, Cap. X, verbetes 32 a 35, em 6. ed.

90. Cumprimento da sentença


No alusivo ao cumprimento das sentenças condenatórias, agora re­
gido pelas disposições da Lei n. 11.232/2005 (a partir de 24 de junho de
2006), o novo art. 475-P apresenta o seguinte teor:
“Art. 475-P. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante:
I — os tribunais, nas causas de sua competência originária;
II — o juízo que processou a causa no primeiro grau de juris­
dição;
III — o juízo cível competente, quando se tratar de sentença
penal condenatória, de sentença arbitrai ou de sentença estrangeira.

29. Como aludido na MC 1.068, uma vez “interposto o recurso especial, a cau­
telar incidental será ajuizada diretamente no Superior Tribunal de Justiça, ainda que o
presidente do tribunal ‘a quo’ não tenha proferido juízo de admissibilidade. O fato de
o presidente da Corte de segundo grau não ter proferido juízo sobre o especial não
impede a concessão de efeito suspensivo ao recurso” (STJ, 2âTurma, ac. de 11-12-1997,
rei. Min. Adhemar Maciel.

165
Parágrafo único. No caso do inciso II do caput deste artigo, o
exequente poderá optar pelo juízo do local onde se encontram bens
sujeitos à expropriação ou pelo do atual domicílio do executado,
casos em que a remessa dos autos do processo será solicitada ao
juízo de origem".
Vemos portanto que, quanto ao juízo competente para proceder aos
atos de cumprimento da sentença, quer em execução definitiva, quer em
execução provisória, o art. 475-P mantém, em princípio, as disposições do
art. 575, agora revogado (embora não constante tal revogação do elenco
do art. 92 da Lei n. 11.232). Assim, iudex competens in cognitione negotii, .
competens quoque est in executione.
No concernente ao cumprimento das sentenças, são competentes não
apenas os “tribunais superiores” (como constava do antigo art. 575,1), mas'
também “os tribunais” em geral (como está no art. 475-P, I), quando se
tratar do cumprimento de acórdão (que “sentença” é) proferido em causa
de competência originária do colegiado. No magistério de Pontes de Mi­
randa, “vale para os Tribunais de Justiça o que se disse quanto ao Supremo
Tribunal Federal e quaisquer outros tribunais” (Comentários ao Código
de Processo Civil, v. IX, p. 159).
Os tribunais, vale ressalvar, “só têm competência executiva quando
perante eles originariamente fluiu o processo cognitivo; o fato de terem
julgado o feito em grau de recurso não desloca para eles essa competência,
que continua sendo do juiz a quo” (Cândido Dinamarco, Execução civil,
5. ed., Malheiros, 1997, n. 123, p. 205).
Podem os tribunais (e costumam) delegar atribuições, para a prática
de atos processuais de execução, a juízo inferior, com a expedição de
cartas de ordem (Cândido Dinamarco, ob. cit., n. 126, p. 210-211), sendo
no entanto defesa a delegação de competência para os atos decisórios,
relativos a incidentes processuais (Teori Zavascki, Processo de execução,
3. ed., Revista dos Tribunais, 2004, p. 125).
Em segundo lugar, é competente, como preceito básico, “o juízo que
processou a causa no primeiro grau de jurisdição”. Neste passo, em um
oportuno parágrafo único ao art. 475-P, a Lei n. 11.232 abre ao exequente
a opção pelo juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação,
ou pelo do atual domicílio do executado (competência territorial concor­
rente, portanto relativa). Para exercer tal faculdade, o exequente, compro­
vando a existência dos bens penhoráveis em outro juízo, ou haver o réu
mudado de domicílio, irá requerer ao juízo da sentença que seja determi-

166
nada a remessa do processo ao foro onde serão processados os atos exe­
cutivos (neste foro o processo será distribuído, se for o caso, a uma das
varas cíveis competentes). Caso, assim, de “deslocamento” de competên­
cia, de afastamento do princípio da perpetuatio jurisdictionis, com o ob­
jetivo de facilitar a entrega ao exequente do bem da vida a que tem ele
direito.
Fica ressalvada, claro está, a possibilidade de o executado impug­
nar o deslocamento de competência, arguindo, v.g., a inexistência de
bens penhoráveis no foro indicado, ou negando haja transferido seu
domicílio.
Segundo Araken de Assis, “a principal modificação, digna dos
maiores elogios, reside na quebra da competência funcional do juízo da
causa para processar a ulterior execução. A antiga vinculação obrigatória
da execução ao juízo que produziu (sentença não apelada ou cuja apela­
ção não foi conhecida) ou poderia ter produzido (sentença substituída
pelo pronunciamento superior, quer para confirmá-la, quer para reformá-
-la) provocava graves dificuldades para o exequente... (omissis)... Na
verdade, inexistiam razões ponderáveis para semelhante vinculação,
exceto o vezo da tradição” (Cumprimento da sentença, Forense, 2006,
n. 67, p. 181-182).
Aduz Pedro Luiz Pozza que, uma vez remetidos os autos ao outro
juízo, com afastamento da regra do art. 87 do CPC, passa o novo juízo “a
ser o competente para o julgamento de quaisquer incidentes que surgirem
no tramitar da execução, especialmente da impugnação, embargos à arre-
matação ou adjudicação, assim como embargos de terceiro, perdendo o
juízo que proferiu o título qualquer competência para atuar no feito” (co­
letânea A nova execução, Forense, 2006, p. 219).
Todavia, alertou Rodrigo Bariori para a conveniência em limitar
apenas às execuções definitivas essa faculdade de opção por outro foro e
juízo que não o da sentença, lembrando que, em se cuidando de execuções
provisórias, seu (eventual) processamento em juízo de outro Estado pode­
rá motivar problemas de competência (tribunais diversos...) para o julga­
mento de eventuais agravos interpostos de interlocutórias proferidas no
“novo” juízo (estudo na coletânea Processo de execução civil, Ed. Quartier
Latin, 2006, p. 238).
Finalmente, nos casos de cumprimento de sentença penal condena­
tória, de sentença arbitrai ou de sentença estrangeira, a execução proces-
sar-se-á perante “o juízo cível competente”, de conformidade com as

167
normas do CPC30. Nos casos de sentença estrangeira, a competência é da
Justiça Federal (CF, art. 109, X).
Tratando-se de sentença condenatória ao pagamento de prestações
alimentares, dispõe o art. 732 (ainda inalterado) que se aplica o disposto
no Capítulo IV do Título II do Livro II, isto é, as normas relativas à exe­
cução por quantia certa contra devedor solvente. O cumprimento da sen­
tença, adotando exegese sistemática, deverá fazer-se consoante os arts.
475-J e seguintes, no alusivo às prestações vencidas há mais de três meses.
O rito do art. 733, permissivo inclusive da prisão civil do devedor, será
utilizado em se tratando de dívida “atual”, de molde a assegurar no pre- ,
sente a subsistência do alimentando (neste caso, persiste a execução por
quantia certa como processo autônomo, iniciando com a citação do réu
para pagar os “alimentos provisionais”). *
No concernente às execuções por carta (CPC, art. 747), v. os verbe­
tes n. 120 e 121.

90-À. Ação de execução de título extrajudicial


Como escreveu Teori Zavascki, na execução fundada em título ex­
trajudicial a atividade jurisdicional executiva precede à (eventual) ativida­
de cognitiva, e isso porque a presunção de certeza, liquidez e exigibilida­
de da prestação, que decorre da lei, permite ao credor o imediato exercício
da pretensão à satisfação (Processo de execução, 3. ed., Revista dos Tri­
bunais, 2004, p. 133).
A ação de execução de título extrajudicial, regida pelo Livro II do
CPC, com as muitas alterações introduzidas pela Lei n. 11.382, de 6 de
dezembro de 2006, continua a reger-se pelo art. 576, ou seja, com submis­
são às regras gerais de competência. Assim, o foro do lugar do pagamento,
nos termos do art. 100, IV, d, será em princípio o competente para a ação
de execução do título extrajudicial, forum destinatae solutionis. (STJ, 2~
Seção, CC 1.422, rei. Min. Nilson Naves, j. 13-3-1991), podendo todavia

30. Interessante a observação de Araken de Assis de que, nos casos de sentença


penal condenatória, seus efeitos no alusivo à indenização pecuniária em favor da víti­
ma exigem, de início, a liquidação, a ser procedida no forum commissi delicti (CPC,
art. 100, V, d), E refere que para o cumprimento da sentença penal condenatória, não
importa qual a “Justiça” que condenou o réu; assim, “a sentença penal condenatória
oriunda da Justiça Federal executar-se-á na Justiça comum, pois semelhante causa não
se insere no art. 109,1, da CF/88” (Cumprimento da sentença, cit., n. 70).

168
o exequente optar pelo foro de eleição ou pelo foro de domicílio do réu
(STJ, 2- Seção, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, j. 25-8-1993; 3- Turma,
REsp 160.711, rei. Min. Ari Pargendler, j. 17-5-2001).
Conforme o Min. Sálvio de Figueiredo, o foro do lugar do pagamen­
to é igualmente competente para as ações “inversas” (2â Seção, CC. 4.404,
j. 25-8-1993), como as ações de consignação em pagamento, ou anulatória
do título. Nos casos de execução de duplicata, incide o disposto no art. 17
da Lei n. 5.474/68, sendo competente o foro da praça de pagamento, ou o
do domicílio do comprador.
No alusivo à execução hipotecária, embora as manifestações no
sentido de que o foro competente seria o da situação do imóvel, parece-nos
correto sustentar, com Cândido Dinamarco, que a ação executiva hipote­
cária não é ação real sobre o imóvel, de forma que para efeito de compe­
tência deve permanecer o foro do lugar para cumprir a obrigação, ou, à
falta de convenção a respeito, o foro pessoal (Execução civil, 6. ed., Ma­
lheiros Ed., 1998, p. 224 e 227). Nesta obra, v. os verbetes n. 74 e 75.

91. Justificações judiciais


Destina-se a justificação judicial, nos termos do art. 861 do Código
de Processo Civil, à comprovação pelo requerente, em procedimento de
jurisdição voluntária (não obstante sua colocação entre os processos cau­
telares; a respeito, v. Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, Comentários ao
Código de Processo Civil, Forense, v. 8, t. 2, n. 167; Humberto Theodoro
Júnior, Processo cautelar, 4. ed., LEUD, n. 274), de algum fato ou relação
jurídica, “seja para simples documento e sem caráter contencioso, seja para
servir de prova em processo regular”. Impõe-se a citação pessoal dos in­
teressados, em última análise a pessoa física ou jurídica, de direito privado
ou público, perante quem ou contra quem a justificação se destine a ser
apresentada (CPC, arts. 862 e 864).
Deverá a causa (os procedimentos de jurisdição voluntária também
são considerados “causas”, pelo que podem propiciar julgamentos no STF
ou no STJ em grau de recurso extraordinário ou de recurso especial) tra­
mitar, por via de regra, no foro do domicílio ou residência do requerente
(v. o verbete n. 102).
Mas se a pessoa contra quem se pretenda fazer valer a prova for
entidade de direito público federal, competente será para a justificação o
juízo federal ou o juízo estadual?

169
No antigo Tribunal Federal de Recursos inclinavam-se os julgados pela
competência da Justiça Estadual no alusivo a questões vinculadas ao “direi­
to de família”, isso a teor da Súmula 53 daquele colegiado. Instalado o Su­
perior Tribunal de Justiça, de início tal orientação resultou mantida, v. g.,
nos CC 127 e 231. Todavia, no CC 660, de que fui relator (acórdão na ínte­
gra no Anexo IV), a 2- Seção, em um caso de justificação de “união de fato”
para servir de prova perante o Ministério do Exército, após longo debate,
firmou posição pela competência da Justiça Federal sempre que essencial
para a validade do processo a citação da União (ou autarquias federais etc.),
sendo a respeito posteriormente editada a Súmula 32, verbis:
“Compete à Justiça Federal processar justificações judiciais
destinadas a instruirpedidos perante entidades que nela têm exclusivi­
dade de foro, ressalvada a aplicação do art. 15, II, da Lei
5.010/66
A situação, então, está nos seguintes termos:
1. Se interessada na justificação a União Federal ou entidade de direi-
to público federal, perante quem a justificação deva ser apresentada como
prova, competente é a Justiça Federal; caso contrário, a Justiça do Estado;
2. Quando competente a Justiça Federal, duas situações podem apre­
sentar-se:
a) se no local de domicílio ou residência do requerente for se­
diada Vara Federal, nesta correrá a causa (STJ, 2â Seção, CC 2.452,
j. 26-8-1992, rei. Min. Athos Carneiro);
b) se no local não for sediada Vara Federal, o processo de jus­
tificação deve ser ajuizado perante o juízo estadual, que nesse caso
agirá sob “jurisdição federal delegada”, nos exatos termos do art. 15,
II, da Lei n. 5.010/66 (lei que organizou a Justiça Federal de primei­
ra instância), norma confirmada pelo art. 109, § 3S, infine, da Cons­
tituição de 1988.
Ao Tribunal Regional Federal da região (CF, art. 109, § 4-) cabe, em
qualquer destes casos, o julgamento de eventuais recursos.
Vale aditar que é da Justiça Federal a competência “para apreciar
pedido de declaração de ausência para o fim específico de obter benefício
previdenciário junto à autarquia federal”. Nesse sentido o CC 20.093, 2-
Seção do STJ, ac. de 12-8-1998, rei. Min. Barros Monteiro; CC 31.698,
rei. Min. Cesar Rocha, dec. de 8-8-2001; CC 31.281, rei. Min. Castro
Filho, dec. de 19-12-2001.

170
Quanto aos. pedidos em jurisdição voluntária de declaração de união
estável, ou de sua extinção (e também quanto às ações em jurisdição con­
tenciosa), a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça adota a seguin­
te orientação:
a) em princípio, será o pedido, ou a ação, proposto perante a Justiça
comum, Vara de Família (v. o verbete n. 80, parte final), podendo a sen­
tença ser posteriormente utilizada, para fins de prova, perante órgãos públi­
cos (CC 26.680,2S Seção, rei Min. Menezes Direito, DJU, 17 abr. 2000);
b) caso o reconhecimento de união estável se destine especificamen­
te b.fazer prova perante órgão federal, será competente a Justiça Federal;
todavia, no caso de inexistência de Vara Federal no domicílio do reque­
rente ou autor, será competente o juízo estadual, a teor do art. 15, II, da
Lei n. 5.010/66, ou seja, a jurisdição federal é “delegada”, em primeira
instância, ao juízo estadual (CC 32.588, 2- Seção, rei. Min. Nancy Andri­
ghi, ac. de 26-6-2002, na íntegra em RSTJ, 161:223).
Muito recentemente, decidiu o STJ que compete à Justiça Estadual
processar a ação que tenha por objetivo o reconhecimento de união estável
após a morte de servidor público, bem como o cadastro da autora no órgão
federal a fim de receber a pensão por morte. Precedentes citados: CC
45.703; CC 51.173 (STJ, RMS 24.005,5âT., rei. Min. Arnaldo Esteves, j.
26-2-2008).

91-A. Pedidos de alvará. FGTS, PIS-PASEP


A l- Seção do STJ aprovou, aos 12-6-1996 {DJU, 19 jun. 1996, p.
21940), enunciado sumular do seguinte teor:
“161 — E da competência da Justiça Estadual autorizar o le­
vantamento dos valores relativos ao PIS/PASEP e FGTS, em decor­
rência do falecimento do titular da conta".
A orientação vem sendo mantida em numerosos conflitos de compe­
tência que continuam sendo suscitados. No CC 29.100, de que foi relator
o Min. Hamilton Carvalhido, lê-se que: “A jurisprudência deste Superior
Tribunal de Justiça firmou já entendimento no sentido de que compete à
Justiça Comum Estadual processar e julgar pedido de expedição de alvará
objetivando o levantamento de benefício previdenciário de segurado fale­
cido. É que, em se tratando de processo de jurisdição voluntária, afasta-se
a incidência do art. 109 da Constituição Federal, ainda que o pedido de
alvará judicial seja contra a autarquia previdenciária federal” (dec. de 31-
5-2000).

171
A l â Seção, em aresto proferido no CC 28.129, rei. o Min. Milton Luiz
Pereira, fez constar da ementa que “pedido de movimentação do FGTS e
PIS, em sede de jurisdição voluntária, inexistente o litígio, o exame da
pretensão quanto à competência não está albergado pela Constituição Fe­
deral (art. 109), não se justificando o deslocamento para a Justiça Federal.
Precedentes jurisprudenciais — Súmula 161/STJ” (ac. de 24-8-2000).
Afirmou o Min. José Delgado, no CC 30.939, que “o conflito levan­
tado já não encerra polêmica no seio deste Sodalício, no sentido de que o .
pedido de alvará, para levantamento de valores pleiteados junto à CEF,
atinentes ao PIS, em razão do falecimento do titular da conta, é de com­
petência da Justiça Estadual. Tratando-se de atividade específica de juris­
dição voluntária, inexistindo interesse jurídico na relação processual por
parte da CEF, tem-se como incompetente o Juízo federal” (dec. de 8-2-
2001). No mesmo sentido o CC 46.552, dec. 15-10-2004.
Em recente pronunciamento, a 1~Seção melhor explicitou sua posição.
Assim, se o levantamento dos depósitos do FGTS encontra resistência por
parte do Conselho Curador ou da entidade gestora, a CEF, a competência
para julgar a ação será da Justiça Federal, nos termos do enunciado 82 da
Súmula do STJ. Será caso d&jurisdição contenciosa. Todavia, se o pedido
mantém-se em âmbito não contencioso, “sendo a CEF apenas simples
destinatária do alvará, afasta-se a competência prevista no art. 109,1, da
Carta Magna”, sendo então competente a Justiça Estadual, que decidirá as
questões relacionadas com a divisão dos depósitos, a teor da Súmula 161-
STJ. Assim, “a simples expedição de alvará para levantamento de saldo de
conta vinculada do FGTS traduz-se em ato de jurisdição voluntária, des­
viando a competência para a Justiça Estadual” (CC 41.036, rei. Min. Castro
Meira, ac. 9-6-2004). Idem, CC 41.392, rei. Min. Teori Zavascki (dec. 18-
3-2004). Idem, CC 47.555, rei. Min. Castro Meira (dec. 18-1-2005). Idem,
CC 61.612, rei. Min. Castro Meira, lâ Seção, j. 23-8-2006.
A Justiça do Trabalho também poderá autorizar tal levantamento.
Assim, no REsp 637.055, o STJ refere que “a Justiça do Trabalho aceita a
sentença arbitrai como meio hábil a pôr fim à relação de trabalho, tal como
uma sentença judicial. Logo, também é apta para proporcionar o levanta­
mento dos saldos de conta vinculada ao FGTS (art. 20, I, da Lei n.
8.036/1990). Precedente citado aoTST: RR 491.080)” (2~ Turma, rei. Min.
Eliana Calmon, ac. 28-9-2004, Informativo do STJ, n. 223, out. 2004).
É possível, outrossim, que com a superveniência da EC n. 45/2004
venha a Justiça do Trabalho a considerar-se como a competente para a

172
prática dos atos de jurisdição voluntária relativos à movimentação do
FGTS. Mas não será demasia ponderar que, mesmo em sua atual redação,
o art. 114 da CF prevê a competência da Justiça laborai apenas para o
julgamento de “ações” e de “outras controvérsias” decorrentes da relação
de trabalho, o que sugere uma competência apenas no âmbito da jurisdição
contenciosa propriamente dita.
V. o verbete n. 94.

173
1

Capítulo XIX
REGRAS DE COMPETÊNCIA
PREVISTAS EM LEIS
ESPECIAIS

92. Ação de acidente do trabalho


A ação de acidente do trabalho manteve-se no âmbito da Justifa
Comum Estadual (ou do Distrito Federal), sob rito sumário, sendo foro
competente o do “lugar em que se deu o ato oufato, nos termos do art 100,
V, 'a\ do C PC ’ (REsp 167.725, 4ê Turma, rei. Min. Aldir Passarinho Jr.,
ac. de 21-9-2000), podendo todavia o demandante, ou seja, o acidentado
optar pelo foro do domicílio do réu, atualmente sempre o INSS1,2e3.
Em obra recente, lembrou Sergio Bermudes a advertência de Evandro
Ramos Lourenço, de que a CF exclui a competência da Justiça do Trabalho
para as ações de acidentes do trabalho quando, no art. 119,1, dissocia as
causas de acidente do trabalho das de competência da Justiça laborai:
“Fosse desta a competência para aquelas, obviamente não haveria neces-

1. O foro do INSS (resultante da fusão dos antigos INPS e IAPAS — Lei n.


8.029/90; Dec. n. 99.350/90) é o de sua sede no Distrito Federal ou da capital do Es­
tado onde esteja o órgão local, para os atos deste emanados.
2. Segundo decisões do STJ, o acidentado não pode optar por propor a ação no
foro de seu próprio domicílio, pois competente “o juízo do local em que ocorrido o
fato danoso” ( REsp 165.725, rei. Min. Aldir Passarinho, DJU, 20 nov. 2000; REsp
112.177, rei. Min. Eduardo Ribeiro, DJU, 8 set. 1998; REsp 493.455, rei. Min. Nancy
Andrighi, dec. 26-3-2003, DJU, 4 abr. 2003, p. 369).
3. Como está em decisão do Min. Celso de Mello, “tratando-se de matéria aci-
dentária, qualquer que seja a condição ostentada pela parte que figura no polo passivo
da relação processual (INSS ou empregador) há, no que se refere a tais causas, expres­
sa reserva de competência instituída, ope constitutionis, em favor da Justiça comum
dos Estados-membros. Esta reserva de competência, que tem sido tradicional em nos­
so sistema de direito constitucional positivo, permanece íntegra, não obstante a super-
veniência da EC 45/2004” (STF, Ag. Inst. 533.764, rei. Min. Celso de Mello, dec. de
10-3-2005, DJU, 16 mar. 2005, p. 59).

174
sidade para a referência isolada às ações acidentárias porque estariam
englobadas nas causas da Justiça trabalhista” (A Reforma do Judiciário
pela Emenda Constitucional n. 45, Forense, 2005, p. 85).
A vigente Constituição de 1988 a respeito refere-se por exclusão, ao
afastar a competência da Justiça Federal para julgar tais causas, ainda que
a União, autarquia ou empresa pública federal sejam parte na demanda
(art. 109, item I, in fine).
Não se cuida, outrossim, de dissídio individual entre empregado e
empregador, e destarte (salvo se lei constitucional futura vier expressa­
mente a incluir tais lides como decorrentes da “relação de trabalho” inse­
ridas na jurisdição especializada) persiste a competência da Justiça comum,
aliãs já aparelhada para dirimir tais conflitos.
Assim dispõe a vigente Lei n. 8.213 — Lei da Previdência Social, de
24-7-1991, art 129, verbis:
“Art. 129. Os litígios e medidas cautelares relativos a aciden­
tes de trabalho serão apreciados:
I .................................................................................................
II. na via judicial, pela Justiça dos Estados e do Distrito Fede­
ral, segundo o rito sumaríssimo, inclusive durante as férias forenses,
mediante petição instruída pela prova de efetiva notificação do
evento à Previdência Social, através de Comunicação de Acidente
do Trabalho — CAT” (onde consta “rito sumaríssimo” leia-se, agora,
“rito sumário”, conforme o atual art. 275 do Código de Processo
Civil).
No CC 28.415, a 2~ Seção do STJ taxativamente afirmou (da ementa)
que a Constituição de 1988 “não modificou a regra, tradicional no direito
brasileiro, de que compete à Justiça comum, e não à trabalhista o julga­
mento dos litígios referentes a acidentes de trabalho, fundados no direito
comum” (ac. de 10-5-2000, rei. Min. Eduardo Ribeiro, RSTJ, 755:233).
Lê-se no voto do eminente relator: “Não seria razoável admitir-se que a
Constituição, sem norma clara e explícita, houvesse pretendido, inovando
radicalmente, dividir as competências para decisão de idêntico tema. O
mesmo acidente de trabalho, que gera efeitos regulados pelo Direito comum
dá nascimento, também, a direitos previdenciários. Não seria conveniente
que em ramos diferentes do Judiciário a matéria fosse examinada, ense­
jando contradições lógicas. Assim é que, para determinado efeito, se po­
deria ter o acidente como verificado e para outro não” (p. 235).

175
Nesse sentido a Súmula 15 do Superior Tribunal de Justiça, verbis:
“Compete à Justiça Estadual processar e julgar os litígios
decorrentes de acidente de trabalho”,
na esteira da Súmula 501 do STF, pela qual
“Compete à Justiça ordinária estadual o processo e o julga­
mento, em ambas as instâncias, das causas de acidente do trabalho,
ainda que promovidas contra a União, suas autarquias, empresas
públicas ou sociedades de economia mista”. .
Irrelevante, a respeito, o superveniente enunciado n. 736 (Adendo n. 8 >
à Súmula, aprovado pelo STF em sessão de 26-11-2003), do seguinte teor:
“Compete à Justiça do Trabalho julgar as ações que tenham$
como causa de pedir o descumprimento de normas trabalhistas re­
lativas à segurança, higiene e saúde dos trabalhadores
Com efeito, é mister não confundir demandas em geral, referentes
ao descumprimento de normas trabalhistas relativas à saúde, higiene e
segurança dos trabalhadores (como as ações que a empresa venha a ajuizar
buscando a anulação de multa imposta pelo Poder Público), com as ações
que busquem indenização por acidente de trabalho, ainda que decorrente
da infração de tais normas. V., nesta obra, os verbetes n. 113.3 e 113.5.
Muito recentemente, já sob a vigência da EC n. 45 (publicada em
8-12-2004), o Supremo Tribunal Federal de início afirmou, p. m. v., que
as ações de indenização por dano moral ou material decorrente de aciden­
te do trabalho mantinham-se na competência da Justiça Estadual (RE
438.639, Plenário, rei. desig. Min. Cezar Peluso, ac. 9-3-2005); posterior­
mente, no julgamento do CC 7.204, sendo relator o Min. Carlos Britto, o
Plenário passou ao unânime entendimento de que apenas as ações de aci­
dentes de trabalho, ajuizadas contra o INSS, permanecem com a Justiça
Estadual, tendo as demandas por danos materiais e morais decorrentes do
acidente e promovidas contra o empregador, passado à competência da
Justiça laborai (j. 29-6-2005).
A divergência jurisprudência!, no entanto, tende ao desaparecimento,
prevalecendo a orientação da Corte Suprema no sentido de que o ajuiza-
mento da ação pelos sucessores do trabalhador não afasta a competência
da Justiça laborai. Com efeito, o STJ, por sua Corte Especial, veio a can­
celar sua recente Súmula 366 (aprovada em 19-11-2008 e que afirmava a
competência da Justiça comum), e o fez no julgamento, em 16-9-2009, do

176
CC 101.977, relator o em. Min. Teori Zavascki, com expressa referência
à necessidade de evitar recursos desnecessários.
Em se tratando de doença profissional, ou de doença do trabalho,
assimiladas ao acidente do trabalho (Lei n. 8.213/91, art. 20), a 2â Seção
'do STJ igualmente considerava competente a Justiça comum, sendo
numerosas as decisões nesse sentido. Todavia, com o acatamento à orien­
tação do Supremo Tribunal Federal e o cancelamento da Súmula 366-STJ,
a competência para o julgamento de tais ações deve ser igualmente re­
conhecida à Justiça do Trabalho.
Foro competente será o do lugar do ato ou fato, ou da prestação do
serviço cuja insalubridade gerou a doença incapacitante, a teor do art. 100,
V, a, do CPC (4â Turma, REsp 655.206, rei. Min. Aldir Passarinho, ac.
23-11-2004; REsp 568.794, rei. Min. Castro Filho, dec. 26-4-2005).

93. Ação revisional de benefício previdenciário decorrente de


acidente do trabalho
Não obstante seja competente a Justiça Comum Estadual para pro­
cessar os litígios decorrentes de acidente do trabalho, quer ajuizados
contra o INSS, quer contra o empregador, no caso previsto na Constituição
Federal, art. 7-, XXVIII (indenização nos casos de culpa ou dolo), o Su­
perior Tribunal de Justiça vinha inicialmente decidindo no sentido de que
as ações de revisão do benefício previdenciário, ainda que decorrentes de
acidente do trabalho, seriam de competência da Justiça Federal4.
Todavia, o Supremo Tribunal Federal, por seu Plenário, adotou di­
versa orientação no julgamento do RE 176.532, j. 5-2-1998, rei. orig. Min.
Marco Aurélio, rei. p/ o acórdão Min. Nelson Jobim, firmando a tese de
que é da Justiça comum, em ambas as instâncias, a competência para
processar e julgar a ação de revisão do benefício previdenciário devido
pelo INSS. Segundo consta do voto do Min. Celso de Mello, por efeito da
cláusula de exclusão constante do a rt 109, I, da CF, a competência da
Justiça local estende-se “a todos os processos que se destinem a obter

4. A orientação da 3a Seção do STJ era firme nesse sentido, de que a Justiça


comum só seria competente para julgar, em primeira instância, ação revisional de pro­
ventos contra o INSS se a comarca do foro do domicílio do segurado ou beneficiário
não dispusesse de vara da Justiça Federal, agindo então por “delegação”, com recurso
para o TRF da região (CC 13.790, 3- Seção, rei. Min. Anselmo Santiago, j. 3-8-1995,
DJU, 13 nov. 1995, p. 38635; CC 22.004, rei. Min. Anselmo Santiago, j. 26-8-1998,
DJU, 5 out. 1998, p. 15).

177
tanto a fixação como o reajustamento dos benefícios acidentários outorga­
dos aos trabalhadores vitimados por acidente-tipo ou acometidos por
moléstias profissionais ou doenças do trabalho.... (omissis)... Não se pode
desconsiderar, ainda, uma outra circunstância de inegável relevo jurídico:
tratando-se de reajustamento de prestação acidentária concedida pela
Justiça estadual, qualquer modificação em seu valor somente pode decor­
rer de expressa manifestação da própria esfera judicial de que emanou o
reconhecimento do direito ao benefício legal titularizado pelo trabalhador
interessado”. E são trazidos à balha precedentes da Alta Corte nos RE;
167.565, rei. Min. Ilmar Galvão, RE 174.894, rei. Min. Celso de Mello, ç,
Ag. Reg. no Ag. 154.938, rei. Min. Paulo Brossard.
Tal posicionamento, pela competência da Justiça comum não apena§
para as ações derivadas diretamente do acidente do trabalho, mas igual­
mente para as causas relativas às conseqüências da decisão, tais como a
fixação dos benefícios futuros, é mantido pelo STF, conforme decorre,
v. g., do RE 264.560, rei. Min. Ilmar Galvão (ac. de 25-4-2000).
Ficou, pois, configurado um dissídio entre os dois tribunais, cum­
prindo prevalecer, no plano institucional, como é óbvio, as diretrizes fir­
madas pela Corte Suprema.
Assim, com superação das divergências e à unanimidade, a 3â Seção,
apreciando o CC 31.928, veio a afirmar que “a jurisprudência do Supre­
mo Tribunal Federal consagrou o entendimento de que as ações revisio-
nais de benefícios acidentários têm como foro competente a Justiça
Comum Estadual”, referindo os precedentes do STF no RE 204.204, rei.
Min. Maurício Corrêa, e no RE 264.560, rei. Min. Ilmar Galvão; assim,
teve por competente a Justiça estadual (rei. Min. Vicente Leal, ac. de
18-2-2002).
No mesmo sentido, pela competência da Justiça Estadual, os CC
33.092, rei. Min. Paulo Gallotti, dec. de 21-5-2002; CC 31.703, 3â Seção,
rei. Min. Hamilton Carvalhido, ac. de 27-2-2002; CC 34.214, 3â Seção,
rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. de 22-5-2002; REsp 335.134, 6â Tur­
ma, rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. de 21-2-2002, RSTJ, 161:557.

94. Ações relativas à movimentação do Fundo de Garantia


A Corte Especial do STJ aprovou, em 18-6-1993, a Súmula 82, com
o seguinte teor:

178
“Compete à Justiça Federal, excluídas as reclamações trabalhis­
tas, processar e julgar os feitos relativos à movimentação do FGTS”.
Assim, quando o pedido relativo à movimentação do FGTS, em sede
. de jurisdição contenciosa, não houver sido formulado conjuntamente com
pretensões de natureza laborai e, portanto, perante a Justiça do Trabalho,
mas sim ajuizado diretamente contra a Caixa Econômica Federal, empre­
sa pública federai e órgão gestor do mesmo Fundo, hã “tranqüila jurispru­
dência sobre caber à Justiça Federal a competência para as ações de levan­
tamento do fundo de garantia” (STJ, CC 14.129, j. 26-9-1995, rei. Min.
José Dantas; CC 27.231, j. 29-2-2000, rei. Min. Milton Luiz Pereira; CC
38.389, Ia Seção, rei. Min. Peçanha Martins, j. 24-3-2004).
Mantém-se a orientação em se tratando de medida cautelar objeti­
vando a liberação do FGTS em decorrência de alteração do regime jurídi­
co do funcionalismo federal (STJ, 1- Seção, CC 14.069, j. 26-9-1995, rei.
Min. Cesar Rocha), e igualmente nos pedidos de alvarás com a mesma
finalidade (STJ, l â Seção, CC 14.108, j. 29-8-1995, rei. Min. Cesar Rocha;
CC 17.764, j. 27-11-1996, rei. Min. Pádua Ribeiro).
Também são de competência da Justiça Federal, diga-se, as ações
propostas por mutuários do SFH, versando sobre o reajustamento de pres­
tações decorrentes do financiamento da casa própria (STJ, 1- Seção, CC
17.839, rei. Min. Pádua Ribeiro, j. 27-11-1996).
Já no concernente aos pedidos de alvará para levantamento do FGTS,
assentou-se a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de
que, cuidando-se de procedimento de jurisdição voluntária, em que não
há litígio entre o postulante e a Caixa Econômica Federal (esta não é au­
tora, nem ré, assistente ou opoente), a competência pertence à Justiça
Estadual, sendo a CEF apenas a destinatária da ordem (CC 8.529, l 5Seção,
reL Min. Humberto Gomes de Barros; CC 17.431, rei. Min. Milton Perei­
ra; CC 24.809, rei. Min. Aldir Passarinho, dec. 11 maio 1999).
Essa orientação fixou-se na Súmula 161-STJ, a saber:
“E da competência da Justiça Estadual autorizar o levanta­
mento dos valores relativos ao PIS/Pasep e FGTS, em decorrência
do falecimento do titular da conta”.
V., a respeito, o verbete n. 91-A.

179
95. Ação de desapropriação
Quando proposta pela União, o foro competente é o do Distrito Fe­
deral ou o da capital do Estado onde for domiciliado o réu, perante a
Justiça Federal; proposta por Estado, Município, suas respectivas autarquias
(ou também por concessionários de serviços públicos, por sociedades de
economia mista ou entidades outras autorizadas a promover desapropria­
ções), a ação será da competência da Justiça comum, no foro da situação
do bem expropriado, e, onde houver, no juízo privativo da Fazenda Públi­
ca (Dec.-lei n. 3.365, de 21-6-1941, arts. 11, 2&e 3e)5>6e7.
Somente os juizes que gozam da vitaliciedade são competentes parâ
conhecer dos processos de desapropriação (Dec.-lei n. 3.365, art. 12);
todavia, nos termos do art. 22, § 2-, da antiga Lei Orgânica da Magistra^

5. Embora a opinião de Manoel de Oliveira Franco Sobrinho de que às autarquias


(no caso, às federais) não assistem as vantagens reservadas à União (Desapropriação ,
2. ed., Resenha Universitária, 1977, n. 129), entendemos, com R. Limongi França, que
às autarquias, no que couber, aplicam-se os privilégios da União (Manual prático das
desapropriações, 2. ed., São Paulo, Saraiva, 1978, p. 103). Assim, a ação expropriató-
ria corre perante a Justiça Federal, na capital do Estado, salvo se houver Vara federal
no foro rei sitae.
Mas se o expropriante é concessionário de serviço público federal, “é eleito o
foro da situação da coisa, determinando-se a promoção expropriatória por decreto
federal” (Cretella Júnior, Tratado da desapropriação , Forense, 1980, v. 2, n. 105). Se
a União, contudo, manifesta interesse direto na causa, passa a demanda à Justiça Fe­
deral (TFR, Pleno, CC 2.908, ac. un. de 14-4-1977, rei. Min. Márcio Ribeiro).
A ação chamada de desapropriação indireta corre no foro da situação do imóvel,
por participar “da mesma natureza das demandas expropriatórias diretas” (2~ TACSP,
2- Câm., Ag. Inst. 22.450, em 5-6-1975; TJRS, l â Câm. Cív., Ag. Inst 39.906, em 15-
12-1981, RJTJRS, 97:244).
6. O STJ, por sua Ia Seção, em aresto do qual nos permitimos dissentir, julgou
que ação desapropriatória promovida pela Petrobras, porque no exercício do monopó­
lio da União e porque a inicial fora também assinada por Procurador da República,
seria de competência da Justiça Federal. Em suma: competência “em razão da matéria”,
pois a União não assumira processualmente nenhuma das posições mencionadas no
art. 109,1, da CF (ac. em RSTJ, 59:29).
7. Decidiu igualmente a l â Seção que em ação de desapropriação ou de consti­
tuição de servidão administrativa, ajuizada por empresa concessionária de energia
elétrica, manifestando a União, expressamente, seu desinteresse no feito, não poderá
ser ela obrigada a integrar a lide, cabendo portanto o julgamento da causa à Justiça
Estadual, a teor do art. 2S da Lei 8.197/91. As sociedades de economia mista, como
está na Súmula 5 17-STF, só têm foro na Justiça Federal quando a União intervém como
assistente ou opoente (CC 33.173, rei. Min. Garcia Vieira, ac. de 24-4-2002, DJU , 27
maio 2002, p. 123).

180
A l .1

tura Nacional, os juizes federais e os juizes de direito, embora durante o


primeiro biênio de exercício ainda não gozem de estabilidade, poderão
praticar todos os atos reservados por lei aos juizes vitalícios.

96. Ação de cobrança de duplicata


Será proposta no local indicado no título como “praça de pagamento”,
ou no foro do domicílio do comprador; ou, nos casos de ação regressiva,
no foro do domicílio do demandado, seja ele o sacador, o endossante ou
respectivos avalistas (Lei n. 5.474, de 18-7-1968, art. 17, com a redação
dada pela Lei n. 6.458, de 1 M 1-1977).

96-A. Ações previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente


Em conformidade com a Lei n. 8.069 — Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA), muitas são as ações de competência da Justiça da
Infância e da Juventude, como as ações de adoção, de guarda e tutela de
menores, de destituição do poder familiar, de emancipação, de alimentos
em favor de menor etc.
A fixação do foro competente obedecerá ao disposto no art. 147, pelo
qual a competência será determinada:
— pelo domicílio dos pais ou responsável;
— pelo lugar onde se encontre a criança ou o adolescente, à falta dos
pais ou responsável.
A 2â Seção do STJ, em conflito de competência entre Juízo de Famí­
lia de Belo Horizonte e Juízo de Família de Niterói/RJ, decidiu que, a teor
da orientação daquela alta Corte, “a competência para dirimir as questões
referentes ao menor é a do foro do domicílio de quem já exerce a guarda,
na linha do que dispõe o art. 147,1, do ECA. Hipótese em que, ademais,
a fixação da competência atende aos interesses da criança” (CC 43.322,
rei. Min. Barros Monteiro, j. 9-3-2005).
Essa orientação foi reafirmada com o asserto de que, nos termos do
art. 147,1, do Estatuto da Criança e do Adolescente, a competência para
apreciar as ações que envolvam interesse de menor é a do foro do domicí­
lio dos pais ou responsáveis; todavia, ostentando ambos o pátrio poder, as
ações devem ser propostas no foro do domicílio daquele que detém a res­
pectiva guarda (CC 93.279,2a Seção, p.m.v., rei. Min. Luis Felipe Salomão,
DJe, 27-3-2009).

181
Em conseqüência, a 2a Seção veio a editar o enunciado 383 da Sú­
mula do STJ, nos termos seguintes: “A competência para processar e
julgar as ações conexas de interesse de menor é, em princípio, do foro do
domicílio do detentor da guarda

97. Ações de falência e recuperação judicial


Para a decretação e processámento da recuperação judicial e da fa­
lência é competente o foro do lugar onde se situa o principal estabeleci­
mento do devedor, onde real e efetivamente mantenha a sede de seus ne~ ■
gócios, que não necessariamente coincide com aquele indicado como sede^
nos estatutos ou no contrato social (STJ, 2- Seção, CC 366, j. 11-10-1989,
rei. Min. Eduardo Ribeiro)8. Ou do local da filial de empresa que tenh#
sede fora do Brasil. Assim dispõe a Lei 11.101, de 9-2-2005 — nova Lei
de Falências, arts. 32 e 6r, § 8S.
Ada Pellegrini Grinover lembra aresto do TJSP (R T 757:281), no
sentido de que o principal estabelecimento “não é aquele a que os estatu­
tos da sociedade conferem o título de principal, mas o que forma concre-
tamente o corpo vivo, o centro principal das principais atividades comerciais
do devedor, a sede ou núcleo dos negócios em sua palpitante vivência
material”. Assim, após a citação de vários autores, refere Ada Grinover
que “na verdade, trata-se, na linha da doutrina anteriormente invocada, de
. competência territorial funcional e, portanto, absoluta, com todas as con­
seqüências que resultam daí” (art. dout. “Competência territorial funcional
em matéria de falência”, Revista de Direito Civil e Processual Civil, Ed.
Síntese, v. 23, p. 11).
Aliás, esse já era o magistério de Chiovenda: “Deve inserir-se na
competência funcional o processo falenciah Decreta a falência o tribunal
de comércio (agora, tribunal civil) em cuja jurisdição tem o devedor seu
estabelecimento principal. A falência é uma execução geral, concomitan­
te com a verificação dos créditos em relação ao falido. Nela exerce o juiz
*. uma função especial, em vista da qual se institui a competência do tribunal

8. O pedido de falência deve ser ajuizado no local onde a empresa devedora


mantém seu estabelecimento principal atual, não na comarca onde manteve, por dispo­
sição contratual, sua sede em tempo anterior (STJ, 2- Seção, CC 1.930, j. 30-10-1991,
rei. Min. Athos Carneiro).

182
de determinado lugar. Ainda nesse caso, portanto, o elemento territorial é
absoluto e improrrogável. Compreende-se nessa competência todo o pro­
cesso da falência e a cognição de todas as ações dela derivadas, vale dizer,
de qualquer ação que se coordene aos fins da falência” (.instituições de
direito processual civil, trad. port., 1943, v. 2, n. 194, p. 267-8).
A “transferência” da sede da empresa, com a finalidade maliciosa de
dificultar a ação de seus credores, não, implica mudança na competência
de foro, que permanece no local onde a atividade se manteve centralizada
durante longos anos. Assim decidiu a 2a Seção do STJ em caso em que a
empresa, acossada por protestos e requerimentos de quebra, aparentou
mudar a sede de seus negócios para um Estado distante, onde veio a re­
querer sua autofalência (CC 32.988, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, ac. de
14-11-2001).
O juízo falencial é declarado indivisível (art. 76), e competente para
todas as ações sobre “bens, interesses e negócios do falido”9.
A regra da universalidade encontra todavia limitações, inclusive no
confronto com foros especiais10e u, e no alusivo a ações possessórias e
ações de despejo. O Superior Tribunal de Justiça, por sua 2- Seção (CC
1.644, j. 29-5-1991, rei. Min. Cláudio Santos), considerou “inaplicável na
concordata a chamada ‘vis attractiva’, eis que a ação principal somente
subordina as ações e execuções dos credores quirografários”12.

9. A 2- Seção do STJ, apreciando o CC 22.147, julgou que, “cessadas por com­


pleto as atividades comerciais da devedora, a competência para processar e julgar o
pedido de falência contra ela ajuizado é do foro onde a mesma mantinha a sua sede,
pouco relevando que um de seus representantes legais tenha sido encontrado em outra
localidade, onde simplesmente possui residência” (ac. de 10-3-1999, rei. Min. Barros
Monteiro, RSTJ, 121:232).
10. O foro dito universal da falência não prevalece quando em confronto com
foros especialmente previstos em lei, foros especiais, como o forum rei sitae na ação
de usucapião especial (STJ, 2a Seção, CC 2.137, j. 11-12-1991, rei. Min. Nilson Naves;
STJ, 2- Seção, CC 2.136, j. 25-3-1992, rei. Min. Athos Carneiro).
11. O princípio da indivisibilidade do juízo falimentar tem âmbito limitado, não
abrangendo as demandas excepcionadas na Lei de Falências, iniciadas antes da quebra.
Ação indenizatória ajuizada por empresa pública federal — CEF contra empresa ré
cuja falência foi posteriormente decretada; prevalência, de qualquer sorte, da regra do
art. 109,1, da Lei Maior (STJ, 2a Seção, CC 1.445, j. 8-5-1991, rei. Min. Sálvio de
Figueiredo, com remissões aos CC 1.439, rei. Min. Barros Monteiro, e 1.440, rei. Min.
Eduardo Ribeiro).
12. A 2~ Seção do Superior Tribunal de Justiça manifestou entendimento no
sentido de que, uma vez decretada a falência, “a execução dos julgados, mesmo os

183
Conforme decidido pela 2- Seção do STJ, em processo em que inte­
ressada a Caixa Econômica Federal, “o juízo falimentar atrai as ações
reguladas na lei de falências; a ação de revisão de contrato bancário não
se inclui nesse rol”; assim, foi declarada competente a Justiça Federal (CC
31. 346, rei. Min. Ari Pargendler, ac. de 11-12-2002, DJÜ, 17 mar. 2003,
p. 174).
Quanto às demandas trabalhistas, a decisão do litígio laborai far-se-á
perante a Justiça do Trabalho; já o pagamento dos créditos terá lugar no
juízo falimentar, onde se efetuará o eventual rateio entre os da mesma
classe (CC 8.892, 2- Seção, rei. Min. Eduardo Ribeiro, ac. de 29-3-1995,
RSTJ, 71:34); em outras palavras, uma vez decretada a falência, as recla-
matórias prosseguirão perante a Justiça especializada, mas os atos
execução do julgado — ainda que já efetuada a penhora na instância tra­
balhista — , iniciar-se-ão ou terão prosseguimento na vara de falências. V.,
nesta obra, o verbete n. 113.7.
Firmado o foro competente, vale ainda anotar que em comarcas de
grande movimento forense a lei local frequentemente prevê juízos priva­
tivos de falências e recuperação judicial.
O tema “insolvência civil” está no verbete n. 87-À.

98. Ação de execução fiscal13


A execução por crédito fiscal (Lei n. 6.830, de 22-9-1980) fundada
em certidão de dívida ativa (CPC, art. 585, VI) será proposta, de regra, no
foro do domicílio do réu (art. 578), podendo a Fazenda Pública optar por
outros foros, consoante dispõe o art. 578, parágrafo único, do Código de
Processo Civil (v. nota 12, verbete n. 111.3).
Tratando-se de competência relativa, é defeso ao juiz apreciar de
ofício sua competência (STJ, Súmula 33), que portanto se prorroga se não
for oposta exceção de incompetência (CC 33.129, j. 26-11-2001, rei. Min.
Laurita Vaz, DJU, 25 fev. 2002, p. 493). Sumulou o STJ, outrossim (Sú­
mula 58), que, uma vez proposta a execução fiscal, a mudança de domicí­

trabalhistas, terá prosseguimento no Juízo Falimentar” (CC 22.093, rei. Min. Barros
Monteiro, ac. 25-8-1999, DJU, 17 dez. 1999). V. o verbete n. 113.7.
13. Cumpre a leitura do artigo “Notas sobre a competência na ação de execução
fiscal”, do Mín. Teori Zavascki, na revista AJURIS, 75:348.

184
lio cio executado não deslocará a competência (CC 32.007, là Seçao, rei.
Min. Peçanha Martins, ac. de 13-11-2002, DJU, 17 mar. 2003, p. 172).
A execução fiscal federal ajuizada em comarca que não seja sede de
Vara do juízo federal é processada e julgada pelo juiz estadual, com juris­
dição federal “delegada” e, pois, recurso para o Tribunal Regional Federal
da respectiva Região (v. o verbete n. 110 e Lei n. 5.010/66, art. 15,1)14.
Conforme à unanimidade decidiu a l â Seção do STJ, não existindo
Vara Federal no foro da execução fiscal federal, o Juiz de Direito da co­
marca exerce competência delegada, por força do art. 109, § 3~, da CF,
integrado pelo art. 15,1, da Lei n. 5.010/66, norma esta recepcionada pela
nova ordem constitucional (CC 41.017, rei. Min. Castro Meira, ac. 14-4-
2004, DJU, 21 jun. 2004, p. 158).
A respeito surgira dúvida: criada uma vara federal no interior do
Estado, com competência territorial abrangente de diversos municípios e
comarcas estaduais, os processos em tramitação na Justiça Estadual cum­
pre sejam remetidos à Justiça Federal, ou permanecem na Justiça Estadual,
passando o juiz estadual a exercer jurisdição “delegada”?
Resposta: os processos em geral devem ser remetidos à Justiça Fe­
deral, pois ocorreu a extinção da aludida “delegação”; todavia, por previ­
são constitucional, certas ações, dentre as quais as causasprevidenciárias
e as execuções fiscais, mantêm-se em tramitação no juízo estadual, nas
comarcas onde não tenha sede a Justiça Federal, com a manutenção da
jurisdição delegada conforme dispõe o art. 109, § 3e, da Constituição Fe­
deral vigente (CC 33.964, rei. Min. Eliana Calmon, dec. de 21-1-2002,
DJU, 25 fev. 2002, p. 501)15.

14. A Justiça estadual é competente para processar e julgar execução fiscal


promovida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária — INCRA, se
a comarca do foro do domicílio do devedor não for sede da Vara Federal (Súmula 40/
TFR). O art. 109, § 3°, da CF trata da competência territorial, não podendo o juiz dela
declinar de ofício, ainda que o devedor mude de domicílio — Súmulas 33 e 58-STJ (Ia
Seção, CC 27.666, rei. Min. Milton Luiz Pereira, ac. de 29-12-2000, DJU, 15 maio
2000, p. 114).
15. As Resoluções de Tribunal Regional Federal, fixando ou ampliando a área
sob jurisdição de determinada vara federal, não alteram tal orientação. Nestes termos,
“as Resoluções do TRF da 4- Região, que determinam a integração do Município de
Nova Petrópolis à jurisdição territorial das Varas Federais de Caxias do Sul, restaram,
naturalmente, sobrepujadas pela Lei Maior, vale dizer, inexistindo sede de Vara Fede­
ral em Nova Petrópolis, para as ações previdenciárias e execuções fiscais, continua o

185
De notar, aqui, o disposto na Lei n. 5.010/66, pela qual,
“Art. 15. Nas comarcas cio interior onde não funcionar Vara da
Justiça Federal (art. 12), os Juizes Estaduais são competentes para pro­
cessar e julgar: 1 — os executivos fiscais da União e de suas autarquias,
ajuizados contra devedores domiciliados nas respectivas Comarcas;..”
É da competência da Justiça Federal processar e julgar as execuções
fiscais propostas por Conselho de Fiscalização Profissional, a teor da Sú­
mula 66 do STJ.
Assim os CC 21.930— Conselho Regional de Corretores de Imóveis; {
n. 22.039 — Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia,
ac. de 9-9-1998, rei. Min. Hélio M osimann, DJU, 5 out. 1998,
p. 3). V, nesta obra, o verbete n. 112.
Dúvidas surgiram, no Estado de São Paulo, no alusivo às (antigas!
Varas Distritais (ou Foros Regionais), tendo a Seção do STJ firmado,
pacificamente, que a Vara Distrital situada em município outro que não o
da sede da comarca, consoante a organização judiciária, “não se distingue
como comarca para a previsão constitucional de competência federal de­
legada”; assim, “se na sede da comarca do domicílio do devedor existe
Juízo Federal, a execução fiscal ajuizada pela União, autarquia ou empre­
sa pública federal é da competência da Justiça Federal” (STJ, lâ Seção,
CC 16.373, rei. Min. Demócrito Reinaldo, j. 14-8-1996; CC 43.075, rei
Min. Castro Meira, ac. 9-6-2004).
Outrossim, “instalada Vara da Justiça Federal na sede da comarca, é
dela a competência para julgar as execuções fiscais promovidas anterior­
mente pela Fazenda Nacional perante o Juízo de Direito da Vara Distrital”
(STJ, P Seção, CC 17.753, j. 9-4-1997).
Vale ainda consignar que, em junho de 2008, a Ia Seção do Superior
Tribunal de Justiça aprovou a Súmula 349, com a redação seguinte:
“349. Compete à Justiça Federal, ou aos juizes com competência
delegada, o julgamento das execuções fiscais de contribuições devidas
pelo empregador ao FGTS”.

Juízo Estadual competente, exercendo a jurisdição federal ‘delegada’. Matéria pacifi­


cada pela eg. Primeira Seção. Competência do Juízo de Direito de Nova Petrópolis-RS”
(CC 31.018, Ia Seção, rei. Min. Laurita Vaz, ac. de 8-8-2001, DJU, 3 set. 2001, p. 139;
CC 31.151, Ia Seção, rei. Min. Laurita Vaz, DJU , 10 set. 2001, p. 270; CC 36.950, rei.
Min. Paulo Medina, dec. de 2-12-2002, DJU , 5 maio 2003, p. 337).

186
98-A. Execução fiscal e falência
No referente às execuções fiscais, prevalece ainda o enunciado da
Súmula 44 do antigo Tribunal Federal de Recursos:
“Ajuizada a execução fiscal anteriormente à falência, com penhora
realizada antes desta, não ficam os bens penhorados sujeitos à arrecada­
ção no juízo falimentar; proposta a execução fiscal contra a massa falida,
a penhora far-se-á no rosto dos autos do processo de quebra, citando-se
o síndico
Surgiu divergência sobre se o numerário, apurado com a alienação
dos bens penhorados em execução fiscal, deveria permanecer no juízo
fazendãrio, onde seria submetido à concorrência preferencial dos créditos
trabalhistas (REsp 84.723, rei. Min. Ari Pargendler; REsp 74.471, rei. Min.
José Delgado; REsp 164.874, rei. Min. Milton Luiz Pereira, RSTJ, 158:129),
ou deveria ser remetido ao juízo falimentar, a fim de nesse juízo ser pro­
cedido ao concurso de preferências.
Em decisão plenária o Superior Tribunal de Justiça dirimiu a contro­
vérsia, sob o entendimento, por voto majoritário, de que a decretação da
falência não paralisa o processo de execução fiscal, nem desconstitui a
penhora, prosseguindo o processo de execução até a alienação dos bens
penhorados, sendo, após, posto o produto à disposição do juízo dafalência:
“os créditos fiscais não estão sujeitos a habilitação no juízo falimentar,
mas não se livram de classificação, para disputa de preferência com cré­
ditos trabalhistas (D.-Lei 7.661/45, art. 126)”; efetuada a alienação de bens,
será o correspondente o numerário entregue “ao juízo da falência, para que
se incorpore ao monte e seja distribuído, observadas as preferências e as
forças da massa” (REsp 188.148, Corte Especial, rei. Min. Gomes de
Barros, ac. de 19-12-2001, p. m. v.; Emb. Div. REsp 536.033, Corte Espe­
cial, rei. Min. Eliana Calmon, ac. le- 12-2004; EREsp 422.112, lâ Seção,
rei. Min. Franciulli Netto, ac. 24-11-2004; CC 45.406, \~ Seção, rei. Min.
José Delgado, j. 9-3-2005)16.

16. Conforme decisão da 2â Turma, decretada a falência posteriormente à pe­


nhora de bens da devedora em execução fiscal, deverá a execução prosseguir até a
alienação dos bens penhorados; então, o produto entrará para a massa, em respeito aos
créditos preferenciais, ou seja, aos créditos decorrentes de acidente do trabalho e os
trabalhistas, que são preferenciais aos créditos fiscais (antiga Lei falencial, art. 102,

187
A nova Lei de Falências e Recuperação de Empresas — Lei n. 11.101, -
de 9-2-2005, dispõe sobre a classificação de créditos no art. 83, mantida a
preferência dos créditos tributários, “independentemente de sua natureza
e tempo de constituição, excetuadas as multas tributárias”. Tudo indica
que não será alterada a jurisprudência a respeito.

99. Competência para dirimir “questões agrárias”


Segundo a vigente Constituição, art. 126, “para dirimir conflitos
fundiários, o Tribunal de Justiça proporá a criação de varas especializadas,1
com competência exclusiva para questões agrárias”.
Verifica-se, pelo texto, que a norma constitucional toma equivalentes
as expressões “conflitos fundiários” e “questões agrárias”. Por questõék
agrárias, e até tendo em vista as motivações e precedentes da norma, deve-
-se entender aquelas questões vinculadas à “reforma agrária”, à redistri-
buição e distribuição de terras17.
A expressão ‘Tribunal de Justiça” deve ser entendida em sentido am­
plo, como “tribunal de segundo grau”; assim, os Tribunais Regionais Fede­
rais podem, e devem, criar Varas Federais com competência especializada
em lides de natureza agrária, mesmo porque com frequência autarquia fe­
deral, como o INCRA, deverá figurar como parte ou interveniente. Em
Porto Alegre, existe no Foro Federal uma Vara Federal Ambiental e Agrária.

§ l 2; CTN, arts. 186 e 187) (REsp 443.190, rei. Min. Franciulli Netto, ac. 25-11-2003;
REsp 630.863, rei. Min. Castro Meira, ac. 8-6-2004).
Longa notícia das discussões doutrinárias e das divergências jurispradenciais
encontra-se no REsp 422.112, rei. Min. Luiz Fux, RSTJ, 165:115-145.
17. Acolhendo em parte crítica formulada pela Procuradora do INCRA, Dra.
Débora Bomfim (palestra proferida em ciclo de debates do INCRA, realizado em Mato
Grosso em abril de 1998), retiramos do texto a afirmação de que o aludido juiz esta­
dual seria competente para processar as ações de desapropriação para fins de reforma
agrária, pois cabe à União promovê-las (CF, art. 184), com delegação ao INCRA,
autarquia com prerrogativa de foro perante a Justiça Federal (CF, art. 109, I). Mas
persistimos no asserto de que as “questões agrárias”, previstas no art. 126 da Lei Maior,
são as alusivas à “reforma agrária”, entre as quais se devem incluir aquelas decorren­
tes de “invasões” multitudinárias com o alegado propósito maior de acelerar tal refor­
ma a benefício dos invasores. As questões “comuns” relativas à posse ou propriedade
de imóveis rurais, as múltiplas ações de posse, as reivindicatórias, as causas relativas
a servidões rurais etc., mantêm-se na competência do juiz da situação do imóvel, forum
rei sitae — CPC, art. 95 (nesta obra, v. os verbetes n. 73 a 76).

188
Não serão conflitos fundiários, para os fins do art. 126 da Constitui­
ção Federal, as questões sobre domínio, posse ou uso de imóveis rurais
que não tenham origem em atos ou fatos vinculados à reforma agrária, nem
as ações de usucapião pro labore (CF, art. 191).
O parágrafo único do art. 126 prevê que possam e devam deslocar-se
“sempre que necessário à eficiente prestação jurisdicional”, até o local da
lide. Podem outrossim ser criados, nos termos da lei local, juizes com
competência sobre a área de determinadas comarcas.

100. Competência para as questões relativas à propriedade


industrial
Consoante a Lei n. 9.279, de 14-5-1996, as ações que versem sobre
a nulidade de patente de invenção devem ser ajuizadas ‘‘no foro da Justiça
Federal e o INPI, quando não for autor, intervirá no feito” (art. 57, caput),
com prazo de sessenta dias para a contestação (art. 57, § Ia). Idênticas as
normas concernentes às ações de nulidade de registro de desenho industrial
(art. 118) e às ações de nulidade do registro de marcas (art. 175).
De outra parte, a mesma lei “autoriza” o Poder Judiciário a criar
juízos especiais “para dirimir questões relativas à propriedade intelectual”.
Duas observações: a) a autorização para o Judiciário especializar varas,
em razão da matéria, a rigor não é necessária; b) a expressão “propriedade
intelectual” é ampla, podendo inclusive abranger os direitos autorais, de
que cuida a Lei n. 9.610, de 19-2-1998.
A propriedade industrial no Brasil, além da Lei n. 9.279 (Lei da
Propriedade Industrial — LPI), é regida igualmente pela Lei n. 9.609/98
(lei relativa ao software), pela Lei n. 9.610 (Lei de Direitos Autorais), pela
Convenção de Paris e, ainda, pelo TRIPS (Trade Related Aspects oflntel-
lectual Property Rights), que estabelece as regras gerais a serem adotadas
pelos países membros da OMC (Organização Mundial do Comércio).

100-A. Ações relativas à representação comercial, à concessão de


venda de veículos e à corretagem de imóveis
Consoante dispõe a Lei n. 4.886, de 9-12-1965, art 39 (com a reda­
ção dada pela Lei n. 8.420, de 8-5-1992), para julgamento das causas
surgidas entre representante comercial e a empresa representada, “<?com­
petente a Justiça comum e o foro do domicílio do representante, aplican­
do-se o procedimento sumaríssimo previsto no art 275 do Código de

189
Processo Civil, ressalvada a competência do Juizado de Pequenas Causas”
[cumpre, já agora, substituir a expressão “procedimento sumaríssimo” por
“procedimento sumário”, e a menção “Juizado de Pequenas Causas” por
referência ao Juizado Especial].
Questiona-se a possibilidade de, mediante cláusula de eleição de foro,
deslocar o foro competente para o outro que não o do domicílio do repre­
sentante. A 4- Turma do STJ negou validade a taí cláusula, pelo argumen­
to de que importa “dificuldade de acesso à Justiça” e vem de encontro ao
disposto no art. 39 da lei mencionada (REsp 47.074, rei. Min. Ruy Rosado, ;■
ac. de 19-11-1994). *
Não obstante, a 2~ Seção, no CC 19.849, ac. de 10-12-1994, por
maioria de votos (vencidos os Mins. Ruy Rosado e Nilson Naves), decidii^
no sentido de que a competência territorial prevista na Lei n. 4.820 é re­
lativa, podendo destarte ser modificada pela vontade das partes, conforme
o art. 111 do CPC (RSTJ, 105:201).
Mas a 4~ Turma, no REsp 169.709, manteve seu posicionamento,
afastando a cláusula de eleição de foro em contrato de representação co­
mercial (ac. de 9-6-1998, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, DJU, 21 set. 1998,
p. 206)17’A.
No mesmo sentido aresto unânime da 3â Turma: “Havendo lei espe­
cial que taxativamente determine o foro do domicílio do representante
como o local apropriado para dirimir conflitos entre as partes, contrato de
adesão não poderá modificá-lo” (REsp 608.983, rei. Min. Pádua Ribeiro,
ac. 16-3-2004).
Anotemos, por fim, que a 2~ Seção, em recente julgamento, reiterou
ser relativa a competência do foro do representante comercial para o julga­
mento de lide entre ele e o representado (art. 39 da Lei n. 4.886/65), poden-

17-A. A 3â Turma sustentava posicionamento pela natureza relativa da norma de


competência estabelecida no art. 39 da Lei n. 4.886/65 (REsp 110.104, rei. desig. Min.
Menezes Direito, p. m. v., ac. de 24-11-1998, DJU, 26 abr. 1999, p. 89; REsp 255.076,
rei. Min. Menezes Direito, p. m. v., ac. de 15-12-2000, DJU, 12 mar. 2001, p. 142).
Todavia, a aludida 3â Turma, à unanimidade, veio a ajustar sua orientação à da
4~ Turma, no julgamento do REsp 140.648, rei. Min. Pádua Ribeiro, constando da
ementa que “o contrato de adesão, no qual se firma o foro de eleição diverso do domi­
cílio do réu, não deve prevalecer quando acarreta desequilíbrio contratual, dificultando,
em razão da distância, a própria defesa do devedor. Tratando-se de contrato de repre­
sentação comercial, há lei expressa que determina o foro do domicílio do representan­
te como o lugar apropriado para dirimir conflitos entre as partes” (ac. de 19-3-2001).

190
do ser alterada mesmo em contrato de adesão, desde que não haja hipossu­
ficiência ou que a mudança da competência não se transforme em obstácu­
lo ao acesso do representante à Justiça; cumpre que a lei seja interpretada
de forma que não represente instrumento voltado ao indevido favorecimen-
to do representante em detrimento do representado. Precedentes citados:
REsp 533.230 e CC 19.849 (EREsp 579.324, rei. Min. Nancy Andrighi, j.
12-3-2008). De outra parte, mesmo após a vigência da EC n. 45/2004, a
Justiça competente continua a ser a Justiça comum (não a Justiça do Tra­
balho), isso porque na representação comercial não existe subordinação,
que é um dos elementos da relação de emprego (2* Seção, CC 96.851, rei.
Min. Carlos Mathias — Desembargador convocado, j. 11-2-2009).
Também quanto aos contratos de concessão de venda de veículos,
peças e acessórios, destinados à colocação dos produtos automobilísticos
no mercado consumidor e regidos pela Lei n. 6.729/79 (Lei Ferrari), alte­
rada pela Lei n. 8.132/90, a divergência no tocante à validade da cláusula
de “eleição de foro” (sempre constante nos contratos-tipo elaborados pelas
montadoras) apresenta-se notória.
Os argumentos favoráveis e os contrários à aplicação da aludida
cláusula constam detidamente dos votos proferidos quando do julgamento
do CC 33.256 (STJ, 2â Seção, CC 33.256, j. 27-10-2004, p.m.v., rei. desig.
Min. Barros Monteiro, RSTJ, 200:221); nesse julgamento, prevaleceu a
tese segundo a qual “nas relações entre empresas de porte, capazes finan­
ceiramente de sustentar uma causa em qualquer foro, prevalece o de ade­
são” (da ementa, com referência ao REsp 279.687). Em última análise,
vê~se que fundamental terá sido a constatação, no caso mencionado, de
que a concessionária gozava de capacidade financeira para bem defender-
-se no foro de eleição.
Quando, no entanto, a concessionária for pequena empresa, situada
em local longínquo (neste país de dimensões continentais), inaplicável
será, em nosso parecer, a cláusula de eleição de foro (que será uma cláu­
sula de “imposição” de foro); a nulidade da cláusula poderá, então, ser
declarada de ofício pelo próprio juiz (CPC, art. 112, parágrafo único, com
a redação dada pela Lei n. 11.280/2006) ou suscitada pela parte mediante
petição protocolizada no juízo de seu domicílio, com sua imediata remes­
sa ao juízo que determinou a citação (art. 305, parágrafo único, idem).
O corretor de imóveis que, sem relação de subordinação, apro­
xima o comprador do vendedor atua como profissional liberal; assim,

191
tal como nas hipóteses de remuneração por empreitada e de honorários
médicos e advocatícios, é da competência da justiça comum estadual
o julgamento da ação em que o corretor cobra sua remuneração pelo
serviço prestado (CC 70.349, 2a Seção, rei. Min. Gomes de Barros, j.
27-6-2007). O mesmo deve dizer-se da corretagem autônoma de veí­
culos, de gado etc. Vide, a respeito, a Súmula 363 do STJ.

100-B. Ações de responsabilidade civil propostas por consumidor


Nos termos da Lei n. 8.078, de 11-9-1990, entre os direitos do
consumidor insere-se o de “acesso aos órgãos judiciários e administra^
tivos, com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e
morais, individuais, coletivos ou difusos” (art. 6-, VII). A fim de asse­
gurar com plenitude tal acesso, prevê a lei que nas ações de responsa­
bilidade civil dos fornecedores de produtos e serviços possa a demanda
ser proposta “no domicílio do autor” (art. 101,1). Cuida-se, no dizer de
Kazuo Watanabe, “de regra que beneficia o consumidor, dentro da
orientação fixada no inciso VII do art. 6S do Código” ; não é, no entanto,
norma cogente, pois dela pode o consumidor abrir mão para, “em bene­
fício do réu, eleger a regra geral, que é a do domicílio do demandado”
(Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, 2. ed., Forense Univer­
sitária, 1992, p. 563)17'B.
Todavia, segundo Arruda Alvim, a regra de competência é de ordem
pública no sentido de que não pode ser objeto de eleição de foro. De
outra parte, haverá de conferir ao texto dimensões amplas, privilegiando
não apenas o consumidor individual, mas sendo igualmente aplicável às
ações coletivas: “dessa forma, exemplificativamente, poderá uma associa­
ção mover a ação coletiva, no seu domicílio civil. Da mesma forma, pare­
ce-nos, se os integrantes ou membros de uma classe, categoria ou grupo
são domiciliados num dado lugar e o fornecedor em outro (ainda que tais
membros não sejam partes processuais), dever-se-á promover a ação no
domicílio daqueles” (Arruda Alvim et alii, Código da Consumidor comen­
tado, 2. ed., Revista do Tribunais, 1995, p. 454).

17-B. O contrato de transporte, contaminado por vício de qualidade do serviço,


atrai a incidência do Código do Consumidor, com a faculdade de a ação de indenização
por danos morais ser proposta no foro do domicílio do autor (STJ, REsp 303.379, 4â
Turma, rei. Min. Fernando Gonçalves).

192
Assim, a jurisprudência do STJ afirma ser de ordem pública o crité­
rio de competência das ações derivadas de relações de consumo, revelan­
do-se como regra de competência absoluta; em tais casos deve o juiz, de
ofício, declinar de sua competência, ignorando o “foro de eleição” previs­
to em “contrato de adesão”. Porém é acrescentado que a benesse deriva da
condição pessoal de hipossuficiência e vulnerabilidade do consumidor, e
assim não beneficia associação de consumidores, substituta processual
sediada em lugar diverso (REsp 1.049.639,4* Turma, rei. Min. João Otávio
de Noronha, j. 16-12-2008, com citação de precedentes).
A regra de competência, no entanto, considerada sua finalidade, não
privilegiará o Ministério Público ou as entidades de Direito Público, na
defesa de direitos ou interesses difusos e de direitos e interesses coletivos
(arts. 81, parágrafo único, I e II, e 8 2,1, II e III).

100-C. Ações cíveis contra estabelecimentos de ensino


No concernente a ações tendentes a impugnar ato de dirigente de es­
tabelecimento de ensino, vários fatores apresentam-se relevantes à fixação
da Justiça competente: assim, caberá antes do mais perquirir se a pretensão
foi exposta pela ação de mandado de segurança, ou em ação de conheci­
mento (ou cautelar) sob rito comum; indagar se o estabelecimento de ensi­
no é particular ou público e, neste segundo caso, se integrado na rede públi­
ca federal, ou em rede pública estadual ou municipal; finalmente, se o ato
praticado pelo dirigente educacional pode ser qualificado como ato de mera
“gestão” da empresa (isto é, como típica atividade empresarial interna cor-
poris), ou como ato relacionado diretamente com a atividade educacional.
Em seu tempo, o antigo Tribunal Federal de Recursos editou, a esse
respeito, três súmulas, a saber:
“Súmula 15. Compete à Justiça Federaljulgar mandado de seguran­
ça contra ato que diga respeito ao ensino superior, praticado por dirigen­
te de estabelecimento particular”.
“Súmula 16. Compete à Justiça Estadual julgar mandado de segu­
rança contra ato referente ao ensino de 1- e 2~ graus e exames supletivos
(Lei n. 5.692, de 1971), salvo se praticado por autoridade federal”.
“Súmula 60. Compete à Justiça Federal decidir da admissibilidade
de mandado de segurança impetrado contra atos de dirigentes de pessoas

193
jurídicas privadas, ao argumento de estarem agindo por delegação do
poder público federal”.
O Superior Tribunal de Justiça aprovou, em 1991, enunciado nos
seguintes termos:
“Súmula 34. Compete à Justiça Estadual processar e julgar causa
relativa a mensalidade escolar, cobrada por estabelecimento particular
de ensino”.
A jurisprudência do STJ evoluiu (com decisões nem sempre harmô­
nicas) no sentido de que, cuidando-se de mandados de segurança impe­
trados contra ato de autoridade educacional do ensino superior, a compe­
tência tocaria à Justiça Federal, quer se tratasse de estabelecimento oficial,
quer de entidade particular, entendendo-se neste último caso que a “auto­
ridade” impetrada teria agido por delegação do Ministério da Educação.
Assim, consta da ementa do CC 35.194 que, em caso de recusa de
efetivação de matrícula estudantil pela entidade educacional (Fac. de Di­
reito de Patos de Minas-MG), a Justiça Federal é a competente para julgar
o mandado de segurança, “por se tratar de atividade relacionada com o
acesso ao ensino, inserida, portanto, no contexto de ato administrativo
decorrente do exercício de função pública delegada pelo Estado” (Ia Seção,
rei. Min. Laurita Vaz, ac. 11-9-2002, com remissão aos CC 30.297, rei.
Min. Milton Luiz Pereira; 28.399, rei. Min. Garcia Vieira; e 22.473, rei
Min. Eliana Calmon). Idem, CC 40.515, pela competência da Justiça Fe­
deral em caso de matrícula na Univ. do Vale do Itajaí-SC (Ia Seção, rei.
Min. Castro Meira, ac. 11-2-2004, DJU, 15 mar. 2004, p. 145).
Todavia, se a lide vem a juízo em processo de conhecimento ou cau­
telar, a competência será da Justiça Federal se o estabelecimento for fe­
deral, e será da Justiça Estadual se particular a instituição de ensino —
salvo, nesta segunda hipótese, se na causa for parte a União ou entidade
de direito público federal — CF, art. 109,1 (Ia Seção, CC 19.409, rei. Min.
Ari Pargendler, DJU, 6 out. 1997; Ag. Reg. no CC 37.947, rei. Min. Gomes
de Barros, ac. 12-11-2003).
Conforme está no CC 36.580, a l â Seção (por maioria de votos)
“firmou entendimento no sentido de que, não se tratando de mandado de
segurança, a competência para o processamento e julgamento da ação,
quando se discute a matrícula de aluno em entidade de ensino particular,
é da Justiça estadual, eis que ausente da relação processual qualquer dos

194
entes elencados no art 109 da CF/88” (rei. desig. Min. Francisco Falcão»
ac. 28-4-2004, DJU, 23 ago. 2004, p. 113).
No CC 41.695 foi dito que “o STJ pacificou entendimento de que
compete à Justiça estadual o julgamento de processos nos quais se anali­
sem atos praticados por dirigentes de instituição de ensino particular,
quando a pretensão deduzida em juízo se der em sede de ação de conhe­
cimento ou cautelar, de procedimento comum, ressalvados os casos em que
figuram nos autos as pessoas de que trata o art. 109, inciso I, da CF/88”
(rei. Min. João Otávio Noronha, dec. 2-8-2004, DJU, 9 ago. 2004, p. 297);
questionava-se impedimento a que aluno freqüentasse as aulas e se sub­
metesse a exames. Idem, CC 39.823, rei. Min. Luiz Fux (dec. 10-3-2004,
DJU, 5 abr. 2004, p. 190).
Afirmou a l1 Seção que, cuidando-se de ação sob rito comum,
“salvo nos casos de mandado de segurança, as ações propostas contra
instituição particular de ensino superior serão apreciadas pela Justiça
Estadual”, na ausência das hipóteses do art. 109, I, da CF ( l â Seção,
v.u., CC 41.292, rei. Min. Denise Arruda, ac. 23-6-2004, DJU, 2 ago.
2004, p. 279; idem, CC 40.624). Com base nestas premissas, foi consi­
derada competente a Justiça Estadual para ação sob rito ordinário,
visando a matrícula de aluno em entidade particular de ensino superior
(CC 46.770, rei. Min. Teori Zavascki, dec. 27-10-2004, DJU, 10 nov.
2004, p. 199).
Registremos, outrossim, o recente posicionamento do STJ de que é
de competência da Justiça Estadual julgar também os mandados de segu­
rança impetrados contra instituição pública estadual de ensino superior
(Univ. Estadual do Rio Grande do Norte), sob o relevante fundamento de
que, como os Estados e Municípios gozam de total autonomia para orga­
nizar e gerir seus sistemas de ensino (CF, art. 211), os dirigentes de tais
entidades, quando mantidas pelo Estado ou pelo Município, “não agem
por delegação da União” ( lâ Seção, CC 41.234, rei. Min. Denise Arruda,
ac. 23-6-2004; idem CC 38.440). Idem, no CC 46.501, sendo interessada
a Univ. Estadual da Paraíba (rei. Min. Paulo Gallotti, dec. de 29-4-2005).
Idem no CC 40.679, sendo interessada a Univ. Regional de Blumenau-SC
(rei. Min. Castro Meira, ac. 11-2-2004). Idem no CC 46.193, sendo inte­
ressada a Fund. de Ens. Sup. de Rio Verde-GO — instituição municipal

195
(rei. Min. Teori Zavascki, ac. 23-9-2004)18. Mas, em se cuidando de man­
dado de segurança contra ato de dirigente de instituição particular de
ensino superior, a competência é da Justiça Federal, independentemente
da natureza do ato questionado ( lâ Seção, CC 53.922, rei. Min. Eliana
Calmon, j. 13-8-2008).
Atualmente, portanto, a orientação prevalecente no STJ, l â Seção,
parece-nos ser a seguinte:
A) tratando-se de mandado de segurança, cumpre distinguir:
1) a competência será da Justiça Federal quando a autoridade edu- ’
cacional apontada como coatora for autoridade federal;

--------- £
18. Nesse sentido decisão do Min. Teori Zavascki no CC 46.193 (j. 23-9-2004),
em cuja ementa lê-se: “As universidades estaduais e municipais gozam de total auto­
nomia para organizar e gerir seus sistemas de ensino (CF, art. 211), e seus dirigentes
não agem por delegação da União. Por isso que a apreciação jurisdicional de seus atos
é da competência da Justiça Estadual” (o mandado de segurança visava obter transfe­
rência de um curso para outro na mesma instituição de ensino). Alude o relator, na
decisão, antigo acórdão do STF no sentido da competência da Justiça Estadual para o
julgamento de ações, inclusive mandados de segurança, contra universidades que sejam
autarquias estaduais, como a Universidade de São Paulo (RE 95.722, Pleno, rei. Min.
Moreira Alves).
Em outra oportunidade, também sob a relatoria do Min. Teori Zavascki, foi dito
pela lâ Seção que, em ação de mandado de segurança, considera-se autoridade federal
o agente de entidade particular investido de delegação pela União (CC 40.330, j. 10-
12-2003). Na ementa do CC 40.515, relativo a mandado de segurança (caso de matrí­
cula em instituição de ensino superior) esta escrito que “incumbe ao Estado prover o
acesso ao ensino superior e, por essa razão, as instituições que atuam nesse setor,
ainda que não sejam mantidas pela União, exercem atividade delegada do Poder Pú­
blico, estabelecido em lei federal e controlada pelo Ministério da Educação e Cultura”,
sendo considerada competente a Justiça Federal (Ia Seção, rei. Min. Castro Meira, ac.
11-2-2004).
Cuidando-se de ensino superior privado, a lâ Turma do STJ decidiu, p. m. v.,
que é da competência da Justiça Estadual processar e julgar a medida cautelar relativa
à matrícula em curso superior de ensino privado de estudante que ainda não concluiu
o segundo grau. Precedente citado — CC 40.679, DJU , 15 mar. 2004 (REsp 603.917,
rei. designado Min. Francisco Falcão, j. ls-4~2004).
As Universidades estaduais gozam de total autonomia para organizar e gerir seus
sistemas de ensino (CF, art. 211), e seus dirigentes não agem por delegação da União;
assim, a apreciação jurisdicional de seus atos, inclusive por mandado de segurança (no
caso, matrícula de aluno na Univ. Estadual da Paraíba), é de competência da Justiça
estadual (STJ, Ia Seção, CC 45.667, v. u., rei. Min. Castro Meira, ac. 18-10-2004).
É de competência da Justiça estadual o julgamento de quaisquer ações — exce­
to mandados de segurança — ajuizadas contra estabelecimentos particulares de ensino
(STJ, l â Seção, CC 47.258, rei. Min. José Delgado, ac. 14-2-2005).

196
2) a competência será da Justiça Federal quando o dirigente de ins­
tituição particular de ensino estiver no exercício de função “delegada pela
União” (Ministério da Educação), ou seja, na prática de atos alusivos à
atividade ordenadora ou executória do ensino; ficam assim excluídos do
âmbito do writ os atos praticados na gestão da própria entidade, interna
corporis (aliás, estes últimos atos sequer comportam impugnação pela via
mandamental);
3) a competência será da Justiça Estadual quando a autoridade edu­
cacional apontada for dirigente de instituição oficial mantida pelo Estado
ou Município;
B) tratando-se de ação de outra natureza, em processo de conheci­
mento ou cautelar, então:
1) a competência será da Justiça Federal se a União, autarquia fede­
ral ou empresa pública federal for parte no processo (art. 109,1), mesmo
se a controvérsia versar matéria que não seja de seu interesse;
2) a competência será da Justiça Estadual se as pessoas jurídicas
acima referidas não participarem da causa, ainda que a lide diga respeito
a matéria que lhes possa interessar.
As decisões judiciais também não são, outrossim, de todo precisas
sobre a exata delimitação dos chamados atos de gestão dos dirigentes de
instituição de ensino: no CC 37.354 a l â Seção do STJ, p. m. v., considerou
(em decisão não imune a questionamentos), como mero ato de gestão a
negativa do diretor de facultar ao aluno a “realização de exames curri­
culares” para ajustamento do seu histórico escolar, sendo assim afastada
a competência da Justiça Federal (j. 27-8-2003, rei. Min. Eliana Calmon,
informativo do STJ, n. 181 — agosto 2003). A mesma Seção, p. m. v.,
considerou que as questões relativas “ao direito de matrícula” em escola
de ensino superior, tanto públicas como privadas, integram o âmbito da
competência federal delegada pela União, donde a competência da Justiça
Federal (CC 36.221, rei. Min. Peçanha Martins, ac. 27-8-2003).
No concernente às instituições de ensino pré-escolar, de ensino
fundamental e de ensino médio, a competência, em princípio, será sem­
pre da Justiça Estadual, porquanto o ensino pré-escolar e o fundamental
situam-se, com prioridade, na esfera de atribuições do Município, e o
ensino médio encontra-se, com prioridade, na órbita do Estado-Membro,
conforme dispõe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/96,
arts. 10, VI, e 11).

197
Ressalvemos, apenas, os casos em que a União, ou entidade federal,
mantenha estabelecimento de ensino de tais níveis.
Finalmente, o Distrito Federal é equiparado a Estado-Membro, e as
demandas nele ocorridas, em matéria educacional, serão de competência
da Justiça comum local ou da Justiça Federal, conforme os princípios já
expostos.

101. Ação de usucapião especial e ação de usucapião


O usucapião especial, ou pro labore, encontra-se regulamentado na
Lei n. 6.969, de 10-12-1981, sendo que a dimensão máxima da área usucà-
pienda foi pela Constituição de 1988 (art. 191) aumentada de vinte e
cinco para cinqüenta hectares, vedada todavia a aquisição de imóveis pti~
blicos (CF, art. 191, parágrafo único).
No alusivo à competência, o art. 4- da mencionada lei dispõe que a
ação de usucapião especial será processada e julgada “na comarca da situa­
ção do imóvel”; em se tratando “de terras devolutas federais, a ação será
promovida na comarca da situação do imóvel, perante a Justiça do Estado,
cabendo ao Ministério Público local, na primeira instância, a representação
judicial da União” (art. 4-, § Ia).
Cumpre afastar, parece-nos, a alusão às “terras devolutas federais”,
ante a vedação de usucapir imóveis públicos, já aludida. Mas ainda assim
a União, ou autarquia federal, ou empresa pública federal, poderá ter in­
teresse na demanda, quer como confmante do imóvel (assim litisconsorte
necessária), quer porque considere o objeto da demanda como área públi­
ca, quer por ostentar interesse possessório ou de servidão sobre o imóvel
etc., devendo ou pretendendo, assim, intervir como ré, opoente ou assis­
tente. Em tais casos, desloca-se o foro, ratione personae, para o juízo fe­
deral com competência territorial na região, ou permanece no juízo esta­
dual da comarca onde se situa a gleba usucapienda?
Decidiu o Superior Tribunal de Justiça, mantendo antiga orientação
do extinto Tribunal Federal de Recursos, que mesmo em tais hipóteses a
competência, em primeiro grau, permanece com o magistrado local, pois
“o permissivo encontrava-se no art. 126 da Constituição Federal de 1967,
cujo alcance vem reproduzido na parte final do art. 109, § 3~, da vigente
Carta Política” (do voto do rei. Min. Barros Monteiro, no CC 146,2â Seção,
j. 28-6-1989; no mesmo sentido, o CC 1.064, 2- Seção, j. 30-5-1990, rei.
Min. Eduardo Ribeiro).

198
Cora animo nesses dois arestos, o Superior Tribunal de Justiça editou
a Súmula 11, do teor seguinte:
“A presença da União ou de qualquer de seus entes, na ação
de usucapião especial, não afasta a competência do foro da situação
do imóvel
No caso, portanto, de presença da União, ou de qualquer de seus
entes, em ação de usucapião especial que tramite em comarca que não for
sede de Vara federal, o juiz estadual estará agindo por “delegação”, no
exercício de jurisdição federal, a teor do permissõrio do art. 109, § 3a, in
fine, da Lei Maior; e de suas decisões caberá recurso para o Tribunal Regio­
nal Federal (art. 109, § 4-). Se a comarca for sede de Vara federal, a de­
manda deverá ser processada no juízo federal (STJ, 3â Seção, CC 4.839,
v. u., 25-8-1993, rei. Min. Costa Leite).
Mas quando a União, ou qualquer de seus entes (CF, art. 109,1), não
for parte ou assistente na demanda, o juiz estadual atuará no exercício de
sua própria jurisdição, sujeitas suas decisões a recurso para o Tribunal
estadual competente.
Impende lembrar que a atual Constituição da República, em seu art.
183, igualmente dispõe sobre o usucapião especial sobre área urbana, de
até duzentos e cinqüenta metros quadrados, possuído durante mais de cinco
anos para moradia familiar, excluídos os imóveis públicos (este artigo foi
regulamentado pela Lei n. 10.257, de 10-7-2001 — Estatuto da Cidade).
Tratando da ação de usucapião, sempre a ser proposta no forum rei
sitae, afirmou o Superior Tribunal de Justiça (2â Seção, CC 175, j. l 9-6-
1989, rei. Min. Athos Carneiro) a competência da Justiça Estadual para
julgá-la mesmo em se cuidando de área rural situada na Faixa de Frontei­
ra, pois tal circunstância só por si não a torna devoluta, nem autoriza sua
inclusão entre os bens que são da União (CF, art. 20, II), e portanto não
usucapíveis (acórdão na íntegra no Anexo IV).
Igualmente competente será a Justiça Estadual, à qual o feito deve
ser devolvido, se a entidade de direito público federal (v. g., a Caixa Eco­
nômica Federal) declarar seu não interesse na demanda, sendo em conse­
qüência excluída da relação processual (CC 71, j. 28-6-1989, rei. Min.
Athos Carneiro).

102. Procedimentos de jurisdição voluntária


São propostos, via de regra, no foro do domicílio do requerente.

199
A açao de interdição, no foro do domicílio do interditando.
Os pedidos de retificações no registro civil serão ajuizados no foro
do domicílio de quem pretende a retificação, restauração ou suprimento,
ainda que o assento esteja lançado em ofício do Registro Civil situado em
outra comarca; neste último caso, o cumprimento do mandado de retifica­
ção será solicitado pelo juiz que o expediu ao juiz com jurisdição sobre o
cartório (Lei n. 6.015, de 31-12-1973, art. 109 e parágrafos).
Decidiu a 2- Seção do STJ, em aresto relatado pela Min. Nancy An­
drighi, no alusivo ao foro competente para o pedido de retificação de re- ;
gistro civil, que “é de se entender que essa ação pode ser ajuizada, facul->
tativamente, à escolha da autora, na comarca do local de sua residência ou
na de onde localizado o cartório do registro de nascimento” (CC 33.172,^
j. 28-11-2001, Informativo do STJ, n. 118, nov. 2001). '
O Superior Tribunal dé Justiça tem entendido que compete à Justiça
Estadual processar e julgar pedido de retificação de assentamento do re­
gistro civil, ainda que o objetivo último do requerente seja o de fazer
prova perante o INSS a fim de instruir pedido de aposentadoria (CC 29.890,
rei. Min. Pádua Ribeiro, DJU, 26 out. 2001, p. 246; CC 24.808, rei. Min.
Aldir Passarinho Jr., DJU, 20 set. 1999; CC 11.603, rei. Min. Nilson Naves,
DJU, 13 fev. 1995).
Segundo o entendimento da 2~ Seção do STJ, ê da competência da
Justiça Estadual processar e julgar pedido de cancelamento de registro
imobiliário, ainda que formulado por ente federal, tal como o INCRA, isso
em face da natureza administrativa da postulação (CC 30.453, rei. Min.
Pádua Ribeiro, dec. de 19-10-2001, DJU, 6 nov. 2001, p. 219).
Todavia, o oficial do registro deve cumprir os mandados da Justiça
Federal, ou da Justiça do Trabalho, expedidos na via jurisdicional. Assim,
tendo o oficial do registro de imóveis recusado cumprimento a determi­
nação de juiz federal no sentido de averbação de penhora, suscitando
dúvida, decidiu a l â Seção do STJ que não é permitido ao Juiz Correge­
dor estadual, na via administrativa, opor-se ao que fora ordenado em
feito jurisdicionalizado, e declarou competente o juiz federal (CC 32.641,
rei. Min. Eliana Calmon, j. 12-12-2001, Informativo do STJ, n. 120, dez.
2001). No CC 21.366, igualmente alusivo ao registro de penhora, foi
julgado que “o juízo correcional, no exercício de sua função administra­
tiva, não pode opor-se a ato jurisdicional trabalhista que determina pe­
nhora de bens”, sendo declarado competente, com remissão a preceden­

200
tes, o juízo do trabalho (rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. de 22-11-2001,
DJU, 13 fev. 2002, p. 190).
Quanto às justificações judiciais, v., nesta obra, o verbete n. 91.
Quanto aos pedidos de alvarás, v., nesta obra, o verbete n. 91-A.
Capítulo XX
COMPETÊNCIA NO MANDADO
DE SEGURANÇA,
AÇÃO CIVIL PÚBLICA,
AÇÃO POR IMPROBIDADE ;
ADMINISTRATIVA E
AÇÃO POPULAR

103. Ação de mandado de segurança


A questão da competência para o julgamento das ações de mandado
de segurança assume aspectos peculiares. Nessa ação, embora a parte ré
seja realmente a pessoa jurídica de direito público a que pertence a auto­
ridade apontada como coatora1, a notificação (com eficácia de citação
— Lei n. 12.016, de 7-8-2009, art. 7a, I) é feita à autoridade, e não ao
presentante legal da pessoa jurídica. Temos sustentado que a autoridade
coatora apresenta-se no writ como substituto processual da entidade de
direito público, mas apenas até a prolação da sentença; deverá da senten­
ça ser intimada também a entidade de direito público, que, desde então,
passa ao primeiro plano na relação de direito processual e exerce o direito
de recorrer ou de responder ao recurso (RJTJRS, 55:188). A autoridade
coatora também poderá recorrer (Lei n. 12.016, art. 14, § 2a).
Tem sido salientado que a segurança deve ser impetrada pondo como
autoridade coatora aquela que disponha de poder, que detenha atribuições

1. Tema dos mais controvertidos na doutrina é o de quem seja a parte passiva, o


réu na ação de mandado de segurança. Por todos, recomenda-se a leitura, a esse res­
peito, de Agrícola Barbi, Do mandado, cit., n. 152 e s.; ainda Cretella Júnior, Do
mandado de segurança, 2. ed., Forense, 1980, n. 81; Cassio Scarpinella Bueno, Man­
dado de segurança, Saraiva, 2002, p. 18-23.

202
que a habilitem a corrigir a ilegalidade arguida: “se as providências pedi­
das no mandado não são da alçada do impetrado, o impetrante é carecedor
da segurança contra aquela autoridade, por falta de legitimação passiva
para responder pelo ato impugnado” (Hely Lopes Meirelles, Mandado de
segurança, 31. ed., Malheiros Ed., p. 67). Considera-se autoridade coato­
ra a pessoa que ordena ou omite a prática do ato impugnado, e não o
superior que editou as normas destinadas a regrar a execução de tais atos
(STJ, lâ Seção, MS 8.716, rei. Min. Luiz Fux, ac. de 26-2-2003)1‘A, e
também não o simples executor, aquele que cumpre a ordem como mero
subordinado hierárquico da autoridade coatora. Nos termos da Lei n.
12.016/2009, art. 6-, § 3-, “considera-se autoridade coatora aquela que tenha
praticado o ato impugnado ou da qual emane a ordem para a sua prática”.
As regras de competência encontram-se na Constituição Federal, em
Constituições estaduais, nos Códigos de Organização Judiciária e Regi­
mentos Internos dos Tribunais. Assentam tais regras, fundamentalmente,
não na natureza da lide ou da pretensão deduzida no writ, mas sim estão
em função da qualificação da autoridade coatora, se autoridade de nível
federal, ou de nível estadual ou municipal, e ainda em função da hierarquia
de tal autoridade.
Como afirmado em aresto do STJ, 5- Turma, “tratando-se de manda­
do de segurança, a competência para o processo e julgamento é definida
segundo a categoria, qualificação e hierarquia funcional da autoridade
coatora, portanto, absoluta” (REsp 101.102, rei. Min. José Arnaldo). É
irrelevante, “para fixação da competência, a matéria a ser discutida em
mandado de segurança” (STJ, 3a Seção, CC 6.284, rei. Min. Félix Fischer).
V., também, nesta obra, os verbetes n. 110 e 116. A nova Lei n. 12.016/2009
dispõe expressamente no sentido de que “considerar-se-á federal a autori­
dades coatora se as conseqüências de ordem patrimonial do ato contra o
qual se requer o mandado houverem de ser suportadas pela União ou en­
tidade por ela controlada”.
Em se cuidando de ação de segurança impetrada por entidade públi­
ca federal contra autoridade jurisdicional estadual, a 2- Seção do STJ,
reafirmando o princípio acima exposto, declarou a competência do TJSC,

1-À. Para efeito de admissibilidade da ação de segurança, qualificam-se como


autoridade pública também os dirigentes de sociedades de economia mista , como se
verifica do enunciado n. 333 da Súmula do STJ, a saber:
“Súmula 333. Cabe mandado de segurança contra ato praticado em licitação
promovida por sociedade de economia mista ou empresa pública

203
e não do TRF da 4- Região, para apreciar mandado ajuizado pela Caixa
Econômica Federal contra magistrado estadual catarinense (CC 31.210,
rei. Min. Castro Filho, j. 14-4-2004). Vale todavia ponderar que, surpre­
endentemente, a \- Seção do STJ, invocando precedente do STF (no RE
176.881, Pleno, rei. Min. Ilmar Galvão, j. 6-3-1998), havia chegado à
conclusão de que o art. 109,1, da CF, que estabelece regra de competência
ratione personae, atrai a competência da Justiça Federal nos casos de
mandado de segurança impetrado pela União, entidade autárquica ou
empresa pública federal contra entidade pública local, inclusive magistra­
do estadual (assim, CC 60.849, rei. Min. Castro Meira, v.u., j. 23-8-2006;
CC 45.709, rei. Min. Luiz Fux, maioria, j. 23-8-2006). ^
Assim, se o mandamus é impetrado contra autoridade federal de mor
hierarquia, indigitada como tendo cometido ou mandado cometer o ato
alegadamente violador de direito líquido e certo do demandante, caberá
julgamento do feito ao Supremo Tribunal Federal: atos cometidos pelo
Presidente da República, Mesas da Câmara e do Senado Federal, pelo
próprio Supremo Tribunal Federal, e por outros colegiados ou autoridades
referidos no art. 102,1, d, da Constituição.
O Superior Tribunal de Justiça conhece dos mandamus, também aqui
em competência originária, postulados contra ato de Ministro de Estado.
A Súmula 103 do antigo TFR, pela competência originária do tribunal
superior para julgar, originariamente, mandado de segurança contra ato de
órgão colegiado presidido por Ministro de Estado, restou superada por ac.
do STJ, no MS 237, Ia Seção, 13-2-1990, rei. Min. Geraldo Sobral, con­
siderando a Corte incompetente para julgar ato do Ministro da Fazenda na
qualidade de presidente do CMN, remetendo-se o processo ao juízo de
primeira instância.
Esta orientação tomou-se remansosa no STJ, e resultou na vigente
Súmula 177, de 27-11-1996, da aludida Corte, verbis:
“O Superior Tribunal de Justiça é incompetente para processar
e julgar, originariamente, mandado de segurança contra ato de órgão
colegiado presidido por Ministro de Estado”.
A l â Seção do STJ, apreciando ato praticado pelo Ministro da Justi­
ça no uso das atribuições de Presidente do Conselho Nacional de Trânsito
— Contran, reiterou tal posicionamento afirmando ser a Corte “incompe­
tente para processar e julgar, originariamente, mandado de segurança
contra ato de órgão colegiado presidido por Ministro de Estado” (MS 6.229,
ac. 9-6-1999, rei. Min. Hélio Mosimann).
O Superior Tribunal de Justiça igualmente conhece dos mandados de
segurança impetrados contra ato do próprio Tribunal (CF, art. 105,1, b), e

204
os Tribunais Regionais Federais julgam os mandados de segurança impetra­
dos contra ato do próprio Tribunal ou de juiz federal (CF, art. 108,1, c).
Cumpre referir, neste passo, que a jurisprudência firmou-se no sen­
tido de que não cabe a um tribunal conhecer de mandado de segurança
•impetrado contra ato jurisdicional prolatado por órgão do próprio tribunal,
quer em decisão colegiada, quer em decisão monocrática. A respeito, o
enunciado 121 da Súmula do antigo Tribunal Federal de Recursos: “Não
cabe mandado de segurança contra ato ou decisão, de natureza jurisdi­
cional, emanado de relator ou presidente de Turma”. Esta Súmula continua
aceita pelo Superior Tribunal de Justiça: Corte Especial, MS 2.928, rei.
Min. Peçanha Martins; AgRg no MS 5.219, rei. Min. Sálvio de Figueiredo;
MS 10.702, rei. Min. José Arnaldo da Fonseca, dec. de 20-6-2005, sempre
sob o entendimento de que a referência feita no art. 105, I, b, da CF diz
respeito a matéria administrativa, não jurisdicional, do tribunal.
Os juizes federais da respectiva Seção Judiciária julgam os manda­
dos de segurança apresentados contra ato de qualquer outra autoridade
federal, como tal definida em lei ou apontada no art. le, § l2, da Lei n.
1.533/51, com recurso para o respectivo Tribunal Regional Federal (CF,
art. 109, VII).
Cabe à Justiça Estadual conhecer dos mandados de segurança impe­
trados contra ato de autoridade estadual ou municipal. Também nestes
casos apresenta-se preponderante o critério da hierarquia — competência
ratione muneris — da autoridade dita coatora.
Apreciando o CC 27.963, decidiu o STJ, por sua lâ Seção, ser compe­
tente a Justiça Estadual para processar e julgar mandado de segurança “con­
tra ato de sociedade de economia mista, salvo quando praticado por delegação
da União Federal” (rei. Min. Peçanha Martins, v. u., ac. de 26-10-2000).
Sendo a autoridade impetrada Juiz de Direito diretamente vinculado
ao Tribunal de Justiça local, irrelevante será a matéria objeto da lide para
deslocar a competência para a Justiça Federal: permanece competente o
Tribunal Estadual. Como consta do CC 21.263, ac. de 29-4-1998, rei. Min.
Hélio Mosimann, “definindo-se a competência pela categoria da autorida­
de apontada coatora, compete à Justiça Estadual processar e julgar man­
dado de segurança impetrado contra ato praticado por magistrado integran­
te da Justiça Comum” (STJ, l â Seção). V, também, RSTJ, 47:282.

2. Vale, a respeito, referir as seguintes decisões do STJ:


1. Em mandado de segurança contra a Eletropaulo, foi julgada competente a
Justiça Federal, eis que o ato impugnado (suspensão do fornecimento de energia elétri­
ca) não seria de gestão administrativa, mas relacionado à continuidade na prestação de
serviço público federal (lâ Seção, CC 40.060, rei. Min. Castro Meira, ac. 24-3-2004).

205
Nos Estados, as respectivas Constituições e os Códigos de Organi­
zação Judiciária estabelecem as normas de competência para processar e
julgar os atos de autoridades de maior hierarquia, cabendo normalmente
ao Tribunal de Justiça (ou seu Órgão Especial) conhecer dos mandamus
contra atos do Governador, da Assembleia Legislativa, do Tribunal de
Contas e do próprio Tribunal de Justiça. Os mandados de segurança contra
atos de juizes de primeira instância são normalmente julgados pelas Câ­
maras isoladas, muito embora a previsão da Lei Orgânica da Magistratura
Nacional (art 101, § 3-, ã f.
Note-se que, pela atual Constituição da República, cabe privativq.-
mente aos Tribunais dispor “sobre a competência e o funcionamento dos
respectivos órgãos jurisdicionais e administrativos”, podendo portanto
fixar por Resolução, nos feitos de sua competência, quais os atribuídos Io
plenário e quais os reservados ao julgamento pelos órgãos fracionários do
tribunal.
É defeso aos tribunais conhecer originariamente de mandados de
segurança contra atos jurisdicionais ou administrativos praticados por
tribunais outros de menor hierarquia funcional. A norma constou da Lei
Orgânica da Magistratura Nacional (art. 21, VI), verbis:
“Compete aos tribunais, privativamente: ... VI —julgar, origi­
nariamente, os mandados de segurança contra seus atos, os dos
respectivos Presidentes e os de suas Câmaras, Turmas ou Seções
Já ao tempo da Constituição de 1946, o Supremo Tribunal Federal,
através da Súmula 330, explicitara não ser ele competente “para conhecer de
mandado de segurança contra atos dos Tribunais de Justiça dos Estados”.

2. No CC 37.568, a 2- Seção entendeu competente a Justiça Estadual no caso


de ação promovida por empresa concessionária de serviços ferroviários (rei. Min.
Pádua Ribeiro, ac. 23-6-2004).
3. Em mandado de segurança impetrado contra o Presidente da Eletropaulo,
visando a suspensão do pagamento de conta de fornecimento de energia elétrica, o rei.
Min. Otávio de Noronha teve por competente a Justiça Federal, por estar o apontado
coator no exercício de função federal delegada (CC 40.970, dec. 2-8-2004).
3. Segundo a Lei Orgânica da Magistratura Nacional, referida na revogad
Constituição Federal de 1969, art. 101 e § 3a, d, na previsão de Câmaras ou Turmas
especializadas ou agrupadas em Seções especializadas, competia a cada Seção espe­
cializada o julgamento dos “mandados de segurança contra ato de juiz de direito”
(rectius, “de juiz de primeira instância”).

206
O Superior Tribunal de Justiça, de sua vez, em sessão de 14-5-1992
editou a Súmula 41, com a seguinte redação:
“O Superior Tribunal de Justiça não tem competência para
processar e julgar, originariamente, mandado de segurança contra
ato de outros tribunais ou dos respectivos órgãos”.
Foi considerada necessária a edição da Súmula em decorrência dos
numerosos mandados de segurança impetrados no Superior Tribunal de
Justiça, originariamente, contra acórdãos de tribunais inferiores ou decisões
dos respectivos Presidentes.
Assim também decidiu o Supremo Tribunal Federal, ao editar sua
Súmula 624, a saber:
"Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer origina­
riamente de mandado de segurança contra atos de outros tribunais ”
(enunciado aprovado em sessão do Pleno de 24-9-2003).
Relevante frisar que a Justiça Eleitoral detém competência, agora em
razão da matéria, para o julgamento de mandado de segurança em matéria
eleitoral (CF, art. 121, § 4S, V).
De outra parte, embora a taxatividade de sua competência constitu­
cionalmente fixada, aos Tribunais do Trabalho, aos Tribunais Eleitorais e
ao Superior Tribunal Militar é reconhecida competência para a apreciação
e julgamento de mandados de segurança contra atos administrativos pra­
ticados pelos próprios Tribunais ou seus presidentes4 (v. a Súmula 433 do
STF).
Os mandados de segurança contra autoridade municipal são julgados
pelo juiz de direito da comarca, e distribuídos à vara privativa, onde hou­
ver. Igualmente os writs impetrados contra autoridade estadual sediada em
comarca interiorana (Agrícola Barbi, Do mandado, cit., n. 141; Cretella
Júnior, Do mandado, cit, n. 111).
Anote-se, por oportuno, que os Tribunais de Justiça dos Estados não
têm competência para rever, através de ação de mandado de segurança, o
mérito de decisão proferida por Turma Recursal dos Juizados Especiais
(RMS 12.218, rei. Min. Castro Filho, dec. de l e-2-2002). Como disse o
Min. Ruy Rosado de Aguiar, caso para cada ato processual acoimado de

4. V. Agrícola Barbi, Do mandado, cit., n. 131 a 142; Cretella Júnior, Do man­


dado, cit, n. 115 a 118.

207
ilegal fosse possível mandado de segurança para o Tribunal de Justiça,-
“estaria destruído o sistema, ingressando as causas dos juizados na vala
comum dos procedimentos recursais” (RMS 10.357). Mas o mandado tem
sido admitido para o controle da competência do Juizado Especial — v. o
verbete n. 105-Á.
O mesmo raciocínio vale para os Tribunais Regionais Federais, rela­
tivamente às Turmas Recursais dos Juizados Especiais Federais.
V., nesta obra, os verbetes n. 105, parte final, 105-A, 110 e 137.

104. Mandado de segurança coletivo ’


O tema da competência apresenta, no mandado de segurança coleti­
vo, certas particularidades. ^
Vamos supor uma majoração tributária estadual que os contribuintes,
espalhados por muitos municípios e comarcas, considerem ilegal. Assiste-
lhes a faculdade, naturalmente, de ajuizar mandados de segurança indivi­
duais, apontando como coator, em cada caso, o agente que houver concre-
tamente lavrado a autuação fiscal, ou que os haja notificado para efetuar
o pagamento sob pena de autuação e multa, ou que ameace notificá-los.
Todavia, a entidade de classe, digamos a Associação Comercial ou a
Associação das Indústrias, sediada na Capital estadual, propõe o mandado
de segurança coletivo em substituição de todos os seus associados, inde­
terminados na petição inicial, embora determinãveis na execução manda-
mental. Como em ação de mandado de segurança firma-se a competência
pelo local onde sediada a autoridade coatora e pela hierarquia funcional
da mesma autoridade, e como na hipótese são muitas as autoridades apon­
tadas como coatoras dos substituídos, necessário será perquirir quem, de
acordo com as normas administrativas, ostenta hierarquia superior à dos
agentes fiscais concretamente coatores, e assim presumivelmente haja
determinado a prática dos atos ditos ilegais, podendo destarte igualmente
mandar sejam sustados ou revogados. Se a autoridade fiscal superior for,
v. g., o Inspetor-Geral de Tributos, competente será o juiz da Fazenda
Pública da Capital, e a sentença fará coisa julgada relativamente a todos
os substituídos, sejam ou não domiciliados na área territorial sob a juris­
dição do mencionado magistrado. Se a autoridade superior, no entanto, for
o Secretário da Fazenda, então provavelmente competente será, origina­
riamente, um dos órgãos fracionários do Tribunal de Justiça ou seu Órgão
Especial, conforme dispuser a legislação de organização judiciária local
ou o Regimento Interno da Corte.

208
Com a habitual precisão Calmon de Passos preconiza esta solução
(Mandado de segurança coletivo, mandado de injunção, “habeas data”,
Forense, 1989, p. 25-8), sublinhando inclusive sua repercussão no relativo
à eficácia das decisões proferidas no mandamus coletivo;
“Disso decorre que a autoridade coatora, não só ela, como
agentes outros da pessoa jurídica de direito público envolvida, estão
obrigados a se comportar como determinado na decisão do mandado
de segurança no tocante a todo e qualquer membro ou associado da
entidade impetrante, encontre-se ele onde se encontrar, em termos de
circunscrição territorial. Se a indústria é filiada da FIESP e se bene­
ficiou com a segurança impetrada, liberando-se de pagar determina­
do tributo, todos os seus estabelecimentos e todos os seus negócios,
em qualquer parte do país, se beneficiam da coisa julgada do writ
coletivo, em que ela foi parte como substituída. Daí o relevo que tem,
no mandado de segurança coletivo, a determinação da autoridade
coatora, que somente pode ser aquela cuja jurisdição (sensu lato)
tenha suficiente abrangência reclamada para a eficácia da coisa jul­
gada nos termos apontados” (Mandado de segurança coletivo, cit.,
p. 75-6).
Aqui uma observação: em nossa opinião, a eficácia do julgado
não abrangerá os atos praticados em área territorial não incluída na
jurisdição do tribunal; assim, o contribuinte domiciliado na área sob
jurisdição do Tribunal Regional Federal da Ia Região não será favo­
recido por decisão de outro TRF no sentido da ilegalidade de deter­
minada majoração tributária, exigida por autoridade fiscal com
atribuições nessa outra região.

105. Mandado de segurança contra ato judicial. Ação rescisória.


Tribunal competente para julgá-los
Os mesmos princípios alusivos aos recursos incidem no que diz
respeito ao tribunal competente para o julgamento dos mandados de segu­
rança contra ato judicial. Vale notar, desde logo, que não é admissível
mandado de segurança contra decisão judicial da qual caiba recurso com
efeito suspensivo, e igualmente não é admitido em decisão judicial tran­
sitada em julgado (Lei n. 12.016/2009, art. 5~, II e III).
Cuidando-se de decisão de juiz estadual, somente o tribunal do res­
pectivo Estado poderá conhecer do mandado de segurança, ainda que este
tenha sido impetrado pela União Federal ou por entidade autárquica ou

209
empresa pública federal5. Assim decidiu o Superior Tribunal de Justiça,
por sua 2- Seção, no CC 8.152, rei. Min. Cláudio Santos, em que foi ne­
gada a possibilidade de a União obter, pela via de mandamus impetrado
perante o Tribunal Regional Federal, a decretação da nulidade, por incom­
petência absoluta, de processo de execução de sentença proferida pela
justiça comum do Rio de Janeiro contra a Rede Ferroviária Federal S.A.
Realmente, o TRF somente é competente para julgar originariamen­
te mandado de segurança “contra ato do próprio tribunal ou de juiz federal” .
(CF, art. 108,1, c), não contra ato de outro tribunal ou de juiz não vincu­
lado ao TRF, sejam quais forem os fundamentos do writ A propósito, v.
ac. do STJ, 3- Seção, no CC 4.703, em 21-10-1993, afirmando a compe­
tência de TRT para julgar mandado de segurança contra ato de JCJ {RSTJ,
60:53), atualmente Vara do Trabalho. ^
Impende notar que o art. 109,1, da Constituição Federal fixa a com­
petência ratione personae dos juizes federais, não a dos tribunais federais6.
Também, por idênticos motivos, a ação rescisória, que é de compe­
tência originária de tribunal, somente poderá ser processada e julgada pelo
colegiado ao qual estiver vinculado, na linha de hierarquia recursal, o ju­
ízo que houver proferido a sentença.
Assim — embora a matéria seja controvertida na jurisprudência — ,
temos por certo que um TRF, v. g., não poderá apreciar demanda rescisó­
ria de sentença prolatada por juiz estadual, ainda que autora da demanda
rescisória seja a União Federal; e isso inclusive porque a competência
originária dos TRFs limita-se às rescisórias “de julgados seus ou dos juizes
federais da região” (CF, art. 108,1, b). O “interesse” da União será, pois,
nesse caso particular, apreciado pelo tribunal estadual, com eventual re­
curso especial ou extraordinário para o STJ ou o STF, estes, sim, tribunais
“nacionais”. V., nesta obra, o verbete n. 110.
Mencionemos, por fim, o magistério do juiz federal Aluisio Gonçal­
ves de Castro Mendes no sentido de que “o Tribunal de Justiça do Estado

5. Em se tratando de mandado de segurança contra decisão proferida em proces­


so em trâmite perante o Juizado Especial, a competência para o julgamento é do órgão
colegiado do próprio Juizado, conforme tem decidido o STJ (RMS 10.334, 6â Turma,
rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. de 10-10-2000, Informativo do STJ, n. 74, out. 2000,
com remissão a precedentes do STJ). V., nesta obra, o verbete n. 105-A.
6. Pela similitude de situações, pode ser trazida à baila a Súmula 518 do STF,
verbis: “A intervenção da União, em feito já julgado pela segunda instância e penden­
te de embargos, não desloca o processo para o Tribunal Federal de Recursos

210
será sempre competente para processar e julgar as ações rescisórias de
seus acórdãos e das sentenças prolatadas pelos Juizes de Direito, salvo
quando estes estiverem exercendo a competência federal. O enunciado
contido na Súmula n. 55 do STJ, de que ‘Tribunal Regional Federal não é
•competente para julgar recurso de decisão proferida por juiz estadual não
revestido de jurisdição federal’, deve ser interpretado em sentido amplo,
para incidir sobre os dois tipos de remédios utilizáveis contra decisões
judiciais: os recursos e as ações autônomas de impugnação” (Competência
cível cia Justiça Federal, Saraiva, 1998, item 9.1.1, p. 138-9).
Todavia, contrariando tal orientação, a lâ Turma do STJ afirmou ser
de competência originária do Tribunal Regional Federal o julgamento de
mandado de segurança impetrado por empresa pública federal (CEF)
contra ato praticado por Juiz de Direito (RMS 18.040, rei. Min. Teori
Zavascki, ac, 3-2-2005). Tratou-se, segundo o aresto, de afirmar o princí­
pio da prevalência do órgão judiciário da União sobre o do Estado-Mem-
bro, conjugado com o princípio da hierarquia, ou seja, sendo o ato prati­
cado por juiz, o julgamento deverá caber ao órgão judiciário de segunda
instância. No voto condutor consta que “solução semelhante tem sido dada
para as ações rescisórias de sentenças proferidas pela Justiça dos Estados
quando nelas figurar, como parte ou interveniente, um ente federal”,
anotando-se como precedentes os CC 5.427, 2â Seção, rei. Min. Cláudio
Santos e REsp 94.332, 4â Turma, rei. Min. Sálvio de Figueiredo6"A. Foi,
outrossim, invocado nesse sentido o precedente do Supremo Tribunal
Federal no RE 176.881 (Pleno, maioria de cinco votos a quatro, rei. desig.
Min. Ilmar Galvão, ac. de 13-3-1997).
Rogando vênia, parece-nos bem mais jurídica e sistemática a solução
preconizada no STF, no RE antes referido, no voto (vencido) do relator
originário, Min. Carlos Velloso.

105-A oMandado de segurança e Juizados Especiais


Tema realmente inquietante o alusivo aos mandados de segurança
contra ato judicial praticado em processo perante Juizado Especial Cível

6-A. A 2- Seção do STJ, no julgamento do CC 5.427, adotou a tese do “deslo­


camento de competência”, segundo a ementa, sob o fundamento de que “a habilitação
no feito de empresa pública federal como assistente litisconsorcial acarreta a transfe­
rência para o Tribunal Regional da competência a fim de julgar a ação rescisória de
acórdão da Corte Estadual. Justifica-se essa competência excepcional porque, de regra,
a ação rescisória envolve o iudicium rescindens e o iudicium rescisorium” (rei. desig.
Min. Cláudio Santos» j. 15-12-1993, p.m.v.).

211
estadual ou federal, visto que se estão multiplicando os writs (à guisa de
sucedâneo recursal) diante da inadmissibilidade, em princípio, de agravos
no procedimento sumaríssimo perante aqueles órgãos (a respeito, v. nosso
Recurso especial, agravos e agravo interno, 6. ed., Forense, n. 67)7.
Caso o mandado seja ajuizado contra ato do juiz processante, tem
entendido o STJ que a competência para julgá-lo é do órgão colegiado
do próprio Juizado, e não do Tribunal de Justiça (6â Turma, RMS 10.334,
rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. 10-10-2000, com remissão a precedentes,
da Corte; 2a Seção, CC 38.190, rei. Min. Ari Pargendler, ac. 9-4-2003; 3-
Seção, CC 40.319, rei. Min. Arnaldo da Fonseca, ac. 10-3-2004; 4â Turma,
RMS 18.477, rei. Min. Jorge Scartezzini, j. 16-11-2004; enunciado n. 62
do Fórum Permanente dos Coordenadores dos Juizados Especiais)8.
Por certo que a um primeiro exame, tendo em vista que o ato é de
Juiz de Direito (pois Juizes de Direito presidem os Juizados Especiais —
Lei n. 9.099/95, art. 5S), competente para conhecer do mandamus seria o
Tribunal de Justiça, por intermédio de uma sua Seção especializada (LC
n. 35/1979 — LOMAN, art. 101, § 3a, d). Todavia, em visão sistemática,
apresentar-se-ia estranho que a apelação (Lei n. 9.099, art. 41), veiculando
pedido de reforma da sentença, fosse julgada pela Turma Recursal (sem
possibilidade alguma de intervenção recursal do Tribunal de Justiça), e o
mandado de segurança (como sucedâneo recursal), impugnando simples
decisão interlocutória, viesse a ser apreciado pelo Tribunal8'4.
Problema maior surge quando o mandado de segurança é impetrado
contra ato (alegadamente eivado de ilegalidade extrema) da própria Turma
Recursal9.

7. A Lei n. 10.259/2001, que regulamenta os Juizados Especiais Federais, admite


expressamente, em seu art. 4S, a concessão de medidas cautelares no curso do processo,
e estas decisões serão recorríveis — art. 5S? a contrario sensu. Neste caso, o recurso
cabível somente poderá ser o agravo de instrumento, pois o agravo retido seria ineficaz.
8. Contra, pela competência do Tribunal de Justiça, Fredie Didier Jr., artigo em
RePro, 105:249.
8-A. Não obstante, a 5aTurma do STJ surpreendentemente admitiu a impetração
de mandado de segurança pelo INSS ao Tribunal Regional Federal contra decisão
interlocutória de juiz de Juizado Especial Estadual (causa previdenciária, em comarca
onde não sediado Juizado Especial Federal — CF, art. 109, § 32), afirmando o cabi­
mento do writ e a competência do tribunal de segundo grau (RMS 17.113, rei. Min.
Laurita Vaz, j. 24-8-2004). E decisão no mesmo sentido consta do RMS 16.124 (5â
Turma, rei. Min. Felix Fischer, j. 7-2-2006).
9. E a utilização de tal meio autônomo de impugnação se está tornando freqüen­
te, inclusive porque no sistema dos Juizados Especiais não é admissível o recurso es-

212
Nestes casos:
a) ou bem não se admite o cabimento do writ, em orientação que virá
de encontro à amplitude da garantia constante da Lei Maior;
b) ou competente será o Tribunal de Justiça, mas esta solução esbar-
ra no princípio de que os tribunais não têm competência para processar e
julgar, originariamente, atos de outros tribunais ou dos respectivos órgãos
(STJ, Súmula 41; STF, Súmula 624; LOMAN, art. 21, VI);
c) ou competente para o julgamento será a própria Turma Recursal
do Juizado Especial, e esta parece-nos ser, em exegese sistemática, a
orientação adequada.
Com frequência os mandados de segurança contra decisão de Turma
Recursal têm sido endereçados diretamente ao Superior Tribunal de Jus­
tiça, que reafirma sua manifesta incompetência para julgá-los, ante o
disposto no art. 105,1, b , da CF ( v. g., 4â Turma, RMS 10.357, rei. Min.
Ruy Rosado; 2â Seção, Ag. Reg. no MS 10.405, rei. Min. Barros Montei­
ro, ac. 9-3-2005).
O enunciado n. 64 do Fórum Permanente dos Coordenadores dos
Juizados Especiais sustentou a competência, em tais casos, do Supremo
Tribunal Federal, já que dos arestos das Turmas Recursais cabe, nos mol­
des constitucionais, recurso extraordinário ao Pretório Excelso (por certo
que o writ deveria sustentar tese imediatamente constitucional).
Todavia, apreciando Questão de Ordem no MS 24.691, o Supremo
Tribunal Federal, sendo relator o Min. Sepúlveda Pertence, em sessão de
4-12-2003 negou sua competência para o julgamento de mandado de se­
gurança contra ato de Turma Recursal, e proclamou a competência da
própria Tunna para julgar impetrações contra ato de integrante ou do
colegiado (ficou vencido o Min, Marco Aurélio, o qual considerava com­
petente o Tribunal de Justiça). V. MS 25.396.
Por fim, vale anotar que, julgado originariamente o mandado de se­
gurança pela Turma Recursal, mesmo sendo denegatória a decisão, dela
não caberá recurso ordinário constitucional. Não caberá se endereçado ao
Supremo Tribunal Federal, ante a previsão constitucional de sua admissi­
bilidade em face de decisões proferidas “pelos Tribunais Superiores” (CF,
art. 102, II, a)\ não caberá o recurso ao Superior Tribunal de Justiça, por­
que, a teor do art. 105, II, b, da CF, é pressuposto do cabimento haver sido

pecial nem a ação rescisória. Nem o reexame necessário nas causas submetidas aos
Juizados Especiais Federais.

213
a decisão denegatória do mandamus proferida, em instância originária,
“pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do
Distrito Federal e Territórios”; e o Superior Tribunal de Justiça recusa-se,
por ponderáveis fundamentos, a “equiparar” as Turmas Recursais a um
“tribunal”, assim decidindo ao negar admissão a recursos especiais contra
suas decisões (Súmula 203). V. Recurso em MS 19.125, STJ, 4â Turma,
rei. Min. Fernando Gonçalves, j. 21-6-2005.
Destarte, o recurso em tese possível contra a decisão proferida pela.
Turma Recursal em ação de mandado de segurança será, tão somente, o recur-,
so extraordinário, nos limites em que a Lei Maior o permite (art. 102, III). ■*
Neste passo, surge relevantíssima indagação: como proceder quan­
do a Turma Recursal Estadual ou Federal manifestamente ultrapassa
o âmbito de sua competência? £
A resposta foi dada em aresto da Corte Especial do STJ, de que foi
relatora a Min. Nancy Andrighi, verdadeiro leading case com base na
distinção entre o mandado de segurança impetrado perante Tribunal de
Justiça, visando o controle de competência da Turma Recursal, e o man­
dado (ou recurso) em que se busque na justiça comum o controle do mé­
rito da decisão proferida pelo Juizado Especial.
Assim, conforme sua ementa:
“Não se admite, consoante remansosa jurisprudência do STJ, o con­
trole, pela justiça comum, sobre o mérito das decisões proferidas pelos
juizados especiais. Exceção é feita apenas em relação ao controle de cons­
titucionalidade dessas decisões, passível de ser promovido mediante a
interposição de recurso extraordinário.
A autonomia dos juizados especiais, todavia, não pode prevalecer
para a decisão acerca de sua própria competência para conhecer das
causas que lhe são submetidas. E necessário estabelecer um mecanismo
de controle da competência dos juizados, sob pena de lhes conferir um
poder desproporcional: o de decidir, em caráter definitivo, inclusive as
causas para as quais são absolutamente incompetentes, nos termos da lei
civil.
Não está previsto, de maneira expressa, na Lei n. 9.099/1995, um
mecanismo de controle da competência das decisões proferidas pelos
Juizados Especiais. É, portanto, necessário estabelecer esse mecanismo
por construção jurisprudencial.
Embora haja outras formas de promover referido controle, a forma
mais adequada é a do mandado de segurança, por dois motivos: em pri­

214
meiro lugar, porque haveria dificuldade de utilização, em alguns casos, da
Reclamação ou da Que rela Nullitatis; em segundo lugar, porque o man­
dado de segurança tem historicamente sido utilizado nas hipóteses em que
não existe, no ordenamento jurídico, outra forma de reparar lesão ou pre­
venir ameaça de lesão a direito.
O entendimento de que é cabível a impetração de mandado de segu­
rança nas hipóteses de controle sobre a competência dos Juizados Especiais
não altera o entendimento anterior deste Tribunal, que veda a utilização
do writ para o controle do mérito das decisões desses juizados. Recurso
conhecido e provido” (RMS 17.524, rei. Min. Nancy Andrighi, p.m.v., j.
2-8-2006).
A orientação foi confirmada em aresto da 2- Turma, entendendo
possível a impetração de mandado de segurança, perante o Tribunal de
Justiça, contra ato de Turma Recursal de Juizado Especial estadual, não
quanto à revisão da matéria de mérito da lide, mas sim ao controle da
competência dos Juizados Especiais (RMS 26.665, rei. Min. Herman
Benjamin, j. 26-5-2009 ). Interessante afirmar que o STJ afirmou admis­
sível o mandado de segurança perante o Tribunal de Justiça mesmo no caso
em que a decisão, a ser anulada por vício de incompetência absoluta, já
tenha transitado em julgado, e assim foi decidido porque incabível nos
Juizados Especiais a ação rescisória, podendo em tais casos igualmente
ser considerado o writ como equiparado a uma que rela nullitatis (MC
15.465, 3~ Turma, rei. Min. Nancy Andrighi, j. 28-4-2009).
Já em se tratando de mandado de segurança contra decisão de juiz
singular de Juizado Especial, a competência será da respectiva Turma
Recursal, sob pena de transformar em ordinário um mecanismo admitido
para situações absolutamente extraordinárias (RMS 27.609, lâ Turma, rei.
Min. Teori Zavascki, j. 10-3-2009) . E nesse sentido a Corte Especial
editou, em 18-3-2009, a Súmula 376, com o teor seguinte:
“376. Compete à Turma recursal processar e julgar o mandado
de segurança contra ato de Juizado Especial'’.

106. Ação civil pública


A ação civil pública, instituída pela Lei n. 7.347, de 24-7-1985,
possui um “núcleo comum”, acentuado na nova Constituição Federal,
com a ação popular, visto que ambas buscam a tutela de bens e direitos
de valor histórico e cultural. Diferenciam-se quanto à legitimação ativa
e quanto ao rito, notando-se que a ação civil pública tutela também o
meio ambiente e “qualquer outro interesse difuso ou coletivo” (CDC,

215
art. 110), sendo cabível ainda (consoante a Lei n. 8.884, de 11-6-1994, art.
88) nos casos de infrações da ordem econômica e de ofensas ao princípio
da livre concorrência.
Conforme dispõe o art. 2- da Lei n. 7.347, as ações civis públicas
devem ser propostas “no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá
competência funcional para processar e julgar a causa” (ou melhor, com­
petência absoluta, embora a vinculação territorial)9'Ae9'B.
O parágrafo único do mesmo artigo (introduzido pela MP n. 2.180-
35, de 24-8-2001) aduz que “a propositura da ação prevenirá a jurisdição,
do juízo para todas as ações posteriormente intentadas que possuam a
mesma causa de pedir ou o mesmo objeto” (ou melhor, prevenirá a com­
petência do juízo).
Onde ocorreu o dano, ou onde se teme venha a ocorrer, o que sl
justifica, como anotou Hely Lopes Meirelles, pela facilidade na obtenção
da prova testemunhai e de realização das convenientes perícias (Mandado
de Segurança, 14. ed., Malheiros Ed., 1992, p. 123).
Em se tratando de danos ocorridos em escala nacional ou regional, o
foro competente será, respectivamente, o do Distrito Federal ou o da ca­
pital do Estado, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos
casos de competência concorrente (aplicação analógica do art. 93 da Lei
n. 8.078 — Código de Proteção ao Consumidor)9'0. V verbete n. 106-C.
Conforme Arruda Alvim, quando o dano ocorrido ou temido “trans­
cender a área de uma dada comarca, tratar-se-á de dano regional, enquan­
to circunscrito ao âmbito de um Estado federado, e a competência para a

9-A. O legislador incidiu em equívoco ao afirmar (art. 2S) que a competência do


foro do local do dano, nas ações civis públicas, tem natureza ‘funcional’. Cuida-se,
evidentemente, de competência absoluta, embora baseada no critério territorial (José
Roberto Bedaque, Revista do Advogado, AASP, n. 84, p. 107). Vide, outrossim, eluci­
dativo artigo de Barbosa Moreira (RF, 380/179).
9-B. Em caso de ação contra a UNIMED/Porto Alegre, visando declarar sem
efeito a rescisão de contrato de assistência médica e a imposição de cobrança de adi­
cional para internação hospitalar (feitas unilateralmente pela ré), o STJ afirmou que a
ação civil pública é instrumento adequado para a defesa dos interesses individuais
homogêneos dos consumidores (REsp 805.277, 3âT., rei. Min. Nancy Andrighi, j. 23-
9-2008).
9-C. Em ação civil pública relativa à criação do “Parque Nacional de Ilha Gran­
de”, abrangendo municípios de dois Estados da Federação, a 2- Turma entendeu que a
competência em primeira instância toca a uma das varas federais sediadas na Capital
de um dos Estados, pois a questão terá caráter nacional (REsp 1.018.214, rei. Min.
Campbell Marques, j. 2-6-2009).

216
causa é a do foro da capital do Estado. A competência será da comarca do
Distrito Federal quando o dano que haja ocorrido transcender, ou, se ainda
por vir a ocorrer, puder vir a transcender, a área geográfica de mais de um
Estado, ganhando, por isso, âmbito nacional (o dano, por exemplo, deve
vir a ocorrer em âmbito nacional, ainda que já existente em âmbito local
ou regional). Estes critérios, conferindo-se o sentido de que, no âmbito
regional, a competência é a da Capital do Estado federado e, tendo em
vista o dano de espectro nacional, a competência é do Distrito Federal, são
os que, ao lado da distinção das áreas, como distintas e inconfundíveis, é
o que melhor diz com o acesso à Justiça” (Código do Consumidor comen­
tado, 2. ed., Revista dos Tribunais, 1995, p. 426). Em outras palavras: a
sentença do juiz do Distrito Federal produzirá efeitos, excepcionalmente,
em todo o território nacional, a sentença do juiz da Capital, em todo o
território do respectivo Estado federado.
Serão, assim, evitados graves problemas, como os surgidos no co­
nhecido “caso do metanol” (apreciado pelo STJ no CC 971, lâ Seção, rei.
Min. Vicente Cernicchiaro, p. m. v.), nas demandas “múltiplas” do caso
“Vale do Rio Doce”, da privatização das “Teles” etc.
O Superior Tribunal de Justiça, todavia, pela sua 2- Seção, tem-se
manifestado, era casos de danos de âmbito nacional, pela competência
concorrente do foro da capital do Estado ou do foro do Distrito Federal
(certamente que da capital de Estado onde o dano se tenha manifestado,
não de Estado alheio ao dano). No CC 17.533-DF foi julgado, em exegese
do art. 93, II, do CDC, que “não há exclusividade do foro do Distrito Fe­
deral para o julgamento de ação civil pública de âmbito nacional. Isto
porque o referido artigo, ao se referir à Capital do Estado e ao Distrito
Federal, invoca competências territoriais concorrentes, devendo ser anali­
sada a questão estando a capital do Estado e o Distrito Federal em planos
iguais, sem conotação específica para o Distrito Federal” (da ementa, rei.
Min. Menezes Direito). No mesmo sentido o julgamento do CC 17.532,
de que foi relator o Min. Ari Pargendler, com o asserto de que “a ação
civil coletiva deve ser processada e julgada no foro da capital do Estado
ou no do Distrito Federal, se o dano tiver âmbito nacional ou regional;
votos vencidos no sentido de que, sendo o dano de âmbito nacional, com­
petente seria o foro do Distrito Federal” (da ementa)10.

10. A orientação foi confirmada no CC 21.338, rei. Min. Ruy Rosado, ac. de
8-5-2002, JSTJ, n. 133, maio 2002. Idem no CC 26.842, ac. de 10-10-2001, RSTJ,
160:211 (vencidos os Mins. Sálvio de Figueiredo e Pádua Ribeiro).

217
Se na demanda houve a intervenção (como autora, ré, opoente ou
assistente) da União, de entidade autárquica ou de empresa pública federal
(ou também “fundação federal”, porque considerada integrante do gênero
empresa pública ou do gênero autarquia — STJ, 2- Seção, CC 1.424 e
1.273), desloca-se o foro para aquele competente no âmbito da Justiça
Federal. Caso se trate de comarca em que não há juiz federal, “será com­
petente o juiz de direito, cabendo recurso para o Tribunal Regional Fede­
ral” (CC 15.411, rei. Min. Demócrito Reinaldo, j. 5-12-1995, DJU, 26 fev.
1996, p. 3911). ;
Escrevemos, em edições anteriores, que a circunstância de a ação haver?
sido proposta pelo Ministério Público Federal, mesmo para a tutela de inte­
resse especialmente protegido pela União, tal circunstância, por si só, não
implicava competência da Justiça Federal para processar e julgar a demanda,
pois a competência ratione ■materiae da Justiça Federal, no âmbito civil,
ocorre apenas nas causas referidas ná CF, art. 109, III e XI.
Cumpre, no entanto, reconsideremos tal orientação, ponderando que
o Ministério Público Federal é órgão da União> e, assim, sua presença
como parte autora determina a competência da Justiça Federal. Nesse
sentido julgou a l 3T. do STJ, relator o Min. Teori Zavascki, declarando a
competência da Justiça Federal para processar ACP ajuizada pelo Minis­
tério Público Federal, legitimado à defesa de bens federais, no caso man-
guezais situados em terreno de marinha e sujeitos ao poder de polícia do
IBAMA (REsp. 440.002, j. 18-11-2004)13.
Caso venha efetivamente a intervir qualquer das pessoas de direito
público referidas na Constituição Federal (art. 109,1), competente será a
Justiça Federal. Surge indagação, no entanto, quando o dano venha a
ocorrer na área de comarcas que não sejam sede de vara da Justiça Federal;
poder-se-á, então, com invocação ao art. 109, § 3S, da CF, considerar tal
caso como de “delegação de competência” ao juízo estadual, com recurso
para o Tribunal Regional Federal?
Neste sentido, o STJ, por sua l â Seção, emitiu súmula (em 12-3-1997),
com o seguinte teor: “183. Compete ao Juiz Estadual, nas comarcas que
não sejam sede de vara da Justiça Federal, processar e julgar ação civil

11. Tratando-se de ação civil pública em que é postulada a tutela coletiva do


cumprimento de normas de segurança e medicina do trabalho, competente é a Justiça
do Trabalho — v., nesta obra, o verbete n. 113.

218
pública, ainda que a União figure no processo”. Esse enunciado, todavia,
veio a ser CANCELADO pela l- Secção, em Emb. DecL no CC 27.676,
j. 8-11-2000, rei. o Min. José Delgado, tendo em vista a orientação firma­
da no Supremo Tribunal Federal (RE 228.955, DJU, 14-4-2000) no senti-
' do de que a “delegação” para o julgamento de causa federal por magistra­
do estadual dependerá de expresso mandamento de lei nesse sentido (CF,
art. 109, § 3S, infine).
Nos casos de ação proposta pelo Estado, pelo Ministério Público
estadual, por autarquia, empresa pública ou fundação estadual, por so­
ciedade de economia mista ou por associação (Lei n. 7.347/85, art. 5~),
competente será o foro da capital do Estado (danps de alcance regional)
ou da comarca onde o dano tenha ocorrido (danos locais), e juízo compe­
tente será aquele definido na norma de organização judiciária estadual12.
Tema da maior relevância, o relativo ao art. 16, na redação dada pela
Lei n. 9.494/97,
“A sentença civil fará coisa julgada ‘erga omnes’, nos limites da
competência territorial do órgão prolator, exceto se o pedido fo r julgado
improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que qualquer legi­
timado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se
de nova prova”.

12. Em detido estudo (publicado em RePro, 129:272), Pedro Lenza sustenta que,
ressalvada a competência das Justiças Federal, Eleitoral e do Trabalho, a melhor inter­
pretação do art. 93 do CDC (por aplicação analógica) será a seguinte:
“a) dano de âmbito local — foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano;
b) abrangendo mais de uma comarca dentro de um mesmo Estado — a compe­
tência será concorrente, resolvendo-se pelas regras da prevenção;
c) abrangendo dois ou mais Estados — foro da capital de qualquer deles, resol­
vendo-se pela prevenção;
d) abrangendo todos os Estados — foro da capital de qualquer deles, resolvendo-
-se pela prevenção.
Com a máxima vênia, portanto, não se aceita a competência do DF por critério
de política legislativa mesmo que o dano seja de âmbito nacional. Nessa hipótese,
segundo se sugere, a competência será do foro de qualquer capital de Estado, ou do
DF, resolvendo-se eventuais conflitos pela regra da prevenção” (RePro, 129/283).
Vale lembrar, no azo, a pendência nas casas legislativas da chamada PEC Para­
lela do Judiciário, que, mediante o (proposto) art. 1G5, § 22, estipula que, quando a
abrangência da lesão ultrapassar a jurisdição de diferentes tribunais, caberá ao STJ,
ressalvada a competência da Justiça Eleitoral e do Trabalho, “definir a competência do
foro e a extensão territorial da decisão”.

219
A restrição “nos limites da competência territorial do órgão julgador”
tem dado ensejo a muita controvérsia. A 4â T. do STJ, no julgamento do
REsp 253.589, adotou o entendimento de que “a eficácia erga omnes
circunscreve-se aos limites da jurisdição do tribunal competente para
julgar o recurso ordinário” (da ementa); tratava-se, então, de ação civil
pública ajuizada pelo IDEC e relativa aos rendimentos de caderneta de
poupança em janeiro/l989 (rei. Min. Ruy Rosado de Aguiar Jr., v.u., j.
16-8-2001). Já a 3â T. do STJ, no julgamento do REsp 411.529, de que
foi relatora a Min- Nancy Andrighi, p.m.v. (vencidos os Min. Gomes de
Barros e Ari Pargendler), reformou sentença do TJSP, adotando o enten-,
dimento de que os efeitos da sentença produzem-se erga omnes, para além
dos limites da competência territorial do órgão julgador; a limitação ter­
ritorial não teria incidência aos casos de direitos individuais homogêneosf
mas apenas às demandas em defesa de direitos difusos e coletivos (j. 24-
6~2008)12- \
Cumpre observar que o Supremo Tribunal Federal considerou-se
incompetente para julgar originariamente ação civil pública ajuizada
contra Ministro de Estado, ou contra quaisquer outras autoridades que em
sede penal dispõem de prerrogativa de foro perante a Suprema Corte. A
competência originária do STF revela-se em numerus clausus no art. 102,
i, da Constituição Federal (Pet. 1.926, medida liminar, dec. do rei. Min.
Celso de Mello em 24-2-2000, Informativo do STF, n. 181, e DJU, 2 mar.
2000). A natureza da ação civil pública não permite seja confundida com
a ação penal condenatória, inexistindo relação de litispendência ou preju-
dicialidade entre elas (RTJ, 167:166, rei. Min. Celso de Mello). O STF não
é competente para processar e julgar originariamente ação civil pública
contra o Presidente da República (RTJ, 159:28, rei. Min. Ilmar Galvão).
Nesses termos vale mencionar aresto do STJ, por sua 3~ Seção, em

12-A. No caso do REsp 411.529, entidade de defesa do consumidor ajuizara


ACP contra banco sediado em São Paulo, pedindo fosse o réu condenado a ressarcir
depositantes por diferenças a menor creditadas em cadernetas de poupança, em janei­
ro de 1989. O TJSP limitou os efeitos da sentença de procedência apenas aos corren-
tista residentes nesse Estado, mas a 3a Turma do STJ ampliou a eficácia do acórdão
para todos os correntistas residentes no território nacional.
A respeito de aspectos da competência em ação civil pública, interessante artigo
da então juíza do TRF da l â Região, Eliana Calmon Alves, hoje Ministra do STJ (in
Monteiro, Meire Lúcia Gomes (coord.) Introdução ao Direito Previdenciário, LTr.,
1998, pp. 167-78).

220
apreciando ação por rito ordinário promovida contra a União Federal, em
que diretamente atacado ato de Ministro de Estado; lê-se do decisório que
as ações populares, ou civis públicas, ou cautelares, ou de conhecimento,
ainda que impugnado ato de autoridade sujeita, na via do mandado de
segurança, ao juízo do Superior Tribunal de Justiça, tais demandas devem
ser processadas e julgadas perante o juízo de primeiro grau, uma vez que
a competência do Superior Tribunal de Justiça (e do Supremo Tribunal
Federal) é de direito estrito, em numerus clausus.
Outrossim, o princípio é o de que a prerrogativa de foro, unicamen­
te invocãvel nos processos de caráter penal, não se estende às causas de
natureza civil (Pet. n. 1.143, 3a Seção, rei. Min. Arnaldo da Fonseca, ac.
de 27-10-1999, RF, 356:212).

106-A. Ação civil pública. Projeto de lei de modificação


Encontra-se em tramitação, na CCJ da Câmara dos Deputados (ou­
tubro de 2009), projeto de lei de iniciativa do Poder Executivo — PL n.
5.139/2009, propondo uma nova Lei da Ação Civil Pública, a qual passa­
rá a englobar as disposições constantes de diversos estatutos relativas a
ações de natureza coletiva; assim, serão revogadas normas processuais
contidas no Código de Defesa do Consumidor, no Estatuto do Idoso, no
Estatuto da Criança e do Adolescente e em outras leis. O Projeto resultou
de longos debates em Comissão criada no Ministério da Justiça, a qual o
elaborou com base principalmente em anteriores estudos e anteprojetos de
Código Brasileiro de Processos Coletivos12'8.
No alusivo à competência, a previsão do Projeto é a seguinte:
“A rt 4° É competente para a causa o foro do local onde ocor­
reu ou deva ocorrer o dano ou o ilícito, aplicando-se as regras da
prevenção e da competência absoluta.
§ I a Se a extensão do dano atingir a área da capital do Estado,
será esta a competente; se também atingir a área do Distrito Federal,
será este o competente, concorrentemente com os foros das capitais
atingidas.

12-B.A comissão íeve como relator o prof. Luiz Manoel Gomes Junior, e nela
o Instituto Brasileiro de Direito Processual foi representado pelos Profs. Ada Pellegri-
ni Grinover, Athos Gusmão Carneiro, Petrônio Calmon Filho e Aluisio Gonçalves de
Castro Mendes.

221
§ 2° A extensão do dano será aferida, em princípio, conforme
indicado na petição inicial.
§ 3~ Havendo, no foro competente, juízos especializados em
razão da matéria e juízos especializados em ações coletivas, aqueles
prevalecerão sobre estes
O problema do foro competente, já foi dito, tomou-se e ainda é o
“calcanhar de Aquiles” do processo coletivo brasileiro, até porque apre-
senta-se inerente à eficácia da sentença, proferida em processos coletivos,
a possibilidade, em conformidade com seu objeto, de ultrapassar os limi- *
tes de competência territorial do magistrado prolator. Para tanto, afigura~se*
necessário e de relevante interesse público que a ação civil pública — que
pelo projeto, como exposto, irá englobar as demandas coletivas em gera^
— seja proposta perante seu juiz natural, com afirmação peremptória dó
princípio da prevenção e das regras inerentes à competência absoluta. Se
a demanda for proposta perante juiz incompetente, deverá este declarar de
imediato sua incompetência e ordenar a remessa do processo ao juízo que
considerar competente, sendo-lhe defeso proferir qualquer decisão, mor­
mente no alusivo a medidas antecipatórias de tutela.
O projeto, em seu art. 4Ú, caput, considera competente o foro do local
onde ocorreu ou deva ocorrer (ameaça de lesão) o dano ou o ilícito, ou
seja, o juiz mais próximo dos fatos, que poderá pessoalmente (princípio
da imediação) inquirir as testemunhas e coordenar as provas técnicas e
periciais, bem como as tentativas conciliatórias.
Caso, no entanto, o ato danoso cause prejuízos no território de mais
de uma comarca, a ação poderá ser proposta no foro de qualquer das co­
marcas atingidas, e a competência (sempre competência absoluta) firmar-
-se-á pela prevenção e, quanto a posteriores demandas, pela conexão.
Se a extensão do dano atingir igualmente a área da Capital do Estado
(v.g., a poluição do rio Tietê, ou da baía de Guanabara, ou do Rio dos Sinos-
Lago Guaíba), então haverá motivo suficiente para que se imponha a
competência, como “juiz natural’, de juízo sediado no foro da própria
Capital (art, 4-, § 1-). Por similares motivos, em se cuidando de danos de
âmbito nacional — pensemos na disseminada distribuição de alimentos
ou remédios adulterados, óu em condutas monopolistas de grandes empre­
sas —, então o juízo natural será o do foro de Brasília, em concorrência
com os foros das capitais dos Estados igualmente vulnerados pelo dano.
A mesma solução impõe-se naqueles casos em que se apresente incerto o
próprio local do dano, o qual pode ter acontecido em lugares diversos e

222
dificilmente deterraináveis, ou de forma difusa pelo território nacional,
como, por exemplo, nos casos de publicidade enganosa veiculada pela
o-rande mídia.
A solução adotada pelo Projeto n. 5.139/2009 busca elidir, tanto
quanto possível, os males do subjetivismo na determinação do foro com­
petente, melhor preservando os princípios fundamentais do juiz natural e
da efetividade da tutela nas ações coletivas; e assim igualmente contribui
para o afastamento dos radicalismos e obsessões não raramente manifes­
tados pelos partícipes dessas demandas (Cândido Dinamarco lembrou ser
mister “equilibrar o pêndulo da História”, evitando que o processo fique
a serviço apenas de determinados valores, em detrimento ao equilíbrio com
outros valores igualmente ponderáveis para a vida em sociedade (Prefácio
à obra Ação civil pública, de Pedro Dinamarco, Saraiva, 2001, p. XIII).
O § 3- do art. 4S do Projeto dispõe sobre a hipótese em que, no foro
da causa, existe juízo especializado em razão da matéria e igualmente
juízo com especialização em ações coletivas. Nesses casos, a opção foi
pelo ajuizamento da demanda na vara competente em razão da matéria,
ou seja, em razão do direito substantivo invocado como incidente à lide; e
essa solução afigura-se a mais conveniente, pela valorização dos funda­
mentos da competência ratione materiae. E vale ponderar que, ao final das
contas, o juiz titular de “Vara de ações coletivas” é especializado em or­
denar um determinado “tipo de processo” e de “procedimento”, mas que
pode versar os mais diversos assuntos da vida em sociedade. A escolha
pelo juízo competente em razão da matéria, do objeto do conflito coletivo,
evitará que sobre um mesmo tema possam surgir posições divergentes em
um e outro juízo, com sérios prejuízos à segurança jurídica.
O Projeto igualmente dispõe quanto ao foro competente para a liqui­
dação, execução e cumprimento das sentenças proferidas na ação civil
pública. A preferência volta-se para a liquidação e execução coletiva,
promovida por qualquer das entidades legitimadas a propor a ação coleti­
va (ou pelas vítimas e respectivos sucessores). Caso a pretensão ou vanta­
gem de pessoa beneficiada pela tutela coletiva (vítima do dano) possa ser
“destacada” (como em princípio será possível em se tratando de direitos
individuais homogêneos), é admitido possa tal pessoa ajuizar liquidação
e execução individual, e nesse caso não haverá a “prevenção do juízo da
ação coletiva originária” (Projeto, art. 41, caput). A liquidação individual
ou o cumprimento individual da sentença serão feitos em processo autô-

223
nomo, sob as regras dos §§ l 2 e 2S do art. 41 do Projeto, com foros con­
correntes a critério do requerente: o foro e juízo do processo (coletivo) de
conhecimento; o foro do domicílio do requerente individual ou o foro do
local onde se encontrem bens sujeitos à expropriação.
Evidentemente, as normas aqui comentadas estão sujeitas a modifi­
cações pelo Congresso Nacional e, assim, será prudente que os leitores
verifiquem qual a situação legislativa atualizada.

106-B. Ação por improbidade administrativa


A ação de improbidade administrativa, com assento constitucional'1
(CF 37, § 4~), busca proteger relevantes interesses da comunidade e da
cidadania; tal como a ação popular ou a ação civil pública, serve ao supe-^
rior objetivo de tutela ao direito transindividual e democrático “a um go­
verno probo e a uma administração pública eficiente e honesta” (Teori
Zavascki, Processo coletivo — tutela cie direitos coletivos e tutela coletiva
de direitos, RT, 2006, p. 103-5).
Acentuada divergência ocorreu quanto ao juízo competente para
processar e julgar ação civil por improbidade administrativa, quando es­
teja na posição de demandada alguma autoridade que goze, no plano penal,
de prerrogativa de função.
Ante a gravidade das sanções aplicáveis em caso de procedência da
demanda (inclusive perda do cargo e inabilitação para o exercício de fun­
ção pública), é sustentado com veemência que, em tais casos, a competên­
cia se deslocaria para o Tribunal competente no âmbito criminal. Essa tese,
todavia, resultou vencida, embora por voto de desempate, no julgamento,
pela Corte Especial do STJ, da Recl. 591, em que reclamante um juiz de
TRT (rei. Min. Nilson Naves, ac. de Ia- 12-1999). Aos interessados pelo
relevante tema recomenda-se a leitura do inteiro teor do aresto, RePro,
703:301-327.
O debate foi renovado quando do julgamento do HC 22.342 perante
a Corte Especial do STJ, sendo então reiterado, p. m. v., que compete ao
juiz de primeira instância processar e julgar a ação civil pública de impro­
bidade administrativa, “ainda que no polo passivo figure autoridade que
detenha foro especial por prerrogativa de função, tendo em vista que as
hipóteses de foro especial previstas na Constituição Federal são taxativas”.
Foram em número de 10 os votos vencedores, e de 8 os votos vencidos
(rei. Min. Felix Fischer, ac. de 18-9-2002).

224
O dissenso de opiniões, revelado tão nitidamente na doutrina e na
jurisprudência, veio por fim a ser objeto de providência legislativa, pois a
Lei n. 10.628, de 24 de dezembro de 2002, alterando o art. 84 do Código
de Processo Penal, e aditando-lhe dois parágrafos, atribuiu ao § 2e a reda­
ção seguinte:
“§ 2~ A ação de improbidade, de que trata a Lei n. 8.429, de 2
de junho de 1992, será proposta perante o tribunal competente para
processar e julgar criminalmente o funcionário ou autoridade na
hipótese de prerrogativa de foro em razão do exercício de função
pública, observado o disposto no § 1~”.
Escrevemos, na edição anterior, que, embora o CPP não devesse, a
rigor, dispor sobre competência em ação de natureza cível, os novos §§ 1-
e .2fi do art. 84 desse Código tornavam certo que a prerrogativa de foro
permaneceria ainda que o inquérito ou a ação civil fossem iniciados após
a cessação do exercício da função pública pelos demandados13.
Ocorre que a legitimidade constitucional desses §§ l e e 2-, que visa­
ram beneficiar ex-autoridades, foi questionada no Supremo Tribunal Fe­
deral na ADI 2.797, proposta pela Associação Nacional dos Membros do
Ministério Público, tendo o relator, Min. Sepúlveda Pertence, sublinhado
que a alteração constituía “evidente reação legislativa ao cancelamento da
Súmula 394”, pela Corte14.
Após longo debate, o tribunal, em 15-9-2005, decretou a inconstitucio­
nalidade das normas, sob o fundamento maior de que a competência do

13. Por sua Corte Especial, decidiu o STJ que, mesmo depois da Lei n. 10.628,
de 24-12-2002, não lhe assiste competência para “decidir requerimento de abertura de
processo ou procedimento de improbidade, regulado na Lei n. 8.429, de 2 de junho de
1992”, porquanto a representação do interessado deve ser dirigida à autoridade admi­
nistrativa competente para instaurar a investigação ou ao Ministério Público; assim, “a
competência do Superior Tribunal de Justiça, na hipótese de Governador de Estado,
cinge-se às ações judiciais decorrentes da apontada improbidade, propostas pelo Mi­
nistério Público ou pela pessoa jurídica interessada” (Ag. Reg. na Pet. 1.938, rei. Min.
Menezes Direito, ac. 16-6-2003).
14. Do texto da decisão consta inclusive a seguinte pergunta: “pode o Congres­
so Nacional, no exercício de sua competência legislativa comum, modificar, sob
qualquer aspecto, o rol de atribuições jurisdicionais originárias das Cortes acima refe­
ridas, para, nesse complexo de poderes, e mediante legislação de caráter meramente
ordinário, introduzir novas competências sem que, com tais alterações, incida em
violação ao textò constitucional? Tenho para mim que o Congresso não dispõe de tal
poder” (Informativo do STF, n. 370, nov. 2004).

225
Supremo é fixada de forma exaustiva na Constituição Federai, não exis­
tindo possibilidade de ampliar essa competência mediante lei ordinária
(Min. Marco Aurélio), pois não é lícito ao Congresso dispensar determi­
nado privilégio, embora de índole funcional, a pessoas que não mais se
acham no desempenho da função pública (Celso de Mello). Votaram pela
inconstitucionalidade, além do relator e dos julgadores acima referidos,
também os Ministros Joaquim Barbosa, Ayres Britto, Cezar Peluso e Car­
los Velloso; ficaram vencidos os Ministros Eros Grau, Gilmar Mendes e
Ellen Gracie.
Em recente aresto, a Corte Especial do STJ afirmou que compete %
este tribunal o julgamento dós membros dos Tribunais de Contas Estadu­
ais processados criminalmente, portanto excetuados os casos de prática de
atos de improbidade administrativa, tal como os de suposta contratação^
irregular de parentes e enriquecimento ilícito, os quais devem ser apurados
em ação própria de natureza civil (Recl. 2.723, Corte Especial, rei. Min.
Laurita Vaz, j. 15-10-2008).
Apreciando ação civil pública por improbidade administrativa pro­
movida contra ex-Ministro do Poder Executivo, o STJ decidiu (com remis­
são ao julgamento pelo STF da ADI 2.797 e a outros precedentes) que o
foro especial por prerrogativa de função, em caso de infração penal, não
se estende às causas cíveis derivadas de atos de improbidade (Lei n.
8.429/92), cabendo a juiz federal o julgamento da demanda, em primeira
instância (REsp 896.516, l â Turma, rei. Min. Luiz Fux, j. 17-2-2009).

107. Ação popular


Nos termos do art. 5S da Lei n. 4.717, de 29-6-1965, cumpre buscar
a “origem do ato impugnado55 para determinar qual o juízo competente
para processar e julgar a ação popular, que nos termos do art. 5S, LXXIII,
da Constituição de 1988 visa anular não somente os atos lesivos ao patri­
mônio público ou de entidades de que o Estado participe, como ainda os
atos ofensivos à moralidade administrativa, ou prejudiciais ao meio am­
biente ou danosos ao patrimônio histórico e cultural.
Destarte, se o ato impugnado emana de órgão ou autoridade da União,
de autarquia ou de entidade mantida pela União, competente será a Justi­
ça Federal, correndo a demanda no juízo federal da seção judiciária onde
o ato foi praticado ou foram produzidos os efeitos danosos.
Quando o ato é produzido por autoridade ou órgão estadual, ou de
entidade mantida pelo Estado, competente será o juízo que, de conformi-

226
dade com a lei de organização judiciária local, tiver a atribuição de julgar
as causas de interesse da Fazenda Estadual.
Já nos casos de atos praticados por autoridade municipal, competen­
te é o juiz de direito da comarca e, se existente mais de um juízo, será
aquele a quem caiba processar e julgar as causas de interesse da Fazenda
municipal.
A respeito, o STJ, por sua 3â Seção, editou em 27-5-1998 dois enun­
ciados sumulares, a saber:
“208. Compete à Justiça Federal processar e julgar Prefeito
Municipal por desvio de verba sujeita à prestação de contas peran­
te órgão federal”
”209. Compete á Justiça Estadual processar e julgar Prefeito
por desvio de verba transferida e incorporada ao patrimônio mu­
nicipal”.
O Supremo Tribunal Federal, em casos de ação popular, se tem afir­
mado incompetente para julgá-las originariamente, salientando ainda ser
incabível ação popular contra ato jurisdicional (Ag. Reg. na Pet. 2.018, rei.
Min. Celso de Mello, j. 22-8-2000).
A ação popular ajuizada contra sociedade de economia mista, tal
como a Petróleo Brasileiro S.A. — Petrobras, é de competência da Justiça
Estadual, sem embargo de ser a União sua principal acionista. Assim tem
decidido o STJ, como consta da decisão lavrada pelo Min. José Delgado
no CC 20.320, j. 16-5-2001. Cumpre ressalvar a hipótese de que a União
venha a intervir na causa, demonstrando jurídico interesse. Igualmente foi
considerada competente a Justiça Estadual em ação popular ajuizada con­
tra o SEBRAE (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), em face
de sua natureza jurídica de direito privado (REsp 433.427, rei. Min. Deni­
se Arruda, ac. 19-4-2005).
Vale anotar que o Supremo Tribunal Federal editou as seguintes sú­
mulas:
“508. Compete à Justiça Estadual, em ambas as instâncias,
processar e julgar as causas em que fo r parte o Banco do Brasil
S.A.”.
“517. As sociedades de economia mista só têm foro na Justiça
Federal, quando a União intervém como assistente ou opoente ”.
“556. E competente a Justiça comum para julgar as causas em
que é parte sociedade de economia mista ”.

227
Igualmente o Superior Tribunal de Justiça, por sua Corte Especial,
editou (em 14-5-1992) súmula do seguinte teor:
“42. Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as cau­
sas cíveis em que é parte sociedade de economia mista e os crimes prati­
cados em seu detrimento”.
Façamos consignar que relativamente às ações populares não existe
previsão constitucional de prerrogativa de função; dessa forma, “qualquer
que seja o requerido na ação popular, ainda que se trate de ocupantes de
cargo ou função que lhe confira foro criminal original em tribunal, a com­
petência para ações populares contra eles ajuizadas será do juízo de pri-.^
meira instância”, e assim tem decidido o Supremo Tribunal Federal (Pedro
Roberto Decomain, Dialética 70:123).

228
Capítulo XXI
COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA FEDERAL

108. Causas em que a União for parte


As causas em que a União for autora serão aforadas perante a Justi­
ça Federal, na seção judiciária onde tiver domicílio a outra parte; se a União
for ré, poderá ser demandada ou no Distrito Federal ou na seção judiciária
onde for domiciliado o autor, ou ainda na seção judiciária onde tiver ocor­
rido o ato ou fato que deu origem à demanda ou onde estiver situada a
coisa litigiosa (CF, art. 109, §§ Ia e'22)1.
Se a União intervier como assistente ou opoente (ou outra forma de
intervenção de terceiro) em demanda que esteja correndo em primeira ins­
tância perante a Justiça comum, o processo passa à competência da Justiça
Federal (competência absoluta, ratione personae), e os autos serão remetidos
ao juiz federal respectivo (Súmula 250 do STF; CPC, art. 99, parágrafo
único), a quem compete decidir nos termos da Súmula 150-STJ.
As causas em que for parte sociedade de economia mista só passam
a tramitar na Justiça Federal quando a União, entidade autárquica ou em­
presa pública federal houver ingressado no processo (Súmula do STF,
enunciado 517— As sociedades de economia mista só têm foro na Justiça
Federal quando a União intervém como assistente ou opoente).

1. O STF julgou assistir ao autor, em ação proposta contra a União e tendo em


vista o disposto no art. 109, § 2-, da CF, a opção pelo ajuizamento da demanda peran­
te vara federal de Porto Alegre, embora residente na cidade de Caxias do Sul, onde é
sediada Vara Federal. Salientou-se, então, que o art. 110 da CF prevê que cada Estado-
Membro constitui uma seção judiciária, não podendo a descentralização da Justiça
Federal implicar fixação de competência absoluta. Assim, foi o apelo extremo provido
e determinada a devolução do processo à 12a Vara Federal de Porto Alegre, competen­
te para julgar a causa em face da opção feita pelo demandante. O RE 94.027-RS foi
apontado como precedente (RE 233.990-RS, rei. Min. Maurício Corrêa, 23-10-2001,
Informativo do STF, n. 248, nov. 2001).

229
A participação da União ou de entidade federal como amicus curiae
não a inclui no conceito de parte e não importa, portanto, alteração de
competência da Justiça comum para a Justiça Federal. A respeito das
questões e dúvidas suscitadas pelo atípico “deslocamento de competência”
previsto no art. 5-, parágrafo único, da Lei n. 9.469/97, v. nossa obra In­
tervenção de terceiros (18. ed., Forense, n. 71-A e 71-B).

109. Observações sobre a competência da Justiça Federal


A competência das “jurisdições especiais”, como já foi dito (verbe­
tes n. 17 a 21), é aquela prevista taxativamente na Constituição da Repú--'
blica; por exclusão, as demais causas são processadas e julgadas perante
a Justiça comum, ou Justiça ordinária, integrada pelos juizes e tribunai|
dos Estados e do Distrito Federal.
Lei ordinária, ou mesmo lei complementar, não poderá ampliar nem
restringir a competência das “jurisdições especiais”. Admissível apenas,
no plano jurisprudencial, em determinados casos aceitar uma competência
“implícita”; assim, v. g., o art. 109,1, da Constituição Federal alude à com­
petência dos juizes federais para o julgamento das causas em que forem
parte ou interveniente a União, entidade autárquica ou empresa pública
federal, porém decisões judiciárias acrescentam os casos em que seja
parte igualmente fundação de direito público federal, sob o fundamento
de que as fundações podem ser equiparadas ao gênero autarquia ou ao
gênero empresa pública (v. g., a antiga LBA — ut CC 207, STJ, 2~ Seção,
j. 13-9-1989, rei. Min. Bueno de Souza, e CC 6.650, STF, Pleno, rei. Min.
Moreira Alves, RTJ, 122:495; o IBGE, ut CC 213, STJ, 2â Seção, j. 28-6-
1989, rei. Min. Athos Carneiro).
Se uma demanda foi ajuizada perante a Justiça comum, e a União ou
ente público federal manifesta interesse (deve ser um interesse jurídico)
em nela ingressar como assistente (tanto litisconsorcial como assistente
simples)2, ou apresenta ação de oposição (CPC, art. 56), ou a lide é denun­
ciada à União ou ente público federal (STJ, 2~ Seção, CC 12.586, j. 29-3-
1995, rei. Min. Costa Leite), caberá ao juiz federal (e não ao juiz da causa)

2. De acordo com a Súmula 61 do antigo Tribunal Federal de Recursos: “Para


configurar a competência da Justiça Federal é necessário que a União, entidade au­
tárquica ou empresa pública federal, ao intervir como assistente, demonstre legítimo
interesse jurídico no deslinde da demanda, não bastando a simples alegação de inte­
resse na causa”.

230
apreciar conclusivamente da legitimidade do pedido de intervenção ou de
oposição, e aceitá-lo ou não3,4,5e5'A.
Essa orientação veio a ser sumulada pelo Superior Tribunal de Jus­
tiça, por Corte Especial, sessão de 7-2-1996, nos termos seguintes:
“Súmula 150 — Compete à Justiça Federal decidir sobre a exis­
tência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo,
da União, suas autarquias ou empresas públicas
Assim, em princípio não caberá ao juiz estadual aquilatar da ocor­
rência, ou não, do legítimo interesse da União para participar do feito.
Todavia, aqui é preciso fazer uma distinção, admitindo seja repelida de
plano, sem embargo da Súmula 150, a intervenção solicitada pela União
quando sem fundamento algum razoável, ou por motivo de absoluta im­
possibilidade física; assim tem sido decidido, v. g., em casos em que a
União invoca domínio sobre terras de antigos aldeamentos indígenas,
desde muitíssimos anos “registradas como sendo de particulares e sobre
os quais estão construídas cidades” (STJ, REsp 114.359, 4- Turma, rei.
Min. Ruy Rosado, ac. de 9-9-1997, RSTJ, 103:285).
A ocorrência de “interesse jurídico”, de molde a legitimar a inter­
venção de pessoa jurídica de direito público, foi dispensada pela Lei n.
9.469, de 10-7-1997, art. 5S, parágrafo único, sendo considerados suficientes
os “reflexos, ainda que indiretos, de natureza econômica” que a decisão

3. Caso a União venha a ser admitida como assistente em liquidação de senten­


ça proferida na Justiça Estadual, desloca-se a competência para a Justiça Federal, pois
então não se aplica o princípio da perpetuatio jurisdictionis (STJ, 4âTurma, REsp 586,
j. 20-1-1990, rei. Min. Sálvio de Figueiredo).
4. Em caso de processo de conhecimento em que um dos réus foi a Caixa Eco­
nômica Federal, a ação, processada no juízo federal, resultou procedente apenas contra
a ré pessoa jurídica de direito privado. Assim, a execução da sentença terá curso na
justiça Estadual, deixando de incidir a norma do art. 575, II, do Código de Processo
Civil (STJ, 2- Seção, CC 1.490, j. 10-4-1991, rei. Min. Athos Carneiro).
5. Cuidando-se de disputa possessória entre particulares, a só circunstância de
a área encontrar-se em terrenos de marinha não acarreta a competência da Justiça
Federal (CC 31.973, rei. Min. Ruy Rosado, dec. de 24-8-2001, com remissão a prece­
dentes).
5-A. No caso de cumprimento de sentença oriunda da Justiça Estadual, caso
nesta etapa a União venha a ingressar como assistente, a causa desloca-se para a
Justiça Federal. Assim, a competência funcional prevista no art. 475-P, II (antigo 575,
II) cede ante a competência constitucional ratione personae do art. 109,1 , da CF (CC
41.705, l â Seção, rei. Min. Luiz Fux, j. 25-8-2004).

231
da causa possa ocasionar em detrimento da pessoa jurídica. E esta norma
legal (diga-se que neste ponto de duvidosa constitucionalidade) prevê o
“deslocamento de competência” (sic) apenas nos casos em que a entidade
de direito público, que interveio na causa sem ter interesse jurídico pro­
priamente dito, venha a recorrer (a respeito do tema, v. Aluisio Gonçalves
de Castro Mendes, Competência cível da justiça federal, Saraiva, 1998,
item 4.1.4, letra b, p. 66-8; nosso Intervenção de terceiros, Saraiva, 18.
ed., verbetes 71-A e 71-33).
Se o magistrado federal entende inexistir interesse da União na cau­
sa, denegando, v. g., a denunciação da lide à União Federal ou excluindo,
do processo o ente federal, determinará a devolução ou a remessa dos
autos ao juízo estadual; e o eventual reexame dessa decisão caberá, me­
diante agravo, ao Tribunal Regional Federal. ^
Enquanto não reapreciada a matéria, “terá curso o processo perante
o Juízo Estadual” (STJ, 2- Seção, CC 17.874, rei. Min. Waldemar Zveiter,
j. 11-12-1996). Assim também no CC 16.525, rei. o Min. Sálvio de Figuei­
redo: “Havendo decisão do Juízo federal de 1~ grau, no sentido de excluir
do feito a União, mercê da ausência de interesse, ainda que pendente de
agravo tal decisão, que além de não julgar a lide não põe fim ao processo,
competente para persistir no processamento da causa, pelo menos até
eventual reforma daquela decisão, é a Justiça estadual”.
O STJ, a respeito, editou a Súmula 224, nos termos seguintes:
“Excluído do feito o ente federal, cuja presença levara o Juiz
Estadual a declinar da competência, deve o Juiz Federal restituir os
autos e não suscitar conflito” (Corte Especial, 2-8-1999).

110. Competência recursal. Súmula 55 do STJ


Neste tema têm surgido dúvidas a respeito da competência recursal,
dúvidas que deveriam ser afastadas pela aplicação da regra de que as de­
cisões dos juizes estaduais somente podem ser revistas por tribunal esta­
dual, e as decisões dos juizes federais somente por tribunal federal6.

. 6. Ao examinar a apelação, o Tribunal de Justiça entendeu ser o feito de compe­


tência da Justiça Federal, e remeteu o processo diretamente ao Tribunal Regional Fe­
deral. Este suscitou conflito negativo perante o Superior Tribunal de Justiça argumen­
tando, e bem, que somente o Tribunal de Justiça pode anular sentença de juiz estadual.
Todavia, o STJ, por sua l~ Seção, sendo relator o Min. Pádua Ribeiro, atalhou caminho
e desde logo anulou a sentença do magistrado estadual, sob o fundamento de que o

232
Assim, se o juiz estadual decide, ele mesmo, indeferir postulação da
União visando intervir na demanda, tal decisão somente poderá ser revista
pelo tribunal do Estado, ao qual caberá anulá-la e determinar a remessa dos
autos à Justiça Federal (STJ, 2- Seção, CC 2.312, j. 29-4-1992, rei. Min. Athos
Carneiro — ver íntegra do acórdão no site <www.saraivajur.com.br>).
Se o juiz federal resolve admitir a mencionada intervenção, quem a
tanto se oponha deverá recorrer ao Tribunal Regional Federal.
A respeito, o Superior Tribunal de Justiça aprovou a Súmula 55, com
a redação seguinte:
“Tribunal Regional Federal não é competente para julgar re­
curso de decisão proferida por juiz estadual não investido de juris­
dição federal” (Corte Especial, em 24-9-1992).
Seguindo a mesma sistemática, o STJ editou nova Súmula, sob o n.
225 e com o teor seguinte:
"Compete ao Tribunal Regional do Trabalho apreciar recurso
contra sentença proferida por órgão de primeiro grau da Justiça
Trabalhista, ainda que para declarar-lhe a nulidade em virtude de
incompetência” (Corte Especial, em 2-8-1999).
Encontro alguns corolários lógicos deste princípio fundamental, em­
bora nem sempre observados nas decisões dos tribunais. Por exemplo:
1. Se autarquia federal ingressa como assistente de uma das partes,
após proferida a sentença, a causa não se desloca da Justiça Estadual para
a Justiça Federal, pois o Tribunal Regional Federal não poderia exercer
juízo de revisão sobre a sentença de juiz estadual; aliás, o assistente rece­
be a causa “no estado em que se encontra” — Código de Processo Civil,
art. 50, parágrafo único. As normas constitucionais, inclusive em matéria
de competência, devem merecer exegese sistemática. V. Constituição Fe­
deral, art. 108, II6A. V., nesta obra, o verbete n. 103.

Superior Tribunal de Justiça exerce jurisdição sobre as Justiças Estadual e Federai e,


por isso, ao examinar conflito de competência, poderá também anular sentença profe­
rida por magistrado de qualquer das citadas Justiças (CC 15.370, j. 8-3-1996).
6-A. A l â Seção do STJ, no entanto, julgou que mesmo em caso de intervenção
da Caixa Econômica Federal — empresa pública federal, após o julgamento de pri­
meiro grau da justiça comum estadual, competirá ao Tribunal Regional Federal o jul­
gamento da apelação interposta (CC 38.790, j. 27-8-2003). Esta decisão foi tomada
por cinco votos contra quatro, restando vencidos os Min. Gomes de Barros (relator),

233
2. Mesmo quando for impetrante pessoa de direito público federal,
o mandado de segurança contra ato jurisdicional de juiz estadual é de
competência do tribunal local, salvo se o juiz estadual estiver no exercício
de competência federal delegada. V. Constituição Federal, art. 108,1, c.
3. A ação rescisória de acórdão de tribunal ou juiz estadual, em que
autora, v. g., a União Federal ou autarquia federal, é de competência do
tribunal estadual, mesmo porque, pela Lei Maior, a competência de Tri­
bunal Regional Federal limita-se às “ações rescisórias de julgados seus ou
dos juizes federais da região”.
Se negado provimento à rescisória, eventual ofensa ao a rt 109,1, da
Constituição Federal poderá ser corrigida pelo Pretório Excelso, na via do
recurso extraordinário.
£
V., a respeito, o verbete n. 105.
4. Entendendo o Tribunal de Justiça que a competência para a causa
seria da Justiça Federal, “haverá de determinar seja a ela remetida, após
anular os atos decisórios. Incompetência do Tribunal Regional Federal
para rever ato de juiz a ele não vinculado, a teor da Súmula 55” (STJ, 3a
Turma, REsp 74.370, rei. Min. Eduardo Ribeiro, j. 9-10-1995, DJU, 20
nov. 1995, p. 39590).
Vale sublinhar que as regras acima aludidas encontram exceção, como
está na Súmula, nos casos em que o juiz estadual exerce “jurisdição federal”,
conforme previsto no art. 109, § 3S, da Constituição Federal, hipóteses em
que o colegiado recursal será o Tribunal Regional Federal — art. 109, § 42
(STJ, l â Seção, CC 02, j. 27-6-1989, rei. Min. José de Jesus Filho).
Estes, os princípios até agora consagrados. Todavia, contrariando tal
orientação — e como exposto no verbete 105, parte final —, a l â Turma
do STJ veio a afirmar que é de competência originária do Tribunal Re­
gional Federal o julgamento de mandado de segurança impetrado por
empresa pública federal (a CEF) contra ato praticado por Juiz de Direito
(RMS 18.040, rei. Min. Teori Zavascki, ac. 3-2-2005). Tratou-se, segundo
o aresto, de afirmar o princípio da prevalência do órgão judiciário da União
sobre o do Estado-Membro, conjugado com o princípio da hierarquia, ou
seja, sendo o ato praticado por juiz, o julgamento deverá caber ao órgão

José Delgado, Francisco Falcao e Franciulli Neto. No voto do redator designado para
o acórdão, Min. Teori Zavascki, são feitas referências a precedentes do STF e a acórdãos
da 2- Seção do STJ nos CC 27.007 e 38.597.

234
judiciário de segunda instância. No voto condutor consta que “solução
semelhante tem sido dada para as ações rescisórias de sentenças proferidas
pela Justiça dos Estados quando nelas figurar, como parte ou intervenien­
te, um ente federal”, anotando-se como precedentes os CC 5.427,2- Seção,
rei. Min. Cláudio Santos e REsp 94.332, 4- Turma, rei. Min. Sálvio de
Figueiredo). Foi, outrossim, invocado nesse sentido o precedente do Su­
premo Tribunal Federal no RE 176.881 (Pleno, maioria de cinco votos a
quatro, rei. desig. Min. Ilmar Galvão, ac. de 13-3-1997).
Consideramos, todavia, bem mais jurídica e sistemática a solução
preconizada no STF, no RE antes referido, no voto do relator originário,
Min. Carlos Velloso, e que resultou vencido.
V,, nesta obra, o verbete n. 136.

111. Competência da Justiça Federal de primeira instância

111.1. Competência ratione personae e ratione materiae


No plano cível, a competência da Justiça Federal de primeira ins­
tância define-se ratione personae, pela condição como parte (ou como
assistente da parte) da União, entidade autárquica ou empresa pública
(ou fundação) federal — CF, art. 109,1 — 7e8, bem como nos casos de
demandas entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e Muni­
cípio ou pessoa domiciliada ou residente no País — CF, art. 109, II (se
em lugar do Município, ou da pessoa física, for interessada a União,
Estado-Membro ou o Distrito Federal, competente originariamente será
o STF — CF, art. 102,1, e), e bem assim nos casos de mandados de se­
gurança e habeas data impetrados contra ato de autoridade federal — CF,
art. 109, VIII.
A 4â Turma do STJ, sendo rei. o Min. Barros Monteiro, com base no
art. 109, II, da CF, declarou nula sentença proferida pelo juízo estadual
em ação de cobrança ajuizada por pessoa domiciliada no país contra Es­
tado estrangeiro. A rigor, caberia ao Tribunal estadual anular a sentença
proferida por Juiz absolutamente incompetente, a ele subordinado (Súmu-

7. A circunstância de ser uma das partes empresa concessionária de serviços


públicos de energia elétrica não define a competência da Justiça Federal para a causa
(STJ, 2ã Seção, CC 2.834, j. 9-9-1992, rei. Min. Fontes de Alencar; CC 28.193, ac. de
26-3-2003, rei. Min. Menezes Direito).
8. V. o verbete n. 112.

235
la 55 do STJ); todavia, em atenção aos princípios da economia e celerida­
de processuais, já estando os autos na Corte Superior, foi desde logo de­
cretada a nulidade do decisório, com imediata remessa.dos autos à Justiça
Federal de Ia instância (RO 18, ac. de 19-12-2002, Boletim do STJ, n. 6,
abr. 2003).
A competência da Justiça Federal em razão da matéria é prevista
quando a lide versar sobre tratado ou contrato da União com Estado es­
trangeiro ou organismo internacional e nos litígios sobre “direitos indíge­
nas” — CF, art. 109, III e XI9. Também assim nas causas relativas a direi~ ■
tos humanos, decorrentes de tratados internacionais, nos termos do artSA
109 V-A e 109, § 5e, acrescentados pela EC n. 45/2004.
É ainda de competência do juiz federal homologar a opção pela nas
cionalidade brasileira (Lei n. 818, de 18-9-1949, com alterações posterio­
res) e processar e julgar as causas relativas à nacionalidade e à naturaliza­
ção, e bem assim processar a execução de sentença estrangeira após a
homologação, e de carta rogatória após haver recebido o exequatur do
Presidente do STJ (CF, art. 109, X).
Em assim sendo, é irrelevante para fixar a competência cível da Jus­
tiça Federal a circunstância de ser objeto da lide matéria que possa ser
considerada de alto interesse da União, salvo se esta (ou entidade pública
federal) participa da causa como parte, ou vier a participar como interve-
niente.
Não será demasia sublinhar que, pelo princípio de cooperação entre
os vários ramos do Poder Judiciário, a Justiça comum pode realizar atos
de instrução a pedido da Justiça Federal, bem como da Justiça do Trabalho,
em locais onde não seja sediada Vara federal ou Vara do Trabalho. Assim,
a testemunha em processo da competência da Justiça Federal deve ser
ouvida, por precatória ao Juízo Estadual, no foro de seu domicílio, quando
não sediada na comarca Vara federal (CC 27.372, 3a Seção do STJ, rei.
Min. Fontes de Alencar, ac. de 14-6-2000).

9. A ratificação de protesto marítimo, inclusive os concernentes a danos ou


avarias ocorridas na embarcação, carga ou passageiros, é feito de natureza não con­
tenciosa, não havendo interesse federal no julgamento do feito, porquanto não se
cuida de crime cometido a bordo de navio ou ato que envolva tratado ou contrato fir­
mado entre a União e Estado estrangeiro. Assim, competente a Justiça Comum Esta­
dual, notando-se que o procedimento ainda segue os ditames dos arts. 725 a 729 do
CPC de 1939 (CC 59. 018, 2â Seção, rei. Min. Castro Filho, j. 27-9-2006).

236
111.2. Competência quando for parte instituição estatal de pre­
vidência social — INSS
Interessante anotar que a CF, era seu art. 109, § 3-, prevê que as
causas em que forem parte instituição estatal de previdência social e segu­
rado “serão processadas e julgadas na Justiça estadual, no foro do domi­
cílio dos segurados ou beneficiários ”, salvo se nessa comarca tiver sede
vara da Justiça federal, sendo que o recurso cabível será interposto “sempre
para o Tribunal Regional Federal na área de jurisdição do juiz de primei­
ro grau” (art. 109, § 4S)10.
Cuida-se de norma com o objetivo de facilitar aos segurados e bene­
ficiários maior facilidade de acesso à Justiça, configurando-se a possibili­
dade de jurisdição federal “delegada” ao juízo estadual interiorano11.
Nesses casos, todavia, a competência é “concorrente” e, portanto, o
segurado, embora residente em comarca do interior onde não exista juízo
federal, pode optar por propor a ação previdenciária perante vara federal
da Capital do Estado-Membro; com esse entendimento, o Supremo Tribu­
nal Federal, no julgamento do RE 223.139, rei. Min. Sepúlveda Pertence
(ac. de 25-8-1998, Informativo do STF, n. 120, ago. 1998). A opção igual­
mente poderá ser exercida, a benefício dos segurados, entre o juízo federal
com jurisdição sobre seu domicílio e o juízo da Capital do Estado, confor­
me decidido pelo STF nos RE 223.146, 222.063, 224.101, 225.264-RS,
rei. Min. Ilmar Galvão (Informativo do STF, n. 148, de 12-5-1999).

10. Algumas dúvidas surgem quando existindo na cidade sede da comarca Vara
federal, todavia o segurado é domiciliado em outro município integrante da área terri­
torial da comarca, mas onde se localiza Foro Regional (v. o verbete n. 72). Nesse caso,
a ação contra o INSS visando ao recebimento de benefício previdenciário terá curso
perante a Vara federal, ou deve ser ajuizada perante a Vara estadual sediada no muni­
cípio onde mora o autor? Tem-se inclinado a jurisprudência pela competência do juízo
federal, porquanto os Foros Regionais implicam mera descentralização de Varas esta­
duais (para melhor atendimento dos serviços forenses e comodidade dos jurisdiciona-
dos), sem prejudicar a circunstância fundamental de que na comarca funciona Vara
federal (CC 29.090, rei. Min. Hamilton Carvalhido, dec. de 4-10-2000, DJU, 22 nov.
2000, p. 245; CC 21.281, rei. Min. José Arnaldo da Fonseca).
11. Segundo afirmou o Min. Fernando Gonçalves no CC 29.298, “o entendimen­
to da Corte é no sentido de que, em sede de ação revisional em benefício previdenciá­
rio, a competência define-se pelo Juízo Federal, desde que sediado no foro do domi­
cílio do segurado; caso contrário a competência, embora federal, será exercida pela
Justiça Comum Estadual, na forma do art. 109, § 3e, da Constituição Federal” (dec. de
5-6-2000).
Quanto aos benefícios acidentários, v., nesta obra, o verbete n. 93.

237
Esta orientação vem sendo mantida pelo STF, como se vê do RE 293.244,
com a ementa: “Competência dos juizes federais da capital do Estado para o
julgamento de causas entre o INSS e segurado domiciliado em município sob
jurisdição de outro juiz federal. O art. 109, § 3-, da Constituição apenas fa ­
culta ao segurado o ajuizamento da ação no foro do seu domicílio, podendo
este optar por ajuizá-la perante as varas federais da capital” (rei. Min. Sepúl-
veda Pertence, Informativo do STF, n. 223, abr. 2001).
Finalmente, o Supremo Tribunal Federal aprovou (Tribunal Pleno,
sessão de 24-9-2003) enunciado nesse sentido, a saber:
“Súmula 689. O segurado pode ajuizar ação contra a institui­
ção previdenciária perante o juízo federal do seu domicílio ou nas
varas federais da Capital do Estado-Membro”.
£
Muito se questionou, outrossim, no âmbito da terceira Seção do STJ,
se o foro do Distrito Federal seria ou não competente para, em competên­
cia concorrente, processar e julgar ação proposta, contra o INSS, por se­
gurados residentes em outro Estado da Federação. De início, inclinou-se
a jurisprudência pela negativa, inclusive sob o argumento de que “após a
regionalização do INSS, não mais se cogita da competência do Distrito
Federal para processar e julgar ação ajuizada por servidores ajuizados em
outra Unidade da Federação (Emb. Div. no REsp 149.322, rei. Min. Ha­
milton Carvalhido, ac. de 13-12-1999). Seguiram-se muitas decisões
neste sentido.
Todavia, tendo em consideração precedentes do Supremo Tribunal
Federal, passou a jurisprudência do STJ a aceitar a competência concor­
rente, como se verifica do aresto no REsp 222.929, era cuja ementa se lê:
“Conforme o novo entendimento firmado pela Terceira Seção, no julga­
mento do Ag. Reg. no REsp n. 223.797 (rei. Min. José Arnaldo da Fonse­
ca), a ação proposta por segurado contra o INSS pode ser ajuizada tanto
no foro do seu domicílio quanto no da Capital Federal” (ac. de 16-3-2000,
rei. Min. Félix Fischer).
Da ementa nos Emb. Div. no REsp 197.879 consta que “consoante
entendimento preconizado pelo egrégio STF, ainda que o segurado resida
em outra unidade da Federação, as ações contra o INSS podem ser ajuiza­
das na Seção Judiciária do Distrito Federal, em face dafaculdade de opção
conferida pelo constituinte entre o foro especial (CF, art. 109, § 32) e aque­
le previsto na norma genérica (CF, art. 109,1)” (rei. Min. Fernando Gon­
çalves, ac. de 24-5-2000, DJU, 19 jun. 2000, p. 112; idem nos Emb. Div.
no REsp 194.720, 3a Seção, rei. Min. José Arnaldo, ac. de 9-5-2001).

238
É competente a Justiça Federal, não a Justiça laborai* para autorizar
o levantamento do seguro-desemprego, mantido por recursos arrecadados
pela União, não havendo qualquer discussão quanto à relação de trabalho
(CC 57.520, Seção, relâ Minâ Eliana Calmon, j. 23-5-2007).

111.3. “Outras causas” sob competência delegada da Justiça


estadual — CF, art. 109, § 3-, in fin e . Direitos de mineração.
SFH. BNDES
Eis a questão: a norma constitucional igualmente dispõe que “a lei
poderá permitir que outras causas sejam também processadas e julgadas
pela justiça estadual”, sempre que a comarca não for sede de Vara do juí­
zo federal — CF, art. 109, § 3Q, infine.
Pergunta-se: quais serão estas outras causas? Quaisquer feitos? Não.
Estas “outras causas” deverão evidentemente estar compreendidas no elen­
co do art. 109 da Constituição, devem ser “causas federais”, sob pena de
admitirmos possa a lei ampliar a competência recursal do Tribunal Regional
Federal da área de jurisdição do juiz de primeiro grau — art. 109, § 49.
Pode-se citar, como exemplo de causa prevista no art. 109, § 3S, in
fine, a demanda alusiva a direitos de mineração, que deve ser processada,
em primeira instância, perante o juiz do local onde se situa a lavra (Dec.-
lei n. 227/67, art. 27, VI). Se a causa disser respeito a conflito de interesses
entre particulares, não sendo parte nem interveniente a União ou ente
público federal, o juiz estadual nela exercerá sua própria jurisdição, com
recurso para o tribunal estadual a que se encontra vinculado (v. CC 2.779
no Anexo IV; também o CC 21.144, l~ Seção do STJ, ac. de 25-3-1998,
rei. Min. Hélio Mosimann).
Todavia, se a União, ou ente público federal, for parte na demanda
(autor, réu, opoente ou assistente), então, se a comarca não for sede de Vara
federal, o juiz local exercerá jurisdição “delegada” pela União, com recur­
so para o Tribunal Regional Federal (art. 109, § 4Q).
A matéria veio a ser objeto de enunciado da Súmula do STJ, do se­
guinte teor:
“Súmula 238. A avaliação da indenização devida ao proprie­
tário do solo, em razão de alvará de pesquisa mineral, é processada
no Juízo Estadual da situação do imóvel” (lâ Seção, em 10-4-2000).

239
Outro exemplo: os executivos fiscais federais, por força do art. 15,1,
da Lei n. 5.010/66 (que organizou a Justiça Federal de primeira instância),
deverão ser ajuizados no domicílio dos devedores e perante os juizes es­
taduais, salvante se na comarca houver Vara federal12. V., nesta obra, o
verbete n. 98.
Assim também as vistorias e justificações (v. o verbete n. 91) desti­
nadas a fazer prova perante a administração federal, centralizada ou autár­
quica, devem ser propostas no foro do domicílio do requerente (Lei n.
5.010/66, art. 15, II). Vale notar que o inciso IV do mesmo art. 15, que
prevê o foro federal em ações propostas por sociedades de economia mis­
ta com participação majoritária federal, vem de encontro ao art. 109,1, da "'
Constituição Federal; aliás, a esse respeito manifestou-se o Superior Tri­
bunal de Justiça por sua Súmula 42: $
“Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as
causas cíveis em que éparte sociedade de economia mista e os crimes
praticados em seu detrimento ” (Corte Especial, em 14-5-1992).
A mencionada “delegação” de jurisdição federal a juiz estadual re­
flete-se na indicação do tribunal competente para julgar os conflitos de
competência. Quando juiz estadual e juiz federal entram em conflito, a
competência para apreciar o incidente é do Superior Tribunal de Justiça
(CF, art. 105,1, d, infine); porém, se o conflito se estabelece entre juiz
estadual no exercício da jurisdição federal delegada e juiz federal, compe­
tente será o Tribunal Regional Federal (Súmula 3 do STJ), salvante se
sediados um e outro em áreas sob jurisdição de Tribunais Regionais Fede­
rais diversos, hipótese em que o Superior Tribunal de Justiça conhecerá do
conflito (CC 2.779-STJ, j. 28-10-1992, rei. Min. Athos Carneiro).
As autarquias federais podem ser demandadas no foro de sua sede
ou naquele em que se acha a agência ou sucursal em cujo âmbito territo­
rial ocorreram os fatos geradores da lide, a teor do art. 100, IV, a, do CPC
(CC 2.493, rei. Min. Gomes de Barros); assim, ação contra o BNDES —

12. Decidiu o Supremo Tribunal Federal, em Tribunal Pleno (RE 90.866, ac. de
28-6-1979, RTJ, 97:351), que, nos casos de execução fiscal da União contra devedor
domiciliado em comarca do interior do Estado, competente para o processo é o juiz
estadual local, não podendo a União ajuizar a ação na comarca da capital e perante a
Justiça Federal (Lei n. 5.010/66, art. 15,1). Assim, como aliás consta do voto do Min.
Thompson Flores, a expressão “permitir”, usada no art. 126 da Constituição Federal
de 1969, deveria ser interpretada como eqüivalendo a “estabelecer”.

240
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, autarquia fe­
deral, poderá ser ajuizada no foro de sua sede, no caso a cidade do Rio
de Janeiro; cuidando-se, outrossim» de competência relativa, não poderá
o Juiz Federal desta cidade declinar de competência para o foro de domi­
cílio da parte autora (CC 28.596, rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. de 13-8-
2001, DJU, 23 ago. 2001, p. 321; CC 27.223, rei. Min. Menezes Direito,
dec. de 11-2-2003).
Também o Instituto Nacional de Propriedade Industrial — INPI será
demandado no foro do Rio de Janeiro, onde mantém sede (CC 2.860, 2a
Seção, rei. Min. Athos Carneiro, ac. de 26-8-1992).
São de competência da Justiça Federal, outrossim, “todas as causas
vinculadas ao Sistema Financeiro da Habitação”, pois nelas a Caixa Eco­
nômica Federal é litisconsorte necessária (CC 18.919, STJ, lâ Seção, j.
9-4-1997, rei. Min. Ari Pargendler)13614.

111.4. Ordem dos Advogados do Brasil — OAB


Também de competência da Justiça Federal as causas em que a Ordem
dos Advogados, em sua qualidade de “autarquia profissional especial, com
perfil de serviço público federal de natureza indireta”, for parte (STJ, lâ
Seção, CC 21.255, ac. de 29-4-1998, rei. Min. José Delgado).
Quanto à cobrança pela OAB de anuidades devidas pelos associa­
dos, e considerando que a entidade ostenta natureza jurídica de autarquia

13. A Ia Seção do STJ, no CC 28.688, sendo rei. o Min. Milton Luiz Pereira,
afirmou a competência da Justiça Federal, conforme a ementa: “Em litígio originado
de contrato de financiamento de casa própria, regrado por normas gerais do SFH, ve­
rificado que será afetado o Fundo de Compensação de Variações Salariais — FCVS,
descortina-se o interesse da Caixa Econômica Federal, ficando configurado o litiscon-
sórcio necessário e avivada a competência da Justiça Federal” (ac. de 24-8-2000).
Todavia, remanesce na competência da Justiça Estadual processar “ação de
execução hipotecária entre agente financeiro e mutuários, derivada de contrato cele­
brado sem cláusula de cobertura do FCVS” (CC 26.777, 2~ Seção, rei. Min. Aldir
Passarinho Jr., ac. de 22-9-1999).
14. Apreciando o CC 22.832, relativo a ação de consignação em pagamento
ajuizada por mutuário do SFH, o Min. Eduardo Ribeiro, em decisão monocrãtica, deu
pela competência da Justiça estadual, pois a 2a Seção do STJ tem entendido que a só
circunstância de a demanda envolver o Sistema Financeiro da Habitação não justifica
a competência do foro federal: não basta que o ente federal seja interessado na causa,
pois necessário que haja assumido a posição processual de autor, réu, assistente ou
opoente (dec. de 5-4-1999).

241
sob regime especial, prestadora de serviço público de fiscalização da
profissão indispensável à administração da Justiça, de início afirmou a
l â Turma do STJ, p. m. v., que as execuções deveriam seguir na Justiça
Federal, sob os ditames da Lei n. 6.830/80 — Lei das Execuções Fiscais,
em face das características de contribuição parafiscal (REsp 614.678,
rei. Min. Teori Zavascki, ac. 20-5-2004, Informativo do STJ, n. 209 —
maio 2004; Ag. Reg. no REsp 456.798, rei. Min. Francisco Falcão, ac.
11-5-2004).
A 2~ Turma, todavia, por aresto de 11-5-2004, sendo re i a Min. ;
Eliana Calmon, sustentou que a cobrança de tais anuidades, como não se K
destina a compor a receita da Administração e sim da própria entidade,
não estará sujeita à incidência da Lei n. 6.830/80 (REsp 462.823, rei. Min.
Eliana Calmon, Informativo do STJ, n. 208 — maio 2004). ^
A l â Seção uniformizou sua jurisprudência no sentido de que a co­
brança das anuidades não é submetida ao rito das execuções fiscais, mas
sim à execução nos termos do CPC (EREsp 463.258, rei. Min. Eliana
Calmon, DJU, 29-3-2004; EREsp 503.252, rei. Min. Castro Meira, DJU,
18 out. 2004; EREsp 449.036, rei. Min. Otávio de Noronha, DJU, 13 dez.
2004; EREsp 449.372, rei. Min. Otávio de Noronha, j. 13-4-2005), exe­
cução processada perante a Justiça Federal.
No alusivo às Caixas de Assistência dos Advogados, consideradas
“órgãos da OAB” pelo art. 45, IV, da Lei n. 8.906/94, questiona-se se
competente a Justiça Federal ou a Justiça dos Estados, isso porque o § 4~
do mesmo artigo dispõe serem as Caixas “dotadas de personalidade jurí­
dica própria”. A 2- Seção do STJ considerou competente a Justiça Federal,
visto que os Conselhos Secionais da OAB também são dotados de perso­
nalidade própria e nem por isso se desvinculam da Ordem dos Advogados
como serviço público federal (CC 29.904, rei. Min. Cesar Rocha; CC
21.749, rei. Min. Cesar Rocha, dec. de 15-10-2001).
Em recente decisão, al-S eção do STJ, alterando sua anterior juris­
prudência, passou a admitir a competência da Justiça Federal nas deman­
das contra Caixa de Assistência, considerando inclusive a posição assumi­
da pela Corte Especial quando do julgamento do CC 36.557 (rei. desig.
Min. Franciulli Netto); aceitou, assim, a proposição de que a competência
da Justiça Federal decorre do fato de as Caixas serem órgãos vinculados
à OAB (CC 38.230, v.u., rei. Min. José Delgado, ac. 9-3-2005).
Nosso ponto de vista é pela competência da Justiça Federal, uma
vez que a OAB, “dotada de personalidade jurídica e forma federativa”

242
(Estatuto da Advocacia, art. 44), possui pecuiiar estrutura, sendo seus
órgãos o Conselho Federal, os Conselhos Secionais, as Subseções e as
Caixas de Assistência, dos quais apenas as Subseções não dispõem de
personalidade jurídica própria; ora, como a OAB não existe a não ser
' através de seus órgãos, é certo que a estes não pode ser atribuída natu­
reza jurídica diversa, capaz de torná-los sujeitos, quando parte em juízo,
a diversa jurisdição.
Nesses termos, era recente manifestação, a 2â Seção reiterou seu
posicionamento: “Embora dotada de personalidade jurídica própria, a
Caixa de Assistência dos Advogados não se subtrai à condição de órgão
da OAB, circunstância que atrai a competência da Justiça Federal” (CC
37.540, rei. Min. Barros Monteiro, j. 26-2-2003)14~A.
Já os Institutos de Advogados, sociedades civis, com personalidade
jurídica própria e diversa, não se classificam como órgãos da autarquia, e
portanto as causas em que sejam parte serão julgadas pela Justiça Estadu­
al (STJ, CC 37.900, rei. Min. Teori Zavascki, j. 10-12-2003 — Informati­
vo do STJ, n. 195 — dez. 2003).

111.5. Competência nas causas relativas a interesses de servidores


federais
Uma anotação final, mas de todo relevante, pertinente à competência
da Justiça Federal para processar e julgar as ações que digam respeito ao
regime jurídico único (de natureza nitidamente estatutária) instituído pela
Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990, para os servidores públicos civis
da União, das autarquias e das fundações públicas federais.
Pelo art. 240, e, da aludida lei (haviam sido vetadas pelo Presiden­
te da República as alíneas d e e, mas mantidas pelo Congresso Nacional
— DOU, 19 abr. 1991) era assegurado ao servidor regido pela Lei n.
8.112/90 o direito de “ajuizamento, individual e coletivamente, frente à
Justiça do Trabalho, nos termos da Constituição Federal”. A polêmica
surgida sobre a constitucionalidade desse dispositivo motivou a apresen-

14-A. A 2- Turma do STJ, no entanto, em sede de mandado de segurança, julgou


competente a Justiça estadual para processá-lo e julgá-lo, por cuidar-se de ato de Pre­
sidente de Subseção da OAB relativo a processo disciplinar, ato “restrito à esfera de
sua competência, que não se projeta no âmbito federal” (REsp 235.723, rei. Min. Pe­
çanha Martins, ac. de 19-2-2002, RSTJ, 161:191).

243
tação, pelo Procurador-Geral da República e perante o Supremo Tribunal
Federal, da ADIn 492-1, de que foi relator o eminente Min. Carlos Vello-
so. A decisão final, com a afirmação de inconstitucionalidade das alíneas
d e e do art. 240, foi tomada em sessão de 12 de novembro de 1992,
vencidos o Min. Marco Aurélio e, em parte, os Mins. Octavio Gallotti e
Sepúlveda Pertence.
Em conseqüência, declara-se competente a Justiça Federal para o
julgamento das ações, promovidas pelos servidores públicos mencio­
nados no art. l e da Lei, contra a União, a autarquia federal ou a funda­
ção pública federal, apresentando pretensões decorrentes (alegadamen- 1
te) do vínculo estatutário mantido com a entidade de direito público '
federal.
Tal competência alcança as ações visando a reintegração em cargos
público federal, nos termos da Súmula 173 do Superior Tribunal de Justi­
ça, verbis:
“Compete à Justiça Federal processar e julgar pedido de rein­
tegração em cargo público federal, ainda que o servidor tenha sido
dispensado antes da instituição do Regime Jurídico Único ” (3â Seção,
em 23-10-1996).
V. outrossim, nesta obra, os verbetes n. 113 e 113.2, relativos
à competência da Justiça do Trabalho e os servidores estatutários e
celetistas.

111-A. Afastamento do ente federal da relação processual


Se a União, a autarquia federal ou a empresa pública federal forem,
por qualquer motivo, afastadas da relação de direito processual, cessa a
competência ratione personae e o processo deve ser enviado à Justiça
comum estadual (ou do Distrito Federal). Lembremos que, se entidade
federal solicita sua inclusão no processo que corre perante a Justiça
comum, deve o juiz estadual remeter a causa, para a apreciação de tal
pedido, ao juízo federal, nos termos, inclusive, da Súmula 150 do STJ,
verbis:
“ Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de inte­
resse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas
autarquias ou empresas públicas ” (Corte Especial, em 7-2-1996).
Assim, v. g., requerida a denunciação da lide a alguma das entidades
previstas no art. 109,1, da CF, em causa ajuizada perante a Justiça estadual,

244
: i l -l

a competência desloca-se para a Justiça Federal, a quem cabe decidir


conclusivamente sobre a denunciação (Ag. Inst. 512.474, rei. Min. Luiz
Fux, dec. de 11-9-2003; CC 41.762, Ia Seção, rei. Min. José Delgado, j.
25-8-2004)14'B.
Caso o juiz federal resolva denegar o pedido de ingresso da União,
autarquia ou empresa pública federal, não deverá suscitar conflito de
competência, mas sim devolverá o processo, com sua decisão, ao juízo
estadual. E também ao juiz estadual, diga-se, não é lícito suscitar conflito
negativo, simplesmente porque não lhe cabe apreciar a procedência, ou
não, da petição apresentada pelo ente federal.
Assim, eventual inconformidade com a decisão do juiz federal deve
ser arguida pela União, pela autarquia ou pela empresa pública federal
mediante o recurso de agravo, dirigido ao Tribunal Regional Federal da
região.
A respeito, o STJ editou a Súmula 224, nos seguintes termos:
“Excluído do feito o ente federal, cuja presença levara o juiz
estadual a declinar da competência, deve o juiz federal restituir os
autos e não suscitar conflito” (Corte Especial, em 2-8-1999).
A redação da súmula poderia suscitar certas dúvidas, não fora a
circunstância de que, com certa frequência, o juiz estadual, por equívoco,
defere ele mesmo o ingresso do ente federal e, então, declina de sua com­
petência para o juízo federal. A este, pois, em não encontrando interesse
jurídico capaz de legitimar a presença do ente federal, cabe excluí-lo do
processo, abstendo-se de suscitar conflito; transcorrido o decêndio recur­
sal, mandará sejam os autos devolvidos à origem.

112. Causas em que é parte autarquia federal ou empresa públi­


ca federal. Intervenção em concurso de credores
As autarquias federais e as empresas públicas federais geralmente
desfrutam, por lei, dos privilégios e vantagens processuais da União, e
as ações em que são autoras, rés, assistentes ou opoentes correm peran­
te a Justiça Federal (CF, art. 109, I), salvante as causas de falência, de

14-B. Entendendo o juízo federal não existir interesse jurídico da União ou da


ANATEL para intervir em demanda sobre serviços de telefonia, em que é ré a Brasil
Telecom S/A, não haverá como afastar-se a competência da Justiça Estadual (STJ, l â
Seção, CC 47.382, rei. Min. Peçanha Martins, j. 11-5-2005).

245
acidentes do trabalho, as trabalhistas e as eleitorais15,16,17e 18. V. o ver­
bete n. 113.3.
A 3ã Seção do STJ, com invocação ao art. 100, IV, a e b, do CPC,
julgou que o autor, ao demandar contra autarquia federal, deverá fazê-lo no
foro da respectiva sede ou naquele em que se acha a agência ou sucursal
em cujo âmbito de atribuições ocorreram os fatos geradores da lide; não
pode a autarquia, destarte, ser demandada em qualquer unidade da federa-
ção, pois “a competência deve ser determinada com base em critérios ra­
zoáveis” (CC 21.652, rei. Min. Fernando Gonçalves, ac. de 16-12-1998).
Por orientação jurisprudencial, o privilégio é extensivo às fundações >
federais, equiparadas para esse fim às autarquias e empresas públicas19. E

15. Decidiu o Supremo Tribunal Federal, em Tribunal Pleno, que a mera inter­
venção da Caixa Econômica Federal, como assistente simples (ad coadjuvandum) em
ação entre particulares, invocando a condição de credora hipotecária, não acarreta o
deslocamento de competência para a Justiça Federal, continuando a causa a tramitar
perante a Justiça comum estadual (RTJ, 97:261). Também em Tribunal Pleno decidiu
que a intervenção da União Federal, como assistente simples, em ação trabalhista, não
deslocava o foro recursal do Tribunal Regional do Trabalho para o antigo Tribunal
Federal de Recursos (RTJ, 100:10). Também assim o STJ, p. m. v., no REsp 244, rei.
Min. Waldemar Zveiter, vencidos os Min. N. Naves e E. Ribeiro.
Mas éà Justiça Federal, não à Estadual, que cabe dizer se ocorre, em cada caso,
interesse da União (RTJ, 99:1328 e 1382; Súmula 150 do STJ).
Nos processos de insolvência civil , ainda que autarquia federal seja credora, a
competência é da Justiça Estadual (STF, CJ 6.602-PR, rei. Min. Aldir Passarinho).
16. A jurisprudência do STJ “assentou-se no entendimento de que, nos processos
em que se discutem pagamentos relativos a contratos regidos pelo Sistema Financeiro
da Habitação, a competência da Justiça Federal somente ocorre quando haja potencial
comprometimento do Fundo de Compensação de Variação Salarial — FCVS”. Assim,
a ação de revisão de cálculos, em que mutuário do Sistema de Carteira Hipotecária
discute cláusula contratual, visando a revisão de cálculos, sendo réu um agente priva­
do no Sistema Financeiro Nacional, será tal demanda de competência da Justiça Esta­
dual (STJ, l â Seção, Ag. Reg. no CC 21.676, j. 22-9-1999, rei. Min. Gomes de Barros).
17. “Em princípio, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial — INPI será
demandado no Rio de Janeiro, onde tem a sua sede. Ao autor, porém, é permitido
ajuizar a ação no foro do domicílio do outro réu, se assim preferir (art. 94, § 4-, do
CPC)” (STJ, 2a- Seção, CC 2.860, j. 26-8-1992, rei. Min. Athos Carneiro).
18. Segundo a Súmula 82 do STJ, “compete à Justiça Federal, excluídas as re­
clamações trabalhistas, processar e julgar os feitos relativos à movimentação do FGTS”,
pela qualidade da CEF como gestora do Fundo e parte, pois, na demanda. V. o verbe­
te n. 94.
19. No julgamento do CC 14.746, rei. Min. Costa Leite, decidiu o STJ, 2~ Seção,
que em se tratando de causa contra o IBGE, como fundação federal, competente a
justiça federal , ante a equiparação com os entes autárquicos, “para os efeitos do art.
109,1, da Constituição”.

246
isso porque, “embora o art. 109,1, da Constituição Federal não se refira
expressamente às fundações, o entendimento desta Corte é no sentido de
que a finalidade, a origem dos recursos e o regime administrativo da tute­
la absoluta a que, por lei, está sujeita a entidade fazem dela espécie do
•gênero autarquia e, por isso, são jurisdicionadas à Justiça Federal, se ins­
tituídas pelo Governo Federal” (STF, RE 127.489, rei. Min. Maurício
Corrêa, em causa em que interessada a Fundação Universidade do Rio de
Janeiro, Boletim do STF, n. 101, mar. 1998).
Já não assim as sociedades de economia mista, relativamente às quais
o STF editou as Súmulas 556 e 517, e o STJ, com a mesma orientação, a
Súmula 42, verbis:
“Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as
causas cíveis em que éparte sociedade de economia mista e os crimes
praticados em seu detrimento ”20 (Corte Especial, em 14-5-1992).
Celso Antônio Bandeira de Mello, confrontando a sociedade de eco­
nomia mista com a empresa pública, ambas pessoas de direito privado,
afirma que, “do ponto de vista do substrato material, só há um traço dife­
rencial. É que uma tem capital exclusivamente de origem governamental
— empresa pública —: e a outra tem formação compósita de capital go­
vernamental e capital privado” (Sociedade de economia mista e empresas
públicas; sua atuação na área econômica, Revista da OAB, Secção do
Distrito Federal, 5:83, 1979).
A 2â Turma do STJ reafirmou a competência da Justiça estadual em
caso em que foi ré a Companhia Energética de São Paulo — CESP, so­
ciedade de economia mista dotada de personalidade de direito privado:

No mesmo sentido a Ia Seção do STJ; assim, em causa em que foi parte a Uni­
versidade Federal de Pelotas, fundação de direito público, sendo rei. o Min. Milton
Pereira, resultou lançada a ementa a seguir: “As Fundações de Direito Público, criadas
por lei, instituídas para a gestão de serviço estatal, por suas finalidades e atividades
não lucrativas (no caso, educação, cultura e pesquisa científica), origem e obtenção de
recursos e patrimônio público, devem ser equiparadas à ‘espécie do gênero autarquias’
ou, até mesmo, por equiparação, generalizadas como ‘empresas públicas federais’,
ficando removidos os óbices para o desfrute do foro federal. Iterativos precedentes do
STF e do STJ” (CC 14.011). ^
20. “Súmula 556-STF: É competente a Justiça comum para julgar as causas em
que é parte sociedade de economia mista”.
“Súmula 517-STF: As sociedades de economia mista só têm foro na Justiça
Federal quando a União intervém como assistente ou opoente ”

247
“O fato de ser concessionária de serviço público federal, por si só, não
lhe retira a condição de entidade privada, não se incluindo entre os entes
enumerados no art. 109, I, da Constituição, sendo, portanto, a Justiça
estadual competente para julgar as causas em que ela figurar como au­
tora ou ré” (REsp 10.198, rei. Min. Paulo Gallotti, ac. de 12-12-2000,
RSTJ, 148:112).
A incidência das Súmula 42 e 517 vem sendo reiterada, como, v.g.,
no CC 63.885, relativamente à Rede Ferroviária Federal S.A., sociedade
de economia mista, sendo então afirmada a competência da Justiça esta­
dual de São Paulo, porquanto “a competência da Justiça Federal, nos termos"
do art. 109, I, da CF, é vista em razão da pessoa, sendo desinfluente a
natureza da controvérsia” (da ementa) (STJ, l â Seção, rei Min. Humberto^
Martins, j. 13-12-2006).
Nesse ponto cumpre anotar que, nos casos em que ocorra concurso
de credores ou de preferência, a competência não se desloca para a Justi­
ça Federal pela só circunstância de deles vir a participar autarquia federal,
ou empresa pública federal, “sem ostentar a condição de autora, ré, assis­
tente ou opoente” (CC 1.576, 2- Seção, rei. Min. Barros Monteiro, ac. de
10-4-1991, rei. Min. Barros Monteiro, RSTJ, ]58:595). Foi assim presti­
giada a Súmula 244 do antigo TFR, no sentido de que “a intervenção da
União, suas autarquias e empresas públicas em concurso de credores ou
de preferência não desloca a competência para a Justiça Federal” (CC
21.551, 2~ Seção, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, ac. de 26-8-1998, RSTJ,
158:616).
A respeito, o Superior Tribunal de Justiça veio a editar a Súmula
270, do teor seguinte:
“O protesto pela preferência de crédito, apresentado por ente
federal em execução que tramita na Justiça Estadual, não desloca a
competência para a Justiça Federal” (Corte Especial, em l Q-8-2002).

112-A. Causas em que é parte Conselho de fiscalização profis­


sional
As demandas em que figuravam como parte os Conselhos de fisca­
lização profissional, tais como os Conselhos de Contabilidade, os de En­
genharia, Arquitetura e Agronomia, os de Corretores de Imóveis, os de
Odontologia etc., considerando que tais Conselhos “têm natureza jurídica

248
de autarquias federais”, eram consideradas como de competência da Jus­
tiça Federal (STJ, l~ Seção, CC 2.378, rei. Min. Demócrito Reinaldo, j.
6-12-1991, RSTJ, 44:187;CC 2.419, rei. Min. Pádua Ribeiro, j. 10-2-1992,
RSTJ, 44:190). V., nesta obra, o verbete n. 98.
Em decorrência, e tendo em vista a causa com mais frequência pro­
posta por tais entidades, o STJ editou a Súmula 66, do seguinte teor:
“Compete à Justiça Federal processar e julgar execução fiscal
promovida por Conselho de fiscalização profissional” (Ia Seção, em
15-12-1992).
A Lei n. 9.649, de 27-5-1998, pretendeu, todavia, privar os Conse­
lhos de fiscalização do exercício profissional da natureza jurídica de
autarquias corporativas, passando os respectivos serviços (art. 58), a ser
exercidos “em caráter privado, por delegação do Poder Público, median­
te autorização legislativa”; o § 2e do mesmo art. 58 explicitou que tais
conselhos, “dotados de personalidade jurídica de direito privado, não
manterão com os órgãos da Administração Pública qualquer vínculo
funcional ou hierárquico”.
Todavia, a competência da Justiça Federal resultou mantida no § 8e,
verbis: “Compete à Justiça Federal a apreciação das controvérsias que
envolvem os conselhos de profissões regulamentadas, quando no exercício
dos serviços a eles delegados, conforme o disposto no caput”21.
Posteriormente, como decorre do julgamento do CC 29.169, rei. o
Min. Milton Luiz Pereira, foi declarada sempre competente a Justiça
Federal, lendo-se da ementa: “As contribuições, anuidades e multas
exigidas pelos Conselhos de fiscalização profissional não decorrem de
contrato de natureza privada e sim de obrigações legalmente estabele­
cidas. A alteração da personalidade jurídica da autarquia federal para
ente privado (art. 58 da Lei n. 9.649/98) não institui uma relação priva-
tística. Não desfigurado o título executivo, a modificação comentada,
per se ipsum, não altera a situação jurídica anterior, competindo à Jus­
tiça Federal, na espécie, processar e julgar a execução forçada” (j. 3-8-

21. Quando a comarca de domicílio do devedor não for sede de vara da Justiça
Federal, prevalece a competência da justiça comum estadual, a teor do art. 109, § 32,
da CF e art. 15,1, da Lei n. 5.010/66 (CC 40.284, Ia Seção, rei. Min. Peçanha Martins,
ac. 25-8-2004). É caso, assim, de competência “delegada”, cabendo recurso ao Tribu­
nal Regional Federal (STJ, Súmula 3).

249
2000). Nos mesmos termos decisão do Min. Francisco Falcão no CC
30.649, j. 13-2-200 l)23e23.
Finalmente, a 2- Seção, em aresto relatado pelo Min. Menezes Direi­
to e de interesse do Conselho Regional de Contabilidade de MG, afirmou
a competência da Justiça Federal, sob o fundamento de que o Supremo
Tribunal Federal, no julgamento da ADIn 1.717-DF, deferira medida cau­
telar para suspender a eficácia do art. 58, caput e seus parágrafos, da Lei
n. 9.649/98 até o julgamento final da ação, com o que o Conselho se man­
tinha com a natureza jurídica de autarquia federal (CC 25.355-MG, j.
22 - 11- 2000) .
Finalmente, por aresto de 7-11-2002, à unanimidade foi julgada
procedente a ADIN 1.717, e decretada pelo STF a inconstitucionalidade ^
do caput e dos §§1-, 2-, 4-, 5a, 6-, 7e e 8Qdo art. 58 da Lei n. 9.649/98,
constando da ementa a impossibilidade de delegar, “a uma entidade priva­
da, atividade típica de Estado, que abrange até poder de polícia, de tributar
e de punir, no que concerne ao exercício de atividades profissionais regu­
lamentadas, como ocorre com os dispositivos impugnados” (.Informativo
do STF, n. 292, dez. 2002).
O afastamento da competência da Justiça do Trabalho foi afirmado
por recente aresto da l â Seção do STJ, nos termos seguintes:
“... segundo a orientação desta lâ Seção, a atividade fiscalizatória
exercida pelos conselhos profissionais, decorrente da delegação do poder
de polícia, está inserida no âmbito do direito administrativo, não podendo

22. Segundo a 3- Seção do STJ, “em face da suspensão cautelar da eficácia do


art. 58, caput e seus parágrafos (com exceção do § 32) da Lei 9.649/98, na decisão
proferida na ADIn 1.717/DF pelo STF, as entidades fiscalizadoras de profissões, entre
elas o Conselho Federal de Farmácia, retomaram à condição de autarquias federais,
dotadas de personalidade jurídica de direito público’5, permanecendo assim competen­
te a Justiça Federal (CC 33.323, rei. Min. Edson Vidigal, ac. de 13-3-2002).
23. A 1- Seção do STJ entendeu competente a Justiça Estadual para o julgamen­
to de executivo fiscal ajuizado por Conselho Regional de Farmácia, quando no domi­
cílio do executado não funciona Vara Federai, caso em que o Juiz de Direito assume
competência nos termos do art. 109, § 3fi, da CF, integrado pela regra do art. 15,1, da
Lei n. 5.010/66, recepcionado pela ordem constitucional vigente. Trata-se de compe­
tência “delegada”, tendo a decisão aludido a que o STF mantivera a natureza dos
Conselhos de Fiscalização Profissional como autarquias federais, declarando (ADIn
1.717) a inconstitucionalidade do art. 58 e §§ da Lei n. 9.649/98 (CC 40.275, rei. Min.
Castro Meira, ac. 11-2-2004, DJU, 15 mar. 2004, p. 145).

250
ser considerada relação de trabalho e, de conseqüência, não está incluída
na esfera de competência da Justiça Trabalhista.
Ademais, o art. 109, VII, da CF estabelece a competência da Justiça
Federal para processar e julgar os mandados de segurança impetrados
' contra ato de autoridade federal. Cumpre ressaltar que, no julgamento da
ADI 1.717-DF, o STF declarou a inconstitucionalidade do art. 58 da Lei
n. 9.649/1998, mantendo a natureza de autarquias federais dos Conselhos
de Fiscalização Profissional. Aplicação, mutatis mutandis, da Súmula n.
66-STJ” (ac. CC 54.054, lâ Seção, v. u., Denise Arruda, j. 24-5-2006).

251
CAPÍTULO XXII
COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA DO TRABALHO

113. Ampliação da competência da Justiça do Trabalho — limites


Conforme o art. 114 da CF, em sua redação originária, era de com­
petência da Justiça do Trabalho, “conciliar e julgar os dissídios individu- &
ais e coletivos entre trabalhadores e empregadores, abrangidos os entes
de direito público externo e da administração pública direta e indireta dos
Municípios, do Distrito Federal, dos Estados e da União, e, na forma da
lei, outras controvérsias decorrentes da relação de trabalho, bem como os
litígios que tenham origem no cumprimento de suas próprias sentenças,
inclusive c o le tiv a s Portanto, basicamente, competência para o julgamen­
to dos dissídios entre empregados e empregadores, decorrentes das relações
de trabalho, sob habitualidade e subordinação.
Já agora, por força da EC n. 45, de 8-12-2004, foi ampliada a com­
petência da Justiça laborai, com previsão analítica das causas a ela subme­
tidas, nos seguintes termos:
“ Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
I — as ações oriundas da relação de trabalho, abrangidos os entes
de direito público externo e da administração pública direta e indireta
da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;
II — as ações que envolvam exercício do direito de greve;
III — as ações sobre representação sindical, entre sindicatos,
entre sindicatos e trabalhadores, e entre sindicatos e empregadores;
IV — os mandados de segurança, habeas corpus e habeas data,
quando o ato questionado envolver matéria sujeita à sua jurisdição;
V — os conflitos de competência entre órgãos com jurisdição
trabalhista, ressalvado o disposto no art. 102,1, o /
VI — as ações de indenização por dano moral ou patrimonial,
decorrentes da relação de trabalho;

252
.11 A

VII— as ações relativas às penalidades administrativas impos­


tas aos empregadores pelos órgãos de fiscalização das relações de
trabalho;
VIII ■
— a execução, de ofício, das contribuições sociais previs­
tas no art. 195, I, a, e II, e seus acréscimos legais, decorrentes das
sentenças que proferir;
IX — outras controvérsias decorrentes da relação de trabalho,
na forma da lei".
A Lei Maior adotou, com tal elenco, um detalhamento que a rigor
seria consentâneo, isto sim, com leis ordinárias, menos difíceis de corrigir
e de adaptar às contingências de uma realidade social sempre em mutação.
E jâ são muitas as dúvidas expostas pelos comentadores, ao impacto da
renovada sistemática.
Temos, de início, a relevantíssima questão decorrente da competência
para o julgamento das causas relativas aos servidores públicos sujeitos ao
regime estatutário (não ao regime contratual, submetido às leis do trabalho).
Já na anterior edição desta obra, havíamos manifestado nossa opinião no
sentido de que permaneceram competentes a Justiça Federal e a Justiça
dos Estados para dirimir as lides entre o Poder Público e seus funcionários
(federais, ou estaduais e municipais) estatutários, quer efetivos como
ocupantes de cargos de confiança, isso ponderando a peculiar eficácia e
abrangência das normas de direito administrativo.
O Supremo Tribunal Federal, apreciando a ADI-MC 3.395, em que
são requerentes a Associação Nacional dos Juizes Federais do Brasil —
AJUFE e Outra, relator o Min. Cezar Peluso, em sessão plenária de 5-4-
2006 veio a referendar a liminar deferida pelo Presidente da Corte no
sentido da incompetência da Justiça do Trabalho, vencido o Min. Marco
Aurélio. Postularam ingresso no processo, como amici curiae, a Associa­
ção Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e Outras. O mérito
encontra-se ainda pendente de julgamento1 (julho de 2009).

1. O Min. Nelson Jobim, como Presidente do STF, apreciando em liminar a ADI


3.395, escreveu que “não há que se entender que a justiça trabalhista, a partir do texto
promulgado, possa analisar questões relativas aos servidores públicos. Essas demandas
vinculadas a questões funcionais a eles pertinentes, regidos que são pela Lei 8.112/90
e pelo direito administrativo, são diversas dos contratos de trabalho regidos pela CLT.
(...) Em face dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade e ausência de pre­
juízo, concedo a liminar, com efeito lex tunc’’. Dou interpretação conforme ao inciso I
do art. 114 da CF, na redação da EC n. 45/2004. Suspendo, ad referendam, toda e qual­
quer inteipretação dada ao inciso I do art. 114 da CF, na redação dada pela EC n. 45/2004,
que inclua, na competência da Justiça do Trabalho, a apreciação de causas que sejam

253
Além disso, será necessário definir com a possível precisão o âmbito,
o alcance da expressão “relação de trabalho” dentro da atual sistemática
constitucional. Abrangerá a relação derivada do trabalho gratuito e voluntá­
rio, sem base contratual, como o prestado por razões religiosas ou puramen­
te humanitárias? Compreenderá o trabalho de presidiários? E aquelas relações
em que o prestador do trabalho é profissional liberal, de nível superior, sem
vínculo de habitualidade e de “subordinação” com o contratador do trabalho,
remunerado por meio de “honorários” e não mediante salário?1*-^
Nossa opinião, a uma primeira vista, e não podendo desprezar os crité­
rios da tradição e conveniência, inclina-se pela competência da Justiça do
Trabalho, salvo nas lides entre profissional liberal e seus clientes, pois nestes "
últimos casos a própria natureza do relacionamento, marcado pela “autono­
mia” do profissional, indica e impõe a competência da Justiça comum. s
Assim, as demandas decorrentes de contrato de prestação de hono­
rários advocatícios (espécie de contrato de mandato), inclusive as de co­
brança da verba honorária ou de indenização por imperícia do advogado,
devem ser processadas perante a Justiça comum e não a Justiça laborai, tal
como decidido pelo STJ nos CC n. 65.575, rei. Min. Castro Meira (P
Seção, j. 8-8-2007) e n. 70.077, rei. Min. Fernando Gonçalves (2â Seção,
j. 12-9-2007), tendo em vista que a EC n. 45 não retirou a atribuição da
Justiça estadual para processar ações relativas a relações contratuais de
caráter eminentemente civil, alheio a qualquer “relação de trabalho” ou
vínculo empregatício. Nesse sentido alinham-se numerosos precedentes,
valendo citar o CC 93.055, da l â Seção, com a afirmação de que “não se
enquadra na competência da Justiça do Trabalho, nem mesmo com a am­
pliação da sua competência promovida pela EC 45/2004, causa relativa à
cobrança de honorários profissionais previstos em contrato de prestação
de serviços advocatícios, movida por advogada contra cliente. Além de a
relação jurídica que se estabelece entre as partes ser disciplinada pelo di­
reito civil, não há vínculo trabalhista entre os sujeitos da relação jurídica
litigiosa, nem qualquer espécie de relação de trabalho. Por isso, a compe-

instauradas entre o Poder Público e seus servidores, a ele vinculados por típica relação
de ordem estatutária ou de caráter jurídico-administrativo” (dec. de 27-1-2005).
1-A. A 3a Seção do STJ considerou que os membros dos Conselhos Tutelares da
Infância e Juventude mantêm com a municipalidade não um contrato trabalhista regi­
do pela CLT, mas sim um vinculo de caráter institucional assemelhado ao regime ju­
rídico estatutário; assim, competente a Justiça Comum estadual para os pleitos relativos
a esse tipo de vínculo. Esse entendimento deve ser mantido mesmo após a alteração
do art. 114,1, da CF/88, promovida pela EC n. 45/2004, tendo em vista a concessão,
pelo Pretório Excelso, da medida cautelar na ADI 3.395-DF. Precedentes: CC 58.922-
GO e CC 49.164-SP (CC 84.886, rei. Min. Tereza Moura, j. 12-12-2007).

254
tência é da Justiça Comum. Precedentes” (da ementa, rei. Min. Teori Za­
vascki, j .26-3-2008).
Por fim, a Corte Especial do STJ, em 15-10-2008, consolidou a ju­
risprudência pela edição da Súmula 363, do seguinte teor:
“Compete à Justiça estadual processar e julgar a ação de cobrança
ajuizada por profissional liberal contra cliente
Parece claro, de outra parte, que passa à Justiça do Trabalho a compe­
tência para o julgamento de questões atinentes a trabalhadores informais, a
contratos para serviços eventuais, a empreitadas contratadas diretamente
com o trabalhador pessoa física, causas que versem prestação laborai efetu­
ada por estagiários, por integrantes de “cooperativas” de trabalho etc.2,3e4.

2. No magistério de Sergio Bermudes, “A Emenda Constitucional usa a expres­


são relação de trabalho para indicar relação de emprego. (...) Não se interprete, pois,
o inciso I do art. 114, na sua proposição ‘as ações oriundas da relação de trabalho’,
como norma que entrega à Justiça do Trabalho o julgamento de todas as pretensões
decorrentes de um contrato de atividade, sem característica fundamental da relação de
emprego, que é a prestação de serviços continuados, num regime de subordinação. Essa
especiosa interpretação levaria para os juízos e tribunais trabalhistas os litígios decor­
rentes da prestação de serviços dos profissionais liberais, dos empreiteiros, dos autô­
nomos em geral. Interpretação incompatível com a própria natureza da Justiça do
Trabalho. Ramo especializado do Poder Judiciário, a sua competência é matéria de
interpretação restritiva e haverá de ser delimitada pelos fins a que se destina tal seg­
mento da função jurisdicional” (A Reforma do Judiciário pela Emenda Constitucional
n. 45, Forense, 2005, p. 81-82).
3. Vale mencionar algumas decisões afirmativas da competência da Justiça es­
pecializada, adotadas anteriormente à reforma constitucional:
1. Em tema de contribuição assistencial, prevista em Convenção Coletiva de
Trabalho, foi considerada competente a Justiça especializada (lâ Seção, CC 38.472,
rei. Min. Luiz Fux, ac. 8-10-2003).
2. O autor, sindicato patronal, cobra contribuições assistenciais devidas por
empregados supostamente integrantes de sua categoria econômica. Ação de cumpri­
mento de convenção coletiva. Lei 8.984/95. Competência da Justiça do Trabalho (CC
43.360, rei. Min. César Rocha, dec. 11-6-2004).
3. “Os termos firmados perante as Comissões de Conciliação Prévia são títulos
extrajudiciais, oriundos de demandas trabalhistas apaziguadas por acordo das partes,
cuja execução judicial compete à Justiça do Trabalho (CLT, art. 877-A)” (CC 41.287,
2- Secão, rei. Min. Gomes de Barros, ac. 26-5-2004, DJU, 7 jun. 2004, p. 157; CC
41.088, 2~ Seção, rei. Min. Nancy Andrighi, ac. 25-8-2004).
4. “Compete à Justiça do Trabalho instruir e julgar ação civil pública em que se
pretende a tutela coletiva de cumprimento das normas de segurança e medicina do
trabalho”, pois a natureza da relação jurídica substancial determina a competência das
várias “Justiças” especializadas (STJ, CC 31.469, 2- Seção, rei. Min. Nancy Andrighi,
ac. 27-11-2002, RSTJ, 176:291).
4. Diante da nova redação do art. 114 da CF, e seu inciso III, deve considerar-se
prejudicado o enunciado n. 4 da Súmula do STJ (aprovado em 8-5-1990), segundo o
qual “compete à Justiça Estadual julgar causa decorrente do processo eleitoral sindical”.

255
Mesmo antes da EC n. 45/2004, a 2- Seção do STJ já havia decidido
caber às varas do trabalho conciliar e julgar os dissídios resultantes de
contrato de empreitada em que o empreiteiro seja operário ou artífice (CC
32.433, rei. Min. Castro Filho), sendo da alçada da Justiça do Trabalho
decidir se o contrato justifica, ou não, a afirmação de sua competência.
Mas caso o empreiteiro, pessoa física, por sua vez contrate ajudantes para
executar o serviço, transforma-se em empregador, o que afasta a compe­
tência da Justiça do Trabalho para o julgamento de dissídio entre ele em­
preiteiro e quem o contratou (CC 89.171, 2- Seção, rei. Min. Gomes de
Barros, j. 24-10-2007). >
Vale, no azo, sublinhar que quase todas as relações sociais de cunho
patrimonial implicam ou estão vinculadas a uma relação de trabalho, de#
prestação de serviços, de forma que, atendendo o princípio da razoabilidade,
será necessário, para atrair a competência da Justiça laborai, que a relação
de trabalho seja predominante no contrato, sob pena de transformarmos a
Justiça do Trabalho em Justiça comum, e esta em Justiça Especial (Jorge
Luiz Souto Maior, Nova Competência da Justiça do Trabalho, p. 183). Por
exemplo, as lides vinculadas a contrato de representação comercial conti­
nuam de competência da Justiça comum, por não haver a relação de su­
bordinação, essencial à relação de emprego (STJ, 2~ Seção, CC 96.851,
rei. Min. Carlos Mathias — Desembargador convocado, j. 11-2-2009) (v.
o verbete 100-A).
Neste ponto devemos reiterar que, mesmo sob a renovada sistemáti­
ca, mantêm-se na competência da Justiça comum as ações por acidente do
trabalho — v., a respeito, nesta obra, o verbete n. 93.
Vale referência, ainda, a dois outros aspectos relacionados com o
tema da competência da Justiça do Trabalho. A antiga questão das deman­
das possessórias relacionadas com a relação de trabalho é resolvida pela
fixação, em definitivo, da competência da Justiça laborai.
Como escreveu Wagner D. Giglio, com remissão ao magistério de
Cristóvão Piragibe Tostes Malta, “o que importa é conhecer a natureza do
título que autoriza o empregado a ocupar o imóvel”. Assim, se o empre­
gado ocupa o imóvel em decorrência de um contrato de trabalho, como

Nesse sentido, o STJ, lâ Seção, no CC 48.372, rei. Min. João Otávio de Noronha,
com determinação da imediata remessa dos autos para a Justiça do Trabalho (ac. de
22-6-2005).

256
parcela integrante do salário, ou se o empregado mora no imóvel em fun­
ção da natureza das funções que exerce (zelador do prédio, vigia etc.),
“então concluímos que a controvérsia sobre o imóvel não deriva de um
contrato autônomo de locação, de natureza civil, mas sim da relação de
emprego, e competente é a Justiça do Trabalho, e não a Justiça ordinária”
(revista Magister, v, 5, p. 90)4‘A.
Interessante questão de competência, concernente a desdobramentos
do direito de greve, foi julgada pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal,
tendo a Corte decidido pela competência da Justiça do Trabalho para
julgar ação possessória — no caso interdito proibitório — intentada por
instituição financeira contra sindicato de bancários com o objetivo de
proibir a ação de “piquetes” na entrada das agências do banco. A maioria,
vencido o relator, entendeu cuidar-se de demanda em função do exercício
do direito de greve, e não diretamente de proteção ao patrimônio (rei. orig.
Min. Menezes Direito, RE 579.648, j. 10-9-2008). Essa diretriz, quanto à
competência da Justiça do Trabalho para apreciar tal interdito proibitório,
vem sendo observada pelo STJ (CC 101.574, Ag. Reg., rei. Min. Fernando
Gonçalves, j. 25-3-2009).
Impende notar que o art. 114 da CF, em sua anterior redação, atribuía
à Justiça do Trabalho competência para “conciliar e julgar os dissídios
individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores”. Conciliar e
julgar: a missão conciliatória era constitucionalmente ínsita à atividade da
Justiça laborai, e assim o juiz somente passaria ao processo e ao julgamen­
to após tentadas e malogradas as gestões conciliatórias.
Todavia, pela EC n. 45/2004 o caput do aludido artigo passou a
consignar: “Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar: ...”. Des­
tarte, a atividade conciliatória passou a fundar-se apenas em normas infra-
constitucionais, não apenas naquelas constantes da legislação trabalhista,
como também consoante o art. 125, IV, do CPC, pelo qual é facultado ao
juiz “tentar, a qualquer tempo, conciliar as partes” (v. Arion Sayão Romi-
ta, artigo na revista Magister, v. 5, p. 66 e s.).

4-A. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar a lide alusiva à reintegra­


ção do empregador na posse do imóvel dado em comodato ao empregado para sua
moradia durante o contrato de trabalho, pelas alterações promovidas pela EC n. 45/2004
no art. 114, VI, da CF/88 (STJ, CC 57.524, 2- Seção, rei. Min. Menezes Direito, j.
27-9-2006). Com a devida vênia, ponderamos que a competência já era da Justiça la­
borai anteriormente à aludida Emenda Constitucional.

257
A EC n. 45 terá implicado, na expressão de José Acurcio Cavaleiro
de Macedo, “a efetiva processualização judiciária trabalhista” (revista LTr,
n. 69/01-111).
Finalmente, tema eminentemente controvertido o da aplicação, aos
processos agora submetidos à competência da Justiça do Trabalho, das
normas de direito processual civil ou das normas do processo trabalhis­
ta. A respeito, o TST editou a Resolução n. 27, datada de 16-2-2005,
determinando a aplicação das regras processuais da CLT, salvo para
aquelas ações sujeitas a rito especial, “tais como o mandado de seguran­
ça, habeas corpus, habeas data, ação rescisória, ação cautelar e ação de 3
consignação em pagamento”(art. I2). Foi também previsto que a siste­
mática recursal será a constante da CLT, “inclusive no tocante à nomen­
clatura, à alçada, aos prazos e às competências” (art. 2fi), e que as custas^
recursais devem ser pagas e comprovado seu recolhimento no prazo re­
cursal, a teor dos arts. 789, 789-A e 790-A da CLT (art. 3-, § 2°). Um
tanto enigmática a disposição de que “exceto nas lides decorrentes da
relação de emprego, os honorários advocatícios são devidos pela mera
sucumbência” (art. 5-).

113.1. Ações decorrentes de convenções ou acordos coletivos de


trabalho
Conforme a Súmula 57 do STJ (aprovada pela 1*Seção em 29-9-1992)
era de competência da Justiça comum estadual processar e julgar ação de
cumprimento fundada em acordo ou convenção coletiva não homologados
pela Justiça do Trabalho.
Sobreveio, todavia, a Lei n. 8.984, de 7-2-1995, segundo a qual:
“Art. 1° Compete à Justiça do Trabalho conciliar e julgar os
dissídios que tenham origem no cumprimento de convenções coleti­
vas de trabalho ou acordos coletivos de trabalho, mesmo quando
ocorram entre sindicatos ou entre sindicato de trabalhadores e em­
pregador”.
Em face do novo regramento legal, passou o STJ a considerar supe­
rado o aludido enunciado sumular, declarando, v. g., competente a Justiça
laborai para processar e julgar as ações de cobrança de contribuição sin­
dical “prevista em convenções ou acordos coletivos, homologados ou não
na justiça obreira” (CC 41.607, l â Seção, rei. Min. Castro Meira, ac. 9-6-
2004).

258
Também competente a Justiça do Trabalho para outras demandas
relativas ao cumprimento de acordo ou convenção coletiva de trabalho,
“aí se incluindo a ação de anulação do acordo ou convenção” (STJ, 2-
Seção, CC 16.106, rei. Min. Menezes Direito, j. 14-8-1996), bem como
para conhecer das ações relativas à contribuição confederativa fixada por
meio de Assembleia Geral, “interpretando-se abrangentemente o art. I2
da Lei n. 8.984/95” (STJ, 2a Seção, CC 17.843, rei. Min. Cesar Rocha,
j. 12-3-1997).
Em decisão no CC 27.615, o rei. Min. Waldemar Zveiter faz remissão
a precedentes da 2- Seção, inclusive ao CC 21.727, de relatoria do Min.
Menezes Direito, segundo o qual o art. I2 da Lei n. 8.984/95 aplica-se
“também às demandas entre trabalhadores e sindicatos pertinentes ao
cumprimento de acordo ou convenção coletiva de trabalho, assim compe­
tente, em tais casos, a Justiça obreira” (dec. de 2-2-2000).
Não obstante, era considerada competente a Justiça estadual para
processar ação de consignação da contribuição sindical instituída pela
CLT, “já que não diz respeito à relação de emprego” (Ia Seção, CC 14.053,
rei. Min. Cesar Rocha, ac. de 26-9-1995). Também assim relativamente à
contribuição sindical rural patronal, por instituída em lei (CC 25.860, rei.
Min. Nilson Naves, j. 16-8-1999).
Assim, o STJ adotou o entendimento de que competia à Justiça comum
o julgamento de ações relativas a contribuições sindicais criadas por lei,
enquanto cabia à Justiça especializada apreciar as causas alusivas ao cum­
primento de cláusulas de acordo ou convenção coletiva de trabalho em
observância ao art. I2 da Lei n. 8.984/95 (CC 31.892, rei. Min. Nancy
Andrighi, dec. de 26-10-2001), inclusive sendo demandante sindicato
patronal (CC 21.840, rei. Min. Barros Monteiro; CC 32.598, rei. Min.
Menezes Direito, dec. de 11-10-2001).
A respeito, o STJ veio a adotar o Enunciado n. 222 de sua Súmula,
verbis:
“Compete à Justiça comum processar e julgar as ações relati­
vas à contribuição sindical prevista no art. 578 da CLT” (2- Seção,
em 23-6-1999).
Cumpre, já agora, aditar que, com a edição da EC n. 45, de 8-12-2004,
provavelmente a jurisprudência inclinar-se-á pela ampliação da competên­
cia da Justiça do Trabalho a todas as contribuições sindicais ou assisten-
ciais, quer instituídas em lei, quer criadas em acordo ou convenção cole-

259
tiva de trabalho5. Aliás, assim veio a decidir o STJ, l~ Seção, em ação de
consignação em pagamento proposta por empregador contra diversos
Sindicatos, relativamente a contribuição sindical (CC 47.466, rei. Min.
Castro Meira, ac. 8-6-2005).

113.2. Servidores públicos celetistas


Muitas dúvidas de competência surgiram, mesmo antes da EC n.
45/2004, relativamente a demandas propostas por servidores públicos
celetistas, convertidos em estatutários pela lei do regime único — Lei n.
8.112/90.
Prevaleceu o entendimento de que, mesmo em sendo a ação propos-
ta após a edição da aludida lei, “se o pedido se refere a verbas oriundas de “
contrato de trabalho, havidas em data anterior ao citado diploma, a com-
petência é da Justiça laborai” (STJ, 3â Seção, CC 14.071, rei. Min. Cid
Flaquer Scartezzini, ac. de 26-9-1995).
De conformidade com tal orientação, editou o STJ a Súmula 97,
verbis:
“Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar reclamação
de servidor público relativamente a vantagens trabalhistas anterio­
res à instituição do regime jurídico único” (3â Seção, em 3-3-1994).
Também é da Justiça laborai a competência para julgar demandas
propostas por servidores em ofícios judiciais não estatizados, pleiteando
vantagens ligadas ao exercício de seu trabalho. Assim decidiu o STJ, 2~
Seção, no CC 22.426-SP, sendo rei. o Min. Nilson Naves, ac. de 9-9-1998,
sob a ementa: “Serventias não oficializadas. Servidores. Vínculo trabalhis­
ta. Reclamação. Em tal caso, a competência é da Justiça do Trabalho, à
vista de precedentes do STJ: CCs 3.156 e 3.383, dentre outros”. Era réu o
1 l e Cartório de Registro de Imóveis de São Paulo, suscitante o juízo da
13â Vara Cível daquela Capital e suscitado o Tribunal Regional do Traba­
lho da 2~ Região, tendo sido julgado competente o suscitado.

5. Já antes da EC n. 45/2004 foi decidido, no STJ, que se sindicato patronal


cobra contribuições assistenciais (alegadamente) devidas por empregados supostamen­
te integrantes de sua categoria econômica, cuida-se de ação de cumprimento de con­
venção coletiva (Lei n. 8.984/95), sendo assim competente a Justiça do Trabalho (CC
43.360, rei. Min. César Rocha, dec. de 11-6-2004).

260
Todavia, será a Justiça Federal a competente se a demanda versar
questão relativa ao FGTS (CC 21.189,3â Seção, rei. Min. Anselmo Santiago).
Nos casos de estágio profissional, entendeu a 2- Seção que, por lei,
o estágio não cria vínculo empregatício ou mesmo relação de trabalho
entre o estagiário e a empresa, capaz de justificar a competência da justiça
obreira (art. 4e da Lei n. 6.494/77 e art. 62 do Dec. n. 87.497/82), restando
competente a Justiça comum estadual (CC 29.637, p. m. v., rei. orig. Min.
Ari Pargendler, rei para o acórdão Min. Menezes Direito, j. 25-6-2003,
Informativo do STJ, n. 178, jun. 2003).
Todavia, com a edição da EC n. 45, de 8-12-2004, a competência
para julgar as demandas relativas a contrato de estágio profissional terá
sido transferida à Justiça laborai.
Muitos Municípios vieram a adotar, nas relações com seus servidores,
a legislação trabalhista. Nestes casos, o vínculo entre os “empregados” e
o Município mantém caráter estatutário, atraindo a competência da Justi­
ça comum, ou prevalecerá a competência da Justiça laborai?
O STJ, por sua 3a Seção, inclinou-se decisivamente pela competência
da Justiça do Trabalho: “Instituído pelo Município como regime jurídico
dos seus servidores o estabelecido pela Consolidação das Leis do Trabalho,
fica evidente a competência da Justiça especializada para processar e jul­
gar a reclamação” (CC 15.795, rei. Min. Anselmo Santiago).
Tendo o Município de Santa Cruz do Sul-RS, pela Lei Municipal n.
2.447/92, adotado a CLT como regime jurídico único dos seus servidores
da Administração Direta, sucederam-se as decisões pela competência de
Vara do Trabalho daquele município — CC 34.105, rei. Min. Paulo Gallot-
ti, dec. de 5-2-2002; CC 34.892, rei. Min. Felix Fischer, dec. de 17-5-2002;
CC 38.232, rei. Min. Laurita Vaz, dec. de 3-4-2003.
Entretanto, cuidando-se de servidor contratado para a prestação de
serviço público por tempo determinado, no intuito de atender a necessida­
des temporárias e excepcionais da pessoa de direito público, o STJ vinha
decidindo pela competência da Justiça Federal ou Estadual (v. g., CC
33.569, rei. Min. Paulo Gallotti, dec. de 21-5-2002 — reclamatória ajui­
zada contra a Fundação Nacional de Saúde; CC 38.067, rei. Min. Paulo
Medina, dec. de 15-4-2003)5'A.

5-A. Tratando-se de funcionário municipal, sob contratação temporária emer-


gencial, julgou a 3ã Seção do STJ que, se tal contratação, pelas prorrogações, adquiriu

261
Com a edição da EC n. 45, de 8-12-2004, a competência para julgar
as demandas relativas a contratos de trabalho por tempo determinado e em
caráter excepcional, avençados com pessoa de direito público, terá sido
transferida à Justiça laborai.
Cumpre à Justiça comum conhecer ação visando a complementação
da aposentadoria, conforme previsto em estatuto de fundação instituída
pelo empregador com o propósito de realizar tal prestação (CC 22.773,
rei. Min. Costa Leite; CC 33.507, rei. Min. Nancy Andrighi, dec. de
20-5-2002).
Compete à Justiça do Trabalho, no entanto, conhecer e julgar as *
causas cuja inicial expõe lide de natureza trabalhista, demarcada pela
causa petendi e pelo pedido, figurando como ré sociedade de economia$
mista (CC 16.592, rei. Min. Sálvio de Figueiredo; CC 31.969, rei. Min.
Nancy Andrighi, dec. de 30-4-2002).

113.3. Lides envolvendo questões de direito civil. Ações por da­


nos morais
Como sublinhamos em edições anteriores, notava-se manifesta ten­
dência, quer pela via legislativa, quer no campo jurisprudencial, no senti­
do de “alargar” a competência da Justiça do Trabalho6.
O Pretório Excelso, outrossim, de certa forma já vinha ampliando a
competência da Justiça do Trabalho, ao afirmar competente o TRT da 10a
Região para julgar lide envolvendo questões de direito civil (promessa
feita pelo Banco do Brasil de vender apartamentos a seus servidores que
aceitassem transferir-se para Brasília), por considerá-la vinculada ao con­
trato de trabalho (CC 6.959, rei. Min. Sepúlveda Pertence, plenário, p. m.
v., ac. de 23-5-1990, RTJ, 134: 96).

cunho de permanência, o regime especial estará desnaturado, devendo-se portanto


considerar o vínculo como de natureza trabalhista comum; assim, eventuais litígios
serão resolvidos pela Justiça trabalhista (CC 89.910, 3â Seção, rei. Min. Napoleão
Maia Filho, j. 13-8-2008).
6. Assim, v. g., em execução trabalhista, levado um imóvel a hasta pública, uma
terceira pessoa, atingida pela imissão de posse em favor do arrematante, pretendeu
defender seus interesses através de ação de interdito proibitório ajuizada perante a
Justiça comum. Suscitado conflito de competência, a 2- Seção do STJ, com apenas um
voto discordante, considerou competente a Justiça obreira para o julgamento também
da demanda possessória (CC 17.866, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., ac. de 10-11-1999).

262
Da mesma maneira entendeu competente a Justiça laborai para o
julgamento de ação de indenização por danos morais e materiais, movida
por empregado contra seu empregador, fundada em fatos decorrentes da
relação de emprego, nada importando que o dissídio deva ser apreciado
com base em normas do direito civil; reformou, então, julgado do STJ que
assentara a competência da Justiça comum para a ação de reparação pro­
posta por ex-empregado dispensado sob a acusação de apropriação indé­
bita (RE 238.737, rei. Min. Sepúlveda Pertence, ac. de 17-11-1998, Infor­
mativo do STF, n. 132).
Esse entendimento o Pretório Excelso vem mantendo, como decorre
do julgamento do RE 249.740, j. 17-8-1999, rei. Min. Sepúlveda Pertence,
Informativo do STF, n. 158; RE 438.026, rei. Min. Ellen Gracie, dec. de
20-4-2005.
O Superior Tribunal de Justiça, por sua 2â Seção, inclinou-se à orien­
tação do Supremo Tribunal Federal e, assim, passou a julgar competente
a Justiça laborai para processar e julgar ação de responsabilidade civil
proposta por trabalhador contra o ex-empregador em decorrência de danos
morais e/ou materiais ocasionados durante a relação de emprego, nada
importando que o dissídio deva ser resolvido com base nas normas do
direito civil (CC 22.840, rei. Min. Menezes Direito; CC 26.852, rei Min.
Fontes de Alencar, j. 12-4-2000, Informativo do STJ, n. 54; CC 36.382,
rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. de 28-11-2002; CC 38.307, rei. Min. Mene­
zes Direito, dec. de 27-3-2003).
Como consta da ementa lançada no CC 30.149, é “competente a
Justiça do Trabalho para processar e julgar ação de indenização por danos
morais promovida por ex-empregado contra seu empregador que teria
praticado, por ocasião da resolução e contrato e por muitos meses depois,
atos lesivos à sua honra. Embora grande parte das ações consideradas
ofensivas tenham sido cometidas depois da despedida, não se pode deixar
de vincular tal comportamento ao contrato do trabalho. Conflito conheci­
do e declarada a competência da Vara do Trabalho” (2â Seção, rei. Min.
Ruy Rosado de Aguiar, ac. de 25-4-2001).
No mesmo rumo o recente aresto no CC 34.213, segundo o qual
compete à Justiça do Trabalho “o julgamento de ação de indenização por
danos morais proposta por ex-empregado contra empregador quando o
fato ocorreu durante a vigência do contrato de trabalho” (2- Seção, ac. de
24-4-2002, rei. Min. Pádua Ribeiro).

263
Em se cuidando de danos materiais e morais decorrentes de fato
caracterizado como acidente do trabalho, consideravam os tribunais, in­
clusive o STJ e o STF, que competente seria a Justiça comum (REsp
234.383, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., ac. de 15-2-2000; CC 30.121, rei.
Min. Menezes Direito, dec. de 31-8-2000; CC 37.253, rei. Min. Pádua
Ribeiro, dec. de 18-2-2003)7.
Aliás, já sob a vigência da EC n. 45 (publicada em 8-12-2004), o
Supremo Tribunal Federal de início afirmou, p. m. v., que as ações de in­
denização por dano moral ou material decorrente de acidente do trabalho
mantinham-se na competência da. Justiça Estadual (RE 438.639, Plenário,
re i desig. Min. Cezar Peluso, ac. 9-3-2005).
Todavia, posteriormente, quando do julgamento do CC 7.204, sendo
relator o Min. Carlos Britto, o Plenário passou ao unânime entendimento
de que apenas as ações de acidentes de trabalho propriamente ditas, ajui­
zadas contra o INSS, permanecem com a Justiça Estadual, tendo as de­
mandas por danos materiais e morais decorrentes do acidente e promovi­
das contra o empregador passado à competência da Justiça laborai (j.
29-6-2005). V., nesta obra, o verbete n. 92.
Tratando-se de doença profissional, ou de doença do trabalho, in­
clusive havendo pedido de danos morais, a jurisprudência da 2â Seção do
STJ era pela competência da Justiça comum, com o beneplácito inclusive
do STF (RE 349.160, rei. Min. Sepúlveda Pertence, j. 11-2-2003; RE
438.639, rei. Min. Cezar Peluso, j. 9-3-2005).
Todavia, com a posterior mudança de orientação da Corte Suprema
(conforme o já mencionado CC 7.204, rei. Min. Carlos Britto, j. 29-6-2005),

7. Igualmente nos casos de trabalhos executados em condições insalubres:


“A ação de indenização por danos materiais e morais decorrentes de execução de
serviço em condições insalubres adquiridas durante a execução de atividade traba­
lhista, fundada na responsabilidade civil da empresa ré, deve ser processada e jul­
gada na Justiça Comum Estadual” (CC 33.317, rei. Min. Nancy Andrighi, dec. de
29-10-2001).
Esta competência da Justiça comum não se altera ainda que seja empregado­
ra uma empresa pública federal (CC 30.753, Min. Nancy Andrighi, dec. de 24-1-
2001, DJU, 16 fev. 2001, p. 251). A culpa do empregador pode decorrer do não
oferecimento de condições adequadas de trabalho, resultando doença profissional
causadora do óbito do empregado (CC 31.518, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., dec.
de 22-3-2001).

264
o próprio Superior Tribunal de Justiça veio a reformular seu entendimen­
to, com o cancelamento da Súmula 366, a fim de acompanhar a atual ju­
risprudência do STF (CC 101.977, rei. Min. Teori Zavascki, j. 16-9-2009).
Foi considerada competente a Justiça Estadual quando a ação de
indenização por danos morais (acusação de furto, motivadora da demissão
do trabalhador) haja sido ajuizada não contra a empresa empregadora, mas
sim contra seu representante legal, como pessoa física, por não se cuidar,
então, de “litígio entre empregador e empregado” (CC 26.755, 2â Seção,
j. 27-9-1999, rei. Min. Eduardo Ribeiro)8e9.
Nos casos, no entanto, de demanda indenizatória por ato ilícito con­
substanciado em imputação caluniosa ao ex-empregado, competente é a
Justiça do Trabalho (STJ, 2~ Seção, CC 26.899, rei. Min. Aldir Passarinho
Jr., ac. de 10-11-1999; CC 30.413, rei. Min. Barros Monteiro, dec. de 13-
10-2000, DJU, 8 nov. 2000, p. 325); surgindo o litígio em razão da relação
de emprego, “não importando que a causa deva ser resolvida com base em
normas de Direito Civil, a competência é da Justiça laborai” (CC 30.619,
dec. de 13-1 l-2000)10el0'A.

8. Foi considerada, no CC 32.383, competente a Justiça Estadual, e não a Justi­


ça laborai, em caso de ação indenizatória por dano moral, ajuizada por ex-empregado
contra médico contratado pela empresa, que, em avaliação médica ocupacional, decla­
rou-o alcoólatra, com o que resultou despedido, assim sendo decidido sob o fundamen­
to maior de que o réu seria “pessoa estranha à relação de emprego” (rei. Min. Cesar
Rocha, dec. de 17-9-2001). Vale ponderar, no entanto, que a demanda poderia ter sido
promovida contra a empresa, para quem o médico atuava como longa manus, no exer­
cício de atividade-meio, hipótese em que prevaleceria a competência da Justiça do
Trabalho.
9. No CC 30.976, sendo suscitante uma Vara do Trabalho e suscitado Juizado
Especial Cível, o Min. Pádua Ribeiro declarou ambos os juízos como incompetentes
e deu por competente um terceiro juízo, o da Justiça comum, por se cuidar de deman­
da indenizatória resultante de acidente do trabalho (dec. de 21-3-2001).
10. O STJ, por sua 2a Seção, tem decidido ser de competência da Justiça esta­
dual o julgamento das ações por danos morais, em razão do uso indevido de imagem,
promovidas por ex-empregado contra o antigo empregador, sob o entendimento de que
não haverá, em tais casos, vinculação com o contrato de trabalho (CC 29.075,2- Seção,
rei. desig. Min. Menezes Direito, DJU, 9 out. 2000; CC 29.071, rei. Min. Pádua Ri­
beiro; CC 49.497, rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. 13-6-2005). Rogando vênia, nosso
entendimento é no sentido de que exsurge nítida, em tais casos, a vinculação com o
contrato de trabalho (abrangência no tempo, deveres do empregado etc.) e, portanto,
máxime após a EC n. 45/2004, a competência será da Justiça especializada.
lô-A. Todavia, a mesma 2- Seção afirmou que a ação indenizatória por danos
morais, promovida por ex-empregado contra o ex-patrão, será de competência da
Justiça estadual, pois as ofensas à honra foram irrogadas quando da cobrança das

265
Tratando-se de lide vinculada a contrato de representação comercial,
regido pela Lei n. 4.886/65 (v. o verbete n. 100-A), a competência mantém-
-se na Justiça comum, não na Justiça do Trabalho (CC. 48.592, rei. Min.
Cesar Rocha, j. 18-5-2005 — caso de pretensão indenizatória por rescisão
de contrato). Assim também os honorários cobrados por corretor de imó­
veis que atua de forma autônoma, sem relação de subordinação (v. o ver­
bete n. 100-A, infine).

113.4. Contribuições sociais e execução de ofício


Além do exposto, a competência da Justiça do Trabalho foi também *
aumentada através da Emenda Constitucional n. 20 {DOU, 16 dez. 1998),
que ao art. 114 da Lei Maior aditou um § 3-, com a seguinte redação: #
“Art. 114....................................................................................
§ 3S Compete ainda à Justiça do Trabalho executar,; de ofício,
as contribuições sociais previstas no art. 195, I, ‘a ’, e II, e seus
acréscimos legais, decorrentes das sentenças que proferir ”
Com a EC n. 45/2004, esta execução de ofício passou a ser prevista,
nos mesmos termos, no art. 114, VIII.
Cuida-se de norma de eficácia plena, que retirou parcela de compe­
tência da Justiça Federal, para atribuir à Justiça do Trabalho a competência
para processar, nos mesmos autos da demanda laborai, a execução do
crédito em favor do INSS reconhecido na sentença condenatória do em­
pregador. Em edição anterior, havíamos escrito que o juiz de ofício inicia­
ria tal execução, como notável exceção ao princípio de que o Judiciário só
atua por provocação da parte; referimos, outrossim, que a autarquia
previdenciária permaneceria “com legitimidade para intervir, querendo,
na execução processada no juízo trabalhista, assumindo, com legítimo
interesse, a posição de exequente”.
Melhor reflexão, fundada em interessantes análises de Alexandre
Nery de Oliveira e de Salvador Laurino (publicadas na Revista da AMA-
TRA II, out. 1999, p. 19-23 e 12-8), leva-nos a modificar em parte tal
entendimento. Nos mesmos autos — naturalmente quando procedente a

verbas rescisórias, já findo o contrato de trabalho (STJ, CC 95.325,2a Seção, rei. Min.
Fernando Gonçalves, j. 13-8-2008). Como vemos, a matéria continua polêmica, de­
pendente das circunstâncias de cada caso concreto.

266
demanda —, teremos três processos: o processo de conhecimento, de na­
tureza trabalhista; a execução promovida pelo reclamante vitorioso contra
seu empregador e, finalmente, por força da alteração constitucional (e
certamente que em autos apensos), o processo de execução do crédito
previdenciário, em que no polo ativo da relação de direito material figura
o INSS, e no polo passivo o devedor da contribuição social.
Ora, em sendo essa execução fiscal incoada diretamente pelo juízo
trabalhista, com intervenção da autarquia apenas em caráter voluntário
(como escrevi anteriormente), por certo que o INSS poderia argumentar
que não anuíra ao quantum determinado na sentença; destarte, ser-lhe-ia
lícito executar eventuais diferenças que entendesse devidas. Por esse
motivo, foi preconizado que a expressão “de ofício” significaria, tão
somente, a obrigação de o juízo trabalhista “chamar à lide executiva o
INSS para assumir a posição devida na execução previdenciária, como
exequente”.
Parece-nos, todavia, que à “novidade” constitucional cumpre reco­
nhecer amplitude maior do que simplesmente a de atribuir à Justiça do
Trabalho competência, nesses casos, para a execução parafiscal. A execu­
ção de ofício das contribuições sociais, com arrimo ao título sentenciai,
deve ser compatibilizada com a necessidade de permitir ao INSS, até então
alheio à relação de direito processual, suscitar eventual desconformidade
com o montante do crédito parafiscal reconhecido no juízo laborai.
Assim, o juízo trabalhista determinará, de imediato, a prática dos atos
executivos (penhora, conhecimento de embargos do executado, hastas
públicas etc.) e, no mesmo passo, mandará notificar o INSS a fim de que,
querendo, compareça ao processo, nele então assumindo a posição de
exequente. Caso, notificado, não compareça, a execução ex officio prosse­
guirá normalmente. De qualquer forma, a cobrança de eventuais diferenças
será feita, mesmo posteriormente, no processo trabalhista.
A orientação acima exposta veio a ser adotada pela lâ Seção do STJ
no Conflito de Atribuições 80-SC, l~ Seção, j. 6-12-1999, rei. Min. Eliana
Calmon e, igualmente, no CA 84, j. 17-2-2000, rei. o Min. José Delgado,
sendo julgado que a EC n. 2/98 “legitimou a sentença trabalhista como
título executivo judicial, para fins de certificação de débitos previdenciários,
dispensando-se, desta forma, a certidão de dívida ativa para dar-se início
à execução”.

267
Assim, a então l â JCJ de Criciúma foi declarada competente para
processar e julgar a execução, e agira corretamente ao solicitar ao INSS
“que cumpra a sua tarefa de informar os valores devidos para o início da
execução”.
Todavia, cumpre sublinhar que a competência da Justiça laborai li­
mita-se à execução das contribuições sociais decorrentes das sentenças
proferidas no juízo trabalhista, e previstas na CF, art. 195,1, a, e II, não
prejudicando a competência da Justiça Federal para a cobrança das aludi­
das contribuições quando não decorrentes diretamente de sentença da
Justiça do Trabalho (STJ, lâ Seção, CC 56.593, rei. Min. Eliana Calmon, >
j. 27-9-2006).
•¥

113.5. Justiça do Trabalho e meio ambiente laborai


A Justiça do Trabalho tem sido reconhecida competente, outrossim,
para conhecer e julgar as demandas relativas ao ambiente, às condições
materiais em que se desenvolve a atividade laborai, inclusive em ações de
natureza coletiva propostas pelo Ministério Público do Trabalho.
O Superior Tribunal de Justiça, ao dirimir conflito de competência
entre (antiga) JCJ e Vara da Fazenda Pública, decidiu que a questão liti-
giosa, alusiva às condições do trabalho, estaria abrangida no conceito de
“acidente do trabalho”, pois visava preveni~Ios, devendo portanto ser jul­
gada pela Justiça comum. Na causa eram alegadas precárias condições de
trabalho na rede bancária de Juiz de Fora-MG.
Interposto recurso extraordinário, o Supremo Tribunal Federal refor­
mou tal aresto, julgando competente a Justiça especializada, nos seguintes
termos:
“Competência. Ação Pública.
Condições de Trabalho. Tendo a ação civil pública como causa
de pedir disposições trabalhistas e pedidos voltados à preservação
do meio ambiente do trabalho es portanto, aos interesses dos empre­
gados, a competência para julgá-la é da Justiça do Trabalho” (RE
206.220-1, rei Min. Marco Aurélio, 2- Turma, j. 16-3-1999).
V., nesta obra, o verbete n. 111.3.
Daí a edição pelo Pretório Excelso, em 2003, do enunciado n. 736
de sua Súmula, com o teor seguinte:

268
“Compete à Justiça do Trabalho julgar as ações que tenham
como causa de pedir o descumprimento de normas trabalhistas re­
lativas à segurança, higiene e saúde dos trabalhadores”.

113.6. Justiça do Trabalho e trabalhadores portuários


Tendo em vista a nova organização dos serviços portuários, e consi­
derando a inexistência de relação de emprego entre o trabalhador e o Órgão
Gestor de Mão de Obra (OGMO), a 2â Seção do STJ havia atribuído à
Justiça Estadual a competência para apreciar os direitos pelos portuários
reclamados contra o aludido órgão gestor, orientação esta que deu origem
à antiga Súmula 230, do seguinte teor:
“Compete à Justiça estadual processar e julgar ação movida
por trabalhador avulso portuário, em que se impugna ato do órgão
gestor de mão de obra de que resulte óbice ao exercício de sua pro­
fissão ”.
A situação jurídica, todavia, resultou alterada com a vigência da
Medida Provisória n. 1.952, de 10-12-1999, sucessivamente reeditada, pela
qual os arts. 643, § 3e, e 652, V, da CLT, adotaram a seguinte redação:
“Art. 643.....................................................................................
§ 3üA Justiça do Trabalho é competente, ainda, para processar
e julgar as ações entre trabalhadores portuários e os operadores
portuários ou o Órgão Gestor de Mão de Obra — OGMO decorren­
tes da relação de trabalho.

Art. 652.......................................................................................
a ) ................................................................................................
V — as ações entre trabalhadores portuários e os operadores
portuários ou o Órgão Gestor de Mão de Obra — OGMO decorren­
tes da relação de trabalho
Em conseqüência, resolveu a 2~ Seção, por deliberação tomada aos
11-10-2000, cancelar a Súmula 230.
Nos CC 30.500 e 30.540 foi sublinhado que “todas as ações propos­
tas contra o Órgão Gestor de Mão de Obra decorrentes da relação de tra-

269
balho devem ser processadas e julgadas pela Justiça do Trabalho — enten­
dendo-se que os litígios sobre a relação de trabalho abrangem tanto as
ações que visam o acesso ao trabalho quanto as que pretendem, simples­
mente, a respectiva remuneração” (CC 30.516, rei. Min. Nancy Andrighi,
dec. de 6-12-2000; CC 32.811, rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. de 9-10-2001;
CC 35.126, rei. Min. Nancy Andrighi, dec. de 26-6-2002).
A 2- Seção do STJ, julgando o CC 34.825, reiterou a competência da
Justiça especializada para “apreciar e julgar as ações propostas por traba­
lhadores avulsos do Porto com o intuito de obter verbas trabalhistas em
face do Órgão Gestor da Mão de Obra Portuária, de acordo com a alteração 5
do art. 643 da CLT, trazida pela Medida Provisória n. 1.952/2000” (rei
Min. Castro Filho, ac. de 12-6-2002, na íntegra em RSTJ, 162:221). ç
Esta competência da Justiça obreira “não se modifica diante da cita­
ção da União Federal ou de sua pretensão de figurar na lide como assis­
tente simples. Arts. 109,1, e 114 da Constituição Federal” (CC 28.700, rei
Min. Barros Monteiro, ac. de 23-8-2000).

113.7. Justiça do Trabalho e falência da empresa reclamada


Conforme o art. 76 da nova Lei de Falências — Lei n. 11.101, de
9-2-2005 (norma esta que segue, em linhas gerais, os rumos do art. 7a da
antiga Lei de Falências — Dec.-lei n. 7.661/45), o juízo da falência “é
indivisível e competente para conhecer todas as ações sobre bens, interes­
ses e negócios do falido, ressalvadas as causas trabalhistas, fiscais e aque­
las não reguladas nesta Lei em que o falido figurar como autor ou litis-
consorte ativo”.
Nos termos do art. 6~, “a decretação da falência ou o deferimento do
processamento da recuperação judicial suspende o curso da prescrição e
de todas as ações e execuções em face do devedor, inclusive aquelas dos
credores particulares do sócio solidário”.
Como vemos, a universalidade do juízo falencial encontra limitações,
inclusive no alusivo às execuções fiscais, permanecendo destarte aplicável
a Súmula 44 do antigo Tribunal Federal de Recursos — v., nesta obra, o
verbete n. 98-A.
O mesmo princípio prevalece relativamente às reclamatórias traba­
lhistas, as quais prosseguirão na Justiça do Trabalho enquanto na fase de
conhecimento; todavia, os atos de execução de seus julgados iniciar-se-ão

270
ou terão prosseguimento no juízo falimentar, mesmo se efetuada a penho­
ra. Caso já tenha sido aprazada data para a arrematação no juízo trabalhis­
ta, a praça será nesse juízo realizada, mas o produto será entregue à massa,
a fim de processar-se o concurso entre os credores (CC 10.014, 2â Seção,
■rei. Min. Ruy Rosado de Aguiar; CC 24.034, 2â Seção, rei. Min. Barros
Monteiro; CC 30.823, rei. Min. Nancy Andrighi, dec. de 10-5-2001).
A nova lei falencial é expressa no sentido de que “as ações de natu­
reza trabalhista, inclusive as impugnações a que se refere o art. 8S da Lei,
serão processadas perante a Justiça especializada até a apuração do res­
pectivo crédito, que será inscrito no quadro geral de credores pelo valor
determinado em sentença” (art. 6Q, § 2e).
Assim, decretada a quebra da empresa reclamada, a execução traba­
lhista já não pode prosseguir no juízo trabalhista,“ ainda que a penhora
tenha sido feita anteriormente, salvo se já aprazada a praça; realizada a
praça no juízo trabalhista, a totalidade do preço deve ser transferida ao
juízo falimentar” (CC 19.468, 2- Seção, rei. Min. Ari Pargendler); mas as
execuções promovidas “contra uma terceira empresa, criada em decorrên­
cia de cisão parcial da falida, permanecem em trâmite perante a Justiça
especializada” (CC 22.093, 2â Seção, rei. Min. Barros Monteiro).
Num dos muitos processos decorrentes da falência da empresa Encol
S.A., o TRT da 17â Região deu pela competência da Justiça laborai para
processar a execução dos créditos trabalhistas “até seus trâmites finais”,
invocando seu “caráter superprivilegiado (CTN, art. 186) que os exime da
sujeição a qualquer forma de rateio”. Suscitado conflito pela massa, o
relator Min. Castro Filho, com invocação à jurisprudência remansosa do
STJ, entendeu que as reclamatórias trabalhistas prosseguem perante o
juízo especializado, mas os atos de execução dos seus julgados iniciar-se-
ão ou terão seguimento no juízo falimentar, ainda que já efetivada a pe­
nhora (dec. de 13-11-2001).
Uma vez decretada a falência, a execução do crédito trabalhista deve
ser processada perante o juízo falimentar. Assim, julgando conflito entre
o TST e o juiz de direito estadual, o Supremo Tribunal Federal declarou
competente o juízo falencial para arrecadar os bens da massa falida que
haviam sido penhorados pela Justiça do Trabalho em execução trabalhis­
ta (CC 7.116, rei. Min. Ellen Gracie, j. 7-8-2002).
No mesmo diapasão, em caso de liquidação de sociedade coopera­
tiva, entendeu o STJ pela competência do juízo da insolvência civil para

271
processar a execução trabalhista, sendo necessária a habilitação no juízo
universal (CC 33.287, rei. Min. Ruy Rosado, dec. de 16-10-2001; CC
28.996, rei. Min. Nancy Andrighi).
Em suma, sobrevindo falência, “a execução trabalhista já não pode
prosseguir, ainda que haja penhora anteriormente realizada, salvo se já
aprazada a praça ou arrematados os bens, ao tempo de sua declaração,
sob pena de romperem-se os princípios da indivisibilidade e da universa­
lidade do juízo da falência, com manifesto prejuízo para os credores” (CC
27.785,2- Seção, v. u., rei. Min. Nancy Andrighi, ac. de 27-9-2000, RSTJ,
139:191). No julgamento do CC 33.877, ficou mais uma vez explicitado
que, caso os bens já se encontrem em praça, com dia fixado nos editais,
far-se-á a alienação judicial perante o juízo trabalhista, revertendo o pro­
duto para a massa; e, se negativas as praças, caberá à Justiça do Trabalho
decidir sobre pedido de adjudicação do imóvel praceado, requerido pelo
credor antes da decretação da quebra (2â Seção, rei. Min. Nancy Andrighi,
ac. de 24-4-2002).
A orientação continua vigente, no sentido de que “são de compe­
tência do juízo falencial todas as questões sobre o patrimônio da socie­
dade empresarial em recuperação, tais como a extensão de seus efeitos
e a responsabilidade dos sócios. Ao juízo trabalhista incumbe decidir
apenas a matéria atinente à relação laborai, ficando com o juízo da re­
cuperação todas as controvérsias alusivas ao pagamento do respectivo
crédito. Precedentes” (CC 68.173,2â Seção, rei. Min. Luís Felipe Salomão,
j. 26-11-2008).
Votando na Recl. 1.066, perante a 2~ Seção do STJ (ac. de 13-11-2002,
na íntegra em RSTJ, 165:212), o relator Min. Cesar Rocha assim sintetizou
as várias questões:
a) compete à Justiça laborai resolver as questões relativas à existência
dos créditos trabalhistas (CF, art. 114);
b) exaurida a cognição, os créditos trabalhistas sujeitar-se-ão a con­
curso, no juízo falimentar (CC 100, rei. Min. Eduardo Ribeiro);
c) decretada a falência, os bens arrecadados não poderão ser penho­
rados no juízo trabalhista (CC 563, rei. Min. Nilson Naves);
d) mesmo que a penhora seja anterior à decretação da falência, no
juízo desta proceder-se-á à alienação dos bens penhorados, em decorrência
do concurso universal (CC 6.729, rei. Min. Torreão Braz);

272
e) se, quando decretada a falência, já estiver aprazada data para
a hasta pública no juízo trabalhista, a alienação será realizada no juízo
trabalhista, mas o produto será entregue à massa, a fim de processar-se
o concurso entre os credores trabalhistas (CC 10.014, rei. Min. Ruy
. Rosado);
f) se, após decretada a falência, o Juiz do Trabalho fixar data para
a hasta pública, ela deve ser sustada e outra designada pelo juízo falimen­
tar, que ficará com o produto da alienação, para o devido rateio e paga­
mento (CC 19.929, rei. Min. Cesar Rocha);
g) havendo no juízo laborai adjudicação em data posterior à decre­
tação da falência, tal ato será desfeito em virtude da competência universal
do juízo falimentar (CC 26.918, rei. Min. Aldir Passarinho Jr.);
h) decretada a quebra, a execução não pode prosseguir no juízo tra­
balhista, devendo o crédito ser habilitado no juízo falimentar;
i) decretada a quebra, também a questão relativa à liberação do de­
pósito recursal passa à competência do juízo falimentar.

113.8. M andado de segurança na Justiça do Trabalho


Pela EC n. 45, de 8-12-2004, ficou expresso que à Justiça do Traba­
lho cabe o julgamento dos “mandados de segurança, habeas corpus e
habeas data, quando o ato questionado envolver matéria sujeita à sua
jurisdição” (CF, art. 114, IV).
Não é novidade a apreciação de mandados de segurança no âmbito
da Justiça laborai, aliás nos exatos termos da LOMAN (LC n. 35/79), art.
21, VI, pelo qual compete originariamente aos tribunais o julgamento dos
“mandados de segurança contra seus atos, os dos respectivos Presidentes
e os de suas Câmaras, Turmas ou S e ç õ e s Limitavam-se, todavia, os
mandados de segurança à impugnação de atos administrativos (excepcio­
nalmente, também atos jurisdicionais) praticados por magistrado traba­
lhista, sendo ajuizados nos Tribunais Regionais do Trabalho os writs im­
petrados contra atos de Juiz do Trabalho ou do próprio TRT, e no TST os
impetrados contra atos do próprio tribunal.
A novidade, advinda com a alteração constitucional, está em atribuir
à Justiça do Trabalho também a competência para o julgamento de man­
dados de segurança contra atos praticados por autoridades administrativas.
Normalmente, em tema de mandado de segurança, a competência é defi­
nida tendo-se em vista apenas a função e cargo da autoridade apontada

273
como coatora; mas já agora tornou-se relevante, no âmbito da Justiça la­
borai, considerar o pedido e a causa de pedir — se forem vinculados a
relações de trabalho, o mandamus deverá ser apreciado pela Justiça espe­
cializada, e não mais pela Justiça comum estadual ou federal. Assim, v. g.,
diante de atos (supostamente) ilegais praticados por agente dò Ministério
do Trabalho no exercício de função de fiscalização em empresa, o manda­
do será de competência de Juiz do Trabalho11.
Dúvidas podem surgir quando o ato tenha sido cometido por autori­
dade sujeita originariamente à competência de tribunal
Impende ponderar que o sistema constitucional, após a Emenda n. -k
45/2004, passou a conviver com dois critérios diferentes para a fixação da
competência para o julgamento dos mandados de segurança: basicamente, ^
prevalecem a categoria e as funções exercidas pela autoridade dita coato­
ra; todavia, cumprirá igualmente considerar o critério vinculado à preten­
são, caso esta envolva lide decorrente de relação de trabalho. No caso, v.g.,
de um Ministro de Estado demitir um “empregado” público, o writ será de
competência do Superior Tribunal de Justiça, porque cometido por auto­
ridade com prerrogativa de função (CF, art. 105,1, b), ou de competência
da Justiça do Trabalho (TST ? Juízo do Trabalho em Brasília?) por versar
matéria em princípio afeta ao foro laborai? E se a demissão houver sido
subscrita pelo Governador do Estado, competente será o Tribunal de Jus­
tiça ou órgão da Justiça do Trabalho?
Tudo indica, adverte Leonardo José Carneiro da Cunha, em didáti-
ca e minudente exposição, que a competência pela categoria da autori­
dade coatora, expressamente afirmada na Constituição Federal, deva
prevalecer sobre a competência em razão da matéria. Em suma, a com­
petência em razão da matéria é “residual”, não se aplicando quando a
competência em razão da qualidade da autoridade coatora for pela Lei
Maior atribuída a um tribunal (.Dialética, 26/92 e s.). Assim, aliás, deci­
diu o STJ, por sua Seção, afirmando a competência dessa Corte para
o julgamento de mandado de segurança impetrado contra ato do Ministro

11. Está superado, destarte, o entendimento exposto no CC 40.216, no senti­


do de que o mandado de segurança contra atos de Delegados Regionais do Trabalho,
na fiscalização e aplicação de multas administrativas, não seria de competência da
Justiça laborai por não se relacionar com demanda entre empregado e empregador,
cabendo o julgamento à Justiça Federal ( l â Seção, rei. Min. Teori Zavascki, ac.
23-6-2004).

274
de Estado do Trabalho e Emprego, “ainda que o writ verse sobre as ma­
térias elencadas no art. 114 da CF” (MS 10.295, rei. Min, Denise Arruda,
v.u., j. 23-1 l~2005)n*A.

113.9. Justiça do Trabalho — EC n. 45/2004 — Regime de tran ­


sição
Cumpre aditar que o TST aprovou, em 16-2-2005, a Instrução Nor­
mativa (IN) n. 27, prevendo que as ações ajuizadas na Justiça do Trabalho
devam seguir o procedimento ordinário ou o sumaríssimo, conforme pre­
visto na CLT, excetuando-se apenas as demandas sujeitas, por disciplina
legal expressa, a rito especial, “tais como o mandado de segurança, habe­
as corpus, habeas data, ação rescisória, ação cautelar e ação de consigna­
ção em pagamento”.
Segundo o art. 2- da IN, os recursos serão os previstos na CLT, exi­
gindo-se inclusive o depósito da condenação em pecúnia. Quanto aos
honorários advocatícios, indevidos nas reclamatórias da CLT, passam a ser
devidos “nas novas ações” com base na mera sucumbência — IN, art. 59
(v., a respeito, estudo de Arion Sayão Romita, RF, 379/27).
Assim, v. g., diante das alterações trazidas pela EC n. 45/2004, as
ações sobre a representação sindical — cobrança de contribuição sindical
— passaram à competência da Justiça laborai, à qual serão de imediato
remetidos, inclusive os processos pendentes perante o Superior Tribunal
de Justiça. Cuidando-se de competência absoluta, em razão da matéria
(CPC, art. 87), a regra da perpetuatio jurisdictionis não se aplica a tais
casos (REsp 727.196, Questão de Ordem, rei. Min. José Delgado, j. 25-5-
2005; Ag. Inst. 675.211, rei. Min. Teori Zavascki, dec. 20-6-2005, DJU,
30 jun. 2005, p. 301).

114. Cumulação de pedidos sob diversidade de jurisdição


Cumpre ainda referir que, com frequência, o demandante apresenta
pretensões cumuladas, ou seja, quer receber parcelas decorrentes da ante-

H-A. O MS 10.295 foi extinto, sem julgamento do mérito, em relação ao Mi­


nistro de Estado, sob o fundamento de que a autoridade coatora era, em verdade, o
Secretário das Relações do Trabalho daquele Ministério; em conseqüência, tendo em
vista a exclusão do Ministro da relação processual, o processo foi remetido à Justiça
do Trabaiho.

275
rior relação celetista e, ainda, quantias ou direitos relativos à sucessiva
relação estatutária. Em tais casos, o juízo perante o qual foi a causa ajui­
zada julgará apenas os pedidos para os quais for competente.
A esse respeito, após numerosas decisões (v. g., 3- Seção, CC 8.535,
rei. Min. Anselmo Santiago, ac. de 16-3-1995, DJU, 24 maio 1995, p.
10379), o Superior Tribunal de Justiça veio a editar a Súmula 170, do teor
seguinte:
"Compete ao juízo onde primeiro for intentada a ação envol­
vendo cumulação de pedidos, trabalhista e estatutário, decidi-la nos
limites de sua jurisdição, sem prejuízo do ajuizamento de nova cau-
sa, no juízo próprio ” (3a Seção, em 23-10-1996).
Embora a superveniente EC n. 45/2004, a Súmula 170 mantém-se £
indene.

276
Capítulo XXIII
COMPETÊNCIA EM RAZÃO
DA MATÉRIA, DA PESSOA, DO
VALOR E DA COMPLEXIDADE
DA CAUSA

115. Competência em razão da matéria


As regras de competência em razão da matéria, ou seja, da res in
judicium deducta, do pedido formulado pelo demandante, firmam vezes
muitas a competência dos Tribunais, quer competência originária, quer
recursal.
Assim, v. g., a ação direta de inconstitucionalidade de lei é demanda
de competência originária do STF (CF, art. 102,1, a); a homologação de
sentença estrangeira é de competência do STJ (CF, art. 105,1, i).
A competência da Justiça do Trabalho é estritamente em razão da
matéria, decidindo controvérsias decorrentes da relação de trabalho, ou
com esta vinculadas, nos termos expostos no art. 114 da Lei Maior.
As causas sobre inelegibilidade são, em razão da matéria, de compe­
tência da Justiça Eleitoral (CF, art. 121, III).
As causas referentes à naturalidade e à naturalização pertencem, em
razão da matéria, à Justiça Federal ( CF, art. 109, X).
No âmbito da Justiça comum e em primeiro grau de jurisdição, são
criadas, em comarcas de intenso movimento forense, varas privativas em
razão da matéria, em face das vantagens de uma maior especialização dos
juízos. Essa especialização revela-se não só na divisão fundamental em
“Varas Criminais” e “Varas Cíveis” como na instituição de varas cíveis es­
pecializadas em causas de família, de registros públicos, de falências etc.
Os processos de insolvência (CPC, arts. 748 e s.) e as ações relativas
ao estado e capacidade das pessoas são de competência exclusiva do juiz
de direito, na primeira instância (CPC, art. 92).

277
A Lei Orgânica da Magistratura Nacional, prevista na Constituição
de 1969, preconizou, nos Tribunais, a criação de Câmaras ou Turmas es­
pecializadas, além da divisão habitual em Câmaras Cíveis e Câmaras
Criminais.
A CF de 1988, com a redação da EC n. 45/2004, prevê a criação de
varas especializadas para o julgamento de questões agrárias (CF, art.
126).
A competência ratione materiae, voltada ao interesse público, é
absoluta e, pois, indisponível

116. Competência em razão da pessoa


A competência “ratione personae” toma por dado relevante um
atributo ou uma característica pessoal do litigante. Assim a nacionalidade,
os foros de nobreza ou classe, a situação como idoso ou incapaz, o cargo
ou função pública ocupado pelo litigante, ou a circunstância de ser o liti­
gante pessoa jurídica de direito público ou vinculada ao poder público.
Em tempos históricos, os foros privilegiados apresentavam-se co­
muns. Na Idade Média, os nobres e os eclesiásticos gozavam de foros
privilegiados ou privativos, e um dos aspectos do fortalecimento do pode­
rio dos reis e da decadência do feudalismo revelou-se pelo aumento da
competência dos Tribunais do rei em detrimento das justiças dos senhores
feudais e da Justiça Canônica.
No Brasil, de 1808 a 1844, existiram “juizes conservadores da Nação
Britânica”, os quais julgavam as causas em que uma das partes fosse ci­
dadão inglês1.
Nos tempos atuais, a competência ratione personae (mais comum no
âmbito criminal) apresenta-se, no âmbito cível, quando interessada na
causa pessoa de direito público.
Assim, v. g., são da competência originária do Supremo Tribunal
Federal as causas entre a União e um Estado, ou entre Estados (CF, art.
102,1,/); são de competência da Justiça Federal todas as causas em que
for parte “a União, entidade autárquica ou empresa pública federal” (CF,
art. 109,1).

1. V. Athos Gusmão Carneiro, O juiz conservador da Nação Britânica, AJURIS,


3:110; A cidadania da parte como elemento de fixação da competência, trabalho pu­
blicado como Anexo I, na presente obra.

278
Na ação de mandado de segurança, como já exposto, e no habeas
data, o cargo ou função pública desempenhado pela pessoa que praticou
o ato (apontado como violador de direito líquido e certo) apresenta-se
decisivo à determinação da competência2. Assim, é da competência origi-
. nária do Supremo Tribunal Federal conhecer dos mandados de segurança
e dos habeas data impetrados contra ato do Presidente da República, da
Mesa da Câmara e do Senado, do próprio Supremo Tribunal Federal etc.
(CF, art. 102,1, d); é da competência originária do Superior Tribunal de
Justiça julgar os writs impetrados contra ato de Ministro de Estado (CF,
art. 105,1, b).
Nos Estados, é normalmente de competência do Tribunal de Justiça
(ou de seu Órgão Especial) julgar os mandados de segurança impetrados
contra atos praticados pelo Governador, pela Assembleia Legislativa ou a
respectiva Mesa, pelo próprio Tribunal e seu Presidente etc. Nos casos de
mandamus impetrados contra atos de Secretários de Estado, do Procurador-
Geral da Justiça ou do Estado e autoridades outras de alto nível, geralmen­
te competentes são as Câmaras Cíveis Reunidas, ou Grupos de Câmaras
especializadas. Se a segurança é postulada contra ato de juiz de primeira
instância, ou de Procurador de Justiça, competente poderá ser, sempre em
conformidade com as leis locais de organização judiciária, uma Câmara
Cível Isolada (v., outrossim, o verbete n. 103).
Relativamente a atos de outras autoridades, não expressamente incluídas
nas previsões legais, apresentam-se competentes os juizes de primeira ins­
tância, tanto os federais como os estaduais, dependendo de ser funcionário
ou servidor federal, ou estadual ou municipal, a autoridade dita coatora3.

2. Conforme exposto pela Ia Seção do STJ no julgamento do CC 38.008, “a


jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que, em sede de mandado de segu­
rança, a competência é fixada em face da qualificação da autoridade coatora” (rei. Min.
Eliana Calmon, ac. de 14-5-2003, DJU, 2 jun. 2003, p. 182).
Vale, aqui, afirmar que não concordamos com a assertiva, igualmente constante
da ementa desse decísório, no sentido de que se o magistrado, ao analisar o feito,
“concluir que houve indicação errônea da autoridade coatora, deve extinguir o feito e
não declinar da competência”; mui ao contrário, pensamos que deve, obedecido o
princípio da efetividade do processo, remetê-lo ao juízo competente. Muitas vezes,
aliás, difícil é ao interessado, principalmente nos casos de conduta omissíva, saber
quem exatamente se apresenta como autoridade coatora...
3. Compete à Justiça comum estadual processar e julgar mandado de segurança
contra ato de gerente do Banco do Brasil S/A (STJ, 3a Seção, CC 6.782, rei. Min.
William Patterson, j. 14-8-1996).

279
Pelo chamado Estatuto do Idoso — Lei n. 10.741/2003, art. 80 (nor­
ma aliás redigida de forma pouco técnica), a pessoa idosa goza da prerro­
gativa de ajuizamento da ação no foro de seu domicílio, devendo presumir-
-se que esta competência, dita na lei como sendo absoluta, deva limitar-se
às demandas que versem matéria tratada no aludido Estatuto.
A competência em razão da pessoa é absoluta.

117. Competência em razão do valor


Era freqüente, nos Estados com organização judiciária mais comple­
xa, existirem juizes não vitalícios, com competência cível limitada em
razão do valor da causa. Assim, no Rio Grande do Sul, os pretores4*5.
Em aplicação textual do Código de Processo Civil, a competência
em razão do valor seria sempre considerada relativa, pois o art. 111 per- ^
mite a eleição de foro: podem as partes “modificar a competência em razão
do valor e do território, elegendo foro onde serão propostas as ações oriun­
das de direitos e obrigações”.
Note-se, no entanto, que normalmente a competência em razão do
valor não será uma competência de foro, uma competência “territorial”,
mas será uma competência de juízo. Achada, conforme as regras gerais, a
comarca onde o feito deve tramitar, então o valor da causa determinará,
nesse foro, o juiz competente: nas causas de maior valor, o juiz de direito;
nas de menor valor, o juiz não vitalício (caso dos pretores remanescentes,
no Rio Grande do Sul).
Em segundo lugar, a competência em razão do valor, s. m. j., somen­
te é relativa “do mais para o menos”. A competência do juiz de direito
poderá, assim, ser prorrogada para abranger causa de pequeno valor; mas
será absoluta “do menos para o mais”, ou seja, a competência de um juiz
não vitalício não poderá abranger causas de maior valor6.

4. A Constituição Federal de 1969, art. 144, § l s, dispunha:


“A lei poderá criar, mediante proposta do Tribunal de Justiça:
«) .........................................................................................
b) juizes togados com investidura limitada no tempo, os quais terão competência
para julgamento de causas de pequeno valor e de crime a que não seja cominada pena
de reclusão, e poderão substituir juizes vitalícios” [grifo nosso].
5. Pela vigente Constituição de 1988, embora não subsista previsão expressa,
certamente serão temporários os “juizes leigos” dos Juizados Especiais (CF, art. 98).
6. Proposição de Chiovenda: “os limites objetivos da competência por valor são
sempre absolutos para o mais, nem sempre para o menos” (Instituições, cit-, v. 2, n.
174, b).

280
Esse princípio pode inclusive afastar os efeitos da “prevenção”, em
causas conexas que devam ser reunidas perante um mesmo juiz. Por exem­
plo, pensemos em uma causa de maior valor proposta perante o juiz de
direito A, e uma de menor valor perante o juiz temporário B; sendo as
demandas conexas, impõe-se a reunião dos processos num só juízo. Diga­
mos que, pelo critério de prevenção (primeiro despacho, ou primeira cita­
ção válida— CPC, arts. 106 e 219), o juízo prevento seria o do juiz B; mas
como sua limitada competência não pode abranger a causa de maior valor,
o critério da prevenção é afastado, e a reunião das demandas far-se-á pe­
rante o juiz de direito, cuja competência ratione valore prorrogar-se-á para
incluir a demanda de valor inferior.
Determina-se o valor da causa, para efeitos de competência, no mo­
mento em que se constitui a relação processual. A alteração do valor da
coisa litigiosa, posteriormente à propositura da ação, não altera a compe­
tência inicialmente fixada. Princípio da perpetuatio jurisdictionis, ao qual
já se aludiu (v. Chiovenda, Instituições, cit., n. 74 e 256). Entretanto, o juiz
de menor “alçada” não pode condenar em valor superior ao de sua alçada.

118. Competência dos Juizados Especiais


Nos termos do art. 98, I, da Constituição Federal, os Juizados
Especiais têm competência, no âmbito cível, “para a conciliação, o ju l­
gamento e a execução de causas cíveis de menor complexidade
Notemos que o conceito “de menor complexidade” é eminentemen­
te fluido, indeterminado; assim, se o magistrado considerar que a deman­
da, embora incluída no elenco do art. 32, envolve fatos complexos, de
forma a exigir perícia demorada que possa comprometer os critérios in­
formadores dos Juizados Especiais (oralidade, simplicidade, informalida­
de, celeridade), “realmente a melhor solução será aplicar o disposto no art.
51, II, remetendo as partes ao juízo comum” (J. E. Carreira Alvim, Juiza­
dos Especiais Cíveis Estaduais, 2. ed., Ed. Juruá, p. 23).
Quanto aos mandados de segurança no âmbito dos Juizados Especiais,
v. o verbete 105-A.

118.1. Juizados Especiais Cíveis Estaduais


Nos Juizados Especiais Cíveis Estaduais, não obstante permaneçam
divergências doutrinárias e jurisprudenciais, o entendimento prevalecente
é no sentido de que o emprego deste microssistema jurisdicional não de-

281
corre de uma imposição por competência absoluta, mas sim de escolha
vinculada a opção do autor, competência relativa portanto. Cabe ao de­
mandante ponderar se lhe é mais conveniente optar pelo procedimento
sumaríssimo dos Juizados Especiais, ou se melhor lhe convém litigar na
Justiça comum (v. art. 3a, § 3S, da Lei n. 9.099, de 26-9-1995).
Consoante o art. 3° da mencionada lei, qualificam-se como causas
cíveis de menor complexidade:
a)'as causas de valor não superior a quarenta vezes o salário mínimo;
b) as ações de despejo para uso próprio (as demais mantêm o rito
comum ordinário, conforme o art. 59, caput, da Lei n. 8.245/91); *
c) as ações possessórias sobre bens imóveis de valor não excedente
a quarenta vezes o salário mínimo; £
d) as ações enumeradas no art. 275, II, do Código de Processo Civil,
já agora limitadas àquelas relacionadas consoante a Lei n. 9.245, de 26-
12-1995, sem limitação de valor;
e) as ações de execução de títulos extrajudiciais, de valor não mais
de quarenta salários mínimos;
f) as ações de execução de seus próprios julgados.
O acesso aos Juizados Especiais sofre limitação ratione personae,
explicável pelos próprios motivos que levaram à sua criação: somente as
pessoas físicas capazes e as microempresas são admitidas a propor ações
perante eles. No polo passivo da relação processual não podem figurar o
incapaz, o preso, as pessoas jurídicas de direito público, as empresas pú­
blicas federais, a massa falida e o insolvente civil (art. 8~).
Quanto ao foro competente, dispõe o art. 4Sda Lei n. 9.099, ser, pre­
ferencialmente, o do domicílio do réu ou, a critério do autor, o foro do
local onde exerça o réu suas atividades ou mantenha sucursal ou escritório
(Joel Dias Figueira Jr., Comentários à Lei dos Juizados Especiais Cíveis
e Criminais, Revista dos Tribunais, 2~ ed., 1997, p. 139).
Além disso, a ação poderá ser proposta no lugar onde a obrigação
deva ser satisfeita; no foro do domicílio do autor; ou no foro do local do
ato ou fato, em se tratando de ação de reparação de danos de qualquer
natureza. Nestas hipóteses, todavia, a ação poderá ser ajuizada no foro do
domicílio ou local de trabalho previsto preferencialmente, sem que o réu
possa opor-se a tal opção (art. 4-, parágrafo único) (Rogério Lauria Tuc-
ci, Manual do Juizado Especial de Pequenas Causas, Saraiva, 1985, p.
107-12).

282
Das decisões dos Juizados Especiais Cíveis cabe “recurso” (rectius,
apelação) para Turma Recursal, composta por três juizes togados em exer­
cício na primeira instância — Lei n. 9.099, art. 41, § 1-.
Dos acórdãos assim proferidos pode ser interposto, nos casos previs­
tos na Lei Maior, recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal.
Já no alusivo ao recurso especial, o Superior Tribunal de Justiça deu
pela sua inadmissibilidade. Assim a Súmula 203, em sua redação atual,
conforme alteração aprovada pela Corte Especial em 23-5-2002:
“Não cabe recurso especial contra decisão proferida por órgão
de segundo grau dos Juizados Especiais’\

118.2. Juizados Especiais Cíveis Federais


Nos Juizados Especiais Cíveis e Criminais da. Justiça Federal, criados
pela Lei n. 10.259, de 12-7-2001, a competência dos Juizados Cíveis, a
teor do art. 3-, abrange as causas de competência da Justiça Federal até o
valor de sessenta salários mínimos, ficando todavia excluídas as causas
referidas no art. 109, incisos II, III e IX, da CF, bem como as ações de
mandado de segurança, de desapropriação, de divisão e demarcação, as
ações populares, as execuções fiscais e por improbidade administrativa,
bem como as demandas sobre direitos ou interesses difusos, coletivos ou
individuais homogêneos.
Igualmente não se incluem na competência dos Juizados Especiais
Federais Cíveis: as demandas sobre bens imóveis da União, autarquias e
fundações públicas federais; as relativas a sanção disciplinar a servidor
público civil e militar; as causas que versem anulação ou cancelamento de
ato administrativo federal (salvo em se cuidando de atos de natureza pre-
videnciária ou de lançamento fiscal, os quais se incluem na competência
dos Juizados Especiais).
Podem ser autores as pessoas físicas e as microempresas e empresas
de pequeno porte (Lei n. 9.317/96); podem ser rés a União, autarquias,
fundações e empresas públicas federais (art. 6°).
Nos termos do art. 3a, § 3S, “no foro onde estiver instalada Vara do
Juizado Especial, sua competência é absoluta ”.
A 2- Seção firmou que a regra de atração da competência para a
Justiça Federal aplica-se também aos Juizados Especiais Federais Cíveis,
razão pela qual: se no polo passivo da demanda a União, autarquia, fun­
dação e/ou empresa pública federal for parte; se o valor da causa for até

283
sessenta salários mínimos e, se a causa não for daquelas elencadas nos
incisos do § 1Qdo art. 3Qda Lei n. 10.259/2001, a competência será do
Juizado Especial, independentemente da presença de pessoa jurídica de
direito privado como litisconsorte passivo dos entes referidos no art. 6a da
Lei n. 10.259/2001 (CC 73,000, rei. Min. Nancy Andrighi, j. 8-8-2007).
Quanto a conflitos de competência entre Juizado Especial e Juiz de
Direito ou Juiz Federal, v. o verbete n. 140.2.
Quanto a mandado de segurança contra atos judiciais praticados no
processo perante os Juizados Especiais, v., nesta obra, o verbete n. 105-A.
Quanto à competência em razão da matéria, a Lei n. 10.259/2001 pre­
vê a criação de juizados especiais com competência exclusiva para ações
previdenciárias nas capitais dos Estados e no Distrito Federal, cabendo ao
TRF a instalação de tais juizados também em cidades do interior (art. 19,
parágrafo único).
A Lei n. 10.259/2001, art. 12, prevê um “recurso” das decisões das
Turmas Recursais Federais, denominado “pedido de uniformização de inter­
pretação de lei federal”, o qual poderá ser julgado por Turma Regional de
Uniformização ou pela Turma Nacional de Uniformização, com possibilida­
de de um sucessivo (atípico) deslocamento de competência para o Superior
Tribunal de Justiça, nos casos em que a decisão de Turma de Uniformização
haja contrariado súmula ou jurisprudência dominante no STJ (a respeito, vide
a Resolução n. 10, de 21-11-2007, da Presidência desta Corte, disciplinando
o processamento do “incidente”).

284
Capítulo XXIV
COMPETÊNCIA FUNCIONAL

119. Competência em razão da função, no “plano horizontal” e


no “plano vertical”
Diferentes “funções”, ou atribuições, dentro de um “mesmo”proces­
so, podem caber a diferentes juizes.
Cuida-se da competência funcional, extraída, como disse Celso
Agrícola Barbi, “da natureza especial das funções que o magistrado é
chamado a exercer em um processo” (Comentários ao Código de Proces­
so Civil, Forense, 10. ed., 1998, v. I, n. 513, p. 306).
Segundo o art. 93 do CPC: “Regem a competência dos tribunais as
normas da Constituição da República e de organização judiciária. A compe­
tência funcional dos juizes de primeiro grau é disciplinada neste Código”.
Lembra Barbosa Moreira que, sem embargo desta última disposição,
“em vão se procurará no estatuto de 1973 um conjunto articulado de nor­
mas sobre a competência funcional dos órgãos de primeiro grau, seme­
lhante ao que nele trata da competência territorial (arts. 94 e segs.)” (arti­
go na RF, 380/180). E aduz que o conceito de competência funcional, pela
melhor doutrina alemã, determina-se consoante a espécie de atividade
desenvolvida pelo juiz na causa para a qual é competente: “a competência
funcional reparte as diversas funções jurisdicionais na mesma causa entre
diferentes órgãos judiciais e limita as funções de um órgão em relação às
dos outros que atuam na mesma causa” (Rosenberg-Schwab-Gottwald,
Zivilprozessrecht, 16. ed., 2004, p. 174). O legislador brasileiro, em várias
oportunidades, usa pouco adequadamente a expressão competência fun­
cional, e destarte seria conveniente que a expressão fosse reservada apenas
“para os casos de repartição de funções a serem exercidas por diversos
órgãos judiciais no mesmo feito”( art. cit., p. 187).
No Brasil, no âmbito criminal, a competência funcional encontra
exemplo expressivo nos processos por crimes com julgamento atribuído
ao Tribunal do Júri, pois pode caber a um juiz de Vara Criminal comum
instruir o processo, ao juiz da vara privativa do júri proferir a sentença de

285
pronúncia e presidir o júri, aos jurados responder aos quesitos, ao juiz fixar
a pena, e, por fim, ao juiz das execuções criminais apreciar os incidentes,
surgidos durante a execução da pena. Trata-se, nessa hipótese, de compe­
tência funcional “horizontal”, tramitando o processo no mesmo grau de
jurisdição.
No cível, o critério da competência funcional encontra maior aplica­
ção no plano “vertical ”, na também chamada competência “hierárquica ”,
ou competência recursal.
Como ensina Cândido Rangel Dinamarco, “diz-se funcional a com­
petência quando a lei a determina automaticamente, a partir do simples
fato de algum órgão jurisdicíonal ter oficiado em determinado processo
com atividade que de alguma forma esteja interligada cora essa para a qual
se procura estabelecer qual o juiz competente”.
E prossegue o eminente processualista: “Ou seja, ela é a competência
decorrente do prévio exercício da jurisdição por determinado órgão. É
automática porque nenhum outro elemento, além desse, precisa ser pes­
quisado na busca do juiz competente: as regras de competência funcional;
residentes na Constituição e na lei, levam em conta a função já exercida
num processo, para estabelecer a quem compete algum outro processo
interligado funcionalmente a este ou a quem compete outra fase do mesmo
processo. Por isso é que ela se chama competência funcionar (AJURIS,
88:63; Instituições, cit., v. I, n. 207, p. 429-30).
Ada Pellegrini Grinover relembra que a competência funcional é
sempre absoluta, pois “instituída considerando o interesse público (e não
a conveniência das partes), e não comporta modificação, quer legal, quer
convencional. Como já dissemos no âmbito doutrinário, nos casos de
competência determinada segundo o interesse público, em princípio o
sistema jurídico processual não tolera modificações nos critérios estabe­
lecidos e muito menos em virtude da vontade das partes em conflito” (art.
dout. “Competência territorial funcional em matéria de falência”, Revista
de Direito Civil e Processual Civil, Ed. Síntese, v. 23, p. 7-8).
Conforme Chiovenda, o critério funcional “extrai-se da natureza
especial e das exigências especiais das funções que se chama o magistrado
a exercer num processo. Tais funções podem repartir-se entre diversos
órgãos na mesma causa (assim, há juizes de primeiro grau e segundo grau,
juizes da cognição, juizes da execução), ou devem confiar-se ao juiz de
dado território, em vista, exatamente, de suas exigências, abrindo lugar a
uma competência em que o elemento funcional concorre com o territorial”

286
(Instituições de direito processual civil, trad. port., Saraiva, 1943, v. 2, n.
173, p. 214)1.
São de ordem pública, e assim inderrogáveis — competência abso­
luta — , os critérios da competência funcional, atributivos de competência
a um juiz para praticar “determinados” atos ou para conhecer de uma
causa em primeira instância (v. g., art. 132 do CPC), e a outros juizes para
conhecê-la em segunda instância.
Nos órgãos colegiados (Tribunal Pleno, Turmas ou Câmaras Reunidas,
Grupos de Câmaras, Câmaras Isoladas), as leis de organização judiciária
e os Regimentos Internos dos Tribunais atribuem diferentes poderes juris­
dicionais aos presidentes, aos relatores, aos revisores.

120. Competência para conhecimento dos embargos do devedor


e de terceiro, na execução por carta
Dispunha o Código de Processo Civil, art. 747, que na execução por
carta os embargos do devedor seriam “oferecidos, impugnados e decididos
no juízo requerido” (rectius “oferecidos, impugnados e julgados no juízo
requerido”, pois a manifestação do juiz solucionando a ação incidental de
embargos é “sentença” e não “decisão interlocutória”).
Mas qual seria o juízo requerido? O juízo da execução, no caso o
juízo deprecantel Ou o juízo deprecado, onde, por ser o local da situação
dos bens penhoráveis, far-se-á por carta a penhora, avaliação e alienação
em hasta pública dos bens do devedor? É que a expressão “juízo requerido”
não possui significação processual definida.
Já em meados de 1974, em sede doutrinária (AJURIS, 7:124) e tam­
bém como julgador, adotáramos o entendimento de que os embargos
“somente deverão tramitar perante o juízo deprecado quando disserem
respeito apenas a matéria relacionada diretamente com o bem que lá
se penhorou ou com a validade de atos processuais lá realizados.
Assim, a arguição de nulidade da penhora, ou da praça ou do leilão,
ou da adjudicação, por preteridas formalidades essenciais, merecem

1. Como exemplo da concorrência dos critérios funcional e territorial, Aluisio


Castro Mendes aponta a competência para cumprimento de cartas rogatórias e preca­
tórias (Ações coletivas, cit., p. 225). Lembremos, outrossim, que na doutrina italiana
a competência funcional de certa forma passou a ter um mais amplo significado,
abrangendo também a competência territorial (Ada Grinover, rev. Síntese, v. 23, p. 7),
o que não é o caso da doutrina brasileira.

287
ser apreciadas pelo juízo deprecado, que ordenou e presidiu tais atos
executórios. Mas a matéria de mérito, vinculada à própria pretensão
de direito material, cumpre ser julgada no foro da execução. Assim
sendo, o ‘juízo requerido’ deve ser entendido, em princípio, como
sendo o juízo perante o qual o credor requereu a execução; como
sendo, portanto, o juízo deprecante e não o juízo deprecado”.
Nesse sentido veio a manifestar-se o Supremo Tribunal Federal (v.
acórdão em RTJ, 82:630 e 97:173) e tomou-se orientação prevalecente
(Humberto Theodoro Júnior, Processo de execução, 4. ed., Ed. Universi­
tária de Direito, p. 350; Mário Aguiar Moura, Embargos do devedor, 2.
ed., Síntese, p. 225; Edson Ribas Malachini, Questões sobre a execução e
os embargos do devedor, Revista dos Tribunais, 1980, v. 28 e 29).
O Superior Tribunal de Justiça a respeito editou a Súmula 46, verbis: »
“Na execução por carta, os embargos do devedor serão deci­
didos no juízo deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou
defeitos da penhora, avaliação ou alienação dos bens ” (Corte Espe­
cial, em 13-8-1992).
Manteve, portanto, a orientação do antigo Tribunal Federal de Re­
cursos, em sua Súmula 32.
A Lei n. 8.953, de 13-12-1994, adotando as diretrizes traçadas pela
jurisprudência, deu ao art. 747 do Código de Processo Civil a seguinte
redação:
“Na execução por carta, os embargos serão oferecidos no juí­
zo deprecante ou no juízo deprecado, mas a competência para julgá­
mos é do juízo deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou
defeitos da penhora, avaliação ou alienação dos bens”.
Portanto, mesmo os embargos que disserem respeito a matérias con­
cernentes à subsistência da própria obrigação (v. g., art. 741, VI; art. 745, in
fine) poderão ser oferecidos no juízo deprecado; mas este mandará remetê-
-los ao juízo deprecante, competente para sua instrução e julgamento2.

2. Segundo Leonardo Greco, em princípio, como ação incidente ao processo de


execução, os embargos são da competência do mesmo juízo; entretanto, “na chamada
execução por carta, em que o devedor não tenha bens no foro da execução (art. 658),
os embargos podem ser oferecidos no juízo deprecante ou deprecado, mas se versarem
sobre vícios ou defeitos da penhora, da avaliação ou alienação de bens, serão da com­
petência do juízo deprecado, perante o qual se realizarem esses atos (art. 747)” (Pro­
cesso de execução, Renovar, 2001, v. 2, item 13.2.2, p. 601).

288
Apenas quando os embargos versarem unicamente matéria processual
atinente a vícios da penhora, avaliação ou alienação dos bens, ou seja, aos
atos processuais executórios cumpridos no juízo deprecado, será este juí­
zo o competente para processá-los e julgá-los3e4. Assim, compete ao juízo
deprecado apreciar as questões relativas à impenhorabüidade do bem de
família e à redução da penhora, arguidas pelo devedor sem irresignação
relativamente à dívida — Súmula 46 do STJ (CC 36.044, 2- Seção, rei.
desig. Min. Barros Monteiro, j. 9-3-2005, RSTJ, 201/277, com remissão a
precedentes).
Em se tratando de embargos de terceiro, se o bem apreendido foi
indicado pelo juízo deprecante, é ele o competente para julgar a ação
acessória; caso contrário, competente o juízo deprecado (Súmula 33 do
antigo TFR; STJ, 2â Seção, CC 24, j. 28-6-1989, rei. Min. Nilson Naves;
STJ, 2~ Seção, CC 271, j. 28-6-1989, rei. Min. Athos Carneiro).
Todavia, se o juízo deprecante forum juízo federal, os embargos de
terceiro não poderão ser julgados pelo juízo estadual deprecado, ante a
competência ratione personae prevista no art. 109,1, da CF (STJ, 2- Seção,
CC 17.713, rei. Min. Cesar Rocha, j. 12-3-1997).
Recentemente, em carta precatória expedida pela Justiça Federal, a
2~ Seção do STJ reiterou tal orientação; cuidava-se de ação de embargos
à arrematação, ajuizada em causa em que figurava como ré a Caixa Eco­
nômica Federal, empresa pública, sendo afirmada a competência inderro-
gável e de caráter absoluto, porque ratione personae, do juízo federal da

3. Assim, conforme o magistério de Araken de Assis, “se o embargante oferecer


os embargos no juízo deprecado, e a competência para julgá-los for do deprecante,
aquele remeterá os autos a este, e vice-versa, competindo ao juízo competente admiti-
-los e processá-los” (Manual do processo de execução, 11. ed., Revista dos Tribunais,
2008, n. 495, p. 1123). No caso de bens penhoráveis distribuídos em várias comarcas,
sendo necessária a expedição de mais de uma carta precatória executória, não aceita
Araken de Assis, com remissão a Mariz de Oliveira, a interposição de vários embargos
simultâneos (Manual, cit.); todavia, com referência aos atos praticados nos próprios
juízos deprecados, consideramos que a competência para apreciá-los será de cada um
deles, e não do juízo deprecante. A circunstância de serem mais de um os juízos de
constrição de bens não altera, a nosso ver, a regra do art. 747 do CPC.
4. Como o juízo deprecado não é o juízo da causa, mas simples executor dos
atos a ele solicitados, não lhe cabe perquirir o merecimento, “só podendo recusar o
cumprimento e devolução da precatória sob o amês das hipóteses amoldadas no art.
2 0 9 ,1, II e III, CPC. Na espécie, a precatória só poderia ser devolvida caso o Juízo
deprecado entendesse ser absolutamente competente, quando suscitaria o conflito
positivo de competência” (CC 27.688, l â Seção, rei. Min. Milton Luiz Pereira).

289
26â Vara de Minas Gerais (CC 35.198, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, ac.
de 14-5-2003).

121. Limitações do juízo deprecado, em tema de exceção de in­


competência de foro, e em questão de mérito
Suscitada no juízo deprecado exceção de incompetência do juízo
deprecante, poderá aquele recusar cumprimento à carta precatória?
A resposta é, em princípio, negativa. Assim decidiu a 2- Seção do
Superior Tribunal de Justiça, no CC 1.395, relator o Min. Sálvio de Figuei­
redo, constando da ementa: “Sendo vedado ao juízo deprecado recusar
cumprimento à precatória ao entendimento de que competente seria um
terceiro juízo, competente para a apreciação da arguição de incompetência
relativa é o juiz deprecante”.
Idêntica a solução adotada no .CC 1.452, relator o Min. Nilson
Naves: “Não é lícito ao juiz deprecado recusar cumprimento à precató­
ria, à consideração de incompetência. Conflito conhecido e declarado
competente o juiz deprecado, para determinar o cumprimento da carta,
simplesmente”.
Também assim a 3a Seção do STJ, no CC 14.953, constando da emen­
ta que “é vedado ao juiz deprecado recusar cumprimento à precatória ao
entendimento de que competente seria um outro juízo” (ac. de 12-3-1997,
rei. Min. Vicente Leal).
Não cabe outrossim ao juízo deprecado suspender o cumprimento da
carta, em atenção a argumentos de mérito suscitados pela parte ré (v. g.,
em carta executória para reintegração liminar de posse). No CC 1.474, de
que fomos relator, a 2â Seção decidiu com a seguinte ementa:
“O juiz deprecado somente pode recusar cumprimento à pre­
catória, e mandar devolvê-la, nos casos do art. 209 do CPC ou
quando entender que absolutamente competente é o próprio juízo
deprecado.
Fora disso, a defesa oposta ao cumprimento da diligência deve
ser apreciada, em sua oportunidade e merecimento, pelo juízo depre­
cante, que é o juiz da causa”5.

5. Os acórdãos dos CC 1.452 e 1.474 estão por ementa transcritos no Anexo IV,
e na íntegra no site <www.saraivajur.com.br>.

290
A 2â Seção, outrossim, apreciando o CC 18.111, ac. de 9-4-1997, rei.
Min. Flaquer Scaríezzini, reafirmou que “ao juízo deprecado cumpre
atender às solicitações contidas na carta precatória, somente não o fazen­
do quando não revestidas dos requisitos legais, nos exatos termos do art.
209, CPC”.
Em outra oportunidade, recusando-se juiz estadual a cumprir preca­
tória expedida por juiz federal, sob o argumento de que a tanto se opunha
uma Resolução do TJ, teve a lâ Seção do STJ oportunidade de reiterar que
ao juiz deprecado cabe simplesmente determinar o cumprimento da pre­
catória (CPC, arts. 209 e 1.213, e art. 42 da Lei 5.010/66), só podendo
devolvê-la caso se considerasse absolutamente competente para o julga­
mento da própria causa, hipótese em que suscitaria o conflito positivo (CC
27.688, rei. Min. Milton Luiz Pereira, ac. de 18-12-2000, RSTJ, 150:33).
Afirmou outrossim a l â Seção que “não pode o juiz estadual negar
cumprimento à carta precatória, sob o argumento de que sua comarca es­
taria inserida no âmbito de competência do juízo federal deprecante, a não
ser que a comarca também seja sede de juízo federal. Somente nos estritos
casos do art. 209 poderá o juiz deprecado recusar cumprimento à carta
precatória, devolvendo-a com despacho motivado (CC 40.406, reL Min.
Castro Meira, ac. 11-2-2004).
O juízo federal pode solicitar a cooperação da Justiça Estadual quan­
do a carta rogatória se destina a citar ou intimar pessoa que tem domicílio
onde não esteja instalada sede da Justiça Federal (art. 42, caput, da Lei n.
5.010/66) (CC 89.791, 2ã Seção, rei. Min. Gomes de Barros, j. 14-11-
2007).

122. Â competência na via jurisdicional prevalece sobre a com­


petência em nível administrativo
Um tema de certa forma similar refere-se à impossibilidade de o Juiz
de Direito Corregedor dos Registros Públicos, no exercício de sua ativida­
de administrativa, opor~se, de ofício ou em procedimento de dúvida, ao
decidido por outro juiz, em sede jurisdicional, o qual haja determinado,
por exemplo, a penhora de determinado bem imóvel e o respectivo registro
imobiliário, ou determinado o cancelamento de registro por haver sido
anulada a arrematação de imóvel realizada a preço vil.
Por todos, cite-se o fundamentado aresto, com remissões à jurispru­
dência, lançado pela 2â Seção do STJ no julgamento do CC 30.820, ac. de
22-8-2001, sendo relator o Min. Pádua Ribeiro, em cuja ementa lê~se:

291
“Conflito de competência. Juiz do Trabalho. Juiz-Corregedor de
Cartório extrajudicial. Não deve o juiz-corregedor, em atividade adminis­
trativa, recusar cumprimento de mandado expedido por juiz no exercício
de sua jurisdição, sob pena de invadir~lhe a competência. Precedentes”.
Esse aresto está publicado, na íntegra, na RSTJ, 150:229.

292
Capítulo XXV
COMPETÊNCIA FUNCIONAL,
PELA VINCULAÇÃO
DO JUIZ AO PROCESSO

123. Princípio da identidade física do juiz no CPC de 1939


A regra de que o juiz da sentença deva ser o mesmo juiz que presidiu
à audiência e recebeu a prova oral é corolário lógico do princípio da ime­
diação: “é claro, com efeito, que tanto a oralidade quanto a imediação são
impraticáveis se os diversos atos processuais se desenvolvem perante
pessoas físicas a cada trecho variadas; pois que a impressão recebida pelo
juiz que assiste a um ou mais atos não se pode transfundir no outro que
tenha de julgar, mas somente se lhe poderia transmitir por meio da escrita,
e, em tal hipótese, o processo que seria oral em relação ao juiz instrutor
tomar-se-ia escrito em relação ao julgador” (Chiovenda, Instituições, cit.,
v.3,n. 309)1.
Em conseqüência de tais princípios, o art. 120 do Código de Proces­
so Civil de 1939 dispunha:
“O juiz transferido, promovido ou aposentado concluirá o jul­
gamento dos processos cuja instrução houver iniciado em audiência,
salvo se o fundamento da aposentadoria houver sido a absoluta in­
capacidade física ou moral para o exercício do cargo. O juiz substi-

1. Forte na intenção de instituir no processo civil brasileiro o sistema da orali­


dade, expunha Francisco Campos:
“O princípio que deve reger a situação do juiz em relação à prova e o de concen­
tração dos atos do processo postulam, necessariamente, o princípio da identidade físi­
ca do juiz. O juiz que dirige a instrução do processo há de ser o juiz que decida o lití­
gio. Nem de outra maneira poderia ser, pois o processo visando à investigação da
verdade, somente o juiz que tomou as provas está realmente habilitado a apreciá-las
do ponto de vista do seu valor ou da sua eficácia em relação aos pontos debatidos”
(Exposição de Motivos do Código de Processo Civil de 1939).

293
tato, que houverfuncionado na instrução do processo em audiência,
será o competente para julgá-lo, ainda quando o efetivo tenha reas­
sumido o exercício.
Parágrafo único. Se, iniciada a instrução, ojuiz falecer, ouficar,
por moléstia, impossibilitado de julgar a causa, o substituto manda­
rá repetir as provas produzidas oralmente, quando necessário”.
Apesar da excelência, no plano teórico, da regra da permanência
subjetiva do juiz, todavia a amplitude.de sua incidênciaconduziu, na ordem
prática, vezes muitas, a resultados contraproducentes e indesejados, que o
legislador certamente não previra.
Em país de dimensões continentais, em que as distâncias entre co­
marcas se medem frequentemente por dezenas de quilômetros nem sempre £
com boas vias de comunicação, com crônica carência numérica de juizes
e pautas em geral já sobrecarregadas de audiências, as transferências e as
promoções de juizes para circunscrições distantes criaram problemas de
difícil solução, procrastinando por longo tempo a solução dos feitos aos
quais ficara o juiz vinculado na comarca de origem. E quando a audiência
era afinal concluída e o processo julgado, o princípio da concentração fi­
cava relegado ao oblívio, pois apagadas estavam da memória do julgador
as impressões colhidas ao início da instrução, com manifesto sacrifício das
vantagens da imediatidade.
Visando afastar tais demoras prejudiciais até à boa imagem da Justi­
ça perante o povo, juizes diligentes — encarando a regra do art. 120 como
se fosse de competência relativa — anuíam, com a concordância das par­
tes, em “aceitar” a causa, considerando desvinculado seu antecessor.

124. Orientação pragmática do Código vigente


O Código de Processo Civil de 1973 adotou solução pragmática,
condizente com as realidades locais: permaneceu o princípio da imediação
como regra geral e imperativa, mas excetuado naquelas hipóteses em que
a experiência o desaconselhou.
Assim, pelo art. 132, em sua original redação:
"O juiz, titular ou substituto, que iniciar a audiência concluirá
a instrução, julgando a lide, salvo se for transferido, promovido ou
aposentado, casos em que passará os autos ao seu sucessor. Ao re­
cebê-los, o sucessor prosseguirá na audiência, mandando repetir, se
entender necessário, as provas já produzidas”.

294
Na Exposição de Motivos do Código vigente, o eminente proces-
sualista Prof. Alfredo Buzaid, então Ministro da Justiça, dá os motivos da
alteração:
“O Brasil não poderia consagrar uma aplicação rígida e infle­
xível do princípio da identidade, sobretudo porque, quando o juiz é
promovido para comarca distante, tem grande dificuldade para retor­
nar ao juízo de origem e concluir as audiências iniciadas. O projeto
preservou o princípio da identidade física do juiz, salvo nos casos de
remoção, promoção ou aposentadoria. A exceção aberta à regra geral
confirma-lhe a eficácia e o valor científico”.

125. 0a competência, para proferir a sentença, do juiz transfe­


rido após concluir a instrução em audiência
Sob vários aspectos, a exegese do art. 132, na redação anterior à
edição da Lei n. 8.637, de 31-3-1993, já suscitava graves dissensões juris-
prudenciais.
Foi tema altamente controvertido o da competência do juiz que presi­
diu e concluiu a instrução em audiência, sendo, no entanto, transferido
antes de proferir a sentença. Nesse caso, a transferência faria cessar a
vinculação, ou, ao contrário, prevaleceria a regra geral da permanência
subjetiva?
Nosso ponto de vista inicial, em favor de interpretação teleológica
da regra geral, mantidos os princípios da imediação e da identidade física
como normas cardeais do processo, constou de acórdão da 2- Câmara
Civil do TARS (Ap. 12.619, de 18-5-1976, de que fomos relator).

126. Posição, a respeito, do Supremo Tribunal Federal


Foram numerosas as decisões, num e noutro sentido, até que o Su­
premo Tribunal Federal veio a pronunciar-se a respeito do tema, por sua
2- Turma, em aresto de 5 de dezembro de 1978, sendo relator o Min. Lei­
tão de Abreu, RE 86.759-7-SP, sob ementa de que consta o seguinte:
“Julgamento da lide. Mesmo finda a instrução, o juiz transferido, promo­
vido ou aposentado não fica vinculado ao processo para julgar a causa.
Interpretação do art. 132 do CPC” (DJU, 16 mar. 1979, p. 1824; AJURIS,
16:86).
A mesma 2- Turma reiterou tal entendimento nos RE 91.810, rei.
Min. Moreira Alves (ac. de 25-11-1980), e 93.283, rei. Min. Djaci Falcão
(ac. de 14-11-1980, RTJ, 700:820), em ambos sendo decretada a nulidade

295
da sentença prolatada por juiz que, anteriormente à sua transferência por
promoção, concluíra a audiência de instrução.
Da Turma vale citar os RE 89.722 (rei. Min. Thompson Flores),
96.384 (rei. Min. Rafael Mayer) e 99.724 (rei. Min. Néri da Silveira).

127. Controvérsia no campo doutrinário


No campo doutrinário persistia a controvérsia.
Pela desvinculação do juiz transferido, mesmo após concluída a
instrução, era o magistério de José Frederico Marques (.Manual de direito
processual civil, v. 3, n. 521) e de José Carlos Barbosa Moreira (O novo
processo, cit., 13. ed., p. 101). Emane Fidélis dos Santos adotou a tese da
desvinculação, mesmo se a transferência ou promoção ocorresse após
encerrada a instrução e até os debates (.Manual de direito processual civil,
Saraiva, v. 1, n. 323).
Mestre Arruda Alvim sustentava a vinculação {Manual, cit., v. 1, p.
9-10; Código, cit., v. 1, p. 65); assim também Wellington Moreira Pimen-
tel (Comentários ao Código de Processo Civil, Revista dos Tribunais, 1975,
v. 3, p. 481).
Vale notar que não ocorre, todavia, vinculação alguma do juiz quan­
do a audiência limita-se apenas à tentativa de conciliação e aos debates
orais. Uma e outros não são atos de instrução, e portanto não estão sob a
regra da imediação.

128. Hipótese de remoção de vara dentro da mesma comarca


Um segundo tema, também altamente polêmico, concernia à ampli­
tude da expressão “transferência”, usada no art. 132 do Código de Proces­
so Civil, anterior redação, questionando-se se abrangia, ou não, a remoção
do juiz de uma vara para outra, ou a cessação de substituição, sempre na
mesma comarca.
Sérgio Sahione Fadei considerou que “por transferência não se deve
entender a simples mudança de vara ou juízo dentro de uma mesma co­
marca ou seção judiciária. Nessas hipóteses, o princípio da vinculação
persiste. Apenas nos casos de transferência para outro local — princípio
da competência territorial — é que se deve remeter o processo ao juiz
sucessor para os fins consignados no dispositivo” (Comentários ao Códi­
go de Processo Civil, Konfino, t. 1, p. 240).

296
129. Tendência sobre a exegese do art. 132 do Código de Proces­
so Civií
A tendência da jurisprudência, a respeito da amplitude da vinculação
prevista no art. 132 do Código de Processo Civil, apresentava-se marcante-
mente restritiva, por certo devido às dificuldades e problemas de ordem
prática que o princípio da imediação, embora excelente no plano doutri­
nário, acarreta ao andamento mais célere (ou menos demorado) dos pro­
cessos.
A 5â CC doTJRS, ac. de 13-9-1988 (RJTJRS, 133:412, re i Des. Ruy
Rosado de Aguiar Jr.), defendeu a mantença da vinculação em caso de Vara
em regime de exceção (juiz titular mais um juiz designado para simultâneo
exercício da jurisdição na Vara com os serviços em atraso), sustentando
que mesmo durante os regimes de exceção “o juiz titular que instrui deve
proferir a sentença”; deixou, todavia, de anular a sentença porque a prova
oral, tomada em audiência, era absolutamente desnecessária, resumindo-se
a lide à questão de direito.
No Superior Tribunal de Justiça a orientação pronunciou-se pela não
vinculação.
Assim, v. g., no REsp 13.651 (.RJSTJ, 27:496, ac. de 29-10-1991,
3â Turma, rei. Min. Eduardo Ribeiro) restou decidido que o juiz substi­
tuto, designado para outra Vara na mesma comarca, não fica adstrito ao
julgamento dos feitos cuja instrução em audiência houvesse iniciado na
Vara em que antes estivera servindo. Observou o relator que “há de ser
recebida com reserva a afirmação de que a regra é a observância da
identidade física e que as exceções devem ser interpretadas sem amplia­
ções. Na verdade, a regra é o juiz exercer jurisdição na Vara de que é
titular ou para a qual se encontra designado. Feitas essas anotações pre­
liminares, adianto a afirmação de que se há de ter como compreendida
na transferência, fazendo cessar a vinculação, a designação de juiz para
Vara distinta daquela em que praticou os atos, aptos em princípio para
determiná-la”.
Sob semelhante diretriz o REsp 13.444 (STJ, 3~Turma, j. 29-10-1991,
rei. Min. Waldemar Zveiter), afirmando-se que se o “juiz auxiliar” deu
início à audiência de instrução, não a concluindo, competente para senten­
ciar será o juiz titular que a concluiu e recebeu as alegações finais.
No REsp 20.382 (STJ, 3âTurma, j. 25-5-1992, rei. Min. Nilson Naves)
foi mantida a orientação do Pretório Excelso, no sentido de que o juiz

297
promovido não estará vinculado para julgar a demanda, ainda que tenha
concluído a instrução colhendo toda a prova em audiência2.

130. Nova sistemática da Lei n. 8.637/93


Nos termos da Lei n. 8.637, de 31-3-1993, a redação do art. 132
passou a ser a seguinte:
“Art. 132. O Juiz, titular ou substituto, que concluir a audiên­
cia julgará a lide, salvo se estiver convocado, licenciado, afastado
por qualquer motivo, promovido ou aposentado, casos em que pas­
sará os autos ao seu sucessor.
Parágrafo único. Em qualquer hipótese, o Juiz que proferir a
sentença, se entender necessário, poderá mandar repetir as provas $
já produzidas ”.
Vê-se, pois, que o legislador, não querendo romper com o princípio
doutrinário da “imediação”, manteve em tese a aplicação da regra da iden­
tidade física relativamente ao juiz que concluir (não mais “iniciar”) a au­
diência; mas simultaneamente, por certo tendo em vista conveniências de
ordem prática, estabeleceu numerosos casos de afastamento da regra.
Ponho, aqui, as seguintes anotações:
a) será competente para sentenciar o juiz que, na última etapa
da audiência, tomar um derradeiro depoimento, ainda que a maior
parte da prova oral haja sido efetivada em etapas anteriores perante
outro magistrado;
b) rompe-se a vinculação se o juiz que concluiu a instrução em
audiência vier a ser convocado, v. g., para servir transitoriamente no
Tribunal ou na Corregedoria da Justiça;
c) rompe~se a vinculação se o juiz for licenciado, v. g., para
tratamento de saúde, licença especial ou repouso à gestante3;

2. A respeito da aplicação jurisprudencial do princípio da vinculação do juiz,


podem ser ainda consultados os arestos insertos:
1. na RJTJSP, J10:221;
2. na RJTJRS, 106:324,116:119 e 120:302 (neste último é adotada a tese de que
a cessação da substituição eqüivale à transferência do juiz substituto).
3. Se o magistrado que instruiu o processo encontra-se em licença médica, seu
sucessor poderá proferir sentença sem ofensa ao princípio do art. 132 do CPC (Ag.
Inst. 578.156, rei. Min. Pádua Ribeiro, dec. 30-3-2005, DJU, 6 maio 2005, p. 276).

298
d) rompe-se a vinculação se por qualquer motivo for o juiz
afastado do exercício do cargo: frequência a cursos de aperfeiçoa­
mento, prestação com exclusividade de serviços à Justiça Eleitoral,
afastamento para exercer a presidência de associação de classe, afas­
tamento por motivos disciplinares;
e) rompe-se a vinculação pela promoção do juiz para entrância
de categoria superior, ou para o Tribunal de Justiça ou de Alçada; e,
evidentemente, se for nomeado juiz de outra “Justiça”, como quando
o juiz da Justiça comum é nomeado juiz federal, ou trabalhista;
f) rompe-se a vinculação pela aposentadoria, pois esta acarreta
a perda do próprio poder jurisdicional (Agrícola Barbi, Comentários,
cit., v. 1, n. 704), e à evidência também pela exoneração e pela de­
missão do juiz.
No alusivo ao juiz em férias, a 2- Turma do STJ decidiu que, em tal
caso, não se justifica, mesmo com a inclusão no art. 132 da expressão
“afastado por qualquer motivo”, deixar sem aplicação diversos princípios
informadores do processo (oralidade, imediatidade, identidade física do
juiz, juiz natural) apenas para salvaguardar a celeridade processual, uma
vez que o período de férias não pode superar os 60 dias e não configura
afastamento nem licença; assim, o juiz, embora em férias, continua vincu­
lado ao processo que instruiu (REsp 256.198, rei. Min. Franciulli Netto).
Em sentido contrário, a 4- Turma, com os votos vencidos dos Minis­
tros Cesar Rocha e Ruy Rosado, julgou competente o juiz substituto para
proferir sentença, embora o juiz titular, em férias, houvesse em audiência
instruído o processo (REsp 262.631, rei. Min. Aldir Passarinho Jr., ac. de
13-2-2001; idem no REsp 134.678, rei. Min. Sálvio de Figueiredo, ac. de
2-3-1999).
Suscita as maiores dúvidas saber se, ante a amplitude do novo texto,
permanecerá vinculado ao processo o juiz que, embora tenha concluído a
instrução em audiência, houver sido transferido para outra comarca, ou
removido para outra vara na mesma comarca. Assim também quanto ao
juiz substituto, afastado em decorrência da cessação da substituição em
determinada vara.
Em anterior edição desta obra sustentamos que a transferência, a
remoção e a cessação da substituição seriam todas motivos para a desvincula­
ção do juiz; em suma, sustentamos que o juiz, titular ou substituto, somen­
te permaneceria vinculado ao processo enquanto se mantivesse no efetivo
exercício da jurisdição naquela vara onde o processo tramitava.

299
Todavia, o STJ, por sua 4- Turma, rei. o Min. Sálvio de Figueiredo,
inclinou-se pela vinculação nos casos de “transferência”, sob a ementa
seguinte:
“Princípio da identidade física do juiz. CPC, art. 132. Sentença
proferida por juiz diverso do que conduziu e concluiu a instrução.
‘Transferência’ (rectius, remoção) para outra vara da mesma comar­
ca. Recurso desacolhido.
Encontrando-se já encerrada a instrução do feito, a simples
remoção do juiz que a tenha conduzido e concluído, máxime se rea­
lizada para outra vara da mesma comarca, não faz cessar a sua vin- '
culação, incumbindo-lhe proferir a sentença.
Interpretação que se coaduna com a nova redação do art. 132, £
dada pela Lei 8.637/93, que não mais contemplou a remoção — im­
propriamente denominada de ‘transferência’ pelo legislador de 1973
— como causa de desvinculação nas hipóteses em que finda a fase
instrutória” (REsp 19.826, 24-8-1993, v. u„ RSTJ, 54:132).
O tema permanece polêmico. No REsp 164.391, rei. Min. Sálvio de
Figueiredo, é afirmado que, encontrando-se já encerrada a instrução do
feito, a simples remoção do juiz que a tenha conduzido e concluído, má­
xime se efetuada para outra vara da mesma comarca, não o impede de
proferir a sentença; não obstante, a mesma Turma, no julgamento do REsp
251.955, rei. Min. Menezes Direito, assentou que a remoção do juiz, que
instruiu o feito, constitui motivo bastante para que a causa seja julgada
pelo seu substituto.
Na eg. 3~ Turma pelo menos dois arestos salientam o enquadramen­
to como absoluta da competência do art. 132 do CPC. Assim o REsp
56.119, rei. Min. Waldemar Zveiter, com a ementa seguinte:
“Identidade física do juiz. Se houve produção de prova em
audiência, o juiz que a presidiu fica vinculado, devendo sentenciar o
feito, salvo nas hipóteses previstas no art. 132 do CPC. Trata-se de
competência funcional, de caráter absoluto. Recurso conhecido e
provido”.
Também o REsp 64.458, rei. Min. Nilson Naves:
“Identidade física do juiz. A celeridade processual e a falta
de prejuízo não são motivos suficientes para desvincular do pro-

300
cesso o juiz que iniciou a audiência e concluiu a instrução. Ofensa
ao art. 132 do CPC, na redação primitiva. Recurso especial conhe­
cido e provido”.

131. Nulidade da sentença dada por juiz “auxiliar”, não vincu­


lado
De outra parte, é certo que a vinculação manter-se-á naqueles casos
em que, em decorrência de acúmulo de serviço, um outro juiz (ou outros
juizes) é designado para exercer, simultaneamente com o juiz titular, a
jurisdição da vara, como juiz “'auxiliar”, ou “cooperador”, ou “em regime
de exceção”. A regra maior do juiz natural não será infringida na medida
em que a redistribuição dos processos venha a ser feita sob critérios gené­
ricos; todavia não poderão ser redistribuídos ao juiz “auxiliar” aqueles
processos conclusos para sentença e nos quais o juiz titular já houver con­
cluído o recebimento da prova oral4.
Anota-se, ainda, que no parágrafo único do art. 132 a expressão “juiz
que proferir a sentença” deve ser entendida como “juiz que deva proferir
a sentença”.
A designação de juiz para “auxiliar”, temporariamente, determinada
vara em regime de cooperação, tem por objetivo acelerar a prestação ju­
risdicional, e assim o término de tal designação conduzirá ao cancelamen­
to da vinculação aos processos cuja instrução em audiência haja concluí­
do, enquadrando-se a hipótese como de afastamento “por qualquer motivo”
referida no art. 132, e equiparando-se à transferência (REsp 149.366, rei.
Min. Sálvio de Figueiredo; REsp 13.651, rei. Min. Eduardo Ribeiro; Ag.
Inst. 394.907, rei. Min. Paulo Medina, dec. de 2-10-2001).

132. Casos de não ocorrência de vinculação


Cabe reafirmar que não ocorre a competência por vinculação nos
casos seguintes:
a) se a audiência, após aberta, e realizada sem êxito a tentativa
conciliatória, tem seu prosseguimento designado para nova data, sem

4. Decidiu a 4- Turma do STJ ser “nula a sentença proferida por Juiz de Direito
Cooperador, que não presidiu a instrução da causa”, anulando-se, em conseqüência, a
sentença (REsp 58.043. re!. Min. Torreão Braz, ac. de 7-3-1995).

301
a colheita de prova oral (Arruda Alvim,'M anual, cit., 9. ed., v. 1, p.
37); as meras gestões conciliatórias não vinculam o juiz;
b) se, embora realizada a audiência, e inclusive os debates, as
partes desistiram de prova oral; nesse sentido, aliás, a Súmula 262
do extinto Tribunal Federal de Recursos, verbis: “Não se vincula ao
processo o juiz que não colheu prova em audiência”.
Em recente decisão referiu o Tribunal Regional Federal da 5â
Região (CC 0037, j. 22-8-1990, rei. juiz José Delgado) que “o juiz
que preside simples audiência, onde não foi produzida prova de
qualquer natureza, não se vincula ao feito”. Assim também o Superior
Tribunal de Justiça, nos REsp 7.219 (rei. Min. Eduardo Ribeiro) e
23.560 (rei. Min. Dias Trindade);
c) quando a totalidade da prova oral for realizada por via de
precatória ou rogatória (STJ, 3~ Turma, REsp 4.091, j. 27-8-1990,
rei. Min. Cláudio Santos);
d) quando a prova oral, embora colhida por outro juiz que não
o prolator da sentença, se evidencie “de todo irrelevante, pois a ma­
téria controvertida, que não fosse simplesmente de direito, haveria
de ser decidida com a interpretação de cláusulas contratuais” (STJ,
3-Turma, REsp 57.871, rei. Min. Eduardo Ribeiro, ac. de 11-3-1996,
p. m. v., venc. os Mins. Costa Leite e Nilson Naves, RSTJ,
105:244);
é) quando a prova oral houver sido colhida em processo aces­
sório, inclusive quando de natureza cautelar;
f) se o juiz de investidura limitada no tempo — juiz adjunto,
pretor, juiz municipal — for nomeado juiz de direito, igualmente deve
ser tido por desvinculado do processo.

302
Capítulo XXVI
CONTROLE DA
COMPETÊNCIA

(|33pInstrumentos processuais para o controle da competência


É dever primeiro do juiz, ao lhe ser concluso um processo, o de ve­
rificar se é competente, conforme os critérios da competência absoluta,
para dele conhecer. Todo iulz, assim, “é competente para apreciar sua
própria competência”. Mas, por isso mesmo, a decisão de um juiz, ao
declarar-se competente ou incompetente, não obriga outros juizes.
Assim, o princípio que domina os incidentes e questões sobre com­
petência “é o de que todo órgão judiciário é juiz da própria competência
(a chamada Kompetenz-Kompetenz dos alemães):... é claro que o juiz pode
decidir sobre sua própria competência, sem no entanto vincular outro juiz
a essa decisão, pois que este também tem competência para apreciar e
decidir a respeito dos pressupostos do processo” (Piero Calamandrei, apud
José Frederico Marques, Instituições, cit., n. 245).
O controle da competência pode ser feito mediante a “exceção de
incompetência” e p o r m S
Temos, outrossim, o conflito de atribuições, a que alude o CPC em
seu 1S 1 2 4 ) verbis:
“Os regimentos internos dos_ tribunais regularão o processo
julgamento do conflito de atribuições entre autoridade judiciária e
autoridade
——.._ ,Tl, ,administrativa
rr-..r.j,-,....
No STJ os conflitos de competência e de atribuições encontram-se
regidos pelos arts. 193 e 198 do Regimento Interno; no STF, nos arts. 163
a 168 do respectivo regimento.
Observe-se, a respeito, que, como sintetizaram Luiz Guilherme Ma­
rinoni e Sérgio Cruz Arenhart, “o conflito de competência sempre impor­
tará a divergência (a respeito da competência), entre mais de um órgão
jurisdicional. Esta é a fundamental diferença entre essa figura e a exceção

303
de incompetência, em que a competência de um (e um só) determinado
órgão é questionada”... “o conflito de competência só pode ser instaurado
quando Q st^& xtm d ís^ssfio à cm ^e^n cia jurisdicional de autoridades.
Caso a discussão se trave sobre a atribuição (competência) administrativa
de autoridades judiciárias, ou de autoridade judiciária e autoridade admT-
nistrativa, não haverá espaço para o conflito de competência. Será o caso
de in$tãíTfãçao"de conflito áe atribuições..: ^Manual do processo de co-
nhecimento, 2. ed., Revista dos Tribunais, 2003, n. 4.1.8, p. 55-8).
Decidida sob preclusão a questão da competência, tem sido conside­
rado que o temajaãauQdexá^ser reexaminado. Assim a 3â Turma do STJ, com
a ementa: Se a matéria relativa à competência foi decidida pelo Tribunal de
origem em agravo de instrumento, o art. 473 do CPC desautoriza amodi-
ficação do anterior julgado. Precedente: REsp 408.198 (REsp 755.224, rei
orig. (vencido) Min. Gomes de Barros, rei. desig. Min. Menezes Direito,
cujo voto foi seguido pelos Min. Nancy Andrighi e Castro Filho).
s * 0^ °

rf.34; Exceção de incompetência


Cabe ao réu arguir a incompetência relativa {do foro pnde o autor
propôs^dêmãncfa. A^oissibãlidãdêcíero^tirZTT/^n^cèT^clarar-se incom­
petente, ou suscitar conflito negativo de cõmpHenHiTUmita-se^os casigs—“
de competência absoluta.,..
Temos sustentado que a “disponibilidade” das partes, em escolher ou
aceitar o foro onde deva a causa tramitar, é exatamente a tônica da distirP '
çao entre a competência relativa (disponível) e a competência absoluta
(indisponível)1.
Neste sentido a\súmula 33)do Superior Tribunal de Justiça: “A in­
competência relativa.nã/L.aade„s.e£_declarada de ofício” (Corte HspêcIalT
em 24-10-1991).

1. Moniz de Aragão, todavia, entendeu que “lei alguma proíbe aos juizes decla­
rar de ofício a incompetência relativa”, dês que o façam “no primeiro momento em que
atuem no caso, ao apreciar a petição inicial, pois aí se firmará a prorrogação, que fica­
rá a critério do réu obstar” (Comentários ao Código de Processo Civil, 9. ed., Forense,
1998, v. 2, n. 192 e 348). A esse entendimento aderiu Alcides de Mendonça Lima
(.Direito processual civil, Bushatsky, 1977, p. 62-6).
No sentido do texto o magistério de José Frederico Marques (Manual, cit., v. 2,
Parte 1, n. 383, nota 1); igualmente Calmon de Passos ( Comentários ao Código de
Processo Civil, 8. ed., Forense, 1998, v. 3, n. 203) e Cândido Dinamarco (Direito
processual civil , p, 138).
V., quanto aos contratos de adesão , o exposto no verbete n. 65.

304
O réu suscitará a incompetência relativa por, intermédio da “exceção
de incompetência” (CPC, art. 112), oferecida no prazo de 15 dias (arts.
' 2^7 e 305) e sob o rito previsto nos arts. 299, 307 e s. do Código de Pro-
_cessa-Civ.il

Ao lado da contestação e da reconvenção, a exceção é uma das formas


pelas quais pode o réu oferecer resposta à petição inicial do autor (CPC,
'art. 297).
Note-se, como já exposto, que a incompetência absoluta, causadora
de nulidade prO-ces.s.u.aL_dey£userLdeclarada de ofício pelo juiz; outrossim,
e sem necessidade de exceção, é alegável mediante simpíês~petição por
qualquer das partes, em qualquer momento processual, inclusive em grãiP"
de recurso (art, 113). O réu, todavia, tem o dever de alegá-la çornojareli^
minar na contestação (CPC, art. 301, II); e o autor, na primeira oportuni­
dade em que lhe couber falar nos autos. A parte que assim não proceder
não perde a oportunidade de posteriormente susciTaFã^inTcompetência
absoluta, mas responderá pelas custas acrescidas (art. 113, § Ia).
A excecão de incompetência é processada em apenso aos autos prin­
cipais. e a decisão nela proferida pode ser impugnada por meio de agravo
de instrumento (CPC, art. 522), sem efeito suspensT^YiHnclocTprocesso
suspenso (art. 265, III) até o julgamento da exceção pelo juiz dêHFgnm
(REsp 578.344, rei. Min. Pádua Ribeiro, j. 16-3-2004).

;Í35'. Conflito de competência


Ocorre o conflito de competência (que o CPC de 1939 denominava
impropriamente conflito de jurisdição, expressão ainda usada no CPP)
quando dois ou mais juizes (a expressão “iuízes”^£mDr£gadajaaCEC^ail^
115, compreende tanto os juizes de primeiro grau como os juizes colegia_r
dos de segundo grau) se declaram competentes para conhecer de determi­
nada causa — conflito positivo de competência —, ou quando se conside- ,
ram incompetentes para conhecer da causa — conflito negativo de compe-
tência.
Trata-se, o conflito de competência, de um incidente processual,
ausente natureza de recurso, e o acórdão que o julga tem naturezadecla-
ratória, porque se limita a declarar qual o juiz competente. Deverá ser
suscitado perante o Presidente do tribunal, quer pelo juiz, de ofício, como
pela parte ou pelo Ministério Público, mediante petição (CPC, art. 118).
O procedimento e os poderes do relator são disciplinados nos arts. 119 e

305
seguintes1'-*. Conforme passou a dispor o art. 120, parágrafo único, haven-,
do jurisprudênciadommãnTê do tnSunãTsobre a questão suscitada, o
conflito poderá.sejijdecidido de plano e monocraticamente pelo próprio
relator (decisão sujeita a agravo interno, no prazo de cinco dias).
O conflito de competência pode ocorrer em tomo de um só processo
ou em torno de processos conexos.
Em tomo de apenas um processo: se o juiz A se considera absoluta­
mente incompetente, digamos que em razão da matéria, para conhecer da
causa, remeterá o processo ao juiz B, indicado como sendo o competente
(CPC, art. 113, § 2-, infine). Mas o juiz B, também dotado de “competên­
cia para julgar sua própria competência”, poderá não aceitar tal entendi­
mento, considerando competente (competência absoluta) o juiz A.
Cabe então ao juiz B, por ofício (CPC, art. 118,1), suscitar o confli­
to perante o Presidente do Tribunal a que é subordinado (Tribunal de
Justiça, em se cuidando de juiz estadual; Tribunal Regional Federal, em
se cuidando de conflito entre juizes federais da mesma Região), ou, ainda,
se o conflito ocorre entre juizes estaduais subordinados a tribunais de
Estados diversos, ou entre juizes federais de Regiões diversas, perante o
Presidente do Superior Tribunal de Justiça2.
É possível ao Tribunal declarar, conhecendo do conflito, competente
não o juízo A, nem o juízo B, mas sim um terceiro juízo, o juízo C, para
processar e julgar a demanda (STJ, l â Seção, CC 107, j. 17-10-1989, rei.
Min. Vicente Cernicchiaro, RSTJ, 6:92).
A Lei de Organização Judiciária e o Regimento Interno do Tribunal
dirão qual o órgão deste ao qual caberá o julgamento de determinado
conflito. No Superior Tribunal de Justiça, os conflitos de competência são
em princípio julgados pelas Seções (especializadas em razão da matéria);

1-A. A respeito do tema, vide a minudente exposição de Daniel Amorim As-


sumpção Neves, Poderes do relator no julgamento do conflito de competência, publi­
cada em Dialética, 51/22).
2. Geralmente o conflito se estabelece entre dois juízos, v. g., entre o juízo da lâ
Vara Cível e o juÍ20 da 2a Vara de Família e Sucessões.
Mas também pode ocorrer um conflito propriamente entre juizes; assim, o atual
titular da vara, em exegese do ait, 132 do Código de Processo Civil, pode considerar
vinculado ao feito, e, portanto, com competência absoluta para proferir a sentença, o
anterior juiz dela transferido, e este pode considerar-se desvinculado. No conflito não
será apreciado qual o juízo competente, pois a esse respeito não surge dúvida, mas sim,
naquele juízo, qual o juiz competente.

306
mas se o conflito for interna corporis, caberá o julgamento à Corte Espe­
cial (= órgão especial do STJ).

( J 3 éí) do não cabimento de conflito entre tribunais de hierarquia


diversa
Reiteradamente tem entendido o Pretório Excelso ser incabível o con­
flito de competência entre tribunais “organizados hierarquicamente, como
acontece entre o STJ e os TRFs, entre o TST e os TRTs, entre o TSE e os
TREs” (CC 6.963-STF, Plenário, ac. de 26-2-1998, reL Min. Maurício Corrêa).
Nesse caso cuidou-se de decisão do STJ, que em ação rescisória de julgado
declinara de competência para o TRF da lâ Região, vindo esta Corte a susci­
tar conflito negativo perante o Supremo Tribunal Federal, que dele não co­
nheceu, e mandou fossem os autos devolvidos ao tribunal suscitante.
No mesmo sentido, definindo o alcance do art. 102,1, o, da Consti­
tuição Federal, o CC 6.990-STF, rei. Min. Maurício Corrêa, ac. de 12-2-
1998.
Em assim sendo» e embora passível de certas objeções em sede dou­
trinária, igualmente apresentava-se remansoso o entendimento de que não
cabia conflito de competência entre Tribunal de Justiça e (o antigo) Tribunal
de Alçada do mesmo Estado-Membro, devendo eventuais divergências ser
solucionadas mediante o mecanismo das “dúvidas de competência”, a serem
julgadas pelo Tribunal de maior graduação administrativa, isso “em face da
posição institucional conferida pela Lei Maior ao Tribunal de Justiça”.
A respeito, o ac. da 2â Seção do STJ no CC 487, rei. Min. Barros
Monteiro, RSTJ, *5:123, em orientação ao final traduzida na Súmula 22 do
STJ, verbis:
“Não há conflito de competência entre o Tribunal de
Justiça e Tribunal de Alçada do mesmo Estado-Membro ” (Cor­
te Especial, em 13-12-1990).
Esta Súmula apresenta-se superada, ante a extinção dos Tribunais de
Alçada pela EC n. 45/2004.
V., ainda, a nota de rodapé n. 6 deste capítulo.

(13J. Incompetência do tribunal para apreciar decisão de juiz


^ ^ vinculado a outro tribunal
Quanto à competência dos tribunais, impende sublinhar que a cada_
tribunal assiste, em princípio, competência privativa para julgar os recur-

307
sos, e também as açoes rescisórias, das deçisõesjgroferidas pelos juizes
queTa eles^estão vincuj^dos^ s^a^juaj for^o.co.nteMQ-da de^cisã Assim:
g)as decisÕesdejuízesestaduaissomente-poderão.sejixefQnua^
das ou mantidas p d o sT ri bunai s_de Justiça do respectivo Estado-
-Membro;
b) as decisões de juizes federais somente poderão ser apreciadas,
,em grau recursal, pelo respectivo Tribunal RegionaLEederah__
ç) por exceção, as decisões dos juizes estaduais são submetidas
ao Tribunal Regional Federal quando a Justiça comum atuar “por :
delegação” federal, nos termos do art. 109, §§ 3~e 4Q, da Constituiçlo
Federal, em comarca que não seja.sede de Vara do jüizoTederal (v.,
a respeito, a Súmula 55 do STJ)3. ^
Estes, os princípios até agora consagrados. Todavia, contrariando tal
orientação — e como exposto nos verbetes 105, parte final, e 110 —, a l â
Turma do STJ veio a afirmar que é de competência originária do Tribunal
Regional Federal o julgamento de mandado de segurança impetrado por
empresa pública federal (a CEF) contra ato praticado por juiz de direito
(RMS 18.040, rei. Min. Teori Zavascki, ac. de 3-2-2005). Tratou-se, se­
gundo o aresto, de afirmar o princípio da prevalência do órgão judiciário
da União sobre o do Estado-Membro, conjugado com o princípio da hie­
rarquia, ou seja, sendo o ato praticado por juiz, o julgamento deverá caber
ao órgão judiciário de segunda instância. No voto condutor consta que
“solução semelhante tem sido dada para as ações rescisórias de sentenças
proferidas pela Justiça dos Estados quando nelas figurar, como parte ou
interveniente, um ente federal”, anotando-se como precedentes o CC 5.427,
2- Seção, rei. Min. Cláudio Santos e o REsp 94.332, 4- Turma, rei. Min.
Sálvio de Figueiredo. Foi, outrossim, invocado nesse sentido o preceden­
te do Supremo Tribunal Federal no RE 176.881 (Pleno, maioria de cinco
votos a quatro, rei. desig. Min. Ilmar Galvão, ac. de 6-3-1998).
Consideramos, todavia, bem mais jurídica e sistemática a solução
preconizada no STF, no RE antes referido, no voto do relator originário,
Min. Carlos Velloso, e que resultou vencido.

3. No CC 19.769, Ia Seção do STJ, ac. de 10-6-1998, rei. Min. Aldir Passarinho


Jr., foi reiterado que “o Juiz de Direito, no exercício de jurisdição federal, é vinculado
ao Tribunal Federal da região respectiva, pelo que em caso de conflito negativo com
magistrado federal do mesmo Estado, a competência para dirimir a controvérsia per­
tence àquela Corte e não ao STJ”.

308
Anoto que não haverá possibilidade de suscitar conflito de compe­
tência quando já houver sentença transitada em julgado, proferida por um
dos juízos conflitantes (Súmula 59 do STJ).
Por fim, é de lembrar que se o tribunal estadual entender a Justiça
do Estado como incompetente, e houver por competente a Justiça Fede­
ral, p. ex., em razão da matéria ou ratione personae, para processar e
julgar a causa onde proferida a sentença, “cabe-lhe anular o ato decisó-
rio e determinar a remessa do feito ao juízo federal que entender com­
petente, não devendo remeter o processo ao Tribunal Regional Federal”,
pois nenhum tribunal, como dito, salvante em casos de competência
“delegada”, pode revisar os atos de juizes que lhe não são vinculados
(STJ, 2â Seção, CC 2.312, j. 29-4-1992, rei. Min. Athos Carneiro). V.,
nesta obra, o verbete n. 111.
Da mesma forma procederá, mutatis mutandis, o Tribunal Regional
Federal quando receber recurso proferido em causa que entender de com­
petência da Justiça do Estado4.

138. Conflito de competência nos casos de processos conexos


O conflito também pode ocorrer em conseqüência da tramitação, em
diferentes juízos, de dois (ou mais) processos, alegadamente relacionados
por conexão (ou continência). Modificando a competência, a conexão
provocará a reunião dos processos perante um só dos juízos, i. e., perante
o juízo prevento ou perante o juízo cuja competência deva prevalecer.
O critério da prevenção é afastado quando um dos juízos tiver com­
petência prevalecente sobre a do juízo que em princípio estaria prevento.
Suponhamos duas ações conexas, propostas na mesma comarca; uma

4. Uma vez decidido conflito pelo Tribunal Regional Federal, comete “insubor­
dinação hierárquica” o juiz estadual (execução fiscal, competência “delegada”) que
vem a suscitar novo conflito, já agora perante o Superior Tribunal de Justiça: “decidi­
do o conflito de competência pelo órgão competente, encerra-se a solução do inciden­
te processual, devendo oym zoaquo submeter-se a esta decisão” (CC 34.761, l âSeção,
rei. Min. Laurita Vaz, j. 26-6-2002, Boletim do STJ, n. 15, out. 2002).
Caso semelhante veio a ser apreciado pelo STF, que ordenou ao Tribunal de
Alçada-MG o cumprimento de anterior decisão do STJ, o qual em conflito de compe­
tência havia declarado competente a Justiça estadual, e não a Justiça do Trabalho;
aditou o Pretório Excelso que “não pode haver conflito de competência entre um Tri­
bunal Superior (como é o STJ) e um Tribunal de Alçada (estadual) sujeito à jurisdição
daquele” (CC 7.129, Informativo do STF, n. 295, fev. 2003).

309
perante Vara Cível, a outra perante Vara de Família. Embora, por hipótese,
estivesse prevento o juízo da Vara Cível (CPC, art. 106), a reunião dos
processos dar-se-á perante a Vara de Família, cuja competência absoluta
em razão da matéria será prorrogada para abranger também o conhecimen­
to da outra causa5.
Surgirá o conflito se os titulares dos juízos A e B divergirem, consi-
derando-se ambos competentes para o julgamento dos processos reunidos,
ou considerando-se ambos incompetentes, ou um deles negando a propria
necessidade de reunião dos processos.

139. Conflito de competência suscitado por juiz não vinculado


ao tribuna! que julgou questão de incompetência
Determinado tribunal, em apreciando questão de incompetência, vem
a declará-la procedente e determ ina a remessa ao juiz afirmado
competente.
Este, todavia, sob o pressuposto de não ser jurisdicionalmente vin­
culado ao dito tribunal, suscita conflito perante o STJ, afirmando-se in­
competente. Poderia fazê-lo?
Respondeu o STJ, por arestos relatados pelo Min. Sálvio de Figuei­
redo Teixeira, que sim, em se tratando de caso de competência absoluta;
que não, em se cuidando de caso de competência relativa.
Conforme está na ementa do CC 4.404, ac. de 25-8-1993 (ver texto
do acórdão na íntegra no site <www.saraivajur.com.br>). “Havendo acór­
dão em sede de agravo confirmando a declinatória, proferido por Tribunal
ao qual não esteja o juiz, ao qual foram encaminhados os autos, hierarqui­
camente vinculado, impende questionar da natureza da competência con­
trovertida, haja vista que, sendo ela absoluta, lícito será ao magistrado
suscitar o conflito. A incompetência relativa não pode ser declarada de
ofício (súmula STJ, enunciado n. 33)”.

5. Mas se as causas, com obediência às regras gerais de competência, foram


propostas em diferentes comarcas, e são conexas, o critério da prevenção (CPC, art.
219) determinará o “foro” competente; e, neste, as causas serão reunidas no “juízo”
com competência prevalecente. Assim, a causa proposta em Porto Alegre perante Vara
de Família será remetida ao foro de Caxias do Sul, se neste ocorreu a primeira citação
em causa conexa tramitando em Vara Cível; todavia em Caxias ambas as causas serão
reunidas no juízo da Vara de Família, não no da Vara Cível.

310
A respeito, igualmente o CC 5.192, ac. de 13-10-1993 (ementa no
Anexo IV e texto na íntegra no site <www.saraivajur.com.br>).

140. Tribunal competente para o julgamento dos conflitos. Pro­


cedimento
O conflito será promovido, por ofício, pelo juiz que primeiro o cons­
tatar (“juiz suscitante”, passando o outro a ser o “juiz suscitado”); ou por
qualquer das partes, mediante petição ao presidente do Tribunal; ou pelo
Ministério Público, quando lhe cabe intervir na causa (CPC, arts. 116, 81
e 82). Mais comum, na prática forense, é a provocação por um dos magis­
trados.
No Tribunal de Justiça ou no Tribunal Regional Federal (conforme a
causa), o conflito será julgado pelo órgão competente (v. Lei de Organi­
zação Judiciária e Regimento Interno do Tribunal), observando-se o rito
prescrito nos arts. 119 a 122 do Código de Processo Civil.
Nos conflitos suscitados por juiz, considera-se procedente o conflito
positivo, quando julgado competente o juiz suscitante; porém, se negativo
o conflito, será considerado procedente quando competente o juiz susci­
tado.
Podem igualmente ocorrer conflitos entre órgãos fracionários de um
mesmo Tribunal (entre Câmaras separadas, entre Câmara e Grupo de Câ­
maras etc.). Observar-se-á, então, o que a respeito dispuserem o Código
de Organização Judiciária e o Regimento Interno do Tribunal.
O Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça são
constitucionalmente competentes para decidir os conflitos de competência
entre Tribunais, entre um Tribunal e juiz de primeira instância não subor­
dinado ao mesmo Tribunal e entre juizes vinculados a Tribunais diversos
(CF, arts. 102,1, o, e 105,1, d)6.

6. O Sumo Pretório, todavia, declarou inadmissível o conflito entre Tribunal de


Justiça e Tribunal de Alçada do mesmo Estado-Membro. Assim foi decidido nos CJ
6.164 (RTJ 90:435), 6.168 (RTJ, 90:25), 6.184 e 6.238. Da mesma forma o Superior
Tribunal de Justiça, pela Súmula 22, verbis: “Não há conflito de competência entre o
Tribunal de Justiça e Tribunal de Alçada do mesmo Estado-Membro”. V. o verbete
n. 136.
As divergências surgidas eram, pois, resolvidas pelo Tribunal de Justiça median­
te “dúvida de competência”, nos termos dos Códigos de Organização Judiciária locais.
A Súmula foi superada pela extinção dos Tribunais de Alçada, em decorrência